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REVISTA DISTRITAL DE SETÚBAL TRIMESTRAL | N. 1 MARÇO | ABRIL | MAIO 2014 2,70 €

ESPECIAL 25 DE ABRIL

EDUCAÇÃO

VALE A PENA TER UMA LICENCIATURA?

E AINDA...

CORRER POR GOSTO NASCER NO CORPO ERRADO


SUMÁRIO 05 | Nascer no Corpo Errado 08 | Fazer os Sem-abrigo Sorrir 10 | Ruínas Habitacionais 12 | Vegetarianismo, Uma Escolha de Vida 14 | Máquina de Talentos 17 | Warrior: A Marca de um Guerreiro 19 | Comércio Histórico nos Dias de Hoje 22 | Na Pesca: O Pescador e o Intermediário 24 | Alegro: 143 mil m2 de Comércio 27 | Desemprego na Meia-Idade 30 | À Margem da Educação 32 | UNICA: Nunca é Tarde Para Aprender 34 | “Educação Pelos Pares” 36 | Idiomas do Mundo 39 | E Depois do Canudo? 41 | “Não Vale a Pena Ter Uma Licenciatura” 44 | Veterano de Abril 46 | Memórias de Zeca Afonso 49 | Teatro de Todos Para Todos 52 | Psicologia de Cordas 54 | Música Fora de Garagem 57 | Mais Doce é Impensável 59 | O Lago de Deus 61 | “Alentejo Bom Gosto” 63 | O Rei do Choco Frito 65 | Uma Mina de Ouro 66 | Hostels: Empreendimentos Low-cost 69 | Uma Tróia Para Todos? 72 | Praias de Azul Reconhecido 75 | Correr Por Gosto 78 | Atletismo de Portas Abertas

ÍNDICE | 03

19

COMÉRCIO HISTÓRICO NOS DIAS DE HOJE

49

TEATRO DE TODOS PARA TODOS

61

ALENTEJO BOM GOSTO

66

HOSTELS: EMPREENDIMENTOS LOW-COST


04 | FICHA TÉCNICA Diretor: Ricardo Nunes Chefe de Redação: Filipa Bule Redação: Ana Encarnação André Melão Catarina Costa Filipa Bento Filipa Bule Filipa da Costa Filipe Nunes Marília Branco Pedro Mariano Rita Rebelo Tânia Neves Vanessa Gonzalez Lopes Vanessa Neves Revisão de Texto: Filipa Bento Pedro Mariano Rita Rebelo Fotografia: Tânia Neves Publicidade: Ana Encarnação Design e paginação: André Melão Catarina Costa Vanessa Neves Impressão: Miraventos Artes Gráficas, Lda. Triagem: 16 exemplares ISSN nº 0471/7433 Periodicidade: Trimestral Contacto: revistaperspetivas @gmail.com

EDITORIAL | POR FILIPA BULE Estávamos a meio do mês de fevereiro quando nos tornámos numa redação. Uma redação de 13 pessoas bastante diferentes, com muitas ideias e, acima de tudo, com muita vontade de trabalhar. Apesar de tudo, temíamos o que o futuro nos reservava. Iríamos ser colegas de trabalho durante os próximos meses e o espírito de entreajuda nunca, em algum momento, poderia falhar. “Redação B” era como nos chamávamos. Trazíamos na bagagem todo um conjunto de sonhos, expectativas e receios. Afinal, íamos ser os autores do nosso próprio projeto editorial. O que nos esperava nos três meses e meio seguintes? Teríamos as qualidades e a apetência profissional para ingressar num projeto que nos era totalmente desconhecido? A publicação que hoje vos apresentamos é o resultado desses 3 meses e meio de muito desafio, muita troca de ideias, esforço e dedicação, por parte de uma equipa que, ao longo de todo o processo, honrou o seu amor à profissão de jornalista. Foram 3 meses e meio de longas e intensas reuniões de redação, para que nos pudéssemos tornar aquilo que hoje somos. Hoje, deixamos de ser a

“Redação B” para passarmos a ser a revista Perspetiva(s). Embora conscientes de que informar é uma missão, pretendemos desde sempre garantir aos nossos leitores que neste primeiro número (e nos seguintes) iríamos primar pela diversidade temática. Longe de um jornalismo que se cinge a uma descrição factual, queríamos então fazer jus ao nome com o qual sempre nos identificámos desde início, apresentando, desse modo todo um conjunto de Perspetiva(s) sobre a cidade banhada pelo Sado, o distrito e a península. Perspetiva(s) é, sem dúvida, um projeto ambicioso. Uma revista generalista que pretende dar a conhecer, trimestralmente, o nosso olhar atento, aguerrido e, acima de tudo, fiel, sobre a Península de Setúbal, seguindo sempre as normas éticas e deontológicas que regem a profissão de jornalista. Apesar de todas as dificuldades, reconhecemos agora que o nosso esforço compensou. É, de facto, gratificante podemos ter nas nossas mãos o primeiro número deste projeto ao qual tanto nos dedicámos, ao qual demos o máximo.


SOCIEDADE “VIVIA NUMA ESPÉCIE DE CARNAVAL FORÇADO O ANO INTEIRO”

NASCER

NO CORPO

ERRADO


06 | SOCIEDADE “Sinto-me feliz por ter tido esta oportunidade”

FILIPA BULE

F

ilipe Fialho é um homem de 45 anos, de voz grossa, mas no seu bilhete identidade já constou o nome “Filomena”. A testosterona e um conjunto de cirurgias – um processo moroso, que ainda não terminou -, libertaram-no do corpo feminino que nunca considerou seu. “Transtorno de Identidade de Género”. Este é o termo médico utilizado pela OMS para definir a causa da transexualidade.

“Sempre gostei da roupa mais masculina e das brincadeiras que era suposto serem dos meninos”, afirma Filipe Fialho, professor da Escola Superior de Educação de Setúbal, que recorda, sem pudores, a sua principal dificuldade: ter de representar um papel que não correspondia, de todo, àquilo que sentia. “A partir do momento em que se deu a transformação, sentime uma pessoa muito mais livre”, desabafa. Apesar disto, Filipe Fialho identifica a fase da puberdade como a mais difícil

da sua vida, “quando o corpo se começa a transformar, no sentido contrário à imagem que a própria pessoa tem de si. Lembro-me que me sentia horrorizado. Vivia numa espécie de carnaval forçado o ano inteiro”, afirma, destacando a importância de possuir, nesta fase, um núcleo familiar e social equilibrado. O professor recorda que “se não me sentisse uma pessoa tão amada e tão querida, acho que tinha sucumbido, sinceramente”. Filipe Fialho sempre teve a


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certeza de que a sua identidade não correspondia ao género em que tinha nascido. “Se há certezas que eu tenho, esta era uma delas, definitivamente”, afirma. Contudo, decidiu avançar para a operação apenas em 2010, com 40 anos, passando por todas as fases do processo de mudança. “Temos de fazer acompanhamento psicológico durante dois anos. A partir desse momento, comecei a tomar a testosterona, depois esperei uns anos até haver vaga

no Serviço Nacional de Saúde e fiz a primeira cirurgia”, explica. A família e os amigos acolheram bem a decisão, o que faz com que se considere sortudo em relação a outros casos com os quais contactou de perto. “Até hoje, não tive uma única chatice, nem ouvi uma única boca”, diz. “Sinto-me feliz por ter tido esta oportunidade, porque pude também falar com pessoas transexuais com 60 e tal anos e que não tiveram as oportunidades que nós temos agora, que viveram

numa sociedade muito mais retrógrada. Eu imagino o sofrimento dessas pessoas”. Apesar da sorte que considera ter, o professor reconhece que cada caso é um caso. “Pode haver um universo comum que é o facto de se nascer num corpo errado, mas a forma como se vive isso, como se lida com isso, as respostas e as soluções que se encontram são, efetivamente, pessoais”. ■ FILIPA BULE

“Se não me sentisse uma pessoa tão amada e tão querida, acho que tinha sucumbido, sinceramente” PUB


08 | SOCIEDADE

PEDRO MARIANO

FAZER OS SEM-ABRIGO SORRIR “VIVO NA RUA, DU

UI E Q A O RM

ALI.

JÁ HÁ MUITO TEMPO”


09

O que é básico para uns, pode ser o

Quando questionado sobre uma eventual

essencial para outros”. É com base

repetição da ação solidária, Pedro Gonçalves

neste lema que Pedro Gonçalves,

não revela qualquer dúvida: “Não queremos

um jovem estudante de 24 anos,

que seja uma ação isolada. O mais difícil é

se juntou com amigos para “Fazer

começar e agora que já o fizemos, não vejo

os Sem-Abrigo Sorrir”.

razão para parar. E esperamos que a nossa iniciativa sirva para motivar as pessoas a fazê-lo noutras localidades”. Raúl Gomes, de 78 anos, estudou “coisa

De nome original “Make the Homeless

pouca” e é sem-abrigo “há cinco ou seis

Smile”, esta ação, pioneira nos Estados

anos”. Apelidado de “Poeta”, explica que tem

Unidos da América e já adotada em diversos

“jeitinho para a rima”. A realidade em que

países, foi agora levada a cabo por um grupo

vive é fruto de “más escolhas” e falta de

de jovens, residentes na cidade de Setúbal.

sorte. “Uma coisa junta-se à outra e pronto.

“Esta iniciativa consiste, fundamentalmente,

Depois vivemos na rua, dormimos na rua,

na recolha de roupas e alimentos e na

mas quando estamos no nosso canto, quase

posterior distribuição pelos sem-abrigo que

que deixa de ser.

encontramos nas ruas”, esclarece Pedro

É rua, mas não é… Temos de nos habituar”.

Gonçalves. O estudante admite que “é

As maiores dificuldades são “o frio à noite

preciso muita determinação, disponibilidade

e o vento”, mas “a chuva é o pior. Dizem

e vontade de ajudar”.

que o dinheiro não compra felicidade. Não

A recolha de roupa não foi tarefa fácil,

concordo. Era feliz com uma casa e sem

aliás, “foi preciso alguma ginástica, mas

dinheiro não a posso ter”, refere.

conseguimos juntar vestuário através das

O “Poeta” afirma que “não há muita gente

nossas famílias e grupos de amigos”, assume

a ajudar assim na rua”, todavia, “ajuda é

o jovem. Porém, aquando da distribuição,

sempre ajuda, por mais pequena que seja.

as reações fizeram valer toda a experiência.

Sei que dão por vontade e o que podem”,

“Conseguimos, de facto, fazer sorrir os sem-

elucida. Raúl Gomes, um dos sem-abrigo a

abrigo e era esse o nosso principal objetivo”,

quem Pedro Gonçalves e os amigos fizeram

confidencia. Quanto às reações do exterior,

sorrir, termina revelando um pouco da sua

explica que a sua atenção estava totalmente

veia poética: “Sou poeta de rua, por isso

centrada nas pessoas que estava a ajudar.

durmo com o luar. Sou poeta de guerra e

Espera que “quem assistiu tenha ficado

vejo o dia passar”. ■

sensibilizado e desejoso de também poder ajudar”.

FILIPA BENTO


10 | SOCIEDADE

ANA ENCARNAÇÃO

R U Í N A S

HABITACIONAIS EDIFÍCIOS ABANDONADOS SÃO LARES ILEGAIS

L

ocalizada entre o rio Sado e o bairro da Bela Vista, a Estrada da Graça constituise como um eixo urbano da cidade de Setúbal, que se apresenta bastante desqualificado e degradado. O local, fortemente marcado pela presença de ruinas de antigos edifícios ligados às indústrias conserveiras, padece de alguns problemas, tanto a nível urbanístico como social. Vasco Silva, geógrafo e técnico da Divisão de Planeamento Urbanístico da Câmara Municipal de Setúbal, indica que a zona da Estrada da Graça é maioritariamente constituída por terrenos privados, e que, tendo em conta a linha de caminhos-de-ferro junto à estrada a área, é “difícil no ponto de vista da resolução de problemas urbanos, nomeadamente, problemas no sentido da acessibilidade”. Contudo, afirma que, “difíceis, difíceis, são os problemas sociais ali existentes”, pois algumas das ruínas foram ocupadas ilegalmente por pessoas que, segundo Vasco Silva, advêm sobretudo das ex-colónias. “Estão ali concentradas comunidades

africanas que acabaram por estabelecer na zona, a sua residência de forma ilegal. Se passarmos no local, são visíveis algumas antenas parabólicas, compartimentações e janelas que foram criadas com o objetivo de proporcionar algum conforto”, revela. O geógrafo assegura que a Câmara Municipal de Setúbal tem uma preocupação acentuada em relação ao processo de ocupação ilegal e que

“Para pessoas arranjar

tirar

dali

é casas

as

preciso para

estas poderem viver”


MARÍLIA BRANCO

11

“É necessário combater este

problema

e

controlar este fenómeno”

fenómeno indicou que, no primeiro trimestre de 2013, foi desenvolvido um estudo sociológico que fez uma caraterização da população residente na Estrada da Graça. Esta indica que “em termos de ocupação, verifica-se que existe na área alguma habitação, nomeadamente o loteamento da Vila Maria, considerado recente face às restantes residências. Porém, é de realçar que a maioria da população da zona são ocupantes ilegais das ruínas das antigas fábricas de conservas”. Para a chefe da Divisão de Habitação, este é um caso delicado e complexo, todavia, indica que alguns dos residentes já procuraram a Câmara a fim de obter habitação própria. Ainda assim, Raquel Levy aponta que o objetivo é “conseguir que aqueles residentes ilegais abandonem o local o mais rapidamente possível e que sejam realojados em habitações qualificadas”. ■ MARÍLIA BRANCO

MARÍLIA BRANCO

pretende intervir, sobretudo face aos inúmeros pedidos de habitação existentes da zona. Assim sendo, “é necessário combater este problema e controlar este fenómeno, porque para tirar dali as pessoas é preciso arranjar casas para estas poderem viver. No fundo, temos aqui um drama social, pois são famílias com crianças e é uma situação difícil de gerir”. Raquel Levy, chefe da Divisão de Habitação da autarquia de Setúbal, confrontada com este


12 | SOCIEDADE

VEGETARIANISMO,

UMA ESCOLHA DE VIDA “SER VEGETARIANO NÃO IMPLICA DEIXAR DE COMER!”

