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Copyright © 2016 Qualis Editora e Comércio de Livros Ltda Todos os direitos reservados e protegidos. Nenhuma parte deste livro, poderá ser reproduzida ou transmitida sejam quais forem os meios empregados sem prévia autorização dos editores. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são produto da imaginação da autora. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência.

Editora: Simone Fraga Revisão: Sônia Carvalho Capa: Renato Klisman Diagramação de e-book: Cristiane Saavedra Produção editorial: Equipe Qualis Editora

DADOS INTERNACIONAIS PARA CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)

B4548u Berhends, Lucy, 1978 Um CEO para chamar de meu/ Lucy Berhends. – [1. ed.] – Florianópolis, SC: Qualis Editora e Comércio de Livros Ltda, 2016. 246 p. : il. ; 23 cm.

ISBN 978-85-68839-36-2 1. Literatura brasileira 2. Romance erótico 3. Ficção I. Título. CDD – B869.3 CDU - 821.134.3(81)

1ª edição - 2016

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Aos leitores que, de alguma forma, estiveram envolvidos no meu processo de escrita dedico esta obra


Capa Ficha Técnica Dedicatória Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Capítulo 15 Capítulo 16 Capítulo 17 Capítulo 18 Capítulo 19 Capítulo 20 Capítulo 21 Capítulo 22 Capítulo 23 Capítulo 24 Capítulo 25 Capítulo 26 Capítulo 27 Capítulo 28 Capítulo 29 Capítulo 30


Capítulo 31 Capítulo 32 Capítulo 33 Capítulo 34 Capítulo 35 Capítulo 36 Epílogo 1 Epílogo 2 Agradecimentos


Não posso me atrasar, não posso me atrasar, não posso me atrasar. Repito essa frase depois de olhar pela terceira vez para o relógio e me dar conta de que não se passou mais de um minuto depois da última vez. Balanço as pernas em um hábito nervoso como se isso fosse capaz de me trazer mais calma. Não traz. Eu sou daquele tipo de pessoa que tem o relógio como um terceiro braço sem o qual não posso sonhar em sair de casa, se é que você me entende, mas particularmente hoje eu tenho um bom motivo para isso. Daqui a alguns instantes todos os funcionários da Editora Cavalcanti, a empresa onde trabalho, serão apresentados ao executivo e proprietário do complexo editorial Cavalcanti, um dos maiores no ramo. Definitivamente, não posso chegar atrasada hoje. — Não esqueçam de ler o material e deixar tudo pronto para o seminário — essa é uma das poucas palavras que consigo escutar do meu professor de Linguística, já que minha mente teima em oscilar entre a sala de aula e o evento na editora hoje. Olho mais uma vez para o relógio. Eu não sou do tipo distraída ou desatenta, mas eu nunca esperei tanto a hora do amém como estou esperando agora.


— Vocês estão liberados por hoje. Tragam suas dúvidas na próxima aula. Ufa! Finalmente a aula termina, e se eu tiver sorte, chegarei a tempo na empresa. Recolho meu material de cima da mesa, jogando de qualquer jeito na mochila. Dirijo-me à porta da sala tão rápido quanto meus pés permitem, mas sou freada por uma voz grossa chamando o meu nome. — Laís, você poderia vir até aqui, por favor? Não. Me diga que não estou escutando isso. O chamado do meu professor está me fazendo xingar internamente todos os palavrões que vêm à cabeça. Ah, merda. Hoje não é meu dia de sorte. — Desculpe, professor. O senhor me chamou? — Sim, Laís. Você geralmente é tão participativa e concentrada. Está acontecendo alguma coisa hoje? Parecia estar com a cabeça longe durante a aula. Você não imagina o quanto. Será que fui tão óbvia? Terminantemente não tenho tempo para essa merda agora. Por que eu simplesmente não me deito sobre um divã e conto para ele a tragédia que pode acontecer se eu não estiver no meu trabalho dentro de... — Droga, já estou atrasada. — O que disse? — ele levanta a sobrancelha, o que faz com que seus olhos fiquem bem maiores do que já são, escondidos atrás dos óculos fundo de garrafa. — Professor Benjamim, eu tenho que me desculpar mais uma vez. É que hoje eu vou conhecer o dono da empresa onde trabalho e acabei me preocupando com a hora. Isso não vai voltar a acontecer. — Tudo bem, Laís. Eu sabia que havia um motivo. O que você ainda faz aqui, menina? Já devia estar no caminho. Elementar, meu caro Watson. Pelo amor de Deus, será que ele não se deu conta de que era exatamente isso que eu estava fazendo quando me chamou? — Obrigada, professor. Saio correndo em direção ao estacionamento. Essa disciplina está longe de ser a minha favorita, mas ela é indispensável para que eu alcance o título de


mestre em Letras. A minha praia sempre foi literatura. Eu sempre gostei de me envolver com os personagens, viajar na história e sonhar. Sim, posso dizer que sou uma sonhadora. Ah, não me apresentei? Perdão. Sou Laís Oliveira, tenho vinte e quatro anos, estatura média como a maioria das pessoas e cabelos claros, mas nada parecida com essas Barbies que você conhece. Sou mais como uma garota normal, cheia de carne e curvas nos lugares certos, eu acho. Trabalho no centro de elaboração de material didático como revisora e nesse momento, estou revisando o livro de um autor conceituadíssimo com um cronograma mais que apertado. — Ei, Laís, me espere! Preciso falar com você. É a voz de Leandro. Ele é um grande amigo que conquistei na universidade e alguém a quem tenho grande estima, mas nem mesmo para ele posso parar agora. O que há com o mundo querendo falar comigo hoje? — Agora não dá, Leo. Pode me ligar à noite? Ele está quase correndo para me alcançar, mas diminui os passos quando ouve o que digo. — Está bem. Nos falamos depois. Bom trabalho. Sim, eu espero que ele seja bom se eu conseguir mantê-lo, pelo menos. Me dividir na rotina entre a universidade e o trabalho está sendo cada dia mais difícil, cansativa, mas eu repito para mim mesma todos os dias que não há opção. Você tem um sonho a conquistar, garota. Precisa fazer isso para alcançá-lo. Chego ao estacionamento e logo avisto o meu carro na primeira vaga do outro lado do campus. — Tomara que o trânsito esteja calmo — faço uma prece em voz alta, ciente de que não tive tanta sorte nos últimos dias e acabei chegando atrasada algumas vezes. Abro a porta do meu Celta, jogo a mochila de qualquer jeito e faço menção de entrar no carro quando sinto uma mão grossa segurar meu braço. Santa


paciência, quem está me impedindo de sair agora? Olho para o lado apenas para me deparar com uma mulher vestida de cigana em seu vestido vermelho cheio de brilhos, moedas penduradas e um lenço de mesma cor cobrindo longos cabelos escuros. Tento imaginar mil motivos para ela ter me parado, mas não encontro nenhum, então espero que ela dê o primeiro passo. — Mostre-me a palma da sua mão e deixe que eu leia a sua linha do destino, menina. Estou sentindo sua áurea de energia e pressinto que terei boas notícias para você. Boas noticias? Sério? Alguém ainda acredita nesse tipo de coisa? Para mim neste momento, boa notícia seria não encontrar engarrafamento a caminho do trabalho. — Estou atrasada, senhora. Não tenho tempo pra isso agora. — Apenas um minuto. É tudo que lhe peço e te garanto que não vai se arrepender. Ah, claro. Ela vai dizer que eu vou encontrar o grande amor da minha vida um dia, que terei sucesso, saúde e, quem sabe, dinheiro. Não é isso que o universo inteiro está em busca? Ignoro a voz insistente, entro no carro e giro a chave na ignição, ouvindo o ronco do motor que já está pedindo para ser aposentado. Aguente firme, bebê, eu não posso te trocar agora, falo com meu velho carro. Começo a dar a ré para acertar o veículo e já me preparo para seguir meu percurso quando a velha insiste, parando na frente do carro. Ah, Deus, era só o que faltava. — Senhora, por favor, me dê licença. Ela faz o que peço, mas não antes de se aproximar de minha janela e me deixar com o que pensar depois de sua última frase. — Ainda hoje você terá uma grande surpresa. Não resista. Seu futuro depende da escolha que fará, menina. Boa sorte! Ela não pode estar falando sério. Não tem uma frase mais clichê? É lógico que o meu futuro e o de qualquer pessoa depende das escolhas que fizermos. Eu, hein?


Assinto, sem tempo sequer para questionar suas premonições e acelero para o trabalho, tendo sorte de encontrar o trânsito quase livre. Talvez meu atraso não seja percebido, certo? Estaciono o carro de qualquer jeito e entro na editora, tentando chegar o mais rápido possível à minha sala. Estou tão concentrada em alcançar o meu destino que não percebo alguém vindo em minha direção. Oh, Deus! Como uma pateta, me esbarro em um homem no caminho. Estou ciente que esse é o momento no qual eu deveria abrir a minha boca e pedir desculpas por ser tão desastrada, mas não consigo encontrar voz quando meus olhos encontram os... uau... dele. Passeio com o olhar desde os sapatos negros perfeitamente lustrados e com aparência de caros, até um conjunto de terno cinza, certamente feito sob medida e que, sem dúvida, custa um ano do meu trabalho, chegando ao dono daquilo tudo que... oh, Senhor! O homem não é nada menos do que sexy pra caralho com seus olhos de um castanho quase verdes, misteriosos, e cabelos negros que fazem um contraste perfeito com seus olhos. Ele deve estar na casa dos trinta, ostentando um corpo forte, cheio de músculos que o terno não está fazendo um bom trabalho em esconder. Não mesmo! E o que é aquele pequeno brilho? Ele está usando um diamante discreto em sua orelha esquerda? Minha nossa, existe algo mais quente do que um homem de terno, mostrando uma pitada do seu lado travesso? O que um cara desses estaria fazendo na editora? Eu estou praticamente hipnotizada, quando ele quebra o silêncio, me acordando de meus devaneios. — Terminou a inspeção? Espero que tenha gostado do que viu. Agora, se possível, poderia me dar passagem? — sou tomada pela vergonha, uma vez que eu não tinha me dado conta do tanto de tempo que fiquei o observando. — Senhor, desculpe-me. Eu estava distraída e com pressa. Não percebi que alguém estava vindo. Agora é a vez dele fazer seu escrutínio. Baixa seu olhar em direção ao meu corpo e passeia com eles até fixá-los em meus olhos negros. Engulo em seco quando um par de olhos arrasadores brilha como se estivesse carregado de


luxúria. — Sem problemas, Laís, nos vemos outra hora — levanto uma sobrancelha como uma grande interrogação. Ele prossegue. — A propósito, você está atrasada. Eu não sou muito bom com atrasos. Ele sai, me deixando atordoada. Eu repito algumas de suas palavras na mente a caminho da sala. Quem lhe disse o meu nome, o que significa “outra hora” e como ele sabe que não estou sendo pontual? Droga! Agora é que perdi de vez mesmo.


Com

a mente como um turbilhão, corro para a minha sala, sentindo alívio quando meu chefe não flagra meu atraso, pego o livro didático que está sobre a mesa, tentando centralizar toda minha atenção nele. Passo um tempo fazendo o meu trabalho, mas sou interrompida por uma voz que logo reconheço. — Laís, lamento te atrapalhar, mas preciso de um pouco da sua atenção. O Sr. Antony Cavalcanti está convocando todos os funcionários na sala de conferências. Apesar do cronograma apertado, ele faz questão que todos estejam lá. Sr. Osvaldo Vieira Filho parece muito eufórico com a presença do poderoso chefão na empresa. Ele abre um sorriso de orelha a orelha, mostrando seus dentes levemente amarelados, quando pronuncia o nome do tal CEO mandachuva do complexo editorial. Eu confesso que não estou nem um pouco eufórica, mas fazer o quê? No meio de tantos funcionários, minha presença não faria qualquer diferença. — Estou indo, Sr. Osvaldo. — Não demore, filha. Rapidamente guardo todo o meu material em uma gaveta e pego meu estojo de maquiagem na mochila. Se você vai encontrar com os demais


funcionários, precisa parecer pelo menos apresentável, Laís. É o que faço. Olho-me no espelho enquanto dou um pouco de cor suavemente ao meu rosto, realçando apenas meus lábios com um batom vermelho que comprei recentemente em um dos poucos caprichos que me permito ter no momento. Corro para a sala de conferências onde todos aguardam a entrada triunfal do poderoso administrador deste império. Com certeza, é um senhor velho e careca que cria filhos pelo Skype porque sai de casa antes que eles acordem e quando volta, já estão dormindo. — Você já viu o tal Cavalcanti, Laís? — Claudia pergunta, quase esfregando seus enormes seios siliconados em meu rosto quando sento ao seu lado. — Não. Andei ocupada demais para investigar sobre ele. Ela joga seus longos cabelos cacheados para os lados, escovando alguns fios no meu rosto. — Ah, menina. Fiquei sabendo que o homem é lindo. Estou muito curiosa pra conferir o material. Faço uma careta, já conhecendo o tipo de homem que Claudia gosta. Ela é secretária aqui na empresa e fica de olho em qualquer exemplar de macho que aparece vestido de terno, gravata e aparente ter algum dinheiro. — Claro, Claudia. Tenho certeza de que ele é realmente maravilhoso, afinal é dono disso tudo, não? Ela pisca os olhos, tentando entender o que acabo de dizer, mas parece que não consegue pelo que vem a seguir. — O que tem a ver uma coisa com a outra, Laís? E eu que sou loira! — Deixa pra lá, Claudia. Ele deve chegar a qualquer momento e você terá sua oportunidade de conferir o material. Sinto que meu celular está vibrando, então aproveito para verificar as mensagens de WhatsApp e ver quem está tentando falar comigo. Abro um sorriso quando percebo que se trata de Leandro, mostrando sua preocupação como ele sempre faz quando percebe que algo está errado. Meu amigo é realmente um querido. Começo a responder a mensagem


quando ouço alguém limpar a garganta com muita vontade, na tentativa de chamar a atenção na sala. Levanto o rosto, ainda com um sorriso que logo desvanece assim que me deparo com um par de olhos castanhos fascinantes, olhando diretamente em minha direção. Cruzes, não pode ser. Será que isso é fruto da minha imaginação? O homem diante de todos está longe de ser careca e mais longe ainda de ser um senhor velho, cheio de filhos. Meu sangue gela, pois se trata de nada mais, nada menos que o cara sexy, cheio de músculos e de olhar misterioso que esbarrou em mim na chegada e que sabia o meu nome mesmo que eu não tenha me apresentado. Oh, Deus, que péssima primeira impressão eu deixei! — Minha nossa! — acho que minha voz sai um pouco mais alta do que eu gostaria, então tapo minha boca ainda aberta, tentando disfarçar. — Boa tarde! Eu preciso muito da atenção de todos os presentes. Inclusive, solicito aos senhores que desliguem seus aparelhos celulares imediatamente. Senhor, por que o olhar desse homem não sai de mim? Sou a única aqui com um aparelho ligado? Desligo o celular tão rápido quanto minhas mãos permitem e vejo que a maioria faz o mesmo, em um ritmo frenético por conta do nervoso, mas eu pareço a única que ele espera se mover para prosseguir com sua fala. Logo eu que sempre prefiro passar despercebida pelos lugares. — Como vocês já devem saber, eu sou Antony Cavalcanti, executivo e proprietário do complexo editorial Cavalcanti. O que vocês não sabem é que estou aqui não apenas para conhecer a editora de perto, mas porque pretendo passar um tempo na cidade. — Sr. Cavalcanti, é um prazer tê-lo conosco. Espero que bons motivos te tragam até nós — meu chefe diz, claramente puxando o saco de seu superior. — Sim, obrigado. Na verdade, estou fixando a matriz da empresa aqui já que pretendo diversificar as publicações e ampliar o setor de livros didáticos. — Que maravilha! — eu quase consigo ler os pensamentos de Osvaldo pleiteando um cargo maior na empresa.


Claudia bate seu cotovelo em meu braço e sussurra ao pé do meu ouvido. — Eu não disse que o homem era tudo de bom? Meu Deus, ele vai estar nos meus sonhos mais molhados a partir de hoje. Eu dou fácil se ele quiser. Olho para a mulher ao meu lado como se estivessem nascendo chifres em sua testa. Ela dá de ombros com a calma de quem fala sobre pastas e relatórios, inconsciente de que acaba de formar uma cena quente na minha cabeça na qual, em vez dela, sou eu quem está sobre uma cama, fodendo ardentemente com Antony Cavalcanti. Quer dizer, eu não posso culpá-la. Talvez esse seja o pensamento de dez em cada dez mulheres aqui presentes. — Será que vou ter que parar a todo o momento para pedir atenção? O mínimo que espero dos meus funcionários é postura no trabalho. Concorda, dona Laís? Não, não e não! Por tudo o que é mais sagrado, me diga que esse homem não acabou de chamar a minha atenção diante de todos os meus colegas? Que espécie de tirano ele pensa que é para me constranger desse modo? Juro que se eu não precisasse tanto desse emprego, eu o mandaria ir à merda neste exato momento. — Claro, senhor. Já que todos pararam seus afazeres bastante atrasados para vir até aqui, o que se espera ao menos é que lhe deem total atenção. Puta merda! Eu não sei de onde tirei coragem para enfrentar a fera, mas de repente estou me sentindo uma leoa. Rá! Espero que ele tenha entendido o meu recado. Ele apenas me oferece um meio sorriso que só comprova o quanto é arrogante, que se acha o dono do mundo e hum... lindo... Completamente lindo! — Sim. Eu sou o tipo de homem que gosta de olhos nos olhos. Podem me chamar de egocêntrico, mas quando estou falando, quero toda atenção centrada apenas em mim. Seu olhar é direcionado a todos, mas não consigo entender por que tudo o que sai da boca dele me parece tão pessoal e ao mesmo tempo tão... sensual. Merda, eu acho que estou precisando me relacionar com alguém. Faz mais de um ano que não transo e isso já deve estar mexendo com alguns dos meus


neurônios. Ele leva cerca de meia hora comentando sobre seus planos de expansão para a editora, mostrando gráficos e números da empresa que só me levam a concluir que ele vai ficar ainda mais rico e que minha vida não vai mudar em nada por isso. Quando termina seu discurso clichê de que somos uma equipe e que devemos vestir a camisa da empresa, todos os funcionários se mostram ansiosos para cumprimentá-lo e dar as boas vindas. Que o diga Claudia. — Você não vai falar com o chefe delicioso, Laís? — ela me pergunta, enquanto retira a tampa de um batom para realçar ainda mais seus lábios carnudos e chamativos. Tenho certeza de que o chefe vai adorar sua nova secretária. — Não. Ele é realmente muito bonito, mas está fora do meu alcance. Principalmente porque prezo demais pelo meu emprego. Faça bom proveito, Claudia. Ela parece feliz por saber que tem menos uma para competir pela atenção dele. Eu só quero voltar para a minha mesa, fazer um pequeno lanche, já que não almocei e minha barriga está roncando, e continuar meu trabalho que está longe de terminar. Tento sair à francesa, sabendo que eu sou apenas mais um número naquela sala e ninguém vai perceber minha ausência. Ledo engano. Dou apenas alguns passos antes de ouvir meu nome pronunciado novamente. Merda! — Laís Oliveira, eu gostaria que fosse até a minha sala daqui a quinze minutos. E não coma nada porque a nossa conversa vai demorar, então pedi o almoço. Mais uma vez tenho o olhar de toda a empresa voltado para mim, mesmo que o tom de voz dele não faça qualquer menção a uma conversa pessoal. Tenho certeza de que meu rosto está da cor de um pimentão agora. Balanço a cabeça, assentindo e saio da sala o mais rápido possível. Inspire, expire! Inspire, expire! Faço esse exercício a caminho da minha mesa, me questionando que diabo de assunto esse homem teria a tratar justamente


comigo. Definitivamente, hoje nĂŁo ĂŠ o meu dia de sorte.


Maldito

relógio. Não consigo pensar em mais nada além do fato de que vou me encontrar com o cara mais lindo com quem já me esbarrei, literalmente, daqui a exatos... dois minutos e trinta e seis... trinta e cinco... trinta e quatro segundos. Você consegue ter uma ideia de quantos assuntos possíveis já elenquei nessa droga de cabeça que insiste em apenas pensar e pensar? Faz ideia do quanto é frustrante alguém dizer “quero falar com você daqui a quinze minutos” e esses tais quinze minutos parecerem mais como uma hora? — Ei, sua vadia sortuda, o que você fez para chamar atenção daquele deus dos livros? Porra, eu juro que só queria uma chance de estar em seu lugar e ele nunca mais ia me deixar sair daquela sala. Rolo os olhos e sorrio quando Claudia invade meu espaço, cheia de caras e bocas, gesticulando enquanto fala. Tudo para ela tem um fim sexual. Não há uma só conversa que tome outro rumo. Bonita como é, talvez os homens não consigam pensar em outro assunto ao seu lado. O problema é que eles a querem como um troféu que depois perde a graça. Ela sempre volta para chorar no ombro de um de nós aqui da empresa. — Não deixe sua mente corrompida falar por você, Claudia. Você não o ouviu dizer que está ampliando o setor de livros didáticos? Com certeza tem a


ver com isso. Mais uma vez, ela joga a cabeça para o lado, levando o montante de cachos amendoados e bem definidos junto com o movimento. — Eu não perderia essa oportunidade, mas sei que você é muito inocente para tirar proveito da situação. Não sabe o quanto é bonita escondida atrás desses óculos cafonas e... — olha para a minha roupa com nojo — esse vestido marrom. Quem usa marrom hoje em dia? Bufo ao ouvir tanta superficialidade. Eu sei, você acha que eu deveria dar uma resposta à altura ou mandá-la ir para puta que a pariu. Acontece que eu conheço Claudia o suficiente para saber que ela usa essa armadura a fim de parecer algo que não é. No fundo, não passa de uma mulher frágil em busca de ser amada, mesmo que faça um trilhão de escolhas erradas. — Você precisa de mais alguma coisa ou já terminou sua aula sobre cores adequadas para roupas? — Meu amorzinho, pode não parecer, mas eu só quero o seu bem — aceno, mostrando uma ponta de sarcasmo. — O homem quer falar com você agora. Divirta-se! Olho para ela como se fosse louca e me levanto para atender ao chamado do meu novo chefe. Apesar do nervoso, mil e um motivos passam por minha mente para justificar ser convocada pelo CEO da editora. Decido ser otimista e me apegar aos bons motivos. Não há o que temer. Não é como se eu estivesse fazendo qualquer coisa errada. Quer dizer, além de me atrasar quase todos os dias, claro. Mas esse não é exatamente um crime que viola o Código Penal. Ajeito meu vestido marrom e me xingo mentalmente por ter escolhido essa peça hoje. Não que eu esteja preocupada com a última moda em Paris ou se a cor dele não é vibrante o suficiente, só que está um pouco justo demais, abraçando meus seios e minha bunda como uma segunda pele. Droga! Minha esperança agora é de que Antony Cavalcanti seja gay ou fiel demais a quem quer que seja para reparar nesse pequeno detalhe, embora o homem exale masculinidade e virilidade pelos poros. Pensando bem, a primeira


opção está completamente descartada. Vamos lá, Laís. Seja o que Deus quiser.


Bato

na porta e aguardo que autorizem a minha entrada. Enquanto isso não acontece, decido observar o ambiente ao meu lado, já que nunca tive acesso a essa parte da editora antes. Poucos já foram autorizados a vir até aqui. Dou asas à curiosidade, percebendo o quanto esse andar é diferente dos demais em cada detalhe. Onde trabalho, há livros espalhados por todos os lados, gente andando pra lá e pra cá, outras tantas concentradas na leitura de algum material. Se eu pudesse opinar, diria que não gosto da impessoalidade deste escritório. Falta gente, faltam livros, na verdade falta vida, embora seja imponente, sofisticado como o próprio CEO aparenta ser. Humpf! Não é tão difícil imaginar como seja a mulher desse cara. Com certeza linda de morrer e tão nariz em pé que pisa em qualquer um sem olhar duas vezes. Se ele tiver mulher? Claro que ele tem. Um homem como ele jamais estaria disponível no mercado. — Laís, que bom que você veio. Entre. Estávamos justamente falando sobre você. Meu chefe imediato é quem abre a porta com o enorme sorriso amarelado ainda preso em seu rosto como uma máscara que ele precisa manter durante


todo o dia. Me pergunto se o maxilar dele não está doendo. Talvez tenha que fazer alguns exercícios na boca quando chegar em casa. Espera, mudando de assunto, ele disse que estavam falando sobre mim? De que forma eu poderia interessar a um homem como Antony? — Eu espero que não tenha feito nenhuma besteira para me tornar o assunto entre vocês. Pelo menos nada que me faça sair dessa sala algemada. Brinco, tentando acabar com meu próprio nervoso, mas vejo que não vai adiantar, principalmente porque o poderoso chefão está me dando um olhar estreito, sério, quase concentrado demais para o meu gosto. Engulo em seco, quando me dou conta de que já comecei cometendo uma gafe. Minha nossa, por que eu simplesmente não fico com minha boca fechada? E o pior de tudo é que não paro de pensar o quanto ele fica ainda mais lindo com sua testa franzida e olhar inescrutável, determinado, me fazendo alvo contínuo de sua inspeção, quando eu deveria estar totalmente no modo profissional. — Você não fez qualquer besteira, filha. Pelo contrário. O Sr. Cavalcanti elogiou muito seu trabalho o que é bom, já que estamos fechando um importante contrato neste setor. Sr. Osvaldo parece bastante orgulhoso ao falar, me deixando aliviada por saber que pelo menos minha vida profissional está indo por um bom caminho, embora eu tenha outros horizontes a alcançar. — O que é isso, Sr. Vieira, todos aqui fazem um grande trabalho — volto minha atenção para Antony, que ainda não disse uma palavra, aumentando minha aflição. — Espero contribuir para que não se arrependa de ter se mudado pra cá. Ele se move, passando sua mão grossa e bronzeada sobre a mesa, sem nunca tirar os olhos de mim. — Tenho certeza de que não me arrependerei e que você poderá contribuir bastante para isso. Oh, Deus, por que sinto meu corpo pegar fogo repentinamente? — Eu quis dizer, Sr. Cavalcanti, que espero que não se arrependa de ter mudado a sede da empresa para a nossa cidade — tento trocar minhas


palavras, fazendo uma nota mental de ter cuidado com elas no futuro. — Faremos o possível para que isso não aconteça. Você tem grandes chances de crescer na editora, Laís. Eu estava justamente falando ao Sr. Cavalcanti o quanto você é estudiosa e esforçada. Já está concluindo o mestrado, não é mesmo? Meu chefe continua cheio de uma animação nada contagiante, alheio à atmosfera pesada na sala que certamente apenas Antony e eu estamos sentindo. Fico incomodada, de certa forma. — Sim, estou no último período. — Que maravilha! Nós a queremos em período integral aqui na empresa. Aceno positivamente mesmo que meu desejo seja gritar que não pretendo passar o resto da minha vida trabalhando na editora quando tenho sonhos a alcançar. Não é que eu não goste do que faço. Tudo que envolve o mundo dos livros me fascina. A questão é que quero trabalhar na minha praia que definitivamente não são os livros didáticos. Quero viver e respirar literatura. — Você está bem com isso, Laís? Antony Cavalcanti me tira do devaneio quando sua pergunta à queimaroupa me faz questionar se ele é algum tipo de vidente que lê pensamentos ou algo do tipo, ou se eu sou tão óbvia assim, mesmo que não tenha dito uma só palavra. — Cla-claro — respondo instintivamente. Ele se levanta, dando a volta na mesa até que para diante de mim, ainda recostado sobre ela, e seu olhar corre para meu chefe ao mesmo tempo que aponta a porta do escritório. — Você pode ir, Osvaldo. Laís e eu temos muito o que conversar esta tarde. Osvaldo pisca várias vezes, antes de responder. — Mas... eu pensei que... essa reunião seria entre nós três. — Pensou errado. O que eu tinha a tratar com você já foi dito, agora o assunto só interessa a mim e a ela. Você certamente tem muito trabalho a fazer


para colocar os prazos em dia. Pode se retirar. Sabe aquele momento que você sente vergonha alheia? É o que estou sentindo agora. Ele está sendo prepotente e autoritário demais quando poderia conversar de uma forma mais amena. Eu não gostaria de ser tratada assim se fosse eu a chefe. Não permitiria que tirassem minha autoridade na frente de um subordinado. Por favor, Deus, não permita que ele aja como um ogro comigo e eu acabe botando tudo a perder. Eu preciso tanto desse emprego. — Eu... eu estarei lá embaixo, se precisar. Osvaldo me olha, completamente confuso, e sai com o rabinho entre as pernas, ressabiado. Antony acompanha seus passos, até que a porta se fecha atrás de nós. Eu começo a ficar apavorada agora que estamos sozinhos nesta sala e não há ninguém para amenizar o peso que a presença dele exerce sobre mim. Ele leva seu tempo apenas me encarando com as mãos cruzadas sob o queixo e o corpo recostado na mesa. Se ele soubesse que não funciono bem sob pressão, acabaria logo com essa merda em vez de fazer tanto suspense. Respiro fundo, soltando de vez todo ar dos meus pulmões e ele toma isso como uma deixa para começar finalmente a tal reunião. — Tranque a porta, por favor — apesar do “por favor”, seu tom de voz deixa claro que não está pedindo. Está ordenando. Tranco a porta confusa já que ninguém ousaria entrar em sua sala sem ser convidado. Ele prossegue. — Para começo de conversa, quero que me chame de Antony assim como a chamo por seu primeiro nome. Laís... — ele testa. — É um lindo nome, por sinal. — Obrigada. O seu também é muito bonito. De onde vem isso? Não estamos exatamente num boteco, trocando apresentações. Intimidador seria a palavra certa para um nome e sobrenome tão fortes. — Você sabe que está trabalhando com o autor mais importante desta editora, não é mesmo? Os livros de Milton Antônio de Melo são os mais


requisitados do setor educacional. Não há espaço para erros nesse material. Conte-me como conseguiu ser a escolhida para revisar os livros dele. Eu fui? Nem sabia que havia passado por uma seleção. É claro que conheço as obras de Milton, mas elas simplesmente apareceram na minha mesa e pronto. Comecei a revisar. — Talvez você deva perguntar os critérios ao Sr. Osvaldo. O que eu posso afirmar é que levo muito a sério meu trabalho, independente de quem seja o autor. — Você chega atrasada todos os dias, sai sempre no horário sem disponibilidade para se estender até tarde, trabalha somente um turno, já está com o prazo apertado. O quão sério você está levando isso? Agora é minha vez de lhe dar um olhar desafiador. Não gosto de ter minha competência questionada, uma vez que me doo de corpo e alma quando estou na editora. — Talvez o seu informante tenha esquecido de dizer que eventualmente levo trabalho para casa, que estou num período importante do mestrado em que preciso me concentrar na tese, que deixo de almoçar quase todos os dias para chegar o mais rápido possível e que rendo muito mais do que dois ou três funcionários que param a todo momento para tomar cafezinho e bater papo. Então, Antony, parece que estou levando isso muito, muito a sério. Solto tudo como um desabafo, sem pausa para respirar. Ele bate uma caneta sobre a mesa, voltando a avaliar meus traços com um olhar penetrante. Seus olhos parecem estar em um tom castanho, quase mel. Eu podia jurar que estavam verdes agora há pouco. Repentinamente, ele esboça um sorriso que não enche seu rosto, mas é suficiente para mostrar o quão sexy pode ser com apenas pequenos gestos. Gente do céu! Minha mão está coçando para traçar sua boca como um mapa e me certificar que sua pele seja tão macia quanto minha intuição está dizendo. Um homem desses pode ter a mulher que quiser, Laís. Não é como se você tivesse qualquer chance de ser vista por ele, ainda mais em seu vestido marrom. Acalme-se! — Gostei de sua resposta. Daria uma excelente advogada. Diga-me outra


coisa. Costuma vir sempre com roupas tão provocantes quanto esta? Oi? Eu não estou dizendo que esse homem tem algum poder sobrenatural de ler pensamentos? Mas, será que escutei bem? Ele está dizendo que meu vestido marrom, fora de moda, que ninguém usaria na São Paulo Fashion Week é provocante? — Desculpe? Ele passa a andar pelo escritório, me deixando ainda mais nervosa. — Vou me fazer entender melhor. Você vem sempre com roupas tão grudadas em seu corpo que quase não te permitem respirar e que podem desconcentrar seus colegas de trabalho? Ei, como essa conversa saiu dos livros e veio parar na minha roupa? — Foi para isso que me chamou em sua sala? Será que não temos assuntos mais importantes para tratar do que minha roupa? Se você acha que estou vestindo algo inadequado, por que não adere ao uso de uniformes para os funcionários? Eu não acho que esteja descumprindo qualquer regra da empresa, mas comentários como o seu tenho certeza que sim. Ele levanta as mãos, em sinal de rendição, claramente se divertindo por me tirar do sério. Eu preciso muito desse emprego, mas não vou permitir que qualquer um pense que tem direito a me assediar e que eu aceite calada. Mesmo que ele seja um homem inquietante como este à minha frente. Desculpe se fiz soar como uma crítica. Foi apenas uma observação, mas você tem razão. Acho que eu consigo me concentrar assim como seus colegas precisam fazer todos os dias, embora eu deva confessar que será uma tarefa difícil. Ele ri com vontade agora e... uau... é simplesmente o sorriso mais fantástico que já vi, mostrando levemente duas covinhas nas bochechas. Será que aquela história de que existem anjos na terra é verdade? Se bem que talvez ele estivesse mais para um belo demônio. Ah, meu paizinho querido. Nunca em mil anos eu esperaria que um homem como ele me desse um segundo olhar. Por que não Claudia? Por que não tantas outras mulheres bonitas na editora? Logo eu que não faço questão nenhuma de me tornar a Miss editorial. — Por que estou aqui, Antony?


Ele me ignora e dá a volta em sua mesa, pegando o telefone para falar com alguém. Ouço quando manda entregarem o almoço em sua sala dentro de cinco minutos e desliga sem usar o famigerado “por favor” que usou comigo. Olho para a sua mão direita e percebo um brilho típico dos caras comprometidos. Ele tem uma noiva, claro! O safado é comprometido e está jogando indiretas baratas pra mim. Argh! — Agora, vou direto ao ponto, Laís. Eu preciso de você muito mais do que planejei a princípio, por isso, tenho que te fazer uma pergunta. Você tem namorado, noivo, marido ou qualquer outro compromisso com um homem?


Céus,

será que bati a cabeça em algum lugar e estou sob efeito do tombo? Eu não consigo entender aonde ele quer chegar com essa pergunta. Sim, eu tenho um grande compromisso, querido. Você não sabe o quanto ele consome do meu tempo. — Tenho apenas Alfred que é meu... — Entendo — ele parece irritado — E que tipo de relação você tem com ele? Esse homem está começando a me dar medo. Ele não estaria indo com sede demais ao pote? Ao mesmo tempo que questiono seu comportamento, sensações começam a se manifestar. Eu sei que ele está se mostrando autoritário, arrogante e com todos os sinais de que é um maldito mulherengo, mas não entendo porque sinto ondas de calor só em estar próxima a ele e o clima do ambiente começa a ficar pesado. Controle-se, Laís, você não é assim. — O tipo de relação mais verdadeira que possa haver entre um cachorro e sua dona. Ele demonstra alívio. — Ótimo. Então, Alfred não vai se importar se sua dona tiver que chegar um pouco mais tarde algumas vezes na semana, não é?


— Se for realmente necessário, não, mas estou conseguindo cumprir o cronograma em um turno. — Não é o suficiente. Eu preciso de você... por mais tempo na empresa. — Acontece que... o meu contrato com a editora estabelece o meu horário até as dezessete horas. — Esse é o problema? Nós pagaremos hora extra. O fato é que o panorama da empresa mudou e sua presença será indispensável nessa fase de ampliação. Posso contar com você, Laís? Levo alguns segundos para pensar e me vejo sem saída. Sonho em ser professora universitária, porém enquanto estudo para isso, tenho que manter meu emprego atual. Ficar até mais tarde perto dele será uma tortura, pois só nesse pouco tempo que estamos juntos já me sinto um tanto asfixiada, imagine a convivência por mais dias. Esse homem é de tirar o fôlego. — Claro — solto, com ar de vencida. — Pode contar comigo. Sua noiva não se importa que dedique tanto tempo à empresa? Que diabos de pergunta foi essa? Desde quando deixei de ter papas na língua, pelo amor de Deus? — Essa é uma forma de retribuir a pergunta que te fiz? Por acaso está querendo saber se sou um homem comprometido? Seu olhar corre para a aliança brilhando no dedo anelar, em seguida volta para o meu rosto, com uma ponta de diversão nele. — Não... na verdade, eu não sei por que fiz essa pergunta. Me desculpe, isso não é da minha conta. Esqueça o que perguntei, está bem? — Você precisa saber que meu coração está na minha empresa, Srta. Oliveira. Não foi fácil ganhar o mercado e nem é fácil mantê-la. Nenhuma mulher conseguiria permanecer ao meu lado se quisesse ocupar um lugar maior que o complexo editorial em minha vida. Ele me chamou de Srta. Oliveira? Onde foi parar aquela história de chamar pelo primeiro nome? Deus, a noiva dele deve ter sangue de barata. Por mais bonito e rico que ele seja, uma mulher deve ter o mínimo de amor próprio.


— Eu não aceitaria nada menos do que ocupar um lugar maior do que o trabalho no coração de um homem. Alguém costura minha boca, por favor. Eu sempre me orgulhei de ser uma mulher controlada e sensata. Agora estou falando tudo que me vem à cabeça, justamente para o cara que paga as minhas contas. Por que ele tem esse poder de me tirar do sério? Ele me olha atravessado, mas ainda percebo aquele ar divertido de outrora. — Claro. Você ainda é uma dessas mulheres românticas e ingênuas que precisa apenas da primeira queda para entender que a vida não se trata de um conto de fadas. Ah, não. Agora ele vai ouvir. Não quero saber se é o dono dessa porra toda, se paga meu salário ou quem quer que seja. Ele não pode me dizer esse tipo de coisa e me manter calada. Não mesmo. — E você é um dos tipos arrogantes que acha que todos são como fantoches e é você quem detém as cordas. No mínimo pensa que a sua verdade é a única a ser considerada e o resto do mundo que se exploda se não pensar com a mesma frieza que você. — Você chegou bem perto de me desvendar, Laís, mas qual é a graça de saber tudo sobre mim de uma só vez se isso tira o prazer de descobrir ao poucos? — O quê? Eu não tenho interesse em descobrir nada sobre você. Mentira, mentira, mentira. Minha curiosidade está cada vez mais aguçada. — Traga o livro que está revisando. Vamos trabalhar juntos — ele diz, secamente. Sua voz grossa faz com que meu corpo se esforce para obedecer como se fosse um convite sensual e me dou conta naquele momento que se acaso esse homem tentasse algo mais, seria muito difícil resistir. Saio do escritório sem olhar para trás, me perguntando como conseguirei achar concentração com ele circulando à minha volta. Sua presença é marcante, intimidadora a ponto de me deixar confusa, quase sem encontrar raciocínio lógico no pouco tempo que estive ao seu lado. Antony Cavalcanti definitivamente é do tipo que passa por cima de tudo e


de todos como um trator desgovernado para conseguir o que quer. Eu não quero ser atropelada por sua sedução barata e seu olhar intenso. Não quero e não vou. Por mais tentador que seja, a última coisa de que preciso é uma foda rápida com meu lindo chefe e encontrar minha carta de demissão alguns dias depois pela situação constrangedora que ficaria entre nós. Deixe de delírio, Laís, você deve ser a única aqui que está pensando em sexo. Ele é um cara arrogante e autoritário, a intenção foi te constranger falando do quanto você se veste inadequadamente para o trabalho, sonha com contos de fadas e deve se dedicar mais ao trabalho. Se enxergue! Entro no elevador sozinha e encontro um enorme espelho me olhando. Decido tirar os óculos, que uso para leitura e para manter um ar profissional, e encaro aquela imagem feminina ali refletida. Apesar de estar um pouco mais cheinha do que eu gostaria, o que vejo diante de mim me agrada. Minha amiga Alana e mais outras colegas da editora cansam de dizer que tenho bunda e grandes peitos de dar inveja a qualquer atriz pornô. Sinto-me constrangida quando ouço isso. Eu gostaria que fossem menores. Grandes olhos negros, levemente puxados em suas extremidades, me encaram, passeando pela minha pele clara, enrubescida, quase combinando com o batom vermelho que marca meus lábios grossos. Junto meus cabelos em um rabo de cavalo com as mãos e decido fazer um coque frouxo, sem usar qualquer prendedor. Eles são a parte que mais gosto em mim. A maioria das pessoas não está contente com os seus. Querem cachear, alisar. Eu gosto deles longos, claros e pesados exatamente como são. O elevador se abre no andar de baixo, me trazendo de volta à vida real. Corro para a minha sala, pegando o livro sobre a mesa, ciente de que alguns olhares interrogativos buscam encontrar respostas nas minhas feições. Eu os ignoro. Passo por Claudia que, claro, pensa em vir em minha direção, mas eu levanto a mão a impedindo de se aproximar e, para meu alívio, ela entende meu recado. Sei que o quiz das cinquenta perguntas vai começar assim que ela tiver


outra oportunidade, mas pelo menos estou livre dela por algum tempo. Pego o livro sobre minha mesa e volto para o melhor modo revisora de livro, alcançando o andar executivo da empresa. Entro novamente na sala do CEO, mas engulo em seco, surpreendida com o que vejo. Sem levantar o olhar em minha direção, ele brinca de enfiar e puxar um lápis do apontador, de forma concentrada, séria, como se estivesse fazendo uma atividade muito importante. Deus, que dia eu comecei a ver maldade em tudo à minha volta? Por que qualquer movimento desse homem parece que tem um tom sexual para mim? Isso é o que dá ficar tão concentrada no trabalho, universidade e esquecer de satisfazer suas próprias necessidades. Acho que vou comprar um daqueles brinquedinhos quando sair da editora hoje. Coço a garganta, mas ele não me olha. Apenas aponta a cadeira em sua frente, me convidando a sentar. — Vamos almoçar antes do trabalho. Eu sempre acho que mulheres satisfeitas são mais produtivas. Está vendo que não é coisa da minha cabeça? A culpa é dele por ser tão... ambíguo. Uma mesa cheia de opções de carnes e saladas se estende diante de nós. Escolho um pouco de cada e tento engolir a comida mesmo sendo tão difícil já que estou sob o peso de um olhar que parece também bastante faminto, se é que você me entende. Depois de fazer do almoço quase uma missão, abro o livro que estou revisando no lugar onde havia parado, mas sua atenção de forma alguma está no material. Ele levanta as vistas e passa a me encarar, mantendo seus olhos grudados em mim por um longo, longo tempo em um silêncio incômodo. Sei que meus olhos estão ainda maiores, assustados com seu escrutínio que parece me desnudar. Sem mudar um traço da sua expressão, ele começa a fazer perguntas, me deixando descobrir onde vou encontrar fôlego para responder a cada uma delas. Eu preciso de um brinquedinho, eu preciso de um brinquedinho...


— Está revisando um livro de Ciências, certo? — pergunta e se inclina sobre a mesa, diminuindo cada vez mais a distância entre nós. — Ciências, claro — respondo, confusa. — Estou revisando um livro de ciências. — Qual a temática principal do livro? — sua voz é suave, mas carregada de sensualidade. Oh, Deus! — O corpo humano. — Hum... que interessante. Será que ele trata sobre a atração que dois corpos sentem quando ambos se desejam? Ele já está tão perto de mim que me obriga a afastar o corpo para trás, mesmo que não possa fazê-lo tanto por conta do livro sobre a mesa. Seu rosto para diante do meu a ponto de me fazer sentir sua respiração quente e profunda. — Não, ele não trata — respondo, ofegante. — Que pena. Talvez porque seja algo impossível de explicar com palavras. É necessário sentir para entender. Sua boca já está próxima da minha, então fecho os olhos me preparando para sentir seus lábios quentes encostados aos meus, mas o que eu espero não vem. Uma sensação de abandono me toma quando sinto uma passagem de ar entre nós.Abro os olhos, percebendo que ele está se afastando. Merda! Você tem que ser tão tola!? — Como é possível que uma mulher como você esteja solteira, Laís? Minha mente é um poço de confusão nesse momento. Ele se recusa a me beijar e continua fazendo perguntas pessoais. — Uma mulher como eu? Sobre o que está falando? — Sem falsa modéstia. Você é linda e deve ser disputada por muitos homens, mas diz que tem apenas um cachorro. Por que não tem um namorado? O que me deixa mais perturbada é que ele está me bombardeando de perguntas com uma aparência profissional inabalável. Quem entrar naquela sala pode apostar o dedo mindinho que estamos falando sobre livros e não sobre mim.


— Eu não tenho tempo para namoro. Estudo, trabalho muito e estou focada em alcançar um objetivo, portanto como vê, não há espaço para um namorado em minha vida. Ele me inspeciona a ponto de me intimidar com tanta virilidade, me deixando atordoada e corada por despertar tanto desejo em mim. O que está acontecendo comigo? — Eu quero um resumo do livro. Tenho muito trabalho a fazer e você também. Meu tempo é precioso. Como? O cara me bombardeia de perguntas pessoais, deixa no ar seu interesse e sou eu quem está gastando o seu tempo? — Bem... é... o livro trata, de forma contextualizada através de textos e imagens, como o corpo humano funciona, seus órgãos e suas funções. Ele apresenta uma parte interativa... — continuo explicando a um empresário sério que quase não pisca mantendo sua atenção ao que eu digo. Em determinado momento, ele me para, coloca o notebook entre nós, distanciando nosso contato e passa a teclar no computador como se eu não estivesse ali. — Pode continuar trabalhando. Eu preciso checar meus e-mails. Não trocamos mais nem uma palavra sequer pelo resto da tarde e da noite e nem tive o direito a um segundo olhar em minha direção. Esse cara só pode ser bipolar, não há outra explicação, mas é, sem dúvidas, o executivo mais bonito deste país. Sua beleza é de encher os olhos. Como diria Alana, minha amiga e companheira de apartamento, “oh, lá em casa!” — Já são nove da noite e você deve estar cansada. Como te prendi até agora, vou levá-la em casa. Nove? Como as horas passaram depressa! Não vai dar mais tempo de encontrar um sexy shop aberto para comprar meu acessório tão necessário hoje. Droga! — Não precisa. Meu carro está no estacionamento. Acho que consegui adiantar bastante, então se eu já estiver liberada, gostaria de ir. — Vá no seu carro e eu a seguirei. Está muito tarde e é meu dever zelar


por sua segurança. Uau! Um homem protetor sempre parece tão sexy. — Se prefere assim, tudo bem, mas realmente não precisava. Já estou acostumada a me virar sozinha — ele apenas assente, entrando em seu carro quando chegamos ao estacionamento. Fico olhando pelo retrovisor e percebo que cumpriu o que disse, me acompanhando até a minha residência, em seu imponente Mercedes. Quando percebe que eu estaciono em meu prédio, passa por mim buzinando e segue seu caminho. Ah, finalmente eu cheguei ao fim deste dia. E que dia! Entro em meu quarto e tomo um banho antes de me jogar na cama. Estou torcendo apenas para que esta noite não seja uma daquelas cheias de sonhos eróticos. E já tenho até noção de quem seria o protagonista. Meu celular vibra, mostrando que tem mensagem. Abro o WhatsApp apenas para me deparar com uma mensagem de A.C. que certamente vai apimentar ainda mais meus sonhos. Antony: Fiquei tentado a retirá-la da sala algemada, mas ainda é muito cedo para isso. Tenha uma boa noite!

Oh, meu Deus! Ele não esqueceu da brincadeira que fiz logo que entrei em sua sala. Fecho os olhos e passeio com a mão pelo meu corpo, em busca do alívio que eu tanto necessito. Eu não tenho um brinquedo sexual, mas as imagens de algemas aprisionando os meus braços enquanto sou subjugada por aquele homem intenso devem ser mais que suficientes por hoje. Ah, Antony Cavalcanti, tenho a impressão de que essa noite será longa, muito longa.


— É hora de acordar, são seis horas. É hora de acordar, são seis horas. Maldito despertador! Só não quebrei ainda esse troço barulhento porque é nada menos que meu celular, mas eu juro que mudo esse toque hoje sem falta. Levanto com os olhos ardendo pela péssima noite de sono na qual um tal CEO dominador não saiu da minha cabeça nem em sonhos. Com certeza isso é falta de sexo, certo? Eu só preciso de um pouco de diversão e estará tudo resolvido. Faço minha higiene matinal e vou para a mesa tomar café, já encontrando Alana lá sentada. Seus olhos de um tom violeta estão com uma animação de dar inveja e já pressinto uma chuva de perguntas. — Ei, Alfred, senti sua falta ontem amigão. Onde você estava que não veio me receber quando cheguei? Meu cachorro vem ao meu encontro, abanando o rabo em resposta, e baixa o olhar como se estivesse se desculpando comigo. Malandro! Ele sabe que não resisto a essa carinha manhosa. Eu encontrei Alfred ainda filhote, perdido pela rua de Verdes Montes e foi paixão à primeira vista. Seu olhar doce e carente não me deu qualquer escolha senão levá-lo para casa quando quase o atropelei. Ele é um vira-lata amarelo com pintas brancas e já está comigo há cerca de três anos.


— Tudo bem, querido, está perdoado. Mamãe chegou tarde ontem e sei que você dorme cedo como o bom garoto que é. Tia Alana já deu seu café? É incrível como ele parece me entender. Quando cito o nome de minha amiga, ele olha pra ela em reconhecimento. Às vezes tenho a impressão de que os animais pensam muito mais do que determinados seres humanos. Eles pensam com o coração. — Deu uma esticadinha ontem? — Alana pergunta, enquanto dou uma migalha de pão a Alfred. — Quando fui para cama você ainda não havia chegado. — Dei uma esticadinha sim, mas não foi em qualquer lugar que esteja pensando. Fiquei até tarde na editora. O bam-bam-bam da empresa apareceu lá e pediu para que eu ficasse até mais tarde. Ela faz biquinho, segurando alguns fios de cabelos acobreados, quando percebe que suas expectativas não foram alcançadas. — Ah, entendi. E eu aqui pensando que você tinha decidido dar um up em sua vida e se divertir. Esses homens velhos geralmente tem uma mulher que não os satisfaz em casa, então só pensam em ganhar dinheiro, por isso gostam tanto de prender funcionários na empresa. Bando de mal-amados. Lembro dele ter sido muito evasivo quando perguntei sobre sua noiva. Ela seria esposa? Não, provavelmente não, já que a aliança estava na mão direita. — Ele não é velho — falo naturalmente, enquanto derramo um pouco de suco no meu copo. Ela para de mastigar o pão e fixa seus olhos em mim como se tivesse acabado de dizer que fodi loucamente sobre a mesa com meu chefe. — Quer dizer que ele não é velho do tipo gordo e careca, que tem esposa e amantes na rua? Reviro os olhos, achando graça do modo estereotipado como todos veem os grandes executivos. — Definitivamente ele não é velho, muito menos gordo e careca, Alana. — E esse mesmo executivo jovem, magro e cabeludo a prendeu na empresa até tarde? Porra, me diga que outros funcionários foram obrigados a ficar lá também.


— É... parece que não. Acho que apenas eu. Alana me surpreende quando levanta da mesa e se ajoelha como se agradecesse aos céus por sua amiga ter finalmente desencalhado. Deus, como ela é exagerada e maldosa. Apenas digo que estou trabalhando e ela já tira suposições precipitadas. Ela levanta e começa a fazer uma dancinha esquisita como se estivesse comemorando algo. Fecho os olhos e respiro fundo. Negar não vai adiantar nada mesmo, então deixo que ela faça sua cena por um tempo. — Laís arrumou um namorado rico... Laís arrumou um namorado rico... — cantarola, rindo. — Acabou o espetáculo? O homem é apenas meu chefe. Meu — chefe! Ela senta novamente. — Se você está enfatizando tanto essas palavras, é sinal de que ele é feio, não é? Eu não lhe dou qualquer resposta. Enquanto mexo o suco com o dedo, minha mente vai de encontro à imagem de um rosto sério, mas com cada traço milimetricamente perfeito e másculo. Posso afirmar que não há nada de feio naquele homem. Ela me tira do transe, quase me ensurdecendo, aos gritos. — Não, ele não é feio! Seu chefe é bonito? Estou vendo em seu rosto que ele é. Diz pra mim, Lalai, você vai investir nele, não vai? Se ele for solteiro e você der mole, tenho certeza de que vai te querer. Você é tão linda e precisa ter alguém ao seu lado. Ela quase não respira e está me deixando sem fôlego também. — Deixa de falar besteiras, Lana. Você sabe que não tenho tempo nem para me coçar, quanto mais para me envolver com um cara tão complicado quanto Antony. — Chamando o chefe pelo primeiro nome? Minha nossa, prevejo dias agitados nesta casa. Ela fala em previsão e lembro de que uma cigana me abordou ontem, falando sobre algum acontecimento em minha vida. Será que teria relação com o poderoso chefão?


Balanço a cabeça, tentando afastar esse pensamento. Você não acredita nessas conversas de previsões lembra, Laís? — Ele carrega uma aliança enorme no dedo, sinal de que é comprometido, está bem? Ainda que não fosse, você sabe como minha vida é corrida. — Onde está a diversão em sua vida? Deus, se você não tivesse a mim para te alegrar um pouco, provavelmente estaria frequentando um convento. — Ra, ra, ra! Completamente exagerada. — Ei, falando em diversão, vou ao cinema com Daniel hoje. Quer vir conosco? Ouço a voz de Alana um tanto longe porque estou indo para o quarto pegar minha mochila. Ela e Daniel namoram há aproximadamente um ano desde que se conheceram no teatro. Ele é produtor e ela, digamos que seja uma aspirante a atriz, mas se me ouvir dizendo isso, é capaz de cortar minha língua fora. Alana se considera atriz profissional, mas ainda não se consolidou na carreira. — Imagina se vou atrapalhar vocês. Além disso, meu novo chefe não está contente com minha saída da empresa no horário. Ele me quer trabalhando como um relógio até tarde. — Você precisa entender que nunca seria um inconveniente pra nós, Lalai. Dani te adora e não é como se ficássemos nos agarrando em público o tempo inteiro. — Hum-rum. Sei. — Mas foi impressão minha, ou ouvi você sussurrar que seu chefe te quer? — Você ouviu o resto da frase, Lana? Ele me quer até tarde. — Que delícia. Até tarde é hum... muito interessante. Humpf! É claro que minha amiga tem o dom de distorcer minhas palavras. Ela torce para que eu encontre uma pessoa legal e tenha um pouco de diversão como ela mesma diz. Contudo como vou encontrar se sequer estou procurando? Saio pela tangente, não querendo responder mais nenhuma das intermináveis perguntas dela. Coloco a ração de Alfred, tomo uma xícara de café preto para alimentar meu vício em cafeína e corro para a Universidade


Federal de Verdes Montes. A expectativa de reencontrar Antony Cavalcanti na editora já está me deixando nervosa. Não sei exatamente lidar com o imprevisível e chego à conclusão de que ele é exatamente assim. Deus, isso me deixa assustada demais.


