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AGROECOLOGIA

SOLO BEM CUIDADO, RESULTADOS MULTIPLICADOS

Cadernos da Agricultura Familiar

Nº 04

2014 AGROECOLOGIA Cadernos da Agricultura Familiar

Ano Internacional da Agricultura Familiar Camponesa e Indígena

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Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. Tenho em mim esse atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal É maior do que o mundo. Manoel de Barros

Foto: Luciana Areas

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BOAS-VINDAS O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Euclides da Cunha O Cerrado brasileiro, a savana mais rica do mundo em biodiversidade, ocupa quase um quarto (mais de 20%) do território nacional. Distribuído por 2.036.448 quilômetros quadrados, o bioma reúne mais de 15 mil espécies de plantas e mais de 1,5 mil espécies de animais. Os estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo, e ainda o Distrito Federal, são áreas de incidência contínua de Cerrado no Brasil. Também existem enclaves de Cerrado no Amapá, em Roraima e no Amazonas. Do Cerrado surgem abundantes nascentes para as três grandes bacias hidrográficas brasileiras – Amazônica, do São Francisco e do Prata. Essa fartura de águas contribui para que o Cerrado guarde mais de 30% da biodiversidade brasileira. Um patrimônio que, infelizmente, encontra-se ameaçado pela ocupação de uma agricultura devastadora, centrada nas monoculturas e no uso dos agrotóxicos. A Agroecologia, abordagem da agricultura que se baseia nas dinâmicas da natureza, em que se trabalha a fertilidade e o cultivo do solo sem o uso de fertilizantes químicos e de agrotóxicos, é uma alternativa boa para cuidar do Cerrado, porque gera renda para as famílias de agricultores e agricultoras familiares e, ao mesmo tempo, contribui para preservar a biodiversidade e proteger o Meio Ambiente. Nesta cartilha, você encontra informações essenciais para fazer da Agroecologia uma prática sustentável em seu pedaço de chão. São ideias simples, práticas, eficientes e criativas para você explorar, aplicar e multiplicar e, assim, contribuir para o manejo agroecológico de nossas riquezas naturais, para uma alimentação mais saudável na mesa brasileira e para uma melhor qualidade de vida no Brasil e no mundo inteiro.

Bom Proveito!

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CERRADO

Biodiversidade em Números Estudos demonstram que no Cerrado existem 11 mil espécies de plantas nativas catalogadas, 220 espécies de plantas de uso medicinal comprovado e 400 espécies de plantas utilizadas na recuperação de solos degradados. No Cerrado encontram-se 200 espécies de mamíferos conhecidas, 800 espécies de aves, 180 espécies de répteis, 150 espécies de anfíbios e 1.200 espécies de peixes. O Cerrado serve de refúgio para 13% das borboletas, 35% das abelhas e 23% dos cupins dos trópicos. Cerca de 137 espécies de animais do Cerrado encontram-se ameaçadas de extinção. A anta, a capivara, o cachorro-do-mato-vinagre, o gato-maracajá, a jaguatirica, o lobo-guará, a onça-pintada, a suçuarana e o tamanduá-bandeira são alguns dos animais do Cerrado em risco de extinção. Gato-maracajá (Leoparduswiedii) – Animal de pelagem, com coloração amarelodourada, com rosetas escuras dispostas principalmente nas laterais do corpo. No dorso, as rosetas se fundem formando listras que vão do topo dos olhos à base da cauda. As patas traseiras têm articulações especialmente flexíveis, permitindo rotação de até 180º, o que lhe dá a rara habilidade dentre os felinos de descer de uma árvore de cabeça para baixo, como os esquilos. Fonte: www.procarnivoros.org.br

Foto: dariocnn.blogspot.com.br

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DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL A Organização das Nações Unidas (ONU) define Desenvolvimento Sustentável como o modelo de desenvolvimento capaz de suprir as necessidades dos seres humanos da atualidade, sem comprometer a capacidade do planeta de atender as gerações futuras. Segundo a ONU, o Desenvolvimento Sustentável, base e essência da Agroecologia, baseia-se em nove princípios: 1. Respeitar e cuidar da comunidade dos seres vivos. 2. Melhorar a qualidade de vida humana. 3. Conservar a vitalidade e a diversidade do Planeta Terra. 4. Minimizar o esgotamento de recursos não renováveis. 5. Permanecer nos limites de capacidade de suporte do Planeta Terra. 6. Modificar atitudes e práticas pessoais. 7. Permitir que as comunidades cuidem de seu próprio ambiente. 8. Gerar uma estrutura nacional para a integração de desenvolvimento e conservação. 9. Constituir uma aliança global.

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SUMÁRIO 08

SOLO – ORGANISMO VIVO

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EROSÃO E CONSERVAÇÃO DO SOLO

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COMO É FORMADO O SOLO

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QUEIMADAS IMPACTO SOBRE O SOLO

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SOLO DO CERRADO

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TECNOLOGIAS DE AGRICULTURA FAMILIAR SEM QUEIMADAS

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ELEMENTOS INDICADORES DA DEFICIÊNCIA DE NUTRIENTES

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MANEJO ECOLÓGICO PARA PRESERVAR A BIODIVERSIDADE

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COMO MANTER A FERTILIDADE DO SOLO

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BIBLIOGRAFIA

Foto: projetobarraginhas.blogspot.com.br

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AGRADECIMENTO Esta cartilha, chamada Agroecologia – Solo Bem Cuidado, Resultados Multiplicados – é inspirada na cartilha Agroecologia – Plante esta Ideia, coordenada pela Fundação Adenauer para o Projeto de Agricultura Familiar, Agroecologia e Mercado – Desenvolvimento Sustentável da Agricultura Familiar no Nordeste, produzida sob a coordenação da jornalista Maristela Crispim. Muitos dos dados daquele texto foram copiados e adaptados às necessidades dos projetos da Rede Terra e do Instituto Itiquira para o Cerrado e para as pessoas do campo. As duas instituições manifestam seu reconhecimento e agradecem à equipe de produção, à Fundação Adenauer, pela realização, à União Europeia, pelo apoio à cartilha do Nordeste, e às parcerias em Brasília, pela realização dos Cadernos do Cerrado. Todos os direitos para a utilização desta Cartilha-Caderno são livres. Qualquer parte poderá ser utilizada ou reproduzida, desde que seu uso seja exclusivamente sem fins lucrativos e que sejam reconhecidos os créditos.

