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DIFERENTE Andrei Santos


PARTE UM: AQUELES QUE CONTAM UMA HISTÓRIA


MIGUEL Pense na pior coisa que você já viveu. Pensou? Agora multiplique isso por dez. É isso que é ver sua mãe, a pessoa que você mais ama na vida, definhando aos poucos em uma cama de hospital. Durante longos três meses alternava minha vida entre a universidade e o Mãe de Deus. Levou apenas duas semanas para que a faculdade acabasse sofrendo as consequências da minha total atenção a saúde da minha mãe. Perdi a bolsa e, como não tinha como pagar a mensalidade, dei adeus ao curso de Publicidade e Propaganda da PUC e olá a minha vida dedicada a estar 24h dentro de um hospital. Minha avó veio para ficar conosco, e odiava a ideia de me ver dedicando 100% da minha vida a doença da minha mãe. - Você precisa viver Miguel. Ela vai ficar bem. Dizia. Apesar de saber o quanto disso era verdade e o quanto ela estava certa quando me lembrava que eu precisava ter minha própria vida, mas era fato que eu não conseguia pensar em absolutamente nada além da minha mãe. Deveria ter feito um pedido de recurso para a minha bolsa duas semanas depois de perdê-la. Perdi o prazo e minhas últimas chances. Meus amigos, simplesmente, desistiram de mim. Os pedidos para dar uma volta, sair para espairecer ou ao menos caminhar na Redenção para esfriar a cabeça passaram de diários a quase nulos em pouco tempo, já que eu não iria deixar minha mãe de lado nem por um instante. Eu estava definhando junto com ela e pior não conseguia ver o mal que estava fazendo a nós dois. Nas raras vezes em que ia para casa ficava sozinho na internet pensando na minha vida sem ela. Uma ou duas vezes, nesses três meses, devo ter telefonado para o meu pai. Obviamente ele não me atendeu em nenhuma delas. Nossa relação continuava a mesma, ou seja, inexistente. Meu pai saiu de casa um mês depois que eu assumi minha homossexualidade. Lembro das brigas entre ele e minha mãe. Lembro de quando ele disse que se não me expulsasse de casa ele sairia e lembro-me do olhar de desprezo que ele me lançou quando olhou para cima e me viu na sacada do prédio quando estava entrando no táxi. A última lembrança dele. Desde então, nunca mais o vi. Era esse o motivo por eu estar tão dedicado a minha mãe. Ela havia deixado seu casamento se destruir pelo filho. Preferiu me manter dentro de casa a ter o marido por perto. Ela lutou por mim, seria uma grande demonstração de ingratidão e mau caratismo não fazer o mesmo por ela. Na tarde em que recebi a ligação que jamais queria ter recebido lembro cada passo que dei. Incrível como sempre sabemos onde estávamos quando algo grande acontece. Minha avó estava no telefone. Tentava disfarçar o choro para parecer forte, não estava funcionando. - Miguel. Eu preciso que você venha para cá assim que puder. Ela disse e acabou soltando um soluço involuntário. - O que aconteceu vovó? Perguntei, temendo a resposta. - Sua mãe... Ela... Bom, venha para cá. Minha avó não conseguiu segurar o choro. Desligou


o telefone sem maiores explicações. Saí do apartamento correndo. Tentei pegar o elevador que, como sempre, não funcionava. Desci as escadas dois degraus de cada vez. Corri, corri o mais rápido que pude. Peguei o primeiro táxi que consegui encontrar. Quando cheguei à recepção do Mãe de Deus a recepcionista Helena me olhou com o olhar mais triste que alguém podia lançar a alguém. Naquele momento soube que tudo estava acabado. Subi as escadas até o quarto 302, minha vó estava sentada na cadeira ao lado da cama. Minha mãe já havia sido levada. Cheguei tarde demais. Vovó segurava a pulseira que dei de Dia das Mães com um pingente de coração com flecha. Clichê, mas provavelmente o presente mais importante que já havia recebido, segundo ela mesma dizia. Minhas pernas tremeram e não conseguiram segurar o peso do meu corpo. Consegui me encostar na parede e deslizar até o chão. As lágrimas vinham involuntariamente e sem controle. Puxei as pernas para junto do corpo, abracei-as e coloquei a cabeça entre elas. Chorei. Muito mais do que precisava, mas não era somente o choro por três meses de uma luta que, há muito, estava perdida. Era o choro de tudo que ela havia feito por mim naquela vida. Era o choro de tristeza por perder a parte mais importante da minha vida. Era o choro de raiva por meu pai tê-la deixado, raiva dele por isso, raiva de mim por ser o motivo. Raiva do mundo. As lágrimas continuavam a descer. Vovó se ajoelhou ao meu lado e me abraçou. E juntos choramos por mais alguns minutos que mais pareceram horas. O médico chegou logo depois. Doutor Rafael dizia que tudo que podia ser feito havia sido feito. Que minha mãe fora uma mulher guerreira. Dizia que se a doença não estivesse no estágio que estava poderia ter dado mais chances a ela. Dizia que o câncer de pulmão era devastador quando não descoberto no início. Ele falava e eu simplesmente tentava parar de chorar, sem sucesso. - Eu não me despedi. Não pude dar adeus a ela. Eu dizia, mais para mim mesmo do que para os demais. - Ela te amava, ela sabia que não tinha como... Tentou dizer minha vó, mas foi interrompida por outra onda de lágrimas. Quando me recuperei e me recompus, respirei fundo, sequei as lágrimas do meu rosto inchado. O médico estava de olho em mim, com medo de que algo pudesse acontecer. Levantei-me devagar, respirando com dificuldade. Minha avó me olhava preocupada, assim como os enfermeiros e doutor Rafael. - Posso... Posso vê-la? Disse, ainda com a voz embargada. Todos pareceram voltar de um transe. Um transe pesado e triste, além de muito, muito assustador. Minha avó deixou escapar um suspiro que deduzi ser de alívio. O médico me olhava ainda intrigado e visivelmente assustado com a possibilidade de uma síncope. - Claro... Pode sim... A... Humm... Enfermeira vai levá-lo até sua mãe. Disse ele por fim. Apenas dois andares separavam o quarto 302 do último lugar que minha mãe estaria antes de deixar de existir, pelo menos, materialmente. O necrotério era como qualquer outro, não que eu houvesse visitado muitos. Frio, sombrio. Ela havia acabado de chegar para a autópsia. Estava com o lençol branco sobre o corpo. Cheguei perto e a enfermeira me deixou sozinho na sala. Tirei o lençol devagar e vi o rosto dela. Sereno, como se estivesse dormindo. Apesar do rosto visivelmente devastado pela doença algo nela me acalmava. Algo nela me fazia pensar que ela estava bem, onde estivesse. - Dorme mãe. Dorme. Disse olhando com carinho para ela.