A

o falar-se em vegetarianismo, muitos dizem saber do que se trata, mas poucos sabem explicar o que é. Como tal, uma jovem vegetariana residente na Freguesia de Pinhal Novo, disponibilizou-se a partilhar a sua experiência, explicando-nos como gere as suas escolhas alimentares. Carla Costa, 17 anos e vegetariana há cerca de um ano, explicou-nos que esta mudança de hábitos não foi algo repentino: “Já era algo que eu tinha em mente há algum tempo, mas sempre tive receio dos problemas a nível de saúde que poderiam resultar deste estilo de vida, fiz algumas pesquisas, tive contacto com alguns casos e percebi que ser vegetariano não implica forçosamente deixar de comer”. Segundo a jovem, o que mais a motivou a adotar esta dieta alimentar “foi o tomar conhecimento da crueldade a que os animais estão sujeitos, só para que um ser humano se alimente”. Apesar dos vários tipos de vegetarianismo, Carla Costa declara não optar por uma dieta radical, não se considerando uma vegetariana estrita. “Existem vários tipos de vegetarianos, uns mais extremistas, que abdicam de todo o tipo de alimentos de origem animal, assim como todos os produtos testados em animais, e outros menos radicais que apenas abdicam da ingestão de carnes vermelhas, brancas e peixe, como é o meu caso”, elucida. Questionada sobre os cuidados a serem tomados aquando de uma dieta vegetariana, a jovem do Pinhal Novo garante que “a ingestão de todas as


13 “Tomei conhecimento da crueldade a que os animais estão sujeitos, só para que um ser humano se alimente”

FILIPA BENTO

vitaminas necessárias” é imperativa. “Apesar de não nos alimentarmos de carne e de peixe, há alimentos de origem vegetal que nos podem fornecer as vitaminas necessárias, como é o caso da soja”, acrescenta. Contudo, ser vegetariano é um caminho com obstáculos: “o principal obstáculo que encontramos é sobretudo as refeições que fazemos fora de casa, (…) não é habitual encontrar refeições exclusivamente dedicadas a vegetarianos em qualquer restaurante”, revela a fonte. Por outro lado, Maria Antonieta Hilário, proprietária do restaurante “Sim Ó Sopas”, situado

em Setúbal há 5 anos, afirma saber confecionar algumas refeições vegetarianas, dando como exemplo “o Tofu”. No entanto, é algo que acontece “muito raramente” no seu restaurante “devido à falta de procura deste tipo de refeições”. Confrontada com a razão pela qual alguns restaurantes não dispõem pratos vegetarianos, Maria Antonieta Hilário justifica-se com o preço por serem “pratos que ficam um pouco acima da média dos preços praticados na maioria dos restaurantes, infelizmente”, confidencia. ■ CATARINA COSTA


14 | SOCIEDADE

MÁQUINA DE TALENTOS JOVENS SETUBALENSES SINGRAM EM DIFERENTES ÁREAS

S

etúbal é uma cidade reconhecida pelas suas paisagens e gastronomia, mas também o deve ser pelos seus habitantes. Carolina Scarpari, Diogo Rodrigues e Joana Barradas são três jovens, que pelo seu esforço e dedicação, têm sido bemsucedidos nas mais variadas vertentes. Carolina Scarpari iniciou-se, muito cedo, no mundo da moda e da publicidade, quando foi convidada aos 6 anos de idade para participar num projeto. Embora inicialmente se tenha mostrado um pouco reticente, acabou por aceitar o desafio. “Entretanto fiz teatro porque eu era bastante tímida (…) e a minha mãe viu no teatro uma coisa para me ajudar a ser mais socialmente desenvolvida”, esclarece a modelo. Investiu na sua formação através da realização de vários workshops. Com apenas 11 anos, participou no programa da RTP1 “Sabe mais do que um miúdo de dez anos?” e, de seguida, foi selecionada para fazer parte do elenco de uma das histórias de “Casos da Vida”, na TVI. “Era um papel bastante pesado porque era uma rapariga que ia ser violada (…), mas, foi uma

boa experiência enquanto atriz e como pessoa”, refere a jovem, agora com 17 anos. Acabou por ser escolhida para mais duas histórias da minissérie e, mais tarde, para uma telenovela. Diogo Rodrigues destacase como guarda-redes, na modalidade de Hóquei em Patins. Começou por volta dos 7 anos, no Clube Naval Setubalense. Aos 14 anos, deu um grande salto na sua carreira ao ser contactado pelo Sport Lisboa e Benfica, onde ainda hoje se encontra, sendo o sexto ano no clube. “É uma sensação muito boa, jogar por um grande clube como é o Benfica. É sempre algo que todos ambicionam, a constante procura da vitória e condições que são dadas são algo que nos motiva bastante para trabalhar, para dar o máximo pelo clube”, refere o jogador. Contudo, a sua ascensão não termina por aqui, sendo que o jogador faz parte da seleção nacional. “É algo indiscritível representar o nosso país numa grande competição, que todos querem vivenciar, ouvir o hino e sentir que Portugal está a torcer por nós, tentando elevar o nome da nossa pátria”, explicita Diogo Rodrigues. Conquistados vários títulos, aponta que o mais

representativo foi o primeiro lugar no Campeonato Mundial de Sub 20 em 2013, na Colômbia. “É algo único, ser campeão do mundo, os 10 melhores do mundo no nosso escalão. É um feito notável do qual me orgulho e que espero ter oportunidade de repetir”, afirma o guardaredes. Joana Barradas, que se estreou no mundo da representação por volta dos 9 anos, tem atualmente 22 e já é uma cara bem conhecida entre telespetadores. “Participei numa novela que poucos se lembram chamada “Tudo por Amor” e a partir desse momento não parei. Fiz teatro, musicais, publicidades e até cinema. Foi uma paixão inesperada, mas só me trouxe coisas boas e experiências inesquecíveis”, relata a artista. Paralelamente à representação dedica-se à música, “outro grande amor”. “Adoro cantar e escrever, por isso é algo que me preenche e enriquece nas horas vagas”, segreda a atriz. Diogo Rodrigues, quando questionado sobre o impacto que a região de Setúbal teve no seu impulsionamento, afirma que “nada fizeram, nem quando fomos campeões distritais no


VANESSA NEVES

CEDIDA POR: DIOGO RODRIGUES

VANESSA NEVES

15

Carolina Scarpari

Diogo Rodrigues

Joana Barradas


16 | SOCIEDADE escalão de Infantis e fomos ao Campeonato Nacional, algo

que o clube não conseguia há bastante tempo, nada fizeram nem divulgação do feito nem dos jogos relativos ao Campeonato Nacional”. Por outro lado, Carolina Scarpari considera que a região de Setúbal apoia a cultura e a formação de artistas. “O público é que não adere tanto, mas acho que a Câmara tem bastantes iniciativas de moda e teatro”, evidencia a jovem. Segundo Joana Barradas, isso deve-se ao facto de não existir uma divulgação eficiente. “Não é por falta de eventos, porque eles até existem, o problema é que não chega aos ouvidos de muitos”, expõe a atriz. Carolina Scarpari, ainda a completar o 11º ano, não tem projetos de futuro traçados. Sente que “em Portugal, ser atriz é complicado, há tantos atores, mas tantos bons, que as oportunidades não chegam

para toda a gente”. “Não quero apostar nisso como principal, quero apostar como uma coisa à parte porque se não resultar, eu não tenho nada, prefiro ter uma carreira opcional onde tenha bases”, explicita a atriz. Já Diogo Rodrigues sonha mais alto com uma carreira continuada no desporto. “Todos os jogadores que chegam a este patamar pensam nisso, só está ao alcance dos melhores, para isso todos trabalhamos, sendo também uma questão de oportunidades”, esclarece o desportista. Como tal, pretende terminar a licenciatura em

Desporto, no próximo ano, na Universidade Lusófona de Lisboa. Joana Barradas acredita que a formação também se adquire através da experiência e como complemento também integrou “cursos de atores, workshops e inclusive o conservatório”, que acabou por frequentar “só durante um ano”, porque

entretanto foi escolhida para “o papel de Nonô no Dancin’ Days”. Estes são três exemplos de sucesso, de empenho e luta perante as adversidades que se cruzaram e ainda se cruzam nos seus caminhos, motivados pelas suas vontades e apoiados pelas suas famílias. “Os meus pais sem dúvida são quem mais me motivam. Quero orgulhálos e sinto-me orgulhosa por isso. Ainda me espera uma diversidade de experiências, personagens, sítios novos, é impossível parar agora”, conclui Joana Barradas. Perante a atual conjuntura económica e sem grandes perspetivas de futuro, Diogo Rodrigues transmite a mensagem de que “com esforço e dedicação tudo se consegue, que procurem traçar e alcançar os seus objetivos e nunca deixem a escola para trás “. ■ VANESSA NEVES

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WARRIOR: A MARCA DE UM GUERREIRO “MAIS DO QUE UMA MARCA UMA FORMA DE ESTAR!”

A 30 de agosto de 2012, a sua vida sofreu um revés, ao ser atingindo por um touro, sofrendo lesões irreversíveis na coluna, que o deixaram tetraplégico. Passados dois anos, Nuno Carvalho afirma que tem progredido na recuperação, sendo que, no início não se movia do pescoço para baixo e que, atualmente, consegue fazer

“Desde logo percebi que não

valia a pena ficar a chorar

sobre o leite derramado, mas

sim que tinha de aceitar e

seguir em frente”

alguns movimentos de braços. Porém, confessa que, apesar de se sentir relativamente bem, não esconde a frustração que sente em momentos complicados. Viu-se forçado a aprender a viver com estas adversidades, esclarecendo: “Desde logo percebi que não valia a pena ficar a chorar sobre o leite derramado, mas sim que

TÂNIA NEVES

N

uno Carvalho, de 27 anos, conhecido vulgarmente por “Mata”, apresentase como um jovem sonhador, persistente, bastante ambicioso e perfecionista. A sua carreira tauromáquica teve início em 2005 e durante alguns anos foi considerado um dos melhores forcados da sua geração.


18 | SOCIEDADE

tinha que aceitar e seguir em frente. Não vou deixar de realizar os meus sonhos, apenas os vou cumprir de maneira diferente”. Com este objetivo em mente e para conseguir realizar os seus sonhos, surge a marca Warrior que, inicialmente, não tinha nome, sendo apenas um projeto em mente, uma ideia no papel. Todavia, após o acidente, as pessoas chamam-no de “guerreiro”. Foi então que decidiu fazer dessa alcunha o nome fixo da sua marca de roupa. No entanto, ao invés

de “guerreiro”, eis que surge Warrior. A marca tem tido uma boa recetividade por parte do público. “Até agora tem estado a correr bem e no espaço de três meses já vendi 150 camisolas”, orgulha-se o jovem. A concretização deste projeto só se tornou possível com o apoio incondicional da namorada, que nestes últimos tempos tem sido um pilar tanto a nível profissional como pessoal. “Eu costumo dizer que ela é o corpo e eu a mente”, afirma Nuno Carvalho, referindo-se à sua namorada. A marca encontra-se

disponível para venda online, através da página do Facebook. Com objetivos traçados para o futuro, Nuno Carvalho ambiciona formar uma família, ser feliz e trabalhar afincadamente na marca Warrior para, quem sabe, tornar-se um empresário de sucesso. Questionado se se sente como um verdadeiro “warrior”, Nuno Carvalho finaliza: ”posso dizer que já travei duras batalhas, mas quem não travou?”. ■ TÂNIA NEVES

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ECONOMIA

COMÉRCIO HISTÓRICO NOS DIAS DE HOJE OFÍCIOS QUE AINDA SOBREVIVEM À ATUALIDADE


VANESSA GONZALEZ LOPES

20 | ECONOMIA

A

austeridade existente afeta, cada vez mais, diversos estabelecimentos, culminando no seu encerramento, bem como, no desaparecimento de vários ofícios antigos. Aos 75 anos de idade, Justino Jesus, sapateiro na cidade de Setúbal, revela que começou como aprendiz ainda em tenra idade: “sou sapateiro

desde pequenino, já o meu pai o era, e os meus irmãos também”. Uma vez que sempre foi um negócio de família, foi praticamente “forçado” a seguir uma linha de herança a nível profissional. Contudo, menciona que já esteve empregado em áreas bastante distintas da sua, mas que a sua vontade de independência, não trabalhar por conta de outrem, fez com que inaugurasse o seu negócio. Há já 10 anos que trabalha por conta própria, no seu estabelecimento situado na Praça do Bocage. Justino Jesus partilha que atualmente, o número de pessoas a recorrer aos seus serviços tem vindo a diminuir substancialmente. Embora mantenha clientes habituais, indica que existem dias em que somente “aparecem uma ou duas pessoas e com sorte três ou cinco”. Para além do decréscimo de clientes, o proprietário afirma que a maioria se dirige à sua loja com o intuito de comprar palmilhas, atacadores ou para colocar novas capas. “Já lá vai o tempo em que pediam para fabricar sapatos exclusivos”. Na verdade, até para colar umas capas nos sapatos, quando eu digo que cobro sete a oito euros, muitos se vão embora, dizendo que por dez euros conseguem comprar sapatos novos”.

