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A redenção Olhei em volta. Água. Água era a única coisa que via em meu redor. Senti o pânico a contorcer-se e quase a explodir num grito. Tinha a cabeça à superfície, pois respirava mas o resto estava imerso. Um movimento na água fez com que a minha face ficasse momentaneamente coberta por água. Com o pânico, dei por mim quase a afogar-me. Tinha de sair dali – era o pensamento que com maior pujança me assolava. Onde estou? Comecei a nadar o mais depressa e melhor que o meu corpo gelado permitia. Não via nada para além de uma bruma negra e a água onde estava emersa. Nadei durante o que me pareceu uma eternidade até ter encontrado um ramo de uma árvore. Agarreime a ele exausta e segui-o até ter encontrado terra. Sentei-me encostada à árvore. Tremia – de medo ou de frio – e tentava entender o que tinha acontecido. Não me lembrava de ter ali estado. Não me lembrava de ter ficado inconsciente. A minha mente estava confusa. Olhei para mim e vi que estava com as mãos feridas e um corte no pulso esquerdo que rasgava a minha luva. O corte ainda sangrava. Apertei-o. O meu vestido claro tinha uma mancha muito leve que parecia sangue. Não sabia de quem era o sangue. Ouvi cuidadosamente o que estava à minha volta. Estava só. Tinha de chegar a casa – outro pensamento pujante. Levantei-me e senti-me a cambalear. Quanto mais me tentava lembrar do que tinha acontecido, mais o pânico me dominava. Não tinha a exacta noção de onde estava, ainda assim tratei de avançar, embora me parecesse um bocado longe da cidade. Quando voltei a dar por mim estava a correr. Uma tontura descomunal atacou-me. Tudo o que via era uma névoa muito pouco homogénea. Senti-me a cair e a perder os sentidos. *** Sangue. Acordei sobressaltada de um sonho confuso, do qual me lembrava muito mal. O meu corpo estava dorido e gelado. Já tinha amanhecido e conseguia ver onde estava. Estava no arvoredo perto do rio. Esse conhecimento fez-me voltar a sentir o pânico na minha garganta e no meu estômago. Levantei-me demasiado depressa e o meu estômago não aguentou essa violência; virei-me para o lado e vomitei aquilo que nem sabia que tinha comido. Recompus-me e pus-me a andar, em direcção ao parque e depois à cidade. O que me aconteceu? Olhei para o meu vestido e cheguei à conclusão de que a última coisa de que lembrava era ter estado no meu quarto a preparar-me para sair. Onde ia eu? À parte disso, lembrava-me de me ter levantado de manhã, como era habitual, e ter ido trabalhar para a recepção dos escritórios. Saí do trabalho a horas, fiz compras, cheguei a casa e arrumei-a. Tomei banho e vesti o vestido claro que tinha naquele momento vestido. Arranjei-me em frente ao espelho; apanhei o cabelo na nuca, calcei umas luvas brancas de seda e calcei uns sapatos. Saí para a rua. Para onde? A mancha do meu vestido perturbava-me. À luz do dia notei que era muito maior do que aparentava, mas que devido à água estava debotada.

