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REVISTA

COMPASSO

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Dezembro 2011

LUGAR DE MÚSICA BOA CONHEÇA MELHOR O PALÁCIO DAS ARTES, ESPAÇO NOBRE ONDE ARTE E CULTURA SE MANIFESTAM

Maestro

Superação Entrevista exclusiva com o maestro brasileiro João Carlos Martins

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O PODER DA MÚSICA CRIAnÇAS E JOVENS ENCONTRAM NA MÚSICA UMA NOVA CHANCE DE mudança de VIDA

NOVO TALENTO CONHEÇA O MINEIRO JOÃO MACHALA, UM NOVO REBENTO DA MÚSICA ERUDITA

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REVISTA

COMPASSO

DIRETOR GERAL / EDITOR Thacyana Rodrigues

JORNALISMO Lucas Oliveira Pâmela Lorentz CRIAÇÃO / DIAGRAMAÇÃO Ana Paula Tomaselli

REVISÃO Lucas Oliveira Pâmela Lorentz

PERIODICIDADE Trimestral

TIRAGEM 15.000 unidades

PRÉ IMPRESSÃO / IMPRESSÃO UNI-BH

2 EXPEDIENTE

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fale

EDITORIAL Caro Leitor, Você pode enviar suas sugestões, dúvidas, críticas e mensagens através do nosso e-mail revista.compasso@yahoo.com.br A sua opinião é muito importante para nós.

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hega um tempo em que a música perde seus limites, abre mão de seus contornos e estigmas sociais e torna-se parte do meio, pertença pública. Se o desenvolvimento da música esteve sempre atrelado à evolução cultural da sociedade, acompanhando e refletindo a história, cabe pensar o agora, século XXI, tempo de pessoas altamente informadas e informatizadas, qual seria o lugar de determinados gêneros e estilos no contexto social? A primeira edição da Revista Compasso propõe uma abertura de mentes e ouvidos para a música erudita, considerando que é parte deste grupo a própria música clássica, o jazz, o blues, o R&B (Rhythm and blues), entre outros. Como espaço privilegiado para a expansão de estilos até então menos populares temos a capital mineira, Belo Horizonte, cidade que tem abrigado grandes festivais, concertos e espetáculos ao ar livre, momentos que edificam a música erudita. A Revista Compasso pretende levar adiante a música erudita menos explorada comercialmente, com finalidade a propagar e discutir novos e antigos movimentos que, pouco a pouco, têm se popularizado. Na página 6, acompanharemos um raio-x do Palácio das Artes, grande espaço para a música erudita em BH, que já recebeu grandes nomes e espetáculos musicais. Já na página 5, conheceremos o novo talento da música clássica, João Machala, integrante da Big Band do Palácio. Tem também dicas interessantes de instrumentos na página 18, e depoimentos de algumas pessoas sobre o momento da música erudita em BH, na página 20. Você ainda poderá conhecer o projeto Orquestra Escola Criarte, movimento social que transforma a vida dos que têm pouco, na página 16, uma entrevista exclusiva com o grande maestro João Carlos Martins – exemplo de superação e paixão pela música – na página 8, e muito mais! É só o começo, e não mediremos esforços para que prevaleça a boa música, a quebra de paradigmas e o início de um novo tempo para o consumo cultural no Brasil. Esperamos que todos tenham uma ótima leitura e se divirtam! Lucas Oliveira

3 EDITORIAL

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CAPA Entrevista exclusiva Com maestro brasileiro João carlos martins

008 INTERESSA

INSTRUMENTOS

Entenda melhor o Palácio das Artes, espaço de música nobre onde arte e cultura se manifestam

Conheça, nesta edição, um pouco mais sobre flugelhorn, fagote, oboé e tuba

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006 SOCIAL

MEMÓRIA

ONG possibilita que crianças e jovens encontrem, na música, uma nova chance

016 NOVIÇOS Conheça o mineiro João Machala, novo rebento da música erudita

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Grandes frases de nomes importantes para a música erudita e clássica

011 POPULARIZAÇÃO DA MÚSICA ERUDITA EM BH Capital mineira ganha público nos festivais de rua, mas ainda amarga pelo desinteresse da população

020 COLUNA MUSICAL

CRÔNICA “pouco a pouco Mais uma singela Dose era servida Pelo homem de Cabelos grisalhos(...)”

024

confira quem prestigiou eventos Da música Clássica em bh

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4 SUMÁRIO

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novo rebento da música erudita POPO POR LUCAS OLIVEIRA

odeado por entusiasmadas canções e boleros em família desde a mais tenra infância, o mineiro João Machala, de apenas 21 anos, é exemplo de que talento cultivado dentro de casa é igual a artista promissor. “Meus tios possuem vozes espetaculares e alguns sabem tocar violão, o que foi a combinação perfeita para os aniversários ao som de muita cantoria e grandes clássicos da música popular brasileira”, recorda. O trombonista de pouca idade – que também toca violão e usa do piano em seus estudos – parece recém-chegado ao cenário da música erudita, mas pode impressionar qualquer músico mais experiente. Em seu currículo musical estão nada menos que um curso no CEFAR (Centro de Formação Artística da Fundação Clóvis Salgado), participações em encontros internacionais e festivais de jazz em BH, workshops realizados e um curso pela New York Jazz Workshop. Machala atualmente mantém projetos variados no cenário mineiro. O músico é integrante da Big Band do Palácio das Artes – grupo instrumental de jazz que atua no famoso formato dos idos de 1920 até 1950 –, e também atua como trombonista em um conjunto de música instrumental brasileira, o Grupo Borzeguim, e ainda toca no Camisa Listrada, grupo de samba. Além disso, João Machala faz eventuais participações em shows e projetos de amigos. O mineiro esteve presente na gravação do primeiro CD da banda Skacilds, e participou de algumas faixas do novo álbum do Transmissor. A origem de suas influências é sem dúvida a MPB de nomes como Tom Jobim, João Gilberto, Chico Buarque, João Bosco, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Djavan e o Clube da Esquina, mas o trombonista também buscou

