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Copenhague, Dinamarca Horas gélidas no distrito Noroeste da cidade. A chuva batia no teto do carro da polícia produzindo um ruído relaxado, monótono. As gotas estavam ficando mais pesadas. Logo aquela chuva que caía sobre Copenhague se cristalizaria e cobriria o solo de neve macia, pensou Niels Bentzon. Seus dedos tremiam quando ele tentou pegar um dos últimos cigarros do maço. Pelos vidros embaçados o mundo à sua volta era como um impenetrável véu de água, escuro, iluminado alternadamente pelos faróis dos carros que passavam. Ele se recostou e olhou para o espaço. Estava com dor de cabeça e agradeceu aos poderes elevados o fato de o chefe da equipe lhe ter pedido para esperar no carro. Niels não se importava com Dortheavej. Talvez porque aquela área tivesse uma enorme capacidade de atrair problemas. Ele não se surpreenderia minimamente se naquele momento não estivesse chovendo no resto de Copenhague. Niels tentou lembrar quem tinha fixado residência ali inicialmente. Teria sido a comunidade religiosa islâmica ou os ocupantes da Casa da Juventude? Os dois grupos foram um convite aberto para criadores de caso. Na força policial todo mundo sabia disso. Se pelo rádio da polícia chamavam de Dortheavej, na região Noroeste da cidade, isso significava manifestações, uma ameaça de bomba, incêndio criminoso ou confusão generalizada. Niels participara de batidas policiais na velha Casa da Juventude; quase todos os policiais do país já haviam sido convocados para isso. Ele tinha acabado numa rua lateral onde tentou apaziguar dois homens muito jovens que agitavam 24


enormes porretes. Niels se ferira no braço esquerdo e na gaiola torácica. Os dois jovens eram a imagem do ódio, uma supernova de frustrações dirigida a Niels. Quando ele finalmente conseguiu imobilizar um deles no chão e lhe colocar algemas, um dos jovens começou a dizer os piores palavrões bem na sua cara. O sotaque era inconfundível. O garoto era do norte de Sjaelland, provavelmente de Rungsted. Um filho da riqueza. Naquela noite não eram jovens irados ou muçulmanos que o tinham levado para a rua. Era um soldado que retornara e usava contra a própria família a munição extra trazida. – Niels! Niels ignorou as batidas na janela do carro. Havia fumado apenas um quarto do cigarro. – Niels. Está na hora. Ele deu duas tragadas fundas antes de sair na chuva. O policial, um jovem, olhou para ele. – Tempinho bom, hein? – O que é que a gente sabe até agora? – Niels atirou no chão o que restava do cigarro e rumou para a barreira policial. – Ele disparou três ou quatro tiros e tem um refém. – E o refém? – Não sabemos nada. – Tem crianças lá? – Não sabemos nada, Niels. Leon está na escada. – O policial apontou.

Terça-feira, 15 de dezembro de 2009 Fodam-se! É o que uma alma honesta havia escrito na parede acima do nome dos residentes. A escada era uma ruína e atestava as decisões políticas dos últimos anos: Viva os cristãos, Foda-se Israel e Morte aos policiais. Foi só isso que Niels teve tempo de ler antes que a enferrujada porta dianteira se fechasse com um estrondo atrás dele. Em poucos segundos ele tinha ficado encharcado. – Está chovendo? Niels não sabia dizer qual dos três policiais na escada estava tentando ser engraçado. – Terceiro andar, é isso? – Isso mesmo, senhor. 25