Inclinei-me e beijei sua testa. Um gesto que fazia periodicamente desde que ela havia dado entrada no hospital. Sabia que aquele seria o adeus definitivo. Não sabia o que aconteceria daqui para frente. Meu pai me odiava, minha mãe se fora. Minha faculdade acabou, os meus amigos foram embora e eu, bem, agora estava mais perdido do que nunca. Quando sai da sala vovó estava do lado de fora me esperando. Ela me olhava com ternura e, por um único instante, percebi que tudo poderia ficar bem. - Você não está sozinho. Nunca esteve não vai ser agora que... Ela não precisou terminar a frase. Abracei-a o mais forte que pude com medo de soltar. Eu era, pelo menos, uns 20 centímetros mais alto, mas isso não importava. Eu me sentia seguro nos braços dela. Sentia que, realmente, não estava sozinho e que nada mudaria. Os dias que se seguiram foram nebulosos. Vovó precisou voltar para casa na doce e pequena Áurea. Uma cidade do norte do estado com pouco mais de três mil habitantes. Local para onde eu iria, agora que não tinha mais como ficar em Porto Alegre. Fiquei sozinho pela primeira vez desde a morte da minha mãe. Precisava arrumar as coisas para vender o apartamento e poder ir embora. Era difícil. Eram tantas lembranças. Tantos cantos que me faziam lembrar tudo que era bom enquanto ela estava por perto. Lembranças do velório, da cremação. Um desejo dela, que queria ter suas cinzas jogadas ao vento. “Nunca fiquei presa na vida, não quero ficar depois da morte”, ela dizia. Os vizinhos me viam e me davam os pêsames. Poucos se arriscavam a trocar mais do que duas palavras comigo, talvez por medo de dizer alguma besteira. Preferia assim. Isso evitava, realmente, alguma palavra que não devia ser dita. Eram poucas as pessoas que me viam fora do apartamento. Sem estudar, sem trabalho, sem amigos e prestes a me mudar, passava os dias na internet. Ninguém conversava comigo diretamente, algumas mensagens de pêsames e um ou dois “Tudo vai ficar bem” era o que havia na minha timeline do Facebook. Os dois últimos dias foram, sem sombra de dúvida, os piores. Eu embarcaria para a casa da minha avó no sábado. Na manhã de quinta-feira acordei com a campainha tocando. Levantei ainda atordoado pelos comprimidos que havia tomado na noite anterior, calcei os chinelos e fui atender a porta. Quase cai para trás. Meu pai estava parado no lado de fora do apartamento. Seu olhar de compaixão me dizia que aquele não seria o nosso melhor diálogo. - O que... O que você está fazendo está fazendo aqui? Perguntei, da forma mais ríspida que pude encontrar. Cinco anos haviam se passado desde que eu havia, finalmente, “saído do armário” e tudo o que havia recebido do meu pai havia sido rejeição, desprezo e um cheque periódico da pensão que, nos últimos tempos, era inteiramente gasto com os remédios da minha mãe. Nenhuma visita, nem aos meus telefonemas ele atendia. Algo me dizia que o restante da conversa não seria tão melhor do que foi o começo. - Vim ver como você está. Disse ele como se aquela visita fosse algo natural. - Incrível. Lembrou que tem filho? Ou o que? - Não fale dessa maneira comigo Miguel. Ainda sou seu pai. - Pai? – Falei quase gritando – Eu realmente gostaria de saber onde estava meu pai nesses últimos meses em que eu vi, sozinho, a minha mãe morrer no quarto de um hospital. Se você o encontrar por aí, por favor, mande ele se foder. Ele me olhava, ainda do lado de fora, visivelmente perturbado com tudo. - Eu... Eu não queria... Começou a falar, mas logo o interrompi.


- Por favor, me poupe das suas desculpas. Quando eu precisei de um apoio. Quando eu precisei de um pai. Ele não estava lá. E quer saber por quê? - Disse. As lágrimas nascendo novamente nos meus olhos. – Por que ele não agüentou ter um filho gay. Que não fez nada. Nada. Além de tentar ser o melhor possível para o seu pai. Esse foi o motivo. Ele baixou a cabeça. Senti o quanto queria ter dito aquelas palavras. O quanto estavam entaladas na minha garganta há muito tempo. Soltei a porta e fui me sentar no sofá. Estava cansado, devastado e não queria ter aquela conversa com ele naquele momento. Meu pai levantou a cabeça, me olhou e entrou no apartamento. Sentou-se do meu lado e ficou me observando. - Eu... – Começou ele – Sei que não fui a melhor pessoa do mundo. Sei o que te fiz sofrer. Mas, você precisa entender o meu lado nessa história. O que meus amigos iriam dizer? Nossos parentes. Não era por mim. Era para te proteger. Olhei para ele surpreso com o que ouvia. Juntei o máximo de paciência que consegui. O que, naquele momento, não era muita. - Proteger? Você saiu de casa. Deixou a minha mãe. Não a visitou nenhuma vez no hospital e não atendeu nenhuma das minhas ligações, para me proteger? Sinceramente, você tem uma visão distorcida do que é proteger alguém. - Meu pai abriu a boca para falar alguma coisa, mas tornou a fechá-la. Continuei – Você não tentou me proteger. Você tentou se proteger. Ele ouvia atento. Parecia, realmente, pensar em tudo o que eu dizia. Pela primeira vez, em cinco anos, meu pai e eu estávamos na mesma sala tendo a conversa que evitamos durante todo esse tempo: o que sou e como isso afetou a nossa relação de tal maneira que, em pouco tempo, não olhávamos um para outro. Até aquele momento. Eu queria que ele me enfrentasse. Estava realmente exausto. Realmente triste e, acima de tudo, realmente destruído com tudo o que aconteceu. Meus últimos dias na minha cidade e nenhum dos meus amigos havia me visitado. A única pessoa que tinha ido até meu apartamento, além do síndico que só apareceu para me dar os pêsames e passar as instruções para deixar o apartamento, havia sido meu pai. A última pessoa que eu queria ver. - Escuta. Eu sei o quanto deve ser difícil ter um filho gay. Todo mundo parece estar pensando o quanto você foi incompetente na criação dele. – Falei, dessa vez com real compaixão na voz. Meu pai levantou a cabeça e pude ver os seus olhos verdes, agora vermelhos em função do choro – Mas, não significa que você pode deixar tudo por isso. Pai. Eu amo o senhor. Mas... Eu, provavelmente, nunca vou te perdoar por não ter dado a mínima importância para a minha mãe. O que você fez para mim, eu relevo, mas para ela. Ele assentiu. Senti que o assunto estava encerrado Levantei-me do sofá e fui para a cozinha. Meu pai também se levantou, enxugou as lágrimas que ainda tinha no rosto. Eu fazia o café, por algum motivo, mesmo sabendo que ele não ficaria, preparava o suficiente para duas canecas. Na realidade, notei que era o que fazia sempre quando minha mãe estava viva. Meu pai começou a caminhar em direção a porta. Quando me virei ele estava de costas, parado na saída. Fiquei olhando a cena que sabia como terminava. Ele ia embora novamente, eu iria me mudar e, definitivamente, não teria pai e, agora, não teria mais uma mãe. Estava sozinho de vez. - Eu quero só que você lembre-se de uma coisa. – Disse ele sem se virar. – Eu amo sua mãe e amo você. Tudo o que fiz foi por medo. Tenho muitos defeitos e um deles é a covardia. Desculpe-me. Por tudo. Se... Algum dia, você quiser ter um pai novamente. Eu vou estar esperando. Não respondi. Ele virou-se para me olhar uma última vez e sorriu. Não sorri de volta, mas meus olhos sim. Talvez aquele fosse o início de um novo patamar do relacionamento com meu pai. Talvez, só talvez, seria o começo de uma reaproximação e a minha ideia de estar sozinho não era de toda real.


Meu pai saiu. A porta se fechou. O silêncio tomou conta do ambiente e eu sabia que agora as coisas começavam a se encaixar novamente. Não sabia o que me esperava na cidade da minha avó. Só sabia de uma coisa. Não ficaria muito tempo lá. Desde os meus 13 anos, meus pais, quando ainda estavam juntos, depositavam uma determinada quantia no banco. Às vezes 100 reais, outras menos, outras mais. Era um investimento. Dinheiro suficiente para que eu pudesse fazer um mochilão mundo afora. A única condição era esperar até os 21 anos para retirar o dinheiro, fazer o câmbio e então viajar. Quando minha mãe ficou doente pensei em usar o dinheiro para pagar as despesas. É claro que não fiz, por que somente meus pais sabiam a senha. Minha mãe não queria me dizer, pois achava um absurdo usar todo o dinheiro que economizamos com ela. Meu pai, obviamente, nem atendia as minhas ligações, o que tornava difícil conseguir qualquer informação. Aparentemente isso veio bem a calhar. Oficialmente, na última vez que verificamos a conta já estava com mais de 20 mil reais. Frutos de juros da poupança, depósitos periódicos meus, deles, das tias e avós e de quase sete anos disso tudo. Daria para começar bem a viagem. O restante viria depois, com a venda do apartamento. Eu sabia que era questão de tempo. Eu ficaria na casa da minha avó até o meu aniversário na metade de dezembro. Logo depois iria sacar todo o dinheiro e embarcaria. Sem rumo, sem destino, sem ninguém. Definitivamente sozinho. Passaria o Natal em Paris e o Ano Novo em Londres. Ideias que matutava todos os dias. Não sentiria falta de ninguém, por que não havia de quem sentir falta. Estava sozinho. De vez. Depois do episódio com o meu pai esperava que as coisas acalmassem um pouco. Comecei a guardar os últimos objetos que ainda faltavam serem encaixotados. Alguns porta-retratos velhos de quando éramos uma família. As minhas antigas peças da faculdade de publicidade. Alguns presentes antigos de aniversários passados em família. Minha vida toda cabia agora em uma mala e uma mochila. A minha vida. A vida daquilo que, um dia, chamei de família não cabia em lugar nenhum. As lembranças do meu pai foram embora junto com ele. As da minha mãe estavam guardadas, em sua grande maioria, na casa da minha avó. O que pode ser doado foi enviado para a caridade, o restante,poucos objetos pessoais, estavam, agora, nas minhas mãos. Eu estava definitivamente pronto para ir embora. Tudo estava no devido lugar. O comprador do apartamento pegaria as chaves com o porteiro na segunda-feira. O que seria mais 100 mil reais na minha conta. Depois de tudo o que havia acontecido nem vi o tempo passar. Quando terminei tudo olhei para o relógio e vi que já passava das 22h. Eu estava cansado e nem notara. Mais um remédio para dormir e fui para a cama. Obviamente não dormi de imediato. Ali, deitado. As únicas coisas que vinham a minha mente eram a lembrança da minha mãe e seus últimos momentos antes de ir para hospital. Ela estava bem. Disposta, trabalhava bastante. Mas, cerca de duas semanas antes de dar entrada no hospital, começaram as complicações. Ela passou a respirar com dificuldade. Ficava cansada rapidamente. Iniciaram as tosses e todos os outros sintomas de um câncer. Aconteceu tudo tão rápido. Quando nos demos conta já estávamos no hospital. Mexia-me na cama sem conseguir dormir. O remédio não estava fazendo efeito. Minha mente estava muito ligada para conseguir adormecer. A conversa com meu pai ainda me causava enxaqueca. Eu estava desgastado com tudo que estava acontecendo. Fechei os olhos e forcei o sono a chegar. Ele veio. Mas não por muito tempo. Novamente fui acordado antes do que gostaria. A droga da campainha tocava insistentemente. Alguém estava lá fora pronto para deixar a vida na Terra por que, com certeza, eu mataria.