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no jazz e em outros estilos como rock, forró e baião a sua essência musical. “Depois que comecei a estudar música pra valer meu mundo musical expandiu e comecei a me interessar muito pelo jazz (Miles Davis, Bob Mintzer, John Coltrane, J.J. Johnson) e pela música instrumental”, conta. Apesar de tamanha formação e atuação, o músico, como todos que tentam levar a vida encantando as pessoas com arte, divide sua rotina com outra profissão, a engenharia. Mesmo tendo estudado música, Machala entende que a visão da sociedade sobre um músico é bem diferente de outros ofícios, até porque para quem faz música, segundo o trombonista, o que importa é saber tocar. “Pra ser engenheiro você tem que formar. Pra ser músico você tem que tocar. Ai que está a diferença”, define.

Depois que comecei a estudar música pra valer meu mundo musical Expandiu e comecei a me interessar muito pelo jazz e pela música instrumental

Machala, jovem talento e promessa que se destaca nos palcos da música mineira

Investindo cada vez mais em jazz e improvisação, o projeto de João Machala é criar cada vez mais, se lançando sobre o universo das músicas próprias. “Em breve espero lançar um trabalho autoral focado na música instrumental com o trombone, algumas canções cantadas também, vamos ver o que dá! A ideia é de, no futuro, ter o nome reconhecido por um trabalho bem feito e ter as próprias músicas cantadas pelo povo. Nada mais gratificante”, garante, sem medo de arriscar.

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NOVIÇOS

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MÚSICA BOA

LUGAR DE

Texto: Pêmella Lorentz Fotos: Divulgação

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om projeto arquitetônico original de Oscar Niemeyer e adaptação do arquiteto Hélio Ferreira Pinto, o Palácio das Artes demorou 29 anos para ser construído e inaugurado e hoje é um dos mais nobres lugares em Belo Horizonte onde a arte e a cultura se manifestam. Além de receber vários eventos internacionais como Ballet Russo Kirov, Charles Aznovour, The Australian Bee Gees e Ballet Nacional da China, a Fundação Clovis Salgado (FCS) é responsável também pela formação de grandes músicos e produção de inúmeros espetáculos dentro e fora de suas dependências de 18,5 mil metros quadrados, a preços populares e até gratuitos. O Palácio é uma fundação estadual e tem a missão de popularizar a arte e cultura de maneira geral, afirma o maestro do Coral Lírico da FCS, Márcio Miranda. Entretanto, muitas vezes, o nome Palácio afasta a população que não se sente à vontade para ir ao local. “Por isso a fundação tem levado concertos para fora do teatro, pois algumas pessoas ficam muito inibidas nesse tipo de espaço”, observa Márcio.

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INTERESSA

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O CEFAR foi e é um dos espaços mais importantes da minha carreira, hoje também sou professor do coral, além de maestro

Importância do gosto musical Para Helena Moreira, 54 anos, não há programação melhor para os feriados e finais de semana que ir ao Palácio das Artes e apreciar uma boa música. “Os meninos de hoje escutam apenas músicas ruins, acho que não existe programação melhor para os filhos que levá-los a algum show no Palácio”, indica. Já Poliana Esteves, que não teve nenhuma educação musical e pouco frequenta os eventos musicais do Palácio, acrescenta que quando tiver seus filhos, o que não irão demorar, fará questão de educá-los musicalmente. “Apesar de não ter tido uma educação musical, tenho a plena consciência que a música interfere muito no psicológico das pessoas, por isso, mesmo que meus filhos não queiram tocar algum instrumento quero que eles saibam apreciar uma boa música”, ressalta.

É exatamente nessa linha de mostrar que existe uma música de qualidade que pode ser ouvida em qualquer momento e lugar, que a FCS tenta trabalhar. Para alcançar esse ideal a administração do Palácio promove uma série de ações com o interesse de facilitar o acesso e ir onde o público está, com concertos nas igrejas, parques, praças e em museus como o Inimá de Paula. Entretanto, ao longo da história da fundação, alguns espetáculos são inviáveis de serem realizados fora das dependências do teatro como, por exemplo, as Óperas. Um exemplo citado pelo maestro é a Ópera Lá Bohème de Giacomo Puccini, que para apresentação é preciso um teatro, estrutura cênica, iluminação que, neste caso, está envolvendo mais de 400 pessoas, o que fica inviável produzir em áreas externas. Nos 40 anos do Grande Teatro já foram apresentadas mais de 50 montagens, na lista de compositores estão Verdi, Rossini, VillaLobos, Puccini, Mozart e Strauss. Com recursos de alta tecnologia para a apresentação de óperas, concertos de orquestra, shows de música populares, o espaço do Grande Teatro recebeu nomes de peso da música internacional como Johnny Mathis, Charles Aznavour, Charles Mingus. A Sala Juvenal Dias é outro lugar consagrado dentro do Palácio com mais de 176 lugares para apreciação dos apaixonados pela música. O espaço recebeu o nome em homenagem ao grande flautista da orquestra Sinfônica de Minas Gerais e é destinada especialmente à música de câmara graças a sua excelente acústica e modernos equipamentos de som e luz.

De acordo o maestro Márcio, o desenvolvimento do gosto musical começa ainda quando criança e só é possível ser adquirido ouvindo música de qualidade. “Se você for ouvir a música que está na mídia irá perder o acesso a coisas que podem te enriquecer musicalmente”, acrescenta. Ainda segundo o Maestro, as pessoas precisam ouvir música de boa qualidade e que a educação musical deve ser pautada por um processo de apreciação onde as pessoas podem conhecer música de referência.

