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A Várias Mãos … Projeto Concelhio de Escrita Colaborativa 2ºCiclo

Póvoa de Varzim 2015/16


Título: A Várias Mãos: Projeto Concelhio de Escrita Colaborativa – 2.º ciclo

Textos e ilustrações: Vereador da Educação e da Cultura, alunos e professores de todas as escolas básicas do

concelho da Póvoa de Varzim Coordenação:

Professores Bibliotecários do concelho da Póvoa de Varzim Revisão: Professores Bibliotecários do concelho da Póvoa de Varzim

Edição: Ana Simão e Anabela Torre


Amanhecia, o sol espalhava os seus braços sobre as casas, fazendo com que as telhas, acabadas de acordar, ganhassem um brilho incandescente, quase irreal. As gaivotas desenhavam acrobacias levadas pela suave brisa vinda do norte. Noé, com os seus dezoito anos de sonhos e de esperanças, inspirava todo o mar naquela maresia que lhe enchia os pulmões e lhe purificava as ideias. O que haveria para além da linha inatingível do horizonte? Que outras pessoas, que outros mundos, que outros tesouros poderia lá encontrar? Sentia nos pés descalços a areia húmida, rangendo a cada passo. Não sabia o que fazer. Sabia que não poderia continuar à espera que as coisas acontecessem, tinha que procurar o futuro, sem medo, sem interrogações vazias, sem arrependimentos.

Toda a vida tinha vivido naquele areal, mas agora tudo lhe parecia pouco, precisava ir mais longe, decerto todos iriam compreender a sua decisão. Queria conquistar espaço, queria descobrir outros caminhos, outras terras, outras paisagens, outros cheiros. Queria ouvir outros silêncios para além do que lhe fazia chegar o mar. Estava decidido, iria enfrentar o mundo, ele que nunca virou a cara a qualquer desafio, ele que trabalhara em tudo o que lhe aparecia, desde que os seus sete irmãos e os seus pais precisaram desse apoio. Trabalhava nas férias, trabalhava depois das aulas e sempre obteve boas notas na escola. Perdido nos seus pensamentos, olhou para trás e reparou que apenas os seus pés marcavam a areia limpa e inexplorada daquela manhã que já ia alta. Em terra, avistou o vulto do Cego do Maio que, com a mão servindo de pala, vigiava o colorido dos barcos que, na faina da pesca, manchavam o azul do mar.


Tomou uma decisão. Naquela manhã, daria início ao seu sonho. Então, Noé, cheio de curiosidade, embarcou no seu barco rumo à linha do horizonte. As horas foram passando e apercebeu-se que nunca mais lá chegava e que o sol lançava raios cada vez mais escaldantes. Noé começou a interrogar-se se a linha do horizonte teria fim. Quando olhava para trás, a terra ia desaparecendo aos poucos… Noé estava a ficar desanimado, pois não avistava nada há horas. De repente, como uma mancha perdida no oceano, começou a ver o que lhe parecia ser terra. Tinha chegado a uma das ilhas dos Açores. Apesar de tirar boas notas, não sabia que aquela ilha pertencia ao arquipélago dos Açores. Por isso, pensou que era uma ilha nova, recheada de tesouros escondidos, como ouro, prata e até diamantes. Quando desembarcou, Noé reparou que as pessoas tinham hábitos e pronúncia diferentes dos da Póvoa de Varzim. Por isso, achava que estava noutro país. Essa conclusão deixou-o com algumas saudades da família. Tentou esquecer-se disso e focar-se apenas em procurar os tesouros, pois a sua família era numerosa e um pouco pobre. Noé andou dias e dias à procura de minas de ouro, prata e diamantes.

Depois de muito caminhar sentou-se numa rocha, junto a um riacho, e reparou que, de uma gruta, saía uma luz forte e brilhante.


Noé, cheio de curiosidade, decidiu entrar. Quanto mais perto chegava da luz, mais intensa era esta. Quando alcançou o final da gruta, ficou pasmado com o que viu: milhares de diamantes coloridos e reluzentes e enormes pepitas de ouro e prata. Ao ver aquilo tudo, ficou perplexo e pensou para si mesmo que quando voltasse para casa poderia, finalmente, ajudar a sua família.