Levantei da maneira que estava. Sem camisa e de cueca box. Calcei o chinelo e segui para a sala. A campainha não havia parado de tocar desde o primeiro toque até o momento em que abri a porta e tive uma surpresa. Parada do lado de fora estava Melissa. A minha ex (e única) namorada. Havíamos ficado juntos quando eu devia ter uns 15 anos. Éramos melhores amigos desde sempre e, por algum motivo idiota, decidimos namorar. A pior de todas as merdas que alguém pode fazer é namorar uma amiga. Não dá certo. Ficamos uns seis meses juntos e, quando me assumi, ela me deu um tapa na cara e mandou um “seu grande merda” em alto e bom tom. Desde então não nos falávamos. Ela, sem dúvida, era a última pessoa que eu imaginava ver antes da mudança. - Vai ficar aí parado? Não vai me convidar para entrar? Disse por fim, quebrando o gelo. Voltei do meu transe e abri o restante da porta. Melissa entrou. Era óbvio que o tempo havia trabalhado muito bem para nós dois. O garoto magricela e cheio de espinhas e cravos havia dado lugar a um jovem de 20 anos que fazia academia desde os 16 e que havia deixado a pele lisa. Ela, assim como eu, havia desabrochado. A menina magra, sem sal e com cabelos estranhos agora era uma mulher. Com um corpo muito bem esculpido, cabelos lisos que caiam, elegantemente, nos ombros emoldurando seu rosto. - Sinto muito pela sua mãe. Ela era uma mulher incrível. Falou. - Era a melhor. – Confirmei ainda desconfortável. – Melissa. O que você está fazendo aqui? Ela me olhou com uma expressão de incredulidade no olhar, como se não tivéssemos passado os últimos cinco anos nos evitando sempre que possível. Ela sentou-se no sofá, cruzou as pernas e falou, nitidamente, perturbada com a situação. - Eu estou aqui prestando solidariedade a um amigo. Somos amigos não somos? Perguntou. - Me diz você. Passou os últimos cinco anos sem me olhar na cara. – Respondi. Não estava muito certo se devia usar aquele tom, mas ainda estava no clima da discussão com meu pai. - Eu estava processando tudo. Afinal, eu namorei um gay. Lembra. Eu deveria me sentir ofendida. - Ofendida com o que guria? Eu te pedi um fio terra por acaso? Melissa, eu sinceramente imaginava que tu não podia ser mais sem noção. Pelo visto, te subestimei. Disse rispidamente. A garota parecia prestes a explodir. - Eu vim aqui com a melhor das intenções e você me faz uma dessas. Miguel. Nossa... - Terminou? Por que eu já. Eu sou gay e continuarei sendo gay. Você namorou um gay e ponto. Por que não supera isso? Melissa levantou rápido do sofá. Ela me olhou com um olhar que era mais um misto de raiva com compaixão. Dois sentimentos particularmente ruins, juntos então, eram como se ela tivesse me dado um tiro no coração. E foi assim que as chances de ter minha amiga de volta foram por água abaixo. O que mais a vida me reservava? O que eu poderia ter nos próximos? Em três meses perdi a faculdade, os amigos, minha mãe e precisava deixar a minha casa. O que eu estava tendo de provar? Qual era a razão disso tudo? Perguntas e mais perguntas. Talvez eu nunca iria ter a resposta e, acredite, indo para uma cidade como Áurea, tinha certeza de que não seria o local para encontrar. Mas, não havia mais o que fazer. No dia seguinte iria entrar em um ônibus para uma viagem de mais de cinco horas para uma cidade desconhecida. Pequena, longe de tudo. O último lugar na Terra para onde eu iria e, pelo jeito, o lugar que iria me acolher pelos próximos seis meses, até que eu completasse 21 anos e pudesse, de fato, voltar para a civilização. Não sabia mais o que fazer. Tudo estava pronto. As lembranças já estavam nas caixas de mu-


dança. As doações também estavam em caixas e seriam levadas no dia seguinte no caminho para a rodoviária. No fundo sentia um certo aperto de deixar minha vida para trás, mas, no fim, não havia de fato uma vida. Tudo o que tinha havia sido perdido nos últimos tempos e agora deveria recomeçar. Voltei a dormir. Não precisei de um comprimido dessa vez. Acho que o cansaço do último ano inteiro me atingiu em cheio. Quando me encostei à cama não era nem mesmo 11h. Fechei meus olhos e não precisei de muito mais do que isso para dormir. Sonhei, pela primeira vez em meses, sonhei com coisas boas. Minha mãe viva. Ao meu lado e sorrindo. Meus amigos e eu na última festa que havíamos ido antes de tudo acontecer. O quanto estávamos felizes em estar juntos. Tudo passava rápido como flashes. A mesma sensação, acredito eu, de quem está a beira da morte. Flashes passando rapidamente na cabeça de tudo o que fez em sua vida. Dormi muito bem naquela noite. Parecia que estava sendo preparado, talvez não estivesse de todo errado. Talvez. Quando acordei já passava das 8h de sábado. Levantei revigorado. Sabia que o peso ainda estava lá, mas não me incomodava tanto quanto nos últimos meses. Desci e fui até a padaria do outro lado da rua. Comprei queijo, presunto, pão, leite e outras coisas que queria comer a muito tempo. Os vizinhos me olhavam como se outra pessoa possuía meu corpo. A síndica me observava da cabeça aos pés. Olhei bem para ela quando passei e dei um grande “oi”, seguido de um sorriso. Quando voltei para casa preparei um bom café da manhã. Sentei e comi. Em nenhum momento os problemas apareceram na minha cabeça. Em nenhum momento lembrei que minha mãe estava morta havia apenas um mês. Não lembrei do meu pai fora de casa. Não lembrei nada. Terminei de comer e comecei a malhar. Algo que já não fazia há um bom tempo. Séries de flexões e abdominais. Uma coisa que se aprende quando se está no mundo gay é: você nunca está bem o suficiente e, convenhamos, três meses sem exercícios podem acabar com uma pessoa. Terminei de treinar. Tomei uma ducha demorada. Lavei a alma e tentei, o máximo que pude, lavar também os meus problemas. Saí do banho. Decidi que iria usar a minha roupa preferida, por sinal a única que não havia ido para a mala ainda. Camisa xadrez azul, calça jeans skinny, tênis Vans e meu Ray-Ban, presente da minha mãe no meu aniversário de 18 anos. Caro, mas funcional. Arrumei o restante das coisas que eu precisava. O ônibus sairia às 13h e já passava das 12h. Do meu prédio até a rodoviária seriam apenas umas duas quadras, mas eu precisava fazer uma coisa antes. Chamei um táxi que me levou pela Avenida Farrapos acima. Entramos na Barros Cassal e pude ver a Universidade Federal do Rio Grande do Sul à esquerda quando pegamos a Osvaldo Aranha. Pedi para o taxista parar e esperar alguns minutos. Deixei minha mala e a mochila no carro que estacionou alguns metros depois de onde havíamos parado. Comecei a andar em direção ao Parque da Redenção. Passei pelo Auditório Araújo Viana andei mais alguns metros e parei diante de um dos locais mais lindos da capital. O espelho d’água do Parque Farroupilha. Andei um pouco. Para aquele horário até que o parque estava bem cheio. Pessoas caminhavam com seus cachorros ou corriam sozinhas. Casais andando de mãos dadas e pais brincando com seus filhos. Sentei-me em um dos bancos próximos e observei por alguns minutos o movimento. Simplicidade. Era o que passava na minha cabeça. E, por um instante, a imagem da minha mãe veio a minha cabeça. Ela sorria. Olhava-me. E eu senti que tudo estava bem.


