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05/12/2012 Linda e moderna a cidade, pequena, surpreende com seu belo parque linear, o encontro das águas, as lindas espécies de plantas e frutas.

Teresina- encontro das águas do Rio Poti e Parnaíba

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O contato com os terreiros começou no aeroporto. Pai Rondinele nos esperava ali juntamente com outros representantes de terreiros, mãe Eufrazina e algumas filhas de santo, Leninha, vinculada a organizações de mulheres negras, e um senhor (Ruimar) que foi o fundador do movimento negro do Piauí e faz mapeamento dos quilombos no estado- informa até agora conhece 170 quilombos - e nos pareceu que serão pessoas interessantes de entrevistar. Fizemos uma roda no aeroporto mesmo pra dizer a que vínhamos. E rápida apresentação das pessoas – Parece que em Teresina tem 400 terreiros e muitas (6 ou 7) federações de cultos religiosos. O nosso projeto parece mal entendido- todos falam em um documentário e fazem comparação com o DocTV, nos veem como repórteres que vão apresentar os terreiros de Piauí para o país, há expectativas de um grupo de uma das grandes TVs comerciais. O grupo parecia decidido a estabelecer qual a metodologia e o procedimento do projeto em Teresina. Foi difícil falar com o Sr. Rondinele, que nos apresentou uma agenda extensa, de nos levar a um giro pelos terreiros da cidade e inclusive para um quilombo- visita de um dia inteiro. E nada de marcar uma conversa com ele pra conseguirmos iniciar/organizar o projeto aqui. À noite fomos levados para um terreiro de umbanda, de Santa Barbara. Nós acreditávamos que ali teríamos uma roda dos terreiros que fazem parte da Rede Estadual dos Terreiros pela Saúde. De fato era o terreiro de mãe Eufrazina - esperavam-nos e o que houve foi uma grande seção religiosa, com os filhos de santo vestidos para o evento. O terreiro de umbanda de Santa Barbara, Iansã, cujo pai de santo é um homem, mas a dona do terreiro é mulher e atualmente é presidente da Rede Estadual de Terreiros pela Saúde. Mãe Eufrazina nos contou que começou diretamente na umbanda, com 6 anos de idade, a partir de muitos problemas que apareciam pelas manifestações de santos e de doenças inclusive mentais, até ser levada para uma umbandista, no Ceará que é onde nasceu. Contou que está ha 4 meses na presidência da rede, pois antes o presidente foi o pai Rondinele. Nessa 4ª. feira, que é normalmente dia de seção, e não vem todos os filhos, havia em torno de 30 pessoas, mais mulheres, uns 7 homens. Fizemos fotos, mas sentia-se que a expectativa era bem outra (algo como um grupo de cineastas da TV Globo, fazendo uma matéria). Tentamos novamente no final fazer uma fala sobre a que viemos o que é o projeto, baixar as expectativas das pessoas, mas ainda não fomos bem sucedidos. As evidencias é que há algum conflito e disputa entre os terreiros, e que Rondinele está decidido fazer uma mostra de alguns terreiros (e quilombo) escolhidos para participar da pesquisa e (se possível) aparecer no ‘documentário’ (ainda entendido assim), o que se pode ler também como uma forma de estimular a atuação dos seus pares. Depois de alguns desentendimentos ficou marcada uma reunião no dia seguinte, às 11:30hs no hotel, com todos, apesar da nossa insistência em falar primeiramente com o Rondinele pra organizar nossas visitas. A ideia era de amanhã retomar a via de visita entre os terreiros. Marcamos para 06/12 pela manhã uma conversa com Rondinele, antes do horário combinado com o grupo pra nos colocar em acordo sobre os procedimentos do projeto.

06-12 Finalmente conseguimos ter uma conversa, ou retomar do começo as propostas da pesquisa e qual a metodologia que propomos. Vieram com Rondinele, a mãe Eufrazina e uma sua filha de santo, e Leninha, do Instituto da mulher negra.

