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O PRE Ç O DO MEU ORGULHO SÉRIE IMPÉRIO DA MÁFIA – LIVRO 3

SILMARA IZIDORO


Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança entre esses aspectos é mera coincidência.

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“O ORGULHO É A FONTE DE TODAS AS FRAQUEZAS, PORQUE É A FONTE DE TODOS OS VÍCIOS” SANTO AGOSTINHO


SINOPSE

Um homem romântico. Uma mulher descrente do amor. Um encontro inusitado. Duas vidas conectadas de maneira permanente. Ivan Keritov e Sarina Oliveira experimentaram juntos o poder fulminante do amor, mas uma relação regada com mentiras e segredos não poderia ter outro fim senão a mágoa e a desilusão. Sarina foi embora sem olhar para trás levando com ela o coração do homem que a amou profundamente. Ivan não a impediu de partir, mas jurou que nunca mais permitiria que outra mulher se tornasse tão importante como aquela que o machucou impiedosamente. Oito anos se passaram e mais uma vez, o destino mostra o seu poder colocando-os frente a frente, mas agora, o amor não será o elo que os manterá unidos, e sim, o perigo iminente e tão real quanto a tensão sexual que os envolve. Ivan assumirá seu lugar ao lado da Imperatriz, despertando a inveja dos renegados e terá que enfrentar seu maior inimigo, que retornará ainda mais perigoso, violento, cruel e disposto a destruir a vida da mulata que estragou seus planos anos atrás. Nessa história não haverá mocinhos ou bandidos. Heróis ou vilões. Certo ou errado. Bem ou mal. Você irá se deparar com crimes, segredos, amor, sexo, ciúme, traições e a busca incansável pelo poder da maior organização criminosa russa, e sentirá todas as emoções que apenas o Império da Máfia é capaz de despertar ao final de cada parágrafo. Divirta-se!


PRÓLOGO – IVAN KERITOV

“À frente. Sempre olhe para frente. Nunca esqueça suas origens nem o seu passado, mas não permita que nenhum deles interfira no seu futuro” Essas foram as palavras do meu pai, antes de ele sair de casa e nunca mais voltar que ficaram registradas em minha memória como seu mais precioso conselho, e me forço a segui-lo como uma filosofia de vida, da minha vida. Nos últimos dois anos estive ao lado de Natasha Olotof, a Imperatriz russa, como seu homem de confiança, seu Consult’ant, e me orgulho disso. Descobri muito a meu respeito depois que entrei para a máfia. É difícil explicar nossos laços familiares e no meu caso, o sangue mafioso que corre em minhas veias. Tive que aceita-lo e sucumbir a ele pela força com que me domina. Como eu disse, não consigo explicar apenas sentir e fazer uso dele. Um bom uso. Também não posso negar o que sou, como sou e o que sinto. Conviver diariamente ao lado da mulher que ainda me faz sentir o que nenhuma outra fez não é fácil, e as vezes quero matá-la por isso. Mas ela não merece o meu sofrimento e tampouco o amor que ofertei a ela a alguns anos atrás. Sarina desdenhou do meu amor e partiu ao lado de outro, me deixando para trás como se eu fosse um de seus clientes que pagavam para usufruir de seu corpo. Mas eu não era um deles, nunca fui e ela sabia disso. Mesmo assim se foi ignorando meus apelos e promessas de fazê-la feliz. Ela me ignorou como um nada, um saco de lixo, um sapato velho. Depois de muitos anos, o perigo chegou sorrateiro e se infiltrou entre nós desejando vingança. Velada, discreta. Estávamos em desvantagem e precisávamos revidar, oprimir e matar. Sarina me fez odiá-la e quando a morte se aproximou do auto


escalão do Império, jurei proteger minha nova família para continuarmos vivos e a mulata, que afetava meu juízo de todas as formas, mais do que qualquer outro membro precisava de mim. Podia ver em seus olhos o quanto me desejava, o quanto lutava contra as sensações que um simples toque meu, despretensioso, provocava em seu corpo e a desestabilizava. Mas ela não teria nada além do mafioso que prezava pela vida de seus amigos, e de todo meu desprezo. Apenas e não mais do que isso. Na máfia, não havia perdão para os traidores e Sarina me traiu quando mentiu e me enganou. O amor cedeu seu lugar a ironia, a provocação e foi trancafiado em um calabouço sombrio e inacessível do meu coração. Ninguém jamais o libertaria e eu garantiria, pessoalmente, para que isso acontecesse. “Um homem ferido tem a obrigação de preservar o seu orgulho”. E eu estou disposto a pagar qualquer preço para que o meu seja preservado.


CAPÍTULO 1

— Preciso me preocupar, Ivan? — Não, Natasha. Já disse que vou cuidar disso. — É a terceira vez em duas semanas. — Eu sei, por isso Rey está aqui. — E é justamente por isso que Fillipo está puto da vida. Uso o indicador e o polegar para apertar o nariz, me controlando para não virar essa mesa e socar a cara do primeiro voyennyye (1) que passar pela porta. — Vou mandar Pavel até lá e ver se ela precisa de alguma coisa. — Por que não vai pessoalmente? — Porque eu tenho um compromisso e estou saindo agora da mansão. Natasha fica em silêncio e sei que não gostou nem um pouco da minha resposta, mas eu não vou foder com a minha noite de sexta-feira por causa das manhas de Sarina. — Pode sair, deixa que eu falo com Pavel. — Natasha... — Merda. Depois as mulheres falam que os homens são leais uns aos outros e se protegem. Grande besteira. A Imperatriz sabe muito bem como me encurralar sem mover um músculo. — Não se preocupe Ivan, vá curtir a noite com a sua namorada. Posso cuidar disso. — Se eu não te conhecesse, talvez você conseguisse me enrolar com esse drama russo insensível que está fazendo. — Não é um drama insensível. — Ela rebate com divertimento. — Minha amada Imperatriz, o granizo dentro do seu peito que você insiste em chamar de coração só demonstra sensibilidade por duas pessoas na face da terra, e acredite, Sarina não é uma delas. Ouço a risada de Fillipo e não me surpreendo por ele estar ouvindo a nossa conversa. — Minha mulher é como um pote de mel, Ivan... — O Capo


fala me fazendo sorrir com a sua piada. Claro que ele não pode estar falando sério. Acho que não existe no mundo um casal tão perfeito como esse. Fillipo e Natasha são tão iguais e apaixonados que fica difícil não acreditar em almas gêmeas. Eles foram feitos um para o outro, como um dia imaginei ter sido feito especialmente para a mulher que está conseguindo arruinar meus planos de comer minha namorada a noite toda. — Você se confundiu e quis dizer fel, não é mesmo Fillipo? — Não Ivan, Natasha é um pote de mel... envenenado, meu amigo. Já estou gargalhando. — Agora eu tenho que concordar com você. — Para o bem de todos nós Ivan, vá até a casa de Sarina e resolva isso pessoalmente. Não quero que a minha esposa pegue um avião para Moscou a essa hora da noite e tenho certeza que você também não quer que ela esteja na mansão amanhã de manhã. Encarar Natasha de manhã cedo e de bom humor já não é fácil, não gosto nem de imaginar se ela estiver puta da vida. É melhor eu resolver essa merda com a mulata e deixar que o Capo cuide da Imperatriz e de seu mal humor do cão. — Nada como um sábio conselho, Fillipo. Mais uma vez nós dois concordamos e nos rendemos as ordens da Imperatriz, como devem fazer os homens sábios que gostam de ter suas bolas no lugar. — Nós dois sabemos que não seria uma boa ideia. — Saia daqui Fillipo. — Natasha rosna — Vá olhar Pietro enquanto eu termino de resolver essa merda com Ivan. — Buonanotte Ivan e mande lembranças para Sarina. — Catzzo. — Já está até xingando em italiano, Imperatriz? — Nos últimos dias é o que mais tenho feito Ivan. — Como está a Perla? — Nada bem... — A voz de Natasha abaixa um tom — Ele está tentando parecer forte, mas só eu sei o quanto está sofrendo por ver a nonna acamada. — O que os médicos disseram?


— Perla está cada vez mais fraca e além da idade avançada, eles descobriram que um dos rins está parando de funcionar. A velha é teimosa e se dependesse de mim já estaria internada no melhor hospital que existe, mas você sabe como as coisas funcionam por aqui e Fillipo insiste em atender os pedidos malucos da avó. — Ela é uma mulher forte Natasha, vai conseguir sair dessa. — Eu espero Ivan, mas não quero deixá-los sozinhos aqui. Fillipo não vai seguir à risca o tratamento se eu não pegar no pé dele, e também não confio em ninguém além do meu marido e de Giuseppe para ficar com Pietro. A Imperatriz está certa, e eu acabo me rendendo a sua insistência para resolver de uma vez o problema de Sarina, mesmo que isso renda uma baita dor de cabeça com Valeska. — Não se preocupe com a sua amiga, eu vou passar lá quando sair da mansão e saber o que está acontecendo com ela. — Pego a pasta com os documentos importantes que preciso revisar, minha carteira, celular e chave do carro — Onde Gio está? Natasha demora alguns segundos para responder fazendo com que uma pinicada aguda atinja a base da minha coluna. Aperto os olhos com força, rezando em silêncio para que ela não tenha feito o que eu acho que fez. — Ele foi a Volgograd para checar as ligações que interceptamos. — Chertov! (2) — Nós precisamos ter certeza, Ivan. — Por que não me avisou? — Porque você já está muito sobrecarregado. — Eu tinha o direito de saber, Natasha. — Ivan. — Seu tom é repreensivo — Já conversamos sobre isso e não quero voltar a esse assunto. — É a minha vida Natasha! — Não Ivan, é o seu passado. — O passado que faz parte da minha vida. — Estou irritado e me sinto traído. — A vida do estudante de medicina que sonhava em ajudar as pessoas, Ivan. Não o konsultan’t (3) do Império russo, meu braço direito e meu... amigo.


— É um elogio? — Espero que tenha escutado porque não vou repetir nessa vida. — Eu imaginei. — Suspiro — Com quem Giuseppe está em Volgograd? — Ele levou dois soldados e tem ordem apenas para investigar sem levantar suspeitas. — É uma piada? — Acha que eu estou brincando? — Claro. — Falo exasperado — Um loiro italiano de olhos azuis, com quase dois metros de altura, arrogante, convencido, mulherengo e vestido em ternos de dez mil euros, vagando sorrateiramente em uma cidade russa onde a população é de quase cem por cento descente de soviéticos, e sofre com o crescimento de gangues que sonham em ocupar o lugar que era ocupado pela Bratva. Não Natasha, eu não acho que você está brincando. — Giuseppe sabe o que fazer. — Espero que você saiba o que está fazendo. Eu estou saindo da mansão. — Digito o código de segurança e deixo o escritório trancado — Vou passar na casa da Sarina e amanhã de manhã pegarei o primeiro voo para Volgrogad. — Não Ivan. — É um acordo Natasha, bom para nós dois. — Isso é chantagem. — Aprendi com a melhor. — Você tem dois dias e nem um minuto a mais. Segunda-feira pela manhã quero você e Giuseppe em seus postos ou eu mesma mato os dois para servirem de exemplo. Entro no esportivo e me preparo para declarar uma guerra com a Imperatriz. — Não existe nenhum ser humano vivo que seja capaz de duvidar da capacidade da Imperatriz, Natasha. Ligo o carro e acelero para que o som do motor alcance seus ouvidos. — Me diga que você se enganou quando entrou no meu carro, Ivan. — Ela vocifera entre dentes. Acelero ainda mais, sorrindo como um garoto de dez anos quando provoca o irmão valentão que vive lhe enchendo de porrada


quando os pais não estão presentes. Natasha tem verdadeira adoração pelo Koenigseg Agera R edição limitada que seu pai lhe deu antes de morrer. A história desse carro é uma das poucas que ela gosta de contar e que incluem o primeiro Imperador russo, Gravel Olotof. — Esqueci de avisar que essa belezinha estava incluída no nosso acordo, minha querida Imperatriz. — Para cada arranhão nele, um dedo seu será arrancado. — Valeska não vai gostar de ficar sem os seus brinquedinhos. — Então não se esqueça de devolver meu bebê limpo e com o tanque abastecido, porque nem a língua você vai poder usar para fazer sua namorada gozar Ivan Keritov. — Confie em mim, Imperatriz. — Eu não confio em ninguém, Ivan. — Mentirosa. — Devolva meu carro com qualquer rabiscado e vai saber se estou mentindo ou não. — Boa noite Imperatriz, vou fazer meu papel de babá agora. Tenho que desligar. — Me mande notícias de Sarina. — Vou fazer o possível. Aumento o volume do rádio e dirijo até o apartamento da mulher que está deixando a Imperatriz preocupada. Não posso concordar e dizer que eu também estou, mas claramente Sarina tem problemas sérios que prefere não compartilhar com a amiga russa. Nas últimas semanas sumiu por alguns dias sem deixar rastros usando a desculpa de que estava doente. Todos sabem que é mentira, e ela sabe que todos nós sabemos que está mentindo, mas como sempre, Sarina não se importa com ninguém além dela mesma. O prédio que ela mora é simples e sem segurança alguma. Severino dividia o mesmo teto com a irmã, mas depois que começou a namorar uma socióloga brasileira que chegou a Rússia ainda pequena, decidiu abandonar o Império e foi trabalhar com ela em São Petersburgo. Sarina vive sozinha desde então e pelo que sei sobre a vida dela, não tem amigos, namorados ou qualquer pessoa da família que frequente a sua humilde residência.


Meu celular toca e o rosto de Valeska surge na tela. — Já está com saudade? — Está atrasado Ivan. — Me dê meia hora e estarei aí. — Meia hora? — Ela reclama — O que aconteceu? Você me disse que estava tudo certo para a nossa noite. — E estava, mas Natasha me ligou e pediu para que eu resolvesse um pequeno problema antes de me encontrar com você. Valeska emudece e como sempre, fica com ciúme da Imperatriz. Mas isso vai acabar no momento em que ela souber onde estou e o que vim fazer aqui. — Krasivyy? (4) — Chamo suavemente — Você sabe que não tem com o que se preocupar, não sabe? Estamos juntos e não existe outra mulher na minha vida. — Eu sei, mas... — Não se culpe, desculpe nem se preocupe. — Ouço seu riso contido enquanto avanço os degraus de tijolos vermelhos alcançando a porta de madeira — Meia hora e estarei aí. Prometo que vou compensar cada minuto do meu atraso. — Não demora. — Não vou. Aperto o número seis e espero alguns minutos, mas Sarina não atende o interfone. Repito o gesto três vezes me sentindo ainda mais colérico pela demora. Olho para cima e vejo a luz do seu apartamento acesa. A porta se abre e uma mulher com dois cachorros passa por ela, uso a gentileza ajudando-a e aproveito o descuido para entrar sem autorização. Subo pelas escadas até o segundo andar decidido a falar poucas e boas para Sarina, tanto pela sua ausência na mansão sem qualquer satisfação como pela lerdeza para atender a porra do interfone. Mas quando chego à frente da porta e vejo que ela está apenas encostada, saco a arma e me preparo para enfrentar o invasor. O único barulho dentro do apartamento é o da televisão, que ficou ligada. Vasculho ao redor a procura de Sarina, mas tudo que vejo é uma bagunça deixada por alguém que procurava alguma coisa que a mulata estava escondendo. O apartamento está vazio, não tem ninguém por aqui. Todas as


gavetas foram abertas e reviradas. Não há nada no lugar, nem mesmo os móveis. Tudo foi removido. Estou pronto para fazer um telefonema quando algo em cima do guarda-roupa chama a minha atenção. Está embaixo de uma pilha de bugigangas natalinas e imperceptível a olhos despreparados. É o notebook antigo de Sarina. O que ela usava logo que chegou a mansão e foi substituído por outro mais sofisticado para atender as necessidades do Império, e depois por outro que Natasha trouxe para ela do Japão como presente de aniversário. Retiro o celular do terno e ligo para Rey, que atende no primeiro toque. — Ivan? — Como vai Rey? — Bem e você? — Não muito. — Eu me sento no sofá com o aparelho em meu colo — Sarina desapareceu e estou com o notebook dela. Preciso acessar todas as informações e tentar descobrir o que aconteceu com ela. — Desaparecer, você quer dizer, sequestrada? — Alguém esteve no apartamento dela a procura de alguma coisa, e ela não está aqui. — Acha que pode ter alguma ligação com o Império? — Tudo tem alguma ligação com o Império, Rey. Mas eu preciso saber o que mais Sarina andou escondendo durante os últimos anos. — Não dá pra fazer nada pelo telefone, Ivan. Preciso que venha até a Olotof Finasy e traga o que achar que é importante e possa nos ajudar a encontrar Sarina. — Temos que descobrir quem esteve no apartamento dela, o que queria e onde ela está. — Vou responder suas perguntas quando trouxer tudo para cá e eu conseguir acessar o HD do notebook. — Estarei aí em dez minutos. — Ivan? Reynaldo me chama antes que eu desligue. — Fala. — Se concentra e tenta encontrar alguma coisa que o invasor


possa ter deixado pra trás. — Vou fazer isso. Guardo o telefone e fecho os olhos. O cheiro dela está por todo lugar desse apartamento trazendo lembranças que insistem em me tirar do eixo, firme e estável, em que eu consegui alicerçar a minha vida depois que meu coração foi humilhado e jogado no lixo. Fico em pé e começo a fazer uma varredura pelo apartamento de Sarina na tentativa de encontrar alguma pista sobre a pessoa que esteve aqui e o que ela procurava. Não importa o meu passado com essa mulher, o quanto eu a odeio por todo sofrimento que me causou ou toda a dor que me impôs quando partiu depois de jurar que fui o único homem a quem tinha entregado seu amor e seu coração. Se alguém a sequestrou pagará com a vida, porque é isso que o Império faz com todos que ameaçam um de seus membros. Isso é o que somos. Isso é o que fazemos. Há alguns anos, Sarina conheceu o médico romântico, apaixonado e fraco. Agora ela vai conhecer o herdeiro de Sergei Desdeiev, o konsultan’t do Império russo e o homem que matará todos que estão envolvidos no seu sequestro. Está na hora de remexer no passado e reabrir velhas feridas.

(1)

Soldado

(2)

Merda

(3)

Conselheiro

(4)

Querida


CAPÍTULO 2

Foi difícil convencer minha namorada que a viagem de última hora a Volgrogad nada tinha a ver com o possível sequestro de Sarina. Depois que deixei tudo que encontrei no apartamento, que comprovadamente foi invadido, da amiga de Natasha com Rey, para que ele pudesse analisar o notebook e alguns objetos que encontrei caídos pelo chão, dirigi até a casa de Valeska e tive muito trabalho para convencê-la de que a mulata não significa mais nada para mim. — Por que você teve que ir até a casa dela? — Porque eu sou o responsável por tudo que acontece na ausência de Natasha. — Não podia ter mandado outro no seu lugar, já que é o chefe? — Valeska, por favor, quantas vezes vou ter que repetir que eu estou com você? — Fica difícil acreditar quando me esconde as coisas Ivan. — Se eu te dissesse que iria me atrasar porque tinha que passar na casa dela primeiro, só para me certificar de que estava tudo bem o que você faria? — Não sei. Valeska cruza os braços me dando as costas. Ela sempre faz isso quando está chateada, e eu sei que hoje está muito chateada de termos perdido a nossa noite por causa da mulher que me deixou nadando em um mar de merda a alguns anos atrás. — Eu sei o que você ia fazer. — Me aproximo dela abraçando sua cintura e beijando seu pescoço — Você ia ficar brava e inventar alguma desculpa para eu não vir até aqui. E eu não ia aguentar ficar um fim de semana inteiro sem ver você. — Não acredito que vai viajar e me deixar aqui sozinha de novo, Ivan. Ela joga a cabeça para trás apoiando-a no meu peito. Minhas mãos sobem por sua barriga até chegarem aos seios pequenos por cima da blusa de seda vermelha. Mordisco sua orelha, lambendo e chupando


sua pele macia esfregando meu pau em sua bunda. — Podemos ficar aqui discutindo até amanhecer ou ir pra cama e aproveitar o tempo que temos até a hora do meu voo. Valeska gira o corpo, envolve seus braços em volta do meu pescoço e procura meu olhar com o seu. Minha namorada é uma mulher bonita, mas não é a sua beleza que me encanta e sim, sua personalidade generosa e gentil. — Promete que não irá me deixar? Afasto seu cabelo prendendo-o atrás da orelha. Seu olhar é carente e inseguro, seu sorriso doce é um tapa na minha cara de trouxa por não a amar como gostaria, e como punição, me torna mais determinado a ser o homem que Valeska espera e merece que eu seja para ela. — Prometo que serei fiel e farei o impossível para te fazer feliz. Ela me beija entre lágrimas enquanto a levo para o quarto e a deito na cama. Minha namorada se acomoda entre os travesseiros, e como sempre, espera que eu tome a iniciativa. Valeska gosta de fazer amor tradicional, básico. Sempre. E é por ela, por respeitar seus limites que eu me contenho, reprimo os impulsos que imploram para que eu me jogue de um penhasco de safadezas e limito o meu prazer ao que seu corpo me oferece. Ela é assistente social envolvida em diversos projetos que ajudam crianças e adolescentes órfãos. Nos conhecemos quando as filhas de Alexey Dragon perderam a avó e Valeska demonstrou seu interesse por mim. Eu não estava com cabeça para iniciar qualquer tipo de relacionamento, mas aos poucos ela conseguiu resgatar parte da minha alma romântica que havia se perdido no meio do caminho. Com ela, não me sinto um verdadeiro idiota por desejar ter uma mulher para amar e cuidar como uma joia rara. A minha joia. Valeska sonha em se casar e constituir a própria família, e eu quero proporcionar isso a ela. Estamos juntos há quase um ano e nesse período pude conhece-la melhor e me envolver emocionalmente. É bom ficar com a minha namorada. É seguro, calmo e verdadeiro. Nos damos bem na cama, apesar de todo controle que preciso


trabalhar para não a deixar desconfortável. A única mulher que ainda me tira do sério e me faz desejar provar novamente o tipo de foda que costumava me enlouquecer de tanto tesão, é a única que eu me recuso a encostar um dedo. A não ser que seja para provoca-la e ver seu corpo incendiar sob um simples toque meu. Eu sei que Sarina sente essa mesma atração física que parece não ter fim, com a diferença que, ao contrário de antes, não me controla mais. Com a mulata, abri mão do meu ego masculino e meu orgulho. Nunca mais cometerei o mesmo erro com nenhuma outra. Eu tomei a direção do que quero e do que devo fazer na minha vida, e jamais vou permitir que o tesão comande as minhas decisões novamente. Sexo sempre será sexo, duas pessoas que se desejam e se satisfazem mutuamente e Sarina representa apenas isso. Desde o primeiro contato ela foi tesão ardente, fogo, luxúria, uma tormenta de emoções enquanto eu exigia autonomia sobre seu corpo e ela me dava. Eu apenas tomava o que ela cedia sem questionar. Sarina se encaixava perfeitamente em tudo que me satisfazia como se fosse feita para mim, mas não era ela por inteira como eu queria. Meu domínio se limitava ao seu corpo e não incluía seu coração. Eu queria mais. Precisava de tudo. Um homem pode ter várias mulheres em sua cama e nenhuma em sua vida ou se preferir, apenas uma em sua cama. Aquela que ficará ao seu lado até que a morte os separe, como marido e mulher. Eu vi de perto o amor do meu pai pela minha mãe e vi o amor dela por ele. Eles se sacrificaram a vida toda para viver um amor impossível, cientes de que seriam mortos caso fossem descobertos, como posteriormente aconteceu. É esse tipo de amor que eu quero sentir, viver e compartilhar. Sem vergonha de assumir que tenho a joia mais preciosa em minhas mãos para cuidar, polir, adorar todas as noites e admirar a cada amanhecer. Valeska me ama e deseja ser a minha joia, a que estará na minha cama e na minha vida e ela será. Em poucos meses pretendo pedi-la em casamento. Se eu amo Valeska? Amo a pessoa que ela é, mas acho que


nunca vou amá-la como deveria, como mulher, como amante e ainda assim sei que estou fazendo a coisa certa para conquistar o futuro que sempre almejei. Uma companheira, amiga, confidente e a mãe dos meus filhos. Eu quero uma família. A minha família. Certo dia ouvi de um agente brasileiro, em uma das ligações que Natasha havia interceptado para averiguar o quanto seria vantajoso expandir os negócios para o Brasil, que todas as mudanças em sua vida só foram possíveis por causa do amor que sentia por uma mulher, a dele. Matheus Trivisan, também muito conhecido como Thor, foi sincero sem se preocupar com o risco que corre ao demonstrar sua fraqueza aos inimigos, e disse que quando a boceta perfeita entra na vida de um homem, fodeu. O que o ex traficante e agora agente conceituado não sabe, é que nem todos os homens têm a mesma sorte que ele teve de encontrar o amor e a boceta perfeita em uma única mulher. E eu faço parte desse grupo de azarados, infelizmente ou não... Depois de aproximadamente noventa minutos, entrego minha mala ao motorista e entro no carro estacionado no Aeroporto Internacional de Volgograd. — Bom dia, Ivan. Fez boa viagem? — Bom dia Feliks. Entrar em um avião nunca me deixa muito feliz, mas estou começando a me acostumar. O brutamontes tatuado e meu fiel segurança assente sem sorrir. Ele nunca sorri. Liga o carro e nos coloca em movimento até o local onde encontraremos Giuseppe. — Como estão as coisas por aqui? Feliks me olha através do retrovisor com uma careta de desgosto e eu imagino que o italiano, primo de Fillipo, deve ter aprontado alguma coisa. — Ruins. — Pode fazer um resumo? — Não entendo como a Imperatriz permite que aquele mudak (1) lidere uma tarefa como essa. — Esteve com ele como pedi? — Cheguei antes da meia-noite de ontem e encontrei ele no bar de um clube na periferia da cidade.


— Descobriram alguma coisa? — Sim, mas pagamos um preço alto por cada uma das informações. — Briga? — Pergunto segurando o riso. — Que de outra forma ele conseguiria? — Valeu a pena apanhar? — Bem que eu queria que ele tivesse levado uma surra. — Feliks contorna uma praça e eu avisto um hotel luxuoso a nossa direita — Natasha tem feito um ótimo trabalho com o consigliere (2), o que é uma pena. — Giuseppe pode ter vários defeitos Feliks, mas tem o mais importante para uma organização como a nossa. Ele é fiel ao Capo e a Imperatriz. — Não gosto dele, mas tenho que admitir que também é um ótimo stroyeov. (3) Feliks entra com o carro em uma garagem no subsolo de um prédio velho. — Esse é o lugar do encontro. — Vamos ver o que o italiano conseguiu. Não tenho dúvida de que Giuseppe está determinado a encontrar informações sobre a gangue “Os Selvagens” e seu líder, Ailik Barkov, mais conhecido como Padrinho. — Ivan — Feliks me chama antes de seguirmos para o apartamento —, alguma notícia de Sarina? — Ainda não. — Respondo sem demonstrar minha preocupação com a mulata — Mas Rey está investigando o notebook dela e vai me avisar quando encontrar alguma coisa. — Você desconfia de quem levou nossa devushka? (4) Quero lhe dar um soco por chama-la dessa forma, mas se fizesse isso teria que bater em todos os outros, já que Sarina conquistou o carinho dos homens que trabalham diretamente para a Imperatriz e frequentam a mansão. — Não. Sarina tem muita coisa escondida em seu passado, e só quando eu souber com quem ela esteve envolvida é que terei um ponto para iniciar a busca. — Quero ir com você quando for matar o desgraçado que a pegou.


— Vou me lembrar disso, Feliks. Enfim, eu vejo um esboço do que parece ser um sorriso em seus lábios e pela segunda vez em menos de cinco minutos, tenho vontade de socar a cara dele. Subimos dois lances de escada até a porta do quarto de Giuseppe, mas já do lado de fora podemos ouvir os gritos desesperados de um homem sendo torturado. Não me dou o trabalho de bater e entro sem ser convidado. Um dos homens que está com Giu aponta uma pistola semiautomática na minha direção e fala algumas coisas em italiano, chamando a atenção do consigliere. — Perdeu a noção do perigo, Ivan? — Giu soca a cara do homem amarrado usando um soco inglês, aumentando a poça de sangue no chão — Poderia ter levado uma bala na testa. — Seu capanga é muito lento pra conseguir me atingir. — Mas eu não sou. — Ele se afasta do prisioneiro e vem até mim — Aprenda as lições básicas de boas maneiras e bata na porta antes de entrar em qualquer lugar que não tenha sido convidado. — Falou o cara que nem sabe o significado da palavra educação. Giuseppe gargalha e me puxa para um abraço. — Eu sei o que significa, só não gosto de agir educadamente com esses figli du puttana. — Como está, meu amigo? — Sto bene, mas vou ficar melhor quando arrancar a língua desse maledetto. Eu me aproximo do verme. Seu rosto está encoberto pelo sangue que escorre de diversas partes. Seus lábios inchados e feridos propiciam a baba que cai em sua roupa cheirando a álcool. — Quem é ele? — O nome é Gustav, não sabemos o sobrenome. — Russo? — Sim, estava com mais dez ontem no clube. Tentaram assaltar os clientes e sequestrar as putas que trabalhavam. — Alguma gangue? — A mesma de sempre. — Selvagens? — Pergunto encarando o italiano e fazendo o verme levantar a cabeça com um sorriso de lado — Não desistiram


ainda? — Nós nunca vamos desistir. — O homem cospe em cima dos meus sapatos com raiva — Todos vocês vão morrer e essa merda de Império vai voltar para o buraco de onde saiu. Retiro o lenço branco do bolso do paletó e me abaixo para limpar a sujeira que ele fez. — Entendo. — Falo sem demonstrar a raiva que sinto e fico em pé novamente — A gangue que acha que pode nos derrotar e tomar o que nos pertence, como os ladrõezinhos de merda que são. É isso ou entendi errado? — Você não sabe o que está falando! O homem é jovem, nem chegou aos trinta. Seus cabelos negros têm um corte moderno e suas roupas indicam que não faz parte do grupo que anda pelas ruas atormentando a população com pequenos furtos e depredações dos grandes comércios. — O que eu sei é que você é mais um filhinho de papai carente de atenção e está fazendo de tudo para chamar a atenção dele. — O garoto mal consegue abrir o olho direito, mas trinca os dentes e se remexe na cadeira tentando se soltar para me bater — Seus amiguinhos ricos sabem que está andando com os Selvagens, ou melhor, os Selvagens sabem quem é você e de onde vem? Conhecem seus pais? Seu sobrenome é segredo ou apenas eu e meus amigos ou Alik não podemos saber a que família importante você pertence? Giuseppe está ao meu lado, e pela reação do prisioneiro está claro que ele não quer que ninguém saiba quem realmente é. — O que sabe sobre Alik? — A pergunta é direcionada a mim — Como conheceu ele? Jogo o lenço babado no cesto de lixo e me sento no sofá. Acendo um cigarro e dou uma tragada antes de responder: — Você está aqui para responder as perguntas Gustav, não para fazê-las. — Solto a fumaça — Vamos dar cinco minutos para começar a falar, e se cooperar prometo que não contarei ao Padrinho sobre a sua família riquinha. — Eu não faço parte da gangue. — E por que estava com eles no clube? — Aquele era pra ter sido meu último teste. — Iniciação? — Giu interpela.


— Sim. — Só você ou todos aqueles moleques também? — Oito dos que estavam lá queriam entrar e dois foram apenas pra supervisionar e avaliar o nosso desempenho. — Qual era a tsel’ (5) de ontem? O garoto me encara entendendo que eu tenho conhecimento de todas as fases exigidas para se tornar um membro da gangue russa, que nasceu da ideologia de proteger a população de Kazã, mas não controlou o crescimento repentino e foi corrompida pela sujeira do submundo. — Dez mil em dinheiro e três putas para a comemoração. — O que acontece com quem não consegue passar? Giu pergunta encarando o garoto, mas sou quem responde à sua pergunta: — Não aconteceria nada se ele não tivesse sido capturado, mas se Alik descobrir que o pegamos, sua cabeça será colocada a prêmio e quem o matar primeiro receberá a gratificação. O consigliere gargalha alto. Eu continuo encarando o jovem. Tenho certeza que já o vi em algum lugar, mas não consigo me lembrar de onde. — Por que não disse logo, Ivan? Giuseppe tira o celular do bolso, faz uma ligação para Natasha informando tudo o que eu já sabia e avisa que em uma hora postará um vídeo na internet noticiando a captura de Gustav e também sua contribuição na investigação policial que combate a gangue na cidade de Volgograd, caso ele não coopere conosco e nos diga tudo que queremos saber sobre os planos de Alik Barkov, o líder dos Selvagens. — Agora é a sua vez de decidir como quer morrer Gustav. — Giu guarda o celular e puxa uma cadeira se sentando à frente dele. — Posso dar um tiro no meio da sua testa e encerrar o assunto, ou posso te soltar agora e deixar que o Alik acabe com você e toda a sua família. O que vai ser? — Eu conto tudo que sei, mas com uma condição. — Ele não demora mais do que cinco segundos para decidir. — Não está em condições de exigir nada, garoto. — Minha mãe não tem culpa de nada. Vocês têm que me prometer que vão arrumar um lugar seguro e não vão deixar nenhum dos dois descobrir onde ela está. — Gustav alterna seu olhar de mim para


Giuseppe com desespero — Não me importo de morrer, mas se não me ajudarem prefiro que me soltem para ser torturado por ele. Assim terei tempo de levar minha mãe para um lugar seguro. — Quem mais pode ferir a sua mãe além de Alik? — Meu irmão mais velho. Foi por causa dele que tentei entrar para a gangue. — Quem é o seu irmão? — Temos um acordo? — Gustav pergunta. — Temos. — Concordo. — Não, Ivan! — Giuseppe me repreende — Não conhecemos esse idiota e nem sabemos quem é o irmão dele. Como vamos saber se ele está mentindo? — Fácil. — Jogo a bituca de cigarro no chão — Se ele nos disser a verdade eu sumo com a mãe dele, mas se ele mentir, eu acabo com ela pessoalmente. — Não gosto disso... — Nem eu, mas não temos escolha nem tempo. Fico à frente de Gustav com as mãos apoiadas nos braços da cadeira. Seu rosto incha mais a cada minuto e o olho ferido já não abre mais. — Me conte tudo o que sabe e eu protegerei a sua mãe. Qual é o seu nome completo, quem é o seu irmão e por que está tentando foder a vida dele? — Meu nome é Gustav Falin, sou filho de Edik Falin e meu irmão se chama Petrus. Recebo o primeiro golpe ao ouvir o nome do ex membro do Império que foi assassinado por Natasha dentro da própria boate na frente de todos os que estavam no local. Mas ele não para de falar: — Meu pai não passava de um filho da puta que vivia batendo na minha mãe, quando a Imperatriz acabou com ele Petrus se revoltou e jurou se vingar do Império, contra a vontade da minha mãe e a minha também. Meu irmão estava cursando engenharia química e começou a usar a boate para fabricar bombas caseiras e armas biológicas. Minha mãe queria pará-lo, mas Petrus estava cego de raiva e assumiu o lugar de Edik nas agressões contra ela. É visível o ódio que o garoto nutre pelo irmão. — O dinheiro que meu pai tinha guardado sumiu. Petrus vendeu


os carros, as joias, todas as obras de arte que pertenciam a família e nos expulsou de casa. Eu e minha mãe viemos morar com a minha tia e há um ano conheci alguns homens da gangue de Alik que prometeram me ajudar a matar Petrus. Mas antes de receber a ajuda dos Selvagens, tive que passar por alguns testes e me tornar um membro. Por isso concordei. — Onde está o seu irmão? — Em Moscou. — Então tudo que você quer é acabar com Petrus para salvar a sua mãe? — Não. — Gustav continua me encarando com o único olho aberto — Eu quero que meu irmão desista dessa loucura toda e volte para casa. Ele conheceu alguém. Um homem poderoso e pelo que ouvi ele é um herdeiro legítimo da máfia. — Meu corpo retesa assim como o de Giuseppe — Os dois se uniram para acabar com o Império e ressuscitar a Bratva. — Qual o nome desse homem? — Não sei. Meu irmão nunca falou e tudo que eu sei foi porque ouvi algumas conversas por telefone. Petrus se encontrava com ele fora de Moscou para que não fossem vistos juntos. Giuseppe cruza os braços e me encara. — Se os encontros eram as escondidas, certamente o aliado de Petrus é conhecido. — Ou... — Penso por alguns segundos — Ele não queria ser visto para que não desconfiássemos de nada. Preciso descobrir quem é esse cara, o que quer e por que sequestrou Sarina, mas antes... há muitas informações que eu preciso arrancar do filho mais novo de Edik Falin que não podem ser deixadas para outro dia.

(1)

Idiota

(2)

Conselheiro do Capo. Segundo cargo mais importante da Máfia Italiana

(3)

Combatente


(4)

Menina

(5)

Meta


CAPÍTULO 3

Depois de ficar desacordado por mais de meia hora, o filho de Edik retoma a consciência e parece mais disposto. — Vamos continuar as perguntas ou damos umas porradas antes? Encaro Giu por alguns instantes pensando se devo ou não perguntar a ele se não está vendo a mesma coisa que eu, mas desisto. Se dependesse dele acabaria matando o garoto e não descobriríamos mais nada a respeito do envolvimento de Petrus com o tal homem misterioso. — Está pronto para responder mais algumas perguntas ou prefere apanhar mais um pouco? — Pergunto a Gustav. Ele olha para Giuseppe que sorri e mostra o soco inglês em sua mão direita pronto para ser usado. — O que mais vocês precisam saber? — Respiro aliviado. — Há quanto tempo eles estão unidos? — A primeira vez que ouvi meu irmão falar com ele faz mais ou menos um ano. — É isso. — Concluo satisfeito — Antes do casamento Natasha ficou desconfiada da relutância de Petrus em vender a boate de Edik que só estava dando prejuízo depois que o tráfico de mulheres foi banido dos negócios do Império definitivamente. — Nós fomos até lá e falamos com ele. — Feliks relembra. — Exato, e não encontramos nada que indicasse que ele estivesse fabricando seu próprio armamento. Se Petrus não usou a boate para fabricar as bombas para que seu irmão queria aquele lugar? — Para reabrir e voltar com o negócio igual ao do meu pai em nome da Bratva. Meu irmão e esse cara querem transformar o tráfico de mulheres no melhor atrativo para convencer os membros do Império a se juntarem a eles. — Precisamos descobrir quem está por trás de Petrus. — Giuseppe se agita — E acabar de vez com esse figlio di puttana. Abaixo a cabeça e tento pensar com calma em tudo que Gustav Falin acaba de nos contar. Se ele estiver falando a verdade como eu


acredito que esteja, estamos prestes a enfrentar um inimigo poderoso que tem a seu favor, o anonimato. E por um milésimo de segundo meu coração acelera e quase salta pela boca ao imaginar que Sarina possa ter sido a primeira vítima do Império a cair nas mãos desse desgraçado. — Eu disse tudo que queriam, o que vão fazer comigo agora? Meu olhar encontra o de Giuseppe e sem precisar falar nada, sabemos o que devemos fazer. — Feliks, solte Gustav e coloque-o no porta-malas do carro. — Ordeno — Vamos dar uma voltinha. O brutamontes arrasta o corpo ferido do garoto para fora do quarto acompanhado pelos homens de Giu. — Tem alguma ideia de quem possa ser? — Não. Mas tenho certeza de uma coisa. O consigliere me encara com seus olhos, tão ansiosos e preocupados quanto os meus, aguardando a minha finalização. — Depois de tantos anos de domínio absoluto do Império na Rússia, apenas um homem muito inteligente e calculista para tentar reerguer a Bratva bem debaixo do nosso nariz. — Ou muito burro. Vou até a janela e começo a inventar mil teorias quando meu celular toca e o nome de Rey brilha na tela. — Alguma notícia? — Infelizmente sim e não são nada boas, Ivan. — O que aconteceu? — Você precisa voltar para Moscou imediatamente. — O que aconteceu, Rey? — Bóris e Pavel foram pegos em uma emboscada. Os dois estão internados, em estado crítico. — Merda! — Passo as mãos pelos cabelos — Estou voltando. — Essa emboscada é coisa do mesmo cara que pegou a Sarina, não é, Ivan? — Com certeza Rey, mas ele não vai matar a mulata. — Como pode ter tanta certeza? Ele acabou de mandar dois dos melhores seguranças do Império para a UTI! Não sou especialista, mas consigo analisar as situações friamente.


— Bóris e Pavel são soldados treinados para nos defender, os nossos escudos. Sarina e você são as nossas mentes. — Você acha que... Porra! Eu odeio me sentir impotente desse jeito. — Ele só vai se livrar dela quando tiver tirado todas as informações que precisa. — Deus do céu. — Eu vou descobrir quem ele é, não se preocupe. Encerro a ligação e depois de combinar os próximos passos com Giuseppe, entro no avião e volto para Moscou. O desgraçado atacou três membros do auto escalão do Império para mostrar sua força, e quanto mais confiante se sentir mais vai se expor. Eu preciso ter calma e pensar em uma forma de descobrir quem ele é, o que quer e para onde levou Sarina. Só espero que não encoste em um fio de cabelo daquela mulher, ou sou capaz de fazer com ele coisa muito pior do que Natasha fez com Leonardo Gallo. Duas horas mais tarde estou sentado em um dos bancos do hospital aguardando notícias sobre o estado dos homens de confiança da Imperatriz, e meus amigos. Feliks seguiu para a mansão com o objetivo de descobrir tudo que aconteceu de manhã e resultou nessa merda toda. — Boa noite, senhor Ivan. O médico se aproxima e eu fico de pé num pulo. — Como eles estão? O homem vestido com uma roupa verde e toca branca está visivelmente cansado. Olheiras roxas, abatido e apático. — O senhor Pavel passou por uma cirurgia para a retirada do baço, foi induzido ao coma e ficará na Unidade de terapia intensiva pelas próximas setenta e duas horas. O senhor Bóris.... — O que foi? O que aconteceu com ele? — Infelizmente não resistiu e veio a óbito na hora da cirurgia que foi realizada para conter uma hemorragia interna. — Porra! — Eu sinto muito, fizemos o possível para salvá-lo, mas ele sofreu três paradas cardiorrespiratórias e não conseguimos trazê-lo de volta. Eu me jogo na cadeira e estou prestes a desmoronar quando um


furacão chamado Natasha Olotof Grasso atravessa o corredor. — Cadê eles? O que aconteceu Ivan? — Natasha, esse é o médico responsável pela cirurgia de Pavel. O garoto está bem, mas vai ficar na UTI mais alguns dias. — E o Bóris? Como ele está? Todos nós sabemos o quanto o velho foi importante para a Imperatriz e eu imagino que a notícia de sua morte trará a leoa faminta à tona e a guerra será declarada. — Ele não resistiu... Um silêncio perturbador toma conta do ambiente. Sinto a falta de Fillipo para dizer as palavras certas para ela. Natasha não chora, sequer demonstra qualquer emoção apenas fica me encarando perdida em seus próprios pensamentos. — Obrigado doutor. Se tiver mais alguma informação gostaria que nos avisasse prontamente. O médico se retira me deixando sozinho com a Imperatriz. — Nenhum sinal da Sarina? — Não, o Rey está trabalhando no notebook pra tentar descobrir alguma ligação que possa nos dar uma pista. — Ela me disse alguma coisa... Natasha se senta ao meu lado. Está pensativa e calma demais para o meu gosto. — Sobre o que? — Questiono. — Um homem para quem ela trabalhou. Sinto meu rosto esquentar. — Com certeza Sarina trabalhou para muitos homens Natasha, vai ser difícil descobrir de qual ela estava falando. — Não estou falando desse tipo de trabalho, Ivan. Natasha sabe que Sarina me deixou para seguir sua vida de prostituta. Ela disse na minha cara que tinha vários clientes que pagavam bem para desfrutar de algumas horas em sua cama, e que a proposta que havia recebido de um deles para sair de Kazã, foi irrecusável. Cada palavra dita acertou um ponto distinto do meu coração tolo e apaixonado por ela, e por meses a fio eu amarguei a dor de ter sido trocado daquela forma tão fria e egoísta. Sarina jurou me amar e na primeira oportunidade que teve,


escolheu o dinheiro fácil que a prostituição lhe proporcionava. Ela nunca soube sobre a minha herança e no fim das contas, fiquei feliz por nunca ter falado nada sobre o meu vínculo com Sergei Desdeiev ou o quem ele era. — Então seja mais específica. — Sarina me disse que estava desesperada procurando por Aurora quando começou a investigar Anya, mas alguma coisa deu errada e ela acabou nas mãos de um homem que usou Severino para chantageá-la. Dou risada. Ouvir a Imperatriz falar dessa forma de Sarina é quase tão surreal quanto acreditar em uma história fantasiosa daquela. A mulata é especialista em mentir e aprimorou sua técnica nos últimos anos, mas apenas quem a conhece de verdade, como eu, sabe que não devemos confiar em nada do que ela fala. — Por favor, Natasha, não me diga que acreditou em mais uma das mentiras de Sarina. — Ela não estava mentindo, Ivan. — Não imagino o motivo que levou Sarina a inventar uma coisa dessas pra você, mas tenho certeza que ela só fez isso para se fazer de vítima. — Encaro a Imperatriz que agora parece estar com raiva — Eu conheço aquela mulher e sei o quanto ela pode ser convincente Natasha. — Eu garanto que ela não estava mentindo. Eu sei que não. — Sabe mesmo? Natasha assente. — Ela te contou o nome desse homem? — Não. — Ela te falou o que ele queria? — Não. — Onde ele morava? — Não. — Então o que você sabe? Como pode dizer que a Sarina não mentiu pra você? — Eu apenas sei. Fico em pé, impaciente e irritado. — Eu te entendo perfeitamente, porque também acreditei na Sarina por quase um quando ela dizia que me amava e que eu tinha sido


o único homem que amou. — Enfio as mãos nos bolsos da calça e respiro profundamente — Mas fui obrigado a me conformar de ter sido um perfeito idiota nas mãos dela. — Ela ama você Ivan, mas foi chantageada por esse homem que estava fazendo o Severino de refém. Por isso ela teve que mentir. — Te ouvindo defender a Sarina desse jeito tão voraz é um consolo pra mim. — Não estou mentindo. — Eu sei que não. O consolo é saber que não fui o único a cair na lábia dela. — Por que a Sarina iria inventar uma história absurda dessas? — Porque é isso que ela sabe fazer, Natasha! — Brado contendo a fúria — A Sarina usa as pessoas que se aproximam dela e depois descarta como se fossem lixo. — Ivan, alguém muito perigoso está querendo acabar com o Império. — Natasha rosna com os olhos estreitos e perigosos — Sequestrar a Sarina e atacar dois dos meus melhores homens não foram eventos isolados. Ele sabe o que está fazendo e nós não temos sequer ideia de quem esse sujeito é ou o motivo pelo qual quer nos destruir, mas eu sei que a Bratva não é apenas a ligação, mas também o único caminho que temos para descobrir quem está por trás disso tudo. — Nós vamos pegar esse cara, Natasha. — Eu sei que sim, mas não é essa a minha preocupação. — E qual é a sua preocupação? — É o que ele pode fazer com a Sarina enquanto nós não o pegamos. Ficamos nos encarando até que o meu telefone toca e o nome de Rey surge brilhando no display. — Me diga que encontrou alguma coisa. — Consegui desbloquear um dos arquivos mais antigos que estava criptografado, mas não consigo decifrar o que tem nele. — Em qual idioma está escrito? — Português do Brasil. — E você não consegue ler? — A Sarina usou algum tipo de código e acho que somente ela vai conseguir explicar o que essas páginas querem dizer. — Não é possível...


— Mas tem uma coisa que está me deixando confuso. — O que? — A data do arquivo é de maio de 2011. Não preciso pensar muito para confirmar onde Sarina estava nessa época. — Ela chegou em Kazã em janeiro e foi embora em dezembro desse ano. — Eu imaginei que sim, porque o nome da cidade aparece no cabeçalho. — Isso indica que esse arquivo foi editado enquanto ela esteve lá. — Exato. Vou enviar o conteúdo para o seu e-mail e me diga o que você acha do título do arquivo. — Estou esperando. — Alguma notícia de Pavel e Bóris? Quero me bater por ter esquecido de avisá-lo sobre o falecimento do mais antigo membro do Império. — Pavel está internado na UTI, mas Bóris não resistiu... — Puta merda! — Reynaldo lamenta — Quer que eu avise os outros? — Quero. Natasha está aqui comigo e vamos organizar tudo para p velório e o enterro. Quando tivermos o horário e o local, te envio por mensagem. — Eu sinto muito Ivan. — Nós também. — A Imperatriz entrou no modo racional e anda de um lado para o outro do corredor — Estou esperando o arquivo. Encerro a ligação. Natasha para de andar e me encara com seus olhos azuis brilhantes. — O que ele descobriu? — Um arquivo em português no notebook de Sarina. — O que tem nesse arquivo? — Reynaldo não conseguiu descobrir. Ele acha que a Sarina criou algum tipo de código para que apenas ela conseguisse entender. — Por que ela faria uma coisa desse tipo? — Porque a Sarina não queria que ninguém soubesse o que ela descobriu.


Antes que a Imperatriz possa rebater, meu celular recebe uma notificação de mensagem. É de Reynaldo. Meus olhos recaem rapidamente para o corpo do e-mail onde o nome do arquivo está destacado em negrito. “Irmãos da Máfia – Separados pelo sangue, unidos pelo ódio” — Que porra é essa? Eu me jogo na cadeira e Natasha se senta ao meu lado. Abro o arquivo ampliando as letras para que a Imperatriz possa ler junto comigo. Ficamos quietos por longos minutos tentando entender e decifrar aquele monte de frases, datas e citações poéticas. — O que significa tudo isso, Ivan? Não consigo desviar meus olhos da tela. Estão aprisionados, hipnotizados. Uma confusão tão grande quanto o cérebro de uma mulher com QI elevado e menosprezado. — Não faço a menor ideia. — Eu imaginei um código binário e não uma merda assim. — Precisaremos de tempo para tentar entender isso aqui. — Não temos tempo. — Natasha brada — Deve ter alguém que possa nos ajudar. — Você tem razão, existe uma pessoa que pode nos ajudar a entender o que a Sarina descobriu e achou que seria mais seguro arquivar dessa forma. — Quem? Levanto a cabeça com muito sacrifício e encontro os olhos esbugalhados da Imperatriz. Nunca tinha visto Natasha assustada, essa é a primeira vez e não sei se gosto de vê-la desse jeito. — Severino. — Não sei se ela contaria alguma coisa importante pra ele. — Talvez não tenha contado, mas sabemos que Severino sempre foi atencioso a tudo que acontecia com a irmã. Ele pode ter ouvido ou visto alguma coisa naquela época que possa nos dar alguma pista importante. — Precisamos encontra-lo. Ela levanta rapidamente, mas eu a seguro pela mão contendo seu ímpeto avassalador.


— Eu vou atrás dele e você cuida de tudo por aqui. — Não! Eu vou junto. — Natasha — Falo calmamente sentindo meu corpo ferver por dentro —, Bóris foi assassinado e merece uma homenagem à altura de tudo que ele representou para o Império russo. Você é a Imperatriz e precisa estar presente durante a despedida. Eu vou atrás de Severino e volto assim que descobrir alguma coisa sobre esse arquivo. Ela não gosta do que ouve, mas sabe que não há como contestar meus argumentos. — Saia logo da minha frente antes que eu mude de ideia e deixe você para trás. — Avise o piloto que em sairemos em meia hora. — Ele estará à sua espera e ficará a sua disposição. Não me deixe sem notícias. Beijo sua testa e saio do hospital apressadamente. Em todos os andares reconheço nossos seguranças e antes de entrar no carro, envio uma mensagem a Feliks pedindo para que me encontre no Aeroporto Sheremetievo em quinze minutos. O carro está no estacionamento do hospital. Eu destravo o alarme e paraliso ao ver um pedaço de papel preso no para-brisa dianteiro. Olho para os lados com a arma em punho, atento a qualquer movimento. Me aproximo e retiro a folha amassada. Abro a porta me acomodando no banco do motorista para ler o que está escrito: “Crowne Plaza Moscow – World Trade Center, quarto 3773, 22hs. Venha sozinho se quiser encontrar sua neguinha viva” O relógio marca duas horas da tarde. Sem perder tempo parto em direção ao aeroporto. A viagem até São Petersburgo será rápida e encontrar Severino não deve ser difícil. Ligo para Rey enquanto dirijo pelas ruas movimentadas de Moscou. — Ivan. — Preciso que acesse as câmeras de filmagem do estacionamento do Hospital Semashko e descubra quem deixou um bilhete no carro da Natasha. — O esportivo que parece do filme Velozes e Furiosos?


— Esse mesmo. Rápido. — Em um minuto te envio a imagem. Encontro Feliks me esperando na entrada da pista e seguimos juntos para o avião particular de Natasha. — O que descobriu? — Às nove horas da manhã Bóris recebeu uma ligação informando o local do cativeiro de Sarina e levou Pavel com ele. Mas quando entrou na rua Manejnaya Ploschad, um caminhão de médio porte fechou o carro, e dois motoqueiros carregando garupas armados de metralhadora e fuzis dispararam contra eles por quase um minuto e foram embora. — Precisamos do celular do Bóris. Ligo para Natasha e conto o que Feliks havia descoberto e peço para que ela encontre o celular do segurança para tentarmos descobrir quem ligou para ele. — O que vamos fazer em São Petersburgo? — Procurar o irmão da Sarina. — Acha que ele está envolvido? — Não, mas acho que ele pode nos ajudar a entender o arquivo que a irmã dele gravou em códigos. — Que tipo de códigos? Encaro o gigante tatuado que está sentado ao meu lado e faço uma careta impaciente. — Se eu soubesse não precisaria ir atrás do Severino. — Posso ver? — O que sabe sobre códigos? — Nada, mas sempre me dei bem em desvendar charadas. Pego o celular e mostro o arquivo já aberto. Feliks fixa os olhos na tela e fala baixinho palavras inaudíveis. — Tem algum papel e caneta aí com você? — Ele pergunta sem olhar para mim. Sem me mexer fico prestando atenção em seu jeito concentrado até que ele levanta a cabeça e me encara com a testa franzida. — Ivan, acorda! — Ele fala impaciente — Tem papel e caneta? — O que vai fazer? — Acho que entendi a lógica que a Sarina usou aqui, mas preciso anotar pra ver se entendi direito.


— Como assim você entendeu a lógica? — Arruma a merda da caneta e um pedaço de papel que eu te explico melhor. Levanto apressado e vou até a cabine onde está a única comissária de bordo que prontamente me arruma um caderno e duas canetas azuis. Entrego a Feliks que inicia uma série de rabiscos estranhos e aparentemente desordenados. Mas quando ele vira o papel para a minha direção, consigo enxergar a lógica usada para editar o arquivo, e apesar de não compreender totalmente o que Sarina quer dizer com tudo aquilo tenho uma vaga ideia do que a mulata havia descoberto em Kazã, no mesmo ano que nos conhecemos e vivemos uma tórrida e sensual história de amor. — Onde aprendeu a fazer isso? — Meu pai foi o melhor estrategista do exército russo de todos os tempos e um dos responsáveis pelo grupo seleto de espiões que atuou na batalha contra os alemães na década de 40. — Feliks fala orgulhoso — Ele usava muito esse tipo de código para enviar mensagens secretas que podiam ser interceptadas pelos inimigos e eu acabei entendendo como funciona o raciocínio de um prodígio. — Prodígio? — São pessoas com inteligência acima da média, Ivan. — Eu entendi Feliks, mas eu sempre considerei a Sarina como uma mulher com o QI elevado e não um prodígio. O grandalhão dá de ombros. — Se foi a devushka que fez isso, definitivamente ela é um prodígio ou no caso, uma prodígia. — Deixa eu ver. Feliks me entrega a folha rabiscada e durante a viagem até São Petersburgo eu me perco em suas anotações. Parece uma história contada em frases e citações datadas de acordo com as descobertas. Uma família unida pelo amor e separada pelo sangue. Inveja, ciúme e morte. Paciência e vingança. Vergonha e orgulho. O avião pousa e nós descemos apressados, entramos no carro que já estava a nossa espera e seguimos até a casa de Severino, que fica próxima ao aeroporto. Toco a campainha enquanto Feliks se posiciona ao meu lado


garantindo a vigília. Esperamos por alguns minutos e como não há resposta decido arrombar a fechadura e entrar. No quintal encontramos respingos de sangue que formam uma pequena trilha até a porta da cozinha onde o corpo de Severino está caído, imóvel. — Porra! Porra! Abaixo e verifico que seus batimentos cardíacos são fracos, ele tenta abrir os olhos e falar alguma coisa, mas não consegue. — Onde está a sua mulher? — Pergunto num sussurro. Severino balbucia tentado contar o que aconteceu, mas infelizmente, não consegue e morre bem a minha frente. — Não tem ninguém aqui. — Feliks informa atrás de mim — A mulher dele tá no quarto. — Morta? — Acho que ela foi violentada Ivan. Meu sangue ferve nas veias. — Vamos sair daqui antes que alguém chame a polícia. — Não quer dar uma olhada na casa? — Quero, mas não hoje. — Olho o relógio — Tenho que voltar para Moscou. Quando a poeira baixar voltamos para procurar alguma pista. — A Sarina vai enlouquecer quando souber... Encaro o corpo caído de Severino e não consigo me isentar de compaixão. Se há no mundo uma coisa que a mulata ama de paixão é esse irmão e a morte dele será como a sua própria morte. Não tenho mais nenhuma dúvida, o raptor de Sarina esperou por anos para dar início a sua vingança e a mulata brasileira é de fato, a sua principal vítima. Preciso descobrir o que ela fez ou descobriu para enfurecer tanto um homem a ponto de ataca-la de forma tão cruel. Talvez eu não tenha sido o único babaca apaixonado com o coração dilacerado e deixado para trás pela mulata estonteante. A diferença entre eu e esse desgraçado é que ele se ruiu consumido pela raiva, enquanto eu fui reerguido pelo orgulho. Mas uma coisa nós dois temos em comum, e se ele for tão inteligente quanto parece, sabe que estamos seguindo em direção a morte. Ele quer a minha e eu anseio pela dele...