Provavelmente riram às suas costas enquanto ele subia a escada. No caminho ele passou por outros dois policiais muito jovens que usavam coletes à prova de bala e tinham pistolas automáticas. O mundo não havia se tornado um lugar melhor desde que Niels entrara na academia de polícia, mais de vinte anos antes. Pelo contrário. Ele via isso nos olhos dos policiais jovens. Duros, frios, fechados. – Vão com calma, garotos. Nós voltamos vivos para casa, não tem problema – disse Niels ao passar por eles. – Leon? – gritou um dos policiais. – O negociador está vindo. Niels sabia exatamente o que Leon significava. Se Leon fosse forçado a escolher um mote, seria: A operação foi um sucesso mas o paciente morreu. – É o meu amigo Damsbo? – gritou Leon do patamar da escada antes de Niels ficar visível. – Eu não sabia que você tinha amigos, Leon. Leon saltou dois degraus e olhou surpreso para Niels, agarrando com ambas as mãos a pequena pistola automática Heckler & Koch. – Bentzon? De onde foi que desenterraram você? Niels olhou nos olhos de Leon. Mortos, cinzentos – um reflexo do clima típico de novembro.

Fazia muito tempo que os dois não se encontravam. Niels andara de licença para tratamento de saúde durante os últimos seis meses. A barba rala de Leon embranquecera e os cabelos tinham recuado na testa, deixando visíveis muitas rugas. – Achei que iam mandar o Damsbo. – Damsbo está doente. Munkholm está de férias – respondeu Niels afastando a boca da Heckler & Koch apontada para ele. – Dá para você segurar essa, Bentzon? Já está durando muito tempo. Você ainda está tomando remédios? – Nos lábios de Leon abriu-se um sorriso condescendente antes de ele prosseguir. – Nos últimos tempos você tem se ocupado principalmente com documentos, não é isso? Niels balançou a cabeça, tentando dissimular o fato de estar sem fôlego. Fingiu que respirava profundamente para refletir sobre a situação. – A coisa é muito feia? – perguntou ele. – Peter Jansson, vinte e sete anos. Está armado. É veterano da guerra do Iraque. Parece que até ganhou uma medalha. Agora está ameaçando matar toda a família. Um colega do exército está vindo para cá. Talvez ele convença o cara a soltar as crianças antes de estourar os miolos. 26


– Pode ser que a gente consiga também convencê-lo a não estourar os miolos – respondeu Niels com um olhar duro para Leon. – O que você acha? – Quando é que você vai encarar a realidade, Bentzon? Alguns caras simplesmente não valem o dinheiro. Uma pena de prisão, pensão por incapacidade, essas coisas. Niels ignorou a crítica de Leon. – E o que mais, Leon? Como é o apartamento? – Duas salas na frente. A porta abre direto na primeira sala, não tem hall de entrada. Parece que ele está na sala da esquerda. Ou no quarto do fundo. Ele já disparou uns tiros. Nós sabemos que estão com ele duas crianças e a mulher dele. Ou ex-mulher. Ou então só uma criança e uma filha adotiva. Niels olhou para Leon com um ar inquiridor. – É isso. A história varia dependendo do vizinho com quem a gente fala. Você vai entrar? Niels fez que sim com a cabeça. – Infelizmente ele não é totalmente idiota. – O que é que você está querendo dizer? – Ele sabe que só tem um jeito de ter certeza de que o negociador não está escondendo uma arma ou um transmissor. – Você está me dizendo que ele quer que eu tire a roupa? – Suspiro profundo. Leon deu a Niels uma olhar de solidariedade e assentiu com a cabeça. – Se você não quiser fazer isso eu entendo. Podemos invadir o apartamento. – Não. Tudo bem. Já fiz isso antes. – Niels desafivelou o cinto.

