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Ă gora Guarapuava - 2011 - Ed. 06 - Ano 01.


Guarapuava 2011 Edição 06 Ano 01

Ágora Ágora

Reitor Prof. Vitor Hugo Zanette

Editora-Chefe da Edição 06 Mariana Rudek

Tiragem: 500 exemplares Impressão: Gráfica Unicentro

Vice-Reitor Prof. Aldo Nelson Bona

Assistente de Redação e Revisora Jeferson Luis dos Santos

Diretor do Campus Santa Cruz Prof. Osmar Ambrósio de Souza

Direção de Arte e Finalização Anderson Costa

Contato: (42) 3621-1325 e (42) 3621-1088 E-mail: agoraunicentro@gmail.com

Vice-direção de Campus Prof. Darlan Faccin Weide

Diagramação Anita Hoffmann e Camila Souza

O Jornal Ágora 2011 trás assuntos do cotidiano do cidadão de Guarapuava pensados a partir de frases. Nesta edição, as matérias têm por inspiração frases literárias ou de literatos.

Expediente

Por Mariana Rudek

mesmo que alguém tenha que ficar em casa com os filhos, ou esteja no trabalho, ou esteja em outra cidade, estado ou país, pode participar, colocar sua voz e/ou cartaz de protesto na sua página na internet. Parece que as redes sociais são uma grande praça mundial onde, até agora, se fala muito, mas se discute pouco. Talvez seja o momento de levarmos mais a sério nossa participação nessas redes e também perceber o impacto da internet no nosso dia-a-dia. Um simples perfil pode ser também um instrumento de protesto. Este ano já presenciamos algumas mobilizações que começaram na internet e foram parar nas ruas. A partir de uma frase postada, uma pessoa pode desencadear grandes ações. Mobilizar amigos, que mobilizam outros amigos, que fazem com que se crie uma grande movimentação de importância política. Mas, isso depende também de você. Afinal, você se preocupa com questões políticas? E qual a tua relação com as redes sociais?

Desenhos: Camila Souza

Diretor do Sehla (Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes) Prof. Carlos Eduardo Schipanski Vice-diretor do Sehla Prof(a). Maria Ap. Crissi Knüppel Dpto. de Comunicação Social Coord. Prof. Edgard Melech

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editorial O poder de mobilização Crescemos ouvindo e estudando movimentos de mobilização que atraíram jovens e adultos em prol de ideais comuns. Milhares de pessoas iam às ruas protestar com caras pintadas (ou não), com cartazes, vozes, apitos e outros instrumentos. Porém, muitas pessoas que também simpatizavam com esses ideais estavam há quilômetros de distância sem poder participar, ou simplesmente tinham de trabalhar, cuidar dos filhos, estudar, enfim... Hoje, o ponto de encontro é a internet. Por meio das redes sociais, vários movimentos têm surgido. Muitos não saem do mundo virtual, mas aos poucos estão chegando também às ruas. Mas com o que essas manifestações online podem contribuir com a sociedade? Parece que temos nas redes sociais um ambiente em que podemos falar – ou mesmo desabafar – aquilo que queremos a quem queremos. Isso no dá a sensação de encurtamento de distâncias. Talvez outra diferença seja que

Guarapuava - 2011 - Ed. 06 - Ano 01.

Ágora2011

hipérbole

Professor Responsável Prof. Anderson Costa

Redação: Adriano Vizentin, Aline Bortoluzzi, Andréa Alves, Anita Hoffmann, Camila Souza, Camila Syperreck, Carolina Teles, Catiana Calixto, Eliane Pazuch, Evane Cecilio, Jeferson Luis dos Santos, Júlio Stanczyk, Keissy Carvelli, Leandro Povinelli, Luiz Carlos Knüppel Jr., Marcos Przygocki, Mariana Rudek, Monique Paludo, Morgana Nunes, Patricia Tagliaferro.

Download das edições www.redesuldenoticias.com.br e www.unicentro.br/agora - Todos os textos são de responsabilidade dos autores e não refletem a opinião da Unicentro. - O Jornal Laboratório Ágora é desenvolvido pelos acadêmicos do 4º ano de Jornalismo. Projeto de Extensão 096/2011 Conset/Sehla/G/Unicentro, 28/06/2011.

