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A Várias Mãos … Projeto Concelhio de Escrita Colaborativa

1ºCiclo

Póvoa de Varzim 2015/16


Título: A Várias Mãos: Projeto Concelhio de Escrita Colaborativa – 1º Ciclo

Textos e ilustrações: Vereador do Pelouro da Educação e da Cultura, alunos e professores das escolas básicas do 1.º ciclo do concelho da Póvoa de Varzim

Coordenação: Professores Bibliotecários do concelho da Póvoa de Varzim

Revisão:

Professores Bibliotecários do concelho da Póvoa de Varzim

Edição: Ana Simão e Anabela Torre


Amanhecia, o sol espalhava os seus braços sobre as casas, fazendo com que as telhas, acabadas de acordar, ganhassem um brilho incandescente, quase irreal. As gaivotas desenhavam acrobacias levadas pela suave brisa vinda do norte. Noé, com os seus dezoito anos de sonhos e de esperanças, inspirava todo o mar naquela maresia que lhe enchia os pulmões e lhe purificava as ideias. O que haveria para além da linha inatingível do horizonte? Que outras pessoas, que outros mundos, que outros tesouros poderia lá encontrar? Sentia nos pés descalços a areia húmida, rangendo a cada passo. Não sabia o que fazer. Sabia que não poderia continuar à espera que as coisas acontecessem, tinha que procurar o futuro, sem medo, sem interrogações vazias, sem arrependimentos. Toda a vida tinha vivido naquele areal, mas agora tudo lhe parecia pouco, precisava ir mais longe, decerto todos iriam compreender a sua decisão. Queria conquistar espaço, queria descobrir outros caminhos, outras terras, outras paisagens, outros cheiros. Queria ouvir outros silêncios para além do que lhe fazia chegar o mar. Estava decidido, iria enfrentar o mundo, ele que nunca virou a cara a qualquer desafio, ele que trabalhara em tudo o que lhe aparecia, desde que os seus sete irmãos e os seus pais precisaram desse apoio. Trabalhava nas férias, trabalhava depois das aulas e sempre obteve boas notas na escola. Perdido nos seus pensamentos, olhou para trás e reparou que apenas os seus pés marcavam a areia limpa e inexplorada daquela manhã que já ia alta. Em terra, avistou o vulto do Cego do Maio que, com a mão servindo de pala, vigiava o colorido dos barcos que, na faina da pesca, manchavam o azul do mar.


As ondas iam e vinham deslizando e afagando os pés de Noé e ele sentia uma agradável sensação com a frescura daquela água salgada. Estranhamente, algo tocou no seu pé, obrigando-o a desviar os olhos para baixo. Surpresa! Um pequenino baú baloiçava na água e era arremessado contra si no vaivém das ondas. Curioso, Noé pegou naquele estranho e fascinante objeto. Delicadamente, rodou-o. Era um baú feito de madeira, todo decorado, e tinha travessas de metal reluzente que faiscavam com os raios solares, agora mais fortes àquela hora da manhã. Lateralmente, a perfeição e o colorido dos desenhos da decoração atraíam o olhar: palmeiras esverdeadas, repletas de cocos avermelhados, indígenas de cara pintada que lutavam e dançavam com lanças e flechas ao som de um tambor, uma fogueira que desafiava um sol tão amarelo e laranja… Pinturas de animais exóticos preenchiam a parte oval do baú: macacos muito peludos pinchavam de ramo em ramo, papagaios com tons amarelados e avermelhados estavam pousados num galho, elefantes enormes lançavam repuxos de água azul com as trombas, um leão de juba dourada perseguia uma gazela de pernas altas, cobras roxas e pretas de mandíbulas abertas pareciam estar prontas a atacar quem naquele objeto mexesse… De onde teria vindo aquele fascinante baú? Quem o teria jogado ao mar? O que estaria lá dentro? Noé tenta abri-lo mas não vê qualquer abertura ou fecho. Um barulho ao longe desvia a sua atenção e o rapaz distingue um vulto que se movimenta na areia, vindo naquela direção. Cautelosamente, pega no baú e afasta-se para um abrigo que ele bem conhece entre os rochedos, sentindo a areia grossa, característica desta praia poveira, e que teimosamente tenta penetrar por entre os dedos dos seus pés descalços. Alisa a areia do local, pousa o baú e ajoelha-se para uma melhor observação. Efetivamente, não havia qualquer vestígio de abertura. O que fazer? Como abrir o baú? Não queria forçar e danificar uma peça tão bela. Noé acaba por rodar o baú ao contrário, e qual não é o seu espanto, quando depara com um código inscrito na base:


“sepe pupuseperespes opo tampamborpor vipirapadopo paparapa opo solpol apa caipaixapa apabrepre-sepe”. E mais adiante, numas letras gravadas na madeira e muito pequeninas, podia ler-se: “Este baú encerra um tesouro que tem muita dor de sangue e lágrimas. Foi feito com as mãos frágeis de crianças, essas crianças filhas da escravidão. Quem encontrar o tesouro escondido neste baú deve usá-lo para o bem da Humanidade e deve libertar-nos da opressão”.

Quem seriam estas crianças que pareciam saber português? Eram escravas? E trabalhavam? Mas em quê? E o tesouro, o que seria para provocar tanta dor? E como abrir este baú e decifrar o código? Noé ficou atordoado com tanta interrogação que lhe atravessava a mente. Mas como era um jovem habituado a lidar com situações complexas, logo ali traçou um plano de ação: teria de transcrever o código para um papel; tirar o casaco para envolver o baú e poder levá-lo escondido, para casa; encontrar um bom esconderijo no seu quarto; procurar ajuda para decifrar o código e, finalmente, abrir o baú para ver o tesouro. Noé deitou mãos à obra, transcreveu o código para um papel, pegou no baú, escondendoo no casaco, atravessou o areal e foi para casa. Não havia vivalma na quietude da praia. Do vulto que avistara há pouco, apenas restavam as pegadas que salpicavam a areia húmida. Não fosse o sussurro do mar ou o piar das gaivotas, seria uma paisagem completamente deserta, entre o casario que preenchia a avenida e o mar colorido de barcos. Rapidamente, o jovem chega a casa. A mãe cozinhava, muito atarefada, e um aroma agradável de assado de peixe atravessava o ar fazendo crescer água na boca. - Então, meu filho, onde estiveste?


- Na praia! – Respondeu o rapaz, sem olhar para a mãe.

- Na praia? Até agora? - Sim, a pensar na vida!

- Lá estás tu! Continuas a querer sair daqui, da nossa terra, para conhecer mundo? – perguntou a mãe angustiada, pois bem conhecia o filho e doía-lhe a alma saber que, mais cedo ou mais tarde, ele partiria. Noé dirige-se para o quarto mas, ali o local não oferecia segurança. Pensou no sótão. Subiu as escadas, entrou, e de imediato, descobriu o sítio ideal: a mala de viagem, muito antiga, que o avô tinha utilizado para a guerra colonial e que agora estava ali esquecida. Colocou dentro da mala o baú e tapou -o com uns panos que estavam espalhados no chão. Fechou a mala e foi almoçar. O assado estava mesmo bom! Os irmãos tagarelavam enquanto comiam. De vez em quando, Noé passava a mão pelo bolso e sentia o papel onde escrevera o código. E se o mostrasse à família? Assim fez. - Olhem o que encontrei na praia! Parece uma mensagem em código!

- Deixa ver, deixa ver! – disse o João, o irmão mais novo, curioso – Eu gosto de enigmas! Noé desdobrou o papel e colocou-o em cima da mesa, afastando os pratos já vazios.

- Que esquisito! Tem tantos “pês”! – disse a irmã, Joana. - Lá isso é verdade! – acrescentou Fernando, outro dos irmãos.


A mãe que regressava da cozinha, com uma grande travessa de aletria a cheirar a canela, ouviu e espreitou. Surpreendentemente, disse: - Sei muito bem o que está aí escrito! Isso é a linguagem dos “pês” que eu aprendi na escola, no recreio, com as minhas amigas. Costumávamos usar esse código quando não queríamos que os adultos soubessem o que estávamos a dizer. Era uma espécie de linguagem secreta.

