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Jessica Khoury Livro Único The Forbidden Wish - Desejo Proibido -

Tradução: Carol Revisão e Leitura Final: Anne Pimenta Data: 10/2016

Jessica Khoury Copyright © 2016 The Forbidden Wish

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SINOPSE Ela é o mais poderoso gênio1 de todos. Ele é um menino das ruas. O amor deles vai abalar o mundo...

Quando Aladdin descobre a lâmpada do gênio de Zahra, Zahra é empurrada de volta para um mundo que ela não tinha visto em centenas de anos - um mundo onde é proibido magia e a própria existência de Zahra é ilegal. Ela deve se disfarçar para se manter viva, usando magia antiga para mudar de forma, até que seu novo mestre faz seus três desejos. Mas quando o Rei dos Gênios oferece à Zahra uma chance de estar livre de sua lâmpada para sempre, ela aproveita a oportunidade - apenas para descobrir que ela está apaixonada por Aladdin. Ao salvar a si mesma significa traí-lo e Zahra deve decidir de uma vez por todas: ganhar sua liberdade vale a pena perder seu coração? Enquanto o tempo se desenrola e seus inimigos se aproximam, Zahra se encontra suspensa entre perigo e desejo nesta releitura de Aladdin da aclamada autora Jessica Khoury.

Eu fiquei na dúvida se chama de gênia ou gênio, mas pesquisando na norma culta, vi que a palavra gênio tem apenas um gênero, então utilizei gênio para ambos os sexos. Se parecer um pouco estranho usar ―ela‖ como gênio é por causa disso. 1

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C Eu sinto o garoto no momento em que ele coloca os pés na caverna. Pela primeira vez em séculos, eu me mexo. Eu sou a fumaça da lâmpada, e eu me enrolo e me estico, sacudindo o entorpecimento de quinhentos anos. Eu sinto que minha metade foi transformada em pedra. Os sons de seus passos chacoalham como um trovão, e eu desperto totalmente. Eu empurro contra as laterais da lâmpada, chamando por ele, mas é claro que ele não pode ouvir. Ele é apenas um menino humano comum. Ele não pode ouvir o choro de um gênio, um espírito da lâmpada, uma doadora de desejos. O menino está sozinho, posso sentir seus passos cautelosos quando ele cruza o limiar da caverna escondida. Eu estendo a mão com o meu sexto sentido, seguindo-o enquanto ele desce a escada estreita cortada no arenito, seus dedos arrastando ao longo de uma parede antiga esculpida com símbolos, seus significados perdidos no tempo. Como é estranho, Habiba2, após a minha longa solidão, sinto sua presença aqui: como uma luz no fundo do escuro, escuro mar. Eu chego tão longe quanto eu posso, sentindo sua respiração tranquila, o coração martelando. Quem é ele? Como ele encontrou este lugar? Ele é apenas um menino, um momento no tempo que vai passar logo. Eu conheci vários como ele. Eu conheci mil e mais um. Ele não é nada. Digo isso para mim mesma, assim eu não vou esperar por ele. Estou proibida de fazer um pedido na minha própria vida. Então não vou pensar no mundo acima no céu aberto, no ar fresco e na luz do dia. Eu não vou demonstrar quão louca, quão profundamente e desesperadamente quero que o garoto leve a minha lâmpada para fora desta escuridão 2

Habiba também significa querido(a), amor, etc... palavra carinhosa. ~4~


amaldiçoada. Em vez disso, me viro e reviro, eu me mexo e eu me curvo, esperando com a respiração suspensa. Meu sexto sentido está borrado, é como assistir os peixes nadando em uma piscina ondulada, e me concentro muito para vê-lo. Ele carrega uma pequena lanterna, e a ergue enquanto olha a grande caverna, não verdadeiramente uma caverna, mas sim um enorme corredor vazio, parte de um grande palácio perdido pela guerra e pelo tempo, que hoje é apenas um profundo deserto enterrado sob camadas de areia e memórias. Sob meu visitante corajoso, colunas em forma de torre seguram o teto perdido sob a sombra. Esculturas elevadas sobre os pilares: leões boquiabertos, cavalos voando, dragões cuspindo fogo. Joias embutidas em seus olhos brilham suavemente, como se o acompanhassem de forma quieta e maliciosa, assim como anteriormente observavam as pessoas luminosas e coloridas que aqui viveram, antes da cidade se afundar em areia há séculos atrás. Este lugar é assombrado por fantasmas, e eu sou apenas um deles. — Por todos os deuses, — ele murmura e suas palavras tranquilas se espalham através da enorme cúpula. Ele segura a lanterna, e a luz se espalha a partir dele em uma piscina de ouro. Ele está certo em se sentir intimidado. Este não é um corredor comum, mas já foi um santuário no interior do Palácio Real, onde há muito tempo, uma jovem rainha desejava um jardim que não tinha igual, onde pudesse descansar e meditar. Foi um dos melhores desejos e eu concedi. O piso é acarpetado em lâminas delicadas de grama, cada uma esculpida em mais pura esmeralda. Mais abaixo, árvores espalhadas com folhas de jade brilham debaixo de um teto alto cravejado com brilhantes diamantes, como estrelas em um céu noturno. As árvores penduram frutas: maçãs de rubis, limões dourados, ameixas de ametista, bagas de safira. Elas brilham o brilho de milhões de joias cortadas com uma precisão que nenhuma arte mortal poderia igualar. Abaixo, há uma resplandecente grama de flores delicadas de topázio e lápis-lazúli. Você deve olhar atentamente para perceber que elas não são árvores verdadeiras ou flores reais, mas pedras inestimáveis. O menino anda como em um sonho, sem piscar, sem respirar. Não há uma única planta viva e ainda parece mais vivo do que qualquer jardim do

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mundo acima. Pelos últimos séculos, esses frutos de joias têm sido meus companheiros constantes e únicos. O maior tesouro em todo o mundo como órfãos, como a luz aos cegos. O menino permanece por muito tempo. O ar é denso com a magia dos antigos, um vestígio da grande guerra travada aqui há muitos séculos atrás. Se agarra às paredes, escorre do teto, poças entre as raízes de ouro das árvores de joias. Preenche as ruínas vazias já meio calmas no deserto, os corredores de longa ruínas que se ramificam como raízes, ligando as torres, salões e armazéns. A cidade está a um passo de entrar em colapso completo. Durante quinhentos anos, essa magia agitou e enrolou em suas câmaras, se construindo como o gás sob a terra, à espera de uma faísca para acender o fogo. Este menino é essa faísca. Ele irá desarmar uma armadilha antiga, que há tempos, provocando uma explosão de magia reprimida, e o deserto vai enterrar nós dois. Isso será perdido, um mito, um sonho. Preso para sempre comigo nesta prisão de areia e magia. Eu não posso imaginar um castigo mais terrível. Eu pensei que tinha me conformado a este destino há muito tempo, quando parecia que ninguém iria me encontrar. Agora eu sei que isso não é verdade, e que a esperança ainda pulsa dentro de mim como uma semente dormente, esperando para florescer no primeiro sinal de fuga. Mas então os encantos vibram como as cordas de um alaúde, e minha esperança frágil aumenta. Um vento levanta da escuridão, sussurra através das folhas de pedra, até que toda a caverna ecoa com o seu barulho. A armadilha foi sustentada. Como se sentisse isso, o menino se apressa, passando pelas belas árvores e flores, saltando sobre um córrego em que há pedaços de ouro e brilhos de prata. A câmara fica mais clara como se os diamantes acima aumentassem com luz. Isso o cega fortemente. Os jardins de joias brilham com bordas e pontas afiadas, belas, mas mortais. O menino se esquiva das folhas que cortam o ar como facas, sibilando quando cortam a parte de trás da sua mão. E, finalmente, ele chega à colina na parte de trás do jardim encantado, e lá ele para sob os ramos lançados de um salgueiro talhado em cobre, gotejando com folhas de esmeralda. Ele torce o anel em seu dedo, arregalando os olhos quando eles se estabelecem sobre a lâmpada.

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A lâmpada fica sob uma cadeira em um curto trono feito de ferro e rubis, o metal torcido para se parecer com videiras. Uma vez, a rainha desta cidade se sentaria aqui por horas, lendo e meditando, mas isso foi há muito tempo atrás. Agora há apenas a lâmpada, brilhando à luz do diamante. Por dentro, eu me expando, enchendo cada polegada do pequeno espaço com a minha fumaça cintilante, pedindo-lhe para se apressar. Eu pulso com impaciência nervosa que essa chance de fuga vá escorregar pelos meus dedos. Nunca minha lâmpada pareceu tão pequena. O menino sobe o morro, ofegante, suspirando um pouco quando ele chega ao trono. Por um momento, ele para, escova a poeira das mãos, seus olhos fixos na lâmpada. A caverna treme. Areia escorre pelas paredes, tilinta através das pilhas de moedas de ouro. O zumbido encantado e as joias sobre as árvores começam a chacoalhar. O menino não parece notar. Ele está olhando para a lâmpada. — Então é isso, — ele respira. Ele estende a mão, e eu mudo de fumaça ao fogo com excitação. Quando seus dedos tocam os lados de bronze da lâmpada, uma energia pulsa através de mim. Eu posso sentir o seu batimento cardíaco através de seus dedos selvagens e fortes. — O que é você? — ele sussurra. — Por que você estava me chamando? Atordoado, ele passa os dedos ao longo do bronze, à palma da mão traçando a curva do bico, e em seu toque, cursos de calor humano passam através das paredes. Eu fervo e cresço. Eu me reagrupo, fumaça vermelha virando dourada. O menino esfrega a lâmpada. E eu respondo. Me subo através do túnel escuro e longo do bico. Eu sou um funil de fumaça, um turbilhão de fogo. Eu me abro e me multiplico, expandindo uma grande nuvem sobre a cabeça do menino. Eu pressiono mil mãos esfumaçadas contra o teto de pedra da caverna. Eu rolo mil olhos de fogo e estico mil pernas cintilantes. Como é bom estar fora! Eu sinto a energia e o entusiasmo, meu sangue agitado e minha respiração troveja. ~7~


Eu poderia me alongar por horas, saboreando o espaço em torno de mim. Mas o tempo é curto, eu me encolho e endureço, arrumo meus cachos rebeldes. Pela primeira vez em quinhentos anos, eu assumo a forma que eu mais amo. A sua forma, Roshana, meu Habiba. A irmã do meu coração. Você de coração puro e risada alegre, que me ensinou a alegria e me chamou de amiga. Uma princesa entre os homens, e uma rainha entre seu povo. Eu me visto com a sua forma. Eu ajeito o seu cabelo, longo e preto como o rio da noite. Eu uso seus olhos grandes, nítidos e brilhantes. Eu levo o seu rosto, magro e forte. Seu belo corpo é meu. Suas mãos, rápidas e ágeis, e seus pés, graciosos e finos. Eu visto o seu rosto e finjo que o seu coração é meu também. E, finalmente, a fumaça se dissipa, e eu paro no jardim que eu criei para você. Humanos aos seus olhos, mas dentro eu não sou nada além de fumaça e poder. Eu me estico e suspiro, e, lentamente, sorrio para o menino. Ele está deitado de costas, os olhos arregalados, a boca aberta. Uma, duas, três vezes sua boca abre e fecha, antes de finalmente dizer, — Deuses sangrentos! Este Amulen é jovem, talvez dezessete ou dezoito anos. Suas pobres vestes finas cobrem um corpo que não carrega um pingo de gordura. Ele é osso, sangue e músculo liso, duro, um menino que rouba para a sobrevivência, sem dúvida, dos vendedores de frutas e tropeiros de camelos e sarjetas. Quem sabe esse cada dia não é um presente, mas um prêmio que deve ser aproveitado. — Você é uma - você é umaDiga, rapaz. Demônio de fogo. Monstro de fumaça. Diabo de areia e cinza. Servo de Nardukha, Filha de Ambadya, a Inominável, a sem rosto, a ilimitada. Escrava da lâmpada. Gênio. — ...uma menina! — ele termina. Por um segundo, eu só posso piscar para ele, mas eu me recupero rapidamente. — Calma, mortal! — declaro, deixando minha voz ecoar através da caverna. — Eu sou a escrava da Lâmpada, o poderoso Gênio de Ambadya. Eu tenho o poder de conceder três desejos. Deseje, e eu, sua escrava, responderei, filho do homem, para tal é a lei de Nardukha. — ah,

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Nardukha, poderoso Rei dos Gênios. Meu Mestre dos Mestres. Maldito seja seus ossos e fogo. — Um gênio, — o menino murmura. — Tudo faz sentido agora. Ele faz uma pausa quando uma sequência de areia escorre sobre seu ombro. Ele escova para fora e se afasta para o lado, mas começa a cair novamente em torno dele. O piso treme, as joias chocalham e rolam. Ele tropeça. — O que está acontecendo? — pergunta ele, sem fôlego enquanto ele se levanta. — Estas ruínas são antigas. A magia que lhes enche é mais velha ainda, e isso vai te matar muito em breve. — não há porque esconder a verdade. — Mas se você deseja a sua vida, eu vou te salvar. Ele sorri insolentemente. — Por que desejar quando eu posso correr? Você pode correr comigo, menina gênio? Com isso, só posso rir, e em um instante me transformo na forma de um falcão e começo a voar através das copas das árvores. Os galhos balançam. Frutas de joias caem no chão. O ar é preenchido com o som de vidro quebrando e o vento rugindo. O menino desliza para baixo da colina e corre através da grama. Os ramos chegam até ele, tentando seduzir seus braços e pescoço, mas eu os afasto com minhas garras. Mãos sombrias surgem do córrego e agarram seus tornozelos. Eu os afasto com minhas asas. O menino é rápido, mas ele é rápido o suficiente? Eu o conduzo ao redor das pilhas de tesouro, através dos arcos feitos de reluzente areia quente. Vou por crédito ao meu jovem mestre: ele é rápido, e ele não se rende facilmente. A saída não está longe agora. Areia cai, tão espesso que derrubam o menino e o impulsiona de joelhos. Ele engasga e tosse, a boca de enche com areia. Ainda assim, ele luta para sair, as pernas se esforçando para carregá-lo novamente. Ele segue com os olhos fechados, as mãos tateando como um cego em um redemoinho de fumaça, eu mudo de falcão para menina, caindo no chão ao lado dele. Eu tomo sua mão e puxo, tentando ignorar o calor do seu toque. Eu não toquei um ser humano... em muito tempo, Habiba. Seus dedos apertam em torno dos meus, sua palma seca e

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arenosa com areia, suas veias pulsando com vida. Como sempre acontece quando toco um ser humano, seu batimento cardíaco me oprime. Ele bate em meus ouvidos e ecoa ironicamente no vazio do meu peito, onde só há fumaça em vez de um coração. Lá! Uma porta aberta, meio afundada na areia, que já levou à sala do trono, Habiba, mas que agora leva a um céu do deserto escuro brilhante com estrelas. A porta que estava pendurada lá há muito tempo já apodreceu junto às pedras quebradas e sem brilho, mas depois de quinhentos anos de escuridão solitária, é a coisa mais linda que eu já vi. A magia faz um último esforço para nos parar, e esta armadilha é a mais perigosa de todas. Areia se transforma em chama, e as chamas se apressam para nós com fome a partir da grande câmara. Mas eu posso provar o ar doce da noite, e eu redobro meus esforços para manter o menino vivo. Se eu falhar, eu sei que ele nunca terá outra chance de escapar. — Mais rápido! — exorto, e o menino olha de volta para o fogo, então embaralha loucamente adiante. Ele se move tão rapidamente que ele passa por mim e agora eu sou a única sendo puxada para frente. O fogo lambe meus calcanhares. Viro fumaça e os dedos do rapaz se fecham sobre o espaço onde minha mão estava. — O que você está fazendo? — ele grita. — Vá! — eu grito e me mexo novamente, me tornando uma parede ondulante de água, pressionando contra as chamas, mantendo-os contido. Vento, fogo e água e areia - e céu céu céu! O menino é o primeiro a surgir. Ele salta para fora da porta agarrando minha lâmpada ao seu estômago. Viro fumaça no momento eu chego à claridade, uma grande nuvem de reluzente violeta. Chamas vomitam pela areia, como mil mãos de demônios rasgando a terra, agarrando para um apoio no mundo. Garras afiadas de fogo no deserto arranham o céu em torno de nós. O menino recua e levanta uma mão quando uma explosão de calor sopra sobre ele. Ondas de fumaça tomam conta do seu cabelo no local onde o fogo toca. Por um momento terrível, estamos totalmente envoltos pelas chamas, eu cerco o menino, o sufocando com a minha fumaça, mas protegendo o seu corpo das chamas. E então a magia finalmente entra em colapso, um incêndio que ficou ~ 10 ~


sem combustível. Fogo se transforma em areia que recai sobre nós em uma névoa branca e brilhante. Até que finalmente a abertura está coberta por areia. Tudo em torno de nós eleva as ruínas de Neruby, uma vez uma ampla e reluzente cidade. Ao longo dos séculos, deixada de lado, parecendo os restos do esqueleto de um animal morto há muito tempo. Agora, aquelas ruínas começam a surgir e agitar. Pedras maciças caem de torres em ruínas, e as paredes se quebram em pedaços. O deserto se ergue como o mar, engolindo a ruínas de pedra, dunas lançando areia e pedra. Lentamente, em um estrondo alto, a cidade afunda sob o deserto, queimando a antiga e velha magia do gênio. A última vez que vi a cidade acima, fiquei parada debaixo de um céu cheio de fumaça preta, o ressoar de lutas e gritos dos moribundos, tanto dos humanos como dos gênios. Muitos morreram naquele dia. Eu deveria ter sido um deles. Agora, a cidade caiu de uma vez por todas, levando os mortos com ela. De joelhos, o menino olha com os olhos arregalados, e eu acima dele. Logo a ponta da última torre é engolida pela terra, e a cidade - uma vez a maior do mundo, a cidade de reis e vencedores - se foi. O deserto treme, fazendo o menino cair de costas. Eu mudo para a forma humana e paro ao lado dele, olhando fixamente para o chão que me manteve em cativeiro por séculos. Quando a poeira se dissipa, não há nada além de um trecho cintilante de areia, pura e virgem, que segue as ondulações de vento. A única evidência de que já houve um jardim de maravilhas, o único testemunho da grande cidade perdida sob a areia, é uma única moeda pálida que se encontra na superfície, piscando para a lua. E, claro, existe eu.

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Após a batalha, a rainha e seus guerreiros entram no salão do trono dos Akbanids derrotados, onde encontraram exibidos em pedestais de mármore e todos os grandes tesouros do seu reino. E a Rainha estava pouco interessada nas joias e ouro, passando por todos estes, até que ela finalmente chegou ao centro da sala. E lá, em um lençol de seda, estava uma lâmpada de aspecto humilde, feita em bronze, e sem uma gota de óleo dentro. Com grande reverência, a rainha tomou a lâmpada e ao seu toque, se levantou uma nuvem brilhante de fumaça um terrível gênio. E todos os que olhavam para ela estremeceram, mas a Rainha era altiva e não tremeu. No entanto, seu olhar era de profunda admiração. — Eu sou o Gênio da Lâmpada, — declarou o gênio. — Três desejos terás. Me fale quais são e eles serão concedidas, sim, até mesmo os mais profundos desejos do teu coração. Queres tesouro? Ele é teu. E a Rainha respondeu: — Prata e o ouro eu tenho. — Queres reinos e homens para governar? — perguntou o Gênio. — Peça, e é teu. E a Rainha respondeu: — Estes eu tenho também. — Queres ter a juventude eterna, para nunca envelhecer, nunca adoecer? — perguntou o Gênio. — Peça, e é teu. — Não é o poeta que diz que os cabelos grisalhos são mais preciosos do que a prata, e que na juventude reside a loucura? O Gênio se curvou diante da Rainha. — Eu vejo que você é sábia, ó Rainha, e não é facilmente enganada. Então o que você quer de mim, pois eu sou teu escravo. — Me dê a tua mão, — disse a Rainha, — vamos ser amigos. O poeta disse que um amigo sincero vale dez mil camelos carregados de ouro. O Gênio hesitou, antes de responder, — O poeta também diz, ai do homem que faz amizade com os gênios, pois ele aperta a mão com a morte.

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C Estamos à deriva em um mar de areia ao luar, o silêncio tão infinito quanto o espaço entre as estrelas. A noite está calma e aparentemente pacífica, a cidade que estava aqui há poucos momentos nada mais é do que uma memória. Por dentro, eu estou incomodada com apreensão e medo. Será que os gênios sabem que eu escapei? Quanto tempo até que eles apareçam correndo? Suas mãos queimando e seus olhos ardentes de raiva poderiam se fechar em mim a qualquer momento. Eu espero por eles me arrastarem para baixo e me acorrentarem na escuridão mais uma vez, mas eles não vêm. Eu ergo minha cabeça e solto uma lenta respiração. Sem gênios correndo através do céu. Não há sinos de alarme ressoando através do deserto. E, naquele momento, me parece totalmente bem: eu escapei. Estou bem e verdadeiramente livre. Estamos rodeados pela areia do grande Deserto Mahali, areia sem fim, colinas e montes e vales de areia, azul pálido manchado pela lua. A imensidão do espaço vazio me confunde após meu longo confinamento. Com o garoto respirando fundo, eu viro um círculo completo e respiro na noite do deserto. Há muito tempo eu tinha perdido a esperança que um dia veria o céu novamente. E que céu! Estrelas como poeira, de todas as cores - azul, branco, vermelho - as joias dos deuses exibidos através de seda preta. Eu anseio em me esticar, rastejando como fumaça por essa gloriosa areia azul, me espalhando como água, uma mão em cada horizonte. E depois para cima, para cima, para as estrelas, para pressionar o meu rosto contra o céu e sentir o beijo frio da lua. Eu sinto o olhar fixo do menino em mim, e eu olho para ele. Ele ainda está deitado na areia, apoiado sobre um braço, olhando para mim como um

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pescador que inesperadamente capturou um tubarão em suas redes. Eu volto a olhar com igual franqueza, semelhante a ele. Sua mandíbula é forte e ligeiramente curvada, com os olhos de cobre grandes e expressivos, os lábios cheios. Um pequeno brinco barato está pendurado em sua orelha esquerda. Um menino com corpo de homem, já poderosamente construído. Se fosse um príncipe ou um guerreiro de renome, ele teria haréns inteiros disputando sua atenção. Sua beleza rude escondida em um corte malfeito de roupa. Eu percebo as cicatrizes em suas mãos e pernas. Os deuses têm sido negligentes com ele. Com um suspiro, eu digo: — Você parece como se tivesse sido chutado por um cavalo. Aqui, levante-se. Eu ofereço minha mão, mas ele se arrasta para longe, seus olhos selvagens e cautelosos. Por um momento, ele e eu fitamos um ao outro em silêncio sob as estrelas pulsantes. Sua respiração irregular se une à fadiga, mas ele é tão tenso como um gato encurralado, pronto para fugir, esperando para ver o que vou fazer. Minha cabeça ainda está girando pela rapidez do que aconteceu: o primeiro ser humano que vi em quinhentos anos, a corrida louca para escapar das ruínas em colapso, a vastidão do deserto depois de tantos séculos confinada na minha lâmpada. Eu balanço um pouco, tomo um momento para separar a terra do céu. — Eu não vou te machucar, — eu digo. Minhas mãos apertam ao meu lado, e eu forço os meus dedos para abrir de modo apaziguador. — A mesma magia que nos une me impede de machucar você. Não tenha medo. — Eu não estou com medo. — Você nunca viu um gênio antes? O menino limpa a garganta, os olhos fixos nos meus. — Não, mas eu já ouvi histórias sobre eles. Virando as costas para ele, eu olho para as estrelas. — Claro que sim. Contos sangrentos, tenho certeza. Aqueles que devoram suas almas e vestem a peles de suas presas. Cheios de fumaça e fogo e completamente sem cérebro. Ou possivelmente você queria dizer pequenas e doces, até que elas te afogam em suas piscinas. Ele balança a cabeça lentamente e se levanta, escovando a areia de ~ 14 ~


suas palmas. — É sobre o Shaitan, o mais poderoso de todos. Um arrepio percorre minha espinha. — Ah, é claro. — Então, elas são verdadeiros? Todas essas histórias? Virando-se para encará-lo, faço uma pausa antes de responder. — Como dizem os poetas, as histórias são verdades contadas através de mentiras. — Então você vai devorar minha alma? — pergunta ele, como se fosse um desafio. — Ou me afogar? Que tipo de gênio é você? Com uma onda de fumaça, eu mudo para um tigre branco e me agacho diante dele, a minha cauda sacudindo para trás. Ele observa com espanto, recuando um pouco com a visão dos meus olhos dourados e garras estendidas. — O que é você? — ele sussurra. Devo dizer o que - quem - eu realmente sou? Que, mesmo agora, há legiões de gênios com raiva? Uma dúzia de carnívoros e de outros horrores – que poderiam estar correndo em nossa direção? Se ele tem algum juízo, ele vai abandonar a minha lâmpada e colocar muitas léguas entre nós tanto quanto pode... e me deixaria completamente impotente. Pelo menos enquanto ele segura a lâmpada, eu tenho uma chance de lutar. — Como você me encontrou? — pergunto. Tantos séculos, e este jovem infeliz é o único que me encontrou na minha prisão. Após essa batalha final, depois que você caiu, Habiba, meus parentes me jogaram no jardim que eu tinha criado para você. Sente-se na traição negra e podridão, eles disseram. E há tantos anos, eu estava certa de que seria o meu destino. Mas, então, superando toda a esperança, o menino apareceu. — Eu sou de Parthenia. — pela minha expressão vazia, ele acrescenta, — Duas semanas de cavalo, à oeste. Quanto à forma como eu te encontrei... fui trazido para cá. Por isto. Ele puxa de seu dedo o anel que ele tinha estado virando anteriormente. Ele o segura na palma da mão, e depois de uma ligeira hesitação, o pego. Um formigamento nos meus dedos me diz que o anel foi forjado na magia. Há algo familiar sobre ele, mas estou certa de que eu nunca vi antes. O anel é de ouro puro, mas os símbolos gravados no interior foram borradas pelo tempo e pelo fogo. ~ 15 ~


— E você diz que isso o levou a mim? — eu me endireito e olho duro para ele. Ele pega o anel da minha mão. — Quando eu... hum, o encontrei e, ele começou a sussurrar para mim. Eu sei que parece loucura, mas eu não podia fazê-lo parar. Mesmo quando eu tirei e tentei jogá-lo fora, eu continuei escutando. Então eu pensei, por que não ver o que ele queria? — O que ele disse? — Não foram muitas palavras... — ele fecha a mão em torno do anel, parecendo assombrado. — Eu só sabia que ele queria que eu o seguisse, que ele iria me levar a algo importante. Eu não sabia o que. Só que eu tinha que descobrir, como se ele tivesse colocado um feitiço em mim ou algo assim. Quando eu encontrei a sua lâmpada, ele ficou em silêncio pela primeira vez em semanas, então eu acho... que ele estava me levando para você. Eu me pergunto se ele é realmente tão ingênuo quanto parece. Talvez ele seja um mendigo que tropeçou em um talismã antigo e poderoso, sem compreender seu verdadeiro valor. O anel é encantado, destina-se a levar o portador até a mim. Mas quem o criou? É muito antigo, provavelmente feito na época que fui abandonada por minha família no jardim de joias há quinhentos anos. Por que não ele tem sido utilizado até agora, e porque por um indivíduo tão improvável? — Então você seguiu um anel mágico por todo o caminho até Neruby, só por curiosidade? — Bem, — ele diz com a voz rouca, olhando de lado, — não é tão simples assim. Vamos apenas dizer que eu não sou o único interessado no anel. Eu sabia que ia levar a algo valioso, e encontrar objetos de valor passa a ser meu... — sua voz desaparece e seus olhos se arregalam. — espere um minuto. O que você disse? Eu franzo a testa. — Eu disse que é estranho que mera curiosidade— Não, não é isso. Você disse que esta cidade foi chamada de Neruby. — Claro, — eu respondo. Ele suga uma respiração, dando um meio passo para trás, e ele me olha da cabeça aos pés, como se me visse pela primeira vez. Quando volta a falar, sua voz é apertada, animada, sem fôlego. ~ 16 ~


— Eu sei quem você é, — diz ele. Algo sobre seu tom faz com que o meu coração de fumaça pisque em resposta, e eu me lanço na defensiva. — Oh? E quem, menino de Parthenia, sou eu? Ele balança a cabeça para si mesmo, seus olhos brilhando. — Você é ela. Você é aquele gênio. Oh, deuses. Oh, grandes deuses sangrando! Você é aquela que começou a guerra! — O quê? — Você é o gênio que traiu a famosa rainha - oh qual era o nome dela? Roshana? Ela estava tentando trazer a paz entre os gênios e os humanos, mas você se virou contra ela e começou as quinhentas guerras. Eu me torno gélida. Eu quero que ele pare, mas ele não para. — Eu ouvi as histórias, — diz ele. — Eu ouvi as músicas. Eles a chamam de a leal sedutora, que encantou os seres humanos com a sua... — ele faz uma pausa para engolir. — sua beleza. Você prometeu-lhes tudo, e então você os arruinou. Mil e uma respostas disputam a minha língua, mas eu engulo todas, enterro-as profundamente, profundamente no meu coração. Seria demais esperar, Habiba, que quinhentos anos fossem suficientes para enterrar o passado? Eles cantam canções de nós, velha amiga. Este menino, em seus trapos e pobreza, sabe quem eu sou, sabe quem você era, sabe o que eu fiz por você. E como posso negar? Debaixo dos nossos pés, estão as ruínas de sua mentira. Ele os viu com seus próprios olhos. E por que eu deveria esconder quem eu realmente sou? A leal sedutora. O nome se encaixa. Eu adiciono à longa lista de outros nomes que tenho recolhido ao longo dos anos, como destroços no meu despertar, muitos deles muito menos lisonjeiro. Deixando escapar um longo suspiro, eu dou de ombros. — E agora? Você vai me jogar fora? Me enterrar de novo? Ele ri uma risada fria e aguda. — Te jogar fora? Quando você pode me conceder três desejos? Será que eu jogaria fora um saco de ouro só porque eu achei em uma pilha de esterco? — ele estremece. — Eu não quis dizer... é tudo tão... eu preciso pensar. Eu vejo como ele anda em um círculo apertado, as mãos mexem em ~ 17 ~


seu cabelo mais e mais. Quando ele finalmente para, eu me sinto tonta só de observá-lo. Eu tinha quase esquecido quão frenéticos são os humanos, sempre saltando aqui e ali, como abelhas bêbadas de néctar. E este menino é mais selvagem do que a maioria, sua energia irradiando para fora, aquecendo o ar ao seu redor. Ele parece chegar a alguma conclusão, finalmente, porque ele para seu ritmo louco e me enfrenta diretamente, seu queixo endurece em resolução. Eu tenho que dobrar a cabeça para trás um pouco para encontrar seu olhar. — Então. Três desejos. Qualquer coisa que eu queira? — Qualquer coisa neste mundo, se você estiver disposto a pagar o preço. Seus olhos se estreitam. — Me conte sobre esse preço. Com um suspiro, eu evoco uma pequena chama na minha mão e a deixo dançar em meus dedos, como a moeda de um charlatão. — Todos os desejos têm um preço, Mestre. Raramente você - ou eu - sabemos qual é esse preço, até que ele já esteja pago. Talvez você deseje uma grande riqueza, apenas para ser roubada por ladrões. Talvez você deseje um poderoso dragão para transportá-lo através do céu, só para ser devorado por ele quando você descer. Desejos têm uma maneira de se torcer, e não há nada mais perigoso do que fazer um desejo do seu coração. A questão é: você está disposto a jogar? Quanto você está disposto a perder? Você está disposto a arriscar tudo? Com isso, seus olhos endurecem, e vejo que ele sabe exatamente o que quer. Ele se vira e começa a andar seus passos na areia. Eu sigo atrás dele, meus olhos em seu manto esfarrapado como se ele se encaixasse no vento que chicoteia através das dunas. Enquanto espero ele responder, eu passo a minha pequena chama de uma mão a outra. — Você destruiu uma monarquia, uma vez, — diz ele depois de um momento, a voz baixa e perigosa, uma corrente escura debaixo de um mar calmo. — Eu quero que você me ajude a fazer isso novamente. Eu fecho meus dedos, minha chama desaparece em uma nuvem de fumaça. — Você é algum tipo de revolucionário, então? Novamente com essa risada curta e amarga. Ele continua andando,

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suas palavras carregadas por cima do ombro pelo vento. — O que gosta de uma revolução, esse sou eu. — Muito bem. — eu corro à sua frente, virando e andando para trás para que eu possa olhá-lo nos olhos. — Qual é o seu primeiro desejo, Mestre? — Bem, para começar, pare de me chamar de mestre, como se eu fosse algum tipo de Deus. Eu tenho um nome. Nomes são perigosos. Eles são pessoais. E a última vez que eu tive algo pessoal com um ser humano, terminou mal. A evidência está enterrada a poucos palmos debaixo dos meus pés. — Eu não me importo em saber isso. — é melhor assim. — Se eu te contar o meu nome, — diz ele, — você precisa me dizer o seu. Eu paro de andar. — Eu não tenho um nome. Ele para ao meu lado, me olhando com a cabeça inclinada um pouco, como um jogador de xadrez me esperando fazer uma jogada. — Eu não acredito em você. Como pode alguém tão mortal ser tão positivamente irritante? — Suas músicas não mencionam o meu nome? Seus lábios deslizam em um meio sorriso, e ele retoma a caminhada, o vento soprando o cabelo em seu rosto. — Nenhuma que você gostaria de ouvir, eu acho. Ele lidera e eu sigo, um menino e uma louca caminhando pelas dunas de lua-azul. Debaixo dos nossos pés, a areia desloca traiçoeiramente. Em meio a isso, uma colina particularmente íngreme aparece, e eu grito involuntariamente, deslizando para trás. Mas de repente uma mão segura a minha, e me mantém no lugar, embora eu já estivesse a caminho de me tornar fumaça. — Cuidado, Fumaça, — diz o menino, me puxando para o topo da duna. — Você não me deu qualquer desejo ainda. Eu não posso ter você desaparecendo de mim ainda. — Meu nome não é Fumaça. — eu arranco minha mão. Seu toque ~ 19 ~


ainda queima, me deixando abalada, o eco de seu retumbante batimento cardíaco através de mim. Olhando para longe, eu agito a areia de minhas roupas. Eu transformo minhas roupas de sedas ricas para algodão branco robusto, de modo que eu me misture no deserto. — É até você me dar algo melhor. — Onde estamos indo? — Por quê? Já entediada? Eu achei que você gostaria de esticar as pernas depois ficar naquela caverna por... quanto tempo você ficou lá, de qualquer maneira? — Desde que a guerra terminou. Quinhentos anos atrás. Com um assovio, ele desliza do outro lado da duna, e eu me transformo em um pequeno gato cinza e corro atrás dele, me transformando de volta para uma menina. Ele fica lá de pé por um momento, me observando. Ele amarrou a lâmpada ao cinto, e sua mão acaricia distraidamente. É um afeto comum de caçadores de lâmpadas mágicas e ele já conseguiu a dele. — Quantos anos você tem? — ele pergunta. Um vento fresco flui entre as dunas, puxando meu cabelo em meu rosto e despenteando seu manto remendado. — Três mil e mil mais. — Grandes Deuses, — diz ele em voz baixa. — Mas você não parece mais velha que eu. — As aparências enganam. — eu não lhe disse que o rosto que eu uso é roubado, a sua possuidora está morta há quinhentos anos. Claro, eu tenho um rosto próprio, um pouco mais jovem do que esse. Eu tinha dezessete anos no dia em que fui pela primeira vez para a lâmpada, quando me tornei a escrava atemporal que eu sou agora. Não tenho mais nenhuma vontade de usar esse rosto. É o rosto que te atraiu para a morte, Habiba. O rosto de um monstro. Às vezes eu me sinto tão velha quanto as estrelas, mas principalmente eu sinto exatamente o mesmo que eu me sentia naquele dia - perdida, pequena, e com medo. Mas eu mantenho isso para mim mesma. Eu levanto

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meu queixo e encontro o seu olhar desafiadoramente. — Estranho, — ele murmura. — O que é estranho? — É apenas... — ele empurra o cabelo para trás. — Você não é como o gênio das histórias e canções. Esse gênio era um monstro. Você parece... diferente. Então ele se vira e começa a marchar até a próxima duna, envolvendo seu manto em torno dele para evitar que o vento o rasgue. Eu ainda fico mais um momento, observando-o. — Zahra. Ele faz uma pausa e olha por cima do ombro. — O quê? — Meu nome, — eu gaguejo. — Eu quero dizer... um deles. Você pode me chamar de Zahra. Ele se vira completamente, seu sorriso tão largo e tão brilhante quanto à lua. — Eu sou Aladdin.

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C Nós andamos por mais duas horas até que Aladdin finalmente diz: — Chegamos. Ele se ajoelha e se arrasta lentamente até o lado de uma duna, e quando chega ao topo, Aladdin faz movimentos calmos para que eu o siga. Devagar e cautelosamente, ele para sobre a crista da areia varrida pelo vento, e sua expressão se torna desagradável. — Não, — ele murmura. Eu olho e vejo um pequeno acampamento escondido em uma depressão de areia, longe do vento. Vários soldados estão sentados em torno de uma pequena fogueira queimando estrume de cavalo, as montarias perto deles. Um jovem bem vestido está sozinho entre duas tendas, os ombros curvados e ele estuda um mapa à luz do fogo. — É ele. Darian Rai Aruxa, príncipe de Parthenia. — Seu amigo? Aladdin bufa e desliza um pouco para baixo, até que os arenosos blocos de areia bloqueiam a vista do acampamento. — Ele tem me rastreando por duas semanas, desde que saí de Parthenia. Não que eu possa culpá-lo, realmente. Ele quer isso. — Aladdin brinca com o anel e o pega com a outra mão. Eu levanto uma sobrancelha. — Você roubou dele. Seus olhos são duros como diamantes, brilhando à luz das estrelas. A mudança passa sobre o seu rosto, e de repente ele parece mais velho, mais duro, mais irritado. Como uma nuvem cruzando o sol, tão fugaz que eu quase perco isso, mas isso me deixa impassível. — Zahra, se eu quiser que alguém morra, você poderia fazer isso?

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Exteriormente, eu sou de pedra, mas por dentro eu balanço como um mar tempestuoso. Eu detesto esse desejo mais do que qualquer outro. É cruel e covarde, e eu reavalio esse menino ladrão. Há uma escuridão nele que eu não tinha visto. — Eu poderia fazer, mas o preço será alto. Ele engole seco, seus olhos profundos e assombrados. — Qual é o preço? — Eu não sei. Mas você vai descobrir em breve, eu acho. Você vai desejar que este Darian morra? — Ele merece isso, — sussurra Aladdin. — Então o que você está esperando? Vá em frente, Mestre. Diga as palavras. Deseje que a vida de um homem termine. Ele desvia o olhar. — Você não tem que falar assim. — Não é a verdade? — eu me levanto e caminho até o topo da duna, e desço fazendo um rio de areia escorrer ao lado. Aladdin, em pânico, faz gestos para que eu pare. Então ele quer fazer um desejo de morte, não é? Quer que eu faça o trabalho sujo, acabando com seus inimigos, enquanto ele se senta nas sombras? Não sei se tenho algo a dizer sobre isso. Eu estou em plena vista do acampamento abaixo e digo em voz alta, — Aqui vamos nós, Aladdin. Agora é a sua chance. Diga as palavras - não é difícil dizer: eu desejo, eu desejo... — Zahra! Abaixe-se! Mas é tarde demais. Eu fui vista. Os homens abaixo começam a gritar, e suas espadas cantam quando eles a puxam de suas bainhas. Eles pedem para que eu fique parada. Apressadamente, Aladdin sobe o topo da duna, sua capa presa sob um braço para que ele não enrole em suas pernas. Com a outra mão ele puxa a lâmpada do cinto. — Sua criatura louca! — ele derrapa até parar, amaldiçoando com a visão dos homens apressadamente montando em seus cavalos. — E pensar que eu estava começando a gostar de você! Eu varro a mão no ar. — Ali está ele. Seu inimigo mortal! Então vá em

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frente. Faça o desejo! — Eu- — ele encontra meus olhos, seu rosto sem cor. — O que você está esperando? Abaixo de nós, os homens viram seus cavalos em nossa direção. Eles são guiados pelo príncipe, que está empunhando uma espada curva. — Aladdin. Eles estão muito perto de nós! É melhor decidir! Ele olha dos soldados para mim, a boca aberta, mas nenhum desejo em sua língua. Ignorando os homens galopando em nossa direção, eu pego a capa de Aladdin e o puxo para perto. Seu olhar de pânico cruza com o meu. — Decida, — eu digo. — Decida agora. Que tipo de homem é você? Você é realmente do tipo que deseja a morte de seus inimigos das sombras? — Eu desejo... — ele para e lambe o lábio inferior. — Zahra, abaixa! Aladdin se lança sobre mim, e uma flecha que tinha sido lançada em minha direção acerta o seu ombro. Com um grito, ele cai, descendo a duna, e a lâmpada cai de suas mãos. Em um instante, eu perco o controle do meu corpo. Minha carne vira fumaça, e eu sou sugada pelo ar, puxada para dentro do bico da lâmpada, e jogada na parte inferior. Lá eu giro ao redor, fumaça escarlate, levando meu sexto sentido tão longe quanto eu posso. Minha lâmpada rola para o fundo da duna, próximo a Aladdin. Ele se arrasta em minha direção, e eu sinto a ondas da dor em seu ombro. Mas antes que ele possa chegar a mim, eles estão sobre nós. Com um bater de cascos, eles aparecem em torno de nós, seus camelos exigentes soprando espuma. De formas tão indistintas, eles pairam em torno de mim, sinto mais do que vejo, quando eu me empurro para os meus limites e os acontecimentos seguintes rapidamente se desdobram. Os cavaleiros fazem um círculo e gritam uns com os outros com entusiasmo, mantendo uma pequena distância da lâmpada e deixando Aladdin longe deles. Ele os amaldiçoa, e eu sinto a dor balançando em seu ombro ferido.

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— Silêncio! — troveja uma voz. Os homens detêm seus camelos e calmamente os cavaleiros descem. Eu não posso sentir a sua aparência, mas eu sinto a vibração de seus passos. Quando ele fala, sua voz é jovem e melódica. — Vou ser sincero, escória. Você é escorregadio como uma sombra. Eu poderia até mesmo te oferecer um emprego, se eu não estivesse prestes a cortar sua garganta. — Darian. — o tom de Aladdin é tenso, mas ironicamente civil. — Tomou tempo suficiente para se recuperar. — Esse é o príncipe Darian, ladrão. — O que seu pai vai dizer quando ele descobrir que eu roubei seu precioso anel mágico? Direto do seu dedo quando você ainda dormia! Ei, rapazes, vocês sabiam que seu príncipe ronca como uma velha? Mesmo através dos meus muros de bronze eu posso ouvir o tapa alto que Darian dá em Aladdin, jogando-o ao chão. Eu sinto uma onda de calor quando minha lâmpada é levantada da areia. Dedos curiosos exploram a superfície de bronze, traçando a curva sensual do longo bico afilado. Darian fareja, e seus dedos apertam em torno da lâmpada. Seu pulso martela em mim, ecoando através do pequeno espaço. Eu me amontoo contra a parede e pressiono as mãos sobre os ouvidos. — Para algo tão poderoso e inestimável, é uma coisa muito feia, não é? — É inútil, — diz Aladdin. — Apenas uma relíquia vazia. — Poderia muito bem ser inútil. Mas veja... as histórias sempre dizem... — ele começa a esfregar a lâmpada, e tão facilmente como respiro, eu viro fumaça e fluo para fora pela segunda vez esta noite. Meu novo mestre solta um longo suspiro agradecido quando eu apareço no ar, um display silenciado em relação ao meu primeiro com Aladdin. Estou um pouco decepcionada com o rapaz das ruas por me perder tão rapidamente. Eu me torno um tigre tão branco como a lua, agachando na areia em frente à Darian. Ele não é muito mais velho que Aladdin, mas seu rosto, embora bonito, é mais arredondado e mais suave. Aladdin está abaixado em um joelho diante dele, sua mão apertando o manto em seu ombro. Ele arrancou a flecha, que agora está na areia ao lado dele. O rosto de Aladdin esta pálido, mas seus olhos queimam. Ele me observa silenciosamente. ~ 25 ~


— Calma, mortal, — eu digo em voz de tigre rouca, os olhos cintilando do velho mestre para o novo. — Porque eu sou o gênio da lâmpadaCom um grito selvagem, Aladdin se levanta e tenta agarrar desesperadamente a lâmpada. Antes que ele possa fazer, um dos outros cavaleiros - o arqueiro - balança seu arco e acerta Aladdin na orelha, derrubando-o novamente. Rápido como uma cobra, Darian está sobre ele, chutando-o no estômago e, em seguida, pisando em seu ombro ferido. Aladdin se encolhe e parece que vai desmaiar, mas paira rapidamente e tenta agarrar o tornozelo de Darian com a outra mão. O príncipe ri pelo esforço fraco e o chuta novamente, desta vez no peito. Com um grunhido, Aladdin se enrola e cospe sangue na areia. Eu observo como uma estátua, dizendo a mim mesma que não importa, que nada disso importa, que eu não posso fazer nada de qualquer maneira. E por que eu deveria sentir pena deste menino? Eu não o conheço. Eu não deveria me importar. Mas eu estremeço quando Darian chuta uma última vez apenas por maldade. Ele não fez o pedido. Eles poderiam matá-lo, mas ele ainda não fez o pedido. Então o príncipe está sobre Aladdin, respirando pesadamente, seus olhos indo de mim para o menino ferido. Ele se inclina, puxando o anel do dedo de Aladdin. Ele atira no alto antes de pegá-lo e deslizar no bolso, e então ele cospe em Aladdin. — Vou levar isso de volta, seu bastardo ladrão. — ele pega Aladdin por sua camisa e o puxa de joelhos. A cabeça de Aladdin cai em seus ombros, mas ele consegue encarar o príncipe. — Quem lhe contou sobre o anel? — exige Darian. — Por que isso funcionou para você e não eu? Aladdin dá uma única risada, embora parecesse estrangulada. O fogo não se desvanece de seus olhos. Darian puxa uma adaga curva de sua faixa e pressiona a lâmina contra a garganta de Aladdin. — Vá em frente, então, — Aladdin diz por entre os dentes, os olhos brilhando com desafio. — Faça. Suje as mãos pela primeira vez. Mas tenha cuidado. Seu pai não está aqui para limpar depois. — Você não vale mais um minuto do meu tempo. Considere-se ~ 26 ~


sortudo, bastardo. Ninguém me rouba e escapa tão fácil. — ele escava a lâmina no pescoço de Aladdin, tirando sangue, e eu tensa, desvio o olhar. Tenho visto milhares de homens morrerem, Habiba, mas o assassinato sempre me faz me sentir fria e oca. Como os seres humanos podem ser cruéis. Estou triste por esse ladrão. Seu espírito é forte e selvagem, mas parece que ele está perdido. Ele não tem que estar. O pensamento vem do nada, soando tanto como você que eu quase acredito que seu fantasma está de pé atrás de mim. Eu olho para trás, o ladrão está lutando contra a lâmina do príncipe. Há algo nele, Habiba. Um certo ar de aço inflexível. Ele tomou uma flecha por mim. E você sabe que eu nunca poderia resistir em me meter em problemas. Me levanto em todas as quatro patas e me fortaleço, mesmo enquanto minha mente dá voltas. O que você está fazendo, seu estúpido, gênio estúpido? Você já passou por isso antes - você sabe que isso vai acabar em desastre! Lembra de Roshana? Lembra da guerra? Mas eu estou comprometida agora. Solto um rugido poderoso para o príncipe, assustando-o o suficiente para que ele solte Aladdin, antes que ele possa cortar as veias do ladrão. Rápido como um relâmpago, Aladdin se joga para trás, jogando areia nos olhos de Darian. O príncipe grita e tropeça, batendo às cegas com a faca. Seus homens gritam e correm para frente, mas não antes de Aladdin arrebatar a lâmpada de Darian, se esquivando da lâmina oscilante do príncipe. Eu sinto o poder da mudança da posse do príncipe para o ladrão, e eu fico tonta. Mudar de mestres tão rápido é desorientador enquanto a minha aliança se inverte e a ligação entre o mestre e o gênio se desfaz e se refaz, até que Aladdin e eu estamos vinculados novamente. Quando uma meia dúzia de espadas vem em direção a sua cabeça, Aladdin grita: — Eu desejo ir para casa agora!

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C Por um momento, tudo congela: o luar intermitente sobre as espadas balançando no pescoço de Aladdin. O rugido do príncipe cheio de raiva. A ampla esperança imprudente nos olhos de Aladdin. Uma eternidade entre batimentos cardíacos, eu penso. Eu sonho. Eu crio. O tempo se movimenta, e eu mudo de tigre para menina, vestida de seda carmesim, meu rosto velado. Eu ergo minhas mãos. As lâminas desviam no ar fino, saltando para longe e desequilibrando os homens. Ignorando-os, eu faço perfeitamente o movimento seguinte. A vontade desse menino ladrão flui em córregos dourados. É o fio com o qual eu me teço, as cores com que eu pinto, o elemento com o qual eu crio. Areia começa a subir a partir do chão. Ela se enrola e gira, fazem as vestes de Aladdin vibrar. Eu chamo o vento e o feitiço, enviando-o em torno do meu mestre surpreso. Para o ar eu teço as canções antigas das pessoas de Ghedda, que estão enterradas agora sob a fria Montanha de Línguas. A força do vento em espiral lança os homens do príncipe para longe, e eles se espalham ao chão. Darian cai de joelhos e se esforça para ficar em pé, uma mão na frente de seu rosto quando ele rosna com raiva. Eu escorrego para dentro do redemoinho e para de frente à Aladdin, que me olha com olhos arregalados como luas gêmeas. Ele está meio atordoado, a lâmpada agarrada firmemente em suas mãos. O sangue desce pelo seu pescoço e pelo canto da boca. Desejos nascem pela vontade de homens e mulheres, é a verdadeira e pura fonte de energia que todos os seres humanos têm. Poucos percebem que está lá. Me lembro da sua vontade, Habiba: você brilhou como a lua,

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com um brilho malicioso em um céu escuro, secreto e destemperado. Aladdin queima como o sol, afastando cada sombra e aquecendo as areias. Eu concedo seu desejo, segurando-o como uma tocha na escuridão, iluminando o caminho. Eu fecho os olhos e sigo o fio de seus pensamentos com os olhos da minha mente. Vislumbro uma rua escura, poças de luar sobre os paralelepípedos. O cheiro de sal e fumaça, toldos de lona que vibram suavemente no vento da meia-noite. Menos um ponto em um mapa e mais uma região da alma, mas é um caminho que podemos seguir. Abro os olhos e bato as palmas uma vez. O deserto se dobra para longe e o horizonte se aproxima, e num piscar de olhos, Darian e seus soldados são deixados para trás enquanto Aladdin e eu atravessamos o espaço impossível. Eu puxo a terra e ela se arrasta entre os meus dedos, como uma agulha afiada, eu desenho uma linha entre ele e eu. Os olhos de Aladdin ficam trancados aos meus, seu cabelo e manto chicoteiam com o vento. Minúsculas perolas de areia em seus cílios. Ele prende a respiração, o corpo rígido, as mãos apertadas em torno da lâmpada. Sem se mover, nós passamos através do deserto e céu, através da areia e pedra, através de uma montanha alta no escuro. Monte Tissia. Da última vez que a vi, há meio milênio, ela estava banhado na lua clara da aurora. Você e eu ficamos em seu cume, Habiba, e enfrentamos os vastos exércitos de gênios quando eles correram para nos destruir. Em seguida, a montanha se encolhe atrás de nós e uma cidade aparece à frente, com um brilho de luz suave na beira do vasto mar Maridion. Parthenia de Aladdin. A cidade é grosseiramente dividida em distritos por muros altos e corta ao meio por um rio que vai do noroeste em direção ao grande Rio Qo e os reinos da montanha além em forma de ovo. Com uma exalação suave, eu libero o pouco de magia que foi deixada em mim, e o mundo retarda a um impasse. O vento e areia caem, deixando Aladdin e eu de pé, como se nunca tivéssemos nos movido. Fizemos uma viagem de semanas em questão de segundos. Chegamos a uma pequena encosta rochosa ao lado do rio, ao norte da cidade. A partir daqui, podemos olhar para baixo em direção À Parthenia. A cidade brilha na noite, e eu posso ver as tochas balançando, erguidas pelos

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vigias no topo do muro. Para o leste, através do mar, o amanhecer está começando a aparecer, o horizonte uma linha de cor dourada. Aladdin se assusta, sugando uma respiração afiada, como se ele tivesse acabado de vir a tona depois de estar imerso em água. — Aquilo foi... — ele começa, ele olha para a lâmpada, e vejo que ele realmente percebe o quão imenso o poder dela é. Aponto para seu ombro ferido e o corte em seu pescoço. — Se você desejar, eu posso te curar. — Isto? — ele zomba. — só precisa de um pouco de limpeza. O que, agora? Não há algum tipo de preço que tenho que pagar? — Basta esperar por isso, — eu digo, cruzando os braços e olhando para ele. Ele franze a testa e começa a responder, mas começa a vomitar em vez disso, sua pele fica pálida. — E lá vai, — eu suspiro. — Mover-se rapidamente de um lugar para outro quase sempre resulta em perder o jantar. Não é um preço ruim, comparado com o que eu já vi. Isso vai passar em breve. — Eu não comi qualquer jantar para perder, — ele geme. Ele dá um passo em direção ao rio, mas cambaleia, e eu vou rapidamente para o lado dele e deslizo um braço em volta dele. Ele endurece com o meu toque, quase se afasta, mas ele está muito fraco. Eu o ajudo a chegar à beira da água e, com um estremecimento, ele se abaixa e se inclina para beber de sua mão. Ele está tremendo muito, e derrubando água. — Droga, — ele murmura, depois ri com voz rouca. — Isso é tão embaraçoso... Ele solta sua mão na água, seu rosto plantado na areia molhada. Sua pele está pálida e quente ao meu toque. Com um suspiro, eu olho em volta para a paisagem vazia. As dunas de Mahali estão bem atrás de nós; aqui a terra é rochosa com oliveiras selvagens e cedros torcidos. Em algum lugar na vegetação rasteira, um chacal ladre duas vezes. O luar filtra através das árvores transformando o rio que flui em prata.

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A lâmpada ainda está pendurada no cinto dele - um golpe de sorte. Se ele tivesse deixado cair quando ele desmaiou, eu teria sido sugada para dentro até que ele acordasse ou alguém me pegasse e soltasse novamente. Enquanto ela permanecer com Aladdin, e enquanto ele permanecer vivo, eu sou limitada apenas pelo perímetro invisível que rodeia a lâmpada. Cento e quarenta e nove passos. Eu medi isso muitas e muitas vezes. Viro Aladdin em suas costas e arranco sua túnica e manto, até que ele está vestindo apenas suas calças soltas e botas de couro. Seu ombro está com uma crosta de sangue, e a pele em torno de sua ferida é pegajosa. Eu mergulho sua capa na água e passo delicadamente em sua pele, os olhos vagando sobre seu peito e estômago, procurando quaisquer outros ferimentos. Calor corre para meu rosto enquanto meus dedos vêm delicadamente para descansar em sua pele nua, e eu me repreendo por minha loucura. Eu vi mil e um meninos, Habiba, em menos roupa do que isso, mas eu nunca tenho sido tão tola para corar. Aladdin geme baixinho, e eu estalo os olhos de volta para o seu rosto, mas ele permanece inconsciente. Depois de limpar seu ombro, eu pressiono e mergulho os dedos na ferida, localizando a ponta de flecha e puxando para fora. Os cílios de Aladdin vibram, mas ele não acorda. Eu estanco a ferida com um pedaço de pano arrancado de sua capa, em seguida, rasgo a bainha para ligá-la. A flecha não entrou muito, e ele pode manter a área livre de infecção, deve curar logo. O corte em seu pescoço, embora seja grande, é raso e já coagulou. Eu limpo e pressiono um pano. Ele não se mexe novamente, e eu sento em minhas pernas dobradas. Então, quando o sol começa a subir, eu ouço um farfalhar nas rochas atrás de nós, e uma calafrio percorre o meu pescoço. Eu viro, olhando para a encosta, mas não vejo nada. Um vento, afiado com o sal do mar, chocalha os ramos das oliveiras. Eu assisto por um longo momento, temendo lobos ou chacais vagando a noite. Poucos são os animais que tenho motivos para temer, mas lobos e todos os seus primos não são amigos dos gênios. Eles nos caçam impiedosamente, tendo um ódio que devolvemos em igual medida, e eles são conhecidos por comer carniças primeiramente. Eu não ouço pés percorrendo ao longo do chão, sem uivos cortando a noite, e relaxo um pouco.

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Mas quando eu me viro de novo, eu congelo e meu estômago se aperta. A menina está na minha frente, seu longo cabelo emaranhado, os olhos brancos leitosos. Ela veste uma túnica cinza esfarrapada e nada mais. Feridas e cortes estragam seus pequenos pés descalços. Eu sinto dó dela - se ela fosse de fato uma menina. Mas um olhar para aqueles olhos cegos, e eu sei que se ela foi uma vez humana, sua alma está muito longe de ser. — Ghul, — eu sussurro. A menina descobre seus dentes em um sorriso que surge mais como uma careta. Quando ela fala, é na língua dos gênios, que nenhum ser humano pode ouvir: Gênio. A ghul sibila, a respiração quente e cheirando como carne em decomposição. Eu estendo a mão com o meu sexto sentido e a sinto chegando em volta, seus pensamentos sondando como tentáculos. Eu recuo, selando a minha mente para ela, mas aquele olhar mental rápido era tudo que eu precisava para reconhecê-la. Nós gênios conhecemos um ao outro pelos padrões de nossos pensamentos, a forma como os seres humanos usam características faciais. Nossos nomes são como o significado por trás dos nomes, sensações e imagens em vez de palavras, comunicadas pelo pensamento e não por voz. Reconheço a ghul como Serpente-Rastejando, Água-gotejando-na-escuridão, Ecos-na-Caverna. A alta patente dos gênios... estavam também presentes no dia em que você e eu caímos, Habiba. Antes disso, ela assombrou as montanhas no norte, engolindo as crianças de rua. Os nortistas a chamaram de Shaza. Sabemos que você sabe quem somos, O bater-da-cauda-do-Tigre, A-fumaça-selvagem, a menina-da-estrela-distante. — O que você quer? — pergunto, tremendo um pouco com a sensação do meu próprio nome de gênio. Então este é o tolo que encontrou a sua lâmpada. A ghul dá um passo para o lado para olhar Aladdin e seu lábio ondula. Ele parece ser saboroso. Eu não me importo de usar a forma dele por um tempo. Diga-nos, gênio, você vai destruí-lo como você fez com a sua última humana? Fico fria. — Você sabe o que realmente aconteceu naquele dia. Ah, sim, nós vimos, vimos tudo. Ela ri e se inclina para torcer uma

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mecha do cabelo de Aladdin em torno de seu dedo. Que ser humano bonito, um presente. Eriçada, eu movo entre ela e Aladdin. — Por que você está aqui? Ela morde a unha. Nós viemos para entregar uma mensagem de nosso senhor. Meu estômago cai, e eu balanço sobre os meus pés. — E o que Nardukha tem a me dizer? Ele nos enviou para lhe dizer que ele sabe que você escapou das ruínas em que lhe deixaram para apodrecer, pois não é coincidência que os humanos souberam do anel. Inquietação passa através de mim, como as águas agitadas por um crocodilo do malfeitor. Se o Shaitan está por trás de tudo isso, pode significar nada de bom. Nardukha não se tornou o Rei dos Gênios sem motivo. Ainda me lembro dos dias em que ele caçou todos os outros Shaitan, minha parentela, matando-os um por um para garantir o seu próprio poder. Ele é implacável e astuto, mais velho do que a terra, mais forte do que qualquer criatura existente. — Mas por quê? Eu pensei que ele estava contente por me deixar apodrecer. Ela enruga seu nariz. Ele te oferece um acordo. — Eu fiz um acordo com Nardukha uma vez antes, e paguei um preço terrível por isso. — eu estreito meus olhos e dou um passo em direção a ela, minhas mãos enrolando em punhos. — Por que eu deveria confiar nele de novo? Sua cabeça levanta, seus dentes brilhantes. Os seres humanos com seus encantos malditoso o tem aprisionado e engarrafado um dos nossos, segurando-o profundamente em sua cidade protegida. Não é possível gênios entrarem, pois a sua proteção é forte, e para passar através de suas portas ou voar sobre suas paredes é a morte para nós. Mas não para você - como Shaitan, você pode ser capaz de passar pelas alas e ficar por dentro da cidade. — Então ele quer a minha ajuda para resgatar esse gênio, — eu digo, em dúvida. — Mas eu conheço Nardukha. O gênio não vale a pena tanto problema, mas- — faço uma pausa e engulo. A ghul ri sem graça. O gênio que eles possuem não é qualquer um, mas ~ 33 ~


o próprio filho do nosso Senhor. Posso imaginá-lo, embora eu não o tenha visto em mais de mil anos. Nos despedimos a última vez com palavras raivosas, como sempre fizemos. Sol-que-brilha, Dragão-vermelho, Aquele-Que-Faz-a-Terra-Balançar. Para mim, ele sempre foi Zhian, o nome dado a ele pelo povo Akbanu quando eles o adoravam, há milhares de anos. Ele sempre amorosamente desfilou como um deus, exigindo ofertas e templos dos humanos que aterrorizava. — Os seres humanos capturaram Zhian? — pergunto, rindo até que Aladdin se agita. — Ele deve estar totalmente humilhado. O grande gênio príncipe - engarrafado como um gênio comum. O que os seres humanos fizeram? Eles são mais fortes do que eram. Estes viajantes têm ficado resistentes e inteligentes, combatendo-nos todos esses anos. E de quem é a culpa? Pela primeira vez, eu estou feliz em assumir a culpa. Quão orgulhosa você estaria do seu povo, Habiba, ainda carregando a luta centenas de anos mais tarde! E pensar que eles capturaram o grandioso príncipe gênio. Eu cruzo meus braços, sorrindo um pouco. — E o que eu ganho em troca? Shaza pausa um longo momento antes de responder, e quando o faz, seus pensamentos gotejam com desgosto. Shaitan ofereceu a você a liberdade.

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C Eu solto os meus braços quando a fumaça se transforma em chama dentro de mim. O quê? Eu respondo. A língua dos gênios parece enferrujada em meus pensamentos, mas estou muito chocada para falar. A ghul funga. Estes são os termos. Afastando-se, ela aponta para a crescente bola de prata pendurada no céu. A lua vai morrer amanhã à noite e vai renascer novamente. Ele vai ficar grande, então ela vai ficar fraca, e então ela vai morrer mais uma vez. Se você não tiver libertado o príncipe dos gênios, então o Shaitan deve abalar os céus, e a morte vai chover em cima de você e de todos os seres humanos naquela cidade. Mas se você tiver sucesso, ele vai cortar o vínculo que a liga à lâmpada, e você vai voltar para Ambadya como um gênio livre. Ela me dá um sorriso malicioso por cima do ombro. Mas se você cometer um erro, ele virá, e a morte de um traidor merecido ele lhe dará. Você sabe o que isso significa? Eu sei. Eu o vi executar um gênio antes. Pode durar dias. Quando você é praticamente imortal, não há fim à tortura que você pode suportar, e os gênios são especialistas em torcer a última gota de dor de suas vítimas. Meu peito aperta com o pensamento. Eu posso ser um dos mais fortes gênios vivos, mas eu posso sentir dor, e eu posso ser morta. — Sim, — eu sussurro, então eu tusso um pouco e repito em voz alta: — Sim. Eu aceito o acordo de Nardukha. Diga à ele... diga que ele vai ver seu filho miserável esse mês. Que assim seja. E assim, a ghul se foi, escapando para as sombras, se misturando à terra a partir do qual ela foi feita, me deixando tremendo. Eu levanto meu rosto e olho com admiração para as estrelas acima. ~ 35 ~


Liberdade. É um sonho que nunca me atrevi a sonhar. Eu não posso nem imaginar o que seria. Desde que me tornei gênio, eu fui obrigada a ficar na minha lâmpada. O conceito é estranho, tão distante e intocável como a nova lua por trás de seu véu negro. Mas, pela primeira vez, sinto esperança. E eu sei que vou fazer tudo que posso em meu poder limitado para aproveitar. O sol nasce, e as portas Parthenian se abrem. Duas estradas - uma a partir do leste, uma do oeste - levam para a cidade, carroças e viajantes lentamente fazem o seu caminho para dentro. Ninguém nos vê entre as rochas do rio acima. O sol aponta e, em seguida, começa a afundar de novo, as sombras das árvores ficam maiores, e Aladdin ainda dorme como se estivesse morto. Não há mais sinal de Shaza ou de qualquer outro gênio nas proximidades, mas eu mantenho um olhar cuidadoso. Reviro acordo de Nardukha em minha mente, ponderando como realizá-lo. É uma coisa dizer que vou fazer - e outra inteiramente é fazer. Parthenia é uma cidade grande, e não há como dizer onde Zhian está sendo mantido. Não posso sair e ficar procurando também, eu sou obrigada a ficar com Aladdin, enquanto ele tem a lâmpada. Mas eu não vou deixar que me parem. Eu não vou deixar nada me parar - humano ou gênios. Porque, pela primeira vez em quatro mil anos, eu, balanço-da-cauda-do-tigre, fumaça-do-vento, menina-da-estrela-perdida, tenho uma chance de liberdade. Quando o sol se põe, a cidade e as torres aprofundam as silhuetas, eu volto ao meu mestre. Desta vez, seus olhos estão abertos, e ele está olhando para mim. — Você é muito bonita, — ele murmura, sua voz grossa de sono, — para um gênio. — Já conheceu muitos gênios? — Não. — seus lábios se enrolam em um sorriso atordoado. — Mas eu já conheci um monte de meninas bonitas. Eu verifico o curativo; o sangramento parou, mas ele vai precisar de um novo curativo em breve. — Por que você está me ajudando? — ele pergunta baixinho. — No deserto, você distraíu Darian para que eu pudesse pegar a lâmpada. Por ~ 36 ~


quê? — Você tomou uma flecha por mim. — ele não sabia que não iria me machucar. Ele agiu sem pensar, de algum instinto profundo dentro de si mesmo - o mesmo instinto que o impediu de desejar a morte de Darian. — Agora aqui estamos, ladrão. — É melhor- — ele para com um suspiro, sua mão indo para o ombro. Ele fica em silêncio por um momento, os olhos fechados, como se ele estivesse se esforçando para afastar a dor de sua lesão. Então, finalmente, ele diz com uma voz firme, — É melhor ir andando. Temos de escorregar para a cidade antes de fecharem os portões para a noite. Uma vez que eles fecham, eles não abrem até o amanhecer. Pra ninguém. Nem para os gênios nestes montes. — ele faz uma pausa, em seguida, dá uma risadinha. — Embora eu ache que isso não a incomode. As paredes de Parthenia sobem ao longe e não vai demorar muito para o por do sol. Mas ele anda corajosamente, parando apenas para tirar uma figueira pequena do seu pé antes de sair da margem do rio. Nós seguimos uma pista empoeirada através de baixas colinas cobertas de arbustos raquíticos e pedras soltas. Nós chegamos perto dos portões assim quando os guardas estão se preparando para fechá-las. Os portões são enormes, placas pesadas de carvalho, e eles são fechados por um par de elefantes. Os soldados estão ocupados amarrando os animais enormes nos portões. Em ambos os lados dos portões, enormes grifos de pedra brilham em cima de nós com os olhos em branco. — Depressa, — diz Aladdin, começando a correr. — Eles não vão esperar por nós. Eu corro, então, a poucos passos da porta, eu cambaleio quando um espasmo de dor torce meu intestino. Um tremor passa por mim, e eu me dobro, incapaz de dar outro passo. Olhando para cima, eu identifico imediatamente: glifos esculpidos sob a pedra. Símbolos de Eskarr ligadando a mágica aos objetos. Estes dizem gênios, demônios, repelidos, e outras palavras similares. Eles foram colocados lá para impedir qualquer um da minha espécie de tentar entrar ali e seu poder cai sobre mim como garras. Infiltra-se através de mim como veneno, contaminando o meu corpo, o deixando doente.