Depois de chegar mais uma vez atrasada à editora, passo toda a tarde fazendo meu trabalho incrivelmente sem ser incomodada por ninguém. Minha expectativa era de que seria convocada a qualquer momento para voltar à sala do chefe, mas não é o que acontece. Não sei dizer se o sentimento que me domina é de alívio por não ter que lidar com a presença esmagadora de Antony ou se seria uma ponta de tristeza por não ter que encarar aqueles lindos olhos misteriosos. Só sei dizer que algo me incomoda enquanto me concentro para não deixar uma palavra passar despercebida e atrapalhar meu trabalho. — Ele não te quis hoje? Levanto o olhar apenas para me deparar com um par de seios duros e grandes inclinados sobre o meu rosto. O decote que Claudia está usando deveria ser considerado um atentado ao pudor pelas leis do país. Tudo isso é para chamar a atenção do CEO da editora? — Nem hoje nem ontem nem dia nenhum, Claudia. Se você está se referindo ao Sr. Cavalcanti, já falamos tudo que era necessário no que diz respeito ao trabalho. Não há motivos para que ele me chame hoje. Muito bem, Laís. Continue dizendo isso para convencer a si mesma. — Não sei se foi impressão minha, mas senti que você estava esperando por mais um convite hoje. Em seu lugar, eu estaria. Oh, Deus, estou sendo tão óbvia assim? — É impressão sua — digo em um só fôlego, parecendo mais ansiosa do que deveria. Respiro fundo antes de continuar. — Olha, Cau, se ele nos encontrar batendo papo, pode implicar porque estou com o cronograma apertado. Que tal deixarmos essa conversa para depois? — Preciso que me ajude, Laís. — Oi? Mil vezes oi? — Fale sobre mim para ele. Comente sobre minha eficiência e beleza


como quem não quer nada. Tente colocar os holofotes sobre mim. — Por... por que eu faria isso? — controle-se! Você consegue. Ela joga os cabelos para o lado, coloca uma caneta na boca como se acabasse de descobrir a teoria que vai lhe dar o Prêmio Nobel de Física. — Se o foco estiver em mim, ele vai parar de pegar em seu pé e você se livra de um chefe inconveniente lhe dando ordens. Prometo deixá-lo bastante ocupado. Eu quero me livrar dele? E mais, eu gostaria de vê-lo ocupado com Claudia? Ah, merda! Não entendo o motivo de estar fazendo esse tipo de perguntas a mim mesma. Talvez eu tenha gostado daquele jogo de gato e rato em seu escritório ontem, talvez eu tenha me excitado com sua mensagem sobre a vontade de me algemar, talvez eu tenha que dar um jeito de escapar mais cedo e correr para um sex shop para acabar com minha tortura. — Está bem — ela bate palmas e dá pulinhos como uma foca fazendo sua apresentação. — Eu sabia que podia contar com você, lindinha. — Mas tem uma condição. Pare de atrapalhar meu trabalho e me encher de perguntas sobre ele. Vou fazer minha parte e o resto é com você, combinado? — Combinadíssimo! É uma pena que você não possa começar imediatamente com nosso plano. Ele não está na editora e ouvi Osvaldo dizer que ele não vem hoje. Nada melhor que um dia após o outro. Antony Cavalcanti ainda não sabe, mas será meu. — Já viu o tamanho da aliança em seu dedo? — Ah, Laís, ninguém é páreo pra mim. Será uma questão de tempo até que aquela aliança saia de lá ou não me chamo Claudia Aparecida. Claudia Aparecida. Como eu gostaria que fosse apenas desaparecida. Então hoje eu não o verei por aqui. Melhor assim, não é mesmo? Agora nada mais pode me distrair e ainda terei o bônus de sair em meu horário. Eu poderia ter mais sorte do que isso? Minha mente diz que não, mas não entendo por que meu coração está começando a dizer que sim.


Saio

da editora às cinco em ponto grata por não ter que ficar até mais tarde como fiquei no dia anterior. Nenhum dos meus chefes estava na casa e nem deixou qualquer determinação para me manter lá, então não estou cometendo nenhum crime em sair mais cedo. O vento forte bate no meu rosto e fecho os olhos para sentir o ar fresco do fim da tarde tocar a minha pele, trazendo um aroma delicioso, próprio do outono. Decido andar um pouco. O lugar onde pretendo ir não fica tão distante da editora e esticar as pernas é tudo o que preciso depois de passar a tarde inteira sentada numa cadeira. Olho para um lado e para o outro. Eu sei que sou adulta e que não há nada demais em comprar um brinquedo sexual, mas não é algo que se queira compartilhar caso encontre um conhecido na rua, não é mesmo? Queria que Alana estivesse aqui. Ela é mais resolvida nesse tipo de coisa e com certeza me ajudaria a obter o que quero e dar no pé. — Boa tarde. Como posso te ajudar? Uma vendedora simpática me atende, vestida em um espartilho e uma saia justíssima que deve chamar mais atenção dos clientes do que os produtos que está vendendo.


Sabe aquelas mulheres que aparecem em comerciais de cerveja na televisão? A garota em minha frente é um exímio exemplar. É incrível como o mercado abusa da imagem feminina relacionada ao sexo. — Estou procurando um... uh... brinquedo sexual — minha voz sai em um sussurro. — Ah, queridinha, brinquedo sexual é o que mais tem aqui. Nós temos vibradores de todas as cores e tamanhos, alguns até parecem de verdade. Temos bolas, anéis penianos, algemas, chicotes, alguns objetos eletrônicos, outros manuais, tem para todos os gostos. Experimente esse. Deus, eu entro na loja como uma espiã disfarçada de James Bond e a garota está praticamente proclamando aos quatro ventos a minha falta de vida sexual. Ela toma a minha mão e posiciona sobre um pênis de borracha grande e grosso coberto por um material que imita a pele humana. Puxo-a de volta como se tivesse acabado de tomar um choque. A sem-vergonha começa a rir da minha cara. — Está bem. Você realmente precisa de ajuda. Olha, serei mais discreta, ok? Vejo que você não se relaciona com um homem há algum tempo e está precisando de um pouco de diversão. Eu não sou homofóbica nem nada e sei que as mulheres precisam ser preenchidas de vez em quando... — Ei, eu não sou lésbica, se é isso que está pensando. — Não? Por que uma garota tão bonita quanto você ficaria sem um homem por perto? — Eu não lembro de ter dito em algum momento que não tenho um. — Claro que não. Bobagem a minha. Você está procurando algo para brincar a dois, certo? — Não. Estou em busca de um brinquedo para ser usado na intimidade do meu quarto. — Aha! Acho que entendi. Você gosta mais do estilo... grupal hein, safadinha? — diz ao pé do meu ouvido como quem conta algum segredo. Ah, minha paciência... nunca pensei que poderia ser tão difícil assim. — Não, porra! — estou praticamente gritando e já chamo a atenção de


alguns poucos clientes que estão na loja. — Eu preciso de um vibrador para usar sozinha. So-zi-nha! Ela levanta a sobrancelha e abre um sorriso de lado. — Por que não disse antes, menina? Eu sei exatamente do que precisa. Ela abre uma gaveta e tira de dentro um vibrador tamanho médio, em um tom rosado com um formato um tanto estranho, contudo fico curiosa. — Por que ele tem essa ponta virada para cima? — pergunto, tendo certeza de que meu rosto está da mesma cor do objeto em minha mão. — Essa pontinha é o grande segredo. Esse vibrador fará maravilhas em você porque parece ter um mapa para achar o ponto G com mais eficiência do que muitos homens. Que eles não me escutem. Sorrio. Já estou começando a gostar dessa maluquinha. — E esse outro aqui? Aponto para algo pequeno que daria para levar na bolsa. Ela pega na bancada e coloca sobre a palma da minha mão. Tomo um susto quando o troço começa a vibrar forte. — É um bullet, queridinha. Ótimo para aquele momento que você está no trabalho e se depara com um homem delicioso sabendo que ele está inacessível. O que você faz? Corre para o banheiro e dá um jeito rápido de baixar o fogo entre suas pernas. A imagem de Antony se personifica em minha cabeça, cabendo milimetricamente na descrição que essa doidinha está fazendo. Senti ondas de calor com o jogo de palavras que ele fez ontem, com seu olhar intenso, apenas com sua presença. Os argumentos da vendedora são muito convincentes. — Acho que vou levar os dois — digo num impulso, provavelmente meus hormônios sexuais falando mais alto do que qualquer fio de consciência que eu ainda tenha. — Maravilha! Você não vai se arrepender. Eu tenho alguns deles e costumo brincar sozinha, acompanhada, às vezes até mesmo com uma amiga ou amigos e... Argh! Não lembro do momento que perguntei sobre a vida sexual


movimentada dela. — Ok, — leio seu crachá. — Vanessa. Vou levar esses dois. Entrego meu cartão de crédito a ela na esperança de que faça todo o processo ligeiramente para que eu dê o fora dali o mais rápido possível. Ela faz, contudo acho que a sorte resolve me abandonar nesse momento. Uma voz rouca, masculina e familiar faz com que todos os pelos do meu corpo se arrepiem da cabeça aos pés. Não... Isso não pode estar acontecendo comigo. — Eu gostaria de fazer algumas encomendas. Quem poderia me ajudar? É ele. Eu não preciso me virar para saber que Antony Cavalcanti está no mesmo lugar que eu. E o pior, esse lugar é um sexy shop. Dá pra imaginar a cena? Eu estou em um sexy shop com o meu chefe lindo de morrer que me deixou com tesão ontem e é o principal motivo pelo qual estou aqui. Oh, Deus, não permita que ele me reconheça. Vanessa me entrega o cartão e corre para atender Antony. Antes, eu sussurro para ela. — Acho que vou experimentar algumas lingeries, ok? Pode atender o cliente sem pressa enquanto estarei no provador. Ela sacode a cabeça sem tirar a atenção do homem à sua frente. Pego uma tonelada de peças íntimas empilhadas em um cesto grande e corro para o provador, rezando para que ele suma rápido daqui. Pensando bem, até que a ideia de comprar algumas peças não é tão ruim. Não devo ter nada sensual em meu guarda-roupa e talvez eu possa me dar esse pequeno luxo. — Eu quero um estimulador clitoriano, duas canetas comestíveis de cores diferentes, lubrificantes, preservativos com aroma e gostaria de saber se esta loja aceita encomenda de braceletes de ouro 22 quilates. Senhor, não é possível que além de lindo, esse homem seja um verdadeiro profissional no sexo. Ele fala de cada produto com a habilidade de quem compra pão numa padaria. A noiva dele deve ser uma mulher de sorte. Quer dizer, pelo menos na cama ela não deve ter do que reclamar.


— Sim, senhor. Fazemos peças lindíssimas. — Aqui está o modelo e os nomes que devem estar impressos. Ele continua explicando o que deseja a uma vendedora mais que disposta a ajudá-lo a ponto de ela ter me esquecido no provador. Não sei explicar, mas sinto uma ponta de tristeza por saber que ele está comprando tudo aquilo para usar com uma ou mais mulheres por aí. É claro que esse sentimento não é normal. Eu acabei de conhecê-lo e não houve nada além de uma tensão sexual momentânea entre nós, mas é algo que eu não estou conseguindo controlar. Tudo isso deve acabar assim que eu começar a usar minhas novas aquisições. Preciso acreditar nisso. — Quero discrição, por favor — Antony continua. — E urgência nos braceletes. Passo aqui semana que vem para buscar. — Claro, senhor... Cavalcanti. A voz de Vanessa é trêmula e nervosa, comprovando que esse homem não exerce seu poder de dominação apenas sobre mim. Todas as calcinhas devem dissolver apenas ao olhar para ele. Alguns cabides caem da minha mão, fazendo um barulho alto no provador. Droga, espero que ele já tenha ido ou terei que fazer a caminhada da vergonha na frente dele. — Está tudo bem aí? — Vanessa pergunta, abrindo a cortina, me flagrando com uma cueca na mão com formato de elefante e uma tromba bizarra na frente. Ela abre um sorriso sugestivo e eu apenas dou de ombros. — Tirando a bagunça que acabei de fazer, está tudo certo. Seu cliente já foi embora? Ela suspira alto, perdida em pensamentos. — Você precisava ver o tipo de homem. Menina, o cara que saiu daqui exala feromônios pelos poros. Duvido que uma mulher precise de qualquer brinquedo sexual se estiver na cama com ele. Eu gozaria apenas de olhar seu corpo nu. Engulo em seco, fingindo que desconheço sobre quem ela esteja falando,


ainda que minha cabeça compartilhe da mesma opinião que ela. Meu chefe definitivamente não é do tipo que passa despercebido por qualquer lugar. — É uma pena não ter visto esse deus do sexo. Vou levar algumas peças. Pode embalar rapidamente? Preciso me apressar. Ela faz tudo com a mesma eficiência de antes e saio da loja com grandes expectativas de acabar com esses hormônios infernais no meu corpo antes que eles acabem comigo. A noite já desponta no céu escurecido e as ruas estão um pouco mais vazias que antes. Apenas alguns pedestres caminham e carros transitam com tranquilidade. Dou passos longos em direção ao estacionamento da editora. Provavelmente nesse horário apenas o meu carro esteja lá, contudo não me importo porque há seguranças durante vinte e quatro horas cuidando do local. Me assusto quando alguns adolescentes saem de uma via escura, rindo alto uns para os outros e percebo que deixar o carro e ir a pé não foi tão boa ideia quanto me pareceu à princípio. Ando ainda mais rápido em busca do meu alvo, mas penso que meu coração vai sair pela boca no momento que meu braço é puxado sem dó para uma parte escurecida da via. Um milhão de cenas se passam por minha cabeça, menos aquela que está prestes a acontecer. — Você perdeu o juízo, Laís? Por que está caminhando sozinha pela rua? Não sabe que esse trajeto é perigoso? Onde está seu carro? O toque forte em meu braço começa a abrandar e, por um instante, tenho receio de que minhas pernas falhem e eu desabe em seus braços ali mesmo. Seu perfume almiscarado invade minhas narinas acompanhando sua respiração quente e ofegante muito próxima a mim. Tenho vontade de envolver meus braços em seu pescoço e sentir a segurança que sua simples presença transmite. Não entendo como posso me sentir segura quando ele é o único homem capaz de me despertar medo. Medo de querer o que eu não posso ter. — Meu carro está na editora. Eu precisei ir ali... hum... perto e não vi necessidade de vir com ele. Talvez não tenha sido boa ideia. Seu rosto está muito, muito próximo ao meu, então passo a língua nos


lábios, me preparando para um beijo arrebatador mesmo que algo dentro do meu peito diga que isso seria completamente errado. Meu coração bate forte, me levando a sentir seu pulsar em outras partes do corpo que já imploram por atenção. Antony alisa meus braços como se me ofertasse segurança e estou prestes a suplicar que me dê mais. Para minha frustração, ele apenas escova seus lábios nos meus, segura meus pulsos e deposita um beijo suave em cada um deles, jogando a cabeça para trás como se juntasse forças para resistir. — Vamos para a editora. Você vai pegar seu carro e eu vou te acompanhar até em casa. Precisa zelar mais por sua segurança já que poderia ser algum psicopata em meu lugar hoje. Não me perdoaria se perdesse minha melhor revisora. Definitivamente, ele é bipolar. Eu ainda sou uma manteiga derretida tentando me recompor enquanto ele consegue vestir sua maldita máscara de CEO de um segundo para o outro quando há pouco estava quase me beijando. É mole? Antony me acompanha até em casa e, assim como na noite anterior, sou surpreendida por uma mensagem que vai me dar o que pensar por mais uma madrugada inteira. Antony: Espero que tenha feito boas compras no sexy shop. Estou curioso para testar cada uma delas com você.

Sem ler mais uma palavra, eu pego o vibrador rosa que acabo de comprar e me jogo sobre a cama. Antony Cavalcanti não sabe, mas estará compartilhando os brinquedos comigo nesse instante. Nem que seja apenas em pensamento.


— Está ainda mais linda hoje, Laís. Tem um brilho diferente no olhar, parece mais animada. Leandro está ao meu lado me encarando com um sorriso sedutor nos lábios. Foi a primeira pessoa com quem fiz amizade logo que iniciei o curso e só consigo enxergá-lo assim, como um bom amigo. Às vezes o pego me olhando de um jeito meio estranho, mas nunca alimentei qualquer investida. Sempre o levei na brincadeira. — É impressão sua, Leo. Estou como sempre fui, tão cheia de trabalho e atividades que muitas vezes não consigo dar conta. — Está assim porque quer. Já te chamei várias vezes para estudarmos juntos, mas nunca está disponível. — Agora é que eu não estarei mesmo. — O quê? Aconteceu alguma coisa, Laís? — Não, imagina. É só um período especial no trabalho que está tomando muito de mim. Será apenas por um tempo. — Sei. Imagino que esteja louca para se livrar dele, hein? Eu já consigo ouvir sua voz recitando “Motivo” de Cecília Meireles, fazendo com que seus alunos se tornem tão apaixonados quanto você é por ela.


— Não há nada que eu mais queira, Leo. Só você pra me entender, meu amigo. Ele baixa a cabeça como se estivesse um tanto pensativo e depois volta a me olhar com o esboço de um sorriso no rosto. — O meu próximo convite será para aproveitarmos a noite da cidade. Acho que é disso que você está precisando. — Eu na balada com tanta coisa pra dar conta? Não seja bobo. — Precisa levar a vida um pouco menos a sério, Laís. — Shhh, olha, a aula vai começar. Vamos fazer silêncio. O nosso professor de Texto e ensino entra na sala cumprimentando a todos e, depois de nos sobrecarregar com mais meia dúzia de leituras, anuncia que receberemos uma visita ilustre naquela manhã. — A pessoa que tenho a honra de apresentar a vocês é um dos grandes benfeitores da universidade e patrocina diversos projetos de pesquisa na área de linguagens, sendo alguns desta turma. Estou curiosa para saber quem é esse homem tão poderoso que está investindo generosamente parte do seu tempo e dinheiro nos projetos de Letras. — Ele é executivo e proprietário de uma das maiores editoras do país e está pensando em ampliar ainda mais sua empresa. Tenho orgulho de dizer a todos que nesta cidade há investimento em cultura. Poderia ser ele? Não é possível, seria muita coincidência. Só de pensar na possibilidade, sinto arrepios passarem por minha espinha dorsal. Já faz um tempo que não temos qualquer contato mais... cara a cara. Quer dizer, ele quase não para na empresa e quando está lá, é como um Deus soberano que mal cumprimenta seus súditos. O homem sabe que fui a um sexy shop e que comprei brinquedos eróticos mesmo que eu tenha sido tão discreta, então eu deveria soltar fogos por não ter que voltar ao seu escritório. Mas não estou soltando. Principalmente porque me sinto tão confusa quando não recebo sequer um olá de sua parte, mas as mensagens tentadoras continuam chegando todas as noites. Eu já estou viciada nelas.


A porta se abre e todos os pescoços viram para conhecer quem é o novo super-herói das galáxias, já que praticamente foi essa a imagem vendida pelo professor. Não é preciso tanto para acertar na mosca quem é o cara que passa por aquela porta, não é mesmo? Embora não venha voando, o homem exala imponência e grandeza por onde quer que passe como os melhores heróis dos quadrinhos fariam. Merda! Algo me diz que vamos nos encontrar mais do que eu presumia. — Queridos alunos, deixe-me apresentá-los ao Sr. Antony Cavalcanti, CEO do complexo editorial Cavalcanti e patrono da nossa universidade. Em nome dos nossos estudantes, te dou as boas vindas, Sr. Cavalcanti. O burburinho na sala é geral. Os rapazes falam sobre a possibilidade de uma oportunidade na editora ou de publicar seus livros. As meninas fazem piadas sobre a riqueza e beleza irretocável do executivo. E eu? Eu fico apenas surpresa, de boca aberta como uma pateta, por reencontrá-lo mais uma vez e fora do ambiente de trabalho. — Obrigado, Sr. Alcântara. Eu sempre contribuí com a universidade, mas nunca despertei o interesse em conhecer os beneficiados pelos nossos programas mais de perto. Fico feliz em saber que de alguma forma estou dando uma força para a realização do sonho de vocês. Estou apenas devolvendo o que fizeram por mim um dia e espero que não desperdicem essa oportunidade. Sucesso a todos. Ele faz todo o seu discurso me fitando o tempo inteiro. O que pode ter despertado seu interesse em conhecer os alunos, já que afirma nunca ter demonstrado antes? — Você percebeu que ele não tirou os olhos de você, Laís? Já o conhece de algum lugar? Deixo de encarar o homem magnífico que ainda é o foco da atenção de todos e me viro para responder a Leandro mesmo que meu olhar teime em encontrar seu próprio destino. — Ele é meu chefe na editora. Quer dizer, só o conheci recentemente e não tivemos muito contato. Sr. Cavalcante é o CEO, então, como revisora, eu só


convivo com meu chefe imediato — minto, sem querer dar margens a especulações. — Ah, então deve ser isso, mas ele continua te observando e por um momento tive a impressão de que não era um olhar de chefe para sua funcionária. Ele parece bastante irritado. Levanto minha visão novamente na direção de Antony e percebo quando ele fala algo no ouvido do professor, que me busca pela sala até me encontrar. Ele volta sua atenção para o patrono, balança a cabeça e Antony se despede da turma, sem voltar a me encarar. Sinto-me aliviada, mas não o suficiente, pois noto que algumas colegas me fitam e outras até cochicham alguma coisa, sem tirar os olhos de mim. Baixo a cabeça e finjo que estou lendo a apostila da aula. Eu não gosto de ser o assunto central das fofocas. Não mesmo. — Ele não tinha motivo para ficar irritado, Leo. Que eu lembre, não cometi nenhum erro ontem na editora. Deve ser impressão sua ou ele deve ser sério assim mesmo. — É, deve ser impressão minha — Leo não parece muito convencido com o que diz. A aula transcorre sem mais interrupções e desta vez tento me concentrar o máximo possível, já que não tenho nenhuma distração me preocupando. Não vou mentir que vez ou outra minhas lembranças vão de encontro aos sonhos eróticos que tenho quase todas as noites, mas as coloco de lado assim que me dou conta de que há outro sonho maior que eu preciso conquistar. E esse tem que ser bastante acordada. A aula termina mais cedo, então respiro aliviada uma vez que não preciso sair correndo pelo menos hoje. Estou conversando com Leandro e já me aproximando da porta quando ouço o professor chamar pelo meu nome. Sim, a cena se repete. O que será desta vez? Caminho em direção a ele, confusa, pois não faço a menor ideia do que teria para falar comigo. — Laís, está com muita pressa para ir embora? Parece que o nosso patrono gostaria de conversar com você.


Ledo engano achar que teria uma manhã tranquila. Estou com uma sensação e ela não é boa. Sinto-me sufocada e perturbada. Algo me diz que não vou gostar dessa conversa. Nem um pouco.


sério mesmo? Antony Cavalcanti se deu ao trabalho de me esperar para conversar quando poderia fazer isso na empresa daqui a algumas horas. O que há de tão urgente? — Comigo? O senhor sabe qual é o assunto? — algo me corrói por dentro com a possibilidade de estar próxima novamente daquele homem lindo, avassalador. — Parece que pesquisou sobre a vida escolar de alguns alunos e se interessou pela sua. Vá falar com ele. Talvez tenha uma boa proposta de emprego em sua editora. Pelo visto, meu professor não sabe que eu já trabalho lá. — Ah... está certo. Onde devo encontrá-lo? — Ele está te esperando na minha sala. É a doze. Sabe onde fica? — Sei, sim. Obrigada. Leandro arregala seus olhos castanhos e passa as mãos pelos cabelos de mesma cor, demonstrando o quão curioso está, mas desconverso, dizendo que preciso ir ao banheiro e que ele não deve me esperar. Meu amigo insiste, porém acabo lhe convencendo. Caminho até a sala, me fazendo mil perguntas. Chego até lá e bato na porta, ouvindo uma voz que não pede, simplesmente ordena para que eu entre. Abro É


devagar e dou dois passos para dentro, insegura. — Pois não, Antony? Quer falar comigo? Ele está de costas, olhando para uma estante cheia de livros como se estivesse escolhendo um para ler. Ainda de costas, começa a falar comigo em um tom que não me agrada. — Quem é aquele carinha que quase a beijava em plena sala de aula? Sua pergunta me deixa atordoada. Nunca, em mil anos, pensei que esse tipo de pergunta pudesse sair de sua boca, mesmo porque não lembro de ter lhe dado intimidade para isso. Dei? — Como? Antony vira de frente, anda em minha direção e para muito próximo ao meu corpo. Sinto sua respiração forte, seu ombro subindo e descendo, ofegante. Sinto aquele cheiro bom e completamente sedutor. — Eu te perguntei quem é o cara que estava dando em cima de você descaradamente. Fito seus olhos assustada e balanço a cabeça sem entender a razão daquela pergunta. — Desde quando eu te devo explicações da minha vida pessoal, Sr. Cavalcanti? — Antony, Laís. Para você, eu sou apenas Antony. Pensei que estava estudando para se tornar uma grande profissional e não para conseguir um namorado no campus. Estreito ainda mais nossa distância, se é que isso é possível. Eu não estou disposta a aturar essa invasão de privacidade, ainda mais fora do meu ambiente de trabalho. — Não é da sua conta o que eu faço ou deixo de fazer fora da editora. Quem você pensa que é para insinuar algo desse tipo? Ele vira a cabeça de lado e me dá um sorriso desafiador. O homem continua lindo em um terno preto, perfeitamente adaptado ao seu corpo, gravata vermelha que dá vontade de puxar, obrigando sua pele a tocar a minha, cabelos negros molhados e penteados para trás, deixando o pequeno brilhante ainda mais à mostra em sua orelha.


Antony Cavalcanti é lindo de morrer e o safado conhece exatamente o grande poder de sedução que tem. — Não é da minha conta? É o que vamos ver. Antes que eu perceba, ele agarra os meus ombros e me empurra para a parede mais próxima, cobrindo o meu corpo com o seu, e toma os meus lábios em um beijo ardente e faminto. Deus, e que beijo! Suas mãos começam a ter vida própria e passam a viajar pelo meu corpo, tentando reconhecer cada curva com habilidade, como se estivesse me mapeando. Uma chama começa a arder dentro de mim e ela está alcançando lugares... hum... um tanto isolados e inexplorados já há algum tempo. Minha pele traça um fio de tensão que faz seu caminho por todo o meu corpo até alcançar a latência no meio de minhas pernas. Merda! Eu mal fui tocada e minha boceta já está pronta e implorando pela invasão que pode trazer o alívio que ela tanto precisa. Eu não tenho forças para lutar. Eu não quero lutar. Há uma energia que me atrai a ele, acabando com todo o meu sistema de defesa. Eu serei dele ali na universidade sem pensar duas vezes se acaso me quiser. Estou disposta a lhe dar qualquer coisa que me peça sem pestanejar, mas, repentinamente, ele parece mudar de planos. Sinto quando força o seu corpo a se separar do meu, me deixando mais uma vez confusa e envergonhada. Esse homem vai acabar me enlouquecendo com seus jogos. Se queria provar um ponto, acaba de conseguir. Eu não estava pronta para resistir ao seu toque. Nunca me senti tão fraca, tão vulnerável antes. — O que foi isso, Sr. ... Antony? — inquiro, ao mesmo tempo que percebo a enorme ereção que marca sua calça. Engulo em seco, tentando desviar o olhar, mas sem muito sucesso em minha tentativa. — Isso foi apenas uma resposta à sua ousadia. Parece que o seu corpo acha que tudo sobre você é da minha conta, Laís. Ele acaba de me dizer isso com todas as letras.


Suposições confirmadas. Então, ele estava apenas me testando. Meu Deus, em que loucura estou me metendo? — Você é alguma espécie de maluco ou algo parecido? Ele não responde. Caminha até a mesa do escritório e senta na cadeira, vestindo novamente a máscara de CEO como se não tivesse acabado de me jogar em uma parede e me beijado. — Tem o lançamento de um livro esta noite e gostaria que fosse como minha acompanhante. Você não vai para a editora esta tarde. Preciso que esteja perfeita para o evento. Eu não sei se devo rir ou chorar diante de tanta petulância. — Eu não posso ir a lugar algum hoje — digo, com determinação. — Preciso terminar a revisão do livro, já que nosso prazo está curto. — Eu sou o dono da editora e eu decido como as coisas devem funcionar. Se estou dizendo que não vai para o trabalho é porque você não precisa ir. Nem hoje nem amanhã. — Eu não fui contratada para servir de acompanhante de executivo nos eventos. Por que não contrata uma prostituta para isso? Alguém está se divertindo claramente aqui e posso garantir que esse alguém não sou eu. Antony ri como se eu tivesse acabado de lhe contar uma piada. — Eu não estou te pedindo para cair em minha cama, Laís. Pelo menos não até que você peça por isso. É um simples evento e, naturalmente, deve ter representantes da editora lá. Pode ser muito interessante para você. Se ele soubesse o pouco interesse que tenho por esta área. — Você é muito senhor de si para achar que vou implorar por sexo a você ou a qualquer outro homem. Eu não preciso disso. Claro que não. Eu apenas tenho mais de um ano sem sentir nada maior que um pinto de borracha rosa entrar em mim, mas esse pequeno detalhe não significa que eu não tive opção. Só quer dizer que nenhuma das que tive me atraiu. E não é porque Antony desperta todos os meus sentidos adormecidos que eu vou mendigar para que me dê qualquer coisa. Homens como ele são para


admirar de longe. Homens como ele não são descomprometidos. Homens como ele deviam vir com uma placa grudada na testa gritando perigo. — O que eu quis dizer foi que não estou te fazendo um convite obsceno. Você é funcionária da minha empresa e esse evento tem relação direta com o seu trabalho. Quando o convite tiver outro objetivo, certamente você saberá. Já vi que ele é do tipo que morde e assopra, que dá com uma mão e tira com a outra. Ao mesmo tempo que fala com um tom todo profissional, sempre solta uma pitada de seu veneno erótico. O pior é que eu não sei qual a versão dele que gosto mais. Na verdade, ele é magnífico de qualquer jeito. — Sua noiva não vai se importar de saber que você frequenta eventos com outra mulher a tiracolo? Por que não convida o Sr. Osvaldo? Talvez seja mais importante para ele do que para mim que não sou chefe do setor. Ele olha por um tempo para a aliança em seu dedo, passando a girá-la como um tique nervoso. — Você está muito preocupada com a aliança que eu carrego. Ela é apenas uma relíquia de família a qual tenho muita estima. Aceno com a cabeça e ele continua. — Olha, Osvaldo estará lá também, mas eu ficaria muito lisonjeado se aceitasse me acompanhar. Haverá gente de todo tipo envolvido com as letras e as artes no evento. Será interessante para você conhecer pessoas que podem te ajudar no futuro. Ele fala como se soubesse que meu coração não está na editora. Ou Antony é muito perspicaz ou de fato lê mentes. Estou cada vez mais convencida da segunda hipótese. — Conheço alguém que ficaria mais que feliz com o convite. — Quem? — Claudia Aparecida, secretária de Osvaldo. — Aquela garota desmiolada? Como pode se comparar a ela, Laís? É você quem quero ao meu lado. É você quem quero ao meu lado. Tenho certeza que essa frase vai martelar em minha mente mais do que eu gostaria.


Procuro por uma justificativa para me livrar da cilada de ter que ficar ao lado desse homem que tanto me atrai. Já ouviu aquele ditado “se não pode com ele, junte-se a ele”? Não serve pra mim. O meu é “se não posso com ele, então preciso fugir a léguas dele”. Me chame de covarde, eu aceito, mas se ele já está me cercando desse jeito em tão pouco tempo, imagine se eu lhe der mais espaço. Esse homem é do tipo que pega sem pedir. — Não tenho roupa para ir a um evento desse tipo, Antony. Desculpe, mas acho que não será possível. Ele levanta e se aproxima de mim, olhando no fundo dos meus olhos. — Entenda uma coisa, Laís, eu não sei lidar com negativas. Impossível não é uma palavra que esteja no meu dicionário. Você pode usar todas as justificativas, mas nenhuma irá me convencer de que não estará comigo esta noite. O vestido será entregue pela tarde no salão. — Salão? Que salão? — Embora eu duvide que fique ainda mais linda do que já é, reservei um horário para você em um salão de beleza conhecido. Enquanto tento segurar minha boca aberta pelo susto, ele apenas ignora minha reação, pegando um cartão de seu bolso com o endereço do salão. Volta para a mesa novamente ostentando sua máscara de CEO e baixa as vistas para ler alguns papéis sobre ela. Bato com minhas mãos abertas por cima dos papéis, o obrigando a entender que a conversa ainda não terminou. — Eu não tenho condições no momento de pagar por vestido ou salão algum. E não pense que pode comprar minha companhia com presentes. Antes de impor sua própria vontade sobre mim, lembre-se de que não sou um objeto, portanto tenho todo o direito de ser questionada sobre o que quero ou não. Ele respira fundo e ajeita a gravata que não estava sequer um milímetro fora do lugar. — Você tem razão, me desculpe. Eu pensei no salão e no vestido porque eu acho que você merece ter sua beleza realçada. Costuma se esconder atrás de óculos grandes e coques nos cabelos. Entendo plenamente se não aceitar. Ainda gostaria que viesse comigo.


— Como uma Cinderela? Meu corpo se aproxima mais pra frente em um instinto e ele aproveita para puxar uma mexa do meu cabelo, alisando-a. — Sim, como uma Cinderela que nunca tem seu encanto quebrado. Droga, por que esse homem exerce tanto poder sobre mim? Por que eu não consigo mandá-lo ir à merda e enfrento suas ordens? — Eu não deveria, mas... tudo bem, aceito apenas o salão. Dispenso o vestido. Eu devo ter qualquer coisa adequada para este evento. Ele parece feliz com minha afirmação. Como disse, não sabe lidar muito bem com negativas, mas não deve encontrar muitos nãos em seu caminho. O magnetismo que exerce sobre as pessoas faz com que todos somente lhe digam sim como vacas de presépio. Pego o cartão com o endereço de cima da mesa e me afasto, sentindo meu cabelo deslizar suavemente por sua mão, trazendo ondas de arrepio pelo meu corpo. Vou para a cantina da universidade almoçar e sou grata por não encontrar Leandro nem qualquer outro conhecido no caminho para me encher de perguntas. Olho para o cartão com o endereço e bufo sem acreditar que acabei cedendo aos caprichos de um homem que mal conheço, mas já está mexendo com meu mundo em demasia. Vamos lá, não é? Talvez não seja tão ruim acompanhá-lo no lançamento de um livro. Quem sabe até aproveite para comprar um exemplar. É isso. Decido que se concordei em ir, vou aproveitar a noite. Que Deus me ajude!


Chego

ao salão e, quando entrego o cartão que Antony me deu e me apresento, fico chocada com o modo que passo a ser tratada por todos. Os funcionários começam a se movimentar como se estivessem em um dia agitado da Bolsa de Valores, loucos para me dar atenção, revezando entre meus cabelos, unhas, rosto. Sinto-me tal qual uma personagem de um filme no melhor estilo Uma linda mulher naquele momento que a personagem de Julia Roberts entra na loja com Richard Gere e todas as vendedoras lhe tratam como uma rainha. Há vários profissionais em cima de mim em questão de segundos dizendo o quanto sou bonita e como vou ficar ainda mais. Bem, o que dinheiro não faz com as pessoas? Em algum momento, enquanto estou sendo moldada como um vaso, um dos funcionários faz um comentário despretensioso. — Sr. Cavalcanti já mandou muitas meninas bonitas para as nossas filiais ao redor do país. Eu mesmo cuidei pessoalmente de algumas delas, mas como você ainda nenhuma. Garota, você seria uma grande modelo fotográfica com todo esse corpo e esse rostinho lindo. Então é hábito dele adequar as mulheres ao seu gosto antes de sair desfilando com elas. A quem estou enganando? Eu sou apenas mais um enfeite em seu braço esta noite. Estou me dando conta de que ele é o tipo de cara que gosta de se exibir


com uma mulher diferente a cada dia. Ah, mas comigo será diferente. Vou deixar claro para todos no evento que sou apenas sua funcionária. Nada mais. — Já recebi convites, contudo nunca me interessei por esse tipo de trabalho. Com certeza não me encaixo na mesma situação das tantas garotas que são enviadas a este tipo de salão. O Sr. Cavalcanti precisa de alguém que trabalha com literatura para acompanhá-lo e acabou me convidando. Sou apenas sua funcionária. Ele ergue uma sobrancelha, totalmente incrédulo. — Apenas funcionária? Sei... Não vai adiantar usar todo o meu latim para tentar convencê-lo do contrário. Não mesmo. Resolvo que nesta tarde eu irei relaxar sem dar mais importância às fofocas de salão. Depois deste dia não pretendo ver mais essas pessoas, então por que me dignar a lhes dar satisfações? Passo a tarde inteira lendo revistas de fofocas, pra variar. Tudo bem que estou em um salão de beleza e não em uma livraria, mas não seria pedir demais encontrar um romance ou um livro de poemas, por exemplo. No fim do dia, vou sair dali especialista em celebridades. Não que eu seja de outro mundo e não tenha uma curiosidade natural, mas definitivamente meu mundo não gira em torno disso. O fim da tarde chega depois de muito estica daqui, alisa de lá. Não deixaram que me olhasse no espelho até que estivesse pronta. Confesso que estou curiosa para ver como ficou. Não lembro da última vez que coloquei meus pés em um salão de beleza. Talvez em minha formatura? — Pode virar a cadeira, maravilhosa — um dos funcionários diz, cheio de mãos e bocas, enquanto gira a cadeira para que eu fique de frente para o espelho. Eu quase não reconheço aquela mulher diante de mim. Oh, meu Deus, eu estou... uau... como uma daquelas super modelos sensuais estampadas nas capas das revistas que eu folheava agora há pouco. Meu olhar está esfumado com bastante delineador de modo tão perfeito que não me deixou com aparência vulgar. Eles ressaltaram meu tom de loiro, deixando em uma tonalidade que eu já tinha tentado, mas ainda não tinha conseguido alcançar com nenhum produto que usei.


Minha pele está lisa como um pêssego, coberta por uma maquiagem leve que se contrapõe com o meu olhar negro e marcante. Eu estou quase irreconhecível. Essa mulher que me olha no espelho é simplesmente... linda! — Nossa, vocês devem gostar muito de seu cliente para ter caprichado tanto assim. — Querida, gostamos muito do Sr. Cavalcanti. Ele é muito generoso, porém não foi difícil deixá-la como está. Sua beleza natural ajuda muito. — Obrigada. — Deixe-me ver um vestido para combinar com a cor dos seus olhos e sua maquiagem. Ah, esse aqui é perfeito! — uma funcionária diz, levantando uma peça longa, mas cheia de decotes. — Vista. Tenho certeza de que vai ficar deslumbrante em seu corpo. — Não. — O quê? — a moça de olhos arregalados pergunta. — Eu disse ao meu chefe que não aceitaria mais nada dele. O salão foi mais que suficiente porque eu não o envergonharia no lançamento com uma aparência ruim. — Sério, maravilhosa? De que mundo você é? — o cabelereiro inquire, tocando nos cachos que caem como ondas sobre meus ombros. — As mulheres que frequentam esse tipo de evento vão te comer viva se estiver com um vestido chinfrim. Um rosto como o seu precisa de um acompanhamento à altura. Engulo em seco. Eu sei que em meu guarda-roupa não tem nada muito decente para vestir essa noite. Roupas de festa são um luxo que não me dou há algum tempo, já que sequer saio à noite. Até mesmo o vestido da minha formatura foi alugado. Um vestido tubinho que uso no trabalho, não serviria? — Não é como se eu estivesse indo para uma noite de gala por vontade própria. É apenas trabalho. Sendo assim, não preciso parecer com nenhuma das paquitas que porventura estejam lá. O cabelereiro faz biquinho, batendo os dedos delicadamente sobre seu rosto moreno como se estivesse em busca de uma solução para o meu caso. Certamente, ele gostaria de estar em meu lugar acompanhando Antony, pela forma como o exalta.


— Ah, por que Deus não dá asas à cobra? Você tem algumas opções de Dior ou Versace originalíssimos para vestir e pretende usar uma roupa qualquer, belezinha? Desse jeito não vai valorizar o belo trabalho que fiz em você. — Foi Antony quem mandou os vestidos? — Minha equipe teve o trabalho de escolher os melhores, mas o homem soube dizer exatamente o número que você veste. Não são todos os espécimes de macho que têm essa percepção. Mas que merda! Nenhum dos meus argumentos foi suficiente para fazê-lo entender que não estou à venda, que tenho direito a escolhas e que mal o conheço para deixar que dê ordens em meu nome. — Eu não quero nenhum vestido. Agradeço pelo atendimento da equipe, sei que serão muito bem recompensados pelo excelente trabalho, mas preciso tomar um banho e me preparar para esta noite. E o melodrama começa... — Pelo menos aceite experimentar o Versace preto. Seria um desperdício não aproveitar essa oportunidade de se sentir diva nem que seja por quinze minutos. E não é que ele tem razão? Ah, também não sou de ferro e não custa nada fingir que sou outra pessoa por apenas alguns minutos, embora eu não esteja reclamando de quem sou. Sinto muito orgulho de mim, por sinal. Com a ajuda desnecessária de três funcionárias que só faltam ter a varinha de condão das fadas-madrinhas, mais prestativas do que deveriam já que estou apenas provando o vestido, fico pronta em um minuto. Minha nossa, quem é aquela mulher e o que fizeram com a verdadeira Laís? A peça abraça o meu corpo como se fosse exclusivamente confeccionada para mim em cada medida. É feita em cetim e tule que se agarra à cintura, destacando todas as minhas curvas, com um enorme decote nos seios e costas nuas. — Aaaaaaiiiiii! — a criatura dá um grito tão alto e fino que chego a pular de susto. — Flor, você está per-fei-ta! — exclama com olhos arregalados e uma mão tapando sua boca aberta.


— Obrigada. O vestido é realmente formidável. — Você disse que o Sr. Cavalcanti é o que seu mesmo? Apenas chefe? Só se ele fosse cego para não tentar ir além. Ignoro as besteiras que ele diz, sabendo que não há qualquer chance disso acontecer, porque eu não vou permitir. É só um evento da editora, certo? Sorrio e agradeço por tanta atenção, indo para o closet tirar o vestido.


Chego

em casa me sentindo meio estranha. Eu sei que estou bonita, mas pareço diferente daquela mulher que costumo ver diante do espelho. Todos os olhares se voltaram em minha direção desde o momento que deixei o salão até chegar ao meu apartamento, onde nem mesmo o porteiro me deixou passar despercebida e não resistiu a fazer um comentário. — A senhora está muito bonita, dona Laís. — Obrigada, seu Severino — digo, confirmando que pelo menos não vou fazer feio diante dos amigos de Antony naquele evento. Assim que abro a porta, pego Alana e Daniel aos risos no sofá, enquanto assistem a algo na TV. O rosto de minha amiga se transforma quando me vê e ela se levanta, caminhando em minha direção como se um ET acabasse de invadir seu apartamento. — Quem é você e o que fez com minha amiga? Laís você está simplesmente... sensacional. Ganhou na loteria e não me avisou? Ela puxa meu braço para cima, e me faz girar sobre meu próprio corpo, soltando um assovio admirado. Sorrio com o exagero de Alana. — Deixe de bobagem, Lana. A empresa bancou esse novo visual porque vou participar de um evento esta noite. — Uau! Eu preciso trabalhar em uma empresa assim. Não sei por que, mas


parece que você está contando essa história pela metade. Quem vai ao evento? Ignoro a pergunta dela e vou até o sofá cumprimentar meu amigo Daniel. — Você está realmente linda, Laís. Se eu não fosse louco por Alana, ia perguntar se você está aceitando currículo. Conheço meia dúzia de amigos que ficariam aos seus pés se te vissem assim. — Ah, querido, até eu se jogasse no time contrário — Alana se joga no colo do namorado e lhe dá um beijo rápido. — Tenho certeza de que tem dedo de homem nessa história. Desembucha, Lai. Ela não vai deixar passar despercebido, vai? — Nada demais, exagerada. Eu apenas vou a um evento com Antony esta noite e preciso estar apresentável — digo baixinho, quase para mim mesma. — O quê? — ela grita a ponto do meu ouvido doer. Abre seus enormes olhos cristalinos, enquanto começa a fazer uma dancinha da vitória como uma louca na sala. Fecho os olhos e respiro fundo, sem conseguir segurar o riso por muito tempo já que é impossível quando se está com a Srta.bom-humor por perto. — Eu vou a um lançamento de livro com meu chefe, Antony Cavalcanti esta noite, entendeu? Digo com todas as letras mesmo sabendo que isso só fará com que ela me encha ainda mais. — Você está namorando o seu chefe? Não, você não está. Quer dizer, outro dia disse que ele era comprometido. Então se tornou amante? Não, você não faria esse papel. — O bom de conversar com Alana é que ela mesma faz as perguntas e ela mesma as responde. Isso é uma verdadeira maravilha — falo, olhando para Daniel, mas como uma indireta para ela que continua conversando com seus botões. — Preciso me arrumar. — Você vai ficar linda com aquele vestido preto. Paro de caminhar e me viro com um olhar interrogativo. — Que vestido preto? — Aquele lindíssimo que entregaram há cerca de cinco minutos. Olha, eu fiquei em dúvida se seria uma Versace original, mas depois que te vi com esse


visual todo, aposto meu braço direito que ele é. Filho da puta! Eu não acredito que Antony foi arrogante a ponto de passar por cima da minha vontade. Não posso acreditar que ele tenha mandado o vestido ainda que eu tenha dito não uma centena de vezes. Corro para o quarto tomada pela ira. Por que ele continua fazendo esse tipo de joguinho comigo se deixa bem claro que pretende resistir à forte atração que sentimos um pelo outro? Por que não vai aos eventos com sua noiva, se é que tem uma. Por que está me deixando tão confusa se quando está comigo, não consegue manter suas mãos longes, mas atiça meu desejo com pequenos gestos e palavras como fogo na gasolina? Olho para o vestido perfeitamente ensacado sobre a minha cama e respiro fundo, ciente de que eu deveria jogá-lo numa caixa e mandar alguém entregar pessoalmente a ele, contudo sei que não vou. — Ah, Antony Cavalcanti, você é a frustração em pessoa. Pego a peça, tirando do saco e coloco diante de mim na frente do espelho. É realmente um desperdício deixar de usá-lo mesmo que isso represente minha submissão aos mandos e desmandos dele. Pensando bem, eu não tenho muita opção em meu guarda-roupa e foi ele quem inventou esse evento em cima da hora. Lembro do cabelereiro me dizendo: ‘As mulheres que frequentam esse tipo de evento vão te comer viva se estiver com um vestido chinfrim’. Está decidido. Vou usar como um empréstimo e no outro dia, devolvo. Eu preciso aprender a dizer não a esse homem ou vou acabar criando um monstro, já que algo me diz que esta não será a única vez que ele vai me testar. Preciso e vou aprender ou não me chamo Laís Oliveira.


— Lalai, posso entrar? Alana dá duas batidas na porta e já vai entrando. Ela parece que adivinha o exato momento de vir ao quarto porque estou com dificuldade de fechar o vestido sozinha. — Você já está dentro e bem na hora. Me ajuda a fechar esse troço aqui. Com a habilidade de um estilista, ela fecha o zíper lateral, me deixando pronta como um passe de mágicas. Fico grata que esta noite esteja quente, pois o vestido deixa muito à mostra, combinando com uma noite calorosa. Pensando bem, só o fato de estar perto daquele homem me dá a certeza de que frio é a última coisa que vou sentir, independente do tempo. — Minha nossa, você está maravilhosa! Seu chefe vai ter muito trabalho com você hoje, todos os homens vão querer tomá-la dele. Aliás, que homem é aquele, Lai? Ele está na sala te esperando. — Ele... Antony está aqui em nossa sala? — Em carne, osso, e músculos maravilhosos. Meu pai, o que há com homens vestidos em terno e gravata? Eu fiquei tão boba com a aparência dele que foi preciso receber um beliscão de Daniel para acordar. Dou risada com a forma que Alana fala. Ela tem essa tendência natural de


dramatizar enquanto tenta explicar até mesmo as coisas mais simples. — Não posso fingir que ele não é um fenômeno da natureza. — Sublime, eu diria — ela põe a mão no queixo, pensativa. — Sem dúvida, ele é o Sr. Sublime. Pronto. Antony mal a conhece, mas já acaba de ganhar um apelido que vai persegui-lo todas as vezes que seu nome for citado. Por outro lado, Sr. Sublime tem tudo a ver com ele. Cabe perfeitamente na descrição daquele homem. — E Alfred? Ele o recebeu bem? — A sorte de seu chefe foi que Alfred estava no modo preguiça e nem se abalou para vir até a sala. Na verdade, você precisa ter uma conversa com seu cachorro. Ele não tem servido muito para a função de cão de guarda. Meu cachorro é do tipo duas caras. Você nunca sabe de que forma ele reagirá a um estranho. Quando menos se espera, ele se torna um pit bull, mas nem sempre é desse jeito, como agora. — Melhor assim. Você o prendeu? — Sim, prendi. Você acredita que Daniel abriu a porta e Sr. Sublime já foi logo perguntando quem ele é? Nada de boa noite, como vai, etc. — Típico de um idiota arrogante como ele. — Que nada. Eu achei aquilo tão excitante. Tenho certeza de que ele tem pegada. Não que eu esteja reclamando do meu Dani, mas esse jeito possessivo dele como se sondasse o território me deixou... cruzes... morrendo de calor. — Boba. Você se deixa deslumbrar por muito pouco. Sabia que ele teve a coragem de me falar com todas as letras que seu coração está na empresa e a mulher que ficasse com ele, teria que entender? Antony não chega aos pés de Daniel que te trata como uma rainha. — Eu não estou comparando, Laís. Só não posso ignorar que ele é de encher os olhos. — Ok. Vamos para a sala que já devemos ter um Sr. Sublime impaciente. — Lai — ela me chama antes que eu saia do quarto. — Você não precisa se apaixonar. Se ele estiver solteiro, você pode aproveitar um pouco. Não deixe a vida escorregar de suas mãos sem aproveitá-la.


Dou um sorriso sem graça para Alana e me dirijo para a sala. O que ela não entende é que Antony não é do tipo que se dá uns amassos e depois apaga com uma borracha. Ele é intenso demais para ser esquecido. É como uma chuva ácida que tenho medo de me molhar, é como uma chama que só aumenta se eu chegar perto demais. E sei que vou me queimar. Chego à sala e os dois homens que estão sentados no sofá se levantam quando nos veem. Fico satisfeita pela forma que Antony está me olhando com ar de aprovação. De certa forma, tenho que concordar com ele. Estou me sentindo realmente linda. Ele engole em seco, seus olhos arregalados enquanto me inspecionam de cima a baixo. — Você está estonteante, Laís. — Obrigada. Você também está muito bonito. É verdade. Ele está lindo em um terno com listras finas, perfeitamente cortado e moldado ao seu corpo, e uma gravata preta de cetim que combina com meu vestido. Segura minha mão suavemente e sinto uma tensão elétrica tomando todo o meu corpo. Deus, se apenas seu toque faz isso comigo, imagine se me tomasse por inteiro? — Foi um prazer te conhecer, Alana — olha de lado para Daniel. — Tenham uma boa noite. Me despeço de Lana e ela pisca um olho sugestivo para mim. Minha amiga não tem jeito mesmo. Antony permanece em silêncio até que chegamos a uma imponente limusine com as duas portas traseiras abertas e um motorista nos aguardando. Não entendo para que tanto excesso se estamos indo para um simples lançamento de livro. — Esse tal de Daniel frequenta muito a sua casa? Oi? Estamos de volta àquela conversa na qual ele se mete em minha vida sem qualquer permissão e quando pergunto sobre a dele, permanece


completamente evasivo. — Sim, muito. Ele praticamente mora conosco — provoco, sem encontrar o sentido desta conversa. — Ele já tentou algo com você? Ah, mas é muito espaçoso mesmo. — Sim, várias vezes. Ele arregala os olhos como se eu fosse uma garotinha indefesa e estivesse confessando que Daniel abusa de mim. — E você continua permitindo que ele entre em sua casa? — Claro. Por que vou impedir meu amigo de entrar em minha casa quando ele tenta me fazer sorrir sempre, tenta me convencer a sair de casa com ele e sua namorada para me divertir um pouco, tenta ser o melhor amigo que alguém pode ser? Antony parece aliviado. — O que ele faz da vida? — Por que não perguntou a ele mesmo? Olha, não estou entendendo o motivo de tantas perguntas. Não consigo perceber por que minha vida pessoal possa interessar tanto ao meu chefe quando eu não sei nada sobre a dele. — O que você quer saber sobre mim, Laís? O rosto dele endurece como se a minha sugestão lhe incomodasse de alguma forma. Seus lábios estão pressionados em uma linha fina e seu olhar não encontra o meu. Sinto que há mais mistérios sob essa carapuça do que eu possa imaginar. — Nada, Antony. Nada e tudo ao mesmo tempo, uma vez que você se sente no direito de invadir o meu espaço. Que tal começar falando da sua noiva? Por que não é ela e sim eu quem está aqui? Ele desvia o olhar para a janela, observando a paisagem que se abre no caminho. — É complicado. Digamos que eu não tenha exatamente uma noiva ou um relacionamento. Eu apenas uso um anel que pertence à minha família por séculos e séculos. Só isso. Devo assumir que ele está dizendo que é solteiro? Por que simplesmente


não abre a boca e diz com todas as letras? — E sua família, de onde são? — Meus pais são descendentes de italianos e depois que meu pai se aposentou, eles decidiram morar na Itália, perto de outros parentes. Como sou filho único, fiquei no Brasil para administrar as empresas. — Uma família italiana... Olhando bem, você tem traços italianos. Pele morena, olhos marcantes, cabelos escuros e... — E...? — Nada. Bobagem a minha — ele volta a me encarar com um olhar interrogativo. Estava prestes a confessar o quanto ele faz jus à imagem que se tem dos machos alfa italianos cheios de autoconfiança e com uma veia dominadora. Sem falar no quanto são lindos. Juro que já parei na frente da TV uma ou duas vezes apenas para admirar os jogadores de futebol italianos. Mas Antony não precisa de mais um motivo para inflar seu ego gigantesco, embora ele não tenha dúvida do quanto é impressionante. Percebo que estamos próximos ao nosso destino quando minha visão ofusca por conta dos flashes que se aproximam do carro em busca de conseguir um minuto da atenção dele. Antony parece alheio a tudo que acontece lá fora, já que seus olhos não abandonam o meu rosto por sequer um segundo, deixando-me levemente constrangida com sua observação. — E os seus pais, Laís, por que não moram com você? — É uma longa história. — Ainda bem que nenhum de nós tem pressa, não é mesmo? Abro a boca para responder, mas o carro para e a porta ao lado dele é aberta por alguns seguranças uniformizados, enquanto outros tentam afastar os fotógrafos. Ele sai do carro e oferece a mão para me ajudar a sair também. Eu sei que é apenas um gesto educado, porém fico grata por ter um apoio quando não faço a menor ideia de como vou me manter por tanto tempo em cima desses saltos


enormes. Em momento algum ele larga minha mão enquanto entramos no hotel debaixo de flashes e algumas pessoas gritando o nome dele. Eu nunca vi tanto glamour em um lançamento de livro. O autor deve ser famoso no mundo literário. Somos conduzidos diretamente à área verde do hotel, onde um coquetel de lançamento está acontecendo. — Se comporte como uma boa garota, entendeu? Tem muitos abutres que vão tentar se aproximar e não quero ter problemas com isso — ele me adverte como se eu fosse algum tipo de propriedade dele. — Essa é a sua forma de dizer que estou bonita? — a pergunta foge da minha boca antes que eu me dê conta. — Não me provoque, Laís. — E você, pare com suas ordens. Eu vou me comportar do mesmo jeito de sempre. Se está insatisfeito com quem sou, não deveria ter me convidado. Ele abre a boca para responder, quando uma mulher loira, de meia idade, muito bem conservada se aproxima dele, o cumprimentando. — Fico feliz que achou um tempo em sua agenda apertada para vir prestigiar o lançamento do meu livro, Antony. Dá dois beijos leves no rosto dele e me oferece um sorriso simpático. Eles parecem ter muita intimidade e de repente sinto o desejo de convidá-la a tomar um chá e pedir para que me conte mais sobre esse homem misterioso. É claro que eu não ousaria. E nem ela me daria essa liberdade. — Eu não perderia por nada, Elizabeth. Além de tudo, estou transferindo a sede da editora para Verdes Montes e pretendo ficar mais próximo dos amigos como você. — Felizmente uma notícia boa. Conte-me, quem é essa linda garota? Ele abre um irresistível sorriso e sinto como se levasse um tombo. Não me recordo de nada que possa ser mais lindo e sedutor, mostrando duas covinhas nas quais tenho vontade de afundar minha língua. — Essa é Laís Oliveira, mestranda em Letras e apaixonada por livros. — Muito prazer, Laís. Posso te chamar assim, não é?


