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mu [by day] [17 JUL 2008]

06

viagens

[Lifestyle]

NO REGRESSO DE UMA VIAGEM ATÉ DAKAR EM BICICLETA

BICICLETAS, BICHOS E DESERTO DOIS JOVENS PEGAM NAS BICICLETAS E PARTEM À AVENTURA COM 1000 EUROS NO BOLSO, RUMO A DAKAR. O PROJECTO CHAMA-SE ‘ATÉ ONDE VAIS COM 1000 EUROS’. DEPOIS DE QUATRO MESES EM VIAGEM E 2500 KMS PERCORRIDOS, JORGE VASSALO E CARLOS CARNEIRO REGRESSAM A LISBOA E CONTAM AS AVENTURAS MAIS MARCANTES. ANDREIA ARENGA aarenga@mundouniversitario.pt

A MISSÃO

Jorge Vassalo|Queríamos mostrar que para viver uma grande aventura não é preciso grandes recursos. Com pouca coisa pode-se fazer muito. Com alguma criatividade pode-se ir longe, não só em viagens, mas em qualquer outra coisa na vida.

QUEM SÃO? JORGE VASSALO, 31 ANOS Licenciado em Publicidade, no IADE. Signo: Balança. Fez vários Inter-rails, viajou no Sudeste Asiático e fez uma volta ao Mundo, sozinho, que acabou por ser só meia-volta. E por falar em voltas... tantas deu na sua vida que acabou por se apaixonar pela Índia, onde já foi três vezes e onde não se cansa de voltar. Bombaim é hoje uma espécie de segundo lar, se é que isso existe. Treinou intensamente para esta aventura, há 15 anos, quando fazia passeios de bicicleta da Praia das Maçãs ao Cabo da Roca. CARLOS CARNEIRO, 32 ANOS Licenciado em Comunicação Social, pela Universidade Católica. Signo: Escorpião. Fez vários Inter-rails, viajou no Sudeste Asiático e no Médio Oriente, e atravessou toda a América Latina, durante um ano, com dois amigos. Foi sequestrado na Colômbia – pelos encantos das nativas e pela simpatia do povo em geral – e o que era para ser uma passagem de 15 dias transformou-se numa agradável estadia de quatro meses. Não percebe nada de mudanças de bicicleta.

Carlos Carneiro|Não é preciso ter muito dinheiro para viajar, é preciso é ter imaginação e as viagens mais giras são aquelas que não vais para o resort gastar uma pipa de massa. Para os jovens como nós o mais giro são as viagens de aventura. Entrámos em casa das pessoas, de pastores, de pescadores, de agricultores, até do embaixador de Portugal no Senegal, todo um grupo diferente de pessoas que nós nunca imaginámos. E se fossemos com 2000 ou 3000 euros tínhamos voltado dois meses antes e provavelmente tínhamos conhecido mais hotéis e menos pessoas. EM CIMA DE PENÉLOPE E MIQUELINA

CC|Viajámos com umas bicicletas pasteleiras de uns amigos. Tínhamos três kits: o kit cozinha, kit escritório e kit ferramenta. JV|As bicicletas foram uma opção quase forçada por essa limitação financeira e acabaram por ser um passaporte para todas as experiências que nunca estaríamos à espera. Vais na bicicleta, não tens nenhuma protecção do mundo exterior e também não representas nenhuma agressão. CC|E as pessoas assim não têm medo de te convidar. Se chegares num carrão não sabem do que é que estás à procura. Chegas numa bicicleta, perguntas ‘onde posso montar a tenda?’, e alguém diz logo ‘Não, não vai montar nenhuma tenda, vai dormir na minha casa’. O PERCURSO