“As pessoas no geral, não dão valor ao trabalho de um sapateiro”


21 “No primeiro ano em que as vendas não consigam suportar as despesas será o suficiente para repensar o negócio” Justino Jesus aponta como a sua principal concorrência, os sapatos fabricados na China, quer “seja nas lojas dos chineses, ou nas sapatarias que vendem calçado chinês. As pessoas cada vez compram mais”. Refere que nos tempos que correm, as pessoas trocam a qualidade do calçado por material plástico, por este se apresentar “mais em conta”. Tendo sempre presentes as dificuldades que atravessa para tentar manter o seu negócio ativo, e que “as pessoas no geral, não dão valor ao trabalho de um sapateiro”, acredita que daqui a uns anos a sua profissão se encontrará extinta. Flávio Lança, de 63 anos, atual proprietário e fundador das Retrosarias Bocage, em pleno ano de 1987, também afirma que o seu negócio se ressentiu e que sofreu um enorme decréscimo de clientes nas suas duas lojas em Setúbal. Aponta que as vendas reduziram de forma significativa, embora mantenha exatamente o mesmo preço dos produtos, assumindo, desta forma, a diferença do IVA nos vários aumentos, entre

outros custos existentes. Esclarece que “no primeiro ano em que as vendas não consigam suportar as despesas será o suficiente para repensar o negócio”. ■ VANESSA GONZALEZ LOPES


ANA ENCARNAÇÃO

22 | ECONOMIA

NA PESCA: O PESCADOR E O INTERMEDIÁRIO REGULAMENTOS DIFICULTAM A ATIVIDADE E DÃO MENOS LUCRO

Gosto muito de pescar, sempre gostei, mas atualmente ser pescador quase não dá lucro para quem se arrisca todos os dias no mar”, partilha Arsénio Caetano, pescador que exerce a sua função nos mares da costa de Sesimbra. Portugal é detentor de praias soberbas, costas sinuosas e uma das mais amplas zonas económicas exclusivas. Contudo, não explora a 100% essa sua potencialidade e não tira proveito da vasta oferta marítima que tem à sua

disposição, o que dificulta o exercício da atividade piscatória pelos pequenos pescadores. Arsénio Caetano divulga que “existem regulamentos que dificultam em muito a manobra dos pescadores, no sentido de apenas exercerem a sua atividade”. Entristece-se quando vislumbra o porto e assiste a “muitas traineiras que se encontram em seco e sem trabalharem. É fruto do pouco orçamento que os pescadores têm, quer para as arranjar, quer para fazer a sua manutenção. Todo o material

que usamos, somos nós que o compramos. Nem com os bancos podemos contar”, revela. A pesca atualmente encontra-se mais regulamentada e vigiada. Aliás, “muitas vezes somos obrigados a infringir as leis porque não temos outra alternativa”, esclarece Arsénio Caetano. Na sua memória estão registados os sustos diários que viveu. Partilha um particularmente marcante: “eu e mais três outros pescadores saímos para o mar numa embarcação, mas o tempo virou-se contra nós e ameaçou o


FILIPA BULE

23

nosso barco. Naquele momento tremi e temi pela minha vida e pela dos meus colegas. Pensei que nunca mais iria ver a minha família. Mas com sorte conseguimos voltar a terra”. Ana Paula Santos, Diretora Comercial e de Marketing na Docapesca, descreve como decorre o processo de venda do peixe que Arsénio Caetano e outros pescadores capturam. “Numa primeira fase, a seguir à descarga do pescado, este é submetido a um processo de

triagem, onde são selecionadas as várias espécies e tamanhos, procedendo-se depois à etiquetagem e à venda em leilão, presencialmente ou online”. “A Docapesca assegurase de receber a descarga proveniente dos pescadores da lota e serve como intermediário para a venda do peixe que chega até nós, ou seja, somos uma ponte entre produtor e consumidor”, indica Ana Paula Santos. Em fevereiro de 2014, a Docapesca, sendo uma empresa pública com o propósito de

explorar a economia, conservar e desenvolver as infraestruturas portuárias de apoio às atividades piscatórias, assumiu a devida responsabilidade pelas mesmas, sucedendo consequentemente ao Instituto Portuário e dos Transportes Marítimos, e sendo uma empresa pública visa a exploração económica conservação e desenvolvimento das infraestruturas portuárias de apoio às atividades da pesca. ■ FILIPE NUNES


24 | ECONOMIA

ALEGRO: 2 143 MIL M DE COMÉRCIO

C

om inauguração agendada para novembro deste ano, o Centro Comercial Alegro de Setúbal teve um investimento global de 110 milhões de euros. Criará 1500 novos postos de trabalho e apresenta-se como um novo espaço que tem tudo para ser um sucesso, refere Teresa Reis, de 51 anos, operadora do Hipermercado Jumbo de Setúbal. ”Porque acima de tudo tem um hipermercado com uma base sólida de clientes. Clientes desde que o Jumbo abriu e que estão ansiosos que haja uma “nova vida” na cidade”, assegura. Com cerca de 137 mil m2 e três pisos, a nova superfície do Grupo Auchan no país, incluirá vários restaurantes, salas de cinema digital e inúmeras lojas. Contará com a construção de pequenos espaços interiores e exteriores para a dinamização de vários eventos culturais, desportivos e sociais, a instalação de um campo de jogos, uma parede de escalada, espaços seniores e vários parques infantis, de modo a procurar satisfazer todas as áreas de lazer para o diferenciado público.

Teresa Reis aponta que “para os trabalhadores, foi tudo programado porque os “transtornos” ocorreram antes de serem visíveis quaisquer obras no exterior. Muito antes de começarem, já havia mudanças dentro dos armazéns que não eram visíveis para o público”. Pretende-se que seja um espaço destinado a diversas ações que visam a inserção da comunidade, bem como a promoção de um maior envolvimento por parte dos cidadãos setubalenses. Destinado a toda a família e para todas as faixas etárias, afigura-se como “um destino de compras, um espaço público, mas também um espaço de vivências e de partilha dos que vão e dos que cá trabalham”, alega Teresa Reis. Joana Silva, de 27 anos, natural de Setúbal, sublinha que “as obras exteriores são um transtorno no trânsito. Todos os dias se perde muito tempo para ir para o trabalho”. Desde o início das obras, as faixas de rodagem já sofreram diversas alterações. “Já vi algumas dificuldades na passagem de peões, pois os acessos já passaram


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por fases complicadas, o que pode ter efeitos graves para as pessoas que lá passam diariamente”, relata. O Centro Comercial Alegro “será a maior superfície à mais curta distância de vários concelhos do distrito”, evidencia Joana Silva. Este novo centro comercial trará mais visitantes à cidade, contudo considera que “não haverá um aumento de turismo, pois as pessoas apenas se limitam ao seu espaço geográfico”, esclarece. Estima-se que a afluência será maioritariamente da população do centro da cidade de Setúbal, ou seja, cerca de 140 mil pessoas, bem como residentes do Sul do país, habitantes de Alcácer do Sal, Santiago do Cacém, Grândola e de toda a região Alentejana.

“nos primeiros meses será notória a perda de movimento na baixa, fator não impeditivo para o funcionamento das lojas. Acho que a baixa terá sempre algumas pessoas, nem que sejam as que vivem perto, as pessoas que trabalham na baixa e que no horário de almoço visitam as lojas para

“O Alegro terá sucesso!” “Numa cidade que não possui mais

nenhum de semelhantes caraterísticas”

ANA ENCARNAÇÃO

O encerramento do Centro Comercial Jumbo de Setúbal culminou na transição de algumas lojas para a baixa da cidade, todavia alguns destes estabelecimentos optaram por fechar portas. Porém, com a inauguração do Alegro, existe a possibilidade dessas mesmas lojas se instalarem no novo Centro Comercial. Marta Valente, de 24 anos, Gerente da loja Parfois, situada na baixa de Setúbal, revela que


26 | ECONOMIA

passar o tempo”. A atravessar um período difícil, “a baixa já está condenada, desde há muito tempo. O Alegro ainda não está construído, nem em funcionamento e, mesmo assim, a baixa da cidade já se encontra completamente deserta”, declara Marta Valente. Com várias lojas abandonadas, partidas e outras onde não passa nenhum cliente, “não existem tentativas, por parte da Câmara Municipal de Setúbal, para dinamizar esta área, sendo esta o coração da cidade”, afirma a Gerente da loja Parfois. Outros fatores condicionantes para a desertificação e o deterioramento do centro histórico setubalense são, o difícil estacionamento e a inexistência de infraestruturas preparadas para fazer face a eventuais condições meteorológicas adversas. A acrescentar está a semelhante oferta por parte das lojas de comércio local, a carência de fatores atrativos que cativem os clientes habituais e os potenciais. Não tendo como principal preocupação a presumível concorrência que a nova superfície comercial poderá vir a causar nas lojas da

baixa, Marta Valente exclama que “o Alegro terá sucesso!”. “Um Centro Comercial, numa cidade que não possui mais nenhum de semelhantes caraterísticas, só pode ter sucesso”, menciona. A cidade presenteia os seus visitantes com um espaço colorido, inovador e repleto de lojas de renome. Cumprirá igualmente todos os requisitos ambientais, privilegiando a redução de consumos energéticos, o conforto ambiental para os clientes, assim como a preservação e criação de novos espaços verdes. Consta que este novo projeto e a baixa de Setúbal terão como concorrência direta um outro polo comercial, na mediada em que está prevista a construção e abertura do Fórum Setúbal, da promotora Multi Development. Este é uma questão polémica que causa reticências junto dos setubalenses, uma vez que as obras tinham início previsto em 2012. Contudo, a edificação programada para dinamizar o Vale da Rosa, uma zona da cidade em franca expansão, não é, por enquanto, uma realidade expectável. ■ ANA ENCARNAÇÃO


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VANESSA GONZALEZ LOPES

Carlos Gervásio

DESEMPREGO NOVO PARA A REFORMA, VELHO PARA O TRABALHO

NA MEIA-IDADE

A

tualmente, o nosso país está a atravessar uma crise financeira cujo fim não se afigura próximo, lesados saem todos os portugueses, visto que na população jovem e de meia-idade, se tem vindo a observar, nos últimos anos, um aumento na taxa de desemprego. Mas será que para as pessoas de faixa etária mais elevada ainda existe esperança de empregabilidade? De acordo com estudos internacionais recentes, verificase um aumento expressivo e intensificado do desemprego na

população entre os 40 e os 60 anos, na medida em que estes enfrentam mais dificuldades na procura de um emprego fixo. Carlos Gervásio, de 57 anos, residente em Setúbal, concluiu um curso complementar de eletricidade, correspondente ao 10º ano de escolaridade e insere-se no mundo laboral desde os 15 anos. “Trabalho há 40 anos e sempre cumpri com os meus deveres fiscais”, refere. O curso profissional, acrescenta, foi um suplemento da sua formação. Carlos Gervásio exerce como profissão a Manutenção Industrial em todas as vertentes, porém

de momento encontra-se desempregado. “Desde 2007 que estou oficialmente sem emprego, ou seja, não é fixo, faço alguns trabalhos temporários, mas nada de mais”. As circunstâncias que levam ao desemprego, especificamente neste caso, estão relacionadas com o “excesso de pessoal”, declara Carlos Gervásio. Fátima Reis, de 54 anos, residente na Baixa da Banheira, está desempregada desde 2008. A fábrica onde trabalhava encerrou e, desde então, não consegue encontrar emprego fixo, executando apenas alguns trabalhos pontuais. “Na minha


28 | ECONOMIA

FILIPA BULE

Ana Bule

casa o ganha-pão é o meu marido, ajudo-o nas contas da casa com algum dinheirinho que recebo de trabalhos domésticos que faço”, partilha. Ana Bule, de 56 anos, residente em Almada, concluiu o 12º ano e integrou um curso de Turismo. Não ingressou no ensino superior e exerceu a profissão de Transitária no Aeroporto de Lisboa. Em 1991, começou a trabalhar por conta própria, juntamente com o marido, na área da restauração. Porém, quando a crise atingiu Portugal, viu-se forçada a abandonar o negócio. “Como gerente, não tive direito a subsídio de desemprego, não recebi nada do Estado e continuo assim, desempregada desde 2008”. O Centro de Emprego, ponto

de encontro de muitos desempregados, atesta a procura intensa de trabalho. “Todos os dias envio seis a nove emails, à procura de emprego”, esclarece Carlos Gervásio. Ana Bule continua à procura de emprego, ciente de que a idade é um fator determinante. “Sou velha para trabalhar, mas nova para me reformar (...) é um cliché, mas é a realidade”, sublinha. Carlos Gervásio e Fátima Reis procuram atualizarse nas suas áreas profissionais e aproveitar as potencialidades que a Internet fornece nos dias de hoje. “Tento conhecer novos produtos, tento atualizar-me na minha área profissional, ou seja, tento valorizar-me pessoal e profissionalmente”, reflete Carlos Gervásio. Por outro lado,

Fátima Reis recorre ao auxílio dos filhos. “Eles ajudam-me com estas novas tecnologias, logo não fico estancada no tempo”, admite sorridente. A emigração é um assunto polémico e é cada vez mais frequente o abandono do país por parte dos portugueses, numa procura incansável de novas oportunidades e aptidões. Fátima Reis exclui a hipótese de emigrar. “Já não tenho idade para aventurar-me por outros países”, justifica. Por sua vez, Carlos Gervásio já conta com experiência no estrangeiro, nomeadamente em trabalhos temporários, tendo em mente o eventual surgimento da “possibilidade ou a necessidade de emigrar definitivamente”. A sua opinião baseia-se no facto


29 de os trabalhos temporários não garantirem estabilidade financeira. “É viver sempre com o coração nas mãos”, comenta. Ana Bule realça que é “uma vergonha deixar sair de Portugal, pessoas com qualidade”. Existem inúmeros fatores que podem levar ao desemprego na meia-idade. Cada vez mais os empregadores procuram jovens com “mentes frescas” e que tenham fácil adaptação a situações específicas e, em contrapartida, estes desempregados não têm os requisitos necessários para um cargo que exija conhecimento tecnológico.