No verão do ano seguinte Niels Bentzon completaria quinze anos no departamento de homicídios – os últimos dez anos como negociador, que é o policial enviado durante situações em que há um refém ou alguém ameaçando se matar. Eram invariavelmente homens. As armas sempre apareciam quando o mercado de valores entrava em queda livre e os economistas anunciavam uma crise financeira. Niels se surpreendia ao descobrir quantas armas as pessoas guardavam em casa. Revólveres da Segunda Guerra Mundial. Rifles de caça e espingardas com mira, infalivelmente sem licença. – Meu nome é Niels Bentzon. Sou policial. Não estou vestido, como você pediu. Não estou com nenhuma arma nem transmissor. – Cautelosamente, Niels abriu a porta. – Você está me ouvindo? Meu nome é Niels. Sou policial e estou desarmado. Sei que você é soldado. Peter, eu sei que é difícil tirar a vida de alguém. Estou aqui só para conversar com você. 27


Niels ficou imóvel na porta e ouviu. Nenhuma resposta. Apenas o mau cheiro de uma vida que tinha se desintegrado. Lentamente seus olhos se acostumaram à escuridão. Ao longe um vira-lata estava latindo. Durante vários segundos Niels teve de confiar no seu olfato: pólvora. Sem querer, ele tinha pisado numa caixa de cartuchos. Ele pegou um. Ainda estava quente. Niels decifrou a inscrição no fundo do metal: 9 mm. Ele conhecia bem esse calibre. Três anos atrás tivera a honra de receber na coxa uma bala alemã desse calibre, exatamente. Na gaveta superior da escrivaninha de Kathrine, em casa, ele tinha escondido o projétil que o cirurgião havia extraído dele. Um parabelo de 9 mm. O calibre mais popular do mundo. O nome “parabelo” vem do latim. Niels tinha visto na Wikipédia: Si vis pacem, para bellum. Se você quer a paz, prepare-se para a guerra. Esse era o lema do fabricante alemão, a Deutsche Waffen und Munitionsfabriken – a companhia que havia fornecido munição para o exército alemão nas duas guerras. E que esplêndida paz foi o resultado. Niels pôs a caixa de cartucho de volta no chão, onde a encontrara. Ficou quieto, recompondo-se. Para poder prosseguir precisava se livrar daquela lembrança desagradável. Do contrário o medo o dominaria. O menor tremor na sua voz deixaria nervoso o rapaz que mantinha o refém. Kathrine. Ele pensou em Kathrine. Ele precisava parar de fazer aquilo ou não seria capaz de continuar. – Você está bem, Bentzon? – sussurrou Leon de algum lugar atrás dele. – Feche a porta, Leon – respondeu Niels com voz áspera. Leon obedeceu. Os faróis dianteiros dos carros que passavam embaixo na rua emitiam clarões através das janelas, e Niels viu seu próprio reflexo no vidro. Pálido, amedrontado, nu e indefeso. Ele estava gelando. – Estou de pé na sala do apartamento, Peter. Meu nome é Niels. Estou esperando você conversar comigo. Niels estava calmo. Absolutamente calmo. Sabia que a negociação poderia levar grande parte da noite, mas normalmente ele não precisava de tanto tempo. A coisa mais importante numa situação com reféns era descobrir no menor tempo possível o máximo possível sobre a pessoa que mantinha reféns. Descobrir algo sobre o ser humano que havia por trás das ameaças. Somente quando se vê a pessoa real há alguma esperança. Leon era um idiota. Só via a ameaça. E por isso terminava invariavelmente atirando. Niels procurou no apartamento sinais do homem chamado Peter. Olhou as fotos na geladeira: Peter com a mulher e duas filhas. Sob as fotos estava escrito com ímãs: “Clara” e “Sofie”. Ao lado desses nomes ele leu: “Peter” e “Alexandra”. 28