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— Zahra, você está bem? — Aladdin pergunta, parando ao meu lado. Balanço a cabeça e eu luto para ficar em pé enquanto minha cabeça gira. É como ser pega em um deslizamento de terra. Shaza disse que eu era a única com uma chance de conseguir atravessar estes portões - mas nem mesmo eu não posso ser forte o suficiente. Eu tento me forçar a me mover com o pensamento de liberdade, mas tudo o que posso gerenciar é um meio passo antes de meu estômago torcer violentamente e eu cair de joelho. O vento do mar bate em mim, e eu gostaria de poder voltar e deixá-lo me levar embora. — É protegida, — eu sussurro. — Contra os gênios. Eu não posso... eu não posso passar. Os portões de repente gemem, e eu olho para cima para ver os elefantes começarem a se mover, desenhando sua prisão. Alarmado, Aladdin olha para a porta, em seguida, de volta para mim. — Zahra, você tem que passar. Se não o fizer, os guardas vão saber o que você é. Eles vão nos matar aqui mesmo. Gênios assassinos e quem simpatizam com eles - é o que eles fazem. Eles são Eristrati. Ele diz como se as palavras tivessem algum significado, e eu estudo o guarda mais próximo. Todos eles carregam lanças de ferro, seus eixos esculpidos com mais glifos Eskarr. Estes não são soldados comuns; eles estão armados para lutar contra gênios, e eles sabem o que estão fazendo. Quatro mil anos pode ser uma vida bastante longa, mas eu não estou pronta para morrer ainda. Não quando estou tão perto de me libertar da minha lâmpada amaldiçoada. — Eu consigo, — murmuro. — Tem certeza? — ele me estuda como se estivesse preocupado que eu fosse desmaiar. Eu posso sim. Eu assinto, não inteiramente certa, mas disposta a tentar. Não porque eu estou realmente preocupada que os guardas vão nos matar - Aladdin tem dois desejos, e eu estou longe de ser inábil em me defender. Mas porque eu sei o que é isso. Esta é a última chance que eu chegarei a ter. Se eu falhar, eu nao vou protestar quando Nardukha me derrubar. Eu não posso aguentar mais um ano em uma lâmpada, muito menos uma eternidade, e não nunca estive tão perto de ser livre. — Eu tenho uma ideia, — eu digo. — Mas eu vou precisar da sua ~ 38 ~


ajuda. — Depressa, — diz ele, observando dentro dos portões. Já estão meio fechados. Conjuro uma pequena nuvem de fumaça por baixo do meu vestido, deixando-a passar ao longo do meu estômago, me deixando redonda como um melão. Adiciono dor em meus olhos e minha respiração aperta e eu sou a imagem perfeita de uma mulher em trabalho de parto. Aladdin olha para baixo, faz um barulho estranho no fundo da garganta, então concorda. — Certo. Nós podemos fazer isso. Não tem problema. — seu tom é um pouco alto, mas ele agarra minha mão. — Vamos! Eu me apoio em Aladdin, e não apenas para mostrar - quanto mais nos aproximamos, mais difícil é de aguentar. O ar é como facas no chão, como brasas. Parece que todos os elementos dobram sobre mim e me esmagam. De alguma forma, seu batimento cardíaco me dá força. Talvez ele me ajude a esconder a minha natureza gênio na enfermaria. De qualquer maneira, eu posso me sentir ganhar um pouco mais de controle do meu próprio corpo. Eu me apresso, e, juntos, corremos para as portas. Eles estão a segundos de fechar completamente — Nós não vamos caber, — eu digo. — Sim, nós iremos, — Aladdin responde com os dentes cerrados, como se pudesse fazê-los abrir com teimosia. — Se você desejar por isso – ugh, — à medida que passam através dos grifos de pedra, seu olhar parece travar em mim. Os glifos Eskarr parecem brilhar. O poder por trás deles me empurra com a força de uma centena de cavalos, procurando me pisar na terra. — A minha mulher! — Aladdin chora para os guardas. — Ela vai dar à luz! Pare os portões! Os homens trocam olhares, mas permanecem resolutos. O espaço entre os portões encolhe até que não parece que nem mesmo um gato poderia passar. Mas Aladdin permanece irredutível. Ele corre na frente, ofegante, o ombro com sangue. Eu não tenho que fingir minha própria dor, como se eu estivesse sendo espetada na frente e agarrada por trás. Tudo em mim grita, Vire-se! Fuja! Mas eu me forço a me manter em movimento. Cada pensamento que eu tenho é dobrado para manter a forma humana. Eu sofro

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em mudar para a fumaça apenas para parar a dor. E, então, ao chegar aos portões. Aladdin pára, me empurrando através do primeiro. Eu mal posso ver neste momento, e eu percebo que estou soluçando em voz alta. Normalmente eu estaria mortificada com tal demonstração de fraqueza, mas eu não tenho como poupar o meu orgulho. Dói muito. Tudo o que posso fazer é me esforçar para não mudar, para não dar a eles isso. Sinto a mão de Aladdin na minha, a sua voz no meu ouvido, mas as palavras não fazem sentido. Ele está gritando. Tudo flutua ao meu redor. Eu sou um pequeno galho pego em uma inundação. Com um gemido, eu entro em colapso, a falsa barriga de grávida se dissipa. Em vez de cair no chão, porém, eu me deixo cair nos braços de Aladdin. Ele me levanta e me segura contra o peito, em seguida, começa a correr. O cheiro dele me oprime: figos frescos da manhã, sabonete de leite de cabra que ele lavou o seu casaco, fumaça das ruínas de Neruby, vento e sal marinho. Cheiros humanos, ricos e inebriantes. Eu posso sentir a sua dor através do seu pulso, mas ele não abranda ou para. Ele deve estar sofrendo tanto quanto eu estou. Por que ele não me deixa ir? Por que ele não deixa a lâmpada e se salva? Ou faz um desejo - eu poderia conceder até mesmo neste estado. Com um estremecimento, me sinto deslizar, como se fosse de uma torre alta, e eu caio na escuridão com um último pensamento: Mas eu estava tão perto...

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C Quando eu acordo, eu estou deitada debaixo das estrelas, minhas costas em uma superfície dura, fria. Eu acordo assustada de uma vez, e fico em uma posição sentada. — Whoa, calma, Fumaça. Me viro e vejo Aladdin sentado ao meu lado, comendo cordeiro assado espetado em uma vara pequena. Estamos sentados em cima de um edifício, com uma ampla vista para o mar para além dos muros da cidade. Eu me viro e estudo Parthenia de cima. Os edifícios sobem, onde a ondas acertam as areias ao norte, um palácio com cúpula está no ponto mais alto da cidade. Até mesmo nesta noite quase sem lua, ela brilha como uma pérola na escuridão. Zhian está em algum lugar lá fora, em uma pequena garrafa ou frasco desconhecido. O pensamento, que me divertiu mais cedo, agora só me enche com uma firme determinação. Eu estendo o meu sexto sentido, sondando a noite, mas não chega muito longe, e eu não consigo sentir nada. — O que aconteceu? — é raro para mim ter um apagão como este, e isso me assusta mais do que eu gostaria de admitir. Eu não sei como os seres humanos fazem todas as noites - adormecer, deixando a escuridão engoli-los. — Você desmaiou. Eu tive que carregá-la. — Como está seu ombro? Ele está usando um novo curativo. — Tive que refazer tudo. Com apenas uma mão. E consegui. — ele puxa duas panelas de barro pequenas do bolso. — Há uma fitoterapeuta nessa rua, então corri até enquanto você estava desmaiada. Espero que eles estejam apenas feridos e não vão, você sabe, causar inflamação ou algo assim.

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Eu estendo a mão, e ele coloca o pote em minha palma. Eu abro e cheiro. — Isto é para as dores de parto. Aladdin estremece. — Mas o outro deve servir. — eu devolvo pra ele. — É uma mistura de canela e cravo e vai parar qualquer propagação da doença em sua ferida. Ele embolsa esse pote e deixa o outro para trás enquant ele se levanta. — Você está se sentindo melhor, então? Ou quer fazer um passeio aqui? — ele dá um tapinha em seu manto sobresaltado, que me diz que a lâmpada ainda está presa ao seu cinto. Eu tento não parecer muito desesperada quando eu respondo: — Eu prefiro andar. Aonde vamos? — Eu fui perseguido, levei um tiro, fui cortado, espancado e arrastado cem léguas em um piscar de olhos. — ele dá de ombros e me oferece a mão. — Eu preciso de uma bebida. Eu fico olhando para ele por um momento, em conflito. Ele me carregou. Ele levou uma flecha para mim. Eu tive alguns mestres bondosos em minha longa vida estranha. Cruel, eu sei. Mas a bondade me assusta, pois minhas defesas são fracas contra ela. Cautelosamente, eu tomo sua mão e ele me ajuda a levantar. Ele me leva até uma escada estreita ao longo do exterior do edifício que está no topo, em direção à rua. — Por que você queria que o prícipe fosse morto? — pergunto. Aladdin pára, olhando para mim com os olhos arregalados. — Não grite! Oh, Deus. — E aí? — Você é sempre tão intrometida? — Só quando alguém me pede parar matar. Ele deixa escapar uma respiração curta. — Eu mudei de ideia sobre isso. — Eu ainda quero saber. ~ 42 ~


Ele esfrega a mão em seu rosto. — Chegamos. Aladdin vai para a rua e uma das ruas estreitas levam para as entranhas mais profundas da cidade. Paredes se fecham em ambos os lados, e varais estão pendurados com panos desgastados cruzando sobre nossas cabeças. Vento agita os tecidos, de modo que parece que o ar está cheio de fantasmas sussurrantes. Através das persianas fechadas que pontilham as paredes, apenas linhas fracas de luz podem ser vistas. Aladdin passa por trás de uma pilha de caixas e para quando bate em uma pequena porta de madeira. Esperamos na escuridão, sentindo o cheiro de pão assando, e abaixo disso, o cheiro de mijo, rato, e simmon, uma droga feita a partir de folhas Corris. Este último perfume exala para fora da porta diante de nós, e quando ela abre de repente, uma onda do cheiro passa sobre nós. O homem por trás da porta é mais amplo do que alto, mas cada polegada dele é muscular. Tiras de couro cruzam sobre seu peito cabeludo, enquanto sua cabeça calva brilha com o suor à luz da lâmpada que ele segura. — Dois policiais, — diz ele em um tom aborrecido, sem olhar para cima. Aladdin pigarreia. O homem olha para ele, então se endireita. — Oh. É você menino, o que aconteceu com você? Você parece terrível. — Andei viajando. O que você está fazendo fora da prisão, Balak? Pensei que você tivesse pego dez anos por causa daquele porco que você roubou. Balak grunhe. — Aquele porco que eles alegaram que eu roubei. Os bastardos não podem provar nada. Phoenix apareceu. Aladdin fica tenso ligeiramente. — O que, ele ainda está por aí? — Ele soltou um monte de gente da prisão, aqueles que ele achava que foram injustamente condenados. Pequenos ladrões, devedores, e outros semelhantes. Guardas foram enviados para cima dos tolos que não são inteligentes o suficiente para ficar em baixo, mas eles não vão me alcançar de novo.

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— Você viu a cara dele? — perguntou Aladdin. — Alguém já descobriu quem ele é? — Nunca vi nada além de uma sombra deslizando, desbloqueando as celas. Ele tinha apagado todos os guardas, abrindo caminho para a saída. Ninguém sabe quem ele é, mas ele tem toda a cidade cantando seus louvores. Olhe lá. — Balak aponta para uma parede do outro lado da rua, onde uma chama vermelha foi recentemente pintada. — Sinal de Phoenix. É como a maldita Rebelião de Tailor de novo. — os olhos do homem se ampliam, e ele baixa os olhos. — Sinto muito, rapaz. Aladdin dá de ombros. — De qualquer forma, ele é um idiota, como todos os outros idiotas que acham que podem fazer a diferença nesta cidade. Balak ri e se afasta para nos deixar passar através da pequena porta, em seguida, fecha atrás de nós. Descemos as estreitas escadas no escuro, o cheiro de simmon e suor cada vez mais forte e mais profundo quanto mais descemos. A passagem fica maior, e a onda de vozes chega aos nossos ouvidos. Aladdin puxa o capuz sobre seu rosto. Damos um passo abruptamente em um espaço comprimido com corpos suados. Braseiros que circundam os pilares de madeira emitem fumaça. O ar é tão espesso com simmon que é impossível ver o outro lado da sala. Aladdin pega a minha mão para que a multidão não nos separe e juntos fazemos nosso caminho através da multidão. Existem principalmente homens aqui em baixo, é uma noite com poucas mulheres, todas elas bêbadas ou obscurecidas por simmon, todos suando. Com a mão livre, eu enrolo uma tira de seda preta em volta do meu rosto, cobrindo minha boca e narinas em uma tentativa de bloquear o fedor. — Bem-vindos aos Rigues! — Aladdin grita por cima do ombro. — Fique perto. — apesar de estarmos perto, é difícil ouvi-lo sobre o súbito rugido da multidão. Um homem barrigudo me empurra quando ele levanta os braços para torcer e seu odor me sufoca. — Pela primeira vez eu acho que eu prefiro a minha lâmpada, — murmuro. Uma menina vestida em pouco mais de retalhos de tecidos que

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revelam a sua figura esguia, começa a nos perguntar o que queremos para beber. Então ela dá uma segunda olhada e se aproxima de Aladdin. — Você! — ela sussurra. — Você foi banido para sempre deste lugar! Ugh, Balak é o porteiro mais inútil que eu já— Quieta, Dal. — ele puxa o capuz. — Eu estou disfarçado. Traga um frasco do líquido mais forte que você tem, sim? Ela franze os lábios. — Você tem coragem, ladrão, me pedindo qualquer coisa. Aladdin pressiona uma moeda na mão dela e lhe dá um sorriso arrogante. — Oh, vamos lá. Nos divertimos em alguns momentos, não é? — Eu teria me divertido quebrando esta garrafa sobre sua cabeça. Quem é ela? Eu nunca a vi ao redor antes. — Dal me olha de cima a baixo, e eu olho seu rosto friamente. — Ela está comigo. Nova na cidade. Eu estou mostrando a ela um pouco. Dal revira os olhos. — Eu ouvi essa frase antes. — ela se inclina para perto de mim. — Aqui estão alguns conselhos, irmã: não desperdice um único minuto com ele. Ele é mais problema do que vale. — Eu acho que estou começando a entender o que você quer dizer, — eu respondo. — Tudo bem, tudo bem, — Aladdin interrompe, franzindo a testa. — Viemos aqui para beber, não para conversar. O que é isso? — ele aponta para uma fita vermelha amarrada em torno de seu braço. — Eu vi um par de pessoas usando isso desde que voltei. Ela coloca sua mão sobre ela, os olhos piscando. — É um símbolo, diz que eu estou seguindo Phoenix, e sou contra a injustiça. Você sabe que eles duplicaram os impostos novamente ontem? Se você não pagar, eles vão te mandar para a prisão ou tomar a sua propriedade, se não ambos. Eles estão enforcando pessoas só por falar contra isso! Aladdin apenas grunhe. — Eu teria pensado que você de todas as pessoas queria se ~ 45 ~


juntar. Lembra da praga na parte leste? Os guardas foram colocados em quarentena e preparados para deixar todas aquelas pessoas morrerem? Phoenix escapou e deu remédio para todos os doentes. Ele salvou centenas de pessoas. Isso é real, Aladdin. Phoenix não é apenas mais um orador, ele é... bem, ele está nos dando esperança. E é mais do que tivemos desde... — ela dá a ele um longo olhar, como se estivesse prestes a dizer mais, mas, em seguida, ela suspira e apenas balança a cabeça. — Desde os meus pais? Você não tem que dançar em torno disso, Dal. Eu sei o que você está pensando, o que todos vocês estão pensando. Eu não quero falar sobre o maldito Phoenix mais, — resmunga Aladdin. Ela bufa e se desvia, embolsando a moeda, em seguida, volta a andar com a garrafa. — Seu amigo Xaxos estava aqui procurando por você alguns dias atrás. Não parecia muito feliz. Aladdin abre o vinho. Quando ele oferece para mim, eu balanço minha cabeça. — O velho Xax? — diz ele casualmente. — Eu não tenho nada com ele. — Ele discorda, eu acho. Ele disse que contratou você para um trabalho - eu não precisei perguntar para saber o que significava. Ainda com seus velhos truques, huh? — ela balança a cabeça. — De qualquer forma, ele esta está muito bravo com você. Disse que você aceitou o trabalho, então saiu da cidade. Os guardas estão caçando um ladrão também. Oferecendo mil coroas de ouro pela sua cabeça. — ela estreita os olhos. — Você entrou no palácio, Aladdin? — Mil coroas? — Aladdin solta um assobio baixo. — Quase faz um homem querer se entregar. — De todas as coisas estúpidas... — o olhar dela fica carrancudo, Dal nos dá um breve olhar afiado antes de ir limpar o vinho que alguém derramou. Aladdin encontra uma mesa perto da mesa central, onde dois homens do tamanho de touros estão lutando. Um, cujo pescoço é facilmente o tamanho da minha cintura, está se dando melhor. Eles estão quase nus, mergulhados em óleo para se tornarem escorregadios. Sua cabeça é calva, mas para além de um longo manto preto brotando a partir do topo, a cabeça

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brilha como um ovo cozido. Seu adversário, um pouco menor, está na defensiva, levantando as mãos para bloquear os golpes do homem maior. Aladdin os assiste com desinteresse e toma um longo gole de vinho. — Vê isso? — ele passa o dedo sobre a mesa, onde alguém esculpiu um pequeno símbolo. — Parece com uma agulha de costura, — eu digo. Ele acena e bebe. Seus olhos estão começando a ficar nebulosos do vinho. — Não é apenas uma agulha. A agulha. O sinal de uma rebelião que começou a crescer anos atrás. Este é o lugar onde os líderes do movimento se encontraram. Aqui. Neste lugar. Ele traça a agulha com o polegar. — Meu pai era o alfaiate, — ele me diz. — Quero dizer, ele era apenas um alfaiate no início, mas quando eu era criança, ele começou a correr com esses rebeldes. Meu pai e seus amigos protestaram pela queima de guarnições e guaritas, roubando armas, sabotando navios. — o rosto de Aladdin escurece. Ele se inclina para trás e puxa a moeda de Neruby do bolso. Eu não tinha notado que ele tinha pegado. Ele vira e sobre ele pisca o rosto de um rei que morreu há muito tempo, ninguém neste mundo sequer sabe o seu nome. — Eventualmente, ele tinha a minha mãe participando. Logo as pessoas estavam o chamando de Traidor, e uma recompensa foi oferecida por sua cabeça. Sua agulha se tornou o símbolo da rebelião. Eu o ouço em silêncio, observando as suas mãos. Elas são mãos inteligentes, as unhas limpas, seus dedos longos e ágeis. Ele gira a moeda e a pega, de novo e de novo, enquanto ele fala. — Quando eu tinha doze anos, lembra do príncipe no deserto, Darian? Seu pai, o nosso exaltado Vizier Sulifer, me segurou e me forçou a assistir enquanto as cabeças dos meus pais eram cortadas de seus ombros. Darian estava lá. Ele riu de mim quando eu comecei a chorar. — Aladdin fez com que a moeda desaparecesse na manga, em seguida, tomou um longo gole de vinho. — Depois, Sulifer me fez pegar suas cabeças e segurar para que ele pudesse colocar estacas nelas. Ele os deixou ali na praça da cidade por semanas.

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Eu me inclino para trás, minhas mãos no meu colo. — Por que você está me contando tudo isso? Ele encolhe os ombros e bufa. — Você queria saber por que eu... quase desejei a morte de Darian. — o vinho está quase desaparecido, assim como juízo de Alladin. — Desde que eu era jovem, as pessoas pensavam que eu seria o próximo líder da rebelião, que eu ia me levantar e lutar. Eles acham que eu deveria ser o único lá fora, tirando as pessoas da prisão e parando as pragas sangrentas. Eles acham que eu perdi minha vida, me tornando um ladrão e um criminoso. Bem, eu não tenho interesse em lutar por causas perdidas por que tudo o que eu quero é vingar meus pais, não começar uma guerra que não podemos vencer. Eu levanto o meu rosto. Ele está olhando para mim com intensidade de embriaguez, os lábios numa linha fina. — E agora, — ele continua, — eu descobri que eu nem sequer tenho a coragem de ir até o fim. Eu tinha Darian bem na minha frente! E eu não poude nem mesmo... eu falhei com eles. Com um suspiro, eu puxo o frasco meio vazio de seus dedos, bebo tudo para que ele não beba. O vinho é barato, mas forte, queimando minha garganta, embora ele não tenha efeito sobre os meus sentidos. Um rugido do ringue ao lado de nós chama a atenção de Aladdin. A luta terminou, e o menor dos dois homens se encontra inconsciente no chão em uma poça de suor e sangue. O vencedor levanta os braços musculosos e grita em triunfo. — Quem vai enfrentar Ukkad, o Touro? — grita um homem pequeno que sobe no ringue. — Vinte moedas de ouro para o vencedor! Cinco para o perdedor! Aladdin começa a se afastar, mas, em seguida, a multidão no lado oposto se abre até o ringue, e um lutador sai agilmente e sobe para a pequena arena. Um murmúrio de risadas vem da audiência e Aladdin se levanta, arregalando os olhos. É uma jovem esbelta de dezessete anos ou algo assim. Ela usa um top simples cortado logo acima do umbigo e uma saia de linho longa sustentada por um cinto de couro. A saia expõe uma longa perna atlética, e guarda uma simples corrente de ouro em seu tornozelo, seus pés estão descalços. Ela lança seu manto ordenadamente sobre a corda em torno do ringue e, em ~ 48 ~


seguida, estende os braços na frente dela e inclina a cabeça para cada ombro, estalando o seu pescoço. Ela é bonita, o cabelo escuro grosso preso em uma trança simples e com os olhos totalmente manchados com Kohl de forma que ela parece estar usando uma máscara. Ela sorri para o Touro, espalhando suas mãos. Olho para Aladdin e vejo seus olhos brilhando com interesse. Alladin acena para Dal. — Quem é ela? — ele pergunta. Ela revira os olhos. — Eu não sei. Alguma patricinha, eu acho. Ela esteve aqui todas as noites durante duas semanas, lutando e, então desaparecendo. Nem sequer recolhe os seus ganhos. — seu tom azeda. — Eu se fosse você manteria certa distância. É bem provavel que ela quebre seu braço se a irritar. Os nervos no pescoço do Touro ficaram vermelhos e ele ruge, — Quem está brincando comigo? Eu vim aqui para lutar com homens, não com meninas! A menina cospe no chão entre eles, ainda sorrindo. — Eu também, mas parece que hoje ambos vamos ser decepcionados. A multidão suspira, e os olhos de Touro quase explodem de seu crânio. Aladdin se empurra até a borda do ringue e eu luto para me levantar, olhando melancolicamente para a porta, mas parece que o meu mestre tem a intenção de assistir a esses eventos que se desdobram. Resignada, eu me inclino em um dos postes de madeira que suportam a corda do ringue e volto minha atenção para a menina. Eles começam circulando um ao outro, suas posições amplas e tensas, seus olhos fechados, mas Touro ainda parece hesitante, como se ele achasse que isto é tudo uma brincadeira. — Você deve voltar a fazer o pão, — diz ele. — Ou você ganha dinheiro aquecendo camas? Talvez depois de eu quebrar o seu nariz bonito, eu possa usar o que eu ganhar para me manter quente. — Eu não faço isso, — ela revida. Com um rugido sem palavras, o público prende a respiração. Aladdin fica tenso, um sorriso encantador puxando seus lábios.

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Por um momento, parece que está terminado, mas no último momento a menina se vira e dirige seu cotovelo no rosto do Touro, deixando-o fora de equilíbrio. A multidão entra em erupção de novo. As lutas em outros ringues foram suspensas, e agora todo mundo está focado no jogo central. As apostas são atraídas - esmagadoramente a favor de Touro, mas alguns espíritos aventureiros apostam na menina. A mão de Aladdin vai para seu bolso, e ele puxa a moeda Nerubyan, cuidadosamente considerando-a. — Você não faria isso, — eu digo. — O quê? Eu gosto do estilo dela. — Essa moeda é possivelmente a última de uma civilização outrora poderosa que existe há centenas de— Um ouro na menina! — Aladdin chama, chamando a atenção de um apostador profissional. Eu suspiro e eu volto à luta. E ao redor eles dançam. Ela é um rato desesperado para evitar os pés de serem esmagados por um elefante, e quanto mais ela foge, mais cansado ele fica. A multidão esta frenética agora e mais dinheiro é jogado sobre o Touro. Aladdin se inclina e murmura: — Vamos lá, vamos lá... Percebo alguns rostos em toda a arena assistirem com uma intensidade silenciosa, os olhos cheios de preocupação. Todas elas são meninas da idade da jovem guerreira na arena, e elas estão todas vestidas de forma semelhante. Então, Touro se acalma, recuperando o fôlego, e a menina toma a chance para descansar também. Ela fica de pé na frente de Aladdin e de mim, ao alcance do braço. Ela se inclina, as mãos sobre as coxas, ofega por ar e suor pinga na areia. Aladdin se inclina sobre a corda e sussurra: — A perna direita é lenta. Há um engate em cada passo. Se você for rápida... Ela olha por cima do ombro, através dos fios de cabelo suado que escaparam sua trança. — Você está apostando em mim, bonitão?

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Aladdin sorri. — Você estará ocupada mais tarde? Ela encolhe os ombros e estala os nós dos dedos, os olhos viajando sobre os ombros e tronco dele. — Eu acho que eu poderia poupar um minuto. O sorriso dele se alarga, e a menina de repente salta para frente, correndo em direção ao poste atrás de Touro. Ele bufa e se move para interceptá-la, mas ela é muito rápida para ele. Com um grito, ela pula no ar, planta um pé no poste, e empurra, saltando através do ar em direção a seu oponente. Antes que ele possa fazer um movimento, ela conecta seus pés primeiramente no rosto dele, quebrando a cabeça com uma série de sons. Quando ele balança a cabeça e oscila em seus pés, ela hesitante joga sua perna nua para cima e a envolve no pescoço dele com a outra perna. Com os tornozelos trancados por trás da cabeça dele, ela gira e torce, trazendo o Touro de bruços ao chão. Rápida como uma cobra, ela se afasta e se levanta, então planta um pé na parte de trás do pescoço carnudo dele. Aladdin quase cai na arena enquanto assiste e aplaude, mais do que um pouco bêbado, e o resto da multidão desce do caos quando a luta termina. Os jogadores liquidam as suas dívidas, e os poucos sortudos que apostam na menina agarram os seus ganhos e, em seguida, sabiamente desaparecerem antes que possam ser assaltados. Aladdin ganha de volta sua moeda de ouro e uma pilha de prata. — Eu vou entrar! Me deseje sorte! — diz ele, sem fôlego, e ele sobe por cima da corda e se junta à pequena multidão que se reuniu em torno da menina, aplaundindo-a e oferecendo bebidas. Eu me inclino sobre o poste, balançando a cabeça. A tristeza de Aladdin parece esquecida inteiramente. Dal aparece ao meu lado, as mãos cheias de copos vazios. Ela me dá um olhar avaliador com uma sobrancelha arqueada. — Eu conheço esse olhar. — Que olhar? — Não se preocupe, irmã. Todas nós já tivemos. — ela suspira. — As garotas que ele ama e depois as deixa. Irritada, eu desvio o olhar. — Eu não sei do que você está falando.

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— Claro que não. — Dal sorri tristemente. — Você pode odiá-lo ou aceitar que isso é apenas quem ele é. Quando Aladdin coloca seu coração em algo - ou alguém - nada pode impedi-lo de conseguir. E quando ele tem, ele percebe que não é o que ele queria, afinal, e, então outra coisa chama a atenção dele e então vai embora novamente. De novo e de novo. E aqui estamos nós, as vítimas. — Eu não sou vítima de ninguém. Aladdin fez o seu caminho para o lado da menina e está conversando em seu ouvido, cruzando os braços musculosos para seu benefício. Eu não posso evitar e reviro os olhos. — Ela é bonita, — diz Dal. — E ela é durona. Mas ela não é o que ele quer. Não que ele vá acreditar até depois dele a ganhar. — E o que ele quer? — me viro e enfrentar a garota servindo. — A mesma coisa que todos nós queremos. Ele só não vai admitir isso. — vejo desejo em seus olhos, e também raiva, quando ela olha para Aladdin. — A liberdade do passado. Eu assisto o ladrão, pensativa, meu rosto amolecendo. A menina no ringue diz alguma coisa, e Aladdin ri, seu sorriso ilumina seu rosto. Ele se inclina e sussurra no ouvido dela e ela balança a cabeça, em seguida, pega a mãodele e timidamente desce do ringue, se esquivando dos admiradores. Dal suspira e balança a cabeça tristemente. — Eu dou quatro, talvez cinco dias - ei! Aonde você vai? Deixe-o ir, irmã! Não vale a pena! Eu deslizo sob a corda e vou ao ringue, ignorando-a. Você não sabe nada sobre isso, irmã. Eu sou a última pessoa no mundo que está interessada em Aladdin. O que eu estou interessada é no que está perto o suficiente dele para que eu não seja incoveniente sugada de volta para a minha lâmpada. Eu luto por entre a multidão, tentando alcançá-lo, mas uma briga irrompe entre dois jogadores, e eu sou derrubada no chão. Em vez de tentar me levantar e tentar alcançar Aladdin, eu calmamente viro um gato amarelo e corro por entre as pernas das pessoas até que eu o alcanço. Se alguém me

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vir, eles provavelmente vão atribuir isso a muito simmon. Eu tenho certeza que coisas estranhas têm sido alucinantes nesse antro de suor e barbárie. Aladdin e a menina escapam para a rua felizmente tranquila, onde eles riem e andam pelas sombras. Em um dos edifícios próximos, um bebê chora e um cão late em resposta. O cheiro de carne assada e especiarias fortes flutuam de uma janela acima de nós. Embora a multidão nos ringues, seguramente, ainda grita e aplaude, nenhum som escapa através das largas pedras debaixo dos nossos pés. Eu corro em todos os becos, a cauda alta e ouvidos atentos a cada som - ao tentar bloquear o som de Aladdin e sua nova amiga, que estão rindo e cochichando.Eventualmente, eles param e olham um para o outro, a menina pega as mãos de Aladdin e o puxa para perto. — Qual é seu nome? — pergunta ela. — Primeiro me diga o seu. — Aladdin. — Eu ouvi falar de você. — ela sorri e corre as mãos pelo seu peito. Aladdin está embriagado, mas não só do vinho. Ele se inclina para frente, até que ela enconsta na parede e ele inala o aroma de seu cabelo. — Sério? E o que você ouviu? As mãos dela se movem para traçar o queixo e os lábios dele. — Que você é corajoso e que você é o melhor no que faz. Que você, — ela planta um leve beijo no canto de sua mandíbula, — roubou algo valioso do príncipe Darian. Ele faz uma pausa, seus lábios escovando os cabelos dela. — E onde você ouviu isso? — ele murmura. — Você sabe como nós meninas somos. Sempre fofocando. — Sobre mim? — ele sorri. Ela ri e levanta o rosto dela, seduzindo-a com os lábios, mas quando ele move a boca para a dela, ela vira o rosto e diz em um tom completamente diferente, — Finalmente. Levem ele, meninas. É ele. Antes que eu possa fazer um movimento, um pequeno grupo de ~ 53 ~


meninas aparece a partir do beco atrás de Aladdin, e um saco preto é jogado sobre sua cabeça. A menina tinha estado tão perto de beijá-lo. Eu as reconheço, são as espectadoras silenciosas nos ringues. — Que vergonha, — suspira a líder. — Eu acho que ele teria sido um bom beijador. Em seguida, ela e as outras o arrastam da rua para a escuridão.

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C Sou capaz de me transformar em um pardal e voar. Começo a seguir as meninas quando elas se apressam pelas ruas, carregando o corpo inconsciente de Aladdin entre elas. A menina do ringue assume a liderança, e, silenciosamente, elas trabalham em direção ao sul, virando a lado das ruas e evitando áreas iluminadas e povoadas. Por agora, eu estou escondida nas sombras silenciosamente, esperando para ver o que elas vão fazer. Para ser honesta, estou um pouco brava com Aladdin no momento e não muito inclinada a me precipitar e salvar a sua pele embriagada. Viu o que acontece se beijar meninas estranhas em becos escuros? Eu quero dizer a ele. As meninas param para descansar depois de vários minutos, deixando Aladdin cair pesadamente no chão. Eu subo em uma fenda acima delas e ouço. — Quanto mais? — uma pergunta. Através do véu, a voz é alta e feminina. — Nós mal chegamos a lugar nenhum, — responde outra. — Minhas costas estão me matando! — Eu vou te matar se você não parar de reclamar, Ensi. — Nada de nome! — retruca a líder. — Ninguém está escutando! — protesta Ensi. — Olhe ao redor estamos sozinhas! — Alguém está sempre escutando. Então, fiquem em silêncio, e vamos nos manter em movimento.

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As meninas suspiram e levantam Aladdin novamente, duas com seus braços, duas com suas pernas. Vigas expostas acima delas fornecem poleiros para eu voar sobre elas. — Ele é mais pesado do que parece, — uma se queixa. — São todos estes músculos, — diz Ensi, rindo. Ela está segurando um de seus braços, e ela aperta seu bíceps em apreciação. — Você não nos disse que ele era tão bonito. Que pena ter que colocar um saco na cabeça dela. E você o tinha envolvido em torno de seu dedo! — Shhhh! — sua líder se vira e põe um dedo com força nos lábios, indicando silêncio. De repente, uma sombra cai na frente delas e as meninas param. A sombra sobe e desce de seu capuz; é outra menina, ela é alta e ágil, carregando um arco flexível. — Raz! — grita Ensi. — O que é? Ela relata: — Guarda em frente. Muito tarde para correr. Ajam de modo casual. As meninas amaldiçoam, descem Aladdin grosseiramente, rolam ele na sarjeta, e então se inclinam contra a parede, escondendo-o com os seus mantos. Eu pouso na borda do telhado acima delas, o vento fresco da noite agitando minhas penas. Do meu poleiro, eu posso ver ao redor da curva da estrada, onde os guardas estão caminhando na direção das meninas. Há seis ao todo, vestindo armadura e capacetes pontiagudos. Quando eles estão na esquina, as meninas olham para os seus pés. Se casual é a intenção, elas não estão fazendo um trabalho muito bom. Cinco meninas, vestidas da cabeça aos pés de preto, de pé silenciosamente na sarjeta não é exatamente uma visão comum a qualquer hora, muito menos no meio da noite. E, de fato, os guardas param quando eles tentam identificá-las. — Você aí, — chama um. — O que está acontecendo? Vocês não sabem que há um toque de recolher? — Estamos indo para casa, — diz a líder das meninas, mantendo os olhos desviados.

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Os guardas, em vez de andar em diante, se reúnem em torno delas, rindo e cutucando uns aos outros. — E onde é está casa? — pergunta o primeiro. — Casa de prazer de Madame Padyme, talvez? Seus companheiros riem, apreciando, seus olhos brilhando com interesse. O grupo de meninas mais próximas se movem sutilmente, os dedos envolvendo em torno das armas escondidas. Atrás deles, Aladdin geme. O guarda inclina a cabeça. — O que vocês têm aí, hein? — Não é da sua conta. — Líder das meninas levanta o queixo, dando um passo para frente e olhando para o guarda. Ele só ri. — Diga, senhoras. Vamos fazer um acordo. Vamos dar a vocês a oportunidade de nos persuadir a não prendê-las por comportamento suspeito. O que vocês dizem? Ensi anda até ele e corre o dedo em seu peito. — Bem... eu diria que é muito generoso da sua parte. Ele passa a língua através de seus lábios, e ele serpenteia uma mão ao redor da cintura dela - só para tê-la ao seu alcance e ela arremessa a mão para ele, uma explosão de pó azul que atinge seu rosto. Ele cai imediatamente. Ensi já tem mais um punhado do material pronto, pego a partir de uma bolsa em seu cinto. As outras meninas se movem e colocam uma flecha em seu arco. Todas elas puxam véus em seus rostos, se protegendo contra o pó que Ensi joga. Os guardas se assustam apenas por um momento, retiram as suas espadas, mas as meninas já estão atacando. Elas se movem com precisão mortal. O pó envenenado de Ensi derruba outro guarda, enquanto a líder e uma terceira menina deixam mais dois inconscientes com os punhos das suas adagas. No começo eu não posso dizer como a quarta menina é melhor que seu oponente - mas então eu vejo: uma cobra amarela-e-branca enrolada em seu braço. Sua vítima espuma pela boca, os olhos rolando em sua cabeça enquanto ele cai, uma mão apertando a mordida em seu pescoço. O último guarda se afasta, o rosto branco. — Eu - eu sou novo nisso. Eu nunca quis - por favor, — ele se vira e ~ 57 ~


foge. A líder acena para a arqueira. — Não o matem. Eles estão apenas fazendo seu trabalho, por mais condenável que seja. Raz acena e prepara outra flecha. O homem está a vinte passos de distância quando ela atira. A flecha atinge o capacete, derrubando-o antes de desviar inofensivamente. Ele bate a cabeça nas pedras e cai. A luta acabou antes de começar, sem um único guarda dar um golpe. As meninas se limpam rapidamente, indo para trás de uma pilha de barris entre dois edifícios, onde elas provavelmente ficarão despercebidas até o amanhecer. Ensi administra algumas gotas de líquido claro para aquele com a picada de cobra. — Ele vai viver, — diz ela. — Mas ele não irá visitar suas casas de prazer tão cedo. — ela cospe sobre ele, então ri. A líder delas suspira e cutuca Aladdin com a ponta da bota. — Bem, não exatamente como eu esperava que as coisas fossem. Nós vamos ter que nos apressar.

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Ensi, cujo estoque de poções e pós parece impressionantemente completos, acorda Aladdin com uma pequena garrafa de líquido branco que ela segura sob seu nariz. Ele acorda com um grito e começa a tossir. As meninas estão em um círculo ao redor dele, suas expressões sombrias. Depois de sua breve luta com os guardas, elas levaram Aladdin através da cidade, até um armazém velho perto da parede sul. Lá dentro repousa o casco parcialmente construído de um navio, mas a julgar pelas teias de aranha sobre ele, ninguém tocou em todo esse tempo. Ele está de cabeça para baixo, como a caixa torácica de uma baleia. As meninas jogam Aladdin de joelhos no chão, as mãos amarradas atrás dele. Me sento nas proximidades, sob a forma de um gato preto com olhos verdes, observando. A luz ainda está escondida, mas quem sabe por quanto tempo. Estou começando a me sentir um pouco esgotada. Primeiro o príncipe no deserto, agora essas meninas que são assassinas ou sei lá o que – eu

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reflito sobre o ladrão: meu tempo com ele tem sido tudo menos monótono. Aladdin pisca e geme, a cabeça virando. — Deuses... o que...? Ele se concentra nos rostos ao seu redor, confusão enrugando os cantos dos olhos. Elas o observam à luz das tochas enquanto ele torce as mãos atadas, seus dedos roçando a lâmpada escondida. — O que... quem nos céus negros são vocês? — Nós vamos ser as únicas a fazer perguntas, ladrão, — responde a líder das meninas. Os olhos dele percorrem a sala penetrante, e eu corro suavemente para fora das sombras. Quando ele me vê, ele levanta uma sobrancelha, e eu pisco lentamente em resposta. — Oh, olhe! — Ensi chora, seguindo seu olhar. — Um gato! Aqui, docinho! — ela se inclina para baixo e estende a mão, e eu corro para ela e esfrego contra seu tornozelo, ronronando quando ela me pega e coça minhas orelhas. Aladdin revira os olhos apenas ligeiramente. Eu assobio para ele. A líder remove seu capuz e puxa sua trança por cima do ombro. — Você é Aladdin, filho de Mustapha, o alfaiate, não é? — Termine aquele beijo que você estava prestes a me dar e eu posso te dizer. — ele inclina a cabeça, estudando-a com fascinação. — Eu me lembro de ter ouvido que o seu pai era rebelde, — ela responde, puxando os olhos de Aladdin de volta para ela. — Quando criança, eu admirava sua coragem, embora meus pais muitas vezes amaldiçoassem o seu nome. Ele a observa de perto, os cantos dos lábios virando ligeiramente para cima, como se se divertisse. — Você acabou com o Touro como se ele fosse do tamanho de uma cabra. Quem é você? Por que eu não tenho ouvido falar de você antes? A menina se agacha na frente de Aladdin, puxando uma adaga e girando-a enquanto ela o encara. — Algumas semanas atrás, eu contratei você para roubar uma coisa. E agora eu quero. — O quê? — ele olha em volta para as meninas, confuso. — Olha, eu não sei o que você está falando. Eu nunca te conheci antes. E eu certamente não roubei nada-

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A menina pressiona o punhal na bochecha de Aladdin, e ele endurece. — O anel, — diz ela suavemente. — Cadê? Aladdin levanta uma sobrancelha. — Não me diga que você trabalha para Xaxos. Eu definitivamente já ouvi falar de você, se sim. — Eu não trabalho para Xaxos, — ela responde, baixando o punhal. — Xaxos trabalha para mim. Ele digere isso em silêncio, choque virando ceticismo. — Você está dizendo que você é o Phoenix? Você é o rebelde misterioso que libera os prisioneiros e parou uma praga? — A ajudamos, — diz Ensi, fazendo beicinho. — Eu não sei por que eles não poderiam nos chamar de as Phoenix. Eu sou a única que fez todas essas pequenas garrafas de remédio, lembra? — Silêncio, Ensi, — diz a líder. Para Aladdin, ela responde: — É complicado, certo? Mas eu sou a única e Xaxos trabalha para mim, e eu sou a única a quem você tem que responder por não dar esse anel! — A Phoenix, — Aladdin repete, balançando a cabeça um pouco. — A Phoenix. Será que Xaxos sabe que você é uma menina com metade da idade dele? — ele ri. — Eu adoraria ver a cara dele— Quanto tempo isso vai levar? — a arqueira pergunta de repente. — Eles vão perceber que estamos fora. — Há maneiras mais rápidas de interrogar alguém, — diz aquela com a cobra. Ela abre sua capa e a víbora aparece por seu braço, a língua cintilando. Eu endureço nos braços de Ensi, meus pelos subindo. A cobra levanta a cabeça e olha para mim; animais nunca são enganados por disfarces de gênios. — Silêncio, Khavar, — a líder está dizendo. — Raz vai ficar de fora, no caso de qualquer guarda ficar curioso. Acenando, a arqueira vai para a porta, carregando seu arco por cima do ombro. Khavar continua olhando para Aladdin, ela tem a cobra enrolada em torno de seu braço e descansando a cabeça na parte de trás da sua mão. Aladdin engole em seco, seus olhos fixos no réptil. — Olha, mesmo se o que você diz é verdade, eu não tenho o anel. Talvez Xaxos não passou a

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mensagem, mas eu nunca tive isso para começar. Não que eu não tentei. — ele ri e levanta um ombro. — Eu sou o melhor ladrão— Você está mentindo. — a líder se levanta e cruza os braços. — Duas noites depois que eu pedi a Xaxos para contratar um ladrão para roubar o anel, Darian cavalgou como um louco no meio da noite, seus melhores soldados com ele. Ele não foi visto por dias. Há apenas um objeto que ele iria tão longe para recuperar. Você roubou o anel e agora você vai me entregá-lo. — O que você quer com ele? — ele pergunta. — Quem é você? Uma revolucionária? Uma ladra? Qual o seu nome? A menina só olha para Aladdin, sua testa enrugada. Ela parece vacilar por um momento, então ela olha para uma de suas meninas e acena. — Nessa, diga a ele. Nessa, o mais quieta do grupo, passa por trás da líder e pronuncia em voz baixa, — Aladdin rai Mustapha, pague seus respeitos à filha de seu rei, sua princesa, e seu soberano, Caspida nez Anadredca de Parthenia, herdeira do trono, A joia de Amulens, a Bem-Amada dos Deuses e a Filha da dinastia Anadredcan. Assustada, eu olho com novos olhos de Caspida. Eu conheci um Anadredca antes: Rainha Roshana Mithraya nez Anadredca. Esta menina é a sua descendente, Habiba. Sua herdeira. Poderia ser, depois de tudo o que aconteceu naquele dia, que sua linhagem vivesse? Que a sua pequena filha foi salva da destruição e contrabandeada para fora de Neruby e coroada em meio às ruínas de seu império? Aladdin fica muito quieto, os olhos ilegíveis - mas eu vejo mais do que com meus olhos. Meu sexto sentido pega ondas de choque e raiva rolando dele. — Você quer dizer ela? — pergunta ele lentamente. — A garota que eu beijei? — Quase beijou, — corrige Caspida. — Ela é a sua futura rainha! — Khavar responde e com o pé, ela o empurra para frente, fazendo-o cair. — Mostre mais respeito. — Khavar! Suficiente. Caspida levanta a mão. — Afaste-se.

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Khavar atira a Aladdin um olhar sombrio, enquanto ela se afasta. Ele luta sobre os joelhos, o rosto pálido. Ele olha para Caspida com os olhos arregalados. E então ele ri dos olhares atônitos das meninas, sua voz ecoando através do armazém. Raz passa a cabeça pela porta e só então é que ele para, tossindo um pouco. — Desculpe Princesa. — ele traz as mãos para frente, e as cordas que haviam ligado seus pulsos caem para o chão. Khavar começa a avançar ameaçadoramente, mas Aladdin levanta uma mão. — Calma aí, olhos de serpente. Eu não vou fugir. Virando-se para Caspida, ele pergunta: — O que está acontecendo aqui? Eu deveria acreditar que você é uma espécie de rebelde, apenas para descobrir que você é uma real? — ele aponta um dedo em direção à porta. — Há pessoas lá fora que deixam oferendas nos templos em nome da Phoenix. Eles acreditam que você é uma guardiã, uma salvadora. Eles cantam seus louvores, usam o seu símbolo - mas eles não têm ideia de que você é uma deles um dos mesmos governantes opressivos de quem eles acham que você está os protegendo! — Eu nunca disse ser uma salvadora, — ela retruca com frieza. — E acredite em mim, eu gostaria de poder dizer a verdade. Mas nem todas as batalhas podem ser combatidas à luz. Aquelas pessoas lá fora são o meu povo, ladrão e eu vou lutar por eles. Phoenix é a única maneira que tenho. No momento que eu sair das sombras, meu tio vai saber e eu nunca poderei fazer isso novamente. Aladdin, eu estou do seu lado! Porque você acha que eu pedi a Xaxos para te contratar para roubar a chave? Eu tinha ouvido falar que você era um grande ladrão, sim, mas eu pensei que de todas as pessoas, você entenderia a minha causa. — Bem, eu acho que você não me conhece bem o suficiente, — diz Aladdin sombriamente. — Eu não sou meu pai. Eu não sou algum tipo de rebelde ou líder. Eu aceitei o trabalho de Xaxos por dinheiro, nada mais. — Chega, — suspira Caspida, levantando a mão. — Ladrão, o anel que você roubou pertence a mim. É posse da minha família por centenas de anos, indo todo o caminho de volta para minha ancestral Roshana, a Sábia. A pele arrepia sobre as minhas costas e recebo um tapinha de Ensi. Você não tinha esse anel, Habiba. Certamente eu teria sabido se você tivesse um talismã tão poderoso em sua posse - especialmente aquele destinado a liderar o portador para mim. Meu interesse neste anel expande

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dez vezes, e eu desejo intensamente que não tivesse sido perdido. — Isto está levando tempo demais, — diz Khavar. — Basta procurar! — Eu vou fazer isso! — Ensi fala, seus olhos se iluminando. — Tudo bem, tudo bem! — Aladdin se afasta de suas mãos. — Eu roubei o anel! Ensi se afasta com pesar, e os olhos de Caspida se afiam. — Continue. — Eu roubei e eu tinha absolutamente a intenção de dar a seu homem Xaxos. Mas... eu o perdi no deserto. Ela franze a testa. — O que você estava fazendo no deserto? Ele faz uma pausa e mastiga o lábio, estudando-a um momento antes de responder. — Princesa, você já usou o anel? Ela hesita. — Uma vez. — E o que você sente? — Sinto? Nada. Por que você pergunta isso? — Quando eu coloquei... ele meio que falou comigo. Não em palavras, realmente, mas... como uma espécie de corda puxando um cavalo. Ele me levou para o deserto, como se quisesse me mostrar alguma coisa. As meninas estão extasiadas, se inclinando mais perto. Suas tochas dançam nas sombras sobre seus rostos. — E aí? — pergunta Ensi. — O que você achou? Ele dá de ombros. — Nada. Simplesmente parou. Como se ele tivesse alcançado o que quer que estivesse me puxando em direção. Mas não havia nada lá, exceto algumas ruínas antigas. Talvez nunca houve ali qualquer coisa. De qualquer forma, Darian me alcançou, em seguida, o tomou de volta. Ela franze a testa, perplexa. — Você quer dizer as ruínas de Neruby, a antiga capital Amulen. Mas o lugar está vazio, eles dizem ser assombrado por gênios. Você tem certeza de que não havia nada? — Só areia e torres quebradas. — ele inclina a cabeça, seus olhos brilhando com as tochas. — O que você acha que aconteceu lá? ~ 63 ~


Ela olha em volta para cada uma das suas meninas, depois de volta para Aladdin, os olhos cheios, como se ela estivesse pensando se devia ou não contar a ele. — Eu não sei, — diz ela finalmente. Ela é um boa mentirosa e eu quase perco a elevação em seu batimento cardíaco e a menor pausa antes dela falar. Mas eu não posso ver em seus pensamentos para dizer se ela realmente sabe sobre o anel e sobre a lâmpada. Será que ela sabe quem eu sou ou que ela e eu estamos ligadas através de Habiba, seu poderoso ancestral? Inquieta, eu olho mais atenta a ela e suas amigas, tentando discernir qual é o objetivo delas. As meninas são todas Amulen, ao que parece, com exceção da quieta que escuta e diz pouco. Nessa, com sua pele e cabelo escuro, é Tytoshi, a julgar pela sua aparência e sotaque, embora por seu vestido efluente Amulen, ela esteve em Parthenia por um tempo. Seu cabelo é trançado em dreadlocks, em cada ponta uma prata endurecida que tilinta musicalmente quando ela se move. Apenas a realeza usa prata em seus cabelos; ao contrário de todo mundo que estão inclinados em bronze ou cobre. O que uma princesa Tytoshi está fazendo tão ao norte? Então eu detecto algo escondido debaixo de seu manto negro. Para obter um olhar mais atento, eu pulo no ombro de Ensi, em seguida, salto para Nessa. Surpresa, ela me leva em seus braços e acaricia minha cabeça. Eu cheiro debaixo da capa e pego o cheiro da flauta que ela carrega em seu quadril, em seguida, recuo, assobiando. — Você está machucando! — diz Ensi, me pegando de volta. Está tudo bem. Eu descobri o que eu precisava saber. Isso não é uma flauta comum, Nessa não é nenhuma menina ordinária. Ela é uma encantadora de gênios, capaz de hipnotizar o meu tipo com essa flauta, incrustada com glifos Eskarr e nos prender em garrafas. A olho com desconfiança e sei mais do que nunca, temos que fugir, e rápido. Porque agora eu sei onde Zhian está.

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C Aladdin se afasta, Caspida faz sinais para suas meninas, e elas se reúnem ao redor dela, fora do alcance da voz de Alladin. — Você acredita nele? — pergunta Ensi em um sussurro, enrolando a minha cauda em torno de seu dedo. — É claro que ela não acredita nele, — interrompe Khavar. — Ele é um ladrão. Sua própria natureza é desonesta. — Eu não tenho certeza se eu acredito nele, — diz Caspida lentamente, correndo o dedo cuidadosamente sobre a lâmina de sua adaga e olhando por cima do ombro para Aladdin. Ele está com suas mãos nos bolsos, tentando parecer inofensivo. — Afinal, onde está Darian? Como o ladrão escapou do meu primo e seus homens e conseguiu chegar à cidade antes deles? Alguém ouviu falar de Darian na semana passada? Ensi balança a cabeça. — Eu tenho interceptado todas as mensagens enviadas por pombo, e nada tem haver com o príncipe. — E sobre meu tio? Sulifer fez contato com ele? — Não que eu saiba. O vizir raramente deixa as câmaras do conselho e mantém em segredo os negócios. — Você estava certa no início, Khavar, — suspira a princesa. — Nós nunca deveríamos ter contratado um terceiro para roubar o anel de volta. Eu deveria ter feito isso sozinha. — Sulifer te observa muito de perto, — diz Ensi. — Você nunca teria saído e se você tivesse sido pega, as consequências teriam sido gigantescas. Falando nisso, nós realmente devemos retornar ao palácio. A cobra de Khavar recua e sibila para mim e eu assobio em troca. Khavar pega a cabeça e a empurra de volta em sua capa. — É

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realmente uma coisa ruim, Darian sumir? Eu não vou derramar uma lágrima se ele nunca aparecer novamente. Pense nisso, Cas. Você não teria que se casar com ele. — Eu duvido que ele vá tão fácil, — responde Caspida. — E por mais que eu deteste meu primo, eu não desejo a morte para ele. — ela faz uma pausa, em seguida, acrescenta: — Uma cela nas masmorras com ratos para lhe fazer companhia, talvez. Mas não a morte. — ela suspira e esfrega a ponte de seu nariz. — Nós deveríamos ter destruído o anel há muito tempo. — Nós não poderíamos saber que Darian iria roubá-lo, — responde Ensi. — Tinha ficado em segurança por centenas de anos. Isso não é culpa sua, Cas. — O anel de Roshana era meu para proteger, — ela responde sem rodeios. — Eu não quero conforto. Eu quero que ele seja encontrado e destruído. Eu não sei o que ele faz, mas eu sei que ele está ligado aos gênios, e isso nunca é uma coisa boa. — Nós realmente deveríamos voltar para o palácio, — diz Nessa. — Nós já demoramos muito tempo. — E sobre o ladrão? — pergunta Khavar. — Nós não podemos levá-lo conosco. — Interrogue ele, — diz Caspida. — Apenas no caso de que ele esteja mentindo. Aladdin, que ouviu este último pronunciamento, me lança um olhar horrorizado, mas eu já estou em movimento. Eu salto para fora dos braços de Ensi e saio correndo para as sombras, me transformo e por um momento estou fora da vista. Tenho apenas alguns segundos antes de procurar Aladdin e encontrar a lâmpada. Eu não posso imaginar a princesa Amulen sendo tão mente aberta sobre a minha presença como Aladdin tem sido, não quando ela tem uma própria serva que é encantadora de gênios que provavelmente tem Zhian preso. Eu me desfaço através de uma rachadura na parede e me recolho do lado de fora, então não perco tempo em levantar um terrível bastão. Eu bato contra o armazém e grito com uma voz masculina profunda: — Quem está aí? Apareça! Raz, vigiando, corre para dentro alertando as outras. Eu me

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transformo em vento e explodo a porta que se abre e vejo que as meninas se foram, assustadas com o barulho e desaparecendo na cidade escura com passos suaves, apressados. Aladdin está sozinho, intocado. Ele dá um tapinha na lâmpada. — Bom trabalho, — diz ele. — Eu não me importaria em ter você comigo quando eu procurar um emprego. — Se você me tem ao seu lado, — eu respondo secamente, — você não precisa procurar emprego. — Bom ponto. Aladdin vai para a porta olhando para a noite, a sua estrutura rígida. Ele é uma corrente escura debaixo de um mar calmo. Eu viro novamente uma menina, vestida de seda preta com pequenas flores brancas polvilhadas no meu cabelo. Enquanto espero que ele fale, eu preguiçosamente evoco os braceletes nos meus pulsos, cada um inscrito com um verso das ‗Músicas de Roshana‘, o poema escrito em honra de seu décimo nono aniversário dos poetas mais conceituados do mundo. Roshana Mithraya, Brava Rainha, Cavalgou para a guerra nas asas de um gênio, Roshana Mithraya, justa e corajosa, empunhava uma espada de aço e ouro. Seus inimigos que olharam para ela juraram Por amor ou medo, que eles lutariam mais. A princesa é intensa em meus pensamentos. Depois que você morreu Habiba, alguém muito corajoso deve ter levado sua filha recém-nascida para fora de Neruby antes que os gênios destruíssem a cidade. Sua linhagem vive, e seu espírito também, ao que parece; esta Caspida é impetuosa como você era. O que ela pensaria de mim se ela soubesse quem eu era? Minha velha culpa se esconde lá no fundo, como um lobo em uma caverna, e eu olho em direção ao palácio, na zona norte, brilhando como uma pérola sob as estrelas. Agora ela luta contra os gênios. Ela até tem seu próprio encantador de gênios ao seu lado. Eu não sei se Nessa é a mesma encantadora que ~ 67 ~


engarrafou Zhian, mas encantadores são raros, e não pode haver muitos outros na cidade. Então parece que o melhor lugar para começar a minha busca é no palácio real. Mesmo que ele não esteja escondido lá, talvez eu possa encontrar uma pista sobre o seu paradeiro. Mas, primeiro, eu preciso de um jeito de ir para o palácio. Eu estudo o meu mestre, pensativa. Aladdin se agita, se virando para olhar para mim por cima do ombro, seus dedos dançando na lâmpada. — Phoenix é a princesa, — ele murmura. — E eu estou falando com um gênio. Deuses, esta noite está ficando cada vez mais estranha. Ele avança, andando pela rua escura como se estivesse em um nevoeiro. Passamos por armazéns, carpintarias e lojas fechadas. Um cão atropela Aladdin em seu caminho, levantando suas penugens e rosnando para mim, não se deixando enganar pelo meu disfarce humano. Passamos os portões da cidade, fechado a noite. Eles são iluminados pela luz alaranjada dos enormes braseiros suspensos ao alto, e os guardas estão vigiando ao longo da parede. Aladdin dá a volta, permanecendo escondido nas sombras. Eventualmente nós chegamos ao centro da cidade, onde o rio corre em um canal de pedra cortada. A água flui profunda, rápida e escura, seus bancos afiados com muros baixos de tijolos retangulares. Das grades colocadas no canal, o escoamento dos esgotos das casas se derramam no rio, se juntando a louca corrida para o mar. Aladdin para no centro de uma ponte em arco, com grandes e suaves tabuas apoiadas por estátuas esculpidas. Ao pé de cada escultura, pequenas ofertas foram deixadas. Velas, flores, bonecas feitas de palha, cada um representando uma oração. Ao pé da Nykora estão dez vezes mais ofertas que as outras e há tantas velas acesas que ela parece brilhar. A grade acima dela vibra com fitas e fios de miçanga. Nykora é uma deusa dos oprimidos e pobres, e sua marca é uma phoenix. Aladdin pausa diante de sua estátua por vários minutos, as mãos nos bolsos. Seu rosto é suavizado pela luz de velas. Sua capa, esfarrapada e remendada, agita com a brisa que varre rio acima. — Ela realmente é a Phoenix. E eles a adoram. — ele levanta o rosto e

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olha para mim. — Não me lembro da última vez que eles amaram alguém. Até meu pai era odiado por muitos, vivia se metendo em problemas. Ao longo do parapeito oposto crescem videiras grossas com flores de lua branca. Eu me inclino e olho para o rio correndo abaixo, acelerando para as falésias, onde se derrama no mar à espera, como uma noiva apaixonada correndo ao encontro do seu noivo. Aladdin se afasta do pequeno santuário e se junta a mim, os ombros curvados, pensativo. — Quando eu era um menino, — diz ele em voz baixa, — eu costumava ficar nesta ponte com o meu pai. Fizemos pequenas embarcações de madeira, e ele costurou velas para elas. Nós caímos na água, em seguida, corremos ao longo da margem para ver quem deixava à cidade primeiro. Uma vez que escorreguei e cai, meu pai saltou para me salvar. Ele não poderia nem mesmo nadar. Eu não sei como ele conseguiu. Mais tarde, ele me disse que a deusa Nykora deve ter nos puxado para fora do rio. — ele se vira e olha para o santuário. — Deixamos um pequeno barco ali como uma oferta de agradecimento. Mas eu nunca acreditei em Nykora. As pessoas se lembram do meu pai como um herói que provocou incêndios e liderava marchas. Me lembro dele como um herói por causa daquele dia no rio. Virando-se para mim, ele diz, — Eu não sou um herói, Zahra. Eu não sou meu pai. — ele se afasta e puxa algo de sua manga. É um dos punhais da princesa, seu punho esculpido em lírios delicados. Como ele conseguiu roubar dela, eu não posso imaginar. — Na noite em que eu escapei para dentro do palácio para roubar o anel, eu carregava um punhal assim. Muito mais simples, é claro, mas o mesmo comprimento e peso. — ele o equilibra em seu dedo. — Depois de roubar o anel, eu escapei das salas de Sulifer. Eu estava sobre o vizir, enquanto ele dormia e considerei usar a lâmina, e tentei até ter a coragem de cortar sua garganta. Aladdin suspira e impulsiona o punhal na grade. O punho treme. — Talvez eu seja um covarde. Mas eu não pude vingá-los. Quando o anel começou a me conduzir, eu sabia que deveria ser encantado. Eu pensei se ele era tão valioso para o príncipe a ponto de ele mantê-lo trancado em seu próprio quarto, então talvez eu pudesse me vingar roubando tudo o que pudesse levar de lá. Quando isso acabou por ser você, eu pensei, bem, aqui está a minha chance. Posso apenas desejar vingança. Mas, como se vê, sou covarde demais até para isso. — Covarde não é a palavra que eu usaria, — eu digo suavemente. ~ 69 ~


Ele encolhe os ombros e ergue a adaga. — E agora há esta princesa. Toda a minha vida achei que ela era como os outros membros da realeza - egoísta e mimada. Ela está noiva de Darian, afinal de contas, e seu pai, o rei, que dizem ser viciado em dinheiro não desperdiçaria isso por nada. O tio dela executou os meus pais. — ele segura o punhal e olha para seu reflexo na lâmina. — Mas agora ela diz que é a Phoenix, que ela está do nosso lado. O que eu devo fazer com isso? — Nem todo mundo é o que parece. Seus olhos se voltam para mim. — Como você? Eu levanto uma sobrancelha. — E o que eu deveria ser? Aladdin me estuda, e me sentindo subitamente tímida, eu me afasto. Eu arranco uma flor e puxo as pétalas para fora uma por uma, deixando-as cair no rio. — Você parece triste, — diz ele finalmente. — E só. Soltando a haste da flor, eu sorrio. — Você não sabe nada sobre mim. Ele dá de ombros, ainda me observando de perto. — Eu não acho que você é igual aos gênios que eles contam. Eu acho que há mais na sua história. Você realmente matou aquela rainha? Eu não acho que você fez. Um pouco assustada, eu encontro o seu olhar. — Eu a matei. Eu sou um gênio, Aladdin. Nunca pense que eu sou nada além do que alguém insensível. Ele olha para baixo, uma de suas mãos se movendo mais perto, até que a parte de trás de um dedo vem para descansar no meu pulso. Eu fico olhando para ele, incapaz de respirar. Minha pele aquece sob esse contato suave. — Você já salvou minha vida duas vezes. Isso não parece ser insensível. Me afastando rapidamente, eu deixo cair minhas mãos para fora de seu alcance. — Você não tem que dizer isso. Ele franze a testa, retirando sua mão. — Talvez eu queira. Até mesmo um ladrão pode ter honra, e até mesmo um gênio pode ter um coração. O rugido do rio enche meus ouvidos. Evitando seu olhar, eu atravesso para o outro lado da ponte, olhando para o norte na sombra escura do

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Monte Tissia. Eu me esforço para engolir o nó na garganta. Preciso de um plano. Um plano para entrar no palácio. Um plano para esfriar as brasas do toque de Aladdin me dando vida. Me virando, eu o encontro me observando, cauteloso e curioso. — Você deve fazer um desejo. No mesmo instante ele se vira, cético. — O quê? Uma parte de mim me odeia por alimentar sua obsessão. Essa parte minha quer dizer que ele é assombrado pelos mortos, que eu sei como é isso, que eu tenho bebido o veneno muitas vezes. Estou enojada com isso até agora. Mas eu não faço isso, porque eu sou um espírito egoísta, e olhando para a lua morrendo, eu posso quase sentir o vínculo entre mim e a lâmpada se agarrando de uma vez por todas. — A princesa, — eu digo. — Ela é a herdeira do trono, certo? Quem se casar com ela vai ser o homem mais poderoso do reino. — me viro e olho para a estátua de Nykora. — Ele poderia fazer o que quisesse. Ele iria comandar o vizir, os militares, os guardas aqui na cidade... Eu encontro o seu olhar e seu corpo fica tenso como um arco. — É isso, você não vê? Você não tem que matar ninguém, mas você ainda pode conseguir sua vingança. Posso te ajudar. — O que você está dizendo? — pergunta ele. Eu sorrio e me inclino para sussurrar, — Eu posso te levar para dentro do palácio. Posso te dar o poder, riqueza e títulos. Eu posso te ajudar a vencer a princesa, e ao fazer isso, ganhar a sua vingança. O que irritaria Darian mais do que ver seu inimigo levar sua noiva? O que seria mais doce do que ver estes vizir serem forçados a se curvar diante de você, seu príncipe? Aladdin prende a respiração, e eu posso ver que ele está pensando nisso. Não é a primeira vez que eu me sinto verdadeiramente monstruosa. Eu sempre odiei os gênios por serem cruéis e egoístas. Você se lembra de como eu já disse que eu não era como eles? Mas eu sei que no espaço onde eu não tenho um coração que eu não sou diferente. Eu sou um gênio muito bom, e isso é uma coisa muito ruim. ~ 71 ~


Mas a liberdade, Habiba... pela liberdade, eu poderia me tornar qualquer coisa. Me aterroriza pensar no quão longe eu iria por isso. Mas eu nunca quis tanto uma coisa antes, então eu engulo a minha consciência e aceno, encorajando o meu mestre. — Poderia funcionar, — diz ele em voz baixa. — Zahra, você é brilhante. Eu endireito minhas mãos, começando a formigar. — Então, diga as palavras. Aladdin faz uma pausa, respira, se preparando. Quando ele fala, sua voz queima com convicção. — Zahra, eu gostaria de ser um príncipe.

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Como elas muitas vezes faziam no final da tarde, quando o sol estava se pondo e os dias estavam nebulosos, a Rainha e o gênio caminharam juntas à sombra dos jardins das joias no coração do palácio, que a Rainha tinha pedido ao gênio fazer para ela. Elas falaram de muitas coisas, de guerras e governantes do passado, de terras longínquas, dos deuses e dos gênios. Pois o gênio tinha vivido muito tempo e visto muito, e a Rainha, possuindo uma mente perspicaz, tinha muitas perguntas. Por fim, a rainha disse: — Tu te tornastes uma amiga semelhante a uma irmã para mim. Eu sou a favor não só do teu conselho, mas da tua companhia. Posso te perguntar uma coisa? E o gênio respondeu: — Eu tive muitos mestres, mas nenhum como você, ó Rainha. Estou honrada de ser tua amiga, e certamente eu vou responder o que quer que me pergunte. — Então o que te incomoda? — a rainha perguntou. — Porque eu conheço o olhar nos teus olhos - os teus pensamentos são atirados como o mar, impelida pela tempestade. — É verdade, Habiba, — disse o gênio. — Porque eu estou com medo. — Do que tu medo? — gritou a Rainha. — Diga o nome e eu vou feri-lo para ti. Pegando as mãos da rainha nas suas, o gênio respondeu: — Há tempos foi proibido que um gênio e um ser humano possa ter qualquer amor um pelo outro, mas você se tornou irmã para o meu coração. — Quem ousa nos proibir? — perguntou a Rainha. — O que eles chamam Nardukha, o Shaitan, que governa os gênios e todos em Ambadya. Ele é tão antigo quanto os deuses, e ninguém pode derrotá-lo. Se ele soubesse do amor que eu tenho por ti, rápida seria sua ira. Porque esta é a primeira regra dos gênios: que nenhum gênio ame um ser humano. Para sempre nossa lealdade deve ser Nardukha, e ninguém mais.

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— Então o deixe sair de seu salão debaixo da terra e me dizer isso por si mesmo, — disse a Rainha. — Porque eu não me curvo às leis de medrosos. Ele proíbe isso e proíbe aquilo, mas ele não é todo-poderoso. Até mesmo o Desejo Proibido pode ser falado, e não há nada que possa fazer para pará-lo. Nisto o gênio levantou um grito triste. — O que sabes do desejo proibido? — Tu me disse uma vez que ninguém mais além de Shaitan pode te libertar da tua lâmpada, mas eu sei que não é assim. Porque eu poderia desejar-te livre, nada que ele pudesse fazer poderia parar. — É verdade, — o gênio respondeu em perigo. — Mas todos os desejos tem seu preço, e o preço do Desejo Proibido é a tua vida. Tu deves jurar sobre a alma do teu povo que tu jamais falarias essas palavras. Se tu sofreres por amor a mim, eu nunca iria me perdoar. Nós já transgredimos a lei que divide homens e gênios, e temo que nosso tempo juntas está se esgotando. — Não diga essas coisas, — disse a Rainha. — Nós temos hoje e ontem, e vamos aproveitar o amanhã. Teremos todo o tempo do mundo se formos espertas o suficiente para nos esgueirarmos. — O uso do tempo é contra o poder do Ambadya? — Caro gênio. — a rainha sorriu. — O tempo é a magia mais forte de todas.

- A partir da Canção da queda de Roshana, Última Rainha de Neruby por Parys zai Moura.

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C Poder atinge meu cérebro como a força de um relâmpago. Ele irradia em tentáculos brilhantes de Aladdin e corre em espiral até meus braços e pernas. Ele afunda em minha pele e se recolhe em meu peito, uma bola pulsante de energia quente e branca. Os cabelos em meus braços se arrepiam. Este sentimento é como engolir o sol. Faz séculos que eu não sinto tanto poder à minha disposição. O primeiro desejo de Alladin era um mero truque, uma reorganização simples da realidade. Levou apenas uma poção de magia. Este desejo exige um oceano dela. Aladdin não pode ver nada disso, é claro. Ele me vê soltar uma respiração profunda, ofegante, vê meus olhos se arregalarem e observa atentamente, o rosto corado de excitação. Eu viro minhas mãos onde às ondas mágicas nos padrões de ouro se afundam na minha pele. Fazer de Aladdin um príncipe vai ser complicado. Sem grande exibição de fogo e explosões. Sem floreio ou alarde. Nos velhos tempos, eu poderia ter feito um espetáculo visto por léguas ao redor - mas se Aladdin que ser bem-vindo ao palácio e não decapitado, isso deve ser feito em silêncio. Eu peneiro meus pensamentos como areia, em busca de joias escondidas. — Pegue minha mão, — eu digo. Ele olha para a minha mão aberta e estremece. — O que vocêImpacientemente - eu devo soltar essa mágica ou vou estourar! - eu pego sua mão e o mundo gira e de repente estamos em pé no alto do penhasco com vista para o mar. Muito, muito abaixo, as ondas batem contra as rochas, e à lua, suspensa sobre a água escura, parece muito maior e mais perto do que parecia na cidade. Aladdin grita e tropeça para trás, longe da borda, com o rosto um

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pouco verde. — O que está fazendo? — ele suspira. — Pensando. — eu olho para o mar, e minha visão é tingida com loucura. Tanto poder é inebriante. Eu posso ver as possibilidades se incandescendo em cada superfície do mundo, a maneira como um escultor pode ver as formas escondidas em um bloco de pedra. Eu posso mudá-lo, moldá-lo, derretê-lo no que for preciso para conceder o seu desejo. Minhas mãos estão coçando para começar. Meu corpo ferve com energia. Levanto uma mão e aponto para o horizonte, concentrando com todas as minhas forças. Para além do mar, a mágica se reúne. As espuma e zumbe. O ar canta e queima. Eu vejo os fios da realidade, e eu agarro, torço e teço em novos padrões. A água se torna madeira; ar se torna pano. Eu junto os elementos e os transformo. — É um navio, — respira Aladdin. Ele está na beira do precipício agora, extasiado. — É o seu navio, — digo a ele. Em momentos, tudo está acabado. O navio é feito de cedro vermelho, com três fileiras de remos e uma figura de altura esculpida na forma de um leão que ruge. O carneiro elegante abaixo dela é pintado de preto. Um navio de guerra adequado. Um navio feito para um príncipe. Quando o mar em torno do navio se assenta, eu volto para Aladdin, que ainda está de boca aberto. — E aí? Você deseja dar uma olhada mais atenta?

