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(Série de livros Independentes) ღ LIZSPENCER

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Copyright © 2017 Liz Spencer. 1ª Edição Capa: ML Capas Revisão: Iohana Miranda Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos nela descritos são produto da imaginação da autora e usados de forma fictícia. Qualquer semelhança com nomes, datas, pessoas — vivas ou mortas — e acontecimentos reais é mera coincidência. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida ou transmitida sob qualquer forma ou por qualquer meio eletrônico ou físico sem o prévio consentimento por escrito da autora, exceto no caso de citações. Nenhuma parte deste livro pode ser carregada sem a permissão da autora, nem ser de outro modo circulado em qualquer outra plataforma diferente daquela em que é originalmente publicado. A autora reconhece o status de marca registrada e a propriedade da marca registrada de todas as marcas, sejam elas quais forem, mencionadas neste livro. Esta obra segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa.

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Sumário Sinopse Glossário + Nota da Autora Epígrafe Prólogo 1: Forasteira 2: Terra, Suor e Uísque 3: Inesperado 4: Velhos Hábitos 5: A Flor Entre os Espinhos 6: Água Fria 7: Lembranças 8: Perigo 9: Fogo Cruzado 10: Conexão 11: (In)Compatíveis 12: Margaritas 13: Sólido 14: Turbulência 15: Quebra-Cabeça 16: Tempestade 17: Pedido 18: Pandemônio 19: Destruição 20: Máscaras 21: Cobras e Escorpiões 22: Velhos Laços 23: Lulla(bye) 24: Agridoce 25: Despedidas e Recomeços Agradecimentos: Playlist (disponível no Spotify):

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Sinopse Uma coisa é certa sobre mim: eu sou um fora da lei. Tendo vivido uma adolescência destruída, sou considerado louco, assassino e me tornei presidente de um dos mais temidos MCs do estado da Califórnia. Todo homem como eu tem seu pequeno segredo sujo. Eu posso dizer que possuo vários, muitos deles me tornaram inabalável. Em contrapartida, barreiras internas podem se tornar facilmente instáveis quando o passado resolve te abalar. Quando os fantasmas de um mundo esquecido decidem colidir com o presente e bagunçar o seu futuro. O primeiro impacto veio quando ela reapareceu e me pediu por ajuda. O segundo golpe veio quando resolvi lhe estender a mão. Mas minha bondade não passava disto. Eu não sou o cavaleiro de armadura que ela tanto acreditava. Eu não o herói da história, o príncipe no cavalo branco, nem mesmo o maldito sapo. Eu sou o que sou, e isso é tudo. Chame-me de Knife, se preferir. Chame-me de homem da sua vida, insano e sanguinário ou de grande bastardo sujo. Eu só tenho uma observação a fazer: Jamais, em hipótese alguma, se iluda com o meu sorriso torto ou procure por bondade em meu par de olhos escuros... Talvez você não esteja preparado para o que possa encontrar por lá.

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Glossário + Nota da Autora 1. Presidente/Prez: Líder do clube. A ascensão de uma determinada posição para a de presidente pode ocorrer por voto ou ser proferido pelo Presidente anterior. Ele quem comanda o clube. Sua palavra é lei e dificilmente contestada; porém, suas ideias principais devem ser passadas por uma votação. 2. Vice-presidente/VP: Segundo no comando. O cargo de VP pode ocorrer tanto com a eleição ou com nomeação pelo próprio presidente. O VP executa ordens apenas do presidente, e é o principal comunicador com outros integrantes do clube. É o único permitido a assumir as responsabilidades do Presidente em sua ausência. 3. Sargento de armas: Sua função básica é a de manter a ordem nas reuniões e lidar com o clube e sua segurança. 4. Capitão de Estrada: Organiza rotas que serão tomadas pelo clube em passeios. Ele garante a segurança na estrada. É ele quem coordena o clube, pesquisa, planeja e organiza corridas e saídas. Responde apenas ao presidente ou vice-presidente. 5. Tesoureiro: Organiza todas as informações de fundos do clube, bem como registros de todos os membros efetivos e registro de cores, patches ou suas reproduções emitidas para os membros. 6. Secretário: O Secretário é responsável por fazer e manter todos os registros do clube. Ele deve notificar os membros sobre reuniões especiais ou de emergência, também quaisquer nomeações ou eleições que ocorrerem na sua ausência. 7. Prospecto: Membro recém contratado. Uma espécie de estagiário. Ele vai a corridas, mas é proibido de assistir a Igreja e portar o escudo completo (patch de três peças) como membro oficial. 8. Nômade: Membro do clube sem endereço fixo. NACIONAIS-ACHERON


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9. Igreja/Missa: Espécie de reunião realizada entre portas fechadas com os membros do clube. Lá são tomadas decisões, trocas de opiniões e quaisquer demais assuntos onde os negócios do clube estejam relacionados. 10. 1%: Abreviação de One Percenter. Por trás desta nomenclatura existe uma história bem famosa no meio dos MCs, mas, de forma resumida, podemos simplificar o termo como "Outlaws" (Foras da Lei). 11. Old Lady: Esposa, noiva ou namorada de um membro. As Old Ladies são muito mais do que apenas mulheres com envolvimento amoroso com os irmãos do clube. Elas são verdadeiras companheiras, e adquirir tal título no meio da cultura MC é considerado grande honra. 12. Renegade Souls: Clube fictício de motoqueiros 1%, fundado em 1958. 13. Hache: Letra “H” em espanhol. 14. Bird: Pássaro em inglês. 15. Knife: Faca em inglês. 16. Wild: Selvagem em inglês.

ATENÇÃO Wild é um Romance com uma pitada Dark. Esteja ciente de que o livro aborda o estilo de vida de Moto Clubes Outlaws (Foras da Lei), ou seja, criminosos e descumpridores das regras consideradas exemplos de boa conduta para a sociedade. Seu comportamento é considerado rude, onde, muitas das vezes, o machismo pode ser empregado em seus modos de pensar e agir. Entretanto, isso não significa que todo MC age desta maneira, ou que é correto fazer apologia a tal comportamento. Lembrem-se: trata-se de mera ficção. NACIONAIS-ACHERON


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Wild contém cenas de violência, palavrões e conteúdo sexual explícito. Não recomendado para menores de 18 anos. Se você chegou até aqui, é sinal de que está ansioso para seguir adiante. Seja bem-vindo a mais uma jornada de Quebrando Regras, e sinta-se à vontade para conhecer os Renegade Souls.

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Epígrafe "As pessoas costumam dizer que os olhos são o espelho da alma. Talvez seja por esse motivo que a minha íris é negra."

— Héctor Ridel

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Prólog o

Austin, Texas. Dez anos atrás... Luzes coloridas piscavam atrás das minhas pálpebras fechadas. Os movimentos do meu peito oscilavam, conforme eu buscava por ar. Senti os fios de suor escorrerem entre as minhas sobrancelhas unidas, mas não pude me mover, pois os músculos maltratados do meu corpo reclamavam toda vez que eu tentava um próximo movimento. Ódio rastejou para dentro de mim como um réptil alucinado. Pontadas sutis de compreensão trabalhando em minha consciência escura. Filho da puta. A dor não me incomodava tanto quanto o orgulho ferido. O sentimento de impotência e fragilidade. Eu já estava acostumado aos chutes e socos, mas ele havia pegado pesado dessa vez. Queime! Queime como o bicho que você é. A lembrança veio como uma batida de carro, rápida e dolorosa. Rolei de lado, totalmente ciente da dor da ferida causada pelo ferro em brasa que, momentos atrás, esteve firmemente pressionado contra a minha pele. Queime! Um raspar de terra chamou minha atenção, o som ficando cada vez mais próximo. Em seguida, mãos pequenas se moveram para retirar os fios de NACIONAIS-ACHERON


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cabelo escuro grudados na minha testa. Sem muita ânsia no ato, abri meus olhos. Engoli em seco, sentindo a lixa invisível raspar no interior da minha garganta. Baunilha navegava no ar, pairando sobre os meus sentidos como um alívio diante do mal cheiro ao meu redor. O ar era seco, trazendo o cheiro agridoce de esterco de cavalo e sangue. Terra fazia queimar minhas costas nuas, e a parte traseira da minha cabeça pinicava, apoiada de uma forma desajeitada sobre um monte de feno. Percebi que ele havia me prendido no celeiro outra vez. Confinando-me entre malditas paredes de madeira como um cavalo arredio. Ao menos dessa vez, eu desmaiara no momento em que ele me batera, não lhe fornecendo tanto trabalho quanto da última. Antes que eu pudesse me mover novamente, água caiu sobre o meu rosto, as gotas escorrendo de um copo de alumínio, logo acima da minha cabeça. Foi naquele momento em que a vi. Jazmine. Ela estava chorando. Seu corpo magro e pequeno tremia enquanto ela falava algo baixinho. Eu julguei que era uma espécie de prece, talvez? Eu não fazia ideia. Soltei um gemido engasgado. A minha garganta estava seca por tempo demais. Sentia-me desidratado. — Hache... — sussurrou um pouco mais alto dessa vez, recostando a borda do copo em meus lábios. — Beba um pouco de água. Após me ajudar com a água, ela limpou as lágrimas que continuavam a descer por seu rosto e voltou a me direcionar aqueles grandes olhos de corça assustada. NACIONAIS-ACHERON


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Eu me lembrava de chamá-la de Bird desde que eu tinha dez anos de idade, e ela três. Jazmine se parecia exatamente com um pequeno pássaro. Tão indefesa e frágil, mas ao mesmo tempo tão determinada. — Eu senti tanto medo... — soluçou. — Eu pensei que você estivesse... — Morto? — completei sarcasticamente. — Você nunca ouviu falar que vasos ruins não quebram? — Tentei esboçar um sorriso, mas estremeci quando a pontada de dor veio. — Hache, por favor, não diga isso. — Hache era o apelido que ela havia me atribuído assim que tivera sua primeira aula de espanhol na escola. Jazmine tinha uma grande necessidade de estar em torno de mim, e eu me perguntava se aquilo era por gostar de mim ou para obter um pouco de proteção, já que o merda do seu pai não lhe fornecia isso. Não era como se eu não gostasse dela. Quer dizer, parte da culpa pela doença psicológica que causou o suicídio da minha mãe e irmã, eu atribuía a ela — eu tinha os meus motivos para culpá-la, mesmo sabendo ser uma atitude um tanto quanto dura —, mas não a odiava. — Você não deveria estar aqui. — Ignorando suas lágrimas, me apoiei na terra e arrastei o meu corpo da forma que pude para me sentar. — Eu sei — ela falou baixo. — Mas eu não podia deixar você aqui. Ele está lá dentro e... — não continuou. — Ele machucou você? Ela negou com um gesto de cabeça. Por mais que houvesse perguntando, eu sabia que Michael jamais machucaria Jazmine. Ele tinha seu próprio meio de descontar sua ira, e sempre fora nos filhos bastardos da sua mulher falecida, os quais era obrigado a criar. NACIONAIS-ACHERON


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Quer dizer, no filho bastardo, já que agora ele não podia fazer isso com Lisa. Ele havia conseguido destruir a sua vida, lembrei-me melancolicamente. De repente, ouvimos barulho de cascalho sendo triturado. Eu sabia que a julgar pelos passos pesados, e aparentemente trôpegos, Michael estava cambaleando bêbado em direção ao celeiro. Então, sem muita espera, algo bateu na porta. Jazmine se encolheu, arrastando-se para perto de mim. Era engraçada a forma como ela sempre recorria a mim quando estava em busca de proteção. Eu não era bom em proteger nem mesmo a minha própria bunda. A menina era um pouco estúpida. Antes que pudéssemos fazer mais alguma coisa, ele bateu contra a porta novamente. Desta vez a madeira cedeu e se abriu. Tomei força e retesei meus músculos, me preparando para o pior. Eu estava bem fodido, mas conseguiria ao menos arrancar um pouco de sangue daquele filho da puta bêbado. — O que você ainda está fazendo aqui?! — Michael perguntou. Como se ele houvesse me dado opções antes de me ferir até eu desmaiar e depois me trancar junto com a merda fedida dos cavalos. — Você realmente não sabe? — ironizei. — Achei que fosse mais esperto. Jazmine se encolheu quando ele deu mais passos em nossa direção. — Você está fazendo graça, hein? Acha isso engraçado? Eu não respondi. — Eu lhe fiz uma pergunta, seu inútil! — Michael avançou mais. — Papai, por favor... — Jazmine chorou. Ela chorava muito, eu conseguia me lembrar. Mas não podia julgá-la. Jazmine era apenas uma menina de NACIONAIS-ACHERON


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quase onze anos de idade, cuja vida não era muito melhor que a minha. Michael não pareceu ouvir seus lamentos quando me pegou pelos cabelos e arrastou-me no chão. Ele me deu um chute nas costelas, o que fez com que eu me curvasse sobre meu estômago vazio e dolorido. — Você está achando engraçado agora? — desafiou. — Droga de casa, droga de vida, droga de filhos! Vocês são uns imprestáveis. Iguaizinhos a ela. Aquela pequena cadela também era uma drogada imprestável que só me dava trabalho! — Não fale assim dela! — Calor percorria meu rosto, minhas narinas estavam dilatadas. De punhos cerrados, eu me controlava para não partir para cima do homem que eu mais odiava no mundo. Ele era grande, uns bons quilos a mais do que eu, mas não era tão maior assim. Eu não era baixo, mas com a perda de peso diante de uma vida miserável de pobreza e fome, você não consegue manter o seu peso normal. — Cale a boca — rosnou. — Eu não tenho culpa se a sua irmã era uma pequena prostituta folgada. — Ela não era uma prostituta! — gritei de volta. — Não era! — Você quer mesmo continuar acreditando nisso? Tanto sua mãe quanto a sua irmã eram igualmente duas putas depressivas e patéticas. Como ele tinha coragem de dizer aquilo? Ira percorreu até meus ossos. Tomei impulso, me apoiando contra a parede de madeira e parti para cima dele. Michael também avançou. Em um único impulso, seu punho atingiu o meu rosto. Estrelas dançaram ao meu redor no momento em que meu corpo enfraquecido bateu no chão. Meus dedos arranharam a terra quando tentei me levantar novamente. Me arrastando pelo chão, finalmente consegui ficar de NACIONAIS-ACHERON


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pé e cambaleei para cima dele. O meu soco não foi tão duro, mas causou um bom corte em seu lábio. Dois passos tortos e sua mão irrompia em direção ao meu rosto outra vez. Nos embolamos entre socos e urros, até que eu estava no chão outra vez, algo frio pressionado contra a carne da minha coxa. Não vacilei quando puxei a faca alemã escondida no cós da minha calça. Eu sempre a escondia ali. Enquanto o passatempo da maioria dos garotos da minha idade era foder modelos de Barbies e andar em carros importados, eu treinava arremesso. Eu era bom naquilo. Muito bom. Michael não teve tempo de se esquivar quando minha faca acertou em cheio o seu braço. Ele caiu para trás, segurando o corte que eu havia feito na sua pele. O sangue começou a pingar e, em algum lugar, alguém chorava. — Moleque desgraçado! — meu padrasto gritou. — Você me paga. Seus olhos correram pelo local e eu o vi caminhar até a parte oposta. Em seguida, ele se agachou e pegou algo que logo pude identificar como sendo um pedaço roliço de madeira. Erguendo a madeira sobre sua cabeça, Michael voltou a caminhar em minha direção. Ele estava prestes a partir minha cabeça quando um gemido assustado ecoou pelo local. Virei-me para encarar os grandes olhos verdes que se expandiam em pavor. — Não faça isso — Jazmine pediu, ainda em lágrimas. — Por favor, papai, não faça isso... — Vá para dentro de casa, garota — Michael rosnou. — Eu não disse que era para ficar no seu maldito quarto? NACIONAIS-ACHERON


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— Você vai matá-lo? — Por que diabos ela ainda se preocupava comigo? — Eu não vou — ele estava mentindo, eu sabia. — Então abaixe isso — ela falou. — Eu não gosto da ideia de tê-lo machucando outras pessoas. Eu não gosto quando você o machuca. Eu não soube ao certo o que havia acontecido em sua cabeça, mas felizmente Michael baixou a madeira. Quando seus olhos correram para me encarar novamente, ainda havia o ódio cru neles. — Isso ainda não acabou — me ameaçou. E então, como se nada tivesse acontecido, ele soltou o bastão e saiu tropegamente do celeiro. Novamente a sós com Jazmine, me arrastei até a parede mais próxima, apoiando-me. — Miserável. — Passei a mão sobre minha boca e limpei o excesso de sangue. Em seguida, me agachei e peguei a faca que havia caído no chão. Caminhei para perto de Jazmine, ainda com a faca na mão. Ela endureceu de imediato, mas não recuou. Tão inocente. Parando de frente para ela, eu estendi o objeto de metal. — O que você está fazendo? — perguntou. — Tome isso. Ela olhou para a faca novamente e depois ergueu o olhar em minha direção, confusão embaçando seus olhos. — Por quê? — Para você se defender, caso ele tente fazer alguma merda — eu respondi. NACIONAIS-ACHERON


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Os olhos dela se arregalaram. — Eu... eu não posso... não acho que isso seja certo. — Claro que não — zombei. — Mas fique com ela, de qualquer forma. Timidamente, ela tomou a faca. Quando voltou a me encarar, o seu olhar era vacilante. — Hache, eu não acho que gosto disso. Eu prefiro que você fique com ela. Me sinto mais protegida quando você está por perto. Soltei um suspiro longo, lembrando-me de que ela era apenas uma criança. Uma fodida criança que não estava preparada para todas as merdas que eu tinha vontade de derramar sobre seu pai e aquele lugar infernal. Não é culpa dela — meu subconsciente tentou me alertar. — Eu não vou mais estar por perto a partir de hoje, Jazmine — optei por chamá-la pelo nome, em vez de Bird, o apelido que eu havia lhe dado. Ela já estava começando a criar uma espécie de laço afetivo comigo, e eu não sabia se gostava daquilo. Sem esperar por uma palavra sua, me virei e caminhei para fora do celeiro. Ouvi passos atrás de mim, e a voz de Jazmine soou logo em seguida: — Hache! Me virei. — O que você quer? — Pra onde você vai? — Seu lábio tremia. — Não importa. Eu vou embora daqui. Ela adiantou mais um passo. NACIONAIS-ACHERON


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— Eu vou com você. — Não, não vai — rebati. — Ele é seu pai, afinal. Seu lugar é aqui. E você não duraria um dia sequer vivendo seja lá para onde eu estiver indo. As lágrimas voltaram a escorrer por seu rosto. Ela começou a soluçar e correu em minha direção, me abraçando pela cintura. Bom, merda. Foda-se. — Eu não quero que você vá — falou, me abraçando ainda mais apertado. — Se for por causa dele, eu não vou deixar que ele te machuque mais. Por favor, Hache, não vá... Soltei outro suspiro. Aquela merda estava sendo mais difícil do que eu imaginei que fosse ser. — Eu acho melhor você entrar e dormir agora, Bird — falei enquanto retirava seus braços do meu redor suavemente. — Eu não me considero o seu irmão e nunca tive interesse de fazê-lo. Eu não sou o seu protetor, nem qualquer outra merda à qual você possa se apegar. E com isso, eu me virei e comecei a andar. Escutei um grito como “Hache” soar pela noite, mas não parei. Alcançando o lado de fora do rancho, caminhei quase uma hora até chegar na área comercial da cidade. Eu tinha que fazer alguma coisa para dar o fora. Os únicos motivos que me deixaram preso ali eram a falta de dinheiro e Lisa. O dinheiro eu poderia resolver facilmente, e a minha irmã gêmea estava morta agora. Dois anos. Dois malditos anos desde que eu havia perdido um pedaço de mim. Sentia-me frio, duro, anestesiado. Por um momento amaldiçoei a menina que me salvara. Seria mais fácil se Michael partisse a minha cabeça e eu tivesse morrido. Se eu aprendesse a NACIONAIS-ACHERON


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lidar com o meu maldito destino e aceitasse o meu carma. Recostei-me em uma árvore e puxei um cigarro velho do meu bolso. Desamassei e acendi, dando uma tragada. Soltei fumaça para o ar e deslizei com cuidado até estar sentado no chão. Era noite, por volta das 23h00min. e a rua não estava tão movimentada quanto eu estava acostumado a ver. Austin não era o tipo de cidade turística ou agitada, mas também não era nada vazia, principalmente aos fins de semana onde vários grupos de pessoas se reuniam em bares de música ao vivo e outros festejos do tipo. Foi exatamente o fato de tudo estar silencioso que chamou minha atenção quando comecei a ouvir o barulho de motor potente ficando cada vez mais próximo. Atentando para não machucar ainda mais as minhas costas quando me movesse, me estiquei para expandir meu campo de visão, e foi ali que avistei. Um caminhão parou em frente a um velho depósito com portão de aço pintado de preto, do outro lado da rua. Protegido pela escuridão do local em que eu me encontrava, apaguei o cigarro na terra e me arrastei para trás da árvore na qual eu estava apoiado, observando atentamente o que se desenrolava. Aproximadamente cinco caras enormes saíram do caminhão. Cada um deles usava coletes de couro preto, jeans e botas escuras. Quando se viraram, pude perceber que no colete havia um emblema de uma caveira com asas sobrepondo duas armas cruzadas formando um X. Motoqueiros. O nome eu não conseguia ver na posição em que me encontrava, mas com certeza não era um clube pequeno. Eles tinham uma aura intimidadora e NACIONAIS-ACHERON


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totalmente confiante, como se realmente fossem os donos do lugar. Fodidamente assustadores. Me peguei sorrindo com a visão daqueles caras. Um dia eu seria como eles. Forte o suficiente para intimidar quem se atrevesse a estar ao meu redor e fodão o bastante para que me respeitassem como um verdadeiro alfa. Observei enquanto os caras trocaram algumas palavras e se adiantaram para abrir o fundo do caminhão. Eles tiraram de lá uma bolsa e entregaram a um homem que aparentava ser o mais velho do grupo. O cara abriu a bolsa e apanhou algo que não consegui identificar de imediato, mas percebi do que se tratava logo em seguida: explosivos. Eles pareciam estar entrando em acordo enquanto discutiam baixo o suficiente para que eu não conseguisse ouvir nada. Em seguida, o trabalho de armar as bombas começou a ser feito. Em poucos minutos, todos os explosivos estavam armados nas áreas onde havia correntes e cadeados na porta e quando eles finalmente deram início à explosão, o estrondo foi poderoso. Me encolhi ainda mais atrás da árvore, torcendo para não me pegarem observando e continuei atento a cada movimento. Dois deles puxaram o portão de metal, escancarando-o. Em seguida, um por um entrou na construção. Eu não pude ver o que acontecia lá dentro, mas gritaria de tiros, socos e qualquer porcaria violenta que se pode imaginar começou a soar lá dentro. Voltei a olhar para o caminhão com o fundo aberto e uma ideia maluca me atacou. Aquela era a minha chance de dar o fora. Era um pouco estúpido tentar se infiltrar no caminhão de um grupo de motoqueiros perigosos, mas eu não estava dando muita merda para a minha vida, e se eu conseguisse ir para NACIONAIS-ACHERON


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qualquer outro lugar que não cheirasse como Austin, estaria feliz. Mesmo que você esteja correndo o risco de ir direto para o inferno? O maldito subconsciente estalou. Foda-se. Atravessando a rua, olhei para os quatro lados, me certificando de que ninguém me via. As gritarias e tiros ainda se desenrolava dentro da construção quando entrei no fundo do caminhão e me infiltrei no escuro. Lá dentro havia mais bolsas e grandes lonas escuras. Me arrastei para o fundo e aproveitei para me esconder debaixo de uma delas. Depois de um tempo, o barulho dentro do galpão cessou e os motoqueiros retornaram. Eles carregavam coisas pesadas consigo, mas estando escuro eu não tinha ideia do que se tratava. Me encolhi quando eles arrastaram algo em minha direção. Parecia pesado. Seriam corpos? Onde eu havia me metido, porra? — Eu queria estar aqui para presenciar a cara do maldito quando ele visse isso — um dos caras zombou do lado de fora. — Foda-se ele e todo seu grupo se acham que podem estocar suas merdas logo no Texas e nós não iríamos descobrir — disse outro. Alguém murmurou algo que eu não compreendi, em seguida os caras riram em conjunto. — Não se preocupe, filho — o homem voltou a falar, sua voz parecia orgulhosa. — Você foi muito bem hoje. — É isso aí! — outro se manifestou. — Apesar da pouca idade, você está no NACIONAIS-ACHERON


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caminho certo para obter todas as suas peças, pequeno Shade. Deixando a conversa de lado, eles voltaram a empurrar mais alguma coisa em minha direção. Me afastei ainda mais, prendendo um assobio de dor quando minhas costas feridas bateram contra algo áspero. Porra. Eu me senti aliviado quando eles finalmente fecharam a porta, o barulho de conversa ficando cada vez mais distante. Ainda em silêncio, rolei de lado, sentindo o carro tomar movimento e balançar por cada buraco que passava.

— Ei, caras — alguém gritou. — Venham ver isso! Despertei e imediatamente senti a luz do sol atravessar meus olhos. Os ruídos vinham de algum lugar que minha mente sonolenta não pôde identificar de imediato. Mas no momento em que eu recobrei minha consciência, dando-me conta de que havia dormido dentro de um caminhão de motoqueiros perigosos, toda a merda me bateu como punhos. Eu estava ferrado! Barulhos de passos se seguiram, até que uma parede de homens espreitava na porta do caminhão. Me levantei assustado e tentei me manter o mais distante possível deles, mas um dos caras foi mais forte e ágil quando me arrastou de dentro do veículo e me segurou pela nuca. Eu me debati, tentando me livrar de seu aperto, mas ele manteve-me firme. O sol queimou contra a minha pele quando cheguei do NACIONAIS-ACHERON


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lado de fora e eu chiei. Tendo a chance de analisar mais amplamente, dei-me conta de que havia mais homens do que eu pude notar na noite anterior. Eu não sabia quem diabos eles eram ou onde exatamente estávamos, mas com certeza não era um território seguro para mim. Voltei a me contorcer, tentando de alguma maldita forma me livrar daquele cara e correr, mas estaquei quando uma voz ordenou de repente: — Solte-o. Me virando para encarar quem quer que houvesse vindo ao meu socorro, ou no pior dos casos, para tornar ainda mais crítica a minha situação, vi mais um homem. Ele era bem mais velho, de cabelos loiros e olhos claros. Parecia ter em torno de quarenta anos, e eu não me lembrava de tê-lo visto na noite anterior. No entanto, não podia afirmar nada, afinal estava escuro o suficiente para não poder distinguir muito. — Tem certeza? — o cara que me segurava relutou. — Ele não parece ser de confiança. — Se é de confiança ou não, isso não é da sua maldita conta — ele replicou. — Eu mandei você soltá-lo, então não conteste as minhas ordens. Alguns segundos se passaram enquanto eu me obrigava a lidar com a agonia de ser segurado. Finalmente pude respirar aliviado quando o aperto da mão grande contra o meu pescoço afrouxou. O homem dos olhos claros me encarou fixamente. Dando mais alguns passos em minha direção, perguntou: — Qual é o seu nome, garoto? — Héctor — respondi. Ele ficou em silêncio por um momento, provavelmente tentando imaginar como aquilo soaria em sua língua. NACIONAIS-ACHERON


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— ‘Hek...têr? — pronunciou com seu sotaque nativo bastante evidente. — Não, senhor — balancei a cabeça, já acostumado com aquele tipo de coisa. — É H-é-c-t-o-r. A pronúncia do H é muda. Meu nome é de origem mexicana. Ele balançou a cabeça em compreensão. — Você é mexicano, então? Desconfiança se atrelou aos meus sentidos. Eu não tinha nada contra o fato, mas havia passado por muito preconceito ao longo dos anos por ter tido uma imigrante ilegal, ex-prostituta e mexicana como mãe. — Minha mãe era — decidi ser sincero. — Eu nasci nos Estados Unidos. Observei sua cabeça se balançar novamente. — Quantos anos tem? — Dezessete. Ele fez uma pausa. — Você tem família? Ponderei sobre sua pergunta. As únicas pessoas que eu poderia considerar como minha família era um velho abusivo e uma criança de quase onze anos de idade, que nem sequer tinha o meu sangue. Uma maldita criança que eu queria esquecer, principalmente quando o pensamento de tê-la deixado desprotegida com Michael começou a me apavorar. — Não — respondi. — Não tenho ninguém. — Você mora nas ruas? Neguei com um aceno de cabeça. Eu não tinha uma casa, realmente, mas NACIONAIS-ACHERON


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morar nas ruas também não vinha a ser uma resposta válida. — Posso saber o que estava fazendo escondido no meu caminhão? Naquele momento, meus olhos alternaram-se entre o homem que falava comigo e os seus amigos. Os caras não pareciam muito felizes em me ver ali, e eu senti um certo temor do que estava por vir. Por mais que eu tivesse dito antes que não me importava, aquela não era a forma de morrer que eu desejava. — Eu fugi de casa — respondi. — Da casa do meu padrasto, na verdade; afinal, nunca tive uma. Sua expressão era indecifrável e me deixou desconfortável, principalmente quando vários segundos pareciam terem se passado e ele não havia dito uma palavra sequer. Seus olhos passearam pelo meu rosto provavelmente inchado, meu peito e costelas repletos de contusões. Em seguida, ele subiu o olhar, fixando-se em meu rosto outra vez. — Temos uma merda bem feia aqui, certo? — falou. — Quem fez isso com você? Encolhi meus ombros, lembrando-me das cenas de Michael me espancando e, em seguida, me queimando com o ferro de marcar animais. Tudo porque eu não havia obedecido a sua maldita imposição de não poder me alimentar naquela noite. Decidi não responder a sua pergunta, e ele pareceu compreender quando balançou a cabeça. Após mais um momento me encarando, sorriu amplamente. — Seja lá quem for, eu espero que ele esteja morto agora. Senti minha testa se enrugar. O homem dos olhos claros riu, sendo seguido NACIONAIS-ACHERON


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por toda sua trupe de motoqueiros esquisitos. Quando a compreensão me bateu, eu não pude deixar de esboçar um pequeno sorriso também. Seria uma boa ideia ver Michael morto. O homem adiantou mais um passo. — Ei, filho, você se parece muito comigo, sabia? Como eu poderia saber? Sem ter ideia de qual resposta dar, eu simplesmente dei de ombros. O homem voltou a fazer aquela coisa de balançar a cabeça e sorriu novamente. — Você é dos meus, garoto — disse, dando tapinhas em meu ombro. — A propósito, eu me chamo Hugh. Hugh “Hunter” Thompson. Sou presidente deste clube, e nós somos os Renegade Souls.

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1: Forasteira

Dias atuais. Em algum lugar a caminho da Califórnia. — Rá! Venci de novo — Batendo a palma sobre a mesa, comemorei. — São dez dólares a menos no seu bolso, velho. Jeremy Wills, quem eu havia carinhosamente apelidado de senhor Crocs por conta de seu gosto um tanto quanto peculiar para sapatos de borracha com furos, fez uma cara emburrada. Coçando o queixo enrugado, ele depositou duas notas de cinco dólares sobre a mesa, deslizando-as em minha direção. Tomada pela excitação, mordi meu lábio inferior e juntei as notas ao montante de várias outras cédulas que eu havia arrematado naquela noite. Acenei a cabeça com um sorriso. — Foi bom negociar com vocês, senhores. — Isso não pode estar certo — senhor Wills reclamou. Ele era o mais resmungão do grupo de três homens, eu pude perceber durante as quase quatro horas que passara com eles. Mas não era para menos. O pequeno novato, como eles acostumaram por me chamar, estava dando-lhes uma verdadeira surra no jogo. — Nada nisso está certo. Prendendo lábio entre os dentes, segurei o riso. — Toda essa birra é para não confessar que você perdeu mais uma vez uma NACIONAIS-ACHERON


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partida de damas para uma... — pigarreei, notando minha falha — para um pobre garoto forasteiro, senhor Wills? — Jeremy, homem, lide com isso — senhor Harold interveio. Ele tinha um leve sotaque holandês e era muito simpático. Possuía sua própria casa localizada em um bairro há poucos minutos dali; no entanto, eu soube vagamente, sempre aparecia na pensão para aproveitar o jantar. — O garoto é bom. — Não tão bom quanto eu! — Senhor Wills voltou a resmungar. — Eu fui o melhor jogador do clube de dama durante a minha adolescência. Deve haver algum problema com a minha visão. Meus olhos não estão trabalhando muito bem ultimamente. — Ele se ergueu da cadeira em que estava sentado. — Ei, Mildred, traga-me os malditos óculos! Alguns segundos se passaram até ouvirmos passos em direção à recepção. O corpo esguio de Coralline, a dona da pensão, surgiu na porta. Ela era uma mulher por volta dos quarenta anos, de pele pálida e aura acolhedora. — Mildred não mora mais aqui, Jeremy — Coralline falou, encarando o idoso por cima dos seus óculos de armação grossa. — Ela foi embora no ano passado, lembra-se? — Oh? — Senhor Wills parecia realmente surpreso com aquela suposta revelação. Ele parou por um instante, talvez procurando encontrar alguma lembrança. — Isso é sério? — Tão sério quanto a importância do sistema Solar — a mulher respondeu. Os lábios do idoso se inclinaram para cima, deixando claro o desgosto sobre aquela ideia. Seja lá quem fosse Mildred, senhor Wills não estava nada satisfeito a respeito daquela pequena informação. NACIONAIS-ACHERON


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— Oh, não, Mildred — murmurou. — Sua velha cadela traiçoeira. Você foi embora e levou consigo os meus óculos! Dei um salto quando o punho do velho bateu contra a mesa. Coralline balançou a cabeça e suspirou. — Está na hora dos seus remédios, Jeremy. De repente, sentime mal. Era óbvio que senhor Wills não estava com sua mente sã, e eu havia, tecnicamente, me aproveitado de um homem idoso e doente para conseguir dinheiro. Por mais que ele tivera sido o primeiro a insistir em jogar damas apostado, e por mais que somente o relógio que ele tinha preso no pulso valesse até mais que o meu carro velho estacionado do lado de fora, eu meio que senti minha consciência pesando por ter tirado dele os dez dólares em um momento de fraqueza. Mas o que mais valia, a minha consciência limpa ou o meu estômago abastecido? Você já conseguiu o suficiente nas outras partidas. Dez dólares a menos não vão lhe doer no bolso, afinal. Oh, merda, maldita consciência! No entanto, por mais que a ideia não me agradasse tanto assim, eu sabia que aquela decisão era a melhor a ser tomada. Chegando mais perto do senhor Wills, pousei uma mão no seu braço. Suas rugas ficaram ainda mais evidentes no momento em que ele me encarou de volta. Seu olhar levemente embaçado procurando entender o motivo do meu gesto. — Tome seus dez dólares de volta, velho — eu disse, oferecendo-lhe o dinheiro. — Eu acho que você venceu o jogo, no fim das contas. NACIONAIS-ACHERON


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Ele ficou olhando por alguns segundos para as notas estendidas sobre a mesa. — Eu venci? — U-hum. — Assenti. — Você é um ótimo jogador. Eu jamais seria capaz de vencê-lo. Seu olhar alternou entre mim e as notas sobre a mesa. No instante seguinte, ele apanhou o dinheiro. — Oh, bem, certo — seu tom de voz era presunçoso. Ele encarou os demais homens. — Eu não disse a vocês, amigos? Sempre fui o melhor. E sorrindo como se fosse o dono do local, senhor Wills saiu da sala, seguindo Coralline em direção à cozinha. — Ei, garoto! Bonito gesto — um outro homem chamou minha atenção. Ele não era tão velho quanto o senhor Wills, mas não era jovem também. Se eu não tivesse me informado antes, acharia que aquela pensão na qual havia me hospedado era, na verdade, uma espécie de casa de acolhimento para homens da terceira idade. — Como você se chama mesmo? Eu engoli em seco e procurei formular uma resposta rápida. — J... Jaden — menti. — Eu me chamo Jaden. Ele estreitou os olhos e balançou a cabeça. — Ei, Jaden, você tem um bom coração. Essa não é a forma como um competidor veterano agiria. Já jogou apostado alguma outra vez? Eu neguei com um gesto de cabeça e ele riu. Bem, realmente, eu não estava mentindo. Eu nunca havia jogado damas antes, muito menos apostado. Não era muito a minha praia me envolver em jogos de azar, mas é isso o que a necessidade faz com você. Eu precisava de NACIONAIS-ACHERON


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dinheiro e, no instante em que aqueles velhos começaram a jogar na recepção da pensão, alegando serem grandes apostadores, eu arrisquei os únicos dólares que tinha e tentei a sorte para conseguir fazer mais. Existe um ditado que diz: se você possui limões, faça uma limonada. No meu caso seria: se você tem dez dólares para comer um hambúrguer no McDonald’s por apenas uma noite, transforme-os em cinquenta e garanta o seu almoço por, pelo menos, dois dias. — Escutem, eu tenho que ir. — Me levantei, percebendo que já estava há muito tempo ali, conversando com aqueles homens. Eu não queria dar na pinta de que era, na verdade, uma menina disfarçada. Senhor Harold voltou-se em minha direção. — Você não vai nem mesmo jogar a partida da revanche? Para tentar recuperar os dez dólares que devolveu para Jeremy. Balancei a cabeça com determinação. — Sem chance — falei. — Foram muito produtivas essas horas que passei com os senhores, mas eu preciso subir para o meu quarto agora. Amanhã cedo terei que seguir viagem. Guardei o dinheiro que havia conseguido e forcei um sorriso na direção deles. Após me virar, atentei para andar sobre os degraus da escada como um verdadeiro garoto faria. Não era nada confortável fingir ser um menino, e não pense que passar por isso foi uma opção além da necessidade, mas as coisas costumavam ficar meio perigosas com garotas viajando sozinhas. Era mais uma penitência que eu tinha que pagar por conta da sociedade altamente rude e machista em que vivíamos. Mas que se fodesse. Eu não estava disposta a dar ouvidos para o NACIONAIS-ACHERON


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que pensavam de mim. Eu tinha apenas que chegar em Scout Lake, segura e livre de mãos bobas de homens indesejáveis. Depois disso, eu veria o que fazer com o meu destino. Alcançando a porta do quarto que eu consegui alugar por aquela noite, abri e espreitei a cabeça para dentro em silêncio. Pouco adiantou toda a minha cautela, pois, no mesmo instante em que fechei a porta atrás de mim, um imenso corpo caramelo e branco saltou em minha direção. A grande boca babona de Boo estava muito próxima do meu rosto. Ele começou a me lamber como se eu fosse um maldito pirulito. Contive-me para não cair na gargalhada. — Garoto malcriado, pare já com isso — sussurrei. Ele não obedeceu, óbvio. Essa é a parte mais complicada em se ter um cachorro sem treinamento e desobediente. Eles ficam terríveis depois de um tempo. — Boo, pare com isso! — fui mais firme e, dessa vez, ele obedeceu, saltando para o chão novamente, mas a ansiedade ainda muito difícil de controlar. Arrastando meus pés até a porta do banheiro velho e pouco espaçoso, eu falava baixinho com ele: — Você sabe que não pode fazer barulho, né? Se descobrirem que eu trouxe um cachorro preguiçoso e babão para dentro do quarto vão me expulsar daqui. — Me virei para encará-lo. — Você quer dormir mais uma noite dentro daquele fusca apertado? Bom, porque eu não quero. Ele sentou-se abaixo do umbral da porta e sua cabeça se inclinou para o lado, como se estivesse assimilando as minhas palavras. Retirei a touca que cobria os meus grossos cabelos castanhos e deixei as mechas caírem até que as pontas tocaram a base das minhas costas. A parte mais difícil de lidar quanto ao meu disfarce não foi nem de longe o inchaço NACIONAIS-ACHERON


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dos seios ou até mesmo a minha voz de menina. Os meus cabelos eram o grande problema, afinal eu nunca havia os cortado, além de aparar as pontas ocasionalmente. Foi meio difícil esconder todo aquele volume dentro da touca que eu usava. Retirei as botas, em seguida desci o zíper do casaco de moletom que eu havia conseguido antes de sair do Texas. Eram roupas velhas que eu usava para trabalhar no rancho, mas naquele momento me caiu como uma luva. Ao retirar o casaco, tive cuidado quando puxei debaixo dele um embrulho em papel alumínio. Boo imediatamente ficou animado, suas orelhas se levantando. — Bom, o que temos aqui? — provoquei, passando o sanduíche perto do seu focinho molhado. Ele já estava salivando. Cachorro guloso. — É rosbife, o seu predileto. Boo se agitou e voltou a se levantar. Quando fez menção de latir, eu estendi a mão para o alto, como se dando-lhe um alerta para não fazer aquilo, caso contrário estava tudo perdido para ambos. Ele voltou a se controlar. Esperto. — Eu só vou te dar isso se você me prometer se comportar — eu disse. — Você promete? Ele não respondeu, óbvio, mas baixou a cabeça e caminhou em direção aos pés da cama. Em seguida, se deitou lá. Era em horas como aquelas que eu imaginava que Boo tinha uma espécie de conexão comigo. Quer dizer, ele não era um cão treinado, muito menos eu podia considerá-lo como um animal bem-educado, mas ele sempre me entendia, desde que era um filhotinho. NACIONAIS-ACHERON


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Boo era um Boxer que havia inusitadamente aparecido no rancho quando eu tinha quatorze anos de idade. Ele era nada mais que um filhote magricela, prestes a morrer de fome. Eu o escondi dentro do meu quarto por dias, até que infelizmente o meu pai o encontrou. Ele exigiu que eu “desse um fim” no cachorro, óbvio, e eu prometi que o faria, mas nunca realmente havia tido coragem. Boo era meu companheiro e, uma vez que o meu pai mal parava em casa, dificilmente ele descobriria sobre a existência dele. Que tola eu fui ao imaginar aquilo, pois meu pai realmente descobrira. No entanto ele não discutiu quando viu que eu não havia enxotado Boo para fora. Por mais que fosse um homem violento na maior parte das vezes, ele jamais levantara a mão para mim. Eu podia até mesmo dizer que enxergava amor em seus olhos algumas vezes em que ele olhara para mim. Eu não sabia dizer se a lembrança da minha mãe era forte em minhas feições, mas adoraria descobrir se era aquele o caso. De qualquer forma, não faria diferença alguma agora. Eu jamais cheguei a conhecer a minha mãe, e meu pai estava morto. Tirando os pensamentos ainda dolorosos da minha cabeça, eu desembrulhei o sanduíche e atirei para Boo. Enquanto ele se deliciava com seu sanduíche, eu terminei de tirar minha roupa e adentrei o banheiro outra vez. Olhei para o reflexo da menina de rosto arredondado e me encolhi com o que enxerguei ali. Meus olhos verdes e grandes estavam fundos, com grandes olheiras. Passei a mão pela franja de mechas rebeldes e dei-me conta do quão ressecado o meu cabelo estava. Com meus lábios e algumas outras partes do meu rosto não era diferente. As sardas e manchas vermelhas de queimaduras do forte sol deixavam evidentes a luta diária que eu passava trabalhando no rancho. NACIONAIS-ACHERON


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As coisas não haviam sido fáceis desde os últimos meses. Havíamos sofrido um incêndio que tirara não só a vida do meu pai, mas destruiu boa parte do local em que morávamos. Como se não bastasse o prejuízo com a tragédia, as dívidas que meu pai tinha com agiotas e bebida foram todas quitadas com os poucos cavalos que sobraram e eu tive que vender. Eu fiquei sem casa, sem família, sem chão e sem dinheiro algum. Eu imaginei, por um momento, o que teria acontecido caso eu não estivesse trabalhando como babá naquela noite. Eu teria conseguido impedir aquela tragédia ou morreria junto com o meu pai? Estremeci apenas com o pensamento e decidi que não era nada bom envolver minha mente em torno daquilo. Após meu banho, voltei para o quarto. Encontrei Boo deitado sobre o tapete, ainda aos pés da cama. Puxei o cobertor e me infiltrei debaixo dele. Me estiquei para desligar o abajur, mas senti algo cutucando as minhas costas. Em seguida, o corpo quente e espaçoso de Boo se aconchegou ao meu lado. Maldito trapaceiro! Me virei até ficar frente a frente com ele e sorri. — Ei, cara — eu falei. — Você não toma jeito? Boo me olhou e se aconchegou ainda mais contra mim, como se procurando por proteção ou ao menos um pouco de carinho. Só tínhamos um ao outro agora. Suspirei e o abracei enquanto fechava meus olhos e sentia a língua quente de Boo contra o meu braço. Ugh! Eu havia acabado de tomar banho. NACIONAIS-ACHERON


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Todavia, não podia afastá-lo. Ele era um cão preguiçoso e sem noção, mas era fofo e eu sabia que me amava. Eu havia lhe mimado muito.

O dia seguinte veio ainda mais quente que o anterior. Eu sabia que nós já estávamos, provavelmente, muito próximos do nosso destino e o calor californiano não estava dando trégua. Com o carro parado em algum ponto da estrada, puxei a mochila que havia guardado no banco traseiro e abri, inspecionando seu conteúdo. Uma lata de Pepsi Cola, meio sanduíche de manteiga de amendoim, algumas peças de roupa femininas e cinquenta e sente dólares. Era tudo o que eu tinha. Bom, eu também possuía um carro agora. Um fusca de 1980 com pintura descascada e bancos de couro ressecado. Ele não era algo muito valioso, mas era o melhor que eu possuía e foi o único bem que eu não precisei vender depois que meu pai morreu. Tirei a touca dos meus cabelos e depois removi a cinta justa que utilizei para apertar o meu peito. Nós já havíamos nos distanciado bastante da pensão em que eu me instalara e não via mais motivos para continuar vestida como um garoto. Troquei o sapato masculino pelas botas de montaria e me permiti respirar. Estava tudo uma grande merda. Eu era uma garota prestes a completar vinte e um anos e minha vida já havia sido um inferno desde muito tempo. Eu não tinha uma faculdade, muito menos fundos para isso. Emprego decente eu só havia atuado em meus melhores sonhos, e a única imagem de família que eu possuía havia morrido em um incêndio. NACIONAIS-ACHERON


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Bom, mas eu tinha uma última esperança: Ele. Meu irmão postiço. Eu não via Héctor já fazia dez anos e, por mais que eu fosse apenas uma menina de quase onze anos na época, ainda me lembrava de seus traços fortes e a determinação que eu só vira em poucas pessoas. Héctor não era como os garotos que eu conhecia. Ele era perseverante, inteligente e não tinha medo de praticamente nada. As únicas vezes em que o vi sucumbir realmente, foi quando perdeu sua mãe e irmã. Aquilo foi o que me fez perceber que Héctor também possuía um bom coração, por mais que tentasse demonstrar o contrário, e eu estava me apegando àquele pequeno fio de esperança para tentar, finalmente, conseguir dar um rumo à minha vida. Não foi nada fácil encontrá-lo, mas eu havia conseguido. Através de pesquisas na Internet e o contato com antigos conhecidos, finalmente eu o localizei. A única coisa que eu consegui descobrir foi que ele fazia parte de um clube de motoqueiros no interior da Califórnia. Uma cidade chamada Scout Lake, cuja localização eu não fazia a menor ideia de qual fosse. Tive que quebrar a cabeça em um mapa no Google para conseguir me orientar e tomar a estrada rumo àquele lugar. Rumo à um futuro totalmente desconhecido. Aquilo era a única coisa com a qual eu poderia me apegar e eu não podia desistir. Estava com fome, cansada, precisava de dinheiro e moradia. Nem que me enfiassem em uma maldita garagem suja e velha, eu ficaria feliz por não ter que dormir mais uma noite em meu apertado carro ou estabelecimentos cuja estadia eu não podia mais pagar. Respirando fundo outra vez, eu finalmente voltei a pôr o carro em movimento. Dirigi por, pelo menos, duas horas até finalmente encontrar algo que indicasse civilização. A cidade não era tão ruim. Era aconchegante, até, com áreas arborizadas, NACIONAIS-ACHERON


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casas das mais simples às mais pomposas, prédios e estabelecimentos. Parei o carro em frente a um local que julguei ser uma espécie de bar, tendo em vista a fachada bastante característica e a placa gigante no topo escrito “Dark Horse”, e estirei meus músculos cansados. O lugar estava fechado, então eu acreditei não haver problemas em estacionar ali por alguns minutos. Após puxar novamente a bolsa e tirar de lá o sanduíche que eu havia guardado, tirei o embrulho e dividi no meio. Dei um pedaço para Boo e comecei a comer o meu. Puxei o mapa que descansava sobre o painel e passei a analisar, em busca de ao menos um auxílio. Ali dizia que o complexo dos Renegade Souls ficava aos arredores do bairro Fort Weston, e este se localizava ao sul da Penni Street, cruzando com a Rush Benthon. Mas onde diabos eu estava, exatamente? Eu continuei a olhar para o mapa, sem saber ao certo o que diabos fazer, quando um barulho de buzina me assustou. Pus a cabeça para fora da janela e olhei para trás. — Com licença? — uma voz feminina chamou minha atenção. A moça, que acabara de sair de seu carro parado atrás do meu, começou a caminhar em minha direção. — Eu não sei se você sabe, mas é proibido estacionar em frente ao bar. Gaguejei, o constrangimento queimando minhas bochechas. Eu não gostava de levar broncas, principalmente quando tinha certeza de estar errada. — Desculpe — falei. — Bem, eu sou nova na cidade. Ainda não conheço nada por aqui. Seu olhar permaneceu inexpressivo por alguns segundos. Em seguida ela NACIONAIS-ACHERON


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sorriu abertamente, deixando-me um pouco desnorteada. Ela era alta, do tipo modelo da Victoria’s Secret, tinha uma pele negra que parecia reluzir em dourado debaixo daquele sol infernal e o seu sorriso era um dos sorrisos mais bonitos que eu já vira. Caramba, se eu fosse lésbica, com certeza ela seria o meu tipo certo de garota. — Tudo bem, acho que você está perdoada por isso. — Ela me estendeu uma mão. — Eu sou Bethan, e você? — Jazmine Young — falei segurando sua mão de volta. — Mas todos me chamam de Jaz. — Jaz — ela repetiu o meu nome com um sorriso. — Você... precisa de alguma ajuda? — Na verdade, sim — respondi. — Eu não sou muito boa com essa coisa de direção, e é a primeira vez que viajo. — Certo, e o que você está procurando, exatamente? Eu baixei o mapa no banco ao lado do meu e me estiquei um pouco mais em sua direção. — O complexo dos Renegade Souls — eu disse. — É um clube de motociclistas. O sorriso dela despareceu imediatamente. — O que uma garota como você vai fazer por lá? — percebendo o seu deslize, ela rapidamente deu um jeito de consertar o que havia dito. — Eu não quis dizer... bom, merda, não me leve a mal, ok? Mas só dois tipos de garotas vivem em torno dos Souls, e você, com certeza, não me parece ser do NACIONAIS-ACHERON


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tipo de nenhuma delas. E quando eu digo isso, tenha como um elogio. Engoli em seco, sem saber ao certo como rebater seu comentário. Será que eu estava enganada a respeito de Héctor não haver mudado? — O que você... o que você quer dizer com “dois tipos de garota”? Ela suspirou e colocou uma mecha de cabelo escuro atrás da orelha antes de cruzar os braços sobre o peito. — Old Ladies e vadias de clube — disse. — Eu não sei se você tem conhecimento sobre isso, mas como está em busca dos Souls, eu imagino que já saiba como funciona tudo por lá, não é? Não, eu não sabia. Bethan pareceu perceber aquilo, pois enrugou a testa em clara confusão. — Escuta... o que diabos você vai fazer por lá? — insistiu. — Estou em busca de Héctor Ridel — respondi. — Acho que você o conhece. Suas sobrancelhas se arquearam. — Se eu o conheço? — Percebi seus olhos se abrirem, como se ela não estivesse acreditando naquilo. — Garota, ele é o fodido líder dos Souls. Você sabe, como o maldito macho alfa de todo um grupo de animais perigosos. Então quer dizer que Héctor era o líder? O presidente do tal clube? Puta merda. De repente, gelo percorreu a minha espinha. Eu já não me sentia tão convicta de que estava preparada para encarar Héctor e seu clube. — Eles são tão ruins assim? — perguntei. — Ruins não seria a palavra certa — ela respondeu. — Os caras fazem um monte de merda ilegal, mas eles controlam e protegem a cidade. A própria NACIONAIS-ACHERON


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polícia é comprada por eles para fingirem não saber de nada e se mantêm longe de seus negócios. Toda essa coisa é complicada, mas ruim com eles, bem pior sem eles. Eu senti meus olhos se arregalarem. Lambi os lábios, percebendo o nervosismo consumir meus nervos. — Oh, certo — falei. — E, bem, você sabe onde fica o complexo? Bethan parou por um momento enquanto parecia ponderar sobre qual resposta me dar. — Você tem certeza de que ainda quer ir até lá? Não, eu não tinha. — Não é exatamente uma escolha. — Dei de ombros, forçando um sorriso amarelo. — É uma necessidade. Se Bethan havia compreendido o que eu queria dizer, eu não sabia, mas senti a compaixão emanando de sua expressão suave. — Bom, na verdade eu até sei, mas não posso te levar lá. — Um pequeno sorriso alcançou seus lábios. — No entanto, acho que tem alguém que pode te ajudar.

Meia hora depois, Bethan e Boo já haviam adquirido uma espécie louca de amizade quando ela lhe forneceu algumas sobras de seu almoço. Eu tinha minhas dúvidas de que, a qualquer momento, aquele cachorro decidiria me trocar por um pedaço de qualquer coisa considerada comestível. Eu já havia saído do carro e esperava recostada contra o capô, enquanto NACIONAIS-ACHERON


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Bethan permanecia mais alguns passos adiante, de onde ela falou que seu amigo sairia. Ela me dissera que o cara poderia facilmente me levar até o endereço no qual eu tanto queria chegar. Eu perguntei se ele também era membro do clube e Bethan apenas riu, o que me deixou um pouco confusa. No entanto, eu entendi de imediato o porquê de ela ter achado graça quando vi o rapaz. Bem, ele não era esquisito ou coisa do tipo. Na verdade, não havia nada de errado, exceto que ele não se parecia nada com um motoqueiro. Ele fazia mais o estilo surfista loiro de pele bronzeada. — Jaz, esse é o Chad — Bethan me apresentou. — Ele é meu colega de trabalho e um rapaz muito responsável. Você vai encontrar fácil, fácil o caminho para o complexo dos Souls e, eu te garanto, estará segura. — Olá, Chad — cumprimentei, abrindo um sorriso. Eu não o conhecia, mas da mesma forma como ocorreu com Bethan, sentime imediatamente confortável. Ele sorriu de volta. — Preparada? Eu não sabia como responder aquela pergunta, então eu decidi apenas assentir e peguei a chave do carro. Em seguida, nós já estávamos dirigindo rumo ao complexo dos Renegade Souls, enquanto eu seguia nervosamente os seus comandos.

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2: Terra, Suor e Uísque

Hugh “Hunter” Thompson. Liberdade no sangue, lealdade no peito, selvagem na alma. Encarei o nome do meu pai e o lema do nosso clube talhados no concreto da lápide cinza. Escovando meus dedos sobre a pedra aquecida pelo forte sol, suspirei. — O que fizeram com você, velho? — perguntei para o nada. Eu sabia que a resposta jamais viria, considerando que meu interlocutor estava preso numa caixa de madeira, sete palmos abaixo da terra. Voltei a encarar o bloco cinza. Ambos os escritos eram recentes, e o material sobre o túmulo era bem cuidado, livre de ervas daninhas ou sujeira de flores secas, afinal nós nos encarregávamos de sempre ter alguém disponível para que cuidassem de tudo da devida forma. Seria tudo realmente perfeito se toda a dedicação não estivesse sendo destinada a um homem morto. Fiquei por mais algumas horas apenas observando toda a aura fúnebre ao meu redor e repassando os últimos acontecimentos, em busca de respostas. Quando o alaranjado do crepúsculo começou a surgir no céu, eu finalmente me levantei do túmulo do meu pai e tirei a terra das minhas roupas antes caminhar para fora do cemitério municipal de Scout Lake. NACIONAIS-ACHERON


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Algumas pessoas ao redor paravam o que estavam fazendo para me observar passar, e isso ocorreu até o instante em que eu montei minha reluzente Triumph preta e ostentei sua potência e força ao pô-la em movimento, rumo ao complexo dos Souls. Eu já estava acostumado àquele tipo de comportamento das pessoas ao meu redor. Bem, ao menos das pessoas que não estavam habituadas ao modo de vida de clubes Outlaws. Para grande parte dos civis nós éramos apenas uma irmandade de criminosos impiedosos e assassinos sem escrúpulos. Eu não lhes tirava a razão sobre isso, afinal nós éramos fodidos homens desalmados e adeptos ao derramamento de sangue, contudo aquele era o nosso modo de viver, e tínhamos algumas regras que gostávamos de deixar bem claras: não matar mulheres, não assassinar crianças, não nos envolver com menores de idade. Nós também éramos contra o estupro e qualquer prática sexual onde não envolvesse o consentimento. Nossas mulheres eram fodidas e algumas realmente permitiam ser tratadas como lixo, mas era, acredite em mim, preferência delas, e o destino que algumas escolheram ter. Eu havia me tornado o presidente do clube há apenas seis meses. As coisas nunca tinham sido descomplicadas antes, mas piorou depois que o meu pai morreu. Hunter foi o presidente antecessor e, sendo seu VP, eu acabei assumindo o comando. Não era uma coisa com a qual eu estivesse de todo feliz, mas se me foi atribuído aquele cargo era porque eu tinha lutado para chegar até ali. E eu faria jus ao legado deixado por Hunter. Nem que para aquilo eu tivesse que perder a vida também. Chegando em frente ao complexo, puxei o controle remoto do meu bolso e acionei a abertura do imenso portão automático de aço. Uma vez lá dentro, estacionei a motocicleta diante da fortaleza de três andares e desci. Observei a imensa construção de concreto. Aquele era o meu lar, a minha NACIONAIS-ACHERON


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salvação e o local pelo qual eu devotava desde que tinha dezessete anos de idade. Não é fácil comandar um clube de motoqueiros sem nem ao menos ter alcançado os trinta, mas como eu havia dito anteriormente, lutei arduamente para chegar até ali. Quando alcancei a área do bar, percebi que os caras já estavam totalmente animados. Era sábado, dia de festa no complexo. Várias mulheres perambulavam para e lá e para cá, auxiliando nos preparativos, fossem vadias do clube ou old ladies dos irmãos. Ainda era cedo para isso, mas eu sabia que em breve as crianças também estariam lá. Aceitei uma bebida de uma das meninas e tomei um gole. Os caras saíram de seus postos para me cumprimentar. Eu sabia que aquela merda se devia à minha visita ao túmulo de Hunter. Desde que eu havia jurado vingança, seis meses atrás, os caras ficaram realmente alarmados a respeito do que eu pretendia fazer. Eles sabiam que declarar guerra aos Fierce Lions — nossos maiores inimigos — era colocar nossas cabeças em exposição para serem arrancadas. Mas era isso o que eu realmente queria. Eu iria explodir os malditos miolos dos filhos da puta, em seguida beberia seu sangue como um vampiro lunático. Shade, meu VP, desapoiou-se da mesa de bilhar quando me viu. Afastando-se da aglomeração, caminhou em minha direção. — E aí, cara. — Ele deu tapinhas em meu ombro. — Você está legal? — Sério? — Arqueei uma sobrancelha. — Até mesmo você está vindo para NACIONAIS-ACHERON


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cima de mim com essa merda agora? Shade liberou uma respiração pesada. Ele era o meu melhor amigo desde que eu recebera o aval de Hunter para fazer parte dos Souls. O garoto era apenas um prospecto de dezoito anos de idade quando entrei para o clube. Shade também fez sua fama ao longo dos anos, e não foi à toa que ele alcançara o patch de vice-presidente. O bastardo era bom em vários aspectos, principalmente em saber exatamente como tocar no maldito ponto fraco das garotas e fazê-las caírem aos seus pés como se houvesse encontrado o homem de suas vidas. — Eu só quero saber se você está bem, irmão — ele explicou. — Todo mundo sabe o quão mentalmente fodido você ficou desde o que aconteceu com Hunter. Eu não o culpo por isso, nem exijo que você passe a ser um marica a partir de agora, mas você está me preocupando pra caralho. — Pois não se preocupe — eu falei, tomando mais um gole da minha cerveja. — Eu não estou planejando nada diferente do que Hunter faria. Se mexerem com um de nós, mexeram com todos nós, lembra? Somos uma irmandade, Shade. — Eu sei disso — replicou. — Não pense que a minha intenção é te convencer a não se vingar da morte de Hunter, mas nós temos que ter certeza antes de dar qualquer passo. — A única certeza que eu tenho é a de que os fodidos dos Lions assassinaram o meu pai — falei. — E foda-se se criarmos uma guerra com isso, nós vamos seguir em frente. Shade suspirou novamente e coçou a barba espessa. — Certo, não vou mais discutir isso. Termine sua cerveja e venha jogar uma partida de bilhar com a gente. Você precisa relaxar. NACIONAIS-ACHERON


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— Nós teremos tempo para isso — respondi. Em seguida, assobiei chamando a atenção dos demais membros. — Missa, agora! Os caras começaram a se mover em suas posições. Olhei para Shade e ele me encarava com desaprovação, mas foi sensato o suficiente para manter-se quieto. Eu podia ser o seu melhor amigo, mas ainda era a porra do seu prez. Quando já estávamos trancados dentro da sala, sentei-me em minha posição na ponta da mesa e encarei os presentes. Ali havia, pelo menos, uma dezena de caras. Olhei para cada um deles, aguardando todos se acomodarem melhor em seus lugares. — Como todos provavelmente ainda se lembram, há alguns meses nós tivemos uma reunião, onde eu trouxe à tona a organização de uma possível retaliação sobre o assassinato de Hunter. No entanto, como a ferida ainda estava bastante fresca, não fiz questão de fortalecer o incentivo — fiz uma pausa, meus olhos totalmente fixos em seus rostos compenetrados. — Acontece, irmãos, que hoje eu decidi que nós partiríamos para o ataque. Houve um murmurinho ao redor da mesa, alguns apoiando de imediato minha decisão, outros ainda muito receosos. — Isso significa de que nós vamos, realmente, partir para cima dos Lions? — um dos membros perguntou. — Como tem tanta certeza de que os caras estão por trás dessa? Eles não são os primeiros, nem serão os últimos a desejarem nossas cabeças. Senti minha mandíbula se tensionar, já sabendo que aquela merda aconteceria. No entanto, eu estava convicto sobre a minha decisão e tinha certeza do que dizia. — Eu estou certo de que foi uma emboscada — afirmei. — Eu havia optado por não mexer nas coisas de pop até que a poeira baixasse, mas hoje eu NACIONAIS-ACHERON


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finalmente decidi arrumar sua bagunça e acabei encontrando isso — puxei o aparelho celular do meu bolso e o deslizei sobre a mesa. Esperei os homens, um por um, lerem a mensagem que havia no celular de Hunter. Em seguida, seus olhares indignados voltaram-se em minha direção. — Foda-se, prez! — Shark bateu com o punho na mesa. — Esse filho da puta do Hammer... — Pois é — eu disse. — Então, há alguma dúvida de que toda essa merda foi uma emboscada dos Lions? — Eu não entendo — Shade se manifestou. — Pelo que posso ver, essa é uma mensagem de Hammer marcando um encontro com Hunter no mesmo dia em que ele morreu, mas por que diabos o prez iria se encontrar com esse cara e não nos contataria? Ele nunca nos esconderia algo relacionado ao clube. — Talvez não tenha sido algo relacionado ao clube — Kane, outro membro, falou. — Talvez não tenha sido nem mesmo Hammer quem mandou a mensagem. Nós não podemos nos basear somente nisso. — Fodam-se essas teorias, Kane — eu disse. — Você está falando como aqueles malditos tiras alienados falariam. Trabalhe um pouco mais a sua mente e descubra que para Hammer encontrar motivos para enfiar algumas balas nas costas do presidente dos Renegade Souls, não basta muito. Kane não rebateu, portanto eu continuei: — Eu ainda não tenho certeza do que realmente se trata essa mensagem, mas esse é outro ponto que precisamos descobrir. No entanto, nós já temos motivo suficiente para decidirmos pegar os miseráveis — falei. — Eles atacaram Hunter e provavelmente virão atrás de nós em breve. Nós somos mais fortes e estamos em maioria, mas não pensem que os fodidos vão ser fáceis de exterminar. NACIONAIS-ACHERON


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Eles são espertos e foram muito bem treinados. Provavelmente já estão planejando algo, e rápido, para virem para cima de nós. — Você acha que seria mais válido esperar eles virem até nós? — questionou Reed, o integrante mais recente. — Claro que não — Josh respondeu. Ele era pai de Shade e um dos membros mais velhos do clube. Assim como ocorria comigo e com Shade, Josh era o melhor amigo do meu pai, e um dos primeiros a desejarem a cabeça dos Lions. — Esses bastardos tiraram a vida não só de um dos irmãos, mas a de um dos membros mais antigos. Nós temos que ir atrás deles o mais rápido possível e fazê-los pagar! — Exatamente — eu apoiei. — Vocês preferem que eu faça uma votação? — espalhei um olhar em torno deles, aguardando uma manifestação, contudo não falaram nada. — Ótimo. Eu marcarei uma próxima missa para decidirmos isso. Os caras assentiram. Bati o martelo. — Podem se divertir, rapazes. Depois que todos se levantaram e saíram, percebi que Shade havia ficado para trás. Ele tocou meu braço. — Ei, idiota, você sabe que eu sempre vou te apoiar, certo? — Eu espero que isso não seja da boca para fora — falei. — Não quero me decepcionar com você. Shade suspirou. NACIONAIS-ACHERON


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— Eu só estou preocupado com você, Héctor. Você é como se fosse meu irmão de sangue. — Ele balançou a cabeça. — Só seja menos duro consigo mesmo, ok? Senti um pequeno sorriso alcançar meus lábios. — A ação me mantém vivo, irmão — falei. — Mesmo que eu corra o risco de morrer executando isso, é o que eu preciso fazer e nada vai me forçar a mudar de ideia. Não se preocupe, no entanto. Eu sei me cuidar. Shade resmungou, mas assentiu. — Certo, certo, vamos foder umas boas cadelas e encher a cara. Toda essa coisa de bromance me deixa um pouco perturbado. Dei um soco no seu braço. — Foi você que começou com essa merda. Ele revirou os olhos. — Você sabe, eu não curto paus. Muito menos paus que já fizeram sua viagem ao longo das bocas e bocetas de todas as vadias desse clube. Dessa vez quem rolou os olhos fui eu. — Vá se foder. Já estávamos chegando ao bar quando a música potente começou a tocar. A voz inconfundível de Bon Scott entoando Highway To Hell. Apanhei a garrafa de uísque que um dos prospectos deslizou sobre o balcão e removi a tampa. Nem sequer estava preocupado em procurar um copo, entornei o líquido âmbar na minha boca e a sensação de queimação na garganta foi imediata. — Você não deveria ir tão rápido com isso — uma voz melosa soou ao meu NACIONAIS-ACHERON


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lado. Abaixando a cabeça eu pude encarar Poppy Staplay. A garota era filha de um político importante da Califórnia. Nascida em berço de ouro e o sonho molhado de ao menos meia dúzia de almofadinhas endinheirados, ela tinha chances de ter um futuro semelhante ao da rainha da Inglaterra, mas perdia o seu tempo correndo atrás dos paus dos motoqueiros do clube. — Você já está bêbada o suficiente? — Passei a mão sobre meus cabelos compridos e tirei algumas mechas do meu rosto. A coisa já estava quase alcançando os meus ombros. — Que merda pensa que é para me dizer o que tenho que fazer ou não? Ela estremeceu com o meu tom de voz, mas percebi a emoção e o toque de luxúria em sua expressão. A vadia era um pouco masoquista, o que lhe atribuía alguns pontos, porque eu não estava disposto a ser o tipo de cara “corações e flores”. — Sinto muito por isso, prez — ela baixou o tom de voz. Seus dedos subiram para as lapelas da minha jaqueta de couro, as unhas compridas pintadas de rosa arranhando de leve o material. — Você quer que eu lhe faça se sentir bem hoje? Senti meus olhos se estreitarem. Não era segredo para ninguém que eu já havia comido Poppy em diversas ocasiões. Porra, a maioria do clube já havia comido a garota, mas ela meio que tinha preferência por mim, e isso se devia ao seu sonho um tanto quanto fantasioso de ser old lady do presidente um dia. — Você quer fazer eu me sentir bem, hein? Ela mordeu o lábio e assentiu em silêncio. Um sorriso presunçoso rasgou meus lábios. NACIONAIS-ACHERON


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— Você é uma vadia, Poppy. — Ela ronronou quando meus dedos percorreram as linhas finas das veias do seu pescoço. — Eu sou o que você quiser que eu seja. — E sorrindo, passou a língua entre os dentes, sua mão voltando a agarrar meu couro e seus lábios ansiosos para se aproximarem de mim. Eu não fiz muito; apenas mantive a garrafa agarrada com uma mão e segurei o braço de Poppy com a outra. Ela me seguiu, ansiosa, enquanto eu subia todos os degraus da escada até o quarto.

Havia uma garrafa vazia de Jack Daniels pressionada contra a minha bochecha. Senti como se houvesse uma bola de boliche no lugar da minha cabeça, e o gosto ruim na minha boca demonstrou que na noite passada eu realmente havia passado dos limites. Nenhuma novidade, no entanto. Poppy não estava mais ali. Ela era esperta neste quesito e sabia que as coisas entre nós não passavam de alguns orgasmos. Eu levantei, desviando das embalagens de camisinhas no chão, e caminhei em direção ao banheiro. Ainda sentindo minha cabeça pesar, removi o que havia sobrado das minhas roupas e tomei um banho. Após me vestir, estava calçando minhas botas quando ouvi uma forte batida na porta da sala. Quem diabos seria? Caminhei até a porta e abri. NACIONAIS-ACHERON


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— O que há? — perguntei para o prospecto parado no corredor. Ele parecia... ansioso? Nervoso? Eu não sabia detalhar. — Prez... a sua... — ele gaguejou. — Diga de uma vez por todas, inferno. O que está havendo? Ele pigarreou, tentando se acalmar. — Sua moto, ela... — sua expressão era receosa. — Bem, acho melhor você descer. Eu passei a mão pelos cabelos e suspirei. O que havia acontecido com a minha maldita moto? Desci as escadas rapidamente, indo direto para a área externa do complexo. Parei de imediato ao alcançar a área do estacionamento. — Mas que porra está havendo aqui? — perguntei, observando a minha motocicleta no chão, e a parte frontal de um fusca azul totalmente velho parado na direção dela. — Nós estamos com problemas, Knife — um dos irmãos disse. — A pequena cadela causou estragos. Antes que eu pudesse perguntar do que se tratava tudo aquilo, uma voz feminina ralhou: — Ei, idiotas, soltem o meu braço! Me virei para examinar a menina que não parecia ter mais que um metro e sessenta de altura, aparentemente furiosa. No momento em que seus olhos bateram em meu rosto, a irritação foi embora e a compreensão em seu olhar pareceu tomar forma. Um sorriso trêmulo surgiu em seu rosto quando ela finalmente conseguiu se livrar do aperto dos caras e caminhou em minha direção. NACIONAIS-ACHERON


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— O que diabos é isso? — exigi outra vez. Ela voltou a sorrir nervosamente e lambeu os lábios. — Deus, você mudou tanto — eu pude perceber o seu sotaque sulista. Que porra era aquela? — Lembra de mim? De repente, me senti um pouco tonto. Eu lembrava? A pergunta correta era: eu queria me lembrar? Não fazia ideia. A única coisa na qual eu pensava era que a menina havia derrubado a minha moto com a sua lata velha. E como ela havia conseguido passar pelos portões do complexo, afinal? Quando não respondi, seu sorriso vacilou. A menina deu mais um passo em minha direção. — Ei, Hache — sua voz estava levemente trêmula, e eu podia jurar que até mesmo eu havia estremecido, caralho! — Sou eu... Bird.