Clara – a filha mais velha – era quase adulta. Talvez uma adolescente. Tinha aparelho nos dentes e espinhas. Era bem mais velha que a caçula. Sofie não teria mais de seis anos. Loira e delicada. Parecia com o pai. Clara não parecia nem com o pai nem com a mãe. Talvez fosse filha de um casamento anterior. Niels respirou profundamente e voltou à sala. – Peter? Clara e Sofie estão com você? E Alexandra? – Cai fora – disse uma voz firme do fundo do apartamento. No mesmo instante o corpo de Niels cedeu ao frio e ele começou a tremer. Peter não estava desesperado. Estava determinado. Era possível negociar com o desespero, mas com a determinação era pior. Outra respiração profunda. A batalha não estava perdida. Descubra o que o sujeito quer. Essa era a tarefa mais importante de um negociador. E se não há nada que ele queira, ajude-o a encontrar algo – não interessa o quê. A questão era fazer o cérebro começar a esperar. Naquele exato momento o cérebro de Peter se via nos seus últimos minutos; Niels ouviu isso no tom confiante da sua voz. – Você disse alguma coisa? – indagou Niels tentando ganhar tempo. Nenhuma resposta. Niels olhou em torno de si. Ele ainda não sabia do detalhe que poderia decidir a situação. O papel de parede tinha girassóis, grandes girassóis, do piso ao teto. Suas narinas detectaram outro cheiro, misturado ao cheiro de medo e de urina de cachorro. Sangue fresco. Os olhos de Niels localizaram a sua fonte no canto, enrodilhada numa posição que teria parecido impossível. Alexandra tinha levado duas balas no coração. Só nos filmes alguém teria se dado ao trabalho de sentir o pulso dela; na realidade ele via um buraco no coração e uma vida desperdiçada. Ela o estava olhando com olhos esbugalhados. Niels ouvia os soluços abafados de uma das filhas. – Peter? Eu ainda estou aqui. Meu nome é Niels... Ele foi interrompido por uma voz. – O seu nome é Niels e você é policial. Eu ouvi! E lhe disse para cair fora. Uma voz profunda, decidida. De onde ela vinha? Do banheiro? Por que diabos Leon não tinha conseguido uma planta baixa? – Você quer que eu vá embora? – Quero, droga! – Infelizmente eu não posso. Minha obrigação é ficar aqui até isso acabar. Não importa o que acontecer. Eu sei que você entende isso. Você e eu, Peter... nós dois temos um trabalho que exige a nossa permanência, mesmo quando isso é impossível. 29


Niels ficou atento, ainda de pé ao lado do corpo de Alexandra. Ela apertava na mão pedaços de papel. O rigor mortis ainda não havia se instalado, e não era difícil arrancar os papéis da sua mão. Niels se levantou; ao lado da janela se valeu das luzes da rua de Dortheavej. A carta era do departamento de defesa. Uma dispensa. Palavras demais, cobrindo três páginas. Niels examinou rapidamente o seu conteúdo. Problemas pessoais ... instável ... incidentes lamentáveis ... oferta de ajuda e retreinamento. Por alguns segundos sentiu que tinha voltado atrás no tempo. Que estava se insinuando na última foto da família. Imaginou a situação: Alexandra encontrou a carta. Peter tinha sido dispensado. Ele era a única fonte de renda da família. Dispensado enquanto ainda estava tentando digerir toda a porcaria que tinha visto e feito quando servia ao país. Niels sabia que eles nunca conversaram sobre o assunto – os soldados do Iraque e do Afeganistão. Recusavam-se a responder às perguntas mais óbvias: Você atirou em alguém? Matou alguém? Eles sempre davam respostas evasivas. A razão disso não era simples? Os disparos feitos pelos soldados e que cortaram as veias e artérias e órgãos dos inimigos causaram quase o mesmo dano à alma dos soldados. Peter tinha sido dispensado. Ao partir para a guerra era um homem de verdade, mas o que voltara era uma ruína. E Alexandra não podia lidar com aquilo. Sua principal preocupação eram as crianças; as mães são sempre assim. Um soldado atira, e uma mãe pensa nos filhos. Talvez ela tenha gritado com ele. Dito que ele era incompetente, que as deixara na mão. E então Peter fez o que lhe tinham ensinado: se os conflitos não podem ser resolvidos de modo pacífico, atira-se no inimigo. Alexandra se tornara o inimigo. Finalmente. Finalmente Niels tinha o detalhe que poderia usar. Ele conversaria com Peter como um soldado. Apelaria para o seu sentido de honra, para a sua masculinidade.