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Olhei para o meu pulso e, apesar de o corte ainda ser significativo, não me parecia ser capaz de derramar tanto sangue. Procurei por mais golpes e nada encontrei. Estava a começar a ficar de novo apavorada. Será que estava acompanhada? Será que alguém fez mal a mim e a essa pessoa? Deveria ter procurado por alguém no arvoredo, mas voltar lá era-me impensável – aquele lugar arrepiava-me e deixava-me aterrorizada. Tinha de chegar a casa; mudar de roupa, aquecer-me e tratar das minhas feridas. A ideia de ir à polícia foi logo pela minha mente recusada. Não sabia porquê, porém havia um impedimento; algo em mim apenas me dizia para chegar a casa e retomar a minha rotina. Segui com frieza aquilo que ordenava a mim mesma. Cheguei por fim ao parque. Era Verão e havia por lá algumas pessoas, apesar de ainda parecer cedo. As mulheres passeavam de vestidos cintados de manga curta, chapéus e sapatos bicudos. Os homens sentavam-se em bancos a ler o jornal e a fumar cigarros. Reparei num jovem que passou por mim de cabelo desorientado e com um casaco irreverente e desabotoado. Olhou para mim quase com vontade de rir e com isso lembrei-me que o meu cabelo já não deveria estar bem preso e que o meu aspecto geral não deveria ser o mais apresentável. A mancha de sangue. Senti-me envergonhada e apreensiva quanto ao facto de poder estar a levantar suspeitas. Apressei o passo pelo parque. Do que estou eu a fugir? Entrei no primeiro café que vi e dirigi-me imediatamente à casa de banho. Fechei a porta, tirei as luvas que estavam cheias de terra e sangue e deitei-as fora. Arranjei o cabelo; penteei a minha franja e voltei a prende-lo devidamente na nuca. Limpei da cara os restos de maquilhagem e arranjei o vestido. Olhei para os meus sapatos que estavam esfolados, sujos e estragados. Tentei limpá-los. Saí do café, sentindo-me pouco composta. Andei apressada pelas ruas da cidade. Senti uns poucos olhares sobre mim. Cheguei à porta do meu prédio e tive a sorte de o porteiro já estar de serviço e me ter deixado entrar sem esperar que usasse primeiro a chave que não tinha. Vi pelo seu olhar que estranhou o meu aspecto, mas nada comentou. Cheguei à porta do meu apartamento. Tinha perdido a minha mala. Espreitei pela ranhura da porta e vi que não estava trancada. A porta não era muito resistente e talvez a conseguisse arrombar, mas isso iria requerer muito barulho. Tirei um gancho do cabelo e tentei ser rápida. A porta depressa se abriu. Entrei em casa sentindo um alívio avassalador. Atirei com os sapatos estragados para um canto. Sem pensar em nada mais, despi o vestido, soltei o cabelo e entrei no duche. Saí de lá e vesti uma saia justa com um casaco de manga curta que salientava a minha cintura. Ondulei a franja para o lado e encaracolei as pontas do meu cabelo castanho, já por si só ondulado. Coloquei uns brincos pendentes a combinar com o vermelho do fato. Agarrei na mala e saí apressada para os escritórios. O meu relógio estava partido e nem tinha dado por isso. Tirei-o e meti-o dentro da mala. Cheguei aos escritórios onde levei um belo de um sermão pelo atraso. Com isso, ao final da manhã, iria ter de falar com o patrão. Sentei-me na minha secretária, retirei um espelho da mala assim como um batom vermelho e acabei de me arranjar. Fiz o que me competia e ao final da manhã fui ao encontro do meu patrão.

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Informei a secretária dele e ela acompanhou-me ao seu escritório. O patrão era de estatura mediana e trajava um fato castanho que lhe assentava bem. Disse à secretária para se retirar e pediu-me para me sentar. Acendeu um charuto. - Ofereço-lhe um – disse. - Obrigada, mas prefiro cigarros. – Ele abriu a gaveta. Tirou de lá uma caixa de cigarros que empurrou na minha direcção. Estendi a mão e retirei um. Acendi-o com um fósforo que tinha ali perto. – Convocou-me pelo meu atraso? - Também. Sabe que os atrasos não são bem-vindos nesta cadeia de escritórios, Alice. Mas o que também me preocupa é a ansiedade que tem demonstrado nas últimas semanas e agora esse golpe no pulso. – Escondi o meu pulso no colo. – Preocupa-me a ideia que passa aos visitantes do escritório assim como me preocupa o facto de algo de grave se poder estar a passar. Diga-me, há razões para preocupações? Senti um nó na garganta. Ansiedade? Porque é que não me lembro de nada? – Não há. Apenas tenho andado a dormir terrivelmente mal. O corte no pulso foi apenas uma distracção com a faca da cozinha. Lamento pelo atraso de hoje, não se voltará a repetir. - Veja se se recompõe, tentarei fechar os olhos aos últimos acontecimentos. Pode