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3: Inesperado

Se a minha tranquilidade fosse uma bolha sensível, com certeza o olhar circunspecto daquelas pessoas ao meu redor seria a ponta fina de um alfinete ameaçando estourá-la. O sangue se esvaiu dos meus dedos quando apertei ambas as minhas mãos unidas. Além do nervosismo, uma pitada de medo se alojou dentro de mim. Atribua isso ao fato de que eles ainda não haviam parado de me encarar como se eu fosse um maldito animal em experimento ou algo assim. Ele havia mudado tanto. Héctor tinha crescido desde a última vez em que o vi, e o motivo era óbvio, mas eu não me referia apenas à sua idade ou construção corporal — que agora era muito bem distribuída, espalhando músculos por todo o peito, braços e coxas, não o deixando muito grande, mas proporcional ao seu porte. Mas ele parecia realmente ter mudado por dentro. Ele nunca foi de sorrir, mas eu sentia o poder que parecia ser visceral e a letalidade emanando de seu corpo apenas em ter sua presença séria a alguns metros de distância de mim. Os seus olhos, no entanto, são os mesmos. As duas piscinas negras que sempre me fizeram acreditar que sua força ia muito além do que ele se permitia demonstrar. De imediato, Héctor não esboçou nem um tipo de reação ao me ver. Eu imaginei que ele fosse ao menos se sentir surpreso, feliz ou simplesmente confuso com tudo o que estava ocorrendo, mas a única coisa que eu via era NACIONAIS-ACHERON


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uma indiferença aterrorizante. O primeiro a quebrar o silêncio que se instalou foi Chad. Ele ficou comigo depois que os caras resolveram nos tirar do carro e tentar me amedrontar. Por mais que estivesse com medo, eu sabia que Chad era um cavalheiro e jamais me deixaria ali sozinha com aqueles homens mal-encarados. — Hm, bem... Já que vocês finalmente se reencontraram, acho que é hora de eu ir. Ele sorriu para mim e passou as mãos nervosamente sobre seu jeans. — Dê o fora, e a leve de volta com você. — A frase de Héctor fez com que Chad paralisasse. Na verdade, até eu paralisei. — Desculpe? — o loiro perguntou, confuso. — Eu disse para darem o fora, os dois — repetiu. — Quem diabos deixou vocês entrarem, afinal? Ninguém disse nada, mas senti a irritação profunda provindo de cada gesto que Héctor fazia. Fosse trocar de posição ou apenas me encarar. Era curiosa e assustadora a forma como, mesmo depois de tanto tempo, eu conseguia identificar o que ele sentia apenas em observar seus gestos. Pigarrei, voltando a me dar conta de que ele ficara irritado por causa da minha suposta invasão. Provavelmente alguém pagaria no fim das contas, então eu mordi minha língua, em vez de dizer que o portão já estava aberto quando entrei, o que, muito provavelmente, foi uma grande negligência da parte deles. Contudo, em vez de pôr minha língua e mente para funcionar, eu fiquei apenas ali parada, sem reação, sentindo a mágoa rastejar sob minha pele. NACIONAIS-ACHERON


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Como assim ele estava me enxotando dali? Eu dei um passo à frente. — Qual o seu problema? — eu falei. — Você poderia, por favor, tentar ser menos desagradável? Ele soltou uma risada semelhante a escárnio e cruzou os braços musculosos sobre o peito. — Você realmente acha que pode me dar ordens? — Vi sua sobrancelha se arquear. — Logo percebe-se que não me conhece. — Mas eu te conheço! — comecei a falar, sentindo minha voz falhar perante a tensão do momento. — Hache, você não entende? Eu... — Não me chame de Hache — ele cortou. — Eu sou Héctor Ridel, Knife caso prefira. Jamais Hache, eu desconheço este apelido. Novamente o sentimento de angústia, juntamente com a decepção de talvez não poder obter qualquer tipo de ajuda, me atacaram. — Jaz, eu acho que nós devemos voltar — Chad falou, tocando meu ombro. — Talvez você tenha cometido um engano? — Acho melhor você ouvir seu namorado, garota — um outro cara falou. — Nós somos um clube sério, e toda essa coisa já está virando uma bagunça. Se você não é uma old lady ou está disposta a se tornar uma de nossas meninas, escolha dar o fora. — Ele não é meu namorado! — falei, balançando freneticamente a cabeça, ignorando o fato de que acabei de ouvir aquele homem se referir à um grupo de mulheres como “suas”. — E eu não estou cometendo engano algum. — Me virei para Héctor. — Hache, por favor, você tem que me reconhecer. NACIONAIS-ACHERON


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Uma risada ecoou pelo local, me fazendo começar a sentir, além de constrangimento, raiva. — Knife, cara, o que diabos você andou fazendo que nós não ficamos sabendo? — disse o homem que havia rido. Ele era repleto de tatuagens, careca e tinha algo totalmente aterrorizante sobre aquilo. — Pelo jeito ele não deixou bem claro suas intenções no momento em que abandonou a menina em algum motel de merda — um homem moreno entrou na gozação e também riu. — Vamos lá, espero que ao menos tenha lhe deixado o dinheiro do táxi. Me virei para eles, a raiva voltando a incandescer sob minha pele. — Por acaso vocês dois estão numa disputa para decidir quem é o mais idiota? O tatuado pareceu se divertir com a minha pequena demonstração de estupidez e falta de controle. No entanto, o moreno ficou sério imediatamente. Ele avançou em minha direção. — Você gostaria que eu... — Já chega, porra! — Héctor ordenou e eu dei um salto com seu tom de voz. O cara também vacilou. — Seus idiotas, digam mais alguma coisa e eu não vou hesitar em enterrar o meu punho no meio da cara de cada um. — Se virando para mim, ele disse: — E quanto a você, acho melhor ir embora. Mordi meu lábio para evitar chorar na frente dele. Não era choro de tristeza, mas era choro de frustração. Tudo isso, todo o esforço que tive, para nada? — Você não se lembra de mim? — Senti um bolo se rastejar pela minha garganta. — Realmente? NACIONAIS-ACHERON


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Sua sobrancelha se arqueou novamente. — Eu deveria? — Eu sou sua irmã! — gritei, tentando fazê-lo cair em si. — Nós crescemos juntos! Ele balançou a cabeça. — Impossível — falou. — A minha irmã morreu há mais de dez anos. Pressionei meus lábios juntos e permiti-me soltar uma longa respiração. Algo dentro de mim dizia que ele se lembrava, mas, por algum motivo irritante, não estava dando a mínima para o meu desespero. — Ao menos de Lisa você se lembra, não é? — rebati, sentindo o sarcasmo envenenar a minha língua. — Um bom sinal, no entanto. É uma pena que ela tenha morrido, mas talvez o descanso que ela está tendo agora seja menos pior do que presenciar o homem que você se tornou. Foi naquele instante que o silêncio tomou conta do lugar. O sol ainda queimava meus braços nus quando decidi passar as mãos sobre eles, me sentindo frágil de repente. Eu sabia que havia dito uma coisa muito dura, mas não iria voltar atrás. Ele não era mais o menino que eu conhecera havia dez anos. Héctor estava rude e aparentemente insensível, então eu não podia dizer que me arrependia cem por cento de estar lhe retribuindo um pouquinho de maldade. Sem esperar por mais uma palavra sua, me virei e comecei a caminhar em direção ao meu carro. Segundos após, escutei sua voz atrás de mim: — Espere. Eu continuei andando. Eu não precisava dele me humilhando mais na frente dos seus amigos. Eu conseguiria me virar, sempre fiz. NACIONAIS-ACHERON


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— Eu disse para esperar, porra — ele falou mais alto e eu finalmente parei. Chad parou ao meu lado, totalmente nervoso. Me senti mal por ele. Eu não queria ter que submetê-lo àquilo. Me virei para encarar Héctor. — O que quer agora? A raiva ainda era visível em sua expressão dura. — Você atropelou a minha moto. Olhei para o local onde a moto preta estivera estacionada minutos atrás, e agora estava caída no chão, diante do meu fusca. Merda. — O que vai fazer para resolver isso? — ele abordou, voltando a cruzar os braços. O que eu iria fazer? Que merda eu iria fazer? Engoli em seco. — Bom, eu não acho que tenha danificado muito. Mas se isso é problema para você, eu posso consertá-la. Percebi seus olhos estreitarem. — Oh, você pode? — desafio sendo lançado em seu semblante. — E como seria? Eu limpei a garganta. — Bom, eu... eu posso pagar o conserto. NACIONAIS-ACHERON


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Não sabia por que ainda me surpreendia com o nível de babaquice daqueles caras, mas novamente senti o rubor subir para minha face quando escutei suas risadas ao meu redor. — Você é divertida, cadela — alguém disse. Por que diabos ele estava me chamando de cadela, afinal? — Prez, mano, nós não podemos ficar com ela? O quê?! — Você pode calar a boca antes que eu lhe faça engolir os dentes — Héctor rebateu. — Já estou farto de toda essa merda. Ele se virou em minha direção. Seu olhar ainda era duro quando falou: — Me siga. — Apenas duas palavras. Duas malditas palavras que me deixaram sem reação. Eu alternei meu olhar entre ele e os outros homens ao nosso redor. O que diabos ele queria me fazendo segui-lo agora? Eu olhei para Chad em busca de um auxílio, mas, antes mesmo que pudesse dizer algo, Héctor se adiantou: — Dê o fora Blanchard — disse. — Acho que já terminou o que tinha que fazer por aqui. Chad me surpreendeu quando deu um passo à frente e enfrentou: — Me desculpe, cara, mas eu só vou sair daqui se ela me disser que devo. — Ele olhou em minha direção. — Está tudo bem para você, Jaz? Nós podemos voltar para o bar. Eu vacilei por alguns segundos, temendo ficar ali sozinha com todas aquelas pessoas. Mas eu havia ido até ali para encontrar Héctor, portanto não podia voltar atrás na minha decisão. — Não, tudo bem — o tranquilizei. — Mas você pode esperar, caso queira. Eu lhe trouxe até aqui e estou disposta e levá-lo de volta. — Voltei a olhar NACIONAIS-ACHERON


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para Héctor para ver sua reação e, como imaginei, sua expressão não era uma das melhores. — Eu consigo me virar. — Chad sorriu. — Você tem meu telefone. Qualquer coisa, me ligue. Eu forcei um sorriso e decidi não lhe dizer que eu não possuía um telefone para ligar para ele. De qualquer forma, aquilo não iria fazer muita diferença. Dependendo da conversa que eu tivesse com Héctor, eu planejava dar o fora o quanto antes daquele lugar e me virar sozinha. Depois que Chad se afastou e saiu, Héctor se virou para o grupo de caras. — Acabou o show — falou. — Seja lá o que vocês estivessem fazendo antes, continuem. Eu não quero interrupções. Mais alguns burburinhos foram ouvidos por algum tempo. Depois que os homens se dispersaram, Héctor se virou e indicou para que eu o seguisse. Assim eu fiz. Ele me levou por um corredor estreito, em seguida, parou em frente à uma porta de madeira e girou a maçaneta. Quando abriu, eu pude identificar o local como sendo uma espécie de escritório. Ele esperou que eu entrasse antes de fechar a porta atrás de si. O silêncio se estabeleceu no ambiente por um longo momento. Limpei a garganta, observando a decoração totalmente masculina. Fotografias de membros do clube em preto e branco, quadros com pinturas de motocicletas, troféus e medalhas. Em uma parede havia uma fileira de armas e facas compridas e muito bem polidas, o que me deixou levemente temerosa. Quando meus olhos bateram no emblema curioso do clube, pintado na parede, eu senti um suspiro de deslumbramento evaporar pelos meus lábios. NACIONAIS-ACHERON


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— Uau — falei. — É estranho, mas é tão bonito. Ele apenas me encarou, aparentemente confuso. — O emblema na parede — esclareci, apontando para o desenho de caveira com asas e armas atrás de si. — Eu gostei. Ele ainda me encarava fixamente quando, finalmente, pareceu sair do transe. Balançou a cabeça um momento após, e eu percebi que parecia cansado. — Dez anos desde a última vez em que nos vimos e, quando isso acontece, “bonito emblema” é tudo o que você tem a me dizer? Eu poderia me sentir irritada pelo seu tom rude, mas algo muito mais importante chamou minha atenção naquele instante: ele se lembrava de mim, e não escondia mais isso. — Não sou muito boa com as palavras — falei. — Além do mais, você não me deu muitas escolhas para eu sequer cogitar iniciar um diálogo decente, convenhamos. — Me desculpe por isso, eu acho. — Logo soltou um suspiro que eu não sabia se era de impaciência ou tédio. — Me diga o que diabos você veio fazer aqui, Jazmine. Eu respirei fundo, sentindo minhas mãos suarem novamente. — Eu preciso de ajuda — falei. — As coisas fugiram um pouco do controle. Suas sobrancelhas se uniram, assim que o vinco na sua testa se intensificou. — Você está em apuros? — questionou desconfiado. — Andou se metendo em coisas que não devia? — O quê? Oh, não, não é isso! — eu neguei. — Depois que papai morreu, eu... NACIONAIS-ACHERON


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— Espere. — Ele me interrompeu com um aceno de mão. — Eu ouvi bem? Michael está morto? — Sim. — Assenti. — Num incêndio. O fogo queimou boa parte do rancho, e o pouco que havia sobrado eu tive que usar para quitar as dívidas que nós tínhamos. As coisas nunca foram fáceis, mas ficaram realmente ruins depois disso. Ele deu uma risada seca. — Então é isso — falou. — Eu já deveria ter desconfiado, não? Você imaginou que eu fosse estar bem de vida e veio até mim em busca de dinheiro. Eu senti novamente a queimação subir para o meu rosto. — Claro que não! — neguei, ofendida com tal acusação. — Héctor, eu preciso muito de ajuda, mas não pense que eu viajei por dois malditos dias do Texas até a Califórnia, só para ser sustentada por um cara — baixei meu tom de voz, percebendo que estava, mais uma vez, me irritando com ele. — Eu realmente não tenho para onde ir, muito menos dinheiro, mas não é esse o ponto. Eu achei que você pudesse me dar ao menos um apoio moral, que fosse me ajudar a me reerguer. Eu não tenho mais ninguém! — Eu sinto muito, mas não estava mentindo quando disse que não era o seu protetor. — Sua frieza causou uma dor no meu peito. — Desde os meus treze anos de idade que eu venho perdendo as coisas mais importantes da minha vida, e isso não me matou ou me tornou fraco. Acredite, essa é a vida com a qual temos que lidar. Engoli o nó que se formou em minha garganta. Aquilo doeu. Doeu bem mais do que eu imaginei que fosse doer. Eu não estava acreditando no que via e ouvia. NACIONAIS-ACHERON


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Como ele pôde ter mudado tanto? — No que você se tornou? — minha voz soou fraca. — Esse não é o garoto que me permitia deitar com ele à noite sempre que eu tinha algum pesadelo. Esse não é o garoto que preferia apanhar a ter que ver a mão do meu pai sendo levantada para mim. Esse não é o garoto que dividia comigo a sua comida quando não tínhamos quase nada para comer em casa. Esse não é você, Héctor. Ele me encarou em silêncio antes de decidir falar: — Realmente este não sou eu, Jazmine — disse. — O garoto a quem você se refere morreu há dez anos. Graças ao seu pai, e à vida fodida a qual foi obrigado a se submeter. Senti uma lágrima quente escorrer pelo meu rosto, mas rapidamente fiz questão de limpá-la. Eu não queria dar a ele o gostinho de me ver chorando. — Sabe o quê? — falei. — Nada disso importa. Eu já entendi o recado. Vou dar o fora, e você nunca mais vai ouvir falar de mim. — O que você quer dizer com isso? — Quero dizer que gostaria muito se você destrancasse a porta — retruquei. — Eu quero sair. — E para onde você vai? — perguntou. — Vai dormir naquela lata velha? — Isso não é da sua maldita conta — falei. — Apenas abra a porta. Ele balançou a cabeça e cruzou os braços. Quando percebi que ele não iria fazer sequer mais um movimento, eu mesma caminhei até a porta e segurei a maçaneta. Senti a mão de Héctor no meu braço antes mesmo que eu a girasse. — Espere — sua voz ainda era dura, mas ao menos era mais suave do que o NACIONAIS-ACHERON


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tom que usara momentos atrás. Passando as mãos pela cabeça, ele fechou os olhos por um tempo, como se estivesse buscando uma forma de resolver o conflito dentro da sua mente. — Eu vou ver o que posso fazer por você. Agora foi a minha vez de desconfiar dele. — Por que você está fazendo isso? — perguntei. — Eu não preciso da sua pena, ok? — Não interessa o porquê de eu estar fazendo isso, mas com certeza não é por sentir pena de você — rebateu. — Apenas me siga. Me. Siga. Aquelas duas palavras eram, muito provavelmente, as prediletas do seu vocabulário. Sem mais uma palavra, Héctor se virou e abriu a porta. Eu já estava prestes a segui-lo quando o tap tap de pequenos passos apressados foram ficando cada vez mais próximos de onde estávamos. Paralisei no momento em que o corpo de Boo deslizou para dentro da sala. Ele deu duas latidas quando me viu e pulou ofegante para cima de mim, no entanto, o corpo de Héctor estava diante do meu... Bem, você já deve imaginar o que aconteceu em seguida. — Mas que diabos...? — Héctor ralhou, dando um salto para trás no momento em que Boo pôs a língua para fora para lambê-lo. Quando o homem me encarou, eu percebi que o meu lindo cachorro havia nos metido em encrenca. Forcei um sorriso amarelo. — Eu acho que ele gostou de você — foi tudo o que eu consegui dizer, além NACIONAIS-ACHERON


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de encolher os ombros e torcer para que um buraco recém-aberto no chão me engolisse naquele instante.

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4 : Velhos Hábitos

Passei a mão sobre a tinta levemente arranhada da Triumph e constatei que a batida não havia causado um estrago tão grande assim. Uni os dois fechos do capacete abaixo do meu queixo e liguei a minha moto. Senti a potência do motor vibrar entre as minhas pernas e olhei no retrovisor enquanto Jazmine também se preparava para dirigir seu fusca. Eu me perguntei se aquela coisa aguentaria até chegarmos em nosso destino. Uma vez preparado, eu me certifiquei de que Jazmine estivesse pronta para me seguir e pus a moto em movimento, apreciando o vento cortando à minha frente. Se existia algo que me fazia sentir vivo, com certeza, era a liberdade de estar sobre duas rodas. Era algo inexplicável, que só sabia a sensação quem se arriscava a experimentar. As coisas nunca houveram sido sempre daquela forma, claro. Demorei um pouco para me desenvolver — inclusive mentalmente — desde que entrei para os Souls. Eu era fraco, desnutrido e completamente inexperiente em coisas relacionadas a clubes de motociclistas. Hunter me moldou. Não, ele fez com que eu descobrisse quem eu realmente era. Foi naquele momento, no instante em que eu me deparei com aqueles homens sem passado, repletos de cicatrizes no corpo e na alma, que percebi que todo o sofrimento pelo qual havia passado tinha um propósito. O propósito de me tornar Knife. O cara temido e invejado por todos. O Souls é uma lenda e eu quem comandava NACIONAIS-ACHERON


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aquela irmandade. Cerca de vinte minutos depois, estacionei a moto em frente à casa de fachada branca e desci, tirando o capacete e descansando-o sobre a moto. Jazmine também parou o carro e saiu. O olhar que ela me lançou fez clara a sua confusão a respeito de onde estávamos. Eu sabia que por mais que tentasse demostrar o contrário, Jazmine estava com medo. Eu a conhecia suficientemente bem para identificar isso, e ela não havia mudado em nada. A não ser fisicamente, claro. Ela não era tão alta para uma garota da sua idade, mas havia perdido tudo da menina de dez anos atrás. Ela estava... bem, ela agora tinha peitos, seus quadris haviam aumentado consideravelmente e sua bunda havia crescido também. Ela não era mais uma maldita criança magricela e cheia de sardas, e isso meio que me deixou um pouco perturbado. Liderei o caminho e seguimos em silêncio até a entrada da casa. Toquei a campainha e esperei. O sol já havia nos dado uma trégua, de modo que o vento batia ao nosso redor, nos trazendo o cheiro das rosas frescas plantadas no pequeno jardim da frente. Me agradava saber que ela ainda cuidava das suas flores, mesmo depois de tudo o que aconteceu. Minutos se passaram até ouvirmos um “já estou indo” soar de dentro da casa. Um momento depois, vimos a porta se abrir. Os cabelos negros e volumosos da mulher que nos recebeu estavam soltos, indo até o fim de suas costas. As curvas estavam escondidas por baixo de um vestido longo. Ela era, de longe, uma das mulheres mais bonitas que já havia visto. Seus olhos verdes se arregalaram no instante em que registraram a minha NACIONAIS-ACHERON


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presença. Em seguida, ela gritou: — Baby! — Senti seus braços me envolverem e retribui o abraço, ainda meio sem jeito. Eu não era muito bom com certas demonstrações de afeto, e ela sabia disso. — Ei, ma — cumprimentei, me afastando para encarar seu rosto. Susan tinha quase cinquenta anos, e em dias melhores ela não aparentava ter a sua idade, mas agora eu já conseguia ver as rugas de expressão darem o ar da graça. Ela era a única mulher naquele mundo de merda que merecia toda a minha devoção e afeto. Eu morreria por Susan, assim como eu morreria por Hunter. — O que você faz aqui? Já faz mais de um mês que não põe os pés em casa — ela falou. — Eu sinto sua falta, baby. Suspirei, reconhecendo que eu teria que ser um filho mais presente, principalmente depois que o meu pai morreu. Susan teve Hunter, seu old man, durante boa parte da sua vida. Agora, no entanto, ela só tinha a mim. E eu não estava fazendo o meu papel corretamente. — Eu tive algumas coisas para resolver — respondi. — Coisas do clube. Ela abriu um sorriso triste, mas assentiu. Aquela era outra coisa boa em Susan: ela sabia exatamente o seu papel de old lady e não questionava os negócios do clube, mesmo sabendo que nós estávamos, muito provavelmente, nos metendo com coisas ilegais. Seu olhar se arrastou para Jaz. — Oh, eu não havia nem sequer percebido que tinha mais alguém com você. — Ela abriu um sorriso de desculpas. — Me perdoe por isso, querida. Eu sou Susan, a propósito. — Tudo bem — Jazmine respondeu, sorrindo de volta para ela. — Me chamo NACIONAIS-ACHERON


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Jazmine. Minha mãe meneou a cabeça e voltou a olhar para mim. Certo, ela estava em busca de esclarecimentos. — Jazmine é uma velha conhecida — eu falei. — Meia-irmã. — Oh? — Susan parecia realmente confusa. — Meia... irmã? — Não de sangue. Ela é filha do meu padrasto — esclareci. — Acabou de chegar do Texas. Susan balançou a cabeça, como se ainda não tivesse entendido muito bem todo o sentido da coisa. — Héctor, baby, por que nunca me falou sobre ela? Percebi o corpo de Jazmine se tencionar ao meu lado e cerrei minha mandíbula, não querendo seguir por aquele rumo justamente naquele momento. Pelo olhar que a garota ostentava, eu percebi todo seu incômodo por também tocar naquele assunto. — Essa é uma longa história, algo que nós podemos deixar para uma outra hora — eu falei. — Podemos entrar? Susan sorriu novamente, abrindo espaço na porta. — Claro, claro. Me desculpem por isso mais uma vez. Eu ando tão desatenta. Nós entramos na casa e seguimos Susan até a sala de estar. Durante todo o caminho passamos pelo conjunto de decoração totalmente dissemelhante. Nas paredes haviam quadros com representações dos pintores prediletos de Susan e decorações em tons neutros. Mas também haviam pinturas de caveiras, lembranças de feiras de Star Wars e bandeiras com símbolos de bandas de Rock que, eu sabia, fazia parte de toda uma vida de motoqueiro NACIONAIS-ACHERON


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selvagem que Hunter sempre levou. Bem, junte uma médica hippie e o presidente de um clube de motoqueiros em uma história fodida de amor e obtenha essa mistura de tribos como resultado. Assim que chegamos à sala, me sentei em um dos sofás e Jazmine imitou meu gesto, sentando-se ao meu lado. Ela uniu ambas as mãos sobre as coxas e eu percebi que ainda estava tensa. — Ei, Jaz, eu posso te chamar assim, certo? — Susan inclinou a cabeça encarando Jazmine. — Claro — a outra respondeu. — Este é o apelido pelo qual a maioria das pessoas costumam me chamar. — Você tem um bonito nome — minha mãe insistiu. Era claro que ela estava tentando quebrar a tensão em torno de Jazmine, e pelo jeito estava conseguindo se sair bem. — Deseja beber algo? Ou melhor, que tal me ajudar a preparar um café enquanto eu te conheço melhor? Ainda relutante, Jazmine me dirigiu um olhar. Eu apenas devolvi o gesto, procurando saber, em silêncio, se ela realmente queria aquilo. Após soltar um suspiro, ela se levantou do sofá. — Eu adoraria.

Depois de um pouco mais de uma hora conversando, ambas pareciam amigas de infância. Jazmine contou sua história para Susan e a minha mãe lhe contou um pouco de sua história também. Por mais que quisesse demonstrar ser forte, eu sabia que Susan estava despedaçada por dentro. Um bom tempo de NACIONAIS-ACHERON


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conversa lhe faria bem. — Então, Jaz, você já tem onde ficar na cidade? — Susan perguntou conforme se servia da sua terceira xícara de café. Ela pegou o meu olhar de desaprovação e fez beicinho. — O que foi? — perguntou, me olhando. — Nem me venha repreender por isso. Eu pegarei o turno da noite no hospital hoje, preciso me manter acordada. Jazmine prendeu um riso e decidiu responder à pergunta que Susan havia lhe feito: — Bem, eu não tenho exatamente onde ficar. Mas vou dar o meu jeito e procurar por algum hotel. Eu passei por vários no caminho até aqui. Susan enrugou a testa. — Por quanto tempo pretende ficar aqui? Jazmine encolheu os ombros. — Eu não faço a menor ideia. — Se você não sabe por quanto tempo vai ficar, um hotel não seria a melhor opção — ela olhou para mim. — Não acho que o complexo seja um local adequado também... — de repente, Susan arregalou os olhos, fitando-me em silêncio e foi naquele momento que eu percebi que ela havia compreendido o real motivo da nossa visita. Eu não precisei tocar no assunto, para não constranger Jazmine ainda mais, e ela não demorou muito para entender o recado. Eu amava a minha mãe, caralho. Seus olhos se arrastaram de volta para a figura de Jazmine bebendo timidamente o seu café. — Espere, você não gostaria de ficar aqui em casa? Dessa vez quem arregalou os olhos foi Jazmine. Ela alternou o olhar entre mim e a minha mãe, parando por último em Susan. — Hm... eu não quero incomodar. NACIONAIS-ACHERON


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— Oh, mas você não incomoda! — Susan voltou a dizer. — Você pode ficar aqui em casa pelo tempo que precisar. A outra encolheu os ombros. — Tem certeza? — perguntou. — Não é incômodo algum — minha mãe afirmou. — Você poderá ocupar o antigo quarto de Héctor, já que o garoto parece mal saber o caminho de casa. Eu rolei os olhos. Mesmo com vinte e sete anos de idade, ela insistia em me tratar como um garoto de dezessete. Jazmine sorriu. — Você tem um ótimo coração — ela falou. — Eu tenho certeza que vamos nos dar muito bem. Pigarrei, chamando a atenção de ambas. — Bem — falei —, eu já vi que vocês duas vão se dar bem, certo? Tenho que ir agora. — Mas já? — Susan falou tristemente. — Tudo bem, querido. Vá, mas não se esqueça de aparecer em breve. — Claro, ma — dei um beijo em sua testa e me virei para Jazmine. — Espero que você fique bem. — Espero não lhe causar muitos problemas — rebateu. Eu consegui claramente captar o seu desconforto com a nossa breve troca de palavras. Não era de se admirar, afinal nós não havíamos tido o melhor reencontro, mas eu não podia levar toda a culpa. Eu não era muito bom com aquela merda de relações pessoais e a menina havia batido seu carro na minha moto. NACIONAIS-ACHERON


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Eu me virei para ir embora, mas o grito de Jazmine paralisou meus passos. — Droga! Eu acho que isso não vai dar muito certo — ela disse. — O que foi? — Susan perguntou preocupada. Ela mordeu o lábio, provavelmente constrangida. — Bem, eu não quero incomodar mais do que já estou incomodando, mas eu esqueci de mencionar que tenho um cachorro. Um cachorro grande. Não tenho intenção de deixá-lo aqui, e também não acharia certo me aproveitar ainda mais de você depois de tudo o que fez por mim, mas você saberia de algum lugar onde eu possa deixá-lo? Eu daria um jeito de pagar por um hotel para animais, caso houvesse necessidade. — Realmente nós não temos estruturas para um cão de grande porte aqui em casa, mas um abrigo também não vem a ser uma opção agradável. — Ela olhou para mim. — No complexo vocês têm bastante espaço, não é? — Sim — eu disse, desconfiado. — Por que? Ela sorriu. — Ótimo, querido — falou. — Vocês realmente precisam de um mascote. — O quê? — praticamente berrei. — Você quer que eu leve um cachorro para a sede do clube? — Qual o problema? — Ela assumiu uma expressão de advertência. — Você praticamente tem um apartamento lá. Não seja tão cruel, Héctor. Jazmine se adiantou: — Não precisa, eu... — Tá legal — falei, surpreendendo a ambos. — Eu levo o cachorro. NACIONAIS-ACHERON


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Quando Jazmine olhou para mim, ela parecia não acreditar no que eu havia dito. Bem, eu também não. Susan sorriu. — Eu sempre soube que você era um bom menino, filho. Me contive para não rolar os olhos novamente e balbuciei uma despedida antes de me virar para sair. Quando cheguei do lado de fora, percebi que Jazmine havia me seguido. Ela abriu a porta do seu carro e puxou o cachorro de lá. Mexendo em uma bolsa, ela tirou uma coleira e pôs no pescoço do cão. — Obrigada, mais uma vez — ela disse. — E me desculpe pelas coisas que eu disse lá no complexo. Eu não queria ter sido tão dura sobre o que falei a respeito de Lisa. — Tudo bem — falei. Ficamos alguns segundos calados, antes de eu pigarrear e quebrar o silêncio. — Bom, eu acho que vou ter que pedir a alguém para trazer um carro para levar o cachorro. — Claro. — Um pequeno sorriso abrandou sua expressão tensa. — E a propósito, seu nome é Boo. Eu arqueei uma sobrancelha. — Que merda de nome é esse? — Qual o problema com o nome do meu cachorro? — Ela parecia levemente ofendida. — É esquisito — falei. — Esquisito como? — Ela franziu a testa. — Bom, é só que... esse nome me lembra boobs. NACIONAIS-ACHERON


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Jazmine arregalou os olhos e prendeu o lábio inferior entre os dentes, provavelmente segurando uma risada. — Oh, meu Deus, você realmente está falando sobre peitos comigo? — Ela cedeu ao riso e avançou para bagunçar o meu cabelo. Era um gesto comum, de quando éramos mais jovens, e naquele momento pareceu totalmente... desconcertante. Eu dei um passo para trás. Que merda ela pensava que estava fazendo? Em seguida, tossi, tentando sem muito sucesso não parecer embaraçado porque — você sabe perfeitamente bem — eu era um cara durão, e não seria uma menina de vinte anos de idade que iria conseguir me deixar sem jeito, porra. Parecendo totalmente à vontade com seu gesto perturbador, Jazmine me entregou a corda da coleira e abaixou para acariciar o seu cão. — Você promete que vai ser um menino obediente? — ela perguntou ao cachorro. — O tio Héctor não parece ter muita paciência, mas você vai se comportar, certo? Tio Héctor? O cão latiu, como se estivesse respondendo aos pedidos de Jazmine. Ao se virar para mim, ele latiu novamente, sua língua quente deslizando no meu braço. Porra. — Ele costuma lamber as pessoas de quem gosta — Jazmine explicou. — Acho que foi com a sua cara. — Pois é, mas eu não fui com a cara dele — eu disse, limpando meu braço na minha camisa. — Eu não quero esse bicho me lambendo todo o maldito NACIONAIS-ACHERON


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tempo. A expressão de Jazmine se fechou, e eu escutei algo como “idiota” sair dos seus lábios, mas decidi que não faria muita diferença caso ela realmente tenha dito. Após me afastar, eu liguei para o clube e exigi que me trouxessem um carro. Ficamos em silêncio até que um dos prospectos apareceu com uma picape. Coloquei o cachorro no carro e lhe dei as coordenadas para que o levasse até o complexo. Após me despedir com um aceno de cabeça, de uma Jazmine ainda enfurecida por conta da forma como eu falei do seu cão, subi na moto e pilotei para o complexo. Chegando lá, eu subi diretamente para o meu apartamento, arrastando o cachorro para dentro. A primeira coisa que ele fez quando chegou na sala foi se aconchegar aos pés do sofá. Ao menos ele não havia subido no maldito estofado. — Fique aqui — eu disse. Eu queria alertá-lo para não subir no sofá ou comer os meus sapatos, mas achei que seria algo estúpido. Deixando o cachorro na sala, eu caminhei até a cozinha. Apanhei uma tigela e enchi com água fresca. Eu não tinha comida de cães, então ele teria que se contentar com salsichas enlatadas e biscoitos. Pus os biscoitos ao lado da porta da área de serviço, de uma forma que ele encontrasse caso procurasse por comida, e voltei para baixo. Percebi que o bar não estava cheio como de costume. — O que diabos foi isso? — Shark provocou. — Você deu um sumiço na NACIONAIS-ACHERON


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menina e decidiu ficar com o cão? — Cale a boca — eu falei, me abstendo de lhe dar satisfações. — Onde está Shade e os outros caras? — Na sala de câmeras — um dos prospectos respondeu. — Me parece que tem coisa séria vindo aí. Merda. Caminhei rapidamente em direção à sala de câmeras. Shade já estava na porta quando cheguei lá. — E então? — falei. — O que está havendo? — Nós temos problemas — ele respondeu. — O que foi dessa vez? — Encontramos movimento suspeito do lado de fora. Achamos que os caras estão nos vigiando. — Você tem certeza de que são eles? — perguntei. — Um dos prospectos viu alguns caras com o colete dos Lions andando ao redor. — Então os filhos da puta estão em nosso encalço — falei. — Bom, eles são corajosos. Shade praguejou antes de passar a mão sobre a cabeça. — O que você acha que devemos fazer? — Chame os caras e vamos nos preparar — eu falei. — Vamos esperar anoitecer, e então pegaremos esses filhos da puta. A resposta era clara. Eles haviam dado o primeiro movimento, então não NACIONAIS-ACHERON


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precisรกvamos dar-lhes mais tempo. Que se fodessem os nossos planos. Eu irei arrancar umas cabeรงas hoje.

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5: A Flor Entre os Espinhos

Pus a caneca de café quente sobre a mesa da sala de jantar de Susan e estirei meus músculos muito bem descansados. Dizer que a minha noite havia sido espetacular seria um grande eufemismo. A cama de Héctor era espaçosa, o colchão um pouco duro, mas eu não havia dormido em algo melhor desde... bem, eu realmente não me lembrava quando foi a última vez em que dormi em uma cama decente. Susan também era uma mulher extremamente agradável e de muito bom coração. Foi por aquele motivo que decidi tentar retribuir tudo o que ela havia feito para mim, preparando-lhe um café da manhã. Ouvi seus passos se aproximarem da sala de jantar e deixei escapar um sorriso. Ela parou boquiaberta ao ver a mesa totalmente feita. — Bom dia — falei, sentindo-me um pouco acanhada a respeito de sua reação. — Espero que você não se importe de eu ter mexido na sua cozinha. Também não sabia do que você gostava, então decidi fazer um pouco de cada. Susan sorriu abertamente e se aproximou de mim para me dar um abraço. Fazia tanto tempo desde a última vez em que recebi qualquer coisa relacionada a afeto, que fiquei um pouco desconcertada com sua atitude. — É um gesto muito bonito, Jazmine — falou. — Eu não ando me preocupando com a minha alimentação nos últimos dias. — Por que não? — perguntei. — Você se sente mal? NACIONAIS-ACHERON


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Ela balançou a cabeça, sentando-se diante da mesa. Eu me sentei com ela. — É tão complicado — respondeu. Um momento se passou enquanto ela se servia de um pouco de café. Em seguida, ela finalmente levantou a cabeça e olhou diretamente em minha direção. — Você sabe o que realmente aconteceu com Héctor depois que ele foi embora do Texas? — Ele conheceu o clube, certo? — arrisquei, sabendo que eu realmente não fazia ideia da verdade. — Na verdade, a única coisa que sei é que ele veio para o clube ainda muito jovem. Ele não quis entrar em detalhes sobre o destino que pretendia tomar no dia em que foi embora. — Encolhi os ombros com pesar. — Não sei de muito. — Eu imagino que ele não tenha dito porque nem ele mesmo sabia — ela falou, pegando uma torrada e cobrindo com geleia. — Héctor se escondeu no caminhão dos membros do clube, ainda de madrugada. — Ela mordeu um pedaço da torrada antes de continuar. — O garoto era realmente corajoso, eu admito. As coisas foram difíceis no começo; os homens não confiavam nele por completo, nem o aceitaram muito bem logo de cara, mas ele acabou se adaptando. Hunter sempre foi tão paciente com ele. — Quem é Hunter? — questionei. Por mais que Susan houvesse me falado um pouco sobre sua vida no dia anterior, ela me fornecera apenas o básico; e definitivamente Hunter, seja lá quem fosse, não havia entrado na história. — Meu marido — ela respondeu. — Bem, na verdade ele era meu old man... a razão de eu querer respirar todos os dias. — Notei um sorriso triste alcançar seus lábios. Ela esticou o braço até um móvel ao lado da mesa e pegou de lá um porta-retratos. Eu pude ver a imagem do homem de expressão dura, mas muito bonito. Ele estava usando um colete de couro, muito semelhante ao colete o qual eu vi Héctor e os outros rapazes do clube usando. — Foi ele quem trouxe Héctor para nós. Ele cuidou do garoto como se fosse nosso NACIONAIS-ACHERON


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filho. — Era? — perguntei, voltando a dirigir meu olhar na direção de Susan. — Ele não... está mais entre nós? Ela balançou a cabeça em negativa. — Ele morreu há seis meses. — Ela desviou o olhar e não deu continuidade. Eu respeitei sua decisão, não querendo empurrá-la ainda mais. — Eu sinto muito. — Toquei sua mão. — Deve ter sido muito difícil para vocês. Ela assentiu com um aceno fraco e me olhou novamente. — O seu pai era bom para você? Eu sabia que sua pergunta era nada além de preocupação. Susan, muito provavelmente, sabia o que Héctor passou com o padrasto no passado, o que ainda me deixava muito mal. — Ele não era o melhor pai do mundo, mas era o único que eu tinha. — Forcei um sorriso. — Nunca cheguei a conhecer a minha mãe, e Héctor perdeu a sua tão cedo. Acho que nós temos muito mais em comum do que eu gostaria de reconhecer. Seus lábios se inclinaram suavemente para cima. Percebi que ainda era muito difícil para Susan sorrir abertamente, e eu não lhe julgava por isso. — Bom, o Héctor tem a mim. E você também me terá para o que vier, a partir de agora. Não pude deixar de sorrir. — Obrigada, Susan — estava realmente grata. Ninguém havia sido tão bom para mim em muito tempo. — Como foram as coisas quando Héctor veio NACIONAIS-ACHERON


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para cá? Afinal ele já era tão grande. Sua cabeça se inclinou enquanto seus olhos verdes brilhavam, ela provavelmente se lembrando. — Arisco, rebelde, mas também era o menino mais doce que eu já vi. Ao menos comigo. Ele se recusou a me chamar de mãe no começo, mas eu soube trabalhar sobre isso com o tempo. — É tão estranho — comentei. — Você ainda é tão jovem. — Realmente — falou. — Eu não posso ter filhos, Jazmine. Esse foi parte do motivo de Hunter ter trazido Héctor para nossas vidas. Eu amo aquele menino boca suja como se fosse do meu próprio sangue. Eu sorri emocionada. — Isso é lindo. Ela abriu a boca para dizer mais algo, mas se calou no momento em que ouvimos o barulho de um toque telefônico. — Espere só um minuto — pediu antes de colocar o telefone contra o ouvido. — Sim, Shade? — pausa. — O quê? Agora? Certo, certo. Estou indo para aí. Eu me levantei no instante em que ela desligou o celular. — Aconteceu alguma coisa? — Os Souls entraram em confronto com um clube rival e alguns meninos estão feridos. — Oh, meu Deus. É muito grave? Ela balançou a cabeça em negativa. — Nah, isso é mais normal do que você possa imaginar, querida — normal? NACIONAIS-ACHERON


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— Você gostaria de vir comigo e me dar uma carona em seu carro? Eu só vou poder pegar o meu na oficina amanhã. Bom, eu não sabia se realmente gostaria de ir com ela, principalmente para a sede do clube — onde haviam aqueles homens capazes de deixar a minha espinha em ponto de congelamento — mas, de qualquer forma, eu assenti. Susan pegou sua bolsa à medida que eu me adiantava com as chaves do carro e caminhava em direção à porta. No instante em que o carro parou em frente ao portão que nos separava da área pertencente ao complexo, já haviam rapazes nos aguardando. Eles imediatamente nos deixaram entrar quando registraram nossas presenças. — Onde eles estão? — Susan perguntou para o grupo de homens parados na porta. Os caras apontaram para a parte superior do complexo. Eu segui com ela, ainda sentindo o tremor em minhas pernas e mãos. Passamos pelo caminho em direção a um lance de escadas. Mais homens nos encontraram no momento em que alcançamos um corredor repleto de quartos. — Quantos são? — Susan perguntou. — Cinco, ao todo — um dos rapazes respondeu. — Kane é o que está mais ferrado. — Ok, eu vou cuidar do pior primeiro. Fomos orientadas a entrar em um dos quartos e, no momento em que fizemos isso, consegui reconhecer o moreno que havia apoiado o tatuado esquisito em suas piadinhas machistas no dia anterior. Ele estava deitado sobre a cama, uma mancha enorme de sangue no peito e parecia realmente mal. Não era como se eu não tivesse visto sangue antes, mas, mesmo assim, aquela cena NACIONAIS-ACHERON


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me deixou levemente abalada. — Susan, Knife tem um ferimento na perna — disse um outro cara que acabava de se aproximar. Ele era alto, musculoso e possuía uma barba espessa. Parecia tão jovem quanto Héctor. — Ele diz que não foi nada demais, mas o filho da puta é teimoso e está perdendo muito sangue. Susan suspirou. Ela olhou para o homem ferido e eu percebi o conflito interno pelo qual estava passando. — Eu posso ajudar — falei, não sabendo ao certo por que diabos estava me metendo naquilo. — Você pode? — Susan parecia surpresa. — E por acaso você é médica? — um outro cara perguntou. Ele era aparentemente o mais velho dali, parecia ter em torno de cinquenta anos, e eu conseguia ver alguma semelhança com o barbudo. — Não. — Neguei com a cabeça. — Mas eu costumava cuidar dos animais do rancho em que eu morava. Acreditem em mim, eu já cuidei de ferimentos bem sérios. Os caras se entreolharam, provavelmente decidindo se me deixavam tomar as rédeas ou não. Finalmente, eles pareceram ter tomado uma decisão quando o mais velho disse: — Certo, nós vamos lhe dar esta chance agora — fez uma pausa. — Mas se algo acontecer ao prez, você sabe a quem iremos atribuir a culpa, certo? Engoli em seco e balancei a cabeça em afirmativa. Naquele momento, ouvi um grito de dor quando o homem deitado na cama ofegou, e uma Susan totalmente séria correu até ele e manteve uma toalha sobre o seu peito ferido. NACIONAIS-ACHERON


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— Rapazes, por favor — a mulher chamou, já muito compenetrada em seu trabalho. — Estou sem álcool. Alguém pode me trazer algo para que eu possa fazer uma limpeza aqui urgente? — Serve vodca? — o homem tirou sua atenção de mim e perguntou. — Que seja — Susan respondeu. Oh. Meu. Deus. — Ei, você — o barbudo voltou a chamar minha atenção. — Venha comigo. Eu o segui, e então subimos mais alguns lances de escadas, em silêncio. Após chegarmos em frente a uma porta, ele abriu. Eu segui logo atrás. A pequena sala do que imaginei ser um apartamento era simples. O homem seguiu em direção a um corredor e entramos no quarto. Ofeguei quando vi o corpo de Héctor estirado sobre a cama. Ele estava consciente, mas também estava sangrando e completamente sujo, o que deixou meus temores na borda. Por mais que ele fosse um babaca insensível na maioria das vezes, tê-lo ferido não era uma imagem que eu gostaria de presenciar. De início, Héctor ficou me olhando como se eu fosse uma espécie de extraterrestre invadindo o planeta Terra. Em seguida, desviou sua atenção para o barbudo: — Onde está Susan? — Ela está cuidando dos mais feridos — o homem respondeu. — Prioridades. — E o que ela faz aqui? — resmungou apontando para mim. — Ela é veterinária. — O homem deu de ombros. Héctor me encarou com incredulidade e eu engoli a vontade de corrigi-lo. NACIONAIS-ACHERON


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— Hm... eu... — Não importa — ele se adiantou enquanto chiava de dor ao tentar um movimento com a perna. — Shade, dê-lhe o que ela precisar e andem rápido com esta merda. Olhei para a enorme mancha de sangue no seu jeans e percebi que nós teríamos um pouco de trabalho. — Bom, eu acho que vou precisar de gaze, remédios antissépticos, agulha, linha e luvas. — Há um kit de primeiros socorros na minha cozinha — Héctor falou. — É o que temos, terá que servir. Shade assentiu e eu o aguardei ir até a cozinha e voltar com o kit. Eu tomei a maleta de suas mãos e abri, pondo-me de joelhos ao lado da cama de Héctor. — Eu vou voltar para Susan e me certificar de que ela não precise de nada — Shade falou. Em seguida, ele pediu licença e se retirou. Uma vez a sós com Héctor no quarto, voltei a olhar para a mancha de sangue em sua perna. — Eu não sei se é realmente seguro eu cuidar dessa ferida enquanto você ainda está usando essa roupa suja de terra. É anti-higiênico. — Então remova a minha calça. — Meus olhos dispararam imediatamente para seu rosto, que, por incrível que pareça, não esboçava nenhum tipo de expressão que eu pudesse considerar zombeteira. Ele estava realmente falando sério sobre eu deixá-lo nu? Oh, por favor, Jazmine! O cara está sangrando, você está aqui para cuidálo, e tê-lo de cueca é o que mais lhe preocupa? NACIONAIS-ACHERON


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Bem, ao menos eu esperava que ele estivesse realmente usando uma cueca. — Hm... Ok. — Meus dedos estavam trêmulos enquanto eu buscava afastar o pedaço de tecido do seu corte. Nada profissional. Parecendo impaciente, Héctor mexeu na maleta vermelha de primeiros socorros, em seguida me estendeu uma tesoura: — Aqui — falou. — Corte o jeans. Eu recebi a tesoura de sua mão e dei o meu melhor para cortar o suficiente de tecido sem deixá-lo totalmente nu. Hum... pelo que eu conseguia ver, ele estava usando uma cueca. Menos mal. Quando afastei o pedaço de tecido embebido com sangue, me controlei para não focar na pele naturalmente bronzeada e nos pelos negros sobre ela, nem mesmo em sua coxa musculosa ou... merda! O que havia de errado comigo? — Está tudo bem? — Elevei meu olhar quando a voz de Héctor libertou a minha mente dos pensamentos nada puros. — Você não está considerando me causar uma hemorragia grave ou algo assim, não é? Não pude deixar de rir diante de sua inquirição. — Não, eu não estou — e você não gostaria de saber sobre o que eu estou realmente pensando, concluí silenciosamente. Suspirando, eu me forcei a focar novamente no motivo que havia me levado até aquele quarto, antes de tudo: o seu ferimento; e foi naquele momento que eu acreditei que fosse facilmente entrar em pânico. — Merda, você está perdendo muito sangue. — Voltei a encará-lo. — Acho melhor levá-lo a um hospital. — Nada de hospitais — ele rebateu duramente. — Faça o seu melhor. NACIONAIS-ACHERON


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Voltei a engolir em seco. Ok. Fazer o meu melhor. — Certo — eu disse, enquanto pegava a toalha que Shade havia deixado ali. Pressionei contra a sua ferida e orientei: — segure isso. Eu vou até a cozinha ferver um pouco de água para esterilizar o material. Me surpreendi quando ele não resolveu discutir a minha ordem e fez exatamente como orientado. Eu peguei a tesoura que havia acabado de usar, bem como uma pinça, agulha de pontos e um mais alguns materiais, abstendo-me de lhe perguntar como ele havia conseguido tantos utensílios médicos, e corri para o local pelo qual Shade havia seguido minutos atrás e eu acreditei ser o caminho para a cozinha. Após encher uma panela com água e aguardar o conteúdo ferver, me virei para inspecionar melhor o local. A cozinha não era tão grande, proporcional ao seu apartamento também pequeno. Parecia ser o ideal para um cara solteiro. Pensar naquilo realmente me fez questionar se Héctor era solteiro. Em sua adolescência ele não foi do tipo de menino que tinha namoradas, mas ele também havia mudado bastante desde a última vez em que nos vimos e eu não podia realmente dizer que ele se manteve totalmente fora da coisa de relacionamentos até aquele momento. Sacudi levemente a minha cabeça, procurando uma forma de tirar aqueles pensamentos persistentes da minha mente e voltei a focar na panela de água fervente sobre o fogão. Apaguei o fogo e despejei com cuidado a água quente dentro de uma tigela que havia encontrado em um dos armários. Coloquei o material dentro dela e aguardei enquanto lavava bem as minhas mãos. Em seguida, peguei o material esterilizado e retornei para o quarto. Ao me ajoelhar novamente ao lado da cama de Héctor, cobri minhas mãos NACIONAIS-ACHERON


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com o par de luvas de látex, inspecionando no momento seguinte o local onde havia o corte. Não parecia ter sido um ferimento de bala, como eu havia desconfiado antes. Era um corte não muito profundo, de cinco ou seis centímetros, aproximadamente dois palmos abaixo do quadril. Conhecendo a anatomia humana como conhecia, eu poderia estar errada, mas parecia que o corte não havia rompido uma veia importante ou, até mesmo, sido muito profundo. Eu esperava que realmente não fosse muito profundo, porque já que ele não pretendia ir a um hospital naquele estado, era bom se eu conseguisse resolver a situação com o que tinha em mãos. Voltei novamente até a caixa e tirei de lá um pedaço grande de algodão. Embebi no álcool e comecei a limpar ao redor do ferimento. Em seguida, eu busquei por algum bactericida e encontrei um pequeno frasco de solução a base de clorexidina e joguei na ferida. — Você tem algum antisséptico por aqui? — indaguei. Ele puxou a bolsa e cavou no local. Tirando de lá um frasco de remédio, Héctor me entregou. Apliquei com cuidado o remédio sobre a ferida. Aquilo ajudaria a secar a região e regenerar o tecido danificado mais rapidamente. Por último, eu apanhei a agulha para pontos e inseri o fio nela. — Isso vai doer um pouco, ok? — avisei e aguardei até que ele assentisse para puxar a sua perna sobre a cama, de uma forma que facilitasse para ambos. Seus músculos se tensionaram, provavelmente com a dor súbita. — Então... — falei, começando a inserir a agulha em sua carne para fechar o ferimento. — Você costuma se meter em problemas sempre? — Só quando é necessário — ele respondeu, prendendo um gemido de dor. NACIONAIS-ACHERON


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Eu não sabia exatamente como digerir aquele pedaço de informação. Era óbvio que a pergunta foi mais para quebrar a tensão, mas lá no fundo eu queria uma resposta. Eu só não sabia se a resposta desejada era a que ele havia me dado. Certo, vamos lá, eu não era uma menina de todo ignorante, e sabia que definitivamente o clube não mantinha seus métodos de trabalho focados em montagens de parquinhos de diversão, mas, mesmo sabendo que ele era um criminoso, eu me senti um pouco mal por Héctor. Pelo que eu havia visto naquele dia, algo me dizia que eles mantinham suas vidas ao redor do perigo constantemente, e apenas o pensamento de vê-lo gravemente ferido ou morto fazia com que um bolo de angústia empurrasse todo seu peso pela minha garganta. — Você e o clube... — pigarreei — o que vocês fazem, exatamente? — Você estaria disposta a ter uma faca pressionada contra a sua língua depois que eu lhe contasse? — Levantei a cabeça imediatamente. Ao notar minha expressão assustada, Héctor suspirou. — Negócios do clube não são compartilhadas com outras pessoas. Muito menos, desconhecidas. Certo. Acho que entendi o recado. — Bom, eu respeito toda essa coisa de sigilo, mas não sou uma desconhecida — rebati. Ele silvou de dor quando inseri novamente a agulha em sua carne. — Desculpe. — Talvez não seja para mim — respondeu ofegante. — Mas... porra... para os caras, você ainda é. — Eu entendo. Dei mais duas investidas com a agulha. Estava quase no fim. Ele chiou de dor mais uma vez. NACIONAIS-ACHERON


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— Você está tentando se vingar de mim ou algo assim? Abri um sorriso de desculpas. — Eu não faço o tipo vingativa, você já deveria ter percebido — falei. — Mas isso precisa ser fechado e, visto que não temos um anestésico aqui, terei que fazer todo o trabalho do jeito mais difícil. Ele voltou a enrijecer os músculos e gemer baixo de dor, mas permaneceu firme enquanto eu continuava costurando o ferimento aberto. — Então, você é veterinária mesmo? — perguntou. — Não — neguei. — Eu passei a cuidar do rancho e dos animais depois que... depois que você foi embora. Ele ficou quieto por alguns segundos, mas sua expressão era indecifrável. — E por que você não fez? — perguntou. — A faculdade. Dei de ombros. — Não tive como — respondi. — Eu até tentei, mas... bom, você já deve saber que as coisas nunca foram fáceis por lá. — Você pode tentar isso agora — falou. — Não é algo que esteja fora do alcance, caso você consiga um emprego. — Eu vou pensar sobre isso — falei. — E você? Fez faculdade? Percebi um sorriso irônico crescer em seu rosto. — O quê? — perguntou. — Você acha que por ser o presidente de um moto clube eu devo ser um reservatório de cerveja analfabeto? — Não é isso — eu falei. — Mas eu nunca soube do que você gostava, realmente. Não te imagino fazendo nenhum tipo de curso. NACIONAIS-ACHERON


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Ele riu. — Bom, então você ficaria seriamente assustada se eu te dissesse que sou um advogado? Eu engasguei. — Você... é advogado? Ele então riu. Eu gostei do seu sorriso. Fazia tanto tempo que ele não fazia aquilo, eu lembrei-me. Ele parou imediatamente de sorrir quando a pontada de dor investiu outra vez contra sua perna. — Não, realmente — ele respondeu. — Eu fiz contabilidade. Sou bom em matemática, embora isso não faça muita diferença depois de eu ter assumido o cargo de presidente dos Souls. — Uau — eu disse. — Nunca imaginei algo assim também. — Dez anos se passaram, afinal — ele respondeu. — Muita coisa muda, não é? Eu assenti e passei a pensar sobre aquilo. Realmente muita coisa muda em dez anos, inclusive a sensação estranha que eu tive durante aqueles poucos minutos em que cuidei de sua coxa. Eu não era mais uma criança e seria muita hipocrisia negar que Héctor, mesmo sujo de sangue, terra e suor, era um dos caras mais quentes que eu já vi. Inferno. Após dar o último ponto, eu fiz um curativo sobre a ferida, apenas para proteger a região do máximo de bactérias que conseguisse até o momento de verificar novamente. — Pronto — falei, enquanto me afastava. — Acho que seria bom se você NACIONAIS-ACHERON


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decidisse se limpar agora. Tome um analgésico antes do banho. Só tenha cuidado para não molhar o curativo, ok? Ele olhou para o trabalho que eu havia feito e balançou a cabeça. Acho que estava satisfeito. — Onde está Boo? — perguntei. — Na área de serviço — Héctor respondeu. Ele tentou se levantar, mas fez uma careta quando provavelmente o desconforto lhe atacou a perna, e eu o auxiliei. — Você o prendeu na área de serviço? — Eu não prendi ele, ok? — ele falou. — Tem comida lá e, uma vez que você é sua dona, deve saber que o seu cão é um maldito saco sem fundo em se tratando de alimento. Eu suspirei. Sim, Boo era realmente muito guloso. Ele não tinha jeito. — Posso ir até lá? Ele assentiu, indicando onde ficava a área de serviço. Caminhei na direção a qual Héctor havia me informado e fui atrás de Boo. Ao ouvir meus passos, ele se animou no mesmo instante. — Ei, garoto! — saudei enquanto afagava suas orelhas grandes. Nunca havíamos ficado separados antes. Eu senti tanto a sua falta. — Você está bem, hein? Está se comportando direito? Boo latiu ansioso, e eu fiquei por algum tempo ali, o mimando. Quando ouvi vozes vindas do quarto de Héctor, eu decidi que era hora de voltar. Provavelmente era Susan, o que me fez imaginar que ela estava pronta para ir embora. Então me apressei em me despedir de Boo e voltei para o quarto de Héctor, pois não queria atrapalhar caso Susan quisesse retornar para casa NACIONAIS-ACHERON


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agora. No entanto, no momento em que pus os pés no quarto de Héctor, me surpreendi com o que vi. Uma mulher bonita, morena e aparentemente alta estava deitada na cama de Héctor. Ela usava uma jaqueta de couro, jeans e botas escuras. Sua cabeça estava apoiada no travesseiro dele como se ela houvesse estado ali por muitas vezes. Quando percebeu minha presença, ela se sentou na cama. — Hm... olá — eu disse. — Oi — ela falou, me avaliando da cabeça aos pés. De repente me senti mal por estar usando apenas um par de shorts, camiseta e chinelos. Eu não tive muito tempo para me vestir quando saí da casa de Susan. Naquele momento, Héctor saiu do banheiro usando uma calça jeans limpa e secando seus cabelos úmidos com uma toalha. A mulher sobre a cama se virou imediatamente para ele, disparando: — Quem é ela? Era impressão minha ou havia irritação em sua voz? — Isso faz alguma diferença? — Héctor retrucou. — O que diabos você está fazendo aqui, afinal? — Como assim “o que eu estou fazendo aqui”? — ela falou. — Eu soube que você estava ferido e vim vê-lo. Bom, merda. Eu sabia que estava sobrando ali. Héctor suspirou, como se estivesse impaciente com toda a situação. — Jazmine é uma velha conhecida — ele respondeu. — Filha do meu padrasto. NACIONAIS-ACHERON


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A mulher voltou-se para mim imediatamente. Seus olhos se estreitaram. — Oh, então é você filha do cara que fodeu a vida de Knife na infância — sua hostilidade não me passou despercebida. — Rebecca — Héctor alertou. — Agora não, ok? Ela fez beicinho e voltou a se jogar na cama. Eu senti a possessividade em cada gesto, principalmente quando o seu olhar queimou sobre mim. Héctor se moveu no quarto e pegou uma camisa. — Eu acho que já acabamos por aqui — ele falou. — Inclusive você, Rebecca, dê o fora. A mulher voltou a choramingar. — Eu quero ficar e cuidar de você, Knife. — Não, porra, você não quer — ele ralhou. — Levante da minha cama e não insista. Eu não estou com paciência para essa merda agora. Ela levantou da cama e ajeitou sua jaqueta. O olhar ainda era duro sobre mim quando finalmente saiu do quarto. Escutei a porta da sala bater. — Ela é... sua namorada? — Por que diabos eu estava perguntando mesmo? Héctor deu uma risada que jurei ser de pura ironia. — Não, nem pensar. — Ele vestiu sua camisa e no instante seguinte deitou sobre a cama. Eu percebi que havia acabado de tomar banho, e parecia realmente precisar de um descanso. — Você viu o seu cachorro? — Sim — respondi. — Acho que devo ir embora agora e deixá-lo descansar. Você já sabe que não pode fazer muito esforço com a perna, não é? — Sim, eu sei — ele falou. NACIONAIS-ACHERON


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Abri um sorriso fraco e pedi licença antes de me virar e deixá-lo sozinho no quarto. Quando cheguei no corredor, fora do apartamento, não havia sinal da tal Rebecca, o que era bom, porque eu não estava nem um pouco a fim de me estressar com toda a sua possessividade bizarra. Voltei a caminhar pelo corredor, a fim de encontrar Susan, quando encontrei Shade. — Ei. — Ele sorriu. — Você está perdida? Eu sorri de volta. — Eu acho que sim — falei. — Você estava indo verificar Héctor? — Na verdade, eu estava indo atrás de você — ele falou. — Algum problema? — Não, apenas um imprevisto. Susan teve uma emergência no hospital e precisou sair às pressas. Visto que ela é a única médica permitida a cuidar do clube, nós ficamos meio desamparados aqui. Você se importaria de ficar por mais alguns dias? Oh, meu Deus, eles me queriam ali? Como uma... médica? — Você está realmente me atribuindo essa responsabilidade? Quem te garante que eu não desmembrei o seu amigo lá no quarto e estava pensando em fugir antes que descobrissem os pedaços do seu corpo? Shade soltou uma gargalhada. Ele tinha aquela coisa de motoqueiro intimidador, mas parecia ser um cara legal. — Acredite em mim, Héctor precisa de muito mais do que uma perna machucada para permitir que você chegue a tanto — ele mexeu as NACIONAIS-ACHERON


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sobrancelhas. — Então? Você pode, por favor, nos ajudar? Dei de ombros. — Tudo bem. Ele sorriu mais uma vez, acenando com a cabeça para que descêssemos as escadas. — E então, você já acha que consegue se habituar ao clube? — Shade me perguntou. — Eu não sei — respondi, sinceramente. — Vocês são tão... assustadores. E os apelidos... eu não sei se vou conseguir decorar todos. Ele riu. — Bom, se isso for mais fácil para você, pode me chamar de Liam — disse. — É o meu nome de batismo. — Eu gosto de Shade. — Dei de ombros. — Mas Liam é um bonito nome. Já havíamos chegado ao último andar quando vi o restante dos membros. Vários homens estavam sentados, bebendo, jogando ou conversando. — E então? — perguntei olhando para a bagunça que cobria o local. — Vocês não têm uma faxineira ou algo assim? — As garotas fazem isso — alguém respondeu. Eu arqueei uma sobrancelha. — E você está vendo alguma garota além de mim por aqui? Eles me olharam com desconfiança. — A que ponto está querendo chegar, querida? — o tom era ameaçador, o mesmo que eles haviam jogado sobre mim no dia anterior, mas eu não me NACIONAIS-ACHERON


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deixaria recuar por aquilo tão facilmente. Não mesmo. Eu havia salvado a vida do líder deles e era assim que me tratavam? — Bom, eu acho que seria bem válido se vocês dessem um jeito de ajudar a limpar isso, certo? — falei, firme, embora meus tremores denunciassem o contrário. — Há homens feridos lá em cima, e vocês estão em perfeito estado, pelo que posso notar. — Se você os conhecesse bem, saberia que não se dá ordens aos caras do clube. — Naquele momento, Rebecca apareceu. Eu não sabia qual era o problema dela, mas percebi que toda a coisa estava voltada somente para mim. — Eu não estaria fazendo isso, caso eles não possuíssem braços tão grandes — rebati. Me virando para o grupo de homens, eu disse: — E isso não é sobre dar ordens, mas sobre colaboração. Não façam por mim. Façam por seus amigos. Eu ouvi alguém resmungar e Liam prendeu um riso ao meu lado. — Certo, certo, nós podemos dar alguma força aqui. Vamos lá, idiotas, movam essas bundas — ele disse. Em seguida piscou para mim, me encorajando. Alguns minutos se passaram até que mais alguns caras se levantaram. Quando dei por mim, todo mundo, mesmo com cara emburrada, estava removendo algumas garrafas do lugar ou tirando o lixo acumulado. Sorri para mim mesma e me virei para Liam. — Onde fica a cozinha? — perguntei. — Eu acho que posso tentar preparar alguma coisa enquanto vocês adiantam tudo por aqui. — Você tem certeza? — Ele parecia não estar acreditando. NACIONAIS-ACHERON


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— Sim, eu tenho — falei. Ele gesticulou com a cabeça para um ponto atrás de mim e eu segui até lá. Eles poderiam estar querendo minha cabeça, mas aposto que mudariam de ideia caso seus estômagos estivessem abastecidos. No fim das contas, nós teríamos que saber lidar uns com os outros em algum momento.

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6: Água Fria

Acordei com o remexer de algo pesado trocando de posição ao meu lado na cama. Ainda de olhos fechados, praguejei. Eu esperava que não fosse Rebecca. Ela tinha a mania irritante de querer se arrastar pela minha cama, e eu odiava isso. Ainda sem abrir os olhos, eu bati a mão no relógio sobre o criado-mudo. O despertador havia acabado de tocar, o que significava que já se passavam das dezoito horas. Eu havia dormido por, pelo menos, dez horas seguidas. Virei de lado, para evitar machucar a minha perna, e saltei no instante em que senti algo molhado e quente contra a minha bochecha. — Que diabos...? — ralhei, encarando, já de pé, o cachorro de Jazmine sobre os meus lençóis. Ele apenas me encarou de volta, com sua língua pendurada enquanto ofegava. Puta merda! — Quem disse que você podia ficar aqui, porra? — resmunguei. — Eu achei que nosso acordo era sobre você ocupar somente a minha área de serviço, enquanto come da minha comida. Isso não é o bastante? Ele ergueu a cabeça e latiu. Depois descansou o queixo sobre suas patas unidas. O bastardo parecia realmente confortável. — Você está se tornando uma grande dor na minha bunda, eu já lhe disse isso? — meu tom era sério. Boo inclinou lentamente a cabeça para o lado NACIONAIS-ACHERON


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esquerdo, em seguida para o direito, de uma forma que me fazia imaginar que ele estivesse tentando assimilar o que eu dizia. Eu soltei um suspiro exasperado e balancei a cabeça, decidindo que não iria me tornar um Dr. Dolittle e começar a conversar com animais. Não mesmo. Ignorando Boo — que permaneceu tranquilamente na minha cama como se fosse um nobre desfrutando de seu leito real — manquei em direção ao meu banheiro e lavei o rosto. Escovei os dentes antes de vestir uma jaqueta limpa e descer. Conforme eu caminhava, sentia o cheiro de comida fresca invadir minhas narinas. Ao alcançar a cozinha, pude ver que todos os caras estavam dispostos ao redor da enorme mesa de madeira. — Ei, Knife! Você se sente melhor? — Shark dividiu sua atenção entre mim e um pedaço grande de frango frito. — Sim, estou melhor — falei. — Alguém foi verificar os outros irmãos feridos? — Jazmine fez isso — Shade respondeu, deslizando no banco comprido e me oferecendo um lugar ao seu lado. Eu me sentei com ele, refletindo sobre a informação de que Jazmine havia segurado as pontas por ali, em vez de Susan. Era um fato único no clube, afinal nós não costumávamos confiar em qualquer pessoa para cuidar dos rapazes. — A garota tem boas mãos — Asher, um membro que entrara para o clube havia dois anos, emendou, enfiando uma porção de ovos mexidos na boca. — Eu espero que você esteja se referindo aos curativos — alertei. Ele riu e remexeu as sobrancelhas em provocação. NACIONAIS-ACHERON


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— Que merda é essa, Knife? Ela nem sequer é sua irmã de verdade — disse. — Mas não se preocupe. Eu estou falando disso aqui... Ele apontou para seu prato e Taz, um dos prospectos, concordou com um grunhido. — Inferno, prez, nós nunca comemos uma comida tão boa. Você deveria experimentar isso... — Ei, idiota, deixe um pouco de salada de batatas para mim! — Shark interrompeu Taz, batendo a mão sobre a sua que, pelo visto, já se adiantava em raspar o que sobrara da comida. Eu estava prestes a exigir melhores esclarecimentos, quando Jazmine atravessou a porta carregando uma bandeja cheia de panquecas recheadas. — Pelo visto vocês não entenderam quando eu disse que deveriam esperar, não é? — ela resmungou. Os caras apenas deram de ombros e se esticaram para pegar as panquecas que ela colocou sobre a mesa. — Hache — ela abriu um sorriso quando finalmente me viu. — Você deve estar com fome. Espere um segundo, eu vou lhe preparar um prato. — Eu estou bem, obrigado — recusei, sentindo a minha testa se enrugar, ainda tentando descobrir se estava em um sonho ou um mundo paralelo, onde a minha meia-irmã mais nova, uma pessoa que eu não via há dez anos, estava na cozinha da sede do clube de motoqueiros que eu liderava, preparando o jantar. — Beba ao menos um pouco de suco de laranja — ela insistiu, enchendo um copo com o líquido amarelo e empurrando em minha direção. Agradeci Jazmine como um aceno de cabeça e peguei o copo. Eu tive NACIONAIS-ACHERON


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vontade de perguntar aos caras a respeito de suas old ladies, porque, pelo visto, do sexo feminino só havia Jazmine por ali. No entanto desisti, concluindo que elas, muito provavelmente, estavam ajudando a cuidar dos homens feridos. — Como está sua perna? — Jazmine estava muito próxima de mim, poucos centímetros de distância. O leve cheiro de baunilha do seu cabelo impregnou em meus sentidos, fazendo-me recordar da época em que ela não passava de uma menina; e com isso, refleti em como as coisas haviam mudado durante os últimos dez anos, entretanto seu cheiro permanecera o mesmo. — Não estou com tanta dor — respondi. — Que bom. — Ela sorriu, secando as mãos no pano de cozinha sobre seu ombro. Seu cabelo selvagem estava preso em um rabo de cavalo, alguns fios soltos ao redor do seu rosto arredondado. A franja rebelde cobria parte de sua testa. Decidi desviar o olhar, percebendo que estava há tempo demais a encarando, e a cena estava começando a ficar um pouco estranha. — Eu acho que deveria verificar isso logo antes de você voltar a dormir. — Claro. — Limpei a garganta, buscando me recompor. — Você não vai comer? — Nah, eu já me alimentei — ela me tranquilizou. Eu bebi um gole do suco antes de me levantar e acenar para que Jazmine me seguisse. Assim que estávamos dentro do apartamento, eu fechei a porta. — Você tem estado aqui desde cedo? — perguntei, removendo a calça jeans e sentando-me no sofá. Ela já havia me visto numa situação semelhante, algumas horas atrás. Não faria tanta diferença me ver de cueca agora. NACIONAIS-ACHERON


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Ela assentiu e pegou a maleta de primeiros socorros que eu havia trazido do quarto antes de descer. Não me passou despercebido o seu tom de voz levemente alterado: — Liam pediu para que eu ficasse, e acabou me cedendo um dos quartos vagos para que eu pudesse passar a noite — disse. — Será melhor para ajudar a cuidar dos feridos, já que Susan teve emergência no hospital. — Liam, hein? — abordei, observando-a se aproximar para inspecionar o curativo. — Eu perdi alguma coisa? Ela fez uma pausa olhando para cima, e então corou. Ela. Corou. — Esse é o nome dele, certo? — Claro — afirmei. — Mas poucos o chamam por esse nome. Aliás, ninguém o chama assim desde que o garoto tinha quinze anos. Ela encolheu os ombros. — Eu o conheci hoje cedo, e ele me disse que esse era seu nome. Nós conversamos por pouco tempo, mas ele parece ser um cara legal. — E é — eu disse. — Mas não se iluda com seu jeito. Nenhum de nós somos bons homens, e eu espero que você esteja ciente disso antes de se meter em algo que talvez não seja para uma garota como você. — Uma garota como eu? — Ela levantou uma sobrancelha. — E o que seria apropriado para uma garota como eu? Dei de ombros. — Talvez um cara que goste de cães e toda essa merda de romantismo televisivo. Shade não nasceu, tampouco vive para isso. Muito menos NACIONAIS-ACHERON


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qualquer outro cara desse clube. Ela me olhou com raiva. — Não julgue o outros por você, Héctor — falou. — Eu sei me cuidar. Posso ser jovem e inexperiente nesse mundo de motocicletas e sangue, mas eu não sou uma menina estúpida. Sem mais uma palavra, ela terminou de trocar o curativo e se levantou. Parecia brava. — Continue cuidando disso para que não infeccione — disse. — Acho melhor eu tentar dormir um pouco. — Bom. Jazmine ficou parada me olhando com raiva, provavelmente esperando que eu dissesse algo. O que ela queria? Que eu lhe fizesse um pedido de desculpas e dissesse que ela se casaria com Shade e ambos teriam lindos filhos juntos? Foda-se se eu estava agindo como um adolescente estúpido, eu não iria voltar atrás. Suspirei e me recostei contra o sofá quando ela desapareceu pela porta. Shade... sério? Era só o que me faltava.

Três dias haviam se passado desde o confronto com os Lions, e tudo estava andando até mais lentamente do que eu gostaria. Meus nervos estavam formigando por uma ação de verdade, principalmente ao me recordar de que eu tivera que lutar diariamente contra o desejo de partir para o ataque e vingar de uma vez por todas a morte do meu pai. NACIONAIS-ACHERON


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Mas se já havíamos chegado àquele ponto, eu seria paciente. Tudo ocorreria em seu devido tempo. — Você tem certeza de que está pronto para pilotar? — Shade me questionou, o tom de sua voz denunciando a preocupação genuína. — Você já me viu agir como um inválido só porque recebi um corte na perna? — perguntei, recebendo um rolar de olhos de volta. — Não se preocupe, Shade, eu estou bem. Ele assentiu, dando tapinhas no meu ombro e se afastou, voltando a organizar os últimos preparativos para que déssemos partida. Eu sabia que por mais que alguns caras ainda estivessem incapacitados de ir adiante, eu, como presidente do clube, tinha que estar lá naquele momento. Nós tínhamos negócios. Negócios que não podiam esperar por muito mais tempo. Apenas a luz da lua testemunhava nossos movimentos enquanto a fileira de motocicletas saía da cidade. Eu liderava o caminho, sendo seguido por Shade, Josh, Shark e Asher. Nós pilotávamos para o norte, pela estrada que dava acesso a Alameda. O nosso destino era uma área isolada, numa localização distante do complexo, em um ponto estratégico. Nós não gostávamos de lidar com negócios em locais fixos ou próximos à sede do clube, afinal a ATF era como um maldito réptil faminto, rastejando toda sua merda obcecada para cima de nós. Paramos no terreno vazio com solo de barro vermelho e olhei ao redor, fazendo uma varredura rápida. Era noite, portanto estava escuro, mas eu conseguia ver, a alguns metros de distância, um veículo cinza que nos aguardava. Eu desci da moto, e assim fizeram os demais. NACIONAIS-ACHERON


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— Me parece que Doe está sozinho desta vez — Asher comentou. — Você não acha isso estranho? — Sim, fiquem aqui — eu avisei. — Shade e eu iremos até o cara. Qualquer movimento suspeito, não hesitem em descarregar alguns cartuchos. Os caras acenaram com a cabeça e, em seguida, eu caminhei com Shade em direção ao veículo prata. Ao alcançar o automóvel, me recostei contra ele e puxei tranquilamente um cigarro do meu bolso. Acendi e dei uma tragada. Inclinando meu queixo para cima, soltei a fumaça. — Mudança nos negócios? — perguntei, ainda sem fazer contato visual com o homem. No entanto, eu sabia que sua atenção estava totalmente voltada para o que eu dizia. O silêncio se fez. Um silêncio longo até demais para o meu gosto. Eu praticamente conseguia ouvir o barulho de sua garganta apertando-se quando o bastardo deglutiu, em um claro sinal de nervosismo. — Do que você está falando? Senti o riso de escárnio querer escapar da minha garganta. O filho da puta achava que podia brincar comigo? Joguei o cigarro no chão e o amassei com a ponta da minha bota até que a brasa se apagasse. Em seguida, fui até a janela do carro e puxei o cara pela gola da camisa. Ele se assustou com o meu gesto e tentou segurar o meu pulso, contudo o meu aperto era firme. — Você acha que pode brincar com a gente? — rosnei. — Onde estão os fodidos escoceses? Os caras dos quais você falou da última vez? — Eu não disse que traria os clientes para acertarem o negócio aqui, disse? Eu me enfureci e acabei acertando meu punho na sua mandíbula. Não esperei NACIONAIS-ACHERON


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muito antes de abrir a porta do carro e o arrastar de lá. — Duas semanas atrás você não era nada mais que um monte de merda em busca de dinheiro fácil. E, sim, você nos disse que traria os caras até nós. Onde estão eles? Ele não respondeu de imediato. Limpou o pouco de sangue que brotava em seu lábio e, ainda de cabeça baixa, falou: — Eles desistiram. A raiva se alastrou sob minhas veias, correndo densa e quente. Eu tive que me esforçar para manter a calma. — Como é? — Eles desistiram, ok? — ele repetiu. — Eu não sei que merda aconteceu, eles só... — Você está mentindo! — O peguei pela camisa novamente e o pus de pé. Suas costas bateram com força contra o material do carro quando o empurrei de encontro a ele. — Fale a maldita verdade! — Vocês acham que eu estaria aqui se estivesse mentindo? — Nós perdemos um negócio grande, Doe — Shade disse. — Acho bom esclarecer melhor isso, antes que fiquemos realmente irritados. — Tá legal. — Ele engoliu em seco. — Eu conto, mas... vocês precisam prometer que vão me deixar vivo. Eu não tenho nada a ver com essa merda. — Isso vai depender muito do que você tem para nos dizer, Doe. — Decidi soltá-lo. — Você tem dois minutos. Ele alisou a pele do pescoço e afastou um passo. — Os clientes desistiram de fazer negócio com vocês porque encontraram uma proposta melhor — ele disse. — Eu não sei se vocês já sabem, mas os NACIONAIS-ACHERON


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Fierce Lions estão pensando em expandir o negócio. — O que isso significa? — Eles estavam focando na venda de drogas e o clube de strip, mas decidiram que agora também iriam fornecer armas. Vocês eram os melhores nesse ramo, mas depois que os Lions viraram negociadores, as coisas realmente ficaram sérias. Eles cobram uma taxa menor, o que atrai um bom número de interessados. Filhos da puta. Eu sabia que eles iriam, mais cedo ou mais tarde, tentar tomar o nosso lugar. — E como você soube disso? — perguntei. — Os escoceses acabaram deixando escapar em nossa última conversa. — Ele soltou uma respiração pesada. — Os caras pareciam realmente interessados em fechar negócio com os Lions. Praguejei, levando as mãos aos meus quadris e caminhando alguns passos para evitar que eu socasse alguém. Porque, porra, eu estava realmente considerando aquilo. O que mais me intrigou naquilo tudo não foi nem mesmo os Lions terem feito de tudo para nos ultrapassar no ramo do tráfico, afinal eu sabia que os fodidos iriam, mais cedo ou mais tarde, tentar fazer essa merda. Mas para chegar ao ponto de roubar os nossos clientes, eles tinham que estar bastante familiarizados com os negócios dos Souls. Como diabos eles conseguiram obter tais informações? Me aproximei novamente de Doe. — Você sabe como eles chegaram a descobrir sobre a transação? — perguntei. — Ou como diabos os Lions chegaram até os nossos clientes? NACIONAIS-ACHERON


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— Eu não faço ideia — ele respondeu. — Mas coisas como essas não vêm acontecendo somente agora, Knife. Eu andei em torno de Hammer e soube por alto que o cara está ciente de muita coisa a respeito dos Renegade Souls. — Bem, filhos da puta, como diabos isso vem acontecendo então? — Talvez eles sejam bem mais espertos do que vocês julgam — Doe respondeu. — Ou — minha mandíbula se tencionou enquanto eu dava mais um passo na direção de Doe — talvez haja um informante lhes passando todo tipo de informação valiosa. Seus olhos se arregalaram quando a compreensão pareceu tomar forma. Ele se afastou alguns passos enquanto estendia as mãos, como se aquela merda fosse me parar caso eu tentasse fazer algo doloroso com ele. — Veja bem, Knife, eu estou com vocês nessa, cara. Acredite em mim. Eu fiquei com vocês até mesmo depois de os Lions terem me feito aquela fodida proposta... — Ele se calou de imediato, mas a frase incompleta não me passou despercebida. Meus olhos se estreitaram. — Uma proposta? — sibilei. — Eles lhe fizeram uma proposta, então? O homem engoliu em seco. — Eu... eu só... — Ele estava nervoso pra caralho, e aquilo meio que me deixou animado. Fazia apenas alguns dias desde a última vez em que testei minhas habilidades com remoção de sangue, mas naquele instante senti como se fizessem décadas. Um sorriso diabólico repuxou meu rosto enquanto eu puxava a faca entre o meu quadril e minha calça. Seu rosto ficou branco, e eu aproveitei a aura tensa para me aproximar mais NACIONAIS-ACHERON


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alguns passos, lentamente, manobrando a faca em minha mão. — Você sabe o que eu costumo fazer com os traidores, não é, Doe? Ele arregalou os olhos. — Mas... eu não estou traindo. Eu lhe contei toda a verdade! — Quanto? — Eu... porra, Knife, acredite em mim... — Quanto?! — Vinte por cento! — ele soltou. — Eles me ofereceram vinte por cento, mais alguns quilos da neve para que eu vendesse por conta própria. — E o que você faz aqui, Doe? Por que não pegou os seus malditos vinte por cento das armas que poderia vender em nome dos Lions, juntamente com sua cocaína de merda, e não deu o fora antes que matássemos você? — Eu não aceitei — falou. — Você pode pensar que eu estou com eles nessa, mas eu prefiro ter a garantia de que irei ganhar algo e poder usufruir do meu dinheiro, do que correr o risco de morrer e ficar sem nada. Aquilo era algo de se admirar em Doe. Ele era um bastardo a procura de dinheiro fácil, mas tinha inteligência suficiente para saber quais os seus limites. Não era à toa que nós mantínhamos negócios com ele por quase quatro anos. — Bem, isso mostra que você não é tão estúpido quanto parece — eu disse. — Espero que não mude de ideia em algum momento. Seria muito triste se nos decepcionássemos com você. Ele balançou a cabeça em negativa. — Eu não sou um rato — replicou. — Além do mais, não importa o que os NACIONAIS-ACHERON


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Lions tentem fazer para me convencer de ficar do lado deles, eu não confio neles para arriscar tanto. — Você não deveria confiar na gente também — alertei. — Agora dê o fora. Qualquer informação que você tiver, nos avise. E, Doe? — Ele permaneceu com sua atenção focada em mim. — Não tente bancar o esperto com os Souls — falei. — Você sabe muito bem que nós não somos nada piedosos. Ele meneou a cabeça e ajeitou a gola da camisa. — Eu vou tentar retornar o contato com alguns clientes. Fiquem tranquilos, nós vamos reverter esta situação. — Assim espero.