Muito além de um espaço A Fundação Clovis Salgado representa para muitos, mais que um espaço onde se pode encontrar a música, cinema, e teatro, ali também é possível se iniciar e consolidar a carreira como músico. Um personagem que possui uma história extensa dentro do Palácio das Artes é o maestro Márcio Miranda Pontes, 53 anos, que iniciou sua formação musical no CEFAR (Centro de Formação Artística), um pontapé importante para sua carreira de sucesso. Márcio se tornou, após um concurso, cantor do Coral Lírico da Fundação Clovis Salgado (FCS), foi promovido a chefe de naipe e ainda assistente do coral. Já em 1997 se tornou maestro titular do Coral Lírico, o que lhe traz muito orgulho. “O CEFAR foi e é um dos espaços mais importantes da minha carreira, hoje também sou professor do coral, além de maestro” afirma. Além do CEFAR o Palácio das Artes oferece aos músicos a oportunidade de participarem do Coral e Orquestra Profissional, abrigando também a Orquestra Filarmônica e a Sinfônica de Minas Gerais. Produções Líricas e principais Óperas montadas pela Fundação Clóvis Salgado Réquiem (1987)

Aida (2001, 2002 e 2008)

A Flauta Mágica (2006)

O Rei David (1998)

O Guarani (2002)

O Castelo do Barbazul (2006)

La Traviata (1971 e 1998)

O Barbeiro de Sevilha (2003)

Pedro e o Lobo (2006)

Carmen (1999)

Viva a ópera (2003)

Falstaff (2007)

A Viúva Alegre (1984 e 1999)

Turandot (2004)

O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu (2007)

Réquiem (1999))

Os Pescadores de Pérolas (2005)

Aida (2008)

Cavalleria Rusticana (2000)

A Redenção pelo Sonho (2008)

Pelléas e Mélisande (2008)

Pedro Malazarte (1996)

Macbeth (2009)

A Menina das Nuvens (2009)

La Traviata (2010)

O Barbeiro de Sevilla (2010)

Erwartung (2009) Andrea Chénier (2010)

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INTERESSA

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Maestro

Superação Mesmo perdendo parte do movimento das mãos, pianista dá a volta por cima, se realiza como maestro e prova que não existem fronteiras para a boa música Por Lucas oliveira

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o auge dos 71 anos de muita experiência musical e sabedoria, o maestro brasileiro João Carlos Martins dá exemplo de superação e conquista o merecido reconhecimento internacional à frente da Orquestra Bachiana Filarmônica. Os diversos problemas de saúde, como a lesão no nervo da mão direita e o tumor da mão esquerda, distanciaram o artista de sua paixão, o piano, mas não o impediram de continuar. Mesmo com a perda da sensibilidade em alguns dedos, Martins não abandonou o companheiro: “em todo concerto, ao final,

sento-me ao piano e com os meus famosos três ou quatro dedos, toco alguma peça para dividir minha emoção com o público”. Como maestro, João Carlos Martins ordena centenas de espetáculos por todo o mundo e leva, aos poucos, a música erudita para lugares nunca antes imaginados. “Vale a velha máxima: ‘O artista tem que ir onde o povo está’, enfatiza. Homenageado pela Vai-Vai, o maestro também é referência em quebrar tabus, afinal, não é todo intérprete de Bach que sobe ao palco com a dupla sertaneja Chitãozinho & Xororó, participa do último capítulo de novela em rede nacional, se torna tema de escola de samba e ainda vai ao estádio tocar o hino nacional para a torcida do seu time. Senhoras e senhores, com vocês, João Carlos Martins ou maestro superação.

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Foto: Reprodução Internet

Revista Compasso: A sua história com a música desde a mais tenra infância favoreceu o surgimento do grande especialista que você é hoje? Conte-nos um pouco da sua trajetória até o presente. João Carlos Martins:Minha ligação com a música na verdade começa com meu pai, que sempre teve o sonho de ser pianista, mas devido a um acidente na gráfica onde trabalhava, teve parte de sua mão direita decepada aos dez anos de idade. Ele passou para os filhos sua paixão pela música e pelo piano, e eu comecei a estudar piano com oito anos de idade. RC: Como surgiu o interesse pela obra de Bach? Esta é a sua maior referência musical? JCM: Acho que Bach é o maior músico de todos os tempos, mas como regente também adoro Beethoven. São muitos os grandes mestres universais da música clássica, e no Brasil ressalto o grande Villa-Lobos. RV: Você tem um irmão pianista e todo um histórico com a música clássica. Ter uma família que contribua para o desenvolvimento musical é fundamental na formação de qualquer artista? JCM: Meu pai foi o nosso grande incentivador. Ele sonhava em ser pianista, mas não pode devido a um acidente que teve quando ainda menino, como já disse. Ele trabalhava numa gráfica e na véspera de sua primeira aula de piano teve um dedo decepado na prensa da gráfica. Foi o seu amor pelo piano que nos levou a sermos músicos.

“Acho que Bach é o maior músico de todos os tempos, mas como regente também adoro Beethoven” RV: Como hoje você avalia o acidente e o assalto que sofreu? De que maneira isso modificou a sua relação com a música e a vida? JCM:Me arrependo de, naquela época, não ter tido a maturidade de continuar com a música. Toda vez que me afastei dela não foi bom. A música salvou a minha vida.

