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• 17-04-2008 •

Educação

SETÚBAL NA REDE

por João Paz (Professor - adjunto da área da Filosofia e das T.I.C. no Piaget de Almada)

Educação e Novas Tecnologias Como pensar a relação entre a Educação e as Novas Tecnologias? Tal como em muitas discussões gerais sobre o papel da tecnologia, também na educação se encontram discursos, ou práticas, que as tratam seja como fonte de todos os males, seja como panaceia universal. Em termos geracionais, na classe profissional dos professores e outros actores educativos, verificam-se muitas vezes atitudes de resistência à sua utilização entre os mais velhos. A sua fundamentação assenta na crença de que não há mais-valias nestes novos instrumentos, seja como reflexo de uma racionalização de dificuldades na sua utilização, seja porque a sua utilização obrigaria a reformular conteúdos, estratégias e materiais didácticos há muito utilizados, seja pela falta de recursos que ainda prevalece nas escolas. Mas note-se que, tal como a utilização das novas tecnologias não faz bons professores, também a sua não utilização não faz deles maus professores. As novas tecnologias não são a pedra filosofal para o sucesso educativo. Ao nível das gerações mais novas, em especial por parte dos alunos, a atitude é diferente, fruto do modo como essas novas tecnologias há muito fazem parte natural do seu ambiente, seja social, seja lúdico, seja mesmo de formação. As formações superiores de há vinte anos são já diferentes das que se fizeram há dez e ainda mais das que se fazem actualmente. Os professores actuais mais novos, como em geral os outros profissionais, foram formados cada vez mais imersos nas novas tecnologias de informação e comunicação. E já aprenderam que os alunos podem ser coparticipantes na produção do saber. Entre esta geração é mais frequente o entusiasmo, por vezes incondicional, pelas virtudes das novas tecnologias. Mas, também aqui, há que ressalvar que nem todas novas práticas de (auto-) aprendizagem a partir das novas tecnologias são, só por si, boas. Há "velhas" competências que fazem muita falta e que a facilidade de acesso à informação (Internet) não substitui, como a capacidade de interpretar, e reflectir sobre, a informação. Mas falar de Novas Tecnologias, tal como de Educação, pode ser falar de muitas coisas. Os vários tipos de novas tecnologias vão incidir em dimensões educacionais variadas, de que não são as menores a formação das atitudes e dos valores (pense-se na cultura do "copiar e colar" ou da maior facilidade da fraude mas também na aprendizagem da netiqueta). Falar de novas tecnologias é falar do computador pessoal, cada vez mais portátil, dos telemóveis que são muito mais do que isso (câmaras de filmar e fotografar, agendas pessoais, etc. e principal fonte de dores de cabeça dos professores do ensino secundário), dos videojogos, pólo de eterna discussão sobre as suas virtudes educativas ou de como ligar a aprendizagem ao lúdico, das aplicações informáticas utilizadas com fins educativos, das plataformas de gestão da aprendizagem (como a Moodle, cada vez mais disseminada nos vários níveis de ensino), que permitem o alargamento do espaço e tempo de aprendizagem para além da tradicional sala de aula e, em especial, da Internet. Esta polariza os vários discursos, pessimistas ou optimistas, sobre as novas tecnologias. E se é verdade que os perigos da sua utilização menos cuidada são grandes, também o são as suas virtudes. Um dos fenómenos interessantes advenientes da utilização da internet, a partir de tecnologias que o suportam e incentivam (Web 2.0), é a formação de comunidades virtuais, em especial de tipo colaborativo. E aqui estão em causa comunidades online associadas aos sites de redes sociais, cujos objectivos são o estabelecimento e manutenção de relações sociais de vários tipos (Facebook, Hi5, MySpace), mas também comunidades colaborativas como as responsáveis pela criação de um sistema operativo Open Source como o Linux ou uma enciclopédia online, a Wikipedia, que rivaliza com as concorrentes pagas. D. Tapscott e A. Williams anunciam mesmo uma revolução em termos económicos com base neste fenómeno de colaboração em massa online[1]. Sem vantagens pessoais evidentes, os participantes contribuem, partilham, (entre) ajudam-se, fazendo o grupo ir mais longe do que o indivíduo. Contra os discursos pessimistas, aqui está um exemplo de que as novas tecnologias também são capazes de trazer ao de cima o que há de melhor no homem. Em Portugal, desde os tempos dos projectos Minerva e Nónio, nunca as T.I.C. estiveram tanto na ordem do dia e na agenda educativa como hoje, a que se juntam as agendas política e mediática, em que se encontram palavras-chave como "Plano Tecnológico" ou "Programa E-escolas". Para além dos inevitáveis efeitos demagógicos e retóricos, há que reconhecer o dinamismo na utilização das


T.I.C. que percorre os vários níveis de ensino. Entre estes, gostaríamos de salientar o que se passa ao nível da Educação de Infância e do Ensino Básico. Basta o acesso ao sítio do CRIE associado (http://moodle.crie.min-edu.pt/course/view.php?id=221), ou à rede de blogues que se formou, para reconhecer a força deste trabalho entre pares, baseado na partilha de ideias e recursos, dos vários intervenientes. Deste modo, a construção conjunta da fluência tecnológica preconizada por Papert[2] está, a pouco e pouco, a tornar-se uma realidade. A utilização das T.I.C. começa cedo e começa na escola. E mobiliza as famílias, nalguns casos desempenhando os filhos o papel de professor para os pais, e aproximando pais e professores na tarefa necessariamente conjunta da educação. O que, diga-se em abono da verdade, já não é pouco.

[1]Tapscott, D. e Williams, A. (2007).Wikinomics, Lisboa: Quidnovi [2]Papert, S. (1997). A família em rede, Lisboa: Relógio d'Água. João Paz - 17-04-2008


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