- Diz lá, então, o que está aqui escrito. – Disse o Noé já muito ansioso. - Noé, és tu que vais decifrar. Só tens que tirar as sílabas com “p”. Noé pegou num lápis, riscou as tais sílabas e disse em voz alta: - “Se puseres o tambor virado para o sol, a caixa abre-se”. O rapaz nem queria acreditar, o código estava decifrado. -Tambor? Virado para o sol? Uma caixa que se abre? Que caixa será essa? – disse o João, muito intrigado – não faz sentido! Deve ser alguma brincadeira!

- Também acho! – Concordou a Joana. - Onde encontraste isto? – perguntou a mãe – estava junto com alguma coisa? Com alguma caixa?

Noé hesitou por uns segundos mas acabou por lhes revelar a verdade: - Isto estava escrito na base de um baú muito bonito que encontrei na praia.


- Baú!!!! – disseram todos em coro – e estavas aí tão caladinho!

- Onde está o baú? – perguntou a mãe, olhando desconfiada. Noé levantou-se para ir buscar o baú. Enquanto se dirigia para o velho sótão, os pensamentos não o largavam: e se o tesouro de que falava a mensagem fosse valioso? Teria dinheiro para se aventurar e sair da Póvoa? Teria mesmo chegado a altura de partir? E as crianças da mensagem? Como ajudá-las?

Noé subiu as escadas rapidamente, galgando os degraus dois a dois. Levantou o alçapão, entrou no sótão e, sem hesitar, dirigiu-se logo à mala do avô. Estranhou ver alguma areia no chão (“Teria sido ele a trazê-la agarrada às solas?”) mas não ligou… Tropeçou num carrinho de madeira, brinquedo de infância (que também não se lembrava de ter deixado ali) e, para não cair, segurou-se a uma trave carunchosa que deu de si. Para sua surpresa, uma máscara assustadora caiu estrondosamente em cima da velha mala de couro, fazendo com que ela se abrisse. ─ O quê?! Vazia!? Onde está o baú ?! – exclamou Noé, levando as mãos à cabeça, tentando perceber o que tinha acontecido. Olhando ainda com mais atenção, reparou que, por entre um pedaço do forro rasgado da mala, se escondia uma velha fotografia a preto e branco. Cheio de curiosidade, pegou nela cuidadosamente, e observou-a com atenção. Via-se um grupo de pessoas e alguns animais rodeados de palmeiras cheias de cocos. Ao centro, destacava-se o avô fardado de oficial do exército. Sim, era o avô, ele já o vira assim no álbum familiar . Tinha uma expressão sorridente, uma cara feliz, dando a mão a uma menina pretinha de cerca de 10 anos de idade. Num dos seus ombros, um pequeno papagaio equilibrava-se numa das patas.


Ao seu lado esquerdo, encontrava-se um homem de idade indefinida, enfeitado com colares feitos de dentes e penas, e vestido com um saiote de palha. O rosto estava pintado com riscas brancas que sobressaíam sobre a pele escura. A sua mão direita empunhava uma lança, e a esquerda estava pousada no ombro de um rapazinho - muito parecido com a menina - que segurava uma máscara… Noé olhou brevemente para a máscara tombada e pôde confirmar: era igualzinha à que tinha caído em cima da mala. Preso a um coqueiro via-se um elefante em cima do qual um macaquinho fazia macaquices. Noé ficou boquiaberto. “Mas esta parece a mesma paisagem da decoração do baú! Os mesmos coqueiros, os mesmos animais. Até a máscara é parecida. Que coincidência!” ─ pensou ele. Os seus passamentos foram subitamente interrompidos por um barulho vindo do seu quarto: parecia alguém a tentar a abrir a velha janela que rangia. Apressou-se a ir verificar. Entretanto, na sala de jantar, entusiasmados, os irmãos de Noé trocavam ideias sobre a incrível descoberta do irmão. ─ Como será o baú? Grande, pequeno? ─ perguntou Fernando. ─O que terá lá dentro? Mapas? Ouro, Diamantes? ─ acrescentou Diamantino, o mais curioso dos irmãos. ─ Às tantas tem lá dentro uma lâmpada como a do Aladino…ou a Fada Sininho… ou a varinha mágica do Harry Potter… – pronunciava baixinho Narciso, o mais imaginativo da família. ─ Será que o podemos vender? – interrogou João.


