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Mundo Universitário Sénior | Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2011

realização

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Companhia Maior é um projecto artístico com actores maiores de 60 anos

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©Mundo Perfeito

A idade deste elenco, muitas vezes, está mais nos olhos do público do que nos próprios intérpretes

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arlos Nery tem quase 79 anos e a sua vida profissional passou pelo Banco de Portugal. Aos 50 foi confrontado com a reforma antecipada e, nessa altura, prescindiram dos seus serviços. «Saí do banco empurrado porque já estava a aproximar-me dos 60 anos. Houve uma altura em que se criou na cabeça das pessoas a ideia de que tudo o que tivesse mais de 50 anos era velho.» Paralelamente à sua actividade profissional, sempre fez teatro. Colaborou com o Teatro Experimental do Porto na década de 1950, com o Teatro da Cornucópia nos anos 70 e ainda com os Artistas Unidos e quis voltar a representar, mas todas as portas se lhe fecharam. «Fiquei um bocado desiludido porque não encontrei grande receptividade. Eu penso que, de facto, na nossa sociedade há uma discriminação etária. Uma pessoa com 60 anos que

ainda esteja ao serviço é olhada com escândalo, e também senti isso nos grupos de teatro que contactei.» Foi então que ficou a saber que o Centro Cultural de Belém (CCB) estava a abrir inscrições para um workshop de teatro. Candidatou-se e foi escolhido. Dias depois, ficou a saber que seria integrado no elenco de um novo projecto artístico, a Companhia Maior. Hoje sente-se um privilegiado. «Considero-me uma pessoa afortunada porque 30 anos depois de ter feito aquilo que efectivamente gostava de fazer e, quando todas as portas pareciam estar fechadas, surge uma nova oportunidade. Isto para mim é extremamente gratificante. Aconteceu nas nossas vidas algo de inesperado e e notável!» A idade é um posto O projecto nasceu em 2007, uma produção do CCB, que

convidou Tiago Rodrigues da produtora Mundo Perfeito para encenar o primeiro espectáculo. ‘A Bela Adormecida’, com texto de Tiago Rodrigues, é uma adaptação do conto de fadas e tem percorrido o país com várias apresentações. Ao contrário do conto original, aqui os príncipes e as princesas têm rugas e ficaram marcados pelo tempo. Para Tiago Rodrigues, a questão da idade dos actores é muitas vezes vista como preconceito, mas para ele é uma vantagem. «Definitivamente, acho que as rugas, a rouquidão das vozes, os corpos deste elenco têm a riqueza de uma vida de histórias e sei que isso é algo que o espectáculo transparece e que emociona o público. E o elenco da Companhia Maior é, efectivamente, um grupo de pessoas muito criativo e generoso. As eventuais limitações físicas que advenham da idade são francamente insignificantes

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Quando o sonho começa aos 60

Tiago Rodrigues, encenador

Texto: Andreia Arenga

Dizem que a vida começa aos 50 e a verdade é que muitas pessoas só conseguem concretizar o sonho das suas vidas a partir dessa idade. Carlos Nery, Júlia Guerra e Maria Celeste Melo têm todos mais de 60 anos e também eles estão a realizar o sonho antigo de ser actores, depois de a sociedade os ter demitido. Agora brilham nos palcos do país através da Companhia Maior. quando comparadas com os benefícios dessa mesma idade. Os intérpretes mais velhos arriscam com mais facilidade. Acho que a idade deste elenco, muitas vezes, está mais nos olhos do público do que nos próprios intérpretes.» Júlia Guerra gosta de dizer que tem a idade que aparenta porque «o tempo não importa». Sempre foi uma pessoa activa, foi locutora de rádio na Renascença e na Emissora Nacional. «Não consigo estar parada. Digo sempre às pessoas para não desistirem dos sonhos, para coabitarem com eles, porque eles às vezes realizam-se e, desde sempre, o meu sonho estava ligado ao teatro», conta. Para ela, esta é uma oportunidade para mostrar que em todas as fases da vida é possível fazer a diferença e servir de exemplo. «É preciso é que a pessoa aceite a idade com sentido de responsabilidade,

conheça os seus limites e as suas capacidades. Algumas pessoas da nossa idade não têm coragem para empreender um projecto e penso que o nosso trabalho pode servir de exemplo para essas pessoas. É importante agarrar a vida em cada momento.» «Força, avó!» Celeste Melo também concorreu ao workshop e foi seleccionada. No momento de concorrer teve dúvidas, mas o apoio da neta e da filha antes e depois, já durante os ensaios, acabou por ser a maior das recompensas. «Tenho uma rectaguarda muito importante, que são os meus filhos e os meus netos. E eles têm sido importantíssimos para mim. Pelo apoio e ao mesmo tempo o sentimento de admiração perante aquilo que, afinal, a mãe ou a avó é capaz de fazer», diz orgulhosa. Trabalhava como arquivista, mas sempre

gostou de artes e letras. Chegou a representar em sociedades e colectividades de teatro amador onde os pais eram directores e é a comunicação com o público e com as pessoas o que a apaixona. É a actriz mais velha do elenco da Companha Maior. Faz 80 anos daqui a alguns meses. «Acho que é uma questão de energia. Eu tenho a idade que tenho e não me sinto com menos energia do que as outras pessoas que estão lá. Acho que é algo que já estava em nós, senão não estávamos aqui.»

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A Companhia Maior em digressão

Porto Teatro Carlos Alberto, 18,19 e 20 de Fevereiro Açores, Ponta Delgada Teatro Micaelense 26 de Fevereiro Guarda Teatro Municipal 29 de Março

Reportagem Companhia Maior  

Mundo Universitário Sénior | Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2011 porto Teatro Carlos alberto, 18,19 e 20 de Fevereiro Açores, ponta Delga...

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