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A Várias Mãos … Projeto Concelhio de Escrita Colaborativa

3ºCiclo

Póvoa de Varzim 2015/16


Título: A Várias Mãos: Projeto Concelhio de Escrita Colaborativa – 3º Ciclo

Textos e ilustrações: Vereador do Pelouro da Educação e da Cultura, alunos e professores das escolas básicas e secundárias do concelho da Póvoa de Varzim

Coordenação: Professores Bibliotecários do concelho da Póvoa de Varzim

Revisão:

Professores Bibliotecários do concelho da Póvoa de Varzim

Edição: Ana Simão e Anabela Torre


Amanhecia, o sol espalhava os seus braços sobre as casas, fazendo com que as telhas, acabadas de acordar, ganhassem um brilho incandescente, quase irreal. As gaivotas desenhavam acrobacias levadas pela suave brisa vinda do norte. Noé, com os seus dezoito anos de sonhos e de esperanças, inspirava todo o mar naquela maresia que lhe enchia os pulmões e lhe purificava as ideias. O que haveria para além da linha inatingível do horizonte? Que outras pessoas, que outros mundos, que outros tesouros poderia lá encontrar? Sentia nos pés descalços a areia húmida, rangendo a cada passo. Não sabia o que fazer. Sabia que não poderia continuar à espera que as coisas acontecessem, tinha que procurar o futuro, sem medo, sem interrogações vazias, sem arrependimentos. Toda a vida tinha vivido naquele areal, mas agora tudo lhe parecia pouco, precisava ir mais longe, decerto todos iriam compreender a sua decisão. Queria conquistar espaço, queria descobrir outros caminhos, outras terras, outras paisagens, outros cheiros. Queria ouvir outros silêncios para além do que lhe fazia chegar o mar. Estava decidido, iria enfrentar o mundo, ele que nunca virou a cara a qualquer desafio, ele que trabalhara em tudo o que lhe aparecia, desde que os seus sete irmãos e os seus pais precisaram desse apoio. Trabalhava nas férias, trabalhava depois das aulas e sempre obteve boas notas na escola. Perdido nos seus pensamentos, olhou para trás e reparou que apenas os seus pés marcavam a areia limpa e inexplorada daquela manhã que já ia alta. Em terra, avistou o vulto do Cego do Maio que, com a mão servindo de pala, vigiava o colorido dos barcos que, na faina da pesca, manchavam o azul do mar.


Naquela noite de Lua Cheia, Noé, enquanto dormia, sonhava que viajava com Cego do Maio, num belo, grande e colorido barco, por entre as azuis ondas do mar. Dava a volta ao mundo com o seu herói, salvando multidões. - Filho, acorda! – disse a mãe – está na hora de ir pró mar!

- Mãe deixa-me dormir mais um pouco… – rezingou Noé, muito cansado. - Levanta-te! Já são horas de ir apanhar peixe!

- Já vou. Noé levantou-se, vestiu-se e foi lançar as redes com o pai. Mas distraiu-se com um enorme e colorido barco que atravessava o horizonte, e lembrou-se do sonho que tinha tido durante a noite. Ao anoitecer, assegurando-se de que ninguém o via, meteu-se num dos barcos que estava no porto da Póvoa e partiu sem rumo. Nessa noite e parecendo que a estátua do Cego do Maio lhe piscava o olho, começou a sua aventura pelo mundo, sem pensar no que deixava para trás. Mas um terrível temporal assomou: a chuva, grossa, caía; o vento veloz, tudo fazia voar; os relâmpagos rasgavam o céu; o som dos trovões assemelhava-se a disparos de armas em tempos de guerra. Mas isso não o fez desistir. Deitou-se, abrigado, para dormir. Estava inquieto, a tentar encontrar uma posição mais cómoda para descansar, mas não conseguiu. As saudades que já tinha da família faziam-no sofrer. Amanhecia, Noé, com o sono de uma noite em que não pregara olho, olhava para o horizonte em busca de uma pista do sítio onde fora parar... mas nada. A tempestade tê-lo-ia levado para longe? Ou não?


Com o corpo dorido, tentou levantar-se para procurar as caixas de emergência, onde haveria, seguramente, comida, mas caiu redondo no chão. Contudo, depois de várias tentativas falhadas, conseguiu levantar-se a custo, foi pesquisar na caixa dos mantimentos e pegou num pacote de bolachas que comeu desenfreadamente. Sentiu-se logo muito mais forte e procurou iscas e uma cana para pescar o almoço. Felizmente, conseguiu apanhar um peixe, que, embora não fosse muito grande, dava para o deixar saciado.

Depois do almoço, e recuperadas as suas forças, continuou a sua viagem em busca de aventura. Encontrou um local que se lhe afigurou aprazível e com bastante peixe. Pescou umgrande peixe-espada, o que o deixou muito entusiasmado. Mas havia um problema...Como iria conservar o peixe, sabendo que não o comeria todo numa só refeição? No fundo da sua aflição, Noé teve a grande ideia de conservar o peixe em sal. Conhecia a técnica e assim fez. Comeu até ficar farto.

As horas passaram, sentia-se cansado, pois fora um dia muito longo. Tentou dormir, porém, sem sucesso, já que as recordações da família o assaltavam. Não parava de pensar na preocupação que os seus familiares sentiriam por ele. Em casa de Noé, estavam todos muito tristes, uma vez que ninguém sabia dele. O seu pai exasperava, de tanto o procurar... pensou que tivesse morrido afogado e, por isso, naquele dia despediram-se dele com coroas de flores atiradas ao mar. Mas Noé dormia agora a sono solto. Quando acordou de manhã estava no meio do nada, só havia mar e céu. Pela primeira vez, sentia-se aflito, pois não sabia onde se encontrava, estava cada vez mais perdido. Mas lembrou-se de se orientar pela Estrela Polar. Era pleno dia, pelo que ficou muito ansioso que a noite chegasse, mas esta parecia que nunca mais chegava.