Porém, enquanto estava a retirar toda aquela riqueza, sentiu um barulho estranho: era a gruta a desmoronar-se. Subitamente, como por magia, uma rapariga alta, magra, com olhos azuis, um nariz redondo e uma boca bem desenhada, apareceu. Ela pegou na mão de Noé e levou-o para fora da gruta por um atalho. Quando saíram, ele, ainda atordoado, perguntou o nome à rapariga que o salvara. - Como é que te chamas? – perguntou.

- Eu chamo-me Raquel! E tu? – respondeu–lhe ela, gentilmente. - Noé. Onde é que eu estou? - Ai, ai! Já vi que estás perdido. Enfim, estás numa ilha dos Açores! Sem mais demoras, Raquel foi guiando Noé por entre os bosques. Por aí, ele viu inúmeros monumentos e locais famosos: a Vigia das Baleias, o Convento de Nossa Senhora da Esperança, a Lagoa do Fogo, a Lagoa das Setes Cidades, a Caldeira Velha... De repente, um som ensurdecedor atinge os seus ouvidos, o seu corpo estremece e … Noé acorda!


O barco em que viajava havia embatido numa enorme rocha, e ele, estremunhado e desorientado, percebe que tudo não passara de um sonho! Fica desanimado por dois motivos: em primeiro lugar, porque ainda estava à deriva no mar e, em segundo lugar, porque o seu barco ficou danificado com uma pequena fenda e só por sorte é que não entrava água lá para dentro. Viu-se, então, obrigado a continuar a viagem mesmo sabendo que se houvesse uma tempestade correria perigo de vida. E aquilo que Noé mais temia, aconteceu… Nessa noite, o mar começou a agitar-se furioso, surgiram ondas gigantes que pareciam engolir tudo o que lhes tocasse. O vento, normalmente amistoso, começou a soprar mais e mais. A chuva caía fortemente, sem piedade dos peixes ou do homem, e relâmpagos e trovões furiosos de luz e barulho não faltaram ao encontro. O barco começou a afundar-se. A fenda, outrora pequena, estava cada vez maior. Noé tentou pedir socorro, mas ninguém o ouvia, pois estava isolado no meio do oceano. Então, quase a desaparecer em direção ao fundo do mar, Noé lembra-se que, no convés do barco, havia uma caixa de primeiros socorros com cordas, uma âncora, uma bússola, duas garrafas de ar comprimido, um par de barbatanas e um colete salva vidas. Muito apressado, procura a caixa até que a encontra. Rapidamente, calça as barbatanas, coloca a botija de oxigénio às costas e mergulha para umlocal mais seguro do que a sua casca de noz. Uma vez no fundo do mar, Noé avista um enorme navio afundado coberto de verdete e algas, mas onde ainda se notavam as gigantes letras que diziam “Nau Poveirinha 1896”.


Noé, ao ver aquilo, ficou muito curioso e, sem pensar, decidiu entrar. Lá dentro, viu várias espécies de peixes agrupados em cardumes. Depois de explorar o seu interior encontrou, meio enterrado na areia, um baú todo enferrujado, bem fechado com um cadeado. Tentou abri-lo, mas não conseguiu. Então, olhou em redor, à procura de uma pedra pontiaguda para o tentar arrombar. Quase a acabar o oxigénio da botija, Noé consegue encontrar uma pequena ponta de coral para abrir o baú. Qual não é o seu espanto quando descobre lá dentro algumas moedas de ouro e um mapa onde, assinalado a vermelho, podia ver... desenhado um X por cima de um barrete tricolor. Rapidamente, pega no mapa, enrola-o, e aproveitando até ao último minuto o ar comprimido que restava, volta à superfície, onde se apercebe que a tormenta passara e o sol já fazia dançar os seus raios sobre o mar calmo.