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Conseguimos firmar a proposta do projeto e a pauta de trabalho, acertamos com a mãe Eufrazina que faríamos no dia seguinte uma roda com todos os terreiros que participam da Rede de Cultos Afro brasileiros e Saúde, da qual é a atual presidente, à qual se juntariam as organizações de mulheres negras. Combinamos ainda uma entrevista com o Ruimar Batista, que praticamente fundou e tem atuado para o movimento negro no Piauí, acompanha o nacional, além de realizar um levantamento das comunidades quilombolas no Estado. Em seguida à tarde realizamos uma entrevista com o pai de santo Rondinele, da ASPAJA- que tem o discurso bem articulado e que indica locais na web (blog, Facebook, YouTube), onde se pode ter mais informações da sua atuação, das comemorações e eventos, fotos etc. Abaixo algumas questões levantadas: - o terreiro atualmente está todo dividido em espaços, pois teve que deixar o espaço antigo, onde habitou por 10 anos, um sítio grande com plantas, que era alugado e ele moveu ações para a aquisição do espaço, tendo conseguido do governo federal um apoio de 3,5 milhões de reais, devendo o governo municipal contribuir com mais 100 mil e o estadual 150 mil. Como que este ultimo não efetivou a contrapartida, o apoio todo não se realizou. - Moveu então outras ações com os filhos e simpatizantes do terreiro e atualmente está construindo um outro espaço. Ele nos apresentou o espaço, principalmente em termos dos projetos que tem para a construção. Falou das ações que tem realizado e dos projetos que tem acionado. Para o local tem também um projeto com o MMA para desenvolver um sitio de ervas para terreiros e ervas medicinais, brasileiras e africanas, semelhante ao sitio do pai Adão no Recife, que tem cultivado muitas espécies. Nesse projeto deve ter parceria com a Universidade, área de química e farmacêutica para aliar a produção de ervas, a descrição cientifica e a elaboração de remédios. Há ainda projeto de uma cozinha experimental de comidas africanas e afro-brasileiras, que devera funcionar através de oficinas para formação dos terreiros da cidade. Da sua história. Não fala muito da sua família biológica. Mais da avó materna, Raimunda, que manifestou a presença de santo. Também alguns tios tem manifestações raramente. Quando criança, aos 8 anos teve doenças que foi diagnosticada como meningite, até que alguém apontou como doença espiritual e começou a ir a terreiros de umbanda no Maranhão e em Teresina. Foi criado pelos padrinhos (que são irmão e irmã (Isaira) de Ruimar Batista), embora a mãe e pai biológicos morassem próximos. A irmã da mãe de criação era de um terreiro e deu apoio para Rondinele assentar no santo– terreiro Parnarama, Paiol, benzedeiras. Já adolescente frequentava o grupo cultural Coisa de Nego, quando com 15 anos em uma festa, tocando atabaque para saldar preto velho teve uma grande manifestação do santo. Então passou por vários terreiros: Mãe Selma, Nazar do Bruno, no Maranhão, Ile Axé de Iansã (pai Adilton) Com pai Adilton fez ate o 6º. grau na umbanda, mas o preto velho disse que sua linhagem é do candomblé. Conta-nos que com 14-15 anos o caboclo indicou pra ir pra Salvador, com a Assunção, numa viagem de missão para trazer a missão para o Piauí. Na viagem encontrou Ubiratan, da Fundação Palmares que informou sobre o Projeto de Mapeamento dos Terreiros e o projeto de Segurança Alimentar (Segal) com distribuição de cestas de alimento. Rondinele propôs à Palmares a fundação do Santuário de Pai João de Aruanda, e recebeu cestas e informação. Passa a desenvolver então diversos projetos de prevenção do DST AIDS, hanseníase, Segal. Conheceu a Ialorixá Jaciara S Ribeiro, o caboclo escolheu essa casa e o Ile Axe Abassa de Ogum, de mãe Ilda, do queto, que teve uma crise grande com a igreja universal, tempos atrás - o pastor bateu com a bíblia na cabeça dela que, adiante, entrou em depressão e morreu. Mãe Ilda é filha de pai Raminho de Oxossi, de Pernambuco, que é pai de santo de Jaciara. www.ancestralidadeafricana.org.br