As horas passaram na lentidão do dia e, finalmente a noite ansiosa chegou. Estava escura como o breu, as estrelas brilhavam como ouro. Como a estrela Polar era pequena, procurou a Ursa Maior, prolongou cinco vezes o segmento de reta entre as Estrelas Guardas e encontrou-a. Viu que estava no meio do oceano Atlânticoe, mais descansado, conseguiu adormecer, embalado pelas ondas ritmadas. Na manhã do quarto dia, Noé acordou com um pressentimento estranho, olhou para bombordo e viu uma embarcação enorme que se dirigia na sua direção. Tentou mudar o sentido das velas que voavam ao ritmo do vento. Mas não conseguia... por isso teve de remar. Ficou cansado, mas valeu-lhe a vida, pois conseguiu afastar-se da embarcação. A mãe de Noé não acreditava que o filho pudesse ter exalado o seu último suspiro. Pelo menos nada apontava para isso: o filho sabia nadar e ainda não haviam encontrado o seu corpo. Por isso, obrigava os irmãos de Noé a irem procurá-lo todas as manhãs, mas nada encontravam.

O rapaz, no meio do mar, sentia a falta da sua amiga Julieta: bela, com cabelos loiros como o sol, olhos azuis como safiras, lábios vermelhos como cerejas... -Ai...– o pobre do Noé suspirava pela sua musa – Julieta, minha Julieta... Julieta soubera naquele dia, do desaparecimento do seu amado. Chorava e orava na igreja do Sagrado Coração de Jesus, uma construção imponente e doce. As suas amargas, salgadas e transparentes lágrimas escorriam pelo seu sofrido e bonito rosto. Noé pensava para si: "Estou aqui há séculos! No meio do nada!".


O oceano parecia agora dizer-lhe que deveria voltar para trás para as pessoas que amava. Achava que estava a ficar louco, uma vez que ouvira o oceano falar. Entre os seus pensamentos, avistou terra. Uma alegria contagiou-o e todos os seus problemas e aflições desapareceram como por magia. Remou para terra, e à medida que se aproximava ia vendo mais porções de terra. Pensou que estava alucinado, mas continuou a viagem e desembarcou.

Noé não parava de pensar de onde vinha aquela voz que o conduzira a terra e que ainda sentia na sua cabeça. Sabia de umas quantas histórias de marinheiros corajosos, que o pai fazia questão de lhe contar, pois “a alma de um pescador deve ser assim alimentada”. Coragem, era pois agora do que precisava. Estava sozinho, no meio do nada, rodeado apenas de pequenos rochedos e de uma vegetação que achava esquisita, não porque fosse assustadora, mas porque nunca tinha visto tais árvores ou flores. Tudo parecia criado à imagem da perfeição: as flores obedeciam a uma paleta de cores exuberantes e as suas pétalas, translucidas à luz do sol, deixavam adivinhar uma mão feminina que só poderia ser a de uma deusa; as folhas, de um verde brilhante, enroscavam os seus ramos uns nos outros, criando quadros vivos de onde saiam vozes de pássaros exóticos. A dúvida que o atormentara ainda ficou mais presente. Estaria mesmo a alucinar? Decidiu sentar-se a olhar para aquilo tudo e pensar. Sabia que em situações estranhas era preciso, antes de mais, pensar. Ficar pasmado e de braços cruzados não o levaria a nada. Lembrou-se das aventuras de infância passadas com o avô e das partidas que ele lhe pregava para o obrigar a prestar atenção. Vieram-lhe também à memória os desenhos de sereias e seres mitológicos que desenhavam na areia grossa. Será que existiam seres mágicos naquela ilha enigmática ou naquele enorme oceano? Se calhar até por lá andavam belas sereias..., logo que não fossem as maldosas do Ulisses, claro!


Pegou então num ramo de árvore e iniciou a sua obra, fazendo-a crescer naquela moldura que a areia formava. A dada altura as partículas de areia transformaram-se num pó espesso e brilhante que se assemelhava a purpurinas, e que dançava ao som da sinfonia criada pelo mar. O mistério parecia querer adensar-se, até porque, aos poucos, foi-se formando a imagem de um ser de quem ele já ouvira falar. Era a deusa do amor, Afrodite! Sem acreditar no que os seus olhos estavam a ver, pasmou de boca aberta. Se calhar, num local daqueles, tudo podia acontecer! Afrodite tinha um olhar doce e meigo, rodeado por pestanas que pareciam dançar ao ritmo do vento. O seu rosto era de uma beleza profunda, pálida, imensa… O seu cabelo era ruivo, a cor vistosa do outono e das folhas que desabam, deixando as árvores despidas. Era um cabelo longo e fazia surgir na memória a imagem de algas acobreadas.

─ Quem és tu e de onde vens? ─ Sou o Noé e venho da Póvoa de Varzim.

─ Queres contar-me como é que vieste aqui parar? ─ Não sei bem, estou perdido. Uma voz guiou-me até aqui. Pode dizer-me onde estou?

─ Claro que sim, mas antes deixa-me apresentar-me. Chamo-me Afrodite, sou a deusa do amor e a soberana desta ilha. Quando tu começaste a desenhar-me ouvi passos e senti o teu pensamento assustado. Percebi logo que vinha de alguém, que precisava de uma mão amiga. ─ Eu sei quem tu és e tenho uma enorme admiração por ti, fazes-me lembrar a minha Julieta, mas, agora, o que preciso mesmo é de ajuda para poder retomar a minha viajem.


─ Vou ajudar-te mas com uma condição. Como já te disse, sou a matriarca desta ilha, mas vivo sozinha. Não estou propriamente solitária, pois tenho camareiros no palácio, só que não tenho companhia... Quero que fiques comigo durante algum tempo e depois prosseguirás a tua viagem. ─ Ah..., Heee... OK. Ficarei aqui, mas tem de cumprir a sua promessa.

─ O prometido é devido. Seguidamente, Afrodite pegou na mão do rapaz e levou-o a conhecer os seus aposentos.