Com mil pensamentos na cabeça, Noé desembaraça-se da garrafa de ar comprimido, e repara ao longe, numa mancha verde que parece ser uma ilha. Curioso e cheio de esperança, nada nessa direção, sempre sem largar o mapa. À medida que se aproxima, constata que não se enganou: é mesmo uma ilha. A muito custo e quase sem forças, pois é muito difícil nadar só com um braço, consegue alcançá-la, arrastando-se até cair sobre o areal. Já muito fraco, desmaia perto da dança das ondas… Quando acorda, Noé vê que se encontra no exterior de uma pequena cabana e, espantado, repara numa bela rapariga atarefada a preparar comida. O aroma agradável que chega até ele leva-o a recordar as refeições deliciosas da sua mãe. Ao tentar levantar-se, Noé sente uma tontura e cai. Apercebendo-se do que aconteceu, a rapariga aproxima-se dele e dá-lhe uma bebida saborosa e revigorante. Noé começa a sentir-se melhor, mas ainda confuso e cansado, pensa estar a ver a rapariga que dias antes lhe aparecera nos seus sonhos. Abre os olhos e balbucia:


– És tu, Raquel? A jovem, incrédula, pergunta-lhe como é que ele sabe o seu nome. Então Noé conta que ela lhe tinha aparecido num sonho, enquanto viajava no seu barco. No momento em que fala do barco, vemlhe ao pensamento o baú que tinha encontrado e o mapa, e pergunta-lhe por ele, aflitíssimo.

– Tem calma, quando te encontrei, desmaiado na areia, não o largavas, por isso guardei-o num local seguro. Descansa, enquanto eu o vou buscar. Já mais sereno, Noé estende o mapa que ela lhe traz. Era feito de um material que não conseguiram identificar, mas sem perderem tempo com isso, os dois começam a estudá-lo. Raquel, encantada, afirma que conhece o local onde está marcado o X: numa gruta a que chamavam “Gruta dos Milagres”. Muito feliz, Noé tenta levantar-se mas ainda não tem forças suficientes para o fazer. Então, a rapariga aconselha-o a descansar durante essa noite para de manhã, bem cedo, partirem em busca do misterioso X. Na manhã seguinte, depois de um pequeno almoço de frutos deliciosos e de um belo banho, prepararam umas mochilas, e de mapa na mão, seguiram rumo à aventura. Caminharam por vales, montanhas e densas florestas da paradisíaca ilha que, podia não parecer, era bastante grande, até finalmente avistarem a “Gruta dos Milagres”. A entrada desta estava obstruída com grandes ramos e pedras. Contudo, eles não desanimaram e, com firmeza, abriram uma passagem para o seu interior. Entraram na gruta e observaram, ao fundo, uma luz pequena mas muito brilhante. Correram até lá, curiosos, e constataram que era a luz do sol que passava por uma pequena frincha do teto e incidia sobre uma pedra redonda que parecia ter algo por baixo.


Noé desviou a pedra com a ajuda de Raquel e, coberto de pó e fragmentos de rocha, viram que debaixo da pedra se encontrava um barrete tricolor. Noé pegou nele e sacudiu-o, fazendo cair uma chave comprida onde estava gravada com letras pequenas a frase: “Descobre o teu sonho”. Então, Noé confuso, mas feliz, declara a Raquel:

– O meu grande sonho é ser como o Cego do Maio. Raquel, pondo-lhe a mão no ombro, murmura numa voz doce: “Tens apenas de seguir o teu sonho e irás encontrar aquilo que tanto procuras.” Noé lembra-se imediatamente do busto do Cego do Maio que tinha visto antes de embarcar nesta aventura, e apercebe-se de que é para lá que tem de voltar. Após ter descansado e refletido algum tempo, Noé decidiu construir um pequeno barco com a ajuda da rapariga. Depois de árduo trabalho, conseguem terminar o barco e logo de seguida partem em viagem. Dias, semanas passaram até chegar a terra firme. Os dois muito contentes, mas cansados decidem descobrir onde estavam e como poderiam chegar à terra do grande herói.

Concluíram que estavam no Porto de Leixões a uns mero trinta quilómetros da Póvoa de Varzim para onde se dirigiram. Quando finalmente chegam à estátua, não têm a certeza do que fazer, mas ao pousar os olhos no busto majestoso do grande herói, com o barrete na cabeça e a mão a servir de pala, Noé tem uma ideia que comunica a Raquel:


– Acho que tem alguma coisa a ver com o barrete e a chave, pois o barrete está assinalado no mapa.

