Page 1


Sumário

Panorama 2 Turistas da guerra 5 Ciclo acelerado 10 Coração de soldado 13 Virando a mesa 16 Conclusão 22 Referências 26 Entrevistas 50 Bibliografia 84

Fotografias, vídeos, músicas e infográficos citados estão disponíveis no endereço embuscadaguerra.tumblr.com

1


A

epifania foi noturna e cruel. “Se o Conselho de Segurança tivesse decidido mais rápido, a família dele não teria morrido”. Era março de 2011 e Lourival Sant’Anna não conseguia dormir em Benghazi, capital de uma Líbia em plena guerra civil. O jornal O Estado de São Paulo tinha publicado pouco antes sua matéria sobre uma família1 fuzilada por forças do governo quando fugia da capital. O pai havia morrido, a mãe estava em estado vegetativo e Mohamed Asheraf, de cinco anos, tinha lesões fatais no peito. “Ele não sabia que não tinha mais família, e eu soube que ninguém foi visita-lo naqueles dias. À noite, pensei: ‘Sou o único jornalista brasileiro na Líbia hoje, e o Brasil se absteve na votação do Conselho. Acho que a presidente Dilma deve ler minhas matérias nesse momento, então... Eu não sei escrever.’” Sant’Anna, que é editor-executivo e repórter

especial do Estado, logo em seguida classifica esse pensamento como irracional. A explicação é oferecida por ele mesmo: surge da culpa gerada por não conseguir transmitir satisfatoriamente a vivência de uma cena de guerra. “As palavras são muito boas, mas a frustração de não conseguir...”, fala. “Aliás, de maneira geral, o repórter convive com uma frustração muito grande. De olhar para uma realidade e muitas vezes não conseguir entender. Mas aquilo que a gente consegue entender ou perceber, não conseguir transmitir.” Jornalistas de guerra convivem com a dúvida cotidianamente. Há maneira correta de se cobrir um massacre? Acerto no relato de um genocídio? Imparcialidade num bombardeio? E se o mundo não presta atenção, o problema é de quem? É de se esperar que tenham olheiras mais profundas.

Panorama

O

britânico William Howard Russell é considerado o primeiro jornalista de guerra moderno. Cobriu a Guerra da Crimeia para o The London Times, na metade do século XIX2 e, nos EUA, escreveu sobre a Guerra de Secessão. Suas reportagens eram extensas, de cunho literário e pessoal. Lembram cartas. Eram praticamente recebidas como tal pelos famílias de soldados, que passaram a procurar em seus artigos novidades sobre os campos de batalha em que lutavam filhos e conhecidos. O principal legado de Russell foi trazer, pela primeira vez, o front de guerra para casa. Seus despachos são um contraste marcante com a cobertura de guerra atual. Entre outras transformações do jornalismo desde então, está o hábito de cortar as matérias “pelo pé” para que caibam na página impressa. Foi o que criou o costume do lide como conden2

sação das principais informações da notícia no primeiro parágrafo. Os repórteres, que não querem ver aquilo que designam importante ir para a lixeira na edição, passaram a colocar o que havia de mais essencial no começo do artigo. Virou regra. Outro ponto importante é que, conforme crescia a circulação e a diversidade dos leitores, as redações passaram a se referir ao público como uma grande massa, que conhece pouco do assunto em questão. Simplificação se tornou palavra de ordem em revistas e jornais. Assim, as notícias poderiam ser aproveitadas pelo maior número possível de leitores. Aliando os dois conceitos, chegamos à estrutura jornalística básica atual: concisa e simplificada. A isso, adicionemos a aceleração do ciclo de notícias, que produz informação 24h por dia, e a competição ferrenha


por leitores pagantes e publicidade. Russell dificilmente arranjaria emprego. “Os jornais são muito objetivos. Têm pouco espaço. É maravilhoso para informações diárias, mas não é o veículo perfeito para que as pessoas tenham a maior amplitude, digamos assim, de um assunto. Não é à toa que decidi escrever um livro sobre a revolução da Líbia. Tantos repórteres escrevem livros sobre as guerras porque não estão satisfeitos com a cobertura que fizeram para os jornais”, explica Andrei Netto, correspondente em Paris d’O Estado de São Paulo. “Meu livro é basicamente uma manifestação de insatisfação. Não estou satisfeito com o que escrevi, e tenho mais a dizer sobre isso.” Paco Sánchez, jornalista do espanhol La Voz de Galícia e professor da Universidade de Navarra, diz que a simplificação produzida por esse modelo e a falta de espaço no impresso muitas vezes resultam em informações de baixa qualidade. “É o caso da guerra na Síria”, diz. “Até hoje ninguém consegue explicar satisfatoriamente o que está acontecendo lá.” Para ele, a qualidade da cobertura de guerra é um reflexo do negócio jornalístico. Através de tradução de conteúdo de agências de notícias, como Reuters e Associated Press, as páginas da seção internacional podem ser preenchidas com facilidade, poupando tempo, preocupação e dinheiro. Com a falta de queixas do público – “que não compra o jornal para ver guerra”, lembra Paco –, a ideia transmitida para as redações é de que a cobertura atual é suficiente. “Os jornais não veem motivos para enviar seus próprios jornalistas às zonas de conflito. Além de muito caro – o seguro de vida, por exemplo, é uma fortuna –, há grande desgaste na imagem do jornal quando algo acontece”, diz.

Fontes: Amazon.com e LivrariaCultura.com.br

Dados pesquisados aos domingos

3


oportunidade de trabalho que tenho hoje é ficar na Síria, onde ninguém mais quer ficar. E não é nem em Alepo. É no front. Porque os editores na Itália só nos pedem por sangue, pelo bangue-bangue. Escrevo sobre os islamistas e suas redes de serviços sociais, as raízes de seu poder – um artigo definitivamente mais complexo de escrever que um sobre o front. Eu tento explicar, não apenas emocionar ou tocar, e a resposta deles é: ‘O que é isso? Seis mil palavras e ninguém morreu?’”, escreve. Borri segue explicando que, para um freelancer internacional, os editores pagam cerca de US$ 70 por matéria. Não importa, diz ela, se é de Gaza ou de Roma. A quantia difi-

A freelancer italiana Francesa Borri desabafou sobre sua situação em um artigo para a revista Columbia Journalism Review4. “As

culta o trabalho, já que custos de vida numa zona de guerra também existem. Pela natureza volátil da situação, a especulação corre solta. Um lugar para dormir, um carro, uma carona, alimentação, uso da internet, do telefone... Onde há demanda, há oferta. “Os editores sabem muito bem que US$ 70 por matéria faz com que você economize em tudo”, diz. “Sabem também que, caso você seja ferido, há a tentação de esperar não sobreviver, porque você não tem dinheiro para se dar ao luxo de ser ferido. Mas eles compram o artigo de qualquer maneira.” Para chegar às zonas de conflito, jornalistas precisam pedir vistos, descobrir as melhores fronteiras de entrada (legais ou ilegais), contatar possíveis fontes locais e avisar suas embaixadas, que na maioria das vezes tentam demove-los da ideia de viajar. Jornalistas brasileiros têm mais sorte, nesse quesito, que outras nacionalidades. Visto como um media-

pessoas têm essa imagem romântica da freelancer como uma jornalista que abriu mão do salário regular pela liberdade de cobrir histórias que a fascinam. Mas não somos livres, é o contrário. A verdade é que a única

dor neutro pela maioria das nações, o Brasil desfruta de uma posição positiva no cenário internacional – algo muito valioso na hora de pedir a libertação de um dos seus. Quando pisam no solo destruído das zonas

Fonte: Committee to Protect Journalists

Por “algo”, ele se refere aos riscos crescentes que a profissão oferece. Jornalistas são cada vez mais vistos como alvos. Em 2012, 38 morreram em fogo cruzado e ambientes perigosos. Até outubro de 2013, outros 28 perderam as vidas nas mesmas categorias3. Dentre os 66 jornalistas mortos, 15 eram freelancers. Conforme os jornais cortam custos em casa, mais se apoiam em que se oferece para viajar por conta própria. Em troca da rubrica como correspondentes internacionais e de liberdade de escolha de pautas, esses profissionais enfrentam situações de risco muitas vezes em condições precárias, sem qualquer tipo de seguro e com pouco dinheiro.

4


de guerra, os correspondentes imediatamente saem em busca de tradutores e fixers, ajudantes do tipo faz-tudo que arriscam suas vidas para auxiliar (às vezes de graça) os esforços da reportagem. É nesse momento, em que

começam as interações on the ground, que as particularidades do jornalismo de guerra se tornam mais notáveis.

Turistas da guerra Gellhorn fumava sem parar. Gesticulava de maneira ríspida, como quem não tem tempo para gentilezas. Para uma das maiores correspondentes de guerra do século XX, não tinha – e se outros não sabem disso, melhor você mesma fazer o trabalho. Foi por isso que nunca se aposentou, e esteve em campos de

Martha

em relação à discussão acadêmica da profissão. “Muitos discutem se o verdadeiro papel do jornalista é essa busca utópica da objetividade ou se não seria mais adequado buscar ao máximo a transparência”, fala. Ele resume objetividade como “um afã” para narrar a história de todos os lados possíveis e com o maior grau de isenção possível,

batalha até os 80 anos. Conhecida pelo temperamento forte, aceitou dar uma entrevista sobre sua carreira em 1983.5 Gellhorn não hesita: fala com desenvoltura da Grande Depressão, da 2a Guerra Mundial, de falhas das lideranças globais. Mas em dado momento se cala, perde-se nos próprios pensamentos. Quando recomeça, é de maneira torpe. O entrevistador havia perguntado sobre objetividade jornalística, em especial como Gellhorn a havia aplicado em Dachau, campo de concentração alemão que visitou logo que a guerra terminou. De repente, ela se decide. Seus olhos se fixam de maneira feroz no interlocutor. “Tudo que fiz foi reportar o que vi. E se você reporta o que vê, a não ser que seus olhos sejam ruins, não sei como pode ser outra coisa que não objetivo. Você não mente, não torna diferente, não omite. O que você vê, você reporta.” “A objetividade é um eterno dilema do jornalismo”, diz Andrei Netto. “Entrou na pauta

e transparência como a aceitação de que há uma opinião em tudo que se escreve, e que ela deveria estar clara para o leitor. “Isso se aplica na cobertura de guerra no seguinte sentido: quando você está cobrindo a revolução na Síria... Cara, é impossível não sair de lá amaldiçoando o Bashar al-Assad. Isso já é, digamos, um prejuízo à objetividade. Então talvez o mais honesto para o leitor seja deixar claro que nossas matérias são feitas basicamente do ponto de vista dos rebeldes, o que a maior parte dos jornalistas faz”, diz. “Na maioria das grandes reportagens – não dos despachos, porque não tem espaço –, eles dizem: ‘Olha, não pude verificar essas informações porque o governo Assad não nos concedeu visto, ou porque quando estava no país e tentei me livrar do aparato de inteligência eu fui preso’, ou coisa parecida. São meios de dizer ao leitor que estou cobrindo a história dos rebeldes primeiro porque acho ela justa, segundo porque não tenho como

lá no início do século 20 com os funcionalistas, que venderam tão bem essa ideia que ela está nas nossas escolas até hoje.” Para ele, que também estudou na França, o jornalismo brasileiro está desatualizado

contar a história oposta.” A história mais famosa de Netto envolve não a Síria, mas a Líbia. Enquanto cobria o conflito, em março de 2011, foi sequestrado por uma milícia pró-regime e mantido em 5


cárcere militar por oito dias, até que a diplomacia brasileira conseguisse engendrar sua libertação. Poucos meses depois, voltou ao país para continuar sua cobertura do conflito, e acabou costurando suas experiências na Líbia com o desfecho da revolução no livro-reportagem O Silêncio contra Muamar Kadafi, publicado no ano seguinte. “Escrevi durante dois meses na terceira pessoa, até que ficou pesado demais. Sou formado na escola brasileira de jornalismo, em que é feio falar na primeira pessoa, mas foda-se. O livro fluiu. Sinal de que a história que apurei, que presenciei, é a história que eu vi e ponto final”, diz. “Não tenho que ficar tentando esconder do leitor que o que está escrito é o que penso, de alguma forma. Escrever em primeira pessoa é uma prova de honestidade.” Lourival Sant’Anna também defende o uso da primeira pessoa no jornalismo de guerra. “Na cultura brasileira, existe muita parcimônia para usar a primeira pessoa. Mas muitas vezes preciso me referir a mim mesmo, porque nossa presença pode modificar um pouco a realidade e o leitor tem o direito de saber disso. E também porque coisas vividas por nós dão muitas informações”, diz. Como exemplo, Sant’Anna cita a cobertura do conflito entre Geórgia, Rússia e Ossétia do Sul, em 2008. “Eu fui confundido com um georgiano pelos ossétios, e também fui preso e interrogado pelo exército russo. Se tenho cara de georgiano, como sou tratado diz muito sobre como seria se os georgianos tentassem voltar para suas casas”, explica6. “Diante de tudo isso, eu me apego às regras do jornalismo como uma tábua de salvação psicológica”, diz. “Devemos buscar a isenção sabendo que é inalcançável, como se fosse. Se desistimos, nos tornamos cínicos. E 6

se passamos a acreditar que é alcançável, nos tornamos ingênuos. Mas o repórter é esse, o que a busca a isenção sabendo dos próprios defeitos, imperfeições, dificuldades.” Perguntado sobre como reagiria se pudesse entrevistar os milicianos responsáveis pela morte da jovem família líbia, ele responde: “Para mim, uma entrevista dessas é um troféu. Em Trípoli, entrevistei vários caras do regime. Foi difícil conquistar a confiança dessas pessoas, e são coisas em que invisto muito tempo, dinheiro, contato.... É muito importante pra mim. Ouvir, se eu puder, essa pessoa que atirou, ia me deixar muito orgulhoso. Eu ia tentar entender. E se conseguisse, ia ficar muito orgulhoso também”. Christiane Amanpour, provavelmente a mais famosa correspondente internacional do mundo, chama o conflito bósnio-sérvio de um divisor de águas quando se trata da objetividade. “Eu estava vendo uma guerra contra civis, então precisei ajustar minha visão e minha cobertura a isso. Fui questionada desde cedo sobre minha objetividade, e fiquei muito chateada porque objetividade é nossa regra de ouro, e a levo muito a sério. Mas fui forçada a examinar o que a objetividade de fato significava, e entendi que numa situação como a Bósnia, onde havia um genocídio, seu dever é chamar a coisa pelo nome que tem e contar a verdade”, diz7. “Objetividade, nesse sentido, significa dar a todos os lados chances iguais de serem ouvidos mas nunca desenhar uma equivalência moral falsa. Então eu disse quem eram os agressores e quem eram as vítimas, e tenho muito orgulho disso.” Maggie O’Kane, enviada especial do The Guardian, acha que sua cobertura do conflito bósnio também não caberia no enquadramento da objetividade. “Não foi uma cobertura objetiva, mas foi verdadeira. Precisamos tomar cuidado com a objetividade, porque


Sarajevo /Tom Stoddart às vezes podemos nos esconder atrás dela”, diz.8 A cobertura do conflito bósnio, uma mancha na história pós-guerra europeia, é um exemplo de como jornalistas podem adotar uma causa. Ao longo dos quatro anos de conflito, correspondentes passaram meses no país, acompanhando a situação de sítio sob as mesmas condições que a população, e retornavam com frequência. Samantha Power, hoje enviada especial dos EUA para a Organização das Nações Unidas (ONU), fazia parte desse grupo. A experiência a marcou de tal maneira que, em 2003, lançou A Problem from Hell: America and the Age of Genocide, livro que explora as origens e instâncias do genocídio e que marcou a política externa americana. Para Amanpour, a obsessão pessoal dos jornalistas com a causa foi fundamental para a intervenção internacional na Bósnia, em 1995. “Acho que fizemos a coisa certa como jornalistas e eventualmente conseguimos ser parte da razão pela qual o mundo interveio”, fala. Em A Casa dos Mortos, Fiódor Dostoiévski escreve: “A raça humana é forte. O homem é a criatura que pode se acostumar a tudo,

e creio que essa é talvez a melhor definição para ele”. Para o fotojornalista Ed Ou, é essa universalidade que deve ser o fio condutor da cobertura de guerra: “Gosto de pensar que entendemos a situação e os medos das pessoas quando nos colocamos nas situações que vemos nas notícias. Provavelmente teríamos as mesmas preocupações, desejos e medos que elas, pois no fim somos todos humanos”. Foi isso que levou Andrei Netto a caminhar pelas ruas de Alepo, em idos de julho de 2011, mesmo ouvindo bombas à distância. “Achei que eu precisava andar pelos bairros para ter uma ideia de como as pessoas estavam vivendo. Aí se descobre que a guerra tem uma rotina”, conta. “Por uns três dias as pessoas conseguem ficar escondidas em casa. A partir do quarto dia, não é mais assim. É preciso buscar água, alimentos. Elas precisam se virar.” “O mais importante da guerra são as mortes, e é preciso encontrar as melhores formas de se contar como se chega a esse extremo que é o assassinato. A meu ver, uma das formas é contar como se sobrevive na guerra”, diz. “Todas as guerras têm algo em comum, têm pessoas atirando e morrendo. Mas os jeitos 7


em que são travadas são diferentes, as maneiras em que afetam civis são diferentes. E, claro, os resultados são diferentes”, fala Peter R. Kann. Para o americano, que ganhou um Pulitzer por sua cobertura dos conflitos entre Paquistão e Índia em Bangladesh9, a maior parte da destruição bélica pode ser transmitida através de textos, fotos e vídeos, inclusive os feitos por soldados e ativistas. “Portanto, me pergunto: se escritores e fotógrafos podem oferecer tanto da guerra, o que você vê ou aprende lá que não é apresentado? É o tédio. O jornalismo pode apresentar pessoas sendo feridas, sofrimento, queda de prédios, explosões, crian-

Para exemplificar, ele lembra de seus tempos no Vietnã. “Você saía com um grupo de soldados em patrulha e passava seis horas caminhando pela lama, pelas plantações de arroz. Absolutamente nada acontecia. De repente, um atirador aparece e três pessoas são mortas. Os helicópteros chegam e começam a atirar nas árvores, de onde vêm os tiros, há explosões, tudo isso. Mas a ação toda dura no máximo 15 minutos. O tédio é na verdade muito difícil de representar no jornalismo”, diz. “Penso que a vivência da guerra, como repórter, é tão importante não como uma aventura, mas como reportagem”, diz Sant’Anna. “Trazer elementos, vídeos, viver na carne.

ças morrendo, todas as imagens horríveis. Mas não pode apresentar os longos períodos de inatividade, que são pontuados por altos períodos de ação.”

Quando eu estive no bombardeio da Guerra do Líbano, em 2006, por exemplo, era uma guerra assimétrica. Israel tinha uma das forças aéreas mais capazes do mundo contra

Sudão /Kevin Carter 8


uma guerrilha do Hezbollah, num país que não tem um exército nacional sólido. Então essa assimetria é a história dessa guerra. Estar sob o bombardeio e, depois de você, o seu leitor. Para entender o que as pessoas estão sentindo, é preciso viver o que elas estão vivendo.” Em 1993, um jovem fotojornalista sul-africano encontrou uma criança radicalmente malnutrida no Sudão, em um acampamento de combate à fome da ONU. Ela estava curvada, com a cabeça no chão de terra batida, enquanto sua família esperava pelo distribuição de alimentos. O lugar, com esgoto e lixo a céu aberto, era também habitat de abutres. Um deles tinha pousado a 20 metros

formos pegos, o embaixador brasileiro vai te tirar da prisão. Eu nunca mais vou ver meus filhos’. É preciso respeitar essas coisas.” “Tem uma comunidade no Facebook chamada Vulture Club [clube dos abutres]. É um ‘clube’ de jornalistas e agências humanitárias que atuam em áreas de conflito. Embora eu faça parte dessa comunidade, que é útil para os jornalistas, acho o nome de extremo mal gosto”, diz Netto. “Ainda que reconheça uma ponta de verdade – não no sentido que estamos onde a morte acontece e depois vamos embora, mas porque deixamos um pouco essa impressão na cabeça das pessoas. Quando viramos as costas e vamos embora, é nosso papel ir embora! Não é nosso papel

da criança quando Kevin Carter apontou-lhe sua teleobjetiva e conseguiu um dos retratos definitivos da fome no mundo. Depois do clique, afastou a ave do local. A fotografia rodou o mundo. Foi sua ruína. Impactadas, centenas de pessoas queriam saber do destino da criança. Ela foi atacada pela ave? Estava viva? O fotógrafo tinha a retirado dali? Carter se suicidou um ano depois, deprimido com as críticas de que tinha sido, ele mesmo, um abutre. Para os leitores, a perspectiva da foto era mais real que sua explicação. A alcunha persegue jornalistas em todos os setores. São voyeurs, urubus, hienas, carniceiros. Depois de conseguirem a manchete, partem para a próxima notícia e esquecem das carcaças deixadas para trás. Na guerra, essa ideia se reforça. “É muito estranho e perturbador, o fato de você estar ali porque quer”, diz Sant’Anna.

morrer na guerra.” Netto relembra uma história em Alepo, na Síria: “Eu estava lá quando o levante rebelde tinha acontecido, mas a ofensiva do exército não tinha começado. Era uma época de muita tensão10. Só fui autorizado a entrar pela redação do Estadão com a condição de que eu saísse antes da grande ofensiva começar, e nenhum dos jornalistas que estava lá ficou. Eu e um colega fomos abrigados na casa de uma família, e no momento que a ofensiva estava começando, realmente saímos. O bicho estava pegando, helicóptero atirando, avião bombardeando... Senti que as pessoas se sentiram um pouco abandonadas, como se tivéssemos ficado até o limite e aí dito: ‘Olha só, agora é com vocês’. E isso me deu um enorme sentimento de culpa.” Kann, que também cobriu as guerras do Vietnã, Laos e Cambódia, foi publisher do jornal The Wall Street Journal antes de passar

“Geralmente, você está com muito dinheiro, tem uma proteção diplomática – o Itamaraty vai te socorrer se você desaparecer. Agora, na Síria, o cara que estava me levando para lugares muito arriscados falou para mim: ‘Se

ao seu posto atual, de professor na Universidade de Columbia, em Nova York. Ao refletir sobre a ideia do jornalista como abutre, ele diz: “O que é responsabilidade pessoal quando você está face-a-face com a miséria 9


humana? A reação adequada, claro, é querer ajudar. Mas as restrições são muitas. Você é apenas um repórter, não um trabalhador humanitário, e são tantas as crianças, por onde começar? Poderiam dizer que jornalismo é realmente uma carreira ruim, porque o que faço é ser um voyeur do sofrimento.” O americano é contemporâneo de Sydney Schanberg, correspondente do The New York Times em Cambódia na época da tomada de poder pelo Khmer Rouge. Sua história ficou conhecida graças ao filme Os Gritos do Silêncio, de 1984, baseado em uma versão romanceada escrita por Christopher Hudson. Schanberg passou anos buscando seu assistente nativo, Dith Pran, preso nos campos de

de história, que escolheu o lado errado.” “Ao longo do conflito, depois de passar dias correndo risco de vida com outras pessoas, cria-se um vínculo. As pessoas estavam lá se arriscando por minha causa, para ver o meu trabalho. Você entra em uma dinâmica afetiva, entende muito o sentimento daquelas pessoas”, diz Sant’Anna. “Diante disso, o desafio psicológico é muito grande. O desafio de manter a sobriedade e não se esquecer do seu papel. Você está lá para contar uma história, nada mais.” “Quando você deixa a guerra, está deixando pessoas para trás. E há alguma culpa nisso”, diz Kann. “Você pode justificar se perguntando: ‘Mas o que eu deveria fazer?’ Não posso

trabalho forçado do regime de Pol Pot após a retirada americana. Em dado momento do livro, o personagem de Schanberg oferece uma definição de jornalismo com o qual Kann concorda: “O que mais poderia ter feito? Ser jornalista era assim. Você competia por histórias – elas não caíam das árvores –, reportava coisas que não podia ter esperanças de mudar. Descrevia-as da maneira mais justa possível, e deixava para outras pessoas agirem com base em seus despachos.” “É exatamente isso”, diz Kann. “Mas alguns se envolvem tanto nas guerras que cobrem que decidem que há bonzinhos e malvados. E se você toma lados, pode ter uma visão conflitada do assunto e descobrir, com um pouco

levar todos comigo. Não posso levar a vietnamita bonita que me servia café e que me pediu ajuda porque os comunistas estavam chegando. O que vou fazer, casar com ela? Provavelmente não. Adota-la? Ajuda-la a entrar num helicóptero americano? Talvez. Você deixa pessoas assim para trás, e pensa no que aconteceu. Algumas reaparecem anos depois. Não há comunicação direta, mas as pessoas dizem: ‘Lembra daquele menino? Na verdade ele está bem, envelheceu.’” “Em geral, jornalistas não criam amizades ou relações próximas com qualquer pessoa que pode acabar virando sua responsabilidade. Se você é um turista em uma guerra, quer ser um turista com uma mochila, acredite”, conclui o veterano.