Logo Rondinele assentou o santo. No terreiro teve um primeiro barco, com três recolhidos, no 2º. barco da casa (Dofono) ele assentou no candomblé. Diz que passou os últimos dez anos dentro do movimento social, muito mais atuando na política dos terreiros e nas ações para/com a comunidade. Agora considera que precisa cuidar da casa, no sentido espiritual. Quando começou dentro da rede conheceu Babalorixá do Rio Grande do Sul, Jairo, Ogan, Mãe Beata da Bahia, Afirma ter uma intervenção na comunidade, com os jovens, com grupos de canto, dança, batuque, grupos afro; muitos jovens tem problemas com drogas, muitas famílias procuram ajuda e ele tenta desenvolver a auto estima dos jovens. Fazem rodas de dialogo afro negra com a comunidade, movimento juventude de terreiro, homens do axé. Com a Carta de Teresina, com proposição dos jovens de terreiro, formou o primeiro Grupo de juventude de terreiros do Piauí. Rondinele defende insistentemente que todos devem estudar e ampliar os conhecimentos – advoga entre os representantes de terreiros, com seus filhos de santo e junto à comunidade. Ele mesmo está cursando a faculdade de fisioterapia. Foi da coordenação da Rede dos cultos afro religiosos pela saúde, atualmente está mãe Eufrazina, que era vice.

06-12 – noite Visita ao terreiro do pai Chagas. Terreiro espírita São Francisco das Chagas, existe desde 25 a 30 anos. É um terreiro de umbanda e quimbanda (magia negra, segundo ele mesmo) Trabalha com saúde e mediunidade, Caboclo Légua, erês, e preto velho nas 2ª. E 4ªs feiras. Pai Chagas está em terreiro desde os 15 anos de idade; com 11 anos começou a manifestar com dores de cabeça. Baiano Grande foi o primeiro terreiro que frequentou. Recolheu no batismo, e diz que não existe muito assentamento no Maranhão. Tem 50 anos, e faz 11 anos que abriu casa. Refere-se a Rondinele com muito respeito e diz que tem aprendido muito com as ações conjuntas. Festas do Terreiro São Francisco das Chagas. Janeiro- João da Mata Abril- Teresa Agosto – festa da casa. Outubro São Francisco das Chagas Entre setembro e outubro vai ao Canindé Pai Chagas é um homem alegre, divertido e parece gostar de ironizar as ocorrências de sua atividade. Diz que não estudou, é analfabeto, e que não educa os filhos do terreiro. Tudo o que sabe é o santo que lhe diz. Também quando deve usar ervas é o santo que orienta, assim ele busca as ervas e com isso vai aprendendo. É casado com Da. Maria, que cria um neto, pois seu filho jovem foi morto por bandidos, segundo conta. (O neto parece ter hidrocefalia, mas ela diz que tem melhorado de saúde).