Fátima Reis considera que os jovens têm mais oportunidades de emprego, pois ”são eles que vêm com outra dinâmica, cheios de saúde e vontade para trabalhar”. Na perspetiva de Ana Bule, não há oportunidade de emprego nem para os jovens, nem para as pessoas de meiaidade. Por outro lado, Carlos Gervásio manifesta que falta de informação técnica na sua geração constitui um “défice de conhecimentos tecnológicos”. Afirma ainda que, apesar de estar nesta situação, não abdica de fazer o que mais gosta, tendo-se juntado recentemente à equipa de andebol federado

de veteranos, desporto já antes praticado. Fátima Reis termina, não sem antes manifestar a sua opinião acerca da realidade atual: “A culpa é certamente das más decisões que o nosso governo toma”. Ana Bule ainda tem esperanças de voltar a ter o seu negócio juntamente com a família, porém não se encontra com perspetivas de futuro auspiciosas. “A verdade é que nós não andamos aqui a viver, mas sim a tentar sobreviver”, finaliza. ■ TÂNIA NEVES

“A culpa é certamente das más decisões que o nosso governo toma”

TÂNIA NEVES

Fátima Reis


ANA ENCARNAÇÃO

EDUCAÇÃO

“FENÓMENO COM TENDÊNCIA A AUMENTAR”

À MARGEM DA EDUCAÇÃO


ANA ENCARNAÇÃO

31

“Sempre que surgem as primeiras faltas, o encarregado de educação é logo contactado”

M

arco Coelho, de 29 anos, concluiu o 9º ano de escolaridade, tendo abandonado os estudos, com apenas 17 anos, “para ajudar a família que tinha dificuldades económicas”, justifica. Sendo a mãe o único sustento para uma família constituída por cinco pessoas, onde está incluída uma irmã com necessidades especiais, como filho mais velho viu-se forçado a entrar no mundo do trabalho. “Os meus pais também tiveram que fazer o mesmo pela família”, relata. Ambos com a 4ª classe, não puderam seguir os estudos para o Liceu, porque a sua condição financeira quase não permitia que se alimentassem. Há 9 anos a trabalhar num Call Center em Lisboa, partilha: “talvez a minha vida fosse diferente se tivesse seguido com os estudos, mas recentemente, terminei o 12º ano de escolaridade com esperança que me abra novas oportunidades”. Este é um dos inúmeros casos, a nível nacional, de abandono escolar precoce. “O fenómeno tem tendência a aumentar”, refere Luísa Fuzeta, de 47 anos, Subdiretora da Escola Secundária D. João II. “Com o aumento da escolaridade obrigatória para o 12º ano e/ ou para 18 anos, situações que antes não eram classificadas como abandono escolar, são agora integradas nas listas”, acrescenta. O estabelecimento de ensino conta com cerca de mil alunos no ano corrente, já teve 14

adolescentes a abandonarem os estudos, sendo mais de metade do sexo feminino. De acordo com a Subdiretora, estas desistências são maioritariamente consequência de um historial de insucesso repetido por parte do aluno, bem como de apoio familiar quase inexistente causado por famílias desestruturadas. Para casos como este, é indispensável existir contacto com as instituições escolares e com os encarregados de educação, para prevenir que os casos de abandono ocorram. “O melhor ataque para estes casos é a prevenção”, refere Luísa Fuzeta. “Sempre que surgem as primeiras faltas, mesmo que esporádicas, o encarregado de educação é logo contactado”, finaliza. Para solucionar problemas que os alunos possam eventualmente desenvolver, a escola dispõe de Serviços de Psicologia e Orientação e de Núcleo de Apoios Educativos, no sentido de apoiar todos os alunos. A Subdiretora relata que, apesar de todos os esforços e sem culpabilizar a crise no país, as condições são dadas aos cidadãos de geração em geração, com o propósito de melhorarem os seus conhecimentos. O problema do insucesso é a falta de “condições de trabalho, o desmazelo, o não querer fazer, o deixar andar, que depois faz de nós um país que tem sempre dificuldade em acompanhar o pelotão da frente”, expressa. ■ ANA ENCARNAÇÃO


32 | EDUCAÇÃO

UNICA: NUNCA É TARDE PARA APRENDER ENVELHECIMENTO HARMONIOSO, ATIVO E SAUDÁVEL

A

população jovem portuguesa tem vindo a sofrer um decréscimo que se verifica por meio de um aumento tendencial da população envelhecida. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), nos próximos anos prevê-se um forte envelhecimento demográfico e o número de idosos irá duplicar daqui a 50 anos. Os valores causam preocupações alarmantes no país, principalmente no combate de problemas comuns caraterísticos da população idosa, como o caso da exclusão e da segregação. O Concelho de Almada é um dos muitos, no país, que desenvolve projetos cuja missão é combater a solidão e o isolamento social dos idosos. Na freguesia da Charneca de Caparica, uma associação com cerca de dois anos, a Universidade Intergeracional do Concelho de Almada (UNICA), tem vindo a lutar contra este fenómeno. Trata-se de uma associação sem fins lucrativos que tem por objetivo dinamizar a população envolvente e promover um envelhecimento harmonioso, ativo e saudável. Teresa Matos, Coordenadora Pedagógica da UNICA e

MARÍLIA BRANCO

professora de Inglês inicial e avançado, revela que a universidade é totalmente independente e autónoma. O projeto surgiu quando “alguns dos seus elementos, ao partilharem experiências profissionais e conhecimentos, suportados pelos dados recolhidos nos Censos 2011, verificaram que existia uma grande necessidade de dinamização dos tempos livres, quer de seniores, quer de adultos, na freguesia da Charneca de Caparica”, refere. Na UNICA, segundo a coordenadora, existem cerca de 120 alunos – com idades compreendidas entre os 40 e os 85 anos –, bem como uma panóplia de disciplinas inseridas em várias áreas de estudo,

designadamente, Ciências Naturais, Ciências Sociais, Saúde, Línguas e Literatura, Artes e Informática. Estas disciplinas são lecionadas por docentes com conhecimentos académicos ou de experiência profissional na área. “Atualmente temos 15 professores e vários ajudantes, sendo que o critério para as seleções se baseou na motivação transmitida pela pessoa”, informa. Para Teresa Matos, este é um projeto bem-sucedido, que conseguiu contribuir para melhorar a qualidade de vida dos idosos charnequenses. Acrescenta que “fazer parte da Universidade Intergeracional do Concelho de Almada é crescer diariamente enquanto ser


33

humano, é enriquecer o conhecimento, é, sem sombra de dúvida, fazer parte de uma grande família”. José Gonçalves, professor de Desenho e Pintura na UNICA, desde outubro de 2013, esclarece que foi convidado para dar aulas na Associação pelo facto de ser licenciado em Arquitetura e, assim, possuir os conhecimentos necessários para poder colaborar. As aulas realizam-se todas as sextas feiras entre as dez horas e o meio-dia e, segundo o professor, “são duas horas, porque nesta área não é possível executar-se qualquer trabalho em apenas uma hora”. O professor explica que a faixa etária dos seus alunos se situa na terceira idade, sendo que “a aluna mais idosa é uma ex-bióloga

de 82 anos”. As suas aulas desenvolvem-se em torno “de desenhos à vista ou de naturezas mortas e só depois se evolui para a pintura, começando pelos elementos anteriormente desenhados e recorrendo, posteriormente, a aguarelas”, conta José Gonçalves. O arquiteto afirma que aprecia significativamente a possibilidade de participar de forma tão ativa na sociedade onde está inserido e, principalmente, partilhar conhecimentos com os outros. “Fazer parte da Universidade Intergeracional do Concelho de Almada enquanto colaborador, é ótimo e muito gratificante. Sabermos que podemos e somos capazes de transmitir a arte do saber, faz-nos sentir úteis para a sociedade”, orgulha-se.

Carla Nunes, de 72 anos, é aluna na UNICA pelo segundo ano consecutivo nas disciplinas de Sociologia, Psicologia, Canto e Ginástica. A estudante tomou conhecimento deste estabelecimento de ensino sénior quando foi viver para a Charneca de Caparica, manifestando, desde logo, o seu interesse em associar-se. “Assim que soube do projeto, não hesitei em inscrever-me”, partilha. Para a discente, entrar na universidade foi como uma “salvação”. Conta que se sentia muito isolada, sem conhecer nada nem ninguém na zona e, por isso, quis ir à descoberta. No entanto, Carla Nunes informa que, apesar de se ter candidatado a frequentar a UNICA com o objetivo de combater a sua solidão, rapidamente entendeu que o projeto lhe iria trazer novos conhecimentos e vivências, como o caso de visitas de estudo, seminários, tertúlias, palestras, momentos de convívio, entre outros. A estudante relembra, com jovialidade, o convívio final do passado ano letivo e indica que o seu relacionamento, “tanto com colegas como com professores é excecional”. Carla Nunes termina justificando que gosta “muito de estudar e de fazer parte da UNICA”. Considera ser o “preenchimento de um vazio que estava a sentir muito nesta fase” da sua vida. O envelhecimento é um problema atual da sociedade portuguesa, acompanhado de um conjunto de questões de cariz social. Contudo, apesar desta realidade, ainda existem algumas associações que desenvolvem projetos com objetivo de a combater e ter um país, ainda que idoso, ativo e saudável.■ MARÍLIA BRANCO


34 | EDUCAÇÃO

RITA REBELO

“EDUCAÇÃO PELOS PARES”

PREVENÇÃO ATIVA JUNTO DOS ALUNOS DO ENSINO BÁSICO

A

fundação portuguesa ‘‘A Comunidade

direcionada para o apoio direto a indivíduos

Contra a SIDA’’ é um projeto em

infetados pelo VIH/SIDA, atualmente possui um

vigor desde 1993 e inclui um Centro

âmbito de intervenção mais alargado, através da

de Acolhimento e Orientação de

‘‘Educação pelos Pares‘‘, conjuntamente com o

Jovens (CAOJ), com sede em Lisboa.

Ministério da Educação e Ciência e o Ministério da

Conta com Delegações Regionais ativas no

Saúde.

Porto, em Coimbra, Vila-Real, Setúbal e Madeira.

Esta vertente do projeto manifesta-se como um

Embora a ação do CAOJ tenha sido inicialmente

apoio à formação inter pares e desenvolve-se em


35 parceria estreita com as escolas, no âmbito do

comportamentos que assumem presente e

programa ‘‘Sexualidade e Prevenção VIH/SIDA’’.

futuramente. ‘‘A nossa vontade é que os alunos

São, assim, recrutados jovens universitários que

façam aprendizagens significativas, para que, ao

se assumem como pares educadores e abraçam

longo das sessões, desenvolvam espirito crítico e

um compromisso. Os jovens submetem-se a uma

mostrem vontade em intervir na realidade, bem

formação onde treinam competências pessoais e

como em adotar comportamentos de prevenção’’,

sociais, trabalham algumas dinâmicas, e partilham

remata Ana Luísa Coelho.

experiências de vida. ‘‘Pretende-se que a brigada de intervenção universitária seja um modelo positivo e bem informado. Entendemos que é mais fácil para o aluno ouvir quem lhe é próximo, e está mais dentro do “seu” mundo, do que os que se igualam a quem está sempre a chamar à atenção, como pais e professores’’, afirma Ana Luísa Coelho, uma

“É mais fácil para o aluno ouvir quem lhe é mais próximo,

das formadoras.

e está mais dentro

Os estudantes voluntários são motivados a intervir assertivamente junto dos alunos, de forma

do “seu” mundo”

ativa e tolerante, através do diálogo e de jogos pedagógicos, que se destinam a desbloquear e a promover a comunicação dos conteúdos entre os alunos. As sessões permitem informar, prevenir

A formadora faz um balanço altamente positivo e

e formar através de um processo de mudança

reforça nos adolescentes a ideia de que é possível

orientada, fundamental para a construção

fazerem opções de vida conscientes, respeitando-

da identidade, individualidade e autonomia,

se e respeitando os outros, em todos os domínios

numa altura em que é no grupo de pares que o

da vida e em particular na área da saúde. ■

adolescente procura referências para se conhecer e demarcar como pessoa.

RITA REBELO

Os alunos refletem acerca das atitudes e

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36 | EDUCAÇÃO

IDIOMAS APRENDIZAGEM DAS LÍNGUAS ESTRANGEIRAS NA PENÍNSULA

DO MUNDO

A

atual globalização económica, política e social permite verificar uma significativa adesão por parte das pessoas, relativamente à aprendizagem de línguas estrangeiras. Este fenómeno surge pelos mais diversos motivos, designadamente a curiosidade, o interesse e a necessidade.

Segundo Tanya Garcia, Diretora do International Language School (ILS), em Setúbal, “a maioria dos alunos inscrevese com o objetivo de ir para o estrangeiro, principalmente para trabalhar e estudar”. Indica que a população frequenta aulas com maior regularidade, devido à crise económica vigente em Portugal. Aponta que “este é um objetivo que tem vindo a crescer

nos últimos anos, mas que sempre existiram muitos alunos a querer simplesmente melhorar as notas da escola”, bem como, “adquirir uma qualificação em línguas, para uma melhor perspetiva de emprego”. Ana Madalena Gonçalves, Diretora do Wall Street Institute, menciona a existência de três grandes motivos: “a procura de emprego, a emigração e


37 de Setúbal, Ana Madalena Gonçalves evidencia que esta aprendizagem desenvolve “mais oferta de postos de trabalho” e impulsiona a existência de

“O povo precisa e quer comunicar” turismo. Por sua vez, Tanya Garcia acrescenta que a aprendizagem de línguas estrangeiras tem vindo a atingir um “significativo aumento de interesse, nomeadamente para uma melhoria nas vidas das pessoas em geral”. Aponta, simultaneamente, para a

existência de “uma melhor preparação das crianças quando começam o 5º ano de escolaridade - onde o inglês é obrigatório -, bem como melhores resultados escolares e expetativas de emprego dentro e fora do país”. A responsável pelo ILS frisa ainda que, não só na península, como na sociedade em geral, o inglês afigura-se como uma língua com maior adesão. Termina, afirmando que “o povo precisa e quer comunicar” e que os institutos de línguas providenciam as ferramentas necessárias e imprescindíveis para que qualquer pessoa tenha capacidade de “demonstrar que sabe falar!”. ■ VANESSA GONZALEZ LOPES

VANESSA GONZALEZ LOPES

ascensão na carreira”. Tanya Garcia refere que, embora o seu instituto lecione Inglês, Francês, Alemão, Espanhol e Português para estrangeiros, a língua mais frequentada é a inglesa. Contudo, garante que, atualmente, a língua alemã tem sido alvo de uma maior procura, “estando neste momento numa fase de crescimento”. Contrariamente, hoje em dia, tanto o Francês como Espanhol são duas línguas onde se verifica uma menor procura. A Diretora do ILS refere que a maioria dos seus alunos pertencem a uma faixa etária jovem, “apesar de nos últimos anos existir uma procura substancial pela parte dos adultos”. Relativamente à importância do estudo de línguas na Península


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ANDRÉ MELÃO

ESTÓRIAS DE SUCESSO PÓS-LICENCIATURA

E DEPOIS DO CANUDO?