– Talvez seja isso, Noé – afirmou Raquel. Noé lembra-se de tentar tocar no barrete. Subitamente, como que por magia, no pedestal, aparece uma porta com uma pequena fechadura. Claro que decidem logo experimentar a chave que tinham encontrado na gruta e, para alegria de ambos, a porta abre-se sem dificuldade nenhuma. Entram numa espécie de túnel escuro e, de repente, uma luz acende-se.

Perante tal magia, Noé continuava a deslumbrar-se com todas as vitórias e aventuras que o bondoso Cego do Maio conquistou, com o seu grande coração, salvando vidas e dando esperança a quem já a tinha perdido. Parado como por magia, parecia estático, o que despertou a atenção da sua amiga Raquel. Raquel perguntou-lhe, com grande curiosidade, o que tinha feito de tão importante o senhor que estava retratado naquele magnífico busto, mandado construir pelos poveiros. Noé encheu os seus olhos de brilho...a luz que refletia ao fundo do túnel fazia com que os seus olhos parecessem dois faróis. Entusiasmado começou a relatar a razão que levou o povo da Póvoa de Varzim a mandar construir a estátua do “Cego do Maio”.

As suas palavras saíam da sua boca como pérolas. Uma a uma formavam assim um tesouro de boas ações, de feitos heroicos, de uma pessoa que vivia num extremo da sua felicidade por ajudar o próximo.


Depois de ouvir em silêncio e com muita atenção, Raquel disse:

– Noé, penso que este é o nosso grande tesouro. É uma vida de atos bons e heroicos deste humilde senhor. Noé ficou muito atento ao comentário da Raquel. Juntos pensaram elaborar um plano, que tinha como objetivos passar a mensagem do Cego de Maio – “dar sem pensar em receber, transmitir esperança a quem já não a conhecia, ser feliz com a felicidade dos outros”– a todas as pessoas. Raquel sugeriu: – Porque não irmos pelos areais e contar esta história maravilhosa a toda a gente? Colocando toda a magia nela existente e cativando o coração de cada ouvinte, tentavam transmitir a mensagem. Mas como não tinham prática em contar histórias e conseguir que elas chegassem ao coração do ouvinte, ficaram com receio que o trabalho deles não tivesse o resultado que eles queriam.

Afinal de contas, um tesouro desta natureza tinha que ser tratado de forma especial. O dilema de Raquel e Noé era neste momento encontrar o contador de histórias certo.

Caminhavam os dois pelo areal e ao longe, viram um senhor com um ar muito altivo e ao mesmo tempo muito humilde, que inspirava confiança.


Este tesouro não era um tesouro de valores materiais, mas sim de sentimentos, valores que mexiam com as pessoas e que as podiam transformar para toda a vida em seres humanos mais amigos e compreensivos. Ele estava a recitar textos ao oceano. Raquel e Noé sentaram-se a ouvir e esqueceram-se do tempo a passar. Tudo o que saía da boca deste senhor parecia música e fazia todo o sentido. Olharam um para o outro e pensaram “Está aqui a pessoa que procuramos.” Abordaram-no com delicadeza e contaram a história do “Cego do Maio”, o tesouro de valores humanos existente nesta história. O contador de histórias ouviu e ficou de dar uma resposta, pois esta tarefa era de uma grande responsabilidade, e marcou um encontro. Os dias foram passando. – Será que ao depositarmos tanta responsabilidade no senhor o assustamos? – perguntou Raquel. Mas Noé achava que não e tinha esperança que ele aparecesse. Esta demora toda só provava que o senhor era responsável e tinha que pensar muito bem como iria lidar com tamanho tesouro.

Num radioso dia, quando caminhavam na praia onde marcaram o encontro, viram lá ao fundo do areal a figura enigmática do tal senhor que tanto ansiavam ver. Com entusiasmo cumprimentaram o senhor e com ansiedade pediram uma resposta… - Eu não sei se estou à altura do vosso desafio, mas vou tentar. Gosto do facto de vocês serem novos e terem tão boas intenções.