CAPÍTULO 4 – SARINA

Estou escondida dentro de um armário embutido que fica dentro do banheiro. É como um esconderijo secreto e ninguém sabe que ele existe, apenas meu irmão, pois, foi ele que construiu antes de se mudar para São Petersburgo. Meus dentes batem uns nos outros com tanta força que podem quebrar, mas eu agradeço a Deus por Severino não morar mais aqui. Se ele estivesse comigo a essa hora, um deles estaria morto e não ouso imaginar a minha vida sem a única pessoa que eu sei que me ama e confia em mim. Severino e eu atravessamos um grande campo de batalha minado até chegarmos aqui. Ele presenciou minha dor, meu medo, minhas dúvidas e me acolheu quando fui obrigada a escolher entre a minha felicidade e a vida do homem que eu amava. De que adiantaria ficar com Ivan e ter que assistir a sua destruição? Ele não merecia sofrer por ter se apaixonado por uma mulher problemática como eu, que por coincidência ou obra do destino, se deparou com os dois lados da moeda sem sequer imaginar aonde estava se metendo. Tudo que fiz foi por amá-lo demais e faria novamente se fosse preciso. O destino me abençoou quando colocou Natasha no meu caminho, e eu serei eternamente grata por tudo que ela fez por mim, pelos meus irmãos e pela minha sobrinha, mas nada vem de graça e com a Imperatriz, retornou a minha vida o homem que não tem a menor noção do que aconteceu em Kazã, há mais de oito anos. Ele nunca vai me perdoar... E com toda razão, pois, eu poderia ter lhe contado parte da verdade, confessado que nunca fui uma garota de programa e que estava sendo chantageada pelo homem que odeia o simples fato de Ivan ter nascido. Eu também me sentia culpada por ter levado o capeta para a vida


de Ivan através do nosso envolvimento, além de ter ajudado o satanás a descobrir onde, como e com quem vivia o anjo caído que ele desejava aniquilar. Foi para garantir que Ivan não tentasse me convencer a mudar de ideia, não cruzasse o caminho do verdadeiro demônio em forma de homem e me excluísse de seu coração definitivamente, que deixei que pensasse o pior de mim e seguisse sua vida em paz. Determinei a minha própria destruição, a minha ruína e o motivo de todas as minhas lágrimas ao deixa-lo para trás da forma que deixei. Lágrimas de saudade do homem que me mostrou o verdadeiro significado da palavra amor. Nunca odiei ninguém como odiava aquele belzebu disfarçado com a beleza de um ator de cinema. Ainda o odeio e acho que sempre irei odiar, pois foi por causa dele que perdi o único homem que amei em toda a minha vida. Quem está atrás de mim? O que quer? Apenas um nome vem a minha cabeça, mas não pode ser. Eu o matei. Eu vi seu corpo morto no chão. Conferi seus batimentos cardíacos como Ivan havia me ensinado quando usei uma brincadeira para que ele não percebesse meu real interessa naquela informação. Eu matei aquele verme para que eu e Severino, pudéssemos andar pelas ruas sem medo, dormir algumas horas de sono tranquilo, viver como as pessoas normais vivem; sem ter que ficar olhando para todos os lados, angustiados, apreensivos e lunáticos. Matei para que Ivan tivesse a chance de realizar seus pequenos sonhos e encontrasse uma esposa digna de ter o seu respeito, o seu amor, que o fizesse feliz sem mentiras ou traições, e não com a mulher que colaborou para construir um plano que iria destruí-lo. Eu não podia permitir que o capeta cumprisse a sua promessa de vingança em nome do sangue, da vergonha e do orgulho. Eu devia ter ouvido os conselhos de meu irmão e pedido ajuda a Natasha quando notei a primeira invasão no meu sistema de segurança, a dois meses atrás, mas não imaginei que a merda fosse tão grande. Fecho os olhos ouvindo o barulho de objetos sendo arremessados na sala. Eles estão destruindo meu apartamento e eu não posso fazer nada. Quando saí do banho e vi pelo reflexo do espelho o homem de


quase dois metros de altura arrombando a porta do meu apartamento e avançando sem qualquer vestígio de medo em seu rosto, a única coisa que tive tempo de fazer foi me esconder nesse armário. Não posso sair daqui e ser pega novamente. Não vou suportar vivenciar uma nova experiência traumática como aquela. Prefiro morrer a ficar novamente trancafiada em um cativeiro. Inspiro, expiro, espero. Pacientemente. Não sei quanto tempo se passou desde que entrei aqui. Não tenho relógio e minha cabeça pulsa freneticamente como se fosse uma mina de ouro, onde os anões da Branca de Neve trabalham em horário comercial, cavando e escavando incansavelmente. Inspiro, expiro e espero. Encosto a cabeça na parede, olhos fechados e coração acelerado. Não vou sair. Tenho medo, muito medo, e posso aguentar longas horas de pé, com fome e frio. Já fiz isso antes, posso fazer novamente. Mas a minha pouca confiança vira pó quando ouço passos se aproximando. São botas masculinas, reconheço o barulho. Iguais as dele, do capeta. Não pode ser. Ele está morto. Meu corpo volta a tremer a ponto até de convulsionar. Agarro a toalha apertando-a contra o meu corpo. Está mais perto, cada vez mais perto. Fecho os olhos. Aperto com força. Inspiro sem sucesso. O ar não entra. Vou sufocar. Estou com medo, muito medo. Não pode ser ele. Silêncio. Sinto o pavor alimentar meus órgãos vitais e a urina quente escorrer pelas minhas pernas. Choro baixinho, rezo clamando por ajuda ou uma intercessão divina. Qualquer coisa que me afaste desse mal e o leve para longe de mim. Muito longe. O mais distante possível. Não vou suportar tudo de novo. Não aguento. Não vou suportar o regresso ao inferno. Não. Não, por favor, Deus, não faça isso comigo. Meus pés estão começando a congelar de frio A torneira da pia é aberta, o chuveiro é ligado, a descarga é acionada. Tampo os ouvidos, desesperada, e choro de soluçar porque agora tenho certeza que é ele. O capeta está aqui e veio me buscar. Está acontecendo de novo. Um dèjá Vu. Mas dessa vez não tenho mais nada de bom para ser tirado, porque ele já me tirou tudo; meu coração, meus sorrisos, minha


esperança, minha alma, minha família, meu amor... Ele assobia a mesma canção, tampo os ouvidos com as mãos. Dois passos e a luz invade o armário. Não abro os olhos nem a boca e continuo com os ouvidos tampados. O assobio segue interpretando a música que eu tanto amava, a minha música favorita do mundo. Até isso ele arrancou de mim. — Sentiu minha falta printsessa nochi? (1) A voz arrastada, rouca e maldita substitui o assobio findando minhas resistências. Não tenho escapatória. Ele está de volta das profundezas do inferno, bem aqui, e não vai me deixar em paz. Abro os olhos e o vejo. Depois de tantos anos iludida com o seu genérico fim, volto a encarar os olhos do ser humano mais perverso que o mundo já abrigou. Ele sorri diabolicamente, como apenas um servo da escuridão sabe fazer. — Você está ainda mais linda. — Seus olhos percorrem meu corpo e sua língua escorrega entre os lábios carnudos — E eu adoraria te foder como nos velhos tempos nesse moquifo, agora mesmo, mas as coisas mudaram depois que levei um tiro no coração, babayevsky. (2) Ele desabotoa lentamente os botões da camisa social branca, que cobre seu peitoral musculoso revestido por uma camada rala de pelos loiros, e exibe uma tatuagem colorida que não existia ali. É nova e representa magnificamente a essência de seu espírito. O desenho da serpente tem início bem acima do coração, onde fica a cabeça. A boca aberta com a língua sorrateira para fora, simula o movimento perfeito de uma caçadora faminta. Os olhos bicolores; um verde fluorescente, como o do seu dono, e o outro preto como o carvão, grandes, mortais, reais e estão cravados nos meus. O corpo do réptil enrola e desenrola até o ombro direito, atravessando de lado a lado seu tronco, maravilhosamente esculpido por músculos salientes, em uma mistura de cores que vai desde o verde claro, passa pelo verde escuro e se mistura ao vermelho com pequenas nuances de tons alaranjados, seguindo até o braço direito, responsável por findar a tatuagem com a cauda acomodada em seu tríceps hipertrofiado. — Gostou da minha homenagem? — Ele pergunta depois de


garantir que eu tivesse visto a obra em seu corpo e memorizado todos os detalhes. Não respondo. Aperto a toalha contra o meu corpo me envergonhando das lágrimas amedrontadas que sugerem o meu pânico. — Essa serpente sou eu, apesar de ter ouvido você me chamar de cobra peçonhenta antes de atirar em mim. Fiz questão de deixar a sua marca no meu corpo para nunca mais me deixar enganar com palavras de pessoas como você, e vou me certificar de que a minha marca fique em todas as partes do seu. Até aquelas que ninguém pode ver, como aqui. — Espalma a palma da mão em cima do meu coração — E aqui. — Toca em minha testa duas vezes com a ponta do indicador —, mas que você saberá a quem pertence quando me sentir e será obrigada a viver todos os dias da sua vida, odiando me amar. Um pequeno sorriso desliza em seus lábios aumentando o terror entranhado em suas palavras. — Será impossível esquecer quem eu sou e tudo que o meu nome representa para a máfia russa. Olho para baixo, temerosa demais para encarar seus olhos lindos e dilacerantes. A beleza do diabo é tão infinita quanto a sua maldade. Nada que ele tenha de belo em sua aparência se compara a escuridão de sua alma. E embora saiba como enlouquecer uma mulher na cama proporcionando o tipo colossal de prazer, pequenos momentos de satisfação não compensam a malignidade que o acompanha. O verdadeiro Lúcifer fez desse homem o seu hospedeiro entre os mortais, seu representante, seu sucessor e agora, ele está aqui bem a minha frente, pronto para mostrar ao mundo o seu poder. Ele segura meu queixo com demasiada delicadeza me forçando a encará-lo. Nossos olhares se cruzam pela primeira vez, após anos vislumbrando o verde mágico e único apenas em meus pesadelos. — Este sou eu babayevsky. — Seu indicador pousa no olho iluminado da serpente e sinto o aperto no queixo intensificar machucando minha boca por dentro — Essa é você. Agora seu indicador está sob o olho preto. Sua mão segura a minha e ele leva meus dedos até seus lábios, grossos e macios, chupando a ponta de cada um deles de forma sensual. A ânsia se manifesta em meu estômago ao sentir a quentura de sua boca


sugando cada um deles como um aspirador de pó. Lentamente conduz minha mão, deslizando sobre a sua pele até chegar no ponto preto e completamente escuro da tatuagem. — Está sentindo? — Ele aperta a ponta do meu indicador contra a sua pele me obrigando a sentir algo duro e irregular — Sabe o que é isso? Não respondo, aflita pelo contado do meu dedo com aquela coisa nojenta dentro dele. — Isso é a bala que você colocou aqui no meu coração, babayevsk. — Meus olhos se arregalam descrentes enquanto ele gargalha — Esse olho da minha serpente é você, a sua marca dentro de mim. Nós dois estamos ligados para sempre no meu corpo, exatamente como eu vou fazer com você quando marcar o seu. Meu corpo volta a tremer. Não há nenhum centímetro de músculo ou pele que não sacuda dentro de mim quando ele inclina o corpo e sussurra no meu ouvido: — Mas ao contrário de mim, que odeio a sua marca — A língua úmida percorre minha orelha escorregando até o pescoço —, você vai amar a minha e o samozvanets (3) nunca terá a mulher que ele ama, porque a alma dela estará vinculada a mim, pra sempre. Não se trata de você, sua puta maldita, mas de tudo que eu posso fazer para provar que ele não passa de um monte de merda que entrou na sola do meu sapato e me forçou a carregar seu cheiro ruim por todos os lugares que passei. Chegou a hora de me livrar da bosta Sarina, e quando ele descobrir que você me ajudou a fazer isso, não vai sobrar nada de Ivan Keritov... Eu começo a chorar, mas a pancada forte na cabeça me leva à inconsciência, e a escuridão jamais foi tão bem-vinda.

(1)

Princesa da noite

(2)

Marca de chocolate meio amargo fabricado na Rússia.

(3)

Impostor


CAPÍTULO 5

— Tem certeza que não quer a minha ajuda, Ivan? — No bilhete, o aviso é claro Feliks, eu tenho que ir sozinho. — Vou esperar no carro, mas ao primeiro sinal eu invado essa merda. — Não faça nada sem a minha ordem. — Quem mais sabe que você está aqui? — Ninguém além de você. Feliks faz uma careta, mas não retruca. — Está na hora, preciso ir. Ele assente e eu saio do carro estacionado do outro lado da rua, em frente ao hotel onde eu devo encontrar Sarina. Felizmente consegui chegar no horário determinado. A recepção é refinada e há muitos hóspedes circulando, a maioria turistas, pelo que percebo. Com olhos de gavião, escaneio o local à procura de algum suspeito. Nada. Um casal entra na minha frente no elevador e sem se incomodar com a presença de outras pessoas começa a se agarrar. Todos fingem que não veem, mas não consigo negar o quanto sinto falta desse tipo de envolvimento mais ousado. Valeska nunca permitiria que eu a tocasse em público, embora eu tenha tentado fazer isso algumas vezes, mas todas as tentativas foram neutralizadas pelo excesso de decência da minha namorada. Estou nervoso, mais do que normalmente estaria em uma situação como essa. Verifico a arma no coldre e a faca presa a barra da calça. Não tenho ideia do que irei encontrar, tampouco se é apenas uma armadilha para me matar, mas estou pronto para descobrir e disposto a acabar com qualquer um que tente me impedir de levar Sarina para casa, segura. O elevador para no terceiro andar e eu desço, sozinho. Quando as portas se fecham atrás de mim, caminho até a porta indicada desistindo de bater. Giro a maçaneta e entro.


O cheiro é de rosas e a escuridão predomina no ambiente inteiro. Apenas a luz da lua que invade o quarto permite que eu me guie até o interruptor e me depare com a cena que ficará guardada em minha memória por muito tempo. Sarina está deitada sobre a cama e dorme profundamente. Eu vasculho o quarto para ter certeza de que não há ninguém com ela. Está vazio. Completamente. Em cima de uma cadeira, estão as roupas da mulata com os sapatos no chão, lado a lado. Um buquê de rosas vermelhas dentro do vaso de cristal enfeita o aparador de vidro. Tem um cartão preso a ele, mas meus olhos insistem em me trair e voltam a apreciar a linda mulher sobre os lençóis brancos, destacando sua pele negra. Tranco a porta, guardo a arma e caminho até ela. O cheiro suave emana de sua pele. A lingerie branca de renda pouco esconde, além de valorizar cada curva perfeita de seu corpo. Meu pau dá sinal de vida, completamente enfeitiçado pela beleza dessa mulher. Os cabelos compridos e cacheados são como adornos em cima dos travesseiros. Os lábios pintados de rosa a deixam com o aspecto inocente e tudo que eu quero é tocá-la, fazê-la ser minha novamente. Os seios fartos e pouco escondidos pelo sutiã imploram para serem chupados do jeito que ela gosta, que eu gosto, que nós gostamos; com força, posse e adoração. Ajeito meu pau dentro da calça que não para de crescer. Puta merda! Desço o olhar até o meio de suas pernas e a tentação de sentir seu cheiro e provar do seu gosto é tão voraz quanto a fome de um leão desnutrido. Sarina está deitada de lado, e como um demente tarado e pervertido, dou a volta na cama para apreciar sua bunda empinada e deliciosa. Lembranças das nossas fodas invadem minha cabeça e atormentam meu coração. A vontade de me masturbar é sobrenatural. Quantas vezes, nessa mesma posição em que Sarina está, me encaixei atrás dela metendo tão fundo em sua boceta, chupando, lambendo e mordendo seu pescoço e orelha, enquanto minhas mãos revezavam entre seus peitos deliciosos e seu clitóris assanhado fazendoa gemer e gritar meu nome durante o orgasmo.


Quantas vezes comi seu cuzinho apertado, enquanto ela rebolava e implorava para que a fodesse com mais força e a tratasse como uma puta, a minha puta. A mulher que eu amei. A mulher que eu sonhei viver por toda a minha vida. A mulher que eu desejei que fosse a mãe dos meus filhos. Meu pau se contorce implorando pela libertação e reclama a falta de atenção. Eu ainda a desejo como um tarado, um maníaco sexual. Insistindo em negar a todos e, principalmente a mim mesmo. Após tantos anos sem tocar, sem provar, sem consumir seu corpo e reivindicando-o como meu, só meu, para foder como eu gosto e preciso para alcançar o extremo prazer e a satisfação plena, ainda sonho com uma última vez dentro dela. Sarina é a mulher mais gostosa que eu já fodi em toda minha era existencial, é o pecado e a tentação, a luxúria e a promessa explícita de prazer garantido, a chama acesa que invoca insetos desavisados para a morte, a droga que domina o organismo do dependente o impedindo de respirar longe de sua presença. Eu me viciei nessa mulher e pensei que tivesse superado, mas agora, olhando para ela dormindo tranquilamente, me questiono por quanto tempo mais vou conseguir ignorar meus instintos mais selvagens que apenas ela desperta e apenas ela descontrola. Meu celular vibra no bolso do paletó e o nome de Valeska me surpreende no visor. Jogo a cabeça para trás xingando mentalmente algumas dezenas de palavrões. Duas mulheres completamente diferentes, não apenas na aparência, mas em suas personalidades e perspectivas de vida e futuro que preenchem meus dois lados com tamanha perfeição. Valeska é a segurança, o caminhar, a piscina e a tarde de sol. Sarina é a inconstância, a corrida, o mar em fúria e o céu estrelado. Não há espaço para as duas em meu coração nem na minha vida. Depois da mulata não houve mais divertimento, felicidade ou motivos para sorrir. Ela se foi e levou consigo o melhor de mim. Valeska nunca me teve por inteiro nem me conheceu verdadeiramente. Até hoje ela só teve uma pequena amostra do que eu permito que ela veja. Sarina me desnudou. Conheceu meu corpo, meu coração, meus


sonhos e minha alma. Nunca mais fui o mesmo após a sua partida. Não consegui mais ser fiel a minha essência, me transformei em um homem fraco, covarde, limitando minhas ações, reações e sentimentos que ameaçam me desestabilizar. E tudo isso para que, afinal? Se apenas de olhar para essa mulher seminua, dormindo tranquilamente a menos de um passo de distância, todas as minhas convicções e barreiras foram destruídas e levadas à ruína. Por ela, mais uma vez. Sempre foi ela e para sempre será. Desligo o telefone ignorando a chamada. Não tenho o que falar e estaria mentindo se falasse qualquer coisa com Valeska a não ser sobre o meu tesão desenfreado por Sarina nesse momento. Não é justo com a minha namorada. Não é justo comigo também. Envio uma mensagem para Feliks o avisando que a encontrei e o informo que a acompanharei até o hospital para realizar alguns exames toxicológicos logo que ela acorde. Faço o mesmo com Natasha, que se alegra e me traz de volta à realidade relembrando o que devo fazer enquanto Sarina não desperta do seu sono incomum. Revisto o quarto a procura de algo que indique quem a levou e o que fez com ela, mas não encontro nada. Volto a focar no buquê de rosas e no cartão envelopado pendurado no celofane vermelho que envolve os caules. Abro e sinto a dor revoltante ao ler as palavras escritas pela caligrafia cuidadosamente detalhada: “Como sempre você foi a melhor, babayevysk. Durma bem, e quando despertar, não finja que me esqueceu. Em breve estarei de volta e quando isso acontecer, será para ficar na sua vida para sempre...” Eu me sento a cadeira com o cartão nas mãos. Meus olhos se revezam entre ele e Sarina enquanto os segundos viram minutos, os minutos viram horas e a noite vira dia. Não dormi e não tenho sono.


Meu coração inquieto aguarda ansioso e impaciente o despertar da mulher que enaltece o melhor e o pior de mim. Durante a madrugada ignorei dezenas de chamadas e mensagens da minha namorada, resolvi detalhes do velório e enterro de Bóris, conversei com Rey sobre as anotações de Feliks e me comprometi com Natasha de passar o domingo cuidando de Sarina. Sei que estou me arriscando, mas é um risco que preciso e quero correr. Por mim e pelo turbilhão de sentimentos acumulados e desengatados nas últimas doze horas. Sarina se remexe na cama ainda de olhos fechados. Não tenho controle sobre meu pau que se agita dentro da calça quando ela se espreguiça alongando o corpo de um lado para o outro, alimentando a minha já esfomeada imaginação com todas as safadezas que eu sonho em fazer com a minha boca colada nela. Não tiro meus olhos dela, cada movimento, cada tentativa frustrada de fazer as pálpebras se abrirem, cada careta de dor. Eu vejo tudo e não sei de nada. Sarina apoia os cotovelos no colchão, evita a claridade que começa a invadir o quarto e olha a sua volta como se não soubesse onde está, até chegar a cadeira onde eu estou sentado. — Como está se sentindo? Sua testa franze, seus olhos se estreitam, ela abre e fecha a boca, mas nenhuma palavra a deixa. Alguma coisa passa rapidamente pela cabeça dela e no próximo segundo, o lençol está cobrindo parcialmente seu corpo seminu. Não acredito no que vejo e tenho vontade de perguntar qual o valor que ela quer apenas para ficar nua para mim. Penteio os cabelos com as pontas dos dedos afastando definitivamente todos os pensamentos pecaminosos que me distraem e desviam a minha atenção do que realmente interessa. — Onde estamos? — A voz fraca me põe em estado de alerta — Por que me trouxe pra cá? Eu me levanto com o pequeno cartão em minha mão decidido a confrontá-la, mas Sarina se encolhe na cama demonstrando medo e tensão como nunca vi antes. É estranho e me faz recuar. Ela também parece não entender a própria reação puxando o


lençol até o pescoço deixando apenas a sua cabeça descoberta. O brilho em seus olhos é uma confusão e mais uma vez eu não consigo interpretar seu significado. — Do que você se lembra? — Minha voz sai rouca e estranhamente acima do tom. Sarina passa a mão pelo cabelo, esfrega os olhos, respira fundo e volta a me encarar. — O que você fez comigo, Ivan? — Agora ela parece irritada — Por que estou só de calcinha e sutiã? O que aconteceu? Cruzo os braços tentando entender o que essa mulher está fazendo. Primeiro ela some por dois dias inteiros, depois eu encontro seu apartamento revirado e horas mais tarde seu irmão e cunhada são assassinados dentro da própria casa. Isso tudo sem contar com o arquivo encontrado em seu notebook, que de um jeito bem peculiar conta uma história sobre a sua passagem pela cidade de Kazã no ano em que nos conhecemos e ela fingiu me amar. Sarina tem segredos a serem revelados e acredito que muitos deles, terão de ser descobertos sem a sua ajuda, pois ela fará qualquer coisa para mantê-los protegidos, mas eu nunca me senti tão motivado a investigar seu passado e poder, finalmente, compreender suas atitudes. — Você me conhece e sabe que eu nunca faria esse tipo de coisa, nem mesmo com uma garota de programa. — Rebato grosseiramente e aproveito para jogar na cara dela sobre a maneira que escolheu de ganhar dinheiro. Sarina abaixa a cabeça como faz todas as vezes que falo sobre seu passado, e pelo que vejo não é tão distante assim. O cartão que acompanha o buquê implica na veracidade da afirmação que se prostituir foi a última das opções que teve para sobreviver na Rússia, depois de ter sido sequestrada pela quadrilha liderada por Anya. — Qual é a última coisa que se lembra? — Ela levanta a cabeça com os olhos cheios de lágrimas causando uma dor latente em meu coração — Você sumiu por dois dias, Sarina. Quinta-feira na hora do almoço foi a última vez que falou com Natasha, depois disso não tivemos mais notícias suas. — Quinta-feira? — Ela cobre a boca com a mão e começa a chorar me pegando desprevenido — Eu não me lembro de nada!


O som do choro, inicialmente contido, se transforma em uma verídica representação de agonia e desespero. Fico inquieto e dividido entre pressioná-la e acalmá-la, mas freio minhas ações ainda muito desconfiado das intenções dessa mulher. — Responda a minha pergunta, Sarina. — Falo com firmeza, mas sem agressividade guiando seu olhar em direção ao meu — Qual é a última coisa que você se lembra? Vejo seu corpo relaxar um pouco e ela puxa o ar profundamente. As pontas dos dedos esfregam sua testa, aflitos e ansiosos. — Eu me lembro de ter ligado pro Severino assim que acordei na quinta-feira, mas ele não me atendeu. Tomei banho, passei na padaria pra tomar café e fui até a mansão. Liguei de novo pro meu irmão. — Ela faz uma careta de esforço com os olhos apertados — Eu precisava falar com ele alguma coisa muito importante, mas a Irina tinha desligado seu celular e não queria que a gente conversasse. Na hora do almoço, pedi pra Natasha me liberar e voltei pra casa... Sarina narra minimamente tudo que aconteceu naquela manhã, me convencendo de que não está mentindo, ao menos até aquele momento. — O que aconteceu depois? — Insisto me aproximando da cama e parando ao lado dela de onde posso sentir seu cheiro, que ainda me fascina depois de tantos anos. — Não consigo me lembrar... — Ela engasga — Fica tudo embaralhado na minha cabeça e.... borrado.... eu não entendo. Se Sarina estiver mentindo, poderá ser considerada uma extraordinária atriz. Sempre fui um homem com muita facilidade em ler as pessoas, desde suas ações e reações até suas expressões espontâneas e imediatas. Mas com essa mulher, que parece sofrer a cada busca aprofundada em seu cérebro a procura de uma simples lembrança, meus próprios sentimentos impedem que a minha avaliação sobre a veracidade de cada palavra dita, gesto ocasional e alteração de fisionomia, seja imparcial e objetiva. — O que você tinha de tão importante para falar com Severino e por que a mulher dele não queria que se falassem? — Sarina está pensativa — Achei que ela gostasse de você. E para foder de vez os meus neurônios, ela dá um pulo saltando


do colchão e jogando o lençol para fora da cama, começa a correr de um lado para o outro do quarto, desesperadamente. — Meu Deus! Preciso falar com Severino! — Ela fala alto — Cadê minhas coisas, Ivan? Preciso do meu celular, rápido! Sarina está agitada. Seguro seus braços com força e puxo seu corpo para perto do meu. Está trêmulo e suado. — Calma, porra! — Ela olha para todos os lugares tentando encontrar seu telefone. — Olha pra mim, Sarina! Ela me encara. Assustada e muito preocupada. — Seu telefone não está aqui. Tudo que eu encontrei foram as suas roupas. — Novas lágrimas se juntam no canto dos seus olhos — Fala comigo Sarina, eu vou te ajudar com qualquer problema que esteja passando. Pode confiar em mim. Quero beijar sua boca, abraça-la com força e garantir que nada de ruim vai acontecer com ela porque eu não irei permitir. Mas não faço nada além de grudar meu olhar no seu e vê-la desmoronar em meus braços, chorando como uma menina perdida e sozinha. No fundo, acho que Sarina é exatamente assim desde o dia em que foi arrancada de sua casa e levada para o outro lado do mundo contra a sua vontade. — Calma... vai ficar tudo bem. Sua cabeça descansa no meu peito enquanto suas lágrimas ensopam minha camisa. Fecho os olhos e penso em Valeska para expelir todas as emoções indesejáveis que me tomam como uma propriedade quando minhas mãos tocam as costas nuas de Sarina. Seu corpo se apoia no meu e seus cabelos entram em contato direto com minha e boca e meu nariz. Deus, dai-me forças! O cheiro, a proximidade, a carência e a saudade se fundem para me guiar em meio a uma emotiva e violenta tempestade que não havia sido prevista pelos meteorologistas sentimentais, e que agora me sentencia a uma resolução. Ceder ou negar. — Não — Sarina levanta a cabeça, suas bochechas estão avermelhadas e encharcadas —, eu preciso falar com Severino. Só ele pode me ajudar. — Sarina...


— Não Ivan! — Ela me empurra e pega sua roupa em cima da cadeira — Eu não sei o que aconteceu, mas vou descobrir. Meu irmão vai me ajudar mesmo Irina não querendo. Eu sei que ele não vai me deixar agora. Esfrego o rosto e me angustio por ser o portador, talvez, da pior notícia de sua vida, mas a mulata não me dá escolha. — Sarina, por favor, me escuta. — Chega Ivan! — Sua voz está alterada num misto de dor e raiva — Eu agradeço por ter vindo aqui, ter ficado comigo, mas... Sarina abotoa a calça jeans e enfia a camisa branca pela cabeça de qualquer jeito, antes de continuar sua concepção destorcida da realidade. — Eu sei que só está aqui porque a Natasha deve ter te obrigado e imagino o quanto foi difícil pra você aguentar essa merda toda e, ainda ficar longe da sua namorada por minha causa. Mas já está tudo bem comigo, não estou machucada e prometo que vou procurar um médico assim que eu conseguir falar com o meu irmão, está bem? — Ela se senta na cadeira e começa a calçar os sapatos — Por favor, Ivan, eu só preciso do Severino. Pode ir embora e dizer pra Imperatriz que a culpa foi toda minha... — Ele está morto Sarina. Primeiro acho que ela não ouviu o que eu acabei de dizer. Depois fico em dúvida quando suas mãos congelam em cima dos pés. E somente quando seus olhos encontram os meus, semicerrados e coléricos é que me certifico de que sim, Sarina ouviu e como eu imaginei que seria, ela reage de uma forma penosa para qualquer pessoa com o mínimo de miseração, se compadecer da sua dor. E eu me incluo entre essas pessoas. Além de conhecer o amor cúmplice entre os dois irmãos eu também gostava de Severino, e sinto muito pelo que aconteceu com ele e sua mulher, muito mais pela forma covarde que foram mortos. — Mentiroso! Desgraçado! — Ela tenta me bater, mas seguro seus punhos e a puxo para mim — É mentira! Ele não morreu! Meu irmão não morreu! Sarina tenta a todo custo se libertar me obrigando a prendê-la com mais força até que ela se entregue completamente a tristeza. — Eu sinto muito Sarina.... Eu sinto muito.


Ela não fala nada, apenas chora e eu a acolho absorvendo sua dor latente como minha. Todas as evidências sugerem que eu recue e deixe Natasha cuidar pessoalmente do culpado pelos assassinatos de Bóris e Severino, e também pelo sequestro de Sarina, pois está claro que se trata da mesma pessoa. Mas existe algo desconhecido dentro de mim muito mais forte e convincente, que faz questão de me empurrar para frente e incentiva para que eu lidere essa guerra. Uma intuição de que desde o começo, há oito anos quando Sarina entrou na minha vida, foi uma guerra proclamada silenciosamente por minha causa e em nome de uma vingança tão desconhecida quanto o seu anunciador.


CAPÍTULO 6

— Preciso que fale comigo. Sarina se desvencilha e eu não a impeço. — Como sabe que ele está morto? — Eu fui até a casa dele com Feliks e encontramos seu irmão e a sua cunhada. Os dois foram assassinados. Ela continua chorando, sentada na beirada da cama. — Foi tudo minha culpa... — Nada disso é sua culpa. Alguém invadiu seu apartamento, destruiu tudo, roubou suas coisas e te sequestrou por mais de dois dias. Você tem ideia de quem possa ter feito isso? — Como soube que eu estava aqui? Retiro o celular do bolso e mostro a mensagem que recebi a ela. — Meu Deus... — Não tinha ninguém aqui, mas também encontrei isso. — Coloco o cartão em sua mão e espero que ela segure — Estava junto ao buquê de rosas. Sarina lê o cartão. Sua expressão se torna um poço lamacento de revolta. Ela não me olha de volta, guarda o cartão no envelope e se levanta. — Preciso ir até a casa de Severino. — O que pretende fazer? — Ver meu irmão. Sem palavras e sem alternativas eu concordo em leva-la. Saímos do hotel em silêncio. Ela presta atenção em cada ambiente que ultrapassamos até chegarmos à rua. Feliks nos espera dentro do carro e quando nos vê salta para fora e acolhe Sarina em seus braços, num abraço apertado e sincero. Ele fala algumas coisas em seu ouvido, ela chora e assente se acomodando no banco de trás. Não falo nada. Aguardo o motorista colocar o veículo em movimento e tento mais uma vez descobrir alguma coisa.


— Tem ideia de quem possa ter matado o Severino? Ela continua apreciando as ruas de Moscou pela janela. Nada de resposta. — Já esteve nesse hotel alguma vez? Ignorado novamente, mas agora fico irritado com a sua atitude. — Sarina, a pessoa que te sequestrou, matou seu irmão e Bóris, violentou Irina e colocou Pavel em coma. — Sua cabeça gira rapidamente — Não estou tentando descobrir quem fez isso apenas por sua causa, tem muito mais coisas envolvidas nessa história e se não descobrirmos quem está arquitetando todos esses ataques ao Império, em breve outros membros irão morrer. É isso que você quer? Uma lágrima, depois outra e outra até que a mulata cai no choro novamente. Me sinto mal por força-la dessa forma, mas apenas ela pode me dar alguma coisa sobre o homem que quer nos enfraquecer para então, atacar e destruir. — Eu já disse que não me lembro de nada. — Acredito em você. — Sou sincero — Mas algumas informações podem me ajudar a ligar as peças desse quebra-cabeça. Ela abaixa a cabeça e não diz mais nada até chegarmos a casa de Severino, duas horas mais tarde. A polícia de São Petersburgo já foi acionada, duas viaturas interditam a quadra e vários policiais circulam pelo local. — Não diga nada, deixa que eu falo com eles, está bem? Sarina concorda e escora o corpo em Feliks que caminha ao lado dela. — Boa tarde. — Cumprimento um dos oficiais — Podemos falar com o responsável pela investigação? — Quem são vocês? — Essa moça é irmã do homem que mora aqui — Aponto para Sarina —, e eu sou o chefe dele. — É um caso de homicídio qualificado e um de estupro com tentativa de homicídio. Discretamente encaro Feliks que está fazendo uma careta. A esposa de Severino não morreu, mas foi violentada como o segurança havia mencionado. — Precisamos de informações para passar a família que está preocupada e quer saber para onde a vítima que sobreviveu ao ataque foi


levada. — Vou chamar o delegado. — Estaremos esperando aqui. O guarda nos deixa e entra na casa cercada por fitas amarelas e pretas, que indicam a contravenção caso sejam ultrapassadas por pessoas sem prévia autorização. — Faça uma ronda e tente descobrir alguma coisa com os curiosos. Talvez um dos vizinhos tenha visto o suspeito entrar ou sair da casa. — Ordeno a Feliks — Eu acompanho a Sarina quando o delegado liberar a nossa entrada. — E se ele não deixar ninguém entrar, Ivan? — Não se preocupe. — Garanto — Ele vai deixar. Feliks deposita um beijo na cabeça de Sarina, afirma que ficará tudo bem e que em pouco tempo iremos pegar o responsável pela morte de seu irmão e dá a volta na rua, passando entre as pessoas que estão aglomeradas tentando obter alguma informação privilegiada sobre o ocorrido. — Tem certeza que quer entrar? — Pergunto puxando Sarina para perto de mim. — Tenho. — Se mudar de ideia é só avisar. — Por que está tentando me convencer a desistir? — Não vejo necessidade de você ver o que nós vimos, só isso. — Acha que eu não vou aguentar? — Acho que pode ficar pior. — Eu preciso ver com os meus próprios olhos. — Está duvidando de mim? — Não, é só uma necessidade minha. Não tem nada a ver com você. — A imagem que tem que ficar na sua memória é a do seu irmão sorrindo, feliz e grato por ter tido você cuidando dele todos esses anos. — Você ainda não entendeu. — Talvez não. — Eu vou carregar meu irmão para sempre em meu coração, e não apenas com as boas lembranças. Meus irmãos eram tudo que eu tinha na vida e depois que Aurora declarou seu ódio eterno por mim, Severino se tornou a única pessoa desse mundo que eu sabia que me


amava incondicionalmente, mesmo com todos os meus defeitos. Como eu também amava ele. — Esse é o verdadeiro amor, Sarina. — Fixo meu olhar no seu — O sentimento que enxerga as virtudes e ignora os defeitos, porque sempre vê e espera o melhor de quem se ama. Ela pensa em alguma coisa para falar, mas a chegada de um homem vestido em um terno amarrotado e fumando um cigarro a impede. — Você é parente do homem que morava aqui? — Ele pergunta diretamente a Sarina. — Sou irmã dele. — Sou o chefe de polícia Anatoily Olieg, recebemos o chamado de um dos responsáveis pela segurança do bairro informando sobre o mal cheiro, e ele nos disse que estava desconfiado que havia alguma coisa estranha na casa. Podemos conversar lá dentro? Confirmamos juntos. Nós o seguimos até uma parte do quintal que eu não tinha visto quando entrei mais cedo com Feliks. Anatoily puxa duas cadeiras, mas tanto eu quanto Sarina preferimos continuar em pé. Ele abre um caderninho velho que está escondido no bolso interno do paletó — Severino Oliveira, é esse o nome do seu irmão? — Sim. — Os olhos de Sarina estão marejados. — E o seu? — Sarina Oliveira. — Brasileiros? — Sim. — Há quanto tempo estão no país? — A quase dez anos. — Vieram passear? — Recebemos uma oferta de trabalho. Ele encara Sarina, desconfiado, e continua anotando as informações com o cigarro pendurado na boca. Tenho vontade de fazêlo engolir essa merda. — Quantos anos a senhorita tem? — Reveza seu olhar entre nós e depois em nossas mãos unidas — Senhorita ou senhora? — Senhorita. — Ela responde soltando sua mão e cruza os


braços à frente do corpo — Tenho vinte e sete. Anatoily joga o cigarro no chão e dá uma cusparada nojenta. — Em que ramo seu irmão trabalhava? Sarina arregala os olhos sem saber o que responder. — Ele era funcionário da Olotof Finasy. — Olieg me encara surpreso ao me associar ao sobrenome da Imperatriz e parece gostar menos ainda do que está ouvindo. — O senhor disse que era o chefe da vítima, então presumo que é da família Olotof. — Não senhor, sou Ivan Keritov. — Por um momento vejo o corpo do chefe de polícia ficar tenso e seus olhos piscarem rápido demais — Respondo pelo setor de financiamento da Olotof Finasy, e Severino era meu subordinado. — A empresa ainda pertence a herdeira de Gravel Olotof? A pergunta feita aparentemente de forma casual deveria passar despercebida e até poderia, se fosse qualquer outra pessoa no meu lugar, mas não a mim. O homem está interessado em um assunto que não ligação com caso de homicídio, e sim, com os negócios do Império. — Acredito que sim. — Não tem certeza? — Não. — Não sabe a quem pertence à empresa que o senhor trabalha? — Não. — Quem executa seu pagamento todos os meses? — O departamento financeiro. — Não tem contato com a senhorita Olotof? O idiota acha que vai me pegar nesse jogo idiota, mal ele sabe que Natasha dificilmente usa seu sobrenome de casada para se identificar como presidente das empresas cooperadas Olotof Inc. — Nenhum. — E a senhorita? — Ele desvia sua atenção para Sarina. — O senhor está investigando o assassinato de Severino ou as nossas condições sociais? O mudak (1) sorri e cospe mais uma vez me deixando irritado. — Preciso saber quem são as pessoas ligadas a vítima. A morte desse rapaz parece ter sido uma execução a sangue frio e não fruto de um assalto que deu errado.


— Por que o senhor chegou a essa conclusão? — Não concluí nada, estou apenas avaliando as evidências. — O que o faz pensar que alguém queria matar o Severino? — Não há sinais de arrombamento, o que indica que alguém que morava na casa conhecia o assassino. Não encontramos qualquer vestígio do invasor, dentro ou fora da casa, nem pegadas, fios de cabelo ou DNA e aparentemente, nenhum objeto de valor foi levado. — O homem que parece qualquer coisa menos um profissional gabaritado para resolver aquele mistério, consegue finalmente me surpreender — Mas o mais interessante, é que a pistola utilizada para assassinar à vítima foi uma Makarov PM original, e tudo me leva a acreditar que o invasor forçou a vítima a presenciar o estupro da senhorita Sorokin. Puta merda. Por essa eu não esperava. Preciso avisar Natasha que o nosso inimigo é alguém ligado à antiga Bratva. A famosa Makarov PM é a pistola mais conhecida na Rússia por ter sido escolhida como a arma de fogo oficial dos serviços militares em 1951, e consequentemente, pela máfia mundialmente conhecida por sua brutalidade, que dominava o país naquela época. Apesar de ser uma excelente opção, nas últimas décadas os russos fabricaram pistolas muito mais eficientes que a Makarov PM. Estas, abastecidas de silenciadores, de menores portes, mais leves, com carregadores de munições maiores e onívoros, isto é, além de aumentar o poder de fogo em sua quantidade de disparos também é possível atirar com vários tipos de munições se alterar o carregador e o cano, dificultando consideravelmente o trabalho da polícia quando o assunto é a “limpeza das ruas”. Mas todos nós, mafiosos e homens da lei, sabemos que a lendária Makarov PM continua sendo a queridinha dos mais antigos criminosos que a Rússia já conheceu, os saudosos atuantes da Bratva desde a sua suposta extinção. Muitos membros que ficaram desempregados entre as décadas de 80 e 90, com a efetiva do Governo contra a organização conhecida mundialmente e o efêmero crescimento do Império Russo pelas mãos de Gravel Olotof e Sergei Desdeiev, se tornaram matadores de aluguel e não abriram mão do uso da Makarov PM ao executarem seus serviços particulares e incentivando a devoção a essa pistola emblemática para as novas gerações de futuros mafiosos.


— Meu Deus! — Sarina exclama fazendo com que eu me recupere do susto — Severino viu Irina ser estuprada? — Encontrei algumas marcas na parede do quarto do casal, onde supostamente aconteceu o abuso sexual que correspondem as solas dos sapatos que o seu irmão estava usando, e pelo exame superficial do perito acredito que ele tentou salvar a namorada do agressor. Ali foi quando recebeu o primeiro tiro. Sarina chora sem conseguir se conter. Eu a abraço sob o olhar minucioso do chefe de polícia, que tem a decência de aguardar alguns minutos para retomar o interrogatório. — Há quanto tempo seu irmão morava aqui? — Uns seis meses mais ou menos. — Onde ele morava antes? — No meu apartamento, em Moscou. — O que ele era da senhorita Irina Sorokin? — Namorado. O homem ergue uma sobrancelha. — Tem certeza? — Claro que tenho. — Eles estavam juntos há muito tempo? — Severino conheceu a Irina em uma das consultas médicas na clínica que ele frequentava mensalmente. — Sarina sorri encarando os pés — Não foi fácil pra mim no começo, mas ele estava tão feliz que eu não tive coragem de desmotivar meu irmão. — Por que a senhorita afirma que não foi fácil? Tinha ciúme do relacionamento deles? A mulata trucida o mudak com um olhar intimidador. — Severino sofreu muito nas mãos do meu pai quando era pequeno, e de tanto apanhar na cabeça com um taco de madeira o cérebro dele teve uma lesão do lado esquerdo, na região do córtex, conhecida no Brasil como afasia. Do riso ao choro em menos de vinte segundos, é assim que Sarina está alternando suas emoções desde que pisou em São Petersburgo. Ela enxuga o rosto com as mãos, inspira profundamente e volta a falar: — Depois que eu encontrei uma especialista nessa doença em Moscou e Severino ter feito uma bateria de exames específicos, ficou


comprovado que ele tinha perdido os traços gramaticais e sintáticos da língua, e começamos a trabalhar com ele focando apenas nas palavraschaves. — Sarina explica pela primeira vez o problema do irmão e me impressiona com a explanação — O problema dele se limitava a falar e se comunicar, mas meu irmão entendia as coisas. Sabia o que estava acontecendo a sua volta e tinha discernimento de certo ou errado. Eu nunca tive motivos para desconfiar da Irina, também sabia que Severino era um homem bonito e que chamava muito a atenção das mulheres, mas ele era como se fosse meu filho e, como toda mãe, eu demorei a confiar e acreditar que ela não fosse capaz de machucar meu irmão. — Como eles se comunicavam? — Desde o começo do tratamento com a doutora Svetlana eu incentivei ele a estudar a língua dos sinais, mas não tive muito sucesso. — Sarina levanta a cabeça encarando o céu e, novamente, inspira profundamente demonstrando toda sua tristeza — Só quando ele conheceu a Irina e ela demonstrou real interesse por ele, foi que meu irmão se motivou a aprender. — Seu irmão sabia escrever? — Sabia, mas não conseguia. Só se alguém ditasse as letras, mas também não era capaz de ler o que tinha escrito. — A senhorita conversava com a namorada do seu irmão sobre o problema dele? — Quando ele morava comigo, sim. Todos os dias. Mas depois que Severino se mudou para cá, as coisas ficaram meio complicadas entre nós. — Por quê? A mulata parece sem jeito de falar sobre o assunto, e sinto que o incômodo é mais pela minha presença do que pelos questionamentos do chefe de polícia. É como se Sarina não quisesse que eu tivesse acesso àquela parte da sua vida, ou talvez, não se sentisse à vontade de compartilhar comigo algo tão pessoal depois de tudo que havia acontecido entre nós. — Eu me preocupava com ele e queria saber como andava a adaptação do meu irmão aqui, mas a Irina não gostava das minhas ligações e depois de uns dois meses ela pediu para que eu parasse de ligar e vir aqui. — A senhorita acatou a decisão dela?


— No começo não, mas depois fui obrigada a fazer o que ela queria. — O que aconteceu? Sarina fica nervosa. Enfia as mãos nos bolsos da calça jeans, retira. Cruza os braços, descruza. Troca o peso do corpo de uma perna para a outra. Inspira e expira várias vezes até que desiste de tentar esconder a verdade e revela: — Eu comecei a receber algumas ligações estranhas no meio da noite e.... meu sistema de segurança do notebook foi invadido. Severino estava me ajudando com algumas coisas e quando Irina descobriu ameaçou deixa-lo se ele não parasse de me... ajudar. — O que o seu irmão estava fazendo de errado para que a namorada dele o proibisse de lhe ajudar? — Nada, mas a gente estava se encontrando quase todos os dias e as vezes ele dormia na minha casa por causa do horário dos voos. — A senhorita acha que ela estava com ciúme? — Não sei... É a terceira pergunta que ela responde olhando para os pés. Sei que está mentindo e torço para que o detetive não pressinta o mesmo que eu ou Sarina terá problemas futuramente. — Qual outro motivo que a senhorita Irina teria para impedir o namorado de falar ou ver a própria irmã? — Não sei... — Ela repete a resposta e levanta a cabeça forçando um sorriso letárgico — Acho que o senhor está certo e a namorada do meu irmão ficou enciumada. Só pode ter sido isso. Não existe outro motivo. — Ele era um homem agressivo? — Não, ele sempre foi muito calmo e passivo. — Vocês desconfiam de alguém que tivesse raiva de Severino? Anatoily me inclui na pergunta. — Não. — Sarina responde prontamente. — Pelo que eu saiba não. — Falo a verdade, pois todos que conviveram com Severino na mansão gostavam dele. O chefe de polícia anota mais algumas coisas no seu caderno velho antes de guarda-lo no bolso interno do paletó. — A senhorita Irina foi levada ao hospital Maksimilianovskaya, caso queiram visita-la.


— Eu gostaria de ver meu irmão. — Sarina pede. — Não será possível, senhorita. — Por que não? — O corpo do seu irmão ainda passará pelo legista e somente após todos os exames e o laudo conclusivo do médico ele será liberado para que haja o reconhecimento. — Quanto tempo vai demorar? — Não temos uma previsão, mas sugiro que não voltem para Moscou. Entrarei em contato assim que o corpo for liberado. — Um policial chama o chefe de polícia requisitando a sua presença dentro da casa — Anotem seus telefones, por favor, eu ligo quando tiver alguma notícia. Anatoily nos deixa no exato momento em que meu celular vibra, notificando uma mensagem de Natasha: Indo para o enterro. Pavel melhor. Dia difícil. Como estão as coisas? O ideal é ligar e falar com a Imperatriz, mas não quero ficar com Sarina perto do lugar onde seu irmão foi morto. Digito uma resposta rápida: Severino assassinado por uma Makarov original. Bratva viva. Sarina esconde muitas coisas. Não recebo um retorno rápido. Guardo o aparelho e saio da casa segurando a mão de Sarina, que me segue sem reclamar. Encontramos Feliks do lado de fora e com apenas um sinal de cabeça deixa claro que descobriu alguma coisa importante. — O que você descobriu? Pergunto quando chegamos no carro. O segurança olha para a mulata e depois para mim. Passa a mão por cima da barba e mostra o celular para Sarina. — Você conhece esse homem, devushka? Ela arregala os olhos marejados e cobre a boca aberta com a palma da mão. Sinto um calafrio transitar pelo meu corpo. Arranco o


aparelho da mão de Feliks e encaro a imagem do homem que me encara de volta com os olhos verdes e chamativos. Seus cabelos são pretos, sua pele clara e seu rosto carrancudo, mas nada disso é relevante em comparação ao que vejo em seu olhar, que simboliza com perfeição sua alma negra e destorcida. — Quem é ele? — Pergunto devolvendo o telefone a Feliks. — Não tenho a menor ideia, mas essa foto foi tirada pelo responsável da segurança que chamou a polícia. — Se Anatoily já tem um suspeito por que não disse nada? Feliks continua encarando Sarina, que continua com a sua expressão assombrada enquanto eu continuo aguardando as respostas para as minhas indagações. — Ele me disse que mostrou a foto para o chefe de polícia, mas foi informado que se mostrasse a qualquer outra pessoa poderia ser preso por se meter em uma investigação. — Você sabe quem é esse homem, Sarina? — Pergunto tão ansioso e inquieto quanto Feliks — Qual o nome dele? De onde você conhece esse cara? Estou irritado e a cada segundo sem uma reação dela, sinto a raiva crescer gradativamente dentro de mim. — Por favor, devushka, fala se você conhece esse homem. Tudo acontece muito rápido e quando vejo, já estou me jogando em cima de Feliks derrubando-o no chão e puxando Sarina junto. Uma rajada de disparos acerta a lataria do carro, usado como escudo, e nos deixa momentaneamente surdos. Levantamos com as armas em punho logo que os disparos cessam, mas tudo que vemos é um carro cantando pneu e disparando em alta velocidade. — O que aconteceu porra? — Meu segurança pergunta limpando seu terno e ajudando Sarina a ficar de pé. — Vamos dar o fora antes que os policiais venham até aqui. — Abro a porta de trás e ajudo a mulata a se acomodar. Feliks consegue, com dificuldade, abrir a porta do motorista e em vez de fazer companhia para a mulher desamparada eu me sento ao lado do segurança no banco da frente. Estendo a mão para que me passe eu celular, sem falar nada. — Eu vi o laser no seu peito, não deu tempo de avisar.