Ciclo acelerado

“Ser

espectador de calamidades em outro país é uma experiência quintessencialmente moderna, um oferecimento acumulado daqueles turistas profissionais e especializados conhecidos como 10

jornalistas. Sons e visões da guerras agora estão em nossas salas de estar. Informação sobre o que acontece em outro lugar, também chamada de ‘notícia’, mostra conflitos e violência – ‘se sangra, é manchete’, diz o


11 Iraque /Ed Ou


12

venerável guia de tabloides e noticiários televisivos 24 horas –, para os quais a resposta é compaixão, ou indignação, ou titilação, ou aprovação, conforme cada miséria aparece na tela.” O trecho, livremente traduzido, é de Regarding the Pain of Others, ensaio referencial de Susan Sontag sobre a maneira que vemos imagens de atrocidades. Se ela já se mostrava crítica em 2003, ano de publicação da obra, em relação à sensibilidade humana frente ao sofrimento alheio, é difícil imaginar quão cética Sontag estaria uma década depois. Falecida em 2004, não pode ver a avalanche imagética atual. Em 2012, a agência de tecnologia DOMO

antes de escrever”, fala Adriana Carranca. “Com a internet, que eu acho que tirou um pouco da importância do furo – a manchete do jornal de amanhã eu já vi online, sabe? –, o papel do jornal se torna dizer: ‘essa é a notícia, e ela importa por causa disso aqui.’” A inglesa Kate Adie, da BBC News, faz parte do grupo de repórteres televisivos que viraram rostos conhecidos. Ao longo de duas décadas, cobriu a Guerra do Golfo e conflitos na Iugoslávia, Albânia, Ruanda, China e Serra Leoa. Deixou o posto em 2002, e tornou-se desesperançada com a televisão atual. “A reportagem não acontece mais, foi destruída. O ciclo de notícias 24 horas nos entrega pessoas que se levantam e falam com a câmera, ao

criou um infográfico sobre os dados gerados online diariamente.11 As cerca de 2,1 bilhões de pessoas com acesso a internet no mundo produzem, por minuto, 204 milhões de e-mails, 2 milhões de buscas no Google, 684 478 conteúdos via Facebook, 100 mil tweets, 27 778 posts no Tumblr, 3 600 fotos no Instagram e 48 horas de vídeo no YouTube. No meio, está o jornalismo. Para Francesca Borri, a freelancer revoltada, o problema do online esbarra de novo na padronização da notícia. “As novas tecnologias de comunicação nos tentam a acreditar que velocidade é informação. Mas isso é baseado numa lógica autodestrutiva”, diz. “O jornal e a revista não têm mais distinção, então não há por que pagar o repórter.” Para ela, o leitor atual não é raro nem fugidio: “Eles estão aí e, ao contrário do que muitos acreditam, são leitores inteligentes”. O ponto, desabafa Borri, “é que os chefes nos

invés de entregar reportagens feitas por uma equipe própria onde as coisas estão acontecendo”, fala12. Maggie O’Kane concorda: “O jornalismo se tornou tão centrado em entregar a notícia na hora, todas as horas... Que não estamos mais descobrindo coisas.” Robert Fisk, enviado do The Independent ao Oriente-Médio, opina que quanto mais tecnologicamente avançado, mais politicamente fraco o jornalismo se torna. “Os jornalistas não são mais independentes. Possuem as habilidades técnicas para fazer o trabalho, mas também estão atrelados a corporações multinacionais que os financiam”, fala, pensando especialmente no jornalismo televisivo13. “Eles também precisam fazer acordos com instituições locais para poder transmitir no estrangeiro, e esse tipo de acordo influencia a verdade. Se você concorda em ‘cooperar’, perde a liberdade de reportar os dois lados

pedem para sermos os mais rápidos, ao invés de escutar, pensar, estudar e aspirar a esclarecer. Eles chamam de simplicidade, mas na verdade é superficialidade”. “É um privilégio poder absorver o lugar

da história de maneira acurada. A reportagem se tornou um lixo porque não há mais reportagem nas ruas, em que se assiste a uma troca de tiros no coração da cidade sem ser incomodado por forças de segurança.”


E quando vem das ruas, às vezes a matéria não consegue ser publicada. “Na Líbia, houve um dia que eu tinha entregado meu material de domingo na noite anterior, e eu e meu motorista fomos de manhã para um bairro de periferia”, lembra Andrei Netto. “Alguém nos disse, ‘Descobriram um massacre aqui perto’, e a gente chegou numa casa dos horrores, com teto de zinco e no meio do sol do deserto. As pessoas tinham sido presas ali dentro, dissidentes que foram levados pra lá pra serem metralhados e depois queimados vivos – ou mortos, dependendo dos caras que... Enfim. Só tinham ossos humanos e cinzas. O crânio, as costelas, era maca-

bro. Saí estarrecido, cheio de depoimentos, de testemunhos de sobreviventes, fotos de executados com pés e mãos amarrados. Um crime de guerra. Escrevi uma matéria gigante e, no dia seguinte, entraram três linhas sobre o assunto, no meio da matéria que já estava escrita.14 Aí eu quis dar um tiro na cabeça. Liguei pra redação e briguei com todo mundo. E me disseram, ‘Andrei, não dava. Industrialmente, não dava.’” “Na opinião deles, não era um ‘Parem as máquinas!’ Não sei se existe isso ainda. Nessas horas não existe mais essa merda”, desabafa. “Acabei dando sentido pros caras, mas foi enlouquecedor.”

Coração de soldado algoz não devia ter mais que 13 anos, pelas contas do canadense Ian Stewart. Em 1999, quando era chefe da filial do oeste africano da Associated Press, levou um tiro na cabeça de um rebelde em Freetown, na Serra Leoa. Ele sobreviveu, mas a ampla presença de crianças-soldados e mutilados naquela guerra civil, que terminou oficialmente em 2002, o marcaram. “Eu fechava meus olhos com força para segurar as lágrimas que repórteres não deveriam mostrar”, fala, sobre seu período no país.15 Para Peter Kann, a mentalidade desenvolvida numa zona de guerra deve ser levada em conta. “Quando se cobre guerras, o que consideramos dramático é diferente. Quando se sente a explosão de um morteiro pela primeira vez, é horripilante, Mas se você esteve na mesma situação dezenas de vezes, nem acha que é uma história mais. Não

O

cupante. “Chegar em Paris é sempre uma porrada”, diz Netto. “Você viu que tem gente morrendo em algum lugar, tem civis, tem jovens, tem crianças, tem velhos, tem mães desesperadas. O que se vê nessas horas é muito pesado. Isso muda a vida da pessoa.” Foi em outro tipo de situação extrema, quando cobria o desastroso terremoto no Haiti, em 2010, que Lourival Sant’Anna externou um pensamento parecido. “Eu estava ouvindo rádio com o fotógrafo Jonne Roriz, tentando saber onde tinha sido o epicentro de um aftershock. Quando terminou o noticiário, começou a tocar uma música clássica. Eu desliguei e falei: ‘Não posso ouvir isso, senão vou me humanizar’”, conta. “Vi jornalistas desabarem, que choraram e foram embora. Vejo sempre. Mas quando estou lá, tenho outro tipo de atitude emocional, não sinto nada.”

significa que deixou de sentir, mas que está um pouco dessensibilizado. E é preciso algo novo, diferente, mais dramático para afetalo...”, diz. Voltar para casa também pode ser preo-

O psiquiatra Anthony Feinstein, professor da Universidade de Toronto, pesquisa a relação entre transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e correspondentes de guerra. Ele estima que 29% dos jornalistas que co13


14

briram cinco ou mais conflitos sofrem com a condição.16 Feinstein desenvolveu um programa online (conflict-study.com) para que jornalistas pudessem avaliar, eles mesmos, seu bem-estar psicológico. Os questionários cobrem cinco temas: dados demográficos, TEPT, depressão, bem-estar psicológico geral, histórico de trauma e abuso de substâncias. Ao completar o processo, o jornalista recebe um feedback imediato, através de um sistema de pontuação. Dependendo do resultado, aconselha-se o início de um tratamento psicológico. Após a Guerra Civil americana, o TEPT ganhou um nome quase poético: coração de soldado. Oficialmente listado como con-

exercer seu papel como correspondente. “Às vezes dedico uma hora preciosa para falar de infância, entender por que eu reagi daquela forma, por que meu coração disparou, por que fui agressivo, ofensivo ou sincero quando não era para ser sincero”, diz. “Existem ligações com questões da minha vida pessoal, e é preciso entende-las”. Voltando à história do Haiti, ele diz que o impacto da tragédia só o atingiu fora do país. Ao voltar ao Brasil, levou os filhos ao cinema para uma sessão de Invictus, que conta a história da seleção sul-africana de rugby em 1995, durante o segundo ano de Nelson Mandela na presidência. “Reencontrei meus filhos, que na época tinham 10 e 8 anos”,

dição psicológica em 1980, na terceira edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, se desenvolve em pessoas expostas a eventos traumáticos como assédio sexual, ferimentos sérios ou ameaça de morte, e causa altos níveis de ansiedade, depressão e distanciamento emocional. Estima-se que, após dois anos, torne-se uma modificação duradoura da personalidade. Embora nem todos os jornalistas sejam diagnosticados com o transtorno, testemunhar atrocidades deixa todo tipo de marca. “Para ser honesto, a minha sensação é de que nada mais importa quando cubro um conflito”, falou Netto. “Minha mulher, e isso já aconteceu umas cinco vezes nos últimos meses, me vê meio abatido e diz: ‘Ah, coitadinho, tá precisando cobrir uma guerra’. É claro que ela fala isso como uma brincadeira, mas percebeu que existe esse attachément, esse vínculo sentimental que se estabelece

lembra Lourival. “E no filme há muitos menininhos negros, de cabelo raspado, como no Haiti. Pensei nos meninos, nos tantos meninos que encontrei que estavam perdidos, não tinham mais família, não sabiam onde estavam, não tinham mais casas... E chorei muito.” No parágrafo final de Regarding the Pain of Others, Susan Sontag – ela mesma correspondente de guerra em Sarajevo – escreve: “Nós verdadeiramente não conseguimos imaginar quão terrível, quão amedrontadora é a guerra, e quão normal ela se torna. Não podemos entender, não podemos imaginar. É isso que todo soldado, todo jornalista, todo trabalhador humanitário e observador independente que trabalhou sob fogo cerrado e teve a sorte de eludir a morte que atingiu outros próximos, teimosamente sente. E eles estão certos.” O ponto pode ser ilustrado por uma histó-

entre o repórter e a comunidade que está na guerra, e é difícil explicar.” Lourival San’tAnna, adepto de análises, tem uma terapeuta disponível por Skype quando está fora e acha fundamental para

ria17 do correspondente irlandês Fergal Keane, que reportou sobre o genocídio de cerca de milhão de pessoas em Ruanda, em 1994. Ele encontrou, em um país vizinho, colegas que vinham de lá, em completo desarranjo


emocional. “Eles estavam arrasados. Perguntei o que houve. Um deles me puxou e disse: ‘É dano espiritual’. Não entendi muito bem. Mas entendo tudo agora.” Foi Ruanda também que causou uma mudança de rumos na vida do fotojornalista Sebastião Salgado. Ele havia visitado o país quatro vezes antes do genocídio, e o via como um lugar promissor. Dizia que suas plantações de chá eram as mais belas do mundo – até as famílias responsáveis por elas morrerem a machadadas. Salgado fotografou o país em 1994 e 1995, e disse ter ficado doente por isso. “Vi coisas terríveis. Vi populações em total desespero. Quando terminei esse trabalho, meu corpo

Under Fire: Journalists in Combat, dirigido por Martyn Burke e produzido por Anthony Feinstein, ele chora ao se lembrar do episódio: “Falei com ele mentalmente e disse: ‘Por favor, entenda porque eu preciso fazer isso’”. “Fui um participante porque estava lá e não fiz nada para que parassem. Não poderia ter feito, mas porque você está lá e não pode fazer nada, e por isso não faz nada, se sente parte daquilo”, diz. Existe também a relação com a atitude emocional dos receptores das notícias de guerra, justamente o objeto do estudo de Susan Sontag. “As pessoas podem se desligar não apenas porque uma dieta consistente de imagens de violência as tornou indiferentes, mas porque

inteiro estava doente. Eu não conseguia mais dormir, não fazia mais a digestão. Fui ver o médico e fiz exames. Ele me disse: ‘Você não tem nada, mas está morrendo’. Eu tinha vivido um universo de degradação tão profundo que meu corpo não se dava mais o direito de viver”, diz18. A síndrome de sobrevivente é um dos sintomas mais fortes do transtorno de estresse pós-traumático. É causada por uma percepção pessoal de culpa por ter sobrevivido, enquanto outros morreram. É o caso do cinegrafista Paul Watson, que estava na Somália quando uma ação de resgate dos EUA deu estrondosamente errado, em 1993. A Batalha de Mogadishu, como ficou conhecida, durou dois dias e custou a vida de 18 soldados americanos, um paquistanês, um malasiano e cerca de 3000 somalis, entre eles civis. Os rebeldes locais comemoraram a retira-

têm medo”, escreve ela. “É porque uma guerra, qualquer guerra, não parece ser algo que pode ser impedido que as pessoas se tornam menos responsivas aos horrores.” “O que me chateia é ver as pessoas não dando bola pro assunto”, diz Netto. “Às vezes eu me sinto um psicopata, colocando no Facebook, escrevendo matéria, chamando atenção, e percebendo que as pessoas não estão muito interessadas... É uma forma de defesa. Elas se chocam num primeiro momento, se revoltam num segundo. Querem e exigem providências, mas a mobilização não vem, a solução não vem, então a melhor forma de conviver com isso é se afastar. Se não, vai pesar no dia-a-dia.” A compaixão é um sentimento instável, resumiu Sontag. Se não for traduzida em ação, se desmancha. “A questão é o que fazer com os sentimentos que foram despertados com as imagens de guerra, com o conhecimento co-

da estrangeira linchando os corpos dos americanos, que não puderam ser recuperados. Watson filmou a cena mais conhecida do acontecimento, quando um cadáver é arrastado pelas ruas da capital. No documentário

municado. Se a pessoa sente que não há nada que ‘nós’ possamos fazer – mas quem somos ‘nós’? –, e nada que ‘eles’ possam fazer também – e quem são ‘eles’? –, então começa a se sentir entediada, cínica, apática”. 15


Virando a mesa

Jim

Hicks não é jornalista nem veterano de guerra, mas é fascinado pelo assunto. Professor de literatura comparada na Universidade de Massachusetts, nos EUA, publicou Lessons from Sarajevo, uma análise dos modelos de representação de guerra, de Abraham Lincoln a Slobodan Milosevic. Hicks enxerga um padrão de representação utilizado pelos correspondentes. A narrativa do jornalismo de guerra estaria atrelada a um “triângulo sentimental” formado pelo observador impotente, pelo agressor bestial e pela vítima passiva. O correspondente, assim como o leitor, ocupa o lugar de observador. Para Hicks, as consequências desse tratamento são claras. Ao apresentar os acontecimentos dessa maneira, objetifica-se o outro e seu sofrimento. A reação do leitor acaba tendo mais a ver com si mesmo – “o valor é negado à experiência do objeto e adicionado ao ponto de vista do sujeito” – do que com o acontecimento e as pessoas envolvidas. “A proximidade imaginária do sofrimento infligido em outros, que é fornecida por essas imagens, sugere uma conexão entre os sofredores distantes – vistos num close na tela da televisão – e o espectador privilegiado, que simplesmente não é verdadeira”, escreve Sontag. Para ela, o que há é uma relação de poder: “Enquanto sentirmos simpatia, não nos sentimos cúmplices da causa do sofrimento. Nossa simpatia proclama nossa inocência, assim como nossa impotência”. Hicks argumenta que esse tipo de representação não é mais suficiente nos dias de hoje. A pluralidade do mundo atual, em que fronteiras físicas, culturais, informacionais se dissipam um pouco mais todos os dias, torna esse modelo obsoleto. Apresentar uma história de guerra apenas do ponto de vista de uma vítima indefesa não apenas não bas16

ta para compreender, como cria um sentimento de insatisfação. O atual modus operandi tem como base a notícia-padrão, que apresenta uma situação e a ilustra com um personagem. No caso do jornalismo de guerra, os personagens mais utilizados são os civis, frequentemente colocados como vítimas passivas num cenário de bombardeios, deslocamentos e perdas. Não é apenas Hicks que se incomoda com isso. As próprias vítimas representadas também. Quando seu sofrimento individual passa a servir meramente como ilustração para um ponto de vista ou como uma commoditie (“mais uma foto” de uma explosão ou de um refugiado), o “objeto” representado pode se rebelar contra os jornalistas. Francesca Birro escreve: “A verdade é que falhamos. Após dois anos, nossos leitores mal lembram onde fica Damasco, e o mundo instintivamente descreve o que acontece na Síria como ‘aquela confusão’ – só entendem sangue, sangue, sangue. E é por isso que os sírios não nos suportam. Todos gritam: ‘Aqueles sírios, aqueles árabes, bárbaros!’ Quando cheguei aqui, os sírios me paravam e diziam: ‘Obrigado por mostrar ao mundo os crimes do regime’. Hoje, um homem me parou e disse: ‘Você é uma vergonha’.” Conforme a internet abrange mais territórios – no Egito, durante a desconexão comandada pelo governo em 2011, os manifestantes inventaram meia dúzia de maneiras de manter contato com o mundo19 –, o lema jornalístico de “dar voz aos sem voz” se torna simplista. Com uma câmera e um teclado, por exemplo, tanto vítimas quanto agressores podem usar sua própria voz para apresentar seus pontos de vista. O futuro das representações de guerra eficazes estaria em modelos de múltipla pers-


pectiva e multimídia. Não por acaso, Lessons from Sarajevo é recente. Hicks sabe da existência da interação com o público, da sobrevida de notícias nos arquivos online, das possibilidades midiáticas que a internet oferece e da progressiva aceitação de outros tipos de reportagem. O jornalismo, embora mantenha sua essência de esclarecer acontecimentos num contexto histórico, aos poucos ganha nova estrutura. Nesse quesito, alguns veículos se destacam. O The New York Times apostou pesado na convergência de texto, fotos e vídeos. Suas matérias escritas costumam ser acompanhadas por documentários de cerca de 10 minutos sobre o assunto em questão. É possível ver os rostos das fontes, suas expressões, o cenário que as cerca, dar nova vivência ao texto. Mapas interativos e galerias de fotos situam um pouco mais o leitor. Às vezes, há também uma conversa em vídeo entre editor e repórter, sobre o processo da reportagem. Mesmo no esquema tradicional de texto e imagem, o Times consegue surpreender. Um artigo de janeiro de 200720 atraiu controvérsias, ao contar a história de integração falha entre soldados americanos e iraquianos em Bagdá, por si só uma polêmica nos EUA. Os repórteres Damien Cave e James Glanz introduziram notáveis toques de observação pessoal no texto, algo surpreendente para o jornal. “Um soldado iraquiano no beco apontou seu rifle para o repórter americano e apertou o gatilho. Só houve um clique: a arma não tinha munição. O soldado riu de sua piada”. Em um dos parágrafos, a matéria menciona a morte de um soldado americano, alvejado por um atirador de elite escondido num prédio. Cave e Glanz escreveram essa história21 dias depois, suscitando uma polêmica ainda maior ao descrever toda a ação, no mesmo estilo subjetivo, do tiro à morte do soldado, pas-

sando pelo processo de regaste e o período de tensão até que a tropa conseguisse sair do lugar. As primeiras linhas causam calafrios: “O sargento Hector Leija vistoriou a cozinha, procurando por armas ilegais. A uma parede de distância, no apartamento ao lado, uma família xiita amedrontada encolhia-se perto de um aquecedor, embalando um bebê.” “Ao invés de recontar um evento de maneira não passional, como é habitual no Times, essa história tem uma ousadia que infelizmente falta muito à reportagem de jornais americanos – uma ousadia que editores seriam sábios em encorajar”, escreve Paul McLeary em artigo para a Columbia Journalism Review.22 Outro tom distinto é o da rede Al Jazeera. Seu portal é recheado de documentários em países pouco reportados, como Chade, Nepal e Sudão. Sobre outros mais falados, como a onipresente Síria, é possível encontrar outros pontos de vista, como em The Revolution is Being Televised, de Adam Pletts23. É a história por trás dos vídeos pixelados usados pelos noticiários para ilustrar as novidades diárias da situação síria. Feito ao longo de dois meses na província de Homs, o documentário acompanha o cotidiano de seis ativistas em suas visitas a hospitais e linhas de frente, filmando debates e o processo de edição do grupo. “Antes da revolução, a vida se resumia a acordar, comer e dormir de novo. Agora há um motivo para viver”, diz um, enquanto traga calmamente um cigarro. O britânico The Guardian também costuma ser citado quando se fala de novos modelos de jornalismo, por constantemente abrir espaço para a contribuição de relatos de usuários. Também é vanguarda quando se trata de criar interfaces especiais, onde há diferentes tipos de interação com a notícia. 17


