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Ano II distribuição gratuita

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cena7.art.br


A revista O MENELICK 2º ATO é uma publicação trimestral da MANDELACREW COMUNICAÇÃO E FOTOGRAFIA Rua Roma, 80 – Sala 144 / CEP: 09571-220 São Caetano do Sul/ SP - Tel. (11) 99651 8199 revista@omenelick2ato.com DIREÇÃO E PROJETO GRÁFICO Nabor Jr. l MTB 41.678 COMERCIAL Maria Cecília Braga Diagramação Victor Hugo CONSELHO EDITORIAL, REVISÃO E LEITURA CRÍTICA Nabor Jr., Christiane Gomes, Alexandre Bispo e Renata Felinto. DISTRIBUIÇÃO GRATUITA em centros culturais, galerias de arte, shows, festas, feiras, festivais, casas noturnas, lojas e zonas de conflito.

Foto Guma

quilombo

ALEXANDRE BISPO

ALLAN DA ROSA

LILIANE BRAGA

LUCIANE R.amos

MÁRCIO BARBOSA

NABOR JR..

NELSON INOCÊNCIO SIDNEY SANTIAGO

VALÉRIA ALVES


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SUPER CONSCIÊNCIA NEGRA, 2012 Aquarela, nanquim e acrílica sobre papel 30 x 25 cm Artista: RENATA FELINTO (cubo-preto.blogspot.com)

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Capitaneada pelo músico, produtor, DJ e agitador cultural Eduardo Brechó, e seu generoso acervo de discos com os mais variados  swings do que conhecemos como música negra para dançar, o coletivo Aláfia (formado há  pouco mais de um ano e meio na cidade de São Paulo) com seus shows concorridos, performances elogiadas e parcerias cults, encerra o ano como uma das gratas revelações da movimentada cena independente musical paulistana. “Nossa proposta está bastante ligada à luta da juventude negra e à cultura de quebrada. É música afrourbana na essência. Até agora,

Porém, a curiosidade por trás da jovem e até aqui bem sucedida trajetória do grupo está no coringa que o coletivo carrega nas mangas, semelhante ao que – guardadas as devidas proporções - na recente história da música independente de São Paulo, através do olhar atento do produtor Daniel Ganjaman fez bombar o Coletivo Instituto e o rapper Criolo: a convergência de interesses sonoros aliada a uma bem ajustada união de talentos individuais em torno de um projeto em comum. Além de uma boa pitada daquilo que o poeta Vinícius de Moraes costumava chamar de: “a arte do encontro”. E é justamente neste ponto que reside os mistérios que envolvem a “cósmica” formação do Aláfia. Para além da musicalidade do grupo, um

Operação

Aláfia   Texto Nabor Jr. / Colaboração Liliane Braga (Quisqueya Brasil) / Foto Diana Basei (dianabasei.com)

todos nossos shows e trabalhos têm sido ligados a essa estética. O nosso público nos reconhece nesse lugar também. Desde o começo da banda não queríamos ser levianos ou superficiais nos assuntos e temas que tratamos”, enfatiza Brechó. A previsão do grupo é a de que o lançamento do aguardado combo “CD, disco virtual e vinil” (que já esta sendo gravado) aconteça ainda nos primeiros meses de 2013 através de uma recém fechada parceria com a YB Music (que já produziu nomes como Coletivo Instituto, Curumin, Nação Zumbi, Turbo Trio, Clube do Balanço, Trio Mocotó, Z´África Brasil entre outros). 6

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bem dosado e autêntico conjunto de referências da música negra tradicional e contemporânea, especialmente a produzida na diáspora americana e que resulta em um som com forte “pegada” jazz, funk e rap, aliada a potentes pitadas dos batuques presentes nos terreiros de candomblé, a química musical que cerca o Aláfia está intimamente atrelada ao que os próprios músicos do coletivo definem como “providência dos encontros”. “Cada um de nós aqui tem um interesse pelas questões do universo afro em todos os seus sentidos, sejam elas religiosas, culturais, sociais. Alguns mais outros menos. E por algum


em maio de 2011, no antigo Bar B, localizado na região central de São Paulo: casa cheia e gente pra fora logo na estreia do grupo. A partir de então, o que era para ser uma apresentação isolada fruto de uma imersão musical de um grupo de músicos com interesses estéticos em comum, transformou-se em uma mini-temporada, no próprio Bar B, com apresentações estendendo-se por seis meses. Estava formado o Aláfia (que na língua africana iorubá significa felicidade e caminhos abertos). “Antes deste show nós experimentamos muitas coisas, gravamos, ensaiamos. Pessoas foram chegando, outras saindo. A princípio, quando a gente idealizou o Aláfia, nós não idealizamos a banda, na verdade a gente idealizou

motivo, que eu particularmente não sei explicar qual é, essas pessoas acabaram se encontrando e desenvolvendo uma parada que tem a ver com elas próprias, uma linha só”, afirma Xênia França, uma das vocalistas do grupo que ainda conta com os nomes de Jairo Pereira (voz), Lucas Cirillo (gaita), Alysson Bruno (percussão), Gabriel Catanzaro (baixo), Pipo Pegoraro (guitarra), Filipe Gomez (bateria), Gil Duarte (flauta e trombone) e do já citado “agregador” Eduardo Brechó (violão e voz). O barulho que a recente união do Aláfia causou na cena black indie de Sampa pode ser conferido já na primeira apresentação do grupo,

o espetáculo, o show”, recorda-se Brechó. De lá pra cá, o noneto que traz em sua memória coletiva inspirações sonoras que vão do batuque de umbigada e os ensaios de escola de samba até o jongo e os bailes black, já se apresentou em algumas das mais hypadas casas da noite paulistana, tais como Matilha Cultural, Studio SP, Tapas Club, Zé Presidente e Centro Cultural Rio Verde. Também deram as caras nas quebradas da zona sul, leste, do interior de São Paulo e em festivais como Cidade Sonora, Virada Cultural, Sarau das Artes (promovido pelo SESC Interlagos) e teve a agenda de shows passeando pelas páginas dos principais guias

culturais da cidade. Entre as boas parcerias já firmadas, que passam por nomes como o dos Mc´s Rincón Sapiência, Sombra e do poeta Zinho Trindade, destaque para a música Ela é Favela (Brechó, Lurdez da Luz, Jairo Pereira e Xênia França) gravada com a versátil cantora e rapper Lurdez da Luz (indicada no ano de 2011 ao Vídeo Music Brasil na categoria Melhor Videoclipe com o single Andei) e lançada no álbum Coletivo Urbano – Volume 1 (2012), coletânea que reuniu para sua gravação, no SESC Pompeia, artistas representativos da música de São Paulo, como Rômulo Fróes e Kiko Dinucci.  Passados pouco mais de um ano e meio

de ensaios, apresentações e alguns poucos trabalhos postados na internet, fica claro que muito mais do que providências e encontros (casuais ou não), é a sonoridade ímpar que aos poucos vem sendo construída pelo Aláfia (procure pelas ótimas O Homem Que Virou Música, Pera Lá, Nas Voltas do Baile Black) a “chave do negócio” de uma ainda promissora união que tem repertório para dar samba. Ou o verdadeiro xirê (forma como é conhecida a reunião dos orixás nas casas de candomblé) idealizado por Brechó. Vale a pena acompanhá-los em 2013. Aí fala Aláfia!

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Individualmente, a maioria dos integrantes do Aláfia têm no currículo bons serviços prestados ao cenário musical independente de São Paulo. Confira aqui que é quem neste xirê.

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Jairo Pereira é artista multimídia, com formação em artes dramáticas pela Universidade de Mogi das Cruzes. Dentre vários trabalhos no teatro, fez parte da Cia. Parnas, da diretora Catherine Marnas, na França. Também já passou por países como Grécia e Angola com espetáculos teatrais. Atualmente mantém na Internet o canal Diário Preto, assistido por cerca de 6 mil pessoas semanalmente. com mais de 10 anos de carreira, “sempre 2 Baixista na música popular”, Gabriel Catanzaro acumula

no currículo uma série de shows e gravações de trilhas para teatro e filmes. Integrou nos anos noventa o grupo Fulminantes Mc’s (que conquistou o primeiro lugar do Festival de Novos Talentos da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo na categoria Black Music). músico e produtor musical, Pipo 3 Concorrido Pegoraro juntou um time tão talentoso para

fazer os instrumentais do seu segundo disco solo Taxi Imã (2011), que pouco depois das gravações esses músicos formaram uma das bandas mais comentadas do momento, o Bixiga 70. De quebra, Taxi Imã ainda foi eleito pela MTV e pelo site UOL como um dos dez melhores álbuns de 2011.

e criado” dentro de um terreiro 7 “Nascido de candomblé, onde também se iniciou

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Cantora, compositora e modelo, Xênia França começou sua carreira na cena paulistana em 2007 cantando sambas e samba-rock no extinto  Capadoxe. Em 2009, foi convidada pelo rapper Emicida para gravar Volúpia na mixtape Sua mina ouve meu Rap também e mais tarde gravou Isso não pode se perder na mixtape Emicidio. Em 2011 dividiu o palco do Festival Black na Cena com o rapper Slim Rimografia. Também integra os vocais da banda Mr. Chocolate. Grande agregador do grupo, Eduardo Brechó é

5 poeta, DJ, compositor, produtor e presença fre-

quente nos palcos da noite paulistana e nos saraus das bordas da cidade. Conhecido por suas poesias, composições e forte atuação periférica, já teve músicas gravadas por artistas independentes da cena carioca e recentemente teve uma de suas composições Quintal (composta em parceria com os demais integrantes do Aláfia), entoada pela cantora Karla da Silva, no programa The Voice Brasil, da Rede Globo. Filipe Gómez é multi-instrumentista e produtor 6musical. Já passou por diversos estúdios e pro-

dutoras de São Paulo trabalhando como técnico de som e operador de áudio. Também gravou e produziu dezenas de bandas, jingles e trilhas para filmes publicitários, curtas e documentários. É sócio na produtora Timpani Áudio e responsável pelo áudio do programa Estúdio Showlivre (showlivre.com) e do programa Pode Isso? (yahoo.com.br)

na percussão, Alysson Bruno já passou por tradicionais grupos paulistanos difusores da música afro-brasileira, tais como: Núcleo de Música do Abaçaí, Kamberimbá e Batucada Tamarindo. Em 2003, participou da gravação do elogiado Agô, da Orquestra Heartbreakers. Atualmente é um dos percussionistas das concorridas aulas de dança afro da Sala Crisantempo, na Vila Madalena.

e compositor, Lucas Cirillo fundou 8 Gaitista no início dos anos 2000 o coletivo de músi-

ca instrumental improvisada FRIGAZZ. Também participou das gravações do DVD Especial Luis Gonzaga 100 anos (no Auditório Ibirapuera) promovido pelo Canal Brasil em parceira com a gravadora YB. Já dividiu o palco com nomes como Dj Tudo, Maracatu Estrela Brilhante e Ellen Oleria. cearense Gil Duarte (que não 9Oestáflautista na foto), líder da banda Gil Duarte e

Sistema Asimov de Som,  já integrou a banda  SoulZé e gravou na trilha sonora do filme Xingu (2012), juntamente com Antônio Pinto. Também tem no currículo participações na banda Monjolo (SP).


que mostrou uma cara de Aláfia com uma música que hoje em dia inclusive está nosso repertório, que é Em Punga. O cara que pegou a gaita foi o (Lucas) Cirillo.

COMO SURGIU O PROJETO? EDUARDO BRECHÓ Eu tinha umas composições minhas que eu sempre tive o desejo de reunir um pessoal pra tocar, mas pessoas que pudessem ter algum tipo de identificação com essas músicas que eu fazia. Todo esse pessoal que hoje está no grupo eu já vinha fazendo algum tipo de contato para produzir algo que nós não sabíamos exatamente o que era, mas que era algo que nos unia. Eu estava apenas aglutinando pessoas, mas sentia que todos tinham coisas em comum e que juntos somaríamos. Me lembro que no final de 2010, no aniversário do Jairo, eu estava na casa dele, em Suzano, e nós pegamos um caderninho e escrevemos algumas coisas, projetamos algumas coisas. E isso foi se desenvolvendo até maio de 2011, quando nós fizemos o primeiro show. Essa formação aqui (a atual) se fixou em maio de 2011, praticamente. Apenas o Gil e o baterista (Filipe Gomez) chegaram no show seguinte. Mas foi especialmente após a gravação da música Ela é Favela que começamos a se fixar mais como banda, com ensaios e tal.

JAIRO PEREIRA Lembro que um dia estávamos fazendo um som com a MPC (Media Player Classic) quando um amigo nosso que trabalha com vídeo e tal, o Pedro Watanabe, veio e trouxe um amigo. Aí estávamos conversando sobre vídeo e ele, Watanabe, montando uma base qualquer. E de repente o amigo dele disse que tocava uma gaita. Eu falei “como assim?” Ele foi ao carro, pegou a gaita e naquele dia foi a primeira união sonora

COMO ERAM OS ENCONTROS NO INÍCIO DO PROJETO? LUCAS CIRILLO A antiga casa do Eduardo (Brechó), na Vila Madalena, no quintal do seu João, que era onde nos encontrávamos no início, era como um portal, porque você entrava tinha uma sala cheia de discos, as ideias comendo soltas. Ficávamos trancados durante horas. Era tipo um laboratório. Foi um momento muito produtivo. XÊNIA FRANÇA ...(nossos ensaios e encontros na casa do Brechó) era uma espécie de momento “Novos Baianos”. Eu lembro nitidamente quando a gente começou que não tínhamos hora para dormir ou para acabar, a gente estava sempre na casa do Eduardo, e situações muito loucas acontecendo dentro de um ambiente só porque a gente queria fazer uma parada que a gente não sabia bem o que era, nós só queríamos que aquilo existisse, se materializasse. E de tanta vontade rolou.