— Você salvou as nossas vidas Ivan. A mulata está completamente fora de órbita e sei que não vai falar nada, mesmo que saiba quem é o sujeito na foto. Mas isso não é um problema, porque eu envio a imagem do cara para Rey e peço que descubra tudo que conseguir sobre ele. — Eu... — Sarina engasga e volta a chorar. Ficamos em silêncio. A resposta de Reynaldo chega logo depois da de Natasha: Nat: “Giu encontrou o Padrinho em Volgograv. Estamos com Gustav” Rey: Vou descobrir” Merda! Aviso Natasha: “Fomos atacados. Enviei foto do suspeito p Rey” Nenhuma resposta. Olho pelo retrovisor topando com o olhar atemorizado de Sarina. Ficamos nos encarando até que ela abaixa a cabeça deitando no banco e só volta a se sentar quando chegamos ao hospital, para onde Irina havia sido levada, segundo Anatoily Olieg. Mas quando informo o nome da namorada de Severino na recepção, descubro que ninguém com o nome de Irina Sorokin deu entrada naquela manhã de domingo, o que piora o desenrolar da história e coloca ainda mais em dúvida a idoneidade do departamento de polícia de São Petersburgo. Um segredo guardado por três pessoas, só será um segredo quando duas delas morrerem. Essa citação de Fillipo Grasso ficou gravada na minha memória por sua radicalidade, mas agora entendo o que ela quer dizer, e principalmente, o seu significado para um mafioso. Nós temos uma foto que pode identificar o homem responsável por todos os atentados contra o Império. Mas pelo jeito, ele quer que sua identidade permaneça em


segredo e não vai descansar enquanto não a recuperar. O que ele não sabe, é que o seu segredo será revelado muito antes do que imagina. E talvez eu consiga descobrir se a única mulher que eu amei em toda minha vida realmente existiu ou se foi tudo uma grande encenação. Pela cara de Sarina, me arrisco a dizer que o desconhecido não é o único que prefere continuar se escondendo atrás das cortinas. A mulata está visivelmente devastada pela viabilidade da descoberta. Mas nesse momento me declaro o inimigo número um dos segredos, e no que depender de mim, o dia de hoje ficará marcado pelo início do fim. Pena que nem sempre os segredos ferem apenas as pessoas que os conhecem. No meu caso, os segredos de Sarina apenas comprovaram o que eu sempre desconfiei e me recusava a aceitar: O meu amor foi desperdiçado com uma mulher que mentiu do primeiro até o último minuto em que esteve na minha vida... (1)

BABACA


CAPÍTULO 7 – SARINA

— Para onde estamos indo? Minha voz sai engasgada. Meu estômago está embrulhado e sei que a qualquer momento vou despencar. Puxo da minha memória alguma coisa das últimas sessenta ou setenta horas, mas nada vem depois da minha conversa com Natasha na mansão, quando pedi para sair mais cedo na quinta-feira. É como se a minha mente tivesse sido desconfigurada ou a placa mãe do meu cérebro tivesse sofrido um curto circuito que danificou o HD e apagou todos os meus arquivos de reminiscência. Os últimos dois dias e meio simplesmente desapareceram ou não existiram. Se eu não confiasse tanto em Ivan, certamente acharia que ele está jogando comigo para se vingar, mas para o meu azar ele não é esse tipo de homem. — Vamos para um hotel. — Ele responde enquanto mexe no celular, concentrado. Olho para a rua através da janela estilhaçada pelas balas evitando o olhar decepcionado de Feliks pelo retrovisor. Meu passado foi ressuscitado e agora reivindica sua libertação. Não sei como isso aconteceu de uma hora para outra. Fecho os olhos pensando em Severino. Meu irmão está morto e sua namorada desaparecida. Quem faria uma coisa dessas e como a foto do capeta foi parar no celular de Feliks? Deus do céu... não tenho mais forças para lutar e nem sei se quero continuar essa batalha que só me traz tristeza e solidão. Desde o começo foi assim, e agora, anos depois de ela ter sido reiniciada eu continuo da mesma forma ou até pior do que quando pisei nesse país maldito. Eu odeio a Rússia! Odeio os russos! Odeio muito mais Anya Gravelenva Olotof, a culpada por toda a minha desgraça. Foi ela que me sequestrou para lhe servir como escrava. Aquela filha da puta tinha que viver de novo só para que eu pudesse


matá-la pela segunda vez. — Esperem na recepção. — Ivan ordena olhando diretamente para o motorista e me ignorando completamente — Vou fazer o checkin e encontro com vocês lá. — Opredelennyy (1). Ele sai do carro batendo porta. Respiro frustrada sem entender por que ainda me sinto ofendida por ser tratada com tamanha indiferença pelo homem que se recusa a libertar meu coração do seu cativeiro particular. Não alimento qualquer esperança de recuperar, ao menos parte do seu amor, mas não consigo evitar a dor que o seu desprezo me causa. Eu provoquei tudo isso quando decidi esconder a verdade dele. A culpa é apenas minha e não tenho como retroceder para consertar a cagada. Tudo que me resta é engolir o choro, engasgar com as lágrimas e tentar morrer asfixiada para acabar logo com tudo. — Vamos. Dou um pulo no banco quando Feliks me chama, segurando a porta aberta para que eu possa descer. — Obrigada. — Está na hora de me contar a verdade, devushka. Se ele soubesse como eu queria poder conversar com alguém sobre tudo que aconteceu comigo, talvez parasse de me encarar como se eu fosse uma puta burra, que largou um homem como Ivan para ficar com o demônio em forma de gente por ambição e ganância. Nem imagino que tipo de história o braço direito da Imperatriz contou para ele, mas certamente não deve ter sido nada muito diferente desse resumo. Afinal, foi exatamente isso que eu quis que Ivan pensasse a meu respeito. Uma puta interesseira que largou o homem pobre que amava para seguir o ricaço como uma cadelinha de estimação adestrada, tudo por causa do dinheiro. Não existe definição melhor para mim nesse contexto. — Esqueça Feliks. — Ele não vai parar. Enrugo a testa estreitando os olhos. — O que? — Não sei quem é aquele cara da foto e muito menos o que ele


quer, mas sei como um sádico vingativo age Sarina. Balanço a cabeça de um lado para o outro. Aquele homem está morto, eu o matei. Não sei quem enviou a imagem para o celular de Ivan, mas o assassino do meu irmão não é aquele estrume ambulante. — Feliks, aquele homem da foto não matou meu irmão. — Tem certeza? — Tenho. Certeza absoluta. — Você sabe quem fez aquilo com Severino? — Claro que não, se soubesse já teria falado. — Então como pode ter certeza que não foi aquele cara? Apoio as mãos na lateral do carro, abaixo a cabeça esperando que a tontura passe. Respiro profundamente acalmando meu coração. É uma decisão difícil que implica em muitas coisas e envolve outras pessoas, mas sei que o segurança gosta de mim e sempre tratou meu irmão com muito carinho. Decido simplificar a resposta para que ele entenda o motivo da minha afirmação veemente. — Feliks, eu sei que errei muito na minha vida, fiz muita merda e me arrependo de quase tudo que fiz nos primeiros anos depois que pisei nessa merda de país. Seus olhos escrutinam os meus vasculhando cada quadrante em busca de mentiras, mas não me importo com a sua avaliação descarada. Essa é uma das raras vezes em que falo mais de duas frases inteiras sem uma mentira incluída nelas. É a mais pura verdade. — Mas tudo que eu fiz foi pelos meus irmãos. Primeiro por causa do Severino e depois pela Aurora. Eu sei que nada justifica as mentiras que contei e todas as pessoas que eu magoei com as minhas traições e armações, mas pode acreditar meu querido, já faz um bom tempo que a vida tá me cobrando essa dívida e não tem nada de barato nesse acerto de contas. — Sinto meus olhos arderem e deposito um beijo em sua bochecha direita antes de sussurrar em seu ouvido — Eu sei que não foi ele porque fui eu que mandei aquele verme pro inferno, pessoalmente, e esse é apenas um dos muitos segredos que não pode ser revelado. Feliks faz uma careta engraçada e se eu não estivesse tão ferrada,


com certeza lhe ofereceria um sorriso divertido. Mas tudo que eu quero é tomar um banho e colocar minha cabeça no travesseiro para tentar entender o que Irina fez e por que fez. Ninguém vai conseguir me convencer de que ela não está envolvida na morte do meu irmão, e só de pensar em Severino meu peito esmaga o fraco coração até sangrar. As lágrimas são as testemunhas caladas da extensa lacuna inerte e mórbida, que teve início com a perda de Ivan se agravou com o ódio de Aurora e agora tomou conta da minha alma com a morte de Severino. Não tenho mais nada de bom dentro de mim para me manter de pé, lutando por uma vida que jamais terei de volta. — Está me dizendo que matou aquele cara? — Por favor, Feliks, apenas esqueça isso e finja que nunca conversamos a respeito daquele diabo em forma de homem. — Quem é ele, Sarina? — Alguém que nasceu e foi criado para representar o mal. — Você tem que contar pro Ivan o que sabe sobre ele, devushka. — Não bol’shoy (2). Se eu contar, ele que vai querer destruí-lo. E eu já carrego uma carga pesada demais por ter feito tão mal a esse homem uma vez. Não posso fazer isso de novo. Feliks segura minhas mãos com força dentro das suas e abre a boca para tentar me convencer do contrário, mas a voz de Ivan tange as minhas costas e impede que ele se manifeste. — Está feito. — Ivan para ao meu lado com o olhar fincado em nossas quatro mãos enroscadas — Consegui dois quartos na área dos fundos. Vocês podem dividir um e eu fico com o outro. Ele joga o cartão magnético em cima do capô e sai pisando duro até a entrada lateral do hotel. Feliks não entende nada, e eu me ressinto em saber que Ivan acredita realmente que sou uma garota de programa. — O que deu nele? — Ivan acredita que eu sou uma prostituta. — Concluo desanimada — E acha que eu estou te convencendo a dar uma “rapidinha”. — Não fala besteira Sarina. — Feliks pega o cartão e enfia dentro do bolso da calça — O Ivan nunca pensaria uma coisa dessas de você. Seu braço grande passa por cima do meu ombro e ele me conduz


pelo mesmo caminho feito pelo kosult’ant minutos antes. — Pode apostar que pensa. Na porta do quarto, o segurança se despede de mim e avisa que ficará com Ivan no dormitório localizado um pouco à frente do corredor para me deixar mais à vontade. Eu agradeço, ansiosa para tomar um banho demorado. Deixo minhas roupas em cima da cama e tiro os sapatos. Prendo os cabelos armados e me dou o direito de sofrer todas as minhas dores por todas as minhas perdas. Foram muitas na última década e agora me encontro completamente sozinha no mundo. Sem nenhuma família, sem meu amor ou qualquer esperançosa promessa de que um dia conseguirei superar a solidão. Estou sentada no chão do box, distraída e envolvida pela água pelando que bate em minha pele. A sensação térmica me remete a Fortaleza, cidade que nasci e vivi até os quinze anos. Eu amava aquele lugar, talvez ainda ame e a possibilidade de voltar para casa agora que não tenho mais ninguém, é infinitamente tentadora. Será que eu conseguiria viver longe de Ivan? Sem vê-lo todos os dias, sem sentir seu cheiro natural todas as manhãs, sem ficar admirando sua beleza a distância quando ele nem percebe que estou por perto, sem ouvir sua voz suave todas as vezes que fala com a namorada confessando que sente saudade e falta dela, sem suas implicâncias bem-humoradas e respostas inteligentes, sem me deliciar com a sua risada gostosa quando ouve as piadas sem graça de Pavel? Só de saber que ele está no mesmo ambiente que eu, já fico feliz. Sorrio cada vez que sei que alguma coisa o agrada. Fico triste quando percebo que tem algo ou alguém o aborrecendo e extraio forças de onde nem existem para me refrear e não ir até ele, ampará-lo em meus braços prometendo que vai ficar tudo bem porque eu o amo e sempre estarei ali. Minha mente viaja até as lembranças de seu corpo nu e me perco nas sensações que apenas ele me fazia sentir todas as vezes que me tomava para si, com posse, com adoração, com tanto carinho e amor. Como sua mulher e de mais ninguém. Eu nunca fui de outro como fui dele.


Não consegui e sequer tentei. Depois que o deixei em Cazã, viajei para Sóchi com a promessa feita pelo capeta de reencontrar meu irmão vivo, e passei os quatro piores meses de toda a minha vida sob as garras dos dois homens que fundamentaram o conceito da maldade humana. Eu sobrevivi as trevas, embora elas ainda rondem meu espírito vez ou outra tentando deturpá-lo e envolve-lo nas teias pegajosas da depressão e da amargura. Fui presa, estuprada, humilhada e reduzida a excremento, e só fui libertada graças a chegada da criança prometida, trazida pela mãe fugitiva que, tão iludida quanto o resto dos habitantes daquela cidade, acreditou nas promessas adúlteras feitas pelo monstro e seu criador. Na minha última tentativa de salvar a menina, mostrei as marcas e cicatrizes em meu corpo conquistadas pelas surras e agressões dos meus algozes para a mulher, mas a progenitora da candidata a printsessa (3) da “Nova Bratva” não acreditou em minhas palavras e enciumada com a suposta atenção que os dois homens dispensavam comigo, impôs a minha partida em troca da sua permanência e entrega da futura esposa ao herdeiro, fadado e ansiado, candidato ao cargo mais poderoso, o Pakhan(4). Não sei que fim a infeliz teve tampouco me preocupei. Mas depois de ter enviado o capeta de volta para o inferno tentei encontrar a pequena galega e resgatá-la do tormento premeditado, mas não a encontrei em lugar algum. Tudo que os mais chegados àquela família bestial sabiam era que as especulações de que o contrato garantindo o casamento arranjado, a fim de conquistar a supremacia dentro da tão sonhada nova era da Bratva, já havia sido assinado e o futuro da pequena loira de olhos verdes tristonhos estava traçado. Um barulho vindo do quarto me assusta. Eu me levanto largando os devaneios e uso a toalha para cobrir meu corpo. Deixo o chuveiro ligado na ilusão de enganar o intruso e coloco o ouvido na porta para tentar ouvir alguma coisa do outro lado, mas o silêncio repercute dominante. Espero mais alguns minutos e, lentamente, giro a maçaneta com todo cuidado que consigo. Puxo a porta e me arrisco a colocar a cabeça no vão. Não tem ninguém, mas a porta está encostada e um vaso de


cristal está estilhaçado no chão cercado por rosas vermelhas. Alguém esteve no quarto enquanto eu tomava banho. Meu coração pula agitado, a respiração acelera desgovernada e sinto falta de ar nos pulmões. Corro em direção ao quarto de Ivan e Feliks e esmurro a porta com toda a força que tenho. O corredor vazio provoca calafrios em meu corpo, antes aquecido, e agora praticamente congelado. Odeio o frio da Rússia tanto quanto odeio a própria Rússia e os russos, e mais ainda Anya. — O que está fa... — Alguém entrou no meu quarto. — Nem me importo de não deixar Ivan terminar de elaborar sua pergunta — Não me pergunte como. Ele veste apenas a calça social que está presa a sua cintura pelo zíper fechado. Pés descalços e cabelos úmidos. — Tem certeza Sarina? Sua dúvida me faz estremecer. — O que? Ivan fica inquieto, passa a mão pelos cabelos e me fuzila com seu olhar de desprezo. Por cima do seu ombro, entendo o motivo da raiva fulminante emanada dele em minha direção. — Eu... — A loira vestida com o uniforme do hotel sorri vitoriosa para mim — Me desculpe... eu não sabia que... — Esse hotel tem uma das melhores equipes de segurança, Sarina. — Sua voz é ácida enquanto seus olhos pesquisam meu corpo abrigado pela toalha felpuda. — Volte pro quarto e se tiver que sair novamente coloque uma roupa primeiro. Pare de andar como uma vadia por aí. Quando Feliks aparecer eu peço pra ele falar com você. A porta é fechada na minha cara com força. O baque me assusta e a realidade me convoca para o presente, longe dos devaneios e de qualquer sonho produzido pela minha imaginação abastada. Refaço o caminho sentindo as pernas bambas. Piso em um dos cacos de vidro espalhados pelo carpete felpudo, sentindo o sangue escorrer por uma linha fina. Merda! Ligo para a recepção do hotel, explico o acidente com o vaso e sou informada que em meia hora uma das auxiliares de limpeza fará a


troca do carpete para que eu não me machuque seriamente. O sangue ainda escorre do calcanhar. Sentada na cama meu corpo implora por paz, minha consciência me culpa por tudo de ruim que está acontecendo e meu coração rejeitado, humilhado e destroçado, após ver Ivan com uma mulher qualquer me tratando como uma puta sem sequer acreditar em mim, toma a decisão de voltar ao Brasil. Está mais do que na hora de deixar a Rússia, esquecer o passado e colocar uma pedra em tudo que aconteceu nos últimos dez anos. Não posso mais me permitir viver dessa forma. Severino se foi, e sem meu irmão, acredito que meu pai possa me aceitar de volta temporariamente para que eu possa me reestabelecer e dar um novo rumo na minha vida. Limpo o rosto molhado pelas minhas fiéis escudeiras. Meus olhos são atraídos para o cartão deixado em cima do aparador. Desvio mancando dos cacos de vidro e chego até ele. Talvez seja alguma piada de mal gosto e até possível que Irina esteja realmente determinada a me foder de alguma forma inédita, o que é praticamente impossível a essa altura. Mas a caligrafia é idêntica à do capeta e a cópia foi muito, mas muito bem feita mesmo. “Estou de volta para tomar o que é meu e você é minha babayevsky” Não. Não. Não. Não pode ser verdade. Estou tonta, vejo o mundo girar sem sair do lugar e sinto meus pés doerem. Meus olhos são submissos do pequeno pedaço de papel que sacode em minhas mãos. Ainda estou enrolada na toalha quando batem à porta. Perco a noção do tempo sendo despertada por novas batidas, agora mais contundentes. Caminho alienada pisando sobre os cacos pontudos, me permitindo a punição agoniante ao degustar a dor da perfuração certeira em minha carne sensível. É minha culpa. Sou culpada e mereço a condenação. O vermelho deixa um rastro fresco, mas não me importo, pois, a incapacidade de me desvencilhar do cartão é fora do comum, surreal ou até sobrenatural se essa força realmente existir.


E tudo vira turbulência quando eu abro a porta e me deparo com os olhos verdes fluorescentes, que embaralham a sensatez e dispersam a lucidez. É choro de tristeza e mágoa pelo desprezo cruel, mas justificado. De saudade e culpa pela morte recente. Ódio e rancor pela ilusão do fim da minha escravidão. Um dia o diabo me fez escrava das suas cruéis vontades e agora retorna, depois de tanto tempo para dar sequência a sua obra mortal e destrutiva. Pensamentos confusos se misturando a acontecimentos antigos com alguns imaginários, ou talvez nem tanto assim já que o apagão de várias horas até então inexplicável, passa a se tornar plausível para esse tufão de incoerências. — Você tem cinco minutos para vir comigo ou o seu amigo metido a guarda-costas vai levar uma bala na testa. A voz grave, as palavras pontuadas, o sorriso macabro, os olhos satânicos não deixam margem para qualquer dúvida. É ele. Não sei como, mas ele não morreu e está aqui de novo ameaçando pessoas que eu amo para tirar de mim o nada que me restou. — E então babayevsky, como vai ser? — O que você quer de mim? Uma pergunta tão tola que pode facilmente me igualar a uma adolescente caloura do ensino médio. O capeta sorri como apenas ele sabe fazer e sussurra desdenhando da minha inoperância diante do seu poder destrutivo. — Eu já disse ontem, anteontem e também no primeiro dia que passamos juntos. — Ele preenche os hiatos que me importunavam de forma irônica sobre a minha memória apagada — Mas posso repetir quantas vezes você quiser: Eu. Quero. Destruir. O. Desgraçado. Minhas lágrimas queimam meu rosto como ácido. — Vai perder seu tempo tentando... — Eu não me importo, ainda temos contas a acertar Sarina. — Suas mãos seguram na barra da camisa preta erguendo o tecido até a altura do peito me dando o vislumbre de uma tatuagem de serpente — Eu, você e as marcas que deixaremos um no outro, lembra? Se o homem parado a minha frente, lindo em sua casca e putrefato em sua essência não for uma miragem que faz parte de um


jogo doentio qualquer, ou somente um dos meus frequentes pesadelos assombrosos, me recuso continuar lutando até a exaustão e me curvarei perante a sua atrocidade lhe entregando minha alma para ser destruída. — Faça o que quiser, eu não me importo mais... — Minha sinceridade convicta o espanta tanto quanto a mim mesma. Nunca estive tão certa sobre uma decisão como estou agora. Meu cérebro desliga a chave geral forçando o resto do corpo a ceder. A primeira batalha chega ao fim e a fadiga se consagra campeã decretando sua vitória sobre mim. O primeiro round já foi. Resta saber por quantos mais terei que cair até que ele entenda que sem adversário, não há luta. E eu estou fora. (1)

Está certo

(2)

Grandão

(3)

Princesa

(4)

Líder da Bratva, o chefe.


CAPÍTULO 8

— Qual o seu problema, Ivan? — Não sei do que está falando. — Que história é essa de mandar eu dividir o quarto com a Sarina? — Não precisa se preocupar comigo Feliks, o segredo dela está bem guardado. Coloco a garrafa de uísque em cima da mesa e encho o copo. Viro de uma só vez maravilhado com a queimação que o líquido provoca desde a língua até a boca do estômago. — É sério que você acha que a Sarina é uma... — Repito novamente o processo até sentir a quentura em brasa consolar a inquietação pela expectativa da palavra que está demorando a sair da boca do idiota. — Não consegue falar Feliks? — Pergunto encorajado pelo álcool — É só dizer, vamos lá! O grandalhão se aproxima com os olhos fumegantes em cima de mim. Se ele quer brigar que esteja pronto para morrer. A animação entorpece e agita meus músculos. Sinto o corpo vibrar. Gosto dessa sensação fictícia de satisfação e felicidade desmedida. Estava sentindo falta de me sentir assim tão empolgado com alguma coisa excitante quanto o sexo com Sarina. O sexo que Feliks está louco para fazer, se é que já não fez. Certamente ele já provou aquela boceta deliciosa e por isso fica atrás dela como um cão sarnento lambendo o chão que ela pisa. Foda-se! Ela não é minha mulher. Não é nada minha. — Não ultrapasse o limite Ivan. Eu gargalho enchendo mais um copo e virando de uma vez. — É um desafio? — Paro a frente dele segurando o copo sem desviar o olhar nem por um segundo — Vai fazer o que se eu ultrapassar


os limites e falar que a Sarina não passa de uma puta que dá a boceta pra qualquer um que pagar o valor estipulado? Feliks movimenta o braço para me acertar um soco, mas apesar de ser mais baixo do que ele, sou muito mais rápido e me esquivo com facilidade aproveitando para aprofundar meu punho fechado no estômago desprotegido. Ele geme e fica encurvado, facilitando a vida para o meu joelho que se choca propositadamente contra o seu queixo. Ele cai no chão sangrando. Arranco a camisa jogando-a em cima da cama de qualquer jeito e faço o mesmo com a calça a cueca e as meias. Jogo os cabelos que estão mais compridos do que o normal para trás e falo quando Feliks ameaça se levantar: — Vai até a recepção e arruma outro quarto pra dormir ou aceita a minha sugestão. — Pego o copo e falo para o grandalhão que já está de pé — Se ela estiver cobrando muito caro, eu posso te emprestar a grana... — Eu não sei porque a Sarina te deu um pé na bunda Ivan, mas com certeza foi a melhor coisa que ela fez. Feliks dá as costas e sai. Jogo o copo contra a parede e fico assistindo o líquido escuro manchar o papel de parede. Estou puto da vida, Valeska insiste em falar comigo e eu continuo ignorando as suas ligações. Não paro de pensar em Sarina mesmo com tantas coisas para ver e problemas para resolver. Der’mo! (1) Entro no banheiro e bato a porta com força desnecessária. Embaixo do chuveiro apoio as mãos na parede e deixo que a água me acalme. Chertov (2) Me sinto um bosta por ter falado aquela merda sobre Sarina, mas agora não dá para voltar no tempo e desdizer. Foda-se. É o que ela é e o que ela faz, qual o problema? Lavo a cabeça, ensaboo o corpo e me seco rapidamente. Meu celular começa a tocar e só quando volto para o quarto é que percebo a bagunça que fiz. Valeska me liga pela décima vez, mas estou sem paciência e desligo a porra do telefone. Preciso de um tempo de uma bebida e de uma distração que afaste Sarina de todos os meus pensamentos fodidos. Bebo mais uma dose de uísque e me jogo na cama. Não posso


sair dessa merda de cidade antes de enterrar Severino e encontrar a namorada dele. Preciso colocar minha cabeça em ordem ou as coisas vão desandar completamente antes mesmo de começar. Ligo para a recepção do hotel e peço um lanche, aproveito e aviso que tive um acidente e preciso de alguém para limpar a sujeira. Continuo bebendo o uísque direto da garrafa até que ela esvazie. Batidas na porta me tiram dos devaneios causados pelo álcool que me arrastam para o quarto ao lado e nutrem a minha imaginação com cenas de Feliks e a mulata transando. Tenho que parar com isso agora ou vou enlouquecer. Visto a calça e abro a porta para uma loira deslumbrante que usa o uniforme do hotel. Ela sorri quando me vê e entra empurrando o carrinho da comida. Seus olhos são claros em um tom esverdeado. É diferente. Nunca tinha visto essa cor. Seus cabelos estão presos em um coque no alto da cabeça destacando seus traços delicados. A boca é pequena e o nariz arrebitado. Seu corpo é miúdo e cheio de curvas, mas estranhamente não me sinto atraído por ela. Talvez por ser jovem demais, não deve ter mais do que vinte anos. Ela parece uma princesa. — Eu fiz questão de trazer o seu lanche senhor Ivan. — Vocês foram rápidos, obrigado. — Ramona, muito prazer em conhece-lo pessoalmente. Franzo a testa. — Nós já nos conhecemos? — Não, mas a minha mãe falava muito do senhor. — Sua mãe? A loira sorri envergonhada. — A minha mãe era muito amiga da sua, elas se conheceram ainda crianças. Estou prestes a perguntar o nome da mãe dela quando novas batidas na porta me interrompem. Fico em dúvida entre abrir e ver quem é ou continuar a conversa estranha com essa mulher igualmente estranha. — É melhor ver quem é. — Ramona aponta para a porta — Pode ser algum problema sério. As batidas continuam me irritando mais.


— Só um minuto. — Faço um sinal me desculpando e abro a porta. Sarina está parada no corredor enrolada em uma toalha que não chega ao topo de suas coxas. Seus cabelos pingando denunciam o banho recente. Ela segura as pontas do tecido branco com as mãos trêmulas e de onde estou tenho uma visão quase total dos seios empinados. — O que está fa... Tenho dificuldade de racionalizar e formular uma pergunta decente, mas Sarina me interrompe bruscamente: — Alguém entrou no meu quarto. Não me pergunte como. A mulata é uma mulher esperta e sabe o quanto mexe comigo. Vir até aqui usando apenas uma toalha e fingir que está assustada é um excelente truque para que eu a deixe entrar e ela tenha a chance de me seduzir. Deus, eu cairia como um pato. Com certeza. — Tem certeza Sarina? — Uso um tom desconfiado e espero que ela confesse o que realmente quer. — O que? Sarina parece confusa. Ela olha por cima do meu ombro permitindo que seus olhos constatem a presença da minha visitante. Vejo a decepção evidenciada dentro deles e me satisfaço. Gosto de saber que a mulata se sente abalada com as minhas ações exatamente como eu fico com as dela. Sinto a mão da loira em meu ombro e apesar de não gostar dessa aproximação, permito que ela me toque. — Eu.... Me desculpe... eu não sabia que... Sarina gagueja sem graça e eu aproveito para mostrar que nem mesmo a fodida atração que sinto por ela vai me jogar em sua cama de novo para ser usado como um objeto. — Esse hotel tem uma das melhores equipes de segurança Sarina. Volte pro quarto e se tiver que sair novamente coloque uma roupa primeiro. Pare de andar como uma vadia por aí. Quando Feliks aparecer eu peço pra ele falar com você. Falo tudo de uma vez só e bato a porta na cara dela. Do lado de dentro a loira sorri se afastando. — Namorada? — Ela pergunta.


— Não. — Sou curto e grosso. — Você disse que as nossas mães se conheceram quando eram crianças? O telefone do quarto toca atrasando a resposta de Ramona e eu xingo baixinho. A recepcionista pergunta se Ramona já entregou meu lanche, e solicita a presença dela no escritório do gerente para resolver um problema com um dos hóspedes que sofreu um pequeno acidente. — Não se preocupe, Ivan. Nós vamos nos encontrar muitas vezes. — Ela sorri colocando a bandeja em cima da mesa — Tenho muitas histórias sobre as nossas famílias para contar... aproveite a refeição, foi feita especialmente para você. Ramona sai do quarto empurrando carrinho e me deixa atordoado. Sento-me na cama, frustrado por tudo que aconteceu nas últimas duas horas. Agi como um babaca com Feliks e um verdadeiro canalha com Sarina. Pego o celular em cima da cama ligando o aparelho. Seleciono o contato do segurança e espero que ele atenda. Depois de duas tentativas sem retorno, envio uma mensagem pelo whatsapp pedindo que retorne minha ligação com urgência. Converso por quase meia hora com Natasha sobre os acontecimentos e a Imperatriz está convicta de que Irina está envolvida na morte de Severino. — Natasha, por que alguém ia querer matar o Severino? — Para atingir Sarina. — Não acha que é muito trabalho só pra desestabilizar uma mulher? — Ivan, tudo que está acontecendo desde que a Sarina sumiu é muito estranho, e mais ainda agora, sabendo que ela não se lembra de nada. Essa estratégia é muito conveniente para quem pretende continuar nos atacando das sombras. — Você tem razão. Se a Sarina conhece o sequestrador, ele usou a droga para que ela não contasse a ninguém o que aconteceu nem para onde foi levada. — Não é só isso Ivan, o Rey foi pra mansão hoje cedo e começou a trabalhar no note novo da Sarina e descobriu que há dois meses invadiram o sistema de segurança dela. — Você soube disso?


— Não. Ela não contou pra ninguém. — O que mais ele descobriu? — A Sarina tem pelo menos cinco arquivos como aquele que encontramos. Todos foram gravados com alguma espécie de código pessoal e cada um corresponde a um ano. — Um diário? — Pergunto com uma sensação ruim dentro de mim. — Eu tinha pensado em uma biblioteca, mas acho que você está certo. — O nome do sequestrador está nesses arquivos. — A Sarina me contou algumas coisas que aconteceram depois que Anya trouxe ela pra Moscou e o Leonardo levou Aurora embora. Não foi nada bom e acho que ela acabou se envolvendo com pessoas perigosas pra encontrar a irmã. — Porra! Por que ela nunca falou nada? — A Imperatriz suspira, bufa e fica em silêncio me deixando intrigado — Se você sabe de alguma coisa importante me fala Natasha. — Um pouco antes do meu casamento, ela encontrou uma pista que me levou a acreditar que Alik Barkov estava vivo. — O QUE? — Eu fico em pé. — Se começar a dar chilique eu desligo essa merda. — Chilique? — Pergunto indignado — Você sabia a verdade esse tempo todo, porra! — Não, Ivan. Até hoje tudo que a gente conseguiu foi apenas relatos de diversas pessoas afirmando que ele está vivo. — Foi por isso que você enviou o Giu pra Vangograv e não queria que eu fosse, não é mesmo? — O que você ia fazer se encontrasse o Alik? — Meter duas balas na cabeça dele. — Exatamente. — Está me dizendo que você quer que eu deixe o principal suspeito pela morte dos meus pais, vivo? — Não. Claro que não. Mas antes de deixar você livre pra fazer o que quiser com o desgraçado eu preciso saber quem está por trás da Nova Bratva. — Você sabe por que Alik Barkov recebeu o apelido de Padrinho?


— Não. — Quando Alik fundou a gangue “Os Selvagens” ninguém acreditava no garoto franzino com carinha de nerd que morava no subúrbio de Volgograd. Mas o que poucos sabem é que o pai e o avô dele nasceram e cresceram em Stalingrado, antiga Volgograd. Eles lutaram na Batalha contra os nazistas em 1941 e foram capturados com mais nove soldados pelos homens de Hitler. A mãe e a avó fizeram tudo que podiam pra convencer o Governo russo a negociar a libertação dos onze soldados, mas não houve acordo e todos foram executados nos campos de concentração dos alemães. A família de Alik perdeu tudo. A avó não aguentou por ter perdido o filho e o marido e se suicidou um ano depois dentro de casa. A mãe ficou doente e dependia de Alik até pra ir ao banheiro. Quando ela morreu ele tinha catorze anos e já sabia tudo que precisava saber sobre política e economia. Aos dezessete, teve a ideia de criar um grupo de rebeldes para confrontar o Governo. A ideologia era nobre. A gangue ficou conhecida por ser formada por um grupo de intelectuais e começou a ameaçar o domínio da Máfia, principalmente nas menores cidades. Alik foi convidado a fazer parte da Tambovskaya, Chatchenskaya, Nevski e por último pela Bratva, mas recusou todas as vezes e se ofereceu para ser um aliado de todas elas. Alik garantiu que seria um recurso extra dessas máfias, sem exclusividade. Ele queria ser livre e agir de acordo com os seus interesses e foi dessa forma que a ideologia virou merda e Alik Barkov virou o “Padrinho” de todas as máfias. — Ele tentou me matar. — Eu sei. — Por que me contou tudo isso? — Não entendeu? — Estou sem tempo, Ivan. — Qual o papel do Padrinho dentro do Império? — Nenhum. — Por que você acha que ele vai te contar sobre o responsável pela ressurreição da Bratva? — Porque ele sabe quem é. — Com certeza Alik sabe e provavelmente está ajudando nessa merda, mas quem disse que ele vai te ajudar? — Eu não vou pedir a ajuda dele Ivan, eu disse que ele vai falar.


— Natasha, nós dois queremos informações diferentes de Alik. Se você torturar o infeliz e ele não confessar que matou meus pais, não vai sobrar nada pra mim. — Não seja por isso meu konsul’tant, o senhor está mais do que convidado a me acompanhar na entrevista que farei com o tão famoso, “Padrinho”. — Eu preferiria dar dois tiros na testa dele e pronto. — Deixa de ser frouxo, Ivan! E se é pra matar o infeliz sem fazer ele sofrer, acerta uma bala e pronto. Vai desperdiçar duas por quê? Dou risada pela primeira vez no domingo e sinto meu estômago roncar. Olho para a bandeja e penso em comer, mas não quero me despedir de Natasha ainda. Minhas conversas com a Imperatriz sempre são divertidas, embora os assuntos sejam sérios e ela consegue aliviar um pouco a tensão constantemente acumulada dentro de mim. — Posso atirar na perna antes de acertar a cabeça. — Eu recomendaria no saco, mas como você é bunda mole... — Não sou bunda mole. Levanto e decido mastigar um pouco enquanto falo ao telefone. — Espero que ninguém descubra que o meu conselheiro é um verdadeiro bundão. — Isso se chama calúnia. Retiro a tampa de prata e quero me socar por ter sido tão idiota. Ramona não era funcionária do hotel e veio aqui apenas para falar sobre a minha mãe e me entregar o aviso. — Ivan? Ivan? — A Imperatriz me chama algumas vezes. — Acabei de encontrar um bilhete do filho da puta. Silêncio. — O que está escrito? — A voz de Natasha é neutra como se estivesse me perguntando o valor do pão. Abro o papel demorando poucos segundos para entender tudo. — Porra! Largo o telefone, pego minha pistola e saio correndo em direção ao quarto de Sarina. A porta está entreaberta me poupando o tempo de arromba-la. Sou invadido pela culpa e pelo desespero ao considerar o estado caótico do lugar. Tem um rastro de sangue pelo carpete, cacos de vidro


espalhados por todos os lados. As roupas de Sarina estão em cima da cama e seus sapatos no chão. Nenhum sinal da mulata. Duas horas se passaram desde que chegamos ao hotel. Feliks não voltou e agora eu preciso tomar uma decisão. Volto para o meu quarto e termino de me vestir. Meu celular toca e vejo o nome de Natasha. Ela vai querer arrancar minhas bolas quando souber o que aconteceu, e o pior, por que aconteceu. Eu deixei que a minha vida pessoal interferisse no meu trabalho. Falhei na segurança de Sarina, na minha e também na de Feliks. Pessoas como nós não podem e não devem andar sem segurança, sem armas e sem proteção. Os dois anos efetivamente no Império deveriam ter sido o bastante para que eu tivesse aprendido uma das lições mais básicas que existem sobre a máfia: Se você não estiver protegido, não poderá proteger ninguém. No Império nós protegemos uns aos outros, não apenas como membros de uma organização criminosa, mas como amigos, como uma grande família. E eu fodi tudo hoje quando permiti que o meu ciúme e minha raiva determinassem minhas ações. — Que merda, Ivan! — Natasha brada como um pitbull — O que aconteceu pra você largar o celular e sair correndo? — Ele levou a Sarina de novo. — Ela não estava com vocês? Cadê o Feliks? — A culpa é toda minha Natasha, mas eu vou resolver isso de uma vez por todas. — Não, Ivan! Você vai ficar no hotel até eu chegar. — Natasha, eu preciso fazer isso ou não vou me perdoar, entendeu? Foi por minha culpa que o Feliks saiu do quarto e foi por minha culpa que o desgraçado pegou a Sarina. — Ivan, esse cara não está brincando. — Eu sei. — Prendo a arma no coldre e a faca por baixo da barra da calça — Nem eu. — Vou mandar alguns homens pra você. — Faça isso. — Não desligue o telefone. — Não vou.


— Traz os dois pra casa, Ivan. Quero tomar café com vocês. — Pode confiar em mim, Imperatriz. O nosso próximo encontro será no café da manhã. Olho para o bilhete novamente reconhecendo a caligafria, o enfio no bolso do terno e saio do quarto. Desço pelas escadas ciente de que estou sendo vigiado. Atravesso a recepção à procura de Feliks, mas não o encontro. Caminho até o estacionamento para me certificar de que ele não está por lá e estaco ao lado do carro quando meu telefone volta a tocar, mas dessa vez não é Natasha ou Valeska. Número desconhecido. — Como vai Ivan? A voz aguça minha raiva. Mantenho a calma apoiando as costas na porta e relaxando o corpo. Sei que estão acompanhando meus passos e de agora em diante jogarei o jogo deles. — Vou ficar melhor quando souber com quem estou falando — Você demorou demais pra ir atrás da sua amante. Isso não é o jeito certo de tratar uma mulher... — Amante? — Gargalho jogando a cabeça para trás — Você está enganado, Sarina não é nada minha nem mesmo amiga. — Eu sei, Sarina foi uma puta mentirosa quando te deixou largado em Kazã pra se encontrar comigo. Mas não precisa ficar chateado, porque você não foi o único que ela traiu. — Aposto que sim. — Por mais forte que eu deseje ser, por mais indiferente e insensível que eu queira me sentir, ouvir esse tipo de coisa nunca será fácil. — Mas, como eu sei que você não quer que eu acabe com a vida dessa vagabunda, te aconselho a fazer tudo que eu mandar de agora em diante. — Como vou saber se posso confiar em você? — Não vai. Mas se não fizer, vai encontrar o corpo da sua pretinha puta no mesmo lugar que encontrou o da sua mãezinha vagabunda. Na hora certa nós vamos nos conhecer e eu terei muito prazer em acabar com você pessoalmente, Ivan Keritov. Ele desliga me deixando sem nenhuma alternativa senão, esperar. Leio o bilhete pela última vez antes de amassar e jogá-lo no lixo. Não vou esquecer tão cedo o que está escrito e preciso entender o que as


palavras querem dizer para descobrir quem as escreveu: “Vou tirar de você exatamente o que tirou de mim: tudo. Vou deixar na sua vida exatamente o que deixou na minha: nada e a sua putinha é só o começo” Ligo para o celular de Feliks e me assusto quando ouço o toque vindo de dentro do porta-malas do carro. Meu segurança está amarrado, amordaçado e muito ferido, mas consciente e pela cara que está quando me vê, prevejo problemas. Muitos problemas.


CAPÍTULO 9

— Vai me contar o que aconteceu agora ou vai ficar aí com essa cara amarrada? Feliks segura uma bolsa de gelo em cima do olho esquerdo e continua em silencio sentado ao meu lado no banco do passageiro. Estamos dentro do carro no estacionamento de uma farmácia que fica a algumas quadras do hotel onde estávamos hospedados. — A culpa é sua. Ele me acusa cuspindo sangue e saliva que escorrem de sua boca cortada. — Eu sei. — Admito me sentindo um verdadeiro babaca. O segurança me encara e vejo a raiva em seu olhar atingir o meu como fogo vindo de um lança chamas. Não posso sequer contestá-lo depois de fazer uma análise de todas as minhas atitudes desde que deixamos a casa de Severino, após a conversa com o chefe de polícia. — Eles me pegaram desprevenido. Eram dois homens armados e me renderam quando cheguei perto do carro. — Disseram alguma coisa? — Não. Apenas que o “chefe” ia dar uma lição na vadia e no impostor. — Impostor? — Eu não tinha entendido o que eles queriam dizer, mas depois que me colocaram no porta-malas ouvi a voz do terceiro homem ordenando para que levassem a “vadia” para casa antes que o “bastardo” descobrisse o que tinha acontecido. — Feliks cospe novamente e limpa a boca — Você é o bastardo e a Sarina a vadia. Pego meu celular e ligo para Giuseppe, que atende no segundo toque. — Giu, onde está Gustav? — No galpão, em Moscou. — O que conseguiu sobre o paradeiro de Alik?


— O padrinho? — Sim. — Ele fica em Volgograd, mas ninguém sabe exatamente onde. — Precisamos encontra-lo. — O que aconteceu? — Sarina foi levada de novo e o Padrinho sabe quem está por trás desses ataques ao Império. — Pensei que fosse a gangue dele que estivesse nos atacando. — Alik não compraria essa guerra sozinho. Tem alguém muito mais poderoso orquestrando tudo isso. — Talvez Gustav saiba onde ele se esconde. — Se ele não souber, com certeza o irmão dele sabe. Vou continuar aqui até encontrar Irina e arrancar dela tudo que aconteceu com Severino. — Acha mesmo que a morte dele está relacionada ao que aconteceu com Pavel e Bóris? — Tenho certeza. Quem está fazendo isso quer se vingar de Sarina por alguma coisa que ela fez no passado, e pelo que estou entendendo, também quer me matar. — Você? — Sim. Ele se refere a mim como um impostor. — Estranho. Tem ideia de quem possa ser? — Não, nenhuma. Já pensei em todas as hipóteses e nem imagino quem é esse cara, muito menos o que ele quer de mim. — Estou indo agora mesmo para o galpão e vou arrancar do garoto tudo que sabe sobre o tal de Padrinho. Se ele não abrir o bico pegaremos o irmão mais velho e a mãe também, assim eles poderão decidir quem deve morrer primeiro. — Me avise quando tiver alguma notícia. Ligo o carro e começo a entrar em contato com todos os membros do Império que moram na cidade de Volgograv. Um a um deixo o aviso que estamos atrás do assassino de Bóris e da namorada foragida de Severino, e se descobrirmos que um dos nossos omitiu qualquer informação sobre o líder da gangue “Os Selvagens” ou da mulher desaparecida, será considerado como traidor e sofrerá as consequências junto a Imperatriz. Há muitos anos eu considerei Alik como um verdadeiro amigo.


Acreditei em suas intenções à frente da gangue e o ajudei a planejar alguns ataques de protestos contra o Governo, mas fui surpreendido quando descobri que nada daquilo foi real. O Padrinho estava apenas me usando a fim de aprender as melhores estratégias para se infiltrar no mundo do crime. Às minhas custas. Ele era o único que sabia sobre o meu pai e toda a história que envolvia o fim da Bratva e o nascimento do Império. Alik sempre demonstrava sua admiração pela coragem dos dois desertores, Gravel e Sergei, que se consagraram ao travar uma guerra sangrenta pela disputa do poder estendida por mais de uma década contra o Pakhan e seus fiéis seguidores, até o fim da mais antiga organização criminosa russa. Eu só preciso confrontá-lo uma única vez para descobrir o que está acontecendo e o nome do filho da puta que tinha sequestrado Sarina e quer me matar, mas não vou fazer isso na frente de ninguém. Meu encontro com o homem que havia se tornado um estranho para mim teria que ser privado e longe de ouvidos curiosos. O tempo de lavar a roupa suja acaba de chegar. Uma hora mais tarde, recebo o telefonema de Giuseppe e o endereço com o esconderijo de Alik. Feliks, muito ferido não consegue me acompanhar quando encontramos o local. Trata-se de uma boate em um bairro nobre de Volgograv, luxuosa e bem frequentada. — Vou entrar. — Não faça isso Ivan. Os voyennyye que a Imperatriz enviou devem chegar em duas horas. — Não tenho tempo a perder. — Ajeito a arma no coldre após conferir o cartucho abastecido e a faca — Não saia do carro e fique atento. Se eu não voltar em uma hora ligue para Natasha e avise o que aconteceu, ela saberá o que fazer. — De onde você conhece o Padrinho? — Todos temos um passado Feliks, comigo não é diferente. Saio do carro e caminho até a porta onde uma fila de clientes em busca de diversão começa a se formar. Quatro seguranças armados controlam a entrada selecionando os sortudos que poderão aproveitar dos serviços que a casa noturna oferece. — Avise o Padrinho que Ivan Keritov está aqui e quer falar com ele.


O homem corpulento olha para baixo, me examina com um sorriso debochado e ergue a sobrancelha direita. — Não conheço ninguém com esse nome. É melhor dar o fora daqui. — Se eu fosse você faria o que eu pedi. Ele não vai gostar de saber que um velho amigo foi tratado dessa forma pelos seus homens. — Já disse que não tem ninguém com esse nome. Agora se manda ou eu vou cuidar pessoalmente disso. — Tem certeza que Alik Barkov vai ficar satisfeito quando souber que fez isso com o Konsultan’t da Imperatriz? O homem arregala os olhos estreitando-os logo em seguida. Ele me dá as costas e fala através de um microfone preso em seu paletó. Localizo a câmera de vigilância, instalada estrategicamente sob o letreiro luminoso e aceno, certo de que meu velho amigo está, nesse momento, conferindo se as informações que seu segurança lhe passa são verídicas. — Venha comigo. — O brutamontes desengonçado solta a corrente permitindo que eu entre — Vou leva-lo até o senhor Alik. O barulho da música eletrônica e o cheiro de cigarro misturado com sexo, justificam o sucesso do local. Mulheres seminuas dançam em cima de palcos individuais espalhados pelo salão. No palco central o DJ dá o ritmo da balada protegido dentro de uma cabine. A pista de dança ainda não está lotada, mas os camarotes particulares que ocupam quase todo o segundo andar expõem o que acontece entre os executivos e as acompanhantes de luxo oferecidas pela boate sob a iluminação colorida, instigante e apelativa. Dois homens seguem o brutamontes e mais dois fazem a minha escolta até uma porta no fundo da boate. Ele entra sozinho e depois de poucos segundos retorna, segura meu braço e me arrasta para dentro. — Nunca imaginei que você fosse se apresentar como o braço direito da Imperatriz russa, Ivan. Alik está sentado atrás de uma mesa com duas mulheres nuas com ele. Uma delas está de joelhos chupando seu membro enquanto a outra massageia seus ombros. — Como você mesmo me disse na última vez em que nos encontramos: a necessidade faz o homem. Ele sorri e beija a boca da mulher que está em pé, empurra a


outra e as manda sair. — Eu também fiz uma promessa nesse dia, mas acho que você se esqueceu dessa parte da conversa. — Duas promessas foram feitas “Padrinho”, e eu me lembro daquele dia como se fosse hoje. — Enfio as mãos nos bolsos — Valeu a pena ter feito o acordo com a KGB? — Quero vocês fora daqui. — Ele rosna empurrando a mulher ajoelhada e afasta a que está em pé, irritado — Preciso resolver algumas pendências com o meu velho amigo. Elas choramingam e obedecem como duas cadelas no cio. Mas o segurança permanece dentro da sala, que eu imagino que seja o escritório de Alik. — Pode dispensar o seu cão de guarda. — Eu me sento na cadeira a frente dele. — Tenho algumas perguntas e imagino que você saiba a que assunto estou me referindo. Não vim aqui para cumprir minha promessa. Alik Barkov é alguns anos mais velho do que eu, e apesar da idade continua em boa forma. Ele arruma as calças e faz um movimento com cabeça para o homem atrás de mim, que nos deixa a sós após fechar a porta. — O que você quer Ivan? — Quem é ele? Alik sorri de lado e se levanta. Caminha até o carrinho de bebidas no canto da parede e serve duas doses de uísque. — Vamos brindar a sua ousadia burra primeiro. Ele me entrega um copo e espera que eu aceite seu elogio sarcástico. — O que você chama de ousadia burra eu nomeio de coragem. — Seu idealismo ainda vai te matar Ivan. — Foi por isso que abandonou o seu? Ficou com medo de morrer? — Não. Eu já fui tão burro quanto você, mas percebi a tempo que não adiantava lutar contra o sistema. Apenas me juntei a ele para tirar proveito depois de tudo que me foi roubado. — Foi por isso que mentiu quando me recrutou? — Não menti pra você, só não falei a verdade completa. — Se sente melhor acreditando nisso?


— Vamos lá Ivan, você também queria a sua vingança contra a Bratva. Se me lembro bem das suas palavras foi por causa das “regras estúpidas da máfia de merda” que seus pais foram assassinados. Estou errado? Não. Ele não está errado. Por muito tempo culpei todos os mafiosos por concordarem com aquela merda de filosofia que proibia os herdeiros do líder, conhecido como Pakhan, de se casarem com mulheres que não faziam parte da organização. A exigência visava manter o controle nas mãos das famílias para que fosse herdado por seus primogênitos. Mas com o tempo eu entendi que a escolha de seguir o caminho imposto pela primeira organização russa, reconhecida como uma das mais poderosas do mundo, foi do meu pai e de mais ninguém. Quando Sergei Desdeiev abriu mão de lutar pelo amor da mulher que amava e sucumbiu ao seu direito de usufruir um posto mais alto honrando seu sobrenome, ele renunciou a mim como seu filho legítimo, pois, sabia que não poderia me expor ou exigir que eu fizesse parte, daquela parte restrita da sua vida, do seu mundo. Talvez meu pai só quisesse me poupar da vida na máfia ou quem sabe ele não tenha sido forte como deveria para lutar contra as suas origens. Nunca vou saber o que realmente se passava em seu coração. — Eu era apenas um moleque e você soube se aproveitar da minha fragilidade para conseguir o que queria. — Não tinha estrategista melhor do que você Ivan, e eu precisava da sua competência. Não leve para o lado pessoal, foram apenas negócios. — Mas foi ilegal e se eu não tivesse apagado meus rastros teria ido parar na cadeia ou pior, teria sido morto. — Como eu disse, você era o melhor de todos e eu sabia que não ia deixar que te pegassem. — Alik se encosta na mesa, ao meu lado — Natasha sabe o que você fez enquanto esteve envolvido nos negócios da gangue? — Ninguém sabe Alik. Mas não foi pra isso que eu vim até aqui. — Coloco o copo ainda cheio sobre a mesa e fico em pé de frente para ele — Quem é esse cara que está atrás de mim? O que ele quer? — Eu gostaria de poder te ajudar Ivan, mas não posso. — Por quê?


— Porque eu dependo dele para muitas coisas e não vou foder os meus negócios por causa da sua estupidez. — Estupidez? — Indago irritado — Esse cara está me acusando de ter tirado tudo dele Alik! Quer merda é essa, porra? Eu nem sei quem ele é como posso saber do que esse idiota está falando? — Você não sabe porque foi estúpido Ivan. — Alik bebe um gole de uísque e coloca seu copo ao lado do meu. Ele dá a volta na mesa sentando-se em seu lugar. Faz um sinal com a mão indicando para que eu também ocupe a cadeira a sua frente. Demoro um pouco para me acalmar e fazer o que ele pede. Quando me acomodo relaxando o corpo, Alik desembesta a falar: — Os negócios estavam indo bem em Kazã, há uns oito anos, e eu começava a ganhar dinheiro com as prostitutas que Anya Olotof trazia para mim. Eu não me importava de onde elas vinham e muito menos como a filha do Imperador fazia para arrumar tantas putas, tudo que eu queria era receber a mercadoria que os meus clientes pediam dentro do prazo combinado. Tráfico de mulheres era o negócio mais rentável Ivan, e eu queria expandir o comércio com os leilões virtuais. Mas eu tive alguns problemas com Leonardo, o primo do Capo siciliano, que começou a se meter onde não deveria e só consegui me livrar dele quando ofereci a neguinha de quinze anos que tinha vindo para as minhas mãos com mais algumas brasileiras. Aurora, penso. No mesmo instante a imagem de Sarina vem a minha mente e todo meu corpo lamenta pelo que aconteceu no dia em que nos conhecemos, no hospital em que eu trabalhava como médico legista e Severino matou Antonela para salvar a irmã. — Naquela época, eu não imaginava quais eram os planos de Anya e Leonardo, tampouco me envolvia nos assuntos da máfia italiana ou do Império russo. Isso nunca mudou Ivan, eu não abria mão da minha liberdade para negociar com quem eu quisesse, mas aqueles filhos da puta tentaram armar para mim quando souberam que eu tinha negociado um carregamento de mercadoria vinda do continente Africano com o Dom irlandês, Flynn Moloney. — O que você chama de mercadoria são as mulheres sequestradas e transformadas em prostitutas? — Pergunto enojado e fico feliz em saber que Natasha abomina esse tipo de negócio no Império.


— Como eu disse, eu não ligo Ivan. Negócios são negócios. — Aonde você quer chagar, Alik? — Leonardo não queria a neguinha como me fez acreditar. Ele e Anya estavam atrás da irmã mais velha da menina, a “hacker”, e usaram os meus negócios em Kazã para atrair a garota para uma armadilha. Como eles previram que aconteceria, ela começou a investigar o paradeiro da irmã mais nova e quase conseguiu foder a minha vida quando descobriu as falsificações de Antonela nos laudos periciais das prostitutas que caíram nas mãos de um sádico russo. — Você sabia que eu era o médico que fazia aquelas autópsias? — Claro que sim Ivan. Por que acha que Antonela se aproximou de você? — Seu desgraçado! — Soco a mesa com o punho fechado — Você matou aquelas mulheres! — Não, Ivan! — Ele rebate sem perder a calma — Eu apenas limpei a minha barra. Se a polícia começasse a investigar e fizesse a ligação entre as vadias e a forma como haviam sido mortas, chegaria até mim, mas não fui eu nem ninguém da gangue que matou aquelas mulheres. — O que toda essa merda tem a ver com o homem que me culpa por ter perdido tudo, Alik? Onde a Sarina entra nessa história? — Eu só posso dizer que a morte de todas aquelas mulheres em Kazã devem ser creditadas a esse homem Ivan, o cara é um sádico, maníaco e doente por vingança. A Sarina foi jogada de propósito por Anya, no colo dele para que fosse morta como as outras prostitutas. Mas o homem descobriu sobre o “namoro” de vocês e decidiu usar a pobre coitada para servir de ponte para que ele chegasse até você. — Alik me encara profundamente esfregando a barba com a mão direita — Só que as coisas novamente não saíram como deveriam e os planos de todos eles tiveram que ser adiados... — Eu preciso saber o que ele quer Alik. — Você vai, e posso garantir que não vai gostar quando isso acontecer. — Por que não me fala logo? — Porque eu também tenho assuntos inacabados com ele, e não vou arriscar meus negócios por sua causa. Eu me levanto absorvido pela raiva e o desentendimento.


— O que ele quer com Sarina? — Vingança é o único sentimento que o impulsiona Ivan, nenhum outro. — E por que ele quer se vingar dela? O que ela fez? Alik também fica de pé e abre a porta do seu escritório. — Foi ela que impediu que ele conseguisse a vingança que tanto desejava. Agora saia antes que eu seja obrigado a te entregar em uma bandeja e nunca mais venha atrás de mim. Nossa trégua acabou de acabar. Faça o que tiver que fazer para sobreviver Ivan, porque eu farei o mesmo nem que isso signifique ter que te matar. — Você disse que nunca permitiria que ninguém determinasse as suas ações. Por que está fazendo o que esse cara quer? — Porque ele não é como os outros. Finjo meu melhor sorriso irônico quando questiono: — Vai me dizer que tem medo dele? Alik Barkov não cai na brincadeira fazendo meu sorriso morrer aos poucos. — Acredite em mim, esse cara é o demônio Ivan e se você soubesse o que eu sei também teria medo e desejaria nunca ter cruzado o caminho dele. Os seguranças me acompanham até a porta da boate. A lua brilha no alto do céu e a temperatura está alguns graus mais baixa. Feliks continua dentro do carro e não espera a minha ordem para nos tirar daquele lugar e dirigir até o hospital onde, supostamente, Irina Sorokin foi atendida após ter sido estuprada pelo assassino de Severino. Mas as pistas se perdem mais uma vez. Nós não a encontramos e tudo que tenho é a confirmação de que o corpo do irmão de Sarina acaba de ser liberado e aguarda a presença de algum parente para fazer seu reconhecimento. Sarina está desaparecida. Irina também. O homem que eu imaginei que fosse o mais temido do submundo do crime, agora teme o homem que deseja se vingar de mim. O cerco está se fechando e eu me vejo cada vez mais encurralado ao centro dele sem ao menos conhecer o meu inimigo. Aposto todas as minhas fichas em Giuseppe e nas informações


que ele possa conseguir dos filhos de Edik Falin, só assim saberei o que estou prestes a encontrar quando, finalmente, ficar frente a frente com homem que Alik chamou de demônio. Não quero imaginar o que ele está fazendo com Sarina nesse momento, pois, se tudo que o Padrinho me contou for verdade, a mulher que eu amei e acreditei que havia me abandonado para fugir com um de seus clientes, foi apenas mais uma das vítimas desse maníaco filho da puta. Eu prometo a mim mesmo, encarando a lua em nome do amor dos meus pais, que se o desgraçado encostar um dedo nela, farei com ele coisas muito piores do que todas as que vi Natasha e Fillipo fazerem com seus inimigos, desde que os conheci. Ou não me chamo Ivan Keritov.


CAPÍTULO 10 – SARINA

Abro os olhos com dificuldade. Tudo dói. Tento mexer os braços, mas não consigo. Estão presos. Meus pés sangram tocando o chão, cortados pelos cacos de vidros. Não preciso pensar muito para saber onde estou. Reconheço o lugar onde vivi por meses a anos atrás. Tem o mesmo cheiro; de sexo e sangue, me sinto enjoada e vomito quando abaixo a cabeça como fiz da primeira vez em que fui trazida para cá. — Nunca pensei que pudesse ficar ainda mais linda, paslen (1) Minhas lágrimas nublam minha visão ao ouvir a voz do velho maldito. — Pensei que estivesse morto. — Não poderia morrer antes de acabar com você. Ouço o barulho, mas não o vejo. O escroto sempre vive no esgoto as margens da podridão e das sombras. Agora ele se locomove em uma cadeira de rodas, mas a expressão em seu rosto é a mesma debochada, escrachada e esnobe de antes como se fosse algum ser superior aos demais. Covarde filho da puta. — Por que não me solta seu velho sujo? Tem medo do que posso fazer com você? Ele gargalha. — Quando eu tinha vigor podia me dar ao luxo de brincar com a sua raiva, mas agora não posso me gabar e ainda vou mostrar como continuo o dono de tudo que desejo. — Não se atreva a me tocar seu imundo! — Oh, eu vou fazer muitas coisas com você paslen, e quero começar agora mesmo. Dois homens com a cabeça coberta por um capuz branco se aproximam e seguram minhas pernas abertas. Eu me debato, mas eles são muito fortes e limitam meus movimentos.