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7: Lembranças

Encarei a fogueira onde um pequeno grupo de pessoas sentava-se ao redor e projetei o meu tronco suavemente para frente. Aproveitei o calor do fogo enquanto abraçava o meu corpo coberto por um par de roupas que a esposa de um dos membros do clube havia me emprestado. Susan se oferecera para me trazer vestimentas e algumas outras coisas que ela achou que eu necessitaria, mas eu recusei, alegando que não ficaria ali por muito mais tempo. Apesar de não querer dar trabalho à Susan, eu me arrependi do que dissera quando me dei conta de que havia calculado erroneamente o tempo que levaria ali no clube. Uma semana se passou desde que eu tinha ido para o complexo. Uma semana inteira desde que os caras haviam se ferido e eu me disponibilizara a ajudar. Susan até se oferecera a retornar, para continuar acompanhando a recuperação dos mais feridos, mas eu decidi permanecer em seu lugar — eu havia percebido que ela trabalhava muito e decidi não empurrá-la além do limite, afinal a mulher precisava descansar ao menos uma única vez. Héctor comentara algo a respeito de Susan ter começado a exagerar na dedicação ao trabalho logo após a morte de Hunter, ou Hugh, como ele era chamado por poucos conhecidos. Imaginei que aquela estivesse sendo uma fase extremamente difícil para ambos, e aproveitei a deixa para lhe indagar a respeito da morte de seu pai, mas para minha frustração, obtive apenas o básico, pois, pelo que pude notar, eu ainda não era digna da total confiança. NACIONAIS-ACHERON


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Por mais que meu irmão postiço ainda estivesse se recusando a colaborar comigo, as coisas haviam melhorado evidentemente. Eu não podia afirmar com todas as letras que os homens haviam se acostumado com a minha presença constante, mas podia dizer que eles me aceitaram de uma forma razoavelmente bem. A nossa convivência estava cada vez melhor — eles interagiam mais e reclamavam menos — no entanto eu sentia a energia tensa rondando ao redor do clube, como a mudança climática na prenunciação de uma tormenta devastadora. Os caras se juntavam em reuniões quase que diárias. Eles viviam falando sobre vingança, alegando seus desejos de matar e ferir, todavia era algo compartilhado apenas entre eles, que nós, considerados de fora, nunca saberíamos. Se havia algo que eu aprendera estando com os Renegade Souls era que tanto os civis — como eles passavam a rotular quem não fazia parte de seu mundo — quanto as old ladies, jamais podiam ter conhecimento dos assuntos relacionados ao clube. Héctor havia me dito algo a respeito logo nos primeiros dias em que estive ali, mas quem realmente me ajudou a ter uma visão mais detalhada das coisas foram as old ladies. Oh, sim, elas eram legais. Algumas eram duronas demais e não se envolviam com quem era de fora, mas eu aproveitei meu tempo ali para conhecer melhor o maior número de mulheres. Daisy e Jenna eram primas e ambas casadas com dois membros antigos do clube. Tinky era namorada de Reed, o novato. Cada uma delas tinha sua própria particularidade, mas se existia algo que exatamente todas tinham em comum era a devoção extrema em relação aos seus homens e o orgulho do título que carregavam. Algumas já possuíam filhos com seus maridos, e as crianças eram tão familiarizadas com aquele lugar e aquela cultura que às NACIONAIS-ACHERON


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vezes eu me pegava admirando o quão facilmente você se adapta quando entra para essa vida desde cedo. Eu confesso que senti uma pontada de inveja. Não de suas vidas ou o caminho que seguiam, mas eu sentia inveja do afeto recebido. Elas eram cuidadas, e elas eram amadas. Mesmo envoltos por uma nuvem espessa de testosterona e atitudes consideradas machistas, eles a devotavam e eu sentia falta desse tipo de interação com alguém. No fim das contas, acabei reconhecendo que eu não passava de uma garota desorientada e com carência afetiva. — Você planeja voltar para a casa de Susan em breve? — Jenna me questionou enquanto enchia o meu copo com um pouco de cerveja. Eu cheirei o conteúdo no copo e tomei um gole, reprimindo uma careta. Cerveja não era bom, e eu não era muito de beber, mas o clube estava dando uma festa naquela noite, e eu decidi ceder. — Eu não sei — falei. — Acho que não há muitos motivos para que eu permaneça aqui, uma vez que os caras já estão bem. Talvez eu finalmente volte para Susan e procure por um emprego. Estou precisando urgentemente de um. Tinky sorriu. — Bom, talvez o motivo de você ainda estar aqui esteja mais precisamente relacionado aos pedidos de Shade. Eu rolei os olhos. — Shade não tem nada a ver com isso, ok? — eu disse. — Nós somos bons amigos. — Você é lenta ou o quê? — Daisy perguntou, brincando. — Garota, ele está NACIONAIS-ACHERON


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louco por você. Jenna balançou a cabeça em concordância. — Você não percebe que ele não para de te enviar olhares? O mais disfarçadamente possível, lancei um olhar na direção de Shade, que estava sentado em um canto com uma cerveja na mão, rodeado por um grupo de meninas, seus olhos fixos sobre mim. Desconforto vibrou em meu estômago. Eu não sabia se aquilo me agradava. Quer dizer... Shade era lindo, gentil e divertido, mas eu não estava exatamente à procura de um cara. Eu tinha prioridades que consistiam em arrumar um emprego o quanto antes e tentar organizar a bagunça em que se transformou a minha vida. Uma bagunça que, com certeza, não tinha espaço para um cara. — Eu acho que você deveria ir falar com ele — Jenna insistiu, me cutucando com o ombro. — Quem sabe um pouco de interação entre vocês não resulte em algo? — Em algo? — interpelei. — Sim, em algo — afirmou. — Você precisa de um pouco de diversão, garota! Eu considerei dizer que elas estavam ficando loucas, mas não podia negar que já havia percebido alguns toques sutis que poderiam facilmente ser considerados demonstração de interesse, que iam além da amizade, da parte de Shade. Agora eu me perguntava se eu estava, possivelmente, respondendo de forma positiva em relação a esses toques. Eu esperava sinceramente que não fosse esse o caso. — Não estou procurando um namorado, Jenna. Eu não preciso de um. NACIONAIS-ACHERON


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— E quem falou em namorado? — ela perguntou. — Eu estou me referindo a diversão de verdade. Você sabe, motoqueiros são uma experiência interessante. — Ela chegou mais perto e colocou a mão em um lado da boca, como se estivesse confessando algo. — Eu nunca tive um sexo tão bom em toda a minha vida. Sério, depois que conheci Colton, as lembranças de todos os outros caras que já tive antes dele foram completamente arruinadas. Você me entende? Sexo quente, duro e sujo. É disso que você precisa. Oh. Eu tentei balbuciar alguma coisa, para demonstrar algum tipo de reação além de arregalar os meus olhos, no entanto eu não tinha ideia do que dizer a ela. Caramba, eu podia jurar que meu rosto havia se transformado em um tomate maduro. De repente, um barulho estrondoso chamou totalmente a nossa atenção, desviando-nos do foco anterior. Todo mundo parou o que estava fazendo para se atentar ao som que vinha do que identifiquei ser o estacionamento. Então, mais uma vez, veio outro baque. Dessa vez de vidro sendo quebrado. Me levantei rapidamente, notando que as outras meninas faziam o mesmo, então corremos em direção ao som. Ao chegarmos lá, pudemos ter a visão de uma figura loira e magra segurando um taco de beisebol. Os músculos dos braços finos se flexionavam toda vez que ela fazia um movimento com o taco e o arremessava incessantemente sobre um dos carros. A cena em si já era extremamente chocante, porém o que piorou ainda mais a minha reação foi o fato de o carro utilizado como vítima estar sendo exatamente o meu. Sim, ela estava destruindo o meu amado e velho fusca. NACIONAIS-ACHERON


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Abri e fechei a boca, um pouco desorientada em meio à cena confusa se desenrolando bem na minha frente. Tentei dizer alguma coisa, mas a perplexidade só me permitia lutar contra o aperto em minha garganta, como um peixe moribundo lutando por oxigênio. Parecendo estar satisfeita com o resultado de sua pequena bagunça selvagem, a menina parou. No instante em que ela se virou, eu pude me certificar de quem se tratava: Poppy, a garota loira que vivia ao redor de Héctor. Ok, eu ainda não havia falado sobre ela, afinal muitas meninas pareciam viver em torno de Héctor, incluindo Rebecca. Mas Poppy foi a única que ele levou para seu apartamento na última festa, duas noites atrás. O pensamento do que eles poderiam estar fazendo lá dentro enviou um aperto inexplicável para o meu estômago. Poppy não parecia se incomodar com as expressões de choque e confusão dos demais ao seu redor. Muito pelo contrário, ela parecia até mesmo se divertir com a atenção. Eu percebi isso no instante em que um sorriso malicioso deformou o canto dos seus lábios e então, com a mais cruel das expressões, ela ergueu novamente o taco e bateu contra o meu para-brisa, decretando seu golpe final. Eu estava me sentindo muda e impotente. Me recordei que os caras a chamavam pelo que eles costumavam rotular como “vadia de clube”. No início eu achei o termo um pouco rude, entretanto ela realmente aparentava uma grande vadia agora. Meus nervos ainda queimavam quando Poppy abandonou o bastão de madeira, as pernas oscilando com dificuldade, ao passo que caminhava em minha direção. Ela parou por um momento, então sua voz estalou, o sangue injetado nos olhos: — Cadela! — Ela parecia bêbada. Na verdade, ela parecia terrivelmente miserável, e se eu não estivesse tão confusa e com raiva NACIONAIS-ACHERON


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naquele instante, teria sentido pena. Ainda atordoada, eu não soube registrar exatamente todos os seus movimentos, mas em um instante eu estava em busca de explicações sobre a cena que presenciava e, no momento seguinte, eu tinha Poppy correndo em minha direção. Ela arrematou o copo de bebida mais próximo e antes mesmo que pudesse me defender, eu senti a chuva de cerveja gelada me banhar. — Você pensou que fosse se livrar disso? — gritou, seu avanço sendo impedido quando alguém a segurou por trás. — Você ficou louca? — eu gritei de volta, a raiva voltando a tomar forma. — Eu não faço ideia do que diabos você está falando. — Oh, não se faça de idiota! — tropeçou nas palavras. — Eu vejo a forma como os caras olham para você. Eu vejo como você age, alimentando-os e querendo ser bondosa para todos, mas saiba de uma coisa: você não passa de uma pequena vadia que acabou de chegar, então não se considere muito, ok? Oh, então era isso? Toda aquela demonstração pública de ódio direcionado a mim — e ao meu carro — era por simples e puro ciúme? Eu dei um passo à frente porque, seja lá no que diabos aquilo resultasse, eu iria ao menos dar um tapa naquela vaca, mas então, como se houvesse pressentido a minha intenção, a voz inconfundível de Héctor surgiu, paralisando-me: — Alguém pode me explicar o que significa tudo isso? — A mescla de polidez e ameaça quando ele disse aquilo fez com que os pelos dos meus braços e nuca se arrepiassem instantaneamente. Eu não havia registrado sua presença na festa antes, e cheguei a imaginar que ele provavelmente estivesse em seu quarto fodendo alguém – um pensamento que me perseguiu muito desde os últimos dois dias. No entanto, seja lá o que ele estivesse fazendo antes de aparecer, eu agradeci aos céus por Héctor estar ali. NACIONAIS-ACHERON


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— Poppy parece ter perdido a sua maldita mente — Daisy respondeu em meu lugar. — Ela destruiu o carro de Jazmine, e ainda fez um show ridículo de ciúme. — Eu só estava tentando colocar essa vadia em seu devido lugar! — Poppy choramingou, provavelmente sentindo o mesmo efeito que a voz dura de Héctor havia me causado. — Isso não é justo conosco, Knife. Eu a quero fora daqui. — Justo? — Héctor soltou um ruído de aborrecimento. — Você se acha no direito de me exigir alguma coisa, porra? Sério? Os olhos de Poppy se arregalaram por um instante, e eu percebi o temor nublar suas feições. — Isso aqui não é uma competição, e você já deveria saber disso — a voz repleta de acidez de Jenna cortou meus pensamentos. Ela se virou para Héctor: — Deixe-me lidar com a vadia. Ela precisa aprender uma lição. Héctor não disse nada em troca, mas seu olhar já dizia tudo: ele ia permitir seja lá o que Jenna estivesse planejando para Poppy. Estremeci quando a menina foi empurrada na direção de Jenna, e ela agarrou o braço da garota. — Me solte, eu ainda não... — Já chega! — Héctor cortou a fala de Poppy. — Eu estou seriamente irritado com toda essa merda, você passou dos limites, então apenas cale a boca. — Knife, eu... me desculpe — ela tentou se desgarrar de Jenna. — Me desculpe baby, por favor, me desculpe. Héctor se afastou quando ela tentou avançar para tocá-lo. — Você tem muita sorte por ter uma boceta entre as pernas porque a vontade NACIONAIS-ACHERON


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que eu tenho agora é de esganar o seu fodido pescoço — Poppy recuou com a ameaça. — Agora, dê o fora daqui e tenha a inteligência de não aparecer nunca mais. — Prez, por favor... — Saia! A loira ainda tentou protestar, mas Jenna foi mais resistente quando arrastou a garota para fora. Eu fiquei um pouco receosa a respeito do que Jenna queria dizer com Poppy ter que “aprender uma lição”, mas foi ela quem causou tudo aquilo, então eu não podia dizer que estava sentindo pena. Shade surgiu diante de mim, seu corpo grande cobrindo a visão das pessoas que me olhavam com um misto de diversão e choque. — Ei, você está bem? — Fiquei surpresa quando ele aninhou meu rosto entre as mãos, analisando-me cuidadosamente. — Não se preocupe, estou bem — respondi, desviando o olhar e me sentindo nervosa de repente. O meu coração batia forte e eu jurei a mim mesma que nada tinha a ver com o seu toque demorando um pouco mais do que o necessário em meu rosto. — Está tudo sob controle, irmão — a voz de Héctor soou ao meu lado. Olhei para cima, a fim de encará-lo, e me deparei com o olhar duro de Héctor sobre seu amigo. Não me passou despercebido o fato de que Shade devolveu o gesto com a mesma intensidade. Héctor se virou para mim. — Venha comigo. NACIONAIS-ACHERON


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Eu fiquei paralisada por um breve instante, mas decidi segui-lo, decidindo também ignorar a última mirada estranha que Shade lançou em minha direção quando me afastei. Quando alcançamos o seu apartamento, Héctor abriu a porta e esperou que eu entrasse antes de fechar e rumar para o seu quarto. Eu o segui e fiquei parada, observando seus movimentos enquanto ele se dirigia ao seu armário de roupas. A cama estava feita, e no local eu sentia apenas o cheiro de Héctor. Não havia cheiro de sexo, um sinal de que ele não estivera realmente transando com alguém. Não que isso devesse ser da minha conta, mas eu não podia evitar imaginar. Héctor tirou uma camisa de dentro do guarda-roupas e voltou para mim. — Vista isso. Eu peguei a camisa quando ele me estendeu e encarei a estampa de uma das bandas de rock que ele costumava ouvir. A roupa uns bons números maiores que o meu. — É muito grande — falei. — Então tire o restante de sua roupa e use-a como um vestido — sua voz saiu dura, seca, distante. O que chamou minha atenção. Eu franzi minha testa, olhando-o com confusão. — O que há de errado com você? — O que há de errado comigo? — Ele soltou um riso sem humor. — Bem, eu que te pergunto: o que há com você? — Eu não sei onde você está querendo chegar, Héctor. — O que está rolando entre você e Shade? — ele foi curto e grosso. — Seja sincera comigo: você está nutrindo sentimentos por ele? NACIONAIS-ACHERON


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Minha boca se entreabriu, tamanho choque sobre sua reação. De todas as coisas pelas quais eu imaginei que ele fosse ficar chateado, a minha amizade com Shade era a última delas. — Eu não estou nutrindo sentimentos por ninguém, tampouco estou me insinuando como a vadia da Poppy mesmo acusou — falei. — Eu achei que nós tivéssemos evoluído durante esses dias em que passamos juntos. Mas agora vejo que não deu em nada, não é? — Eu não disse que você estava se insinuando para ele — ele rebateu —, mas eu seria um mentiroso se dissesse que não percebi os olhares de Shade em sua direção, e isso não me agrada. — Você não pode decidir com quem eu devo me relacionar ou não. — O caralho que não — ele se exaltou. — Tecnicamente eu sou seu irmão mais velho, e você está aqui sob minha proteção, certo? Oh, droga. Ele ia realmente seguir por aquele caminho? Dei mais um passo adiante, sentindo o sangue correr mais intensamente em minhas veias, meu coração batendo descompassado, então tentei acalmar minha voz: — Não que isso seja da sua conta, mas eu não tenho nada com Shade — eu disse. — E mesmo se eu tivesse, você não precisa se preocupar em me proteger dele, Héctor. Ele é seu melhor amigo, um dos homens em quem você mais confia. Ele balançou a cabeça, como se eu fosse muito estúpida para não compreender toda a verdade escondida por trás das intenções de Shade. — E é por ele ser o meu melhor amigo que eu lhe digo, Jazmine: Shade não é o tipo de cara certo para você. A forma como ele falou aquilo acendeu uma fogueira dentro de mim. Ele não tinha o direito de decidir com quem eu me relacionava. Ele não tinha o direito NACIONAIS-ACHERON


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de decidir nada sobre mim enquanto fodia até os miolos de qualquer coisa com batimento cardíaco que surgia naquele clube. Simplesmente não tinha. — O que diabos está havendo com você? — explodi. — Uma semana atrás você nem mesmo se preocupava em me deixar saber que se lembrava de mim, e agora está todo esquisito, agindo dessa forma... eu não te entendo! Fiquei ainda mais confusa quando Héctor me deu as costas e levantou a mão, passando-a pelos fios grossos e escuros de seu cabelo, suspirando de modo exasperado. Ele parecia tão cansado. As mechas recentemente bagunçadas de seu cabelo me faziam sentir vontade de pentear com meus próprios dedos. Eu tive que me controlar porque, certamente, era um gesto indevido. — Eu não sei — ele finalmente disse, voltando a se virar para mim. — Eu não sei, ok? Era isso o que você gostaria de ouvir, porra? Eu não sei o que diabos está acontecendo. Algo semelhante a desespero vibrava em seu tom de voz. Por mais que estivesse chateada com sua implicância repentina, eu não queria que ele se sentisse assim. Não queria que ele se sentisse mal, nem perturbado. Me aproximei um passo. — Hache... — Não. — Ele levantou a mão, então eu parei. — Não faça isso, Jazmine. Apenas não faça. Confesso que estava um pouco atordoada. Ele não queria que eu o chamasse por aquele apelido? Ele não queria que eu me aproximasse? Ou talvez ele não queria que acontecessem ambos? Eu molhei meus lábios secos, e então seu olhar caiu sobre o meu rosto e as NACIONAIS-ACHERON


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duas pedras negras demoraram-se por segundos enervantes sobre a minha boca. Ele pareceu despertar de seja lá o que estivesse passando por sua cabeça e finalmente soltou uma respiração pesada, sua voz rouca: — Jodido infierno! — Eu nunca havia visto Héctor praguejar na língua nativa de sua mãe antes, e apesar de mal fazer ideia do que ele havia dito, eu senti o efeito formigando em meu estômago. Ele soltou mais uma série do que eu imaginei serem palavrões em espanhol e recostou a testa contra a parede. Seu gesto fez com que toda a irritação desse lugar à preocupação, afinal ele não parecia nada bem. Portanto, ignorei todos os alertas com sinais luminosos que me diziam para não fazer aquilo e, quando dei por mim, eu estava caminhando em sua direção, o abraçando. Meus braços enrolaram firmemente em sua cintura. Minha estrutura de tamanho inferior buscando transmitir o máximo de conforto para a sua. Seus músculos estavam tensos sob o colete e camisa. Seu cheiro era sombrio, almiscarado e estranhamente sexy. Me lembrava o passado. Me lembrava de uma vida onde afeto e proteção eram apenas desejos tolos incutidos na mente de uma criança. Pressionei a lateral do meu rosto contra suas costas. Meu coração pulsou mais forte quando senti o movimento de suas mãos deslizando para tocar as minhas, imaginando que aquele seria o momento em que ele me afastaria, falaria um monte de coisas idiotas, e eu iria dar meia-volta como se nunca tivéssemos tido aquela conversa. Mas para a minha surpresa, Héctor apenas manteve sua mão grande contra a minha pele, fazendo com que as borboletas no meu estômago se assanhassem. NACIONAIS-ACHERON


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— Não fique bravo — eu pedi, tentando acalmá-lo. — Eu não gosto quando você se aborrece. Ele inspirou. — Eu não estou bravo com você. Eu só... bem, talvez eu esteja bravo, mas comigo mesmo. — Por quê? Ele se desvencilhou dos meus braços e se virou para me encarar. Eu percebi seus olhos caírem para a minha boca outra vez, foi apenas por alguns segundos, e então ele se recompôs antes de afastar de mim. — Poppy me irritou pra caralho, e hoje não está sendo exatamente um bom dia. — Eu percebi que ele estava desviando do assunto. — Me desculpe pelas coisas que eu disse. Acho melhor você vestir a camisa e descer. — Obrigada — eu disse. — Mas eu não vou embora. Não enquanto você estiver assim. Ele respirou fundo, mas não replicou. Por que diabos ele ainda não queria me encarar? — O que está acontecendo, Héctor? — persisti. A sensação de banho glacial que percorria ao longo da minha espinha se amenizou quando ele finalmente me olhou. Contudo, durou apenas um instante. Havia uma tristeza esmagadora por trás dos seus olhos escuros. Eu me sentia afundar na profundidade e me sufocar dentro deles. Ele caminhou até a cama, parecendo exausto e se sentou sobre ela, cotovelos apoiados sobre as coxas, cabeça baixa e suas costas largas com os músculos esticados conforme ele se inclinava. NACIONAIS-ACHERON


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— Você se lembra que dia é hoje? Franzi o cenho e pestanejei algumas vezes, ainda confusa a respeito do porquê daquela pergunta aleatória. — É domingo, certo? Dezesseis de maio... — minhas palavras foram cortadas quando me recordei. Dezesseis de maio. Aniversário da morte de Lisa. A data do dia em que a sua irmã gêmea havia se suicidado. — Oh meu Deus, Hache, eu sinto muito... — minha voz falhou enquanto eu me adiantava em me aproximar dele e sentar-me ao seu lado. — Desculpe por não me lembrar de imediato. Sei o quanto você a amava, e como deve ser complicado para você se recordar disso, durante todos esses anos. — Nem tanto. — Ele não estava olhando diretamente para mim. — Eu venho sabendo lidar muito bem nos últimos anos. Na maioria das vezes eu simplesmente ignoro e deixo o tempo passar; entretanto, foi um pouco mais difícil hoje. Eu não sei se é pelo fato de... — ele não concluiu, mas eu sabia a exatamente à que ele estava se referindo. — Pelo fato de eu estar aqui? — concluí por ele. — Você ainda me culpa pela morte de Lisa? — Não — ele falou. — Você sabe que eu nunca te culpei pela morte dela... bem, talvez eu tenha feito isso no começo, mas eu era apenas uma criança ferida e assustada. Eu precisava culpar alguém. — Então você culpou Michael depois disso. Ele balançou a cabeça em concordância. NACIONAIS-ACHERON


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— Convenhamos que fazia muito mais sentido. Sim, fazia, mas eu não disse nada. Héctor havia passado por bastante coisa desde que eu nasci. Muita coisa mudou desde que eu havia aparecido em suas vidas, deixada inexplicavelmente na porta do meu pai, como um lembrete humilhante de sua infidelidade. A mãe de Héctor nunca havia gostado de mim, e eu não a empurrava ao julgamento por isso, afinal ela chegara na vida de Michael primeiro que eu. Os gêmeos chegaram primeiro que eu. Eu apenas fui empurrada em suas vidas, como um fardo que meu pai foi obrigado a cuidar — a filha ilegítima, gerada com a mulher que ele clamava aos quatro cantos ser o verdadeiro e único amor de sua vida. Depois da minha aparição, tudo havia mudado; inclusive o comportamento do meu pai em relação aos gêmeos. Mesmo sendo muito pequena na época, eu ainda me lembrava das inúmeras brigas, onde Carmen — a mãe de Héctor e Lisa — enfrentava o meu pai ao afirmar que jamais criaria a filha bastarda do marido infiel. Naquela época, o meu pai estava amargurado o suficiente para lhe lançar farpas de volta, alegando que os verdadeiros bastardos eram os gêmeos, os filhos que ele aceitou cuidar mesmo não tendo obrigação alguma. Ele a chamava de louca e prostituta. Eu mal sabia o que significava a palavra bastardo ou prostituta na época, mas eu sabia de um fato que não era necessário muito conhecimento para me manter ciente: a minha presença desencadeou em uma ordem de acontecimentos dramáticos na vida de Héctor, incluindo o suicídio de sua mãe e irmã. Eu segurei em sua mão. Eu não tinha mãos de modelo — pois havia batalhado muito durante os anos em que passei trabalhando para ter o tato suave — mas, mesmo assim, havia um imenso contraste entre sua grande mão áspera e a minha pequena e de pele mais fina. NACIONAIS-ACHERON


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Eu estava totalmente consciente de que seu toque não me causava apenas lembranças da nossa infância juntos. O seu toque despertava-me coisas que me assustavam de alguma maneira. Me perguntei se por um momento ele havia sentido aquilo também, ou se era pura loucura minha, uma imagem fantasiosa de uma menina com pouca experiência com o sexo masculino. De qualquer maneira, eu nunca saberia. Héctor estava estranhamente calado, sua cabeça baixa, seus dedos sem deixar os meus em nenhum instante. — Ei, você não vai começar a chorar feito um bebê, não é? — Eu tentei quebrar a tensão, cutucando a lateral do seu quadril. — Caras fodões como eu não choram — ele brincou, soltando um pequeno sorriso antes de apertar ainda mais meus dedos. Eu ri pela forma como ele falou aquilo porque percebi que não estava tentando nada além de arrancar um sorriso de mim. Meu braço roçou contra o seu, e inclinei minha cabeça para o lado, descansando-a em seu ombro. Os músculos de Héctor se enrijeceram, e eu percebi que o meu gesto havia o pegado de surpresa, mas não me afastei. — Até mesmo os caras fodões deveriam chorar às vezes — eu disse. — Derramar algumas lágrimas pode ajudar a suavizar o peso na alma. Ele suspirou, o toque ainda firme, os músculos ainda duros. Quando voltou a falar, seu tom de voz era macio, algo que eu consideraria totalmente estranho vindo de Héctor “Knife” se não conhecesse o Hache. E não era o motoqueiro atemorizante que se encontrava sentado ao meu lado. Hache era quem estava comigo naquele momento: — Esse é o problema — ele murmurou. — Se fôssemos por esse caminho, eu começaria a chorar agora e nunca mais pararia. NACIONAIS-ACHERON


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Me perguntei o quanto de peso Héctor carregava dentro de si. O quanto as atitudes egoístas do meu pai haviam arruinado o menino de seis anos que eu acreditava que ainda adormecia dentro dele. O quanto eu havia lhe arruinado? Decidi não insistir mais naquela conversa, e apenas permanecemos ali, naquela posição, perdidos em nossos próprios pensamentos. Então uma batida na porta nos despertou. — Entre — Héctor disse, se endireitando. A porta se abriu, e Shade passou por ela. — Tudo bem por aqui? — perguntou ele, entrando no quarto. Héctor ficou tenso e se afastou imediatamente de mim. A expressão suave de minutos atrás havia totalmente se dissipado. Knife havia retornado. — Tudo em perfeito estado — ele respondeu secamente. — Providenciei uma roupa seca para Jazmine. Ela já estava de saída. — Bem, certo — Shade falou, alternando seu olhar entre nós dois. — Você gostaria que eu lhe acompanhasse, Jaz? — Hm, bem... eu acho que sim — eu olhei para Héctor que já tinha se levantado. — Eu vou descer. Você vai ficar bem? Ele anuiu. — Eu vou ficar bem, não se preocupe — ele me ofereceu apenas um pequeno sorriso antes de cortar o contato visual, então eu entendi o recado e saí do apartamento com Shade, me forçando a deixá-lo.

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8: Perigo

Três semanas foi o tempo que se passou desde que eu chegara em Scout Lake. Aproximadamente duas semanas desde a festa dos Souls, o aniversário da morte de Lisa e o meu desentendimento com Poppy. Parecia que haviam sido anos. Eu não havia visto Héctor desde o dia em que tivemos aquela pequena interação em seu quarto. No dia seguinte à festa, eu fui embora sem fazer muito alarde, aproveitando a carona oferecida por Shade, porque, obviamente, eu não tinha mais um carro. Obrigada, Poppy. Por mais que me forçasse diariamente a relevar o acontecido, eu não podia negar que amaldiçoava toda vez ao me lembrar que a garota havia me prejudicado. O seu pequeno show, ocasionado pelo misto nada harmonioso de cerveja e ego ferido, suscitara em diversas complicações que afetaram a minha vida. Principalmente no fato de que agora eu não possuía um veículo próprio para me locomover, sendo obrigada a transitar a pé ou recorrer a táxis e outros meios de transporte cuja a corrida eu não teria como pagar, não fosse o empréstimo que pegara com Susan. Por falar em Susan, ela estava chateada comigo. Quer dizer, chateada não era a palavra mais adequada para definir, mas ela estava — como a própria mesmo dissera — com “o coração partido”. Isso se devia ao fato de eu tê-la avisado que permaneceria em sua casa apenas até encontrar um outro lugar para ficar, algo que eu estava tentando providenciar o mais rápido possível. Eu tentei explicar, da forma que pude, que nada tinha a ver com ela e que NACIONAIS-ACHERON


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tudo tinha a ver apenas comigo. Susan era uma mulher ótima e sua companhia realmente me animava, mas eu queria ter o meu próprio lugar, sair da minha zona de conforto e curtir a minha vida como uma cidadã americana independente. Além do mais, eu não iria abandoná-la totalmente. Eu já a considerava como uma mãe, e o sentimento que nutri por ela era forte o bastante para fazer com que eu não me afastasse. Era sexta-feira. Eu estava a caminho do Dark Horse com Bethan, dois dias após a entrevista de emprego que fiz. Eu havia comentado com minha nova amiga sobre o meu desejo de conseguir um emprego, e ela me dissera que eu poderia tentar algo no bar onde trabalhava, uma vez que eu ainda não ter idade legal para atuar no ramo não complicaria tanto as coisas com a sua chefe — eu faria vinte e um dentro de semanas. Conversamos com Sandra, a dona do bar, e como a última garçonete havia desaparecido do emprego logo após o seu marido se meter em uma confusão com os caras do clube, ela estava quase entrando em desespero, necessitando urgentemente de alguém para preencher a vaga. Fiquei feliz, me sentindo quase nas nuvens. Não que fosse preciso ter um diploma de Harvard e vasta experiência profissional para ser uma garçonete, mas o Dark Horse não parecia o tipo de estabelecimento que aceitava qualquer um como funcionário, então eu me permiti sentir um pouquinho de orgulho por ser uma garota sortuda. Chegando ao bar, passamos pela porta dos fundos e nos dirigimos ao cubículo em que Bethan me informara ser o local onde ela se trocava. O uniforme fornecido era apenas um avental branco, então eu amarrei a peça na minha cintura, depois de enfiar a barra da minha camiseta roxa dentro do cós da calça jeans. — Solte os cabelos, querida — Bethan me instruiu, passando um pouco de NACIONAIS-ACHERON


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gloss sobre os lábios carnudos. Apesar de vaidosa, percebi que ela não era o tipo de garota que usava muita maquiagem para trabalhar; entretanto, sua pele era perfeitamente limpa, ela não precisava de nada disso. — Você fica sexy com eles soltos, e os caras costumam dar gorjetas maiores para as que aparentam mais sexies. Mesmo sentindo o vinco de confusão deformar a minha testa, eu ignorei e soltei os meus cabelos. Bethan sorriu e passou os dedos entre os fios, deixando-os ainda mais selvagens. Parecendo satisfeita, ela se afastou um passo e me avaliou. O sorriso que surgiu em seus lábios fez-me ter certeza de que ela havia conseguido alcançar o resultado desejado. — Bom, eu acho que estamos prontas! — anunciou. — Venha comigo e eu lhe darei as coordenadas. Após me informar tudo o que eu teria que fazer até o horário de ir embora, Bethan se dirigiu ao seu posto, nas mesas mais próximas ao balcão, e eu tive que me virar a partir dali. Reconheço que no começo eu estava meio atrapalhada. Anotei errado dois pedidos e quase derrubei uma bandeja repleta de drinques que custariam metade do meu salário caso o estrago fosse feito, mas à medida que o tempo foi passando, eu consegui aprimorar o meu desempenho. Foi em torno das duas horas da manhã que as coisas voltaram a ficar meio complicadas. Héctor, Shade e Shark apareceram no bar, me pegando de surpresa, e o nervosismo me envolveu no instante em que passaram pela porta. Eu não sabia o porquê daquela minha reação em relação a eles, mas era quase impossível não sentir uma pitada de estremecimento ao observar o grupo de homens caminharem pelo bar, corpos musculosos, posturas intimidadoras e NACIONAIS-ACHERON


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aquele ar de meninos maus que possuíam muitos segredinhos sujos. Por um momento eu me perguntei o que eles sentiam ao notar o tipo de reação que causavam nas pessoas. Era nítida a comoção de quem estava ao redor, e era ainda mais claro o fato de que eles provavelmente se regozijavam com aquilo. Sentaram-se diante de uma mesa redonda grande. Naquele instante, pude perceber que não estavam sozinhos. Rebecca também estava lá, seu braço agarrado ao de Héctor. Claro que ela faria. Senti alguém se aproximar de mim e reparei que Bethan se colocava ao meu lado, observando a mesma cena que eu. — Está tudo bem? — ela me perguntou, oferecendo-me um olhar solícito. — Pelo visto, seus garotos resolveram lhe fazer uma visita. — Isso não tem nada a ver comigo — cientifiquei. — Eles não sabiam que eu estaria começando a trabalhar hoje... e eles definitivamente não são meus garotos. Bethan deu uma risada divertida. — Bem, de qualquer forma, a mesa em que eles estão acomodados pertence a você. Considerando que você já os conhece, acho que não há problema nisso, certo? Eu suspirei. — Não há problema algum. Eu vou atendê-los. Bethan me deu um apertão encorajador no ombro e depois se afastou de mim. Respirei fundo e caminhei em direção à mesa dos caras. NACIONAIS-ACHERON


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— Ei, pessoal! — tentei soar animada. — Oi, Jaz — Shade saudou, sorrindo. — Não sabia que você estava trabalhando aqui. — Pois é, eu consegui um emprego — disse. — O que vão querer? — Cerveja — Liam disse. — O mesmo para mim — Héctor falou. Sua expressão era indecifrável e eu me perguntei se algo havia mudado entre nós desde a última vez em que estivemos juntos. Não que nossa conversa pudesse ter significado algo para ele, mas compartilhar um momento tão íntimo como o nosso passado me fez sentir-me um pouco mais próxima dele de alguma forma. — Eu quero um coquetel de frutas — Rebecca declarou, e eu me forcei a desviar o olhar para ela. — Com muita vodca e gelo. Seus olhos estavam perfurantes sobre mim, mas decidi ignorar. A garota não iria ficar sob minha pele justamente em meu primeiro dia de trabalho. Aguardei até que Shark me dissesse o que desejava e anotei os pedidos. — Ok. — Forcei um sorriso simpático. — Eu já volto. Me virei e caminhei até o balcão para fazer os pedidos a Chad, o barman da noite. No momento em que todas as bebidas solicitadas estavam sobre a minha bandeja, eu me virei e retornei para a mesa. — Aqui está — falei, distribuindo os copos e garrafas. — Tem gelo demais nisso — a voz estridente de Rebecca chamou minha atenção. Encarei-a e observei enquanto ela estendia o seu copo, me olhando com irritação. — Eu pedi um coquetel, não água batizada. — Certo, não vamos fazer confusão por isso — Shade disse, pegando o copo NACIONAIS-ACHERON


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da mão de Rebecca. — Eu sei que pedi cerveja, mas não tem problema. Eu bebo esse aqui. — Não seja implicante, Rebecca — Héctor resmungou, fazendo com que todos olhassem para ele. — Você pediu com gelo, então você deveria simplesmente parar de reclamar e beber o coquetel com a porra do gelo. Rebecca arregalou os olhos, fitando Héctor com descrença. — Knife, você não está falando sério, está? Ele ergueu uma sobrancelha em desafio. — Será que estou? Uh, ok. Eu não queria que ambos iniciassem uma guerra na mesa por minha causa. Ou, no pior dos casos, por causa de algo entre ambos. Não seja paranoica, Jazmine — o meu subconsciente alertou —, apenas não seja. — Tudo bem — me adiantei, atraindo a atenção de todos na mesa. — Eu trago outra bebida. Não tem problema. — Bom — Rebecca debochou, e eu não estava alheia à fúria em seus olhos enquanto ela me encarava. Qual era o problema dela? Sacudindo a minha cabeça e me forçando a ignorá-la, eu me virei e fui até o balcão. Minutos depois, eu estava retornando para a mesa com o seu maldito coquetel sem gelo. — Algo mais? — indaguei. — Não, está bem assim. Obrigada. NACIONAIS-ACHERON


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Vadia. Dei meia volta e retornei para o balcão, sentindo a raiva me queimar. Eu precisava tomar um tempo para respirar ou iria surtar. — Noite difícil? — alguém perguntou, de repente, chamando totalmente a minha atenção. Me virei para a direção de onde a voz saiu, e em seguida olhei para ambos os lados, certificando-me de que ele estava realmente falando comigo. Um homem como aqueles não dirigiria uma palavra a mim caso não estivesse me pedindo uma bebida. — Desculpe? — perguntei, confusa. — Você não me parece estar tendo a melhor noite — Certo. Ele estava, realmente, falando comigo. Algo em seu sotaque chamou minha atenção, pois apesar da pronúncia do inglês quase impecável, ele não parecia americano. Eu acabei sorrindo. — É a minha primeira noite aqui, e confesso que realmente não está sendo muito fácil lidar com tudo — respondi. — Mas já enfrentei coisa pior, de qualquer forma. — O que poderia ser pior do que um bando de bêbados implorando por um pouco mais de álcool no sangue enquanto se afundam em sua própria miséria? Eu suspirei. — Acredite em mim, existem coisas bem piores que isso. — Talvez você tenha razão. — A forma como ele falou aquilo me deixou NACIONAIS-ACHERON


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curiosa, contudo me controlei. Não tínhamos intimidade para isso. Olhando no relógio preso na parede do outro lado do balcão, percebi que não havia se passado nem cinco minutos desde que eu havia voltado da mesa dos Souls; todavia, as poucas frases trocadas com aquele estranho ajudaram a nublar a energia tensa que Rebecca me causou. Aproveitei que ele estava entretido em seu copo de bebida e me permiti avaliá-lo mais detalhadamente. Para começar, ele era ruivo. Aparentemente um ruivo natural, seu cabelo de uma tonalidade que oscilava entre o laranja e o vermelho, era bem penteado, brilhante e liso. O cara parecia ter saído de uma de coleção de luxo da Calvin Klein. Ele era jovem, em torno dos vinte e cinco, e usava um terno aparentemente caro. Tinha uma sombra de barba vermelha que o tornava extremamente bonito, harmonizando com sua pele muito alva. Deslizando meu olhar para uma inspeção ainda mais ampla, notei que suas mãos eram tatuadas, com símbolos que eu não olhei por tempo suficiente para identificar. Havia um pedaço de uma tatuagem que finalizava no pescoço, e algo me dizia que ela era grande. Quando ele inclinou a cabeça e um pequeno ponto de luz cintilou, vi que ele tinha um pequeno piercing de diamante na orelha esquerda. Ok, o cara era definitivamente a definição de curioso. Mas eu não podia negar que era bonito. Terrivelmente bonito. — O que faz aqui? — No mesmo instante em que aquelas palavras saíram da minha boca, eu me arrependi amargamente do tipo de pergunta que fizera. Ali era um bar e as pessoas vão a bares para beber e curtir. Que pergunta estúpida, Jazmine! — Quero dizer... não me leve a mal, mas você não me parece o tipo de cara que frequenta bares como esse. Captei uma sugestão de sorriso. NACIONAIS-ACHERON


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— E em que tipo de locais caras como eu deveriam estar? Eu refleti por um momento e finalmente dei de ombros. — Em um restaurante caro, tomando vinho tinto ao som de Frank Sinatra? — Frank Sinatra? — Ele riu. — Não, não. Eu acho que prefiro algo como Pop ou Hip-Hop. Aquela menina... — Ele franziu a testa — Rihanna é o seu nome... Bem, além de sexy, ela tem uma bela voz. Dessa vez quem riu fui eu. — Você está falando sério? — perguntei, dando mais uma avaliada no seu terno que, muito provavelmente, valia metade do preço da casa em que eu cresci no Texas. — Rihanna? Ele deu de ombros. — Por que não? — Você é um cara muito esquisito. Ele estreitou os olhos, com algo muito parecido com diversão brilhando em seu olhar claro, e eu mais uma vez amaldiçoei a minha língua grande. Se Sandra descobrisse que em vez de servir as mesas, eu estava parada no balcão ofendendo um dos nossos clientes, eu seria a personagem principal do caso mais famoso de demissão relâmpago da história. — Desculpe, eu não quis ofender — eu disse, sentindo minhas bochechas quentes. — Eu falo demais às vezes. Acho melhor retornar ao trabalho. — Espere — ele pediu antes mesmo que eu me afastasse, então mantive minha atenção sobre o que ele iria dizer. — Não peça desculpas, eu te achei divertida. Como você se chama? — Jazmine — eu falei. — E você? NACIONAIS-ACHERON


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— Mikhail — ele disse. — Mikhail Petrov. Bem, aquilo com certeza comprovava que ele não era americano. Russo, talvez, embora sua aparência não denunciasse muito além do fato de que ele parecia ser rico e não se encaixava nem um pouco naquele local. — Foi um prazer conhecer você, Mikhail — eu falei, sem saber ao certo qual o comportamento ter. — Mas agora eu tenho que ir. Muito trabalho a fazer. — Igualmente, Jazmine. — Sorriu, deixando à mostra uma linda fileira de dentes, e então acenou com a cabeça. — Bom trabalho.

No fim do expediente, Bethan disse que ficaria no bar por mais alguns minutos para dar uma carona a Chad. Ela me perguntou se eu gostaria de uma carona também, mas recusei, pois estava muito cansada e pretendia ir embora logo. Já era bem tarde, quase quatro da manhã. O tempo não estava tão frio, mas eu sentia quase que automaticamente os pelos da minha nuca se eriçarem. Talvez o fato de ter sido meu primeiro dia no trabalho, juntamente com os acontecimentos indesejáveis que se desenrolaram ao longo da noite, tenham contribuído para mexer com o meu emocional, fazendo com que eu me sentisse daquela forma. Contudo era algo que eu tinha certeza que passaria após um banho quente e algumas horas de sono. A rua estava deserta e escura. A única iluminação disponível era a de alguns postes que ainda funcionavam, além da lua. O mesmo acontecia com a escassez de som ao meu redor. Me era proporcionado apenas os barulhos dos meus passos, os ruídos dos bichos que bagunçavam as lixeiras nas vielas e os NACIONAIS-ACHERON


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poucos carros que passavam por mim. Decidi adiantar o meu passo, andando em direção ao ponto de condução mais próximo. Eu nunca fora muito fã de transitar por ruas escuras, e se tratando de uma cidade que eu mal conhecia, aquela minha atitude era um tanto quanto imprudente; entretanto não era como se eu tivesse muita escolha. Diante da velocidade com a qual eu caminhava, mal registrei quando a ponta da minha sapatilha bateu numa lata de lixo, fazendo com que eu perdesse o equilíbrio e quase caísse. Praguejei baixinho e me agachei para massagear o meu dedão machucado sob o tecido do sapato. Meus movimentos cessaram imediatamente quando, de repente, avistei um carro parar bem diante de mim. Sabe quando você está ciente de que algo de ruim está prestes a acontecer, a sua integridade está correndo risco, mas alguma coisa te impede de sair do lugar? Eu havia lido, não me lembrava onde, que isso estava relacionado ao pânico, medo... ou seja lá a forma como as pessoas costumavam denominar o sentimento. Parecia que tudo ocorria em câmera lenta: eu me erguendo lentamente, meus olhos ainda fixos na porta do lustroso SUV preto que agora se abria, então um pé bateu no chão, revelando-me um homem. Ele saiu do carro, sendo seguido por mais dois. Pude ver que todos se vestiam inteiramente de preto, exceto pela pintura branca, semelhante às máscaras que as pessoas costumavam usar em festas de Halloween, cobrindo seus rostos. A minha boca se entreabriu, todos os meus sentidos aguçados, enquanto eu analisava com a minha visão periférica qual a forma mais fácil de fugir dali. Um dos homens deu mais um passo, então eu recuei automaticamente. NACIONAIS-ACHERON


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Ele me encarou por poucos instantes, o que imaginei ser um pequeno sorriso curvando o canto de sua boca. A intensidade no olhar semelhante à de um felino faminto, apenas aguardando o primeiro passo da sua presa para atacar. Dois segundos foi o tempo que custei para tomar uma respiração profunda. O mesmo tempo que custou para que eles decidissem dar um fim naquele jogo de encarar e partissem para a ação, avançando em minha direção. A única coisa que eu podia fazer no momento era gritar ou correr. Eu duvidava que alguém pudesse me ouvir ou, no mínimo, me socorrer caso eu me esgoelasse, então eu fiz a única coisa que estava ao meu alcance no momento: me virei e corri. Corri até que os meus pulmões ardessem. Corri, sentindo como se eu estivesse em uma maratona e minha vida dependesse daquilo. Mas percebi que não havia me afastado quase nada quando senti alguém puxar os meus cabelos e, em seguida, me segurar por trás. Eu gritei, o pavor me inundando. Um braço apertou ainda mais forte a minha cintura e me contorci para me livrar dele, então seu outro braço voou contra o meu pescoço para impedir meu gesto. Meu coração batia em alta velocidade quando o mesmo braço deslizou para cima, correndo sua mão contra o meu rosto. Ele usava uma luva, mas ainda consegui ver uma tatuagem ressaltando no seu pulso alvo. Pude ver também que ele segurava um pano branco, pouco tempo antes de o pressionar contra o meu rosto. Prendi a respiração, concentrando-me em não inalar seja lá o que diabos ele havia colocado naquele tecido. Eu sabia que não iria durar por muito mais tempo e logo eu teria que buscar um método de conseguir oxigênio, mas enquanto fosse capaz de lutar com aquele homem para tentar salvar a minha vida, eu faria. NACIONAIS-ACHERON


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Sentindo-me um pouco mais ousada, tentei abrir a boca para morder a sua mão, mas lamentei quando o meu gesto de nada adiantou, dificultando ainda mais a minha posição. Os pensamentos aterrorizantes inundavam a minha mente, devastando a resma de calmaria em cérebro como um tufão. Seria aquele o meu fim? O mais fodido em toda a situação era que eu não sabia o que diabos estava acontecendo, exatamente. O homem voltou a se remexer contra mim e eu me contorci de volta, ainda tentando me livrar do seu aperto. De repente, ambos paralisamos quando outro barulho sobrepôs nossos ruídos, rompendo pela madrugada escura. O estampido grosso e intenso de motor roncando se aproximou, como trovões retumbando no espaço. Eu fechei meus olhos, procurando reunir o máximo de forças para me livrar daquele homem e gritar por ajuda, mas reconheço que estava cada vez mais complicado. Os rugidos cessaram. Passos pesados chegavam cada vez mais perto. Eu não precisei me virar para saber o que aquilo significava. O que veio em seguida foi um puxão, um estalido, e então o homem que me segurava foi arrancado de cima de mim. No impulso, cambaleei para a frente, sentindo meus joelhos tocarem o chão. Minha mão bateu imediatamente em meu pescoço, a tosse seca me atingindo enquanto eu recuperava o ar. O barulho intenso retornou. Dessa vez eram gritos, palavrões e barulho de punho contra carne. Me virei, ainda em estado de choque, e encarei a cena que se desenrolava. O trio do Souls alternava golpes, socando os homens que haviam me atacado NACIONAIS-ACHERON


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e recebendo alguns de volta. Eu não sabia quem diabos aqueles mascarados eram, mas poderia arriscar dizer que seu preparo físico praticamente se igualava ao dos membros do clube. Eles eram treinados e sabiam o que estavam fazendo. Em determinado momento, o oponente de Héctor conseguiu revidar o ataque, lhe roubando o equilíbrio. Em um reflexo inconsequente, tentei me adiantar quando o vi cair, mas recuei imediatamente, pois sabia que eu não teria qualquer chance lutando com aquele cara, e minha intromissão provavelmente só atrapalharia tudo. Como eu esperei que fosse acontecer, Héctor voltou a se levantar rapidamente, recuperando o equilíbrio e avançou a todo vapor. Mesmo ainda tensa, eu o assistia com o sentimento de orgulho e admiração me inundando por dentro. Não era à toa que Héctor ganhara o título do temido líder dos Renegade Souls. Ele era incrível, fosse com seus punhos ou com a faca que acabava de puxar. A lâmina revelou seu brilho, oscilando conforme ele investia e recuava. Seu ataque perfeito denunciava a sua experiência. Eu não estava surpresa, no entanto. Ele sempre foi bom naquilo, desde que éramos crianças. Héctor fez um corte no braço do homem e ele retrocedeu, grunhindo com dor e irritação. Em seguida, levou a mão até suas costas, e eu só pude registrar sua intenção quando percebi que ele havia puxado uma arma. Oh, Deus. Minha garganta ameaçou liberar um grito angustiado quando ele disparou um tiro, do qual Héctor desviou. Então, antes mesmo que ele tivesse a chance de atirar novamente, Shade deu um último soco no cara com quem lutava e o abandonou no chão, pulando no que atacava Héctor, impedindo-o de atingir NACIONAIS-ACHERON


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seu melhor amigo. Enquanto isso, a apenas alguns metros de distância, Shark se atracava com o terceiro mascarado, seus membros provavelmente já cansados trabalhando incessantemente para desferir socos e se defender. Eu não queria nem sequer pensar naquilo, mas reconheci que mais alguns minutos naquele confronto iria resultar na morte de alguém. E foi então que percebi que tinha que deixar de lado o medo de interferir na luta e fazer algo para ajudá-los. Me arrastei pelo chão, tentando me camuflar no ambiente escuro e busquei aguçar minha visão, ao mesmo tempo em que eu tentava ignorar o mal cheiro ao meu redor. O solo era frio e úmido, e se eu não tivesse tão compenetrada no intuito de nos livrar de toda aquela confusão, eu teria saltado fora nas duas vezes em que senti pequenas patas passarem por mim. Tateei pelo chão, e foi então que encontrei uma pedra. Ela era grande e consequentemente pesada, portanto desisti de tentar movê-la, partindo para minha próxima opção: o lixo. Após fuçar desajeitadamente pelos sacos, consegui encontrar uma garrafa de vidro. No instante em que eu me arrastei de volta, alguém gritou chamando minha atenção, então eu me virei para ver o que estava acontecendo, dandome conta de que Héctor agora perfurava o estômago de um dos atacantes, enquanto os outros dois alternavam-se em lutar com Shark e Shade. Meu estômago revirava-se em nós. Ainda mais tensa, recostei-me contra a parede e bati a garrafa contra o concreto para que ela se partisse. Segurei com força o pedaço de vidro e observei que o homem que lutava com Héctor já havia perdido a arma em algum lugar. O mesmo acontecera com a faca de Héctor, e agora ambos lutavam sem armas. NACIONAIS-ACHERON


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Quando o cara levantou o punho para atacar, eu avancei para cima dele. Antes que eu pudesse atingi-lo, algo se chocou com força contra o meu corpo, fazendo com que eu perdesse o equilíbrio e o poder sobre minha mais nova arma. Senti mãos tentando me agarrar e lutei com chutes, socos e arranhões, dificultando sua situação. O peso foi tirado de cima de mim e eu rolei no chão, tentando recuperar a minha respiração. O meu cabelo estava em nós ao redor do meu rosto, eu tinha certeza que em meus cotovelos haviam arranhões, mas pouco me importava. Eu me arrastei e voltei a ajeitar meu cabelo, procurando limpar a minha visão, e foi então que ouvi gritos e retumbar de passos apressados. Pneus de carro rasgaram o asfalto. Cheiro de gasolina. E então, o silêncio. — Vão atrás deles! — Héctor ordenou, mas eu sabia que já era tarde demais. Os homens haviam fugido. Um instante depois, Shark e Shade retornaram. As mãos na cabeça, respiração ofegante, um ar de irritabilidade na expressão. Héctor se inclinou para recuperar a respiração e eu senti alívio ao constatar que ele não estava gravemente ferido. Depois que a tensão ao redor se abrandou, eu percebi que ainda estava sentada no chão sujo e minhas mãos e pernas tremiam. Me levantei e limpei o meu jeans, me sentindo atordoada depois do que havia acontecido. — Você está bem? — Shade perguntou, se aproximando de mim. Assenti, incapaz de responder verbalmente, o meu coração quase partindo NACIONAIS-ACHERON


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meu peito com seus golpes furiosos. — O que diabos foi isso? — Shark interpelou. Ele tinha alguns ferimentos no rosto, um pouco de sangue escorria de onde havia um corte em sua sobrancelha. Me encolhi ao reconhecer que ele havia recebido aqueles golpes por minha causa. — Eu nunca vi esses caras por aqui antes. O que eles queriam, afinal? — Eu não faço a menor ideia — respondi. — Eles simplesmente pararam o carro, vierem em minha direção e me atacaram... Deus, eu não sei o que teria acontecido se... — Tudo bem, está tudo bem agora — Shade me cortou, se aproximando ainda mais. Ele era o que aparentava estar menos ferido, mas parecia bastante cansado. — Você estava indo para casa? — Sim — respondi, voltando à realidade. Minha bolsa estava caída em algum lugar ali perto, então me agachei para pegar. — Eu... preciso ir agora. Estou tão cansada. — Nem no inferno que eu vou deixar você voltar sozinha após ter sido atacada — o tom de Héctor denunciava que ele não aceitaria objeções. Me virei para observá-lo se aproximar e dei-me conta de que Rebecca estava em seu encalço, como um bicho de estimação perseguindo seu dono. Ela provavelmente havia presenciado tudo. O que mais me intrigava era que ela não parecia tão abalada quanto eu. Mas também, a coisa havia acontecido comigo e ela era uma garota de clube, provavelmente havia presenciado coisas do tipo desde que era uma criança. — Sobe na moto. — O quê? — Fitei Héctor com a certeza de que meu olhar transparecia tudo o que eu sentia, tentando saber se era realmente aquilo que eu havia escutado. NACIONAIS-ACHERON


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— Eu disse para você subir na moto — repetiu, sua voz denunciando o cansaço. Seus cabelos estavam molhados de suor, a respiração ofegante. — Eu vou levá-la para casa. Eu não tive tempo de formular uma resposta antes que Rebecca interferisse, seus olhos me lançando chispas. — Knife, se você não percebeu, nós viemos juntos! — ela protestou, encarando-o. — Shade e Shark estão desacompanhados. Eles podem muito bem levá-la embora. — Você tem razão — Héctor pronunciou, me surpreendendo completamente quando se virou na direção dos seus amigos, dizendo: — Algum de vocês pode levar Rebecca de volta? A mulher abriu a boca em choque, enquanto Shark se prontificava a avaliá-la de cima a baixo, um sorriso malicioso em seu rosto. — Oh, sim. Com certeza eu posso. Rebecca fez cara feia. — Nem morta eu vou embora com você — ela resmungou para Shark, caminhando para o lado de Shade no instante seguinte. Shade avaliava a situação com um semblante de quem não estava gostando nada de tudo aquilo. Contudo ele finalmente balançou a cabeça, entregando um capacete para Rebecca. — Eu a levo — foi sua palavra final. — Ótimo. — Héctor caminhou até onde a sua moto estava estacionada e apanhou um capacete, gesticulando em minha direção. — Jazmine? — ele me apressou e eu não tive escolha a não ser colocar o equipamento que ele me oferecia e subir na moto. NACIONAIS-ACHERON


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Meus braços apertaram ao redor de seu estômago e eu praticamente estremeci sentindo os músculos contra meus braços, relembrando o dia em que o abracei daquela forma, algumas semanas atrás. A moto ganhou movimento, e eu apreciei o vento frio bater contra meu rosto. Tantas coisas preenchiam a minha mente naquele instante. A tensão de alguns minutos atrás ainda me atormentava, mas eu não podia negar que o cheiro de Héctor mexia com os meus sentidos de uma forma que deveria me assustar, mas apenas provocava coisas esquisitas em minha mente e corpo. Uma risada baixa vibrou em meu peito, e foi então que percebi que Héctor ria. — Você está tendo um bom tempo aí? — ele zombou, se remexendo contra mim. A realidade me golpeou em cheio, adicionando calor às minhas bochechas quando percebi que já estávamos diante da casa de Susan, a moto estacionada e eu me via grudada nele feito um filhote de macaco. — Desculpe. — Tratei de afrouxar meus braços de sua cintura imediatamente. Nós descemos da moto e eu olhei para a casa de Susan enquanto tirava o capacete e o devolvia a Héctor. Estava tudo escuro lá dentro, uma vez que Susan estava novamente no turno da noite no hospital. Ela não permitia se dar um descanso nunca. Me virei para encarar Héctor novamente e senti a culpa e a preocupação me envolverem. Ele estava machucado, com alguns hematomas e sangue seco em seu rosto. Apesar de ele não ter reclamado quando abracei sua cintura quando estávamos na moto, eu tinha quase certeza de que havia machucados na pele coberta pela camisa também. — Você está ferido. — Apontei, me aproximando. — Eles te machucaram NACIONAIS-ACHERON


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muito? — Eu estou bem, não se preocupe — ele me tranquilizou, executando impressionantemente a missão de inverter as posições e me ter como alvo da conversa: — E então, sobre o ataque: você tem alguma ideia de quem tenha tentado fazer isso? Encolhi meus ombros. — Poppy, talvez? — acusei. — Eles não me pareciam com assaltantes, afinal não puxaram a minha bolsa nem nada. Mas um dos caras tentou me adormecer. Eles iriam me sequestrar. Héctor balançou a cabeça, parecendo avaliar a situação. — Pode ter sido ela, mas... eu não sei — disse. — Não que eu esteja tentando defender Poppy, mas apesar de o pai dela ser um político importante e ter muitos contatos, eu conheço a vadia o suficiente para saber que ela não chegaria a esse ponto. Eu suspirei. — Bom... tendo sido ela ou não, a verdade é que essa situação é completamente fodida. Eu não posso nem acreditar em tudo que aconteceu conosco essa noite. Ele sorriu de lado. — Bem-vinda à verdadeira rotina dos Renegade Souls. Um sorriso amargo saiu de dentro de mim, transformando-se em uma risada que fazia com que eu me sentisse louca. A situação não era uma das melhores, mas eu não tinha ideia do que pensar ou fazer naquele momento, então eu apenas ri. NACIONAIS-ACHERON


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— Obrigada — eu disse, quando me contive. — Obrigada por ter me ajudado. Eu não quero nem pensar no que poderia ter acontecido caso vocês não aparecessem. — Se algo acontecesse com você, eu os caçaria até no inferno e alimentaria os filhos da puta com seus próprios paus. Isso é fato. Pisquei algumas vezes, sentindo meu coração bater ainda mais forte com sua declaração. Eu seria muito desequilibrada em dizer que sua resposta havia sido adorável? Bem, adorável não era a palavra mais adequada para se dizer, no entanto era a forma Héctor de ser adorável. — Obrigada por isso... eu acho — falei timidamente. Ele não disse nada de volta. Apenas se recostou na moto, puxou um cigarro do bolso e acendeu. Ainda em silêncio, ele deu uma tragada e soltou a fumaça em seguida. Eu aproveitei o pequeno momento de paz para encarar o céu. Já estava amanhecendo, e agora eu sentia o cansaço bater com força sobre meu corpo. Os arranhões em meus braços também começavam a arder. Eu precisava ter umas boas horas de descanso, isso era certo, mas temia não conseguir dormir — não depois de tudo o que aconteceu naquela noite. E se aqueles homens decidissem retornar e finalizar o que começaram? Pior, se eles decidissem atacar Susan também? Oh, Deus. Eu esperava, sinceramente, que toda a coisa bizarra que envolveu o ataque daquela noite não fosse algo pessoal. Porque, vamos ser sinceros, que ameaça eu fazia? Imersa em minha própria merda paranoica, mal percebi que Héctor estava me encarando, provavelmente há um bom tempo. Quando caí em mim, captei seu NACIONAIS-ACHERON


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olhar escuro e intenso, fazendo com que os pelos dos meus braços se arrepiassem instantaneamente. Passei minhas mãos por eles, absorvendo o peso de sua inspeção. — O que foi? — decidi perguntar. Ele baixou o olhar por um momento, então deu outra tragada no cigarro. O vento batia contra o seu rosto, acariciando seus cabelos compridos e cheios. Notei que ele não tinha o cabelo de uma cor uniforme. Era uma mescla sensacional de castanho e mel. Algumas mechas eu tinha certeza que ele havia adquirido nas horas incessantes debaixo do sol californiano. — Eu só vou dizer isso uma vez e, caso você tente jogar essa merda na minha cara futuramente, eu vou negar até a morte, ok? Assenti, ainda tentando descobrir aonde ele queria chegar. — Seja lá o que for, eu não tenho com quem falar sobre isso, você sabe. Héctor endireitou sua posição, até que estivesse com os pés cruzados, ainda apoiado na moto. Me recostei contra a moto também, chegando mais perto dele. O cheiro de nicotina, gasolina e couro causaram um efeito totalmente contrário do que eu esperava em meu corpo. Puxei a gola da minha camiseta, me sentindo um pouco calorenta. — Eu me senti culpado — foi sua declaração. Enruguei minha testa, ainda um pouco no escuro a respeito do que tudo aquilo significava. — Do que você está falando? — Quando eu te deixei com ele — esclareceu. — Eu fiquei apavorado. — Não foi culpa sua — falei. — Qualquer um na sua situação faria o mesmo. NACIONAIS-ACHERON


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— Talvez — murmurou. — Mas... você era tão pequena. Tão frágil. Quem diabos garantiria que não seria o próximo alvo depois que eu fosse embora? Realmente, se o meu pai decidisse me usar como seu novo saco de pancadas depois que Héctor desapareceu do Texas, talvez eu não resistiria. — Mas ele não fez, certo? — eu falei. — Eu estou bem, e estou aqui. — Sim, você está. — Seu semblante se tornou duro. Ele voltou a olhar diretamente para mim. — Não importa que eu esteja aliviado por você estar bem, Jazmine. O clube não é para você. — O que te faz pensar que eu queira me envolver com o clube? — Eu não sabia o que eu queria, para ser sincera. Ele ficou calado por alguns segundos. Em vez de me responder com a resposta que eu esperava, me surpreendeu completamente: — Você gostaria de se envolver? Gostaria de fazer parte do que somos? Eu engoli em seco. — Vocês são legais. — Não foi isso o que perguntei — ele disse. — O que você quer que eu diga? — Sentime encurralada. — Quer mesmo abordar esse assunto agora? Ele ficou em silêncio, fazendo-me acreditar que ele realmente gostaria de continuar indo por aquele caminho. No entanto, Héctor respeitou minha decisão quando quebrou a nossa troca de olhares estranha e me lançou um pequeno sorriso. — Você tem razão — disse, dando uma última tragada no cigarro e jogando o que sobrara no chão. — Vou dar o fora. Anote o número do meu celular, para NACIONAIS-ACHERON


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que você me ligue caso algo de estranho aconteça. — Eu não tenho um telefone — falei. — Como diabos você não tem um telefone? Dei de ombros. — Eu comecei a trabalhar hoje, e realmente não tenho dinheiro suficiente para obter um. Ele suspirou. — Certo, eu vou resolver isso. Ainda tentei argumentar sobre o que diabos ele pretendia, mas Héctor não me deu muita brecha quando pôs o seu capacete e subiu na moto. Ele ligou o motor, mas ainda ficou ali, parado todo o momento enquanto eu me virava e seguia em direção à porta. Acenei uma última vez antes de me virar e destrancar a porta para entrar em casa. Somente após entrar no quarto e apagar a luz, eu ouvi o barulho da sua moto se distanciando.

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9: Fogo Cruzado

Você pode até se perguntar o porquê dessa rivalidade entre os Renegade Souls e os Fierce Lions ou, até mesmo, se questionar desde quando toda a guerra começou. Não suponha que o motivo esteja relacionado a um simples capricho de gangues em busca de território, ou uma espécie de rixa primitiva entre paus almejando saber qual dos dois é capaz de mijar mais longe. Ok, talvez envolva um pouco de cada, mas um dos maiores motivos para que esse conflito irrefreável fosse alimentado, chama-se: Lealdade. Hammer, o atual presidente dos Lions, já fizera parte dos Renegade Souls um dia. Sim, acredite em mim, ele já vestiu o colete com as cores do nosso clube e já teve a tatuagem com o nosso lema desenhado em seu peito. Ele também havia sido um dos integrantes do quarteto mais respeitado da irmandade, juntamente com Hunter, Josh e Reese — pai de Rebecca. Mas isso havia sido há quinze anos. Por conta da ambição desenfreada de Hammer para “expandir” erroneamente os nossos negócios, o cara pôs tudo a perder. Nós não éramos um clube que andava na linha com a lei, mas também não traficávamos drogas ou agenciávamos prostitutas. Nosso negócio estava somente voltado para as armas, mas o cara quis mais. E ele caiu. Quando foi descoberto que Hammer estava indo contra as regras e tentando fazer dinheiro com venda de drogas em nome do clube, ele foi expulso com uma marca de traidor nas costas, logo após ter sido obrigado a remover o escudo dos Souls de sua pele com fogo. A partir dali, o cara passou a ser nada mais que um mísero traidor, indigno de respeito e confiança. NACIONAIS-ACHERON


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Foi descoberto, um tempo depois, que Hammer havia montado um clube Outlaw juntamente com alguns viciados, e eis que surgiram os Fierce Lions. O clube não era tão grande ou tradicional quanto o nosso, mas ele conseguiu, de alguma maldita forma, crescer a sua merda bem rápido. E foi assim que a nossa guerra surgiu. Antes que você pense que toda essa merda acontece com muito mais frequência do que se pode imaginar, deixe-me lhe explicar uma coisa: nem sempre é obrigatório clubes de motociclistas não se darem bem entre si. Às vezes algumas gangues até se unem com outras opostas, buscando uma relação que beneficie a ambos. Por mais que nos considerem homens agressivos, nós evitamos ao máximo recorrer à violência. Mas também não gostamos de ser passados para trás ou contrariados. E os Lions mexeram conosco. Mais de uma vez. As luvas de couro rangeram no instante em que deslizei minhas mãos pelo guidão da motocicleta. Nenhum de nós havia movido um músculo sequer enquanto espreitávamos no escuro, do outro lado da rua. — Vocês já sabem o que temos que fazer, certo? — perguntei, sabendo que o grupo de homens mantinham-se atento. Eles assentiram, dando o sinal que eu esperava. Estávamos em aproximadamente dez naquela noite. Desde que passamos algumas semanas sem nenhum retorno positivo a respeito dos Lions, decidimos partir para cima. Claro que o ataque sobre Jazmine influenciou, e muito, para que eu não perdesse mais tempo. Não restava dúvidas de que os Lions estavam envolvidos em muita coisa estranha que vinha acontecendo, e se eles decidiram jogar sujo ao tentar nos atingir, nós teríamos que jogar sujo para cima deles também. NACIONAIS-ACHERON


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Há dois dias, Doe havia me dado uma informação sobre os Lions estarem fazendo transações de drogas naquela data e naquele mesmo local. Era muito provável que o fodido estivesse tentando nos pregar uma peça, então decidimos ir preparados. As coisas não ficariam nada boas caso ele estivesse mentindo. Aproximadamente meia hora depois, conseguimos distinguir alguma movimentação ocorrendo dentro da construção a qual estivemos mantendo sob vigília por um bom tempo. Estava escuro e pouco dava para ver pelo vidro sujo das janelas velhas, mas o caminhão dos Lions encontrava-se estacionado algumas ruas atrás, o que era um indício de que eles já estariam ali dentro. — Fiquem aqui — virando-me para encarar os irmãos, orientei. — Deem cobertura enquanto eu e Shade nos infiltramos pelos fundos e montamos os explosivos. Caso algum deles tente alguma gracinha, vocês estejam prontos para explodir aquela merda, ok? Os caras assentiram. Desci da moto e caminhei com Shade até a área dos fundos. Estava escuro e o uso de lanternas só denunciaria nossa presença ali, então teríamos que fazer tudo no escuro, nos atentando para não esbarrarmos em nada, evitando fazer barulho. O portão de ferro com rede metálica estava aberto. Atravessamos e nos esgueiramos pela escuridão até alcançar a pequena porta que dava acesso ao pavimento onde sabíamos que eles estariam. Apesar do movimento que eu acreditava ter visto minutos atrás, tudo ali era silencioso e vazio, exceto pela figura imóvel sentada numa cadeira, de costas para nós. Que porra era aquela? NACIONAIS-ACHERON


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— Onde diabos eles se meteram? — Shade perguntou. — Eu não sei — falei, me perguntando se ele havia visto o mesmo que eu. — Mas é melhor que nos preparemos para o pior. Isso está me soando estranho. Shade assentiu, então voltamos a nos movimentar, rentes às paredes. Distribuímos explosivos suficientes pelo maior número de áreas estratégicas que encontrávamos. Nós pretendíamos dar um fim em toda aquela merda na primeira oportunidade, eis o motivo do uso das bombas. Empurrando a porta de madeira deteriorada que nos separava do interior, adentramos. Erguemos nossas armas e apontamos em direção ao cara na cadeira, contornando o corpo imóvel e, com isso, tendo a chance de saber de quem se tratava: Doe. Sangue grosso e pegajoso pingava no piso sujo, escorrendo da bagunça nojenta em que se transformou sua cabeça agora aberta. Eu jurava poder ver os miolos do cara espreitarem pelo buraco em seu crânio. — Porra — Shade grunhiu ao meu lado. Saquei imediatamente o celular no bolso da minha calça e disquei. — Emboscada — falei no instante em que Josh atendeu. — Preparem-se para o ataque. Assim que que recebi a resposta de volta e coloquei o telefone para baixo, senti o cano de uma arma apontada para a minha cabeça. — Nós estávamos esperando por você, Knife — uma voz masculina sibilou. Axel. Sorri. NACIONAIS-ACHERON


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— O que você vai fazer, Ax? Me matar? Ele não respondeu de imediato. Mas eu sentia o cano da arma ainda firme contra a minha cabeça. — Não me provoque — ele disse. — Você acha que eu ainda tenho idade para brincar disso? Deixe-me lhe contar uma coisa: eu nunca fui um cara muito tolerante, e muita gente estava ciente disso. Mas eu conseguia me sair bem em situações onde exigiam o meu autocontrole. Acontece que lidar com Axel, o vice-presidente dos Fierce Lions, não estava incluído nessa lista de situações. Eu não gostava do filho da puta, e sabia que o sentimento era recíproco. Tinha certeza que na primeira oportunidade que ele tivesse, meteria uma bala no meu crânio. Bom, ele estava tendo essa oportunidade agora. Como dizem mesmo? Morrer com honra e essas coisas? Bem, foda-se. Eu atormentaria muitos demônios quando chegasse no inferno. — Há muitos nomes pelos quais eu gostaria de te chamar agora, Ax, mas fique tranquilo porque criança não é um deles — eu cuspi de volta. — E é justamente por querer fazer um jogo sério aqui, que eu estou dizendo isso: seja lá o que diabos você planeja fazer, apenas faça. Axel riu e caminhou até que estivéssemos frente a frente. Ele tinha toda aquela coisa irritante de ser calmo nos momentos mais tensos. — Nós não queremos causar uma confusão muito grande aqui — falou, abaixando a arma. Encarei o homem diante de mim, analisando cada movimento seu. Ele tinha um cabelo loiro com o comprimento semelhante ao do meu, olhos azuis e toda essa merda que as meninas julgam excitantes. A única coisa que eu NACIONAIS-ACHERON


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sentia quando o encarava era a vontade de arrancar um bocado de sangue daquele filho da puta. — Onde diabos Hammer se meteu? — fui direto ao ponto. — Ele tem negócios importantes para tratar. Bufei em ironia. — Mais importante do que servir ao seu clube? Ax revirou os olhos. — Você sabe, Knife, nós podemos ser um clube menor, mas não somos idiotas. Desde o momento em sugiram as primeiras reações estranhas de Doe, percebemos que o idiota estava aprontando alguma coisa. Isso é apenas defesa, meu parceiro. Então era isso. Hammer havia encontrado um outro lugar para lidar com seu negócio, e havia enviado o seu fiel escudeiro do caralho para nos armar uma emboscada? Sinceramente, eu não estava surpreso. — Doe os manteve em alerta, então? Ele arqueou uma sobrancelha, demonstrando ironia. — Você acha mesmo que Doe — ele apontou para o corpo do homem na cadeira —, este inútil pedaço de merda, seria um bom informante? Não, imbecil. Doe não os traiu, se é o que está pensando. No entanto, ele traiu os Lions, e nós não admitimos essa merda. Aquela história estava ficando cada vez mais confusa, e eu não sabia realmente se era o melhor momento para acreditar em Ax. Doe era o único que poderia estar passando informações sobre nós para os Lions, no entanto o próprio Axel negou que houvesse sido ele a nos trair. E por que ele NACIONAIS-ACHERON


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defenderia Doe, mesmo depois de tê-lo matado por traição, se não estivesse falando a verdade? — Foda-se o que você diz, eu não vou acreditar na palavra de um Lion — rosnei. — Sempre tentando se esgueirar em nossos confrontos. Eu não me esqueci da última vez em que Hammer também não deu as caras, mas enviou seus homens para nos atacar. Covarde desde sempre, não é? Um dos caras que estavam atrás de Axel, deu um passo à frente, estufando o peito em desafio: — Quem você pensa que é para falar essas coisas sobre o nosso prez? — Ele parecia bastante descontrolado, coçando o nariz vez o outra. — Neil, mantenha sua merda junta — Axel alertou. Eu olhei para o tal Neil mais uma vez. Ele estava inquieto para caramba, e eu esperava que aquela arma em sua mão estivesse com a trava ativada, caso contrário o desgraçado iria fazer uma boa bagunça com os nossos miolos. A risada de Shade ecoou a poucos centímetros de distância de mim. — Então não era mito quando disseram que Hammer havia montado um clube repleto de viciados, hein? — meu amigo caçoou. — Olhe só para esse cara. — Vá se foder! — Neil gritou. — Vocês, seus grandes imbecis, acham que são melhores que nós? Os malditos viciados irão arrancar os seus miolos e depois alimentar suas vadias com eles, antes de rasgarmos suas pequenas bocetas ao meio! Mau negócio, amigo. O silêncio liderou por alguns segundos, e então... Click. NACIONAIS-ACHERON


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Olhei para trás ao ouvir os cliques, apenas para me cientificar de que quase dez armas estavam sendo apontadas para os Lions. Todo o grupo dos Souls estava dentro do galpão agora, bastante furiosos. Uma grande reunião fraternal do caralho. Falando sério, em se tratando de um encontro entre clubes Outlaws rivais, aquela nossa interação estava mais do que controlada. Exceto pelo aspirador de cocaína que já estava me irritando com toda sua merda instável, eu poderia até mesmo dizer que Axel tinha algumas bolas por lidar com o negócio de uma forma civilizada. Mas a quem eu queria enganar? Nós estávamos ali para retaliar e agredir. Alguns minutos de conversa só retardaria o fim. Ignorando toda a tensão acarretada pelo pequeno show descontrolado de Neil, Axel sorriu mais uma vez. Eu esperei pela sua palavra, firmando a mão em minha pistola. — Se dependesse de Hammer, vocês já estariam bastante encrencados, você sabe — disse ele. — Mas, como eu havia dito, não estou em busca de confusão, Knife. Eu gostaria, até mesmo, de entrar em um acordo com vocês. — Vocês mataram não só o nosso líder, mas o meu pai — acusei. — Acha mesmo que eu iria relevar essa merda? O rosto de Axel se fechou imediatamente. — Há muitas coisas que você ainda não sabe, Knife. — No momento que uma nuvem estranha nublou seu olhar, eu percebi que realmente havia algo muito além do que ele estava me permitindo ver. — Onde você está querendo chegar com isso? — perguntei. NACIONAIS-ACHERON


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— Você saberá no momento certo. Enigmas, enigmas. Fodidos enigmas! — Besteira! — rosnei. — Você, Hammer e toda essa maldita trupe de minions do caralho são um monte de merda fétida e mentirosa! Eu não confiaria tanto assim no seu prez depois de saber que ele traiu seus melhores amigos por busca de poder. — Lave sua boca antes de falar de Hammer! — um outro cara ameaçou. O que diabos o cara fazia para ter tantos lambedores de bolas espalhados ao seu redor? Kane praguejou, irritado. — E o que você vai fazer, seu marica? — ele refutou. — Nada do que Knife diz é mentira. Vocês estão realmente sendo liderados por um rato imundo. Não vai demorar muito para serem passados para trás também. — Diga mais uma merda e eu vou enfiar o meu punho na sua cara — alguém ameaçou. — Bem, você poderia tentar — outro cara revidou. A julgar pela localização de onde o timbre saiu, eu poderia dizer que era um dos nossos. — Vocês não têm o direito de falar qualquer merda sobre nós, fodidos! — Neil cuspiu no chão. E com isso, antes mesmo que eu pudesse tomar uma decisão para acalmar seus nervos aflorados, um tiro estalou em nossa direção. — Porra, Neil! — Axel bradou. — Eu disse que era para atirar? Me virei, na intenção de verificar se os caras estavam bem, e acabei me deparando com o sangue fresco escorrendo pelo braço de Kane. Por sorte, a NACIONAIS-ACHERON


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bala havia atingido de raspão, todavia o fato não serviu para apagar o fogo que consumia seus olhos. Kane deu um passo à frente, revelou os dentes e levantou sua arma. Bem... você não precisa ser nenhum expert no assunto para saber o que veio em seguida. Em questão de segundos nós passamos de dois clubes rivais em um diálogo consideravelmente amigável para transformarmos o galpão em um verdadeiro campo de batalha. Em certo momento, até mesmo eu já estava metido na confusão, socando a cara de algum bastardo até obter uma massa abatida no chão. Guinchos. Socos. Tiros. Eu não podia discernir quem era quem, só sabia que golpeava todos os caras com o colete dos Lions que cruzavam o meu caminho. Dizem que quando algo está ruim, não pode piorar, certo? Bem, vejamos... as coisas podem, sim, piorar em um determinado momento. Eu não sabia exatamente quem estava vencendo ou perdendo a luta àquela altura do campeonato, mas a jogada de mestre aconteceu quando alguém resolveu apertar os botões dos explosivos, e então... Boom. Era como se as portas do inferno houvessem sido escancaradas. Boom. NACIONAIS-ACHERON


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Estrondo após estrondo ecoando pelas paredes velhas da construção abandonada. Como num campo minado, tudo começou a vir abaixo. Meu cérebro só conseguia catalogar o grupo de homens correndo e gritando, dispersando-se da forma que conseguiam. A luta já havia acabado, no entanto eu consegui segurar um dos caras pela camisa e imobilizá-lo antes de ameaçá-lo com a ponta da minha faca. Envoltos na grande nuvem de poeira, os Lions mal perceberam que eu mantinha poder sobre um de seus membros. Ótimo, pois eu não estava com interesse de libertá-lo tão cedo. No momento em que ele grunhiu e tentou contorcer o seu pescoço contra mim, pude ter a visão de seu rosto, mantendo-me ciente de quem se tratava. Neil. O mesmo cara que havia atingido Kane. — Ora, ora. Parece que o destino não é tão filho da puta assim, hein? — falei, ainda segurando-o firme. Porém o cara ainda tentava se livrar. — Não tão rápido, companheiro. — Senti a adrenalina me atacar, então eu sorri diabolicamente. — Não terminamos com você ainda.