COMO FUNCIONA O PROCESSO DE COMPOSIÇÃO DOS ARRANJOS? LUCAS CIRILLO Vou falar em ordem cronológica mais ou menos como funciona nosso processo de arranjo das músicas. Primeiro, chega o Eduardo com o violão e mostra a música para gente, ou, se não, vem o Eduardo com uma música que já tem uma base feita na MPC pelo Jairo. Aí vai o Gabiru (Gabriel Cantazaro) pega o baixo e começa a dedilhar. Aí o Eduardo fala “não, vamos por aqui, ou por ali”. Depois vem o Alysson e chega com toda a pesquisa dele...

ilustração gil duarte becodapoeira.tumblr.com

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EDUARDO BRECHÓ A maioria das músicas que executamos já são antigas. Já tem uns cinco anos por aí. E eu já as pensava de algumas maneiras. E quando chegou ao Aláfia nós temos uma instrumentação e um tipo de formação. Então as músicas servem para o nosso som, e não o nosso som vai servir para a música. Hoje nós pensamos muito por setores, núcleos, e isso sem dúvida foi o ponto crucial para o crescimento individual da banda. Quando falo que dividimos por setores, quero dizer a gente separa a música por naipes: a sessão rítmica, a harmonia e as vozes. Nós queremos muito nos aprofundar nisso daqui pra frente que é o lance de conseguir trabalhar separado todas essas coisas e depois trabalharmos juntos. Porque hoje a gente trabalha tudo muito junto e acho que as coisas que a gente mais gosta foram as coisas que conseguimos fazer em separado. Então por exemplo, o Cirillo chegava com o Pipo e falava: “vamos fazer essa frase aqui”. Então eles faziam os dois, ali, separadinho, fazendo isso, e quando nós nos juntávamos era muito legal. Porque eles tinham pego uma estrutura e se dedicado exclusivamente a aquilo e não era algo imediato como na hora da criação. Então ficou mais ou menos assim: Gil, Cirillo e Pipo.

O DISCO DE VOCÊS FOI POSTERGADO VÁRIAS VEZES. QUAIS FORAM OS IMPECILHOS PARA A CONCLUSÃO DESTE PROCESSO? LUCAS CIRILLO Nossa primeira vontade era gravar o disco ao vivo, mas não rolou. Estávamos com a ideia de fazer uma viagem para fazer o disco, fazer o disco viajando e tal. Nos armamos, cada um deu um jeito no seu trampo, ou deu um cambau mesmo, pegamos férias de uma semaninha, enfim. A gente sempre houve a lenda, os “Novos Baianos” gravaram um disco assim, fulano também gravou. E a gente foi e vimos que quatro dias para gravar um disco com uma banda com nove pessoas não ia dar muito certo. Mas foi bom pra gente se conhecer melhor. Voltamos também com bastante pressa pra gravar o disco e entramos no estúdio. 10

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É POSSÍVEL DEFINIR O ALÁFIA? EDUARDO BRECHÓ Ser afrourbano é uma consequência natural. Tem o conceito, mas a princípio é uma consequência dos nossos interesses. Naturalmente, cada um de nós, de uma forma ou de outra já estava nessa caminhada. Individualmente nós já tinhamos nossas vivencias diaspóricas. XÊNIA FRANÇA No palco, a gente sente um déficit de não conseguir passar nossa mensagem musical para as pessoas da maneira que a gente gostaria. A vibe a gente consegue transmitir. Talvez isso não seja questão mais importante, mas para nós, como músicos e pessoas que estamos nos dedicando a um processo cada um aqui com sua segurança de referência do que gostaria de colocar para fora, no palco a gente sente uma necessidade de dar para as pessoas uma coisa que às vezes não acontece, mas que no disco a gente gostaria de passar.

É claro que há uma direção. Por isso que o repertório do Aláfia tem a ver com a coisa mítica. Na minha concepção, tem uma coisa de xirê. Nós tratamos de temas e dos mitos em que nós nos baseamos na tradição. A mesma cosmovisão mítica a gente tem no espetáculo, de uma maneira urbana. No espetáculo tem essa coisa afro, da qual nós podemos nos desprender de repente, mas a estrutura, a mítica, que é afro pelas nossas influências individuais, essa estrutura mítica deve permanecer.

JAIRO PEREIRA A banda é nova, nossa união é nova. E no meu modo de ver nós tivemos a pretensão de achar que poderíamos fazer um trabalho já no começo, porque a gente tinha uma idéia muito amadurecida do que poderia ser o Aláfia. Mas dentro desse tempo de idas e vindas, das possibilidades e não possibilidades, isso só nos fez crescer mais porque nos mostrou caminhos mais possíveis e mais ricos. EDUARDO BRECHÓ Estamos gravando o disco já faz um ano e pouco. O disco já rodou, bateu, foi, voltou. A concepção inicial do trabalho travou muito essa questão do disco. A gente começou a trabalhar o disco totalmente em oposição ao nosso espetáculo. Porque a gente não conseguia reproduzir o espetáculo no disco. Então esse é um dos motivos principais do disco não ter saído ainda. É claro que, para gente, como banda, é um pouco aflitiva essa espera, porque existe uma expectativa grande de todo mundo aqui. Mas, enfim, ele vai sair agora no início de 2013.

PArA VEr Assista ao vídeo com a entrevista omenelick2ato.com saiba + sobre a banda facebook.com/aifalaalafia

NABOr Jr. é jornalista especializado em jornalismo cultural e fotógrafo. Fundador e diretor da MANdeLACReW Comunicação e Fotografia e da revista o MeNeLiCK 2º ATo LILIANE BrAGA é jornalista, mestre em Psicologia Social (PUC-SP), produtora cultural e fundadora da Quisqueya Brasil (projetos afro-diaspóricos de cultura e educação) / quisqueyabrasil.com.br


Consciência

Negra

20 anos em Cartaz

depois Texto Nelson Inocencio

Em tempos de ações afirmativas e, obviamente, cientes de toda a discussão que tais políticas públicas suscitam, nos parece oportuno revisitar o processo que antecedeu a este momento histórico, protagonizado pelo movimento negro e reforçado pelas parcerias deste com outros segmentos da sociedade civil no curso das últimas décadas do século 20. A leitura sobre os antecedentes das políticas de Estado direcionadas à população afro-brasileira aqui proposta tem como referência a perspectiva de uma cultura visual alternativa ao modelo eurocêntrico, pensada a partir da militância anti-racismo. Para tanto, aceitei o tentador convite formulado pela revista O Menelick 2º Ato no intuito de rever parte do texto referente ao livro Consciência negra em cartaz, resultado de minha dissertação de mestrado concluído em 1993, quando a conjuntura política era bem mais árida.


O referido trabalho se assentava na análise de cerca de trinta cartazes produzidos nos anos oitenta e cujo foco era a valorização da imagem dos afro-brasileiros na busca de representações visuais que não projetassem este segmento como destituído de suas qualidades. Não por acaso, o terreno da cultura visual continua a ser até hoje, reproduzindo as palavras de Nilma Lino Gomes (professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais) ao abordar questões de imagem, uma permanente zona de conflito. E eu acrescentaria que nesta seara as imagens elaboradas pelo pensamento hegemônico, as quais nos formam e também nos colonizam, não passam mais desapercebidamente. Enfim, tratar deste assunto é percorrer laboriosas construções políticas, ideológicas e estéticas. No que concerne ao movimento negro propriamente dito, vale dizer que, do ponto de vista conceitual, preferimos adotar a generosidade de Lélia Gonzales que alega existirem vários movimentos no âmbito do que chamamos movimento negro. Assim sendo podemos desenvolver algumas reflexões reconhecendo as circunstâncias que envolvem este movimento dentro do espectro com o qual estamos lidando. Certa vez participando em uma mesa de debate em evento referente à presença negra no cinema, ouvi um crítico da área afirmar que do seu ponto de vista o movimento negro era uma cópia mal acabada do modelo estadunidense. Certamente divergi do seu argumento tecendo considerações sobre a dimensão do olhar ativista no caso brasileiro. Procurei explicar que acerca das visões para além das fronteiras nacionais o referido movimento procurava estabelecer vínculos identitários não apenas com a luta dos afro estadunidenses, mas dentro do seu projeto havia espaço suficiente para outras aproximações. A proposta do presente artigo é a de abordar esta resiliência que traduz, em certa medida, este movimento e contradiz o argumento de meu colega.

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Por qual razão rejeito a ideia de que o movimento negro nascido aqui seria uma espécie de fake daquele originado nos Estados Unidos? Como um fenômeno que é produto da contracultura nacional o movimento negro brasileiro contemporâneo assumiu um posicionamento que implica na ampliação do olhar como se a militância enxergasse o mundo a partir de uma lente grande angular. Isto possibilitou a constituição de uma macrovisão capaz de agregar tanto o local quanto o global. Da perspectiva local as entidades negras se predispuseram a rever o passado (talvez inspiradas pelo significado do ideograma Sankofa). Os grupos organizados afirmaram a existência de lutas coletivas históricas como formação de quilombos, revoltas urbanas, irmandades religiosas, imprensa abolicionista, criação de agremiações e clubes comunitários no período pós-abolição, bem como valorizaram experiências posteriores a exemplo da Frente Negra Brasileira e do Teatro Experimental do Negro. Tais ações terminaram por colocar sob suspeita a intoxicada historiografia oficial, habituada a tornar invisíveis ou tratar com demérito as lutas populares do segmento negro. As ações em âmbito local foram mais além, objetivando destacar que a população negra não se constituía em minoria, conforme os dados censitários existentes durante o regime autoritário. Aliás, diga-se de passagem, no período da ditadura, como qualquer assunto que perturbasse a “ordem”, a discussão sobre racismo também se constituía em subversão. Militantes negros atuaram na clandestinidade enfrentando dificuldades mesmo entre os movimentos revolucionários também entorpecidos pelo fenômeno que Luiza Bairros chama de determinismo econômico, ou seja, a crença de

que todos os males de nossa sociedade advêm da luta de classes ou das iniquidades de cunho socioeconômico. Mesmo após o término do regime de exceção, ainda que a contribuição dos movimentos de contracultura no ocidente tivesse dado visibilidade à existência de outras categorias sociais para além da classe, está lógica continuou a perseguir a discussão política sobre relações raciais no país a ponto da pesquisadora Suely Carneiro afirmar em certa ocasião que: “Entre esquerda e direita eu continuo preta!”. Em síntese a trajetória do movimento negro contemporâneo pode ser subdivida da seguinte maneira: em primeiro lugar o protesto/ denúncia, a fim de desconstruir o mito da democracia racial. Em segundo lugar o projeto/ proposta que significava pensar o país a partir do olhar ativista. Neste estágio são referencias A Convenção do Negro pela Constituinte em 1986 e a Marcha Zumbi dos Palmares: contra o racismo, pela cidadania e a vida em 1995 (Tricentenário de Zumbi). Em último vem o período da execução/gestão pública, fato que apesar de significativo, da perspectiva das políticas públicas de combate ao racismo, não deixa de revelar tensões na relação entre movimento social e Estado. Se por um lado há um ganho em termos de dimensão simbólica quando negros, que são referências da militância, passam a assumir cargos públicos, por outro se instaura a sensação de cooptação política, posto que na condição de gestores suas ações ficam condicionadas aos programas políticos partidários que nem sempre estarão em consonância com as reivindicações do movimento social. Contudo, há que se considerar que caso essas pessoas não ocupassem os espaços conquistados (as chamadas brechas no entendimento gramsciano), outras certamente os ocupariam. Trata-se inegavelmente de uma questão paradoxal e complexa que não deixa de ser um dos desdobramentos da luta anti-racismo no Brasil.


Após falarmos sobre o desenvolvimento de uma consciência negra constituída a partir da experiência local importa destacar como o movimento negro contemporâneo brasileiro manteve-se concomitantemente informado acerca dos acontecimentos históricos internacionais desde a colonização. Certamente houve a reverberação de vários desses episódios no seio da militância negra formada em nosso país. Aqui nas Américas podemos tomar como marco a memória da revolução em San Domingo, atual Haiti, comandada por Toussaint L’Ouvreture, fazendo daquela ilha o primeiro território livre do jugo colonial no chamado Novo Mundo, fato que se deu na transição do século 18 para o século 19. Também do lado de cá vamos observar posteriormente a contribuição do jamaicano Marcus Garvey e a emergência do pan-africanismo, protagonizado por ele e por outros como William Du Bois, cujo intuito era o de proporcionar uma aproximação, sobretudo, ideológica entre as sociedades afro-americanas e africanas no início do século 20. Aqui é oportuno fazermos uma pausa para explicar que, por afro-americanas compreendemos, assim como a antropóloga estadunidense Sheila Walker, toda essa complexa configuração das comunidades negras no Brasil, Colômbia, Venezuela, Equador, Peru, Uruguai, Guiana, Suriname, Cuba, Haiti, Jamaica, República Dominicana entre outras nações, além, obviamente, dos Estados Unidos, mas não restringimos o conceito de afro-americano a este último país, posto que as noções de identidades americanas precisam transcender as fronteiras de um único Estado. O uso do conceito americano para aludir somente aos Estados Unidos é, portanto, fruto da herança colonial. Na primeira metade do século 20 o movimento conhecido como Negritude que teve como principais referências Aimé Cesaire, da Martinica, e Leopold Sedar Senghor, do Senegal, não passou desapercebidamente aos olhos do ativismo negro no Brasil. Nos anos cinquenta eclodem as lutas de descolonização africana.