EXPEDIENTE Agroecologia – Solo Bem Cuidado, Resultados Multiplicados Cadernos da Agricultura Familiar - 04 Pesquisa: Aldimar Nunes Vieira, Amanda Lima, André Luiz Lins, Daniela Guimarães, Janaína Faustino, Larissa Cristina de Oliveira, Matheus Chaves dos Santos, Socorro Alves Redação e Beneficiamento de Textos: Joseph Weiss, Nathália Santiago, Priscila Silva, Zezé Weiss Edição: Zezé Weiss Revisão: Lucia Resende Projeto Gráfico: Anderson Blaine Maio/2014 Tiragem: 5.000 exemplares Realização:

www.redeterra.org.br

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Produção:

www.institutoitiquira.org.br

www.xapuri.info

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SOLO – ORGANISMO VIVO O solo, ou seja, a terra em pisamos, é parte integral do ciclo da vida no planeta Terra. É do solo que retiramos parte dos nossos alimentos. É sobre o solo que construímos as casas que nos abrigam. É do solo que as plantas extraem os nutrientes que ativam seus metabolismos. É do solo que surge o extrato da vida humana, e é para o solo que retornam nossos corpos, ao fim de nossa jornada no Planeta. É no solo que vivem milhares, milhões de micro-organismos, como os fungos e as bactérias, ou as minhocas, as formigas, os cupins, os besouros, todos importantes em sua função de aerar a terra e fomentar a vida. É no solo que o ser humano planta suas sementes em busca do alimento saudável e da esperança renovada a cada colheita. De geração em geração, os/as agricultores/as trabalharam em harmonia com a terra para extrair do solo o seu sustento. Por milênios, a terra gerou vida e riquezas capazes de atender as demandas das gerações presentes, sem comprometer a existência das gerações futuras. Entretanto, desde a chamada Revolução Verde, a partir da metade do século XX, com a ganância do agronegócio e a invenção de novos venenos e novas tecnologias para exaurir os recursos da Terra, a civilização humana vem exigindo do solo mais do que a sua capacidade de prover para a vida no Planeta. O círculo vicioso da Revolução Verde, onde os nutrientes necessários para recompor o solo são substituídos artificialmente, por meio do uso de produtos químicos que desequilibram a própria conformação da vida na terra, faz com que apareçam pragas mais resistentes nas plantações e doenças mais graves entre os seres humanos. Por essa razão, e cada vez mais, a agroecologia surge como alternativa para recuperar o equilíbrio do solo e para sustentar a vida na Terra.

Foto: Wikimedia

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COMO É FORMADO O SOLO O solo é formado a partir de uma rocha de origem que, pela ação dos microorganismos e dos elementos do clima, como a chuva, o gelo, o vento e a variação da temperatura, vai-se transformando, ao longo do tempo, em um material mais solto e mais macio, que passa a ser chamado de parte mineral do solo. A formação do solo depende, portanto, da rocha matriz que é transformada, por pressão, temperatura, água e vento, em areia ou barro que resultam, depois de centenas, milhares ou milhões de anos, nos diferentes tipos de solo existentes no planeta Terra. HORIZONTES DO SOLO Observando-se um corte de solo sob uma perspectiva lateral, podemos dividir esse perfil em quatro horizontes:

O – Superfície, também chamada de manta morta ou serapilheira – local onde a matéria orgânica ainda está em decomposição. A – Local logo abaixo da Superfície – local onde estão a maior parte da matéria orgânica decomposta, as raízes e os micro-organismos. B – Subsolo – local onde o material rochoso se decompõe. C – Solo rochoso.

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OS ORGANISMOS DO SOLO Nos processos de decomposição e renovação do ciclo da vida, os organismos do solo têm como principal função a decomposição da matéria orgânica e da fração mineral, para que os nutrientes possam ser disponibilizados para as plantas. Eles se dividem em macro e micro-organismos. MICRO-ORGANISMOS São os fungos, as bactérias, os protozoários, os artrópodes e as algas. Os micro-organismos estão no solo para converter em matéria orgânica os resíduos animais (esterco e animais mortos) e as partes mortas das plantas. Ao mobilizar nutrientes, ácidos e outros elementos, os micro-organismos garantem a continuação da vida. Eles ajudam a formar a textura e a porosidade do solo, a garantir a disponibilidade de nutrientes e a manter as atividades biológicas (microbianas) necessárias para que o ciclo se mantenha. O solo é, portanto, a casa de uma comunidade viva, e é em sua camada superior que se forma a maior parte da biodiversidade na Terra: Bactérias São os menores organismos de uma só célula. Em cada grama de solo, há mais de um milhão de diferentes tipos de bactérias. Elas fornecem nutrientes às plantas. Fungos Ajudam a decompor a matéria orgânica, liberando nutrientes. Alguns fungos produzem hormônios e até antibióticos. Micorrizos São fungos que vivem dentro das raízes, ajudando-as a absorver água, fósforo e outros nutrientes, e protegendo-as dos nematoides. Actinomicetos São bactérias em forma de filamentos que decompõem a matéria orgânica, liberando nutrientes e evitando as doenças das raízes com seus antibióticos.