Estava pronto para ir. Havia me despedido do meu lugar favorito no mundo e podia deixar tudo para começar a minha vida dos próximos seis meses. Um semestre em uma cidade pequena antes de deixar tudo para trás e conhecer o que o mundo tem a oferecer a um garoto sem mãe, praticamente, sem pai, sem amigos, ou seja, sem ninguém a quem voltar. Definitivamente, estava pronto. Saí andando parque adentro para encontrar o táxi que iria me levar para a rodoviária. Para uma novidade no meu mundo. Não sentia medo, não sentia ansiedade. Não sentia nada. Somente, leveza. O que quer que viesse dali para a frente não podia ser tão ruim quanto foram os últimos meses. Como eu estava enganado.


Miranda Aquele ronco alto me acordou. Droga, outra vez não dormi em casa, e vou ter que enfrentar o interrogatório do meu pai quando chegar. Me mexi na cama e percebi quem estava do meu lado. O quão bêbada eu havia ficado na noite anterior para terminar meu domingo na cama desse cara? Tentei fazer o mínimo de barulho possível. Não era a primeira vez que eu acordava na cama de alguém sem fazer ideia de onde estava. Tomara que ainda estivesse na minha cidade, por que chegar naquela rodoviária com os cabelos desgrenhados, cara de ontem e às 9h da manhã, não seria bom para a minha reputação que, convenhamos, não era das melhores. Consegui alcançar minha saia que jazia em cima de uma cadeira. Vesti-a rapidamente, mas cautelosa com os ruídos do jeans roçando nas minhas pernas. Peguei minha blusa e fui vestindo enquanto andava em direção a porta do quarto. Estava quase conseguindo sair sem ser vista quando escutei aquela voz. - Noite legal, não é? Disse ele sentado na cama, já com um cigarro na boca. Droga. Pior do que terminar o domingo na cama de um desconhecido é terminar o domingo na cama do ex-namorado. Seriam aqueles olhos verdes ou o corpo extremamente bem esculpido que me deixavam desarmada e me faziam parar ali toda a vez? Talvez eu nunca soubesse a resposta. Mas, uma coisa eu sabia, não estava em Áurea. Meu ex, Diego, morava em Erechim, alguns quilômetros próximo da minha pequena e pacata cidade. Merda. Já era 8h15min. O ônibus, se bem lembro, saía às 8h30min. - Talvez fosse mais legal se você me levasse até a rodoviária. Falei, na tentativa de descolar uma carona para não atrasar ainda mais a minha morte. - Posso fazer isso. Disse ele. Apesar de eu saber o que isso me custaria em futuro não muito distante. Ele se vestiu rápido. Tudo que fiz foi ficar sentada na cama vendo aquele corpo maravilhoso sendo coberto. Ok, Miranda. Chega. Pegamos o carro e seguimos para a rodoviária que, ainda bem, ficava a umas duas quadras do apartamento, trajeto que não faria em 15 minutos a pé. Ele parou o Fox preto no momento em que o ônibus chegava. - Foi ótimo, como sempre. Disse ele sorrindo. - Como sempre. Infelizmente ainda não mudei essa frase para “como era antigamente”. Falei e saí do carro. Estava irritada comigo mesma. Sabia que devia estar bêbada e ele, não tão bêbado, para acabar tendo uma noite de sexo com o cara que terminou comigo achando que tinha razão depois de ter me colocado um belo par de chifres. Me irritei o suficiente para entrar sem cumprimentar o motorista do ônibus que, não era a primeira vez, me levaria para casa. Sentei em um banco no fundo, coloquei meus fones de ouvido e liguei Christina Aguilera. Ela seria minha companhia pelos próximos 20 quilômetros até chegar em casa e ser assassinada pelo meu pai que, como sempre, estará me esperando para jogar todo o sermão de velho moralista em cima de mim. Mal posso esperar.


Quando cheguei à rodoviária de Áurea vi que minha segunda-feira havia começado maravilhosamente bem. A velha senhora Alda, dona da lanchonete estava, assim como todos os dias, sentada em frente ao seu estabelecimento. Maravilha, mais uma fofoqueira para comentar a minha vida com as outras fofoqueiras que moravam naquela merda de cidade. - Bom dia Miranda. Chegando cedo, né? Falou com um sorrisinho irônico nos lábios. Respirei fundo. O mais fundo que pude. Minha vontade era de falar umas verdades para aquela velha, mas sabia as consequências que isso me traria. Olhei para ela com um sorriso nos lábios, irônico, claro, mas ainda sim um sorriso. - O dia está ótimo dona Alda. Sim, estou chegando cedo hoje, a minha noite de sexo não foi assim tão divertida. Respondi. Me arrependeria amargamente depois, mas, agora, estava realizada ao ver a expressão de horror que apareceu nos olhos dela. Sorri da forma mais meiga e inocente que pude. Coloquei minha bolsa no ombro e comecei a andar rápido para sair logo daquele lugar. Esbarrei em um garoto com uma mala e uma mochila. Não era dali, nunca havia visto antes. - Ahh meu Deus, desculpa por isso. Falei, abaixando para ajudá-lo a recolher as coisas. Levantei o rosto de leve para analisar melhor o que estava na minha frente. Barbinha rala, com um corpo escultural e olhos escuros. Sorria sem graça com a situação. PIPIPIPI. Meu alarme nunca falhava, era gay. Definitivamente não era daquela cidade. Afinal, os muitos gays que haviam ali não saiam do armário nem fossem puxados para fora. Aquele, obviamente, viase que era assumido, pois andava muito na moda. - Sem problemas. Eu que estava distraído. Falou ainda sorrindo. Olhei a expressão dele. Era de profunda desorientação e nitidamente não sabia para onde estava indo. - Você não é daqui, né? Sou Miranda. Precisa de alguma ajuda. Falei. - Sou Miguel. Não, acabei de chegar de Porto Alegre, vim morar com a minha avó. Falou. - Legal. E ela vai vir te buscar, ou... - Não. Eu não disse para ela que chegava hoje. Estava pensando em encontrar de alguma maneira. - Se quiser companhia. Ela mora onde? - Na rua 13. Sabe onde é? - Sei sim. Vamos, te levo até lá. Saímos juntos da rodoviária e posso jurar que a velha Alda ainda mantinha aquela expressão horrorizada na cara. Bom, apesar das consequências aquilo ainda me dava um pouco de prazer por tê-la proporcionado seus próximo pesadelos. Miguel e eu seguimos pelas ruas de calçamento precário da cidade conversando. Aos poucos pude notar a expressão das pessoas que passavam, o garoto era a novidade no momento e, se meu instinto estava certo e ele era mesmo assumido, logo a novidade seria ainda maior e o falatório também. E, infelizmente, o preconceito ainda mais. Fomos andando e conversando. Toda mulher devia ter um amigo gay. Sim, estou me colocando no status de amiga, por que, nessa cidade não há ninguém que eu queira tirar para amigo. - Então quer dizer que tu é assumido desde os 15 anos? Matei a charada. - Sim. Achou cedo? Falou. - Considerando que os gays daqui ainda não se assumiram e lembrando que há pais de família de mais de 40 anos saindo com menininhos por aí. Sim, é muito cedo. Falei e ele sorriu. O primeiro sorriso sem estar sem graça. - Realmente. Na capital isso é muito comum. Mas. Fazer o que? Não podemos arrancar as portas do armário, podemos?