EXA

GE RO Matéria: Jeferson Luis dos Santos

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CHOREI DE

“Estou com a cabeça explodindo!”, “Vou te falar pela milésima vez” e “Estou morto de fome” são apenas algumas das muitas expressões exageradas que diariamente falamos ou escutamos. Elas geralmente passam despercebidas por nós. Quase sempre “morremos de sede” ou “explodimos de tanto comer”. Isso quando alguma coisa não é “super-mega-híper urgente”. Alguns usam essa forma de discurso na tentativa de demonstrar o quão forte é uma sensação. Outros possuem o hábito desconstrolado de exagerar, isso independente da situação. Ocorre então o chamado hiperbolismo. Assim como existem os metafóricos, os onomatopéicos e os sinestésicos, existem os hiperbólicos. Você faz parte deste grupo de pessoas? De acordo com os linguistas, a hipérbole é definida como uma figura de linguagem utilizada na demasia propositada de um conceito, dramatizan-

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RIR do aquilo que se ambiciona vocabular e, assim, transmite-se uma ideia aumentada do real. De forma mais simples, podemos dizer que a hipérbole é o ato de expressar uma ideia de forma exagerada. Uma pessoa hiperbólica assumida é a estudante universitária Pamela Sue Zaroski, de 19 anos.

Ela conta que recentemente percebeu que comete esses exageros na fala e na escrita. Um exemplo é o uso descontrolado do “morreria” ou do “mataria” em qualquer situação. Pamela diz que isso também ocorre nas suas conversas online: “Tenho o hábito de colocar em caixa alta as letras para que a outra pes-

CHOVEU

TANTO mundo

soa preste mais atenção ao que estou escrevendo. Além disso, repito as letras no final da palavra, dando a impressão de que estou gritando”. Mas isso não é um problema. A estudante explica que, na maioria das vezes, o hábito está relacionado com uma maneira cômica de se comunicar. E, claro, há outro lado interessante. Por exemplo, um simples sentimento bom, que poderia gerar um singelo sorriso a uma pessoa, é capaz de gerar um hiperbólico pular, gritar e socar o ar de tanta felicidade. Uma forma de reconhecer o hiperbólico é percebendo aquele que não resiste à tentação de expressar com intensidade suas emoções e sentimentos, sua indignação, a grandeza de seus esforços ou a falta dele. Alguns reconhecem que usam o exagero de forma frequente, mas analisam a situação sem dramaticidade, encarando apenas como uma forma de descontração.

Uma situação flagrante do hiperbolismo é quando simples segundos de espera se tornam séculos, ou quando vemos uma frase ser repetida mil vezes, obviamente sem realmente ter acontecido. De acordo com a psicóloga Rafaela Maester, para termos uma resposta da Psicologia sobre tal comportamento, haveria a necessidade de uma análise de todo o contexto que cerca cada indivíduo, de seu desenvolvimento e de suas experiências. Mas a psicóloga também tranquiliza os hiperbólicos. A situação não está ligada a uma patologia e simplesmente depende da personalidade da pessoa. Assim, a característica está relacionada às vivências pessoais. Questionada se a “exageração” pode chegar a atrapalhar uma convivência social ou profissional, Rafaela diz que a situação não será problema desde que a pessoa perceba quando o exagero pode gerar uma interpretação errada de uma mensagem de trabalho que precisa ser clara, por exemplo. Um velho didato popular diz que todo exagero é ruim. Não é bom comer ou beber demais, nem trabalhar ou fazer exercícios físicos demais. Porém, parece mesmo que, se não for literalmente, “morrer de rir” não fará mal a ninguém.