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Murano – Veneza Começo de inverno, a alta estação para os suicídios no continente europeu. Mas dessa vez não era suicídio. Era vingança. Do contrário o homem não teria usado um fio de aço para se enforcar. Não era difícil encontrar uma corda na ilha, com todos os construtores de barcos que havia ali. Flavio estava fora, vomitando no canal. A viúva do insuflador de vidro já havia desaparecido há muito tempo. Fora buscar consolo com os vizinhos. Tommaso ouvia de vez em quando os seus gemidos. Em frente da casa se reunira um microcosmo dos habitantes da ilha. O administrador da oficina de insuflação de vidros, um padre do mosteiro de San Lazzaro, um vizinho e um lojista. Tommaso se perguntou o que o lojista estaria querendo. Receber o dinheiro da última compra antes que fosse tarde demais? Era inacreditável o que a crise financeira havia feito aos homens e à sua autoestima. E os ilhéus eram ainda mais suscetíveis por causa do isolamento, da sociedade fechada, dos papéis sociais rígidos. Não é de admirar que Veneza esteja no topo das estatísticas de suicídio da Itália. A casa era úmida e mal iluminada, com pé-direito baixo. Tommaso olhou pela janela e viu o rosto de uma mulher. Devorando um sanduíche, ela lhe dirigiu um olhar culpado, sorriu e deu de ombros. Não podia evitar; estava faminta, apesar da morte do insuflador de vidro. Tommaso ouviu as pessoas conversando lá fora. Especialmente o administrador da oficina. Quase todas as baratas imitações de vidro asiáticas estavam sendo importadas e vendidas aos turistas. Isso tinha deixado sem trabalho a população local, que em outros tempos tinha ali iniciado a insuflação de vidro e feito dela uma arte por séculos e séculos. Era escandaloso! 31


Tommaso olhou novamente para o celular. Diabo! Onde estavam as fotos? O corpo do insuflador de vidro balançava lentamente. Tommaso receava que o fio de aço não o sustentasse por muito tempo. Se as vértebras do pescoço tivessem se fraturado, o fio logo penetraria na carne e o corpo seria decepado. – Flavio! – gritou Tommaso. Flavio apareceu na entrada. – Quero que você redija o relatório. – Eu não posso. – Que besteira é essa? Você só tem de escrever o que eu vou dizer. Se quiser, sente-se ali com a cabeça virada para o outro lado. Flavio pegou uma cadeira, virou-a de frente para a parede úmida e se sentou. A casa cheirava a fuligem, como se alguém tivesse apagado o fogo da lareira com um balde de água. – Pronto? Flavio não respondeu, sentado com a caderneta no colo e olhando resolutamente para a parede. Tommaso começou com a parte oficial. – Chegamos logo antes das duas horas. A chamada foi feita pela viúva do insuflador de vidros, Antonella Bucati. Você está escrevendo? – Estou. O som de uma sirene se aproximou. Finalmente ele a ouviu. Tommaso escutou. A ambulância desligou a sirene ao deixar a laguna e passar pelo canal arruinado. O motor barulhento e as monótonas tentativas das ondas de escangalhar a amurada já meio podre anunciaram a chegada do veículo alguns segundos antes de os paramédicos pisarem na terra. As luzes azuis iluminaram a sala com flashes, lembrando Tommaso de como Veneza era escura no inverno. A umidade parecia roubar os restos de luz espalhados pelos poucos prédios ainda ocupados. O restante de Veneza estava submerso na escuridão. Americanos e sauditas eram os proprietários da maior parte da cidade, e vinham visitá-la duas semanas por ano, no máximo. Tommaso viu a coisa no mesmo instante em que seu celular bipou. Os sapatos pretos do enforcado tinham saltos brancos. Tommaso esfregou um dos saltos; a matéria branca saiu facilmente. – Podemos descer o corpo? – perguntou Lorenzo, o motorista da ambulância. Tommaso frequentara a escola com ele. Certa vez eles tinham brigado e Lorenzo vencera. – Ainda não. 32