- Não. Disse em meio a sorrisos, também sinceros – Ainda mais aqui. Você vai notar logo o que eu quero dizer. Ele me olhou com uma expressão questionadora e logo percebi que deveria deixar o garoto curtir os poucos momentos de sossego que ele teria nessa cidade. Paramos na rua 12, a minha rua, depois que Miguel me falou que sua avó era a senhora Madalena, uma das poucas idosas coerentes e sem preconceitos da cidade, deduzi que ele deveria ser gente boa. - Agora você pega aquela rua ali e segue até a ponte. Depois da ponte é a quarta casa à direita. Uma amarela. Expliquei. Miguel me olhou agradecido. Havia feito uma boa ação e, por algum motivo, tinha a sensação de que fazer o bem me traria alguma coisa boa em um futuro próximo. Talvez Miguel fosse mais do que os olhos podiam ver e, em uma cidade como Áurea, uma pessoa assim como ele não era tão frequente. Fiquei mais alguns minutos parada observando enquanto o garoto novo seguia seu caminho. Miguel virou-se mais uma vez e acenou para mim. Acenei de volta com um sorriso sereno. Talvez a cidade deixasse de ser tão, fria, como sempre fora. Minha serenidade durou apenas alguns minutos até ouvir minha mãe me puxando para um lado como se estivesse fugindo de alguma coisa. Eu sabia bem o que era aquela reação, meu pai estava para chegar e se desconfiasse que eu passei a noite fora, estava mais do que ferrada. - Miranda. Corre para casa. Entra pela janela do quarto e dá teu jeito, teu pai está chegando e não vai ser nada bom ele te ver nesse estado aqui. Disse ela. Minha mãe sempre foi muito mais coerente que todo mundo naquela cidade. Dei-lhe um beijo e corri o mais rápido que pude. Entrei pelos fundos da casa e consegui ver o carro do meu pai apontando na estrada. Cheguei à janela do meu quarto, pulei e entrei. Corri tirando a roupa e pulei para pegar um pijama no guarda-roupa. Consegui pegar o primeiro que vi, uma camisa velha de corações que eu já não usava há um bom tempo. Vesti e me joguei na cama bem em tempo de conseguir fazer parecer que nunca havia saído dali enquanto meu pai abria a porta. Fechei os olhos. Era boa em encenar essa situação, já havia feito várias vezes. Fingi que a luz me incomodava e que estava acordando. - Bom dia papai. Disse com uma voz que misturava sono e uma total sem vergonhice mentirosa. - Bom dia Miranda. Dormiu bem essa noite? Disse ele. Seu tom parecia de alguém que esperava que a filha estivesse mentindo. – Sabe de onde estou vindo? - Do trabalho? Respondi o mais inocentemente que pude. - Não. Do centro da cidade. Mais precisamente do posto de gasolina que fica em frente à rodoviária. Conhece? Estava ferrada. Ele não estaria falando daquela maneira se não tivesse me visto ou pior, se não tivesse sido informado de cada um dos meus passos. Era óbvio que ele já havia entendido todas as minhas artimanhas para conseguir escapar de castigos óbvios e deixar, uma vez na vida, de me ferrar sempre que faço alguma besteira. - Onde você estava? Começou ele calmamente. - Em Erechim. Falei, como se fala quando está prestes a ser morta. O rosto dele ficou sombrio. Era mais do que óbvio que sabia exatamente onde em Erechim eu estive. Meu pai detestava meu ex-namorado e, meus repetecos constantes, não o agradavam em absolutamente nada. - Você foi ver aquele garoto de novo, não é? Falou ele em um tom mais alto do que eu gostaria que ele estivesse falando. - Pai. Eu não fiz nada. Menti. Mas era óbvio que a simples ideia de poder ter feito alguma


coisa já o irritava demais. – Eu fui a uma festa, mas nem vi o Diego por lá. - E por que voltou agora? - Acabei perdendo o último ônibus e dormi na casa de uma amiga. Minha cota de mentiras acabara de atingir o nível máximo. É claro que eu teria mais um milhão se quisesse, mas, com ele, estavam acabando. - Que amiga Miranda? Vou ligar para ela. Droga. Eu não previ essa. Normalmente as minhas mentiras terminam com as perguntas logo. Acho que estou mais suja do que imaginava. - É uma amiga nova, vocês não conhecem. - E ela não tem um telefone? Falou ele, já notando meu desespero em conseguir esconder a verdade. Fiquei sem saber o que dizer. É claro que eu tinha amigas em Erechim, mas, são tão lerdas que se eu não tiver avisado antes elas acabariam me entregando para o meu pai e aí, seriam duas infrações. Sexo com o ex e mentira na cara dura. Meu pai estava próximo de completar a sentença quando minha mãe chegou para me salvar. - Ela estava na casa da Betina. Falou, com uma calma que me causou estranheza e também alívio. - Tua irmã? Mas, por que ela não disse logo? Perguntou meu pai intrigado com toda a situação. - Ela não queria que a Miranda se encrencasse por passar a noite fora e nem que você ficasse bravo com ela por isso. Coisas de tia. Agora Márcio. O café está na mesa, pode ir comer. Disse minha mãe liberando a tensão do local. Meu pai pareceu confuso por um instante, mas, como sei que ele claramente deveria estar muito cansado, acabou deixando passar mais essa. Ele me deu um beijo e saiu. Minha mãe esperou que ele já estivesse na cozinha para dar a bronca. Do seu jeito. - Mais um dessas e eu serei uma mulher divorciada Miranda. Tome mais cuidado da próxima vez. Falou. Olhei para ela e sorri. Ela sorriu de volta. Minha mãe era uma das poucas pessoas na cidade em que eu podia confiar e entendia meus rompantes. Na verdade, era a única. Deitei-me na cama, mas sabia que não poderia ficar por muito mais tempo. Precisava encontrar Miguel novamente. Não sei por que, mas aquele garoto havia me inspirado a alguma coisa. A minha intuição jamais falhava. Levantei da cama em um salto e fui até meu armário. Peguei uma blusa da época de escola e vesti. Uma calça jeans e um All-Star completaram o look que, diga-se de passagem, não era o meu melhor look. Peguei minha mochila e o celular e saí, pela porta dos fundos. Minha mãe como sempre, me viu e não disse nada. Mas, quando me virei, pude ler seus lábios dizendo. “Cuide-se”. Sentia certa pena da minha mãe. Ela terminou o ensino médio e estava prestes a deixar aquela droga de cidade para ir estudar fora quando ficou grávida. Meu pai, ogro como sempre foi, disse que não deixaria um filho seu vagando por aí e propôs um casamento, quase forçado a ela. Os meus avós, claro, a obrigaram a seguir com isso, mesmo contra sua vontade. E, hoje estamos aqui, 20 anos depois. Ela tinha um futuro brilhante, então, eu cheguei. Sentia remorso das coisas que fazia, por que era ela que pagava depois. É claro que quando disse isso a ela, minha mãe simplesmente disse que eu estava na idade de cometer erros para que, no futuro, os erros fossem menos frequentes.