D

aniel Ferreira e Joana Santos são dois antigos estudantes do Curso de Comunicação Social da Escola Superior de Educação (ESE) do Instituto Politécnico de Setúbal. Embora nenhum deles tenha elegido esta escola como a sua primeira opção, ambos se encontram a trabalhar na área para a qual estudaram durante três anos. Daniel Ferreira trabalha na Super FM desde o início do estágio académico que realizou no passado ano letivo e não podia estar mais na sua

“praia”, sendo o próprio um apreciador de música rock, o género de música mais transmitido nesta rádio. Ainda que existissem protocolos de estágio com rádios da Moita ou do Montijo, o jovem de 21 anos foi pioneiro nos estágios nesta rádio: “Tive de entrar em contacto porque a rádio Super FM não tinha protocolo com a ESE, fiz os contactos e aceitaram-me. Neste momento a Super FM é um local de estágio na ESE”. O jovem sempre teve um gosto por comunicar e chegou mesmo a inventar programas de rádio quando em criança, colocava


40 | EDUCAÇÃO

CEDIDA POR: ANABELA VIDAL

músicas a tocar no computador, enquanto fingia fazer uma emissão em direto. À semelhança de Daniel, Joana Santos estava incerta em relação ao futuro após o ensino secundário e optou pelo Curso de Comunicação Social por se considerar uma pessoa que fala “pelos cotovelos”. No entanto declara que, se tivesse de tornar a fazer uma escolha, não frequentaria este curso superior porque entretanto foi ganhando gosto por outras áreas. Inserida no ramo de Comunicação Cultural, fez o estágio académico no festival de cinema Festróia, onde aponta não se ter sentido plenamente realizada porque, tal como muitos outros jovens, passou os primeiros dias de estágio a carimbar documentos. A experiência de Daniel Ferreira não podia ter sido mais antagónica. “Quando entrei, perguntaram-me o que é que queria fazer, eu não tinha noção e colocaram-me no programa das manhãs”, revela. O radialista perdeu recentemente a alcunha de “O Estagiário”, que o acompanhava desde o início da atividade na rádio que agora o remunera. Também remunerada se encontra Joana Santos que, após ter terminado o estágio no Festróia, obteve a oportunidade de estagiar na TV Almada. “A TV Almada foi a única entidade de Comunicação Social

CEDIDA POR: DANIEL FERREIRA

que me respondeu depois de eu ter acabado a licenciatura”. É neste órgão, em conjunto com o trabalho num Call Center, que consegue sustentar-se. A jovem aconselha: “quando fores à procura de trabalho vais ver que eles andam à procura de pessoas muito experientes ou que se sujeitem a estágios não remunerados” e que não é possível fazer da licenciatura um trabalho a tempo inteiro nos tempos que correm. ■ ANDRÉ MELÃO

V


TÂNIA NEVES

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S

“NÃO VALE A PENA TER UMA LICENCIATURA” GERAÇÃO À RASCA OU GERAÇÃO DESENRASCADA?

P

ortugal apresenta uma conjuntura financeira que não satisfaz os portugueses. Sendo que a cada ano o desemprego aumenta e, por sua vez, a emigração também. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística, em 2013, Portugal apresentou a taxa mais alta de desemprego – 16,3% – valor que afeta maioritariamente o sexo masculino. Este número revela-se superior à média da União Europeia, classificando-se como o terceiro país com a taxa mais elevada. O desemprego jovem também tem levantado preocupações e segundo o Instituto de Emprego e Formação Profissional, em dezembro de 2013, o número de licenciados desempregados já ultrapassava os 90 mil. Esta realidade próxima dos jovens, revelase frustrante e muitos chegam a questionar-se se uma licenciatura valerá a pena. Rute Moura, de 27 anos, licenciada em Educação de Infância, partilha a opinião de que, em Portugal, “não vale a pena ter uma licenciatura”. No entanto, não

se considera membro da “geração à rasca”, preferindo acreditar que se insere numa “geração desenrascada”, na medida em que foi conseguindo alguns empregos precários, não na sua área de formação, mas que lhe garantiram a sua subsistência. Terminado o ensino secundário, os jovens apostam na formação superior, com o intuito de adquirir novos conhecimentos que lhes proporcionem ofertas de emprego auspiciosas. Concluída a licenciatura, o que se segue são estágios não remunerados, empregos com salários inferiores às suas qualificações e a maioria nunca assina um contrato de trabalho. Cátia Dias, de 25 anos, licenciada em Anatomia Patológica, Citológica e Tanatológica, revê-se nesta categoria da “geração à rasca”. “Em todas as instituições em que estagiei, o meu trabalho foi apreciado e a vontade de me contratar foi expressa, no entanto, terminava sempre com «o governo não nos permite contratar mais ninguém» ou «os nossos lugares estão em risco, não podemos colocar mais ninguém»”.


42 | EDUCAÇÃO

Não quero ter filhos aqui, quero que eles cresçam no país onde eu cresci, que possam ter acesso à educação que tive

Cátia Dias arriscou seguir todos os métodos de procura de emprego, “desde os típicos sites de procura e oferta de emprego, aos jornais, o envio direto de currículos para entidades que conhecia, ou a procura geográfica por tudo o que eram clínicas na área de residência”. Contudo, segundo Cátia Dias, as respostas obtidas revelaram-se, de uma maneira geral, semelhantes, e culminaram da seguinte forma: “de momento não precisamos, mas guardaremos o seu currículo e assim que precisarmos, voltamos a analisar”. Face à atual situação do país, tem-se assistido a uma elevada percentagem de emigração dos jovens, que procuram melhores condições de vida e trabalho. Cátia Dias é um dos rostos que dá vida a estes números, estando desde agosto do ano passado, em Liverpool. Atualmente, a jovem trabalha como hospedeira de bordo para a empresa Ryanair, com a qual assinou um contrato de três anos. A licenciada não tem dúvidas de que este país lhe oferece melhores condições. “Neste momento tenho uma casa alugada em meu nome, onde tudo o que se encontra nela me pertence”, afirma orgulhosa. Uma realidade que julga, melancolicamente, nunca conseguir na sua terra natal. Cátia Dias não nega a opção de regressar para Portugal, demonstrando, desta forma, vontade em constituir família no seu país de origem. “Não quero ter filhos aqui, quero que eles cresçam no país onde eu cresci, que possam ter acesso à educação que tive. Aqui tenho perspetivas de futuro que em Portugal nunca tive”, refere. Licenciado em Radiologia, João Ascenso, de 26 anos, recorda a sua fase enquanto estudante. Embora não estivesse a viver na mesma casa que os pais, o jovem revela que eram estes que o sustentavam. Na mesma a situação que Cátia Dias encontrase João Ascenso, que optou por emigrar para

Liverpool, em fevereiro do presente ano. Esta possibilidade nunca foi excluída, porém foi o facto de a namorada já o ter feito que o incentivou. Sem garantia por parte de qualquer entidade, o licenciado foi à aventura, tendo como experiência prévia alguns part-times. Por outro lado, acrescenta que se confrontou com algumas limitações neste país, tais como “a língua, pelo sotaque tão caraterístico da zona e a alimentação, visto que a gastronomia em nada se iguala à da cultura portuguesa”. Da mesma opinião que Cátia Dias, João Ascenso considera ter melhores condições no país que o acolheu nesta sua nova fase, mesmo não tendo um emprego definitivo. Para o licenciado, Liverpool reúne condições benéficas, entre elas: salários mais elevados e o custo de vida mais baixo. “Isso é evidente no meu último trabalho em Portugal, no qual recebia 500€ por mês. Aqui existem trabalhos em que consigo ganhar isso por semana”, acrescenta. De uma maneira geral, o licenciado em Radiologia aconselha a emigração, principalmente aos licenciados na área da saúde, “visto que a procura no exterior é bastante”. Por outro lado, reconhece que não se imagina a viver toda a sua vida em Liverpool. O seu grande objetivo é “juntar fundos e posteriormente regressar a Portugal e investilos”. ■ FILIPA DA COSTA

FILIPA BENTO


ESPECIAL

25 DE ABRIL

ANDRÉ MELÃO

UM OLHAR SOBRE AS CONQUISTAS DO 25 DE ABRIL. O ANTES, O DURANTE E O DEPOIS.


44 | ESPECIAL 25 DE ABRIL

VETERANO DE ABRIL “FUI E SOU RESISTENTE. NA LUTA PELA PAZ, NA LUTA PELO POVO.”

V

eterano de 92 anos, Américo Leal é membro da União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP). Defende a paz, luta contra as injustiças e age pela liberdade. “No Porto, (…) não dava o meu nome (…), estive 28 anos na clandestinidade”, confidencia. Participante e espetador durante os 40 anos do 25 de abril, Américo Leal relembra que “até à queda do regime de Salazar, só havia uma oposição, não havia cores políticas”. Aponta que esta é uma das grandes diferenças que se verificam: a formação de partidos foi uma resultante

da revolução, contudo tem as suas desvantagens. Realça que a inexistência de um inimigo comum faz surgir promessas que não se veem ser cumpridas. Em conjunto, todos são a favor da paz, todavia “depois a cor política funciona”. É com base nesta realidade “que nas escolas tentamos proporcionar aos alunos as condições necessárias para definirem quem consideram estar bem e mal no campo político”, esclarece. A necessidade de “uma frente comum em defesa do nosso país, da nossa integridade”, é um dos princípios que tenta transmitir nas ações da URAP em que participa. Considera que os “jovens fazem parte do povo” e compreende as inseguranças


45 “Cantar Grândola Vila Morena em qualquer sítio é

PEDRO MARIANO

exigir o 25 de abril”

que hoje sentem. Admite tê-las sentido em tenra idade: “Eu sei o que é não ter trabalho. Os jovens acabam os seus estudos e depois?”. Quando questionado se atualmente a importância da Revolução dos Cravos é reconhecida, Américo Leal explica que para quem não viveu a fome, a tortura e a revolução, é difícil imaginar as implicações que esta última teve. No entanto, aponta que as pessoas “vão sabendo o que foi o 25 de abril” por meio das comemorações e das

aprendizagens escolares. Conclui afirmando que “vão tendo conhecimento de maneira geral, mas nunca chega a todos”. “Não tenhamos dúvidas que cantar Grândola Vila Morena em qualquer sítio é exigir o 25 de abril”, afirma ao esclarecer que nas manifestações, as pessoas abdicam das suas escolhas partidárias e lutam contra aquilo que consideram estar errado. O objetivo, declara, é tentar mudar a realidade dura em que vivem. Relativamente à possibilidade de ocorrer um novo 25 de abril

ou de uma possível “Primavera Portuguesa”, o veterano não acredita estarem “criadas as condições necessárias”. Afirma igualmente que “se alguém fala nisso está fora da realidade”. Na sua perspetiva, uma nova revolução é uma hipótese remota ou até mesmo nula. Porém, não concorda com quem afirma “que as reivindicações e as greves não dão em nada”. Muito pelo contrário, está certo de que “isso vai cavando”, mas que “é preciso ter cuidado”. ■ FILIPA BENTO

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46 | ESPECIAL 25 DE ABRIL

MEMÓRIAS DE “Constituiu uma fortíssima entidade no que diz respeito à resistência ao fascismo”

“ FILIPA DA COSTA

Um homem com uma grande generosidade e uma grande atenção a quem estava à sua volta. Um homem frontal naquilo que pretendia dizer e uma grande vontade em alterar a realidade política, social e cultural em que estava inserido. Um homem inquieto com a realidade que o envolvia”. Memórias de Helena Carmo, funcionária da Associação José Afonso (AJA), ao recordar o cantor e compositor, mais conhecido por Zeca Afonso. A Associação José Afonso foi fundada na cidade de Setúbal, em 1987, logo após a sua morte. Concretizada através de um grupo de amigos, a associação

contempla um conjunto de materiais que têm como principal objetivo a preservação e valorização do espólio de José Afonso. Para além de conterem musicalidade, as paredes da associação transmitem uma variedade de mensagens que ilustram todo o espaço: fotografias, versos e manuscritos. Situada na Casa da Cultura, a Associação José Afonso é mais um equipamento municipal que complementa a cidade de Setúbal. Nascido em Aveiro e educado pelos tios, José Afonso passou por diversas regiões que marcaram toda a sua vida, entre elas: África, Algarve, Aveiro, Belmonte e Setúbal.


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ZECA AFONSO

CEDIDO POR: ARQUIVO AJA NORTE

“LEGADO QUE ENRIQUECE O PATRIMÓNIO CULTURAL PORTUGUÊS”

José Afonso fez uma compilação dessas suas experiências e remeteu-as para poemas e composições musicais. Embora José Afonso não tenha nascido em Setúbal, criou, desde muito cedo, uma forte ligação com a cidade. Para além de ser um palco destinado à apresentação

das suas músicas, foi também onde fundou o Círculo Cultural de Setúbal que, segundo Helena Carmo, “constituiu uma fortíssima entidade no que diz respeito à resistência ao fascismo”. Por outro lado, “a Serra da Arrábida – local frequente de passeio – sempre

foi muito admirada por José Afonso”, acrescenta. “Grândola, Vila Morena” foi considerada um marco na carreira de José Afonso, que acompanhou o Movimento das Forças Armadas, como símbolo da Revolução dos Cravos. Virgílio Martins, setubalense de 73 anos, recorda a primeira vez que ouviu a música de José Afonso: “Lembro-me de estar reunido com os meus familiares, quando soou a música do grande Zeca Afonso na telefonia”. Para o setubalense, esta simboliza um grande passo para Portugal, o início da democracia. Ouvida há mais de 40 anos, esta música continua presente no coração e alma de muitos cidadãos, em alguns contextos políticos, sociais e culturais, como símbolo de liberdade. Helena Carmo conclui afirmando que “José Afonso deixou um legado que enriquece o património cultural português”. ■ FILIPA DA COSTA


CULTURA

TEATRO DE TODOS PARA TODOS TEATRO INTERNACIONAL AO ALCANCE DA POPULAÇÃO


50 | CULTURA

“ C

O público tem direito a ver um espetáculo mesmo não dominando a língua em que esse acontece

om a vontade de proporcionar o melhor que se faz no teatro a nível mundial, a pessoas cujas posses económicas não são suficientes para viajar e usufruir dessa vasta oferta cultural, surgiu, pela mão de Joaquim Benite, o Festival de Teatro de Almada. O encenador e fundador do festival esteve também na génese do Teatro Municipal de Almada que, após a sua morte, adotou o seu nome. O Festival de Almada comemorou, em 2013, a sua 30ª edição da melhor maneira,

tendo ganho o Prémio da Crítica 2013, entregue pela Associação Portuguesa de Críticos de Teatro. A atribuição espantou Rodrigo Francisco, atual encenador da instituição, que afirma que “é a primeira vez que, em vez de se premiar um espetáculo, se premeia um evento”, o que enche de orgulho a equipa organizadora por ter inaugurado essa exceção na atribuição do prémio. As principais particularidades são a exibição das peças em 10 salas distintas - sendo que apenas 4 delas são em Almada e as restantes 6 em Lisboa -, bem como o facto de haver um conjunto vasto de

peças em português e em língua estrangeira. Os bilhetes para os espetáculos foram vendidos a preços acessíveis às carteiras da população com menos posses e os espetáculos foram legendados em direto, através de painéis eletrónicos - ideia importada das óperas. O encenador diz que “o público tem direito a ver um espetáculo mesmo não dominando a língua em que esse acontece” de forma a não existir a preocupação de “pensar se as pessoas vão perceber o espetáculo ou não, porque é noutra língua”. Dada a crise económica