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Algas Produzem seu próprio alimento através da fotossíntese. Aparecem numa camada verde em cima do solo após certas chuvas. Produzem material pegajoso que prendem as partículas do solo, formando agregados que não se desfazem na água. Protozoários Nadam na água entre as partículas de solo. Ao digerir bactérias, oferecem o nitrogênio para a absorção mais rápida de nutrientes pelas plantas. Nematoides Também aceleram a absorção dos nutrientes. Poucos são nocivos às plantas.

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MACRO-ORGANISMOS As minhocas, as formigas, os cupins e os besouros são macro-organismos que complementam o processo de decomposição da matéria orgânica, da fixação de nitrogênio e da ciclagem de nutrientes no solo. As minhocas decompõem a matéria orgânica, formando o húmus. Ao caminhar, dão passagem ao ar e à água no solo, tornando-o mais poroso para as raízes. As formigas, cupins e besouros fortalecem a estrutura do solo com resíduos reciclados, formando agregados e poros, tornando-o mais resistente aos ventos e às chuvas.

Foto: oextensionista.blogspot.com.br AGROECOLOGIA Cadernos da Agricultura Familiar

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SOLOS ORGÂNICOS Solos orgânicos são aqueles constituídos por matéria orgânica, oriundos da decomposição vegetal e da ação de micro-organismos, com boa aeração. Os solos orgânicos reduzem os efeitos da compactação, aumentam a capacidade de retenção de água no solo, diminuem a necessidade de irrigação e resistem melhor à seca prolongada. Ou seja, são solos com horizontes O e A mais profundos, que facilitam o crescimento dos micro-organismos, os quais favorecem o crescimento das plantas. A matéria orgânica nos solos é o cerne da manutenção de sua capacidade produtiva. É o uso da matéria orgânica que garante a boa produtividade dos cultivos agroecológicos. Plantas bem nutridas crescem mais, produzem mais, são mais resistentes à seca, às pragas e às doenças. Os adubos orgânicos representam, portanto, a seiva capaz de alimentar o sonho de uma produção agroecológica em escala nos espaços da agricultura familiar Brasil afora. Fonte: Chaboussou (1995).

Foto: www.mafes.net

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CICLO DOS NUTRIENTES NO SOLO E NA PLANTA A planta cresce absorvendo água e nutrientes do solo. As folhas caem, se descompõem e voltam ao solo como matéria orgânica, absorvida pelas raízes ou mantida na terra para enriquecer o solo.

QUALIDADE DO SOLO O solo é a base da vida e o bem mais precioso do nosso planeta. O solo do Cerrado é fonte de cobiça para o agronegócio e fonte de riqueza para milhares de agricultores e agricultoras familiares. A qualidade do solo envolve sustentabilidade, produtividade, sistemas de manejo e conservação e depende de alguns atributos como textura, profundidade, permeabilidade, atividade biológica, capacidade de armazenar água e nutrientes, e também quantidade de matéria orgânica. Quem é agricultor/a ecológico/a sabe quando o solo está saudável ou doente, fértil ou morto. O solo fértil gera uma terra macia. Ao absorver a água das chuvas, o solo fértil deixa escorrer pouca água. No solo fértil a terra fica mais tempo úmida na seca e resiste melhor à erosão. O solo saudável ideal é puro, sem resíduos tóxicos ou metais pesados, com nutrientes em equilíbrio, sem pragas e sem doenças. O solo morto é compactado e cria crosta depois do plantio. AGROECOLOGIA Cadernos da Agricultura Familiar

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SOLO DO CERRADO O solo do Cerrado, em geral, é classificado como latossolo, ácido e com baixa concentração de nutrientes (N, P, K, Ca, Mg), além da alta saturação de alumínio tóxico. A baixa concentração de nutrientes e a alta concentração de alumínio no solo contribuem para o baixo crescimento das plantas e para as formas retorcidas das árvores nativas, característica típica da vegetação do Cerrado. A baixa fertilidade do solo também influencia a baixa produção de matéria orgânica nas regiões de Cerrado. Os restos de vegetação (folhas, ramos, caules e cascas de frutos), em seus diferentes estágios de decomposição, formam uma camada fina de matéria orgânica, insuficiente para garantir uma alta fertilidade do solo. Por essa razão, estudos mostram uma produtividade três vezes maior em área de Cerradão, onde a vegetação é mais abundante, com topos de árvores de até 15 metros, do que nas áreas de Cerrado típico, cobertas principalmente por gramíneas. FATORES QUE AFETAM A DISPONIBILIDADE DE NUTRIENTES A eficiência nutricional é a capacidade que uma planta tem de absorver e utilizar os nutrientes disponíveis. Plantas com alta capacidade de absorção e utilização de nutrientes conseguem ter maior produtividade. Assim, quando há a dificuldade de se obter os nutrientes que necessitam, por diversos fatores, as plantas reduzem sua eficiência e passam a apresentar déficit nutricional. Os principais fatores que afetam a disponibilidade dos nutrientes no solo são: • rocha de origem do solo • pH, ou acidez do solo • chuvas • matéria orgânica ROCHA DE ORIGEM DO SOLO Muitos nutrientes fundamentais (N, K, P, S, Ca, Mg) para o desenvolvimento das plantas são escassos em solos profundos como o latossolo. A escassez de nutrientes se deve ao fato de que os materiais vindos da rochamãe são pobres em nutrientes, e esses poucos são perdidos por meio da ação de degradação da rocha e da chuva, que os levam os nutrientes para abaixo do acesso das plantas.