“Não há diferença entre música clássica e música popular, mas sim entre música de boa e de má qualidade”

RC: Conte-nos um pouco da transição de deixar o piano e partir para a regência. Como foi tomar essa decisão? JCM: Como toda e qualquer transição, houve algumas dificuldades e até inseguranças, mas quando a gente acredita no que faz e vai em frente, sempre acaba dando certo. A minha primeira experiência foi na Sala São Paulo, num concerto beneficente. Na primeira parte toquei algumas peças simples ao piano e depois me despedi dele e assumi a regência da orquestra. Foi um momento muito emocionante. Como nos últimos anos como pianista enfrentei inúmeros obstáculos físicos para poder tocar, a orquestra é hoje uma satisfação imensa, sem jamais me esquecer do meu grande companheiro – por isso que em todo concerto, ao final, sento-me ao piano e com os meus famosos três ou quartro dedos, toco alguma peça para dividir minha emoção com o público. RC: Esta edição da Revista Compasso é um dossiê que revela uma popularização da música considerada erudita nos grandes centros urbanos, especificamente a região metropolitana de Belo Horizonte. Em sua opinião, o que falta para gêneros como a música clássica, o jazz e o blues perderem o conceito de elitizados e serem consumidos por cada vez mais pessoas no Brasil? De quem é a responsabilidade? JCM: Além da ampla divulgação da música, que é de responsabilidade dos artistas, a maior responsabilidade é mesmo do público que é capaz de gostar e de admirar a grandiosidade destas obras. RC: Você já se apresentou na inusitada companhia da dupla sertaneja Chitãozinho & Xororó. Parcerias como estas possibilitam a quebra de tabus e trazem novos adeptos à música erudita no Brasil? JCM: Sempre digo que não há diferença entre música clássica e música popular, mas sim entre música de boa e de má qualidade, e a fusão de estilos musicais é benéfica para todos – para os músicos e para o público. RC: Gustavo Dudamel, o maestro do Youtube, se tornou um popstar à parte do mundo dos CDs. Ele é o regente-símbolo desta geração, em que a internet aproxima a música clássica de seus fãs. Como você percebe isso?

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Foto: Reprodução Internet

“A música salvou a minha vida”

JCM: Por ser jovem, o Dudamel aproxima novos públicos da música clássica. E todos nós não podemos ignorar as novas mídias disponíveis para a divulgação das artes de qualidade, que não pode mais ficar “encastelada” para pequenas elites. RC: Por que diversos países, na sua opinião, valorizam a música erudita como uma importante expressão artística e cultural, e o Brasil permanece restringindo seus artistas ao universo dos grandes teatros e público especializado? JCM: Acho que o principal fator está na falta de acesso do público brasileiro à música clássica, por isso me dedico a este trabalho de democratização, me apresentando com a minha Bachiana Filarmônica desde as mais humildes comunidades e pequenas cidades até os grandes teatros e salas de concerto, no Brasil e no exterior.

Fundação Bachiana, fazemos este trabalho com o apoio da FIESP e do SESI-SP, e nem sempre há participação direta do poder público. RC: De que maneira a música e a condição de cidadania andam no mesmo compasso? JCM: A música, e as artes em geral, são mais inclusivas do que o esporte, por exemplo. Tanto a música, quanto o esporte, exigem concentração e disciplina, mas no esporte sempre há uma disputa, que pode gerar conflitos. Numa orquestra não, ou você une esforços e todos caminham na mesma direção, ou não há resultados. RC: Você foi homenageado pela escola de samba Vai-Vai, tocou o hino nacional brasileiro no último jogo da Portuguesa em 2007 e participou do último capítulo da novela Viver a Vida. Essa aproximação da música clássica com os movimentos populares é importante? Ela contribui para a quebra de paradigmas? JCM: Importantíssimo. O artista não deve elitizar a sua arte e deve usar todas as formas e meios de divulgação que estiverem ao seu alcance. RC: Você se considera um músico absolutamente realizado? JCM: Sou um homem realizado, mas não deixei de sonhar e de estabelecer novas metas. Realizar é o que nos move. RC: Em seus muitos anos de música, o que mais lhe realizou como artista? É possível narrar um, dentre os grandes momentos da sua vida? JCM: Nada, absolutamente nada, se compara a entrar na avenida e ver mais de 30 mil pessoas cantando um samba sobre a sua vida. Foi a homenagem que recebi da Vai-Vai neste ano.

RC: E quanto às regiões afastadas do eixo Sudeste? O que fazer para levar música clássica ao nordeste, por exemplo? É uma questão política? JCM: Mais do que uma questão política, é também uma questão de vontade. É lógico que quando o poder público se envolve e tem interesse, fica tudo muito mais fácil, mas no meu caso e da

RC:Depois de comandar tantos espetáculos e dar a voltar por cima dos problemas de saúde, resta algum sonho não realizado? Você mira que objetivo para os próximos anos de sua carreira? JCM: Minha próxima meta é formar mil orquestras jovens no Brasil nos próximos dez anos, e se Deus quiser, regê-las todas juntas através da internet.

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Foto: Reprodução Internet

RC: Espetáculos ao ar livre, música na rua, festas em praças, shows gratuitos, tudo isso contribui de que maneira para a imersão do artista nas classes que não têm acesso à cultura musical erudita? JCM: Vale a velha máxima: “O artista tem que ir onde o povo está”.

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Foto: Reprodução Internet

Frank Sinatra Foto: Reprodução Internet

“Só se vive uma vez. E da maneira que eu vivo, uma vez basta.” 11 memória

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eethoven

“Fazer todo bem que se possa, amar sobretudo a liberdade e, mesmo que seja por um trono, jamais renegar a verdade.” 12 MEMÓRIA

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Foto: Reprodução Internet

Johann

Sebastian Bach

“Se eu decidir ser um idiota,serei um idiota com acorde próprio.”

