Issuu on Google+

O GLOBO

O

SEGUNDO CADERNO

O

PÁGINA 1 - Edição: 17/06/2008 - Impresso: 16/06/2008 — 22: 46 h

AZUL MAGENTA AMARELO PRETO

www.oglobo.com.br

OGLOBO RIO DE JANEIRO, TERÇA-FEIRA, 17 DE JUNHO DE 2008 • ANO LXXXIII • N o- 27.343

IRINEU MARINHO (1876-1925)

TSE dará nomes de candidatos ‘ficha suja’

ROBERTO MARINHO (1904-2003)

CIMENTO ELEITORAL?

Tenente confessa crime e Exército entra em choque com moradores

O Apesar da decisão do TSE de permitir que candidatos com “ficha suja” disputem as eleições, o presidente do tribunal, Ayres Britto, pretende divulgar na internet os nomes de quem tem folha criminal. “A Justiça Eleitoral tem o dever de informar, e o cidadão tem o direito de ser informado”, disse ele, que ontem recebeu representantes de movimentos de combate à corrupção. Página 3 e editorial “Não recuar”

Secretária nacional de Habitação admite que convênio sobre projeto de Crivella é único no país André Coelho

O tenente do Exército Vinícius Ghidetti de Moraes Andrade, de 25 anos, comandou a entrega de três jovens do Morro da Providência, no Centro, a traficantes do Morro da Mineira, no Catumbi. Em depoimento, o oficial admitiu ter ameaçado escrever as iniciais de uma facção nas testas dos detidos. O delegado Ricardo Dominguez, da 4 aDP, ficou surpreso com o fato de os militares não terem demonstrado arrependimento: “Suspeitamos que houve um contato prévio com o tráfico da Mineira.” Dois dos jovens tiveram as mãos decepadas e um deles teve a perna cortada na altura do joelho. Em clima de revolta, mais de 300 moradores da Providência acompanharam o enterro. Faixas e cartazes protestavam contra o Exército e o senador Marcelo Crivella (PRB), autor do projeto Cimento Social, que desde dezembro conta com a proteção de soldados na favela. Após o enterro, os moradores foram para a frente do Comando Militar do Leste, onde um confronto generalizado levou pânico a quem estava no Centro. A secretária nacional de Habitação, Inês Magalhães, reconheceu que o convênio entre os ministérios das Cidades e da Defesa para que o Exército faça a reforma de fachadas e telhados de casas no Morro da Providência é único no país. Páginas 14 a 18, Merval Pereira e Cartas dos Leitores O

Prefeito renuncia na cadeia para tentar reeleição Preso por desvio de dinheiro público, o prefeito de Juiz de Fora, Alberto Bejani (PTB), renunciou para tentar disputar a reeleição. Da cadeia, enviou carta de renúncia aos vereadores, que pedirão a cassação de seus direitos políticos. Página 3

O

Inflação dispara e Lula vê país perto do paraíso No dia em que analistas de mercado projetaram inflação de 6,21% este ano, quase no teto da meta de 6,5%, Lula defendeu o combate à alta de preços e disse que o país vive perto do paraíso. Para o BC, a alta de juros vai durar. Página 25 O

SOLDADOS DA PE, na frente do Palácio Duque de Caxias, atiram bomba de efeito moral para proteger o CML do protesto dos moradores

Domingos Peixoto

PERGUNTAS SEM RESPOSTAS Se o país não decidiu oficialmente usar o Exército para fazer segurança pública, por que o presidente Lula autorizou essa ação num morro do Rio para ajudar o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ)?

Dunga admite que está sob pressão

Por que a única ação do Exército em área de violência, em todo o país, acontece justamente onde há um projeto eleitoral? Qual foi o objetivo dessa decisão? Qual a participação efetiva, nesta iniciativa, do ex-ministro da Defesa José Alencar, colega de partido de Crivella?