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Dessa forma, o material originado da rocha-mãe influencia na quantidade de nutrientes que serão dispostos para as plantas, pois é deste material que vem o solo. Se o solo não fornece às plantas os nutrientes fundamentais, elas terão dificuldade para crescer. PH O Cerrado apresenta um pH ácido, variando de 4.3 a 6.2 aproximadamente. Esse pH ocorre porque no latossolo do Cerrado há altas quantidades de alumínio tóxico e há baixa disponibilidade de nutrientes essenciais como o fósforo, o cálcio, o magnésio, o potássio, o zinco. A alteração do pH do solo causa dois problemas principais: • Os nutrientes não ficam disponíveis, como no caso do fósforo • Elementos como o alumínio ficam mais tóxicos quando o pH está abaixo de 5.0. Como o solo do Cerrado típico é ácido, essa situação é comum, inibindo a formação normal da raiz e dificultando a absorção de nutrientes. REGIME DE CHUVAS O Cerrado possui um regime bastante diferenciado de chuvas: seis meses de seca, época em que as plantas precisam se proteger, para evitar a morte; e seis meses de chuva, em geral com água abundante, época em melhoram a fotossíntese, a absorção de nutrientes e a fixação de nitrogênio pelas plantas do Cerrado. MATÉRIA ORGÂNICA A matéria orgânica aumenta a fertilidade do solo, pois melhora diversas propriedades físicas, químicas e biológicas do mesmo, permitindo o aumento da capacidade de absorção de nutrientes. A matéria orgânica fornece energia suficiente para a atuação de microorganismos, reduz a erosão, estabiliza a temperatura do solo, ao proteger a camada superficial dos raios solares, e ainda retém água, fazendo com que o solo fique mais úmido. Contudo, o latossolo do Cerrado não acumula muita matéria orgânica por que se decompõe rapidamente, o que contribui para a deficiência de nutrientes.

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Foto: Michele Nobrega

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ELEMENTOS INDICADORES DA DEFICIÊNCIA DE NUTRIENTES Na natureza, existe uma circulação constante de nutrientes absorvidos pelas plantas e, das reservas no subsolo, adiciona-se nova matéria mineral. Essa circulação acontece com o crescimento e a decomposição dos organismos no solo. A fertilidade do solo resulta do funcionamento desse ciclo. Quando faltam nutrientes, as plantas não se desenvolvem bem. A falta de cada nutriente apresenta sintomas específicos que devem ser corrigidos para voltar ao equilíbrio. Observando esses sintomas, podemos saber as medidas a tomar. Por outro lado, não basta combater só as consequências. É importante procurar também as causas das deficiências para corrigi-las e/ou mitigá-las e, assim, melhorar o manejo e a fertilidade do solo, para garantir a restauração das reservas de nutrientes e a qualidade da produção agroecológica ao longo dos anos. ASPECTO DAS PLANTAS NUTRIENTE

SINTOMAS DA DEFICIÊNCIA

Nitrogênio (N)

Coloração verde clara, com folhas inferiores amareladas.

Fósforo (P)

Cálcio (Ca)

Cor verde escura ou arroxeada, folhas menores, atrofiadas, especialmente começando pela parte inferior. Descoloração castanha e queimaduras nas bordas das folhas inferiores. Broto da planta apodrecido, atraso das primeiras folhas.

Magnésio (Mn)

Nervuras verdes, folhas inferiores amareladas ou avermelhadas.

Enxofre (S)

Folhas novas amarelo-claro ou verde-suave.

Boro (B)

Folhas amareladas, brotos pálidos ou brancos, folhas mais grossas do que o normal da espécie. Folhas murchas, podendo ser necróticas, verde-pálidas ou amareladas. Plantas anãs, com folhas amareladas no centro para então escurecerem. Pontas das folhas amarelas ou quase brancas.

Potássio (K)

Cloro (Cl) Zinco (Zn) Ferro (Fe) Manganês (Mn) Cobre (Cu) Molibdênio (Mo)

Nervuras centrais das folhas verdes, porém o restante cinzaamarelado ou cinza-avermelhado. Folhas novas amarelo-pálidas, que secam e morrem. Folhas mais velhas com manchas amarelo-esverdeadas ou laranjabrilhante, que morrem. Pode não dar flores. Bordas das folhas podem se enrolar.

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AUSÊNCIA DE ANIMAIS A ausência ou diminuição da população de animais também indica problemas com o solo. A falta do besouro-rola-bosta pode indicar agrotóxicos nas fezes dos animais. Bicheira pode ser sinal de matéria orgânica decomposta descoberta. Aranhas em locais sem sombra pode ser pela falta de predadores. A falta de abelhas pode ser devido a resíduos de agrotóxicos. PRESENÇA DE ERVAS DANINHAS PLANTA INDICADORA

INDICA

Barba-de-bode

Pastos muito queimados – deficiência de fósforo Terra com nutrientes reduzidos e substâncias tóxicas Terra muito cansada

Capim-arroz Cabelo-de-porco Capim-favorito

Capim-seda

Terras muito compactas e secas, água penetra com dificuldade Terra de lavoura depauperada e muito dura, pobre em cálcio Terra de lavoura com laje superficial e falta de zinco Camada impermeável de 80 a 100 cm de profundidade, que represa água Terra muito compactada e pisoteada

Carneirinho ou carrapicho-de-carneiro

Falta de cálcio

Cravo-brabo

Terra infestada de nematoides

Fazendeiro ou picão-branco

Terras cultivadas com excesso de nitrogênio e falta de cobre Terra cansada e com baixa fertilidade