100 anos de mentira. Grupo União e Consciência Negra, Arte: Iran, 1988.


O futuro também precisa ser negro. Coordenadoria Especial do Negro – CONE. Prefeitura Municipal de são Paulo. Foto: João Roberto Ripper/ Agencia F4.

No processo deflagrado, Ghana sob o governo de Kwame N’Krumah, se torna o primeiro país independente. Neste fluxo acontecem várias emancipações, às vezes pela via da negociação, às vezes pela via do conflito armado. O período de descolonização continuou pelos anos setenta com a vitória pelas armas de Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde e Moçambique. Portugal manteve-se no atraso não acompanhando as mudanças. O governo colonial luso sofreu derrotas externas nos enfretamentos bélicos com as

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colônias rebeldes e internas a exemplo da Revolta dos Cravos que atingiu na base o legado salazarista. Outras independências viriam mais tarde a exemplo do Zimbabwe e Namíbia. Vários países africanos se tornaram independentes das metrópoles europeias. Nos embates políticos além de N’Krumah notabilizaram-se personalidades como Amilcar Cabral, Agostinho Neto, Sekou Touré, Jomo Keniatta, Samora Machel, Eduardo Mondlane entre outros. O fenômeno

da independência fez surgir a Organização da Unidade Africana como instrumento norteador das relações entre as nações livres que nasciam naquele momento. Todavia, ainda perdurava o apartheid na África do Sul ceifando a vida de milhares de pessoas, algumas das quais se constituíam em lideranças importantes como Steve Biko, protagonista do Movimento da Consciência Negra. A derrota daquele nefasto regime só


aconteceria no apagar das luzes do século 20 e sob enorme pressão internacional. O apartehid moribundo é abolido, Nelson Mandela deixa de ser preso político para se eleger presidente, nas primeiras eleições sul-africanas verdadeiramente democráticas. Mandela, no entanto, herda o ônus de governar uma nação multirracial depois do trauma e ainda intoxicada por décadas de intolerância imposta pela hegemonia branca. Como reflexo dessas lutas vimos ativistas afro-brasileiros registrarem seus filhos com nomes africanos, fenômeno que reforça a identidade com uma África descolonizada. De volta aos anos cinquenta lembramos a luta pelos direitos civis e todos os enfrentamentos daí decorrentes. A despeito do que afirmou o colega que dividia a mesa comigo no evento sobre a presença negra no cinema, mencionado anteriormente, a solidariedade, e não submissão, do ativismo negro local com o protesto negro nos Estados Unidos é parte do processo, como esperamos ter argumento suficientemente no sentido de respaldar esta ideia. Sem dúvida a contribuição de Rosa Parks e o boicote da população negra ao transporte público, Martin Luther King e a marcha dos cem mil a Washington, Malcolm X e a radicalidade necessária, apesar das divergências com Elijah Mohamed e os muçulmanos negros que culminaram em sua execução, Stockley Carmichael como protagonista do Poder Negro, o surgimento dos Panteras Negras (Black Panther Party for Self Defense) e a valorosa contribuição de Bob Seale, Huey Nilton, Angela Davis e Eldridge Cleaver. Todos estes episódios fomentaram e inspiraram as lutas anti-racismo no mundo, inclusive no Brasil, onde a militância procurava desenvolver as estratégias possíveis visando superar o cinismo das elites nacionais que peremptoriamente ne-

gavam a existência de racismo em nossa sociedade. A tática empregada por tal segmento era a de afirmar uma pretensa fraternidade partilhada por negros e brancos apesar das discrepâncias históricas e sociais entre ambos segmentos. Todas essas circunstâncias influenciaram a produção imagética no sentido de afirmar identidades negras de outra perspectiva. A partir do momento em que o protesto negro se adensa no mundo as identidades visuais construídas para negros passam a conflitar com as identidades visuais construídas por negros. Em outras palavras, as ações das elites nacionais, por exemplo, no sentido de aprisionar a população negra às imagens que a conectam ao ridículo, ao caricato, ao jocoso, ao exótico, algo que acontecia quase que impunemente, agora passam a enfrentar as vozes dissonantes, tendo que se deparar com a produção contra-hegemônica das imagens adversas. Estas constituem outro lugar de fala no qual negros não são mais objetos, porém sujeitos na elaboração de referenciais imagéticos valorizados. Interessa-nos olhar o alcance atual desse episódio ocorrido em um passado recente. Não foi por acaso que houve um aumento significativo do número de autodeclarados negros no país. Sem ilusões e ingenuidade, é obvio que devemos perceber o oportunismo peculiar, produto do nosso tão celebrado jeitinho brasileiro, ante as possibilidades de políticas de ações afirmativas que se avizinham. Isto também tem impacto na autodeclaração. Como afirma a pesquisadora Viviane Coelho, existe uma nítida diferença entre afrodescendentes e afroconvenientes. Contudo, é preciso lembrar que mesmo antes da conjuntura atual constatava-se o deslocamento de pessoas negras que outrora não se sentiam confortáveis afirmando uma identidade vinculada ao segmento de origem. O movimento destas pessoas em direção à uma nova conduta marcada pelo auto-conceito positivo em relação ao grupo de pertencimento é perceptível antes mesmo do advento das cotas raciais. Não se trata aqui de assumir nenhum determinismo imagético, mas devemos reconhecer que discurso verbal articulado a um valoroso repertório de imagens propiciaram avanços insofismáveis a ponto de percebermos mudanças de comportamento sintomáticas na população negra. É preciso não esquecer o al-

cance das imagens construídas por ativistas, ou elaboradas a partir das suas ideias. Elas muitas vezes denunciavam e concomitantemente sugeriam mudanças, chocavam e simultaneamente faziam pensar, a dor e a delícia de ser negro se refletiam nessas representações visuais. Tudo se dava com a firme intenção de afirmar o caráter não apenas nacional, mas também internacional da luta contra o racismo e ao mesmo tempo nos fazer pensar na constituição das redes de solidariedade entre negros, pois afinal, de acordo com Luther King: “Fomos trazidos em diferentes navios, agora nos encontramos no mesmo barco”. Este barco comum também leva a bordo os conteúdos da ideologia imagética. Ainda que, por força das circunstâncias diaspóricas, não falemos as mesmas línguas, certamente partilhamos imagens senão idênticas ao menos cúmplices entre si.

PArA LEr enciclopédia Brasileira da diáspora Africana. Nei Lopes São Paulo: Selo Negro, 2004. Brasil: raízes do protesto negro. Série Passado e Presente nº 28 Clóvis Moura São Paulo: Global, 1983. NELsON INOCENCIO é professor assistente do departamento de Artes Visuais, vinculado ao instituto de Artes da Universidade de Brasília. É coordenador do Núcleo de estudos afro-brasileiros ligado ao Centro de estudos Avançados Multidisciplinares da UnB. Mestrado em Comunicação com a dissertação “Consciência negra em cartaz”, doutorando no PPG Arte da UnB, com estudo acerca do Museu Afro Brasil em São Paulo.

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Por sidney santiago / Foto mandeLacreW

LiZette negreiros senHora do temPo

Imagine aquela paisagem idílica dos anos 50, o morro, a feijoada, a alegria e no rádio Noel Rosa, Elizeth Cardoso e Pixinguinha... Pois foi neste cenário que em 4 de dezembro de 1940 nasceu a atriz Lizette Negreiros, diva negra do Teatro Paulista. Fruto da união entre um ferroviário e uma doméstica, sua ancestralidade é marcada por misturas: de um lado a avó alemã, que fugiu da Europa para casar-se com um violonista negro e alto, do tipo canela fina. Do outro, o avô de origem sírio-libanesa amalgamado com uma linda cabocla, que enlouqueceu e morreu de tristeza. Primogênita de cinco filhos, Lizette é natural da cidade de Santos, litoral do estado de São Paulo. Mas, como costuma dizer, não é filha da praia e sim do morro, ou melhor, do alto do Morro São Bento. Foi através dos Toques (nome com que era batizado os antigos saraus promovidos por sua família) e pelo rádio de uma vizinha, onde ouvia atenta os programas de radio- teatro da época, que ainda criança passou a nutrir gosto pela arte. Por motivos financeiros, e desde cedo assumindo as tarefas de cuidar dos irmãos e do lar, não pode dar sequência a vida escolar, tendo estudado até o quinto ano. Porém, nas horas vagas, graças ao gosto pela leitura, devorava todos os jornais que vinham da ferrovia, os livros da mãe e as inesquecíveis histórias de M.Delly - pseudônimo de um casal de irmãos franceses que utilizavam este nome em muitos dos textos editados pela famosa Biblioteca das Moças (coleção de romances publicada pela Companhia Editora Nacional, no Brasil, entre 1920 e 1960, especializada em literatura para jovens mulheres). Aos 15 anos de idade transferiu-se para São Vicente e, a partir de então, sua vida mudou completamente. Começou a participar de programas de radio como caloura e foi membro de diversas companhias de teatro amador e profissional da baixada santista, entre eles: Grupo Persan, Grupo Tevec e Grupo Real Centro português. Somente em 1969 veio para São Paulo para integrar a Cia. de Teatro Paulo Autran. E com a peça Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, fez sua passagem de atriz amadora para profissional. Entre as dezenas de encenações protagonizadas em palcos paulistanos, destaque para os espetáculos Barco Sem Pescador (1965), O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá (1983), Antes de Ir ao Baile (1986) e Guaiú, A Ópera das Formigas (1989). Além das mais de quatro décadas dedicadas aos palcos, Lizette também emprestou seu carisma, delicadeza e ímpeto dramático a Televisão e ao Cinema, onde participou de filmes como Eles

Não Usam Black-Tie (1981), O Baiano Fantasma (1984), Vera e A hora da Estrela (1985), de Suzana Amaral (todos longas-metragens importantes na filmografia brasileira), André Louco (1990). Na televisão atuou na TV Tupi, Rede Record e Bandeirantes, onde participou de tele-teatros, minisséries e novelas inesquecíveis, como Alma de Pedra (1998), Moinhos de Vento (1983), Os Imigrantes (1981), Papai Coração (1976), Canção para Isabel (1979), sempre imprimindo talento e soberania diante de todo o racismo, indiferença e invisibilidade legado aos atores negros. Em 1979 encantou o Brasil na novela Como salvar meu casamento, quando interpretou Zita (empregada irreverente que dava conselhos a família branca). O sucesso da personagem foi tamanho que pode ser visto novamente no fundamental A Negação do Brasil (2001), de Joel Zito Araújo. No anos 80, mesmo com uma carreira já consolidada, prêmios e notoriedade, os convites minguaram. Diante do quadro de total exclusão dos negros no audiovisual ou de uma participação sempre episódica, somando-se as péssimas condições de trabalho que eram destinadas aos artistas pretos, Lizette fez um escolha, não fazer televisão e cinema por uma questão de sobrevivência moral e assim resolveu dedicar-se ao teatro, especialmente infanto-juvenil, e ao serviço público. Tornou-se, então, curadora do Teatro Infantil do Centro Cultural São Paulo (CCSP). E uma década depois colheu os frutos desta decisão. Nos anos 90, tornou-se uma das atrizes mais laureadas do Estado de São Paulo, recebendo prêmios como Coca-Cola, APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), APETESP (Associação dos Produtores de Espetáculos Teatrais do Estado de São Paulo) e Troféu Mambembe. Com simplicidade, discrição e fala mansa, Lizette Negreiros, hoje aos 72 anos, respeitada como uma das grandes conhecedoras do teatro infantil de São Paulo, toca sua vida dividida entre a curadoria de teatro do CCSP e a pesquisa estética do Grupo Ventoforte, companhia paulistana de teatro com a qual encenou nos anos de 2006 e 2007 o espetáculo infantil A Centopeia e o Cavaleiro, exibido no Brasil e em mais onze países. PArA VEr Assista à entrevista com a artista omenelick2ato.com

sIDNEY sANTIAGO KUANzA é ator membro da Cia. os Crespos, articulador da rede Kultafro e estudante de Sociologia e Política (FeSP/SP).


