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Ação entre ‘irmãos’ Penetramos no mundo dos maçons brasileiros, que se articulam para tentar recuperar o prestígio perdido

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Revlsta O GLOBO •ANO 5 •Nº 221 •19 DE OUTUBRO DE 2008


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noite é de gala no templo nobre do Palácio Maçônico, na Rua do Lavradio. Todos se levantam quando o grão-mestre surge na porta principal vestido com seu avental azul cheio de detalhes em dourado. Atrás dele, como numa procissão, aparecem outras autoridades, enquanto dos alto-falantes sai uma música medieval, trilha perfeita para o filme “Coração valente”. Parece que vai começar mais uma sessão secreta da maçonaria, mas dessa vez a figura central pertence ao mundo profano. É um candidato à prefeitura do Rio. Político nas duas definições da palavra, antes de entrar ele pede uma gravata preta emprestada para não destoar do traje obrigatório dos maçons. Mesmo assim, parece pouco à vontade diante de tantas formalidades. Era o quinto compromisso do candidato naquele dia, embora este não constasse da agenda oficial. O encontro foi discreto, bem ao estilo dos maçons. Depois de uma exaustiva carreata no Engenho Novo, ele foi vender seu peixe na sede carioca do Grande Oriente Brasileiro (GOB), o mais antigo grupo maçônico do país. Mais que um evento político, sua presença ali expõe o despertar silencioso da mais famosa irmandade secreta do mundo. Protagonistas nos principais fatos históricos do Brasil, entre eles as proclamações da Independência e da República, os maçons querem voltar a participar da vida política e dos grandes temas nacionais. Além de ouvir candidatos a prefeito, eles estão a pleno vapor numa campanha

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Por Fellipe Awi Fotos de André Coelho

pela soberania brasileira na Amazônia, pela cota de negros nas universidades e já se manifestaram oficialmente em questões como a do mensalão e a da Reserva Indígena da Raposa do Sol. — Passamos um bom tempo hibernando, voltados para dentro, mas agora despertamos de novo para o mundo exterior. Não aceitamos os desmandos e a desonestidade de certos setores do poder público — afirma o grão-mestre do GOB-RJ, Eduardo Gomes de Souza. Antes do primeiro turno da eleição, o GOB recebeu em seu palácio três candidatos a prefeito e um a vice. Todos assinaram um documento se comprometendo a chamar maçons para compor conselhos que vão assessorar as secretarias municipais. Na próxima semana, uma reunião interna vai escolher quem será o candidato indicado pela instituição, Eduardo Paes ou Fernando Gabeira. Com 30 anos dedicados à ordem, nem o eminente grão-mestre, como é chamado com respeito pelos irmãos, lembra a última vez em que isso aconteceu. Mas ninguém está atrás de cargos remunerados, garante o coordenador político-parlamentar do GOB, deputado estadual André Corrêa (PPS): — Nunca precisamos de dinheiro do Estado. Queremos apenas oferecer os serviços dos nossos irmãos a governantes que comunguem dos princípios da maçonaria. Os princípio básicos da maçonaria — pelo menos os conhecidos — são igualdade, liberdade e fraternidade, os mesmos da Revolução Francesa. Guiada

por eles, a ordem já apoiou no Brasil movimentos tão díspares quanto o abolicionismo e o regime militar. De comum, ela manteve apenas a influência ao mesmo tempo decisiva e obscura nos rumos da nação. Ao longo do século passado, com o fortalecimento de outros representantes da sociedade, a maçonaria foi perdendo o protagonismo que agora só resiste em pequenas cidades, onde prefeitos ainda freqüentam gabinetes de grãos-mestres. — Até o início do século XX, a maçonaria era muito política. Depois, se tornou mais um clube de filantropia e ajuda mútua, como o Rotary e o Lions — afirma o historiador Marco Morel, primeiro autor não-maçom a escrever um livro sobre a história da irmandade, o recém-lançado “O poder da maçonaria”. Para voltar a participar das questões nacionais do século XXI, a maçonaria terá primeiro de superar o imaginário misterioso que a envolve. Desde que foi criada nos moldes atuais, na Inglaterra do século XVIII, a ordem funciona sustentada por rituais, símbolos e códigos secretos que só serviram para multiplicar os mitos sobre ela. Ao longo da História, sempre que a maçonaria rompia com poderes constituídos, como o Estado e a Igreja, proliferavam histórias macabras sobre as atividades nos templos, quase sempre relacionadas a ritos satânicos. Por vezes, os próprios maçons não se preocupavam em desfazer as crendices, para afastar curiosos. — Hoje, essa fama nos atrapalha — reconhece Eduardo.a

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Os bastidores da famosa irmandade secreta, que tenta recuperar sua influência nos rumos do país

Maçonaria de portas abertas

Tropa de elite Reunião dos maçons do grau 33, o nível máximo, no Supremo Conselho do Grande Oriente Brasileiro (GOB), mais antigo grupo maçônico do país: “O segredo é uma forma de preservação”, diz um deles


