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voo


voo

ana paula simonaci

azougue editorial, 2018


a primeira vez que vi a ana, ela me disse que em um de seus cantos havia um personagem que ouvia luís capucho. e eu disse, falando sobre as minhas músicas, que minhas letras têm a disposição de parágrafos, se colocadas no papel. porque eu não sou um leitor de poesia. por isso, por esse meu gosto, foi que li o seu voo, nos dezoito cantos em que ela o distribuiu, como quem ouvisse, assim, uma anciã, que me contasse coisas velhas, acontecidas num tempo absoluto, antes de seu transbordamento, e que, agora, no correr dele, a gente, muito ignorantes e perdidos, precisasse juntar as peças para tê-lo outra vez inteiro e completar assim seu ouroboros.


ela escolheu as palavras para ir tecendo o caminho, para ir conduzindo o voo circular. a escolha de palavras para voar é, talvez, para que se socialize a experiência. e, porque dizem as coincidências não ser acaso, faz dois dias, atravessando a ponte rio-niterói, ao entardecer, uns amigos ficaram falando de uns pássaros voando em v, muito no alto, voando pra longe, sobre a baía da guanabara. um voo de muitos pássaros, socializado como o de ana em seu voo de palavras. ficamos interessados em saber porque motivo voavam assim. alguém disse que voar junto era uma forma de criar menos resistência com o vento e que juntos assim planavam melhor. como leitor, fico feliz de me juntar a ana, de voar mais fácil no seu voo vermelho e azul.


eu acho muito difícil e vejo como uma responsabilidade muito grande a minha, apresentar um texto de autor. porque, embora todos saibam que um livro valha por ele mesmo, fico pensando se eu não devo situá-lo no contexto de outros livros e autores já publicados. ou se não devo, então, dizer mais do caminho que ela faz e tudo. mas voaremos melhor, mais alto e longe, se vamos todos juntos no voo dela. afinal, os que voam sozinhos contra o ar, como ela disse, batem suas asas muito mais vezes.

luís capucho


o tempo é a sombra célere dos pássaros

odysséas elýtis


CANTO I


esta é a realidade. eu sou porque meu gato me vê.

dentro de seus olhos o mundo já não existe mais.


com sua face felina ele me vê, um corpo, ele me vê, uma alma, ele me vê, uma dança.

nômade de mim, vazio, expurgo, êxtase.


rejeitar certas formas de viver me fizeram livre e meio desesperada.

se eu fosse eu, seria muitas.


tem corpos com medo de ser. eles têm medo porque não estão autorizados a ser.

eu não sou ninguém. eu não sou daqui.

[os loucos não sabem. não sabem quem são e por isso existem.]

eu sou porque Deus não é. seria a escuridão o que faz os raios de sol existirem?


voa, voa, meu pequeno påssaro. leva minha canção. me traga olhos de borboletas, de mariposas, olhos de rapina. rapte olhos para que eu possa ver um novo mundo.


miro no cÊu, vejo os dias que passam. as aves voam. a lua reflete as sombras sobre o mar. as ondas quebram sobre outras ondas. eu morro e nasço.

eu sou a futura sombra dos pĂĄssaros passados que revezavam as guias da vida.


eu sou todos os deuses que fazem morada nas nuvens. eu sou todas as chuvas, todos

os raios!

[e todos eles não existem] e eu não existo quando Deus é.

[meu gato pula em meu colo e me torno eu sem metafísica.]


CANTO II


decifrar os deuses dentro de cada quartzo verde dependurado por gotas de orvalho nos templos secretos de si.

o fio que no labirinto leva até o encontro. a cobra que come o próprio rabo. os amores perdidos. os doces de joão e maria. o rabo come a cobra. não só os amores. não sei o que me trouxe (e traz) até aqui. todo mundo já teve (e carrega) um coração partido.  

o barco balança. quem navega?


talvez a chuva, uma bússola, um nó. todas as clepsidras derretidas. o passado e o futuro são pássaros que revezam a guia da vida para cortar o vento em v.

e se todos os corações partidos se juntassem como uma revoada em direção ao sol?


todo mundo tem um coração selvagem.

e se todos os selvagens de coração fossem em bando, vento na cara, grito, gemido, som, música, cor?