Exteriormente, o palácio era deslumbrante e parecia infinito. Era composto por pedras e rubis que obedeciam a um estranho padrão xadrez. Os muros eram repletos de heras e plantas que lhe davam um ar fresco e puro. O jardim que o circundava era inundado por flores de variadas cores que perfumavam o ambiente e seduziam as abelhas. A relva formava um tapete por onde Afrodite costumava passear e por onde seguiam os dois. Havia um lago onde a deusa gostava de passar horas e horas escrevendo, inspirandose nas brincadeiras dos peixes. Quando Noé pousou os seus pés descalços no chão frio da entrada e olhou em volta, ficou pasmado com tamanha beleza e decoração. Entrou e observou tudo durante várias horas até à troca do sol com a lua. Tudo era fascinante: as salas, os inúmeros quartos, o escritório, as bibliotecas, a sala de jantar, o salão rosa e carmim, que lembrava a primavera, a piscina interior… mas, o que mais lhe saltou à vista foi, sem dúvida, uma cascata interior que corria a contar histórias. ─ Era capaz de ficar aqui para sempre ─ afirmou Noé embasbacado. ─ Não, não o podes fazer. Todos ficariam preocupados. Ficarás cá por uns tempos. Hoje descansarás neste quarto, virado para o mar. Se precisares de alguma coisa, não hesites. Estarei por aqui. Vem, está na hora de uma boa refeição.


─ Obrigado, é muito gentil da sua parte.

No dia seguinte, ambos se levantaram bem cedo para ver o sol acordar e o mar a espreguiçar-se. Passaram o dia muito animados e divertiram-se imenso, tal como no resto dos dias. Certa vez, Afrodite levou-o ao outro lado da ilha. Estava na hora de ele conhecer Aurora, a bela princesa ainda adormecida. Que bela que era! Então e o tal príncipe? Não tinha aparecido? Era tudo invenção? De leve, muito ao de leve e com o consentimento da sua nova amiga, baixou-se e beijou-lhe os lábios. Afrodite sorriu. Sabia o que ia acontecer. O passar do tempo também o escreveu e soube-se que Noé nunca mais voltaria a ter por Julieta o mesmo amor. Ela seria sempre muito especial, mas, de agora em diante, uma amiga. Com Aurora, sonhava, contava as estrelas, dizia poemas, ria, brincava... mas a consciência atraiçou-o. Tinha de voltar. Como seria agora? Afrodite foi-se apercebendo da preocupação que começou a invadir Noé e decidiu dar-lhe uma palavra conselheira: ─ Meu querido, tenho sentido que estás diferente e Aurora sofre com isso. Qual é o problema que te atormenta? ─ Eu não estou diferente, só com saudades da minha casa, da família, amigos, das minhas rotinas, mas também estou…

─ Apaixonado, queres tu dizer? Sabes que podes e ir embora quando quiseres. Foi o nosso trato. Noé não podia sentir-se mais dividido e acabou por desabafar já com uma lágrima a querer espreitar.


─ Tenho uma decisão difícil demais a tomar, um problema demasiado grande em mãos, não sei o que fazer... ─ Noé, sabes que o quanto gosto de ti, mas não te posso pressionar. Sei que estás longe de quem te criou e amas, mas também gostava que continuasses connosco. Cabe-te a ti decidir o teu futuro e o caminho que queres seguir…

No dia seguinte, Noé foi contar a sua decisão a Afrodite. – Bom dia Afrodite. Tenho uma coisa para te contar! – O quê?

– Amanhã, bem cedo, vou partir… – Tudo bem, a decisão é tua. Agora eu e a Aurora vamos ajudar-te a construir um barco. A seguir ao lanche, os três começaram a procurar materiais na floresta, como por exemplo: madeira, folhas resistentes e lianas. Algum tempo depois o barco estava quase concluído. – Não te esqueças dos mantimentos e de uma caixa de primeiros socorros! – afirmou Afrodite. – Já estão lá dentro – disse Noé. Depois de concluírem o barco, foram jantar. A seguir aproveitaram bem a noite para descansar, principalmente Noé, pois no dia seguinte tinha de se despedir das deusas. – Está na hora de partir – disse Noé às deusas.


– Adeus, espero que a tua viagem corra bem – disse Afrodite.

E, finalmente, partiu pelo mar fora com destino à Póvoa de Varzim. O mar estava sereno e Noé sentia que aquele era o caminho certo. Passadas algumas horas deparou-se com uma pequena ilha e decidiu lá parar para descansar um pouco. Quando desembarcou, começou a procurar um local sossegado para dormir.

De repente, Noé avistou ao longe um homem desconhecido. Noé associou o homem a Eça de Queirós, pois tinha um aspeto intelectual, com um monóculo, mas com a barba por fazer. Noé tinha medo que esse homem o pudesse atacar, mas não conseguia resistir à vontade de saber quem ele realmente era. Noé foi-se aproximando do homem, mas começou a reparar que o que ele via de longe estava muito diferente do que ele via de perto. Ao aproximar-se reparou que ele não estava de fato nem com um monóculo. Na verdade, ele estava com uma camisa negra quase toda rasgada e com um braço ensanguentado. O monóculo que via ao longe era na verdade uma cicatriz que tinha à volta do olho. Com um remo na mão, por segurança, Noé foi ter com ele e perguntou quem ele era. Ele respondeu a Noé dizendo que era um pescador e que de repente, enquanto puxava a rede com muito peixe, algum ser marinho lhe dera um encontrão na parte inferior do seu barco. O marinheiro caiu. De seguida o mesmo ser, com os seus dentes, de quase um metro de altura e largura, rasgou a camisa que levara. O marinheiro começou a nadar em direção à costa quando de novo, o ser atacou-o desta vez, com a sua barbatana muito perto do olho. Mas, subitamente o misterioso gigante desapareceu no Oceano. E o marinheiro, através das correntes marítimas foi levado até àquela ilha. Noé ofereceu-lhe um bocado da sua comida pois reparara que ele estava faminto.