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07-12 Entrevista com Ruimar Batista. Encontramos Ruimar no Memorial Zumbi dos Palmares, local que já foi um grupo escolar com um nome de bandeirantes – e houve um movimento em Teresina para a anulação do nome e novo batismo. Ruimar nasceu no Maranhão, tem 55 anos, é engenheiro agrimensor, mas define-se como escritor, poeta e pesquisador. Veio para Teresina ha quase 50 anos. Ele fez um histórico sobre a questão africana e a diáspora. Fala sobre a criação de escolas e da imprensa negra durante a escravidão no Brasil. Também faz um histórico do movimento negro no mundo, nos EUA e depois no Brasil, com referencias a Abdias Nascimento, e aos escritores e poetas, Júlio Romão, Maria Firmina dos Reis, Luiz Gama, Oliveira Silveira, poeta que definiu o dia da Consciência Negra, em 1978. Em 1980 cria-se a 1ª. entidade do movimento negro em Teresina, Picos Esperantina. Realizam a festa da beleza negra. Nesse tempo era movimento junto a igreja, APNs, agentes pastorais negros, na Universidade – as CEABS, e GUNS (?). Nesse ano criam grupo afro cultural, Coisa de Nego, bloco de carnaval, e também começa o trabalho de mapeamento de quilombos. Cita Francisca Trindade, a 1ª. Negra em Teresina que foi vereadora, deputada estadual e federal. Ruimar diz que a partir de 1988 passou a andar pelo Brasil incentivando a luta dos quilombos para a regularização das terras. Fala da luta da mulher negra que pauta a questão da saúde da população negra (são os que mais morrem). Ele participa do MORHAN – movimento de reintegração de pessoas com hanseníase. Ruimar cita que Anemia Falciforme também tem muita incidência entre os negros. Anos 2000 –esteve junto com o Yayabase – grupo afro, Rede Cultural de Religião Afro e Saúde. Ele define: ancestralidade: não é linear, olha o passado para construir o presente. 07-12 à tarde Roda de conversa com a Rede de Cultos Afro brasileiros e Saúde, e Organização de mulheres negras. O encontro também se realizou no Memorial Zumbi dos Palmares. Feita a apresentação do projeto e solicitada permissão para gravação e fotos, começamos com a pergunta – apresentem-se e digam qual a relação com a rede e que resultados você tem observado nesses tempos. Iniciou uma apresentação, mas a questão sobre a rede parece que provocou um rastilho de alguns conflitos existentes. Pai Oscar de Oxalá – “Axé”. Sua primeira casa foi Ile Axe Casa Branca; é filho de Ialorixá Elza do Sul, e o pai é Oxugum. Foi fundador da religião candomblé no Piauí há 20 anos atrás. Diz que hoje o caminho é acessível aos movimentos sociais. Considera como necessidade o livre transito da religião, pois enfrentam discriminação, por ex, nos hospitais, quando consideram necessário dar assistência a um filho ou apoio. Diz que a rede tem feito muito pouco, mas salienta que tem se preocupado com a saúde, com o respeito a religião e com os direitos humanos.

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De sua vida, diz que viveu no Piauí por 17 anos na umbanda, depois foi pra Belo Horizonte e finalmente à Bahia, onde se vinculou ao candomblé. O primeiro Orixá que assentou no estado foi em 1984. Eleuza Dias, vinculada à casa de mãe Eufrazina. Foi fundadora do Partido dos Trabalhadores no Piauí. Fez uma fala dizendo da falta/necessidade de haver maior unidade entre os terreiros para se fortalecerem nas demandas. Pai Fabrício de Oxossi. Francisco da Casa ilê de Oxossi. Faz parte do comitê de distribuição das cestas de alimentos. E atualmente 93 terreiros participam do programa cesta básica. Seu pai – Nelito Marques. Viveu 14 anos no Maranhão no terreiro de mãe Benedita. Da sua vida, diz era da alta sociedade e quando se manifestou com filho de santo o pai o expulsou de casa. Ainda assim persistiu, hoje tem 8 filhos biológicos e novamente há acordos em sua família biológica. Itamar da Silva Andrade – é presidente da Federação de Umbandistas do Piauí, desde 1996. A federação atua em apoio aos movimentos. Sr. Itamar é de família de umbandistas. Mãe Eufrazina – atualmente é a presidente da Rede de cultos afro para a saúde. Antes dos 7 anos apresentou mediunidade. Foi para o interior e a sua avó biológica a encaminhou para o terreiro. Conta que levam 7 anos para cumprir todos os graus da umbanda. Defende que todos tem que adquirir conhecimentos e cumprir todos os graus. Pai Chagas – diz que a rede tem colaborado muito com o seu desenvolvimento. Elogia muito a gestão de Rondinele como presidente da rede, pois diz que este atua no sentido de que todos participem e melhorem sua atividade e inserção social. Ele tem um Terreiro espírita São Francisco das Chagas há 25 a 30 anos. É um terreiro de umbanda e quimbanda. Priscila, filha de mãe Eufrazina. Diz de suas bisavós que uma era escrava e outra índia, dados de 1890. Conta que se realizou na umbanda, com os trabalhos sociais, a associação e a rede. Dedica-se à farmacologia visando cultivo de plantas medicinais. Eliana – do Instituto da Mulher Negra Piauense, projeto Yayabase. O Instituto trabalha com as questões relacionadas à mulher negra, direitos, saúde, política e movimentos sociais. Fala sobre as questões das mulheres dentro do próprio movimento negro, dos preconceitos ali e também na sociedade. Ela esclareceu que Yayabase é um grupo de negras descendentes de negros, Sankova é a imagem de resistência das mulheres negras. Realizaram seminário – apresentaram um manifesto sobre mulher negra e saúde. Eliana diz que sua tataravó foi escrava. Leninha também compõe o grupo Yayabase. A instituição representa a mulher negra no Conselho Estadual de Saúde. Valtenia Carvalho, diretora de políticas para mulheres o Instituto. Ruimar Batista – apresentou-se como pesquisador de quilombos e colaborado dos grupos negros pelos direitos Amparo – estudante Jaqueline Bezerra – diretora do ZUMBIDO - Design & Comunicação, que fez a cobertura dos eventos do projeto em vídeo e fotos para as atividades locais. Pai Rondinele – apresenta novamente o nosso projeto ‘Ancestralidade’, enfatizando porque foi escolhido fazer a memória do terreiro ASPAJA (Associação Santuário Sagrado Pai João de www.ancestralidadeafricana.org.br