Texto Allan da Rosa

O ILUDIDO Duro ver o irmão mais velho em espasmo de sangue, no chão tremendo músculos da cara. Mero pacote inchado, quem dividiu beliche contigo. Um fio de respiração, retorcido, travado, indicando que ainda tá do lado de cá da fronteira com a morte. Isso é ainda pior do que saber que o próximo é tu. Ali, estrebuchando entre convulsão e paralisia, o mano Valagume. De tão moído na porrada já era até um ser invertebrado. Tanta culpa no cartório que um escrivão só não dava conta de sumariar o arquivo. Agora um fiapo, orelha rasgada e sola agulhada, peito furado de cigarro. - Caçú, meu irmãozinho: nosso boletim de ocorrência a gente traz na pele e no CEP. – Valagume ainda forte, era só a primeira noite de zuação, cabeça esverdeada, desenfiada da tortura vomitada dum balde. Dizia que as mulheres de farda são as piores no arrocho, mais ruim que os cana macho. Coturno miúdo mira melhor o chute, primazia no apertar dos bagos. Mão pintada de esmalte furou seu queixo e abriu a bochecha com lápis. Ele ia amarrado em vassouras e voltava torto, cada vez mais mutilado. Firmaram um trato medonho com a lei: Caçú só iria pro arrebento depois que Valagume tombasse de vez. Essa já foi a primeira porrada na casca quebradiça do psicológico. - Lincha, resolve na peixeira, nem gasta munição com esses traste! - Época do povo esperneando no controle remoto, infeccionando telefone com mensagens de execução pra Deus e os coronéis - Apartamento de bandido é no cemitério, quintal de bandido é a vala! - Júri de internet bate o martelo na mesa e na testa, esporra na macheza do sofá. - Hoje eu como na gamela trincada, amanhã na porcelana! - Multidão já balança a bandeira de proteção ao patrimônio. Um dia há de pagar seguro pros herdeiros, assinar com caneta tinteiro o testamento da mansão na praia, contratar a vigilância ... um dia... é só parar de trabalhar um pouco pra dar tempo de ganhar a dinheirama toda. Milhões. Uns têm crença na guerreiragem individual, esforço de titã e de monge, alpinista de elevador pra cargo bom, subir e assinar o destino de vencedor. Outros pregam a força do povo unido, única vereda pra reverter a vampiragem e desfrutar junto de escola com lousa, banheiro sem fedô, churrasco sem miséria, beira de piscina, talvez um veleiro... Quem tem mais sapiência? Quem molha mais o pé na poça da ilusão? Caçú se perguntava quando salpicava orégano nas pizzas. Na pizzaria seu trampo, UTI de cada noite, embalsamado em molho de tomate. Lembrava do Tonho, motoboy que adorava orégano. Tomou aço na nuca quando ia entregar uma meia calabresa, represália da corporação pro assassinato de um PM no Jardim Maxixe. Constou como troca de tiros a defesa da ordem. Rádio pôs entrevista lacrimogênea com a esposa do soldado exaltado, herói da família brasileira. Nenhum chiadinho de estação ouviu mãe nem filha de Tonho nem de nenhum dos outros 15 que comeram fogo naquela madrugada, do Jardim Maxixe ao Jardim Cará no município de Saboão da Terra. Teve jornal que publicou foto do enterro, flash do desespero, capacete sangra-

do, mas ficou nisso que já tá bom pra vender. E Valagume ali currado, bostado, depilado, unha arrancada, dois narizes e cinco olhos na cara de tanta porrada. Espasmos antecediam a morte que teimava em demorar minutos eternos. Na despedida recebeu jantar de gala colocado na boquinha, aviãozinho na colher servindo arroz embolotado com vidro moído. E Caçú buscava paz no temporal da cabeça pra bolar sua fuga. Até aceitava caixão mas sem esse escarro todo. Sem esculacho, sem chupar nem sentar em nada à base de coronhada. Inda cinco dias antes, Valagume tragava sua planta no quintal, sorrindo de criar seu pivete, encantado na pureza do filhote e na paciência de ensinar a jogar futebol de botão. Manha crescente do menino segurando a palheta, o tóquinho do tôquinho no campo de madeira verde, a proeza de ir botando curveta no passe, a medida da força no dedo em disparar pro gol. Delícia de tomar gol da criança. Pureza. - O muleque faz o gol em mim, grita gooool com braço pro alto e vem todo sorridente me abraçar, cê acredita, Caçú? Ó a inocência... Justo ni mim, do goleiro da caixinha de fósforo vazado, perdendo a decisão... meu carrasco vem comemorar comigo. Juntava toda famiage pra ver o guri inventar o dia e mostrar a magia do óbvio nas suas vidas, perguntar se o zero é o nada ou é o muitão do número mil. Caçú querendo traquinar, viajar na ideia com o sobrinho, mas perante os adultos se limitava a observar, travado na muralha da sua timidez, quietinho. - Coronel, o senhor destoa da média. Tem tirocínio, habilidade admirável de comando, domina a medida da força no dedo em disparar pro necrotério. Bem superior à inteligência desses seus jagunços que atiram porque só pensam em promoção, em bônus caveira. – diria baixinho o sussurro na orelha do patrício - Apesar do continente que nos separa entre meu moleton e seu colete à prova de balas, nossa cor nos une, compreendo sua grandeza. - Caçú pintava na mente a fala garbosa de comício que deveria pronunciar mas que sua sem-gracice não permitia. Assim ganhou consideração na quebrada, a sabedoria de quem fala pouco. Só ele sabia o quanto queria contar... e a saliva fervendo na boca, engripada na vergonha de dizer.


Respirou, tentou prorrogar sua condução pro inferno, soltar a letra pro coronel, mas sua voz saiu ganindo, baixinha. Nos pés, o restolho do mano velho Valagume ainda gemia. Tantos julgavam a arrogância de Valagume, o gosto de submeter. Mas Caçú desde pequeno sabia, sabia e não entendia, que se alguém abrisse canal de misericórdia na hora do sopapo, aí seu irmão já cancelava qualquer arreio, não maltratava. Quem pedisse desculpa com alma no olho ganhava breque no castigo e brinde de saúde. Assim, Caçú tinha que arrematar de uma vez aquela agonia do irmão destroçado no chão, terminar aquela bagaceira, mas não podia dar o tempo de Valagume olhar clamando piedade, senão não conseguiria justiçar. No desespero quis chamar o coronel prum particular, balbuciou, mas o que saiu já foi rouco morrendo na boca. Palavra tremida evaporando a cada sílaba... até veio a atenção do coronel, mas num soslaio fingindo pena, rebaixando inda mais o fraquejo de Caçú. Então numa faísca de respiro Caçú voou e sentou o pé na boca de Valagume. Essa botinada arrancou dois dentes que se entalaram na goela do mano. Caçú feito um centroavante de pebolim no bar do Quentura, sede do Zulu Futebol Clube em Saboão da Terra. Finou o irmão mais velho, findou agonia. Foi a dinamite pra atenção dos fardados. O coronel encarou Caçú, o próximo do paude-arara, mas timidez nenhuma azucrinou o mais novo. Desatou a voz no volume pro galpão todo entender qual era tua panca: - Vacilão! Era meu irmão mais velho, me ensinou o beabá do proceder mas era vacilão. Teve os remédios dos caminhos na mão e negou. Sabia que era de sua necessidade mas negou. Coronel, eu tenho uma proposta pra ti, você que sobe ladeira e desce viela caçando sabe que sempre tem uma mira apontando pra tua orelha. Tu vai girar fechado e voltar seguro de onde for. A sobrancelha do majorengo inda rascunhou um desdém na testa franzida, mas havia uma fresta ali na vista que delatava seu ego, a sintonia da sua ambição. Pinicava na alma a oferta daquele maloqueiro. Tinha que ser do quilate noventa, preço da vida, porque era nessa beiradinha que tava a biografia do rapaz, já na linha de ser embonecado pelos fardados. No raio do deboche, o coronel ri da audácia vagabunda. Mostra a fieira de homens sentados nos degraus do porão, atirando suas bitucas pra madrugada. Honrado, mostra os

da sua tropa que preferem quebrar dentes e as concursadas que desfrutam é desentupir ouvido. Cochicha pra Caçú sobre as taras dos que gozam branco, pastoso e quentinho na mão quando esvaziam lata de querosene incendiando favela. – Estão só te esperando pro recreio, neguinho. A Caçú só cabe jogar o xadrez da sobrevivência. Se entrar no reio dessa onda defeca na calça do terror e se urina. - Eu não tô esmolando, excelência. Tô te oferecendo a glória. O coronel se esforça pra não delatar a fagulha entre seus cílios. - Eu sei o segredo de fechar corpo, coronel. Imortal. Só tomba se tu mesmo vacilar e quebrar a regra. Te passo o segredo e tu não se preocupa mais nem com esses lobos da tua matilha nem com os urubus de fora do time. Pode invadir qualquer brenha, se meter em labirinto de favela, buscar o acerto... pode escoltar qualquer safado e até dispensar esse colete. O coronel mastiga o interesse num palito, desafina de leve a sua

máscara. Bigode se eriça. - Meu irmão nunca botou fé, se finou. Olha aí! – Caçú aproveita e chega pertinho pra conferir que seu mano Valagume morreu mesmo, que acabou a dor. Coladinho no morto, viu numa mesa a renca de luvas de borracha, só esperavam o comando pra lhe azucrinar. – Eu caminho onde quero, ninguém me pega e eu não cato ninguém. Sabia que ia ficar aqui três noites guardado esperando a hora de te passar o segredo. Sem ninguém tocar na minha pele. Porque minha missão é te passar o desenho e sair inteiro. O coronel olha fixo, seu corpo já se esticou, já pede mais calma pros soldados, manda sargento buscar um café. Caçú quer anunciar mais alto, esparramar a negociata pra horda toda, mas segura um bocadinho. Só queria não ser torturado, agora quer também não morrer, mas se crescer demais a garganta perde a vantagem. E vai descobrindo que é velhaco como nem sabia. - Tu tem sensibilidade, tem origem, não tem? Sabe que não é papinho. Vem da tua família também essa força, mesma fonte da minha. Tá na tua presença, na tua aura, não vê quem não quer ou não sabe. – E sussurra macio: - Esses bruto aí não te compreende, coronel... – Caçú ainda arando joga a semente. O coronel, que leva o livro dos livros para as mães na volta do culto, que extermina as ervas daninhas em nome dos concílios de Deus, que teve sua luz numa perseguição: - Um meliante sapecava quilo de tiro mas nenhum me acertava, eu ainda era sargento. Vi um anjo cantando e empunhando a foice do bem. Anunciava a ceifa no jardim. - A revelação guiou o músculo da coragem pra limpar os pastos do rebanho. Abençoada missão de conduzir as almas pro julgamento de Deus.


Na igreja, respeitando hierarquia, nunca decretou nada mas já segurou no cinto um possuído pelos espíritos das trevas. A solução dos pastores, mais sabidos, mais elevados na administração dos problemas de sujeira, de finanças e escrituras, foi repelir o demo na pancada. Depois notícia correu que o fiel tava surtando epilético, que tentava era puxar remédios do bolso e não um tridente, mas quem tava ali sabe que a atmosfera... as orelhas geladas do crente ficando mais pontudas, pretas. Quem tem fé vê e viu. O coração uma almofada, ser da congregação mais negra da zona sul. Via ali a purificação, a entrega, a redenção da escravidão. Os irmãos pretos das mesmas travessias, no templo dividindo a guarida de cada versículo. A doçura dos jovens subindo avenida, já em alta noite cantando louvores, patota devota. A crença sem tormentas passando pelo vale do fogo e da fumaça nas rodinhas da maloca, dos ilícitos dichavados. Segurança de passarem juntos pelos grupinhos mais escamosos dos fariseus. Segurança. - Não teme, coronel. Não tem nada de possessão, macumba, demonice. Vai baixar nada em você, força nenhuma, que cavalo sem sela não guenta reio. Vai ser o inverso, tu é que vai mudar de corpo. Vai entrar em carapaça de tartaruga, vagaroso, longa a vida, verdadeiro colete à prova de balas é esse que tu vai ter. Também vai saber tornar em corpo de onça, rastejando ligeiro, o bote certo. E em corpo de rato também, entrar em qualquer biboca apavorando só com a fuinha, se alastrando fácil, dominando tudo que é subterrâneo. Isso não é pecado, coronel, não se aflija. Não é de seita, isso é teu. Vai encontrar o que é dos teus poros. Taí na tua íris, taí nas tuas lembranças de criança, nas con-

versa que tinha com os bicho, no jeito que sentia que era da turma deles. Lembra? Elementar. A curriola fardada não tava gostando mas se calava. Censurável aquele molho, já nem era tão justo subir o cara sem tirar um sarro, sem descarregar a adrenalina da batalha, sem ver o fulano jubilado... já tão pequeno o soldo de cada um, tem que restar um bocadinho de porquê pra continuar nessa vida... Mas o coronel mordeu o beiço e denunciou a tremedeira no coco. Experiente, calejado, como abraçou assim esse aplique? Ansiedade maestra lhe regendo. Apalpava o casco de jabuti no lugar da costela. Faria o bigode ainda, sendo rato? O coronel surfava nas nuvens do desejo. Vesgo de ganância. Um olho viajava na sua pele de pinta de onça, o outro vigiava seus guardas, que sentia um bochicho no ar. Caçú sussurrou a jogatina - O senhor... aliás, você... manja que tem uma pá de subordinado aqui só butucando teu cargo, né, chefe? Tenho mais uma fortaleza pra ti. Um colar rezado e benzido, coronel, pra inveja de dentro de casa. Esse sim vai ser teu documento, mas se perder, zicou. Igual vocês faz com nóis quando tamo sem o RG. Ele te garante. Se não tiver a dispor tu toma nas costas. E Caçú ia subindo a barganha, crescendo exigência. Só sobreviver já não era o mais desejado, sentiu que dava pra montar um castelo. Abocanhar e não apenas lambiscar. Sabia também de casas extorquidas pelos milicos na chantagem de controlar territórios e de não prender ex-aliados. Coronel mandou trazer as chaves de um sobrado enroladas num quepe. Farejou o desagrado dos seus subordinados, não armavam