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POR BRUNO MATTOS

1 À 10

SHOW ANDREA BOCELLI PRAÇA DA ESTAÇÃO BH

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POR DIEGO SANTIAGO

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11 À 20

ORQUESTRA FÁBIO GOMES ESTAÇÃO CENTRAL BH

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Foto: Ana Paula Tomaselli

O poder da música Crianças e jovens encontram na música uma nova chance para mudança de vida e conhecimento cultural

evar a arte através da música para aqueles que têm tão pouco. Este é o trabalho da Orquestra Escola Criarte, uma ONG altruísta que cumpre seu papel de proporcionar cultura através da música para crianças e jovens carentes. Atualmente a ONG atende cerca de 120 alunos que tem a oportunidade de aprender a tocar instrumentos de base para uma orquestra sinfônica, como violino, violoncelo, contra baixo, flauta transversal, entre outros. “Nosso objetivo é levar a esses alunos e a toda comunidade um trabalho cultural de envergadura acadêmica, que muitos dificilmente teriam acesso devido ao alto custo das mensalidades nas academias com esta modalidade de ensino”, afirma José Alarico Elias Gonçalves, músico e fundador da Orquestra. Segundo Alarico, o trabalho voluntário não acaba por ai. A ONG da oportunidade aos membros da comunidade de iniciar estudos também em instrumentos mais populares, como violão e teclado, além de oferecer oficinas nas modalidades de artesanato, pintura e atendimento psicológico. Mas o que realmente encanta a maioria destas pessoas, sem dúvida, é ela, a música.

trumentos como oboé e flauta doce. Como se não bastasse, o artista ainda fez aulas de canto e posteriormente se graduou em Educação Artística com Habilitação em Música, na Universidade Estadual de Minas Gerais, UEMG.

É muito satisfatório quando encontramos pelo caminho pessoas dispostas a sonhar nossos sonhos. Ate hoje, conto com inúmeros amigos, que abraçam a causa social e acreditam no poder de transformação através da arte”

O projeto da Orquestra comandada por ele, surgiu principalmente pelo prazer e gosto pelo trabalho social. De acordo com o regente, este desejo sempre se fez presente desde quando estudava música na igreja, e foi com a ajuda de alguns dos integrantes, que a Orquestra Escola Criarte pode ser fundada, em 2002. “Sempre tive este desejo Foto: Ana Paula Tomaselli

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POPO POR ANA TOMASELLI

Quando tudo começou José Alarico nasceu em família pobre e trabalhou na construção civil até meados de 1999, como pedreiro. Seu primeiro contato com a música foi ainda na igreja, onde participava do coral. Foi lá que ele descobriu sua paixão pela música. Nesta mesma época, o músico chegou a fazer vários cursos livres e depois decidiu se profissionalizar na área musical. Alarico realizou um curso básico na Fundação Clóvis Salgado, onde aprendeu a tocar outros ins-

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Crianças e jovens, integrantes da Criarte, em apresentação em Venda Nova

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A popularização da música clássica

Para José Alarico, a cultura da música clássica esta muito enfraquecida, a começar pelo mundo acadêmico, responsável por sua proliferação, que parece não se importar com a questão. “Hoje em dia é muito difícil uma pessoa que gosta de música clássica ingressar no mercado, devido aos altos custos”, elucita. Outro desafio parte dos próprios artistas. “Os músicos deste estilo tem medo de trabalhar com o público popular, em áreas abertas, de estar perto de seu público. Em contrapartida, os músicos populares sabem plantar seu estilo na massa”, enfatiza. E não é só isso. De acordo com o regente, o cunho social também não é valorizado. “As pessoas confundem assistencialismo com responsabilidade social. Isto é obrigação. Responsabilidade Social é mais que isso, é proporcionar aos menos favorecidos oportunidade não só de entrar no mercado profissional, mas também de ter apoio emocional e principalmente o direito ao lazer. Sem dúvida, esse é o nosso principal desafio”, assegura.

Mudança social através da música

Foto: Arquivo Pessoal

A música para mim significa vida. Ela é uma terapia, agindo como antídoto contra doenças, males e rejeições. Possui uma ação psicológica, funcionando como socialização e ressocialização de cidadãos e mesmo que embora difícil, como fonte de renda. A música realmente tem o poder de mudar a vida das pessoas

ver de perto a música mudar a vida de seus alunos e de toda a comunidade com suas apresentações. “Meu maior objetivo é fazer em Belo Horizonte o maior projeto sócio-cultural já visto nesta cidade” garante. José Alarico garante que poucas pessoas sabem o poder transformador que a música possui. Afinal, além de ser uma prática cultural e humana, ela devolve alegria e arte à vida de pessoas que antes, não se imaginavam vivenciando-a. “A música para mim significa vida. Ela é uma terapia, agindo como antídoto contra doenças, males e rejeições. Possui uma ação psicológica, funcionando como socialização e ressocialização de cidadãos e mesmo que embora difícil, como fonte de renda. A música realmente tem o poder de mudar a vida das pessoas”, finaliza. Depois de lê esta matéria, será que ainda irão restar dúvidas que a música tem um poder transformador na vida de muitas pessoas?

A ONG Integra crianças e jovens à cultura e leva arte através para a comunidade através da música

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Foto: Ana Paula Tomaselli

Foto: Ana Paula Tomaselli

O grande regente, que acreditou em seu sonho, e no sonho de outras pessoas, acredita que a música possui um poder transformador na vida dos cidadãos. Ele afirma ter inúmeras provas disso. De acordo com Alarico, o melhor deste trabalho ainda é compartilhar seus conhecimentos adquiridos, em um caráter social, sem ônus algum, e

José Alarico, regente da Criarte, durante apresentação na CâmaraMunicipal de BH

comigo, pelas minhas origens. Convidei algumas pessoas da igreja para tocar flauta doce a partir daí se deu início o nosso projeto. No começo a idéia era montar um grupo musical, mas acabei tornando o projeto de cunho totalmente social”, relembra. Hoje, Alarico dedica maior parte de seu tempo como professor e regente da Orquestra Escola Criarte, porém não perdeu seus vínculos com a igreja, e com seus companheiros, que ele faz questão de lembrar como grandes apoiadores de seu projeto. “É muito satisfatório quando encontramos pelo caminho pessoas dispostas a sonhar nossos sonhos. Ate hoje, conto com inúmeros amigos, que abraçam a causa social e acreditam no poder de transformação através da arte”, ressalta. Mas se engana os que acreditam que o trabalho desenvolvido por ele termina por aí. O regente coordena a ONG Criarte e ainda encontra tempo para atender escolas e creches, além de uma vez por semana comandar o coral da terceira idade, da Escola Municipal Moysés Kalil. “Vejo este trabalho com a terceira idade como mais uma adição de adultos em nosso projeto. Acredito que a inserção deles nas atividades sociais é de fundamental importância na construção de uma comunidade sadia”, declara.