— Cla-claro. — E esta é Elizabeth Monroe, escritora e grande amiga pessoal. Estou claramente assustada e sem voz por saber que diante de mim encontra-se uma das maiores romancistas deste país. Elizabeth Monroe fala comigo neste momento, talvez sem ter ideia de que sou uma enorme fã de seu trabalho. Já li todos os seus livros. Como eu não soube que ela estaria na cidade? — O prazer é todo meu, Sra. Monroe. Sou uma admiradora das suas obras, já li todas elas. Parabéns por nos presentear com uma excelente escrita. — Ah, que fofa ela é, Antony. Gostei da garota. Pode me chamar de Beth, queridinha. Se você é amiga de Antony, é minha também. Algo me diz que vamos nos ver novamente em breve. — Não, desculpe se passei uma impressão errada. Eu sou apenas sua funcionária na editora, nada mais. Antony me surpreende quando puxa meu corpo para mais perto dele e coloca uma mão possessiva em minha cintura. — Você a verá mais vezes, Elizabeth, pode ter certeza disso. Olho para ele com um ar questionador e seu rosto não mostra qualquer preocupação, muito pelo contrário, parece mais despojado e à vontade na presença da amiga. Medo me invade. Medo de quê? Medo de me apaixonar pelo homem que se apresenta à minha frente, despido de sua máscara de CEO. Passamos por outros convidados, que recebem seus cumprimentos, mas ele não volta a me apresentar a nenhum deles. Me pergunto se teria se dado conta de repente que não deveria ter trazido uma simples funcionária a um evento desses. Ou será que existe outro motivo para ele praticamente me esconder dos outros convidados? Avisto Elizabeth, que agora está sentada entre desconhecidos, fazendo papel de anfitriã. Ela acena e nos aproximamos, então passo a observar a beleza daquele hotel com uma enorme piscina decorada, centenas de garçons circulando e pessoas que devem ganhar em um dia o que eu recebo durante o


ano. Pego uma taça de champanhe e tento acompanhar a empolgante conversa entre eles. — Chegou o momento do discurso, Antony. Você é o dono da editora e tem que falar bem de mim na frente desse povo metido. Vá lá e faça-me uma diva, querido. Todos riem à mesa. — Você é uma diva, Beth, não vou contar nenhuma mentira. Ele me dá um beijo que a princípio penso que vai alcançar meus lábios, mas desvia e alcança a maçã do meu rosto, me deixando um pouco decepcionada. — Se comporte — fala baixinho, antes de subir no palco. Vá se foder com suas ordens, Antony. Fico um pouco mais aliviada quando um rosto conhecido se aproxima. Meu chefe senta-se ao meu lado, depois de me cumprimentar e dizer o quanto estou linda esta noite. Deixo de ser o centro da atenção rapidamente quando Antony inicia seu discurso, deixando a todos hipnotizados. Permaneço sentada, assistindo, enquanto tomo goles de minha bebida, paralisada por aquele sorriso que não deixa seu rosto. Céus, se eu ficar mais tempo ao lado dele, estarei fodida da Silva. Percebo que eu não sou a única. Das mais jovens até as mais velhas, todas babam por tanta masculinidade e beleza. Todas o querem. E eu não posso negar que estou inclusa nesse pacote.


Estou tão

concentrada no discurso de Antony e alheia a todos ao meu redor, que sobressalto quando um dos convidados desvia minha concentração por um segundo ao me oferecer um copo de champanhe. Eu aceito, agradecendo-lhe com um aceno. Troco minha taça vazia pela outra cheia, tomando em um só gole como se fosse um delicioso copo de água. O líquido doce e gelado se torna bem-vindo em minha garganta que estava seca e eu não havia me dado conta. Outra taça é colocada diante de mim. Eu penso em recusar já que não sou de beber, mas como posso fazer isso quando o homem ao meu lado está se mostrando tão cortês? — Olá, te ofereci uma bebida, mas não fui educado o suficiente para me apresentar — o cara meio careca e rechonchudo me oferece sua mão. — Sou Luís Bastos, mas pode me chamar apenas de Bastos como os mais próximos chamam. — Como vai? — estendo a mão, devolvendo a cortesia. Ele leva mais tempo do que devia segurando-a. Isso não é nada bom. — Devo reconhecer que a cada dia o gosto de Antony por mulheres fica melhor. Já faz tempo que sai com ele? Merda, que dia me tornei uma idiota ingênua a ponto de não perceber que


qualquer homem aqui só me olharia como uma mercadoria barata? Todos devem estar supondo o mesmo que ele. Devem achar que sou a última conquista descartável do poderoso Antony Cavalcanti. — Sou apenas funcionária da editora Cavalcanti. Nada mais — falo, sentindo minha voz oscilar. — Apenas funcionária, certo. Sendo assim, essa conversa se torna ainda mais interessante. — Interessante? Do que você está falando? — Bem, homens como Antony se cansam muito rapidamente de suas conquistas. Talvez eu consiga te convencer a não se permitir ser uma delas. Deus, eu preciso sair de perto deste cara antes que eu faça ou fale algo de que me arrependa mais tarde. Tento levantar, mas ele segura meu braço. Ofereço-lhe um olhar nada civilizado, embora sua mão teime em me prender no lugar. Oh, Senhor, não me deixe fazer uma cena aqui. — Ela não está disponível, Bastos. Oi? Que horas Antony saiu do palco que não percebi? Olho à minha volta e observo que as pessoas ainda o aplaudem mesmo que ele pareça enxergar apenas uma em sua frente e, se eu fosse o outro, fugiria a léguas porque uma ameaça de morte nitidamente paira no ar. — Não foi o que ela acabou de dizer — Bastos solta um riso sarcástico que me deixa irada. Sua mão cai do meu braço. Filho da puta! Antony cerra as mãos em punho e me preparo para presenciar uma briga dos diabos, quando sou surpreendida por um puxão forte em meu pulso. — Venha comigo, Laís. Preciso apresentá-la a uma pessoa. Entendo a mensagem e me levanto, tentando descobrir para onde pretende me levar com tanta raiva. Antes de nos afastarmos, o idiota solta uma que certamente vai me dar o que pensar. — Por que não um pouco de diversão já que Marcela não está por perto? Bom saber que você continua o mesmo de sempre, amigo.


Marcela... o mesmo de sempre... Do que ele está falando? Sr. Osvaldo apenas nos observa e fico mortificada ao imaginar o que está pensando de mim. Ele acompanhou toda cena em silêncio. Vou morrer de vergonha quando tiver que encará-lo na editora. — Antony, calma ou eu vou acabar caindo. Ele sussurra algumas palavras, só que não consigo entender nenhuma delas já que minha concentração agora está unicamente em me equilibrar nos malditos saltos enquanto sou puxada com pressa. Depois de atravessar a área verde até um espaço onde não há convidados, avisto uma espécie de depósito um tanto escondido e escuro, rodeado de árvores e pequenos arbustos. Ele segue naquela direção com passos determinados e, ultrapassando qualquer limite existente entre chefe e funcionária, me escora contra uma árvore, prendendo meus dois pulsos nas costas com apenas uma mão, enquanto a outra segura meu queixo. — Como você ousa me desafiar dando conversa àquele idiota? Balanço a cabeça, tentando me desvencilhar de sua prisão, mas não consigo. E na verdade nem sei se quero. Antony consegue fazer o inferno de uma acusação e por que ainda assim meu corpo traidor está adorando seu contato? — O quê? Eu estava apenas tentando ser gentil e não armar uma cena na frente dos convidados. Ele puxa meu rosto ainda mais para perto, a luz do luar clareando apenas seus olhos ameaçadores, contudo... fascinantes. — Você aceitou bebida de um desconhecido, Porra! Se ele tivesse colocado alguma droga nela? Tem noção do quanto foi ingênua. Sim, eu já me dei conta disso. Acontece que você nunca vai ouvir da minha boca. — Bem, eu estou em um evento praticamente com um estranho. Eu já aceitei mais de você do que aceitei de qualquer outro homem. Será que não estou diante de algum tipo de psicopata e não sei? Ah, merda! Eu tenho o péssimo hábito de falar o que me vem à cabeça


quando perco o controle. Eu sempre digo que devo pensar antes de falar. Quando percebo, já saiu. — Olhe para mim, Laís — engulo em seco, fitando o fundo de seus olhos castanhos. — Preciso que tenha certeza de que eu jamais tocaria um só dedo em você sem sua autorização, está entendendo? Está de volta o CEO sério, negociador, persuasivo. Antony é lindo de qualquer jeito e por menos que eu entenda, algo me faz confiar nele. — Tudo bem. Eu não quis te ofender — solto todo ar preso em meus pulmões. — Apenas me sentia sufocada entre tanta gente importante e pensei que todos ali eram seus amigos. Acho que me enganei. — Ele te queria. Droga! Todo maldito homem deste evento te quer. Talvez não tenha sido boa ideia trazê-la aqui. Devia tê-la trancado num quarto. Neste momento não há algo que eu mais queira do que ser jogada sobre uma cama e sentir o peso do corpo de Antony sobre o meu. Acontece que qualquer quarto estaria longe demais para a necessidade que meu corpo está sentindo. Eu preciso ter um gosto dele e precisa ser aqui. Agora. Antes que eu implore, ele me puxa com força, devorando meus lábios no beijo mais quente e faminto que já provei. É como paraíso na terra. Sua mão esquerda ainda me aprisiona enquanto que a direita afasta uma alça do vestido com destreza, expondo um seio necessitado, depois outro. — Todos eles te querem, Laís. E eu quero ainda mais. — Oh! — suspiro, arquejando meu corpo para lhe dar melhor acesso. Ele me provoca traçando círculos, apertando os bicos dos meus seios até que eu solte um gemido de dor que logo se transforma em prazer. Uma, duas, três vezes sou levada ao limite da dor, me contorcendo sob sua mão ágil. Sua boca desce pela orelha, pescoço, e, em lugar da mão, logo sinto a língua quente a ponto de me levar à loucura quando me chupa, explora, desafia. Minha boceta lateja, meu corpo implora. Eu preciso ter mais dele. É mais do que eu posso suportar. — Antony, mais para baixo. Eu preciso. Mostro o quanto estou necessitada ao segurar o cós da calça dele com toda


força, enchendo minha mão com um pau grande e latente. Eu posso sentir o quanto ele está duro e me deseja. Por que insiste em me provocar tanto? — Safada e linda. Você vai ter o que quer. — Então me dê. — Sim, querida. Vou lhe dar, mas não será aqui. Tenha um pouco mais de paciência. Estou quase abrindo a boca para dizer que está me pedindo o impossível quando rapidamente meu vestido é levantado e, sem hesitar, Antony empurra minha calcinha para o lado e enfia o dedo indicador em minha boceta, fazendo pequenos giros com ele. — Ah! — lamento, jogando minha cabeça para trás. — Quente e molhada. Tão pronta para receber meu pau dentro de você. Ele está babando ansioso. Não vejo a hora de tirá-la deste lugar. — Antony... É tudo que consigo falar já que estou sendo invadida por um mundo de sensações. Não há um grama de razão em mim. Apenas emoção. Deixo-me levar. O movimento de seu dedo acompanha as batidas de meu coração. Ambos estão cada vez mais rápidos. — Mais. Eu quero mais. Ele me dá. Em instantes a boca quente libera meus seios de sua doce provocação e alcança meu clitóris inchado e carente de atenção. Ele empurra outro dedo. Eu não resisto. Me contorço, gemendo cada vez mais alto, então Antony solta meus pulsos e tapa minha boca, intensificando meu tesão ao me dar conta de que estou recebendo sexo oral em um local aberto onde qualquer um pode nos ver. Como é excitante! Ele brinca, morde, se delicia com meus fluidos, soltando pequenos murmúrios de prazer. É muito. Sem demora, meu corpo passa a convulsionar em um orgasmo intenso, profundo, delicioso. Ele nunca deixa de me devorar até o último espasmo. Antony levanta e lambe os lábios, fechando os olhos quando escorrega seus dedos melados pelo meu gozo na boca. Eu poderia morrer apenas com


essa visão. — Eu tinha certeza de que não havia me enganado com você. É realmente deliciosa. Me aproximo para beijá-lo e tocar seu pau, mas ele agarra minhas mãos no ar e me afasta repentinamente. Sou um poço de confusão mais uma vez. Que merda ele está fazendo? — Nós não vamos... quer dizer, eu pensei que... — Não vamos fazer sexo aqui, Laís. Você merece mais do que ser tratada como uma puta que pode ser vista por qualquer um que decidir passear por esse lados. — Mas você acabou de fazer sexo comigo, se não me engano. Sexo oral não está na sua lista de como uma puta deve ser tratada? Ele aperta seu pequeno diamante na orelha e passa a girá-lo como um hábito nervoso. — Eu não vou discutir com você. Preciso voltar para o evento ou as pessoas vão começar a me procurar. Mais tarde a gente continua essa conversa. Agora eu não tenho dúvida nenhuma de que ele é bipolar. — Se pensa que vou ceder aos seus caprichos mais tarde está muito enganado. Se queria me foder, acaba de perder sua oportunidade, seu... seu arrogante. — Você vai ceder a cada um deles. Pode apostar. Desista de perder energia fugindo do inevitável. Você sabia que acabaríamos numa cama desde o começo. É mais forte do que nós. Com o rosto impassível, como se não tivesse acabado de me dar um orgasmo alucinante e depois me recusado, ele caminha de braços dados comigo e me deixa sentada em uma mesa sozinha enquanto cumprimenta algumas pessoas. Penso em resgatar o resto de orgulho que ainda tenho e sair dali correndo, mas decido permanecer onde estou e bancar o papel de funcionária que aceitei desempenhar até o fim. Talvez uma taça ou duas de champanhe me ajude a encarar esta noite cheia


de incertezas. Mesmo que o olhar constante de Antony em minha direção não deixe qualquer sinal de dúvida. Ele ainda me quer.


Oh,

Deus, eu não sei se já é o efeito do álcool, mas em alguns momentos, sinto vontade de me beliscar. Eu não acredito que estou ouvindo Elizabeth Monroe discursar tão próxima a mim. Leandro vai enlouquecer quando eu contar. Eu já bebi pra lá de cinco copos de champanhe e estou começando a me sentir tonta. Será que foram mais de cinco? Talvez já tenha perdido as contas quando Antony vem sentar-se ao meu lado, sua visão agora direcionada ao palco. Lembro-me nitidamente dele ter me tratado com arrogância e minha decisão de terminar esta noite exatamente do modo que comecei, como uma simples funcionária, mas a bebida começa a anuviar meu discernimento e já não me sinto tão certa assim. Não que eu esteja bêbada. Imagina. Digamos que apenas... um pouco mais animada a encarar o que vier pela frente esta noite. — Ela é maravilhosa, não? Também já li todos os seus livros e não sei dizer qual o melhor deles. Todos são ótimos. Antony é fascinante quando está descontraído exatamente como agora. O modo que olha para Elizabeth parece que o humaniza de alguma maneira. Eu quase acredito que há um coração batendo no peito dele.


— Ela nasceu para escrever. É uma das minhas favoritas — respondo com carinho e admiração. Ele segura minha mão sobre a mesa e sinto como se algo estivesse queimando. Percebo que alguns olhares curiosos estão em nossa direção. Desta vez ele vira para me olhar, sorrindo levemente. Droga! Por mais que eu tente ver esse homem apenas como meu chefe, todas as minhas tentativas falham inevitavelmente. Não é apenas sua beleza que me atrai. O charme dele, o amor pela literatura, a forma como meu corpo reage ao seu toque, a sensação de estar entrando em um terreno intransponível. Todo esse conjunto lhe dá um magnetismo ímpar, faz com que ele seja único. E isso definitivamente é uma merda. — Qual o seu sonho, Laís? O que pretende fazer quando terminar o mestrado? Saio dos meus devaneios, achando estranho ele fazer esse tipo de pergunta quando tem feito tantos planos para a empresa nos quais estou incluída. Eu não sei se é o efeito do álcool que me encoraja a falar. Quando percebo já estou me abrindo para ele. — O grande projeto da minha vida é me tornar professora universitária. Sei que ainda tenho um enorme caminho a trilhar, mas farei o possível para chegar lá. Quero compartilhar meu amor pela literatura com outras pessoas. — Eu entendo. Foi por isso que abri uma editora. É o que gosto também. Senhor, por que sinto um forte desejo de voar em seu pescoço e enchê-lo de beijos quando diz coisas desse tipo? Será que qualquer mulher que se aproxime intimamente dele consegue sair com o coração ileso? Entorno mais uma taça de champanhe me perguntando por que eu experimentei poucas vezes uma bebida tão deliciosa. Talvez porque sequer me lembre da última vez que saí, muito menos que tenha consumido álcool. — Não acha que já bebeu demais? Estreito o olhar, com receio de que ele acabe despertando meu pior lado se fizer mais uma pergunta ofensiva. — Não sou sua filha para ficar me impondo limites. Se acha que estou bêbada em sua festa de gente esnobe, me leve pra casa. Eu não pedi para vir em primeiro lugar.


Ele não responde, apenas me observa. Depois de um tempo se levanta impetuosamente e caminha em direção a Elizabeth que já terminou seu discurso e começa a dar autógrafos. Percebo quando diz algo em seu ouvido e ela faz uma careta, acenando negativamente. Antony lhe dá um abraço e dois beijos no rosto. Estou meio zonza, contudo consigo registrar o momento que ele se despede dela e volta para o meu lado. — Vamos? — seu tom de voz não é um convite. Ele não está me dando uma opção. O filho da puta vai me levar para casa mesmo, já que não quer manter uma bêbada a tiracolo. Droga, o que aconteceu comigo para beber tanto esta noite? Ele segura minha cintura possessivamente e nos encaminha até a saída sem dizer mais qualquer palavra, com sua máscara de executivo de volta no rosto. Nenhum sinal daquele homem que me deu um orgasmo sublime há algumas horas. Nenhum sinal de descontração como agora há pouco. Nossos passos são interrompidos por um rosto conhecido que faz questão de chamar a atenção de Antony, fazendo-o parar, nitidamente a contragosto. Eu não quero ir para casa. Apesar de tudo, não estou pronta para me distanciar dele quando tudo em mim implora para que esteja ainda mais perto. Para que diabos fui sugerir exatamente o que eu não queria? — Já está indo, Cavalcanti? Se eu tivesse uma linda mulher como esta ao meu lado também estaria com bastante pressa. — Se pensa assim, por que está me impedindo de seguir meu caminho? Tenha uma boa noite, Bastos. Como uma louca desvairada, sob o forte efeito do champanhe, eu começo a rir. Sou tomada por uma crise de risos incontrolável quando finalmente me recordo com quem ele se parece. O homem baixo e calvo à minha frente é a verdadeira caricatura do personagem Pinguim do Batman. — Tem razão. É uma pena que eu não encontre tão boas opções quanto você encontrou. A diversão o espera. Boa noite. Ainda aos risos, encosto uma mão no ombro dele na tentativa de me equilibrar. — Ele tem que me levar, pois acha que estou bêbada. Eu pareço bêbada,


Pinguim? — soluço. — Convença seu amigo de que ainda está cedo para irmos. Com as vistas nubladas, percebo que o cara só me olha confuso e sorri, enquanto Antony puxa meu braço e me carrega de lá às pressas. Entro no carro, dando gargalhadas e me jogando sobre ele que não esboça qualquer reação. — Dê a partida — ordena ao motorista. — Para onde, senhor? — Leve-nos para o melhor hotel que tiver nas proximidades. Hotel? — Chefe, sabe que andei lendo uns livros ultimamente que me deixaram subindo pelas paredes? Se fosse com você, teria coragem de me deixar ser amarrada. O que acha da ideia? Ele não me dá qualquer resposta, apenas me mira com o seu olhar impenetrável e volta a observar as ruas pela janela do carro. — Vai fazer greve de conversa? Pois bem, eu sei que você me quer, senão eu não estaria aqui. Vamos ver quanto tempo dura seu silêncio — continuo provocando, ao mesmo tempo sorrindo sem nem saber por que motivo. Encosto minha cabeça no ombro dele já não conseguindo manter o peso dela sobre o pescoço. Antes que perceba, estou cochilando. Algum tempo depois, um agito forte no meu ombro faz com que eu desperte, mesmo que meu corpo relute para se manter adormecido. — Onde estamos? — No Hotel Quatro Estações. — Hum... você me trouxe para um hotel? — Sim, Laís, eu a trouxe para um hotel. Como eu imaginava, o convite de Antony para vir a esse evento incluía uma noite de sexo quente com sua revisora. Talvez se eu não tivesse bebido tanto, estaria mais contente com essa perspectiva. No estado que me encontro, não teria sido melhor que ele me levasse embora? Acontece que há uma voz interior me pedindo para ficar. Eu não sei dizer


se é de um anjo ou de um diabinho. Só sei que estou totalmente convencida a ouvi-la. Enquanto minha mente decide se deve se manter consciente ou inconsciente, acompanho fragmentos de conversa entre ele e uma recepcionista, o momento que entramos no elevador e quando chegamos até uma suíte. Antony para na entrada, abre a porta e aproxima o seu rosto do meu, depositando um beijo casto em minha bochecha. Quando se vira para ir embora, agarro seu braço. — Se não tinha planos de continuar, por que começou hoje mais cedo? — Às vezes até mesmo os melhores planos precisam ser modificados. Você acha que vai ficar bem? Tenho certeza de que meus olhos estão quase implorando para que ele fique comigo esta noite nem que seja apenas para me segurar, me dar a sensação de que estou protegida. Busco coragem para lhe pedir que não me deixe quando sinto um embrulho forte no estômago que não me dá outra alternativa senão correr para o banheiro ou o vexame desta noite estará completo. Fico grata por ter tempo de chegar ao vaso antes de botar pra fora tudo que ingeri não apenas durante a festa, mas provavelmente durante todo o dia. Antony segura meus cabelos e os prende com mãos habilidosas, fazendo um coque no topo da minha cabeça, como se já tivesse feito isso outras vezes. Onde ele aprendeu? Este deveria ser meu último pensamento quando estou quase largando minha alma no banheiro. — Não precisava me acompanhar. Você não estava indo para o seu quarto? Essa é a melhor frase que consigo formar para tentar abafar a vergonha de ter que encará-lo nessa situação provocada por mim mesma. Inferno, o que deu em mim esta noite? — Você está pálida e não preciso ser nenhum especialista para perceber que não está bem, Laís. Eu não seria irresponsável a ponto de deixá-la sozinha neste quarto. — Desculpe te causar esse constrangimento. Talvez o hotel consiga um táxi a essa hora e antes que eu perceba, estarei em casa. Eu nunca fui de beber.


Deve ter sido o nervoso. — Eu te deixo nervoso? Embora eu tenha me livrado do bolo preso na garganta e me sinta um pouco melhor, ainda estou vendo um Antony duplicado em minha frente. Pensando bem, a ideia de ir embora não é tão boa assim. — Você me deixa... confusa. — Muito bem. Eu gosto de confundi-la. Faz-me perceber que eu não sou o único. — Eu fiquei nervosa por tudo, Antony. Todas aquelas pessoas me tratando como se eu fosse invisível, um objeto à venda, me incomodou. Como ia lidar com isso? Ele me puxa para perto de si e desfaz carinhosamente o coque em meus cabelos, deixando ondas caírem em camadas sobre o meu rosto. — Seus cabelos são lindos e perfeitos para os planos que tenho para você. Venha para a cama. Vou pedir aspirinas e depois uma boa noite de sono te fará bem. — E você... vai dormir comigo? — Não, Laís. Se você está preocupada que eu possa abusar da sua vulnerabilidade, a resposta é não. Gosto de minhas parceiras bastante sóbrias. Vou me arranjar por aqui. Oh, Deus, que loucura eu fiz esta noite! — Além da cama, há apenas um sofá. Não é justo que você durma nele. Pode ficar com a cama. Eu me viro. Ele pega em minha mão e me conduz até a cama sem dizer uma palavra. Puxa a coberta e ajeita os travesseiros de modo que minha cabeça fique elevada. Faz tudo com tanto jeito e carinho que por um instante sinto vontade de convidá-lo a partilhá-la comigo. Contudo um fio de razão me lembra que ele só está ali porque o coloquei nessa situação constrangedora. Ainda tem outro agravante, Laís. Você está bêbada. Esse homem lindo e perfumado jamais ia se prestar ao papel de dormir ao lado de uma bêbada. Aceito o convite de deitar na cama mesmo que não me sinta confortável


para isso, sabendo que de nada adiantaria contestar mais uma ordem silenciosa de Antony. Afundo no colchão macio e fecho os olhos. A última coisa que me lembro é dele me oferecendo um analgésico e me cobrindo com uma colcha quente e grossa. Eu poderia me apaixonar facilmente apenas por seus pequenos gestos carinhosos. Eu poderia, se minha única preocupação agora não fosse a ressaca infernal que eu terei amanhã. E espero não ter dito ou feito muito de que eu precise me arrepender. É tudo que espero.


Deus,

quem jogou um piano sobre minha cabeça? Acordo lentamente, grata pelo quarto ainda estar escuro e não precisar enfrentar a claridade do sol até que meu corpo desperte de verdade. Olho à minha volta, estranhando o lugar onde estou e flashes da noite anterior começam a encher meus pensamentos. — Está melhor, Laís? Oh, meu Deus! Antony está deitado em um sofá que mal cabe suas longas pernas, desafiando algumas leis da física naquele curto espaço. — A minha cabeça ainda dói um pouco, mas acho que poderia ter acordado pior. É tão injusto vê-lo espremido nesse sofá. — Você preferia que compartilhasse a cama com você? Olho para ele apreensiva. Eu não posso ser tão óbvia e confessar que sim, preferia que ele compartilhasse a cama comigo. — Tanto faz — demonstro um pouco de nervosismo. Ele levanta do sofá, esticando as pernas, e caminha em minha direção me deixando receosa com o que pretende fazer. Quase sinto decepção quando apenas segura a minha mão, forçando meu corpo a se levantar. — Eu pretendia ir embora antes que você acordasse, mas lembrei que eu precisava responder a uma certa pergunta que você fez.


— O que exatamente te perguntei? — Por que eu havia começado se não pretendia terminar. Não havia algo que eu mais quisesse fazer, e faria, caso não estivesse bêbada ontem. Eu sei que ele tem razão, mas não vou lhe dar o gostinho de saber disso depois de ouvir seu jeito arrogante de falar. — Quem disse que aconteceria algo entre nós ontem? Eu não sou uma mulher desesperada a ponto de me abrir para o primeiro que aparecer. — Então sua pergunta foi por conta do champanhe? Por falar nisso, você está acostumada a encher a cara, Laís? Parecia muito familiar com a bebida. Já não basta a vergonha, ainda tenho que buscar paciência... — E eu que pensei que soubesse tudo a meu respeito. Suas investigações não incluíam a quantidade de álcool que eu consumo por semana? — É, confesso que investiguei isso também, mas pensei que poderia ter algum erro em minha pesquisa. Então ficou bêbada por falta de costume? — Belíssima conclusão. Eu até pediria desculpas por ontem se fosse um pouco menos estúpido, porém pensando melhor, talvez tenha me embebedado justamente por me sentir oprimida em sua presença. — Fico feliz em saber que consigo tirar alguma reação de você. Pelo menos não me ignora. Ele passa a andar pelo quarto, me deixando um tanto zonza. Continua em seguida. — Venha tomar um banho. A loja deixou comigo alguns daqueles vestidos que estavam no salão de beleza, então mandei que meu motorista trouxesse. O que ele quer dizer? — Por que eles fariam isso? Olhe, Antony, eu já trouxe problema demais para você. Talvez seja melhor que eu vá embora de uma vez, já que hoje é outro dia e sou totalmente capaz de me cuidar. Dou a volta para alcançar a porta, quando ele me prende em seus braços, seu rosto a centímetros do meu. — Me deixe cuidar de você, Laís. Engulo em seco, confusão se tornando meu segundo nome. O que esse homem está me propondo? Será que apenas quer fazer a coisa certa tomando


conta de sua funcionária com ressaca ou está pedindo para que fique com ele? As palavras que vêm a seguir não deixam dúvida. — Fique comigo. Eu tenho alguns planos para esse dia. Meus olhos procuram um sinal em seu rosto que me prove que não estou ouvindo demais, que ele realmente me quer ao seu lado, apesar de todo vexame. Nossos olhos se cruzam e neles estão toda resposta que eu buscava. Antony me olha com desejo, paixão, praticamente implorando. Ele é meu chefe e uma relação pode comprometer meu trabalho? Sim. Mesmo assim eu terei forças para resistir à intensidade daquele olhar? Não. — Tudo bem, Antony. Eu vou ficar. Os traços de seu rosto parecem aliviados. Ele abre seu melhor sorriso matador e sinto-me segura da minha decisão. Eu tenho a necessidade de beijar cada pedaço daquele lindo rosto. — Você não vai se arrepender, Laís. Sim, eu não vou. Estou cansada de ser racional e tomar todas as decisões depois de pesar uma centena de vezes. O que sinto por Antony está me inquietando, então decido me dar a chance de viver essas sensações. Entro no banheiro e, quando penso em fechar a porta deixando-lhe do lado de fora, ele me acompanha, encostando a porta atrás dele. — Eu disse que vou cuidar de você e eu não costumo demorar a cumprir minhas promessas. Apenas relaxe e confie em mim, querida. Fecho os olhos e respiro fundo. Eu estou suja e minha aparência não deve ser das melhores. Mesmo assim esse homem sublime se propõe a cuidar de mim. Por que não aceitar sua sugestão e relaxar? Ele começa a tirar meu vestido lentamente, deslizando as alças sobre meu corpo me deixando exposta, apenas de lingerie. Antony toma um tempinho apenas para me observar, passando a língua pelos lábios para umedecê-los. — Você tem ideia do quanto é linda, Laís? Eu não tenho problema de baixa autoestima ou qualquer coisa do tipo, mas ouvir de sua boca o quanto sou bonita parece que traz mais credibilidade e por


um momento me sinto de fato uma verdadeira princesa sob sua inspeção. — Obrigada. — Essa lingerie foi feita para moldar o seu corpo, mas ela vai ter que sair agora, querida. Ele me vira de costas, abrindo meu sutiã com muita habilidade enquanto deposita pequenos beijos em minha nuca que fazem meu corpo tremer instantaneamente, e se abaixa para deslizar a calcinha entre minhas pernas, roçando suas mãos longas em minha bunda. Eu deveria estar tímida, retraída como sempre fui, contudo o modo como me toca emerge em mim o sentimento de poder, determinação, feminilidade. Quando Antony me vira de frente para ele, qualquer dúvida que ainda pudesse restar no fundo da minha consciência se dissipa como fumaça. Seus olhos estão em um tom castanho, quase amarelados, praticamente soltando faíscas. Ele começa a tirar sua própria roupa, sem deixar de mapear meu corpo com o olhar, mas eu seguro suas mãos. — Deixe-me devolver o favor. Ele me oferece um sorriso sensual e abre os braços, ficando à mercê do meu toque desta vez. A cada botão que se abre em sua blusa, penso em um adjetivo que possa qualificar esse homem. Lindo, delicioso e sublime piscam em minha mente como luzes num belo dia de Natal. Ele está agora diante de mim apenas de boxer e me lembro de Claudia me chamando de vadia sortuda. É isso que sou. Uma vadia sortuda. — Sublime — digo, quase em um sussurro. — O que falou? — Você deveria ser chamado de Sr. Sublime. Ele joga a cabeça para trás e dá uma gargalhada forte, mostrando seus dentes brancos e alinhados que embelezam seu lado descontraído poucas vezes mostrado. Antony é perfeito em cada pedaço, com a silhueta que daria inveja a qualquer modelo, ombros grandes e músculos na medida certa, abdome definido que leva a um V tão atrativo quanto um imã.


Talvez uma só palavra não seja suficiente para definir melhor esse homem diante de mim. — Eu devia então te chamar de Sra. Sublime — ele diz e já me vejo disposta a acreditar em qualquer coisa que saia de sua boca. Seguro a borda de sua boxer, mas ele me freia. — Eu sei que parece injusto já que você está nua em pelo na minha frente, mas, querida, se você tirar minha cueca, juro que todos os meus planos de ir devagar com você vão por água abaixo. — Eu não me importo — a frase sai de minha boca antes que eu perceba, contudo não me arrependo. — Eu me importo. Prometo que farei valer a pena cada segundo de espera. Antony prende meus cabelos em um coque novamente e faço uma nota mental de lhe perguntar onde ele desenvolveu essa habilidade. A água está morna na piscina de hidromassagem quando ele senta e me convida a sentar diante dele num encaixe perfeito. Fecho os olhos e me deixo levar pelo mundo de sensações que está me proporcionando quando derrama sabão líquido nas mãos e massageia meu corpo suavemente, traçando círculos em meus seios, descendo pelo ventre, ele brinca com meu umbigo, até alcançar minhas pernas e o meio delas. Minha nossa, como isso é bom! Seu pau lateja em minha bunda como se estivesse desesperado para ficar livre e mostrar sua imponência. Fico intrigada com o autocontrole de Antony já que meu corpo não parece ter nenhum. Enquanto ele me adora bem devagar, lentamente, meu corpo urge para senti-lo dentro de mim com ânsia, necessidade. Me contorço, mostrando o quanto reajo ao seu toque, mas ele teima em continuar me provocando, traçando meu pescoço, rosto e orelha com pequenos beijos e mordidas. — Ah, Laís, o que eu vou fazer com você? Tenho tantos planos para nós dois. Nós. Pela primeira vez, Antony fala no plural. Nós. Será que existe um nós mesmo? Será que eu devo acreditar que ele está


sugerindo uma relação, algo que ultrapasse esse dia? Chega de pensar, merda. Lembra que você combinou de apenas se deixar levar hoje? Estou limpa e relaxada quando ele me segura pela cintura, forçando-me a levantar da banheira. Antony me enrola numa toalha e me conduz até a pia onde fazemos nossa higiene matinal. Voltamos para o quarto. — Sente aqui, Laís. Eu quero muito me enterrar em você. Na verdade, não consigo me lembrar de alguma coisa que eu queira mais. Acontece que preciso esclarecer alguns pontos antes de levá-la para a cama. Esse é o momento que todo encanto acaba? Por que ele não pode simplesmente me comer e amanhã a gente pensa nas consequências? A primeira vez que tento deixar de ser racional, ele resolve conversar. Rá! Sento na cama ao seu lado e encaro um par de olhos ansiosos. Ele segura minhas mãos, alisando seu polegar enquanto se prepara para falar. Eu posso ficar completamente distraída com esse gesto. — Derrame de uma vez. O que nos impede de fazer amor? Ele respira fundo antes de começar. — Eu a quis antes mesmo de me esbarrar com você naquele dia. — Como assim, Antony? De onde você me conhecia? — Eu estive na empresa há cerca de um mês antes de trazer a matriz para a cidade e não pude deixar de notá-la enquanto caminhava linda e apressada. O modo como parecia séria e profissional me intrigou. Levantei toda sua ficha depois disso. — Você está confessando que me espionava durante todo esse tempo? — Não. Eu não fiz. Apenas pesquisei o que estava disponível na empresa. — Certo. Então foi por isso que você já sabia meu nome e que eu andava sempre atrasada quando nos esbarramos. — Nós não nos esbarramos. Eu tropecei em você de propósito. Aproveitei que estava de cabeça baixa e fiz parecer que foi acidental. Eu queria que me notasse. Uau, quantas revelações. Até parece que Antony é o tipo de homem que consegue passar despercebido por algum lugar. Eu o notaria de qualquer jeito.


— E pensar que me senti tão culpada por causa disso — solto um riso fraco. — Aonde você quer chegar, Antony? Ele baixa a cabeça por um segundo, pensativo, e acho que vejo um lampejo de medo passar por suas feições. Levanta a cabeça e me olha determinado. — Laís, eu vou direto ao ponto. O fato é o seguinte: eu quero... na verdade, quero não, eu preciso de você. Não há qualquer outro assunto que ocupe mais meus pensamentos do que a necessidade de tê-la em minha cama. Céus, por que estou sentindo tanto calor? — Está me pedindo em namoro? — Eu a quero demais, contudo... não estou em busca de relacionamento. Não pense que tenho medo de me relacionar ou algo do tipo. Não é isso. Apenas estou com a vida complicada demais para ser o que uma mulher como você merece que eu seja. Então é isso. Ele simplesmente está jogando a batata quente no meu colo e me pedindo para que tome as decisões. Minha vida também não é nada fácil, mas, ainda assim, eu estaria disposta a me abrir para um relacionamento. Agora é minha vez de perguntar. Oh, Antony, o que vou fazer com você? Se um dia cheio de sexo é só o que ele tem a oferecer, eu não posso negar quando meu corpo ferve desejando ser tomada por ele. — Tudo bem, eu entendo. Você vai me levar para a cama hoje, vamos ter um monte de sexo quente e amanhã podemos fingir que nada disso aconteceu e continuarmos com nossas vidas. Será que tudo isso vai ser processado assim tão facilmente em minha cabeça quanto estou dizendo? Não é hora de pensar, Laís. Silencie a voz da sua consciência. Ele me olha atravessado e um tanto quanto confuso. Parece que ele esperava que eu implorasse por um relacionamento ou algo do tipo. Embora, meus pensamentos estejam turvos, eu ainda tenho meu orgulho. — Não é isso que estou propondo. Eu quero mais do que um dia cheio de sexo quente, como você supõe. — Acho que você não está sendo claro o suficiente. Está propondo que eu seja sua amante?


— É um termo muito pesado. Não precisamos classificar a atração que sentimos um pelo outro. Eu a quero, você me quer, fim de história. — Não sei com quem está me confundindo, mas eu nunca me prestaria a esse papel. Não sou mulher de esquentar cama de homem algum e nem preciso disso para me sentir realizada. Minha vida está muito bem, obrigada. — Você não vai facilitar as coisas, não é mesmo, Laís? Que droga! Se eu dissesse que é um namoro, você cederia? Não sei por que as mulheres vivem tanto em busca de compromisso. Isso torna as coisas mais complicadas, não acha? — Sr. Cavalcanti, — ele levanta uma sobrancelha em questionamento. — se o senhor não tiver nenhum assunto profissional para tratar comigo, gostaria de pedir licença e ir embora. Sabe aquele olhar mortal que chega a dar uma pontada de medo? É assim que ele está me encarando. Só que medo é a última coisa que eu estou sentindo. Raiva pode ser a palavra mais adequada. — Pare de me provocar ou terei que te provar que seu corpo anseia por aceitar minha proposta. Levanto da cama e dou as costas para ele, deixando a toalha cair. Procuro desesperada por qualquer peça de roupa pelo caminho, pois tudo o que anseio neste momento é deixar de respirar o mesmo ar que Antony. Em uma fração de segundo, ele vem até a mim e segura meus pulsos, me aprisionando contra a parede. Estou nua, ofegante, ultrajada com sua sugestão. — Calma, será que você pode me ouvir? Desculpe se deixei uma má impressão com o que disse. Na verdade, o que eu quero mesmo é que aceite passar algum tempo comigo sem que a gente precise denominar o que temos. Deus, eu perco a lucidez quando ele está tão perto desse jeito e praticamente me implorando que seja dele. Eu poderia fazer isso? Será que eu seria capaz de separar razão de emoção, me contentar com apenas alguns momentos ao seu lado e depois dizer adeus sem ficar com um coração partido? A resposta é não, Laís, e você sabe disso. Mas ainda assim algo me diz para arriscar. Talvez seja melhor correr o risco de me arrepender de tudo que vivemos do que olhar para trás e me lamentar pelo que poderia ter vivido.


— O que você quer de mim exatamente? Ele desliza seu dedo indicador pelo meu rosto, parando no limite dos meus lábios e os delineia como se precisasse memorizar cada pedaço deles. — Pela primeira vez, eu tenho que dizer que não sei. Eu a quero com tamanha intensidade que não consigo imaginar se algum dia vou deixar de querer. Apenas te peço que me dê a chance de levar isso aos poucos, do meu jeito. — Eu vou me machucar, Antony. Ele leva um pulso, depois outro aos seus lábios, beijando cada um deles em um gesto que já fez anteriormente. Eu achei muito sensual da última vez e estou achando ainda mais desta. — Eu não posso dizer que você não vai, Laís. Mas se te servir de consolo, confesso que estou apavorado com a possibilidade de me machucar ainda mais do que você. Sua doçura e intrepidez não saem da minha cabeça. Você mexe demais comigo. — Oh, Antony! Ele folga meus pulsos, então aproveito a oportunidade para me jogar em seus braços e lhe mostrar sem palavras que ele não é o único aqui sofrendo em necessidade, que estou disposta a pegar o que ele tiver a oferecer por agora. Estou pronta para lutar e quebrar essa parede que ele construiu em volta de seu peito. Eu já tenho seus pensamentos. Será que através deles eu encontro o caminho para o seu coração?


Antony

é como um furacão do qual não se encontra saída. E quem disse que quero sair? Sentindo o quanto estou ansiosa, ele puxa meu rosto com vontade e passa a me beijar com gana, ânsia, ambição. Devora minha boca, forçando a entrada de sua língua e lhe dou acesso irrestrito a tudo que queira tomar de mim. Ele me marca com seu beijo e já não consigo ver qualquer sinal da doçura com que eu estava sendo tratada. Não há gentileza em sua pegada e não posso negar o quanto me atrai conhecer cada vez mais seus dois lados. Ele pode ser o arrogante de um CEO tão frio quanto uma pedra de gelo quando quer, mas consegue ser mais quente que o inferno quando perde o controle. — Deixe-me olhar para você — ele diz, quebrando nosso contato quando toma alguma distância e estende o braço para me mapear com sua inspeção. — Gosta do que vê? — pergunto, lembrando dele ter dito algo parecido quando o encontrei pela primeira vez. — Você é muito, muito sexy, sabe disso? Oh, Deus! — Devo ser muito simples diante das mulheres com quem você já saiu. Não tenho todo aquele glamour que vi em algumas lá no evento.


— Você é muito mais que qualquer uma delas. É perfeita, Laís. Tudo em você é verdadeiro — ele me puxa para perto novamente e aperta minha bunda, roçando em sua virilidade rígida e pronta. — Isto aqui é real. Brinca com meus seios. — Estes são deliciosamente reais... Beija cada pedacinho do meu rosto, parando em minha testa. É incrível a reação do meu corpo ao menor contato sequer. — E esta cabecinha aqui... é muito irritante algumas vezes, mas amo o quanto posso falar sobre qualquer assunto com você e terei sempre uma resposta inteligente na ponta da língua. Você é admirável. Suas palavras me atingem e já não tenho forças para controlar o pensamento impulsivo de lhe pertencer de qualquer jeito. Sinto sua respiração forte, sôfrega, quando minhas mãos percorrem seu abdômen e param em sua virilha, então aperto para sentir seu pau imponente latejar contra minha pele. Ele ainda está de boxer, mas ela precisa sair agora. Já não aguento mais esperar. — Te quero, Antony. Solto um gritinho quando ele me carrega no colo e me joga na cama, cobrindo meu corpo com o seu. Volta a me beijar ao mesmo tempo que explora meu corpo com as mãos, penso que vou morrer se continuar apenas me provocando. Enquanto me enche de carícias, puxo sua cueca molhada com os pés e o deixo nu em pelo assim como estou. Céus, se essa protuberância for um sinal de seu tamanho, eu não faço ideia de como isso vai caber em mim. — Por favor, deixe-me te ver. Ele me oferece um olhar faminto e se levanta, expondo sua virilidade morena e pesada, exatamente como eu imaginava nos meus sonhos mais molhados. Seu pau é desmedido e deve fazer vergonha à grande maioria dos homens. Minha boca enche de água. Preciso prová-lo. — Você já fez isso antes, Laís? Não é possível que ele me considere tão inocente a ponto de nunca ter feito sexo oral com um homem. Está certo que não sou nenhuma Afrodite, mas já


tive um relacionamento sério, então devo ter alguma prática. — Eu já namorei antes, Antony. Faz tempo que não sou mais uma garotinha. Sua boca fecha em uma linha fina e ele parece se zangar com a menção de um ex-namorado. Aproximo meu rosto para saboreá-lo quando ele me segura com duas mãos. — Quantos? Rá! Isso só pode ser uma piada. O homem disse há pouco que eu serei apenas mais uma a entrar em sua lista incontável e quer saber quantos eu tive? Ele não precisa saber que Bruno foi meu primeiro e único. — Alguns — provoco. — Tantos assim que você nem consegue contar? — Não é da sua conta. Se quer me julgar pela quantidade de homens que passaram ou não por minha vida, o problema é seu. Esse tipo de informação é desnecessário quando não temos um relacionamento, como você salientou. — Não me provoque, Laís. Ele me beija mais uma vez e sou levada por um espiral de sensações que invadem meu corpo, minha alma e já está me deixando completamente molhada, pronta para sua invasão. — Primeiro você, querida. Ele me deita novamente e desta vez não me dá qualquer escolha senão abrir minhas pernas e mergulhar sua língua em minha boceta de forma provocadora, faminta. Me deixo ser levada. Cada movimento dele caminha por uma trilha de sedução e perdição. É tudo muito intenso, prazeroso, realmente gostoso. Não posso fazê-lo parar. Não quero que pare. — Sublime! Digo instintivamente ao sentir que o êxtase começa a se formar poderosamente em minhas entranhas, me deixando ciente de que estou perto, muito perto de gozar. Ele percebe e aumenta sua provocação, deixando meu clitóris ainda mais sensível a suas investidas. É demais para mim. Tento fazer planos para a semana na universidade, no trabalho, faço uma


lista mental do que eu preciso fazer quando chegar em casa, busco uma distração que me impeça de dissolver na língua provocadora deste homem. Nada funciona. É exorbitante. Jogo a cabeça contra o colchão e fecho os olhos, me liberando em um orgasmo quente e poderoso, capaz de me levar a uma dimensão de prazer e luxúria. Me desfaço em puro êxtase. Se foi assim apenas com sexo oral, imagine quando o tiver dentro de mim. Oh, Deus, não deixe que esse homem fique sob minha pele. Faço essa oração ciente de que talvez já seja tarde demais. Antony já está malditamente fazendo seu caminho em meu coração. Então só tenho uma opção: tentar encontrar o dele. — Pensativa demais, bela. Eu só estou no começo. Ele volta a me acariciar, tomando meus lábios enquanto suas mãos brincam com meus seios rígidos. Eu o afasto repentinamente. — Não. Agora é minha vez de te provar. Ele abre um sorriso sensual e se ajoelha, oferecendo seu pau glorioso à minha mercê. Amo receber prazer, mas não tem nada mais sexy do que ver um homem gemer por algo que você está fazendo. Antony agarra meus cabelos, solta um ruído engasgado enquanto seu pau fode minha boca centímetro a centímetro até que alcance meu limite. O homem é demais, eu só consigo tomá-lo até um pouco mais da metade. Sinto um sabor levemente salgado alcançar o fundo de minha garganta misturado à fragrância do sabonete líquido que ele usou comigo na hidro. — Droga, Laís. Como você é boa nisso. — Você gosta? — Você é fascinante. Ainda não vi nada mais lindo e sexy do que o que estou vendo agora. Porra, sua boquinha quente envolvida em meu pau está me levando à loucura. Eu gosto de saber disso. Saborear um homem como ele é tão aprazível e parece tão devasso ao mesmo tempo. A sensação de proibido soma-se à luxúria que pesa a atmosfera do quarto e só aumenta o meu deleite. Me entrego sem reservas. Antony também.


Em algum momento, sinto suas mãos ansiosas afastarem meu rosto ao mesmo tempo que não me deixa sequer respirar, antes de ter meu ar tomado por um beijo sôfrego e violento. — Chega, sua pequena provocadora! Eu preciso me enterrar em você agora. — Sim, querido. Eu quero tanto — meu tom de voz sai rasgado, entregue à volúpia. Antony veste um preservativo com habilidade, urgência, e no próximo segundo passa a roçar a entrada da minha boceta inchada, latejante, me enchendo em apenas uma só estocada, enquanto seu polegar esfrega meu clitóris. — Oh! — gemo, sentindo a lascívia invadir o meu corpo com intensidade. Tê-lo dentro de mim parece certo em um momento e errado demais em outro. Empurrando com força, ele prende meus braços sobre a cama, apertando meus pulsos e penetra profundamente a minha boceta, de forma selvagem, sem dó. Eu não posso reclamar. A forma como está me tomando é ardente e pecaminosa. Sua brutalidade me marca e eu sei que vou sentir dores mais tarde, uma vez que já tenho algum tempo sem sexo. Gosto de fazer amor com romantismo, suavidade, mas também amo sexo rude, áspero, primitivo. E com ele está sendo melhor do que qualquer expectativa que eu tivesse. — Está vendo o quanto somos bons juntos, Laís? Entende por que apenas um dia nunca será suficiente? — Sim, Antony. Fazer amor com você é... hum... sensacional. Suas estocadas estão mais rápidas e profundas. Sinto-me exposta, subjugada, plenamente presa sob seu domínio. De repente, Antony me puxa para si, e antes que eu perceba, ele está sentado, me encaixando sobre seu pau vigoroso. — Fazer amor não é algo a que eu esteja habituado, querida, mas vou deixar você chamar isso entre nós da forma que quiser. Minha mente continua turva e mal consigo processar suas palavras. Talvez nem queira. Prefiro afastar qualquer coisa que possa estragar o momento,


então apenas me deixo ser levada pelas sensações. Ele prende meus cabelos em um rabo de cavalo com uma mão, puxando minha cabeça para trás. Segura meus quadris com a outra e se enterra mais e mais sem piedade, enquanto solta deliciosos gemidos de prazer. A cama ronca por conta de sua brutalidade. Estou perto, muito perto, mas não quero chegar ao êxtase sozinha. — Antony, já estou chegando. Venha comigo. Com um vigor que ainda não vi na minha curta experiência sexual, ele mantém sua invasão cada vez mais forte e mais rápida. Sinto dor, mas é uma dor deliciosa. — Minha. Somente minha. Não respondo por meus atos se vir qualquer homem tocá-la novamente. Tente contrair sua boceta por dentro, querida. Eu também estou muito perto. Não consigo entender exatamente o que ele me pede, contudo acho que estou fazendo a coisa certa quando Antony solta um monte de palavrões enquanto seu pau lateja profundamente dentro de mim, chegando ao clímax. — Oh, Antony — solto um gemido abafado no momento em que sou invadida por uma explosão de prazer que leva meu corpo a tremer desenfreadamente... Céus, o que foi isso? Nada mais, nada menos do que um sexo maravilhoso e inesquecível. Pelo resto da minha vida, jamais vou conseguir apagar o que vivi aqui. E nem quero. Repetir talvez seja a melhor palavra. — Sublime! — ele diz e sou obrigada a concordar. — Sim, Sr. Sublime. Ainda tremendo, com os sentimentos em conflito e júbilo, ele me puxa para deitar sobre seu peito nos mantendo em silêncio por um longo, longo tempo. O momento que acabamos de viver foi perfeito demais para ser estragado por palavras, então deixo que somente a voz dos meus pensamentos falem por mim. Eu não estou feliz com o que eles me dizem porque certamente estão dizendo a verdade. Estou malditamente perdida uma vez que não vou saber


como separar o coração de toda essa bagunça. Tenho medo de me apaixonar por ele e acabar sofrendo. Tenho medo de já estar apaixonada. Merda! Antony encontrou irrevogavelmente a chave para entrar em meu coração.


Depois

de tomar um café da manhã reforçado no próprio quarto do hotel e fazermos amor incansavelmente mais uma vez, Antony e eu compartilhamos a piscina de hidromassagem novamente. Ele está massageando meus cabelos com tanto carinho que eu quase chego a acreditar que toda aquela conversa sem rótulos, sem compromisso foi apenas da boca pra fora. Como eu gostaria de parar o tempo e passar uma vida presa nestes braços fortes sem me preocupar se haverá um amanhã no qual ele não esteja. — Laís, você já ouviu falar em pompoarismo? — ele me tira do transe com sua pergunta. — Pompo... o quê? Não. Do que se trata? Antony está traçando pequenos círculos nos bicos dos meus seios e isso já está me deixando louca outra vez. — Você lembra que lhe pedi para tentar contrair sua boceta mais cedo? Uau, por que uma simples palavra suja provoca reação no meu corpo? — Sim, lembro. Eu nunca havia feito aquilo. Foi muito prazeroso. — Exato. O que você fez foi um exercício de pompoarismo. É uma técnica oriental que ajuda a conhecer melhor seu próprio corpo e busca aumentar o controle sobre os músculos pélvicos.


— Hum... parece interessante. Tem algo a ver com aquela coisa de correntes, chicotes, sadomasoquismo? Ele ri. Ah, como adoro esse sorriso. — Não, Laís. Eu não pratico sadomasoquismo, embora deva confessar que gosto das restrições e alguns brinquedos. Eu não pretendo usá-los como um ritual, mas sempre vale a pena experimentar tudo que nos traga prazer. — Sim, acho que você está certo. — Estaria disposta a conhecer um pouco mais sobre o assunto? — Você quer dizer... na prática? — Sim, sim. Eu quero dizer na prática. Confia em mim? O que há para pensar? Tenho certeza de que terei um mundo de experiências sexuais com este homem e cada vez tenho mais certeza de que ele vai acabar me estragando para todos os outros. — Sim, eu gostaria e sim, confio em você, Antony. — Obrigado. Ele dá um beijo no topo da minha cabeça e puxa meu braço para levantarmos da hidro. Pega uma toalha e me enxuga como se eu fosse um bebê que precisa de cuidados. Deus, como posso manter meu coração distante depois de ser tratada com tanta ternura? — Você não precisava me enxugar — digo, quando ele me cobre com um roupão. — Shhhh. Qual é a graça de ficar questionando tudo que eu faço? Sinto prazer em cuidar de você. É tão difícil entender isso? É tudo tão repentino e esmagador. Ontem eu era apenas uma revisora e estudante tentando me equilibrar nos ponteiros do relógio. Hoje estou em uma suíte presidencial sendo tratada como rainha pelo homem mais lindo que já pus os olhos. — Corro o risco de me acostumar facilmente com isso e você pode não estar lá quando eu precisar. — Nunca deixe de viver um momento com medo do que pode acontecer amanhã, querida. Tenho certeza de que deixarei boas lembranças do melhor


sexo da sua vida. Cretino! — Você é um idiota convencido e arrogante, sabe disso? — Sei, mas sempre é bom ouvir você dizer. O pior é que ele tem razão. Mesmo que eu nunca vá lhe confessar isso nem sob tortura, ele está coberto de razão. Duvido que seja ao menos parecido com outro homem. Antony sempre será a lembrança do melhor sexo da minha vida. — Por que saímos com tanta pressa da piscina? Eu estava tão confortada e protegida em seus braços que me senti levemente abandonada quando me tirou de lá. — Eu quero levá-la a um lugar. Preciso pegar algumas encomendas. — Encomendas? Tipo algum terno ou material para a editora? — Não. Nada de ternos, muito menos editora. Hoje é tudo a nosso respeito. Para que tanto mistério? — Aonde exatamente nós vamos, Antony? — Já, já você vai descobrir. Pego alguns dos vestidos jogados sobre a mesa e escolho o mais simples de todos mesmo que não tenha ideia do lugar que ele vai me levar. A única lingerie que eu trouxe comigo está suja, então decido sair sem qualquer peça íntima. Não sei se é boa ideia no momento que passo por ele e sua visão me acompanha, percebendo na hora que estou do jeito que vim ao mundo por debaixo do vestido. — Merda, Laís, eu não posso sair com você usando apenas isso. Vou ficar com o pau duro o tempo inteiro. É melhor que eu peça a um funcionário do hotel que compre algo para você. Ofereço-lhe um sorriso e seguro em seu queixo, debochadamente. — Não foi você quem me trouxe até aqui e está me convidando a sair, garanhão? Eu posso comprar minhas próprias peças íntimas. Não preciso que alguém o faça, então mantenha seu controle ou podemos apenas permanecer trancados neste quarto o dia inteiro. Eu não me oporia.