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— Isto, — diz Aladdin sem fôlego, — é incrível. Ele está orgulhoso apreciando a beleza do meu navio mágico. — Estou feliz que você gostou, — murmuro. Eu me inclino fracamente contra o parapeito, meu estômago revirando. O momento que eu nos

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transporto para o navio do convés, eu sinto uma onda de pesar. — Você está enjoada? — pergunta Aladdin, os olhos brilhantes com diversão. — Cale a boca, humano. Depois de evocar o navio e transferir nós dois para a sua plataforma, o encanto atinge os remos e os coloca a remar, mas o vento está contra nós, e cada onda atinge o casco como um tapa da cauda de uma baleia. Eu sempre odiei o mar. Tão escuro e profundo e molhado. Ele engole as coisas e nunca as deixa ir. Com um arrepio, eu aceno minha mão aos remos e acelero mais um pouco. Devo parecer como se nós estivéssemos indo como qualquer outro navio, e é por isso que eu estabeleço tal distância. A história diz que o príncipe Rahzad rai Asnam, filho mais novo do Xá do Istarya, se estabeleceu para explorar e fazer fortuna. Depois de um terrível confronto com uma tribo de maarids viciosos, somente ele e sua serva, a humilde, mas adorável Zahra, sobreviveram. Agora estamos à porta de Parthenian, buscando refúgio na corte do rei. Eu olho sobre o belo navio e tento decidir a melhor forma de destruí-lo. — Aladdin, você pode querer ficar perto de mim. — Por quê? O que você está - não! Não é o meu navio! — Pare! — eu envio uma torrente de água sobre sua cabeça para tirar o mastro e rasgar as velas. Aladdin olha com desânimo. Algumas ondas lançadas sobre o navio deixam algumas marcas de dentes nas pranchas - eu faço o trabalho rapidamente, lutando contra a náusea durante todo o tempo. Aladdin parece perto das lágrimas enquanto sua bela embarcação é soprada pelo ar. Adequadamente espancado e golpeado, o Artemisia agora cambaleia através da água como um pato bêbado. Aladdin e eu andamos contra o mastro e o nosso melhor olhar é miserável, o que realmente não é difícil, o balanço das ondas me deixa mal e irritável, enquanto Aladdin fica pensativo. Com o toque final, eu mudo nossas roupas rasgadas e sujas para

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mantos caros de seda. A aparência de Aladdin é um problema; a princesa e suas soldadas viram o seu rosto, e é improvável que seríamos capazes de explicar isso. Então eu deixo um pouco de magia mudar suas feições, criando uma máscara encantada. Não é um feitiço infalível - alterar permanentemente sua aparência seria outro desejo. Mas é o suficiente para desencorajar reconhecimento. Quando a princesa olhar para Aladdin, ela vai ver apenas um jovem que pode se assemelhar ligeiramente ao ladrão dos Anéis. Enquanto esperamos a maré nos levar para o porto, eu instruo Aladdin sobre sua nova identidade, fazendo-o repetir mais e mais até que ele joga suas mãos no ar. — Eu não vou repetir mais uma vez, gênio! Ofendida, eu cruzo meus braços e olho para longe. — Eu não quero acabar assassinada por um dos gênios assassinos dela. — Nem eu. Olha, eu tenho isso tudo sob controle. Não convencida, eu lhe dou um olhar duvidoso, e ele sorri. — Fumaça, se há uma coisa que eu sou, é adaptável.

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E assim chegamos a Parthenia, cansados da viagem, mas com o arrojado príncipe Rahzad rai Asnam de Istarya e sua serva. Tudo acontece rapidamente, uma vez que somos rebocados para o porto. Soldados nos levam pela cidade, passando por multidões boquiabertas até o palácio. Somos entregues a um grupo de ministros barbudos, que dobram Aladdin com perguntas enquanto o escoltam pelos corredores vazios. Aladdin, dando a eles respostas simples com uma só palavra, inclina a cabeça para um lado, dentro no esplendor da corte Parthenian. O palácio é de mármore e arenito, todas as curvas suaves e vastas e espaços vazios preenchidos com sussurros e pavões atravessados. Ricos tapetes e tapeçarias adicionam cor às paredes e ao chão, e passamos por muitos pátios preenchidos com fontes. Nobles se escondem nos cantos, observando e sussurrando, reunidos em um cortejo atrás de nós. ~ 78 ~


Aladdin é puxado de lado e vestido com roupas frescas, seda fina e cashmere em tons de verde vivo e dourado. Eu, na sua maior parte, sou esquecida, deixada na sombra do meu mestre em silêncio. Eu não me importo nem um pouco. Eu uso esse tempo para fazer a varredura do palácio, em busca de algum sinal de Zhian, mas parece que minha busca não será tão simples. Eu não posso sentir nada dele. — Sua Alteza, — diz um ministro que se aproxima, sua barba longa e perfeitamente penteada, a cabeça coberta com um chapéu alto e cilíndrico de púrpura e ouro. — Eu sou Jalil Rai Feruj, o ministro da Diplomacia aqui na corte do Rei Malek. Você é de... onde foi que você disse? Me perdoe. O nome era desconhecido para mim. — Istarya, — diz Aladdin. — longe ao sul. — Ah, sim, claro. — Jalil acena com a cabeça, mas seus olhos ainda são obscurecidos com a confusão. Ele acena para um menino que está nas proximidades, com uma braçada de pergaminhos, e o menino se apressa para frente. Jalil seleciona um pergaminho, o desenrola e franze a testa. — Istarya... Istarya... me perdoe, Sua Alteza. Minha memória é tão fraca nos últimos tempos. Eu passo a frente e agarro a borda do mapa, sorrindo para o ministro. — Se me permite, meu senhor? Enquanto ele está distraído, os olhos em mim, a última gota de mágica de desejo de Alladin desliza do meu polegar e trilha em todo o pergaminho, virando tinta. — Aqui está, — eu digo, apontando. Jalil olha para baixo e pisca, seu olhar fixo sobre a pequena ilha na parte inferior do mapa. — Ah! Claro. Bem, me permita acompanhá-lo até ao trono de Sua Majestade, pois ele está ansioso para conhecê-lo. — Ande logo, velho! — Aladdin bate o ministro no ombro e, em seguida, observando os rostos atordoados em torno dele, tosse e tenta redizer. — Quero dizer, hum, obrigado, meu senhor. O corredor à sala do trono é de bom gosto, mas ornamentado, esculpido em uma série de arcos fantásticos, cada um esculpido com vinhas com detalhadas folhas apoiadas por colunas de mármore cor de

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sangue. Janelas altas entre os arcos deixam entrar a luz solar que faz com que a pedra brilhe com cores e padrões, revelando os veios brancos delicados do mármore vermelho escuro, como se as colunas fossem feitas de músculo exposto. A sala do trono do rei está situada no centro do palácio, como o centro de uma enorme roda. Fazemos uma pausa do lado de fora das portas altos de madeira de teca polida esculpida com videiras. Em ambos os lados, leões de pedra da altura de três homens esticam suas bocas em rugidos silenciosos e intermináveis, seus olhos cegos olhando para nós. As portas são abertas por guardas estoicos com capacetes pontiagudos, e caminhamos para a sala enorme que eu tinha visto em Parthenia. A câmara é enorme, dividida em três seções longas e estreitas por duas fileiras de pilares de pedra que marcham de um lado para o outro, apoiando um telhado que abóbadas em três cúpulas enormes. Pombos circundam o espaço acima, cortando feixes de luz que derrama através de buracos quadrados no teto, enchendo o ar com os sons de asas batendo no ar, suas sombras vacilantes através das colunas. Nas paredes, enormes esculturas retratam detalhadamente sequências de batalha, alguns deles recordando a história Amulen que eu mesmo testemunhei, como o saque de Berus e a rendição do Rei Madarash das Ilhas Baltoshi. Meus olhos caem sobre uma escultura que me arrepia: É de você, Habiba, em pé no topo do Monte Tissia, Neruby queimando no fundo. Você está de joelhos, olhando de forma piedosa e trágica, como um gênio feio com chifres, asas e garras agachado de costas e preparado para arrancar sua garganta. Eu acho que era suposto ser eu. Abaixo estão esculpidas as palavras ‗A queda de Roshana, a Sábia‘. Eu viro meus olhos e não olho mais para nenhuma escultura. Em um trono definido em uma alta plataforma no centro da sala, ladeado por grifos de pedra altos pintados de olhar espantosamente reais, está sentado o homem que herdou o seu grande legado. Cercado pela majestade deste grande salão e ofuscado por seus grifos de pedra, o rei dos Amulens é pequeno e doente, largado no seu trono debaixo das estolas de pele de leopardo pesados. Sua pele é pálida, quase translúcida, e suas mãos tremem. A coloração amarela nos seus olhos trai a sua condição. Os Amulens poderosos são governados por um viciado em drogas.

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Caspida está de um lado do trono, a mão empoleirada no ombro de seu pai, como se ela estivesse derramando sua própria força para ele. Ela parece bastante diferente da menina que cuspiu e lutou nos ringues na noite anterior, embora seus olhos estejam um pouco cansados. Ela usa um vestido dourado pálido, com seda vermelha pura caída sobre os ombros. Borlas penduradas à bainha de seu vestido escovam os topos de suas sandálias, que estão cravejadas de pedras preciosas. Ela considera o rosto glamoroso de Aladdin sem uma pitada de reconhecimento; seus olhos são frios, avaliativos e um pouco suspeitos. Sinto a onda de pânico de Aladdin com a visão de Caspida, mas ele se acalma quando a minha magia o detém e reconhecimento não incendeia seus olhos. Quando Jalil e Aladdin caminham ao trono, eu entro atrás das sombras das colunas e assisto de perto. Guardas estão na base de cada coluna, então, ainda que possam ser elas mesmas estátuas, elas não me impedem de caminhar ao longo da parede sob os frisos. Outros agentes se movem nas sombras, e os nobres se reúnem em grupos de quatro e cinco, enquanto falam em sussurros sobre Aladdin com grande curiosidade. Eu me misturo a eles, à sombra, com audiência completa e vista para o estrado. O rei faz um esforço para se sentar reto quando o meu mestre se inclina diante dele, mas seus olhos são maçantes e desinteressados. Há poder nesta sala, mas não para se sentar no trono. O conselheiro, um homem de peito largo usando um alto chapéu pontudo, está anunciando o rei:... Malek filho de Anoushan filho de Arhab filho de Oshur, Rei dos Reis, Rei de Parthenia, Rei de Niroh, de Beddan e de Mon Asur, Escolhido por Imohel, abençoado pelos Deuses, favorecidos da Amul, Rei dos Amulens... - ele diz, listando uma ladainha interminável de títulos, até que, finalmente, ele se vira para o rei e introduz Aladdin. — Eu apresento a sua Exaltada Majestade, Rahzad rai Asnam, Príncipe de Istarya. A lista termina aí, quase ironicamente breve em comparação à Malek. Aladdin, em toda a extensão da introdução árdua, se manteve dobrado na cintura, como tinha sido instruído por Jalil. Agora ele sobe, o rosto branco e aguarda Malek falar.

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Exceto que Malek que adormeceu. Jalil tosse e olha para seus pés. Aladdin, vermelho, começa a dizer algo a ele, mas o homem do outro lado do trono se inclina e sussurra no ouvido do rei, e Malek pisca furiosamente e olha para Aladdin. Então o homem se endireita e fixa os olhos no meu mestre, e uma de suas mãos permanece no lado do trono. Enquanto Malek cumprimenta Aladdin com um discurso ensaiado e formal, oferecendo-lhe hospitalidade e desejando a ele saúde, eu assisto o homem que tinha despertado o monarca. A semelhança entre ele e o rei é aparente, agora que eu olho para ele. Vizier Sulifer é a grande versão mais forte do seu irmão mais velho, sua carne preenchida onde há buracos em Malek. Eles têm o mesmo rosto, o mesmo nariz arqueado, e o mesmo queixo quadrado. Traços também compartilhados pelo filho de Sulifer, Darian, embora, é claro, que ele não esteja presente. O sobrinho do rei vai levar pelo menos uma semana para fazer a viagem de volta ao palácio. Então, esses são os Anadredcas, a dinastia Amulen que herdou o seu grande legado, Habiba. Quando a troca de saudações formais termina, Malek despenca no seu trono, como se cansado e deixa Sulifer assumir. Os outros homens parecem aceitar isso com alívio, como se eles vissem o seu rei como uma figura ou um fantoche. Como se eles estivessem pensando, Finalmente, o tolo acabou. Só Caspida parece preocupada com ele, ela aperta o seu ombro, os olhos piscando para Sulifer enquanto ele anda para frente. Os olhos de Aladdin estão enganosamente em branco como se ele considerasse o homem que matou seus pais. Sulifer para na frente do trono e olha de volta para ele. Ele usa vestes cortadas em forma militar, azul profundo tingido e cercado com prata. Uma espada cerimonial está em sua cintura, inscrito com roteiro Amulen, escondida em sua faixa vermelha. Sua cabeça é raspada de um lado, o cabelo longo grisalho varrendo seus ombros, sua barba aparada e afiada. Há um ar astuto em seu rosto que me deixa desconfortável. Talvez eu devesse ter virado uma aranha, para me pendurar em Alladin e sussurrar conselhos em seu ouvido. Mas não. Se ele vai se passar verdadeiramente por um príncipe, ele deve aprender a ser um príncipe. Pensar como um, esquematizar como um, receber esse olhar de lobos como o de Sulifer e não ter medo. Este é um

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momento crucial para nós dois. Dei a ele o navio, as roupas, a história que ele precisava para ganhar a entrada para esta sala. Mas se ele vai realmente convencer essas pessoas de sua falsa identidade, ele deve fazer aqui e agora - e por conta própria. Eu só posso ficar nas sombras e em silêncio. Eu sou adaptável, ele me disse. Espero que ele não esteja mentindo. Ambos os nossos destinos dependem dele. Sulifer questiona Aladdin sobre sua chegada à Parthenia, e meu mestre repete a história mais uma vez. — Nós não tínhamos ouvido falar deste Istarya antes, — diz Sulifer. — Eu não estou surpreso, — Aladdin responde, sua voz forte e clara. — É muito pequena, e nosso povo não costuma se aventurar tão ao norte. — Mas você sim, — afirma Sulifer. — Nós ouvimos falar da força de Parthenia em exterminar os gênios. Naturalmente fiquei intrigado, então eu vim aprender com vocês, se eu puder, como vocês tem resistido a esses monstros. Sua bravura e habilidade são incomparáveis, pelo que me disseram. Não há muitas cidades dispostas a irritar os gênios, e em vez disso, eles deixam oferendas para apaziguá-los. Eu suspiro, sentindo um brilho de orgulho. Não há uma lufada de hesitação nele, não há um tremor em sua voz. Ele é o mais hábil mentiroso que já conheci, e eu tenho conhecido um número muito grande de mentirosos, Habiba. Os outros homens acenam e suspiram em apreciação às palavras de Aladdin, mas Sulifer o observa com cuidado, seus olhos astutos se estreitam. — Um discurso bonito e um sentimento valente, jovem príncipe. Devemos falar mais das suas viagens depois de ter descansado. Jalil, mostre ao nosso convidado o seu quarto e veja se lhe daremos tudo o que ele precisa. Aladdin faz uma pequena reverencia. — Meus agradecimentos a você, meu senhor, e à sua Exaltada Majestade. Tenho ouvido falar da bravura dos Amulens, e só estar aqui entre vocês é uma grande honra. Ele se afasta, se curvando brevemente para Caspida, e não vira as ~ 83 ~


costas ao rei atÊ que ele atinja as portas. Eu escapo por entre a multidão e para fora da câmara pouco antes das portas se fecharem.

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C Com os cumprimentos e amabilidades trocadas, ficamos em um conjunto de quartos em algum lugar perto da parte posterior do palácio. Há três cômodos - um para descansar e receber os visitantes, um quarto de dormir para Aladdin e o pequeno quarto de servo para mim. As câmaras se abrem para um pequeno pátio gramado, preenchido com lírios brancos e uma figueira carregada de frutos. Eu pego um pouco e ponho na minha boca enquanto ando em torno das câmaras observando tudo. O piso, feito de telhas de barro liso preto e branco, espalham ricos tapetes, e os arcos abertos que conduzem ao pátio são cobertos com cortinas de gaze. Aladdin vagueia pelo quarto e pula em cima da cama, deixando escapar um longo suspiro. — Oh, deuses, — ele suspira. — Eles podem cortar a minha cabeça enquanto eu durmo essa noite nesta cama. Mesmo assim tudo vai valer à pena. Eu poderia até mesmo agradecer a eles. — Agradecer a eles? Ele rola sobre seu estômago e seus olhos olham através da porta para mim, sorrindo. — Oh, certo. Fui eu quem fez o desejo, não foi? Eu acho que eu recebo todo o crédito. — Certo. Obrigado, Zahra. — ele se levanta e se inclina na porta, os braços cruzados, e me olha enquanto eu ando pelo quarto. — Para ser honesto, porém, tudo isso me deixa doente. E pensar que tantos de nós crescem dormindo em sarjetas, como ratos, quando todo este espaço é dado a um homem só porque ele tem uma palavra extra na frente do seu nome. — ele faz uma pausa, seu rosto escurecendo. — Você o viu? Parado lá como um rei, se achando intocável. O grande vizir de Parthenia. — um pequeno sorriso seco torce seus lábios. — E aqui estou eu, bem debaixo do seu nariz. Uma batida soa na porta, e em seguida, um par de servos - uma ~ 85 ~


menina e um menino - entram com roupas limpas para nós. — Sua Alteza, meu nome é Esam, — diz o menino, — e esta é Chara. Nós estaremos ao seu serviço durante o tempo que você estiver aqui. Por favor, me permita ajudá-lo a se vestir para a refeição da noite. Aladdin fica um pouco vermelho e gagueja, — Ah, eu não acho que— É costume em nossa terra natal os príncipes se vestirem sozinhos, — eu digo, um pouco apressadamente. Isso fará que ninguém veja a lâmpada escondida sob as roupas de Aladdin. — É uma tradição que remonta muitas gerações. Aqui, eu me dê. Tenho certeza de que vocês são necessários em outro lugar, certo? — eu os empurro até a porta e, em seguida, os dispenso com um sorriso no rosto.

***

— Então, se eu encontrar um nobre que é mais velho que eu, mas de baixo posto... — Aladdin para no pátio gramado e esfrega com cansaço seu cabelo. — eu me curvo assim? Ele se inclina e levanta um braço. — Deuses, não. — eu estou sentada na frente dele, desfrutando de uma romã fresca e tentando empurrar o tanto de etiqueta nele que eu puder antes do jantar. — Isso é para um ministro que ocupou seu cargo por mais de dez anos, ou que tem uma frota pessoal de navios. — Você tem certeza? Eu pensava que era assim. — ele tenta outro cumprimento estranho. — Por que estou ouvindo você, afinal? Você tem morado em uma lâmpada pelos últimos quinhentos anos! Eu lanço uma semente nele. — Eu ainda sei como fazer o meu caminho em torno de uma corte, o que é mais do que possa ser dito para você! Agora tente a saudação adequada para um homem que está relacionado com o rei, mas sem possibilidade de reivindicar o trono. Ele pensa por um momento, em seguida, coloca as mãos e hesitantemente se inclina para frente, antes de armar uma sobrancelha em

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esperança para mim. — Eu desisto! — eu gemo, lançando a casca da romã de lado. — Você não tem jeito. Basta ficar dar um arquear básico na cintura, e os deixe creditar as suas graças sociais terríveis à sua estranheza. As pessoas são sempre mais tolerantes com estrangeiros. Com um suspiro, Aladdin cai na grama. — Isto é desgastante. Tem que ter uma maneira mais fácil de acabar com Sulifer. Uma maneira que não envolva eu me curvando a ele Tem sido uma semana e dois dias desde que chegamos ao palácio Parthenian, e ainda não encontrei nenhum sinal de Zhian. Eu gostaria de ter o poder de congelar o tempo, mas o tempo é o único elemento que um gênio não pode controlar, nem mesmo o Shaitan. À noite, quando Aladdin dorme, eu escorrego para o corredor, me transformo em um gato e exploro o palácio. Mas a minha corrente invisível não chega agora, e apesar de eu ter coberto cada polegada que posso, a maior parte do palácio está fora do meu alcance. Eu espero que eu não tenha cometido um erro em nos trazer aqui, apenas para descobrir que Zhian não está aqui. Quando Aladdin está acordado, eu o ensino a etiqueta da corte, fazendo dele um príncipe em forma, bem como em nome. Servos nos trazem refeições duas vezes por dia, e Aladdin está bem fornecido com vestuário e outras necessidades, bem como convites para jantar com vários nobres curiosos e senhores mercantes à noite, o que me dá um pouco de tempo para procurar em outras partes do palácio, ainda sem sucesso. Aladdin está impaciente para se encontrar com Caspida - como o príncipe Rahzad desta vez, e não como um ladrão sequestrado - mas ela é esquiva, e ninguém, nem mesmo um príncipe, pode recorrer a uma princesa sem ser convidado. E por isso estamos tão frustrados e nervosos, e as lições não estão ajudando. Como ele afirma várias vezes, bastante forte, — Eu não consigo entender como eu vou... — Você é mais teimoso do que um camelo fedorento! — eu protesto. Ele só encolhe os ombros e sorri desse modo enlouquecedor que ele

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tem. — Eu já fui chamado de coisa pior. Às vezes, acho que ele comete erros só para me enfurecer. Como hoje. Já falamos sobre estes arqueios mil e uma vezes, mas ele continua fazendo errado. Alguém bate na porta quando Aladdin começa a cochilar na grama, ignorando meus protestos de que ele vai sujar suas roupas. Ele aperta os olhos para mim. — Vai atender essa, não é? Eu olho para ele. — Eu não sou realmente a sua serva. — Eu sei, — diz ele, com um meio sorriso perverso. — Eu só gosto quando você fica com raiva de mim. Fumaça sai de suas orelhas. — Certamente que não. Eu abro a porta para revelar dois jovens nobres. Reconheço um: Raz, a arqueira alta que estava lá na noite que a princesa sequestrou Aladdin. O outro nobre é um jovem homem bonito com uma tez Tytoshi e dreadlocks com pontas de prata. Eu posso dizer de uma vez que ele é irmão, provavelmente até mesmo gêmeo de Nessa, a encantadora de gênios e serva da princesa. Será que ele também carrega uma flauta para encantar gênios? Eu me curvo à Raz e cumprimento Tytoshi em sua forma nativa: puxando meu cabelo sobre meu ombro e puxando as extremidades, exibindo meus cabelos desajeitados e, portanto, o meu status inferior. Um olhar de surpresa e, em seguida, apreciação corre através de suas feições. Em seguida, ele se vira e caminha para Aladdin e eu me afasto. — Saudações, Príncipe Rahzad, e bem vindo a Parthenia. Eu sou Vigo, filho de Vigor. Esta é Lady Razpur nez Miran. Nós viemos acompanhá-lo para jantar. Aladdin se curva rigidamente - infelizmente, é o que deve ser usado apenas para oficiais navais - e passa através da porta. Raz e Vigo vão ao dele, tentando parecer indiferentes, mas trocando olhares de curiosidade por trás das suas costas. Eu paro, a cabeça curvada recatadamente, olhos e sentidos esticando para pegar todos os detalhes.

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— Nós ouvimos sobre a sua viagem até aqui, — diz Raz. — Você deveria nos falar mais sobre isso. Sobreviver a um ataque por maarids em mar aberto - é notável! — Sim, — acrescenta é? Quase muito notável.

Vigo. —

É

impressionante,

não

Raz atira um olhar se soslaio e Tytoshi dá de ombros. Somos levados através de um pátio de azulejo e, em seguida, por uma longa passarela emoldurada com uma série de arcos brancos e elegantes, através do qual o céu pode ser visto aprofundando em seu crepúsculo. Uma criada com uma túnica cinza pula de arco a arco, acendendo velas habilmente, uma vez acesas, elas fazem os arcos parecerem brilhar como se encantadas. Em ambos os lados, ciprestes podados em esferas perfeitas emitem um perfume da terra rica. Raz afasta um pavão branco que pousa a nossa frente enquanto caminhamos, em seguida, estende um braço em direção a um prédio baixo com um telhado gracioso. Embora coberto, as paredes são abertas para o exterior, e eu posso espiar todos que estão sentados dentro da corte. — Desta forma, Sua Alteza. Sua serva, é claro, pode se juntar aos outros nas cozinhas. — embora esta última observação seja dirigida a mim, Raz não faz contato visual. Ela acena com desdém na outra direção, a um edifício de pedra mais claro com várias chaminés fumegantes. Concordo com a cabeça e caminho em direção a ela, mas quando estou fora de vista, eu parto atrás dos ciprestes e me transformo em um pavão. Não é a minha forma favorita. Minhas pernas são finas e o balanço da minha cabeça vai deixar o meu pescoço dolorido depois, mas é a forma mais segura para entrar na sala de jantar. Vários outros pavões vagueiam dentro e fora do edifício livremente. Ninguém vai notar mais um. Assim disfarçada, eu vou até o pátio aberto, as penas longas da minha cauda arrastando atrás de mim, e ousadamente entro na sala de jantar. A corte janta em dois grupos: homens e mulheres. Eles são separados por telas de treliça, simbolicamente mais do que qualquer outra coisa, então é fácil espionar uns aos outros através das telas, algo que muitos dos jovens homens e mulheres fazem. Seu flerte é ignorado pelos nobres mais

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velhos. No fundo da sala, um músico dedilha uma melodia suave em uma harpa e eu reconheço nas notas a melodia das canções cantadas uma vez em sua corte, Habiba. Os homens estão sentados em um grande círculo em torno de uma variedade de pratos que são continuamente reabastecidos por criados vestidos de cinza. Eles carregam tigelas de arroz, cozinhados de modo crocante, kebabs de cordeiro, carne bovina e de frango. Até mesmo a minha forma de pavão, os cheiros de canela e açafrão são deliciosos. Acho Aladdin sentado entre Vigo e um velho nobre peludo que cheira a alho. Meu mestre acena com a cabeça ansiosamente enquanto Vigo salienta os pratos que ele deveria experimentar. Constato com pesar que ele já bebeu meio copo de vinho. Não é um bom sinal quando a noite apenas começou e os Amulens o assistem como leopardos famintos à procura de um sinal de fraqueza. Não abertamente, é claro. Seus olhares são escondidos, mas a suspeita está lá, queimando atrás de suas expressões agradáveis. Eu faço a varredura da sala para qualquer sinal do rei ou seu irmão, mas também não parecem estar presentes. Nós não vimos os dois desde o nosso primeiro dia no palácio. O jantar desta noite apresenta nobres de mediano a alto nível, a julgar por suas roupas e costumes. Mas no lado das mulheres da sala, vejo Caspida cercada por suas servas. Elas sussurram e riem e saboreiam o vinho, lançando olhares curiosos através da tela. Vendo-as agora, elas parecem inocentes e simples como pombas, nada como a pequena unidade de combate que sequestrou Aladdin. Eu fico em torno do perímetro da sala, ouvindo as conversas, esperando menção de qualquer prisioneiro gênio. Mas a conversa é decepcionante mundana. De repente, a sala fica em silêncio e todos ficam de pé. Aladdin luta para imitá-los, se curvando quando um pequeno grupo entra a partir do pátio. Quando eu vejo quem é, minhas penas se agitam. É Darian e três de seus amigos. O príncipe está vestindo uma túnica preta apertada, bordados elaborados sobre calças pretas e um cinto de ouro. Ele acena para as pessoas, e todo mundo se levanta mais uma vez, vários nobres se mexendo para lhe dar espaço. — Príncipe Darian! — um nobre levanta a taça de vinho. — É bom ver você de volta! Como foi a sua caça?

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— Rotten, — diz Darian. — Não há um antílope deixado por cem léguas que não é menor do que um cão. Os carniçais malditos comeram todo o bom jogo. Os outros o cumprimentaram calorosamente. Darian cumprimenta todos pelo nome, mas seus olhos continuam piscando para Aladdin. Ele aponta para os outros para se sentar, então acena para meu mestre. — Eu não acredito que nós nos encontramos, — ele murmura. Aladdin se curva, notavelmente composto. — Eu sou o príncipe Rahzad rai Asnam de Istarya. — Eu sei o seu nome. Eu seria um mau anfitrião se eu não soubesse tudo sobre meus convidados, você não concorda? Embora, aparentemente, sobre o tema da Rahzad de Istarya, há muito pouco para saber. Isso quase nos faz pensar se não foi montado a partir de uma história. — Darian levanta as mãos para dois criados limpá-las rapidamente com panos quentes e úmidos. Em seguida, ele se senta, e Aladdin o espelha. O príncipe quebra um pedaço de pão e o mergulha em óleo e especiarias. — Ouvi dizer que você teve problemas com os gênios. — Apenas alguns maarids, — responde Aladdin. — Mas eles tiveram uma luta desagradável. Minha equipe foi perdida, e eu quase fui com eles. — E ainda assim aqui está você. Imohel lhe favorece. — Darian pega uma xícara de chá de um servo. — Imohel, destino, sorte... algo está cuidando de mim, eu suponho, — Aladdin responde friamente. Os olhos de Darian brilham por cima da borda da taça. — Que sorte você teve ao encontrar a nossa porta assim que o navio estava a ponto de afundar completamente. A hora não poderia ser mais divina, você não acha? — Vou deixar o divino para os sacerdotes. — riu Aladdin. — Me dê um terreno sólido sob meus pés e um copo deste vinho e eu vou orar a um figo em uma vara, se quiser. — Ouçam, ouçam! — diz um jovem nobre, levantando o copo. Os outros se juntam ao brinde e Aladdin sorri.

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Darian olha em volta para os homens, bebe profundamente, em seguida, baixa seu copo com um tilintar alto. — Você deve ter viajado bastante, Prince Rahzad, para sobreviver a um ataque dos maarids. Bem... só você pode contar a sua sobrevivência quando toda a sua tripulação está morta. Nos diga, como é que você conseguiu ficar vivo? Você deve ter matado dezenas de criaturas. Os homens ficam quietos, olhando ansiosamente para Aladdin. O ladrão prende o olhar de Darian, um sorriso tenso em seus lábios. — Nem todos os meus homens foram perdidos, — Aladdin diz suavemente. — Ah, sim. Havia uma menina, não é? Uma serva? Bonita também, pelo que ouvi. — de repente, Darian dá um pequeno suspiro e estala os dedos. — Ah... então é isso. — ele se inclina para frente, sorrindo. — Não se preocupe - eu entendo completamente. Conheço algumas meninas que poderiam me fazer perder uma batalha inteira também. Tenho certeza que seus homens não se culpam por ficar. — ele pisca e segura o seu copo para um servo reabastecer. A mão de Aladdin aperta o seu copo de vinho, o rosto empalidecendo perigosamente. Não fale, eu imploro em silêncio. Não o deixe seduzi-lo. Os outros homens, sentindo a tensão entre os dois príncipes, de repente parecem extremamente interessados no alimento em seus pratos, mas os seus olhos vão furtivamente de Aladdin para Darian. — Querido primo, de volta ao passado? — ordenadamente, cortando a tensão entre os dois rapazes.

diz

uma

voz,

Todos os homens se voltam para Caspida, que passeia ao redor da tela dividindo a sala. Darian se levanta para encontrá-la, pegando sua mão e se curvando para ela. — Príncipe Rahzad, você já conheceu minha noiva? — Darian a puxa para perto, seus dedos brincando com as pontas dos cabelos dela. Aladdin se levanta e se curva. — Princesa. Eu estou honrado.

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— Ela é a mulher mais bonita da cidade, — diz Darian. — Talvez até mesmo do mundo. Quando nós estivermos casados, talvez eu vá levá-la em uma grande turnê nas nações, para compará-la com suas belezas. O que você acha, meu amor? O rosto de Caspida é sereno como uma porcelana, mas seus olhos brilham quando ela sorri para Darian. — Infelizmente, a última vez que fomos velejar, meu querido primo foi atacado com enjoo e ficou abaixo do convés. O rosto de Darian para. — Volte para as mulheres, meu amor. Não é adequado você compartilhar o pão com os homens. Ela mantém seu olhar por um momento, e me pergunto se a compostura vai quebrar e ela vai feri-lo. Mas em vez disso, ela se vira e acena para Aladdin, em seguida, dá aos outros boa noite e desliza para o lado das mulheres, onde suas servas estão assistindo silenciosamente através da tela. Com uma risada, Darian senta e levanta a taça para mais chá. — Mulheres! Elas acham tão romântico quebrar as regras. Mas o que seremos de nós se não mantermos a tradição, estou certo? Os homens riem e acenam com a cabeça em concordância, mas Aladdin olha duro para o príncipe. — Eu ouvi maravilhas desta cidade toda a minha vida, — diz Aladdin. — Eu li sobre seus reis e rainhas e generais. Não consigo me lembrar de ouvir de você, apesar de tudo. Qual é mesmo o seu nome? Darian enruga em confusão. — Darian. Filho de Sulifer. — Oh, certo. E quem é ele mesmo? — O vizir de toda a Parthenia, o comandante das forças armadas Amulen e irmão do rei. — os dedos de Darian apertam em torno de sua xícara de chá. Quando ele a coloca na mesa, soa muito alto. — Talvez você, Istaryan, precise atualizar suas histórias. Aladdin dá de ombros. — Oh, certo. Ele. Sim, eu me lembro de ter lido algo sobre o seu vizir. É claro que, após conhecê-lo, tenho certeza de que nossos historiadores devem ter se enganado.

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O silêncio cai. Darian, frio como o inverno, diz entre dentes, — Oh, explique. — Não é nada, realmente. Apenas algo sobre como ele estava tentando reconstruir o Império Amulen. Enviando avós e crianças para remar seus navios de guerra, mas que perdia todas as batalhas que ele tentava, — Aladdin sorri. — Eu tenho certeza que é tudo um mal entendido. Certamente ele não é tão estúpido. Oh, que os deuses nos salvem. — O que você disse? — Darian sobe rapidamente a seus pés. Todo mundo está olhando abertamente em espanto, e do outro lado da tela, Caspida pressiona o punho contra os lábios, seus olhos vincam em um estremecimento. Sinto os músculos de Aladdin ficarem tensos, seus pensamentos se deslocam de raiva à violência - hora de quebrar este clima. Com uma buzina selvagem, eu me lanço para cima, minhas grandes asas pesadamente explodem em círculo. Minha cauda e os meus pés derrubam pratos e taças de vinho, fazendo os homens começarem a gritar e xingar. Eu pouso na frente de Aladdin e espalho as penas da cauda em uma exibição maravilhosa - realmente, eu já me superei desta forma - e salto desta maneira, as asas batendo, a garganta gritando e buzinando. Caspida, rindo, desaparece com suas servas e uma série de servos aparecem das sombras onde eles estavam à espreita. Eles agitam seus braços e tentam me levar para fora, dobrando minhas asas e cauda e eu buzino para eles como se eles fossem os únicos que estivessem interrompendo. Fora do salão já no pátio, eles me perseguem, enquanto outros permanecem ajudando a limpar os nobres atônitos e irados, incluindo Aladdin. Eu sumo na escuridão e me transformo novamente, mudando para um gato preto e me misturando silenciosamente nas sombras. O jantar acaba logo. Darian está mexendo com os servos, os nobres estão se dispersando, e Aladdin está encostando em uma coluna, parecendo mal-humorado. Eu corro para ele e bato em seu pé. — Afaste-se, gato, — diz ele. Eu assobio em resposta e arqueio as costas, e ele me enxota duas vezes. — Oh. É você. Ele me segue para o pátio e contornamos um pequeno pavilhão, onde

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estamos sozinhos. Lá, eu me transformo em um ser humano, mais uma vez em minha roupa simples de criada. — Com fome? — ele pergunta. — Eu tenho algo... espere um momento. Do bolso ele puxa um guardanapo amassado, com pão e carne, tudo misturado em um monte indiscernível. Ele segura. — Obrigada, mas... isso é nojento. Ele suspira e coloca a mistura da comida de volta em seu bolso. — Velho hábito, eu acho. Quando você cresce sem nunca saber quando sua próxima refeição virá... você o viu? Aquele desgraçado Darian estava lá. Eu poderia tê-lo estrangulado, mas então houve este pássaro. Ele estava enlouquecido, quebraram todo o nosso jantar. — Criaturas sem cérebro, — murmuro. — Os homens e os pavões? — diz uma voz. — Seria uma aposta certa. Aladdin e eu nos viramos para ver Caspida se aproximando, o rosto piscando com a luz laranja do braseiro em chamas. Suas servas estão longe de serem vistas, mas quando eu estico o sexto sentido para fora, eu as sinto à espreita nas sombras, atentas e silenciosas. — Princesa, — Aladdin diz ofegante, seus olhos um pouco fixos. — Príncipe, — ela responde sem problemas. — Caminhe comigo? Ele dá um passo para frente ansiosamente, me deixando para trás. Com as mãos atrás das costas, o ritmo um pouco instável, Aladdin permite que a princesa o leve até uma escada sobre um pórtico revestido ao norte para as colinas acima de Parthenia. Com a cidade atrás de nós, as estrelas são brilhantes como diamantes espalhadas na seda preta. Algumas luzes queimam nos cedros que crescem abaixo deles, os sinais de fazendas e postos avançados espalhados por todo o interior. — Sua chegada causou um tumulto entre o meu povo, — Caspida diz por fim. Seu vestido, cortado a partir do brilho de seda verde azulado, está arrastando atrás dela, e à luz das lanternas penduradas em arcos do pórtico refletem o elaborado colar de joias em sua clavícula. Mais alto do que Caspida por vários centímetros, ele anda com a cabeça inclinada, para que ele possa olhar em seus olhos enquanto ela fala. — Já faz algum tempo que

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alguém de importância visitou Parthenia. Já não somos tão grande influência neste mundo, e eu tenho muito medo das maiores cidades do sul nos encontrarem quando eu voltar. Você pode encontrar espécies curiosas na minha corte. — Como um macaco treinado, — diz Aladdin. Os lábios dela ondulam nos cantos em diversão. — Uma vez, recebemos príncipes, reis e rainhas de todo o mundo. Parthenia era um centro de aprendizagem e arte, famosa por suas portas abertas e tolerantes. Mas a nossa rivalidade com os gênios nos enfraqueceu, e era tudo o que podíamos fazer para manter nossas próprias fronteiras. Ser desligados por tanto tempo fez com que o meu povo ficasse suspeito e preconceituoso. Tememos aqueles que uma vez eram bem-vindos, vemos gênios à espreita em cada sombra. Ela faz uma pausa e se inclina sobre o corrimão, olhando para o horizonte. — Eu não quero parecer pessimista. Eu só quero que você entenda o humor na minha corte. Aladdin, de costas para a vista, observa Caspida uma vez. — Por que você está me contando isso? Ela sorri, sem graça. — Então você não acha que nós todos somos atrasados e preconceituosos. Há alguns nesta corte que gostariam de nos estender a mão, reavivar nossas velhas alianças e angariar apoio contra Ambadya. Se todos juntos se opusessem contra os gênios, poderíamos ter sucesso. Há muito tempo as nações do nosso mundo se encolhem diante desses monstros e seus caprichos. — Alguns... ou seja, você? Caspida olha para suas mãos, os braços cruzados dedilhando as pulseiras em torno de seu pulso. — Os reinos orientais não acham que as mulheres estão aptas para governar, você sabia disso? Há ainda aqueles em Parthenia que acham que deve ser anulado em favor do meu tio ou meu primo Darian. Eles acham que os nossos inimigos não nos levarão a sério se uma mulher estiver no trono. — Os deixe. E enquanto eles estão ocupados rindo, você vai estar ocupada decidindo. Ser subestimada não é lisonjeiro - mas é uma vantagem

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— ele dá de ombros. — Eu tenho sido subestimado toda a minha vida e encontrei nisso um manto tão útil quanto a invisibilidade. Caspida vira o rosto para ele, seus olhos sondando. — Você é esperto, Rahzad rai Asnam. Você é um estudante da guerra? Aladdin ri. — Acho que você não deu uma boa olhada no meu navio, ou você não perguntaria isso. — Então o que você é? — ela dá um passo em direção a ele, levantando o rosto para estudá-lo de perto. — Um estudioso? Um artista? — Mais como um sonhador. — Deve ser bom produzir sonhos. — Você não sonha? — Os sonhos não irão proteger a cidade dos gênios. Sonhos não vão alimentar o meu povo. Sonhos não... — ela aperta os lábios. Aladdin, com uma voz suave, pergunta: — Princesa, se você pudesse ter qualquer coisa no mundo, o que você desejaria? Ela o estuda por um longo momento, como se não tivesse certeza se ele está brincando ou falando sério. Então, ela dá um pequeno suspiro e diz: — Você não deveria travar brigas com Darian. Ele é mais perigoso do que parece. — Você o ama? Ela recua, assustada com a pergunta franca e a franqueza do olhar de Aladdin. Por um momento, ela só olha para ele em avaliação, as bochechas corando. Então ela se vira e levanta seu queixo. — Boa noite, Príncipe Rahzad. Espero que você encontre aqui a mais confortável estadia. Com isso, ela desaparece, deixando-o batendo a cabeça contra um pilar de pedra. — Fumaça, — ele geme, — Isso não vai ser fácil, vai? Puxo meus lábios. — Sem chance, ladrão.

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C Assim que Aladdin dorme, eu escorrego para fora da porta e me trasnformo em gato, em seguida, caminho pelos corredores, contraindo minhas orelhas e bigodes. O palácio é calmo à noite, os corredores escuros, exceto pelo luar que se derrama através das janelas altas em arco. Grilos gorjeiam em muitos pátios, e eu passo pelos pavões empoleirados em um pequeno bosque de pés de limão. Eu escuto em todas as portas, e sigo em frente quando eu não encontro o que estou procurando. Estou quase no limite do perímetro mágico da lâmpada quando eu finalmente ouço a voz de Darian. A porta de seu quarto está fechada, mas isso não me impede. Eu me trasnformo em uma aranha e rastejo por baixo dela, em seguida, corro até a parede, me mantendo nas sombras. Tomar a forma de uma aranha é difícil tantas pernas para gerir, e olhar através de todos aqueles olhos me deixam tonta. Então, quando eu atingo o limite máximo, eu me transformo em um morcego e me penduro de cabeça para baixo, meus dedos do pé agarrados a uma rachadura na parede. Darian e Sulifer estão em meio a uma discussão acalorada. Ambos estão respirando pesadamente, e uma bacia se encontra quebrada no chão. Os quartos são maiores e mais resplandecentes do que o Aladdin, e tirando a cerâmica quebrada, tudo está impecavelmente arrumado. — ...e por um ladrão comum, nem menos! — Sulifer está dizendo. Sua voz é baixa e perigosa, seus olhos estreitos. Lá se foi o composto vizir formal, que se reuniu na sala do trono quase dez dias atrás. — Ele deve ter tido ajuda de dentro, — Darian responde em um tom abafado. Ele está encostado a uma mesa, os ombros curvados e seu rosto escondido da minha vista. — E uma vez que ele teve a lâmpada, como eu ia impedi-lo? Ele tinha o gênio ao seu lado, e ele fez um desejo! Eu poderia ter morrido. Tudo que eu consegui foi isto.

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Darian escava em um bolso, pegando o anel que Aladdin estava usando quando ele me encontrou. Sulifer pegou e segurou apertado. — Por que falar com o ladrão e não comigo ou você? A réplica de Darian é amarga. — Eu não sei, pai. Eu não sou um especialista nestas coisas. Eu nunca quis qualquer parte disso! Sulifer levanta a mão, e o príncipe se encolhe, mas, em seguida, o vizir pausa. — Você disse que o ouviu fazer um desejo. O que, exatamente, ele disse? — Ele queria ir para casa. — Ele está aqui. Na cidade, — Sulifer disse. — Por que você não disse isso primeiro, seu idiota? Tudo o que temos que fazer é enviar os encantadores de Tytoshi com suas flautas. Isso deve encantar a criatura e fazê-la sair do esconderijo, e assim, chegar até o menino. — Você realmente acha que ele é o gênio? — pergunta Darian. — O mesmo que traiu Rainha Roshana e começou esta guerra? — O maarid que nós capturamos nos disse que a lâmpada continha a mais poderosa de todos os gênios. Que outro monstro que poderia ser? — os olhos de Sulifer ficam distantes e gananciosos — Eles dizem que criaram um jardim para Roshana feito inteiramente de jóias, uma riqueza maior do que qualquer outra no mundo. — ele faz uma carranca para o filho. — Eu suponho que você não encontrou qualquer sinal dele em sua incursão ilegítima para o deserto? — Assim que o ladrão escapou, me virei e andei diretamente de volta para cá, como você bem sabe, — respondeu Darian. — Eu não tenho tempo para cavar as ruínas antigas. De qualquer forma, eu não sei por que você está tão obcecado com este gênio. Nós temos uma centena de outros engarrafados, à espera de serem utilizados. Eu fico tensa, minhas orelhas de morcego esticam. — Esses gênios são ferozes e incontroláveis. — Sulifer rola o anel entre os dedos, o lábio enrolado em desgosto. — No momento em que você deixar um sair, ele vai se transformar em você. Eles não têm compulsão sobre eles para conceder desejos, nenhuma lealdade aos seus senhores. Apenas um dos antigos gênios da lâmpada vai fazer e há poucos dos que ficaram. Não, eu vou colocar em minhas mãos esse, e quando eu fizer, nosso povo vai ~ 99 ~


finalmente retomar o seu lugar neste mundo. Não mais encolhido por trás dessas paredes. Vamos desfazer a maldição louca que Roshana deixou em nós e estender nosso império mais uma vez. A primeira coisa amanhã é ter Vigo tocando a sua flauta por toda a cidade. Darian só olha para o pai com ardor nos olhos antes de se virar. — Eu tenho montado por dias. Estou exausto. Mas Sulifer continua como se Darian nunca tivesse falado. — Se o ladrão ainda está aqui, ele provavelmente está escondindo, esperando para ver o que vamos fazer. Coloque a sua cabeça a prêmio, assim como fiz à seus pais. Me informe depois de ter despachado o encantador. Eu não vou tolerar mais a sua incompetência. Sem outra palavra, Sulifer sai do quarto como um furacão, batendo a porta atrás de si. Darian se inclina contra a parede, em seguida, desliza para o chão, os olhos fechados. Ele deixa escapar um longo suspiro antes de deixar cair seu rosto em suas mãos. Eu me mudo tranquilamente para fumaça cinza e subo no teto, desço pela parede e passo pela porta antes que ele possa olhar para cima novamente. Os passos de Sulifer ainda estão ecoando no corredor, e eu mudo para a forma de gato e caminho atrás dele, mas tenho apenas dez passos antes que a lâmpada me empurre para trás, me dissolvendo em fumaça, e eu só posso sentir a raiva em silêncio enquanto eu corro através do corredor, por baixo da porta de Aladdin e pelo bico. Zhian está aqui, em algum lugar. Abaixo, disse Darian. Eu vi escadas que levam até os níveis mais baixos do palácio, mas fui incapaz de segui-los. Eu tenho que encontrar uma maneira de levar Aladdin lá em baixo, para me dar a oportunidade de descobrir onde Sulifer mantém os gênios engarrafados. Eu não tenho muito tempo. Uma semana e mais já passou, e a lua está cheia. Eu giro em torno da lâmpada, pensando muito. Tudo está se encaixando agora. Nardukha enviou uma maarid para a cidade para ser capturado, para que ele pudesse dizer a Sulifer sobre o anel para levá-lo

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para mim. Mas o anel não parece funcionar com Sulifer ou Darian. Por que, então, é que ele fala com Aladdin? Quem o criou, e por quê? Uma e outra vez eu me encontro de volta às mesmas perguntas. Eu enrolo e penso na minha lâmpada, devagar, uma preguiçosa fumaça, à espera do amanhã para que Aladdin possa me deixar sair novamente.

***

— Aonde você vai à noite? Assustada, eu pisco para Aladdin. — O quê? — Toda noite você escorrega para fora. Você acha que eu não noto. Você se vai por horas, e às vezes você vem correndo de volta, e some em sua lâmpada. Estamos sentados debaixo de uma pequena sombra de lona à beira de um campo Chaugan. Cavalos galopam sobre na grama, seus cavaleiros se inclinam para baixo com suas malhas e batem uma pequena bola de um lado do campo para o outro. Nobles olham a partir de sua sombra, como nós, gastando mais tempo fofocando e bebendo do que assistindo o jogo. Tem sido um longo tempo desde que eu vi pela última vez jogando chougan e esse foi o dia em que o jogo foi inventado pelo Rei Sanguinário de Danien. As regras parecem a mesma coisa todos estes séculos depois, exceto que o jogo original não era jogado com bolas de madeira, mas com as cabeças cortadas dos inimigos do rei. Eu prefiro muito mais a versão moderna. Aladdin e eu estamos temporariamente sozinhos. Os visitantes vêm e vão, nobres principalmente curiosos - e um bom número deles jovens, do sexo feminino, e tímidas. Aladdin descansa como um rei, uma bandeja de frutas em um lado, um frasco de vinho caro na outra. Eu estou atrás dele, pronta para esperar por todos os seus caprichos, embora até agora eu responda todos os seus pedidos com carrancas. Aladdin torce em torno de seu assento e olha para mim, claramente não vai me deixar sair de responder.

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— Eu gosto de passear, — eu digo com um encolher de ombros. — Meus instintos são mais ativos à noite, você sabe. Ele levanta as sobrancelhas como se ele não achasse isso, então se vira para ver o jogo. — Os ringues são muito mais excitantes do que isso, — diz ele, bocejando. — Eu deveria levar alguns destes meninos ricos para a cidade uma dessas noites, mostrar a eles algum entretenimento de verdade. — Isso seria uma má ideia. Passar muito tempo em torno de quem está familiarizado com você vai enfraquecer o glamour escondendo sua verdadeira identidade. Ele suspira e puxa algumas uvas da bandeja ao lado dele, mas em vez de comê-las, ele só os rola em sua mão. Seus olhos estão bloqueados não sobre o jogo, mas no pavilhão erguido sobre o outro lado do campo. Darian se senta alí, com seus amigos, Caspida ao seu lado. O príncipe e a princesa não falam ou nem mesmo olham um para o outro; ele conversa com os rapazes, e ela se senta rigidamente, seus olhos vagando pela multidão. Sulifer aparece no outro extremo do campo, cercado por ministros e oficiais militares que disputam sua atenção. Os olhos de Aladdin seguem o vizir, e um por um, ele aperta as uvas na mão até que eles estouram. Sombras assombram seus olhos, e ele mói sua mandíbula tão forte que eu temo que ele vá quebrar um dente. — Por que você não odeia os gênios? — pergunto, desviando sua atenção. Aladdin gira, a raiva em seu rosto se dissip. — Odiar os gênios? — Cada pessoa aqui seria capaz de cortar minha cabeça tão logo como dizer olá se soubessem o que eu sou. Ele passa a mão pelo cabelo. — Eu não sei. Realmente não tenho que lidar com os gênios quando me mantive dentro da cidade toda a minha vida. E de qualquer maneira, como eu poderia odiar você? Sem você, eu não estaria aqui. Ele poderia me odiar se ele soubesse que eu estou usando ele, manipulando-o, levando-o para o perigo e, pior, tudo por minhas próprias razões egoístas. O que ele diria se soubesse a verdade? Talvez eu devesse dizer isso a ele. Talvez eu precise ver o ódio em seus olhos, para abafar a ~ 102 ~


leveza no meu estômago sempre que eu olho para ele. Mas a verdade começa a travar na minha garganta, e eu sufoco. — Príncipe Rahzad! — uma voz ensolarada chama e Vigo se aproxima, girando algo em sua mão. Meus dentes apertam quando percebo o que é uma flauta encantadora de gênios, idêntica à de Nessa. — Aproveitando o jogo? Aladdin sorri e se levanta, apertando as mãos com Tytoshi. — É malditamente tedioso. Vigo acena com a cabeça, e solta uma gargalhada estrondosa. — Eu não poderia concordar mais, amigo! Estes Amulens podem passar o dia vendo isso! E em Istarya? O que vocês fazem de esportes no reino da lendária ilha que ouvimos tão pouco? Aladdin acena com a mão. — Ah, voce sabe. Uma grande quantidade de esportes na água. Lutas com tubarões e outras coisas. E em Tytos? — Não sei. Não volto lá desde que eu era um menino. Estou indo para a cidade para fazer algum trabalho. — ele bate sua flauta na testa. — Quer vir junto? Esse jogo o dia todo fica muito tedioso, mas depois há algumas garotas divertidas que eu poderia apresentar à você. Quer dizer, se, uh... — ele olha para mim. Aladdin faz também, e ele pega o olhar nos meus olhos. Ele se vira para Vigo. — Obrigado, cara, mas eu já prometi jogar dados mais tarde. — Certo, certo. — Vigo sorri e levanta as sobrancelhas para mim, em seguida, dá um tapa no ombro de Aladdin. — Divirta-se, cara! Ele se vira e eu solto uma longa respiração que eu estava segurando. — Bem? — Aladdin se vira para mim. — O que está errado? Por que você não quer ir? — Eu- — surpresa, eu tropeço um pouco. — Você disse a ele que não só porque eu não queria ir? — Nós estamos nisso juntos, não estamos? — ele me dá um sorriso confuso torto. — Mas... você é o mestre . Tudo o que você quiser fazer eu faço. Eu não tenho escolha.

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Ele ri e eu franzo a testa para ele com surpresa. — Você acha que é engraçado? — pergunto. — Não! Desculpa. Eu provavelmente deveria dizer quão terrível é você ter que ir aonde eu quiser, mas... quando eu olho para você, eu vejo um gênio que não tem medo de me dizer o que pensa. Que não tem medo de discordar de mim. Se eu fizer um desejo, você pode usá-lo para me esmagar. Você já fez isso antes, não é? Arruinando seus mestres com os seus próprios desejos? Eu levanto um ombro, concordando de modo relutante. — Eu não acho que você é tão impotente como você quer que as pessoas pensem. — O que isso significa? Aladdin olha para mim por um longo momento, então diz suavemente: — Quando eu era pequeno, e os guardas viam e batiam no meu pai até que ele os pagava, minha avó costumava me levar para o telhado da nossa casa, para que eu não tivesse que ver. Perguntei por que meu pai resistia aos guardas quando eles sempre venciam no final. Por que ele não apenas se salvava da dor e pagava o que eles queriam? Ela me disse que, às vezes, você não pode escolher o que acontece com você, mas você pode escolher quem você quer se tornar por causa disso. É por isso que meu pai lutou. Ele sabia que, no final, isso não mudaria nada. Mas ele não iria deixar as circunstâncias controlar quem ele era. — seus olhos ficam tempestuosos. — Eu sempre pensei que não havia liberdade na luta - apenas na morte. Qual é o ponto de lutar por uma causa perdida? Você é como meu pai. Você luta de volta. — E você acha que eu sou uma tola por isso? — Não. Eu acho que... você é corajosa. — Corajosa? — eu sufoco uma risada. — Você está esquecendo quem eu sou? Ou por que o seu povo se esconde dentro destas paredes, temendo os gênios? Eu sou o - o que suas músicas dizem? - feita e Sedução. Me diga, ó Mestre, o que tem de corajoso trair alguém que você ama? — Ama? Eu congelo, perguntando como eu poderia ter sido tão tola a ponto de deixar a palavra deslizar. Mas é tarde demais agora. Eu olho para Aladdin, ~ 104 ~


como se fosse culpa dele, como se ele tivesse me levado a revelar o meu segredo. — Esqueça isso, — murmuro. — O que aconteceu naquele dia? Você realmente traiu essa rainha e começou essa guerra? — Sim, eu fiz. — embora não seja da forma que ele imagina. Eu te amei, Habiba, e ao fazer isso, eu te trai. As regras eram claras, o custo inevitável. Mesmo assim, eu era arrogante, me achando tão inteligente a fazer amizade com um ser humano e sonhar com a paz entre nossas raças. Eu pensei que estava acima da lei e que continha todos os gênios cativos, imaginei que poderia superar o abismo que separou o homem e gênios desde o início deste mundo. Mas eu aprendi minha lição, ao custo de você, seu povo, sua cidade. E as consequências da minha loucura ainda ecoam através dos séculos. Eu escorrego para trás de Aladdin, me retirando de qualquer outra curiosidade de sua parte. Em breve, vou ter resgatado Zhian e Nardukha concederá a minha liberdade. E uma vez que eu estiver livre para fugir, nem mesmo as sombras do passado serão capazes de me pegar.

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C Outra semana passou. A lua está quase cheia. Eu ainda não encontrei qualquer sinal de Zhian. Eu estou ficando desesperada. Aladdin passeia ao redor da quadra como um animal de estimação exótico com o pessoal que o convidou aos jogos de cartas e corridas de camelos. Eu paro atrás dele, alimentando-o com dicas de etiqueta quando posso, mas logo descubro que ele não precisa disso. Ele me disse que era adaptável, mas eu o subestimei. Ele combina perfeitamente, suas maneiras charmosas, sua conversa fascinante. — Devo contar a história de como eu e meus dois irmãos roubaram um ovo de roc? — ele diz a um grupo de jovens nobres uma noite em um jogo de dados e telhas. Eles riem com entusiasmo, e ele se lança em uma história ridícula. Eu estou atrás de Aladdin, como sempre, pronta para trazer vinho ou qualquer outra coisa que ele goste. Quando sua história fica mais e mais selvagem, observo os rostos de seus ouvintes enquanto eles se movem de maravilhados para choque e para horror. — Mais e mais alto subimos, com as Great Falls do Oznar trovejando em torno de nós, e os rocs gritando enquanto eles mergulhavam em nós. — Aladdin se inclina, e sua audiência com os olhos arregalados prende a respiração. — Mas não se esqueçam! Nós fizemos flechas de marfim, que é, naturalmente, a única coisa conhecida para matar um roc. Nós disparamos quando subimos, mantendo-os à distância, até que finalmente chegamos ao cume, onde a mãe roc esperava em seu ninho. Um ninho tão vasto como este palácio! — ele espalha suas mãos. Suspiros sobem de todos os lados, e eu pisco, me pegando embrulhada em sua história. Aladdin é eloquente, de fato, e apesar de suas histórias ficarem de modo mais improváveis a cada noite, ele nunca deixa de ~ 106 ~


atrair uma multidão. De onde ele tira essas fantasias, eu não posso dizer. Talvez eu tenha inventado Istarya, mas Aladdin a trouxe à vida. Há muito mais nesse ladrão do que eu imaginava, e os nobres não são os únicos que começaram a cair sob seu feitiço. Muitas vezes eu me pego ouvindo encantada os seus contos quando eu deveria estar procurando Zhian, uma realização que me enche de alarme e confusão. Me lembro do porque eu estou aqui, o que eu estou procurando. Me lembro do custo do fracasso. — Você é completamente sem vergonha? — pergunto a Aladdin mais tarde naquela noite, depois do jogar e beber e contar histórias que finalmente acabam, em algum lugar perto da meia-noite. Vigo caminha conosco, ele e Aladdin tão embriagados e se inclinando um sobre o outro. O menino Tytoshi se acostumou com Aladdin e agora conversam de igual para igual, e não fazem perguntas, mas as suas hipóteses são simples na forma de como ele sorri e olha para nós . — O quê? — pergunta Aladdin, os olhos arregalados de inocência. — Ela tem o dobro da sua idade, e você a fez corar como uma virgem. Ele dá de ombros, jogando um braço em volta dos ombros de Vigo. — Eu gostei de fazê-la corar. Era um belo colar, não era, Vigo? — Muito bom. Muito bom, — Vigo disse. — Tá vendo? Vigo gostou do colar também. Por que, eu gostei muito... — com uma piscadela, Aladdin puxa a faixa em volta da cintura apenas o suficiente para revelar um brilho de rubi. — Você roubou. — eu corro uma mão sobre meu rosto. — Você tem que me ensinar a fazer isso, — diz Vigo. — Aqui, — diz Aladdin. — Vamos praticar com Zahra. Zahra, coloque esse colar. — Oh, olhe! — eu grito, paro e abro uma porta. — Quarto do Vigo. — Mmhm. — Vigo grogue bate no ombro de Aladdin. — Corrida de cavalos amanhã - você vai vir, Rahzad?

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— Definitivamente. Eu coloco uma mão contra a parte baixa das costas de Vigo e o impulsiono à sua porta. — Boa noite, Vigo. O Tytoshi tropeça para dentro, e eu fecho a porta, me encolhendo um pouco quando um baque alto acontece lá dentro. — Tenho certeza que ele está bem, — eu digo. — Vamos. Vamos levá-lo para a cama. Eu deslizo um braço ao redor Aladdin e o apoio o resto do caminho. Ele enrola uma mecha do meu cabelo em torno de seu dedo e murmura: — Onde eu estaria sem você, Zahra? Ele está tão perto que sua respiração aquece o meu pescoço. — Você estaria no deserto, em uma pilha de ossos secos, isso é onde você estaria. — Hm. Certo. Eu já te agradeci? Eu não te agradeci o suficiente. Vigo acha que você é minha concubina. Você sabia disso? — Chegamos! — digo, um pouco alto demais, empurro a porta e o puxo para nossos quartos. Ele ri e se deixa cair no divã. — Seu rosto está vermelho. — Não está! — eu me viro, escondendo minhas bochechas coradas, mas, em seguida, ele pega a minha mão. — Não vá. Assustada, eu fico tensa e quase me transformo em fumaça. Ele me olha, seu olhar é firme - apenas pouco embaçado - e seu aperto na minha mão é quente. Hesitante, eu sento ao lado dele, puxando a minha mão. Ele se inclina para trás com um suspiro. — Uma tempestade está a ponto de cair, — diz Aladdin. Eu olho para o pátio, onde uma faixa do céu escuro é visível. Há nuvens obscurecendo as estrelas, e o vento dobra as figueiras. As chamas nas lanternas se extinguem, nos deixando na escuridão. Um momento depois, raios aparecem em uma nuvem, iluminando o rosto de Aladdin por um segundo. Seus olhos estão em mim.

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Com a queda de um trovão, baixo e com raiva, eu abro a minha mão e evoco uma chama sobre a minha palma. A luz amarela pisca sobre as feições de Alladin enquanto seu olhar abaixa e os seus lábios abrem um pouco. — Eu vou pegar algumas velas, — diz ele. — Não. — eu passo a chama entre as minhas mãos. — Não iria funcionar. O fogo não é real. É apenas uma parte de mim - mágica que muda de forma. Ele não vai por nada em chamas. A chama reflete em seus olhos, enquanto lá fora, a tempestade rola dentro do mar, enchendo o ar com o cheiro de sal. As cortinas penduradas nos arcos incham e caem. Relâmpagos caem em rápida sucessão, fagulhas incandescentes jogadas dos deuses. Aladdin levanta uma mão e passa lentamente através da chama delgada em toda a minha pele. O fogo dança em seu toque, e um arrepio me percorre, fazendo o cabelo na minha nuca ficar em pé, como se ele tivesse corrido os dedos pelo meu cabelo. Eu encontro seus olhos, sentindo as vibrações do trovão lá fora ecoando no meu peito. A maneira como ele olha para mim - constante e silencioso, corajoso e brilhante – me faz sentir como se a tempestade lá fora ficasse presa dentro de mim. — Você é linda, — ele murmura. — Como alguém pode acreditar que você é apenas uma serva? Eu fecho a minha mão e a chama foge, e arranco o meu olhar do dele. — Você está bêbado, — eu digo. Ele ri baixinho em sua garganta, então concorda. Inclinando-se para trás, ele esfrega o rosto cansado. — Deve estar quase amanhecendo. A tempestade começa a se dissipar, a sua fúria se desgasta. Chuva cai sobre o pátio, bate macia e escurece as pedras. Eu me levanto e procuro algo para acender as lanternas, mas antes de eu encontrá-lo, Aladdin adormece no sofá, ainda sentado, a cabeça caindo em direção ao seu peito. Gentilmente me forço para o lado, afastando os travesseiros e coloco

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um cobertor de cashmere sobre ele. Ele suspira, se mexendo um pouco, e eu espero até que ele durma novamente antes de me sentar em frente a ele. Por vários minutos eu o vejo dormir, e meu peito dói estranhamente. Eu deveria ir e procurar Zhian nas poucas horas antes do amanhecer, mas eu não posso me afastar. Eu estendo a mão e escovo o cabelo de Aladdin para trás, meus dedos persistentes em seus cachos negros. Eu posso sentir a força de sua vida crepitante como faíscas na minha pele. Tão brilhante mortal, que apareceu tão rapidamente como um raio. — O que estou fazendo? — eu sussurro. Eu sei onde essa estrada leva, pois eu ja viajei nela antes. Não me atrevo a segui-la novamente, não importa o quão tentador seja. Se fosse tão fácil assim abafar o fogo pulando dentro de mim como aquele em minha palma. Finalmente, o meu estômago torce, eu me levanto e vou para a porta, o rosto corado e as mãos trêmulas. Eu me recomponho e me transformo em fumaça. Eu passo o resto da noite rondando os corredores, e uma vez, brevemente, eu quase acho que eu posso sentir a energia mais fraca de... algo. Uma força, se contorcendo abaixo. Não humana. Mas então ela se foi, e quando eu tento persegui-la, eu quase vou para muito longe da lâmpada. Eu paro, congelo na borda da minha coleira invisível, e fico por longos minutos, incapaz de ir para frente e com medo de voltar.

***

Na manhã seguinte, eu estou descansando no pátio sob a forma de um tigre, golpeando preguiçosamente as moscas, quando uma batida soa na porta. Imediatamente eu volto a ser uma menina e corro para abri-la. É Khavar, ela tem uma cobra enrolada como um colar da vida em toda a sua clavícula. — Minha senhora Princesa Caspida solicita sua presença em seus aposentos, — diz a menina em um tom aborrecido. — Imediatamente. Se for

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conveniente. — Eu vou ter que acordá-lo, — eu respondo. — Ele está— Não ele. Você. Eu fico olhando para ela por um momento, em seguida, bato a porta. Pensando bem, eu abro novamente e digo: — Só um minuto, — antes de fechá-la novamente em seu rosto. Eu vou para o quarto de Aladdin, onde em algum momento durante a noite ele se arrastou, e abro a cortina pesada cor de damasco, deixando a luz do sol derramar para dentro. Aladdin, jogando uma mão sobre os olhos, grita e cai da cama. — O que você está - por quê? — Eu fui convocada para ver Caspida. Ele geme e massagea sua cabeça. — Isso dói. Tudo dói. Até os leve sons. Ugh... — Da próxima vez, — eu digo alegremente, — talvez você pense antes de deixar o lacaio fedorento te embebedar. Se você for vomitar, faça lá fora. Eu não vou limpar isso para você. — Gunhhh... — Eu vou ver Caspida. Ver se isso pode ajudá-lo. Não faça nada estúpido. E não deixe a minha lâmpada ir. Os seus maus modos podemos explicar. Minha evaporação na frente dos olhos de Caspida - nós não podemos. Aladdin. — eu puxo as mãos de seu rosto para ter certeza que ele entende. Ele aperta os olhos e geme pateticamente. — Você pode me ouvir ou não? — Sim. Agora vá embora. Me deixe em paz. — ele puxa o cobertor da cama e se cobre, se enroscando no chão. Deixo-o lá, abro a porta e sorrio para Khavar. — Estou pronta. Caspida vai querer me interrogar sobre Aladdin, estou certa. É mais fácil me convidar, sou a única membra da família do sexo feminino, a menos que ela queira inflamar fofocas escandalosas. Ótimo. Eu estava esperando por isso. Talvez eu possa finalmente ter uma pista para encontrar Zhian. ~ 111 ~


Khavar me conduz através do palácio, através de arcos, portas e pátios de pedra. Passamos por muitos servos, mas alguns nobres; eu suspeito que Aladdin não seja o único que vai acordar com uma dor de cabeça esta manhã. O palácio foi construído para permitir o máximo de luz e ar fresco possível entrar, com muitos arcos e janelas abertas. O ar fresco da manhã é preenchido com o canto dos pássaros e o som de água corrente de muitas fontes nos pátios, passamos o rebanho de pavões que eu tinha me transformado no jantar há uma semana.Vários correrem até mim e bicam curiosamente os meus sapatos. Khavar assobia para eles, e eles se dispersam. — Aqui, — suspira Khavar, abrindo uma porta estreita de cedro. Os quartos lá dentro são amplos e abertos, ligados por portas em arco com cortinas de seda pura. Da mesma forma que as câmaras de Alladin, eles abrem a um pátio, bem como uma ampla piscina rasa. O quarto que Khavar me leva é exuberante, com tapetes e almofadas, seda e bordados. As servas de Caspida estão todas aqui, e há outra presença: uma vitela de elefante está no centro da sala. As meninas pintam desenhos em sua pele e elas me dão olhares curiosos antes de voltar para o seu trabalho. Raz dispara flechas em um travesseiro do outro lado da sala, seus tiros voando perigosamente perto da cabeça de Nessa, mas encontram seu alvo o tempo todo. Nessa parece pouco notar. Caspida descansa em uma longa almofada na frente do elefante e oferece um punhado de fatias de maçã ao elefante que pega com seu tronco e dobra em sua boca. Ela ri quando ele puxa o cabelo dela, pedindo mais, e por um momento eu vejo a menina que não é a rainha que ela se apresenta à corte. A princesa olha para cima quando eu entro, a mão parando acima da bacia de maçãs. O elefante a cutuca com seu tronco. Caspida usa apenas uma kurta branca e saia, os pés descalços, mas o tecido é incrustado com flores bordadas delicadas que devem ter tomado vários meses de uma costureira muito hábil para criar. Um pino de ouro simples está pressionado em sua narina, e uma cadeia delicada paira a partir dele para o lóbulo da orelha, roçando sua bochecha suave. — Você deve ser Zahra.