- Com esta trapalhada toda nem nos apresentamos – disse Noé, piscando o olho à amiga. – Eu sou o Noé e esta bela donzela que me acompanha é a Raquel. E o sr. como se chama? - O meu nome é Flávio Armando da Costa Gonçalves, mas podem tratar-me apenas por Flávio. Os dois jovens estavam entusiasmados. Tinham encontrado a pessoa ideal para contar a todos as histórias de Cego do Maio. Convenceram-no a escrever o que, até ao momento, só era contado ao mar. Já não era só a vida daquele poveiro ilustre, mas todas as histórias cheias de mistério que, até ao momento, só as ondas conheciam. Raquel e Noé ficariam responsáveis pela sua divulgação.

- Já sei! Porque não pedimos ajuda ao Presidente da Câmara? – sugeriu a Raquel. - Parece-me uma boa ideia! Mas será que conseguimos que nos receba? Tenho muitas dúvidas, se formos só nós a fazê-lo! Ou então teremos de ir acompanhados pelo sr. Flávio! Nesse caso, tenho a certeza de que nos iria receber e ouviria e atenderia o nosso pedido. – afirmou, com toda a segurança, o Noé. - Podíamos ir agora tentar falar com ele, sr. Flávio? – insistiu a Raquel. - Vamos lá então! Só pelo vosso entusiasmo, acho justo que nos desloquemos à Câmara, já de imediato. Vamos lá ver se temos sorte! – acedeu o sr. Flávio.


De imediato foram interpelados por um senhor funcionário a quem explicaram o propósito daquela visita. Foram então informados de que deveriam dirigir-se a um certo local para falarem com a secretária do sr. Presidente. — Lamento muito, o sr. Presidente da Câmara está em reunião e, a seguir, irá sair para uma outra reunião, no Porto, com autarcas de toda a região norte. Não poderá atendê-los! Terão de marcar e terá de ficar para outro dia! Apesar daquela simpatia, a Raquel ficou desanimada e aborrecida. — Tinha de nos “despachar”!!! – referiu, irritada. — E agora, o que fazemos? Já que aqui estamos, poderíamos tentar falar com o Vereador da Cultura? Afinal é de Cultura que se trata! De novo, tiveram de falar com outra senhora secretária que lhes pediu para aguardarem uns minutos, pois seriam recebidos. Depois de alguns minutos em que os três tentaram explicar a razão daquela visita, o Vereador da Cultura acabou por lhes dizer que a ideia de divulgarem os poemas era excelente, mas que a Câmara estava com algumas dificuldades financeiras, pelo que não poderia despender de verbas para tal divulgação.


— Porque não procuram envolver os meios de comunicação locais, a rádio e os jornais? – sugeriu o Vereador da Cultura - se conseguirem reunir alguns apoios de empresários e de comerciantes da terra, seria mais fácil, posteriormente, a Câmara disponibilizar alguma ajuda como o recinto do Garrett onde poderiam ser divulgados os poemas. Teríamos de analisar melhor todo este assunto em reunião de Câmara, mas penso que será sempre muito difícil. Para já não poderei ajudar. Lamento muito! – acrescentou o sr. Vereador. — Muito obrigado pela sua disponibilidade e atenção. Vamos seguir o seu conselho. Até à próxima – agradeceu, despedindo-se, o sr. Flávio. Todos saíram um pouco desanimados, achando que todos davam desculpas e mais desculpas para não ajudarem, mas procuraram pensar nas ideias sugeridas. Quando chegaram a casa, cada um falou com o máximo de pessoas possível e conseguiram assim uma verba pequena, mas ainda assim, suficiente para poderem passar às fases posteriores. Nos dias seguintes, o sr. Flávio chamou Noé e Raquel a sua casa e mostrou-lhes uma compilação de poemas. Eram pequenos, bonitos e fáceis de memorizar. Agora, era o tempo de os divulgar! — Vamos fotocopiá-los e mandar fazer panfletos. Depois, iremos distribuir por toda a gente. As pessoas vão gostar muito, tenho a certeza! Se assim o pensaram, melhor o fizeram.