Noé continuava com as suas aventuras, pois mais uma vez encontrara uma ilha misteriosa antes de chegar ao seu destino, que era a Póvoa de Varzim. Mais um mistério por desvendar - uma ilha desconhecida com monstros mitológicos e um pescador ferido pedindo ajuda. Será que nada acontece por acaso? – meditava Noé. Há quem diga que não. Pois se me apareceu mais este enigma, tenho de desvendá-lo. Conversou longas horas com o pescador que lhe contou as peripécias pelas quais tinha passado. Noé pensou: Será que esta aventura está ligada à Ilha dos Deuses? Será que os Deuses ficaram chateados por eu abandonar a ilha e me apresentaram mais este desafio com monstros marinhos e o pescador ferido que estava pasmo de medo? Ficaram alguns dias na ilha para restaurarem forças e continuarem a viagem. Noé continuava com curiosidade para ver o monstro. Não duvidava do pescador ferido, pois também a história dele era incompreensível. Quem acreditaria que ele estivera numa Ilha de Deuses?!... Isto era de loucos!... Acreditar em tal coisa... Mas o facto é que tudo isto aconteceu. Os dias passaram e, já recompostos do cansaço, juntamente com o pescador, partiu em busca do seu destino. O mar estava calmo, não havia sinais de monstros, a ondulação era suave, a brisa do vento era acolhedora, tudo parecia perfeito.


Noé falou um pouco da sua aventura na Ilha dos Deuses.

O pescador estava atento e não muito surpreendido, pois também tinha vivido algo inexplicável. Noé dizia: – Nós, homens do mar, temos que ser sonhadores e apaixonados por esta profissão, pois é muito dura, repleta de perigos. Precisamos de acreditar em sonhos, ultrapassar desgraças, aflições, saudades e, finalmente, saborear o sentimento da vitória!

O pescador concordou com Noé e estava ali para o ajudar a obter essa vitória. As horas foram passando e, de repente, levantou-se uma tempestade e todas as forças humanas existentes no pequeno barco foram necessárias. O pescador foi uma ajuda preciosa, pois sem ele não conseguiria vencer a fúria do mar, que estava tão zangado, parecia que continha milhares de monstros.

Noé agradeceu ao pescador. Ele sorriu e não respondeu. Era de poucas palavras… Já com o mar calmo, deitaram-se e acabaram por adormecer.

Noé acordou. Qual não foi o seu espanto, quando procurou o pescador e não o encontrou. Apenas sentia a mesma calmaria que tivera quando saíra da Ilha dos Deuses. Como teria o pescador desaparecido? Seria mais uma daquelas aparições mágicas que mesmo ele não compreendia? Sem resposta para o assunto, ficou a pensar horas e horas, até que lhe surgiu uma ideia!


Será que foram os Deuses que colocaram este homem no meu barco para me ajudar a ultrapassar mais uma tempestade? Quanto mais pensava, mais achava esta história maluca. Estava a dar em doido. Passou pelo sono e, quando despertou, avistou lá no horizonte o seu destino - Póvoa de Varzim. Mas outra dúvida lhe surgiu: como iria explicar à família a sua ausência, durante tanto tempo? Se contasse as histórias por que passou, ninguém iria acreditar. Achariam que estava maluco. Estas aventuras com figuras mitológicas já ninguém acredita nelas, mas o facto é que isto aconteceu. Meditava em busca de uma explicação para dar à família. Pensou em começar por contar novamente todas as histórias do herói Cego do Maio e envolver toda a família neste clima de aventura, de coragem e de heroísmo e tal seria um ponto de partida para introduzir a sua história.

Esta seria uma das hipóteses, mas procurava outras.

Pensou, pensou… e decidiu que não podia deixar de partilhar com a sua família todas as aventuras que tinha vivido durante o longo tempo de ausência, embora soubesse que pensariam que estava a viver momentos de devaneio, êxtase ou até mesmo loucura. Chegado a terra, Noé caminhou pensativo em direcção à casa de seus pais. Hesitante, pôs a mão à porta e entrou. Por momentos, ninguém acreditava no que via. Era uma miragem ou uma realidade. Estava ali diante de todos o filho que há muito tempo se esperava que voltasse. Houve abraços e muita, muita emoção naquele reencontro.


Noé chegara ao aconchego da sua pobre casa onde fora recebido por todos com amor e carinho. Queriam saber o que lhe acontecera, mas Noé estava demasiado exausto, por isso, quis restabelecer forças, para, ao fim de alguns dias, contar todas as peripécias que vivera longe dos seus entes queridos e da sua terra, Póvoa de Varzim.

Mais tarde, Noé reuniu a família e narrou ao pormenor as suas aventuras deixando que todos, mesmo incrédulos, se envolvessem naquelas histórias de deuses e seres marinhos estranhos com quem ele tinha convivido. Embora fascinados com a narração daquelas histórias fantásticas, a família quis saber a razão pela qual Noé tinha partido. - Diz-nos, Noé, qual foi o motivo da tua partida? – inquiriu a mãe. - Tal como qualquer pescador, sou corajoso e tenho espírito aventureiro, por isso, desejei partir à descoberta de novos mundos. Vivi momentos muito difíceis, pensei mesmo que nunca mais voltaria a ver-vos, mas as saudades eram muitas e, como um autêntico homem do mar, enfrentei sem temor os perigos, pedindo sempre proteção divina. Hoje, estou feliz por estar convosco, no entanto, em breve voltarei ao mar, não como pescador mas como um descobridor do mundo, seguindo o lema do historiador Flávio Gonçalves, - “não quero ser vulgar, não hei-de ser vulgar” – disse Noé. Aquelas palavras inquietaram a sua família, contudo nada podia impedir que ele partisse de novo, pois era jovem, aventureiro, destemido, forte como os seus antepassados. Noé queria descobrir novos mundos, novas culturas, mas sobretudo conquistar uma nova vida alémmar.


Passados alguns meses, Noé anunciou à família e aos amigos que estava prestes a chegar o momento de partir para uma nova aventura. Um dia, passeando pelo areal da Póvoa de Varzim, Noé, deixando que os seus pensamentos se encontrassem para além dos passos abandonados na areia, aproximou-se do Cego do Maio e olhou com ele o mesmo horizonte. - Ajuda-me! – disse Noé.