— Não adianta lutar contra as minhas vontades e se for uma boa menina posso te recompensar com um banho frio e pão velho. — Me larga! Não! Não! — Oh, ela ainda quer lutar... — O velho para a sua cadeira entre as minhas pernas abertas — Sabe quantas vezes eu sonhei com você nessa posição? Seus dedos calejados tocam minha intimidade, esfregam meu clitóris apertando os lábios como se fossem brinquedos. Eu choro de raiva e de ódio. — Não precisa fingir para mim. Eu sei que sempre gostou e no fundo queria mais. — Seu velho asqueroso. Eu cuspo nele e recebo um tapa do homem que está a minha esquerda. Minha cabeça gira com o impacto. Sinto as mãos enrugadas do velho na minha bunda enquanto ele aspira meu cheiro. — Preciso agradecer meu neto por trazer você sem roupa e vou ter que me desculpar com ele depois por ter desobedecido a ordem de não tocar em você. O que acha que Mika pode fazer comigo além de ficar zangado? Ele enfia a língua e me chupa enquanto os homens me seguram como um animal. Meus pulsos ardem com as cordas amarradas. Sinto seu dedo penetrar meu ânus ao mesmo tempo em que se satisfaz. Ele geme se deliciando. Eu xingo, choro e imploro para que pare. Não sinto nada além de nojo; dele, de mim e do que me tornei nas mãos desses homens: um objeto sexual. — Vamos lá, me mostre o quanto você gosta do que faço com a minha boca. Por anos me privei de viver como uma mulher normal. Me senti indigna e incapaz de compartilhar qualquer tipo de experiência com um homem de forma saudável. Ivan foi o último a me tocar com o meu consentimento. Minha vida havia acabado e então me lembrava de Severino e do quanto meu irmão precisava de mim. Mas agora... não há mais motivos para continuar lutando. Estou sozinha como sempre estive, com a diferença de que não há mais ninguém que me ame e que precise de mim à minha espera. Não preciso mais me debater ou me submeter a fingir que sou forte e


indiferente. Corajosa. Posso apenas me entregar a dor e deixar que ela me leve para o fundo, presa a âncora da depressão. Fecho os olhos e me imagino caminhando por um campo de flores, sem sangue nos pés, sem feridas na alma e sem a solidão em meu peito. Sou aquecida pelo sorriso de Severino, pela gratidão de Aurora e pelo amor de Ivan. Tantos anos se passaram e eu continuo sonhando com as mesmas coisas pelas quais eu lutei solitariamente, guardei segredos demais, reclamei de menos e me iludi de que em algum momento eles entenderiam e apenas se esforçariam para me amar com a mesma intensidade com que eu os amei. Estou tão fraca, tão cansada. Sem esperança, destruída, arrebatada pela tristeza. Meu corpo é consumido e devastado pelo esmorecimento da minha alma. — Vadia desgraçada, o que está fazendo? A voz encorpada de Ruric Desdeiev, me desperta e só entendo que urinei sobre ele quando seus homens iniciam uma sessão desmedida de tapas e socos em meu rosto. Acabo sorrindo, mas sou levada novamente pela escuridão agradecendo o aconchego reconfortante, bem distante da cruel realidade e torcendo para que a minha consciência se perca definitivamente e não se preocupe em retornar. Não há caminho de volta a ser percorrido dessa vez, tampouco motivos que me incentivem a ansiar pelo regresso. Mas nos meus sonhos posso criar outros mundos e viver histórias que jamais viverei. Quero me unir a eles, manipula-los de acordo com os meus interesses e ser feliz na ilusão imaginada. Ao menos ali, ainda sou dona dos meus delírios, cativa dos meus desejos e amante dominante das minhas utopias. De olhos fechados e entregue ao breu posso ser quem eu quiser, fingir ser amada e protagonizar várias vezes a mesma história de amor onde qualquer final é sempre feliz. *** — Ela está acordando.


— Vá chamar o chefe, ele disse que não é pra avisar ninguém nem mesmo o senhor Ruric. — É melhor esperar ela abrir os olhos. — Não, se ele souber que ela acordou e nós não avisamos vamos ter problemas. — Faz duas horas que ela está se mexendo e não acorda. — Vai logo chamar o chefe e avisa que ela começou a acordar. Faz o que eu to mandando, anda logo! *** Não sei se é sonho ou realidade. Mas a conversa entre os dois homens parece mesmo estar acontecendo. Meu corpo reage de forma estranha aos meus impulsos quando tento me apoiar para sentar. Meus olhos varrem o ambiente claro e limpo. Eles me tiraram do porão imundo. A cama é espaçosa e os lençóis são limpos, as cortinas abertas permitem que a luz do sol invada o quarto e o cheiro do ar puro invade minhas narinas como um perfume doce de lavanda. Alguma coisa está errada. A porta é aberta e a imagem do demônio disfarçada de anjo nobre provoca calafrios em meu corpo coberto por uma camisola de seda branca. — Pensei que tivesse desistido. Levanto a cabeça olhando em seus olhos magníficos. Seu rosto perfeito desenhado por traços capazes de enfeitiçar qualquer mulher é o atrativo perfeito para cativar suas presas. Sim, ele não passa de um caçador, um selvagem sádico e indiferente a vida alheia. O homem que não mede esforços para conseguir o que quer foi capaz de sequestrar meu irmão apenas para me chantagear e conseguir informações sobre o desconhecido a quem ele abona todo fracasso destinado à sua família. — Por que não me deixou morrer? Ele puxa uma cadeira e se senta à minha frente. Seus cotovelos apoiados nas coxas grossas destacam a beleza do tronco nu e suado, esculpido por músculos definidos, incontestavelmente, lascivos aos olhares ébrios.


Meus olhos se tornam reféns da serpente que me encara com seus olhos coloridos, honestos representantes simbólicos da causa e do efeito. O grande réptil se adequa com perfeição a sua recente morada e se alguém em sã consciência tivesse que escolher aleatoriamente um lugar para alojá-lo acolhendo, abrigando e enaltecendo a sua beleza maligna e selvagem, certamente não haveria melhor lugar do que o peito do demônio em forma de ser humano. Desvinculado do ser e sem qualquer vínculo emocional do humano. Apenas um representante da raça, tendencioso as faltas, as falhas, aos crimes, ao desamor, à execração e ao asco. Egoísta, desprezível, hediondo e totalmente abominável, mas incansavelmente belo, o que modifica o propósito da beleza ocasionando a metamorfose onde ela passa a ser chamada de maldição. Tal qual como seu hospedeiro, a serpente é um animal traiçoeiro e vingativo, desprovido da nobreza e integridade devidas que o impeçam de executar seu ataque pelas costas; furtivamente, covardemente. — Porque eu preciso de você para terminar o que comecei. Prendo os cabelos encaracolados com os próprios fios tirando-os do rosto. Abraço meu corpo, escondendo-me, protegendo-me e sorrio tristemente. — Não tenho mais nada que lhe possa ser útil Mika, você e seu avô acabaram comigo e só deixaram meus restos para os vermes. Fico esperando suas ironias que me rebaixam igualando a minha finalidade como as de uma escrava providenciada apenas para servi-lo e a todos a quem ele ordenar, mas elas não chegam. Seu corpo treinado para lutar, oprimir, dominar e matar relaxa enquanto ele me avalia com seu olhar exigente. — Pela primeira vez Sarina, estamos de acordo. Sua mão direita acaricia o membro robusto e saliente, ocultado pelo jeans desbotado. Mika agora me olha do modo que mais me amedronta: com cobiça e ganância. Sei o que representa esse olhar. Ele já me disse várias vezes o que o motiva e satisfaz sempre que estou em sua presença. Nada do que faz é por si próprio, seu prazer


e gosto. Nunca foi e não será enquanto não tiver proclamada sua vingança pessoal. — Então me mate e me deixe ir... Mika se levanta. Eu me encolho. Ele se aproxima fazendo meu corpo tremer de medo. Prefiro a morte do que sofrer novamente todas as violências que me foram impostas de forma tão cruel. Sua mão afaga meu rosto num gesto de carinho traiçoeiro. Não espero nada de bom desse homem, pois, sei que ele não é habilitado para esse fim. — Não sem antes deixar que o verme assista a sua própria morte em vida. Ele se afasta caminhando até a janela; quieto, contido, pensativo. Tem alguma coisa muito errada acontecendo que está deixando esse ser inabalável preocupado o que, naturalmente, me preocupa também. Quero morrer sem mais sofrimento, pois, mereço esse fim depois de tudo que ele e seu velho mentor já me fizeram passar no porão dessa casa, elegante e sofisticada, que inúmeras vezes foi usada malandramente, para atrair presas inocentes e encantadas pelo seu charme e servirem de cobaias aos seus experimentos ou realizarem seus fetiches nojentos. Meu coração se aperta dentro do peito com medo e angustia pela expectativa da explosão, que assim como as piadas desdenhosas e preconceituosas, não chega. Desguarnecida de forças destinadas para essa batalha, é assim que me sinto. E se a minha sobrevivência depender do meu esforço e empenho, estou decidida a me render em vez de gladiar ferozmente, como fiz da primeira vez em que fui capturada. — O que você quer de mim? Ele se vira bruscamente, mirando meus olhos negros com os seus, verdes fluorescentes, raivosos e frios, pavoneando um contraste extraordinariamente belo com a pele branca e os cabelos pretos escorridos. Seu maxilar se aperta com força enaltecendo os ossos faciais e trazendo de volta à legítima e tão familiar, faceta do demônio reprimido em sua forma humana.


Ele apetece por sua libertação. Ansioso, necessitado. — Eu posso te contar babayevisch, mas você não vai gostar de saber. — Não tem mais nada que você possa fazer para me destruir... Meus olhos se enchem de lágrimas que não comovem ou sensibilizam o ser desumano e destituído de uma única partícula de compaixão, que apenas me encara em silêncio. Depois de todos esses anos, após alcançar o ápice do perecimento em busca de compreensão para justificar pelo menos alguns de seus atos mórbidos, da mesma forma que abdico da luta pela vida, eu me recuso a dispensar energia em mais tentativas frustradas de compreender como ele pode ser um monstro, faminto e insaciável, em sua busca implacável pelo sofrimento alheio como se fosse a fonte vital para sua sobrevivência. Seu alimento. Sua água. Seu ar. — Você e aquele velho asqueroso me tiraram TUDO! Minha dignidade, minha autoestima, meu amor próprio, minha vontade de continuar respirando. Será que não percebe? Não enxerga o que fez comigo quando me deixou com ele depois de ter me estuprado, humilhado, subjugado e me exposto daquela forma horrível? Por que não me mata como fez com todas as outras? Pensa que fez algum mal quando acabou com a vida delas? Não! Você salvou elas! Você deu a todas aquelas mulheres a libertação, a liberdade. Me mata logo! Acaba com essa merda e me deixa descansar em paz! Eu não vou resistir! Eu não quero resistir, consegue entender isso? Estou cansada demais pra lutar por uma coisa que já não faz mais sentido! Eu me nego a suportar qualquer tipo de dor em troca da minha vida porque eu não quero mais viver! Meus punhos se chocam contra o colchão, minhas lágrimas caem molhando o cetim e a seda da fina camisola quando as palavras questionadoras escancaram toda a dor e frustração exaltadas pela indignação e pela revolta. Eu me sinto injustiçada por não ter tido a minha morte decretada como as outras mulheres que vivenciaram experiências semelhantes à minha. E não é calúnia alguma afirmar que, nenhuma delas esteve sequer próxima de acolher o nível de maldade que foi atribuído a mim. Somente a mim.


Exclusivamente a mim. — Por que me odeia tanto? Por que precisa me fazer tanto mal? POR QUÊ? Seus passos firmes, seguros e confiantes demonstram o quanto o diabo é inabalável e imune ao meu calvário que ele pessoalmente criou, moldou e conduziu, tornando-se responsável pela conversão da essência feminina que habitava em mim a um inútil bagaço, após de ter sido aniquilada por sua crueldade injustificável. — Você me traiu! — Ele rosna entre dentes, controlando, dissimulando, dominando e contendo sua ira mórbida — Nada do que eu fiz foi por sua causa. Nada do que eu planejei pra você foi por sua causa. O diabo regressa com sucesso e um lindo sorriso em seus lábios, agarra meus cabelos que se desprendem facilmente e sussurra aproximando sua boca da minha, quase as unindo: — É tudo por ele, babayevisch. Sempre por ele. — Vai perder seu tempo... — Rebato sentindo a cabeça doer e o couro cabeludo queimar como brasa recém acesa — Ivan não me ama mais. — Não tente me convencer de que o bastardo impostor te odeia, Sarina. A dor que me maltratada agora é outra e muito diferente da rasa e superficial que incomoda e marca a pele. Essa é aquela dor profunda que me rasga por dentro e apenas uma pessoa é capaz de me causar a cada palavra de desprezo que sai de sua boca; a cada olhar enojado, mirado em minha direção; cada gesto ofensivo, minimamente calculado e intencionalmente destinado a agressão explícita na sua busca constante pelo revide, pelo troco, na tentativa de vingar todo sofrimento que lhe causei conscientemente e propositadamente. Ela é invisível e inexplicável, também é potente e extremamente eficaz em seu objetivo de ferir. E sim, ela fere muito mais do que qualquer dor que esse demônio possa me causar. — Eu amaria se o Ivan me odiasse, mas tudo que ele sente por mim é desprezo e asco. Ivan não sente mágoa ou tristeza por todo mal que causei a ele. — Minha garganta se fecha, a voz embarga, as lágrimas reagem e escorrem pela minha face — O amor que ele sentia


por mim foi substituído por um sentimento de indiferença e nenhuma maldade que você possa fazer vai me machucar mais do que me machucou quando tive que mentir e deixar o único homem que eu amei por sua culpa. Sua mão livre enxuga meu rosto e acaricia minha pele. Se eu não o conhecesse poderia jurar que finalmente, algum gesto meu havia o compadecido, mas nem de longe isso irá acontecer. — Eu vou provar que você está errada babayevisch, e quando isso acontecer a minha vingança será proclamada. — Por favor, me mate... Todo meu corpo se contorce sob seus toques falsamente gentis. — Não posso e estou aqui pra te contar o que pretendo fazer com aquele bastardo fodido. — Seus dedos penteiam meus cabelos para trás, afastando-os do rosto — Só assim você vai desistir dessa ideia de morrer Sarina. Franzo a testa. Minhas pernas em cima da cama tremem sem controle. — Eu não quero mais viver e nada do que diga a respeito de Ivan vai me convencer do contrário. — Tem certeza? — Seu olhar é mortal — E se eu disser que eu tenho uma proposta para você? — Que proposta? — Meu pressentimento é o pior possível. — Se você me disser sim, eu deixo o destino do bastardo em suas mãos babayevisch. — Não abro a boca, congelada — Você vai decidir se ele deve morrer ou viver. O que acha? — O que você quer de mim, Mika? — Eu já tenho o que eu quero Sarina. — Ele acaricia a minha barriga por cima do tecido me deixando ainda mais confusa — Mas eu pensei muito e decidi que não quero apenas a minha marca em você. Não quero que ele tenha a oportunidade de fugir para não compartilhar, digamos, a minha realização pessoal. Eu quero garantir que ele sofra todas as vezes que se lembrar que eu tenho o que ele sempre quis e jamais vai ter. — Do que você está falando? Ele se afasta e volta a olhar pela janela. Apoio os pés no chão e as mãos ao lado do corpo. Não faço ideia do que esse homem está tramando, mas posso imaginar o quão cruel ele


pode ser quando se trata de Ivan Keritov. — Você não se lembra do que aconteceu na quinta-feira porque eu te droguei, Sarina. A tranquilidade e a calmaria com que ele fala, desordenam minhas convicções e resgatam não apenas minhas dúvidas e incertezas sobre os acontecimentos daqueles dias, mas também o pavor e o mal presságio que assombram todos os meus dias nos últimos oito anos. — O que? — Eu usei duas drogas misturadas; a do estupro pra você não se lembrar de nada e a nova versão da Famale Fantasy, uma droga criada pra estimular a libido que tinha sido criada por um traficante norteamericano para ser usada nas mulheres vendidas como escravas sexuais. — Mika volta a me encarar com o olhar mais sombrio — Eu consegui descobrir onde os agentes brasileiros esconderam a fórmula e roubei. Você foi a minha cobaia Sarina e agora que eu sei que funciona, vou produzir a droga aqui em Sóchi e vender pra todos os traficantes de mulheres do mundo que se aliarem a mim, o Pakhan, na destruição do Império. Sabe o que acontece com as mulheres que usam a Famale Fantasy? Não consigo responder, pois estou chocada demais para balbuciar qualquer palavra, quem dirá simular uma frase? O sorriso dele aumenta chegando aos olhos. — Depois de meia hora, as mulheres ficam loucas por sexo, querem desesperadamente ser fodidas e imploram por um pau em suas bocetas. Eu filmei tudo que fizemos e pode acreditar, você estava insaciável, babayevisch. Fodemos por quase quatro horas sem parar e se quiser, nós podemos assistir o vídeo juntos antes que eu envie para o bastardo te ver enlouquecida, quicando na minha rola e saiba o que você estava fazendo, com quem estava fazendo e como você realmente gosta de ser fodida. — Sua gargalhada me assusta assim como o seu olhar vidrado. De todos os pesadelos esse é o pior que já tive, sem dúvida, e não vejo a hora de despertar para voltar a minha triste realidade solitária — Eu não tinha planejado matar moy deduscha, (2) não tinha planejado trazer você pra cá de novo, não tinha planejado nada disso Sarina! Mas depois que eu vi como aquele desgraçado ficou arrasado quando te encontrou no hotel, porra! O idiota nem dormiu! Ele é tão fodido, mas tão fodido que pelas câmeras eu vi o quanto ele queria te tocar, o quanto


ele estava desesperado pra sentar na cama do seu lado ou fazer qualquer coisa só pra poder te sentir de novo. Ele pode jurar pra quem quiser que não te ama Sarina, mas até eu que nunca amei ninguém sei que aquele impostor desgraçado ainda é apaixonado por você. Um misto de sentimentos invade, preenche e transborda meu peito. Em meio ao caos sombrio e devastador algumas afirmações, mesmo vindas de uma pessoa sem qualquer indício de sanidade conseguem abrandar a dor nauseante que avassala meu coração destruído. Mas o demônio não me dá uma trégua e continua destruindo tudo que vê por onde passa, em nome de uma vingança que para ele é a luz que ilumina a sua vida. — Foi o próprio bastardo que me deu, como um presente, a chance que eu tanto queria para compensar tudo que era meu por direito e me foi tirado, negado e privado POR CAUSA DAQUELE FILHO DA PUTA! — Meus olhos ardem, meu corpo treme, meu cérebro se omite, e alega incompetência para não ser obrigado a se convencer de que eu estou muito mais fodida do que já estive em toda a minha fodida vida — Fala pra mim Sarina, por que engravidar você e matar ele depois de contar que EU SOU o pai do seu filho, se eu posso me casar com a mulher que ele ama, ser o pai do filho dela, treinar meu próprio herdeiro e ter o que ele NUNCA vai ter porque EU TIREI ESSE DIREITO DELE? Ele grita, completamente transtornado. As veias de seu pescoço se dilatam, seus olhos esbugalhados brilham adquirindo um tom de verde amarelado, sua boca saliva e espuma como um cão contaminado pela raiva. — EU DISSE QUE IA TIRAR TUDO DELE E EU VOU, PORRA! — O demônio vem até mim, segura meu rosto entre as suas mãos e com os olhos cativos aos meus sussurra, cuspindo as palavras na minha cara, enfurecido: — Eu avisei Ruric que não era pra ele tocar em você, mas ele tocou e eu quase te perdi. Eu acabei com o velho e os dois capangas que ajudaram a te prender pra mostrar que não se deve desobedecer as minhas ordens. Agora ninguém mais vai chegar perto de você. A médica já veio aqui e te examinou, disse que está tudo bem, mas que só vai


fazer o exame de gravidez quando você concordar. — Ele beija minha boca violentamente — Você já está grávida Sarina, eu tenho certeza disso. Vou ligar pra médica e mandar ela vir aqui de novo e quando o resultado confirmar que eu vou ser pai, nós vamos marcar a data do casamento. Eu abro a boca para falar, mas ele coloca os dedos sobre ela me impedindo. — Antes de fazer uma cena desnecessária, deixa eu te mostrar uma coisa, babayevisch. Ele puxa o celular do bolso traseiro e desbloqueia a tela para que eu veja a casa de Ivan monitorada por mais de dez câmeras espalhadas por todos os ambientes, assim como seu carro que também está sendo vigiado vinte e quatro horas por dia pelo homem que se transformou em um obcecado. — Se você recusar a minha proposta de se casar comigo e levar essa gravidez adiante, eu entrego o vídeo para o bastardo junto com o resultado positivo do teste de gravidez, pessoalmente, depois de me apresentar e contar tudo que aconteceu com a minha família por causa dele e meto duas balas na cabeça dele em homenagem aos dois filhos legítimos que o desgraçado do pai dele rejeitou por causa do bastardo que ele teve com a puta da empregada. — A língua molhada e quente desliza pelo meu rosto, do queixo até a testa, me causando repulsa — É isso que você quer que aconteça? Mikail Sergeevich Desdeiev beija minha boca novamente enfiando a língua dentro dela com posse, antes de me deixar sozinha no quarto para assimilar tudo o que acabou de acontecer e desejar, desesperadamente, que pelo menos Natasha sinta a minha falta e decida me procurar antes que esse louco me tranque em algum lugar dessa casa e me faça sua prisioneira. O filho mais velho de Sergei Desdeiev e de sua esposa Ivana, foi gerado através da ambição e do interesse de duas famílias que faziam parte da tão famosa e temida Bratva, e cobiçavam ardentemente ocupar os postos do mais alto escalão dentro da organização criminosa. Mas, contrariando todas as ordens de seus pais, superando os desafios de um casamento arranjado e todas as feridas que este se incumbiu de causar, Sergei e Sonia, filha da empregada da família Desdeiev, foram fiéis ao sentimento que os unia de forma inigualável e


dessa união extraconjugal, foi gerado um filho através do amor, que veio ao mundo dois anos após o nascimento de Mika. A única coisa que Ivan e Mika têm em comum é o sangue do mesmo homem que corre em suas veias e depois de oito anos, eu estou sendo mais uma vez, obrigada a escolher entre a minha liberdade e a vida do homem que eu amo. Se tudo que Mika me disse fosse verdade e Ivan realmente me amasse talvez houvesse alguma chance para nós, mas eu não posso mais ficar alimentando ilusões como essa quando as possibilidades de eu estar grávida do irmão dele são grandes. Eu conheço aquele russo e sei melhor do que qualquer outra pessoa que, quando se trata de teimosia e orgulho, Ivan é imbatível. A simples ideia de estar grávida é tentadora demais para ser ignorada, mas não posso me esquecer por um segundo sequer que o pai dessa criança é um homem incapaz de amar qualquer pessoa, até mesmo seu próprio filho. Eu tenho que pensar com calma e decidir o que fazer antes que o encontro entre os filhos de Sergei aconteça e uma nova guerra seja declarada na Rússia.

(1)

Pretinha

(2)

Meu avô


CAPÍTULO 11

— O que vamos fazer agora? — Temos que encontrar Irina. — Como faremos isso se não temos nenhuma pista de onde ela está? — Vamos voltar a casa de Severino. — Falo concentrado no meu papel de konsult’ant e braço direito da Imperatriz russa — A polícia já deve ter saído de lá. Feliks coloca o endereço de Severino no histórico do GPS e nos leva até o local onde o irmão de Sarina foi assassinado. A rua está deserta, o que facilita a nossa entrada na residência. — Procure qualquer coisa que possa nos ajudar a conhecer melhor Irina e entender o que aconteceu aqui no dia do assassinato. Sigo para o quarto do casal enquanto o segurança fica na cozinha. É difícil acreditar que Severino fosse um homem fácil de lidar, não apenas pela sua dificuldade de se comunicar, mas pela falta de habilidade para desenvolver outras atividades que não estivessem relacionadas as atividades ligadas ao Império. Na mansão, ele apenas acompanhava Pavel e Bóris, seguindo seus passos e ajudando na contenção de membros ou clientes inadimplentes. Fora isso, ele passava o tempo todo ao lado da irmã, o que nitidamente, era o mais confortável para ele. Abro o guarda-roupa e começo a revistar as gavetas. Primeiro as que guardam as roupas femininas e não deixo de notar a quantidade exagerada de peças íntimas, caras e exóticas. Encontro de tudo, mas uma peça chama a minha atenção mais do que as outras. É uma cinta liga preta, com rosas bordadas nos locais estratégicos e que se abrem para facilitar o acesso sem que a peça precise ser retirada do corpo. Na parte da frente, bem ao centro, duas letras estampam o centro da rosa: MI. Uma das letras indica o nome de Irina e a outra, certamente o de


algum ex-namorado ou do amante. Deixo a peça separada e continuo a busca. Vasculho cada canto sem encontrar nada, além de vestidos caros, sapatos importados e algumas joias que uma mulher que, teoricamente, se sustenta com o próprio salário não teria condições financeiras de comprar. Se não foram presentes, só podem ter sido adquiridas por herança. Na parte em que as roupas de Severino estão guardadas não há bagunça. Tudo está organizado por cor e esnoba a simplicidade que lhe era uma característica marcante, assim como é de Sarina também. Ainda não entendo porque a mulata mora em um apartamento alugado, num bairro menos favorecido e sem qualquer segurança já que tem condições de bancar uma moradia muito melhor. Quando eu a conheci em Kazã, Sarina não tinha o hábito de falar sobre a sua vida pessoal nem mesmo do seu passado no Brasil. Tudo que eu sabia sobre Aurora era que ela tinha sido trazida para cá, por causa de uma dívida de Sarina com um perigoso traficante de drogas, em Fortaleza. Anya fazia a ponte entre as mulheres traficadas e os receptores, muitos deles, homens como Edik Falin, dono da boate em Moscou e outros membros do Império que negociavam com os compradores ou recrutavam as jovens para as próprias boates e repassavam a parte da irmã caçula de Natasha. A prostituição e o comércio de mulheres sempre foi um dos negócios mais rentáveis do submundo do crime, como o próprio Alik confessou. Quando a Imperatriz assumiu o lugar do pai e proibiu o tráfico de pessoas dentro do Império, muitos membros ameaçaram se rebelar, mas com o fim trágico de Edik, alguns “sustos” que Natasha providenciou para que os rebeldes entendessem o perigo que corriam, além do apoio total das esposas e feministas do Império, foram apenas alguns meses até que todos tivessem sido convencidos de que travar uma batalha com a sucessora de Gravel, definitivamente, não era a opção mais inteligente. Retiro a última gaveta e ela trava me impossibilitando de abri-la totalmente. Tento uma vez e mais outra sem sucesso. Pego minha faca e me ajoelho para conseguir enxergar o que tem por baixo dela que está impedindo a sua abertura completa.


Estranho, pois não há nada. Com a faca, começo a fazer pequenos cortes nas pontas a fim de afrouxar a madeira presa com pregos e soltá-la dos dois trilhos, que são os responsáveis pelo impedimento do avanço da caixa forçando seu recuo. Demoro um pouco para conseguir destravar, pois não quero deixar marcas ou evidências de que alguém andou mexendo, mas quando consigo, enfim, retirar a gaveta sou recompensado pelo meu empenho. Com a caixa em minhas mãos, fica muito fácil de notar o fundo falso e entender que o peso adjacente foi o causador de tudo. Se o compartimento secreto não estivesse sobrecarregado, talvez nunca fosse descoberto. Sorte a minha. Solto as laterais da madeira e puxo a parte superior, destampando-a com cuidado. Três envelopes ocupam o espaço, todos do mesmo tamanho, mas de cores diferentes. Retiro primeiro o envelope branco e o abro, espalhando o conteúdo em cima da cama. Encontro doze passaportes falsos, muitas notas de cem dólares e vários mapas, estranhamente todos do Brasil com círculos desenhados com caneta preta sobre alguns pontos da cidade do Rio de Janeiro. Guardo tudo novamente e pego o envelope amarelo repetindo o gesto e espalhando o conteúdo sobre a cama. Meus olhos dobram de tamanho e meu queixo, literalmente, cai. São fotos e mais fotos; novas, antigas, coloridas, preto e branco, em momentos de lazer ou fechando negócio, algumas de Natasha e outras poucas de Sarina, mas noventa por cento, são imagens minhas. Desde a época em que eu frequentava a faculdade de medicina até dias atrás, quando fui ao apartamento da mulata para saber o motivo do seu desaparecimento. Quem quer que seja, está me vigiando há muito tempo e não consigo entender por que apenas agora resolveu se manifestar e atacar. Depois de me refazer do susto, guardo tudo e abro o terceiro e último envelope, de cor preta. Ele é o mais fino de todos e também abriga várias fotografias, mas agora vejo Irina em diversas ocasiões acompanhada por muitas pessoas diferentes. A única coisa que destoa, é que em todas as fotos seu cabelo é loiro claro e seus olhos são verdes, e


desde que a vi pela primeira vez seu cabelo está pintado de vermelho e seus olhos são castanhos. Ela estava disfarçada e hoje, provavelmente, conseguiu escapar bem debaixo do nosso nariz graças a mudança em sua aparência. Continuo verificando foto por foto e meus olhos são atraídos por uma aonde Irina está ao lado de uma mulher tão jovem quanto ela, com os cabelos ainda mais claros e os olhos marcantes, que não me deixariam esquecê-la tão facilmente. Ramona, a mulher que esteve hoje no quarto do hotel e falou alguma coisa sobre a sua mãe conhecer a minha desde quando eram crianças. As duas parecem amigas íntimas, estão abraçadas e sorridentes. Também parecem felizes juntas e apesar de serem loiras e terem os olhos claros, são bem diferentes se analisarmos com atenção. A foto foi tirada na frente de um navio, e se eu não estiver equivocado, é um dos mais famosos cruzeiros onde o passageiro se diverte durante doze dias viajando pelo Mar Mediterrâneo, com paradas em oito países europeus. Tiro uma foto da imagem e envio para o celular de Rey, que me liga assim que recebe a imagem. — O que é isso, Ivan? — Preciso que descubra tudo que conseguir sobre as mulheres dessa foto e também qualquer coisa que me ajude a identifica-las. As duas estão envolvidas com o homem que sequestrou Sarina e matou Bóris. — Vou ver o que eu consigo. — Elas estão embarcando ou retornando de um cruzeiro pelo mediterrâneo de doze dias. Pelas características do navio, acho que você consegue localizar o ponto de saída e talvez o ano em que essa foto foi tirada. — Tudo bem, deixa comigo. — Alguma novidade? — Ainda não, o enterro acabou tarde e a Natasha resolveu fazer uma reunião de emergência no teatro. Acabei de chegar e já vou começar a busca. — Giuseppe? — Ainda no galpão com Gustav. Eles estão atrás do irmão mais velho e da mãe do infeliz.


— Pavel? — Estado estável, amanhã os médicos vão começar a diminuir os sedativos gradativamente para ver como ele vai reagir e se tudo correr bem em dois ou três dias, já deve ir para o quarto. — Ótimo. Se tiver qualquer novidade me avise. Encerro a ligação com Rey e sem perder tempo, ligo para Natasha. — Ivan, já ia te ligar. — O que houve? — Acabei de receber uma péssima notícia. Minhas mãos começam a tremer e meu coração acelera drasticamente. Parece que vai explodir a caixa torácica e saltar para fora do peito. — Encontrou a Sarina? Onde ela está? Um breve momento de silêncio é quebrado por uma risada masculina. Aperto os olhos com força me odiando por ter agido feito um idiota e odiando a Imperatriz por permitir que seu marido italiano ouça todas as suas conversas. O Capo está mais para espião nesses casos. — Povero uomo innamorato... — Cala a boca, Fillipo! Já me basta você ficar espionando minhas ligações agora quer ficar falando que o meu conselheiro está apaixonado pela ex que não passa de uma víbora mentirosa? — Reviro os olhos para o tom sarcástico da Imperatriz — Ivan é um homem sério e ama a namorada que só quer ser fodida de luz apagada e se ele ameaçar pegar ela de quatro, puxar os cabelos, dar umas palmadas e mandar a beata rebolar no pau dele, é capaz de ela usar spray de pimenta e chamar a polícia alegando assédio sexual... Os dois caem na gargalhada e por um momento eu me rendo e sorrio também. As últimas quarenta e oito horas foram intensas, tensas e desgastantes até para mim, que já me acostumei a rotina do Império e me rendi aos novos conceitos que me desvincularam, radicalmente, dos antigos preconceitos. — Cazzo, Ivan! Eu bem que te avisei que a assistente social tinha cara de suora. — Essa palavra nem eu conheço Fillipo! Quer parar de falar italiano, por favor? — Natasha o repreende.


— Freira, meu amigo. A sua namorada tem cara de freira e se for verdade o que mio angelo está dizendo, você vai precisar foder umas putas pra aliviar o estresse. — Fillipo, nós dois sabemos que o sexo ajuda a aliviar o estresse porra! — Rebato sem conter o divertimento. — Caralho! Mas se durante o namoro ela só quer foder “mamãe e papai”, quando se casarem vai ser uma questão de semanas até a ragazza começar a ter dor de cabeça só de te ver de pau duro, meu amigo. — Podemos esquecer o meu namoro e focar no assunto principal, pelo amor de Deus? Sei que as brincadeiras não são nada além disso, brincadeiras, mas a palavra casamento não me parece tão certa quanto parecia ontem, e as lembranças do sexo com Valeska minam o meu apetite sexual. Merda! — Desculpe por isso Ivan, eu sinto muito... — Não seja mentirosa, Natasha. Eu sei que você não sente nada. — É verdade, não sinto mesmo, mas você tem que convir que a sua namorada parece uma mosca morta de tão parada que é. — Foi por insistência sua que eu aceitei o convite dela para sair, lembra? — Sim, eu lembro. — Ela bufa — Mas estou me redimindo e agora te aconselho a pular fora antes que as coisas fiquem complicadas entre vocês. — Não se preocupe com isso, Natasha. O que você tem para me contar? — Certo. Fillipo falou com um amigo dele que é detetive no Rio de Janeiro e ele confirmou o roubo da fórmula criada pelo Joseph Lucas. — Porra! — Mas isso não é o pior. — Tem coisa pior do que a formula da droga que foi criada para que as mulheres traficadas fiquem mais receptivas ter sido roubada? — A fórmula está na Rússia. — Aqui? — Exato, e tudo leva a crer que o ladrão está diretamente ligado ao grupo da Nova Bratva. Olho para a gaveta em cima da cama e os três envelopes que


estão dentro dela. Se o homem que está por trás dos assassinatos de Severino e Bóris, e também do sequestro de Sarina, for o mesmo que roubou a fórmula, ele está juntando forças para destruir o Império. — Estou na casa de Severino com Feliks e encontrei uma gaveta com vários mapas da cidade do Rio de Janeiro circulado com caneta esferográfica preta. Vou mandar para você dar uma olhada. — O que estão fazendo aí? — Eu estive com o Padrinho mais cedo, Natasha. Ele me garantiu que o homem que pegou a Sarina e quer se vingar de mim por algum motivo que eu ainda desconheço, é um sádico da pior espécie como poucos que ele conheceu. — Temos que descobrir o nome dele. — Eu encontrei uma lingerie na gaveta da Irina, ela é diferente de todas as outras e tem duas letras bordadas, MI. Acredito que deva ser as iniciais desse cara. — O que mais encontrou? — Passaportes falsos, muitas notas de cem dólares e mais de cinquentas fotografias minhas, algumas antigas da época da faculdade, outras em Kazã e a maioria dos últimos dois anos, já no Império. — Passo as mãos pelo cabelo ciente que vou deixar um Capo muito irritado com o que irei falar, mas não existe a menor possibilidade de esconder isso deles — Também tem fotos da Sarina e.... algumas suas Natasha. — O que? — Fillipo grita — Essa puta sem vergonha tem fotos da minha mulher? — Tem, são recentes e indicam que eles estão vigiando nossos passos. — Vou falar com Rey e fazer uma vistoria em todos os lugares para me certificar de que eles não colocaram câmeras. — Natasha, se tudo que estamos pensando for verdade, podemos estar cercados de traidores vendidos para a Bratva só esperando o momento certo do ataque contra o Império. — Não deixe nada para trás e saia daí o mais rápido que puder. — Feliks entra no quarto segurando uma caixa de papelão — Os voyennyye acabaram de chegar em Volgograd e Fillipo já está passando uma ordem em meu nome para queimar a casa. — Feliks está aqui, vou colocá-lo no, viva voz. — O que você encontrou? — Pergunto encarando o grandalhão.


— Duas bombas caseiras, armas, munições e isso aqui. Ele me entrega uma caderneta com mais de cem nomes; russos, italianos, irlandeses, brasileiros e norte-americanos. — Natasha... — Pode falar Ivan, o que o Feliks encontrou? — Estou olhando para os nomes de todos os membros do Império que se juntaram a Bratva nos últimos anos pelas nossas costas. — Algum importante? Encaro Feliks e nem imagino o que será de nós, e da Rússia, quando eu disser o nome que está sob meu olhar nesse momento. Passo as mãos pelo cabelo e pela barba, respiro fundo e folheio mais um pouco a caderneta tentando me acalmar e entender o que está acontecendo comigo. Por que não abro a boca e acabo com isso logo? Estou prestes a falar quando um arrepio percorre meu corpo, eriça todos os pelos e me impede de agir. Olho novamente para Feliks, que me avalia ansioso, esperando que eu delate o suposto traidor para a Imperatriz. Do nada, algo surge em minha cabeça e a imagem da minha mãe, sentada ao meu lado na cama me aconselhando a sempre seguir os meus instintos quando eu ainda era pequeno, influencia na minha decisão de última hora, como um aviso. Tenho que pensar rápido, improvisar e ser convincente, pois, se eu estiver certo o verdadeiro traidor não é o que está com seu nome na caderneta que Feliks, coincidentemente encontrou. — Na verdade tem, mas quero que faça uma coisa por mim antes. — Nome, Ivan. — Natasha brada impaciente como nunca. Aliso a barba, olho para a caderneta e volto a encarar o segurança. — Preciso de um voto de confiança Natasha. — Não vou repetir, Ivan. O nome. — Apenas me ouça, ok? Posso ouvir a Imperatriz bufar, e preciso ter cuidado com as palavras, pois estamos sendo ouvido dos dois lados e agora, acredito que até a casa de Irina esteja sendo vigiada. — Você se lembra do dia em que nos conhecemos?


— Ivan... — Apenas sim ou não, Natasha. Confie em mim, por favor, e preste muita atenção no que irei falar. Faço um gesto para Feliks e peço que ele verifique se não há nenhuma câmera escondida. O grandalhão anda pelo quarto em sua busca superficial e eu sigo com meu plano, totalmente baseado no instinto que me aconselha a agir com extrema cautela. Espero que Natasha entenda a minha jogada e entre nessa comigo. — Sim. — Você se lembra do que eu falei pra você sobre o tamanho da televisão que seu pai tinha naquela parede da sala? — Não. Merda! Nem eu me lembro direito, como ela iria se lembrar? Mas foi a única coisa que me veio à cabeça para fazer a referência que preciso. — Pensa um pouco, Natasha. — Imploro atento as atitudes do grandalhão que apenas simula vasculhar atrás dos espelhos e portaretratos — Eu sei que você estava nervosa e chateada naquele dia, mas eu fiquei muito impressionado com o tamanho dela e brinquei que por ser tão grande e robusta ela parecia até fora do contexto e se destoava de todas as outras que eu já tinha visto. Não posso te falar as palavras corretas agora porque tenho certeza que durante todo esse tempo, nós estamos sendo vigiados de muito perto. Muito perto mesmo Natasha e olhando para o traidor, bem aqui a minha frente, eu nem acredito que fomos tão estúpidos e não percebemos que esse verme está agindo pelas nossas costas debaixo do nosso nariz. Feliks para de se mexer, ainda de costas para mim. Ele arrasta uma penteadeira, quase nada, e segue sua representação. Eu coloco a mão por dentro do paletó e abro o coldre liberando a minha pistola. — Eu me lembro, Ivan! A Natasha me contou o que você falou antes de voltar para Moscou e enterrar Gravel. — Fillipo me surpreende e eu agradeço por ele ter entendido a minha suspeita, que agora, me lembrando de pequenos detalhes, se tornou uma realidade de merda — Eu brinquei com ela sobre isso, disse que aquela televisão de sessenta polegadas só serve para impressionar quem não conhece, porque não é funcional como as pequenas de trinta e duas, nem prática como as de


quarenta. — Exatamente Fillipo. É por isso que eu preciso que você segure a sua mulher e não deixe ela sair como uma louca atrás da pessoa que está com o nome anotado nesse caderno. — Eu suspiro aliviado e me preparo para agir como um felino traiçoeiro. — Tomem cuidado quando forem invadir a Olotof Finasy, pois o grande traidor do Império atende pelo apelido de Rey e tem acesso a todas as nossas informações. Se ele sair vivo daquele prédio, nós estaremos muito fodidos. — Desgraçado! — Natasha vocifera e eu posso ver o vislumbre de um sorriso no rosto de Feliks pelo reflexo do espelho — Eu vou arrancar o pau dele e fazer ele engolir como eu fiz com Volkov. — Faça isso Imperatriz, mas não deixe esse filho da puta vivo e se puder dê uns tiros na bunda dele por mim e por Feliks. O grandalhão me olha satisfeito, crente que conseguiu nos enganar. — Volte para Moscou, Ivan. A Bratva não está brincando e estamos ficando enfraquecidos. Precisamos nos reunir para decidir o que iremos fazer. — Acho que devemos avaliar a hipótese de abandonar o barco antes que ele naufrague, Imperatriz. — Sugiro bancando o covarde que Feliks acha que sou. — É uma boa opção, mas vamos decidir isso juntos. Pegue o primeiro avião e traga seu segurança para casa. Não quero mais ver meus homens serem massacrados por um fantasma. — Estamos de saída. Em poucas horas estaremos na mansão. Desligo o telefone, guardo as fotografias de Irina dentro dos envelopes sob o olhar atento de Feliks. — O que você encontrou? — Ele pergunta fingindo desinteresse, mas não tira os olhos dos envelopes. — Algumas fotos de Irina, passaportes, dinheiro e algumas bugigangas. Essa mulher tem uma queda por homens problemáticos, pelo que pude perceber, mas sem dúvida não passa de uma idiota. — Jogo os envelopes na gaveta e me abaixo para encaixá-la dentro do guarda-roupa — Não vamos levar nada Feliks ou teremos problemas no aeroporto. Onde você encontrou essa caixa de papelão? — Em um quartinho que fica no quintal, acho que é uma dispensa.


— Coloque de volta, exatamente no lugar onde estava, não quero que Irina suspeite que estivemos aqui fuçando as coisas dela. Se tiver alguma câmera escondida e ela entregar para a polícia, nós dois teremos sérios problemas. — Não tem câmera nenhuma, Ivan. — Garante e eu acredito, já que ele sabia exatamente aonde ir e o que devia encontrar. Miserável! Empurro a gaveta, que trava da mesma forma que travou para sair. Finjo irritação e impaciência. — Porra! Depois de guardar essas coisas, fica de olho no portão e vê se não tem ninguém seguindo a gente. Agora que sabemos que o Rey está vendido para a Bratva é melhor redobrar o cuidado ou vamos acabar como Bóris e Pavel. — Estou indo, pode ficar tranquilo que eu vou ficar de olho. Assim que ele sai, enfio os envelopes nos bolsos internos do paletó e saco minha arma. Pé ante pé, passo pela sala confirmando que o desgraçado não mexeu em nada. Apenas fingiu. Quando li o nome de Reynaldo no caderno, soube na mesma hora que havia alguma coisa errada, só não sabia o que era. Se Natasha soubesse que o amigo de Fillipo estava vendido ao nosso inimigo, ela não perderia tempo em exterminar o menino e nós ficaríamos sem ninguém para nos ajudar com os trabalhos de informática, pois Sarina já está nas mãos do desgraçado. Agora fica fácil de entender como Ramona apareceu no quarto logo depois da minha briga com o verdadeiro traidor, e como o sequestrador sabia o momento exato de invadir o quarto de Sarina sem que eu visse. Também explica o motivo de Feliks ter sido deixado dentro do porta-malas, com vida, depois de levar apenas alguns socos para que eu me impressionasse com os ferimentos, e também servir como desculpa para que o segurança não me acompanhasse até o escritório de Alik. Por que não o mataram se um dia antes, dois dos nossos melhores homens tinham sofrido uma emboscada que matou um e feriu gravemente o outro? Na máfia não há espaço para erros e se o inimigo está sob o seu domínio, não deve hesitar em mata-lo ou a próxima chance de resolver o problema, pode ser dele. Coincidências a parte, em poucos minutos os voyennyye estarão


aqui para eliminar todas as provas, e sei que esse desgraçado que me odeia e está com Sarina, não contava que eu fosse encontrar a gaveta com os envelopes. Talvez até Irina tenha se esquecido dela. Estava tudo armado para que somente a caderneta com o nome de Reynaldo fosse encontrada e utilizada a favor dele. Afinal de contas, quem seria culpado pela morte do nosso hacker caso a Imperatriz detonasse a cabeça do garoto? Mas vou fazer com que ele pense que seu plano deu certo e comprovar o que Alik já havia falado algumas vezes: não tem ninguém melhor do que eu quando o assunto é estratégia de ataque e defesa. Ouço a voz de Feliks. Ele sussurra escondido atrás da porta da lavanderia, lugar onde supostamente encontrou a caixa com os explosivos e a caderneta. Não consigo ouvir muita coisa porque não me aproximo. Quero pegá-lo de surpresa quando sair. E é exatamente o que acontece. — O que está fazendo, Ivan? Feliks pergunta desconfiado ao me ver com a arma apontada para a sua cabeça. — Com quem estava falando? — O que? — Quem estava falando com você no telefone, Feliks? Não vou perguntar de novo. — O que deu em você? — Não precisa mais mentir, meu camarada. A Natasha já descobriu tudo sobre a sua traição. O corpo avantajado do segurança tenciona e seus ombros se elevam simultaneamente. — Não sei do que você está falando. — Quanto eles te pagaram pra matar seus amigos e entregar a mulher que você vivia chamando devuscha, nas mãos de um lunático fodido? — Cala a boca que você não sabe de nada! — Não sei mesmo. Ainda não consigo me comunicar com ratos e você, seu filho da puta, não passa de uma ratazana gorda e desengonçada. — Tudo que aconteceu com a Sarina é culpa sua, seu bastardo


de merda! Feliks grita com ódio. Não consigo entender o que ele quer dizer. — O filho da puta invade a casa dela, sequestra ela e a culpa é minha? O que ele andou fazendo com você, Feliks? Tá comendo teu rabo, é isso? Arrumou um macho que mete a vara gostoso e te fez ficar burro? — Você é tão culpado quanto o fraco do teu pai ou você acreditou na história de que ele se juntou ao Gravel por que quis? Continuo segurando a pistola apontada para a cabeça dele sem vacilar. Ouvir esse filho da puta falar do meu pai mexe profundamente comigo e eu estou louco para estourar a cabeça desse miserável. — Sergei não conseguiu ficar longe da empregadinha e envergonhou a família toda. Foi o seu avô que expulsou ele de casa quando descobriu que a tua mãe estava grávida e ia parir um bastardo Desdeiev, mas o teu pai se superou quando enviou a puta grávida pra longe e se juntou ao Gravel. Tua mãe só voltou depois que o Império tinha ganhado força e a esposa do teu pai aceitou ele de volta, grávida do amante. Feliks gargalha debochando. Tudo que vejo nesse troglodita que fingiu durante dois anos que estava do nosso lado é inveja. — O que você ganhou traindo os seus amigos, hein? Quem é esse filho da puta que quer se vingar de mim? — Sabe o que eu ganhei Ivan? — Ele pergunta enfiando as mãos nos bolsos — Ganhei dinheiro, muito dinheiro. E quando o legítimo Pakhan levantar a Bratva novamente, eu vou ser o novo conselheiro, o braço direito dele. — Quem é ele, Feliks? — Você nem imagina Ivan? Não faz ideia de quem possa te odiar mais do que qualquer outra pessoa? Ele vai aparecer na hora certa e vai mostrar o que acontece com os bastardos filhos de putinhas que acham que podem se misturar com o alto escalão da máfia. — Que pena que você não vai me contar o nome dele, já que é assim, vou fazer o que o konsult’ant do Império faz com um traidor de merda, Feliks. Ele arregala os olhos, mas não há tempo para resposta, questionamento ou ação. O primeiro tiro vai direto no meio da testa e


quando ele despenca no chão, disparo mais três vezes, uma vez em cada olho e a última entre a boca e o nariz. Esbagaço a sua cara feia para que fique irreconhecível e dificulte na identificação do corpo. Preciso ganhar tempo para analisar tudo que encontrei e descobrir quem é esse maldito. O barulho da freada de carro em frente à casa de Severino me alerta que está na hora de sair dali e deixar o serviço para os homens da faxina. Do lado de fora, Giuseppe coordena a equipe que ficará responsável pela destruição de tudo e quando me vê, aponta para o carro que irá nos levar ao aeroporto de Vangograv. O motorista abre a porta traseira e um enorme sorriso desliza em meus lábios quando reconheço o nosso acompanhante. — Esse dia está ficando cada vez melhor. — Guardo a pistola afivelando o coldre — Como vai Petrus? Pelo jeito seu irmão não quis cooperar, hein? — O que vocês fizeram com a minha mãe, seu pau no cu? — Hum... talvez eu faça com ela a mesma coisa que o novo chefe da Bratva está fazendo com a Sarina, o que acha? A cara de horror do filho mais velho de Edik Falin e irmão de Gustav ao imaginar sua mãe fazendo seja lá que for que ele tenha imaginado, me diz muito mais do que cem palavras poderiam dizer, e o medo atinge meu peito com a força de um raio. — Tem duas coisas que você precisa saber sobre mim, Petrus. — Relaxo no banco de couro da limusine sem tirar meus olhos dos seus — Feliks está morto, nós já sabemos quem roubou a fórmula de Joseph Lucas e Irina deixou algumas coisas interessantes para trás na pressa de se mandar. Eu sou um cara calmo e não gosto de usar violência para conseguir o que eu quero, mas quando começo, ninguém consegue me parar. Abro o envelope preto, tiro a foto em que Irina está com Ramona em frente ao navio e jogo em cima dele. — Quem é essa mulher que está com Irina? — Você não sabe? — Petrus me pergunta confuso. — E por que eu deveria saber quem ela é? Seu indicador aponta para a fotografia e ele responde a primeira, de muitas perguntas que irão mudar completamente o conceito que eu


tinha e respeitava sobre a palavra família. — Você não é o filho bastardo de Sergei Desdeiev? Não respondo, pois odeio a maneira que as pessoas se referem a mim como se eu não fosse filho do meu pai pela minha mãe ter sido sua amante, e não sua esposa. — Essa aqui é a Ramona. — Ele fala o que já sei, e como eu permaneço em silêncio ele continua: — Ramona Desdeiev, a filha mais nova do Sergei. Ela é sua irmã. Giuseppe entra no carro sem entender o meu estado catatônico. Ele faz algumas perguntas que eu não ouço, xinga alguns palavrões que eu ignoro e me passa algumas informações que eu dispenso. Apenas a palavra irmã rodopia no meu cérebro e só então, tudo começa a fazer sentido. Pena que para mim, o sentido que eu tanto quis entender é bem diferente do sentido que eu pensei que fosse, e as palavras “conflitos familiares” nunca fizeram tanto sentido...


CAPÍTULO 12 – MIKAYL SERGEEVICH DESDEIEV

— Chefe, ela acordou. Solto a barra de ferro no chão, bebo água e pego a toalha para secar o suor do rosto. — Não quero ninguém a menos de cinquenta metros daquele quarto. — Olho por cima do ombro fazendo o imbecil se borrar de medo — Qualquer um que desobedecer, morre. — Sim, senhor. Caminho em direção ao banheiro na intenção de jogar uma água no corpo. Estou encharcado de suor depois de ter transado como um louco e levantado peso por quase uma hora. — Por que essa preocupação toda com a vagabunda? Paro antes de chegar a porta que separa a academia do banheiro e olho para trás. Irina está deitada em cima de alguns colchonetes, nua e descabelada. Uma vadia, das muitas que eu fodo, mas com alguns privilégios dentro da minha casa por ser a única amiga de Ramona a outra filha de Sergei que eu sou obrigado a aturar. Com a diferença que fui eu que cuidei da menina desde que ela chegou aqui, com treze anos. — O que eu já falei sobre esse tipo de pergunta? Enfio as mãos no bolso e sorrio. Irina sabe o que vai acontecer por ter me questionado como se fosse alguém importante e ainda assim, faz sempre a mesma merda. No fundo eu acho que ela gosta, só pode ser. O problema é que eu adoro e quanto mais irritado, mais dor quero causar. — Me desculpa, Mika. — Ela se encolhe quando me vê alterar a rota e caminhar em sua direção — Por favor, não me machuque. Eu não vou mais perguntar nada, me perdoe. Me perdoe! — Tarde demais, suka. (1)


Eu não vou atrás de mulher, são elas que veem até a mim. Irina, assim como todas as outras, esfregam a boceta na minha cara e imploram para serem fodidas pelo meu pau, mas elas sabem que nada é de graça comigo. Agarro Irina pelos cabelos e arrasto seu corpo até o aparelho onde faço meus abdominais. É uma prancha com inclinação invertida com suporte para os pés. Coloco seu corpo magro sobre o estofado e prendo seus pés as algemas para que ela não se mexa. — O que vai fazer, Mika? Pelo amor de Deus, pare com isso! Sua cabeça está na parte mais baixa e os pés na mais alta, unidos e presos pelas algemas que começam a marcar sua pele branca. Pego mais um par de algemas e prendo seus pulsos por baixo da prancha. Ela grita, chora, se debate, implora para que eu a solte, mas todas as suas reações são como florais e essências calmantes para mim. Pego o bastão menor, que mede trinta centímetros de comprimento e foi feito com cabo de vassoura e revestido com látex. Abro o tubo de lubrificante e encharco a ponta em forma de flecha. Separo as coxas finas de Irina e encaixo o bastão no meio para que a ponteira fique exatamente na entrada de sua boceta, fixando a outra ponta na base do aparelho. A cena me excita pra caralho! — Cada vez que você pensar em se mexer, o bastão afunda um pouco nessa tua boceta safada. — Dou um tapa na cara dela com tanta força que até a palma da minha mão arde — Se você tentar sair, ele entra mais um pouco — Outro tapa e desabotoo a calça colocando meu caralho para fora — Se gritar ou tentar fechar as pernas, eu mesmo vou enfiar esse bastão na tua boceta até ele sair pela boca. Fico pelado e meu pau endurece só de olhar para a cara de dor que ela faz cada vez que soluça e o bastão se enterra um pouco mais na boceta dela. Passo a perna esquerda sobre a prancha e fico de frente para Irina esfregando meu pau em seus lábios. — Abre a boca suka e chupa meu cacete. Irina é obrigada a levantar a cabeça para engolir minha rola. Eu meto sem me preocupar com a sua ânsia até gozar em sua garganta, apertando seu nariz e delirando ao vê-la ficar roxa pela fata de ar. Quando eu a solto, sua cabeça tomba para o lado e ela grita novamente sentindo o bastão penetrar sua boceta. Saio de cima dela e me inclino para chupar seu clitóris. No fim ela também goza como a


vadia depravada que é. — Vou resolver minhas questões Irina e quando voltar, quero ver quantos centímetros do bastão sua boceta engoliu. — Bato de novo em sua cara, dessa vez com o punho fechado. Seus olhos lacrimejam e vou ao êxtase. Seguro novamente seus cabelos com força e mordo o bico do seio direito arrancando-lhe um grito estridente de dor e sussurro bem próximo ao seu ouvido: — Da próxima vez, não me questione sua vagabunda! Irina apaga e eu a deixo desacordada depois de vestir minha calça para encontrar uma outra vagabunda, mas essa, tem um valor inestimável para os meus propósitos e também vai sofrer as consequências por ter fodido meus planos anos atrás. Meus homens abaixam a cabeça quando passo por eles em sinal de respeito. — Chefe. — Czar me chama — O que devo fazer com o corpo de Ruric? O chefe da segurança e meu braço direito está parado no pé da escada, esperando a ordem para desovar o que sobrou do velho maldito que me desafiou quando Sarina foi trazida para cá, há dois dias. Estava na hora de mandar o desgraçado para os quintos dos infernos e embora eu tivesse outros planos para a morte dele, não podia deixar em branco a sua desobediência. — Corte em pedaços e sirva de almoço para os urubus, mas bem longe daqui. Não suporto cheiro de carne estragada. Viro de costas e sigo meu caminho até o segundo andar. O último homem estava no andar de baixo, como eu havia mandado. Abro a porta do quarto e vejo a pretinha gostosa sentada na cama. — Pensei que tivesse desistido. Os olhos da mulata me observam com cautela. Sei o quanto sou bonito e chamo a atenção das mulheres, e com ela não é diferente, embora tente disfarçar e acho que até se sinta culpada por ainda me achar atraente depois de tudo que eu e meu avô já fizemos com ela. — Por que não me deixou morrer? Quero gargalhar, mas não posso. Foco e concentração é tudo que preciso para atingir meu primeiro objetivo. Ivan Keritov é o bastardo filho da puta que arruinou a minha família, foi por causa dele que meu pai nunca esteve presente na minha vida.