Capim-amoroso ou carrapicho Capim-marmelada ou capim-papuã Capim-rabo-de-burro

Gramão ou batatais, ou grama matogrosso Guanxuma ou malva Maria-mole ou berneira

Terra muito compactada e dura

Lingua-de-boi

Compactada em 40 a 50 cm de profundidade – falta potássio Excesso de nitrogênio

Samambaia

Solo ácido

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COMO MANTER A FERTILIDADE DO SOLO Os solos doentes precisam de ajuda. Alguns cuidados, elementos e receitas simples podem melhorar a saúde dos solos. O principal cuidado é o de devolver sempre matéria orgânica para o solo. Uma planta que germina, cresce e morre no mesmo lugar retorna todo o nutriente que uso para o solo, fechando o ciclo de nutrientes. Quando uma planta é colhida, os nutrientes retirados não retornam, empobrecendo o solo. Daí a importância de se colocar matéria orgânica no solo para manter sua fertilidade. A matéria orgânica vem de restos animais e vegetais. Quando devolvemos à terra o que dela retiramos, o solo se mantém em equilíbrio. É importante lembrar que matéria orgânica não é adubo, ela tem o papel de alimentar a vida aeróbica do solo, deixando-o poroso para que a água possa passar com facilidade e as raízes possam crescer livremente. RECEITAS PARA TRATAR SOLOS FRÁGEIS E DOENTES Adubação Verde É usada para aumentar a matéria orgânica no solo, melhorar a aeração, a retenção de água e o acúmulo de nutrientes. As leguminosas são muito úteis por disponibilizar o nitrogênio presente no ar para as plantas. Suas raízes profundas trazem nutrientes para a superfície, que ficam disponíveis para as plantas de raízes mais superficiais. A adubação verde ajuda também na supressão de ervas espontâneas e previne a erosão e a compactação do solo. As plantas podem ser consorciadas, intercaladas em faixas com a cultura principal ou usadas em áreas de repouso. Biofertilizantes São fáceis de fazer e adicionam os minerais necessários às plantas. Exemplos: • Urina de vaca para deficiência de nitrogênio, diluída em água por 1:20. • Chorume coletado do minhocário ou da composteira, aplicado ao solo numa diluição em água de 1:10.

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Calagem É o efeito corretivo do calcário. A quantidade é determinada pela acidez do solo, que pode ser analisado em laboratório. A acidez pode variar de ácido, neutro ou alcalino. Geralmente as plantas se desenvolvem em pH variando de 6 a 7. Para a correção inicial da acidez do solo, não há nenhuma restrição ao uso de calcário. A dosagem é recomendada para correção da deficiência de cálcio e magnésio, ou para neutralizar o alumínio trocável. Estercos e cinzas também atuam como corretivos da acidez. Cobertura Verde Tem o mesmo efeito que a adubação verde e melhora a estrutura e a textura dos solos. Além disso, as folhas adubam a terra com nutrientes. Cobertura verde é boa para solos duros e compactados. Por isso, são usadas plantas com raízes profundas, que abrem o solo, permitindo que o ar e a água penetrem na terra, como a batata doce ou a abóbora. Composto Fertilizante feito a partir de restos de plantas e de sobras de cozinha, que se transformam em matéria orgânica. O composto melhora a estrutura do solo e aumenta os nutrientes. O processo de compostagem é muito simples e pode ser feito em qualquer propriedade.

Fonte: calibrandoaalma.blogspot.com.br

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Alguns materiais orgânicos podem ser compostados. Outros não. O quadro abaixo indica o que compostar: Verdes

MATERIAIS A COMPOSTAR Castanhos

• Restos de vegetais crus • Restos e cascas de frutas • Burras de café, incluindo filtros • Arros e massa cozinhados • Folhas verdes • Sacos de chá • Cereais • Ervas daninhas (sem semente) • Restos de relva cortada e flores • Cascas de ovos esmagadas* • Pão*

MATERIAIS A NÃO COMPOSTAR

• Feno • Palha • Aparas de madeira e serradura • Aparas de relva e erva seca • Folhas secas • Ramos pequenos

• Carne, peixe, marisco, lacticínios e gorduras (queijo, manteiga e molhos) • Escrementos de animais (podem conter microrganismos patogênicos que sobrevivam ao processo de compostagem) • Resíduos de jardim tratados com pesticidas • Plantas doentes ou infestadas com insectos • Cinzas de carvão • Ervas daninhas com semente (se o composto for para aplicar numa área agrícola) • Têxteis, tintas, pulhas, vidro, metal, plástico, medicamentos, produtos químicos

*Estes materiais devem ser utilizados em quantidades limitadas, porque se decompõem lentamente.

Todos os materiais orgânicos têm uma mistura de carbono (C) e nitrogênio (N), conhecida como a relação C/N, que deve ser equilibrada. Esse equilíbrio se consegue utilizando metade de material fresco e metade de material seco. MATERIAL SECO LIBERA CARBONO E DEIXA ESPAÇOS DE AR AO REVIRAR A PILHA

MATERIAL FRESCO LIBERA NITROGÊNIO E ADICIONA UMIDADE AO COMPOSTO

• Estercos • Folhas secas • Capim seco • Ramos e galhos • Restos de grama cortada e seca • Palha • Restos de cortes e podas • Papelão • Serragem

• Folhas verdes • Ervas espontâneas • Restos de vegetais crus e frutas • Restos de grama cortada • Borra de café • Sacos de chá • Cascas de ovos • Pão • Flores

Para realizar a compostagem: • Coloque uma camada do material seco em local sombreado perto da horta; • Em cima, coloque uma camada de cobertura fresca e um pouco de esterco de vaca; • Repita a colocação de camadas até um metro de altura; • Molhe sem encharcar; • Revire a pilha uma vez na semana; • Após 1 a 3 meses, o composto fica pronto e pode ser usado nos canteiros. AGROECOLOGIA Cadernos da Agricultura Familiar