De imediato, levaram a compilação dos poemas a uma tipografia e pediram para fazer panfletos, cada um com dois ou três poemas diferentes. No dia marcado, os três deslocaram-se à empresa para ir buscá-los. Estavam muito bonitos, tinham umas cores apelativas e eram muito interessantes. Começaram a distribuí-los pelos locais com mais movimento. Contudo, repararam que havia pessoas que, mal tinham o panfleto nas mãos, o atiravam para o primeiro caixote do lixo que viam, ou até para o chão. Havia, todavia, outras que liam o panfleto com tanta atenção que até quase eram atropeladas.

E Noé e Raquel pensaram que aquela solução não estava a ser eficaz e que teriam de pensar noutras hipóteses para que toda a população tivesse conhecimento real e efetivo dos poemas do sr. Flávio. Pensaram então em alugar uma carrinha. Era antiga, mas muito engraçada, tipo “pão de forma”, corde-rosa fluorescente, com um grande altifalante prateado. Enquanto o sr. Flávio conduzia a carrinha, a Raquel recitava os poemas, através do altifalante, com o objetivo de chamar a atenção das pessoas e de os divulgar. Infelizmente, a sua voz não soava muito bem, pois era muito esganiçada e estridente e as pessoas fugiam ou tapavam os ouvidos, tal o ruído insuportável que se fazia ouvir. Mais uma solução que não dera qualquer resultado! Mas não podiam desanimar! Dirigiram-se ao Cine Teatro Garrett e pediram para falar com a Direção. Explicaram a situação e a ajuda que precisavam para divulgar os poemas. Porém, apesar de toda a simpatia no atendimento, comunicaram-lhes que tinham chegado tarde de mais, pois a sala de espetáculos estava lotada durante alguns meses e não poderiam dispor de nenhum dia para poderem fazer um recital de poemas.


Dali foram ao Diana Bar, onde sabiam que era costume haver algumas iniciativas culturais. Também, naquele local, a desilusão foi uma vez mais repetida e o Noé, a Raquel e o sr. Flávio saíram tristes e desanimados.

Desta vez, foi o Noé que animou a Raquel: — Não podemos desistir, Raquel, vamos conseguir arranjar uma maneira de divulgar os poemas, custe o que custar! — Não vejo como – lamentou-se a Raquel. — Para já, enquanto não pensarmos noutra solução, vamos voltar a distribuir os panfletos. Há sempre gente que lê, gosta e que depois os lê a outras pessoas. E assim fizeram, o Noé, a Raquel e o sr. Flávio regressaram aos vários locais que tinham percorrido e alargaram a outras avenidas e ruas da cidade a distribuição dos panfletos. Contudo, continuaram a não ver resultados, apesar de todos os seus esforços e vontade. — Nunca vamos conseguir, Noé, é uma tarefa quase impossível – queixou-se a Raquel. — Então, desistimos? – perguntou o Noé.


— Parece-me inevitável! – referiu o sr. Flávio. De repente, um senhor com muito bom aspeto, um ar simpático e gentil, dirigiu-se aos três, dizendolhes: — Estava aqui e não pude deixar de ouvir os vossos desabafos. Li vários panfletos e gostei muito dos poemas. Concordo convosco que estes deveriam ser conhecidos por toda a população da Póvoa de Varzim. Afinal, referem-se a um herói da cidade, o Cego do Maio, que tantas vidas salvou! Que acham da ideia de divulgarmos, diariamente, os poemas na rádio? Eu pertenço à Rádio Onda Viva e poderíamos tentar dar a conhecer os feitos daquele herói, através destes magníficos poemas!

Isto foi música para os ouvidos dos três companheiros que, em coro, exclamaram: — Excelente ideia, era mesmo o que precisávamos! – agradeceram comovidos. Dois dias se passaram, todos os amigos se reuniram na casa de Noé à volta de um grande bolo de chocolate que todos saboreavam com prazer. Nisto, Noé pediu silêncio e todos se calaram, não se ouvindo o menor ruído. A rádio Onda Viva ia começar a edição que tanto esperavam. Após as apresentações, o jornalista passou a palavra ao sr. Flávio, que, numa voz calma e serena, declamou todos os poemas que tinha feito. A felicidade estava estampada no rosto de todo o grupo que escutou com enorme felicidade as palavras do diretor da rádio que se responsabilizava por estabelecer os contactos necessários à publicação e distribuição dos poemas do sr. Flávio. Acrescentou ainda que os telefones da rádio não tinham parado de tocar, com as opiniões de felicitações dos ouvintes.