Ergo minhas mãos quando digo a última frase e ele agarra meus pulsos, puxando meu corpo de encontro ao dele. — Não tenho ideia do que vou fazer com você, mas prometo que vou dar um jeito de te punir por sua audácia. — Aguardo com ansiedade, Sr. Sublime. Ele solta meus pulsos e dá um tapa forte na minha bunda. Eu pulo com o susto e ele gargalha com vontade. Lindo. Simplesmente lindo! Saímos do quarto de mãos dadas como o casal de namorados que não somos. Devo parecer uma idiota por isso, mas me sinto tão bem quando passamos pelo saguão do hotel e todas as cabeças femininas e mais algumas masculinas se viram na direção do homem suntuoso ao meu lado. As mulheres parecem um tanto decepcionadas quando percebem que não está sozinho e, por um instante, posso nutrir a doce ilusão de que Antony é meu, de que me pertence e eu a ele. — Senhor? O motorista abre a porta de sua Mercedes grafite para entrarmos e fico grata por não ser a limusine desta vez. Se esse carro já é um tanto esmagador, aquele lá era a mais clara demonstração de que pertencemos a mundos completamente diferentes. Ele nunca solta minha mão enquanto as grandes avenidas de Verdes Montes passam por nossas janelas, anunciando verdadeiros arranha-céus que cruzam com as nuvens esparsas de um dia ensolarado. Começo a me familiarizar com o lugar onde estamos chegando. Quando o carro estaciona de frente a uma loja, eu me certifico de que não estou delirando. Antony está me levando ao mesmo sexy shop no qual estive outro dia. — Por que estamos aqui? — pergunto, receosa. — Você conhece este lugar, Laís? — Claro que sim e você sabe disso já que andou me espionando. — Verdade? E se eu dissesse que foi pura coincidência estar passando do outro lado da rua quando a vi entrar aqui. Eu estava à procura de uma loja desse tipo, mas não tinha percebido que estava debaixo do meu próprio nariz


até que a vi. — Certo. Acontece que toda essa conversa não explica que diabos estou fazendo aqui hoje, Antony. Tem algo a ver com aquele tal de pompo... — Pompoarismo. Sim e não. Tenho um presente para você. O acompanho para dentro da loja meio ressabiada, pouco à vontade. Eu quase morri de vergonha da última vez que estive aqui sozinha, imagine agora que estou acompanhada. — Sr. Cavalcanti, seja sempre bem-vindo. Há algo que posso fazer para ajudá-lo desta vez? Diga-me e farei qualquer coisa. Oi? Que dia me tornei a mulher invisível e não me dei conta? Dou alguns passos para frente e me posiciono ao lado de Antony que larga minha mão apenas para abraçar minha cintura possessivamente. A vendedora... como é o nome dela mesmo? Ah, Vanessa não disfarça sua cara de espanto quando percebe que ele não está só. — Vim buscar minha encomenda. — Claro, sua encomenda. Me acompanhe, por favor. Ela estreita o olhar em minha direção como se estivesse fazendo um esforço para me reconhecer. Começo a rezar internamente para que não lembre e faça o vexame daquele dia ser completo agora que Antony está aqui. — Aqui estão, Sr. Cavalcanti. Ele pega uma caixa vermelha e dourada coberta de veludo de tamanho médio. Abre a caixa em formato de porta-joias e parece contente com o que vê dentro já que seu sorriso sensual brota no rosto. — Perfeito. Está exatamente como eu pedi. A vendedora parece feliz com o resultado. — Estamos sempre à disposição para o que precisar, senhor — seu sorriso aberto se desvanece quando me olha. — Ah, agora me recordo. Você não é a garota que veio comprar vibradores outro dia? Oh, meu pai do céu, por que não atendeu à minha prece? — Olá. Como vai? — Menina, mas você é danadinha mesmo, hein? Conseguiu rapidamente


substituir o brinquedo por... Ela não consegue completar a frase quando percebe que o homem ao meu lado não está aprovando sua invasão de privacidade. — Desculpe, eu... se não precisam mais de mim, vou atender outro cliente. Fiquem à vontade. Ela tem pressa em se afastar do peso que um simples olhar de Antony exerce e se intromete na venda que outra vendedora está fazendo. Ele não diz uma só palavra nem olha outros produtos da loja. Apenas segura minha mão e me leva de volta para o carro, deixando-me novamente confusa. Estamos confortáveis no banco de trás, provavelmente voltando para o hotel quando ele tira a caixa da embalagem e abre diante de mim. Dentro dela, há dois braceletes em ouro branco, cravejados de pequenas pedras vermelhas, e a frase belongs to A. C. Oh, meu Deus! Oh, meu Deus! Esses braceletes seriam... para mim? Eu sou uma massa de confusão quando seguro um deles na mão e vejo meu nome quase imperceptível gravado como uma assinatura no cantinho. Olho pra ele com expressão séria e assustada. — O que significa isso, Antony? — É apenas um presente, querida. É muito importante para mim que aceite. — Por que... por que está me dando isso? — Eu gostaria que você usasse para selar o acordo que estamos fazendo. Quanto mais ele fala, mais conturbada fico. — Que acordo? Do que está falando? Ele vira seu corpo totalmente em minha direção e segura meu rosto com as duas mãos, não me dando qualquer opção além de encarar seus olhos agora cristalinos. — De ser minha enquanto isso durar, Laís. Eu te quero muito e como garantia de que o desejo é mútuo, eu te peço que aceite e use meu presente. Ele foi feito exclusivamente para você. Minha respiração está pesada e meu coração bate acelerado. Usar braceletes com esta frase gravada parece algo meio doentio, excessivo. Ele


estรก claramente ansioso por ouvir minhas prรณximas palavras. Eu preciso lhe dar uma resposta e vai ser agora.


Então

Antony dava como certo que eu cairia em seus braços na primeira oportunidade. Claro. Nenhuma mulher em seu juízo perfeito recusaria um homem como ele, certo? Por que seria eu a primeira? Parece um tanto surreal ver meu nome gravado nos braceletes uma vez que só fui para sua cama hoje. Foi tudo premeditado. No dia que ele veio ao sexy shop já havia pedido para incluir o meu nome. Essas coisas não são feitas do dia pra noite. São? — Você só pode estar de brincadeira. Quer que eu seja sua submissa ou algo assim? Seu olhar é de desespero. Parece que minha reação não foi a esperada por ele. — Não, Laís. Eu não sou um dominador e já deixei claro que não estou envolvido com sadomasoquismo. Apenas gostaria de vê-la usar um presente, algo como uma marca pessoal que estou deixando em você. Mal sabe ele que já deixou meu peito intimamente marcado. Eu não preciso de braceletes para isso. — Percebe o que está me pedindo? Você fez um discurso sobre sua falta de interesse num compromisso e agora está me pedindo para usar braceletes nos quais estão escritos que lhe pertenço? Isso tudo parece tão fantasioso.


— Pelo tempo que durar. Não é tão difícil de entender. — Vá para o inferno com sua teoria — estendo a caixa de volta para ele. — Me responda apenas uma coisa, Antony. Se eu te pedisse para usar algo semelhante, você toparia? Talvez eu devesse encomendar uma coleira para você? Ele fecha os olhos e respira fundo. Quando abre suas pálpebras, penso em afastar meu olhar com medo de não resistir e concordar com qualquer loucura que ele me oferte. Há confusão, ternura e medo. Antony me observa um tanto amedrontado como se quisesse muito me dizer que aquele presente representa mais que um acordo, contudo não o faz. — Você está sendo irracional e exagerada. É apenas uma joia. — Exatamente o que imaginei. Se fosse o contrário, você não usaria mesmo porque você não pertence a ninguém além de sua empresa, não é? — Não é bem assim. — Ah, é bem assim. Como foi que você me disse outro dia? A mulher que quisesse ficar comigo teria que aceitar que meu coração está na empresa. Que patético! O carro se aproxima da rua onde fica o hotel e sinto-me cada vez menos tentada a voltar para lá. Nada que aconteça entre nós pode estragar o dia maravilhoso que tive ao seu lado, mas parece que um pouco do encanto se foi, de alguma forma. — Olhe para mim, Laís — ele parece decidido a me convencer e estou cada vez mais decidida a não me deixar ser manipulada. Com quem ele está me confundindo? Olho para a janela e começo a avistar a fachada do hotel. Viro-me em direção a ele, em seguida. — Estou olhando, Antony. Ele abre novamente a maldita caixa e passa um tempo observando seu conteúdo. Não sei se é impressão minha, mas sinto que ele está um pouco indeciso do que deve dizer por um segundo. — Lembra que eu comentei que às vezes gosto de restrições? Esses


braceletes não servem apenas para marcá-la como minha enquanto estivermos juntos. — Não? Para que mais servem então? — Veja isso — aponta um pequeno gancho preso a cada um deles e levanta uma espécie de corrente dourada, também cravejada de pequenos diamantes. — Eles são um objeto de restrição. Eu posso prendê-la onde eu quiser usando essa corrente. Quanto mais eu ouço, mais tenho vontade de correr de tudo isso. Oh, Deus, por que permitiu que esse homem cruzasse meu caminho e mexesse com meu mundo desse jeito? Eu confesso que até estava disposta a arriscar meu coração em uma aventura com Antony, mas não posso lhe dar mais poder do que devo. Homens como ele não conhecem limites. Eu estaria esmagada e humilhada quando ele enjoasse de mim. — Como uma espécie de algema — solto um riso fraco. — Além de andar pelas ruas com um selo pessoal seu, você ainda queria me manter como uma submissa na cama. Tudo do seu jeito e conforme sua vontade. — Não é bem assim, Laís. Entenda. — Chega, Antony. Acho que já entendi tudo que eu precisava e posso te garantir que não preciso disso. Eu quero alguém que me trate como mulher e não como propriedade. Diga-me uma coisa. Você dá isso a todas as suas amantes? — Laís... — Diga, droga! — Inferno, como você é frustrante. Eu nunca dei braceletes a nenhuma mulher antes. Somente a você. Satisfeita? — Não, eu não estou. Me leve para casa, por favor. Fiquei um pouco cansada, de repente. Antony abre e fecha a boca algumas vezes perdido em sua própria confusão, então balança a cabeça, acenando positivamente. Meu coração se aperta porque, por um instante, pensei que ele ia argumentar, insistir um pouco mais.


Mas não o faz. Sem tirar seu olhar de mim, se move para descer do carro e ordena ao motorista que me deixe onde eu quiser. Antes, ele abre minhas mãos e deposita a caixa ali. Quase as sinto queimar, mas fecho meus dedos em volta dela, decidindo guardá-la como uma lembrança desse dia. Mesmo que ela seja a razão pela qual estou indo embora. — Vá para casa e pense melhor sobre nós. Esta conversa ainda não terminou. Nós ainda não terminamos. Sem me dar a opção de responder mesmo que eu não tivesse a menor ideia do que dizer, ele sai do carro, deixando que o motorista me leve para casa com o coração desolado e a famigerada caixa na mão. É estranho o que sinto. É quase como uma espécie de saudade do que podia ter sido, mas não foi. Do que podia viver, contudo não viverei. Dos planos que se foram sem nem mesmo terem um início. Estranha nostalgia. Por que eu simplesmente não conduzo meu ponto de vista para o lado bom dessa história toda? Estávamos fadados a seguirmos caminhos diferentes mais cedo ou mais tarde, ainda que eu estivesse determinada a brigar contra. O motorista encosta de frente ao prédio sem que eu tenha lhe dado meu endereço. Foi ele quem veio nos buscar na noite anterior, então sabe onde eu moro. Desço do carro, lhe agradecendo, e entro em casa grata pelo silêncio dar indícios de que Alana não está aqui ou eu teria um caminhão de satisfações a dar. — Te adoro, Lana, mas hoje não — digo em voz alta, tendo apenas os móveis como testemunha. Um latido alto me assusta. Alfred corre em minha direção, abanando o rabo enquanto faz pequenos círculos à minha volta como um modo de demonstrar sua alegria. — Ei, bonitão, estava com saudades de mim? Ele pula no vestido Dior que se ajusta ao meu corpo e morde o tecido como se estivesse me convidando para brincar. Fecho os olhos me sentindo


culpada quando ouço o rasgo. Alfred me olha desconfiado com um pedaço de cetim rosa na boca, esperando que eu brigue com ele. Sorrio. — Sabe de uma coisa, amorzinho? Eu pouco me importo se essa roupa é de grife ou não. Se o estúpido do meu chefe tivesse me trazido para casa ontem, eu não estaria usando isso, portanto a culpa é dele se a peça está rasgada. Me jogo na cama e meu cão fiel sobe também, deitando-se ao meu lado como se entendesse que não fiquei brava com ele. Pensando bem, se ele tivesse me trazido para casa ontem, eu não teria tantas recordações deliciosas deste dia que, definitivamente, gostaria de repetir se não fosse por seu jeito possessivo e esmagador. A maldita caixa queima em minha mão. Eu abro e retiro um bracelete de dentro, admirando cada pequeno detalhe projetado e confeccionado com esmero. Eles poderiam passar a ter um valor sentimental se fossem um simples presente como Antony disse. Mas não são. Eles representam um jogo que não estou disposta a jogar. Eu não perdoaria a mim mesma se me permitisse ser o brinquedinho descartável de um homem que deixou clara sua intenção de apenas me usar e jogar fora a qualquer momento. Não mesmo.


Está

escuro. A campainha toca e meu cansaço pede para que eu permaneça na cama. Ouço o toque mais uma vez. Não é possível que Alana esqueceu a chave. Droga! Hoje é segunda-feira e já faz cinco dias que minha vida voltou a ter um vislumbre do que era antes quando se resumia a universidade-editora-casa. Algumas pessoas podem achá-la chata. Talvez fosse, mas posso te garantir que eu estava bem da forma como vivia. Sim, vivia. Pretérito imperfeito do indicativo. Se meu passado estava longe de ser perfeito, o meu presente poderia ser, caso meus pensamentos me pertencessem. Está sendo difícil esquecer cada segundo que tive com Antony há cinco dias naquele quarto de hotel. Está sendo difícil esquecer que ele me propôs um acordo no qual eu seria a única a sair machucada. Alfred corre na minha frente e alcança a porta antes de mim. Lana estava certa quando disse que ele não estava servindo muito como cão de guarda. Deve estar sentindo o cheiro familiar dela, por isso não latiu. — Porra, Alana! Que mania de esquecer suas chaves — abro a porta e dou as costas, pronta para voltar para a cama de onde não devia ter saído. — Oi, Laís.


Viro-me repentinamente. Sim, isso mesmo. Antony está na minha porta em carne, osso e...minha nossa! Nestes cinco dias, ele não apareceu na empresa. Quer dizer, se apareceu não o vi. Fiquei grata em alguns momentos, saudosa em outros. Eu queria vê-lo nem que fosse para admirar de longe. Agora ele está diante de mim lindo de morrer. O homem é a perfeita fantasia sexual de toda mulher, vestido em uma calça jeans clara, com pequenos rasgos na perna, uma camisa branca lisa e uma jaqueta de couro por cima. A combinação da roupa com seu pequeno brinco na orelha lhe dá um ar jovial e muito, muito sedutor. Eu devo ter levado mais tempo do que devia apenas o observando já que ele coça a garganta me oferecendo aquele sorriso sensual capaz de me desmanchar por inteiro. — Antony, é... desculpe. Eu não esperava vê-lo tão cedo — não queria parecer indelicada, mas foi o melhor que consegui dizer quando minha mente decide entrar em combustão mais uma vez. Ele me observa de cima até embaixo, me desnudando com um olhar carregado de desejo e malícia. — Posso falar com você... aí dentro? — pergunta, mas já começa a dar passos determinados para dentro de casa, fechando a porta atrás de si sem esperar que eu o faça. Meu cão traidor começa a dar pulinhos e abanar o rabo como se ele já fosse da casa. Será que nem mesmo meu cachorro consegue resistir a esse homem? — Então é você o famoso Alfred — diz, se abaixando para alisar seu pelo. Tenho certeza de que Antony não está aqui para falar de trabalho, mas tenho receio que continue me fazendo propostas ofensivas já que deixou claro o que quer de mim. Decido manter um tom profissional mesmo que minha camisola não seja tão discreta quanto as roupas que eu uso no trabalho. — Sr. Cavalcanti, o que faz aqui? Não me diga que precisa dos meus serviços a uma hora dessas. Ele mira meus traços, semicerrando os olhos com tanta sensualidade que


quase me empurra para os seus braços. O magnetismo é tamanho, não faço ideia de como estou conseguindo me controlar. — Eu sempre preciso dos seus serviços, Laís, e meu nome é Antony. Sempre Antony para você. Antony. Lembro-me de quantas vezes gozei chamando esse nome naquele dia. — Estou cansada e não pretendo trabalhar mais esta noite. Amanhã estarei na editora no horário certo. — E quem disse que estou falando de trabalho? Eu quero conversar com você. Podemos ir ao seu quarto? Rá! Sério? — Não tem ninguém em casa. Pode falar aqui mesmo. — Mas sua amiga pode chegar e interromper nossa conversa a qualquer momento. Não vou demorar e depois a deixarei em paz. Ele me deixará em paz. Oh, Deus, por que essa ideia de repente se torna tão pouco atrativa? — Ainda assim eu prefiro continuar aqui. Ele me encara, assentindo impacientemente. Seu perfume masculino exala pela casa. Passo por ele, caminhando para o sofá, ciente de que não preciso ter olhos nas costas para perceber que está fitando minha bunda. Principalmente porque a camisola é tão curta que não deixa muito para imaginação. Sento na poltrona, mas não o convido. Ele observa minha sala indiscretamente, depois volta a me encarar, enquanto gira seu pequeno diamante na orelha. Adoro esse hábito dele. — Querida, sei que fui evasivo com você da última vez que conversamos e gostaria de reparar isso. Estive pensando... — ele ri. — Na verdade, não fiz outra coisa além de pensar e decidi que precisamos conversar. Levanto a sobrancelha, lhe desafiando a continuar. Ele assim o faz. — Percebi que minha proposta pode melhorar um pouco.


— Pode? Explique-me como. — Eu quero que esqueça os braceletes. Jogue-os fora, venda, derreta, não me importo. Você me intriga como nunca aconteceu com outra mulher. Eu posso dizer o mesmo a respeito dele. Acontece que a forte atração que sinto não é suficiente para me fazer perder a cabeça. Não sem alguma garantia de que ele pelo menos iria tentar. Ele prossegue. — Que tal recomeçarmos? Podemos sair para jantar, nos conhecermos melhor, ter momentos divertidos a dois até ver aonde isso vai dar. — Pode ser mais direto, Antony? O que está me propondo agora? — Ufa, voltamos ao Antony. Eu tenho uma vida muito corrida para pensar em relacionamentos, linda, mas com você... — respira fundo. — Com você estou disposto a ir além, termos algum tempo juntos... Não me peça mais explicações porque não saberia te dar, porém o fato é que quero estar com você. O que eu devo fazer agora? Devo resistir, me manter resoluta em ficar longe dele por medo de me machucar? Devo colocar uma pedra em uma história que sequer teve a oportunidade de ser iniciada? A resposta é não! Não mesmo. Suas palavras neste momento representam tudo que eu queria ouvir há alguns dias. De certa forma, ele está dizendo que vai tentar. Se ele está disposto, por que não? — O que lhe fez mudar de ideia? — Você. Desde o momento que te vi, me senti como um animal, buscando uma forma de marcar território mesmo que eu saiba que isso não é possível no momento. Eu agi por impulso ao comprar aquela joia. Passei dias me condenando por isso. E me condenando a ficar longe dos seus braços. — Me deixou em completa confusão, Antony. Eu deveria lhe pertencer como uma mercadoria que você está comprando e quando enjoa, joga fora? E como poderia, se deixou bem claro que não havia uma relação? Tudo tão louco.


Ele dá alguns passos pela sala, seu rosto voltado para o teto como se estivesse escolhendo as palavras. — Eu sei, você tem razão. No momento que entrei naquele hotel eu disse a mim mesmo que você ia se dar conta do exagero e voltaria a me procurar. Quando isso não aconteceu, decidi tirá-la da minha vida assim como entrou, num piscar de olhos. — E o que mudou de lá pra cá? — O problema é que nem eu mesmo consegui acreditar em minha mentira. Eu tentei te marcar, mas acho que fui o único a ser marcado. — Oh, Antony! Levanto-me e vou de encontro a ele, me pendurando em seu pescoço. Ele não esperava essa reação, então seu corpo cede ao peso e desabamos sobre o sofá. Ele leva um tempo apenas me olhando, se equilibrando nos cotovelos. — Senti sua falta. Não consigo esquecer tudo que fizemos naquele dia. Ele alisa meu rosto. Fecho os olhos. — Eu também. Tenho revivido todas aquelas cenas em minha mente em cada santo dia. Não tenho chance de dizer mais nada. Ele me encaixa em seus quadris e caminha em busca da primeira porta aberta pela frente. — É o seu quarto? — Sim, é o meu quarto. Ele solta um suspiro de alívio, então me joga sobre a cama, pressionando contra o colchão. Antony prende meus cabelos rapidamente e cola meus lábios aos seus, sugando com avidez, provando o quanto estava com saudades. Eu não deixo por menos, demonstrando o quanto já estava faminta por seu contato. Suas mãos serpenteiam em meu corpo. Ele passa uma por baixo da minha camisola e começa a massagear meus seios com leveza, dando puxões que enviam raios de desejo direto para o centro do meu prazer. — Seus seios são lindos. Eu poderia passar toda a noite apenas sentindo cada um deles em minha mão, em minha boca... Inquieto pelo desejo, ele passa a chupar um seio, depois outro, me levando a arquear o corpo e pedir mais e mais.


— Eu o quero dentro de mim. Não demore. Ele deve estar tão excitado quanto eu, pois, em questão de segundos, puxa minha lingerie, tira sua roupa e reveste seu pau com um preservativo, me enchendo com todo seu comprimento. Naquele momento, sou transportada para um mundo de lascívia e volúpia no qual apenas esse homem sublime e eu existimos. Mais ninguém. Antony sabe que botões apertar para que o meu instinto mais selvagem se manifeste. Eu o quero para mim. Eu preciso fazê-lo meu. Seu toque, seu cheiro e o modo como faz amor são extremamente viciantes. Eu me torno uma felina incapaz de reconhecer a mim mesma quando estou com ele. Fazemos amor intensamente até que ambos perdemos o fôlego depois de sermos tomados pelo êxtase. Estamos nus, abraçados, deitados sobre a cama onde ficamos em silêncio por um bom tempo. Gosto de saber que seu cheiro vai ficar em meu travesseiro. — Você está bem, Laís? — Antony quebra o silêncio, então me dá um beijo na testa. Tentando encontrar ar nos pulmões, respondo: — Sublime, meu CEO. Ele ri. Senta para olhar em meu rosto. — Seu o quê? — Meu CEO. Sabe, eu pensei que executivos lindos só existiam nos livros de romance. Você é real ou será que é fruto da minha imaginação? — Posso te provar o quanto sou real, linda. Agora mesmo, se quiser. Sento, me ajeitando também. Sua proposta é muito tentadora, mas preciso ser racional, coisa difícil ao lado deste homem. — Amanhã acordo cedo para estudar. Você precisa ir, Antony — dou um beijo rápido em seus lábios. — Nos vemos na editora. — Está me botando para fora do seu apartamento? — pergunta, segurando o peito. — Bobo. Se você ficar, sei que não vamos dormir e esta não é uma boa opção quando temos uma semana cheia pela frente. Se você se for, sou capaz de me manter acordada do mesmo jeito, já que


meus pensamentos não vão me deixar em paz. — Tudo bem, vá descansar. Seu CEO também precisa de algum descanso. Até amanhã. Aceno, quase me arrependendo de minhas próprias palavras, lhe pedindo para ficar. O acompanho até a porta e dou um beijo de despedida, me mantendo lá até que ele entre no elevador. O homem mais lindo deste mundo acaba de sair da minha casa e da minha cama. Se eu morresse naquela hora, morreria feliz.


faz um mês que Antony e eu estamos juntos desde a nossa última conversa em meu apartamento. O assunto dos braceletes não voltou à tona e ele tem feito um bom trabalho em tentar controlar sua possessividade. Nesse meio tempo, fomos a restaurantes, teatros ou simplesmente ficávamos em meu apartamento. Ele ainda é um tanto misterioso sobre algumas questões como sua casa, por exemplo. Ainda não fui lá e ele sempre desconversa quando toco nesse assunto. Alana diz que é coisa da minha cabeça, mas tenho uma forte impressão de que ele está me escondendo alguma coisa. Decidi levar nossa quase relação com calma, sem ultrapassar limites. O tempo pode ser a chave para todos os obstáculos, não? — Já concluindo, Laís? Este livro tem que estar na ilha de impressão ainda essa semana. Sr. Osvaldo deve desconfiar do meu caso com o chefe, mas sabe disfarçar muito bem. Na verdade, percebo alguns olhares curiosos em minha direção, mas nada que me atinja diretamente, então talvez ninguém além dele saiba. Não que eu esteja me escondendo, mas prefiro manter isso fora do trabalho e Antony também pensa assim. — Estou finalizando sim. O livro estará revisado dentro do prazo.


Ele me dá um sorriso terno. — Você é a melhor, querida. Sabe qual será sua próxima revisão? Rolo os olhos. Eu mal terminei esse, ele já fala no próximo? — Não faço a menor ideia — respondo, parecendo desinteressada. — Você será a responsável pelo próximo livro de Elizabeth Monroe. O que acha da ideia? Oh, meu Deus, que tamanha responsabilidade! Revisar o livro de uma autora que admiro pessoalmente é demais para o meu coração. — Jura? Mas eu trabalho no setor de livros didáticos. — Você não sabe de nada. Foi ela quem pediu pessoalmente depois de ver um pouco do seu trabalho. Parece que vai ter que mudar de setor por um tempo. É uma pena te perder aqui, mas estou muito orgulhoso de você. Eu tive a honra de visitá-la um dia desses com Antony. Foi maravilhoso. Ele apenas me disse que íamos a um lugar qualquer e antes que eu percebesse, estávamos na casa de uma das maiores escritoras deste país. Leandro ficou louco quando contei sobre o evento e mais louco ainda quando apareci na universidade com um livro autografado para lhe dar de presente. Ficou tão feliz que esqueceu de me perguntar como consegui. Ufa! Fiquei grata por isso. Elizabeth me recebeu com doçura em sua casa e quando autografou os livros diante dos meus olhos, quase caio dura de tanta emoção. Antony apenas ria de minhas reações, ressaltando o quanto eu era diferente das mulheres que ele conhece já que as atitudes mais simples eram as que me deixavam mais feliz. — Obrigada, Sr. Osvaldo. Será um grande prazer revisar qualquer obra desta autora. Ele assente, claramente contente por mim e repentinamente penso nele como um pai. O meu está no interior, mas vai ficar feliz demais quando lhe contar a novidade. — Ah, a propósito, o Sr. Cavalcanti ligou agora há pouco, marcando uma reunião para esta tarde com os supervisores. Parece que ele está de volta. Meu coração bate acelerado. Faz uma semana que ele precisou ir à Itália


resolver algum assunto de família. Uma semanaque só falo com ele por telefone, redes sociais e a saudade está me matando. Eu não pareço ser a única. Ele falava o tempo todo em voltar e passarmos um dia inteiro na cama. Não consigo pensar em uma ideia melhor do que esta. — Obrigada por avisar — digo, ressabiada. Ele pisca um olho e me deixa com muito em que pensar, sozinha em minha sala. Antony não comentou comigo que estava voltando, mas não me importo. Saber que ele estará aqui a qualquer momento traz o alívio que meu peito buscava. Pode parecer precoce, mas eu não tenho dúvida do que eu sinto por ele. Estou definitivamente apaixonada e cada vez mais certa de que devo lutar para que isso entre nós dê certo, uma vez que ele não é indiferente a mim. Nem um pouco. Busco concentração para continuar trabalhando quando sou interrompida por uma Claudia esbaforida se jogando sobre a minha mesa. Merda! Ela tinha me dado sossego por um bom tempo, mas parece que cansou de esperar. — Laisinha, minha querida, lembra do nosso acordo? Você não está fazendo um grande trabalho em me ajudar a conquistar o chefe gostosão. Por quê? Decidiu ficar com ele para você? Sou acometida por uma crise de tosse que me obriga a levantar. Deus, eu sou péssima em disfarçar algo que provavelmente esteja estampado na minha cara. Claudia me dá alguns tapas nas costas que doem mais do que me ajudam a parar de tossir. Pego minha garrafa de água sobre a mesa e tomo um gole, sentindo-me mais aliviada. — Você ainda está insistindo nessa ideia de conquistar o Sr. Cavalcanti, Claudia? Pensei que já tinha tirado isso da cabeça. Ela joga os cabelos para o lado como costuma fazer sempre. Seu olhar é irônico e desafiador. Eu não gosto nem um pouco dele. — É tudo que você quer, hein? Pois pode tirar o cavalinho da chuva porque isso não vai acontecer. Claudia quer, Claudia consegue. Eu terei aquele homem custe o que custar, mesmo que não possa contar com sua ajuda.


Ela joga seus cabelos de modo que batem em meu rosto quando dá as costas e sai da sala rebolando. Pessoas como ela se tornam perigosas caso se sintam traídas de alguma forma. Eu preciso ter cuidado, já que não quero me tornar a notícia principal dos corredores. Meu telefone toca sobre a mesa e dou um pulo de susto. Atendo em seguida, ouvindo a voz que mais tem me feito feliz ultimamente. É incrível como ele vem tentando mudar, abrindo mão um pouco de suas próprias convicções por mim. Por nós. — Linda, estou de volta. Você pode vir até a minha sala? Ele já chegou de viagem. Meu pai, eu pareceria maníaca se dissesse que tudo o que penso agora é estar em uma cama perdida em seus braços? — Claro, Sr. Cavalcanti. Será um prazer — saliento a última palavra e ouço um grunhido do outro lado da linha. — Antony, Laís. Para você, sempre Antony. Desligo o telefone. Tenho certeza de que ostento um sorriso bobo que não pretende abandonar meus lábios tão cedo. Ajeito meu vestido levemente estampado, presente que dei a mim mesma há alguns dias. Deixo meus cabelos soltos. Gosto de sentir as mãos dele os prendendo quando faz amor comigo. Não é o caso agora, claro, já que estamos na empresa. Mas talvez o sabor do proibido, de sermos interrompidos a qualquer momento por um funcionário, poderia ser muito excitante no escritório. Estou caminhando até o elevador quando avisto Claudia de longe, me lançando um olhar desconfiado. Desvio a atenção com medo de ser um tanto óbvia. Em instantes estou de frente a um letreiro onde está escrito “Antony Cavalcanti: CEO”. Sr. Sublime. Meu CEO. E eu sou dele. Dou três batidas na porta e abro a maçaneta sem esperar autorização. Antony está de costas com o celular no ouvido e outra mão no bolso, enquanto parece observar o trânsito da sua enorme janela de vidro. Meu coração palpita forte. Ele se vira para me olhar e me oferece um


enorme sorriso de boas vindas. Sinto borboletas no estômago apenas por sua imponente visão. Ele caminha até mim. — Mais tarde eu te ligo, mama. As coisas não são como ela quer. Certo. Depois falamos desse assunto — desliga, jogando o telefone sobre a cadeira. Eu não vejo o que está vindo. Antes que me dê conta, sou empurrada contra a mesa do escritório, sentindo o peso do seu corpo enquanto minhas narinas são invadidas por um perfume já familiar aos meus sentidos. Antony toma meus lábios de forma selvagem, sedenta. Não tenho forças para lutar contra essa atração. Meu corpo, minha alma, tudo de mim anseia por seu toque, seu cheiro, seu sabor. Ele levanta minhas pernas em volta de seus quadris e ergue meu vestido até a cintura, deixando à mostra a pequena calcinha de renda que estou usando. A fina peça vira manteiga em suas mãos grandes que a faz desaparecer em um só puxão. — Diga que me quer, Laís. — Sim, Antony, eu o quero. Minha respiração está entrecortada pelo desejo invasor de ser possuída por este homem másculo e viril. Sinto sua ereção roçando a minha boceta e meu corpo se prepara para recebê-lo em minha entrada apertada. — Diga que sentiu minha falta. — Muita. Eu me perguntava se não o veria mais e me entristecia com a possibilidade. — Você é como uma droga em minhas veias. Desde que te vi, sabia que precisava fazê-la minha. — Sim, compartilhei do mesmo sentimento. Eu te quis desde o início. Ele não pensa duas vezes. Abre o zíper de sua calça e, rapidamente, se posiciona na minha entrada úmida. Antes que me possua, decido fazer uma experiência. Seguro sua ereção com firmeza e, com a outra mão, retiro um colar de bolinhas que estou usando. Com suavidade e vagareza, envolvo todo o colar em sua virilidade, deixando-o nitidamente confuso. Massageio seu pau com o colar. Faço movimentos de ida e vinda, fazendo


as bolinhas rolarem por ele com muito erotismo. Antony fecha os olhos e se deixa levar. Os ruídos e traços de prazer em seu rosto são muito, muito sensuais. Não posso afirmar quem está com mais tesão, se sou eu ou se é ele. Posso garantir que o prazer desta experiência é mútuo. — Porra, Laís. Onde você aprendeu isso? Ele não me espera responder. Repentinamente, puxa o colar e, sem pestanejar, me possui de uma só vez. Fica enlouquecido quando eu coloco o colar novamente em meu pescoço, então penetra minha boceta apertada com toda força, fazendo com que minhas paredes molhadas se estiquem para recebê-lo completamente. Sinto uma pontada de dor a princípio que logo se transforma em prazer intenso. Aproveito a mistura de sensações que são novas para mim, uma vez que apenas com ele já me senti dessa forma. — Ah... Como senti falta disso! Seus movimentos estão mais rápidos, mostrando o quanto é experiente na arte de alcançar os lugares certos para que eu grite em êxtase. Nos mantemos nessa dança sensual sem pudor, inconsequentes, sem considerar o fato de que estamos em uma sala de escritório. Sem tempo nem lugar. Apenas duas almas sedentas se encontrando para ofertar um ao outro o que temos de melhor. Antony dá uma última estocada e eu já não posso resistir, à beira de um orgasmo. Jogo minha cabeça pra trás e, repentinamente, meu corpo se transforma em um vulcão em erupção, derretendo-me por completo. — Deus, Antony. Que delícia! Sou atingida por um nirvana extraordinário que me faz perder o fôlego, enquanto eu grito o único nome de que sou capaz de me lembrar. Ele me acompanha, se derramando dentro de mim, soltando o gemido mais sensual que já ouvi da boca de um homem. Ele é lindo até gozando. Na verdade, ele é lindo principalmente gozando. É uma imagem que vou guardar em minha mente por toda a vida. Seus olhos não saem dos meus enquanto tentamos encontrar ar para encher


nossos pulmões. Meu coração bate de forma acelerada, mas eu sei que não é apenas pelo melhor sexo da minha vida. Há outro motivo que o faz bater dessa forma e eu sei denominá-lo muito bem. — Eu te... quero tanto, Laís. Por um segundo, penso que ele vai dizer aquelas três palavras mágicas. Nenhum de nós disse algo que remeta a isso até agora. Talvez ainda seja muito cedo, embora eu não tenha dúvidas do que sinto. — Hum... então eu não sou a única aqui com saudades? — ele abre seu sorriso sensual. Oh, céus, que perdição! Eu preciso achar um jeito de manter esse homem sempre sorrindo. — É, acho que não. Não podemos negar que sentimos falta um do outro. Seu corpo ia te desmentir se você tentasse. — Convencido. Ele sai de dentro de mim e vai em busca de um lenço molhado para me limpar, trazendo um pouco de alívio à minha boceta dolorida. Ajusta meu vestido e deposita um beijo rápido em meus lábios. — Tem trabalhado muito esses dias? Solto um suspiro cansado. — O CEO dessa empresa é um opressor — ele sorri. — Hum... pensei que se sentiria aliviada por ter um pouco de espaço para trabalhar. — Não. Posso te garantir que alívio foi a última coisa que senti. Talvez agora sim eu esteja um pouco mais aliviada. Ele estreita os olhos, passando a mexer em meu colar de modo inquiridor. — Andou fazendo visitinhas ao sexy shop novamente? Seguro em sua gravata, mantendo um ar misterioso. — Digamos que eu fiquei curiosa sobre um determinado assunto que você comentou e andei fazendo algumas pesquisas. — Está dizendo que se interessou por pompoarismo?


— Por que não? Participei de um curso básico esses dias. Você não faz ideia dos truques que aprendi. Antony me puxa de encontro a ele e apenas mira o fundo dos meus olhos, parecendo um pouco indeciso do que pretende dizer. Depositando um beijo casto em meus lábios, sussurra ao pé de ouvido. — Não vejo a hora de conhecer cada um deles. Meu corpo responde à sua provocação e já me vejo perdida em seus braços novamente. Das coisas boas que já aconteceram na minha vida, certamente Antony está entre as melhores. Não há lugar no mundo onde eu ame mais estar.


Raios

de sol batem nos meus olhos, me convidando a sair da cama cedo mesmo que eu esteja numa manhã de sábado e não precise trabalhar. Fecho a cortina, me espreguiçando um pouco mais. Lembro do meu CEO. Antony é a primeira lembrança que enche minha mente quando acordo e a última que me acompanha quando vou dormir. Isso quando não dorme ao meu lado, como hoje. Faço minha higiene matinal e desço para a cozinha em busca de algo para comer. Leite, suco, café, pão, bolo, frutas. Eu não lembro de ter ido às compras ontem, então se essa mesa está tão bonita deve ser coisa de Alana. — Bom dia, flor do dia! — ela diz, caminhando com uma porcelana cheia de aipim tão quentinho que dá pra ver a fumaça saindo. Hum... eu adoro aipim. O que deve ter acontecido? — Quanta animação! Bom dia! Lana deposita o alimento sobre a mesa e corre em minha direção quase me derrubando com um abraço pra lá de vibrante. Não entendo. Pelo que eu lembre, não é meu aniversário, muito menos o dela, então qual será o motivo de tanta agitação em plena manhã de sábado? — Lai, lembra que te contei que faria uma seleção ontem? — pergunta, dando pulinhos de alegria.


Droga! Ela me falou algo sobre fazer um teste para TV, mas ando com a cabeça tão a mil que esqueci de perguntar como foi. — Sim, sim. Tem novidades? Conte cada detalhe, Alana. Você conseguiu o papel para participar da nova temporada daquela novela? — Calma, deixe-me te contar desde o princípio. Havia outras garotas para fazer o teste o que me deixou meio insegura a princípio, mas quando chegou minha vez, respirei fundo e decidi me entregar de corpo e alma. Sento-me à mesa e encho um copo com suco. Tomo um gole, sentindo o líquido gelado e um tanto azedo descer por minha garganta. Ela fez o suco como eu gosto: com gelo e sem açúcar. Preciso mantê-la feliz todas as manhãs, penso. Tiro um pedaço de bolo, oscilando entre dar uma mordida e observar as caras e bocas de Alana. Dou um pedacinho a Alfred, que me pede com o olhar como faz todas as manhãs. Ainda de pé, ela começa a gesticular com as mãos como se estivesse diante de uma plateia esperando os aplausos. Minha amiga é realmente uma figura. — Certo. Então, você brilhou na seleção. — Você não vai acreditar. Uma das avaliadoras nem me deixou fazer o teste. Disse que meu nome já constava lá como uma das escolhidas e que já tinha visto pequenos trabalhos meus no teatro. — E o que isso quer dizer? — Aprovada! Eu fui A-pro-va-da! Você acredita, Lai? Finalmente realizei meu sonho e posso dizer a todos que sou uma estrela de TV. Uma grande e brilhante estrela! Que estranho. Até outro dia, Alana era recusada em diversas seleções que fazia até mesmo para o teatro, sem perspectivas de se consolidar na carreira e agora... é selecionada sem ao menos fazer um teste? — Tem certeza de que não há alguém por trás disso, Lana? Talvez que esteja interessado pessoalmente em você. Tenha cuidado. Sua alegria se desvanece um pouco. É claro que não gosto de vê-la assim. É minha amiga, oras. Acontece que ela pode se entregar muito quando deseja algo e se decepcionar depois. Preciso ser sua voz da consciência de vez em


quando. — Você não está feliz por mim, Laís? Deus, da forma que ela fala me faz sentir tão culpada. É claro que estou feliz por ela. — Você ainda tem dúvida, boba? Apenas estou te dando um alerta, mas deixa pra lá. O fato é que enfim seu grande dia chegou. Será que corro o risco de perder uma amiga para o mundo de celebridades? Ela ri, dando pulinhos e batendo palmas em comemoração. — É claro que não. Eu vou perseguir o sucesso, mas ele não terá o mesmo sabor se eu não tiver as pessoas que amo compartilhando dele comigo. Levanto para lhe dar um abraço. Eu sei que ela está sendo sincera em suas palavras. Alana é uma mulher de princípios e jamais perderia sua essência. — Daniel já sabe? — Sim. Ele também ficou muito feliz — seu rosto se desfigura de repente. — Senta aqui, Lai. Eu preciso te falar uma coisa. Fico preocupada. O que poderia ser tão importante a ponto de estragar o grande momento de Alana? Sento ao seu lado à mesa, minha atenção totalmente voltada para ela que parece buscar as palavras certas para falar. — Eu não sei como dizer isso e já morro de saudades apenas por pensar no assunto. — Ei, você está me preocupando. Fala de uma vez. — Certo. Vou soltar a bomba. A questão é que... a emissora está exigindo que todos os novos contratados fiquem alojados em um Apart hotel, especialmente disponibilizado para o elenco. — Alojados? Isso quer dizer que você... vai ter que se mudar? — Sim. Eles disseram que serão muitas horas de ensaios, então precisamos morar próximos à cidade cenográfica neste período. Sinto muito, Lai, vou ter que perseguir meu sonho. Já me mudo na próxima semana. Eu sabia que esse dia no qual Alana e eu seguiríamos caminhos diferentes chegaria, mas imaginava que seria por conta de casamento ou qualquer outro motivo.


Seria muito egoísta se me permitisse entristecer por sequer um segundo quando a notícia que ela está me dando é muito superior aos meus sentimentos. Ela está indo em busca da felicidade, oras. Só me resta torcer e compartilhar dessa felicidade com ela. — Oh, Lana. Eu vou sentir tanto sua falta. Nos abraçamos demoradamente, lágrimas molhando nossos rostos como se ela tivesse dito que ia morar do outro lado do mundo. Todo rompimento é doloroso e carrega consigo uma carga emocional que abriga momentos difíceis de serem esquecidos. Eu não quero e não vou esquecer cada um dos que vivi com ela. Tenho certeza de que Alana também não. — Ei, não é como se eu fosse morar em outro planeta. Rá! Diga isso ao meu coração que já está apertado só de imaginar que não terei a alegria dela todos os dias aqui comigo. — Eu sei, eu sei — tento mudar o foco. — Então parece que hoje é dia de comemoração, não? Esse banquete merece ser devorado — brinco enquanto enxugo as lágrimas teimosas que rolam em meu rosto. Depois de brindarmos com suco de laranja e tomarmos um café da manhã reforçado, ela me convida para assistir sua série de TV favorita que passou no dia anterior, mas ela deixou gravando. — Já vai começar, Laís. Venha logo! Termino de colocar a ração de Alfred e corro para o sofá antes que ela vá me buscar pessoalmente. Lana não perde um capítulo de 2 Broke Girls, um seriado da TV a cabo que conta a história de duas garotas pobres com um sonho em comum. Antony e eu não marcamos nada para este dia e como Daniel não está aqui, somos apenas ela e eu como nos velhos tempos. Me jogo no sofá ao lado de Alana e logo Alfred se deita no tapete aos meus pés. — Adoro essa série. A história dessas meninas é tão parecida com a nossa. Elas têm que ralar muito para ganhar a vida — Lana divaga, emocionada. — Eu também gosto muito. Quando elas estão chegando lá, sempre acontece algo para impedi-las, mas mesmo assim não desistem.


— Verdade — ela alisa o pelo de Alfred sem tirar os olhos da tela. Vou sentir saudades de momentos como este. — Que milagre você estar sozinha hoje. Sr. Sublime está lhe dando algum espaço? Tenho passado mais tempo com Antony do que com qualquer outra pessoa. Almoçamos juntos, trabalhamos juntos e, na maioria das noites, dormimos juntos. Lana tem seus motivos para me fazer tal pergunta. — Parece que ele decidiu me dar uma folga — brinco. — Sei. Sua cara não é de contente por estar longe do grande CEO opressor. Pelo que te conheço, já deve estar até com saudades. — Então você não me conhece, Lana. Estava tão na cara assim que eu não via a hora de rever Antony? Acho que preciso disfarçar melhor meus sentimentos. Minha amiga e sua boca são um perigo. Assistimos a série que dura cerca de quarenta minutos. A todo momento, ela criticava a atuação de uma atriz, elogiava outra, fazia gestos dramáticos para dar sua opinião como sempre faz. Eu apenas rio das loucuras de Alana. É quase impossível me manter séria perto dela por muito tempo. Ouço batidas na porta. É incrível como meu coração dispara cada vez que penso na possibilidade de ser Antony quem está aqui. Alfred corre até lá, funga um pouco e não late. Ou é ele ou é Daniel. Meu coração bate ainda mais forte. Corro para abrir e ouço os risos fracos de Alana. Ela sabe o quanto já estou caidinha por ele e não para de zombar sempre que tem oportunidade. Abro a porta apenas para me deparar com o homem sublime que Antony é. Meu pai do céu! Ele está encostado contra a parede, com uma bermuda cargo e uma camisa gola polo Armani, enquanto gira seu pequeno brinco na orelha. Deus, será que algum dia vou me cansar dessa visão? — Oi — abre seu sorriso matador. Engulo em seco, buscando minha voz. — Oi.


Antony dá passos determinados em minha direção e segura meu rosto em suas mãos, me forçando a caminhar para trás até que ele esteja dentro do apartamento. Leva um tempo me admirando, em seguida invade meu mundo com um beijo doce e apaixonado por segundos, minutos. — Bom dia! — diz, ainda depositando pequenos beijos no meu rosto. — Bom dia, meu CEO. Posso me acostumar com isso, sabia? Ele ri. — Essa é a intenção — adoro sua voz rouca e sensual. — Ei, não sei se perceberam, mas estou aqui. Por favor, me livrem da cena de vê-los começar a tirar a roupa antes mesmo de encontrarem um quarto. — Olá, Alana — ele olha para a mesa e levanta uma sobrancelha. — Estou vendo que andaram comemorando por aqui. — Ah, Sr. Sublime, eu tenho muito o que comemorar. Fui aprovada num teste para a TV, você acredita? O mundo agora vai conhecer quem é Alana Taylor. — Seu sobrenome é Silva, se não me engano — digo, aos risos. — Silva não vende, queridinha. Meu sobrenome artístico é Taylor, uma homenagem à minha diva Elizabeth Taylor. Antony abraça minha cintura pelas costas, claramente se divertindo com as loucuras de minha amiga. — Fico feliz por você Alana. Eu conheço algumas pessoas da emissora e sei que vão te tratar muito bem — ele beija meu pescoço, levando meu corpo a se arrepiar por inteiro. — Vá vestir uma roupa decente, Laís. Eu quero te levar a um lugar. — Me levar a um lugar? — bato continência. — Sim, senhor. — Ah, e coloque calça ou short. Dou-lhe um olhar interrogativo e ele apenas dá de ombros. Estou de baby-doll já que não tinha planos para sair hoje. Não questiono para onde ele pretende me levar porque sei que não vai adiantar. Quando quer manter segredo, não tem jeito. Tomo um banho e decido vestir um biquíni por debaixo da roupa. Antony tem me levado a alguns lugares nos quais não me sinto tão à vontade como


restaurantes luxuosos e cafés cheios de gente esnobe. Acho que já está na hora dele aprender melhor o que eu gosto de fato. E vai ser hoje. Coloco um vestido solto — vestido facilita bastante, não? — e uma sandália rasteira. Encho uma bolsa com alguns utensílios necessários, um short e estou pronta. Passo por ele desfilando na sala e seu olhar de reprovação me acompanha. Paro na porta. — Vamos? Ele se despede de Alana e cruza suas mãos nas minhas, conversando amenidades até que chegamos ao estacionamento. — Cadê seu carro? — questiono confusa. Meu CEO para diante de mim e agarra minha cintura. — Você devia pensar em trocar de carro — ele sugere. — Eu poderia te ajudar, te dar um presente, quem sabe... — Não, Antony. Não vamos voltar a essa conversa na qual você tenta me comprar e eu me sinto uma mercadoria barata. — Desculpe, querida. Isso sequer passou por minha cabeça. Um empréstimo, talvez? — Não. Um dia vou conquistar tudo que eu quiser como fruto do meu suor. Não se preocupe. Tenho tudo que preciso no momento. — Teimosa — diz, dando um tapa em minha bunda. — Eu pedi para que vestisse um short, não foi? Agora vai ter que andar na moto de vestido. — Moto? — Sim. Já andou antes? Ele me leva até uma linda moto toda preta e cromada, puxa um capacete e me entrega. Fico um pouco nervosa em andar naquela coisa monstruosa, mas tenho certeza de que vou adorar a aventura. Aliás, eu amo tudo que faço ao lado deste homem. — Andei apenas em motos de poucas cilindradas quando morava no interior. Nada parecida com essa aqui. Por que tudo que vem dele parece tão imponente e esmagador?


— Ótimo. Você vai gostar de andar nessa Ducati desenhada e produzida exclusivamente para mim. — Você mandou fazer um modelo apenas para você? — Por que não? Venha, eu quero te apresentar um lugar. Sento na moto com a adrenalina a mil e aperto sua cintura como se minha vida dependesse disso. Ele acelera e o som é tão alto que me leva a tomar um susto. Antony apenas se diverte com cada reação minha. Repentinamente, sintome uma garotinha do interior que está vendo a cidade grande pela primeira vez. Com a habilidade de um profissional, ele corta as ruas de Verdes Montes, milimetricamente ultrapassando carros que se movimentam com rapidez. Eu confio nele e o nervoso começa a se transformar em diversão. Arrisco inclusive abrir os braços quando passamos por uma avenida de frente ao mar. Minha ideia precisa ser colocada em prática agora, antes que ele me leve para mais um lugar no qual não quero estar. — Antony, pare por favor. — O quê? — o vento forte não permite que ele me escute direito. — Antony, estou pedindo que pare um pouco aqui. Ele vira a moto repentinamente, fazendo uma curva quase deitada. Sinto como se fosse cair, mas estacionamos num lugar seguro, em seguida. — O que foi, Laís? Não está se sentindo bem? — Não é nada disso. Eu apenas pensei que poderíamos ficar... um tempo na praia. Você tem me levado a alguns lugares que não me deixam tão à vontade. Talvez fosse legal se mudássemos um pouco. Ele parece confuso. — Por que não comentou isso comigo antes? — Estou falando agora. Ele abre um sorriso terno, como se estivesse me tranquilizando em uma mensagem silenciosa. — Eu acho que você vai gostar do lugar que pretendo te levar. Confia em


mim? Será que ele ainda tem dúvidas disso? — Claro, Antony. — Obrigado. Ele toma minha mão, me convidando a subir na moto novamente e ganhamos a estrada, agora na expectativa desse lugar que ele comentou. Estamos começando a nos afastar das casas, chegando a um lado que eu não conhecia da cidade, onde há grandes mansões. Em instantes, chegamos de frente a uma delas, tão suntuosa que me deixa um tanto intimidada Ele teria me levado até sua casa? Antony aperta um botão e os portões se abrem, me dando o vislumbre de uma casa muito maior do que minha limitada imaginação conseguia idealizar. Eu pensava que somente astros de Hollywood moravam em lugares assim. Para quê um homem sozinho precisa de um lugar tão exagerado quanto este? Ele para diante da entrada, me ajudando a descer da moto. — Antony... é aqui que você mora? — minha voz sai um pouco engasgada pela surpresa. — Sim. Bem-vinda ao meu lar, querida. Faz pouco tempo que ele mora aqui em Verdes Montes, então deve ter adquirido recentemente. — É nova? — Não. Já tenho há algum tempo. Comprei quando minhas visitas à filial da editora começaram a ficar mais constantes. Não gosto muito da impessoalidade dos hotéis. — Isso quer dizer que você tem mais de uma casa? — Sim, algumas. Principalmente na Itália. — Por que você nunca me trouxe aqui antes? Ele me observa, demorando um pouco para responder, traços indefinidos em seu rosto. Eu não gosto de sua reação. — Você nunca me pediu. Além de tudo, eu gosto do conforto de seu apartamento.


Sério que estou ouvindo isso? O homem está falando de conforto quando tem tudo isso à sua mercê? — Eu precisava pedir? — Agora chega de perguntas e venha conhecer a piscina. Eu não tenho roupa de praia para mulheres em minha casa, então acho que você terá que tomar banho nua. Desta vez vou deixar passar, Antony. Só desta vez. Safado! — É muito tentador, Sr. Sublime, acontece que sou uma mulher prevenida. Eu estou de biquíni. Ele coloca a mão no peito. — E eu que pensei que hoje você realizaria meu sonho de tê-la nua como uma sereia na piscina de minha casa. Sorrio. Ele me leva até a lateral da casa na qual uma enorme piscina infinita me recepciona, bastante convidativa. Em um segundo atendo ao desejo do meu corpo e me jogo na água gelada, sentindo alívio por conta do calor. Ele me acompanha e ali permanecemos entre amassos e beijos. Brincamos como duas crianças, apostando quem chega mais rapidamente de uma raia a outra da piscina. Quem o vir assim, não imagina que se trata daquele CEO sisudo e autoritário que todos temem na empresa. Mergulho na piscina e apareço próxima a ele, que está encostado em uma das bordas. Ele me puxa pela cintura, me beija, suas mãos começando a ter vida própria, trazendo reações quentes ao meu corpo mesmo que eu esteja com boa parte dele mergulhado na água fria. — Te quero, Laís. — Estou aqui, Antony. Nos dê o que tanto queremos. Me preparo para fazer amor com ele dentro d’água, quando ouço um barulho de carros chegando. Isso mesmo que você ouviu. Carros no plural. Parece que ele tem visitas. Dois carros se aproximam e um casal sai de cada um deles com homens e mulheres exuberantes em roupas de praia, claramente pertencentes à mesma sociedade frequentada por Antony.


Ele sai da piscina, me deixando lá, indo em direção aos seus convidados para cumprimentá-los. Uma loira magra, de rosto perfeito se pendura no pescoço dele, dando-lhe dois beijos salientes no rosto. — Antony, lindo como sempre. Estávamos passando por aqui e decidimos entrar. Faz tempo que não vínhamos a esta mansão. — Fiquem à vontade. A casa é de vocês. Ela estava inabitada, por isso não fiz mais eventos, porém decidi morar aqui, então voltarei a convidar os amigos. Uma linda morena, abraçada ao seu provável marido faz uma pergunta que leva meu corpo a se arrepiar da cabeça aos pés. Merda, já tinha ouvido esse nome antes. — Marcela está aqui com você? Quase não a vejo. Nesse momento sou um poço de confusão e sei que não vou me contentar enquanto não souber de quem se trata essa tal Marcela. Percebo que Antony se enrijece e tenta mudar de assunto. Isso só faz com que meus sentidos fiquem ainda mais alertas, determinação aflorando minhas decisões. Está na hora de desvendar alguns mistérios que rondam a vida dele uma vez que a nossa relação está se aprofundando cada vez mais. Pelo menos é o que eu sinto que está acontecendo. Seus amigos serão muito úteis nessa missão de descobertas mesmo que possam abalar meu mundo. Não posso me acovardar. E vou descobrir.