ir. - Com licença. – Saí do escritório atordoada. Agarrei nas coisas da minha secretária e saí para almoçar. Atirei o cigarro ao chão e caminhei até ao restaurante do outro lado da rua. Sentei-me na mesa do costume, junto ao vidro, e pedi o que sempre pedia. Por mais que vasculhasse pela minha mente não me lembrava de ter estado ansiosa ou de ter razões para tal. Fazendo uma revisão por toda a minha vida encontrava a maior normalidade – saía esporadicamente com duas amigas e às vezes com homens, quando me aborrecia costumava entrar num bar sossegado ao pé de casa e tirando isso fazia o meu trabalho, cuidava da minha lida doméstica e ia ao cinema todas as semanas ver a estreia. Do que não me lembrava eu? O que é que tinha acontecido na noite passada? O que é que eu não sei? A minha cabeça latejava fortemente e sentia-me excessivamente cansada. Tinha de voltar ao trabalho. Paguei e saí. Trabalhei até às cinco e saí. Cheguei a casa e deitei-me no sofá. Agarrei no telefone e marquei o número. - Laura? – inquiri quando a ouvi atender. - Sim. - Posso-te pedir que venhas a minha casa agora? - Dá-me dez minutos que já aí apareço. Descalcei-me e deitei fora os sapatos estragados. Guardei o vestido manchado debaixo da cama. Que necessidade de disfarce é esta? Fiz um chá e meti num prato bolachas que levei num tabuleiro para a sala. A campainha soou e abri a porta à minha amiga. Laura era muito alta e magra, com o cabelo loiro que usualmente apanhava de uma forma elegante, como era o caso. Ela entrou e sentou-se na sala. Tirou um cigarro e uma cigarrilha.

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- Vais finalmente contar-me o motivo de tanto êxtase nos últimos dias? – perguntou-me ela, enquanto se servia do meu isqueiro. Não fazia ideia do que é que ela falava. Subitamente, não me sentia dona da minha vida. Uma parte da minha vida tinha sido apagada da minha mente sem piedade e ainda para mais era uma parte oculta que nem à minha melhor amiga havia contado. Não entendia sequer como tal era possível. A única coisa que encontrava em mim era uma necessidade extrema de fugir ao assunto, mesmo sem saber ao que é que fugia. – Não há qualquer motivo para êxtase. Porque é que achas isso? - É bastante óbvio pela euforia em que andas que há alguma novidade notória na tua vida. É homem? - Não. Se tivesse conhecido alguém ter-te ia contado. - Então não entendo que seja. Nunca vi nada deixar-te nesse estado e como ainda não conheceste ninguém pensei que… O que é que aconteceu? – Ela apontou para o meu pulso. O corte começava a incomodar-me pelo facto de desconhecer a sua origem e de levantar tantas suspeitas. - Fiz isto enquanto cozinhava. - Mais uma vez, algo nada habitual em ti. Costumas ser muito mais cuidadosa. Olha que me começo a preocupar a sério. Se não é homem só pode ser algo sério. - Não é nada, Laura – respondi bruscamente, admirando-me a mim mesma. - Não te preocupes por suspeitas dessas - não há razões para isso. Se houvesse algo, contar-te-ia. – Ou era isso que eu julgava. Era uma sensação horrível que começava a tomar conta de mim; era como se não pudesse confiar em mim. - Alice, eu confio em ti, mas não me convences. Há algo que escondes e não vou fazer por sabê-lo, tu saberás o que deves ou não guardar para ti, contudo aconselho-te que nem tudo podemos guardar em nós. – Ela ficou com um ar bastante sério que só muito raramente mostrava. Ela talvez tivesse razão, mas como poderia eu contar algo que não sabia? Terei enlouquecido? – Não sei exactamente porque me chamaste, mas vou ter de ir andando. – Agarrou numa bolacha que eu tinha deixado em cima da mesa. – Se calhar é melhor ires descansar, tens um ar demasiado cansado. Acompanhei-a até à porta e ela saiu. Fiquei só, entregue à incógnita. O que me tinha acontecido na noite anterior estaria certamente ligado àquilo que tinha acontecido há semanas e que me tinha deixado alterada. Quanto mais procurava saber, com mais dores de cabeça ficava. A minha cabeça expulsavame de lá. Escondo algo a mim própria. E fosse lá o que fosse, não era bom e isso eu sabia-o com certezas. Tirei o vestido de baixo da cama e estendi-o. Observei-o por alguns minutos. Para além da mancha, notei uns salpicos de sangue e nalgumas zonas parecia ter sido esfregado sangue – isso poderia derivar do meu corte. A mancha e os salpicos eram para mim um grande mistério. Não pareciam ter vindo de mim e se assim fosse, de quem provinham? Será que tinha ido ter com alguém quando saíra? Será que há alguém gravemente ferido? Deveria falar à polícia? A minha cabeça quase explodiu de dor. Deitei-me na cama. Abri a gaveta e tirei de lá um comprimido que tomei de seguida.