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Foto: Reprodução Internet

INSTRUMENTOS POPO POR LUCAS OLIVEIRA

FLUGELHORN

Criado para comandar as alas da infantaria e da cavalaria militar, o flugelhorn, também conhecido como fliscorne, é um instrumento de sopro pertencente ao grupo dos metais e integrante da família dos trompetes, apesar de ter uma campânula mais cônica e uma volta espaçosa em seu tubo. A sonoridade do flugelhorn é aveludada e introspectiva, com menor projeção de som quando comparado a outros instrumentos de sopro. É a partir do jazz que se reconhece o flugelhorn – vários nomes do trompete como Chet Baker, Freddie Hubbard, Clark Terry e Shorty Rogers se dedicaram ao instrumento.

O mais grave instrumento de madeira da família dos sopros surgiu no século XVIII em orquestras e grupos de música de câmara. O fagote – derivado do italiano fagotto – é formado por um longo tubo cônico de madeira com cerca de 2,5 metros, dobrado sobre si. O instrumento se divide em outros dois: o fagotino, modelo menor e mais agudo, e o contrafagote, mais pesado, com uma oitava abaixo do fagote comum. Graças ao seu complicado dedilhado e palhetas duplas, este é um instrumento difícil de aprender, por isso os músicos normalmente aprendem primeiro um outro instrumento de sopro para depois dominarem o fagote.

FAGOTE Originado de madeiras como ébano e jacarandá, o oboé é um instrumento musical com formato cônico e palheta dupla. O nome provém do francês hautbois, que significa madeira alta, por conta do seu registro agudo. O oboé é considerado um dos instrumentos de sopro com técnica mais difícil, pois exige uma apurada respiração diafragmática para atingir as notas com a pressão e a precisão adequada. Os oboístas chegaram às orquestras no século XVII, entre compositores como Antonio Vivaldi, Johann Sebastian Bach, Amadeus Mozart e Richard Strauss.

OBOÉ

TUBA

Outro instrumento de sopro que merece destaque é a tuba. Integrante da família dos metais desde a primeira metade do século XIX, o instrumento musical é um tubo cilíndrico recurvado sobre si com uma campânula – uma espécie de vaso – em forma de sino. As tubas podem ser de vários tamanhos: tenor (ou eufônio), baixo e contrabaixo. Entre os tipos mais conhecidos de tuba estão: a tuba de marcha, o helicon e o sousafone. Os alemães Johann Moritz e Wilhelm Wieprecht foram os responsáveis por elaborar o modelo percussor de tuba mais utilizada atualmente.

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“Ao grand Dutil uma Mig no con


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“Ao combinar essas três peças, Mechetti cria um programa de grandes contrastes: começa com a complexidade e a densidade do Dutilleux, passa pelo humor e o lirismo do Poulenc e finaliza com uma peça mais sombria do Brahms” - quem afirma é o pianista Miguel Rosselini, que, junto com Celina Szrvinsk, interpretam no concerto “Concerto Para Dois Pianos e Orquestra em Ré Menor” de Poulenc. http://migre.me/6cQfH

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Contada através de monólogos ilustrados pela orquestra barroca Musica Angelica e dois sopranos, The Infernal Comedy é um convite à mente assassina do escritor Jack Unterweger, interpretado por John Malkovich.

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O que acontece minutos antes do concerto começar, quando as portas do teatro ainda estão fechadas? Klênio Carvalho, Assistente de Arquivista da Filarmônica, conta um pouco dessa parcela um pouco “oculta” do trabalho em uma orquestra:

O Concerto, é um filme russo que optou por apresentar características que só dialogam com seu público de origem, especificamente. Exemplo disso é o seu enredo e a forma como foi escolhido abordá-lo. O maestro Andrey (Aleksey Guskov) esteve, durante a Segunda Guerra, à frente da Orquestra do Bolshoi, uma das melhores do mundo, mas foi destituído devido a problemas políticos e se torna o faxineiro da companhia. Quando descobre uma viagem da companhia a Paris, vê nela oportunidade de se vingar. Com a ajuda do amigo Sasha (Dmitri Nazarov) reúne antigos colegas, para um último concerto, esse do título.

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Por Lucas oliveira

REPROGRESSO POPULAR Capital mineira ganha público nos festivais de rua, mas ainda amarga pelo desinteresse da população no consumo de música erudita

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o corre-corre do centro de Belo Horizonte, milhares de transeuntes circulam com velocidade por entre as principais ruas e avenidas, e passam despercebidos da roda de choro instalada por ali. No Conservatório de Música da UFMG, um grupo de homens alegres executam seus instrumentos de corda e de sopro sem que a multidão perceba. Em volta deles, um pequeno aglomerado de pessoas assiste compenetrada ao espetáculo gratuito. Esta é hoje uma cena comum na capital mineira, que acolhe festivais musicais ao ar livre, concertos em praças e espetáculos em quarteirões fechados, a maior parte gratuitos ou com preço acessível à grande massa. A Revista Compasso entrevistou alguns participantes deste cenário de expansão da música erudita para saber o que de fato está acontecendo. Afinal, a música erudita está se popularizando ou esta é apenas uma nova onda do mercado fonográfico?