CANTO III


revirar todos os livros e calendários de cabeça para baixo: embaralhar os jogos, os dados e os sexos, beber do licor da floresta, tomar dos cálices de cachaça mineira, consultar os astros, assistir as aves marinhas sobre o rio del prata, planar ao redor do pão de açúcar em um saco plástico daqueles azuis, e percorrer quilômetros, e assistir com as vísceras as peças em cartaz pela cidade, sacrificar o coração com uma adaga e colocar as veias a disposição, circular dez mil poesias proibidas pelo estado, presenciar guerras legítimas de confete, resistir ativamente a travesseiros ofensivos, misturar os códices, as capitulares, os catálogos e as iluminuras, as ilustrações de nanquim, despertar de quarenta e dois sonhos distintos, perambular por trinta esquinas carnavalescas, deixar de atravessar montanhas em um trem cinza claro e trocar de meias, para então entender: toda vaidade é ilusão.

[anota, anota depressa, no teu peito: toda vaidade é ilusão]


CANTO IV


teve uma noite que sonhei com você. você disse que não ia voltar. toda sua pele era azul. yves klein. toda a sua voz no mesmo tom de azul. e tudo ficou azul.

você disse que não ia voltar. se jogou daquela janela do sétimo andar e saiu voando com uma orquídea aberta no peito. com toda a intensidade de um prédio desabando, abraçou o vento como quem ama.

lá no fundo, eu sei. eu que te joguei pela janela, essa é a verdade. como uma bolinha de papel. ou melhor, um origami. sorte que era um tsuru. sorte. e saiu voando. um tsuru azul. toda aquela loucura entranhada na tua alma, me assustava, me seduzia.

medo e beleza, porra.


e daĂ­, preciso confessar,


vocĂŞ manchou tudo quando foi embora.


CANTO V


e foi num dia desses que me surpreendi com a natureza morta entrando pela janela durante a noite e sussurrando no meu ouvido um grito: transgressão é se manter vivo.

[nos momentos de riso e música os ponteiros giram invisíveis]

the show must go on.


 

CANTO VI


todo dia me sinto um pouco menos eu mesma.

as horas deveriam ser curadoras, mas são grandes assassinas. cada minuto mata o minuto anterior.

a pressa, a ansiedade de viver, de acertar os erros do passado, já não tenho mais. a necessidade de ser outra que não eu, já não tenho mais. a arte de perder não é nenhum mistério, sabemos. a grande lição da vida se desfaz no desenrolar do tempo. não há o que aprender, pois a vida não é um aprendizado. a vida é latente. a vida é um coração vivo que bate para circular todos os sangues.


eu sou o meu reinado. coroada por mim mesma, decreto todos os dias o fim de quem eu fui.

o que tanto há para se fazer nesse mundo? eu busco nas palavras um caminho, como um lasco de sobrevivência, como uma lamparina para saber onde pôr os pés no mundo. o mistério de perder não é algum senão tudo o que parece ser.


hoje montei um quebra-cabeça e sobrou uma peça. dei a ela meu nome.


CANTO VII


eu sou a louca polvora que estoura dançando

os dados no ar enquanto giram entre os dedos de um deus da sorte

que se lança sobre os fracos

sou o corão sendo lido no trem o talmude em um muro a bíblia que evoca a chama dourada as ervas de poder quando sussuram aos seus


sou

os dias sem chão dos pássaros

eu grito pelas montanhas e ninguém ouve eu uivo pela selva e nada se move o agora entre o sim e o não que deriva no vento de quatro sou ele sou ela sou falo sou fenda

farejo

os passos de um vazio


olhemos as estrelas talvez um raio mudo sinal esquivo de um mar que se quebra

parta o mundo ao meio

e de um ovo nasรงa andrรณgeno guia


CANTO VIII


o rio enfia o braço dentro da minha boca deixa uma flór de lotus nos meus lábios

a noite guarda cautelosa no lago negro de um espelho, submersas, as letras do alfabeto

embaralho e pincelo no papel, ao revés da sorte, na esperança de encontrar na mandala de tinta alguma palavra que seja um caminho eu

sou os peixes dourados do fundo do rio


a verdade sobre mim: você já se sentiu sem rumo? diz pra mim o sentido de tudo das meias perdidas nos sofás das chaves que não abrem porta alguma dos dias que se foram ao pó das ruínas em que me deito sobre