chegar ao sonhado grau 33. — Desde que virei maçom, aos 65 anos, me tornei uma pessoa mais equilibrada — conta. Os primeiros a subir para o templo azul são os maçons de graus 31, 32 e 33. O ambiente está impregnado do cheiro de incenso. Nas paredes, fica evidente todo o sincretismo da maçonaria. Há quadros de Jesus Cristo, Buda, Maomé, Platão, Rei Frederico da Prússia, faraós e até dos 12 signos do zodíaco. A águia bicéfala aparece de novo, bem como a balança da Justiça. Ao fundo, uma coroa dourada emerge da parede. É uma réplica do templo do Rei Salomão. A primeira palavra de ordem, bradada em voz alta, é reflexo dos novos tempos: — Atenção, meus irmãos, desliguem seus celulares. Entra, então, um cortejo de maçons paramentados. A música também é de cavalaria. O guarda do templo fica na porta com a espada na mão. Os nãoiniciados, então, são convidados a se retirar, mas sabe-se que a sessão é aberta com a leitura da Bíblia e da oração de São Francisco, aquela do “é dando que se recebe”. Do lado de fora, só é possível ouvir um barulho surdo e ritmado, como o de um tronco batendo no chão. A entrada só é liberada de novo quando chegam os “formandos” do grau 30, ao som de uma música de relaxamento. Em vários lugares lêse “Ordo ab chaos”, ou “A ordem a mestre da Ordem dos Cavaleiros Templários, que seria a precursora da maçonaria. Todos os objetos têm um significado, mas nenhum pode ser explicado detalhadamente a não-iniciados. A exceção é o famoso compasso sobre o esquadro, que representa a prevalência do espírito sobre a matéria. O senhor de bigode lá na frente é o presidente do conselho, o Soberano Enyr de Jesus, cujo cargo é vitalício. Um dos irmãos entra com um objeto redondo numa embalagem de couro preta. Parece um pandeiro, mas quando as portas se fecham não se ouve qualquer barulho. — O segredo é uma forma de preservação — afirma Stenélio Rodrigues, maçom do grau 33. Quase duas semanas depois, é dia de festa no Supremo Conselho. Sessenta e dois maçons do grau 30 vão ser iniciados no grau 31. É como uma cerimônia de formatura. Eles aprendem novos códigos secretos e fazem mais um juramento de fidelidade à ordem. O aposentado Adelino Viegas, de 75 anos, não escondia a ansiedade minutos antes do ritual. Em um ano e meio, ele deverá

Abaixo, maçons prestes a se formar no grau 31 posam para fotos no jardim do Supremo Conselho; na outra página, eles caminham para o templo, no segundo andar do casarão, decorado com imagens de “irmãos” famosos, como Santos Dumont e o palhaço Carequinha; embaixo, entrada das autoridades na cerimônia de graduação

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2 (companheiro). Quando recebe o grau 3, já é um mestre, alguém que se divide entre a vida maçônica e a profana, do mundo exterior. A partir de então, numa espécie de pós-graduação, ele pode continuar os estudos filosóficos até o grau 33, que são aqueles irmãos mais próximos da perfeição humana. A Revista O GLOBO acompanhou a abertura de uma das quatro sessões anuais no templo destinado apenas a maçons 33, no Supremo Conselho do Brasil, em São Cristóvão. Do lado de fora, parece um encontro de executivos, todos vestidos com terno preto e exibindo uma cruz estilizada no pescoço. De repente, um deles, com uma espada na mão, aparece na porta. É o guarda do templo. Ele faz a convocação: — Atenção, irmãos! E mais não precisa ser dito. Um a um, eles vão entrando no templo, todo vermelho. Ao centro, destacam-se uma águia de duas cabeças e uma Bíblia aberta sobre uma espada retorcida. O quadro mais impressionante é o que retrata a morte na fogueira da Inquisição de Jacques De Molay, o último grão-

Festa de formatura

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a Os rituais secretos, por outro lado, explicam em parte o fascínio que a maçonaria exerce. Para entrar na irmandade e matar a curiosidade, é necessário receber o convite de um membro e passar por um rito de iniciação que começa a virar sua vida pelo avesso. Pedem-se todos os tipos de certidões que comprovem a idoneidade do interessado, que depois recebe a visita de três mestres em casa. É necessário saber como é sua vida familiar e se a mulher — que será chamada de cunhada — concorda com a decisão do marido. Eles ouvem também vizinhos e colegas de trabalho. Por fim, a foto do candidato é espalhada em todas as lojas maçônicas do país, para ver se algum irmão tem algo contra ele. O outro pré-requisito obrigatório é acreditar na vida após a morte e em Deus — que será chamado de Grande Arquiteto do Universo —, seja qual for a sua religião. Só assim o irmão estará apto a buscar o objetivo principal da maçonaria: atingir a purificação e o aperfeiçoamento da Humanidade. Antes de ser maçom, o interessado tem de passar pelos graus 1 (aprendiz) e

partir do caos”, um lema maçônico. Quando a iniciação vai começar, os convidados têm de sair novamente. Os maçons se preocupam com o vazamento de seus códigos. Alguns dizem, bem-humorados, que esta é a razão pela qual não existem mulheres iniciadas — elas não saberiam guardar segredo. São os sinais secretos que permitem que um irmão reconheça o outro em qualquer lugar. Assim, eles podem cumprir o acordo de colaboração mútua a que se comprometeram na iniciação. Um maçom tem o dever de ajudar o outro como se fosse irmão de sangue, mesmo que não o conheça — e isso inclui emprestar dinheiro e arrumar emprego, por exemplo. Para obrigá-los a continuar freqüentando as sessões, algumas palavras de identificação são mudadas regularmente. Mesmo que não seja esse o propósito, o pacto de irmandade é um chamariz para atrair novos irmãos. Hoje, segundo o GOB, existem cerca de 170 mil maçons no Brasil — de faxineiros a executivos, como eles dizem com orgulho. — Eu posso ficar parado no meio de uma praça, em qualquer lugar do mundo, que logo aparecerá um irmão para me ajudar — conta o administrador Mauro Kalife, venerável (chefe) da loja (subgrupo) Lux et Veritas. — Já cansei de ser levado da classe econômica para a primeira classe por um comissário de bordo que me reconheceu como maçom.a


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