- Dá-me a tua bravura e a coragem de partir com a certeza! Quero ser como tu e agarrar o tempo com a força dos sonhos sem olhar para trás. - Sabes, amanhã partirei. - Depois conto-te o que daí não consegues ver. Mas, eu sei que vou regressar um dia com todas as respostas às perguntas que hoje povoam os meus pensamentos.

- Deixa-te ficar à minha espera. Prometo que não vou desiludir-te e que continuarei o caminho do teu silêncio, do nosso silêncio. - E eu preciso que me esperes para que volte. Entardecia e, à medida que o sol se despedia no mar, Noé ficava cada vez mais preparado para deixar a terra das gaivotas e do vento Norte que lhe desenhava no rosto os cabelos ondulados entre o olhar. Sentia o cheiro da saudade no aconchego da família e o calor do areal da sua infância na planta dos pés.


Mas tinha chegado a hora. A hora de ir embora e encontrar as respostas do outro lado do horizonte. E a opinião dos outros não era suficientemente forte para o fazer ficar ali, diante do mar, sem mais nada à sua frente a não ser as dúvidas trazidas pelas ondas e devolvidas em persistente espuma… até serem de novo ondas, ou de novo dúvidas, à espera. A noite foi longa.

Noé levantou-se com a pressa de chegar. E deixou a porta fechada atrás das costas. Agora faltava a resposta da primeira dúvida. Chegar onde? Onde fica esse lugar para lá do horizonte? E assim começou a sua viagem. Viajou e viajou muito… muito tempo… dias e noites, noites e dias, até que, já exausto pelo cansaço, parou numa cidade cheia de luzes e carros e pessoas diferentes das pessoas que conhecia. Pessoas que nunca tinha imaginado existirem, porque eram todas diferentes ou todas iguais, tão diferentes ou tão iguais que teve a certeza de ter encontrado a primeira resposta à sua dúvida. - Estou num mundo novo, sim! E para lá da linha do horizonte! Aqui há pessoas de todos os mundos, porque, afinal, o mundo pode ser só um, se nós quisermos! - E a verdade é que os tesouros, que eu queria encontrar, existem dentro de cada pessoa. Os tesouros maiores não são os que estão na natureza que olho, estão em cada olhar que ninguém olha!


Ah! Mas conquistar o espaço é um desafio tentador!

Se soubesses, Cego do Maio, por onde ando a navegar… Talvez conheças esta água deste mar azul! É parecido com o que vês, mas não há ninguém a pescar. Não há perigos que se vejam, nem ninguém para socorrer. Se calhar não tem peixe dentro dele… quem sabe? Talvez seja apenas outro mar. Foi longa e dura a viagem pelo mar.

O navio oscilava com a força das ondas. Ora para um lado, ora para o outro. O capitão tinha simpatizado com o jovem, com o olhar lavado e direto, com as mãos fortes e seguras no destino que procurava. Por isso mesmo e, talvez com uma certa intuição, tinha-lhe dado o lugar no barco. Teria de trabalhar, lavar o chão do convés, ajudar o cozinheiro nas tarefas da cozinha.

A tudo se tinha sujeitado o Noé, com o sonho no coração e na cabeça. No navio, falou com homens fortes, altos, de cabelo cor do fogo e olhos claros como por vezes a água do mar da sua Póvoa, falou com tripulantes que já tinham dado a volta ao mundo naquele barco. Mas, à noite, Noé debruçava-se e olhava o reflexo prateado do luar nas águas mais calmas e sentia que estava a seguir também o seu rumo. E, num amanhecer rosado, ouviu alguém gritar: - Terra à vista!


Finalmente, pensou Noé, chegámos. E no porto, o barco descansou. Mas, foi preciso fazer ainda muitas tarefas: limpar, fazer brilhar as panelas e descarregar caixotes e caixotes. Até que o capitão, com um ar mais amigável, chamou: - Noé! Estamos no Recife, em terras do Brasil. Podes procurar o teu caminho. Tens aqui uma carta para um comerciante meu amigo. Procura-o! Ele dar-te-á trabalho. Podes confiar nele, Noé! É também um poveiro como tu e ajudar-te-á. Vai com Deus, rapaz! Noé agradeceu, desceu a escada e partiu. Sentiu a terra quente, um ar quase irrespirável, depois do vento e da frescura do mar. Não podia voltar para trás. A estrada era aquela! Passavam por ele mulheres de ancas largas e bamboleantes, de riso branco e aberto no rosto escuro, inspiravam-lhe confiança e uma certa sensação de conforto. Mas não podia ceder ao desejo de parar, de se encostar ao corpo de uma dessas mulheres ou de pousar a cabeça cansada aquele peito que se oferecia ao seu olhar.

Não, tinha de ser forte e continuar… E viu-se então em frente a um conjunto de casas, encostadas umas às outras. Eram casas baixas, casas térreas como as da sua terra natal, mas pintadas de cores vivas. Olhou à procura do nome que o Capitão lhe tinha dado, - “ Sá Vieira – tudo para construção” e, de repente, lá estava a tabuleta, com as letras bem gordas. Noé entrou. Era uma loja onde havia de tudo – sacos de cimento, azulejos de todas as cores, caixas com pregos, baldes de cal, pincéis e muitas coisas que Noé nem conhecia. - Posso falar com o senhor Vieira? – perguntou Noé a um rapaz por trás do balcão.


- Pai, está aqui um moço que quer falar com o senhor! - Já vou! - respondeu uma voz alta do fundo da loja. - Então que é, meu amigo? - Tenho aqui uma carta do Senhor Capitão para o senhor. - Ah! Deixa ver. Depois de ler a carta atentamente, o homem alto, de ombros largos e rosto tostado pelo sol, disse a Noé: - Com que então vens da Póvoa de Varzim, abanar a árvore das patacas? Olha que isto não é para brincar. É preciso muito trabalho, de sol a sol. Se estiveres disposto a isso, podes ficar cá em casa. Trabalhas ao lado do meu filho. Só quero homens a sério aqui comigo. E assim foi. Noé deu-se bem com o Júlio, filho do patrão. Trabalhavam com gosto. Faziam tudo como o senhor Vieira mandava e até sempre um pouco mais. Os dias, os meses, os anos foram passando.