um castelo de açúcar delírios e depois ilusões afogadas

eu sou tudo o que está perdido


atlantis o naufrรกgio dos dias daquele novembro um adeus silencioso e depois e depois e depois o tempo


escombros das portas que se abriam e fechavam a noite inteira quebrada na vitrola arranhada e meu nĂł na garganta e eu que precisava falar de amor tanto tanto como a boneca da menina perdida nas ruĂ­nas


eu

sou tudo que estรก perdido


CANTO IX


o sangue corre todo mês todo mês o rio corre todo mês todo mês o sangue o rio o sangue e o tempo refaz o tempo e o rio as ruínas em que me deito casa em que habito


o tempo refaz o tempo

só entende de ruínas quem já teve um coração partido

quem perdeu quem só se encontrou


sĂł quem entende de tempo entende de ruĂ­nas

tempo


CANTO X


a cobra come o próprio rabo mergulhar dentro de si. ali estava de novo a imagem que vi em transe: um templo, quartzos verdes, a gota de orvalho.

foi nesse dia que entendi que a busca era no labirinto dentro de mim mesma. o avesso da vida seria virar-me de dentro pra fora? e eu achava que todos os caminhos levavam aos outros. o caminho em direção a si mesmo, uma tentativa, rastro, sopro que leva ao outro em si.

o telefone toca. minha mãe me diz que fez uma bolsa de crochê. achou um nó no meio da tecelagem. desfez toda a bolsa. desfez o nó. refez todo o caminho.


CANTO XI


os tambores seguem o ritmo na minha pele a confiança na destreza da mão do atirador de facas em todas as tempestades de iansã nos encontramos porque eu sou gota da chuva porque você é


no caos dos raios o universo se choca

as estrelas se olham antes da colisĂŁo?


os ponteiros estĂŁo seguindo seu caminho e eu continuo buscando nas palavras o destino


CANTO XII


precisamos ir à índia caçar os tigres azuis. [a distância e o tempo são uma coisa só] eu andei três desertos até ver um oasis. eu andei três casas no xadrez. eu perdi minha rainha para um cavalo feroz que veio de dentro do mar. o bispo se ergueu para ouvir as orações que eu fazia quando menina dentro da igreja onde morei nos dias da minha puberdade. o tabuleiro não é apenas um quadrado, ali existe uma montanha. todas as casas da cidade com seus bispos, reis, rainhas e torres um dia caem no chão. minha casa de infância foi demolida. a casa dentro da igreja. isso foi quando comecei a buscar os tigres azuis. chorei quando demoliram deus. me deu esperança e me deu loucura. temi ao olhar diante da cara desse tigre que não é azul, pois está por todos os lados. e não são poucos os relatos selvagens. busquei os tigres azuis. andei quarenta quilômetros até o rio, em nome do amor. e me ergui com asas para caçar a paz, mas a porra da paz não habita no meu coração feroz. são poucos os relatos sobre liberdade. os tigres azuis estão extintos. mas alguns caçadores ainda os vêem, mesmo que em sonho.

mel e perdição.


CANTO XIII


eu sou você lavo minha burca penduro no varal toda manhã eu sou você todo dia minhas calças de general todo dia sou eu quem desce a ladeira todo dia o circo a equilibrista o bebâdo nas esquinas da lapa eu sou você


não percebe? as estrelas de tinta acrílica no teto do universo o toque da mão a flór de lotus dobrada em origami todos os sonhos do mundo codificados secretamente em um cardume dourado na onda de três metros que se quebra sobre as estrelas do mar a santa de vidro na areia esculpida pelos raios da rainha


eu

eu sou tudo o que acredito e crio exposto na minha pele tatuada por um espinho nas mĂŁos do tempo

sou vocĂŞ


CANTO XIV


todos os dias os pássaros. todos os dias voam. da janela vejo os que voam em bando. planando. os que voam sozinhos batem suas asas muito mais vezes. da alvorada ao crepúsculo.

onde os pássaros pousam é onde eu queria estar. para o rio del prata eles voam e se misturam com o cinza do rio azul.