Faces of the War é um deles24. No ar desde março de 2013 para marcar os dez anos da Guerra do Iraque, traz seis fotografias que se tornaram ícones do conflito. A imagem estática contrasta com o áudio, em que os protagonistas falam sobre o momento do retrato e o que aconteceu depois em suas vidas. São as vítimas ganhando voz – uma voz crítica e desconfortável. A Vice, veículo alternativo com grande presença online e disponível em 23 idiomas, é especialmente conhecida por seus documentários. Um deles é a série Ground Zero sobre a Síria, feita por Robert King. Um dos capítulos se chama Snipers of Aleppo25, em que King dá voz aos atiradores de elite rebeldes. Embora a violência seja direcionada ao exército do governo, os atiradores ocupam uma clara (e desconfortável, para o espectador) posição de agressão. Em meio ao fogo cruzado, civis correm para cruzar as ruas, trazendo sinistras lembranças do Sniper Alley bósnio. A lição de Sarajevo do título de Hicks é justamente essa, da importância do desconforto. Ele escolhe a capital da Bósnia por ter sido um local-chave para o problema com a representação da guerra. O fato de que não ser uma nação distante e de costumes “exóticos”, mas ocidentalizada, reconhecível e europeia, criou um racha na desidentificação entre observadores, agressores e vítimas. Em Sarajevo ou Gorazde, seu vizinho poderia ser tanto uma vítima quanto um agressor. O que, afinal, os tornara tão diferentes? Se aquilo acontecia na Bósnia, tão perto, tão “civilizada”, por que não poderia acontecer em Londres ou Paris? “As histórias de guerra deveriam ser julgadas se, e em que medida, elas nos negam a saída fácil, e tornam impossível para nós ver as posições de vítima, agressor e obser18

vador como imutáveis e designadas com antecedência”, escreve Hicks na conclusão do livro. São os bósnios que oferecem bons exemplos do que o professor chama de “virar a mesa” da vítima passiva. Em 1992, o bósnio Semezdin Mehmedinovic publicou a coletânea de poesias Sarajevo Blues, sobre a vida em estado de sítio na capital. Em 2004, os versos viraram música pelas mãos do grupo Charming Hostess. Na mais perturbadoramente pop delas, Death Is a Job, Jewlia Eisenberg canta: I’m running across an intersection To avoid the bullet of a sniper From the hill when I walk into some photographers Well, they’re doing their job, in deep cover Death is a job Life has narrowed down completely Reduced to gestures Death is a job Well if a bullet hit me they’d get a shot Worth so much more than my life That I’m not even sure whom to hate The sniper or the monkey with a Nikon For the Chetniks I’m just a simple target But those others only confirm my utter helplessness And even take advantage of it It’s a man with a newspaper on his head on the street with a sniper

Os quadrinhos impressionistas de Joe Sacco, testados com sucesso ainda na Bósnia, podem ser tão radicais à primeira vista quanto a ideia de transformar um estado de sítio em


música pop. Apesar de estilizadas, as imagens de Sacco, que já ilustraram também Iraque, Palestina, Chechênia e Índia, são ricas em detalhes, mesmo nos momentos grotescos de mortes e massacres. De certa maneira, Sacco consegue mostrar em seus quadrinhos mais dos horrores carnais da guerra que qualquer outro gênero jornalístico, que barra imagens tidas como explícitas demais. “São muito poucas as fotografias que capturam um momento exato, e essas imagens estão sempre conosco. O cara morrendo na Guerra Civil espanhola, o suspeito vietcongue levando um tiro do chefe de polícia de Saigon”, diz Sacco, em entrevista de 201126. “Mas você sempre pode capturar esse momento no desenho. Sempre pode ter o momento exato, preciso, quando alguém ergue o bastão, quando alguém está caindo. Hoje sei que há muito poder nisso.” Para ele, é fundamental entender a mente de quem desenha. “É preciso se colocar no lugar de todos que você desenha, seja um soldado ou um civil. Você precisa pensar em como é. O que eles estão pensando? O que estão sentindo? Verdade seja dita, é parte da razão pela qual não mostro o rosto dos soldados israelenses em Footnotes on Gaza. Não conseguia entender. Não conseguia sempre me colocar em seu psicológico, então em muitos casos não desenhei seus rostos.” Em março de 2010, Arielle Emmett publicou um artigo na American Journalism Review discutindo a relação entre veículos de mídia americanos e imagens explícitas. O gancho era o terremoto haitiano, de onde vieram incontáveis imagens, muitas delas chocantes. Acendeu-se novamente o debate sobre o limite da sensibilidade e a censura visual. Para Emmett, a recusa de jornais em pu-

blicar imagens explícitas tem dois motivos: a preferência por uma abordagem hiperlocal, que deixa notícias nacionais e internacionais para a internet, e medo de alienar leitores, que deixariam de comprar os jornais. “A Internet se tornou a graça salvadora do fotojornalismo”, diz Donald Winslow, editor da revista News Photographer, na mesma matéria. “O que você vê nos jornais é o menor denominador comum das fotos que um fotógrafo está disposto a imprimir.” Através de galerias de fotos online e seus sites pessoais, fotógrafos agora podem disponibilizar todo o material que acharem necessário. Para Kann, a censura visual tem a ver com uma quase lenda jornalística, que imagina seus leitores desfrutando do jornal à mesa do café-da-manhã, cercados pela família. “Então pelo mesmo motivo que não se usa linguagem de baixo calão, não se coloca fotos chocantes ou ofensivas. Essa é a tradição, que está sendo quebrada pela internet”, diz. Fotojornalistas, que pela natureza do trabalho precisam estar muito próximos da ação, são os primeiros a tomarem cuidado com o que fotografam. “Nunca fui um fotógrafo, mas sinto que a maioria dos fotojornalistas de guerra entendem que você pode transmitir o drama da guerra sem a imagem mais grotesca. Que o corpo de uma criança contorcido no chão é mais poderoso que a imagem de uma bala entrando na cabeça de um soldado. Eles encontram jeitos”, fala Kann. Lourival Sant’Anna, que também fotografa e filma suas expedições, já esteve nessa situação. “Na Líbia, me chamaram para fotografar a cabeça de um homem que tinha sido cortado por um pedaço de foguete”, diz. “O cérebro dele estava num saco plástico, a cabeça cortada como um queijo, tinha a barba dele, o rosto. Eu tenho essas fotos, que obviamente 19


não posso usar.” Sontag diz que costumava-se pensar, quando imagens explícitas eram incomuns, que elas mostravam algo que precisava ser visto e incitavam o espectador a sentir mais. O cenário mudou. “A sensibilidade moderna vê o sofrimento como um erro, um acidente ou um crime. Algo que precisa ser consertado. Algo que precisa ser refutado. Algo que faz com que a pessoa se sinta sem poder”, escreve. A crítica argumenta que, mesmo dentro dessa mentalidade, existem fotos que se mantem poderosas justamente por serem tão difíceis de se olhar. “Fotos de rostos arruinados

sempre testemunharão sobre a sobrevivência de uma grande injustiça”, fala, citando os japoneses atingidos pela bomba atômica e ruandeses com rostos desfigurados por machados. Para ela, as imagens são especialmente importantes em nosso contexto memorial atual. “Cada vez mais, lembrar não é recordar uma história, mas a capacidade de convocar uma imagem”, escreve. “Fotografias que todos reconhecem hoje são parte constituinte do que uma sociedade escolheu pensar, ou declara que escolheu pensar.”

Safe Area Gorazde /Joe Sacco

Para

Lourival Sant’Anna, as regras da profissão são ainda mais válidas por ser este um ambiente em transformação. “Há muitos atores novos gerando informação, muitas vezes carregada de sentimentos, filmando com seus celulares e distribuindo para o mundo. É diferente da sua percepção como jornalista”, diz. Foi nesse contexto que Andy Carvin, estrategista sênior da rádio NPR, se tornou uma refe20

rência. Em 2011, no início da Primavera Árabe, seu Twitter (@acarvin) – foram mais de 60 000 tweets entre dezembro de 2010 e setembro de 2011 – se impôs como um sistema de verificação que autenticava, interpretava e contextualizava informações enviadas da Tunísia e do Egito, através de uma vasta rede de usuários locais. O caso de Carvin serviu de case para o trio de professores de jornalismo Alfred Hermida, Seth C. Lewis e Rodrigo Zamith, que apresen-


Ruanda /James Nachtwey tou sua análise no Simpósio Internacional de Jornalismo Online (ISOJ) da Universidade de Austin, nos EUA, em 2012. O efeito Twitter, conta a análise, permite que redações possuam uma cobertura ao vivo sem repórteres próprios no local, simplesmente recolhendo o que está disponível online: “Isso suscitou o papel do jornalista como um curador que filtra, seleciona e contextualiza quantidade copiosas de informação ao vivo”. A história marca uma mudança de paradigmas na hierarquia de credibilidade jornalística, que historicamente prefere figuras oficiais e de autoridade como fontes – o bom e velho “especialista”. “Fontes de elite estão no topo da hierarquia e, como resultado, são primariamente quem molda a agenda de notícias e a abordagem interpretativa utilizada pelos jornalistas”, escreve o grupo. As redes sociais, se bem utilizadas, teriam o potencial para romper essas estruturas e também a distinção entre produtor e consumidor de notícias. Na conclusão, o grupo diz que Andy Carvin simboliza a miscelânea de novos e velhos

valores jornalísticos ao combinar notícias, opinião e emoção. Em entrevista à PBS27, Carvin diz: “Se você se esforça para cultivar uma comunidade de pessoas que não é apenas seu público, mas pessoas que têm interesse em seu sucesso e que têm algumas habilidades que pode auxilia-lo a atingir esse sucesso, em vez de ter público você tem um exército”. Seus seguidores são também seus tradutores e pesquisadores, pessoas que “sabem a diferença entre um vídeo do Oriente-Médio e do norte da Síria”. “Se eu estiver dando ao público a oportunidade de testemunhar de novas maneiras, terei feito algo bom”, conclui. Há, portanto, meios para aprimorar a eficácia do jornalismo de guerra nos anos 2010. Para Hicks, é preciso “um pensamento complexo para identificar e explorar as manipulações sociais, sejam elas históricas, atuais ou potenciais. Reduzir a força dessas históricas ricas, complexas e nuançadas a conclusões do tipo sound bite seria prestarlhes um desserviço”. 21


Conclusão

“Não

se sabe quantas pessoas morreram nesse campo em seus doze anos de existência, mas sabe-se que pelo menos 45 000 morreram nos últimos três anos. E em fevereiro e março passado, 2 000 pessoas foram mortas em câmaras de gás porque, apesar de fracas demais para trabalhar, elas não tiveram a graciosidade de morrer, então isso lhes foi arranjado.” Sessenta e oito anos depois da reportagem de Martha Gellhorn, há no campo alemão de Dachau um memorial para o prisioneiro desconhecido. Em cinco línguas, lê-se o refrão do pós-guerra: “Nunca mais”. Por que, afinal, a reportagem de guerra e sua evolução importam? Robert Fisk responde que é pelo bem histórico, “mas também para que ninguém no futuro possa dizer, como disseram sobre o Holocausto, que ‘nós não sabíamos, ninguém nos contou’”. Kate Adie parte do mesmo princípio. “A reportagem de guerra serve para esclarecer a situação para as pessoas, se você puder lhes dar as razões e não só os fatos”, fala. “Meu trabalho é ir lá e dizer: ‘Olhem o que está acontecendo aqui, é significante’. Essa é a justificativa. Quanto mais as pessoas sabem do mundo, espero eu, mais conscientes se tornam e melhores são suas decisões.” Não é incomum, dentro de grandes redações, escutar frases como “mas isso é muito pesado” ou “o leitor quer algo leve”. A longo prazo, pensamentos desse tipo acabam por minar a importância do jornalismo. A função primeira do jornalista, não custa lembrar, não é agradar ao leitor. É apresentar, interpretar e esclarecer acontecimentos de interesse público, mesmo que o receptor da notícia não saiba – ainda – de sua relevância. Manter isso em mente é ainda mais im22

portante quando se trata de jornalismo de guerra e de conflito, situações naturalmente contrárias ao conceito de leveza. Trazem consigo destruição e morte, mas também compreensão e possibilidades reais de mudança. “Se o jornalismo for poderoso o suficiente”, diz Peter R. Kann, “você vai largar a xícara de café”. E se para o professor Jim Hicks a dúvida do mundo midiático se resume à questão de em quem confiar, para Michael Nicholson, o


Líbia /Aris Messini veterano da International Television News, a resposta é o correspondente de guerra. “Somos importantes para você. Você não vai ouvir do governo, nem necessariamente dos militares. Eu gostaria que você confiasse em nós”, diz28. Em meio à Guerra da Crimeia, em idos de 1850, provavelmente dentro de uma tenda à luz de velas, William Howard Russell estava em dúvida. Não conseguia decidir se omitia ou não alguns dados militares de sua

reportagem. Em uma carta a John Delane, seu editor, perguntou: “Devo contar essas coisas ou segurar minha língua?”. A resposta de Delane é atemporal: “Continue dizendo tantas verdades quanto for possível”. •

23


24

Afeganist達o /Baz Ratner


25


Referências 1. O Estado de São Paulo Segunda-feira, 21 de março de 2011 Lourival Sant’Anna Milícias espalham pavor entre a população civil Forças de Kadafi disparam tiros de fuzil contra família que fugia dos bombardeios em Benghazi Mohamed Asheraf geme de dor e levanta o braço que pode mover, o direito. O esquerdo está amarrado à grade da cama, e tem um dreno para retirar sangue contaminado, que forma uma grande mancha vermelha no lençol. Seu pequeno peito é coberto por dois grandes curativos e três cabos que monitoram seu coração. Mohamed, de cinco anos, ainda não sabe, mas seu pai morreu no sábado, e sua mãe está em coma numa cama em frente à sua, na unidade de terapia intensiva do Hospital Al-Jalal, no sul de Benghazi. Atingida por um tiro de fuzil na cabeça, ela ainda respira mas não deve sobreviver. Assim como seu pai Ahmed, Mohamed levou um tiro no peito. Os três saíam de carro de casa, no bairro de classe média alta de Tapalino, com a intenção de fugir do bombardeio de foguetes e dos disparos de fuzis e granadas, quando foram vistos por homens que passavam num Toyota Land Cruiser bege, o veículo padrão das forças de elite de Muamar Kadafi. Segundo testemunhas, os homens voltaram com seu carro, dispararam os fuzis contra a família e seguiram caminho. A história da família Asheraf é um exemplo de como as forças de Kadafi procuraram espalhar o pavor entre os moradores de Benghazi - e noutras cidades que caíram nas mãos dos rebeldes, como Ajdabiya, Misrata e Zawiya. Noutro grande hospital de Benghazi, o Hawari, um auxiliar de ambulância era submetido ontem à tarde a uma cirurgia para retirar a bala de fuzil de seu peito. O médico Jamal Bin Amr contou que telefonaram para o hospital no sábado, pedindo uma ambulância. Quando ela chegou ao local, abriram fogo. “Foi uma armadilha”, disse Amr. Quatro homens armados de fuzis guardavam ontem a entrada do hospital, que na véspera foi alvo de tiros. Outra ambulância foi sequestrada e usada pelos homens de Kadafi, para percorrer as ruas atirando a esmo, contou o médico. 26


Os homens leais ao regime não conseguiram tomar Benghazi, mas alcançaram seu objetivo de causar o caos. Na madrugada de sábado, o desempregado Yasser Salim, de 22 anos, recebeu um telefonema dos shebab (jovens), como são chamados os combatentes rebeldes, para que fosse buscar uma caminhonete e levar para outro ponto da cidade. Quando dirigia a caminhonete, outros shebab pensaram que o veículo fosse dos homens de Kadafi, e abriram fogo contra ele. Salim levou um tiro de fuzil no lado esquerdo do rosto. “O bombardeio de ontem foi indiscriminado”, testemunhou Bin Amr. “Tenho certeza de que, se Kadafi puser as mãos em Benghazi, vai pôr fogo nela como Nero pôs fogo em Roma.” 2. The London Times November 14, 1854 William Howard Russell HEIGHTS BEFORE SEBASTOPOL, OCTOBER 25 -- If the exhibition of the most brilliant valor, of the excess of courage, and of a daring which would have reflected luster on the best days of chivalry can afford full consolation for the disaster of today, we can have no reason to regret the melancholy loss which we sustained in a contest with a savage and barbarian enemy. I shall proceed to describe, to the best of my power, what occurred under my own eyes, and to state the facts which I have heard from men whose veracity is unimpeachible, reserving to myself the right of private judgement in making public and in surpressing the details of what occurred on this memorable day... After losing ground to a British force half its size, the Russians retreated to the heights above Sebastopol, a port town on the Black sea . At 11:00 our Light Cavalry Brigade rushed to the front... The Russians opened on them with guns from the redoubts on the right, with volleys of musketry and rifles. They swept proudly past, glittering in the morning sun in all the pride and splendor of war. We could hardly believe the evidence of our senses. Surely that handful of men were not going to charge an army in position? Alas! It was but too true -- their desperate valor knew no bounds, and far indeed was it removed from its so-called better part -- discretion. They advanced in two lines, quickening the pace as they closed towards the enemy. A more fe27


arful spectacle was never witnessed than by those who, without the power to aid, beheld their heroic countrymen rushing to the arms of sudden death. At the distance of 1200 yards the whole line of the enemy belched forth, from thirty iron mouths, a flood of smoke and flame through which hissed the deadly balls. Their flight was marked by instant gaps in our ranks, the dead men and horses, by steeds flying wounded or riderless across the plain. The first line was broken – it was joined by the second, they never halted or checked their speed an instant. With diminished ranks, thinned by those thirty guns, which the Russians had laid with the most deadly accuracy, with a halo of flashing steel above their heads, and with a cheer which was many a noble fellow’s death cry, they flew into the smoke of the batteries; but ere they were lost from view, the plain was strewed with their bodies and with the carcasses of horses. They were exposed to an oblique fire from the batteries on the hills on both sides, as well as to a direct fire of musketry. Through the clouds of smoke we could see their sabers flashing as they rode up to the guns and dashed between them, cutting down the gunners as they stood. The blaze of their steel, like an officer standing near me said, “was like the turn of a shoal of mackerel.” We saw them riding through the guns, as I have said; to our delight, we saw them returning, after breaking through a column of Russian infantry and scattering them like chaff, when the flank fire of the battery on the hill swept them down, scattered and broken as they were. Wounded men and dismounted troopers flying towards us told the sad tale -- demigods could not have done what they had failed to do. At the very moment when they were about to retreat, a regiment of lancers was hurled upon their flank. Colonel Shewell, of the 8th Hussars, saw the danger and rode his men straight at them, cutting his way through with fearful loss. The other regiments turned and engaged in a desperate encounter. With courage too great almost for credence, they were breaking their way through the columns which enveloped them, where there took place an act of atrocity without parallel in modern warfare of civilized nations. The Russian gunners, when the storm of cavalry passed, returned to their guns. They saw their own cavalry mingled with the troopers who had just ridden over them, and to the eternal disgrace of the Russian name, the miscreants poured a murderous volley of grape and canister on the mass of struggling men and horses, mingling friend and foe in one common ruin. It was as much as our Heavy Cavalry 28