Aruanda), a relação com o projeto ‘Ponto de Leitura’ de SEPPIR, e tenta esclarecer os objetivos de ambos projetos, e a distinção entre participar de editais como organização social, com identidade e documentos próprios, diferentemente de inscrever-se como rede. Também fez um apanhado das ações que a ASPAJA tem desenvolvido nos vários espaços sociais e na articulação dos terreiros do Piauí. Aparentemente há questões de atritos, incompreensões entre qual o papel da Rede, a ação de relação articulada entre os terreiros e as atividades, projetos e atuação específicos de cada organização/terreiro, ocasionando descontentamento e confusão entre rede e organização, e suposição de uso das relações para conseguir melhorias e benefícios para o terreiro x inatividade e ciúmes das conquistas de outros. Houve também cobrança de prestação de contas da gestão anterior da rede dos cultos afro pela saúde, com Rondinele presidente. Diante do mal estar foi proposto que se fizesse nova rodada para as pessoas dizerem ‘o que é/ como vivem’ a ancestralidade africana, como se reflete nas suas ações. Essa temática parece que fez mais sentido para a organização de mulheres negras, que intervieram com a relação entre suas atividades e a ancestralidade e etnia, enquanto para os representantes dos terreiros, tal proposta ou não foi entendida, ou não adequada, pois a discussão entre as organizações já tomara o rumo para os assuntos internos da rede. Nesse sentido, destaca-se o interesse desta reunião que pôs em evidencia conflitos que são inerentes à sua própria natureza de redes ou grupos que se articulam em torno de alguns propósitos e ações comuns, mas se compõem com uma diversidade de propostas, objetivos e meios, formas de atuação específicas de cada organização.

08-12 Era sábado- e o combinado, agendado estava a visita a um quilombo, que se relaciona com o ASPAJA. Na véspera, depois de muita discussão sobre a hora da saída, que haviam marcado para as 4,30hs– conseguimos através de votação agendar finalmente para as 7,30hs da manhã. Uma Van lotada saia de Teresinha rumo a Santa Luzia, que para nos convencer deveria estar ha 3 horas de viagem. E vamos ... e vamos... 3 hs depois, ainda não chegamos à metade do caminho... cidade de Picos ... muito calor e a Van desconfortável ... 6 hs depois parece que chegamos pela região, e deveríamos tomar uma estrada que conduzia ao quilombo.. calor, terra seca e mandacarus... estamos no sertão do Piauí, e a van empaca numa trilha impossível... nosso guia se perdeu...