Antony

parece um tanto nervoso com a chegada repentina de seus amigos. Ele aponta em minha direção, estendendo o braço como um convite para que eles nos acompanhem em um banho. Eu acho a ideia atrativa já que preciso me aproximar deles para tentar obter a informação que preciso. — Só estamos eu, aquela linda mulher e alguns empregados dentro da casa. Por que vocês não vêm compartilhar a piscina conosco? A água está ótima para esse dia quente. Então, eu sou ‘aquela linda mulher’ na frente de seus amigos. Rá! Vamos ver até quando ele pretende me tratar de forma tão distante. Saio da piscina, me enrolo numa toalha e me posiciono ao lado dele, tomando sua mão na minha. Ele não olha em meus olhos, mas também não está me repelindo. Não há traços do homem carinhoso de agora há pouco. Poderia assumir que Antony tem vergonha de mim? — Esta é Laís — ele se vira para apresentar os demais a mim. — E estes são meus amigos Silvio e Antônio com suas respectivas esposas Brenda e Larissa. — Muito prazer — é tudo que digo. Estendo a mão para a loira e percebo que a morena se afasta para não me


cumprimentar, agarrando seu marido como se eu fosse uma ameaça. Louca! Nunca fui uma ladra de maridos e não começaria agora que estou com Antony. Depois de apertar minha mão, Brenda estreita o olhar para ele e passa a provocá-lo. Estou ansiosa para vê-la provocando ainda mais, quem sabe assim o coelho sai desse mato. — Você é danadinho hein, Antony? Não perde tempo. Tenho pena de certas pessoas... — Brenda, às vezes você fala demais — seu marido a repreende. Antony puxa meu braço antes que a conversa continue, me convidando a ir até a cozinha pegar algumas bebidas. Na verdade, eu estava em busca de uma oportunidade para ficar a sós com elas e quem sabe colher alguma informação. — Fiquem à vontade. Não vamos demorar — fala ao mesmo tempo que se apressa em nos distanciar. Brenda balança a cabeça, concordando, e me oferece um sorriso sarcástico. Meu faro não se engana. Sei que estou diante de duas cobras prontas para dar o bote, se eu der espaço. Devem estar em busca de novidades. Nesse quesito, somos três então, queridinhas. — Trate de abrir a boca. Do que elas estão falando? Quem é Marcela? Ele me arrasta até a cozinha sem dizer uma só palavra. Quando chega lá, se escora contra a mesa, aparentemente tenso, mas respira fundo e começa a responder minha pergunta. — Faz tempo que não os vejo e acham que ainda estou com uma exnamorada, Laís. — Ex-namorada? Você quer dizer que essa tal de Marcela é uma ex? — Ex-noiva para ser mais preciso. Procuro algum sinal em seu rosto que me dê a certeza de que ele não está mentindo, contudo não encontro. Olho para sua mão direita e vejo que a aliança já não está mais lá. Poderia ter sido um rompimento recente? Deus, Antony já foi noivo. Ele sempre deixou claro que não havia espaço para um compromisso mais sério em sua vida. Eu acho que noivado é um grande compromisso.


— Não sei por quê, mas tenho a impressão de que está escondendo algo de mim ainda. Eu te achei nervoso demais quando seus amigos chegaram. — Deixe de bobagem. Você não precisa se preocupar porque eles logo vão saber que não estou mais com ela e ninguém vai te destratar por isso. Venha, me ajude a levar essas cervejas. Vou pedir para os empregados prepararem drinks e tira-gostos. Finjo que estou engolindo essa história, mas sei que ela está mal contada. Ele não poderia simplesmente ter dito aos amigos que não está mais com Marcela? E como eles poderiam não saber? Pego uma bandeja e levo cervejas, alguns copos, tentando apressar o passo para chegar antes de Antony. Coloco a bandeja sobre a mesa, tratando a todos de forma gentil, educada. — Olha aqui, trouxe cerveja e meu namorado vai trazer algo para comermos. Jogo o verde! Que venha o maduro. — Que bom, estou com bastante fome — um dos homens responde, me encarando, e sua esposa lhe dá um tapa, o repreendendo. Olho de lado e percebo o desdém delas quando o chamo de ‘meu namorado’. Uma levanta a sobrancelha enquanto a outra bufa, ostentando um sorriso sarcástico. Resolvo ousar. — Ei, por que não deixamos os rapazes à vontade e tomamos um banho? O dia hoje está quente demais. Brenda concorda, me acompanhando, mas Larissa recusa o convite, dizendo que não vai molhar os cabelos. Depois de muita insistência, acaba aceitando sentar-se à borda da piscina. Já afastadas, começo a fazer perguntas. — Larissa, você comentou sobre uma pessoa chamada Marcela. Ela é parente de Antony? Finjo que ainda não tenho a versão de Antony para essa história. Ela dá de ombros. — Você não disse que é namorada dele? Então deveria saber.


Essa filha da puta vai dificultar minha vida. — O nosso namoro é muito recente, ainda não conheço sua família. Brenda se intromete na conversa. — Só te digo que tenha cuidado e nem pense em se apaixonar, pois ele não pode e não vai. Já vi muitas terem seus coraçõezinhos quebrados. Marcela é... Droga! Antony a interrompe. — Trouxe alguns petiscos e champanhe para as garotas. Venham, fiquem aqui conosco. Vamos conversar todos juntos. Eu sei que ele não vai deixá-las sozinhas comigo novamente. Quem não deve, não teme. E Antony deve. Ah, se deve.


Depois de fazer sala para os amigos dele que me trataram com muita gentileza ao contrário das mulheres que decidiram se afastar de mim como se eu fosse portadora de uma doença contagiosa, finalmente todos se foram, com promessa de voltar qualquer dia. Embora todos os meus planos de um dia divertido tenham ido por água abaixo, acho que obtive as informações de que eu precisava. Pelo menos não estou mais no escuro ao que se refere a essa tal Marcela que todos os seus amigos parecem conhecer. Resolvo dar o benefício da dúvida a Antony, até mesmo porque fiz uma busca no Google e não encontrei fotos recentes nas quais os dois estejam juntos. Ela é uma mulher morena de cabelos compridos e lisos que vão até o meio de suas costas. É muito bonita, mas bem típica desses exemplares que sempre vemos penduradas no braço de um executivo ao abrirmos os jornais. Deve ter muito dinheiro, já que a internet se refere a ela como uma socialite italiana, filha de um grande empresário no setor editorial. A forma como olha para ele nas fotos demonstra muita admiração, paixão, enquanto que Antony está sempre sério, olhando para frente com a maldita aliança brilhando em seu dedo anelar. — O que foi, Laís? Está tão pensativa. Sorrio, procurando disfarçar, mas sei que sou péssima nisso. — Nada demais. Apenas me senti desconfortável na presença de seus amigos, principalmente porque você e eu não temos exatamente um relacionamento, então acabei achando a situação um pouco incômoda. — Do que você está falando? Ele pergunta, enquanto me conduz para dentro da casa que caberia uma família enorme morando nela. Quanto exagero! Ele precisa mesmo de um lugar assim para provar o quanto é rico? — Estou dizendo que minha reação foi completamente normal uma vez que tudo que estamos fazendo é tentar, apenas tentar como ponteiros de um relógio


que roda, roda, mas não sai do lugar. Ele fecha os olhos, demonstrando impaciência. — Senta aqui, Laís — toma minha mão e me leva até seu enorme e aconchegante sofá, cheio de almofadas, que deve comportar no mínimo dez pessoas com tranquilidade. — Será que é preciso dizer com todas as letras para que você perceba que temos sim um relacionamento? — Temos? Pois bem, muitas vezes eu pensei que sim, mas hoje confesso que tive lá minhas dúvidas. Ele toma meus pulsos em suas mãos e beija cada um deles com suavidade e ternura, quase me levando a esquecer as tais dúvidas que acabo de relatar. Deus, como ele tem poder sobre meu corpo! — Vejamos se nós temos os requisitos para o que as pessoas convencionaram a chamar de relacionamento. Nos vermos praticamente todos os dias sem conseguirmos manter nossas mãos longes um do outro seria um bom indicativo? Ele quer jogar um jogo comigo, eu sei. Acontece que contra fatos não há argumentos. Eu sei que estamos vivenciando mais experiências do que muitos casais costumam experimentar, mas eu quero sim denominar isso que nós temos. Parece que oficializa a relação. — Sim, talvez seja um bom indicativo. — Foi o que pensei. Será que o fato de eu dormir mais no seu apartamento do que na minha própria casa nos permite ter um status de relacionamento? — Não necessariamente. Há pessoas comprometidas que dormem na casa da amante e nesse caso, eles não estão em um relacionamento. — Será que pode colocar sua cabeça no lugar e perceber o que você está falando? Para que você seja amante, eu teria que estar comprometido com outra mulher, Laís. E este definitivamente não é o caso. Merda, eu acho que ele tem razão. Se Antony tivesse algum tipo de compromisso com qualquer outra mulher, ela já teria aparecido na cidade, não? Eu preciso aprender a confiar nele, apesar de tantas evidências. — Talvez você esteja certo. — Sim, é claro que estou certo. Continuando... sair de mãos dadas, ir a


lugares públicos com você, te apresentar aos amigos mais íntimos poderiam ser considerados sinais claros de que estamos em um relacionamento? Estou sentindo calafrios apenas por imaginar onde essa conversa pode parar. Dê nome aos bois, Antony. Eu quero saber em que pé estamos. — Defina relacionamento. Eu me relaciono com várias pessoas todos os dias. Eu quero saber o que exatamente nós temos. Ele me dá um sorriso malicioso, mostrando um pouco seu lado traquino. Parece convicto do que vai dizer e minha mente trabalha na tentativa de adivinhar quais serão suas próximas palavras. Ele vai dizer o que tanto meus ouvidos desejam escutar? — Não me peça para conceituar algo que estou me permitindo viver pela primeira vez como se fosse possível encontrar palavras disponíveis no dicionário para isso. Antony pausa apenas para deslizar sua mão no meu rosto de forma carinhosa. Fecho os olhos para sentir a intensidade de seu toque. — O fato é que nunca dei tanta importância a uma mulher como estou dando a você, Laís, e se isso não é suficiente, então talvez eu deva formalizar com um pedido do que já está em prática na minha cabeça há muito tempo. Meu coração acelera. Penso que ele pode sair pela boca a qualquer momento ou decidir parar de funcionar exatamente agora. Antony é a fantasia que nunca tive intenção de realizar encarnada diante de mim. É o sonho que esqueci de sonhar. Tremo só de imaginar que pedido seja esse. — Diga as palavras, Antony. O que você quer de mim? Ele solta um riso nervoso e então passa a me encarar com seriedade. Engulo em seco quando pega minha mão e começa a dizer o suficiente para me fazer a mulher mais feliz deste mundo. — Laís Oliveira, você aceita ser minha namorada?


Se

alguém me dissesse que um dia eu estaria em uma mansão, sentada diante de um homem rico e poderoso como Antony me pedindo em namoro, eu diria que a criatura foi possuída por algum espírito de loucura, uma vez que essa seria a última cena que passaria por minha cabeça na vida. Mas o fato é que estou e esse pequeno detalhe não tem qualquer importância para mim quando o que busco não pode ser comprado por dinheiro nenhum deste mundo. Tudo que desejo é alcançar o coração de Antony como ele irrevogavelmente alcançou o meu tal qual uma onda que encontra a costa, mas quando volta, nunca é a mesma, perdendo para sempre um pouco de si no retorno. Este homem que tem o poder de transformar meu mundo em turbulência agora me olha como se estivesse estendendo uma bandeja com a promessa de dias de calmaria. A calma que meu coração tanto anseia. Devo acreditar nisso? — Tem certeza do que você está me pedindo, Antony? Eu não posso dar uma resposta baseada na emoção quando sei que não vou me contentar em estar com ele pela metade. Eu quero que ele meça o que está me propondo. Na minha cabeça, namoro é um compromisso.


Ele estaria pronto para isso? — Não, Laís. Eu não tenho certeza de nada. Merda! Um passo pra frente, dois pra trás. Abro a boca para falar, mas ele me interrompe. — Você vai precisar ter paciência comigo. Eu já disse que isso tudo é muito novo para mim. — Como pode ser novo se você já passou por um noivado? Antony muda de posição no sofá, claramente incomodado por eu voltar a tocar no assunto do seu passado. — Você vai insistir mesmo em saber sobre Marcela, não é? Então, vamos lá. A verdade é que não foi exatamente um noivado convencional. — Como assim? Você pode ser mais claro? — Marcela e eu tínhamos um acordo de interesses. Nossas famílias têm uma boa relação e... — ele respira fundo. — A questão do dinheiro falou mais alto. Ela é de uma família tradicional e rica da Itália, então na época parecia conveniente um namoro entre nós. Eu estava certa o tempo todo. Ela é podre de rica, além de ser linda. Deus, cada palavra que sai da boca dele faz com que minhas esperanças de um futuro se tornem mais cristalizadas. Eu não tenho nada a lhe oferecer além do meu amor. Se ele está aqui é porque há motivos mais fortes do que o dinheiro, já que não tenho nenhum. — E vocês não se viam? Impaciência é o segundo nome de Antony. Tenho certeza de que ele não gostaria de estar respondendo a tantas perguntas, mas eu não sou do tipo de fugir de uma conversa honesta. Se começou, tem que ir até o fim. — Aonde esse tipo de questionamento vai nos levar, Laís? — Apenas responda, Antony. Não precisa me poupar. Ele balança a cabeça assentindo, sua voz vacilante quando prossegue. — Nos víamos muito pouco. Ela não gosta do Brasil e, por outro lado, minha vida profissional está aqui. Dessa forma, só nos víamos quando eu ia pra Itália.


Quanto mais eu ouço, mais confusa fico. — Que relacionamento estranho. Como você se submetia a isso? — Para mim era perfeito. Eu não precisava suportar seus mimos demasiados e poderia ter a mulher que eu quisesse. Era perfeito até que... você cruzou o meu caminho. Certo. Esse é o momento que viro manteiga e me derreto na frente deste homem? Meia dúzia de palavras soa como a mais linda declaração de amor aos meus ouvidos. De certa forma, Antony trilhava por um caminho que, embora não compreendesse a princípio, estava fadado a conduzi-lo para uma vida de infelicidade. Como um casamento baseado no dinheiro poderia dar certo? — Estou muito feliz por ter cruzado seu caminho, Sr. Sublime — dou-lhe um beijo rápido. — Mas me diga, por que terminaram se era tão conveniente? — Nossa, você vai extrair todas as informações que conseguir, hein? Estou me sentindo em um programa de perguntas e respostas — diz, aos risos. Sorrio também, ansiosa para o que vem em seguida. — Quero saber de tudo. Ainda estou esperando, querido. — Teimosa — tenta me distrair com pequenos beijos no pescoço que causam reações imediatas no meu corpo. Ele quase consegue. Quase. — Terminamos por todos os motivos que acabei de listar. Eu já pensava nisso há algum tempo e acabei tomando essa decisão recentemente. Me afasto dele. Será que está dizendo o que eu acho que está? — Quando fizemos amor pela primeira vez, você ainda estava... comprometido? Antony engole em seco e a certeza de que não vou gostar da resposta se solidifica dentro de mim. Ele diminui nossa distância, quando segura minha mão a apertando com força, aparentemente temendo que eu fuja. Ele não me conhece, se pensa assim. Fui eu quem começou, então vou até o final. — Não quero mentir para você. Nunca. Preciso ter certeza de que confia em mim. Sempre. Nunca.


Sempre. Não há nada que eu queira mais do que confiar em você, meu CEO. — Então? Ele fecha os olhos e solta de uma vez como se estivesse tirando um esparadrapo da ferida. — Sim, Laís. Eu terminei tudo oficialmente naquela semana que fui para a casa dos meus pais na Itália. Este era o problema que eu tinha a resolver lá. Já não aguentava mais a sensação de ter um assunto inacabado. Precisava terminar o noivado. Oh, meu Deus! Eu nunca me envolvi com um homem comprometido antes. Sempre fugi a léguas deles mesmo quando era adolescente e os namorados de minhas amigas flertavam comigo. Não suporto saber que posso ser o motivo pelo qual alguém está sofrendo. Como se adivinhasse meus pensamentos, Antony continua. — Você não precisa se culpar por nada, querida. Se há culpados nessa história, eles são Marcela e eu. Não havia um futuro para nós e eu ia acabar descobrindo isso mais cedo ou mais tarde. Sou grato por tê-la conhecido e isso acontecer antes de um casamento fracassado. — Antony... as coisas não são tão simples assim. Há expectativas em um noivado. Ela deve estar sofrendo muito. Ele solta um riso fraco. — Posso te garantir que não. Marcela é fútil e egoísta demais para se permitir agonizar por causa de outra pessoa. Ela pensa que o mundo gira em torno dela e tenta ser superior em qualquer situação. Essa descrição não condiz com a impressão que fiquei quando vi fotos deles no Google. Ela parecia bastante apaixonada. — Não entendo, Antony. Eu pensei que... — Chega, Laís. Eu não quero ficar desenterrando os fantasmas do passado quando meu futuro está bem diante de mim. Você ainda não me respondeu, querida. Quer ser minha namorada? Sinto-me um tanto oprimida pelo peso das revelações feitas neste dia, contudo não posso fugir daquilo que eu tenho buscado desde que meus olhos


encontraram os dele. Será que algum ser nesse universo tem dúvida do que eu quero? — Deixe-me ver... — finjo pensar na proposta. — Você está perguntando se aceito me tornar namorada de um CEO controlador, por vezes arrogante, apaixonado pelo trabalho, porém disposto a encontrar um espaço para se tornar o melhor e mais carinhoso amante que um homem pode ser? — Acho que é exatamente isso. Nesse momento, ele puxa minha mão para levantar do sofá e antes que eu perceba, me carrega no colo, passando a me beijar com gana, vontade enquanto me leva para outro lugar da casa. Não é preciso muito esforço para saber em que lugar vamos parar, não é mesmo? Ele me coloca sobre a cama lentamente, seus lábios jamais deixando os meus, quase tirando de mim o pouco de fôlego que ainda me resta. Eu já estou respondendo a sua pergunta. Sim, respondo com um beijo receptivo que traduz o que meus lábios estão impossibilitados de dizer. Respondo com meu corpo que já arqueia, implorando sua invasão, como se reconhecesse a quem ele pertence. Respondo com uma lágrima que teima em descer pelo meu rosto, misturando-se ao sabor do nosso beijo. Ele se afasta de mim apenas o suficiente para me olhar, respirando com dificuldade. — Diga as palavras, Laís. Eu quero ouvir cada-uma-delas. Passo a língua por meus lábios ainda úmidos e seu olhar acompanha meu movimento. — Sim, Antony. — Sim? Eu posso dizer ao mundo inteiro que você é minha? Sorrio. — Eu odeio o quanto pode ser um idiota possessivo, mas amo o quanto faz com que eu me sinta única ao seu lado. Odeio que os negócios e o dinheiro tenham tanta importância em sua vida, mas adoro quando para o que está


fazendo se eu apenas aparecer na porta de seu escritório. Bem... — Você está me matando aqui, Laís. — Bobo! É claro que aceito namorar você, Antony. Quem seria louca de recusar o pedido de se tornar a namorada de Antony Cavalcanti? — brinco. — Eu quero apostar em nós e para isso acho que podemos fazer mais do que tentar. Antony levanta meus braços, então segura meus pulsos, me prendendo contra o colchão macio. Este dia será marcado como um divisor de águas em nossas vidas no qual estou me abrindo para apostar todas as fichas nessa relação. As apostas estão abertas. E que vença o coração.


faz duas semanas que o calor de Antony me aquece todas as noites, seja no meu apartamento ou na casa dele. Duas semanas que ele parece estar presente em quase todos os lugares. Duas semanas de sexo alucinante com meu namorado. Na semana passada, Alana foi embora levando uma parte do meu coração junto com ela. Se minha amiga já é naturalmente dramática, imagine a cena quando a acompanhei até o estacionamento. Rios de lágrimas desabavam de seu rosto como se nunca mais fôssemos nos encontrar novamente. É claro que doeu em mim e é claro que desabei junto com ela. Acontece que não podia me permitir ficar triste por sequer um segundo quando eu sabia que ela estava alcançando o que mais sonhou na vida. Eu sempre estarei na primeira fila de sua plateia, torcendo para que seja a melhor atriz que puder ser. Estou em mais uma tarde na empresa, já começando a revisar o livro de Elizabeth Monroe. Fui bem recebida até demais no setor de literatura como um prenúncio de que as informações já começaram a vazar. Todos parecem saber do meu namoro com Antony. Meu celular apita com a chegada de uma mensagem e olho já sabendo que é dele. Esse homem não vai me deixar trabalhar em paz.


A: Linda, como está sendo seu dia? L: Ótimo. Você ainda está na empresa? A: Não, já saí faz algum tempo. Na verdade, estou precisando que vá até meu escritório pegar uma pasta que esqueci sobre a mesa. Entregue a Osvaldo para que o motorista traga até aqui. L: Sim, senhor. Algo mais? A: Sim, sempre. Eu quero sempre mais de você. L: Tudo que desejar, Sr. Sublime. Tudo. A: Merda! Você não pode falar esse tipo de coisa quando estou em meio a uma reunião de negócios. Meu pau simplesmente acordou e por sua culpa vou ter que deixar a reunião ou passarei vergonha diante de todos. L: rsrsrs, prometo resolver seu problema mais tarde.

Não espero que responda. Posto um emoji de uma carinha piscando, pego minha bolsa e me levanto para fazer o que ele pediu. Deus, Antony e eu já temos algum tempo juntos, mas parece que a brasa viva entre nós é forte demais para se apagar. Meia dúzia de palavras já foi o suficiente para me deixar morrendo de desejo. Entro no escritório dele com a facilidade de um ladrão habilidoso. Encontro um envelope branco sobre a mesa e concluo que seja o que ele está precisando. Dou uma olhada à minha volta, percebendo o quanto esta sala exala o cheiro e a soberania dele. Ela combina com a máscara de CEO frio que Antony veste quando está aqui. Eu tenho o privilégio de saber que há um coração batendo sob aquela armadura. Meu celular toca. Deve ser ele tentando falar comigo novamente. — Você já está no meu escritório? — Sim, já peguei o envelope. Vou levar para o Sr. Osvaldo em um minuto. — Não, Laís. Não saia agora. Feche a porta — seu tom de voz parece um tanto ansioso. — Por que eu faria isso, Antony? — Ah, como você é obstinada. Pode fazer o que te peço pelo menos uma vez na vida?


Caminho até a porta e a encosto atrás de mim. Não consigo entender o motivo dele me manter sozinha aqui. Ele poderia ter algo sério a me dizer? — Pronto, a porta já está fechada. — Boa menina. Como não pudemos ficar juntos hoje, preciso de uma compensação. Qual a cor da lingerie que está usando agora? — Você quer fazer sexo por telefone? — Já fez alguma vez? Pode ser muito excitante. Deixo meu celular no viva-voz. — Não, nunca fiz, mas gostaria de experimentar. Eu não estou usando sutiã, apenas uma pequena calcinha preta. — Hum... meu pau já reagiu só em saber que seus seios pesados estão descobertos, prontos para serem tocados e chupados. Tire a blusa agora. Toque-os para mim e diga o que sente. Faço o que pede, enchendo minhas duas mãos com dois seios redondos, beliscando os bicos como ele faria se estivesse ali. — Delícia, Antony, mas prefiro quando são suas mãos que os tocam. Eu já estou molhada só por imaginar. — Isso, linda, sinta como se fossem minhas mãos. Desça uma delas pelo seu ventre bem devagar, até alcançar seu pequeno clitóris. Faça isso enquanto toco o meu pau. — Ai, querido, queria tanto você aqui. Sim, hum... alcancei. Ele precisa tanto de atenção. — Eu quero que pressione, massageie como se minha boca estivesse fazendo isso. Pegue a outra mão e enfie dois dedos em sua boceta deliciosa. Meu pau já está babando em expectativa. — Estou tirando minha calcinha para facilitar. É tão melhor quando é você quem está me despindo. — Se continuar falando isso, vou ter que largar tudo e chegar aí em um minuto. — Não seria má ideia. Oh, que gostoso. Posso pegar meu brinquedinho? — Safada. Você o levou para o escritório? — lembro da atendente do sex shop dizendo que o bullet poderia ser muito útil no trabalho. E não é que ela


tinha razão? — Claro que pode. Penetre de uma só vez, como eu faria. Rápido e doloroso. Tenho certeza de que vai gostar. Eu não vou suportar muito tempo naquela tortura deliciosa. Penetro o vibrador na minha entrada e passo a bombear com toda força uma, duas, várias vezes, enquanto massageio meu clitóris. Me mantenho nessa doce tortura por algum tempo enquanto solto ruídos que enlouquecem Antony do outro lado da linha. Não demora muito para que eu sinta os primeiros espasmos e me libere em um gozo profundo. — Antony, ah... — Porra, Laís, também vou... Ele não consegue terminar a frase, substituindo as palavras por xingamentos e pequenos gemidos de prazer. Sinto do outro lado sua respiração pesada e ofegante sinalizando que acaba de se entregar ao êxtase também. Ficamos em silêncio por um tempo, nossas respirações ainda irregulares, até que encontro fôlego para falar novamente. — O que foi isso? Ele me provoca. — Foi você quem começou quando veio com seus joguinhos, me deixando como uma pedra de tanto tesão. — Antony, eu estou no escritório e em horário de trabalho. — Você acha que alguém aí é louco o suficiente para questionar a demora da minha namorada? — Eu não quero ser vista na empresa como sua namorada. Preciso ser respeitada por todos como qualquer funcionário. — Você está reclamando de ter feito sexo por telefone comigo, Laís? Te garanto que não será a única vez e não esqueça de quantas vezes já transamos no escritório. Passo a mão sobre a mesa dele e me recordo de ter sido tomada de forma selvagem naquele lugar em um dos melhores sexos da minha vida. — Tudo bem, Dom Juan. Preciso voltar para minha sala agora. Ouço batidas na porta. Desligo o celular, me recompondo para caminhar até a porta e verificar quem é. A sombra de uma pessoa se personifica e pulo


de susto quando me dou conta de quem está à minha espera. Claudia está lá, encostada na parede, seus pés batendo como um tique nervoso enquanto me fita com um sorriso irônico nos lábios e um olhar desafiador. — Laisinha, Laisinha... nunca dei nada por você, mas não tinha uma veia boba correndo em seu corpo, hein? Quer dizer que fui sua melhor amiga esse tempo todo e em troca, o que eu recebo? Uma facada pelas costas. Oi? Melhor amiga? — Do que você está falando, Claudia? Lógico que eu sei sobre o quê, mas eu quero entender o que está passando pela cabeça fantasiosa dela. — Deixe de ser cínica, Laís. Você sabia que esse CEO maravilhoso jamais resistiria ao charme de uma mulher linda e gostosa como eu, então resolveu me dar uma rasteira antes. — Olha Claudia, eu preciso voltar para minha sala. Hoje o dia está puxado. Tenho muito o que fazer. Dou um passo na tentativa de me afastar dela, mas a louca me puxa pelo braço, entrando no escritório e fechando a porta atrás de si. — Eu gostaria de entender como um homem daqueles pode dar um segundo olhar a uma mulher sem graça como você. Ou ele está cego ou ainda não teve tempo de reparar direito em mim. Rá! Quando eu sou boa, sou boa. Mas quando mexem no meu calo... — Ou quem sabe ele prefira o jogo da conquista do que agarrar a primeira que passa por sua frente se oferecendo como uma mercadoria barata. Respiro fundo, buscando meu resto de paciência, ciente de que não devo levar tudo que ela diz tão a sério. Tento me recompor antes de continuar. — Claudia, eu juro que cheguei a falar de você para ele, mas de nada adiantou. Antony não estava interessado no assunto. — Você falou, Laisinha? Sério? — ela fica pensativa, enquanto bate com suas unhas enormes no queixo. — Eu não entendo porque ele não me procurou, então. E se você estiver mentindo? — É verdade. Cheguei a sugerir que a levasse para o lançamento de um


livro, mas ele se opôs à ideia. Eu sinto muito. Isso que está acontecendo entre Antony e eu não foi premeditado. Foi mais forte que nós dois. Ela joga os cabelos para o lado e, por um segundo, sinto medo de que seu pescoço parta no meio. — Que romântico! Foi mais forte que nós dois — repete minhas palavras, zombando. — Não pense que seu caso com o chefe vai durar muito, Laís. No que depender de mim, vai acabar antes que você perceba. — Está bem, Claudia — digo, impaciente. — Você pode sair daqui agora? — Quem você pensa que é para falar comigo assim? A porta se abre com brutalidade. Antony está de pé olhando para ela de forma ameaçadora. — Você não ouviu o que Laís disse? Saia já daqui. Ela caminha em direção a ele, fazendo caras e bocas, tentando se fazer de vítima. Espalma as mãos no peito dele. Antony acompanha seu movimento com desdém. — Sr. Cavalcanti, ela estava me fazendo ameaças, dizendo que vai arrancar meus olhos se eu chegar junto de você novamente. Logo eu que sempre fui tãããão amiga dela. — Você está no lugar errado, Claudia — digo, sorrindo ironicamente. — E com a plateia errada. Nos poupe de suas cenas. — Sr. Cavancanti, está vendo como ela me trata? Eu... — Será que não ouviu o que minha namorada lhe disse? Saia daqui agora ou serei obrigado a tomar atitudes mais drásticas. — Na... namorada? — ela não consegue disfarçar sua surpresa. — Exatamente o que você ouviu. Namorada — a voz dele é ríspida. Claudia está claramente assustada, olhando de mim para ele, sem saber de que forma deve reagir. Finalmente ela nos dá um olhar altivo, joga mais uma vez seus cabelos para o outro lado e sai batendo os pés enquanto murmura algo ininteligível pelo caminho. Antony fecha a porta novamente e pega o telefone para falar com alguém. Ele é do tipo que acha melhor se livrar dos problemas do que resolvê-los. E Claudia parece que está prestes a se transformar em um deles.


— Você vai demiti-la? Calma, Antony. Apesar de tudo, ela precisa deste trabalho. Não tire dela a única coisa que ainda tem. — Se eu tivesse que agir com o coração como você está me pedindo, essa editora já teria ido por água abaixo, Laís. Essa moça tem cheiro de problema. Eu não vou ter paciência para lidar com outro rompante como este. — Eu sei que ela faz muita bobagem, mas no fundo não é má pessoa. Dê apenas mais uma chance a ela. Ele coloca o celular sobre a mesa e me puxa para perto de si, tocando meus lábios com um beijo rápido. — Você tem um coração muito bom. Tenho certeza de que ela não estaria te defendendo desse jeito se estivesse em seu lugar. Talvez você seja o lado que eu precise para me complementar, me fazer ver as pessoas por outra ótica. Provavelmente o melhor lado de mim. — Oh, Antony. Eu o beijo apaixonadamente, tentando provar que não há um só lado dele que não seja digno de ser amado, admirado. Eu vejo o quanto trabalha e se doa para a empresa. Ele tem que ser duro quando é preciso, mas consegue ser muito doce com quem o conhece mais intimamente. Meu celular toca mais uma vez, me obrigando a tomar distância dele. Quem poderia ser já que Antony está aqui comigo? Verifico o identificador de chamadas e vejo que é minha mãe. Já faz um tempo que eu não vou em casa, embora ligue para ela toda semana. — A benção, mãe. — Deus te abençoe, minha filha. Como estão as coisas por aí? — Tudo bem. Trabalhando e estudando mais do que nunca. E papai, meus irmãos? Como estão todos? — Indo de acordo com a vontade de Deus. Estou te ligando para dizer que seu pai fará um exame em Verdes Montes na próxima semana e vai precisar se hospedar em seu apartamento. Tem algum problema, querida? — Claro que não, mãe. Só me avise o dia e a hora que vou buscá-los na rodoviária. Vocês podem ficar no quarto que era de Alana. Antony está atento a tudo que falo, sua testa franzida.


— Nós vamos na terça e pegaremos o ônibus das nove da manhã. Vamos chegar aí por volta das cinco da tarde. É o tempo que você deve estar saindo do trabalho, não? — Está perfeito, mãezinha. Nos vemos na próxima semana, então. Estou morrendo de saudades. Uma lágrima cai do meu olho, mas ela não é de tristeza. Na verdade, estou feliz por saber que estarei próxima dos meus pais novamente nem que seja por apenas alguns dias. Eu só os vejo duas vezes ao ano quando estou de férias. Termino a ligação ainda olhando para o aparelho enquanto algumas lágrimas fazem seu caminho pelo meu rosto. Antony me oferece um lenço e me convida a sentar no pequeno sofá em seu escritório. — Então você estava falando com sua mãe. Você quase nunca fala sobre sua família. Agora fiquei curioso. Sorrio. — Eu adoro estar com meus pais. Sinto-me uma criança mimada novamente que precisa de um colo para se sentir protegida. Na verdade, minha mãe ligou para dizer que virão na próxima semana, já que meu pai tem um exame para fazer. — Sei. Que dia? — Ah, ela disse que devo pegá-los na rodoviária no final da tarde de terça. Já estou avisando que não posso ficar na empresa até tarde nesse dia. — Entendo. Eles vêm de ônibus? — a pergunta dele sai um pouco mais alta do que devia. — Nossa, está assustado? É assim que as pessoas comuns se locomovem, sabia? Nem todos têm uma nave espacial como você. Ouço seu riso delicioso, embora ele se mantenha com um olhar distante, um tanto pensativo. — Estou ansioso para conhecer os responsáveis por trazer um ser tão admirável ao mundo. Agora vá trabalhar, mulher. Nós só dependemos de você para lançar o próximo livro de Elizabeth. — Estou indo. Este livro está maravilhoso como todos. Me sinto tão privilegiada por estar lendo em primeira mão.


Ele me acompanha até o elevador depois de pegar seu envelope para voltar à reunião. Não tenho dúvidas de que ainda vou enfrentar muitos desafios para continuar ao lado de um homem tão intenso e impetuoso como Antony, mas estou pronta para cada um deles.


Enfim,

a terça-feira chega e a expectativa para rever meus pais mais tarde está a mil. Estes dias, Antony tem andado muito estranho, um tanto misterioso quando fala ao telefone, disfarçando diversas vezes quando me aproximo dele. Alguma esse homem está aprontando e rezo para que seja coisa boa. Tudo está tão perfeito entre nós que chego a sentir medo de que algo possa vir e estragar. Meu celular vibra sobre a mesa. Mesmo sabendo que meu CEO está apenas há alguns andares acima, sempre corro quando chega mensagem. Recebo muitas dele. Às vezes, ele manda apenas uma frase carinhosa que faz o meu dia. Outras, se trata de um teor digamos... mais sexual que tem o poder de me aquecer instantaneamente. Poucas vezes, são assuntos cotidianos. Eu amo cada uma delas porque reflete perfeitamente a nossa necessidade de estarmos juntos o tempo inteiro mesmo quando não é possível estar cara a cara. Mas desta vez, não é ele. Meu celular me avisa a chegada de um e-mail. DE: UNIVERSIDADE FEDERAL DE VERDES MONTES PARA: LAÍS OLIVEIRA


ASSUNTO: VAGA PARA PROFESSOR SUBSTITUTO Prezada cursista, Temos a honra de lhe informar que após uma seleção interna na qual vários quesitos dos estudantes de mestrado foram avaliados, a Sra. encontra-se entre os finalistas para ocupar uma vaga como professor substituto da disciplina Leitura Literária. Se houver interesse, favor entrar em contato com seu orientador para maiores informações.

Oh, meu Deus, eu não consigo acreditar no que está diante dos meus olhos. Sempre sonhei com o dia que eu pudesse passar uma tarde inteira falando sobre livros e ainda ter o bônus de ser paga por isso. Será que estou prestes a alcançar esse sonho? Tiro um print do e-mail, guardo o livro de Elizabeth que ainda está em processo de revisão e corro para o escritório de Antony, rezando para que ele esteja sozinho. Felicidade é um sentimento que precisa ser compartilhado. Dou três batidas na porta, mas já vou entrando antes de ouvir um convite. Péssima decisão. Ele está reunido com um senhor e, quando percebe minha chegada, levanta a visão sem abrir o sorriso receptivo que já estou viciada em ganhar. — Desculpe, Sr. Cavalcanti. Eu... eu volto outra hora. Merda, Laís. Desde quando você começou a ser tão impulsiva assim? Faço o mesmo caminho pelo qual entrei, pronta para bater a porta atrás de mim, quando Antony me chama com voz autoritária. Ele está totalmente no modo CEO. — Fique, Laís. Volto a entrar na sala completamente constrangida, fazendo uma nota mental de ligar para Antony antes de invadir sua sala desse modo novamente. — Não atrapalho? Eu não sabia que estava em reunião. — Para você, eu sou sempre Antony e não, você nunca atrapalha. Como ele consegue transmitir tanta intimidade sem mudar seu tom imperial? — Como vai? — o homem, que deve estar se aproximando da casa dos cinquenta, levanta me oferecendo sua mão com um sorriso gentil no rosto. — Sou Milton Antônio e você deve ser Laís Oliveira, estou certo?


— Você é... Milton Antônio? — Deus, devo parecer cada vez mais patética. — Eu fui a principal revisora de sua coleção e não posso deixar de dizer o quanto sou admiradora do seu trabalho. Parabéns, suas obras são muito boas. — Obrigado. Se meu trabalho está bom, devo a você também já que um livro não depende só do autor para ficar pronto. Todos os colaboradores são muito importantes para o seu sucesso. Eu poderia passar o dia todo conversando com ele apenas sobre isso. Acontece que outro objetivo me leva até aquela sala. — Milton já estava de saída quando você chegou — Antony me dá um vislumbre de seu sorriso estonteante. — Ele virá aqui outras vezes, uma vez que estará lançando outro produto conosco. — Sim, e espero que a editora tenha outras funcionárias tão bonitas quanto você... — ele pisca para mim, sabendo que estou sendo observada de perto. — Cheguei tarde demais. Antony a viu primeiro. Ele se vira na direção do meu namorado que não demonstra qualquer reação ao que ele acabou de dizer. Não é típico de Antony ficar impassível, então acho que ele entendeu a brincadeira. Ambos se despedem e depois de um aceno, eu estou sozinha no escritório com ele. — Sentiu minha falta, linda? — Sempre, meu CEO. Acontece que esse não é o motivo pelo qual estou aqui. — Não? E eu aqui pensando que todas as vezes que você vinha ao meu escritório sua única intenção era de usar esse corpo aqui. Já começava a me preocupar de ser visto por você como um simples objeto sexual — ele brinca. — Bem, se você não fosse tão tentador e me fizesse esquecer todos os motivos pelo qual eu venho até sua sala, eu poderia vê-lo como um homem de conteúdo. Especialmente na cabeça de cima, se é que me entende. Ele dá a volta em sua mesa e estreita nossa distância quando me agarra pela cintura. — Eu posso ter muito conteúdo se não tiver uma boa distração.


— Está vendo sobre o que estou falando? Ele deposita um beijo no meu pescoço. Me derreto com seu contato, precisando de muito esforço para me desvencilhar de seus braços. — Estou vendo que desta vez não estou conseguindo ser convincente o suficiente. Por que está aqui, Laís? Tenho certeza de que ostento um sorriso do tamanho do mundo agora. — Advinha o que chegou para mim? — entrego o celular para ele. — É um e-mail da universidade. Antony lê concentrado, seu sorriso se abrindo como um lindo sol num dia de verão. Ele está claramente feliz por mim. Tem como não amar este homem? — Que maravilha! Parece que alguém está a apenas alguns passos de realizar seu grande sonho. Parabéns, meu amor. Amor. É a primeira vez que ele me chama de amor. Quantas surpresas mais este dia me reserva? Um pensamento rápido passa por minha cabeça e a pergunta foge da minha boca antes mesmo que me dê conta. Eu quero galgar cada passo da minha carreira com minhas próprias pernas. É uma questão de honra. — Não tem dedo seu nessa história, não é mesmo? Ele fica sério outra vez e me xingo mentalmente por quebrar o clima de celebração de agora há pouco. — Eu quero que entenda uma coisa, Laís. Eu seria capaz de usar minha influência para te dar o mundo se fosse preciso, mas eu sei o quanto é importante para você conquistar seus sonhos por esforço próprio e eu respeito isso. Nunca ultrapassaria um limite exposto por você. — Obrigada. Meu namorado é todo sorrisos novamente, o que me leva a pensar se é possível que me apaixone por ele mais uma vez. — Estou orgulhoso de você. Acho que devíamos sair para comemorar qualquer hora dessas. Não é hoje que seus pais chegam? Droga, meus pais. Falei com minha mãe pela manhã, mas esqueci completamente de ligar pela tarde. Olho para o relógio. São três em ponto e ainda falta algum tempo até que cheguem. Mesmo assim preciso de notícias


sobre a viagem. — Sim, eles chegam daqui a pouco. Eu vou ligar para minha mãe. Pego meu celular da mão dele e começo a discar. Antony está com ar despojado, ao mesmo tempo misterioso, recostado contra a mesa enquanto gira seu brinco na orelha como se avaliasse minhas reações. Um, dois, três toques depois, ela atende com um tom de voz relaxado. — Alô, Laís? — Oi, mãe. Desculpe não ter ligado antes. Eu estava um pouco ocupada. Está tudo bem na viagem? Ouço risos do meu pai do outro lado da linha que entendo como um indicativo de que eles estão bem. Ainda assim preciso ouvi-la falar. — Filha, já estamos instalados em seu apartamento. O namorado de sua amiga... como é mesmo seu nome, garoto? — uma voz familiar responde baixinho. — Ah, Daniel. Ele nos recebeu muito bem e mostrou onde será nosso quarto. A que horas você estará aqui? Daniel? Se ele está lá, provavelmente foi enviado por Alana que ainda tem a chave do apartamento, mas está muito ocupada para recepcioná-los. Como meus pais entraram em contato com ela? — O quê? Mas vocês não chegariam só às cinco? Ainda estou no trabalho, mãe. — Não se preocupe, querida, não precisa se apressar. Com um carrão daqueles que você mandou é claro que chegaríamos rápido. Agradeça ao seu chefe por nós. O motorista dele foi muito simpático. Antony. Meu namorado. Sr. Sublime. Meu CEO estava tramando esse tempo todo um modo de trazer meus pais mais rápido e seguros para perto de mim. Eu não sei se o encho de beijos ou se armo uma batalha por manter segredo. Definitivamente, estou mais propensa à primeira opção.


Dentre as escolhas que a vida me deu, uma delas me foi tirada. Meu coração não me deu opção alguma no momento que me deparei com Antony pela primeira vez. E, se tivesse hoje, ele seria minha escolha sem pestanejar. Não digo isso pelo grande homem que ele representa, muito menos pela sua inesgotável conta bancária. São seus simples e pequenos gestos para me fazer feliz que contam. Eu gostaria de gritar para o mundo inteiro o quanto eu o amo, o quanto ele já está imensuravelmente entranhado no meu peito, contudo ainda sou acometida pelo medo, pelo receio de dizer as palavras e não recebê-las de volta. No momento me contento em apenas sentir seu amor em cada gesto, cada surpresa, cada toque. — Está bem, mãe, daqui a pouco estarei aí. Fico feliz que fizeram boa viagem. Beijos. — Beijos, querida. Até mais! Termino a ligação, oferecendo um olhar atravessado para ele. Antony permanece imóvel, seu sorriso atrevido nos lábios. — Então, como foi a viagem? Como é cara de pau! O cara de pau mais lindo que já conheci.


— Você não precisava ter feito isso. Eles estão acostumados a andar de ônibus, sabe? Poderia ao menos te me avisado. — Para você brigar comigo como está fazendo agora? Eu queria que fosse surpresa. Bem, pensei em mandar um helicóptero, mas fiquei com receio de seus pais não aceitarem, então mandei um carro com motorista. — Como sabia onde eles moravam? — Eu tenho todos os seus dados aqui e os nomes dos seus pais também constam no sistema. Daí foi fácil encontrar. O que seus pais te ensinaram a responder quando alguém faz algo por você? Bastardo atrevido! Deus, como eu o amo! — Foda-se! — Oi? Acho que não escutei direito, sua pequena audaciosa. Seus pais não te ensinariam algo tão feio. O que disse? Me aproximo dele e falo baixinho em seu ouvido. — Eu disse que tenho uma forma melhor de te agradecer, mas vai ter que ficar para outra hora. Ele sorri, me puxando para seus braços. — Acho que agora entendi o que disse e pode ter certeza de que vou cobrar depois. Vá para casa, Laís. Seus pais devem estar te esperando. Dou-lhe um beijo rápido nos lábios e saio do escritório feliz da vida por tantas novidades de uma vez só. Antes de sumir pela porta, sussurro. — Obrigada. Ele apenas balança a cabeça, assentindo, e eu solto um beijo no ar. Vou até minha sala, pego minha bolsa e vou para casa. O dia não tinha como estar sendo mais perfeito.


Minha felicidade está completa esta noite porque Alana conseguiu fazer o sacrifício de vir jantar com a gente. Somos quatro sentados à mesa, já começando a degustar o que preparei. Quer dizer, se não contar com Alfred sentado aos meus pés. Fiz costelas de porco assadas com batatas gratinadas, como meu pai adora, e uma salada de agrião para acompanhar antes que minha mãe tivesse um troço por meu pai estar se alimentando com algo tão gorduroso. Ela não pode me tirar esse prazer de vê-lo sorrir. Aliás, não há nada no mundo que eu não seja capaz de fazer para vê-los felizes como estão agora. É simplesmente impagável. — Essas costelas estão deliciosas, filha. Que saudades eu estava da sua comida. Ninguém faz esse prato como você. — Jorge, eu deveria me sentir ofendida por isso — minha mãe diz, claramente brincando. — Só não vou me preocupar com a concorrência porque fui eu quem ensinou a ela. — E muito bem, por sinal — meu pai lhe dá um beijo terno. — Sua comida também é muito boa, Sr. Jorge. Ninguém faz um feijão tão bom quanto o seu — minha mãe rola os olhos. — Estou tão feliz que vieram a Verdes Montes nem que seja por pouco tempo. Quer um pouco mais, pai? Ele estende o prato, então coloco mais uma porção de comida. Minha mãe não tira os olhos de mim como se percebesse algo diferente. — Filha, está acontecendo alguma coisa? Conheceu alguém? Estou te achando mais leve, menos preocupada. A enxerida da Alana tem que se intrometer, não? — Sua filha está apaixonada, dona Teresa. Jogo um guardanapo em minha amiga e sorrio, ciente de que não adianta esconder nada da minha mãe esperta como uma raposa. — Você e sua bendita boca hein, Alana? — ela dá de ombros. — Estou conhecendo alguém, mas o namoro não tem tanto tempo assim. Estamos


levando isso devagar. — Sei, é da universidade? — Não. É da editora. — Filha, tenha cuidado para não misturar as coisas. Um namoro com um colega de trabalho não vai te trazer problemas? — é a vez do meu pai. Colega de trabalho. Ah, se ele soubesse... — Não, pai. Imagina. — O que esse rapaz faz? Ele é um homem decente, está pensando realmente em um futuro com você? Será que todos os pais são produzidos em série e fazem esse tipo de pergunta ou são apenas os meus? — Sim, eu acho que vocês vão gostar de conhecê-lo. Ele é uma boa pessoa. Eles parecem mais aliviados com o que digo, especialmente porque depositam muita confiança em mim. Se eles soubessem como minha história com Antony começou, provavelmente reprovariam esse namoro. Neste momento a campainha toca e Alfred me acompanha quando levanto correndo para atender a porta. Confirmando os anseios do meu coração, é meu CEO quem está nela, lindo de morrer com um buquê de margaridas numa mão e uma caixa na outra. Antony entra em meu apartamento, me marcando com um beijo rápido que me deixa um tanto envergonhada por estar na frente dos meus pais. Ele não tem uma veia tímida correndo em seu corpo, já que parece tão à vontade. — Boa noite, Sra. Oliveira — estende o buquê para minha mãe, que se derrete ao sentir o aroma. — Sr. Oliveira, é um prazer conhecê-lo — entrega uma caixa de charutos cubanos a meu pai. — Meu pai não fuma. Eu e minha boca. É claro que se trata de uma gentileza própria dos ricos de presentearem uns aos outros com charutos ou bebidas caras. Ele esqueceu que, neste caso, está diante de um homem humilde. — Não tem problema, filha. Quem sabe eu não aprenda a apreciar o generoso presente do seu amigo?


Antony franze a testa para mim com a menção de amigo e eu finjo que não percebo sua pergunta no olhar. — Desculpe, eu realmente não sabia o que trazer e não queria chegar de mãos vazias — ele acena para minha amiga. — Boa noite, Alana. Será que tem um lugar para mim à mesa? Eu já comentei que ele é cara de pau? Então, duas vezes cara de pau, mas eu vou pagar pra ver o quanto ele pode ser esperto diante do meu pai. — Claro, Sr. Sublime — Alana tem jeito? — Laís, pegue mais um prato para ele. Meus pais me dão um olhar inquiridor e eu corro para a cozinha antes que as perguntas comecem a surgir em alto e bom som. Essa noite está começando a ficar interessante. Coloco o prato dele sobre a mesa e ponho pequenas porções de comida. Antony leva algumas garfadas à boca e parece se deliciar com o sabor. — Pai, foi ele quem providenciou o carro para buscá-los. — Ah, então foi você. Obrigado. Já faz muito tempo que trabalha para o chefe de Laís? Ainda mastigando um pouco de alimento, Antony responde tranquilamente. — Eu não trabalho para o chefe de Laís. Fui eu quem mandou que fossem buscá-los. Pronto! Minha mãe junta dois mais dois e o caos está formado. — Laís, você está se relacionando com seu chefe? Filha, sabe que esse tipo de relação nunca vai acabar bem e pode prejudicar sua carreira. Merda! Ela nunca poupa as palavras quando acha que está certa. — Sra. Oliveira, posso te garantir que sei separar as coisas e acredito que Laís também. De modo algum ela sofrerá consequências se as coisas não forem bem entre nós. Meu pai volta a entrar em cena. Quando vejo que ele vai abrir a boca, fecho os olhos, sabendo que lá vem chumbo grosso. — Olha, Sr... — Antony, pode me chamar de Antony.


— Certo. Antony, sou um homem do interior e criei meus filhos com princípios, com isso não estou questionando os seus, mas gostaria de saber quais são seus planos em relação a Laís? Rá! Quero ver você sair dessa, Antony Cavalcanti. Meus pais não vão facilitar sua vida, embora ele não pareça nem um pouco preocupado. Olho para Alana e percebo que ela está nitidamente se divertindo com a situação, mão nos lábios, tentando esconder sua risada. — Senhores, como um homem poderia ter más intenções com uma mulher tão brilhante quanto Laís? Além de ser linda, claro. Parabéns pela excelente educação. Não deixaria tantas qualidades reunidas escapar de minhas mãos. Alguém me abana porque devo estar passando mal. Apesar de saber que Antony está mentindo, uma vez que ele tem todas as más intenções comigo — no bom sentido –, sou levada pela emoção que teima em aflorar. Meu pai abre um grande sorriso e naquele momento eu percebo que é mais um a se render à sedução de Antony Cavalcanti. — Laís é realmente uma menina de ouro — para ele, sempre serei uma menina. — Se tem boas intenções com minha filha e pretende tratá-la como merece, então tem nossa benção. Ela é nossa única menina e o maior bem que possuímos. Não a machuque. — Farei o que estiver ao meu alcance para que isso não aconteça. O jantar continua, enquanto a conversa envolve a empresa, a vida no interior e termina em comemoração com a possibilidade de eu conseguir uma vaga como professora substituta na universidade. Claro que minha mãe tem que contar sobre as coisas que eu aprontava quando criança e Antony ri, me dando um olhar ameaçador de que vai usar essas informações contra mim no futuro. Sei que ele não vai me deixar em paz com essas histórias. E eu preciso confessar o quanto estou amando este momento. Está sendo melhor do que previ. Em algum momento, Alana faz um comentário que quebra a atmosfera festiva entre nós. — Antony, ontem fiquei sabendo de uma informação muito interessante. Um passarinho verde me contou que você teve relação direta com a minha


participação na novela. Miro seu rosto, assustada. Seus olhos correm de mim para os meus pais, como se fosse pego em flagrante na hora errada e no lugar errado. Eu cheguei a pensar nessa possibilidade na época, mas desconsiderei quando ele não tocou no assunto. Ter isso cristalizado agora me deixa confusa. — Você fez isso? — pergunto, meu tom de voz fora de controle. Ele vai ter que me contar essa história tim-tim por tim-tim. Talvez ele tenha tentado ajudar, mas ultrapassou um limite instransponível, na minha opinião. Alana ia acabar conquistando seus sonhos por conta própria. Ele não tinha esse direito, tinha?


Eu

tinha seis anos quando ganhei meu primeiro livro. Lembro-me nitidamente da minha curiosidade e felicidade em folhear páginas coloridas que traduziam as histórias de cavaleiros e princesas já criadas por minha mente. Naquele exato momento eu percebi que não havia caminho de volta. Minha vida já estava intimamente entrelaçada com o universo literário, o que me tornaria vazia se eu optasse por outros caminhos. Eu sempre soube o que eu queria. Sempre respirei literatura e sempre disse a mim mesma que faria meu caminho por conta própria porque a vitória de chegar ao pódio seria mais saborosa desta forma. Nem todas as histórias precisam ser desenhadas com o mesmo pincel. Talvez Alana tenha traçado outros objetivos. E pela forma natural que fez seu comentário, talvez eu esteja dando uma amplitude maior a tudo do que realmente deveria. Ela parece muito bem com isso. — Alana, não foi bem assim — Antony se justifica. — Eu apenas estava conversando com uma conhecida que pretende comprar os direitos de um dos nossos livros para o cinema e seu nome acabou surgindo. Ela disse que já tinha ouvido falar de você.


Ela bate palmas, tomando a atenção de todos à mesa com seu jeito exagerado de demonstrar alegria. — Jura? Quase tive um troço quando a direção me procurou para dizer que fui muito bem indicada por uma pessoa influente. Obrigada, Antony. — O que é isso? Eu sei que nesse meio, é preciso conhecer as pessoas certas para se chegar aonde quer. Não basta ter talento e beleza. Como eu disse, só fiz dar uma força. O mérito é todo seu. É incrível como ele tem o poder de reverter a situação. — Sim, você está certo. Eu e Daniel temos ralado muito para conseguirmos um espaço e só encontramos pequenos trabalhos que não nos levaram a lugar nenhum. De que forma eu posso agradecer? — Apenas dê o seu melhor para aproveitar a oportunidade e nunca, jamais esqueça daqueles que estiveram com você quando seu sonho era apenas um sonho. São com eles que você vai poder contar sempre que precisar. Alana levanta, fazendo todo seu drama como de costume. — Cara, você é mais humano do que eu imaginava a princípio, sabia? Quando apareceu aqui pela primeira vez quase passando por cima do meu namorado, pensei que essa fosse sua natureza. Me enganei. — Interessante. Continue — Antony diz e ela assim o faz. — Agora consigo entender porque Laís está apaixonada por você. Juro que te daria um beijo na boca se eu não fosse uma mulher comprometida. E se você não fosse também, é claro. — Alana... — chamo a atenção dela que me ignora enquanto aperta a mão de Antony, em seguida senta-se à mesa novamente, passando a comer sua sobremesa com calma e tranquilidade. Oh, meu Deus! Eu ouvi mal ou ela disse em alto e bom som que eu estou apaixonada? Droga, Alana! Meus pais olham para mim de uma só vez, perguntando silenciosamente como eu estava morando com uma pervertida. Fecho os olhos e respiro fundo, buscando a paciência necessária para achar um jeito de arrumar essa bagunça. Fracasso.