Brigade could do to cover the retreat of the miserable remnants of that band of heroes as they returned to the place they had so lately quitted in all the pride of life. At 11:35 not a British soldier, except the dead and dying, was left in front of those bloody Muscovite guns... 3. http://cpj.org/killed/2013/in-combat.php 4. http://cjr.org/feature/womans_work.php 5. http://www.youtube.com/watch?v=qj9D3GIczW4 6. O Estado de São Paulo Segunda-feira, 17 de agosto de 2008 Lourival Sant’Anna ‘Relaxe. Pensaram que você era georgiano’, disse o soldado Volva Pela terceira vez me apontavam um fuzil, antes de acabar sendo preso Os milicianos e eu entramos no Mercedes de novo e fomos até um grande pátio de uma empresa de terraplanagem, convertida em base dos ossetianos. Havia cerca de dez milicianos lá. Estavam disparando na nossa direção, e os milicianos corriam de um lado para outro, escondendo-se entre os caminhões e tratores. Dois milicianos me levaram de volta para o checkpoint. Fui até o major da poltrona; “Por favor, me deixe caminhar.” Ele chamou um soldado para traduzir, que se apresentou como Volva (abreviação de Vladimir): “Aqui, somos o Exército russo, mas lá existem homens maus. Vão te matar.” Mal terminou de dizer isso, e uma velha perua Opel cruzou o checkpoint, com dois milicianos ossétios dentro. Quando me viram, pararam o carro, e o passageiro veio correndo na minha direção, gritando e apontando o fuzil para mim. Vociferando, ele apertou a boca do fuzil contra minha garganta. Instintivamente, segurei o cano, tentando aliviar a pressão. Era a terceira vez que me apontavam um fuzil no mesmo dia. Os russos gritavam várias coisas, entre elas: “Brazilia, Brazilia.” O ossétio deu meia-volta, entrou no carro e foi embora. “Relaxe”, disse Volva. “Pensaram que você era georgiano.” 29


Eram 18h15. Um comboio de blindados e caminhões russos parou no checkpoint. Assim como os milicianos, vinha de Gori, para onde eu queria ir. “Eles vão te levar para Gori”, disse o major do tanque. “Spassiba”, agradeci. Subi no blindado da frente. “Dokument”, gritou o major que o comandava. Mostrei o passaporte e a credencial . Em vez de dar meia-volta em direção a Gori, o comboio atravessou o checkpoint. Eu estava voltando para Tskhinvali. No caminho, um capitão requisitou meu bloco de anotações, cuja espiral despontava do bolso da calça cargo. Compreendi que não estava ganhando uma carona. Estava preso. Quando chegamos a Tskhinvali, me mandaram entrar no blindado. Paramos numa base do Exército. Os militares descarregaram o butim: metralhadoras, fuzis e munição, abandonados pelo Exército georgiano que batia em retirada. Um major me disse que estava encarregado de mim e requisitou minha câmera e documentos. O capitão lhe entregou meu bloco. Fomos num jipe para o qualtel-general russo em Tskhinvali. No caminho, o major me perguntou se eu tinha visto a infantaria do Exército americano no caminho de Tbilisi a Gori. A pergunta revelava uma ignorância atroz, para um oficial. Em seguida, perguntou se eu tinha visto forças especiais americanas. Voltei a dizer que não. “Os americanos só sabem fazer hambúrguer e refrigerante. O Exército deles é uma merda”, me disse ele. “Se Bush vier a Tbilisi, o Exército russo vai foder com ele.” Depois de meia-hora de espera no jipe, levaram-me para uma tenda com longos bancos de madeira e uma mesa sobre a qual estavam um grande mapa militar da região, cheio de anotações de coordenadas. Um coronel, um tenente-coronel, um capitão e um tenente que seria o intérprete me esperavam. Minhas coisas estavam espalhadas sobre o mapa. Fui interrogado durante três horas. Mandaram-me explicar cada foto na minha câmara e cada anotação que lhes chamava a atenção no meu bloco. Para os militares russos, não fazia sentido que alguém cruzasse a linha divisória do conflito. Ou você está de um lado, ou do outro. Perguntaram-se por quantos postos de controle do Exército georgiano eu tinha passado, e se havia forças terrestres da Geórgia em Gori. Não havia nada, respondi. Eles tinham batido em retirada. Na terceira hora, deixei de ser tratado como suspeito para me tornar apenas um transtorno. “Você se arriscou demais”, me disseram eles, enquanto me ofereciam chá, bolachas e geléia. “Você é o único jornalista não-russo na Ossétia do Sul. Todos os que estão aqui vieram conosco, pela Ossétia do Norte.” Eles queriam 30


que eu fosse para a Rússia. Insisti em voltar para a Geórgia. “Você é livre”, me disseram. “Vamos ajudá-lo a cruzar para Gori.” Devolveram minhas coisas e finalmente me deixaram ligar meu celular. Dormi no alojamento dos oficiais. Passei a manhã seguinte com o capitão Vladimir Ivanov, responsável pela imprensa, percorrendo Tskhinvali num jipe. Como o miliciano ossétio Andrei na véspera, ele queria que eu visse a destruição. Mostrou-me os estilhaços de morteiros usados pelos georgianos, e soldados russos usando detectores em busca de minas. Saí de Tskhinvali ao meio-dia, num comboio de três veículos blindados, liderado por um jipe. Havia dez jornalistas russos também. Uma hora e meia depois, paramos numa grande base perto do local do checkpoint que eu cruzara na manhã anterior. Havia dezenas de tanques, blindados e caminhões. Mandaram-me entrar no blindado. O comboio seguiu, e pela janela minúscula do veículo vi que estávamos atravessando Gori, inteiramente deserta. Os russos a haviam tomado e empurrado a linha divisória uns 10 km para a frente. O comboio parou. Abriram a escotilha. “Brazilian”, gritaram. Desci do blindado e cruzei caminhando a linha divisória. Peguei carona num carro da BBC, que me trouxe para Tbilisi. 7. http://hbr.org/2012/05/christiane-amanpour/ 8. HOOD, Jean. War Correspondent: reporting under fire since 1850. Londres: Conway, 2011. 9. The Wall Street Journal 14 December 1971 Peter R. Kann Dacca Diary When the Indo-Pakistan war broke out in December 1971, Peter Kann was stranded in Dacca until Indian troops took over the country. Due to the difficulties of transmission he kept a diary of the events taking place. They were reprinted by the Wall Street Journal at the end of the hostilities and earned Kann a Pulitzer Prize in 1972.

31


Dacca, East Pakistan: FRIDAY, DEC. 3: Entering elevator in Intercontinental Hotel when another reporter runs up to ask; Have you heard the war is on? It’s just before 8 p.m. Happen to notice sign by elevator: Happy Hours 6 to 8 p.m. Except Fridays. Rest of evening spent with other journalists clustered around shortwave radio. Evidently, fighting broke out along border between West Pakistan and India this afternoon. India says Pakistan started it; Pakistan says India. Who knows? But India has been launching limited attacks on East Pakistan border for past ten days. What are you supposed to do when a war starts and the cable office is closed? Play poker. Go to sleep. SATURDAY, DEC. 4: Day starts early. About 3 a.m. sky lights up with fantastic fireworks display by Pak antiaircraft batteries out by airport. Indian air raid or jumpy ack-ack gunners? Moot question because by breakfast time, Indian MIG;s making regular rocket runs on airfield. Makes you wish you were a photographer. MIG;s diving through clear blue sky. Little white puffs from the ack-ack. Even couple of inconclusive dogfights above the hotel. Several Indian planes shot down. But every observer has different count. Better than Pearl Harbor, one of the television types says. Air strikes continue almost hourly rest of day. SUNDAY, DEC. 5: Anticlimatic day. Nothing to compare with yesterday’s air spectacular. Lots of rumors circulating. One favourite has Indian army columns only 60 miles from Dacca. Someone consults map and discovers Indian border to the east less than 60 miles away. Western families resident in Dacca congregating at Intercontinental. Rumors of planned United Nations relief flight to Bangkok confirmed by UN officials at evening meeting in the bar. A Gregory Peck scene distinguished grey-haired UN official talking about women and children first. Some of the men buying out hotel bars Scotch supply $35 a bottle. It’s a stockpiling sort of day. Sartre would dig this place, one reporter says. Why? No exit. MONDAY, DEC. 6: Try a road trip to Sibalay about 50 miles west of Dacca. Impression: Pak army bound to lose East Pakistan if only because of logistics. Small army convoy stalled along roadside. Overheated radiators and other mechanical maladies. When convoy stalls, the Bengali farmers flee from nearby fields. Until 32


now army trucks meant search for Mukti Bahini guerrillas, razed villages, civilian massacres. Army hasn’t much time for that now. Irony: Bengalis probably safer now that general war is on. Back at the Intercontinental tonight. Evening talk at the hotel is of UN plane turning back ten minutes out of Dacca because of Indian air strike at airport just before a temporary cease-fire scheduled to go into effect. And Gen. Rao Farman Ali Khan gave an afternoon press conference in which he said Pak forces facing some supply problems, are cut off from West Pakistan for the time being, and on the defensive for the time being. He said the best Pak defense is to gradually cede some territory to the advancing Indians. Last week his boss, Gen. Niazi, had said that the best defense is an offensive. But times change. TUESDAY, DEC. 7: Dacca seems to be learning to live with waror, rather, threat of war, because Indians so far bombing only few military targets on city outskirts. But people do keep glancing nervously at the sky. UN tried again for mercy flight, but the plane was hit by naval gunfire, presumably Indian, off East Pakistan coast. India not winning very many friends among stranded Westerners here. Some Americans in hotel lobby demanding to know why the Marines don’t come in and evacuate them. We did it in the Congo,; one says. Yeah, but this ain’t the Congo, another says. It will be soon, the first says. I am out near the airport when an air-raid siren goes off. Run across field and spot a foxhole. So do our four Bengali rickshaw peddlers. So we all squat politely around the rim of the foxholeno one wanting to be the first to hop in. It wouldn’t hold more than three. But the planes pass over, and we share a cigarette. The military situations remains, in the words of a Pak communiqué, unclear. An American diplomat says Pakistan is between a rock and a hard place. Have lunch with a West Pakistani pilot for Pakistan International Airlines who is stranded. What do you plan to do? he is asked. Die here, he says. Almost everyone thinks there will be another bloodbath soon, with Bengalis taking their revenge on non-Bengali minority (Biharis) and other army collaborators. If it’s an eye for an eye, there will have to be a lot of Bihari eyes lost. Rumor that food supply at the hotel is running short. Menu is dwindling a bit, but food is still remarkably good and always lots of butter available. The hotel bought out the stock of a Danish dairy project that folded just before the war. But can man live by 33


butter alone? one foreigner asks. More Indian air strikes in the afternoon. High-altitude bombing. Now the hotel roof is full of journalists and photographers. One cameraman just up from the swimming pool is still in his bathing suit. Another reporter brings a chair. A diplomat on the roof says Biharis are looting evacuated homes. Well, he adds, they can’t take it with them where they’re going. General feeling seems to be that Biharis had fun while it lasted. One talks of mass killing quiet calmly here. A half-million Bengalis massacred by the army in the last nine months or so. East Pakistan is like a sponge that soaks up suffering. You could drop Biafra into East Pakistan and never find it again,; the diplomat says WEDNESDAY, DEC. 8: The breakfast rumor is that Gen. Niazi bugged out last night on a small plane to Burma. Last week he said, The more Indians who come, the more Indians to kill, the more I am happy.; Tend to doubt the bug out report, but he may later wish he had. Military situation still very vague, but reports have Indian advance units about 35 miles south-east of Dacca. The military situation is deteriorating faster than we anticipated, an embassy source says. The Bengalis one encounters seem delighted by the way it’s going. Independent nation of Bangla Desh probably no more than a week away. UN mercy-flight plans seem to be in limbo. The UN people are always in conference. Curious how much attention we all pay to the plight of several hundred foreign nationals stranded at Intercontinental. A half-million or so Bengalis probably died in last nine months; another ten million or more trapped in misery of border camps. What makes a few hundred Western lives so valuable? Rooftop air-strike watcher crowd thinning a bit. Rumour has it one cameraman was nicked in the backside by piece of ack-ack shrapnel. Intercontinental filling up with armed West Pakistani civilians, which makes other guests uneasy. Radio news says President Nixon says war broke off sensitive negotiations that could have lead to virtual autonomy for East Pakistan. Last March the Bengalis were demanding virtual autonomy. Bit late for virtuals. Television correspondents have secret information that small Pak plane planning to make a secret night flight to secret Burma airstrip and pilot willing to take some film and newspaper copy. Film packed in a suitcase and ready to go. 34


One of week’s unlikelier eventualities: in evening we roast marshmallows over a candle on a poker table. THURSDAY, DEC. 9: Only ten shopping days till Christmas, says an American businessman at breakfast. Kind of crisis conviviality continues. Another American goes off to consulate to pick up his income-tax forms. I may be an optimist, he says, but it’s something to do. But they are a few frayed nerves. A grey toy poodle named Baby, stranded in hotel along with parents, has been under tranquilizers since war began. Definite sense that Pak army crumbling. Gen. Niazi rumour still being circulated. Reports have Indian units 20 miles from Dacca. Indian radio says all major East Pakistani towns, except Dacca and port of Chittagong have fallen. Pakistan radio denies this. Pak army elements said to be leaving their cantonment and dispersing to scattered positions around the city. They evidently took over a tuberculosis hospital, evicting patients onto streets. We drive around the city and see few soldiers, but we see a West Pakistani policemen beating a Bengali with a stick. Consistent to the end. Everyone wonders whether Pak army will try to make lastditch stand in Dacca. Some UN people talking of plan for conditional surrender of Pakistani troops in East Pakistan. Condition would be safe return to West Pakistan. But who could guarantee that? Visited residential areas were three bombs fell last night. Used to be an orphanage here, but not it’s just three big craters surrounded by mountains of mud and debris. Watch several small bodies being dug out of the mud. Orphan body count later said to total over 200. International Red Cross (Geneva) succeeded in having Intercontinental and one hospital designated neutral zones. This evening group of Red Cross officials and journalists moved from room to room confiscating weapons, mainly from West Pakistani guests. Several packets of explosives were found in the women’s lavatory. They are moved out to hotel lawn and surrounded by sandbags. Swimming pool consequently closed. FRIDAY, DEC. 10: The talk at breakfast is about the 3 a.m. air raid during which several bombs landed close to hotel. I slept through it. More Bengalis seem to be leaving the city today for relative safety of villages. Bengali friend, in tears, tells me about 35


continuing army massacres of Bengalis in several suburbs. So many children, he says-and begins to sob. Non-Bengali minority (Biharis) fleeing villages for relative safety of Dacca. Bengalis in Dacca all seem convinced that bombs that landed on civilian areas in the past two nights, including the one that hit the orphanage, were dropped by Pakistani planes so civilian causalities could be blamed on India. Reliable foreign sources note that that bombs were dropped by propeller planes, not MIGs, and that makeshift bomb rack fell from plane along with bombs. Evidence still circumstantial. All seems incredibly cold-blooded. But one diplomat says, Anyone who has been here since March wouldn’t blink an eye at the Paks doing something like that. One rumour is squelched. Gen. Niazi shows up at hotel gate and is very definitely not in Burma. Under new Red Cross rules he is told he cannot enter the hotel with his weapon. UN still negotiating with Paks and Indians to bring in evacuation planes. Apparent success. Twenty-four-hour cease-fire in air activity in Calcutta-to-Dacca corridor goes into effect 6 p.m. Evacuation planes, at least for women and children, scheduled to fly into Dacca tomorrow morning. But then: they’ve been scheduled before. It’s now exactly one week since general war began. SATURDAY, DEC. 11: Midmorning blast United States Information Service library. Debris scattered 100 yards around. Books lying all over the road, including The Nuclear Years and The Role of Popular Participation in Development. This is land of popular participation in destruction. Did the Mukti Bahini do it? Librarian says man who blasted it spoke Urdu, language of West Pakistan. Who knows? Within minutes books being looted from rubble. Old man goes by with tome called Religion and Ethics under his arm. Big rumour of the day is that Gen. Rao Farman Ali Khan, deputy martial-law administrator and the gentleman general of Pak forces here, was involved in secret negotiations, apparently with UN, to make conditional surrender of Pak forces in East Pakistan. But-the rumour goes-the commander here, Gen. Niazi, and President Agha Muhammed Yahya Khan in Islamabad found out. All this said to have affected evacuation planes, which don’t come in again today. Part of problems with planes is that India, for political reasons, insists they fly to Dacca from Calcutta. Pakistan, for political reasons, won’t accept that. 36


Stranded foreigners sense they may have become political pawns. Looks more and more likely that Pak army will make a lastditch stand in Dacca. Diplomatic sources say troops being brought into city-or simply falling back here on their own. Gen. Niazi reported to have told a journalist at the airport: You will be here to see me die. Mood at American consulate very low. Realization America backed losing side and will suffer diplomatic and perhaps other consequences from it. The US mucked up this situation perfectly,; a Western diplomat says. This afternoon a curfew is clamped on the city. The streets are deserted. One estimate is that fewer than half the city’s 1.3 million people are still here. Red Cross calls meeting at hotel. Meeting is presided over by retired British colonel, now Red Cross official. Very David Niven. Tells hotel residents to disregard the quiet extraordinary rumours floating around; but adds that hotel guests on higher floors might want to move down a wee bit. Says hotel security man, Mr Beg, did jolly good job; of defusing those bombs in the toilet and says that they have since been buried in slit trench so that pool is open again. Dive at your own risk. Journalists try telephoning various towns around East Pakistan to see whether Pakistani or Indian Army answers the call. Most phone line are down, but we get through to Khulna, town in south-west that supposedly fell to Indian Army days ago. Some sergeant answers phone. Where are the Indians? we ask. Good cowboy-movie line. Not here, he says. SUNDAT, DEC. 12: A full-day curfew is in effect. City completely still as if some epidemic had suddenly wiped out all living things except the black crows hovering everywhere. Of course, the only epidemic in the city now is fear. 10. O Estado de São Paulo 29 de julho de 2012 Andrei Netto Civis fazem sacrifícios por levante Em Alepo, população enfrenta falta de energia elétrica, de gás, de combustível e de comida para tentar derrubar o regime de Assad

37


Em um dos muros pichados do bairro de Sakhour, na periferia marginalizada de Alepo, lê-se: “A terra natal não é como um hotel em que você parte se não gosta do serviço. Vamos ficar aqui até que você se vá, Bashar”. Esse raciocínio expressa dois desejos que pairam nas cidades sírias: o de resistir e, se necessário, sacrificar-se. Alepo é uma cidade rebelde. Desde abril de 2011, protestos de oposicionistas são realizados com regularidade na região. Não é nada raro deparar-se com um de seus participantes que tenha passado pelos porões do regime depois de ter sido capturado por um shabiha, um dos milicianos “fantasmas” de Bashar Assad. No entanto, mesmo que a maior parte da população tenha aderido imediatamente à ideia da revolução, o levante armado só começou há menos de dez dias. Desde então, grande parte da cidade, em especial seus subúrbios pobres, não tem energia elétrica. Muitos habitantes enfrentam a falta de gás, de combustível e até de farinha. Os transportes foram interrompidos: o aeroporto só opera para voos militares e nos postos de fronteiras a situação é caótica. Noites de guerra. Em nome da resistência, os moradores começam a recriar uma rotina na escuridão das noites de guerra. Passear pelas ruas ao som de rajadas ou eventuais morteiros mais ou menos distantes revela essa vida síria clandestina. Nela é possível encontrar o barbeiro do salão Beauty Hair trabalhando, mesmo que seu espelho tenha sido quebrado pelo estrondo de um explosivo. Também é possível deparar-se com os aventureiros do transporte público que sobrou após a queima de dezenas de ônibus: um motorista de van que recolhe passageiros para deixar a cidade ou um táxi solitário que circula por ruas desertas em busca de clientes. No entanto, na Alepo em guerra civil nem tudo é medo, solidão e desterro: em uma casa, é possível encontrar um jovem revolucionário sírio ouvindo My Way em seu computador conectado à internet e senhores que, sentados em roda na rua, convidam o estrangeiro desconhecido para tomar um gole de água, mesmo que a comunicação seja impossível. Na noite síria, há também os adolescentes voluntários, que passam pelas ruas coletando o lixo e equilibrando com as mãos o carrinho de mão e o fuzil. Também registra-se a enorme fila de espera de uma hora de uma padaria em que os funcionários atendem por uma minúscula janela atrás das grades. Muitos desses que se aventuram na Alepo em guerra dizem que 38


o fazem porque estão dispostos a resistir à ditadura de Bashar Assad. Contudo, mais do que isso, eles estão prontos para sacrificar suas vidas para que a Síria nunca mais volte a ser o país de antes da guerra. 11. http://www.domo.com/blog/2012/06/how-much-data-is-created-every-minute/ 12. http://www.scotsman.com/news/kate-adie-interview-ourown-correspondent-1-1147505 13. http://www.vice.com/read/fisk-v14n8 14. O Estado de São Paulo 29 de agosto de 2011 Andrei Netto Execuções preocupam CNT e ameaçam governo de união Aliados da Otan condicionam liberação da ajuda ao fim da violência, que aumenta risco de instabilidade na Líbia O brutal massacre de cerca de 150 supostos dissidentes do regime de Muamar Kadafi no bairro de Salaheddine, na periferia de Trípoli, acendeu no fim de semana o sinal de alerta dentro e fora da Líbia. Funcionários da Otan e membros do próprio Conselho Nacional Transitório (CNT) reconheceram que uma onda de vingança está em curso no país após seis meses de conflitos e há risco de que as execuções, cometidas por kadafistas e rebeldes, inviabilize um governo de união nacional. No sábado, um dos imãs mais influentes do país, o xeque Wanis Mabrouk, célebre pelos discursos inflamados contra o regime, pediu sangue frio aos rebeldes. “Essa revolução foi a da liberdade e do Islã. A revanche não deve ter espaço”, afirmou. Moustapha Abdel-Jalil, um dos líderes do CNT, admitiu preocupação com “certos atos de alguns dos chefes revolucionários”, referindo-se aos atos de vingança. Na semana passada, ele já havia afirmado que as matanças podem levá-lo a abandonar o cargo. “Isso poderia ser a razão de minha demissão”, disse.