JV|Saímos de Lisboa até ao Algarve. Fomos de An-

daluzia até Tarifa e apanhámos o ferry para Marrocos. Fizémos de Tanger até Rabat sempre de bicicleta. Parávamos muito nas aldeias, em sítios menos explorados. Ficámos em Kemytra durante cinco dias. Depois de Rabat fomos de autocarro até Agadir, mas não ficámos. Depois de 600 km de autocarro já estávamos com a ganância toda de fazer quilómetros de bicicleta. Em Agadir começa o território Berbere e então aí ficámos algum tempo. Foi uma experiência espectacular, dos povos todos que contactámos foi do que mais gostámos. De Agadir fomos para Tiznir. Entrámos no Sahara. Os Saharis são os segundos melhores para nós. Aí ficámos um mês. Por fim, fomos até à Mauritânia e ao Senegal. PEDRAS NO SAPATO

CC|Estávamos na Mauritânia, com vontade já de voltar, chegámos à fronteira e disseram-nos que não podíamos fazer o Visto e nós achámos que eles nos íam pedir dinheiro, suborno. Mandaram-nos para a piroga ‘Allez au Senegal à Dakar’. É um obstáculo, ter que fazer não sei quantos quilómetros para trás, já com pouco dinheiro. Mas os obstáculos em viagem são muito relativos, às vezes tens 10 minutos de stress, olhas à volta e estás noutro país, a viajar que é o que gostas de fazer e isso muda logo tudo. O que pode ser grave é uma doença ou um acidente. AS HISTÓRIAS MAIS MARCANTES

JV|Foi em Marrocos. Saímos de lá fascinados, como é que conseguimos estar duas horas a comunicar com uma pessoa que não falava uma palavra de francês, nós não falávamos árabe e estivemos ali a beber chá e à conversa. Mas a perceber o que ele estava a fazer, qual era a situação familiar dele, e ele a perceber também porque é que estávamos ali. Foi muito giro. CC|E nós sempre com medo de tirar fotografias. Há momentos tão espectaculares que às vezes não queres quebrá-los com o flash de uma máquina de fotografar. Até que no final lá ganhei coragem e lhe perguntei se dava para tirarmos uma e ele ficou todo contente, começou logo a arranjar-se. Foi buscar o

burro, montou-nos no burro e tirámos todos fotos. Chegámos às bicicletas e o Jorge estava cheio de carraças! (risos). JV|Nessa noite acampámos na praia e o fim de tarde foi passado a descobrir carraças e a retirá-las (risos) O FIM DA VIAGEM

JV|A nossa chegada a Dakar acaba por ser marcada por algumas coincidências que fizeram com que fechássemos a viagem com chave de ouro. Acabámos por ficar na casa do embaixador de Portugal na recepção do Dia de Portugal, sem nos conhecerem. Chegámos lá todos porcos (risos). Depois de quatro meses a acampar e a ficar nas condições mais malucas, de repente ficámos ali 5 dias com todas as mordomias a recuperar. Há o final das bicicletas que nos acompanharam o caminho todo e que acabam por ir parar a uma escola de futebol do Luís Norton de Matos, por isso acabaram por ter um fim também português e muito giro. De regresso, já sem as bicicletas, viemos de autocarro e à boleia de camiões. Nos últimos 100 km fomos apanhados pela RTP. CC|De repente acordei em Lisboa, já passados 5 dias do regresso tens mil e um pensamentos que te tiram as energias. Hoje acordei...tenho tanta coisa para fazer (risos). Quando chegas, a cabeça é tipo um jogo de memórias, à medida que o tempo vai passando começas a seleccionar, há aquelas que dão mais para rir, outras que é mais do tipo ‘que stress!’. O QUE SE TRAZ NA BAGAGEM CC|Areia do Sahara num saco de plástico, umas pedras de umas praias (risos). São as amizades. Simplesmente páras e conheces pessoas dos 18 aos 60. JV|Conheces pessoas de todos os estratos sociais e religiões. Quando uma pessoa vai assim aberta, o mundo vem ter contigo. A bagagem que se traz é muito grande. O que se traz de experiências de vida, soluções que encontras para os problemas mais variados, é riquíssimo.


Reportagem ate onde vais com 1000 euros