Os amigos saíram para a rua. Noé e Raquel afastaram-se e caminharam sozinhos, levados sabe-se lá por quê. Estavam de mãos dadas a meio caminho entre o Diana Bar e o Enseada. Raquel olhou de soslaio a estátua do Cego do Maio, que parecia dar um sorriso maroto e cúmplice na sua direção, como que agradecendo tudo o que eles tinham feito.

Os jornais procuraram entrevistar o sr. Flávio e começaram, também eles, a publicar os poemas. Toda a gente lia com prazer para conhecer as peripécias narradas. Naquele Verão, os banhistas ouviram a poesia do sr. Flávio e até um mágico da cidade quis associarse, fazendo espetáculos de rua, em vários locais, e, para espanto de todas as pessoas, nos truques que fazia, das suas mãos saíam pequenas folhas de papel, com cores e poemas diferentes. Foi um verdadeiro êxito! E assim aconteceu durante quase todo o período de Verão, até que chegou o dia em que o sr. Flávio, para surpresa de todos, não apareceu à hora combinada na rádio…

Os seus amigos foram logo contactados pela rádio Onda Viva a avisar do que acontecera. Estranharam, mas podia ser um simples atraso. Ligaram-lhe várias vezes, mas nada. E foram passando várias horas, sem terem uma reposta a todas aquelas chamadas e mensagens. O que teria acontecido? Já havia quem pensasse que o Sr. Flávio tinha feito de propósito. Nesse momento Noé insurgiu-se, pois não acreditava que tal fosse possível, pois pelo que conhecia dele sabia que nunca tinha faltado a qualquer dos seus compromissos e cumpria as suas promessas. Se não tinha aparecido, algo importante tinha acontecido.


- Acho que é melhor irmos a casa dele ver o que se passa! — exclamou Raquel, preocupada.

E, de imediato, Noé disse: - Concordo, mas vamos ter que ir sozinhos, porque o… como se chama o nosso amigo que trabalha na Onda Viva? - Chama-se Carlos. És mesmo esquecido! — afirmou Raquel. - Como estava a dizer, vamos ter que ir sozinhos porque o Carlos está a trabalhar. Quando nos conhecemos, o sr. Flávio deu-me o número de telefone e a morada caso algo acontecesse. A casa do sr. Flávio ficava a cerca de um quilómetro da casa de Noé, onde se tinham reunido para ouvir os poemas na rádio. E lá foram os dois. Na ida, passaram pela majestosa estátua do Cego do Maio e nesse momento, Noé pensou: “ Estou a fazer uma boa ação, tal como o Cego do Maio”. Este pensamento deixou-o mais determinado e por isso não pararam mais durante todo o caminho. Quando chegaram, repararam que a casa além de pobre estava deserta. Ficaram muito assustados com o que estava a passar e preocupados com o seu amigo. - Vamos procurar bem, para ver se ele deixou algum bilhete ou alguma pista.— tentou animar Noé. Procuraram, procuraram, mas em vão. Quase a desanimar, ainda pensaram noutros locais possíveis. Noé ainda sugeriu que procurassem fora da Póvoa. - Talvez tenha ido até Rates, pois eu ouvi-o falar ao telemóvel para um amigo de lá.


De repente, Raquel vê na cozinha, uma foto da estátua do Cego do Maio que dizia: “Segue o teu

herói e encontrarás um tesouro muito valioso”. Lendo isto em voz alta, Raquel exclamou entusiasmada:

- O Cego do Maio! Temos de ir para lá! Correram até à zona da estátua num ápice. Raquel reparou que o Cego do Maio estava a olhar para o seu lado esquerdo e sentiu o seu coração dizer que era por ali que deviam ir para encontrar o seu amigo, o sr. Flávio. - A marina, Noé! — Exclamou Raquel, num tom tão eufórico que quase assustou o rapaz.