Foi um primeiro passo no sentido de poder ter mais recursos e de os otimizar, ou seja, poder ter espetáculos mais caros e dividir os custos, mas também tirar proveito da forte corrente de público de que o Festival beneficiava


ANDRÉ MELÃO

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portuguesa, o Estado tem cortado no setor da cultura, nomeadamente nos subsídios aos teatros independentes e na extinção do próprio Ministério da Cultura. A comparticipação do Estado diminuiu nos últimos anos, registando-se um valor igual ao de 1997 (cerca de 150 mil euros), ano em que “o marco principal talvez seja a vinda de Peter Brook”, cuja deslocação ao Teatro da Trindade foi paga pelos dois teatros, o que se traduziu na primeira grande

colaboração com um teatro lisboeta. “Foi um primeiro passo no sentido de poder ter mais recursos e de os otimizar, ou seja, poder ter espetáculos mais caros e dividir os custos, mas também tirar proveito da forte corrente de público de que o Festival beneficiava”, adianta Rodrigo Francisco. O Festival de Almada é atualmente financiado, para além dos fundos estatais, por um investimento do Nordic Cultural Fund e por alguns

fundos estruturais do QREN. Apesar do desinvestimento na cultura, o “Teatro Azul” pretende prolongar o Festival de Almada – líder na rede de teatros – e estendê-lo não só a cidades como Aveiro, Braga e Matosinhos, mas também alargar essa colaboração com um festival de teatro da Galiza. ■ ANDRÉ MELÃO

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52 | CULTURA

PSICOLOGIA DE CORDAS PROFESSOR DE PSICOLOGIA OCUPA OS TEMPOS LIVRES COMO LUTHIER

VANESSA NEVES

U

m instrumento transmite uma multiplicidade de sentidos, não só para quem os toca, como para quem os ouve, constrói e repara. Os instrumentos musicais são, normalmente, peças sublimes que não agradam somente ao ouvido, mas igualmente ao olhar e ao toque. Há 20 anos que Manuel Galrinho ocupa os seus tempos livres construindo e reparando violinos, violoncelos e violas de arco. Iniciou-se nesta atividade porque o seu filho tocava violino e sentia que as reparações que o instrumento necessitava pontualmente eram demasiado dispendiosas. No

entanto, confessa, “comecei a gostar porque é um objeto fascinante, tem uma linha elegante com um grande poder de atração”. A reparação de instrumentos de cordas é uma arte que não se aprende apenas através da leitura. “Primeiro comecei a comprar livros, mas achei que aquilo não era suficiente. Depois fui a Cremona no norte de Itália, que é uma cidade onde praticamente toda a gente faz violinos, fui lá duas vezes, estive lá em várias lojas e ateliers, mas continuei a achar que era insuficiente para aprender”, afirma Manuel Galrinho. Dita a regra que é com os mestres que se aprendem os truques essenciais.


53

“É um objeto fascinante, tem uma linha elegante com um grande poder de atração”

Como tal, o construtor conviveu com “Óscar Cardoso que, apesar de ser construtor de guitarras, estudou na Escola Profissional em Cremona, o ofício dos violinos, bem como toda a sua construção. Ensinou-me coisas que não vinham nos livros”, esclarece o atual luthier – termo referente ao ofício de construção e reparação de violinos. Curiosamente, um violino é feito através da colagem de duas metades equivalentes. Por muito idênticos que sejam, não há dois violinos artesanais iguais. Estes são instrumentos que, por norma, requerem um investimento monetário elevado, sendo que cada violino demora, em média, dois meses a ser construído. No seu caso, normalmente, é procurado por pais de alunos ou pessoas que pretendem restaurar violinos antigos. O professor considera que não conseguia viver apenas deste trabalho porque “as reparações são uma coisa muito variável. Tão depressa posso ter imensas coisas para reparar, como nas alturas seguintes não ter”, afirma. Porém, o construtor projeta um futuro estável para esta atividade. Confessa sentir que, atualmente, os discípulos da música não investem tanto no fabrico artesanal, devido ao advento da concorrência do mercado chinês e à disparidade de preços. Manuel Galrinho confidencia que vai deixar de lecionar e aproveitar para se dedicar a este mundo, embarcando num novo projeto, onde a ideia é utilizar outro tipo de madeiras, afastando-se, desta forma, do modelo tradicional. ■ VANESSA NEVES

“Ensinou-me coisas que não vinham nos livros”


54 | CULTURA

MÚSICA FORA DA GARAGEM “NÃO PODEMOS VIVER NA SOMBRA DO SUCESSO ADQUIRIDO”

E

nsaiam dentro ou fora das quatro paredes de uma garagem. São jovens músicos em ascensão, ambiciosos e sonhadores, que idealizam um dia obter o maior dos reconhecimentos pelos esforços praticados, desde que decidiram dar uma oportunidade à sua principal paixão: a música. Entre concertos e momentos de convívio com colegas de banda, alguns dos músicos “de garagem” assinalam frequentemente como principais dificuldades a procura de um espaço de ensaios, de equipamentos necessários à sua atividade e de contactos para divulgação do seu trabalho. A generalidade consegue trazer novidades sonoras ao panorama atual da música portuguesa, através dos seus temas originais. Por outro lado, deleitam também os ouvidos mais saudosistas ou menos recetivos à novidade, com músicas pertencentes a outras bandas nacionais ou internacionais, já conhecidas do público. O baterista dos setubalenses No Leg Squad, Henrique Vassalo, de 26 anos, define o estilo de música da sua banda – em atividade desde 2010 – como “Rock; Stoner Rock [um subgénero do Metal tradicional]; Rock&Roll e Punk Rock, com alguma influência Noise [variação experimental da música Punk, que utiliza instrumentos não convencionais]”. Embora toquem apenas temas originais o que, para o músico, se apresenta como uma vantagem, dado que estes “favorecem mais as bandas e o país a nível cultural”, Henrique Vassalo reconhece os benefícios das bandas de covers (tributos),

“visto que é muito mais fácil para bandas assim lucrarem com o seu trabalho”, revela. No que diz respeito às perspetivas de futuro da banda, Henrique Vassalo refere que a meta será atingir “um elevado patamar de reconhecimento” e que, para isso, se torna necessária a existência de uma evolução técnica e artística. Num género musical diferente posicionam-se os Dr. Nico. A banda de Almada que, de acordo com o seu baixista, Gonçalo Raimundo, de 20 anos, dá voz a tributos de bandas como “Ornatos Violeta, Pearl Jam e Da Weasel”, tem como principal objetivo apresentar ao público uma panóplia de temas “Rock, mas sem esquecer outros géneros diferentes como o Pop, o Funk ou o Reggae”, garante. Apesar de se assumirem como uma banda que interpreta exclusivamente covers, para o baixista dos Dr. Nico, produzir temas originais será, “sem dúvida, a opção mais recompensante e trabalhosa”. Ao contrário dos No Leg Squad que, e segundo o seu baterista, contam já com um E.P. (mini-álbum) gravado, os Dr. Nico têm como principal objetivo “chegar ao maior número de público possível, mas tudo condicionado ao circuito de bares, festas académicas, e outros eventos que se adequam ao projeto”, pelo que “gravar um álbum para comercialização não está nos objetivos da banda”, esclarece Gonçalo Raimundo. Como principais dificuldades de uma banda em ascensão, o baixista dos Dr. Nico aponta “a falta de espaços e equipamento para que os ensaios ocorram nas condições desejadas”, às quais


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FILIPA BULE

No Leg Squad

Dr. Nico

Clรกudio Zacarias


56 | CULTURA

Henrique Vassalo acrescenta “os problemas de agenda, de disponibilidade e dificuldades técnicas e artísticas na composição de novos temas”. Embora a existência de contratempos seja uma realidade, para o baterista dos No Leg Squad, “quando não existem problemas construtivos é porque também não há vontade de progredir”. Ambos os músicos gostariam de, no futuro, dedicar-se

somente à música, pese embora a consciência de que, e segundo Gonçalo Raimundo, “a concorrência existente” pode dificultar a ascensão de um músico. Henrique Vassalo explica ainda que “tomar a decisão de viver apenas como músico, sem alicerces, é um enorme risco”. Embora partilhe dos mesmos receios, Cláudio Zacarias, de 19 anos, residente em Almada e baterista do projeto Ivo Soares “MovieStars”, afirma que,

atualmente, se dedica somente à música. O jovem que, de momento, se encontra a estudar Jazz e Música Moderna na Universidade Lusíada de Lisboa, conta já com alguma experiência no mundo da música, incluindo no seu curriculum a gravação de um E.P. e de um videoclip. Para o jovem baterista, “a ideia da maior parte das bandas é tornarem-se reconhecidas, para conseguirem fazer aquilo que gostam para a vida, mas nada disso se atinge sem trabalho e dedicação”. O músico destaca ainda que, para músicos em ascensão “o dinheiro não deve ser o mais importante”. No que se refere a oportunidades, para Cláudio Zacarias, “embora lá fora os músicos possam ter mais sorte, encontram muito mais concorrência”, porém para Henrique Vassalo,“certamente que nos Estados Unidos ou num país Nórdico” a sua banda teria mais sucesso. Apesar de consciente das dificuldades pelas quais passam os atuais músicos em início de carreira, o baterista do projeto Ivo Soares “MovieStars” relembra que “a verdade é que a música nunca teve alturas fáceis. Ao longo do tempo, foram muitas as bandas que apareceram e desapareceram”.

Porém, para Gonçalo Raimundo, a pouca concorrência de há uns anos, podia favorecer a ascensão de músicos, “o que não acontece hoje em dia, porque a concorrência é maior”, explica. Apesar de tudo, os jovens

músicos têm presente a ideia de que “não podemos viver na sombra do sucesso adquirido, temos de trabalhar para o manter”, sublinha Henrique Vassalo. Cláudio Zacarias reforça que “é fácil chegar ao topo. Permanecer lá é que apenas acontece com dedicação diária”, e Gonçalo Raimundo acrescenta ainda que “a música é uma carreira como muitas outras, por isso temos de investir para ter sucesso”. ■ FILIPA BULE


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MAIS DOCE É IMPENSÁVEL RITA REBELO

DESIGNER DE SETÚBAL CRIA PEÇAS COMESTÍVEIS

O

nosso país prova novamente que está longe de poder dizer que já nos brindou com todos os contributos exequíveis no campo da originalidade. Filipe Blanquet, pasteleiro e o único sugar stylist em Portugal, atribui um sentido mais excêntrico e original à moda portuguesa. Formado em Arquitetura e Design, Filipe Blanquet frequentou o Curso de Cozinha Avançada, na Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa. A aplicação de açúcar no vestuário surgiu inesperadamente quando apresentou à direção do Tróia Design Hotel, onde trabalhou até 2012, a ideia de fazer uma escultura que fosse “viva e dinâmica”, através de um vestido que “respeitasse a silhueta feminina e a lisonjeasse”, recorda. Filipe Blanquet diferencia-se por utilizar um ingrediente a que ninguém fica indiferente e que tem, muito provavelmente, tanto de tentador, como de improvável: o açúcar. O sugar stylist cria verdadeiras obrasde-arte para vestir e saborear a moda com gosto, através da aplicação de “algumas técnicas de decoração empregues no cake design à moda” e da “pastilhagem”, revela o designer, que expandiu recentemente o seu negócio para acessórios. Fiel à sua singularidade, Filipe Blanquet expõe que a sua inspiração advém das “coisas mais simples” e que procura “contar uma história” através dos seus


58 | CULTURA

desfiles, que não se assemelham às “passagens de modelos com as matrizes habituais”, sendo que são um “espetáculo, que pode ser encenado, cantado, ou coreografado”. As peças que cria para desfile “não são vendáveis, e permanecem em exclusivo para exposição”, sublinha. As suas criações comercializáveis podem variar entre os 7 euros, assinalados

em lingerie, e os 1500 euros, reservados unicamente para vestidos de noiva. O designer convida todas “as mulheres irreverentes, confiantes e que primem pela diferença, a redescobrir o prazer de vestir uma peça exclusiva e criativa”. Esta assume a peculiaridade de poder ser, em seguida, degustada, fazendo desta forma as delícias de quem lhe aprouver. Paralelamente a

este projeto, reformou um dos espaços de referência da cidade de Setúbal. A pastelaria e bistrô “Ritália & Bocage” é um recanto acolhedor e castiço, onde o sugar stylist faz o casamento perfeito entre a pastelaria e a arte, que maravilham os sentidos de quem o visita. ■ RITA REBELO

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PEDRO MARIANO

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“TENHO UM FILHO, FIZ UMA CASA, PLANTEI ÁRVORES… FALTAVA-ME ESCREVER UM LIVRO”


60 | CULTURA

O LAGO DE DEUS

O sonho comanda a vida”. É este o lema de João Gonçalves, o Diretor de Produção de uma empresa de construção civil que decidiu dar asas à imaginação e escrever um livro. A ideia surgiu durante uma viagem de mota em que observou as muralhas de um castelo e as imaginou repletas de romanos “completamente espantados por verem uma mota a 140km/h, com mais cavalos que todos os que eles tinham dentro do castelo”. Foi nesse momento que percebeu que reunia a imaginação e inspiração necessárias para criar uma história e assim o fez. Crente no destino, João Gonçalves admite que se não exercesse a sua profissão, “provavelmente o “Lago de Deus” nunca teria nascido”. Por força de circunstâncias profissionais, o autor vê-se forçado a viajar regularmente para diferentes países e, como tal, no conforto oferecido pelos quartos de hotel, num esforço para combater as saudades de casa, começou a escrever o livro. O tempo que antes custava a passar, desaparecia agora num ápice. O livro “tornou-se a minha companhia, o meu amigo, o confidente das minhas emoções (…) aos poucos comecei a ter a necessidade de estar com ele, viver os personagens, estar nos locais, adormecer a pensar nos capítulos seguintes. Por incrível que pareça tornámo-nos inseparáveis, deixei de sentir a solidão”, afirma. A publicação do livro não foi algo que planeasse fazer, aliás foi a pedido da sua esposa que

contactou a editora. A resposta que obteve mudou o rumo da experiência por completo. João Gonçalves tinha a oportunidade de “fazer uma homenagem à família, à [sua] geração, ao povo português e africano”. O início de outro projeto semelhante a este depende da reação do público, no entanto, para João Gonçalves “escrever tornou-se parte integrante da [sua] vida”. Pretende manter-se fiel à sua imaginação, porém as dificuldades que hoje se vivem, revoltam-no e por isso, afirma confiante: “Se puder contribuir com alguma coisa que possa deixar este mundo um pouco melhor que aquele que encontrei, penso que terá valido a pena”. Sobre a conjuntura atual da sociedade deixa no ar a pergunta: “Será que algum dia, alguém será chamado à responsabilidade?”. Ao ver o seu trabalho sob a luz do dia, João Gonçalves sentiu “uma emoção grande, tinha nas mãos algo criado por mim, senti o seu cheiro, folheei algumas páginas (…) sem querer senti lágrimas soltarem-se dos meus olhos”, confessa. “Depois foi uma sensação estranha”, sentiu “uma melancolia” a invadir-lhe “a alma por saber que (...) tinha chegado a hora de deixar “O Lago de Deus” partir na sua viagem”. Despede-se da sua obra “com muitas saudades por me ter feito muito feliz”. ■ FILIPA BENTO

