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PubDate: 07-12-2012 Zone: Nacional Edition: 2 Page: PAGINA_AA User: Asimon Time: 12-06-2012 23:16 Color: C K Y M

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Sexta-feira 7 .12 .2012 2ª Edição

O GLOBO

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ANDRÉ COELHO

Homenagem. O corpo do arquiteto Oscar Niemeyer desce a rampa do Palácio do Planalto após o velório que teve a presença da presidente Dilma Rousseff, de ministros, autoridades da República e familiares: pompa de chefe de Estado

O REENCONTRO DO CRIADOR COM SUA OBRA Emoção marca velório de Oscar Niemeyer no Salão Nobre do Palácio do Planalto, em Brasília, um dos muitos prédios projetados pelo arquiteto na capital do país

MARIA LIMA, JÚNIA GAMA E FERNANDA KRAKOVICS

granderio@oglobo.com.br

Foi marcada pela emoção a última passagem do criador Oscar Niemeyer pelas avenidas e pelo palácio que saíram de suas pranchetas. A primeira parte do velório no Salão Nobre do Palácio do Planalto, com pompa de chefe de Estado, reuniu familiares, a presidente Dilma Rousseff, ministros, governadores, parlamentares, representantes do corpo diplomático e chefes de poderes, como o ministro Joaquim Barbosa, que pela primeira vez compareceu ao local como presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). Em seguida, moradores de Brasília e de várias partes do Brasil enfrentaram o sol forte e longas filas na Praça dos Três Poderes para chegar perto do caixão e prestar suas homenagens no último adeus ao arquiteto.

-BRASÍLIA-

APLAUSOS NA SUBIDA DA RAMPA O cortejo em carro do Corpo de Bombeiros, partindo do Aeroporto Juscelino Kubitschek, pelas ruas da capital teve início pouco antes das 15h. Quando chegou ao Planalto, o corpo do arquiteto foi levado, sob aplausos, pela rampa principal de acesso ao Salão Nobre por cadetes da Polícia Militar do Distrito Federal, ladeados pela guarda de honra dos Dragões da Independência. Pouco antes da chegada do corpo, a presidente Dilma Rousseff desceu ao salão, acompanhada da viúva do arquiteto, Vera Lúcia Niemeyer. Ao lado de familiares, Dilma e Vera Lúcia recepcionaram o caixão no alto da rampa. A presidente não escondeu a emoção naquele momento. Os familiares agradeceram a Dilma Rousseff por oferecer o Planalto para o velório de Niemeyer. — Oscar não podia ir embora sem se despedir da cidade que ajudou a criar. Depois que faleceu, ele não é mais só nosso, é do país. Esta despedida era

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CERIMÔNIA NO RIO

DESPEDIDA SERÁ NO PALÁCIO DA CIDADE O velório do arquiteto Oscar Niemeyer, no Palácio da Cidade, em Botafogo, estará aberto ao público a partir das 8h de hoje. O caixão, vindo de Brasília, chegou ao local por volta das 22h40m de ontem. Do caminho do Aeroporto Santos Dumont para o prédio, o carro funerário foi escoltado por motociclistas. Um ônibus foi reservado para levar os parentes de Niemeyer. Durante toda a noite, aconteceu no palácio um velório restrito a familiares. Após ser aberto ao público em geral, a previsão é que os cariocas possam se despedir do arquiteto até as 15h. Duas horas depois, o cortejo fúnebre sairá do Palácio da Cidade em direção ao Cemitério São João Batista. O enterro será fechado para a imprensa, a pedido da família. O arquiteto morreu na noite de quarta-feira, às 21h55m, em decorrência de uma infecção respiratória, após passar 33 dias internado no Hospital Samaritano. Ele estava sedado e faleceu na Unidade Coronariana, em companhia da família. Niemeyer passou parte de seu último dia lúcido. No final da manhã de quarta-feira, ele foi sedado e intubado. Segundo o médico Fernando Gjroup, que cuidava do arquiteto há 20 anos, Niemeyer já tinha passado por outras situações graves: — Ele surpreendeu em várias situações. Esta vez, infelizmente, não foi mais uma delas.