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Eu me curvo. — Vossa Alteza. — Com fome? — ela levanta a taça de maçãs e empurra a tromba do elefante quando tenta agarrar a fruta. Eu olho para a tigela, então para Caspida, lendo as palavras não ditas em seus olhos. Esse é um jogo antigo que eu tenho jogado, ganhando e perdido muitas vezes. Pego o fruto, e eu estou demonstrando que minha lealdade ao meu mestre pode ser testada, talvez quebrada. Paro, e ela vai saber que eu sou dele até o último alento. — Você me honra, — eu digo, e tomo uma fatia de maçã. Ela sorri lentamente, estreitando os olhos com interesse. — Caminhe comigo. Sem levantar a saia, ela entra na piscina rasa para fora dos arcos, deixando a taça nas mãos de Khavar. Eu a sigo, atravessando na água. Ela vem até os meus tornozelos, mas é fria e refrescante, os azulejos pretos e brancos na parte inferior livres de lodo ou areia. Flores de lotus flutuam placidamente na superfície e giram de lado quando passamos por eles. Caspida dá passos para um espaço de grama além do espelho d'água. O palácio nos envolve por todos os lados, e a sombra de um minarete de altura escurece a água, mas este pequeno jardim é moldado com plantas trepadeiras e árvores para que isso se pareça como se nós fôssemos o centro de um oásis distante. Situado no meio da trama gramínea está uma estátua resistida de uma mulher alada segurando uma lâmpada em uma mão, uma espada na outra. Eu não posso evitar perder o fôlego enquanto eu a contemplo. O elefante se arrasta atrás de nós, e as meninas gritam quando suas pinturas são manchadas. A panturrilha dele se curva na água e lança jatos, enquanto as meninas desistem de suas obras de arte e começam espirrar água uma nas outras. A princesa se senta na grama e dobra as pernas debaixo dela, a saia espalhando em torno dela em uma piscina de seda. Me ajoelho ao lado dela e espero ela falar primeiro. Seu silêncio é preenchido com o canto dos pássaros e a suave risada das meninas. Ela observa o elefante e suas servas por alguns momentos antes de começar, evitando brincadeiras e indo direto ao ponto. ~ 113 ~


— Me diga sobre o seu mestre. Eu concordo. — Ele é o oitavo na linha de sucessão ao trono, o filho de— Não, não, — Caspida interrompe irritada. — Me diga o que ele é. — Ele é um jogador, — eu digo. Não há nenhum ponto em mentir sobre estas coisas. — Ele é ousado, mas imprudente. Corajoso, mas impetuoso. Um homem que... mantém rancores. — faço uma pausa, e termino num sussurro: — Ele iria arriscar sua vida para salvar outra pessoa, sem sequer pensar duas vezes. Caspida vira a cabeça um pouco, interesse cresce em seus olhos. — E ele sai em uma viagem louca e navega diretamente para um ninho de gênios. — Meu mestre é nobre, — eu digo com um sorriso, — mas eu não faço sugestões quanto à sua inteligência. — Eu nunca ouvi falar de Istarya, então eu fiz alguma pesquisa. Você sabe que nenhum dos pergaminhos ou histórias em nossa biblioteca a menciona? — Somos uma pequena nação, Sua Alteza, e nós mantemos para nós mesmos. Ela olha para mim com olhos astutos, mas não responde. O elefante descobriu que pode aspirar água e pulverizá-lo sobre as meninas, e parece achar isso muito divertido. As meninas gritam e tentam se esconder, mas o pequeno alegremente se arrasta atrás delas, atirando água em jatos. Caspida observa, mas não sorri. — O nome dela é Shasi. Sua mãe morreu ao dar à luz a ela, e meu tio ia matá-la porque ela nasceu pequena e doente. Mas nós a deixamos bem de novo, e ela prefere brincar com as minhas moças do que com sua própria espécie. — ela distraidamente corre o polegar e o indicador na corrente em sua bochecha, fazendo-o tilintar suavemente. — Minha bisavó Fahruaz fazia parte de Tytoshi. Foi ela quem importou o primeiro dos nossos elefantes de guerra. Ela era um grande estrategista e comandou o nosso exército por mais de trinta anos. Dizem que os seus inimigos armaram muitas armadilhas para ela, mas que ela era esperta demais para eles, pois ela

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sempre viu a verdade por trás de suas mentiras. Alguns acreditam que eu sou muito parecida com a minha avó. Caspida se vira para mim. — Você não é uma serva, Zahra. Você esconde isso bem dos outros, mas seus olhos são muito orgulhosos, seus olhares muito desafiados. Mas se você não é uma serva, quem é você? Real? Nobre? Um soldado disfarçado que jurou proteger o seu mestre? Agora eu sou a única que a olha. — Você tem um olho afiado. — Eu cresci em uma corte, — ela responde. — Todo mundo que eu já conheci é perito em mentiras. Eu aprendi há muito tempo ver a intenção por trás das máscaras. Então me diga, Zahra, por que está com Rahzad? Você é sua amante? — Não! Ela me dá um olhar malicioso. — Você desejava ser? — Não, — talvez eu tenha dito a palavra com muita ênfase, porque ela sorriu um pouco. — Foi uma pergunta honesta. Ele é bonito, e você fala muito bem dele. — Somos amigos. — meus pensamentos são traidores, insensivelmente evocando a imagem de Aladdin no telhado, seus olhos profundos, a preocupação quando ele me acordou depois dos guardas me nocautearem. Toda a atenção de Caspida agora é dirigida a mim, e seus olhos me olham de modo profundo. — Vou ter que ter cuidado com você, eu acho. Suas mentiras são lisas, sua língua rápida. Eu te trouxe aqui para saber mais sobre o seu príncipe, mas talvez eu devesse estar prestando mais atenção em você. É hora de levar a conversa para águas mais seguras. Tanto quanto eu gostaria de lhe dizer a verdade - afinal, ela é o seu próprio sangue, Habiba, e seu espírito é forte nela - eu sei que não posso confiar nela, e não quando ela tem um encantador de gênios ao seu lado. O pensamento reforça a minha missão. Eu me levanto e caminho até a estátua da mulher alada e coloco uma mão reverentemente em seu pé. O pedestal é alto e os joelhos estão em um ~ 115 ~


nível com o topo da minha cabeça. — Isto é notável, — eu comento. Caspida está me observando com interesse enquanto eu circulo a estátua, inspecionando-a de todos os lados. — Quantos anos tem isso? — Ela foi feita para minha mãe, quando ela se casou com o meu pai. Me viro para Caspida e pergunto em tom aparentemente neutro, — Ela é um ancestral sua? — Sim, muito distante. — Caspida se levanta e se junta a mim, olhando para o rosto de pedra, que verdade seja dita não é uma boa semelhança. O tempo tem resistido a sua memória, ou então eu não seria capaz de andar livremente aqui, usando seu rosto. — Esta é Roshana, a última rainha do Império Amulen, quando o meu povo governava todas as terras do leste para o oeste. Ela é uma espécie de lenda entre nós. Cada rainha aspira a aprender com seus erros. — Seus erros? Certamente você quer dizer suas vitórias. — O que? Eu franzo a testa para ela. — Roshana foi uma das maiores rainhas do mundo. Ela terminou as Sanhezriyah a Mad, ela-

Guerras

da

Montanha,

ela

encaminhou

— Para uma garota estrangeira, você é estranhamente bem versada na história Amulen. — Passei muito tempo em bibliotecas quando menina. — Você estava lá para espanar os pergaminhos ou lê-los? — Certamente as vitórias de Roshana superam os seus erros. — Quanto mais alto você subir, mais alto você cai. Por toda a sua sabedoria, Roshana foi enganada pelo gênio, acreditando que era seu amigo, e então ele a destruiu. Desde aquele dia, o meu povo tem caçado os gênios. Não há criaturas mais crueis e indignos de confiança. — Esta não é a história que ouvi, — eu digo suavemente. — Meu povo conta de forma diferente. Que o gênio realmente foi um amigo para Roshana,

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mas foi forçado a se voltar contra ela. Que ele não tinha escolha. — Certamente eu sei como meu próprio ancestral morreu, — retorna a princesa, um pouco raivosa. — De qualquer forma, foi há muito tempo, mas nós, Amulens, não esquecemos. — Não, — murmuro. — Suponho que não. E você cresceu com lutadores fortes e inteligentes, pelo que ouvi. E você ainda tem aquele entre vocês alguém que pode prender gênios. Caspida me observa de perto, um pequeno e curioso sorriso nos lábios. — Encantadores de gênios estiveram ao redor por séculos. Nós não inventamos a arte. Você não os tem em Istarya? — Eu receio que estamos entre aqueles que preferem se curvar aos gênios do que combatê-los. — Mas não o seu mestre, — observa Caspida. — Ele não está aqui para estudar os nossos métodos? — O que você faz com um gênio preso? Parece perigoso. Certamente você os eliminá. Ela me olha por um momento, então diz: — Talvez um dia eu vá te dizer. Me perdoe, mas os segredos do meu povo não são meus para contar. Ela é uma princesa se desculpando com uma serva. Falando comigo como se nós fossemos iguais. E percebo, em seguida, algo que não percebi antes, que ela é realmente a sua descendente, que alguma parte do seu espírito passou para ela. Sinto que eu a conheço muito mais intimamente do que no espaço de alguns minutos de conversa tornaria possível. Vejo isso nela, e por isso, eu não posso estar zangada com ela. — Não, — eu digo suavemente. — Me perdoe. Eu não quero me intrometer. Nisso ou... ou Roshana. Tenho certeza que sua versão é a verdadeira. — Bem, foi há muito tempo, — diz ela graciosamente. — Um mundo completamente diferente. E de qualquer maneira, você também está certa. Roshana derrotou Sanhezriyah a Mad, e ela se levantou contra os exércitos de gênios, mesmo quando todos os seus aliados a abandonaram. Ela foi uma heroína, uma das maiores rainhas a ter vivido, ~ 117 ~


em um momento em que as mulheres eram iguais aos homens. Mas o mundo mudou, e outras terras preferem reis sobre rainhas. Suas formas de pensar tem envenenado o nosso próprio pensamento, e agora quando falam de Roshana, eles sussurram como se fosse uma piada. Que mulher tola, caprichosa que confiou o seu coração e seu reino e pagou o preço. Eles usariam seu exemplo contra mim, esquecendo todas as grandes coisas que ela realizou. — Caspida suspira e se ajoelha na borda da piscina. Seu reflexo brilha de volta para ela. — Mas se eu puder ser a metade do que ela era. Já me considero afortunada. — Nisso, estamos de acordo, — eu sussurro. De repente meu estômago se agita de forma violenta, um sentimento que eu conheço muito bem. Droga, Aladdin, o que você está fazendo? A lâmpada está se movendo para mais longe, e eu estou de pé na beira da minha fronteira invisível. Meu estômago puxa de novo, e eu suspiro um pouco. — Você está bem? — Caspida pergunta, as sobrancelhas se arqueiam com preocupação. — É só... não estou se sentindo muito bem, — eu gemo. Eu contorno a piscina, tentando aliviar a dor. Quanto mais tempo eu resisto, mais dói, como se alguém tivesse alcançado dentro de mim e torcendo meu intestino. Eu posso sentir a minha pele ficar mais leve, se preparando para se dissolver em fumaça, mas eu puxo com tudo em mim para não me transformar. — Zahra! — Caspida se levanta e coloca a mão no meu braço. — Você está fria como gelo! — Ah! — me dobrando, os braços cruzados sobre o meu estômago, eu suspiro, — Eu devo ir. Algo que eu comi, provavelmente! — Claro. Vou pedir a Nessa para levá-la ao médico. — Não. Eu vou ficar bem. Obrigada. Eu me curvo dolorosamente e caminho rapidamente em frente à piscina, Caspida ao meu lado. As meninas conseguiram acalmar o, subornando-o com frutas. Elas olham para mim com curiosidade quando eu corro para a porta. Após oferecer uma breve despedida, Caspida me permite ~ 118 ~


sair. Com poucos passos a dor desaparece. Eu me inclino contra a parede por um momento e simplesmente respiro e me acalmo. No fundo do meu peito, eu sinto o movimento da lâmpada. Aladdin está em algum lugar na outra extremidade do palácio e agora ele está parado, graças aos deuses. Depois de mais um momento de descanso, retomo de pé, perguntando o que Caspida e suas servas vão pensar de mim. Eu não ando muito pelo corredor quando eu sinto que estou sendo seguida. A passagem não tem janelas ou clarabóias e é bastante escura, exceto por alguns braseiros fumegantes. Eu viro em uma esquina, como se voltando para câmaras de Alladin. Mas então eu paro e me transformo em fumaça, me elevando. Quando Ensi e Khavar conversam em um canto, eu me transformo de volta em um ser humano, caindo do teto e me agachando atrás deles. Ensi grita e Khavar gira, batendo o braço para o lado, uma mão agarrando o redor da minha garganta, a outra mão com uma faca. Ela me bate com força contra a parede. Ensi, com os olhos arregalados, detém um punhado de pó vermelho que ela tinha estado a ponto de jogar na minha cara. A cobra de Khavar sobe no ombro dela, assobiando. — Ora, ora. — eu não posso deixar de sorrir. — Caspida tem um pequeno círculo de meninas assassinas, assim como Roshana fez. Você as chama de donzelas assasinas também? Ensi, parecendo envergonhada, guarda no bolso da mochila o pó venenoso escondido sob o casaco de seda fina. — Deixe-a ir, Khavar. — Não, — a outra menina rosna. — Eu não confio nela. Ela faz perguntas demais. — ela pressiona seu antebraço contra a minha garganta, e eu estremeço e chupo uma respiração fina. — Eu pensei que você estava doente? — Eu ouviria a sua amiga se eu fosse você, — eu digo, ainda sorrindo. — Como você chegou lá em cima? — Ensi pergunta, estudando o teto com curiosidade. — Você deve ser muito ágil. — Quem é você de verdade? — pergunta Khavar. — Fale, ou eu vou te

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estrangular. Eu dou de ombros. — Eu lhe dei uma chance. — com uma torção, um giro, e um grunhido, eu inverto as nossas posições, pressionando o rosto de Khavar na parede e dobrando o seu braço atrás dela. Ela descobre seus dentes para mim com raiva, enquanto Ensi ofega e cobre a boca. — Me deixe esclarecer uma coisa, — eu digo baixinho no ouvido de Khavar. — Não haverá nenhuma espionagem ou sombras em meu mestre e eu. Não queremos fazer nenhum mal, mas eu juro, não vou tolerar ser vigiada o tempo todo. É cansativo e inútil para você e para nós Khavar, eu vou deixar você ir agora. Vamos concordar em conversar como pessoas civilizadas. Quando eu a solto, Khavar se vira e levanta as mãos na defensiva, mas eu já estou de pé a vários passos para trás, as mãos estendidas docilmente. Ensi, os olhos correndo nervosamente de mim para a amiga, dá passos entre nós. — Vocês são as donzelas assasinas, então? — pergunto. Ensi suspira e torce seu cabelo em suas mãos. — Somos descendentes das donzelas originais criadas pela Rainha Roshana. — O pedido dele tem sobrevivido todos estes séculos? — pergunto. Ensi sorri com orgulho. — Nosso conhecimento foi passado por gerações de mãe para filha. Temos protegido as rainhas e princesas Amulen por centenas de anos. Khavar aqui pode até mesmo rastrear sua linhagem diretamente para Parys zai Moura, escriba pessoal de Roshana. Eu olho para o rosto azedo de Khavar. Aposto que ela pode. Parys nunca tinha gostado de mim, e eu posso ver a mesma desconfiança nos olhos de Khavar. — Volte para a sua princesa, — eu lhes digo. — Por favor, passe meus cumprimentos, e diga que o príncipe Rahzad não vai ser espionado. Elas acenam e se afastam, me olhando com cautela até que a esquina vem entre nós. Eu espero por um minuto e aguardo até que eu estou certa que elas se foram, em seguida, deixo escapar um longo suspiro e corro para ver no que meu senhor se meteu desta vez.

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C Eu encontro Aladdin, de todos os lugares, na biblioteca. Por um momento eu faço uma pausa por trás de uma caixa alta com pergaminhos e o observo. Ele está em um feixe de luz solar que derrama de uma janela alta, a poeira elevada em torno dele, olhando para um pergaminho aberto. Prateleiras em torno dele transbordam de pergaminho e papiro, em folhas e rolos e pilhas encadernadas. Aladdin está vestido com um colete vermelho na altura do joelho, a cabeça nua e seu cabelo despenteado. Seus lábios se movem à medida que ele lê, embora eu não ache que ele perceba. Enquanto eu o observo, sinto uma agitação sutil dentro de mim, um turbilhão no meu coração de fumaça, um aquecimento de brasas. Eu sei o que isso significa, e eu sei quão errado isso é, como é perigoso. Eu quase não posso suportar isso, é tão pequeno e frágil e esperançoso. — O que aconteceu? — pergunto, saindo de trás das caixas. Aladdin se vira e suas mãos fecham o rolo. Ele pisca para mim por um momento, até que seus olhos se concentram e sua mente deixa qualquer mundo no qual ele tinha estado perdido. — Zahra! Hum, eu pensei, — sua mão vai para a luz, e os seus olhos vão para sua direita. Eu sigo seu olhar e vejo Jalil sentado em uma mesa baixa a uma curta distância, cuidadosamente cobrindo uma folha de pergaminho com uma longa pena de pavão. Ele parece perdido em seu trabalho, mas ainda assim, temos de ter cuidado com o que dizemos. Eu ando até Aladdin e pego o pergaminho que ele está segurando, fingindo verificar o seu conteúdo. — Eu quase me transformei, — eu sussurro. — Bem na frente dela. O que aconteceu? Por que você deixou seu quarto?

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— Sinto muito, — ele sussurra de volta. — Ele insistiu em me mostrar a biblioteca e disse que se eu estava determinado a aprender sobre Parthenia, este era o lugar para começar. Eu não conseguia pensar em uma maneira de sair disso. Eu olho para o pergaminho e levanto uma sobrancelha. — Um tratado sobre os gênios, hmm? Muito histórico. Ele arranca o pergaminho de volta. — Eu só estava— Tentando obter informações sobre mim. Ou o meu tipo, de qualquer maneira. — eu franzo a testa e dobro meus braços. — Você pode ler? Um menino das favelas? — Não fique tão surpresa. Minha mãe foi uma escriba e ela me ensinou ler. E de qualquer maneira, nós não todos tão ruins, não no começo. — seus olhos ficam distantes. — Meu pai tinha um bom negócio de costura e minha mãe escrevia cartas e livros para as pessoas. Fomos tudo bem, até... — ele balança a cabeça e dobra o pergaminho. — O que Caspida quer? — Falar sobre elefantes e rainhas mortas. — O que? Sério? — Oh, pare de franzir a testa. Ela perguntou sobre você também como você é, que tipo de pessoa você é. Não se preocupe. — eu bato levemente a mão de um jeito conspiratório e sorrio. — Eu menti. — É? — Aladdin ondula o pergaminho, impaciente. — Será que ela parece, eu não sei, interessada? — Interessada? Ela mal fala uma dúzia de palavras com você. Dê um tempo a isso. Ele acena distraidamente e coça a orelha; o brinco ainda paira lá, uma argola simples de ouro. Eu queria que ele tirasse isso no navio - qualquer parte da sua antiga vida que tornaria mais fácil para alguém ver através de sua aparência encantada - mas ele insistiu em ficar com isso.

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— Estamos aqui há mais de duas semanas, — diz ele. — E eu só a vi em jantares, e não podemos falar lá. Como é que eu vou conquistá-la se eu não posso nem falar com ela? Em uma mesa próxima, alguém abriu um mapa do mundo, seus cantos pressionados por grifos de pedra. Eu corro uma mão sobre o pergaminho, traçando as linhas costeiras. Ao redor da borda do mapa, as datas do ano foram cobertas em letras minúsculas. Eu olho cuidadosamente, em seguida, toco nos números. — Fahradan. — O quê? — Aladdin para atrás de mim, olhando por cima do meu ombro. — Em duas semanas, os Amulens vão celebrar a festa do Fahradan, em honra do deus Hamor. — o deus dos amantes e tolos - que apropriado. — A menos que as tradições mudaram drasticamente desde a última vez que foi celebrada, é o momento perfeito para chamar a atenção de Caspida. — Por quê? Me viro e franzo a testa para ele. — Você nunca celebrou Fahradan? — Se por celebrar quer dizer vasculhar os bolsos das pessoas enquanto elas estão dançando... Eu rolo meus olhos. — Eu devia ter adivinhado. Olha, durante a noite de Fahradan, qualquer pessoa pode pedir a alguém para dançar, e ninguém tem permissão de recusar. Um sorriso lento aparece em seu rosto. — Entendo. Mas... duas semanas? Isso é uma eternidade! É também uma noite antes da lua morrer e meu tempo se esgotar. — Confie em mim, — eu digo secamente, — dificilmente é isso. Você achou que ia chegar no palácio, pedir a mão dela, e se casar com ela dentro de uma semana? — Eu não sei. — ele pega um dos grifos de pedra e o joga de mão em mão. — Eu realmente não pensei em tudo, eu acho. E não se esqueça, tudo isso foi ideia sua. — ele olha para mim, os olhos perturbados. — Isso está

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me matando, Zahra. Ver vizir todos os dias, passando por ele no corredor, me arqueando e rastejando. Eu odeio isso. Olho para Jalil, que está perdido em seu trabalho, então de volta para Aladdin. — Vamos. — O quê? — Vamos sair daqui. Há muita poeira. História... demais. — eu pego o pergaminho dos gênios de sua mão e o coloco sobre uma prateleira. — Eu quero sentar ao sol e sentir a brisa do mar no meu rosto. — Tudo bem, — diz ele, um pouco divertido. — E você pode me contar mais sobre os gênios.

***

Nós subimos a torre mais alta do palácio e nos encontramos na última posição em cima do telhado, debaixo de um toldo de lona listrado, olhando a cidade. A partir desta altura, parece impecável, como uma cidade em uma história, manchada com a luz dourada do meio da manhã. Telhados brancos cozem ao sol, toldos coloridos que se estendem entre eles, as copas das palmeiras e outras árvores lançando manchas pontiagudas de sombra nas ruas. E além da parede sul, as falésias com vista para o mar azul-turquesa. Nem uma nuvem está para ser vista e o sol brilha como o olho de um deus benevolente. Pássaros voam pelo ar quente, à deriva no céu e girando em círculos preguiçosos em torno dos minaretes brilhantes do palácio. — Olhe para ele, — suspira Aladdin, se inclinando sobre o parapeito. Seus cotovelos escovam as folhas de uma árvore de limão em um vaso, seus ramos brotando com pequenos frutos. — Não é uma vista ruim. Eu poderia me acostumar com isso. — Assim. Se tornar um príncipe não é inteiramente sobre a vingança, não é? Ele sorri para mim. — Há definitivamente outras atrações.

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— Você pode realmente ver isso? Casar com a princesa, banir ou aprisionar o vizir, e depois governar esta cidade? Guiar seu povo? Ver os seus filhos navegarem nas águas traiçoeiras da corte? Com um encolher de ombros, ele levanta o rosto para o sol, fechando os olhos e desfrutando do seu calor. — Com uma vista como esta? Eu poderia me acostumar a qualquer coisa. Claro, tudo depende de ganhar a princesa. Ela pode me odiar. — Ela deve. Ele revira os olhos. — Não está ajudando, Fumaça. — Meu nome não é... — mas eu suspiro e deixo pra lá. O apelido não me irrita como irritava há algumas semanas. Eu estou ficando muito acostumada com isso. Muito acostumada com ele. Ele abaixa o rosto. — É verdade que todos os gênios foram humanos? Pega de surpresa, eu olho para ele bruscamente. — Por que você quer saber sobre isso? — O pergaminho que eu estava lendo fala sobre isso. Eu me perguntei se era verdade. — ele se vira, encostado no parapeito, os braços cruzados. Eu suspiro e me sento no chão de pedra quente, minhas costas contra a árvore de limão no vaso. Eu puxo um fruto que oscila ao meu lado e o viro em minhas mãos. — Nem todos. Os mais antigos nasceram gênios, mas a maioria de nós foram... adotados. Há muito tempo atrás, havia apenas dois reinos: a dos deuses – a terra dos deuses, como você os chama - e o dos gênios: Ambadya. Os gênios foram a primeira criação dos deuses, e os fez poderosos, orgulhosos e magníficos. Uma borboleta amarela aterra no meu joelho, e eu paro um momento, observando como ela esfrega as pernas sobre o seu rosto antes de voar novamente. — E? — estimula Aladdin. — Por muitos séculos os gênios viveram em paz. Havia os maarids, da água, pequenas e lindinhas. Havia os ifreets, criaturas de fogo, que eram ~ 125 ~


poucos em número, mas grandes em poder. Havia os carniçais, criaturas da terra, que mesmo naqueles dias foram os mais desprezados dos gênios. Eles viviam em cavernas e buracos, como ratos, mas eram em sua maioria inofensivos já que eles nunca poderiam trabalhar juntos. Havia a sila, gênios do ar, raramente vistos pelos outros, porque eles passavam a maior parte de suas vidas no céu, invisíveis. E o mais poderoso de todos, havia o shaitan, mestres de todos os elementos, senhores de todos os gênios. Naqueles dias, Ambadya era muito parecido com o seu mundo: ricos com cor e vida, belo, vasto e selvagem. Aladdin senta ao meu lado, seu ombro contra o meu. — Tudo o que eu ouvi descreve o mundo dos gênios tão escuro e miserável. — É agora. Eles arruinaram seu mundo quando eles começaram a guerrear uns com os outros. Eles queimaram e arruinaram tudo. É por isso que os deuses criaram os homens. Eles queriam recomeçar. E é por isso que os gênios e os humanos nunca se deram bem desde então. Os gênios tinham ciúmes, seu lugar de privilégio usurpado. Muitas vezes eles tentaram tomar este mundo, e os deuses sempre intercederam. Ele está sentado muito perto. Minha garganta fica seca, e eu paro de engolir, excessivamente consciente de seu calor e do cheiro mentolado do sabão que ele usou para lavar o rosto de manhã. — Finalmente, os deuses os feriram com a infertilidade – nenhum novo gênio poderia nascer. Mas Havok, o deus do renascimento, teve pena dos gênios e permitiu que eles reabastecessem suas proles apenas com os seres humanos que foram dados a eles. Estes sacrifícios foram feitos para apaziguar os gênios, e eles foram tomados e se transformaram em ifreets e sila, maarids e carniçais. Alguns foram até shaitan. — Sacrifícios humanos? — a voz de Aladdin é grossa com desgosto. — Eu tinha ouvido falar disso em outras partes do mundo, eles ainda deixam as crianças e meninas e guerreiros para os gênios, mas eu não queria acreditar. — Você deveria. É a maneira mais fácil de garantir que os gênios não queimem suas colheitas ou adoeçam o seu gado. Após os deuses abandonarem o mundo, templos chamados alombs se tornaram santuários

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para os gênios, lugares onde as pessoas podem deixar seus sacrifícios e comprar mais um ano de proteção. — Zahra... você foi sacrificada? Eu não pensei sobre aquele dia em um longo, longo tempo. Foi a mil e uma vidas atrás. Ignorando a pergunta, eu aponto para o norte, para o monte à distância atrás de uma neblina. — Há algo diferente no cume daquela montanha. Ele me olha, plenamente consciente da minha evasão, mas ele não me pressiona mais. Seu olhar volta para o norte. — Nós não usamos isso. É proibido. É por isso que a nossa cidade está morrendo de fome. Poucas cidades serão negociadas com a gente, porque eles acham que devemos fazer ofertas para os gênios como eles fazem. Eu concordo. — Roshana foi a primeira rainha Amulen a proibir sacrifícios. Foi uma jogada ousada, mas enfureceu os gênios. Ele se inclina para mim, me empurrando suavemente com o ombro. — É? E você? Como é ser um shaitan? Eu fico olhando para ele. — O que faz você pensar que eu sou um shaitan? — Eu vi você conceder desejos, e a forma como você muda a sua forma... Então? Você é ou não é? — Sim, — eu admito. Faço parte de uma raça em extinção, um dos três únicos que sobraram. Dos outros dois, um reside em Ambadya, governando os gênios, e o segundo é provável que esteja em algum lugar sob os meus pés, preso em uma garrafa. — Você estava em Ambadya antes de ter sido destruído? — Aladdin pergunta. — Claro que não. Eu tenho sido um gênio por quatro mil anos. Ambadya foi arrasada por muito tempo, muito antes disso. — Quem era você? Onde você morava? — Isso não importa mais. — eu me levanto, soltando o limão e me viro para olhar a cidade. — Está muito quente aqui fora. Vamos entrar. Vou ~ 127 ~


ensiná-lo a digitar corretamente uma sala com base em quem já está lá, e se eles estão sentados, de pé ou comendo. Aladdin geme. — Eu estou cansado de bancar o príncipe. Vamos vasculhar bolsos. — Não. — Espere um minuto, Fumaça... — ele se inclina para perto de mim, me estuda, imitando o hábito de Jalil levantar uma sobrancelha ridiculamente alto quando suspeita. Eu não posso evitar - sua expressão me faz rir - na verdade, rir, como uma garotinha. — Você nem sabe como vasculhar bolsos? — Claro que sim, — eu minto. — Eu vasculhei um mil e um— Sim, sim, você fez tudo isso mil vezes, eu entendo. — ele levanta uma sobrancelha duvidosa. — Então prove.

***

— Ele, — murmura Alladin. — Aquele com a pena em seu chapéu. Ele tem um cachimbo no bolso esquerdo. Estamos nos jardins do palácio, fingindo admirar uma enorme estátua de D. Malek. Muitos nobres estão fora hoje, descansando em torno das piscinas e fontes, passeando sob a sombra das árvores. Quase tão vasta como o próprio palácio, os jardins são espalhados em um tapete de luxo de verde, organizados em perfeita simetria. Pode-se caminhar por horas aqui e nunca encontrar o fim deles. Nossa meta é um homem um pouco mais velho do que Aladdin, caminhando em nossa direção. Nós estamos em um ponto mais isolado. Nossas costas estão para ele, e quando ele passa atrás de nós, Aladdin tosse. Me viro e corro diretamente até o homem e rapidamente escorrego minha mão no seu bolso, mas o tubo é muito profundo para alcançar.

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— Mas que menina desajeitada você é – oh, Deuses! Você está tentando me roubar, menina? — o nobre agarra meu pulso e o puxa do bolso. Minha mão vem com o cachimbo preso nele. Eu fico olhando para ele, horrorizada. — Eu... Estamos de pé perto de uma sebe alta, bem aparada, e sem outra palavra eu pego o nobre e o arrasto para o mato comigo; paramos do outro lado em uma clareira privada preenchida com pequenos veados semi mansos, que se assustam e fogem. Rodeados por arbustos e árvores altas, estamos escondidos da vista de qualquer outra pessoa por perto. — Eu vou ter sua cabeça para isso! — o homem se enfurece. — Eu vou fazer com que te açoitem! Aladdin sobe através da cobertura atrás de nós. Eu estou segurando o homem por seu casaco, enquanto ele cospe maldições para mim, o rosto vermelho brilhante e sua barba salpicada de saliva. — O que você está fazendo? — Sibila Aladdin. — Eu não sei! — eu olho para ele, impotente. — Eu entrei em pânico! Revirando os olhos, Aladdin se vira para o homem. — Cale-se, sim? — Eu nunca estive tão - argh! Aladdin aperta a mão sobre sua boca, segurando-o. — Calma, velho. Deuses, nós não vamos te matar. Eu o solto e ele deixa escapar um longo suspiro. O homem deixa de lutar e olha duramente para mim. — Tudo bem, escutem, — diz Aladdin. — Olha, isso é tudo parte de um jogo. Uma espécie de caça ao tesouro. Foi ideia do Príncipe Darian, eu poderia acrescentar. Cá entre nós, — ele abaixa sua voz para um sussurro, — eu acho que ele é um pouco louco. Mas se você quiser reclamar, falar com ele, tenho certeza de que ele seria razoável sobre isso. Eu vou deixar você ir agora. Não grite, ou eu poderia amordaçá-lo e deixá-lo sentar aqui até escurecer.

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Lentamente, ele solta o homem, que se vira com raiva, mas não grita. Ele endireita o chapéu e casaco, olhando de Aladdin para mim. — Eu nunca... os jovens de hoje! — Sim, somos muito podres, — concorda Aladdin. — Vá em frente, agora. Se você topar com Darian, certifique-se de falar com ele o que você acha. O homem se afasta com muitos olhares para trás, o rosto ainda vermelho. Então Aladdin solta um suspiro pesado e esfrega o rosto. — Eu peguei o cachimbo, — eu digo, segurando-o. Ele olha por um minuto, piscando, e depois cai na gargalhada. Poucos cervos curiosos enfiam a cabeça através dos arbustos para ver o motivo das risadas. Aladdin se dobra, rindo alto o suficiente para assustar os pássaros das árvores acima, e depois de um momento, eu começo a rir também. Eu não ria tão duro em um longo, longo tempo, e parece maravilhoso. Nós nos sentamos na grama e rimos até que nossos rostos estão vermelho e nós estamos sem ar. — Você é o pior ladrão que eu já vi, — declara Aladdin. — Eu não sei o que você está falando. Eu consegui, não foi? — Minha avó poderia vasculhar bolsos melhor que isso! Embora isso não seja muito justo; minha avó era a melhor ladra de carteiras em Parthenia. Ela me ensinou todos os seus truques. Deixei minha mãe louca. Aproveitando o lugar privado, eu me transformo em um tigre e rolo na grama, gemendo de prazer. Os poucos veados restante entram em pânico e saem correndo. Aladdin para ao meu lado, os olhos fechados e rosto virado para o sol. O céu é azul brilhante, e a grama exuberante e profunda. Eu me estico, saboreando a terra fria sob minhas garras. Então, com um suspiro, eu me transformo novamente em uma menina e afundo na grama. — Se você tivesse um desejo para gastar, — diz Aladdin, de repente, — o que você faria com ele?

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Meus olhos estão meio fechados, meus pensamentos lentos e preguiçosos. — Passaria um dia no Ashori, comendo uvas. — eu não acrescento que eu também estaria livre, sem uma lâmpada ou um mestre a vista, ficando tanto tempo quanto eu quisesse sem responder a ninguém. Ele rola de lado, a cabeça apoiada na mão. — Sério? Uvas? Você poderia desejar qualquer coisa - mas você pediria por uvas? — Acho que você nunca comeu uma uva de Ashori. — eu fecho meus olhos e imagino. — Elas são doces e grandes e deliciosas... o último Lampholder costumava pedir aos montes. — Huh. — ele puxa uma pequena margarida branca que brotou na grama. — Eu devo comer uma dessas uvas. Abro um olho. — Isso é um desejo? Ele faz uma cara e joga a flor para mim. Ela cai na minha bochecha, e eu pego e torço entre meus dedos. Eu poderia ficar aqui fora o dia todo, sem me mover uma polegada, sentindo o sol acima e a grama abaixo. Com um suspiro de satisfação, eu estico meus braços, passando a grama entre meus dedos - e me encontro escovando a mão de Aladdin com a minha. Eu a puxo para longe rapidamente, meu rosto se aquecendo. Ele ri um pouco. — Às vezes, — diz ele, — eu esqueço que você tem quatro mil anos de idade. Você age tão tímida quanto uma menina de dezesseis anos. — Eu não! — me sento e olho para ele. Ele sorri e encolhe os ombros, deslizando as mãos sob a cabeça. Há pedaços de grama preso em seu cabelo, e depois de um momento de hesitação, eu me aproximo e tiro. Aladdin me observa em silêncio, sua garganta balançando enquanto ele engole. Eu afasto meu olhar. Ele puxa o cachimbo que eu roubei e coloca entre os lábios. — O que você acha? — ele pergunta em torno da haste. — Eu pareço nobre? Eu pego a coisa dele e seus dentes estalam com um clack. — Você não sabe que isso vai te matar? ~ 131 ~


Ele olha para mim um minuto, uma luz atravessa seus olhos. Então, de repente ele se atira contra mim. — Devolva! — É meu! Eu roubei! — Te salvei de ser açoitada! Ele tenta agarra o cachimbo, e eu rolo de lado, segurando-o fora de seu alcance. Com um riso mau, ele faz cócegas em mim e eu solto o cachimbo quando começo a empurrá-lo. Aladdin pega o cachimbo e o brande triunfante, enquanto eu deito na grama e rio. — Quem diria que os gênios sentiam cócegas? — ele se senta com as pernas cruzadas e bate o cachimbo em seu joelho. — Eu deveria dizer a Caspida. Eu descobri a maior fraqueza dos gênios! Claro, eles odeiam ferro, mas acene uma pena em uma vara e eles vão correr para o outro lado do mundo! — Isso foi uma jogada desonrosa, ladrão. — Como se eu tivesse alguma honra pra começar. Eu levanto os meus olhos para o céu e começo a me inclinar para longe, mas, em seguida, Aladdin se aproxima e agarra meu pulso, me parando. Eu olho para ele interrogativamente, e congelo. Seus olhos estão olhando profundamente nos meus, de repente curiosos e pensativos, e um vento estranho sussurra através do meu corpo. Eu fico parada, nem mesmo respiro, quando sua mão se eleva e ele corre o dedo tão suavemente ao longo da minha mandíbula. Ele olha para mim como se me visse pela primeira vez, os lábios ligeiramente entreabertos. Por um momento eu estou certa de que ele vai dizer algo que ele vai se arrepender, e fico apreendida. Mas então ele recua com uma risada rouca, os olhos se esvaindo. — Uvas.

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C As duas semanas passam lentamente, até que finalmente chegamos ao dia da Fahradan. A escuridão chegou, mas o festival não terá início até meia-noite. Depois de um duro e longo jantar com os nobres - Darian deixando de fazer uma aparição - Aladdin retorna para os nossos quartos para encontrar um novo conjunto de roupas que foi colocado lá. Eles são resplandecentes, roupas vistosas, vermelho e dourado, completo com capa e turbante de penas. Aladdin olha com desanimo, mas em seguida, vai para seu quarto para colocá-los. Quando ele aparece todo vestido em seu turbante, eu sou pega de surpresa e recupero o folego. O corte apertado do casaco longo acentua os seus amplos ombros e o seu abdômen é delineado em torno de sua cintura com uma faixa preta fina. O tecido escarlate com o seu requintado bordado dourado e preto reluz as faixas de cobre em seus olhos, e a gola alta para a meio caminho de seu pescoço, roçando o queixo mal barbeado quando ele olha para baixo para examinar a si mesmo. A capa, que é escarlate no exterior e forrado com tecido dourado pálido, cruza seu ombro esquerdo para drapejar sobre seu braço direito. — E aí? — diz ele rispidamente. — Como estou? — Hum. — eu engulo às pressas e desvio o olhar. — Você pode chamar a atenção da princesa, eu suponho. — Eu estou me coçando todo. Se eu soubesse que ser um príncipe consistia principalmente em vestir esses trajes malditos e desconfortáveis assim, eu nunca teria feito esse desejo. — Você está se coçando porque você precisa fazer a barba, — noto. — Sente-se. Eu vejo uma lâmina e o creme de barbear e jogo um cobertor de lã sobre Aladdin para poupar suas roupas finas. Ele resmunga, mas faz o que

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eu peço a ele e se senta em um banquinho na grama, à luz de uma lanterna forte. Aladdin inclina a cabeça para trás e engole, eu pego o sabão em minhas mãos e, em seguida, passo sobre suas bochechas e queixo, deixando uma espuma espessa. — Não se mova, — eu digo suavemente. Seus olhos seguem os meus quando eu pressiono a ponta da lâmina em sua bochecha e delicadamente raspo os pelos curtos e grossos. Suas íris são douradas à luz das velas, e seus cílios longos e escuros quase o fazem parecer como se ele estivesse alinhado os olhos com Kohl. — Onde você aprendeu a fazer isso? — ele pergunta. — Não fale a menos que você queira a sua garganta cortada, — eu o advirto. — Quando você fica em torno disso por um longo tempo, você tende a pegar as coisas. — Há quanto tempo você esteve na lâmpada? — O que eu disse sobre falar? — eu suspiro. — E aí? Quanto tempo? Me curvo perto dele, correndo a lâmina ao longo de sua mandíbula. — Desde que eu sou um gênio. — Quem colocou você lá? — Por que você se importa? Sua testa franze um pouco. — Porque parece errado manter alguém trancado, apenas sentado à espera de tornar a vida de outras pessoas melhor. — Quem disse que eu fiz a vida melhor? Será que você poderia ficar parado? — Foi Nardukha? Faço uma pausa, descansando a lâmina em sua bochecha. — De onde você tirou essa ideia? — Bem, ele não é o rei dos gênios ou algo assim?

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Forço-o a ficar de boca fechada enquanto eu raspo debaixo de seu nariz. Deuses, como ele veio a ter esses lábios perfeitos? E por que me sinto quente como um incêndio? — Ele é. E sim, ele é o único gênio que saiu com potência o suficiente para nos trancar em lâmpadas ou garrafas e outras prisões. — Como os encantadores de gênios? Eu puxo a lâmina bruscamente. — O que você sabe dos encantadores de gênios? — Só que eles fazem shows, por vezes, nas ruas, ou fora dos muros da cidade. As pessoas dizem que sua música pode encantar os gênios e levá-los direito para as garrafas. — Tipo isso, — eu respondo. — Mas a magia de Nardukha é muito mais forte. Ele não só nos liga às nossas lâmpadas, ele nos retira a nossa magia e nos obriga a conceder desejos. — Por que ele faz isso? — ele pergunta, quando faço uma pausa para limpar a lâmina. — Porque ele pode, — eu respondo categoricamente. — É uma das maneiras que ele nos mantém sob controle. Se desobedecermos ele ou ameaçá-lo, ele nos escraviza para os seres humanos, até que eles se arrependam e implorarem por seu perdão. Mesmo assim, ele não pode ceder. — O que você fez? Ameaçou desobedeceu? Eu raspo sob seu queixo, em seguida, desço pela pele do pescoço, tendo o cuidado particular em torno de suas veias delicadas, antes de responder. — Ambos. — Isso é tudo o que você vai dizer, não é? Não importa o quanto eu peça? Com um sorriso apertado, eu raspo o último pedaço de sua barba. — Você já me conhece tão bem. Eu deixo cair um pano macio sobre sua cabeça e digo para ele se limpar. Ele está limpando seu rosto enquanto eu vou para o quarto, acendo

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lâmpadas e abro as cortinas de seda para deixar entrar o ar fresco da noite. Eu ainda posso sentir o pulso de seu pescoço em meus dedos. O que Nardukha vai fazer se ele me vir correndo os dedos ao longo da mandíbula de Aladdin? Tremo só de pensar na resposta. — Devemos ir, — eu digo. — A dança começará em uma hora. — Dança. Maravilhoso. — seu tom é irônico. Com um suspiro, eu fecho a porta de vidro e apago a última luminária. A chama queima constante e brilhante, lançando padrões através do metal que o encerra. — Não me diga que não sabe. — Oh, com certeza, porque eu tive tanto tempo para dançar, entre não morrer de fome e não ser jogado na prisão. — ele joga a toalha de rosto para o lado. — Eu conheço muitas danças. O meu favorito é chamado de não deixe eles quebrarem as suas pernas por roubar figos dos Baker no Pearl Lane. — Isso certamente irá encantar a princesa com um pacto de casamento. Sorrindo maliciosamente, ele se aproxima e pega minhas mãos, tentando me puxar para o piso aberto. — Você pode me ensinar a dançar. — Não. — eu puxo as minhas mãos e viro as costas para ele. — Eu pensei que seu ponto era de que no Fahradan todo mundo tem que dançar. — Deseje isso, e eu poderia fazê-lo tal dançarino que encantaria e traria até os peixes para fora do mar. — Zahra. Você está com raiva de mim? — ele me vira e me encara. — Isto é porque eu venci você no jogo de dados no outro dia? — seus olhos se ampliam, ele cai de joelhos na minha frente. — Peço desculpas do fundo da minha alma, ó grande e poderoso gênio da lâmpada. — Você não me venceu. Eu deixei você ganhar. — Zahra. — Aladdin se aproxima mais e pega as minhas mãos. — Eu preciso da sua ajuda. Com um gemido suave, eu puxo as minhas mãos das dele e as jogo no ar. — Certo! Só pare de rastejar! Você deveria ser um príncipe, seu idiota. De ~ 136 ~


qualquer forma, você vai acabar sujando suas roupas extravagantes. Seu rosto floresce com prazer, ele me levanta pela minha cintura e me gira ao redor antes de eu ter a chance de evitá-lo. — Me coloque no chão! — eu grito, e suas mãos se fecham em torno da fumaça branca. Eu reapareço atrás dele, os pés descalços sobre o pátio em azulejo liso, vestida com um vestido Fahradan vermelho e dourado para combinar com o casaco de Aladdin, um broxe turquesa colocado no meu cabelo que deixa pender um rubi em forma de lágrima sobre o centro da minha testa. Aladdin vira e para, — Oh. — seus olhos me olham da cabeça aos pés, a boca entreaberta. Eu levanto uma mão. — Venha aqui. Ele corre para mim, parando um passo de distância. As lâmpadas pendem nos pilares em torno de nós, lançando padrões delicados de luz através dos pisos e paredes brancas, pintadas como brilho de estrelas. Apenas um som de um pássaro na arvore atrás de nós e o murmúrio da fonte na parede, no mais tudo está em silêncio. — A dança de Fahradan, — eu começo, — é uma dança de paradoxos. É a repressão contra a paixão. É o desejo contra a pureza. É o afastar contra atrair. Eu levanto os meus braços, sem joias. — Esta dança começa nos pulsos. Eles são os pontos em que o resto do corpo não reage. Demonstrando, eu começo a girar as minhas mãos, deslocando um pé para o outro, meus quadris balançando com a música não tocada. O meu vestido rasteja contra o azulejo, meus pés descalços levantando apenas com o calcanhar. — É uma das poucas danças compartilhadas por um homem e uma mulher, — eu vou em frente. — Se aproxima mais. Ele faz, levanta seus punhos na altura do ombro. Sem parar, eu vou até ele e pressiono o interior do meu pulso esquerdo levemente contra o seu direito. — Nada se toca, — eu sussurro em seu ouvido, — exceto os pulsos.

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Eu posso sentir sua pulsação através da pele delicada de seu pulso, quente, forte e vibrante. O poder de sua energia flui através de mim como uma rajada de vento. — Quando você dançar com a princesa, você deve resistir a ela e ao mesmo tempo deixá-la seduzi-lo. Você é a pedra, e ela é a água. Você é a terra, e ela é o céu. — com um giro rápido, eu inverto as direções, travando o meu outro pulso ao seu. — Viu? Empurre e puxe. Contenção e paixão. Ele balança a cabeça e lambe os lábios, seus olhos bloqueados aos meus. — Agora, — eu digo, — quando eu me aproximar, você recua. Quando me viro para a esquerda, você vai para a direita. Nós somos espelhos um do outro, entendeu? Mas sempre voltamos, pulso ao pulso. Imagine que uma fita invisível nos amarra juntos, sempre nos trazendo de volta para onde começamos. Esta dança, como o tempo, é um círculo. Ele começa a dançar comigo, espelhando meus movimentos, até que estamos circulando um ao outro, girando e girando e sempre retornando à posição inicial, os pulsos opostos pressionados juntos, veia a veia, pulso a pulso. — A mulher leva e o homem resiste. A mulher convida e o homem segue. Sua parte é fácil – a de Caspida é difícil. Espelhe os seus movimentos, e vocês vão entrar em sintonia. Seus corpos vão sentir os batimentos cardíacos um do outro através dos pulsos, e seus pulsos se tornarão um só ritmo. — Eu acho que eu entendo, — diz ele com a voz rouca. — Então prove isso. Eu me afasto, em seguida, volto para ele, ficando na ponta dos pés, meu quadril levemente rodando. Ele reage, desajeitado no início, mas logo o constrangimento desaparece e ele começa a combinar meus movimentos, refletindo em sentido inverso. Dançamos assim, pulso ao pulso, girando e girando, passo a passo, por mais alguns minutos. Ele segura o meu olhar, nossos olhos se conectam a cada passo, antecipando o movimento do outro. Seu pulso é tão forte contra o meu que ecoa através de mim, quase como o meu próprio batimento. Minha pele se aquece; minha respiração trava na minha garganta. Eu sei o quão perto eu estou dançando ao longo da

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linha de destruição, mas não posso me afastar. Ele é inebriante, sua força de viver é um vício que não posso recusar. Eu não me sinto viva em séculos, não desde você, Habiba, quando você me ensinou a dança de Fahradan. A nossa era uma dança engraçada, uma dança de amigas, irmãs, uma dança da vida, da juventude e esperança. Mas esta dança é diferente. Não sou eu, mas aquela que seduz, invertendo os papéis antigos da dança. E eu resisto porque eu preciso, porque eu não posso, porque se eu ceder aos desejos humanos que passam através de mim - então Aladdin é quem vai pagar o preço terrível. — Pare. — eu abaixo os meus pulsos e me afasto, e ele faz o mesmo, ainda espelhando seus gestos aos meus. Só que ele está respirando com dificuldade, seu peito subindo e descendo com esforço, os olhos cheios de um olhar estranho, maravilhoso, me olhando com curiosidade. Ele se aproxima, seus olhos fixos nos meus, e apesar disso eu não consigo desviar o olhar. Aladdin levanta uma mão hesitante na minha bochecha. Paro com tanto medo e desejo, só posso olhar para ele, sinto o rubor quando ele gentilmente passa a mão ao lado do meu rosto. Fecho os olhos, me inclinando em seu toque apenas um pouco, meu estômago pula. Com saudade e desejo. Eu o sinto se inclinando mais perto, curvando, seu rosto se aproximando do meu. — Não, — eu sussurro. — Eu não posso. — ZahraEu me afasto, evitando o meu olhar. — Você está pronto para ela. Com isso, eu viro e corro de volta para o palácio.

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C É um costume de Fahradan que a noite as linhas entre as classes sejam temporariamente apagadas, e um servo possa dançar com um príncipe, e um cozinheiro pode partir o pão com um rei. E assim, quando Aladdin entra na grande sala do trono do rei Malek, eu estou de pé ao seu lado, de igual para igual esta noite. Eu uso meu vestido feito de seda vermelha e ouro e um rubi empoleirado na minha testa. Eu ainda sinto o calor do toque de Aladdin na minha bochecha, o peso dele se inclinando em mim. Minha pele agitada com as ondas de calor, eu nunca me senti tão fora de controle da minha própria forma. Eu não posso afastar os arrepios no estômago ou a imagem de seus olhos bloqueando os meus enquanto rodamos um ao outro. Foi um golpe de sorte, um acidente, digo a mim mesma. Isso não vai acontecer novamente. Ainda assim, sinto cada polegada de espaço entre nós quando nós caminhamos, e me pergunto se ele sente isso também. Não me atrevo a olhar para ele para saber, porque temo encontrar seus olhos e ver a verdade neles - que o que aconteceu não foi um acidente. Isso poderia ser real. E pior, eu poderia querer que isso acontecesse novamente. Este não é o motivo que me trouxe aqui, eu me lembro. Eu preciso me focar, preciso encontrar Zhian, preciso encontrá-lo rápido. Eu tenho mais dois dias antes de perder a minha chance de liberdade e Nardukha liberar sua fúria sobre Parthenia. Isto não é apenas sobre mim. Isto é sobre as pessoas dançando em volta de mim, inconscientes da destruição que espera cair sobre eles. Trata-se de poupar Aladdin. E o que eu senti em nosso quarto há minutos - isso não pode acontecer novamente. Há muito mais a perder.

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A entrada não é grande - nós escorregamos na multidão, e com todos vestindo vermelho e dourado, é fácil se misturar. Mas Aladdin começa a recolher olhares abertos de apreciação e de inveja, de desejo e de hostilidade. Esta última a partir dos vários homens cujas companheiras apresentam muita admiração pelo meu mestre. E Aladdin é uma figura impressionante, movendo-se através da multidão com a graça de um príncipe nascido. Onde ele aprendeu isso? Onde ele aprendeu a segurar a cabeça tão alta, mover os ombros por cada local, olhar cada pessoa que passa pelos seus olhos e dar a eles um pequeno sorriso, como se fossem velhos amigos? Ele tem uma relação que nenhum grau de minha magia poderia dar - alguma força interna profunda que é inteiramente de sua própria criação. Vê-lo me faz doer por dentro. — Eles estão olhando para mim, — ele sussurra. — Deuses, Zahra, é essa coisa atrás ou algo assim? — ele puxa o casaco. — Pare com isso, — eu assobio, golpeando sua mão. — Você parece bem. Você parece... um maldito príncipe. Ele sorri brilhantemente, e o prazer em seus olhos é muito brilhante para suportar. Eu olho para longe, varrendo o espaço por rostos familiares. Embora o costume seja que os servos possam se misturar livremente com os seus senhores, é fácil ver que a maioria das pessoas aqui são da nobreza. Os funcionários devem ter o seu próprio Fahradan em alguma outra parte do palácio. Mas não todos - alguns azarados passam por entre a multidão, segurando garrafões de vinho ou bandejas de doces. O trono vazio é isolado com uma corda de seda, à espera do rei. Um estrado temporário foi criado contra uma parede, e sobre ela grupos de músicos tocam uma melodia cadenciada, em ritmo acelerado, alguns casais já estão dançando pulso a pulso, como eu ensinei Aladdin. Braseiros tão altos quanto um homem estão apoiados por tripés enormes que iluminam até os topos das poderosas cúpulas. Eu não vejo os pombos que tinham povoado o teto no dia em que conhecemos o rei, e eu me pergunto que trabalho dava para limpá-los. Aqui e ali, a multidão se abre para dar espaço para os lançadores de fogo, acrobatas, encantadores de serpentes e engolidores de espadas. — Eu não a vejo, — diz Aladdin. — Ela vira? E se ela-

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— Shh. Veja. Na outra extremidade da sala do trono, no topo mais alto da escada dupla esculpida com homens e cavalos alados, há uma porta alta de telagem rica. Ela abre lentamente, puxada por quatro servos, para revelar Caspida e suas meninas, flutuando para o corredor. A princesa veste um vestido todo dourado e pálido, forrado de vermelho. Seu cabelo, ligado em um redemoinho elaborado, está envolto em uma fina rede de correntes de ouro delicados, em cada ponta com pequenos diamantes. Seu cabelo é a noite salpicada de estrelas, mas nada mais brilhante do que seus olhos, que varrem toda a sala. Através das costas das mãos, padrões vermelhos delicados trabalharam em redemoinho enrolados como fumaça. A corte deixa escapar um suspiro apreciativo, parando para se curvar em direção a ela. Ela desce a escada sem problemas, suas meninas ao seu lado. Acima delas, Darian aparece na porta, vestido com um casaco vermelho apertado, coberto com um turbante dourado. Ele acena regiamente antes de descer, a cabeça erguida e seus lábios descascados de volta em um sorriso. Eu me inclino e empurro educadamente Aladdin, cujos olhos estão fixos na princesa. — Rápido. Vá perguntar se ela deseja dançar antes que alguém pergunte! Ele balança a cabeça, atordoado, e caminha para frente. Eu solto uma respiração curta, me forçando a deixá-lo ir sozinho. Ele está por si próprio agora, e eu só posso esperar que ele não seja ser um completo idiota. Agora, eu posso fazer o meu caminho para uma saída, eu posso voltar a buscar Zhian. Os segundos escapam mais rápido do que nunca, e o meu estômago torce com preocupação. Eu me viro e quase dou de cara com um nobre magro com um bigode fino e mau hálito. — Você vai dançar comigo, senhora? — ele pergunta. Então, se inclinando, ele sussurra: — Você não pode dizer não! Não essa noite. Eu estou presa entre ele e um dos pilares alto, e eu estremeço quando sua respiração me assalta. Ele agarra o meu pulso com força e tenta me puxar em direção à pista de dança, quando de repente uma mão fecha em seu braço e o afasta. ~ 142 ~


— A senhorita já me prometeu a próxima rodada, — diz uma voz. Me viro para ver quem chegou para me resgatar - e congelo. O sorriso de Darian é pequeno e apertado. Ele se curva, mas o gesto é zombateiro, os olhos descaradamente estudando a minha forma através do vestido. — Nós não nos conhecemos, — diz ele. — Eu sou o príncipe Darian. O homem magro murmura um pedido de desculpas e desaparece. Eu começo a me afastar, mas Darian suavemente para na minha frente, colocando seu pulso ao meu e me virando para a dança. A multidão em torno de nós se separa, nos dando espaço para girar. Os deuses estão conspirando contra mim esta noite. — Sua Alteza, eu sou— Eu sei quem você é, — diz Darian. — Você é Zahra, a menina do Rahzad. — ele faz uma curva acentuada, e eu me espelho nele, observando-o com o canto do meu olho. — Você é muito corajoso para um príncipe, — eu digo a ele, girando e encontrando seu pulso. — Você é muito bonita para uma menina que serve. Eu procuro por Aladdin, não muito longe, ele está em uma dança com Caspida. Ele está balbuciando para ela, sorrindo muito amplamente, e ela está mais interessada em ver Darian e eu. Nossos olhares se cruzam, e em seus olhos está queimando curiosidade, mas, depois, ambos se afastam. — Qual é o jogo do seu mestre, então? — Darian pergunta em um tom baixo. Nós circulamos um ao outro, os pulsos pressionados juntos, o seu pulso correndo de raiva. Ele viu Aladdin e Caspida dançando e a raiva queima debaixo de sua aparência fria. — Eu tenho certeza que eu não sei o que você quer dizer, meu senhor. Eu sou apenas uma serva. — Mentirosa. Você é mais do que isso. Caspida tem um interesse em você, e você encontra o meu olhar sem olhar para baixo. Sinceramente eu ~ 143 ~


não me importo quem ou o que você realmente é - o que eu quero saber é onde o seu mestre está com a cabeça achando que ele pode se meter comigo? Eu era ruim me passando por uma serva. Muito impressionada com você mesma para seu próprio bem é o que você disse muitas vezes, Habiba. — Como ele poderia ameaçá-lo? — pergunto a Darian. — Ele não faz. Ele me irrita. — É um hábito particular — a música acelera e nossos passos combinam, até que estamos girando e girando a uma velocidade vertiginosa. Darian deixa de falar para se concentrar na dança, mas quando a música diminui novamente, ele diz, — Caspida é prometida a mim desde o nascimento. Ela me ama. — Como ela não poderia? — eu chego mais perto dele, minhas saias escovam suas pernas quando nós circulamos um ao outro, em seguida, trocamos os pulsos. — Você é bonito e poderoso. Você é o pequeno sonho de cada princesa. Sua mão traça minha cintura e quadril, pairando, mas não se tocam. — E as meninas que servem sonham pouco? — ele sussurra. Com um sorriso, eu giro para longe dele, os braços estendidos na minha frente, subindo a minha saia que parece fogo enquanto eu rodo. Então, antes que ele possa me pegar, eu escorrego pela a multidão e o deixo sozinho. Caspida e Aladdin ainda estão dançando, seus passos rígidos e formais, e as tentativas de Aladdin de fazê-la sorrir parece ser em vão. Quando ele me nota o observando, suas sobrancelhas se levantam em um pedido de ajuda. Eu dou de ombros e sorrio. Deseje isso ladrão, e eu poderia fazê-la implorar por seu amor. Os diamantes em seu cabelo refletem minúsculos pontos de luz em seu rosto, fazendo-o parecer enfeitiçado. Eles formam um belo par, como amantes de uma história, reunidos pelo destino. Eu suspiro e começo a me afastar, mas uma voz me para. — Você parece que engoliu um limão.

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Me viro para ver Nessa ao meu lado. Ela está vestida com um vestido de duas peças de vermelho que expõe o músculo do seu estômago e o pequeno anel dourado que perfura o seu umbigo. Seus dreadlocks estão trabalhados em um nó trançado em cima de sua cabeça, suas ponteiras de prata se desdobrando como uma coroa. Mas ela não parece ter trazido sua flauta. Um livro de pergaminho está dobrado debaixo do braço. Percebendo meu olhar, ela ri e bate no livro. — Eu sempre fico entediada com essas coisas. Então, eu trouxe um amigo. — o puxando, ela folheia as páginas. — A história das maiores rainhas dos reinos do mar oriental, indo todo o caminho de volta para a Pastora rainha de Ghedda, aquela que se ofereceu como sacrifício para salvar sua cidade de afundar no mar. Minha pele arrepia, e eu me viro e olho para ela plenamente, minha ânsia de encontrar Zhian temporariamente esquecida. — Uma história antiga, — eu digo lentamente. — Poucas pessoas sabem disso. — Eu conheço um monte de histórias antigas que as maiorias das pessoas se esquecem, — diz ela, correndo o dedo pela coluna vertebral. — E a biblioteca Parthenian é uma maravilha. Pode-se passar a vida inteira explorando-a e nunca sequer encontrar todos os pergaminhos e livros escondido lá dentro. — Posso perguntar Alteza, como uma Princesa Tytoshi se encontra em uma corte Amulen? — Eu suponho que você pode, uma vez que é Fahradan, afinal de contas. — ela olha através da multidão, os olhos demorando brevemente sobre Aladdin e Caspida. — Quando um rei Tytoshi morre, seu sucessor muitas vezes limpa a casa real, assassinando seus irmãos e seus filhos, a fim de proteger o seu trono - e não sem razão. Poucos governantes Tytoshi morreram de morte natural, você sabe. — ela se vira para mim, seu tom ríspido. — Quando meu avô morreu, meu tio mais velho se tornou rei. Em vez de deixar o meu irmão Vigo e eu sermos estrangulados em nosso sono, a nossa mãe nos contrabandeou até aqui quando éramos bebês. — E era a sua mãe que lhe ensinou a arte de encantar gênios? A única indicação que Nessa dá do seu alarme a esta pergunta é um ligeiro inflamar de suas narinas. — Como?

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— Me perdoe. Notei a sua flauta no outro dia. É esculpida com símbolos Eskarr - não é um instrumento para melodias ociosas. Ela me estuda por um longo momento, seu maxilar tenso, antes de responder em brevemente, — Meu irmão e eu precisamos ganhar o nosso sustento. — ela acena para Aladdin e Caspida. — O seu príncipe e minha princesa estão levantando bastante fofoca. Eu olho em volta e os nobres observam, todos têm seus olhos para Caspida e seu companheiro. Eles sussurram por trás de seu vinho aromático, e nem todas as suas expressões são benevolentes. — Eu diria a seu mestre para tomar cuidado, — Nessa continua. — Darian está provavelmente em algum canto tramando o assassinato. — ela olha para longe, seu rosto impassível, e eu suspiro. Nenhuma chance dela me ajudar a encontrar Zhian. A multidão me pressiona, até que eu mal posso respirar. Eu preciso sair, devo continuar a busca. Eu já perdi muito tempo. Mas antes que eu possa fazer um movimento, um peal de trombetas e um pregoeiro anunciam a chegada do rei. A multidão fica imóvel e em silêncio, observando com a cabeça baixa, e eu reprimo um gemido. Correr agora só iria chamar a atenção de forma indesejada. A porta no topo da escada se abre, e Malek leva uma pequena procissão, Sulifer em seu ombro direito. O rei está curvado e pálido, e o traje do festival brilhante que ele usa parece mais cômico do que bonito em seu corpo fraco. Ele tropeça ao descer as escadas, quase caindo completamente antes de aceitar um braço de seu irmão. Apoiando-se em Sulifer, Malek faz o seu caminho para o chão e não faz uma pausa para recuperar o fôlego. Seus olhos vidrados vagueiam a proximidade de modo desinteressado. O rosto de Caspida está tão imóvel quanto à lua. Sem uma palavra para Aladdin, ela o empurra no meio da multidão e atinge a lateral de Malek. Com um aceno ela descarta Sulifer e toma o braço de seu pai. Ele parece despertar de seu estupor ao seu toque, sorri e acaricia a mão dela. Ela o leva ao trono, ajudando-o a se sentar e ajeita as almofadas atrás das costas. A multidão começa a perder o interesse e voltam a dançar e falar. — Há quanto tempo ele está assim? — pergunto a Nessa. Ela suspira e olha para Caspida e o rei com olhos tristes. — Desde que ~ 146 ~


a rainha morreu, há dez anos. Ele já foi brilhante e forte e adorava Caspida completamente. — Como é que a rainha morreu? O olhar de Nessa escurece. — Um ataque de gênios há muito tempo. Eles emboscaram a rainha e todas as suas guerreiras enquanto elas estavam em uma viagem para procurar uma aliança com Ursha. Nossas mães. Tudo se foi em um único dia. Ah. Não admira então que a princesa odeie os gênios tão profundamente. Inquieta, meus pensamentos vagueiam por caminhos que eu tentei fortemente evitar: O que vai acontecer com Aladdin uma vez eu ganhar a minha liberdade? O que Caspida vai fazer quando ela descobrir que ele enganou o seu caminho para o palácio com mágica de gênio? Vigo aparece de repente ao lado de sua irmã, sorrindo maliciosamente. Seus dreadlocks estão em uma trança grossa e solta em suas costas, suas extremidades com ponteiras de prata tilintando. — Vamos, Ness! Vamos mostrar a eles uma dança Tytoshi. — Tudo bem, feioso, mas não chore quando você não puder se aguentar. — Nessa sorri e me entrega o seu livro. — Segure isso para mim, Zahra. Eles deslizam no chão aberto e se lançam em uma dança animada composta de saltas, gritos e giros, o que parece completamente desgastante. A multidão em torno deles grita e aplaude. Eu assisto, sorrindo um pouco, lembrando campos inteiros cheios de dança Tytoshi quando eu pertencia a um dos seus reis. Depois de um tempo, eu olho para o livro de Nessa e o abro na primeira página. Ele tem uma ilustração da Pastora rainha de Ghedda olhando para sua cidade com ondas subindo para devorá-la. Com um arrepio, eu fecho o livro. De repente, uma mão desliza ao redor da minha cintura e uma voz sussurra em meu ouvido: — Que tal dançar agora, amor? É o mau hálito, agora bem bêbado e cheirando a vinho. Ele me empurra para trás, para a área aberta e agarra meu pulso com

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força. Enquanto ele tenta me forçar a dar uma volta, eu assobio — Vou te dar exatamente três segundos para contemplar o erro que você está fazendo antes de eu quebrar o seuOs olhos do homem se arregalam, e seus lábios se espalham em uma careta enquanto a mão livre é torcida atrás dele - mantido firmemente por um Aladdin em expressão sombria. — Afaste-se, — Aladdin diz suavemente, — e você pode sair com seu braço ainda ligado ao seu corpo, seu bastardo. O homem geme, mas ele me solta, xingando e murmurando: — Por que isso sempre acontece comigo? — ele diz para si mesmo. Aladdin, satisfeito consigo mesmo, se curva para mim. — Posso ter uma dança? Ou você só dança com cretinos como Darian? Revirando os olhos, eu coloco o livro de Nessa no bolso, em seguida, levanto o meu pulso. Ele o encontra com o seu, me varrendo no meio dos outros dançarinos. — Eu não preciso de sua ajuda. — A senhora não deveria ter que sujar as mãos em uma noite como esta. — Oh, você está muito príncipe. Então você vai me varrer para longe de meus pés? Sua expressão muda, em seguida, passando de presunção a miséria. — Ela mal falou dez palavras comigo. — Estou chocada. — eu sorrio, virando de costas para ele, nossos pulsos se juntam atrás de minha cabeça. — Você tentou a poesia? — Você não está sendo útil. Se virando para encará-lo, eu me inclino e sussurro, — Deseje o amor dela e vou entregá-lo a você. Ele sorri tristemente. — Então não seria amor. — E o que você sabe sobre o amor? — Isso deve ser uma escolha.

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— Oh, meu ladrão ingênuo. — faço uma pausa brevemente para encontrar o seu olhar. — O amor é raramente uma escolha. A música fica mais lenta, e a maioria dos outros dançarinos se afasta para conversar e beber. Eu começo a seguir, a necessidade de encontrar Zhian me puxando, mas Aladdin diz suavemente: — Só um pouco mais. Eu acho que estou começando a pegar o jeito disso. Eu olho para ele e encontro o seu olhar quente demais para suportar. Retomo a dança, mas mantenho meus olhos baixos, lutando contra os nós que torcem dentro de mim. Apenas dois outros casais permanecem: Nessa e Vigo, e Caspida e Darian. O príncipe e a princesa se movem com formalidade rígida, seus passos mecânicos. Darian parece frustrado com o distanciamento da princesa. — Ela não o ama, — eu sussurro para Aladdin. — Com as palavras certas, você vai conquistá-la. — Se você tem alguma ideia para compartilhar, eu estou ouvindo com atenção, — ele responde, sua voz de repente miserável. Meus olhos se estreitam e eu estudo o seu olhar desesperado. — Por que, Príncipe Rahzad, você está começando a se apaixonar? Ele pisca seus olhos os clareando e, em seguida, cola os olhos nos meus. Eu giro para longe, em seguida, me volto para ele, e seus olhos de cobre não vacilam. — Eu não estou aqui para me apaixonar, estou? Estou aqui para vingar meus pais. — Não se for um trabalho de mão única? De repente, ele para de dançar e se afasta. Ele olha para mim com olhos tão profundos como a noite. — Não, — ele responde em voz baixa. — Eu não tenho certeza que seja assim. Eu ainda estou de pé, perplexa, quando ele se vira e se funde com a multidão.

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C Exaustas de dançar, as pessoas se movem em um grande pátio, sob um céu estrelado e lanternas coloridas que balançam em uma brisa suave. Eles queimam na noite como chamas de velas, luminosos e brilhantes. Eu sigo, pegando somente a metade da atenção de todos ao meu redor, quando eu empurro o meu sexto sentido para longe, procurando por Zhian. Eu até mesmo envio sussurros na língua silenciosa dos gênios: Você está aí? Irmãos e irmãs tem alguém aí? Nenhuma resposta. Aladdin está ao lado de Caspida. Eles se movem no meio de jovens senhores e donzelas, todos rindo e flertando. A princesa e meu mestre são reticentes, não olhando um para o outro. Aladdin olha em volta, e então seus olhos pegam os meus e seguram. Eu olho para além de todos os outros e, encontro o seu olhar, balanço a cabeça incisivamente para a princesa. Ele olha por mais um momento antes de voltar para Caspida e faz um comentário que tira um sorriso educado dela. Eu encontro um canto tranquilo escondido nas sebes altas que cercam o pátio e me sento na base de uma estátua escondida por lá. É uma escultura de mármore de um grifo com um rosto aparentemente baseado no Rei Malek, embora este rosto seja mais forte e mais completo, como o homem que Malek poderia ter sido se não tivesse exagerado no simmon. Jogo minha cabeça para a lua e considero um ao outro em silêncio, como inimigos que se enfrentam através de um campo de batalha. É a mesma lua que apareceu na noite que Aladdin me tirou sob o deserto: mal está lá, apenas uma piscadela maliciosa no céu escuro profundo. Dois dias até que desapareça completamente. Eu deixo minha mente voltar para a possibilidade de fracasso, algo que eu nem sequer ousei considerar até agora. Shaza tinha avisado que, se eu não encontrasse Zhian no mês estipulado, Nardukha ia chover a morte ~ 150 ~


em mim e Parthenia. Não é difícil imaginar o que isso significa. Eu ainda tenho o livro de Nessa no meu bolso, e eu o retiro e coloco no meu colo, aberto na primeira página, onde um desenho da tinta mostra uma donzela triste olhando para uma cidade sendo engolida pelas ondas. Eu o vi destruir cidades com fogo, com água, com o tremor de terra. Ele destruiu Neruby com areia e vento. Ele destruiu Ghedda, a cidade no desenho, fazendo com que a montanha entrasse em erupção. Ele já poderia ter destruído Parthenia, se ele não arriscasse a vida de Zhian. É uma maravilha que Shaitan manteve seu temperamento notório em cheque até mesmo esse tempo. Se eu falhar, ele provavelmente vai deixar Parthenia e todas as suas pessoas afundarem no mar, em seguida, enviar seus maarids para procurar nas ruínas o frasco de Zhian. E Aladdin vai morrer. Esse pensamento me bate forte. Levantando os olhos, eu o vejo rindo com os jovens senhores, seus rostos se viram para ele como flores para o sol. Eu me senti do mesmo jeito, uma atração misteriosa que ele tem em mim. Estou sentindo isso há semanas, e está ficando cada vez mais difícil de resistir. Eu penso nele no jardim, deitado na grama, sua mão tocando a minha e estremeço ante o prazer que esta memória traz. Eu fecho o livro e o coloco ao meu lado. Chega de ficar sentada por aí, esperando Zhian aparecer. Olhando em volta, vejo príncipe Darian à espreita nas proximidades, girando uma garrafa de vinho e assistindo Aladdin e Caspida . Um plano se desenrola em minha mente, e eu levanto e caminho para ele. — Totalmente sozinho na Fahradan? Isso é uma vergonha. Ele começa, derramando o vinho em seu casaco. Ele o escova com um olhar de aborrecimento. — É assim que você atende o seu mestre? Se eu tivesse uma meia serva tão impertinente, eu teria batido nela e depois a expulsado da cidade para que os carniçais possam desfrutar. — Você está bêbado. Ele dá de ombros, como se isso fosse para ser tomado como

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garantida. — Eu estive pensando em maneiras de ensinar o seu mestre o seu lugar na minha corte. — Sua corte? Me desculpe, Majestade. Eu não estava ciente de que eu estava na presença de um rei. — eu olho Darian calculadamente enquanto ele olha para mim, então aponto para um banco próximo a convite. Ele se senta ao meu lado, um pouco perto demais, seu hálito cheirando a vinho. — Por que ele está realmente aqui? — pergunta Darian. Agarrando a garrafa, eu tomo um gole de vinho antes de responder. — Para obter o prazer da sua companhia cintilante. Com uma maldição, o príncipe de repente agarra meu pulso, os olhos febris. — Me diga a verdade, menina, ou eu vou fazer ambos serem jogados para fora da cidade. Puxando minha mão com uma careta, eu respondo rapidamente, — Você não tem poder sobre nós. Somos convidados do rei. — O rei é um idiota e inválido. Todo mundo sabe que meu pai é o verdadeiro governante de Parthenia. Eu mordo de volta uma resposta, me forçando a me concentrar no objetivo real aqui, não no toque mesquinho. Tomo um momento para alterar o curso da minha língua, eu sorrio timidamente e respondo em tom mais quente, — Sim, o grande vizir Sulifer, comandante das forças armadas Parthenian. Ele é um grande guerreiro, pelo que ouvi. O peito de Darian incha. — Ele é. E todo mundo diz que sou muito parecido com ele. — Entendo. — eu deslizo para mais perto dele e corro um dedo em sua manga, meus olhos baixos. — Você deve ter matado muitos gênios. — Mais do que uns poucos, — ele resmunga, se inclinando perigosamente perto. Eu me inclino para trás, fora do alcance de seus lábios quentes. — Eu não acredito em você. — O quê? — seu rosto escurece.