— Porque eu preciso de você para terminar o que comecei. A conversa com Sarina deveria ser rápida e direta, mas se estende mais do que eu gostaria e me faz perder parte do controle quando conto a ela sobre os meus planos. Não preciso esperar sua resposta, pois já sei qual é. Foi por causa do bastardo que essa puta refugiada acertou o tiro no meu peito que quase me matou e por causa dela, todos os meus planos foram adiados para que eu pudesse me recuperar e retomar de onde havia parado. — Se você recusar se casar comigo e levar essa gravidez adiante, Sarina, eu entrego o vídeo para o bastardo junto com o resultado do exame que será positivo, depois de me apresentar e contar tudo que aconteceu com a minha família por causa dele, e ainda meto duas balas na cabeça do infeliz em homenagem aos dois filhos legítimos que o desgraçado do pai dele rejeitou por causa do bastardo que teve com a puta da empregada. — Lambo seu rosto, lentamente, apreciando a maciez de sua pele negra e o cheiro singular da mulata — É isso que você quer que aconteça? Eu me afasto e deixo o quarto de pau duro. Um efeito que o sofrimento das mulheres causa em mim. Eu vou foder essa desgraçada até esfolar mau caralho e só vou deixar ela viva enquanto Ivan Keritov for útil para que eu atinja o meu segundo objetivo, que é acabar com a Imperatriz e todo seu Império de bosta da mesma forma que o pai dela fez com a Bratva. Não tenho o menor interesse na preta. Ela tem uma boceta gostosa e um rabo apertado que dá gosto de meter e só de imaginar a cara de Ivan quando souber que a vadia que ele ama, trepou e engravidou do homem que vai acabar com a vida dele, compensa qualquer coisa. Além do mais, eu nunca assumiria um filho negrinho dela. A gravidez foi a forma que encontrei de força-la a fazer o que eu quero e atrair Ivan, mas meus planos para Sarina acabam aí. Quando o bastardo tiver sua lição, eu acabo com ela e com o filho dela antes que nasça. Subo um lance de escada e vou para o meu quarto, o único cômodo do terceiro andar e o lugar frequentado exclusivamente por mim. Meu telefone toca e o nome de Ramona pisca na tela. — Nenhuma prova de que o incêndio foi proposital. — Ela fala


de primeira — Eles encontraram um problema na parte elétrica do banheiro e acreditam que houve um curto circuito. — Onde você está? — No carro, perto da delegacia. Acabei de falar com Anatoily. — O que você acha? — Ainda não sei, mas o sumiço de Feliks levanta algumas dúvidas sobre a lealdade dele, não acha? — Não. Ele estava na casa da Irina com o bastardo e pude ouvir parte da conversa entre eles. Se Feliks quisesse me trair não teria mostrado a caderneta com o nome do braço direito do Capo italiano e colocado um alvo na cabeça do garoto. — Vou ligar para ele de novo. — Volte para casa, nossa missão em Volvograv acabou. — Não vai deixar Sarina se despedir do irmão? Tiro a calça jeans e a jogo no cesto de roupas. Eu odeio esse sentimentalismo de Ramona, ela sabe que comigo não funciona. — Ela não vai mais sair daqui. — Não pode fazer isso Mika, ela não é sua escrava. Sorrio ao me lembrar dos poucos meses em que fiz da mulata minha escrava. Meu avô parecia outro homem com a presença dela andando nua pela mansão com as correntes penduradas pelo corpo nos servindo sua boceta e seu cuzinho várias vezes por dia. — Talvez eu queira que ela seja. — Minha irmã reclama — Está decidido Ramona, ela só sai daqui depois que eu acabar com o bastardo. — Você matou o irmão dela, Mika. — Grande merda. — Ele merece um enterro decente e se ninguém vier reconhecer o corpo até amanhã de manhã ele vai ser enterrado como indigente. — Foda-se, Ramona! Porra! — Grito sem paciência — Esquece aquele imundo e vem logo pra casa, aproveita e tira a sua amiga daqui antes que eu arrombe ela inteira. — Irina está aí? Minha irmã é tão inocente que as vezes fico em dúvida se a ter trancado na mansão todos esses anos foi a melhor decisão. Ela vai completar vinte e dois anos, aprendeu tudo que precisava para ser uma excelente assassina e está provando que é, mas nunca esteve com um homem e nem imagina as coisas que as pessoas são capazes de fazer por


causa de sexo. Seu casamento fará parte de uma negociação da Bratva e será realizado no dia em que eu fizer o anúncio sobre o retorno da máfia mais poderosa da Rússia. Petrus Falin, meu Avtoriyet (2) e noivo de Ramona, faz questão de que sua futura esposa permaneça virgem até a noite de núpcias. Minha irmã foi trazida para Sóchi aos treze anos, depois que Ruric aceitou pagar o valor que Ivana cobrou para lhe vender a própria filha. Naquele ano, meu avô começou a dar os primeiros passos, aliado a alguns membros do Império que estavam insatisfeitos com algumas decisões do Imperador, rumo ao resgate da Bratva. Petrus e Ramona foram usados para que o contrato de casamento que marcaria o início oficial da reconstrução da organização mafiosa fosse concluído, e com ele, uma nova geração de jovens russos passou a ser treinada para se tornar a melhor, entre todas as que já existiram. E eu garanto que será. Todos os recrutados estão sob os meus cuidados há cinco anos, e são como verdadeiras sombras mortais usufruindo dos recuos noturnos, do medo, do desespero e das necessidades das pessoas. — Eu disse que ela voltaria, daragáya,(3) não disse? — Não posso acreditar... — Pois acredite, as mulheres gostam do que eu faço com elas. — Vou perguntar isso a todas que você e seu avô mataram. — Se conseguir falar com alguma delas me avise, será uma experiência e tanto descobrir que a minha pequena mascote consegue falar com os mortos. — Idiota! — Volte para casa Ramona, amanhã cedo seu noivo estará aqui para nos acompanhar nas vistorias das plantações de heroína e ele faz questão da sua presença. Sem despedida, ela encerra a ligação e sei que está contrariada. Ramona não quer se casar, pois não acredita em relacionamentos ou no amor. Não posso julgá-la, pois também não acredito em nada disso, mas minha irmã não tem escolha e sabe que se não obedecer minhas ordens, sofrerá as consequências como uma vagabunda qualquer. Hoje não fui trabalhar, precisava resolver meus problemas pessoais. Com a mudança de última hora nos planos e a nova decisão de


manter Sarina debaixo do mesmo teto que eu até o fim da gravidez, tive que me isolar para definir qual estratégia deveria usar. Ligo para a médica ginecologista que examinou a mulata depois que descobri o que meu avô havia feito com ela e peço para que venha novamente amanhã para realizar novos exames, inclusive o de gravidez. Batidas na porta me obrigam a colocar uma roupa limpa mais apressadamente. A única pessoa autorizada a vir até o terceiro andar é Czar, e ele só vem quando o assunto é muito importante. — Chefe, temos um problema. — O que foi? — Petrus saiu do laboratório de Moscou no domingo à tarde e ninguém sabe onde ele está. Encaro Czar que me encara de volta, preocupado. Não gosto de ser pego desprevenido e o sumiço repentino dos dois homens que são peças fundamentais para que o meu plano seja realizado me deixa irritado. — Encontre Alik e diga que preciso dele aqui o mais rápido possível. — Alguma coisa em mente, chefe? — A única coisa que eu tenho em mente é acabar com Ivan Keritov e explodir o Império, mas preciso saber em que pé que está o trabalho de Petrus no laboratório de Kazã, e só conheço uma pessoa que pode fazer esse serviço pra mim. — O Padrinho. Czar fala e eu assinto. Alik Baruk não é o meu aliado preferido, mas ele está tão interessado quanto eu nas alterações que Petrus está testando na fórmula da Famale Fantasy. Quero deixa-la ainda mais potente. Eu vi o que apenas um comprimido de dois miligramas foi capaz de fazer no corpo de uma mulher. Sarina ficou irreconhecível e insaciável por mais de duas horas, mas quando o efeito passou a mulata não conseguia sequer se manter em pé. Com o segundo comprimido, o tesão voltou mais forte que da primeira vez e o efeito foi um pouco mais prolongado. Eu tinha ouvido alguns relatos de homens que haviam trepado com usuárias da droga, mas não sabia que uma mulher pudesse ficar


daquele jeito por tantas horas. Sarina acabou comigo e eu aproveitei para foder sua boceta sem camisinha em todas as posições só para ter o prazer de plantar minha semente dentro dela. — Essa droga é o meu convite VIP para que todos os traficantes de mulheres se unam a mim e me apoiem quando eu declarar a guerra contra o Império. Foi para isso que investi uma fortuna naquele laboratório e preciso me certificar de que poderei atender a demanda quando começar a comercializá-la. — Vou ligar agora mesmo. — Irina está na academia, livre-se dela. — Devo levar a menina pra casa? — Não. Deixe a puta com o Krigor e fale pra ele que hoje ela é cortesia da casa. — Ramona não vai gostar de saber que mandou a amiga para o clube, chefe. — Está na hora de Ramona parar de andar com essa vagabunda e se ela não gostasse do que eu faço, não voltaria aqui implorando pra ser fodida. — E a outra, chefe? — Czar pregunta se referindo a Sarina — Vai deixar ela naquele quarto ou vai leva-la de volta para o porão? — O lugar dela é lá embaixo, mas vou esperar a visita da médica para saber o que posso ou não fazer. Talvez meu filho não aguente tudo que eu gosto de enfiar na mãe dele e eu não quero mata-lo antes da hora. — Já pensou em ser pai, chefe? — Não, e nem quero pensar. Agora vá fazer o que mandei e me avise se tiver qualquer notícia de Petrus ou Feliks. Fecho a porta e volto para o quarto. Entro no closet e pego a caixa de madeira que fica dentro do cofre, protegido com senha. Retiro a tampa e pego a única fotografia que tenho de Sergei e Ivana, juntos, logo após o meu nascimento. Eles estão sorrindo e olhando na mesma direção, para mim. O bebê acolhido e protegido nos braços de meu pai. Não me lembro de uma só vez em que ele brincou comigo nem mesmo disse que me amava. Se fechar os olhos, ainda posso ouvir a discussão na noite em que Pavlov, o Pakhan, ficou sabendo que a empregada prostituta e amante do meu pai, estava grávida e traria ao mundo um herdeiro


bastardo para compartilhar o sobrenome da nossa família e exigia uma providência, pois não queria mais problemas com membros da primeira elite que eram radicais quanto a infidelidade de um membro a sua família. Ruric não se conformava por ter sido traído pelo próprio filho e exigiu que ele impedisse o bastardo de nascer, mas Sergei se recusava e enfrentava o pai como ninguém jamais havia presenciado. Anunciou aos quatro cantos do mundo que amava a sua prostituta, tinha sido forçado a se casar e que o filho de Sonia era o único que ele amaria e protegeria. Os gritos ecoavam pela mansão de Ruric enquanto eu permanecia escondido dentro do armário, onde as armas que seriam contrabandeadas ficavam guardadas. Pavlov foi o primeiro a ir embora, mas antes de partir, avisou meu avô que ele deveria resolver os problemas com seu único filho ou seria expulso da Bratva. Sergei também saiu de casa naquela noite, depois de ter sido deserdado pelo meu avô. Minha mãe se revoltou quando soube que ficaria na miséria e passou a beber todas as noites, chegando em casa embriagada e acompanhada por diferentes homens. Pavlov cumpriu sua promessa e expulsou meu avô da Bratva para que ele servisse de exemplo. Ridicularizado e humilhado, Ruric deu início ao seu negócio particular e me trouxe com ele para Sóchi. Foi aqui, nessa casa onde tudo começou e ao lado dele e de seu único amigo, Dyveck Stálin, que eu me tornei seu braço direito em todos os negócios. Desde cedo fui treinado para odiar e matar qualquer um que se metesse nos negócios da nossa família. Ruric sempre foi leal a Bratva e tentou introduzir essa lealdade em mim, mas ao contrário de meu avô, eu sou leal apenas ao que me interessa e pelo tempo que me convém. Por mais de trinta anos distribuímos nossa droga, vendemos nossas armas e traficamos prostitutas pelo mundo afora na surdina, agregando contatos, formando alianças e ganhando dinheiro. Abrimos boates renomadas, clubes de sexo dos mais encardidos e empresas de fachada para lavar o dinheiro conquistado ilegalmente. Sempre fomos bons, mas nunca os melhores em decorrência do nome manchado pela traição e vergonha, causadas pelo homem fraco que preferiu o amor da sua puta em vez da honra e de sua família legítima.


Uma família inteira arruinada por causa de um bastardo filho da puta que sequer se apresenta como seu membro. Um impostor indigno que não merece ter nada. Não merece viver. Ruric tinha vontade, gana e foi leal, mas era burro, cabeça dura e cedia facilmente as tentações que o corpo de uma mulher lhe oferecia. Eu também tenho uma fraqueza, uma tentação, e ela quase me levou a ruína a alguns anos atrás. Jurei que nunca mais permitiria que meus desejos obscuros se sobressaíssem as minhas metas de conquistas e depois do tiro que Sarina disparou contra mim, induzindo a minha morte na esperança de salvar seu fodido bastardo da morte, eu sabia que não poderia mais falhar ou iria perder a batalha, assim como meu progenitor. Guardo a caixa e saio do quarto. Desço um lance de escada e paro à frente da porta do quarto onde Sarina está acomodada. Eu tenho dois objetivos na vida e vou alcançar os dois em breve. Eu tenho uma tentação e devo refrear meus pensamentos. Mas, tudo que eu penso quando me lembro da fotografia guardada naquela caixa é em vingança, ódio e fúria. Lembro da mulata nua e acorrentada quando eu e Ruric a fodemos pela primeira vez em cima da mesa de jantar na frente de vários convidados que vieram exclusivamente para assistir à degustação da pretinha safada. Ela chorava copiosamente e quanto mais lágrimas desciam pela sua face mais eu me deliciava dentro dela. Ganhei muito dinheiro naquela noite com Sarina. Todos a desejavam e se dispuseram a participar de um leilão para ganhar duas horas com a mulata. Depois daquela noite, o porão nunca mais foi o mesmo... Meus músculos protestam, meu pau enrijece. Giro a chave que está do lado de fora e abro a porta. O quarto está escuro e Sarina dorme encolhida sobre o colchão. Fecho a porta trancando-a por dentro. Fecho a janela e paro ao lado da cama para admirar o corpo convidativo da mulher que Ivan Keritov ama. Se eu estiver certo, o bastardo descobrirá quem eu sou e virá atrás da sua puta, mas enquanto isso não acontece vou mostrar a ele como ela gosta de ser comida. Posiciono o celular em cima da cômoda, tiro a calça junto com a


cueca e me aproximo novamente da cama. Deslizo minhas mãos pelas pernas de Sarina subindo a barra da camisola branca até a cintura. Ela se remexe e acorda assustada. Tenta se levantar, mas eu impeço segurando seus braços. Ela grita, se debate, cospe e eu apenas contenho seu furor com a minha força até que ela perde as dela, amolece em meus braços e começa a chorar. E é nessa hora que o monstro alimentado pelo ódio sai da escuridão em busca de prazer. Ele necessita da dor e do desespero enquanto a sua hora não chega. O desejo de machucar é muito maior do que o de matar. Felicidade é sinônimo de ferir, ver sangrar, admirar o brilho dos olhos se apagando e cumprimentar o vazio deixado depois de ter sugado toda a energia da preza, esvaziado sua alma e destruído seus sonhos. Sarina não consegue me parar, ninguém consegue. Arranco sua roupa e acomodo seu corpo no chão. Não vou beijar sua boca nem chupar sua boceta. Só quero acabar com ela, deixar seu corpo marcado para que Ivan veja e jamais esqueça quem esteve dentro da mulher dele. Viro seu corpo caído no carpete e me ajoelho no meio de suas pernas. Acaricio sua bunda empinada e gostosa. Meu pau pulsa. Ela não para de chorar me deixando com mais vontade de bater nela até faze-la desmaiar como fiz com Irina, mas então me lembro do celular filmando tudo e me contenho. Acaricio suas costas, coloco seus cabelos para o lado e cubro seu corpo com o meu. Esfrego meu cacete em sua bunda, beijo seu pescoço e chupo o lóbulo enquanto minhas mãos passeiam livremente por suas curvas. Sarina renova sua motivação e tenta novamente se livrar do peso extra que sobrecarrega sua coluna, mas eu agarro seus punhos e prendo os dois em suas costas, bem acima da bunda. Fico de joelhos e afasto suas pernas posicionando meu pau na sua entrada. Ela pode negar o quanto quiser, mas vejo o brilho da sua excitação de onde estou. Sorrio satisfeito e empurro meu pau para dentro dela sentindo seu calor me acolher gentilmente. Ela grita, volta a implorar para que eu pare, chora mais um


pouco e segue sua penitência sussurrada por longos minutos enquanto eu fodo sua boceta com força. Suor escorre por todo meu corpo e cai sobre o dela. Puxo seus punhos brutalmente quando sua apatia e silêncio me incomodam. Ela urra de dor turbinando meu tesão novamente. Gozo dentro dela, empurrando, socando, metendo tão fundo para que nenhuma gota escape. Ivan verá como a mulher que ele ama se sente depois de ser comida pelo seu próprio irmão. Quero que saiba que eu arrombei tanto a boceta e o cu de Sarina, que todas as vezes que ele pensar em meter nela, nunca vai ter certeza de seus pensamentos ou em quem ela estava pensando. Se no homem que ela diz que ama ou no monstro que a violenta e a faz gozar como a vagabunda mercenária que ele sempre desconfiou que ela fosse. Tiro meu pau de dentro dela e solto seus braços. Sarina continua deitada no chão com a cabeça virada para o lado oposto, evitando meu olhar debochado de fim de foda. Pego minhas roupas, meu celular e antes de deixar o quarto, sussurro bem pertinho do seu ouvido: “Só não esquece que o meu maior prazer é saber que cada vez que eu enfio meu pau em você, é uma facada que eu enfio no coração do bastardo. Não é por você, nunca foi e nunca vai ser, sua putinha de merda. Tudo que eu faço contigo é pra foder a vida dele e eu vou foder Sarina... Vou acabar com a vida daquele bastardo filho da puta, e ele vai me agradecer quando eu anunciar a morte dele, porque eu vou te comer tanto, mas tanto, que ele vai preferir morrer do que ver eu acabar contigo na frente dele. E eu não vejo a hora de enfeitar teu pescoço com a gargalheira, te amarrar no tronco e te castigar até ouvir você implorar pra eu te foder com força, minha escrava”

Saio do quarto e vou direto para o escritório. São dez da noite e Cezar me espera sentado no sofá. Sirvo 2 copos de uísque e ofereço um a ele. Seus olhos escrutinam os meus. Eu tranco a porta e ocupo o lugar que pertenceu ao meu avô.


Czar vira todo o líquido e deixa o copo em cima da mesa. — Como ela reagiu? — Sinto seus dedos massageando meus ombros e sorvo mais um gole de olhos fechados. — Como sempre. — Está cansado? Sua pergunta me faz sorrir. Czar sempre foi o fiel escudeiro de Ruric, desde os seus quinze anos, quando foi vendido ao meu avô por seus pais. Nós temos a mesma idade e criamos um vínculo de amizade verdadeiro, que se transformou em algo muito maior depois que descobrimos o quanto somos parecidos. — Eu nunca vou me cansar de foder e você sabe bem disso. Suas mãos descem pelo meu corpo chegando ao meu pau que já dá sinal de vida. — Quero que me leve para o porão. — Ele fala se ajoelhando a minha frente — Fiquei com inveja dela. — Qual das duas? — Da preta, claro. Abro mais as pernas deixando que ele desabotoe minha calça. Levanto o quadril quando ele puxa com a cueca e meu pau salta para fora, bem na cara dele. — Nenhuma mulher aguenta como um homem. — Falo e fecho os olhos ao sentir a boca de Czar engolir meu pau. — Posso pedir para o garoto novo vir junto, se quiser. Seguro sua cabeça e impeço que me chupe rápido. Não quero gozar ainda e a sugestão de foder os dois seguranças me atrai. — O careca que tem uma tatuagem no antebraço? Czar confirma com a cabeça dando um sorriso de lado, mas não para de mamar minha rola. — Vou comer os dois cuzinhos e gozar na cara de vocês. — Bato na cara dele — É isso que vocês querem? Ele confirma piscando várias vezes. Empurro seu corpo com força, jogando-o para trás. — Vai na frente e chama o garoto. — Ordeno fechando o zíper da calça Czar sai do escritório e eu bebo o restante do uísque direto da garrafa. Uma das coisas que meu avô me ensinou foi que, um homem


para ter sucesso precisa ser inteligente e para ter prazer precisa de outro corpo que saiba o que fazer com o seu. Descobri ainda menino que tanto o homem quanto a mulher não se apaixonam por você, eles se apaixonam por quem esperam que você seja. Eu gosto de foder uma boceta e se tiver que escolher, certamente ficarei com a mulher, mas para o meu objetivo eu preciso de coisas que apenas os soldados podem me oferecer, como a sua lealdade e fidelidade. E foi quando eu descobri que posso usar a minha rola para fazer meus soldados darem a vida por mim, que eu passei a enrabar todos os que estivessem a fim de me dar o cu. Czar não foi o primeiro, também não será o último, mas se tornou meu aliado e confesso que de vez em quando foder o rabo de um macho não é nada mal para variar o cardápio. Meu celular recebe uma notificação de mensagem e estranho. Ramona não gosta de enviar mensagens. “Encontrei Petrus. Vamos dormir em Moscou, amanhã de manhã estaremos em casa” Estranho mais ainda a própria mensagem e penso em telefonar para ela, mas uma batida na porta e sei que está tudo pronto no porão. Resolvo provocar minha irmã antes de dispensá-la: “Não transe antes do casamento” A resposta chega rapidamente e desisto de prolongar nossa conversa, vendo que ela está de bom humor. “Estou me guardando para um italiano lindo...” Guardo o aparelho no bolso da calça e saio do escritório sem fazer barulho. A mansão é cercada por câmeras de monitoramento e a equipe de segurança faz rondas a cada dez minutos em torno do terreno. O cheiro de sexo é forte quando abro a porta de ferro pesada, e sem precisar acender a luz posso ver os dois seguranças de quatro na beirada da cama. As bundas brancas parecem apetitosas. Pego os dois chicotes e


me aproximo por trás deles. Eles não me veem, mas posso ver seus rostos através do espelho oval. Acaricio os rabos ao mesmo tempo antes de tiras as calças e ficar pelado. Esfrego meu cacete na bunda de Czar e depois na do novato, que rebola se oferecendo. Gosto disso. — Hoje vocês vão apanhar que nem homem e dar o cu que nem putinha. Alguns homens nasceram para obedecer, outros para mandar. Eu nasci para dominar. Mas primeiro, eu tenho dois objetivos que precisam ser alcançados. E uma tentação que deve ser controlada. Eu quase me perdi uma vez e para a minha sorte tive a segunda chance. Mas por ser fraco eu me deixei levar pela tentação novamente. E para provar o quanto eu aprendi com os erros anteriores, dessa vez eu estava preparado...


CAPÍTULO 13

— Como você está com tudo isso? — Não sei. — Será que ele está falando a verdade? — Não sei. — Você quer levar isso a diante e descobrir sobre essa tal de Ramona? — Não sei. — Você quer que eu peça pro Giu comer o seu rabo? — Que porra, Natasha! Tá louca ou o que? Ela dá de ombros e desencosta da mesa. — Foi só pra ter certeza que não tinha engolido um gravador com a resposta “não sei”. — Eu não sei o que pensar, caralho! — Mas ficar assim nesse estado apático não vai te ajudar a pensar Ivan! — O que você quer que eu faça, porra? — Reaja. É isso que eu quero! — Eu fui para Volgograv pra ajudar a pegar o cara que quase me fodeu pra limpar a barra com a KGB quando eu tinha vinte anos e achei que era o culpado pela morte dos meus pais, e em menos de uma semana eu descubro que tem um louco que além de querer me matar, sequestrou a Sarina por minha causa duas vezes, está empenhado em trazer a Bratva de volta para foder o Império, comprou metade dos nossos membros, infiltrou traidores bem debaixo do nosso nariz, matou duas pessoas que nós dois gostávamos e deixou um em coma. — Paro apenas para recuperar o fôlego, mas sinto meu corpo agitado e quero jogar tudo que está em cima da mesa no chão — Se já não fosse o suficiente, nas últimas três horas descobri que nada do que meus pais me falavam é verdade, que eu tenho uma irmã, que aliás, está mancomunada com o mesmo desgraçado que quer me matar e eu nem


sei o motivo de todo esse ódio dele por mim! EU NÃO SEI O QUE FAZER, PORRA! — Não precisa fazer nada agora. — Natasha ergue uma sobrancelha e joga uma pasta preta na minha direção — Você reagiu e era disso que eu estava falando. — Eu explodi, não foi uma reação. — Qualquer movimento é melhor do que aquela cara de cu mal lavado que você estava, Ivan. Pego a pasta e começo a olhar as imagens que estão dentro dela. — O que é isso? — Senta, não quero que caia no chão quando eu disser. Meus olhos veem, mas não enxergam. Puxo a cadeira e volto a me sentar de frente para a Imperatriz. Não consigo levantar a cabeça e desgrudar meu olhar das crianças fotografadas, mas sei que ela está me encarando e esperando a minha reação para começar a segunda parte do filme: “Vamos todos foder o Ivan” — O que é isso, Natasha? — Finalmente eu a encaro. Seus olhos, normalmente azuis muito claros, estão escuros, destacando a pequena nuvem negra que os sobrevoa e me deixa de sobreaviso, pois eu já conheço bem essa mulher para saber que não sou o único a fim de levar essa merda até as últimas consequências. — Quando Giu pegou Petrus e começou o interrogatório, o garoto não abriu a boca. Aguentou as agressões como poucos e ainda tirou sarro dos métodos “antiquados” que o Império usa para conseguir informações. Eu estive com Fillipo do lado de fora o tempo todo, só observando as respostas dele e nós dois chegamos a uma única conclusão. — Eles estão sendo treinados por alguém da Bratva. — Antecipo. — Quem está por trás disso não quer apenas se vingar de você nem te matar. — Natasha apoia os cotovelos sobre a mesa sem esconder o ódio e a vontade de mandar muitos homens para o inferno, que emana de seus poros — Ele quer destruir o Império e fazer exatamente o que o meu pai fez com a Bratva. Fico digerindo suas palavras e encarando seus olhos sombrios. Natasha herdou de seu pai não apenas o sangue mafioso, mas toda a sua


agressividade, frieza e intolerância que são requisitos fundamentais para ser líder da máfia. Um líder de sucesso. Uma verdadeira Imperatriz. A minha Imperatriz, a quem eu devo tudo que me tornei. — Nós temos duas opções Ivan, ou você me prova que eu não me enganei a seu respeito e entra aqui nessa sala, amanhã de manhã, com alguma solução pra pegar esse filho da puta ou eu vou reunir os melhores mercenários que eu tiver e vou invadir o buraco que ele usa pra se esconder, no escuro, e correr o risco de não trazer ninguém de volta pra casa. Nós nos encaramos por mais alguns segundos em silêncio. A Imperatriz também me conhece bem e sabe o quanto eu prezo pela vida, principalmente das pessoas que eu gosto. Claro que ela está me dando a opção de virar as costas e deixar tudo para trás, mas depois do que Feliks e Petrus me contaram sobre a minha família, é como se dependesse de mim o resgate do orgulho que eu sempre senti por ser filho Sergei e Sonia, pois os dois desgraçados insistiram em afirmar que meu pai foi um fraco por amar e defender a mulher que amava, enquanto a minha mãe não passava de uma puta interesseira que só queria usufruir do sobrenome e do dinheiro da família dele. Eu sei que eles não foram nada disso. Sei que tudo isso é mentira e continuo acreditando nas histórias bonitas que ouvi durante a minha infância, mesmo depois da morte do meu pai. Mas agora, é uma questão de honra provar para todos os que duvidaram que meus pais se amaram profundamente, e foi por se amarem dessa forma e lutarem contra as imposições e preconceitos impostos pela sociedade e, principalmente pela Bratva, que eles foram covardemente assassinados. — Me dê algumas horas e eu vou dizer como deveremos agir. — Levanto duas fotografias balançando-as no ar — O que é isso? — Se for verdade o que Petrus disse, Ramona não é a sua única irmã. — Quem é esse outro? — Aponto para o menino vestido com roupas camufladas segurando um rifle de caça. — Mikail Desdeiev, ele se apresenta como filho de Ruric, pai de Sergei, mas falei com algumas pessoas que fizeram parte da Bratva na década de 40 e que conheceram seu avô, e elas me garantiram que Ruric


só teve um filho, seu pai, e depois que a sua avó morreu no parto, o homem nunca mais se casou ou assumiu outra mulher. — Natasha aponta para o aprendiz de atirador — Não é difícil imaginar o ódio dele por você e pelo que podemos ver nessas fotografias, Ruric fez um bom trabalho com o único neto homem e como o próprio sempre fez questão de ressaltar, legítimo. Analiso foto por foto e me pego pensando em como teria sido a minha vida se eu tivesse conhecido e convivido com meus supostos irmãos. Talvez hoje nós fossemos amigos e estaríamos fazendo companhia um ao outro em nossos aniversários e comemorando o Natal juntos. Quanta merda de uma vez só. — Onde Petrus está? — Pergunto para desviar o foco dos meus pensamentos. — No galpão da antiga sede da Bratva. — Gustav? — Levamos o garoto para o galpão do Fillipo para ser atendido por um médico ou íamos perde-lo. — Enrugo a testa e ela dá de ombros — Eu andei ensinando algumas coisas para Giuseppe, e pelo estado de Gustav acho que o italiano aprendeu bem... Balanço a cabeça em descrença fazendo Natasha sorrir. — A mãe deles? — Aqui na mansão. — Mais alguma informação sobre os traidores? — Todos os nomes que estão naquela caderneta foram capturados hoje e levados para o curral. Passamos o domingo inteiro executando a missão chistyy dom. (1) — É um bom nome. — Guardo as fotografias na pasta e fico em pé. — Apropriado para a ocasião. — Traga Petrus para cá, mas não deixe que ele veja a mãe. Prenda ele em uma cadeira, deixe-o sozinho, sem água, comida ou banheiro, como os mafiosos faziam antigamente. Vamos dar um pouco de esperança e deixar que ele pense que somos ultrapassados e que a mãe conseguiu se esconder. Natasha assente e minha cabeça começa a trabalhar como uma máquina de ideias e sugestões que precisam apenas de uma ordem


cronológica para se encaixarem e fluírem a nosso favor. — Peça para Giu amarrar e amordaçar todos os traidores, enfiar eles em um caminhão de frigorífico com temperatura abaixo de zero e andar por umas três horas apenas em ruas de terra antes de traze-los para cá. — Seus olhos se estreitam, mas ignoro — Quando chegarem aqui, não quero que ouçam nenhum barulho. Nada. E antes de serem levados lá para trás, tenham suas cabeças cobertas e sejam algemados uns aos outros formando uma fila de prisioneiros. Deu para entender? — Eles vão pensar que estão indo a um matadouro onde serão executados, como nos antigos campos de guerra. — E serão. — Confirmo — Mas não todos de uma vez e não como Petrus pensa que faremos. Ele não disse que os métodos antiquados não funcionam? Vamos ver se a opinião dele vai mudar depois do faremos amanhã. — Ivan, eu sei que tudo isso está mexendo com você, mas quando pedi para que reagisse não quis dizer para sair matando todo mundo. Temos pessoas para fazer isso, treinadas apenas para matar. — O que o Império faz com os traidores, Natasha? — Pergunto fingindo uma calma que está bem longe de ser sentida. — Todos sabem que não há perdão para traição no Império. — Como você pretendia arrancar as respostas de Petrus? — Torturando e picando ele inteiro. Não quero que o sorriso que desliza em seus lábios me contagie, mas a essa altura já não consigo evitar. — Nós iremos tortura-lo, mas amanhã quando a tortura física começar ele estará muito mais enfraquecido e vai cantar até o hino nacional russo se eu pedir. — Como tem tanta certeza? — Porque o corpo só aguenta a dor quando a mente está protegida, caso contrário, isso não é possível. — Então você vai... — Acabar com o psicológico dele, desestabiliza-lo, deixar o garoto vulnerável e somente quando ele começar a apresentar os sinais de exaustão, vou deixar que você mostre tudo que sabe fazer com uma faca. Ela sorri satisfeita e assente. — Meu Konsult’ant sabe que promessas devem ser cumpridas,


não sabe? — Eu não pretendo tirar o doce da sua boca Imperatriz e sei que não tem ninguém melhor do que você para fazer aquele urubu cantar como um rouxinol. — Estou gostando de ver você em ação, Ivan. — Isso porque eu ainda nem comecei, Natasha. — O que vai fazer agora? — Preciso tomar um banho, trocar de roupa e dormir um pouco. Caminho em direção a porta, mas paro quando Natasha me chama. — Ivan? — Olho para trás e a encontro em pé ao lado da mesa que pertenceu ao seu pai — Você não teve culpa pelo que aconteceu com a Sarina. — Eu sei. — Digo sinceramente — Mas isso não quer dizer que não me sinta culpado por ter feito exatamente o que ele achou que eu faria. — Por que você acha que ele te conhece tão bem? — Ele não me conhece, Natasha. Ela franze a testa e ainda que tenha algumas pequenas marcas de expressão no canto dos olhos, a Imperatriz possui uma beleza ímpar. O Capo italiano é sem dúvida um homem de muita sorte por tê-la ao seu lado como esposa, companheira e mãe de seu filho. — Se não conhecesse não teria previsto as suas reações. — Ele não precisou me conhecer para descobrir a única coisa que precisava para conseguir o que queria, Natasha. — Pode me dizer o que foi que ele descobriu sobre você? Posso, mas não quero. E embora tenha todo direito de omitir, também não quero esconder nada dela. Por isso decido confessar e sei que o que será dito nesse escritório ficará aqui, apenas entre nós dois e essas quatro paredes. Eu confio em Natasha da mesma forma que ela confia em mim. — Ele descobriu a minha fraqueza e a usou contra mim, Natasha. — Sua fraqueza? — De alguma forma ele soube que eu ainda amo a Sarina. — Abaixo a cabeça um pouco envergonhado — Eu posso estar completamente errado e esse cara não ser nada do que estão falando,


mas se eu estiver certo e o que Alik me disse for verdade Natasha, ele vai usá-la para me atrair e consequentemente atrair você e depois vai nos matar para mostrar ao mundo que o novo Pakhan é o homem mais poderoso da Rússia, e a Bratva está mais forte do que nunca. — Nós vamos pega-lo Ivan. — Natasha se aproxima de mim — Ele não vai nos destruir. A Imperatriz me surpreende quando me abraça com força. Eu retribuo o carinho com a mesma intensidade e ficamos ali, por alguns minutos, unidos como dois irmãos buscando força um no outro para combater o desconhecido inimigo, que chegou sorrateiro, se infiltrou entre nós como uma serpente traiçoeira com o desejo de nos destruir e agora está à espera do nosso ataque. Ele fez quase tudo certo, mas pecou quando ignorou um dos princípios básicos da guerra: Nós nunca devemos subestimar o nosso adversário, ainda que ele esteja no chão, sangrando e ferido. Apenas a morte decreta o fim e enquanto houver vida, jamais perca o respeito. Esse cara me odeia e pode até pensar que me conhece. Mas ele está errado e quando eu conseguir regatar Sarina, nós vamos ter muito tempo para resolver as nossas diferenças. Apenas eu e ele, de homem para homem. — Eu não vou deixar ele nos destruir, Natasha. Pode confiar. Ela se afasta e com seu sorriso diabolicamente lindo, rebate: — Nós não vamos deixar Ivan, e quando descobrirmos se ele é quem eu desconfio que seja, vamos revidar usando a sua inteligência para surpreendê-lo. Agora saia daqui e vá dormir. Precisa se preparar para os próximos dias... — Você também. — Abro a porta e falo antes de deixa-la sozinha e subir para o quarto — Eu posso até escapar desse idiota, mas se acontecer alguma coisa com você não vou conseguir me esconder do Capo italiano que está fazendo especialização em espionagem. Ela gargalha e ouço sua voz do outro lado da porta: — Ninguém consegue se esconder de Fillipo Grasso, meu amigo, ninguém... Subo as escadas, cumprimento os seguranças e entro no quarto que pertenceu a Anya. Ele foi reformado e agora uso sempre que preciso. Tomo banho e pego uma cueca limpa para dormir. Com a cabeça no travesseiro e o corpo relaxado mentalizo todos


os acontecimentos desde os sumiços de Sarina nas últimas semanas até hoje, e só encontro uma explicação para tudo. Por mais que seja difícil de acreditar, sou tentado a pensar que esse homem é mesmo o filho mais velho de Sergei e ele tem usado a única mulher que amei para me destruir. Não sei exatamente do que o idiota me culpa, se de todos os três filhos eu fui o único rejeitado por todos, inclusive pela família. Ramona será de grande utilidade quando chegar a hora de ir ao resgate de Sarina, mas antes preciso encontrar um modo de atrai-la até aqui, em Moscou, para conseguir persuadi-la a nos ajudar. Talvez tenha que encontrar a esposa de Sergei e obriga-la a me contar a verdade sobre o seu casamento arranjado com meu pai e entender o motivo de seus filhos terem se unido para foder a minha vida. Com os olhos fechados me recuso a ficar imaginando o que o verme está fazendo com Sarina, mas sinto que há muito mais por trás dessa história entre eles do que quero acreditar. As palavras de Feliks no avião, depois que viu o arquivo codificado que Rey encontrou no notebook antigo da mulata, foi o aviso que passou despercebido por falta de conhecimento, mas que agora fazem todo sentido. Irmãos da Máfia – Unidos pelo sangue, separados pelo ódio. Só pode ser ele. Tem que ser ele. Mikail Sergeevich Desdeiev, o primogênito filho da puta de Sergei e meu meio-irmão. Quando conheci Sarina, em Kazã, ela me disse que tinha ido até lá após ter recebido algumas informações sobre o paradeiro da irmã traficada e todas elas apontavam para aquela cidade. Nós nos envolvemos, eu me apaixonei perdidamente por ela e acreditei que ela também tivesse se apaixonado por mim. E depois de ter me deixado fodido e desgostoso da vida, evitei o máximo que pude encontrar respostas ou explicações para tantas mentiras ditas por ela. Não quis mergulhar no mar do desespero e enlouquecedor da incerteza, acreditando ter sido a melhor decisão para a minha vida já que ela fez o que supostamente, havia sido melhor para ela. Não encontro qualquer conexão entre Mikail e Sarina além dessa, mas certamente o filho legítimo de Sergei teve dificuldade em me


encontrar depois que saí de São Petersburgo, após a morte de minha mãe e sem o sobrenome familiar, a mulata pode sim, ter sido o elo que me levou até ele ou... o trouxe até mim. Por tantas vezes quis confrontá-la depois do nosso reencontro no Império e exigir que explicasse os motivos que a levaram agir como agiu em Kazã, mas por orgulho, retive meus anseios por respostas. No fundo eu só queria que ela confessasse que estava arrependida de ter me abandonado e que não mentiu todas as vezes em que jurou me amar. Se eu a desejo? Sim, como sempre desejei e nunca vou deixar de desejar. Se eu a amo? Sim, como sempre amei e nunca vou deixar de amar. Se eu a quero de volta na minha vida? Não sei... Depois de tanto tempo, tantas mentiras, tantos segredos e tanto sofrimento, talvez não haja mais espaço para o amor e o tesão. Sarina foi e sempre será a mulher que amei com toda minha força e também a que destruiu não apenas o meu coração de forma irremediável. Ela foi a única culpada por me transformar em um homem descrente do amor, da confiança e da fidelidade. Meu telefone vibra e o nome de Valeska brilha sobre a sua foto no display. Posso rejeitar a ligação e continuar me afundando em lembranças e memórias que não serão revividas novamente ou atender e falar com a minha namorada sobre um não tão feliz, mas possível futuro. Eu decido fazer como sempre fiz e vou em frente, seguindo o conselho de meu pai e que até hoje me impediu de fraquejar e desistir...

(1)

Casa Limpa


CAPÍTULO 14

— Tudo pronto, Ivan. — O caminhão está na porta? — Do jeito que você pediu. — Ótimo, vamos lá. Saio do escritório com Giuseppe atrás de mim. Natasha está na cozinha conversando com a mãe de Pavel e nos segue quando nos vê. — Consegui informações da esposa de Sergei. Paro no mesmo instante para ouvir o que Giu tem a dizer. — Onde ela está? — Aqui, em Moscou. Já enviei dois homens para busca-la e vão trazer a mulher para cá. — Sabe o nome dela? — Ivana. Também descobri que ela ficou mais de dez anos desaparecida e quando voltou já estava milionária. — Com certeza não ficou rica trabalhando. — Um ex soldado da Bratva me disse que ela vendeu a filha para o avô. — Vendeu? — Sim, mas ele não quis entrar em detalhes e eu achei melhor não forçar a barra para manter o disfarce. — Fez bem, Giu. — Elogio seu trabalho — O que Ivana tem feito nos últimos anos? — A mulher é uma dona da maior agência de modelos da Rússia, que serve de fachada para o seu negócio no ramo da prostituição. Giuseppe esfrega uma mão na outra e oferece um sorriso de lado para Natasha, que retribui com um soco em seu estômago me fazendo rir. — Você conhece a agência? — Nem sei por que pergunto se já sei a resposta. Voltamos a caminhar até o antigo galpão usado por Gravel e


Bóris para torturar seus inimigos. Ele também foi reformado, mas apenas por dentro. Natasha achou melhor manter a estrutura externa antiga para não levantar suspeitas caso houvesse alguma denúncia que levasse a uma investigação policial. — Já cansei de falar que não como as russas. — Ele fala em alto e bom tom — Já basta uma para infernizar a minha vida e ela nem é minha mulher. — Não vejo a hora de te ver rastejando por uma russa, seu italiano idiota. — Natasha retruca — Vou fazer questão de filmar todos os seus momentos “mulherzinha” quando isso acontecer. — Mai, mia Imperatrice! (1) — Ele gargalha ajeitando os cabelos compridos para trás — Estou com Ivan nessa. Quero uma brasileirinha quente e safadinha. — A namorada dele é russa e é mais fria que o freezer que Fillipo comprou para colocar no espaço gourmet lá de casa. — Mia cara... — Giuseppe está gargalhando, Natasha sorrindo e eu, nervoso por estarmos a poucos metros do galpão — Não estou falando da fundadora da Basílica de Santa Croce, estou falando da sua deliciosa assistente que foi namorada dele e ainda deixa o seu consigliere, podemos dizer... mexido. — Ele é meu konsult’ant, Giu. Pare de usar os nomes italianos dentro da minha casa! — Na máfia é tudo a mesma coisa Natasha. Seu pai é que inventou essas baboseiras pra ser diferente da Bratva. — Gravel foi um visionário, agora cala a boca ou eu arranco essa sua língua e jogo para os traidores. — Podemos focar no que vamos ter que fazer? — Pergunto irritado fazendo-os gargalhar ainda mais. — Ivan — Giu me chama segurando meu braço —, não precisa ficar nervoso. Relaxa um pouco que vai dar tudo certo, amico mio. Acredite em mim, não tem como não dar certo porque a sua ideia é brilhante. — Eu não estou nervoso, só não sou como vocês que conseguem ficar brincando sabendo que vão matar mais de vinte pessoas em poucos minutos. Eles se entreolham e sorriem um para o outro. Esfrego a mão na testa numa tentativa ridícula de secar o suor que não para de escorrer


pela minha pele. — Essa é a melhor parte do nosso trabalho, Ivan. — Giuseppe fala com seriedade olhando em meus olhos, mas sua postura “adulta” não dura muito tempo — Aproveita pra aliviar o estresse porque tá estampado na sua cara que faz tempo que o teu pau não se diverte, se eu fosse você levava a namoradinha russa até um dos nossos clubes em Palermo, para ela aprender com as italianinhas a enlouquecer um homem... — Some da minha frente, seu idiota! — Natasha vocifera fazendo o loiro sair em disparada na direção da porta do caminhão — Não liga pra ele Ivan, mas se quiser levar a Valeska em um dos nossos clubes eu não acharia uma ideia ruim... — Porra Natasha, me dá um tempo, caralho! Estou suado, nervoso e o calor dentro do terno não ajuda em nada. Nem as piadas sem graça da Imperatriz e do italiano metido a Al Capone. — Vamos logo. — Natasha endireita a postura e aponta para a entrada do galpão onde há dois seguranças armados — Vamos matar uns traidores e aumentar a sua produção de serotonina, porque se depender do sexo que anda praticando com a mosca morta você vai cair em depressão nos próximos dias. — Puta que pariu! — É sério, Ivan. Chegou a hora de mostrar para esses idiotas com quem eles estão mexendo. — Está bem. Entro na frente de Natasha e vejo Petrus bem ao centro do grande galpão. Ele está sentado em uma cadeira de madeira, seu rosto está machucado e suas mãos amarradas para trás. Na boca, uma esponja suja que o impede de emitir qualquer som. O barulho dos sapatos batendo contra o piso chamam sua atenção para mim. Ele levanta a cabeça e vejo um sorriso deslizar em seus lábios feridos. — É bom saber que está de bom humor Petrus. — Eu me aproximo e Natasha se senta em uma cadeira pronta para assistir ao show que está para começar — Decidiu se vai cooperar ou prefere que eu arranque todas as informações que preciso a força? Retiro a esponja de sua boca e ele cospe em mim, sujando meu


terno preto. — Não importa o que você faça, seu bastardo medíocre, eu não vou falar nada. — Tem certeza? — Retiro o lenço branco do bolso e limpo a sujeira — É a sua última chance de me ajudar Petrus. Quando eu começar, não vou parar. Ele joga a cabeça para trás forçando uma risada abobalhada. — Duvido que você e essa vagabunda que todos idolatram como a Imperatriz possam me surpreender. — Espero que goste do que reservei para você. Enfio a esponja novamente em sua boca e faço um sinal para os seguranças. Em poucos segundos ouvimos o barulho das portas do caminhão se abrindo e Giuseppe entra no galpão puxando a fila de traidores. São vinte e três membros do Império que se venderam ao inimigo, passando informações sobre os nossos negócios, horários e locais de entregas de mercadorias e pagamentos, funções de todos os funcionários e expondo nossas fraquezas. Eles estão algemados um ao outro, com a cabeça coberta e nitidamente debilitados depois do longo período sem alimento e água, dentro de um lugar extremamente frio e chacoalhando pelas ruas de Moscou. Giuseppe segura sua pistola e é seguido de perto por mais dois homens que empurram e batem nos prisioneiros. Eles são posicionados e ficam de frente para nós. Sem pressa alguma retiro o paletó e começo a dobrar as mangas da camisa branca até os cotovelos sob o olhar atento e curioso de Petrus. — Reconhece essas pessoas? O garoto me olha com o cenho franzido enquanto eu continuo indiferente a sua reação. — Deveria reconhecer. — Aponto para o primeiro da fila e na mesma hora Giu retira o capuz revelando a identidade do homem — Ele é seu aliado, não é? Petrus estreita os olhos e se remexe na cadeira. Eu caminho até o homem baixo e paro a frente dele. Retiro minha arma do coldre e aponto para a testa dele. — O senhor sabe quem é aquele moleque que está sentando ali?


— Pergunto. O homem olha para Petrus, aperta os olhos e abaixa a cabeça. Eu deslizo a arma e aponto para o meio de suas pernas. — Não precisa ficar com medo que ninguém vai morrer aqui. Mas não posso garantir que viverão com todas as partes do corpo inteiras. — Não faça isso, por favor. — Eu fiz uma pergunta e se não quiser ficar sem o seu bem mais precioso é melhor responder. — Sim, eu conheço. — Pra quem ele trabalha? — Eu não sei... Num movimento rápido desvio a arma para a perna direita e atiro uma vez, acertando sua coxa que sangra. O corpo dele amolece, mas Giu o segura impedindo-o de cair no chão. — É melhor repensar a sua resposta, ou vamos ficar aqui até eu me sentir satisfeito. — Eu não sei, eu juro... Mais um tiro, agora na perna esquerda. Ele urra de dor e o sangue jorra como uma torneira aberta. — Estou subindo e o próximo tiro será certeiro. Quer pensar mais um pouco? Giuseppe agarra os dois braços do traidor número um por trás e o mantém em pé. Seu olhar se reveza entre Petrus e eu, até que ele decide escolher a melhor opção. — O nome dele é Mikail, mas todos o chamam de Mika. Satisfeito, atiro em seu braço no momento que Giu o solta e o traste desaba no chão, chorando e ensanguentado. Todos os prisioneiros estão em estado de alerta. Eu caminho lentamente até Petrus e sussurro em seu ouvido. — É uma pena que meu irmão não saiba que todos os traidores do Império estão reunidos aqui, não é mesmo? — Ele se remexe e tenta se libertar — Esse foi apenas o primeiro Petrus, a sua surpresa está guardada para o final... Aponto para o segundo e Giu arranca seu capuz. O homem olha para o lado onde seu companheiro se estrebucha no chão e me encara quando paro a sua frente.


— Pode me matar, seu desgraçado! — Ergo uma sobrancelha e sorrio de lado — Eu não vou falar nada! — Por mim tudo bem. — Aponto a arma para o pau do homem e atiro duas vezes ouvindo seus gritos de horror que assustam todos os outros — Mas como eu avisei, ninguém vai morrer nesse lugar. Todos os que cooperarem vão sair daqui vivos e os que não responderem as minhas perguntas ficarão sem seus paus e suas bolas. A escolha é de vocês. Natasha aplaude e eu faço uma reverência brincalhona. Aponto para o terceiro homem que está pálido e parece que vai desmaiar a qualquer momento. Os olhos dele se arregalam ao se depararem com o traidor número dois gemendo e chorando com as mãos no pau. O canal formado por seu sangue impressiona. — Vai responder minha pergunta ou prefere acabar como ele? — Aponto para o corpo caído ao seu lado que começa a ficar imóvel. — Eu não sei de nada, eu juro... Atiro em seu joelho esquerdo fazendo-o gritar e o idiota só não cai porque o italiano o segura. — Não quero mais perder tempo. — Aviso apertando seu queixo forçando-o a olhar em meus olhos — Mas se não quiser perder suas bolas é melhor cooperar comigo. — Eu falo... eu falo... Passo o braço por cima de seu ombro e encaro Petrus. — Viu como é fácil conseguir o que queremos sem precisar matar ninguém? — Pisco para ele e volto a ficar de frente para o traidor número três — Quem é Ramona Desdeiev? Minha voz é baixa. Seguro o homem pela nuca para que ele responda sem desviar seu olhar. A careta de dor deixa claro que ele não está se aguentando em pé. — É a irmã de Mikail e noiva de Petrus. — Noiva? Ele assente e Giuseppe o solta deixando que seu corpo despenque aos meus pés. O homem tenta se recuperar e agarra minhas pernas, mas Giu chuta a cara dele uma dúzia de vezes até que ele desmaia.


Um a um eu amaço e atiro pelo menos uma vez, mas todos optam por cooperar quando sentem o impacto do primeiro tiro me dando novas informações que completam o nosso quebra-cabeça sobre o homem que acha que vai me foder e destruir o Império. Mas quando chega a vez do último encapuzado já sei que a cabeça de Petrus está a mil por hora, pois ele acaba de presenciar todos os segredos e planos de Mikail serem revelados, mas como eu já havia imaginado, nenhum dos traidores teve acesso ao esconderijo do cretino e essa informação, apenas o braço direito do miserável poderá me fornecer. — E então Petrus? — Retiro a esponja de sua boca percebendo a diferença de como ela estava quando retirei a primeira vez — Está disposto a mudar de ideia e me dizer o que eu quero? — Nunca. — Tudo bem. — Olho por cima do ombro e faço um sinal com a cabeça e Giuseppe arrasta o corpo trêmulo do último encapuzado — Vamos ver até onde vai a sua coragem. Eu caminho com segurança e retiro o capuz lentamente, revelando a identidade do prisioneiro, ou melhor, da prisioneira. — Solta ela seu filho da puta! — Ele grita quando vê sua mãe sob a mira da minha pistola — Eu vou te matar! Eu vou te matar! — Claro que vai... — Sorrio e olho para a senhora ao meu lado — Eu sinto muito por tudo que vai sofrer por causa do seu filho, mas como pode ver ele não está me dando escolha. Aponto para a porta e autorizo a entrada de um dos nossos seguranças. Ivankov é um dos homens mais fortes que eu já conheci, seu corpo é maior que o de Giuseppe e coberto por tatuagens que representam todos os lugares que já passou. — Chefe. — Ela é toda sua, meu amigo, mas queremos que foda a mãe do nosso amigo aqui mesmo para que todos nós possamos apreciar a sua performance. O gigante sorri mostrando seus dentes dourados e não perde tempo apalpando o corpo da mãe de Petrus, que chora sem ser ouvida por causa da mordaça em sua boca. — Queremos ouvir os gritos da puta, Ivankov! — Giuseppe grita e aplaude — Tira essa porra da boca dela.


Petrus se debate na cadeira e grita como um louco quando o segurança deita a mulher no chão sujo, arranca a calcinha e se encaixa entre as pernas dela chupando sua intimidade. Ela vira a cabeça de um lado para o outro, desesperadamente, seu choro é contido devido a vergonha e humilhação. Ivankov posiciona a mulher arreganhada bem à frente de Petrus e domina com facilidade suas pernas para se deliciar entre elas. Natasha está nitidamente incomodada, mas nós sabíamos que se dependesse apenas de violência física, Petrus não vai abrir a boca e não temos tempo a perder. — Solta ela, porra! Solta! Para com isso! Estou apostando todas as fichas que não vamos precisar chegar ao limite para que ele acabe cedendo, mas depois de alguns minutos assistindo sua mãe ser devorada pelo grandalhão, decido partir para a segunda fase. Encaro Giu, que já sabe o que fazer. — Deixa ela mamar teu caralho, Ivankov! Giu gargalha e sei que está se esforçando para parecer um sádico depravado. Nenhum de nós aprova o estupro, mas em casos como esse onde todos os nossos recursos já se esgotaram, não podemos fraquejar e optar pelo caminho da moral e dos bons costumes. É isso ou as nossas vidas. E quando chegamos a esse impasse, a decisão foi unânime. Petrus arregala os olhos e volta a gritar, dessa vez mais alto e desesperado. Paro ao lado dele e sussurro novamente em seu ouvido quando Ivankov monta sobre o corpo da mulher e enfia seu pau, tão grande quanto ele, em sua boca. — Não precisa gastar toda a sua voz agora garoto, ele está apenas nas preliminares. — A cabeça do garoto vira na minha direção com tanta rapidez, que pode até deslocar seu pescoço — Poupe seu esforço pra quando ele arrombar a boceta e o cuzinho da sua mãe com aquela anaconda... Os olhos dele se enchem de lágrimas pela primeira vez e eu aproveito para cavar a cova rasa onde pretendo enterrá-lo. — Não se sinta mal pela sua mãe Petrus. Tenho certeza que quando ela estiver em casa toda fodida e usando fralda porque perdeu todas as pregas do rabo, a primeira coisa que ela vai fazer é meter uma bala na própria cabeça pra acabar com o sofrimento. — Dou dois


tapinhas em seu ombro num falso gesto de camaradagem — Eu avisei que ninguém ia morrer aqui, não avisei? — Solta ela, por favor... — Se você me disser onde o Mikail se esconde e como eu faço para entrar lá sem ser pego, claro que eu solto Petrus. O garoto trava a pior batalha da sua vida enquanto Ivankov não poupa sua mãe de nada, nem por um segundo. O grandalhão aperta a garganta da mulher e enfia o pau até a garganta dela, sem se preocupar com os engasgos. O silêncio de Petrus me irrita profundamente, olho para Natasha e vejo o ódio em seu olhar e sei que ele é destinado ao filho fodido que prefere ver sua mãe ser estuprada em vez de falar o que queremos. Pela última vez eu aceno para Giuseppe, que decreta a última e decisiva fase do plano. — Tá na hora da ação de verdade, Ivankov! — Giu bate palmas e grita animado — Quero ver por quanto tempo a velha vai aguentar esse caralho no cu dela. Mete aí que eu vou filmar e mandar pro nosso grupo no whatsapp! Petrus paralisa. Eu e Natasha nos encaramos e a expectativa aumenta quando Ivankov gira o corpo fraco e abatido da mãe do garoto, posicionando-o de quatro e lubrificando o ânus com cuspe. — É a sua última chance Petrus, quando ele meter acabou para a sua mãe e você vai ter que conviver com o peso da morte dela nas suas costas pelo resto da vida. Ivankov posiciona o pau e força a entrada enrugada da mulher. Ela grita de dor, alto, estridente. Petrus vira o rosto para não olhar, mas eu seguro sua cabeça e o forço a assistir. O gigante força uma e outra vez, geme quando sente o contato interno e agarra a cintura dela para se forçar novamente. A mulher continua gritando e começa a implorar para que ele pare, mas como não há nenhuma ordem minha, Ivankov estapeia a bunda dela, agarra os cabelos com força e a manda gritar seu nome mais alto. — EU FALO! EU FALO! PARA COM ISSO! PARA LOGO COM ISSO! — Tem certeza, Petrus?


