Page 1

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ - PUCPR Escola de Comunicação e Artes Especialização em Comunicação, Cultura e Arte ___________________________________________________________________________ Disciplina: Literatura e Teatro Professor: Dr. Geraldo Peçanha de Almeida Acadêmico: Anderson Lopes EXERCÍCIO DE IMPRESSÃO DE LEITURA DO TEXTO “O LIVRO” DO DRAMATURGO NEWTON MORENO O texto inédito de Newton Moreno, publicado no 2º semestre de 2010 na revista aParte XXI [do TUSP – Teatro da USP], traz a história de um homem que pouco a pouco vai perdendo sua visão, em decorrência de uma doença degenerativa nas córneas. Quem o acompanha em todo o processo é um livro, o mesmo Livro que também foi companheiro de seu pai e outros parentes que foram acometidos da mesma doença hereditária. Tessitura O monólogo escrito por Newton Moreno apresenta uma tessitura que poderia ser classificada, a partir de uma análise breve, como uma mistura entre os conceitos de tessitura sonora, gráfica e sinestésica. Em outras palavras, uma ‘tessitura mix’. Isso pode ser percebido, por exemplo, no momento em que o personagem descreve uma palavra, “Percepção”, que à maneira dele, possui letras majestosas, maliciosas, retumbantes, estranhas... Uma outra descrição de palavra, “Retumbante”, é interessante porque mostra como este vocábulo carregado de uma semântica que evoca o som, a sonoridade; o assusta e ricocheteia por toda a casa, como um eco retumbante. O paladar é visto quando a personagem expressa seu desejo de sorver o livro, quando ele “lambe discretamente uma vírgula” ou quando “imprime um ponto na própria língua”. Ainda no campo das tessituras, o dramaturgo trabalha muito bem com os sentidos durante a composição do texto. Excetuando-se a visão, já que este sentido está extinguindose no personagem, Newton traz a descrição do livro do Homem, como um objeto/criatura com folhas grossas e pesadas, ásperas e suaves. Com relevos e letras impressas com força, com palavras que transbordam calor. Além do tato, do sentir, do ouvir, o olfato também é mostrado quando o personagem fala do cheiro do pai e do cheiro do livro velho e bolorento. Numa leitura um pouco mais interpretativa, poder-se-ia dizer que o cheiro, o faro que o Homem (já cego) consegue ao fim da cena [“Com o faro, sigo o livro. Rastreio primeiro, leio depois.”], denota não apenas um aprimoramento de um sentido em detrimento de outro; mas sim a consequência da maturidade que todo o processo da perda da visão e de leitura do Livro o presenteiam. Como o pai cego que, logo no início da obra, consegue encontrar o filho escondido e com medo no quarto, somente pelo cheiro [“Mas com um radar de quem sabe farejar sua própria carne, meu pai abre a porta.”]. Um trecho da obra sintetiza esse pensamento de apresentar os sentidos num texto que trata justamente da perda de um deles e da consciente redescoberta de outros. O personagem diz: “É uma maratona poder virar uma página. [...] E o livro é imenso. É a reeducação, uma nova grafia, uma caligrafia, uma outra gramática. Sensorial, emotiva, viva.” Personagem O personagem criado por Newton Moreno é um personagem esférico, isto é, que passa por uma transformação gradativa em nível físico e psicológico/emocional. Basta ver como ele se sente acuado face ao implacável destino que o cerca. Sua indisposição, um medo na realidade, está em ter de passar por aquele ritual que outrora ele já havia visto o tio e o avô passar. No monólogo fica claro que, por meio de suas descrições, evocações de


lembrança e percepções antes e pós a cegueira; o personagem consegue nos apresentar dois dilemas: enfrentar a doença e a sua inevitável adaptação e, por outro ângulo, o processo criativo de um potencial escritor de imaginação faminta e voraz. Neste sentido, o ato criativo é visto em situações nas quais o dramaturgo relaciona a gravidez, o feto e o parto de uma mulher como correspondentes ao momento em que o Homem vive. Redescobrir-se como uma pessoa cega e dar vazão a sua imaginação através de sua escrita em um livro. O nascimento da palavra que ele tanto almeja (que lhe é única e singular, que lhe causa dores de parto) é contrastante com a “perda, o roubo” desta por algo desconhecido. Seu “lírio de fonemas”... Sua evolução é nítida, em especial, no fim do texto quando finalmente perde a visão. Ele, logicamente, não está totalmente adaptado à escuridão e ao ‘nada’ e ao ‘tudo’ que a rodeia. Mas seu medo anterior de enfrentar tal perda e de se defrontar com o ritual hereditário da leitura daquele Livro, já não existe mais. Ele, o livro, o ajudou a encontrar o ‘tudo’ no ‘nada’ da escuridão. E, em sua constante analogia à pintura e ao artista, ele conforta-se: “Mas agora no meu quadro escuro, eu sou o infinito e a imensidão. Posso todas as cores sob este fundo escuro”. Ele não tem nome e nem tem suas características físicas descritas. Poderia ser um homem de estatura mediana, cabelos escuros e encaracolados, barba por fazer, magro e de pele caucasiana. Usaria uma roupa comum de um homem comum que vive um dilema incomum. Rubricas Sobre as rubricas, poucas, o autor traz apenas algumas direções sobre questões que envolvem a iluminação da cena, a disposição do ator e os tempos que entremeiam uma cena e outra. Justamente por se tratar de um monólogo, não há didascálias que possibilitem dar orientação ao ator sobre como contracenar com outrem; a exceção fica a cargo da maneira que este deve se posicionar frente ao seu único companheiro de cena: o Livro. Outras questões como expressão, cenário e etc., ficam por conta do diretor. Ainda assim, merece destaque a rubrica inicial na qual o autor faz referência à luz. Depreende-se disto, que a luz irá aumentando sua luminosidade durante toda a encenação e atingirá tal ponto ao final, que ‘tem’ que causar irritação aos olhos e, num repente, apagar-se completamente (black-out). Mais uma aliteração com a temática da perda da visão. O mesmo mecanismo pode ser visto no pão que assa em cena, na obra “Mãe Coragem e seus filhos” (1939) de B. Brecht, e no galho de café que solta um aroma durante a peça “Cheiro de Café” (2008), adaptação da obra de G. García Márquez por parte do grupo Teatro dos 100 anos. Ambos são ‘mostrados’ no decorrer da cena. Do mesmo modo, nas rubricas há inferências em relação do ator e seu envolvimento com o público [característica definitivamente brechtiana].