escarcéu, disciplina não permite, mas iam se esfolando no rancor miúdo. Saíram dois tenentes, o Leite-de-Cobra e o Ressecuela. Montavam sua casa de caboclo? – Não, coronel. É pouco pra tanto reinado. Tu sabe que pro patuá vale uma moradia, mas pra teu império, não. (Pensou na filha do PM. Escambo majestoso. O chefe daria, mas Caçú não arriscaria). Na diplomática hipocrisia da chantagem, impôs uma mina gostosa e obediente. De desfilar, mostrar o trato no dengo e na hierarquia. Mas bater não, só se precisasse. Essas bacaninha vinha de família e ele sabia, ouvia dos mais velhos, que no começo sempre se devia mostrar no soco o papel de cada um no dueto. Mas exigiu uma já adestrada, que ele era de paz e racional, nunca apreciou pancada. A técnica com o amorzinho seria uma didática só se muito necessária, uma pedagogia justa, pra manter a ordem no terreiro. - Me providencia uma mulher, coronel, é a paga. Debaixo daquela espessura de marra, o coronel quase caiu do sapato. Deu uma cambalhota na conversa: - Tu vai ter, menino. Mas me prova que teu corpo não rompe com ponta nem com aço, que não trepida. Caçú já tinha afanado a soberba do coronel e agora ou tava atolado numa lameira ou tava na crista. – Claro. Pode já pegar das metranca nova. Dessas levinha que o governo deu prucês agora, de alta definição. Pode apontar e meter o arrebite que não vai me fazer nem um talho. Mas primeiro me traz a formosa e também uma moto pra eu colorir meu caminho. Coronel mandou buscar as duas possantes pedidas. Deu endereço da sobrinha malcriada, que dizia que Deus não existia. Agora ela ia ter a certeza. Chegou rápido, encapuzada numa garupa. Coisa fina pro machinho. Caçú precisava de mais tempo pra sua mutreta. Ladino, dali sairia anjo ou carniça. – Coronel, muda. Metralhadora pode falhar, explodir na mão, zuar o porão aqui. Busca um machado. Pode passar três vezes no meu pescoço, vai dar nada. Aí eu vou embora com o que é meu. Justo? Pensou sua timidez da vida toda. Melhor man-

ter a mudez, a gagueira guardada? Ou demorou pra ser locutor, papagaiar pra dominar picadeiro? Lembrou da vó. “Quem fala demais dá bom dia a cavalo”. Dizia também que nos momentos extremos é que surgia o espírito verdadeiro de cada pessoa. Quem parecia ser medroso, carreava uma cidade nas mãos. Quem parecia generoso, entrava na gaiola da mesquinharia. Na hora das urgências transbordava a gamela. Ele passou a falador num rasgo de um segundo e assim arquitetou seu passo. Jogou e ganhou. Chegou o machado. Nunca tinha cortado pescoço, só pulsos. Era hora de aflorar os segredos que o coronel desconhecia. Caçú se via no rolê com sua moto e sua mina, inteirão, vivaço. Com tudo que sempre quis. A lâmina varou aquela garganta toda. Foi a comédia pra tropa. O coronel engoliu o queixo de tanta vergonha e dali pra sempre ganhou seu nome de guerra. Batizado “O Iludido”, a piada do século. Decapitado, o caçula ruiu sobre a posta de Valagume, que ainda soltou mais um arroto final fedendo a teimosia de seguir vivo. ALLAN DA ROSA é historiador, angoleiro e pedagogo. Criador das Edições Toró. Autor de “Da Cabula” (Teatro), “Vão” (Poesia), entre outros títulos. Apresenta o programa “À beira da palavra”, aos sábados, 14h, na Rádio USP FM.


Mário Inventário e Memória

Texto Valéria Alves Ilustração João Paulo Cruz

Alguns anos após ser sancionada a Lei Áurea, a população da cidade de São Paulo passava por um processo intenso de arranjos, acomodações, coibição e contenção. Nesse tempo, medidas higienistas foram tomadas para conter e “organizar” aquilo que parecia um caos. Um tempo de intensa repressão aos cortiços, de urbanização progressiva, de práticas sanitaristas a todo o vapor, disputas entre republicanos e monarquistas, além da substituição da mão de obra escrava pelo trabalho dos imigrantes europeus na cafeicultura. Opressão as manifestações culturais da população negra no centro da cidade eram comuns e as epidemias de doenças transmissíveis se alastravam. Era a primeira década da república. Em  meio a essa energia desvairada e frenética nasce, em  9 de outubro de 1893, Mário de Andrade, pautando condições, reformulando ideias. Surge um dos mais importantes homens que iria mudar todo o cenário artístico e cultural da cidade conservadora daqueles anos.

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O MENELICK 2º ATO

Impetuoso, sensível e obstinado, Mário foi o criador e primeiro em muitas atividades ligadas à cultura nacional. Referenciado como grande poeta, escritor, folclorista, musicólogo, ensaísta, crítico literário e excelente  fotógrafo, agitou a Sampa dos anos 20 num movimento ousado que até hoje causa surpresa e incômodos. São muitas as vertentes artísticas desse grande escritor, poeta e musicista. Intensas e diversas também foram suas relações e circulação no mundo da política. Apresentamos aqui um breve inventário, fragmentos e memória desse genial e instigante escritor.   PAULICÉIA DESVAIRADA Mário de Andrade fez parte de um momento muito importante na história das políticas culturais e para a institucionalização desse

campo no Brasil. Revendo elementos históricos que compõem a vida cultural da cidade, nos deparamos com uma São Paulo de intensas manifestações culturais africanas e afro-brasileira desde o século 18. Irmandades negras, terreiros de candomblés, congadas, batuques e samba  promovidos pela população negra residente na região central e nas vilas, faziam parte do cenário cultural da cidade. Todavia, ao se tentar preservar a imagem de uma São Paulo dos Bandeirantes e dos imigrantes, as expressões culturais populares foram por vezes reprimidas, controladas e ocultadas pelas autoridades públicas. . A elite paulistana considerava essas manifestações como estranhas à cidade, ao desenvolvimento, além, de um perigo para a nação. Essa elite visando consolidar-se e interagir com o capitalismo, experimentado nas nações européias, depara-se com os resquícios  da escravidão, com as manifestações  culturais e religiosas negras , com  uma população multicolorida por conta


da miscigenação.Com isso a elite paulistana se via  deslocada do que seria o ideal de uma civilização branca, assim, houve uma tentativa de abolir e desconsiderar essas manifestação como parte da cultura nacional. Entretanto, nessa época em que a cultura era restrita às belas-artes e à arte erudita, Mario de Andrade abarcou fazeres e saberes populares  e colocou a cultura popular como foco. Dessa forma, expande de maneira revolucionária o conceito de cultura, que até então estava restrita ao que pensavam as camadas altas. Mário foi diretor do Departamento de Cultura da Cidade  de São Paulo. Dentre seus projetos fez a junção entre cultura popular e patrimônio em 1935.Essa foi a primeira política pública para a cultura. Suas medidas foram consideradas inovadoras e ambiciosas para a época. Mário de Andrade foi de fato o precursor das políticas públicas culturais e dos financiamentos para a educação cultural e, a partir de então, começou a surgir um universo de produções. Sua preocupação estava em ampliar o repertório cultural da população e descortinar a autêntica tradição brasileira. Mário apresenta um anteprojeto que tinha como inclinações a memória dos grupos culturais populares, as diversidades dos saberes artísticos e culinários das etnias que compunham o ethos do que ele chamava de brasilidade. O escritor e agora dirigente público se preocupava com todos os segmentos da população. Sua intenção era a de democratizar a arte e promover o acesso aos variados registros culturais. Pressuponha que a cultura tinha que ser vista e vivida de forma plural, valorizada e respeitada em sua diversidade.   SEMANA DE ARTE MODERNA O poeta e romancista Mário do Andrade é considerado o criador da poesia moderna e a figura principal do movimento de vanguarda paulista. Esteve à frente da Semana de Arte Moderna em 1922, ano, também, do lançamento de seu livro Paulicéia Desvairada.  Importante publicação porque nela, Mario apresenta os novos rumos das artes visuais e da literatura no Brasil. O MENELICK 2º ATO

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Ilustração João Paulo Cruz (flickr.com/photos/51483018@N04)

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Essa semana teve como foco central a oposição às formas clássicas, a ruptura dos padrões antigos de arte, busca por novas formas de expressão utilizando-se de novos recursos como cores vivas, cubos, esculturas. O evento aconteceu no Teatro Municipal de São Paulo e, embora seja conhecido como Semana de Arte Moderna, foram apenas três dias de muito frisson, reações de espanto, repúdio, emoções, vaias, aplausos e algazarras. Neste evento foi apresentado uma variedade de seguimentos artísticos: Literatura, música, poesia, pintura e escultura. Artistas consagrados do modernismo brasileiro como Anita Malfatti, Victor Brecheret, Oswald de Andrade, Villa Lobos, Di Cavalcante, Plínio Salgado, além do próprio Mário, apresentaram novas formas de expressões artísticas. Os artistas propunham novos padrões estéticos, uma busca pela liberdade e por uma identidade própria movidas, também, por um sentimento nacionalista. Para isso, a ruptura com a arte de vanguarda e a liberdade para experimentação foram imprescindíveis.   Novas práticas foram criadas durante essa semana, por exemplo, a recitação de poesias que até então eram somente escritas, as artes plásticas feitas em esculturas e maquetes com contornos arrojados e modernos. Foi um momento de experimentar novos caminhos e se afastar das definições sobre um ideal de arte. A Semana de 22, que na época não teve muita importância e que foi ganhando valor com o passar do tempo, culminou em diversos movimentos artísticos e culturais. Em São Paulo, por exemplo, em outubro de 1979, foi fundado num porão da Praça Benedito Calixto, o grupo de Teatro Lira Paulistana. O próprio nome foi tirado da obra homônima de Mário de Andrade.

Faziam parte da Lira, artistas que diziam trazer a herança do modernismo em suas manifestações, eram eles: Ná  Ozzeti, Tetê Espíndola, Arrigo Barnabé, Itamar Assunção, o Grupo Língua de Trapo, Cida Moreira, Eliete Negreiros, Zé Eduardo Nazário. Mário de Andrade e seus companheiros ao idealizar e realizar a Semana de Arte Moderna abandona de vez os antigos ideias estéticos e desafia a elite paulistana fissurada pelos padrões  europeus do século XIX.   MACUNAÍMA: O ANTI-HERÓI BRASILEIRO  Alguns anos após a Semana de 22, Mário de Andrade publica uma das suas mais importantes obras: o livro Macunaíma. Considerado um dos maiores romances modernistas, foi escrito e publicado em 1928. Esta publicação revela, mais uma vez, além da criatividade, o lado irônico, provocativo e subversivo do autor. Com uma estrutura inovadora, a obra surrealista de Mário de Andrade, critica o Romantismo, a miscigenação, o sincretismo religioso e a linguagem culta, esta, alvo constantes nas falas da personagem, um menino preto retinto nascido numa tribo indígena, um anti-herói brasileiro: preguiçoso, mentiroso, malandro, um representante do povo que tem um encantamento pela cidade grande e pela máquina. Nesta rapsódia, Mário procurou valorizar a linguagem popular e o multiculturalismo brasileiro, criticando de forma irônica a linguagem culta escrita e  única valorizada. Em várias passagens, o autor satiriza a gramática, sobretudo o afastamento da escrita e de como as pessoas se comunica no dia a dia. Aliás, aproximar a fala da escrita foi um dos alvos do autor em Macunaíma. Em vários trechos, ele  substituiu “se” por “si”, defendia o uso da linguagem, da pronúncia brasileira e não da portuguesa. Em Macunaíma Mário  faz uma revisão do indianismo romântico, e uma crítica ao passado, procura através da cultura popular, do folclore, reconstruir a cultura nacional.

Intransitivo de 1927, por exemplo, romance que contava a iniciação sexual do jovem  Carlos com a alemã  Elsa, uma mulher  mais velha contratada por seu pai, causou um escândalo entre os quatrocentões paulista, assim, também foi com as obras Paulicéia Desvairada, 1922 e  A Escrava que não  é Isaura,1925.     MANUSCRITO PRETO Além da profunda relação que Mário de Andrade manteve com a cultura popular, o escritor fez alguns estudos sobre as manifestações culturais da população negra  no Brasil e suas contribuições para o folclore. Entre elas destacamos o Maracatu, Lundu, os Congos e o Samba Rural Paulista. No entanto, a maneira de compreender o negro no Brasil, ficou mais evidente em um dos seus escritos: o manuscrito Preto. Nele, através de artigos, cartas e documentos, Mário faz uma espécie de estudo antropológico sobre a presença e a contribuição da população negra no Brasil. A pesquisa realizada por Angela Teodoro Grillo aponta, que este estudo foi desenvolvido por Mário ao longo de 20 anos sendo encerrado somente com a morte do autor em fevereiro de 1945. Revela que entre as obras publicadas, dois importantes artigos; “A superstição da cor preta”,1938 e “Linha de côr”,1939, evidenciaram  as dificuldades e preconceitos vividos pela população negra. Mário teve uma participação valorosa e fundamental nas comemorações do Cinqüentenário da Abolição. Mas, para além, de ficar apenas enunciando seus feitos, acredito ser digno e instigante reproduzir trechos do artigo “A Superstição da Côr Preta”, publicados no Boletim Luso-Africano em dezembro de 1938. Neste escrito Mário da Andrade mais uma vez surpreende a todos:

Quase todos os escritos de Mário de Andrade causaram algum incomodo. Amar, Verbo

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É com essa atmosfera que encerro mais um dos capítulos da vida e obra desse genial escritor, poeta, musicólogo, ensaísta: Mário de Andrade.