─ Vocês sabiam que há leis sobre os objetos de valor que se encontram? – interrompeu a mãe. ─ Ai sim!? – exclamaram todos em sintonia. - Sim, claro. Primeiro tem que se saber a quem pertencem. E se não se encontrar o dono, não sei bem como é para os achados no mar, mas os tesouros encontrados em terra…

─ Ó mãe, desculpe interromper… Porque será que o Noé está a demorar tanto? – lembrou a Joana, fazendo com que os irmãos protestassem, pois estavam muito interessados no que a mãe estava a explicar. Nesse preciso momento ouviram um barulho de vidros partidos vindo do primeiro andar. Preocupados, correram logo pelas escadas acima e esbarraram com o Noé que, esbaforido, e de olhos arregalados, gritou. ─ Fugiu pela janela! A mala estava vazia! O baú… ─ Quem? O quê!? Por onde? – perguntaram todos ao mesmo tempo.

Noé, agitando na mão a velha fotografia, respondeu: ─ Um homem! Pareceu-me alguém que avistei na praia ao longe. Pela cor da roupa… não sei… Mãe, pegue lá. É uma fotografia que encontrei na mala do avô. Eu vou atrás do homem. Tenho que o apanhar. Noé saiu disparado pela porta fora, deixando todos surpreendidíssimos, sem saber o que fazer. Entretanto, a mãe olhava admirada para a fotografia que o filho lhe tinha dado e, depois de uns momentos de silêncio, explicou: ─ Este é vosso Avô, quando estava em Moçambique. Ao lado dele está o chefe de uma tribo de quem o avô era amigo. As crianças são filhas do chefe e suas afilhadas.


─ Afilhadas? De quem? – perguntaram todos.

─ Afilhadas do vosso avô. Mas depois ele conta-vos melhor a história, quando nos vier visitar. Agora, vamos mas é procurar o vosso irmão. Maria José, a irmã que chegara entretanto, perguntou: ─ O que é que aconteceu? Para onde ia o Noé com tanta pressa? Vi-o a correr como um foguete em direção à praia. Nem me ouviu!

─ Obrigado pela informação. Ele foi ver se apanhava a pessoa que levou o baú. ─ disse um deles. ─ O baú!? Que história é essa? – espantou-se a Maria José.

─ Depois contamos. Vamos, temos que nos despachar. Correram pela avenida abaixo e, num instante, chegaram à praia. O sol já ia alto, mas ficava escondido, de vez em quando, por umas nuvens brancas. A maré tinha subido arrastando consigo as algas sobre a areia. As ondas de cor azul esverdeada rebentavam contra os rochedos. O cheiro a maresia era intenso.

Ao longe, avistaram dois vultos: uma pessoa de joelhos, debruçada sobre outra estendida na areia. Dirigiram-se a correr nessa direção, com o coração nas mãos, e cruzaram-se com um pescador a quem perguntaram, aflitos, o que tinha acontecido. ─ Está tudo bem, está tudo bem. Não se preocupem. Demos graças. Minha Nossa Senhora dos Aflitos, quase parecia o Cego do Maio! ─ sossegou-os ele, acrescentando:


─ Estava eu calmamente a pescar, quando vi um homem de pele escura a correr com muita dificuldade ao longo do areal. A certa altura, tropeçou num rochedo, caiu, sendo arrastado por uma onda mais forte. Foi quando, surgindo do nada, um rapaz… aquele que ali está, se atirou cegamente ao mar, sem hesitar, salvando o outro desgraçado. É da vossa família?

─ Sim, sim, é nosso irmão. ─ responderam eles, seguindo sem mais demoras, para a zona da praia onde estava Noé e a outra pessoa. Esta, sentada na areia, de costas para eles, erguia na mão uma espécie de pequena caixa, que parecia exatamente um baú. O sol, que entretanto tinha ficado escondido por uma nuvem, surgiu novamente, e um dos seus raios como que incidiu diretamente sobre o pequeno baú que, para surpresa de todos, se abriu!