- Acalma-te, miúda! A marina o quê? - É uma intuição, Noé! Algo me diz que devemos procurar o sr. Flávio junto aos barcos e ao mar.

E lá seguiram, em passo apressado, quase a correr, ziguezagueando por entre os veraneantes que, a pé ou de bicicleta, percorriam o Passeio Alegre. Não precisaram de procurar muito até encontrarem o sr. Flávio, com o seu inconfundível porte de cavalheiro distinto, junto a um indivíduo alto e musculado, com um pesado casaco de cabedal, a contrastar com a temperatura ambiente. Os óculos escuros no rosto fechado e sombrio completavam a imagem do que lhes pareceu logo ser um gangster de alguma máfia de Leste. Com todo cuidado, evitando ser notados, aproximaram-se para ouvir a conversa e viram, já cheios de medo e desconfiança, o tal indivíduo a entregar um pacote suspeito ao sr. Flávio.


Nesse preciso momento, Noé tropeçou numa pedra e, como os dois amigos estavam debruçados um sobre o outro, estatelaram-se no chão com estrondo. - Conhece estes jovens? — perguntou, num tom autoritário, o homem não identificado. - Perfeitamente! — disse o sr. Flávio, mas foi logo desmentido por Raquel que, inspirada por uma estranha coragem, replicou: - Por acaso, pensei que nos conhecíamos melhor! É capaz de me dizer o que vem a ser isto, sr. Flávio? Este pacote suspeito, este homem que… Percebendo o equívoco dos jovens, o sr. Flávio atalhou rapidamente: - Tens razão, Raquel! Não vos apresentei ainda o meu amigo Joaquim Vaz, um poveiro radicado no Canadá que financiou integralmente o custo da edição, em livro, dos nossos poemas sobre o Cego do Maio!

- Um mecenas?! — interrogou, muito envergonhado, Noé, lembrando-se de que tinham acabado de confundir o financiador do seu projeto com um criminoso.

- É isso mesmo, um mecenas! E o pacote “suspeito” é uma parte da primeira tiragem, de mil exemplares, do “nosso” livro.

Nessa mesma noite, comemoraram, ao jantar, a concretização do sonho que a todos unia. E só meses mais tarde, com a amizade já cimentada, contaram ao sr. Joaquim Vaz, entre gargalhadas, as suspeitas parvas que tiveram nesse dia.


Índice Introdução - Dr.º Luís Diamantino …………………………………………………………………………………...…… 3 Escola Básica de Aver-o-Mar: Texto — Anastasia Matrosova e Beatriz Fernandes do 6ºA Ilustrações — Elsa Costa, Beatriz Flores, Mariana Aleluia do 6.º A ..............………………….…..…… 4 Escola Básica Campo Aberto: Texto — Maria Prieto do 5º A, Inês Silva do 5º B, Ana Maio do 5º C e Sara Carvalho do 5º D Ilustrações — Beatriz Molho, Beatriz Ramos e Maria Prieto do 5º A ……......................….……… 10 Escola Básica Cego do Maio: Texto — Ana Pereira e Cláudia Ferreira do 5.ºD Ilustrações — Ivo Ptashnyuk do 6.º C ...………………………………….....……………………………........….. 16 Escola Básica Dr. Flávio Gonçalves: Texto — Maria Leonor Leitão, Afonso Azevedo, Gonçalo Von Doellinger, Diogo Terroso, Francisca Moreira do 6.º C com colaboração da turma do 5.º I e 6.º C Ilustrações — Maria Leonor Leitão e Afonso Azevedo do 6.º C ...........................................….. 19 Escola Básica de Rates: Texto — Bárbara Silva, 5º E; Letícia Silva, 6º A; Inês Alves, 6º B; Inês Castro e Margarida Fonseca do 6ºD Ilustrações — Inês Castro e Margarida Fonseca do 6ºD …………………..…………………………………… 31

Nota: As expressões a negrito sinalizam a entrada de texto de cada escola.

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