PArA LEr Processo de criação do estudo Preto, um inédito de Mário de Andrade. 01/09/2010 - fflch.usp.br Angela Teodoro Grillo. VALÉrIA ALVEs é antropóloga, pesquisadora e produtora cultural.

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um PeQueno caPÍtuLo

Na sessão solene realizada pelas associações negras de São Paulo no dia dois de maio, para celebrar o Cinqüentenário da Abolição, não pude deixar de sorrir melancolizado ouvindo um dos oradores negros da noite falar em “negros de alma de arminho”. Assim, era ele mesmo, um negro, a esposar essa fácil e trágica antinomia de origem branco-europeia pela qual se considera a cor branca simbolizadora do Bem e a negra simbolizadora do Mal. Mas não é apenas esse orador negro a esposar a detestável tradição branca do simbolismo das cores [...] Se qualquer de nós brasileiros se zanga com alguém de cor duvidosa e quer insultá-lo, é freqüente chamar-lhe: Negro! Eu mesmo já tive que suportar esse possível insulto em minhas lutas artísticas, mas parece que ele nem foi muito lá convincente nem conseguiu me destruir, pois que vou passando bem, muito obrigado. Mas é certo que se insultamos alguém chamando-lhe” negro”, também nos instantes de grande carícia, acarinhamos a pessoa amada chamando-lhe “meu negro”, “meu nego”. [...] No Brasil, não existe realmente uma linha de cor. Por felicidade, entre nós, negro que se ilustre pode galgar qualquer posição. Machado de Assis é o nosso principalíssimo e indiscutido clássico de língua portuguesa e é preciso não esquecer que

já tivemos Nilo Peçanha na Presidência da República. Mas semelhante verdade não oculta a verdade maior de que o negro entre nós sofre daquela antinomia branco-europeia que lembrei de início, e que herdamos por via ibérica. É ver que o branco, o possível branco, o despreza, o insulta exclusivamente por superstição. Não é porque as culturas afro-negras sejam inferiores às européias na conceituação do progresso ou na aplicação do individualismo; não é, muito menos, porque as civilizações negras sejam civilizações “naturais”, não foi inicialmente por nenhuma inferioridade técnica ou prática ou intelectual que o negro se viu depreciado ou limitado socialmente pelo branco: foi simplesmente por uma superstição de cor. Na realidade mais inicial: se o branco renega o negro e o insulta, é por simples e primária superstição...

Bailes Black

A sUPErsTIÇÃO DA COr PrETA


Texto Mรกrcio Barbosa / Fotos MANDELACREW (uma noite no SAMBARYLOVE BLACK / 19.OUT.2012)


O salão está repleto, as roupas são bem cuidadas, alguns suam, outros circulam de um lado a outro. Meninas e rapazes se olham com interesse. Nas caixas, o som que começa a tocar é o de Natalie Cole cantando This Will Be, e gritos de aprovação se fazem ouvir. Depois uma sequência de músicas traz aos ouvidos Tim Maia, Jorge Ben, Bebeto, e então braços se trançam nos volteios ritmados do samba-rock. De repente as cores se tornam mais suaves, o ritmo do som diminui, uma luz negra se acende. Marvin Gaye começa a cantar Let’s Get it On e mais gritinhos são ouvidos. Casais se formam para dançar juntos, colados. Os rapazes circulam, chamam as meninas para dançar, são rejeitados, insistem com outras e logo muitos estão dançando. É a sessão de lentas. O jovem que entrou pela primeira vez no salão aos poucos vai se acostumando com aquele burburinho de sons e vozes, aquela riqueza de luzes e cores. Mas o que o choca mais é que, diferentemente do que vive no seu dia-a-dia, ali a maioria das pessoas é negra, e ele se sente bem. De algum modo, assim que colocou os pés no salão São Paulo Chic, teve certeza de que estava num lugar ao qual pertencia. Dos meados da década de 70, época em que os bailes no São Paulo Chic lotavam, para cá, houve pouca mudança em termos desse sentimento de identidade que os bailes da população negra provocam. As equipes de som se profissionalizaram. As modestas caixas acústicas que faziam a alegria dos dançarinos nos pequenos salões foram substituídas por grandes equipamentos de som durante o movimento Black São Paulo, uma extensão do movimento Black Rio que, ainda no final dos anos 70, trocou o ritmo do samba-rock pelo soul e funk de James Brown, Sly and Family Stone, Bar Kays... E isso não ocorreu sem conflitos. Os jovens que aderiam a essa nova onda do soul eram chamados de “neguinhos pop” por aqueles adeptos do som mais antigo. O termo “pop” na verdade se referia mais às músicas de apelo comercial que tocavam nas rádios, mas passou a denominar o soul. Porém, a nova onda se espalhava rapidamente. Na época em que não havia internet, centenas de negros se reuniam no viaduto do Chá ao cair da tarde das sextas-feiras e as felipetas circulavam por ali anunciando os próximos bailes, sob os olhares e eventuais revistas de muitos policiais militares e sob a atenção de alguns policiais federais, já que aquela reunião podia ser subversiva. Enquanto em salões como São Paulo Chic o baile comportava um número menor de pessoas, o movimento soul procurava amplos espaços e começava a trazer milhares de pessoas para seus bailes. O aspecto da identidade começou a se acentuar. Nas paredes dos salões, como a Associação Atlética São Paulo, eram exibidos filmes e documentários, a exemplo de Wattstax, que versavam sobre a luta dos afro-americanos em busca de cidadania. O fato é que os bailes sempre fizeram parte da vida da população negra. A musicalidade e o ritmo são intrínsecos à maioria das culturas tradicionais africanas e essa herança é expressa, de diversas formas, pelos afro-brasileiros. Desde o pós-abolição, as diversas entidades que se formaram tiveram nos bailes uma expressão importante como atividade de lazer. Impedidos de entrar em festas de brancos, os afrodescendentes construíram seu próprio campo de entretenimento. A Frente Negra, por exemplo, tinha o grupo das Rosas Negras, que organizava as grandes festas na década

PArA VEr

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s quatro jovens que chegam ao pequeno salão localizado na pacata rua da Barra Funda estão entusiasmados. Um dos rapazes particularmente é dono de uma íntima e contida alegria, já que é a primeira vez que vai ao salão de baile. Ele chega à bilheteria, compra o ingresso e, quando os quatro entram, descortina-se para ele uma realidade diferente. A primeira sensação é a de ter entrado em um mundo paralelo. Luzes escuras, giratórias, música em alto volume, e jovens como ele dançam animadamente, causando-lhe certa comoção por causa da alegria espontânea que acompanha os gestos de braços, pernas, quadris...

mais fotos do ensaio UMA NoiTe No SAM omenelick2ato.com


BARYLOVE BLACK


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de 30. Mas essas festas tinham não só um caráter recreativo, como também cultural e pedagógico, pois havia palestras, apresentação de grupos de teatro e outras atividades culturais. Nas décadas de 70 e 80 o movimento soul retomou esse caráter mais educativo das festas. Algumas lideranças do movimento negro iam lá fazer discursos, panfletar, chamar aquele contingente de jovens em sua maioria negros para uma ação política. Isso trouxe resultados nos anos seguintes, especialmente para o movimento hip hop, que nasceu nesse ambiente em que as equipes de som estão mais organizadas e os discursos mais afinados com a busca de uma identidade étnica. As equipes proporcionaram espaço para que grupos de rap viessem mostrar seus trabalhos. Os Racionais MCs, por exemplo, começaram a se apresentar nos bailes da equipe Zimbabwe, uma das pioneiras do movimento soul, que, transformada em selo musical, lançou o grupo. Outras equipes, como Chic Show e Black Mad, também gravavam artistas não só de rap como de outros gêneros, a exemplo do pagode, que divulgavam em seus programas nas rádios, como Bandeirantes e 105 FM. Além disso, algumas equipes adquiriram seus próprios salões, como o Clube da Cidade, na Barra Funda. Os Carlos, Tranza Negra, Eduardo, Amaury são nomes que evocam nostalgias, e nostalgia é uma palavra que ainda denomina alguns tipos de bailes, frequentados por uma população mais adulta, como os do Musicália e Musicaliando, nomes parecidos que encobrem alguns conflitos que esse campo abarca. Clubes como Alepo, Casa de Portugal, Homs fazem parte da história de vida de pessoas que foram e vão a esses locais para dançar, se divertir, estar em um lugar com seus iguais. DJs (herdeiros do pioneiro Sr. Osvaldo e sua “orquestra invisível”), dançarinos, empresários, cantores, donos de equipe, seguranças compõem um contingente que vibra nos subterrâneos da cidade. Alguns lugares marcaram gerações, como o Sambary Love, no bairro da Bela Vista, com seus dois ambientes sempre cheios: um em que tocava o gênero “black” (as muitas variações do R&B) e outro dedicado ao samba-rock e pagode ao vivo. Como outros bailes, ali também era frequentado por pesquisadores, militantes, ativistas. O baile “de preto”, baile “black”, baile nostalgia, baile soul, o baile, enfim, é esse local para o qual convergem expectativas, alegrias, emoções. Não é só a música e dança que o caracterizam, embora sejam o apelo mais forte; não é frequentado só por negros, mas é um campo em que se constroem identidades, expressas nos gestos, nas roupas, na estética, no comportamento. Aqueles quatro jovens que chegaram ao salão São Paulo Chic na década de 70 talvez hoje não fossem ao baile, talvez fossem para a “balada”. Às vezes a impressão é de que a época gloriosa dos bailes já passou. Mas certas paixões voltam, como o samba-rock. As gerações vão se reinventando e recriando os bailes, que continuam aproximando as pessoas nas periferias, no centro, ou mesmo nas casas noturnas da Vila Madalena. Nos bailes, a vida ainda pulsa numa dança que se perpetua.

MÁRCIO BARBOSA é pesquisador e um dos coordenadores do Quilombhoje (grupo paulistano de escritores formado em 1980 por nomes como Cuti, Oswaldo de Camargo, Paulo Colina, Abelardo Rodrigues, entre outros, com o objetivo de discutir e aprofundar a experiência afro-brasileira na literatura). Fez as entrevistas e textos do livro Frente Negra Brasileira e é um dos coordenadores do projeto que resultou na edição do livro e vídeo Bailes - Soul, Samba-Rock, Hip Hop e Identidade em São Paulo. Também tem contos e poemas presentes em diversas antologias.


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A

polêmica em torno da comercialização do acarajé* por ex-filhas de santo do Candomblé, atuais evangélicas pentecostais, e a proibição da venda dos bolinhos por ocasião da Copa do Mundo de 2014, a ser realizada no Brasil, trouxeram à tona preconceitos latentes na cultura nacional em torno das práticas culturais afro-brasileiras. Neste texto apresento algumas ideias sobre a importância da comida no candomblé e sua relação com o sagrado. UM MITO BEM CONHECIDO Diz à história que Deus não gostou nada da cesta de legumes e frutas que lhe dedicou o jovem Caim. Seu irmão Abel, por sua vez, sacrificou à divindade um novilho branco. Entre vegetais e sangue, frutas e carne, entre o agricultor e o pastor, Deus preferiu a oferenda do último. Nesta famosa tragédia bíblica os alimentos aparecem associados à relação entre o humano e o sagrado. Ela nos fala dos gostos de Deus. A justificativa por preferir a carne, o sangue, ao invés da colorida cesta de vegetais, legumes e frutas era por que no coração de Caim havia falsidade, ele não ofertava de verdade, pois tinha inveja do irmão... Essa história vai longe no tempo e, atualmente, não são todas as religiões que oferecem comida, tanto para os deuses, quanto para fiéis e visitantes em dias de celebrações especiais, como o faz o Candomblé. Nesta religião a comida desempenha importante papel na organização das crenças, na relação que se estabelece entre o fiel e seu corpo, entre eles e os orixás. Os orixás são deuses ligados às forças da natureza: vento,

texto alexandre bispo ilustrações Juliana brecht julianabrecht.com

terra, fogo, ar, água e vegetação. Como no mito acima descrito, as divindades mantêm relações de troca e reciprocidade com os crentes. A contrapartida de uma boa oferenda alimentar são os cuidados que os orixás dispensam à cabeça dos seus filhos. Cabeças devem ser cuidadas e é importante que os fiéis deem as devidas obrigações evitando sal e dendê para Oxalá (orixá da criação), amassando o feijão para o bolinho frito de Iansã (orixá dos ventos e tempestades), cozinhando bem o quiabo de Xangô, separando o feijão preto para Ogum. Há dois tipos de comida no candomblé, uma para os deuses e outra para os humanos. Há refeições em que ambos participam. Por enquanto retenham a seguinte distinção: os orixás comem o Yanlé, e os homens o Ageum ou o Unjé. Quem faz a comida é a Yabassé, cozinheira, e eu convido você a conhecer um pouco sobre a comida que se come no terreiro, ou Ilê.