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10: Conexão

Lágrimas escorriam por todo o rosto bonito de Susan. Soltei a respiração lentamente, tentando ignorar a mão invisível que torcia dolorosamente o meu coração em um nó apertado. Eu havia conseguido alugar um apartamento bem próximo ao de Bethan. Não era a melhor moradia do mundo, mas foi o que consegui encaixar no meu orçamento como funcionária do Dark Horse. Já fazia algumas semanas desde que eu estava trabalhando lá, um bom tempo desde que Héctor havia me levado até a casa da sua mãe, fornecendo-me auxílio. Eu já tinha abusado da boa vontade daquelas pessoas até mais do que conseguia calcular, e não queria, de forma alguma, atrapalhar ainda mais a vida de Susan. No entanto, a mulher estava fazendo eu me sentir uma grande cadela agora. Como eu poderia pegar minhas malas e dizer-lhe adeus, diante daquele par de olhos doces e totalmente avermelhados, me encarando com lágrimas? — Susan, eu não vou me mudar de cidade ou algo assim — repisei suavemente, tentando fazê-la entender. — O complexo de apartamentos nem fica tão longe daqui. — Eu sei, mas é que eu me apeguei tanto a você — ela choramingou. — Você já havia se tornado uma espécie de companheira. Eu vivo tão sozinha. Ouch. — Susan, eu gosto muito de você. Não me interprete mal ou pense que sou uma garota mal-agradecida, mas eu já sou uma menina crescida. Eu preciso NACIONAIS-ACHERON


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disso, preciso criar as minhas próprias asas e me virar sozinha — minha voz se tornou ainda mais suave diante da realidade amarga. — Desde que me entendo por gente, eu vivi sob as custas do meu pai. Quero experimentar algo diferente do que me foi dado até hoje. Ela limpou as lágrimas, ainda não muito satisfeita, mas um pequeno sorriso alcançou seus lábios. — Se isso é o que te faz feliz, eu também ficarei feliz... — disse. Em seguida, sua expressão se tornou mais séria: — Héctor já sabe disso? — Não, mas ele vai ficar sabendo hoje — respondi. — Estarei indo buscar Boo em breve. — Bom, se é assim... eu só tenho que lhe desejar boa sorte, querida. Sorri. — Obrigada... ma. — Ela riu pela forma como a chamei. Eu havia visto Héctor chamá-la assim por um bom número de vezes, e percebi que Susan realmente apreciava o gesto. Dei-lhe um último abraço antes de me afastar. Peguei a minha mochila e entrei no táxi que havia pedido e já estava parado me aguardando. Chegando no apartamento, tirei a tarde para limpar toda a bagunça que os antigos inquilinos haviam deixado ali. O local era pequeno, com poucos cômodos e mobília básica. O colchão que cobria a cama de solteiro no único quarto disponível havia sido trocado recentemente, assim como o pequeno conjunto de sofás. A geladeira era velha, mas estava em um bom estado. Eu ainda não tinha uma televisão, mas pretendia comprar ao menos uma de segunda mão quando ganhasse o meu primeiro salário. Depois que tudo estava em perfeita ordem, tentei ao máximo não deixar o NACIONAIS-ACHERON


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cansaço me vencer. Eu tinha vontade de tomar uma ducha e tirar um cochilo, mas sabia que não sossegaria enquanto não levasse Boo embora do complexo. Eu não sabia como os caras estavam reagindo à sua presença por lá, mas não queria que enxergassem o meu cachorro como um fardo. Após organizar as poucas coisas que ainda faltavam, tomei um banho e pedi um outro táxi para chegar ao complexo. Um dos prospectos, que eu já havia conhecido antes, sorriu para mim quando passei pelo portão. Perguntei-lhe sobre Héctor, e o rapaz apenas me informou que ele não estava disponível. Mesmo sem entender muito bem o que “disponível” significava naquele contexto, agradeci pela informação e subi até o apartamento de Héctor, rezando para que a porta estivesse destrancada. Felizmente estava, então adiantei em despertar Boo — que inacreditavelmente estava acomodado na cama — e pus a coleira nele. Percebi que havia uma tigela com ração e outra com água ao lado da sua cama. Ou Boo havia se transformado em um animal superdotado e automaticamente trouxera suas coisas para cá ou o próprio Héctor finalmente decidira instalar o meu cachorro em seu quarto. Decidindo não sorrir feito uma idiota com o reconhecimento de que Héctor não era de todo o babaca que ele tentava transparecer na maioria das vezes, fechei a porta do apartamento e desci com Boo. Tive uma sensação estranha ao constatar a falta de movimentação ao redor. O salão onde eram realizadas as festas estava vazio, assim como o bar. Tudo silencioso. Achei estranho, uma vez que os caras sempre ficavam ao redor, bebendo, jogando ou batendo papo. Caminhei até uma das áreas que eu sabia serem permitidas para outras pessoas, em busca de alguém, mas não encontrei ninguém. O mesmo ocorreu NACIONAIS-ACHERON


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quando eu fui até a cozinha e a encontrei vazia. Peguei algo para Boo comer e caminhei para fora. Eu não perguntaria sobre a localização dos caras a um dos prospectos novamente, pois sabia que nenhum deles iria me responder de uma forma que não me deixasse ainda mais confusa. Decidi, portanto, deixar um bilhete ou algo que indicasse que eu havia levado o cachorro comigo. No entanto, quando pus os pés próximo à área dos fundos, eu parei ao escutar algo. Eu não sabia se aquela área era permitida para qualquer pessoa, mas não havia uma placa ou algo do tipo que sinalizasse. Então eu contornei a construção e segui em direção às vozes. Eu pretendia apenas dar um olá e avisar que levaria o cachorro. Caminhei mais alguns passos, percebendo a existência de uma espécie de depósito — ou seja lá o que fosse — separado da estrutura do complexo. O cubículo assemelhava-se a um pequeno armazém, desses que as pessoas costumam entulhar ferramentas e peças de automóveis. A porta estava entreaberta, então eu me aproximei, percebendo as vozes ficarem ainda mais próximas. Quando me prostrei numa posição que me permitia ver ao menos um pouco do que se desenrolava lá dentro, quase desabei no chão. O grupo dos Souls estava ao redor de uma cadeira de madeira escura. No momento em que tive a oportunidade de contemplar melhor o que se passava, percebi que havia um homem sentado nela. Ele estava sem camisa, seus pulsos amarrados para trás. Da sua cabeça e costas escorria sangue misturado a suor e talvez água. Meu coração falhou uma batida quando a realidade caiu sobre mim. Os Souls estavam todos de pé e, como sempre, ameaçadores. Cada um deles NACIONAIS-ACHERON


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carregava um tipo de arma diferente. O brilho da faca de Héctor chamou minha atenção quando ele ergueu o objeto e pressionou contra a lateral do pescoço do homem. Enrolei a corda da coleira de Boo com força ao redor dos meus dedos. Eu sabia que aquela era a hora certa de ir embora dali, de fugir de toda aquela cena horripilante, mas meus pés simplesmente não se moviam. Eu permitiria ser chamada de louca e estúpida, porque eu realmente estava me imaginando como tal agora. Mas, que Deus me ajudasse, a curiosidade estava levando o melhor de mim. Se curvando lentamente, Héctor alinhou seu olhar ao do seu prisioneiro. Seus cabelos escuros estavam úmidos de suor, a pele brilhante e lisa. Ele parecia tão cansado. Era estúpido, eu sabia, mas eu não podia deixar de me perguntar se ele havia ao menos dormido nos últimos dias. — Então, Neil — a voz Héctor rachou o silêncio. — Você já está disposto a colaborar conosco? O homem inclinou a cabeça para trás, as mãos contorcendo-se para livraremse das cordas apertadas que as mantinham firmemente juntas. Uma tentativa um tanto quanto inútil, considerando o estado em que se encontrava. Um raspar de garganta agoniado foi o máximo de ruído que eu consegui escutar. Nenhuma palavra saía de seus lábios, e percebi o quão irritado Héctor estava ficando por isso. — Eu vou perguntar mais uma vez e espero, sinceramente, que você seja capaz de me responder — seu tom de voz era baixo, porém gélido. A ameaça pairava no ar como neblina. — Você vai colaborar conosco ou precisamos tentar o método mais difícil? — Vão à merda — o outro finalmente revidou. — Por que diabos eu NACIONAIS-ACHERON


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facilitaria as coisas para vocês? — Talvez porque você esteja prestes a ter suas bolas apertadas feito a porra de uma rolha de garrafa? — Héctor lançou. — Não tente testar nossa paciência, Neil, porque métodos para fazer com que você derrame tudo o que precisamos saber, em questão de minutos, é o que não falta. Colaborar iria apenas anular todo o período que passaríamos fazendo-o sentir dor. Não consegui ouvir nenhuma resposta de retorno, mas pela expressão presunçosa de Héctor, ele havia conseguido o resultado que queria. — O que você quer saber? — o homem, que eu descobri se chamar Neil, perguntou. — Eu não sei de muita coisa, vou logo avisando. — Sem problemas — Héctor disse com uma pitada de hostilidade. — Nos conte o que você sabe. Começando sobre o que diabos Hammer queria com Hunter na noite em que ele... sofreu um acidente no meio da estrada, logo após ter sua motocicleta sabotada. Na noite em que ele estava indo se encontrar com o presidente do seu clube. — Como eu vou saber? — Neil se queixou. — A única coisa que eu sei é que Hammer deixou escapar algo sobre fazer uma proposta a Hunter — ele pausou, provavelmente decidindo se contaria o que estava prestes a vir. — Ele não nos deixa ter ciência de muita coisa que ocorre no clube, mas eu fiquei sabendo que os dois, provavelmente, estavam vendo a possibilidade de uma espécie de união entre as duas gangues. Alguém bufou, irritado. — Você não está dizendo coisa com coisa! — eu ouvi a voz de Josh, o pai de Shade, dizer. — Esse verme não está colaborando em nada. — Idiotas, estou pouco me fodendo se acreditam em mim ou não — Neil NACIONAIS-ACHERON


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atacou. — Pelo visto, seu antigo prez não era um bom líder em todo, huh? O que ele fez? Arquitetou um maldito plano pelas suas costas? Eu até cheguei a pensar que vocês estavam cientes de toda a merda relacionada a Hunter e Hammer, mas vejo que me enganei... Neil se calou quando Héctor deu um soco em seu rosto com tanta força que eu me encolhi apenas em assistir. — Não seja ridículo! — ele falou. — Hunter jamais faria algum tipo de acordo com Hammer. Ele foi um dos presidentes mais importantes do clube, o primeiro a exigir a expulsão de Hammer quando descobriu sobre sua traição. O que diabos você está querendo insinuar agora? — Tanto eu quanto você, nem mesmo fazíamos parte dos clubes na época em que Hammer foi expulso, o que significa que talvez haja muita coisa por trás disso que não temos conhecimento, Knife — Neil disse. — Além do mais, pessoas mudam. A ambição, às vezes, pode se tornar bem maior do que qualquer outra coisa. Héctor balançou a cabeça e soltou um pequeno riso sem humor. Algo como descrença e pavor navegaram sobre sua expressão sombria. Eu sabia exatamente o que aquilo significava. Por mais que ele tivesse tratado de esconder rapidamente o seu estado abalado, eu sabia que ele tinha medo de que as palavras de Neil fossem verdadeiras. Ele tinha medo de saber que venerou e confiou por dez anos em um homem que talvez não merecesse tal confiança. — Isso não faz sentido algum! — Héctor rosnou. — Vamos supor que Hammer e Hunter tinham a porra de um acordo, por que diabos os Lions assassinariam o meu pai, sendo que ambos estavam prestes a fechar um negócio? NACIONAIS-ACHERON


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— Como tem tanta certeza de que fomos nós a assassinar Hunter? — abordou. — Como você mesmo disse, ele sofreu um acidente, certo? — Sim, foram vocês! — Héctor acusou com firmeza. — A motocicleta foi sabotada, eu mesmo inspecionei a moto logo após o acidente. Eu vi as falhas, porra! E não ocorreram de forma natural. Eu estava a alguns metros de distância, mas podia perceber que a tensão era praticamente massa ocupando lugar no ambiente de tão pesada. Se as desconfianças de Héctor fossem reais, ele tinha todo o motivo de querer vingar a morte do seu pai. Não que eu achasse correto ele querer matar e torturar homens em busca de vingança, mas verdade seja dita, planejar a morte de alguém de forma tão covarde era revoltante. Eu não sabia se ele já estava cansado de tudo aquilo ou era apenas o seu método de não colaborar totalmente com Héctor, mas Neil fez uma pausa longa antes de continuar: — Sabe, Knife, talvez você tenha razão. Talvez tenhamos sido nós — havia uma pitada de veneno em cada palavra dita. Pelo visto, Héctor também percebeu aquilo. — Como você se sente, hein? Como se sente sabendo que seu fodido papaizinho foi burro o suficiente para confiar na palavra do inimigo e se aliar a eles? — Ele riu. — Como você se sente sabendo que até mesmo o homem em quem você mais confiava não era digno dessa confiança? — Foda-se! — Héctor soltou a faca e partiu para cima de Neil. Ele deu uma sequência de três socos no homem antes que Shade e Kane interviessem e o separasse dele. O peito de Héctor subia e descia com as respirações pesadas que ele dava. Ele passou as mãos pelos cabelos e caminhou ao redor da cadeira. Em seguida, parou frente a frente com Neil novamente. NACIONAIS-ACHERON


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— Foda-se se Hunter estava fazendo transações com o seu clube pelas nossas costas, isso não apaga o fato de que vocês são um bando de covardes! — Ele parou de repente e se curvou novamente sobre a estrutura de Neil. Suas mãos apertaram com tanta força os braços da cadeira que eu podia ver os nós dos seus dedos ficando brancos, as veias tensas saltando em relevo sob sua pele. — A minha vontade é de estraçalhar os seus miolos, mas como eu ainda não terminei, não iremos por esse caminho ainda. — Uma pequena pausa se fez, então ele prosseguiu: — Vocês sabem que nós vínhamos estudando um método de pegá-los há um bom tempo, e sempre que planejamos algo, vocês conseguem se safar. Sem contar que os Lions descobriram sobre muita coisa a respeito dos Renegade Souls. Se eu me lembro bem, o próprio Axel disse que Doe não era o informante que estava facilitando tudo para vocês, mas também não negou que havia alguém lhes passando as informações. — Seus olhos não saíam do rosto do homem. — Então, eu te pergunto: quem é o informante? Neil fez silêncio por um momento, mas sua cabeça não se movia, o olhar ainda direcionado a Héctor. — Já passou pela sua cabeça que o rato talvez esteja dentro do seu próprio clube? — ele perguntou. — Que os culpados pela morte de Hunter não seja somente os Lions, mas também um Soul? — Não foi isso o que eu perguntei. — Mas é a única resposta que eu tenho para dar. E então, estava lá de novo. O peso da dúvida saturando sua expressão. — O que diabos você quer dizer com isso? — Você realmente não sabe? — Neil desafiou. — Já tiveram um traidor antes, qual a probabilidade de haver um segundo? NACIONAIS-ACHERON


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— Você está mentindo — Héctor falou. — Quer nos colocar contra nossos próprios irmãos. Mas isso não vai acontecer. O homem sorriu de novo. — Lembre-se do que eu disse sobre a ambição... irmão. Hector não se conteve e deu outro murro em Neil. Puxando seus cabelos com força, ele rugiu: — Não se atreva a me igualar a um dos seus. — Com a outra mão, ele apertou o pescoço de Neil. Eu não podia ver bem o rosto do homem, mas conseguia observar a pele do seu pescoço ficando avermelhada devido à pressão exercida. Ele começou a se contorcer, tentando se livrar das cordas mais uma vez. Héctor riu friamente, os olhos cheios de uma crueldade que eu nunca havia presenciado antes. Ele estava praticamente irreconhecível naquele instante. — Você está com dificuldade para respirar, Neil? — debochou. — Isso é o que vale a sua vida. Apenas alguns segundos de agonia enquanto a mão do seu inimigo esmaga a sua traqueia, até que o fio de vida que te impede de cair direto no inferno chegue ao ponto de ruptura, filho da puta — ele amansou o tom de voz, mas eu ainda conseguia sentir a fúria nela: — Então apenas pare de jogar comigo e vamos direto ao ponto: quem é o informante? O homem apenas inclinou a cabeça, balbuciando algo ininteligível. No instante em que as palavras saíram, elas vieram com dificuldade: — Essa resposta... eu irei levar... para o túmulo... comigo. Eu imaginei que aquele fosse o momento em que Héctor ficaria ainda mais irritado e finalmente torceria o pescoço daquele homem. Contudo ele apenas riu friamente, libertando Neil do aperto em sua garganta e se afastando. — Desculpe te desapontar, mas adivinhe? — Ele sorriu. — Você não terá um túmulo, realmente. NACIONAIS-ACHERON


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E com isso, ele se agachou e pegou sua faca no chão. Demorou menos de um segundo para que eu percebesse o que ele estava prestes a fazer. Não pude conter o suspiro de pavor. Eu não sabia se ele havia escutado ou se nós tínhamos alguma espécie de conexão, mas os olhos de Héctor vieram imediatamente para onde eu estava, grudada contra a parede, ainda vendo tudo. Eu também não sabia se os outros membros haviam digitalizado minha presença ali, pois eu só conseguia olhar para ele. Para os olhos escuros, intensos e tão, mas tão ameaçadores. — Cuidem dele — foi o seu decreto para o grupo antes que, ainda de olhos vidrados em mim, ele se levantasse, enfiando a faca no cós de sua calça e caminhasse para fora do cubículo. Meu coração tremeu descompassadamente. Minhas mãos começaram a suar, ambas escorregadias. Eu senti o peso de Boo se esticando e ouvi seus latidos animados quando ele viu Héctor, mas nada tirava a minha atenção da sua figura caminhando em minha direção. Nada tirava minha atenção da loucura que se desenrolava dentro do meu peito. Nada me fazia mais ciente do que o fato de que eu fui pega bisbilhotando o que não devia, e agora eu talvez fosse pagar caro pela minha curiosidade. Eu poderia estar soando exagerada, mas foda-se se ninguém nunca se sentiu como eu me sentia agora. Boo continuava serpenteando em sua própria bolha de felicidade, totalmente alheio a tragédia que estava prestes a se desenrolar. E então, eu dei um fim em seu pequeno show quando puxei a corda da sua coleira, me virei e corri. Eu corri, tropeçando em meus pés, sem saber ao certo aonde eu iria chegar. NACIONAIS-ACHERON


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Eu não sabia nem porque estava correndo, mas não queria que as coisas fossem fáceis para Héctor caso ele estivesse planejando alguma espécie de punição por meu comportamento intrometido. Quando já estava quase no fim do processo de alcançar a saída do complexo, senti algo me puxar bruscamente, me segurar firmemente pelos ombros e bater minhas costas contra a parede. Meu primeiro reflexo foi gritar, mas calei no mesmo instante em que um dedo planou sobre os meus lábios. — Shh. — Ele pressionou mais firme. — Sem gritos. Sem muito movimento brusco. Você não quer causar uma comoção aqui, não é? Eu não respondi a sua pergunta, ainda sentindo que era incapaz de proferir uma palavra enquanto ele ainda me olhava daquele jeito. Seu olhar se suavizou, apenas por alguns segundos, a expressão afiada retornando no instante seguinte: — O que faz aqui, pequeno pássaro? Meu coração martelava uma marcha carnavalesca. Fazia tanto tempo desde a última vez em que ele me chamou por aquele apelido. Contudo, naquele instante, eu só queria que as palavras fossem lavadas de sua boca. Deus, ele havia quase assassinado um homem, minutos atrás. — Eu fiz uma pergunta — sua voz era dura, nada do tom suave da outra noite. — E-eu vim buscar Boo — minha voz finalmente saiu. Ele chegou ainda mais perto de mim. O nervosismo cresceu ainda mais. — Eu acho que não costumamos prender o seu cachorro nas áreas privadas, huh? — seu tom sarcástico saiu arrastadamente. — Você estava bisbilhotando? — Eu... não, eu só... NACIONAIS-ACHERON


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— Mentirosa — ele me cortou em um sussurro rouco. Minhas pernas fraquejaram. — Lembre-se que meninas boas não mentem. Portanto, não seja uma má menina. Ele apoiou as mãos contra a parede, um braço de cada lado da minha cabeça, a nuvem de tensão ainda lá, nos envolvendo. Sentime incapaz de me mover. — Ah... uh... me desculpe — foi apenas o que eu consegui dizer de volta. Um estúpido pedido de desculpas. Tudo dentro de mim parecia uma bagunça desenfreada, mantendo meus nervos na borda. Ele sorriu, ignorando minha tentativa ridícula de livrar a minha pele. Parecia um lobo prestes a me devorar inteira. — Você sabe o que acontece com espectadores indesejados, Jazmine? Eu só consegui balançar a minha cabeça em negativa. — Eles dificilmente acordam no dia seguinte para contar a história. Uh, merda. Merda. Merda. Merda. Engoli em seco. — Você vai me punir por isso? — Eu me sentia estúpida em diversos aspectos. Não somente pelo fato de não conseguir formular uma frase espertinha, empurrar meu joelho contra suas bolas e fugir. Mas também pelo fato de que eu não tinha certeza se queria fugir dele, realmente. Era como se houvessem tentáculos descontrolados empurrando todos os botões que comandavam os meus nervos, levando-os até o limite, e eu ficasse NACIONAIS-ACHERON


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ali, permitindo a invasão impertinente, apenas aguardando até que ponto aquilo tudo levaria. À minha morte, muito provavelmente. O canto do seu lábio se curvou quando Héctor sorriu de forma maliciosa. Maldição se a minha mente também não navegou por situações totalmente inapropriadas para o momento. — Talvez sim — ele sussurrou escovando o nariz abaixo da minha mandíbula, mal me tocando —, talvez não. — Seus olhos encontraram os meus novamente. — Talvez nós possamos apenas guardar esse pequeno segredo. Basta não dar muitas oportunidades para que os caras descubram sobre sua intromissão, ok? Eu assenti uma outra vez. — Bom... — Uma mão se moveu da parede até o meu rosto. Deus, eu sentia sua respiração pairando a centímetros dos meus lábios. Minha boca entreaberta, incapaz de sugar oxigênio suficiente. Ele escovou os dedos sobre a minha bochecha e mandíbula, e por incrível que pudesse parecer, o toque me lembrava plumas acariciando a minha pele. De repente, a atmosfera bizarra de pós horror explícito mudou. Eu sentia a quentura formigando em cada parte do meu corpo. Sua boca estava tão próxima da minha. Próxima o suficiente para que calor e arrepio varressem cada parte da minha pele simultaneamente. Eu queria algo que aplacasse aquele sentimento de agonia doce. Minha cabeça se inclinou para trás. A respiração entrecortada se misturando com a sua. Os olhos dele agora estavam fixos em meus lábios. Eu já havia pescado aquele tipo de olhar vindo de Héctor antes. Mas naquele instante, eu NACIONAIS-ACHERON


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sentia tudo com muito mais intensidade. — Hache... — minha voz foi soprada para fora, eu nem sabia por que estava clamando por ele. Talvez eu soubesse. Talvez eu apenas quisesse que ele recuasse, ou avançasse. Qualquer coisa para aliviar o meu tormento. — Eu já disse para você não me chamar assim — a sua voz parecia mais como um pedido agonizado em vez de repreensão. — Por que? Seu polegar passeou pelo meu lábio inferior. — Porque eu sinto vontade de fazer coisas com você — murmurou. — Coisas que te deixariam assustada. O som caiu aos meus ouvidos como música psicodélica. Engoli em seco uma outra vez, minha mente e meu corpo travavam uma batalha que meu cérebro já sabia estar há muito tempo perdida. — Talvez eu não fique assustada — eu disse, lambendo meus lábios. — Talvez eu... talvez eu queira que você faça. — Porra. — Ele esfregou o polegar com um pouco mais de força contra a minha boca. Meu peito subia e descia enquanto eu ouvia suas palavras e acompanhava suas ações. Quando continuou, eu não sabia se ele estava falando comigo ou consigo mesmo: — Essa situação é tão confusa, mas eu não posso evitar. Apenas não posso. E foi exatamente naquele momento que os seus lábios tocaram os meus. Foram por apenas alguns segundos de pele suave pressionada contra pele suave. Ele parecia um menino roubando o seu primeiro beijo proibido. Lentamente, sua boca foi se abrindo, e então ele avançou capturando o meu lábio inferior. NACIONAIS-ACHERON


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Eu fechei os olhos, o êxtase rompendo cada barreira de raciocínio lógico que eu tinha dentro de mim. Minha resistência se tornando flácida. Eu havia lido em algum lugar que devemos primeiro sentir e depois pensar. Aquela analogia nunca havia feito tanta lógica como naquele momento.

Eu queria apenas sentir o toque sutil dos seus lábios roçando contra os meus. Eu queria apenas sentir suas mãos acariciando a pele do meu rosto daquela forma suave. Eu queria sentir mais. Eu queria sentir tudo. De repente, ele rompeu o beijo e afastou seu rosto do meu. Pude ver um pequeno flash de surpresa e algo mais, que parecia até mesmo beirar a insegurança e culpa, em sua feição séria. Ele havia se sentido culpado por ter me beijado? Eu não pude manter minha mente em torno daquilo por tempo suficiente, porque no instante seguinte, eu só conseguia sentir a eletricidade fluindo quando sua boca atacou a minha novamente. E permita-me dizer que dessa vez não houve nada parecido com insegurança, surpresa ou medo. Não houve nada como toques castos de lábios unidos. Houve fome, calor e contato áspero, tão áspero que eu sentia que estava realmente sendo punida naquele instante. Mas em vez de me fazer querer me afastar, as sensações pairavam por cada zona erógena do meu corpo, atraindo-me para sua rede perigosa mais e mais. Ele estava faminto. Uma mão segurava os cabelos rente à minha nuca, puxando a minha cabeça para ainda mais perto enquanto a outra apertava o meu quadril, sua coxa quase totalmente entre minhas pernas. Eu não sabia se NACIONAIS-ACHERON


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comemorava ou lamentava por estar usando calça jeans. Sua língua reivindicou entrada em minha boca, e eu me abri, retribuindo com semelhante fome. Apesar da pouca experiência, eu já havia dado beijos de língua em outros rapazes antes, mas não foi tão confortável quanto estava sendo com Héctor. Os caras que eu já beijei não me fizeram ficar noites e noites acordada chorando ao sentir sua perda. Os caras que eu já beijei não me reviravam do avesso quando me tocavam. Os caras que eu já beijei jamais me fizeram reconhecer que o garoto que eu chamava de irmão quando tinha dez anos de idade era o mesmo garoto que eu queria que fosse o meu primeiro beijo roubado aos dezesseis. Não me leve a mal, eu não tinha pensamentos amorosos com Héctor quando eu era uma criança. Mas ele ter ido embora não impediu que algum sentimento crescesse, no entanto. Eu me lembrava de ter escondido as poucas fotos que ele possuía antes que meu pai as juntasse com todos os seus escassos pertences e os queimasse sem pensar duas vezes. Eu ainda guardava a faca alemã que ele havia me dado naquela noite. Eu ainda guardava cada lembrança boa de todas as vezes em que ele havia sido bom para mim, cuidado de mim e velado meu sono. E então, com o tempo, as coisas foram mudando. Eu fui crescendo, os sentimentos foram se misturando, e cheguei ao ponto de me ver querendo que tivesse sido ele a compartilhar cada momento de menina apaixonada que eu me permitia ter. Era algo que me assustava e me fazia preferir não pensar sobre aquilo, mas de qualquer forma eu não podia negar. E finalmente era ele que estava me beijando agora. Era ele que estava me apalpando tão magistralmente que eu sentia estar cada vez mais me transformando numa poça. Era ele que estava roçando seus lábios sobre a pele do meu pescoço, NACIONAIS-ACHERON


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mordiscando a minha mandíbula e finalmente beijando atrás da concha da minha orelha. — Hache... — foi por ele quem eu chamei quando senti uma mão se infiltrar por baixo da minha blusa e acariciar o meu peito com a palma quente, fazendo meus mamilos frisarem e meu corpo estremecer. — Sim, baby? — Ele continuou com seu ataque. Algo como um gemido escapou da minha garganta. Eu mordi meu lábio inferior com tanta força que eu jurava ter começado a sentir o gosto do sangue. Sim, porra. Sangue. O pensamento me levou uma outra cena, minutos atrás, quando Héctor estava torturando um cara, impiedosamente. No momento em que sua mão apertou com tanta força o pescoço de alguém que eu imaginei que fosse presenciar a morte de um ser humano. A mesma mão que agora tocava a minha pele. Então, tudo gelou e a realidade veio à tona: Enquanto nós nos beijávamos, havia, muito provavelmente, um cara sendo assassinado aos arredores daquele clube. O empurrei com toda a minha força, e ele não resistiu. Hector não pareceu surpreso ou ofendido quando se afastou de mim. — Desculpe — ele murmurou, ofegante. Eu apenas o empurrei uma segunda vez para que saísse do meu caminho e agarrei a coleira de Boo com força, saindo daquele lugar como se fosse o diabo fugindo da cruz. Pensando bem, talvez eu não estivesse executando o papel do diabo naquele momento. Não, definitivamente, não era eu. NACIONAIS-ACHERON


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11: (In)Compatíveis

Lealdade é uma coisa engraçada. Não importa quem você é, quantas mulheres você consegue conquistar ou quanto de dinheiro é capaz de empurrar em contas bancárias cujas senhas nem mesmo você se lembra. Não importa quantas cabeças estejam curvadas diante dos seus pés. Não importa o quão próximo esteja do topo. Se você é um homem mau, lidando com pessoas más, jamais deverá confiar cem por cento em qualquer alma viva que lhe jure fidelidade eterna. Engana-se quem pensa que a honra não se vende. Ela é apenas mais cara que algumas outras virtudes entulhadas no pacote da ética e moralidade. É necessário apenas tempo para que a mudança seja feita. Tempo para que confianças sejam trabalhadas. Para que fraquezas sejam descobertas. Tempo para que você vire as costas. E então, facadas. Uma por uma, sendo cravadas bem no centro de suas omoplatas, como um número circense mal executado. Riqueza nunca foi a nossa prioridade dentro do clube. Não que não fizéssemos dinheiro, nós fazíamos muito, mas a amizade e a lealdade sempre vieram em primeiro plano. Ao menos no passado costumava ser assim. Nós éramos uma família. Uma irmandade. Nós tínhamos um pacto. NACIONAIS-ACHERON


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Pacto de alma. Agora, sentado diante da mesa de madeira, o martelo deitado ao lado das minhas mãos unidas, todos os meus pensamentos formados sobre isso foram totalmente abaixo. Cada um, estilhaçando-se, explodindo e expelindo os seus cacos insignificantes no ar, como uma bomba maldita diante da realidade. Eu estava sendo traído. Eu sentia as facas sendo fincadas lentamente nas minhas costas. O sangue escorrendo, denso e quente. As palavras do homem que eu havia matado poucos dias atrás com uma bala na cabeça, logo após Jazmine ter fugido de mim, ecoaram na minha mente uma e outra vez: “Lembre-se do que eu disse sobre ambição... irmão.” — Quase sessenta anos — minha voz saiu limpa e afiada. As minhas mãos permaneciam unidas, os músculos tensos e meus sentidos cada vez mais aguçados. Era como se eu estivesse em estado de alerta, esperando a qualquer momento alguém levantar e me apontar uma arma. A sensação era horrível. — Esse é o tempo que o clube está ativo. Esse é o tempo desde que os primeiros homens a integrar os Renegade Souls se uniram dentro desta mesma sala e recitaram pela primeira vez o nosso lema. Alguém ainda se lembra que lema é esse? — Claro que nós nos lembramos — Shark falou, batendo o punho sobre o peito. — Está tatuado em nossa pele. — Exatamente, irmão — eu falei. — Embora eu imagine que alguns de vocês precisem tomar umas aulas, para refrescar a memória sobre as nossas regras. Regras estas que, apesar de terem sido modificadas ao longo do tempo, devem ser seguidas à risca. Nós não estávamos aqui desde o início, mas NACIONAIS-ACHERON


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vocês se lembram quantas guerras enfrentamos? Quanto sangue vimos derramado, e quantos outros irmãos perdemos? Vocês se lembram o quanto de tudo isso nós fizemos juntos? Como eu sempre fazia em todas as missas, meu olhar passeou ao redor, digitalizando cada expressão em seus rostos, em busca de uma palavra, mas ninguém foi capaz de dizer nada. Prossegui: — Eu pensei que o juramento que fizemos naquela porra de sala, momentos antes de ingressarmos oficialmente ao clube, fosse algo que vocês iriam levar a sério. Porque isso é para ser levado a sério! Olhares confusos e alertas me encaravam de volta. Alguns caras se remexeram em seus assentos, uns fizeram uma carranca enfezada, enquanto outros limpavam suas gargantas, talvez ansiosos para saber o que todo aquele meu discurso significava. — Aonde está querendo chegar com isso, prez? — alguém finalmente perguntou. — Eu quero dizer que depois da nossa pequena reunião com o tal Neil, muita coisa me deixou encabulado. Depois do que eu vi e ouvi, eu não sei mais se todos aqui dentro realmente levaram ao pé da letra o que a nossa união significa. Kane me encarou fixamente, parecendo incrédulo. — Você está dizendo agora que... — Sim, eu estou dizendo — o cortei, já sabendo qual seria sua ladainha. Ele sempre tentava contestar o que eu dizia, e essa merda já estava ficando cansativa. — Nós temos um rato aqui dentro do clube. Um fodido traidor. Um pedaço de escória do caralho! Chamem como quiser, eu realmente não me importo. NACIONAIS-ACHERON


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Houve uma comoção ao redor, como eu imaginava. — Você não pode simplesmente acreditar no que um idiota dos Lions diz — Kane falou. Ele parecia realmente indignado. — Eu não posso? — Encarei-os. — Sim, eu posso, porra! Desde que planejamos pegar os caras, que os Lions vêm se esquivando como malditos roedores em seus buracos. Eles não só se safam das emboscadas, mas agora passaram a estar a par dos nossos negócios. E isso não vem acontecendo por acaso, irmão. Alguém está entregando informações a Hammer. — Eu poderia até dizer que talvez seja um prospecto, mas eles não participam das missas e dificilmente vão às viagens de negócio conosco. Seria meio difícil terem acesso a informações detalhadas — Shade disse, em seguida suspirou quando seus olhos focaram em um ponto qualquer. — No entanto, nós temos membros novos. — Que porra é essa? — Reed, o membro mais recente se manifestou, olhando Shade com fúria. — Você está mesmo jogando essa merda para cima de mim, irmão? Por que vocês não interrogam aquela cadela que apareceu aqui do nada? Ela é boa demais para ser verdade. Com certeza deve ter algo de errado com ela. Meu olhar imediatamente caiu sobre ele. — Levante mais uma acusação para cima de Jazmine, e eu irei partir a sua língua ao meio, Reed — alertei, segurando seu olhar por tempo suficiente para que ele finalmente absorvesse minhas palavras ou simplesmente rebatesse. Ele não fez nada. Apenas permaneceu calado em seu lugar, desviando o olhar em seguida. Voltando a encarar o grupo como um todo, continuei: — E para que fique claro, é impossível Jazmine ser uma informante. Eu a conheço bem o suficiente para saber que ela jamais seria NACIONAIS-ACHERON


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capaz disso. No entanto, eu os conheço muito bem também e sei do que muitos aqui seriam capazes — pausei. — Eu não quero levantar acusações para cima de ninguém em especial, mas saibam que todos vocês são suspeitos até que eu descubra o que diabos está havendo. Mais cedo ou mais tarde, eu irei descobrir quem está se voltando contra o clube. E um por um, irá pagar por essa merda. Bati o martelo sobre a mesa. Em seguida, me levantei e saí da sala sem nem ao menos me preocupar em dirigir um último olhar a eles. Ao alcançar o estacionamento, percebi que tinha alguém vindo atrás de mim. Quando me virei, vi que era Shade. — Knife, mano, não acho que seja um bom momento para você pilotar. Revirei os olhos. — Você anda dizendo muito isso ultimamente, mas não se preocupe. Eu estou legal — falei, colocando o meu capacete. Eu subi na moto, mas Shade não se afastou. Em vez disso, ele cruzou os braços e permaneceu ao meu lado. — Aonde você vai? Arqueei uma sobrancelha. — Eu acho que isso não é da sua conta. — Oh, então vai ser assim agora? — ele despejou, aparentemente irritado. — Desde quando você se recusa a me dizer algo tão simples como isso? Desde que eu beijei a garota por quem você está caído, idiota. A culpa é uma cadela do caralho. — Desde que você se tornou um maldito carrapato inconveniente, mas ok. NACIONAIS-ACHERON


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Você quer saber, eu vou lhe dizer, Shade: talvez eu esteja indo foder alguém — eu sei, eu estava sendo um grande imbecil, mas não podia controlar a onda de raiva ao perceber que ele já estava desconfiando que eu iria atrás de Jazmine. Seus olhos se estreitaram. — Você está indo ver Jazmine. — E era isso. Fim da linha, eu estava malditamente certo. A raiva ficou ainda mais incandescente. — Talvez eu esteja — respondi. — Como eu disse, isso não é da sua conta. Shade trocou de posição, ficando ainda mais perto de mim. Ele tinha olhos castanhos, um pouco mais claros que os meus, e eles estavam totalmente fixos agora, a raiva transparecendo através de sua íris. Ele sabia, porra. Era claro que ele sabia. — O que você fez com ela naquele dia? Ele realmente estava tentando me levar ao limite? — Você está falando do episódio em que ela nos pegou interrogando e torturando um cara? — Ou você está falando de quando eu a pressionei contra a parede e praticamente fodi sua boca com a minha língua, de uma forma tão faminta que até agora eu não conseguia tirar o gosto dela da minha mente? Essa parte, no entanto, eu preferi deixar apenas em pensamento mesmo. — O que diabos você aprontou, Knife? — insistiu. — Se meta com seus assuntos, irmão. — Ignorei sua pergunta, antes de ligar a moto e me preparar para arrancar. — E Jazmine, definitivamente, não é um NACIONAIS-ACHERON


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assunto seu.

Vinte minutos mais tarde, eu estava estacionando a moto em frente ao Dark Horse. Tirei o capacete e guardei as chaves no bolso da minha jaqueta. Em seguida, caminhei em direção ao bar. O local estava cheio, afinal era véspera de fim de semana. Sentei na mesa habitual do clube, percebendo que as pessoas não tiravam os olhos de mim. Era um pouco estranho os Renegade Souls não andarem em “bando”, mas também não era algo obrigatório eu viver ao redor dos caras, então eu estava dando uma merda para a opinião alheia. Em determinado momento, eu consegui localizar Jazmine. Ela se movimentava apressadamente pelo lugar, atendendo ao maior número de mesas que conseguia. No momento em que ela registrou minha presença, seus grandes olhos focaram em mim, surpresos. Suas bochechas ficaram imediatamente coradas, mas ela teve que desviar o olhar rápido quando percebeu que um grupo de caras praticamente plantavam bananeira em uma mesa a alguns metros, tentando chamar sua atenção. Ela caminhou em direção a eles. Pareciam turistas universitários com suas roupas caras e seus cabelos estilosos. Ou talvez eles não fossem realmente turistas, afinal quem se aventuraria a viajar para Scout Lake se não fosse uma situação de emergência? Eu não conseguia ouvir o que eles diziam, mas Jazmine parecia desconfortável. Sempre que ela balançava a cabeça e erguia o seu bloquinho de notas para anotar algo, um deles passava a mão em seu braço e ela se encolhia. NACIONAIS-ACHERON


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Ela puxou o braço uma última vez e se afastou. Quando voltou, carregava uma bandeja repleta de cervejas. Os rapazes disseram alguma outra coisa e ela já não acenava mais, totalmente rígida. A minha calma foi se desvanecendo, a raiva retornando com tudo quando me deparei com a cena. Eu tentei me segurar ao máximo e jurar a mim mesmo que ela lidaria com essa merda sozinha. Bem, eu consegui segurar até o ponto em que um dos meninos acabou empurrando a bandeja e toda a bebida entornou na roupa de Jazmine. Ele riu, sendo seguido por seu grupo de amigos. Percebi Jazmine ficando vermelha, e eu me perguntava se era de vergonha ou de raiva. Antes mesmo que pudesse medir meus atos, me levantei e caminhei em sua direção. Jazmine ficou tensa quando parei ao seu lado. — Algum problema aqui? — perguntei, olhando diretamente para os caras. Eles pigarrearam e cuspiram alguma resposta nervosa. Em seguida, endireitaram suas posturas, o sorriso se apagando do rosto no mesmo instante. — Hm... claro que não, nós só... — Nós estávamos brincando, cara — um outro garoto tossiu. — Brincando? — Cruzei meus braços sobre o peito, tendo certeza que meu olhar praticamente queimava seus topetes de merda. — Vocês chamam isso de brincar? — Tudo bem, Héctor. Só foi uma bebida — Jazmine falou, com voz trêmula. — Eu... eu vou pegar outra. — Você está toda suja de cerveja — eu disse, segurando no braço dela e impedindo que ela se afastasse. — Acho que merece ao menos um pedido de NACIONAIS-ACHERON


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desculpas, certo? O garoto que havia tossido antes, tossiu ainda mais. O nervosismo era claro. — Bem, certo... nos desculpe — disse. — Nós não tivemos a intenção. Jazmine balançou a cabeça, ainda tensa, e puxou o braço para se afastar de mim. Eu a deixei ir. Voltei para a minha mesa e aguardei os exatos cinco minutos até que ela viesse me atender. Minha mesa era dela, então não tinha para onde correr. — O que faz aqui? — ela perguntou, seus olhos verdes me perfurando. — Esse é um bar, certo? — não escondi a minha ironia. — Eu vim até aqui para obter uma bebida. Você pode fazer isso por mim? Ela suspirou. — Você está querendo foder com os meus miolos? Com certeza foder os seus miolos é uma boa coisa. Não consegui esconder o pequeno sorriso que surgiu. Isso pareceu deixá-la ainda mais irritada. — Isso não tem graça, Héctor. Se você acha legal tentar me perturbar e toda essa merda... bom, faça isso fora daqui, mas esse é o meu trabalho. O meu sorriso morreu imediatamente. Eu não estava tentando perturbá-la. Não, realmente. Eu não sabia nem mesmo o que eu queria. — Eu não estou fazendo nada, acredite — eu disse, procurando transmitir ao máximo a minha sinceridade. — Aqueles caras estavam importunando você, eu só não gosto que esse tipo de coisa aconteça. NACIONAIS-ACHERON


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Ela se encolheu, parecendo arrependida pela forma como acabou de me tratar. Quando falou, percebi que seu tom havia se abrandado: — Certo... desculpe — disse. — O que vai querer? — Me encontre no estacionamento na hora que você sair daqui. Seus olhos se arregalaram. — O que? Por que? — Não faça tantas perguntas, pequeno pássaro — falei. — Apenas esteja lá. E antes que ela tentasse argumentar, eu me levantei e saí do bar.

Eu era uma garota estúpida. Bem, não exatamente apenas uma garota estúpida. Eu era estúpida e parecia não ter uma gota de juízo. No momento em que Héctor apareceu no bar, eu senti como se o meu sistema nervoso houvesse entrado em curto circuito. O que diabos ele estava fazendo ali, e porque ele exigiu me encontrar no final do expediente? Eu poderia confiar nele depois do que aconteceu na última vez em que nos vimos? Eu sabia que os caras do clube não eram bons homens, e eu também sabia que suas mãos jamais estiveram limpas do sangue, mas presenciar eles fazerem algo como aquilo foi extremamente perturbador. Mesmo se o cara, que eu tinha certeza que havia sido assassinado, pudesse fazer parte da gangue que tirou a vida do pai de Héctor. Gelo percorria minha espinha, mas não fiz muito esforço para esconder tudo NACIONAIS-ACHERON


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o que sentia quando adentrei o cubículo que usávamos como vestiário dos funcionários. — ...então eu disse que ele era um grande idiota egocêntrico, e ele ficou todo puto da vida, dizendo que eu me vestia como uma vadia... ei, Jaz! — Bethan parou sua conversa com uma das garçonetes quando me viu. — Eu não vou demorar para sair. Quer uma carona para casa? Forcei um sorriso em sua direção. — Não precisa. Eu já tenho uma carona. Ela sorriu de volta, e então nos despedimos antes de eu pegar minha bolsa e rumar para fora. O vento frio bateu contra o meu rosto e braços no momento em que saí. Minha camisa ainda estava molhada por conta do episódio de horas atrás, e eu me senti estranhamente mais aliviada ao lembrar que Héctor havia me ajudado. Ele era um cara mau, mas jamais teria me ajudado com aqueles garotos idiotas caso quisesse o meu mal. Não é? Meu coração bateu ainda mais forte quando cheguei no estacionamento e o encontrei. Ele estava de braços cruzados, recostado contra sua moto. Sua expressão não mudou em momento algum enquanto me via. Ele sabia que eu viria, no fim das contas. — Onde está o resto do bando? — perguntei, me referindo ao restante do clube. — Eu achei que vocês fossem como gêmeos siameses ou algo assim. Sua testa se enrugou enquanto ele parecia confuso com a minha pergunta, então no momento seguinte ele estava rindo. — Sobe na moto — foi a única resposta que obtive. NACIONAIS-ACHERON


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— Você não poderia ao menos me dizer para onde estamos indo? — questionei, desconfiada. Ele rolou os olhos. — Se fosse para eu te machucar, você não acha que já teria feito isso em nosso último encontro, enquanto você gemia com a minha língua vasculhando a sua boca? Senti minhas bochechas esquentarem imediatamente. Que idiota. Ele ignorou meu constrangimento, me oferecendo uma sugestão de sorriso malicioso. — Vamos lá, pequeno pássaro. Confie em mim. Essas três últimas palavras foram a minha morte. Eu forcei a mim mesma a acreditar que não tinha uma outra escolha, então eu dei de ombros e subi em sua moto. Ele pilotou por alguns minutos até que chegamos em uma área da cidade que eu nunca havia explorado antes. Eu sabia que Scout Lake, como uma boa cidade litorânea, possuía praias maravilhosas. Todavia, eu não havia tido a oportunidade de conhecer os melhores pontos do lugar, desde que havia chegado ali. Héctor desceu da moto e me auxiliou, segurando em minha cintura enquanto eu também descia. Me virei em direção ao píer que se estendia por pelo menos quinze metros ao longo da água salgada. Por conta do horário, o lugar estava vazio, banhado apenas pela luz suave da lua. Era magnífico. NACIONAIS-ACHERON


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— Uau... — Suspirei, admirada com a visão. — Vamos lá — ele disse, segurando a minha mão e me puxando em direção ao píer. Caminhamos até o limite da estrutura de madeira, então paramos. Ele soltou a minha mão e eu abracei o meu corpo, ambos em silêncio, enquanto eu apenas sentia a brisa da madrugada correr sobre meu rosto. O cheiro de maresia se infiltrou em minhas narinas, e eu fechei os olhos, incapaz de me conter. Senti toques suaves roçarem contra a minha perna e, quando abri os olhos, percebi que Héctor havia se sentado sobre a madeira, uma perna esticada enquanto a outra se mantinha dobrada, o joelho para cima. — Tire os sapatos — ele me instruiu. — E venha aqui. Eu não resisti, tirando as minhas sapatilhas e as colocando unidas em um canto no píer. Em seguida, me sentei ao lado dele. Me surpreendi quando Héctor firmou seu toque em minha cintura e me puxou, até que eu estivesse acomodada entre suas pernas, minhas costas contra o seu peito. Eu suspirei no momento em que senti suas mãos massageando meus ombros, seu nariz vasculhando atrás da minha orelha. Deus, aquilo era bom. — Você está tensa. Demorou alguns segundos para que meu cérebro registrasse suas palavras e eu saísse da névoa de torpor na qual a minha mente havia se instalado. — Eu só estou cansada — falei. — O trabalho no bar é um pouco exaustivo. Ele não disse nada de volta. Apenas continuou massageando os meus ombros, me deixando a ponto de gemer e implorar para que ele nunca mais parasse. Mas então, o silêncio foi ficando terrivelmente pesado ao nosso redor. Héctor NACIONAIS-ACHERON


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não era o tipo de cara que se retraía, e eu sabia que algo estava terrivelmente errado com ele. — O que está havendo? — eu finalmente perguntei, virando meu rosto para o encarar. Suas mãos pararam sobre meus ombros imediatamente. — O que? — questionou, aparentemente saindo de seu transe. — O que está acontecendo com você? — perguntei outra vez. — É algo relacionado ao clube? Ele passou a mão sobre o rosto. Parecia esgotado. — Eu não quero ter que falar sobre isso. Não agora. Encolhi os ombros. — Você não precisa falar se não quiser. Eu só acho que o que aconteceu naquele dia... — O que aconteceu naquele dia é algo que jamais deverá sair daquele jardim, Jazmine — ele me cortou. — Eu não estava mentindo quando disse que bisbilhoteiros indesejados jamais viram a luz do dia no dia seguinte para poder contar a história. Estremeci com as suas palavras. Héctor suspirou ao perceber o meu medo, suavizando o seu tom de voz: — Eu já te falei sobre a verdadeira história dos Souls? — perguntou. — Sobre como o clube surgiu? Eu neguei com um aceno de cabeça. — Marshall King, o primeiro membro e fundador do clube, era um famigerado soldado americano — ele falou. — Em 1958, ele levou um tiro em combate e ficou durante três semanas em coma. Quando acordou, King NACIONAIS-ACHERON


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revelou que durante aquelas três semanas em que esteve inconsciente, foi parar no inferno. Ele disse que, quando chegou lá, teve um encontro com o próprio diabo. Revelou exatamente o momento em que o cara ergueu sua mão ossuda, com suas unhas grandes e escuras e apontou na direção de onde ele havia entrado, lhe expulsando do inferno. King já havia assassinado dezenas de pessoas. Ele era conhecido como Devil... você sabe o porquê? Eu balancei a cabeça em negativa novamente. — Ele era o membro mais sangue frio do pelotão — respondeu. — Não havia piedade, não havia nenhum tipo de misericórdia. Mulheres, crianças, até mesmo idosos. Ele não se importava em exterminar, se aquilo significasse um empecilho para ele. Engoli em seco. — E como surgiu o clube? — perguntei. — King acreditava que, supostamente, ter ido ao inferno e sido expulso de lá foi uma espécie de sinal de que ele havia se tornado um sei lá o quê. Eu ouvi essa história de homens que nem mesmo chegaram a conhecer King, e o cara provavelmente era um fanático por maconha ou qualquer outra merda alucinógena que lhe foi oferecida na época. A única coisa de que eu tenho certeza é que, louco ou não, o cara conseguiu respeito suficiente por toda Califórnia, formou um grupo de poucos integrantes, e com isso montou os Renegade Souls. Eu estava boquiaberta. O primeiro pensamento que me veio à mente, naquele momento, era que o homem estava seriamente louco. — Então... — limpei a garganta. — Vocês são como ele? Como esse King? NACIONAIS-ACHERON


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Héctor suspirou, me puxando mais para si, de modo que eu estivesse novamente com as costas contra seu peito, seu queixo apoiado sobre a minha cabeça. — Algumas coisas mudaram ao longo dos anos, claro — ele disse. — Nós não nos voltamos contra mulheres, crianças ou idosos. Não sem um motivo forte. Mas isso não quer dizer que sejamos bons homens, Jazmine. O que você viu naquele dia não é nem dez por cento do que nós somos capazes de fazer. Nós somos, realmente, como almas renegadas. Tanto do céu quanto do maldito inferno. Voltei a me virar para encará-lo. Dessa vez, quando senti meus pelos se arrepiarem, não foi apenas por conta do seu toque. — Você me trouxe até aqui, armou tudo isso, para me assustar? — perguntei. — Não — ele respondeu. — Eu a trouxe aqui porque eu queria ao menos um tempo com algo que me mantivesse longe de tudo aquilo que representa a minha vida atual. Que me fizesse ter certeza de que eu realmente tenho capacidade de ficar perto de algo considerado puro. — Ele soltou uma risada sem humor. — Isso é tão patético. — Não, não é — eu falei, tocando em seu braço. — Por mais que você tenha feito aquilo com aquele homem, eu sei que, de alguma forma... ele mereceu. — Ele me encarou com surpresa nos olhos, então reformulei a minha frase: — Bem, não que eu tenha achado certo, mas eu sei que você não faria aquilo se ele fosse um inocente. Ele ainda parecia não estar acreditando que eu havia aceitado o fato com naturalidade, mas finalmente desistiu de me encarar daquele modo estranho e passou a observar o horizonte. Segundos, talvez minutos, se passaram enquanto Héctor permanecia em NACIONAIS-ACHERON


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silêncio. Imaginei que ele talvez estivesse pensando em algo que nem mesmo tinha a ver com o nosso assunto atual. Então, quando ele resolveu falar novamente, fui totalmente pega de surpresa: — Ele era um dos melhores pilotos do clube. Aquilo apenas serviu para me deixar ainda mais confusa. Héctor pareceu perceber a minha desorientação, e então esclareceu: — Meu pai. — Ele começou a alisar o meu braço. — Ele era um dos melhores pilotos. Nunca levou multa por excesso de velocidade ou qualquer outra merda relacionada a isso. E por incrível que pareça, ele morreu na estrada, enquanto pilotava. — Eu sinto muito — eu falei, compadecendo-me pela sua dor. — Eu sei como deve ser difícil perder alguém que a gente ama, em um acidente... desse jeito. — Acidente — ele repetiu a palavra, soltando um a bufada hostil. — Isso é o que dizem. Realmente fizeram parecer com um acidente de estrada, mas eu tenho certeza de que não foi apenas isso. Ele estava indo se encontrar com o presidente dos Fierce Lions, e estou certo de que sabotaram a sua moto. Eu encontrei vestígios... — Héctor fez uma pausa e abrandou o tom de voz. — Aquele cara... Neil. Bem, ele nos contou toda a verdade. Não da forma que eu queria, mas você estava lá, então você viu. Culpa alfinetou dentro de mim ao ouvir aquelas palavras. Sim, eu estava lá. E não de uma forma que o deixava feliz. Contudo, Héctor não pareceu se importar com o fato agora. Já havia passado. Agora nós tínhamos muito mais com o que nos preocupar. Ele me virou para si, encarando-me nos olhos. — Agora você entende o porquê de eu ter tanta necessidade de exterminálos? Por eu sentir tanta vontade de arrancar a cabeça daqueles covardes? NACIONAIS-ACHERON


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Eu assenti, querendo tirar a raiva e a dor que transbordava em cada palavra dita, até que ele estivesse confortável o suficiente para me dar um de seus raros sorrisos. — E mesmo assim, você ainda gosta de quem eu sou? Engoli em seco, pega desprevenida. Eu gostava de quem ele era? Eu gostava de Héctor, isso era fato, mas não era segredo algum que ele havia mudado, e muito. Era seguro para mim, confirmar aquilo para ele, àquela altura do campeonato? — Eu sempre vou amar o menino que você esconde aí dentro, Hache. — Sorri, pousando uma mão sobre o seu peito, onde o coração pulsava. — Mas eu não posso negar que o homem que você expõe agora... a parte escura... ela me assusta. Ele baixou a cabeça, ficando a centímetros de distância do meu rosto. Eu poderia até dizer que conseguia ver o garoto de dez anos atrás. Meus dedos formigaram para tocar o seu cabelo e afagar, então foi o que eu fiz. Eu acariciei as mechas, deslizando os dedos até as pontas. Ele inclinou a cabeça e escovou o nariz contra meu pulso, fechando os olhos diante do gesto, completamente vulnerável. Eis uma palavra que eu jamais imaginei usar numa frase onde Héctor estivesse incluso: vulnerável. — Isso faz parte de mim, você sabe — ele disse baixinho. — E foda-se se eu estiver agindo como um idiota, eu não me arrependo de nada do que eu fiz pelo clube, Jazmine. Eu não me arrependo. — Eu não espero que você o faça — falei no mesmo tom. — Talvez seja questão de tempo, para que eu me acostume com tudo isso. NACIONAIS-ACHERON


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Ele não disse mais nada, e eu também não falei uma palavra, voltando para a posição anterior, apreciando a vista até que o sol surgiu no horizonte. Ficamos ali por mais alguns minutos, observando a maravilha oferecida pela natureza. Quando decidimos voltar, eu mal me lembrava que não havia sequer dormido. Não tinha importância, de qualquer forma. Naquele fim de semana eu estaria de folga. Héctor parou a moto em frente ao endereço que eu havia lhe informado, em seguida, descemos. Seu olhar ficou preso na construção de três andares com paredes velhas e detalhes deteriorados. — Lugar... legal. — Sua testa estava franzida. — Onde fica o seu apartamento? — No segundo andar — falei, rolando os olhos. — E não adianta olhar com essa cara. Eu sei que é uma merda, mas é o que eu posso pagar no momento. Ele sorriu suavemente, dando de ombros. — Quem sou eu para julgar a sua nova moradia enquanto durmo em um cubículo no complexo do clube? — Ele estava sendo gentil, eu sabia. Eu estive em seu apartamento por tempo suficiente para saber que onde ele morava era mil vezes melhor do que a espelunca que eu me disponibilizei a alugar. De qualquer forma, sorri de volta; afinal ele estava se esforçando, do seu modo, para ser um cara legal. — Você... quer subir? — perguntei. — Para ver como é lá dentro? Ele parecia surpreso por eu tê-lo convidado. — Claro. NACIONAIS-ACHERON


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Eu sorri nervosamente e caminhei na frente, tendo certeza de que Héctor vinha logo atrás de mim. Subimos os dois lances de escadas e adentramos o corredor no qual estava localizado o meu apartamento. No momento em que abri a porta, uma onda de nervosismo me envolveu. Não que eu estivesse com medo de sua desaprovação... bem, talvez eu estivesse um pouco, mas Héctor estava no meu espaço agora. Um espaço que nem mesmo Bethan ou Susan — minhas duas melhores amigas — estiveram antes. — Como eu disse, não é o melhor lugar, mas... — Você não precisa ficar se explicando para mim, Jazmine — ele me interrompeu de forma suave. — Realmente, eu não me importo com essas coisas. Meu coração tremeu. — Uh, bem... você quer café? Eu posso preparar um pouco para a gente. — Eu adoraria — ele respondeu. — Ok, certo. Você pode se sentar. — Ofereci o sofá para ele, mas ele apenas sorriu novamente e caminhou até a janela, se recostando contra o batente, de braços cruzados, me observando e deixando-me totalmente nervosa. Eu caminhei até a pequena cozinha — que era separada da sala apenas por um balcão — e mantive minha cabeça baixa enquanto preparava o café. Quando já estava tudo pronto, abasteci duas canecas e voltei para a sala, entregando uma a ele. Héctor apanhou a caneca da minha mão, sem dizer uma palavra, seus olhos ainda sobre mim. Oh, merda. O homem tinha a coisa irritante de conseguir mexer com todos os NACIONAIS-ACHERON


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meus nervos. Finalmente, Héctor desviou os olhos dos meus, tomando um gole do seu café e se virando para encarar a movimentação lá embaixo. — Esse lugar não é seguro para você — ele disse. — O que você está querendo me dizer, exatamente? — Que não é seguro — ele repetiu, deixando claro a obviedade de sua sentença. — Veja essas janelas. Rolei os olhos. — Bem, quem subiria aí? — Eu subiria aqui em dois tempos — ele retrucou. — Não se esqueça que você foi atacada pouco tempo atrás, Jazmine. Tem que tomar cuidado. Estremeci ao relembrar do episódio. Ele tinha razão, eu deveria ser mais cuidadosa. — Eu vou, não se preocupe. — Claro, mas de qualquer forma, eu vou precisar do contato do dono dessa... desse lugar. Eu quero que suas janelas sejam reforçadas. Eu arregalei os meus olhos. — Você está falando sério? — falei. — Você acha que eles reforçariam as minhas janelas só por que você pediu? — Não — rebateu com firmeza. — Eles irão reforçar as malditas janelas porque eu irei exigir essa merda — oh, claro. Era sempre assim. Ele não pedia, exigia. Ele sabia que tinha o poder para isso. No momento em que ele voltou a falar, seu tom de voz estava mais brando: — Bem, eu já ia me esquecendo de algo. NACIONAIS-ACHERON


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Ele pôs a caneca em um móvel ao seu lado e abriu o bolso da sua jaqueta, tirando algo de lá e entregando a mim. — Isso é para você. Encarei a pequena caixa retangular que ele me estendia e apanhei o objeto, expandindo meus olhos ao finalmente perceber do que se tratava: um celular. — Oh, meu Deus, eu não posso aceitar isso, Héctor. Sua testa franziu. — Por que não? — Eu estou trabalhando. Vou ser capaz de comprar o meu próprio telefone. — Você começou há apenas algumas semanas. Vai demorar até receber o seu primeiro salário — ele disse. — Além disso, está morando sozinha agora. Vai precisar ter cuidado dobrado. Mordi meu lábio, sabendo que ele tinha razão, mas ainda sem saber qual reação ter diante daquilo. Então eu decidi agradecer pelo presente, incrédula de que ele havia me dado um presente, realmente: — Obrigada. Ele sorriu e tirou a caneca e o celular da minha mão, colocando ambos em algum lugar que eu mal fazia questão de saber qual era. Ele segurou meu rosto entre suas mãos e me olhou nos olhos, descendo o olhar pelos meus lábios logo em seguida. Meu ventre se agitou com a expectativa. — Se eu te beijar agora — sua voz era rouca e baixa, infiltrando-se em meus ouvidos lentamente —, você vai me afastar como da última vez? Engoli em seco, balançando a cabeça em negativa. — Responda verbalmente, baby. — Suas mãos escorregaram para a minha NACIONAIS-ACHERON


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nuca, afastando os cabelos do meu ombro. Mordi o lábio para reprimir um gemido. — Eu não vou afastar você. — Tem certeza? — Ele escovava os lábios contra os meus, mas não avançava. Não o suficiente para me fazer ter um gosto dele. Era como se ele estivesse me punindo por tê-lo empurrado da última vez. Filho da puta. — Eu tenho certeza — praticamente gemi, impaciente, avançando. Ele sorriu, recuando apenas um pouco, seus olhos encapuzados enquanto encaravam a minha boca entreaberta, sua respiração soprando quente contra a minha. Eu soltei um pequeno gemido de protesto, esfregando sutilmente meus lábios no canto de sua boca, e dessa vez ele me deu o que eu queria. Ele me beijou longa e profundamente, suas mãos em minha cintura, sua boca macia sobre a minha, lambendo, sugando e devorando. Uma leve picada de dor se infiltrou em meu couro cabeludo quando ele enrolou os dedos entre as mechas volumosas do meu cabelo e deu um pequeno puxão, enviando um latejar quente entre as minhas coxas. Héctor me agarrou pela cintura e eu enrolei minhas pernas ao seu redor, afastando nossos lábios apenas por uma fração de tempo, o suficiente para que ele pudesse enxergar o caminho antes de bater minha bunda sobre o balcão da cozinha americana. Um murmúrio saiu dos meus lábios quando ele deu mordidinhas na pele fina do meu pescoço, descendo até que ele pudesse sugar o monte levemente inchado que aparecia no meu decote, as mãos deslizando sobre minhas coxas cobertas pela calça jeans. NACIONAIS-ACHERON


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A minha boca era uma máquina de pequenos gemidos, expelindo ar enquanto eu ofegava. Ele voltou a me beijar, e quando dei por mim eu estava abrindo as minhas pernas involuntariamente, seus quadris preenchendo o espaço entre elas. Me deleitei com a sensação quando ele mordeu o meu lábio, puxando-me pelas coxas até que eu estivesse me esfregando descaradamente contra ele. Contra o seu pau. Duro. Jesus Cristo. O beijo acabou antes do esperado. Fiquei com um sentimento de vazio e necessidade, mas decidi ficar quieta. Mesmo se eu tivesse algo para dizer ou fazer, no estado em que o tudo dentro de mim se encontrava, eu inflamaria com qualquer movimento que fizesse. Sua testa descansou sobre meu ombro, a respiração ainda pesada. No momento em que estava aparentemente mais contido, Héctor voltou a me encarar. — Obrigado — disse. — Obrigado por me ouvir, pelo café e por... — Ele sorriu maliciosamente. — Bem, apenas obrigado. Então ele me deu um último beijo casto sobre os lábios antes de se afastar. Eu permaneci sentada no balcão, incapaz de me mover. Ele pôs a mão na maçaneta e me encarou uma última vez: — Tenha um bom dia, pequeno pássaro. Ele então se virou e saiu, batendo a porta atrás de si. Mordi o lábio, sorrindo ao lembrar do que havia acabado de acontecer. Eu NACIONAIS-ACHERON


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ainda conseguia ter a sensação de suas mãos sobre mim, o toque dos seus lábios fazendo a minha pele formigar. Saltei do balcão e fui até onde ele havia colocado a caixinha com o celular. Tirei o aparelho de dentro dela e inspecionei o objeto. Ele já estava configurado. Quando abri o aplicativo de agenda telefônica, percebi que havia apenas um número gravado ali. O sorriso retornou aos meus lábios, ficando ainda maior quando eu vi o que ele havia escrito no contato: Hache.

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12: Margaritas

Era domingo; noite das meninas no Dark Horse, o que significava que as mulheres não pagariam nada até a meia-noite. Em parte, eu estava feliz; pois, uma vez que era minha folga, eu poderia tirar a noite para me divertir, ao invés de me preocupar em estar ali para servir as mesas. Outra parte, porém, preferiria estar em casa, comendo pizza ou lendo um livro. Não era muito a minha praia sair para beber, muito menos beber à noite. Por mais que estivesse vivendo na Califórnia agora, eu ainda era uma garota caipira e deslocada, criada desde recém-nascida em um pequeno rancho no Texas. Assim que eu e Bethan adentramos o salão do bar, as luzes baixas e a música Country do local nos deram as boas-vindas. O ambiente estava mais cheio que o normal, o que não era de se surpreender. Você deve estar se perguntando: que garota, em pleno dia de folga, decide sair para curtir justamente em seu trabalho? Bem, uma garota que foi arrastada quase que a contragosto por sua única e melhor amiga sob a justificativa de tomar umas bebidas no melhor bar da região. Sim, eu disse o melhor. Bethan havia me informado que não importaria por onde eu procurasse, nós jamais encontraríamos um lugar melhor que o Dark Horse para beber. No início eu achei que ela estivesse adotando o tipo “boa funcionária”, fazendo uma espécie de propaganda do lugar, mas após dar algumas pesquisadas no NACIONAIS-ACHERON


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Google descobri que, realmente, a cidade era minúscula e os pontos de lazer não eram muitos. O mais engraçado era que, apesar de a cidade ser pequena, você ainda conseguiria encontrar uma universidade, um shopping e todas essas coisas que encontramos nas grandes metrópoles. A diferença era que em Scout Lake existia apenas um — no máximo dois — de cada. Chad estava trabalhando naquela noite, de modo que ele foi a primeira pessoa que avistamos do outro lado do balcão quando ocupamos dois lugares diante do mesmo. Ele não pareceu surpreso quando nos viu, vindo diretamente ao nosso encontro. — Pelo visto vocês estão tendo uma boa noite, não é? — Claro que sim, é a nossa noite de folga! — Bethan piscou para ele. — Eu tinha que trazer Jazmine para ter um pouco de diversão. Ela está precisando. Chad sorriu. — E então, o que vão querer beber? — Algo que seja bom o suficiente para duas damas solitárias — Bethan gracejou, fazendo com que eu risse e Chad balançasse a cabeça em diversão, afastando-se sem mais uma palavra. Bethan tinha aquela coisa de ser espontânea e divertida na maior parte das vezes. Ela tinha um pavio curto também, mas era comunicativa e fazia amizade fácil. Não fora à toa que a garota havia ganhado a minha confiança desde a primeira vez em que nos falamos. — Oh, meu Deus. Veja a quantidade de caras sexies que temos aqui! — minha amiga exclamou, fazendo uma pequena varredura entre os inúmeros caras desacompanhados. — Como é que eu não os vi por aqui antes? NACIONAIS-ACHERON


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— Você, provavelmente, estava lutando contra a fumaça gordurosa do bacon na cozinha e se preocupando em não derrubar sua bandeja cheia de bebidas enquanto servia um bando de idiotas bêbados — eu rebati. — Acho que a última coisa que você iria fazer nesta situação seria flertar com os clientes sexies. — Oh, claro. Isso é uma droga de vida sofrida — ela gemeu, descontente. — Você não pensa em fazer algo diferente? — Claro que penso — respondi. — Mas ainda não estou suficientemente estabilizada para dar adeus ao meu emprego. Ela parecia pensativa. — Então você já pensou sobre a faculdade? — Sim — falei. — Mas isso não adiantaria de nada agora, porque não vou poder fazer o que tanto quero. Todavia, estou pensando em tentar Medicina Veterinária futuramente. Héctor me incentivou, e eu acho que ele tem razão. Um pequeno sorriso se estabeleceu lentamente em seus lábios rosados. — Héctor, hein? — maliciou. — E então, vocês dois... — O quê? — gaguejei, nervosa. — Do que você está falando? Ela revirou os olhos, impaciente. — Jazmine, você sabe do que eu estou falando — disse. — Você não olha para Knife como se ele fosse seu irmão. Você olha para ele como se quisesse foder com o cara. Então não tente bancar a desentendida comigo, ok? Huh. Engoli em seco, precisando mais do que nunca de uma bebida agora. — É um pouco... difícil de explicar. — Certo, eu acho que já entendi tudo. — Ela suspirou melancolicamente. — NACIONAIS-ACHERON


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Só não se machuque, ok? Os caras do clube podem ser bons em um monte de coisas, mas eles são o último tipo de homem que meninas como você procurariam. — Meninas como eu? — Arqueei uma sobrancelha. — Eu tenho a leve impressão de já termos conversado sobre isso antes. Bethan riu. — Sim, sim. Mas naquela época era diferente, Jazmine. — Seu sorriso morreu lentamente ao passo que ela voltava a me encarar. — Você não tinha se apaixonado por ele ainda. Whoa. Eu me aquietei em cima do banco alto, sentindo minha pulsação se acelerar e meu corpo começando a se aquecer com desconforto. Eu queria negar e dizer que Bethan estava ficando louca, mas a negação apenas não saía, portanto desviei o olhar e permaneci calada. Bethan me encarou por um momento, balançando a cabeça quando percebeu que eu não iria dizer nada. — Olha, siga o seu coração, ok? — ela voltou a falar, segurando a minha mão e forçando-me a encará-la. — Não importa se você acha que está se apaixonando pelo cara errado; ele passa a ser o cara certo no momento em que consegue se infiltrar em seu coração. — Ela sorriu. — Apenas não se machuque. Sorri de volta, balançando a cabeça em compreensão. — Obrigada, Bethan. Eu nunca havia tido uma amiga com quem pudesse conversar sobre coisas daquele tipo. E, apesar de nunca ter feito antes, minha breve conversa com NACIONAIS-ACHERON


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Bethan, em vez de me deixar desconfortável, ajudou para que eu me sentisse um pouco mais aliviada por estar compartilhando algo sobre a relação entre mim e Héctor com alguém. Não que eu quisesse sair espalhando o que acontecia entre nós, mas era bom ter ao menos uma amiga para contar segredos. Uma amiga que não me julgasse ou dissesse que o que eu estava fazendo era terrivelmente errado. Menos de um minuto depois, a conversa foi quase totalmente esquecida quando Chad reapareceu, deslizando dois drinques para nós. A bebida era translúcida e havia uma fatia de limão sobre a borda do copo polvilhada com sal. Imediatamente eu discerni o que era: Margarita. Não que eu fosse uma expert em bebidas, mas me forcei a conhecer algumas durante o período em que estive trabalhando no bar. Eu só não havia experimentado aquela ainda. Me arrisquei a tomar um gole, sentindo o sabor cítrico do suco de limão refrescar a minha língua. — Bom, não é? — Bethan me cutucou. — Isso é definitivamente a melhor coisa que eu já bebi — concordei, abrindo um sorriso antes de tomar um segundo gole. — Só não abuse muito, ok? — ela me alertou. — Você não está acostumada a beber, e tem tequila nessa coisa. — Eu prometo não me meter em encrencas — falei. Bethan sorriu e bateu sua taça na minha, fazendo um breve brinde, e degustou a sua própria Margarita. Ela se inclinou no balcão quando Chad se aproximou uma outra vez, ambos iniciando uma conversa que eu fingia também estar envolvida. No entanto, os meus pensamentos navegavam longe. Mais NACIONAIS-ACHERON


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precisamente na direção de um certo motociclista que estava deixando meus nervos à flor da pele. Eu não falava com Héctor desde ontem à noite. Ele me mandara uma mensagem na hora de dormir, perguntando como eu estava. Eu havia respondido timidamente que estava bem, e ele retornou com uma resposta curta e reta, do jeito Héctor de ser. Eu poderia ter puxado assunto e engajado em uma possível conversa longa, contudo eu não era muito boa em flertar. Para falar a verdade, eu nunca havia flertado antes. O mais complicado em tudo aquilo é que eu sentia falta dele. Eu sentia falta do seu toque e sentia falta de conversar com ele. Era assustador porque havíamos nos beijado apenas duas vezes e nos vimos em menos de dois dias. — Olá, garotas, como vão? — uma voz feminina me tirou dos meus pensamentos. Quando me virei, vi que se tratava de Sandra. — Ei, Sandra — Bethan cumprimentou. — Estamos bem, e você? A mulher suspirou. — Tendo um pouco de trabalho aqui. — A julgar pela sua expressão, eu percebi que tinha algo de errado acontecendo. — O que houve? — Uma das garçonetes não veio hoje, e Sandy, a garçonete substituta, passou mal e não está em condições de continuar — ela fez uma pausa, encarandonos seriamente. — Então eu passei por aqui e vi que vocês estavam por perto... — No instante em que ela abriu um sorriso amarelo, eu já imaginei o que estaria por vir: — Alguma de vocês poderia me dar uma forcinha por pelo menos algumas horas? Bethan gemeu. NACIONAIS-ACHERON


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— Ah, droga, mas é nossa folga! — Sim, querida, eu sei — Sandra disse. — Eu irei recompensá-la futuramente. Eu juro. Me levantei. — Tudo bem, eu posso ajudar. — Nem pensar, Jazmine — Bethan se levantou também. — Eu trouxe você para se divertir, e é isso o que você vai fazer. Fique aqui, beba um pouco e curta sua folga. Eu tentei argumentar mais uma vez, mas ela não me deu muitas alternativas a não ser “colar a minha bunda naquela porra de tamborete e beber o quanto eu suportasse sem embebedar”. Eu ri porque aquilo era totalmente Bethan falando. No momento em que elas se afastaram, eu pedi mais uma Margarita a Chad. Terminei o drinque em menos de quinze minutos, percebendo que não era tão divertido sair para beber sozinha. Eu tinha receio de tentar fazer uma espécie de amizade com alguém ali perto e me arrepender depois. Havia Chad, com quem eu poderia conversar, mas ele estava ali a trabalho e não tinha tempo para lidar com minhas merdas. O tempo foi passando, mais Margaritas foram colocadas diante de mim e eu já havia perdido as contas de quantas tinha bebido. Eu não podia dizer com precisão se estava bêbada, mas tropecei em meus pés da última vez que levantei para ir ao banheiro, então sim, talvez eu estivesse totalmente bêbada. Bethan me mataria. E por falar nela, eu já não conseguia mais enxergá-la precisamente na multidão, servindo mesas e suando em meio ao caos. A última vez em que ela NACIONAIS-ACHERON


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veio me checar já fazia quase uma hora. Não que eu precisasse de alguém para manter um olho sobre mim, mas eu sabia que ela estava fazendo aquilo apenas por preocupação e culpa por ter me deixado ali sozinha. Mais alguns minutos depois, a solidão já não estava tão terrível por conta das deliciosas Margaritas que ingeri. Minhas taças me faziam companhia, e por falar nisso, eu precisava de mais outra. Ergui a mão para pedir uma outra bebida a Chad, quando senti alguém deslizar no banco ao meu lado, onde Bethan estivera sentada algum tempo atrás. — Eu não acho que esse lugar seja adequado para uma garota como você. — Parei no mesmo instante em que ouvi aquela voz. Eu estava sentindo a minha cabeça zunir, mas mesmo assim eu ainda me lembrava daquela voz mansa e o sotaque peculiar do ruivo da outra noite. Como ele se chamava mesmo? Mitchell? Major? Malnik?... — Huh... ei — eu saudei, tentando controlar a minha língua enrolada. — Eu não sei se você se lembra, mas... eu trabalho aqui. Ele riu, balançando a cabeça. — Sim, sim, eu me lembro. E é exatamente por isso que eu digo que este lugar não é adequado para uma moça como você. Bufei, segurando uma risada. — Você me conhece bem, hein... — eu disse em tom sarcástico. Eu acho que conseguia ser um pouco venenosa quando bebia. — Talvez eu conheça — ele disse. — O que você está bebendo? — Margaritas — respondi. — São realmente deliciosas. Você deveria NACIONAIS-ACHERON


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experimentar. — Acho melhor não, obrigado — falou. — Você não acha que já bebeu demais? — Sim, eu acho — refutei enquanto estendia mais uma vez a mão para Chad. — Mas quem se importa? Ele balançou a cabeça e, dessa vez, quando o encarei, não havia o sorriso de diversão em seu rosto. Havia algo como raiva contida. Ele estava irritado por me ver bebendo? O que o cara tinha a ver com a minha vida, afinal? — O que você está fazendo aqui? — perguntei. — Eu acho que você já me fez essa pergunta na última vez em que nos encontramos. — E você não me respondeu. Ele suspirou e apoiou os braços em cima do balcão. Seu piercing na orelha brilhou sob a luz fluorescente do bar. Ele também usava um terno dessa vez, mas diferente do da outra noite, era um terno em um tom azul marinho. Ficou realmente fantástico. — Estou em busca de algo — finalmente falou. — Que tipo de algo? — perguntei. — Mulheres? Bebidas? Ele sorriu. — Uma mulher, em específico. Uh, aquela conversa estava ficando interessante. — Você tem namorada? — eu perguntei. Ele pareceu surpreso e levemente desconfortável com a minha curiosidade NACIONAIS-ACHERON


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súbita. — Por que a pergunta? — Porque você é bonito — respondi. — E não que eu esteja interessada em você, mas minha amiga, a Bethan... talvez ela possa estar. — Apontei com a cabeça para onde Bethan estava. Ele não olhou, no entanto. — Às vezes eu acho que ela precisa de um namorado. — Não, eu não tenho uma namorada — disse. — E acho que não estou precisando de uma, portanto, não tente jogar de cupido para cima de mim, Jazmine. Meu nome saiu estranho de sua boca. Era como se ele estivesse tentando se adaptar a ele. — Oh, isso é triste — falei. — Bem, talvez não seja triste, porque eu acho que Bethan chutaria a sua bunda no primeiro momento em que você pensasse em chamá-la para sair. — Eu ri novamente. — Ela é um pouco temperamental, sabe? Mas tem um ótimo coração. Ele ergueu uma sobrancelha com a minha declaração, encarando-me como se eu fosse uma espécie de ser vivo a ser estudado ou algo assim. No momento em que Chad veio atendê-lo e ele pediu uma garrafa de água, eu mordi a minha língua para evitar ser inconveniente. Mas que pessoa bebe água em pleno domingo em um bar badalado? Entretanto, logo a sua bebida se tornou insignificante quando avistei algo na parte interna do seu pulso que me chamou a atenção. — Espere — disparei, segurando seu pulso. — Essa tatuagem... onde você conseguiu ela? Ele puxou o braço imediatamente. Não o suficiente para ser rude, mas eu NACIONAIS-ACHERON


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percebi sua mudança de humor. — Eu a fiz há algum tempo — respondeu dando de ombros, como se aquilo não fosse nada. — Eu tenho muitas outras. Eu balancei a cabeça, indicando que compreendia. — E o que significa? — É um Ômega. — Ele sorriu em seguida. — Então, você tem interesse de fazer uma tatuagem? Eu não respondi de imediato, minha mente vagando para um lugar escuro, onde tudo se embaralhava. Eu me lembrava de ter visto aquela tatuagem em algum lugar, mas onde e quando? Talvez tenha sido na última vez em que o vi, embora eu quase tenha certeza de não ter focado nessa tatuagem naquela noite. — Eu nunca pensei sobre isso — eu disse, respondendo sua pergunta. — Talvez eu tatue um pássaro ou a foto do meu cachorro em algum momento — eu ri com aquele pensamento. — Bem, eu não sei se seria uma boa ideia tatuar o meu cachorro. Algumas pessoas costumam dizer que ele é um cachorro muito feio, mas eu não me importo com a opinião deles, porque realmente o acho lindo. Ele é meu filho e eu o amo... Ele ouvia atentamente tudo o que eu dizia, tomando goles da sua água ocasionalmente. Eu já estava me sentindo uma louca tagarela porque, sério, que tipo de pessoa tem paciência para te ouvir falando um monte de besteiras sobre o seu cão? O meu mais novo amigo ruivo-misterioso, com certeza tinha. Somente quando Bethan se aproximou uma outra vez, que eu parei a minha conversa bêbada para lhe dar atenção. NACIONAIS-ACHERON


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— Ei, amiga — eu falei, sentindo-me muito animada. — Esse aqui é... huh. — Eu franzi a testa e dei de ombros. Aproximando-me dela, sorri maliciosamente. — Eu não lembro exatamente o nome dele, mas ele é solteiro e eu já sugeri que vocês... — Certo, Jazmine. Seja lá o que você tiver para dizer, eu posso ouvir depois. — Ela parecia levemente irritada. — E, merda, garota, eu avisei para você não exagerar na bebida. — Seus olhos foram imediatamente para o russo: — Foi você quem a forçou a beber tanto? — Claro que não — ele retrucou. Seu tom de voz havia perdido a suavidade de minutos atrás. — Eu jamais faria uma coisa dessas. Bethan bufou, como se as palavras dele não fossem dignas de serem levadas a sério. — Escute aqui, cara: não é a primeira vez que eu o vejo puxando assunto com Jazmine. Você é esquisito e chegou na cidade do nada, então não adianta tentar bancar o bom rapaz comigo porque a mim você não engana, ok? Fique longe dela. Eu não confio em você. Eu poderia estar ficando louca, mas jurei que ele havia sorrido depois de Bethan ter despejado todas aquelas palavras. — Eu não preciso da sua confiança, querida. Bethan estreitou os olhos. Percebi que estava prestes a abrir a boca para dizer mais algo, no entanto eu a interrompi quando explodi numa gargalhada. Não tive como evitar. — Eu não disse? — falei, empurrando de leve o ombro dele. — Vocês formariam um belo par, caramba. Imagina como seriam os filhos de vocês... — Deus, você está fora de sua mente — Bethan grunhiu, me puxando e NACIONAIS-ACHERON


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pondo-me em pé. — Vamos lá, Jazmine, eu vou ligar para Susan vir buscar você. — Não, não faça isso — eu protestei. — Eu não quero que ela se preocupe comigo. Basta chamar um táxi e eu me viro até o meu apartamento. — Eu posso levá-la para casa — o russo, que eu acabara de me lembrar que se chamava Mikhail, se manifestou. — Nem no inferno que eu estarei permitindo isso — Bethan rosnou de volta. Eu senti vontade de rir daquilo porque, porra, os dois não estavam tendo a melhor primeira impressão um do outro. — Como queira — ele disse sarcasticamente —, querida. Bethan não pareceu estar satisfeita com a forma pela qual foi chamada, mas decidiu ignorar Mikhail e me arrastou até o cubículo dos funcionários, me pondo recostada contra a parede. Eu me sentia tonta, então permaneci na mesma posição e aguardei. Bethan cavou no bolso da minha saia e tirou meu celular de lá. — Ei, onde estão os seus malditos contatos? — ela perguntou enquanto mexia no celular. — Eu só tenho o número do Hache. — Número de quem? Suspirei. — Knife — eu disse. — Seu número está gravado como Hache na agenda. Basta dar uma olhada. Ela mexeu no celular por um tempo, e então ergueu a cabeça para me encarar. — Não saia daqui. Eu vou fazer uma ligação e já volto, ok? NACIONAIS-ACHERON


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Eu assenti, permanecendo recostada contra a parede. Para onde eu iria naquele estado? Deus, tudo estava girando e eu já estava começando a sentir sono. Aquele era o meu primeiro porre. Jurei a mim mesma que também seria o último. Quando Bethan retornou para dentro do cubículo, ela apenas disse que estava tudo resolvido e tinha chamado alguém para me buscar. Suspirei de alívio e me arrastei até estar sentada no chão. Eu só esperava que o meu táxi chegasse em breve.