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www.tvalmada.pt


MARÍLIA BRANCO

GASTRONOMIA

“ALENTEJO BOM GOSTO” PROJETO CERTIFICA RESTAURANTES DA REGIÃO


P

ortugal apresenta, de norte a sul, uma gastronomia rica e variada, reconhecida a nível nacional e internacional. No Norte, é a alheira que deleita os paladares de quem por lá passa. No Litoral, a sardinha assada perfuma as ruas das cidades e das vilas e o bacalhau oferece toda uma panóplia de receitas que aquecem o estômago dos clientes. Por sua vez, no Alentejo, os chouriços, presuntos e queijos apresentam uma palete de cores que enche olhares e despoleta apetites quase impossíveis de saciar. Assim, em 2011, a Entidade Regional do Turismo do Alentejo desenvolveu um projeto com o objetivo de promover a restauração alentejana, através da valorização da qualidade da confeção de alimentos regionais – cerca de 80% – procurando responder às exigências dos consumidores. Segundo Paulo Cristo, técnico da entidade, o projeto pretende: “ser diferenciador face à concorrência de outras regiões; ser uma ferramenta que mais nenhuma região tem; criar processos mais eficientes, eficazes e redutores de custos; criar uma forte ligação entre a restauração, a cultura e os produtos da região; e marcar-se como marca distintiva do que é genuinamente alentejano”.

“Alentejo Bom Gosto” – projeto restrito à zona alentejana – centra-se na certificação de estabelecimentos de restauração e bebidas, que se caraterizem como Gastronomia Alentejana. O processo de certificação desenvolve-se em torno de cinco fases: adesão voluntária por parte dos responsáveis dos restaurantes; análise do processo; auditoria de concessão; concessão do certificado; e publicação do Guia. Paulo Cristo acrescenta, “no processo de certificação estão contemplados requisitos como a decoração, o ambiente, o serviço prestado e a apresentação de uma ementa constituída por pratos exclusivamente alentejanos”. Atualmente existem 40 estabelecimentos no processo de certificação, dos quais 10 já receberam o certificado. Contudo, em Alcácer do Sal, esta iniciativa, que se pretende implementar até 2020, apenas foi apresentada em fevereiro do presente ano. Vítor Proença, Presidente da Câmara Municipal de Alcácer do Sal, esclarece

FILIPA DA COSTA

62 | GASTRONOMIA

que “esta certificação pode ajudar os restaurantes a dar um salto em frente, já que após o processo farão parte de um guia referencial para a restauração alentejana”. Acrescenta também que “Alcácer do Sal sendo um concelho marcado por várias tradições e povos, com uma gastronomia variada e de grande qualidade, deve aproveitar esta oportunidade para a valorização da mesma”. ■ FILIPA DA COSTA

FILIPA BENTO

os chouriços, presuntos e queijos apresentam uma palete de cores que enchem de olhares


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O REI DO CHOCO FRITO

QUARENTA ANOS NO COMÉRCIO DE UMA IGUARIA

I

naugurada há precisamente 40 anos, a Casa

A Casa Santiago especializou-se na confeção do

Santiago mantém as suas portas abertas.

choco frito, com um sucesso crescente que se

Autoproclamado como Rei do Choco Frito,

perpetua pelos dias de hoje. Um sucesso que

este restaurante possui origens modestas

passa pela venda de “200 quilos de choco, e isto somente aos fins de semana”, garante Júlio

de ser considerado como referência gastronómica

Santiago. Não é possível, contudo, descobrir a

da cidade setubalense.

receita mágica do popular choco. “Se contasse

Foi em 1974 que Virgílio Santiago abdicou da

o segredo da massa que envolve o choco,

sua vida de pescador e “decidiu abrir uma tasca

estragaria todo o negócio”, brinca o gerente, não

porque queria uma vida melhor”, refere o seu

sem dizer que muito do êxito está no facto de

filho, Júlio Santiago, agora gerente da Casa

serem utilizados produtos nacionais sempre que

Santiago. A tasca era bastante popular entre

existe essa possibilidade.

os pescadores do Sado e servia principalmente

Na opinião da família Santiago, a localização do

petiscos, origem da famosa sandes de choco frito.

restaurante sempre se revelou fundamental para

“É o pai do famoso choco de Setúbal. Foi ele que

a visibilidade do mesmo. O restaurante ocupa

se lembrou de fritá-lo, à semelhança do que se

um espaço de destaque na principal avenida da

fazia com os calamares em Espanha, não havia

cidade e é frequentemente visitado tanto por

nenhuma casa em Setúbal que o fizesse”, refere.

cidadãos nacionais como por “clientes

PEDRO MARIANO

pelas mãos e engenho de Virgílio Santiago, antes


64 | GASTRONOMIA

FILIPA BENTO

estrangeiros, que quando visitam a nossa cidade

de clientes, a Casa Santiago tem adotado algumas

já sabem onde têm de vir comer a iguaria

medidas, em especial na manutenção dos preços

setubalense. Somos uma paragem obrigatória”.

dos pratos que compõem o menu do restaurante.

No entanto, a viagem pelo sucesso tem sido

Apesar disso, o gerente auspicia um bom futuro

pautada por alguns altos e baixos. A crise que se

no seu negócio, pois considera que o choco frito

abateu sobre Portugal e a Europa “retirou alguns

“é um produto sempre popular e que continuará

clientes do nosso restaurante, nomeadamente

a ser uma das marcas que distingue Setúbal

durante os dias úteis, pois muitos clientes eram

das restantes cidades, chamando cada vez mais

de empresas aqui perto e faziam alguns almoços

adeptos para este petisco.” ■

de negócios que agora não têm possibilidade de fazer”, aponta Júlio Santiago. Com o intuito de contrapor a redução do número

PEDRO MARIANO


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UMA MINA DE OURO “AL-MADAN: SÍMBOLO DA CIDADE DE ALMADA”

usufruir de um bom momento na companhia do Al-Madan, assim como muitas pessoas desta margem correm até Lisboa para comer pastéis de Belém, criando aqui uma comparação. Alguns estrangeiros também ficam curiosos sobre esta doçaria e

de doçarias, sentimos a necessidade de juntar os ensinamentos que passam de gerações em gerações e criar um doce que fosse digno da história almadense surgindo assim o Al- Madan”, partilha João Paulo. Acrescenta ainda:

tendem a provar esta parte mais doce da história de Almada”, confirma o entrevistado. Com nome de origem árabe, o Al-Madan acarreta consigo história em todas as questões que se possam abordar, desde a sua confeção até à sua designação. “Al-Madan” significa “mina de ouro” e pretende conceber uma alusão aos tempos em que as areias do Tejo ofereciam ouro àqueles que as escavassem com afinco. “Com tanta história e conhecimento a todos os níveis, não só na confeção

“de facto, temos muito orgulho na qualidade de doces que confecionamos e na procura que temos tido neste produto. Mostra que o nosso trabalho está a ser reconhecido e nós temos de colher os bons frutos daí provenientes”. Posto isto, existe neste doce muito mais do que aquilo que, de facto, se imagina. Permanece um passado histórico que acompanhou gerações e transmissões de sabedoria. ■

FILIPA BULE

S

éculos de sabedoria, história e ensinamentos trouxeram até nós o melhor da doçaria tradicional portuguesa, exemplo disso pode ser encontrado na região de Almada. O Al-Madan surgiu há duas décadas e na sua base de confeção estão receitas e ensinamentos que remontam a um passado muito distante, nomeadamente a Idade Média. Conta João Paulo, da Meltejo – pastelaria especializada nesta iguaria regional -, que “algumas doçarias do concelho de Almada puderam usufruir desses conhecimentos e criar este doce típico”. Mas no que se traduz este doce? De acordo com João Paulo, o Al-Madan é “um doce de massa folhada, tradicional da região de Almada e que recentemente começou a fazer parte da doçaria tradicional portuguesa”. Este é produzido a partir de uma receita restrita que abarca vários sabores, designadamente, amêndoa, chocolate, gila, maçã ou nozes. Assim sendo, este doce assumese já como um símbolo do concelho de Almada, procurado por muitas pessoas dentro e fora de portas. “Existem muitas pessoas de Lisboa que atravessam o rio Tejo em direção a esta margem para

FILIPE NUNES


TURISMO

HOSTELS: EMPREENDIMENTOS

LOW-COST


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SETÚBAL APOSTA NO ALOJAMENTO EM ÁREAS PARTILHADAS

É

económico, alternativo, seguro, promove a partilha de experiências de vida entre os hóspedes, e os quatro melhores encontram-se situados em Portugal. Os hostels são hotéis low-cost e apresentam-se como uma oferta de alojamento interessante que se adapta à carteira dos turistas. O conceito é recente, porém tem tido uma recetividade prometedora e são diversos os motivos que fazem com que esta forma de alojamento, em que não se vendem quartos, mas sim camas, seja uma preferência crescente, na qual vale a pena investir. Descrito como “hospedaria familiar”, o hostel diferencia-se dos alojamentos tradicionais por ser acolhedor e pela proximidade entre os hóspedes. Numa tentativa de responder ao fluxo de turistas, Setúbal acompanhou o mercado alternativo que se realiza em vários pontos do país propondo, por enquanto, uma única oferta de hospedagem em áreas partilhadas, o “Blue Coast Hostel”. Localizado próximo da zona histórica da cidade, o hostel que abriu ao público em abril do ano passado, dispõe de capacidade para receber 49 pessoas. Os preços variam entre “os 15 euros por noite, e 17 euros em época alta”, revela Olga Palmela, proprietária do Blue Coast Hostel. O hostel permite o alojamento em áreas inteiramente partilhadas entre pessoas desconhecidas e existem zonas transversais a todos os hóspedes, que potenciam o convívio num ambiente informal. O perfil do hóspede não é linear, pois vêm de todos os pontos do mundo, mas é, segundo a gerência do estabelecimento, quem geralmente “procura não estar sozinho”. “É mais livre”, assegura Peter, um turista inglês, que deu preferência a um hostel “por ser uma boa alternativa para pessoas jovens e de espírito aberto que gostem de viajar, mas que não pretendem gastar muito dinheiro”. Os hostels estão, de forma quase despercebida, a inserir-se em Setúbal, que se afirma como um destino atrativo e a visitar. Para além de ser uma alternativa de alojamento com uma atmosfera diferente e


68 | TURISMO que foge às matrizes convencionais “oferecemos passeios pela Serra da Arrábida, vamos até ao Cabo Espichel, ao Forte S. Filipe, fazemos visitas à adega José Maria da Fonseca, festas de Erasmus, e este ano já fazemos passeios por via marítima”, divulga Olga Palmela. Os hostels aliam conforto a um preço acessível e são certamente uma experiência incomparável e

bastante mais criativa, que rompe com a habitual formalidade existente nos quartos tradicionais de hotel a que estamos habituados. A proprietária do Blue Coast Hostel conclui afirmando que a única regra que aplica aos seus hóspedes é “deixarem as coisas tal e qual como as encontraram”. ■ RITA REBELO

RITA REBELO

“uma boa alternativa para pessoas jovens e de espírito aberto que gostem de viajar, mas que não pretendem gastar muito dinheiro”


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UMA TRÓIA PARA TODOS? PERSPETIVAS DISTINTAS SOBRE A MESMA REALIDADE

E

nvolvida pelo Oceano Atlântico, Tróia, um destino com caraterísticas inigualáveis, permite que os que a visitam vivam experiências singulares. João Madeira, Diretor Geral do Tróia Resort, refere que “não é possível encontrar tantos e tão diversos pontos de interesse, e uma oferta diversificada de turismo” em qualquer outro local do nosso país. Permite, igualmente, aos turistas contemplar as Ruínas Romanas, onde se situa o maior complexo de produção de algas de peixe e praias de areias douradas.

Abrangida pela Reserva Natural do Estuário do Sado, pelo Parque Natural da Arrábida, próxima de Lisboa e detentora de uma riqueza regional inserida na Península de Setúbal e Alentejo, “a “nova Tróia” veio providenciar uma oferta de qualidade moderna e de acordo com as exigências de turistas diferentes daqueles para quem foi pensado o projeto inicial de Tróia, nos anos sessenta”, alega João Madeira. Tróia concentra um conjunto de infraestruturas modernas, integradas com o meio ambiente e aposta no desenvolvimento de ações e programas de animação para cativar o público nacional e internacional. O Turismo do Alentejo, a Agência Regional Turística do Alentejo, o Turismo de Portugal e a Associação Portuguesa de Resorts fazem parceria com o intuito de realizar um trabalho ativo e contínuo de promoção.