Depois de duas derrotas seguidas da seleção, o técnico Dunga reconheceu ontem estar sob pressão. Ele sabe que se o time perder para a Argentina, amanhã, a situação vai piorar. Páginas 34 a 36, Fernando Calazans e Renato M. Prado O

O que o atual ministro da Defesa, Nelson Jobim, acha disso?

O Congresso Nacional foi ouvido? A operação militar, nesses moldes, tem amparo na Constituição? Como é exatamente a atuação dos oficiais e soldados do Exército no Morro da Providência? Quem controlava e fiscalizava essa operação? Havia integração com a polícia do Rio?

‘O Exército está lá desde o ano passado à revelia do próprio secretário de Segurança. O que foi feito é um acordo lateral, uma promiscuidade política’

Cérebro de gay reage como o de mulher

Chico Alencar deputado federal pelo PSOL-RJ

LILIAM GONZAGA se desespera sobre o caixão no velório do filho Wellington

SEGUNDO CADERNO

CHICO

Imagens do cérebro mostraram que o de homens gays tem características do de mulheres. O estudo, do Instituto Karolinska (Suécia), foi considerado a mais convincente prova da origem biológica do homossexualismo. Página 32 O

JAMELÃO, 1913-2008

“O Tony me deu a tranqüilidade de quem está fazendo a coisa certa”, disse Paulo Szot, primeiro brasileiro a ganhar o maior prêmio do teatro americano. O

Acusado de torturar jornalistas se entrega Conhecido como 01 ou Águia, o policial diz que é inocente e que nunca chefiou milícia

REVISTA MEGAZINE O inspetor da Polícia Civil Odnei Fernando da Silva, de 35 anos, acusado de ser o chefe da milícia na Favela do Batan, em Realengo, que seqüestrou e torturou uma equipe do O

Rodrigo Santoro e Alice Braga, juntos no cinema em “Cinturão vermelho”, que estréia nesta sexta-feira, contam como fizeram carreira em Hollywood. O

Edição Metropolitana Preço deste exemplar no Estado do Rio de Janeiro

R$ 2,00

— Quem sou eu...

Circulam com esta edição: Classificados, Segundo Caderno, Revista Megazine 74 páginas .

jornal “O Dia”, se entregou ontem na sede da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas. Conhecido como 01 ou Águia, ele disse ser inocente. Página 19


O GLOBO

16

O

O

RIO

O

PRETO/BRANCO

PÁGINA 16 - Edição: 17/06/2008 - Impresso: 16/06/2008 — 22: 46 h

RIO

2ª edição • Terça-feira, 17 de junho de 2008

O GLOBO

.

A GUERRA DO RIO: Grupo depreda carro, queima farda e tenta fechar o trânsito na Avenida Presidente Vargas Marco Antônio Teixeira

André Coelho

Guilherme Pinto

TENSÃO NO CENTRO: Manifestantes são encurralados junto à porta fechada de uma loja, outros se encolhem de medo ao explodir uma bomba em frente ao Panteão de Caxias e o grupo exibe faixas na porta do Comando Militar do Leste

Militares usam bombas para conter protesto Manifestantes entram em confronto com soldados de Exército em frente ao CML, após enterro dos três jovens André Coelho