39


Alertas sobre a explosão de atos de vingança na Líbia também foram feitos no fim de semana pelos principais países aliados do CNT. De Washington, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, classificou o momento de “crítico” e afirmou que os líderes rebeldes devem ser firmes contra a “violência”. “Na nova Líbia, não pode haver espaço para a vingança e as represálias”, disse. Na Europa, a chefe da diplomacia da UE, Catherine Ashton, repetiu o discurso de Hillary, enquanto o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, advertiu para a urgência de restabelecer a ordem e a estabilidade. Massacre. Para pressionar os rebeldes, os países aliados condicionaram a ajuda financeira para a reconstrução da Líbia, que será definida na Conferência de Paris, no dia 10 de setembro, ao fim dos atos de vingança. Em Khilit al-Ferjan, em Salaheddine, base da 32.ª Brigada da Líbia, liderada por Khamis Kadafi, filho do ditador, forças leais ao governo teriam metralhado opositores e incendiado seus corpos na noite de terça-feira, de acordo com testemunhas ouvidas pelo Estado. Os prisioneiros foram mantidos enclausurados em um galpão de zinco ao longo de dez dias. Na terça-feira, oficiais do Exército e mercenários abriram a porta do galpão e anunciaram que os detidos seriam libertados. Minutos depois, no entanto, voltaram e os executaram. “Eu sentia os tiros de metralhadora atingindo os corpos que estavam sobre mim”, disse Taha Gazi, 30 anos, um dos sobreviventes. 15. HOOD, Jean. War Correspondent: reporting under fire since 1850. Londres: Conway, 2011. 16. http://www.npr.org/templates/story/story. php?storyId=105972083 17. http://www.rwandanstories.org/genocide/journalist_story.html 18 .http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,fascinio-daimagem,1033356,0.htm 19. CASTELLS, Manuel. Networks of Outrage and Hope: Social Movements in the Internet Age. London: Polity, 2012. 20. 40


The New York Times January 25, 2007 Damien Cave and James Glanz In a New Joint U.S.-Iraqi Patrol, the Americans Go First BAGHDAD, Jan. 24 — In the battle for Baghdad, Haifa Street has changed hands so often that it has taken on the feel of a no man’s land, the deadly space between opposing trenches. On Wednesday, as American and Iraqi troops poured in, the street showed why it is such a sensitive gauge of an urban conflict marked by front lines that melt into confusion, enemies with no clear identity and allies who disappear or do not show up at all. In a miniature version of the troop increase that the United States hopes will secure the city, American soldiers and armored vehicles raced onto Haifa Street before dawn to dislodge Sunni insurgents and Shiite militias who have been battling for a stretch of ragged slums and mostly abandoned high rises. But as the sun rose, many of the Iraqi Army units who were supposed to do the actual searches of the buildings did not arrive on time, forcing the Americans to start the job on their own. When the Iraqi units finally did show up, it was with the air of a class outing, cheering and laughing as the Americans blew locks off doors with shotguns. As the morning wore on and the troops came under fire from all directions, another apparent flaw in this strategy became clear as empty apartments became lairs for gunmen who flitted from window to window and killed at least one American soldier, with a shot to the head. Whether the gunfire was coming from Sunni or Shiite insurgents or militia fighters or some of the Iraqi soldiers who had disappeared into the Gotham-like cityscape, no one could say. “Who the hell is shooting at us?” shouted Sgt. First Class Marc Biletski, whose platoon was jammed into a small room off an alley that was being swept by a sniper’s bullets. “Who’s shooting at us? Do we know who they are?” Just before the platoon tossed smoke bombs and sprinted through the alley to a more secure position, Sergeant Biletski had a moment to reflect on this spot, which the United States has now fought to regain from a mysterious enemy at least three times in the past two years. “This place is a failure,” Sergeant Biletski said. “Every time we come here, we have to come back.” 41


He paused, then said, “Well, maybe not a total failure,” since American troops have smashed opposition on Haifa Street each time they have come in. With that, Sergeant Biletski ran through the billowing yellow smoke and took up a new position. The Haifa Street operation, involving Bradley Fighting Vehicles as well as the highly mobile Stryker vehicles, is likely to cause plenty of reflection by the commanders in charge of the Baghdad buildup of more than 20,000 troops. Just how those extra troops will be used is not yet known, but it is likely to mirror at least broadly the Haifa Street strategy of working with Iraqi forces to take on unruly groups from both sides of the Sunni-Shiite sectarian divide. The commander of the operation, Lt. Col. Avanulas Smiley of the Third Stryker Brigade Combat Team, Second Infantry Division, said his forces were not interested in whether opposition came from bullets fired by Sunnis or by Shiites. He conceded that the cost of letting the Iraqi forces learn on the job was to add to the risk involved in the operation. “This was an Iraqi-led effort and with that come challenges and risks,” Colonel Smiley said. “It can be organized chaos.” The American units in the operation began moving up Haifa Street from the south by 2 a.m. on Wednesday. A platoon of B Company in the Stryker Brigade secured the roof of a high rise, where an Eminem poster was stuck on the wall of what appeared to be an Iraqi teenager’s room on the top floor. But in a pattern that would be repeated again and again in a series of buildings, there was no one in the apartment. Many of the Iraqi units that showed up late never seemed to take the task seriously, searching haphazardly, breaking dishes and rifling through personal CD collections in the apartments. Eventually the Americans realized that the Iraqis were searching no more than half of the apartments; at one point the Iraqis completely disappeared, leaving the American unit working with them flabbergasted. “Where did they go?” yelled Sgt. Jeri A. Gillett. Another soldier suggested, “I say we just let them go and we do this ourselves.” Then the gunfire began. It would come from high rises across the street, from behind trash piles and sandbags in alleys and from so many other directions that the soldiers began to worry that the Iraqi soldiers were firing at them. Mortars started dropping from across the Tigris River, to the east, in the direction of a 42


Shiite slum. The only thing that was clear was that no one knew who the enemy was. “The thing is, we wear uniforms — they don’t,” said Specialist Terry Wilson. At one point the Americans were forced to jog alongside the Strykers on Haifa Street, sheltering themselves as best they could from the gunfire. The Americans finally found the Iraqis and ended up accompanying them into an extremely dangerous and exposed warren of low-slung hovels behind the high rises as gunfire rained down. American officers tried to persuade the Iraqi soldiers to leave the slum area for better cover, but the Iraqis refused to risk crossing a lane that was being raked by machine-gun fire. “It’s their show,” said Lt. David Stroud, adding that the Americans have orders to defer to the Iraqis in cases like this. In this surreal setting, about 20 American soldiers were forced at one point to pull themselves one by one up a canted tin roof by a dangling rubber hose and then shimmy along a ledge to another hut. The soldiers were stunned when a small child suddenly walked out of a darkened doorway and an old man started wheezing and crying somewhere inside. Ultimately the group made it back to the high rises and escaped the sniper in the alley by throwing out the smoke bombs and sprinting to safety. Even though two Iraqis were struck by gunfire, many of the rest could not stop shouting and guffawing with amusement as they ran through the smoke. One Iraqi soldier in the alley pointed his rifle at an American reporter and pulled the trigger. There was only a click: the weapon had no ammunition. The soldier laughed at his joke. 21. The New York Times January 29, 2007 Damien Cave ‘Man Down’: When One Bullet Alters Everything BAGHDAD, Jan. 28 — Staff Sgt. Hector Leija scanned the kitchen, searching for illegal weapons. One wall away, in an apartment next door, a scared Shiite family huddled around a space heater, cradling an infant. It was after 9 a.m. on Wednesday, on Haifa Street in central Ba43


ghdad, and the crack-crack of machine-gun fire had been rattling since dawn. More than a thousand American and Iraqi troops had come to this warren of high rises and hovels to disrupt the growing nest of Sunni and Shiite fighters battling for control of the area. The joint military effort has been billed as the first step toward an Iraqi takeover of security. But this morning, in the two dark, third-floor apartments on Haifa Street, that promise seemed distant. What was close, and painfully real, was the cost of an escalating street fight that had trapped American soldiers and Iraqi bystanders between warring sects. And as with so many days here, a bullet changed everything. It started at 9:15 a.m. “Help!” came the shout. “Man down.” “Sergeant Leija got hit in the head,” yelled Specialist Evan Woollis, 25, his voice carrying into the apartment with the Iraqi family. The soldiers from the sergeant’s platoon, part of the Third Stryker Brigade Combat Team, rushed from one apartment to the other. In the narrow kitchen, a single bullet hole could be seen in a tinted glass window facing north. The platoon’s leader, Sgt. First Class Marc Biletski, ordered his men to get down, away from every window, and to pull Sergeant Leija out of the kitchen and into the living room. “O.K., everybody, let’s relax,” Sergeant Biletski said. But he was shaking from his shoulder to his hand. Relaxing was just not possible. Fifteen feet of floor and a threeinch-high metal doorjamb stood between where Sergeant Leija fell and the living room, out of the line of fire. Gunshots popped in bursts, their source obscured by echoes off the concrete buildings. “Don’t freak out on me, Doc,” Sergeant Biletski shouted to the platoon medic, Pfc. Aaron Barnum, who was frantically yanking at Sergeant Leija’s flak jacket to take the weight off his chest. “Don’t freak out.” Two minutes later, three soldiers rushed to help, dragging the sergeant from the kitchen. A medevac team then rushed in and carried him to a Stryker armored vehicle outside, around 9:20. He moaned as they carried him down the stairs on a stretcher. The men of the platoon remained in the living room, frozen in shock. They had a problem. Sergeant Leija’s helmet, flak jacket, gear and weapon, along with that of at least one other soldier, 44


were still in the exposed area of the kitchen. They needed to be recovered. But how? “We don’t know if there’s friendlies in that building,” said Sgt. Richard Coleman, referring to the concrete complex a few feet away from where Sergeant Leija had been shot. Sergeant Biletski, 39, decided to wait. He called for another unit to search and clear the building next door. The additional unit needed time, and got lost. The men sat still. Sergeant B, as his soldiers called him, was near the wall farthest from the kitchen, out of sight from the room’s wide, shaded window. Sergeant Woollis, Private Barnum, Sergeant Coleman and Specialist Terry Wilson sat around him. Together, alone, trapped in a dark room with the blood of their comrade on the floor, they tried to piece together what had happened. Maybe the sniper saw Sergeant Leija’s silhouette in the window and fired. Or maybe the shot was accidental, they said, fired from below by Iraqi Army soldiers who had been moving between the buildings. Sergeant Woollis cited the available evidence — an entrance wound just below the helmet with an exit wound above. He said the shot must have been fired from the ground. The Iraqis were not supposed to even be there yet. The plan had been for Sergeant Leija’s squad to work alongside an Iraqi Army unit all day. But after arriving late at the first building, the Iraqis jumped ahead, leaving the Americans and pushing north without searching dozens of apartments in the area. The Iraqi soldiers below the kitchen window had once again skipped forward. An American officer later said the Iraqis were brave to push ahead toward the most intense gunfire. But Sergeant Leija’s squad had no communication links with their Iraqi counterparts, and because it was an Iraqi operation — as senior officers repeatedly emphasized — the Americans could not order the Iraqis to get back in line. There was nothing they could do. 9:40 a.m. An Iraqi soldier rushed in and then stopped, seemingly surprised by the Americans sitting around him. He stood in the middle of the darkened living room, inches away from bloody bandages on the carpet. “Get away from the window!” The soldiers yelled at their interpreter, a masked Iraqi whom they called Santana. Between their shouts and his urgent Arabic, 45


the Iraqi soldier got the message. He slowly walked away. A few minutes later it happened again. This time, the Iraqi lingered. “What part of ‘sniper’ don’t you understand?” Sergeant Biletski yelled. The other soldiers cursed and called the Iraqis idiots. They were still not sure whether an Iraqi soldier was responsible for Sergeant Leija’s wound, but they said the last thing they wanted was another casualty. In a moment of emotion, Private Barnum said, “I won’t treat him if he’s hit.” When the second Iraqi left, an airless silence returned. The dark left people alone to grieve. “You O.K.? ” Sergeant B asked each soldier. A few nods. A few yeses. Private Barnum stood up, facing the kitchen, eager to bring back the gear left. One foot back, the other forward, he stood like a sprinter. “I can get that stuff, Sergeant,” he said. “I can get it.” The building next door had still not been cleared by Americans. The answer was no. “I can’t lose another man,” Sergeant B said. “If I did, I failed. I already failed once. I’m not going to fail again.” The room went quiet. Faces turned away. “You didn’t fail, sir,” said one of the men, his voice disguised by the sound of fighting back tears. “You didn’t fail.” 9:55 a.m. The piercing cry of an infant was easily identifiable, even as the gunfire outside intensified. It came from the apartment next door. The Iraqi Army had been there, too. In an interview before Sergeant Leija was shot, the three young Iraqis there said that their father had been taken by the soldiers. “Someone from over there” — they pointed back away from Haifa Street, toward the rows of mud-brick slums — “told them we had weapons,” said a young man, who seemed to be about 18. He was sitting on a couch. To his right, his older sister clutched an infant in a blanket; his younger sister, about 16, sat on the other side. The young man said the family was Shiite. He said the supposed informants were Sunni Arabs who wanted their apartment. The truth of his claim was impossible to verify, but it was far from the day’s only confounding tip. Earlier that morning, an Iraqi boy of about 8 ran up to Sergeant Leija. He wanted to tell the Americans about terrorists hiding in the slums behind the apartment buildings on Haifa Street’s eastern side. 46


Sergeant Leija, an easygoing 27-year-old from Raymondville, Tex., ignored him. He and some of his soldiers said it was impossible to know whether the boy had legitimate information or would lead them to an ambush. That summed up intelligence in Iraq, they said: there is always the threat of being set up, for an attack or an Iraqi’s own agenda. The Iraqi Army did not seem worried about such concerns, according to the family. The three young Iraqis said they were glad that the Americans had come. Maybe they could help find their father. 10:50 a.m. Sergeant. Coleman tried using a mop to get the gear, and failed. It was too far away. With more than an hour elapsed since the attack, and after no signs of another shot through the kitchen window, Sergeant B agreed to let Private Barnum make a mad dash for the equipment. Private Barnum waited for several minutes in the doorway, peeking around the corner, stalling. Then he dove forward, pushing himself up against the wall near the window to cut down the angle, pausing, then darting back to the camouflaged kit. Crack — a single gunshot. Private Barnum looked back at the kitchen window, his eyes squeezed with fear. His pace quickened. He cleared the weapons’ chambers and tossed them to the living room. Then he threw the flak jackets and bolt cutters. He picked up Sergeant Leija’s helmet, cradled it in his arms, then made the final dangerous move back to the living room, his fatigues indelibly stained with his friend’s blood. There were no cheers to greet him. It was a brave act borne of horror, and the men seemed eager to go. As Private Barnum gingerly wrapped the helmet in a towel, it tipped and blood spilled out. 11:15 a.m. Sergeant B sat down on a chair outside the two apartments and used the radio to find out if they would be heading back to base or moving forward. He was told to stay put until after an airstrike on a building 500 yards away. The platoon, looking for cover, returned to the Iraqis’ apartment, where they found the family as they were before — on the couch, in the dark, around the heater. Specialist Wilson continued the conversation he started before the gunshot two hours earlier. The young Iraqi man said again that the Iraqi Army had taken his father. “Will you come back to 47


help?” he asked. “We didn’t take him,” Specialist Wilson said. “The I.A. took him. If he didn’t do anything wrong, he should be back.” The Iraqi family nodded, as if they had heard this before. Speaking together — none of them gave their names — they said they had lived in the apartment for 16 years. Ten days ago, before the Americans arrived, Sunnis told them they would kill every Shiite in the building if they did not leave immediately. So they fled to a neighborhood in southern Baghdad where some Shiites had started to gather in abandoned homes. But again, a threat came: leave or die. So less than a week ago, the family returned to Haifa Street. And now the airstrike was coming. Sergeant B told the family that they should go into a back room for safety. He asked if they wanted to take the heater with them (they did not), and he reminded everyone to keep their mouths open to protect their inner ears against the airstrike’s shockwave. A boom, then another even louder explosion hit, shaking dust from the walls. One of blasts came from a mortar shell that hit the building, the soldier said. The family stayed, but for the Americans, it was time to go. 12:30 p.m. Over the next few hours, the platoon combined sprints across open alleyways with bouts of rest in empty makeshift homes. Under what sounded like constant gunfire, the soldiers moved behind the Iraqi soldiers, staying close. At one point, the Iraqis detained a man who they said had videos of himself shooting American soldiers. The Iraqi soldiers slapped him in the head as they walked him past. About an hour later, a sniper wounded two Iraqi soldiers who were mingling outside a squat apartment like teenagers at a 7-11. Private Barnum wrapped their wounds with American bandages. He and the rest of the platoon had been inside, taking cover. “Stay away from the windows,” Sergeant B kept repeating. The point was clear: don’t let it happen again. Don’t fail. 4 p.m. Downstairs in the lobby of a mostly abandoned high rise on Haifa Street, the sergeant and his men sat on the floor, exhausted. They were waiting for their Stryker to return so they could head back to base. In 14 hours, they had moved through a stretch of eight buildings on Haifa Street. They had been scheduled to clear 18. Upstairs, Iraqi soldiers searched rooms and made themselves at 48


home in empty apartments. Many were spacious, even luxurious, with elevators opening into wide hallways and grand living rooms splashed with afternoon sun. Under Saddam Hussein, Haifa Street had been favored by Baath Party officials and wealthy foreigners. The current residents seemed to have fled in an instant; in one apartment, a full container of shaving cream was left in the bathroom. In that apartment’s living room, a band of Iraqi soldiers settled in, relaxing on blue upholstered couches and listening to a soccer game on a radio they found in a closet. They looked comfortable, like they were waiting to be called to dinner. Sergeant B and Specialist Woollis, meanwhile, talked about what they would eat when they got back to their homes in California. The consensus was chili dogs and burgers. Sergeant B also said he missed his 13-year-old son, who was growing up without him, playing football, learning to become a man with an absentee father. After 17 years in the Army, he said, he was thinking that maybe his family had put up with enough. “I don’t see how you can do this,” he said, “and not be damaged.” A few hours later, the word came in: Sergeant Leija had died. 22. http://www.cjr.org/behind_the_news/nyts_story_speaks_ volumes_abou.php 23. http://www.aljazeera.com/programmes/witness/2013/04/20 1349115246669106.html 24. http://www.theguardian.com/world/interactive/2013/ mar/15/iconic-faces-iraq-war-pictures 25. http://www.vice.com/ground-zero/syria-snipers-of-aleppo 26. http://www.believermag.com/ issues/201106/?read=interview_sacco 27. www.pbs.org/mediashift/2013/03/4-questions-for-andycarvin-on-being-a-social-media-dj065/ 28. HOOD, Jean. War Correspondent: reporting under fire since 1850. Londres: Conway, 2011.

49


Entrevistas ED OU 24 de maio de 2012 E-mail That’s an interesting question. i think a lot of these questions don’t get answered properly, or addressed because of people’s tendency to put war in a box. as if war, or conflict is a self contained, isolated thing... but it’s not. i think to answer that question, you have to step out a bit and stop calling war, war. Conflicts and its effects are see every day, whether its between nations, gangs, friends, lovers, or kids fighting over an ice cream. I think at the end of the day, war manifests itself in distrust and fear. which is not exclusive to people shooting each other in a battlefield. so then the question is, can journalists ever explain or describe other people’s lives, their issues, their fears, and their dreams? I’d like to think that we understand it by looking at our own lives,and putting yourself in these situations that we see in the news, and ask ourselves how we would react. and chances are, we’d be having the same worries, aspirations, and fears as the people in those situations, because at the end of the day we are all human...

