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louca vida

18 • REVISTA O GLOBO • 1 DE FEVEREIRO DE 2009 •

SAÚDE O

Vida

Por Fellipe Awi

FotosdeAndréCoelho

O

Após décadas trancafiados na Dr. Eiras, pacientes começam a redescobrir o mundo aqui fora

A

Viviane está

entre os 264 pacientes que ainda vivem na Dr. Eiras: vítima de eletrochoque nos tempos mais sombrios da clínica

senhora de cabelos alourados, recém-tingidos, só aceita que os visitantes entrem no quarto depois de arrumá-lo. As bonecas em cima da cama e o armário meticulosamente organizado lhe dão a sensação de que, aos 57 anos, sua vida, enfim, está entrando no eixo. Quando tinha 29, a ausência de uma ordem em seu comportamento levou a família a trancá-la num hospício. O Brasil era governado por militares. Quando voltou à vida em sociedade, o presidente já era um exoperário cujo partido nasceu no ano da sua internação. Enquanto o mundo mudava do lado de fora, ela sentia que jamais recuperaria o tempo perdido. — Venham de novo à minha casa. Ela estará mais arrumada — promete, na despedida. Há quatro anos, Marina Santoro vive numa casa de passagem, como são chamadas as residências de ex-internos manicomiais. É uma fase da transição para a vida autônoma. De seus 24 anos de internação, 22 foram na Casa de Saúde Dr. Eiras, em Paracambi, a 82km do Rio. Fica ali pertinho de sua casa, mas já parece a quilômetros de distância de sua realidade. Marina foi uma das primeiras beneficiadas do processo de intervenção municipal naquela que foi a maior clínica psiquiátrica privada da América Latina, com pacientes ilustres como Paulo Coelho e Garrincha. A primeira medida foi começar o processo de esvaziamento da clínica, que nos últimos

de seus 45 anos de existência recebeu denúncias de tratamento desumano aos pacientes. Nos quatro anos anteriores à intervenção, foram 120 mortes. — Sofri muito lá. Me batiam, me roubavam — diz Marina. Hoje a porta de sua casa fica aberta num entra-e-sai frenético. Toda a vila onde mora é de casas de passagem. Seus moradores são filhos da chamada Lei da Reforma Psiquiátrica (2001), que humaniza o tratamento psiquiátrico, priorizando a convivência familiar. Vários ainda têm o caminhar errante, o olhar vago e o discurso repetitivo dos doentes mentais, mas está claro para os médicos que a evolução fora da clínica é mais rápida do que dentro. Hoje não haveria a menor possibilidade de Marina ser internada. Transtorno afetivo bipolar é tratado no consultório de um psiquiatra. Na época, os sintomas psicóticos associados à alteração radical de seu humor assustaram a família. A convivência com pacientes de quadro bem mais grave acentuaram suas psicoses e, muitas vezes, Marina só se permitia andar nua pela clínica. Hoje, ela ainda convive com dias de depressão e sente sua mente “fugir” de vez em quando, mas pelo menos já acorda todos os dias com um objetivo em mente: reencontrar familiares que vivem em algum lugar entre Niterói e São Gonçalo. Na intervenção à Dr. Eiras, havia 952 internos. Já saíram 688 desde então, com 218 retornos familiares.a

José Nilton: “Eu me sentia um passarinho na gaiola”