Percebi que havia ficado um bom tempo observando ela. Sorri novamente e me virei. Comecei a andar pela rua estreita de ladrilhos. O progresso, definitivamente, não havia chegado aquele lugar. Tínhamos internet, claro, e sinal de telefone, o que era um avanço se comparado a outras cidades próximas. Mas não tínhamos pessoas de mente aberta. O que havia ali era um bando de velhos e velhas fanáticos religiosos que acreditavam que Marco Feliciano estava certo em tudo o que dizia e que o novo papa deveria ser o cardeal ganês que defendia a morte a homossexuais. E isso, era uma dura realidade. Todos os dias era dia de culto. Quem não estivesse lá seria excomungado pelo resto da comunidade. Não que eu me importasse em ir para o inferno, desde que eles, realmente, não estivessem lá. Algo que, em minha opinião não era o caso. Afinal, que chances pessoas que usam o nome de Deus para propagar o ódio tinham de ganhar os céus? Eu sabia um pouco de cada uma naquele lugar. Uma cidade de três mil habitantes não era assim tão grande e, com a ajuda da minha mãe, acabava sabendo exatamente quem não prestava e quem podia passar despercebido. É claro que, com o tempo, fui aperfeiçoando minhas técnicas de dedução. Havia o velho José Andrade. Um empresário de 54 anos que era pastor de uma das muitas igrejas da cidade e, por algum motivo, também o prefeito. No culto era o bom e velho pregador. Daqueles que excomungam pessoas que não estão dentro dos “padrões” de Deus. Mas, eu sabia, que o motel que ficava nos limites da cidade era, assiduamente, frequentado por ele. E não, não era com a esposa. A esposa. Martina. 35 anos. Bonita, bem vestida e moralista ao extremo. Adorava me julgar por gostar de festas e nunca ir a igreja. Gostava tanto desse esporte, tanto quanto falar mal da vida alheia e ficar se jogando para o motorista, por sinal, um garotão de 26 anos. Afonso, um ex-amigo, ex por que desde que começou a trabalhar na casa dos Andrade passou a ignorar a minha existência. E claro, tinha o filho deles, Lucas. Minha idade, bonito e a arrogância e prepotência em pessoa. Passava seus dias procurando alguém para encrencar e poder usar o poder do pai contra todos. Nunca conseguiu nada de mim é claro, a única vez que tentou levou um chute nos ovos que deve estar doendo até hoje. E claro, nunca me enganou. Sempre soube qual eram as verdadeiras preferências do machão. Essa era a minha cidade. E essa era apenas a “Família Real”. Acredite, não há nada muito melhor do que isso. Mas, Áurea tinha suas pessoas que pareciam estar no lugar errado. Madalena, a avó de Miguel, era, como já disse, uma mulher a frente do seu tempo. Nunca falei com ela sobre seu neto, por sinal, só soube da existência dele hoje. Mas, tinha nela, o que não tinha na minha própria avó: carinho. Ela era carinhosa em todas as vezes que me salvou de ser apedrejada em praça pública pelos meus momentos casuais que se acumulavam. Além dela e minha mãe, a outra pessoa de idade e coerente daquele lugar era Marta. Minha professora do ensino médio. Ela lecionava história e, por muitas vezes, foi afrontada pelos filhos de pastores que adoravam citar a Bíblia em voz alta para competir com as explicações sobre Grécia, Roma e as civilizações antigas politeístas. Eu é claro, a defendia sempre. Ainda lembro o ano em que Marcos Mendes citou uma passagem que falava sobre a destruição de Sodoma e Gomorra pelos atos lá cometidos. Claro que ele estava falando de homossexualidade e luxúria. - Estranho que tu não goste disso Marcos. Falei com ar irônico.


- Por quê? Sou temente a Deus e a luxúria é repugnante e um pecado capital. Falou com o toma mais invocado que conseguiu encontrar. - É que sei lá. Depois do ménage a trois que você fez com o César do segundo ano e a Magna do primeiro, achei que tinha mudado a mente. Sorri. A única coisa que lembro bem é da turma espantada olhando para ele. Seu rosto branco igual papel, deixando claro que eu estava certa e a professora sorrindo de canto para mim. Digamos apenas que Marcos Mendes nunca mais citou nem uma letra, nem do velho e nem do novo testamento em aula alguma. Os jovens eram ainda piores. Não tinha amigos na cidade. Os que fiz e que tinham uma cabeça mais aberta deixaram Áurea no ano seguinte a formatura. Devia ter feito o mesmo. Mas meu pai disse que só pagaria minha faculdade se eu fizesse o que ele queria. É óbvio que não iria passar quatro anos estudando agronomia para voltar a droga daquela cidade e ficar ali. Deixei passar. A federal não era tão distante, mas nada pude fazer nos últimos tempos. Fiquei no mesmo lugar, estagnada. Conversava com alguns amigos que foram morar em Santa Maria, Passo Fundo, Porto Alegre ou que foram para fora do Estado ou do país. Para mim, não importava onde fosse, desde que eu saísse dali. Já estava na metade do caminho, alguns metros da ponte que dava acesso a rua 13 quando fui bruscamente parada. Olhei para trás e vi. Admiração, sorrisos e lágrimas começaram apareceram em um turbilhão de emoções me atropelaram. Parada, na minha frente, segurando uma mala rosa, cheia de strass, estava a minha melhor amiga. Pyetra. Ela havia deixado Áurea jurando nunca mais voltar quando os pais descobriram seu namoro com uma garota de Goiás. Foi para onde ela foi. Durante dois anos só nos falávamos pela internet ou telefone. E ela estava realmente bem. O namoro estava indo extremamente bem e ela estava feliz. No último ano, no entanto, nosso contato foi rareando e quase nunca nos falávamos. Mas, nada disso importava, ela estava ali agora. - Vai ficar aí parada igual uma idiota chorona ou vai me dar um abraço? Perguntou. Corri o mais rápido que pude. Abracei-a com força como se tivesse medo de perdê-la novamente. Eu chorava igual uma criança e ela ria de mim. Ficamos abraçadas por um bom tempo, até que a soltei e deixei que respirasse. - Meu Deus, o que tu ta fazendo aqui? Não tava em Goiânia? Perguntei. Sua expressão mudou completamente. Ela havia mudado muito nos últimos anos. A garota magricela de longos cabelos loiros e pele branca havia deixado de lado as roupas fechadas que os pais a obrigavam a usar e adquiriu um estilo casual. Usava jeans detonado, blusa e jaqueta de couro. Os cabelos loiros haviam dado lugar a um ruivo vibrante e no rosto, uma argola estava pendurada no nariz. Ela estava diferente. E a expressão dela dizia que as coisas estavam diferentes também. - Muita coisa aconteceu nesse tempo Miranda. Quer sair para comer alguma coisa? Daí nós colocamos a conversa em dia. Falou. A visita a Miguel podia esperar. Minha melhor amiga estava de volta, diferente e trazia consigo uma bagagem de três anos longe da cidade do anti-pecado. Não podia deixá-la chegar e enfrentar o que ela, provavelmente, iria enfrentar. Como disse mais cedo. Era óbvio que Áurea estava para mudar. Miguel trazia consigo uma novidade plena para a cidade, e eu o que queria como amigo. Pyetra estava de volta e agora o lugar mais preconceituoso do mundo, talvez depois do oriente médio e da Rússia, tinha dois gays assumidos andando por suas ruas.


Uma bomba nuclear estava para explodir na pacata cidade e eu queria muito apertar o bot達o que detonaria tudo isso. As coisas estavam diferentes.


Thomas O despertador tocou. A droga de uma música gospel que eu conhecia há muito tempo invadiu meu quarto. Me remexi na cama com vontade de explodir o rádio com a mente. Obviamente, isso era impossível. Abri os olhos devagar para que eles se acostumassem com a luz que invadia meu quarto. Era incrível como parecia mágica a maneira como meu quarto ligava o rádio, sempre em uma estação evangélica e abria cortinas para deixar a luz do sol entrar. Percebendo a batalha perdida sentei na cama, ainda com o edredom por cima. Esfreguei de leve meus olhos e olhei para o lado, na direção do antigo rádio relógio. “Que merda é essa?”, pensei. O lindo equipamento de mais de 20 anos marcava 6h da manhã. Minha pretensão era sair do quarto perto do meio-dia. Somente uma coisa podia ter acontecido. Ela fez de novo. Minha mãe estava na cozinha preparando o café da manhã. Meu pai já havia saído para o trabalho, onde passaria as próximas oito horas. Maldito sortudo, livre da saraivada de pretensões, insultos e hipocrisia das quais eu era alvo quando estava sozinho com ela. Cheguei de short e sem camisa, usando os meus óculos, sem os quais, fica difícil ter uma briga de verdade com ela. Indignado. Dona Valda me olhou horrorizada. A velha empregada morava conosco desde sempre e, infelizmente, havia sido corrompida pelos dizeres religiosos e moralistas da minha mãe. Uma evangélica fervorosa que não admitia “indecências” em sua casa. - Você mexeu no meu despertador de novo mãe? Falei, quase gritando. Minha mãe não se virou. Continuou cortando a cuca caseira que havia acabado de comprar do padeiro. Dona Valda voltou-se para o fogão para mexer o conteúdo de uma panela que deduzi ser da deliciosa (só que não) ambrosia da minha mãe. O cheiro era horrível e o gosto então, era algo indescritivelmente medonho. - Está na hora de você procurar um emprego meu filho. Já está formado. Tem 19 anos. Vai esperar o que? Disse ela. - Vou pedir para Deus me dar um emprego. Quem sabe ele me ouve. Falei ironicamente. Logo percebi meu erro. Jamais. Jamais fale ironicamente de Deus perto de uma mulher que viveu (e vive) sua vida para servir ao Senhor. Minha mãe virou-se rapidamente com visível indignação nos olhos. Dona Valda se encolheu ainda mais no fogão tentando fazer parecer que ela não estava ali. Com a faca na mão, apontando para mim, mamãe começou a andar na minha direção. Gesticulando com o talher que poderia ser enfiado no meu coração a qualquer momento, por sorte era uma faca de cortar pão, não que o estrago fosse menor. - Nunca use o nome de Deus em vão Thomas Luís de Albuquerque. Falou ela. Nome completo. Intimidação típica dos pais. É claro que eu, com 19 anos, já havia aprendido que isso não era tão perigoso quanto parece. Eu era uma “ovelha desgarrada” como muitos diziam na igreja da cidade. Não era o único, claro, mas os que deixavam a igreja tinham o bom senso de, pelo menos, sair também da cidade e evitar comentários, olhares e, acredito eu, possíveis assassinatos. - Ok. Desculpa. Eu sei que Ele não vai me arrumar um emprego. Afinal, não foi você mesma