Rios te

correrão dos

olhos

se chorares

que caiu o

Ágora

A frase "Rios te correrão dos olhos se chorares" foi retirada do poema A Alvorada do Amor, do escritor parnasiano Olavo Bilac (1865-1918). Além da poesia, Bilac também se dedicou ao jornalismo. Ele foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

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Tem vezes que eu choro por qualquer coisa, faço tempestade em copo dagua e só depois que passa eu vejo que é coisa ridícula

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Foto: Camila Souza

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“Não aguento mais essa minha vida corrida e agora ainda preciso parar e escrever uma matéria para o Ágora, ‘buááááá’”. Eu poderia ter começado essa matéria assim, fosse me pedido para escrever uns dias mais adiante. As mudanças de humor, a rispidez e o choro fácil são alguns dos sintomas que nós mulheres sofremos no período pré-menstrual. Eu disse alguns. Porque tem umas que sofrem muito mais do que a maioria, como é o caso da estudante Paula Fernandes, 20 anos. Além dos sintomas emocionais, ela sempre sofreu muito com os sintomas físicos, como o inchaço e, o pior, a cólica. E daquelas terríveis mesmo! De não conseguir levantar da cama e de Atroveran nenhum resolver. Há uns meses atrás a dor era tanta, que ela não conseguia comer, e acabou parando no hospital para tomar soro. E no outro mês, adivinha? Hospital de novo. No terceiro mês, depois de não conseguir comer e quase desmaiar no banheiro, o clínico geral chegou a achar que ela estava grávida, mas o ginecologista afirmou que era ‘só’ TPM, das brabas. A ginecologista Daisy Mara Barros Marcondes afirma que a medicina ainda não sabe dizer o porquê de algumas mulheres sofrerem mais do que outras, mas ela explica o que acontece no corpo feminino nesse período: “As mulheres são muito dependentes do padrão hormonal delas, então o ciclo menstrual vai se desenvolver com base nesse padrão. A TPM

Foto: Camila Souza

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passárgada é uma síndrome, que ocorre devido à alterações hormonais. Na segunda fase do ciclo a mulher se torna mais edemaciada, as veias ficam mais inchadas, as pernas incham, algumas tem dor de cabeça, outras ficam muito nervosas, e isso é explicado fisiologicamente devido à alteração dos hormônios”. Ainda segundo a ginecologista, existe carência de algumas vitaminas nesse período. A estudante Débora Martini, 21 anos, nos apresenta um discurso comum para todas as mulheres de TPM: “Tem vezes que eu choro por qualquer coisa, faço tempestade em copo d’agua e só depois que passa eu vejo que é coisa ridícula, que se não tivesse de TPM não teria feito. Mas quase sempre é irritabilidade, variação de humor, muita sensibilidade emocional e choro fácil”. Ela, que é de outra cidade e mora em Guarapuava para estudar, chegou a ligar para a mãe durante a TPM dizendo que ia largar tudo e voltar para casa, e depois de alguns dias percebeu que havia exagerado. Para a Ginecologista Daisy, o mais importante é reconhecer quando tem a mudança comportamental e entender que muitas vezes você

pode exagerar em relação a alguma coisa. E além do mais, existem maneiras de aliviar os sintomas. Para a irritabilidade e ansiedade é recomendado o consumo da vitamina B6, que pode ser encontrada no feijão, em carnes magras e em verduras. E tem um jeito ainda mais fácil de aliviar a dor: praticar exercícios físicos. “Algumas mulheres podem precisar de medicamentos, como vitaminas ou remédios naturais. Em alguns casos podem ser indicados antidepressivos, mas, claro, só após uma consulta com um ginecologista”, explica a médica. Para os homens desavisados, deixamos aqui a nossa dica para os dias de TPM: “Não fique perto de mim ou eu te mato”.

Ágora

Tomamos como inspiração para a matéria a frase “Não toque em mim ou eu te mato”, presente na obra Gomorra, do escritor e jornalista italiano Roberto Saviano. Gomorra é um livro-reportagem que retrata a máfia italiana Camorra. Depois de publicar seu livro, em 2006, Roberto Saviano tornou-se um jurado de morte pela máfia e hoje vive sob proteção.

A vida que

inteira

poderia ter

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Matéria: Mariana Rudek

Na

infância

sonhamos com

muitas profissões.

Algumas

delas

espelham nossas

atitudes e definem

nosso futuro.

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B

ombeiro, mecânico, motorista de caminhão, super-herói, astronauta, astrônomo, arqueólogo, dentista, arquiteto, enfermeira, médico, professor, advogado, jornalista, desenhista, motorista de patrola, padre, policial, cantor, atriz, médico veterinário, biólogo.... Se for listar aqui todos os sonhos que rondam a infância, iríamos ocupar todas as páginas do jornal.