O Recife começava a crescer. As casas já não eram todas baixinhas, encostadas umas às outras. A cidade desenvolvia-se. Havia trabalho para toda a gente. De Manaus chegavam madeiras nobres. Dos arredores, vinham frutos exóticos de todas as qualidades. Abriram-se ruas mais largas. As casas tinham varandas de ferro e as paredes de azulejos. Apareceram muitas lojas de tecidos, de sedas e de algodão. E surgiram escolas para que mais crianças e jovens pudessem aprender.


O senhor Sá Vieira estava contente. O negócio da construção desenvolvia-se e a cidade enriquecia.O filho, o Júlio, mostrava-se um perfeito negociante e o Noé era um belíssimo trabalhador. Noé não tinha tempo para sonhar, mas percebia perfeitamente que a sua vida se transformara. O senhor Vieira tinha sido um segundo pai para ele.

Mais anos passaram. Noé trabalhava com entusiasmo. Nas noites quentes do Recife, ia até ao porto e olhava os navios e o mar. Era o mesmo mar que banhava a sua terra distante. Sentia um ligeiro aperto no coração e lembrava -sedo Cego do Maio e mentalmente falava-lhe: - Sabes, consegui! Consegui com o meu esforço e o meu entusiasmo. E hoje, a minha vida está totalmente diferente do jovem que daí partiu há vinte e cinco anos.

Passaram 25 anos desde que Noé chegou à cidade. O negócio prosperava, graças à gestão de Sá Vieira e seu filho Júlio, bem como ao trabalho incansável de Noé. O tempo passou por todos, mas foi deveras impiedoso com Sá Vieira pois nos últimos meses perdera as suas forças devido ao cancro que o consumia. Certo dia ao jantar, Sá Vieira, estando presentes Noé e Júlio, decidiu que chegara a hora de lhes dar as últimas ordens. -Júlio, meu filho!

-Sim, meu pai… - Quero que tomes as rédeas deste negócio.


-Porquê?- perguntam Júlio e Noé.

- Vós sabeis que o cancro tem dado cabo de mim nestes últimos meses. Tenho lutado, mas agora não consigo lutar mais, sei que a minha morte está próxima. - Não diga isso!- exclamaram Noé e Júlio em coro. - Mas é verdade e eu quero morrer em paz. Júlio, preciso que me prometas que te dedicarás ao negócio e promete-me também que apoiarás Noé em qualquer decisão, pois ele merece, ao fim destes anos de serviço dedicado. - Sim, prometo. - Agora, Meu Deus, leva-me que eu morro em paz. Nesse mesmo momento Sá Vieira repousou o rosto velho e cansado em cima da mesa, onde fizera a sua última refeição. Esboçava um sorriso e segurava ainda um copo de vinho, como se de uma festa se tratasse. Agora finalmente podia descansar, feliz e realizado, após uma vida de trabalho duro. No dia seguinte acontecera o funeral de Sá Vieira. A cidade toda veio prestar-lhe homenagem. Nesse dia o céu estava forrado a cinza e ora chorava, ora apregoava, quase parecia que andava à flor dos sentimentos de Noé. Invadiam-no, simultaneamente, raiva e tristeza. Sentia-se exasperado, com vontade de gritar, de abandonar; porém, estava inconsolável, sem forças.

Assim, passou o dia, em sofrimento e agitação. Chegou a casa exausto, de tal forma que nem jantou. Deitou-se no sofá e ali adormeceu. Durante a noite Noé teve um sonho: estava na ilha de Afrodite e esta disse-lhe:


- Viste como o tempo passa? Morreu agora o teu segundo pai, mas que é feito do primeiro? Ah! Pois é, já não o vês… Há 25 anos? - Tens razão… Não sei quanto tempo me resta, mas sei que quero viver o resto dos meus dias na Póvoa de Varzim e desejo lá morrer, em frente ao mar. Anseio rever os meus pais, abraçar meus irmãos, observar novamente a imponência da estátua do Cego do Maio e pisar a suave e fantástica areia da praia poveira. Vou partir, já amanhã, se o Júlio estiver de acordo. Obrigado por me abrires os olhos, Afrodite. No dia seguinte, Noé teria de falar com Júlio e aproveitou o pequeno almoço para conversar com ele. - Júlio, tenho um assunto para te falar. Esta noite apercebi-me de que não sei nada da minha família… - prosseguia Noé com sofreguidão. - É normal, já não a vês há 25 anos! – exclamou Júlio. - Pois bem, quero mudar isso, não sei quanto tempo me resta; por isso, quero passar o resto dos meus dias junto dos meus. – acrescentou Noé, revelando o homem maduro em que se tornara. - Muito bem. Se assim é a tua vontade, poderás partir já hoje. - anuiu Júlio. - E não te preocupes com o negócio. Contratarei outra pessoa para o teu lugar. Júlio tivera um bom mestre e aprendera a enfrentar as dificuldades, não como problemas, mas como desafios.

- Só te peço mais uma coisa. – apelava Noé ao seu bom amigo e irmão de vida. Noé sentira que ali ficaria, para todo o sempre, parte de si e, como tal, ganhou forças e disse:


- Se me vais deixar, leva-me no peito. Fica com esta pedra que tenho da minha terra, a Póvoa. Coloquei -a neste cordel. Quando precisares de mim, sentir-me-ás perto, onde quer que estejamos. - Obrigado por tudo, meu irmão. Desejo-te o melhor! Prometi ao meu pai que te apoiaria. Assim o fiz e assim o farei. Além do mais, farias o mesmo por mim, amigo. – suspirava Júlio, emocionado.

- Adeus. – despediram-se. Noé pôs-se a caminho e só parou no porto mais próximo.