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Esterco Pode ser utilizado no solo depois de curtido, no preparo de compostos na forma sólida, ou como biofertilizante, na forma líquida. Os estercos mais utilizados são o bovino, o avícola, o caprino e o ovino. Cada um deles contém uma quantidade diferente de nitrogênio, necessitando, portanto, ser dosado e manejado. Minhocas Podem ser criadas em um minhocário e alimentadas com restos vegetais. Em troca, elas oferecem adubo rico em nutrientes e diminuem a dependência dos insumos externos. Como fazer um Minhocário O papel da minhoca é o de digerir material orgânico, transformando-o em pequenas partículas de matéria orgânica que devolvem ao solo em forma de húmus, que são as fezes das minhocas. Assim, as minhocas contribuem para a fertilidade do solo com uma grande variedade de nutrientes. . Fazer um minhocário é simples: • Basta preparar uma caixa ou um canteiro e encher com pelo menos 30 cm de esterco de vaca curtido, misturado com papel picado (sem cor) ou papelão. • Molhe com água até ficar como uma esponja e adicione um punhado de minhocas. Espere dois dias. • Depois, alimente as minhocas com folhas secas, ervas espontâneas, frutas ou cascas de ovo trituradas. Não coloque muita comida de uma vez. • Cubra com palha e colete o chorume. Para separar as minhocas do húmus, coloque comida fresca só de um lado. Após alguns dias, o húmus pode ser retirado. Pode ser diluído em água para usar em plantas com sinais de deficiências de nutrientes.

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EROSÃO E CONSERVAÇÃO DO SOLO Erosão A cada ano, perdemos milhões de hectares de áreas cultiváveis, para a degradação e para a erosão. Infelizmente essa perda é irreversível. O Planeta leva de 200 a 1.000 anos para formar 2,5 centímetros de terra fértil. A erosão reduz significativamente o potencial de produção. A água que escorre leva junto o potencial produtivo do solo. O descuido leva à erosão do solo, ou cria voçorocas, como nas fotos a seguir.

Foto: Willian Lopen AGROECOLOGIA Cadernos da Agricultura Familiar

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PRÁTICAS DE CONSERVAÇÃO DO SOLO A erosão pode ser evitada com práticas de conservação do solo. As vantagens da conservação vão aumentando ano a ano. Algumas das práticas de conservação: Paliçadas Prática usada na contenção das enxurradas, para evitar que o solo seja perdido na passagem da água das chuvas. Essas estruturas podem ser feitas com madeira, pedra, galhos ou troncos de árvores, entulho ou terra, tendo a finalidade de evitar o escoamento em velocidade no interior da erosão.

Foto: www.verticalgreen.com.br

Plantio em Nível Consiste em preparar o solo para o plantio e plantar de acordo com o nível do terreno. Para isso, são feitas curvas de nível e terraços que servem de barreiras para reduzir a velocidade da passagem da água.

Foto: Wikimedia

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Rotação de Culturas Com a rotação das culturas, em cada safra, faz-se a troca das plantações por outras bem diferentes (de outros gêneros), e essa prática provoca a redução dass doenças e das pragas. Adubação Verde Consiste basicamente em plantar uma cultura só para manter o solo coberto e diminuir a erosão entre plantios, ou nas linhas de culturas permanentes. Normalmente são usadas culturas que aumentam a fertilidade do solo, como as leguminosas, que fixam o nitrogênio diretamente do ar com a ajuda de bactérias. Assim, aumenta a produtividade do solo. Outras plantas reduzem a compactação do solo com suas raízes profundas. Plantio Direto O plantio direto é feito sem arado e sem grade, cobrindo o solo com os restos da cultura anterior. Essa prática mantém os solos vivos com o trabalho dos micróbios, diminuindo a sua compactação, conservando melhor a umidade e mantendo a temperatura mais baixa para fortalecer a atividade microbiana do solo.

Integração Lavoura-Pecuária A integração lavoura-pecuária é a diversificação, rotação, consorciação ou sucessão da lavoura e da criação, com benefícios para ambas. Algumas vantagens dessa integração são: • • • • •

Renda mais estável e durante mais meses do ano; Recuperação do solo e da capacidade de produção; Trabalho durante todo o ano; Menos pragas e doenças; Mais cobertura vegetal e matéria orgânica no solo, melhor estrutura física e infiltração das águas das chuvas.

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QUEIMADAS IMPACTO SOBRE O SOLO O uso das queimadas em áreas rurais é uma prática antiga, que tem como finalidade a limpeza das áreas, a queima de resíduos para eliminar pragas e doenças, a renovação de pastagens, a queima de dejetos de serrarias e de lixo urbano. E, ainda, a prática é usada como técnica de caça. Embora haja mudanças, com o aumento das práticas agroecológicas, infelizmente as queimadas continuam sendo utilizadas na agricultura, como desmate para o plantio, e nas pastagens, como técnica de “reforço” dos pastos. À primeira vista, a pastagem rebrotada surge com mais força e melhor aparência. Porém, ao longo dos anos, acontece a degradação físico-química e biológica do solo, com enormes prejuízos para o Meio Ambiente. A queimada reduz a lotação animal por hectare, diminui a capacidade produtiva das forrageiras, provoca a desnutrição das plantas e aumenta a compactação do solo. As queimadas antes do plantio trazem muitos problemas ambientais, como a poluição do ar, a emissão dos gases que aquecem a terra, o empobrecimento do solo, a morte de animais silvestres e de espécies da flora nativa, com a consequente redução da biodiversidade, e mais erosão. Nas propriedades rurais, as queimadas danificam redes de eletricidade, queimam cercas, invadem e destroem áreas de cultivo. Quando fora de controle, as queimadas atingem e devastam as reservas ecológicas. Impacto Direto das Queimadas • Emissão de gás carbônico (CO2), contribuindo para o aquecimento do clima. • Prejuízo e morte de espécies da fauna e flora importantes para o equilíbrio do ecossistema. • Empobrecimento do solo – ao matar a matéria orgânica, os nutrientes e os micro-organismos do solo, as queimadas reduzem a produção em até 80% depois das primeiras safras. • Exposição do solo exposto a todas as intempéries da natureza, inclusive a processos erosivos nos solo sem vegetação. • Diminuição da produtividade da terra.