─ Que é isto! - exclamou Noé muito surpreendido. A luz intensa que insidia nas travessas metálicas do baú cegou-o por alguns segundos, desequilibrou -o e fê-lo cair na areia. Uma onda mais forte aproxima-se tentando engolir o baú. Noé reage imediatamente, pega no baú e dirige-se para o seu abrigo no rochedo, desta vez acompanhado pelos irmãos, numa espécie de procissão, caminhando pela areia grossa que teimosamente penetrava nos dedos dos pés descalços.

Alisa a areia, pousa o baú. O silêncio inicial da surpresa da abertura do baú terminara. Todos começam a querer ver o que está no seu interior. ─ Sai da frente! Tem jóias? Estamos ricos? -gritava o João com a sua ganância. Maria José, ainda confusa com tudo que se estava a passar, perguntava: ─ Que raio se passa aqui? Que baú é este?


─ Isso não interessa agora! – disse o João.

Terminada a algazarra, rodearam aquela caixa mágica, sentaram-se e, silenciosamente, observaram Noé a colocar cuidadosamente a mão no seu interior. Noé tateia o fundo do baú e do seu interior apenas agarra algo macio, seco, em forma cilíndrica. ─ O que é? O que é? – perguntaram todos em coro. Noé levanta a mão e mostra um rolo embrulhado numa folha de palmeira amarelecida pelo tempo. ─ Abre! Abre! – disse ansiosamente o Fernando. ─ É um mapa? – perguntou o João. Noé começa a desembrulhar cuidadosamente o rolo. A folha seca de palmeira desfaz-se com o toque dos seus dedos.

Surpreendentemente, só fica nas suas mãos uma folha grossa, envelhecida, mas branca, sem qualquer palavra, desenho, forma… sem nada. Uma súbita rajada de vento norte, tipicamente poveiro, varre o areal e faz desviar momentaneamente a atenção de todos. Veem, então o vulto afastar-se por trás do rochedo. O vento acalma e voltam o seu olhar para o local onde estava o baú.

─ Onde está o baú? O que está a acontecer? – gritou a Joana. Misteriosamente, quer o baú quer o vulto desapareceram.


Anoitecia, o sol escondia-se por detrás do mar beijando com os seus braços alaranjados as ondas prateadas do oceano. Decidem regressar a casa. ─ Joana! Maria José! Onde andaram? Preciso de ajuda para fazer o jantar.— disse a mãe atarefada. ─ Eu vou fazer os trabalhos de casa. – acrescentou o Fernando. ─ Eu ajudo-te! – disse o João. O que os rapazes não queriam era ir para a cozinha. Parecia que todos tinham esquecido o que acontecera. Talvez os seus pensamentos tivessem sido levados pelas ondas prateadas do mar. Noé dirigiu-se para o sótão. Sentou-se ao lado da mala do avô. Na mão cerrada guardava o rolo branco envelhecido. Abriu-o. Colocou em cima da mala. Nada parecia fazer sentido. À memória vinham-lhe as palavras que lera no baú: “Quem encontrar o tesouro escondido neste baú, deve usá-lo para o bem da Humanidade.” ─ Mas como? Que tesouro?! Uma folha branca?! – Questionava a mente confusa e já cansada de Noé.

Antes de desistir, observou minuciosamente a folha… Tudo branco, envelhecido. Bem no centro, um minúsculo ponto vermelho chama-lhe a atenção.


Noé sentia-se demasiado cansado e uma tristeza imensa começou a invadi-lo. Uma lágrima rebelde rolou pelo rosto e deslizou pela folha atingindo o pequeno ponto cor de sangue no seu centro. De repente, algo começou a surgir… linhas, traços, formas… Uma ideia assaltou a mente de Noé. A mensagem inscrita no baú a letras miúdas: “Este baú encerra um tesouro que tem muita dor de sangue e lágrimas.”.