Também esta viagem fora, de novo, longa, mas já não tão exaustiva. Fez ouvidos de mercador ao cansaço, à dor, a tudo. Ali ficaria também a sua casa, o cheiro do seu mar. O vento refrescava e contrastava com o sol que amenizava o efeito do vento, tornando o ambiente imensamente apaziguador e pacífico.

As casas perto deste porto eram semelhantes às da cidade em que vivera, outrora, também elas térreas e coloridas. As cores variavam entre tons de azul e vermelho. Ali habitavam pescadores, marinheiros e outras pessoas do mar. Essa pequena vila revelava, como ele próprio, dois lados: o pobre, que se situava muito perto do mar, e o abastado, mais no interior. Num viviam pescadores e alguns marinheiros ainda aspirantes ao outro lado, espaço este sem grandes floreados decorativos ou arquitetónicos; porém coloridos de vida, esperança e alegria. O governador da cidade habitava do outro lado, num palácio opulento, com uma fachada lindíssima, e rodeado por um frondoso jardim. Havia mais palácios pertencentes a membros da burguesia. Nessa zona concentravam-se igualmente as lojas de comércio. Noé queria informar-se da partida do primeiro navio para Portugal e, com esse propósito, deslocouse a uma taberna.


A taberna tinha um ar grosseiramente rústico, as mesas e os bancos eram grosseiros, sem mestria…, tal como os homens que por lá andavam. Noé sentou-se ao balcão e pediu ao empregado uma bebida. - Com certeza. Já vou trazer o seu pedido. – respondeu o empregado, fitando Noé, com ar observador. O empregado pousou o copo e Noé bebeu-o sofregamente num só gole.

- Nunca o tinha visto por estas bandas. - disse o empregado, procurando a conversa habitual de taberneiro. - É normal, a única vez que aqui estive… foi há 25 anos. – confessou Noé. - Bem… e o que procura agora aqui? – prosseguiu o homem. - Procuro um navio para Portugal, para o norte, para a Póvoa de Varzim ou… arredores. - Vai zarpar um navio, daqui a uma hora e pouco. – informou. -Quem é o capitão? Sabe? Conhece? – inquiriu Noé já entusiasmado. - É o Rolls. Está naquela mesa, ali ao fundo! – respondeu, não revelando o seu desdém pelo dito sujeito.

- Muito obrigado, Senhor. – concluiu Noé. Noé colocou as moedas no balcão, deslocou-se à mesa onde estava Rolls e investiu no seu propósito:


- Boa noite, cavalheiro. Sei que a sua embarcação parte para Portugal ainda hoje. Posso embarcar consigo? – quis saber, respeitosamente, Noé. - Claro, desde que prometa trabalhar duro e fazer o que eu mandar, sem questionar. – disse perentoriamente o capitão, em tom desafiador.

- Sim, assim farei, desde que me leve à minha terra. – respondeu serenamente Noé. - Então está combinado. Acompanhe-me! – gritou o Capitão, projetando o banco de madeira tosca sobre um dos clientes. Sem avizinhar o que lhe estava reservado, Noé embarcou, apenas com uma pequena mala de vime, onde transportava algumas roupas e uns pães, em caso de fome inesperada. Pagara uma generosa quantia que lhe garantia viagem, alojamento digno e prato modesto, afiançara-lhe o barbudo capitão. Dias se passaram, a fome de facto chegara, graças àquele corrupto e desumano capitão. Toda a frota estava faminta. Eram homens sem lei que embarcaram, em busca de salvação e uma vida de esperança. No entanto, a fortuna dera-lhes novo cárcere, aprisionados para sempre naquele navio sem pátria, sem lei e sem rei.

Amanhecia, o sol espalhava todo o seu corpo no horizonte, e eis que, sobre a cabeça de Noé, planavam e grasnavam euforicamente, famintas gaivotas.

- Comida! Comida à vista! – Gritou um dos tripulantes a plenos pulmões, revelando uma voz esganiçada e embriagada.


Num piscar de olhos, o ambiente calmo e pacífico que reinara, enquanto os homens dormiam a sono solto, afundou-se nas profundezas de um mar de agressividade, insanidade, prendendo-se a uma poderosa e selvagem âncora de obcessão e embriaguez provocadas pela própria sede, pela própria fome.

Noé sentia-se fraco e exausto, porém, não iria permitir que aquele bando de homens desumanos e enlouquecidos matassem as pobres gaivotas inocentes, que tanto lhe faziam lembrar as gaivotas da sua Póvoa de Varzim... As gaivotas da sua infância e juventude, pintadas de um branco puro, cor da espuma embalada pelas marés que levava e trazia, no seu vaivém ondulante, segredos e fantasias longínquos, e memórias salgadas, tesouros ocultos nas suas conchas puras... As gaivotas que povoavam as suas doces recordações, que gostavam de pousar na imponente estátua do Cego do Maio sempre que o sol forrava o céu com os seus tons doirados... Inesperadamente, Noé sentiu a doçura das patinhas leves de uma das aves poisar graciosamente no seu ombro, emanando uma brisa suave para o seu rosto. Para sua grande surpresa, a gaivota trazia consigo um papel estranhamente brilhante, atado às suas patas por um cordel cor de prata que terminava num laço perfeito. Noé depressa descobiu tratar-se de uma mensagem de Afrodite devido ao pormenor e à perfeição das letras pequenas, minuciosamente trabalhadas, pintadas de um ouro mágico que desperta um mundo vivo e infinito e por detrás de cada significado banal, aprisionado no espaço limitado da reduzida dimensão da palavra. Apressou-se então a ler a carta: “Querido Noé:


Se leres esta mensagem é sinal de que estás a passar por uma situação difícil. Sê corajoso como sempre foste, pois a coragem é uma virtude que nunca abandonará homens como tu (destemidos, determinados, audazes, aventureiros e apaixonados...). Como tua leal amiga, dou-te o seguinte conselho: procura escutar melhor o teu coração, nele encontrarás as respostas para as tuas questões vazias. Assim, conseguirás sempre tomar decisões acertadas. Avizinham-se tempos de dúvida, de incertezas. Tempos em busca de respostas para a tua vida passada, o teu destino, o teu desejo mais profundo. Momentos à procura do teu “eu” na imensidão do oceano, entre um nada minucioso e um todo imperfeito que preenche o vento do Norte, em busca do teu mar... (Sei disso devido aos meus poderes fantásticos de deusa que prevêem o futuro). Finalmente, para dar um fim a esta carta, deixo-te aqui uma pequena pista: faz florescer por entre os teus pães a semente de um novo rumo. Nunca te esqueças disso.