Antonio Werneck, Célia Costa e Laura Antunes

O protesto de cerca de 300 moradores do Morro da Providência, no fim da tarde de ontem, em frente ao prédio do Comando Militar do Leste (CML), após o enterro dos três jovens da favela, fez da região da Central do Brasil e desse trecho da Avenida Presidente Vargas um campo de combate entre policiais do Exército e manifestantes. O confronto começou cinco minutos após a chegada dos moradores, às 18h, quando alguém na multidão atirou pedras em direção aos cerca de 50 soldados que protegiam a entrada do CML com cães, escudos e cassetetes. A resposta dos militares foi imediata, com o lançamento de bombas de efeito moral, spray de pimenta e disparos de armas não letais. O aparato militar, segundo a PM, foi planejado depois da informação de que o grupo planejava queimar ônibus e veículos particulares. Houve corre-corre generalizado, inclusive da multidão de pedestres que passava pelas calçadas em direção ao metrô e à Central. Muitos ficaram em pânico. Os manifestantes queimaram uma farda de camuflagem e tentaram fechar a pista de rolamento em frente ao CML, mas as bombas lançadas pelos militares fizeram com que tentassem, então, fechar uma das pistas da Presidente Vargas. Mas novas bombas de efeito moral foram lançadas, impedindo o bloqueio. Um militar foi ferido. — Não esperava que na hora de voltar para casa tivesse que correr de bombas e pedradas. Fiquei com medo. Quero pegar meu ônibus logo e ir embora — disse a escriturária Simone Maria Coelho, que se protegia atrás de uma árvore. Na tentativa de manter o protesto, os moradores correram para a Central. Cerca de cem militares foram espalhados em volta do CML e no alto do Panteão de Caxias. Uma tropa de 110 PMs — do Batalhão de Choque, do 5 o- BPM (Praça da Harmonia) e de outras unidades — também ficou de plantão na área, mas não chegou a se envolver no confronto. Segundo o coronel Marcus Jardim, comandante do Policiamento da Capital, a presença dos PMs era para dar proteção à população e ordenar o trânsito, que ficou engarrafado na região.

O

Helicópteros sobrevoavam a área para acompanhar a movimentação dos manifestantes, que chegaram em oito ônibus, 11 motocicletas, Kombis, táxis e carros particulares. A carreata saiu do Cemitério São João Batista, escoltada por PMs, por volta das 17h. Em princípio, o grupo queria seguir em direção ao Túnel Santa Bárbara, mas foi desaconselhado por policiais, sob o argumento de que poderiam sofrer represálias por parte de bandidos do Morro da Mineira, pois o trajeto passa num acesso à favela controlada por uma facção criminosa rival. Pista do Rebouças é fechada e trânsito pára O caminho escolhido, então, foi o Túnel Rebouças. A saída do grupo assustou comerciantes das imediações do cemitério, que fecharam as portas. Mas não houve tumulto. Para a passagem dos ônibus, PMs fecharam as pistas do Rebouças em direção ao Centro. Um longo congestionamento se estendeu até à Lagoa. Um dos ônibus enguiçou na Cidade Nova e os moradores seguiram a pé. Os manifestantes — com cartazes, uma grande bandeira do Brasil e uma faixa preta em sinal de luto — se posicionaram em frente à escadaria do CML, protegida por uma corda. Eles gritavam “assassinos” e “Justiça”. O mestre de obras Dinaldo Barbosa, irmão de Marcos Paulo da Silva, uma das vítimas, estava no grupo e disse que a comunidade não vai aceitar mais a presença do Exército no morro: — Se eles voltarem à Providência, vai ter quebra-quebra. Segundo manifestantes, no dia em que capturaram os três moradores, os soldados do Exército subiram o morro gritando a sigla da facção rival. — Eles subiram já dispostos a pegar algum morador para vender aos traficantes da Mineira — disse uma moradora, sem se identificar. Manifestantes acusaram integrantes do grupo Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência, tido como radical, de terem começado a atirar pedras contra os militares, o que iniciou o confronto, que se estendeu por quase 20 minutos. Um carro foi depredado. Um integrante do grupo foi detido numa segunda tentativa de protesto, por volta das 19h, na rua situada nos fundos da Central. Q

AMEAÇA: Durante o protesto, um manifestante ergue o polegar e o indicador, simulando uma arma, como se fosse atirar nos militares

Operários cruzam os braços contra o Exército Trabalhadores dizem que só retomam obras se militares desocuparem morro Domingos Peixoto