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Me afastando, dou de ombros e corro os dedos pelo meu cabelo. — Qualquer um pode dizer que ele venceu muitos gênios, mas um verdadeiro guerreiro iria provar isso. Sabia que nas montanhas de Ursha, os homens da tribo cortam os polegares de seus inimigos mortos e usa em seus cintos como troféus? — Isso é bárbaro. — Os homens foram autorizados a tomar uma esposa para cada polegar. Alguns deles tinham vinte ou trinta polegares. — eu olho para ele de soslaio. — Quantos gênios você matou? Darian desliza uma mecha do meu cabelo por entre os dedos, e eu resisto ao impulso de me afastar do seu toque. Seus olhos ardem intensamente. — Eu vou te mostrar. Meu peito aperta com entusiasmo, mas hesito. — É longe? — eu lanço um olhar preocupado em Aladdin. Eu não posso me dar ao luxo de ficar muito longe dele e ser forçada a me transformar na frente de Darian. O príncipe dá de ombros. — Você não vai perder nada aqui, acredite. Este festival está mais chato do que uma corrida de tartaruga. É ao virar da esquina, de qualquer maneira. Nós escorregamos para fora do pátio, através de uma pequena porta que dá para o palácio. Darian não solta a minha mão. Seu aperto é suado e muito apertado, mas eu não digo nada que irá distraí-lo. Quero ver o que ele tem para me mostrar, e esperança contra a esperança que tenho jogado bem e não estou desperdiçando horas mais preciosas. O tempo está caindo na areia, e ele corre através dos meus dedos. — Aqui, — diz Darian, me levando em uma escada estreita e sinuosa. Me preocupa que - ao virar da esquina - era um exagero, ou que Aladdin pode se afastar e sem querer me chamar de volta para a lâmpada. Mas essa chance de encontrar Zhian é boa demais para deixar passar. À medida que caminhamos, eu conto os meus passos com cuidado. ... 64... 65... As paredes de arenito ecoam com a nossa passagem enquanto nós

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descemos a escuridão se fechando e nos engolindo. O brilho e a luz do Fahradan desaparecem rapidamente, até que o príncipe e eu estamos sozinhos em um mundo subterrâneo de passagens escuras e câmaras empoeiradas. Meu sexto sentido investiga o vazio do interior do palácio, mas meu alcance é embotado, a clareza da minha vista se turva. As paredes aqui são revestidas com tiras de ferro, o metal interferindo em meus pensamentos e meu sexto sentido é repelido de volta para mim. Eu pisco furiosamente, esperando que Darian não note minhas vacilações mentais. Um, dois, três níveis - os arquitetos de Parthenia escavaram profundamente na terra para estas fundações. Quanto mais avançamos, mais longe estamos da minha lâmpada, e eu sinto a distância que se estende como uma corda apertada. Eu não explorei esta área antes; estamos longe da câmara de Aladdin e bem fora do perímetro que tem me mantida cativa toda noite até agora. Eu vibro de emoção e nervosismo. Este é o mais próximo que eu vim para encontrar Zhian e, finalmente, garantir a minha liberdade - agora todos os meus pensamentos se voltam para não estragar essa chance. ... 101... 102... Meu estômago aperta. A qualquer momento, Aladdin poderia dar alguns passos para um lado enquanto eu dou alguns passos para o outro, então eu me transformarei. Me pergunto se Darian percebe quão tensa eu estou. Ele ainda segura minha mão, com muita força para me afastar. As paredes são lajes de pedra, seus rostos gravados com glifos e símbolos desvanecidos. Ganchos de latão prendem tochas queimadas nas paredes, mas Darian consegue encontrar um com um pouco de óleo deixado nele, e ele acende com a faca decorativa em seu cinturão contra uma barra de sílex ligada à tocha. — A velha cripta, — diz Darian, segurando a luz. Sua mão aperta mais em torno da minha e eu olho para ele com curiosidade. Darian tem medo, do escuro ou dos mortos. Como se sentisse a minha visão sobre esta vulnerabilidade, ele faz uma carranca e me puxa para frente. — Os antigos reis e rainhas estão enterrados aqui. Agora vamos colocá-los em tumbas acima do solo, nas colinas ao norte. Mas as paredes aqui são revestidas com ferro, o que torna uma perfeita cripta para guardar

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nossos... prisioneiros especiais. O cabelo no meu pescoço está arrepiado. É isso. É verdade, realmente é - a noite que eu encontro Zhian. E nem um dia antes. ... 126... 127... Quando tudo em mim grita e corre, eu me pergunto se Aladdin notou que eu sumi, então me censuro por pensar nele agora. Eu preciso me concentrar totalmente na missão em minhas mãos. Eu sei que em breve, talvez ainda nesta mesma noite, eu vou ter que deixar Aladdin ir para sempre. Esse é um pensamento que eu posso engolir, por enquanto, mesmo achando muito doloroso. — Prisioneiros? — pergunto, mantendo minha voz alta e assustada. — Você tem certeza— Você está segura comigo, — Darian me assegura. — Estamos quase lá. ... 138... 139... Se eu tivesse um coração, estaria batendo como um tambor. Ele para na frente de uma porta de ferro, uma coisa enorme que não podia possivelmente ser aberto por conta própria. Mas, soltando minha mão, ele abre um painel de madeira na parede para revelar um sistema inteligente de engrenagens. Ele puxa uma alça, engancha em uma das engrenagens, então me passa a tocha para que ele possa pegar a alça em ambas as mãos e jogar seu peso contra ele. Darian fica tenso e amaldiçoa, lentamente as engrenagens começam a girar. Os zumbidos na parede e cliques começam quando a alavanca trabalha, e a porta abre lentamente para os lados, deslizando na parede. Quando a porta está aberta apenas o suficiente para uma pessoa passar, Darian desliza uma barra de ferro nas engrenagens para mantê-las de se fechar, em seguida, se vira para mim com um sorriso. — Agora você vai ver o quão poderoso os guerreiros Amulen são. E nem um momento antes. Estou quase doente com apreensão, a distância entre mim e a aparente lâmpada cantarolando perigosamente. Só ~ 155 ~


mais alguns passos. Eu não posso durar muito tempo. Eu preciso. Ele dá um passo para dentro, e eu sigo, um batendo no meu peito como um coração fantasma. Dentro da sala, eu posso sentir todos eles. Centenas de gênios, de todos os tipos, estão presos em pequenas garrafas de barro e bronze, vidro e porcelana, jogados em prateleiras que se estendem de parede a parede. A sala é grande e tem um pé-direito alto, o chão nu exceto por uma mesa segurando um rolo pesado e várias penas. Os gênios me sentem entrar, sentem a minha verdadeira natureza, e começam a clamar e gritar, suas vozes uma onda avassaladora. Eu balanço, ofegando um pouco ao impacto do ruído e desespero. Darian naturalmente não pode ouvir nada disto, e ele parece satisfeito com a minha reação. — Sim, é bastante impressionante. Temos engarrafados gênios por centenas de anos. Não há ninguém melhor nisso. — Você - você os engarrafa você mesmo? — eu pergunto, colocando uma mão contra a parede para me equilibrar. — Bem... não eu, pessoalmente. Mas eu dou ordens ao Eristrati, que lutam com os gênios, e aos encantadores de gênios que nós importamos de Tytoshi. Desde que eu estive no comando, nós engarrafamos mais de trinta gênios, apenas no tempo de alguns anos. — ele aponta ao redor da sala, como um caçador exibindo seus troféus. — Estes são os maarids - gênios água. Há o ifreet, do fogo e os carniçais da terra. Nós temos até mesmo um pequeno sila. — ele acena para algumas garrafas de vidro em uma prateleira alta. — Muito difícil de pegar, porque eles são normalmente invisíveis. Irmã! Irmã! Seus gritos tocam em meus pensamentos como uma tempestade. Ajude-nos! Liberte-nos Alguns deles estão aqui por 300 anos, eu percebo a partir de seus gritos errático. Eu filtro as vozes, tentando ouvir a de Zhian, mas é difícil se concentrar com Darian falando sobre vários gênios que ele testemunhou. — ...este estava perto de uma das nossas vilas de pescadores, então esperamos a noite toda até que apareceu, e então eu enviei Vigo com sua flauta...

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Calem-se, todos vocês! Eu ordeno, e as vozes apenas clamam mais alto. Meus olhos digitalizam as prateleiras e de novo, procurando. Zhian! Zhian, você está aqui? — ...e este, — Darian está dizendo: — este é o nosso maior prêmio. Nada de Ghul ou ifreet, nem maarid ou sila, mas outra coisa. Algo maior. Meus olhos voltam para o seu rosto, e eu mal consigo me impedir de me transformar em um tigre e prendendo-o no chão até que ele fala. — Qual? — eu pergunto, sorrindo timidamente, esperando que não haja fumaça fluindo através de meus dentes. Darian aponta para um jarro de barro acima da cabeça, com o pescoço trabalhado e uma alça graciosa. — Aqui. Nós capturamos há dois meses. Pensei que poderia ser um ifreet, por causa do fogo que estava jogando em nós, mas o jeito como ele mudou de forma - de homem a dragão e fumaça - ifreet não pode fazer isso. Somente carniçais podem mudar de forma, e só por comer a alma de um ser humano ou animal antes de tomar seu corpo. Temos vindo a debater o que poderia ser. Eu acho que— Posso segurá-la? — pergunto. Darian pisca, e depois seus olhos se apertam. — Claro que não. É extremamente perigoso. Se você deixar cair e ele quebrar— Eu só quero olhar! — eu estalo, a minha fachada craquelando e quando Darian faz uma carranca suspeita, eu baixo meus olhos e sussurro, — Eu sinto muito. É só, eu nunca vi nada parecido com isso. Você realmente é um grande guerreiro. O terror dos gênios! — Sim, — ele brinca e seu rosto relaxa. — Bem, eu tive muita prática. Zhian, é você? Eu me concentro nas palavras na jarra de barro acima de Darian. A resposta vem como um trovão. ME TIRE DAQUI! Eu tropeço pela força de suas palavras e Darian dá um passo à frente para me pegar.

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— O que deu em você? — pergunta ele, sorrindo. Eu apenas aceno distraída, endurecendo um pouco quando suas mãos deslizam para meus braços. Zhian, estou aqui para ajudá-lo. Me tire AGORA! As mãos de Darian são muito familiares, uma nas minhas costas, a outra segurando meu queixo. Seu toque é repulsivo, o seu batimento cardíaco irregular e rápido demais. Me sinto assaltada por todos os lados: pelos gritos de Zhian, pelo clamor dos gênios, pelo desejo de Darian. — Você realmente é muito bonita, — diz ele, seus olhos caindo para meus lábios. — Eu te mostrei algo secreto. Agora o que você vai me mostrar? Me preparando, eu agarro seu casaco e dou um passo à frente, apoiando-o nas prateleiras e em torno dele garrafas se agitam perigosamente. — Calma, — ele adverte, mas seus olhos iluminam com avidez. Nossos rostos estão apenas uma polegada de distância, seus olhos presos nos meus. — Você é mal-humorada. Eu soube disso no momento em que a vi. Não é de admirar que Rahzad gosta de mantê-la perto. — E sobre a princesa? — murmuro, enrolando uma mão atrás de si, como se enfiasse os dedos em seus cabelos oleosos. — Caspida dificilmente aprecia os prazeres mais finos na vida. Eu, por outro lado, tenho apetite de um rei. Ele me beija com força, se afastando da parede, e eu sou s capaz de agarrar frasco de Zhian antes que esteja fora de alcance. Não é maior do que a minha mão, é simples deixá-lo escorregar para dentro da manga. O príncipe dos gênios se mexe lá dentro, mas eu ignoro e foco no humano tentando forçar sua língua na minha garganta. Eu posso me sentir pairando no limite da fronteira da lâmpada. Fumaça ondula sob a minha pele enquanto eu me esforço para não me transformar, o esforço trazendo lágrimas aos meus olhos. Eu empurro Darian e ele grita quando ele bate na parede de gênios engarrafados. Alguns caem de suas prateleiras, e pânico rola em seus olhos ~ 158 ~


enquanto ele luta para pegá-los. — Deuses de sangramento, sua puta! — ele rosna. — Você está louca? — Meu mestre está, provavelmente, procurando por mim, — eu suspiro. — Eu deveria ir. Me viro e fujo da sala, deixando escapar um grito suave, aliviada quando a tração da lâmpada em mim se afrouxa. Darian está muito perto para eu trocar de forma. Chacoalhando o frasco de Zhian na minha manga, eu me apresso pela cripta escura e subo as escadas, o príncipe em meus calcanhares. — Pare! — ele grita. — Ou eu vou te matar! Irmã! Zhian chora. Liberte-me e eu vou devorar o desgraçado! Fechando os dois da minha mente, eu tomo os degraus de três em três, mal me mantendo e pé enquanto as minha saia se enrola nas minhas pernas. Quando eu chego ao corredor no nível principal, eu explodo em uma velocidade, mas Darian chega até mim. Ele agarra meu braço, me puxando para trás. — Puta! — ele rosna, me batendo na parede tão forte que estrelas estouram nos meus olhos. Eu assobio, o tigre em mim ameaçando surgir e rasgar sua garganta, mas um grito me traz de volta para mim. — Zahra! Viro a cabeça e vejo Aladdin correndo em nossa direção. Quando ele vê que é Darian me segurando contra a parede, seu rosto fica com tanta raiva que ele parece irreconhecível. Ele bate em Darian antes do príncipe ter a chance de dizer qualquer coisa. Os dois batem no chão, Aladdin joga um soco contra a mandíbula de Darian. — Pare com isso! — eu choro. — Príncipe Rahzad! Os meninos me ignoram, rolando e se debatendo como cães. Deixe-os! Zhian rugi. Me deixe sair!

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— Como você ousa tocá-la? — Aladdin cospe, agarrando Darian pelos cabelos e apertando o rosto do príncipe para o chão de pedra. — Seu desgraçado! — Eu não dei nada que ela não quis, — Darian silva de volta. — Fiquem longe de mim ou eu vou matar vocês! Eu começo a entrar em cena, mas uma voz fria atrás de mim faz todos nós congelarmos. — Darian. Me virando, eu vejo o vizir de pé nas sombras, seu rosto uma máscara de fúria fria. Aladdin solta o príncipe, que se levanta, seu rosto vermelho. — Pai, eu— Meu próprio filho, rolando no salão como um cão sobre uma cadela no cio? Repugnante. Darian deixa cair sua cabeça, atirando a Aladdin um olhar sombrio. — Quanto a você, Rahzad, — Sulifer diz, seu olhar gelado correndo para Aladdin, — é assim que os príncipes de Istarya se comportam nas casas que lhes concedem hospitalidade? Aladdin, sem medo em seus olhos, cospe no chão antes de se levantar com austeridade. — É como nos comportamos com covardes que não conseguem manter suas mãos para si mesmo. O olhar de Sulifer pisca para mim desinteressadamente. — Darian, endireite-se e venha comigo. Príncipe Rahzad, talvez seja hora de se recolher para a noite. Eu acho que o nosso vinho Amulen se provou forte demais para os seus sentidos. Darian sorri para isso e nos dá olhares ameaçadores antes de se juntar a seu pai. A distância, vejo Darian andar mancando ligeiramente. — Você não precisava interferir, — digo a Aladdin. Ele se vira para mim, ainda ofegante. — Ele tinha as mãos em cima de você.

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— Nada que eu não poderia lidar. Seus olhos caem, suas mãos apertando ao seu lado. —

É

verdade? Você pediu para ele se juntar a você aqui? Diga a ele que sim, eu penso. Com uma palavra, eu poderia cortar tudo o que há entre nós. Eu poderia liberar Zhian e não ter arrependimentos atrás de mim. Mas... eu posso fazer isso com Aladdin? Posso feri-lo? E posso negar a verdade crescendo dentro de mim? — Por que você está aqui? — digo finalmente. — Você deveria estar com Caspida, oferecendo a sua mão em casamento. A boca de Aladdin se abre, e ele olha para mim por um momento quando mágoa seca atravessa seu olhar. — Eu acabei de fazer, — ele murmura. Então, com seus olhos nublados de raiva, ele passa por mim e desaparece em uma esquina antes que eu possa dizer uma palavra. Eu olho para ele, meu intestino agitando com consternação e confusão. Sua gênio tola! DEIXE-ME SAIR! Assustada com os meus pensamentos, eu puxo o frasco de Zhian da minha manga e o seguro. Posso facilmente imaginar ele rodando lá dentro, uma nuvem de fumaça e fúria. Cale-se, Zhian. Eu vou decidir quando você será solto, e agora, você não está inspirando meu lado misericordioso. Ele uiva e arremessa insultos, o que eu tento ignorar quando eu caminho atrás de Aladdin. Eu tenho Zhian finalmente. A qualquer momento eu poderia quebrar a jarra e libertá-lo, cumprindo a minha parte no trato e reivindicando a minha liberdade. Mas o que acontece a seguir? A humilhação de ser capturado pelos seres humanos terá deixado Zhian furioso. Ele teve duas luas para alimentar o seu ódio dos seres humanos, e agora é voraz e destrutiva. Se eu deixá-lo sair agora, Parthenia não terá uma chance. Ele vai destruir a cidade de dentro para fora, independentemente do meu acordo com o seu pai. ~ 161 ~


Tenho que libertá-lo do lado de fora das muralhas da cidade e confiar que as enfermarias irão proteger todos dentro de sua ira inevitável. Aladdin volta para o seu quarto, e eu o sigo à distância, meu peito se sentindo mais vazio do nunca. É hora de dizer adeus.

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C Eu o encontro nos nossos quartos, de pé no pátio. Algumas velas queimam em lanternas coloridas que a equipe do palácio pendurou nas árvores de figo, iluminando a grama com cores azuis e vermelhas. Aladdin se inclina contra um pilar, de costas para a porta, e se ele me ouve entrar, ele não demonstra. Faço uma pausa apenas para colocar o frasco de Zhian no meu quarto; eu não posso suportar ouvir suas ameaças e maldições agora. Aladdin não vacila ou mesmo me reconhece quando eu chego ao seu lado. Seu casaco está dobrado sobre o divã atrás dele, deixando-o em uma kurta branco simples, as mangas dobradas até os cotovelos. Seu turbante amarrotado no chão. Seu olhar me incomoda. Durante toda a noite ele tem sido brilhante como uma chama, sorrindo, dançando, flertando. Esse menino sumiu. Aladdin me parece mal-assombrado. Sua mandíbula está rígida, seu cabelo bagunçado, as mãos tão apertadas que os tendões de seus braços se destacam como cordas. — Aladdin... Ele fica tenso, sem olhar para a minha direção. — O que aconteceu entre você e Caspida? Agora ele olha para mim, e a raiva em seus olhos me pega de surpresa. — Eu disse a ela todos os tipos de mentiras. Que eu tenho um exército em Istarya e tesouros cheios de ouro, e que tudo seria dela se ela se casar comigo. Um servo deixa uma jarra de chá e refrescos no divã. Eu me sirvo um copo e aqueço as mãos, tentando impedi-las de tremer. — O que ela disse? — Que ela iria pensar sobre isso. — ele ri amargamente, em seguida, fica em silêncio por um longo momento. Eu gostaria de poder ler seus

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pensamentos, mas seu rosto está fechado para mim. — Quando eu vi você no salão com Darian, — diz ele, finalmente, — eu senti mais raiva do que eu já senti em um longo tempo. Eu estava com raiva e... e com medo, de que você quisesse estar lá, que você queria que ele tocasse você. Em com um olhar, senti mais do que eu já senti com Caspida. Zahra, eu acho que você está certa - o amor não é uma escolha. Se eu pudesse escolher amar Caspida, talvez isso tudo iria ser de maneira diferente, mas eu não acho que isso é possível. Não mais. Toda a fumaça dentro de mim afunda quando eu olho para ele. — O que você está dizendo? Ele se vira e encontra o meu olhar de frente. Por mais que eu queira, acho impossível desviar o olhar. A intensidade de seu olhar de cobre me mantém em transe. — Acho que você sabe, — diz ele em voz baixa. — Ou eu sou o único que sente isso? Minha pele e as raízes do meu cabelo formigam, como se o ar em torno de nós estivesse carregado, uma tempestade prestes a quebrar. — Eu não sei o que dizer. — as palavras são amargas na minha língua. Com um grunhido de frustração, Aladdin se afasta e esfrega seu cabelo. — Eu nunca posso dizer quando você está mentindo. Isso me deixa louco. Eu sou um bom mentiroso, e eu reconheço um bom mentiroso vejo um. Mas você... você é de enlouquecer! Eu sorrio um pouco, pensando em como eu poderia dizer a mesma coisa dele. Ele continua: — Mais e mais eu imaginei o dia que Caspida e eu nos casaríamos. Já imaginei enviar Darian até os confins da terra e sentenciar Sulifer a uma vida de esfregar chão, finalmente vingar meus pais. Eu imaginei essas coisas toda a minha vida, mas isso já não me traz o prazer que trouxeram uma vez. Ele se move em torno do pilar, parando atrás de mim, e a nota de súplica em sua voz corta todas as minhas defesas, me deixando sem fôlego. — As coisas que antes eram doces para mim agora são amargas. O sol não é metade tão brilhante. As estrelas parecem diminuir. Toda essa riqueza

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e luxo não tem sentido. Todo o mundo está em sua sombra, Zahra. Eu não posso evitar te ver quando eu fecho meus olhos. Seus dedos escovam provisoriamente meu cabelo. Eu endureço, e sua mão se retira. Ele se move na minha frente, seus olhos selvagens. — Eu sei muito pouco sobre você, e isso me come dia e noite. Quem é você? Por que você infecta a minha mente? — Aladdin, pare. Por favor. — com a minha voz tremendo, eu finalmente me movo, dando um passo para frente e segurando minhas mãos. — Não faça isso. Não agora. — não quando estou tão perto da minha liberdade. Eu vim aqui pronta para participar disso, mas ele jogou primeiro e agora eu me encontro na defensiva, aparando e bloqueando o ataque de suas palavras. É demais. Eu sempre fui capaz de sentir os meus mestres, mas com Aladdin é diferente. Quando eu fecho meus olhos, ele está lá, sorrindo, rindo, me desafiando com aqueles olhos acobreados. Pela primeira vez eu penso sobre o que vem depois de eu ganhar minha liberdade. Por tanto tempo esse tem sido meu único objetivo, mas o que acontece depois? Como faço para voltar a Ambadya, onde eles me odeiam? Como faço para ficar no mundo humano, aonde eles iriam me destruir se soubessem o que eu sou? Não tenho para onde ir e ninguém com quem passar a minha liberdade, e pela primeira vez eu começo a me perguntar se isso é realmente liberdade, ou se eu estou trocando uma prisão por outra. — Eu não sou para você, — eu digo desesperadamente. — Nós somos tão diferentes. Nossas vidas são mil e um mundos separados. Isso não iria funcionar. E isso é perigoso. Mas seu rosto se ilumina. — Então você sente o mesmo. — Nós não somos o mesmo - esse é o ponto inteiro! Eu não sou humana, Aladdin. Tudo o que eu tinha de humano em mim foi destruído, e eu fui forjada em algo totalmente diferente. Eu não estou aqui para ajudá-lo - eu nunca estive aqui para ajudá-lo, ou qualquer um dos meus mestres. Ele balança a cabeça. — Eu não acredito nisso.

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— Não importa o que você acredita, — eu digo com amargura. — É o que é, e não tem nada a ver com o que você quer. Ele anda em volta de mim, me forçando a encará-lo. — Você me ajudou a ficar longe de Darian no deserto. Você me pegou no palácio quando você poderia ter deixado que eles descobrissem quem eu realmente era. Você me ensinou a dançar, pelo amor aos Deuses! Você teve uma centena de oportunidades para me enganar e me trair, mas você não fez. Você me ajudou quando eu não queria. — Uma galinha não voa como outras aves, mas ainda é um pássaro. — Zahra! — ele levanta suas mãos, o vento despenteando seu cabelo. — Você se importa. Eu vejo quando você acha que eu não estou olhando. — Pare! Eu não sou o que você pensa que eu sou, Aladdin! Eu vou traí-lo, e eu vou te machucar, porque é isso que eu sou. Por que você acha que Nardukha rasga almas dos vivos e cria gênios? Por que acha que ele nos envia ao mundo? Para fazer seus miseráveis sonhos realidade? Para lhe trazer felicidade? — eu rio amargamente. — Ele lhe dá a coisa que você mais quer e usa isso para te destruir. Olhe para você. Você é um príncipe. Você tem dinheiro, poder, privilégio. A chance de vingar seus pais. E você é miserável. Aladdin olha para mim, e em seus olhos são de pena. — Eu tenho sido infeliz toda a minha vida, — diz ele em voz baixa. — Me convenci há muito tempo que se eu pudesse se vingar de Sulifer, eu poderia finalmente seguir em frente. Que eu poderia apagar a memória do dia que meus pais morreram quando eu segurava suas cabeças cortadas e vi seu sangue correr nas sarjetas. Mas, como você diz, aqui estou eu, a um passo da vingança - e azedume na minha língua. Eu não quero mais isso. Ele suspira e olha para o céu, como se à procura de palavras entre as estrelas. — Você não me faz infeliz, Zahra. Eu faço isso eu mesmo, porque eu sou muito fraco, tenho muito medo de admitir que não é com Sulifer que eu estou com raiva - sou eu. Meus pais foram mortos por causa de mim. No dia antes de serem executados, eu fui pego pelos guardas por roubar um brinco, e quando eles descobriram quem eu era, Sulifer tinha me batido até que eu disse a ele onde meus pais estavam. E depois que eles estavam mortos, ele me devolveu o brinco como pagamento por dedurar a minha mãe e pai para ele. — abaixando o olhar para encontrar o meu, ele escova os dedos sobre o

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anel em sua orelha. — Uso isso todos os dias para me lembrar que nada - nada - vale pena trair alguém que você ama Ama? A palavra paira entre nós como fruto proibido, maduro e doce e oh, tão mortal. Olho para ele com espanto. — Por favor, — eu sussurro. — Pare. — Zahra— Você não entende? É proibido, Aladdin! Nós gênios devemos cumprir muitas regras, mas primeiro de todos, o mais importante, não devemos nunca se apaixonar por um humano! Sua respiração trava, engolindo em seco. — E você sempre seguiu as regras? — Eu, — meu olhar vai para o céu e solto uma respiração profunda em busca de palavras entre as estrelas. — Não é sobre isso. Você sabe o tipo de destruição que iria causar? Você não ouviu a história de seu próprio povo, como sua cidade foi destruída, como milhares de pessoas morreram? Não foi ódio que provocou a guerra entre o seu povo e o meu, Aladdin. Foi o amor. Eu segurei a mão de Roshana a Sábia e a chamei de irmã, e essas palavras colocaram o nosso mundo em chamas! Aí está. A minha maior vergonha, desnudada. A verdade está entre nós como vidro quebrado. Certamente agora ele vê o que eu realmente sou: uma traidora, uma monstra, uma inimiga. Aladdin olha para mim, o seu rosto amolecendo. — Isso não foi culpa sua, — diz ele. — Amar alguém nunca é errado. E como você disse, não é uma escolha. Isso só acontece e nós somos impotentes em seu poder. — Isso não muda o fato de que as consequências são desastrosas. Como dizem os poetas, aperte as mãos de um gênio e você apertou as mãos da morte. — E se você não fosse um gênio? E se você fosse livre de suas regras? Eu fico olhando para ele. Sua mandíbula aperta, seus olhos com tanta determinação que me assusta inteira. Uma nuvem deriva em toda a face da

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lua crescente, e o pátio escurece. Aqui e ali, a grama ainda está afundada, de onde Aladdin e eu dançamos apenas horas antes. Eu baixo o meu olhar, tremendo da cabeça aos pés. — Não diga isso, Aladdin. Nem pense nisso. — medo sobe em mim como uma nuvem de tempestade, escura e ameaçadora. Aladdin se aproxima. Ele pega minhas mãos. Sua pele é quente e está crepitando de energia, me queimando. — Eu tenho um desejo, — ele murmura. — E este é para você. — Não, Aladdin! Não fale isso. Não faça o desejo proibido. O custo— Dane-se o custo. Zahra, eu desejoEu o paro com um beijo. Porque é a primeira coisa que eu penso antes das palavras terríveis saírem. Porque ele me enche de luz e esperança e medo profundo. Porque eu tenho ansiado há dias. Sinto a lasca de choque através dele, seu corpo fica rígido. Em seguida, ele relaxa, derretendo dentro de mim, um passo à frente até que eu estou presa entre ele e a parede, a tocha crepitante ao meu lado. Suas mãos deslizam em minhas costas, sobre meus quadris e coxas, deixando um rastro de fogo. Seu coração bate rápido o suficiente para nós, sua pulsação trovejante ecoando através de mim. Eu enterro minhas mãos em seu cabelo escuro, meus dedos atam em torno dessas mexas grossas. Desejo puxa meu estômago, e eu me inclino para ele, levantando uma perna e envolvendo em torno de sua cintura. Ele me levanta, e minha outra perna fica ao seu redor, minha saia sobe até minhas coxas, minhas costas pressionadas contra a coluna. Seus lábios são suaves e quentes, sublinhados com urgência mal contida. Eu não posso ter o suficiente dele. Eu puxo sua kurta sobre a cabeça e deixo cair no chão. Eu pressiono minhas mãos contra seu peito e sinto seu coração contra a palma da minha mão, seus pulmões subindo e descendo. Seu ombro está atado com a cicatriz da flecha que ele levou por mim. Ele me beija novamente, desta vez com mais força, e eu corro minhas mãos em sua mandíbula e pescoço, nos ombros, os músculos tensos de suas costas.

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Ele se vira, sem me deixar ir ou quebrar o nosso beijo, e nós caímos no divã macio. Aladdin se mantem em cima de mim, seu abdômen apertado e seu cabelo caindo sobre a testa. Seus lábios vagam para baixo, para o meu queixo, a curva do meu queixo, meu pescoço. Minhas mãos são vorazes, explorando os planos e ângulos de seu corpo. Seus dedos encontram os meus, e as nossas mãos se unem. Ele as levanta sobre a minha cabeça, pressionando-as no travesseiro sob o meu cabelo, quando seus beijos traçam a minha clavícula, e depois afunda mais baixo, abrindo os botões do meu vestido e pressionando os lábios na minha barriga nua. Eu suspiro e abro os olhos, meu corpo correndo com as sensações que eu nunca senti e nunca me atrevi a sentir, nunca pensei que poderia sentir. — Aladdin, — murmuro. — Nós não deveríamos... — Shh. — ele me silencia com um beijo, e eu levanto o meu queixo para encontrá-lo. Um vento quente corre através de meu corpo, mexendo brasas e os colocando em chamas. Eu não quero parar. Eu não quero pensar nas consequências. Eu só quero Aladdin, em todos os lugares. Eu desejoNão. Não, eu não posso desejar. O custo é muito alto para nós dois. — Pare, — eu digo minha voz cheia de fraqueza que me trai. Ele levanta os olhos para mim. — Por quê? — Pare, — eu digo com mais firmeza. Eu o empurro de cima de mim e me sento, meu rosto em minhas mãos, meu cabelo uma cortina para me proteger. Aladdin não se move, apenas olha para mim, ainda respirando com dificuldade. — Zahra? O que está errado? — Tudo! — eu levanto a cabeça e caio aos meus pés. — Você não entende. Isso não pode acontecer! — Eu sinto muito. — ele se levanta de joelhos, mãos pra cima. — Me desculpe. Eu não sei o que deu em mim. Por favor— Me deixe em paz! — eu corro através da porta e bato atrás de mim,

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então caio contra ela, meio ofegante, meio soluçando, no corredor vazio. Como eu deixei isso acontecer? Como eu poderia ter sido tão fraca? — Zahra? — ele para do outro lado da porta, a voz abafada. — Eu sinto muito. — Não é o que você pensa que é, — eu digo a ele. — Você não sente nada por mim. Você está apenas atraído pelo meu poder, aos desejos que eu lhe concedi. — Não... — mas sua voz é incerta. Me sentindo o pior tipo de traidora, eu digo: — Eu tenho sido uma tola por andar nesta forma ao seu redor. Eu não sou humana, Aladdin. Nada sobre mim é certo para você. — e abro a porta e lá está ele, seu cabelo despenteado e seu peito brilhando de suor, de pé com aquele olhar de cordeiro na chuva que atravessa todas as minhas defesas. Mas eu permaneço firme. — Isto, — eu digo, apontando para mim mesma, — isso não sou eu. Isso não é como eu me pareço. Este corpo que você vê pertencia a outra pessoa, por muito tempo, há muito tempo, e como o monstro que eu sou, eu roubei. É uma máscara. Uma mentira. — Eu não ligo para como você se parece. — Você diz isso, mas você liga sim. Você teria me beijado se não fosse assim? — com uma explosão de fumaça, eu me transformo em uma velha enrugada. Aladdin engole, mas não desvia o olhar. — Ou assim? — eu me transformo em um homem cheio de cicatrizes, feio e com verrugas no meu rosto. Aladdin empalidece. Voltando para a minha forma de menina, eu suspiro profundamente e puxo minhas roupas. — Esta é apenas uma forma. Você não está me vendo. — Então se mostre para mim, — ele implora. — Eu quero ver você, Zahra. Eu quero saber quem você realmente é. O encaro, então, sem uma palavra, me transformo lentamente, uma coluna de fumaça vermelha brilhando. — Eu não tenho nenhuma forma, — eu digo, minha voz mudando e se multiplicando, uma dúzia de vozes falando ao mesmo tempo. — Eu não tenho nome. Eu sou a escrava da lâmpada, e sua vontade é minha

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vontade. Os seus desejos são os meus mandamentos. Ele balança a cabeça teimosamente, mas dá um passo para trás, se afundando no quarto, entrando como uma nuvem de tempestade. Eu cresço e encho o ar, fazendo-o engasgar e tossir. Eu pressiono minhas mãos esfumaçadas contra as paredes, se enrolando em torno das colunas, dominando-o. — Zahra, pare! — ele grita. — Por favor! Eu mudo de forma e paro diante dele como uma menina mais uma vez. Cautelosamente, ele olha para cima, os olhos arregalados de dor. — Você vê agora? — pergunto sem emoção. Ele está respirando com dificuldade, seu peito nu coberto de suor. — Só me responda uma pergunta. Você sente alguma coisa por mim? Existe mesmo uma possibilidade— Não, — Deuses, como essa mentira queima em minha língua. Ele hesita, então balança a cabeça uma vez. Seus olhos se inundam de confusão e mágoa, e ele se levanta e se afasta de mim, os ombros curvados. Curvado sob o peso da vergonha, eu me viro e vou para a porta. Faço uma pausa antes de me virar e dizer: — Eu nunca quis isso. Eu sinto muito. Então eu fujo pelo corredor, batendo em um braseiro ardente. Balança precariamente, brasas acesas chovendo no chão e explodindo em volta dos meus pés como pequenas estrelas que explodem. Eu me inclino contra a parede, o meu rosto em minhas mãos por longos minutos. Eu nunca me senti tão fora de controle antes, meu corpo tomando decisões antes que a minha mente possa alcançá-lo. Eu ainda estou tremendo, e eu inspiro e expiro pela boca, tentando me acalmar. Eu não deveria tê-lo beijado, Habiba. Mas eu não sabia mais o que fazer. As palavras estavam ali, subindo em sua garganta, palavras de liberdade, palavras de morte. Melhor beijá-lo e deixá-lo do que deixá-lo fazer o desejo proibido. Eu preciso encontrar um caminho para fora da cidade, para soltar Zhian e então ir o mais longe possível daqui antes de me tornar mais enredada a este menino humano. Vagamente, eu percebo que alguém próximo está gritando, e eu me puxo para fora da minha neblina. Algo está acontecendo do outro lado do

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palácio. Um servo passa correndo por mim, carregado com rolos. Eu o chamo, mas ele me ignora e continua a correr. Eu o sigo rapidamente, e os gritos ficam mais alto. Então, sobre o som, corta um gemido agudo e arrepiante. — O rei! — grita a voz. — O rei está morrendo!

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C — Zahra! Estou correndo pelo palácio quando ouço o grito de Nessa e me viro para vê-la correndo pelo corredor. Eu espero ela se recuperar. Ela está ofegante e com olhos selvagens, - seus dreadlocks escorregam do nó que tinham sido presos antes. — Você ouviu? — ela pergunta. — Sim. Onde está a Princesa Caspida? — Com seu pai. Estou indo para lá agora. — Eu vou com você. Nessa e eu corremos pelo corredor. As palavras sobre a morte do rei devem ter se propagado, porque as pessoas estão começando a emergir de seus quartos e as salas estão cheias de sussurros. Nós chegamos aos aposentos do rei que é perto do de Caspida e eu pairo sob o perímetro da lâmpada. Uma pequena multidão já está reunida, principalmente nobres em suas camisolas, seus cabelos e maquiagem ainda permanecem desde a noite de folia. Um grupo de guardas bloqueam a porta, repelindo qualquer um que tente entrar. — Nessa! Khavar e outra serva estão de pé nas proximidades, e eles pairam sobre elas. — Alguma coisa? — pergunta Nessa. Khavar balança a cabeça. — Lá dentro está Caspida, com Sulifer e os médicos. Ninguém saiu. — Me desculpe, — eu digo, recuando. — Eu deveria voltar para o ~ 173 ~


príncipe Rahzad. As meninas acenam distraidamente, sem notar que o corredor que eu tomo é na direção oposta do quarto de Aladdin. Quando estou sozinha, eu me transformo em um pequeno lagarto cor de areia e corro em direção aos aposentos do rei. Eu teço através dos pés dos nobres reunidos em frente à porta, passo sobre a bota de um guarda, e deslizo por baixo da porta. Quando a língua pra fora, eu cruzo várias câmaras opulentas antes de chegar a cama do rei. O ar aqui é cheio de fumaça, e as pessoas se reunem em torno de sua cama e há panos amarrados sobre suas bocas e narizes. Caspida se ajoelha ao lado da cama, as mãos envolvidas em torno de seu pai. Ela ainda está vestindo seu vestido da Fahradan. Os médicos estão reunidos de um lado do quarto e, a julgar por suas expressões sombrias, eles desistiram. Um grupo de mulheres se amontoam ao pé da cama, chorando. Sulifer e Darian ficam em cima da cama, silenciosos e pensativos. A pele de Malek é amarela e dura, suas bochechas afundadas, os olhos rodeados de sombras escuras como se eles estivessem sido manchados por lápis preto. Sua respiração é irregular e desigual, o peito quase não subindo. Os olhos de Caspida estão secos e fixos no rosto de seu pai, queimando com ferocidade, como se ela tentasse fazê-lo voltar à vida. Eu rastejo até o posto de sua cama e me penduro de cabeça para baixo no teto, mantida no lugar por almofadas pegajosas no meu pé de lagarto. Meus olhos reptilianos redondos me permite ver todos de uma vez. Sulifer está segurando uma folha de pergaminho e uma pena com tinta, e ele se inclina sobre seu irmão, falando em voz baixa. — Para o bem das pessoas, Malek, — diz ele, — é necessário garantir que esta transição seja a mais estável possível. — O deixe em paz! — Caspida responde. — Ele está morrendo, saia! Sulifer a olha com piedade. — Mesmo em seu leito de morte, um rei tem responsabilidades. Aceite o conhecimento e aprenda, Princesa Ela o encara quando ele se inclina mais para baixo e coloca a pena na mão de Malek, segurando o pulso de seu irmão para que o rei possa ~ 174 ~


pressionar a ponta do pergaminho. — Por favor, irmão, — murmura Sulifer. — Seu povo vai cantar louvores pela sua sabedoria e clarividência. Com um rei e uma rainha para governar depois de você, eles vão se sentir seguros, e seus inimigos vão tremer. Quem vai ficar contra aqueles tão bem adaptados como meu filho e sua filha? Deixe que seu último ato abençoe sua felicidade e garanta o seu legado. Os olhos febris de Malek se movem de Caspida a seu irmão e ele geme. — Se afasta! — Caspida se levanta e aponta um dedo em direção à porta, os olhos ardendo em seu tio. — Eu vou chamar os guardas! — Pare de agir como uma criança mimada, — diz Sulifer pacientemente. — Seu pai está morrendo, e você insiste em birras. — Baba, por favor, — ela diz, pegando o rosto de seu pai em suas mãos. — Eu te amo. Não faça isso. — Foi ele que organizou este jogo anos atrás, — diz Sulifer. — Você vai desafiar seus desejos agora, quando ele está para partir para terras eternas? — Ele foi controlado, — ela dispara de volta. — Isto foi o que você fez! Você o fazia realizar a sua vontade quando ele ficou fraco pela morte de minha mãe! — Você ousa chamar o rei de fraco? — Darian intervem com veemência. — Você ousa questionar a sua vontade? — Você ousou usurpá-lo! — ela chora. — E manipulou um homem em seu estado mais fraco! Eu não vou deixar você intimidá-lo a assinar esse decreto estúpido! Sulifer arreganha os dentes com raiva. — Você vai desafiá-lo até seu último suspiro? Ela olha para o rosto de seu pai, seus olhos atordoados. — Claro que não. Baba, eu vou fazer o que você me disser para fazer. Mas, por favor, faça isso a tua vontade e de ninguém mais . Malek murmura algo. — Baba? — Caspida se inclina sobre ele. — O que é? — Melhor... — ele geme. — Melhor... coisa para você... mantenha-se ~ 175 ~


segura. — Baba? — os olhos de Caspida se ampliam em consternação. Sulifer olha para ela. — O rei está falando. Se afaste, Princesa, e deixe ele fazer a sua vontade antes de morrer. Ele afasta Caspida, segurando o pergaminho e apoiando o braço de Malek enquanto o rei assina. O rosto de Caspida fica cinza e Darian olha para o lado, escondendo um pequeno sorriso. — Está feito, — entoa Sulifer. — conhecida. Assinado e testemunhado.

A

vontade

do

rei

é

— A vontade do rei é conhecida, — murmuram os médicos. — Nós somos testemunha. Darian puxa o braço de Caspida. — Mesmo nessa noite trágica, temos motivos para estar contentes. Seu pai nos deu um grande presente, Cas. Não estrague tudo por ser egoísta. De repente Malek ofega, os olhos largos, as pupilas constritas. Os médicos se aproximam, mas não há nada que possam fazer. Caspida se atira de joelhos ao lado do rei. — Não, não, não, — ela murmura, os olhos lacrimejando. — Baba, por favor! Os olhos de Malek encontram os dela. Ele abre a boca como se fosse dizer alguma coisa, e ela se inclina em antecipação, mas a única coisa que sai dele é um longo suspiro, fino que some, até que seus pulmões estão vazios e não sobem novamente. — Meu irmão se foi, — entoa Sulifer. — doce descanso. — Doce descanso, — ecoa um dos médicos. As mulheres começam a chorar e inundar suas roupas. Uma segura um frasco de cinzas e começa a jogá-los no ar. Quando os médicos começam a executar os ritos de morte que irá enviar a alma de Malek para a eternidade, Caspida se levanta e desliza para fora do quarto. Descolo meus dedos e a sigo. Ela corre para fora dos aposentos do rei, irrompe através dos nobres

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que estão ao redor, e ignora suas servas quando elas a chamam. Seu vestido bate em suas pernas, ela corre pelos corredores do palácio, afastando as poucas pessoas que tentam segui-la. Eu tenho que descer até o chão e me trasnformar em um gato para ir atrás dela, minhas patas batendo silenciosamente sobre a pedra. Caspida chora enquanto ela corre, deixando um rastro de manchas escuras nas pedras, onde as lágrimas caem. Eventualmente, ela pára na frente do quarto de Aladdin. Lá, ela para por um momento, se inclinando contra a parede com os braços em torno de si mesma enquanto ela se esforça para controlar a respiração. Ela pára de soluçar e esfrega o rosto com a bainha de seu vestido. Em seguida, ela respira fundo, ajeita seus ombros, e bate na porta de Aladdin. Ela abre de uma só vez. — Zahra, estou tão- — ele congela. — Princesa Caspida. — Príncipe Rahzad. Posso entrar? — ela pergunta. Aladdin olha o corredor, então balança a cabeça e se afasta. Caspida entra e pouco antes dele fechar a porta, eu me lanço completamente. Aladdin me nota e me olha com cautela. Eu me sento no canto, a minha cauda enrolada em torno das minhas patas, assistindo impassivelmente. Caspida está na grama do pátio, parecendo pequena e perdida. Os cabelos soltos estão emaranhados pela corrida e seus pés estão descalços. Aladdin se aproxima dela lentamente, seu rosto gravado com preocupação. — Você está bem? — ele pergunta. — Meu pai morreu, — diz Caspida categoricamente. Aladdin pára e fecha os olhos, exalando suavemente. — Eu sinto muito. Ela encolhe os ombros e olha para longe, seu queixo apertado. Hesitante, Aladdin caminha até ela. — Existe... qualquer coisa que eu possa fazer? Ela pisca rapidamente, retendo mais lágrimas. Seu corpo está rígido e ~ 177 ~


apertado, como se ela estivesse prestes a fugir. — Eu vim aceitar. — Aceitar? — O seu pedido de casamento. A boca de Aladdin abre e fecha. Ele pisca para ela, atordoado. — E aí? — ela pergunta. — Você vai fica de boca aberta ou você vai dizer alguma coisa? — Hum. Eu não sei... não tenho certeza se você está em um estado de espírito para realmente fazer uma decisão como essa. Seu pai acabou de morrer. Você deve estar lamentando ele, não— Sulifer fez meu pai assinar um decreto momentos antes que ele – que ele morresse. Isso diz que eu devo casar dentro de dois dias, antes que ele seja coroado ou devo abdicar. Os lábios de Aladdin formam um círculo perfeito. — E... você veio para se casar comigo, em vez de Darian. — O decreto não menciona Darian pelo nome - apenas que devo me casar com um príncipe. Aladdin mastiga os lábios, seus olhos estreitos. — Você tem certeza de que quer fazer isso? — Você disse que queria me ajudar! Bem, é isso. Isso sou eu pedindo ajuda! — Ok, ok, — diz ele, levantando as mãos. — Claro que eu vou te ajudar. Eu só quero que você esteeja certa de que é isso que você quer. — Quero que se case comigo, — diz ela com firmeza. — E então eu quero que você chame seu exército. O rosto de Aladdin para. — Meu exército. — Você tem um exército, certo? — seu olhar escurece perigosamente. — Uh... certo. Quero dizer, é claro. — Bem. Em quanto tempo eles podem estar aqui? — Hum. Eu não sei. Um mês, talvez? — Aladdin olha ansiosamente

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para mim, e eu olho para minhas patas. Ela balança a cabeça. — Ótimo. Devemos iniciar a elaboração de planos de batalha. — Planos de batalha, — ele ecoa sem emoção. — Meus batedores relataram que existem um grande encontro de gênios nas colinas - mais do que já se viu. Eu me endireito, minhas orelhas de gato em alerta. — Algo está se formando lá fora, — Caspida continua. — E não pode ser nada bom se tem gênios envolvidos. Tememos que eles estejam vindo para lançar um ataque, e temos de estar prontos. Seus homens podem ajudar, não podem? — Claro. — Aladdin olha para mim em um pedido silencioso de ajuda. Eu permaneço onde estou, sentada em uma das almofadas onde ele me beijou poucos minutos antes. — Princesa, talvez eu devesse levá-la de volta para seus aposentos. Suas amigas podem ser mais capazes de consolá-la. — ele hesita, então acrescenta: — Eu realmente sinto muito sobre seu pai. Eu perdi o meu quando eu tinha doze anos. Eu sei o que é. — Você sabe como é sentir um reino inteiro de repente cair sobre seus ombros? — ela pergunta bruscamente, e, em seguida, ela fecha os olhos. — Eu sinto muito. Isso foi rude. Você deve pensar que eu sou patética, correndo aqui assim. Aladdin pega delicadamente suas mãos. — Você não é patética. E você está certa. Eu não sei como é. Mas eu sei que você pode suportar. Eu sei que você é forte o suficiente e que você está cercada por pessoas que vão estar com você em cada momento. Você não está sozinha, Princesa. As sobrancelhas dela se arqueiam e ela suspira. — Eu deveria voltar. Meu pai... devo fazer arranjos. Alladin concorda. — Me deixe ajudar. — Mais tarde, — diz ela. — Hoje à noite eu devo manter a vigília da morte. De repente, ela sobe na ponta dos pés e escova os lábios contra os ~ 179 ~


dele, desajeitada e hesitante. As sobrancelhas dele se levantam em surpresa, e seus olhos olham rapidamente para mim. Inveja passa por mim, mas eu afasto sem piedade. Tudo que eu queria era que Caspida aceitasse a proposta de casamento, e aqui está, nem um momento antes. Normalmente eu sou a primeira a descartar a ideia do destino, mas talvez neste caso eu faria uma exceção. Aladdin tem sua princesa afinal de contas. Talvez desta vez, um desejo não vai acabar na miséria e perda - pelo menos, não para os seres humanos. A perspectiva deveria me fazer feliz. Mas eu sou um espírito egoísta, e isso não acontece. Caspida corre tão rápido quanto ela tinha chegado, deixando Aladdin atordoado na grama. Ele fica lá por um momento, os ombros apertados como um arco. Em seguida, ele caminha para dentro, leva um jarro de barro atrás de um travesseiro, e bebe longo e profundo. Quando ele abaixa o jarro, ele cambaleia até a mim e cai sobre as almofadas. — Bem. — ele levanta o jarro aos lábios, os olhos arregalados e sem foco. — Eu acho que eu ganhei depois de tudo. Com uma onda de fumaça, eu me trasnformo e sou humana mais uma vez. Me sento com ele, olhando para o chão, tentando sentir uma sensação de alívio. — Parabéns, — eu digo. — E agora? — ele bebe novamente, começando a ficar bêbado. — Eu desejo um exército? — Parece que sim. Talvez eu deva dizer a Aladdin a verdade sobre Zhian e o acordo que fiz com os gênios. Mas eu vou poder suportar a decepção em seus olhos quando eu confessar que tenho o manipulado o tempo todo, enganando-o em um casamento que ele não quer, apenas para servir os meus próprios fins? — Zahra, o que acontece com você quando eu fizer o meu último desejo? — Quando o seu terceiro desejo for concedido, você deixará de ser meu mestre. Você pode ficar com a lâmpada, mas você não pode me chamar. Eu vou voltar para ela e aguardar o próximo.

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Abruptamente, ele se levanta e anda pelo quarto. Quando ele atinge a parede, ele se vira e olha para mim. — Então, para ganhar a minha vingança eu devo te perder. — Parece que sim. — e eu preciso encontrar uma maneira de libertar Zhian antes que isso aconteça, ou estaremos todos perdidos. Nardukha está acompanhando de perto, e meu tempo encolhe com a lua. Existe um encontro de gênios nas colinas. — Zahra! — em três passos ele corre para mim, agarra meus ombros, e procura os olhos. — Não me olhe assim! Diga algo! — O que você quer que eu diga? O que você quer que eu faça, Aladdin? Que eu peça para você não fazer um desejo? Que eu insista que não há outra maneira? Não há. Ele se vira. Seus ombros rígidos com a tensão. Ele é como um leão enjaulado, andando para lá e para cá. — Pare com isso, — eu agarro. — Eu sempre soube que iria acabar assim. É sempre assim. Não há nenhum ponto em lutar contra isso, Aladdin. É simplesmente a maneira das coisas. — Eu não posso aceitar isso. — Você deve. — Como você pode simplesmente desistir? Como você pode dizer isso? — seus olhos se iluminam, e ele pega a lâmpada de seu cinto e aperta tanto que os nós dos seus dedos ficam brancos. — No início, antes de você me beijar, eu estava prestes a desejar sua liberdade. Eu salto para os meus pés. — Aladdin, você não deve fazer isso. Você nunca deve sequer pensar isso! — Por que é tão ruim? Você estaria livre. — É chamado Desejo proibido por uma razão! — Por quem? Nardukha? Que ele venha. Eu tenho algumas coisas que eu gostaria de dizer a ele. — Eu te proibo, Aladdin. Se qualquer coisa que tenhamos feito juntos significa algo para você, por favor, por favor, confie em mim agora. Não faça esse desejo. É o pior desejo que você pode fazer. Isso vai quebrar meu ~ 181 ~


coração. — O quê? — ele pergunta baixinho. — O que é que você não está me dizendo? O que acontece se eu quiser sua liberdade? Eu fico tremendo, as palavras se agarrando em minha garganta, até que eu não posso segurar mais. — Como todos os desejos, o desejo proibido tem um preço. Minha liberdade deve ser comprada com uma morte, uma vida paga em sacrifício. E eu não vou deixar você fazer esse sacrifício, não por mim. Fecho os olhos, incapaz de suportar o choque e dor em sua expressão. Ele fica em silêncio por um longo tempo, olhando para o nada. Então, finalmente, ele se levanta e vai para o seu quarto. Eu passo o resto da noite debruçada num canto, pensando em você, Habiba, e naqueçe momento no topo da montanha quando você viu que tudo estava perdido, que fomos derrotados. Você virou para mim e disse que queria fazer o Desejo Proibido, que queria oferecer a sua vida pela minha. Me lembro tão agudamente o horror que senti... e para minha vergonha eterna, uma centelha de esperança. Esperava ser finalmente livre da lâmpada. Até mesmo agora eu coro com auto-aversão. Mas, apesar dessa esperança, eu não podia deixar que você se entregasse por mim. Embora como isso aconteceu, eu não tive que parar. Nardukha parou. Estou cheia de horror que Aladdin quase fez o mesmo, mesmo sem saber o que estava fazendo. Bem, agora ele sabe o preço da minha liberdade. Agora ele sabe o quão desesperada ela realmente é. A única maneira que eu posso salvar nos dois é através da realização do meu acordo com Nardukha. Eu vou ser livre, e Aladdin estará vivo. Então eu vou para tão longe desta cidade quanto eu puder, porque só um idiota iria voltar. Mesmo livre da minha lâmpada, eu não sou livre para amar Aladdin. Essa regra ainda está de pé para todos os gênios. Amar um ser humano é a pior coisa que eu poderia fazer, e não é um erro que eu quero cometer duas vezes. Eu vou para algum lugar tão distante que nenhum mortal jamais me verá de novo - longe, muito ao norte, onde o mundo é branco e coberto com gelo. Eu vou ficar sozinha, mas eu vou ser livre. Isso não é a coisa mais importante?

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Eu passo o resto da noite tentando pensar em maneiras de liberar Zhian, mas meu pensamento continua retornando ao olhar nos olhos de Aladdin quando eu finalmente disse a ele o que minha liberdade custaria. O amanhecer traz luto e pranto que ecoa estranhamente através do palácio, juntamente com a explosão incessante de buzinas sobre as muralhas exteriores, anunciando para a cidade que o rei morreu. Khavar e Ensi chegam à nossa porta, camufladas e encapuzadas, e eu acordo Aladdin. As meninas trouxeram bandejas de chá quente e frutas, pão, e queijo, mas a maior parte fica intocada quando elas se sentam com a gente e nos dizem que vieram a mando de Caspida. — Os próximos dias serão cruciais, — diz Ensi. — Sulifer controla o exército e a maior parte da corte e este anúncio do noivado de Caspida com Rahzad será recebida com muita resistência. — Nós estamos aqui para protegê-lo, Principe Rahzad, — diz Khavar, acariciando a cobra. Aladdin parece um pouco cético com as duas garotas magras. — Acho que posso cuidar de mim mesmo, mas obrigado pela oferta. — Nós não vamos a lugar nenhum, então se acostume com a gente. Ensi se inclina para frente. — Nós vamos anunciar o noivado imediatamente após o enterro do rei. De acordo com o decreto que Malek assinou antes de morrer, Caspida se casa com Darian amanhã. Em vez disso, ela vai casar com você. Eu puxo uma respiração. O enterro do rei... Darian me disse que os reis estão enterrados nas colinas ao norte da cidade. Isso poderia ser minha chance para deixar Zhian e com segurança do lado de fora dos portões da cidade. Khavar encara Aladdin. — Me deixe esclarecer uma coisa. Qualquer um de nós morreria por Caspida. Qualquer um de nós iria matá-lo. — ela levanta seu braço e sua serpente desliza para fora de sua manga e levanta a cabeça para olhar Aladdin. — A machuque apenas uma vez, e é a última

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coisa que você vai fazer. Você não verá o que estará vindo. Você não terá uma segunda chance. Aladdin engole seco e se inclina para trás, olhando para Ensi. A outra garota encontra seus olhos de forma constante. — Que sorte ela tem, — diz ele uniformemente, — ter amigas como vocês. As meninas parecem aceitar isso e trocam olhares antes de Khavar dizer: — O cortejo fúnebre estará saindo em breve. Todos nós devemos estar presentes. Vamos esperar aqui enquanto você se troca e vamos te acompanhar para fora. Aladdin balança a cabeça e parece pronto para fugir, desaparecendo em seu quarto de dormir. Ensi desliza uma faca da manga e limpa suas unhas. Eu limpo a louça do café, escutando a conversa silenciosa das meninas. — Eu gosto dele, — diz Ensi. — Eu não, — responde Khavar. — Você não gosta de ninguém. Por um momento, eu imagino como seria verdadeiramente ser serva de Aladdin. Fazer parte desta casa, talvez até me juntar as guerreiras na proteção da família real. Mas, com um arrepio, dirijo o meu pensamento para longe. Eu estive entre essas pessoas por muito tempo, e os seus problemas humanos e dramas me tocaram profundamente. Me lembro quão fugaz eles são. Eu pisco, e eles vão embora. O tempo tem um significado diferente para mim, e esses eventos que parecem tão monumentais, um dia será nada mais do que uma linha em um pergaminho. Esses humanos são apenas cartas a serem cobertas na história. Cem anos a partir de agora, eu serei livre. Vou ter esquecido seus nomes e rostos, e as lutas que eles têm não importa. O tempo tem uma maneira de enterrar coisas, mudando como o deserto e engolindo civilizações inteiras, apagando-as de mapa e memória. Sempre, no final, tudo retorna ao pó. Não há nenhum ponto em fingir que sou outra coisa senão o que sou. É hora de seguir em frente.

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É hora de reivindicar minha liberdade.

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C Os monarcas de Parthenian estão enterrados em enormes abóbadas de pedra construídas na encosta de um penhasco íngreme ao norte da cidade. Muitos dos túmulos estão encharcados e lascados, os frisos esculpidos elaborados sobre eles desgastados em formas vagas. O túmulo de Malek ainda está apenas parcialmente construído, e os cascalhos de pedra e frisos inacabados atestam o trabalho em curso. Uma grande laje é fixada sobre a entrada do sepulcro, e Caspida está diante dele, parecendo só mesmo no meio da multidão. Ela está um pouco distante, vestida com vestes negras que vibram no vento. O dia está quente e o ar pesado. Nuvens perturbam sobre o mar, avançando lentamente em direção a nós. Aves marinhas rondam em cima, gritando avisos da tempestade que se aproxima. Nobres ficam se abanando sob a sombra de ciprestes e carvalhos que enchem a encosta, e lamentadores estão na frente do túmulo, chorando em ruivosos tons. Eles estão cercados por manto negro Eristrati, que os protejem dos gênios e eu. Vigo e Nessa marcham percorrendo o perímetro, suas flautas tocam suavemente para encantar qualquer gênio que possa tentar se infiltrar no meio dos humanos. Eu conjurei um lenço de seda apertado em volta da minha cabeça e as orelhas para bloquear a música; embora eles não possam me engarrafar por causa da minha ligação com a lâmpada, suas melodias ainda podem me colocar em um transe, expondo a minha verdadeira natureza. Os gênios mantém distância; eu não posso sentir um único entre as árvores e rochas. Eles estão esperando, eu tenho certeza disso, até esta noite, quando o meu tempo se esgotar as ordens de Nardukha foram executadas para atacar a cidade. Nós paramos a uma curta distância do túmulo. Aladdin assiste Caspida, seu rosto ilegível. Ele está vestido da cabeça aos pés de preto, a cabeça descoberta. Seu cabelo, penteado perfeitamente esta manhã, foi despenteado pelo vento. Khavar e Ensi, rígidas e alertas. Os olhos de Ensi estão marejados, mas ela pisca suas lágrimas. ~ 186 ~


Eu caio para trás até que a multidão está focada na cerimônia de enterro, então escorrego para o pincel e faço o meu caminho através do monte. A jarra de Zhian chocalha debaixo da minha saia, seu fluxo interminável de exigências em meus pensamentos. Me liberte! O que você está esperando, sua criatura estúpida! — Você! — grita uma voz aguda. — Aonde você vai? Me viro e vejo um Eristrati velado me encarando, seu aperto sobre a sua lança. — Oh, hum... — eu me encolho e aponto para os arbustos. — Eu vou me retirar apenas um minuto. Por favor. Eu não posso segurar mais. O homem tosse, então balança a cabeça e murmura algo rouco pela boca, — Faça isso rápido. Não se preocupe. Eu pretendo. Eu encontro uma pequena clareira gramada, não muito longe do rio onde eu banhei a ferida de Aladdin na primeira noite selvagem, exatamente 142 passos da lâmpada. É um local bonito, com vista para a cidade e o mar além, as árvores com azeitonas maduras. Eu estou fora da audição dos encantadores de gênios, então eu abaixo a seda da minha cabeça e deixo o vendo emaranhar o meu cabelo. Respirando fundo, eu puxo o frasco de Zhian de uma mochila debaixo da minha saia. Deixando a mochila se desintegrar em fumaça, eu seguro o frasco em ambas as mãos enquanto excitação corre através de mim, quase como um piscar de olhos. Faça isso, Zhian diz. Me deixe sair, Zahra. Deixe-me sair. Ouça-me primeiro, eu exijo Tem encantadores de gênios aqui. Você pode ouvi-los? Eles estão cantando, enchendo as colinas com seus encantos. Você não deve ir perto dos seres humanos, ou nós dois acabamos de volta onde começamos. Nós poderíamos derrubar eles juntos, ele responde Você e eu. Trabalhando como uma equipe. Ninguém nos deteria! Para isso, eu só envio uma imagem para a lâmpada, e ele amaldiçoa. Eu rapidamente transmito o negócio que eu fiz com Nardukha.

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Zhian balança em seu frasco, sua impaciência martelando através dos meus pensamentos. Quando eu termino, ele cospe, Faça isso, Deixe-me sair! Eu olho em volta, me certificando de que estamos sozinhos, em seguida, levanto a jarra antes de quebrá-la contra uma rocha. A cerâmica quebra, assim como o encantamento que segurou Zhian lá dentro. Uma explosão de fumaça enche o ar, vermelho e irritado. Explode e troveja. — Quieto! — eu assobio. — Eles vão ouvir! Eu não temo mortais! — Então você é um idiota. Se não fosse por mim, eles ainda teriam você engarrafado em suas criptas. Meu pai não permitiria isso! Zhian gira em torno de mim, seu vento puxando meu cabelo e minha capa preta. Cabeças de dragão se materializam na fumaça, estalando e sibilando perigosamente perto do meu rosto. Ele iria queimar essa cidade por minha causa! Ele iria afundar seus navios e destruir suas paredes! — Bem, ele não fez, não é? Ele me enviou. Acalme-se, porque eu tenho mais uma coisa a dizer. Zhian voa um pouco mais, passando pelas árvores e levantando poeira. Então, finalmente, ele para, tomando a forma de uma figura enorme, semelhante a uma forma humana, dois metros de altura, com chifres e cascos. É uma de suas formas preferidas, modeladas intimadamente pelo seu pai. Ele usa apenas uma tanga de pele de leopardo, e seu peito incha com o músculo e orgulho. Em suas mãos está uma longa corrente da qual pende uma estrela da manhã cravada. Cauda longa do tigre ele ronrona, seus olhos negros brilhando. Fumaça do vento. Menina da estrela perdida. Você escolheu uma forma bonita. Sutil, mas desejável. Revirando os olhos, eu me aproximo e agarro a corrente entre as mãos, puxando-o para perto. — Seu pai está esperando, então voe até a montanha. Encontre Nardukha e diga a ele que fiz o que foi combinado. Agora é a vez dele.

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Ele olha para mim, uma luz perigosa em seus olhos, e então seu olhar viaja além de mim, na direção do funeral. Minha mão se move para seu antebraço musculoso, e eu aperto com força. — Não. Ele bufa, sua mão se movendo rapidamente para pegar a minha. Ele me puxa para perto, sua cabeça se inclinando para olhar para mim. — Zahra, — ele murmura, sua voz como rochas caindo. — Por que você se importa com esses seres humanos? Por milhares de anos, eles escravizam você, te obrigaram a se dobrar e se curvar aos seus caprichos tolos. Eles te maltrataram, abusam de você, e você ainda os defende? — ele deixa cair a estrela da manhã para embalar minha cabeça com a outra mão, e ele lambe os lábios. Suas presas aparecem. — Venha comigo para Ambadya. Seja minha noiva, como você deveria ser. Repulsa asfixia minha garganta, me afasto, batendo nele com força na mandíbula, mas ele mal registra o golpe. — Eu não sou nada para você, Zhian. Eu nunca vou ser. Você deveria ter abandonado essa ideia há muito tempo. — Eu não negociei sua vida para que você possa brincar com esses mortais! Meu pai teria os matado milhares de anos atrás, como todos os outros Shaitan se eu não tivesse intervindo! — Eu nunca pedi para você. Ele ruge, e eu bato as palmas sobre os ouvidos ao som terrível. Em algum lugar atrás de mim, uma buzina soa duas vezes. — Eles vão ouvir você, seu idiota! — eu estalo. — Os Eristrati estão chegando, e os seus encantadores vão engarrafá-lo novamente! Vai, vai! Ele rosna, sua mão agarrando a minha, mas eu me transformo em um tigre e rosno para ele. Saia daqui, Zhian! Vá encontrar Nardukha e dizer a ele que eu te libertei! Agora ele deve me libertar. As buzinas soam novamente. Zhian vem a seus sentidos, e ele recua, franzindo o cenho. Eu estarei de volta para você, ele promete. E você e eu vamos nos unir,

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o príncipe gênio e sua princesa, imparável e indiscutível! Me transformando de volta para uma menina, eu aceno para ele furiosamente, e, finalmente, ele vai, a sua forma monstruosa deslocando em fumaça cinza e deslizando ladeira acima em direção ao distante Monte Tissia. Então eu viro e corro para a direção que eu vim, me transformando em um pássaro. Eu voo através das árvores, sobre as cabeças dos Eristrati correndo em direção à clareira. Eu aterriso em uma rocha perto do funeral e me transformo novamente em minha forma humana, tomando um momento para me recompor antes de deslizar no meio da multidão para o lado de Aladdin. — Zahra! — ele sussurra. — Onde você esteve? — O que você quer dizer? — murmuro, meus olhos na montanha acima. Ele franze a testa, mas não pressiona a questão. Continuo olhando para a montanha, imaginando quanto tempo vai demorar para Nardukha cumprir sua promessa e como isso vai acontecer. O que vou sentir? Será que ele vai fazer isso? Eu não vejo qualquer sinal de Zhian, então eu só posso esperar que ele esteja no seu caminho para a montanha, se já não através dele. Após o término do funeral, Caspida conduz a procissão de volta ao palácio. Ela caminha sozinha, com Sulifer e Darian alguns passos atrás. O vento aumenta até que ele quase uiva, e todos cobrem seus narizes e bocas contra a poeira chicoteando acima. Um estrondo sinistro soa ao longe, sobre o mar cinzento agitado. Aladdin, antecipando os encantamentos nos portões da cidade, me oferece o braço para me apoiar, e com um grande esforço eu mantenho a minha dor escondida como os símbolos Eskarr brilhando em mim. Nós nos apressamos, Aladdin ocasionalmente agindo enquanto eu simplesmente faço o meu melhor para não desmaiar. Estes portões são menores do que aqueles através dos quais entramos pela primeira vez na cidade, e o encantamento me libera mais cedo, mas passa vários minutos antes que a minha visão fique limpa e eu possa respirar novamente. A corte se reúne na sala do trono, onde Caspida está diante do grande ~ 190 ~


trono de seu pai, de frente para a multidão. Quatro guardas estão posicionados em cada canto do estrado, e uma fileira de escribas estão sentadas atrás dela, prontas para gravar tudo o que acontece em longos rolos de pergaminho, suas mangas enroladas e potes de tinta em seus cotovelos. Sulifer e Darian ficam ao pé do trono, com expressões idênticas de solenidade. Em frente a eles tão Raz e Nessa, enganosamente recatadas em seu preto fúnebre, mas seus olhos não perdem nada. A multidão sussurra, modo monótono e quase indistinguível como os servos vestidos de cinza que cobrem as paredes. Bem acima, através das aberturas das cúpulas, nuvens de tempestade ressoam, fazendo o eco no salão com os trovões. Grandes urnas de barro foram situadas diretamente por baixo dos furos no teto, no caso da chuva começar a cair. Uma vez que todos se reuniram no hall e as grandes portas da teca estão fechadas com uma série de booms pesados, Caspida se levanta. Todos ficam em silencio, a face voltada para sua exibição com uma gama de expectativa: curiosidade, esperança, piedade e fome. Em voz alta e clara que ressoa do outro lado do corredor, ela grita: — Meu pai, Malek filho de Anoushan, filho de Arhab, filho de Oshur, Rei dos Reis, Rei de Parthenia, Escolhido por Imohel, Rei dos Amulens, está morto. — O rei está morto, — murmura a multidão em resposta. — Eu sou Caspida, filha de Malek e Parisandra, Princesa de Parthenia, Escolhida por Imohel, Princesa das Amulens. Pelo direito do meu nascimento, eu reivindico este trono. — O rei está morto, — a multidão diz novamente. — Vida longa à rainha. Ao meu lado, os rostos de Khavar e Ensi brilham, seus olhos inundandos com orgulho de Caspida sentada no trono, o queixo erguido e os olhos brilhantes. Ela já ocupa a cadeira maciça melhor do que seu pai doente. Os processos estão me deixando nervosa, e é difícil se concentrar ao meu redor. Eu espero, tensa e impaciente para Nardukha marcar o fim do negócio. Eu observo as aberturas nas cúpulas acima, como se o próprio Senhor dos gênios pudesse vir descendo.