uma homenagem que não podia faltar a ele — disse o neurocirurgião Paulo Niemeyer, sobrinho do arquiteto. Após um minuto de silêncio, formouse uma extensa fila aberta pela presidente Dilma e pela viúva. O vice-presidente da República, Michel Temer, os presidentes da Câmara e do Senado, Marco Maia (PT-RS) e José Sarney (PMDB-AP), e o presidente do Supremo Tribunal Federal seguiram a presidente. No único momento em que ele se aproximou de Dilma, ela manteve o semblante fechado, mostrando o desconforto repetido quando compareceu à sua posse, no STF. ‘ELE AJUDOU A TRANSFORMAR O BRASIL’ Como chefe de poder, Joaquim foi acomodado lado a lado com representantes do PT, o partido que teve mais correligionários punidos no julgamento do mensalão, no STF. Sentou-se entre o presidente da Câmara, Marco Maia, e o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT). Três fileiras atrás, na mesma direção, estavam o presidente do PT, Rui Falcão, e o deputado José Guimarães (PT-CE), irmão de José Genoíno, condenado no mensalão. Presente ao velório no Palácio do Planalto, o ministro Aldo Rebelo (Esporte), que é do PCdoB, ressaltou o engajamento político de Niemeyer, que se filiou ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1945, e afirmou que ele ajudou a transformar o Brasil por meio das artes, da cultura e da política. Mas, para o ministro do Esporte, teria ficado uma lacuna na vida do arquiteto Oscar Niemeyer: — Ficou uma lacuna, porque ele nunca participou da construção de um estádio de futebol. Ele chegou a participar do concurso do Maracanã, mas não foi classificado. Segundo ele, merecidamente. Neto do arquiteto, Carlos Oscar Niemeyer afirmou que há cerca de dez anos o avô não visitava Brasília, porque

tinha medo de andar de avião e porque problemas de saúde impediam que fizesse viagens de carro mais longas: — Uma pessoa que tinha uma preocupação enorme com os outros, ele dizia sempre para a gente que a palavra mais bonita era solidariedade. Dizia que a vida é um segundo, então a gente tem que viver bem com a família, com os amigos. Acho que esse é o grande exemplo que ele deixa para a família e para os amigos. Segundo a neta Ana Lúcia Niemeyer, o crescimento exacerbado da capital federal era motivo de preocupação para o arquiteto. — Ele tinha uma grande preocupação, porque Brasília cresceu mais do que era previsto, e surgiram diversos problemas que as grandes cidades têm, problemas de infraestrutura, com que ele se preocupava muito — disse a neta do arquiteto que criou Brasília. PARA OS NETOS, CERIMÔNIA EMOCIONANTE Os netos consideraram a cerimônia de despedida “muito emocionante” e destacaram que pretendem “divulgar e preservar o pensamento” do avô. — A recepção no aeroporto, ele saindo do avião enrolado na Bandeira Nacional, a salva de tiros, as pessoas vindo vê-lo, tudo isso mostra o carinho que as pessoas têm por ele e por Brasília — afirmou Ana Lúcia. O Salão Nobre do Planalto ficou pequeno para tantas coroas de flores, enviadas por embaixadas e chefes de governo de vários países. O presidente de Cuba, Raúl Castro, mandou uma coroa com dedicatória carinhosa: “Ao amigo Oscar Niemeyer, do general de Exército Raúl Castro Ruz”, escreveu o cubano, sem citar a condição de presidente. Outras coroas se destacaram, como a da família do escritor Graciliano Ramos. Fora do país, o ex-presidente Lula e dona Marisa mandaram uma coroa de rosas vermelhas e brancas em homenagem ao arquiteto. l

“A morte de Oscar Niemeyer transcende a perda de um genial arquiteto. Fica a ausência de um humanista brilhante, que fez de sua vida um dedicado serviço à cultura e às artes” Marco Maciel Ex-vice-presidente da República e presidente da Fundação Oscar Niemeyer

“Oscar não podia ir embora sem se despedir da cidade que ajudou a criar. Depois que faleceu, ele não é mais só nosso, é do país. Esta despedida é a homenagem que não podia faltar” Paulo Niemeyer Médico e sobrinho do arquiteto

“É um daqueles brasileiros que fizeram a diferença por seu trabalho, sua competência, sua originalidade” Aloizio Mercadante Ministro da Educação

O GLOBO: MORRE OSCAR NIEMEYER  
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