© Photographie.com

50


LOURIVAL SANT’ANNA 1o de junho de 2012 Sede d’O Estado de S. Paulo Se lembra de como se preparou para a primeira viagem para cobrir conflitos? Não. A gente não se prepara porque, assim, não existe preparação especifica antes de ir, geralmente não dá o tempo. Os conflitos estouram de forma imprevista e a preparação é de longo prazo, um investimento ao longo da vida. De experiência, de contatos, de aliados. Mas a primeira vez é um voluntariado, né? Todas as vezes é voluntariado. Você só vai se quiser. E... Mas é... É uma coisa gradual, não tem um marco de primeira vez. Nem sei que que foi a primeira vez. Minha primeira cobertura internacional foi a entrevista com o Yasser Arafat em 1992, na Tunísia, e lá já tive contato com a guerrilha palestina, então é... Uma construção de longo prazo... Depois a guerrilha colombiana... Antes disso o conflito na Irlanda do Norte, quando eu era stringer em Londres. Depois Colômbia, Oriente Médio, Palestina, Afeganistão... E a partir do Afeganistão de forma mais sistemática, assim, né. Mas não tem um preparação específica. Pergunto mais porque estou lendo um outro livro, de memórias de um soldado da Segunda Guerra. Ele tinha uma imagem pré-combate, uma imagem pós-combate, e quando ele seguiu para o segundo combate dele, já era completamente diferente o que ele esperava e o que ele sentia. Claro. É isso. Tudo muda muito. A percepção muda muito. Mesmo que você esteja indo para um lugar onde você já foi, quando chega é bem diferente do que imaginou. É, e... Daqui de longe, as coisas parecem muito diferentes do que são lá. Atribuo isso a cultura jornalística. Nós jornalistas temos um olhar, um foco muito fechado naquilo que a gente considera notícia. E a realidade é muito mais ampla. E nessa amplitude da realidade, existem espaços de segurança pessoal, de possibilidade de contatos, de alianças, de organização diante do caos. É caótica a realidade, mas você organiza, planeja. Você entra no lugar certo, na hora certa, de forma oportuna. E tudo é cheio de muita nuances. E esse momento da hora certa, você chuta, tem um feeling ou alguém fala “agora vai”? 51


Não, ninguém fala “vai”, você que tem que falar. Eu falo que é uma mistura de três coisas: instinto, razão e experiência. Têm uma relação dinâmica entre si. Se você depois olhar o material que fiz na Geórgia, na Ossétia do Sul... Teve um dia em que eu quase fui morto três vezes, no mesmo dia. Ali, meu instinto funcionou. Teve a hora que eu tive que sair correndo, e eu sai correndo. A hora que eu não tinha que sair correndo, tinha que ficar quieto, e eu fiquei quieto. E por isso provavelmente eu não morri. É instinto, né. Outras vezes você pensa, planeja... E a experiência é um importante aliado nisso, você se lembra de outras vezes... Às vezes a experiência te trai. Às vezes você usa um parâmetro sobre uma coisa que não se aplica àquele caso. Aí o instinto e a razão vêm e falam, não, não é o caso, e você pula fora. É preciso ser bastante cético em relação à sua experiência. É um aliado, mas pode enganar também. Falando especificamente do instinto e cobertura de guerra como jornalista. Quão importante você acha que é transmitir para o leitor que você estava lá, e você sofreu esses perigos? Falar em primeira pessoa ou das suas experiências? Existe uma norma na cultura brasileira, e aí cada país... Vou até gravar também, porque é interessante pra mim... Na cultura brasileira, existe muita parcimônia para usar a primeira pessoa. Muitas vezes preciso me referir a mim mesmo, porque muitas vezes sua presença modifica um pouco a realidade, é um componente daquela cobertura, a sua presença. E o leitor tem o direito de saber disso, qual o efeito da sua presença. E também porque coisas vividas por nós, elas são muito representativas de uma realidade, dão muitas informações. Geralmente me refiro a mim mesmo como “o repórter”. Por uma questão de cultura de imprensa. Nos EUA, na Inglaterra, na imprensa anglo-saxônica principalmente, é bastante tranquilo usar a primeira pessoa. Agora... Existem casos extremos como esse da Ossétia do Sul, em que eu fiz uma página inteira na primeira pessoa. Porque eu fui confundido com um georgiano. Os ossetios acharam que eu era georgiano. E também porque fui preso e interrogado pelo exército russo. E essas coisas, elas diziam muito sobre aquela realidade. Se eu tenho cara de georgiano, a forma como sou tratado, diz muito sobre seria se os georgianos tentassem voltar. Eles tinham sido expulsos das suas casas. Eu encontrei georgianos refugiados em escolas. E eles me perguntavam, “você 52


acha que eu posso voltar?” E eu sabia a resposta. Eu tinha visto as casas deles queimando, pelos vizinhos deles... Bem, então é... Por isso que acho que a vivencia da guerra como repórter ela é importante. Não como uma aventura, mas como uma reportagem. Trazer elementos, vídeos. De viver na carne. Por exemplo, quando eu tava no bombardeio na Guerra do Líbano em 2006. Era uma guerra assimétrica, em que Israel tinha soberania aérea, um dos exércitos mais poderosos do mundo, uma das forças aéreas mais capazes do mundo, contra uma guerrilha do Hezbollah, num país que não tem um exército nacional sólido. Então essa assimetria é a história dessa guerra. E estar sob o bombardeio e depois de você, o seu leitor entender porque as pessoas estão sentindo o que elas estão sentindo, é preciso viver o que elas estão vivendo. Jornalismo imersivo. É. Então é preciso descrever essa sensação. Existe um texto, que não foi pro jornal, foi para um blog que tinha na época sobre a guerra, em que eu falo da situação de se sentir tão pequeno... pausa Falando nisso, tenho um combo de dúvidas. Um, você falou sobre critérios jornalísticos, ver com esse olhar jornalístico. Como manter isso quando você sabe o quanto os civis estão sofrendo? É importante essa imparcialidade num conflito? É importante você saber qual é seu papel lá, e não perder isso de vista. Isso foi um grande desafio na Líbia para todos nós. Porque qual era a dinâmica, você tinha pessoas que se ofereciam como voluntários para te ajudar. Como tradutores, como guias. Porque consideravam muito importante a presença dos jornalistas no país, como de fato se revelou crucial para que a OTAN decidisse intervir, que o Conselho de Segurança aprovasse a ação da OTAN. E ao longo do conflito, depois de você passar alguns dias correndo risco de vida com outras pessoas, cria-se um vínculo. As pessoas estavam lá se arriscando por minha causa, pra ver o meu trabalho. Você entra dentro de uma dinâmica afetiva, emocional. Você entende muito o sentimento daquelas pessoas. Por outro lado, as pessoas leais ao regime do Qadaffi, eram inacessíveis porque... Quando tivesse contato com elas, você seria preso, como aconteceu com o Andrei Netto. Diante disso, o de53


safio psicológico é muito grande. De manter a sobriedade, não esquecer qual é seu papel: você está lá para contar uma história, nada mais. E eu me vi envolvido em situações em que vi surgindo um movimento islâmico no interior da revolução, que era contra o secularismo, os aspectos laicos da liderança da revolução, do Conselho Nacional de Transição. Eu marquei um encontro com o líder desse movimento. Quando eu estava esperando ele, ele tinha sido cercado pelos revolucionários mesmo. Uma revolução dentro da revolução, e uma revolução islâmica. E pessoas que estão organizando aquilo, ao mesmo tempo era meu motorista, meu interprete. Não havia interpretes ou guias profissionais. Muitas vezes você tem uma relação mais contratual, mais profissional, muitas vezes não. E mesmo nessas relações contratuais... No Irã tive situações que... Aquela jovem que estava trabalhando pra mim, ela tinha os sentimentos dela em relação às fraudes na eleição do Irã em 2009... E de repente pega o celular, e aquela repressão terrível que a gente assistiu no sábado um dia depois da eleição presidencial. Acho que, diante de tudo isso, as regras do jornalismo, eu me apego a elas como uma tábua de salvação psicológica. Acho que elas são essenciais. Elas são mais importantes que nunca. Num ambiente em que você tem muitos atores novos gerando informação. Filmando com seus celulares. E distribuindo isso pro mundo todo. Eles dispõem as imagens e muitas vezes a interpretação dessas imagens. É diferente da sua percepção. Muitas vezes é carregada de sentimentos. Então é um desafio, tudo são desafios. Você tem que manter a sobriedade, lembrar porque você está lá. Uma coisa que procuro fazer é análise. Eu tenho uma terapeuta que me atende pelo Skype. Discuto essas coisas com ela, e incluo com questões internas minhas, minha vida pessoal. Porque existem ligações. E é preciso entender essas ligações. Mas às vezes não é possível, quando a conexão é por satélite, aí é caro demais. Mas quando existe internet o suficiente... Na Síria, o Skype estava bloqueado, então não pude fazer isso. Como é a relação com esses personagens que você conhece e que sabe que eventualmente vai deixa-los, voltar pra cá? Como é saber que aquele cara que se arriscou para te levar de um lado para o outro da montanha, ele vai ficar lá? Aquela é a realidade dele, e não é a sua. Você vai voltar pra cá. 54


É muito estranho. É perturbador isso. O fato de você estar lá porque quer. Você está com muito dinheiro, geralmente. Muitas condições. Você tem uma proteção diplomática, no sentindo de que o embaixador, o Itamaraty vão te socorrer se você desaparecer. Você tem um seguro de vida. Agora na Síria, com o cara que estava me levando para lugares muito arriscados, ele falou para mim, “olha, se formos pegos, o embaixador brasileiro vai te tirar da prisão. Eu nunca mais vou ver meus filhos”. Então é diferente. É preciso respeitar essas coisas, entender. Faz parte da apuração, da reportagem. Mas é preciso muito auto-conhecimento, assim... Não é perfeito. Eu cometo falhas nos meus textos. Mas as regras do jornalismo, nessa hora elas são muito boas porque na hora de escrever, acho que assumo, como todos nós assumimos... Isso é cultural, é ético também. A gente assume uma outra persona. A gente tem limites claros. Mas eu sei que sou humano, e talvez de forma subliminar algumas coisas escapem, mas estou tentando cercar. Um fotojornalista que mora no Oriente Médio me ofereceu uma pensata sobre o assunto, sobre a possibilidade de entender e explicar a guerra. E ele falou que ele espera que os jornalistas enxerguem na guerra algo maior do que isso, do que o conflito. Que enxerguem humanidade naquilo. Que reflitam sobre “o que você faria” se estivesse naquela situação. Quais seriam suas aspirações, seus medos, seus desejos se você fosse... Esse motorista da Síria. Então você tem que ser imparcial e objetivo como jornalista, mas ao mesmo tempo como passar aquela situação-limite sendo imparcial e subjetivo? Não é tão difícil, porque na verdade... O que aconteceu comigo na Síria agora, na Líbia no ano passado... Depois de ficar seis semanas no leste, sob controle dos rebeldes, a minha obsessão tornou-se ir pra Tripoli e ouvir as pessoas que estavam lá antes, e chegar o mais perto possível do regime do Qadaffi. E eu consegui isso. Agora também minha obsessão, depois de cobrir o conflito sírio do Líbano, da Turquia e depois entrando na Síria, era assim: preciso entender as pessoas que gostam do Assad e que não são beneficiadas materialmente, que não estão vinculadas a ele numa situação de vida ou morte, não estão comprometidas com o regime. Preciso encontrar pessoas comuns que gostam do Assad, 55


por motivos comuns. E eu encontrei! E eu fiquei muito orgulhoso disso. Entende? A satisfação emocional de achar e entender e escrever sobre isso, dá muita felicidade. Porque eu parto da premissa de que todos somos humanos. Todos somos iguais. Somos estimulados e muitas vezes organizados de formas distintas pelas nossas histórias. Pra mim esse é o fascínio da reportagem. Não é o “outro lado” burocrático, só pra legitimar uma sacanagem, entende? Vou ferrar essa pessoa, mas vou ouvir ela porque aí ela fica bem ferrada mesmo. Só vou ouvir o que eu quero. Isso não é reportagem, não é jornalismo. Não é o que me move. O que me move é entender o sentimento das pessoas. Agora quando você conta a história de uma pessoa, que tem uma alta carga emocional, como um vídeo que fiz na província de Deera, quando entrei com os observadores da ONU, as pessoas me contavam histórias lancinantes, certo? Meu marido desapareceu, meu filho foi morto. Minha casa foi queimada e meu filho foi morto. Eu fiquei pendurado cinco dias e arrancaram todos os meus dentes. Quer dizer, quando você ouve tudo isso, e você conta isso, você não está assumindo um ato do ponto de vista ideológico. Você está contando uma história. Vai tentar, num outro momento, chegar no outro lado. Na Síria, eu fiz uma síntese da qual eu me orgulhei muito no último domingo. O que divide os sírios são seus medos. O medo de perder a liberdade que tem no país, religiosa, social. Uma mulher me falou, “às 3h da manhã posso dirigir um carro, posso ir de biquíni pra praia”. Isso não existe em nenhum outro país árabe muçulmano. O medo de perder isso sem ganhar a liberdade política. Porque a Arábia Saudita não tem nenhuma dessas coisas, e muitos sírios sentem que é a Arábia Saudita que está fustigando essa revolução. E são sentimentos legítimos, humanos. Não é um idiota, uma pessoa maldosa necessariamente que gosta do Assad. Quando você consegue olhar para isso, você fala, “ganhei meu dia”. Entende? O meu prazer não está em sentir só um lado. E como você não se dessensibiliza, ouvindo tantas histórias e vendo tantas imagens? Eu descobri isso numa cobertura que não era de guerra, era do terremoto do Haiti. Teve o segundo, o aftershock, o terremoto que era um abalo posterior, e eu estava ouvindo rádio junto com 56


o Jonne Roriz, fotógrafo, para tentar saber onde tinha sido o epicentro desse aftershock, para a gente ir pra lá. E aí, terminou o noticiário e eu estava fazendo anotações e começou a tocar uma música clássica. Aí eu fui e desliguei o rádio e falei, “eu não posso ouvir isso, senão vou me humanizar”. Aí eu ouvi isso que eu tinha falado né, e depois que terminou a cobertura, fomos para a República Dominicana e eu estava fazendo o check in no meu hotel, e uma argentina, acho, pelo sotaque, falou assim, “onde eu posso alugar um carro?” Aí ele falou: “que tipo de carro?” Ela falou assim: “qualquer carro, é só para ir pra praia e chorar”. Aí eu falei assim, “nossa, esses argentinos são muito dramáticos”. Mas no dia seguinte fui caminhar na praia, e entendi o que ela estava dizendo, ela certamente estava vindo do Haiti. E aí eu chorei muito de olhar pro mar, entende? E aí depois eu peguei o avião, e comecei a ouvir a música, e também chorei muito. E aí eu cheguei, porque você falou “como é deixar as pessoas que estão lá?”, e fui assistir o filme do Mandela, aquele “Invictus”, no cinema. Reencontrei meus filhos, tenho dois, hoje um tem 12 e outro tem 10, na época um tinha 10 e outro tinha 8, e aí no filme, é cheio de menininhos negros, de cabelinho raspado, igual no Haiti. Aí eu pensei nos meninos, tantos meninos que encontrei, que estavam perdidos, não tinham mais família, não sabiam onde estavam, não tinham mais casas... E aí de novo, chorei muito. Mas lá eu não sinto nada. Vi jornalistas desabarem, que choraram e foram embora. Isso vejo sempre. Mas quando estou lá, tenho outro tipo de atitude emocional. Costumo explicar que tenho uma obsessão, me refugio numa obsessão pelos dados, pelos números. Eu sou um contador. Conto metros, números de tiros, de explosões, de tanques, de foguetes, de armas, de homens, de veículos, tipos de veículos e também fico olhando na bússola as direções, a temperatura. Com esses dados todos, eu me distraio, uso nas minhas matérias. Sei que é um refúgio. Curiosamente, no mesmo livro do soldado, ele fala que, na batalha de Peleliu, ele se pegava às vezes fascinado por detalhes muito triviais, como uma planta amarela. Um refúgio que ele criava para ficar alheio ao momento em que ele estava. É. Existem coisas assim. Cheiros dos mortos, que são muito fortes. Na Líbia, quando veio o bombardeio e a retomada de Ras 57


Lanuf pelo Qadaffi, e eu também quase morri nesse lugar e tal, e até o título é assim: “Fui o último a sair do hospital de Ras Lanuf”. Porque me chamaram, estava numa mesquita e me chamaram para fotografar a cabeça de um homem que tinha sido cortada por um pedaço de foguete. Aí eu cheguei, tenho essas fotos, que obviamente não posso usar. Mas o cérebro dele estava num saco plástico, e a cabeça dele tinha sido cortada como um queijo, só que tava a barba dele, o rosto dele, um pedaço do crânio tinha sido cortado. Os foguetes de fabricação russa lá, eles batem no chão e soltam espécies de CDs assim, de aço, que são lâminas cortantes que arrancam cabeça, vão arrancando tudo pela frente. E aí eu tava assim, muito tempo sem comer, sem tomar água, tive que correr com uma mochila pesada, lá estava o laptop e o satélite... Fui expulso da mesquita quando estava sendo bombardeado porque me perguntaram o que eu era e eu respondi que era cristão, e fui expulso da mesquita e estava sendo bombardeado lá fora. Eu vivi essas coisas. Eu tinha descoberto onde o Andrei estava e o “Guardian” começou a me ligar porque o colega do “Guardian” que estava com ele não estava reaparecendo. Estava falando com Londres, muitas coisas ao mesmo tempo. Aí cheguei no hospital, fui levado por um médico e ele falou, “você depois de fotografar isso, tem que ir embora porque evacuamos o hospital”. O hospital estava sob bombardeio. Então eu corri entre a mesquita e o hospital com a mochila pulando muretas e tal. Aí eu cheguei lá e aquela cena né, de sangue, de cheio, aquela coisa. E eu fui, meio que cambaleei. As primeiras fotos estão tremidas. Até que me concentrei e fiz uma foto boa, que eu sabia que não iria usar. Mas por lealdade aos médicos, as pessoas que estavam lá. Filmei. Eu virei uma garrafinha de 500ml de água e não senti nada. Porque quando você está sob risco de morte, os líquidos que você tem vão para regiões mais internas, o cérebro... E você tem uma sede insaciável. E aí, assim... Então... Até nas situações mais limites, que envolvem a parte física mesmo, tenho conseguido exercer um controle sobre os meus impulsos e tal. E isso é essencial para esse trabalho. Mas você concorda com a premissa da Sontag, de que não dá para explicar realmente o que é a guerra? Concordo. Aliás, de maneira geral, o repórter ele convive com 58


uma frustração muito grande. De olhar para uma realidade e muitas vezes não conseguir entender. Mas aquilo que a gente consegue entender ou perceber, não conseguir transmitir. Uma imagem vale mais que mil palavras. Agora diga isso com imagens [risos]. Palavras são muito boas também, mas a frustração de não conseguir... E às vezes essa situação gera culpa. Na Líbia, quando teve... Antes da OTAN começar a bombardear, houve uma demora do Conselho de Segurança em autorizar a OTAN... E num comboio de 25km de armamentos vinha na direção onde eu estava, Benghazi. E as chamadas células adormecidas, os comitês revolucionários do Qadaffi, despertaram. E começaram a abrir fogo na cidade. Os homens passavam matando indiscriminadamente, para causar insegurança enquanto o comboio avançava. E nisso, uma jovem família, um casal jovem e um garoto de 5 anos, eles estavam saindo de casa tentando fugir de Benghazi quando passou uma caminhonete da Legião Sauria*, eles viram essa cena, voltaram e abriram fogo contra os três que estavam dentro do carro, e continuaram seu caminho. Eu visitei no hospital... O pai nem ficou no hospital, foi morto imediatamente. A mãe estava vegetando, o cérebro visível. E o menininho sentindo dores, levou tiros de fuzil no peito. Ele estava inconsciente, levantando o bracinho, gemendo de dor. E durante a noite eu acordei, assim, e eu pensei, “se o Conselho de Segurança tivesse decidido mais rápido, a família dele não teria morrido”. E ele não sabe, que não tem mais família. E eu soube que ninguém foi visita-lo, naqueles dias. E eu falei assim, “sou o único jornalista brasileiro em Benghazi hoje, na Líbia. E o Brasil se absteve na votação. Eu não sei escrever. Porque acho que a presidente Dilma deve ler minhas matérias, nesse momento. Então, eu não sou bom. Né?” Então essa frustração muitas vezes te leva a isso. Claro, durante a noite as coisas ficam mais confusas, muito afetivas. Porque isso que estou dizendo não racional. Mas uma coisa que tem me ajudado agora é o vídeo. Acho que o vídeo é um auxilio importante, dentro da minha logística. Sou ágil, sou sozinho, minha câmera cabe no bolso da jaqueta, entro em lugares onde equipes de TV não entram. Continuo sendo um cara de texto. Tenho uma jaqueta onde escondo o meu bloco, a caneta, tenho cara de árabe ou de qualquer coisa. Eu posso ser 59


qualquer coisa! E eu passo despercebido e eu presencio coisas, que as equipes de TV geralmente não presenciam, sabe? Então, mas aí sou capaz de distribuir meus vídeos para o mundo inteiro. Tenho traduzido meus vídeos para o inglês, colocar no YouTube, nas redes às quais eu pertenço, redes de correspondentes de guerra, pedindo para distribuir. Existem redes mesmos? São redes criadas pelos próprios correspondentes, que controlam o acesso. Lá a gente troca informações detalhadas sobre coisas muito práticas, do dia-a-dia, de como entrar em determinado lugar, como se comunicar. Coisas que se algum regime descobrir, a segurança de todos está comprometida. Bom, o vídeo tem me ajudado a diminuir essa frustração. Bastante, assim. Claro que a realidade ela é sempre muito mais rica do que a gente consegue transmitir. Ao falar dos dois lados e depois da história do menino líbio... Se você pudesse entrevistar esses caras que atiraram contra o carro, por aparentemente nenhum motivo válido, você ia conseguir prosseguir com o mesmo sangue frio? Claro. E eu sempre, pra mim é um troféu uma entrevista dessa. Em Tripoli, eu entrevistei vários caras do regime. Foi difícil conquistar a confiança dessas pessoas... O cara estava escondido, lógico. E são coisas em que invisto muito tempo, dinheiro, contato.... Porque é muito importante pra mim isso. Ouvir, se eu puder, essa pessoa que atirou, ia ficar muito orgulhoso. Eu ia tentar entender. E se conseguisse, ia ficar muito orgulhoso também. Mas isso vem em parte da experiência, né? Você deve ter ficado mais chocado nos primeiros conflitos do que hoje em dia, não? Não sei. Acho que é uma questão de personalidade. De por que que eu sou repórter. Claro, é uma questão de perfil intelectual. Eu não sou uma pessoa dogmática, ideológica. Ou mesmo impulsiva. As vezes que fui impulsivo, me arrependi muito. Tento não agir de forma impulsiva porque não dá certo. Então não acredito que alguém seja absolutamente bom ou mal. Parto da premissa de que não existe. Pergunto porque, ao vivenciar aquela cena, você também 60


não é completamente bom ou completamente mal. Você reage ao que está vendo. Se ele parasse o tanque e falasse, agora vou te explicar... É porque é fascinante mesmo. Estou ali movido pela tentativa de entender, e não de julgar. São dois prazeres diferentes. O meu é de repórter, o de entender. O de julgar deve ter seus prazeres, o de juízes, na Corte Criminal Internacional de Haia. Quando o Charles Taylor foi condenado a 50 anos de prisão, um cara responsável por morte de crianças e tal. É um outro prazer, diferente do meu. Mas você diria que as suas matérias são 100% isentas de qualquer tipo de julgamento? Vamos encerrar com essa resposta. A isenção é o que chamo de fim regulador da razão. A gente deve buscar a isenção sabendo que é inalcançável. Mas a gente deve buscar como se fosse alcançável, sabendo que ela não é. Se a gente desiste de buscar a isenção, a gente se torna cínico. E se passamos a acreditar que é alcançável, a gente se torna ingênuo. Mas o repórter é esse, o que busca a isenção sabendo dos próprios defeitos, imperfeições, dificuldades. E essa consciência, eu te falei, eu às vezes dedico uma hora preciosa para fazer análise, falar da infância, por que eu reagi daquela forma, por que não consegui ficar tranquilo, por que meu coração disparou, por que fui agressivo, ofensivo ou sincero quando não era para ser sincero. Eu sei qual é o meu papel, que não é dizer, é ouvir. Por que não fiquei calado? Tudo isso eu tento olhar, não por curiosidade mas porque isso é vital para eu me acalmar e conseguir me controlar e fazer um trabalho cada vez mais melhor. Então o jornalismo é algo muito mais pessoal do ensinam na faculdade. É preciso o auto-conhecimento para seguir as regras. E as regras são muito boas, muito importantes. Existe o blogueiro, que é assim, é um cara estrangeiro que chega em São Paulo e vai tomar um café. E aí ele pede espresso, e vem com leite. Se tiver um blog, ele vai sentar e falar que, no Brasil, quando você pede um espresso, ele vem com leite. Agora, se ele é um repórter, ele vai perguntar ao garçom porque veio com leite, e desfazer o engano. “Não, desculpa, me enganei”, e traz um puro. E ele ainda entrevista o presidente da associação de barista de café e toma vários outros 61


expressos e conversa com as pessoas antes de escrever sobre isso. Porque ele está seguindo as regras da reportagem, que nunca devemos abandonar. As nossas impressões, os nossos sentimentos, as nossas conclusões apressadas – isso não é jornalismo.