70 | TURISMO

família de 4 pessoas, no mínimo, o gasto é de 20 euros. Os preços altíssimos foram a maneira que arranjaram para afastar as pessoas das classes mais baixas. Tróia é agora uma península de elites”, garante. A vontade de Mário Nunes é que a situação se altere com a crise económica e que, com isso, os preços praticados baixem, para permitir que os setubalenses, independentemente da classe social, voltem a frequentar Tróia. Por sua vez, João Madeira pretende apostar na realização de eventos anuais para fazer face à crise. ■ ANA ENCARNAÇÃO

Tróia representa 300 postos de trabalho ao longo do ano, duplicando este número, durante a época alta, o que contribui de uma forma muito significativa para a economia da região

“Não é possível encontrar tantos e tão diversos pontos de interesse, e uma oferta diversificada de turismo”

CEDIDA POR: JOÃO MADEIRA

O Diretor Geral do Tróia Resort refere que “Tróia representa 300 postos de trabalho ao longo do ano, duplicando este número, durante a época alta, o que contribui de uma forma muito significativa para a economia da região”. Prima, simultaneamente, pela qualidade e concentra no mesmo espaço valências que “dão resposta às exigências dos mais variados clientes, nacionais e internacionais”, explicita. Mário Nunes, marinheiro de 49 anos e residente em Setúbal, considera os preços praticados pelo Tróia Resort “apenas para carteiras recheadas”. Atualmente, não visita a península como outrora fazia, pois “para uma

PEDRO MARIANO


72 | TURISMO

PRAIAS DE

AZUL

RECONHECIDO “O prémio é fundamental na escolha balnear das pessoas”

T

odos os anos, centenas de praias nacionais costeiras e fluviais candidatam-se a receber a “Bandeira Azul”. No entanto, nem todas se revelam à altura de ser galardoadas com este elemento que é sinónimo de qualidade. O prémio “Bandeira Azul” é atribuído pela Associação Bandeira Azul da Europa – a comemorar os seus 25 anos – e promovido pela Comissão Europeia. Tem como objetivo elevar o nível de consciencialização dos cidadãos e decisores políticos para a necessidade de proteção do ambiente marinho e costeiro, assim como incentivar a realização de ações que ajudem

a resolver os problemas aí existentes. Mário Paiva, membro da associação que atribuí o galardão, refere que a Bandeira Azul é conferida às praias e portos de recreio que “cumpram um conjunto de critérios de natureza ambiental, de segurança e conforto para os utentes”, não esquecendo, contudo, a necessidade de existir uma “informação e sensibilização ambiental” fundamental para que as zonas balneares continuem a ser frequentadas. O distrito de Setúbal, fértil em zonas balneares que “apelam a um mergulho e um dia bem passado”, apresenta diversas praias “capazes de receber este prémio. Basta ver que 25 praias o


73 Opinião semelhante oferece Natália Santos, proprietária do jardim de infância “O Coco”. Revela, enquanto educadora e responsável pelo bem-estar de algumas dezenas de crianças, que tem “preocupações” em relação à praia escolhida para frequentar na época balnear do estabelecimento de ensino. “É fundamental escolher uma praia que ofereça boas condições aos miúdos e que esteja sempre vigiada por nadadoressalvadores. Sabemos que uma praia com Bandeira Azul oferece essas condições”, declara a educadora. Acrescenta que ao eleger uma zona com referências ao nível do ambiente, da segurança e da qualidade da água, está a corresponder, de certa forma, a uma exigência dos pais das crianças.

FILIPA BENTO/ PEDRO MARIANO

receberam no ano de 2013”, refere Mário Paiva. De acordo com o responsável da associação, a atribuição da Bandeira Azul não é “para todas as praias”. “Existe uma série de critérios que são precisos cumprir”, esclarece. Esses variam em relação a quatro grupos distintos: informação e educação ambiental; qualidade da água; gestão ambiental e equipamentos; e segurança e serviços. “Uma praia que cumpra todos os requisitos é uma praia de excelência e merecedora de Bandeira Azul”, afirma Mário Paiva, defendendo, no entanto, que existem muitas praias que “ficam para trás por não cumprirem apenas um ou dois requisitos que consideramos fundamentais”. Ter ou não ter Bandeira Azul é um fator decisivo para Júlio Rodrigues, de 46 anos, na hora de escolher a zona balnear a frequentar. Residente em Setúbal, afirma que só frequenta praias que apresentem este prémio. “Opto por só ir a praias com Bandeira Azul”, declara. Esta escolha recai na segurança e conforto que tem quando vai a uma destas “praias, principalmente por saber que tem boas acessibilidades e que a água está sempre a ser controlada”.


74 | TURISMO “Os pais também se preocupam com esta realidade. Penso que é normal estarem preocupados com a segurança dos seus filhos”, explicita Natália Santos. Lembra que muitos progenitores não se importam de pagar “um valor mais elevado” com o intuito de terem a segurança de que as crianças estão “numa praia segura”. Mário Paiva defende que a capacidade para receber infantários, escolas e organizações de ocupação de tempos livres é bastante importante para a atribuição do galardão. “Na Associação, temos conhecimento que muitos estabelecimentos de ensino elegem somente praias com a Bandeira Azul”, evidencia. Considera que esse facto “confere uma maior responsabilidade” na atribuição de cada prémio, pois é necessário ter em conta que “não são apenas adultos que vão à praia”. Ainda assim, Júlio Rodrigues afirma que “não é só a Bandeira Azul que apresenta uma boa praia. Existem centenas de excelentes praias aqui pelo distrito que não têm Bandeira”. O responsável pela Associação Bandeira Azul da Europa confirma esta tese, mas sem esquecer que muitas destas praias, “apesar de belas e deslumbrantes”, não apresentam muitas das condições das suas concorrentes. “Por vezes, basta não existir uma boa acessibilidade ou um bom apoio de praia, para que essa zona balnear já não receba o prémio”, finaliza Mário Paiva. Natália Santos expressa também a importância que têm as atividades promovidas nas praias com Bandeira Azul. “São bastante importantes porque

permitem que os miúdos estejam em permanente brincadeira com os colegas, ao mesmo tempo que aprendem. Isso é muito bom”, refere. O programa de atribuição da Bandeira Azul “é para continuar”, garante Mário Paiva, pois revela-se como “um importante fator de decisão numa eventual ida à praia”. Julga estarem a ser criadas condições para que cada vez mais zonas balneares consigam ser galardoadas com este prémio, uma vez que “as autarquias e os decisores políticos revelam, atualmente, uma maior preocupação ambiental nas praias, ao mesmo tempo que querem proporcionar o melhor conforto numa área de lazer como a praia, visto que também melhoram o turismo da sua região”, termina.■ PEDRO MARIANO

PEDRO MARIANO

“É fundamental escolher uma praia que ofereça boas condições aos miúdos e que esteja sempre vigiada por nadadores-salvadores” FILIPA BENTO


DESPORTO

CORRER POR GOSTO “NÃO SÓ O DESPORTO É IMPORTANTE, O CONVÍVIO TAMBÉM É”


76 | DESPORTO

“Este projeto começou como uma brincadeira de amigos”

P

or vezes, levantarmonos do sofá ou da cadeira não é tarefa fácil. No entanto, é essa a proposta feita pelas Corridas Noturnas de Setúbal, que se realizam todas as quintas feiras, a partir das 20:30h. Esta iniciativa surgiu em junho de 2013 e desde logo se assumiu como contraponto à sedentariedade caseira, promovendo não só a vertente desportiva, como também a convivência entre todos os que nela participam. Esta atividade propõe palmilhar um percurso de cerca de 6 Km – a correr ou a caminhar – com início na Praça do Bocage e em direção

PEDRO MARIANO

ao Parque Urbano de Albarquel, com regresso assinalado na famosa praça. Porém, não sem antes atravessar a frente ribeirinha da cidade e fazer uma “visita” ao Quartel do 11, perto dos ferries para Tróia. “Na verdade, este projeto começou como uma brincadeira de amigos”, confidencia Sérgio Fonseca, um dos mentores e organizadores destas corridas notívagas. “Queríamos testar algo que já era feito em algumas cidades do nosso país e pusemos o plano em marcha”, afirma. Esse plano consistiu em divulgar a iniciativa, servindose do Facebook para o fazerem. Após a marcação da primeira

data para a corrida, Sérgio Fonseca admite que “quando cheguei à Praça do Bocage, sinceramente, não sabia o que iríamos encontrar. Até que ponto teria sido divulgada a corrida?”. Contudo, a surpresa foi geral quando encontraram cerca de 30 pessoas prontas a correr. “Foi um choque. Não esperava uma receção tão boa logo ao início”, confessa. Ainda assim, o sucesso desta corrida não se ficou por aqui. De uma corrida semanal todas as quintas, combinada pelo Facebook, passou a ser um evento reconhecido pela Câmara Municipal de Setúbal. Sérgio Fonseca crê que a presença da presidente Maria


77

“Foi um choque. Não esperava uma receção tão boa logo ao início”

das Dores Meira – participante assídua – acarreta mais visibilidade e responsabilidade ao evento. “Figuramos no Guia de Eventos da cidade como evento regular que se realiza com data e hora marcada, sempre. É uma responsabilidade acrescida porque não podemos falhar, sabendo que existem pessoas que já contam com a corrida habitual”, remata. De facto, a Corrida Noturna de Setúbal “tem aliciado cada vez mais pessoas, com as mais variadas idades. Temos um grupo de 60 pessoas que comparece sempre e muitas outras que vão aparecendo consoante as suas disponibilidades”, refere o organizador. Sérgio Fonseca conclui comunicando que “a iniciativa irá continuar” e passará a englobar também “alguns projetos de cariz social, como recentemente fizemos com a angariação de donativos para a construção de escolas em África, nomeadamente em Moçambique”. ■ PEDRO MARIANO

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78 | DESPORTO

ANA ENCARNAÇÃO

ATLETISMO DE PORTAS ABERTAS “É A MODALIDADE POBRE, DO «PÉ DESCALÇO»”

O

atletismo é uma das modalidades desportivas mais antigas do mundo em termos de organização competitiva. Porém, não sendo considerado um desporto de classes, esta é uma das poucas atividades desportivas que atualmente dão oportunidade a qualquer pessoa, de qualquer classe social, de praticar competitivamente sem despesas financeiras, razão pela qual este desporto é praticado. Contudo, este é um assunto que tem suscitado polémica

junto De algumas entidades do meio, não só a nível nacional, mas sobretudo a nível distrital. Manuel Aguiar, Presidente da Associação de Atletismo de Setúbal (ASAS) desde 1987, encara a situação como um problema. “O atletismo é a modalidade pobre, do «pé descalço», eu nunca quis aceitar isso, mas de facto é verdade!”, afirma. “É a modalidade em que não se paga nada, infelizmente, mas devia-se pagar, porque em todas as outras se paga, e paga-se bem!”, salienta convicto. O presidente não

entende o porquê do atletismo não ser devidamente valorizado, visto que é “a modalidade com mais medalhas de ouro a nível nacional”, no entanto, “não é uma modalidade vendável como o futebol!”. Diamantino da Costa, treinador da secção de atletismo do Clube Recreativo do Penteado, na Moita, desde 2008, encara, contrariamente, o problema como a chave para o desenvolvimento do setor, “como modalidade popular, praticada com condições mínimas de base, é difundido


79 por muitas coletividades a um custo reduzido ou gratuito, facto que está a atrair muitos jovens para a sua prática”. “Pelas suas caraterísticas pode ser praticado ao ar livre e com um conjunto mínimo de condições, que nas outras modalidades se torna quase impossível”, realça o treinador. “Não considero que seja dos desportos mais dispendiosos”, refere Nuno Pereira, de 20 anos, praticante de atletismo há 8 anos, na Associação Académica Pinhalnovense. “Não é um desporto direcionado apenas para uma classe social, mas sim para todos, se bem que com a atual conjuntura económico-financeira até os clubes estão a ter dificuldades em manter os seus atletas”, menciona o desportista de alta competição. Acrescenta que apesar de não ser dos desportos mais dispendiosos, “tem alguns gastos, “quando ocorre a especialização de um atleta – em velocidade, meio-fundo, saltador, etc. –, existem alguns aspetos a ter em consideração, desde os ténis até aos suplementos alimentares que cada um deve tomar”. Segundo o presidente da ASAS, aquele que para ele é o maior problema da modalidade, está a deixar de o ser em termos de clubes. “Fiquei com a ideia de que isto não podia ser assim e tentei forçar que, se não pagam muito, pagam qualquer coisa, até para a fidelização do atleta à própria modalidade, ao clube e

à associação, mas não consegui, lutei muito com a federação!” relata. “Mas nós cá em Setúbal já conseguimos! Há 2 anos que implementei uma taxa de fidelização por atleta”, anuncia orgulhoso. Uma taxa reduzida que, segundo o próprio, tem como objetivo suportar as despesas, antigamente suportadas pelo Estado. Para Manuel Aguiar, o desenvolvimento do atletismo no distrito de Setúbal tem sido notório nos últimos anos. “Quando eu vim para aqui não havia nada, (…) neste momento nós temos três pistas sintéticas de atletismo no distrito: a de Almada, a do Seixal e a de Setúbal”, anuncia. Tema também abordado por Diamantino da Costa que assume que “no distrito de Setúbal o atletismo é uma atividade sustentada por alguns clubes e treinadores, que com muita dedicação e amor à modalidade, continuam a desenvolver o seu trabalho de forma quase gratuita e a proporcionar aos clubes a manutenção e aposta neste desporto popular”, evidencia. Também o jovem atleta do Pinhalnovense considera que tem havido “um desenvolvimento bastante positivo”, já que “a competição aumentou e os diversos clubes do distrito têm vindo a crescer em todos os aspetos”. Quanto a apoios motivacionais prestados por associações e entidades governamentais e

unidesportivas presentes no distrito de Setúbal, Manuel Aguiar explica que a Federação Portuguesa de Atletismo não presta qualquer apoio na organização dos campeonatos regionais e distritais. “Muitas vezes são eles que vêm buscar os juízes especializados do nosso distrito para outras provas nacionais!”, explica. Por outro lado, o treinador de atletismo do concelho da Moita conta que os apoios financeiros prestados aos clubes “são canalizados prioritariamente para as inscrições dos atletas em provas e nas associações de atletismo”. Uma dificuldade, já que “a grande maioria dos treinadores não recebe qualquer tipo de compensação monetária e ainda subsidiam deslocações e comida para muitos atletas”. Nuno Pereira vive a situação de perto e considera que também os municípios deveriam ajudar os atletas, motivando-os e incentivando-os a continuarem a lutar pelos seus objetivos. “Em alguns concelhos acredito que os apoios são bons, tenho exemplos de colegas que recebem, anualmente, apoios da Câmara Municipal do Barreiro. No concelho de Palmela, considero que os apoios são reduzidos, podendo dizer, inclusive, que em termos individuais são inexistentes”, finaliza o atleta da Associação Académica Pinhalnovense. ■ CATARINA COSTA


GABINETE DE PARTICIPAÇÃO CIDADÃ 265 541 500 GAPC@MUN-SETUBAL.PT

DIVISÃO DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO DIAS ÚTEIS 09:00H ÀS 16:00H

Perspetiva(s)  

Revista distrital de Setúbal Trabalho Académico Comunicação Social Instituto Politécnico de Setúbal - Escola Superior de Educação

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