Cristiane de Cássia O De manhã, cerca de 50 dos 75 trabalhadores das obras do programa Cimento Social no Morro da Providência também fizeram um protesto em frente ao CML. Os operários cruzaram os braços e afirmaram que só voltariam quando o Exército deixar a comunidade. Eles alegam que não se sentem mais seguros para trabalhar ao lado das tropas, após o assassinato dos três jovens moradores. — Enquanto tiver Exército, não tem obra — garantiu o encarregado do serviço, o pedreiro Alex Oliveira dos Santos. Segundo Alex e outros trabalhadores, após seis meses de aparente paz no morro com a presença do Exército, o fim de semana foi de terror para os moradores. Várias pessoas teriam sido agredidas, tiros teriam sido dados a esmo e um toque de recolher foi imposto às 22h, com o apagar das luzes à meia-noite: — De noite, eles gritam que a comunidade agora é deles. Ninguém os quer mais na comunidade. Não temos mais confiança na roupa verde do Exército. Um ajudante de pedreiro ferido no sábado por estilhaços de fuzil participou do protesto ontem de manhã. Josuel

O PROTESTO dos operários de manhã, em frente ao CML: denúncias de arbitrariedades

Bueno Ribeiro, de 32 anos, diz que tem medo de ficar na comunidade juntamente com o Exército: — Moro desde que nasci na comunidade e nunca fui ferido. Como vou agora tomar tiro de quartel? Agora estou com medo. Eles estão apontando arma para a gente, dando tiro a esmo. Até o início da tarde, a posição do

CML era de que o Exército não deixaria a Providência, a menos que houvesse uma ordem da Presidência da República. As obras do projeto de reurbanização, conhecido como Cimento Social, acontecem há seis meses. A construtora contratada inicialmente foi trocada pela empresa Edil porque não estaria dando seguimento às obras.

André Coelho

Enterro entre lágrimas e muita revolta Em faixas, Exército é tratado como inimigo e, aos gritos, Crivella é chamado de pilantra Célia Costa e Ludmila Curi

Muito revoltados, mais de 300 moradores do Morro da Providência acompanharam ontem à tarde o enterro, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, dos três jovens assassinados no sábado, depois de entregues por militares a traficantes do Morro da Mineira. Durante o velório, parentes e amigos, que chegaram em oito ônibus, exibiram faixas e cartazes em protesto contra o Exército e contra o senador Marcelo Crivella (PRB), autor do projeto Cimento Social, que tem a prote-

O

FOGO na farda: um uniforme militar de camuflagem é incendiado durante o protesto em frente ao Comando Militar do Leste

ção de soldados na favela. Na área dos túmulos, amigos estenderam uma bandeira verde e amarela manchada de vermelho, simulando sangue. Entre os que seguravam a bandeira estava uma senhora que contou ter se atracado com os militares e conseguido impedir que um outro rapaz fosse levado. Chorando muito, ela lamentava não ter conseguido salvar os demais. — Eu só consegui salvar um — lamentava. Numa das capelas, ao lado do caixão de David Wilson Florêncio, de 24 anos, uma faixa trazia os dizeres: “Exército Brasileiro: mão amiga ou ini-

miga? Ordem e progresso, ou desordem e desprogresso?”. — O Negão (apelido de Wellington) ia começar hoje nessa obra maldita que o Crivella colocou lá no morro. A morte do meu filho é uma facada no meu coração — dizia, aos prantos, Lilian Gonzaga da Costa, mãe de Wellington Gonzaga da Costa, de 19 anos. O comandante do Grupamento de Policiamento em Áreas Especiais (Gpae) da Providência, capitão Leonardo Zumar, foi ao cemitério prestar solidariedade às famílias dos jovens. Ele conversou com a avó de Wellington, Nair

Araújo Ferreira, de 81 anos, que estava inconsolável. — Isso foi a maior barbaridade. Exército é para defender o nosso país, não para fazer uma injustiça dessa — disse Nair, aos prantos. Na hora do sepultamento de David, Wellington e de Marcos Paulo da Silva Correia, de 17 anos, muitos aplausos e mais manifestações de indignação. Moradores puxaram o coro “Crivella, se manda, pilantra”. Q O GLOBO NA INTERNET

GALERIA Veja fotos do enterro dos jovens www.oglobo.com.br/rio


O GLOBO: A GUERRA DO RIO II