Arquivo pessoal

PETER R. KANN Columbia Journalism School New York, October 4th 2012 Your thesis is that war cannot be understood except by those who lived through it. Yes. So far it is. And you disagree with that. I don’t want to ruin your thesis. That’s OK. So I finished reading Dispatches yesterday, it’s a pretty good book. Yeah. Well, he was on drugs half the time. It’s very chaotic. But he writes well. You said Vietnam was ‘your war’, but you’ve covered other wars as well. Vietnam, Cambodia, Laos for about 7 years, on and off. And 62


I’ve covered India and Pakistan, and Bangladesh. It was difficult but I did find the Pulitzer “Daka Diaries” online. Yes? Wow, that is hard to find. And oh, little rebellions here and there, but I’ve spent more time in Vietnam than in anywhere else. It was a weird war, wasn’t it? Different from other wars. It was you know, Vietnam was actually somewhat easier to write about because there were organized armies, the American army, we would travel with the soldiers and the South Vietnamese. So it was a little more structured, Cambodia was total chaos. And Laos also. And India-Pakistan for a while it was really a civil war that was being fought down brutally by the Pakistani Army. So that was quite difficult. Then when the Indian Army invaded it became a conventional war. There’s an interesting line in Dispatches. “The cut off point: where every war is just like every other war.” What is that like? I don’t think that’s the case. All wars have some commonality. They all have people shooting guns, and they all have people dying. But the defining ways they are fought are different, the way the affect civilians are different and, of course, the results are different. No, I think each war is rather distinct. War as a general term, say war is destruction, and deadly and involves destruction. That to some degree they all have in common. I interviewed a Brazilian journalist who has travelled extensively to the Middle East to cover wars. I think he was the only one who stayed in Syria when everyone else left. And he said he has this weird, almost obsession-like need to find out the two sides. In Vietnam people mostly stayed on the American side. Did you ever go after the North Vietnamese? If you were an American or on a foreign visa, or a Western European reporter, you had no access to the other side. They would kill you? Well, yes! You know, a few Eastern European reporters did manage, you know, Yugoslavs, I think perhaps a few Indians because India was quite (?) to the North. But it was a war where you cove63


red one side of the war in person, and that had benefits and negatives. By which I mean that the Americans, the Military would argue ‘you see all the things we did wrong, but you never see all the things the North Vietnamese did wrong’. You’d see Americans killing civilians but you didn’t see North Vietnamese killing civilians. And probably from the North Vietnamese perspective all American reporters were running dogs of the American Imperialism anyway, so... But I’m interested in your point about you can’t really understand war unless you are there. The reason I question that is because I think there is such a thing as great war reportage. Both words and pictures. And I think good writers can actually convey most of the aspects of the war. So going way back, you know, Homer wrote very dramatically in the “Iliad” about Achilles and Hector and Hector being dragged around the Horse of Troy. I mean, that was war reportage. And if you get somewhere more modern you have books like... There were quite a few about WWI. “All Quiet on the Western Front”. Really it does capture almost every aspect of war, of the point of view of the German soldier. There were (?) from British soldiers who write similarly from their point of view. I don’t know the French version... But go back a few generations and you have a book about the Civil War, “The Red Badge of Courage”. It’s quite a short book but it’s very powerful, again from the perspective of an individual common soldier and the suffering. And you know photography you might argue photography capture the drama even better than words. In Vietnam War, the two most lasting images in a lot of people’s mind is the photograph of a little Vietnamese girl with the napalm. Is an enormously powerful evocation of the suffering that was caused. The other one is the Saigon police chief pointing the gun... I happened to be there, so I saw it but you know... Boom, someone’s dead. There’s actually a video of that was well. That’s right. Because General Loan, the police chief, did it surrounded by a group of reporters. He was actually trying to send a message that (?). And then there’s film you know, funny you mentioned Syria. If you watch raw footage mostly taken by soldiers fighting, a lot of that is very powerful destruction, so... Then I ask myself: if writers and photographers can convey so much of war, what is it that you see or learn in a war that is not captured? And I think it’s the boredom, that journalism in fact capture people being shot, suffering, buildings falling down, explosions, children 64


shot off, all the horrible images can actually be conveyed – we’ll come that, but certainly those can be conveyed. What journalism can’t convey is that war tends be long stretches of inaction punctuated by high periods of action. So if you go out with a group of soldiers on a patrol, and they spend six hours walking through the mud, the rice paddy and absolutely nothing happens. And then suddenly a sniper start shooting and three people are killed. And helicopters come in and start shooting at the tree lines where the shots are coming from and you get explosions, all that. But that action may takes 15 minutes... That is actually very hard to capture in journalism and impossible to capture in film or others. Books can somewhat capture, “All Quiet on the Western Front” there are periods where the hero... The protagonist is sitting in the mud and nothing happens. But probably not even books can capture it as well as reality. Is that when war gets to you? When you get to think about what you saw? You know, the periods of inaction are not without a certain amount of anxiety. Walking through a rice paddy... You know you could get shot, even if in fact nothing happens. But then you come to that sort of... Can you feel war without being in a war? I think that is actually the sub question. Can you feel suffering unless you suffer? And I would argue in fact while you don’t talk about suffering in war for a minute... While you might not be able to feel the physical pain someone else is feeling, say a cancer patient, I think you can actually emotionally connect with that person enough to understand their suffering right? So... I mean if your wife is dying of cancer and you have to sit by her bedside everyday for weeks and you see the pain she’s in, I think you are actually sharing the suffering. You don’t have to have cancer. You understand that suffering. So to me that’s a little bit like war. I mean the closer you are to it perhaps the more it affects you. The journalists in a warzone understand it better than... But if that, if your wife is dying of cancer and you are watching it happen and you then describe it in great detail and give it to your brother or sister, I think they can also get to a point they can share that suffering. So again to me it’s not that a person dying of ovary cancer has the drama of war but the pain and suffering are just as great. I feel there’s a kind of wall that has to come down for a 65


person to feel it? I’m talking about being sort of desensitized. I think it can come as it comes to me, when I’m reading a war story as someone who’s distant from the pain, or perhaps from someone who has seen too much of it. I’m mean, if you watch someone who’s dying of cancer, where that pain becomes a routine? That can happen with war as well, when it just isn’t that interesting anymore. I think that’s true. I mean, if you cover wars as a journalist you start setting an entire threshold for what you think is dramatic. So if it’s the first time a mortar land and you feel an explosion, you think that’s horrifying. If you’re in a similar situation dozens of times, you may not even think that’s a story anymore. You know, ‘I’ve written that story’. That doesn’t mean you are not feeling it, or blasé, but it does mean, yes, you get a bit desensitized and so it takes something new, different, more dramatic, more emotionally touching to affect you... But you know, things that have touched me most writing about war were not actually... You know, getting shot at. But seeing the solider after a while becomes a little less emotional. I always thought seeing injured children always had the most effect on me. And that would probably be true for a lot of people. I suppose that it’s because they are innocent. I mean the soldiers, may not want to be there either but they are, and they have weapons and they understand they are in combat and may be killed. A four-year child, an innocent casualty... That always touched me more. Now, can you take that depth of feeling outside of war? Yes, I think... I mean if you... Were at Calcutta, in India, in the 1960s... If you saw literally starving or terribly malnourished children lying on the sidewalk and probably about to die and Mother Theresa would take them up and take to a house for the dying... I mean, it’s similar right? Children again are innocent victims. But it’s the same feeling when you saw children in refugee camps... Can I tell you a story? Sure. When I was writing about Calcutta in the 1960s I went to Mother Theresa who was not yet as famous. But she was known there, with a small group of nuns. I went to talk to her with a friend, another journalist, and she agreed to see me. And she told us a little about her home for the dying and the orphanage, and she said, ‘You should go see them’. And we said we would. Then the 66


interview kind of, she didn’t want to talk anymore. So she said, in closing, ‘What are you going to do?’ So what is the first thing you think of? You take out your traveler check from your pocket and you fill them and leave them on the little table. And then of course we were getting no reaction, so you think: ‘Am I being a cheap shit? Should I write some more?’ And still with absolutely no facial reaction, she says: ‘I mean, what are you going to do?’ And of course what she meant was, are you going to adopt one of the children? Are you going to at least spend your vacation in a home for the dying, working? She didn’t reject the checks. She pushed them off aside because they would do some good. But to me that was quite a profound lesson in... What is personal responsibility when you are faced with human misery? That’s relevant with children in a battlefield or in a refugee camp. The proper reaction of course is to want to help. The constraints, and there are many, is that you are just a reporter and not an aid worker, there are so many of them, where would you start? And really one could say journalism is a bad career because what I’m doing is just being a voyeur to suffering. I read “vulture” once. Yes. I have a quote from a book called “The Killing Fields”, that romance about the “Times’” Cambodia correspondent, and it says: “What else should he have done? That was what it was like, being a journalist. You competed for stories, they didn’t fall off trees. You reported on things you couldn’t hope to change. You described them, as fairly as you could, and left it to other people to act on your dispatches.” That’s exactly the point. Of course, some reporters, indeed Sydney Schanberg could be accused of that. They become so involved in the wars they cover and then they decide that are in fact good guys and bad guys. That are those causing the suffering or most of the suffering. And I would say a lot of the international and American press corps at the Indo-China war edged towards the view that America was somehow at fault. Even if the Americans weren’t involved, they believed America was causing most of the death and suffering, because of the way we fought the war, the artillery, the cause of civilian deaths. In a way, that is one response. The ‘There’s nothing I can do.’ Of course you can take sides, but if you do, you are probably not being a very good jour67


nalist. If you take sides you may be conflicted in your view and discover with a little bit of history in fact pick the wrong side. In Cambodia, whatever the fault of the non-Communist Cambodians or the Americans for bombings, the enormous killing took place under Pol Pot. You know, millions of civilians killed. So if you jump to the conclusion ‘the Communists are agrarian reformers who want to help the poor’, and then you discover when they come to power that they kill the poor, not very good journalism. Let’s talk about the role of the reader. You know: you did everything correctly, you stood afar, you had the facts. Flawless. And then it’s on the newspaper, and I read it. And I drink my coffee. And then I go to work. Well... Yeah. I think there are several reactions to that. One is if the journalism is powerful enough, you put down the coffee and get absorbed in the article and it actually affects you. That would be one answer. The other extreme: covering wars, there’s boredom with the occasional dramatic actions. Reporters in all the wars end up spending more of their time in the cities instead of the jungle. If you covered Vietnam, you could leave comfortably in Saigon until the last weeks of the war. Eating in a pretty good little French restaurant, drinking wine, playing cards. And then did that for some days and then you’d go out to find the war. There may be discomfort and maybe be danger, and then you could go back to Saigon to your hotel room, and something approaching normal. The advantage reporters had over soldiers was that they could be, in a way, tourists to the war. There were a few exceptions, like photographer who spent all the war with the soldiers. But even they weren’t always in the jungle. Some days at the base... You know, Mike Herr describes that. So I mean, for most soldiers, not all of being in a war is in fact war. And certainly for journalists covering war is not always being a war. I don’t know. And I mean the people, I do think journalists can convey most... The next step, the reader, the viewer... If the journalist captures 75% the drama and suffering and conveys it with genuine talent, how much can the reader absorb? Not all 75%. So maybe 50% or 60%. But I still think reportage or books can actually make non-participants in a war reasonably affected. And that’s what makes you as a reader or viewer be shocked or even have fear. So it’s not quite the same as being there, but you can feel you are there if the reportage is good enough. 68


I’m gonna take a leap here because you are the first one who can actually answer it. You were the publisher of “The Wall Street Journal” for a while. And something that comes up quite frequently is the “too graphic” discussion. There’s a line there and we can’t cross it. I don’t mean people without brains... I’ve been show photographs that I know really can’t be published. But some pictures that are more dramatic or... “Exciting” is not the word, but you get it. Why don’t big newspapers print those pictures and those stories? Why stand so far away? I can first hide behind the fact that while I was publisher of the Wall Street Journal we ran no photographs at all. We were the exception. You know, it’s perhaps a bit of a journalistic ... that newspapers believe they are read over breakfast by families. So for the same reason you don’t use bad language, you don’t put photographs that shock or offend people. That was the tradition. I think it’s breaking down a little because of the internet, of course. There’s every graphic image available somewhere in the internet. You know, the Daniel Pearl murder... That image did not appear in any newspaper, at least in the Western world, but it was accessible on the internet because the killers put it up. Sure. But I don’t mean those pictures. I mean the ones actual photographers took, photographers that work for the newspapers. Photographers... By and large, are the ones who get closer to conflict than reporters. Reporters can hide behind the wall or in a hole and stay there. Photographers to get a really dramatic photograph have to exposed themselves... Photographers are the first to realize their pictures probably won’t appear... But these days it can appear on the internet. I’ve never been a photographer but my sense is that most combat photographers understand you can’t convey the same drama without the most gruesome image. That a child’s dead body sprawled on the ground in a contorted pose may actually be a more powerful war image than a bullet entering the head of a soldier. I think they found ways around it. The images of the child don’t appear either. Well we saw before arguably the most powerful image of the Vietnam war, the child burn by napalm.

69


Yes, but that was on ‘Life’ first, wasn’t it? It appeared everywhere, I don’t know where it appeared first. I think photographers... You can argue that photography has more impact or do words have more impact. My whole background is words. So I believe that if you can describe something beautifully or even hurtfully actually it can have more power... But you know, you can argue that... Actually combat photography began in the American Civil War. And there are some very powerful photographs. Probably not the bayonets slashing, there was a line that probably didn’t get crossed... My point would be despite most of wars can be conveyed, can be explained and understood by people who were not there. You’re still against that. I think my generation is desensitized about violence in general. We can hardly be impacted anymore. I mean, if you take the Arab Spring, proportionally to past conflicts there weren’t so many victims... Except Syria, of course. Except Syria. But it’s still kind of small if you compare it the Great War-Of course, that’s an interesting scale. All wars are controversial. If not when they begin, before they end. Even the most patriotic. So you take the Afghanistan war, 4 or 5 people are killed in a week, 30 in a bad week. Iraq, somewhat bloodier. You probably have weeks where 50 or 60 die. Vietnam, we were there, 500 Americans dead per week and of course 10 times that many Vietnamese. And I thought that was a very bloody war. If you went into an airplane and you saw ten body bags lined up, 1/20 of the people killed, of course the reporters, and there weren’t very many, most had covered World War II. And they thought that was nothing. And then you take it back another war. WWII was terrible, but not as terrible as WWI. Where the machinegun had been invented but not protection against it, where battle tactics were still closer to Napoleonic than what would become modern in WWII. You had 400.000 French casualties in the first month of the war. So... Have we become insensitized or actually have we become more sensitized? Which is to say, if it actually bothers people that 5 NATO troops have died, maybe it’s actually because we have become more sensitized... It affects us more. That’s where I was going. It cuts both ways. Herr writes, “re70


port meaningfully about death”. Today, one life is too many lives. But when you read a story that says, “Five NATO officers were killed”, that’s it. When you get factual about it, you get away from it. It’s very weird. I think journalism in general, writing about one person rather than... Because they are unique or because they are a public figure... It can often be more powerful than writing about groups. The individual story... I mean one of my students wants to write a story about a woman who had every obstacle in her life... She was addicted to heroin, the husband gave her AIDS... So it’s a story with many obstacles with a rather uplifting ending. If he writes that well it’s probably more powerful than writing about general problems. But you can’t do that everyday with war stories... You can’t. Unless you are purely a feature writer looking for the maximum human interest, you also have to write about the significance of what you are witnessing. The significance involves things that are not entirely individual. But even then, I mean I was... The best stories I wrote, even if they were about a larger event, the best parts were usually individuals, you know... There was a private in a military base called Khe Sanh and the most powerful image in the story was the soldier sitting on a sandbag with a guitar singing “Where Did All the Flowers Go”. To me that was just a wonderful image. The whole Vietnam conflict lasted about 25 years. And the public interest in it waned and then picked up again, and down again, and up again... How do you deal with being a war reporter when you are reporting a war people aren’t interested in anymore? Well... I may be a bit cynical but Americans at least become very rapidly disinterested when it’s not American soldiers being killed. In Vietnam, so long as you have American troops in combat up until 1971 or even a little latter... The country had turned from war, the war was being portrayed as over, but there were still battles and Americans being killed. The interest disappeared completely in the American combat troops. And there was only Vietnamese killing and hardly anyone in this country cared about that. I still did, some other reporters did, but readers generally no... You probably see that in the Iraq wars. It bores people and there’s no particular reason they should be interested. There 71


are no Americans being killed. A bit like with the drones. You don’t see much talk about the drones here. They don’t and that’s partly because reporters don’t have access to it. The drone attacks are almost all in Afghanistan and Pakistan borders, and there are no pilots. But there are victims. I guess the Pakistani press covers it a little bit. When a drone is particularly badly aimed and kills 20 people in a village, they certainly yell about it. But it doesn’t get much attention here. Afghanistan war generally... It takes a suicide bomber in Kabul to get on the front page. Actually, on the Reuters newsfeed. [Laughs] Yes, on their newsfeed. But we digress. Yes. And they you get... We started with “each war is different” and now we are talking about long wars that people get tired of. The other extreme would have been the India-Pakistan war that I covered, which was really very short. The real war came when the Indian army crossed the border, a very old fashioned war. A front line and tanks and airplanes... That war actually didn’t get much attention either. Not because people got bored but because there were no Western participants, and because for most readers and the US and probably Europe, this was bunch of Indians and Pakistanis and Bangladeshis killing each other and who cares? They were all poor miserable people anyway. So unless things escalated into a confrontation between the US and the Soviet Union the stakes were very low. I thought it was a very dramatic war but you know, I think there were probably a dozen Western reporters who stayed through the entire war. Partly because it seemed dangerous and partly because their newspapers didn’t have interest. I’ll tell you one other anecdote about that luck covering wars. Two journalists and I headed out from Daka driving an old car, looking for the war. They had heard rumors of the army had entered through the East Bengal, we wanted to see if we could find the war. After 5 or 6 hours driving we get to an enormous river and there’s a ferryboat at a landing there and my friends say, “Great, we can get the car, board and go”. And there were Bengalis there who spoke rough English. You didn’t want to think that 72


in the middle of the river there were crocodiles and all that. So I said to them, I think the risk is not worth it. There are certain risks you take. And they said, “Come on, we are gonna go”. So I did something I rarely did, I’m was a little bit of a coward. So I hitchhiked back and they said, “Good luck”. It turned out they did get across the river and they drove another hour and they drove into a ditch. They lived, but the car was destroyed. There were now on the wrong side of the river, and there were no ferryboats. So they spent basically a week of war in an inaccessible place with no chance to get a story. And I hitchhiked back to Daka, being there when all the drama took place. So they were actually the braver journalists, and I got lucky. There are lot of things like that in war. This is the last and weirdest question, I think. So you are here reminiscing about Daka. But you’re looking out at this campus, thinking back. And I’m sure that are translators and fixers and other kinds of relationships you forged in war torn countries. You went there, and you wrote a story and you come back and they stay. Is there a detachment? Is it necessary? Or are you affected by the relationships you have in a war? Certainly the answer to the last part is “yes”. I think most journalists would say that the closest personal relationships are with other journalists. That’s in Dispatches too. Sure. Under situations of stress, bonds are stronger. You know, you bond in a way that... Maybe a college roommate is something similar, someone you fall in love with... But other than that I’d say my closest friendships came from Vietnam, mostly with other journalists, with American militaries, diplomats... You are confined together with certain amount of pressure, for a lot of time. And you share a lot of experiences, including danger. The first part of your question is harder to answer. Because yes, journalists, they are visiting wars. And the only thing that makes them accept more danger than they probably should is pride, and embarrassment in front of others... My story with the ferryboats is something like this. I swallowed my pride. But yes, we do in a war meet nationals of the country that become close. Vietnamese, Bangladeshi... In my case, I would say personal relationships, even with people who drove me quite often or interpreted were probably not quite as close as the relationships with other journalists. But when you leave the war and you know that 73


you are leaving people behind... There is some guilt. And you justify that with ‘What am I suppose to do?’ I can’t get them all home with me. I can’t take the cute Vietnamese girl who used to serve me coffee on and off for years, and then ask me “help me help me the communists are coming”. What am I gonna do, marry her? Probably not. Adopt her? Help to get her on an American helicopter? Maybe. You leave people like that behind, and you do wonder what became of her. Some of them turn up years later having survived Vietnam, people who worked with me suffered quite a lot, went through reeducation camp... It wasn’t like Cambodia, but you know some of those people have turned up again years later. Not actually direct communication, but people would say “Do you remember that kid, he’s actually OK again, he has gotten old”, you know, indirect. But I mean yeah, in general, journalists do not make close friendships or relationships with anyone with whom they might actually become responsible for. If you are a tourist in a war, you want to be a tourist with a backpack, believe me. There are exceptions. Some of the big news organizations have actually authorized Vietnamese employers, and a lot of them did in the end get them out of there. On the other hand, Sidney Schanberg’s book is about someone he didn’t get out. Later, much later, he did. Well, the guy did and he found him. Certainly! The guy did it, Dith Prahn was his name. So yes, the more of a journalist structure you have in a war, the more it helps to do your job. And the more responsibility you should have for those people who work for you. Generally reporters behave well on that. In my case my newspaper didn’t want to have a staff, and personally I wanted to be solo. I never had those kinds of things where your friends turned out to be your employees. © Columbia.edu