Marina Santoro, que ficou 24 anos internada, na casa nova


SAÚDE O 20 • REVISTA O GLOBO • 1 DE FEVEREIRO DE 2009 •

Junto com a recuperação da vontade de viver dos pacientes, o processo de desativação da Dr. Eiras fez emergir histórias de vidas e famílias perdidas como a de Marina. Sebastiana, vizinha de quarto de Marina, vai rodar de carro por Volta Redonda para ver se se lembra da rua onde morava. De volta a sua Macaé, a primeira coisa que Liú quis saber foi se as Lojas Americanas ainda vendiam sundae de caramelo. Ela tinha esquecido até que o mar existia. As irmãs Andréia e Anderléia descobriram que viveram por anos na mesma clínica, mas nunca haviam se encontrado. José Carlos conheceu Janaína na Dr. Eiras e o namoro continuou na casa de passagem até que ela foi reconhecida pela família num programa de TV e se mudou para Barra Mansa. Geralda chegou a perder as digitais de tanto que fumou em seus 30 e poucos anos de Dr. Eiras, mas tornou-se uma das mais vaidosas da vila. Nas investigações da vida pregressa dos pacientes, a equipe da clínica fez descobertas surpreendentes, como a de um paciente esquizofrênico que é primo do ministro da Defesa, Nelson Jobim. — A gente não cansa de se emocionar com as histórias que aparecem. Mais ainda quando constatamos a evolução deles longe daqui — afirma a diretora-técnica da desativação da Dr. Eiras, a psiquiatra Cristina Vidal. Volta e meia, Cristina sorri de satisfação quando esbarra com Otília num supermercado de Paracambi. Matriarca de uma rica família de Ipanema, mulher culta e viajada, foi internada pela família por causa de seus surtos psicóticos. Na clínica, só andava e dormia segurando os próprios talheres. Depois da alta, sem nenhum vínculo familiar, alugou uma casa com outras ex-internas e leva uma vida quase normal. O mesmo se pode dizer de José Nilton da Conceição, mais de 20 anos de Dr. Eiras por ser epilético, com uma psicose orgânica que lhe trazia momentos de confusão mental. Quem conversa com esse senhor de 46 anos, voz tranquila, que faz biscate de jardineiro e adora pegar filmes na locadora, não imagina como ele con-

O cenário ainda é chocante, mas já foi muito pior. Para olhos desacostumados, é desconfortável ver os 264 pacientes que restam lá andando a esmo pela clínica. Alguns cercam os visitantes, querem puxar conversa com frases desconexas. Um outro, mais calmo, passa o dia arrancando os paralelepípedos a unha. As mais agitadas são duas mulheres bem conhecidas por todos os funcionários e pacientes: Jaqueline e Viviane. Enquanto Cristina dá entrevista no seu gabinete, três mulheres batem com violência na janela. Elas gritam, choram, chamam o nome da diretora e de sua assistente, Érica Barbosa, que respondem pacientemente. As janelas estão quase todas quebradas. — Foram elas que fizeram isso, mas pelo menos estão soltas, não ficam mais trancafiadas — argumenta. Perto do que eram, completa Cristina, elas são verdadeiras ladies. Como eram tratadas como bichos, agiam como bichos. Jaqueline, por exemplo, foi encontrada pela equipe da inter-

a

Geralda, moradora da

vila de casas de passagem, perdeu as impressões digitais de tanto que fumou

seguiu viver tanto tempo com doentes bem mais graves. José Nilton vive numa residência teraupêutica de Paracambi, espécie de estágio posterior às casas de passagem. — Eu me sentia um passarinho na gaiola — resume o jardineiro, que agora vive voando em sua bicicleta colorida, já conhecida nas ruas da cidade. Os leitos da Dr. Eiras ainda mantêm as argolas que algemavam os pacientes, mas elas não são mais usadas.

Naquela época, a mala preta do eletrochoque corria solta nos corredores sombrios da clínica. Por ser o meio mais rápido de esgotar a produção de neuro-hormônios, e assim inibir os delírios e o desejo de autodestruição, a descarga elétrica nas têmporas era usada à vontade. A grande maioria dos internos sequer deixava o seu pavilhão — muitos ficavam anos sem ver a luz do sol. Hoje, a Dr. Eiras não usa mais eletrochoque e os pacientes só são recolhidos às 17h.

venção amarrada na lavanderia. Filha de uma interna da Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, ela jamais viveu fora de uma instituição psiquiátrica. Por isso, não se adaptou às casas de passagem e pediu para voltar à Dr. Eiras. Viviane, que tem retardo mental, era moradora de rua — e mais não se sabe. Elas viviam nos pavilhões mais sinistros da clínica, palco até de rebeliões de doentes contra funcionários. Até hoje, eles mais parecem masmorras que ambulatórios. Jaqueline e Viviane conviveram rotineiramente com o eletrochoque. No meio de seus delírios, até as duas falam em ir embora — só não se sabe para onde. A falta de leitos de atendimento psiquiátrico em diversos municípios do Brasil faz com que esses pacientes não possam ser transferidos. Numa visão otimista, os 636 hectares da Dr. Eiras só estarão completamente vazios no fim de 2009, marcando o ponto final num lugar que já foi chamado de depósito de gente.l

Jaqueline: desde que nasceu ela vive em instituições psiquiátricas


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