Saudades, Afrodite. ”

Noé refletiu por uns segundos sobre a carta que acabara de ler e decidiu pôr mãos à obra e enfrentar a traiçoeira realidade. Assim, escapou sorrateiramente à azáfama e ao caos da multidão revoltada que se preparava agora para caçar o almoço, pelo que se dirigiu rapidamente à sua pequena mala de vime e tratou de ir buscar os pães que lá guardara. E, qual não foi o seu espanto, quando, da misteriosa mala, tão pequena e banal, começaram a sair inúmeros, infinitos pães, como se da mala mágica de um Deus se tratasse!


“Só podia ser um milagre, ou, então, fora obra de Deuses com as suas artes mágicas!” – meditava silenciosamente Noé. De seguida, Noé distribuiu os pães por toda a tripulação, saciando a sua fome por completo e acalmando a ferocidade do ambiente pesaroso que se arrastara pelo barco. Ele aproveitou então para dar uma palavrinha humilde aos seus companheiros de bordo: - Meus companheiros de viagem, todos temos, certamente, o mesmo objetivo: chegar a bom porto. Não importa quantas voltas a nossa vida dará antes disso. Mas tal apenas será possível se nos unirmos e houver espírito de entreajuda, deixando de parte todas as rivalidades e conflitos. Esta é a única forma de nos salvarmos, se realmente queremos ser alguém na vida e morrer com um sorriso no rosto, felizes e realizados. – Noé prosseguiu com seu discurso inspirador - Quem está comigo? Escusado seria dizer que todos os homens do navio concordaram, entregando-se sem pensar duas vezes ao coração gentil e humilde de Noé e que, nos dias que se seguiram, reinou entre os viajantes a união, a boa disposição e a amizade, e nunca mais houve fome. Certo dia, ao amanhecer, quando o céu levantou a cortina transparente dos seus olhos negros e a luz do dia acendeu a vida dos marinheiros de novo, Noé avistou terra firme. Foi imediatamente invadido pelo aroma fresco da maresia familiar de sua terra, que lhe encheu o coração de saudades e fortes memórias de sua casa. Todos estes sentimentos fizeram-no sentir-se bem-vindo ao lar, deliciando a vitória de uma viagem extremamente longa e difícil. Mas ele conseguira.


Queria finalmente abraçar a sua família, contar-lhe a sua vida no Recife do Brasil e falar-lhe de Júlio e do senhor Sá Vieira, que foram como uma segunda família para ele. Queria passar os restos dos dias na companhia acolhedora dos seus pais e seus irmãos, desejava morrer em frente ao seu areal, à imponente estátua do “Cego do Maio”, ao seu mar pintado de um azul esverdeado que embalava os seus sonhos, adoçicava as suas memórias e dava vida às suas aventuras passadas... E assim o fez. Agora, mais do que nunca, Noé arrancara as certezas da vida e estava certo de que a passara à procura do seu destino, do seu lar, em busca de aventuras do outro lado do horizonte que lhe permitissem saber quem era; o que o levava novamente até outra questão: O que procurava exatamente, no final de contas? Porém, sabia que o seu destino não foi nem na ilha de Afrodite, nem no Recife do Brasil, mas sim junto das pessoas que mais amava, estivessem elas onde estivessem... E elas permaneceram sempre na Póvoa de Varzim, terra de pescadores humildes, doce terra da sua infância que o mergulhava nas mais importantes recordações... Vinte anos felizes se passaram, quando, certa manhã, Noé pediu a Deus e a Cego do Maio que o deixassem descansar em paz após uma vida completa e realizada, a vida que sempre ambicionara. E assim aconteceu. Perante os raios doirados do sol, um céu rosado pintado de amor e um mar calmo e sereno, a vida abandona o corpo de Noé naquela praia deserta, enquanto que a sua alma parte em busca de novas terras e aventuras num outro mundo.


Índice Introdução - Dr.º Luís Diamantino ……........................................................................………….........………..…… 3 Escola Básica de Aver-o-Mar: Texto— Inês Silva, Maria Luís Ponte, Sofia Amorim do 7ºA Ilustrações—Betriz Fontes e Ana Ramos do 7.ºA ..................………………...…………………...............................… 4 Escola Básica Campo Aberto, Beiriz: Texto e ilustrações —Beatriz Vilar, Daniela Maio e Cecília Amorim do 8º C .........................................……… 9 Escola Secundária Eça de Queirós: Texto—Pedro Vilarinho e Luís Maia do 7ºB Ilustrações—Catarina Miranda ..................................................................................................................... 16 Escola Básica Cego do Maio: Texto - Susana Ramos do 8.ºA Ilustrações - Emanuela Neves do 9.ºB ……………....……………………….........………………………..…………….........….. 19 Escola Básica Dr. Flávio Gonçalves: Texto—Luís Henrique Stingl com a colaboração do 8.º C Ilustrações—Lurdes Marques do 7.º H, Luís Henrique Stingl do 8.º C, Eduarda Pontes do 8.ºF ................. 24 Escola Básica de Rates: Texto—Rui Ramos do 8º A, Tomás Costa e João Furtado do 8ºB,Ana Isabel Furtado, Ana Luísa Martins, Nádia Ferreira, Sofia Campos e Soraia Baptista do 9º D Ilustrações—Sofia Campos e Nádia Ferreira do 9ºD ………...………………….............................……….........……. 36 Escola Secundária Rocha Peixoto: Texto—Mariana Pereira do 7.º C Ilustrações —Mafalda Leal do 8.º C ............................................................................................................... 43

Nota: As expressões a negrito sinalizam a entrada de texto de cada escola.

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