— TENHO, PORRA! LARGA ELA! LARGA ELA! Aceno para Giuseppe que se aproxima de Ivankov e toca seu ombro falando alguma coisa em seu ouvido. O grandalhão guarda seu pau, solta o corpo da mulher sem qualquer cuidado e se coloca ao lado do italiano encarando Petrus com seu sorriso dourado nos lábios. — Bom garoto. Ninguém quer ver a própria mãe ser enrabada por um troglodita desses, não é? — Falo apertando seu ombro — Sua mãe vai continuar ali, deitada no chão com o rabo pra cima e o meu segurança também vai ficar aqui, excitado e louco pra terminar o que começou. Você tem dez minutos pra me contar tudo que sabe sobre Mikail e Ramona, mas se eu descobrir que está mentindo Petrus... — Eu disse que vou contar, Ivan. Estou entendendo tudo agora. — Mal consigo ouvir sua voz — Mikail me disse que o Império era fraco e você era um bastardo impostor que nunca teria coragem de honrar a máfia.... Mas eu vi com meus próprios olhos que ele mentiu pra mim. Se eu soubesse que todas as histórias que contaram sobre vocês eram, verdadeiras não teria me juntado a ele. O garoto está visivelmente destruído. Certamente não acreditou que fôssemos levar a ameaça a diante e agora terá que contar tudo, exatamente tudo que quero e preciso saber. — Como vocês se conheceram? — Feliks me apresentou pra ele quando a Natasha matou meu pai. — Eles eram amigos? — No começo eu achei que sim. O Feliks vive em função do Mikail e da Ramona como se fosse o segurança deles. — Por que o Mikail tem tanto ódio de mim? — Porque foi por sua causa que o pai dele não ficou do lado da família legítima quando o avô foi expulso da Bratva. — Ele foi criado pelo avô? — Foi. O Ruric treinou o Mika desde pequeno pra ser combatente da Bratva, mas quando o Império surgiu eles viram a chance de se tornarem não apenas membros da máfia, mas os líderes. — Há quanto tempo eles estão recrutando? — Dez mais de dez anos. — Como sabe? — Quando Ivana vendeu Ramona para o avô e concordou em


assinar todos os documentos abrindo mão de todos os direitos sobre a filha, meu pai e Ruric assinaram o contrato do meu casamento com ela. Eu tinha quinze anos e ela treze. Estou com vinte e cinco e ela vai fazer vinte e três. O silêncio no galpão é pesado. Temos mais de vinte corpos ensanguentados espalhados pelo chão, uma Imperatriz atenta a cada palavra que deixa a boca de Petrus, um italiano enfurecido e incitado a matar, e eu, embasbacado tentando compreender a coerência em tudo aquilo. — Ramona mora com Mikail? — Mora, mas não concorda com as coisas que ele faz. — Explique melhor. — Ela foi treinada pra ser uma assassina, uma herdeira da máfia, mas não gosta do jeito que o Mikail age e eles sempre acabam brigando. — O que você sabe sobre a Sarina. Petrus levanta a cabeça e seus olhos varrem o galpão antes de se cravarem nos meus. — Tudo que vocês fizeram aqui hoje, não chega a um terço do que ele já fez com ela. A Sarina serviu de escrava para todos esses homens aí por meses e isso foi antes de ela atirar nele por sua causa, agora eu nem ima... — O que você disse? — Seguro a gola da sua camisa. — Eu não estou mentindo, eu juro! — Você disse que a Sarina atirou nele? — Eu só fiquei sabendo dessa história porque o Feliks me contou. — Fala logo, porra! — A Anya tinha dado a irmã da Sarina para um italiano e quando soube que a Sarina tinha conseguido umas informações sobre o paradeiro da irmã, ela pediu ajuda ao Mikail pra dar um sumiço nela, mas quando ele foi executar o serviço descobriu sobre você e chantageou a Sarina. — Como? Chantageou como? — O Mika sequestrou o outro irmão dela e forçou ela a viajar com ele pra Sóchi. — O que aconteceu depois? Minha cabeça lateja. Parece uma panela de água fervente prestes


a transbordar e queimar tudo e todos que estiverem ao redor. — A Sarina ficou servindo de escrava dele e quando ela descobriu o que ele pretendia fazer com você, armou uma armadilha e atirou no coração dele, mas ele não morreu. — Desgraçado! — Ele vai usar ela pra se vingar de você. — Não tem mais nada que ele possa fazer pra se vingar de mim... Estou enjoado demais para continuar as perguntas. Viro as costas decidido a sair daquele galpão, mas sou impedido pela voz de Petrus. — Tem sim. Com apenas um passo eu volto e puxo o garoto pelo pescoço, levantando-o com cadeira e tudo. — O que aquele filho da puta pretende fazer com ela? — Brado. Me sinto incontrolável, irracional. Completamente indomável. Petrus tosse, engasga e sufoca. Eu arremesso seu corpo no chão, que cai de lado e bate a lateral da cabeça. Não me importo e pouco me preocupo se ele se machucou ou não. Apenas uma coisa me importa: — O QUE ELE VAI FAZER COM ELA, PORRA? — Ele.... Quer engravidar e se casar com a mulher que você ama... Não vejo nada na minha frente. Eu não tinha a menor noção do quanto a vida pode mudar em questão de segundos e o quanto dois sentimentos podem se fundir para transformar um homem em um monstro. Sarina despertou o meu amor. Mikail despertou o meu ódio. Não sobrou nada genuíno dentro de mim, além da contingência curiosa para descobrir qual seria o resultado daquela transformação e isso só irá acontecer quando eu encontrar o meu irmão mais velho pela primeira vez, pessoalmente.


CAPÍTULO 15

— Você precisa se acalmar, Ivan. Giuseppe me segura para que eu não mate Petrus na porrada. O garoto está desmaiado de um lado e sua mãe toda fodida do outro. Temos os corpos estourados no chão e o cheiro dentro do galpão é nojento. — Me solta! — Esbravejo me livrando de seu agarre — Preciso sair daqui. Limpem essa bagunça. — O que faremos com eles? Olho ao redor, enfurecido e descontrolado. — Mate todos. Natasha continua sentada em sua cadeira e assente a minha ordem com um aceno de cabeça para o italiano. Eu deixo o lugar ouvindo os comandos de Giu aos seguranças para começarem a matança. Não quero mais ficar aqui. Preciso de ar, de espaço e de tempo para assimilar tudo. — Ivan! A voz da Imperatriz me força a parar quando estou chegando ao meu carro. Ela se aproxima e fica ao meu lado. — Para onde está indo? — Não sei, mas não posso ficar aqui. — Eu vou com você. Natasha não me deixa escolha ao entrar no carro se acomodando no banco do passageiro. Merda! Só quero ficar sozinho e me martirizar depois de tudo que descobri sobre o passado. O meu, o de Sarina e dos meus irmãos desgraçados. Ligo o carro e saio da mansão percorrendo as ruas de Moscou sem destino certo. Minhas mãos estão tremendo como todo meu corpo. A camisa branca tem manchas de sangue e os cabelos compridos parecem um ninho de rato. Suados e embaraçados.


Me sinto asqueroso de tão sujo. O telefone de Natasha toca e ela atende. Suas palavras e a voz sussurrada indicam que temos mais problemas e mal posso suportar a sensação que cresce dentro de mim. Ódio. Muito ódio. Quero matar aquele filho da puta. Escrava. Porra! Como ele pôde? Como alguém pode fazer uma coisa desse tipo com uma mulher? A mulher que eu amo, apenas para me ferir. Pois bem, se Mikail queria me afetar, certamente conseguiu e garanto que não foi uma decisão sábia. — O que aconteceu? — Pergunto quando ela encerra a ligação. — Temos que ir ao galpão de Fillipo. — Gustav? — Não. Reynaldo. — O que tem ele? — Fiz o que você falou e simulei a morte dele. Ele está trabalhando lá sem que ninguém saiba e acho que descobriu mais coisas nos arquivos codificados de Sarina. Faço uma curva proibida e entro na avenida que nos levará para o outro lado da cidade, onde fica o galpão do Capo. Fillipo comprou o lugar quando se casou com Natasha e desde então, só usamos em casos emergenciais. — Preciso te contar uma coisa. Olho de rabo de olho para o lado pegando a Imperatriz me encarando. — Vai fundo, hoje não sei se mais alguma descoberta me vai me deixar pior do que já estou. — No mesmo dia que a Sarina me contou sobre uma transferência que havia sido feita em nome de Alik Barkov, ela me contou sobre o homem que a chantageou e a obrigou a te deixar. — Inspiro fundo controlando arduamente o sentimento pulsante — Ela não me disse o nome e nem o que havia acontecido. Perguntei se ela precisava de ajuda com alguma coisa, se queria que eu investigasse e descobrisse se ele ainda podia causar problemas, mas ela recusou e me garantiu que estava tudo acabado. Acho que Sarina não sabia que Mikail estava vivo.


Mais uma mentira, entre tantas que ouvi da mulher que conseguiu foder o meu juízo. Odeio me sentir um idiota, mas a verdade é que tudo não passou de mentira. Sarina mentiu o tempo todo, sobre tudo e sobre todos. — Todos esses anos ela escondeu a verdade. Seguiu a vida dela e não se importou com o que eu sentia. Para que? — Ela queria te proteger, Ivan. — Me proteger? — Sorrio amargurado — Do que, Natasha? — De Mikail. — Não. — Nego veementemente — Sarina queria encontrar a Aurora e caiu na armadilha de Anya. Ela aceitou a chantagem de Mikail para salvar Severino, portanto, nada disso tem a ver comigo nem com porra de proteção nenhuma. — Ela atirou nele, Ivan. — Depois de quanto tempo? — Pergunto incrédulo e revoltado — Você ouviu o que Petrus falou, agora sabemos o que aquele desgraçado fez durante o período que esteve com ela em Sóchi. Acredita mesmo que a bala que Mikail levou foi por minha causa e não por tudo que ele fez com ela e sabe-se lá o que fez com Severino? — Ela te ama, Ivan. Gargalho sem humor. — Não Natasha. A Sarina não me ama, ela nunca me amou. Se amasse teria me contado pelo menos parte da verdade, mas nem isso ela fez. — Já tentou se colocar no lugar dela? Entro no terreno enlameado que cerca o galpão e estaciono o carro bruscamente. Tiro a chave do contato e encaro a Imperatriz. — Não preciso me colocar no lugar dela para entender suas atitudes. Sarina foi a Kazã para encontrar a irmã, nós nos conhecemos e começamos a foder como dois loucos, todos os dias, em qualquer lugar e a qualquer horário que dava. Foi bom para ambos e durou até ela descobrir que tinha sido enganada e seu irmão sequestrado. Fim. Nada do que ela me disse foi verdade, exceto sobre o desaparecimento de Aurora. — Anya armou pra ela, Ivan. — Eu sei, mas isso não muda o fato de ela ter mentido e escondido quem era, o que estava fazendo e com quem tinha se


envolvido. — Como ela poderia confiar em você? — Do mesmo jeito que eu confiei nela. Saio do carro batendo a porta com força. Muita força. Entro no galpão a passos largos, nervoso e louco para socar alguém. Natasha me segue até a sala em que Rey está escondido. Poucos homens vigiam o lugar e todos eles fazem parte da máfia siciliana. Fillipo fez questão de colocar seus próprios homens para cuidarem da segurança do galpão. Seus negócios, seus funcionários. Eu entendo e respeito a atitude do Capo. Mas não gosto do modo como todos nos encaram, ou melhor, me encaram já que com a Imperatriz e esposa do chefe, o respeito e a admiração é visível em cada gesto e cumprimento. — Pare de encara-los. — Natasha adverte descendo o olhar para a minha roupa — Eles estão assustados. — Não sabia que mafiosos italianos se assustavam facilmente. — Diz isso porque ainda não se olhou no espelho. — Descemos as escadas chegamos ao porão — Você está parecido com o Bóris quando voltava de algum confronto com a Tambovskaya. — Eu nunca tinha feito o que fiz hoje, Natasha. Ela coloca a mão sobre o meu ombro quando paramos em frente à porta de ferro fundido me ofertando um sorriso amigável. — Também nunca tinha passado pelo que passou hoje, Ivan. É compreensível. Entramos nos deparando com Reynaldo de pé, com um giz na mão direita e uma folha na esquerda rabiscando na parede preta. Ele nem percebe a nossa chegada. Nos aproximamos e tanto eu quanto Natasha ficamos tentando entender o que ele está fazendo. Há siglas, nomes de cidades, datas e valores, como se fosse uma planilha. — O que é isso, Rey? — Natasha pergunta, mas o hacker não desvia seu foco. — Só um minuto que eu já explico pra vocês. Meus olhos percorrem a parede tentando compreender a lógica daquilo tudo, mas fica complicado para um leigo se não souber qual o esquema que foi usado por Rey para diluir os dados.


— Pronto. — Ele se vira para nós com um sorriso orgulhoso — Finalmente eu entendi o que a Sarina guardou no arquivo e devo admitir que ela fez um excelente trabalho. Pena que nós não trabalhamos para o Governo ou poderíamos acabar com o tráfico de mulheres na Rússia. Natasha me encara com seu olhar endiabrado. Não trabalhamos para o Governo, mas podemos dar uma mãozinha se isso enfraquecer os negócios da Bratva. — Estou ansiosa para entender. — Eu demorei para descobrir o que significava todos esses dados, porque estive limitado quando pensei que a Sarina só quisesse arquivar informações úteis para uma possível negociação com a polícia caso ela fosse pega e condenada por seu envolvimento com a máfia. Mas depois que você me contou sobre a traição de Feliks e da parceria do filho de Edik com Mikail, desenvolvi um programa de referências e comecei a alimentá-lo com os dados. Ele aponta para a primeira coluna e fala: — Aqui são todas as cidades onde as mercadorias são deixadas. — Aponta para a segunda coluna — Aqui é a quantidade que foi entregue, na terceira são os valores a serem recebidos pelas mercadorias e aqui — Aponta para a última coluna —, foi o mais complicado de descobrir, pois é onde se encontra a maior variação de combinações de letras. — São as iniciais dos receptores. — Antecipo a conclusão. — Exatamente. — Rey circula as iniciais que mais se repetem nas inúmeras fileiras — E esse é o maior traficante de mulheres que a Rússia já viu. — Ruric Desdeiev. — Natasha e eu falamos ao mesmo tempo ao vermos as iniciais RD sobressaltadas. — Foi por isso que Mikail roubou a fórmula de Joseph Lucas, ele quer dominar o único negócio que o Império se recusa a operar e oferecer a todos os traficantes de mulheres sua própria droga. — Como a Sarina descobriu isso? — Minha pergunta é feita em um tom acusatório, mas pouco me importo. — Esses dados não foram incluídos na mesma data, aliás, tem alguns espaços de até seis meses entre uma inserção e outra, o que me leva a deduzir que ela passava algum tempo investigando e só quando tinha certeza de como, quando, onde e para quem as mercadorias eram


entregues, incluía os dados no arquivo. — Quando foi que ela começou a investigação? Rey senta-se à frente do computador e depois de alguns segundos responde a minha pergunta: — Em 2008. — Ele nos encara, tão surpreso quanto nós — Sarina fez a primeira anotação quando tinha apenas 15 anos e ainda morava em Fortaleza. — Sarina descobriu sobre o esquema de tráfico na cidade onde morava, mas foi delatada para o traficante brasileiro. — Natasha fala com convicção — Foi por isso que Anya trouxe ela pra cá e usou Aurora e Severino para calar a boca dela. — Podemos usar esses dados para descobrir quando será a próxima entrega, Rey? Se tivermos a chance de boicotar o negócio de Mikail, podemos abrir as portas para a polícia e deixar que o Governo interfira para nós. Isso enfraqueceria e descredenciaria a Bratva como confiável aos olhos dos traficantes de outros países. Ninguém iria arriscar fechar um negócio e acabar flagrado pelos federais russos. — Posso tentar, mas vai demorar um pouco. — Quanto tempo? — Não sei, Ivan, eu preci... — Comece agora Rey. — Corto sua explicação — Não temos tempo e para o que eu pretendo fazer. Se houver qualquer falha e Mikail desconfiar, iremos perder a única oportunidade de foder com ele e com toda merda que está fazendo. — Posso saber quais são seus planos, Ivan? — Natasha cruza os braços e ergue uma sobrancelha. Ando de um lado para o outro perdido em meus pensamentos e avaliando as nossas chances, que não são muitas, mas se conseguirmos executar meu plano será o fim daquele miserável e de toda a sua pretensão de se tornar o salvador da antiga organização mafiosa que foi destruída pelo Imperador. — Mikail roubou a fórmula de Joseph Lucas para garantir a autonomia sobre o tráfico humano na Rússia. Ele sabe que o Império não compactua desse negócio e se tiver o apoio dos traficantes de todo o mundo, poderá nos atacar sem medo. — Continuo em movimento construindo todo o cenário em minha cabeça como uma teia de aranha


sendo tecida minuciosamente — Ele sabe que eu irei atrás de Sarina e está à minha espera. Se soubermos a data do próximo carregamento, posso servir de distração para sabotarmos a entrega e denunciá-lo ao Governo, expondo todo o negócio na mídia e fodendo de uma vez por todas a credibilidade dele não só com os clientes, mas com os fornecedores também. — E como exatamente pretende fazer isso? — A Imperatriz está da parada da mesma forma que antes, mas sinto a empolgação em sua voz dividindo espeço com o temor — Se Mikail sabe que você vai a Sóchi atrás da Sarina, o que tem em mente para segurar ele por lá, e nos dar tempo de interceptar o carregamento? — Vou me deixar ser pego. — É alguma piada? — Seu tom de advertência não passa despercebido — Vai até Sóchi e dizer: “Oi Mikail, estou aqui para me entregar e espero que não me mate até o dia do seu próximo carregamento”? — Não. — Respondo tranquilamente ignorando sua ironia — Vou fazê-lo acreditar que me capturou. Homens como ele precisam se sentir especiais e, se Mikail achar que meu plano era invadir sua propriedade e resgatar Sarina sem que ele soubesse, tenho certeza que a soberba não permitirá que ele tente me matar nos primeiros dias. — Isso não vai acontecer Ivan. Não posso permitir que arrisque a própria vida baseado na sua intuição. — Pensa bem Natasha. — Seguro seus braços para que olhe nos meus olhos e enxergue a minha necessidade de fazer isso — Mikail está esperando por esse momento a vida toda. Ele não quer apenas me punir, ele quer que todos os seus aliados saibam do que ele é capaz de fazer com um inimigo declarado e vai me usar como cobaia. — Se aquele maluco colocar as mãos em cima de você Ivan, ele não vai pegar leve. — Eu posso aguentar. — Não. — Natasha nega — Não vou permitir que faça isso! Nós não temos nenhum aliado infiltrado e não sabemos em quais condições você vai encontrar a Sarina. — Nós ainda não temos um aliado infiltrado, mas sei de alguém que pode nos ajudar. — Quem?


— Ramona. Natasha bufa e resmunga. — Ela é irmã de Mikail, Ivan! — E minha também. — Rebato — Você ouviu o que o Petrus falou sobre a história dela. Ela foi vendida para o avô pela própria mãe, foi treinada pra ser uma assassina, obrigada a se casar com um homem que ela não ama e não concorda com os métodos que o irmão usa. — Ivan, essa garota passou por uma lavagem cerebral que se estende até hoje e aquele mundo é o único que ela conhece. Ramona não vai se virar contra o irmão que cuidou dela e é única figura familiar que ela tem só porque você quer. Eu entendo que queira fazer isso e acabar com Mikail, mas não vou permitir que se entregue voluntariamente se não tivermos alguém de confiança infiltrado. — Por mim tudo bem. Puxo Natasha pela mão em direção a porta. — Para onde estamos indo? — Ela pergunta, irritada. — Vamos descobrir como atrair a minha irmã e convencê-la a nos ajudar. Abro a porta segurando-a aberta para que a Imperatriz passe. — Precisamos dessa data o mais rápido possível Reynaldo e não fale com ninguém o que ouviu aqui dentro. Entendeu? O garoto está pálido e trêmulo. Desde que me conheceu, nunca me viu agir dessa forma, grosseira e estúpida, mas como diz o ditado popular, sempre tem uma primeira vez para tudo. Talvez o atual Ivan seja mais apropriado para o que todos esperam do Konsult’ant do Império e eu não posso afirmar que estou fazendo qualquer esforço para agir assim. É como se esse meu lado torpe estivesse apenas em stund by, ansiando pela chance de escapar e mostrar ao mundo todo seu poder. De homem educado e calmo a assassino cruel e metódico. Sim, foi uma enorme mudança e Sergei deve estar se sentindo orgulhoso nesse momento, embora acredite que ele não esteja feliz sabendo de tudo que pretendo fazer com seu primogênito. Foda-se! — Vou começar agora mesmo, senhor Ivan. — Avise imediatamente quando descobrir. Bato a porta conduzindo Natasha pelo caminho de volta ao


carro. Tiro o celular do bolso conectando-o no bluethoot, e ligo para Giuseppe que atende no primeiro toque. — Ivan, me diga que não matou mais ninguém, por favor. — Por que acha que eu iria sair por aí matando as pessoas? — Porque eu vi como você estava quando saiu do galpão. — Pode ficar tranquilo, não pretendo matar mais ninguém por hoje. — Ótimo. — Não sabia que você se preocupava com isso, Giu. — Não me preocupo, só não aguento mais escavar. Acabei a última cova agora e estou moído. Se quiser matar algum inútil, vá em frente, mas já estou avisando que o corpo irá para o fundo do mar. Não vou segurar nenhuma pá pelos próximos dias... Eu e Natasha nos encaramos e não conseguimos segurar o riso. — Preciso da sua ajuda. — Pode falar. — Tome um banho, vista uma roupa despojada e me encontre na mansão em meia hora. — Posso saber o que está acontecendo? — Vou recompensar seu esforço te levando em uma boate. — Boate? — O italiano festeja — Agora sim você tem o meu total respeito. Mas, é trabalho ou estou liberado pra foder alguma boceta por lá? — Achei que não gostasse das russas, idiota. — Natasha responde se intrometendo na conversa. — Que merda Natasha! Tá pegando a mania do Fillipo de ficar ouvindo a conversa dos outros? — Faça o que Ivan mandou Giuseppe, e se for bem-sucedido podemos te liberar por uma noite para se divertir um pouco. — Assim é que se fala, mia Imperatrice. — Meia hora, Giu. Sem atraso. Encerro a ligação sob o olhar atento de Natasha. — Vai mesmo atrás de Ivana Desdeiev? — Não. Eu e você iremos apenas tomar um drink como bons amigos. — Pisco para ela — Giuseppe é que vai trazê-la até nós. — Confia nele para fazer isso? — Quem melhor do que o garanhão italiano para esse serviço?


— Não sei. — Natasha dá de ombros — Estou preocupada com ele. — Com Giuseppe? — Ela assente — Preocupada com o que? — Ele ama Fillipo como um irmão e desde a cirurgia, ele faz tudo para que o Capo não precise viajar nem se envolver em situações mais perigosas. — E isso não é bom? — É para o meu marido e para mim Ivan, mas não para ele. — Feliks me disse que ele melhorou muito nas lutas corpo a corpo. — Nós treinamos todos os dias nos últimos anos e quando venho a Moscou, ele sempre me acompanha para deixar Fillipo tranquilo. Não vejo mais ele sair com mulheres como saía e não se diverte como antes. A vida dele se resume a trabalhar e passar o tempo livre cuidando de Pietro. Natasha é uma mulher incrível e está sempre atenta ao que acontece na vida dos membros do Império, principalmente dos que ela considera seus amigos. Mas Giuseppe não é apenas seu amigo, ele também é primo do Capo e sofreu muito com a doença de Fillipo. — Posso ajudar de alguma forma? — Indago por educação, pois não tenho a menor ideia do que fazer para ajudar Giu nesse momento. — Arrume uma mulher que faça o carcamano se apaixonar perdidamente. — Eu ofereci minha ajuda, Natasha. Não disse que aprendi a operar milagres. Ela gargalha. — Não é possível que não exista nenhuma mulher entre a Rússia e a Itália capaz de fazer aquele garanhão sossegar. — Talvez ela ainda não tenha nascido... — Não quero que ele fique sozinho. — E por que ele ficaria? Natasha me encara, mas logo desvia o olhar para fora. — Estamos pensando em passar um tempo aqui depois que Perla se for. Fillipo não quer continuar em Palermo sem a nonna. — Como o Capo vai cuidar dos negócios? — Da mesma forma que eu faço quando estou lá. — Giuseppe já sabe disso?


— Não. Fillipo só vai contar quando estiver tudo acertado. — Acha que ele pode causar algum problema? — Giuseppe é emotivo e tem um coração enorme por trás dessa pose de machão, mas não sei se ele vai conseguir dar conta de tudo sem a presença constante de Fillipo. — Por que não fala com ele? — Fillipo me proibiu de tocar nesse assunto, disse que vai resolver do jeito dele. — Então minha Imperatriz, só nos resta torcer para que alguma divindade envie uma mulher para deixar o garanhão enfeitiçado, senão teremos problemas em breve nas terras sicilianas. — Não Ivan, se Giuseppe Grimaldi resolver nos dar trabalho, a Sicília será pequena para ele... Ficamos em silêncio até chegarmos a mansão. Uma hora mais tarde, estamos entrando em uma boate no centro de Moscou, conhecida como Utonchennost’,(1) uma das mais procuradas e bem frequentadas da Rússia. O lugar é elegantemente decorado. Três ambientes bem divididos e uma clientela diversificada. Música de boa qualidade e profissionais treinados para atenderem a todos com educação e respeito. Estou sentado ao lado de Natasha, no bar, enquanto Giuseppe se encarrega de conseguir informações sobre Ramona, filha de Ivana, proprietária do prostíbulo chique disfarçado de casa noturna. Algumas mulheres tentam se aproximar de mim, mas quando notam a presença da bela fêmea ao meu lado desistem com facilidade. O tempo passa e começamos a ficar preocupados com o sumiço do italiano. Peço ao bartender mais uma dose de uísque para mim e um suco para Natasha. Concordamos que se o garanhão não aparecer em meia hora sairemos a sua procura. — Ivan. — Natasha estreita os olhos ao ver alguma coisa suspeita por cima do meu ombro — Não olhe agora, mas acho que eu conheço aquela mulher que acabou de chegar ao camarote superior no canto direito. Discretamente apoio o copo sobre o balcão girando o corpo para olhar a tal mulher e quase caio para trás quando reconheço a loira que dança de forma sensual com as mãos de um homem a abraçando por


trás, deslizando-as por seu corpo. — Valeska? Ouço a risada de deboche da Imperatriz nas minhas costas e meu sangue ferver nas veias. Filha da puta! — Calma, meu amigo. Pelo jeito ela só é uma santinha com você. — Eu vou matar essa vagabunda desgraçada. Desço do banco pronto para acabar com a raça de Valeska, mas uma gritaria vinda do mesmo corredor que Giuseppe entrou salva a pele da safada. — Porra! — Natasha sai correndo quando ouvimos um estrondo seguido de mais um grito. Sigo atrás dela, afastando todos do caminho e diminuindo os obstáculos que nos separam do corredor escuro. Só paramos quando identificamos os gritos de Giuseppe e de... — Sei fottutamente pazzo! (2) Olha o que você fez? — Glupyy ital’yanskiy! (3) Tire suas patas de cima de mim! A Imperatriz não hesita e arromba a porta com um belo chute, mas nada havia nos preparado para a cena que encontramos. Giuseppe está com as calças arriadas, camisa aberta e a pistola apontada para a mulher à sua frente, que por sua vez, está com o vestido preto enrolado na cintura como um cinturão grosso, os seios à mostra e uma calcinha de renda minúscula que deixa toda sua bunda de fora, pressionando uma faca de caça na garganta de Giuseppe. — Que merda é essa? — Natasha pergunta. — Esse italiano safado tentou me agarrar. — A loira responde quase babando de raiva. — Não foi isso que você falou quando meu dedo estava na sua bo... — Cala a boca, Giuseppe! — Avanço dois passos sem tirar meus olhos da loira com cara de brava, sentindo meu coração acelerar. — Abaixe essa faca e arrume essa roupa. Agora! A garota invocada estreita os olhos, morde o interior das bochechas e imita meu gesto sabendo que está em desvantagem numérica. Enquanto eu guardo minha arma ela enfia a faca na cinta que rodeia sua coxa direita. — Abaixe essa arma Giuseppe e pare de olhar para ela como se


estivesse vendo um petit gateau, porra! Ele parece em transe e eu quero furar seus olhos com meus dedos. — Pode me explicar o que está acontecendo aqui e por que ainda não estamos interrogando Ivana para saber onde podemos encontrar a filha dela? Natasha brada assustando a loira, que agora está devidamente vestida e continua sendo devorada pelo olhar indecifrável de Giuseppe. — Não vamos mais precisar de Ivana, Imperatriz. — Afirmo. — Por que não? — Porque nós já encontramos quem procurávamos. — Giuseppe é mais lento e demora a entender o que acaba de acontecer — Essa é Ramona Sergeevich Desdeiev, minha irmã. Eu não sei o que é pior, o jeito que Natasha encara Giuseppe, o jeito que Giuseppe encara Ramona, o jeito que Ramona ignora os dois e me encara ou o que estou sentindo nesse exato momento, olhando para essa menina que eu acabei de chamar de irmã. (1)

Requinte

(2)

Louca maldita!

(3)

Italiano tarado!


CAPÍTULO 16 – SARINA

— É melhor comer tudo antes que ele volte. — Não aguento mais. — Você não comeu nada, está fraca e abatida. — Não consegui dormir direito. — Coma pelo menos a blini,(1) é de frango e eu sei que você gosta. Olho para cima e encaro o chefe de segurança de Mika. Não sei seu nome, mas desde que cheguei aqui há três dias, ele é a única pessoa a falar comigo além do próprio diabo. — Por que está sendo gentil comigo? — Eu me preocupo com a sua saúde, não quero que fique fraca e comece a desmaiar pela casa. Estranho a sua solidariedade. Nenhum dos homens do Pakhan tem autorização para conversar, muito menos se preocupar com os prisioneiros. Ele parece sincero, mas já estou acostumada a essa falsidade mafiosa que me embrulha o estômago. Eles não têm limites para chegar aonde querem e passam por cima de qualquer coisa e qualquer pessoa se for preciso. — Por que não fui levada para o porão? O homem fecha a cara e se levanta. Coloca o copo vazio em cima da bandeja e vai em direção a porta. Olha para mim e fala: — Aquele lugar não pertence mais a você. Enrugo a testa sem entender o que ele quer dizer. — Algum dia ele me pertenceu? Seu olhar fuzila o meu. Não sei o que está passando pela cabeça desse homem, mas com certeza coisa boa não é. — A médica virá examiná-la. Tome um banho e coloque roupas limpas. — Espera. — Eu me levanto com dificuldade sentindo meu


corpo todo doer — Eu vou poder ficar aqui nesse quarto? — Vai. — Qual o seu nome? — Pode me chamar de Czar, mas quando o chefe estiver em casa finja que tem medo de mim. Se ele desconfiar que conversamos, não vai me perdoar. — Obrigada. — Vá se ajeitar, a médica deve chegar a qualquer momento. Ele sai e me deixa mais animada. Talvez eu consiga um aliado que me ajude a fugir daqui. Tomo banho, lavo os cabelos e procuro por uma roupa limpa. Dentro do pequeno guarda-roupa não tem nenhuma opção além e camisolas de seda e diversos conjuntos sensuais. Opto por uma preta e longa que cobre todo meu corpo. Ela tem renda na região dos seios deixando-os a mostra, mas entre todas as outras, é a mais decente. Sento-me na cama evitando as lembranças da noite anterior. As marcas no carpete não permitem que eu me iluda e finja que tudo não passou de um pesadelo. Mikail me estuprou novamente, como fez todas as vezes que tomou posse do meu corpo. Não houve uma vez sequer que eu cedi a ele de livre e espontânea vontade, o que não desmente o fato de eu ter gozado muitas vezes enquanto ele me fodia. Sinto-me suja por me permitir sentir prazer com um monstro como ele, mas é humanamente impossível ignorar os estímulos que seu corpo provoca no meu. Não há sentimento, nada que me ligasse a ele, apenas reações as suas provocações certeiras. A porta do quarto se abre e uma mulher loira, bonita e muito sorridente entra seguida por Mikail. Os dois parecem se divertir e ignoram a minha presença. Tudo que eu preciso é de apenas uma distração do maldito capeta, mas sei que não será fácil depois do que fiz no passado com ele. A médica solta uma risadinha, ajeita os cabelos loiros e não disfarça o olhar predador em cima do homem que ela pensa que é humano. Tenho até pena da pobre coitada. — Eu vou examinar a sua hóspede agora, senhor Mikail. Pode aguardar lá fora? — Não. Eu quero ver o que vai fazer com ela.


A médica fica sem jeito com a resposta direta, mal ela sabe o que o demônio está planejando. — Como vai? — Ela me pergunta amável sentando-se na beirada da cama. — Não quero que fale com ela. — Mikail se aproxima da médica por trás massageando seus ombros fazendo-a revirar os olhos de prazer sob seu toque — Quanto menos falar, mais rápido vamos nos divertir como eu sei que você quer, doutora. Os olhos dele estão em cima de mim enquanto suas mãos descem pela frente da blusa de seda da médica e apalpam seus seios pequenos. A mulher geme baixinho nem um pouco incomodada com a minha presença e fecha os olhos desfrutando do prazer. Abaixo a cabeça ignorando a tentativa de Mikail de me constranger, mas logo sinto o ardor do tapa que ele desfere em meu rosto assustando a médica com o som do estalo. — Não desvie os olhos babayevsky, quero que veja o que eu vou fazer com essa mulher na sua frente. Ele volta a acariciar os seios da médica por cima da blusa. Minha cabeça volta a doer devido a pancada me obrigando a olhar cada movimento que suas mãos executam sobre o corpo da loira. — Tire a roupa Sarina e deite com as pernas abertas. — Ele ordena. Seus olhos verdes faíscam de ódio, talvez num reflexo dos meus. Demoro a acatar sua ordem e recebo outro tapa, dessa vez com mais força. — Quanto mais resistir pior será. Faça logo antes que eu perca a minha paciência. A mulher me encara de boca aberta. Hora espantada, hora excitada ao me ver nua e aberta em direção a eles. Me sinto envergonhada e humilhada. — Vamos tirar suas roupas também Svetlana. — Mikail fala próximo ao ouvido dela e chupa seu pescoço — Quero ver sua bocetinha melada e doida pra ser fodida pelo meu pau. A idiota geme e choraminga. Não quero pensar que serei obrigada a aturar isso todas as vezes que ela vier me examinar. A médica fica nua e os dois começam a se beijar de forma faminta. Mikail arranca o paletó e a camisa expondo a serpente


desenhada no peitoral musculoso. Svetlana lambe, beija e chupa os mamilos do demônio fazendo-o sorrir maliciosamente ao me encarar. — Toque sua boceta babayevsky, e geme para mim olhando meu pau na boca de outra mulher. Antes que ele se aproxime para me bater, coloco os dedos em meu clitóris esfregando-o com movimentos circulares. Svetlana se ajoelha e abaixa a calça de Mikail, que está sem cueca e completamente duro a sua frente. — Mama tudo. — Ele ordena com sua voz enrouquecida de tesão — Quero que me leve até a garganta, vadia. Mikail agarra os cabelos claros e dá início as suas investidas impetuosas na boca da médica. Seus olhos alternam entre os meus e os dedos que massageiam meu núcleo. — Coloca a outra mão no peito Sarina, belisca o bico e esfrega essa boceta com vontade porra! — Seus dentes trincam e a mulher ajoelhada reclama da força excessiva com que ele agarra seus cabelos — Fica quieta e não para de mamar sua vagabunda! Vou gozar na tua boca olhando a pretinha se masturbar. Ele investe mais algumas vezes na boca da médica e goza jogando a cabeça para trás. Eu agradeço, aliviada por ter acabado. Mas minha alegria dura pouco. — Fica de quatro Svetlana e chupa a boceta da Sarina enquanto eu fodo sua boceta melada. — Eu não gosto de mulher Mikail! Ela reclama desgostosa e no mesmo instante é pega pelos cabelos e arremessada na cama, bem à minha frente. — Não quer meu pau fodendo a sua boceta? — Pergunta lambendo a parte de trás da orelha da médica e prendendo seu clitóris entre os dedos, beliscando-o. Mikail é experiente e usa o sexo para conseguir o que quer. Apesar de toda sua violência, as mulheres o idolatram e se jogam aos seus pés para sentirem o prazer que seu pau proporciona a elas. É grande, grosso e ele sabe usar muito bem. — Oh... eu quero muito, mas eu não sei chupar uma mulher. — Ela choraminga quando ele a penetra lentamente por trás e continua esfregando seu clitóris. — Apenas chupe a boceta dela enquanto rebola esse rabo


gostoso no meu caralho. Ele desfere um tapa em sua bunda e empurra sua cabeça para o meio das minhas pernas. O sorriso dele quando vê minhas lágrimas escorrendo pelo meu rosto salienta o quanto meu sofrimento o agrada. Quanto mais me fere, mais se satisfaz. No fundo acho que a felicidade desse monstro está na infelicidade de todos a sua volta, mas de uma forma especial ele se agrada mais com a minha, e certamente por conta do ódio que nutre pelo homem que ele pensa que ainda me ama. — Abre mais as pernas Sarina e aperta seus peitos pra mim. Anda logo! A cama chacoalha com as socadas de Mikail em Svetlana. A médica se solta me chupando com vontade e até enfia seus dedos em mim. Fecho os olhos migrando meus pensamentos para coisas boas que tive em minha vida e esqueço de onde estou por alguns minutos. O sorriso de Ivan deslumbra minhas memórias, seu jeito divertido e extremamente calmo acalenta minha alma ferida. Consigo me lembrar de cada detalhe de seu corpo adorando o meu, numa reverência inigualável ao amor. Nunca fui tão feliz em toda a minha vida como fui ao lado dele. Seus toques, seus gestos, suas palavras. Ele era a minha parte boa, aquela que nunca tive antes de encontra-lo e nunca terei depois de tê-lo deixado. Ivan foi a minha chance, a única que tive de ser inteira e verdadeiramente feliz ao lado de um homem. Apenas ele conseguiu preencher e completar todos os espaços em branco que haviam em mim. Em meu corpo, minha alma e meu coração. Depois do fim, tudo que me restou foram as memórias e são elas que me fortalecem sempre que meu corpo é violado por monstros como Mikail. — Eu vou gozar... Ahhhhhhhhhhh! Sou despertada pelo grito de Svetlana que ecoa por todo quarto. O demônio goza também e os dois se afastam para vestir suas roupas novamente. A médica me examina, colhe meu sangue e por fim realiza o teste de gravidez, informando que em poucas horas o laboratório enviará


o resultado por e-mail a Mikail. Fico sozinha no quarto remoendo minha vida, pensando na morte de meu irmão, na guerra que será anunciada em poucos dias pela Bratva e em como todas as minhas decisões afetaram o homem que eu amei. Tanto sofrimento para que ele não precisasse enfrentar o monstro e no fim, descobrir que tudo foi em vão. A noite cai do lado de fora e o terceiro dia no inferno começa a se despedir. Quanto tempo mais terei que ficar aqui? Até quando Mikail vai levar essa ideia absurda a diante? Será que Natasha descobriu que a Bratva está ressurgindo das cinzas e está se preparando para enfrenta-la pela segunda vez na história? A porta do quarto é aberta. Pulo de susto com o choque da maçaneta contra a parede no momento do impacto. — Acabei de receber a porra do resultado, vagabunda! Eu me encolho na cama ao sentir o peso de sua mão em meu rosto. — Adivinha o que vai acontecer agora, sua puta de merda? — Outro tapa e sou jogada para o chão como um saco de lixo — Eu tinha outros planos para hoje à noite Sarina, e eles não incluíam foder sua boceta. Mikail me chuta acertando as costelas e a barriga numa longa sequência. — Mas se eu quiser que você engravide, preciso te foder, certo? Sua mão agarra meus cabelos. Seu rosto está tão perto do meu, que sinto sua baba quando ele cospe: — Certo? Responde, sua vadia desgraçada! Estou tonta e sem forças. Minha testa é empurrada contra o carpete incontáveis vezes sob o som dos seus gritos de ódio e palavras russas que eu não consigo entender. Meus olhos começam a se fechar quando a camisola preta é levantada e o corpo do capeta penetra o meu. — Você vai carregar um filho meu, sua puta. — Sou arremessada para frente e para trás violentamente, meu rosto arranha e fere contra o carpete, mas não tenho forças e deixo que a dor me domine — Nem que eu tenha que passar todas os dias e todas as noites te


fodendo. Mas eu vou colocar um filho meu dentro de você, Sarina. Eu juro que vou! Não sei quanto tempo passa, mas quando acordo tudo que vejo são os olhos de Ivan, marejados e entristecidos. Quero sorrir e lhe dizer que está tudo bem comigo e que não sou digna de seu sofrimento, menos ainda de seu amor. Mas me perco novamente na escuridão, pois sei que aquela imagem não passa de um sonho, daqueles perfeitos que eu desejo guardar para sempre em minha memória. Junto a todas as outras que me abrigam todas as vezes que o monstro aparece para devorar mais um pedaço da minha alma. Até o dia em que não houver mais nada para saciar a sua fome de vingança e ódio e ele finalmente, me deixe morrer em paz...


CAPÍTULO 17

— Vamos sair daqui antes que os seguranças apareçam. — Natasha resmunga impaciente e se aproxima de Ramona como uma felina esfomeada — Se eu fosse você não faria nenhuma besteira. — Não tenho medo de você. — A garota retruca sem noção de quem é a mulher que está a sua frente e eu me preparo para intervir caso a Imperatriz resolva dar uma breve demonstração do seu poder — Eu conheço bem o tipo de mulher que você é. Natasha é rápida pegando a todos de surpresa e com apenas um movimento coloca Ramona de frente para a parede com o lado direito do rosto pressionado por seu cotovelo. A garota tenta se soltar como pode, mas só facilita mais o trabalho da Imperatriz. — Eu também sei reconhecer uma criança malcriada quando vejo uma e se você não fosse irmã do meu konsult’ant, teria uma bala na nuca e seu corpo seria enviado em uma caixa de papelão para mostrar aquele miserável o trabalho de merda que ele está fazendo com os recrutas. Tudo que ouvimos da boca de Ramona é um gemido de dor. Seus olhos tentam ficar abertos, mas a Imperatriz empurra sua face com mais força contra a parede impedindo-a de fazer ou falar qualquer coisa. Giuseppe percebe que minhas mãos tremerem para tirar a Natasha de cima da menina e toca meu ombro acenando negativamente com a cabeça, num discreto aviso para não me intrometer. — Vamos sair desse puteiro que a vadia da sua mãe chama de boate e se eu ouvir a sua voz mais uma vez, vai ficar sem a língua. — Natasha não alivia e dá uma joelhada nas costas de Ramona obrigando-a a gemer de dor — Posso poupar a sua vida em consideração ao Ivan, mas isso não quer dizer que não posso te deixar em uma cadeira de rodas pelo resto da vida. Estamos entendidas rebenok? A Imperatriz solta Ramona que a olha sem acreditar no que acabou de acontecer e me pergunto se está impressionada com o ataque


surpresa ou por ter sido facilmente dominada. Mas no fundo sei que foram as duas coisas ao mesmo tempo. Realmente Mikail pintou para os seus discípulos um cenário sobre o Império russo bem distante da sua realidade, como Petrus já havia falado no galpão. — Vamos logo, cansei de bancar a babá. — Natasha cospe me fuzilando com seu olhar assassino — Tome conta da fedelha e faça com que eu não a machuque antes da hora. Natasha sai na frente me deixando para trás com Ramona e Giuseppe. O rosto da garota está machucado, mas ela não demonstra nenhum sinal de que aquilo a incomoda. Seguro seu cotovelo e a conduzo porta a fora, seguido por Giu. Passamos por alguns seguranças que apenas nos observam e se entreolham, mas não ousam se meter em nosso caminho. As luzes da boate dificultam a visão e antes de chegarmos à saída olho para o camarote onde Valeska está dançando com dois homens. Minha namorada recatada e cheia de pudores mais parece uma puta de luxo, e suas mentiras deslavadas saúdam a raiva que insiste em aumentar consideravelmente a cada segundo que passa. — Não consigo entender como nunca desconfiou da vadia. A voz de Ramona ao meu lado me tira do transe e pego seu olhar na direção da assistente social. — Estou começando a entender tudo agora. — Não se iluda, você ainda não entendeu nada. — Pelo visto você também não. Seus olhos se fixam nos meus. Procuro em suas feições alguma familiaridade herdade de nosso pai, mas não encontro nenhuma. Talvez ela seja mais parecida com sua mãe. Os olhos são verdes de um tom diferente e seus traços delicados. O cabelo loiro é quase branco e a boca carnuda e pequena. Não conheço Ivana, portanto não posso afirmar, mas Ramona em nada se parece com Sergei, pelo menos fisicamente. — Vamos logo Ivan, ou Natasha vai acabar perdendo a pouca paciência que ainda tem. Seguimos para fora da boate e entramos na limusine que nos espera. Dois homens nos escoltam em outro carro e o motorista segue direto para a mansão.


O silêncio incômodo deixa o clima mais tenso dentro do veículo. Natasha está sentada ao lado de Giuseppe enquanto eu e Ramona ocupamos os assentos na frente deles. — O que pretendem fazer comigo? — A voz da garota irrompe a barreira muda quando atravessamos os portões de ferro. — Primeiro você vai ouvir tudo que eu tenho a dizer e depois vai poder decidir o seu destino. — Não perca seu tempo tentando me convencer a trair meu irmão. — Não vou, só quero que conheça o outro lado da história. Ramona solta uma gargalhada irônica e mais uma vez a Imperatriz perde a compostura. Só que dessa vez em um espaço reduzido e mostra que se a garota não se comportar, nem mesmo eu conseguirei impedir a sua morte precoce. — Eu disse que não queria mais ouvir a sua voz. — A Imperatriz usa a faca de Ramona que estava presa em sua perna para imobilizá-la, pressionando a lâmina contra o pescoço da garota — Não me decepcione mais rebenok, já basta saber que não passa de uma menina mimada, mas vou ficar desiludida se descobrir que é burra também. O carro para de se movimentar. Natasha solta Ramona, que está quase roxa, e é a primeira a descer quando o motorista abre a porta traseira. Giuseppe está estranhamente quieto, acompanhando tudo sem tirar os olhos da menina. Ainda não sei o que aconteceu entre eles dois na boate e confesso que não sei se quero saber. Por mais estranho e ridículo que possa parecer, me sinto incomodado em saber que o italiano tocou minha irmã intimamente. Parece loucura, mas um instinto protetor aflora dentro de mim e sinto que devo proteger Ramona, não apenas das investidas maliciosas de Giu, mas também do homem que a manipula há anos apenas para usá-la em benefício de seus propósitos fanáticos. — Não piore as coisas, Ramona. — Aviso antes de puxá-la para fora do carro — Natasha não é uma mulher com quem se deve brincar. — Já disse que não tenho medo dela. — Seu olhar enfurecido reveza entre Giuseppe e eu — Não tenho medo de nenhum de vocês. — É melhor dobrar sua língua e guardá-la pra usar em ocasiões mais apropriadas. — Giu fala sorrindo e pisca para ela — Ou vai ficar


sem ela e me deixar frustrado pelo resto da vida. Ele pula para fora deixando Ramona irritada ao meu lado. — Não tenho a menor ideia do que seu irmão falou ao meu respeito durante todos esses anos, mas quero que saiba que eu nunca fiz nada contra vocês. — A única coisa que eu sei é que o seu nascimento foi o motivo de toda a merda que aconteceu em nossa família e isso pra mim é o suficiente para te odiar pelo resto da minha vida. — Não sei quando foi que começaram a culpar uma criança pelas atitudes de seus pais, mas se for assim, você e seu irmão devem ser tão ruins quanto eu para que a sua mãe tenha trocado a vida de esposa pela de prostituta de luxo. Ela ajeita o vestido e ameaça retrucar, mas não encontra uma resposta optando pelo silêncio. Desço do carro levando-a comigo para o galpão. Natasha, Giuseppe e Ivankov já estão lá quando chegamos e o cheiro catinguento invade nossas narinas. — Que merda é essa? — Ramona tampa o nariz — O que aconteceu aqui dentro? — É aqui que nós matamos todos os traidores do Império e garanto que pelo cheiro você pode perceber que não foram poucos. — Natasha informa sentada na mesma cadeira que ocupou mais cedo, com as pernas cruzadas segurando uma taça de vinho na mão esquerda e a faca de Ramona na direita. — Vai depender de você se juntar a eles ou não. — Não sei do que está falando. — O que a Imperatriz quer dizer é que nós fizemos um favor para você, mia bella. — Giu provoca quando prende as algemas em seus pulsos, e puxa outra cadeira para que ela se sente. — Não preciso dos seus favores, mudak. — Ramona se esquiva do toque do italiano recusando-se a obedece-lo. Ele empurra os ombros de Ramona forçando-a para baixo. Ela resmunga. Natasha me encara puta da vida enquanto eu apenas observo a interação dos dois. — Vai me dizer que você queria se casar com aquele stronzo? — O que vocês fizeram com Petrus? A voz da garota é estridente. — Você quer saber antes ou depois de ele nos contar tudo sobre


os planos do seu fodido irmãozinho? — Onde ele está? O que fizeram com o meu noivo? — Noivo? — Giu gargalha — Aquele cara não gostava de mulher, bambina, o negócio dele era outro pode apostar. — Seu troglodita nojento! — Apenas sincero mia cara. — Petrus era um cavalheiro e não um tarado como você! Ramona esperneia tentando se levantar para confrontar Giuseppe, mas ele a mantém sentada se divertindo com a situação. Não posso dizer o mesmo a meu respeito, e estou pronto para intervir quando ele se inclina e fala próximo de seu ouvido: — Se ele fosse HOMEM, já tinha te fodido faz tempo em vez de ficar dando o cu para outros marmanjos por aí. Mas fica tranquila que nós te livramos da vergonha de descobrir que seu futuro marido preferia chupar um pau do que uma bocetinha virgem. — Miserável! Meu irmão sempre disse que vocês não passam de mentirosos, farsantes! EU ODEIO O IMPÉRIO! ODEIO TODOS VOCÊS! Ramona se descontrola como uma menina mimada, e odeio concordar com Natasha que será impossível convencê-la em poucas horas a nos ajudar. Tenho que usar a única arma que possuo para descobrir como entrar naquele lugar que parece uma fortaleza na cidade de Sóchi e distrair Mikail. — Chega, Giuseppe. O italiano se afasta sem tirar seus malditos olhos devoradores de cima da garota. Ela está com raiva e pelo pouco que conheço dela, posso jurar que se estivesse em seu habitat, a essa hora suas lágrimas seriam vistas com facilidade. O que demonstra que apesar da pouca idade e falta de maturidade, Ramona sabe controlar suas emoções para não demonstrar fraqueza. Mikail treinou sua força, mas se esqueceu de prepara-la psicologicamente para a guerra e é por esse caminho desprotegido que pretendo seguir para ganhar sua confiança. — Vocês podem me deixar a sós com a minha irmã por alguns minutos? Natasha me avalia e se levanta, deixando o galpão sem dizer uma única palavra o que é preocupante. Giuseppe reluta e está


claramente irritado por ser obrigado a acatar a decisão da Imperatriz, saindo com Ivankov logo atrás dele. Quando a porta se fecha, eu puxo a cadeira que Natasha ocupava e a coloco bem à frente de Ramona. Ela não desvia o olhar e posso ver todos os sentimentos expostos nele. A menina é a contradição em pessoa e eu me ressinto por tudo que ela passou desde que foi vendida ao seu avô pela própria mãe. — O que estava fazendo naquela boate? Ela não responde. — Você sabia que a sua mãe é a dona daquele lugar, Ramona? Um sorriso desprezível desliza lentamente em seus lábios. — Você sabia que essa sua falsa preocupação comigo chega a ser patética, Ivan Keritov? — Não está falando meu sobrenome para tentar me ofender está? — Pergunto devolvendo o mesmo sorriso vendo minha irmã fechar a cara. — Deveria sentir vergonha dele. — Posso saber por quê? — Porque nem ele é seu por direito, não percebe? — A única coisa que eu percebo é que o sobrenome do seu pai fez a mesma diferença na vida de você e de Mikail quanto fez na minha, Ramona. — Isso não é verdade! — Não? Então me diga quantas vezes você foi apresentada as pessoas como filha de Sergei Desdeiev e não como a neta de Ruric? — Ruric Desdeiev, você quer dizer, não é? — O homem que te comprou da sua própria mãe pra te usar como moeda de troca numa transação comercial da Bratva? — Seus olhos se estreitam e ela morde a bochecha como fez na boate — O mesmo homem que nunca se preocupou com o que você queria fazer da sua vida e te trata como uma das putas que ele e seu irmão levam para aquele lugar que eles chamam de casa? Dessa vez Ramona não rebate. — O meu sobrenome é do pai da minha mãe e tudo que eu me lembro é que foi ele quem me ensinou a andar de bicicleta e soltar pipa na rua. Eu nunca fui obrigado a fazer nada que não queria, muito pelo contrário, escolhi minha própria faculdade, onde queria morar, com


quem queria passar minhas noites e até o que queria comer. Você alguma vez na sua vida já fez isso? Sabe o que significa a palavra amor e o quanto a felicidade de quem a gente ama é importante pra nossa própria felicidade, Ramona? A garota engole seco, vejo seus olhos brilharem e me admiro por fazê-la se emocionar com tanta facilidade. Pessoas solitárias tendem a se apegarem a qualquer pessoa que se aproxima e de alguma forma consiga atingir seus pontos vulneráveis. Eu devo usar sua carência, severamente ignorada, para convencer essa jovem mulher a me ajudar a destruir seu irmão mais velho, e vou usar, mas ao contrário do que Natasha e todos esperam que eu faça, usarei porque quero realmente ajuda-la e quem sabe, me tornar para Ramona o irmão que ela não teve e que sente falta. E talvez, possa conquistar sua confiança e fazer com que ela queira ser a irmã que não tive e também sinto falta. — Você não sabe nada sobre a minha família! — Ela fala entredentes. — Não sei, mas você também não sabe nada sobre a minha Ramona, e é por isso que eu estou aqui. — O que você quer? Não vai me matar? — Eu quero entender o que levou você e Mikail a me culparem pelas escolhas de Sergei. — Se você não tivesse nascido ele teria ficado com a nossa mãe. — É nisso que você quer que eu acredite? — Essa é a verdade. Ruric e MIkail sempre falaram que meu pai nos abandonou porque preferiu ficar com a empregada e o filho que ela carregava no ventre em vez de ficar ao lado da esposa e dos filhos legítimos. — E a culpa de ele ter feito isso é minha? — De quem mais poderia ser? Sua resposta em forma de pergunta deixa claro que essa mulher nunca parou realmente para pensar por conta própria. A história foi introduzida juntamente com a raiva durante muitos anos em sua mente e ela continua acreditando nela apenas por confiar nas palavras do irmão e do avô. Está na hora de fazer Ramona fazer bom uso de seu cérebro e começar a entender que devemos conhecer, antes de qualquer coisa, o


contexto inteiro para depois tirarmos nossas próprias conclusões. — Você amava Petrus? — Claro que amava, ele era meu noivo. — Então posso concluir que se não houvesse o contrato assinado entre seu avô e o pai dele, você ainda assim o escolheria para ser seu marido, certo? Minha meia-irmã não é rápida, sequer passa confiança em sua resposta. — Claro... — Petrus me disse muitas vezes você não concordou com as atitudes do seu irmão. É verdade? — Eu sei o que você está querendo Ivan, mas pode desistir porque não vai conseguir. Cruzo os braços relaxando o corpo na cadeira. — O que eu estou querendo, Ramona? — Me jogar contra Mikail. — Está enganada. — Então o que é que você quer? — Saber se você acha certo o que seu avô e seu irmão fazem com as mulheres que eles sequestram, estupram, humilham e abusam, como costumam fazer? — Apoio os cotovelos sobre as pernas inclinando o corpo e olhando bem no fundo de seus olhos verdes — Eles pegaram a Sarina só para usa-la contra mim, Petrus me contou tudo que fizeram com ela a primeira vez, e agora devem estar fazendo de novo. Você concorda com isso? — Por que a minha opinião importa para você? — Porque eu amo aquela mulher mais do que qualquer coisa que já amei em toda a minha vida, Ramona. — A menina se surpreende com a minha sinceridade e sua boca se abre sem emitir qualquer som — Eu me apaixonei perdidamente pela Sarina quando nos conhecemos em Kazã a muitos anos atrás e sofri como você nunca vai conseguir imaginar durante todo esse tempo, achando que ela era uma garota de programa e tinha me abandonado para se casar com um dos seus clientes por causa de dinheiro. Seu irmão chantageou Sarina naquela época, usou Severino para fazer dela uma escrava sexual por vários meses e está fazendo isso de novo, agora pra ter um filho com ela. Eu sei que ele que matou Severino em Volgograv, também sei sobre o envolvimento dele


com Irina e, depois do que vi hoje, acredito que Valeska é apenas mais uma mulher usada por Mikail para tentar me foder. Eu fico em pé engasgado com a minha declaração. Em poucos dias toda a verdade omitida por quase dez anos chega trazendo mais dúvidas do que esclarecimentos, e a única pergunta que martela minha cabeça, incansavelmente é: Por que Sarina nunca me contou o que sabia? — Não estou indo atrás de Mikail por causa de Sergei, de Ruric, da Bratva ou da Imperatriz. Estou indo para Sóchi salvar a mulher que eu amo e cedeu as chantagens do seu irmão pensando que estava me protegendo dele. É por ela que eu vou invadir aquele lugar, acabar com qualquer um que tentar me deter e é por ela que eu não vou poupar a vida do seu irmão, como não poupei a vida de Petrus, de Gustav, ou de qualquer outro membro vendido do Império que se aliou ao Pakhan para nos destruir. Ramona continua me encarando embasbacada e agora posso ver em seus olhos um brilho diferente, mas indecifrável. Não vou machucála e pretendo convencer Natasha a mantê-la nossa prisioneira caso ela se recuse a nos ajudar, mas a necessidade de saber o quanto a maldade de Ruric e Mikail está impregnada em sua alma, é feroz e grande demais para ser ignorada. E enquanto não tiver certeza da profundidade do poço escuro que foi cavado em seu coração desde que chegou aquele lugar, segundo Petrus com apenas treze anos, eu não me darei por satisfeito. — Você me disse que amava Petrus e se isso for verdade entenderá até onde eu estou disposto a ir para arrancar Sarina daquele lugar. Eu nunca tive medo da morte Ramona e perder a vida para salvar a única mulher que já amei, vai ser a melhor forma de morrer. Apoio as mãos nas costas da cadeira e ainda olhando em seus olhos pergunto: — Consegue entender que assim como vocês eu também fui rejeitado, mas nem por isso culpei sua mãe ou vocês pelas atitudes de Sergei? A menina morde o interior da bochecha com os ombros tencionados. — Consegue enxergar que o seu avô não passa de um homem frustrado pelo fracasso que foi como soldado da Bratva e usou seu irmão


e você para conseguir atingir seus próprios objetivos? Ela não responde, mas seus olhos começam a falar comigo claramente. Seu cérebro está agindo só preciso saber em qual direção vai seguir. — Consegue perceber a verdade quando pode analisar a mesma situação com seus próprios olhos e não através das lentes que foram colocadas sobre eles para desfocar a sua visão? Pego a chave das algemas e libero seus pulsos. — Você tem até amanhã de manhã para pensar de qual lado vai ficar Ramona, e eu espero que a sua decisão seja tomada baseada em tudo que viveu ao lado daqueles homens durante dez anos e não em nossa conversa de meia hora. — Guardo a chave no bolso da calça e falo antes de deixar o galpão, minha irmã e toda minha esperança para trás — Não sei se você teve a oportunidade de conhecer o seu pai, mas eu conheci o meu e serei eternamente grato a ele por ter me ensinado que o amor não deve ser motivo de vergonha para um homem e sim, motivo de orgulho, porque nenhum outro sentimento é forte o bastante para transformar um homem em um monstro e eu, Ramona, sou um homem que ama violentamente. Caminho em direção a porta onde Ivankov está parado com uma metralhadora semiautomática nas mãos, vigiando o perímetro, e ouço a voz da menina provocando eco no galpão esvaziado: — Você não sabe do que ele é capaz, Ivan. — Olho para trás e vejo sem muita clareza o brilho molhado sobre a face de Ramona — Mikail não vai deixar você sair vivo de lá e se estiver mesmo disposto a arriscar à sua própria vida por aquela mulher é melhor estar preparado para o que vai encontrar e não deixar que ele envenene a sua cabeça contra ela. — Eu já fui envenenado, Ramona, só preciso resgatar a Sarina e tentar encontrar a cura para todos os ferimentos que o veneno causou dentro de mim, mas pode acreditar que Mikail nunca mais vai chegar perto de nenhuma mulher e isso é uma promessa. A noite fria de Moscou refresca meu corpo superaquecido. A luz do escritório está acesa indicando que a Imperatriz continua acordada à minha espera, mas eu desvio do caminho que leva para dentro da mansão e sigo para o estacionamento onde meu carro foi guardado. Alguns problemas devem ser resolvidos na hora, pois se forem


deixados para depois podem se transformar em catástrofes, e eu não quero mais adiar o inadiável. Sigo em direção ao puteiro de Ivana, pronto para dar uma pequena amostra do que o konsult’ant do Império é capaz de fazer com um traidor. Um arrepio perpassa minha espinha e começo a entender o motivo da satisfação do Capo italiano e da Imperatriz russa quando o assunto é tortura. Talvez eu não seja um cara tão legal como dizem, afinal de contas, quem consegue sentir prazer em tirar a vida de outra pessoa, certo? A não ser que essa pessoa seja uma vadia traidora...


