Issuu on Google+

Novo Conhecimento/Nova Aprendizagem Lisboa, 18 e 19 de Outubro de 2000

Novos Media e Nova Aprendizagem (Introdução)

por António Dias de Figueiredo Universidade de Coimbra

Novos media e velha aprendizagem Os sistemas escolares não superiores, enquanto sistemas dirigidos às massas, praticamente não existiam antes do século XIX. Surgiram para corresponder às necessidades de massificação da educação criadas pela Sociedade Industrial e para manter as crianças protegidas da realidade do sistema económico, as indústrias, que as exploravam de forma abominável como mão de obra barata. Na alvorada do século XXI nenhum destes pressupostos se mantém. À medida que as economias transitam de lógicas industriais para lógicas do saber, as necessidades passam a centrar-se na obtenção de trabalhadores do saber. Além disso, já não é necessário isolar as crianças da sociedade, em escolas anti-sépticas. Pelo contrário, pretende-se que a construção dos seus saberes se transforme em actividades sociais plenamente integradas. Por outro lado, a aprendizagem adquirida nas escolas representa, hoje em dia, uma parcela cada vez menor da aprendizagem que se adquire no dia-a-dia. Há já muitos anos que alguns pais colocam os filhos, fora das horas de escolaridade obrigatória, em estabelecimentos paralelos às escolas oficiais, onde garantem - e em muitos casos certificam - a sua competência em línguas, música, dança, informática ou desportos. No entanto, a eclosão dos novos media, suportada por poderosas indústrias culturais, e as potencialidades de interacção através da Internet, prefiguram um cenário explosivo de oportunidades de auto-educação e de educação à distância, não só na idade escolar mas ao longo de toda a vida, que começam a ganhar forte expressão do outro lado do Atlântico. Neste contexto, cada vez mais jovens e adultos exigem variedade de canais de aprendizagem, num sistema de elevada escolha. Exigem também maior actividade e interactividade, mobilidade, convertibilidade, conectividade, ubiquidade e globalização. As escolas tradicionais estão mal equipadas para fazer face a este desafio. A mudança, da massificação das escolas para a individualizarão da escolha livre, nomeadamente através das redes de dados, tenderá a re-equacionar o papel das escolas.


É neste contexto que se coloca a questão dos novos media como instrumentos para promoverem, nos sistemas escolares, as novas aprendizagens de que os futuros trabalhadores do saber tanto necessitam. Só que, ao observarmos as novidades que são anunciadas, verificamos que o que nos é oferecido como revolucionário não passa, na maioria dos casos, de soluções do passado, adornadas com o fulgor das tecnologias. Os media são inquestionavelmente novos, mas as aprendizagens são velhas e ultrapassadas. No século XIX, quando a escolaridade de massas começou a afinar-se, e os padrões da denominada educação "moderna" se estabeleceram, os valores então reinantes eram os de um glorioso mundo mecanizado. Ser perfeito, nesses tempos da nascente Sociedade Industrial, era operar como um mecanismo de relógio. Os princípios da "gestão científica", de Frederick Taylor, transformaram as empresas em máquinas, e os trabalhadores, tão bem caracterizados por Charlie Chaplin no seu filme Tempos Modernos, em peças dessas máquinas. Os mesmos princípios de gestão e organização foram aplicados às escolas, orgulhosamente entendidas como linhas de montagem para a produção em massa dos recursos humanos necessários à Sociedade Industrial. As filas de carteiras, as campainhas a tocar de hora a hora, a proliferação de disciplinas artificialmente separadas, a apresentação de temas fora de contexto, a instrução de ouvir e responder, a memorizarão e reprodução de textos inertes, a 4 1 aquisição" de conhecimentos sem aplicação visível, o isolamento e competição do trabalho escolar, os currículos nacionais rígidos, resultaram desse mesmo entusiasmo mecanicista. Os professores eram também peças mecanizadas do sistema, na sua função de executarem sem desvio programas oficiais construídos "à prova de professor". Entretanto, as metáforas da linguagem mecanicista reinante transformavam o conhecimento em produto material, algo que podia ser bombado mecanicamente para a cabeça dos alunos - o conhecimento tinha-se transformado em "conteúdo". Curiosamente, agora que os princípios mecanicistas do Taylorismo se tornaram definitivamente obsoletos nos meios empresariais, tecnólogos bem intencionados, mas apressadamente transformados em especialistas de educação, tentam a todo o custo promover o seu renascimento. Ignorando mais de cinco décadas de investigação em educação e aprendizagem, propõem-se recuperar no espaço virtual as burocracias mecanicistas do passado, promovendo a distribuição ("delivery") de "conteúdos" educativos, olhados como fluxos mercantis susceptíveis de bombagem, desta vez através da Internet e da Web, para a cabeça dos aprendentes. Insiste-se, assim, mecanistica e simplisticamente, nos "conteúdos", sem reconhecer que eles só fazem sentido se explorados em "contextos" de interacção e actividade que têm que ser criteriosamente concebidos. Insiste-se, também, em ignorar uma das maiores virtudes dos novos media - a de tomarem possíveis novos contextos sociais e culturais de aprendizagem, que nunca tinham existido e que agora se oferecem à exploração de novas abordagens. Mesmo nos caríssimos casos em que se fazem tímidas tentativas para integrar os conteúdos em contextos, essas tentativas são em geral empíricas, improvisadas e destituídas de fundamentação teórica minimamente sólida. A nosso ver, uma parte significativa do futuro da aprendizagem não se encontra nos conteúdos. Muito desse futuro, talvez a sua parcela mais crítica, encontra-se nos contextos. Não se encontra, assim, na produção de conteúdos, nem na distribuição de conteúdos, nem na "transferência" de "aprendizagem" ou de "conhecimento" para cabeças vazias, mas sim em tomar possível a construção das aprendizagens pelos seus próprios destinatários, em ambientes culturalmente ricos em actividade - ambientes que


nunca existiram, que o recurso inteligente aos novos media tornou possíveis e nos quais se aplicam paradigmas completamente distintos dos do passado. Caso contrário, correse o risco de entrar no século XXI em marcha atrás, tentando construir a Sociedade da Informação com os mesmíssimos instrumentos intelectuais com que, há duzentos anos, se construiu a Sociedade Industrial. O maior desafio dos novos media é, em nossa opinião, o de construir comunidades ricas em contexto, onde a aprendizagem individual e colectiva se constrói e onde os aprendentes assumem a responsabilidade, não só da construção dos seus próprios saberes, mas também da construção de espaços de pertença onde a aprendizagem colectiva tem lugar.


Novo Conhecimento/Nova Aprendizagem