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oglobo.com.br

IRINEU MARINHO (1876-1925)

RIO DE JANEIRO, DOMINGO, 20 DE MAIO DE 2012

ANO LXXXVII

O

ROBERTO MARINHO (1904-2003)

N 28.776

Leonardo Aversa

OGLO

BO

esportes Vágner Love salva Flamengo de derrota Sem novidades após 26 dias de treinos, o Flamengo conseguiu empatar com o Sport em 1 a 1, graças a gol de Vágner Love, em Recife, na estreia no Campeonato Brasileiro. O goleiro Paulo Victor foi o destaque do rubro-negro. Já Ronaldinho Gaúcho voltou a ter uma atuação decepcionante.

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SAÚDE Nutricionistas ensinam como emagrecer sem afetar a saúde e tampouco o prazer de se alimentar. l

MORAR BEM

IMPETUOSA, AUTÊNTICA e sensual, a personagem Gabriela, que foi criada pelo escritor Jorge Amado em 1958 e será vivida pela atriz Juliana Paes a partir de junho na TV Globo, ainda hoje sobrevive no imaginário coletivo como símbolo da feminilidade brasileira. Guito Moreto

Ritmo de vendas não se sustenta,

Ela tem a força

e os preços dos imóveis usados no Rio já começam a diminuir.

BOA CHANCE

SEGUNDO CADERNO

Um reinício para o rock brasileiro

Comportamento da nova classe C influencia a

Há 20 anos, o Skank começava a

CAETANO VELOSO: Ao

O emprego verde cresceu 26,7%

programação e se torna tema

gravar seu disco de estreia, que

contrário do que querem fazer

em cinco anos, acima dos 25,3%

de novelas como “Cheias de

abriu as portas para a geração de

crer meus maus imitadores,

da média do país, informa a OIT.

charme”, na Globo.

Raimundos, O Rappa e outros.

não vivo dizendo “ou não”.

Favelas ocupam área menor, mas crescem para cima Desde 2008, a área de favelas diminuiu 2%, revela o Instituto Pereira Passos (IPP). Porém, a verticalização das construções continua acelerada. Página 18

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Legista do caso Herzog diz que contará segredos Harry Shibata, legista que assinou a autópsia do corpo do jornalista Vladimir Herzog, morto sob tortura na ditadura, afirma ter segredos a contar na Comissão da Verdade. Página 9

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ISABELLE Drummond, Leandra Leal e Taís Araújo

Novo golpe em aposentados frauda o crédito consignado Idosos são as principais vítimas de empréstimos falsos e superendividamento Num país com número cada vez maior de idosos, uma nova fraude, que tem aposentados e pensionistas como principal alvo, se espalha pelo Brasil: o golpe do empréstimo consignado, informa CHICO OTAVIO. Pequenas financeiras, muitas vezes disfarçadas de agências do INSS, se multiplicam com a promessa de

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Futuro do Egito entre o Islã e o secularismo

democratizar o crédito fácil, sem consulta ao SPC ou avalista. Os beneficiários são convencidos a contrair um empréstimo com desconto em folha — mas o primeiro, verdadeiro, abre caminho para outros feitos à revelia do titular. Em Pernambuco, a Defensoria Pública localizou um aposentado em nome de quem foram

contraídos 17 empréstimos, sem que ele visse o dinheiro. No Rio, a Defensoria ajuizou ações de ressarcimento em nome de uma aposentada que foi descontada de empréstimos que nunca requisitou. Só este ano foram firmados no país contratos de empréstimos consignados que somam R$ 11,4 bilhões. Páginas 3 e 4

Brasil sem amianto André Coelho

Os egípcios vão às urnas esta semana escolher, numa histórica eleição, o primeiro presidente do país na Primavera Árabe. Das urnas sairá um governo islamista ou secularista. Página 48

Tombini: ‘País está 200% preparado’

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O presidente do BC, Alexandre Tombini, diz que o país está “200% preparado” para enfrentar a crise global, mas admite que é difícil prever um patamar para o dólar, que deve seguir em alta lá fora, revelam SERGIO FADUL , REGINA ALVAREZ e GABRIELA VALENTE. “Ninguém sabe onde vai parar isso, vai depender dos desdobramentos da crise”. Tombini garante que os juros vão cair mais. Página 43 l

CH ICO EM BRASÍLIA, TODA HORA É HORA:

A HISTÓRIA DE MORA Ulysses tinha histórico caso de desamor com os militares. Era inimigo da censura: “O futuro e a História são incensuráveis.” Página 14

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— Pronto: começaram de novo com a operação “seca Pimentel”!