CAPÍTULO 18

— Pode falar, Rey. — Descobri sobre o carregamento. — Quando vai ser? — Daqui a dois dias em São Petersburgo. — Tem o nome dos receptores? — Tenho, mas não consegui identificar quem é. Esse cara nunca apareceu nos registros antes. — Quais são as letras? — BA — Tem certeza que não tem nenhum traficante com essas iniciais nem no sobrenome? — Absoluta. Ampliei a busca para os países que utilizam patronímico, mas também não achei nada. Nem no Brasil tem registro de traficantes com essas iniciais. — Envie os dados direto para o celular do Fillipo, ele já sabe o que fazer. — Ah... eu consegui as informações que me pediu, Ivan. — Estou ouvindo. — Ramona falou a verdade sobre a morte do avô. Foram encontradas algumas partes do corpo de Ruric Desdeiev na estância de esqui, próxima a Rosa khutor, em Krasnaya Polyana, que fica a trinta quilômetros da propriedade dele, que agora pertence aos netos e únicos herdeiros. — Por que a notícia não foi divulgada? — Pelos registros da polícia local, tudo indica que foi um caso de parricídio, o que na Bratva é comum e deve ser resolvido entre a família, embora todos saibam que o velho não era o pai do cara. — Ninguém quis se intrometer e comprar uma briga com o novo Pakhan. — Exato. Mais alguma coisa?


— Por enquanto não. — Por quanto tempo vou ter que ficar escondido, Ivan? — Pelo tempo que for necessário, Reynaldo. A não ser que queira se arriscar e ser morto por um dos homens de Mikail. Natasha dá uma risadinha ao ouvir minha resposta. — Claro que não quero, tá doido? — Então fique por aí e faça o seu trabalho. — Você está sozinho ou a Imperatriz está por perto? — Estou sozinho, Rey, o que você quer? Natasha se diverte com o pânico do garoto. Ela nem imagina que todos os homens que trabalham para ela se borram só de ouvirem seu nome. — Será que você consegue me mandar uma garota para passar a noite aqui? — Tem alguma preferência? A Imperatriz revira os olhos e bufa. Eu entendo o garoto e não o julgo, embora não ache certo ele trair a namorada que está no Brasil e só virá para a Rússia no próximo mês quando entrar de férias na faculdade. — Morena. — Sua namorada não é loira? — Por isso mesmo, da última vez eu quase não consegui... você sabe, porque toda hora eu via o rosto dela e ficava me culpando. Eu gargalho com a explicação sincera. — Tudo bem, vou providenciar uma morena gostosa pra você. — Obrigado Ivan, mas não deixa a Natasha ficar sabendo. Eu sei que isso não é certo e não quero que ela se decepcione comigo, mas porra, tá difícil aguentar ficar aqui sozinho, isolado e sem ninguém pra conversar. — Fica tranquilo, ela não vai saber e tenho certeza que se a Natasha desconfiar, não vai ficar decepcionada porque vai entender a situação. Encerro a ligação sob o olhar aguçado da Imperatriz. — Não vamos julgar o garoto. — Tento aliviar a barra de Rey. — Eu tenho uma ótima ideia de como fazer isso. — Ele só está carente, Natasha. Pega leve. — Claro, aposto que a namorada dele vai adorar chegar em casa


depois de um dia exaustivo de trabalho e encontrar um homem lindo esperando por ela em cima da cama e pronto pra atender todos os desejos mais sacanas que passarem pela cabeça dela. O que você acha? — Eu acho que está na hora de trazer Fillipo para Moscou. — Está querendo me dizer alguma coisa, Ivan? — Quero dizer que a cada dia que passa você está ficando pior, e não sei se isso é bom ou ruim para o que está prestes a acontecer nas próximas horas. — Pelo menos sabemos que a pirralha não mentiu. — Eu disse que ela estava falando a verdade. — E eu disse que precisava da confirmação. — No fundo eu sei que você gosta dela. — Não Ivan. No fundo eu sei que ela se parece comigo, mas não acho que ela tenha se tornado uma máquina de matar por livre e espontânea vontade, e é isso que me preocupa. — Ela pode mudar se quiser. — Eu demorei dezoito anos Ivan, e só foi possível porque Fillipo entrou na minha vida. — Talvez Ramona dê sorte e também encontre alguém que a faça mudar. — Vai ser um desperdício porque a pirralha tem talento. — O que você quer, afinal? Uma hora torce para que ela saia da máfia e logo depois fala que poderia ser bom se ela continuasse no Império. Natasha ergue a sobrancelha e um sorriso cínico brinca em seus lábios. Eu arrasto a cadeira para trás e fico de pé. — Nem fodendo! Pode parar com essa conversa, porra! — Não adianta fingir que não viu como eles se olham, Ivan. — O Giuseppe tem quase o dobro da idade dela, Natasha! — Que exagero! — Ela é virgem, porra! — Passo a mão pelos cabelos — Sabe quantas meninas de vinte e três anos são virgens hoje em dia? — Mais um bom motivo para... — Não! Dez mil vezes não! Giuseppe é um homem que não quer saber de porra nenhuma e você sabe disso melhor do que ninguém. — Ele está de quatro por ela, Ivan. — Ele quer a minha irmã de quatro Natasha, é bem diferente. —


Ela gargalha me irritando ainda mais — O que está deixando ele alucinado é saber que a Ramona nunca transou com ninguém. — Não é só isso Ivan, ele já estava caidinho por ela antes de saber desse detalhe. — Não interessa! — Esbravejo me sentindo um cão de guarda — Ramona já passou por muita coisa nas mãos daqueles dois miseráveis. Ela merece um homem que esteja realmente apaixonado por ela e queira alguma coisa séria e não um cara que fode uma boceta diferente por noite. A imperatriz se levanta, pega a pistola e sua faca, dá a volta na mesa e passa por mim, caminhando em direção a porta mudando de assunto repentinamente. — Está tudo pronto para a viagem? — Está. Ramona ligou para Mikail e falou com ele há uma hora, fingindo que estava em Volgograv e avisou sobre o incêndio e a liberação do corpo de Severino. Mais tarde vai ligar de novo e avisar que se encontrou com Petrus e ficará em Moscou essa noite, mas amanhã de manhã eles irão para Sóchi e farão a vistoria nas plantações de heroína juntos. — Você confia nela, Ivan? Acha que podemos nos arriscar desse jeito depois de algumas horas de conversa que tiveram? Apesar de terem sido poucas horas, nossa conversa foi esclarecedora e, embora Ramona ainda tenha seus receios e crises de insegurança, acredito que ela já não me vê como o vilão que Ruric e Mikail tentaram me esculpir durante todos esses anos. — Eu confio, Natasha, mas entendo se não quiser arriscar seus homens. Só me aproximei dela e a trouxe para perto de nós porque você me disse que iria autorizar a minha viagem para Sóchi apenas quando tivéssemos um aliado infiltrado na casa do desgraçado. E Ramona é a pessoa mais apropriada para me ajudar quando estiver lá dentro. Natasha me encara com uma expressão estranha. Desde que voltei da boate, na madrugada de ontem e lhe contei o que havia feito com Valeska ela está agindo um pouco diferente comigo. Ainda não sei se é uma coisa boa ou ruim, só sei que nunca me senti tão confiante como estou me sentindo agora. Finalmente desejo enfrentar Mikail e dar um fim a essa merda que está colocando não apenas a minha vida em jogo, mas a vida de


todas as pessoas que, de alguma forma, estão ligadas a mim. — Ainda não confio na pirralha e não sei se um dia vou conseguir confiar, mas confio em você e isso basta. — Já deixei todos avisados que vamos sair daqui as duas da manhã, em ponto. Temos que chegar a Sóchi antes de o dia clarear para entrarmos na propriedade sem sermos vistos. — Quem vai com você? — Ivankov, Petkovich e Lenin. Ela assente, confere o celular e volta a me encarar com sua expressão nova e enigmática. — Preciso resolver um problema para Fillipo, mas estarei de volta em uma hora. — Giuseppe vai com você? — Não, ele está ocupado... — Ocupado com o que? — Acho que você não vai querer saber. — Aonde ele está, Natasha? — Não sei por que está me perguntando se já sabe a resposta, Ivan. — Aquele galpão está parecendo uma arena de circo nas últimas horas, caralho! — Não tenho culpa se todos os meus seguranças estão apostando que a sua irmã não aguenta encarar o italiano. — De novo essa merda? — Eu disse para levar a pirralha para o quarto, você que não quis. — Natasha, se Giuseppe ficou de plantão a madrugada toda naquele galpão frio e fedido, dormindo sentado numa cadeira só pra garantir que ninguém fosse entrar lá e impedir caso ela tentasse fugir, imagina o que o infeliz ia fazer se eu estivesse liberado o quarto? — Pelo jeito você não bota muita fé no bom senso da pirralha, não é Ivan? Passo pela Imperatriz seguindo para o galpão, irritado demais para continuar aquela conversa. — Nós dois conhecemos aquele carcamano, Natasha, mas a Ramona não, e nós dois também sabemos que ela vai se arrepender muito se cair na lábia dele.


Olho para minha amiga e deixo que veja em meu olhar toda preocupação que tenho com a mulher jovem, inexperiente e completamente solitária que luta contra os sentimentos que Giuseppe desperta nela, e não posso fingir cegueira quando a atração entre os dois é praticamente palpável. Eu gosto de Giu, mas o conheço bem para saber que ele não é um homem que está atrás de compromisso sério ou à procura de uma mulher para se casar, e por mais que Ramona negue e afirme que não acredita no amor e em relacionamentos, sei que deseja encontrar alguém que a ame de verdade. — Então é melhor se apressar... — Natasha desvia novamente sua atenção para o celular e fala antes de seguir na direção do estacionamento — Pelo que vi eles estão lutando e não é por se odiarem, se é que me entende. — Merda! Aperto o passo ouvindo a risada de Natasha de longe e os gritos e assobios vindo do galpão. Pelo jeito Ramona e Giuseppe estão dando um show gratuito para os seguranças e meu coração quase salta pela boca quando vejo o que está acontecendo com meus próprios olhos. Puta que pariu! — Não vai desistir? — Ramona está com o pescoço do italiano entre suas pernas, dando-lhe uma chave de braço. — Olhe para mim, tesoro, estou no paraíso. — Ela torce seu braço com mais força, mas o babaca gargalha se divertindo — Posso ficar aqui sentindo seu cheiro a vida toda. Os seguranças estão agitados e imploram para que Giuseppe reaja, mas ele pouco se importa e não tira seus olhos de Ramona. Ela por sua vez está com o maxilar rígido e os olhos semicerrados sem demonstrar qualquer compaixão quando torce o braço do idiota arrancando um grito de sua garganta e obrigando o garanhão a bater no chão pedindo arrego. Um sorriso orgulhoso brota em meus lábios quando entro empurrando os brutamontes que ficam surpresos com a minha chegada. Ramona fica de pé limpando a roupa e ergue os dois braços comemorando a sua vitória. — Bom trabalho. — A cumprimento passando por cima do corpo de Giu que está esticado no chão — Precisamos conversar sobre o


plano e repassar todos os detalhes com os homens que vão com a gente. — Cadê a minha faca? — Ela pergunta pela vigésima vez. — Eu já disse, você vai ter ela de volta quando sairmos daqui. — Não confio na Imperatriz. — Ótimo, porque ela também não confia em você. Puxo minha irmã pela mão e saímos do galpão. Ramona recebe os cumprimentos dos seguranças e ainda recebe algumas notas por ter sido a vencedora da luta. — Ivan! — Giuseppe grita vindo atrás de nós. — Para onde estão indo? — Vou me reunir com os homens que vão para Sóchi. — Vai repassar os detalhes da invasão? Ramona está tensa ao meu lado e fica incomodada quando o italiano começa a caminhar ao lado dela. — Precisamos acertar todos os detalhes. Não podemos falhar ou Sarina vai estar morta antes de ser encontrada. — Vou com vocês. — Não é necessário Giuseppe. — Natasha mandou eu ficar por perto. Ouço sua risada e me preparo para responder, mas Ramona se antecipa: — Sua Imperatriz disse perto, izvrashchennyy(1) não grudado em mim. — Não precisa ficar com ciúme de Natasha, mio tesoro, ela não faz meu tipo. — Tenho certeza que ela faz o tipo do Capo Giu, então é melhor calar a boca e se afastar da minha irmã. — Então é verdade que ciúme é um mal da família Desdeiev, hein? — Por que não consegue ficar com essa maldita boca fechada, ital’yanskiy? (2) Ramona está irritada e não se importa em deixar sua irritação em evidência, mas parece que isso apenas estimula as provocações de Giu. — Eu consigo, tesoro, mas vou precisar da sua ajuda para isso. O que acha de manter a minha boca ocupada? Tem muitas coisas que pode fazer para me deixar mudo.


— Nem nos seus melhores sonhos. — Ramona para a frente dele cruzando os braços à frente do corpo — Você é do tipo de homem que come qualquer merda que encontra na rua, e eu não do tipo de mulher que revira lata de lixo. Sabe como é, o paladar de quem está acostumado a doktorskaya não sabe apreciar um chernoye zoloto, e eu, mudak, sou o tipo mais raro de chernove zoloto que existe. Giuseppe franze o cenho cruzando os braços como Ramona. Assistir aos dois nessa discussão ridícula deveria ser cansativo, mas chega a ser divertido a forma como eles confrontam um ao outro. — Que porra é essa de chernove sei lá das quantas? — Viu só? — Ramona sorri satisfeita — Por que você não vai lamber o rabo da sua Imperatriz em vez de ficar aqui enchendo o meu saco, hein? — Porque o único homem que lambe meu rabo é o meu marido! — A voz de Natasha no alto da escada pega todos nós de surpresa e faz minha irmã dar um pulo. — Chame os homens que você escolheu Ivan, quero todos no escritório. Giuseppe, traga as armas e munições que serão levadas para Sóchi, e você pirralha, vem comigo, quero ter uma conversinha com você sem a presença do seu irmão. Apenas nós duas, de mulher pra mulher. A palidez de Ramona é evidente, embora ela se esforce muito para não demonstrar o quanto está abalada com a chegada repentina da Imperatriz. — Você não disse que ia resolver um problema para o Fillipo? — Pergunto tentando amenizar o clima. — Já está resolvido e pare de besteira Ivan. Eu disse que vou ter uma conversa e não torturar a pirralha. — Seu sorriso predador deixa Ramona ainda mais tensa — Pelo menos não hoje. Se mexam que nós não temos a noite toda! Natasha espera Ramona e a conduz para dentro da mansão. Giuseppe e eu ficamos olhando para as duas até que seus vultos desaparecem na escuridão da residência. — O que ela quis dizer com “chernove zoloto”, Ivan? Natasha Olotof, a Imperatriz russa, acaba de levar para dentro da sua casa a irmã mais nova do seu mais novo inimigo depois de ouvir a garota mandar o italiano lamber a bunda dela e a preocupação do idiota é saber da porra do caviar.


Esfrego a testa suada sentindo minha cabeça começar a doer. Não é hora de iniciar uma discussão sobre as intenções de Giuseppe com Ramona e sim, focar nos próximos passos que serão dados a partir das duas horas da manhã. — Ramona fez uma comparação entre a doktorskava, uma mortadela de porco que os russos adoram e o chernove zoloto, caviar ouro negro mais famoso e raro da Rússia, Giuseppe. — Essa mulher ainda vai me enlouquecer, Ivan! — Ele fala me dando as costas e voltando para o galpão onde estão nossas armas — Dio aiutami! Fico sozinho encarando o nada tentando controlar todas as emoções que esfolam meu peito. Não posso falhar em Sóchi. Antes era apenas a vida de Sarina que estava em jogo, mas agora a vida de Ramona também está e se MIkail descobrir que a irmã se voltou contra ele, nem quero imaginar o que o miserável fará com ela. Sigo até os dormitórios e convoco os três voyennyyee escolhidos para me acompanharem na viagem até a propriedade do homem que deseja me destruir, conduzindo-os até o escritório. Esperamos por mais de uma hora, impacientemente, até que a porta se abre e a Imperatriz entra com Ramona logo atrás dela. Minha irmã está de banho tomado e veste roupas pretas iguais às de Natasha. É como se as duas estivessem em uma sintonia perfeita o que, ao mesmo tempo em que me acalma me amedronta. Não sei o que a Imperatriz fez ou falou para Ramona, mas alguma coisa dentro de mim insiste em me dizer que eu não vou gostar de descobrir quando chegar a hora. — Teremos que rever o seu plano Ivan. — Natasha me pega de surpresa sentando-se em sua cadeira enquanto todos os outros ficam em pé em volta da mesa. — Por quê? — Questiono com o coração acelerado — O que aconteceu? A Imperatriz avalia minha expressão, desvia seu olhar para Giuseppe que faz um gesto quase imperceptível com a cabeça, consentindo, mas eu consigo perceber e depois fica encarando Ramona, que olha para os próprios pés. O silêncio é cortante. Não sei o que está acontecendo e isso me tira do sério. Estou


prestes a protestar, exigindo explicações da Imperatriz e do primo de Fillipo quando minha irmã levanta a cabeça encarando Natasha sem a raiva anteriormente presente em seus olhos e repete o mesmo gesto de cabeça do italiano. Assentindo. Eles concordaram com alguma coisa. Só desejo saber o que é. Natasha vira sua cadeira para mim, relaxa seu corpo esbelto em cima dela e coloca a faca de Ramona sobre a mesa, empurrando o objeto na direção da garota, que a pega com um mísero sorriso em seus lábios. — Eu disse a você que só iria autorizar a sua missão suicida em Sóchi se tivéssemos algum aliado infiltrado naquela pocilga. — Ela fala pausadamente me convencendo de que a sua calma não é apenas aparente — Confesso que nunca imaginei que estivesse tão determinado a ir atrás de Sarina, a ponto de fazer uma aliança com a mulher que foi criada e treinada pelo próprio demônio para te destruir e abraçar uma guerra contra o Império. Mas você me provou que eu estava errada e me garantiu que confia na pirralha para te ajudar no resgate de Sarina. A voz firme da Imperatriz enaltecendo minhas ações são fundamentais para que minha confiança se multiplique. Mas suas próximas palavras comprovam que a nossa relação não é apenas de amizade, e sim, de irmãos: — Eu e Giuseppe iremos com você Ivan, e vamos acabar com aquele rato de esgoto que está tentando acabar com todos nós. — Ela sorri brevemente assim como vejo Giu também sorrir, satisfeito pela decisão de última hora da Imperatriz. — Temos quatro horas para alinhar os detalhes, e é melhor começar a refazer a logística para que nada dê errado. — Por que está fazendo isso, Natasha? — Indago ainda curioso — O que fez você decidir ir a Sóchi comigo? A Imperatriz vira a cabeça e olha rapidamente para Ramona, que tem seus olhos em mim e responde: — Vamos dizer que a minha conversa com a pirralha foi... produtiva, e se não fosse por ela, eu e Giu não estaríamos aqui decididos a ir com você. Minha intuição insiste em me preparar para alguma coisa muito ruim, mas me recuso a acreditar que irei fracassar no momento mais importante da minha vida. Não posso, não quero e não vou falhar com nenhum deles.


Dizem que conselho de pai e mãe deve ser ouvido e seguido à risca. Eu ouvi e segui o que Sergei me aconselhou no dia em que o vi pela última vez, mas ignorei um dos conselhos que dona Sonia me deu durante todos os anos em que esteve ao meu lado, e como punição pela minha relutância em ser fiel aos meus instintos, fui obrigado a experimentar o gosto mais amargo de todos: O gosto da derrota...

(1)

PERVERTIDO

(2)

ITALIANO


CAPÍTULO 19 – NATASHA OLOTOF GRASSO

Ser a Imperatriz russa requer muito mais do que apenas habilidades com uma pistola ou uma faca, sangue frio para estrangular um homem, assistir uma mulher de quase sessenta anos ser estuprada de maneira brutal por um dos meus voyennyyee ou saber a hora certa de intervir em alguma situação que coloca a vida de um grande amigo em risco máximo. Liderar o Império russo exige sacrifícios e hoje eu decidi que chegou a hora de sacrificar não só a mim, mas também a minha família. Claro que não sou idiota para fazer isso sem antes me certificar de que o meu plano, baseado no plano do konsult’ant do Império não terá furos e por esse motivo, estou indo agora ao encontro do homem que se tornou o centro do meu mundo desde que entrou na minha vida. — Por que demorou tanto, angelo mio? — Porque precisei despistar o Ivan pra ele não desconfiar de nada. Mal entro em meu quarto e sou agarrada por braços fortes envolvendo minha cintura. A boca de Fillipo está explorando cada milímetro da minha e suas mãos percorrendo meu corpo numa análise minuciosa e saudosista. — Sinto muito amor, mas não temos tempo para isso agora. — Eu o afasto apenas o suficiente para olhar em seus olhos azuis escuros e me banhar no mar de emoções que eles despertam em mim — Vou chamar a pirralha para conversarmos com ela e decidir o que vamos fazer. — Não gosto do que você está planejando, Natasha. Meu marido passa as mãos pelos cabelos negros, que voltaram a crescer e cobrem completamente a sua cabeça. Ele está ainda mais lindo do que já era. Seu corpo ganhou músculos extras depois do uso contínuo de suplementos, indicados pelo médico para que aumentasse a imunidade e se tornasse mais forte na luta contra o regresso do câncer


que quase o matou a dois anos atrás. — Mas você concorda que é um ótimo plano. — É muito perigoso e eu não gosto nem um pouco de saber que você e Ivan ficarão expostos, à mercê daquele maledetto figlio di puttana! — Serão apenas algumas horas, amore mio. Fillipo sorri me abraçando novamente. — Sembri pià bella a parlare italiano... — Meu Capo beija meus lábios rapidamente e dá um tapa na minha bunda com força — mas eu sei que só está falando assim para me amolecer, angelo. Te conheço Natasha, e sei que se não te ajudar você vai fazer essa loucura de qualquer jeito. — Você está enganado, amore mio. Estou falando em italiano porque adoro te ver excitado desse jeito. — Solto uma risada, involuntariamente, ganhando outro tapa na bunda — Mas não pode me condenar depois de ter descoberto tantas coisas importantes sobre aquele desgraçado. — Por que mudou de ideia a respeito de Ramona tão rápido? Ontem você me disse que não confiava nela e hoje me fala que não tem dúvida sobre a decisão da bambina de te ajudar nessa loucura? Mais uma vez o afasto para conseguir raciocinar direito. O mínimo contato com esse homem me desestabiliza e eu perco o controle sobre as vontades e desejos de meu corpo. E sem levar em conta que estamos há duas semanas sem nos ver ou nos tocar, o que por si só, é insuportável. — Quando Ramona chegou aqui ontem de madrugada, tudo que havia em seus olhos era raiva e dor, muita dor. — Dou a volta na cama e paro em frente à janela apreciando a noite fria que chega trazendo consigo a proteção que precisamos para invadir a propriedade de Mikal Sergeevich Desdiev — Ainda não conheço a história completa e verdadeira da pirralha, mas depois do que vi hoje, tanto pela manhã quando cheguei de surpresa no galpão, como quando flagrei o beijo que Giuseppe roubou sem qualquer esforço, foi satisfatório e acho que Ivan não é o único motivo para convencê-la a nos ajudar. — E se ela se recusar? Olho para trás encontrando seu olhar, preocupado. — Então terei que matá-la.


— Faria isso, mesmo sabendo que ela é irmã de Ivan? — Se ela não quiser entrar nessa depois de tudo que iremos contar, vou garantir que meu amigo não tenha mais uma decepção e eu não irei pensar duas vezes antes de mandar a pirralha pro inferno junto com o primogênito bastardo que a criou! — É uma história e tanto a desse stronzo, hun? — Daria um belo enredo de filme dramático. — Pior do que a história entre você e Anya. — Mas uma coisa as duas têm em comum. — O ódio entre irmãos. — Não, amore mio. — Envolvo seu pescoço com minhas mãos e beijo seus lábios — Nas duas histórias temos de um lado, duas pessoas que não se conformam com a felicidade de alguém que elas julgam indignas e de outro, duas pessoas que só querem esquecer o passado que tiveram e seguir em frente para tentar ser feliz. — Ivan não vai seguir em frente depois que souber a verdade sobre Sarina. — Ele vai ter que decidir se vai deixar o orgulho falar mais alto que o amor do mesmo jeito que fiz. — Por favor, Natasha, não compare a mentira que eu contei para te proteger da Anya, com todas as coisas que Sarina escondeu dele por todos esses anos, sì? — Mentira é sempre mentira Fillipo, e como você, ela só estava tentando proteger o homem que amava. — Não, angelo mio, o que a sua amiga fez não foi apenas mentir para proteger o Ivan. — Mas... — Sem mas, e vamos deixar que ele decida o que fazer quando descobrir tudo. — Meu Capo me beija intensamente e se afasta sem que eu precise fazê-lo pela terceira vez — Vá lá e traga a bambina antes que eu arranque sua calcinha e te foda aqui mesmo. — Não saia daqui. — Aviso e sigo para a porta — Se Ivan te ver desse jeito saberá que estou mentindo para ele. — Não vou sair, mas não se engane que ele vai ficar feliz quando souber o que pretendemos fazer. — Quanto menos ele souber, mais chance teremos de convencer Mikail.


— Eu ainda acho muito perigoso. — É com isso que estou contando. — Não contaria se fosse você. Ele me dá seu alerta me obrigando a lembra-lo o motivo principal de sua participação nesse plano. — Sei que fará o que for preciso para me tirar de lá Fillipo, e é exatamente isso que espero que faça. — Por você irei até o inferno, mio angelo. — É bom que esteja falando a verdade, Capo, porque eu tenho certeza que aquele lugar é o próprio inferno. Dessa vez quem o alerta sou eu, e o sorriso maquiavélico que recebo em troca, do homem considerado um dos mais poderosos e perigosos mafiosos do mundo, é a garantia de que o desgraçado que está tentando foder o meu Império terá exatamente o que merece. Saio do quarto indo ao encontro dos meus amigos. Pouco antes de atravessar o corredor que me leva até a porta dos fundos da mansão, ouço as vozes alteradas de Giuseppe e Ramona. Se eu não conhecesse o primo do meu marido, poderia afirmar que a pirralha está apenas o irritando, mas como o conheço bem, sei que Giu foi fisgado e ainda não sabe como lidar com a avalanche de emoções que a irmã de Ivan provoca nele. A garota tem uma língua afiada que quase me faz gargalhar. Quase. Chego bem a tempo de me intrometer na conversa, quando ela manda Giuseppe lamber meu rabo. Atrevida e corajosa, devo admitir, pois se não fosse alguém importante para o meu amigo, certamente ficaria sem a língua num piscar de olhos. — Porque o único homem que lambe meu rabo é o meu marido! — Rosno atrás dela e vejo seu corpo saltar com o impacto das minhas palavras, mas finjo não notar e aproveito para afastar o konsult’ant da mansão. — Chame os homens que você escolheu Ivan, quero todos no escritório. Giuseppe, traga as armas e munições que serão levadas para Sóchi, e você pirralha, vem comigo. Quero ter uma conversinha com você sem a presença do seu irmão. Apenas nós duas, de mulher pra mulher. Tenho vontade de revirar os olhos para a maneira protetora com que Ivan a encara e me encara. Será que esses homens não conseguem


perceber quando uma mulher é completamente capaz de se defender sozinha? Ramona é jovem e só está facilitando as coisas para nós porque quer ficar aqui, caso contrário, já teria matado meia dúzia de seguranças e escapado com facilidade deixando seu irmão a ver navios, pois certamente Ivan não a machucaria e ainda permitiria que fugisse. Ela é ágil, rápida e eficiente. Não seria um grande problema para um soldado treinado matar e realizar tal feito na mansão, portanto, não seria grande coisa para a pirralha. — Você não disse que ia resolver um problema para o Fillipo? — Ivan me pergunta como se não estivesse se borrando de medo pelo que acha que pode acontecer a sua irmã. — Já está resolvido e pare de besteira Ivan. Eu disse que vou ter uma conversa e não torturar a pirralha. — Sorrio cinicamente sob o olhar amedrontado de Ramona que me deixa satisfeita em saber que ela tem medo de mim e pensa que não gosto dela. — Pelo menos não hoje. Se mexam, nós não temos a noite toda! Entro novamente na mansão sem precisar olhar para me certificar de que estou sendo seguida pela pirralha, pois os passos apressados atrás dos meus me dão essa certeza. Subo as escadas e paro à frente da porta do quarto que pertenceu a Gravel e depois da reforma, se tornou meu e de Fillipo. Encaro a pirralha que escaneia o segundo piso da mansão com seus olhos de águia esperta. — Antes de entrar quero lhe dar apenas um aviso, Ramona. — Minha voz é firme e segura, deixando a garota mais tensa e assustada — Se você disser uma única palavra sobre o que será dito nesse quarto para qualquer pessoa, saiba que eu vou cortar a sua língua pessoalmente. Estamos entendidas? Ela estreita os olhos. É tão claro quanto o sol o quanto a pirralha odeia esse temor que perpassa em seu corpo sem qualquer controle ao ouvir minha voz. Ramona não está acostumada a se submeter a qualquer pessoa que não seu irmão, e até alguns dias atrás, seu maldito avô. Mas infelizmente, para ela, não há o que fazer além de me obedecer ou no mínimo, concordar com a minha exigência.


— O gato comeu a sua língua ou está em dúvida? — O que vai fazer se eu não concordar? — Facilitar a nossa vida e cortar a sua língua agora mesmo. — Você não faria isso... Não dou tempo para que ela reaja, sequer pense sobre o meu ataque sorrateiro. Com apenas um movimento prenso seu corpo contra a porta segurando seu braço esquerdo atrás das costas e aperto minha faca entre seus lábios pequenos e rosados, que agora estão tremendo. — Seria melhor se entendesse de uma vez por todas que não está viva porque tenho pena do meu konsult’ant. — Brado em seu ouvido — A sua vida ainda me interessa, mas quando terminarmos a nossa conversa tudo pode mudar, então sugiro que não me provoque e nunca mais teste a minha paciência. Você não vai gostar do resultado final. A porta se abre e quase caio por cima de Ramona quando Fillipo cruza os braços trincando os dentes. — Mas que merda, Natasha! — Ele ampara meu corpo e eu solto o da pirralha que despenca aos meus pés — Nós combinamos de primeiro conversar com ela e depois matá-la, não o contrário. — Eu não ia matar a pirralha. — Me defendo ajeitando meu corpo, e dou uma piscadela zombeteira para tentar compensar a minha falta de paciência — Só arrancar a língua dela para me certificar que ninguém além de nós saiba o que iremos falar dentro desse quarto. — Assim você me fode, Natasha. — Fillipo fecha o paletó para disfarçar a ereção evidente — Não sabe o que acontece toda vez que te vejo falar assim, cazzo? Ramona massageia o braço, e quando fica em pé, seus olhos cravam nos do Capo italiano. Agora a pirralha começou a entender aonde eu quero chegar. — Entre Ramona. — Fillipo enfia as mãos nos bolsos da calça impondo sua postura que amedronta a todos os seres humanos e até os inanimados, sem exceção. Fecho a porta e espero que o choque em seu rosto suavize. Puxo uma cadeira e aponto para que se sente, enquanto eu e meu marido nos posicionamos a sua frente a uma distância de dois passos um do outro. — Sabe quem eu sou, Ramona? Ela ainda está com a boca entreaberta e seu olhar não desvia do Capo, que se aproxima dela com seu jeito intimidador.


— É surda ou está com medo de perder a língua? — Eu conheço você... A voz dela é quase um sussurro. — Não, Ramona. — Fillipo se inclina e deixa seu rosto alinhado ao dela antes de bradar ameaçadoramente — Você sabe quem eu sou, ouviu coisas ao meu respeito, conhece as histórias que o miserável do Ruric e o idiota do Mikail falaram ao meu respeito, mas certamente, você não me conhece. — Eles nunca me falaram sobre você. — Nunca? — Fillipo pergunta com um sorriso sarcástico em seu rosto e se afasta sem deixar de olhá-la nos olhos — Estou decepcionado. Se aqueles dois anfíbios nunca falaram nada sobre mim, como sabe quem eu sou? — Eu disse que eles nunca ME falaram de você, e não que eles nunca falaram SOBRE você. — Sabe Ramona, eu aprecio mulheres corajosas e que gostam de mostrar o quanto são inteligentes, mas hoje não estou com paciência para tolerar criança mal-educada, e você só está me provando que não passa disso agindo desse jeito. Então sugiro que pare de bancar a espertinha e comece a se comportar como uma mulher da sua idade. — O que vocês querem de mim? — Ela desvia o olhar do Capo a procura do meu — Por que me trouxe aqui? — Eu tenho uma proposta Ramona, mas antes meu marido vai mostrar algumas coisas para você. Ela não fala nada, apenas emudece e continua sentada sem se mover em cima da cadeira. Fillipo pega uma pasta que está sobre a cama e entrega em sua mão. — Leia essas páginas com atenção Ramona, pois elas serão muito importantes para que você possa tomar sua decisão. — O que é isso? — Ela pergunta com o cenho franzido e por um breve momento sinto pena da menina. — Um resumo de todas as mentiras que Ruric contou a você e Mikail, mas ainda tem mais algumas que eu farei questão de contar caso decida aceitar a proposta que a Imperatriz tem para você. Enquanto Ramona lê cada linha, Fillipo me puxa para perto dele e me aconchega em seu abraço apertado. Nós esperamos pacientemente,


até que ela levanta a cabeça e algumas lágrimas escorrem pelo seu belo e jovem rosto. — Isso aqui é verdade? — Infelizmente, sim. A pirralha segura as folhas em suas mãos trêmulas. — Como conseguiram essas informações? — Não foi fácil. — Fillipo confessa — Ruric e Ivana tentaram apagar todos os rastros que seu pai deixou, mas não há nada no mundo que se possa esconder de um homem poderoso como eu. Ela volta a folhear as páginas e uma dúvida surge em minha cabeça. — Você não me parece muito surpresa com o que acabou de descobrir sobre a sua família, Ramona. Mais uma vez, seus olhos verdes encontram os meus. Agora mais úmidos por causa das lágrimas e com um brilho diferente dentro deles. — Eu sempre desconfiei, mas... — Mas, o que? — Mas achei que o problema fosse eu e não Mikail. — Talvez agora consiga entender os motivos que levaram Sergei a fazer tudo que fez. — Não! — Ramona rebate com raiva — Agora é que não consigo aceitar mesmo. Como ele pôde fazer uma coisa dessas com o próprio filho? — Homens como Sergei preferem a morte a ter que assumir uma traição como essa, Ramona. — Fillipo tenta justificar, mas tenho que concordar com a pirralha, é difícil entender as atitudes de um pai que faz o que Sergei fez com o próprio filho. — Ele foi covarde abandonando o filho à própria sorte. — Você tem razão e agora podemos consertar as coisas, mas para isso vamos precisar da sua ajuda. Ramona fica em pé, penteia os fios claros com as pontas dos dedos e me encara, determinada. — Ivan sabe sobre isso? — Não. — Afirmo, pronta para responder o questionário que virá. — Por que não contaram? Ele merece saber que tudo não passou


de uma grande mentira. — Ivan nunca se interessou pelo dinheiro ou pelo nome do seu pai, Ramona, e a única motivação para que ele invada aquele lugar atende pelo nome de Sarina. — Vocês não vão conseguir tirar ela de lá. Não entendem? — Ela pergunta, nervosa e agitada — Mikail está planejando esse encontro entre eles há muito tempo e se não fosse pela tentativa fracassada de Sarina de tentar se livrar de Mikail, Ivan já estaria morto há oito anos. — Eu tenho um plano e é por isso que você está aqui, Ramona. — Eu já falei tudo que sabia para o Ivan sobre o carregamento. Mikail não me passa detalhes das negociações com os traficantes de mulheres. Tudo que eu faço é garantir que nada saia errado na hora da entrega. — Nós já estamos cuidando disso, mas não é para enganar Mikail que eu preciso de você, quer dizer, também é, mas para que tudo dê certo terá que enganar Ivan também. — O que? — Seus olhos se arregalam — Querem que eu minta para ele depois de tudo? Por quê? Eu pensei que vocês fossem amigos! — E somos, e é justamente por isso que Ivan não pode saber que você estará mentindo quando chegar a hora de escolher a quem dará a sua lealdade, a ele ou a Mikail. — O que está tramando, Natasha? Meu marido inspira profundamente e solta a minha mão. Caminha até a janela ficando no mesmo lugar em que eu estava antes de deixa-lo no quarto. Fillipo sabe que o plano é bom, mas não consegue conter o medo de que alguma coisa saia errada e Mikail consiga o que tanto quer. — Ivan, eu e Giuseppe entraremos na sua propriedade, em Sóchi, para resgatar Sarina com a sua ajuda e ficaremos escondidos na cabana que foi usada para o treinamento dos recrutas. — No meio da plantação de heroína? — Indaga surpresa, só não sei se é pelo fato de eu querer usar a cabana ou saber que ela existe. — Exato. — Mas... Levanto o braço interrompendo sua argumentação e sinalizo para que apenas me escute. A pirralha assente e eu continuo. — Ficaremos lá por quarenta e oito horas, no máximo, que é o


tempo que teremos até o carregamento ser interceptado por Fillipo, em São Petersburgo, e será nessa hora que você entrará em ação. — O que você quer que eu faça? — Nós precisamos distrair Mikail para que ele não saia da propriedade quando o avião pousar, para que o Capo italiano possa “roubar” a mercadoria. Para que isso aconteça, você dirá a Mikail que desconfia que estamos escondidos na plantação e conduzirá ele até nós fazendo com que todos acreditem que está do lado dele e que nos entregou de propósito, inclusive Ivan. — Se Mikail capturar vocês, Natasha, as chances de verem a luz do sol novamente é nula. — Está falando isso porque não me conhece, bambina. — Fillipo grunhe virando-se para nós. Cenho franzido, maxilar trincado e olhos estreitos — Eu vou tirar a minha mulher daquela merda nem que eu tenha que destruir a cidade de Sóchi com uma bomba nuclear. — Mikail tem um exército armado com as melhores armas, pronto para uma verdadeira guerra! — Até lá todos irão saber que o carregamento foi roubado e que o Governo russo já tem em mãos todos os nomes dos envolvidos no tráfico de mulheres que Mikail comanda desde a morte de Anya. — Informo deixando ainda mais espantada — Isso vai enfraquecer as alianças importantes com os traficantes. — E o que pretendem fazer com os dois homens que ficam na retaguarda de Mikail para garantir que nada dê errado? — Quem são esses homens? Pergunto sem rodeios. — Alik Barkov, o chefe da gangue “Os Selvagens”, e o brasileiro que está fazendo a ponte para Flynn Moloney, na Irlanda. — Brasileiro? Ramona assente. Fillipo está tenso ao meu lado e sei que pensa o mesmo que eu. A pirralha só pode estar falando sobre o dono das iniciais que Reynaldo não conseguiu identificar. — Eu não sei o primeiro nome dele, mas todos chamam ele de Asker. — Bernardo Asker. — Fillipo cospe o nome do detetive e seu rosto ganha um tom avermelhado. — Filho da puta! Ele é o receptador! Meu telefone vibra no bolso da calça anunciando a chegada de


uma mensagem de Giuseppe me avisando que estão todos no escritório a nossa espera e Ivan parece pronto para vir atrás da irmã a qualquer momento. — Venha comigo, Ramona. — Chamo a pirralha e a levo para o meu antigo quarto. — Tome um banho, coloque roupas limpas e se prepare para tomar uma decisão sobre a minha proposta. — O que vai acontecer comigo se eu concordar em ajudar? — Nós iremos partir as duas da manhã e você fará tudo que combinarmos. — Estou perguntando depois, Natasha... Eu entendi a pergunta, só não estou preparada para responder a verdade, então só me resta omitir algumas partes. — Se tudo der certo e nós conseguirmos acabar com seu irmão, deixarei que Ivan decida o que fazer com você. Ela assente encarando os pés, mas logo ergue a cabeça e me coloca contra a parede em uma posição incômoda. Eu odeio me sentir pressionada, mas a garota merece saber ao menos as minhas reais intenções. — E se eu não concordar, o que vai acontecer comigo? — Eu mato você. Ficamos nos encarando por alguns minutos até que ela quebra o contato visual e entra no quarto. — Eu preciso de um tempo para pensar. Desvio meu olhar para o display do telefone em minha mão e informo: — Você tem dez minutos. — Eu ainda vou tomar banho, Natasha! — Aproveite a água morna para pensar, pirralha. — Ligo o cronômetro e viro o aparelho em sua direção — É melhor andar logo se quiser lavar o cabelo. — Chertov! — Eu não sou italiana, Ramona! — Informo — E entendo muito bem meu idioma! — Quem disse que eu queria que você não entendesse? Ela bate à porta na minha cara me fazendo bufar com a sua ousadia, e ouço a risada de Fillipo que está encostado no batente do nosso quarto, do outro lado do corredor.


— Se quiser eu posso te fazer relaxar um pouco, angelo mio. Caminho apressadamente e passo por ele como um relâmpago. — Você tem dez minutos, meu Capo, espero que não tenha perdido a prática. Fillipo fecha a porta me jogando na cama e cobrindo meu corpo com o seu. — Nunca se esqueça com quem está casada, mia imperatrice... eu não sou um homem com quem se deva brincar. — Não me faça implorar, Fillipo. — Você nunca vai precisar me implorar pra te foder, Natasha. — Seus olhos azuis cravados nos meus, seu hálito delicioso de uísque e bala de hortelã invadindo minhas narinas, suas mãos em todas as partes do meu corpo e seu pau rijo moendo minha boceta sedenta por cima da calça jeans — Porque foder você é a melhor coisa que eu faço desde que te conheci e ninguém vai me impedir de fazer o que eu mais amo, capisce? — Capisco, meu Capo... ahhhh... Fillipo cumpre sua promessa, como sempre. Ramona me acompanha até o escritório e com um simples gesto de cabeça concorda em nos ajudar, para a felicidade de Giuseppe, surpresa de Ivan e meu alivio. Agora é esperar e torcer para que Fillipo consiga descobrir o que o detetive brasileiro está tramando na Rússia e os motivos que o levaram a se envolver com Mikail, Alik e Flynn a tempo de interceptar o carregamento e chegar em Sóchi para nos salvar. Somente meu marido pode parar Mikail, ou eu e Ivan teremos que enfrentar o exército do Pakhan que sonha em ressuscitar a Bratva, destruir o Império e matar o irmão, ou melhor, o único homem que pode destituí-lo do posto mais alto e acabar com todos os seus sonhos de assumir o poder da segunda maior organização criminosa russa. Espero que Mikail esteja preparado para a guerra que tanto desejou, pois pela primeira vez na história as máfias Russa e Italiana estão unidas e mostrarão ao mundo o que acontecerá com qualquer um que atravessar nossos caminhos. Um Capo italiano. Um konsult’ant desesperado para resgatar a mulher que ama. Um homem movido pelo ódio e sede de vingança capaz de fazer


qualquer coisa para chegar aonde quer. E uma Imperatriz russa disposta a lutar por seu Império, sua família, seus amigos e pela sua própria vida. Nada nem ninguém será capaz de me deter e quanto mais sangue for derramado, melhor. Como diria meu marido: a maioria das mulheres se diverte indo às compras, enquanto eu me divirto indo caçar meus inimigos. E estou pronta para matar um a um, até que não haja nenhum para contar a verdade dos fatos.


CAPÍTULO 20

— Temos que dar um jeito no carro de Ramona. — Falo. — Não temos como levar no avião. — Natasha confirma o que já sei. — Se chegarmos lá com outro modelo pode levantar a suspeita de Mikail. — A não ser que... — Ramona se manifesta pela primeira vez desde que começamos a formular nossas rotas de entrada e saída da propriedade em que seu irmão esconde um arsenal de armas, mais de cinquenta homens armados e dezenas de hectares de plantação de heroína — vocês consigam um carro igual ao de Petrus. O dele é mais simples e pode ser encontrado com mais facilidade. Encaro Giu e Natasha. A ideia não é ruim, mas ainda pode nos causar problemas. — Não sei, o ideal seria um carro como o seu. — Em Sóchi não conseguirão encontrar um nas primeiras horas da manhã e Mika está me esperando para acompanhar as vistorias nas plantações. — É mais fácil improvisar. — Giuseppe fala — Petrus não irá aparecer de qualquer forma, Ramona pode falar que tiveram uma discussão e ela acabou ferindo o noivo que tentou forçar a barra com ela. A expressão de divertimento do italiano irrita minha irmã. — Qual a parte que “meu noivo não faria uma coisa dessas”, você ainda não entendeu? — Mas pode dar certo, Ramona. — Me intrometo explicando o raciocínio — Pense bem, você foi vista ontem na boate que pertence à sua mãe e todos sabem o que acontece por lá. Diga a Mikail que Petrus bebeu além da conta e agiu como um babaca na frente de todos, obrigando você a reagir com violência e impedindo que ele te acompanhasse até Sóchi. Com isso ganharemos tempo e seu irmão não vai desconfiar.


— E qual desculpa vou usar para justificar a ausência do meu carro? — Petrus passou mal e vomitou no estofado, você ficou puta da vida e deixou o carro estacionado em frente à casa dele, aqui em Moscou. — Explico a agradando com a minha ideia. — Mande alguém levar o carro até a entrada da casa de Petrus e se certifique que esteja à vista para qualquer pessoa confirmar a história de Ramona. — Natasha fala a Lenin, que sai rapidamente pela porta do escritório. — Conseguiu falar com Mikail? — Pergunto a Ramona. — Não. — Ela bufa cruzando os braços fazendo Giuseppe gargalhar — O idiota do seu amigo enviou uma mensagem para ele. — Mensagem? — Indago. — Que tipo de mensagem? Ramona retira o telefone do bolso e me entrega o aparelho sofisticado. — Que porra é essa, Giuseppe? — Fico irritado ao ler a troca de mensagens entre ele e Mikail — Por que fez isso? — Ela não queria que eu ficasse do lado dela ouvindo a ligação. — Ele dá de ombros — Já era tarde e não dava para ficar esperando a boa vontade da ragazza. Então fiz do meu jeito para facilitar a vida de todo mundo, capisce? — E precisava enviar isso aqui? — Qual o problema? Não falei nenhuma mentira. — Ele dá uma piscadela safada me deixando irritado. — Falei, bambina? — Quer calar a porra da boca, seu imbecil? — Já disse o que pode ser feito para me manter quieto, é só escolher como quer fazer isso. — Se depender de mim, sua boca vai virar um depósito de cáries. — Não seja manhosa, tesoro, é só uma questão de tempo para que você se renda ao que está sentindo e faça o que realmente deseja. A princípio Ramona parece irritada, mas de repente um sorriso meigo desliza em seus lábios. Ela se levanta e caminha até Giuseppe, que está encostado na beirada da mesa de Natasha. Ele se surpreende, assim como eu, quando Ramona se encaixa entre suas pernas e envolve seu pescoço com os braços. O italiano não perde tempo e a abraça pela cintura, aproximando ainda mais seu corpo


miúdo junto ao dele. Não sei o que a garota quer, mas sei que não é o que Giu está pensando e fico me segurando para não cair na gargalhada antes da hora. — Você tem razão, italiano. — Ramona desliza a mão direita pelo peito do loiro, lentamente — Eu estava me controlando e segurando essa... vontade de fazer isso desde a primeira vez que vi você na boate. — Não se segure, tesoro, estou aqui à sua disposição para você fazer o que quiser comigo. — Como é bom saber disso, Giuseppe... Ela sussurra o nome dele e no primeiro momento de distração do italiano, Ramona empurra o joelho contra as partes baixas do garanhão que cai para a frente e se ajoelha no chão com as mãos nas bolas, uivando de dor. — Obrigada por realizar o meu desejo... bambino. Natasha e eu nos encaramos contendo o riso. É difícil aturar esses dois, ainda mais depois de tanto estresse que os últimos dias nos causou, mas não deixa de ser cômica a interação entre eles. — Cazzo, tesoro! — Giuseppe reclama apoiando a mão na mesa para ficar em pé — Desse jeito não teremos filhos loiros perfeitos. — Prefiro adotar um asiático a ter um filho com você, seu pervertido. — Não faça isso, todos nós sabemos que os “japinhas” têm pau pequeno e você merece coisa melhor. — Não se preocupe comigo, troglodita. Todas as mulheres sabem que tamanho não é sinônimo de qualidade. — Você não pode afirmar uma coisa dessas, já que nunca teve um pa... — Chega Giuseppe! — A Imperatriz o corta — Então está resolvido. Ramona irá ligar para Mikail quando chegarmos a Sóchi e pedirá para alguém ir até o aeroporto busca-la. O resto do plano continua como combinamos. — Sairemos às duas e meia, em ponto. — Aviso segurando a mão de Ramona e conduzindo-a ao quarto de hóspedes — Vamos tentar descansar um pouco. Depois de acomodar minha irmã, sigo para o meu quarto e encontro Giuseppe pronto para dormir. Ele está agitado em cima da


cama. — Qual o problema, Giu? — Nada. — Tem certeza? Ele se remexe de um lado para o outro no colchão improvisado no chão. O italiano nunca dorme na mansão quando vem a Moscou, ele e os homens de Fillipo costumam ficar hospedados em algum hotel por perto. É a primeira vez que dividimos o mesmo quarto já que teremos poucas horas até o horário marcado para irmos ao aeroporto. — O que você sentia quando conheceu a Sarina? Sua pergunta me deixa desconcertado. Não gosto e não quero falar sobre o meu passado com a mulata. — Por que quer saber? — Não sei o que está acontecendo comigo, porra! — Se está falando sobre Ramona é melhor escolher outra pessoa para desabafar. — Qual é Ivan? — Ela é minha irmã, Giuseppe, não se esqueça disso. — Você conheceu a bambina ontem, Ivan! — Qual o problema? — Não deveria se preocupar tanto com ela. — Mas me preocupo. — E se eu disser que nunca me senti assim com nenhuma outra mulher? — Vou responder que o que está mexendo com o seu subconsciente é o fato de ela ser virgem. — Ivan, olha bem pra minha cara e me fala se eu pareço um comedor de boceta inexperiente? — É por isso que não quero falar com você sobre isso, Giuseppe. Ramona não é apenas mais uma boceta para a sua coleção, merda! — Ela tem vinte e três anos, Ivan. Acho que já é bem grandinha para saber o que quer, sì? — No! — Está com medo de que? Eu me sento na cama. Passo as mãos pelos cabelos e tento enxergar seus olhos através do breu que domina o quarto, mas não consigo. Talvez seja melhor não


conseguir ou posso querer socar a cara dele se notar que está se divertindo às minhas custas. O que é bem provável, aliás. — Não tenho medo de nada Giuseppe, só não quero que Ramona tenha mais uma decepção depois de tudo que ela passou nas mãos daqueles filhos da puta. — Ela é virgem Ivan. Ninguém nunca tocou na sua irmã. — O que não significa que ela não sofreu abusos, Giuseppe. Ouço o farfalhar dos lençóis quando o italiano se senta bem a minha frente. — O que você sabe que eu não sei sobre a estadia da sua irmã naquele lugar, Ivan? — Muita coisa, Giu. — O que aqueles desgraçados fizeram com a bambina? Solto uma respiração pesada e olho para o relógio. São quase meia-noite e não sabemos quando teremos outra oportunidade para dormir um pouco depois que invadirmos aquela merda. — Giuseppe, eu preciso descansar por alguns minutos. Amanhã nós podemos falar sobre isso. — Só me diga Ivan. O que fizeram com ela? Nós nos encaramos e o ódio que vejo em seu olhar se assemelha ao mesmo que senti ao ouvir os relatos de Ramona sobre os últimos dez anos de sua vida, depois de ter sido vendida a Ruric pela própria mãe. — Minha irmã foi submetida a vários treinamentos e “missões” que ela não queria participar. Teve que aprender coisas que não queria aprender e fazer coisas que não queria fazer. Tudo em nome de uma vingança de merda, inventada pelo avô dela que só pensava em resgatar a Bratva e se tornar um de seus líderes. — Porca merda! — Ramona sobreviveu Giuseppe, mas ainda não tenho certeza se ela vai conseguir superar tudo que fez em nome de uma ideologia que nunca fez parte da vida dela. — Eu quero ajudar, Ivan. — Eu sei, e só de estar indo comigo para lá, já está fazendo muito mais do que possa imaginar. — Você confia mesmo nela? — Confio, mas não confio em Mikail, e se ele descobrir que


Ramona está do nosso lado não sei o que pode acontecer com ela. — Não vou deixar que ninguém encoste nela. — Obrigado. — Agradeço com sinceridade — Fico mais tranquilo em saber que estará lá para salvá-la se alguma coisa sair errada e eu não conseguir. — Não vai dar nada errado, Ivan. Temos os melhores homens e somos mais inteligentes que eles. Mikail vai se dar muito mal dessa vez. — É tudo que eu quero. — Nós vamos pegar a Sarina, e em quarenta e oito horas estaremos de volta a Moscou para comemorar nossa vitória. Eu assinto e me deito mirando o teto. A imagem de Sarina vem a minha mente despretensiosamente, e a saudade aperta ao lado da preocupação. Tirá-la de lá, sã e salva, é a minha prioridade e quando estivermos longe do perigo vou exigir uma explicação sobre tudo que aconteceu. Desde o começo, e agora sem mentiras. *** Natasha e eu estamos escondidos atrás de um muro branco que fica na lateral da casa principal. Sabíamos que o terreno era grande, mas não imaginávamos que fosse tanto. Nossa equipe é pequena e nos dividimos em três duplas para não sermos pegos de surpresa. Giuseppe e Lenin estão do lado oposto vigiando a chegada e saída dos recrutas, que começam o treinamento diário com uma longa corrida ao redor da propriedade. São mais de vinte quilômetros de extensão, segundo Ramona, e eles são obrigados a percorrer essa distância todos os dias no período da manhã. Ivankov e Petchkovich vigiam a entrada principal. No total são cinco casas espalhadas por todo o espaço que eles chamam de condomínio, todas grandes, espaçosas e repletas de luxo. Os recrutas são mantidos aqui em dormitórios individuais. Há uma academia com piscina semiolímpica, quadra de tênis, pista de corrida e duas salas com diversos equipamentos divididas em musculação e um centro de reabilitação. Ramona passou todas as coordenadas com horários, funções e


postos de cada um dos moradores desse centro de treinamento, como é conhecido pelos recrutas e seus treinadores. — Cinco minutos, Ivan. Giuseppe informa pelo rádio. Sinto meu coração acelerar em expectativa. Estou pronto para invadir a casa de Mikail e ir ao encontro de Sarina. — Giu, estou vendo um carro entrar e não é nenhum dos que a Ramona colocou na lista. — Ivankov informa pelo rádio do ponto em que está vigiando — Jipe preto, vidros filmados, modelo rally com três homens armados dentro. — Não estava no cronograma, merda! — Natasha rosna. — Alguma visita inesperada? — Pergunto. — Está estacionando ao lado do carro de Mikail. — Giu informa — Puta merda! — O que foi? — É aquele detetive brasileiro! — Exclama. Encaro a Imperatriz que está com a cara fechada. — O que ele está fazendo aqui? — Indago me concentrando nas opções. — O carregamento será feito em dois dias. — Natasha sugere — Ele pode ter vindo acertar algum detalhe de última hora com Mikail. — Ou veio alterar alguma coisa na entrega. Nós nos entreolhamos, desconfiados. A presença de Bernardo Asker a essa hora da manhã em Sóchi, sem previsão, não é um bom sinal. — Ele está conversando com um dos seguranças da casa, mas consigo ver três recrutas se posicionando estrategicamente para atacar os dois homens que estão com ele, caso seja necessário. — Giuseppe fala rápido — O esquema é muito bom. Não há conversa alguma entre eles e todos os movimentos parecem ensaiados. Os caras sabem o que estão fazendo. — Merda! Não vou conseguir entrar no horário. — Pelo contrário, Ivan. — Giu avisa — Pode ir sossegado. O segurança está conversando com o detetive e agora chegou mais um que estava dentro da casa. A barra está limpa, mas tem que ser rápido para que ninguém perceba a sua movimentação. — Um minuto. — Ivankov informa.