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Foto: Brenno Sarques AGROECOLOGIA Cadernos da Agricultura Familiar

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TECNOLOGIAS DE AGRICULTURA FAMILIAR SEM QUEIMADAS Existem tecnologias alternativas para ajudar a reduzir a prática das queimadas no manejo da terra. São tecnologias que evitam os incêndios e queimadas e ainda podem garantir a produtividade da lavoura. As recomendações básicas são diversificar e intensificar a produção. A seguir, algumas das tecnologias disponíveis: DIVERSIFICAÇÃO DA PRODUÇÃO Para minimizar os riscos e garantir a sustentabilidade de seus cultivos, o/a produtor/a familiar tem dois caminhos a seguir: • Especializar-se na produção de um cultivo específico, com alto valor agregado e garantia de mercado • Diversificar a produção, procurando aproveitar as oportunidades de mercado, com as possibilidades da oferta ambiental dos recursos naturais disponíveis em sua propriedade. A segunda opção é, naturalmente, a recomendada para o cultivo agroecológico. SISTEMAS AGROFLORESTAIS O uso de sistemas agroflorestais – ou seja, plantios envolvendo culturas alimentares e madeireiras – é uma importante alternativa de produção para pequenos/as e médios/as produtores/as, porque pode gerar mais renda para as famílias e mais diversidade para o Meio Ambiente. Antes de se fazer a introdução dessas culturas, é preciso estudar detalhadamente o mercado consumidor local e regional. A principal vantagem dos modelos agroflorestais, especialmente para os/as pequenos/as agricultores/as, é definir uma programação de plantio e colheita, de forma a permitir ao agricultor e à agricultora manter um fluxo constante de renda, durante todo o ano e, ainda, preservar boa parte da mata natural que cobre seu terreno. MANEJO FLORESTAL O manejo florestal visar gerar renda e empregos, e também reduzir o desmatamento e os focos de incêndio. O princípio básico do manejo florestal resume-se em retirar e repor, e isso abrange as seguintes etapas: • Mapear o estoque de árvores, idades, estágios de desenvolvimento, tamanhos e principais espécies comerciais.

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• Apresentar um Plano de Manejo Florestal Sustentável, prevendo o corte limitado de árvores e a administração da floresta e respeitando a sustentação do ecossistema. • Replantar as árvores retiradas a partir de mudas produzidas ou compradas. • Fazer os tratos culturais da terra para favorecer a regeneração e aumentar a produtividade, como o corte dos cipós, o anelamento, o desbaste, e retirada dos galhos secos e pragas, a cada dois anos. • Planejar as trilhas para transporte, de forma que a derrubada de uma árvore não acarrete prejuízo para muitas outras. • Aproveitar todas as partes das árvores retiradas. • Manter vigilância e tomar precauções para evitar incêndios na área da exploração e em toda a propriedade. REFLORESTAMENTO SOCIAL Podem ser plantadas espécies madeireiras de crescimento rápido para produção de celulose, madeira, laminados e carvão vegetal. Espécies frutíferas também podem ser utilizadas, por exemplo, a banana, a manga, o caju, o coco, o café, as plantas medicinais. Além das plantas, é importante a presença de pequenos animais, tanto para o consumo familiar quanto para a geração de renda com a venda do excedente. COBERTURA VERDE OU MORTA E COMPOSTOS ORGÂNICOS A introdução de cobertura verde (especialmente leguminosas, tipo crotalária) ou cobertura morta (resíduos de culturas não queimadas) e a fabricação de compostos orgânicos são tecnologias de baixo custo que aumentam o volume de biomassa e melhoram a produtividade nas pequenas propriedades. QUEIMA CONTROLADA A queima deve ser ao máximo possível evitada. Em casos excepcionais, o/a agricultor/a pode solicitar autorização junto aos órgãos de Meio Ambiente para realizar queimas. O/a interessado/a na obtenção de autorização para a queima controlada deve: • Definir as técnicas, os equipamentos e a mão de obra a serem utilizados; • Fazer o reconhecimento da área e avaliar o material a ser queimado; • Fazer leiras com os resíduos de vegetação, de forma a limitar a ação do fogo; • Preparar aceiros de três metros de largura, ampliando essa faixa AGROECOLOGIA Cadernos da Agricultura Familiar

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quando as condições climáticas, ambientais e topográficas assim o permitirem; • Providenciar pessoal treinado pra atuar no local da operação, com equipamentos apropriados; • Informar formalmente vizinhos sobre a realização da queimada controlada; • Prever a realização da queima em dia e horário certos, evitando-se os períodos de temperatura mais alta; • Providenciar o acompanhamento de toda a operação de queima, para adotar, se necessário e a tempo, medidas de contenção do fogo; • Nunca fazer uma queima sem autorização. ONDE É PROIBIDO USAR FOGO • Nas florestas e demais formas de vegetação; • Para a queima pura e simples de aparas de madeira, resíduos florestais e material lenhoso; • Também não se pode usar fogo numa faixa de 15 m dos limites de segurança das linhas de transmissão de energia elétrica; • 100 m ao redor da área de domínio de subestação de energia elétrica; • 25 m ao redor da área de domínio de estações de telecomunicações; • 50 m a partir do aceiro existente nas Unidades de Conservação; • 15 m de cada lado das rodovias estaduais e federais e das ferrovias, medidos a partir da faixa de domínio; • Em área definida pela circunferência de raio igual a 11 mil metros, tendo como referência o centro geométrico da pista de pouso dos aeroportos.