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Deixei-me estar a descansar por um bocado até que me levantei e me servi de uma chávena de chá e uma bolacha. Depois disso dirigi-me ao espelho e arranjei-me. Peguei na minha mala e saí. Desci até ao bar que habitualmente frequentava. Sentei-me ao balcão. O dono do bar já me conhecia relativamente bem e foi a ele a quem pedi a minha bebida. - Não a vejo com bom ar hoje. O seu amigo não lhe vem fazer companhia? – comentou ele. - Amigo? De quem fala? - Ele só cá vem ter consigo, por isso não o conheço. Mas ouço-a tratá-lo por Daniel. - E como é que ele é? - É alto e de cabelos castanhos-claros. Parece gostar bastante dele e dão-se muito bem. Não entendo a sua surpresa. - Deixe lá, hoje só tem sido um dia difícil. - Nem todos os dias são fáceis. Se precisar de alguma coisa chame-me. Bebi tudo em dois tragos e comecei a olhar pelo bar. Parecia que aquele lugar queria despertar em mim memórias que não queriam ser despertas. A minha cabeça começou a latejar de novo, mesmo com o efeito do comprimido. Comecei a sentir-me a sufocar e com o pânico a atacar, sem razão aparente. Larguei uma nota em cima do balcão e saí a correr de dentro do bar. Quase sentia que ia desmaiar e estava a ofegar. Sentia-me bastante perturbada. A descrição de alguém alto e de cabelos castanhos-claros encaixava com o bar e com a minha falta de memória. Tinha uma lembrança muito vaga e intensa de alguém assim e essa muito leve e abstracta reminiscência causava-me um pânico irracional. Sentia novamente necessidade de fugir. Mas de quem? De quê? Fui para casa. Daniel. Fui à casa de banho e vasculhei por um comprimido para dormir, pois não acreditava que fosse adormecer com tanta agitação, apesar de estar cansada. Tomei o comprimido, lavei a cara e fui-me deitar. Atirei com o vestido manchado para um canto do quarto com uma fúria que desconhecia haver em mim. Atirei com as almofadas que estavam em cima da cama com uma fúria ainda maior. Atirei-me à cama e desatei num pranto verdadeiramente perturbada. Estava perturbada por causa de algo que desconhecia e por desconhecer essa mesma coisa. Havia sangue e havia mais alguém envolvido e eu nada conseguia fazer para além de tomar a minha rotina com frieza. Estava tão irritada por ter acordado dentro do rio e não deitada na minha cama, tendo-me levantado para um dia normal. Daniel. O nome não me saía da cabeça e parecia corroer-me. Não sabia quem era e muito menos que me encontrava com ele frequentemente. A minha própria vida começava a tornar-se numa surpresa enorme. Tinha apagado tudo isso da minha memória; e porquê? Sentia uma raiva enorme em mim e não sabia de onde vinha. Fiquei a chorar em tremenda angústia e medo até o comprimido ter feito de facto efeito. *** O despertador tocava e custava-me imenso despertar do sono pesado. Estiquei o braço a custo e desliguei-o. Levantei-me e fui tomar banho. Vesti um vestido preto e coloquei rolos no cabelo. Arrumei o quarto e a casa de

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banho. Bebi uma chávena de chá frio e comi outra bolacha já amolecida. Deitei as bolachas fora e guardei o chá. Tirei os rolos, prendi o cabelo de um dos lados e arranjei-me. Apertei um cinto na cintura e coloquei um colar de pérolas. Agarrei na mala e saí. Parei para beber um café e segui para os escritórios. Tomei o lugar na minha secretária à recepção. Vieram entregar os jornais do dia que aceitei. Peguei nos jornais para os ir distribuir nos locais certos quando olhei para a primeira página. Homicídio à margem do rio. Gelei. Sentei-me e abri na página onde desenvolviam o caso. Tinham encontrado um corpo de um homem de vinte e três anos à margem do rio ao inicio da noite do dia anterior. A causa da morte tinha sido esfaqueamento e a arma do crime tinha sido uma navalha de bolso deixada ao lado do corpo. A uns metros do corpo tinham encontrado uma mala de senhora com algum dinheiro, chaves de casa