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Um pregoeiro toma posição atrás do trono. — Olhem para a sua rainha, Amulens, aquela a quem o favor de Imohel repousa, a filha dos reis. Caspida a Primeira, que foi achada digna. — Digna é ela, e favorecida, — responde a multidão. O silêncio cai quando Caspida levanta a mão. — Antes da morte de meu pai, ele fez um decreto final, — afirma. Ensi se inclina para Aladdin e sussurra: — Esta é a nossa deixa. Lentamente, ela e Khavar ocupam as posições na frente e atrás de Aladdin e começam a escoltá-lo em direção ao trono. Há alguma distância a percorrer, e os nobres lançam olhares furiosos quando nós passamos através da multidão. Mas na vastidão do corredor, o nosso movimento não é notado. Caspida continua: — Para garantir o futuro do reino, o rei Malek desejava que eu, herdeira aparente, se unisse em casamento antes de tomar a coroa. A multidão murmura em apreciação. A mão de Sulifer chega ao ombro de Darian, e o rosto de Darian brilha. Ele olha para seu pai, os olhos brilhando e Sulifer dá a ele um pequeno sorriso. — Vai, vai, — Ensi diz baixinho, cutucando Aladdin. — Em consonância com a vontade de meu pai, — diz Caspida, — eu devo ter um marido amanhã ao amanhecer. Minha atenção se encaixa à rainha, os rostos ao meu redor se afiam em foco. Todos os olhos se voltam para Darian, a maioria deles sorrindo. Ele não pode reter um sorriso mais e ele ajeita o casaco, se preparando para subir ao estrado. — E assim, tenho o prazer de anunciar o meu noivado com o homem que vai governar ao meu lado e inaugurar Parthenia e seu povo para uma nova era. Darian aperta as mãos de seu pai, então se vira e coloca um pé no primeiro degrau, olhando para Caspida com paixão queimando em seus olhos. ~ 192 ~


Sem olhar para ele, Caspida balança uma mão grande e anuncia: — Príncipe Rahzad rai Asnam de Istarya! A multidão suspira. Darian vacila, confusão torcendo suas características, enquanto Sulifer incha o peito e seus olhos escurecem. Cabeças giram em nossa direção quando Aladdin atinge o estrado e sobe as escadas. Caspida segura uma mão para ele em boas-vindas, enquanto meros passos de distância, Darian fica vermelho. — Não! — ele explode. Todos seguram suas respirações quando ele se move para interceptar Aladdin. — Isso é uma mentira! Eu sou o único que vai se casar com a rainha! Nosso compromisso foi selado anos atrás! — ele se vira para seu pai. — Pai, diga a eles! Sulifer é cercado por funcionários, cochichando e gesticulando com raiva. Caspida para diante de seu tio calado. — Se retire, Darian. — sua voz é rígida e autoritária. — O decreto do meu pai era que eu deveria me casar. Ele não afirmou que eu deveria me casar com você. Darian gagueja e olha para ela e para Sulifer. O vizir, finalmente, faz um movimento, sobe ao estrado e paira sobre Caspida. Aladdin se aproxima, mas Caspida levanta a mão, e ele faz uma pausa. — Princesa, — diz Sulifer em voz baixa, — isto é infantil e irresponsável. Você não pode quebrar a promessa, nem mesmo como uma rainha - que, me deixe lembrá-la, você ainda não é. — Eu não posso quebrar uma promessa que eu não fiz, — Caspida responde calmamente. — E não há promessas feitas em meu nome. A partir de agora, nenhuma voz vai comandar o meu futuro, além da minha própria. Se afaste, tio. Vou manter o decreto de meu pai, mas nos meus termos, e não nos seus. — ela responde, inflexível. — Deixe a nossa presença. Sulifer olha para ela com uma expressão vazia, mas seus olhos são escuros com raiva. Ele se vira para Darian. — Vem. Sem olhar para trás, Sulifer desce multidão. Darian hesita, seu rosto avermelhado.

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e

avança

através

da


— Você ouviu a rainha, — diz Aladdin friamente. Depois de dar a Aladdin um olhar furioso, Darian corre para apanhar seu pai. As pessoas atônitas abrem caminho, nenhuma querendo ser pega no caminho de Sulifer. O vizir e seu filho saem pela porta central, deixando-a bater atrás deles. Só então Caspida se vira para Aladdin e segura a sua mão. Ele a leva, o rosto pálido e juntos eles enfrentam a corte. — Demos início às preparações do casamento, — diz Caspida. Em seguida, ela se senta no trono, Aladdin de pé ao lado dela, suas mãos ainda unidas. O pregoeiro, pelo um movimento da mão livre de Caspida, descarta os nobres. Eles são lentos para sair, e por muito tempo, parece que olhares são lançados para o casal sobre o estrado. Guardas aceleraram o processo, conduzindo todos para fora, até que finalmente a sala está vazia, exceto pelos poucos guardas, Caspida e Aladdin, as gruerreiras e eu. A princesa exala profundamente e inclina o rosto entre as mãos. Suas meninas migram para ela, puxando Aladdin para lado e se ajoelhando diante de sua princesa. Aladdin fica quieto. Eu paro ao seu lado, e ele encontra o meu olhar. O olhar que ele me dá é de saudade e incerteza, e logo desvio os olhos, incapaz de resistir a ele. O melhor, meu ladrão. Caspida diz: — Sulifer não vai desistir tão facilmente. Agora mesmo ele está reagrupando os seus seguidores. Devemos nos mover rapidamente. Os Eristrati são leais a mim, pelo menos alguns dos ministros. Khavar assume, atribuindo tarefas aos outros em preparação para a núpcia repentina. Dentro de minutos, as meninas têm planejado toda a cerimônia, com especial atenção para a segurança. — Encontre o Capitão Pasha, — diz Caspida, sentada com os joelhos dobrados no trono, o rosto enrugado enquanto pensa. — Ele é leal a mim. Diga a ele para reunir as Eristrati e cada guarda que ele confia e os traga aqui. Olhos de Nessa olham ao redor. — Você acha que Sulifer vai nos

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atacar? — Nós saíamos que essse momento estava vindo há anos. Sulifer vai tentar me controlar da mesma forma que fez com o meu pai. Se eu der a ele qualquer terreno, mesmo por um dia, ele vai indissoluvelmente se insinuar em meu reinado. Estas próximas horas são cruciais. Devo me estabelecer independentemente dele e provar ao meu povo que eu não vou ser descartada. Quero falar com o meu conselho de ministros para discutir a coroação. Aladdin fala, assustando as meninas um pouco. — Então o que estamos esperando? Por que não o jagamos nas masmorras agora? Caspida faz uma carranca. — Não é assim tão simples, Rahzad. O vizir tem a lealdade do exército, bem como grande parte da corte. Trancá-lo só vai colocá-los contra nós. — Mas você é a rainha. Você não pode fazer o que quiser? — Eu não sei como os seus reis e rainhas de Istaryan se comportam, — ela responde, um pouco bruscamente, — mas em Parthenia, o nosso poder depende da boa vontade da aristocracia e dos militares. Se eu fizer o que eu quiser, eu teria motins em cada esquina. Aladdin me dá um olhar frustrado, mas não há nada que eu possa fazer. Ele deve saber que Caspida está certa. Sua vingança vai ter que esperar um tempo ainda. — Rahzad, eu não quero ser ignorante com você, — diz Caspida mais suavemente. — Você tem sido tão paciente, enquanto eu te arrasto nesta confusão. Eu gostaria que tivéssemos tempo para fazer isso corretamente. Para enviar presentes aos reinos um do outro, discutir os termos da nossa aliança. Eu não conheço a sua família, e eu sei tão pouco de seu povo. Aladdin estremece. — Não há realmente muito a se saber. — Quando isso acabar, vamos refazer nossos passos e começar novamente. Eu não posso deixar a minha cidade até que a situação com os gênios seja lidada, mas quando for a hora certa, eu vou ir com você até Istarya e ver a sua terra. Ele sorri um pouco fraco e olha para mim, os olhos brilhantes de pânico. Eu me sinto um pouco doente em retornar o seu olhar, sabendo que ~ 195 ~


não vou estar por perto para ajudá-lo. Sabendo que é minha culpa que ele está nessa confusão. As consequências de minhas ações recentes parecem estar se acumulando, e eu me sinto como uma aranha que teceu uma teia muito fina. Caspida nos faz esperar até Captain Pasha chegar com um contingente de Eristrati antes de sair com suas aias. Aladdin e eu, cercados por uma dúzia de guardas, saimos atrás dela. De volta ao quarto de Alladin, ele insiste que os guardas esperem lá fora, mas somente após vasculhar as câmaras completamente por assassinos, veneno e outras coisas. Enfim sós, Aladdin despenca sobre as almofadas e solta um suspiro longo e geme. Lá fora, os ventos de tempestade rasgam as cortinas de seda penduradas entre os arcos, a chuva cai no pátio. Embora seja meio-dia, está escuro o suficiente para ser meia-noite. — Está tudo acontecendo tão rápido, — diz ele. — Eu não sei... eu vou casar com a princesa em questão de horas. — E ainda assim você parece como se tivesse engolido vidro quebrado. Ele lentamente passa a mão pelo cabelo, os olhos fixos no chão. — Ela não me ama. Eu estou perto de um dos arcos e deixo a chuva molhar meu rosto enquanto as cortinas batem em torno de mim. A turva fumaça pulsa dentro de mim ecoando com a selvageria da tempestade. Eu observo o céu para qualquer sinal de gênios, o vínculo com a minha lâmpada em atrito como uma corda em volta do meu núcleo. Onde está Zhian? Onde está Nardukha? Por que eles se atrasaram? Anseio voar para longe daqui, correr do olhar de Aladdin e me esconder nas nuvens. — O amor é um caminho forrado com rosas, — eu digo com amargura. — Mas isso leva à beira de um penhasco, e todos os que o seguem caem para a morte. Você não vai encontrar sua felicidade lá. — Então o que traz felicidade, Zahra? — pergunta ele severamente, se levantando. — Conte-me. Em quatro mil anos, você já descobriu esse segredo? Há um desafio em seu tom que me faz estremecer. Volto meus olhos para o céu e de volta para ele. — Não. Eu não descobri. Isso só pode ~ 196 ~


significar uma coisa: Não há segredo para a felicidade. Porque a própria felicidade é uma construção mítica, um sonho que vocês humanos carregam através de cada dia. É a lua, e você, como o sol, perseguindo implacavelmente, perseguindo-o por aí, chegando a lugar nenhum. E ainda assim nunca ocorre a você que sua busca é em vão. Por quê? — eu me aproximo, os olhos atentos. — Me diga, Aladdin - por quê? O que leva você a esta loucura? Seus olhos pensativos estão olhando para a chuva, e ele diz, — Fé. Com isso, eu rio amargamente. — Em quê? Imohel? Os deuses? — Talvez, — diz ele. — Em alguns. Em outros, a fé em nós mesmos. Fé naqueles que amamos. Fé no amanhã. — Você parece um mau poeta. Seus olhos se abrem e me sondam. — O que seria necessário para fazer você acreditar, Zahra? — Eu vivi muito tempo para acreditar em felicidade. — Você esteve nessa lâmpada por muito tempo. Coalhou seu coração. Eu acho que você acredita. Eu acho que você simplesmente não quer se machucar. Você está com medo. Eu cerro os punhos, virando as costas para ele e enfrento a tempestade. Ele se levanta e caminha para o meu lado, firme no vento que sopra em torno dele, despenteando seu cabelo e fazendo elevar a sua capa preta. — Você amou antes, e ela foi tirada de você. Desde então, você esteve com medo de amar novamente. Você insiste que você é um monstro porque tem medo de ser humana. Eu estou diante dele sem palavras, sem defesa. O que há de bom, Habiba, em negar a verdade? Sua amizade acordou algo em mim todos esses séculos atrás, alguma humanidade adormecida que tinha permanecido ao longo dos anos, e depois que você morreu, recuou e escondeu novamente. Mas Aladdin a acordou mais uma vez. Com seu sorriso brilhante e os seus olhos risonhos e sua maneira de fazer o tipo mais difícil de perguntas. Depois de você, eu jurei nunca mais amar novamente.

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Mas eu o amo. E entรฃo eu devo deixรก-lo ir.

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C Eu digo a mim mesma para ser paciente. Faz somente algumas horas desde que eu libertei Zhian e Ambadya é um mundo vasto. Ele levará algum tempo para cruzar as montanhas altas até a fortaleza de Nardukha, onde o Shaitan detém a corte. E quem pode dizer quanto tempo Nardukha terá de conceder a minha liberdade, ou o modo como ele vai fazer isso. O tempo passa lentamente demais para os eternos; pode se passar dias quanto para os seres humanos passam horas, e eu poderia ficar presa aqui por um tempo. Estranhamente, o pensamento traz algum conforto. Por mais que eu anseie me livrar de Aladdin e os sentimentos que ele desperta em mim, eu também não quero deixar seu lado. Assim como eu, ele estará sozinho no ninho de uma corte de víboras. Há muito a se fazer nas horas antes do amanhecer, quando o casamento terá lugar. Geralmente casamentos Amulen demandam uma semana de preparação. Mas a tradição deve ser sacrificada para a velocidade, e por isso, fazer o mínimo. O mais importante, Aladdin precisa de um banho. Os banhos cerimoniais um dia antes do casamento é uma das tradições mais sagradas. E assim Aladdin, acompanhado por uma meia dúzia de soldados, é escoltado para os banheiros do palácio. Eu sigo na forma de um pardal, voando daqui para lá no fim do corredor, a poucos passos atrás. Antes de sair de seu quarto, Aladdin me fez prometer que eu esperaria lá fora, mas eu pouso no topo do capacete pontudo do último guarda e passo despercebida dentro dos banheiros. O lugar é escuro, exceto pelos feixes finos de luz que passam através de pequenos orifícios que pontilham a cúpula acima. Seis grandes piscinas redondas são espaçadas uniformemente em um piso de azulejos ~ 199 ~


brancos. Lótus branco e pétalas de rosas derivam tranquilamente na água azul-turquesa. O lugar está vazio quando chegamos, e Aladdin se vira para os guardas. — Vocês, hum, não se importariam de esperar lá fora, não é? — Estamos sob ordens estritas para não tirar nossos olhos de você, — responde um homem estóico. Aladdin esfrega o rosto. — Sim, eu sei disso. Mas olha, eu sou o único aqui. Se eu precisar de vocês, eu vou gritar ou algo assim. O homem simplesmente fica olhando fixamente para ele. Com um gemido de frustração, Aladdin acrescenta: — Você percebe que depois de amanhã, eu vou ser o seu rei? Os olhares dos guardas são incertos, então consentem a contragosto, fluindo através da porta. Aladdin suspira e se despe de um pano branco em torno de sua cintura, com cuidado para não derrubar a lâmpada. Ele a amarra em uma corrente em volta do pescoço, e então mergulha na primeira piscina. Ele desaparece sob a superfície, bolhas fluindo ao redor dele, e não surge por vários longos segundos. Eu começo a me preocupar que ele não vai voltar para cima, que ele vai seguir o mesmo caminho que muitos dos meus mestres que vieram a lamentar seus desejos - mas então ele explode para cima, balançando a cabeça e envia água para todos os lados. Ele desliza em toda a piscina e para no lado oposto em um raio de sol, esticando os braços ao longo da borda de azulejos. Sua cabeça cai para trás, e ele fecha os olhos. — Eu sei que você está ai, — diz ele. — Você pode muito bem descer. Eu voo para a borda da piscina e me transformo em humana, vestida com uma kurta branca fina que vem até os joelhos. Eu balanço as pernas na água. — Para um gênio poderoso, — diz Aladdin, seus olhos se abrindo uma fresta para olhar para mim, — você é malditamente previsível. Eu ergo um pé da água, espirrando nele. — Você pode querer afundar novamente. Você ainda cheira como se tivesse dormido com as cabras.

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Ele passa uma mão através da água, me encharcando, e eu grito e caio na água, onde eu me molho com uma série de xingamentos. Ele esbraveja e levanta as mãos na defensiva, em seguida, com um rugido, se lança para fora da piscina e me pega pela cintura, me arrastando sob a superfície. Por um momento estamos sem peso, os olhos abertos debaixo d'água, as flores descem com a gente, que rodam em torno de nós em uma corrente de bolhas brancas. Meu cabelo flutua em torno de nós como uma seda preta. Suas mãos ainda estão em volta da minha cintura, me pressionado contra seu peito nu. Minha lâmpada deriva entre nós. Aladdin planta seus pés contra o fundo da piscina e chuta, nos empurrando para cima, estourando através da superfície. Ele suspira no ar e sacode o cabelo molhado de seus olhos. Sem se afastar, nós flutuamos em silêncio, e eu não posso tirar o meu olhar dele. A água corre por suas bochechas e lábios, pingando de sua mandíbula. Uma mecha de seu cabelo está preso em sua testa, e eu gentilmente retiro, enrolando-o em volta do meu dedo antes de soltar. — O que estamos fazendo? — ele sussurra, me puxando para mais perto. Eu não posso responder. Eu não confio em minha própria voz. Ele traz a testa para descansar contra a minha, tudo fora desta piscina e neste momento deixa de existir. Tudo o que importa é o som suave da nossa respiração, nossos reflexos sobre a água, a sensação de suas mãos em torno de mim. Ele é o sol, e eu sou a lua. Devemos nos afastar ou o mundo vai ser jogado fora de equilíbrio. Mas o que eu devo admitir é que eu entendo a loucura que leva os seres humanos a perseguir a felicidade que nunca vão entender. Porque eu sinto isso também, Habiba. Toda vez que tento me afastar, eu me encontro atraída de volta para ele. Até mesmo agora, na véspera do casamento dele, eu não posso soltá-lo, não importa quantas vezes eu digo a mim mesma que eu devo. É amanhã, eu penso. Ele vai se casar com Caspida, e, certamente, até então, Nardukha vai me libertar. Eu descanso minha cabeça em seu ombro, sentindo seu coração batendo contra mim. Eu gostaria de poder reunir o tempo em torno de nós, ~ 201 ~


retardando os minutos, fazendo-os durar uma vida. — Eu nasci no reino da ilha de Ghedda, — eu sussurro. Esta é uma história que eu nunca disse nem mesmo para você, Habiba. Digo isso agora só porque eu não posso suportar deixá-lo sem a verdade, conhecer apenas metade de mim. Eu ergo minha cabeça e encontro seus olhos. — Isso foi há mais de quatro mil anos atrás. Eu era a filha mais velha de um rei sábio e generoso. Aladdin olha para mim, os olhos suaves e curiosos, me incentivando a ir em frente. — Quando eu tinha dezessete anos, me tornei rainha de Ghedda. Naqueles dias, os gênios estavam em maior número, e o Shaitan tinha uma maior influência sobre os reinos dos homens. Ele exigiu que oferecesséssemos vinte donzelas e vinte guerreiros em sacrifício, em troca de mares justos e comércio lucrativo. Eu era jovem e orgulhosa e desejava, acima de tudo, ser uma governante justa. Eu sabia que não me curvaria aos seus desejos, então ele balançou a nossa ilha até que começou a cair no mar. Eu tremo, e Aladdin me aproxima. — Subi ao no topo da Montanha das Línguas, e me ofereci à Shaitan, para que ele salvasse a minha cidade de cair no mar. — minha voz cai para um sussurro, pouco mais do que uma ondulação na água. — Então ele me levou e me fez um gênio e me colocou na lâmpada. E então ele fez com que a Montanha das Línguas entrasse em erupção, e Ghedda foi destruída por um incêndio. Pois ele tinha jurado só salvar o meu povo do mar, não das chamas. Caindo em silêncio, eu espero para ver o que Aladdin vai fazer. Me achar ingênua por confiar na palavra do Shaitan? Me dizer que eu deveria ter cedido aos desejos de Nardukha primeiro? Mas Aladdin não diz nada. Em vez disso, ele abaixa o rosto e suavemente beija o lado do meu pescoço, sua boca arrastando até a pele atrás da minha orelha. Arrepios quebram por toda a minha pele, e eu viro meu rosto para encontrar seus lábios com os meus. Este beijo é mais suave do que o nosso último, longo e

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lento e contido. É um beijo de saudade. Um beijo de despedida. Suas mãos apertam em torno da minha cintura, me puxando contra ele. Nós flutuamos em um círculo lento, enviando ondas que fazem a flores flutuantes se dispersarem. — Você mantem tantos segredos, — ele murmura. — Eu poderia passar o resto da minha vida descobrindo você. — ele enfia o meu cabelo atrás da minha orelha, seus olhos devorando meu rosto. — Claro que você era uma rainha. Claro que você se sacrificou para o seu povo. Você fez tudo que podia, Zahra. Você não pode se culpar por aquilo que o Shaitan fez. Ele teria feito isso de qualquer maneira. — Eu deveria ter morrido com o meu povo. — Se você tivesse, eu nunca teria conhecido você. — ele me beija de novo, mais profundamente, as mãos entrelaçando no meu cabelo. Eu deixo o seu toque lavar o passado. É Aladdin que se afasta primeiro, com uma risada suave e rouca. — Isso é loucura. Vou me casar amanhã, — diz ele. Concordo com a cabeça e coloco minha cabeça em seu ombro. — Não é tarde demais, — diz ele. — Zahra, eu— Shh. — eu encosto um dedo em seus lábios. — Não diga isso. Você vai se casar com Caspida, e vocês vão aprender a amar um ao outro. Você vai viver uma vida feliz, muito depois da minha lâmpada passar para novas mãos. — Eu não vou fazer o meu terceiro desejo, — diz ele. — Essa é a resposta! Se eu não fizer o desejo, você pode ficar aqui no palácio durante o tempo que quiser. Você nunca terá que voltar para a sua lâmpada. Nós podemos lutar contra qualquer um que tentar tirar você de mim. — Mesmo que isso fosse verdade, você iria envelhecer e morrer. Ou, mais provavelmente, alguém iria descobrir a minha existência e matá-lo por causa da minha lâmpada. Ou, mais provavelmente, Caspida iria descobrir que você é uma farsa e que eu sou um dos gênios que ela tão profundamente odeia, e ela iria destruir você e eu.

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— Ela iria entender. — Será que ela iria? Ele estremece. — Bem. Eu não vou casar com ela. — E a sua vingança? Você vai deixar Sulifer ganhar tão facilmente? Ele abaixa o olhar. — Tudo o que eu vivi terá sido em vão. Sulifer vai ganhar. Ele irá forçar Caspida a se casar com Darian. Ela vai se tornar sua marionete, se eles ainda a deixarem viver por algum tempo. E ninguém será deixado para se opor a ele. Ele vai sair com tudo. Eu concordo. — Seria nossa culpa. Ele olha para cima, sua testa enrugada. — Por que você se importa com o que acontece com ela? Eu pensei que nós, seres humanos, fôssemos fumaça para você, aqui hoje e amanhã. — Caspida é... diferente. Ela me lembra de alguém, alguém que eu daria minha vida se eu pudesse. — A rainha? — ele pergunta. — A que morreu? — Roshana. Minha cara Ro. — minha voz é suave como uma ondulação na água. — Ela já dominava os Amulens e Caspida é sua descendente. Ela tem a força do espírito do Roshana, e eu não posso olhar para ela sem pensar na minha velha amiga. Se ela viesse a se prejudicar na minha presença... eu não poderia me suportar através dos séculos. — eu já carrego uma montanha de vergonha, um lembrete constante daquele dia no Monte Tissia. Aladdin levanta uma mão e escova o cabelo do meu rosto. — Você realmente é notável, Zahra da lâmpada. — Não, — eu digo, empurrando sua mão para o lado. Eu nado para longe, para a borda da piscina. — Você entende por que você deve ir em frente com este casamento? — Você diz que não poderia viver com você mesma se algo acontecesse com Caspida. No entanto, você me pede para viver comigo mesmo, sabendo que eu estou condenando você a isto! — ele segura a lâmpada. — Qual é a

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diferença? Eu olho para longe, com raiva. — A diferença é que esta é a minha escolha, Aladdin. — Bem, é uma escolha estúpida! Eu me levanto. — Prometa que vai fazer isso. Ele fecha os olhos. — Me prometa, por favor! Ele abre os olhos, em seguida, e eles estão cheios de dor. Mas ele concorda. — Eu tenho que ouvir você dizer isso. — Eu prometo. Se recusando a olhar para mim, ele afunda sob a água outra vez, até que ele é apenas um borrão sombrio abaixo. Eu me sento contra a parede, enrolada, e tento acalmar as emoções turbulentas dentro de mim. O que eu estava pensando em beijá-lo novamente? Eu estou condenada a cometer os mesmos erros uma e outra vez? Me apaixonando pelos seres humanos, ficando muito perto, muito envolvida, observando como eles se destroem por mim. Eu sinto gosto de sal e percebo que eu estou chorando. Irritada, esfrego os olhos. Em breve vou conseguir o que eu sempre quis: a minha liberdade. E nada disso importa. Não disse a mim mesma há um mês, quando tudo isso começou, que eu faria qualquer coisa pela liberdade? Perder Aladdin pode ser a coisa mais difícil que eu tenho que fazer, mas devo fazer isso. A porta se abre e fecha no outro extremo da sala e eu olho para cima, assustada. É Darian, e quatro rapazes estão com ele. Eu me transformo em fumaça arejada antes que eles possam me ver. Eu derivo para cima e pairo no teto, pouco visível. Os meninos círculam o banho e olham para Aladdin, que está ~ 205 ~


chegando para respirar. Seus olhos estão fechados, e ele varre o cabelo para trás e passa as mãos pelo seu rosto antes de abri-los e ver Darian de pé sobre ele. Aladdin para. — Príncipe Rahzad, — diz Darian. — Eu agradeço, — diz Aladdin, observando-o cautelosamente. — mas presentes de casamento podem ser deixados em meus aposentos. — Este deve ser entregue pessoalmente. — Como você conseguiu passar pelos meus guardas? — Eles não são os seus guardas. Pelo menos, não mais. — ele sorri. — É incrível o que algumas moedas de ouro pode comprar, e os três guardas da porta dos fundos são mais gananciosos do que a maioria. Darian começa tirar suas roupas. Os outros rapazes fazem o mesmo. Aladdin está no centro da piscina, flutuando calmamente, mas seus olhos estão atentos a cada movimento. Ele preguiçosamente volta até que ele está de frente para mim, e seus olhos exploram o lugar até que ele me vê, pairando contra o teto. A lâmpada. Terror surge como um relâmpago em um dia sem nuvens. Aladdin tem a lâmpada em seu pescoço. Se os rapazes verem... avisto as mãos de Aladdin debaixo da água, movendo a lâmpada para que ela estseja escondido atrás das suas costas. Darian desliza na água. Seu corpo é magro, não poderoso como Aladdin, mas ágil e muscular. Os outros meninos são mais solidamente construídos e eles deslizam para dentro da piscina em torno Aladdin, observando-os entrar. Aladdin se mexe água, e os músculos de seus ombros e pescoço ficam tensos. — Se você acha que este jogo que você e Cas estão jogando está indo para algum lugar, — diz Darian com calma, — então você é um idiota ainda maior do que eu achava. — Cuidado, — diz Aladdin. — Eu odiaria ter que desconvidá-lo para o

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casamento. — Ela é minha, e tem sido desde o dia em que ela nasceu. Nós fomos feitos um para o outro. — Engraçado, ela não parece convencida disso. — A mente dela tem sido envenenada. Ela passa muito tempo lendo falsas histórias de rainhas míticas e se imagina uma delas. A arrogância e delírios dela são lamentáveis, mas nada que a mão firme de um marido não possa consertar. — Seu animal, — diz Aladdin, soltando toda a falsa cordialidade. — Você fala como se ela fosse sua propriedade. Como se ela fosse um cavalo ou um cão a ser treinado. Darian encolhe os ombros. — Cavalos. Cães. Mulheres. Todos eles têm o seu lugar, e quando eles tentam perturbar a ordem, as coisas caem no caos. Se deixarmos rainhas governarem o mundo, nós todos ficaremos enfurnados em nossos palácios bordando e fofocando. Aladdin levanta uma sobrancelha. — E... correr por aí decapitando pessoas é de alguma forma mais civilizada? — Se Parthenia vai possuir o poder de uma vez, precisamos de um líder forte. Alguém que as pessoas olhem por cima. Alguém pela qual tenham admiração e respeito. Não algum príncipe fraco de algum longínquo reino que ninguém sequer ouviu falar. Essas pessoas nunca irão te seguir. — Eu não preciso de ninguém me seguindo. Eles vão segui-la. — Você não vai conseguir! — Darian rosna. Ele se move para frente, até que o comprimento de um braço separa ele e Aladdin. — Ela pertence a mim! Ela é o meu direito de nascença! — O único direito de nascença que você tem é a sua grande arrogância, — diz Aladdin. — Pelo menos seu pai poderia legitimamente lhe dar. — Não se atreva a insultar o meu pai. — Seu pai, — diz Aladdin, sorrindo e nadando para mais perto, — é um saco conveniente de pus. ~ 207 ~


Darian fica vermelho. — Meu pai é o homem mais corajoso em Parthenia. Enquanto o rei se efiava em um copo de simmon, meu pai manteve os gênios na baía. — Seu pai, — Aladdin continua, — assassinava inocentes. Ele decapita qualquer um que discorde com ele. Me diga, Prince, como o rei realmente morreu? Eu me pergunto se ele não foi empurrado para a terra dos deuses. Com um grunhido, Darian chega até Aladdin e o empurra sob a água. Aladdin se debate, voltando para cima novamente e ofegante por ar, mas os outros meninos se juntam, agarrando seus ombros e cabeça e o empurra para baixo. Ele se esforça, as pernas chutando, fazendo com que a espuma de banho se alastre. O rosto de Darian é sombrio, seus lábios se curvam em um sorriso tenso, e ele não recua. Eu me transformo em vento e forço uma rajada do outro lado da sala, com tanta força que abre a porta a qual os guardas ainda leais estão parados. Eles olham, veem a briga e gritam. Darian olha para cima, seu rosto se torcendo com raiva, e ele e seus companheiros saem e agarram suas roupas. Eles correm da sala, perseguidos pelos guardas. No corredor do lado de fora, eu me transformo novamente em menina e corro para os banhos, pulando na piscina e agarrando Aladdin, que tem afundado. Eu o arrasto para cima, a luz batendo no chão. — Ele não está respirando! — eu grito, mas não há ninguém para ouvir. Os guardas perseguem Darian e os outros e estão muito longe. Eu começo a bombear o peito de Aladdin com as palmas das mãos. — Vamos lá, vamos lá, — eu digo. Eu deveria ter feito algo mais cedo. Eu estava muito preocupada de que eles iriam encontrar a lâmpada. Eu deveria ter me transformado em um leão e devorado todos. Aladdin tosse, água saindo de sua boca. Eu levanto ele para que ele possa esvaziar seus pulmões. Seus olhos, largos e em pânico, me encontram, e ele tenta falar. — Ssh, — eu digo. — Você está bem. Você está bem. Apenas respire. Ele suspira para dentro e para fora, um som estridente, aquoso, e ~ 208 ~


tosse mais água. Sua mão empurra a lâmpada debaixo dele, escondendo-a de vista. Os guardas voltam, parecendo aflitos. Eu lanço a camisa de Aladdin sobre a lâmpada. — Vocês o pegaram? — pergunto. Eles balançam a cabeça. Eu me viro para Aladdin, que está começando a respirar de forma mais uniforme. Ele cobre a lâmpada ainda mais com o braço, escondendo-a de vista dos guardas. — Eu poderia ter acabado com eles, — diz ele com voz rouca. — Eu estava conseguindo. Anseio segurar sua cabeça no meu peito, tão aliviada que ele está vivo. Mas eu não posso, não com os guardas olhando. Então eu o solto e me levanto, em seguida, entrego suas roupas. Ele recusa a ajuda dos guardas e se levanta, com cuidado para cobrir a lâmpada, mas não discute quando eles insistem em voltar aos seus quartos. Dois dos guardas, ou melhor o Capitão Pasha, insiste em dizer a Caspida o que aconteceu, mas Aladdin os convence a mentir. — Nós podemos lidar com ele mais tarde, — diz ele. — Não vale a pena ir atrás dele. Quando estamos sozinhos novamente, Aladdin está calmo, e eu posso dizer que ele está segurando sua raiva por ser atacado. Eu, no entanto, deixo a minha raiva correr livremente ao redor do quarto, sob a forma de um tigre, rosnando e arranhando o chão, minhas patas levantadas. — Quer parar com isso? — diz ele bruscamente. — Você está me deixando no limite. — Você não está já no limite? — eu rosno. — Ele tentou matá-lo! — Ele já fez isso antes, — diz Aladdin. — E eu tenho uma maneira de permanecer vivo. — Porque eu estava lá para salvar sua pele! — Exatamente! — ele sorri. — É por isso que eu não posso te ~ 209 ~


perder. Quem mais vai cuidar de mim? Com um grunhido, eu me transformo em humana, meu vestido modelado com listras de tigre. — Aladdin, você prometeu. O sorriso dele cai. — Eu sei, eu sei. — Você prometeu. — O que você quer que eu faça? Jure pela alma da minha mãe? Corte minha mão e assine o meu nome com sangue? — Não seria ruim, — murmuro. Aladdin suspira e começa a responder, mas uma batida na porta interrompe. Eu abro para encontrar um alfaiate e seus dois aprendizes ali caixas de tecido e costura. — Estamos aqui para fazer ao príncipe suas roupas de casamento, — diz o alfaiate. Ele é um homem pequeno, de barba feita com um turbante enrolado para compensar a sua altura. Digo a ele para voltar em cinco minutos, o que dá tempo a Aladdin de esconder a lâmpada em seu quarto. Eu relutantemente volto para ela, relutante em ter que ficar por até mesmo uma hora. Eu estendo a mão com o meu sexto sentido, cautelosa como um gato enjaulado, mas tudo corre bem, e uma vez que o alfaiate e seus assistentes se foram, Aladdin rapidamente me libera novamente. Segue-se uma procissão interminável de servos batendo à sua porta, trazendo comida, vinho, presentes de Caspida todos os itens tradicionais que deveriam ter sido entregues durante uma série de dias, agora amontoados em poucas horas. É bem após a meia-noite quando Aladdin, exausto, cai na cama. Me sento no meio dos seus presentes, punhais e ouro, roupas e baús esculpidos, espelhos e castiçais. Isso me lembra de seu primeiro noivo, Habiba, Elikum de Miniivos, tão bonito e arrojado e das preparações elaboradas fizemos para o seu casamento. Naturalmente, o seu casamento terminou quando o noivo foi envenenado por um traidor na véspera da cerimônia. Nós realizamos o funeral em vez disso, e você não chorou até três semanas depois. Você sempre disse que você não o amava, mas eu nunca acreditei em você.

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Só posso esperar que este casamento vá acabar em uma nota melhor. Para ter certeza, eu fico de vigia toda a noite, guardando a porta de Aladdin como se todo o povo de Ambadya pudesse tentar invadir .

***

Duas horas antes do amanhecer, eu acordo com uma batida suave. Ele tropeça para fora, os olhos vermelhos pela falta de sono. — Já? — ele geme. — Você deveria ir se arrumar, — eu digo. — Você vai estar se casando em menos de uma hora, e você não pode cumprimentar sua noiva parecendo que acabou de sair da cama. Ele respira como se estivesse prestes a falar, mas, em seguida, suspira, cansado e volta para seu quarto. Eu mudo minhas roupas, girando e reorganizando-os em seda azul e dourado, meu cabelo solto e longo. Eu observo arabescos e flores marrons se enrolarem pelos meus braços e sobre as costas das minhas mãos. A henna é para uma noiva, não um gênio, e com um suspiro eu deixo desaparecer. Aladdin emerge minutos depois. Ele usa o rico conjunto de roupas feito sob medida para ele na noite anterior: um casaco dourado e bege que se abre em uma divisão na frente e nas costas, sobre leggings vermelhas soltas, e uma capa vermelha que paira sobre o seu ombro direito e toca no chão na frente e atrás. — Espere, — eu digo. Eu gesticulo para ele se sentar, então remexo os dedos pelo cabelo, evocando um pente de jade com um punho de pele de tigre que eu uso para separar seu cabelo e deixá-lo em uma onda sobre a testa. Tão escuro; anseio enterrar meus dedos nele e beijar sua testa. — Pronto, — eu digo. — Vamos dar uma olhada em você. Ele se mostra uma figura impressionante e fará um noivo considerável. Eu ignoro a pontada no estômago quando eu o vejo. Deixe-o ir, digo a mim mesma. A qualquer momento o meu vínculo com a lâmpada

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poderar se quebrar e meus sentimentos por ele devem romper com isso. Mas meu coração é uma estrela traiçoeira, se recusando a escurecer quando o sol nasce. — Como estou? — pergunta ele, e ele faz uma pose ridícula, observando para ver se ele pode provocar uma risada. — Como um tolo. — eu balanço minha cabeça. — Mas um príncipe. Ele dá um passo em direção a mim, uma mão estendida. — Zahra, eu... — Não fale. — eu olho para baixo, mexendo em meu vestido. — Nós devemos ir. — Claro. Você está certa. — sua resposta é tão suave que eu quase não escuto. — Só mais uma coisa... — eu olho ao redor do quarto, vejo uma colher de ouro na bandeja de chá que Nessa trouxe e a pego. Eu a mantenho nas brasas do braseiro, que ainda estão quentes da noite anterior. Em minutos, o ouro está mole o suficiente para moldar. Com alguns movimentos rápidos, eu retiro a maior parte do ouro e uso o restante para formar um anel. Quando o metal esfria, o exterior está impresso com as impressões seus dedos, Habiba, que eu uso como luvas. Parece apropriado, dado que a noiva é do seu sangue. Antes que o metal esfrie completamente, eu uso minha unha para impressionar glifos Eskarr no interior do anel, que representa o amor eterno. Os símbolos antigos carregam uma magia própria, que brilha antes de desaparecer no anel. — Aqui, — eu digo. — O metal esfriou. Aladdin pega o anel e observa de perto. — Zahra, você é uma maravilha. — Não é muito, mas é melhor que nada. Ele engole e balança a cabeça, em seguida, me entrega de volta. — Você tem que levar isso para mim. — Eu não posso. — eu recuo, levantando as mãos em recusa. O portador do anel deve ser o amigo mais próximo do noivo, alguém que

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simbolicamente carrega sua confiança e afeto mais profundo. Normalmente essa pessoa é seu irmão ou amigo mais antigo. — Eu quero você, — diz ele. — Afinal de contas, tudo isso foi ideia sua. Por favor, Zahra? Seu olhar é sério, e meus olhos caiem para o anel na palma da mão. Com a boca seca, eu aceito, fechando os dedos sobre ele protetoramente, me sentindo pequena e indigna. — Nós devemos ir, — eu digo rispidamente. — Você tem um casamento para chegar.

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C Nobres revestem o templo do palácio, observando e sussurrando como um bando de pombas, parando quando Aladdin vem andando cercado por seus guardas. A multidão usa uma mistura estranha de roupas pretas de funeral por causa dos costumes dos vinte dias de luto pelo rei e cores festivas brilhantes para o casamento. Nós chegamos ao templo para encontrá-lo transbordando com pessoas. Somos incapazes de nos espremer, e os olhares que nos seguem são malévolos. Há pouco amor por Aladdin entre esta corte, que até há uma hora estava esperando seu próprio príncipe amado ser o único em pé no lado da princesa hoje. Mas eu espio alguns rostos sorridentes entre esses nobres que Aladdin conseguiu encantar com charme em um curto tempo no palácio, e eu duvido que ele vá demorar muito tempo para conquistar o resto - desde que sua verdadeira identidade não seja descoberta. Seis tambores estão na frente do templo, tocando um ritmo de casamento que ecoa por todo o palácio, anunciando a chegada da noiva e do noivo. Em torno dos limites da sala, acólitos balançam incenso, enchendo o ar com o doce aroma de jasmim e flores. Cada porta é guardada por um padre carregando uma equipe de oração em uma mão e um rolo de versículo sagrado no outro para afastar os maus espíritos e desencorajar os gênios de entrar. Seus esforços são mais simbólicos do que qualquer coisa, e eu atrevesso sem incidentes. Encontramos Capitão Pasha, que acompanha Aladdin até um tablado na frente do templo, sob uma estátua de quatro andares de Amystra, a deusa dos guerreiros e juízes. Suas asas de pedra se curvam em torno do estrado, enquanto os braços se esticam acima de seu rosto virado para cima, erguendo uma espada. Aladdin para ao pé da escada que leva até o estrado. Ele puxa seu colar, seus olhos vagando pela multidão. Os oficiais leais a Caspida ficam atrás dele, enquanto escribas gravam tudo em pequenas mesas de madeira ~ 214 ~


postos em um lado do estrado. As meninas espalham rosa e jasmim ao redor do templo, enquanto cantam uma melodia suave e doce. Com Aladdin no lugar, Caspida entra pela esquerda. A princesa está vestindo um longo vestido branco, bordado no pescoço com pequenas rosas brancas, um braço nu e o outro coberto com seda pura. Suas mãos e seus pulsos estão cobertos com henna vermelha que se destaca em contraste com sua pele oliva. Reunidos em tranças debaixo de uma banda de prata simples, seu cabelo está cravejado com as mesmas pequenas flores brancas que também estão polvilhadas sobre o estrado e descendo as escadas. Servas de Caspida a seguem, vestida em tons de verde, como as folhas de uma roseira com Caspida como a flor. Dois padres se aproximam para oficiar. Um carrega um pote de brasas, e o outro um raminho de oliveira. Ele bate nos ombros e testa de Aladdin com o ramo, simbolicamente purificando-o, e em seguida, lança-o na tigela, onde se queima em segundos. Então os sacerdotes dispersam arroz ao redor dos pés de Aladdin e Caspida, um símbolo de boa sorte e fortuna para vir. Os últimos dois acólitos levantam um comprimento de seda vermelha e seguram sobre as cabeças do casal, e os sacerdotes começam a entoar as palavras de ligação, suas frases intercaladas com linhas cantadas por um acólito jovem, com uma voz tão doce como o mel. Aladdin está tão nervoso como um mendigo em uma guarita. Ele observa Caspida de soslaio e tenta imitar suas ações. Eu estou meio com medo que ele vá correr. Caspida, por outro lado, está serena como um cisne, o rosto composto e régio. Ela não encontra os olhos de Aladdin. Eu tento ficar feliz por eles, Habiba. Verdadeiramente. E uma parte de mim está feliz por eles - eu comecei a amar ambos, e vê-los se juntaram me faz acreditar que algumas histórias têm sim um final feliz. Aqui está algo pela qual eu torço. Duas vidas que não desmoronem. E ainda... Parte de mim se sente traída e rejeitada. Eu sou a erva daninha expulsa do jardim de rosas. Eu sou o corvo afugentado do pombal. Eu sou onde eu pertenço, e isso não deve ser o suficiente? Isso não tinha que me trazer um sentimento de felicidade ou, pelo menos, realização? Eu já não ganhei o prêmio mais importante - a liberdade? Então por que, Habiba, eu me sinto como se eu tivesse perdido algo

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em vez disso? Eu forço a questão para fora da minha mente. Há coisas mais importantes para me concentrar, como a ausência prolongada de Darian e Sulifer, o que não passou despercebido pelos nobres reunidos. O vizir e o príncipe deixaram um buraco na assembléia, e parece que eu não sou a única que se preocupa com isso. As servas de Caspida também estão alertas e vigilantes, mantendo um olho sobre a multidão. A tentativa de assassinato desajeitado do banho não pode ser seu único plano, então o que eles estão esperando? Meus olhos varrem os telhados, procurando um arqueiro escondido, mas não vejo nada de suspeito. Ainda assim, algo puxa em mim, algo que não está muito certo. Aladdin e Caspida repetem as palavras dadas a eles pelos sacerdotes, falando os votos de fidelidade e amor que não são verdadeiros. Mais alguns minutos, e eles vão se casar de verdade. Em vez de sentir alívio, eu me sinto como se eu estivesse prestes a ser enforcada, à espera do chão cair e meu pescoço quebrar. Meu desconforto aumenta como uma onda se apressando inexoravelmente para à costa. Talvez ele não venha. Talvez depois de sua tentativa fracassada de afogar Aladdin, Darian contou suas perdas e correu. Talvez Sulifer decidiu que prefire passar o resto de sua vida pescando na costa de Qopta que tramando maneiras de manipular esta corte. Tensa e com mal-estar, eu me viro para a cerimônia, que está se movendo ao fim. Um acólito traz um belo jogo de chá jade. Uma vez que Aladdin e Caspida trocam anéis e servem um ao outro um copo, eles vão se casar oficialmente aos olhos dos deuses e dos homens. — Na presença de Imohel e estas testemunhas, — diz um dos sacerdotes, — este homem e esta mulher irão unir os seus destinos. Qual símbolo você traz como um selo desta união? Aladdin se vira para mim, e eu abro meus dedos para revelar o anel. Ele olha para ele, sua mão pairando sobre a minha. — Pegue, — eu sussurro. Ele engole e pega o anel, virando-o lentamente, a luz ilumando os símbolos gravados no metal. Então seus olhos se levantam e encontram os meus.

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— Zahra... — ele fecha a mão sobre o anel. — Eu não posso fazer isso. Minha mente congela. Abro a boca, mas não posso nem mesmo formar um pensamento. Aladdin se vira e solta uma respiração profunda, erguendo o queixo. — Sinto muito, princesa. Mas isso tem que parar. A multidão irrompe em sussurros, enquanto Aladdin e a princesa olham um para o outro com igual pesar e alívio. Os sacerdotes trocam olhares confundidos. — Sua Alteza, qual é o significado disso? — ele pergunta. Aladdin se vira. — Princesa Caspida, não tenho nada além de respeito e admiração por você. Verdadeiramente você será a rainha que esta cidade precisa. Mas eu não posso me casar com você. A princesa permanece como pedra, o rosto ilegível. — Por que não, Prince Rahzad? — Sinto muito, — ele responde. — A verdade é que eu estou amando, mas não é você. Ele se vira para mim, e o meu espírito toma vôo como um bando de pombas, assustado e errático. Não posso me mover, não posso falar, quando ele toma minhas mãos e me olha intensamente nos olhos. Ele pressiona o anel em minha mão, o ouro parece queimar minha pele. — Isto pertence a você, e você apenas. Eu tenho sido tão cego, Zahra. Tão preso no passado que eu não conseguia ver o que está acontecendo na minha frente. Eu fui um idiota, eu não sei como eu posso esperar qualquer coisa de você. Mas eu tenho que tentar. Eu tenho que dizer a verdade, e a verdade é... eu te amo. — Não, — eu sussurro. — Você não pode. — Eu não me importo se você é uma... — ele faz uma pausa para limpar a garganta, — uma serva. Você é linda e selvagem e eu não consigo parar de pensar em você. — um ensolarado sorriso quebra em seu rosto. — É errado e estúpido e maravilhoso, Zahra. Eu não queria que isso acontecesse, mas aqui estou. Eu te amo. O silêncio se instala como um frio em toda a sala, e estamos cercados

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por um mar de rostos espantados. Alguns sarcedotes sussurram para o outro, parecendo em pânico. Alguém desliza para fora da porta de trás, talvez para encontrar Sulifer e dizer a ele o que aconteceu. Capitão Pasha e seus homens pegam suas armas e olham da princesa para meu senhor como se não soubesse se eles devem prendê-lo ou não. Aladdin parece não perceber nada disso. Ele me olha profundamente, implorando, esperando que eu fale. Mas eu não posso. Eu estou rígida com choque e medo e... se eu vou ser totalmente honesta, uma pequena centelha de esperança. Minha mão se fecha sobre o anel. — Longe de mim, — diz Caspida em um tom gelado, quebrando o silêncio, finalmente, — ficar no caminho de tal amor. Este casamento acabou. — ela se vira para a multidão. — Ainda haverá uma festa mais tarde e dançaremos a noite toda. Sacerdotes, obrigada por seu serviço, mas acredito que terminamos aqui. Ela parece indiferente. Mas eu posso ver mais profundo e sinto que ela está confusa e envergonhada, ansiosa para fugir. Suas acompanhantes vão para ela, puxando-a de lado com murmúrios de preocupação. Aladdin apenas me observa. — Eu sei que você deve achar que eu sou um idiota, — ele sussurra, — mas você vai me dar uma chance? Você vai me deixar começar de novo? Eu recuo, puxando minhas mãos das suas. — Zahra, o que está errado? — Eu sou veneno. Sua testa enruga. — Eu não acredito nisso. Ele não entende, assim como você não entendeu, Habiba. Por que os humanos insistem em cortejar a destruição? Os olhos de Aladdin estão feridos, esperando que eu responda, mas minha voz trava na minha garganta. — Zahra, — ele diz suavemente: — Você me ama? — Eu, — Eeu não deveria. É errado, é perigoso, é proibido. Ele olha suplicante, esperando. — Zahra? — O que deu sua vingança? — eu sussurro, as minhas palavras ~ 218 ~


baixas no ruído crescente da multidão. — E seus pais? Toda sua vida você viveu para este momento. Ele balança a cabeça. — Estou cansado de viver para os mortos. Eu quero viver para você. — Aladdin, não podemos. Você não deve dizer essas coisas! — eu olho em volta descontroladamente, querendo saber quem pode nos ouvir. Se Nardukha ouvir estas palavras proibidas, o preço seria catastrófico. — O risco— Você vale todos os riscos. Eu sei o que eu quero, Zahra. Você? — EuDe repente, um trompete soa alto em todo o templo. Minha pele se transforma em gelo e eu quase espero que o próprio Shaitan venha rugindo. Mas é Sulifer que aparece, vestido com um casaco militar preto com uma capa, seu turbante negro adicionando à sua altura já considerável. Sua barba foi cortada, aumentando os fios grisalhos que estão salpicados pelo seu queixo. Atrás dele marcham duas dezenas de soldados, todos de armadura e capacetes, segurando lanças e espadas. Darian desliza para o lado deles, seu rosto ilegível. O vizir faz uma pausa por um momento, observando a expressão gelada de Caspida e minhas mãos unidas às de Alladin. Então, com um grunhido de demissão, ele caminha o comprimento do pátio do templo, e o bater das botas dele e dos soldados é o único som a ser ouvido. Ele não fala ou altera sua expressão até que ele atinja o pé do estrado. Lá, ele pára, os olhos fixos no Aladdin. — Guardas, — diz ele. — Prendam este homem. Ele não é quem ele diz ser.

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C No silêncio que cai, eu solto uma respiração longa e lenta, meus olhos se fecham por um momento. Meu espírito cai, e eu posso sentir tudo ao meu redor começar a desvendar. O que nos entregou? Será que Darian viu a lâmpada afinal de contas? — Use o seu desejo, — eu sussurro para Aladdin, abrindo meus olhos. — Por favor. — Se eu fizer, — ele responde baixinho, — eu vou te perder. Caspida se recompôs; quaiquer que sejam emoções que ela segurando depois de ser humilhada em seu próprio casamento, ela esconde bem. — Tio, se retire, — diz ela. — Você é meu parente, mas vou te banir ou te preder se continuar com essa besteira. Sulifer nem sequer pisca. — Este homem é acusado de assassinato, feitiçaria e comunhão com gênios. O sangue é drenado do rosto de Aladdin, e um sonoro suspiro varre ao redor da sala. — Isso é ridículo! — diz Caspida. — Como você ousa— Deixe-o falar por si mesmo, — diz Sulifer calmamente. — E que ele nos diga se ele é inocente. — Claro que eu sou! — Aladdin responde. Soltando minhas mãos, ele vai até Caspida e enfrenta o vizir. — Você está louco. — Eu? — Sulifer vira para Darian e o manda se aproximar. — Chega dessa loucura, — diz Caspida. — Guardas, tirem meu primo e tio deste lugar!

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Seus guardas hesitam, mas Capitão Pasha se aproxima corajosamente. Com um aceno de sua mão, Sulifer traz seus próprios soldados para frente. Eles abaixam suas lanças para o capitão, que vacila e olha para a princesa. Sulifer e Darian nem sequer pestanejam. Eles têm o poder de números, e eles sabem disso. O público encolhe, pressionando contra ambos os lados do templo, bem longe das armas à mostra. A luz nos olhos de Caspida é perigosa. Sem quebrar o contato visual com seu tio, ela faz um gesto para Pasha sair. — É para ser uma guerra entre nós? — ela pergunta com uma voz suave. Sulifer levanta a mão, a palma para cima. — Deixe o menino provar sua inocência, e vou deixar esta cidade hoje e nunca mais voltar. Os olhos de Caspida se estreitam, desconfiada. — E como você propõe que ele faça isso? — Deixe ele ser revistado, — responde Sulifer calmamente. — Certamente você não pode se opor a isso e se ele não tem nada a esconder, vou ser provado errado na frente de toda esta corte. — Muito bem, — diz Caspida depois de um curto silêncio. — Que ele seja revistado. O sangue drena do rosto de Aladdin. Sulifer arqueia, um pouco superficial demais para ser genuíno. — Obrigado princesa. Darian ansiosamente sobe ao estrado e vai em direção a Aladdin, puxando uma faca quando ele segura meu mestre pelo ombro. — Você parece não conseguir manter suas mãos longe de mim, não é? — diz Aladdin. — Primeiro nos banhos, e agora isso. Estou lisonjeado, realmente, mas meu coração pertence a outro. Darian apenas sorri e puxa a veste de Aladdin para o lado, expondo a cicatriz em seu ombro nu. Ele pressiona a ponta da adaga contra ela, até que Aladdin estremece e sangue escorre por debaixo da lâmina. — Eu sabia que era você no momento que eu vi isso nos banhos, — o

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príncipe sussura no ouvido de Aladdin. — Eu não posso acreditar que eu não vi mais cedo, mas isso não importa agora. Você está acabado, ladrão. Você estará desejando a morte antes que eu acabar com você. — ele desliza a mão pela veste de Aladdin, até que ele atinja o volume em seu quadril. Aladdin engole seco. Com uma risada de triunfo, Darian puxa a faixa de Alladin e a lâmpada vem balançando em plena vista. Murmúrios curiosos farfalham por entre a multidão; eles não têm certeza do que foi descoberto, mas eles sabem que deve ser importante pela maneira que Darian grita excitado. Aladdin agarra o cabo da lâmpada, tentando puxá-la para longe do príncipe. Eu me sinto enjoada quando uma, duas, três vezes sou quase sugada para dentro da lâmpada, apenas para Aladdin recuperar a posse dela. — Vejam! — grita Darian. — Adorador de gênios! A torcida grita ao seu clamor, e as palavras ecoam pela sala. Caspida intervém com raiva, agarrando Darian e puxando-o para longe. A lâmpada, ainda com Aladdin, é arrancada de suas mãos e Aladdin a pega. — O que é isso? — ela pergunta, mas pelo medo em sua voz, acho que ela já sabe. — Sim, ladrão, o que é isso? — pergunta Darian, sorrindo. — É um costume do meu povo, — diz Aladdin com a voz rouca. Seu rosto está sem cor, mas ainda assim ele tenta manter seu disfarce. — Você sabe. Simbolizando luz e... boa sorte... Todos os noivos Istaryan levam uma lâmpada para seu casamento. — ele olha desafiadoramente para Darian, desafiando o príncipe a anunciar que Aladdin tinha roubado a lâmpada dele, condenando assim aos dois. — Mentiroso, — rosna Darian. — Você conspirou com os gênios para se passar como um príncipe, quando você não é nada mais que um criminoso. E com a ajuda dos gênios, você matou o rei! — Darian puxa um frasco do bolso e levanta. — Isto foi encontrado em seus quartos - um veneno mortal chamada mordida de serpente, a poção que tirou a vida do nosso rei! — ele aponta um dedo em direção a Aladdin. — Assassino! Ele matou o rei!

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A mandíbula de Aladdin se abre. — O rei? Eu não— Cada palavra que este homem fala é uma mentira! — declara Darian. — Ele não é um príncipe. Este homem é uma fraude e um criminoso! Seus próprios pais eram traidores, decapitados por meu pai por agitar a rebelião. Ele não é Rahzad, príncipe de Istarya, mas Aladdin, um ladrão comum, que tem atormentado a nossa cidade há anos! E com essa declaração, minha magia quebra e dissipa o rosto de Aladdin, revelando sua verdadeira imagem. Reconhecimento brilha nos olhos de Caspida, e com ela, a raiva. — Aladdin, — ela sussurra, levantando a mão para suas testa. Ela pisca, como se fosse incapaz de entender o que está vendo. — Será? Ele dá um passo para frente, uma mão levantada. — Princesa, eu posso explicar— Cale-se, — ela ordena friamente, seu olhar gelado. Então, se aproximando, ela sussurra com raiva: — Eu nunca fui tão humilhada em minha vida. Você me arruinou e matou meu pai! Eu achei... achei que você era um amigo. Vocês dois. — ela pisca uma lágrima, seus olhos queimando em Aladdin. — Que você possa carregar o peso desta traição ao seu túmulo. Aladdin balança a cabeça furiosamente. — Eu posso ser um ladrão e um mentiroso, mas não sou um assassino! Juro - eu não matei o rei! Caspida, por favor, acredite em mim! Ela não olha para ele. Derrotado, Aladdin se vira para mim, e eu só posso sorrir com tristeza. Darian se vira e faz a varredura na sala, seus olhos sondando, procurando. E então eles caem em mim. Seus olhos se arregalam. — É claro, — ele murmura. — A serva bonita. Sem outra palavra ele se vira, puxando uma adaga do cinto. Ele corta a faixa e agarra a lâmpada. O mundo parece girar em torno de mim quando meu vínculo com Aladdin, que tinha ficado tão familiar para mim, se desfaz. O vinculo entre mim e Darian se firma, forte e absoluto, os fios tecendo e nos enrolando, até que nossas vontades são um só. Ele se vira

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para mim, os olhos famintos. — Monstra! — ele grita, apontando. — Se revele! Não há porque esconder mais. Se é um monstro que eles querem, então, é um monstro que eles vão ter. Todos os olhos no templo de repente se viram para mim quando eu começo a me transformar, cabelo, roupas, e até mesmo o anel na minha mão, virando fumaça. Parece quase bom finalmente se desfazer da minha forma humana e queimar com todo o meu poder diante deles. Fumaça vermelha agita em torno dos meus pés, me cercando. Meus olhos estão em Aladdin, e ele observa miseravelmente enquanto eu sou desvinculada, fio por fio. A corte suspira e recua, e Caspida e suas meninas me olham com repugnância. Aqui estou eu, mortais. Olhem e tremam, porque eu sou o gênio da lâmpada, a filha de Ambadya, o monstro em seu meio. Eu subo em uma nuvem de fumaça escarlate. Eu queimo com fúria e canalizo minha raiva pela minha mágica que muda de forma, luzes vermelhas piscando em minha fumaça, os olhos brilhando como brasas, minha pele translúcida revelando o fogo ardente dentro de mim. Eu sou uma criatura de pesadelos. Gritos de medo são ouvidos e os nobres tropeçam uns sobre os outros para escapar do templo. Sulifer apela para seus soldados. — Prendam-no! Os soldados correm para Aladdin, quando Pasha e seus homens se afastam para o lado para criar um perímetro de proteção em torno de Caspida, que já está cercada por suas servas. As meninas olham para mim com raiva e desgosto, e mais brilhantes de todas é Caspida, a raiva controlada, os olhos feridos por traição. E parece que não é Caspida que está diante de mim, mas você, Habiba, no topo da montanha, quando sua morte veio te engolir. Seus olhares perfuram mais do que elas podem imaginar, e eu percebo o quão estúpida eu fui em pensar que elas eram amigas. Eu deveria ter pensado melhor antes de me abrir para essa dor inevitável. Quando eu me esqueçi de ficar distante e independente?Quando eu deixei a minha armadura amolecer, me deixando vulnerável? Isto é o que

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eu recebo por bancar a humana. Os soldados se aproximam de Aladdin com cautela, suas lanças miradas em seu peito. O ladrão fica parado, seu olhar ainda em mim, os ombros caídos em derrota. — Sinto muito, — ele sussurra, sua voz perdida em meio aos gritos, inédito por todos, menos eu. Só ele pode segurar meu olhar, sem repulsa ou medo. Só ele ainda vê a menina dentro do monstro. Mas não é suficiente. Eu me atiro nos soldados, girando em torno deles em um longo bolo de fumaça vermelha, fazendo os soldados recuarem. Darian está de boca aberta, metade medo, metade encantado com a minha exibição. — Corra! — eu digo a Aladdin, minha voz como o vento, se apressando em torno dele, puxando sua capa. — Vá agora! Ele explode em movimento, mas corre na direção dos soldados, em vez de para longe deles. Ele esbarra em Darian, que o agarra. Ambos os meninos rolam para as escadas e param, cada um com uma mão na minha lâmpada. Eles lutam para pegá-la, Aladdin empurrando Darian e deferindo um soco no rosto do príncipe antes que os soldados estejam em cima dele. Eles o arratam para fora, e Darian se afasta, a lâmpada em suas mãos. Aladdin ainda luta, agarrando uma lança, dando uma cabeçada no estômago de um homem, usando a ponta para varrer os pés debaixo dele. Mas seus números o dominam e quando a lança dele quebra, eles atacam, torcendo seus braços para trás e forçando-o de joelhos. Furiosamente eu me transformo em meio tigre, meio fumaça e me lanço em Darian, garras e dentes arreganhados e brilhando, mas ele segura a lâmpada, sorrindo loucamente. — Gênio, — ele grita. — Eu ordeno que você retorne à sua lâmpada! Como um cão que tem chegado ao fim de suas forças, paro no ar quando a lâmpada toma o controle e me puxa para si. Desamparada, eu me transformo completamente em fumaça e entro, quando Aladdin chama meu nome. É inútil. Da lâmpada, eu sinto a dor de Aladdin quando os soldados o espetam com as pontas de suas lanças. Sinto a fúria implacável de Caspida por ter sido traída. Sinto alegria de Darian através da batida do pulso dos ~ 225 ~


seus dedos, a lâmpada soando no ritmo de seu coração. — Levem ele, — o Sulifer comanda. — Ele vai morrer como um traidor ao amanhecer. Não! Puro terror passa sobre mim como uma onda. Ouço Aladdin grunhindo quando ele é puxado aos seus pés, e empurro os meus sentidos, tanto quanto eles vão, sentindo os passos de Caspida quando ela desce do estrado. — Caspida, — Aladdin fala. — Eu posso explicar— Silêncio, — diz ela friamente. Eu sigo Aladdin por tanto tempo quanto eu posso, mas muito em breve, ele é arrastado além dos meus sentidos e perdido para mim. Desespero agita dentro de mim como náuseas, e eu enrolo em fumaça no chão da lâmpada. Onde está Nardukha agora, quando mais preciso de minha liberdade? Por que ele não vem? Eu fui tola? Eu sabia que não deveria ter aceitado o seu negócio. Eu sabia que ele não poderia ser confiável. — Eu devo me retirar por um tempo, — diz Caspida, sua voz começando a quebrar. — Eu tenho muito o que pensar. Ela e suas guerreiras se viram para ir, indo para a porta de trás do templo, mas a voz de Sulifer as impede. — Receio não poder deixar você ir, Sua Alteza, — diz ele. Caspida se vira. Eu posso ouvir o espanto em sua voz. — O que você disse? — Guardas, — diz Sulifer suavemente, — prendam a princesa. — Qual é o significado disso? — grita Caspida. A voz de Sulifer é dura como aço. — Princesa Caspida, você é acusada de cumplicidade com feitiçaria e comunhão com os demônios. — Isso é um absurdo! — Você não recebeu a gênio Zahra em seus aposentos há várias semanas?

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— Isso não prova nada. — eu posso ouvir a compostura de Caspida se quebrando como o gelo debaixo de um martelo. — Eu não sabia a verdadeira natureza dela. Eu não sabia nada— Isso será determinado pelos juízes. — Os juízes! — ela ri acidamente. — Os juízes são seus cães, treinados para rasgar quem você apontar. — Aprisionam-a, — diz Sulifer. — E suas servas também. Sinto os soldados se movendo para as meninas, mas eles nunca as alcançam. Nessa e Khavar correm como uma brisa afiada e mortal, enquanto Ensi arremessa pó envenenado em um arco reluzente. Soldados caem, segurando suas gargantas e peitos, enquanto elas atacam os outros como uma foice através da grama seca. Caspida se livra dos soldados segurando-a, derrubando os dois com uma série de golpes, suas mãos acertando seus pontos nervosos, os deixando contorcendo no chão. Antes que Sulifer, Darian, ou os guardas restantes possam fazer um movimento, as meninas desaparecem, correndo do templo e desaparecendo no palácio. — Atrás delas, — Sulifer diz Darian em voz baixa. — Traga aquela menina para mim, o que for preciso! Espere – me dê isso primeiro. Eu posso sentir a hesitação de Darian, mas ele lentamente dá a lâmpada para seu pai. A vontade de Sulifer substitui a de Darian, apertando em minha mente como uma gaiola de ferro. O príncipe chama os soldados e eles saem do templo. Assim, tudo se desfaz.