Desci do 4X4 e acionei o alarme de segurança. Caminhei a passos largos pelo caminho de cascalho, atravessando a porta de entrada do Dark Horse no instante seguinte. Se algumas semanas atrás, alguém me dissesse que eu passaria por uma situação semelhante àquela, sem sombra de dúvidas eu o chamaria de louco. Porque, sinceramente, eu não era o tipo de cara que salvava donzelas indefesas presas em seus fodidos castelos. Muito menos donzelas bêbadas, presas em um maldito bar no domingo à noite. No momento em que Bethan havia me ligado, informando que Jazmine estava bêbada no Dark Horse e precisando de alguém que a levasse embora, eu imaginei que a garota estivesse tentando me passar um trote. Mas apesar de não ter intimidade com ela, eu a conhecia suficientemente bem para saber NACIONAIS-ACHERON


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que ela jamais tentaria algo do tipo comigo. Ou seja, era real. Jazmine estava bêbada. Eu só me perguntava como tudo aquilo havia começado. Conforme eu caminhava direto para o local onde Bethan me informara que Jazmine estaria, ignorei as pessoas que me acompanhavam com olhares curiosos. Eu não estava chamando tanta atenção como de costume, pois havia dispensado a ideia de vestir o meu “uniforme” de motoqueiro intimidante e usava apenas uma camisa com a minha jaqueta e um par de jeans, mas talvez a velocidade com a qual eu caminhava estivesse causando aquela reação nas pessoas. Não me preocupei em avisar a Sandra que eu estava invadindo os fundos do seu estabelecimento; pois, muito provavelmente, ela já sabia o motivo da minha ida até ali, então não houve uma comoção muito grande quando cheguei até a porta da pequena sala que os funcionários utilizavam e abri. — Bem, o que temos aqui? — resmunguei ao adentrar o pequeno quarto e me deparar com uma Jazmine totalmente bêbada sentada no chão. — Hache? — Ela saltou, surpresa, tentando se endireitar, mas o seu estado não permitia muitas poses. — Huh... olá. — Suas bochechas coraram. — Onde está Bethan? — Ela precisou voltar para o bar, para trabalhar — respondi. — O que diabos você aprontou? Ela pareceu ficar um pouco chateada com meu tom de voz. Bem, não era diferente comigo. Não que eu não quisesse que ela se divertisse, mas encher a cara numa hora NACIONAIS-ACHERON


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daquelas — e sozinha — era totalmente imprudente. Isso meio que me deixou um pouco irritado. — Era noite das garotas — ela começou, respondendo a minha pergunta —, então eu bebi umas Margaritas e... — sua voz falhou. — Merda, eu acho que perdi o controle. Suspirei. — Está tudo bem, venha. Eu vou levá-la para casa. Eu a auxiliei a ficar de pé, então a arrastei comigo até o lado de fora. Os pelos dos seus braços se arrepiaram no momento em que entramos em contato com a brisa fria. Não era de se surpreender, a garota estava usando apenas uma minissaia preta e uma camiseta. Tirei a minha jaqueta e cobri os ombros dela. — Você está sem o seu colete. — Observou enquanto deslizava os braços entre as mangas do casaco. — Sim, eu estava dormindo quando Bethan me ligou, então vesti o primeiro par de roupas que encontrei pela frente. Jazmine parou imediatamente e mordeu o lábio, parecendo pensativa. — Você levantou da cama só para vir me buscar? — Sim. Ela baixou a cabeça. — Eu sinto muito. — Por que você está pedindo desculpas? — Por dar trabalho a você — disse. — Eu não deveria ter bebido tanto. — Bobagem — tranquilizei. — Quem nunca tomou um porre na vida, certo? NACIONAIS-ACHERON


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Ela sorriu, parecendo mais aliviada. — Onde está a sua moto? — Nós não vamos de moto. Eu trouxe um carro — falei, guiando-a até o automóvel e abrindo a porta para que ela pudesse entrar. — Não seria seguro te carregar na garupa enquanto você está desse jeito. Ela assentiu, entrando no carro. Minutos depois, eu estava estacionando em frente ao complexo de apartamentos no qual Jazmine morava. Pedi as chaves a ela e, voltando a auxiliá-la, subimos até o seu andar. Quando abrimos a porta, Boo veio correndo, agitando-se ao nosso redor. Eu ignorei o cachorro e puxei Jazmine até o quarto, colocando ela ali de pé e puxando os lençóis da sua cama em seguida. — Você acha que consegue tomar um banho antes de dormir? Ela assentiu. Caminhei até o banheiro do quarto e liguei o chuveiro, testando a temperatura, até descobrir que a parte elétrica não estava funcionando. Ótimo, um banho frio é a melhor coisa para se curar um porre. Fechando o registro do chuveiro, voltei para o quarto. Quase engasguei com o que vi. Jazmine estava de pé, vestindo apenas um conjunto de lingerie branca e, porra, aquela visão não serviu em nada para me ajudar a manter o meu fodido autocontrole. Não consegui evitar a inspeção que meus olhos fizeram no seu corpo. Ela estava crescida. Realmente crescida. Ela não era muito alta, mas os seus quadris eram largos, a cintura era proporcionalmente fina e percebi que seus NACIONAIS-ACHERON


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seios preenchiam bem o sutiã branco. Ela caminhou lentamente, ficando frente a frente comigo. — É engraçado que eu devesse sentir vergonha por você me ver assim — falou —, mas não sinto. Em um gesto quase inconsciente, afastei as mechas de cabelo que cobriam o seu ombro, observando as pintas douradas polvilhadas em sua íris com pupilas dilatadas e sentindo os arrepios de sua pele contra a minha. — E o que você sente? — Felicidade, eu acho — respondeu, passando as mãos sobre meu peito, brincando com a gola da camisa. — Eu acho que estou um pouco ansiosa, também. — Isso se chama excitação, querida. — Sorri ao encarar seu rosto corado. — É normal, principalmente se você estiver um pouco bêbada. Seu sorriso se abriu lentamente. — Bom, você me excita. — Passando os braços ao redor do meu pescoço, Jazmine me puxou para si. Seu hálito cheirava a álcool e limão. Seus cabelos ainda carregavam o perfume característico de baunilha. Me deleitei com a sensação quando o seu corpo pequeno e suave se encaixou perfeitamente contra o meu. Meus dedos passearam uma última vez pelo seu rosto antes que eu a beijasse. Eu sabia que não deveria me aproveitar da situação enquanto ela ainda estivesse bêbada, mas ela era tão boa. Um momento depois, Jazmine afastou seus lábios dos meus, mas seus braços ainda ficaram ao redor do meu pescoço, sua respiração dançando sobre a minha pele. NACIONAIS-ACHERON


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— Eu senti sua falta, Hache — murmurou. Descansei a mão sobre sua bochecha vermelha. — Eu também senti sua falta, Bird. Ela sorriu e foi me puxando, até que eu estivesse sentado sobre cama. Eu não resisti em nenhum momento. Deus sabe como eu deveria resistir, mas eu não fiz. Também não a afastei quando ela se sentou escarranchada sobre o meu colo. Apenas envolvi sua cintura com meus braços, para evitar que ela caísse. Seus olhos passearam sobre meu rosto, enquanto as mãos exploravam meus ombros, meu peito, subindo para as minhas bochechas. Ela escorreu os dedos sobre ambas as maçãs do meu rosto, e eu apenas permiti. Eu permiti que ela fizesse tudo o que ela quisesse comigo. — Você é lindo — ela disse, beijando a minha testa e descendo os lábios pela minha bochecha. Ela me acariciava como se eu fosse a coisa mais preciosa do mundo. Era em momentos como aqueles que eu a achava ainda mais intrigante. Ela estava bêbada e não estava dizendo coisa com coisa, mas, mesmo assim, ela ainda conseguia ser apenas Jazmine. — Você é muito mais bonita que eu — devolvi, recebendo um sorriso. Ela se remexeu contra mim, para ajustar a posição, e eu praticamente gemi com a sensação que aquilo causou dentro das minhas calças. — Jaz, vá com calma — eu falei, segurando os seus quadris e impedindo que ela fizesse um movimento muito brusco. — Por que? NACIONAIS-ACHERON


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— Nada — falei. — Apenas não se mova muito, ok? Suas sobrancelhas se juntaram, enquanto ela me olhava confusa. Entretanto, sua expressão mudou dentro de segundos, as bochechas ficando vermelhas ao passo que a compreensão tomava forma. Ela abriu um sorriso que era uma mistura de timidez e excitação, em seguida perguntou: — O que você faria? Eu franzi o cenho. — O quê? — O que você faria se eu me movesse? Oh, porra. Meu pau voltou a chamar minha atenção. Controle-se, filho da puta. — Se você não estivesse bêbada, eu faria um monte de coisas. Sua respiração ficou mais pesada. Eu sentia os seios inchados subindo e descendo a centímetros do meu rosto. Ela tinha curvas acentuadas e sua bunda sobre a minha coxa era algo que eu realmente imaginei ser boa de apertar. Escorrendo os dedos entre os fios dos meus cabelos, Jazmine puxou levemente a minha cabeça para trás, enquanto se aproximava do meu pescoço exposto e lambia um ponto logo abaixo da minha orelha. Aquilo era bom pra caralho. — Você me tocaria? Seu tom de voz rouco me tirou do meu torpor. Afastei-me alguns centímetros para poder encará-la. NACIONAIS-ACHERON


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— Se você me pedisse, eu tocaria. — Onde? — Onde você quisesse. Ela passou a língua sobre os lábios. — Eu quero que você me toque, Hache — sussurrou. — Por favor, me toque. Seu rosto voltou a corar enquanto ela pegava a minha mão e guiava para o espaço entre seus seios. A alça do seu sutiã deslizou para baixo, deixando exposto o monte inchado que se escondia dentro da taça. Desci minha palma até sua barriga e senti a seda da sua pele acariciar a minha palma. Voltando a subir a minha mão, parei logo abaixo do seu pescoço, meus dedos escovando suavemente sobre a pulsação frenética. Ela se arrepiava com cada toque que eu lhe dava, não importava onde. — Como você quer que eu te toque? — perguntei. — Eu quero seus lábios e suas mãos... — Suspirou, passando a mão sobre um seio ainda coberto. — Aqui. Minha boca salivou com a visão dos seus peitos debaixo daquele sutiã branco, o meu cérebro já criando expectativa sobre o que eu poderia encontrar ali. O problema era que ela estava bêbada. O meu lado cavalheiro, há muito adormecido, havia escolhido exatamente aquele momento para despertar, gritando para que eu a colocasse sobre a cama debaixo de uma coberta e saísse. Mas o meu lado filho da puta ganancioso gritava para eu enfiar o meu rosto entre suas pernas e dar a ela o melhor orgasmo de toda sua maldita vida. NACIONAIS-ACHERON


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Eu estava dividido entre o meu corpo e a minha razão, e já havia previsto qual dos dois venceria. Os dedos de Jazmine arrastaram-se sobre a alça restante do sutiã, deixando ambos os seios expostos para mim. Eu não era o tipo de cara que ficava nervoso, ansioso ou qualquer outra merda que indicasse descontrole, mas confesso que me senti incapaz de dizer uma palavra por um breve momento. Ela era perfeita. Pele lisa, mamilos levemente escuros e eriçados, implorando para serem sugados. Jazmine se remexeu impacientemente sobre o meu colo, fazendo o meu pau se contorcer. Percebi que seus olhos estavam em mim, observando cada ação, cada gesto que eu fazia. Subi uma mão pelas suas costelas, sentindo a pele macia abaixo da minha palma. Meus lábios arrastaram beijos suaves desde sua garganta até o espaço entre os seios. Ela soltou um leve gemido quando minha língua se aventurou a lamber a pele salgada. Eu nunca havia saboreado uma garota daquele jeito antes. Nem quando eu havia perdido a minha virgindade aos quinze anos na garagem velha do pai de Bethany Mills. Mesmo depois de experiente, eu costumava ter sexo duro e insano com aquelas outras mulheres. Nada de minha língua, lábios ou mãos demorando-se em pontos estratégicos. Com Jazmine, no entanto, parecia que eu nunca me cansava. Eu gostava de tê-la soltando aqueles pequenos sons que eu sabia serem graças a mim. Eu não queria que nenhum outro cara tivesse a chance de ouvir aqueles sons algum dia. Era egoísta, eu sabia, mas era a mais pura verdade. NACIONAIS-ACHERON


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Minha boca se arrastou até o seu peito. Capturei um mamilo entre os lábios, sugando de leve antes de serpentear minha língua sobre ele. Jazmine segurou o meu cabelo, sua cabeça caindo para trás, ao passo que seus quadris começavam a balançar sobre mim. — Você gosta disso? — era uma pergunta retórica, a julgar pelos movimentos que ela fazia. Mesmo assim, eu continuei a provocá-la, mudando a posição para arrastar a minha língua sobre o bico do seu outro seio. Ela gemeu ainda mais alto em resposta, apertando o meu rosto contra a sua carne. O cheiro da sua excitação foi o suficiente para que eu estivesse a ponto de fodê-la ali mesmo. Mas o lado cavalheiro voltou a me alertar. Ela era uma garota bêbada. Eu poderia dar o que ela queria, mas eu não podia fazer algo que ela pudesse se arrepender depois. Não, eu não saberia como lidar com o seu arrependimento. Minhas mãos escorreram até abaixo do seu traseiro e então eu a trouxe para ainda mais perto de mim, seu centro ainda coberto pela calcinha branca encaixado perfeitamente sobre o monte duro do meu pau. Os quadris de Jazmine começaram a balançar para frente para trás, conforme ela se empenhava em conseguir o máximo de prazer que pudesse receber. Eu me afastei alguns centímetros e apenas observei, hipnotizado com o quão eroticamente bonito aquilo era. Ela mordeu o lábio com força quando voltei a brincar com seus seios, guiando minha boca até a pulsação em seu pescoço. NACIONAIS-ACHERON


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— Sim, baby — eu disse, arrastando os lábios até o seu ouvido. — Tome o que precisa de mim. — Por favor — ela gemeu. — Por favor o quê? — Me toque... — Eu já estou tocando você — eu disse. — Eu sei, apenas... apenas toque mais embaixo. Os pelos do seu pescoço se arrepiaram quando soprei uma risada. — Existem vários pontos mais embaixo, querida — eu falei. — Seja mais especifica. Ela fez uma pausa quando rolei um mamilo entre o polegar e indicador, apreciando a sensação dos meus dedos manipulando o bico duro. E então, ela segurou a minha outra mão e a guiou até entre as suas pernas. No momento em que meus dedos fizeram contato com o seu calor, Jazmine soltou um suspiro de satisfação. Pressionei as pontas dos meus dedos um pouco mais firmemente contra a sua calcinha molhada, sentindo o cheiro da sua lubrificação me deixando ainda mais duro. Eu queria lamber a sua boceta até capturar a última gota da umidade que estava saindo daquele ponto. Eu queria deitá-la de costas e enfiar o meu pau profundamente entre suas pernas, enquanto assistia Jazmine se contorcer debaixo de mim, observando suas costas se arquearem e a beleza do desenho de suas costelas sobressaindo sob a pele. Eu queria embebedá-la com cada toque meu, até o ponto em que ela estivesse afogada em seu próprio êxtase, chamando o meu nome. NACIONAIS-ACHERON


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Eu queria arruinar qualquer pensamento romântico ou erótico que ela viesse a ter com qualquer outro cara. Eu queria tudo dela. Entretanto eu sabia que aquele não era o momento certo. Mas eu podia dar a ela o que ela queria. Eu podia saciar a minha doce e pequena Bird da forma que ela tanto ansiava. Sem pensar duas vezes, escorri meus dedos para dentro da sua calcinha, acariciando languidamente o seu clitóris. Ela gemeu ainda mais alto, cravando as unhas em meus bíceps. — Isso... assim — eu falava. — Apenas sinta, baby. Eu sei que você gosta disso. Quer que eu vá mais rápido? Jazmine assentiu. A minha garota gostava de um toque áspero. Eu poderia dar isso a ela. Com uma mão, eu puxei o seu cabelo para trás, enfiando meu rosto na curva do seu pescoço, contendo o desejo insano de cravar os meus dentes naquele ponto. Manipulei a sua boceta, escorregando meus dedos entre os lábios úmidos e macios, mas sem enterrar. Eu não a penetraria. Não aquela noite. Mas eu poderia fazê-la gozar quantas vezes ela suportasse. — Imagine o meu pau bem aqui. — Eu indiquei enquanto circulava meus dedos e abria um pouco mais a sua carne rosada. — Esticando você até o limite. Será que você gritaria o meu nome enquanto eu estivesse te fodendo? — Porra, sim! — Era raro eu ouvir Jazmine falar palavrão. Fiquei ainda mais terrivelmente ligado com aquilo. — Você pediria para eu comê-la com mais força? — Meus dentes mordiscaram sua orelha. — Eu poderia fodê-la de quatro, baby. Poderia NACIONAIS-ACHERON


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enterrar o meu pau em você por trás com tanta força que você teria dificuldade para manter o equilíbrio. — Deus, sim... — Ela balançou mais rápido, e percebi a sua vagina ficando mais úmida. — Você gosta de ouvir coisas sujas, Bird? — continuei provocando. — Isso te excita, não é? Você está tão molhada... Eu não gostava de muita conversa na hora do sexo, mas eu gostei de ouvir seus gemidos ecoando em meus ouvidos enquanto dava prazer a ela. Se fosse preciso falar para que ela gozasse, eu recitaria um dicionário inteiro. Jazmine não disse mais nada, apenas sentindo os movimentos dos meus dedos ficarem um pouco mais duros. Ela voltou a se contorcer em cima de mim, puxou a minha cabeça para si e me beijou. Foi um beijo faminto e desajeitado. Seu êxtase era intenso o suficiente para que ela não se preocupasse em chupar a minha língua de forma correta. Não que eu me incomodasse. Pequenos ofegos saíam de seus lábios colados aos meus, acompanhados de “não pare” repetidas vezes. E eu não parei. Não até que eu a tivesse rolando os olhos e se despedaçando em pequenos espasmos quando o orgasmo a atingiu com força. Ela estava com a respiração pesada. Suor escorrendo entre seus seios. Recostei minha testa ali, sentindo os braços de Jazmine envolverem o meu pescoço. Eu conseguia sentir o pulsar frenético do seu coração. Sua pele quente e escorregadia brilhava com a pequena luz que vinha do banheiro. O meu pau ainda doía em busca de algum alívio, mas eu conseguiria lidar com aquilo mais tarde. O que importava agora era se ela estava bem. NACIONAIS-ACHERON


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Ergui minha cabeça para encarar seus olhos, percebendo ela ficar tensa. Não, não se arrependa, porra. — Merda — ela disse, uma expressão séria no rosto. — Eu sou uma pervertida. — Então, ela começou a rir, aliviando imediatamente a minha tensão. Desde quando eu ficava tenso diante de uma garota nua, gemendo o meu nome? — Não — eu disse, passando a mão sobre seu cabelo. — Você é apenas uma garota bêbada com tesão. Minhas palavras pareceram relaxá-la um pouco mais. Ela saiu de cima de mim, levantando as alças do seu sutiã e escondendo os seios que estiveram na minha boca minutos atrás. — Bem, eu acho que vou... que vou tomar o meu banho agora. — Suas bochechas ainda estavam vermelhas. Ela parecia sonolenta e saciada. — Você ainda vai estar aqui quando eu voltar? — Se você quiser, eu estarei aqui. Ela sorriu, parecendo satisfeita com a minha resposta. Em seguida, desapareceu no banheiro. Quando retornou ao quarto, Jazmine parecia estar um pouco mais curada da sua embriaguez. Ela usava um pijama velho com estampa de patinhas, um pouco infantil, mas que não eliminou a imagem de Jazmine pelada com as pernas abertas para mim. Acho que nem se ela usasse uma burca eu conseguiria tirar aquela imagem da minha cabeça. NACIONAIS-ACHERON


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Aproximando-se de mim, ela sentou-se ao meu lado na cama. Seus olhos demoraram um pouco para encontrarem os meus. — Você pode ficar comigo até que eu adormeça? — ela perguntou. — Eu posso — respondi, puxando o cobertor da cama e esperando que ela se infiltrasse abaixo dele antes de me deitar de frente para ela. — Boa noite, Hache — ela murmurou. — Durma bem, Jazmine — ofereci de volta, escorrendo meus dedos sobre os fios dos cabelos de Jazmine e percebendo o quanto ela apreciava aquele gesto. Nenhum de nós disse nada a partir dali. Eu apenas permaneci acariciando seus fios até que ela já tivesse pegado no sono.

Quando pus os pés do lado de fora, eu percebi algo estranho que não estivera ali antes: Um Escalade preto, parado a poucos metros do complexo de apartamentos. Eu conhecia a maioria dos figurões daquela cidade para saber que aquele possante não estava ali por algum motivo despretensioso. Só havia uma explicação. Sem pestanejar, caminhei a passos largos até o carro. Inclinei-me e bati na janela duas vezes antes que o vidro escuro descesse. Praguejei internamente quando descobri que o motorista era o mesmo cara de cabelo ruivo que eu havia visto em torno de Jazmine uma vez. O russo de quem eu havia escutado algumas informações, descobrindo, inclusive, que ele era novo na cidade e ninguém sabia nada a respeito. — O que você está fazendo aqui? — disparei. NACIONAIS-ACHERON


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Uma sobrancelha vermelha ergueu-se arrogantemente enquanto ele me encarava. Não recuei, muito menos me intimidei enquanto nossos olhares duelavam furiosamente. Finalmente, ele soltou um suspiro entediado antes de me responder calmamente: — Eu não acho que devo explicações a você. — Bem, é aí que você se engana — falei. — Você me deve explicações se isso envolve Jazmine. — Ele não disse nada, ainda me encarando daquele jeito irritante, portanto decidi reforçar minha mensagem: — Fique longe dela. Fique longe de tudo que diga respeito a ela. — Eu pensaria duas vezes antes de dizer essas coisas, se eu fosse você, motoqueiro. — Foda-se, Russo. Ele riu. — Você me conhece muito bem, pelo visto, não é? — Eu conheço todo mundo que pisa nessa porra de cidade — respondi. — E eu não sei de onde diabos você veio realmente, mas aqui as coisas funcionam de um jeito diferente. Ele sorriu, ainda me olhando com indiferença, mas eu conseguia enxergar a raiva. Ela estava lá, acompanhada de uma pitada de... admiração? Foda-se se eu estava errado. O cara era louco. Eu esperei por uma negação sua. Esperei que ele me dissesse que não estava ali por Jazmine e que eu era louco. Contudo, ele não negou, muito menos afirmou. Sem mais uma palavra, ele decidiu subir o vidro do carro e finalmente ligou o motor. E então eu fiquei ali, observando-o se afastar enquanto pensava em mil e uma maneiras de descobrir o que aquele filho da puta realmente queria. NACIONAIS-ACHERON


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13: Sólido

A semana passara tranquilamente, de certo modo. Eu não havia tido muitos problemas no trabalho, tampouco fora dele. Também não havia falado com Héctor desde algumas noites atrás, quando ele me ligou para informar que estaria enviando alguém na próxima semana para cuidar das janelas e portas do meu apartamento. Fiquei assustada no momento em que ele me disse que era para eu tomar cuidado e o motivo pelo qual reforçava aquele pedido. Mikhail, o qual ele apelidara de “ruivo esquisito”, estava não só me perseguindo no bar, mas passara a vigiar a minha casa. Confesso que já tinha nutrido uma leve desconfiança ao parar para pensar em sua insistência em manter contato comigo, mas pensei que fosse paranoia minha e decidi não aprofundar ainda mais meus temores. Agora, no entanto, depois das informações e prescrições de Héctor, eu fiquei terrivelmente alarmada. Era notório que ele não havia se aproximado de mim apenas para criar uma espécie de amizade. Preconceito meu ou não, um homem como aqueles dificilmente optaria por fazer amizade com alguém como eu. Fiquei ainda mais perturbada ao me lembrar da tatuagem em seu pulso e, por mais que eu ainda não me recordasse de quando havia visto aquilo pela primeira vez, eu sempre me sentia estranha quando pensava na maldita tatuagem de Ômega. — Eu sempre soube que tinha algo de errado com ele — Bethan falou, enquanto mexia com o canudo seu Smoothie de morango. Nós estávamos sentadas em uma praça próxima ao píer no qual Héctor me levara na outra NACIONAIS-ACHERON


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noite, enquanto jogávamos conversa fora e eu aproveitava para proporcionar a Boo algum passeio e um pouco de ar fresco. Eu havia acabado de lhe contar sobre o incidente com Héctor e Mikhail, o que fez com que sua expressão se fechasse imediatamente. — Dissimulado do caralho. Parei por alguns segundos, achando estranha a forma como Bethan havia expressado sua irritação. Tudo bem que ela era a minha amiga e queria o meu bem, mas ela pareceu bem mais incomodada do que imaginei que ficaria. — Ei, você não precisa ficar tão brava — falei, acariciando a cabeça de Boo quando ele começou a esfregar seu focinho em meu colo. — Héctor disse que está lidando com isso. Ele está na cola de Mikhail e está procurando saber se ele tem alguma coisa a ver com o meu ataque. Ele não vai permitir que algo de pior aconteça, então não se preocupe. — Huh, isso é bom — falou, suspirando. — Ao menos uma boa notícia, certo? Assenti lentamente, assistindo ela baixar o olhar, aparentemente ainda incomodada, o que fez com que eu estreitasse meus olhos em desconfiança. — Bethan? — chamei, aguardando até que recebesse atenção. — Você, por acaso, não está... sei lá... interessada em Mikhail, não é? Ela arregalou os olhos imediatamente. Um riso nervoso escapando de sua garganta. — Por Deus, Jazmine, claro que não! — bufou, tirando o cabelo que o vento havia soprado em seu rosto. — Aquele idiota nem mesmo faz o meu tipo. Balancei a cabeça, ainda um pouco desconfiada, mas decidindo ignorar. Ela sugou a sua sobremesa pelo canudo, dando o assunto como encerrado. Eu estava prestes a me levantar para pedir um outro sorvete, quando Chad se NACIONAIS-ACHERON


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aproximou da nossa pequena mesa, sorrindo amplamente. Nós havíamos marcado de nos encontrar naquele ponto às dez da manhã, e ele nos dissera que atrasaria um pouco, pois queria levar alguém para conhecermos. Agora eu percebia que ele não estava blefando, e realmente estava muito bem acompanhado. O rapaz ao seu lado parecia ter em torno dos vinte anos, cabelo escuro e olhos castanhos. Ele era quase da mesma altura que Chad e tinha um lindo sorriso simpático. Chad nos apresentou o rapaz como Rhett, seu amigo, embora eu já soubesse que ele era muito mais que isso. Eu sabia que meu amigo tinha uma espécie de amor platônico por aquele cara, e me compadeci por sua história, afinal eu estive presa em uma paixão platônica por Héctor durante alguns anos. Eu sabia exatamente como era passar por aquilo e esperava, sinceramente, que ambos se dessem bem em algum momento. Ao fim da manhã, nos despedimos e eu voltei para casa. Tirei o dia para fazer uma faxina. Quase não percebi quando meu celular tocou, indicando que eu tinha uma mensagem. Automaticamente o sorriso veio ao meu rosto quando vi de quem era. Hache: Festa no complexo do clube hoje à noite. Use algo sexy para mim, eu irei te buscar às sete. Seu, H. Fiquei por alguns segundos lendo as últimas linhas de sua mensagem, ainda sorrindo feito uma idiota. Me joguei no sofá, assustando Boo que dormia sobre as almofadas e decidi NACIONAIS-ACHERON


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digitar uma mensagem de volta: Eu: Não costumo receber ordens de todo cara que aparece me convidando para sair, mas abrirei uma exceção para você. Espero não me decepcionar. Sua por essa noite, J. Demorou alguns minutos para que ele enviasse uma mensagem de volta. Eu temi que Héctor fosse ficar chateado por eu dizer que seria dele apenas por aquela noite, apesar do motivo de eu mandar aquela mensagem ter sido apenas para provocá-lo. No entanto, ele levou a coisa toda para um lado sexual. Claro que levaria: Hache: Por acaso essa última parte é uma promessa, pequeno pássaro? Eu: Não estou prometendo nada, mas, caso se esforce um pouco, talvez você consiga o que quer. Uma pausa. Hache: Venha sem calcinha. Eu ri. Eu: Pervertido. Hache: Foi você quem começou, baby. Esteja pronta às sete. P. S: E sem calcinha. Oh, meu Deus, ele era tão idiota! De qualquer forma, suas atitudes idiotas eram totalmente atraentes para mim. Nós havíamos adquirido uma espécie de ligação, que ia muito além de alguns beijos eletrizantes e toques mais ousados, desde a última vez em que ele esteve em minha casa. As coisas estavam progredindo entre nós de uma NACIONAIS-ACHERON


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forma satisfatória. Tudo bem que na ocasião eu estava bêbada, excitada e totalmente fora de mim, mas eu ainda me lembrava de cada cena, cada toque e cada estremecimento de prazer que Héctor havia me proporcionado. Eu sabia que na situação em que me encontrava, dificilmente sentiria vergonha ou medo de fazer qualquer coisa que incluísse ambos nus em cima de uma cama, mas eu confiava nele e essa confiança se intensificou ainda mais ao me recordar de que ele havia se segurado pelo fato de eu estar bêbada. Me levantei do sofá, totalmente diferente de como eu estava antes de me sentar nele. Já se passava das cinco horas da tarde e, em menos de duas horas, Héctor estaria ali para me ver. Eu corri para o meu quarto, cavando feito louca no meu guarda-roupas em busca de algo para vestir, mas eu não tinha muitas roupas para usar. Aquilo me deixou meio frustrada. Depois de experimentar as poucas opções que e eu tinha, decidi optar por um vestido preto sem alças que havia ganhado de presente de Bethan. Minhas curvas eram um pouco mais acentuadas que as da minha amiga, e o vestido estava um pouco justo, mas nada que me deixasse ridícula. Ele, na verdade, serviu perfeitamente para realçar os meus seios e o meu traseiro. Voltei a pensar na mensagem de Héctor e algo se aqueceu em meu ventre. Eu queria que ele me achasse sexy. Eu esperava estar realmente sexy. Depois de ajeitar tudo, eu tomei um banho. Meu cabelo foi um pouco difícil de domar, mas decidi deixá-los soltos. Passei um pouco de maquiagem e na hora de me vestir, eu usei uma calcinha. Por mais que a ideia de ir encontrálo sem calcinha fosse tentadora, eu não iria montar na moto de Héctor com a minha menina de fora. Às sete em ponto, escutei a buzina de Héctor tocar lá embaixo. Me apressei a colocar meu celular e minhas chaves em uma bolsinha e saí de NACIONAIS-ACHERON


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casa, caminhando com cuidado para não cair no meu salto de quase dez centímetros. Aquele era o único sapato de salto que eu tinha. Eu meio que fiquei uns bons minutos pensando se eu usaria aquela noite ou não, optando por usar, embora eu não fosse muito fã de salto alto. Quando cheguei do lado de fora, quase perdi o ar com a imagem de Héctor deliciosamente impressionante, totalmente de preto e seus cabelos penteados para trás desajeitadamente, de um jeito que fazia com que fios grossos caíssem por sua testa. Sorri quando ele se aproximou e me deu um beijo que me deixou tonta. — Você está incrível — ele disse, apertando de propósito a minha bunda. — Bem, não tão incrível quanto estaria se realmente estivesse acatado o meu pedido e vindo sem calcinha. Dei um tapa no seu peito. — Não seja um idiota. — Isso é um pouco impossível, mas eu juro tentar. Ele sorriu mais uma vez antes de me oferecer um capacete e se sentar na moto. Eu me sentei atrás dele, torcendo para que ainda mantivesse a maquiagem e cabelos apresentáveis até chegar ao nosso destino.

Quando chegamos ao complexo, Héctor segurou em minha mão e nós caminhamos para a área do salão de festas. O lugar estava cheio, e eu senti quase que todos os olhares direcionados a nós. Era aquela a sensação que os Souls tinham quando saíam na rua? Não que a NACIONAIS-ACHERON


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situação em que eu me encontrava fosse igual à deles — que mais fomentavam medo e admiração em vez de confusão curiosidade —, mas mesmo assim, me enervava. — Acho que as pessoas vão demorar um pouco para se acostumar a nos verem juntos — falei, aproximando-me um pouco mais de Héctor. — Por que isso? — Eles não param de olhar para nós. Seus olhos fizeram uma rápida varredura pelo local, então ele sorriu, direcionando sua atenção a mim uma outra vez. — Isso porque eles estão imaginando o quão bom seria ter um passeio agradável entre as suas pernas — ele se inclinou para finalizar com os lábios bem próximos ao meu ouvido: — Mas não podem. Eu arfei nervosamente, virando-me um pouco para encará-lo frente a frente. — Você está falando sério? — questionei, encrespando a minha testa. — Com o monte de mulheres disponíveis por aí, você acha que eles cobiçariam exatamente a mim? Héctor balançou a cabeça, encarando-me com um sorriso de lado que, muito provavelmente, dizia que eu era um pouco tonta. Ergueu sua mão e empurrou uma mecha de cabelo atrás da minha orelha. Ainda sorrindo, disse: — Você não tem noção do efeito que causa nos homens, não é, Jazmine? — Eu não ofereci nenhuma resposta em troca, finalmente ele continuou: — Os caras meio que gostam de coisas puras e intocáveis. É quase um fetiche. Bem, agora não me surpreendia mais o fato de que caras pagavam milhares de dólares para desvirginar meninas que se diziam inocentes. Homens tinham um jeito meio peculiar de lidar com o sexo. NACIONAIS-ACHERON


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— Você tem um fetiche assim? — provoquei, sorrindo amplamente e entrando no seu jogo. — Tipo... dar uns amassos na sua meia-irmã mais nova. Ele sorriu. — Isso parece um pouco estranho posto assim, mas adivinhe? Eu adoraria. E então ele se aproximou de mim e me deu um beijo rápido nos lábios. — Você quer beber alguma coisa? — perguntou ao se afastar de mim. — Sim, por favor — eu disse. — Traga algo que não seja alcoólico, eu ainda estou traumatizada desde a última vez. Voltei a relembrar da nossa interação na última vez em que eu bebi e senti meu rosto corar. Sem mais uma palavra, Héctor se virou e caminhou em direção ao grande freezer onde estavam as bebidas. Quando retornou, ele me entregou uma lata de refrigerante. Abri a bebida e tomei um gole, segundos antes de ele segurar a minha mão e me arrastar até um canto onde havia uma fogueira e algumas pessoas bebendo e conversando ao redor. Eu ignorei os olhares confusos que ainda enviavam para nós e sentei ali com ele — meu corpo entre suas pernas, minhas costas recostadas contra seu peito e seus braços me abraçando protetoramente. Aquilo era paz e proteção. Era o que eu sempre havia buscado durante muito tempo. Agora eu conseguia sentir ao menos um pouco do que as old ladies sentiam quando estavam com seus homens. Não que eu pudesse me considerar old lady de Héctor, e sabia que era perigoso alimentar expectativas, mas aquilo já poderia ser considerado como um grande avanço. Um momento depois, os caras começaram a chamar por Héctor. Percebi que NACIONAIS-ACHERON


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ele não estava muito satisfeito com a ideia de sair de onde estávamos, mas não fiz muito caso. Ele era o líder do clube, afinal, e aqueles homens eram seus amigos. Não queria que mudasse seus hábitos só porque nós estávamos juntos. — Você quer ir até lá comigo? — questionou. — Melhor não — eu disse. — Eu prefiro ficar por aqui. Mesmo vendo a clara aprovação em minha expressão, Héctor fez questão de me perguntar se eu ficaria bem caso ele se afastasse por alguns minutos. Eu garanti que sim, e ele deu um beijo em minha testa antes de se levantar e caminhar em direção aos seus amigos. Lançando olhares ocasionais para as pessoas ao meu redor, eu voltei a beber distraidamente o meu refrigerante, percebendo que já havia chegado ao fim. Suspirando, eu me levantei e fui até o freezer, a fim pegar outra lata. No momento em que cheguei até lá, ouvi alguém chamar meu nome. Me virei, dando de cara com Jenna que caminhava em minha direção, abrindo-me um sorriso amplo. Alguns fios do seu cabelo, preso em um coque frouxo, liberaram-se conforme ela se inclinava para me dar um abraço. — Ei, garota! — me cumprimentou animadamente. — Já faz um tempo que não nos falamos, hein? Você já se cansou do clube? — Claro que não — falei. — Estou trabalhando agora. Está sendo meio complicado conciliar o meu tempo livre. Ela sorriu, assentindo. — Claro, eu imagino — ela fez uma pausa, então seu olhar foi diretamente para Héctor, que nos encarava intensamente. — Você e Knife... — Jenna fez outra pausa, esperando que eu concluísse, mas não fiz. Em vez disso, dei de NACIONAIS-ACHERON


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ombros. Ela pareceu compreender o recado, e abriu bem os olhos, assobiando. — Whoa, certo. Eu preciso de uma bebida agora. Sorri de volta, aproveitando que ela se dirigia ao freezer para também pegar o meu refrigerante. Após já termos nossas bebidas em mãos, caminhamos de volta para a fogueira, onde eu ocupei um assento em um dos bancos de cimento. Jenna se sentou ao meu lado. Daquele ângulo, nós conseguíamos ter a visão de tudo que se desenrolava pela pista e o bar, inclusive quando Rebecca apareceu, começando a rebolar ao som da música potente, totalmente inapropriada. Ela parecia bêbada o suficiente para não se importar. Ignorei o fato de que ela estava fazendo isso na frente de Héctor, e que, muito provavelmente, seu intuito era provocá-lo e tentei ao máximo prestar atenção no que Jenna me dizia. Todavia, eu só conseguia me recordar que ela falava algo sobre a escola dos seus filhos e o quão rígida a professora era. Talvez ela tenha engatado em mais algum assunto sobre sua rotina de dona de casa e eu fingia que prestava atenção, assentindo e sorrindo. Eu buscava ao máximo ser educada, mas uma espécie de magnetismo me atraía para a cena de Rebecca rebolando seus quadris daquele jeito provocante. Alguns minutos depois, dois caras se aproximaram, um na frente e outro atrás de Rebecca, ambos começando a se esfregar nela de forma indecente. Eu sabia que as festas no clube, pincipalmente as que rolavam até a madrugada, nunca eram como as festas que famílias normais faziam aos domingos. Lá rolava muita bebida, drogas e sexo ao ar livre. Eu já havia assistido, acidentalmente, um desses episódios, mas aquilo não queria dizer que eu estava acostumada com cenas de quase sexo em público. NACIONAIS-ACHERON


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E era praticamente aquilo que eles estavam fazendo ali. Voltei meu olhar para Héctor e percebi a irritação em sua expressão. Sua mandíbula tensa, os olhos furiosos assistindo a cena que se desenrolava. Eu jurei a mim mesma que aquilo não era ciúme. Héctor já havia deixado mais que claro o fato de que ele não tinha — muito menos queria — nada com Rebecca, mas eu era humana e o fato de pensar sobre isso não anulou completamente os meus temores. — Ei, Jazmine, você ainda não respondeu à minha pergunta. — Jenna tocou o meu braço e eu me forcei a encará-la de volta. — Desculpe — eu disse. — Eu estava distraída, você pode repetir? — Eu perguntei se você teria interesse de... — de repente sua língua travou e seus olhos desviaram de mim — mas que porra é aquela? Segui seu olhar quando uma risada alta e histérica cortou o som da música. Rebecca ainda se encontrava no meio do salão, movendo-se ainda mais indecentemente do que antes, se isso fosse possível. Seus dedos escorregaram por suas pernas, subindo até a cintura, então ela me surpreendeu quando segurou a bainha da sua camiseta e a puxou para cima, removendo a peça de seu corpo. Ela girou o tecido na ponta do dedo antes de atirar para o ar. A blusa caiu em cima de Shark e ele comemorou. Em seguida, ela levou os dedos ao cós da saia, abrindo o botão e o zíper, minutos antes de descer o tecido e chutá-lo. Eu estava sem reação. Eu sentia minha boca entreaberta e Jenna ao meu lado soltou uma série de palavrões, deixando clara sua perplexidade. NACIONAIS-ACHERON


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Todos estávamos imóveis, exceto os homens bêbados que se divertiam com toda a cena, mas no momento em que Rebecca fez menção de tirar o sutiã, a voz irritada de Héctor bradou, e até mesmo eles se aquietaram: — Que porra você pensa que está fazendo? — Ele se aproximou de Rebecca, a fúria ainda viva em seus olhos. Rebecca sorriu provocativamente, se virando na direção dele. — Oh, só assim para você me notar, não é? — ela disse, perceptivelmente bêbada. Ignorando sua alfinetada, Héctor balançou a cabeça, puxando a blusa da mão de Shark e lançando na direção de Rebecca. — Você está louca. Vista-se agora. — Eu não vou fazer isso, Knife. Você não manda em mim! — Você está fazendo essa merda para me irritar, porra. Já estou cansado de todos os seus shows. Estou cansado de toda sua merda infantil. Você não é mais uma criança, Rebecca. Já chega! Eu percebi ela se encolher com cada palavra que saía da boca dele. Eu sabia que ele dizia tudo aquilo porque estava seriamente irritado, mas fiquei um pouco atordoada com o fato. Eu ainda fiquei ali imóvel por alguns minutos, tentando colocar a minha mente para raciocinar e não cometer uma besteira que fosse comprometer ainda mais toda a situação. Por fim, decidi caminhar em direção a Héctor, mas quando cheguei até ele, não fui recebida com o mesmo calor de quando havíamos chegado li. Ele apenas passou as mãos sobre os cabelos, daquele jeito que ele sempre fazia quando estava tenso com algo, e me encarou. — Me dê apenas um minuto, ok? NACIONAIS-ACHERON


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Eu assenti, sabendo que ficar sozinho por um tempo talvez fosse colaborar para que ele esfriasse a cabeça. Então, sem mais uma palavra, Héctor se virou e caminhou para os fundos. Um instante depois, eu vi que Rebecca se movia em direção às escadas, os lábios trêmulos e sua roupa nos braços. Ela subiu, desaparecendo em seguida. Soltei um longo suspiro, sentindo-me emocionalmente exaurida e me virei, caminhando de volta para a fogueira. A festa ainda continuava, como se Rebecca não houvesse feito um strip tease minutos atrás. Eu me movi pela aglomeração, tentando ao máximo me livrar daquela baderna toda e, em vez de me sentar no banco que ocupava com Jenna logo que chegara ali, eu decidi me afastar um pouco mais. Contornei o prédio, indo para os fundos do complexo. Quando cheguei à uma distância que considerava favorável para manter alguma privacidade, eu sentei em um banco, descansando a cabeça entre as mãos. Não demorou muito para que eu sentisse alguém se sentar ao meu lado. Me perguntei se Héctor já havia tido o seu “tempo” e ergui imediatamente a cabeça, surpreendo-me ao me deparar com Shade. Em silêncio, ele se inclinou para frente, a cabeça baixa e cotovelos apoiados sobre as coxas. Quando levantou o olhar, notei ele começou a me avaliar de cima a baixo. Imediatamente fiquei tensa, sentindo um arrepio varrer a minha pele e arrependendo-se do vestido que usava. Eu estava me sentindo ridícula agora. — Espero que você não se importe de eu estar aqui — ele disse calmamente. Se quisesse ser sincera, eu diria que gostaria de ficar ali sozinha, mas Shade era muito bom para mim e não era minha intenção tratá-lo mal. NACIONAIS-ACHERON


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— Tudo bem — falei. — Você está bem? — perguntou. — Estou. Ele suspirou e ficou em silêncio por um tempo, antes de falar: — Isso é parte da vida dele. Você sabe, não é? Me virei para ele. — Seja mais claro, Shade. — Você sabe onde eu quero chegar, Jazmine — replicou. — Toda essa agitação no clube, isso acontece na maior parte do tempo. Eu me forcei a tomar alguns segundos para não lhe responder de um jeito que eu pudesse considerar rude. Eu estava tentando evitar mais drama por aquela noite. — Eu não vejo motivos para desistir de Héctor só porque existe uma garota obcecada por ele — falei. — Rebecca não é a primeira e não será a última a querer ficar com ele, e eu não sou estúpida a ponto de não enxergar isso. Ele balançou a cabeça. — Eu não chamei você de estúpida — disse. — Tampouco estou dizendo que Rebecca é a única a querer Knife, mas ela é a única que jamais será expulsa do clube, como Poppy foi. Aquilo fez meu sangue ferver em minhas veias. Eu não sabia se a intenção dele era me irritar, mas se fosse, ele havia conseguido. — Vamos lá, Shade, você quer me dizer algo? Ele suspirou, seu olhar passando a ser duro agora. Ele não fez cerimônia quando esclareceu: — Rebecca é responsabilidade do clube — ele disse. — NACIONAIS-ACHERON


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Nós não podemos simplesmente mandá-la embora. Senti minha cabeça se inclinar em confusão. — Você está querendo dizer que ela é uma espécie de... mascote? Shade riu. — Deus, não coloque isso dessa forma. Fica parecendo que nós somos um bando de idiotas abusivos e toda essa merda. — Ele limpou a garganta. — Digamos que Rebecca é uma de nós, mas ao mesmo tempo não é. Você entende isso? Eu balancei a cabeça em negativa, realmente ainda mais confusa do que antes. Ele trocou de posição, movendo-se sobre o banco e ficando alguns centímetros mais próximo, de frente para mim. — Existiu um famoso quarteto no clube, composto por Hunter, meu pai, Hammer e Reese, pai de Rebecca. Os quatro eram melhores amigos, até que o destino foi fazendo o seu trabalho e desfalcando o grupo de alguma forma. Podemos dizer que ele foi mais cruel com Reese. Infelizmente, ele adquiriu um câncer agressivo e seu estado só foi piorando com o tempo. O homem havia perdido a esposa há alguns anos, e sua única filha, com quinze anos na época, era tudo o que ele tinha de mais precioso. Minutos antes de morrer, Reese segurou na mão do meu pai e de Hunter e os fez prometer que cuidariam da menina dele como se fosse sua própria. Essa promessa vem sendo cumprida desde então, e Rebecca foi praticamente adotada pelo clube. No dia em que virou presidente, Héctor meio que foi obrigado a tomar essa responsabilidade para si. — Ele suspirou. — Eu tenho certeza que foi esse o motivo de ele ter ficado tão bravo com ela hoje. Ele já deve estar farto de aturar as merdas que ela faz para chamar atenção, enquanto se sente culpado ao pensar em quebrar a promessa e afastá-la de vez. NACIONAIS-ACHERON


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Eu desviei o olhar de Shade, minha mente viajando por tudo o que ele dizia. Quando não recebeu nenhuma palavra em troca, Shade continuou com sua explicação: — Rebecca é apaixonada por Knife desde que o viu pela primeira vez, mas ele nunca a enxergou como nada além de uma irmã — ele fez uma pausa, parecendo pensativo sobre algo. — Para falar a verdade, nesses dez anos em que eu o conheço, eu nunca vi Héctor olhar para uma garota como ele olha para você. Ele nunca beijou na testa de alguém, Jazmine, só na sua. Eu torci meus dedos, sentindo o nervosismo me consumir perante suas palavras. Limpei a garganta. — E o que há nisso tudo? — perguntei. — Por que está me dizendo essas coisas? — Porque eu gostaria de saber se você está realmente preparada para o que estar com Héctor implica. Fiquei tensa quando sua mão segurou meu rosto delicadamente, seus olhos castanhos me encarando de uma forma ainda mais intensa. — E se eu não estiver? — questionei, apenas para saber qual era realmente a dele. Se a intenção de Shade era prejudicar Héctor ou, de alguma forma, tirar proveito sobre minhas fraquezas emocionais, eu iria fazer de tudo para não permitir que aquilo acontecesse. — Então você deveria se afastar. Ele se aproximou mais de mim, e eu decidi que aquela era a hora certa de me afastar, mas não tive tempo de fazer o que planejava. Em questão de segundos, Shade passou de alguém que apenas me observava para alguém que me beijava. Meus olhos se arregalaram em susto e minha boca se entreabriu um pouco NACIONAIS-ACHERON


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enquanto eu tentava inutilmente pedir para ele se afastar. Shade pressionou seus lábios contra os meus ainda mais, envolvendo meu corpo com seus braços musculosos e eu comecei a me contorcer para que ele me libertasse, sem muito sucesso por conta da minha força inferior. Por alguns segundos eu senti o sabor da cerveja que ele havia ingerido quando seus lábios gelados se moveram sobre os meus, mas durante todo o momento não houve calor, não houve pressão entre as minhas pernas e não houve eletricidade. Não houve absolutamente nada, além de surpresa e uma irritação que começava a queimar meu peito. Eu tentei lutar, retesando o meu corpo, mas ele era forte. Quando eu finalmente venci a luta e consegui fazer com que ele me soltasse, dei um salto para trás, levantando-me imediatamente e me afastando dele. O encarei com fúria. — Que diabos, Shade?! — rosnei, limpando a minha boca. — Que merda deu em você? Eu imaginei que ele fosse ao menos pedir desculpas pelo seu descaramento ou me olhar de um jeito envergonhado, mas Shade tinha um brilho diferente nos olhos: Não era culpa ou tristeza. Era satisfação. O filho da mãe estava feliz por ter me beijado a força? — Ele merece você — ele disse, de repente, deixando-me desnorteada. — O quê? Do que você...? — E antes que eu concluísse a frase, a compreensão me assolou. Estreitei os olhos, encarando-o ainda mais irritada. — Você estava me testando? Ele sorriu, ficando em pé. Por reflexo, eu dei mais um passo para trás. — Talvez eu estivesse. NACIONAIS-ACHERON


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Bufei. — Você não poderia simplesmente perguntar sobre os meus sentimentos? Tinha que me beijar a força, porra? Ele encolheu os ombros, mas não parecia arrependido ainda. Na verdade, foi mais como se ele estivesse dando um foda-se para a seriedade da situação. — Aquele filho da puta dormiu com uma garota de quem eu gostava quando ainda estávamos na faculdade. Acho que ele mereceu um pouco disso agora. — E então ele aproximou-se mais, parando de frente para mim. — De qualquer forma, ele é o único irmão que eu tenho. E apesar de ter certeza de que ele falou um monte de coisas para que você perdesse qualquer possível interesse que viesse a ter por mim, ele só fez isso porque se sentiu ameaçado. Eu amo aquele idiota como se fosse do meu próprio sangue, Jazmine, e eu espero que você cuide dele. — Por fim, ele sorriu de uma forma terna e enrolou seus braços ao meu redor. Ainda meio perplexa com o que havia acontecido, eu queria gritar que ele era maluco, mas decidi permanecer calada. Mesmo tensa, eu permiti que ele me abraçasse. Eu sabia que aquela era uma espécie de despedida do sentimento que ele começou a nutrir por mim, se é que eu podia rotular daquela forma. — Você é uma ótima pessoa, Shade — falei, com sinceridade, quando nos afastamos. — Apesar de ter feito toda essa loucura agora, eu sei que é um bom cara, e ainda vai encontrar sua garota. — Sorri. — Espero que ela seja tão legal quanto você. Ele não disse nada, apenas sorriu de volta. Finalmente acenou com a cabeça e se afastou. Passei as mãos sobre os meus cabelos e roupa, tentando não aparentar muito como uma garota que acabou de beijar um cara — mesmo que o beijo tenha NACIONAIS-ACHERON


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sido a força — e decidi que já era a hora de procurar por Héctor. Eu saí dos fundos, caminhando de volta para a festa, percebendo que as pessoas estavam ainda mais bêbadas. Não havia sinal de Rebecca, assim como não havia sinal de Héctor também. Fui até o local por onde o vi entrar da última vez em que nos falamos, mas em vez de encontrá-lo, me deparei com um cara loiro recostado contra a parede enquanto uma menina se ajoelhava diante dele e chupava o seu pau. Pedi desculpas e, tentando tirar a cena da minha mente, retornei para a festa. Procurei por Héctor em todos os lugares — inclusive seu apartamento — e perguntei aos seus amigos e algumas meninas se alguém havia o visto, mas nenhum deles me deu uma resposta satisfatória. No momento em que decidi ligar para ele e recebi a mensagem eletrônica informando que seu celular estava desligado, comecei a me sentir irritada. Ele havia ido embora da festa sem nem ao menos procurar por mim? Mas então, eu também havia me escondido, portanto não podia culpá-lo caso ele houvesse saído para procurar por mim em algum lugar. De qualquer forma, eu estava cansada o suficiente para permanecer ali. Eu ligaria no dia seguinte ou quando chegasse em casa. Voltando a sacar meu telefone, pedi um táxi e fui direto para casa, sentindo que já havia passado pelo suficiente por aquela noite.

Adentrei a pequena sala do meu apartamento, sentindo-me ainda um pouco transtornada devido a tudo o que ocorrera naquela noite. Tranquei a porta sem pensar duas vezes, relembrando-me do que Héctor havia me dito sobre NACIONAIS-ACHERON


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eu ter que tomar mais cuidado a partir dali. Um sentimento de angústia me atacou. Eu ainda não sabia aonde ele havia se metido, tampouco se ele estava bem. Aquilo meio que me deixara perturbada, sendo repisado centenas de vezes enquanto eu aguardara todo o percurso dentro de um táxi até chegar em casa. Porém, no momento em que bati no interruptor ao lado da porta e acendi a luz, parte dos meus temores foram embora quando percebi que uma figura escura se via sentada no meu sofá, encarando-me imóvel. A outra parte, no entanto, pareceu ficar ainda mais agitada com o olhar que ele estava me enviando. Os olhos de Héctor eram como poços fundos e escuros. Do tipo que você tenta, mas jamais consegue saber o que há dentro deles. — Héctor — falei, colocando as chaves e minha bolsa em cima da pequena estante na sala e procurando não evidenciar a minha insegurança. — Como conseguiu entrar aqui? — Eu avisei que esse lugar não era seguro. — Apesar de sua voz aparentemente branda, seu olhar conotava certa irritação, o que piorou ainda mais os meus temores quando percebi o quanto ele estava sério. — Eu procurei por você e não te achei — abordei, procurando uma forma de explicar a minha saída repentina. — Também liguei para o seu celular e você não atendeu. Então decidi vir embora. Ele assentiu pensativamente, recostando os cotovelos sobre os joelhos, ambas as mãos cruzadas. Seu cabelo caiu para frente no momento em que ele inclinou a cabeça. Os fios estavam selvagens, como se ele houvesse passado as mãos sobre as mechas por várias vezes, causando aquele resultado. Héctor parecia inquieto também. Ao menos por dentro, porque por fora tudo NACIONAIS-ACHERON


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aparentava terrivelmente imóvel, frio, distante. — Eu sinto muito por ter estragado sua noite. — Finalmente sua voz saiu, o tom permanecendo uniforme. — Às vezes eu gostaria que Rebecca amadurecesse e procurasse seguir seu próprio caminho. Ela já me tirou do sério o suficiente. Hoje era para ser um momento de diversão, e ela acabou estragando isso. — Não precisa se desculpar — me apressei em dizer. — Shade me explicou toda a situação com Rebecca, além disso você não teve culpa do que aconteceu. De repente me arrependi por citar Shade, pois aquilo acarretava em inúmeras procedências, inclusive o sentimento de culpa. Eu ainda não estava preparada para contar a Héctor o que aconteceu entre nós, muito menos para lidar com a sua reação. Eu meio que fiquei com medo do que ele provavelmente faria. — Shade... — murmurou, balançando a cabeça novamente, os olhos fitando o chão. O silêncio caiu denso sobre nós, as batidas frenéticas no meu peito se agravando quando ele finalmente me encarou. — O que você sentiu? Meu coração travou. Eu notei as minhas mãos começarem a suar, e a vontade de acabar com aquele assunto e correr para longe estava ficando cada vez mais intensa. Finalmente eu procurei controlar toda a mescla de enervamento e culpa e busquei uma forma de agir com naturalidade: — Como? — O que você sentiu — ele repetiu — quando ele beijou você? Apreensão me tornou escrava. A minha boca se entreabriu, mas palavra alguma saía dela. Héctor estava imóvel, sua expressão ainda dura me encarando. NACIONAIS-ACHERON


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Eu não tinha culpa, e Shade havia me deixado a par do porquê de ter feito o que fez, mas, mesmo assim, eu senti como se houvesse o traído. — Você viu... tudo? — Eu vi o suficiente. Dei um passo à frente. — Eu posso explicar... — Não há o que explicar, Jazmine — me cortou. — Você não teve culpa. Soltei a respiração que estava presa. — Então você ouviu nossa conversa até o fim? — Sim. — E... e mesmo assim ainda está chateado? Ele me encarou em silêncio por um momento, e liberou: — Estou furioso. — Então ele se levantou, caminhando lentamente em minha direção, como um predador. Desrespeitando todos os avisos silenciosos que me diziam para me afastar, eu permaneci ali, meio que temendo e ansiando o seu próximo movimento. — Só de imaginar a cena de outro cara beijando você, eu sinto que sou capaz de cometer uma loucura. Ele estava a pouquíssimos centímetros de distância agora. A sensação de antecipação permaneceu. Era como se eu quisesse ficar e fugir ao mesmo tempo. Eu só podia ser uma mulher louca. — Você não me machucaria — falei, sem desviar os olhos. — Não — ele passou os dedos sobre a pele do meu pescoço, me causando arrepios. — Mas eu poderia machucar qualquer cara que se atrevesse a tocar em você, principalmente à força. NACIONAIS-ACHERON


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Seu corpo contornou o meu, e seu peito foi posto rente ás minhas costas. Ele passou o nariz em meu pescoço, então sussurrou: — Mas talvez seja compreensivo o fato de eles a desejarem. — Suas mãos subiram pelas minhas coxas e depois acariciaram meus quadris. — Você é tão bonita. Tão incrivelmente sexy. — Com um puxão brusco, ele me virou de frente para si. Seus intensos olhos negros me devoravam. Perdi-me dentro deles por um momentâneo instante. — Mas você é minha. Apenas minha, Jazmine. Sua mão segurou firme a minha nuca e eu gemi. O polegar passeou ameaçadoramente sobre a minha garganta. Com a outra mão, ele deu um aperto firme na carne do meu quadril. Não o suficiente para machucar, mas foi um toque brusco, um toque que deveria me assustar, mas que ativou cada zona sensível do meu corpo. — Diga — ordenou. Lambi meus lábios. — O quê? — Diga que você é minha — sua voz ainda era branda, porém rouca e quente. Me perguntei como ele conseguia ser tão intenso em alguns momentos. — Eu... sou sua — arfei. — Somente sua. Ele soltou um gemido de satisfação, colando-se ainda mais contra mim. — Eu estou louco para foder você. Gozar em você. Te marcar como minha. Merda, aquelas palavras. Eu estava literalmente derretendo com aquelas palavras. No entanto, eu também estava lúcida. O bastante para saber que aquele não NACIONAIS-ACHERON


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era o melhor momento para partirmos para o home run. — Eu... eu ainda não sei se estou preparada para fazer sexo com você — falei, nervosa. — Não depois de tudo o que aconteceu. Eu não quero que seja assim. Héctor suspirou, escovando o nariz contra a lateral do meu pescoço. — Eu sei — disse. — No entanto isso não é um problema, porque nós ainda podemos brincar, certo? Brincar? Lembrei-me da outra noite em meu quarto, de sua boca em meus seios, seus dedos entre as minhas pernas e imediatamente apertei minhas coxas, sentindo-me umedecer. Eu concordei, louca para avançar e dar um beijo nele, mas Héctor me torturou, como sempre fazia, recuando alguns centímetros. Na verdade, ele recuou alguns metros, parando somente quando se sentou no sofá. Comecei a caminhar em sua direção, mas ele ergueu uma mão, freando-me. — Fique exatamente onde está — seu tom autoritário enviou uma onda de eletricidade que intumesceu ainda mais os meus mamilos e fez meu ventre vibrar. Ele passeou os olhos sobre meu corpo por um instante, bebendo da minha imagem embalada naquele vestido, minhas pernas de fora e meu decote generoso. — Veja só você — sua voz praticamente me acariciava. — Tão quente dentro desse vestido que eu me vejo a ponto de arrancar esse tecido do seu corpo apenas para lamber cada pedaço da sua pele. NACIONAIS-ACHERON


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Abracei o meu corpo, totalmente ansiosa. Era praticamente impossível me manter quieta diante de uma inspeção como aquela. Então veio a ordem: — Dispa-se. Abri bem os olhos. — Desculpe? — Eu disse para tirar a roupa — ele repetiu. Exigente e curto, como somente Héctor conseguia ser. Nervosamente, inclinei meus braços para trás, descendo o zíper na parte traseira do meu vestido. Minhas mãos estavam trêmulas e eu meio que senti como se tivesse uma doença nociva a coordenação motora do que como uma garota tentando fazer um strip tease. De qualquer forma, Héctor não pareceu se importar com o meu modo desajeitado, principalmente quando desci a parte de cima do vestido e o soltei, permitindo que o tecido caísse aos meus pés. Eu estava sem sutiã, e seus olhos varreram novamente o meu corpo, demorando-se um pouco mais na região dos meus seios. — A calcinha também — exigiu. Eu limpei a minha garganta, ainda me sentindo nervosa, mas tudo dentro de mim fervia. Minha pele estava hipersensível e meus sentidos aguçados. Então não houve muita cerimônia quando eu desci o pequeno tecido cor de rosa que cobria minhas partes íntimas e fiquei completamente nua na frente dele. Héctor sorriu, satisfeito e ajeitou-se no sofá, talvez para dar um pouco mais de conforto à ereção que delineava a parte dianteira do seu jeans. Cansada de esperar que ele desse mais alguma ordem, fiz menção de me agachar para tirar os meus sapatos, mas ele me impediu ao erguer um dedo. — Fique com os saltos — disse ele — e venha aqui. NACIONAIS-ACHERON


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Héctor apenas observou enquanto eu o obedecia. Quando cheguei até ele, suas mãos grandes puxaram-me. Logo após, as senti escorregando-se para a polpa da minha bunda. Suspirei quando ele me encarou nos olhos, descendo o olhar pelo meu colo nu, lentamente, indo para minha barriga. Héctor depositou um beijo ali. Arrastou a língua ao redor do meu umbigo. Senti uma sensação se acumulando em meu baixo-ventre. Em seguida, seu nariz roçou no topo da minha virilha. Quando ele começou a me beijar, agradeci aos céus por manter a minha depilação em dia. A sensação dos seus lábios naquele ponto, por mais que fosse sutil, era totalmente abrasadora. — Eu já falei o quanto te acho linda? Eu sorri. — Você já deve ter tido muitas outras mulheres bem mais bonitas que eu. Ele subiu o olhar para me encarar, sério. Suas mãos agora escorriam para meus quadris, acariciando-me. — Isso não tem a ver somente com o físico, Jazmine — respondeu. — Todas eram mulheres superficiais. Que só tinham uma casca bonita para oferecer. — Arrastou novamente os lábios pela minha pele. Dessa vez em meu quadril. Soltei um pequeno gemido de prazer quando ele mordiscou de leve aquele ponto. — Quando eu digo que te acho bonita, estou me referindo ao interior também. — Sua mão escorregou até o lado esquerdo do meu peito, sobre o coração. — Eu estou falando disso aqui. — Em seguida, ele subiu um pouco mais, pressionando sutilmente o dedo na lateral da minha cabeça, apontando para meu cérebro. — E disso aqui. Permiti-me sorrir uma outra vez e passei a acariciar os seus cabelos. NACIONAIS-ACHERON


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— Eu acho que isso foi a coisa mais bonita que eu já ouvi de um cara. — E verdadeira — falou. — Eu admiro você. Admiro sua coragem, a sua perseverança e o seu jeito único de conseguir ver o lado bom das pessoas. — Fez uma pausa. — Mesmo que algumas dessas pessoas não possuam realmente um lado que possa ser considerado bom. Eu mordi o lábio quando senti as lágrimas picarem atrás dos meus olhos. Não, aquela não havia sido a coisa mais bonita que um cara já havia me dito. Aquela havia sido a coisa mais bonita que qualquer pessoa já me dissera um dia. — Sempre há algo de bom dentro de nós, Hache — falei. — Não importa quem sejamos. — E o que você diz sobre mim? Dei de ombros. — Eu digo que você é incrível. Ele sorriu e se afastou alguns centímetros, sem tirar os olhos de mim. Eu o observei se desfazer do seu colete, em seguida ele puxou a bainha da sua camisa preta. O impedi, avançando. — Deixe que eu faço isso. Aparentemente satisfeito com meu espírito voluntário, ele soltou a bainha da camisa e aguardou eu me agachar diante dele. Puxei o tecido para cima, e Héctor ergueu os braços para facilitar que a peça saísse de seu corpo. Fixei meu olhar, admirada com a visão do seu torso nu e bronzeado. Eu já havia visto Héctor sem camisa antes, mas talvez a minha libido aflorada estivesse fazendo com que eu me sentisse daquela forma. Ele era forte, não NACIONAIS-ACHERON


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exageradamente, mas o suficiente para me deixar totalmente louca quando os contornava ao redor da minha cintura. Uma tatuagem com os dizeres “Liberdade no sangue, lealdade no peito, selvagem na alma” — que eu sabia ser o lema dos Renegade Souls — estava desenhada em seu peito esquerdo. Ele era a personificação da tentação e eu me contive para não me aproximar e lamber o seu peito e descer a língua até o V que surgia logo acima do cós de sua calça. Meus olhos navegaram para mais abaixo, onde o volume do seu membro aparecia sob o jeans. Respirei fundo, levando minhas mãos levemente trêmulas e inexperientes até seu cinto. Ele não me impediu. Nem quando eu baixei o zíper de sua calça e a puxei pelos seus pés. Minha mão foi diretamente para sua cueca boxer preta, no entanto ele segurou meu pulso antes mesmo que eu pudesse movê-la para baixo. — Assim está bom — ele disse. — Eu estou muito excitado e não acho que seja uma boa ideia que ambos fiquemos nus. Não agora. Quase me arrependi de dizer que não faria sexo com ele naquela noite. No entanto, ainda me restava um pouco de juízo e eu sabia que o melhor era levar as coisas um pouco mais refreadas, do jeito que estava sendo. Fui pega de surpresa quando Héctor me agarrou pela cintura e me puxou para si. Apoiando minha cabeça em sua mão, ele me beijou profundamente, sua língua acariciando a minha enquanto meus mamilos doloridos friccionavamse contra o seu peito liso, minhas mãos passeando esfomeadas sobre sua pele quente. Em seguida, ele foi mais ousado quando me ergueu, montando-me sobre seu NACIONAIS-ACHERON


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colo. Se na outra noite, vestindo uma calcinha, eu fiquei a ponto de ter um orgasmo só em tê-lo abaixo de mim, daquele novo modo eu praticamente enlouqueci. Eu podia sentir o seu pau longo e grosso pressionado contra minha vagina nua. Umidade quente escorria entre as minhas pernas, molhando o tecido da sua cueca. Ele soltou o ar entre os dentes, a situação aparentando quase dolorosa. — Porra, você é tão gostosa — murmurou. — É tão difícil te ver assim e não poder fazer o que eu quero com você. Eu mordi o meu lábio, sentindo uma agonia insana me consumir e remexi-me sobre o seu pau, mesmo sabendo que aquilo era sinônimo de tortura para ele. Era um fodido gesto egoísta, mas eu me sentia tão bem. — Baby, vá com calma — ele pediu, parando meus quadris. Eu gemi em protesto e um sorriso safado cobriu seus lábios lentamente. — Eu vou dar muita atenção à sua bela boceta hoje, querida. Mas nós precisamos ir um pouco mais devagar. Eu quero fazer algo diferente com você. Curiosidade e antecipação levaram o melhor de mim. Assenti, achando ser incapaz de controlar os meus hormônios. Héctor me segurou, enquanto se arrastava para o sofá e deitava-se lá. Agora eu estava montada sobre sua barriga. Daquela posição foi ainda mais estranhamente sexy. Talvez pelo fato de um cara como ele aparentar estar submisso a mim. — Você gostaria de me tocar? — interrogou com voz rouca. Engoli em seco, sentindo minha garganta muito ressecada de repente. — Sim. NACIONAIS-ACHERON


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Ele sorriu, parecendo satisfeito com a minha resposta. — Então me toque, baby — disse. — Tome o tempo que quiser. Eu passei a deslizar timidamente minhas mãos sobre seus braços, descendo sobre os pelos negros do seu antebraço, pelos músculos lisos dos seus bíceps; em seguida, os ombros. Porra, ele era quente. Decidindo ser um pouco mais ousada, eu passei a explorar seu peito, maravilhada com aquela minha nova descoberta. Eu nunca havia tocado um cara daquele jeito. A sensação era incrível. Ele soltou um suspiro de satisfação quando minhas mãos escorregaram pelos gomos do seu abdome trincado, e então ele silvou entre os dentes quando subi novamente e alcancei o seu mamilo. Parei, nervosa. — Dói? — perguntei, passando os dedos sobre o mamilo novamente e aproveitando para arranhar com unhas o seu peito em um movimento descendente. — Não, definitivamente isso não dói — ele parecia ainda mais excitado, a julgar pelo seu pau ainda muito duro pressionado contra a minha bunda. Lentamente, Héctor voltou a me tocar. Suas mãos subiram pelas minhas coxas, os polegares provocando o interior delas, antes que eles se aventurassem a esfregar suavemente sobre minha carne latejante e úmida. — Hache... — murmurei agoniada, sentindo meu sexo praticamente implorar por mais contato. — Você gosta disso, não é? — Ele recuou, acariciando a minha virilha. Meu NACIONAIS-ACHERON


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ponto quente se apertou em busca de um alívio que não veio. — Cristo, você está tão molhada. — Por favor, Hache, eu preciso... preciso disso. — De quê? — provocou. — Do que você precisa? — De você. Ele sorriu. — Você me tem. Merda, por que ele gostava de ser tão provocador? — Você sabe do que eu estou falando — eu disse, sentindo minhas bochechas ainda mais vermelhas. Sua língua passeou pelo seu lábio inferior, enquanto um sorriso maliciosamente satisfatório era direcionado a mim. Sua mão patinou pelo meu estômago, indo para cima, então ele apertou meu peito. Ainda amaciando um seio, ele se ergueu e voltou a me beijar com fome, sua língua fazendo movimentos que eu poderia até mesmo julgar indecentes se estivéssemos em público, deixando-me ainda mais úmida. Héctor se afastou antes do esperado e voltou a se deitar novamente, arrastando o meu corpo sobre o seu. Eu me forcei a ficar de joelhos sobre ele. Meu sexo estava ainda mais exposto e seus olhos passearam sem pudor algum sobre ele. E então ele disse: — Monte meu rosto. Senti meus olhos se arregalarem e a minha boca se entreabrir diante de seu pedido, totalmente pega de surpresa. Porque, diabos, que tipo de cara fazia um pedido daqueles? NACIONAIS-ACHERON


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— Você... quer que eu... — Monte o meu rosto — ele completou, sem um pingo de hesitação. Eu tinha dúvidas de que ele pudesse ficar constrangido sobre qualquer coisa um dia. — Eu preciso lamber a sua boceta. Não “eu quero” ou “eu vou”, mas sim “eu preciso”. Oh, certo. Quem era eu para discutir com ele? Arrastando os meus quadris para ainda mais perto de seu rosto, eu mordi o lábio, tendo um misto de sensações. Eu nunca havia estado em uma posição como aquela antes. A situação, além de excitante, era constrangedora como o inferno. Héctor passou o nariz sobre o interior das minhas coxas, plantando beijos lentos até que finalmente seus lábios tocaram minhas dobras latejantes. Me segurei para não fazer um movimento muito rápido e gozar apenas com aquele ataque suave lá embaixo. — Eu amo sua boceta — ele disse em tom de adoração. — Acho que vou ficar viciado nela depois disso. Era louco, sujo e tão, mas tão terrivelmente erótico. Suas palavras eram capazes de me deixar no limite. Sua língua rompeu para fora e acariciou lentamente entre as minhas pernas. Eu mordi o lábio com força para evitar gritar. — Não se segure, baby — ele pediu, afastando-se um pouco. — Eu quero ouvir você gritar enquanto eu a como assim. Oh, inferno, eu estava me transformando em uma poça. Literalmente. NACIONAIS-ACHERON


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Assenti, sentindo-me totalmente sensível em todos os pontos. Minha vagina latejava, minha pele ardia e eu sentia meus seios pesados, doloridos, carentes, em busca de ao menos um toque. Eu estava ficando viciada em tudo o que ele me causava. Parecendo ler minhas necessidades, Héctor foi totalmente agradável quando raspou os dedos contra o meu mamilo e esfregou. O atrito da sua pele levemente áspera contra o bico do meu peito sensível enviou uma onda de faíscas ao longo da minha espinha. Em um impulso, ele deu um puxão em minhas coxas, e então as minhas pernas estavam ainda mais espalhadas. Senti sua língua quente varrer a minha parte sensível, em seguida ele começou a me chupar. Eu gemi, sentindo-me perder o controle. Apoiei minhas mãos no braço do sofá. Meus quadris balançavam involuntariamente sobre sua cabeça. Eu comecei a fazer barulhos e me contorcer — até o ponto de imaginar que uma outra pessoa havia se apoderado do meu corpo. Ele me devorava como se eu fosse a fruta mais saborosa e suculenta que seus lábios já tiveram a chance de tocar. De uma forma meio excêntrica, eu me senti lisonjeada porque não era qualquer cara que se aventurava a colocar sua boca nas bocetas de suas mulheres. Percebi um movimento do seu braço e virei o rosto para trás, dando-me conta de que ele estava tocando a si mesmo enquanto me chupava. A sensação se intensificou, a pressão se reunindo desde o meu ventre e se espalhando pelas pontas dos meus dedos até minha coluna. Bastou apenas mais alguns segundos para que eu me desintegrasse ali mesmo, atingindo o orgasmo de uma forma que eu nunca imaginei que fosse experimentar um dia. NACIONAIS-ACHERON


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Eu ainda estava com a respiração acelerada quando Héctor me puxou para baixo, uma das mãos indo rápido sobre o pau ainda duro. Com a mão livre, ele trouxe minha cabeça para si e me beijou. Eu aprofundei o beijo, escorregando para ficar deitada no sofá conforme ele invertia as posições e ficava sobre mim. Nossos lábios se separaram e ele continuou a se acariciar. Eu inclinei a cabeça e observei, maravilhada com a visão de sua mão tocando a si mesmo. — Porra, esse olhar... — ele sibilou ao notar a minha expressão de quem estava começando a ficar excitada de novo. — Isso é tão quente. Sua mão foi ficando mais rápida, e eu percebi que ele estava perto. Prendi a respiração, ainda muito concentrada na cena. Ele fez menção de se afastar, mas eu enrolei minhas pernas ao seu redor, o firmando no lugar. — Você não precisa se afastar — esclareci ao notar o seu olhar confuso, perguntando-me se ele acharia estranho ou nojento que eu sugerisse que ele gozasse em cima de mim. Héctor mordeu o lábio. Aquilo era tão sexy. — Você tem certeza? — perguntou com a mandíbula cerrada. — Sim, por favor. — Eu lambi meus lábios, extasiada com a visão do seu pau longo e grosso sendo estimulado. Héctor soltou um palavrão entredentes e voltou a se tocar, rápido e duro, de uma forma que não me permitia tirar os olhos de cima dele. Então ele gozou em cima da minha barriga. Eu fiquei ali, sentindo-me terrivelmente quente e me perguntando se eu parecia como uma garota suja ao pedir para um cara gozar na minha barriga. Mas não era qualquer cara. Era Héctor, o garoto por quem eu fui apaixonada NACIONAIS-ACHERON


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desde a adolescência. Depois de nos limparmos, Héctor voltou a se deitar no sofá, arrastando-me para ficar frente a frente com ele. — Você está bem? — perguntou. Anuí, sentindo uma paz me tomar por inteiro. Como eu poderia me sentir tão incrivelmente completa sem ao menos ter ido aos finalmente com ele? — Eu estou muito bem, acredite. — Sorri. Ele retribuiu meu gesto e me pressionou ainda mais contra seu corpo. Estiquei minha mão e toquei em seu peito, descendo pelo abdome trincado, sem um grama de gordura, e foi então que percebi a diferença da sua barriga para a minha. Uh, aquela posição não era muito favorável quando se tinha uma boa camada de gordura abaixo do estômago. Héctor franziu o cenho quando eu tentei me virar e não tornar a situação estranha. — Não se cubra — ele disse, puxando minha perna e a montando sobre seu quadril. — Você não deveria ter vergonha do seu corpo. — Eu não tenho... eu só estava mudando de posição — menti. — Claro. — Sorriu, fazendo-me ter certeza de que não acreditava em minhas palavras. — Você é perfeita. — Eu não sou perfeita. Ninguém é. — Bem, mas eu digo que você é. E se eu estou falando isso é porque é a verdade. Eu ri pela forma como ele disse aquilo. — Então agora é assim? Sua palavra vira lei? NACIONAIS-ACHERON


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— Claro que sim — ele disse presunçosamente. — Eu sou o rei dessa cidade. Revirei os olhos. — E o que isso faz de mim? Uma serva com privilégios sexuais? — Não — ele sorriu, tocando o canto da minha boca com a sua. — Isso faz de você a minha rainha. Eu sorri, sentindo meu peito inchar. Se não estivesse tão exausta, eu juro que abriria as minhas pernas para ele naquele mesmo instante. Finalmente o abracei de novo, envolvida por uma felicidade que nunca havia sentido antes. Eu havia encontrado o meu lugar, e não queria nunca mais perdê-lo.