74


ANDREI NETTO 12 de novembro de 2012 Skype, São Paulo-Paris Você estava falando da “solucionática”. Então, é um problema porque a gente logicamente nunca vai ter a mesma vivência, as mesmas emoções, os mesmos sentimentos de alguém que está vivendo a guerra como um soldado ou vítima, no caso civil. Segundo lugar, isso seria utópico, porque nossa função é outra, é de jornalista. Esse distanciamento deve existir, caso contrário a gente vai narrar uma versão da história e a ideia é narrar a história em todas as suas versões ou no maior número de versões possíveis digamos assim. Então esse muro intransponível, ele é um problema, como eu falei, nunca teremos a exata noção do que é uma guerra na visão de suas vítimas e atores, e de outro lado esse muro é o que nos faz diferentes, uma fonte talvez um pouco mais confiável de informações, no sentido de isenta, não de fonte primária, claro. Então é um problema mas é nossa realidade, e ao mesmo tempo nosso diferencial. O que foi que ele te falou? O de Columbia? Como ele fez o Vietnã, era outro esquema por completo, porque eles só podiam ficar com os americanos. Mas o que você falou é muito parecido com o que o Lourival falou, tô achando que é uma coisa do Estado. Quando a gente entra nisso, entra no lado da humanização vs. o distanciamento que vem com a objetividade. Então é: até que ponto você se desumaniza? E até que ponto isso é ruim? A objetividade é um eterno dilema do jornalismo né. Ele entrou na pauta lá no inicio do século 20 com os funcionalistas, que venderam tão bem essa ideia que ela está nas nossas escolas até hoje. A questão é, muitas gentes nos EUA, onde a pesquisa em jornalismo é mais avançada, mais atualizada, muita gente vem discutindo os limites, o verdadeiro papel do jornalista. Se é essa busca utópica da objetividade ou se não seria mais adequada a busca máxima da transparência. Objetividade naquele afã que a gente tem de narrar a história de todos os lados possíveis e o mais isento possível, e a transparência que é aquilo de que você acaba tendo uma opinião em tudo que escreve, então é melhor deixar clara essa opinião para o leitor. Esse é o painel. Isso se aplica na cobertura de guerra no seguinte sentido: quando você está cobrindo a revolução na 75


Síria... Cara, é impossível não sair de lá amaldiçoando o Bashir al-Assad. Isso já é tomar um partido, já é digamos um prejuízo à objetividade. Então talvez o mais honesto para o leitor seja deixar claro que nossas matérias são feitas basicamente do ponto de vista dos rebeldes, que o que a maioria dos jornalistas faz. Presta atenção, na maioria das grandes reportagens – não dos despachos porque não tem espaço – mas as grandes reportagens os caras dizem olha, não pude verificar essas informações porque o governo Assad não nos concedeu visto, ou porque quando estava no país e tentei me livrar do aparato de inteligência eu fui preso, ou coisa parecida. Então são meios de dizer ao leitor: olha só, estou cobrindo a história dos rebeldes primeiro porque acho ela justa, segundo porque não tenho como contar a história oposta. É um pouco o que aconteceu comigo na Líbia. Sabia que estava no fio da navalha. Assim que cruzasse a fronteira psicológica do frontline dos rebeldes e das forças kaddafistas, milicianos, militares, enfim, polícia, etc, sabia que a tendência não era de ouvir o outro lado, era simplesmente ser preso ou ser morto. A cobertura de guerra, de conflito, é complicada, porque a gente sabe que muito provavelmente não vai cobrir os dois lados. É uma cobertura muito mais pessoal, porque muitas vezes se fala na 1a pessoa, ou de algo que aconteceu com você. Sim. Esse foi meu dilema, por exemplo, no meu livro. Escrevi durante mais ou menos 2 meses em terceira pessoa, até o momento em que estava pesado demais, eu estava brigando com o livro e eu falei, não adianta. Eu sou brasileiro, eu sou formado na escola de jornalismo brasileira, digamos assim, que é feio falar em 1a pessoa, mas foda-se, eu vou adotar a escola americana em que os caras falam na 1a pessoa. E adotei a 1a pessoa e o livro fluiu. Sinal de que a história que apurei, que presenciei, é a história que eu vi e ponto final. Não tenho que ficar tentando me esconder do meu próprio pensamento, entende, esconder do leitor que aquilo que tá escrito é o que penso, de alguma forma. Escrever em 1a pessoa é um testemunho, uma prova de honestidade com o leitor. Pelo menos não fica subjugando a gente, que até parece que não sabe que aconteceu com você. Tinha uma pergunta anterior que esqueci de fazer. Também tem uma frase no Dispatches que é “report meaningfully about death”. E fiquei com isso na cabeça ainda mais agora, que a gente acorda aqui em São Paulo com “Noite violenta: 6 mortos, 7 mortos”. Você 76


acha que tem como? Quando a gente põe “taxa de mortalidade”, ou põe o número de mortos da noite anterior, isso como estatística nos distancia das pessoas que morreram? Acredito que ele esteja falando no sentido figurado, não que ele esteja falando em termos de números. Na realidade, no momento em que se cai num relato pura e simples dos números, o que você está fazendo é desumanizando o conflito. Eu acho que o Michael Herr quando fala algo nesse sentido, trocando em miúdos, ele tá falando que o mais importante da guerra são as mortes. É preciso encontrar as melhores formas de se contar como se chega a esse extremo que é o assassinato em uma guerra. Só que pra contar isso é preciso contar uma série de outras coisas, é preciso contar como as pessoas vivem. A meu ver, pra contar a morte na guerra, uma das formas reais é contar como se sobrevive numa guerra. Você acha que você faz isso? Eu tento. Os jornais são muito objetivos, tem pouco espaço. É maravilhoso para informações diárias, mas não é o veículo perfeito para que as pessoas tenham a maior amplitude, digamos assim, de um assunto. Então não é a toa que decidi escrever um livro sobre a revolução da Líbia. Tantos repórteres escrevem livros sobre as guerras porque não estão satisfeitos com a cobertura que fizeram pros jornais. É basicamente uma manifestação de insatisfação, não tô satisfeito com o que escrevi, preciso escrever mais, tenho mais a dizer sobre isso. É esse esforço de entender com maior amplitude que interessa tanto o repórter quanto o leitor, no jornal não necessariamente isso é possível. Respondendo objetivamente sua pergunta, sim, é o que eu tento fazer. Quando estive pela primeira vez na Síria em julho, agosto... Estava sem luz, as bombas caindo num canto e outro da cidade... Ainda não era o grande bombardeio, mas a gente estava na expectativa da grande ofensiva, e enquanto não acontecia, havia bombardeios. Mas mesmo assim achei que eu precisava andar pelas ruas da cidade, pelos bairros, para ter uma ideia de como as pessoas estavam vivendo. Aí se descobre que a guerra tem uma rotina. Por 1, 2, 3 dias, as pessoas conseguem ficar escondidas em casa. A partir do 4o dia não é mais assim, as pessoas precisam buscar água, buscar alimentos. Precisam se virar. Aí começa a se criar a rotina da guerra. E ajuda a explicar as mortes. Por exemplo, por que dezenas de pessoas morrem quase todos os dias em bombardeios próximos à padarias? Porque as pessoas precisam comprar pão e o Exército está bombardeando perto porque sabe 77


que nas padarias vai ter gente. Vai ter aglomerado. Claro que precisa investigar um pouco mais, mas isso por si só é quase uma prova de crime de guerra. É parecido com o Sniper Alley da Bósnia. Lá era ainda mais grave. Aqui na Primavera Árabe o perigo é que tenham aprendido essas coisas e apliquem aqui também. Então só pra fechar o raciocínio, para contar a morte é muito útil contar a vida, os cotidianos. Li uma entrevista com outra correspondente em que ela fala sobre essa coisa do jornalista nas guerras, nas tragédias, como ser um abutre. Porque você vai lá, faz sua matéria e vai embora. Você vai embora. Você não mora lá. Então é 2 em 1: é realmente uma parte abutre? E como é voltar da Síria e ver Paris na sua janela e saber que seu motorista ainda está na Síria, seu tradutor ainda está na Síria, e aquela não é sua realidade? Essa é uma grande pergunta. Bom, primeira parte: você deve saber isso já, tem uma comunidade no Facebook chamada “Vulture Club”, algo assim. É um “clube” de jornalistas e agências humanitárias que atuam em áreas de conflito. Pessoalmente, acho esse nome de extremo mal gosto, embora faça parte dessa comunidade, que é bom pra trocar informações, enfim, é útil pro jornalista. Mas acho de extremo mal gosto. Ainda que reconheça que tem uma ponta de verdade – não no sentido que estamos onde a morte acontece e depois vamos embora, mas porque deixamos um pouco essa impressão na cabeça das pessoas. Acho eu. Acho que quando a gente vira as costas e vai embora, e é nosso papel ir embora! Não é nosso papel morrer na guerra. Mas as pessoas se sentem um pouco abandonadas. Isso me marcou muito na Síria, foi... Essa é uma pergunta muito, muito interessante. Me marcou na Síria no momento que a grande ofensiva começou, porque a gente estava na cidade de Aleppo quando houve o levante, alguns jornalistas conseguiram se infiltrar e ingressar no país. Fui direto à Aleppo. Estava lá quando o levante rebelde tinha acontecido, a resposta estava começando, mas a grande ofensiva do exército não tinha começado. Então era uma época de muita tensão, de alguns conflitos, mas não de uma guerra aberta, não era um bombardeio pesado e tal. Na verdade eu só fui autorizado pela Redação a entrar com a condição de que eu saísse antes de começar a grande ofensiva. Assim como todos os 78


jornalistas que estavam lá, ninguém ficou. E eu e um colega meu fomos abrigados na casa de uma família onde tinha internet, tinha uma estrutura super boa pra trabalhar. E no momento que a ofensiva estava começando, a gente realmente saiu. O bicho tava pegando, helicóptero atirando, avião bombardeando... Eu senti que as pessoas se sentiram um pouco abandonadas. Como se a gente tivesse ficado até o limite e aí dito, olha só, agora é com vocês. E isso me deu um enooorme sentimento de culpa. Essa é a primeira resposta. A segunda resposta: ao chegar em Paris, é sempre uma porrada. Sempre um choque. Sinto um choque quase que diariamente. Na verdade é difícil se reconectar com o trabalho. Bom, com sua vida pessoal já esperava mais, digamos assim. Com o trabalho já é um problema. Pra ser honesto, pra ser transparente, a minha sensação é de que nada mais importa, quando cobrindo um conflito. Eu estava conversando com um amigo, um jornalista canadense que já cobriu conflitos comigo muitas vezes, e ele tava me dizendo, ‘Andrei, não é verdade que nada mais importa. E a gente precisa ter isso em mente, porque se nada mais importa além da guerra a gente está perdido.’ E é verdade, mas é difícil explicar isso porque é seu íntimo, na verdade você viu que tem gente morrendo em algum lugar, tem civis, tem jovens, tem crianças, tem velhos, tem mães desesperadas. O que se vê nessas horas é muito pesado. E se desconectar disso é impossível. Isso muda a vida da pessoa. Muda a forma que a pessoa encara as coisas. Até o ponto que minha mulher, já aconteceu umas 4 ou 5 vezes nos últimos meses, e ela me vê meio abatido, desanimado, meio down, e ela diz, ‘ah coitadinho, tá precisando cobrir uma guerra’. É claro que ela fala isso como uma brincadeira, mas ela percebeu já que existe esse vínculo, esse attachément, um vínculo sentimental que se estabelece entre o repórter e a comunidade que está na guerra e é difícil explicar. É pesado. A pergunta que vem disso é, o que você sente quando os leitores se desinteressam por essas histórias? Quando não tem mais espaço? Eu compreendo quando não tem mais espaço. Estou velho o suficiente, já rodei o suficiente pra saber que o jornal vai ser desconectar do assunto, pelo menos se afastar. Uma guerra como a da Síria, que está em curso, sempre tem uma notinha pelo menos, mas ele vai se afastar. É natural, não tem como falar 100% dos dias sobre o assunto. Mas o que me chateia é ver as pessoas não 79


dando bola pro assunto. Então às vezes eu me sinto um psicopata, colocando no Facebook e escrevendo matéria, e chamando atenção pro assunto, e percebendo que as pessoas não estão muito interessadas... É uma forma de defesa. Elas se chocam num primeiro momento, se revoltam num 2o, elas querem e exigem providencias e mobilização, mas a mobilização não vem, a solução não vem, então a melhor forma de conviver com isso qual é? Se afastar. Se não vai maltratar, pesar no dia a dia. O Lourival contou uma história sobre a Líbia, quando o Brasil não tinha um posição assim, afirmativa sobre o conflito, e ele disse que quando viu a morte de uma família, ele ficou desesperado achando que não era um repórter bom o suficiente, porque os governantes ainda não tinham feito nada aqui sobre isso. Você sente essa parcela de culpa também? Sim. Sim. Basicamente, é um dos grandes esforços de nós, jornalistas brasileiros, de influenciar a política externa brasileira. No sentido de HELLOOOOOOOO, tem gente morrendo, e vocês estão falando merda! Pára de ideologia barata, reflexão de gabinete e põe o pé na lama, veja o que as pessoas estão sofrendo. É isso que a gente tem em mente. É muito revoltante, cara, é muito revoltante. Esses dias uma estudante me entrevistou e falou assim, ‘Você que é uma pessoa polêmica’. E eu, como assim polêmica? ‘Ah não, quis dizer que você está sempre batendo de frente com o governo e tal...’ Mas é, a política externa brasileira às vezes é uma piada. Visa o assento no Conselho de Segurança só pelo cachê. Só que assim estão dando tiro no pé né. Para vocês deve ser ainda mais revoltante. Não é só isso. Deixa eu te dar um exemplo. Na Líbia também houve um dia em que eu estava... Olha a neurose da coisa... Era um sábado, eu tinha entregado meu material de domingo na noite anterior, e eu e meu motorista fomos de manhã para um bairro de periferia porque eu estava tentando localizar a prisão em que eu tinha estado e a gente estava rodando e rodando e rodando, até o momento em que alguém nos disse, ‘Vocês estão sabendo do massacre?’ Eu entendi uma palavra solta aí perguntei, ‘O que está havendo?’ ‘Descobriram um massacre aqui perto, em Kili Al Ferjan, no distrito de Trípoli. E eu falei toca pra lá e aí a gente chegou numa casa dos horrores, com teto de zinco, no meio do 80


Sol do deserto, um troço louco. As pessoas tinham sido presas ali dentro, dissidentes que foram levados pra lá pra serem metralhados e depois foram queimados vivos ou mortos, dependendo dos caras que... Enfim. E no meu livro tem uma foto disso, você vai reconhecer. Só tinha ossos humanos e cinzas. Então era assim, o crânio, as costelas, macabro. Coisa de Hollywood. Aí eu saí estarrecido, cheio de depoimentos, de testemunhas de sobreviventes, com fotos de neguinho executado com pés e mãos amarrados. Execução e ponto. Crime de guerra. Saí correndo e escrevi uma matéria gigaaante e mandei, e no dia seguinte entraram três linhas do assunto. No meio da matéria que já estava escrita. Aí eu quis dar um tiro na cabeça. Liguei pra redação e briguei, com todo mundo. Coloquei todo mundo no pau. E me disseram, ‘Andrei, não dava. Industrialmente não dava.’ E eu acabei dando sentido pros caras, não tinha como. Mas foi enlouquecedor. Industrialmente por que não tinha espaço ou por que era gráfico? Porque não tinha tempo hábil. Na opinião deles não era um “Parem as máquinas!” Não sei se existe isso ainda. Nessas horas não existe mais essa merda. É curioso porque às vezes as pessoas se deparam com cenas horríveis que não são as mais famosas cenas horríveis. Tipo a Martha Gellhorn que achou o campo de Dachau muito pior que Auschwitz e foi chorar num bosque. Cenas horríveis esquecidas. Sim. Isso acontece o tempo todo. Você acha que se os jornais se permitissem ser mais gráficos, acha que as pessoas prestariam mais atenção, os leitores de um jornal? Talvez não comprassem o jornal. Sinceramente não sei. É um bom assunto para uma pesquisa de mestrado, doutorado. Quando você estiver lá. Faz uma pesquisa qualitativa sobre isso. Essa é a última por enquanto. É outra frase do Dispatches: “It took the war to teach it that you were as responsible for everything you saw as you were for everything you did”. Então a pergunta é: as atrocidades que você vê na guerra, sente que é de alguma maneira responsável por elas? Não. Não. Não. Senão vou ficar louco. Me sinto responsável por 81


aquilo que faço e pelo que tento fazer. Me sinto responsável em transmitir essa informação da melhor maneira possível. Me sinto irracionalmente responsável pelo destino de algumas pessoas. Mas não me sinto responsável pelos crimes da guerra. Aí a gente começa a entrar em loucura, cara. A guerra afeta o cara. Afeta. Se o cara tá se sentindo responsável pelos crimes da guerra, ele tá sofrendo muito os efeitos da guerra. Você acha que há uma possibilidade de você estar virando um war junkie? Espero que não, cara. Uma pessoa me olhou, e me disse, ‘Acho que você tem death wish’. Eu fiquei chocado e disse que não. Espero manter a cabeça em cima dos ombros, não enlouquecer diante disso tudo. É importante manter o controle. É preciso por exemplo, ter discernimento suficiente para não se iludir na hora de escrever a respeito dos rebeldes, tem gente que escreve como se fossem anjinhos e não é assim. Na Síria está acontecendo crime de guerra adoidado, dos dois lados. Na Líbia aconteceu. Acontece sempre. Então é preciso ter... Cara, o grande centro de atenção são os civis numa guerra. E aí é difícil controlar esses vínculos que a gente acaba criando. Mas faz parte do nosso trabalho tentar dominar isso, senão você não pode mais ir. Mas o que o Michael Herr viveu... O Vietnã foi uma guerra fudida... E segundo o Kann o Michael Herr estava bem drogado. É, vai saber se estava quase sempre drogado porque estava já na loucura ou caindo na loucura pelas drogas. O cara foi genial, brilhante, e com muita frequência eles tem um quê de loucura. Eu pretendo não ficar muito louco.

© Azul Serra

82


© Sophie Knight

GARY KNIGHT 23 de dezembro de 2012 E-mail So that’s my fundamental question: is it truly impossible for those who were not there to understand war? In my view yes it is – absolutely – much like childbirth is impossible for those of us who never experience it to imagine, and many other thing besides. War is one of most maximum of all experiences, I believe it is absolutely beyond the comprehension of anyone who hasn’t lived through it, moreover no two people will likely experience the same feelings about the same war, even the same war experienced side by side. If so, then how does a journalist writes, photographs, records war? As well as possible but never really successfully and only in tiny tiny miopic fragments. What to leave out, and how to choose it? How frustrating is this job? Can it be thought of as a job? Yes, it’s a job, but its also a life - it is many things all at the same time. The human is interconnected to the professional side, it’s impossible to divorce. How close can a journalist get to explaining what a war really is? In my own experience my memories are much worse than I was able to convey in photographs or words – so not close at all. And by extension, how close can I get to understanding it? Not at all, no chance – but be thankful for that. 83


Bibliografia BOYD, Danah; CHOUDHURY, Munmun; COUNTS, Scott. KICIMAN, Emre; MONROY-HERNANDEZ, Andrés. The New War Correspondents: the rise of civic media curation in urban warfare. Wisconsin: Microsoft, 2012. CAMUS, Albert. A Queda. São Paulo: Círculo do Livro, 1982. CASTELLS, Manuel. Networks of Outrage and Hope. London: Polity, 2012. CAVALCANTI, Klester. Dias de Inferno na Síria. São Paulo: Benvirá, 2012. ELDON, Dan. The journey is the destination. San Francisco: Chronicle Books, 2011. JUDT, Tony. Postwar: A History of Europe Since 1945. London: Penguin Books, 2005. HERMIDA, Alfred; LEWIS, Seth C.; ZAMITH, Rodrigo. Sourcing the Arab Spring: A Case Study of Andy Carvin’s Sources During the Tunisian and Egyptian Revolutions. ISOJ, Austin, 2012. HERR, Michael. Dispatches. London: Vintage, 1991. HICKS, Jim. Lessons from Sarajevo. Boston: University of Massachusetts, 2013. HOOD, Jean. War Correspondent: reporting under fire since 1850. Londres: Conway, 2011. NETTO, Andrei. O Silêncio contra Muamar Kadafi. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. POWER, Samantha. A Problem from Hell. Nova York: Harper Collins, 2007. RIBEIRO, José Hamilton. Realidade Revista. Santos: Realejo Livros, 2011. SALTER, Anastasia. Being Effie: The Hunger Games and War as a Form of Entertainment Media Consumption. Boston: University of Baltimore, 2013. SLEDGE, E.B. With the Old Breed. New York: Ballantine Books, 1981. SONTAG, Susan. Regarding the Pain of Others. Nova York: Picador, 2003.

84

Em busca da guerra  

Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo ECA-USP / Ana Elisa Assumpção de Pinho

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you