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poder estudar fora de Guarapuava cursou Contabilidade, “quando menos esperei me identifiquei com Secretariado Executivo por gostar de idiomas e porque vi que contábeis não era minha área”. A impossibilidade de morar fora foi o que determinou os caminhos de muitos dos entrevistados. Ana Karina Siqueira (mãe do esperto Vitor) conta que queria ser cantora, artista ou dentista: “Com o tempo vi que minha área era humanas e ao escolher Turismo gostei da área. Hoje junto do esposo sou professora da Excellent Global, escola de idiomas”. Aeromoça, cantora, modelo: Elisa Maria Baldissera Kasczuk não tinha vergonha de fazer cursos e correr atrás do sonho, mas um dia ao passar em frente de

Lucas Thimóteo, publicitário que já sonhou ser astronauta, piloto de fórmula 1, astrônomo e arqueólogo, “por causa da novela Olho por Olho e do personagem Indiana Jones”.

Beatriz Rocha Horst (morena) queria ser paquita, “mas meu outro sonho é ser professora e esse sim estou prestes a realizar”.

uma vitrine de loja disse: “Um dia vou ter a minha loja” e hoje é comerciante: “As palavras têm poder”, garante ela. Alguns sonhos não saem do papel. Franciele dos Santos ao ganhar um violão do pai sonhou em aprender a cantar e tocar, queria ser cantora. “Nunca aprendi violão nem canto, cursei magistério. Lecionei um ano. Hoje sou vendedora e cuido de uma chácara”. Já outros são quase impossíveis: Beatriz Rocha Horst (morena) queria ser paquita, “mas meu outro sonho é ser professora e esse sim estou prestes a realizar”. A auxiliar de serviços gerais Raquel Fátima dos Santos tinha um sonho interessante. “Sonhava em casar com um homem rico que tivesse bastantes bolachas [risos]”. O fotógrafo Márcio Nei dos Santos sonhava em ser desenhista. “Eu fazia histórias em quadrinhos e vendia para meus amigos. Alguns eu copiava de desenhos que já existiam”. Alguns sonhos são realizados, mas depois a vida nos manda para outro lugar. O auxiliar administrativo Djalma Penkal sonhava em ser jogador de futebol. “Joguei até os 17 anos no Coritiba. Parei depois que quebrei o pé”. Mas ainda há muitos sonhos que podem ser realizados. Fátima Aranda conta que sonhava em ser veterinária por influência da fazenda do avô: “Depois que vi o parto de uma vaca desisti”. E por não poder morar fora da cidade, formou-se em Secretariado Executivo, mas, diz: “Ainda sinto que minha vocação é para a área de saúde. Acho que quando meu filho crescer voltarei para faculdade. Quero fazer nutrição”. Diferente de todos que mostrei até aqui, tem os que nunca pensaram sobre o assunto. Fábio Horst, ainda não definiu o que quer ser: “Além de gente grande, posso ser o que eu quiser”. Para finalizar, não posso deixar de falar que todos os entrevistados, ao final das recordações, enfatizaram que são felizes e realizados nas funções que ocupam. Então, fica o complemento para a frase de Mário Bandeira: A vida inteira que poderia ter sido E FOI!

ila Souza

professora. Eu, além disso, queria ser psicóloga”. A professora explica que na maioria das vezes a vocação desperta de algum contato com a profissão, mesmo quando criança. Outro exemplo é o professor e administrador Luiz Fernando de Lima: “Meu sonho era ser motorista de caminhão porque o pai do meu amigo tinha um Chevrolet 54 verde e branco e fomos viajar muitas vezes com o caminhão. Eu achava o máximo.” Muitas vezes nossos sonhos se perdem no caminho e seguimos outro sentido. É o que conta Lucas Thimóteo, publicitário que já sonhou ser astronauta, piloto de fórmula 1, astrônomo e arqueólogo, “por causa da novela Olho por Olho e do personagem Indiana Jones”. Ou como no caso da Dayena Schmidt, que perambulou de Fisioterapia para Secretariado Executivo. Colega de trabalho de Dayena, Daniela Gardin sonhou em ser veterinária e bióloga, mas por não