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14: Turbulência

Eu até gostaria de dizer que os dias que se seguiram foram recheados de uma paz e felicidade incontroláveis, mas não foi bem assim que as coisas aconteceram. Comecei a investigar Mikhail Petrov dois dias após a festa no clube. Graças à influência que adquiri ao longo daqueles dez anos, consegui arrancar facilmente algumas informações básicas, como por exemplo, que ele estava hospedado em um hotel em Los Angeles desde algumas semanas atrás. Eu não havia descoberto de onde exatamente ele havia vindo, afinal o seu sotaque era limpo demais para denunciar que ele viveu por muito tempo na Rússia, mas pensar no ataque de Jazmine e na forma com a qual Mikhail agia, viajando em torno de cinco horas para uma cidade como Scout Lake sem um motivo aparente, fez com que as engrenagens trabalhassem com muito mais agilidade dentro da minha cabeça. Qualquer um que se propusesse a investigar sobre isso acharia estranho o fato de que ele havia saído de Deus sabe onde simplesmente para se infiltrar em uma cidade no interior da Califórnia. Cheguei a cogitar que ele fosse uma espécie de empresário em busca de expandir algum negócio, mas então tínhamos o impasse de que aquela cidade seria a última a ser procurada pelos figurões e, como se já não bastasse, depois de ter uma breve conversa com Jazmine e relembrar de sua perseguição não tão sutil, descartei aquela possibilidade. NACIONAIS-ACHERON


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Era óbvio que ele estava, de fato, ali com um propósito que envolvia a minha garota. E aquela merda não iria passar batido. No tempo que se seguiu, acabei pesquisando na internet sobre criminosos russos e máscaras de Halloween, mas infelizmente não encontrei muito com o que pudesse me ater. No entanto, após receber as informações de que os Lions estavam metidos com puro armamento russo, uma outra pergunta me espezinhou: E se Mikhail tinha algo a ver com os Fierce Lions? Poderia ser considerada uma ideia louca e extremante paranoica, mas eu não podia negar que fazia todo o sentido. Jazmine havia acabado de chegar na cidade quando o ataque aconteceu, dias após ela ter ficado na sede conosco. Os Lions eram traiçoeiros o suficiente para nos atacar usando nossas mulheres e, mesmo que não houvesse nada entre mim e Jazmine na época, não era preciso ser a pessoa mais inteligente do mundo para perceber que ela era importante. Além disso, eu me lembrava muito bem que Mikhail estava no bar no dia do ataque. Eu poderia considerar coincidência, caso acreditasse nessa merda, mas eu sabia que não era. Por mais que eu tivesse quase certeza de que Mikhail tinha alguma porra a ver com o maldito ataque, as coisas ainda eram extremamente embaralhadas para mim. Eu me via no escuro sobre em quem confiar, mas, de qualquer forma, eu não iria excluir a possibilidade de Mikhail e Hammer terem uma espécie de laço. Todas as suspeitas seriam levadas em conta até que se provasse o contrário. Olhei no relógio, percebendo que alguns minutos haviam se passado desde a última ligação que recebi do homem que estava encarregado de me passar algumas informações. Eu havia recebido muitas ligações daquelas nos NACIONAIS-ACHERON


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últimos dias, o que era bom. A minha ansiedade estava praticamente me corroendo inteiro; não seria muito saudável que eu decidisse dar um passo maior do que o que eu já estava dando. Algo me dizia que Petrov era muito mais perigoso do que aparentava. Me levantei da mesa de jogos e os caras protestaram. Era sexta-feira, e geralmente nas vésperas de fins de semana nós costumávamos dar as famosas festas semanais. No entanto, as coisas haviam mudado desde os últimos dias e passamos a aproveitar o tempo livre jogando partidas de bilhar ou carteado. E foi exatamente o que estivemos fazendo pelas últimas duas horas. Todavia, eu não podia mais ficar ali. Havia assuntos muito mais importantes com os quais eu tinha que lidar. — Porra, Knife, o que diabos você vai fazer saindo da partida tão cedo? — Shark perguntou. — Eu tenho alguns assuntos para tratar agora — expliquei-me. — Shade, Joshua... Vocês podem vir comigo por um minuto? Ambos se levantaram, assentindo. — Teremos uma reunião? — Reed perguntou. — Não exatamente — respondi. — Eu tenho um assunto para tratar com Josh e Shade, mas é algo sigiloso. Suas narinas inflaram imediatamente. Ele cerrou a mandíbula. — Qual foi, Knife? Desde quando as reuniões se tornaram restritas? — Desde que as coisas mudaram — respondi. — Não vamos ser hipócritas e fingir que está tudo bem, porque não está. Vocês acreditando em mim ou não, nada me tira a desconfiança de que há um rato entre nós, então até que seja descoberto quem está traindo os Souls, apenas os veteranos lidarão com NACIONAIS-ACHERON


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assuntos mais sérios. Espero que compreendam. Os olhares de Reed e os outros caras já respondiam tudo: eles arrancariam a minha cabeça se pudessem, mas eu não iria voltar atrás. A que ponto havíamos chegado? Eu não estava querendo lidar com aquilo através de favoritismos, afinal eu odiava toda essa merda, mas Josh e Shade eram os únicos caras que eu ainda confiava dentro daquele clube. Era apenas precaução. Sem mais uma palavra, me virei, sabendo que Shade e seu pai me seguiam. Subimos para o meu apartamento, onde eu sabia ser mais reservado, e fechei a porta. — Você tem alguma novidade? — Shade foi logo perguntando ao notar minha expressão. Ele sabia desde o começo sobre as investigações a respeito de Mikhail e esteve comigo desde então. — Descobri algo sobre os Lions que pode esclarecer muitas de nossas dúvidas — respondi. — Os caras obtiveram um enorme estoque de armas russas nas últimas semanas. Coisa cara e de ótima qualidade. Eu não sei exatamente como os filhos da puta conseguiram ir tão longe, mas posso ter uma ideia. — O tal russo — Josh falou imediatamente, coçando a barba grisalha. As linhas de expressão do seu rosto ficaram ainda mais evidentes quando ele estreitou os olhos. — É bem provável que os caras realmente estejam fazendo uma espécie de negócio com ele. Como você descobriu tudo isso? — Eu andei arrancando algumas informações de uns dos que costumavam ser fornecedores de Hammer. Os caras não ficaram muito felizes ao descobrir NACIONAIS-ACHERON


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que os Lions estão explorando novos horizontes e deixaram escapar isso. Shade cruzou os braços, o rosto carrancudo. — Você foi fazer tudo isso sozinho? — perguntou. — O que diabos deu em você, Héctor? — Sim, eu fui sozinho — eu disse. — Eu não estou mais querendo esperar, Shade. Jazmine está em perigo. Todo o clube está. Além do mais, existe esse traidor. Eu preciso dar um fim em tudo isso de uma vez por todas. Ele suspirou. — Se acalme — disse. — Agir por impulso não vai resolver as coisas. Você sabe que os Lions são vermes traiçoeiros e eles irão tentar partir para cima de você. Se estiver sozinho, as chances de se safar serão quase nulas. — Shade tem razão — Josh disse. — Nós precisamos ir com calma, mas isso também não quer dizer que não podemos molhar o negócio dos filhos da puta. Eu vou ver o que podemos fazer para que possamos descobrir mais sobre essas armas e esse contato russo. — Ele sorriu. — Vai ficar tudo bem com a sua garota, filho. Eu balancei a cabeça. — Valeu — eu disse. — Bom, voltem para fora. Eu vou permanecer aqui e tentar relaxar um pouco. Eu sinto que minha cabeça vai explodir a qualquer momento. — Claro. — Shade concordou, dando tapinhas encorajadores no meu ombro. — Se precisar de alguma coisa, estaremos lá embaixo — Josh disse. — Obrigado. Esperei que eles saíssem para trancar a porta. NACIONAIS-ACHERON


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Eu queria apenas ligar para Jazmine e mantê-la a par das atualizações.

Eu estava dobrando a última peça de roupa que havia posto para lavar naquele dia quando ouvi batidas na porta da sala. Indo até lá e olhando pelo olho mágico, fiquei aliviada ao constatar que se tratava de Bethan. Desde que Héctor havia me contado sobre suas desconfianças e as pesquisas que fizera, eu fiquei ainda mais alarmada. Saber que uma dupla de possíveis sequestradores havia tentado me atacar era uma coisa, mas saber que eu possivelmente era alvo de um criminoso russo, e de um clube de motoqueiros, foi ainda pior. — Ei... espero que você não tenha jantado ainda — disse minha amiga quando entrou. Era fim de semana e nós havíamos tirado folga naquele dia. Bethan sugeriu que saíssemos para beber ou comemorar em algum lugar mais “badalado”, mas fui firme ao recusar a proposta. No fim das contas, ela também acabou decidindo por ficar em casa. — Estou faminta — falei. — O que temos aqui? Bethan sorriu quando me entregou a travessa com algo que logo percebi ser lasanha. Ela também trazia uma garrafa de vinho tinto. — Uau, isso cheira bem. Foi você quem fez? — Claro que não. — Ela riu. — Eu vivo de macarrão instantâneo e panquecas. Jamais conseguiria fazer algo tão bom quanto isso. Comprei em um restaurante aqui perto. Achei que seria perfeito para a nossa noite de garotas. — Ela torceu o lábio. — Bem, garotas solitárias, já que você se NACIONAIS-ACHERON


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recusou a sair para algum lugar fora desse prédio. Ignorei sua ironia e fui para a cozinha, colocando a travessa sobre o balcão. — Não seja uma chata, Bethan Bee — eu disse, enfatizando de propósito o seu segundo nome. Bethan gemeu. — Oh, meu Deus, não faça isso! Não me chame assim! Eu ri. Eu havia acidentalmente visto em sua habilitação, na última vez em que ela me deu uma carona, que seu segundo nome era “Abelha”. Ela me disse que odiava aquela parte do seu nome, apesar de eu ter achado fofo, e acabei aderindo ao apelido em alguns momentos apenas para provocá-la. — Certo, me desculpe — eu falei. — Mas voltando ao assunto: eu tenho uma TV nova e assinatura na Netflix, o que significa que nós teremos momentos muito mais interessantes vendo Chris Evans em Capitão América e comendo lasanha acompanhada de vinho tinto. Ela suspirou dramaticamente. — Bem, eu acho que você me convenceu. — Sorriu, se jogando no sofá e esfregando o pé sobre o corpo de Boo quando ele ergueu a cabeça em sua posição no chão. — Chris Evans soa bem.

Já se passava das 23h00min. quando Bethan decidiu que era hora de ir embora. Ela acabou ficando mais tempo que o imaginado quando desistimos de ver Capitão América e fizemos uma maratona de Orange Is The New Black. Devoramos toda a lasanha e — essa parte, deixo claro que foi Bethan NACIONAIS-ACHERON


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a principal responsável — a garrafa de vinho. Ofereci para que ela passasse a noite na minha casa, mas ela recusou. Como morava apenas um andar acima do meu, em questão de minutos estaria em seu próprio apartamento. Depois de me despedir de Bethan e trancar a porta, desliguei a TV, sentindome relaxada e sonolenta. O vinho havia sido bom para mim, de certo modo. Percebi que era muito mais legal beber sem precisar encher a cara. Lavei a louça que havíamos sujado e prendi o meu cabelo em um rabo de cavalo, bocejando pela terceira vez em menos de quinze minutos. Antes que eu pudesse entrar no quarto para escovar meus dentes e vestir o pijama, houve uma batida na porta novamente, o que me fez paralisar. Bethan havia esquecido a travessa no meu apartamento, e eu planejei entregála no dia seguinte, mas era bem provável que ela houvesse descido para buscar. Então, sem pensar duas vezes, caminhei em direção à porta e abri; todavia, congelei com o que me deparei ali. Kane e Reed, parados no corredor, me encaravam com uma expressão séria. Eles usavam couro preto, e tinham toda aquela pose presunçosa que eu costumava ver em Héctor. Para falar a verdade, todos aqueles caras pareciam querer ser quem seu líder era. No entanto, muito diferente do que Héctor me causava, aqueles caras me faziam sentir totalmente nervosa. E não era de um jeito bom. — O que vocês fazem aqui? — perguntei. Reed abriu um sorriso de lado, sua expressão permanecendo sombria. — Isso são modos de se receber uma visita? — Convenhamos que está meio tarde para se visitar alguém, não? — rebati. NACIONAIS-ACHERON


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Algo dentro de mim dizia que a presença daquela dupla ali não era simplesmente para conversar. Ambos estavam muito estranhos, e o fato de estarem, aparentemente, sozinhos reforçava ainda mais as minhas desconfianças. — Você já deveria ter percebido que nós não fazemos as coisas do jeito comum, querida — Kane disse. — Você está sozinha? — Não. A minha amiga está aqui comigo. Kane pareceu perceber a minha mentira, pois riu. — Ela é a garota que saiu daqui agora há pouco? Bem, acho que ela acabou te abandonando e você não percebeu. No momento em que ele levou as mãos aos quadris — tentando sem muito sucesso aparentar casual quando ergueu a camisa e me mostrou uma pistola — eu tremi. Eu precisava de tempo para pensar no que fazer. Talvez se eu gritasse, os vizinhos viessem ao meu socorro? — Onde estão Shade e Knife? — perguntei, preparando-me para deixá-los distraídos antes que chegasse o momento de bater a porta e procurar por ajuda. — Eles não vieram conosco — Kane deu um passo à frente, e foi ali que comprovei que aquela merda estava terrivelmente errada. Seja lá o que fosse, a intenção não era nada boa. — Uh, certo. — Forcei um sorriso nervoso e fiz um pequeno recuo, inalando profundamente em pura tensão. Em seguida, empurrei a porta com toda a força, mas antes que eu a fechasse NACIONAIS-ACHERON


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na cara deles, duas montanhas de músculos exerceram seu peso sobre a porta, forçando-me a abri-la. Fui empurrada, me desequilibrei e quase caí no chão. Eles entraram no meu apartamento sem cerimônia alguma. Boo, que descansava no sofá, ergueu a cabeça e eriçou as orelhas imediatamente, aparentemente tão incomodado quanto eu. — Ei, Boobs. Como vai, garoto? — Reed disse se inclinando para acariciar Boo. Meu cachorro desviou de seu toque e saiu da sala, direto para o quarto. — Não toque nele — falei. — E eu não acho que tenha os convidado a entrar, portanto deem o fora! Reed virou a cabeça, sorrindo ao me encarar. — Poxa, Jazmine, é dessa forma que você trata sua mais nova família? — ironizou. — Eu achei que você fosse menos ingrata. Balancei a cabeça, ignorando a provocação e tentei argumentar: — Não se trata disso, Reed. Estou cansada e vocês parecem um pouco... alterados. Não acho que seja uma boa ideia conversarmos agora. Vão embora antes que façam algo de que se arrependam depois. — Eu só vou embora quando me der na telha — seu tom de voz causou algo totalmente aterrorizante em mim. Pressionei os lábios juntos, tentando me lembrar onde eu havia colocado o meu celular, mas eu não me lembrava e aquilo me deixou muito irritada comigo mesma. Não era o melhor momento para ser desatenta. — Portanto, eu gostaria que nos tratasse como devemos ser tratados. Não como lixo. — É isso aí — Kane concordou. — Já estamos cansados disso. Todos estão nos tratando como se fôssemos merda. Aposto que você não agiria assim caso NACIONAIS-ACHERON


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estivesse diante dos deuses dos Renegade Souls, não é? — Ele riu. — Até mesmo Poppy, a puta oficial de Knife, foi expulsa do clube por sua causa. Grande poder, essa sua boceta tem. Qual é o seu negócio? — Com toda certeza ela deve foder bem — Reed emendou, debochado. Meu estômago se embrulhou, a raiva me consumindo. Eu ainda estava com muito medo, mas a irritação venceu aquela disputa. — Vocês são uns imbecis — minha voz saiu trêmula. Reed deu um passo à frente, e então rosnou: — Nós vamos te mostrar os imbecis! Eu não tive tempo de me esquivar, quando eles vieram para cima de mim e me atacaram. Kane segurou meus braços para cima, enquanto Reed me empurrava em direção ao sofá. Acabei caindo desajeitadamente no estofado, chutando e me contorcendo, mas Reed se pressionou contra mim, seu peso praticamente me esmagando. — Ouça bem, vadia, nós não estamos nada felizes com toda essa merda — Reed disse. Seu hálito denunciava que ele havia bebido naquela noite, apenas comprovando o que eu imaginava. — Do que diabos você está falando? Me soltem! — Não estamos brincando — ele voltou a divagar. — Você acha que pode jogar com a gente, hein? Knife e Shade podem até mesmo confiar em você, mas nós não iremos nos deixar levar por conta de uma boceta doce! — Me solte agora ou eu vou... — Me calei quando uma mão bateu contra a minha boca. NACIONAIS-ACHERON


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Ele me empurrou ainda mais contra o sofá, ficando entre minhas pernas. Tentei lutar contra ele, mas eu estava incapaz de vencer aquela luta. — Você vai o quê? — Seus olhos injetados fixaram-se em minha direção. — Nós estamos seriamente furiosos, então seria bom que você não nos irritasse. Respirei fundo, tentando não chorar na frente dele. Por que estavam atacando justamente a mim? Achei que eles gostassem de mim, e eu achei que eles também gostassem de Héctor. — Só vou dizer isso uma vez, e quero que você escute bem — Kane falou agora. Ele estava acima da minha cabeça, ainda segurando meus braços. Doía muito sempre que eu tentava me soltar, suas unhas praticamente cravando na minha pele. — Knife está se transformando em um pau no cu desde que você apareceu, e isso está nos irritando pra caralho. Fique longe dele e dos Renegade Souls, ou nós não responderemos pelos nossos atos. Você ouviu bem? Eu não respondi. Em vez disso, mordi a mão de Reed. Ele se afastou imediatamente. — Sua puta! — rugiu. — Ela me mordeu. Essa cadela me mordeu! Ele avançou para cima de mim e, por reflexo, me encolhi. No entanto, Kane se afastou de mim para o impedir. — Já chega — disse. — Era apenas um susto, como a gente combinou. — Ele me olhou. — Eu acho que nós conseguimos lhe dar o recado. Certo, Jazmine? — Vão se foder! — gritei. A raiva me consumia e enrouquecia minha garganta. — Deem o fora, os dois! Engoli as lágrimas que ameaçaram subir. Eu estava com raiva e impotente. NACIONAIS-ACHERON


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Eles eram dois homens enormes e eu não seria estúpida de tentar partir para cima de algum deles. Reed deu uma risadinha enquanto me encarava com o que imaginei ser diversão. Como se a sua agressão de segundos atrás não passasse de uma brincadeira de criança. Kane, no entanto, permaneceu sério. Ele estava ali com um propósito, que era me assustar, e sabia que havia conseguido o resultado desejado. Dando-me uma última olhada, eles se viraram. Após eles terem deixado o apartamento, corri até a porta e a tranquei. Meu coração ainda batia freneticamente. Senti uma mistura de alívio, medo e raiva. Cavei em todos os lugares até encontrar o meu celular e disquei o número de Héctor, apenas para ser recebida pela mensagem da secretária eletrônica. Atirando o celular no sofá, me recostei contra a parede ao lado da porta. Deslizei até o chão e finalmente permiti que as lágrimas descessem por meu rosto. Enquanto soluçava, eu me perguntava por que diabos eles haviam decidido vir justamente para cima de mim. E onde Héctor estava quando eu mais precisava dele?

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15: Quebra-Cabeça

Ao acordar naquela manhã de domingo, senti como se um caminhão houvesse passado por cima de mim. Minha noite havia sido péssima e, mesmo desligando o celular para evitar qualquer tipo de interrupção, mal preguei o olho. Pensei em Jazmine, Hunter, em Hammer e Mikhail. Pensei na minha mãe e a forma em como ela se afundava cada vez mais em sua dor e eu não conseguia estar presente o suficiente para ajudá-la. Pensei no clube, na forma como eu havia dado tudo de mim por aquela irmandade, apenas para receber punhaladas em troca. Eu estava um lixo. Meus olhos inchados, a cabeça pesando e meu cérebro atormentado. Após me levantar e tomar um banho frio, sentime ao menos fisicamente aliviado. Me olhei no espelho, ainda com a toalha enrolada ao redor dos meus quadris e inspecionei minha aparência abatida. Olheiras emolduravam a borda dos meus olhos, minha barba de três dias já apontava alguns fios curtos, e o meu cabelo molhado precisava de um corte. Geralmente eu deixava ele alcançar a altura dos ombros e aparava para evitar que ficasse muito comprido. Pensei em cortá-los totalmente, mas logo imaginei a forma como Jazmine sempre gostava de tocá-los, seus dedos pequenos acariciando meus fios como se apenas o seu toque fosse capaz de aniquilar os demônios internos que me atribulavam, e somente aquele pensamento foi o suficiente para descartar a ideia. Voltando para o quarto, liguei meu celular, percebendo que havia uma NACIONAIS-ACHERON


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ligação perdida de Jazmine. Ela não deixou mensagem na secretária eletrônica, muito menos ligou uma segunda vez. Abrindo a aba de discagem, digitei o seu número e imediatamente liguei de volta. Ela não atendeu. Logo a apreensão me atingiu. Jazmine não era o tipo de garota que desligava o celular, muito menos não atendia minhas ligações. Pensei no fato de que talvez ela estivesse chateada sobre eu não a ter atendido e decidiu dar o troco, mas aquele tipo de atitude não combinava em nada com ela. Liguei mais três vezes, porém em todas as tentativas caiu na caixa de mensagem. Naquele mesmo dia, fui na casa de Jazmine. Fiquei em sua porta por, pelo menos, uma hora, mas não fui atendido. Na segunda-feira à noite, fui no Dark Horse atrás dela e Sandra me informou que ela não foi trabalhar. O mesmo aconteceu quando interroguei Bethan e ela apenas me comunicou que havia visto Jazmine pela manhã, que ela estava bem, mas não sabia muitos detalhes. Bethan mentiu para mim, percebi. Eu poderia muito bem tentar arrancar a verdade dela com algumas ameaças, mas não estava no clima de me portar como um criminoso. A frustração — e um pouco de ego ferido por estar sendo ignorado — levaram a melhor. Na manhã de terça-feira, acordei ainda pior do que nos dois dias anteriores. Minha cabeça doía, eu havia tido uma breve discussão com um dos caras na noite passada e o meu humor estava uma merda bem fodida. Para completar, era aniversário de Jazmine e as coisas entre nós não estavam muito favoráveis para que comemorássemos a data. Na verdade, eu nem mesmo sabia se ela planejava comemorar comigo, mas eu não era o tipo de cara que se ignora ou se descarta. Se ela queria terminar seja lá o que fosse que havíamos começado, teria que fazer isso pessoalmente. NACIONAIS-ACHERON


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Decidi que naquele dia eu procuraria por Jazmine uma outra vez. No seu apartamento, já que se eu aparecesse no bar era bem provável que ela usasse a desculpa do trabalho para não me atender. Vestime rapidamente, mas parei ao ouvir batidas na porta da sala. Caminhei até lá e abri, surpreendendo-me quando me deparei com a minha mãe. Fazia apenas algumas semanas desde a última vez que nos vimos, mas era como se houvesse passado muito mais tempo. — Ma? — murmurei. — Eu não sabia que você viria. — Eu também não sabia que teria que vir. — Ela sorriu de um jeito terno. — Não vai me convidar para entrar? Consciente de que eu não podia deixá-la naquele corredor, abri espaço para que ela passasse. Foram poucas as vezes que Susan esteve ali, e pude perceber o seu olhar minucioso sobre o meu lugar. — Esse apartamento é um pouco... solitário demais para você, não acha? — Ela encolheu os ombros, virando-se em minha direção. — Desculpe dizer isso. Sei que você é um homem crescido e não mais um adolescente... — Você não tem que se desculpar por isso. — Me aproximei dela e fiz algo que nunca havia feito de espontânea vontade antes: a abracei. Quando me afastei, vi que Susan parecia surpresa com o meu gesto. — Como você está? — Estou... bem, na medida do possível — respondeu. — E você? Está se alimentando direito? — Estou legal. — Oh, eu vejo. — Ela sacudiu a cabeça, aproximando-se para tocar abaixo dos meus olhos. — Não minta para mim, você parece como uma merda total. Veja só essas olheiras, não está dormindo? NACIONAIS-ACHERON


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— Muito obrigado por isso — ironizei, desviando do seu toque. — E, sim, estou bem. Ela rolou os olhos, ainda não comprando a minha resposta de esquiva, mas finalmente sorriu. — Eu vou até a sua cozinha preparar algo para bebermos enquanto conversamos. Anuindo, segui a minha mãe até a cozinha e me sentei diante da mesa comprida, observando-a abrir os armários em busca de mantimentos. — Você tem pacotes de chá por aqui? — Terceira porta — indiquei, cruzando os dedos sobre a mesa. — O que houve com o café? — A cafeína não estava colaborando em nada para a minha saúde — disse. — E alguns dias atrás teve esse cara... um colega de trabalho. — Ela não olhava para mim enquanto falava, ainda lidando com o chá. — Ele me indicou alguns chás que eu poderia tomar, a fim de me sentir melhor. Decidi considerar sua dica, acabou resolvendo desde então. — Colega de trabalho? — Arqueei uma sobrancelha. — Você está escondendo alguma coisa de mim? — Claro que não! — respondeu, aparentemente irritada com meu questionamento. — Como você pode imaginar que eu me interessaria por um cara, meses depois de o seu pai ter falecido? Eu sabia que a minha mãe estava sendo sincera. Mas por mais que a ideia de Hunter ser substituído me deixava incomodado como o inferno, eu preferiria que ela seguisse em frente, se isso fosse deixá-la feliz. — Certo, me desculpe. NACIONAIS-ACHERON


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Ela não replicou, ainda concentrada em sua tarefa de preparar as bebidas. E foi então que um pensamento me ocorreu. Fazendo uma pausa, inspirei longamente, ciente de que que ainda era muito doloroso tocar no assunto, mas eu precisava saber: — Ma, eu preciso te perguntar uma coisa. Ela se virou para me encarar. — O quê, querido? — Na época em que pop ainda estava vivo... você presenciou algo relacionado ao clube que pudesse ser considerado uma atitude suspeita? Parecendo surpresa com a minha pergunta, Susan enrijeceu o corpo imediatamente. — Bem, não tenho muito o que dizer sobre isso — respondeu. — Eu era old lady, não um membro. Você sabe como as informações que recebemos a respeito do clube são limitadas. — Sim, eu sei. No entanto, você era a old lady de Hunter, o cara que beijava o chão por onde você passava. Sei que ele não te contava tudo, mas você tinha muitos privilégios em comparação às demais mulheres. Eu só queria entender tudo o que está acontecendo. Você não sabe de nada que tenha acontecido no passado, ou semanas antes de Hunter morrer, que possa ser considerado estranho? Ela parou por um breve momento, apoiando ambas as mãos sobre o balcão da pia. Sua cabeça baixou-se por alguns segundos antes que ela se virasse para mim e suspirasse. — Seu pai estava muito ansioso com algo — finalmente me respondeu. — Eu não sabia exatamente o que era, mas ele dava a entender que esse seria o NACIONAIS-ACHERON


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fim da guerra entre as duas gangues. No começo eu achava que fosse algum tipo de brincadeira, mas com o tempo ele foi ficando mais confiante. Depois... aconteceu o que aconteceu e eu não consegui pensar em mais nada. Suspirei, sabendo que aquilo era só uma comprovação de que Hunter realmente esteve fazendo algum tipo de contato sigiloso com Hammer antes de morrer. Mas por que o meu pai mentiria para nós, caso o negócio de ambos fosse para beneficiar o clube? Só havia uma resposta: Hunter estava indo contra todas as nossas regras e planejou se aliar aos Lions. Era uma merda confusa do caralho, já que Hammer foi expulso do clube justamente por fazer aquele tipo de coisa, mas não podia ser descartada. — Você acha que Hunter se venderia? Susan soltou mais um suspiro angustiado. Percebi a tristeza estampando seus olhos escuros quando me encarou. Então, finalmente disse: — Hugh era um ótimo marido e pai, Héctor. — Baixou o olhar. — Mas ele era humano, e um fora da lei. Às vezes certas atitudes precisam ser tomadas, mesmo que acarretam em consequências as quais não estamos preparados para enfrentar. — Mentir e trair são escolhas — eu disse. — E as consequências disso são muito óbvias para que alguém faça isso sem esperar uma retaliação à altura, não acha? Atitudes como essas são consideradas covardia, e no nosso mundo geralmente são pagas com sangue. — Não é bem assim, Héctor... — Não é bem assim? — rosnei. — Então me diga, como é? Ela apertou os olhos firmemente. Em seguida, liberou um exalar pesado. NACIONAIS-ACHERON


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— Era por isso que Hunter tinha medo de compartilhar certas coisas com você! — disse, encarando-me. — Você entrou para o clube, jurou fidelidade, mas sempre teve essa coisa dentro de você... esse espírito de justiça. Não importa quanta atrocidade consiga fazer, você ainda será bom demais para tudo isso. — E isso é errado? — retruquei, tentando saber aonde ela queria chegar com tudo aquilo. — Foi assim que eu cresci, ma. Hunter me moldou assim. Cresci ouvindo que Hammer era um traidor, e que eu não deveria ser como ele. Como diabos você quer que eu aja agora? Ela voltou a fechar os olhos, em seguida seus ombros caíram. Escutamos a chaleira apitar, então ela apagou o fogo e colocou a água em duas canecas de louça, onde já havia, em cada uma, sachês de ervas. Susan mordia o lábio nervosamente. Ela estava escondendo algo de mim, eu sabia. — Você vai mesmo me deixar no escuro a respeito disso? — insisti. Segundos se passaram, os quais eu imaginei que fossem comprovar a decisão de Susan. No entanto, ela me surpreendeu quando resolveu me responder: — Se é isso o que você quer saber, seu pai não era um homem honesto, Héctor. — Se virou para mim, colocando a xícara de chá sobre a mesa e sentando-se diante de mim. — Beba antes que esfrie. — Por que você está dizendo isso? — continuei, ignorando sua sugestão. — Por acaso você sabe o porquê de ele ter se juntado a Hammer e, possivelmente, ter se envolvido com o tráfico de drogas, quando ele foi o primeiro a querer a expulsão de Hammer no momento em que ele traiu seus irmãos? — Nós não sabemos se ele realmente estava se unindo a Hammer para NACIONAIS-ACHERON


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traficar... — Claro que estava, ma — interrompi sua tentativa de defesa. — Não sou idiota. Por mais difícil que seja aceitar tudo isso, nós sabemos o que diabos ele estava planejando. Ela suspirou, então tomou um gole da sua bebida antes de apoiar as mãos sobre o balcão. — É tão... complicado. — Não seria tão complicado se você decidisse compartilhar. Ela voltou a me fitar. Pressionou ambos os lábios, seu rosto ficando pálido de repente. Eu tinha certeza que nada tinha a ver com a temperatura baixa daquele dia. — Hunter não expulsou Hammer dos Renegade Souls somente porque ele estava indo contra as regras — disse. — Na verdade, isso foi apenas uma espécie de bode expiatório para que todo o plano de Hugh desse certo. O motivo mais forte para ele ter afastado Hammer do clube fui eu. O que diabos? — Do que você está falando? — Eu era namorada de Hammer, Héctor. Eu e Hunter nos apaixonamos de uma forma avassaladora, mas você sabe o que acontece quando um irmão rouba a old lady do outro. Sangue é a única maneira de resolver isso. Oh, merda. Esperava, sinceramente, que aquela conversa não desse aonde eu estava imaginando que daria. — Você... você está me dizendo que era old lady de Hammer? O mesmo Hammer que lidera os Fierce Lions? NACIONAIS-ACHERON


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— Eu era sua namorada, mas ele ainda não havia me reivindicado — explicou. — Eu nem mesmo sabia se o clube era algo bom para mim. Eu era uma garota que tinha acabado de sair da faculdade de medicina, tinha um grande futuro pela frente e um namorado bom de cama. — Ela riu sem humor. — Então conheci Hunter, o melhor amigo do meu namorado, e me apaixonei perdidamente por ele. Você pode me chamar de vadia ou o que for, eu realmente não me importo. Os anos que passei com Hunter valeram a pena por todos os xingamentos. Cada palavra que saía dos lábios de Susan, era como uma faca sendo cravada no meu estômago. — Então isso significa que Hunter praticamente armou a expulsão de Hammer do clube? Para que você finalmente pudesse ser reivindicada por ele? — De certa forma, sim — afirmou. — A única coisa que eu sei é que a ideia de implantação de drogas no clube não é recente. Tanto Hunter quanto Hammer estavam lidando com isso em conjunto. Mas então, durante esse meio tempo, Hunter parou para pensar melhor e decidiu que aquela era uma oportunidade de fazer algo maior: finalmente tirar Hammer do nosso caminho. Como o negócio estava sendo mantido em sigilo até então, foi fácil atirar a total culpa para cima de Hammer e fazer com que ele fosse expulso. — E você sabia disso desde o começo? — Consegui captar o ceticismo em meu tom de voz. — Sabia que meu pai era um traidor e mesmo assim ficou com ele? — O amor é o sentimento mais irracional que existe, Héctor — ela disse. — Mas não pense que Hammer é inocente. Eu vivi uns bons meses de merda com ele. Hunter era tão diferente dele... ele me tratava tão bem. NACIONAIS-ACHERON


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— Isso não o absolve de ser um covarde! — praticamente gritei. — Ele mentiu para mim, mentiu para todos nós... isso é... — minha voz falhou. Inalei longamente, sentindo-me muito mais cansado de repente. Eu precisava de ar. Me levantei, começando a sentir minha cabeça doer quando passei as mãos pelos meus cabelos, inspirando e expirando. Meus olhos ardiam, meus pulmões começaram a pesar e minhas pernas não se mantinham quietas, caminhando de um lado para o outro. Que diabos eu havia acabado de ouvir? — Me desculpe se eu transtornei você. Não era minha intenção ter esse tipo de conversa justamente agora... — Desculpe? — repeti a palavra, a ponto de começar a rir histericamente. — Você só pode estar brincando comigo, porra. Susan estremeceu com as minhas palavras duras, mas a decepção era grande o suficiente para que fizesse eu não dar uma merda aos seus sentimentos naquele instante. — Por mais quanto tempo vocês planejavam esconder isso de mim? Hein? — Eu não fiz por mal, Héctor. — O arrependimento em sua voz parecia sincero quando ela finalmente respondeu. — Eu queria tanto te contar, mas Hugh era meu old man, o cara para quem eu devia toda a minha devoção. Talvez você não entenda agora, mas quando você amar alguém a ponto de jogar para o alto a sua própria dignidade por aquela pessoa, você entenderá. — Oh, claro, e isso torna tudo tão mais fácil para todos nós — debochei, suspirando indignado. Eu tinha ciência de que Susan não podia fazer muito naquela situação, e eu estava sendo muito duro com ela, mas não conseguia NACIONAIS-ACHERON


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evitar minha atitude. — Estou me sentindo como um grande idiota. — Não diga isso, filho — choramingou. — Hugh amava você. Ele realmente te amava... — Já chega! — interrompi. — Eu não quero mais falar sobre isso, ma. Me diga o que você veio fazer aqui e me deixe sozinho, por favor. Preciso de um pouco de espaço agora. Seus lábios franziram-se levemente no instante em que ela os apertou firmemente. — Eu... eu vim falar sobre Jazmine. Isso prendeu totalmente a minha atenção. Voltei a fita-la. — Você falou com ela recentemente? — Ontem — assentiu. — Ela acabou dormindo lá em casa. Estava tarde e eu não queria que fosse embora naquele horário. — Hum... — murmurei. — E ela lhe disse alguma coisa? — Não muito — sua voz saiu tensa. Notei o toque de interesse através de suas palavras. — O que está havendo entre vocês, Héctor? — Essa é uma boa pergunta. — Me peguei dando uma risada sem humor. — Nós... somos complicados. Minha mãe apenas sacudiu a cabeça e tomou um gole do seu chá. Se ela havia compreendido o que estava se passando, não deixou explícito. — Ela me parecia muito abatida — falou. — Mas, como eu disse, não quis entrar em detalhes e não a pressionei. Ela estava ali para ter um ombro amigo, alguém que cuidasse dela, e foi o que fiz. Todavia, eu fiquei preocupada. Principalmente depois de vê-la naquele estado... NACIONAIS-ACHERON


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— O que você viu? Susan permaneceu imóvel por um momento, parecendo ponderar se me contava a verdade ou não. Finalmente ela expirou, apertando os dedos ainda tensos ao redor da caneca. — Logo depois de nos recolhermos, não consegui dormir, como acontece na maioria das vezes. Então fui até a cozinha preparar um chá e acabei ouvindo Jazmine chorando no seu quarto. Eu não sei o que aconteceu com ela, mas é algo que a está perturbando. Você não fez nada, não é? — Claro que não — respondi, de repente incerto se eu realmente não havia feito nada. Não me ocorreu em nenhum momento que eu pudesse ter chateado Jazmine, mas talvez eu tenha feito e não tenha percebido? Era a única explicação. Eu não podia mais esperar para saber. — Estou saindo — falei, de repente, deixando Susan atordoada. — O-o quê? O que você vai fazer? — Eu vou atrás dela. Ela se levantou. — Héctor, não faça uma besteira. Jazmine não está bem, e eu aposto que você provavelmente também não está. — Só quero entender, ma — eu disse. — Apenas isso. Peguei meu colete e as chaves da minha moto e, ainda ignorando os pedidos da minha mãe, saí em disparada em direção à casa de Jazmine.

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16: Tempestade

A frieza da manhã nublada foi a primeira coisa que entrou em contato com a minha pele no momento em que afastei as cortinas da janela. Era a primeira vez que eu abria a janela depois de três dias — mais precisamente, desde que fui “visitada” por Reed e Kane, e de quebra ameaçada por eles. Confesso que fiquei com medo de contar a Héctor sobre o que seus amigos me fizeram e que as coisas ficassem piores a partir dali. Eu não sabia se o meu medo maior era de Héctor fazer algo com os dois ou de ele não fazer absolutamente nada. Com isso, acabei decidindo agir como uma covarde, desligando o telefone para evitar que Héctor me ligasse, e não o atendi durante todas as vezes em que ele esteve na minha casa. Você não consegue ter noção do quanto alguém é importante para sua vida, até sentir a falta dela. E era exatamente isso o que estava acontecendo comigo naquele momento. Eu estava com saudade não só da proteção de Héctor, mas eu sentia falta de sua companhia. A última vez que me senti tão sozinha havia sido logo após Héctor ir embora do Texas. Eu não podia contar com o meu pai, já que ele estava longe de ser considerado algo parecido a isso. Parte do seu tempo, Michael estava bebendo, e na outra parte ou ele dormia ou xingava o que encontrava pela frente. Aprendi a viver por mim mesma desde que eu era uma criança, e permita-me dizer que o sentimento é um dos mais sufocantes que se pode existir. Uma corrente de vento gelado bateu contra o meu rosto, e eu permiti que um mísero sorriso surgisse em meus lábios. Meu olhar correu brevemente pela NACIONAIS-ACHERON


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rua mal movimentada devido ao frio, o que era algo um pouco incomum em Scout Lake. As pessoas estavam acostumadas ao sol brilhante e seus dias aquecidos. Eu, particularmente, via algo de bom na chuva e no frio, apesar de isso colaborar para que meu dia ficasse ainda mais triste. Que belo momento para se comemorar seus vinte e um anos, Jazmine. Respirando fundo, decidi que eu iria afogar minhas mágoas no sorvete e Netflix. Talvez Bethan aparecesse à noite para comermos algo, mas eu ainda não estava com ânimo de “curtir a noite”, portanto, eu arranjaria uma desculpa para ficar sozinha. Eu estava prestes a fechar as cortinas, quando vi algo lá embaixo que chamou minha atenção: Uma motocicleta preta e gigante estacionada bem em frente ao meu prédio. Imediatamente minha respiração ficou presa, pois eu sabia que aquilo só podia significar uma coisa: Héctor estava ali perto, muito provavelmente subindo as escadas em direção ao meu apartamento. Droga! Girando em meus calcanhares, corri para o quarto. Eu precisava dar um jeito nos meus cabelos e roupas. Eu estava um trapo, vestida com uma calça legging e uma camiseta comprida, que por sinal pertencia a Héctor. Meu cabelo estava bagunçado em um rabo de cavalo frouxo, e eu parecia que tinha tirado o dia para fazer uma faxina. De repente, o meu look estilo Jazmine depressiva já não era mais tão confortável assim. Só tive tempo de reajustar meu rabo de cavalo e trocar de camiseta quando ouvi as batidas potentes na porta. — Jazmine! — ele chamava do outro lado. — Jazmine! Merda. Merda. Merda. NACIONAIS-ACHERON


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Meu coração deu um salto em meu peito. Era louco como o inferno, mas eu tinha um misto de sentimentos, inclusive felicidade por finalmente poder ouvir a voz dele. — Sei que você está aí dentro — Héctor continuou, ainda mais alto. — Abra a maldita porta, nós precisamos conversar. Eu não tinha mais tempo. Com a força que ele exercia sobre seu punho na madeira, ele arrombaria o meu apartamento a qualquer momento. Respirando fundo, caminhei até a sala e abri a porta. Héctor nem mesmo esperou uma saudação da minha parte quando entrou imediatamente, seus olhos percorrendo pelo local como uma coruja astuta. O que ele estava procurando? Um cara? — O que você faz aqui, Héctor? — perguntei. Héctor bufou com o meu questionamento, seus olhos me encarando furiosamente. — Você está de brincadeira comigo, certo? — disse. — Como me pergunta o que estou fazendo aqui? Você sumiu por dias, Jazmine. Aliás, você vem me ignorando por dias! — Hache... — tentei me explicar, mas palavra alguma saía. Senti o frio na minha barriga, o nervosismo me consumindo. — Eu fiz alguma coisa? — Ao notar minha falta de palavras, ele insistiu. — Foi algo que eu disse ou... sei lá, irritei você? Meu coração sangrou ao ouvir aquelas palavras. Ele realmente estava cogitando ser o culpado pela minha mudança de comportamento? Cristo... — Não, Hache, você não fez nada — eu disse, encarando seus olhos escuros. — Então me diga o que diabos está havendo — ele pediu, segurando meus NACIONAIS-ACHERON


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braços e aproximando-me dele. — Até com a minha mãe você entra em contato, mas não comigo. O que significa tudo isso? Minha resposta foi um gemido de dor. Seus dedos, que estavam ao redor do hematoma no meu braço, afrouxaram-se imediatamente. Héctor se afastou, olhando-me com culpa e confusão. — Desculpe. — Seu olhar ainda estava direcionado à marca de dedos em minha pele. A desconfiança veio poucos segundos depois, rápida e certeira: — Eu não fiz isso em você. Sua afirmação explodiu algo dentro de mim. Todos aqueles sentimentos que até então eu havia reprimido, transbordaram, até que eu me transformasse apenas uma massa trêmula na frente dele, prestes a desabar em lágrimas. Ele levantou uma mão, seu dedo tocou gentilmente minha bochecha molhada. Foi quando percebi que, de fato, estava chorando. — Onde você conseguiu isso? — sua voz estava mais branda agora, no entanto eu ainda podia sentir a tensão furiosa queimando em algum lugar muito próximo. Eu baixei o olhar e passei as mãos sobre os braços. Mais lágrimas derreteram-se em minhas bochechas, pingando do meu queixo até a minha blusa rosa e nada atraente. Não que a minha vestimenta fosse o mais importante agora. Eu desconfiava que na ganância em que ele se encontrava para finalmente descobrir quem havia causado a mancha em meu braço, não se afetaria nem mesmo se eu estivesse nua. — Está frio, você não quer beber nada enquanto a gente... — Não fuja do assunto, Jazmine — me cortou. — Eu te fiz uma pergunta, portanto me responda agora: quem diabos fez isso com você? Inevitavelmente, me encolhi, sentindo meus lábios tremerem enquanto NACIONAIS-ACHERON


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respirava fundo. Então eu finalmente respondi sua pergunta: — Kane. A expressão de Héctor mudou imediatamente. A feição outrora tensa e curiosa, dando lugar a ira. — Que porra você está me dizendo? — ele vociferou. — Quando Kane esteve com você? — Eles vieram até aqui — eu disse. — Alguns dias atrás. Eles... eles estavam estranhos e violentos. Começaram a me acusar de ter mudado você. Eles me ameaçaram e... — Eles vieram até aqui? — Voltou a me interromper. Se eu imaginei que ele não ficaria mais irritado do que já estava, me enganei completamente. Seus olhos praticamente me queimavam agora. — Então houve mais alguém além de Kane? Mordi o lábio, ainda nervosa, mas não neguei. — Reed também veio com ele — respondi. — Eles falaram um monte de coisas desagradáveis. Me seguraram e me intimidaram. Eles disseram... eles disseram para eu me afastar de você ou eu sofreria as consequências. Héctor permaneceu em silêncio enquanto seus olhos transpareciam toda a ira que ele estava sentindo naquele momento. As veias do seu pescoço estavam saltadas, os punhos fechados. Temeria pela minha vida agora caso eu fosse Kane ou Reed. — Ponha um casaco e um par de sapatos confortáveis — quando ele finalmente falou algo, eu estremeci, pois sua voz saiu tão suave que era aterrorizante. — Estarei esperando você lá embaixo. — O você vai fazer? — consegui perguntar. — Eu disse para pôr um casaco e vir comigo — repetiu. — Nós temos um assunto para resolver. NACIONAIS-ACHERON


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Enrolei meus braços ainda mais firmemente ao redor da cintura de Héctor conforme ele pilotava a todo vapor em direção ao complexo do clube. Boa ideia ou não, contar tudo o que havia acontecido no meu apartamento na noite em que os caras apareceram por lá, serviu para despertar um lado de Héctor que dificilmente imaginei ser capaz de presenciar um dia. Bravo não era nem de longe a palavra exata para definir. Héctor estava mortalmente furioso. No entanto, ele estava conseguindo manter seus sentimentos na linha, o que seria perigoso quando ele finalmente decidisse por tudo para fora. Quando Héctor parou a moto, e ambos descemos, o nó no meu estômago ficou ainda mais tenso. Cogitei em tentar fazê-lo mudar de ideia, seja lá quais fossem suas intenções, no entanto não tive tempo nem mesmo de abrir a boca quando ele pegou na minha mão e me puxou até a entrada. Não era dia de festa, mas havia vários homens no bar, como de costume. Héctor digitalizou os presentes e pude ver seus músculos ficando ainda mais rígidos quando avistou Reed recostado contra o balcão. A presença de Kane eu ainda não havia registrado, mas imaginei que ele estivesse por perto. Tudo foi muito rápido: Héctor soltou a minha mão e avançou a passos largos em direção ao balcão. Mal tive tempo de gritar por seu nome quando ele se jogou com toda força para cima de Reed e lhe deu um soco no olho. O silêncio reinou no local. Era como se o mundo houvesse congelado e Reed e Héctor fossem os únicos ali que não haviam ficado inertes. Então, sem dar chances para que Reed fizesse muito, Héctor voltou a rumar em sua direção e começou a desferir socos incessantes em seu rosto. Ele era NACIONAIS-ACHERON


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veloz e forte; Reed, apesar de ser muito maior que eu, não era páreo para Héctor que tinha quase o dobro do seu tamanho. Escutei gritos femininos e percebi que era Tinky, a namorada de Reed, quem os dava. Mais gritos foram escutados, esses provenientes de homens, então finalmente alguém apareceu, apartando uma briga na qual Héctor era o único a bater. Me perguntei se o outro não havia revidado porque não teve tempo suficiente para isso ou ele ainda tinha algum respeito pelo seu líder. Cambaleando para trás, Reed levou a mão até o local onde Héctor mais havia machucado. Seu olhar, além de furioso, era totalmente perplexo. — Que diabos, cara?! — ele rugiu. — Você ficou maluco? — Seu filho da puta miserável — Héctor rosnou, indo para cima dele uma outra vez. Seu punho subiu e desceu mais duas vezes antes que Shade aparecesse e o segurasse pelos braços. — Você gosta de assustar garotas, hein? Você gosta de amedrontar quem é mais frágil que você? Reed estreitou os olhos e seu olhar caiu sobre mim. Vi a raiva incandescer ali e instintivamente recuei um passo. — Cadela — rosnou. — Essa vadia lhe contou tudo, não é? Claro que ela faria. É isso o que ela quer, Knife. Será que você não percebe? Ela quer nos colocar uns contra os outros. Héctor balançou a cabeça, como se não estivesse acreditando na audácia de Reed, e se desvencilhou de Shade, agarrando Reed pela gola da camisa. — Eu não estava blefando quando disse para você medir as suas palavras antes de levantar qualquer acusação para cima de Jazmine. — Ele bateu sua testa contra a de Reed. O outro cambaleou para trás, sendo amparado por alguém. NACIONAIS-ACHERON


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E foi então que avistei Kane. Héctor também pareceu perceber sua presença, pois o que ele fez em seguida, deixou-me completamente sem reação: ele rosnou e, em um rompante, investiu para cima de Kane. Imaginei que ele fosse socar Kane também, mas me surpreendi no momento em que sua mão foi para o pescoço do seu irmão de clube, à medida que com a outra ele já desembainhava sua faca e recostava contra a garganta dele. — Você... — Héctor murmurou gelidamente. — Eu vou matar você. — Hache... — chamei, mas ele não me ouviu. Seus olhos estavam vidrados no rosto de Kane, a fúria ainda lá. Eu conseguia perceber nitidamente isso. — Hache, por favor, não faça uma besteira. A risada de Kane ecoou pelo local. — Vamos lá, Knife, faça o que sua cadela está mandando — ele disse. — Afinal, foi isso o que você se tornou desde que ela apareceu, não é? Um marica obediente. Héctor pressionou ainda mais a faca contra a pele de Kane. — Sempre desconfiei que houvesse algo de errado com você — sua voz saiu afiada. — Sempre contestando minhas ordens, tentando me impedir de partir para cima dos Lions... é você, não é? Kane permaneceu em silêncio, então Héctor foi mais fundo: — Diga! É você o rato? — O que você acha? — o outro desafiou, o sorriso debochado voltando a coroar seu rosto. — Talvez eu seja... você nunca vai saber. Aquilo pareceu ser a gota d’água que transbordou o copo. Soltando uma série de palavrões, Héctor descolou seu corpo do de Kane e chocou seu punho contra o rosto dele. NACIONAIS-ACHERON


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Diferente de Reed, Kane tinha uma estrutura corporal muito semelhante à de Héctor, e ele era muito mais teimoso também, o que foi meio difícil quando o cara resolveu partir para cima do seu prez e, com isso, iniciou uma luta que me deixou ainda mais aflita. Felizmente, Héctor foi rápido ao desviar da maioria dos golpes de Kane e derrubá-lo. Com Kane ainda no chão, ele chutou seu estômago duas vezes. No momento em que seu pé subiu pela terceira vez, Shade voltou a se aproximar, interferindo. — Já chega — escutei-o dizer. — Estou completamente decepcionado com o monte de merda que vocês se tornaram! — Héctor gritou, desvencilhando do toque de seu melhor amigo. — Vocês não merecem as calças que vestem, muito menos a porra do patch costurado em seus coletes! Ninguém disse ou fez nada, exceto Tinky que ainda estava aos prantos ao lado de seu namorado ensanguentado. Imaginei que fosse um pouco arriscado alguém abrir a boca com Héctor naquele estado. Sabia que ele jamais me machucaria, mas nem mesmo eu arriscaria interferir. — Shade! — Héctor chamou, ofegante. Quando Shade apareceu na sua frente, temi pelo que estava por vir. — Cuide desses dois, e garanta que eles jamais tenham a chance de fazer alguma merda contra o clube novamente — ordenou. — Se eu ficar mais tempo aqui, acabarei tirando suas vidas eu mesmo. Shade assentiu, fazendo sinal para que os membros se aproximassem. Depois que os caras seguraram Kane e Reed e os arrastaram para os fundos, Héctor veio até mim e segurou a minha mão. Ele me puxou até o centro do salão, olhando para todos enquanto falava: — Espero que este episódio não se repita — sua voz era extremamente dura e clara. — Estou anunciando NACIONAIS-ACHERON


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Jazmine como minha old lady a partir de agora, e não quero filho da puta nenhum colocando um maldito dedo sobre ela. Se isso acontecer, não importam as circunstâncias, irmãos, não serei piedoso em permitir que saiam daqui vivos. O silêncio reinou ao redor, todos ainda perplexos o suficiente para arriscar dizer alguma coisa. Héctor voltou a me puxar e, dessa vez, percebi que estávamos indo para o lado de fora, onde ele havia estacionado a moto. Ele me ofereceu o capacete. Olhei-o com um misto de medo e preocupação. — Você tem certeza que devemos... — Vou explodir alguma coisa na cabeça daqueles dois miseráveis se continuarmos aqui. Huh... ok. Não discuti enquanto subia na sua moto e me grudava a ele, finalmente tendo certeza que nada de ruim aconteceria comigo enquanto eu o mantivesse por perto.

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17: Pedido

Após alguns minutos pilotando pela estrada vazia, debaixo de uma chuva que começava a se intensificar, Héctor parou a moto em um local que eu nunca havia conhecido antes. A vegetação ao redor do estreito caminho de terra fazia-me imaginar que estivéssemos em algum passeio selvagem, desses que você costuma ver em filmes de suspense. Desci da Triumph e lhe entreguei o capacete. Tive um vislumbre dos nós dos seus dedos feridos e ensanguentados. A testa de Héctor também tinha um galo, adquirido, imagino eu, no momento em que ele batera sua testa contra a de Reed. Preocupação me acometeu, mas não tive tempo de questionar se ele estava bem, pois, segurando em minha mão, Héctor me arrastou com ele. Eu sentia o tapete fofo de folhas secas e terra encharcada por onde pisava. Alguns gravetos arranhavam levemente a minha pele e, apesar do barulho da chuva que agora caía forte, consegui escutar o som de uma cachoeira em algum lugar muito próximo. Estava prestes a questionar a Héctor o que diabos nós estávamos fazendo numa cachoeira em pleno dia de chuva quando avistei, a alguns metros de distância, uma cabana. O teto triangular escondia-se debaixo de galhos de árvores imensas. Uma pequena escada feita de madeira servia de auxílio para que fosse alcançado o piso alto. Ela não parecia uma cabana abandonada, mas, bem, não parecia que alguém morava ali também. NACIONAIS-ACHERON


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— Héctor... — chamei, receosa. — Nós não estamos invadindo algum lugar proibido, não é? Ele não estava com humor para isso, mas imaginei ver uma sugestão de sorriso em seu rosto. — Não — disse. — Esse lugar pertence ao clube, mas quase ninguém vem aqui. Auxiliando-me a subir os degraus escorregadios, ele me levou até a porta de entrada da cabana e pegou um molho de chaves do bolso, escolhendo uma delas e abrindo a porta. O lugar estava mobiliado. Cortinas de cor creme protegiam as janelas. Um jogo de sofás de couro e um tapete felpudo cobria boa parte do centro. Alguns outros móveis básicos estavam ali também, mas o que mais me chamou atenção foi a lareira no centro da parede. O pensamento de me aquecer serviu para me deixar consciente de que tanto o meu cabelo quanto as minhas roupas estavam encharcados. — Tire essas roupas molhadas e pegue alguns lençóis no armário do quarto — ordenou, parecendo ler meus pensamentos. — Darei um jeito de acender a lareira para nos aquecermos. Assenti, tirando meu casaco molhado e esperei que ele me indicasse onde ficava o quarto para que eu fosse até lá. Ao alcançar o pequeno aposento, abri o armário de madeira e retirei uma pilha de cobertores incrivelmente limpos. Quando retornei para a sala, Héctor já havia acabado de acender a lareira e estava sentado sobre o tapete felpudo no centro do cômodo. Sentei-me diante dele, incapaz de tirar meus olhos do seu torso agora nu. Sua camisa estava atirada por ali, e algumas gotículas de água escorriam das pontas dos seus cabelos sobre seu peito, até o local onde o jeans cobria o início dos seus quadris. Minha boca secou imediatamente. Imaginei qual seria NACIONAIS-ACHERON


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a sensação da minha língua se arrastando por cada uma daquelas gotas enquanto eu saciava a minha sede. — Você pode ter um pouco disso mais tarde — Héctor comentou maliciosamente, me deixando vermelha pelo fato de ter sido pega o observando. — Mas, primeiro, venha aqui. Ele enrolou os dedos ao redor dos meus tornozelos e me puxou, estabelecendo minhas pernas em cada lado de seu corpo. Tremi com a sensação das suas mãos geladas sobre a minha pele, sabendo que a temperatura não era o único motivo para que eu me sentisse daquela forma. Sem uma palavra, Héctor segurou minha camiseta pela bainha, puxando o tecido para cima e a retirando do meu corpo. Felizmente, eu estava usando sutiã naquele momento, mas isso nada serviu para evitar que meus mamilos ficassem eriçados imediatamente. A próxima a ser retirada foi a legging. Ele puxou o material pelas minhas pernas e eu permiti. Em seguida, Héctor pegou um dos cobertores que eu havia trazido do quarto e gentilmente o jogou sobre os meus ombros, enrolando-me com ele. Por fim, seu olhar subiu para encontrar o meu, e ambos permanecemos ali, naquela conexão silenciosa, até que finalmente decidi quebrar o silêncio: — Obrigada. — Apertei o cobertor ainda mais ao redor do meu corpo. — Obrigada pelo que você fez por mim hoje. Eu realmente apreciei isso. Ele suspirou, demonstrando o quanto estava cansado. Na verdade, Héctor parecia que não dormia há dias. — Você deveria ter me contado, Jazmine. — Percebi a pitada de desapontamento em sua voz. — Eu tive medo, Hache — falei, encolhendo-me. — Medo de você não NACIONAIS-ACHERON


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acreditar em mim ou... ou acreditar e fazer algo realmente sério. Lembrei-me de sua ordem dada a Shade para “cuidar” de Reed e Kane e fiquei tensa. Eu sabia o que aquele termo significava na língua dos Souls. Eles, muito provavelmente, seriam interrogados, torturados e mortos. Já havia presenciado uma cena daquele nível algum tempo atrás. — Estou seriamente decepcionado ao saber que pensou que eu duvidaria de você em algum momento. — Me desculpe — falei, sentindo uma dor no peito por conta de suas palavras. — Mas eu vejo o quanto você se orgulha do clube e de tudo relacionado a ele. Ainda posso ser leiga em relação à toda essa coisa, mas sei que as suas cores e suas motos sempre vêm em primeiro lugar na vida de um motoqueiro — baixei o tom de voz. — Apenas achei que, em algum momento, eles seriam mais importantes que eu. Ele suspirou uma outra vez e puxou a minha mão. A chuva caía ainda mais fortemente lá fora, as pancadas abafando o barulho do meu coração acelerado. — Confesso que antes de você reaparecer, existia apenas três coisas importante para mim: as cores do meu clube, minha família e minha moto. — Ele sorriu. — Mas depois de você, existem quatro coisas mais importantes para mim, Jazmine, e você é uma delas. Não me pergunte qual vence essa disputa porque seria uma crueldade da sua parte, mas eu quero que você saiba que cara nenhum, sendo um Soul ou não, encosta um dedo em você. Se for para matar um dos meus irmãos pelo fato de ele te machucar, irei matar sem pensar duas vezes. Fui claro? Balancei a cabeça, sentindo meus lábios tremerem e meus olhos arderem com lágrimas não derramadas. Ele estava dizendo, do jeito dele, que eu ficava em primeiro lugar. NACIONAIS-ACHERON


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— Hache, eu t... — Antes que eu pudesse finalizar minha frase, ele avançou e colou seus lábios nos meus, me beijando tão profundamente que imaginei ter ficado tonta. — Não diga, a menos que você tenha certeza — murmurou. — Mas eu t... — Ele me beijou de novo, o que me irritou um pouco, mas eu não estava disposta a reclamar. Não enquanto sua língua estivesse penetrando a minha boca. Quando finalmente nos afastamos, eu estava ofegante e sentindo-me completamente aquecida. — Você deve estar com fome — falou. — Fique aqui, vou pegar algo na cozinha. Ele se levantou, sem mais uma palavra, e saiu pela porta que dava acesso à cozinha. Minutos depois, reapareceu com um saco de marshmallows, uma garrafa térmica e duas canecas vazias. Eu prendi uma risada. — Uma cabana deserta com mobília limpa e comida? — falei, tentando soar desconfiada. Ele sorriu para mim, seus olhos brilhando com diversão. Pelo visto o momento tenso pelo qual passamos horas atrás havia sido deixado de lado. — Alguns caras vêm aqui a cada quinze dias para fazer a limpeza e reabastecer a despensa. É mais prático ao darmos festa, não precisamos carregar um monte de coisas. Oh, certo. Aquilo também explicava os lençóis limpos. Ele me estendeu o pacote de marshmallows e, após despejar um pouco do líquido escuro em uma das canecas, me entregou a que tinha uma maior quantidade. NACIONAIS-ACHERON


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Agradeci, segurando o recipiente com ambas as mãos e aproximando-o do meu nariz para sentir o aroma doce do chocolate quente. Aquilo era relaxante. — Eu não tenho um bolo para que possamos comemorar — Héctor disse. — Mas feliz aniversário. Olhei fixamente para ele, observando seu sorriso bonito, os olhos intensos e a leve barba cobrindo parte do rosto. Mesmo com as cicatrizes que adquiriu ao longo do tempo, ele era incrivelmente bonito. Eu era uma garota tão, tão sortuda. — Obrigada por se lembrar — comentei, não me preocupando em segurar o meu sorriso grande. Ele pigarreou. Se havia duas coisas que eu sabia muito bem sobre Héctor era que um: situações emotivas o deixavam extremamente embaraçado, e dois: ele detestava estar embaraçado com algo. E foi por isso que não me senti ofendida quando ele sorriu maliciosamente de volta, mastigou um dos macios marshmallows e disse: — Eu vou gostar de ser retribuído com boquetes. Rolei os olhos, atirando um doce nele, e então Héctor gargalhou, me puxando para ainda mais perto. Ele me beijou, em seguida escorregou seus lábios para a minha bochecha, plantou beijinhos em meu pescoço, fazendo com que minha pele começasse a se arrepiar e aquecer ao mesmo tempo. Inclinei minha cabeça para o lado no momento em que seus dentes passaram a atacar agradavelmente a minha orelha, então ele esfregou muito suavemente, causando-me cócegas. Não consegui segurar a risada. — Por favor, pare com isso — pedi. Ele se afastou, mas continuou sorrindo. — O quê? Você ainda sente cócegas? — bufou. — Você se tornou uma NACIONAIS-ACHERON


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adulta muito estranha. Rolei os olhos. — Para sua informação, isso não é algo que se supera com o tempo — falei, dando um tapinha em sua mão, que já se aventurava a escorregar para fazer cócegas em minha cintura. — De qualquer forma, você não deveria se envergonhar disso. — Ele voltou a sorrir. — Você fica fofa. Percebi que minhas bochechas estavam ficando vermelhas e me repreendi por aquilo. Não queria que ele me achasse fofa, queria que me achasse sexy. — Ei, você ainda não bebeu o seu chocolate — eu disse, tentando mudar de assunto. — Nós vamos fazer um brinde improvisado, mas primeiro... — Ele mudou de posição e apoiou os braços no tapete, se inclinando um pouco para trás. Oh, e lá estávamos nós novamente, comendo com os olhos o corpo de Héctor. — Quero que faça um pedido. Desviando minha atenção do foco anterior, guiei meu olhar para seu rosto, sendo totalmente pega de surpresa. — Um pedido? — É, você sabe. Eu não tenho uma vela de aniversário aqui, mas vamos fazer diferente agora. Apenas feche os olhos e peça algo que você queira muito que aconteça. Mordisquei meu lábio, sentindo um nervosismo familiar tomar conta do meu corpo. Eu jamais havia comemorado o meu aniversário, exceto no dia em que uma das minhas colegas de escola me comprou um pedaço de torta de maçã quando fiz dezoito anos. Fora isso, eu jamais me permitia seguir a tradição, muito menos a de fazer pedidos. E Héctor estava me proporcionando isso NACIONAIS-ACHERON


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agora. Para outra pessoa podia não ser grande coisa, mas para mim aquele gesto carregava muito significado. Endireitando minha postura, fechei os olhos. — Ok — eu disse, limpando minha garganta. — Bem, eu... eu desejo que você não me abandone nunca mais — pedi. — Eu estou desejando isso porque... bem, porque percebi que eu preciso de você por perto. Não por querer que você me defenda dos caras que me amedrontam, mas descobri que dez anos sem você foi o período mais vazio de toda a minha vida. Ao abrir os olhos, notei que a sala permanecia em silêncio, exceto pelo barulho da chuva do lado de fora. Héctor me observava, sério. Ele soltou uma respiração, um sorriso tímido surgindo. — Você sabe que o pedido era para ser feito apenas em pensamento, certo? — brincou, mas eu percebi que ele estava apenas desconcertado com a situação. Inclinando-se um pouco mais em minha direção, ele tomou minha mão entre as suas e passou a acariciar o dorso dela com o polegar. — Eu sempre fui realmente tão importante para você assim? Balancei a cabeça em afirmativa. — Depois que você foi embora, comecei a me sentir muito mais sozinha — confessei. — Eu sabia que você não gostava muito de mim, e ainda guardava algum rancor por eu ser filha de quem era, mas... eu era uma criança carente. — Acabei sorrindo melancolicamente. — Tudo começou quando fiz catorze anos. Descobri que meu pai ainda escondia algumas de suas coisas no seu antigo quarto, então resgatei umas fotos, pois sabia que ele iria dar um fim em tudo que era seu a qualquer momento. Eu dormia com as suas fotos na cabeceira da minha cama, então parava para pensar nos momentos em que você agiu como um garoto legal. Você tinha um bom coração, e eu sempre NACIONAIS-ACHERON


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senti isso. — Eu sinto muito, Bird. — Ao encarar novamente seus olhos, notei a sinceridade estampada neles. — Já disse que você fez apenas o que qualquer um na mesma situação faria — eu disse. — Eu era apenas uma menina, e você um adolescente. Nós iríamos morrer de fome, caso fugíssemos juntos. Tentei rir para quebrar a tensão, mas Héctor não parecia estar achando o assunto tão engraçado assim. — Você sofreu com ele. Jamais vou me perdoar por isso. — Ele voltou a acariciar a minha mão, dando espaço para um leve sorriso. — Mas se isso te deixa melhor, prometo não fugir mais. Não sem levar você comigo. Acabei sorrindo de volta, tendo certeza que meus olhos brilhavam. Foi o aniversário mais turbulento que alguém poderia ter, mas foi o melhor que já tive. — O que aconteceria conosco, caso tivéssemos virado adultos juntos, Hache? — Nós provavelmente estaríamos fodidos. — Ele riu. — Eu não sei o que faria quando começasse a sentir tesão pela minha própria irmã. Não deixei de rir também. A situação em si não era cômica, mas de uma coisa ele estava certo: seria uma situação bem complicada. — Aquilo que você falou era verdade? — perguntei. — Sobre eu ser sua old lady? — Você quer ser? — Foi uma simples pergunta, que me deixou a ponto de explodir feito um balão de ar. Mordi meu lábio, incapaz de me conter. Droga, ele ainda perguntava se eu queria? Inferno. NACIONAIS-ACHERON


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— Se eu disser que sim, isso significa que serei a sua namorada? Ele avançou e mordeu o meu lábio, cingindo minha cintura com seus braços musculosos. Quando dei por mim, já estava montada sobre seu colo, minhas pernas ao redor dos seus quadris. — Baby, isso significa que você pode ser a porra que quiser. — Ele sorriu. — Contanto que seja minha. Aguardei o momento em que seus lábios tomaram os meus novamente para que eu pudesse liberar a doce expiração que eu havia prendido no momento em que suas mãos começaram a acariciar a pele da minha cintura. A essa altura, meu cobertor já estava esparramado no chão, o meu cabelo já havia se livrado do fino elástico preto e agora caía em ondas macias pelas minhas costas e ombros. Héctor segurou um punhado, apenas para aproximar as nossas bocas unidas, me devorando ao passo que nossos corpos praticamente se fundiam. Passei minhas mãos sobre seu bíceps, peito e costas. Ele era duro e grande onde eu era macia e pequena. Soltei um gemido quando ele desceu a cabeça, arrastando os lábios por todo caminho entre meus seios. Suas mãos espalmaram-se sobre os montes, e então ele apertou firmemente. Me apressei em desabotoar seu cinto e remover a calça jeans de seu corpo. Agora estávamos ambos usando apenas nossas roupas de baixo. Sua cueca mal servindo para esconder a enorme ereção sob ela. Héctor era incrível em todos os aspectos. Lambi meus lábios, praticamente saboreando cada pedacinho do corpo dele, conforme meu olhar deslizava lentamente ao longo de sua pele bonita e quente. Afastei-me alguns centímetros e, para a breve surpresa de Héctor, me inclinei e encostei meus lábios sobre seu peito. Comecei a beijar, da forma que ele fazia comigo e, em seguida, arrisquei-me a espreitar minha língua para fora e NACIONAIS-ACHERON


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então eu finalmente estava lambendo sua pele. Saboreei o seu gosto, descendo minha língua por todo abdome e barriga, até chegar no topo dos seus quadris. Ao olhar para cima, vi que seus olhos estavam famintos sobre mim, intensos e totalmente necessitados. Ele queria aquilo tanto quanto eu, isso era mais que certo. — Quero tentar algo com você — eu disse, ofegante, adiantando-me em acariciar o volume de seu pênis. Héctor sugou o ar entre os dentes, parecendo se agradar com o contato. — Você tem certeza? — Sim, por favor, deixe-me fazer isso — falei, não esperando uma resposta sua para baixar sua cueca e saltar seu pau para fora. Descendo o olhar para observá-lo, pude ver como era grande. A única vez em que havia visto Héctor nu foi na noite em que ele se masturbou em cima de mim. A minha boceta palpitou, chupando o vazio em expectativa enquanto eu relembrava a cena. Queria sentir sua carne rechear a minha boca, saber como era o sabor de seu líquido quando ele finalmente gozasse. Eu queria aquilo desesperadamente. Sem esperar por mais um movimento seu, agi por impulso e abaixei a minha cabeça. Em seguida, lambi a pele macia do seu pau. — Baby, porra... Me afastei imediatamente ao escutar o gemido de Héctor. — Fiz errado? — questionei, começando a me sentir nervosa. Eu não havia feito boquetes ao longo da minha vida, mas já tinha lido e assistido o suficiente para imaginar que não era tão difícil a técnica, certo? — Não, você não fez nada errado. — Ele sorriu, segurando seu pau e NACIONAIS-ACHERON


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começando a acariciar a si mesmo. Porra, aquilo era uma boa visão. — Apenas continue. Eu abaixei a minha cabeça, vendo a forma como ele manuseava seu membro teso, então decidi avançar e tocá-lo eu mesma. Felizmente, Héctor permitiu que eu o envolvesse. Segundos após, ele estava cobrindo minha mão com a sua, mas permitindo que eu permanecesse com os movimentos lentos. — Dói? — perguntei, subindo e descendo minha palma fechada ao longo da carne macia. — Não — respondeu, ainda me guiando. — Você pode aplicar um pouco mais de força. Assim... — Ele jogou a cabeça para trás, gemendo, e assumi o controle. Fiz os movimentos do modo como ele me ensinou, para cima e para baixo, para cima e para baixo... observando o líquido escorrer da ponta do seu pau. Percebi que minha manipulação o agradava, mas o gosto que tive quando me aventurei a saboreá-lo foi muito pouco e eu ainda não estava satisfeita. Então, sem dar espaço para muitas divagações, inclinei a minha cabeça e o abocanhei. Héctor chiou no momento em que comecei a correr meus lábios por instinto ao longo do seu pau, tendo cuidado para não raspar os dentes, pois devia ser um pouco desconfortável para ele se eu o mordesse acidentalmente. — Porra, sim. — Ele apoiou uma mão no tapete. Com a outra, segurou o meu cabelo e me instigou a ir mais fundo. — Tudo isso é seu, baby. Tome todo o meu pau. Suas palavras me estimularam a me empenhar ainda mais. Eu não conseguia tomá-lo todo, mas até onde suportava, eu fazia questão de dar o meu melhor. Depois de algum tempo, consegui registrar o que Héctor mais gostava em um oral. Captei essas informações por meio de seus pequenos grunhidos e NACIONAIS-ACHERON


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inalações, fossem eles representando seu apreço ou deixando claro que eu havia o machucado em algum momento. Portanto, procurei aprofundar no que o agradava e me policiei para não o machucar mais. Chupei e lambi seu pau, perguntando-me internamente onde diabos haviam ido minhas inibições e me mantive naquele ritmo, até o ponto em que percebi que Héctor não aguentaria muito mais tempo. Seus quadris se apertaram, então ele puxou minha cabeça, forçando-me a liberá-lo. Héctor começou a manipular o seu pau, indo rápido, provavelmente prestes a gozar. Me arrastei até ele e parei sua mão, encarando seu rosto ruborizado, onde um pouco de suor escorria das têmporas. Héctor me olhou com confusão. Levei minhas mãos até o fecho do meu sutiã e o abri. A peça deslizou para fora dos meus braços, caindo no tapete macio. Em seguida, segurei o elástico da minha calcinha, me livrando dela. Ele soltou um palavrão ao me observar completamente nua, voltando a se acariciar. — Você é tão quente, Bird — murmurou. — Toque a si mesma. Engoli em seco, realmente cogitando a ideia de me dar um pouco de atenção lá embaixo, mas eu queria mais do que apenas uma sessão de masturbação na sala de uma cabana no meio do nada. Eu estava queimando para ter muito mais, e eu iria até o fim. Sem dizer nada, avancei e o beijei, tentando deixar um pouco mais claro o que eu realmente queria. — Prefiro que você me toque — sentenciei, chupando o lábio dele enquanto minha mão alisava o seu pau ainda duro e quente. Ele era tentador, NACIONAIS-ACHERON


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principalmente se havia um ato sexual envolvido. — Você tem preservativos? Héctor afastou sua cabeça da minha imediatamente. Seus lábios se separaram por um breve momento, deixando explícita sua surpresa; no entanto, ele não hesitou em pegar o seu jeans jogado ali e tirar um pacote de camisinha da carteira. Eu o observei proteger a si mesmo. No instante seguinte, suas mãos vieram para os meus quadris, pondo-me aberta sobre seu colo e apertando o meu peito contra o seu. Ele voltou a me beijar, passando as mãos sobre o meu corpo. Eu estava completamente excitada, mas apenas o contato de sua pele levemente áspera contra a minha me deixou ainda mais febril. — Você sabe como fazer isso, certo? — questionou, começando a mirar a ponta do seu pau na minha entrada. — Uhum... — afirmei, extasiada com a visão dos nossos corpos prestes a se unir. Era óbvio que eu não sabia como fazer aquilo, mas às vezes o sexo necessita apenas de um instinto natural, certo? Héctor segurou a si mesmo com uma mão, enquanto com a outra ele me guiava para que eu o empalasse. A primeira pressão da cabeça me invadindo foi lisa e macia. Em seguida, comecei a sentir uma leve ardência que se intensificou, até o ponto em que parei de respirar. — Merda. — Ele mal havia entrado em mim, e mesmo assim já estava doendo pra caramba. — Você está bem? — questionou, preocupado. — Nós podemos... — Não, tudo bem — eu disse. — Só preciso... de um tempo. NACIONAIS-ACHERON


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Respirei fundo, sentindo a dor ainda presente, mas ok, eu conseguiria. Então eu desci mais um pouco e... Oh, porra! Cadê a perda de virgindade indolor e prazerosa que eu lia nos romances? — Jaz? — Um vinco surgiu em sua testa, à medida que ele me observava com atenção. — Você já fez isso antes? — Não — ofeguei. — Espero que isso não seja problema para você. Por mais que estivesse doendo, eu não queria parar. Eu queria tudo dele. Não havia mais como esperar. Ele fechou os olhos e gemeu. — Porra, baby. Você deveria ter me dito quando perguntei se sabia o que estava fazendo. — Eu não queria que você desistisse — confessei, sentindo-me uma idiota. — Me desculpe. — Não peça desculpas. — Ele sorriu e voltou a me beijar lentamente. Sua boca desceu para o meu peito, ao passo que ele escorregava a mão para baixo e começava a massagear meu clitóris em movimentos lentos e circulares. — Então quer dizer que sou o primeiro mesmo? — Ele raspou os dentes sobre cada um dos meus mamilos. Aquilo, juntamente com sua voz lenta e rouca, foi como um golpe bem no meio das minhas pernas. — Estou muito feliz em saber disso. Segurei seu rosto com ambas as mãos e o puxei para mim, movendo-me para ter nossas bocas unidas, mas parei ao sentir novamente a pontada dolorosa lá embaixo. Percebendo minha careta de dor, Héctor levantou meus quadris e me afastou de si, para o meu desgosto. No entanto, fui recompensada quando ele me NACIONAIS-ACHERON


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empurrou suavemente e me deitou sobre o tapete. Seu corpo veio um segundo depois e cobriu o meu. Afastei as minhas pernas, deixando claro que o seu peso era totalmente bem-vindo. — Não garantirei que isso vai ser totalmente confortável porque seria uma grande mentira — ele murmurou, voltando a guiar-se para a minha entrada enquanto desgrudava o cabelo que havia colado na minha testa. — Mas prometo fazer o possível para que seja bom para você, ok? Assenti, pois confiava nele para isso. Eu sabia que ele jamais me machucaria de uma forma intencional. O que veio em seguida foi seu pau mais uma vez me esticando. Contraí os meus músculos, sentindo a ardência me consumir a ponto de me fazer contorcer. E então, ele avançou em um único impulso, me rompendo de vez. Puta que pariu. — Está tudo bem, relaxe — ele disse. Senti seus músculos também tensos e percebi que cravava as minhas unhas neles. Héctor estava exercendo um controle imenso para não me machucar, e isso me fez ter ainda mais certeza de que ele era o cara certo. Ele começou a beijar minha têmpora, descendo seus lábios sobre minhas bochechas, tomando a minha boca. Suor escorria de sua pele e da minha, nossas línguas se misturavam em movimentos lentos e suaves, enquanto permanecíamos apenas conectados, sem mover nossos quadris. Héctor afastou seu rosto depois de um tempo, ainda me encarando com preocupação. — Você quer parar? Balancei a cabeça veemente, enlaçando seu pescoço com meus braços e o trouxe para perto de mim outra vez. NACIONAIS-ACHERON


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— Por favor, não pare. — E eu estava sendo sincera. Não queria que ele parasse. Parecendo mais aliviado com o meu consentimento, Héctor começou a puxar o seu pau lentamente, em seguida empurrou novamente, em um movimento tão suave que começou a arrancar pequenos suspiros de mim. Sua boca voltou a se arrastar pela minha pele, os lábios e língua trabalhando no topo dos meus seios, meu pescoço e orelha. Sentime relaxar aos poucos, e ele voltou a fazer aquilo de puxar e investir, repetindo e repetindo, sem mudar o ritmo, até que eu já começava a desejar que ele se aventurasse a ir um pouco mais rápido. — Melhor? — ele perguntou, angulando sua pélvis, fazendo-me ter um pequeno gosto da sensação de sua pele roçando o meu clitóris. — Hum... Sim — Mordi o lábio, apreciando a doce picada entre as minhas pernas, sentindo o prazer começando a formigar sobre meu corpo. — Você é incrível, Bird. — Ele voltou a empurrar. — Tão fodidamente incrível. Eu arqueei minhas costas, forçando a fricção de nossos peitos. Escorreguei uma mão para a lateral do seu quadril, cravando as minhas unhas na carne e movendo-me um pouco em sua direção, querendo me fundir completamente nele. — Não se segure, Hache — pedi. — Vá mais rápido. — Você acha que consegue? — Sua voz estava branda, mas eu sentia o desejo queimar por trás dela. Héctor estava me abstendo de muito e, por mais que estivesse feliz por saber que se preocupava comigo, eu não queria que as coisas se limitassem àquilo. Eu estava me entregando completamente para ele e queria tê-lo por completo também. NACIONAIS-ACHERON


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— Sim, tenho certeza — afirmei, voltando a arrastar as minhas unhas pela sua pele. — Por favor, me foda. E então ele soltou um suspiro longo, parecendo até mesmo aliviado quando remexi um pouco mais os meus quadris e o incitei a ir mais fundo. Com isso, ele voltou a beijar a minha boca e bateu seu pau dentro de mim. Eu não seria louca de dizer que não doía, mas também não era mais a sensação quase insuportável que eu senti no começo. Era o tipo de dor que vale a pena sentir. Como quando você cai de bicicleta pela primeira vez ou perde o seu primeiro dente. É como estar finalmente experimentando uma das coisas mais primordiais do mundo, e isso não tem preço. Nada se compara à sensação de estar perdendo a virgindade com o cara que você ama. Sim, eu o amava. Ele me disse para não falar aquilo a menos que eu tivesse certeza, mas eu estava certa daquilo desde que era uma adolescente. A boca de Héctor ainda era faminta contra a minha, seus dentes puxaram o meu lábio inferior, arrancando uma gota de sangue. Senti o sabor ferroso contra a minha língua e passei a acariciar e arranhar suas costas, enquanto ele fodia e fazia amor comigo, tudo ao mesmo tempo. Ele era intenso e dominante em tudo o que fazia. Eu já havia percebido aquilo há muito tempo, todavia, no sexo ele se superava. Se na minha primeira vez nós já estávamos naquele nível, eu não via a hora de quando eu finalmente fosse experiente. Gemi, afundando-me no êxtase magnífico de sua pele contra a minha, seu peso acima de mim e a pressão constante entre as minhas coxas. Fechei os olhos, absorvendo cada som, cada cheiro, cada movimento fantástico... — Abra os olhos — ele ordenou, fazendo-me voltar a mim, ao lugar onde apenas seus comandos já eram capazes de me deixar ainda mais ligada. — NACIONAIS-ACHERON


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Quero que você veja quem está fodendo está boceta incrível. Eu. O seu Hache. Choraminguei, inclinando a minha cabeça quando ele começou a martelar em impulsos lentos, profundos. Não conseguia tirar os olhos da imagem do seu pau sendo puxado e empurrado para dentro de mim, seus quadris se movendo em um ritmo delicioso, à medida que tudo dentro de mim se incandescia. — Merda, isso é tão... — Eu não tinha palavras para descrever a sensação. — Sim, eu sei — murmurou, dando mais um impulso. — Você gosta disso, não é? Você gosta de observar enquanto eu te como lentamente? Sim. Sim. Sim. Mil vezes sim, porra. Seus dedos caíram sobre o feixe de nervos entre as minhas pernas, e então ele começou a ondular seus dedos mágicos, enquanto me fodia daquele jeito lento. Seu nome saiu em um grito silencioso conforme eu suava e me contorcia, sentindo o misto doce da dor e prazer que ele estava me causando. — Isso, Bird, assim... goze para mim. — Seus dedos moveram-se mais rápido, e ele voltou a me beijar, engolindo meus gritos, esfregando seu peito contra o meu. Lá fora um trovão ressoou, mas nada era tão poderoso quanto a névoa sexual na qual eu estava completamente imersa. Ele apoiou sua testa em meu ombro e então bateu mais duro, parando por um momento para dar uma atenção maior ao meu monte sensível de um jeito tão, tão incrível... Aquilo era... Oh. Maldito. Inferno! Várias palavras desconexas eram sopradas para fora dos meus lábios. Esfreguei minhas coxas na lateral de seus quadris, curvando minha coluna e NACIONAIS-ACHERON


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segurando um punhado do material felpudo do tapete enquanto explodia debaixo dele. Levou alguns segundos para que minhas pernas amolecessem ao seu redor, e meus músculos se relaxassem. Héctor segurou uma das minhas pernas e me abriu mais para si, ainda recuando e investindo, aumentando a velocidade. Seu pau batia dentro de mim em impulsos profundos, até mesmo dolorosos, mas eu não desejaria diferente. Queria que ele gozasse enquanto estivesse dentro de mim. Queria ser capaz de fazê-lo desabar. E ele, de fato, desabou. Seu orgasmo veio segundos depois, duradouro e intenso. Seus braços me apertaram, conforme ele ainda dava suas últimas bombeadas dentro de mim. Ainda com nossos corpos juntos, ele rolou de lado no tapete e ficamos abraçados. Nossos corações estavam acelerados, a respiração de Héctor ainda estava rápida, seu peito suado e os lábios inchados. Não resisti e o puxei para um beijo, colando-me o máximo possível contra seu peito. Estremeci quando ele deslizou para fora de mim, em seguida puxou o cobertor e nos cobriu com ele. Ele voltou a me aconchegar. Suspirei, sentindo-me exausta e feliz. — Você está bem? — questionou, roçando seus lábios delicadamente contra a minha têmpora. Sorri, totalmente realizada. Eu podia dizer que era uma mulher feliz e completa agora. — Foi o melhor presente de aniversário que alguém poderia receber — falei. — Isso foi tão incrível. Ele também sorriu, erguendo a mão para acariciar o meu cabelo. Puxei sua NACIONAIS-ACHERON


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mão e beijei a palma antes de entrelaçar os nossos dedos. Ela era grande e quente. — Foi incrível para mim também, Bird — confessou, inclinando-se para distribuir beijos curtos desde a ponta do meu nariz até meus lábios. Era um gesto muito doce, principalmente vindo dele, e me deixou ainda mais contente. Depois de voltar para a posição anterior, Héctor suspirou. Estávamos nus, repletos de fluídos corporais um do outro e havíamos acabado de praticar sexo, mas eu me sentia vibrante. — Posso te fazer uma pergunta? — Ele permaneceu segurando a minha mão, encarando nossos dedos unidos conforme falava. Fiz que sim com a cabeça, então ele continuou: — Por que eu? Fui pega desprevenida, logo percebendo que ele se referia à minha virgindade. Eu poderia bolar um milhão de respostas desde sobre não ter “encontrado o cara certo”, até “nunca tive vontade”, mas a resposta que eu sabia ser a verdadeira estava na ponta da minha língua: — Porque era para ser você — respondi, simplesmente. Clichê ou não, aquela era a realidade. Era para ser ele. Sempre foi ele.