que disse que Ele não dá o peixe, mas sim, ensina a pescar? Falei, segurando riso e o tom sarcástico da declaração. Minha mãe me olhou novamente. Sorri com a melhor das intenções o que, naquele momento, não iria ajudar em nada. Ela bufou e virou-se novamente para a pia. Revirei os olhos e suspirei aliviado. Comecei a andar em direção a mesa, mas não sairia tão fácil de tudo aquilo. - Nem pense nisso rapaz. Pode indo colocar uma roupa decente para tomar café. Falou novamente sem me olhar. Abri a boca para falar alguma coisa, mas parei no meio do caminho por que sabia que seria uma batalha perdida. Como sempre. Fui para meu quarto e sentei na cama novamente. Olhei em volta. Sentia-me um estranho naquele lugar, ainda que fosse o meu lugar. O único local que eu podia dizer que era inteiramente meu em todo o mundo. O rádio tocava Morning Song do The Lumineers. Um som triste que enchia o quarto. Fiquei alguns minutos sentado observando os pôsteres na parede. Havia claro, The Lumineers, um do Imagine Dragons, algo que me rendeu uma dor de cabeça terrível com a minha mãe que não acreditava como uma banda com uma música chamada “Demônios” (Demons), podia fazer sucesso e ser tão querida pelos jovens. Terminava com “O Diabo está mesmo preso aqui”. Realmente nunca entendi como um grupo de pessoas pode falar tanto do demônio e ainda achar que são os preferidos de Deus. Mas, enfim. Quem sou eu para julgar alguém? Como minha mãe vivia dizendo, era uma ovelha desgarrada, alguém que abandonou o Senhor e precisava encontrar a luz para não queimar no inferno. Não que estivesse muito preocupado com isso. Meus pais gastavam tanto tempo dando atenção para o meu irmão mais velho estudante de teologia, perfeitinho e que sempre viveu sob os preceitos da família, que meus deslizes eram esquecidos frequentemente. Havia uns três anos que eu o via apenas uma vez ao ano. Ele morava no Rio de Janeiro, onde foi estudar os preceitos de Deus ou coisa do gênero. Conversávamos apenas pela internet. A parte mais estranha era que eu sentia falta dele. Quando Gustavo estava em casa parecia que tudo ficava bem. Sempre dizia que as ideias quase arcaicas da minha mãe não eram o pensamento de todos os religiosos e que logo eles poderiam ter uma grande surpresa. Nunca entendi direito o que ele queria dizer. Meus devaneios foram interrompidos pelos gritos da minha mãe chamando para o café. Vesti uma camiseta e calcei os chinelos. Desliguei o rádio, por que se minha mãe entrasse no meu quarto e ouvisse algo que não fosse a bíblia em áudiobook as coisas iriam ficar complicadas. Saí e fui para a cozinha. Comi rápido. Sempre que podia deixava minha mãe falando sozinha em casa e ia para a rua. Áurea era uma cidade muito pequena. Pouco mais de três mil habitantes, sem festas, sem pub’s, sem nada. O único lugar, decente, de se ir era a velha ponte sobre o Rio Leão. Eu sei, totalmente sem sentido, mas, por algum motivo, era um bom lugar para se estar. Eu podia pensar. Sentei-me com os pés ao ar livre. A queda era de, pelo menos, 20 metros. Eu olhava o horizonte e não via ninguém. Era raro alguém vir, naquela hora, para aquele local. Fiquei me imaginando em outro lugar. Por um momento pude me ver bem longe dali. Eu deixaria Áurea sem nem mesmo olhar para trás. Nunca tive pretensão em sair, aliás, a pretensão existia, não existia era a possibilidade. Estava enraizado naquela cidade. Tudo o que tentava fazer era ir embora, mas jamais conseguia. Minha mãe só deixou meu irmão ir morar no Rio quando ele disse que iria estudar Teologia. Como eu era um caso desajustado precisava de muito mais persuasão para conseguir


uma carta de alforria. Eu não aguentava mais as cobranças. Ficar em casa apenas com a minha mãe era terrível em todos os sentidos. Meu pai saía para o trabalho, sua loja de equipamentos agrícolas, clichê, eu sei, enquanto eu precisava ficar o restante do dia com ela em casa. Poderia ficar dentro do quarto durante o dia todo, mas era óbvio que não era possível. Então, era obrigado a compartilhar de longas e adoráveis horas ouvindo minha mãe reclamar de como os vizinhos eram metidos, de como a família que morava duas quadras da nossa casa adorava falar mal dos outros e, seu assunto favorito, como podiam continuar vivendo sem Deus no coração aqueles espíritas demoníacos da casa perto do lago. Aborrecimentos me faziam tentar ignorar, sem sucesso a sua existência. Não tinha amigos. Todos aqueles que eu conhecia ou haviam ido embora depois da formatura para fazer faculdade ou eram religiosos demais e, se era para aturar mais de uma pessoa falando de Deus, preferia ficar em casa sozinho. Minha companhia eram os livros e a música. Quando era possível ficava o dia inteiro ouvindo minha interminável playlist do melhor do Folk e do Indie. Imagine Dragons, The lumineers, Mumford & Sons, Fun, Of Monsters and Men, eram apenas alguns dos meus acompanhantes. Sempre trancava a porta, colocava o rádio no último volume e esquecia que minha mãe devia estar gritando no lado de fora do quarto. Também lia. De tudo. Desde Tolstói a J.K. Rowling. É claro que todos eram proibidos pela minha mãe. Se eu não estivesse lendo a Biblía ou algum livro de algum pastor cretino que escreveu qualquer besteira para ganhar dinheiro, eu não estava fazendo certo. Era incrível a visão distorcida da minha mãe, mas, enfim. Já estava cansado de tanta coisa idiota acontecendo a minha volta. Hipocrisia era a palavra de ordem da cidade e eu, simplesmente, não conseguia compactuar com isso. Garotas? Todas eram bem vadias, fato, mas eram também religiosas fervorosas. Aquele tipinho que costumamos dizer tem fogo por baixo das saiais. Já fiquei com muitas, mas nenhuma realmente me completou. Apenas uma. Carina. Mas essa, como todos aqueles que tinham bom senso, havia deixado a cidade. Há pelo menos dois anos ela conseguiu uma bolsa de estudos em Londres e mudou para a Inglaterra. Os pais estavam orgulhosos e gritavam aos quatro ventos que a filha estava estudando Direito em Oxford. Adoravam se gabar da filha, até receberem uma carta do grupo de intercâmbio que dizia que Carina não havia aparecido em aula alguma do curso. Preocupados, começaram a procurar desesperados por ela. Pensando no pior. Em um mês descobriram que ela estava morando em Roma, estudando artes visuais, morava com mais duas garotas em um apartamento próximo a Fontana di Trevi, e namorava um argentino que vivia na cidade. Quando a notícia se espalhou pela cidade víamos uma senhora Rosa andando encolhida pelas ruas, alvo do falatório das beatas e um senhor Rogério tentando manter o nariz empinado depois do que a filha fez. Sem sucesso, claro. O contato com ela cessou a partir da descoberta. Ela voltou à cidade no natal de 2011, mas os pais não quiseram vê-la. Foi quando jantamos juntos e ela me contou que a vida fora dali era maravilhosa. Antes de ficarmos, Carina sempre fora minha melhor amiga e tínhamos uma relação muito próxima. Minha mãe, é claro, fez um espetáculo de três horas quando me viu deixando-a na rodoviária. Sempre me peguei desejando coisas erradas quando me vi sozinho na Sin City ao contrário. Não conseguiria me manter sem meus pais se desse uma de adolescente e fugisse para seguir