Quando abro os olhos, não resisto em soltar um riso que nada mais é do que uma mistura de nervoso com a cena que seria cômica se não fosse trágica. Sabe aqueles momentos que você começa a rir e nada consegue te fazer parar? Sou eu exatamente agora. Acontece que, para minha surpresa, todos que ali estão são contagiados pelas minhas gargalhadas que se tornam um coral repentinamente, trazendo o clima descontraído de volta ao ambiente. Ufa! Essa foi por pouco, mas Alana me paga. Ah, se paga. Enxugo as lágrimas dos meus olhos que chegaram a rolar de tanto riso. Meu pai é o primeiro a levantar da mesa, apertando a mão de Antony. — Preciso me recolher cedo, se não se importa, porque amanhã tenho exame marcado. — Claro. Dr. Roberto Ambrósio estará aqui cedinho para examiná-lo. — Hum... Há algum engano. O nome do meu médico não é esse. — Sim, eu sei. Espero que não se importe de eu ter tomado a liberdade de cancelar seu exame e remarcar com o médico mais conceituado deste país. Ele estará aqui para lançar um livro em Verdes Montes e vai examiná-lo. Não podíamos perder essa oportunidade, não é verdade? Antony pisca para mim, não deixando qualquer dúvida de que o motivo principal do médico estar na cidade nada tem a ver com o lançamento de um livro que poderia ser em qualquer data. É obvio que ele mexeu seus pauzinhos e fez acontecer do médico estar aqui junto com meus pais. Deus, esse homem não conhece limites? — Olha, rapaz, com saúde não se brinca e se o médico é tão bom assim como você está dizendo, deve ser melhor passar por ele, mas a consulta é muito cara? — O senhor não precisa se preocupar com isso. Ele é um grande amigo meu. — Mesmo assim. Se ele vai trabalhar, precisa receber. Eu gostaria de saber se a consulta dele cabe no meu orçamento. Está vendo agora a quem puxei? Princípios sempre foram o ponto chave da minha família. Ninguém é capaz de apontar um dedo para nós. — Tudo bem, Sr. Oliveira. Vou pedir a ele para fazer um desconto e te


atender pelo mesmo valor que pagaria na outra consulta, está bem? — Está ótimo, rapaz. Até amanhã, então. Minha mãe levanta para acompanhar meu pai com a promessa de voltar e me ajudar a limpar tudo. Claro que não vou permitir que minha mãezinha faça qualquer esforço quando só a vejo poucas vezes no ano. Dispenso a ajuda, deixando a bagunça a cargo de Alana e eu. Dona Teresa se permite ser convencida, não antes de soltar uma última pérola que me deixa com o que pensar depois de ver a reação de Antony. — Quando nós vamos conhecer seus pais? Laís já os conhece? O sorriso de meu namorado se desvanece e seu corpo nitidamente retesa no lugar. Eu poderia condenar minha mãe por fazer uma pergunta constrangedora como essa se a situação fosse outra. Ver o modo como reagiu me faz perceber que a pergunta não podia ser mais conveniente. Antony poderia estar me escondendo de sua família? E pior, ele poderia estar escondendo algo de mim? — Ela ainda não teve a oportunidade de conhecê-los porque eles moram na Itália. Em breve, vou levar Laís até lá. Quem sabe vocês podem vir conosco. Minha mãe o encara como se percebesse que há caroço nesse angu, mas nada comenta. Apenas assente, o cumprimentando com um boa noite. Confesso que não sinto qualquer interesse em ir à Itália por tudo que representa, já que o passado de Antony parece estar concentrado lá. O risco de conhecer sua ex-noiva e de não ser tão bem recebida por uma família esnobe não me apetece nem um pouco. Principalmente porque eu me conheço o suficiente para saber que no momento que me disserem uma, vão ouvir duas, então talvez seja melhor evitar, não? — Está tarde. É melhor eu ir embora — já sinto saudades dos braços dele em volta do meu corpo enquanto durmo. — Falte ao trabalho amanhã. Mais tarde eu virei te ver. — Tudo bem. Até amanhã, então. Ele me dá um beijo suave, em seguida segura meu rosto com as duas mãos.


— Gostei do que sua amiga disse. Este não é o momento, mas a gente ainda vai ter uma conversa sobre isso. Ele poderia estar se referindo ao fato da enxerida da Alana ter dito que estou apaixonada? Antony não me deixa fazer perguntas. Beija minha testa e vai embora, levando meu coração consigo. Eu sei que o sono não será meu aliado tão cedo esta noite, pois a cama ficará vazia demais sem meu namorado. Meu namorado. Adoro repetir essas palavras. Alana não vai demorar a ir embora também e logo o silêncio da noite vai encher a casa. O único que não consigo silenciar são meus pensamentos. Estes ainda me farão companhia por longas, longas horas.


Faz dois dias que meus pais foram embora depois de ser examinado no melhor hospital de Verdes Montes pelo cardiologista Dr. Roberto Ambrósio. Mesmo com muita briga, ele não deixou meu pai pagar a consulta de modo algum, se mostrando muito simpático o tempo inteiro. Uma pesquisa básica no Google me disse tudo que eu precisava saber. Foi um verdadeiro eufemismo Antony dizer que o homem é um médico conceituado em sua área quando ele é nada menos do que um pesquisador premiado no mundo inteiro por descobertas realizadas. Desta vez não questionei. Eu não podia estar mais grata por ele tomar essa decisão sem me consultar. A saúde de meu pai é mais importante do que meu orgulho. — Caros alunos, eu preciso de um minuto da atenção de vocês — o professor Alcântara pede. Estou concluindo o semestre na universidade. Falta muito pouco para que eu alcance o título de mestre e quem sabe, ocupar a cadeira de professor substituto. Leandro está ao meu lado, rabiscando alguma coisa, mas levanta a cabeça quando o professor pede atenção. — Hoje, novamente, teremos a ilustre presença do Sr. Cavalcanti em nossa turma, mas desta vez como aluno ouvinte. Não. Por favor, diga que meus ouvidos estão me traindo. Que diabos Antony quer aqui? Aluno ouvinte? Ele não comentou nada comigo. — Fiquem à vontade e me vejam como um de vocês. Faz tempo que não frequento uma sala de aula, mas o tema de hoje me chamou atenção. Cantigas de Maldizer e de Escárnio, de Amor e de amigo. Parece interessante. Sem o menor pudor, senta-se do meu outro lado, dando um cumprimento de bom dia como se eu fosse apenas mais um aluno naquela sala. Franzo minha testa em questionamento e ele apenas me oferece um sorriso, abrindo um pequeno bloco de anotações enquanto observa a aula. Filho da puta! Ele está aprontando alguma.


— Ele está aqui por sua causa, Laís? — Leandro pergunta. Ele sabe que Antony e eu temos alguma proximidade, mas nunca toquei no assunto de que ele se tornou meu namorado. A conversa simplesmente não surgiu. — Que nada. Ele deve estar realmente interessado no tema da aula — desconverso. — Se você diz... então, o que pretende fazer no fim de semana? Pensei em te convidar para sairmos um pouco e... — Silêncio, vocês estão me incomodando — Antony repreende Leandro. Meu colega de classe pensa em responder quando o interrompo. — Acho que não tenho programa para o fim de semana, Leo. Talvez sair um pouco seja tudo o que eu precise para esfriar a cabeça. Provoco Antony, pois não estou engolindo essa história dele estar aqui porque achou o tema interessante. Eu amo estar com ele, mas sua presença me oprime, às vezes. — Você estará na editora esse final de semana, Laís. Os prazos estão apertados e terá que fazer hora extra — ele fala, sem sequer olhar para mim. Leo parece enfurecido com a intromissão dele, mas não replica, talvez por saber que se trata de meu chefe e não querer se meter em minha vida profissional. — Me avise quando estiver livre. Vou preparar algo para nós. Apenas assinto, sabendo que o homem do meu outro lado não está com cara de bons amigos. Meu professor continua falando. — Uma das características da literatura medieval são as cantigas divididas em líricas e satíricas. Alguém poderia dar um exemplo? Leandro levanta a mão e o professor lhe dá a fala. Ele recita olhando para mim e percebo que Antony está cada vez mais furioso. “Senhora minha, desde que vos vi, Lutei para ocultar esta paixão Que me tomou inteiro o coração; Mas não o posso mais e decidi


Que saibam todos o meu grande amor, A tristeza que tenho, a imensa dor, Que sofro desde o dia em que vos vi.”

— É uma cantiga de amor de Alfonso Fernandes, professor. — Muito bem, Leandro, linda cantiga. Quem poderia recitar outra? Não. Antony não vai fazer isso. Ele se levanta e vira para o professor, pedindo a fala. Este consente, então ele olha para Leandro, antes de começar. — Eu lembro de um trecho de um poema de Carlos Drummond de Andrade que não é dessa época, mas acho que se adapta bem para um exemplo de Cantiga de escárnio. É mais ou menos assim: “Amor é um bicho instruído. Olha: o amor pulou o muro O amor subiu na árvore Em tempo de se estrepar. Pronto, o amor se estrepou. Daqui estou vendo o sangue Que corre do corpo andrógino. Essa ferida, meu bem, Às vezes não sara nunca Às vezes sara amanhã”

Todos na sala aplaudem e eu fiquei procurando um buraco para enfiar minha cabeça. Só eu que entendo o que está acontecendo aqui, minha gente? Leo finge não entender e faz um gesto como se estivesse me entregando uma flor. Eu fico sem saber o que fazer naquela situação e acabo entrando na brincadeira, pegando a flor imaginária. Pronto! Isso é o suficiente para que Antony pegue meu material de cima da mesa e ofereça sua mão diante de todos para que eu o acompanhe. Maldito! Eu vou com ele apenas porque não suportaria uma cena maior, mas isso


não vai ficar barato. Ele não tem esse direito de invadir minha sala de aula e dar uma crise de ciúmes desse jeito. Ah, mas não tem mesmo.


Céus,

eu sempre tentei ser uma pessoa discreta, aquela que sequer é percebida em qualquer lugar e agora estou prestes a virar o assunto da minha turma e talvez até da universidade. — Sr. Alcântara, desculpe, mas preciso roubar sua aluna por um tempo. Tenho um assunto importante para tratar com ela — é tudo o que ele diz antes de sair da sala, me obrigando a ir junto com receio de que o vexame seja ainda maior. Vergonha é o meu segundo nome agora, contudo este não é o único sentimento que me domina. Antony precisa entender de uma vez por todas que não pode nem deve tomar atitudes impensadas como esta. Principalmente agora que estou pleiteando meu espaço na universidade. Puxo seu braço quando nos afastamos da sala e chegamos ao meio do corredor. Ele para a contragosto, se encostando na parede enquanto passa suas mãos pela nuca, deixando claro seu nível de estresse. — Está louco, Antony? Não havia necessidade de toda aquela cena na sala de aula. Se sua atitude tiver consequências, eu nunca vou te perdoar. Eu não estou brincando na universidade, isso aqui é meu futuro. — Não era isso que parecia, Laís. Aquele moleque estava claramente tentando me provocar e você entrou direitinho no jogo dele. Eu não sou de


ferro, droga! Raiva é uma palavra muito suave para expressar o que estou sentindo. — Respeito é o mínimo que eu posso exigir de você e de qualquer pessoa que fale comigo. Não vou admitir que me trate desse jeito, muito menos a um amigo a quem estimo muito. — Ele te quer, será que não entende? Como você acha que devo reagir quando um homem faz declarações para minha namorada na minha cara? — Era apenas um exemplo de Cantigas de Amor. Você tem que ver maldade em tudo e em todos? — E você? Precisa parecer tão inocente o tempo inteiro? Eu quero que se afaste dele. — Vá se foder, Antony. Dou passos para me distanciar. Ele segura meu braço. — É sério, Laís. Ele é homem e quer o mesmo que eu — seu tom de voz se torna ameno. — Por favor, me prometa que vai manter distância dele. Rá! Nem morta vou dar esse tipo de ousadia para alguém. — Ou? — ergo a cabeça, o desafiando. — Ou vou ter que voltar à sua sala e me tornar aluno ouvinte com mais frequência, mesmo que isso não esteja nos meus planos. Não. Ele só pode estar blefando. — Sabe como isso soa? Parece tão... perseguidor. — Não me importo como soa. Se vão me julgar como perseguidor, que julguem. O que importa é que cuido do que é meu e não sei lidar com a derrota. Não vou perder você para um aspirante a professor. — Escritor. O que ele almeja é ser escritor. — O que seja. Não quero e não vou te perder. — Pois bem. Eu também não quero e não vou perder um amigo. Espero que fique claro que eu não pretendo me afastar dele. Antes que eu perceba, Antony me joga contra a parede e toma meus lábios em um beijo ardente e faminto. Ele parece querer provar algum ponto, marcar território.


Me deixo levar pelo seu poder de sedução, a princípio, mas me dou conta de que eu preciso dar um basta em seu ciúme doentio. E me derreter como manteiga em seus braços não vai ajudar em nada para que isso aconteça. — Chega, Antony. Eu não estou de brincadeira. Você é meu namorado, mas não é meu dono. Assim como eu não dito quem deve ou não ser seu amigo, não permito que tome decisões em meu lugar. Sou uma mulher adulta. Ele fecha os olhos, puxando todo ar possível para controlar sua impaciência. — Porra, eu juro que meus motivos para ir até sua sala foram legítimos. De fato, eu tive interesse pelo assunto quando Alcântara comentou e pedi para assistir. Fiquei louco quando vi aquele cara ao seu lado. Eu não queria te constranger. Tomo meu material de suas mãos e o encaro com seriedade. — Mas constrangeu — observo à minha volta, embora não esteja enxergando qualquer um neste momento de raiva. — Olha, eu confesso que estou muito chateada e preciso de um tempo para pensar. Depois a gente se fala. Dou um passo certeiro para a saída, mas ele barra minha passagem se posicionando à minha frente. — Tempo? Como assim você precisa de um tempo? Está terminando tudo comigo no primeiro problema que aparece? Ofereço a ele um sorriso fraco. — Eu não estou terminando com você. O tempo a que me refiro se trata de minutos, horas, daquele tempo que a gente precisa para contar de um até dez e encontrar respostas para algumas perguntas. — Que tipo de perguntas? Me nego a responder quando tudo que preciso no momento é de um pouco de espaço. Dou um beijo em seu rosto e desvio dele. — Nos vemos na editora esta tarde. Até lá! Dessa vez ele não me impede e fico grata por isso. Eu não quero fazer do meu relacionamento um filme dramático, porém preciso dar um freio em determinadas atitudes dele que possam me prejudicar.


Antony é vendaval, tempestade, um verdadeiro tornado. Eu devia me sentir atraída apenas pela brisa, calmaria, mas meu coração traidor o ama em cada mínimo detalhe. Mesmo com seu jeito intempestivo.


Ouço um ruído longe. Ele está começando a ficar mais próximo, se tornando cada vez mais alto, sonoro. Olho para o meu lado e vejo que Alfred está me enchendo de lambidas e arranhões. É como se estivesse me alertando para algo. Merda! É a campainha. Eu havia pegado no sono depois de decidir deitar um pouco e ajustar meus pensamentos. Flashes de memória voltam a povoar minha cabeça, me lembrando o motivo de eu estar em casa e não na universidade a uma hora dessas. Corro para o banheiro e lavo o meu rosto. Minha cara amassada prova que dormi mais do que devia. A sirene não para de tocar, então decido dar um fim a esse barulho todo. Apresso-me para a porta e abro. — Antony? É claro que meu sexto sentido dizia que era ele à porta, mas eu queria acreditar naquele um por cento que me dizia que ele respeitaria o tempo que eu pedi. — Desculpe Laís, eu tive que vir. Você falou que estaria na editora esta tarde e até agora não havia aparecido. Fiquei preocupado. Ele entra no apartamento e fecha a porta atrás de si enquanto corro para procurar meu celular e verificar as horas. — Minha nossa, já são três da tarde! Eu passei do horário completamente. Acho que estava com o sono atrasado. Ele me dá um sorriso sensual, então percebo a conclusão a que ele chega. — Há algo a impedindo de dormir? — Você... — balanço a cabeça, quase me deixando levar por seu jeito sedutor. — Por que exatamente está aqui, Antony? Eu lembro de ter lhe pedido um pouco de espaço. — E eu não lembro de ter concordado com isso. Você tem noção do quanto está sendo difícil eu ter que lidar com algo que é completamente novo para mim e ouvir de você mais do que eu já me permiti ouvir de qualquer mulher?


Um tempo, Laís? — Para tudo tem uma primeira vez, Antony Cavalcanti. — Certo. E é com essa filosofia barata que você pretende lidar com os problemas que vierem a surgir entre nós? Nós somos um casal. Todos os casais têm conflitos e precisam resolvê-los com maturidade. Estou rindo alto agora. — Olha quem fala em maturidade. Você avalia seu comportamento na universidade como maduro? Ele comprime os lábios, parecendo um tanto exasperado. — Não. Definitivamente ele não foi maduro. Na verdade foi impulsivo, precipitado e desnecessário. Acontece que meu comportamento foi fruto de um sentimento que era totalmente desconhecido para mim, mas hoje define quem eu sou. Antony caminha de um lado para o outro me deixando totalmente confusa, ao mesmo tempo esperançosa. Nada vai justificar seu ato impensado, mas não há nada que eu queira mais ouvir do que ele dizer que foi movido pelo maior dos sentimentos. Aquele que é forte e tão vivo em meu peito. — A que sentimento está se referindo? Ele para de andar e, com um dedo segura meu queixo, forçando-me a fitar o fundo dos seus olhos. — Paixão, amor ou sei lá que nome pode ser dado a isso. Eu só sei que ele tira de mim algo que eu sempre me orgulhei de manter. Tudo que se refere a você tira meu controle e me deixa frustrado ao mesmo tempo. — Oh, Antony... — Me deixe continuar, por favor. Eu penso em você quando acordo, trago sua imagem comigo até mesmo em um chato e cansativo relatório que preciso ler, sorrio quando vejo um cachorro passar na minha frente. Inevitavelmente, lembro de Alfred — sorri. Estou paralisada, minha mão sobre a boca, olhos arregalados. — É normal que eu ria sozinho no escritório somente por lembrar de momentos divertidos que vivemos juntos? Que eu tenha vontade de jogar tudo


para o alto e me enterrar em uma cama com você até o fim dos meus dias? Diga-me, Laís, como posso denominar isso? Balanço a cabeça. Não sou eu quem vai dizer a palavra. Eu quero ouvi-la de sua boca. — Eu não sei, Antony. Como você acha que pode denominar? Meu coração bate forte no peito, sinto vertigem como um prenúncio de que posso desabar com o que vem a seguir. Minha garganta está seca e minhas pernas estremecem. Eu quero, eu preciso ouvir aquelas palavras. — Eu... Merda, não sou bom nessas coisas — passa as mãos pelo rosto. — A questão é que não me vem outra palavra à mente senão... amor. — Amor? — Sim. Tenho uma forte intuição de que isso que eu sinto tão forte por você a ponto de me desestabilizar deve ser chamado de amor. Na verdade, não me resta dúvidas. Eu te amo, Laís. O que eu faço a partir deste momento? A única coisa que me resta fazer. Passo por cima do meu orgulho, apago com uma borracha toda raiva e me jogo nos braços do único homem capaz de fazer meu coração vibrar, me sentir viva. — Eu também te amo tanto, Antony. Não há escapatória para nenhum de nós. Em um segundo estamos na sala, desnudando nossas almas, no outro estamos em minha cama fazendo amor, tendo como minha aliada a certeza de que amo e sou amada por este homem sublime. Em um segundo estou vestida, no próximo, somos uma massa de corpos tentando provar de todas as formas a veracidade dos nossos sentimentos. Ele está entregue, sedento, descontrolado. É como uma primeira vez. A primeira vez que sabemos o que exatamente fazemos ali, o quanto nossas vidas estão entrelaçadas a partir de agora que assumimos a dimensão dos nossos sentimentos. — Amor. Sim, isso é amor — ele repete a todo momento. — Te amo, te amo, meu CEO — canto como uma ladainha. A tarde se torna curta para tudo que temos a dizer um para o outro mesmo


que palavras não sejam suficientes. Se torna curta demais para o desejo urgente de nossos corpos. Amamo-nos com ardor, ânsia, febre por um momento. Nos entregamos à ternura e suavidade de cada toque, de cada olhar. Perdemo-nos um no outro por um longo, longo tempo sem pressa de terminar. Irrevogavelmente, de modo imensurável, Antony é meu e eu sou dele.


Tenho

vivido momentos maravilhosos ao lado de Antony. Ele tem sido o namorado mais atencioso que alguém pode ter e o sexo entre nós está cada vez melhor agora que há sentimento incluído. Quer dizer, sempre houve, mas é como se avançássemos uma casa adiante no momento que admitimos que há amor na equação. Por incrível que pareça, tenho sido tratada com mais respeito na universidade. As pessoas têm me visto como um meio de conquistar algo de Antony e, acredite, isso é um bônus quando eu imaginava que viraria motivo de chacota. Leandro não me fez perguntas a respeito, mas tem me tratado de um modo diferente nos últimos dias, digamos um pouco territorial demais. Sou grata porque meu namorado não tem aparecido por aqui como ameaçou. Talvez o gelo que eu lhe dei outro dia tenha servido para aprender a confiar mais em mim. — Bem, Laís, te chamei até minha sala porque um de nossos professores da graduação está para se aposentar e a vaga para professor substituto vai surgir antes do que esperávamos. Eu não consigo ver ninguém melhor do que você para assumir o posto. Meu orientador levanta seus óculos fundo de garrafa e me oferece um


sorriso simpático como se aguardasse uma reação minha. Bem, nesse momento, eu consigo me imaginar em diversas cenas. Eu poderia segurar sua cabeça que ostenta apenas os últimos fios de cabelo e enchê-la de beijos para provar minha gratidão, poderia simplesmente fazer pose de profissional séria, apertar sua mão e fazer uma dancinha sensual na primeira oportunidade que eu estivesse sozinha. Não, eu pareceria louca. Decido por outra opção. — Eu aceito. Quer dizer, ficaria imensamente grata se meu nome for sugerido para ocupar a vaga. Ele me oferece um sorriso tranquilizador, se recostando contra a cadeira. — Você só precisa de uma indicação minha. Como eu já conheço seu potencial só me resta dizer uma coisa: bem-vinda ao campus. É isso mesmo que estou ouvindo? Estou prestes a me tornar professora universitária na área que tanto amo? Deus, é como um sonho se concretizando. — Professor, eu prometo dar o máximo de mim para fazer o melhor trabalho que eu puder nesse centro acadêmico. Eu sei que é algo provisório, mas já é um grande passo para conquistar meu sonho. — Eu não tenho dúvida de que estamos fazendo a escolha certa, Laís — meu coração se enche pela confiança depositada em mim. — Ah, e fico feliz por saber que é tão próxima de um homem respeitado em nossa universidade. Se eu não o conhecesse, diria que o dinheiro e poder de Antony o impressionaram mais que minha capacidade de fazer um bom trabalho. Mas eu sei que não é o caso. Apesar das distrações no último semestre, tenho suado muito para chegar onde estou. Ele continua. — Sr. Cavalcanti tem muito a acrescentar no seu conhecimento e pode facilitar bastante a sua carreira. Eu me agarraria a ele com unhas e dentes se fosse você. Rá, professor, já tenho me agarrado e posso te garantir que não é da maneira que você está pensando. — Está bem. Muito obrigada por essa chance. O senhor não vai se arrepender.


— Entrarei em contato em breve. Até mais! Saio da sala cantarolando uma música qualquer, distraída com minha própria felicidade quando me esbarro com Leandro que parece me esperar na porta da sala. — Leo, o que faz aqui? Ele olha de um lado para o outro, meio desconfiado, como se tivesse sido pego em flagrante. — Eu estava vindo da cantina, acabei passando por aqui. Parece animada. O que o professor queria? Sorrio. Ele é um grande amigo e para os amigos a gente divide as boas notícias, não? — Ah, você não faz ideia, acho que nem vou dormir essa noite. Ele disse que já está quase tudo certo para que eu assuma algumas aulas de literatura no próximo semestre. Não é demais? — Uau, nossa! Isso é que é boa notícia — ele me dá um abraço que deveria ser amigável, mas sai apertado demais para o meu gosto. — Não há aluna mais perfeita que você na turma para assumir essa vaga. Aliás, acho você perfeita em tudo. Já te disse o quanto é linda? Deus, espero que essa conversa não tome um rumo desconcertante. Eu o quero tão bem e não gostaria de dizer algo que pudesse magoá-lo. — Obrigada, amigo. Embora eu ache que não fui escolhida pelos meus lindos olhos negros — brinco. — Não. Você tem muitos outros atributos. É linda, inteligente, carismática e... a verdade é que eu daria tudo para ter uma chance com você, Laís. Não, Leo, não vá por esse lado. — Não sei se você já percebeu, mas Antony e eu estamos namorando e vivendo a melhor fase de nossas vidas. Aprecio muito a nossa amizade para estragá-la com uma relação que não daria certo. — Se fosse minha por um dia, eu te provaria o quanto poderia dar certo. Aquele cara vai machucá-la, eu sinto isso, mas quero que saiba que estarei sempre aqui para você, seja como amigo ou algo mais. Sempre. Me entristece ouvi-lo falar assim. Eu sei que ele não deseja o meu mal nem


está torcendo para que Antony me machuque. Acontece que a gente sempre espera que os amigos vibrem conosco quando algo bom está acontecendo. Isso não está vindo de Leandro. — Eu também estarei sempre aqui para você, Leo. Sempre. Ele me acompanha até a saída e, para minha surpresa, advinha quem está me esperando lá fora? Ele mesmo. Meu CEO, Sr. Sublime. Está encostado em seu carro, de pernas cruzadas, lindo e despojado com a gravata solta e dois botões da camisa abertos. Leandro se despede de mim com um aceno e percebo que seu olhar não vai de encontro a Antony. Não há uma só criatura viva que saia da universidade sem olhar para ele. E eu concordo com todos os olhares. Meu CEO é o homem mais fascinante com que meus olhos já se depararam. — Ei, linda, vim te buscar. Corro até ele e desabo em seus braços. Todos os meus sentidos são tomados instantaneamente pelo seu perfume familiar e seu toque enlouquecedor. Ele me dá um beijo rápido antes de levar um tempo apenas me olhando. Seu rosto se abre num sorriso que sou capaz de levar um dia inteiro beijando. — Passei em seu prédio para te dar uma carona hoje cedo, mas você já tinha saído. Um vizinho comentou que você tentou ligar o carro e parece que deu problema. Se tivesse aceitado minha oferta de um carro melhor... — Antony, a gente já conversou sobre isso. — Eu sei, teimosa, mas achei que você poderia precisar de uma carona na volta. Tem como não amar esse homem? — Não precisava se incomodar, mas já que está aqui. Aceito sim. Me desvencilho de seus braços e dou dois passos em direção ao banco de trás do carro. Ele me puxa de volta. — Eu não pretendo te levar para a editora. Hoje é sexta e pensei que podíamos jogar a tarde para o alto e ficarmos juntos. O que acha?


Levanto uma sobrancelha. — Sério? Onde foi parar aquele executivo que dizia que seu coração pertencia à empresa? Antony semicerra os olhos, fitando-me de um modo muito sensual. — Ele encontrou outro motivo maior para ocupar seu coração — ele abre a porta e me convida. — Venha, todos na empresa já sabem que não estaremos lá esta tarde. Eu nunca fui uma pessoa irresponsável e nem pretendo começar a ser, mas há momentos que dá vontade realmente de chutar o pau da barraca. Como agora. Vou para a casa dele, recordando no caminho que trouxe os braceletes comigo para devolvê-los. Eu já estou intimamente marcada por ele. Não preciso de braceletes para me lembrar disso. Algum tempo depois, os portões da mansão são abertos e meu corpo já reage em expectativa, principalmente porque algumas ideias começam a surgir em minha mente. — Uma moeda por seus pensamentos. Passamos por perto da piscina cristalina e convidativa enquanto caminhamos para dentro da casa de mãos dadas. — Eu estava pensando o quanto sua casa é perfeita. Deve ser adorável viver neste lugar. — Das minhas casas é a que eu mais gosto, contudo às vezes acho que é grande demais. Eu não me oporia se você considerasse compartilhá-la comigo. Meu corpo retesa no lugar, sem forças para dar mais nem um passo. — Você está me convidando para morar com você? — Por que não? — responde com naturalidade. — Venha, eu quero te mostrar um lugar que você ainda não conhece na casa. Minha mente fica em turbilhão, mas felizmente minhas pernas resolvem obedecer e acompanhá-lo para dentro de casa. Andamos por um corredor onde há diversos quadros pendurados, provavelmente imagens de seus antepassados. Ele para diante de uma porta e abre, desvendando diante dos meus olhos uma visão completamente


paradisíaca. — Oh, meu Deus! Ah, sim, eu poderia morar aqui. Mais precisamente neste cômodo. Tenho certeza de que qualquer pessoa ficaria admirada tanto quanto eu se estivesse lá. Estou diante da maior biblioteca particular que já vi de perto. É uma espécie de sala de jogos com incontáveis livros perfeitamente organizados em ordem alfabética e gêneros. Na verdade, a sala parece uma livraria, com alguns lançamentos em destaque, várias mesas e sofás para leitura. É um lugar que precisa ser compartilhado. — Gostou? Eu estou maravilhada e surpresa. Passo a mão por alguns livros, pego um exemplar novo e o abro, sentindo seu cheiro familiar. Sorrio ao perceber que escolhi justamente um de Elizabeth Monroe. — Isso aqui... isso é maravilhoso. Só tem livros de sua editora? Ele ri. — Não. Quem dera que todos os grandes nomes trabalhassem conosco. Uma grande parte é da minha editora, mas tem livros aqui que são primeira edição. Minha empresa nem existia nessa época. Antony enlaça meu corpo com seus braços fortes e me dá um beijo, puxando minha mão para sairmos dali. Eu acabo de adotar o meu lugar preferido da casa, mas ele vai se manter imaculado porque todos os meus planos profanos e pecaminosos serão executados no quarto. Pelo menos hoje. Chegamos à sua cama e meu CEO não perde tempo em me atiçar, beijando todas as partes expostas do meu corpo. Em alguns momentos sussurra ao pé do ouvido. — Eu não estava brincando quando a convidei para vir morar comigo. — Humrum... — é tudo que consigo responder já que seus beijos provocantes me torturam. — É sério, Laís. Diga apenas que sim para que eu coloque em ação meu plano de prendê-la nesse quarto para sempre.


— Humrum... — fecho os olhos, provando da intensidade do seu toque. — Humrum pra mim é sim. Já posso dar ordens para buscar suas coisas? — Não — consigo pronunciar ao menos uma palavra. — Eu não vou desistir — Antony diz, então me despe com suavidade e lentidão, medindo cada centímetro do meu corpo como se o adorasse silenciosamente, apenas com o olhar. Cada peça desaparece num piscar de olhos, então é a vez dele se desnudar para minha apreciação. — Tão linda — tomo alguma distância para observá-lo melhor. — Eu não me oporia a um strip, Sr. Sublime. Me ofertando um sorriso safado, ele passa a tirar sua roupa vagarosamente, expondo seu corpo absolutamente perfeito e definido, criado em cada detalhe para oferecer prazer a uma mulher. Músculos proporcionais ao corpo esbelto e sua pele morena, bronzeada, são absolutamente tentadores. Não resisto. Toco a pele nua, uma vez que minha ansiedade não permite que eu suporte tamanha provocação. — Hum... parece que alguém aqui está com pressa. Mostro a ele o quanto está certo quando minhas mãos agarram seu pau com vontade. Começo a massageá-lo e sinto que fica ainda mais duro sob o meu contato. Antony inclina a cabeça, acompanhando cada movimento meu com um olhar selvagem, primitivo. Sou capaz de gozar apenas com a forma como me olha. Empurro com vigor, friccionando até que sua glande esteja exposta, convidativa. Ele fecha os olhos, soltando pequenos gemidos. — Será que meu namorado estaria disposto a me foder com força? Minhas palavras fazem com que ele reaja. Antony não pensa duas vezes antes de provar que sim, ele não tem intenção alguma de me poupar. Toma meus lábios fervorosamente, me jogando contra a cama e, em seguida, enfia sem dó dois dedos dentro de minha boceta. Pronto! Acabou a mulher! Derreto-me em seus braços, rebolando para que seus dedos se afundem ainda mais em minha carne macia, implorando sem palavras para que ele


acabe com minha miséria e me dê o que meu corpo tanto deseja. — Meu amor. Minha! — Meu CEO. Ele aumenta a intensidade, colocando mais um dedo e gemo com a mistura de dor e excitação. Estou sendo esticada enquanto ele continua me provocando, me negando o que tanto necessito. — Porra, se você continuar soltando esses gemidos, vou ter que parar e me enterrar de uma vez em você. Não deve fazer ideia do quanto é ainda mais linda quando está sentindo prazer. — Hum... Apenas faça. Eu preciso... — é tudo que consigo dizer quando a intensidade do seu toque soma-se à sensualidade de sua voz, me levando a quase implorar para ter mais dele. Ele resiste por um tempo. Brinca com meu clitóris, os deixando ainda mais sensíveis, enquanto sua mão encontra meus seios rígidos, sedentos de sua atenção. Tira os dedos da minha boceta e os coloca na boca, lambendo até que esteja completamente limpo. — Oh, Deus! — Solto um gemido. Antony cerra os olhos como se estivesse embriagado pelo doce sabor, me deixando perplexa e faminta por ter aquela língua em alguns lugares do meu corpo. Quando abre os olhos, seu sorriso devasso está lá, sexy, avassalador. — Antony, você poderia pegar aquela corrente que veio junto com os braceletes? — Deus, meu corpo já pega fogo só de imaginar o que pretendo fazer. Ele me observa, confusão em seus traços. — Para que você quer a corrente? — Surpresa. Será que você poderia pegar? — ele assente, se levantando. Enquanto está de costas, vou até minha bolsa e tiro os braceletes de dentro. Os escondo sob os travesseiros e me mantenho impassível até que ele retorna, me entregando a corrente. — Confia em mim? Meu namorado me olha com desconfiança. Obviamente não está acostumado a ceder o controle a alguém, mas hoje ele não vai ter


opção. — Não. Eu não confio. O que você está aprontando, Laís? Estou rindo alto e me sentindo um tanto malévola por manter em segredo o que pretendo fazer. — Deite-se, querido. Agora é minha vez de te acarinhar. Ainda me olhando atravessado, ele faz o que eu peço, deixando seu lindo corpo à minha mercê. Passeio com a corrente por seu corpo, desde o pau rijo até alcançar seu abdômen, no qual faço pequenos círculos, até chegar ao seu pescoço. Ele está claramente arrepiado e se deleitando com meu toque. Fecha os olhos, se deixando levar, aproveito a deixa para colocar meu plano em prática. Sigo com a corrente até seus braços e os levanto sobre sua cabeça. Rapidamente, pego as algemas, prendo a corrente nela, transpassando pela grade da cabeceira e, suavemente, as prendo nos pulsos de Antony. Levanto-me e observo quando ele abre os olhos. — Laís, o que... o que você fez comigo? — Antony está assustado, olhos arregalados. Ofereço-lhe um sorriso, minhas entranhas já pulsando pela cena sensual de ter esse homem sublime totalmente sob meu controle. — A quem você pertence? Ele olha para um braço, depois para outro e suas feições suavizam. — Eu não acredito que você está fazendo isso. Você está usando em mim os braceletes que foram feitos para você? — Shhhh... eu sou a única no controle aqui, então responda à minha pergunta. A quem você pertence, Antony Cavalcanti? Percebo seu pau pulsar em resposta à minha voz de comando. Ainda que relute, ele está se divertindo muito com meu jeito autoritário. — A você, Laís. Meu corpo, minha alma, todo meu ser pertencem a você. — Resposta correta, Sr. Cavalcanti. Rastejo sobre ele, parando apenas quando meus lábios alcançam os seus, então nos perdemos em um beijo impaciente, febril, apaixonado.


— Sente sobre meu pau, querida. Estou ardendo de desejo. — Shhhh... Beijo cada parte do seu corpo exposto entregue com uma perversão que o deixa implorando. Faço uma trilha até que alcanço sua ereção, a introduzindo em minha boca. Sugo com vontade, força, tomando tudo que consigo levar dele. É muito prazeroso para mim também. Saber que toda essa imponência é por minha causa, porque me deseja, tem um efeito direto no meu corpo. — Você vai me deixar louco. Vou explodir a qualquer momento. Não quero que nossa brincadeira termine tão rápido, então deposito um último beijo em seu pau e rastejo novamente para cima dele, fazendo menção de sentar, mas paro no ar e observo sua reação. — Maldita! Você está me matando aqui. Sorrio. — Não era isso que você pretendia fazer comigo? Prove do seu próprio veneno. Ele se contorce, puxando seus braços, sem conseguir fazer grandes movimentos. Decido parar a provocação, uma vez que a necessidade também me consome. Encaixo seu pau em minha entrada úmida e, pouco a pouco, permito que me preencha até que ele está completamente enterrado dentro de mim. — Ah, que gostoso! — gemo, fechando os olhos para sentir sua intensidade. Ele rebola, mexe, grunhe, nitidamente agoniado por não ter suas mãos livres. Sinto-me poderosa, lasciva, por ter esse homem sob meu domínio para o que eu quiser fazer. — Solte as algemas, Laís. Apenas sorrio, enquanto cavalgo sobre ele agora com vigor, rápido, sentindo tudo dentro de mim, extraindo do meu corpo sensações deliciosas, prestes a me levar à loucura. É tudo tão delicioso, arrebatador. Ele diz alguns palavrões, seus quadris trabalhando como uma máquina sexual a todo vapor, sem dó, sem me poupar.


Solto um gritinho quando ele consegue se soltar dos grilhões e no próximo segundo está segurando meus quadris enquanto me penetra com ainda mais força. Sinto que vou morrer de tanto prazer. — Puta que pariu, Antony. Como você se soltou? — Você acha mesmo que eu mandaria fazer algo que pudesse ser usado contra mim? Ele me joga contra a cama sem sair de dentro de mim e agora me sinto a caça, enquanto ele o caçador. Com rapidez e habilidade, retira de seus pulsos os braceletes e coloca nos meus, olhos brilhando de luxúria ao vê-los em mim. — Você me pertence exatamente como está escrito aí, Laís. A única coisa que mudou é que eu também sou seu. Definitivamente, eu sou seu. Sua boca se aproxima da minha e me preparo para sentir seu gosto mais uma vez enquanto puxa os braceletes para me acorrentar, restringir meus movimentos. Ele não tem tempo para isso quando algo repentinamente acontece. Ouço passos determinados dentro do quarto que logo se transformam em aplausos. Meu sangue gela, meu corpo enrijece, principalmente quando percebo que a reação de Antony não é diferente da minha. Ele é tomado pelo susto como um marido que é pego em flagrante pela esposa, levantando-se rapidamente de cima de mim. Puxo um lençol para me cobrir e observo a cena constrangedora, meus sentimentos em conflito, esperando pelo que vai acontecer em seguida. — Antony Cavalcanti, então é isso que você faz enquanto sua noiva está à sua espera na Itália, não é mesmo? Aguardo uma reação dele que não está vindo tão rápida quanto eu esperava. Parece que está na hora de conhecer a tal Marcela. Vamos ver o que eu represento de fato para Antony agora. É, Laís, bem-vinda ao caos.


Eu nunca

fui um homem de raízes. Eu nunca ficava por muito tempo. As mulheres entravam e saiam da minha vida com o mesmo prazer que eu sinto em tomar um copo de água. Um prazer necessário, contudo sem sabor. Quando a palavra compromisso surgia, era chegado o momento de dizer adeus. E a palavra sempre surgia. Eu era um caçador. E elas eram a caça, mas perdiam a graça no momento que a conquista era dada como certa. Nenhuma me apetecia, fazia surgir em mim o desejo de permanecer. Até ela... Por que com Marcela foi diferente, uma vez que com ela sim, eu assumi um compromisso? Assumi, não nego, mas há muito mais envolvido nessa história que as pessoas, precisam saber antes de me condenar. — Então, Antony, vai ficar aí parado olhando para mim? Explique a essa ragazza quem sou eu. Eu sempre tive orgulho do meu controle e de dominar qualquer situação considerada difícil. A questão é que, a partir do momento que eu descobri a importância de Laís em minha vida, tenho perdido a noção do que é certo e do que é errado.


As únicas certezas que tenho é que a amo e não quero perdê-la. O desespero dessa possibilidade está me mantendo inerte, congelado, uma vez que preciso ser racional e encontrar um jeito de dar um basta em todo esse teatro. Pego minha calça do chão e visto, antes de lhe responder. — Marcela, o que você está fazendo aqui? Quem a deixou entrar? — Rá! — ela solta um riso sarcástico, passando a andar pelo quarto. Eu a cerco, impedindo-a de se aproximar de Laís. — Desde quando eu preciso de permissão para entrar em qualquer lugar que seja seu? Tudo que você tem futuramente será nosso. Quem trabalha para você sabe disso, então por que me impediriam de entrar? — Deixe de delírios. Nós já tivemos uma conversa na Itália. Nada do que é meu se tornará seu. — Veremos. Seu tom é ameaçador, mas eu não tenho medo. Sei que por trás de toda essa casca há uma mulher nervosa e temerosa de ter todos os seus planos estragados. Ela sabe que aquela em minha cama não é apenas mais uma em minha vida e esse é o principal motivo dela estar aqui. Laís se levanta e deixa o lençol cair. Ela não se importa de sua nudez, apenas parece apressada para sair daquele circo armado por outra mulher. — Saia daqui, Marcela. Você não tinha o direito de invadir meu quarto desse jeito. Ela me ignora com naturalidade, seus olhos fixos em minha namorada que já começa a se vestir. Não é Laís quem precisa sair. Nunca. Eu falei tão sério quando a pedi para vir morar comigo que me questionei várias vezes como não tive essa ideia antes. Parece certo ela estar aqui como se sua presença me desse de fato a sensação de lar que eu não tenho desde que meus pais foram embora e que jamais tive ao lado de uma mulher. — Você está colocando sua noiva para fora da casa que um dia vai pertencer a ela? Laís para de se vestir e me olha assustada. Seu silêncio está me incomodando porque não é típico dela. Nunca preferi tanto que me desafiasse,


discutisse, xingasse que fosse. Vê-la tão sem reação me leva ao inferno e ao mesmo tempo me enche de gana para enfrentar Marcela. Ela já não faz parte da minha vida, enquanto Laís é minha própria existência. — Você não é mais minha noiva. Achei que tinha deixado isso claro quando saí da Itália. Marcela parece furiosa agora. Ela sempre foi o tipo de mulher de se fazer de vítima e nunca aceita um não como resposta. Eu não sei onde estava com a cabeça no dia que decidi aceitar a sugestão da minha mãe de pensar em formar uma família justo com ela. Na verdade, eu sei exatamente. Na merda do dinheiro. Minha mente só pensava em me tornar ainda mais rico do que eu sou, se é que isso é possível, já que eu precisaria viver várias vidas para conseguir gastar o que tenho. Nunca houve amor por Marcela. Nunca houve sequer carinho. Laís me salvou de um tormento no dia que arrebatou meu coração. É com ela que vejo meu futuro, é a ela que pertencem meus planos, é ela quem quero definitivamente em minha vida. — É sério que estou ouvindo você dizer que vai me trocar por... isso aí? — aponta com um dedo e meu único desejo é de fazê-la engolir suas palavras. Enquanto as ofensas eram direcionadas a mim, eu não me importava, mas não vou permitir que ela sequer dê um segundo olhar para minha mulher. Me surpreendo quando Laís caminha até ela e fica cara a cara, vestindo a máscara da mulher corajosa que ela é. Seus olhos brilham em uma mistura de raiva e determinação. Eu queria poder proteger minha menina de tudo e de todos, mas tenho plena consciência de que ela sabe fazer isso sozinha com o instinto guerreiro admirável que ela tem. E esse é apenas mais um ponto dentre tantos que amo nela. — Olha, queridinha, eu não sei que diabos está acontecendo aqui quando Antony me garantiu que não tem mais uma relação com você e que era um homem livre para se comprometer com quem quisesse. Marcela segura seus cabelos longos e negros, e os enrola em um coque no topo de sua cabeça enquanto desafia Laís com o olhar.


— Compromisso? Antony nunca levou nenhuma outra mulher a sério além de mim se você quer saber, e todas acharam que tinha alguma chance assim como você está achando. — Marcela... — chamo sua atenção, mas Laís estende a mão, me interrompendo. — Sim, compromisso. É claro que eu sei sobre você e o casamento conveniente que pensavam em ter no intuito de juntar suas riquezas — Marcela a mede de cima a baixo, então torce o nariz. — Eu sei que não pareço ter todo luxo, joias caras nem nadar no dinheiro como você. Acontece que possuo algo que você nunca vai conquistar. — Eu tenho tudo que quero. Não há nada no mundo que eu não possa comprar. — O problema de vocês ricos esnobes é justamente achar que tudo pode ter um preço. Eu tenho certeza de que o que eu tenho, seu rico dinheirinho não pode comprar. O coração de Antony é meu. É por mim que ele bate forte. Apenas por mim. Inferno, sabe aquela sensação de estar assistindo seu time jogar e ele faz um gol justamente no momento que você pensa que a partida está perdida? Sinto um desejo enorme de dar um pulo e socar o ar, soltando um enorme ‘yes’ ao ouvi-la defender o nosso amor desse jeito. Ela sabe, ela sente a veracidade dos meus sentimentos assim como sinto os dela. É forte demais para permitir que seja quebrado por meia dúzia de palavras vãs. Sim, Sra. Sublime. Nenhuma outra mulher vai possuir o que irrevogavelmente já lhe pertence. Apenas a você. Marcela bate palmas, seu olhar direcionado a mim agora enquanto volta a caminhar no quarto. Meu Deus, por que ainda estou permitindo que essa conversa se prolongue? Talvez porque você queira resolver essa situação de uma vez por todas, sem deixar rastro de dúvidas para Laís de que é somente ela quem você quer, Antony. — Bem, vejamos então se ele a trata tão diferente de mim e de outras que já flagrei antes de você. Esses braceletes em seus pulsos, por exemplo, —


Laís olha para eles assustada, se dando conta de que ainda está usando as joias que tanto rejeitou. — no mínimo tem escrito “Belongs to A.C.”, acertei? Não, sua vadia, não vá por esse caminho. — Chega, Marcela! — grito. Ela aponta seu dedo indicador para mim, balançando de um lado para o outro, enquanto nega o meu comando. Merda, minha namorada está pensativa, olhos presos em seus pulsos que agora estão estendidos para frente. Ela lê e relê a frase escrita neles, quase como uma tortura. Ela não é a única. Eu também me sinto torturado por algo que eu mesmo causei. Minha ex-noiva não perde tempo. — Não, meu amor, ela precisa conhecer quem você é de fato. Laís engole em seco, olhos arregalados, e meu ímpeto é de tirar essa maluca daqui à força, mas ainda que eu fizesse isso, não colocaria um freio nela. Marcela daria um jeito de localizá-la em outro momento e seria pior porque eu não estaria lá para me defender. — Antony, deixe-a continuar. O que mais eu preciso conhecer dele? — Laís pergunta, sua voz baixa. Fecho os olhos, sabendo que estou diante de duas mulheres obstinadas, e que nada que eu tente fazer, vai colocar um fim nessa conversa. — Está vendo como você é tratada como qualquer uma de nós? Quando ele se interessa um pouco mais por uma mulher, costuma deixar uma marca, algo que delimite o território até que ele enjoe dela. Olha só que linda minha gargantilha. — Porra, você não precisa ficar ouvindo a conversa dessa maluca. Não vê que ela quer te envenenar contra mim? Você é diferente, amor, e sabe disso. Eu vou colocá-la pra fora desse quarto e... — Não! — pulo de surpresa. — Eu quero ouvir cada-mínima-palavra. Estou cansada de meias verdades, Antony Cavalcanti. Permita-me fazer meu próprio julgamento. Marcela sorri, então se aproxima daquela que detém meu coração e a única que tem o poder de quebrá-lo.


Eu nunca vou me perdoar pelo dia que pensei em tratá-la como todas as outras, nunca vou me perdoar por não abrir o jogo e passar meu passado a limpo quando tive oportunidade, jamais me perdoarei por ter pensado que conseguiria usá-la e esquecer como tantas vezes já fiz, sem qualquer remorso. Eu nunca vou, mas ela é muito melhor do que eu. Eu espero que ela consiga. — Leia o que está escrito nesse pingente — Laís lê em alto e bom som. “Belongs to A.C.” — Pois é exatamente isso que você está pensando. Ele dá para aquelas que acha um pouco especiais até o dia que dá um chute na bunda sem pensar duas vezes. E é para os meus braços que ele sempre volta. Uma lágrima solitária escorre no rosto dela. Meu coração bate forte quase saindo do peito. Um mix de sensações toma conta de mim e penso em perder a racionalidade a ponto de usar a força para tirar Marcela daqui. Eu não queria machucar Laís. Eu não quero. Faria qualquer coisa para ter seu lindo sorriso de volta no rosto como eu tinha agora há pouco quando fazíamos amor como se só existíssemos nós dois no mundo. — Laís, deixe-me explicar. As coisas não são exatamente como ela está falando. Ela nada responde. Sequer olha nos meus olhos, congelada, enquanto continua observando os braceletes em seus braços. Eu queria que ela me xingasse, me batesse, dissesse qualquer coisa que esboçasse uma reação. Não faz. Seu silêncio me exaspera, me sufoca, me mata aos poucos. Marcela está nitidamente se divertindo com a situação, mal sabendo que se um dia havia qualquer chance de eu ter por ela sequer respeito, acaba de perder até isso de mim. Mas ela está certa. Eu sempre voltei para seus braços depois de todas as cenas que já fez com outras mulheres. Acontece que nenhuma delas tinha importância na minha vida. Laís tem. — O que há para explicar, meu amor? A pequena cobra lança seu veneno enquanto brinca com o pingente preso em sua gargantilha. Filha da puta! Ela prossegue. — Vamos ver se as semelhanças terminam somente nas joias que ele


escolhe para seus brinquedinhos. Bem, nós duas temos que concordar que o homem é uma delícia na cama, não é mesmo? As lágrimas começam a rolar livremente no rosto de Laís e eu já começo a ficar impaciente. Tento uma aproximação, abraçá-la, mas ela me afasta. Sintome vazio e perdido como poucas vezes na vida. Ainda que eu tenha ciência de que devo tomar uma atitude, não estou freando Marcela. É hora de me desnudar, de Laís saber quem é o homem manchado, imoral, por quem se apaixonou e tentar confiar que com ela será diferente. — Então, deixe-me contar só mais um detalhe que ele faz com todas. Antony só fode mulheres de cabelos compridos porque ele gosta de prendê-los para segurar como um apoio na hora da transa. Você é exatamente um exemplar das típicas mulheres com quem ele se relaciona. Não se sinta especial. Percebo quando Laís tira um bracelete, depois outro, deixando-os caírem no chão. Malditos braceletes, maldita ideia de repetir toda merda que eu já fiz com outras por conta da necessidade de me sentir como uma espécie de dono delas mesmo que eu soubesse que não duraria muito tempo. Ela deve pensar que eu era um doente. Sim, concordo, de fato eu era. Contudo você há de concordar também que tenho sido uma pessoa diferente depois que encontrei a mulher da minha vida e reconheci meus sentimentos. Ela emerge em mim meu melhor lado que eu sequer sabia que tinha. — Meu amor, eu vou tirar essa maluca daqui e nós vamos conversar como um casal faz quando precisa resolver seus problemas. Lembra quando falamos sobre isso? O que temos é forte demais para se deixar contaminar por uma história mal contada. Você sabe que eu não sou o mesmo, sabe que meus sentimentos por você são reais. Ela balança a cabeça, em negação, e me encontro cada vez mais desesperado, aflito, totalmente perdido no próximo passo que devo dar para convencê-la a me ouvir. Deslizo as mãos pelo rosto. Isso é totalmente novo para mim. Eu, Antony Cavancanti, sempre tive a resposta na ponta da língua para resolver qualquer situação. Desta vez, me vejo sem saída. — Você ainda quer continuar enganando essa ragazza? Deixe-a seguir com


sua vida na qual os homens devem se comprometer apenas com uma mulher como um príncipe encantado — Marcela sorri. — Um dia ela vai me agradecer. Nenhuma outra vai suportar seu jeito mulherengo, Antony. Somente eu porque te amo incondicionalmente. Suas palavras doentias mostram o quanto ela é descontrolada e não tem o mínimo de respeito sequer consigo mesma. Uma mulher que não encontra limites para si, é capaz de tudo para obter o que quer. Eu não quero Laís enredada na teia de perseguição da lunática que Marcela tem se mostrado ser. Mas ao mesmo tempo não consigo imaginá-la fora da minha vida. Nunca. Eu quero muito que ela entenda que posso ter sido seu algoz por um momento, mas já faz tempo que não sou o mesmo. Quero ser aquele que está lá para salvá-la se for preciso, seu herói, assim como ela me salvou. — Saia daqui agora ou não respondo por meus atos, Marcela. Eu vou me certificar de que você esteja no primeiro avião disponível para a Itália. Laís passa por mim, como um furacão, e aponta um dedo no meu rosto. — Ela não precisa sair. A única a sair daqui serei eu — recolhe o resto de suas roupas e sua bolsa. Para, encarando os braceletes jogados no chão por alguns segundos. — Não venha atrás de mim, Antony. Acho que já ouvi o suficiente. Adeus! Eu sei que devia correr atrás dela, segurar seu braço e dizer que tudo não passa de invenção de Marcela. Sei que deveria lhe implorar para ficar, cair de joelhos aos seus pés e pedir perdão mesmo que nem eu mesmo consiga me perdoar. Acontece que não o faço. Não faço porque eu não sei se sou bom o suficiente para uma mulher tão perfeita quando ela. Eu não posso impedi-la de se machucar quando as pessoas no mundo no qual eu convivo podem ser muito cruéis quando querem. Eu fui um filho da puta egoísta quando a persegui e me forcei a entrar em sua vida. Ela é melhor do que isso. Merece ser feliz. Embora eu tenha certeza de que a minha felicidade está atravessando a porta neste exato momento. Meu mundo está caindo. Eu sou o mais miserável de todos os homens porque ela está me deixando. Meu coração está destroçado, angustiado,


quando vejo sua última sombra cruzar a porta. Sento na beirada na cama e enfio minha cabeça entre as pernas. Pela primeira vez, sinto lágrimas rolarem em meu rosto por causa de uma mulher. Não qualquer mulher. A mais sublime de todas. Sinto nojo quando Marcela senta-se ao meu lado e passa a me alisar como se estivesse me confortando. Embora eu saiba que não mereço uma mulher como Laís, jamais me conformaria em permanecer ao lado de uma víbora como ela. Não o homem que sou hoje. Não mais. — Eu vou te dar duas opções. Ou você sai da minha frente neste exato momento ou eu vou ligar para o meu advogado e ele vai desfazer os negócios entre nossas famílias agora. Você sabe o que pode acontecer, não é? Eu tenho o poder de quebrar sua empresa e deixá-la na miséria. Tem um segundo para decidir. Ela levanta tão rápido quanto um raio, me olhando irritada. Balança a cabeça como se duvidasse que eu poderia chegar a esse ponto, mas no íntimo, ela sabe que posso e farei. Marcela vira para sair, não antes de destilar um pouco mais do seu veneno. — Sua mama não vai gostar de saber que está me trocando por uma suburbana sem futuro. Ela quer nos ver casados, Antony. Será que está tão cego que não consegue ouvir os conselhos de sua mama? — Apenas saia já daqui, Marcela. Saia! Ela bate o pé, mostrando que pretende ser mais teimosa do que eu imaginava. Se ela pudesse medir meu nível de paciência, certamente estaria correndo a léguas daqui. Estou prestes a tirá-la daqui à força quando um movimento diferente me faz levantar a cabeça. Não, eu não posso acreditar no que meus olhos estão vendo. Mas eu quero. Quero muito acreditar que não é fruto da minha imaginação. — Você não ouviu o que meu namorado acabou de falar? Saia daqui agora, sua vadia. Laís está na porta do quarto, mãos na cintura e olhar ameaçador como uma leoa defendendo a cria. Nada do que eu disse conseguiu provocar medo em Marcela, mas parece que a reação da minha namorada sim.