* sobre a discussão em torno da Fifa: http://religioesafroentrevistas.wordpress.com/2012/11/05/goleiro-felipe-entra-naluta-pelas-baianas-do-acaraje-e-quer-apoio-de-boleiros/


CANDOMBLÉ: YANLÉ, AGEUM, YABASSÉ, ILÊ

As mais antigas notícias sobre os cultos africanos no Brasil trazem à tona a palavra calundu. O termo de origem banto abrangia até o século 18 danças coletivas, cantos e músicas acompanhadas de percussão. Muitos de seus praticantes foram perseguidos por, segundo o ponto de vista da Santa Inquisição portuguesa, fazerem feitiçarias: curas mágicas, benzimentos, rezas, amarrações, como pedacinhos de pano para conquistar a pessoa amada, banhos de ervas, poções mágicas. Tudo, aliás, super atual se considerarmos que na contemporaneidade pastores evangélicos comercializam água sagrada, toalhas curativas, abraços suados, pedaços de papel e orações mágicas sobre retratos fotográficos e, entre algumas falsas baianas, acarajé de Jesus. Foi no século 19, porém, que surgiu o que hoje conhecemos como terreiros de candomblé. A mais antiga casa conhecida é a Casa Branca do Engenho Velho, em Salvador, Bahia. Desta casa mãe surgiram os célebres terreiros do Gantois, cuja figura mais conhecida

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foi Mãe Menininha (1894-1986). Segundo Dorival Caymmi (1914-2008) Menininha tinha a “Oxum mais bonita”. Outro templo que surgiu da Casa Branca foi o Ilê Axé Opô Afonjá, que em 2010 completou 100 anos de idade tendo sido tombado pelo IPHAN (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em 28 de julho de 2000, tal qual ocorreu com o acarajé, em 2004. Nesta casa destaca-se sua atual líder Stella de Oxóssi (1925), cujo orixá associado às matas e à fartura alimentar é Odé Kayodé que significa o “Caçador de alegrias”. Nessas três casas tradicionalmente, e em muitas outras que foram e continuam surgindo, há uma figura especial conhecida pelo povo de santo como Yabassé. Ela é a mãe da cozinha e manipula os alimentos que darão de comer aos homens (ageum) e aos deuses (Yanlé). Exú, diferente dos outros orixás come tudo o que a boca come. Sua comida é o Ipadê que consiste nos seguintes ingredientes: água, acaçá (bolinho de milho branco envolvido em folha de bananeira), bebida alcoólica, azeite de dendê e farinha de mandioca. Ogum que na ordem do xirê (festa) é reverenciado logo após seu irmão Exú, já gosta

do Oxoxó (milho cozido com pedaços de coco). Oxum, orixá das águas doces recebe como oferenda o Adun, comida feita de milho pilado, azeite de dendê e mel, mas há também o Ipeté: massa de inhame com camarão e, finalmente o omolocum: feijão fradinho e ovos. São estes apenas alguns exemplos de alimentos servidos aos orixás no candomblé, há muitos outros que não comentarei aqui, pois este é apenas um texto introdutório. Lembremos que o candomblé não é uma religião monoteísta, mas cultua vários deuses, daí a variedade de suas preferências. Tais comidas identificam o paladar sagrado, mas há aquelas que fazem a alegria dos frequentadores das festas. Há uma circulação entre gostos divinos e terrenos, e os alimentos participam desse movimento. Come-se aí feijoada, acarajé, inhame, quiabo, cebola, arroz de forno, moqueca de peixe fresco e bolo confeitado. Este como se poderia esperar fica para o fim da festa. Que fique claro: as comidas de santo não precisam de temperos e a eles são oferecidas certas partes dos animais como patas, cabeças e alguns órgãos.

* Sobre o Acarajé de Jesus: Leia o texto do Jaime Sodré, mundoafro.atarde.uol.com.br/?p=5008


Foto MANDELACREW

CONVERSA DE COZINHA O primeiro intelectual brasileiro que escreveu sobre esses ingredientes na Bahia foi Manuel Raimundo Quirino (1851-1923), já apresentado aos leitores de O Menelick 2° Ato por Valéria Alves (ano II, edição 08). Em seu texto: A arte culinária na Bahia[1], Quirino apresenta receitas a ele descritas por negros baianos mostrando a diversidade dos pratos que surgiram com a presença tanto de mulheres quanto de homens nas cozinhas das elites daquele estado. Comento a seguir apenas dois pratos bem conhecidos: o acarajé e a feijoada. O primeiro é preparado com feijão fradinho. Segundo Quirino “o feijão fica de molho até soltar a casca; depois, o mesmo é passado em pedra ou moinho, resultando em massa que será temperada com cebola ralada e sal. A massa deverá ser bem misturada, dando a consistência desejada, sempre se utilizando a colher de pau para preparar a liga. O azeite é colocado em grande frigideira, panela rasa ou tacho. Quando estiver fervendo, as porções da massa de feijão são fritas até se tornarem

douradas pelo óleo de palma. O cheiro gostoso da fritura aromática atiça qualquer apetite. O acarajé pode ser comido com ou sem molho nagô”. Eu já comi vários acarajés com ou sem molho. Essa iguaria vem sofrendo acréscimos e mesmo seu tamanho lembra hoje um big mac, fruto das disputas entre o tradicional (o acarajé já circula há pelo menos 300 anos) e o fast food. Justamente o que a Fifa (Fédération Internationale de Football Association) quer pôr de fora da Arena Fonte Nova (BA) e mesmo nos arredores do estádio as vendedoras ambulantes, imposição esta que a Associação das Baianas do Acarajé e Mingau (ABAM) e sua presidente Rita Santos não admitem. Nem de Jesus, nem da Fifa, o acarajé é de Iansã e de suas devotas baianas. Eu já fui há muitas festas de Ogum, pois este Deus tem muitos filhos, e comi feijoada, prato que agrada a este orixá e a muitos brasileiros. Na verdade é o feijão preto que o atrai. A feijoada por sua vez é servida em suas festas para os filhos de santo e para o público que fica na assistência curtindo o xirê. Para o folclorista Luis da Câma-

ra Cascudo (1898-1986), a feijoada é a comida mais popular do Brasil, apreciado por todas as classes sociais. O prato é uma variada reunião de verduras e carnes: linguiça, paio, salsichas, charque, carne de sol, orelha de porco[2]. Ele varia de acordo com a região em que é servido. Em São Paulo, por exemplo, é comum o acompanhamento de couve, torresmo, farofa e molho de pimenta. Tenho um amigo que ainda exige a laranja no fim. Para que a receita tenha sucesso, nos diz Manuel Querino: “É condição essencial que o feijão seja novo para que a feijoada se torne apetitosa, preferindo-se o denominado mulatinho, se bem que outros dêem mais valor ao feijão preto” [3]. Por sua diversidade cultural e imensidão geográfica, o Brasil tem vários pratos típicos, tais como o churrasco gaúcho, o frango com quiabo mineiro, a feijoada baiana e o virado a paulista, em São Paulo, por exemplo. Mas os pratos da cozinha baiana se tornaram muito famosos e a feijoada é o principal entre deles. Outros pratos como moqueca de peixe fresco, moqueca de ovos cozidos, frigideira de camarão, camarão ensopadinho com chuchu,


arroz de forno, mocotó, galinha ao molho pardo, sarapatel, leitoa assada, canjica de milho entre outros são afro-brasileiros. Stella de Oxóssi nos lembra: “Não há orixá como o estômago, pois recebe sacrifícios diariamente” [4] e completa: “O estômago é como uma divindade, precisa ser respeitado e cuidado”.

NOTAs DE rODAPÉ [1] Querino, manuel. a arte culinária da bahia. 3. ed. ed martins Fontes. 2011 [2] cascudo, Luís da câmara. dicionário do folclore brasileiro. global editora e distribuidora Ltda. são Paulo. 2001. [3] Querino, manuel. de algumas noções do sistema alimentar da bahia. in: costumes africanos no brasil, p.147. 2. ed. recife: FundaJ, editora massangana, Funar te, 1988. [4] oXÓssi, stella. Provérbios/ÒWe. 2007.

ALEXANDRE BISPO é cientista social e mestre em antropologia social, ambos pela USP. Também pesquisa e escreve sobre artes visuais buscando entender as relações entre gênero, sexualidade e raça. É membro do conselho editorial da revista o Menelick 2º Ato.


INAICYRA

FALCテグ

TEAR E TRAMA DE UMA ARTISTA Texto Luciane Ramos Silva / imagens arquivo pessoal


É mês da consciência negra, fervor das ações, encontros, debates e contestações focadas nas questões que instigam e inquietam a realidade da diáspora negra. O Brasil das matrizes africanas, múltiplo em nuances de negritude de norte a sul, revela-se em belezas, sabedorias e profundos desafios em ser negro sem artifícios ou paliativos. A consciência negra é ainda pouco compreendida como reflexão sobre a responsabilidade de uma mudança que não se concretiza apenas na prática do negro, mas de todos brasileiros – o genocídio em curso nas periferias das grandes metrópoles é indício gritante do quanto nosso país retrocede em suas desigualdades. Fomos a Salvador, território de marcantes pisadas negras, orgulhosas e participativas, mas também de inúmeros revezes e contradições, e conversamos com uma das principais referências no pensamento sobre  corpo, ancestralidade e as dimensões contemporâneas para a educação e a arte. Cruzamos as águas da trajetória de Inaicyra Falcão, doutora e livre docente recém aposentada pelo Departamento de Artes da UNICAMP , onde lecionou por mais

de duas  décadas e permanece coordenando o Grupo Interdisciplinar de Pesquisa “Rituais e Linguagens: a elaboração estética”, orientando pesquisadores e fomentando a presença das matrizes africanas na academia  - um universo ainda pouco poroso para os saberes negros. Vale lembrar que no espaço mais específico da formação em dança raramente os currículos universitários incorporam as técnicas de matrizes africanas e o estudo de suas linguagens como rumos para o treinamento do bailarino. Irônica realidade: o saber fazer das matrizes africanas parece ser ainda “estrangeiro”. Além de acadêmica, Inaicyra é artista e pesquisadora, percebendo o mundo a partir do sensível, da transformação e do encantamento. Herdeira na sexta geração da família dos Asipá, uma das linhagens fundadoras do reino de Ketu, é filha de Mestre Didi, sacerdote, escritor e artista plástico e neta de Mãe Senhora, terceira yalorixá  do Ilê Axé Opô Afonjá. Estabelecendo distinções daquilo que é “da porteira para fora” e “ da porteira para dentro” ( metáfora de mãe Senhora, que diz respeito à territorialidade da tradição nagô), Inaicyra recria toda a experiência e lembrança

de sua infância, da vida cotidiana em conversas, festas, comidas... cortando búzios ou ouvindo contos. Suas inserções em territórios de tradição ioruba atravessaram o Atlântico desembocando na Universidade de Ibadan, Nigéria, onde obteve o título de mestre em artes teatrais. Suas pesquisas ganharam corpo com as experiências no Laban Centre for Movement and Dance Center ( Inglaterra) , no Studio Alvin Ailey ( Nova York)  e finalmente em sua pesquisa de doutorado na Faculdade de Educação da USP quando propõe o método de trabalho “Corpo e Ancestralidade” , que toma o universo mítico da cultura afro brasileira como referência principal para acessar a ritualização dos gestos e cantos bem como os elementos vivos  nos hábitos alimentares, formas de vestir, pensar e agir que mostram a ancestralidade ,não como algo estritamente ligado ao passado, mas como recriação do vivido. Seu método abriu importantes caminhos para a prática pedagógica valorizadora não só das culturas negras, mas do pensamento criativo e da experiência estética que catali-


sam emoções, memórias e levam a um processo de aprendizagem que recupera, atualiza e potencializa as trajetórias pessoais. Com o trabalho Okan Awa - cânticos da tradição yorubá – Inaicyra semeia o campo do canto lírico inspirada nas energias dos elementos da natureza, recriando poesias e músicas sagradas. Na entrevista, vemos diversas possibilidades de ler, interpretar e girar com a tradição, percebendo a dança como prática que pode e deve ser reinventada no espaço profano atualizando a experiência simbólica para a sala de aula, incentivando-nos a praticar artes e pedagogias alicerçadas nas cartilhas do corpo presente, dos gestos e rodas das matrizes negras. Cientes de onde viemos, podemos caminhar com o pés firmes em nossas ancestralidades, aprofundar as raízes e flutuar com galhos que nos levam a todos os lugares. Se no imaginário social brasileiro prevalece a carência e pobreza de valores, respondemos com abundância e sabedoria. Louvada seja a fartura, como disse Inaicyra.