e um batom. A vítima chamavase Daniel Brown, um britânico que se tinha mudado por questões de negócios. Ainda não tinham suspeitas, contudo iriam averiguar a quem pertencia a mala encontrada perto do corpo e interrogar essa senhora que também havia deixado pegadas de sapatos de salto alto por aquela zona. O meu coração quase saltava do peito. Os pulmões enchiam descompassadamente e com isso parecia não estar a respirar. Engoli em seco para conseguir retomar o folgo. A minha cabeça começou a girar com vagas de memórias. Sangue. Sangue nas minhas mãos. Queria gritar de pânico. Informei que tinha de sair devido a uma urgência e fui a correr até casa, de jornal na mão. Cheguei a casa e tranquei a porta. Lembrei-me que tinha uma navalha como a descrita numa gaveta da cozinha. Procurei por ela na gaveta, mas nada. Tirei a gaveta e despejei-a. Tirei todas as gavetas e despejei-as. Vasculhei por armários. Nada. Nada, nada! - Ai, não. Não, não. Não! – exclamei em voz alta, tomada pelo pavor. Deixei-me cair no chão da cozinha a soluçar. Eu tinha-o morto. Tudo fazia sentido. Sabia o porquê de tudo. Eu tinha-o morto por o amar. O pior dos meus pesadelos estava agora presente em mim; tomava conta de mim e dominava a minha racionalidade. Qual racionalidade?, o que estava bem presente em mim era algo bem mais primitivo e básico do que a racionalidade. Eu tinha-o morto por amor e pela influência do ódio a que ele está associada. A vida era algo tão supérfluo face a tais sentimentos que naquele momento não a considerei perante o meu acto. Eu tinha-o morto em nome dele mesmo e devido ao ódio que nutria – eu e ele - pelo que tinha à minha frente. Não me poderia arrepender, tinha feito o que a minha essência pedia, apesar de ser o mais ilógico. Se não fosse tão grande o meu amor por aquele homem, nunca teria tido a coragem para ter feito o que fiz. Mas era o pior dos meus pesadelos: ter morto o homem da minha vida como forma de o salvar dele mesmo. Poder-se-ia considerar que o teria feito como auto-defesa, mas não, não era essa a verdade; eu tinha-o feito por ele, não por mim. Se fosse por mim, ter-me-ia poupado aos horrores que pelos quais naquele momento passava. Se fosse por mim, preferia ter vivido com o nojo e com a dignidade manchada a ter o peso da morte e da vida em mim; a ter as mãos cheias de sangue e de pecado. Assim tinha-o salvo da sua própria doença, tinha trespassado com a minha navalha o coração do monstro que tomava conta do

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meu amor. Tinha-o salvo de uma vida perturbada com a morte. Naquele momento tinha visto o quão perturbado e infeliz vivia ele, o quanto ele desejava libertar-se de si mesmo. E sendo eu quem o amava pelo que vinha do seu âmago e não pelo monstro que se revelava, tive de ser eu a libertá-lo. Oh, e a única coisa que tinha feito por mim era ter-me impedido de me lembrar dele e do sucedido, porém deparar-me com o caso fez irremediavelmente essa avassaladora assombração tomar conta de mim. Só conseguia gritar e soluçar dolorosamente perante o infortúnio das circunstâncias. Ele era um corpo frio sem existência – ele e a sua doença. Eu amava-o tanto que perante tanta emoção não conseguira saber se ele me amava a mim também. Essa ignorância também me consumia: e se o meu acto nunca fosse merecedor de um agradecimento? E se o meu acto não tivesse sido por alguém que me poderia ter feito verdadeiramente feliz? Não. O meu acto havia sido como essencial para a sua libertação – aquela doença não o apartaria de outra maneira. Estava miserável – a minha alma tinha sido consumida pelo pecado. Poderia tentar fugir a mim mesma, voltar a esconder isso em memórias profundas e inalcançáveis; porém era tarde demais, lembrava-me de tudo e estava ciente de que isso nunca me abandonaria. Após algum tempo acalmei-me. Não iria demorar muito a encontraremme, bastaria chegarem ao bar e depressa alguém dava a indicação de onde morava e de como era