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18: Pandemônio

Felizmente, a chuva já tinha ido embora quando acordamos. Parecia que o sol já havia nascido há algum tempo, de modo que a claridade um pouco mais intensa atravessava as cortinas e janela. Me movi sobre a cama, sentindo um pacote macio e quente enroscado em lençóis sobre mim. Notei o meu pau endurecer com a necessidade de ter minhas mãos passeando sobre ela. Era constrangedor admitir, mas impossível negar. Jazmine mexia com inúmeras partes de mim. Não me refiro somente à minha libido, mas ela fazia com que sensações estranhas me invadissem; como, por exemplo, as potentes e incessantes batidas em meu peito sempre que ela me beijava ou simplesmente chegava perto. Tomando um certo cuidado para não a acordar, me mexi até estar deitado de lado. O corpo de Jazmine estava pressionado contra o meu, enquanto sua respiração quente dançava sobre a pele do meu peito. Ergui uma mão para alisar suas costas suaves, ao passo que eu percebia mal poder sentir meu outro braço já dormente sob ela, mas não me importei. Ter Jazmine aconchegada contra meu corpo já valia o pequeno incômodo. Ontem, logo depois que terminamos, nos limpamos e então eu levei Jazmine comigo até a cama do quarto, onde nos enrolamos confortavelmente e acabamos caindo no sono. Percebi o quão bom era tê-la apegada a mim quando senti sua perna enroscada na minha, ficando ainda mais louco quando me lembrei de que ela estava completamente nua por baixo. Era uma bela visão de se ter logo pela manhã, e se tivesse sorte no processo NACIONAIS-ACHERON


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de convencê-la, eu iria garantir que ela não dormisse com nada por baixo a partir dali. Inclinando-me com cuidado, inspecionei sua expressão. Tirei algumas mechas do grosso cabelo que cobria boa parte do seu rosto e encarei seu semblante tranquilo. Os lábios estavam levemente entreabertos, de modo que ela ressonava suavemente com cada inspiração. Me movi sobre a cama, percebendo que Jazmine fazia o mesmo. Ela estava despertando aos poucos. — Hmm... Hache? — Me atentei ao seu murmúrio sonolento. — Sim, baby? — No instante em que seus olhos se abriram, e a primeira visão que ela teve foi do meu rosto, um sorriso brotou em seus lábios perfeitamente esculpidos. Percebi, naquele momento, que não importavam as circunstâncias, eu lutaria para manter Jazmine perto de mim a qualquer custo. — Alguém já disse o quanto você fica sexy quando acorda? — Essa frase não teria que ser minha? — Não quando eu pensei em dizer primeiro. — Ela sorriu, virando-se de barriga para cima. Estirando o corpo, ela soltou um gemido preguiçoso, parando segundos depois, como se houvesse se lembrado de algo extremamente importante. — Droga, que horas são? — Percebi que só agora ela havia se dado conta de que ainda estávamos na cabana. Dei de ombros. — Provavelmente tarde — eu disse. — Mas não se preocupe com isso. Nós já estamos saindo. Jazmine pareceu ficar tensa. — Nós vamos direto para o complexo? NACIONAIS-ACHERON


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— Sim — respondi. — Algum problema? Ela encolheu os ombros, parecendo pensativa. — Bem, além do fato de que houve uma das piores discussões ontem, justamente por minha causa? Meus pensamentos viajaram até o momento da confusão e no que eu havia descoberto na noite anterior. Aquilo foi o suficiente para que eu voltasse a me enfurecer. — Em primeiro lugar, não foi sua culpa — eu disse. — Aqueles idiotas fizeram sua escolha quando decidiram foder com tudo, então não há porquê atribuírem a você uma culpa que não existe. Ela permaneceu me encarando. Continuei: — E em segundo, você é a old lady do presidente agora, eles precisam aprender a lidar com essa merda. Quem estiver insatisfeito pode tomar o caminho para fora do clube. Realmente não me importo. Jazmine parecia relutante no início, mas finalmente ela decidiu não protestar, levantando-se preguiçosamente da cama, diante da promessa de que eu estapearia sua bunda bonita caso ela me tentasse por mais alguns minutos estando totalmente nua.

Quando chegamos no complexo, percebi que o clima tenso da noite anterior havia se estendido. Estava tudo silencioso por ali, e se não fossem alguns prospectos ou membros escassos ao redor, eu diria que não havia mais ninguém. Era até compreensível aquele clima no ambiente, afinal era bem provável que Reed e Kane estivessem escavando seus caminhos debaixo da terra até o inferno. Traidores ou não, eles haviam feito parte de nós um dia, e NACIONAIS-ACHERON


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não era a coisa mais fácil do mundo lidar com a perda. Puxando Jazmine comigo, subimos as escadas até o meu apartamento. Uma vez dentro da proteção do meu espaço, praticamente suspirei de alívio. O clima estava tenso o suficiente lá embaixo para que eu não fizesse questão de estar ao redor. — As coisas estão meio estranhas por aqui — Jazmine comentou. Assenti e caminhei até o sofá para me sentar. Coloquei a cabeça entre as mãos, respirando profundamente. Percebi sua presença bem perto de mim e dei espaço para que ela se sentasse no meu colo. Suas mãos afagaram a lateral do meu rosto. Senti meu interior se aquietando aos poucos. — Onde você acha que o restante dos caras estão? — questionou. — Provavelmente enchendo a cara sob a proteção de seus casulos — eu disse. — É meio complicado quando algo desse tipo acontece. Jazmine balançou a cabeça, como se indicando que sabia exatamente o que eu queria dizer. Em seguida aproximou seu rosto, esfregando os lábios contra os meus. — Não fique tenso — disse. — Eu não gosto quando você se sente perturbado. Que tal tomarmos um banho e tentar relaxar? Percebi, dada a malícia em seu tom de voz, que suas intenções para “relaxar” iam muito mais além. — Você acabou de perder a virgindade ontem — apontei. — Não está muito dolorida? Jazmine encolheu os ombros, fazendo-me dar conta de que, de fato, ela ainda sentia os efeitos de nossa doce foda do dia anterior. Que minha menina me perdoasse por aquilo, mas eu não hesitaria em repetir caso tivesse a chance. NACIONAIS-ACHERON


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— Um pouco — disse, aproximando-se para me beijar novamente. — Mas eu quero mais... você acha que pode lidar com isso? Sorri maliciosamente, não me negando, em nenhum momento, a dar aquilo que ela tanto queria. — Baby, eu vou fazer você gritar para que esse prédio inteiro te ouça — sussurrei. — E acredite em mim, não vai ser pela dor.

Girei o registro do chuveiro, ainda sentindo o sabor de Jazmine em minha língua. Após eu finalmente decidir lhe dar dois orgasmos com a minha boca, em vez de arriscar machucá-la ao fodê-la da forma que eu realmente queria, finalizamos o nosso banho. Enrolados em nossas toalhas, retornamos para o quarto, onde confesso que tive um pouco de dificuldade de deixar Jazmine se vestir ao notar o quão bem ela ficava nua. Quando já estávamos devidamente cobertos, ela chegou perto de mim, abraçando-me. — Obrigada — disse. — Obrigada por me proporcionar os melhores momentos que já tive na vida. Estou muito feliz. Sorri, sentindo a ternura em sua voz e toque. Mal sabia ela que aquilo que eu estava lhe proporcionando não era nem a metade do que eu gostaria de lhe dar. — Você merece muito mais — eu disse. Em seguida, dei um tapa em seu traseiro, fazendo ela saltar com a surpresa. — Agora mexa essa bunda e vamos em busca de algo para comermos. Estou morrendo de fome. Jazmine sorriu, abraçando a si mesma. Ela usava uma cueca e uma camisa comprida, ambos meus. Nunca havia parecido tão sexy. NACIONAIS-ACHERON


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— Eu também — disse, alisando minha camisa. — Eu realmente gostaria de ver você em seu colete agora; portanto, posso preparar alguma coisa para nós enquanto você termina de se vestir. Aquiesci, sentindo o sorriso crescer. — Tudo o que a minha garota desejar. Após Jazmine ter se virado e saído do quarto, me apressei a ir atrás do meu colete e o pus por cima da camisa. Quando saí para o corredor, parei imediatamente ao escutar barulhos vindos da sala. As vozes estavam alteradas e eu tinha certeza que, muito provavelmente, uma discussão estava se desenrolando ali. Portanto, não pensei duas vezes antes de correr para a sala. Senti meu interior queimar ao me deparar com a cena. — Vocês estão fodendo? — A voz de Rebecca estalou Olhei para Jazmine, calada no meio da sala, e notei o quanto ela estava pálida. — O que está havendo aqui? — Fiz-me presente. Rebecca me encarou com fúria. Pude notar muitos outros sentimentos misturados ali, inclusive ciúme e mágoa. Eu nunca havia entendido o porquê de sua obsessão por mim, uma vez que eu jamais lhe dera esperanças de que pudéssemos ter algo considerado romântico um dia. Nossa relação, pelo menos da minha parte, não passava de responsabilidade e um toque fraternal. — Knife, eu que lhe pergunto! — Rebecca voltou a se manifestar. — Por que ela está aqui, usando suas roupas?! O que diabos está havendo entre vocês? — Não que seja da sua conta, mas Jazmine é minha old lady agora — informei, observando o tom da pele do seu rosto mudar para branco em questão de segundos. — Como diabos você entrou aqui, Rebecca? — Pensei que fosse mentira quando Jenna me disse sobre você tê-la reivindicado — atacou, ignorando minha pergunta. — Então é verdade? NACIONAIS-ACHERON


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Vocês estão juntos? — Sim, nós estamos. — Isso não pode estar acontecendo! — ela gritou. Parecia realmente fora de si. — E o que nós temos? Você vai jogar tudo isso fora por causa... dessa vagabunda dissimulada? — Já chega! — Jazmine gritou. — Não vou admitir você continuar me ofendendo sem motivos sensatos, porra! Por um momento, fiquei sem reação. Eu nunca havia visto Jazmine tão furiosa antes e, por instinto, segurei-a pelo braço, impedindo que as duas resolvessem se atracar ali mesmo. — Rebecca — falei, procurando me controlar ao máximo —, nós nunca tivemos, tampouco teremos alguma coisa. Portanto, eu acho que você deveria ir embora agora, antes que eu realmente me enfureça. — Eu não vou sair! — Oh, porra, você vai. — Jazmine bufou de raiva e se desvencilhou de mim. Em questão de segundos, pude registrar o movimento que ela fez para partir para cima de Rebecca. Me vi caminhando até as duas, a fim de tentar evitar alguma briga, quando um estampido alto, seguido por um grito apavorado, cortou nossos movimentos. Parecia que tudo ao nosso redor havia congelado. Nossas respirações, nossos corpos, até mesmo o vento entrando pelo grande vão da janela estilhaçada. Eu ainda sentia como se a minha alma estivesse prestes a abandonar o meu corpo, mas, felizmente, consegui recuperar minha coordenação motora da melhor maneira possível, procurando focar na gravidade da situação em que nos encontrávamos. Porra! NACIONAIS-ACHERON


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Meu coração estava acelerado, meu cérebro se empenhando no processo de assimilar o perigo, e eu sabia que tinha que fazer alguma coisa a respeito. Todavia, meus olhos só conseguiam focar no corpo feminino caído ao chão. Eu praticamente podia sentir de forma nítida o cheiro da pólvora, do pavor e... sangue. Muito. Muito sangue.

Eu nunca havia tido um ataque de pânico na vida, mas imaginei que estivesse vivenciando isso agora. Suor. Tremores. Olhos arregalados. Entreabri os meus lábios e suguei o ar com toda força que eu conseguia, dando-me conta de que o processo ficava cada vez mais complicado. Em minha posição no chão, apoiada por meus braços bambos, eu observava em silêncio o corpo de Rebecca atirado bem diante de mim. Seu olho esquerdo me encarava fixamente, enquanto o direito estava deformado por conta do buraco de bala alojado em seu crânio. Por pouco, seria eu. Por questão de centímetros, eu estaria morta no lugar dela. Morta. Oh, meu... NACIONAIS-ACHERON


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— Deus! — lamentei, levando a mão à boca. Notei Héctor vir em minha direção, e mais um grito rasgou minha garganta quando outro tiro atravessou a janela, sendo acompanhado por uma verdadeira rajada de balas. O corpo de Héctor caiu sobre o meu, então fui arrastada com ele pelo piso escuro. Eu estava em estado de choque, desnorteada, mas ainda tinha ciência de que se não saíssemos dali, morreríamos os dois. Em um rompante de consciência me movi com ele, auxiliando no processo de nos proteger e tentando segurar os gritos quando cada tiro soava do lado de fora. — Porra, filhos da puta! — Héctor ralhou. Em seguida, ele se virou para mim, ordenando: — Fique no chão. Assenti, ainda sentindo meu coração praticamente saltar pela boca. Assim que Héctor se afastou de mim e correu em direção ao quarto, tive vontade de pedir para que ele retornasse, mas me controlei, sabendo que nos salvar era muito mais relevante do que a minha necessidade de o manter por perto. Lá fora, os disparos permaneciam. Gritaria provinha do andar de baixo e, apesar do barulho aterrorizante, eu ainda conseguia sentir as batidas do meu coração cada vez mais fortes. O desespero deu lugar ao pesar quando voltei a encarar o corpo de Rebecca no chão. Ela não parecia ser muito mais velha que eu. Por mais que tenha sido uma cadela comigo em todas as vezes que nos cruzamos, eu jamais desejaria que algo como aquilo acontecesse. Héctor retornou para a sala, carregando uma mochila preta. Ele agachou-se ao meu lado e tirou de dentro da bolsa duas pistolas. Encolhi-me quando ele me estendeu uma, sem saber ao certo se ao menos teria a capacidade de segurar aquela coisa. NACIONAIS-ACHERON


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— O-o que você está fazendo? — questionei ao tomar a arma de sua mão, apesar de hesitante. — Quero que você fique com ela — me respondeu. — O que? Mas por que? Pra onde você vai? — Comecei a sentir o terror se multiplicar dentro de mim. Onde diabos ele ia, e por que ele queria que eu me protegesse sozinha? Oh, Deus. — Preciso ajudar os caras — ele disse. — Sou o presidente, e é bem provável que não haja muitos membros presentes no clube hoje. Eles precisam de mim. Mesmo temerosa, assenti, sabendo que exigir que Héctor tentasse fugir dali comigo, quando todo o clube estava enfrentando uma possível invasão, seria um grande gesto de egoísmo. Ele apanhou a sua arma e fechou a mochila. — Você sabe como usar isso? Neguei com um aceno de cabeça e, após Héctor me indicar as técnicas básicas de manuseio, nos levantamos e caminhamos até a porta. Ele fez um sinal para que eu me mantivesse atrás dele e abriu a porta um segundo depois. Projetando a cabeça para fora, ele se certificou de que não havia ninguém ali ainda. O corredor estava vazio, mas eu sabia que não se manteria assim por muito tempo. Imaginei que Héctor fosse me conduzir para a escada, no entanto, ele caminhou na direção oposta. Abrindo a última porta no corredor, ele fez um aceno para que eu adentrasse o local. Era apenas um dos inúmeros quartos que os caras utilizavam para dormir ou fins sexuais. Felizmente estava vazio. Virando-se em minha direção, Héctor falou: — Jaz, eu vou descer. Preciso NACIONAIS-ACHERON


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que você colabore comigo. — Fiz um aceno com a cabeça. Ele continuou: — Fique aqui e tranque a porta. Não saia desse quarto por nada, nem abra a porta antes que eu venha para você. — Uma pausa, então ele voltou a falar: — Eu não vou permitir que eles venham para cima, mas caso algo como isso aconteça, quero que você aponte e atire. Faça para matar. Engoli em seco. Matar? Puta merda! — Hache, eu não sei... eu não... por favor, não... — comecei a balbuciar, voltando a sentir minha garganta fechar, minhas pernas amolecerem. Puta que pariu! — Jaz, você consegue. Sei disso — ele disse, olhando dentro dos meus olhos, procurando me transmitir uma confiança que eu estava certa de não ser capaz de absorver. Todavia, não contestei sua palavra. Nós mal sabíamos ao certo o que diabos estava acontecendo, o clube precisava dele. Por ele eu tinha que ser forte agora. — T-tudo bem — concordei. — Por favor, tenha cuidado. — Eu terei. — Segundos se passaram enquanto Héctor apenas me observava. Finalmente, ele pareceu sair do seu torpor, ergueu uma mão e alisou o meu rosto. — E Jaz? — Sim? — Eu te amo. Então, sem me dar chances para raciocinar sobre o que havia sido dito, ele me deu um beijo rápido nos lábios, me instruiu a me trancar e saiu pela porta logo em seguida. Após me trancar no quarto, tirei alguns minutos para acalmar minha respiração e coração acelerado. Finalmente, minha mente voltou para o NACIONAIS-ACHERON


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momento de instantes atrás, quando Héctor dissera que me amava. Deslizei até o chão, descansando minha cabeça entre as mãos e inspirei profundamente. De todos os momentos em que o imaginei dizendo aquilo, aquele era o último. Um estrondo me trouxe de volta à realidade. Voltei a me recordar que meu namorado estava lá fora, desprotegido, lutando com sabe-se lá quem para proteger o clube. O meu lado egoísta desejou que nós nunca tivéssemos decidido ir até o complexo naquele dia. Pelo menos Héctor estaria livre de levar um tiro. Deus, por favor, não deixe que ele se machuque. Me encolhi involuntariamente ao ouvir mais uma rajada de balas soando lá embaixo. Para falar a verdade, àquela altura do campeonato, eu mal conseguia distinguir de onde vinham os tiros. Só queria que toda aquela confusão cessasse, e que mais ninguém saísse ferido. Baques abafados roubaram minha atenção por completo. Segurei a arma com o máximo de firmeza possível, mas tendo dificuldade no ato devido minhas mãos trêmulas. Atirar para matar. Foi a instrução que Héctor me dera. O ponto em questão era se eu realmente teria coragem de matar uma pessoa. Mas, naquela situação, não podia ser levada em conta a minha insegurança. Eu não tinha escolha, teria que estar preparada, e faria se fosse preciso. Sim, merda, eu faria. O barulho ficou mais próximo. Ouvi gritos, socos e mais tiros. Minha respiração ficou presa em algum lugar quando congelei por completo, levantando-me do chão e fazendo o mínimo barulho possível. Uma gota de suor escorreu nas minhas costas quando observei, pela fenda entre a porta e o NACIONAIS-ACHERON


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chão, a sombra do que só podia ser descrito como uma pessoa. Atirar para matar. Atirar para matar. Atirar para... porra! Levantei a arma quando o primeiro baque na porta veio. Atirar para matar. Pressionei mais firmemente ao ouvir o segundo baque. Um relógio imaginário tiquetaqueava incessantemente dentro da minha cabeça, os segundos contando sem parar. A tensão se acumulou, suor tornava minha mão escorregadia. Me apeguei ao pouco que possuía para me manter forte. O relógio cessou quando, com um baque incrivelmente poderoso, a porta se escancarou. Respirei fundo e não pensei duas vezes. Atirar para matar. Eu atirei.

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19: Destruição

A cada movimento que eu fazia, manchas de sangue se exibiam em meu campo de visão. Grunhidos soavam ao redor, o som representando as dores de diversas formas que a balbúrdia de momentos atrás havia ocasionado. Reunido forças, empurrei o corpo pesado de um oponente que obstaculizava meu caminho e cambaleei até estar apoiado contra o concreto do balcão. Suor escorria por todo o meu corpo, misturado ao sangue fétido e pegajoso. Mordi o lábio inferior quando uma onda de dor invadiu a carne rasgada do meu ombro, onde uma bala havia atingido de raspão. O cenário era degradante, como uma pintura representativa de tudo aquilo que caracterizava a destruição. Uma penitência visual, mostrando-me ao que havíamos nos reduzido. O verdadeiro fundo do poço. O limbo. O maldito filme sobre a vida, momentos antes de se conhecer o inferno. Ou nós acabáramos de sair dele? Talvez ainda estivéssemos. Olhei para a o tapete de corpos logo à frente. Por mais incrível que pudesse parecer, naquele momento não senti nada. Literalmente. Até mesmo a dor do meu ombro parecera cessar. Era como se minha alma estivesse se libertando do meu corpo, enquanto a carne podre e pecadora assistia a cena de horror. Amigos, inimigos, irmãos. Homens com quem convivi por dez anos, atirados NACIONAIS-ACHERON


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ao chão como verdadeiros animais após o abate. Ao menos eles morreram com honra. E eu? Morreria honrando o meu patch, caso algo como isso tivesse acontecido comigo? Estava claro para quem quisesse ver que eu sempre fizera de tudo pelo meu clube, mas confesso que algumas das minhas ações poderiam ser consideradas errôneas quando associadas com uma possível intenção de proteger o clube e quem a ele se dedicava. Começando por eu ter sido ingênuo o suficiente para nem sequer desconfiar sobre Hammer e Hunter. Por eu não ter enfiado uma bala no crânio daquele desgraçado a tempo. Eu errei, e eu estava pagando por isso. Respirando fundo, voltei a focar minha atenção ao redor, onde os poucos membros que sobreviveram pareciam estar tendo a mesma merda de reflexão pós adrenalina que eu. Logo que a desconfiança de que os Lions haviam atacado o clube se manteve concreta, lutei com todas as minhas forças para ajudar aqueles homens. Eles foram bons lutadores também, não hesitando em dar tudo de si para proteger o clube. O problema era que estávamos em minoria, alguns ainda abatidos devido ao acontecimento do dia anterior e, sendo realista, os Lions pareciam estar muito mais que reforçados. Tudo realmente destruído. Os Lions vieram com uma verdadeira sede de sangue do caralho. Lamentei por termos sido falhos e deixado alguns poucos membros fugirem. O pior de tudo era que nós estávamos praticamente sem chão, e nem sequer sabíamos quando eles planejariam um outro ataque. Caso fizessem isso no dia seguinte, nós ainda estaríamos completamente despreparados. NACIONAIS-ACHERON


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Lembrei de Jazmine lá em cima. No meio de toda confusão, mal tive tempo para verificá-la, mas eu estava certo de que nenhum Lion havia ido atrás dela. Eu mesmo me certifiquei de que eles não alcançassem os andares superiores. Sem pensar duas vezes, fui até as escadas e subi até o patamar onde eu havia deixado Jazmine trancada. Quando alcancei o corredor e cheguei em frente ao quarto, a primeira visão que tive foi da porta arrombada. Tensão se espalhou por cada parte do meu corpo, a aflição devorando a minha calma como um lobo faminto. Ao adentrar o quarto, deparei-me com manchas de sangue e móveis bagunçados. A zona era grande, deixando claro que havia ocorrido uma luta ali. Mas o que mais me deixou desesperado foi a ausência de Jazmine. Sim, ela não estava ali. Me movi por cada pedaço do quarto, inclusive debaixo da cama e dentro do banheiro, mas não havia sinal algum dela. Levei as mãos à cabeça e praguejei inúmeras vezes, correndo por cada quarto do corredor, abrindo as portas e percebendo que ela não estava em lugar algum. Eles haviam a pegado, porra. Meus passos pareciam estar na velocidade da luz enquanto eu descia descuidadamente as escadas. Quando cheguei novamente lá embaixo, percebi que ninguém havia se movido de seus lugares ainda. — Eles a levaram! Todos olharam para mim com confusão, como se eu houvesse ficado louco. — Do que você está falando? — Shade perguntou. — Os Lions — respondi. — Eles conseguiram levar Jazmine daqui, porra! NACIONAIS-ACHERON


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De repente, a expressão de Shade tornou-se sombria e tensa. — Desgraçados! — vociferou. — Nós temos que ir atrás deles. Mas como faremos isso? A maioria dos irmãos estão mortos agora. — Ainda não sei ao certo — eu disse. — Mas vou tentar entrar em contato com os presidentes dos outros capítulos. Nós precisamos ir atrás destes filhos da puta e tirar a minha mulher de lá. — Eu não sei se é uma boa ideia — outro membro se manifestou. — Nós teríamos que fazer isso o mais rápido possível. Não é segredo para ninguém que, na situação em que nos encontramos, seríamos todos mortos na primeira tentativa. — Vocês podem ficar se quiserem — Shark falou. — Mas eu gosto da Jaz e estou disposto a salvá-la. — Eu também vou — Shade falou, dirigindo-se aos demais: — Não se esqueçam que nós somos uma irmandade. Nenhum de nós hesitaria em fazer isso, caso acontecesse com uma de suas mulheres. — A situação seria diferente se ela não fosse tão problemática — Asher acusou. — Por causa dela, Kane e Reed estão mortos agora! Cerrei meus punhos, prestes a atacá-lo por sua audácia e coragem de falar mal de Jazmine, mas Shade adiantou um passo, ficando frente a frente com ele. — Não, Ash — Shade falou. — Eles estão mortos porque eu matei. Se você tiver algum tesão doentio por traidores, me avise. Nós podemos resolver isso agora. Asher também avançou, praticamente colando seu peito contra o de Shade. Puxei meu melhor amigo pelos ombros, evitando que alguma merda muito grande fosse feita justamente naquele momento. NACIONAIS-ACHERON


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Jazmine era prioridade, por ora. — Está tudo bem, irmão — falei. — Sei que vocês provavelmente estão exaustos física e emocionalmente, mas eu gostaria que soubessem que, quando juramos lealdade ao clube, nós estamos formando não somente uma gangue que participa de eventos e passeios de moto. Nós estamos criando uma aliança, uma família. E isso inclui nossas old ladies e filhos. É compreensivo o receio que sentem, mas se vocês se negam, já de cara, a salvar a vida de uma pessoa inocente, isso só significa que ainda não estão preparados para enfrentar toda a bagagem problemática que vem junto com o clube. — Continuei encarando-os fixamente. — Então eu deixo as portas abertas para que deem o fora caso isso seja demais para lidar. Sem mágoas ou retaliação. Mas não pensem que isso me fará mudar de ideia. Vocês estando aqui ou não, jamais irei deixar a minha mulher em perigo, sem fazer nada. Se eu morrer no processo, pelo menos morrerei tentando. Após longos segundos de um silêncio carregado de tensão, Asher finalmente respirou fundo, dando-se por vencido. — Me desculpem — disse. — Eu ainda estou muito puto com tudo o que aconteceu hoje. Não queria acusar Jazmine, tampouco deveria ter dito o que disse. Estou dentro. Assenti, reconhecendo que, apesar de jovem, Ash tinha um grande futuro dentro daquele clube. Ele só precisava amadurecer. — Bem, como somos poucos e precisamos agilizar, é bom nos dividirmos e cada um se encarregar de uma tarefa — eu disse. — Shark e Ash, preciso que providenciem armas e munições. Façam a distribuição adequada com os caras que estão em condições de ir. Shade, preciso que você avalie o estrago que foi feito e busque o quanto antes um jeito de nos livrarmos de todos esses corpos sem muita confusão ao redor. Vou subir agora e providenciar o NACIONAIS-ACHERON


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contato com os outros Souls, bem como alguns clubes rivais dos Lions que eu sei que não hesitariam em nos ajudar. Quanto mais homens, melhor. Após receber a confirmação silenciosa de todos, subi até o meu andar, ignorando a bagunça de vidro espalhada pelo chão. Mas algo que não pude ignorar foi o corpo de Rebecca, com parte do seu olho deformado por conta do tiro que levou. Era realmente uma falta de sorte do caralho que um tiro, vindo do lado de fora, tenha atingido justamente sua cabeça. Enrolei-a com o tapete, sem ter muito tempo para lamentar a sua morte e corri para apanhar o meu telefone. Disquei para o presidente de um clube vizinho, mas não tive tempo de concluir o processo, pois uma voz conhecida me fez parar: — Eu não faria isso se fosse você, filho. Me virei imediatamente, e foi então que me deparei com Josh. Ele segurava uma arma. E ela estava apontada diretamente para a minha cara.

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20: Máscaras

Só existiram dois momentos na minha vida em que me arrependi verdadeiramente de algo. Na primeira vez que isso ocorreu foi há dez anos, em uma determinada localização de merda dentro da capital do Texas, quando fui embora e deixei Jazmine para trás. A segunda foi quando parei para pensar, por menos de um minuto, sobre a minha vida e me dei conta de que dediquei anos de respeito — até mesmo considerando um tio — o homem que apontava uma arma para minha cabeça agora. O mesmo homem cujo o filho eu considerava um irmão. O mesmo filho da puta que suava e tremia, cavando em meu interior, além de fúria, uma pequena faísca de decepção. — Eu não quero ter que fazer isso, Héctor — a voz de Josh oscilou. Era a primeira vez dentro de anos que ele me chamava pelo meu nome de batismo. — Não vá atrás dela. — Você não está em condições de exigir, muito menos me impedir de fazer algo como isso — enfrentei. — Saia da minha frente e abaixe essa arma. Os olhos do homem escureceram com algo que eu não consegui distinguir de imediato. Joshua sempre havia sido bom em esconder sentimentos. Principalmente após a morte do meu pai. Foram poucas as demonstrações de ira ou indignação em relação ao acidente. Agora, juntando todas as peças, cheguei à conclusão de que, muito provavelmente, tudo fora falso. — Você não sabe de nada — retrucou. — Você não sabe a merda em que está prestes a se meter, garoto. — Por acaso você sabe, Joshua? — refutei. — Me diga! Josh sacudiu a cabeça. As suas veias estavam saltadas. Ele não tinha feridas ou sangue por seu corpo, o que fez eu me dar conta de que ele não havia NACIONAIS-ACHERON


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lutado conosco, mas havia desaparecido desde o início da confusão. — Eu sei muito mais do que você — disse. — E não me refiro somente ao que aconteceu hoje. Eu sempre soube muito mais do que você, e se eu estivesse no comando agora, nada disso teria acontecido. — Então é isso? — falei. — Você está me ameaçando com uma arma porque acha que não sou bom o suficiente? — Não — ele balançou a cabeça. — Estou te ameaçando porque estou prestes a colocá-lo em seu devido lugar; que, com certeza, não é na presidência do clube. Senti meu sangue ferver. A chama de decepção se ampliando, juntamente com a ira. A realidade começou a tomar forma. Imagens de Josh em todas as nossas reuniões. A maneira como ele se portava, sempre acatando todas as ordens e concordando com as decisões que eu tomava. Era tudo mentira, tudo falso. Apenas uma máscara que ele vestiu enquanto apunhalava não só a mim, mas aos nossos irmãos, da forma mais covarde que se pode imaginar. Maldito. — A que ponto você foi capaz de chegar? — Balancei a cabeça, não escondendo minha decepção. — Espero que sua traição tenha valido a pena, caso contrário você acabou de abrir a sua própria cova. Josh soltou uma risada sinistra. — Sempre se achando superior, não é? — zombou. — Não se esqueça que sou eu quem segura uma arma apontada para você, garoto. Está em desvantagem aqui. — Não tenho medo de morrer, Josh — respondi. — Não enquanto eu estiver com a minha consciência limpa, ciente de que não morri como um traidor. Você pode fazer isso se tiver coragem. — Não me subestime — rosnou. — Posso ser muito mais esperto do que você pensa. Soltei uma risada sem humor. — Eu acho que se aliando aos Lions não é uma boa forma de demonstrar ser esperto. Aliás, envolver inocentes em nossas merdas não é uma boa forma de demonstrar qualquer tipo de qualidade — falei. — Confesse, Josh. Foi você NACIONAIS-ACHERON


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que facilitou para que os Lions levassem Jazmine daqui não foi? — Sim, eu fiz — confirmou. — E não me arrependo. Avancei em sua direção, não contendo minha raiva. Parei ao perceber que sua mão tremia sob o peso da arma. — Você entregou a minha mulher a Hammer em troca de quê? Dinheiro? Promessas vazias? Diga-me! Ele balançou a cabeça. — Fiz pelo bem do clube. Não precisa acreditar em mim se não quiser, mas essa briga com Hammer se tornou algo insignificante se formos levar em consideração os últimos acontecimentos. — Ele fez uma pausa, parecendo pensativo, até mesmo assustado. — Existe algo muito maior por trás disso. Aquilo foi o suficiente para que a desconfiança aumentasse. Josh sabia muito mais do que imaginei. Talvez se eu o pressionasse um pouco mais, ele finalmente deixasse escapar. — O quão envolvido você está em tudo isso, Josh? — O quanto você sabe a respeito deles? — Você me mataria se soubesse — foi a sua resposta. — Mas não pense que eu estou feliz com tudo o que aconteceu. Depois de hoje... depois de ver quase todos os meus irmãos mortos, eu... — ele não terminou a frase. Josh parecia desequilibrado de algum modo. E se eu não estivesse tão puto com sua traição, teria sentido pena. — Ao que você se referia quando disse que existia algo muito maior por trás disso? Ele fez uma pausa, então me encarou com certo pavor no olhar. — Não leve isso para o lado pessoal. Mas aquela menina não é alguém que se deve manter por perto, Knife. Se eles viessem buscá-la no lugar dos Lions, as coisas teriam fugido do controle, acredite em mim. Franzi a testa. — Eles quem? Um silêncio tenso se fez presente. Josh abriu e fechou a boca diversas vezes, parecendo estar buscando as palavras adequadas, mas então, no momento em NACIONAIS-ACHERON


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que imaginei que fosse finalmente me responder, ele foi interrompido: — Solte essa arma ou eu vou ser obrigado a atirar em você. No mesmo instante, ambos nos viramos para encarar o meu melhor amigo parado na porta. Ele tinha uma arma apontada para o seu próprio pai e, que macacos me mordessem, o cara me surpreendeu. — O que diabos você pensa que está fazendo, Shade? — Josh vociferou. — Meu próprio filho irá ficar contra mim? — Não estou contra você — Shade falou. — Eu só não sou a favor de toda a merda errada em que você se meteu ultimamente. Se for para ter um pai traidor, prefiro que ele esteja morto. Josh fez um som de quem não estava acreditando no que acabara de ouvir. Para ser sincero, nem mesmo eu acreditava. Shade fora criado somente pelo pai, e ninguém jamais soube notícias da mãe dele. Ambos eram muito apegados, desde sempre, e ver algo como isso acontecendo era quase inacreditável. — Você não vai ter coragem de atirar no seu próprio pai, garoto — Josh falou, virando-se para mim logo em seguida. — E quanto a você... já era para eu ter feito isso há muito tempo. E sem mais uma palavra, Josh puxou o gatilho. Consegui desviar a tempo, mas novamente fui pego de surpresa quando um outro tiro soou na sala. Não demorou muito para que eu me desse conta de que este último viera da arma de Shade, e havia sido direcionado ao seu pai. Observei um Josh ofegante no chão, enquanto Shade se aproximava dele e tirava a arma de seu poder. Sangue escorria do braço machucado de Josh, em seus olhos além de surpresa, uma decepção que me tocaria se eu não estivesse tão furioso com toda a situação. — Você não precisa fazer isso — falei para o Shade, aproximando-me e puxando os braços de Josh para trás. — Pegue um par de algemas na última gaveta do meu quarto, traga até mim e vá para fora. Shade balançou a cabeça. — Ele é o traidor — disse. — Temos que interrogá-lo. Suas palavras eram claras e duras, mas consegui perceber o quão difíceis elas NACIONAIS-ACHERON


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saíam de seus lábios. Era fato. Shade era o único cara daquele clube que merecia honrar o meu patch de presidente caso eu não conseguisse sobreviver no fim de tudo. — Eu sei — falei. — Mas você não precisa participar disso. Vou lidar com tudo. Shade assentiu, mas permaneceu em silêncio no momento em que se levantou e desapareceu em direção ao quarto. Quando retornou, trazia consigo as algemas. Ele não esperou por uma resposta minha e se adiantou a colocar as algemas nos pulsos do seu próprio pai. — Faça o que tem que ser feito — ele me disse apenas, então se virou e saiu.

Duas colunas de concreto se ampliaram em meu campo de visão quando adentrei a velha oficina nos fundos do complexo. No início, antes mesmo de eu pensar em fazer parte do clube, e os membros se envolverem por completo com o lance de distribuição de armas, os Renegade Souls se arriscavam com o serviço de manutenção de automóveis e motocicletas. Nós ainda lidávamos com aquele tipo de serviço, mas atualmente só prestava para disfarçar nosso verdadeiro negócio, uma vez que agora trabalhávamos para nós mesmos ou para algum clube de quem considerávamos próximos. Fazia um bom tempo desde a última vez que utilizamos aquele galpão. Ele era visivelmente mais espaçoso e seguro do que a sala que costumávamos usar para interrogar inimigos. Desde a última vez, quando Jazmine nos pegara prestes a torturar um dos membros dos Lions, decidimos que aquele lugar não era mais o adequado a ser utilizado para aquele tipo de negócio. Movimentando lentamente o meu pescoço no intuito de aliviar um pouco da tensão que se sobrecarregara sobre ele, caminhei a passos lentos até a cadeira amarrada em uma das colunas. Shark e Asher se encarregaram de atar Joshua ali, enquanto eu me preparava psicologicamente para fazer aquela merda. Não pense que sou fraco ou estou arrependido de ter tomado tal decisão, mas convivi com esse cara desde os meus dezessete anos de idade. Ele era como NACIONAIS-ACHERON


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um segundo pai para mim. — Bem — falei. — O tempo está correndo, portanto sugiro que seja rápido nas respostas, e isso será quase indolor. — O que você quer que eu diga? — questionou, fazendo uma careta. Era compreensível o fato de Josh estar a ponto de gemer de dor. O tiro que Shade dera em seu braço não fora tratado. Havia somente um pano velho amarrado sobre o ferimento da bala. Muito cuidadoso. — Quero que me diga a verdade — falei. — Começando sobre seu envolvimento com os Fierce Lions. — Você já sabe o suficiente — ele disse. — Que diferença fará agora se eu confessar ou não? — Muita diferença — respondi. — Principalmente se você estiver metido com merdas das quais eu ainda não possuo ciência. Josh não me respondeu de imediato, o que não me surpreendeu em nada. O cara era do tipo durão, e eu soube desde o começo que seria uma coisa complicada arrancar qualquer informação valiosa dele. — Apenas acabe com isso, garoto — falou. — Me mate e vingue-se de uma vez por todas de mais um traidor. Toda essa enrolação não irá nos levar a nada. — Você está enganado — eu disse. — A minha garota está lá fora, nas mãos de nossos inimigos porque você facilitou para que isso acontecesse. Estou seriamente furioso e à procura de algo para machucar. Portanto, não teste a minha paciência agora. Ele ergueu a cabeça e fitou meus olhos. — Você é bom, reconheço — disse. — Mas não é melhor que eu. Eu treinei você. Fui seu espelho por todos esses anos! — Você não me treinou — corrigi. — Hunter fez. — E que diferença faz? — rebateu. — Nossos ideais eram parecidos. Meus olhos se estreitaram. — Seja mais claro. NACIONAIS-ACHERON


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— O que você acha que Hunter queria, colocando um garoto de dezessete anos e completamente inexperiente dentro de um clube de motoqueiros? — Hunter não tinha filhos, ele me adotou. Ele deu uma risada. — Bem, isso é o que ele fez você e a tonta da Susan acreditarem. Avancei no mesmo instante e abracei seu pescoço com as minhas mãos. Apertei até o ponto de ver seus olhos castanhos se arregalarem. — Lave a sujeira de sua boca antes de citar o nome da minha mãe! O rosto de Josh ficou vermelho. Ele tentava sugar ar, porém não fazia movimento algum para tentar se livrar do meu aperto. Eu sabia que ele não estava querendo dar o braço a torcer, e apenas esse pensamento me deixava a ponto de acabar com sua vida ali mesmo. Mas eu ainda tinha muito o que descobrir, portanto suavizei o toque, dando-lhe alguma misericórdia. Esperei ele se recompor para voltar a exigir: — Desembuche. Após um segundo de hesitação, retornou a falar: — Hunter não planejou colocá-lo dentro do clube por sentir pena ou amor por você. Ele pode ter nutrido algum sentimento depois, mas as coisas não foram assim no começo. Ele queria uma gangue de membros mais jovens e maleáveis. Sendo mais claro, ele queria marionetes para poder controlar por meio do seu poder de mestre supremo dentro dos Renegade Souls. — Isso não pode ser verdade — falei. — Não tente comparar os sentimentos do meu pai aos seus. Ele jamais faria isso comigo ou com a minha mãe! E mesmo se for verdade, é mais que normal. Vocês estavam ficando velhos, o clube precisava de membros mais jovens para dar continuidade à tradição. — O clube precisava de mais pequenos soldados controláveis para seguir o caminho que Hunter ditasse, você quis dizer — ele refutou com ironia. — Você se lembra qual foi a primeira vez em que assassinou um cara? Consegue se lembrar dos olhos suplicantes do homem que teve a garganta aberta pelas mãos de um adolescente? E sobre quem lhe ordenou que fizesse? Parei por um momento para respirar. Aquele filho da puta estava tentando foder com a minha cabeça, mas não iria conseguir. Fechei os olhos, buscando um meio de moderar a minha raiva, mas por ironia ou castigo, a única NACIONAIS-ACHERON


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imagem que me vinha na mente era a cena a qual ele se referia. Na noite em que matei um homem pela primeira vez. Sim, eu conseguia me lembrar do brilho denotando um pedido silencioso de clemência em seu olhar. Conseguia me lembrar das vozes, do cheiro do local, de praticamente tudo. Era como um pesadelo... — Você vê esse homem, filho? — Hunter apontou com o queixo para o cara tentando se erguer do chão, porém não tendo muito sucesso por conta de seu estado deplorável. Manchas de sangue cobriam suas roupas e cabelo. Um corte de aproximadamente cinco centímetros se abria desde a sua testa até a maçã do rosto. Era seguro afirmar que ele praticamente sentia o cheiro da morte iminente. Eu também estava sentindo, e nem mesmo era comigo. — Ele é um traidor. Engoli em seco, sentindo um misto de raiva, curiosidade e adrenalina se apossar do meu corpo. Hunter havia me dito que traidores não permaneciam no clube. Todos eles tinham apenas duas saídas: a expulsão ou a morte. E ele me garantiu que a morte era a bem menos dolorosa. — O que ele fez? — questionei, tentando não aparentar tão assustado, mas, porra, eu estava começando a ficar apreensivo. — Agora não importa muito — Hunter me respondeu. — A única coisa que você precisa saber é que ele fez algo de muito, muito errado para prejudicar o clube. — Seus olhos caíram sobre mim, o brilho perverso dançando neles. — Você ainda se lembra do que eu lhe disse sobre traidores? — S-sim. — Repita. — Traidores merecem ser punidos. — De que forma? — Com a expulsão ou com a morte. — Exato. — Ele sorriu, como um pai que se orgulha do filho por ir bem no dever de casa. — Agora me diga, Héctor: este homem não é um membro do clube, o que não faz sentido algum o punirmos com uma expulsão... o que você acha que ele merece? NACIONAIS-ACHERON


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Meu coração batia tão forte que eu tive que me esforçar para escutar com clareza o que Hunter dizia. O que aquele homem merecia? — A morte? — Bingo! — O sorriso de Hunter se ampliou ainda mais. — Você não parou seus treinamentos com as facas, não é? Neguei com um aceno de cabeça. — Ótimo. — Ele apontou para a faca presa em meu jeans. Eu havia ganhado de presente logo que demonstrara ser bom com elas. Hunter disse que aquele era um dom que eu precisava aperfeiçoar, e assim eu fiz. — Pegue-a. Eu peguei. Fechei meu punho com um pouco mais de força quando percebi que minha mão suava vergonhosamente. O olhar de Hunter voltou a cair sobre o moribundo no chão. Sua mandíbula tensa, bem como seus punhos. — Agora faça. Congelei em meu lugar por um breve instante. Não precisava ser muito inteligente para perceber que ele estava falando comigo, e que ele queria que eu usasse a minha faca para punir aquele cara. Respirando fundo, aproximei-me do homem deitado no chão. Vacilei por alguns segundos quando seus olhos encontraram os meus, em uma súplica silenciosa para que eu não seguisse em frente. Se eu estava cogitando recuar, meu desejo se esvaiu quando a voz de Hunter quebrou o silêncio grosso: — Não pense muito, garoto. Segure-o pelos cabelos e corte sua garganta. Realmente não tem importância se você for lento ou piedoso. Apenas vá e faça! Meu estômago deu um nó. Voltei a inalar profundamente, tentando controlar meu nervosismo, e avancei na direção do homem cujo pecado para ter aquele fim eu não sabia com exatidão, mas estava certo de ser algo realmente imperdoável. Então segurei em seus cabelos e tracei o seu destino quando passei a lâmina da faca sobre sua garganta, assistindo o momento em que roubava sua vida aos poucos, até que os espasmos e gorgolejos não eram mais nada além de NACIONAIS-ACHERON


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pequenos ofegos e gemidos. Imediatamente, o nó em meu estômago voltou. Bile ameaçou subir pela minha garganta em um bolo grosso. Me dobrei sobre meu estômago e despejei tudo o que havia ingerido naquele dia, o vômito se misturando ao sangue do homem que eu acabara de matar. A voz de Hunter era branda quando ele me estendeu um lenço para que eu pudesse limpar minha boca. — Isso é normal na primeira vez — me tranquilizou. — Com o tempo você se acostuma. — Eu... eu espero que sim — respondi, ainda ofegante. Hunter deu uma risada. Senti sua mão em meu ombro, dando-me um pequeno aperto de felicitação. — Você fez um bom trabalho — disse. — E, de quebra, acabamos por descobrir um bom nome de estrada. — E então ele agachou ao meu lado, parecendo não se importar com o fato de que havia um corpo ainda quente estirado ao nosso lado. — Seja bem-vindo ao clube... Knife. — Bem, creio que você se lembre — a voz de Josh me trouxe de volta ao presente. — O homem que você matou era, na verdade, o irmão mais velho de Hunter, Tobias. Imagino que você já tenha ouvido falar nesse nome. Assenti. Eu me lembrava vagamente de ouvir falar nesse tal de Tobias, mas jamais fiz uma associação parental com Hunter. — Bem, ele não era um homem de todo correto, mas não se metia em tantas porcarias quanto Hunter — Josh continuou. — No dia em que seu irmão apareceu para lhe questionar sobre suas pretensões, Hunter negou tudo, mas o que ele não podia contar era que Tobias tinha provas de que o clube lidava com coisas ilegais e, além disso, havia decidido denunciar o clube para a polícia. — Ele soltou um suspiro. — Porém, antes mesmo que o cara tivesse chances de abrir o bico, Hunter decidiu calá-lo. Na verdade, ele decidiu que você o fizesse. Seu pai era um bom cara em algumas das vezes, mas ele conseguia ser bem sádico também. — Isso é doentio — rosnei. — Como Hunter planejaria a morte do próprio irmão, que estava prestes a denunciá-lo para a polícia, e a própria polícia não NACIONAIS-ACHERON


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desconfiaria de nada? Josh bufou, como se eu fosse inocente o suficiente para não perceber algo tão óbvio como aquilo. — Imagino que você já saiba, mas os Renegade Souls possuem uma aliança valiosa com a polícia desse lugar. Encontrar policiais corruptos para limpar um nome sujo ou alegar inocência nesse buraco de merda em que vivemos é bem mais fácil do que você imagina, filho. E foi isso que garantiu não só a liberdade do seu pai, mas a de muitos membros aqui dentro, inclusive você. — Eu ainda não acredito em você. — Acorde, Héctor — continuou ele. — Hunter fazia pose de pai dedicado, mas ele só queria usar você! Ele quis usar Shade em toda sua merda também, mas eu nunca permiti. Era para eu e o meu filho estarmos onde você e aquele desgraçado estiveram. Preparei aquele garoto desde seus onze anos de idade, então você aparece do nada e toma um lugar que deveria ser dele. — Shade é o VP. Você é o Capitão de Estrada — salientei. — Ambos ocupam um grande cargo dentro do clube. — Não é o suficiente! — Josh se exaltou. — Nada do que tivemos até agora foi o suficiente. Hunter nunca se preocupou com os outros, apenas consigo mesmo, e ele mereceu tudo o que fizemos para ele! Pausei ao ouvir sua declaração. — Tudo o que vocês fizeram? — Ora, vai realmente fingir que não sabe? — afrontou. — Suas suposições estavam corretas, Héctor. Hunter era ambicioso e os Fierce Lions usaram dessa ambição para forjarem um acordo de trégua e parceria no tráfico, tudo em sigilo; enquanto, na realidade, planejavam uma emboscada para pegar Hunter de uma vez por todas. E eu os ajudei. — Você está dizendo que contribuiu para que os Fierce Lions assassinassem o meu pai? — Eu fiz. — A tranquilidade em seu tom de voz fez algo gelado subir pela minha espinha. Agora fazia sentido a alegação do tal Neil sobre o assassino de Hunter ser possivelmente um Soul. — Se eu não fizesse, ele iria nos matar, um por um. Hunter pretendia se livrar dos membros mais antigos, NACIONAIS-ACHERON


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assim como ele fez com Hammer. — Ele não se livrou de Hammer por conta disso — falei. — Foi por causa de Susan. — Susan foi somente a cereja no bolo — ele disse. — Mas Hunter tinha planos maiores quando decidiu tirar os membros mais antigos do clube. Como eu disse, ele queria criar um exército de pequenos soldados moldados por ele. E foi muito bom nisso, devo confessar. De repente, era como se tudo estivesse girando ao meu redor. Um filme em preto e branco começou a passar em minha cabeça, tudo se desdobrando de uma forma que fazia eu querer socar a mim mesmo por ter sido tão ingênuo e idiota. Por dez malditos anos, toda a minha vida havia sido uma mentira ensaiada? Meus olhos retornaram para a figura de Joshua atado contra o pilar sujo de graxa e trinquei os dentes. O sangue agora ensopava o pano velho. Suor fazia sua pele brilhar. — Você não é melhor que ele — eu disse. — Você tentou me matar também. Para ocupar o meu lugar. — Eu lutei muito para chegar até aqui — falou. — Meu filho também fez. A diferença entre nós dois é que a minha ambição vai muito mais além. — Seus olhos agora brilhavam com algo semelhante a indignação. — Você nem mesmo fez trinta anos e já ocupa um lugar que muitos veteranos aguardam uma vida para poderem ocupar. Essa sua amizade com Shade foi apenas uma consequência que eu adoraria que pudesse ser corrigida. Não pense que alguma vez eu fui feliz com a interação de vocês dois. Balancei a cabeça, ainda parcialmente incrédulo com toda a merda que estava se passando. — Tudo isso... toda a sua ganância, lhe trouxeram para um único lugar — eu disse. — E não foi para a liderança. — Eu sei — seu tom de voz explicitava sinceridade. — Não pense que eu estou inteiramente feliz com tudo isso também. Traí o clube, sim. Eu ajudei a matar o seu pai e tentei matar você, mas só fiz para garantir a minha sobrevivência. Talvez você não entenda isso agora, mas quando você chegar aos cinquenta anos e perceber que não é nada além de um merda que só tem o NACIONAIS-ACHERON


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colete de um clube de motoqueiros para honrar, você vai entender. Mais cedo ou mais tarde, as coisas iriam mudar no clube, e adivinhe quem seria o próximo a levar um pé no traseiro sem ao menos ter tido a chance de vencer em algo? Arqueei uma sobrancelha, abstendo-me de ficar comovido com toda a sua conversa. Josh já não era mais o cara que eu respeitei por anos. Ele nos traiu, e merdas como aquelas não podiam ser esquecidas. — Essa é sua única justificativa? Ele não me respondeu, como já era de se imaginar. Voltei a me afastar e retornei a relaxar os músculos do meu pescoço, preparando-me para o próximo passo. Nós ainda estávamos longe de finalizar aquela conversa. — Se Hunter estava tão interessado em me integrar em seu, como você mesmo diz, “pequeno exército”, por que diabos ele mesmo não me contou sobre os planos que tinha para o clube? Por que não me manteve a par de suas intenções? — Ele iria fazer — Josh respondeu. — Mas você sempre foi diferente dele em muitos aspectos. Você era... incorruptível o bastante para trazer um monte de trabalho a Hunter. Você não é um cara mau, Héctor. Não mau o suficiente para lidar com toda essa merda; então, quando percebeu que não haveria jeito de enfiá-lo nessa, ele tentou outros meios, como corromper Kane e Reed, por exemplo. Balancei a cabeça, cansado de tentar não mais acreditar no que Josh me dizia. Aquilo respondia muitas das minhas dúvidas, inclusive o fato de Reed e Kane serem do modo que eram. A verdade estava lá o tempo todo, eu apenas fui um idiota por não conseguir enxergá-la. — Só mais uma coisa... — falei. — Era você quem passava todas as informações a respeito dos Renegade Souls para os Lions? Ele assentiu. — Sempre fui eu, desde o começo. Balancei a cabeça, não me surpreendendo com a sua afirmação. — Então você e os Lions firmaram uma espécie de acordo sujo. — Ele NACIONAIS-ACHERON


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assentiu outra vez. — E onde Jazmine entra em tudo isso? Notei seus ombros se enrijecerem. — Jazmine foi só um meio para um fim. Hammer a queria, e eu achei que tirar a garota de você fosse desestabilizá-lo. Além do mais, foi a melhor coisa levá-la embora. Aquela menina é uma roubada, e das grandes. Voltei a me virar para Josh, deixando claro que seria muito mais sensato se ele escolhesse bem suas palavras para falar a respeito de Jazmine. — Por que Hammer iria querer Jazmine, se existem meios menos trabalhosos que também me atingiriam? — Ele precisava entregá-la a eles. E lá vamos nós novamente, falando por enigmas. — Especifique quem são eles. — Os russos — sua confissão me deixou ainda mais tenso. — Os caras possuem uma aliança com os Lions. Só não me pergunte como tudo isso surgiu. O que diabos aquilo tudo significava? As informações vinham como um quebra cabeça. Cada vez que eu tentava juntar as peças, mais complicado ficava. — Por que diabos esses imbecis iriam querê-la? Não havia uma outra resposta a não ser... Mikhail Petrov. Era claro, o idiota provavelmente adquiriu uma obsessão doentia por Jazmine e agora a queria para ele. Oh, inferno! Aquela merda era ainda mais séria do que eu imaginava. — Eu realmente não sei de mais nada — Josh falou, soltando um suspiro que demonstrava exaustão. — Por favor, apenas me castigue e vamos acabar logo com isso. Pontadas alfinetavam a minhas têmporas. A tensão pesava sobre meus ombros e pescoço. Em outra época, eu estaria ansiando por um descanso, mas sabia que não descansaria enquanto não encontrasse Jazmine e a trouxesse para perto de mim sã e salva. Havia tantas coisas que eu queria dizer a ela e não havia dito. Até mesmo NACIONAIS-ACHERON


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minha declaração de que a amava havia sido algo rápido e não muito elaborado, sob o calor de um momento tenso. Eu sabia que talvez não sobrevivesse ao confronto com os Lions, e não queria morrer sem deixar que ela soubesse ao menos uma única vez que eu a amava. Não como uma irmã, mas sim como a mulher com quem eu queria casar e ter filhos. Sim, inferno, eu queria isso com ela. Mas talvez eu não pudesse mais realizar todos esses desejos com Jazmine. Por causa de Hammer e principalmente por causa de Josh. O ódio voltou a escurecer a minha visão quando puxei a minha pistola e caminhei em sua direção. Desativei a trava de segurança e ergui a arma, apontando o cano diretamente para o centro da sua testa. Era realmente irônico, considerando que estávamos nessa mesma posição, porém em lados opostos, minutos atrás. — Você sabe que não merece uma morte tão indolor e rápida, não é? — eu disse. — Estou sendo misericordioso aqui. Ele não me respondeu. Seus olhos focados em um ponto qualquer além de mim. — Olhe para mim! — exigi. — Quero que você me olhe nos olhos. Quero que você sinta até em seu último suspiro o quão baixo a sua ambição o levou. Um suspiro embargado escapou entre seus lábios. Vi quando seus ombros se inclinaram com o peso da derrota. Mesmo assim, ele não me encarou. Comecei a ficar realmente irritado, porém o sentimento abriu espaço para a curiosidade quando vi uma lágrima escorrer pelo rosto de Josh. Por que diabos aquele filho da puta estava chorando? No momento em que segui o seu olhar, pude me dar conta de tudo. Cinco membros, incluindo Shark e Asher, estavam na porta. Mas o que mais me chamou atenção foi quando Shade surgiu em meu campo de visão. Seu olhar vazio demonstrando uma força interior que eu sabia que ele não possuía. NACIONAIS-ACHERON


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Shade era forte, talvez um dos caras mais fortes que eu conhecia, mas aquela situação se tratava do seu pai, a única imagem afetiva que ele possuiu desde que era uma criança. Ambos eram como almas solitárias, parceiros do seu próprio modo e, apesar das diferenças de caráter gritantes, eu não podia negar que eles se completavam. Baixei a minha mão. — Foda-se! Foda-se toda essa merda de amor fraternal. Realmente, foda-se. Respirei fundo, desviando o olhar do meu melhor amigo e deixei cair a arma. Me curvei, apoiando as mãos sobre minhas coxas e inspirando ainda mais profundamente, tentando aliviar a sensação de montanha russa que se desenrolava dentro da minha cabeça. Uma gota de suor deslizou da minha testa, escorrendo pela ponta do nariz até o chão. Encarei o solo empoeirado, seguindo uma linha imaginária até minhas botas sujas de sangue. Desde que eu tinha dezessete anos de idade, minha vida havia sido matar e servir ao clube. As palavras de Josh sendo verdadeiras ou não, era uma realidade o fato de que Hunter havia me moldado como um pequeno soldado sangrento. Como um homem que fora preparado para matar. Meu pai não morreu como Hugh, o homem que me deu uma casa, um futuro e uma família; mas como Hunter, o presidente corrupto de um clube repleto de sujeira e traição. Um clube que teve seu sucesso através de dinheiro ilegal e sangue. Eu não era aquele homem. Eu nunca fui aquele homem. Eu ainda era o menino por quem Jazmine se apaixonou. O garoto com o passado triste que sofria abusos constantes do padrasto doente. Eu não era uma marionete impiedosa disposta a colocar a ambição acima dos sentimentos fraternos, arruinando aos seus. Eu era melhor que aquilo. Eu sempre fui melhor que aquilo. Voltando a me erguer, encarei novamente a figura do homem que um dia NACIONAIS-ACHERON


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chamei de irmão. Rugas de expressão denunciavam a sua idade. As cicatrizes de batalha mostrando o quão cruel a vida pode ser. Seus olhos escuros ainda brilhavam com lágrimas enquanto ele permanecia encarando o próprio filho parado na porta. Quebrei o contato dos dois quando me prostrei diante de Joshua. Me inclinei até estar frente a frente com ele, nossos narizes a pouquíssimos centímetros de distância. Seguirei com firmeza na cadeira, não dando espaço para que ele desviasse o olhar. — O maior castigo para um pecador é deixá-lo ser atormentado por seus próprios demônios, até que os pesadelos e o peso da culpa corroam a sua mente e devorem a sua alma. — Eu sentia minha voz baixa e fria. — Eu acho que você precisa conviver com isso pelo o resto da sua existência maldita. Você merece continuar sendo um fracassado aos cinquenta anos de idade, sem uma perspectiva decente de vida... — Bati a mão contra seu peito e puxei o remendo com a nomenclatura do seu cargo no clube, separando-a do couro do colete. — E desta vez, não terá nem sequer o colete de um clube de motoqueiros para honrar. Em seguida, eu me reergui, dando meia-volta e o deixando para trás. Parei somente ao chegar na porta. Ainda não conseguia encarar Shade, e também tinha a desconfiança de que ele não ficaria tão confortável por fazer uma troca de olhares comigo justamente naquele momento. Então eu simplesmente mantive o tom duro na minha voz e ordenei aos demais: — Removam a tatuagem dele.

Ao retornar para o bar do complexo, percebi que todos os corpos já haviam sido removidos, e agora só tínhamos que lidar com toda a bagunça de sangue e sujeira, antes que algum vizinho abelhudo desse com a língua nos dentes e chamasse a polícia para relatar o ocorrido. Não que os policiais de Scout Lake fossem os melhores membros da lei. Como Josh mesmo havia dito, eles ficariam do nosso lado enquanto o mantivéssemos em nossa folha de pagamento; no entanto, era bem mais seguro evitar qualquer tipo de dor de cabeça. Além disso, eu tinha que encontrar Jazmine. NACIONAIS-ACHERON


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Porra, Jazmine! — Colton! — chamei um dos membros que encontrei pelo caminho. — Onde estão os outros rapazes? Traga todos aqui, pois quero abrir uma reunião para iniciar uma caçada a Mikhail Petrov. Eu quero esse cara aqui até o fim do dia. — Presumo que isso não seja necessário — uma voz que eu havia escutado por poucas vezes, porém jamais confundiria, soou atrás de mim. E foi então que eu me virei e vi Mikhail Petrov bem na minha frente. Eu havia levado uma pancada na cabeça ou o imbecil havia, realmente, vindo até aqui? Parecendo ler meus pensamentos, dois dos membros avançaram para segurarem Mikhail, no entanto ele puxou seu braço de forma arrogante, evitando o contato. Em seguida, caminhou em minha direção, como a porra de um pavão imperioso. Que diabos ele pensava que estava fazendo, agindo daquela forma dentro do meu clube? — Você estava à minha procura, não é? — murmurou. — Pois bem... cá estou.

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21: Cobras e Escorpiões

Quando recobrei a consciência, a primeira coisa que tentei fazer foi abrir os meus olhos. Logo me dei conta de que de nada adiantava tentar executar tal ato, afinal havia algo amarrado em meu rosto. Tudo era escuro para mim, exceto na minha cabeça, onde pensamentos diversos dançavam dentro dela em um turbilhão de ideias embaralhadas. Havia vozes vindas de todos os lados e eu sentia minha boca amarga. Tentei dizer alguma coisa, mas percebi que talvez o mais sensato fosse me manter em silêncio, afinal eu mal sabia o que estava se sucedendo. Ao tentar me mover, notei que meus braços estavam amarrados para trás. Arrepios variam a minha pele parcialmente coberta, então percebi que haviam trocado a minha roupa, e agora eu usava um top que mal alcançava o meu umbigo e uma saia que ia pouco além do início das minhas coxas. Apreensão fez com que meu peito se apertasse. Onde eu estava, e o que haviam feito comigo? Imediatamente, meus pensamentos se voltaram para Héctor. Lembrei-me da nossa noite, a discussão com Rebecca, e em seguida a invasão. Eu também me lembrava de Héctor ter descido, mas antes ordenado que eu me trancasse. Eu fiz, porém alguém invadiu o quarto onde eu estava. Eu me recordava de ter atirado no braço de um cara e tentado lutar com outro, no entanto eles estavam em maioria, além disso alguém apareceu. Esse alguém era Josh. Eles mantiveram uma conversa sobre me tirar dali pela escada de incêndio, então alguém pressionou algo contra meu rosto e eu apaguei. Quando acordei, NACIONAIS-ACHERON


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estava nesse lugar, malvestida, com dores em diversas partes do meu corpo e morrendo de medo. Eu sentia como se o meu coração fosse saltar pela boca a qualquer momento. Não tive nem mesmo tempo de tomar um próximo gole de fôlego quando um líquido gelado caiu sobre a minha cabeça. Estremeci, sentindo meu cabelo ensopar e gotas frias molharem meus ombros e braços. — Porra, Hammer! O cara disse que a queria intacta — uma voz masculina soou. — Que diabos você pensa que está fazendo? Escutei uma risada baixa. — É só um pouco de bebida para que ela desperte, Axel — outra voz masculina rebateu. — Ela não vai morrer por conta disso. — Então eu senti uma mão alisar o meu cabelo e alguém colar os lábios em meu ouvido: — Não é mesmo, querida? Grunhi, me afastando de seu toque pegajoso. Ele fechou a mão na minha nuca com força, fazendo-me me contorcer. De repente, a venda foi tirada dos meus olhos. Fechei-os, tentando ajustar minha visão à luz. A mão em meu pescoço deslizou para cima e segurou em meu cabelo, puxando minha cabeça para trás. — Não se afaste de mim sem eu ter lhe dado uma ordem antes, vadia. No momento em que ele se posicionou bem na minha frente, e eu me vi cara a cara com o tão famoso Hammer, meu estômago se embrulhou diante da visão de alguém tão odioso e mau. Ele tinha cabelos grisalhos, olhos claros e uma cicatriz no rosto que o fazia aparentar ainda mais perigoso. Não ofereci resposta ao seu comentário, limitando-me a desviar o olhar de sua expressão estarrecedora. Pude me cientificar de que o local onde eu me NACIONAIS-ACHERON


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encontrava era uma boate. Na verdade, era muito semelhante ao bar do clube, salvo pelas mulheres dançando seminuas em cima de pole dances. Bastou dirigir um olhar à minha vestimenta para eu me dar conta de que a roupa que usava era muito semelhante às daquelas mulheres. Oh, Deus... Independentemente do que eles estivessem planejando fazer comigo, eu não iria permanecer naquele lugar sem antes lutar para sair dali. Remexi-me freneticamente, tentando livrar meus pulsos da corda que os prendiam, mas não consegui ir muito longe, sendo impedida pela mão masculina que pousou em meu ombro e o apertou com força. — Esse é último aviso que lhe dou! — Hammer pronunciou entredentes. — Não importa o que aquele velho tenha dito para não fazer com você. Caso não colabore comigo, sua puta, eu juro que irei... — Prez? — uma voz silenciou a fala de Hammer. Ainda sem tirar os olhos de mim, ele respondeu: — O quê? — Os caras chegaram. Senti o aperto em meu ombro suavizar, bem como a expressão de Hammer tornar-se de irritada para satisfeita em questão de segundos. Pude me permitir um suspiro de alívio quando ele se afastou de mim. — Você é uma cadela sortuda, pequena... — Seu sorriso se tornou diabólico. — Ou nem tanto. Depois que Hammer saiu, tentei não pensar sobre o que ele havia dito, mas era praticamente impossível. Sobre exatamente o que ele estava se referindo quando brincou com a minha sorte, e quem diabos eram essas tais pessoas que exigiram que não tocassem em mim? Um milhão de suposições vagueavam dentro da minha mente atormentada, NACIONAIS-ACHERON


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no entanto eu não conseguia encontrar uma luz. Ideias claras e inteligentes não são algo com as quais você pode contar quando está passando por situações tensas. Bem, pelo menos eu não conseguia ser inteligente em momentos daquele tipo. Fosse o que fosse, eu tinha certeza de que não era nada bom. Notei uma sutil movimentação ao meu lado e percebi que havia um cão de guarda me vigiando. Mais precisamente, um cão de guarda loiro e bonito. Em seu colete eu via escrito “Vice-Presidente”, o que explicava muito a respeito da sua pose autoritária. No entanto, não foi somente a aparência daquele homem que chamou minha atenção, muito menos o fato de ele ser o VP do clube rival ao do meu namorado — e que de quebra havia me sequestrado —, mas foi o olhar levemente perdido que encontrei em seus olhos claros. Ele parecia irritado, e até mesmo triste. Sendo o mais cuidadosa possível, limpei a garganta, obtendo sua atenção para mim. Sua expressão carrancuda se suavizou quando forcei uma careta de dor. — Droga — murmurei, tentando colocar credibilidade em meu tom de voz. — Estou sentindo um pouco de dor aqui. Você poderia... me soltar por alguns minutos? Eu não recebi uma resposta de imediato, o que fez com que meu coração praticamente saltasse pela boca. Eu não era muito boa com todo esse lance de blefar; para ser mais exata, eu era uma péssima enganadora, e esperava seriamente que ele ficasse ao menos um pouco comovido. O homem continuou me encarando. Suas sobrancelhas grossas se juntaram por alguns segundos, enquanto ele parecia ponderar sobre minhas palavras. Finalmente, ele soltou um suspiro, passando as mãos pelos cabelos em frustração. NACIONAIS-ACHERON


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— Escute... eu até te soltaria — falou. — Não por acreditar em você ou sentir pena por estar sentindo dor, mas eu não estou de acordo com o que está se passando aqui. — Seu olhar desviou para a direção onde Hammer havia ido. — Mas isso não diz mais respeito a nós, garota. Não há nada que possamos fazer. Uma orquestra sinfônica parecia trabalhar dentro do meu peito. — O que você quer dizer com isso? — Tentei mais uma vez me soltar, mas as amarras eram bem feitas. — Ei... Axel, certo? — Recebi um pequeno aceno em concordância. — Eu... eu sei que vocês não gostam dos Renegade Souls. Eu também sei que a guerra entre vocês existe há muito tempo, mas... eu não tenho culpa de nada. Eu não sei de nada, tampouco sou a favor de toda essa situação. Você acha certo alguém inocente passar por tudo isso? Se você me deixar ir, eu juro que ninguém vai saber que foi você a me ajudar. Você tem a minha palavra. Ele ficou pensativo por um tempo consideravelmente longo. Eu já estava prestes a implorar para que ele dissesse alguma coisa em troca, mas engoli minhas palavras quando ele se ergueu da cadeira, parecendo decidido. Axel caminhou em minha direção e se agachou diante de mim. Sua mão se ergueu e então ele passou o dedo pela minha bochecha, capturando uma lágrima. — Eu sinto muito — falou. — De verdade. E então, ele se levantou, dando-me as costas. Soltei uma maldição entredentes e sucumbi à frustração, não me segurando quando o choro veio de verdade. Eu estava sozinha, literalmente sem ideia do que fazer, correndo perigo e mal sabia quais medidas Héctor tomaria para me tirar daquele lugar. NACIONAIS-ACHERON


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Eu sabia que ele viria atrás de mim assim que se desse conta da minha falta, no entanto eu não queria que ele viesse até o complexo dos Lions e se machucasse por minha causa. — Cristo, cale a boca! — de repente a voz de Hammer cortou os meus pensamentos. Ele veio até mim e segurou em meus braços, sacudindo-me com extrema irritação. — Não existe algo mais irritante do que uma mulher chorona. Pare com isso, porra. Eu tentei lutar com ele da forma que podia, contudo, a pressão de suas mãos era firme. Quando eu finalmente decidi colaborar com ele, Hammer me libertou, afastando-se apenas o suficiente para pegar a venda atirada ao chão e tampar novamente os meus olhos. Voltei a imergir na escuridão, mal tendo noção do que se desenrolava ao meu redor ou qual seria o meu destino. Uma risada baixa soou no ambiente. Passos lentos chegavam cada vez mais perto. Prendi a respiração quando senti uma mão tocar meu cabelo, e então uma voz rouca com um sotaque peculiar dizer bem próximo de mim: — Ela é muito bonita — disse. — Ainda mais bonita do que eu imaginei. Engoli em seco, tentando segurar o choro, mas o desespero falou mais alto. Ele iria fazer comigo o que eu estava pensando que iria? Oh, Deus... — Desamarre-a para que possamos levá-la. — Não tão rápido — Hammer falou. — Me dê o dinheiro que me prometeu primeiro. — Eu já lhe providenciei as armas, o que mais você quer? — Você prometeu uma grana. Não se lembra? O silêncio se fez presente por um pequeno momento. A julgar pelo tom de suas vozes, ambos já estavam começando a ficar irritados. Naquele momento, eu não sabia se seria mais favorável estar nas mãos dos Fierce Lions ou NACIONAIS-ACHERON


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daquele homem com sotaque estranho. — Eu prometi lucros a você — o outro revidou. — Você tem noção do quanto conseguiria lucrar com a quantidade de armamento de primeira que lhe forneci? Senti algo roçar contra mim e deduzi que era Hammer quem estava se movimentando. — Foda-se quanto custam as suas armas, velho, eu só quero o que me prometeu — Hammer falou. — Se eu não tiver a grana, você também não terá a garota. O homem soltou um suspiro audível. Escutei o barulho dos seus sapatos caros se aproximando cada vez mais. E então houve um clique, seguido de uma ameaça: — Você quer mesmo contrariar a mim? Depois de tudo o que lhe deixei saber a meu respeito? Mais cliques foram escutados. Eu já havia assistido filmes de ação o suficiente para saber o que aquilo significava, mas, porra, agora era real, e eu estava participando involuntariamente daquilo. Meus membros tremiam, meu coração batia em um ritmo frenético. Eu nunca quis tanto ter o poder de desintegração, apenas para sumir dali. — Eu acho que foi você a se enganar — Hammer falou. — Você sabe o quanto eu me arrisquei para trazer essa menina até aqui? Quantos homens eu perdi quando invadimos aquela porra de clube? Então antes de vir querer dar uma de esperto para cima de mim, eu exijo que você repense sobre o que disse e me dê o que eu realmente mereço. — Pois bem — o homem devolveu. — Eu lhe darei o que merece. E então eu escutei um estalo, seguido por outro e mais outro... foi quando percebi que alguém havia iniciado um tiroteio. NACIONAIS-ACHERON


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Passos pesados começaram a ser ouvidos, gritos masculinos e femininos soando ao redor, a barulheira começando a se intensificar. Algo espirrou em cima de mim e eu me encolhi, torcendo para que não fosse sangue. Tentei me arrastar pelo chão, procurando me livrar dos passos que soavam ao meu redor e dos cacos de vidro que eram atingidos. Em algum momento, alguém me pisoteou minha mão. Mordi meu lábio e continuei em minha busca incessante por uma direção, mas estava completamente perdida e cega. De repente, alguém me pegou pelo braço e o puxou. — Vamos, venha! — o homem com o sotaque estranho falou. — Vamos, garota. Não temos mais tempo! Me movi tropeçante pelo caminho. Quando o ar do lado de fora beijou meu rosto, estremeci. Alguém me empurrou e eu caí no que imaginei ser o fundo de um caminhão. Portas bateram, e então o carro começou a se movimentar. Depois de minutos, ou horas, o carro parou e alguém abriu a porta. Quando ele tirou a venda dos meus olhos, dei de cara com um homem. Ele parecia estar familiarizado comigo de alguma forma, porém eu não me lembrava de tê-lo visto antes. — Olá, querida. Como se sente? — ele ergueu a mão para acariciar meu rosto, no entanto eu me afastei. Diferente de Hammer, ele não pareceu bravo por eu ter impedido o contato. Na verdade, sua expressão era vazia, quase impossível de ler. Tirando um momento para analisar mais detalhadamente o desconhecido, registrei seus cabelos grisalhos e o porte elegante, onde um terno aparentemente caro o deixava com um aspecto ainda mais pomposo. NACIONAIS-ACHERON


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Seu rosto carregava algumas rugas de expressão, deixando claro os prováveis quarenta anos que ele tinha a mais que eu. No momento em que baixei o olhar para as abotoaduras em seu terno e localizei seu pulso, congelei em meu lugar: havia uma tatuagem ali. A mesma tatuagem de Ômega que eu havia visto no pulso de Mikhail na outra noite. Ele se vestia como Mikhail. E também falava como Mikhail. Oh, Deus! — Q-quem são vocês? — O pavor era claro em minhas palavras. — O que querem comigo? Meu captor abriu um sorriso sutil. — Perguntas demais, querida. Apenas colabore e tudo correrá bem. Seu sorriso era para ser tranquilizador, mas só servia para me deixar ainda mais nervosa. O que ele queria, e por que justamente eu? Então foi como se uma cachoeira de memórias derramasse em minha cabeça: o ataque na noite em que eu voltava do Dark Horse, Mikhail e sua proximidade, a união dos russos com os Fierce Lions, esse homem e sua tatuagem... — Por quê? — a pergunta saiu involuntariamente. — Diga-me, por que eu? No início ele ficou em silêncio, como se ponderando me contar tudo ou não, mas após alguns minutos decidiu finalmente me dar uma luz: — Tem alguém que está muito ansiosa para ver você. — Alguém? — murmurei, confusa. — Eu não entendo. Quem quer me ver? Ele devolveu o meu olhar com uma expressão ainda vazia e fria. A confusão e tensão eram quase palpáveis, alastrando-se dentro de mim como uma praga. Por fim, ele soltou uma expiração longa, movendo-se para sair do fundo do NACIONAIS-ACHERON


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caminhão. Mordisquei o interior da minha bochecha, preparando o meu corpo e cérebro para qualquer coisa que estivesse destinada para mim. Aquele talvez fosse o meu fim, e as chances de me livrar dali eram mínimas, portanto eu precisaria saber aproveitar cada segundo que estivesse a meu favor. Engoli em seco ao ouvir passos vindos em direção ao carro. Dessa vez, pareciam ser passos de sapatos de uma mulher. E foi então que uma sombra esguia parou em frente à porta do caminhão. A primeira visão que eu tive foi de meias-calças pretas. Uma saia lápis da mesma cor cobria parte das pernas longas e elegantes. Um sapato que eu supunha ser de grife pisou no solo do compartimento, sendo seguido por outro. Assim que ela já estava dentro do local, caminhou em minha direção. Respirei fundo, sabendo que precisava reunir forças para encará-la nos olhos e lutar. Sentindo-me ao menos parcialmente preparada para aquela batalha, ergui meu olhar. E foi então que meu coração parou de bater. Era como se um turbilhão de emoções e memórias se apoderassem do meu eu. Entreabri meus lábios, mas estava muda, mortificada e tinha certeza de estar impossibilitada de respirar também. Como aquilo podia ser possível? Seus joelhos se dobraram, e então ela se agachou à minha frente, ficando cara a cara comigo. Seu largo e irônico sorriso foi o golpe final para romper qualquer fio de sanidade na minha mente. — Olá, minha doce Jazmine — murmurou a mulher. — Quanto tempo.