A queda da lágrima fez aparecer na folha branca os riscos e os traços começaram a ganhar a forma de um mapa... - Hum... Um mapa? De onde será? – perguntou o Noé muito surpreendido.

Nesse mesmo instante, Noé sai disparado a correr para a cozinha, segurando na sua mão trémula a folha branca, agora transformada num belo mapa com um X bem no centro. - Olhem o que aconteceu!!!!!!!! A folha branca escondia um mapa. Mas de onde será? – interrogou o Noé. - Penso que há uma pessoa que te saberá responder a essa questão, Noé. – disse a mãe. O teu avô Avelino esteve em Moçambique na altura da guerra e esse mapa certamente poderá ser reconhecido por ele. Vamos ligar-lhe e pedir para vir até cá a casa. Noé apressou-se a ligar para o seu avô e disse-lhe:

- Olá, avô. Como tens passado? Precisava da tua ajuda para resolver um enigma, mas preciso que venhas cá a casa ajudar-me a decifrá-lo.


- Claro que sim, meu querido neto, vou já para aí, devo demorar cerca de 30 minutos. O avô ficou curioso e surpreendido com o telefonema do Noé, mas rapidamente chegou a casa do seu neto e perguntou-lhe:

- O que se passa, Noé? O que é tão urgente assim para me chamares e precisares da minha ajuda? Noé explicou toda a história que girava à volta do secreto baú e com o mapa escondido que ele tinha encontrado. O seu avô respirou bem fundo e começou a explicar desde a primeira gota de água. - Sabes Noé, reconheço muito bem o local que esse mapa indica, fica em Moçambique, agora o X no centro não faço a menor ideia do que significa – disse o avô.

- Mas se sabes e conheces o local do mapa, que achas de irmos a Moçambique e tentar resolver este mistério? Deves ainda conhecer pessoas que lá habitem e que nos possam ajudar, que te parece? - Já não vou a Moçambique desde os tempos da guerra colonial, seria bom relembrar algumas memórias e assim ajudar-te a resolver este mistério... Vamos à aventura. Os preparativos para a viagem exigiam cuidados que só o avô conseguiria executar: contactar a agência que ofereceria melhores condições de travessia por ar, preparar as malas com a minúcia que um local tão distante e exótico merecia, mas ainda...procurar retomar a comunicação com velhos amigos que, lamentavelmente, deixara para trás, após o fim da guerra colonial. Inexplicavelmente, uma lágrima vertia por entre as rugas do seu rosto cansado. O avô Avelino era um homem de porte nobre e sóbrio. A guerra fê-lo assim...


Choros, emoções profundas, lamentos da alma não eram apanágio daquele homem forte e duro. as rugas do seu rosto cansado. Apenas deixava o seu coração falar quando recebia as carícias dos netos, sempre que com eles falava ao telefone, fruto da distância que o separava daqueles entes queridos. Contudo, nunca deixava entrever uma voz trémula, um fraquejo de espírito, porque, dizia o avô, “devemos ser nós a domar a vida e não a vida a domar-nos”. A recordação, porém, daqueles seus companheiros do ultramar dominara-o por infindáveis segundos... Estaria ele preparado para os voltar a ver? Estariam ainda vivos, depois de tantos sobressaltos, de tantas provas de vida, de tanto sofrimento deixado por contar e retido naquelas almas perdidas? Todas essas interrogações perpassavam pela cabeça daquele velho homem quando Noé, entusiasmado, chamava: “Avô? Ó avô? Tenho uma ideia. Chegando a Moçambique, por que não vamos à procura do teu velho amigo? Aquele da fotografia...”. As palavras do rapaz soltavam-se, que nem flechas, indomáveis, por entre os seus jovens lábios. O avô mal tempo tinha para balbuciar o que quer que fosse, porque, no momento em que sequer pensava responder, já Noé formulava um novo discurso mal preparado: “aquele da cara pintada... o das riscas brancas... o da pele escura...”. Avelino, após dar sentido ao discurso desconexo do neto, finalmente associava a descrição rudimentar fornecida por Noé, lembrando os velhos tempos passados na companhia do seu bom e leal amigo.Tundo era o seu nome. Homem de poucas palavras, mas de grandes gestos. Homem sereno e seguro, apesar das marcas violentas que a vida lhe deixara: conhecera, em jovem, uma portuguesa levada por seu pai, da metrópole lisboeta, para Lourenço Marques e por ela acabara por nutrir um amor profundo... profundo, mas drasticamente proibido. Para o progenitor da jovem portuguesa, era uma infâmia alguém poder apaixonar-se por um indígena reles e rude. A verdade é que Tundo e Maria Eduarda se apaixonaram e desse amor nasceram duas filhas.