o nosso relacionamento. Levantei-me. Arrumei a cozinha devidamente. Fui ao espelho da casa de banho; lavei a cara e retoquei a maquilhagem. Desci e fui até a um minimercado. Comprei algo para descolorar o cabelo. Fui até uma loja de roupas e comprei peças suficientes para me garantirem uma semana inteira com conjuntos diferentes; comprei também acessórios e jóias. Cheguei a casa e descolorei o meu cabelo até ficar loiro. Enchi-o de caracóis. Mudei de roupa e coloquei um chapéu de abas mais largas. Coloquei umas luvas para esconder o meu corte. Fiz uma mala com as roupas novas, todo o dinheiro que tinha e documentos. Juntei também alguma comida. Saí de casa e tranquei a porta. Deitei a chave fora. Aluguei um carro, dando nome e morada falsos. Arranquei sem nenhum destino predefinido. Andei pela estrada até chegar a um motel onde dei outro nome falso. Instalei-me com o sol já a pôr-se. Acendi um cigarro e, enquanto fitava o fumo, dei por mim a pensar orgulhosa na minha força emocional. Tinha deixado tudo para trás por algo em que acreditava. Caso contrário, ninguém acreditaria na veracidade da minha história, exactamente por ser demasiado emotiva e pouco racional. Poderia dizer que o tinha morto para me defender, mas isso não era verdade. Preferia viver com o peso que tinha naquele momento longe de mentiras em relação ao acto num sítio distante com outra identidade; isso seria bem melhor do que acabar eventualmente presa e ter ainda para mais mentido à minha pessoa. A Alice não mais existia. O seu habitual bar, restaurante, o seu emprego e a sua casa nunca tinham sido visitados pela minha pessoa. A Laura e a Júlia – grandes amigas da Alice – não eram ninguém para a minha pessoa. Daniel apenas era uma memória de um grande amor, o amor que tinha criado – da pior forma, admito – a minha pessoa. Já não era a Alice, tinha abdicado de mim a partir do momento em que tinha morto um homem.

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Numa noite em que me encontrava no bar, distraída ao balcão com uma bebida nas mãos, um homem alto de cabelos castanhos-claros e olhos claros entrou no bar. Ao meu lado, pediu também uma bebida. Parecia cansado. Tirou o chapéu, que tinha esquecido na cabeça, e colocou-o em cima do balcão. Comentou comigo que o bar era sossegado e a bebida boa e que era disso que estava a precisar para terminar o dia. Notei um certo sotaque na sua voz e perguntei se tinha viajado, visto que também parecia algo maçado. Ele respondeu-me que tinha há pouco chegado de Inglaterra. Disse-me também que se tinha mudado por causa de negócios e ainda estava a conhecer a zona. A conversa foi desenrolando pela noite a partir daí. Por fim, ele despediu-se prometendo voltar na noite seguinte àquele bar, não só pelo ambiente agradável, mas especialmente pela minha companhia. Assenti com um sorriso e voltei a casa. Na noite seguinte voltei a encontrá-lo e por aí em diante. Conversava tão abertamente com ele como nunca tinha conversado com alguém. Perdia-me nos seus olhos luminosos e misteriosos que me causavam arrepios. Além de nos encontrarmos no bar quase todas as noites, começávamos também a passear pela cidade de mãos dadas. O que sentia por ele era tão avassalador que passava o dia alterada pela ansiedade que a noite chegasse e me pudesse encontrar com ele. Ele conseguia pôr-me de tal forma alterada que as pessoas deixavam de me reconhecer. Não revelava a ninguém que o conhecia porque me sentia envergonhada pelo estado em que me encontrava e porque sentia que o nosso relacionamento era algo quase secreto e apenas nosso. Todas as noites esperava que da boca dele viesse a revelação do amor que esperava que ele sentisse, mas isso nunca veio. Ouvia dizer, enquanto trabalhava, que havia muitos assaltos a mulheres na zona onde eu morava. Com o receio, passei a andar com uma navalha de bolso na mala. Quase sempre que saía à noite era para me encontrar com ele, mas no caminho até ao bar tinha