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C O dia passa em um borrão. Sulifer se reúne com os membros do conselho. Há muitas conversas sussurradas nas sombras dos corredores. Eu não escuto. Eu me retiro totalmente, encolhida em minha lâmpada, a escuridão em torno de mim preenchida com sussurros. Isto é culpa sua. Você falhou com ele. Você o matou. Eu não tento bloquear as palavras, porque eu sei que elas são verdadeiras. Este é o preço do segundo desejo de Alladin, o desejo que eu o convenci a fazer. O preço de cada mentira é que a verdade sairá sempre. Eu sabia disso, eu sabia, e ainda assim eu ainda fiz isso para ele. E para quê? Onde está Zhian? Onde está a minha liberdade? Por que ainda estou ligada a minha lâmpada? Como um pedaço de metal retorcido, eu começo a forjar o meu medo em raiva. Cedo ou tarde, Sulifer vai ter que me chamar dessa lâmpada. Quando ele fizer, eu não sei o que vou fazer, Habiba. Mas eu tenho que fazer alguma coisa. Eu não posso simplesmente deixá-los executar Aladdin. Mais tarde naquela noite, quando Sulifer está sozinho em seus aposentos, debruçado sobre um mapa sobre a mesa, uma batida soa na porta, e Darian entra. Eu me agito da minha névoa negra para ouvir. — E aí? — Sulifer se levanta de sua mesa. — Onde está Caspida? Darian hesita por um momento, depois diz baixinho: — Ela se foi. Nós varremos o palácio, mas não havia nenhum sinal dela ou de suas meninas. Acreditamos que elas fugiram para a cidade e os guardas estarão ~ 228 ~


procurando toda a noite. Sem uma palavra, Sulifer se aproxima e o agarra, Darian cambaleando na parede. Ele congela, de costas para seu pai, segurando as pedras como se estivesse tentando se fundir a elas. — Falha, — sibila o vizir. Todo o seu ser se transforma, como se ele tivesse derramado sua máscara de compostura para revelar o verdadeiro homem por baixo. — Eu te dei todas as chances do mundo para fazer algo por si mesmo, e você me traz fracasso! — Eu encontrei a lamapada! — diz Darian na defensiva, se virando. Sulifer agarra a frente de seu casaco e o bate repetidamente. — Não me retruque, rapaz! Você não conseguiu trazer a lâmpada para mim na primeira vez. Você não se casou com a princesa. Você não conseguiu trazê-la para mim. — com cada afirmação, seus golpes ficam mais fortes, até jorrar sangue do nariz de Darian. Seu pai o solta e Darian tropeça, segurando a manga em seu rosto. — Bem? — rosna Sulifer. Um pouco atordoado, Darian cai de joelhos e abaixa a cabeça. — Obrigado, pai, — diz ele miseravelmente. — Obrigado pelo quê? — Por me disciplinar em minha juventude. Eu ouvi e recebo a sua advertência. — as palavras são rudes e planas. Ele disse isso muitas vezes, eu suspeito. — Levante-se, — diz Sulifer em desgosto. — Eu não aguento olhar para você, rastejando como um camponês. Darian se levanta em silêncio, limpando o nariz, enquanto seu pai levanta a lâmpada. Eu me encolho, puxando os meus sentidos, deixando o lugar escurecer. Não quero fazer parte disso. Eu queria estar de volta na caverna. Queria que Sulifer me chamasse e fizesse seus desejos e acabasse logo comigo. O que ele está esperando? — Onde está o ladrão? — rosna Sulifer. — No calabouço, como você pediu, — responde Darian suavemente. ~ 229 ~


— Ótimo, — grunhe Sulifer, seus dedos tamborilando no lado da lâmpada. O som é ensurdecedor, reverberando através de mim. — O menino mostra mais iniciativa e força do que você já fez. — Me deixe ter uma hora com ele. Vamos ver como a sua força se estende, — diz Darian amargamente. — Não seja idiota. Nós não agimos em tais perseguições mesquinhas como vingança, como se fôssemos uma gentalha. Agora me deixe e vá procurar Caspida. Procure em toda parte - ela é uma dissimulada, como sua mãe era. Não me falhe novamente. — Mas— Saia. — a voz do vizir afunda a um sussurro sibilante, e Darian some. Uma vez que seu filho se foi, Sulifer dedica toda a sua atenção para a lâmpada. Ele se inclina contra um pilar e a gira, como um homem flertando antes de ir para um beijo, desejo de triunfar rolando para fora dele em ondas sufocantes. — Finalmente, — ele suspira. — Vamos nos reunir cara a cara. Ele esfrega a lâmpada, devagar. Eu não tenho escolha a não ser responder. Eu saio da lâmpada em uma fina corrente em espiral e enroo o meu caminho para o chão, onde eu me reuno como uma névoa fina. Eu me transformo em uma cobra e sibilo, meus olhos encarando, até que eu estou na altura de sua cintura, e então eu me transformo novamente em menina, escama se tornando pele, cauda em pernas. Seda preta cravejada com diamante caem sobre minha forma, e eu sinto um peso no meu quadril, onde o anel de Aladdin descansa em um bolso escondido. Eu me visto como a noite e olho para ele com olhos tão escuros e ocos como os espaços entre as estrelas. — Eu sou o gênio da lâmpada, — eu entoo. — Me diga seus desejos três desejos, para que eu possa concedê-los e me livrar de você. Seus olhos se alegram. Ele leva um tempo para responder, me circulando enquanto fico rígida. Como se para provar que eu sou real, ele

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estende a mão e acaricia meu cabelo, então desce seus dedos pela minha bochecha. Eu resisto ao impulso de estremecer, e com seus dedos ainda muito perto, eu rujo com dentes de tigre, meus dentes fechando no ar vazio. Rápido como uma cobra impressionante, ele me dá um tapa. A dor é forte, mas desaparece rapidamente. Eu me transformo em um leopardo preto, rosnando. Eu não posso machucá-lo, mas eu salto de qualquer maneira, toda raiva presa. Eu sou jogada para trás de uma vez, antes de eu tocá-lo, deslizando pelo chão para pousar em uma pilha contra a parede. Eu perco minha forma, me transformando em fumaça, em um esforço para afastar a dor que vem da repulsa mágica. — Eu li sobre sua espécie, — diz Sulifer, me observando sem piedade. — Eu sei tudo sobre seus truques vis e traição. Amiga do fogo, me ouça bem: Eu mando em você. Tente cruzar meu caminho e você vai sofrer por isso. — E eu sei quem é você. — me transformo novamente em uma meninae e estreito meus olhos para ele. — Eu sei o que você quer. Você sonha em levantar o grande Império Amulen das cinzas do passado, quando o seu povo governar todas as terras do leste para o oeste. Você quer ser conquistador e imperador. — eu ando até a sua mesa e espalho minhas mãos em seu mapa, Sulifer se move para parar atrás de mim, observando com uma intensidade silenciosa. — Quando Roshana governou a grande cidade de Neruby, — eu digo, — foi dito que nenhum homem poderia alcançar o limite do seu reino nem se ele andasse por um ano e nunca mais parasse. Havia mais cidades em seu império do que há estrelas no céu. — me viro para ele. — Eu posso te dar qualquer coisa neste mundo, Vizir. Posso te entregar nações. E vou fazer isso de bom grado... se você parar a execução de Alladin. Ele ri, é baixo, som contido, mas vindo dele parece a beira da hilaridade. — Você vai me ajudar, quer você goste ou não. Eu acredito que é o que vocês fazem. Eriçada, eu puxo o mapa e rasgo em dois, soltando os pedaços no chão. — Então você é um tolo! Faça seus desejos, e vamos ver como eles

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funcionam bem para você! Eu já destruí homens mais inteligentes do que você com as suas próprias palavras. Seu rosto endurece, em guarda pela minha ameaça. — Mas se você liberar Aladdin, — eu digo mais suavemente, — eu não vou torcer seus desejos. Eu vou servir tanto em obras como espírito. Ele puxa a cadeira da mesa e se senta, seus dedos dedilhando em seu joelho, pensativo, enquanto me observa. Fico parada, mãos abertas, esperando sua resposta como um condenado aguardando sua sentença. — Não, — diz ele, e ele me dá um pequeno sorriso. Minhas mãos ficam em punhos, e eu fico tão pesada como se eu fosse feita de mármore, enraizada no solo. Eu posso ver que não há piedade, não há espaço para a negociação em seus olhos. Eu conheci mil e um homens como este, Habiba, e eu sei que ele tem prazer em minha dor. — Então faça o seu desejo, — eu digo em um tom liso, meus olhos pesados. Ele se inclina para frente, seu olhar ardente. — Eu desejo que todos os gênios se curvem e me chamem de Senhor, obedecendo a todos os meu comando. Prendendo a respiração, ele espera, os olhos brilhando. Eu quase tenho vontade de rir, mas o meu espírito ainda é muito pesado, então eu simplesmente suspiro. — Eu disse que eu posso te dar qualquer coisa neste mundo. Os gênios não são deste mundo, e por isso eles não estão ao meu alcance para dar. O rosto de Sulifer se transforma. Ele é novamente o homem que bateu em seu filho, que viu sua sobrinha desafiá-lo do trono de seu pai. Sua fúria é uma onda, escura e profunda, correndo como um rolo compressor. Posso vê-lo ficando maior e mais perto em seus olhos. E então a onda quebra. Ele explode de sua cadeira, o rosto vermelho. Ele levanta a mão para me bater, mas eu me afastando, virando fumaça e me tornando incapaz dele me tocar. Então, ele agarra um tinteiro de sua mesa e o lança contra a

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parede. Respingos pretos de líquido oleoso estão em toda parte. — Você não pode subjugar os gênios, — eu digo, retomando minha forma atrás dele. — Você acha que Nardukha seria tão estúpido a ponto de deixar que essas coisas acontecessem? Você está longe de ser o primeiro ser humano a pedir isso e você não será o último. Eu tenho alguma pequena satisfação ao ver sua frustração. Sulifer se senta na cadeira para acariciar a barba. A onda de raiva recua, caindo de volta ao mar, até que, mais uma vez é gelado novamente. — Não importa, — diz ele, um tremor em sua voz como um tic raiva. — Há outras maneiras. Ele fica em silêncio por um momento, seus dedos tocando e seu olhar distante, enquanto ele pensa. Então ele pega a lâmpada e a bate na mesa. — De volta para dentro, gênio. Eu preciso pensar. Estou quase contente de voltar para a minha lâmpada. Ele fica sentado por algum tempo na luz de uma única vela, olhando para as sombras e pensando muito. Então, finalmente, ele me chama para fora outra vez. Eu paro diante dele, pouco mais do que uma sombra e espero. — Eu gostaria de possuir um exército, — começa ele, — mais numeroso que as estrelas, invencível para qualquer e todas as forças, quer de Ambadya ou deste mundo, capaz de superar qualquer inimigo, sem necessidade de dormir, comer ou tomar água e obediente a todos os meus comandos. Lentamente minha forma solidifica, até que eu sou uma menina em vestes negras, e eu respiro a magia, o desejo de Sulifer. Sua vontade é como a água, paciente e persistente, escuro e fresco. Me enche até que eu estou vazando. Seus olhos brilham à luz das velas quando eu passo por ele e vou até a varanda ao lado do seu quarto. Ele olha para os jardins do palácio e as colinas escuras ao norte. Esta noite é mais escura do que a maioria, sem lua para enfeitar o céu. Mas as estrelas são visíveis, talvez mais brilhantes para a escuridão que se aprofundou.

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O vizir me segue para fora, assistindo de perto, como se suspeitasse que eu vá traí-lo. Ele não precisa se preocupar. Eu vou conceder seu desejo, cada palavra disso. — Há apenas uma coisa mais numerosa que as estrelas, — eu digo, olhando para os céus. — é a escuridão que os detém. Eu abro minhas mãos, palmas para cima, e deixo a magia fluir através de mim. Ela se espalha, cresce e engrossa, escura e silenciosa como óleo que flui através do vidro. Nos jardins, nas colinas, nas paredes ao redor do palácio, formas tomam forma. Sombras com o aspecto de homens, cem, mil, um milhão, muito mais. Eles crescem e, em seguida, ficam de pé, olhando ao redor com olhos negros. Onde quer que eu olhe, lá está um homem-sombra, segurando uma lança-sombra e um escudo-sombra. Eles são pouco visíveis, pois eles são a própria noite. Um guarda patrulhando a parede norte pára, piscando na escuridão, sem saber se seus olhos estão brincando com ele. Ele ondula a tocha que ele carrega, mas as sombras escorregaram atrás dele. Sulifer está olhando para ele. — Eu te dei um exército de sombras, Mestre, — eu digo para o vizir. Exausta com o esforço, eu me inclino na varanda. — E aqui é onde você vai chamá-los. Uma para convocar, duas para dispersar. Eu estendo a mão, e sobre ela forma um chifre de carneiro preto pendurado em uma cinta de couro. Sulifer o toma, quase com reverência. Ele passa as mãos ao longo do seu comprimento ondulado, em seguida, coloca a extremidade menor aos lábios e sopra. A nota rica rebervera através dos jardins do palácio, e os guardas na parede olham ao redor em confusão. Na chamada, todos os homens da sombra se viram e encaram fixamente Sulifer, esperando. — Dê a eles um comando, — eu digo. Ele lambe os lábios, em seguida, começa quando um homem-sombra aparece em seu cotovelo. O vizir olha o soldado de cima para baixo e não pode deixar de sorrir. — Mate aquele guarda, — diz ele, apontando para o homem na parede.

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A sombra desaparece, e em menos de um momento, um grito sobe. O guarda uiva quando uma lança negra o acerta, em seguida, desaparece e ele cai de joelhos. Seu grito corta e ele cai pesadamente. Sulifer ri. — Isso é perfeito! — diz ele. — Isto é - isto é ainda melhor do que os gênios! Ele se vira para mim, o triunfo brilhando em seus olhos. — Esta é uma força para conquistar o mundo. — Sim, Mestre, — eu respondo. Ele se vira para as sombras, tocando a corneta duas vezes, e os homens-sombra desaparecem, afundando de volta para a escuridão a partir do qual eles nasceram. Sulifer intima e dispersa exército-sombra mais duas vezes, até que ele está satisfeito que nenhum truque está em andamento. — Bem feito, gênio, — diz ele finalmente. Eu posso ver que ele Está mais satisfeito consigo mesmo do que comigo. Ele passou horas pensando nesse desejo, verificando para todas as rachaduras ou brechas. Eu vou admitir, é um desejo bastante sólido, tanto quanto os desejos podem ser. Sulifer se vira para entrar, e eu fico lá, olhando em as sombras esperando para serem intimadas pelo vizir. Quando ele me manda de volta para a minha lâmpada, eu vou com um sorriso amargo.

***

É uma hora antes do amanhecer e da execução de Alladin. Sulifer está dormindo, a lâmpada ao lado de seu travesseiro. Eu derivo dentro dela, em névoa, infeliz, até que de repente eu ouço passos no quarto. Quatro guardas estão na entrada para as câmaras, mas estes passos vêm a partir da direcção da janela, abaixo da qual está uma queda de três andares. Curiosa, eu me agito e deslizo contra as paredes da lâmpada, entando ~ 235 ~


identificar o intruso. Os passos se aproximam, suaves e lentos e uma emoção corre através de mim quando eu reconheço Caspida. Talvez nem tudo esteja perdido. Eu deixo o meu sexto sentido se estender. Suas mãos ainda estão decoradas com a henna do casamento, mas ela parece longe de ser uma noiva. Seu colete preto e calças abraçam sua forma atlética, e existem lâminas de tamanho e formas diferentes dobradas em seu cinto, sapatos e até mesmo sua trança apertada. Movendo-se com cuidado, ela levanta a lâmpada. Quando os desejos se vinculam entre nós, estou chocada com o quão incrivelmente familiar isso parece, como se eu estivesse sendo ligada a você, Habiba. Caspida paira um momento mais sobre seu tio dormir, a mão livre pronta para pegar uma faca em seu cinto. Mas então há uma batida na porta, e ela congela. — Senhor Vizier? — chama uma voz. — É quase o amanhecer, meu senhor. Ela corre pelo quarto, parando atrás da porta, uma vez que se abre. Um guarda põe a cabeça para dentro, e Caspida salta em cima dele. Ela engancha um braço em volta do pescoço dele, mergulhando a cabeça para baixo para encontrar seu joelho subindo. Ele cai, inconsciente, e ela o arrasta para o quarto. Sulifer se agita, mas não acorda. Mais dois guardas estão vigiando, e antes que eles possam gritar, Caspida derruba um com um chute na virilha e uma pancada na cabeça, e o outro com uma lâmina na garganta. Ele cai, o sangue escorrendo pelo peito, e ela passa por cima dele, limpando manchas vermelhas da bochecha com uma mão trêmula. Respirando com um pouco de dificuldade, Caspida envolve a lâmpada em sua capa e sai para o corredor, puxando a faca de seu cinto. Ela se move rapidamente, até que ela está correndo pelos corredores, para chegar à saída mais próxima. Mas então o rangido de uma porta se abrindo a faz parar e ela suga a respiração quando Darian entra no corredor. Ele endurece com a visão da princesa, e ele olha em volta, sua mão se movendo para sua espada embainhada. — Cas?

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— Olá, Darian. — O que você está fazendo aqui? Eu tenho ordens para te jogar no calabouço. Cas, eles vão te executar! A testa de Caspida enrruga. — Primo, com certeza você não acredita nessas acusações ridículas. Eu estava sendo enganada por Aladdin tanto quanto qualquer um. Mais do que isso, na verdade. Eu concordei em cme asar com o bastardo. Você acha que eu não quero a cabeça dele tanto quanto você? Ele morde o lábio enquanto ele aq estuda, seu olhar em conflito. — Desde que éramos crianças, Cas, era suposto ser você e eu. — Eu sei, — ela geme, esfregando a testa. — Eu tenho sido uma idiota. Meu primeiro dever sempre foi o nosso povo, Darian, e eu pensei que estava cumprindo isso. — ela levanta os olhos para encontrar os dele, e as lágrimas oscilam de seus cílios delineados. — Eu não posso esperar que você me perdoe, mas devo pedir isso de você de qualquer maneira. Fui horrível com você — Cas... — ele abre os braços e ela corre para ele, seu corpo tremendo. Ele a abraça com força, uma mão ao redor da cintura dela, a outra acariciando seus cabelos. — Cas, está tudo bem. Olha, eu acredito em você. Meu pai vai também, uma vez que tivermos uma chance de falar sobre isso. Tudo apenas aconteceu tão rápido hoje. E você fugiu. Por que você fugiu? Isso só piorou as coisas para você. — Como você disse, tudo aconteceu tão rápido. — ela levanta o rosto para olhar para ele. — Entrei em pânico também. — Oh, Cas. — ele a envolve em seus braços e beija seu cabelo. — É por isso que você precisa de mim. Governar é bem difícil para um homem - uma garota como você não pode esperar carregar esse fardo sozinha. — Você está certo, — diz ela suavemente. As mãos dele correm pelas costas dela, gentil e convidativo. — Eu fui infantil. Tão ingênua. Não admira que eu me apaixonei pelas mentiras do ladrão. — Case-se comigo, Cas. Esqueça ele. Ela fica tensa. — Você... você iria me aceitar de volta? Depois de tudo que eu fiz?

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Ele sorri e levanta o queixo dela. — Não foi sua culpa, amor. Ele manipulou você. Você estava sozinha e com medo, e ele te ofereceu força. Naturalmente, você foi atraída para isso. Mas ele era uma mentira, e eu sou a verdade. Me deixe ser sua força. Me deixe te ajudar a ver através dos decepções. Eu posso te proteger, Cas. Ele se curva e pressiona seus lábios contra os dela. Os olhos dela se fecham e ela se derrete nele. — Eu te amo, Cas, — ele sussurra. — Eu sei, — diz ela. — Eu sinto muito. Ele se afasta, as sobrancelhas arqueadas. — O quê? — Oh, primo. — ela pega o rosto dele em suas mãos, seus olhos cheios de pena. — Você quer desesperadamente ser amado. Se você parasse de ser um idiota por cinco minutos, talvez alguém poderia. Ele começa a tossir, e suas pernas se enfraquecem. Ele tomba para frente, e Caspida o apoia. — Sua puta... — ele suspira. — Shh. Vai mais fácil se você não falar. Os lábios e unhas de Darian estão ficando mais azuis a cada segundo, e ele luta para respirar. Caspida suavemente o abaixa para o chão, acariciando seus cabelos e murmurando consolo quando ele engasga e se contorce. Ela puxa um lenço do bolso e enxuga o sangue de seus lábios. Seus olhos fixam nela, selvagens e assustados. — Você vai desmaiar, depois acordar em uma hora, — ela murmura. — Você vai ter uma dor de cabeça terrível por dias, mas você vai viver. Eu poderia ter te matado, Darian. Mas nós fomos amigos uma vez, você e eu, então eu vou te dar essa chance única. — ela beija sua testa, em seguida, se vira quando gritos soam pelo corredor, do quarto de Sulifer. Soltando Darian, ela foge. Passos soam atrás dela, e os gritos zangados do Sulifer são ouvidos. Tochas aparecem descontroladamente nas paredes atrás e à sua frente. Caspida está presa. A princesa para em um impasse, a trança chicoteando enquanto ela

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olha para trás e para frente entre os guardas correndo para ela. Em seguida, ela corre para a janela, chutando a treliça esculpida cobrindo a abertura. Ela coloca uma perna sobre a armação quando Sulifer, ladeado por guardas, a vê e grita: — Parem ela! Caspida se atira pela janela.

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C Estamos no segundo andar, e seu desembarque é doloroso. Ela atinge o solo e rola, mas o impacto tira seu fôlego e torce seu tornozelo. Sugando a dor, ela está de pé e correndo no momento em que os guardas alcançam a janela. Flechas batem no chão em torno dela. Caspida aumenta os passos e corre mais rápido, pulando em seu tornozelo ferido. — Mate-a, se for preciso! — Sulifer grita. — Ela é uma traidora! Os jardins do palácio são extensos, espessos, com guardas da noite e com pouca cobertura para Caspida se abrigar quando ela foge do outro lado da grande extensão de grama na frente do palácio. Uma tempestade de gritos enchem o ar, e tochas incendiam ao longo da parede exterior, para o qual ela está correndo. Os saltos são tantos que estou completamente tonta dentro da lâmpada. Dois guardas a interceptam, e a princesa não hesita. Ela balança a capa com a lâmpada no interior, dando uma pancada na cabeça de um – o que envia faíscas de dor através de mim - enquanto ela usa o impulso do balanço e gira em um chute. Seu pé atinge o queixo do segundo guarda e o faz cambalear. Sem esperar para acabar com ele, Caspida corre o resto do caminho, fazendo uma careta de dor. Quando ela atinge a parede, ela aperta o manto em seus dentes e começa a subir, encontrando pontos de apoio na argamassa escondido entre os tijolos. Grandes flechas atigen a gramde parede em torno dela, gerando faíscas quando se chocam com a pedra, antes de cair. As paredes são quase tão altas quanto o palácio, e sua subida é perigosa, mas ela continua obstinadamente diante. — Gorça! — grita uma voz de cima. Khavar e Nessa estão se inclinando

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por cima do parapeito, e elas agarraram as mãos de Caspida e a puxam para cima. — Parece que correu tudo bem, — diz Nessa, franzindo a testa para a orda de soltando que se aproxima. Os guardas sobem o muro e mais para baixo das paredes, à direita e à esquerda, outros estão vindo em nossa direção. — Cas, você está bem? — pergunta Nessa. — Vamos apenas continuar correndo, — diz a princesa com frieza. Khavar já tem uma corda amarrada em torno da muralha, e ela lança as redes. Sem esperar para verificar se é seguro, Caspida envolve o fim da capa ao redor de suas mãos, agarra a corda, e desliza para baixo, plantando seus pés contra a parede para retardar a sua descida. As outras meninas a seguem. Ensi e Raz estão esperando lá embaixo, furiosamente derrotando um punhado de guardas. O ar brilha com pó que Ensi joga. Os guardas estão perto demais para Raz usar seu arco e flecha, ela manda ver com uma pequena cimitarra3 curva. — Depressa! — grita Ensi. — Eu estou dando o fora! Caspida, Khavar e Nessa caem no chão, em rápida sucessão, assim um dos guarda atinge Ensi e levanta sua espada, pronto para cortar sua cabeça com um movimento. Se movendo em um borrão, Caspida saca uma faca e atira. A lâmina afunda no ombro do homem com tanta força que ele solta a espada e tropeça para trás, gritando. — Vamos! — Caspida grita. As meninas cortam pela direita e correm ao longo da parede exterior. Quando os guardas tomam posição acima, elas começam a disparar flechas eles mergulham atrás de um carrinho abandonado de repolhos. — E agora? — grita Ensi. 3

É tipo uma espada. ~ 241 ~


— Nós temos que ir para o sul, através da cidade, — diz Caspida. — Isto é um desastre, — geme Khavar. — Pobre Gao está tão estressado. — ela acaricia a cabeça da sua cobra, que emerge de seu colar. — Sua cobra está estressada? — sibila Nessa. — Todo mundo quieto! — ordena Caspida. — Coloquem esse carrinho em movimento. Se abaixem e ele vai bloquear as flechas. As meninas, ainda agachadas, pegam o lado do carrinho e começam a rolar para frente. Flechas batem do outro lado e afundam as couves com um som molhado muito parecido com carne. Pedaços de folhas verdes caem sobre suas cabeças. — Ugh, — diz Ensi. — Eu odeio repolho. Caspida arrisca um olhar sobre o carrinho, se esquivando rapidamente quando uma flecha acerta a parede acima de sua cabeça. — Não muito longe. Eu tenho um sentimento nauseante de para onde estamos indo, e presa como eu estou, não há nenhuma maneira de pleitear meu caso, fazê-la ver a verdade. O pânico começa a pulsar através de mim. Eu giro e giro e torço com medo. Parem, por favor, vamos conversar, vamos pensar sobre isso, eu posso ajudá-las... As meninas alcançam a parede que separa a zona de palácios da zona comum e se arremessam sobre ele como uma trupe de acrobatas, caindo para o outro lado, ignorando meus gritos. Caspida olha para cima e para baixo da parede. — Eles não vão parar por aqui. A cidade está acordada enquanto as meninas se apressam pelas ruas. Embora o sol ainda esteja escondido, o céu está ficando ligeiramente mais claro e os cheiros de pão assado e chá pairam no ar. As meninas são forçadas a diminuir seu ritmo, para se misturar à multidão plebeia do início da manhã enquanto armam barracas no mercado. Caspida lidera o caminho, se movendo com familiaridade ao longo dos becos e ruas laterais que se desdobram entre os edifícios. As outras mantem um olho afiado para fora, todas elas andam em um ritmo apertado, ainda escondidas na

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escuridão da madrugada pela sua roupa escura. Caspida amarra a lâmpada em seu cinto, para que ela possa enrolar a capa em torno de si mesma, seu capuz sobre o rosto. — Guardas a esquerda, — murmura Khavar. — Não olhe, mas eles estão vindo para cá. — Será que eles nos viu? — pergunta Caspida. — Ainda não. Devemos nos separar. Eles estão procurando por um grupo de meninas. Separadamente teríamos uma melhor chance. Mas é tarde demais. Os guardas pegam a visão delas, gritando e levantando suas armas. As guerreiras correm em todas as direções e a princesa entra em um beco. Ela para em uma porta, puxando a cortina e derrubando uma pilha de caixas por trás, quando vê uma família assustada partilhar um pedaço de pão velho. Um bebê começa a chorar. Caspida prende um dedo aos lábios, deslizando para o meio deles, puxando a capa firmemente em torno de si mesma e cobrindo a lâmpada. — Por favor, — ela sussurra, deixando cair o capuz. — Não diga nada. Os camponeses olham para ela, em seguida, gritam de alarme quando um guarda passa correndo através da porta. Ele olha em volta, e as pessoas recuam,evitando seu rosto. Caspida deixa seu cabelo cair sobre o rosto, escondendo suas feições. O guarda levanta um lábio quando ele olha em volta, em seguida, sem dizer nada, sai novamente. Caspida se levanta e puxa o capuz sobre o rosto. — Obrigadao, — diz ela. — Eu... Ela olha para a escassa refeição que eles estão compartilhando, o choro do bebê e as quatro magras crianças carentes. — Eu sinto muito. Eu não vou esquecer de vocês. Eu juro. Ela desliza para fora da porta e corre de volta pelo caminho que ela veio, vagando pelas ruas, durante todo o tempo gradualmente indo em direção ao sul. Ela está abalada e com medo, sua respiração rápida, o pulso acelerado. Eventualmente, ela atinge os portões do sul da cidade, apenas para encontrar o tráfego reduzido quando os guardas questionam cada pessoa ~ 243 ~


que tenta sair. Caspida está incerta, escondida da vista entre uma barraca de venda de geleia de figo e um par de homens discutindo sobre o preço de um carrinho cheio de peixes. Depois de uma breve deliberação, a princesa começa ir em frente. A praça em frente ao portão está ficando cheia de formas escuras que parecem nadar à luz sombria. Várias pessoas carregam tochas, iluminando e piscando enquanto circulam através da escuridão. Vozes, ainda silenciosas e bocejando, murmuraram como uma corrente que flui, no qual Caspida mergulha e flui como um peixinho. Quando ela atinge o portão, ela nota um homem segurando as rédeas de uma meia dúzia de camelos, esperando sua vez de sair da cidade. — O que está acontecendo? — ela pergunta ao tropeiro. Ele dá de ombros e coça uma ferida em sua bochecha. — Eles estão à procura de alguém, eu acho. Ela balança a cabeça, distraída, então de repente ataca, cortando as cordas dos camelos com uma lâmina que ela parece evocar do ar. Enquanto o tropeiro grita indignado, ela pega uma tocha das mãos de um fornecedor de especiarias assustado e ondas de medo atigem o rosto dos camelos. Os animais zurram em alarme e giram, chutando e jogando suas cabeças. Gritos saem das pessoas e barracas são derrubadas e os guardas no portão são distraídos apenas tempo suficiente para Caspida escorregar por eles. Fora da cidade, a princesa quebra em uma corrida. Ela corre pela rua empoeirada, se esquivando dos pescadores que chegam trazendo as suas primeiras capturas do dia, que gritam e xingam saindo em torno do portão, onde os camelos assustados estão causando um pânico que se espalha para os outros animais na área. A estrada dá uma guinada afiada, ziguezagueando pela face das falésias das praias abaixo, que brilham com os fogos dos pescadores e suas barracas. Mais adiante, navios descansam tranquilamente na baía, balançando para frente e para trás sobre a maré. Tudo está quieto e tranquilo fora dos muros da cidade, esperando pelo amanhecer. Caspida deixa a estrada e atravessa a ampla crista de terra até que ela vem para onde o penhasco cai, suas botas e calças ficando úmidas do orvalho na grama alta. Ela caminha ao longo da borda do penhasco até que

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a praia abaixo diminui e ela para em pé sobre o ponto mais distante da terra, olhando para o mar largo, imenso. A sua esquerda, o horizonte está vermelho, onde os deuses iluminam seus lares, em preparação para o dia. É quase o amanhecer. Aladdin está a minutos da morte. Minha mente é preenchida com a última imagem que tenho de Aladdin: sendo arrastado para a morte. Desespero se apondera de mim como as mandíbulas de alguma grande besta. Ele já está morto? Será que eu sentiria se ele não estivesse? Mesmo se ele ainda esteja vivo, mesmo que haja alguns minutos restantes para ele, sua última e única esperança está em pé à beira deste precipício, longe demais para lhe fazer qualquer bem, a ponto de destruir a única coisa que pode salvá-lo. Talvez eu tivesse uma chance se eu fosse livre, mas Nardukha está tomando seu tempo ou não virá. Mesmo que ele não cumpra sua parte do acordo, será tarde demais para Aladdin. Caspida puxa a lâmpada, deixando o capuz cair para trás. A brisa salgada agita seu cabelo. Longe, muito abaixo, o mar negro faz espuma nas falésias. Eu recuo dentro da lâmpada, imobilizada pelo medo. Por favor, por favor, me deixe sair. Me deixe falar, oh, me deixe ter uma última chance! Se Caspida permitir que o mar me leve, eu vou afundar em sua profundidade e provavelmente descansar lá até o fim dos dias. Eu passei quinhentos anos dormindo na escuridão. Quinhentos mais e eu vou quebrar. Vou dividir em mil pedaços, e eu vou ficar louca. Eu conheci gênios loucos. Eles são piores do que monstros. Eu começo a sentir raiva dentro da minha lâmpada, me jogando contra as paredes de bronze com a força de um touro raivoso. Isso não vai fazer diferença para ela. Eu poderia ser uma pena, eu poderia ser um pedaço de pedra - a lâmpada não pareceria mais leve, nem mais pesada. Eu poderia bater em uma parede com toda a minha força, mas ela não iria notar nada. O interior da minha prisão é um bolso no tecido do universo. Quando eu estou nele, eu sou como um homem com um pé na areia e um pé na água - nem aqui nem lá, nem neste mundo nem fora dele. ~ 245 ~


Eu tenho uma esperança. Esfregue a lâmpada, exorto a princesa, esfregue a lâmpada, esfregue a lâmpada, me dê apenas uma chance. A sensação do mar é mais forte agora; ela deve estar me segurando para o precipício, me balançando sobre a água. A qualquer momento o seus dedos lançarão a lâmpada e eu vou cair e as ondas da escuridão, da eternidade e da loucura vão me puxar para baixo, para baixo, para baixoTudo que eu preciso é um toque de seus dedos no bronze, a carícia da sua palma... Então eu sinto, Caspida recua e esfrega a lâmpada vigorosamente, as mãos tremendo. Eu mergulho para fora do bico. Abaixo de mim está o mar escuro e a espuma branca e as pedras afiadas, quebrando como uma tempestade, com fome como uma besta. Eu rapidamente me afasto, virando fumaça escarlate sobre as mãos e os pulsos de Caspida. Quando eu subo, meus tentáculos arejados se aglutinam em escalas, elegantemente, até que eu sou uma cobra branca com olhos azuis enrolando em seu braço, rápido como um relâmpago. Eu deslizo por cima do seu ombro e ao redor do seu pescoço e, como eu pretendia, ela tropeça para trás em horror, para longe do limite. Eu me transformo em uma forma menos ameaçadora: um gatinho cinza suave do tamanho de sua mão. Eu pouso em seu ombro e ronrono em seu ouvido, então fofo que até o Rei Sanguinário de Danien teria se derretido por um momento. Caspida está tensa como pedra. Ela congela, mas seus olhos me vêm de soslaio, sua respiração rápida. Parece que ela ficou muda com minha mudança. — Zahra. — um tremor enfraquece sua voz. Me transfomo novamente, desta vez na minha forma humana normal, vestida de seda branca etérea que tremula ao vento do oceano, eu paro na frente dela e encontro o seu olhar. — Eu sou a escrava da Lâmpada, — eu sussurro. — O poderoso gênio ~ 246 ~


de Ambadya. Eu tenho o poder de conceder três desejos. — ela me olha, seus olhos tão frios quanto o céu, como as antigas palavras necessárias caem dos meus lábios. Eu sinto a beira do precipício sob o meu calcanhar; alguns pedaços de terra se soltam e caem. — Princesa, por que você me deixou sair? Por que não soltou a minha lâmpada? — Eu tinha que saber. — os olhos dela endurecem. — Você é ela, não é? O monstro que traiu Roshana. Foi até você que o anel levou e o ladrão tinha você o tempo todo. Eu olho para o lado, para o horizonte ao leste, onde o amanhecer está cada vez mais alto. Não há muito tempo. Eu pressinto uma espada cair sobre o pescoço de Aladdin e eu estremeço. — Eu estava lá quando Roshana morreu, é verdade. — minha voz é dura e cortada. Não há tempo para segredos, não há tempo para fingir que o passado não tem as mãos fechados em torno da minha garganta. Aladdin vai morrer se eu não conseguir convencer esta princesa a anular quinhentos anos de ódio e medo. — Você a matou. — Eu amei Roshana, — eu sussurro. Incapaz de encontrar o seu olhar por mais tempo - há muito de você nela, Habiba - eu me viro para o mar. — Ela era mais para mim do que uma irmã. Depois de mais de três mil anos de escravidão aos mestres cruéis e egoístas, eu conheci sua antepassada, a grande rainha Amulen. Não só inteligente e diplomática, mas uma guerreira feroz. Muito parecida com você, na verdade. E ao contrário dos inúmeros mestres que vieram antes, ela foi gentil comigo. Ela não viu um inimigo, não um monstro, mas uma... uma menina. — Então me diga por que você fez isso. Curvando a cabeça em submissão, eu solto uma respiração profunda. — Eu não tive escolha. Eu não queria. Quando o rei dos gênios soube o quão próximas Roshana e eu tínhamos nos tornado, ele veio nos punir. Nós tínhamos quebrado a regra fundamental de Ambadya: nenhum gênio pode amar um ser humano. Lá, no cume do Monte Tissia, ele me mandou matá-la - derrubar minha querida amiga. Eu não tinha escolha, pois seu poder sobre mim é absoluto. Eu a destrui, e, em seguida, Nardukha enviou seus gênios para violentar a cidade de Neruby como um aviso para ~ 247 ~


todos os seres humanos que suas leis devem ser obedecidas. Mas não se engane: eu não posso oferecer nenhuma desculpa para o que aconteceu naquele dia, então estava na minha mão que Roshana encontrou seu destino. Meu amor foi a sua destruição. Caspida olha para mim, agarra firmemente a lâmpada em suas mãos. É então que eu percebo que não é a morte de Roshana que ela está tentando entender, mas a da sua mãe. Eu posso não tê-la matado eu mesma, mas para Caspida, posso muito bem ter feito. — Por quinhentos anos, minha irmandade passou por um voto sagrado, — diz Caspida friamente, — para destruir aquele que destruiu a nossa rainha. Você sabe disso, e você está dizendo estas palavras só para me enganar como você a enganou. Você quer que eu acredite que você é capaz de amar. — Acredite em mim quando eu digo que eu desejo que eu não fosse! — irritada, a circulo. — Eu não digo isso para mim! Aladdin vai morrer a qualquer momento, e a única maneira de salvá-lo é se você fizer um desejo! Por favor, Caspida - eles vão matá-lo ao amanhecer. — eu aponto para o horizonte, onde o sol está a poucos minutos de subir! — Me deixe salvá-lo, te imploto! Eu caio de joelhos diante dela, fazendo o que eu nunca pensei que poderia: ajoelhar diante de um ser humano. Meu orgulho se desenrola em fumaça, levado pelo vento. Sempre me achei acima desses mortais - imortal, poderosa, capaz de me transformar em qualquer coisa. Mas deixei tudo isso ir agora, e peço como eu nunca pedi antes. — Faça o que quiser comigo depois disso, mas me deixe salvá-lo! — eu cavo meus dedos na terra, meus olhos úmidos de lágrimas. Minha voz cai para um sussurro rachado. — Por favor. — Por quê? Eu levanto meu rosto, encontrando seu olhar inflexível. — Porque foi minha a ideia ele desejar ser um príncipe. Cortejar você. Ao longo de todas essas semanas. Eu o manipulei e o usei, e agora eles vão matá-lo por isso. — Por que você iria levá-lo para dentro do palácio, sabendo que, eventualmente, a verdade iria aparecer e ele teria que pagar o preço?

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— Porque... — eu ranjo meus dentes, desejando que a terra pudesse me engolir. — Porque eu estava tentando ganhar a minha liberdade. O seu povo tinha capturado o príncipe dos gênios - o próprio filho de Nardukha. O Shaitan me enviou para libertá-lo, e por sua vez, ele iria me libertar da minha lâmpada. Se eu não fizesse isso, ele planejava afundar sua cidade para o mar. Eu tive que entrar no palácio. Aladdin foi a minha única maneira. — Então você não nega que é um monstro. Você o usou para os seus próprios fins. Eu abaixo minha cabeça. — Eu sei o que eu sou. Eu sei que nada pode desculpar o que eu fiz com Roshana, ou com Aladdin ou com você. Eu tenho injustiçado tantos, e há tanta coisa que eu desejaria voltar e mudar. Não consigo salvar Roshana. Mas, por favor – te peço – me deixe salvá-lo. Caspida se ajoelha e me estuda. Eu encontro o seu olhar, completamente humilhada. — Você quer que eu acredite que você o ama, — ela sussurra. — Sim. — a palavra é apenas um fôlego, uma agitação de ar em meus pulmões traiçoeiros. — Nós estamos correndo contra o tempo. Eu não posso reverter a morte ou as horas. O tempo é a magia mais forte, e nenhum gênio - nem mesmo o Shaitan - pode reescrever o passado. Uma vez que Aladdin se foi, ele se foi. Me deixe salvá-lo, e eu posso ajudá-lo a ganhar a sua cidade. Ela olha para mim antes de balançar a cabeça. — Não, — ela diz por fim. — Se eu tiver que contar com a magia dos gênios para entregar o meu povo para mim, então eu não mereço governá-los. Eu não serei o último tolo que você engana. Ela se levanta, os olhos duros e eu sei que nada que eu disser vai influenciá-la. Eu caio em desespero, incapaz de me mover ou pensar ou respirar. É isso. Aladdin vai morrer. Eu o matei como certamente eu matei você, Habiba. Caspida caminha até a beira do precipício, a lâmpada na frente dela. Seu rosto é solene, quase triste, e me pergunto se ela tem algum arrependimento por aquilo que ela está prestes a fazer. Eu não tenho vontade ou energia para impedi-la. Posso apenas olhar fixamente para a ~ 249 ~


grama enquanto meu espírito é drenado. — Adeus, Zahra, — diz a princesa, e ela puxa o braço para trás, se preparando para lançar a lâmpada. — Faça isso, princesa, — diz uma voz, — e eu vou arrancar sua cabeça de seus ombros.

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C Eu estou em meus pés em um instante, jogando um braço protetor em torno da princesa, que abaixa a lâmpada e para. Zhian está a apenas metros de distância, enganosamente calmo e bem disfarçado em uma forma humana, alto e bonito, vestido em vestes vermelhas brilhantes. Elas giram em torno dele, provavelmente mais do seu próprio vento do que qualquer outra coisa. Zhian sempre foi apaixonado por entradas dramáticas. — Quem é você? — pergunta Caspida, e eu posso sentir o esforço que ela coloca para fazer a sua voz permanecer forte. Sem tirar os olhos dele, eu sussurro por cima do ombro: — É Zhian. O príncipe dos gênios. Ela inala acentuadamente, mas não recua. — Por que você está aqui? — pergunto a Zhian. Ele levanta suas mãos. — Eu trago uma boa notícia, Zahra. Estive em Ambadyad, e estou aqui para te dizer que o meu pai está bem satisfeito com você. Recuperando o fôlego, eu sinto os olhos de Caspida em mim, estreita com suspeita. Isso não está ajudando meu caso, ter o rei dos gênios concedendo seu favor em mim na frente dela. — E aí? — pergunto suavemente. A boca de Zhian se divide em um sorriso demoníco. — Ele concordou em conceder a sua liberdade. Meu espírito pula. Eu tomo um meio passo para frente, mal acreditando nas palavras. Pode haver uma chance de salvar Aladdin ainda.

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— Você precisa vir comigo, — Zhian continua. — Voltar para Ambadya. Você receberá sua liberdade diante do trono de Nardukha. — Não. Tem que ser aqui. Tem que ser agora. — eu olho para o horizonte, onde uma linha brilhante dourada fica cada vez mais brilhante. Nós estamos minutos do fim, talvez segundos, antes que a sentença de Aladdin seja realizada. — Não seja ingrata, — ele rosna. — Ou você pode inspirar o Shaitan a mudar de ideia. — Ele não faz questão, — eu cuspi. — Zhian, você deve fazer isso, agora. — Você sabe que eu não posso. Você está sendo convidada para casa, para a liberdade e para mim! — ele franze o cenho, seus olhos escurecendo. Sou puxada em duas direções, a minha alma se acovarda diante da escolha à minha frente. Há quanto tempo eu esperei por esse momento, essas palavras? A liberdade é minha para eu pegar - mas se eu aceitá-la, vou perder Aladdin para sempre. — Eu - eu não posso ir ainda. Tenho negócios para terminar aqui. Seu olhar pisca para a princesa. — Com ela? Eu sei, então, que ele não ouviu a nossa conversa e que ele ainda não sabe sobre Aladdin. Me viro ligeiramente para sussurrar para Caspida, — Princesa, eu sei que você não confia em mim, mas você deve acreditar em mim quando digo que este gênio vai te matar. Você tem que fazer um desejo. É a única maneira que eu posso te proteger. Nos leve de volta ao palácio antes— O que há de errado com você? — interrompe Zhian, mostrando os dentes. Ele dá um passo mais perto. — Zahra, este é o momento que você estava esperando. Se não vir de boa vontade, eu vou fazer você vir. Me dê a lâmpada, humana! Ele faz um movimento em direção a Caspida, e a princesa suga uma respiração e dá passos para trás, puxando a pequena lâmina. Isto só faz Zhian sorrir. — E o que você vai fazer com isso? — diz ele. — Huh? Vou triturar seus

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ossos e lançá-los para os carniçais para o seu desporto. — Não, — murmuro, pisando entre eles. — Você não vai tocá-la, ou na lâmpada. Zhian endurece, seus olhos piscando com raiva. Ele olha de mim para a princesa, cálculando, até que finalmente uma fúria escura desce sobre suas feições. — O menino, — ele murmura. — O menino que tinha a lâmpada, o menino que você discutiu na noite que você me encontrou dentro daquela jarra. Ele corre para frente de repente e agarra meu pulso, torcendo meu braço selvagemente. Eu cerro os dentes e assobio para ele, mas não grito. — Você não aprendeu sua lição?Ou será que meu pai tem que fazer você matar este também? Ele envolve uma mão ao redor da minha mandíbula, baixando o rosto até que a respiração está quente em minhas bochechas. — Você é um pouco tola. Você poderia ter sido livre, você poderia ter ido comigo, mas em vez disso você traiu sua própria natureza para outro ser humano. Quantos deles você vai destruir com estes seus caprichos? Quantas cidades devo queimar? Me lembro do último ser humano que você chamou de amigo, e eu me lembro como o meu pai teve que fazer você acabar com ele. — eu sinto Caspida suspirar ao meu lado enquanto Zhian continua. — No entanto, você irá cometer o mesmo crime novamente? Eu me transformo em fumaça, e sua mão se fecha sobre o nada, quando eu giro em torno dele e tomo forma novamente quando estou fora de alcance. Ele se afasta de Caspida. Ela ainda segura a lâmpada, e eu jogo a ela um olhar suplicante. Vamos, Caspida. Você deve fazer um desejo! — Você percebe o que você vai perder, — Zhian diz, — se você fizer isso? — Sim, — eu sussurro. Zhian estende a mão, de repente silencioso. — Esqueça este menino, Zahra, e venha comigo. Tudo ficará certo. Isso não tem que terminar como da última vez. Engolindo em seco, eu fecho meus olhos, a minha pele pegajosa. Uma parte de mim anseia por tomar seu lado, ceder a ele, ~ 253 ~


finalmente, finalmente aproveitar a minha liberdade. Eu quase posso imaginá-la, o maior prêmio, o desejo mais profundo do meu coração fantasma. Ele me tenta mais do que qualquer coisa poderia. Penso em todos os lugares que eu poderia ir, as coisas que eu poderia fazer, sem ninguém para me comandar. Ninguém para me por na minha lâmpada. Qual seria a sensação de finalmente estar no controle do meu próprio poder. Conceder os meus próprios desejos. — Será que você realmente negocia uma eternidade de liberdade, — Zhian diz, e eu abro meus olhos para encontrar os dele, — por um momento com este rapaz? Se eu escolher Aladdin, as consequências serão desastrosas. Eu estive nessa estrada antes. Eu assombrei as ruínas da sua cidade, Habiba, durante quinhentos anos, com os fantasmas daqueles que eu condenei a morte - tudo porque eu fui estúpida o suficiente, arrogante o suficiente para acreditar que eu poderia amar. Talvez fosse melhor ir com Zhian agora, para o bem de todos em Parthenia. O horizonte queima como ouro derretido, e em algum lugar, Aladdin está sendo arrastado de uma cela. O que ele deve estar pensando? Que eu o abandonei? E de repente eu percebo: eu nunca disse a ele que eu o amo. Ele deve ter dito isso para mim uma dúzia de vezes, mas sempre tive muito medo de falar as palavras. Eu temia as consequências, queria adiar o inevitável - mas agora chegou o momento, e eu devo escolher o amor ou a liberdade. Um mês atrás, eu teria rido de pensar que eu iria sentir tanta agonia à escolha. Mas isso foi antes de Aladdin. Isso foi antes de saber que tipo de liberdade eu senti apenas em estar com ele. — Se você não está livre para amar, — eu sussurro, — você não está livre de verdade. E de repente eu sei. Eu sei há dias. Desde que eu beijei Aladdin. Desde que dançamos, nossas respirações juntas e os nossos olhos se encontraram. Desde que estávamos na grama, rindo à luz do sol em minhas miseráveis tentativas de roubo. Cada olhar, cada toque, cada sussurro entre nós tem sido uma pedra adicionada às escadas, me inclinando em direção a uma nova direção. Eu não sei o momento exato em que eu me apaixonei por Aladdin, mas sei que ~ 254 ~


estou apaixonada. E nunca quero parar. — Eu não vou a Ambadya com você, Zhian, — eu digo. — Eu vou ficar aqui. Zhian solta um longo suspiro, lento, seu nariz dilata até que seus olhos são inteiramente pretos. Sua forma muda, ficando nítida, chifres brotando de sua cabeça e seus pés endurecendo em cascos. Sua pele adquire um tom avermelhado, e fumaça se reúne em torno dele. Ele é parte homem, parte touro, parte fumaça. Caspida suspira e o som é escutado por Zhian. Ele se vira para ela, seus olhos param sobre a lâmpada. — Se você não virá por opção, irmã, — ele rosna, — então você vai ser arrastada até os pés do Shaitan! — Não! — eu grito, me aproximando e me transformando tudo de uma vez. Com minhas habilidades limitadas pela lâmpada, não posso tomar uma forma para coincidir com a sua em força, mas eu tenho que fazer alguma coisa. Eu tomo a forma de tigre, pulando pela grama e saltando para interceptá-lo antes que ele possa atacar Caspida. A princesa bravamente levanta sua lâmina, pronta para encontrá-lo, mas dificilmente irá salvá-la. Zhian é duas vezes o tamanho dela agora e muito, muito mais mortal. Eu o golpeio no peito, apenas o suficiente para desequilibrá-lo e bloquear seu golpe. — Caspida! — eu rosno. — Eu não posso segurá-lo por muito mais tempo! Zhian me acerta com força nas costelas, e eu voo pelo ar e caio na grama, cavando em minhas garras para saltar de volta para ele. Terra voa por toda parte, enquanto eu vou atrás do gênio, um rosnado expondo minhas presas. Ele está pronto para quando eu saltar e ele me joga de lado, me batendo duro na terra. Eu rolo descontroladamente em direção a borda do penhasco, mal me aguarrando antes que caia sobre ele. Zhian estende a mão, uma chama vacilante de vida acima de sua palma. Em momentos, a chama incha em um nó se contorcendo de fogo. Então, ele atira contra mim e eu me jogo de lado quanto as chamas ~ 255 ~


explodem onde eu estava parada. — Caspida! — eu grito, me transfomando de novo, de volta à minha forma humana. Desta vez, estou vestida com calças de couro e um top recortado, em cada uma das mãos uma espada longa, curvada. Eu corro em direção a Zhian, e quando ele se mexe para mim, eu caio de joelhos, derrapando pela grama quando eu corto suas pernas. Ele ruge quando uma das lâminas corta a coxa. Fumaça sai a partir da ferida, que se fecha imediatamente. Ele manifesta uma espada e eu cambaleio na tentativa de bloquear o golpe. Eu resisto uma vez, duas, três, antes de sua força superior tirar minhas duas espadas das minhas mãos e elas se dissolvem em fumaça. Ele deixa sua própria evaporar, e ele dá o bote em mim, envolvendo uma mão enorme em torno da minha garganta e me levantando, meus pés balançando. — Todos esses anos atrás, — ele rosna, — quando meu pai estava queimando o Shaitan, eliminando todos os seus rivais, eu implorava por sua vida. Você teria sido morta como todos os outros, mas eu disse a ele que você era diferente. Eu te salvei, e é assim que você me paga? Eu não posso responder. Ele está esmagando minha garganta. Eu começo a me transformar, mas ele me sacode, fazendo a cabeça girar até que eu não posso nem pensar no que me transformar. Minha visão fica escura, e eu percebo que ele não vai parar. Ele tem a intenção de me matar aqui e agora. Mas então uma pontada repentina de energia corre em toda a minha pele e palavras penetram a dor que dança em minha cabeça, como penas macias derivando através de uma tempestade. — Eu desejo que minhas guerreiras venham em seguraça até a mim. Caspida fez um desejo. Não é o desejo que eu queria ouvir, mas é o suficiente para me dar mil e uma vezes mais força do que eu tenho normalmente. Eu explodo em fumaça, inchaçando em uma pluma acima da cabeça de Zhian. Ele rosna e gira para Caspida, mas ela não está sozinha. Raz, Ensi, Nessa e Khavar estão todas ao redor dela, cambaleando um pouco, seus olhos arregalados de confusão e horror diante da visão do príncipe dos gênios. Eu caio sobre a grama, de volta em forma humana, e corro para Caspida.

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— O que está acontecendo? — grita Ensi, as mãos nos sacos de pó. — O que é isso? Zhian se vira, seu olhar escuro fixo em mim. — Você sabe o que acontece em seguida. Eu concordo. — Vou dizer a Nardukha de sua traição, e ele virá. Ele vai despertar das profundezas do Ambadya e trazer com ele os seus gênios, e vamos destruí-lo, este menino, e toda esta cidade. — Vá, então, — diz Caspida de repente, dando um passo para frente. Ela cospe para o príncipe dos gênios. — Dane-se você e todo o seu tipo. Eu sou a rainha Caspida de Amulens, e eu não tenho medo de você. Traga o seu pior, porque eu vou estar esperando. Eu toco seu braço. — Princesa, você não tem queEla dá de ombros, me afasta e levanta sua espada em direção a Zhian. — Esta guerra entre nosso povo tem ido longe demais. Deixe isso acabar hoje. Aladdin e Zahra são meus cidadãos e vou defendê-los até o último suspiro. Ele rosna, tenso, como se fosse nos atacar, mas Caspida gira e grita: — Agora, Nessa! Quando Zhian ataca, a encantadora de gênios puxa sua flauta e começa a tocar, a música o para na hora. Enrolo um turbante grosso em mim, cobrindo meus ouvidos e bloqueando o som. Sua música detém Zhian, sua boca folgada e os olhos sem brilho. Suas mãos tremem, mas ela não perde uma nota. — Caspida, o amanhecer vai quebrar a qualquer momento, — eu digo. Ela afasta os olhos de Zhian e me encara como se ela não tivesse ouvido. — Eles vão matar Aladdin. Por favor. — Tudo bem, — ela diz, suas palavras abafadas pelo meu turbante. — Eu acredito em você, Zahra. Você não é responsável pela morte de Roshana. O Shaitan é. E você realmente ama o ladrão. Você poderia até mesmo entregar sua liberdade por causa dele.

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— Não deixe que isso seja em vão, — eu imploro. Ela balança a cabeça e olha em volta para suas meninas, que continuam a parecer chocadas com a sua súbita mudança de ideia. Mas elas encontram seu olhar solenemente, fortemente leais. Se virando para mim, Caspida se aproxima e agarra a minha mão, como se o filho monstruoso do Shaitan não estivesse pairando sobre nós, sua mente encantada com as notas enrolandas em torno de nós. Os olhos da princesa seguram o fogo da madrugada quando ela fala. — Eu desejo salvar a vida de Aladdin.

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C Nós seis desaparecemos no penhasco em um redemoinho de fumaça, e a música de Nessa cessa. Eu só tenho tempo para vislumbrar Zhian se transformando em fumaça e correndo em direção ao Monte Tissia para voltar a Ambadya. Nós não temos muito tempo. A crista do sol sobe do mar, assim quando as meninas e eu aparecemos nos degraus que levam até o palácio. No topo, Aladdin está de joelhos, lutando contra os guardas que estão empurrando sua cabeça para baixo, um deles levantando uma espada. A visão me envia um espasmo de horror e eu entro em movimento. O poder do desejo da princesa ainda corre através de mim, brilhante como a lua, e eu lhe dou forma instintivamente. Eu caminho rapidamente para os executores, estendendo uma mão. Tigres de fumaça se materializam por trás dos soldados em torno de Aladdin. Os homens gritam em estado de choque e terror quando veem as bestas fantasmas os levando ao chão e os arrastando para longe do ladrão. Espadas e lanças batem nas pedras. Quando seu trabalho está feito, os tigres evaporaram no ar. Com um piscar de olhos, eu libero o resto da magia restante e videiras grossas explodem do chão e amarraram os soldados, prendendo seus braços ao lado do corpo. Não há mais por que em esconder o que sou. E assim, eu subo a escada em um vestido de fumaça vermelha e seda, longo e esvoaçante, impulsionada por uma identidade de propósitos e uma clareza de pensamento que eu não sentia há muito tempo. Perdi a minha última e única chance de liberdade, e eu não lamento nada. O anel que eu fiz para Aladdin desaparece do bolso e reaparece no meu dedo, brilhando na madrugada. Aladdin se levanta, usando uma espada que caiu para cortar as ~ 259 ~


cordas que amarravam os seus pulsos. Seus olhos se arregalam, e quando eu o alcanço, eu não hesito. Eu jogo meus braços em torno dele e o beijo profundamente, derramando todo o medo, desespero e esperança do último dia nesse toque. Ele responde ao mesmo tempo, uma mão nas minhas costas, me pressionando para ele, a outra no meu cabelo. Seus lábios são urgentes e intensos e eu sinto seu próprio medo aliviar e a adrenalina correndo através dele. Quando nos separamos, ele descansa sua testa contra a minha e ri com a voz rouca. — Se eu estou morto, — ele murmura, — então o deixem me matar milhares de vezes se eu sou recebido assim quando eu for para o outro lado. — Eu pensei que tinha perdido você. — Pensei que eu ia me perder também. Mas você veio. — Eu tive ajuda. — me afastando relutantemente, eu olho para Caspida e as guerreiras, que estão correndo os degraus. — Problemas! — Ensi avisa, apontando atrás de nós, e nos voltamos para ver mais soldados saindo do palácio. Caspida amaldiçoa. — Eles sabem que estamos aqui. Os soldados estão se aproximando, suas lanças piscando na luz do amanhecer. As guerreiras aguardam, olhando a onda de homens correndo em direção a elas, até que uma barragem de flechas é subitamente solta a partir de uma fileira de arqueiros a esquerda. Nós recuamos e paramos por trás de um muro baixo de pedra, quando as flechas atingem a escada onde estávamos parados. O som de gritos e armas batendo fica mais alto, enquanto os homens se aproximam. Raz se inclina na parede, atirando flechas e segurando os soldados por alguns momentos. — Sulifer tem todo o exército e a Eristrati sob seu controle, — diz Nessa. — Nós não vamos nem chegar até as portas! — Deseje ir para a cidade, — eu digo com urgência, — e eu vou dar isso para você! Caspida, você deve ver que esta é a única maneira!

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— Eu não posso! — ela grita, sua compostura rachando quando ela encontra meus olhos. — Você não entende? Se eu usar a magia dos gênios para lutar contra Sulifer, então eu não sou melhor do que ele é! Então eu não sou rainha nenhuma! — Mas não temos exército, — diz Nessa gentilmente. — Sua Alteza, — diz Aladdin, de repente, — você não precisa de um exército. Ela dá a ele um olhar interrogativo, e ele se vira e aponta com uma mão para a cidade que se espalha abaixo. — Você tem as pessoas. Elas estavam esperando por meses para o Phoenix dar o sinal. Eles irão segui-la em qualquer lugar! Os olhos de Caspida se iluminam um pouco, mas, em seguida, ela balança a cabeça. — Eu não posso pedir a eles para lutar isso, não contra homens armados e treinados. — Esta não é apenas sua batalha, — responde Aladdin. — Esta tem sido a nossa luta por anos. É nossas famílias que Sulifer vem rasgando em pedaços, as nossas vidas que ele esmagou. Nós só estivemos esperando pela pessoa certa nos conduzir e você está aqui. Eles usam suas cores, pintam seus simbolos nas paredes. Talvez você não tenha a intenção de criar uma revolução, mas a revolução tem esperando por anos pela faísca certa. Vamos lutar, e vamos todos retomar nossa cidade juntos. Caspida olha em volta para suas meninas e todas elas concordam. Para Aladdin, ela abre uma mão em assentimento. — Vá então. Talvez Imohel possa acelerar. Os olhos dele queimam com um propósito, e ele começa a se afastar, apertando a minha mão antes de soltar. — Eu vou trazer ajuda, — diz ele. — Mantenha-os fora o máximo que puder. E então ele se foi, descendo a escada e se esquivando das poucas flechas disparadas atrás dele. Eu olho em descrença, incapaz de suportar vê-lo desaparecer depois de acabar de tê-lo de volta. Mas Caspida ainda tem a lâmpada, e eu não posso segui-lo.

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— Acabou, — diz Raz, baixando seu arco e soltando sua aljava vazia. — Eles estão vindo. — Guerreiras, — diz a princesa, olhando para cada uma de suas meninas, uma por vez e seu olhar finalmente se fixa em mim. — Você está comigo? Khavar tem sua cobra enrolada firmemente em seu antebraço, seus olhos brilham com uma luz feroz. — Na vitória ou morte, eu estarei ao seu lado, irmã. — E eu, — as outras ecoam. — E eu, — murmuro, e elas olham para mim, surpresas. Eu troco olhares com Caspida. — Se você não vai querer ir para a cidade, então me deixe lutar com você. — lentamente, minhas túnicas de seda endurecem em uma brilhante armadura de batalha, e espadas gêmeas aparecem atrás dos meus ombros. Caspida prende a lâmpada em seu cinto e assente. Ela agarra minha mão, seu pulso batendo através de mim como um tambor de batalha. — Na vitória ou morte, gênio. Com isso, ela vai, e nós vamos atrás dela. Há cerca de vinte soldados marchando em direção a nós, todos com lança. Eles estão muito perto de nós agora para os arqueiros continuarem atirando sem acertar seus próprios homens. Caspida salta para o muro e grita, — Homens de Parthenia! Eu sou sua verdadeira rainha! Se curvem ou serão considerados culpados de traição! Os homens trocam olhares, mas não param de avançar. Com um suspiro pesado, a princesa gira suas facas, então acena para nós. Subimos por trás do muro, as guerreiras gritando como guerreiros selvagens. Ensi assume a liderança, rindo loucamente, e as guerreiras puxam seus véus sobre os seus rostos enquanto ela lança o primeiro punhado de pó azul. Ela atinge três soldados, os cegando e eles gritam e soltam suas armas para arranhar seus olhos. Ensi se lança para o chão, virando as suas formas ~ 262 ~


caídas para pulverizar mais pó na próxima fileira de homens. Em seguida, o resto de nós nos chocamos com a soldados, aço tocando aço. Eu estou de costas para Nessa, meus ouvidos vibrando com o som da batalha. Nós caimos em um ritmo, aparando, cortando, se esquivando de lanças. Eu continuo olhando para os degraus, esperando ver Aladdin líderar os reforços, até que os soldados se fecham sobre nós e eu sou forçada a me concentrar na luta. As guerreiras são espertas e elas pegaram os soldados separados. Qualquer uma das meninas é a combinação de dois soldados, mas estamos em desvantagem quase 12/56, e mais soldados, sem dúvida, chegarão a qualquer momento, uma vez que Sulifer souber que estamos aqui. Um homem acerta as minhas pernas com sua lança, tentando me fazer tropeçar, e eu salto sobre ele e giro, a minha espada pegando seu braço e obrigando-o a soltar a arma. Ele pousa sobre os joelhos, branco com a dor, e eu o deixo inconsciente com o punho da minha espada. Com um momento para respirar, eu olho em volta e vejo que estamos sendo pressionadas para trás, seus números provando ser muito maiores. Mais soldados vêm correndo da nossa esquerda, e eu ouço Sulifer gritando acima deles: — Mataem a rainha traidora! Me tragam a lâmpada! Eu abaixo as minhas mãos e fecho os olhos, me deixando dissolver no vento, fumaça escarlate. Eu incho e me expando, enchendo a rua larga e obscurecendo a visão dos soldados. Os recém-chegados param, confusos e desorientados, cortando cegamente o nevoeiro. — Recuem! — Caspida chora. — Para mim! As guerreiras seguem o som de sua voz, e eu as cubro quando elas se retiram atrás da parede. Enquanto as meninas recuperam o fôlego, os soldados avançam a partir do palácio, suas fileiras enormes com Eristrati vestido de preto. Eles pressionam lentamente, cegos pela minha fumaça, mas impulsionados para frente pelos comandos de Sulifer. Eu me junto a princesa, deslocando para trás em minha forma humana. — Eles estão quase em cima de nós, — eu digo. — Trinta, quarenta, talvez cinquenta deles e mais. Nós não vamos durar cinco minutos.

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Acima de nós, o céu está ficando mais escuro apesar do sol nascente. Nuvens negras se reúnem perto do cume do Monte Tissia, e eu sei que Zhian chegou a Nardukha, e que o nosso tempo está acabando. Eu observo a montanha ansiosamente, sabendo que a verdadeira batalha espera em seu pico. — Não temos escolha, — murmura a princesa, me puxando de volta para a batalha. — Irmãs, eu lamento ter levado você a isso. — Nós irímaos de qualquer maneira, — diz Nessa, e as outras acenam e agarram as mãos. — Se vamos morrer, — diz Raz, — vamos morrer lutando. Naquele momento, um grito atinge nossas cabeças. — Para a Rainha Phoenix! — o grito sobe. — Para o povo! Aladdin aparece, correndo pela rua, carregando uma espada que ele arrumou vai saber aonde. Atrás dele, uma horda de pessoas estão correndo, segurando facas e foices, bastões e chicotes de camelo. Açougueiros, vendedores de tapetes, peixarios, donas de casa, Parthenians de todas as idades e tamanhos, homens e mulheres ambos, levantam um grito poderoso. — Para a Rainha Phoenix! — Para o povo! E até mesmo alguns gritos espalhados de: — Para o filho do alfaiate! Todos eles usam braçadeiras vermelhas e alguém agita uma enorme bandeira com um símbolo Phoenix nele, provavelmente roubado de um templo para Nykora, a deusa Phoenix. Aladdin grita quando ele nos vê. Ele está ladeado por Dal e Balak, a menina e o porteiro dos Ringues. Atrás de nós, os soldados vacilam, percebendo que já não são maioria, não quando confrontados com as pessoas que eles estiveram oprimindo, enganando e escravizando por anos. Em algum lugar em direção ao palácio, Sulifer está gritando, — Lute, seus tolos! Eles são apenas camponeses com madeira! Mas muitas dessas madeiras são afiadas ou estão em chamas, e

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alguém lança uma estaca flamejante para os soldados. Ela cai inofensivamente na frente deles, espalhando brasas, mas quebra a coragem dos homens armados. Eles recuam, mas não rápido o suficiente. Aladdin chegar até a mim, assim quando a luta irrompe. Ele está rindo descontroladamente, jogando a cabeça para trás e cantando. Pulando para cima da parede, ele me puxa atrás de si, acenando com a espada como um louco. — Assim que eu disse a eles quem realmente era a Phoenix, e que ela precisava da nossa ajuda, eles largaram tudo! — diz ele. — Olhe para eles! Eles são fantásticos! — E olhe para você, — eu respondo, sorrindo. — Uma revolução de um. O que aconteceu com não lutar por causas perdidas? — Eu acho que encontrei uma causa que vale a pena lutar, — ele murmura, se inclinando para um beijo, mas então seus olhos se fixam algo atrás de mim e seu rosto endurece. Me viro para ver Caspida de pé perto do palácio abaixo de uma varanda do segundo andar, sua espada levantada e suas guerreiras em torno dela. Acima dela, Sulifer se inclina sobre o corrimão com os olhos furiosos. — Ele não vai nem descer e lutar, — rosna Aladdin. — Que covarde. — Vamos. — agarrando a mão de Aladdin, eu mergulho através da batalha, evitando lança e espada, até chegarmos ao lado de Caspida. — Desce, tio! — a princesa chama. — Acabou! — Você acha que uma idiota com facas de cozinha faz de você uma rainha? — ele retorna. Caspida olha de volta para o povo, lutando com unhas e dentes contra os melhores soldados equipados. Para seu tio, ela responde: — Eles são exatamente o que me faz uma rainha. — Então, vamos ver como eles se saem contra meu exército real. — ele puxa sua capa o chifre de carneiro preto que eu fiz para ele na noite passada. Caspida franze a testa, inquieta. — O que ele está fazendo? — ela pergunta.

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— Olhe, — murmuro. Sulifer levanta o chifre aos lábios e soa a chamada. Ele toca quando o vizir assopra e sua explosão ecoa ao longe. Caspida está muito quieta, sua mão apertando o punho de sua adaga. Atrás de nós, os homens e as mulheres continuam a lutar, os camponeses se movendo como lobos. Mais deles inundam dentro da cidade, até que o ruído é ensurdecedor. Sulifer soa outra explosão, mas é quase abafada pela briga. Ele abaixa o chifre, seus olhos se fixam em mim, exigindo uma explicação. Eu levanto meu queixo e olho desafiadoramente para ele. — Mesmo a sombra mais escura não pode estar diante da luz do sol, — eu grito. — Toda criança sabe disso. — Você quebrou as regras! — ele grita. — Eu disse, ‗invencível para qualquer e todas as forças, quer de Ambadya ou deste mundo‘! — O sol não é deste mundo. Ele pertence aos céus e aos deuses. Seus homens-sombra não virão, mas não até a noite. — Rendição, tio! — chama Caspida. — Que ninguém mais morra hoje! Podemos conversar e resolver isso entre nós! Ele só rosna em resposta e se vira para desaparecer no interior do palácio. Caspida começa a ir em direção às portas, com a intenção de persegui-lo, mas eu pego o braço dela. — Princesa, temos um problema maior. — O quê? Eu aponto para Monte Tissia. Acima de seu cume, nuvens escuras rolam e trovões soam, anunciando a vinda dos gênios. Eles dão a montanha a aparência de um vulcão em erupção. — O Shaitan estará aqui a qualquer momento. Caspida empalidece. — Eu pensei que tivéssemos mais tempo. — Você tem a sua luta aqui, — eu digo. — Me deixe lidar com Nardukha. Use o seu último desejo para enviar a mim e Aladdin para o

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Monte Tissia. Somos nós que ele quer. Se eu não encontrá-lo lá, ele virá para esta cidade, com toda a força de Ambadya e nada vai impedi-lo depois. — Eu posso ir com você. Eu balanço minha cabeça. — Este é o lugar onde você pertence, com o seu povo. Ela olha em volta para o caos, as donas de casa e açougueiros, pescadores e mendigos, muitos armados com nada, além dos punhos nus contra os guardas de Eristrati e o palácio organizado. Os olhos de Caspida seguram orgulho e tristeza. — Você está certa, — diz ela, encontrando o meu olhar. — Mas Zahra, você deve impedi-lo. Não podemos nos tornar outro Neruby. Eu assinto e pego a mão de Aladdin. Ele sorri, mas eu vejo a preocupação em seus olhos. Minha pele fica quente de vergonha. Se ao menos houvesse alguma maneira de mantê-lo fora disso, enfrentar Nardukha sozinha. Mas o Shaitan rasgaria Parthenia pedra por pedra para encontrar o ladrão. O mínimo que podemos esperar é que ele vá poupar a cidade e seu povo. — Sinto muito, — eu sussurro. — Aladdin, eu não sei o que vai acontecer naquela montanha. Eu não sei se podemos— Tenha fé, — diz ele suavemente, cobrindo meu rosto com a palma da mão, — Isto ainda não acabou. Aconteça o que acontecer, nós estaremos juntos. Caspida levanta a lâmpada de seu cinto, quando suas guerreiras diminuem o perímetro em torno de nós. Os soldados estão se reagrupando, e meia dúzia deles vêm em direção à princesa. Ansiosidade torce o meu estômago quando eles se chocam com as guerreiras, que mal mantém suas posições contra os homens maiores e mais fortes. — Depressa, Caspida! — eu peço. Ela balança a cabeça e mantém a lâmpada entre nós, seus olhos se encontram com os meus. — Eu desejo que você, Zahra da Lâmpada, e você, Aladdin de Parthenia, vão com toda a velocidade até o cume do Monte Tissia e defenda ~ 267 ~


todos nós do Shaitan e seus gênios. Naquele momento, os soldados rompem a defesa das guerreiras. Caspida gira, puxando a espada e joga a lâmpada em direção Aladdin. Ele o vínculo familiar se forma entre nós mais uma vez. Inflo pelo desejo de Caspida, redemoinhos dourados de mágica cintimalam ao longo da minha pele. Mas eu ainda hesito, olhando para os soldados se aproximando de Caspida e suas meninas. Elas lutam descontroladamente, seus cabelos voando, brilhando com as pontas de aço, o pó envenenado de Ensi brilhando à luz do sol. Um Eristrati, empunhando uma cimitarra Eskarr, corre até a mim, sua espada levantada. Aladdin se move como um relâmpago, se atirando na minha frente e combate o homem, sem se importar com a arma. Ele acerta o homem uma vez na mandíbula antes do Eristrati jogá-lo para longe e se levantar, a cimitarra caindo em direção do pescoço de Aladdin. Mas o homem congela, ofegante, quando as a lâmina de Caspida passa através de suas costas. — Vá! — ela grita, sangue riscando o rosto dela, enquanto ela ajuda Aladdin a se levantar. — Esta é a nossa luta! A sua é na montanha – saiam daqui! Ela empurra Aladdin para mim, e ele agarra minha mão. Eu sofro com a magia, nada é capaz de resistir à atração de terceiro desejo de Caspida. Deixando-a para sua batalha, eu puxo Aladdin para perto e emito uma tela de fumaça vermelha em torno de nós. Nossas roupas esvoaçam, nós seguramos firme um ao outro e fechamos nossos olhos enquanto o mundo gira em torno de nós. O rugido caótico da luta desaparece, substituída por uma corrida ensurdecedora do vento. Aladdin me esmaga contra seu peito, seus braços firmemente em torno de mim e ele pressiona seus lábios na minha testa. — Juntos, — ele sussurra. — Não importa o que. Eu me apego a ele com toda a minha força, suspirando um pouco quando o último pingo da magia se afasta de mim. Tudo pára. A fumaça se desfaz e se dissipa. Deixo que ele me segure por mais um momento antes de me afastar e soltar uma respiração profunda.