RIO +20

Edição de Brasília • Preço no Distrito Federal • R$

A exploração na única mina de amianto ativa do país, em Minaçu (GO), pode estar com os dias contados. O STF está pronto para julgar o banimento da fibra, considerada cancerígena. Páginas 39 a 41

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6 • Morar Bem e Boa Chance circulam na Região Metropolitana do Rio, na Costa Verde, na Região Serrana e na Região dos Lagos (menos Macaé e Rio das Ostras)


Domingo, 20 de maio de 2012 h

ECONOMIA

O GLOBO

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O BRASIL SEM AMIANTO André Coelho

Duas cidades ligadas pelo amianto Em Bom Jesus da Serra, poeira branca era ‘neve no sertão’. Em Minaçu, creche e até igreja são bancadas por empresa

RIO +20 Cássia Almeida cassia@oglobo.com.br

Danilo Fariello danilo.fariello@bsb.oglobo.com.br Correspondente

BOM JESUS DA SERRA (BA) e MINAÇU (GO). Enquanto as discussões fervilham nas universidades, no Congresso e na Justiça, os moradores de Bom Jesus da Serra, no semiárido baiano, e em Minaçu, no interior de Goiás, vivem às margens do amianto. As duas cidades sofrem com os efeitos da mineração. A primeira nasceu com o início da extração do asbesto no Brasil, em 1940. A segunda ainda vive da mina. Dono de uma olaria, Esmeraldo dos Santos Teixeira, conhecido como Nego em Bom Jesus, lembra da infância. Com a mãe, usava um martelinho de geólogo e, desde os 8 anos, tirava a lã de amianto das pedras que não passavam na britadeira. Trocava a fibra por papéis que exibia valores que eram aceitos na vila operária na década de 1940. Na cidade, tinha até pista de pouso, cinema, posto médico, escola e igreja. Tudo custeado pela Sama, que pertencia à francesa Saint-Gobain, e explorou a mina até 1967. Hoje, a Sama é da Eternit. — Brincávamos na poeira e no lago depois que a mina foi desativada (em 1967). Não sabíamos que o amianto matava — diz Esmeraldo, lembrando que a poeira branca tomava conta da cidade e parecia nevar no sertão, a ponto de o cemitério se chamar Branca de Neve. Essa consciência surgiu somente na década de 2000. O pai, Israel Teixeira, era classificador de amianto. Em 1987, com 57 anos, morreu com sintomas de “fadiga”, como a maioria dos extrabalhadores da mina de São Félix: as unhas ficaram roxas, ele não podia andar 30 metros que cansava e sua capacidade respiratória se foi, conta Teixeira: — Em 2001, meu primo morreu de asbestose e comecei a perceber que meu pai também foi vítima do amianto.

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Cidade acompanha debates sobre banimento Assim como Ilton Batista Cascalho acompanha periodicamente a evolução de seu nódulo calcificado no lado direito do pulmão, a cidade de Minaçu, em Goiás, às margens do Rio Tocantins, monitora os debates sobre o banimento do uso do amianto no país. Cascalho depende da sua capacidade respiratória, assim como os moradores da cidade dependem da mina. O fechamento da mina de Cana Brava em Minaçu assusta funcionários e ex-funcionários da empresa com problemas pulmonares — que têm plano de saúde vitalício custeado pela Sama. A economia do município depende em mais de 50% da mina. Há 638