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Achar alguém naquele meio que pudesse indicar o caminho certo... Cerca de 8 hs depois finalmente chegamos ao Quilombo Costaneira Tronco... Fomos recebidos com maior carinho pelos quilombolas reunidos num grande galpão. Ofereceram-nos um banquete afro – mungunzá salgado, paçoca de carne seca, baião de dois, bode, carne de gado, galinha – uma maravilha, e depois, musica, dança, conversa e cantoria! Fizemos uma roda para apresentação: - nós do projeto, explicando por que estamos no Piauí, - representantes do Instituto da Mulher Negra, - representantes do grupo ‘Coisa de Negro’ que existe há 22 anos e trabalha com escolas, caravanas da juventude, - Secretário da Assistência Social e Cidadania do Piauí, SASC- Sr. Francisco Guedes, que estava em visita a região, promovendo os programas sociais, como Cidadania Ativa, Banco Comunitário, capacitação de agentes, e diz que está reforçando as atividades para regularização do quilombo. - Mocinha, Ana Joana, colaboradora do quilombo, que contou um pouquinho da história. O quilombo foi formado no século XIX, com negros que foram rejeitados dos locais onde eram escravizados, quando do fim da escravatura. São todos descendentes do mesmo grupo. Lembram como origem os senhores José Raimundo, Pedrinho, Sr. Salu. Ali vivem de 16 a 30 famílias, que fazem mutirão para o plantio e as atividades do local. Vivem comunitariamente, com muitas atividades em comum e entendem que todos são portadores de direitos do quilombo. Estão em processo de regularização das terras, o que tem se demorado muito pela burocracia dos órgãos governamentais. Reúnem em grupos de música e dança. Tem um grupo de musica Grupo Lundu de Leseira, tocam o samba de cumbuca, dançam leseira, e muito batuque. Lembram que tem uma festa na 6ª. Feira da paixão. No dia 12/12 tem a festa de São Lazaro, quando fazem um banquete e os primeiros que comem são os cachorros da comunidade. Celebram o dia da Sra Santana – Nanã. Dentro do quilombo tem um terreiro de religião africana. - Naldinho, Arnaldo de Lima, que é uma das lideranças ativas do quilombo – se apresenta: “Sou Naldinho, sou negro, quilombola, e sou de terreiro.” Ele é coordenador da Comunidade Afro descendente Quilombo Costaneira Tronco, organiza a comunidade, os grupos de mutirão para plantio. Ele conta – “Toda noite, aqui não ligamos a televisão, nada de novelas etc, - reunimos todos no salão e ficamos contando nossas histórias”. Apresentam-se ainda Rita Maria de Lima, Adaílton, Inácio que é do grupo Leseira. Em seguida começa uma roda de musica, dança, e muitas cantorias. Hora de despedir – mais 6 hs de viagem na Van, até Teresina.

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09-12 Finalmente um dia pouco menos atribulado. Combinamos de ir ao terreiro que ainda está em construção, onde será a sede da ASPAJA, visitar local do antigo santuário, gravar umas falas para o vídeo com o pai Rondinele e com Ruimar, e fazer uma roda com os filhos da casa, principalmente os jovens que participam da Rede de Juventude de terreiros. O terreiro fica em um bairro distante, Santa Maria do CODIPE. Além dos dois entrevistados, compareceram cinco jovens e a equede da casa, com os quais gravamos os depoimentos sobre a Rede Juventude, e o pai Chagas e família. Os jovens estavam intimidados inicialmente. Quase todos moram no entorno do terreiro. Fazem parte do grupo de tambores, que tocam e também ensinam para jovens e crianças do bairro. Disseram de sua participação na ação do terreiro junto à comunidade. Feitas as vídeos filmagem, nos ofereceram um ótimo almoço com características africanas, e nos despedimos até uma próxima oportunidade.

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