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Aqui estou eu mais uma vez, onde tudo começou, na pedra, no pico frio do Monte Tissia. Em torno de nós, a cúpula se estende amplamente antes de descer ao chão de uma série de planaltos pedregosos. Nem plantas ou animais podem ser encontrados aqui, onde o vento é afiado como facas, com rajadas em torno de nós com um uivo lúgubre. Nuvens rodopiam acima e abaixo do pico, obscurecendo as terras em todas as direções, até parecer que estão totalmente à parte do mundo. Uma enorme estrutura construída nos dias em que os deuses caminharam sobre a Terra. Quatro pilares apoiam um telhado abobadada de pedra negra que evoluiu com veias azuis brilhantes, uma antiga magia muito mais poderosa do que eu poderia exercer. Foi extraída da rocha que uma vez apoiou a grande ilha de Phaex, onde os deuses se banqueteavam em cada solstício de verão, e que afundou no mar muitos séculos atrás. Uma vez porta de entrada para os deuses ou Ambadya, agora só os gênios usam. No centro está a própria porta, um anel perfeitamente redondo e contínuo de pedra. Há doze dessas portas no mundo, cada um com o nome de um deus diferente. Este é conhecido como o Olho de Jaal. Dois contrafortes enormes esculpidos nas semelhanças de homens ajoelhado lado a lado com o anel apoiado em suas costas. Normalmente, a porta fica vazia e silenciosa, mas agora forma um túnel com redemoinhos e ondas de fogo, criando um caminho para o mundo dos gênios. Azul, vermelho e verde, o fogo queima, mais quente do que qualquer chama mortal, o suficiente para transformar um homem de carne em cinzas em um piscar de olhos. Do Olho exala o cheiro de enxofre e fumaça. E depois há os gênios. Eles se agacham em torno de nós, pairam no ar, alguns vistos, alguns invisíveis. Carniçais e maarids, ifreet e sila. Eles são silenciosos como a morte, observando com olhos dourados. Muitos mostram seus dentes, silenciosamente sibilando, tornando seu ódio para mim muito claro. Para eles, eu sou a traidora. Aladdin coloca um braço em volta de mim, como se quisesse me proteger contra a horda de gênios. — Você sabe que não tem chance, — eu sussurro. Aladdin olha para mim, sua mão apertando o meu braço. — Ainda

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estamos vivos, não estamos? Qual é. Onde está seu senso de aventura? Mas sua tentativa de aliviar o clima fica aquém, e ele aumenta o controle sobre a lâmpada. Quando uma figura aparece no túnel de fogo, minha respiração pára. Um farfalhar atravessa os gênios, e eles se transformam e sussurram quando a figura anda, plantando um pé sobre a pedra. É Zhian, meio homem, meio animal. Ele usa vestes negras, a cabeça com chifres e em seus braços sobem armaduras, como se em antecipação a batalha. Seu olhar passa sobre nós, demorando um pouco sobre Aladdin, toda fúria e fogo. — Você está precisamente no tempo, — diz ele, aparentemente calmo. Ele se vira lentamente para enfrentar o Olho, nos dando uma visão das suas costas musculosas e sua longa trança preta. Ele levanta seus braços e cerra os punhos, as veias altas em seus braços. Em torno de nós, os gênios começam lentamente a bater na pedra, um processo lento, a medida que ecoa através da montanha. Isso envia um arrepio na espinha. Seus sussurros vêm em seguida, mil e uma línguas. Ele está vindo! Ele está vindo! Aladdin me aperta em seus braços, e eu me encolho nele, doente de medo. O bater dos gênios começa a ficar mais rápido e mais alto, e o vento gerado pelos chicotes gira em torno de nós, puxando e empurrando. Ele está vindo! Ele está vindo! Zhian cai de joelhos, estendendo as mãos na frente dele. Todos os olhos estão fixos na porta, naquele túnel hipnotizante de chama que parece se esticar até o infinito. O calor se intensifica. Eu posso sentir o pulso acelerado de Aladdin por nossas mãos juntas, mas ele não se abala. Logo as batidas dos gênios se tornam ensurdecedoras e, então - tudo ao mesmo tempo - tudo pára. O barulho. O vento.

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Em seguida, somos arrastados por uma onda maciça de ar que pulsa para fora da porta, rolando como um trovão. Um vento sulfúrico quente com a força de uma onda sai do Olho, nos pressionando para baixo. Nas chamas, uma sombra aparece, alto como três homens, com chifres e escuro, fogo e fumaça. Dois olhos como carvões tremulam, seus olhos totalmente negros. Me levanto devagar e luto contra o vento, levantando Aladdin comigo. A figura passa através do fogo, plantando um pé enorme no chão da montanha. Em seguida, ele solta uma risada estrondosa e suave, um som que é só respiração e vento, mas de alguma forma consegue ser ensurdecedor. Aquela risada envia um calafrio crepitante na minha espinha. Nardukha chegou.

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Por fim, quando a poeira abaixou, a Rainha e o gênio ficaram no topo da montanha e olharam para o campo de batalha e os corpos espalhados como folhas através do deserto. A rainha caiu de joelhos, cansada e ferida, e sua espada caiu de sua mão. Diante dela, a porta de entrada para Ambadya queimava com fogos de todas as cores. — Tudo o que eu queria, — disse a Rainha, — era paz entre nossos povos. Mas agora vejo que isso não é possível, pois o meu povo é governado por uma sonhadora e os gênios são governados por um monstro. Meu único consolo é que estás do meu lado, o meu gênio. Eu morreria na companhia de um amigo, e te darei meu último suspiro. Para isso eu tenho um desejo restante, e é por causa da tua liberdade, sim, mesmo à custa da minha própria vida. Nisso, o gênio sacudiu a cabeça, respondendo: — Não, minha rainha. O tempo para desejar já passou. Pois aqui está o Shaitan, o Senhor de todos os gênios e Rei de Ambadya. E mesmo enquanto falava, os incêndios na porta ficaram mais altos e, através deles apareceu Nardukha Shaitan, terrível de se ver. — Ó mulher insolente, — disse o Shaitan, olhando para a Rainha. — Tu ousas a fazer o desejo proibido? — Sim, — ela respondeu. — Porque eu não te temo. — Então, tu és uma tola. Como o coração da rainha transformado em cinzas, percebendo que sua condenação estava sobre ela, o Shaitan se virou para o gênio e disse: — Tu recorda a primeira regra de teus parentes, gênio? E o genio respondeu: — Não ame nenhum ser humano. — E tu tens mantido este mandamento? — Senhor, eu tenho. — e ela se levantou quando a Rainha gritou em desespero.

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— Não somos como irmãs? — perguntou a Rainha. — Um só coração e um só espírito? E o gênio respondeu: — Não, porque eu sou uma criatura de Ambadya, e, portanto, é a minha natureza enganar e trair. Meu Senhor finalmente chegou, e eu faria tudo o que ele mandar. O Shaitan, olhando com aprovação, disse ao gênio, — Esta menina humana é orgulhosa e tola, achando que ela poderia governar homens e gênios. Estou bem satisfeito contigo, minha serva, que tu a trouxe para mim. Matar a rainha e provar a tua lealdade para com o teu rei. E o gênio sorriu, e em seus olhos um incêndio aumentou. — Com prazer, meu Senhor. Então, com um riso mau, ela acabou com a boa e nobre rainha, a mais poderosa e mais sábia de todos os monarcas Amulen, cujo único erro foi que ela se atrevera a amar um gênio. - Sons da queda de Roshana, Última Rainha de Neruby por Parys zai Moura.

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C De mãos dadas, Aladdin e eu paramos diante do Shaitan. Sob o olhar primal do Nardukha, tudo que eu quero fazer é me esconder e fugir, mas me concentro no pulso de Aladdin na minha mão. — Nardukha. — eu levanto meu queixo, encontrando seus olhos negros. O Shaitan é velho, mais velho ainda do que a raça dos homens. Ele foi uma das primeiras criaturas formadas pelos deuses, há muito tempo quando Ambadya foi exuberante e bela. Olhando para ele agora, eu não encontro nada remotamente humano. Sem emoção, sem piedade. Ele é mais uma força da natureza que um ser vivo, como um vulcão caminhando. Raramente ele coloca o pé neste mundo - e suas visitas nunca resultam em outra coisa senão catástrofe. Ele olha para baixo lentamente, seus olhos mudando de mim para Aladdin. Então, com um som como um trovão, um pilar de fumaça negra o envolve. Quando cai, Nardukha está não muito mais alto do que nós, vagamente em uma forma humana. Sua pele é negra e carbonizada, suas articulações rachadas revelam músculos vermelhos. Suas vestes são fumaça e seda, e em vez de cabelo ele tem dois chifres salientes imergindo de seu crânio alongado. Ele é um pesadelo. — A-garota-da-estrela-perdida, — ele murmura. Sua voz é suave e bonita, clara como um cristal e doce como o mel. Eu me protejo contra o fascínio perigoso daquela voz. — O que é que você fez? — Eu libertei Zhian, — eu digo, chamando a sua atenção para mim. — Eu mantive minha parte do acordo. Mas você nunca iria me conceder a liberdade, iria? Foi tudo uma mentira. — Você estava sendo liberta de sua lâmpada, assim como ele ~ 274 ~


prometeu, — Zhian a corta, subindo para nos enfrentar. Fúria iluminaseus olhos. — E depois? — eu estalo, meu olhar ainda no de Nardukha. — Ser morta? — Se unir a mim, — diz Zhian. — Como você sempre foi feita para ser. Eu sei o que ele quer dizer, a cerimônia em que os gênios executam algum tipo de casamento pervertido. Eu teria sido obrigada a Zhian em todos os sentidos, incapaz de desobedecer as suas ordens. É semelhante ao vínculo que Nardukha detém sobre todos os gênios, e o pensamento de ser feita escrava de Zhian dessa forma é repulsivo. Mais uma vez, outra das ‗acordos‘ de Nardukha acabou por ser nada mais que um truque. Da última vez, Ghedda pagou o preço das minhas esperanças tolas. Agora será Aladdin que sofre. — Eu preferiria estar vinculado a minha lâmpada do que ser obrigada a você, — eu rosno. Zhian abre a boca para responder, mas fica em silêncio pelo olhar do Shaitan. Nardukha circula Aladdin e eu, sua fumaça enrolando em torno de nós. — Meu caro gênio, — ele murmura. Sua voz é o vento sobre brasas. — Mais poderoso do que qualquer outro, feito de fogo e água, da terra e do ar. Por que você me detesta? A horda de gênios se levanta em uma vibração, como um assobio sussurrando através do ar. Nardukha os silencia com uma única mão erguida. — Por que isso importa muito para você? — pergunto. — Do que você tem tanto medo? Mesmo quando eu digo isso, a resposta me atinge como uma pitada de água gelada. Nardukha teme o desejo proibido. É um desejo que ele não pode parar de acontecer, porque a magia por trás dele é mais velha até do que ele. É um poder muito maior do que qualquer Shaitan poderia exercer. E o amor, o amor faz com que as pessoas façam coisas estúpidas, como se sacrificar um para o outro. Nardukha teme

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amor, porque ele teme que isso vá levar ao desejo proibido e minha liberdade. Pela primeira vez, eu percebo que eu poderia ser forte o suficiente para derrotá-lo. Se eu fosse deixar Aladdin fazer o desejo, dando a sua vida em troca da minha, talvez eu pudesse derrotar Nardukha então. Mas eu já sei que não vou deixar isso acontecer. O preço não é um que eu estou disposta a pagar. — Você quebrou a primeira regra dos gênios, — burburinha Shaitan, sua voz perigosamente baixa. Ele pára na minha frente. — E você deve ser punida. Antes que eu possa dizer outra palavra, uma mão envolve em torno do meu braço. — Solte ela! — grita Aladdin, agarrando o braço de Nardukha e assobiando quando a pele do Shaitan queima sua mão. Zhian dá passos para frente e facilmente leva Aladdin para o chão, que tinge a cabeça na pedra dura. Sorrindo, Zhian puxa a lâmpada para longe do ladrão. A ligação entre Aladdin e eu quebra, e eu sou deixada suspensa, nem confinada a minha lâmpada, nem ligada a um novo mestre, porque o poder de concessão de desejos é destinado somente para os seres humanos, não gênios. Pelo menos isso é algo para ser grata. Eu não tenho que sentir a vontade de Zhian invadindo a minha mente. — Zahra é minha, menino, — diz Nardukha. — Eu a criei. E na minha benevolência, eu permito que vocês criaturas ridículas a tomem emprestado. Mas, como sempre, vocês ficam gananciosos. — Ela não pertence a você, — Aladdin declara, se levantando, a sua testa se enrrugando. — Ela não pertence a ninguém. — Você acha que a ama? Você não pode sequer compreendê-la. — a voz de Nardukha que deixa com frio. Ele me olha nos olhos, sua mão queimando minha pele. Eu temo o cálculo em seu olhar sombrio. Olhando para ele, eu percebo quão fútil qualquer luta é. Ele vai ganhar. Ele sempre vai ganhar. Contra ele, não tenho mais nada além de um desafio vazio. Eu vou morrer hoje, e Aladdin vai morrer comigo. Eu o amei até a sua morte, assim como eu fiz com você, Habiba. Esta tem sido a

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grande lição da minha longa vida: amar é destruir. Com um olhar de desgosto, o Shaitan me joga para baixo, e eu caio de joelhos na terra dura. Posso dizer que Nardukha está ficando entediado. Ele não é de longas conversas. Sua punição é sempre rápida e absoluta. Me viro para Aladdin, meu corpo ficando dormente, meu peito mais vazio do que nunca. — Sinto muito, — eu sussurro. Ele pega o meu rosto com as mãos. — Eu não sinto. Eu não sinto muito ter conhecido você. Eu não sinto muito ter me apaixonado por você. Eu não tenho arrependimentos, Zahra, e você também não deveria. Eu te amo. Uma explosão de dor corta através de mim, e de repente Aladdin e eu somos rasgados e jogados por uma explosão de energia irada do Shaitan. Ele dá um passo entre nós, eriçado, e me puxa na posição vertical com uma mão em torno da minha garganta. — Chega, — ele rosna, sua voz melosa se transformando em pedra. — Antes que eu te estraçalhae, vou na minha misericórdia permitir que você se arrependa. Você vai me mostrar sua fidelidade e você vai implorar por perdão. Suas palavras começam a inchar com o poder que ele chama de magia, lixiviando da pedra e céu, do fogo e carne. Energia corre do mundo e gira sobre ele, e eu tremo quando ele me solta, minha mão indo para a minha garganta dolorida. Eu sei o que vem a seguir. O vi exercer um poder como este antes. Eu sei quais palavras que ele vai falar antes mesmo que ele diga, mas ainda assim eles cravam como um machado de batalha, implacável. — Mate o garoto. Com essas palavras, o poder que ele tem se fecha em torno de si, e a força corre sobre mim em uma onda. Eu me levanto, ofegante, — Não. — Mate-o. — Cada palavra é um martelo contra a minha testa, me levando à submissão, me obrigando a obedecer. A compulsão é mais forte ainda do que um desejo, pois é um tipo diferente de mágica, puxando o vínculo entre criador e criatura. Eu me viro para Aladdin, de olhos arregalados, o meu coração de ~ 277 ~


fumaça explodindo em fragmentos afiados. O comando de Nardukha se arrasta em toda a minha fibra. Ela sussurra através dos meus pensamentos, confundindo minha mente. Mate-o. Sim, isso é o que eu quero. Não! Não é! Você o ama! Mas eu quero matá-lo. Não, você não quer! Obtenha o controle de si mesma, Zahra! Meu nome não é Zahra. Ele te ama! Ele é apenas um mortal. Apenas um garoto, um momento no tempo que vai passar logo. O nome dele é Aladdin. Eu conheci mil e um como ele. Eu conheci um mil e mais um. Ele não é nada. Ele é tudo. — Zahra? Minhas pernas se transformam em fumaça. Meus olhos viram fogo. Eu me levanto, as mãos estendidas, os dedos estalando como um raio. Ele chia até meus braços, chamuscando a minha falsa pele. Não sou humana. Eu sou um gênio, o mais poderoso de todos os filhos de Nardukha, exaltada acima de todos os exércitos de Ambadya. — Trema, mortal, — eu entoo em mil e uma vozes. — Eu sou a escrava da lâmpada. — Não! — o cabelo do rapaz bate em seurosto quando o vento da minha respiração enrola em torno dele. — Seu nome é Zahra! Acima da montanha, nuvens rolam e se multiplicam, piscando com relâmpagos. O vento quente uiva através das colunas, e no vento estão os gênios, e os gênios estão rindo.

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— Zahra! — o menino levanta a mão, tentando bloquear a areia que arde seus olhos. — Eu sei que você pode me ouvir! Pare com isso! Você é mais forte do que isso! Eu movo os meus olhos para o meu mestre, que está glorioso e brilhante como um deus. Ele sorri para mim, e eu aproveito a sua aprovação. Mate-o. — Eu te amo, — sussurra o menino, suas palavras me atingindo improvavelmente através do vento uivando e o fogo crepitando. — Eu te amo. Você me ouve? Eu te amo. Não importa o que. Mate-o. Estendo minhas mãos para ele, me preparando para lançar o raio que chia em meus dedos, me picando como mil e uma cobras irritadas. MATE-O. Eu suspiro, e as palmas das mãos queimam, um branco cegante enquanto o raio de desfaz e se refaz. Então, algo reflete na minha mão, puxando a minha visão, apenas por um momento. Um anel. O anel que eu forjei para o ladrão dar à princesa, que ele me deu em vez disso, e com ele, seu coração. Os símbolos que eu gravei no ouro parecem brilhar para mim: Amor, eterno, infinito, união. Símbolos de poder, símbolos da verdade. Eles queimam em meus ouvidos, chamuscam em minha alma. O tempo retarda. As nuvens sobrecarregadas rolam para trás. Meus pensamentos tropeçam e voltam. Mate-o. Mate-o? Mas eu amo ele. ~ 279 ~


O momento é apenas um piscar de olhos. Não há tempo. Uma segunda ordem de Nardukha vai sobrecarregar meu coração. Eu vou matá-lo. Eu não tenho uma escolha. Eu nunca tive uma escolha. Não. Eu tenho uma escolha. O que foi que Aladdin disse para mim, há muito tempo? Você não pode escolher o que acontece com você, mas você pode escolher quem você se torna por causa disso. Eu não posso parar Nardukha de matar a nós dois, mas eu posso optar por não ser o monstro que ele quer. Zhian ainda está de pé perto do Olho, segurando minha lâmpada com um dedo enrolado através da alça pendendo a seu lado. Não confiando em mim para pensar sobre isso, não ousando tomar outra fração preciosa de um segundo, eu atiro o raio das minhas mãos - em direção a Zhian. O príncipe gênio se afasta, mas não rápido o suficiente. A energia queimando o golpeia no peito, fazendo pouco dano, mas o deixa sem equilíbrio. Ele pode segurar a lâmpada, mas ele é um gênio e não pode me dar ordens, então seu poder não o protege do meu ataque. Antes que ele possa se recuperar, eu estou sobre ele, me movendo em direção a ele como um redemoinho de fumaça. Meus braços envolvem em torno dele, e eu nos impulsiono para frente, para o grande Olho de Jaal e o túnel de fogo lá dentro. À medida que cruzo o limiar, Zhian grita e solta a lâmpada, mas é tarde demais. O tempo volta a correr. A nuvem acima se sobrecarrega e explode como um raio. Zhian é sugado para dentro do túnel a perder de vista, gritando em fúria. Eu começo a entrar em minha lâmpada, a medida em que me aproxima em direção às chamas famintas. Nardukha reage, se aproximando - mas não rápido o suficiente. A lâmpada cai cai cai Cai no fogo de Ambadyan, a única força neste mundo ou no próximo

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capaz de destruí-la. Eu tenho tempo só para sorrir, meu rosto momentaneamente se formando através da fumaça e eu sussurro para Aladdin antes das paredes de bronze se fecharem sobre mim e começar a derreter nas chamas. — Eu te amo.

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C Eu derivo sem forma. Onde é que os gênios vão quando morrem? Os seres humanos são destinados as terras dos deuses, onde eles irão habitar facilmente ou labutarem pelos deuses, dependendo de suas ações na vida. Mas os gênios são amaldiçoados, e muitos acreditam que não têm alma. Quando eles morrem, eles simplesmente desaparecem. Mas eu ainda estou aqui - onde quer que seja aqui. Lentamente eu disperto, minha consciência reluta em acordar. Estou como fumaça, arejada e fina, bem aberta através de um céu escuro. Com muito esforço, eu sou capaz de me levantar, me encontrando em uma única peça. Instintivamente eu alcanço minha lâmpada, mas não posso senti-la. Então eu me lembro - ela se foi. A vi derreter no fogo de Ambadya, senti as chamas ardentes em minha própria pele. Meu destino está ligada à lâmpada. Mas eu não estou morta. O pensamento envia uma sacudida através de mim, e eu faço um balanço do que me rodeia. O céu acima é escuro, mas não há estrelas, sem lua e sem nuvens para obscurecê-lo. Abaixo eu vejo apenas areia, varrendo cada horizonte negro. Eu olho minha forma humana, girando em um círculo completo. E então eu vejo: a única coisa a ser vista. Uma porta meio afundada na areia. Uma porta. Eu reconheço de imediato. Eu a abro, porque eu sei que é o que eu estou destinada a ~ 282 ~


fazer. Certeza de que eu não estou em Ambadya se instala, nem na terra dos deuses, nem no mundo humano. Onde eu estou, eu não posso dizer, mas meu melhor palpite é que eu ainda estou queimando na minha lâmpada, e esta é uma alucinação febril. Tudo o que posso fazer é seguir o caminho diante de mim. Os degraus atrás da porta não estão quebrados e cobertos de areia, como estavam quando Aladdin pôs os pés aqui - ou na versão real do aqui. Apesar de ter afundado abaixo do deserto, o lugar parece o mesmo no dia em que foi criado, quando você disse que desejava um jardim que nunca iria desaparecer, Habiba, mais bonito do que qualquer outro no mundo. As árvores de jóias refletem a luz dos diamantes brilhando acima, espalhando manchas de vermelho, verde e azul da luz como vaga-lumes dançando. Água corre através do riacho forrado com pedras de prata e ouro. Um vento suavemente sacode a grama de esmeralda, enchendo o ar com um tilintar musical. Eu ando através do jardim, me sentindo solta do meu próprio corpo. À frente, eu posso ver onde eu estou destinada a ir. A lâmpada está no trono, esperando por mim. É como se minha mente estivesse reescrevendo o dia em que Aladdin e eu nos encontramos. Quando eu chego ao trono, eu olho para a lâmpada por um longo momento, meus olhos traçando os contornos familiares com uma mistura de ódio e amor. Eu fui obrigada a fazer isso por tanto tempo, desprezando-a, amaldiçoando-a, mas tem sido a única constante na minha longa vida solitária. Trata-se de uma casa em uma forma destorcida, mas uma casa. Eu estendo a mão e tenho a estranha sensação de estar dentro da lâmpada, ao mesmo tempo olhando para mim, me sentindo cada vez mais perto. Mas antes que minhas mãos posam tocá-la, o bronze derrete, borbulhando e escorrendo, pingando no chão. Eu salto para trás, meu estômago doendo quando eu imagino o que seria estar dentro dela quando isso aconteceu. Ainda pode estar acontecendo. — O que está acontecendo? — murmuro. — O que é este lugar? E por que não estou morta? — Claro, você já sabe. ~ 283 ~


Eu giro e chupo uma respiração. Você está diante de mim, Habiba, vestida com a mesma armadura e couro que você usava no dia em que morreu. Seu cabelo é longo e solto, com pequenas tranças atrás de suas orelhas. Você brilha como uma deusa, mas sua carne carrega as feridas e contusões da batalha. — A vida como sacrifício, — você entoa, — vos libertará. E não é isso o que o Shaitan mais teme? Um gênio com o poder de conceder seus próprios desejos? — Eu não posso conceder meus desejos. — O que você faz melhor, senão transformar desejos em realidade? Você queria morrer para que o menino pudesse viver, e você fez esse sonho se realizar. Você abriu uma porta para uma mágica perdida há muito tempo, muito mais poderosa do que qualquer um Shaitan empunha. Um sacrifício pela liberdade - esse é o desejo proibido. Você fez o sacrifício, agora aceite a conseqüência. Liberdade carrega grande responsabilidade. Eu fico olhando para você, minha mente em uma enxurrada de perguntas, mas não posso articular nenhuma delas. Com um sorriso, você se aproxima e pressionana seus lábios na minha testa. — Viva, minha velha amiga, — você diz. — E lembre-se: o tempo é a magia mais forte. Você desaparece quando a sala começa a tremer, assim como fez no dia que Aladdin me roubou. Eu corro rapidamente, me esquivando dos pedaços de pedra que caem do teto. Areia derrama em cachoeiras ao redor, enterrando as jóias cintilantes. Eu alcanço as escadas, abrindo a porta para encontrar não um deserto, mas um vazio. O universo gira em torno de mim, estrelas brilhantes, galáxias pulsando explosões de cor. Olhando para trás, vejo o jardim em colapso, ficando cada vez menor. Chamas correm em minha direção, e sem pensar duas vezes, eu pulo. Eu caio e rolo, sentindo a adrenalina do vento em torno de mim, e eu perco todo o senso de peso e direção. O universo se desenrola em torno de mim em uma dança de brilho, luz e cor, abrindo círculo a círculo, cada um em padrões ondulados e ~ 284 ~


elaborados: sol e rosa, estrelas do mar e roxo, a boca de tigre e a orelha de um elefante. Eu caio no centro. As estrelas nascem, envelhecem e explodem em novas estrelas. Galáxias florescem como flores, atirando tentáculos de luz, repleto de vida. Planetas giram ao redor de um milhão de sóis brilhantes, e eu vejo tudo. Eu estou girando para fora do tempo. Eu estou no limite da eternidade, olhando para todos os mundos brilhantes. Eles são amarrados em fios invisíveis em uma vasta tapeçaria, cada um puxando os outros, tudo ligado pelas melhores linhas. Enquanto observo, os fios tremem e então, o universo canta uma canção profunda, eterna, o som vem em outras, em suspiros profundos, em sussurros, no turbilhão de acordes, subindo e descendo os tons. A música dos mundos, tecendo em um padrão que é ao mesmo tempo caos e ordem, beleza e terror, sem começo e sem fim. Lágrimas correm pelo meu rosto, e eu não me atrevo a piscar. Eu levanto meus olhos, acima de tudo, e vejo as estrelas serem tecidas. Imohel, o Deus dos Deuses. Ele sorri e faz uma breve pausa para tocar um dedo no centro da minha testa, e ao seu toque, eu caio. Caio através das estrelas. Através do tempo. Através da luz, do vento e do fogo. Através da fumaça e um céu cinza como cinzas.

***

Nardukha está no mesmo lugar, olhando furiosamente para a porta de fogo. Menos de um momento se passou desde que eu me joguei no fogo, determinanda que em não repetir o passado, não ferir Aladdin como eu te feri, Habiba. Determida que, no final, seria a minha escolha. E de alguma forma, funcionou. De alguma forma, eu ainda estou aqui. Eu levo um momento para me encontrar, para determinar que estou ~ 285 ~


de pé na porta, em ambos os mundos e em nenhum dos dois. Eu me viro e vejo as chamas atrás de mim. Eu sou fogo sem fumaça que queima vermelho e azul, indistinguível do fogo que separa o mundo mortal do imortal. Me virando para o mundo humano, eu vejo Nardukha olhar para Aladdin, que olha com descrença para a porta, incapaz de me ver no meio das chamas, acreditando que, sem dúvida, eu estou morta. Ele nem sequer luta quando Nardukha envolve uma mão sobre sua garganta e o levanta no ar. Mas seus olhos começam a se arregalar, e ele engasga com a dor. Ao mesmo tempo em que eu passo pela porta, uma menina de fogo e fúria, tomando forma humana em um vestido de fumaça negra que se enrola atrás de mim. Eu nunca fiquei tão quente. Nunca me senti tão poderosa, nem mesmo na concessão dos desejos mais incríveis. Um novo poder rola através de mim agora, algo completamente selvagem e desenfreado, e eu percebo que está faltando: o cordão invisível que me liga a minha lâmpada. A ligação foi interrompida. Se era realmente você que eu vi, Habiba, ou um fantasma evocado pela minha mente, eu sei que as palavras que você disse eram verdade: ao sacrificar minha própria vida para Aladdin, eu inadvertidamente acionei o desejo proibido. O vínculo entre a lâmpada e gênio é cortada. Eu estou viva. E eu sou livre.

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C — PARE, — eu digo. Nardukha solta Aladdin, que cai no chão. Eu corro em direção ao ladrão, caindo de joelhos ao seu lado. Ele geme e pisca. — Quem é você? — ele sussurra. — Sou eu, — eu respondo. — Fique quieto. Você está ferido. — Zahra? — ele parece perplexo e de repente eu entendo por quê. Eu coloco minhas mãos em meu rosto e chupo uma respiração, pois não é o rosto de Roshana que eu uso. É o rosto de uma jovem rainha Gheddan. Meu rosto. É redondo e suave, o meu cabelo grosso com cachos castanhos e minha pele um tom mais escuro. Como é estranho usá-lo de novo, depois de tantos anos trocando de formas. — Você, — Nardukha geme e eu giro para encará-lo. Há uma cautela nele que eu nunca vi antes. Eu percebo que eu tenho perdido alguma coisa na minha estranha viagem através do Olho: meu medo dele. Por quatro mil anos, mesmo o pensamento dele fez a minha alma tremer. Agora eu olho para ele, e é como se eu visse pela primeira vez e o achasse... falho. O que eu temia nele antes? Com que poder ele me encantou? Fosse o que fosse, tinha sido perdido agora, e eu nunca vou me acovardar diante dele novamente. — Todo esse tempo, — eu digo, me levantando para ficar entre ele e Aladdin, — você tem sido tão desesperado para me manter - para manter qualquer um dos seus gênios - de amar um ser humano. Você sabia o que poderia acontecer se um gênio amasse um ser humano, amasse o suficiente para morrer por ele. É por isso que você foi para a guerra com Roshana - não porque Roshana procurou fazer as pazes com os gênios, mas porque eu a

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amava o suficiente para morrer por ela. Você não podia deixar isso acontecer, porque você sabia o que eu iria me tornar. Você sabia que o desejo proibido poderia trabalhar em ambos os sentidos. — O que você é, — ele suspira, — é uma abominação. Um gênio sem um mestre, sem laços com Ambadya ou os deuses. Existe a ordem por uma razão. Eu não amo o caos por causa do caos. Todas as coisas são mantidas em equilíbrio, e você é um fio solto no tecido do universo. Um movimento errado e você poderia desvendar tudo. — Eu vi os fios do universo, e eles são mais fortes do que você acha. Ajeitando os ombros, os olhos flamejantes de vermelho, Nardukha exala correntes de fumaça negra. — É chamado Desejo Proibido por uma razão, menina. Eu não sou o único que o chamo assim - criaturas como você foram proibidas desde o início dos tempos. Asas incendiam de seus ombros, espalhando o comprimento da montanha. Garras brotam de seus dedos e dentes de seus lábios. Sua pele se transforma em fumaça, suas roupas em chamas. Ele é a sombra envolta em fogo, e ele salta para frente, com a intenção de me destruir. Eu encontro Shaitan no ar, puxando lâminas mágicas. Eu levanto as minhas espadas, as chocando com suas garras em uma chuva de faíscas. — Você não pode me derrotar, — ele sibila, todos os vestígios de forma humana se vão. Ele empurra a cabeça sobre as minhas lâminas cruzadas, encaixando suas presas. Eu rolo de lado, para longe de seus dentes. Esta luta não vai ser determinada por espadas e posições. Os ataques de Nardukha é primal e poderoso e não pode ser superado por táticas humanas. Eu o atraio para longe de Alladin, que está lutando de pé em meio a uma multidão de gênios sibilando. Ele puxa uma pequena faca de sua bota e levanta, uma defesa mesquinha contra as garras de um ghul ou os dentes de um ifreet. — O deixe, — rosna Shaitan e os gênios se afastam. Em seguida, ele faz uma pausa por um momento, seus olhos atentos em mim. Uma vez, eu iria me encolher por ser o centro de sua terrível atenção. Agora, eu quero apenas acabar com isto. Viver ou morrer, esta é uma luta que não posso abandonar. ~ 288 ~


Eu respiro fundo e relaxo, minhas lâminas começam a evaporar. Pego minha magia. E pela primeira vez na minha longa e estranha vida, ele responde a minha chamada. Com um suspiro, eu balanço e quase o derrubo, mas rangendo os dentes, eu defendo a minha terra e me deixo inchar. A magia sempre veio de um ser humano, vindo deles e para mim. Desta vez, o poder nasce no meu centro. É uma sensação completamente diferente. É vertiginosa e assustadora e totalmente emocionante. Ela se espalha como fogo branco através do meu corpo, enchendo meus membros, a minha cabeça, até mesmo meu cabelo. Não posso fazer nada. O Shaitan se transforma na mais poderosa forma de seus gênios, e agora eu realmente sei o que isso significa. Nardukha age primeiro. Ele envia um funil de fogo disparando na minha direção. A onda de calor me bate primeiro, soprando meu cabelo para trás. Eu reago instintivamente, levantando uma parede de fumaça para quebrar as chamas. Até então, ele já está em mim, me golpeando forte no meu estômago e me atirando através da montanha. Eu deixo o impulso de seu golpe me levar para o lugar aberto, sobre o lado da montanha, onde eu me transformo em fumaça da cintura para baixo e pairo no ar. O Shaitan não me segue imediatamente. Em vez disso, ele para na borda da montanha e acenaem sua mão. As nuvens em torno da parte superior proporcionam uma vista de Parthenia abaixo. Ele olha para mim, depois para a cidade, e no momento em que eu percebo, eu me jogo para ele. — Não! Mas ele me manda cambaleando com um aceno de seu braço. Antes que eu possa me recuperar, ele aponta um dedo em direção ao cume, e o monte cede com uma sucessão de rachaduras ensurdecedoras, que começam a brilhar vermelho. O tremor da terra faz com que Aladdin caia de joelhos, e ele se afasta mais para dentro da montanha quando o barulho aumenta. — Aladdin! — eu grito. — Fique abaixado! Horrorizada, eu tento passar por Nardukha para ajudar, mas ele me

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agarra e me atira para fora. Sem parar, ele emite um comando para os gênios, e eles se levantam e começam a voar em direção a Parthenia. — Este é o preço da sua traição! — ele cospe. — Este é o custo do seu orgulho! Ele irá destruir Parthenia, assim como ele destruiu Neruby e Ghedda, tudo para me punir. Mas desta vez, eu posso lutar. Eu voo para longe da montanha, que começa a expelir fumaça preta das rachaduras abertas em seus lados. Nardukha me segue, suas enormes asas sombrias totalmente desenroladas. Ele rola de costas e levanta uma mão no ar, fazendo com que as pedras da montanha quebrem e rolem. Ele as enviar em minha direção como cometas. Eu me esquivo de suas pedras flamejantes e voo mais longe. O céu está cheio de fogo e trilhas de fumaça negra. Eu brilho através deles, em seguida, viro e arremesso minhas mãos amplamente, enviando uma poderosa rajada de vento na direção dele. No meu pensamento, o vento endurece em presas geladas, apitando pela velocidade no ar. Nardukha cruza os braços na frente de si mesmo, quebrando o vento. Já estou em movimento, inebriante pelo poder que derrama através de mim em quantidades ilimitadas. Geralmente há um limite para minha magia, proporcional ao desejo de meu senhor, e tenho de empunhá-la criteriosamente. Agora, com um mero pensamento eu libero comportas, alimentadas pelos meus desejos, dificultado apenas pelos limites da minha própria imaginação. E depois de quatro mil anos de concedendo concessão, minha imaginação é o músculo mais poderoso que possuo. Eu invoco uma força que desenrola até a mim. Fogo, vento, água, pedra: todos os elementos se dobram ao meu comando. Eu envio águias reluzentes de fogo gritando em direção a Nardukha. Elas vão em direção a ele, até que ele corre em uma chuva de faíscas. Com um estalar de dedos, dragões aparecem no céu acima dele, um de gelo, um de fogo. Eles rugem e mergulham, descendo em torno um do outro, suas mandíbulas escancaradas para engolir Nardukha. Ele se vira e pega cada um por seu focinho, e com um rosnado, ele os reduz a pequenos pardais inofensivos.

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Enfurecido agora, ele vai para a ofensiva, jogando fogo e rocha como uma barreira bruta, mas eficaz. Eu dissolvo em fumaça e corro através do ar, voando sobre Parthenia, pairando pelos penhascos. Abaixo de mim, a cidade está um caos quando o povo avista a montanha em erupção acima deles. Os combates em torno do palácio começam a morrer quando eles percebem que uma ameaça maior está sobre eles. A terra sob as rachaduras da cidade e se quebra, e quando as paredes começam a descer, as alas que protegem as pessoas são quebradas. Gênios entram na cidade. Meu espírito dói, querendo descer e defendê-los, mas eu mal posso aguentar Nardukha. O Shaitan está perto da minha cauda, suas asas enormes batendo como o som de enormes tambores, chicoteando vendavais poderosos com cada bater. Eu retomo a forma humana no local onde Caspida quase me derrubou do penhasco não muito tempo atrás, minhas costas para o mar. Nardukha para na minha frente e evoca uma matilha de lobos. Eles rosnam e salivam, e eu estremeço. De todos os animais da terra, lobos são os que eu mais odeio, assim como todos os gênios. Lobos tem sede de nossa carne e têm uma alegria especial e nos caçar. Como Nardukha pode evocá-los eu não sei. Os lobos de Nardukha saltam em frente a uma velocidade impossível, dentes arreganhados e olhos brilhando. Eu temo quando eles vêm em minha direção, me imobilizando. Os olhos de Nardukha brilham com triunfo. Eu não consigo desviar o olhar. Não posso pensar. Não possoNão, eu não sou mais uma escrava para temer. Eu abro minhas mãos e pés e chamo a única coisa que eu temo mais que lobos: o mar. Por um momento, nada acontece. Os lobos tomam fôlego. Eles saltam, esticando suas mandíbulas amplamente, revelando muito mais dentes do que qualquer lobo deve ter. Seus olhos ardem em suas formas de sombrias e meu corpo se retese quando eu viro meu rosto, olhos apertando, sabendo que este é o fim. E, em seguida, o mar responde. Ele se levanta atrás de mim em uma onda poderosa, cinza escuro evoluindo em ondas azuis, formam espumas e bloqueam o sol. Os lobos caem e encolhem o rabo entre as pernas. Estou, de braços erguidos, seguro o mar. Então, empurrando minhas mãos para frente, eu envio a parede de água jorrando sobre a minha cabeça, fazendo os lobos correrem. Eles se ~ 291 ~


dissolvem em baforadas de fumaça quando a onda acerta o topo de um penhasco e volta novamente pra baixo, deixando vários peixes e uma tartaruga verde se debatendo na grama. Eu os levanto com um pensamento e gentilmente os deixo voltar para a água. Respirando com dificuldade, Nardukha e eu olhamos um para o outro por um momento. Ele está encharcado com água do mar, mas rapidamente se transforma em vapor em sua pele quente. Suas asas pendem para o chão, deixando-o de pé como dois seres humanos, mais carvão do que o fogo após o banho que lhe dei. — Você não é o primeiro gênio a se libertar de mim. Você quer saber por que você nunca ouviu falar de gênios livres? Nenhum deles sobreviveram mais do que alguns dias. Eu não vou permitir isso. Eu quero responder, mas estou dolorida e esgotada. Suas asas e mãos começam a brilhar vermelho. Ele faz uma pausa, apenas por um momento, para dizer: — Você poderia ter sido uma rainha de Ambadya. Agora olhe para você. Eu vou acabar com você, gênio. Eu vou esmagá-la acabando com aquele maldito menino. Com isso, ele se levanta e voa em direção à montanha, e eu corro para alcançá-lo. Pegando velocidade, eu subo alto no céu antes de me virar para o norte em um ritmo ofuscante. O céu está escuro, apesar de ser de tarde, e é impossível dizer se há gênios nas nuvens. Mas eles estão lá, voando para lá e para cá, descendo para a cidade como falcões caçando ratos. Eu esquivo de colunas de fumaça preta subindo da cidade e corro até a lava borbulhante descendo pela encosta da montanha. Ela atingiu a cidade e começou a invadir a parede norte do palácio. Enquanto eu voo, eu evoco uma erupção de gelo em toda a encosta, e em seu toque, a lava começa a esfriar e endurecer. Nardukha quase atinge a montanha quando eu o alcanço. Eu salto sobre ele por cima, ns fazendo acertar o chão fortemente perto do Olho e quase na cabeça de Aladdin, que se arrasta para fora do caminho. Uma vez que eu salto, evoco uma torrente de areia, em seguida, abro minhas mãos. Areia se separa e endurece em uma linha de guerreiros de vidro que avançam sobre o Shaitan, brandindo lanças brilhantes. Elas refletem a luz através das suas formas cristalinas, fazendo com que pareçam ~ 292 ~


brilhar. Pego de surpresa pelo seu aparecimento súbito, Nardukha se transforma em fumaçada para evitar ser empalado. Enquanto Nardukha está distraído, eu me transformo em areia e corro através do chão, voltando atrás dele, evocando um trio de tigres, um de luz, uma de água, uma de areia. Nardukha, rosnando, é levado de volta pela minha chuva de feitiços. Ele é mais forte do que eu, e eu sei que se eu lhe der um momento para pensar, ele vai me destruir – para sempre, desta vez. Então eu não deixo. Eu giro e teço, os dentes cerrados, o cabelo voando, elaborando criaturas de areia e fogo, ar e água, em uma barreira vertiginosamente infinita. Tigres escarlates e azuis, águias de fogo, pedras maciças, guerreiros de água e fumaça. Eles se lançam em Nardukha, que furiosamente se defende, rasgando minha magia tão rapidamente como eu posso evocá-los. Ele pode ser mais forte, mas eu sou mais imaginativa. E depois de quatro mil anos de prática, eu sou rápida. Eu consigo reunir os elementos e moldá-las em um borrão, até que o ar na montanha está grossa com a magia, fluindo em fitas de luz e ondas de fumaça. Teço a magia como eu nunca fiz antes, jogando tudo o que tenho para ele. E ele está perdendo terreno. Emoldurado pela porta de fogo, Nardukha é uma sombra escura, as asas soltas, os dentes arreganhados. Luz pisca do anel na minha mão enquanto eu teço, e eu olho para ele. Minha mente se cambaleia. Os símbolos no anel foram apagados, provavelmente pela explosão de fogo que me bateu no mar. Percebo então que eu vi este anel queimar antes, antes mesmo de eu forjar para Aladdin. Meus olhos se arregalam, o peso dessa falha em cima de mim como uma onda, mas hesito muito tempo. O Shaitan rasga meu último encatamento, um dragão brilhante de vidro e água. Com um grito ele explode em mil e um pequenos pedaços de luz, que caem como chuva encima do Shaitan. E nesse momento ele ataca, atirando dois poderosos feixes de relâmpago - mas eu não sou o alvo.

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Aladdin é. Eu me movo sem pensar. Eu giro, um truque para reunir o máximo de magia que eu posso segurar. O relâmpago está tão perto de Aladdin que seu cabelo crepita e seus olhos se arregalam. Eu me aproximo, guiada pelo instinto, guiada pela memória da minha estranha viagem de volta da morte. Eu passo através dos elementos, através do tecido invisível que liga os mundos. Eu chego mais longe e mais longe do que eu nunca fui antes, além dos fios do elemento que eu só vi uma vez, quando eu estava na beira do universo - os fios do próprio tempo. O tempo é a magia mais forte, sua voz sussurra em meus pensamentos. Passando os dedos ao redor dos segundos e minutos, eu torço os fios. O esforço me deixa ofegante, como se eu tivesse agarrado a cauda de um cometa, mas eu não solto. Ao contrário dos quatro principais elementos com os quais eu normalmente trabalho minha magia, esses estão vivos e em movimento. Manipulá-los é como tentar mudar a direção de um rio. E ainda assim eu fico firme, me preparando contra o fluxo das horas. A maré me puxa, passando através de mim, começando a separar as minhas fibras. Se eu segurar por muito mais tempo, vou dissolver de uma vez por todas e me perder nessa corrente eterna. Mais fácil seria conter o mar com a mão. Mas eu não vou deixá-lo matar Aladdin. Ele me tomou, Roshana. Ele levou os Gheddans. Ele me levou, por quatro mil anos. Não mais. Com um grito profundo que sai das profundezas dos meus pulmões, eu torço os fios do tempo. Em torno de mim, eventos param e se invertem, Aladdin cai a seus pés, os fragmentos do meu dragão de água e areia retomando em sua forma original, a montanha puxando correntes brilhantes. Mais e mais rápido os eventos se desenrolam, fluindo como um rio correndo para cima. Eu mergulho cada vez mais fundo, até que a corrente começa a me puxar e eu devo me preparar contra ela como uma âncora se arrastando pela areia. Quando paramos, mil e uma momentos acontecendo em torno de nós, apenas Nardukha e eu ficamos de fora de tudo, olhando um para o outro, enquanto os fios tempo rolam em torno de nós. ~ 294 ~


— Como você está fazendo isso? — o Shaitan suspir. — Eu saio do tempo, — eu respondo. — Eu vi os deuses tecendo o universo. Nardukha olha em volta, mas posso dizer pelo seu olhar que ele não pode ver as linhas que eu torço em torno dele, prendendo-o em um único momento. Ele nunca viajou para a morte e para o passado, como eu fiz. Ele não ficou no limite do universo e viu as horas virarem. E se ele não vir, ele não pode manipulá-lo. Finalmente seu olhar retorna para mim, pensativo, até um pouco intimidado. E então fúria pisca em seus olhos. Nardukha abre a boca em um rugido sem palavras, sua garganta uma caverna de chamas, e ele dá o boteEu fecho minhas mãos, e o tempo desmorona ao seu redor. Seu rugido é cortado quando ele é lavado como um galho em uma inundação. Os minutos o tragam, o puxando para baixo da corrente, até que ele simplesmente desaparece. Com o último da minha força, eu puxo do meu dedo o anel que eu forjei para Aladdin e o deixo cair na corrente. Ele é arrastado, perdido no fluxo das horas, ao lado de uma rainha caída, para ser encontrado por suas servas, para esperar quinhentos anos para a pessoa certa colocá-lo. Com ele eu envio uma oração sussurrada. — Me encontre, meu ladrão. Então, com um grito suave, eu solto os fios. Algo dentro de mim se encaixa, e, ofegante, eu dou um passo a frente na escuridão.

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C — Zahra. Meus olhos abrem, e Aladdin está lá, olhando ansiosamente para mim. Ele escova o cabelo do meu rosto. — Você está bem? — ele pergunta. Me sento. Meus pensamentos nadam languidamente através de águas tranquilas. Tudo é turvo e desconhecido. Instintivamente eu chego até a minha lâmpada, não encontrando nada, além de um vago formigamento, como se me faltasse um braço. — Eu estava inconsciente? — pergunto. — Sim. — ele embala a cabeça em uma das mãos. A outra segura meu braço. — Zahra, o que você fez? O que aconteceu? Minha cabeça dói como se tivesse sido espancada com pedras. Eu gemo e envolvo meus braços em torno dele, tentando conter a dor. Aladdin me segura por vários momentos, acariciando meu cabelo, enquanto eu choramingo e me encolho. — Você está bem? — ele sussurra. — Zahra? — Eu estou bem, — eu digo entre os dentes, recuando um pouco. — E você? Ele sorri, cansado. — Vivo, então eu não vou reclamar. Onde está o Shaitan? Eu ergo minha cabeça e pisco rapidamente, e o mundo relutantemente toma forma. Eu ainda estou na montanha. Apenas alguns segundos se passaram, ao que parece, mas muito mudou. O céu está claro e azul, exceto pelo resto de nuvens derivando para o norte. O Olho de Jaal se encontra em dois, rachado no centro, o túnel de fogo para Ambadya ~ 296 ~


desapareceu. Tudo ao meu redor tem rachaduras, como se um deus tivesse atingido a montanha com um martelo celeste. A visão me arrepia; eu percebo que eu causei isso, que a magia que eu soltei para prender Nardukha é maior e mais perigosa do que eu achava. — Ele se foi. — eu sofro por dentro, meus membros pesados e fadigados. — Aprisionado pelo tempo. Ele só existe em um único momento, e ele não pode nos tocar de novo. Aladdin pisca, então pergunta: — Será que ele vai voltar? — Não. — ele não podia sequer ver as linhas que o enlaçaram. Como seria ser preso em um momento, sem nem mesmo ver as paredes que o prendem? — E os gênios? Eu cruzo a porta e corro minhas mãos pelos meus lados. Nada acontece. Caminhando para o limite da montanha, eu olho para baixo e avisto Parthenia. Fumaça sobe da cidade, mas não há gênios subindo dela. — Eles devem ter fugido de volta para Ambadya. Eles sentiram a perda de seu rei e entraram em pânico. Por dez mil e um anos, o Shaitan tem sido a única força que os une. Eles vão entrar em suas antigas tribos, e eles não vão voltar por um longo, longo tempo. — Como você sabe? Severamente, eu viro e encontro o seu olhar. — Porque eles sabem que eu estou aqui, e eles sabem que eu derrotei seu rei. — Então acabou. Eu assinto, um pouco atordoada. O mundo assumiu uma suavidade de sonho, não é totalmente real. — Zahra... o que aconteceu com você? Eu vi você passar pela porta e eu pensei... eu pensei que você tinha ido. Onde está a lâmpada? Conto a ele sobre o jardim de jóias, e a visão do que eu vi. Mas quando eu chego ao ponto onde eu caí através do tempo e das estrelas, as minhas palavras falham e as lágrimas brotam em meus olhos. A beleza e pureza daqueles momentos ainda me oprime e me pergunto se eu vou realmente entender tudo o que eu vi.

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— Eu voltei, — eu concluo. — E, pela primeira vez, minha magia era minha. Eu jamais vou passar outro momento naquela horrível lâmpada. — Eu ainda não posso acreditar que é realmente você, — ele murmura, passando os dedos pela minha bochecha. — Esse rosto... é seu, não é? — O único que tenho, — eu admito, calor subindo sob a minha pele quando eu sinto uma onda de timidez. Eu olho para as minhas mãos. — Você... gosta dele? — Zahra. Eu não posso evitar levantar o meu olhar com o calor em seu tom. Seus olhos estão brilhando, os lábios inclinados em um pequeno sorriso. — Você é linda, — diz ele. — Quero dizer, você era linda antes, é claro, mas sabendo que esta é a verdadeira você... eu não achei que eu poderia te amar mais, mas eu amo. Eu sorrio. — Você só está feliz por eu não ser uma velha bruxa depois de tudo. Ele ri. — Sim, é, — ele admite. — Devemos voltar para a cidade, — eu suspiro, pensando na luta no palácio. — Caspida precisa da nossa ajuda. — Não é possível sua mágica apenas nos levar lá? — ele acena seus dedos quando eu lanço um feitiço, e eu rio um pouco e assinto. É preciso ua coisa tão pequena para nos mover daqui para lá, mas menos de uma hora atrás, teria sido impossível sem um desejo. Puxo uma respiração longa, estendendo a mão para a minha magia. Mas nada acontece. Nenhum formigamento. Nada de magia. Porque não há mágica. Ou se há, eu não posso encontrá-la. Em pânico, eu tento mais fundo, fechando os olhos, tentando sondar com meu sexto sentido - apenas para descobrir que ele, também, se foi. Com um suspiro, eu abro meus olhos e me inclino contra a porta,

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encarando sem ver. — Zahra, o que está errado? — Se foi, — eu suspiro. — O que? — ele me olha para cima e para baixo. — Você está machucada? — Eu... — pensando no momento em que eu prendi Nardukha, eu me lembro do que eu senti profundamente lá dentro. — Eu estiquei demais, — eu sussurro. — Já ouvi falar de isso acontecer antes, quando um gênio vai muito fundo, com tentativas de magia muito grandes, algo quebra. Ele parece alarmado. — Mas... você vai ficar melhor? Eu continuo tentando tudo que posso, mas já eu sei a verdade. Eu ainda sou um gênio, mas manipular o tempo drenou cada gota de magia em mim. Até que a última força se foi, eu percebo com tristeza. O que eu sou agora? Menos gênio, mais humano. Ainda uma criatura de fumaça e fogo, mas esse fogo é menor agora. Sem magia para me sustentar, eu sou praticamente uma mortal. Em Ambadya, eu seria um pária, ridicularizada e desprezada, transformado em uma serva inútil. Mas aqui no mundo humano, eu sou quase... normal. — Zahra... — Não, está tudo bem. — eu mostro um sorriso e agarro a sua mão. — Eu estou aqui, eu estou viva. Eu estou livre. — se perder a magia é o preço para salvar Aladdin, então gostaria de perdê-la mil e uma vezes. Me levanto e o beijo, e ele responde, me puxando para mais perto, suas mãos pressionando contra minhas costas. Em torno de nós, cinzas vibram como pétalas de rosa, cobrindo o chão e nosso cabelo. Eu mal noto. Nunca senti algo tão real, tão quente, tão possível. O vazio dentro de mim, onde a magia, uma vez enchera e provocara, agora é inundada com toda a esperança que nunca me atrevi a esperar antes. Sempre segurei uma parte minha, com medo de confiar totalmente em mim . Mas agora, pela primeira vez, eu confio. Minha magia se foi, mas isto parece deixar espaço para todo o resto se aprofundar: o sabor dos seus lábios, a textura de sua roupa, a sensação de meu próprio rosto verdadeiro. Esta é a primeira vez que eu o beijei com os

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meus próprios lábios e o seguro com minhas próprias mãos. Eu poderia continuar assim para sempre. Mas o tempo não está mais ao meu comando, e eu, relutantemente, me afasto. Aladdin tenta encontrar meus lábios novamente, mas eu dou uma risada baixinha e pressiono meus dedos nos dele. — Temos um longo caminho a andar, — eu digo. — E quem sabe o que vamos encontrar quando chegarmos à cidade? Ele geme um pouco, mas concorda. — Tem certeza de que está pronta para isso? Eu quero me transformar em um falcão e mostrar a ele o quão pronta para isso eu estou, mas, claro, não acontece nada. — Apenas tente continuar, — eu digo em vez disso.

***

A batalha terminou no momento em que chegamos ao palácio, horas mais tarde. Sacerdotisas se movem entre os feridos, e os soldados se sentam em pequenos grupos derrotados, vigiados por cidadãos irritados. Mas a luta parece ter saído de todos. O ataque dos gênios foi breve, mas desastroso, e vejo sinais de Ambadyan em todo lugar: marcas de queimaduras, edifícios esmagados, ondas de magia ainda ondulando através do ar. Encontramos Caspida e as meninas no topo dos degraus que levam à porta principal do palácio. A princesa parece exausta, e ela usa uma atadura em torno do ombro, a roupa rasgada e sangrenta. As outras meninas não estão melhores. — Aladdin! — ela se levanta com dificuldade cumprimentar. — E... — ela olha para mim, incerta.

para

nos

— Eu ainda sou Zahra, — eu a asseguro. — Só com uma nova cara. É uma... coisa de gênios. Ela não parece totalmente convencida, mas ela dá de ombros, cansada. — O que aconteceu? — Nós brigamos com o Shaitan, e ele caiu. ~ 300 ~


Ela estende as mãos. — Isso é tudo? Tivemos gênios caindo do céu! As enfermarias estão quebradas e os Eristrati estão sob guarda até jurar fidelidade a mim, então não podemos possivelmente— Eles se foram, — eu a corto. — E a montanha está destruída. Eles terão de usar algo novo para entrar neste mundo, mas serão necessários muitos anos antes que isso aconteça. Princesa, acabou. Nós ganhamos. Ela olha para mim por um longo momento, como se tivesse medo de acreditar, mas, em seguida, ela fecha os olhos e deixa escapar um suspiro. — Deuses sejam louvados, — ela sussurra. — Acabou. — E quanto ao Sulifer? — pergunta Aladdin. — E Darian? — Darian está preso até que possamos realizar um julgamento apropriado. E meu tio... — ela estremece e olhar atrás de nós. Nós viramos e vemos uma estaca cravada no chão, a cabeça cortada. Meu estômago revira, e eu desvio o olhar. — Ele deveria ter sido julgado antes, — diz Caspida. — Mas as pessoas o pegaram primeiro. — Então, realmente acabou, — murmura Aladdin. Ele parece cansado, em vez de ter prazer de ver morto o seu inimigo de toda a vida. Eu pego sua mão e aperto, e ele me dá um pequeno sorriso. — O que fazemos agora? — pergunta Ensi, olhando para a destruição. — Nós lamentamos o que foi perdido, — responde Caspida. — E amanhã, nós construiremos.

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C Eu sinto o garoto no momento em que ele põe os pés no jardim. Estou deitada na grama fresca, segurando uma rosa no meu rosto e inalando seu perfume doce, e ao som de seus passos no caminho de cascalho, eu me sento. — Zahra? — ele olha ao redor, seus olhos iluminando quando ele me vê. Ele se aproxima e se senta, tirando o turbante e o coloca ao seu lado. — Está quase hora da coroação. O que você está fazendo aqui sozinha? — Me escondendo dos alfaiates de Caspida. Você está lindo, — eu digo, sorrindo para Aladdin e me aproximando para passar a mão ao longo de seu casaco vermelho. Ele sorri e me puxa para mais perto, em um beijo profundo. Nas semanas desde a Invasão, o nome que os Parthenians deram ao seu confronto com os gênios, nós dificilmente ficamos longe um do outro. Embora ninguém o considera como um príncipe mais, Aladdin é um visitante regular do palácio, onde ele foi nomeado Discípulo da Rainha para o distrito do sul. Ele contribui com os esforços de reconstrução, que, paradoxalmente, incluem uma boa dose de destruir, uma vez que as paredes entre os distritos foram derrubados em uma tentativa de unificar as pessoas. Me deito de volta, e Aladdin se inclina sobre mim, seus lábios exploram a linha da minha mandíbula. Fecho os olhos, desejando que pudéssemos ficar aqui a tarde toda assim, enquanto o jardim está deliciosamente deserto. Mas Caspida nos quer em pé ao lado dela durante a coroação, e nós prometemos estar lá. — Nós devemos ir, — murmuro. — Só mais alguns minutos. Eu sinto que nós nunca estamos sozinhos. Há sempre a rainha ou alguém do palácio ou... — sua voz diminui, ~ 302 ~


e ele morde minha orelha, brincando. Rindo, eu o empurro e me sento. — Nós prometemos. Ele geme e o turbante cai sobre seu rosto. — Aladdin. — empurrando o turbante de lado, eu corro meus dedos pelos seus cabelos e levemente beijo sua testa. — Eu já te disse que eu te amo? — ele sussurra. Eu sorrio. — Não desde esta manhã. — Imperdoável. Vou te dizer cada hora de cada dia. — Não dizem os poetas, o homem que pega um peixe cada vez que ele lança sua linha se cansarão da pesca? Agora se levante. Eu levanto e o puxo de pé. Ele vem com relutância, envolvendo um braço em volta da minha cintura. Nós caminhamos até o palácio para encontrar uma Nessa em pânico. — Aí estão vocês! — ela corre em direção a nós. — Eu tenho te procurado em todos os lugares! — parando, ela olha nossos rostos corados e revira os olhos. — Vocês estavam se beijando no mato novamente. Aladdin arranca um livro da mochila por cima do ombro. — E você tem lido novamente. Nós todos temos nossos vícios, Nessa. Ela agarra a parte de trás do livro. — Se apressem! Eles estão prestes a começar!

***

É meia-noite quando sou convocada para o lado da rainha. Aladdin está dormindo em suas antigas câmaras, que são mantidas para ele como uma parte de seu novo escritório, e quando ele fica no palácio eu me junto a ele. Mas, embora muitos dos meus atributos de gênios se foram, eu ainda não consigo dormir. Muitas vezes eu ando através do palácio e da cidade, maravilhada com o quão longe eu posso ir sem me preocupar com a lâmpada me puxando de volta. Hoje à noite, porém, quando Khavar vem me dizer que Caspida quer falar comigo, eu estou sentada contra uma das colunas pelo ~ 303 ~


pátio, alimentando um ganso perdido que apareceu no quintal há uma semana e desde então tem colocado ovos debaixo de uma das árvores de figo. Khavar está quieta enquanto nós caminhamos através do palácio, que finalmente foi dormir depois de uma longa noite de festa em celebração da coroação de Caspida - uma cerimônia muito atrasada, mas no qual ela se recusou a fazer até que a restauração da cidade estivesse completa. — Que tipo de rainha eu serei, — ela disse, — se eu colocar o meu desejo para a coroa antes das necessidades do meu povo? — assim ela se tornou uma rainha na mente de todos no dia da Invasão, esta noite, era oficial, e o nome do Caspida foi coberto nos grandes anais da monarquia Amulen, os mesmos anais onde seu nome foi escrito há muito tempo, Habiba. A rainha manteve seus antigos quartos. Seja qual for as câmaras que Malek usa agora, eu não sei. Talvez ela os doou para os nobres aclamados. Talvez eles foram selados, como o quarto de Sulifer foi . A busca nas câmaras do ex-vizir trouxe à luz muitos segredos em sua magia negra, incluindo vários símbolos de poder esculpidos nas paredes e no chão. Ele era ganancioso por magia, explorando artes perigosas que nunca deveriam ser tocadas, até mesmo tentativas de convocar gênios. Caspida, depois de um breve olhar, tinha ordenado bloquear todo o conjunto de quartos com paredes. Os quartos de Darian foram poupados e dados a um novo ocupante, uma vez que o príncipe foi embora semanas cidade atrás, depois de escolher o exílio sobre a prisão. Para onde ele foi, ninguém sabe, mas poucos lamentaram sua partida. Khavar sai novamente quando estou dentro da câmara da rainha. A única lanterna queima ao lado da cama, mas a rainha está longe de ser vista. Eu ando através dos quartos até que eu chego ao pátio, e é lá onde eu esperava que ela estivesse: na ilha gramada no centro da piscina rasa, de pé ao lado de sua estátua, Habiba, onde nós nos falamos pela primeira vez há semanas. Deixando meus sapatos para trás, eu percorro a água e a grama. A rainha me observa, uma mão na base da estátua. Quando eu paro na frente dele, a asa de pedra bloqueia a luz da lua cheia, fazendo a escultura parecer brilhar nas bordas. — Sua Majestade. — eu me curvo. — O que posso fazer por você? — Boa noite, Zahra. — Caspida olha para a estátua e corre um dedo pelo seu pé na pedra. — Você sabe, Aladdin me disse quem era, antes de

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você se transformar em um gênio. — ela se vira e olha, com um toque de fascínio em seus olhos. — Você descartou uma das maiores cidades da história. Uma rainha em seu próprio direito. Eu encontro o seu olhar de forma constante e não digo nada; pois parte do meu passado terá sempre uma medida de dor. — Eu vou ser breve. Eu sei que a hora é tardia, mas não vou falar sobre isso mais. — ela olha para mim diretamente. — Eu te chamei aqui porque eu quero convidá-la a se juntar às minhas guerreiras. Eu quero você ao meu lado. Eu quero o seu conselho assim como você aconselhou Roshana. Você já viu muito do mundo, viveu tanta história - eu preciso de você. — Não, — eu respondo. — Você não precisa. Ela pisca. — O quê? — Caspida, você não precisa de mim. Você estava pronta para se casar com Aladdin para garantir o seu trono. Você provavelmente teria casado com Darian pela mesma razão. Toda sua vida, as pessoas têm dito que você não pode fazer as coisas sozinhas, que precisa desta ou daquela pessoa para te apoiar. Mas eu vi você governar. Eu vi você batalhando para seu povo e reconstruindo suas casas. — tomo suas mãos nas minhas e olho nos olhos dela. — Você não precisa de ninguém para te dar conselhos. Pare de pensar como uma princesa e seja uma rainha. Ela me olha por um longo momento, e mesmo sem o meu sexto sentido, eu posso ver algo dando lugar em seus olhos. — Obrigada, Zahra, — ela sussurra, me abraçando. — Você é realmente uma amiga. — ela se afasta e limpa a garganta. — Bem, eu estou contente que nós nos entendemos uma com a outra. Mas você vai ser uma das minhas guerreiras? Falei sobre isso com as outras meninas, e todas elas querem que você seja. Até mesmo Khavar. — Até mesmo Khavar? — eu seguro uma risada. — Obrigada, Caspida, mas não. Por quatro mil anos, a minha existência tem girado na concessão dos desejos para os meus mestres. Minha identidade sempre foi construída sobre os desejos dos outros. Ela sorri e me dá um aceno. — E agora você deseja conceder seus próprios desejos.

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Eu dou de ombros. — Eu tenho muito que fazer e recuperar. — Então eu não vou tentar te persuadir mais. Você merece isso, Habiba. Assustada, eu puxo no ar bruscamente. — Do que você me chamou? Ela enruga a testa. — Habiba. É uma palavra antiga que significa caro amigo. — Eu - eu sei. Desculpe, eu só... Tanto faz. Sim, eu gostaria de fazer alguns desejos próprios. — Começando com? — ela se inclina em curiosidade. — Eu quero... que bobagem. — Eu prometo que não vou rir. Eu suspiro. — Eu quero ir para as vinhas em Ashori e comer uvas. — Oh. — ela aperta os olhos um pouco. — Bem, isso parece bom. — Não há nada no mundo mais doce do que uma uva Ashori. Se as vinhas ainda estão lá. Se Ashori ainda está lá. Poderia ter afundado no mar ou ter sido queimadas por piratas ou— Zahra. — Caspida coloca as mãos sobre os meus ombros e sorri. — Vá para Ashori. Leve Aladdin com você. Deuses, eu sei que ele odeia ser um burocrata. Ele fica ansioso nas reuniões, fazendo todo mundo ficar nervoso. Concordo com a cabeça lentamente. — Eu vou. — Eu vou te dar tudo que você precisa para sua viagem. Você tem a minha bênção e os meus agradecimentos. Oh, e eu quase esqueci. — ela procura algo em seu bolso um momento, em seguida, puxa algo. — Descobrimos isso quando limpamos os quartos de Sulifer. Eu acho que você deve ficar com ele. É o anel, o que Aladdin usou para me encontrar na caverna. Eu pego e o olho em silêncio para as marcas de queimaduras na superfície e os símbolos borrados pelo tempo e pelo fogo. Um anel forjado com amor e a chama de Ambadyan, impressa com símbolos sempre unindo duas almas, não importa os séculos entre eles. Eu quero saber quem os encontrou no topo da montanha, deitou ao lado do seu corpo frio, e o colocou no cofre das

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guerreiras, onde ele ficou quinhentos anos, à espera de um determinado ladrão. — Nardukha disse a Sulifer que o anel o levaria até mim, — eu digo. — Mas como o Shaitan sabe? Caspida levanta as sobrancelhas. — O anel tem a sua própria lenda, você sabe. Os estudiosos de Amulen o estuduram e descobriram que ele estava imbuído da magia de gênios. As guerreiras o levaram para a guarda, tentando esconder sua existência, mas as histórias do anel vazaram. Alguns acreditavam que era a alça da lâmpada que tinha quebrado durante a batalha. Outros acreditavam que Roshana tinha feito para o gênio, ou vice-versa. Através dos séculos, o anel sempre foi ligado ao gênio da rainha a você, devo dizer. Mas ninguém sabia como funcionava. O anel deslizou no meu dedo, e ele se encaixou tão perfeitamente como sempre fez. Meias-verdades e mentiras o guiaram ao longo dos anos, para de alguma forma trazer Aladdin para mim. Não é apenas a mágica dos gênios que cantarola no ouro, mas algo mais profundo e mais velho. — Obrigada, Caspida. Ela balança a cabeça. — Você sempre será bem-vinda aqui, Zahra da lâmpada. Imohel irá guiá-la. — E eu a você, Rainha. — eu me viro para ir, mas Caspida me para com um toque de seus dedos. Quando eu me volto, seus olhos são solenes. — Você governou antes, — diz ela. — Então me diga, isso fica mais fácil? — Não, — eu respondo. — Mas você fica mais forte.

***

— Estou tão feliz, — diz Aladdin, — Eu poderia beijá-la. Na verdade, eu acho que vou. — Agora não, seu idiota, a rainha está acenando. Ele suspira e genialmente se inclina sobre o peitoril do navio para

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acenar. A multidão é pequena, mas todos lá são importantes: Caspida e as guerreiras, Capitão Pasha e vários Eristrati, e vários nobres e burocratas. Até mesmo Dal e alguns dos velhos amigos de Aladdin dos Ringues. Não demora muito até que o navio passa além dos penhascos e entra em mar aberto, deixando todos para trás na escura manhã enevoada. A água salgada do mar espirra e o balançar do navio me dá arrepios, e eu me seguro firmemente a Aladdin. Ele está rindo, é claro. — Isto parece como nossos velhos dias de viagens, não é? — Estou surpresa que você se lembre deles, — eu respondo. — Você passou a maior parte do tempo se inclinando sobre o peitoril. — Eu? Ha. Você é hilária. Venha e me beije. Eu faço, e o calor já familiar dos seus lábios me estabiliza. Ele tem gosto de sal e do vinho que nós compartilhamos um com o outro em nossa pequena festa de despedida. Aladdin recua primeiro e leva uma das minhas mãos aos lábios, beijando os padrões de henna delicados na minha pele, em seguida, vira meu braço e sobe beijando o interior do meu pulso. A tripulação do navio se ocupa do outro lado do navio, o que nos dá privacidade. — Você é a garota mais bonita do mundo, — murmura Aladdin. — Eu já te disse isso? — O suficiente para me fazer perguntar se o seu pai era um papagaio. Ele ri. — Olha, nós podemos ver o nascer do sol. Tomando minha mão com força na dele, ele me leva correndo através da plataforma, nós dois cambaleando e tropeçando por causa das ondas. Estamos rindo e sem fôlego quando chegamos à popa, assim quando o sol começa a espreitar no horizonte distante. A névoa sobre a água reflete a luz e começa a brilhar suave como o ouro, até parece que estamos navegando através de um mar de nuvens. — Minha mulher, — diz Aladdin, estendendo um braço em direção ao sol, — eu lhe dou o ouro como um símbolo do meu amor.

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— Tudo que eu quero é você, — eu respondo. Me viro e o beijo, puxando-o contra mim, sentindo o calor da madrugada no meu cabelo. Então eu descanso minha cabeça em seu ombro, simplesmente sinto seus braços em volta de mim, seu coração batendo contra mim. — Você está com frio? — pergunta Aladdin. — Você está tremendo. — Um pouco. — Vou pegar um cobertor. E o café da manhã. Se eu puder encontrar a cozinha. — Galley, amor. É chamado de galley. — Certo. Galley 4 . Entendi. Vou pedir ao capitão. Qual era o nome dele? — Sinbad, eu acho? — Eu volto já. Mas eu pego a sua mão. — Estou bem. Não vá ainda. Ele fica comigo, e juntos vemos o sol manchar o mar e o céu em mil e um tons dourados. Meu polegar esfrega o anel no meu dedo, seus dedos e contornos tão familiares para mim agora como minha mão. Então, isso é como você se sente quanto tem todos os seus desejos realizados.

Gallely é uma seção do navio onde ficam armazenadas as refeições dos passageiros e tripulantes, bebidas e o forno. 4

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Profile for Ana Paula Oliveira

The Forbidden Wish - Jessica Khoury  

Ela é o mais poderoso gênio de todos. Ele é um menino das ruas. O amor deles vai abalar o mundo... Quando Aladdin descobre a lâmpada do gêni...

The Forbidden Wish - Jessica Khoury  

Ela é o mais poderoso gênio de todos. Ele é um menino das ruas. O amor deles vai abalar o mundo... Quando Aladdin descobre a lâmpada do gêni...

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