meus sonhos. Nem sequer tinha um sonho para seguir. Meu pai era compreensivo e sabia como minha mãe era. Por vezes ofereceu bancar minha vida em Porto Alegre e mentir que eu havia encontrado o caminho da luz e estava estudando religião. Não aceitei. Não podia ficar gastando o dinheiro dele a toa. Sem um objetivo concreto para estar na capital. Tentei, mais de uma vez, acabar com o sofrimento da maneira que as pessoas tentavam. Remédios não fizeram efeito, não tive coragem para me enforcar e meu pai não guardava uma arma em casa, não que eu tivesse mais para isso. Talvez. Só talvez aquele fosse o momento. Eu estava sobre uma ponte que passava em cima de um rio bem agitado. Eu poderia pular e tudo estava acabado. Para os meus pais tudo pareceria um acidente. Para mim, era o alívio de todas as frustrações. Coloquei o pé esquerdo sobre o primeiro ferro. Pulei a mureta de segurança e me vi a um passo de cair no vazio. Estava em pé, com os braços segurando os canos que passavam por ela. Olhava o rio abaixo e o horizonte distante. Fechei os olhos e senti minhas mãos soltando o que me mantinha nesse mundo. Esperei pelo choque com as águas geladas. Ele não veio. O que veio foi braços que envolveram meu tronco e me puxaram bruscamente de volta para o chão da ponte. Estava caído na estrada, dolorido pelo impacto. Olhei para cima e um garoto me olhava com a expressão horrorizada. Levantei-me num sobressalto. - O que você está fazendo? Gritei. - O que você está fazendo? Você ia pular? Perguntou. Vi o quanto ele estava nervoso com a situação. Não sabia o que fazer. Comecei a notar tudo girando e acabei desmaiando. Quando abri os olhos estava deitado em uma cama que não era a minha. Em um quarto que não era o meu. Levantei em um salto, mas logo outra tontura me fez cambalear e caí deitado novamente. Outro desmaio. Quando acordei pela segunda vez. Só abri os olhos. Sentado ao meu lado estava o garoto que tinha me puxado para dentro da ponte. Ele mexia em um IPhone branco com grande interesse no que estava fazendo. - Quem... Quem é você? Perguntei, ainda um pouco tonto. Ele largou o celular e colocou-o sobre o criado-mudo do lado da cama. Me olhou e sorriu. - Meu nome é Miguel e, sim, eu não deixei você morrer e, não, não me agradeça, até por que eu sei que não é isso que você pensava em fazer. Falou. - Por que você não me deixou em paz? Falei me virando na cama. Ainda estava cansado, apenas algumas horas e já havia sido um longo dia. – Que hora é agora? - Quase 13h. Você ficou caído um bom tempo. Droga. Minha mãe devia estar louca atrás de mim. Peguei meu celular para ver as ligações. Nenhuma. Bom, isso faz mais sentido do que a mulher carinhosa que imaginei. Devia ser efeito dos acontecimentos. A porta do quarto se abriu e uma senhora de uns 60 anos entrou. Trazia uma bandeja de comida. Um copo de suco e um sanduíche. Deixou no canto. Dona Madalena. A única pessoa que nós, jovens mente aberta e anti-loucura religiosa, gostávamos. É claro que, naquela altura, esses jovens, eram poucos. - Como você está Thomas? Perguntou. - Graças a ele. Vivo. Falei.


Ela sorriu e olhou para Miguel. - Ele é meu neto. Veio de Porto Alegre para morar comigo. - E já chegou se metendo nas coisas dos outros. Miguel soltou uma gargalhada. Eu e Madalena olhamos para ele espantados. Ele percebeu o excesso, riu novamente e olhou para nós. - Cara, não fique aí agindo como se não estivesse aliviado por alguém te salvar. - Você não me conhece. - Não, mas conheço a situação. O mundo te odeia, você odeia o mundo. Vou me matar, apesar de saber que essa não é a resposta. Thomas, não é? Metade das pessoas que cometem suicídio esperam que alguém as impeça. Como não acontece. Dá no que dá. O mais irritante nele é que o desgraçado estava com a razão. Eu não queria fazer o que fiz. Não queria pular de verdade daquela ponte. Esperava que alguém me tirasse de lá, mesmo sabendo que as possibilidades estavam contra mim. Ele estar lá, no fim, era exatamente o que eu precisava. - Talvez seja isso mesmo. Enfim. Falei, tentando manter a pose de mau. Algo que não combina com estar deitado em uma cama, tonto, com duas pessoas te observando. Miguel sorriu. Madalena nos deixou sozinhos. - Então. O que te levou a fazer isso? Perguntou, quebrando o gelo. - Não sei se posso confiar em ti. - Eu salvei a tua vida. Acho que se existe alguém em que você pode confiar, sou eu. Falou. Estava odiando admitir para mim mesmo o quanto ele estava certo. Ele salvou a minha vida. E me deu uma nova oportunidade. Mas, do que exatamente, ainda não tinha certeza. - Você é novo aqui. Vai saber exatamente os motivos que levam alguém de Áurea a se matar. Minha mãe é uma beata que só ferra com as minhas decisões, lembrando que eu sou uma ovelha desgarrada do rebanho do Senhor. Meus amigos foram embora e eu não faço ideia do que o futuro me reserva. Me espantei com a quantidade de desabafos e verdades que acabei liberando. Continuei. – Minha melhor amiga está morando na Itália. Meu irmão no Rio de Janeiro. Meu pai nunca está em casa para aturar os devaneios da minha mãe. Sou eu e, bem, eu. Miguel me observava intrigado. - Então isso significa que sua mãe é mais uma daquelas velhas que acham que Deus odeia o que não é “normal”? - Exato. - Interessante. O que ela diria se você tivesse um amigo gay? Falou. - Ela iria tentar curar ele e me faria uma desintoxicação. Falei. Nós rimos da situação. Ele me olhou novamente, parecia confuso. - E por que você ainda está aqui? Está na cara que já notou quem eu sou. - Isso nunca me importou. Percebi assim que abri os olhos. Nenhum hétero tem um pôster da Christina Aguilera escrito “Divas Never Die”. Sorri ao completar a frase. - É, preciso tirar isso dali. É da época que eu gostava da Xtina. Por sinal, meu quarto é da época em que eu era um jovem gay em iniciação. Sorriu. – Você é diferente do que me contaram sobre essa cidade. - Não se engane. Somos poucos. Quase nulos. Ele sorriu novamente, dessa vez sem graça. Era óbvio que quando a comunidade auriana soubesse que havia um homossexual andando por suas ruas seria o comentário do século. Por algum motivo sabia que quando a comunidade descobrisse que eu estive na cama dele ninguém pensaria, de cara, que eu só estive ali por desmaiar quando tentei me matar. Estava ferrado e não me importava nem um pouco.


Era claro que Miguel era alguém diferente. Não por sua orientação sexual, mas sim pelo seu jeito. Estava a frente do tempo de todos naquela cidade. O problema era o preconceito que ele iria sofrer seria, com toda a certeza, medieval. Por algum motivo, decidi que queria ajudá-lo - Bem. Acho que vou comer isso aqui, né? Ele sorriu novamente. Retribuí o sorriso. Acho que fiz um novo amigo. Talvez o único.

Diferente  

Miguel perdeu a mãe, os amigos e tudo o que tinha. Em sua nova vida na pacata cidade de Áurea vai perceber que ser quem ele é pode ser visto...

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