Cenário O cenário não é descrito na dramaturgia escrita por Newton Moreno. Porém, como ato de imaginação, seria possível dizer que poucos elementos formariam o cenário e a cena em si. Apenas uma cama com lençóis e travesseiros no centro do palco, com o livro e parca iluminação seria necessários para o desenrolar da cena. Já que toda a história é narrada por um só ator, cabe a sua descrição e aos espectadores imaginarem todas as histórias e rememorações narradas. Ao fundo, fotos do lituano Antanas Sutkus feitas em escolas para meninos e meninas cegas, poderiam estar suspensas em grandes painéis que se sobrepunham. Em especial duas delas poderiam ganhar destaque com luzes em momentos distintos da peça (causando um pouco de distração e distanciamento na plateia). Seriam elas: “Mão Paterna” (1964) [com um garotinho segurando a mão de um pai que não se vê o rosto], no início quando ele lembra-se do pai e fala do primeiro contato do livro envolto na embalagem azul-celeste. O


“Pioneiro Cego” (1962) [um garoto cego com gigantescos olhos e uma expressão indecifrável], já no fim, quando ele também se depara totalmente cego. Prólogo O prólogo é curto, em off, com a cena sem iluminação e também narrado em primeira pessoa pelo protagonista, o Homem. É a partir dele que se pode compreender o gosto do personagem pela leitura, o afã de sua imaginação irrequieta e sua paixão em escrever um potencial livro. Não esclarece ainda sobre como o Livro chegou até ele, mas o cita ao fim do prólogo. Ainda nessa parte do texto de Newton Moreno, o que mais se destaca entre o que já foi dito, é a forma como o Homem via seus livros e os sentia; tendo vidas próprias. Mais do que simplesmente uma pessoa que gostava de livros e de leitura, o personagem se mostra tão apegado nos livros que os espreita e os ouve conversar. Sua relação com a leitura é quase que humana ou extra-humana. Num dado momento, ao falar de sua vontade em escrever um livro, ele comenta o ato criativo como um nascimento, onde os livros poderiam ter um companheiro. Ou seja, ele e os livros faziam parte de uma mesma família e um novo membro talvez pudesse ser acrescentado a ela. Diegese e Mimese O conceito de mimese está intimamente relacionado ao teatro aristotélico, dramático. Nele é possível perceber que a história, a ação é contada ao público, que por sinal, é ignorado pelos atores e pelo próprio texto. No caso de “O Livro” é nítido que a diegese é o conceito que impera, principalmente, por ter características muito próximas ao teatro épico (ou dialético brechtiano). Assim, por exemplo, o público vê uma narrativa sendo mostrada, acontecendo aos seus olhos. Desde o prólogo ao fim do texto de Newton Moreno, vê-se a importância de se manter o distanciamento e provocar a reflexão por meio de uma narrativa que procura não trazer o público à catarse ou mera identificação, mas sim, trazer reflexão e espírito crítico ao espectador. Principalmente quando a personagem ‘conversa’ com a plateia de maneira direta [como por ex.: “Até o fim desta noite, eu posso cegar aqui na presença de vocês”]. Apenas a critério de observação, uma intertextualidade presente no texto de Newton Moreno refere bem a relevância da crítica na narrativa, ao dizer: “Cada família com suas heranças. Esta é a minha parte. Sem latifúndios ou hipotecas”. Ou seja, tal excerto revela clara inferência à obra de João Cabral de Melo Neto, “Morte e Vida Severina” (1955): “[...] Essa cova em que estás, com palmos medida, é a cota menor que tiraste em vida. —— é de bom tamanho, nem largo nem fundo, é a parte que te cabe neste latifúndio. —— Não é cova grande. é cova medida, é a terra que querias ver dividida. [...]”

Impressão de leitura: "O Livro", de Newton Moreno  

Trata-se de um breve trabalho de impressão de leitura da obra do dramaturgo pernambucano Newton Moreno. A análise foi feita para a disciplin...

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you