Desenho: Cam

Criança que brinca e se diverte vive num mundo só dela e nesse mundo ela pode ser o que quiser. Mas quantos de nós sonhávamos, quando mais novos, em seguir uma profissão? Acredito que todos (ou quase todos, como veremos a frente) levantariam a mão. Percorrendo alguns corredores e parando em pontos comerciais de Guarapuava me deparei com histórias curiosas e faço questão de contar uma a uma. Normalmente, as profissões que nos impressionam na infância, são a de referenciais próximos. “Meus pais queriam que eu fosse engenheiro”, conta o professor de Administração Silvio Stefano; já a professora de linguística Níncia Cecília Borges Teixeira afirma: “Acho que quase todas as meninas já pensaram em ser

Desenho: Camila Souza

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eira e Victor Siqu Ana Karina sta ti n de e a tist - Cantora, ar

Dayen a Sch midt - Fisi otera peuta

Beatriz R ocha - Paquita

Djalma Penkal - Jogador de Futebol

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Eliza Ma ria B. Ka sczuk - Aeromo ça, canto ra, modelo e logista

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Ágora

Fábio Horst e quiser de ser o qu

- Ainda po

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Fátima A randa - Nutricio nista

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Luiz Fer nando de Lima - Motoris ta de cam inhão

Silvio Stefano - Engenheiro

Manuel Bandeira passou toda sua vida, que não foi curta (viveu 82 anos), esperando sua morte. Por isso, poupou-se de viver muitas coisas, acreditando que não teria muito tempo para ser feliz. Como base para esta matéria, escolhemos a frase “A vida inteira que podia ter sido e que não foi”, do poema Pneumotórax.

ira orges Teixe Níncia C. B ra so e profes - Psicóloga

Márcio N ei dos Sa ntos - Desenh ista

Nei Márcio que, de u D r ó e r p Su r-he i oso supe

- Fam

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Linfoma Gestos de carinho e solidariedade podem ajudar a salvar vidas

Matéria: Patrícia Tagliaferro

1000

Por você

eu faria isso

vezes

Maria Julia Franciosi Geliski tem dez anos, está na 5ª série e como tantas outras crianças tem um sonho: ser modelo quando crescer. Há aproximadamente um ano Maria Júlia descobriu que estava com linfoma, um câncer sanguíneo que se origina nos linfócitos do sistema linfático e que atinge o sistema imunológico do paciente. Maria Júlia se submeteu a sessões de quimioterapia por seis meses no Hospital Pequeno Príncipe em Curitiba e a princípio a doença sumiu, mas em fevereiro deste ano, cerca de um mês após a ultima sessão, a doença voltou. Devido a não reação do corpo quanto às medicações de quimioterapia Maria Júlia precisa realizar o transplante de Medula Óssea. Infelizmente, as chances de se encontrar um doador compatível são pequenas e, como explica a Assistente Social do Hemocentro de Guarapuava Maria Alice Reginaldo, o índice de compatibilidade no Brasil é ainda menor: uma a cada 100 mil pessoas. “Aqui no Brasil é mais complicado porque somos um país de miscigenação. Encontrar alguém compatível em meio a ‘raças puras’ é

muito mais fácil”. No entanto, Maria Alice afirma que após encontrar alguém compatível, o processo é bastante simples. Após confirmação de compatibilidade, é coletada uma nova amostra de sangue e são refeitos todos os testes para confirmar se realmente a pessoa poderá realizar a doação. O hematologista Dr. Rubens Sponholz Venske Júnior explica detalhadamente como é realizado o transplante. “O doador recebe uma anestesia geral e então se inicia o processo de retirada da Medula Óssea sadia do doador através de punções, na maioria das vezes, no osso da bacia, por ser um osso maior e de fácil acesso. O líquido coletado, que no caso é a própria medula óssea, é colocado em uma bolsa parecida com uma bolsa de sangue e alguns dias depois, após o paciente realizar algumas sessões de quimioterapia para matar as células doentes, ele estará apto a receber as células saudáveis de medula óssea do doador”. Como se trata de um processo considerado simples, na maioria das vezes o doador recebe alta no mesmo dia em que realizou a doação. “É simples, não faz mal e as células se recompõem naturalmente dentro de poucos dias”, salientou Maria Alice.