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Com visão de quem organiza festivais, o produtor musical Tomaz de Alvarenga, é mais otimista e acredita que os eventos gratuitos nas ruas têm contribuído bastante para a quebra do paradigma de consumo musical. “Este é um momento excelente, de expansão. A grande crítica ‘popular’ em relação ao som ‘erudito’ é a dificuldade de acesso a estes espetáculos. Promovendo concertos em praças, parques e locais públicos, a população tem acesso, apoia e absorve uma cultura que até a pouco não tinha acesso, ou era bem restrita”, afirma. No entanto, Alvarenga não acredita que espetáculos populares são capazes de fazer um indivíduo repensar o seu gosto musical: “a popularização é eficaz sim e deve ser investida, com mais concertos em praças, inclusive em regiões periféricas. Se vai fazer o sujeito repensar o consumo musical, é uma questão mais complexa, diria que sociológica, onde outros fatores atuam. Um leigo no jazz dificilmente sai do Savassi Festival querendo esmiuçar a discografia do Miles Davis. Mas certamente acendeu uma fagulha ali”.

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Lucas Ladeia, personagem que participou da cena descrita no centro de BH, está terminando a graduação em Música – Licenciatura pela UFMG, toca violão, guitarra e principalmente cavaquinho. Para o músico, eventos musicais eruditos em praças e ruas são fundamentais para levar a música até a massa, já que a imprensa não contribui para a popularização. “Se fôssemos contar com a grande mídia, estaríamos perdidos. A imprensa de massa parece ter como objetivo emburrecer e adestrar a população, com entretenimentos ridículos que mantêm todos os espectadores enterrados em pifeis níveis de reflexão e pensamento, causando, assim, uma ‘hipotrofia da consciência crítica’, critica. Segundo Ladeia, os festivais também facilitam a quebra da lógica de pão e circo instalada na mídia, que tem adestrado a audiência com produtos que são vendidos como cultura. “Estamos vivendo um pão e circo, em termos de arte, nossa poderosa mídia permanece nos ofertando basicamente o circo, que mantém as pessoas hipnotizadas pelas bundas e peitos da TV em detrimento da busca pela reflexão e progresso intelectual”, pontua.

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Um leigo no jazz dificilmente sai do Savassi Festival querendo esmiuçar a discografia do Miles Davis. Mas certamente acendeu uma fagulha ali”

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Quanto ao hábito de consumir música erudita no Brasil, os entrevistados apontam para dilemas que compõem a nossa cultura. Lucas Ladeia acredita que o festival facilita a criação do gosto pela arte erudita, mas é preciso uma mudança nos parâmetros de divulgação e educação musical. “É necessário que a boa música seja apresentada nas escolas, nos lares, na mídia, enfim. A mídia é verdadeiramente perigosa, e enquanto ela trabalhar com o objetivo egoísta de manter ignorante a população, será difícil mudar esse cenário. Um refém da mídia não sairá de casa para assistir um festival de jazz, sendo que está passando Ídolos ou o programa das bundas Pânico na TV”, argumenta. Ladeia ainda questiona o incentivo da música menos popular na formação dos mais jovens: “é necessário que se ‘abra as cabeças’ dos jovens, pra que eles no mínimo compreendam que existe uma música que os faz pensar, que os faz sair do lugar comum”. Na mesma perspectiva, o produtor Tomaz atribui este cenário à formação cultural do brasileiro, que não tem raízes na música erudita. “O buraco é mais embaixo. É igual querer inserir o tênis na cultura popular e desbancar o futebol. A música popular (axé, pagode, sertanejo, funk etc) está enraizada em nossa cultura, cada um em seu nicho específico. O desafio é para que a música erudita ganhe espaço, mas dificilmente (certamente) ela não tomará lugar da música popular”, assegura. Alvarenga sugere uma aproximação aos poucos de estilos menos populares com outros já consumidos pela mas-

sa. “Deve-se trabalhar como uma possibilidade, como uma opção para o público escutar, mas é um ‘trabalho de formiguinha’, lento e gradual. Pois não temos esta cultura e este hábito, de ouvir Bach no almoço e jantar escutando João Gilberto. Ok, alguns escutam, mas são pouquíssimos. Talvez atrelar/ aproximar esses artistas com a MPB (que é mais popular) seja uma boa estratégia”, recomenda.

Popular sem ser modinha Um dos efeitos de toda popularização, como é comum à história da arte, incluindo o cinema, as artes plásticas e a própria música, é a perda do referencial da própria essência artística. Isto é, nem todos os consumidores de arte anseiam a contemplação de um trabalho ou o encontro com a obra do artista, há muitos outros interesses envolvidos nessa jogada. Tomaz de Alvarenga dá exemplo disso no Savassi Festival, evento de jazz que ocorre todos os anos nas ruas da Savassi, região nobre de Belo Horizonte. “Este festival cresceu demais e já recebe críticas, curiosamente, por ter crescido tanto, por estar virando uma ‘micareta indie’, onde as pessoas vão para ‘serem vistas’ e não para contemplarem os artistas. Portanto, o próprio segmento que deseja sua ampliação, o limita, ao desejá-lo ‘restrito’ e ‘puro’. Concordo que muitos vão ali sem o propósito de ouvir jazz, mas quem sabe algum artista por lá o interessa? O festival é importante e precisa continuar ocor-

“Estamos vivendo um pão e circo, em termos de arte”