– Ora, vamos, você não está querendo me dizer que foi assassinato, está? – Lorenzo se preparou para descer o corpo. – Flavio! – gritou Tommaso. – Se ele encostar um dedo no corpo, ponha algemas nele. Furioso, Lorenzo bateu o pé no chão. – Lanterna. – Tommaso estendeu a mão. Flavio tapou a boca e manteve os olhos baixos enquanto passava a lanterna para Tommaso. Não havia nenhum indício visível no piso. E no entanto... O chão da cozinha tinha sido varrido e estava limpo embaixo do local onde o insuflador se enforcara sob uma viga do teto. Ao contrário da sala, onde o chão estava sujo. O celular de Tommaso bipou novamente. Ele abriu a porta escura. Um jardim descuidado. Uma videira se estendia no alto. Muito tempo atrás alguém havia tentado fazer com que ela crescesse em torno das calhas do alpendre, mas desistira e a deixara seguir o sol. Agora ela se alastrava pelo teto. A lanterna iluminava a oficina. Tommaso atravessou o pequeno jardim e abriu a porta. Em contraste com o resto da casa, a oficina estava muito arrumada. Meticulosamente arrumada. Mas no mostrador do celular surgiu outra mensagem. Elas estavam aparecendo numa sucessão frenética. Naquele momento ele não ousava ler nenhuma delas. O chão da oficina era de cimento branco. Tommaso se abaixou para arranhar a superfície. Era porosa, feita de greda. A mesma substância que estava nos saltos do insuflador. Ele se sentou numa cadeira. Flavio o chamou, mas ele fingiu que não tinha ouvido. Sua primeira intuição estava correta. Não era suicídio. Era vingança. A vingança da mulher. O insuflador havia sido morto ali e arrastado pela oficina, que tinha deixado vestígios de branco nos saltos dos seus sapatos. – O que é que você está fazendo aqui? – perguntou Flavio. Tommaso olhou para o colega que estava de pé na entrada. – Tudo bem, Tommaso? Você está parecendo indisposto. Tommaso ignorou o diagnóstico. – Vamos precisar do médico. E da equipe técnica de Vêneto. – Por quê? Tommaso correu o dedo pelo piso e levantou-o no ar para que Flavio visse aquela brancura. – Se você olhar de perto vai ver a mesma coisa nos saltos do morto. Flavio precisou de alguns segundos para processar a informação. – Vamos prender a viúva? 33


– Provavelmente seria um bom começo. Flavio balançou a cabeça com um ar triste. Tommaso sabia exatamente o que ele estava sentindo. Desalento. A história que eles iam ouvir a viúva contar nas próximas horas giraria em torno de pobreza, bebedeira e desemprego, violência doméstica e discussões na ilha. Era essa a história de Veneza nos últimos anos. Sem dúvida uma apólice de seguro de vida estava escondida em algum lugar. Ou talvez a mulher do insuflador de vidro simplesmente tivesse chegado ao seu limite de tolerância. Flavio ligou para a delegacia e se recompôs antes de fazer a prisão exigida. Tommaso respirou fundo. O mundo vai acabar esta noite, pensou ele. Quase não ousou olhar para as mensagens no celular. Quatro fotos de Giuseppe Locatelli, da Índia. Tommaso tirou os óculos de leitura e estudou a primeira imagem: a marca nas costas do morto. Exatamente igual às outras. Depois ele olhou para os closes. – Trinta e quatro – murmurou para si mesmo. – Faltam dois.

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O último homem bom  

Capítulo 4 do romance O último homem bom, mais novo lançamento da editora Tordesilhas. O trecho foi fornecido para divulgação pela editora.

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