funcionários da Sama em Minaçu e 584 terceirizados. — Se a Sama fechar, Minaçu vira uma cidade fantasma. E eu fico ruim no mercado, porque vou passar a ser visto como um trabalhador doente — disse Ednaldo Luiz Corrêa, de 33 anos, funcionário da mineradora. A cidade já vive essa incerteza. Casas vendidas por R$ 300 mil hoje não têm comprador por valor algum. Há busca por novas EXTRAÇÃO DE amianto na empresa Sama, em Minaçu, Goiás: mina que sustenta a cidade é atualmente a única em atividade no país receitas, como a exMárcia Foletto Márcia Foletto pansão do turismo, em parte paga com royalties da cidade. A empresa patrocina creche, asilo, clube, escola, hospital e até um incinerador para processar o lixo da cidade. Para agradar a todos, pagou a construção da matriz da igreja católica e também da maior igreja evangélica. Era assim também em Bom Jesus, tudo acontecia com o patrocínio da mina. E a história se repete 50 anos depois em Goiás. Hoje, em Bom Jesus da Serra, doentes e viúvas fazem fila. Famílias vivem de aposenta- EM BOM Jesus da Serra, Evandra é uma das viúvas do amianto ALCIDES, AO lado da mulher, sofre de asbestose graças ao trabalho na mina dorias rurais, Bolsa Família e agricultura de subsistência quando há chuva. Em Bom Jesus, não cai água do céu desde 26 de dezembro. Na chamada cama de poeira, É perigoso usar telhas de ami- to que prende as fibras se sol- se dá só na inalação da fibra. Já Há risco para trabalhadores? onde o minério era separado, ta juntamente com o amianto. quem é contra o amianto diz Quem defende a fibra lembra anto? operários, entre eles, muitas muQuem defende a fibra diz que Assim, as fibras podem ser que não há evidências suficien- que após 1980 foram adotadas lheres, ficavam cobertos de pó. não. A justificativa é de que, inaladas e causar câncer mais tes de que ingerir a fibra possa medidas de segurança que imEvandra Vieira Brito, que perdeu segundo pesquisas, ninguém tarde. Mas os riscos são muito causar danos à saúde. Mas, se- pedem a contaminação do trao marido, ex-funcionário da Sagundo Ubirani Otero, responsá- balhador. Já quem defende a adoeceu morando em casas baixos, admitem. ma, com câncer em 2009, lembra cobertas pelas telhas. Elas de- É perigoso beber água deposi- vel pela Área de Vigilância do proibição diz que não há níveis das amigas da mina: moram décadas para se dete- tada em caixas d’água de Câncer Relacionado ao Traba- seguros pelo fato de o amianto — Eram umas 20 meninas na lho e ao Ambiente, do Inca, há ser uma fibra considerada canriorar e as fibras ficam presas amianto? cama de poeira. Morreram toao cimento usado na fabrica- Quem defende a fibra afirma estudos que ligam a absorção cerígena. Ainda há os trabalhadas vomitando sangue. ção das telhas. Já quem defen- que não há pesquisas que indi- do amianto por via oral à cân- dores da construção civil que Em Minaçu, se a mineração se de a proibição diz que as te- cam que há risco ao beber essa cer de laringe, pulmão e estô- não contam com a segurança tornar inviável, o plano é conselhas se deterioram e o cimen- água porque a contaminação mago. do trabalho nas fábricas. guir um cronograma de banimento. Representantes de trabalhadores e da cidade têm converCORPO A CORPO sado com o Ministério de Minas CORPO A CORPO e Energia para traçar um plano, no caso de fechamento a curto FERNANDA GIANNASI ÉLIO MARTINS prazo e a longo prazo. Mesmo operando em capacidade máxima há quatro anos, a mineradora não investiu US$ 30 milhões para elevar sua cal A auditora fiscal do Trabama que por trás da luta pelo l O mais recente vídeo instipequeno como dizem. pacidade anual de extração em banimento há, na verdade, lho Fernanda Giannasi luta tucional da Eternit traz o le50 mil toneladas/ano — hoje, pelo banimento do amianto uma guerra comercial? ma “um novo ciclo”. Ele indi- l A empresa tem plano B, extrai 300 mil toneladas — com há mais de 20 anos. Para ela, FERNANDA: A luta pelo baca uma reforma no modelo para o caso do banimento? medo de não recuperar o innão há nível seguro de uso nimento do amianto vem de produção da empresa, MARTINS: Existem situavestimento. A