Nestes últimos dias acontece aqui em Salvador uma série de encontros que levantam questões sobre identidade, representação e que questionam as histórias introjetadas e a responsabilidade de reconstruir essas histórias e elaborar outros discursos.

ve com esse inglês. Agora, é claro que ele faz referências a cultura dele, livros que falam sobre a mitologia, os hábitos. Quanto mais a gente viaja, vive, mais escolhas temos. Imagina se perco o eixo de onde eu sou, quem sou e pra onde eu quero ir!

Pois é... Nunca fui militante, mas estou consciente, tenho esse compromisso, tanto que meu trabalho sempre veio com esses elementos, especificamente da cultura em que nasci, a cultura nagô, iorubá. Quando eu estava na universidade, em meus trabalhos, quando deixavam, quando eu tinha que fazer as coreografias, por exemplo no segundo ano, que aprendemos o negócio do espelho, bloco, aquilo, aquilo outro, eu inventei um mito, uma história de um deus que vinha e aquela comunidade estava morrendo e as pessoas sofrendo e vinha esse deus, botei uma máscara com palhas, quer dizer, porque era o universo que permeava meu cotidiano, de ver as histórias dos livros do meu pai, de ir para o terreiro com a minha avó. Fora disso eu ia pra escola como todo mundo que vai. Quer ver um exemplo que eu acho muito interessante o Wole Soyinka que vem ai... .Ele fala inglês mais do que o britânico. Quando faz um trabalho, escre-

E como que você enxerga a dinâmica das tradições; no seu trabalho existe uma referência bem forte ao conhecimento das sabedorias tradicionais, mas sem perder a conexão com o dia a dia e com as renovações inevitáveis. São inevitáveis, você concorda? Concordo, não tem como, já é assim. Quando eu era pequena, ia para o terreiro onde eu aprendi - um aprendizado lúdico, vamos dizer assim, de brincadeira e tal, mas eu tinha que ir pra escola Getúlio Vargas... de malinha, sentava na cadeirinha e ficava escutando muitas vezes “aí o negro, as raças, raça branca, negro é assim, nariz assim, é isso, é aquilo”, um monte de coisa que eles falavam e eu pensava “eu não vejo isso”, porque o Axé Opô Afonjá parecia que era uma coisa de outro mundo; aquelas senhoras com anáguas, com aquelas roupas com muito dourado... Então é inevitável, a minha


própria tradição se vê que não é em si, ela precisa se readaptar. Vivemos cada vez mais pressionados, a maneira de ser é em si o próprio aprendizado. Antigamente, as pessoas tinham tempo para ficar nas comunidades aprendendo o cotidiano, as comidas, as músicas, as danças, os toques. Hoje em dia não tem mais esse tempo. Antigamente a pessoa tinha um aprendizado amplo, a tradição no seu sentido amplo, de um cotidiano de uma maneira de ser, de ver, de pensar, muito mais amplo do que agora, quer dizer ela própria também precisa dessa transformação. Mas, como nós estamos falando de tradição e transformação, você pode falar sobre seu trajeto na dança ... que passa pelas sabedorias tradicionais, a experiência na Nigéria e na Europa? O que eu acho muito interessante é que as coisas vêm naturalmente pra mim. Quando entro na escola de dança, aprendo aquelas técnicas todas, mas eu não deixo o que sou, nin-

guém me mandou fazer, mas eu já tô botando as minhas musicas. Mesmo quando a gente aprendeu técnica Merce Cunningham, eu coloquei de acompanhamento uma faixa de um disco “Eu Bahia”, que era “berimbau e viola”. Meu trabalho ficou completamente diferente das outras pessoas. Acredito que tem uma característica, que talvez tenha sido essa, sempre questionadora e querendo mostrar outra possibilidade. Eu pensava: “Mas por que que a minha dança, só a minha dança, é dança africana?”. Não tinha nem chegado ainda na África. Talvez nos meus gestos tivesse aqueles movimentos daqueles cotidianos dos orixás. Quando eu fazia qualquer outro trabalho com a minha criatividade, com a minha coreografia, vinha sempre essa questão. Eu queria dançar, porque antes de mais nada, eu tinha uma sede muito grande de ser uma artista, de me expressar. Quando eu tive a oportunidade de ir pros EUA, fui e fiquei estudando dança, aí a ficha caiu: justamente as pessoas que criam seus estilos de dança, elas questionam suas histórias, sua identidade. Precisei

ver mais, conhecer mais, aprofundar mais essa história. Quando retornei ao Brasil, pleiteei uma bolsa. Fui pra lá (Nigéria) com o intuito de criar uma Cia de dança. Mas, puxa vida que surpresa, eu não via a dança em lugar nenhum e era aquele sufoco, eu não conhecia toda história da colonização, pensava, estereotipado “Olha, lá tá todo mundo dançando”, gente ... nada disso. Em compensação as pessoas eram doutoras, trabalhando a sua cultura. Quando eu vi os livros e muitas peças de teatro encenando os mitos e tudo mais, eu disse, “Gente, como que é isso, mestrado, doutorado. Ah, eu quero fazer isso!”. Quando entro pra fazer minha dissertação de mestrado, fiz um projeto que seguia a dança de Xangô. É tudo muito da minha cabeça, tanto que eu sigo Campbell, que diz “muitas vezes, você é capturado pelo seu mito, pelo seu próprio mito, pela sua própria história”. Eu mesma tô envolvida nela, não tem como alguém mandar, vem assim. Só que quando eu fiz, passei no mestrado, vi que a pesquisa precisaria de mais tempo. Faço a dança ritual na Bahia, já chamando a atenção, por ser questionadora, sempre questionei colocar a cópia da dança dos orixás no palco. Embora

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tenha até feito, quando entrei no grupo do Olodumorilá, no Brasil Tropical até fiz, mas sempre eu fiquei meio encucada, porque se tinha certa releitura desses movimentos. Quer dizer, onde é que ficava o papel desse artista? Hoje em dia posso até entender, são vários níveis de criação, desde a representação até uma criação mais abstrata. E tem esses que são imbuídos dos sentimentos, da emoção de algo que vai além daquilo que permite se colocar dentro da história. Isso ficou muito na minha cabeça “Vou chamar a atenção do mito e do simbolismo como elementos motivadores do processo coreográfico, de criação coreográfica”. No oxê você pode ter as linhas retas e uma série de coisas, você pode chegar e fazer sua viagem no abebé, no xaxaráá, nas cores, tem um bando de coisa, fogo, ... e nisso como estudar mais essa questão do movimento? Isso foi em 83, 84 na Nigéria. Estava na biblioteca e encontrei o livro do Laban ( Rudolf von Laban). E aí ele veio falando sobre o socar, pilar.. eu disse, gente... isso é o homem! A filosofia dele, os princípios dos movimentos, na educação, a notação do movimento. Esse livro pra mim foi uma luz. Quando vi a biografia dele “Gente ... as danças dos orixás são

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ancestrais, é a dança do homem, e isso não é religião, são gestos miméticos, é algo arcaico, ancestral ao homem”. A partir daí, essas matrizes, eu queria estudar melhor. Dá para pensarmos em um espaço de formação rigoroso a partir das linguagens de matrizes africanas? Ah, sim, com certeza, acho que tem um trabalho bastante disciplinado. É preciso consciência, acredito que agora já está melhor, quando eu vejo hoje o que se diz de dança, chama “dança afro” - quando eu voltei pro Brasil, há mais de 22 anos, morei 22 anos pra lá e fui pra São Paulo, passei por Salvador. Eu tinha uma ideia de discutir o que é Afro o que não é Afro. Mas logo de cara eu disse, “Não, isso não é pra mim”. Como eu pensei em construção, em proposta de transformação, não posso ficar me desgastando com algo que não vai me levar a nada. Então, pensei, melhor fazer a minha proposta. Quando eu via essas pessoas, eu dizia “Aquele som lascado tim-tá-tim-tan, gente... a pessoa não tem tempo de pensar, não tem uma reflexão”. Eu achava que estava tudo muito no físico. Parece que não entende o que está fazendo, fica parecendo ma-


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rionete, uma repetição de coisas. Quando falo da preparação, falo da consciência da palavra, da consciência corporal. E era fácil entender, porque que eu tinha isso, porque passei por uma escola, fiz uma adaptação do ensinamento da escola que eu tive, a Universidade da Bahia, que tinha aquela coisa alemã e americana. Eu via como começavam as aulas, isso está carregado comigo, por isso que eu digo, as histórias das pessoas é que fazem com que eu faça um trabalho assim, essa é a minha história, eu não vim do nada. A gente vai vendo as possibilidades que o pé tem, também do pé e tem todo o trabalho que vamos ciscar, abre pé, fecha pé, quer dizer uma série de possibilidades de movimentos que a gente tem com o corpo pra justamente poder expressar o que eu quero depois, né? As danças negras estão necessariamente vinculadas a religiosidade? Não, pra mim, não. Estou falando da cultura em si, onde tem esses elementos da natureza que regem essa cultura da ancestralidade. Hoje, entre os iorubas, na prática, existem aqueles que regem a religião cristã. Eles foram colonizados, tem o cristão, o muçulmano, que é uma religião que predomina inclusive no país inteiro. Então... na Unicamp teve uma professora que dava aula e que os alunos também se manifestavam, que os orixás vinham também... Eu não entendo, sinceramente, eu não entendo. Isso me preocupa, como que você pode num espaço plural de sala de aula trazer os elementos dessa história, dessa cultura? Como, se você não entende que aqueles gestos são gestos do dia a dia, de alguém que estava na fazenda, de alguém que tem uma criança no colo, de outro que se você entrar no mato sem nada, você vai abrir os caminhos, você puxa aqui, você puxa lá, quer dizer, se você não traz esses elementos... Se você conhece outras culturas, por exemplo na tradição indiana, Ganesh é muito parecida com Exu. Você amplia o conhecimento, você tem outras possibilidades. Mas antes de tudo você tem que ver o movimento que faz no corpo. A dança e o mundo são pra todos. Pessoalmente, acho que é delicado e me preocupa muito essa questão plural na sala de aula, acho que você ficar agradando aos quatro ventos, só falar de orixá, o outro tem seu deus. 46

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Como levar pra sala de aula sem falar de religião? Acho que é pelo cotidiano, que é isso que eu fiz, por isso que eu dei aula esse tempo todo. Embora num determinado semestre, eu propunha trabalhar um mito específico, “Por que oxalá usa ekodidé”, por exemplo, levamos o mito e cada um foi trabalhando, eu fiz com que cada um trouxesse a sua história dentro do mito. E eu me lembro que tinha uma menina, tinha aquela coisa do ogum dela, ela lutava karatê... Ela trouxe dentro desse viés, estudou o mito, as características dessa força mítica, como era, guerreiro que abre caminho, e criou uma coreografia dentro disso. Inspirado no mito, mas a coreografia já é outra coisa... Tem uma frase interessante que eu gostaria que você comentasse: “Da porteira pra dentro / da porteira pra fora”. Ah! minha avó, é Mãe Senhora que dizia isso. Isso é uma sabedoria incrível, né? Porteira pra dentro, porteira pra fora. Eu sou uma pessoa da porteira pra fora. Aliás, tem um senhor ( ) ele fez, escutou meu disco e fez um artigo, acho que tem lá na internet, lá no meu site, e ele disse assim: “você da porteira pra fora, mas sempre se alimentando do que acontece da porteira pra dentro”. Como as matrizes negras aparecem em nossas reflexões? Você falou que quando chegou na Nigéria, tinha aquele imaginário todo do que era a África e na verdade era outra coisa. Eu não vejo nem diferença entre os contemporâneos, quem tá vivendo agora, quem tá vivendo na Nigéria tratando de dança, como a gente aqui também falando de dança afro-brasileira, não tem diferença, a busca tá sendo igualzinha. E isso é um exemplo claro no trabalho que a gente conhece mais, o da Germaine (Germaine Acogny) que faz referência justamente a esse diálogo. Quer dizer, ela adota a história dela. Ela aprendeu uma técnica e depois aprendeu a outra, uma que vem de sua história e outra realmente aprendida e incorporada. Surge, então, o olhar dela, quer dizer, a mesma coisa é Inaicyra, acho que fica dentro desse limiar aí, da contemplação e da inquietação . É a inquietação que permite você sair da zona do conforto. Estou querendo é essa coisa que permite você entrar também na história do indivíduo, trazer a história dele, para dialogar com a sua, com o que está sendo proposto.

PArA LEr Corpo e ancestralidade – uma proposta pluricultural de dança-arte-educação. São Paulo, Editora Terceira Margem, 2006. 2ª. Edição. Rituais e Linguagens da cena: Trajetórias e pesquisas sobre corpo e ancestralidade. Curitiba, Editora CRV, 2012. Leia a entevista com Inaicyra Falcão na íntegra: omenelick2ato.com

PArA OUVIr CD Okan Awa – Cânticos da tradição Yorubá. 2002.

LUCIANE rAMOs sILVA é doutoranda em Artes da Cena e mestre em antropologia, ambas pela UNiCAMP, e graduada em ciências sociais pela USP. Atua na área de estudos africanos, educação e artes do corpo. É antropóloga do Acervo África (centro de pesquisas e atividades culturais ligadas ao continente africano), professora de estudos africanos na FACAMP e professora de dança afro na Sala Crisantempo. Atualmente suas pesquisas de campo se direcionam para as ações em dança contemporânea da África ocidental e os reflexos na realidade brasileira.


a HistÓria tem outro Lado. o seu.

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