Ela escancara os olhos, engolindo em seco, enquanto observa Laís adentrar o quarto com determinação. — Por que você voltaria depois de ter ouvido tudo que lhe contei sobre Antony? Não tem amor próprio? Laís sorri. Suas lágrimas ainda escorrem dos olhos, mas não com a mesma intensidade de antes. Diabos, como amo esta mulher! — Ah, sim. Eu tenho até demais, acontece que mudei de ideia. Nunca saberemos a história verdadeira se ela for contada apenas por Chapeuzinho Vermelho, não é mesmo? Vamos lá, Antony, estou disposta a ouvir sua versão da história. Preciso concluir sozinha se você é um lobo tão mau assim quanto ela diz. Neste momento, é como se os céus se abrissem trazendo meu mundo de volta e a esperança de mantê-la em minha vida. Eu vou agarrar essa oportunidade com unhas e dentes, sem mentiras, enganações, mas mostrando a ela que o amor que carrego comigo no peito define o homem que eu sou hoje. Se tem algo que aprendi como executivo é que não há vitória sem batalha. Nada para mim caiu do céu, tudo foi conquistado com muito suor e trabalho. Desta vez não será diferente, eu não quero, não posso deixar o grande amor da minha vida escapar. E não vou. Ou não me chamo Antony Cavalcanti.


Quando saí do interior onde eu morava, uma das coisas que levei na bagagem foi a determinação de que nunca, jamais deixaria alguém me tratar de forma inferior a que eu mereço. Eu saí de lá ciente de que a vida não seria fácil para uma menina que está acostumada a viver ao lado de pessoas simples, numa cidade pacata. Não foi e nem tem sido. Acontece que se eu adotasse o medo como meu aliado, não chegaria a lugar algum. A escolha era meu sonho ou me acovardar. Eu resolvi enfrentar. Há poucos instantes, eu estava diante de mais uma encruzilhada. As alternativas eram ir embora, me fechar como uma concha em meu mundo ou ouvir a voz do meu coração e voltar ao quarto para reivindicar o que é meu. Lembrei das exatas palavras de Antony em uma de nossas discussões. “Nós somos um casal. Todos os casais têm conflitos e precisam resolvê-los com maturidade”. Foram elas que me deram um choque de realidade de tudo que foi conquistado entre nós até agora e tudo que eu abriria mão se desse as costas. Suas palavras me fizeram perceber que as emoções estavam encontrando voz em mim, enquanto sua ex-noiva estava sendo muito racional, cada frase


minimamente orquestrada. — Laís... amor, você está de volta e está dizendo que vai me dar a chance de me explicar? — Antony se levanta rapidamente e se posiciona diante de mim, segurando meu rosto entre suas mãos. — Eu pensei que poderia estar delirando quando ouvi sua voz. Porra, ainda parece surreal. — Eu estou aqui, amor, e sim, sou muito real. Mas uma dúvida ainda se mantém. O que você ainda faz neste quarto, Marcela? Qual foi a parte da palavra per-de-do-ra que você não entendeu? Me desvencilho de Antony e dou alguns passos na direção dela. A vadia está nitidamente com medo de mim agora e ela está certíssima em se amedrontar. Eu sempre fui uma pessoa pacífica, tranquila, mas isso somente até a segunda página. Sou uma leoa quando quero defender os meus. Seu olhar corre de mim para ele, fazendo esse movimento repetidas vezes. Soltando uma respiração profunda, ela ergue a cabeça e dá as costas para sair do quarto. Não antes de soltar uma última frase. — Vocês dois ainda vão me pagar. Isso não vai ficar desse jeito. Eu tenho a mama de Antony a meu favor e família é algo muito sagrado na Itália, se você não sabe. Vamos ver o quanto ele está disposto a lutar contra tudo e contra todos para ficar ao seu lado. Vamos ver! — Não envolva minha família nessa história, Marcela. Você não tem o direito de colocá-los contra mim por conta dos seus caprichos. Ela apenas lhe oferece um sorriso sarcástico, pisca um olho e sai do quarto, batendo os pés. Antony procura seu celular rapidamente e faz uma ligação. — Se certifique que minha ex-noiva vá embora desta casa... Sim, ela é minha ex-noiva, não quero vê-la novamente por perto... Exatamente, está proibido o acesso dela a todas as minhas propriedades... Ótimo. Ele desliga e joga o aparelho sobre a cama. Seu olhar cruza com o meu, então abre seu lindo sorriso capaz de derreter meus pensamentos e nublar meu discernimento. Eu não posso me deixar levar por tamanha distração. — Quer dizer que você é real e não uma miragem. Eu preciso descobrir a quem devo agradecer no céu por ter tanta sorte.


Sorrio. — Você estava chorando? — pergunto, ao perceber dois caminhos de lágrimas descendo de seus olhos. Ele passa as costas de sua mão, apagando os rastros deixados no rosto. — Sim. A possibilidade de te perder quase me sufocou. Pensei que definharia nesta cama, que morreria aos poucos. Não dá, eu não consigo imaginar um mundo no qual você não esteja presente. — Antony, eu... Nós ainda precisamos conversar. — Eu sei. Quero que você entenda que nunca menti para você, Laís. Eu apenas omiti o meu passado e me arrependo amargamente por isso. Faria qualquer coisa para restabelecer sua confiança. Sacudo a cabeça, assentindo. Ele prossegue. — Sente-se. Preciso te contar com calma, embora você já saiba o bastante. Sento-me numa poltrona e Antony senta-se de frente a mim, na beira da cama. Inclina seu corpo para segurar minhas mãos enquanto fala. Tremo com o contato, mas junto minhas forças para me concentrar no que ele tem a dizer quando tudo que meu corpo quer é cair em seus braços. — Fale, Antony. Por favor, não me poupe. Ele joga a cabeça para trás e olha para o teto por um segundo e, no próximo, eu tenho seu olhar me aprisionando mais uma vez. — Minha relação com Marcela já tinha cerca de cinco anos e sempre foi muito conveniente para mim, uma vez que eu poderia prosseguir com minha vida como eu quisesse e ela nunca ia me deixar. A única coisa que sempre importou para ela era o status de ter minha aliança no dedo e a promessa de um futuro casamento. — Mas ela gosta de você. Eu percebi em um simples olhar em sua direção. — Sim, ela gosta. Porém gosta mais da vida de glamour que seu pai lhe dá e eu entrava nessa história como uma promessa de que se manteria assim depois de casada. — Minha nossa, deve ser muito triste basear toda uma vida em cima do dinheiro. Eu tenho sonhos materiais, mas nunca vou permitir que eles se sobreponham a quem eu sou em minha essência.


— E é isso que mais amo em você. Antony me beija no rosto e tento sondar meu coração para avaliar até onde vai minha mágoa. É claro que ainda estou um pouco ressentida, não por seu passado, mas por saber que me tratou como qualquer uma. Contudo não posso negar que a nossa relação tem ultrapassado barreiras, subindo de nível pouco a pouco. Eu acredito nele quando diz que nunca foi assim com outra mulher. A própria Marcela acabou fazendo o favor de deixar isso claro. É a mim que ele ama e eu a ele. — Que mulher fútil! Para ela, o amor é um sentimento tão raso a ponto de deixar a riqueza e luxo falarem mais alto? — Nem todo o mundo é como você, Laís, que buscou vencer por esforço próprio. Para mim, era conveniente o casamento desse modo até que você chegou e bagunçou tudo. — Está reclamando? — Não. Muito pelo contrário. Conhecer você foi a melhor coisa que já aconteceu em minha vida — ele sorri, então aperta minhas mãos. — Será que estaria disposta a escrever uma nova história comigo, me ensinar de que forma posso mantê-la sempre feliz? Eu quero fazer tudo diferente com você, basta dizer a palavra, querida, e eu farei. Tem como não me emocionar, principalmente quando eu vejo pela primeira vez uma lágrima cair de seu olho, me mostrando o quanto está sendo sincero em cada palavra, cada frase que sai de sua boca? — Você vai ter que me reconquistar, Sr. Sublime. Ainda estou muito magoada e não pretendo facilitar sua vida nem um pouco. Atitudes valem mais do que um amontoado de frases vãs. Me prove que é verdade tudo que está dizendo. Não vou negar que acredito sim nele, que sei o quanto já se esforça há muito tempo para me tratar como única em sua vida. O fato de terminar a relação com Marcela e de não voltar a falar nos braceletes são provas disso. — Ensine-me como. Afasto uma mão da sua e levo o dedo indicador ao queixo como se eu estivesse pensativa.


— Deixe-me ver... Você poderia começar me enchendo de carícias — ele se surpreende, talvez esperando que o desafiasse mais. — Tudo que preciso é que apenas me abrace forte, Antony. Acho que esse pode ser um bom começo. Antes que eu perceba, ele me carrega no colo, tomando meus lábios em um beijo carinhoso, terno, carregado de sentimentos. Neste dia, tudo que fazemos é nos manter agarrados um no outro como se ambos tivessem medo de se soltar e acabar descobrindo que tudo não passa de um sonho. O calor de Antony me faz perceber que fiz a escolha certa ao voltar para o quarto e reivindicar seu amor. Seus braços são o lugar de onde nunca pretendo sair. Eles são o meu lar.


Já faz quase um mês que não temos notícias de Marcela e eu sou muito grata por isso. Todos os dias rezo para que ela desista de qualquer plano que esteja tramando contra nós e possa seguir com sua vida em paz. De verdade, desejo que ela encontre alguém e seja feliz. Antony e eu estamos vivendo um dia de cada vez e ele tem se esforçado muito para ser o melhor namorado que uma mulher pode ter. Ele descobriu o quanto gosto de alimentos que me lembram o interior, como aqueles à base de milho. Todos os dias eu sou entupida por bolo, canjica, mingau e mais tantas outras coisas que eu sequer conhecia. Ele tem cedido um pouco mais aos meus gostos como uma simples caminhada à beira mar, por exemplo. A cada dia descubro que amo mais esse homem. Hoje é um dia muito especial porque finalmente estou a um passo de realizar meu grande sonho. — Seja bem-vinda ao nosso corpo docente, Laís. É uma honra ter uma aluna tão dedicada como nossa funcionária agora. O coordenador do departamento de Letras me dá as boas vindas juntamente com os outros professores da graduação. Eu estou feliz demais pelo destino estar seguindo o curso que eu planejei. Nem Antony nem Alana puderam estar aqui comigo, então convidei Leandro como uma pessoa próxima para me acompanhar. Já tem uma semana que deixei a editora e fiz exames admissionais nesse período. Leo tem me apoiado muito. — Obrigada. Farei o possível para ser tão boa professora quanto vocês são. Sou abraçada e parabenizada por todos. — Laís, que tal sairmos para comemorar? Leo me convida, mas eu só consigo imaginar uma pessoa com quem quero compartilhar minha felicidade. E, embora goste muito do meu amigo, definitivamente não é ele.


— Obrigada por ser aquela pessoa com quem posso contar quando preciso. Eu sempre serei grata e sempre estarei aqui torcendo para que realize seus sonhos também, mas Antony está me esperando em casa. Preciso ir. Ele não consegue disfarçar. Seu sorriso desvanece e ele vira o rosto de lado para coçar a garganta. Volta a me olhar, tentando me oferecer um sorriso fraco. Deus, eu queria tanto vê-lo superar esse amor platônico que sente por mim. Ele merece tanto ser feliz. — Eu sempre estarei aqui, Laís. Sempre. Me dá um aceno e se despede, subindo em sua moto. Um filme passa por minha cabeça neste momento do quanto me doei para alcançar meus objetivos, estudei, me esforcei e hoje estou dando um grande passo. Não há como sentir o perfume das rosas sem antes se machucar nos espinhos, não é mesmo? Definitivamente, superei todos eles para chegar até aqui. Felicidade. Realização. Amor. São palavras que me definem. — Senhora, o carro já está à sua espera. Antony mandou o motorista me trazer mesmo depois que neguei veementemente. Ele diz que nosso namoro já se tornou público o suficiente para que eu corra riscos. Ultimamente, ele anda meio obsessivo com essa coisa de proteção. — Estou pronta. Vamos. Ligo para os meus pais no caminho. Eles vibram comigo do outro lado da linha, dizendo a todo momento o quanto estão orgulhosos. Eu sou fruto da grande educação que me deram na qual pequenos detalhes da vida tinham mais relevância do que o que a maioria das pessoas procura. Também me sinto orgulhosa deles. Em instantes, estamos chegando à mansão. Antony continua insistindo na ideia de que devo me mudar e morar com ele e eu continuo negando porque


não vejo razão de apressar as coisas. O motorista para na entrada da casa, então corro para encontrar meu CEO, lhe dar um abraço e compartilhar minha felicidade. Dou passos determinados adentrando a sala, quando percebo que ele não está só. Minha presença não é notada, a princípio, mas eu continuo caminhando vagarosamente em direção a eles, sem precisar de muito esforço para adivinhar quem são. Uma senhora alta, de cabelos negros em um coque perfeito e ar altivo, se vira quando me percebe, soltando faíscas de raiva no olhar. Um senhor está ao seu lado, aparentemente me olhando com um pouco mais de simpatia. Engulo em seco, totalmente confusa enquanto corro minha visão para Antony. Seus traços estão sérios, austeros, mas ele não me ignora. Vem de encontro a mim, agarra minha mão e deposita um beijo terno em meus lábios, então me leva para junto dos seus pais. Sua mãe me mede de cima até embaixo, muito semelhante à forma como Marcela me fitou. — É por essa dona que você está trocando o melhor partido disponível na Itália? Onde você está com a cabeça, Antony? Desde quando começou a deixar que seu apetite sexual fale mais alto que a razão? Meu primeiro instinto é de sair correndo e ficar longe dessa gente que despreza a humildade, que se acha uma raça superior apenas porque tem um punhado de dinheiro. Mas essa não sou eu. Essa não é a Laís que acabou de realizar um sonho com muito esforço e não tem medo de enfrentar os desafios que a vida impõe. Levanto uma sobrancelha e me recomponho, estendendo a mão para a senhora, enquanto visto minha melhor máscara intrépida, audaciosa. — Sim, eu devo ser a dona da qual está falando. Prazer, me chamo Laís Oliveira.


Se

um olhar pudesse matar, certamente eu já não estaria mais ali. A mãe de Antony olha para minha mão como se eu estivesse lhe estendendo uma cobra, pronta para lhe picar. Ela não disfarça. Se afasta um pouco do meu contato quando seus olhos cruzam com os meus, carregados de desprezo. Eu não me importo. Já passei da fase de me importar. Dentro de mim, há algo que ela nunca terá porque o dinheiro é quem dirige sua vida. Eu possuo dentro de mim a simplicidade dos sentimentos. E eles são incondicionais. — Que mulherzinha petulante! Você acha mesmo que é digna de me cumprimentar? Ponha-se em seu lugar, puttana! Deus, como ele pode ser filho de uma mulher tão ríspida e mal-educada? Ainda que ela não goste da ideia de Antony e eu, respeito é o mínimo que se pode esperar. É esse tipo de gente que se acha tão cheia de princípios? Antes que eu abra minha boca para mandá-la ir à merda, Antony se posiciona diante de mim, colérico, furioso. — Mama, esta é minha casa e a mulher a quem a senhora está se referindo é minha futura esposa, então não vou permitir que a trate como menos do que merece. Laís é uma mulher maravilhosa, batalhadora e é a dona do meu coração. Aprenda a se conformar, dona Constanza. Ela não vai sair da minha vida.


A velha coloca a mão sobre a boca, claramente surpresa com a reação do filho. Talvez ela esperasse submissão e respeito que um filho deve ter pela mãe, mas isso não lhe dá o direito de tomar decisões em nome dele, dá? — Antony... Meu bambino, você nunca falou assim com sua mama. O que essa mulher está fazendo com você? Está de cabeça virada? Ele agora se posiciona atrás de mim e me abraça pela cintura, seus olhos presos na mãe enquanto fala. — Eu sempre cedi aos seus caprichos até enquanto era conveniente para mim e para a empresa. Mas agora chega! Encontrei outra perspectiva na vida que vai além do trabalho e dinheiro. Amor, sabe o que é isso, mama? Eu amo essa mulher aqui. E se você ama seu bambino, vai aprender ao menos a respeitá-la. Me assusto com o que vem em seguida. A reação do pai de Antony é totalmente oposta a da mãe, o que me deixa um tanto confusa. — Yes! — ele grita, socando o ar. Todos nós viramos para ele com ar interrogativo. O homem apenas dá de ombro e suas feições se fecham quando dona Constanza lhe oferece um olhar ameaçador. Agora consigo entender de quem Antony herdou sua bipolaridade. Ele definitivamente tem a austeridade e seriedade da mãe quando está na empresa, mas é um homem completamente apaixonado quando está ao meu lado. — Mas era só o que me faltava — a velha diz. — eu ter uma conspiração a favor dessa qualquer aqui. Vamos ver até quando seu amor vai falar mais alto assim que ela te envergonhar na frente dos amigos e começar a gastar toda sua fortuna, meu filho. Eu te criei para ser mais esperto do que isso. Acho que cometi algum erro. — Sim, a senhora cometeu. Seu maior erro foi me ensinar que o dinheiro e sucesso devem sobrepor todas as coisas e pessoas. Isso não é verdade. A vida tem me mostrado pequenos prazeres que, com certeza, são mais interessantes que ganhar dinheiro. Ela vira os olhos, menosprezando tudo que acaba de ouvir. — Então, parece que está determinado a levar esse pesadelo em frente, não? Saiba, meu filho, que eu sempre vou te amar, contudo não me peça mais


que isso. Não vou aceitar esta mulher no seio da nossa família. Não sou obrigada. Meu coração se aperta. Eu não quero ser motivo de disputa entre Antony e sua família. Tenho certeza de que ele está sofrendo por ter que fazer uma opção quando tudo poderia ser resolvido com tranquilidade. Acontece que ela está quebrando uma regra intransponível. Tentar domar um homem adulto, de personalidade forte como Antony é dar um tiro no pé. Ele sempre vai fazer o que deseja, independente do amor que sinta por sua mãe. Talvez ela só precise perceber isso. — Estou, mãe. Laís e eu vamos nos casar o mais breve possível. Aguarde o convite porque ele vai chegar a qualquer momento. Oi? Alguém avisou a noiva que ela vai casar? Encaro Antony com olhar interrogativo e ele apenas me oferece um sorriso suave como resposta. Filho da puta! O que está tramando pelas minhas costas? O pai dele sai de junto da mãe e lhe dá um abraço apertado, me levando a deduzir que essa família só pode ser completamente louca. — Parabéns, filhão. Eu sabia que esse dia ia chegar. Estou muito orgulhoso de você. Observando bem, Antony tem alguns traços dele como os olhos claros, por exemplo. O pai é um senhor muito bem conservado e se este for um vislumbre do que meu CEO pode se tornar no futuro, não me cansarei de admirar sua beleza nunca. É uma pena que o homem pareça tão dominado pela esposa, sem qualquer poder de decisão. Um simples olhar dela o desarma por inteiro. — Obrigado, papa. Eu sabia que ao menos o senhor ficaria do meu lado. A bruxa da minha futura sogra dá um beliscão em seu marido para que ele se recomponha. Minha nossa, que mulher é essa, hein? A impressão que dá é que ele é surrado sempre que a desobedece. A imagem que se tem dos italianos não é extremamente o oposto? Então, ela quebra todos os paradigmas de que já ouvi falar. — E a aliança de família? Você sabe que ela foi passada de geração em geração por séculos. Não será o primeiro a quebrar a tradição, Antony. A


aliança representa um compromisso inquebrável. E você já deu a Marcela. — Mama, você está passando dos limites hoje. As tradições servem para serem quebradas. Para mim, aquela aliança tem o valor de um metal. Não se preocupe com isso. Laís, você se importa de ter sua própria aliança? — Eu... não, é claro que não. Casamento, aliança... Deus, eles estão discutindo a minha própria festa, sendo que eu sequer fui informada? — Por essa, eu não esperava. Você vai jogar o nome de sua família na lama por conta de uma paixão passageira. Tudo bem. Estou vendo que só me resta ficar de camarote esperando a queda dessa relação. E isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde. Vocês são de mundos completamente diferentes. Ela agarra o braço do marido, o puxando para ir embora. Antes de saírem, o homem mais velho se aproxima do filho e fala no ouvido o suficiente para que eu escute. — Você está fazendo a escolha certa, filho. Deixe seu coração te direcionar. Eu não tive a mesma coragem que você e me arrependo muito. Tenho certeza de que será muito feliz. Ela é uma ótima ragazza. Ele dá dois tapinhas nas costas do filho e acompanha a esposa de humor ácido para a saída. Observamos juntos até que eles desapareçam e algo que ela disse me deixa com o que pensar. Ela está certa quando diz que pertencemos a mundos completamente diferentes. Acontece que quando existe amor na equação, o abismo se torna menor. Eu amo conhecer um pouco do universo dele e não tenho dúvidas de que ele está cada vez mais apaixonado pela simplicidade do meu mundo. E assim vamos vivendo um dia após o outro. Antony me vira de frente para ele e abre um sorriso estonteante, demonstrando que nada do que foi dito aqui abalou suas convicções. — Laís, como foi lá na universidade? É impressão minha ou ele está tentando mudar o foco dessa guerra nuclear que acabou de acontecer? — Foi maravilhoso. Estou tão feliz que nem sua mãe vai conseguir acabar


com tanta alegria. Ele me agarra pela cintura, então me beija demoradamente. Eu amo me sentir tão acarinhada por um simples beijo. — Estou muito orgulhoso de você. Meu único lamento é que não a terei mais embelezando a minha empresa. Considere um dia me ajudar a administrar a editora, principalmente agora que se tornará minha esposa e ela será sua também. Oh, Deus! Já chegou aquele momento que eu desmaio na história? — Então, me conte o que foi toda aquela conversa de alianças e futura esposa que você e sua mãe falavam? Foi apenas uma forma de deixá-la mais irritada? Ele me arrasta para as escadas enquanto beija meu pescoço, levando meu corpo a se arrepiar por inteiro. Eu já sei onde essa conversa vai parar. Não é preciso ser um gênio para saber. — Eu falei muito sério, Laís. Quero que você seja minha esposa. Paro ao pé da escada e viro para lhe encarar. — Aquilo lá foi um pedido de casamento? Este foi o pior que eu já ouvi falar. Talvez você possa fazer melhor do que isso, Sr. Sublime. Se for desse modo, minha resposta é não. Ele se afasta, espantado. — Você está negando o meu pedido de casamento? Meu Deus, como poderei sobreviver a isso? O safado coloca a mão no peito como se estivesse completamente ofendido com a minha negativa. — Estou dizendo que eu espero um pedido melhor elaborado em breve. Eu sou uma sonhadora, sabe? Se vire, seja criativo. Enquanto isso, você possui meu sonoro não. Me convença do contrário. Subo as escadas correndo e quando chego ao topo, ele me alcança, jogando-me ao chão. — Vou convencê-la, linda. Em breve terei minha aliança no seu dedo. Muito em breve. A nossa urgência não permite que encontremos um quarto. Fazemos amor


ali mesmo no chão, sem nos importar com a falta de conforto ou qualquer outra coisa. Somos só ele e eu. Ninguém mais. Antony não precisa saber disso, mas em meu coração, um sonoro sim já pisca em letras garrafais e luz neon. Casada ou não, com aliança ou sem aliança, nós já estamos intimamente entrelaçados. E nada mais importa no mundo.


Sabe

quando você está vivendo um momento no qual tudo está tão perfeito que de vez em quando dá medo de que algo possa acontecer e atrapalhar? É exatamente assim que estou vivendo. Tem sido maravilhoso ter Antony como o namorado atencioso e carinhoso que ele é. Seu tempo de dedicação à editora está menor e ele está começando a confiar mais nos outros chefes da empresa para delegar obrigações. A mãe dele e Marcela viraram fantasmas do passado. Os pais dele foram embora uma semana depois daquele dia, mas você acredita que aquela velha ainda teve a cara de pau de tentar convencer Antony mais uma vez? É claro que se ele está nos meus braços hoje é porque ela recebeu a resposta que merece. Juro que achava que todas aquelas piadas com sogras eram apenas brincadeiras das pessoas. A minha faz jus a cada uma delas. — Vamos lá, Lai, já vai começar e preciso de você para controlar meu nervoso. Meu Deus, eu nem acredito que chegou o momento que esse país vai conhecer a maravilhosa e inesquecível Alana Taylor. Sorrio ao vê-la fazer caras e bocas, cheia de braços esvoaçantes tão típicos dela. Eu sinto tanta falta de ter esse furacão todos os dias aqui comigo, embora eu tenha passado mais tempo na casa de Antony do que em minha própria casa.


Estamos em meu apartamento. Daniel e Antony estão na sala provavelmente conversando sobre negócios ou algo relacionado com produção enquanto comem algum tira-gosto. Alana fez questão de toda emoção de um cinema, então estamos levando pipoca para a sala. Meu coração está vibrando por essa conquista dela, mesmo sabendo que teve dedinho do meu namorado nessa história. Lana é atriz por natureza. Tenho certeza de que vou me surpreender com sua atuação. — Antes de irmos para sala, deixe-me te contar uma coisa — ela diz, dando pulos com o balde de pipocas na mão, fazendo-as voar por toda cozinha aos pulos junto com ela. Eu rio com a cena. Só Alana para fazer esse tipo de coisa. — Lana, vai cair tudo. Será que consegue colocar o balde na mesa antes de extravasar suas emoções? Ela faz o que sugiro, então segura minhas duas mãos, fecha os olhos e respira fundo antes de falar. — Oh, Lai, eu sou a pessoa mais feliz desse mundo. Dani recebeu uma proposta para produzir um filme que tem tudo para lotar as salas de cinema deste país. O dia dele ter o reconhecimento de seu trabalho chegou, minha amiga. Inevitavelmente, estou pulando junto com ela. Daniel é um grande produtor e tem batalhado por muito tempo. Sempre foi um grande amigo desde que cheguei na cidade também. — Uau, Lana! Que notícia boa. Faço menção de lhe dar um abraço, mas ela me impede. — Calma! Ainda tem mais. Você não sabe o que aconteceu ontem. — Não, eu não sei. Mas com certeza você vai me dizer agora. Solta de uma vez, mulher. Ela enche o peito, levanta os braços e repentinamente, estende sua mão direita que ostenta um grande e brilhante anel. — Oh, meu Deus! Ele... ele te pediu em casamento? Alana volta a pular como uma criança. — Sim, sim, sim! Não é demais? Eu vou me casar, Laís.


— Oh, Lana. Agarro minha amiga em um abraço forte enquanto lágrimas fazem seu caminho pelo meu rosto, mas elas são de felicidade. Alana foi a melhor amiga que uma pessoa poderia ter quando ofereceu seu apartamento para ser compartilhado comigo. Ela sempre será o colo para o qual eu vou correr se precisar. E ela tem o meu inquestionavelmente. — Ei, vocês duas. O jornal já terminou e a novela vai começar — Dani grita da sala. Pegamos a pipoca e corremos para lá. Como meu sofá não é tão grande, eu sento no tapete com ela que está quase entrando na televisão de tão próxima que ficou. Alfred senta entre nós, atento à TV como se estivesse entendendo alguma coisa. A primeira cena dela é de uma filha que perde a mãe. Nossa, sua atuação está perfeita, muito dramática como o momento pede e como ela já é por natureza. Sua cena não dura tanto tempo, já que não é a protagonista, mas dura o suficiente para me derreter em lágrimas e me encher de orgulho da minha amiga. — Oh, Lana. Você foi sensacional. Ela está praticamente soluçando agora. Talvez chorando mais do que vi nas imagens. — Você gostou mesmo, Lai? Sua opinião é tão importante para mim. — Ei, e a opinião de seu noivo, não conta? Daniel puxa seu braço, levantando-a do chão e enche seu rosto de beijos, terminando em um abraço pra lá de apertado. — Noivo? — Antony pergunta. — Sim, ele fez o pedido ontem — ela estende a mão direita para exibir a aliança mais uma vez. — Uau! Felicidades ao casal — Antony me avalia, buscando minha reação. — Laís te contou que também fiz o pedido e ela recusou? Alana está admirada, seu rosto caricato parecendo assustado. — Não. Laís, sua vadia. Como você não me deu uma informação dessas e por que disse não ao Sr. Sublime?


Dou um tapa no braço de Antony. Está vendo o perigo de se ouvir somente uma versão da história? — Antony não fez exatamente um pedido. Eu ainda estou esperando que ele me surpreenda. Aquela coisa de dizer “venha morar comigo” ou “estou falando sério quando disse que a quero como esposa” não está nos sonhos nem mesmo das pessoas mais realistas no mundo. Ele precisa se esforçar mais. Alana joga a cabeça para trás e ri com gosto. Se bem a conheço, está com um pouco de pena de Antony. — Boa sorte, amigo — Dani diz. — Tenho certeza de que você vai precisar com essa mulher durona. Antony ri. Ele não parece tão preocupado. — Se meus planos derem certo, esse sim virá o mais rápido possível. Eu quero minha aliança brilhando no dedo esquerdo dela tão logo eu escute a palavra. Meu CEO é tão fofo falando essas coisas que meu desejo é me jogar em seus braços e dizer quantos sins ele suportar ouvir. Mas quem sou eu para estragar seus planos? Vou deixar com que trabalhe um pouquinho, não? Estou ansiosa para saber o que ele está aprontando. E meu sexto sentido diz que vou gostar.

Me tornei mestre em Letras mês passado e já faz dois meses que estou lecionando na universidade. Já se passou uma semana desde que assistimos a estreia de Alana na TV e todos os dias tento chegar em casa mais cedo apenas para vê-la em pequenas cenas. Seu papel tem grandes chances de crescer e, quem sabe, ela possa ganhar um destaque maior na novela. Estou na sala de aula, em uma turma de graduação, na qual pretendo falar sobre o assunto que faz as catracas do mundo girarem. Não há como trabalhar literatura sem tocar nesse assunto e eu confesso que adoro cada livro que o tem como protagonista.


— Hoje vamos falar sobre o amor. Esse tema está presente em grande parte dos textos literários e tem ultrapassado as barreiras do tempo e culturas. Alguém pode citar um texto que trate do amor? Um aluno levanta a mão. — Pode falar — aguardo sua citação. — Vinícius de Moraes falou do amor de uma forma bem realista em “Soneto de Fidelidade”. — Sim. É um poema bastante conhecido. Em que parte especificamente você acha que está o maior grau de realidade? — Quando ele diz “que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. — Um ótimo exemplo. Obrigada. Há outros autores na literatura que não abordam o amor de forma tão passageira. Alguns deles tratam das oposições que este sentimento pode apresentar. Camões, por exemplo, foi um poeta do século XVI que falou do amor a partir desse panorama. Até hoje, ele é lembrado por um de seus poemas mais conhecidos. Quem sabe recitar? Alguns alunos levantam a mão e estou prestes a convidar um deles para falar, quando a porta é escancarada e toda atenção, repentinamente, se volta para a pessoa que adentra a sala. Sou tomada pela surpresa quando ninguém menos do que Antony está ali de pé, parado, enquanto carrega um enorme buquê de rosas vermelhas em uma das mãos e uma caixinha de veludo na outra. Minha garganta seca, falta-me o ar. Antony, o grande amor da minha vida, meu CEO, está na minha sala de aula e penso que posso morrer naquele exato momento, quando começa a recitar o soneto, impondo sobre mim o peso do seu olhar cristalino. “Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói, e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer.”

Ai, Deus, Antony levou mesmo a sério quando eu disse que deveria ser


criativo em seu pedido? Nem nos meus melhores sonhos imaginei que ele poderia invadir uma aula minha para falar sobre o assunto que melhor nos representa. Ele termina de recitar e olha para toda turma como se quisesse deixar uma mensagem não apenas para mim, mas para eles também. Meu coração está batendo forte, minhas pernas tremem, os olhares estão paralisados sobre ele na esperança de que o sentimento falado hoje seja ilustrado diante de todos. As palavras me faltam, mas Antony as têm como aliadas. — É verdade que o amor está em quase todos os tipos de textos literários, mas o amor deve estar, primeiramente, nas pessoas. Não é importante apenas que se fale sobre ele. É importante sentir. Ele dói, como diz o poema? Sim. Ele tem suas contradições? Sim. Mas ainda é e continuará sendo um sentimento que vale a pena ser vivido. Eu estou ofegante. Ele está claramente falando sobre nós diante de todos os meus alunos. Meu desejo é de me jogar em seus braços sem me importar com o lugar onde estou nem com os olhares curiosos que, de certa forma, parecem torcer por nós. Minhas pernas não me obedecem. Ele continua. — Estou aqui neste momento para me declarar para a mulher mais sublime, inteligente e linda que conheço. Eu te amo, Laís. Eu a amo como nunca amei ninguém e como nunca vou amar. Deus, tudo parece tão surreal como o sonho mais lindo que jamais sonhei. — Querida, amor da minha vida, você me daria a honra de fazer do seu CEO o homem mais amado e feliz desse mundo? Laís Oliveira, você aceita ser minha esposa? A turma começa a gritar a palavra ‘sim’ em um coral e me sinto desnorteada por um momento. Ele caminha até onde estou e me entrega o buquê, então abre a caixa onde está uma aliança cravejada de pequenas pedras rosas, simples, contudo a mais linda que eu já vi. Tenho dúvida de qual deve ser minha reação por um segundo. Não tenho sombra de dúvida do meu amor por ele, mas o nervoso repentinamente me deixa um tanto imobilizada.


— Querida, estou esperando sua resposta. Me tire da miséria e diga o que meu coração precisa ouvir logo. — Oh, Antony, é claro que minha resposta é sim. Sim, sim, sim, meu amor. Me jogo em seus braços, quase o desestabilizando. Ouço os aplausos dos alunos quando ele toma minha mão direita e desliza a aliança no meu dedo anelar. O nervoso não me impede de admirar o anel que não tem começo nem fim, que é símbolo de um amor infinito. Ele me mostra que já está usando a dele e sorrio por sua pressa de mostrar ao mundo o quanto está comprometido com nossa relação. Definitivamente, ele gosta de quebrar tradições, mas não deixarei que faça isso no nosso casamento. — Ufa! Finalmente o sim mais difícil da minha vida chegou. Todos riem na sala e concluo que a aula não poderia ser mais produtiva do que foi hoje. Todos entenderam na prática do que se trata esse sentimento tão explorado nos livros. E tenho certeza de que nenhum poeta jamais conseguiu transformar a intensidade do que Antony e eu sentimos em palavras. Não conseguiram porque palavras não são suficientes. O nosso amor vai além.


Tenho

vivido dias agitados ultimamente. Desde que aceitei o pedido de Antony, há aproximadamente dois meses, estou vivendo no olho do furacão, me dividindo entre convites, ornamentação, flores, sacerdote e cada detalhe para que a cerimônia saia perfeita e tradicional. Sim, tradicional, embora meu noivo dê um pouco de trabalho nesse sentido. Você não acredita na quantidade de propostas que esse homem já me fez no intuito de colocar essa bendita aliança em meu dedo. Ele me convidou para irmos a Vegas e nos casarmos, tendo Elvis Presley como cerimonialista. Pense na cena. Sorri demais com a possibilidade. Outro convite foi de irmos a Roma para sermos casados pelo papa. Antony me garantiu que conseguiria isso em, no máximo, uma semana. Vê se pode? E a última proposta tirou de mim boas gargalhadas. Ele me convidou para irmos à Carolina do Norte e nos cadastrarmos num hotel porque segundo as leis do estado, se um homem e uma mulher solteiros se cadastram num hotel, eles são considerados casados. Gente do céu, estou lidando com um maníaco obsessivo nos últimos dias. — Está pronta, filha?Você é a noiva mais bonita que já vi na vida. Meu Deus, minha filhinha cresceu tão rápido e já está casando.


Meu vestido é simples, esvoaçante e romântico. Na cabeça, optei apenas por uma coroa de flores que combinam perfeitamente com os cachos loiros que fizeram em meus cabelos. Só não abri mão das rosas vermelhas no buquê. Vermelho é a cor da paixão, do coração. É a cor que simboliza o que Antony e eu sentimos. Minha mãe parece uma rainha de tão linda, tentando segurar as lágrimas para não borrar a maquiagem. Contudo essa missão é quase impossível para nós duas. Eu também estou muito emocionada. — Não chore, senão eu não vou conseguir me conter, mãe. Alana entra no quarto da mansão, acabando completamente com as emoções do momento. Antony está se arrumando no hotel e fez questão que eu me arrumasse aqui porque teria mais espaço para o arsenal de gente que contratou para o meu dia de princesa. Optamos por um casamento na praia. Eu acho mais bonito e romântico. Ele não se opôs. Os únicos assuntos de que se lembra são dedo e aliança. — Ei, vamos parar com esse chororô. Imagine vocês saírem nas filmagens como duas bruxas borradas. Nada disso. Engole o choro que ainda não chegou o momento. Só Lana para ter esse efeito realmente. Todos no quarto estão rindo com seu jeito extrovertido e teatral. Apesar do discurso que acaba de proferir, percebo quando vira o rosto e enxuga uma lágrima que teima em cair. Tenho certeza de que não há amiga melhor neste mundo. — Alguém sabe dizer se Antony já está no altar? — Sim, Laís. Ele ligou trezentas vezes dizendo que estava a caminho e, na última, disse que já está lá — Lana responde. — E meu pai? — Os dois estão juntos te esperando no local. Oh, Deus, me emociono só de imaginar o quão lindo será meu casamento diante das ondas e de um pôr do sol maravilhoso. Tudo parece um sonho. Um sonho do qual não quero acordar. — Então vamos. Eu sei que tem todo aquele ritual da noiva se atrasar, mas nem tanto. Se sairmos agora, já chegaremos atrasadas o suficiente.


Depois dos últimos retoques por uma equipe especializada em casamentos, entramos na limusine que me aguardava na frente da mansão. Olho para cima e observo a fachada da casa que se tornará meu novo lar. Não me deixo deslumbrar por seu luxo e opulência. Só consigo imaginar que é um lugar com espaço perfeito para ter crianças correndo felizes no futuro. — A mãe dele não vem, Laís? — Dona Teresa pergunta enquanto a limo cruza as ruas da cidade. Antony enviou convites para toda sua família na Itália, mas parece que a mãe dele foi a única que não veio. Ele diz não se importar uma vez que ela está colocando a ganância acima de sua felicidade, mas eu sei que ele gostaria de tê-la presente neste momento tão especial. — Não, ela não vem. E se a senhora quer saber, eu prefiro que seja assim. Não quero que nada estrague meu dia perfeito e uma pessoa de energia tão negativa não merece estar num lugar onde o amor é celebrado. — Verdade, filha. Dá pra ver em um simples olhar o quanto você e Antony se amam. Pulo de susto quando Alana se intromete com seu jeito espalhafatoso. — Chega de drama, ok? Daqui a pouco vocês começam a chorar de novo e a maquiadora não está aqui para reparar. Estamos indo para um casamento e não para um velório. Alguém consegue deixar as emoções rolarem com uma criatura dessas ao lado? — Bem, então se prepare porque em seu casamento eu vou chorar muito e não vou me importar nem um pouco com essa coisa de maquiagem. A protagonista será você, então ninguém vai notar sua madrinha com delineador escorrendo pelo rosto. Eu serei a madrinha do casamento dela, assim como ela e Dani serão do meu. Antony escolheu dois padrinhos também que são Elizabeth e Milton Antônio de Melo, o escritor de livros didáticos. Lana aponta um dedo no meu rosto, fingindo estar irritada. — Eu te proíbo, entendeu? Se Daniel desistir de casar comigo porque pareço uma bruxa ao entrar na igreja, a culpa será totalmente sua.


— Ah, não se preocupe. Esse risco você não corre. Aquele homem é caidinho por você. Ela sorri. — É mesmo, não é? Ah, meu Dani. Ontem à noite nós estávamos na cama e... — Alana! Morro de vergonha pelo fato da minha mãe estar aqui. Agora mesmo é que ela tem todas as confirmações de que eu morava com uma pervertida. — Vocês jovens devem aproveitar todo fogo, ardor da mocidade. Seu pai e eu ainda damos um caldo, sabe? Quando ele me chama do quarto, eu já sei quais são suas intenções, então deixo o que estou fazendo e vou dar atenção ao meu velho. — Mãe! — meu tom de voz sai alto, implorando aos céus que ela não continue falando mais. Eu não preciso ter a imagem mental de meu pai e minha mãe fazendo sexo. Não mesmo. Alana cai no riso, levantando a mão para que minha mãe bata nela. Ela assim o faz e, de repente, eu me sinto uma velha de cem anos, cheia de pudor enquanto as mulheres ao meu lado não têm nenhum. — Está quase chegando. Daqui a pouco você será uma mulher casada. Já pensou nisso, Lai? E alguém me deixa pensar em outra coisa? Oh, Deus, é verdade. Daqui a pouco serei a Sra. Oliveira Cavalcanti. Sim, Oliveira. Eu jamais me permitiria perder o sobrenome daqueles que sempre tiveram o papel mais importante em minha vida. — Ainda é muito surreal em minha mente como se tudo isso fosse parte de um sonho do qual eu não quero acordar. O carro para num sinal de trânsito de um cruzamento. Olho para a luz vermelha do semáforo até que ela se torna verde, nos dando permissão para continuar. O celular de Alana vibra e ela atende já sabendo quem está do outro lado da linha. — Sim. Já estamos chegando. Pertinho. O quê, o noivo fugiu? — ela busca minha reação, mas apenas a encaro com olhar ameaçador. Ela pisca um olho


para mim. — Manda o homem segurar a ansiedade porque ela não vai a lugar algum. Desliga o telefone sem esperar resposta. — Parece que tem um noivo agoniado. Ouvi palavras como helicóptero, pressa, desistiu e outras mais de um cara que se dizia tão controlado e parece que está a ponto de ter um troço. — Isso deve ser um bom sinal, não? Tento continuar a conversa descontraída que está me ajudando muito a passar o nervoso, mas minhas próximas palavras não têm tempo de sair. Antes que eu abra a boca, sou paralisada por uma enorme batida no carro que o faz girar no cruzamento como se estivéssemos em um parque de diversões. Somos apenas gritos e uma massa de corpos jogados uns sobre os outros. A única imagem que vem à minha mente é a de Antony lindo em uma calça de linho e camisa branca enquanto me aguarda no altar. O carro para de girar. Apalpo meu corpo para ter certeza de que estou viva e se estou sentindo todos os meus membros. Por sorte — se é que posso dizer isso — o baque mais forte foi no lado do carona, onde não havia ninguém sentado. Em instantes, estou numa cena de novela. Dois braços fortes me tiram do carro à força, me empurrando para outro um pouco mais à distância. Tudo está turvo, nublado, não consigo reagir nem entender o que está acontecendo. — Antony... por favor, eu vou me casar agora. Deixe-me ver Antony. Um homem alto, de pele clara, aperta meu braço mais forte. — Você nunca mais o verá, bebê. Esse casamento não vai acontecer. Algumas pessoas se aglomeram ao nosso redor, mas elas nada fazem. São simples espectadores da miséria alheia, talvez por medo, talvez por dúvida do que esteja acontecendo. A porta de trás de um carro preto é aberta. Minha razão me desperta, pedindo para que eu lute. Começo a espernear, gritar, pedir socorro. Por mim. Por Antony. Por nosso amor. Não deixarei que me levem.


— Por favor, me ajudem. Isso é um sequestro, por favor. Uma pessoa de capuz sai do fundo do carro. Pela sua imponência e altivez parece muito determinada no que faz. A escuridão no capuz não me permite ver seu rosto, contudo algo nela me parece um tanto familiar. — Ninguém vai te ajudar, vadia. Você acha que alguém vai arriscar uma aproximação em meio a um sequestro? A humanidade quer que você se exploda contanto que eles saiam com vida. É finito para você, ragazza. Finito. Essa voz... esse sotaque... Deus, não pode ser. A mulher que está me sequestrando é... — Largue-a agora. Ou você larga ou eu atiro. Cerca de dez homens vestidos de terno apontam armas para a mulher e os dois sequestradores. Em um instante estou aprisionada por braços fortes, em outro, sinto as mãos afrouxarem, me deixando em liberdade. — Vá para o carro branco atrás da limusine, dona Laís. O Sr. Cavalcanti já está impaciente para a cerimônia. Olho para o homem que sabe meu nome e lembro de já tê-lo visto na mansão um dia desses. Então, Antony previu que algo poderia acontecer e mandou uma equipe de seguranças me seguir. Volto a olhar para a pessoa nitidamente assustada na minha frente. Ela sabe que perdeu essa guerra, mas ainda assim quero ver seu ar fracassado de perto. — Tire o capuz — ordeno. Um dos sequestradores toma a frente dela e o segurança se apronta para atirar. — Você não ouviu dona Laís mandar? Tire a porra do capuz ou eu atiro. Com as mãos tremendo, vagarosamente, a pessoa descobre sua cabeça, mostrando fios negros e perfeitamente lisos. A escuridão se dissipa e agora posso ver claramente quem estava tramando contra mim. Um misto de pena e raiva me dominam, mas não permito manter o segundo sentimento por muito tempo. Não hoje. Talvez nunca, porque nem ela nem ninguém pode derrubar os alicerces do meu relacionamento. — Exatamente como eu imaginava. Então é você. Minha nossa! Será que suas atitudes não conhecem limites, Marcela?


trânsito no cruzamento está completamente paralisado. Eu sei que a qualquer momento a polícia estará chegando. As pessoas continuam observando de longe, algumas inquietas, outras nitidamente se divertindo. Elas parecem aguardar o desfecho de um filme. Um filme no qual Marcela e eu estamos protagonizando. — Você não pode se casar com ele. Esta aliança em meu dedo representa um compromisso inquebrável. Você nunca a terá no seu. Deus, até parece que faço questão de ter uma aliança que foi símbolo de relações formadas por conveniência, que carrega tanto peso, ditando meu relacionamento. — Fique com a aliança e faça bom proveito. Talvez ela lhe sirva como um lembrete claro de que você não tem e nunca terá Antony em sua vida. Desista. Essa guerra você já perdeu há muito tempo. Ela me olha assustada como se estivesse em busca de uma reação que me fizesse voltar atrás. Como eu poderia fazer isso quando a felicidade está diante de um altar à minha espera? — Vocês não vão fazer nada, idiotas? Foram pagos para pegá-la. Segura essa puttana e a joguem no carro, imprestáveis. Eles apenas a ignoram. Levantam as mãos sob a mira dos seguranças e, O


ambos entram no carro, deixando-a atônita e perdida. Um dos seguranças se aproxima de mim. — Dona Laís, o carro já está à sua espera e a polícia está vindo. Pode deixar que a gente resolve essa bagunça. Sua única preocupação agora deve ser subir naquele altar. — E minha mãe, minha amiga? Como elas estão? — Todas estão bem, posso lhe garantir. Graça a Deus eles erraram a mira e a batida foi maior onde não havia passageiro algum. Todos estão inteiros. Respiro aliviada. Eu sei que minha mãe deve estar muito abalada e, se bem conheço Alana depois de saber que estamos todos bem, deve estar recontando a história como se fosse uma cena de novela. Ah, pode ter certeza de que cada convidado vai saber o que aconteceu porque ela fará questão de repetir a história N vezes. Quanto a Marcela? Ela procurou, então vai ter o que merece. Eu poderia poupá-la, pedir para que a deixem ir, mas eu não vou. Pessoas mimadas como ela, que passam por cima de tudo e de todos, precisam ter alguma lição. Desse modo, vou deixar que a polícia decida a vida dela. — Preciso ir, Marcela. Eu tenho um noivo lindo e ansioso me esperando. Até nunca mais. É finito — repito suas palavras. Dou as costas e passo a ouvir gritos, xingamentos proferidos contra mim, mas eu não dou a menor importância a nenhum deles. Ando rapidamente em direção ao carro que vai me levar de encontro ao amor da minha vida, acompanhada por seguranças. Acontece que no caminho lembro de um pequeno detalhe que havia esquecido, então decido voltar por um instante. — Não se preocupem. Só preciso fazer uma coisa e já estou indo para o carro. Caminho até ela com passos determinados. Marcela se assusta a princípio, mas depois abre um sorriso sarcástico. — O que foi? Achou algum fio de razão nessa cabeça oca e decidiu voltar atrás? Você nunca será boa o suficiente para Antony. Sempre será a plebeia que está dando o golpe mais velho da humanidade.


Sem dizer uma palavra, apenas retribuo seu sorriso e, tomando impulso, levanto minha mão e dou um tapa em cheio no rosto dela. Sua cabeça vira por conta do peso de minha mão. Seus olhos parecem estar prontos para sair do globo quando volta a me encarar. Percebo que a marca dos meus dedos estão desenhadas em sua bochecha como uma tatuagem. Eu nunca fui dada a atitudes violentas, mas desta vez cansei de ser racional e resolvi atender ao pedido da minha mão que estava coçando para encontrar seu rosto. Acho que acabei deixando outro lembrete para ela. Espero que aprenda a lição. — Adeus! Agora estou indo de verdade. Tenho certeza de que, a essa altura, já estão segurando meu noivo para não vir atrás de mim. Percebo que um segurança fala ao telefone. Eu não preciso de muito para imaginar quem está do outro lado da linha. Enquanto caminho para o carro, as pessoas começam a aplaudir. Se eles queriam um desfecho digno de cinema, talvez tenham conseguido, uma vez que as sirenes da polícia já estão ficando cada vez mais próximas. Acho que Marcela vai ter o que tanto gosta que é ser o centro das atenções. Pena que, nesse caso, a mídia será negativa. O que será que a sociedade italiana vai pensar quando souber que ela foi presa por tentativa de sequestro? Seguro meu vestido e corro para o carro. Entro no banco de trás, me jogando entre as duas mulheres que mais amo na vida. — Oh, meu Deus! Vocês estão realmente bem? — Claro, filha. Calma! Foi só um susto, mas todas estamos bem. O que foi aquilo, hein? Tentaram te sequestrar? — Sim, mãe. É uma longa história, no caminho se der tempo, eu conto. Agora precisamos correr para a cerimônia. Espero que meu noivo esteja contido. É o que o motorista faz. Ele consegue passar por alguns carros e corre em direção à praia, onde a cerimônia será realizada. Em menos de meia hora, chegamos lá. Quando me posiciono na porta, todos os convidados levantam, alguns


deslumbrados, outros com olhar preocupado. Antony percebe o movimento das pessoas, então me busca com o olhar. Deus, como ele está lindo! Vestido numa calça de linho e uma bata branca, está exatamente como em meus melhores sonhos. Quem está li diante de mim não é o CEO. O homem que agora caminha em minha direção é aquele com quem tanto amo conviver, compartilhar momentos. É o mais sublime de todos. — Laís, meu amor, você está bem? — pergunta, com respiração arfante, suas duas mãos presas no meu rosto como se buscasse a resposta no olhar. — Agora estou, querido. Você não deveria estar naquele altar me esperando? — Deveria? Sim, eu deveria, mas não posso sair de perto de você agora que a tenho aqui. Tive tanto medo de te perder. Vou levá-la até o altar. — Antony, — sussurro — você não pode me levar até o altar. A tradição diz que é o pai quem entrega a noiva. Ele ri, batendo nas costas do meu pai. — Chega de tradições na minha vida, Laís. Eu quero quebrar cada uma delas se for para ter mais um segundo ao seu lado. — Oh, Antony. Nós temos uma vida inteira, meu amor. — E essa vida inteira começa neste exato minuto. Aliás, já disse o quanto está linda? — Obrigada, bonitão. Você também não está de se jogar fora. Ele sorri e começa a falar de sua ideia. Cada palavra que sai da boca de Antony parece um tanto maluca e, de certo modo, até engraçada. Como sempre, acabo concordando com ele, porque quando o homem quer ser insistente, sabe fazer isso como ninguém. Alana e Daniel se posicionam no corredor e passam a caminhar em direção ao altar. Depois é a vez de Elizabeth e Milton adentrarem os arcos de flores especialmente decorados para a ocasião. Minha mãe e meus dois irmãos entram na igreja também. Eles vão conhecer Antony pela primeira vez hoje. O pai dele entra com uma senhora que, provavelmente, seja uma tia italiana. Eu não a conheço.


Um casal de pajem e dama de honra jogam pétalas de rosas vermelhas e brancas embelezando meu caminho para o altar. Eles são tão fofos enquanto caminham de mãos dadas. — Agora é nossa vez — digo com voz embargada. Do lado esquerdo, meu pai envolve seu braço no meu, se posicionando para entrar. Do lado direito, Antony envolve meu outro braço. Acredite. Eu vou pisar no tapete vermelho com os dois homens que mais amo em minha vida. Tem como uma mulher ficar mais feliz? Respiro fundo, já sentindo as lágrimas pinicarem meus olhos. — Vamos? Nós três caminhamos para o altar e começo a reconhecer alguns convidados. Grande parte deles está sorrindo, provavelmente pela cena inusitada da noiva entrar com dois homens a tiracolo. Outra parte prepara seus lencinhos para enxugar as lágrimas de emoção. Elas já fazem seu caminho inevitável pelo meu rosto, combinando perfeitamente com o cenário romântico, carregado de sentimentos. No meio do caminho, meu pai se posiciona de frente a mim e deposita um beijo em minha testa, oferecendo minha mão a Antony. — Cuide bem dela. Ele assente. — Farei isso com muito prazer. Nos posicionamos no altar. Olho para trás à espera do que será a cereja do bolo. Eu não poderia deixar alguém tão importante para mim fora dessa celebração, não? Alfred caminha em minha direção, tão lindo, vestido em um colete que lembra um fraque, enquanto traz a almofada com as alianças. Nós o treinamos para isso com um especialista e ele fez direitinho conforme aprendeu, parando de caminhar apenas quando se aproxima de mim. Todos na igreja soltam um sonoro “oh”, então o pego no colo e dou um beijo, entregando-o a Alana. O sacerdote coça a garganta, chamando a atenção de todos. O sol está


começando a se por e as ondas do mar estão revoltas formando um plano de fundo maravilhoso para a celebração. Estou de frente a Antony e, mesmo sabendo que estamos em meio a tantos convidados, é como se fossemos apenas ele e eu naquele paraíso, cada palavra proferida pelo sacerdote entrando como uma semente que encontra terra fértil no meu peito. Eu não consigo imaginar um dia que possa deixar de amar esse homem. Não consigo imaginar quando as batidas do meu coração vão deixar de acelerar quando o vir por perto. Eu o amo irremediavelmente, sem medidas. E eu sei que detenho seu coração. — Sr. Antony Cavalcanti, você aceita Laís Oliveira como sua legítima esposa? Ele me olha, seu sorriso sensual preso no rosto que só me faz pensar em pular todas a convenções e chegar na parte da lua de mel. — Sim, eu aceito — pisco um olho para ele. — Eu te amo — sussurro. O sacerdote continua. — Sra. Laís Oliveira, você aceita tomar o Sr. Antony Cavalcanti como seu legítimo esposo? — Sim, senhor. Eu aceito. — Eu te amo muito mais, Sra. Cavalcanti — é a vez dele dizer, sussurrando. — Pela permissão que me foi concedida pela santa igreja, em nome de Deus, eu os declaro casados. Olho para os convidados verificando suas reações quando, por um impulso, meu olhar corre em direção à entrada. Tomo um susto com o que vejo, mas sei que neste momento ela nada pode fazer para nos impedir de casar. Já somos marido e mulher. Dona Constanza enxuga algumas lágrimas com um lenço, então leva alguns segundos observando seu filho. Em seguida, baixa a cabeça e se retira do local


como se fosse tomada por um sentimento de derrota. — Querida, você está me deixando no vácuo. O sacerdote disse que podemos nos beijar. Fico grata ao perceber que Antony não a viu. Nada poderá estragar esse momento único em nossas vidas e, quem sabe um dia, ela se conforme com nosso casamento e volte a se relacionar com o filho. Eu não faço questão de qualquer proximidade, mas eu sei que Antony vai sentir falta no futuro e eu torço, de verdade, para que se entendam. — Claro, amor. Chegou o melhor momento da cerimônia? Todos riem e quando selamos nossa união com um beijo apaixonado, chuvas de aplausos contribuem para que o dia seja perfeito. Me preparo para deixar o altar e nos deslocarmos para o salão de festas do hotel, onde vai acontecer a recepção dos noivos. Dou o primeiro passo para a saída quando Antony puxa meu braço. — Espere. Tenho uma surpresa para você. Ele pede licença ao sacerdote e toma o microfone de sua mão. Um solo de piano começa a tocar ao fundo, me deixando um tanto confusa. — Eu não sou muito bom nessa coisa de cantar, mas acredito que o refrão dessa música de Nando Reis e Roberta Campos expressa perfeitamente meus sentimentos. Vamos lá. Fico atônita, perplexa. Antony cantando? Céus, por mais sonhadora que eu seja, jamais imaginaria vê-lo se despojar de toda sua armadura diante de todos. “Olhe bem no fundo dos meus olhos E sinta a emoção que nascerá quando você me olhar O universo conspira a nosso favor A consequência do destino é o amor Pra sempre vou te amar Mas talvez você não entenda Essa coisa de fazer o mundo acreditar Que meu amor não será passageiro Te amarei de janeiro a janeiro


Até o mundo acabar Até o mundo acabar Até o mundo acabar Até o mundo acabar”

Oh, meu Deus, a quantidade de lágrimas que escorrem dos meus olhos deve ser suficiente para acabar com a crise de água em algumas cidades. Sou um poço de emoção, felicidade, tantos sentimentos misturados que mal cabem em mim. Corro para o altar e me jogo em seus braços. Sim, meu marido, eu também te amarei de janeiro a janeiro. Até o mundo acabar.