“a Maria Julia pode ser realmente beneficiada pela nossa campanha, mas e quantas pessoas não estariam se salvando? Então o que eu estou fazendo pela minha filha, eu também estou fazendo para qualquer ser humano”

A professora da Universidade Estadual do Centro-Oeste Karen Franciosi, mãe de Maria Julia, após não encontrar a compatibilidade dentro da própria família, aplicou a ideia de sua aluna Tatiana Crisostimo Ferreira e iniciou uma mobilização na própria Universidade e em todo o município de Guarapuava na tentativa de encontrar um doador compatível para a filha. “O hemocentro da cidade nunca viu até então uma mobilização dessa forma. Os 200 kits/mês disponibilizados para a campanha não deram para nada. Tivemos a adesão de mais de 50 empresas em menos de uma semana para fazer banners com a foto dela, dizendo que ela precisa da doação de medula”, ressaltou a mãe da Maria Júlia. A aluna Tatiana que acompanhou todo o processo afirma

Foto: Patrícia Tagliaferro

Foto: Andrea Paccini

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Foto: Patrícia Tagliaferro

O que é linfoma? que a gratificação de poder ajudar não tem preço e que é natural a compaixão pelo próximo. “Quantas pessoas não podem ser salvas com essas atitudes? Vamos começar a nos sensibilizarmos e usar o caso da Maria Julia como modelo para depois manter essa atitude de boa ação”. Ao ser questionada sobre tamanha coragem de enfrentar o problema e ir à luta pela vida de sua filha, Karen afirmou que faria tudo de novo se fosse preciso. “Pela Maria Julia e pela Maria Luíza eu faria isso mil vezes, tudo de novo. É um amor incondicional e eu faria isso por qualquer outro ser humano porque eu deixei claro uma coisa, a Maria Julia pode ser realmente beneficiada pela nossa campanha, mas e quantas pessoas não estariam se salvando? Então o que eu estou fazendo pela minha filha, eu também estou fazendo para qualquer ser humano”. Assim como Maria Julia, outras 1,2 mil pessoas também esperam por um doador compatível, segundo dados do Inca

Ágora

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“É simples, não faz mal e as células se recompõem naturalmente dentro de poucos dias” Maria Alice. (Instituto Nacional de Cancêr). “Muitas vezes as pessoas pensam assim: ‘Ah, eu não vou me cadastrar, porque talvez eu nem seja esse doador, vou deixar para outros se cadastrarem’, mas talvez seja você o doador da Maria Julia, da Ana Maria, do João, de todas as pessoas que estão precisando do transplante”, ressaltou a Assistente Social. Vale lembrar que as doações podem continuar fora das campanhas. O hemocentro de Guarapuava funciona de segunda à sexta das 8h às 18h. O doador precisa ter mais de 18 anos, menos de 55 anos de idade e não ser soropositivo. “Eu fico muito feliz de ver as pessoas vindo me ajudar e queria agradecer todos que estão vindo fazer o exame”, finalizou a futura modelo.

Conhecida também como doença de Hodgkin, essa forma de câncer se origina nos linfonodos (gânglios) do sistema linfático, que produzem as células responsáveis pela imunidade e vasos que as conduzem pelo corpo. Pode ocorrer em qualquer faixa etária, mas a maior incidência do linfoma é em adultos jovens, entre 25 e 30 anos. A doença surge quando um linfócito (tipo de glóbulo branco) se transforma em célula maligna, capaz de crescer descontroladamente e disseminar-se. A célula maligna começa a produzir nos linfonodos cópias idênticas (também chamadas de clones). Com o passar do tempo, há risco de essas células malignas se disseminarem para tecidos vizinhos e, se não houver tratamento, atingir outras partes do corpo. FONTE: Inca (Instituto Nacional de Cancêr)

NOTA: Durante o fechamento desta edição do jornal Ágora, fomos informados que a Maria Júlia encontrou um doador compatível. A família ainda não tem informações sobre o doador, mas sabe-se que é brasileiro.

“Por você, eu faria isso mil vezes” é um trecho do best-seller O Caçador de Pipas (2003), de Khaled Hosseini. O livro conta a história da amizade entre Amir e Hassan, dois meninos de realidades bem diferentes que vivem no Afeganistão da década de 70. Por causa de seu sucesso, o livro ganhou uma versão cinematográfica em 2007.


Jornal Ágora 2011 - Edição 06