A crueldade do destino, porém, castigara o casal e, agora, Tundo via-se sozinho a ter de criar duas meninas inocentes. Foi assim que o avô Avelino conheceu Tundo e a ele se juntou na sua dor de chorar a perda de Maria Eduarda. Foi assim que o avô Avelino ganhou duas belas afilhadas, de quem teve de se separar após o fim da guerra.

Cinco horas da madrugada. Um frio atravessava o nariz de Nóe, mas o seu corpo estava coberto de adrenalina. Era o dia da partida e os irmãos, sem exceção, acordavam para partilhar com Nóe a excitação da viagem. O avô Avelino chegara de táxi e aguardava pelo neto, para que pudessem dirigir-se ao aeroporto. Não havia tempo para atrasos. Pela primeira vez, Teresa teria de se despedir do filho. Desde cedo soubera que Nóe fora feito para partir: era, ainda, um menino de colo e já pulava do colo da progenitora para procurar qualquer alvo de atenção que o mundo lhe despertava. Um dia, após adormecer Noé ao colo, Teresa preparava-se para, como era habitual, deitar o catraio no berço. Assim fora, mas, mal punha um pé fora do quarto, já o menino balbuciava uns gemidos agudos: havia, num espaço de segundos, saltado do berço e esbracejava no chão. Tudo não passara de um susto e Teresa, desde esse instante, apelidava Noé de ‘conquistador’ – sabia que o destino lhe reservaria algo que o obrigasse a conquistar o mundo, a fazer algo pela humanidade. Antes de partirem, o avô Avelino tomara as devidas providências para ser bem acolhido pela embaixada portuguesa em Moçambique. Apesar da sua discrição, Avelino fora homem de grande importância, durante o período da guerra do ultramar. Era, agora, tempo de receber os créditos desses atos de benevolência. Após a aterragem do avião, uma comitiva recebeu Avelino. Noé, esgazeado, sentiu-se imediatamente


dominado pelo aroma daquelas terras africanas. “O cheiro, Noé, o cheiro daquela terra é inconfundível, vais ver!” - dizia-lhe o avô, antes de embarcarem no aeroporto Sá Carneiro.

Finalmente tinham chegado ao local onde tudo se iria resolver. Quando iriam começar a busca pelo “tesouro”, que poderiam fazer para resolver o mistério? Estas indagações inundavam a cabeça de Noé e, nessa mesma tarde, após se terem aconchegado nos seus aposentos, receberam a visita de alguém que se iria revelar extremamente decisivo para o deslindar do mapa misterioso…

Tundo, sendo um homem por todos respeitado devido ao seu enorme e extraordinário caráter, teria sido previamente avisado acerca da chegada do seu velho mas fiel amigo. Por conseguinte, deslocou-se até ao local onde Avelino estaria, com o intuito de matar todas as saudades que atravessavam o seu coração desde que o companheiro partira. Foi, então, que lhe bateu à porta. O avô mal sabia quem o esperava. Por entre lágrimas e sorrisos rasgados ambos trocaram olhares profundos e abraçaram-se como já não faziam há muito tempo. O silêncio que os unia foi logo interrompido por Noé que, nesse mesmo instante, reconheceu o indígena. Sem demoras, Avelino apresentou o seu neto, traçando-lhe vastos elogios que coraram o miúdo. Após um curto período de conversa, Noé expôs o mapa que descobrira e descreveu o pequeno baú pintado que o continha. Tundo suspirou como se o seu chão tivesse desabado naquele momento. Algo se passava. Tentando não tocar muito no assunto, o avô ousou, subitamente, perceber o que se passava com o amigo. Este último passou a explicar:


- Certamente, lembras-te que tenho duas filhas. Ambas trabalhavam arduamente na tribo, afinal, eram as regras. Não lhes chamarei escravas, nunca, as minhas meninas não merecem tal atrocidade! Apesar de tudo pelo que passavam, elas tinham sonhos, como todas as crianças têm. Queriam ser artistas, o que na realidade (ou, pelo menos, para mim) já eram. Por isso, em todos os tempinhos livres que arranjavam, pintavam magníficas paisagens, escrevendo sempre uma frase. Esse tesourinho que tens aí, sim foram elas mesmas que o criaram. O homem das riscas brancas que sobressaíam na pele escura prosseguiu. Afirmou que as filhas, apesar da sua inocência da infância, sempre pensaram em grande. Em todas as suas ações, tinham em conta os outros, o bem da humanidade, pois queriam para ela aquilo que elas próprias não possuíam – Liberdade. Hoje, estas meninas estão crescidas, independentes, notava-se nos seus olhos o orgulho imenso que por elas tinha e tem. Por sua vez, Avelino conseguia sentir estas palavras como se fossem suas, saídas da sua boca. Nelas, ele identificava-se: aquele jovem aventureiro que foi aprisionado pela guerra, que lutava pela vida, pois sabia que ainda lhe restavam muitos anos cá, com os seus. A seu tempo, Noé começava, também, a imaginar-se a fazer algo bom pela sociedade, alguma coisa que o fizesse, efetivamente, útil e realizado. O seu objetivo era, portanto, seguir a mensagem que lhe fora, por coincidência (ou não) parar às mãos.

Partiram para a descoberta um dia depois, já recuperados da cansativa viagem PortugalMoçambique. A sua grande interrogação mantinha-se - o que significaria o ponto x? Nenhum dos três saberia bem o caminho a seguir, mas continuavam em frente. O espírito de aventureiro dominava-os e era exatamente isso que eles próprios adoravam. Caminhavam incansavelmente, à procura do local pretendido, e nada encontravam. Então, pararam para uma breve reflexão e descanso. Aí, Noé na sua perspicácia, comentou:


- Será que este local existe mesmo? Bem, sabendo que o tesouro escondido deverá ser usado para o bem da humanidade, por que razão não poderá ser x, não um local físico mas um princípio da mudança? Deste modo, todos trocaram ideias e, por fim, surgiram várias respostas a tudo aquilo que parecia não ter explicação. Seria então, o início da reviravolta. Aperceberam-se que o jovem rapaz era o único detentor da capacidade de leitura da mensagem, seria ele o escolhido? Mais tarde, e por mero acaso, Noé elevou o mapa e, de repente, reparou que, no seu verso, estaria algo mais escrito. Dirigiu o seu olhar para a nova descoberta e sussurrou: “A tua missão é lutar pelos direitos do nosso povo”. Noé cresceu, tornou-se mais forte e corajoso e, sentindo sempre a força do avô e de Tundo, espalhava magia pelo mundo, tornando-o cada vez mais bonito, melhor…


Índice Introdução - Dr.º Luís Diamantino Vereador do Pelouro da Educação e da Cultura…………………………………………………………………… 3

Escola EB1 do Fieiro Texto e ilustrações — 4.º A ……………………………………………………………………….………….....………...4 Escola EB1 de Igreja Texto e ilustrações — 4.º A ……………………………………….…………………………………….….…..………… 11 Escola EB1 do Século Texto e ilustrações — 3.º H .......................……………………………………………………….……..….…….. 18 Escola EB1 de Sininhos:

Texto — Turma 3º B Ilustrações — Diogo Nascimento, João Aguiar e Diogo Arteiro do 3.º B …………………….…...... 25 Escola EB1 da Praça: Texto — 4.º Ano Ilustrações — Maria João Martins, Sílvio Rafael Dias e Daniel Alves do 4.º ano …….……....... 32

Nota: As expressões a negrito sinalizam a entrada de texto de cada escola.

Ebook 1ºc final  

Versão final

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