receio que fosse abordada por algum estranho e acabasse mal tratada. Poderia ter-lhe pedido que viesse ter comigo a casa, porém tinha também receio que isso fizesse tudo avançar depressa demais ou que ele me achasse uma mulher medrosa. Numa outra noite, ansiosa como era habitual, vesti um vestido claro muito elegante, com umas luvas de seda e com o cabelo preso na nuca. Fui até ao bar e ele já lá estava à minha espera. Ele sugeriu que fossemos a outro sítio e eu anuí. Saímos do bar e ele abriu a porta do carro para eu entrar. Fomos até ao parque e ele aí estacionou o carro. Tinha o coração aos saltos como uma criança entusiasmada com a iminência do que poderia surgir daquele passeio pelo parque. Saímos do carro e passeámos pela relva. Ele começou a falar de como para ele era difícil dizer não a alguns desejos que lhe pareciam inapropriados e como por vezes se arrependia. Olhou para mim e sorriu muito abertamente, acrescentando que estava sempre a tempo de se remediar para não mais se arrepender. Começou a encaminhar-me até ao arvoredo. Sentia-me capaz de lhe confiar a minha vida, contudo achei estranho que me levasse para aquele sítio. Ainda assim, não o questionei ou hesitei.

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Quando já tínhamos embrenhado o suficiente no arvoredo para estarmos junto ao rio, o seu olhar alterou-se e foi dominado por um ar tresloucado que me sobressaltou. Perdera o brilho e o mistério do seu olhar, como se tivesse sido dominado por uma alma diabólica. Aquele poderia afirmar com certezas não ser o homem que descobrira amar. Era outra coisa que se apoderava dele, algo que até àquela noite ele tinha reprimido. Ele era um homem calmo, trabalhador, honesto e com muita classe e aquilo que tinha diante de mim era um tumor parasita que estava preso a ele. Ele agarrou-se a mim com violência e puxou o meu vestido. Lutei contra ele e consegui tempo para agarrar a minha mala e tirar de lá a navalha. Ele agarrou a mala e atirou-a, não se apercebendo da navalha que estava a abrir nas minhas mãos. Queria que aquele monstro desaparecesse, queria que aquilo libertasse o amor da minha vida. Gritei por ele, pois sabia que ele existia debaixo daquele ar e atitudes horríveis. Ele ignorava os meus gritos e tentava deixar-me inconsciente apertando-me a garganta. Era o limite: não o poderia deixar viver com a ideia de ter morto quem o amava, fosse qual fosse a razão. Ele estava perturbado, doente e a veemência da loucura no seu olhar dava-me certezas de que ele nunca se manteria como sendo o homem que conhecera. Espetei a navalha, raspando primeiro pelo meu pulso esquerdo por acidente. Senti o seu último suspiro contra o meu corpo e o seu olhar perdeu a loucura, ficando de novo calmo e misterioso, assim como vazio. O corpo morto largou todo o seu peso em cima de mim e escorreguei para dentro do rio. Pensei para comigo mesma que tinha feito o melhor por ele e tinha salvado a sua alma da auto-destruição, apesar de ter enviado a minha para um local horrível, muito pior que a morte. Aí devo ter perdido os sentidos e não vi o corpo quando despertei, pois a noite estava sem lua e um nevoeiro pairava perto da água. Apaguei o cigarro no cinzeiro ao lado da cama, na mesinha de cabeceira. Tinha guardado na mala o contacto dele, da segunda noite que o tinha encontrado. Tinha sido escrito por ele com uma caligrafia cuidada e rebuscada, embora bastante perceptível. Era a única coisa que tinha dele, isso e o fardo de um crime – fardo este que nunca me abandonaria, estivesse eu onde estivesse, fosse eu quem fosse. Agarrei no meu isqueiro e queimei o papel com o contacto. Agora, nunca mais o encontraria, nem mesmo depois de morta. Ele estará a salvo num sítio bem melhor e eu arderei junto às chamas da culpa e do pecado. Tinha enviado a minha alma ao suicídio, por ter poupado o homem que amava do mesmo infortúnio. Raquel Correia

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A Redenção