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22: Velhos Laços

— O que você acabou de dizer? — interroguei, incapaz de tirar os olhos do homem ruivo. Ele estava apoiado contra o balcão do bar, braços cruzados e postura impassível até demais para alguém que se via sozinho diante de um grupo de homens que almejavam a sua cabeça numa bandeja de prata. A minha vontade naquele momento era de apertar o seu pescoço até a morte, no entanto, ele havia me garantido que estava ali por uma razão que me interessava, e eu decidi deixá-lo derramar o que tinha para me dizer antes de finalmente decidir machucá-lo. — Nós temos que salvar Jazmine — repetiu, como se aquela decisão já não houvesse sido pensada antes. Eu apenas mantive meu olhar cravado em Mikhail Petrov, tendo quase certeza de que ele estava ficando louco ou tentando me pregar uma peça. Aquilo era real? O cara, muito provavelmente, era o principal responsável pelo sequestro da minha mulher, e agora me dizia que tínhamos que salvá-la, como se fôssemos uma equipe? — Você está brincando comigo, certo? Ele arqueou uma sobrancelha, parecendo confuso. — Desculpe? — Eu estou falando a respeito de toda a merda que você começou a derramar desde que chegou aqui — atirei. — É bem irônico o fato de você, o principal NACIONAIS-ACHERON


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suspeito por trás do sequestro de Jazmine, vir até aqui, fingindo querer colaborar, como se nada houvesse acontecido. Ele não mudou sua expressão, o que me irritou ainda mais. Era um pouco difícil ler as emoções daquele idiota com ele agindo daquele modo. — Você não sabe com quem está falando, não é? Se soubesse não usaria esse tom comigo. — E não sei, e estou pouco me fodendo para quem caralho você realmente é! — falei. — Eu acho bom você me dizer de uma vez por todas que espécie de jogo está tentando fazer. — Sem jogos aqui, acredite. Estreitei meus olhos, ainda os mirando ameaçadoramente em sua direção. — Você terá que ser bem mais convincente que isso. Mikhail soltou um suspiro irritado. Massageando as têmporas, ele tirou alguns segundos para executar seja lá qual ritual precisasse para se acalmar, em seguida, voltou a cruzar os braços. — Escute, por que você tem tanta certeza de que fui eu a levar Jazmine? — Isso não é óbvio? — abordei. — O informante dentro dos Renegade Souls, que estava passando informações ao clube do qual você é aliado, me contou tudo. Ele confessou que há pessoas querendo Jazmine, pessoas russas, e como suas atitudes até então não foram nada menos do que suspeitas, cheguei à conclusão de que essa pessoa se trata de você. — É uma lógica inteligente, devo admitir. — Suas sobrancelhas se arquearam novamente. — Mas eu não conheço informante algum, e mesmo se o conhecesse, não faria muita diferença. Estou sendo sincero. — Eu acho que nós deveríamos ouvir o que ele tem para falar — Shade disse. NACIONAIS-ACHERON


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Desde o ocorrido com o seu pai, ele havia se isolado em seu quarto, saindo somente agora quando solicitei todos os membros para fazermos uma reunião a respeito do plano de encontrarmos Jazmine. — E por que você acha isso? — indaguei. — Ele não seria idiota de vir até aqui sozinho e desarmado se estivesse planejando uma emboscada — Shade respondeu. — Muito menos perderia seu tempo com conversa fiada. Se ele está aqui, é suposto que esteja sendo sincero. Eu não disse nada de volta; em vez disso, mantive meus olhos no homem que se dizia ser inocente e alegava querer nos ajudar. Era óbvio que nós não tínhamos muito o que usar ao nosso favor, mas se aliar a alguém que mal conhecíamos, e que ainda por cima tinha um histórico tão suspeito, seria uma grande burrice. Parecendo totalmente ciente em relação aos meus pensamentos, Mikhail afastou-se do balcão e ajeitou o seu sobretudo preto. Pondo as mãos nos bolsos, caminhou alguns passos antes de parar bem na minha frente. — Não fui eu quem sequestrou Jazmine, mas posso te ajudar a encontrá-la — abordou. — Eu sei que mal nos conhecemos, e as coisas entre nós jamais foram corações e flores, mas eu vim até aqui para ajudá-lo a salvar a garota que você parece amar. Só peço que confie em mim. Cruzei meus braços sobre o peito, estreitando os olhos em desconfiança. Ambos éramos altos, de modo que conseguíamos manter um olhar cara a cara. — E por que você faria algo como isso? — A resposta é simples — ele ficou totalmente sério. — Eu jamais permitiria que ferissem a minha própria irmã. NACIONAIS-ACHERON


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— Whoa! — alguém soltou um ruído surpreso. Mais alguns burburinhos se seguiram, enquanto eu ainda me mantinha em silêncio, tentando absorver essa última informação. Ele disse... irmã? Puta merda! — Espere... — Inclinei a cabeça, ainda incrédulo a respeito do que havia escutado. — Você disse o que eu acho que disse? — Que Jazmine é minha irmã? — suspirou. — Sim. E foi então que eu fiquei seriamente furioso. — Seu... filho da puta. — Parti para cima dele, mas Shade foi mais ágil, segurando-me antes que eu fizesse uma besteira. — Por que diabos você não me disse isso antes? — Por que eu diria? — Mikhail devolveu. — Eu não confio em vocês. — E por que você acha que devemos confiar em você agora? — Temos alguma outra opção? — Tanto eu quanto todo o restante dos homens ficamos em silêncio, então ele balançou a cabeça, como se já esperasse por essa reação. — Foi o que pensei. Não ache que estou feliz por estar aqui também, mas Jazmine está em perigo, e se aquela cadela louca conseguir colocar as mãos nela, toda essa nossa discussão será em vão. — De quem você está falando? — Essa é uma longa história — respondeu, adquirindo uma expressão tensa. — Não temos muito tempo para isso. Vamos atrás dela, e eu conto tudo no caminho. — Eu ainda não confio completamente em você — alertei. — E nós não estamos sozinhos, portanto se alguma coisa acontecer com a gente ou com a NACIONAIS-ACHERON


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minha old lady... você é um homem morto. Seu olhar duelou com o meu por longos e intensos segundos. — Recado dado.

Já estava anoitecendo quando apanhamos o furgão do clube e saímos em disparada em direção ao complexo dos Fierce Lions. Shade havia ficado para trás como uma forma de garantia caso nosso plano não desse certo e precisássemos de um reforço extra. Mikhail estava sentado ao meu lado enquanto eu dirigia. Direcionei meu olhar para ele e fiz um aceno em sua direção. — Você pode começar a desembuchar agora. Ele suspirou, passando a mão sobre o material caro do seu sobretudo, e ainda olhando para frente, questionou: — Por onde você quer começar? Ponderei sobre sua pergunta. Havia muitas inquirições que eu gostaria de fazer, mas sabia que o mais correto era ir com calma. No entanto, havia algo me encabulando e que eu não podia deixar para depois. — Eu quero saber a respeito do seu parentesco com Jazmine — falei. — Conte-me cada detalhe. Ele manteve-se em silêncio, encarando um ponto à sua frente, aparentemente perdido em alguma lembrança marcante. Quando finalmente decidiu dizer alguma coisa, percebi que seu tom de voz havia mudado pela primeira vez desde que nos topamos naquele dia. — Eu não vou te dizer exatamente do que se trata, mas a minha família possui um patrimônio que passou de geração para geração por anos. Por NACIONAIS-ACHERON


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conta disso, fazemos muitas viagens, não só pela Inglaterra – que é onde vivo –, mas por boa parte do mundo também. Minha mãe viveu no Reino Unido a maior parte do tempo, mas ela nasceu na América, mais precisamente no Texas. Quando eu tinha cinco anos, me lembro que meu pai, Alexander Petrov, nos informara que ficaria por um tempo fora em mais uma de suas viagens. Aquilo já era normal para nós, afinal ele sempre viajava, porém desta vez, a minha mãe insistiu para que fôssemos com ele. Ela dizia que desejava visitar a sua terra natal, pois sentia muita saudade de lá. O meu pai se mostrou relutante no início, mas eu me recordo de que ele decidiu dar o braço a torcer, afinal desde o casamento de ambos, ela jamais havia pisado na América. E foi então que nós viajamos para os Estados Unidos e passamos alguns meses por lá — ele pigarreou. — Bem, eu não lembro de nada sobre isso com clareza, mas estou lhe passando o que a minha mãe me contou em seu leito de morte. Assenti, ele continuou: — Bem, de qualquer forma, aquela viagem foi uma das mais marcantes da minha infância. Isso porque o momento que, para mim, significava descontração, se tornou algo assustador. As brigas entre os meus pais eram cada vez mais constantes. Alexander sempre foi um homem rígido e de poucas palavras, nunca demonstrando sentimentos que pudessem expor sua fraqueza. Ele lidava com o seu negócio dia e noite, mal tinha tempo para nós. A minha mãe também começou a agir de forma estranha, me deixava no hotel com a babá e desaparecia por horas, voltando apenas tempo suficiente para que meu pai a encontrasse quando chegasse. As brigas aumentaram. Eu me lembro que, em uma dessas brigas, ele chegou a chamá-la de vagabunda e disse que ela arcaria com as consequências. No começo eu não entendi muito bem sobre o que tudo aquilo se tratava, mas anos depois, quando a minha mãe finalmente decidiu me confessar, eu compreendi todo o seu NACIONAIS-ACHERON


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comportamento, sua ânsia por voltar à América, principalmente suas saídas furtivas. — E qual foi o motivo? — perguntei. — Como eu havia lhe dito antes, a minha mãe nasceu no Texas e viveu um tempo por lá, o que consequentemente lhe conferiu uma história. Havia um homem. Um homem que ela conheceu há muito tempo, por quem se apaixonou, porém não foi possível que ambos ficassem juntos. Esse homem era Michael Young. — Michael... o mesmo Michael Young de quem eu estou pensando? — Se você se refere ao pai de Jazmine, sim — Mikhail confirmou. — A minha mãe teve um amor de infância, alguém que não se esqueceu mesmo depois de ter se casado. — Então... toda a viagem, a insistência de ir até o Texas, era apenas para ver Michael? — Exatamente — ele respondeu. — Minha mãe não amava Alexander, nunca amou. Eu tenho as minhas dúvidas de que o meu pai também não sentia nada por ela. — Qual o nome dela? A sua mãe? — Chloe — disse. — Ela se chamava Chloe. Agora eu me lembrava de algumas vezes em que Michael murmurara esse nome após se render a mais um de seus porres. Ele havia caído no fundo do poço por causa do amor de uma mulher. Eu não tinha ideia do que dizer a respeito. — E sobre Jazmine? — perguntei. — Você ainda não me explicou como ela foi parar nas mãos de Michael, sem ao menos ter chegado a conhecer sua própria mãe. NACIONAIS-ACHERON


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— A minha mãe engravidou de Michael durante essa tal viagem — respondeu. — Foi um erro que não podia mais ser consertado. Ela era uma mulher religiosa e totalmente contra métodos abortivos, então decidiu ter essa criança, mesmo com todos os sinais de que aquilo não daria certo. Ela me confessou que pensou até mesmo em se divorciar do meu pai e fugir com o seu bebê para os braços do homem que amava, mas Michael havia se casado também e ela não queria ser a responsável pela destruição de dois lares. E foi assim que ela decidiu encobrir sua gravidez e tentar convencer o meu pai de que a criança era dele. Ele fingiu acreditar no início, claro, mas não durou por muito tempo. Meu pai nunca foi um homem com quem se brinca ou se joga. Ele conseguia ser perigoso e cruel na maioria das vezes, então quando Jazmine nasceu, ele lhe deu duas opções: se livrar da criança bastarda e manter a nossa família, ou permanecer com ela e ser expulsa das nossas vidas, comprometendo não somente a segurança do bebê, quanto a minha. A minha mãe optou pela parte menos difícil, que era se livrar do bebê. Mas ela faria de um modo que garantisse a segurança de todos nós, portanto ela entregou a criança para o pai, decidindo nunca mais se aproximar dela. Eu tinha que me atentar enquanto dirigia, afinal eu estava cada vez mais impressionado com toda aquela história. Eu não fazia ideia de que havia tanta tristeza e rancor por trás do nascimento de Jazmine. — Então quer dizer que Michael Young, o homem que se casou com a minha mãe, na verdade amava outra mulher? Alguém que, apesar do dinheiro, possuía uma vida tão miserável quanto a nossa? — Exatamente. — Como você conseguiu localizar Jazmine? — indaguei. — Afinal ela saiu do Texas faz poucos meses. — Eu tenho os meus meios — me respondeu. — Além disso, eu já vinha NACIONAIS-ACHERON


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procurando por Jazmine há um tempo. O problema é que o meu pai também a procurava, e acabou encontrando-a primeiro. — E você não sabia de nada sobre isso? — indaguei. — Inicialmente, não. Logo após o meu pai saber sobre a localização de Jazmine, eu fui informado a respeito de onde ele havia ido e decidi vir atrás. Eu não tinha certeza de quais eram seus planos, então me mantive na cidade, investigando por um tempo. — Por que você não contou logo a Jazmine que era seu irmão? — Eu sou um homem muito precavido. Prefiro sondar o ambiente e ter certeza de tudo antes de tomar qualquer decisão. Não era o momento certo para contar a ela toda a verdade. Além do mais, tinha você e seu clube. Eu não confiava em vocês. — Uma pausa. — Ainda não confio. — Certo, digamos que você viajou até aqui apenas para encontrar Jazmine, sem muitas expectativas a respeito do que poderia acontecer. Você quer mesmo me fazer acreditar de que não sabia de nada sobre os planos do seu pai? — Sim — ele confirmou. — Eu não sabia até poucas horas atrás, e é por isso que estou aqui com você. Estreitei os olhos. — Você nem mesmo desconfiava? — insisti. — Era meio óbvio o fato de que seu pai, um homem que foi traído, estivesse sedento para se vingar do fruto de tal traição, certo? Mikhail respirou fundo, então inclinou a cabeça para baixo. — Ele é um homem diferente agora — garantiu. — Ainda não é tolerante com seus inimigos ou parceiros de negócios, mas está tolerante com coisas que considera irrelevantes, e acredite em mim, Jazmine é algo irrelevante NACIONAIS-ACHERON


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para ele agora. Mas meu pai tem um ponto fraco: a sua nova esposa. Aquela mulher parece ter feito uma lavagem cerebral nele. Sacudi a cabeça em sinal de que compreendia. Fiz a pergunta que eu tanto temia a resposta: — Então quer dizer que ele não pretende machucar Jazmine? — Nada vai acontecer se chegarmos a temp... — Não foi isso o que te perguntei! — Apertei o volante, deixando a cólera se apossar de mim. Ele massageou as têmporas, então refez sua frase: — O meu pai não vai machucá-la, Héctor. Por que diabos aquilo não me deixou mais aliviado? — Então por que ele a quer? Um pequeno intervalo de tempo se seguiu enquanto ele apenas me encarava. — Você realmente não desconfia? — disse. — Depois de todos esses anos... como você nunca se deu conta disso? — Não me dei conta do quê? Ele suspirou. — Conte-me como foi a sua infância com o seu padrasto. A sua vida depois que Jazmine apareceu. Não entendi aonde Mikhail queria chegar; aliás, como ele sabia daquela informação sobre minha infância? — Que diferença isso faz? — Apenas me responda. Soltei um bufo de irritação, mas decidi responder a ele: — Minha vida era uma merda — falei. — Mas antes que você me venha com julgamentos, NACIONAIS-ACHERON


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Jazmine não tem culpa de nada, ok? — Claro que não tem — disse ele. — É uma pena que nem todas as pessoas pensem assim. Uma pulga começou a coçar atrás da minha orelha. — O que você está querendo dizer com isso? Sua expressão era tão séria que senti gelo vivo subir pela minha espinha. — Alexander está doente e realmente incapacitado de elaborar planos mirabolantes para se vingar de uma menina de vinte e um anos que nem sequer o conhece. Ele tem um tumor maligno, é provável que tenha pouquíssimo tempo de vida e decidiu que vai preferir morrer sem um tratamento adequado. — Continuei fitando-o enquanto ele continuava. — Meu pai ajudou a sequestrar Jazmine, mas não é ele quem você mais deve temer, e sim ela... a vadia louca. — De quem você está falando? Ele passou a mão pelo cabelo enquanto respirava fundo. — Lisabeth Ridel Petrova — respondeu. — Sua irmã gêmea.

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23: Lulla(bye)

Parei o carro em frente à sede dos Fierce Lions, mal tendo tempo de fechar a porta ao passo que partia para a traseira do furgão, retirando o armamento que havíamos selecionado. Nosso grupo era pequeno, composto por em torno de meia dúzia de homens. Sabíamos que as chances de sairmos dali ilesos era mínima, mas não podíamos mais aguardar o reforço enquanto o tempo passava. Não com Jazmine em perigo, mantida refém pela minha própria irmã. Diabos! Toda vez em que eu pensava no que me havia sido revelado, mais atordoado eu ficava. Mikhail me dissera que Lisa estava em suas vidas havia um bom tempo. Ela chegara de forma inesperada, se infiltrando aos poucos no coração e mente do seu pai, infernizando a vida da mãe de Jazmine e, consequentemente, tomando o seu lugar. Por mais que eu quisesse pensar em coisas positivas em relação às suas intenções, nada me tirava da mente a certeza de que Lisa havia mudado. Ela estava casada com um homem que tinha, de alguma forma, ligação com o nosso passado. Um homem perigoso, regente de uma organização tão perigosa quanto. Mikhail não quis entrar em detalhes, mas eu sabia que esse “patrimônio” o qual ele se referiu era, muito provavelmente, alguma merda perigosa relacionada a máfia. E ela conseguiu fazer com que o homem que liderava essa organização viesse da Inglaterra — o lugar onde Mikhail passou a maior parte da sua vida — até os Estados Unidos só para acatar um pedido NACIONAIS-ACHERON


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seu. Ela fez com que ele se aliasse aos Lions quando percebeu que tentar tirar Jazmine de nós não seria tão fácil, e ela armou tudo isso sozinha. Minha irmã sempre foi inteligente, mas utilizar dessa inteligência para fazer algo tão vil, era algo que eu jamais havia imaginado. Após nos prepararmos com as armas e os coletes a prova de balas, ordenei que os caras se mantivessem alertas enquanto nos dirigíamos à entrada. A porta da boate estava aberta, mas o silêncio reinava. Logo fiquei em alerta, temendo ser mais uma emboscada. Por um momento, cheguei até mesmo pensar se Mikhail havia nos atraído até ali com toda sua conversa fiada, mas quando me aproximei mais da porta de entrada e vi a quantidade de corpos abatidos ao redor, meu estômago se embrulhou com algo semelhante a choque e adrenalina. Não que a imagem de pessoas mortas me deixasse em choque, mas eu realmente não esperava encontrar algo como aquilo ali. Havia homens com coletes dos Lions, mulheres e até mesmo caras com a vestimenta preta — a mesma que os homens que atacaram Jazmine uma vez usavam — caídos ao chão. — Merda — alguém murmurou. — O que... Antes que ele pudesse concluir a frase, um ruído soou do outro lado do salão. Virei-me já com a minha arma apontada, mas vacilei quando vi Axel sangrando, se arrastando no chão. — Você pode me explicar que porra é essa? — questionei, referindo-me à baderna ao redor. Ele ofegou. — Os russos... eles... eles começaram isso — ele engoliu com dificuldade fazendo uma careta de dor. — Merda. Hammer está morto, todos estão mortos. Eles levaram a garota. NACIONAIS-ACHERON


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— Para onde a levaram!? — Eu não faço ideia. Juro. Suspirei em frustração, mas não o forcei mais que aquilo, pois percebi que Axel estava sendo sincero. Mikhail se moveu ao redor, parecendo pensativo. — Seja lá qual for o lugar para onde a levaram, a ideia sem dúvidas partiu de Lisabeth — disse. — Nós precisamos bolar um plano para encontrá-las o mais rápido possível. — Você realmente não sabe para onde o seu pai poder tê-la levado? — perguntei. — Algum esconderijo que vocês têm por aqui? Ele sacudiu a cabeça em negativa. — Como eu disse, a ideia partiu de Lisabeth, tenho certeza. — Ele coçou o queixo, parecendo estar refletindo em algo. — Héctor, vocês são gêmeos. Não possuem algum tipo de ligação ou algo assim? Tente seguir a sua intuição ou coisa parecida. Suspirei, frustrado. — Não, porra, eu não faço ideia de por onde começar a procurar — falei irritado. — Vamos lá, pense — Mikhail insistiu. — Pelo que você a conhece, me diga se existe algum lugar onde ela escolheria para se vingar de alguém que, em sua cabeça, lhe causou tanto sofrimento. Ainda era meio surreal a ideia de que minha irmã gêmea estava viva. Eu ainda me lembrava como se fosse ontem o dia em que nós recebemos a notícia de que Lisa havia desaparecido no rio perto do nosso rancho. Foram dias de procura incessante pelo corpo da minha irmã, mas nunca chegamos a encontrar. O caso foi dado como encerrado e Lisa dada como morta. NACIONAIS-ACHERON


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Os anos se passaram, fiquei mais velho, mas nunca me esqueci dela. Minha doce irmãzinha. A irmã que agora havia armado um plano de vingança contra a mulher que eu amava. Justo ela? Eu parei a meio caminho de ter um surto, pois eu realmente não tinha ideia do que diabos fazer. Mas foi então que um pensamento me ocorreu: Lisa havia supostamente morrido em um rio. Que lugar mais propício ela escolheria para se vingar de Jazmine do que num rio? Me virei para Mikhail. — Eu acho que já sei onde podemos encontrá-las — falei. — Precisamos correr até o rio de Scout Lake, e rápido. Não podemos perder mais tempo.

— Brilha, brilha, estrelinha; quero ver você brilhar. Brilha, brilha estrelinha... os seus olhos eu vou per-fu-rar! — A risada grotesca de Lisa fez com que eu recuasse, sentindo os pelos dos meus braços totalmente eriçados. Ela não era mais a garota que conheci, há vinte anos. Ela estava diferente, isso era fato. Ainda possuía os mesmos olhos escuros que eu costumava ver em Héctor, mas havia algo cru e letal em seu olhar agora. Algo negro, intenso e ao mesmo tempo vazio. Era como se algum ser sobrenatural houvesse se apossado do seu corpo, ou ela estivesse ficado louca. Não era possível que a garota que um dia considerei minha irmã havia se NACIONAIS-ACHERON


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transformado naquilo. — Você não mudou nada — ela comentou, inclinando a cabeça para o lado. — Continua uma medrosa patética. Tentei ignorar o tremor que se alastrava pelo meu corpo, buscando uma forma de não soar tão desesperada. — O que você está fazendo aqui, Lisa? — questionei. — Pensei que estivesse morta. Ela deu uma risada irônica, executando um passo em minha direção. Estávamos acima do rio, na extremidade de uma ponte que ligava ao que eu imaginei ser uma espécie de floresta. Era alto e aquilo me assustava como o inferno. Tentei me arrastar ainda mais para trás, mas minhas costas bateram contra o tronco de uma árvore, deixando claro que aquele era o meu limite. — Você realmente gostaria que isso tivesse acontecido, não é? — ela murmurou de forma venenosa. — Está surpresa com o quão esperta eu posso ser? — Eu estou aliviada, na verdade — falei, procurando não soar agressiva. — Héctor vai ficar feliz em ver você. — Você acha? — Ela pareceu ponderar sobre minha declaração. — Ele me parece tão mudado agora. — Você chegou a vê-lo? — questionei. — É claro que eu fiz, sua idiota — respondeu. — Não permiti que ele me visse, no entanto. Eu venho vigiando aquele clube que ele lidera há um bom tempo. Engoli em seco, não sabendo exatamente como processar aquele pedaço de informação. — Você está na cidade há muito tempo, então? NACIONAIS-ACHERON


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— Há tempo suficiente para que eu conseguisse preparar tudo para finalmente ter a oportunidade de me livrar de você — falou. — Até contra o meu próprio irmão eu tive que partir, só por sua causa. Você tem noção do quão problemática é? Me encolhi quando seus saltos bateram no solo desnivelado enquanto ela tentava se movimentar em minha direção. Ela segurou em meus ombros. — Você sempre foi um grande problema, Jazmine. — Suas unhas compridas cravaram na minha carne com força. — Meu maior problema! Então, do nada, ela começou a me sacudir. Gritei, assustada com o seu ataque repentino, e acabei levando um tapa no rosto. Caí para o lado, totalmente sem equilíbrio por ainda estar com as mãos amarradas para trás. Lisa veio para cima de mim outra vez, então eu aproveitei o momento para erguer o meu pé e o bati contra seu peito. Dessa vez, foi ela quem se desequilibrou e caiu para trás, soltando um grito. — Olha o que você fez! — grasnou. — Sua puta. Então ela começou a me chutar e estapear enquanto repetia, totalmente ensandecida: — Puta, puta, puta! Eu tentava desviar da maioria de seus golpes, mas a posição em que me encontrava não era uma das mais favoráveis. De repente, ela foi tirada de cima de mim. Olhei para cima e vi o mesmo homem que havia me trazido até aqui, segurando Lisa por trás. — Ei, está tudo bem, não se descontrole — ele falou para ela. — Faça o que tem que ser feito, mas não cause muito alarde. Após uma pausa, ela acenou com a cabeça, respirando pesado. Seu olhar repleto de ódio não saía de cima de mim, no entanto. NACIONAIS-ACHERON


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— Ela é tão má — disse. — Eu a odeio tanto, Alexander. — Eu sei, querida. Eu sei — ele pronunciou. — Agora acalme-se, sim? Ela voltou a anuir, se libertando do homem. Prendendo uma mecha solta de cabelo escuro em seu coque justo, ela caminhou até mim. Eu apenas fiquei imóvel enquanto observava a estrutura magra e elegante da minha meia-irmã. Lisa sempre foi bonita, mas sua beleza não era tão visível no passado devido aos maus tratos que passava. Hoje, no entanto, ela estava bonita e conservada o suficiente para ser confundida com uma modelo ou uma atriz famosa. Pena que toda a podridão e rancor que transpareciam em seu olhar demonstravam quão feia ela estava por dentro. Lisa parou a alguns passos de mim. Permaneci imóvel, temendo fazer algum movimento mais brusco e desencadear um outro ataque. Ela estava desequilibrada e eu sabia que tentar provocá-la iria ser ainda pior. — Você vai ser uma boa menina a partir de agora, Jazmine? — Assenti, sem sequer tirar os olhos de seu rosto. — Bom. Não me faça lhe castigar. Engoli em seco enquanto ela voltava a caminhar, dessa vez contornando o meu corpo. Eu tinha medo de me virar para olhá-la, mas mesmo assim eu fiz. Não era nada seguro baixar a guarda enquanto uma maluca que dizia me odiar estava parada em minhas costas. Lisa foi rápida quando se agachou e puxou meus braços. Percebi que ela estava me desamarrando. Praticamente respirei aliviada, mas a breve sensação de alívio se esvaiu quando ela retornou a ficar diante de mim e exigiu: — Levante-se. Eu fiz. Mesmo com minhas pernas trêmulas e coração praticamente saindo do meu peito, eu me levantei. Ela olhou-me de cima a baixo. NACIONAIS-ACHERON


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— Você está parecendo uma prostituta com essa roupa — disse, apontando para meu corpo. — Venha, tenho algo melhor para você. E sem delongas, ela segurou em meu braço e me puxou enquanto eu tropeçava pela terra e folhas caídas, tentando acompanhar seus passos. Quando paramos, percebi que estávamos no início do pequeno caminho que dava acesso ao rio. O homem, que agora eu sabia se chamar Alexander, estava recostado contra o mesmo carro no qual fui trazida, sua expressão era impaciente e severa. — Você vai demorar muito com isso? — ele questionou. — Não se esqueça de que todos os meus homens foram mortos naquele confronto com os motoqueiros, tudo para trazer essa garota até você. Então seja rápida com isso e vamos embora de uma vez por todas. Ela fez biquinho. — Não grite comigo, Alexander. — E então olhou para mim. — Há muito tempo eu não brinco com o meu brinquedo favorito. Preciso aproveitar essa oportunidade, não é, pequena Jazmine? Não respondi. Ela não pareceu notar, entretanto. Lisa estava muito entretida agora, procurando algo em uma bolsa no chão, para prestar atenção em mim. Quando retornou a me olhar, estendeu um pano, ordenando: — Vista. Olhei para o tecido colorido e percebi que se tratava de um vestido. Não, na verdade parecia uma fantasia de boneca. Ela queria realmente que eu vestisse aquilo? — Eu não... — Eu acho melhor você vestir isso. — O homem me interrompeu, puxando uma arma e apontando para mim. — Já estou ficando impaciente aqui. Engoli em seco, apanhando o vestido da mão de Lisa e mordendo meu lábio NACIONAIS-ACHERON


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inferior enquanto me segurava para não cair no choro. Deus, o que seria de mim se eu não conseguisse conter aqueles dois? E Héctor, como ele iria saber onde eu estava depois de toda aquela confusão? Não me preocupei em tirar a roupa que vestia e pus o vestido por cima dela mesmo. Lisa sorriu, inclinando a cabeça enquanto me analisava. — Lembra-se de quando eu te vestia de boneca? — Sua voz era suave, como se estivesse falando com uma criança. — Você ficava tão bonita. Ela parou por um momento e deu uma risadinha. — Pensando bem... você ficou ridícula com essa roupa agora — zombou, olhando para o meu corpo malvestido. Seus olhos voltaram a escurecer e sua voz ficou sombria. — Agora vamos brincar, pequena Jazmine. Recuei quando ela veio para mim, mas assim que o homem ergueu novamente sua arma, me permiti ser amarrada e puxada de volta à ponte. Mas ao invés de me colocar aos pés da árvore, como da outra vez, Lisa me levou até o centro da ponte e me pôs sentada lá. Tremi quando senti a frágil estrutura balançar com o vento. Lá embaixo, a água do rio deslizava com a força da correnteza. O barulho da cachoeira abafava os sons mais insignificantes ao meu redor e eu senti um misto de medo e insegurança. Fazia um bom tempo que eu não orava a Deus, e me arrependi amargamente naquele momento por ter sido uma filha tão negligente. Lisa voltou a cantar: — Brilha, brilha, estrelinha, onde é que você está? Brilha, brilha, estrelinha, vamos juntos... — Pausou, parecendo pensativa. — Vamos juntos... nos queimar no fogo do infenso? — Ela riu. — Eu realmente não sei como se canta. Você se recorda? Eu balancei a cabeça em negativa, e ela bufou chateada. NACIONAIS-ACHERON


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— Lógico que não sabe — zombou. — Você é uma estúpida, como a sua mãe. Pensei que fosse impossível aquilo, mas de repente senti meus músculos ainda mais tensos. Como ela conhecia a minha mãe? E por que falava sobre ela como se ambas houvessem tido algum tipo de relação? — Por que você está dizendo isso? — questionei. — Porque é a verdade. — Ela sorriu, apontando para onde Alexander estava. — Você vê aquele homem? Eu o roubei da sua mãe. — Então ela suspirou, fingindo estar comovida. — Que idiota ela era. Igualzinha a você. Eu balancei a cabeça, tentando organizar as informações. Elas vinham como uma enxurrada na minha mente. No estado em que eu me encontrava, era um pouco difícil absorvê-las com clareza. — Aquele homem... o homem que me trouxe, ele e a minha mãe estavam juntos? — Foram casados — ela corrigiu. — Ele é o principal responsável por você ter sido entregue ao seu pai, fato que destruiu não somente a vida da minha mãe, mas a minha e do meu irmão também. Deus, até mesmo a vida do seu próprio pai você destruiu. — Ela fez uma careta de nojo enquanto focava em mim. — Você vê como é tóxica? Você sempre causa problemas, sempre estraga algo que toca. E o pior de tudo, você sempre sai vencendo no final, não é? Funguei, não mais me preocupando em tentar segurar as lágrimas. A minha mãe. Lisa havia conhecido a minha mãe. Havia tido contato com ela. Cristo... — A minha mãe, ela... — Fiz uma pausa. — Onde ela está? NACIONAIS-ACHERON


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— Morta. Solucei, querendo ter minhas mãos soltas agora para poder bater em algo ou apenas me enrolar em posição fetal e chorar em paz. Eu sabia que as chances de a minha mãe estar viva eram quase nulas, mas desde que meu pai nunca me deixou saber quem ela era, eu tinha uma pitada de esperança de que ela ainda estivesse viva e procurando por mim. Agora eu mal sabia se, em algum momento, ela teve ao menos a vontade de me conhecer. — Foi você quem... quem a matou? — Eu sabia que Lisa, no estado em que se encontrava, era a última pessoa para quem eu poderia fazer aqueles tipos de perguntas, mas se eu iria morrer em algum momento naquela noite, eu queria ao menos morrer sabendo um pouco da história da mulher que me deu à luz. Ela deu uma risadinha. — Não. Quer dizer, não diretamente, claro. Sua mãe era frágil como um mosquito. Acho que quando ela descobriu que a garota que apareceu em sua casa, fingindo ser uma funcionária era, na verdade, mais uma das muitas prostitutas que o seu marido fodia, foi vencida pelo cansaço e desgosto e definhou até a morte. — Ela fez um som de “tsc, tsc” com a língua. — Veja bem, ela era uma grande hipócrita, afinal teve uma filha com outro homem enquanto era casada. Que mal havia em Alexander ter algumas amantes? Agora as peças se encaixavam. A situação do meu pai. Minha mãe nunca ter aparecido. Era claro que ela havia me entregado ao meu pai porque não tinha condições de me criar sendo fruto de uma traição. E por mais que pensar em sua rejeição me doesse como o inferno, eu não iria julgá-la por feito o que fez, afinal o seu marido não era o melhor exemplo de homem íntegro e compreensível. NACIONAIS-ACHERON


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— Por que, Lisa? — questionei. — Por que você fez tudo isso? — A resposta não é óbvia? — Me encarou. — Por sua culpa! — Por minha causa? — repeti, incrédula. — Lisa, eu nunca lhe desejei o mal. Mesmo depois do seu desaparecimento, eu senti a sua perda tanto quanto o seu irmão sentiu. Você poderia ter voltado para nós e... — Cale-se! — ela ralhou. — Você é uma mentirosa! Uma falsa, mentirosa! Você sempre se divertiu com as merdas que Michael fazia. Eu tenho certeza que você ria pelas nossas costas sempre que eu e meu irmão apanhávamos daquele verme, não é? Você é uma vaca malvada, Jazmine. Deus, ela estava realmente desequilibrada. — Lisa, eu jamais faria algo como isso. — Besteira! — gritou, seus olhos furiosos ainda me perfurando. — Você realmente acha que eu voltaria para aquele inferno depois de tudo o que passei nas mãos do seu pai? Você sabe o quão machucada eu ficava quando ele me espancava até que eu praticamente estivesse a ponto de desmaiar? E quando ele batia no meu irmão por dois, sempre que Héctor me defendia? Até hoje eu carrego marcas do ferro de marcar animais que ele grudava em minha carne, Jazmine. Você sabe o quão aterrorizante isso é para uma garota de quinze anos? Não, você não sabe! Você nunca passou por isso porque você era a fodida boneca perfeita do papai! Você nunca levou um tapa sequer, nunca foi punida. Nunca teve que dormir com os olhos praticamente abertos por medo de acordar no meio da noite e haver um velho bêbado te observando na porta do seu quarto. Como diabos você queria que eu desejasse voltar para aquele lugar?! Eu senti meu corpo tremer, minha visão borrada por conta das lágrimas que inundavam meus olhos. NACIONAIS-ACHERON


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Dor, angústia, pena e indignação bloqueavam a minha garganta em um nó. Todos chegamos a algum lugar por meio de um ponto, e o ponto de partida para a atual loucura de Lisa havia sido todo o sofrimento, ódio e tristeza pelo qual ela havia passado. O rancor era nítido em seus olhos escuros, corroendo a menina boa que ela foi um dia, deixando apenas a casca da mulher amargurada em busca de vingança. Lisa queria se vingar pelo sofrimento que passou, e agora eu era o seu alvo. Por minha culpa ela havia chegado àquele ponto. Por mais que Héctor houvesse me dito uma vez que eu não tinha culpa de nada, eu sabia que se eu não houvesse aparecido em suas vidas, o futuro que eles teriam agora seria outro. Talvez estudar em uma boa faculdade, conhecer amigos, namorados e viver como pessoas normais. Como pessoas que fazem churrasco no verão ou enfeitavam pinheiros no Natal. Talvez Héctor houvesse se transformado em um homem íntegro, vivendo dentro da lei e se apaixonado pela mulher ideal. Talvez Lisa estivesse casada com um homem que amava, em um bom emprego e prestes a ter um filho. Talvez a mãe dos gêmeos não houvesse se suicidado, estaria bem e feliz, à espera de seu primeiro neto. Talvez o meu pai não houvesse definhado a si mesmo. Era a lei da Ação e Reação mostrando o seu valor. Tudo isso poderia ter acontecido se eu não houvesse nascido. — Eu sinto muito, Lis... — comecei a dizer, porém fui calada com um tapa. Ardeu, mas me mantive firme. — Pare de dizer essas coisas, sua putinha! — ela falou, arfante. — Pare de NACIONAIS-ACHERON


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dizer tudo isso, você não sente. Nunca sentiu. Eu permaneci em silêncio enquanto a encarava. — Eu tive uma infância de merda, Jazmine. A minha mãe era uma prostituta barata; o meu pai, eu nunca soube quem era. Eu tinha tudo para me tornar uma puta igual a minha mãe, mas então ela conheceu Michael, e eis que a luz no fim do túnel surgiu. Ele era tão bom para nós no começo. Mas depois de um tempo, tudo mudou. Depois que você apareceu, tudo virou um inferno. — Ela fez uma pausa, aparentemente com muito ódio para conseguir encontrar sua voz. — Você sabia que a sua mãe lhe rejeitou? Ela deixou você na porta de Michael como um pequeno e imundo pedaço de lixo. Nem mesmo uma carta ou um bilhete de “até a próxima”. Você foi literalmente abandonada. Deve ter sido por isso que seu pai ficou tão amargurado. Cristo, eu odiava aquela vagabunda também. — Não fale assim da minha mãe — eu rosnei, já indignada com tantos insultos. — Ela deve ter tido seus motivos para fazer o que fez. — Não fale assim da minha mãe — me arremedou com uma voz infantil. — Tente enganar a si mesma, idiota, a realidade é outra. — Você parece conhecê-la tão bem — ironizei. — Como conseguiu se aproximar da minha mãe, e de quebra roubar o marido dela? Ela sorriu. — Essa é uma história longa, querida — suspirou. — Mas como não estou com pressa para te soltar, irei lhe contar cada detalhe. Em seguida, ela segurou-se no corrimão feito com corda da ponte quando ela balançou mais uma vez. Retesei meus músculos, tentando manter o equilíbrio e não despencar dali de cima. Lisa continuou: NACIONAIS-ACHERON


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— Desde o dia em que eu tentei me matar afogada e fracassei, minha vida obteve conteúdo suficiente para ter dado a merda de um bom filme: Uma mulher chamada Hannah me salvou no dia em que desapareci no rio. Ela me levou para uma cabana do outro lado da mata, onde morava com seu bulldog fedido e me abrigou por um tempo lá. Hannah fodia com um cara chamado Dawson. Ele era um figurão boa pinta de Forth Worth, mas que vivia em Los Angeles. O cara tinha todas as manhas para fazer dinheiro fácil, e foi então que ele me prometeu me levar para a Califórnia e me transformar em uma garota rica. Acabei indo com ele, afinal o que eu tinha a perder? Eu havia perdido a minha mãe, tentei me suicidar pela terceira vez, fracassei e estava sem dinheiro. Foi então que eu fui para Los Angeles com esse cara e a sua namorada, Hannah. Acontece que eu fui ingênua o suficiente para não perceber que os planos de Dawson era me ingressar na prostituição. Tentei recusar no início, mas eu estava sem grana e sem ideia de para onde ir, então permaneci em seu negócio, começando para valer quando fiz dezoito. Eu virei uma puta de luxo em menos de dois anos. Eu era boa no que eu fazia, acredite. E também uma das mais requisitadas. Eu era tão boa que Dawson prometeu acatar um pedido meu como recompensa por bom desempenho certa vez, e então eu pedi que ele me levasse a Austin e passássemos um fim de semana lá. Eu queria visitar o meu irmão e lhe dar um pouco de dinheiro, mas quando eu o vi preso no celeiro, espancado e febril, chamando pelo meu nome como se estivesse tendo a porra de uma alucinação, eu fui embora tão silenciosamente quanto cheguei e jurei a mim mesma que eu me vingaria. Nem que eu passasse a minha vida toda armando um plano para acabar com aquele velho filho da puta e sua pequena princesa irritante. Ela fez uma pausa, parecendo imersa em suas lembranças amargas, e um momento depois continuou: — Primeiro, eu sabia que teria que ter algum dinheiro, muito mais do que eu havia conseguido até ali. Eu precisava me NACIONAIS-ACHERON


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tornar uma garota rica e poderosa. As pessoas temem e obedecem quem tem poder. Eu precisava disso para mim, só não sabia como fazer isso exatamente. E foi então que a sorte, pela primeira vez, sorriu para mim. Conheci vários homens. Homens poderosos. Alguns eram artistas de Hollywood que paravam na boate de Dawson para ter um breve momento de diversão. Eu dei isso a eles, Jazmine. A cada um deles. E enquanto eles se divertiam com o meu corpo, eu fazia o meu dinheiro e meu nome. Em poucos anos, eu era uma mulher rica e dona do meu próprio nariz. E foi assim que eu saí da boate e comecei a traçar meu plano. Eu tinha o nome da sua mãe, algo que foi deixado escapar algumas vezes nas brigas entre minha mãe e Michael, e então fui atrás de informações a respeito dela. Em um ano de pesquisas, eu tinha o nome, endereço e até mesmo tipo sanguíneo dela. Descobri também que ela era casada com um homem chamado Alexander Petrov, e foi então que pus a segunda parte do meu plano em prática. Eu havia aprendido muitas coisas na boate em que trabalhei, inclusive seduzir os mais diversos tipos de homens. Eu fiz isso com Alexander até que pudesse ganhar sua confiança. ” Meu estômago se embrulhou com toda aquela história. Deus, eu não podia acreditar em tudo o que Lisa me dizia. — Você foi até o lugar onde a minha mãe vivia, apenas para conhecer o marido dela e o seduzir? — Ela assentiu, tranquilamente. — E o que aconteceu quando Alexander começou a cair por você? Ela sorriu. — Ora, eu trabalhei em sua mente ainda mais. Depois que ele me contou sobre sua esposa infiel, o amigo de infância que a fodeu e a criança fruto dessa interação, apenas me tornei seu ombro amigo. Disse que estava precisando de um emprego e ele me colocou dentro da sua própria casa. Eu era o seu pequeno segredo sujo. A secretária particular que fodia no balcão da NACIONAIS-ACHERON


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cozinha quando sua esposa não estava vendo. Eu era Deus para Alexander. E então, em pouco tempo, eu me tornei a senhora Petrova. — E agora, depois que conseguiu o que queria, você voltou para se vingar? — Exatamente. — Então... o incêndio. O incêndio onde o meu pai morreu. Foi você quem causou? — Quem mais seria? — zombou. — Você realmente acha que um acidente daquela proporção foi causado de forma natural? Oh, querida, você é realmente ingênua. — E quanto a mim? — perguntei. — Por que você não me matou antes? — Como eu disse, você teve sorte. Depois que você desapareceu do Texas, eu tive um pouco de trabalho para reencontrá-la, então pedi para Alexander que me ajudasse. Ele aceitou fazer, após alguma insistência. Seria mais fácil lidar com isso se não houvesse o irritante do seu irmão. Outra pedra no meu sapato. — Eu... eu tenho um irmão? — Sim, você tem. Mikhail Petrov é o filho mais velho da sua mãe. Ele tinha em torno de cinco anos quando você nasceu. Mikhail Petrov. Ela disse... Oh, Cristo! Meu coração batia descontroladamente. Minha mente rebobinando e voltando para a cena de poucos dias atrás, quando o encontrei no Dark Horse: — Estou em busca de algo — finalmente falou. — Que tipo de algo? — perguntei. — Mulheres? Bebidas? NACIONAIS-ACHERON


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Ele sorriu. — Uma mulher, em específico. Deus, Mikhail... Mikhail era meu irmão. — Isso é triste — falei, não sabendo ao certo a que ponto eu me referia. Talvez eu estivesse falando sobre o destino que a minha mãe teve, ou o futuro que os gêmeos deixaram de ter. Talvez eu estivesse falando sobre mim mesma e o irmão que acabara de conhecer. Talvez eu estivesse falando sobre tudo isso ou até mesmo sobre nada. Minha mente parecia entorpecida por um breve momento, então toda a névoa se quebrou quando a voz de Lisa voltou a deslizar pelos meus tímpanos, aterrorizando-me: — Vai ser ainda mais triste para você, querida. Estremeci. — O que você quer dizer com isso? — Eu quero dizer que agora que lhe contei tudo, não há mais motivos para deixá-la viva. Chegou a hora do grand finale, Jazmine. E então ela sorriu diabolicamente, caminhando em minha direção como um felino em busca da presa. Segurando em meus ombros com força, ela me chacoalhou, ameaçando me jogar lá embaixo. Mordi meu lábio, procurando não gritar e não a deixar ainda mais descontrolada. Todavia, eu temia morrer de um ataque do coração antes mesmo de ser jogada na água. — Esse é o seu fim, pequena Jazmine — sussurrou. — Prepare-se para ele. — Lisa! — uma voz grossa ecoou no ar e então ambas congelamos. Olhei na direção de onde o som havia vindo e chorei, meu coração embebido em uma mistura de medo, amor e alívio. NACIONAIS-ACHERON


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Héctor estava aqui. Ele havia vindo ao meu socorro.

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24: Agridoce

Há momentos na vida em que nos questionamos se aquilo que estamos vivenciando é, de fato, real. Nos perguntamos se estamos inseridos em um mundo paralelo ou, até mesmo, imergidos em um sonho muito louco e totalmente sem sentido. Eu poderia dizer que aquele momento era um deles. Meu olhar travou com o da minha irmã gêmea, e eu sentia minha respiração pesada enquanto meu corpo absorvia as sensações de vê-la pela primeira vez dentro de anos. Anos onde eu estive certo de que ela se encontrava morta. Lisa havia mudado, isso era certo — eu conseguia sentir a aura sombria pairando no ar como uma fumaça suja e pesada — mas o olhar de reconhecimento que ela me lançou quando me viu quase me quebra. — Lisa — murmurei novamente, ciente de que ela me ouvia. Minha irmã parecia uma estátua naquela posição congelada, alguns fios soltos de seu cabelo escuro voavam ao redor de sua cabeça. Ela se moveu sobre a ponte, e foi quando um gemido chamou minha atenção. Baixei meu olhar para ver Jazmine aos pés de Lisa, totalmente trêmula. Meu coração falhou uma batida. Senti o arrepio característico da aflição subir pela minha pele, a sensação se intensificando a cada segundo que passava. Sem pensar duas vezes, eu me adiantei para ir de encontro a ela, mas Lisa segurou Jazmine com força pelos cabelos. Foi então que eu parei, vendo a ameaça em seu olhar. — Não se aproxime, Héctor! — ela gritou. — Eu juro por Deus que jogo essa NACIONAIS-ACHERON


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garota daqui de cima se você vier ao seu socorro. Engoli em seco, procurando um modo de controlar a guerra em meu interior. Sabia que teria que ser cuidadoso para lidar com aquela situação sem que fizesse Jazmine sair machucada. — Eu... — Limpei minha garganta, tentando soar confiante. — Eu não vim por ela. Lisa imediatamente mudou sua expressão. — Não veio? — ela falava com cuidado, provavelmente tentando descobrir se eu estava blefando ou não. — Por que veio então? — Por quem mais seria, Lisa? — falei. — Eu vim por você. A irmã que eu sempre amei, acima de qualquer coisa. Ela se moveu, ficando totalmente em pé. Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios. — Eu sabia. Eu sabia que você nunca iria se virar contra mim. Sempre soube! — Claro que não. Eu fiquei louco quando descobri que você estava de volta; queria tanto ver você — continuei. — Vamos, venha dar ao menos um abraço no seu irmão. Ela sorriu novamente, balançando a cabeça em afirmativa. Estávamos sozinhos ali. Mikhail havia ficado em algum lugar no meio do caminho quando eu disse a ele que seria mais válido buscar Shade e o restante do reforço. Os demais membros que vieram comigo mantinham um olho sobre Alexander, lá atrás. Foi a única maneira que encontramos de conseguir chegar até Lisa e salvar a vida de Jazmine. — Eu irei — Lisa falou, mas parando por um momento para se virar na direção de Jazmine e levar a mão à sua saia, de onde ela puxou uma arma. — Mas antes eu preciso dar um jeito nela... NACIONAIS-ACHERON


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— Não! — Amaciei o meu tom de voz quando notei seu olhar desconfiado em minha direção: — Deixe-a aí. Você pode fazer isso depois, certo? Eu realmente quero dar um abraço em você agora. Ela dirigiu um último olhar a Jazmine antes de decidir se virar e caminhar até mim. Eu não olhei para Jazmine em nenhum momento. Por mais que eu quisesse como o inferno me certificar de que ela estava bem, eu não podia vacilar agora e colocar todo o meu plano a perder. Quando Lisa chegou até mim, eu não sabia exatamente o que dizer ou pensar com aquele bolo gigante alojado na minha garganta. Estudei suas feições por um momento. Ela continuava bonita como sempre foi, mas havia algo a mais ali. Algo sujo e doente. Meu estômago se retorceu com o pensamento de que ela provavelmente havia se tornado como eu, ou pior. — Como você está? — perguntei. Lisa inclinou a cabeça, me encarando com uma tranquilidade assustadora. Ela parecia estar em alguma espécie de passeio ao parque de diversões ao invés de uma missão doentia para matar uma garota inocente. — Estou ótima — respondeu. — Agora sou uma mulher rica e poderosa. Eu tenho tudo o que quero. Balancei a cabeça de leve, sem tirar os olhos dela em nenhum momento. — Você é feliz? Ela parou por um instante, seu sorriso morrendo e seus olhos vacilantes. Mas, em seguida, tudo aquilo havia ido embora. A dúvida sumiu e lá estava novamente o brilho que eu havia visto momentos atrás. — Por que eu não seria feliz? — questionou. — Eu tenho dinheiro, um homem que me venera e eu tenho você do meu lado agora. — Fazendo uma pausa, ela olhou para trás, onde Jazmine estava. — E tudo vai ficar NACIONAIS-ACHERON


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completamente perfeito quando nos livrarmos dela. — Quando nos livrarmos dela? — repeti, sem saber exatamente como lidar com aquela merda agora. — Sim! — afirmou. — Eu sei que você a está fodendo, mas isso realmente não importa. Eu vou ajudá-lo a tirá-la do seu sistema, Héctor. Você pode encontrar uma boceta melhor e nós vamos seguir em frente. Vamos realmente ser felizes sem ela. Algo martelava a todo vapor dentro da minha cabeça. Era como se meu cérebro fosse explodir em questão de minutos se eu não fizesse nada para nos tirar daquela situação. Voltando a puxar, de algum lugar, a calma e frieza que eu tanto necessitava, apenas fitei a minha irmã gêmea conforme esboçava um pequeno sorriso. Me aproximando mais um passo, passei a acariciar seu rosto. Por mais que eu quisesse ignorar, as lembranças de nossa infância juntos explodiram dentro da minha cabeça: todas as vezes em que a protegi. Todas as vezes em que rimos e discutimos um com o outro. Lisa tinha um temperamento tão forte quanto o meu, mas ela tinha o dom de fazer qualquer briga nossa se tornar motivo para risos depois. Os únicos momentos em que realmente ficávamos tristes era quando Michael nos machucava. Dificilmente ela tinha forças para sorrir, e eu ficava consumido pela raiva na maioria das vezes. — Me desculpe — falei, soando realmente sincero agora. — Me desculpe por ter falhado com você. Ela franziu a testa. — Por que está dizendo isso? Você não tem culpa de nada. — Lisa pausou para apontar na direção de Jazmine. — Ela tem culpa! Ela é a causadora de todo o sofrimento que passamos, Héctor. Aquela garota sempre fez de tudo para nos arruinar. Essa pequena cadela malvada. NACIONAIS-ACHERON


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Ela grunhiu uma maldição conforme tremia de raiva. Olhei para suas roupas de grife, os sapatos caros e a pele impecável. Digitalizei a expressão sombria e fria cravada em seu rosto, e foi então que eu percebi que ela, de fato, havia morrido. Não o seu corpo, mas a sua alma. A essência da doce e humilde Lisa que eu conhecia não existia mais, e agora só restava Lisabeth Petrova, a mulher com a mente completamente ferrada. Ter a minha irmã comigo agora não significava que eu não havia a perdido há mais de dez anos. Respirei fundo, movendo meu olhar diretamente para a arma na mão de Lisa. Ela ainda tremia, o ódio evidente em cada gesto que fazia. Me aproximei mais um passo dela, puxando-a para um abraço. Nosso último abraço. Por um mísero momento, tentei desenterrar algo da menina que eu conhecia; o cheiro, o calor, a doçura ou o amor, mas não havia nada. Nem mesmo o seu tom de voz era o mesmo, tudo havia se esvaído como fumaça. Exatamente tudo. — Eu sinto muito — murmurei, apertando-a mais firmemente contra mim e deslizando a mão até a sua, tomando-lhe a arma. Por mais incrível que pudesse parecer, ela não relutou ao me entregar. — Eu sinto... muito. Deixei que a minha mente me levasse para um lugar distante. Afastei toda dor e culpa que eu provavelmente sentiria e fiz a minha escolha. Bang! O tiro retumbou no ar, rápido e forte. O barulho da água correndo logo abaixo de nós parecia uma canção sombria e melancólica, totalmente apropriada para o momento. Meu coração começou a bater rapidamente enquanto eu assistia o corpo da minha irmã deslizar para o chão. Parei por um momento, esperando pela dor NACIONAIS-ACHERON


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cruciante da culpa, mas por fim percebendo que eu não sentia nada além de alívio e pesar. Eu sentia alívio por saber que aquele inferno havia acabado, e pesar por lamentar a perda da menina que se afastou de mim quando tínhamos quinze anos. A garota sem ambição ou ódio. A que ainda sabia amar. Meu olhar se elevou para encarar o de Jazmine e meu coração quebrou quando vi que ela estava chorando. Meu primeiro desejo foi ir até ela e confortá-la, mas meus pés mal se moviam. Deixei cair a arma com a qual eu havia acabado de matar a minha irmã e dobrei meus joelhos até estar ajoelhado no chão. O vento ricocheteou contra o meu rosto e cabelos, e eu apenas fechei os olhos, sentindo o ar gelado e lutando contra a náusea que me invadiu quando senti o cheiro do sangue fresco. — Eu sinto muito — murmurei uma última vez. E então, pela primeira vez em anos, eu também chorei.

A cena ainda não saía da minha cabeça. Eu estava ofegante e meu corpo inteiro tremia com os soluços profundos que eu dava. Uma dor rasgou meu peito quando voltei a me dar conta do que havia acabado de presenciar. Lisa havia sido assassinada, e Héctor quem executara aquilo. Por mim. Merda. Eu precisava respirar. NACIONAIS-ACHERON


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Tentei me mover, percebendo que eu teria que ter cuidado para não cair dali de cima. Notei uma silhueta se aproximando e não era nem mesmo necessário virar meu rosto para saber que Héctor quem chegava perto de mim. Eu reconheceria sua presença em qualquer lugar. Ele ajoelhou diante de mim e segurou meu rosto. Ergui meus olhos, observando sua íris escura, seu rosto suado e cabelos úmidos. Ele estava sujo, ferido e parecia realmente cansado, mas eu nunca o havia visto mais incrível antes. Aquele homem matou a própria irmã para poupar a minha vida. Eu me vi ficando ainda mais apaixonada por ele. — Vai ficar tudo bem — ele sussurrou, desatando o nó da corda em meus braços. — Eu vou tirar você daqui. Ele me auxiliou a levantar e puxou a minha mão para que eu o seguisse, mas antes mesmo que déssemos mais um passo adiante, um grito alto e angustiado rasgou o ar. Nos viramos ao mesmo tempo para a direção de onde o som havia vindo e foi então que vimos Alexander. — Não! — Ele se ajoelhou diante do corpo de Lisa. — Não, não, não! Ele parecia desequilibrado e verdadeiramente triste. Fiquei por um momento imóvel, sem saber ao certo o que fazer diante daquela situação. Alexander ficou em silêncio por um breve momento, apenas fitando o corpo da sua mulher ao chão. O tiro que Héctor lhe dera havia sido na lateral da cabeça, de modo que imaginei que ela não houvesse sofrido tanto assim quando morreu, mas a cena não era uma das melhores de se ver. Os dedos de Alexander arranharam o solo ao passo que outro grito rasgava para fora da sua garganta, então ele correu até a arma caída no chão e a NACIONAIS-ACHERON


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apanhou. — Hache! — eu gritei, sentindo meu peito quase romper ao observar o homem levantar a mão e não poder fazer nada para detê-lo. Héctor se movimentou, colocando-se diante de mim. Eu apenas me grudei a ele, incapaz de desviar o olhar da cena que ditaria o nosso destino. Mas ao invés de mirar em nossa direção, Alexander apontou a arma para a própria cabeça. Em seguida, atirou. Eu fiquei ali, perplexa, sentindo como se o tempo houvesse parado de vez. Héctor permanecia diante de mim, imóvel e com seu peito arfante. Apenas o fato de que ele se colocou na minha frente para me proteger fez com que algo se quebrasse dentro de mim. — Eu... eu te amo — falei, sentindo meus músculos fracos. Eu sabia que aquele não era o melhor momento para dizer-lhe aquilo, mas eu estive perto da morte naquele dia por mais vezes do que pude contar, e eu não queria perder mais tempo ocultando algo que sentia. — Eu te amo, Hache. Héctor se virou para me encarar. Me deleitei quando ele roçou sua boca na minha e me beijou lenta e profundamente antes de me puxar contra seu peito em um abraço apertado. Era sua forma de dizer que também me amava. Mesmo que eu já soubesse disso, não podia negar que era uma das melhores sensações que eu poderia ter depois que tudo pelo que havíamos passado naquele dia. Sem mais uma palavra, ele me puxou consigo e andamos com cuidado até chegarmos em solo seguro. Engoli em seco quando voltei a olhar para o casal jogado ao chão. Escutamos passos vindo ao nosso encontro, e então os Souls apareceram. Eu via um grupo que incluía Shade, Shark e alguns outros NACIONAIS-ACHERON


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membros de que não me lembrava quem eram. — Inferno — Shark murmurou ao fitar Alexander caído no chão. — Nós o prendemos lá atrás, mas o velho realmente surtou quando escutou o tiro. — Ele sacudiu a cabeça. — Que maluco do caralho. Mais passos se aproximaram. Momentos depois, Mikhail surgiu. Seu olhar passeou ao redor brevemente antes de parar em mim. — Você está bem? — ele me questionou, e eu apenas assenti. Mikhail balançou a cabeça e voltou a desviar o olhar, parando no corpo de seu pai caído ao chão. Em seguida, ele fitou Héctor, e sua pergunta não podia ter me pegado mais de surpresa: — Vocês precisarão de ajuda para desaparecer com os corpos? Héctor ficou em silêncio por um breve instante, estudando as feições de Mikhail antes de responder: — Está tudo sob controle, não se preocupe. Mikhail assentiu. — Ótimo. Héctor franziu a testa. — Você não precisa continuar presenciando isso se não quiser — ele comentou, apontando para o corpo de Alexander. — Ele era seu pai, afinal. — Ele iria morrer, de qualquer maneira — o ruivo rebateu. Em seguida, soltou um suspiro inaudível. — Vamos adiantar isso de uma vez por todas. Eu preciso descansar. Hum... ok. — Certo, caras! — Shade gritou, tomando a frente. — Vamos, mexam-se. Não temos muito tempo. Os homens começaram a trabalhar em sua missão de limpar o local, mas NACIONAIS-ACHERON


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Héctor não se afastou de mim em nenhum momento. Eu não sabia se era porque ele realmente não queria se afastar ou porque eu estava grudada em sua camisa feito um filhote acuado. A verdade era que eu não queria me afastar dele nem por um segundo. Não depois de tudo pelo que acabamos de passar. Virando-se em minha direção, ele me observou por um breve instante. Fechei meus olhos quando o senti segurar meu rosto entre ambas as mãos. — Você está realmente bem? — me questionou. Cobri suas mãos com as minhas, ignorando o fato de que havia sangue seco sobre elas, e assenti. — Era eu quem deveria estar perguntando isso a você. Ele abriu um sorriso fraco, inclinando a cabeça em minha direção e tomando meus lábios. Eu queria me fundir nele, me enterrar sob sua pele e nunca mais sair de lá. — Se a minha garota está bem, eu estou bem. — Em seguida, sua expressão ficou séria. — Eu não sei o que seria da minha vida se algo acontecesse com você, Bird. Balancei a cabeça, puxando-o para mim e enterrando meus dedos em seu cabelo grosso. — Acabou. Você não precisa pensar mais nisso porque acabou. — Sim, acabou — ele murmurou quando beijou a minha boca. — Vamos para casa.

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25: Despedidas e Recomeços

— Porra! Faça isso de novo... — implorei, sentindo a suavidade quente de Jazmine comprimir o meu pau e desejando que aquilo fosse a única coisa que eu pudesse sentir pelos próximos malditos dias da minha vida. Ela voltou se balançar sobre mim e fazer a coisa de me apertar e sugar para dentro enquanto me montava. Admirei os seus peitos inchados e macios. Subi a minha palma, dando um apertão. Subindo um pouco mais, segurei seu pescoço, puxando-a para mim e bati sua boca na minha. Incrível. De fato, a sensação era incrível. Sempre que estávamos juntos, eu sentia como se fogos de artifício se acendessem dentro de mim. Tudo se elevava e zunia, e em seguida explodia. A porra de um arco íris fluorescente em uma noite de outono. Jazmine ergueu seu tronco e cravou as unhas em meu peito, soltando pequenos gemidos ao passo que balançava seus quadris. Senti a suavidade escorregadia dos seus sucos revestindo meu membro. Ela estava extremamente excitada e aquela merda era sexy como o inferno. Escutei o meu próprio gemido escapar quando ela me montou mais rápido e mais profundo, dobrando-se de leve para esfregar o seu clitóris sobre a base do meu pau. O fato de que ela estava me usando para obter seu próprio prazer me deixava a ponto de gozar. — Hache, porra, estou tão perto — ela choramingou, voltando a me moer. Soltei um silvo entre os dentes apertados, sentindo a minha mandíbula tensa e o suor cobrir nossos corpos. NACIONAIS-ACHERON


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— Sim, baby, continue... — incentivei, escorregando meus dedos para seu clitóris inchado e acariciando em movimentos circulares, bem ali, do jeito que ela mais gostava. Jazmine havia me dito, um tempo atrás, que era uma pervertida por ter aberto suas pernas para mim, estando bêbada. Eu gostava de dizer que ela era receptiva. Jazmine aprendia fácil, e só agia daquela maneira comigo, entre quatro paredes. Ela ainda era a coisa mais doce e pura que eu já havia visto na minha vida, e que Deus me ajudasse, mas eu tatuaria o meu punho fechado no olho de qualquer filho da puta que tentasse alegar o contrário. Ela arfou uma e outra vez e esticou o tronco, então eu contemplei o sorriso suave esboçado em seus lábios. Era naquele momento em que ela chegava ao ápice. Quando ela fechava os olhos e se contorcia, me sugando como se quisesse aproveitar a sensação até o último segundo. Não demorou muito para que eu também estivesse explodindo, gozando profundamente dentro dela. Jazmine caiu sobre mim, totalmente ofegante. Ela parecia tão exausta que nem mesmo os seus olhos se abriam direito. Um momento depois, ela voltou a me encarar. O sorriso lento que se espalhou pelo seu rosto aqueceu o meu coração. Ela passou a mão sobre meu queixo, deslizando até meu peito, onde havia uma tatuagem com seu nome cravado nela. Ela tinha uma semelhante, com meu nome, em seu cóccix. Bethan tentou alertá-la uma vez sobre aquele não ser um local muito apropriado para se tatuar, mas Jazmine não dava a mínima para as crenças atuais. Seria bom ver meu nome grudado em sua pele toda vez que eu a fodesse por trás. Palavras dela, não minhas. — Está tudo bem com você? — questionou, ao me ver pensativo. Eu soube NACIONAIS-ACHERON


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exatamente o porquê de ela estar me fazendo tal pergunta. Quase três meses se sucederam desde o ocorrido no rio de Scout Lake. Demoramos um pouco de tempo para juntar nossas merdas, mas por fim decidimos que não adiantaria nada ficar remoendo o passado. Passamos muito tempo fazendo isso, o que quase tirou as nossas vidas. Precisávamos vivenciar o presente e moldar nosso futuro. E meu futuro significava Jazmine, nossa casa nova e a vida que teríamos dali em diante. — Eu estou mais do que bem — falei, sorrindo para deixar claro que estava sendo sincero. — Por mim, eu não sairia dessa cama por nada. Jazmine gemeu, enterrando o rosto contra a curva do meu pescoço. — Sim, eu também, mas nós temos uma festa para ir. Sim, nós tínhamos, e não podíamos perder. — De qualquer forma — comentei maliciosamente, alisando seu braço —, ainda dá tempo de um banho juntos antes de irmos para o complexo. Ela sorriu de volta, já se levantando e me puxando até o banheiro. O movimento da sua mão fez a sua aliança de noivado brilhar sob a luz do quarto. Me recordei do quanto Jazmine chorou no dia em que a pedi em casamento. Quer dizer, eu nunca havia feito uma merda daquele tipo antes, e Shade me dissera que garotas gostavam de surpresas fofas e românticas. Eu achei que colocar o maldito anel na coleira de um cachorro e lhe dar o bicho de presente fosse algo fofo e romântico. No começo eu pensei que tivesse feito merda, mas então ela sorriu quando disse “sim”, e eu senti como se uma tonelada de concreto fosse removida do meu peito. Eu comprei um apartamento depois disso, também. Não dava para vivermos na caixa que era o meu apartamento no complexo, onde tantas coisas ruins aconteceram. NACIONAIS-ACHERON


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Agora tínhamos espaço suficientemente grande para nós e... bem, para nossos dois cachorros. Boo agora tinha Bob — sim, você pode rir disso — como companhia, o que era favorável para todas as partes. Eu aprendi a gostar deles, de alguma forma. Descobri que bichos de estimação podem não ser tão irritantes quanto imaginei, além disso ambos conseguiam ser grandes companheiros para Jazmine nas vezes em que eu tinha que resolver assuntos para o clube e precisava ficar fora por alguns dias. Querendo ou não, nós éramos uma família agora. Quando chegamos ao complexo, a festa já estava rolando. Não era nem preciso dizer o porquê de termos nos atrasado, eles perceberiam, obviamente. Passamos pelas diversas motos enfileiradas do lado de fora. A música era alta, e a maioria das pessoas já estava lotando cada área que costumava ficar vazia. Após cumprimentar alguns irmãos, segurei Jazmine pela mão enquanto seguia para a área do bar. Uma cabeça loira despontou em meio à multidão, os olhos azuis me encarando em reconhecimento assim que ficamos cara a cara. — Ax — cumprimentei. Axel balançou a cabeça de volta, cumprimentando a mim e a Jazmine. Os Souls e os Lions haviam criado uma aliança depois de toda a confusão que tirou a vida de vários dos nossos irmãos. Reabrimos a oficina do clube, e agora nos considerávamos sócios. Não era mais necessário tanto derramamento de sangue por busca de poder. A era de Hammer e Hunter já havia acabado, nós tínhamos que criar uma nova geração de clubes. Clubes que se respeitavam acima de tudo, e por mais que jamais fôssemos chamar uns aos outros de irmãos, eu podia reconhecer que a parte que sobrou dos Lions, incluindo Ax, era digna de respeito. Aproveitei para pedir uma bebida. Jazmine decidiu ficar no refrigerante NACIONAIS-ACHERON


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naquela noite, portanto após estarmos com nossas bebidas em mãos, voltamos a percorrer o local cheio. Durante nosso trajeto, vimos Bethan andando apressada em direção à saída. Demorei alguns segundos para entender o que estava se passando quando percebi que Mikhail a seguia. Ele segurou no braço dela e murmurou algo em seu ouvido, sem mudar a expressão. Em seguida, ele liderou o caminho, mãos nos bolsos e pose irritante de lorde inglês conforme se dirigia para o lado de fora. Bethan o seguiu um momento após, olhando algumas vezes ao redor, como se para se certificar de que ninguém a estava observando. Que diabos? Jazmine deu um leve apertão no meu braço, fazendo-me ficar ciente de que ela também havia se dado conta da cena. Arqueei uma sobrancelha para ela, que prendeu um sorriso malicioso. — Pelo visto Mikhail está aproveitando seus dias em Scout Lake — comentei. — Eu só espero não ter a falta de sorte de os pegar fazendo algo constrangedor. — Ela enrugou o nariz. — Você sabe, ele é meu irmão. Isso seria nojento. Sorri, passando o dedo sobre a ponta do seu nariz. — Seria divertido testemunhar aquele idiota metido em uma situação constrangedora. Jazmine revirou os olhos e deu um tapinha no meu braço, repreendendo-me. Desde o dia em que descobriu que Mikhail era seu irmão, ela esteve em uma espécie de missão para se aproximar dele e saber o máximo sobre sua mãe e a vida que ela não teve. O cara era completamente estranho e não era muito de demonstrar NACIONAIS-ACHERON


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sentimentos, mas eu podia dizer que ele se preocupava com Jazmine. Isso meio que o fez ganhar alguns pontos comigo. Envolvi a cintura de Jazmine com o meu braço e ambos retomamos nosso caminho, seguindo para os fundos do bar, onde eu sabia que a maioria dos membros estariam aglomerados. Assim que dobramos a esquina, avistamos o grupo grande, onde Shade era o centro das atenções. Na verdade, ele seria o centro das atenções durante toda a noite. A festa era mais como uma confraternização de despedida. Nós decidimos fazer isso quando ele resolveu, há algumas semanas, ser um nômade. Ele viveria como um motoqueiro sem moradia fixa, pilotando de cidade em cidade, como um homem solitário. Eu realmente entendia o seu ponto, principalmente depois que seu pai foi expulso e punido por trair o clube e desapareceu logo após sair do hospital, mas eu ainda não sabia se esse era realmente o melhor método de lidar com tudo aquilo. Talvez Shade quisesse se reencontrar, encontrar algo com o que ele se conectasse verdadeiramente. Talvez ele quisesse achar algum sentido para a sua vida. — Então — eu falei quando cheguei perto dele. — Esse é o momento em que nos despedimos? Ele balançou a cabeça. — Sem despedidas. Eu não gosto nem um pouco disso. Apenas assenti, sabendo que não era preciso falar muita coisa ali. Tudo o que vivemos e fizemos valia muito mais do que qualquer palavra que pudesse ser dita. — Eu espero que você se cuide — Jazmine se adiantou. — Nada de confusões na estrada. E coma direito. Shade riu, puxando-a para um abraço. Eu não sentia mais o ciúme doentio NACIONAIS-ACHERON


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que sempre acontecia quando os via juntos. Eu sabia o que Jazmine significava para Shade agora, e eu realmente confiava em ambos. — E eu espero que você cuide desse cara — ele disse quando se afastou. Ele ainda falava com ela, mas seus olhos estavam em mim agora. — Ele precisa de você. — Eu vou — Jazmine falou, abraçando-me apertado pela cintura. Retribuí seu gesto, acariciando seu braço. — Você tem certeza de que quer fazer isso? — questionei a Shade. Ele assentiu. — Não é como se eu fosse desaparecer para sempre. — Brincou. — Vou apenas tirar um tempo para conhecer gente nova, garotas novas... — Sorriu, maroto. — Espero que você não fique enciumado. — Que tal você ir se foder? — rebati, arrancando uma risada dele. — Bem, isso é melhor do que ter você triste pela minha partida. — Eu ficaria. Não deixaria aquele filho da puta saber disso, mas eu ficaria. — Você sabe que sempre vai ser meu irmão, não é? Independentemente de qualquer coisa. — Eu sei disso, você também. Ele sacudiu a cabeça uma última vez. — Se cuida, irmão. — Se cuida — falei de volta, sentindo um nó apertar minha garganta. Era demais. Shade percebeu isso porque ele apenas deu tapinhas em meu ombro e se afastou de nós. — Ei, ele não vai para nenhuma missão na guerra ou algo assim — Jaz falou, ficando de frente para mim. — Ele precisa disso, Hache. Ele precisa desse NACIONAIS-ACHERON


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tempo só para ele. — Eu sei. — Engoli em seco. — É só que... é complicado. Ela abriu um sorriso compreensivo e se aproximou ainda mais de mim, acariciando meu rosto. — Claro que é, mas, ei, que tal você tirar essa expressão triste do rosto e vir comigo aproveitar o tempo? Arqueei uma sobrancelha, já sabendo aonde ela queria chegar, mas entrando no seu jogo. — E o que você sugere para que possamos aproveitar o tempo? Ela passou a língua pelo lábio inferior, ficando na ponta dos pés e enlaçando meu pescoço com seus braços. — Eu começo a faculdade em poucos meses, serão semanas de estudo e nós não vamos ter tempo para muita ação... — Jazmine abriu um sorriso lento, pois aquela era a maior mentira que havia me contado desde que tirei sua virgindade. Mesmo ela iniciando o curso de especialização para ser uma veterinária em breve, nós ainda teríamos tempo. Sempre tínhamos. — Então que tal você me empurrar para algum lugar privado ao redor desse clube e continuarmos o que começamos em casa? Receptiva. Sim porra, aquela era a palavra. Colei minha boca na sua, enrolando nossas línguas em um beijo quente e faminto conforme descia a mão para o seu traseiro bonito e o apertava. — Você é perfeita. Ela gemeu, correndo a mão para o cinto em minhas calças e abrindo a porta do banheiro atrás de nós. Eu apenas sorri, nos enfiando dentro do cubículo apertado, em seguida nos NACIONAIS-ACHERON


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abafando do som exterior. Como eu disse, perfeita. Aquela garota sabia como me deixar animado. FIM

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Agradecimentos: Inspira, expira... ok, vamos lá. Essa sempre é uma das partes mais difíceis de se escrever um livro, acredite em mim. Acho que é mais fácil me expressar por meio das emoções dos meus personagens do que por minhas próprias. Como Héctor diria, essa é uma m*rda complicada pra cara**o, mas tanto quanto é difícil, eu posso dizer que adoro. Wild não foi um livro fácil de escrever, principalmente pelo fato de eu estar extremamente ansiosa para escrever outros livros, e não muito ansiosa para esse em particular, mas quando fui apresentada ao Héctor e à Jazmine (sim, eu sou o tipo estranho de autora que fica semanas mexendo no livro até se conectar verdadeiramente com os personagens e saber para o quê eles realmente vieram), foi amor à primeira vista. Muitas pessoas criticam livros de MC por terem a premissa parecida e ser algo "batido" na literatura, mas eu amo histórias onde há uma cultura por trás, e cada vez que eu ia me aprofundando nessa cultura dos clubes, conhecendo suas histórias, suas regras, e sabendo que eu tinha a total liberdade para adaptar aquilo para o mundo dos Renegade Souls, eu me apaixonava um pouco mais. E foi quando eu percebi que estava preparada para dar voz ao nosso casal. Como eu havia dito, foi difícil no começo, afinal era o clichê de "mocinha virgem e inocente com o macho alfa possessivo", mas eu creio que fiz um bom trabalho ao desenvolver o romance de Héctor e Jazmine (e se você acha que eu não fiz, me desculpe por isso, mas eu segui o meu coração, e não mudaria nada); entretanto, foi divertido também. Mas em meio a tantas risadas e lágrimas, cá estamos nós, concluindo mais um livro e com aquela sensação agridoce de que foi bom ter terminado, mas foi ruim ao mesmo tempo, pois não estamos preparados para dar tchau. Mas a notícia boa é que teremos muito mais desse casal nos próximos dois livros da série (que será focado em casais diferentes, deixo claro), então essa não é uma despedida definitiva! Yay E como essa parte é dedicada aos NACIONAIS-ACHERON


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agradecimentos, eu não poderia deixar de dar meu muito obrigada a cada leitor que surtou com cada capítulo, parágrafo, trecho, linha de WILD. Eu realmente aprecio o carinho que vocês têm por mim e pelos meus livros. Vocês não sabem o quão gratificante é para um autor ver seu trabalho ser reconhecido e apreciado. Mãe, você é tudo pra mim; minha força, minha rocha e meu guia. Devo-lhe muito! Iohana, eu já disse várias vezes isso, mas muito obrigada, de verdade. Você é nota 10! Queria agradecer também aos meus amigos Yasmin, Heaven, Franz, Aurélio e todo o grupinho das “Embreagadas”. Sem o apoio de vocês, isso aqui seria muito mais difícil. Retomando, eu gostaria de dizer que espero, sinceramente, que vocês tenham ficado satisfeitos com o livro e continuem comigo, acompanhando meus próximos projetos.

Não se esqueçam de me seguir nas redes sociais! WATTPAD: @MLSpencerPT FACEBOOK: @MLSpencerPT INSTAGRAM: @mlspencerpt PS: Espero que tenham tido um passeio agradável na garupa do Hache. Beijinhos e até a próxima! XOXO

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Playlist (disponível no Spotify): 1. Arsonist’s Lullabye – Hozier 2. Hurt – Johnny Cash 3. Way Down We Go – Kaleo 4. The Matador – The White Buffalo 5. The Madman – The White Buffalo 6. The Unknown – Dirty South, FMLYBND 7. In My Veins – Andrew Belle feat. Erin Mccarley 8. Save A Prayer – Eagles Of Death Metal 9. Dance With The Devil – Rachel Taylor 10. Complexity – Eagles Of Death Metal 11. Shoot The Runner – Kasabian 12. Believer – Imagine Dragons 13. The Lost Boy – Greg Holden 14. Turn The Page – Metallica 15. Californication – Red Hot Chili Peppers 16. Monster – Skillet 17. Corrupt – Depeche Mode 18. Darkness – Bobby Bazini 19. Million Reasons – Lady Gaga 20. Ghost – Jacob Lee 21. The Warpath – Conner Youngblood 20. Castle Of Glass – Linkin Park E muito mais! Basta acessar a Playlist “WILD – Quebrando Regras #2) – Liz Spencer” no Spotify. NACIONAIS-ACHERON


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Wild | Quebrando Regras 02: Almas Selvagens  

A história de Héctor e Jazmine. Uma coisa é certa sobre mim: eu sou um fora da lei. Tendo vivido uma adolescência destruída, sou considerad...

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