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Arquivo Pessoal

rendo. Se retornar para as livrarias e cafés, em alguns anos o estilo musical vai perecer”, garante. A partir deste mesmo olhar, o publicitário Felipe Dila não mede esforços em suas críticas quanto aos motivos que levam uma pessoa a um festival de jazz nas ruas de BH. “É nítido que tem uma galera que está ali e nem percebe o que está tocando. Por ser um evento ainda elitizado, com gente bonita, e que ocorre na Savassi, uma significativa parte das pessoas não está nem aí para os músicos, o verdadeiro motivo de um festival como esses. Acho que já se tornou uma modinha e hoje é quase impraticável frequentar um evento desses dada a proporção que atingiu e o desinteresse das pessoas pela música”, ressalta. Compartilhando da mesma opinião, a ouvinte de música erudita Brenda Curi prefere muitas vezes não sair de casa, já prevendo o que a espera nesses eventos. “Muitas vezes vou ao Palácio, porque sei que quem está lá realmente gosta de música, não está ali por outros motivos, como nas ruas da Savassi”, pondera. Curi, que aprecia muito orquestras e óperas acredita que ainda falta muito para que a música erudita se torne um produto popular: “é uma questão de educação, enquanto apenas alguns estilos forem explorados pela mídia, vai ser assim, a música erudita será apenas um instrumento para encher de glamour e aura o povo, que busca satisfazer a sua imagem pública a partir da arte”. Já o músico da UFMG Lucas Ladeia acredita que os festivais, mesmo auxiliando na quebra da vigência de alguns estilos, ainda são tomados por pessoas que têm alguma relação com a música erudita. “Vemos que são sempre os mesmos frequentadores, normalmente músicos ou pessoas que têm contato direto ou indireto com músicos profissionais ou amadores, que acabam se interessando por uma música menos entretenimentista”, explica. Por outro lado, Rodrigo Simião, engenheiro ambiental que é eclético, porém afeito a festivais de jazz e blues, vê mais motivos para comemorar a popularização, ainda que nem todos que frequentam os espaços estejam buscando a música. “Quando vou a um evento nas ruas fico muito feliz, porque percebo como as pessoas estão se interessando cada vez mais por outros estilos que não a música sertaneja, o axé, ou funk. Isso é um progresso para a cultura brasileira”, comemora. Simião também acredita que é questão de tempo para que novos estilos sejam incorporados ao consumo de massa: “tudo é assim, começa com poucos, mas, ao longo do tempo, essa música que até então era apenas coisa de quem tinha dinheiro, educação ou acesso, vai se tornando um item que, pouco a pouco, será indispensável para o consumo do brasileiro. Eu acredito na música, e torço pra que este momento não seja apenas um modismo popular”, finaliza.

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LUCAS OLIVEIRA

24 CRÔNICA

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Pouco a pouco mais uma singela dose era servida pelo homem de cabelos grisalhos, barba bem feita e nariz pontudo para que o tin-tin fosse entoado e contemplado mais uma vez por todos ao redor.

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lhando lá de cima deviam ter umas trezentas, talvez quatrocentas pessoas bem vestidas, contagiadas pela sensualidade de um sax teimoso e reticente que invadia o local. Muitos aproveitavam o ambiente para entreolharem-se nos mais íntimos detalhes, seduziremse em corpos que gritavam ostentosas roupas ajustadas com as tendências da estação. Ventava muito. Aos poucos, o jazz e as primeiras doses alcoólicas tomavam o corpo e a compostura de uma dupla de mais idade, e não havia mais reflexo que perdurasse até os solos mais virtuosos do trio de guitarras que embalava aquele fim de tarde frio. Sentados em um par de cadeiras mais ou menos próximas ao palco, o casal que aparentava cinquenta ou mais carnavais mal vividos bebericava com parcimônia qualquer vinho branco que se preze. A garrafa com a bebida, companheira inseparável, parecia um terceiro elemento a compor aquela cena pitoresca. Com ela, uma dupla de pequeníssimas taças que comportavam menos de dois dedos do apreciado líquido proporcionava ao estimado público da ocasião um estridente estalar de peças. Um deleite para os ouvidos. Tin-tin! A essa altura, enquanto três senhores estrangeiros dedilhavam velozmente suas experientes guitarras de jazz e rhythm and blues, o altivo senhor de meia idade e sua adorável esposa carregavam entre os dedos suas miniaturas e pareciam relembrar um contido chá-chá-chá com o nada discreto movimento dos seus ombros. Nada mais haveria de ter importância diante daquela entusiasmada interpretação, comum a eventos de estirpe e colarinho, digna de pompas e vastos protocolos. Não muito longe

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tin tin!

dali, podia se avistar as taças brindando ao luar e os corpinhos a balançar, ainda que o ritmo da canção fosse outro ou mesmo que a música se encerrasse e, por alguns segundos, não percebessem. Tudo bem, não que o incomum seja tão visado assim em festivais de jazz. Mas aquelas taças...bem, aquelas taças não pararam um minuto. Pouco a pouco mais uma singela dose era servida pelo homem de cabelos grisalhos, barba bem feita e nariz pontudo para que o tin-tin fosse entoado e contemplado mais uma vez por todos ao redor. Era tin-tin pra lá, tin-tin pra cá, tin-tin a todo instante e ninguém aguentava mais. Tin-tin entre uma pausa e outra, tin-tin pra começar e terminar, tin-tin pra balançar o esqueleto, tin-tin pra receber e despedir um novo show, tin-tin pra não deixar de brindar e improvisar. Até que, por fim, e por mais um tin-tin, o vinho se esgotou. O casal se levantou com a mesma cara que chegou e sumiu na multidão, deixando algum músico agora mais só e menos prestigiado. O homem se encarregou de recolher a garrafa e as taças vazias e incrivelmente intactas do festival tin-tin e despediu-se dali com feições de quem cometeria um assassinato em breve. O jazz continuou, a noite de vez chegou e o público agora pode se ater ao palco, o verdadeiro motivo de festa. *Esta crônica é dedicada à minha namorada, Brenda Linhares, e nosso querido amigo, Bruno Raydan.

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