Muita

música, convidados animados, barulho de taças batendo. Se a cerimônia do meu casamento já foi perfeita, a recepção está sendo um sonho. Estamos circulando de mesa em mesa para cumprimentar os convidados, então fico grata de ter escolhido um vestido leve para isso. A única coisa que me incomoda um pouco é meu sapato de salto azul porque Alana insistiu que eu deveria usar uma peça azul para dar sorte. Aceitei o desafio e meus pés estão me matando. Em algum momento, sento um pouco para descansar e Antony me deixa só para cumprimentar alguns conhecidos. Há pouco, fui apresentada à grande parte da família italiana dele, que foi até bem simpática, sinal de que o único problema é a minha sogra. Ainda bem que ela mora do outro lado do oceano, me privando de conviver com sua arrogância. Estou massageando meu pé quando uma sombra se aproxima de mim, batendo palmas. — Parece que você conseguiu mesmo, hein, Laís? Quem diria que aquela garota sonsa e sem graça ia terminar casada com o CEO delícia da editora. Levanto a cabeça, reconhecendo a dona daquela voz antes mesmo de olhála. Ela joga seus cabelos agora escovados para o lado e se mantém me fitando


como se estivesse com algum tipo de torcicolo. É claro que convidei Claudia para o casamento, assim como toda editora foi convidada, mas confesso que tive um certo receio dela demonstrar seu lado desequilibrado e fazer algum tipo de cena constrangedora. Se é que ela tem um lado equilibrado. — Antony não é um prêmio para que eu o consiga, mas se você está falando de conquista, talvez tenha sido eu aquela que precisou ser conquistada. Ela bufa, jogando seus cabelos para o outro lado. Minha nossa, como ela consegue fazer isso tantas vezes e, ainda assim, manter seu pescoço inteiro? — Em pensar que deveria ser eu usando essa aliança se você não tivesse me dado uma rasteira. Mas eu vim aqui para dizer que estou disposta a te perdoar se... Levanto uma sobrancelha. — Se...? — Se você me apresentar a alguns desses italianos lindos que estão aqui. Mulher, o que é isso? Alguém saiu selecionando os melhores espécimes para encher seu casamento? Nunca pensei que uma festa geralmente tão chata poderia se tornar tão... interessante. Ok. Essa é apenas Claudia Aparecida sendo... Claudia Aparecida. E ela me perdoa. Rá! Eu posso conviver com isso. — Só assim posso obter seu perdão. — sorrio para mim mesma. — Talvez seja um grande desafio, mas como pareço estar em dívida com você, quem sabe não possa te ajudar? Pense no quanto seria interessante que ela fosse embora para a Itália realmente e deixasse de me amolar por aqui. Talvez ela faça um bom par com dona Constanza, muito embora a velha tenha alergia a pobre. — Com licença, eu posso cumprimentar a noiva? Me levanto para receber um abraço de Milton, um dos meus padrinhos. Ele balbucia alguns votos de felicidades, mas quando sai do meu abraço, seus olhos vão de encontro aos de Claudia. Sabe aquela cena na qual você vê nitidamente que os olhos dizem mais do que palavras, que há uma conexão instantânea entre duas pessoas? Acredite.


Isso está acontecendo diante de mim. — Quem é essa moça linda, Laís? Antes que eu responda, Claudia é rápida no gatilho. Ela joga os cabelos para o outro lado, umedece os lábios vermelhos com a língua e estende a mão para ele, vestindo sua melhor máscara de mulher fatal. — Muito prazer, eu me chamo Claudia. Sou a melhor amiga de Laís. Oi? Minha nossa como eu passei rápido de nível. Há poucos instantes, eu era a traidora. Neste momento, sou a melhor amiga. Uau! — Sim, Claudia é uma grande amiga — ratifico. — E ela estava me dizendo agora o quanto está se sentindo sozinha na festa já que eu preciso dividir minha atenção com os outros convidados. Você poderia lhe fazer companhia, Milton? Ele não solta a mão dela mesmo depois de cumprimentá-la. — Terei muita satisfação em lhe fazer esse enorme... favor. Claudia abre um grande sorriso, então ele lhe oferece o braço, o qual ela envolve sem pensar duas vezes. Ele me dá um aceno e observo o quanto é rápida em puxar conversa enquanto caminham pela área do hotel. Depois de alguns passos, ela olha para trás e me oferece um sorriso cúmplice. Ufa! Eu espero que se arranje com ele e que tudo dê certo entre os dois. Ter Claudia fora do meu pé é um bônus necessário. Antony volta ao meu lado e senta um pouco também. — Nossa, não sabia que essa coisa de casamento era tão cansativa. Tudo isso é culpa sua. Se dependesse de mim, já teríamos casado e, nesse momento, estaríamos na terceira lua de mel. — Terceira? Tão rápido assim? — Claro. Eu não me oporia em arrumar uma desculpa para conhecer os lugares mais lindos do mundo ao seu lado ou simplesmente me enterrar num quarto de hotel com você. — Bem, eu acho que a gente não precisa de desculpas para isso. É natural que os casais viagem. Eu quero muito, antes que a gente encha aquela casa de filhos. — Filhos? — Antony está um pouco pensativo. Será que ele não quer


crianças? Não falamos sobre esse assunto em momento algum. — Um bebê meu e seu, uma miniatura sua para apreciar todos os dias... Por que eu não havia pensado nisso antes? Respiro aliviada. Este poderia ser um problema para nós porque quero muito ter filhos. — Talvez porque a gente não tinha uma relação estável? Ele beija meu pescoço, então sussurra em meu ouvido. — Ou talvez porque em cada momento que eu estava ao seu lado, pensar era a última coisa que eu conseguia fazer. Ele me beija suavemente e, mesmo esse menor toque, emana fios de desejo pelo meu corpo. Imagino como será nossa lua de mel agora que oficialmente somos um do outro. Não tenho dúvidas de que será no mínimo explosiva. — Hã-rã! — Alguém coça a garganta e me alegro ao perceber que é Leandro. — Leo, fico feliz que tenha vindo — levanto para lhe dar um abraço. Uma mulher linda está ao seu lado, sorrindo para mim com simpatia. — Quem é essa? — Está é Jane, minha namorada. Sorrio, estendendo a mão para ela que me retribui gentilmente. — É um prazer conhecer a namorada de um grande amigo. Seu nome seria uma homenagem à escritora, Jane Austen? — Sim, sabe como é ser filha de professora, não? Ela é apaixonada por Orgulho e preconceito, então meu nome do meio é Austen. Já gostei da mãe dela. — Bem, eu sou suspeita em falar porque sou professora de literatura. Acho que me sentiria honrada em carregar esse nome. — Sim, claro. Eu não reclamo. Sinto orgulho do meu nome. Talvez seja melhor do que Anna Karenina, não? Todos nós caímos no riso. Leo volta sua atenção para Antony que mantém seu ar divertido. Fico feliz em ver o quanto meu marido tem trabalhado sua confiança em mim e já não sente ciúmes da minha amizade com Leandro. — Quero te agradecer pela oportunidade de lançar meu livro por sua


editora. Farei o possível para honrar o nome dela em minhas publicações — Leo diz, apertando a mão de Antony. — Você terá um livro lançado pela Editora Cavalcanti? — pergunto surpresa. — Sim, eu tive o original aprovado mês passado. — Antony, por que você não me contou? — Bem, nem tudo passa por meu crivo na editora. Se Leandro teve um livro aprovado, isso é sinal de que ele é muito bom no que faz. Eu nem sabia que ele havia enviado material para nós. Juro que desta vez, o mérito é todo dele. Não tive participação alguma. — Você está ouvindo isso? — abraço meu amigo novamente. — Oh, Leandro, estou tão feliz por você. Sabia que um dia chegaria lá. — Obrigado. Seu incentivo sempre foi muito importante. Eu me espelhei em você para ter a certeza de que sonhos podem se tornar realidade — meu coração está cheio de orgulho. — Bem, vou deixá-los à vontade. Parabéns pela cerimônia. Foi realmente muito bonita. Felicidades ao casal. Fico observando enquanto ele dá as costas, refletindo sobre as voltas que o mundo dá. Leandro foi sincero ao desejar felicidades para nós. E acho que ele está a caminho de encontrar a sua também. Jane parece gostar dele. — Acho que já está na hora de eu ter minha mulher só para mim. — Hum... não consigo pensar em uma ideia melhor do que ficar a sós com meu marido. Me assusto quando ele levanta repentinamente e me carrega no colo, já nos direcionando para dentro do hotel, onde passaremos nossa primeira noite de lua de mel antes de voarmos para Toscana, na Itália. — Antony, a tradição diz que o noivo deve carregar a noiva somente antes de entrar no quarto. Você está chamando a atenção de todos os convidados. — A minha tradição diz que eu devo mostrar a todos o quanto amo minha esposa, sem me preocupar com as demais tradições. Mas se você acha tão importante, eu pretendo carregá-la quando chegar ao quarto, carregá-la para a cama, para a banheira e mais outras coisinhas que consigo imaginar com você no meu colo.


Meus pensamentos são sujos demais ou ele está fazendo algumas sugestões um tanto... sexuais? Se cada imagem que minha mente consegue formar se realizar, eu pretendo ser carregada muitas vezes esta noite. — Você é um sem-vergonha, Sr. Cavalcanti. Ele me beija rapidamente, dando passos determinados como se estivesse carregando uma pluma. — Um sem-vergonha que não cansa de te amar, Sra. Cavalcanti. — Até quando? — Até o dia que me faltar o fôlego e que não houver mais batimentos no meu coração. — Hum... eu espero que esse dia nunca chegue, então. Em um minuto estamos na porta do elevador onde ele finalmente me coloca no chão, arrancando risos discretos de algumas funcionárias do hotel. No próximo minuto, ele me carrega novamente para estrarmos na nossa suíte matrimonial. Antony não consegue enxergar outro lugar senão a cama, na qual me deita carinhosamente, cobrindo meu corpo com o seu. — Eu tenho uma brincadeira para te propor — ele diz com tom sexual e já não tenho dúvidas de que vou gostar do que está propondo. — Uma brincadeira? Eu pensei que os casais faziam coisas mais sérias em sua lua de mel. Ele está enchendo meu pescoço, rosto, orelha de beijos e meu corpo começa a se contorcer em resposta, querendo um pouco mais dele. Por um momento, me questiono se ele vai conseguir fazer a tal brincadeira antes de se enterrar dentro de mim. — Você é muito levada, Laís. Fique quieta ou não poderei me conter. Finjo inocência. — Eu? Você é o único que está me provocando. Fale de uma vez o que você está aprontando, Antony. Ele levanta dois objetos em forma de caneta um tanto familiares. Acho que vi algo parecido no dia que fui ao sexy shop. — Isso que vou começar usando em você são canetas comestíveis. Cada


peça que eu tirar, vou escrever algo e beijá-la até que esteja completamente nua. Oh, Deus, por que apenas suas palavras já estão fazendo um bom trabalho em me deixar morrendo de desejo? O meio das minhas pernas já pulsa só de imaginar suas peripécias. — E depois será sua vez, Sr. Sublime. — Sim, Laís. Depois será a minha vez. Ele começa tirando meus sapatos suavemente, então escreve a palavra PERTENCE com caneta vermelha em cada um dos meus pés. Suas mãos mapeiam meu corpo, levantando a barra do vestido, então ele alcança minhas coxas e deposita ali dois beijos absolutamente eróticos. Não consigo deixar de me contorcer. Ele escreve apenas A e já começo a imaginar que frase está tentando montar. Lembro dos braceletes que a essa altura já estão derretidos, mas não vou permitir que virem um fantasma em nossas vidas. Eles são a lembrança do que Antony era e do homem diferente que se tornou e sim, hoje posso dizer que tudo em mim pertence a ele porque eu sou retribuída em cada um dos meus sentimentos. — Já disse o quanto suas pernas são lindas, minha esposa? — Ah, Antony — gemo quando suas mãos sobem por elas, alcançando minha boceta ainda coberta por uma pequena calcinha. Ergo meu corpo para facilitar que tire meu vestido. Ele deve estar grato por eu ter escolhido uma peça simples, fácil de arrancar. Levanto os braços, então o vestido desliza sobre a minha cabeça com facilidade. Estou apenas de calcinha, já que os detalhes da peça não me permitiam usar um sutiã. Ele leva um tempo apenas me olhando como se fosse a primeira vez que me visse nua. De fato, hoje é mais uma primeira vez para nós, um novo ciclo, um novo compromisso. Farei amor com meu marido pela primeira vez. E a antecipação já está me matando. — Linda! Nada menos do que linda. Fecho os olhos e jogo a cabeça para trás, então ele aproveita para encaixar


meus dois seios em suas mãos e sugá-los um de cada vez, me fazendo perder a razão, me enlouquecendo. Abro os olhos apenas para constatar o que eu já imaginava. Ele escreveu ANTONY em um dos seios e CAVALCANTI em outro. Seus olhos estão vidrados, fissurados ao observar seu nome ali escrito em uma região tão íntima. — Eu poderia deixar meu nome escrito em seu corpo a vida inteira apenas para minha apreciação. Porra, já estou quase me arrependendo dessa brincadeira. Meu pau está implorando para se enterrar em você. — Deixe-me lhe dar atenção — toco sua virilha e ele solta um gemido. — Ainda não. Já que começamos, vamos terminar. Tem algo que você vai gostar de ver. Antony e suas surpresas. Tenho certeza de que nosso casamento nunca vai cair no ostracismo se ele for sempre assim. Solto um grunhido quando ele passa a devorar meus seios com desejo e habilidade, chupando, lambendo e mordendo seus bicos enrijecidos. Arqueio meu corpo, implorando que pare de torturar e me dê o que tanto desejo. É inacreditável o quanto cada parte de mim implora para ser possuída. — Querido... eu quero. — Shhhh... — é tudo que ele responde. Suas mãos caminham para minha pequena peça branca que não resiste à sua impaciência. Em um segundo, ela é brutalmente rasgada, expondo minha boceta depilada e mais que disposta a ser tomada por esse homem. — Linda e minha. Nunca vou me cansar de te olhar, meu amor. Nunca. — Oh! Suas palavras são simples, mas tão enlouquecedoras. Tudo nele é capaz de se transformar em desejo líquido pelo meu corpo. Sinto o quanto já estou úmida, molhada, pronta para sua invasão. Ele pega a caneta e escreve sobre meu monte as palavras PARA SEMPRE. Eu não resisto quando vejo. Levanto-me o suficiente para ir de encontro aos seus lábios e mostrar o quanto eu desejo o mesmo que ele, que nosso amor seja eterno, que ele dure.


Antony se desvencilha de nosso beijo e abre os braços à minha mercê para o que eu quiser fazer. Claro que tudo quanto desejo, deve ser feito com ele sem roupas, então essa é minha maior missão. — Tire primeiro minhas roupas, Laís. Depois você julga se realmente precisa fazer o mesmo caminho que eu fiz no seu corpo. Estou confusa. A brincadeira não seria eu retribuir o mesmo que ele fez? — Qual a graça disso, Antony? Eu quero explorar seu corpo assim como fez com o meu. — Você poderá fazer isso daqui a pouco e mais quantas outras vezes quiser porque não vou a lugar nenhum. Faça apenas o que eu peço. Tire minha roupa. Sigo o mesmo caminho que ele, começando por seus sapatos finos, depois as meias. Ele se levanta, então tiro a calça, deixando-o apenas de boxer. O provoco um pouco mais quando chego à camisa. Abro cada botão vagarosamente enquanto percebo que seu pau lateja dentro da boxer. Seus olhos estão semicerrados e algo me diz que ele está um tanto nervoso já que começa a girar seu brinco na orelha. Abro os botões de um a um, levando segundos, minutos até que estou prestes a terminar a tarefa. Ele segura minha mão quando chego ao último botão e a leva para o meu rosto, forçando nossos olhares a se cruzarem. — Laís, você sabe o quanto te amo e o tanto de erros que cometi no passado. Eu ainda acredito que vou cometer outros tantos porque às vezes deixo meu instinto falar mais alto. Contudo, não quero que tenha dúvidas de que sempre vou errar pensando que estou fazendo a coisa certa para você. — Antony, por que está me dizendo essas coisas? — Eu senti necessidade de dizê-las. Eu tenho levado você comigo dentro do meu peito desde o dia que te conheci, mas eu queria mais. Assim como tentei te marcar, eu precisava ser marcado de alguma forma. — Nós já temos mais do que qualquer objeto possa expressar, amor. — Eu sei. O que estou prestes a te mostrar é uma prova de amor para você, mas ela é para mim também porque não vejo caminho de volta para o que eu sinto. Abra o último botão, querida. Eu faço o que ele pede, minhas mãos tremendo de nervoso pela ansiedade


de descobrir ao que ele está se referindo. Arranco seu último botão da camisa e a escancaro, expondo seu peitoral. Meus olhos enchem de lágrimas e minha boca abre sozinha pela surpresa que meus olhos estão tendo. Céus, o que eu fiz para merecer o amor de um homem tão maravilhoso, sublime como Antony? Ele não está de brincadeira quando diz que queria ser marcado. Me aproximo ainda mais dele, lágrimas descendo pelos meus olhos e passo a mão em seu peito esquerdo, do lado do coração. Nele está tatuado BELONGS TO LAÍS CAVALCANTI em letras transversais, como se fossem manuscritas. — Minha nossa, que dia você fez uma tatuagem? Ele sorri. — Há cerca de três dias. De fato, esse é o tempo máximo que conseguimos ficar longe um do outro. Uma tatuagem é uma marca para a vida toda como espero que seja o nosso amor. Não há mais o que eu possa dizer para demonstrar o quanto estou grata pela forma que usou para se declarar. Meu marido usou o corpo e é com meu corpo que pretendo mostrar a dimensão dos meus sentimentos. Junto toda minha força para empurrá-lo sobre a cama, então me posiciono sobre ele, admirando meu nome escrito em seu peito. Seguro seus braços, prendendo-os pelo pulso e ele ri, deixando com que eu faça o que quiser. — A boxer é linda, mas ela precisa sair. Seu pau lateja dentro dela. Puxo de uma só vez, desvendando a visão de sua máscula e imponente virilidade. Fico feliz de saber que tudo isso é apenas meu em cada pedacinho. Sou pega em flagrante por seu olhar, seu sorriso sensual me mostrando o quanto gosta de ser admirado. Ele tem a cara mais sem-vergonha que já vi em um homem. — Sente sobre meu rosto e coloque sua boceta em minha boca, querida. Uma pulsação lá embaixo parece gostar da ideia. Faço o que ele pede, então fecho os olhos, sentindo sua língua me acariciar, se misturando aos meus fluidos. Estou totalmente encharcada e escorregadia.


— Hum... Antony, isso é tão bom. Ele brinca com meu clitóris com habilidade e destreza. Eu não quero ser a única a sentir prazer, desse modo, me inclino sobre ele e alcanço seu pau. Roço minha língua como uma espécie de tortura. Ele grunhe. Solto um pequeno riso e encho minha boca de uma só vez com sua ereção, levando-o a erguer o corpo em resposta. — Está gostando, Sr. Cavalcanti? — Sublime, querida. E para você, eu sou sempre Antony ou, a partir de agora, meu marido. — Meu marido — testo a palavra. Levamos minutos e minutos nos provando, extraindo de nós todo prazer na mais íntima e intensa declaração de amor. Meu corpo começa a estremecer. Eu me entrego, rendida à delícia de um gozo fenomenal, pleno, fascinante. Instintivamente, aumento meus movimentos e logo sinto o primeiro jato salgado se derramar em minha língua. Me afasto e o massageio com as mãos, enquanto ele xinga, se liberando. — Eu pertenço a você, Laís Cavalcanti. Fecho os olhos e sinto o sabor de suas palavras. — Eu pertenço a você, Antony Cavalcanti. A ferocidade de suas mãos me surpreendem quando agarram meus cabelos e me beija com volúpia. Antony me vira sobre a cama, se posiciona sobre mim e antes que eu perceba, experimento sua mais doce e sensual invasão. Naquele instante, não estamos apenas fazendo sexo, amor ou qualquer nome que possamos dar a isso. A invasão ultrapassa a pele, alma e nos torna um, na qual a linguagem dos nossos corpos é mais que suficiente para expressar todo nosso sentimento. Este é o momento que começamos a viver o nosso para sempre.


Faz

pouco mais de um ano que Antony e eu dissemos aquele sim diante de Deus e do mundo, e o curso que nossa relação tem tomado me prova que não houve decisão melhor que aquela. Sinto-me uma mulher muito amada, querida, adorada por vezes. É claro que temos problemas como qualquer casal, discutimos quando ele deixa toalha molhada na cama ou a roupa suja no chão, mas tudo isso é tão pequeno diante do que experimentamos a cada dia. Estou cada vez mais comprometida com meu trabalho, embora ele tente me convencer que eu deveria gerenciar o setor literário da editora, já que amo tanto literatura. É algo a se pensar se eu conseguir conciliar com a carreira que eu mesma trilhei. — Parece que o pet shop é nas proximidades, amor. Podemos estacionar o carro aqui e irmos a pé. Alfred é um animal que passa muito tempo sozinho então decidimos que ele precisa de uma amiga para lhe fazer companhia. Quem sabe essa amizade não se torne algo maior e a gente acabe virando avós? Eu quero procurar até encontrar aquele cãozinho que eu possa me apaixonar. Tem que ser amor à primeira vista, como foi com Alfred. — Aqui está ótimo. Provavelmente tenha mais de uma loja dessas por perto.


Antony estaciona a Mercedes e, quando saio do carro, sinto uma leve tontura que me obriga a respirar por um segundo. — Está passando mal, Laís? — ele pergunta. — Não, amor. Já está passando. Ultimamente tenho me sentido assim, especialmente pela manhã, mas logo depois passa. Não deve ser nada demais. Logo estamos tomando as ruas de Verdes Montes em busca de mais uma adição à família e já me sinto um pouco melhor. Por falar em Mercedes, deixeme contar o que aconteceu nesse último ano. Um certo dia, eu estava saindo da universidade e quase enlouqueci ao perceber que um guincho levava meu Celta. Você acredita que Antony aprontou mais uma das suas? Ao lado do meu carro, um Toyota RAV4 branco me esperava com um motorista. Não me importei se era um carrão, um helicóptero ou um jato no lugar do meu Celta. O fato é que ele era meu, comprei com muito sacrifício, e só eu tinha o direito de decidir o que fazer com ele. — Vocês não vão levar meu carro — gritei, na ocasião. Os funcionários olharam uns para os outros e decidiram me ignorar, já terminando o serviço de rebocar aquele amontoado de ferros que estava velhinho, mas me serviu por muito tempo. O motorista saiu do carro e veio até a mim, claramente nervoso. — Dona Laís, o Sr. Antony pediu para avisar que rebocou o seu carro e a partir de agora você tem um carro com motorista à sua disposição por uma questão de segurança. — Como é a história? Antony mandou levar o meu carro? — Sim, senhora, este foi o recado que ele pediu para te dar. O chefe ficou muito irritado quando soube que quase se acidentou e mandou rebocar seu carro assim que fosse possível. Sim, eu quase atropelei um cachorrinho que atravessava a via e, por esse motivo, acabei batendo em outro carro. Contudo não foi nada sério. Antony está sendo exagerado. — Eu quero que seu chefe vá tomar... banho. Me leve para a editora agora,


por favor, pois ao contrário dele não mandarei recado. — Sim, senhora. Pense numa pessoa vermelha de raiva. Pensou pouco. Ele não tinha esse direito. Ele não tinha esse direito — repetia no caminho. Pulei do carro assim que chegamos à editora. Caminhei a passos largos, rapidamente alcançando seu escritório que não estava com a porta fechada. — Amor, estava te esperando. Sabia que ia chegar como um trovão — o filho da puta ainda mantinha um sorriso aberto no rosto. — Como ousa, Antony? Você sabe o sacrifício que fiz para comprar aquele carro? Eu o quero de volta. Ele apontou uma cadeira, me convidando para sentar, mas não o fiz. — Vamos por partes — saiu de trás da mesa e veio em minha direção, parando apenas para acariciar o meu rosto. — Imagino o quanto se sacrificou para comprá-lo, mas não a deixei sem carro. Quanto a tê-lo de volta, aí será mais difícil. Eu o doei a uma instituição protetora de animais. — Você fez o quê? — Adoro seu jeito intempestivo — o safado riu. — Pensei que ficaria feliz em contribuir para que animais abandonados sejam retirados das ruas. Eu tenho uma procuração sua. Você assinou ontem, lembra? — Eu não ass... aquele documento? Você disse que era para outra coisa. — Foi por uma boa causa. Eu já queria trocar seu carro e sabia que não aceitaria pelas vias normais, então tive que buscar outros meios. Quando soube do quase acidente de hoje, foi a gota d´água. Aquele carro não tinha o mínimo de segurança. Nem airbag tinha. — Mas era o que eu podia ter, droga. — Você pode ter outro. Meu dinheiro é seu, Laís, e enquanto seu marido, preciso zelar pela sua segurança. No momento que você disse sim diante do padre, sabia que sua vida não podia ser mais a mesma. Eu jamais faria algo para te prejudicar, acredite. Acontece que você é muito teimosa. Tive que agir. — Eu sei. É que... para mim é muito difícil me acostumar com alguém se preocupando com cada detalhe de minha vida quando sempre fui eu contra o


mundo aqui em verdes Montes. Quer dizer, além de Alana, mas ela já tinha sua própria vida para cuidar. — Assunto encerrado, Laís. Nós temos um ao outro agora e comece a se acostumar com os meus cuidados sempre que eu julgar necessários. Em um ano foi uma tentativa de sequestro e hoje quase sofre um acidente. Eu preciso preservar meu coração fraco. É claro que não consigo resistir por muito tempo quando põe a mão no peito e me dá um sorriso de lado. Você pode me considerar tola em alguns momentos, mas duvido que também resistiria se estivesse em meu lugar. — Posso saber ao menos para que instituição foi? — Ah, meu amor, eu sabia que você ia perdoar seu marido bemintencionado. Ele me agarrou pela cintura, começou a beijar meu rosto, pescoço, até a base da minha orelha, liberando deliciosos arrepios pelo meu corpo. Naquela tarde, é claro que fizemos amor no escritório como nos velhos tempos. Nós sempre tínhamos pressa para nos pertencer. Sempre. Nossas pequenas brigas tinham esse mesmo final todas as vezes e juro que não tenho do que reclamar. Agora você deve estar curioso para saber de Marcela, já que ele tocou no assunto do sequestro. Bem, ela ficou detida por menos de vinte e quatro horas numa delegacia de Verdes Montes, mas logo pediu extradição para a Itália. O nome dela ficou estampado em alguns jornais e até mesmo reportagens de TV. Todos se referiam ao seu comportamento como doentio e acabou ganhando o rótulo de socialite mimada. Rá! Como se isso fosse alguma novidade. Atualmente, as notícias são de que está se relacionando com outro CEO italiano. Ela ainda tentou contato com Antony, mas acho que acabou se convencendo de que havia acabado de verdade. Pelo menos é o que eu espero. Ele e a mãe estão se entendendo aos poucos. Começaram a se falar por telefone depois de alguns meses do casamento, mas nunca menciona meu nome nem que pretende fazer uma visita.


Sinceramente, eu prefiro assim. Ao menos, ela está mostrando quem é de verdade. — Olha, parece que está acontecendo uma feira de animais domésticos aqui — ele aponta, me acordando dos meus devaneios. — Maravilha. Acho que teremos mais opções. O lugar é uma espécie de pet shop, mas em um tamanho muito maior para abrigar vários animais. Observei, admirei e me encantei por vários deles dos mais peludos aos tosados, contudo nenhum foi eleito pelo meu coração. — Estou vendo que você vai me dar trabalho, Laís. Como não se apaixona por tantos filhotes lindos? — A escolha de um animal, Antony, ultrapassa a beleza dele por fora. É como um filho adotivo. Você precisa escolher com o coração e também precisa ser escolhido. Foi assim com Alfred. Eu não tive qualquer opção senão levá-lo comigo para casa. Ele assente, me abraçando por trás como se demonstrasse o quanto se orgulha de mim. Saímos do lugar sem levar sequer um peixinho. Enquanto voltávamos a caminhar pelas ruas de Verdes Montes, me recordo da alegria da minha amiga Alana nesse último ano. Ela se casou e foi uma cerimônia linda, pomposa, digna de um filme de Hollywood. Tudo exagerado como é típico de Lana. Hoje ela já se consagra como uma estrela conhecida nacionalmente e é até possível ver fotos dela estampadas em capas de revistas. Está no céu dos artistas. E se ela está feliz, eu também estou. Quanto a Leo? Ah, esse é mais um que me enche de orgulho. Seu livro se tornou um bestseller e ele já conseguiu fechar contrato para mais duas publicações com a editora. Todas as emissoras querem entrevistá-lo e há apenas um mês, Antony e eu fomos ao seu noivado com Jane. Há males que vêm para o bem. E, com certeza, ele se deu conta disso depois de ter confundido nossa amizade com outro sentimento, mas agora sabe o que é amar de fato. E fico feliz demais quando vejo a forma que Jane olha para ele. Há aquele mesmo brilho que vejo quando Antony olha para mim.


— E agora, quer voltar outro dia ou vai continuar procurando? — Que tal olharmos somente mais um pet shop? — Tudo que você quiser, amor. Tudo. Meu marido não é maravilhoso? Esse homem me mima demais. Já estou totalmente confortável com seus cuidados e carinho. Chegamos a um lugar que provavelmente seja frequentado apenas pelos animais de madames da cidade. Deve ser o pet shop mais caro de Verdes Montes. Quando estou prestes a entrar, uma cena me chama a atenção. Um dos funcionários, vestido de jaleco, estava colocando um cachorro para fora de lá, aos chutes. Eu não podia acreditar no que meus olhos estavam vendo. Como um lugar que na teoria devia cuidar dos animais poderia estar maltratando um desse modo? — Ei, o que você está fazendo? — pergunto ao funcionário. Ele se vira para me olhar, então começa a dar desculpas para tentar justificar sua ignorância. — Esses bichos ficam aqui na porta em busca de comida em vez de procurar alguma lixeira por aí. Eles espantam os clientes com medo deles passarem doenças para seus amados animais. A prefeitura devia exterminar esses cães de rua. Não. Por favor me diga que eu não estou escutando isso. Olho para o jaleco dele e vejo seu nome bordado em cima e, embaixo, está escrito veterinário. Minha nossa, ele não fez um juramento em favor dos animais? — Essa é sua mesma opinião em relação às crianças que moram nas ruas? Ele gagueja um pouco, antes de responder. — Senhora, o governo tem que tomar alguma providência com toda essa gente e bichos que são a mazela da nossa sociedade. Fecho os olhos. Eu não quero escutar mais nem uma palavra que sai da boca deste homem. Aliás, é hora dele me escutar. — Pois bem — pego o cachorro que havia sido chutado e o carrego no colo, percebendo o quanto está amedrontado. Estendo o animal para o


veterinário. — Senhora? — ele ainda tem dúvida do que estou fazendo? — Vou pagar bem e quero que cuide dele como se fosse o animal de qualquer esnobe que entre aqui. Dê-lhe de comer, vacine e trate-o com carinho. Vamos ver se seu diploma tem algum valor. Antony se posiciona ao meu lado, com ar altivo, deixando claro que apoia minhas decisões. O homem se vê sem saída, então pega o cachorro da minha mão e leva para uma sala, dando ordens para que outros funcionários cuidem dele. Ficamos aguardando na recepção por cerca de uma hora. Nesse meio tempo, nos ofereceram chá, café, suco e pedidos de desculpas infinitas pelo episódio que presenciei. Até mesmo o gerente veio se desculpar. Depois de mais alguns minutos aguardando, um funcionário nos convida para irmos até a sala. Ao chegar lá, eu não sabia de que modo reagir. Minha nossa, esse cachorro nem lembra aquele que foi enxotado agora há pouco. — Oh, meu Deus! — tapo minha boca assustada diante do que vejo. Seu pelo escuro foi escovado, deixando-o felpudo como um urso, está cheiroso e bem alimentado, embora ainda magrinho, mas quase não se percebe por conta dos pelos. Colocaram alguns lacinhos, o que me leva a concluir que se trata de uma cadela. Me aproximo e tomo o animal no colo, cheirando a talco. No momento que ela levanta seus olhos sofridos e balança o rabo como se estivesse agradecendo, é minha perdição. Meu coração não vê outra saída senão eleger aquele bichinho para se tonar mais um habitante dele. Não há opção. Eu simplesmente sei. — É ela, amor. É ela quem eu quero levar. Antony solta o ar, aliviado por nossa busca ter chegado ao fim. — Ela é linda, Laís. Linda! Que nome pretende lhe dar? — Exatamente esse. Linda. Minha cadela se chamará Linda. É claro que depois da cena de amor à primeira vista, eu saio do pet shop abarrotada de utensílios para os devidos cuidados com ela. Estou levando alguns presentes para Alfred não ficar com ciúmes, louca para ver sua reação


com a chegada do mais novo membro da família. Estamos no caminho para o carro. Antony carrega toneladas de sacolas enquanto eu ainda estou na fase do namoro com Linda. Estamos prestes a chegar na Mercedes quando me esbarro com uma pessoa. — Desculpe, senhora. Eu estava distraída. Meu coração palpita forte quando percebo quem está diante de mim. Será uma peripécia do destino outra vez? — Posso ler sua mão, minha menina? — é a mesma cigana que leu minha mão no dia que conheci Antony. Escancaro os olhos, assustada ao lembrar de suas palavras martelando minha mente. Desta vez, não hesito em entregar-lhe a palma da minha mão, a qual ela segura, mas sequer olha. Apenas a fecha, cobrindo com a sua, antes de falar. — Você não resistiu e, com isso, definiu seu futuro. Agora cuide bem do bebê que você está esperando. Ele trará muitas alegrias para a família. Arregalo os olhos com o que ela diz. — Bebê? Os olhos de Antony correm de mim para ela tão assustados quanto os meus. — Nós estamos esperando um bebê, Laís? — Eu... eu não sei, Antony. A senhora solta minha mão e volta a caminhar, propagando seus serviços de vidente pela rua. Depois de alguns passos, ela olha para trás e pisca um olho, me deixando ainda mais atônita. Antes que eu perceba, Antony deixa as sacolas caírem e me arrasta do chão, gritando aos quatro ventos que será pai. Algumas pessoas começam a se aglomerar ao nosso redor, mas é como se fôssemos apenas nós dois no mundo. Pretendo fazer um exame tão logo eu consiga, mas o resultado... Ah, isso é uma conversa para mais tarde. — Eu te amo. Você é a melhor parte de mim, Laís. — Eu também te amo muito, Sr. Sublime. Ele me coloca no chão, então toma meus lábios em um beijo carinhoso,


terno, sem se importar com o lugar onde estamos, nem se tem gente nos observando. As pessoas começam a aplaudir, contagiados por nosso amor. Se eu pudesse escolher um destino diferente, eu não faria. Jamais mudaria uma linha de tudo que aconteceu, pois cada um dos acontecimentos nos trouxe até onde estamos agora. E não há outro lugar no mundo onde eu queira estar. É aos braços de Antony que eu pertenço. É neles que me sinto viva, plena, feliz. Em algum lugar no mundo, devem existir outros homens iguais a ele, basta procurar com a sensibilidade do coração que encontrará. Quanto a mim? Sou feliz em poder declarar que já encontrei. Sim, eu já tenho um CEO para chamar de meu.


Se

alguém me perguntasse se eu sabia o que era felicidade antes de conhecer Laís, eu diria que a felicidade estava nos números cada vez maiores da minha empresa. Era lá onde estava meu coração. Era naquele lugar que a escuridão me dominava sem que eu sequer me desse conta disso. Ela entrou na minha vida como uma luz que me liberta de toda cegueira, veio como o melhor vinho, com o qual não canso de me embriagar. Ela mexeu com meu mundo sobremaneira, do tipo que passa e deixa marcas. E se você me perguntar o que é felicidade hoje, posso te garantir que nunca estive tão certo do que responder. Não há metade, é tudo inteiro. Não há mansidão, é tudo sempre intenso. Não há brasa, apenas chama. Olho para a mulher que está na cama ao meu lado e sinto um enorme desejo de declarar meu amor por ela mais uma vez como eu faço todas as manhãs. Me pergunto se um dia vou me cansar e estou certo que não. Esta mulher simplesmente se tornou o centro da minha vida. — Bom dia, meu amor. Acorde que logo teremos visita. — Hum... visita? Que visita?


Ela se espreguiça, esticando os braços, contudo não abre os olhos. Seu corpo relaxa novamente como se tivesse voltado a cochilar. Eu tenho uma surpresa para ela que provavelmente será motivo de discussão, mas confesso que não me importo. Sempre farei o que eu achar necessário para que fique bem mesmo que eventualmente discorde e que eu cometa erros às vezes. Não sou do tipo de esperar. Sempre faço acontecer. — Você parece tão doce e inocente enquanto dorme que nada lembra aquela mulher forte e teimosa que eu conheço — beijo sua testa, antes de levantar. — Eu te amo ainda mais por isso. Ela apenas grunhe enquanto troca de posição na cama. Passeio com os olhos pelo seu corpo e meu olhar para quando encontra seu ventre. Porra, eu serei amaldiçoado se não descobrir logo se ela espera um bebê. Um filho meu. De Laís. Nosso bebê. Corro para o banheiro, sabendo que a visita a qual espero deve chegar a qualquer momento e eu preciso estar pronto para recebê-la. Faço minha higiene matinal, sem tirar um maldito sorriso que teima em ficar preso no meu rosto, me tornando o mais pateta dos homens, sem dúvida alguma. Mas não me importo. No momento que aquela cigana disse que ela esperava um bebê, meu universo pareceu ter encaixado a última peça que faltava em um quebracabeça. Eu seria um homem mais completo. Me tornaria pai. A caminho de casa, Laís me fez uma pergunta totalmente legítima por saber que sempre fui um homem racional e naturalmente desconfiado. — Calma, Antony. Você não pode espalhar ao mundo inteiro que vai ser pai confiando apenas na palavra de uma vidente. Desde quando você passou a acreditar nessas coisas? Acontece que nem ela mesma parecia convincente em suas palavras. Eu a conhecia o suficiente para perceber que parte dela acreditava na revelação da vidente. E eu quero acreditar ainda mais neste pequeno milagre.


A fé foi um sentimento que jamais tive antes dela. Eu passei a experimentála cada única vez que ela quase me deixou enquanto namorávamos e ontem ela veio com força total, inabalável, carregada de esperança. — Desde que a conheci, passei a acreditar em coisas que eu nunca sonharia acreditar. Além disso, você tem dado todos os indícios de uma possível gravidez. Lembra quando ficou tonta mais cedo? Ela pensou um pouco, como se estivesse relembrando, enquanto cheirava os pelos de Linda, que parecia muito confortável em ser acarinhada. — Fiquei, é verdade, mas isso não diz muita coisa. — Ah, sim. Isso diz sim, muita coisa. Nós vamos procurar uma médica e confirmar, mas eu já sinto que serei pai. Ela sacodiu a cabeça negativamente, contudo me ofereceu um sorriso capaz de transparecer o que se passava em sua cabeça. Eu não sou o único. Ela também sentia que nosso sonho de aumentar a família estava prestes a se tornar real, palpável, concreto. — É do meu corpo que estamos falando, Antony. São minhas as escolhas. Com certeza ela vai comprar uma briga quando descobrir quem vem nos visitar hoje! — Estamos falando de um bebê que é meu e seu, Laís. Mas tudo bem, vou deixar esse assunto de lado. Ela me olhava interrogativamente. — Não está faltando completar, Sr. Cavalcanti? — Do que você está falando, Sra. Cavalcanti? — ela continua a mesma teimosa de sempre, me provocando quando é contrariada. — Parece que faltou você dizer por enquanto... Ela revirou os olhos quando disse isso e eu soltei uma gargalhada profunda ao perceber o quanto ela já me conhecia tão bem. — Sim, Laís. Por enquanto... Chegamos em casa e o assunto realmente não voltou à tona... por enquanto. A nossa principal preocupação era a forma como Alfred reagiria ao perceber que a família ganhou um novo membro, ainda por cima de quatro patas assim como ele.


Para variar, não fomos recepcionados por nosso cão ao entramos na sala. Ele provavelmente tinha coisa melhor a fazer do que receber seus pais como dormir ou comer, por exemplo. Laís colocou Linda no chão e qual não é a nossa surpresa quando a vemos correr de um lado para outro da sala como se aquela fosse uma forma de manifestar sua felicidade. — Você está vendo isso? Ela parece que entende que aqui é seu novo lar. Quem disse que os animais não percebem o que acontece à sua volta está completamente enganado. Ela sabe que mora aqui agora e está tão feliz por isso. Abracei Laís por trás, roçando as mãos em seu ventre. Ela deu um tapa, provavelmente não querendo que eu criasse tantas expectativas, podendo me frustrar depois. — Ela vai ficar muito bem aqui. Só nos resta saber de que forma Alfred vai reagir. Como se por instinto, Linda correu em direção à cozinha, nos obrigando a acompanhá-la. Ela correu tão rápido que mal percebeu quando se esbarrou com Alfred. Ambos pararam diante um do outro e apenas se observaram, congelados, sem esboçar qualquer reação a princípio. — Esta cena te lembra alguma coisa, Laís? — Hum-rum — seus olhos estão arregalados, se dando conta da situação familiar. — Hum-rum o quê? — Eu... você... o dia que nos esbarramos pela primeira vez. Será que Linda está pensando o mesmo que eu pensei a seu respeito a primeira vez? — Cachorros pensam? — Hum-rum. — Então Alfred neste momento está se perguntando se existe mesmo aquela baboseira de amor à primeira vista e o que ele deve fazer agora para que essa mulher não saia de sua vida. Sem tirar os olhos dos cachorros, ela continuava essa conversa meio estranha, contudo reveladora. — Você não está falando de Alfred, não é mesmo?


— Hum-rum. Era minha vez de responder antes de presenciarmos mais uma cena de nos tirar do eixo. Alfred latiu para ela como se dissesse algo arrogante e Linda respondeu com um latido ainda mais alto, retrucando, enquanto deu as costas para ele. Antes que eu chegasse à conclusão que esse primeiro encontro não deu certo, Alfred se aproximou dela com mansidão e soltou um grunhido baixo, que chamou sua atenção. Merda, que dia comecei a me tornar um tolo sentimental para começar a pensar que Alfred já podia estar perdidamente apaixonado por Linda? — Ele já está — Laís diz. — O quê? — Antony, meu cachorro já está apaixonado e Linda está se fazendo de difícil. Ela estava lendo meus pensamentos? Pensei que eu era o único que conseguia ler os dela. — E isso te lembra alguém? Tinha sua total atenção agora. — Eu nunca me fiz de difícil para você. Comecei a arrastá-la para o quarto, mas ela estacou, me enfrentando com o olhar. — Ah, fazia sim. E está se fazendo de difícil agora. — Você é um maldito arrogante, sabia? Eu não me faço de difícil. Laís correu em direção às escadas e eu a acompanhei como dois adolescentes cheios de hormônios. Antes de subir, olhei para trás e soltei uma gargalhada com o que vi. Alfred e Linda estavam se dando muito bem, brincando de correr atrás um do outro. E há quem diga que eles são irracionais. Naquela tarde, conseguimos alcançar um quarto, antes de fazermos amor por um longo, longo tempo. Seu marido, amante, namorado ou simplesmente amigo. É tudo que sou. É tudo que quero ser para ela. Embora eu não saiba qual deles eu serei no momento que ela descobrir que


tomei decisões sem consultá-la mais uma vez. Talvez nenhum deles? Ouço latidos de Alfred e Linda. O cachorro deve estar em um dia animado para finalmente reagir à chegada de uma visita ou Linda já deve estar mudando seu mundo como só o mais sublime dos sentimentos é capaz de fazer. — Quem está aí, Antony? — Laís pergunta, levantando lentamente da cama. — Vista uma roupa e desça, querida. Tem uma pessoa querendo te ver. — O que você está aprontando, Sr. Sublime? Sua voz é rouca e arrastada pela sonolência. — Nada. Eu nunca apronto nada. Você está bem? — pergunto, ao terminar de vestir a calça para sair do quarto. — Melhor hoje. Está vendo que aquela coisa de bebê era conversa da vidente? Não estou tonta esta manhã. — Isso é o que vamos ver. Estou te esperando lá embaixo. Dou um beijo em sua testa e saio do quarto antes que ela me encha de perguntas que eu não tenho desejo nenhum de lhe responder agora. — Sara, que bom que atendeu ao meu convite. Sente-se e tome café conosco. A mulher morena, que deve estar na casa dos quarenta, me dá um abraço apertado e cheio de vigor. Parece que ela está alegre em me ver. — Ah, eu não recusaria esse convite por nada. Primeiro, eu tive que ver com meus próprios olhos Antony Cavalcanti se abrindo para o amor. Seu casamento foi o mais lindo que eu já vi. Confesso que até mais que o meu. Nós dois rimos. Sara é uma vizinha antiga que me conheceu desde que eu era adolescente. Por coincidência, ela se tornou um dos maiores nomes do país em ginecologia e obstetrícia, então a convidei para examinar Laís aqui em casa. Ah, a essa altura do campeonato, você já sabe quem é a mulher obstinada com quem me casei e já que Maomé se negaria a ir à montanha... — Obrigado por ter vindo ao casamento, Sara. Foi um dia muito emocionante. Ela sacode a cabeça, assentindo, e continua.


— E hoje eu posso presenciá-lo na versão pai. Você acha que eu poderia recusar ao seu convite? — Não — sorrio, pensando como vou me comportar se me tornar pai. — Acho que você não poderia recusar. — Recusar o quê? — Laís pergunta enquanto se aproxima de nós, abrindo um largo sorriso ao reconhecer quem está na sala. Eu já comentei que seu sorriso é minha perdição? É como raios de sol invadindo a sala com toda sua luminosidade. — O café da manhã, Laís Cavalcanti. Ela dá um abraço em Sara e se junta a mim, seu olhar curioso. — Será um prazer tê-la conosco enquanto comemos e você explica que bons ventos a trazem aqui. Sentamos para tomar café sem cerimônias, conversando amenidades, sem tocar no assunto da gravidez. Os traços suaves de Laís mudam no momento que voltamos para a sala e ela percebe um pequeno mutirão de homens carregando um arsenal de equipamentos para o quarto de visitas que fica no térreo. — Antony, o que significa isso? — São equipamentos médicos. Na verdade, a Dra. Sara está aqui atendendo um convite meu para fazer seu exame. Ela tapa a boca, ainda mais assustada. — Minha nossa, será que você não tem limites? Deslocou a Dra. Sara de outro estado e mandou trazer todas essas máquinas por conta de um exame? — Você teria ido até ela se eu marcasse uma consulta? — Eu... eu... não vejo motivo para tanta pressa. — E isso responde por que todo esse aparato aqui em casa. Ela engole em seco, mas é confortada por Sara. — Apenas relaxe, está bem? Esse homem não vai deixar de ser impulsivo nunca. E se descobrir que será pai, então... essa criança será mimada demais. Parece que as palavras da médica funcionam. Seus traços suavizam e ela se dá por vencida. — Está bem, Sr. Ansioso. Vamos descobrir se seremos pais agora.


Entramos no quarto de hóspedes, que de uma hora para outra se torna um consultório médico, só que com mais pessoalidade que os hospitais costumam ter. Sara faz algumas perguntas, anotando à medida que Laís responde. Em seguida, pede para que Laís troque de roupa e a deita numa maca de pernas abertas. A teimosa queria que eu esperasse do lado de fora, mas não é preciso me conhecer muito bem para saber que eu não iria a lugar algum, não é mesmo? Nem por um decreto. — Então, Sara, dá para ver alguma coisa? — eu pergunto assim que uma imagem sem definição aparece na tela. — Bem, aqui está o útero dela e dentro dele podemos perceber o saco gestacional... — Será que você pode ser mais direta? Eu não quero saber esses termos técnicos. Só me diga se Laís está grávida. Sara e Laís estão rindo como se as duas estivessem fazendo um pacto silencioso para me torturar. Cada segundo de incerteza é de fato uma tortura. — Está bem, Antony... lá vamos nós! Ela mexe o bastão e uma imagem um pouco mais nítida aparece na tela. É apenas uma bolinha escura, mas meu coração está ainda mais cheio de esperança ao vê-la. — É ele? É o bebê? — Amor, você não pode se fechar para as possibilidades desse jeito. Se não for... — Laís começa a falar, só que Sara a interrompe. — Sim, Antony. É o bebê. Parabéns! Vocês serão pais. — Oh, meu Deus! As lágrimas caem instantaneamente dos olhos de Laís enquanto ela me encara como se não acreditasse que está carregando nosso pequeno milagre. Eu não estava pronto para ouvir outra resposta, mas ver essa certeza se cristalizar está emergindo em meu ser um misto de sentimentos inexplicáveis. Seguro o rosto dela e me aproximo. — Você vai me dar um bebê, amor. Vai me fazer um homem ainda mais completo do que já sou. Obrigado.


Laís apenas sorri, enquanto eu beijo cada uma de suas lágrimas que não são apenas dela. São minhas também. Sara nos interrompe, coçando a garganta com força para nos obrigar a lhe olhar. — O que foi? Meu bebê está bem, não é? Ela começa a rir como se estivesse prestes a contar algo engraçado. Eu conheço esse gesto de Sara. Ela ainda tem algo a dizer. — Sublime! Eu tinha que vir aqui para ver essa cara de felicidade que você fez ao descobrir que será pai, mas quero ver agora quando souber que... há gêmeos na família de vocês? — Gêmeos? Como assim, gêmeos? Você quer dizer dois bebês? — pergunto, assustado. — Exatamente. Sua vontade de ser pai é tão grande que estão vindo dois de uma só vez. Parabéns! Eles serão tão lindos. Eu estou paralisado. O número dois pisca na minha mente, orquestrado com as batidas do meu coração. Dois bebês, duas responsabilidades, dois frutos do meu amor com Laís, dois... — Amor, o que foi? — O que eu fiz para merecer isso? Ela levanta da maca e fica diante de mim, seu olhar preocupado. — Antony, você está triste porque será pai de gêmeos? Olho para ela e encontro a resposta que eu preciso no seu olhar. Nós temos um ao outro, faremos isso juntos. Não importa se será difícil. Eu estarei sempre ao seu lado. — Não, querida. Estou perguntando o que eu fiz para merecer um presente tão grande. Em dobro. Alguém lá no céu gosta muito de mim. — Oh! — as duas mulheres soltam em um só coral. — Eu te amo, Sra. Cavalcante. Você será uma mãe incrível. — Eu te amo em dobro, meu CEO. Eu tenho o desejo incontrolável de me declarar para ela o dia todo, mas minha necessidade de provar esse amor é ainda maior. Ela é meu tudo. Meu infinito.


Laís se tornou o mais importante motivo do meu sorriso. Fazê-la feliz e aos meus filhos é minha principal missão de vida agora. Eu nunca soube se aquela coisa de amor à primeira vista de fato existe ou se não passa de mais uma frase clichê. O que eu posso afirmar é que quando me esbarrei com ela, aquele era o momento certo e ela a pessoa certa. Por alguma sorte do destino, eu estava lá. Amor, cumplicidade, felicidade deixam de ser apenas palavras no exato momento que se encontra alguém que dá um sentido real a elas, que as cristalizam e você percebe que não há outro desejo além de estar com esse alguém. Laís foi meu alguém ontem, ela é esse alguém hoje. Ela será amanhã. E eu serei o seu CEO. Sempre.


A história de Antony e Laís se tratava de um conto que chegou a ocupar a primeira colocação em leituras na internet, mas, como todo conto, a narrativa não era profunda. Eu escrevia outro livro quando Antony começou a sussurrar no meu ouvido, pedindo para ter sua história contada com mais detalhe e sensibilidade. Ele não me deixaria quieta porque esse homem não sabe lidar com negativas. Pois bem, aceitei o desafio de rever a história e recontá-la. Estou muito, muitíssimo feliz com o resultado. O livro alcançou mais de meio milhão de leituras em pouquíssimo tempo na internet e me presenteou com leitores completamente rendidos e apaixonados por esse casal. Contudo, devo confessar que a história não foi escrita apenas por mim. Cada comentário, seja ele nas redes sociais ou plataformas foi essencial para decidir o rumo que o enredo tomaria. Ele foi escrito em conjunto. Foi escrito pelos melhores leitores que alguém pode ter. Sortuda eu, não? Então a esses leitores que torceram, riram, se emocionaram e se entregaram à história eu dedico esta obra. Gostaria de agradecer às minhas betas Patrícia Rammos e Paula Faria. São elas que mergulham comigo nessa aventura, me incentivam e se permitem apaixonar por todos os personagens.


Agradeço aos meus filhos e marido por estarem ao meu lado mesmo quando o processo de escrita não possibilite que eu esteja cem por cento com eles. Eu sou amada incondicionalmente e esse é o principal elemento que levo para minha obra. Enfim, esse livro tem e sempre terá um lugar especial em meu coração, e terá no seu também caso se permita envolver pela história. Conheça o Sr. e Sra. Sublime. É impossível não se apaixonar!!! Mil beijos!!! Lucy Berhends


Em um instante... tudo pode mudar Gomes, L.M. 9788568839157 204 páginas

Compre agora e leia Monique não tinha do que reclamar, sua vida era exatamente aquilo que sempre sonhou. Aos 23 anos, prestes a concluir a tão sonhada faculdade, seu namorado era um príncipe, tinha amigos incríveis e era dona do seu destino. Até que viu sua vida nas mãos de um estranho.Rafael era um cara normal, com sua vida planejada e previsível. Batalhador, pediatra e sonhador, aos 28 anos, acreditava ter seu destino traçado. Mas quem era ele para subestimar o quanto o mundo pode girar? Eles passavam naquele momento, naquele lugar. Um instante é o suficiente para que tudo possa mudar.

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Profile for Ana Paula Oliveira

Um CEO para chamar de meu - Lucy Berhends  

Laís Oliveira é uma garota com grandes sonhos profissionais que luta bastante para alcançá-los. Ela foi criada no interior, mas veio para a...

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