Fonte: www.grupoopiniao.com.br

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MANEJO ECOLÓGICO DE PROTEÇÃO DO SOLO PARA PRESERVAR A BIODIVERSIDADE O manejo ecológico é fundamental para manter o solo fértil. Alguns princípios para o manejo ecológico, como a proteção do solo e a preservação da biodiversidade, podem ser observados na própria natureza. PROTEÇÃO DO SOLO O solo precisa ser sempre protegido da ação direta do sol, da chuva e do vento. Um exemplo de boa proteção do solo é uma floresta, onde as plantas e seus restos cobrem a terra, conservando a água e deixando o solo mais úmido. Em um solo de floresta, os micro-organismos, as minhocas e outros animais formam um sistema de drenagem e irrigação, e isso permite que as águas das chuvas infiltrem, levando com elas a matéria orgânica para as raízes das plantas e deixando o solo mais fértil. A falta dessa proteção provoca a erosão, a degradação e o desmatamento. Por isso, em vez de derrubar o verde, é importante plantar o máximo possível de árvores, preferencialmente em agroflorestas. O quadro a seguir mostra algumas outras formas simples de proteger o solo.

Fonte: Embrapa AGROECOLOGIA Cadernos da Agricultura Familiar

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DICAS SIMPLES DE PROTEÇÃO DO SOLO PRÁTICAS DE PROTEÇÃO VANTAGENS DO SOLO Cobertura do solo e húmus. Evita erosão. Armazena água e nutrientes.

COMO FAZER

Plantio em curvas de nível.

Reduz a velocidade de escoamento da água, evitando que a enxurrada carregue grande quantidade de solo.

Em áreas com declive: fazer curvas de nível com tratores, colocando drenos e barreiras com materiais disponíveis ao longo das curvas.

Quebra-Ventos.

Evita a ação direta do vento. Retém o solo, dá sombra, abriga insetos.

Barreiras de cercas verdes, observando a direção dos ventos. Usar capins altos, árvores leguminosas e outras plantas altas.

Roço de rebaixamento.

Protege o solo.

Do material roçado, fazer leiras, cobrir o solo e pôr no composto.

Plantas verdes ou secas entre culturas. Em hortas: cascas de arroz, sabugos e palhas de milho; serragem, capim seco, curtidos.

Foto: Thiago Marra

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PRESERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE A natureza tem uma enorme biodiversidade, onde plantas e animais convivem e se complementam. A integração dos seus ciclos de nutrientes mantém a fertilidade do solo, que sustenta a todos. Quanto maior a biodiversidade das espécies, maior será o equilíbrio e a estabilidade do sistema solo-plantamicrorganismo. Os sistemas diversificados são mais sustentáveis que as monoculturas, especialmente quanto ao solo. A diversidade planejada, como nos sistemas agroflorestais, permite uma sinergia entre a flora e a fauna, gerando um equilíbrio que estrutura o solo, diminui a erosão, aumenta a matéria orgânica e o acesso aos nutrientes. Existem várias maneiras para preservar e aumentar as espécies. O quadro a seguir apresenta algumas dicas simples para a agricultura familiar.

DICAS DE PROTEÇÃO DA BIODIVERSIDADE PRÁTICAS DE PRESERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE

VANTAGENS

COMO FAZER

Rotação de culturas

Aumenta a produtividade das lavouras. Interrompe os ciclos de pragas e doenças. Mantém ciclos de nutrientes.

Alternar várias espécies comerciais e de cobertura do solo, para gerar mais biomassa.

Culturas consorciadas

Ajuda a fixar nitrogênio no solo, garante uma alimentação melhor e mais renda para a família.

Junto com o milho e o feijão, plantar gergelim, abóbora, arroz e adubos verdes.

Agroflorestas

Estrutura e conserva o solo, provoca sinergia entre flora e fauna, reduz erosão, aumenta matéria orgânica e ciclagem de nutrientes.

Plantar sementes ou mudas de árvores nativas, frutíferas ou não, junto com outras culturas.

Manejo pastoril

Recupera pastagens. Fixa nitrogênio no solo. Formam-se assim três camadas de proteção: plantas, restos vegetais e raízes. Aumentam a matéria orgânica, a absorção da chuva e a produtividade.

Plantar forrageiras, leguminosas (rasteiras, arbustivas e arbóreas). Usar esterco para garantir mais fertilidade e porosidade.

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BIBLIOGRAFIA Agroecologia – Plante esta Ideia. Agricultura Familiar – Agroecologia e Mercado. Caderno 01. Fundação Konrad Adenauer, 2008. AMARAL, Nautir. Noções de conservação do solo. 2 Ed., São Paulo: Nobel,1984 FAGERIA, KumarNand. Otimização da Eficiência Nutricional na Produção de Culturas. Revista Bras. Eng. Agric. Ambiental. Campina Grande, Paraíba, 1988. HSAIO, T.C. Plant Responses do Water Stress. Annual Review of Plant Physiology. Palo Alto, Califórnia. 1973.

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Foto: Anderson Blaine AGROECOLOGIA Cadernos da Agricultura Familiar

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Agroecologia - Solo Bem Cuidado, Resultados Multiplicados - Caderno IV  

A Agroecologia, abordagem da agricultura que se baseia nas dinâmicas da natureza, em que se trabalha a fertilidade e o cultivo do solo sem o...