[quando fui para o uruguai, deixei seu nome em todas as ruas. pouco a pouco me desfiz das suas letras. está tudo lá. nada mais em mim.]

só entende de jornadas quem acredita. tudo ia mudar, tudo. tudo vai mudar.

em colônia, as ruínas e o mar.

os que voam sozinhos batem suas asas muito mais vezes. todas as cidades desabam, a grama cresce por sobre as pedras, os pássaros se alimentam de passado e depois voam em direção a outros passados.


eu encontrei você e todo o seu passado. você encontrou em mim ruínas e mar.

na cafeteria da livraria pedi uma xícara de prata. vi nela meu rosto e pelo vidro das janelas vi os pássaros e os seus peixes no fundo do rio.

tudo ia mudar, tudo. os bandos em revoada. os peixes no cardume. e os que voam, nadam, e andam sozinhos em busca de liberdade.


CANTO XV


minha carne de hortelã sorriso amassado em um copo com gelo grito rangido batido com limão nas lágrimas borbulhantes pequeno soluço de vidro translúcido revelo a alma doce esquálida envenenada diminuta onde dói a ressaca? e o mar é uma gota


onde dói a ressaca? cai o rei de espadas cai o rei de paus cai, não fica nada saliva língua meu sangue furta-cor folha dourada da bananeira pedrinha miudinha de aruanda a solidão


sou as ruínas em que habito você já se sentiu sem rumo? uma prece [o poeta tem por ofício amar] tempo


tudo o que nos separa sĂŁo as horas o passado o presente o futuro as horas os ponteiros os pĂĄssaros estĂŁo seguindo um caminho e eu continuo buscando nas palavras o destino


eu

sou tudo o que está perdido

os sonhos o que acredito

há quanto tempo você não fixa os olhos em alguém por mais de oito segundos?


CANTO XVI


[enxergar. ver o outro é ver a si.]

o labirinto perdido em si mesmo. tecelagem.

[o seu novelo se amarrou ao meu se amarrou ao dela se amarrou ao dele. labirintos entrelaçados]

os buracos negros são o coração das galáxias.

as estrelas se olham antes da colisão?

[os homens perambulam pelas ruas com seus peitos cheios de nós.]


CANTO XVII


todas as folhas que eram verdes estão caindo no chão. as palavras secas fazem um caminho ao pé das árvores.

eu continuo buscando nas palavras um caminho.

hoje enfiei o braço em uma bacia e sobre a minha mão se lançou uma flor de lótus. assoprei. ela voou em direção ao norte.

sê selvagem. como uma mulher.

as folhas estão caindo e os selvagens estão soprando o vento que altera o movimento da queda livre da vida.


CANTO XVIII


uivo com minha língua roxa de flor vulcânica derramo de um cântaro pássaros em chamas no cair da noite em rédeas os comando

voemos zarpemos que a vida é breve como veneno que belisca o instante


e não há mais animaizinhos no agora e nem mais a grama que se foi e o que virá se alimenta de pequeninas migalhas de morte

navega, pequena apruma tuas velas no vento pirata o caminho extinto é pleno de utopias e as correntes carregam conchinhas de areia quebradas uivo com minha língua roxa de flor vulcânica


e olho para o sol de dia para deixar as retinas em chamas

e assistir o mundo incendiado

corro, morro, nasço, assassino o cÊu que me grita um adeus agoniado cansado da suspensão


eu

verei a primeira paisagem do novo mundo

e não poderei queixar-me não há revolução sem desterro


levanta

e brilhante a lua azul em gozo orgástico regará os dias de outrora

que já não mais existirão

dessa vez o sol não se porá


coordenação editorial sergio cohn e renato rezende projeto gráfico ana paula simonaci e sergio cohn capa voo, de sergio cohn distribuição editora hedra dados internacionais de catalogação na publicação – cip s596

simonaci, ana paula voo / ana paula simonaci. apresentação de luís capucho. – rio de janeiro: azougue editorial, editora circuito, 2018. 82 p. isbn 978-85-7920-223-0 1. literatura brasileira. 2. poesia. 3. cantos. I. título. II. cdu 821.134.1(81) cdd B869.1

rio, abril de 2018 www.azougue.com.br www.editoracircuito.com.br

Profile for Ana Paula Simonaci

Voo - Ana Paula Simonaci  

Ana Paula Simonaci é poeta, escritora, curadora, pesquisadora e agitadora cultural. Voo é seu primeiro livro, lançado em parceria pelas edit...

Voo - Ana Paula Simonaci  

Ana Paula Simonaci é poeta, escritora, curadora, pesquisadora e agitadora cultural. Voo é seu primeiro livro, lançado em parceria pelas edit...

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