empresa tamda fibra e os trabalhadores e bem antes dessa guerra comas não cita diretamente o ções em que não dá para ter bém tem procurado ex-emprea população estão expostos. mercial, quando as duas emfim das operações com o plano B, como para a minegados e viúvas da asbestose — presas, Eternit (que produz amianto. Segundo Élio Mar- radora ou Minaçu. Já a Eterdoença causada por exposição l O GLOBO: A indústria diz com amianto) e Brasilit (que tins, presidente da Eternit, nit é uma empresa de mateao amianto — propondo um fabrica telhas sem a fibra), que não há risco para os como empresa de capital riais de construção. ObviaInstrumento Particular de trabalhadores desde os ainda eram sócias. aberto ela tem de se prepa- mente que a empresa tem Transação (IPT) para que eles anos 1980, com a adoção rar para diferentes cenários. de pensar como seria o dia abram mão de disputas judicidas medidas de segurança. l Minaçu, onde existe a mina seguinte, sem a principal ais. Com o IPT, a empresa dá FERNANDA GIANNASI: em atividade, depende totall O GLOBO: Como a Eternit matéria-prima. Mas esse plano de saúde e indenização a Não há nível seguro de uso mente da mineração. Como vê a possibilidade de o ami- plano B tem que ser do Brapartir de R$ 35 mil. de uma substância cancerí- ficará a cidade sem o amiansil: o setor representa 50% anto ser banido no país? — Há um passivo antigo, mas gena como o amianto. Ain- to? ÉLIO MARTINS: Eu parto do do que o Brasil usa de conão há novo caso de doença pulda há o risco para o restan- FERNANDA: Minaçu tem princípio que, se não resta- berturas (em imóveis). Almonar (causada pelo amianto) te da cadeia produtiva, co- uma dependência quase umrem dúvidas de que não é ternativas sem amianto não há 30 anos — disse Rubens Rela mo os trabalhadores da bilical com a mineração. É possível trabalhar e usar es- têm a mesma qualidade e Filho, diretor geral da Sama.n construção civil, que não preciso criar uma alternativa ses produtos com seguran- são mais caras. trabalham com as medidas para cidade, para que ela não ça, estamos dispostos a caO BRASIL SEM AMIANTO: Amade segurança adotadas nas se transforme numa Bom Jepitanear o processo de mu- l Mas o caso europeu pronhã: JUSTIÇA COMEÇA A INDENIfábricas. sus da Serra (cidade baiana dança no tempo tecnica- vou que é possível usar ouZAR AS VÍTIMAS DA FIBRA que abrigou a primeira mina mente possível para isso. tros produtos. l no Brasil). Eles bancam tudo Há 66 países que proibiAndré Coelho Mas as autoridades ainda MARTINS: A Europa proibiu ram o amianto. Mas não há para criar essa dependência. têm dúvidas dessa decisão. o amianto porque não há deproibição nos Estados Unimanda em construção, mas l Qual a estimativa de númedos e Canadá. Por quê? l Muitos países aboliram o elegeu produtos especiais paFERNANDA: ros de expostos ao amianto Nos Estados amianto, por causa de pro- ra a demanda que ficou. AcaUnidos, o amianto caiu em no Brasil? bamos de despachar amianto blemas de saúde... desuso em decorrência do FERNANDA: São quatro mil MARTINS: Na Europa havia para EUA e Alemanha, para favalor altíssimos das indeni- trabalhadores diretos na mimais de 1.500 fibras por cen- bricação de cloro-soda, por zações. O Canadá exporta- na e nas indústrias. Mas os extímetro cúbico de ar. A lei exemplo. Toda tecnologia imva mais de 90% do que pro- postos abrangem os operáribrasileira fala em 2 fibras/ plica risco, por isso temos de duziu, afirmando que o ami- os da construção, a populacm3 e trabalhamos com 0,1 minimizá-lo. Morrem sete mil anto não servia para os ca- ção do entorno das fábricas e fibra/cm3. O mundo usa 2,2 motociclistas por ano e ounadenses. os parentes. Assim, o número milhões de toneladas por tros sete mil ficam inválidos. sobe para um milhão de exano em mais de 120 países. E, por isso, vamos banir a mol A indústria do amianto afirpostos. (Cássia Almeida) Esse negócio hoje não é tão tocicleta? (Danilo Fariello)

BALTAZAR, EX-FUNCIONÁRIO da Sama, hoje trata o pulmão

a As dúvidas mais comuns sobre a fibra n

‘Vamos banir a motocicleta?’

‘São um milhão de expostos’


O GLOBO: O BRASIL SEM AMIANTO