— Já sabem o que fazer. Nos encontramos na cabana em seis horas. Não deixem rastros pelo caminho e se forem pegos acionem o sinalizador. — Natasha dá o sinal. Cubro meu rosto com a máscara negra que deixa apenas meus olhos expostos, assim como Natasha. Me posiciono atrás da porta e espero o sinal, que logo chega. O barulho da explosão pega todos de surpresa, nos dando a primeira distração que precisamos para adentrar na casa. Sigo na frente de Natasha e percorremos o extenso corredor até a escadaria em forma de caracol, exatamente como Ramona informou. Subimos até o segundo andar e enquanto eu vasculho, de porta em porta, a procura de Sarina, a Imperatriz sobe mais um lance de escada para chegar ao quarto de Mikail. Não podemos vacilar, sequer perder tempo. Todas as portas foram trancadas e não sei em qual quarto Sarina está presa. Mais uma explosão e aproveito os gritos assustados e pedidos de socorro para atirar nas maçanetas. Vasculho o primeiro quarto e me escondo quando dois soldados passam correndo no andar de baixo. Posso ver sua movimentação sob o vão da escada. Estão preocupados com a bomba e correm para o lado de fora. Nós colocamos seis explosivos programados para explodir a cada cinco minutos, e estou ansioso para que a terceira faça o seu trabalho. Quando a explosão acontece, corro empurrando rapidamente as portas que restam. Na última, meu coração dá um salto quando meus olhos recaem sobre a mulher deitada de bruços no chão, vestida com uma camisola e aparentemente desacordada. São tantas coisas passando na minha cabeça que apenas quando a quarta explosão ecoa dentro da casa, consigo trazer minha mente de volta a realidade e me aproximo para verificar as condições físicas de Sarina, antes de mexer em seu corpo. Um bolo se forma em meu estômago ao mesmo tempo em que um nó impede que até mesmo saliva desça pela minha garganta. Sarina está com o lado esquerdo do rosto esfolado, sua respiração é fraca e seu corpo parece com o de uma boneca de pano. Flácido e sem vida. — O que fizeram com você, konfeta? (1)


Eu me ajoelho ao lado dela e puxo a máscara de esqui por cima da minha cabeça. Olho ao redor e não vejo nenhum objeto pessoal de Sarina. Afasto seus cabelos para trás analisando seu rosto, pescoço e cabeça, para me certificar de que não tem nenhum ferimento mais grave. Meus olhos ardem quando acomodo seu corpo fragilizado em meus braços e sem resistir, beijo seus lábios pressionando-os contra os meus. Quero amparar, cuidar e proteger essa mulher, sempre quis, mas ela me impediu de ficar ao seu lado quando mais precisou. Sarina preferiu me destruir e, consequentemente, destruir a própria vida por não confiar em mim e no amor que jurei sentir por ela. Tudo poderia ter sido diferente se essa mulher tivesse me amado da mesma forma que eu a amei. Eu teria dado a minha vida por ela sem pensar duas vezes. Teria tornado a vida dela, e a minha, as mais felizes de todas por amá-la tão profundamente como amei. Ela era tudo que eu queria e me importava. Com essa mulher ao meu lado, o resto do mundo se tornava insignificante. Choro como uma criança com Sarina em meus braços, sentindo seu corpo quente tão próximo ao meu como há muito tempo não sentia. Nunca imaginei que ficaria devastado dessa forma ao encontra-la, também não imaginei que a encontraria assim, largada em um quarto qualquer, sozinha e jogada no chão como um monte de merda. — Vamos Ivan! Temos que sair antes que a última bomba exploda! A voz de Natasha invade o quarto. A Imperatriz avança alguns passos sem dizer uma só palavra e observa sua amiga de cima, por trás do meu ombro. Ajeito Sarina em meus braços e me levanto com facilidade. — Ela não tem roupas. — Não faz mal, a gente dá um jeito quando chegar na cabana. Vamos! Não tem ninguém dentro da casa, temos que aproveitar para sair agora. Natasha puxa a porta que está sem maçaneta, como todas as outras, olha para baixo através dos degraus e faz um aceno com a cabeça indicando que o caminho está livre para sairmos. As pálpebras de Sarina lutam para se abrirem e por alguns segundos, nossos olhares se cruzam. Novamente não consigo segurar as


lágrimas ao vê-la tão debilitada e machucada. — Eu vim te buscar, konfeta, pode descansar que agora você está comigo... Não sei se é verdade ou foi apenas fruto da minha imaginação, mas acho que Sarina esboça um sorriso. Nenhum som sai de sua boca, nem mesmo ouço a sua respiração falhada. Beijo demoradamente sua testa e acomodo seu rosto ferido em meu peito quente. Coloco a máscara novamente. Desço seguindo Natasha até o lado de fora e a explosão da última bomba seguida de mais gritos e barulhos de botas militares batendo no chão, ritmicamente, é o sinal de que o exército de Mikail está em formação para sair à caça. Sabíamos que seríamos caçados e viemos preparados para isso. Nos embrenhamos em meio a plantação de heroína e seguimos o mapa caminhando por mais de três horas, sem pausa ou descanso. Meus braços estão dormentes, minhas pernas sem forças e o sol começa a castigar, quando encontramos um pequeno lago e decidimos fazer nossa primeira parada. — Até aqui o plano saiu como planejamos. — Natasha conclui depois de enviar uma mensagem para Fillipo confirmando que Sarina está a salva e em meus braços. — Pode colocar ela no chão, Ivan. Você precisa descansar um pouco. Encosto minhas costas no tronco grosso de uma árvore acomodando Sarina junto a mim. Não consigo me afastar dela, não quero e não posso. Por muito tempo ansiei esse contato e agora que a tenho, é como se eu tivesse que aproveitar cada segundo ao lado dela. — Estou bem, só preciso de um pouco de água. Natasha pega uma garrafa térmica de dentro da mochila e me entrega. Bebo um longo gole e fecho os olhos, jogando a cabeça para trás. — Pode relaxar, Ivan. — A Imperatriz fica de pé com sua pistola em punho, fone de escuta em um dos ouvidos e o celular no bolso traseiro da calça preta. — Vou ficar de vigia para que você possa descansar um pouco. — Obrigado. Ela me encara e depois seus olhos desviam para a mulata em meu colo. Seus dentes trincam e sei que está pensando o mesmo que eu sobre as lesões faciais de Sarina.


— Juro por Deus Ivan, se eu pegar esse filho da puta não vai sobrar nada dele. Estreito os olhos e permito que o ódio me domine enquanto analiso friamente o corpo da mulher, completamente apagada acolhida e protegida pelo meu, imaginando o que aquele monstro fez com ela. Nenhuma das opções que passa pela minha cabeça é bonita ou atraente, muito pelo contrário. Cada uma das possibilidades aumenta a necessidade de encontrar o filho mais velho do meu pai e mostrar a ele o que um homem de verdade é capaz de fazer por amor a uma mulher. Covarde repugnante, é isso que o escroto é. — De jeito nenhum, Imperatriz. — Encaro seus olhos azuis da cor do mar — Mikail planejou o nosso encontro durante muito tempo, e eu faço questão de não o decepcionar. Ele não é conhecido como “demônio”? Natasha não responde, apenas me encara degustando cada palavra que sai da minha boca, satisfeita e orgulhosa. — Eu faço questão de mandar ele pro inferno, minha Imperatriz, pessoalmente. Não é uma ameaça ou uma promessa. É uma certeza que está dentro de mim. Não vou permitir que ninguém me tire o prazer de matar Mikail, porque eu faço questão de ser a última pessoa que ele veja antes de se juntar ao avô dele. Dois filhos da puta a menos no mundo e o resto da minha vida para tentar seguir em frente...


CAPÍTULO 21 – SARINA

Meu corpo não responde aos meus estímulos. Ouço vozes, mas não consigo abrir os olhos. Sinto calor, mas não consigo me levantar e ligar o ventilador. Sinto sede, mas minha boca não abre para que eu possa beber água. Eu sei o motivo de ter ficado assim, completamente entregue ao sono. Estava sonhando com Ivan. O sonho foi tão real que eu consegui ouvir seu coração batendo apressadamente, pude sentir seu cheiro e me aquecer na quentura gostosa de seu corpo forte. Nunca me senti tão bem em toda minha vida. Não queria que aquele sonho acabasse nunca mais. Acho que foi por isso que me entreguei a ele me recusando a ser trazida de volta a realidade. Não vou aguentar por mais tempo as torturas de Mikail, também não tenho mais forças, coragem e motivação para lutar contra ele. Todo meu esforço foi em vão e em poucos dias, os filhos de Sergei Desdeiev se encontrarão para que a vingança de Mika possa, finalmente, ter seu desfecho tão esperado. Eu tentei salvar Ivan, fiz tudo para que o demônio não se aproximasse dele, mas falhei miseravelmente. Menti, omiti, feri, abandonei. Acabei com a minha vida por tabela e abri mão de ser feliz ao lado do único homem que já amei. Foi tudo em vão. Quando penso sobre o meu passado, só consigo enxergar um amontoado de nuvens carregadas por todo o caminho. Nada de arco-íris, sol ou céu azul. Depois de ser arrastada para esse país, por Anya, houve apenas um breve período de claridade em minha jornada e Ivan foi o responsável por todas as coisas boas que me conduziram a esse curto, mas intenso e inesquecível ciclo. Movimento meus braços e pernas com muito esforço. Ignoro a fadiga e abro meus olhos sem reconhecer o lugar onde estou. O odor forte de madeira molhada arremeta-me ao barraco onde morei em


Fortaleza, com meu pai e meus irmãos. Está claro, os raios solares invadem o que eu acredito ser um quarto. Estou sozinha e ao lado da cama tem uma bandeja com um prato de comida, um copo vazio, uma jarra de água e uma cartela de comprimidos. Não tenho a menor ideia do que aconteceu ou como vim parar aqui. Puxo em minha memória algo que possa me ajudar a lembrar, mas tudo que vem a minha mente são as lembranças fictícias de Ivan, seus olhos entristecidos banhados pelas lágrimas, seu cheiro e as batidas aceleradas de seu coração. Nada mais. A calmaria me invade e toma conta do meu corpo com a sensação real da presença dele. Quem dera fosse sempre assim, se apenas algumas memórias pudessem me consumir e motivar para que eu me sentisse empolgada novamente com a vida. Em viver. Em algum ápice do passado eu fui grata por apenas acordar e continuar respirando, mas isso foi mudando ao longo dos anos e agora, eu só penso em deixar esse mundo para me juntar ao meu irmão em um canto qualquer, longe de tudo que me machuca, magoa, aterroriza e não seja obrigada a passar mais nenhum instante na presença do demônio. Eu odeio aquele homem e me odeio ainda mais por todas as coisas que fiz, principalmente, não ter acreditado no amor de Ivan por mim e pior, no meu amor por ele. Com tão pouca idade minha alma foi corrompida e conheceu o inferno. Sofrer abuso físico e psicológico havia se tornado um hábito. Meu pai foi o primeiro e grande influenciador para que eu me visse e me sentisse como uma mulher sem valor, nascida e criada para ser usada por homens covardes. Eu acreditei que nenhum homem pudesse se interessar e nutrir sentimentos verdadeiros por mim. Quando conheci Ivan, foi fácil me apaixonar por ele. Lindo, gentil, educado, engraçado, romântico e um amante maravilhoso na cama, me mostrando o real prazer do sexo bruto com a sutileza da paixão. Tudo que uma mulher sonha encontrar em um homem. Suas declarações de amor e promessas de um futuro feliz ao seu


lado, embora parecessem verdadeiras não me convenceram de fato, mas a culpa pela descrença não foi dele, e sim minha, pois era uma, das muitas consequências de eu não acreditar que um homem como ele pudesse me amar. Mas Ivan me amou. Profundamente, verdadeiramente. Exatamente como eu o feri quando menti e o deixei acreditando que a mulher a quem ele tinha entregado seu coração, não passava de uma prostituta interesseira, falsa e mentirosa. Eu vi o quanto ele sofreu depois que parti de Kazã. Mesmo de longe acompanhei por algum tempo seu desgosto e tormento. Meu sofrimento ao vê-lo sofrer foi tão grande ou até maior do que o dele próprio. Mas claro, Ivan conseguiu se recuperar da rasteira desleal e se reergueu. Aquele homem merece ser feliz e eu eternamente nutrirei a inveja da mulher que alcançar seu coração, como um dia eu alcancei e não soube dar valor. No fundo, acho que sou merecedora de cada maldade de Mikail por toda dor que causei no único homem que amei, e certamente, o único que me amou da mesma forma. As vozes do lado de fora ficam mais audíveis. Minha cabeça dói e meu rosto queima. Passo a ponta dos dedos pela face sentindo a aspereza da pele. Consigo lembrar o que causou as lesões e logo meu estômago remexe trazendo a ânsia de vômito. Pior do que ter meu corpo violado, é ser obrigada a ouvir cada palavra que o monstro cospe quando encontra o seu prazer dentro de mim com o único objetivo de destruir o que já está destruído, arruinar o que já está arruinado e matar o que já está morto há muito tempo. Mikail ainda não se deu conta de que a sua tortura, agora, é inútil. Tento me levantar e caminhar até o banheiro. Estou fraca e mal consigo me equilibrar. Apoio as mãos na cama, passo pela cadeira, guarda-roupa e chego a porta de madeira escura. A umidade deixa minha mão um pouco suja. Encosto a porta, levanto a tampa do vaso e sento com as pernas bambas. O cheiro de desinfetante é agradável e o chuveiro parece convidativo, mas não sei se posso usá-lo. Na casa de Mikail todos os banhos têm horários pré-


determinados por ele. Não quero ser punida por desacatar alguma ordem e como não consigo me lembrar de nada, é mais seguro não arriscar. Com as mãos na beirada da pia me encaro no espelho, lamentando pelos ferimentos visíveis em minha pele, que está em carne viva e precisa ser limpa para não infeccionar. Abro a torneira, molho as mãos e a fecho, puxo os fios encaracolados para trás e faço um coque com o próprio cabelo deixando meu rosto acessível. Abro a torneira mais uma vez evitando a avaliação mais detalhada do ferimento e também de outras partes do meu corpo que podem ser vistas através do espelho. Não adianta me lamentar, me revoltar ou chorar. É inútil, eu sei. Lavo o rosto algumas vezes. A pele arde, queima e repuxa. Talvez fique alguma cicatriz, talvez não, mas de qualquer forma que diferença faz, afinal? Encho a boca de água e cuspo antes de voltar ao quarto. Eu me sento próxima à mesa e experimento a comida. Fecho os olhos em apreciação, muito mais pela fome do que pelo sabor. Mastigo devagar para não passar mal. Também não me lembro qual foi a última refeição que fiz. Pouco importa. Engulo quase tudo, bebo água e aproveito para tomar dois comprimidos. Se estão aqui é para que eu possa consumi-los, então é isso que faço. Já estou me sentindo um pouco melhor e tenho certeza que após a liberação do banho, meu corpo irá se animar um pouco mais. Olho ao redor do quarto tentando recordar de alguma coisa, mas nada acontece. Minha cabeça parece que sofreu um apagão geral nas últimas horas e além das imagens repetitivas de Ivan, apenas o estupro da noite anterior preenche as lacunas. Fico em pé novamente me sentindo mais disposta e caminho até a janela. O sol ainda é fraco e a brisa fresca arrepia minha pele. Dois homens armados estão de costas, vestidos de preto dos pés à cabeça e andam de um lado para o outro ao redor da casa. Um deles me parece familiar, mas de onde estou não consigo identifica-lo. A porta do quarto se abre. Fecho meus olhos abraçando meu corpo. O medo me toma provocando uma tremedeira descontrolada em cada osso que compõe minha estrutura. Ouço as botas batendo contra o


piso e sei que ele está se aproximando. Quero gritar, fugir, xingar e matar esse desgraçado, mas não me sinto forte ou capaz para qualquer reação. Os sons cessam e o cheiro que invade minhas narinas me obriga a transitar entre o real e o imaginário. O silêncio é quebrado apenas pelo baixo som da minha respiração ofegante. Aperto os olhos com força empurrando para longe a insanidade que insiste em me iludir de que Ivan é o homem atrás de mim. — Sarina? Meus olhos se abrem e posso jurar que dobraram de tamanho. Não pode ser verdade... — Está se sentindo melhor? A suavidade das palavras, o tom, o timbre, a preocupação, o amor. Giro meu corpo lentamente, lutando contra o pavor de estar enlouquecendo e imaginando coisas que não existem, mas quando nossos olhares se cruzam e se chocam, não sou capaz de conter a emoção e me jogo em seus braços, que me amparam como um cobertor quentinho que acolhe o corpo de uma criança de rua em uma noite friorenta no inverno. Choro descontroladamente. Não foi um sonho. Ele veio me salvar. — Calma... acabou. Suas mãos sobem e descem pelas minhas costas, acalmando, amparando, acolhendo. Ivan é meu cobertor quentinho, minha brisa refrescante, meu prato de comida, meu refúgio. Suas mãos seguram meus ombros e me afastam dele. Não quero soltá-lo ou ficar longe. Preciso dele para continuar respirando, mas não reclamo encarando seus olhos esverdeados e lindos. Tão intensos e brilhantes que me fazem chorar ainda mais. — Acordou faz tempo? — Ele pergunta suavemente. Nego com a cabeça inabilitada demais para formular uma simples resposta. — Conseguiu comer? Assinto. — Tomou o remédio que deixei? Confirmo fazendo-o sorrir de lado, um pouco sem jeito.


— Precisa de mais alguma coisa? Suas mãos sobre mim são como fontes de energia que abastecem, irrigam, fortalecem e me fazem crescer. Seu olhar descrevendo cada sentimento de maneira tão clara e explícita renova meu espírito e traz luz para a minha alma fosca. Preciso de você, do seu amor, do seu carinho e do seu perdão, é tudo que quero falar. Penso em falar, mas me reteso ao lembrar de todo mal que já lhe causei e na vida que ele conquistou ao lado da namorada. Se antes eu pensei que não o merecia, hoje tenho certeza disso. — Precisa falar comigo, Sarina. — Eu... — Minha voz falha, tusso e engasgo — Onde estamos? Seus olhos descem pelo meu rosto demorando tempo demais nos ferimentos. Pela primeira vez me sinto envergonhada por não estar bonita para ele. Não quero que me veja quebrada nem sinta pena ou compaixão pelo que aconteceu comigo. — Vamos falar sobre isso mais tarde, agora quero saber como você está e se precisa de alguma coisa? — Eu preciso de um banho... Ivan sorri e transforma todo meu medo em coragem. Seguro suas mãos com as minhas, as trazendo unidas até a frente dos nossos corpos, entre nós. Seu sorriso desaparece, meu coração acelera. Dou um passo à frente mantendo o olhar fixo ao dele. Ivan não se move, mas seu corpo enrijece. Sem palavras, sem receio e movida por um sentimento inexplicável, envolvo meus braços em volta do seu pescoço e colo nossos lábios. Espero que ele me empurre, me jogue para longe e grite o quanto me odeia, mas nada disso acontece. Nossos lábios estão colados, fechados e secos. Ainda assim posso sentir todo desejo que emana dele rebatendo em meu corpo. É forte, implicante e sexy. Deslizo a língua pedindo passagem para dentro de sua boca e agradeço a Deus, quando ele cede a minha entrada e me permite senti-lo tão intimamente, como eu desejo sentir há tantos anos. A princípio o beijo reflete a distância e o afastamento, logo em seguida atropela o tempo e corre em alta velocidade, para enfim, demonstrar, provar e comprovar que a chama do amor ainda está lá, enfraquecida, temerosa, mas... viva.


E como eu, ela só precisa ser resgatada para voltar a respirar, a viver e a sonhar novamente esperançosa. Ivan abraça minha cintura colando nossos corpos. O beijo se torna duro, exigente, urgente. Sua boca assume o controle da dança estipulando um novo ritmo; mais alucinante, envolvente e sensual. Suas mãos descem até minha bunda, massageiam, apertam. Seu quadril vem a procura do meu ponto de encontro, e embora sinta meu corpo doer em diversas partes, desprezo as reclamações devido aos danos causados pelo capeta e me entrego sem restrições a esse momento mágico. Sinto sua ereção em minha barriga, fico na ponta dos pés e afasto as pernas facilitando o encaixe perfeito, a junção das partes que se buscam desesperadamente e se encaixam. As duas metades que se pertencem, e se completam, não tenho dúvida. Ivan me empurra para trás até que minhas costas estejam encostadas na parede. Ele se afasta, me olha nos olhos e sem qualquer explicação, volta a tomar minha boca. Aproveito para tocar seu peito forte, acariciar seu abdômen duro como pedra e gemer quando toco seu membro enrijecido. Estou enfeitiçada por ele. Não penso em nada além de amá-lo e implorar, se preciso for, para que retire de mim qualquer vestígio deixado pelo embuste, mas com um movimento vigoroso, Ivan segura meus punhos e se afasta bruscamente me deixando vagar em uma zonzeira perturbadora. — O que pensa que está fazendo, Sarina? Sua voz é grave, dura e autoritária. Apoio as mãos na parede em busca de socorro, e me arrependo instantaneamente do que acabei de fazer. — Eu... me... — Quer se certificar de que ainda me sinto atraído por você? É isso que quer provar? Franzo a testa sem entender. Ivan está com raiva e não posso culpa-lo por me odiar. Depois de tudo que fiz, esse homem bondoso ainda veio me salvar e a única coisa que faço é agir como a vagabunda egoísta que ele pensa que sou. — Me desculpe... — Encaro meus pés, envergonhada e constrangida.


— Não posso acreditar que eu caí nessa de novo... — Ele se lamenta me deixando arrasada. Minhas lágrimas escorrem por meu rosto, como um vazamento recém descoberto. Poucas vezes me arrependi tanto por ter feito alguma coisa impensada movida pela emoção, e hoje é a primeira em que o arrependimento conduz o embaraço e a humilhação. — Por favor, me perdoe. Ivan se aproxima parando a minha frente. Braços cruzados, olhar acirrado, maxilar trincado. Ele está com muita raiva de mim, e eu me odeio ainda mais por provocar esse tipo de sentimento ruim em um homem que apenas me ofertou coisas boas. — Por que fez isso, Sarina? Continuo fraquejando. Envergonhada. — Eu te imploro Ivan, me desculpe... — Olha pra mim. Mesmo contra toda a minha vontade de reprimir o amor em meu peito e fugir, levanto a cabeça e olho em seus olhos. — Por que você me beijou, Sarina? Quero que me fale a verdade. — Porque eu queria me sentir viva de novo. — Se sentir viva? Confirmo apenas com a cabeça, seco minhas lágrimas e volto a encará-lo. — Eu estava pronta para me render, Ivan. — Confesso — Desde que aquele demônio me pegou de novo, eu sabia que não tinha mais forças para lutar. — Está me dizendo que... você queria... — Sua voz abaixa antes de ele completar a pergunta. Meus ombros caem em conformismo. Como explicar tudo que fiz ou tudo que passei? Escondi de todos por tanto tempo para que ninguém me olhasse com pena, me considerasse fraca ou me julgasse mesquinha, e agora estou aqui, despencando justamente na frente do único homem que eu preciso que sinta orgulho de mim. — Estou. — Inspiro profundamente, pois, não tenho mais nada a lhe oferecer de valor além da minha honestidade e do meu amor — Talvez tudo que passei nas mãos de Mikail e Ruric foi apenas um


castigo pelas coisas que fiz e todo sofrimento que causei as pessoas que eu mais amava, mas... dessa vez já não tinha mais força ou esperança de sair daquele inferno e se pudesse escolher entre continuar viva naquele lugar ou morta, não tenho dúvida que eu iria desejar morrer. — Nada do que aquele filho da puta fez com você foi culpa sua, Sarina. Discutir com Ivan sobre as minhas ações, intensões e motivações é a última coisa que pretendo fazer, e com toda certeza do mundo, independente do argumento que eu use para justificar todas e cada uma delas, nada o fará mudar de ideia a meu respeito ou voltar a me amar. — Isso é o que você acha, Ivan. — Não posso acreditar que na sua cabeça as atrocidades que aquele maldito fez, devem ser aceitas para compensar as coisas que você fez. É isso mesmo que está querendo me dizer? — Do jeito que você está falando parece errado, mas não foi assim que as coisas aconteceram, Ivan. Ele me encara em silêncio sem desfazer a carranca que o deixa com cara de mal e é capaz de enganar a quem não conhece a essência bondosa de seu coração como eu. — Eu magoei você, pensando que estava te protegendo. Ajudei a destruir a vida da Aurora, pensando que estava ajudando minha irmã. Levei Severino direto para a morte, pensando que estava fazendo o melhor para ele. E tudo que eu fiz, TUDO Ivan, foi mentindo pra vocês, enganando vocês, omitindo fatos importantes da vida de vocês e o agravante, manipulando cada um de vocês de acordo com o meu entendimento e julgamento. — Recupero o fôlego sentindo minhas pernas fraquejarem novamente, mas não posso desistir agora. — Eu achei melhor esconder a verdade sobre o seu irmão, e escondi. Eu achei melhor que você acreditasse que eu era uma garota de programa para que não viesse atrás de mim e continuasse longe do demônio, e o que foi que eu fiz? Eu menti. Eu não me importei com as suas vontades, as suas opiniões ou os seus sentimentos, nada disso. Eu apenas decidi o que era melhor para cada um de vocês resolvendo as coisas do meu jeito, e olha no que deu? Você não é o único que me odeia Ivan, mas é o único que ainda me dá um motivo para querer viver. — Olha nos meus olhos, e me fala qual o motivo que eu te dou para você querer viver?


Nossos olhares parecem acorrentados um ao outro. No dele há um brilho que não consigo definir o significado enquanto no meu, são lágrimas e mais lágrimas representantes oficiais do universo de dor e arrependimento que ocupa cada milímetro do meu coração. — O amor que eu sinto por você, Ivan. É ele o único motivo que me instiga a querer continuar nesse mundo. Por um momento acho que ele vai falar, gritar, me xingar ou dizer que não acredita em mim, mas de novo estou equivocada e não é o que acontece. É mil vezes pior. Ivan gira nos calcanhares me deixando sozinha no quarto e quando a porta se fecha atrás dele, a solidão e a realidade se unificam dando uma prévia do que será a minha vida caso Mikail desista de tudo ou, eu continue insistindo nessa história de seguir em frente por amar um homem que me odeia. Entre todas as minhas tragédias, perdas e loucuras, descobri que para cada lágrima que derramei um momento de amor eu vivi. E decidi que cada lembrança que guardei vou usar para remendar os estragos que fiz, ainda que as ruins sejam contabilizadas em maior número, as melhores são impossíveis de serem esquecidas. Para cada coração quebrado, um novo amor. Para cada alma destroçada, uma nova morada. Para cada espirito desiludido, uma nova fé. Para cada mulher destruída, as melhores memórias de sua vida. Quem sabe assim, eu consiga enxergar em outras coisas, outros lugares, outras pessoas, mais alguns motivos para continuar vivendo e me liberte, definitivamente, do amor que me sufoca a tempo demais sem nenhuma pretensão de renascer e florecer. Libertação. Talvez seja essa a palavra certa para o meu futuro. Sim, eu preciso me libertar e libertar o amor enraizado, enclausurado dentro de mim. Deixar esse amor partir é a maior prova que posso dar do quanto eu amo esse homem, pois, apenas quem ama verdadeiramente é capaz de abrir mão daquilo ou de quem ama. Está na hora de abrir a gaiola e deixar que o meu amor voe sozinho e em paz...


CAPÍTULO 22

— Alguma notícia? — Nada. — Estou preocupado. — Se Fillipo ainda não se comunicou é porque está correndo tudo conforme planejamos, Ivan. — O sumiço de Giuseppe não estava previsto. — Ele sabe se cuidar. Natasha está lavando seu prato e mal me encara. Não quero parecer um lunático desconfiado, mas é assim que me sinto. Alguma coisa está fora do lugar e sei que a Imperatriz me esconde algo muito sério. — Natasha. — Ela se vira encostando-se no mármore, ainda sem me olhar nos olhos. Fico em silêncio e espero. Preciso que me encare para que eu possa olhá-la de frente e ter certeza de que me fala a verdade. Embora seu comportamento calculado confirme que ela não está compartilhando tudo que sabe comigo. — O que foi, Ivan? Não respondo. Relaxo na cadeira segurando o copo de café fresco na mão direita. Pacientemente aguardo até que, quando se dá por vencida, levanta a cabeça numa tentativa de demonstrar frustração pela minha insistência sem propósito, como ela vem argumentando desde que chegamos aqui, no início da noite de ontem. — Qual o seu problema? — Estou esperando que me diga a verdade, Imperatriz. Natasha resmunga e volta a limpar a pia. — Já disse que está tudo indo muito bem Ivan, exatamente como planejamos. — Pensei que trabalhássemos como uma equipe.


— Nós somos uma equipe, merda! — Onde está Giuseppe, Natasha? Por que ele não veio pra cá com Lenin? Ela abaixa a cabeça e inspira o ar com força. Seu peito sobe e desce rapidamente enquanto suas mãos agarram a beirada da pia deixando as pontas de seus dedos esbranquiçadas. — Você já foi ver a Sarina hoje, Ivan? — É por esse caminho que vai querer seguir? A Imperatriz está puta da vida e mal consegue esconder. O problema aqui, é que também estou e não quero continuar andando no escuro caso esteja mesmo acontecendo alguma coisa que eu não saiba. — Vou fazer apenas uma pergunta Ivan. — Finalmente Natasha me encara e seu olhar me mataria se fosse uma pistola — A sua resposta deve ser apenas sim ou não. Se for sim, você para de me infernizar com essa merda de assunto, mas se for não, teremos que resolver isso de outra forma. Tudo bem pra você? — Não. — Respondo imediatamente e fico em pé me posicionando a sua frente — Nós tínhamos concordado em agir seguindo o plano e por alguma razão, que ao menos eu desconheço, você e Giuseppe não estão cumprindo o que combinamos. Ou você me fala o que está acontecendo ou toda a confiança que eu tenho em você acaba aqui. — Algumas coisas não cabem a você decidir. — Não costumo contestar suas decisões e muitas vezes acato suas ordens mesmo discordando de seus argumentos, mas nesse caso, tenho todo direito de saber o que vocês estão me escondendo. — Eu decido o que você deve ou não saber Ivan, e não o contrário. — Sem problemas. — Dou de ombros fingindo indiferença, mas por dentro sinto meu sangue borbulhar em minhas veias — Não vai me contar por que Giuseppe não veio para a cabana e nem o motivo de você não querer que eu saiba o que Fillipo te informou sobre o carregamento em São Petersburgo? — Já disse que não sei onde Giu se enfiou, e Fillipo ainda não entrou em contato. — Essa é a sua decisão final, Natasha?


— Quando tiver alguma novidade você será o primeiro a saber. — Não precisa mais se preocupar comigo. Coloco o copo dentro da pia e sigo para a escada que me levará até o quarto onde Sarina está dormindo desde ontem à tarde. — Aonde você vai? Ela pergunta antes que eu saia da cozinha. Penso muito antes de responder e quando olho para trás, por cima do ombro, sei que estou encerrando mais um ciclo na minha vida, mas depois de tudo que vivi nos últimos anos, aprendi que quando mentiras, segredos e interesses pessoais são colocados em primeiro lugar, o próximo passo a ser dado é a decepção que antecede o fim. E eu não vou permitir que as coisas entre nós cheguem a esse ponto, portanto é melhor finalizar amigavelmente para evitar futuras desilusões. — Estou deixando meu cargo de konsult’ant do Império, Natasha, e você está livre para procurar outro membro para ocupar o meu lugar. — Do que você está falando? Óbvio que a Imperatriz não vai aceitar minha decisão facilmente, mas ela terá tempo para assimilar minha renúncia quando toda essa merda acabar. — Estou falando de confiança, amizade e sinceridade, Natasha. Coisas que ao meu ver são essenciais para trabalhar ao seu lado e você está mentindo para mim, o que automaticamente, suspende as duas outras “condutas”. — Você não sabe o que está falando, Ivan! — Eu sei que não e a culpada por isso é você por esconder a verdade do homem que deveria ser seu braço direito. Agora, vou fazer o que mandou e irei até o quarto de Sarina para ver se ela já acordou, já que será a última ordem que acatarei da Imperatriz. — Você não pode fazer isso! Natasha vem apressadamente em minha direção. Sinto o medo em sua voz e a aflição em seus olhos, mas não irei recuar e farei com que entenda o quanto a sua decisão depreciou a nossa amizade. — Por que não? — Porque você é importante para o Império. — Você sabe melhor do que ninguém que não entrei nessa por


causa dos negócios, pelo status ou pelo dinheiro. — Eu sei que não, e é por isso que não posso deixar que saia. — Vou repetir o que me disse agora pouco, Natasha: algumas coisas, não cabe a você decidir e essa, por exemplo, é uma delas. — Ivan, estamos juntos nesse barco até o fim. — Não, Imperatriz. Eu estive remando ao seu lado o tempo todo, mas fui jogado em alto mar e deixado à deriva quando você decidiu esconder as coisas de mim. — Vamos seguir o plano, Ivan! — É quase uma súplica. Eu a encaro pela última vez e falo antes de virar as costas e seguir meu caminho sem olhar para trás: — Qual dos dois planos, Natasha? O que elaboramos em Moscou ou o que você, Giu e Fillipo elaboraram pelas minhas costas? Com a cabeça cheia de merda avanço rapidamente escada acima e paro a dois passos do quarto de Sarina. Olho ao redor ainda sentindo meu coração bater freneticamente, mas agora não pela expectativa de ver a mulata dormindo como uma deusa do Olimpo, mas sim, pelo sentimento de perda e fracasso que estrupia meu coração. Quantas vezes mais serei obrigado a ser tratado como segunda opção por pessoas que sempre tratei como prioridade na minha vida? Quantas decepções terei que vivenciar para aprender a me preservar e não ser manipulado e ferido dessa forma? Meu telefone toca e o nome de Fillipo pisca na tela. Ignoro a ligação e me aproximo da porta que me separa da mais bela visão que tive nos últimos anos. Giro a maçaneta e entro para mais uma vez ser surpreendido pela beleza exuberante de Sarina que está de pé em frente à janela, admirando a paisagem. Fecho a porta com cuidado. Sua silhueta me fascina e encanta. Ela é a mulher mais linda que já vi em toda a minha existência. Sua cor, suas curvas, seus cabelos, seu cheiro, seu gosto. Minhas pernas me levam até ela e a aproximação a deixa assustada. Não tenho certeza se a mulata sabe o que aconteceu, tampouco onde está e isso me anima, pois, odiaria pensar que está com medo de mim. — Sarina? Minha voz carrega consigo todas as minhas emoções afloradas.


Meus sentimentos estão à flor da pele como se eu estivesse sendo testado para provar que sou digno de estar onde estou e de ser amado e respeitado pelas pessoas que amo e respeito. Ela não me responde, mas posso sentir seu corpo estremecer ao me ouvir. — Está se sentindo melhor? Quando seu corpo reage ao meu questionamento, sou surpreendido com um abraço apertado e um choro emocionado. Sarina não precisa me pedir para confortá-la, pois é tudo que quero fazer nesse momento. Por ela e por mim. Ter essa mulher em meus braços faz com que tudo do lado de fora do quarto se torne insignificante. Eu pergunto se ela precisa de mais alguma coisa, absorvendo cada expressão e reação dela como um apreciador de obras de arte. Estou tão extasiado que mal percebo o que ela pretende fazer antes de sentir seus lábios tocando os meus. Demoro não sei quanto tempo, para reagir e quando meu corpo é seduzido pelo contato pecaminoso com o dela, o mundo se transforma em nada e tudo que me importa está aqui, ao meu alcance. Abro a boca, num convite erótico a sua língua que o aceita reabrindo inúmeras passagens secretas que haviam sido interditadas após a sua partida. Se meu controle fosse o comandante daquele beijo, eu teria sido banido por negligência. Como controlar o que sinto, ao senti-la dessa forma? Aperto sua cintura pressionando seu corpo com mais força contra o meu. Estou aceso, excitado e inebriado de desejo. Quero arrancar suas roupas, jogá-la em cima da cama e comer sua boceta como um fodido maníaco. Empurro seu corpo encostando-o na parede. Forço o quadril em busca de mais contato e me delicio quando ela afasta as pernas para facilitar o encaixe do meu pau no meio de suas pernas. Beijo sua boca exigindo que me dê coisas que nem sei definir o que são. Apenas quero tudo dela para mim. Que me nomeie dono de seus desejos, suas vontades, seu corpo, seu prazer e seu coração, como foi um dia. Mas então a realidade volta como a vadia que é e esfrega na


minha cara a verdade sangrenta e direta me questionando: algum dia essa mulher realmente foi sua? Apenas um clique e o gatilho foi disparado. Um lembrete singelo de que o amor aconteceu unilateralmente durante o breve relacionamento entre essas duas pessoas que se devoram e compartilham um momento intenso de tesão reprimido, onde apenas uma parte se modificou pela falta dele, enquanto a outra se remodelou e seguiu em frente, distribuindo as cartas do jogo. Sarina se foi e eu fiquei amargurando minha carência ocasionada pela sua ausência. Um idiota apaixonado. Um romântico de merda que acreditou no que seu corpo me dizia quando se entregava a mim, alucinada, enlouquecida e arrebatada pelo prazer que eu proporcionava a ela. Ao menos foi o que pensei. Exatamente como está fazendo agora. Como posso acreditar que tudo não passa novamente de encenação? Estou a ponto de gozar nas calças, mas não posso me perder novamente. Não com Sarina. Seguro seus punhos e a afasto. Muito mais irritado comigo do que com ela. Até quando essa mulher vai ter esse poder bizarro sobre mim? Isso precisa acabar. — O que pensa que está fazendo, Sarina? Ela se afasta encostando na parede. Não sei o que pensar. — Eu... me... — Quer se certificar de que ainda me sinto atraído por você? É isso que quer provar? Odeio como me sinto quando estou perto dela. Me sinto dividido entre o que quero e o que preciso. Duas pessoas dividindo o mesmo cérebro, o mesmo corpo, e o mesmo coração. Mas o mais difícil é controlar meu pau que me xinga de todos os piores nomes e exige o aconchego que ele só encontra na deliciosa boceta da mulata. — Me desculpe... — — Não posso acreditar que eu caí nessa de novo... — Seu pedido de desculpas é a facada certeira em meu peito. Sarina chora, arrependida e isso me mata por dentro. Não sei se se arrepende de ter me beijado, ou de ter tentado me enganar novamente. — Por favor, me perdoe.


Preciso saber a verdade, ainda que não queira realmente saber, pois a covardia eleva minhas barreiras tentando me corromper. Nem sempre a sinceridade é mais cordial do que a ilusão. Ela amedronta quem ainda luta contra um sentimento que se recusa a aceitar que não é mais bem-vindo. Mas é para isso que estou aqui, e se a verdade me golpear novamente, me forçarei a ser cruel como jamais fui. — Por que fez isso, Sarina? — Eu te imploro, Ivan, me desculpe... Não se desculpe, porra! Quero gritar de raiva. — Olha pra mim. Ela levanta a cabeça e me encara, desnudando sua alma, fodendo a minha prudência. — Por que você me beijou, Sarina? Quero que me fale a verdade. — Porque eu queria me sentir viva de novo. — Se sentir viva? Demoro a compreender sua resposta, até que ela se explica melhor e desmantela minha armadura de concreto revestida em aço. — Eu estava pronta para me render, Ivan. Desde que aquele demônio me pegou de novo, eu sabia que não tinha mais forças pra lutar. — Está me dizendo que... você queria... Não consigo sequer concluir a pergunta, porque não posso acreditar no que estou ouvindo. De repente sinto um mal-estar e tenho vontade de vomitar. — Estou. Talvez tudo que passei nas mãos de Mikail e Ruric foi apenas um castigo pelas coisas que fiz e todo sofrimento que causei as pessoas que eu mais amava, mas... dessa vez já não tinha mais força ou esperança de sair daquele inferno e se pudesse escolher entre continuar viva naquele lugar ou morta, não tenho dúvida que eu iria desejar morrer. — Nada do que aquele filho da puta fez com você foi culpa sua, Sarina. Que merda ela está falando e pior, pensando? — Não posso acreditar que na sua cabeça, as atrocidades que aquele maldito fez, devem ser aceitas para compensar as coisas que você


fez. É isso mesmo que está querendo me dizer? — Do jeito que você está falando parece errado, mas não foi assim que as coisas aconteceram, Ivan. Sarina me deixa sem palavras de tão absurdo que é o seu raciocínio. De longe é uma das formas mais distorcidas de enfrentar a verdade que já vi, e o que ela fala em seguida me assola e me comprime, até que não tenha nenhuma sobra de orgulho dentro de mim. — Eu magoei você, pensando que estava te protegendo. Ajudei a destruir a vida da Aurora, pensando que estava ajudando minha irmã. Levei Severino direto para a morte, pensando que estava fazendo o melhor para ele. E tudo que eu fiz, TUDO, Ivan, foi mentindo pra vocês, enganando vocês, omitindo fatos importantes da vida de vocês e o agravante, manipulando cada um de vocês de acordo com o meu entendimento e julgamento. Eu achei melhor esconder a verdade sobre o seu irmão, e escondi. Eu achei melhor que você acreditasse que eu era uma garota de programa para que não viesse atrás de mim e continuasse longe do demônio, e o que foi que eu fiz? Eu menti. Eu não me importei com as suas vontades, as suas opiniões ou os seus sentimentos, nada disso. Eu apenas decidi o que era melhor para cada um de vocês resolvendo as coisas do meu jeito, e olha no que deu? Você não é o único que me odeia Ivan, mas é o único que ainda me dá um motivo para querer viver. Porra do caralho! Essa mulher que me foder, só pode. — Olha nos meus olhos, Sarina, e me fala qual o motivo que eu te dou para você querer viver? — Pergunto sentindo cada músculo do meu corpo tencionar e contrair em expectativa de sua resposta. — O amor que eu sinto por você, Ivan. É ele, o único motivo que me instiga a querer continuar nesse mundo. Estou sem ar. Não consigo respirar. Eu preciso sair daqui antes que faça uma besteira impulsionado pelas fortes emoções que Sarina desperta em mim, e me arrependa depois. Sem qualquer informe, giro meu corpo e saio do quarto o mais rápido que consigo. Como uma marica, um covarde de merda que não


consegue encarar a mulher que, contra a minha vontade, ocupa grande parte dos meus pensamentos. Desço as escadas rapidamente e estou pronto para sair da cabana quando ouço a voz de Natasha me chamando: — Ivan! Minha mão está na maçaneta da porta. Meu corpo tremendo e meu coração quase saindo pela boca. Fecho os olhos, apertando-os enquanto tento controlar minha respiração. Estou furioso. Irritado. Descontrolado e não é uma boa hora para voltar a falar com a Imperatriz sobre os segredos de seu Império. Não quero ser grosseiro, mas acho que vai ser difícil me controlar nesse momento. — Olha, Natasha. — Começo a falar girando o corpo para encará-la — Não quero mais voltar no... — Como vai Ivan? Nem sempre a vida te prepara para determinadas ocasiões, e a cena que se desenrola a menos de dois metros de onde estou se encaixa perfeitamente dentro dessas ocasiões. — O que está fazendo aqui? O homem que está imobilizando Natasha e pressiona uma faca na garganta dela sorri com escárnio antes de responder. — Você pegou algo que não te pertence Ivan, e Mikail quer de volta. Nesses dois anos atuando como konsult’ant do Império, aprendi duas coisas importantes apenas observando os criminosos que mantinham negócios conosco. A primeira, é que a grande diferença entre um mafioso e todos os outros foras da lei é que na máfia a palavra “ameaça” foi banida permanentemente, e isso significa que quando temos um alvo, seja ele qual for, nenhum mafioso volta para casa antes de cumprir seu dever. Nós iremos matar quem estiver nos atrapalhando e isso é um fato. A segunda, é que ninguém consegue imobilizar a Imperatriz se ela não quiser ser imobilizada, menos ainda segurá-la e mantê-la imóvel da forma como esse imbecil está segurando. Isso significa que eu tenho que levar esse papo de merda o mais longe que conseguir para arrancar informações do babaca antes que Natasha se irrite, perca a paciência e acabe com a raça dele.


— Não me disse que trabalhava pra ele. — Oh, não trabalho mesmo Ivan. — Alik Baruk aperta o pescoço da Imperatriz com mais força arrancando um som engasgado da garganta dela — Só estou aqui pela recompensa. Passo as mãos pelos cabelos desviando meu olhar para a janela e me perguntando se esse filho da puta conseguiu matar nossos homens que estavam do lado de fora. — Você sabe que isso não vai acabar bem, não sabe, Padrinho? Os olhos de Natasha se estreitam. Certamente ela não reconheceu o homem e queria saber quem ele era e quais as suas intenções vindo até aqui. — Eu avisei que o cara não é como os outros. — Não estou falando de mim Alik, estou falando de você. — Não sou eu que estou com uma faca na minha garganta, e sim a sua Imperatriz de bosta, a mulher que o mundo inteiro teme. — Ele debocha e faz a pior cagada da sua vida ao lamber o rosto de Natasha — Mas eu vou mostrar como um macho de verdade faz pra colocar uma vadia de joelhos. Toda puta tem que saber se comportar e essa aqui vai aprender a me obedecer, não é mesmo, Imperatriz? Se Alik fosse meu amigo eu podia avisar que ele estava cavando a própria cova, mas como ele não é, a única coisa que faço é enfiar as mãos nos bolsos da calça e sorrir. — Como soube que eu estava aqui? — Pergunto divertido. — Inteligência e sorte. — Duvido. — Um homem cegado pelo ódio não enxerga um palmo a frente do nariz Ivan, e é exatamente assim que Mikail está desde que descobriu o que aconteceu ontem de manhã dentro da própria casa. — Então você me achou aqui por acaso? — Não. Mas eu tinha certeza que você ainda não tinha ido embora, e enquanto os seguranças foram enviados para te caçar até no inferno, aproveitei para dar uma volta pela propriedade e me deparei com um dos seus homens pelo caminho. Foi ele que me trouxe até essa cabana. Eu assinto e não há mais tempo para nenhuma troca de palavras entre nós. Já que Natasha fica satisfeita com a explicação que o líder dos Selvagens nos dá e resolve acabar com a brincadeira.


Quando dou por mim, Alik já está no chão com a sola da bota da Imperatriz na sua cara e a mesma faca que usou para ameaça-la, no meio das suas pernas. — Se você estiver com sorte, a faca estará amolada e suas bolas sairão com facilidade. — Ela rosna em seu ouvido impedindo-o de se mover — Mas da última vez, Dmitri Volkov não ficou muito satisfeito com os meus serviços de amoladora e acho que não me esforcei muito para me aperfeiçoar desde então. — Por favor, não me mate. Alik implora miseravelmente enquanto Natasha espreme sua cabeça contra o tapete marrom. — Eu não vou matar você, Padrinho. Nesse instante, Ivancov entra pela porta dos fundos. — Arranque as calças dele e amarre ele na cadeira. — Ela ordena. Alik se debate, tenta escapar, mas não obtém sucesso, aliás, nem chega perto disso. — Petchovich viu esse cara aqui perto e me perguntou se deveria mata-lo. — Natasha me explica como se nada tivesse acontecido e eu ainda fosse seu braço direito — Mandei trazer ele para descobrir o que estava querendo, mas não sabia que esse idiota era o Padrinho. — Bom que agora você já sabe. — Falo e abro a porta da cabana para sair. — Para onde você vai Ivan? — Dar uma volta. — Espera! — Ela me chama — Vamos conversar primeiro, eu quero... Um barulho vindo do lado de fora chama nossa atenção e a imagem de Giuseppe aparece em nosso campo de visão. Ele está suado, ofegante e com o rosto vermelho. Quando nos vê, apoia as mãos sobre os joelhos se recuperando do desgaste físico. — Onde você estava? — Saco a arma me certificando de que ele não estava sendo seguido. Giu franze a testa e sorri com desdém. Reveza seu olhar entre Natasha e eu, retrucando: — Como assim, onde eu estava Ivan? Nós ficamos nos encarando e sinto o corpo de Natasha inquieto


atrás de mim. Ela sabia onde ele estava e não quis me contar. Analiso o estado do italiano sentindo todo o sangue subir para a minha cabeça, quando enfim entendo o que, de fato, aconteceu. — Seu filho da puta! Empurro o loiro e soco sua cara algumas vezes. Ele não revida ou reage o que me obriga a cessar o ataque enfurecido. — Desgraçado! — Vocifero segurando a gola de sua camisa — Eu disse pra não encostar nela, PORRA! Sinto os braços de Lenin me puxando para trás. Giuseppe engasga e tosse algumas vezes quando o liberto, mas continua em silêncio. — Me solta, caralho! — Brado, me desvencilhando do segurança. — Se te servir de consolo, Ivan. — Giuseppe fala seriamente — Foi ela que me pediu para ficar lá. — Acha que esse papo furado de que você só fez o que ela pediu, vai me convencer? — Eu sei que ela é sua irmã, mas a Ramona é maior de idade e sabe muito bem o que quer da vida dela, Ivan. — E quanto a você, Giuseppe? Já sabe o que quer da sua vida, ou minha irmã vai ser apenas mais uma na sua infinita lista de bocetas que você fodeu? Ele não responde e eu não espero para assistir a morte trágica de Alik. Saio sem rumo em direção ao meio do mato a fim de sincronizar todos os sentimentos e pensamentos que lutam, bravamente, para tentar me enlouquecer. Sarina, Ramona, Natasha. Porra! Se todas as mulheres do mundo fossem como as que estão na minha vida, duvido que algum homem teria coragem de arrumar uma amante. Aliás, nem se quisessem iriam arrumar, porque nem tempo teriam já que elas consomem tudo, inclusive a paciência de qualquer cristão. Puta merda. Não se faz mais mulheres como antigamente...


CAPÍTULO 23

O vento começa a soprar com mais intensidade enquanto a tarde cai. Estou a poucos metros da cabana no meio da plantação de heroína que, segundo Ramona, foi usada durante muito tempo para abrigar os jovens recrutados que serviriam a Bratva sob a supervisão de Ruric. Fiquei vagando por algumas horas a fim de acalmar meus pensamentos e acho que consegui. Me sinto mais calmo e preparado para acabar logo com essa história toda e seguir meu caminho. Meu celular vibra no bolso da calça sinalizando uma mensagem de Natasha: Mikail descobriu onde estamos. Está a caminho. Precisamos fugir. Olho de um lado para o outro antes de correr e me deparar com Giuseppe e Lenin espalhando gasolina por todo o piso de madeira. — Onde está Sarina? — Pergunto passando por eles. — Natasha foi chama-la. — O italiano responde — Temos que tirar ela daqui antes que eles cheguem. — Como Mikail descobriu onde estávamos? — Não sabemos, mas Alik pode ter falado alguma coisa. — Ele não arriscaria perder a recompensa. — Afirmo. — Ninguém mais sabia Ivan, e hoje de manhã Mikail despachou todos os recrutas para diversas cidades com ordem de matar qualquer um que estivesse com Sarina. — Giuseppe argumenta — Ele nem desconfiava que pudéssemos estar dentro da propriedade. — Alguém contou... — Sì,dannato traditore! E nós temos que descobrir quem foi para ensinar uma lição. Natasha e Sarina descem apressadas. A mulata trocou de roupa e está vestida de preto, assim como a


Imperatriz. Meus olhos se dispersam pelo seu corpo por alguns segundos, descaradamente, apreciando e memorizando cada uma de suas curvas perfeitas. — Estamos prontas. — Natasha avisa. — Giuseppe — Chamo —, vá com ela e leve os homens com você. — O que? — Leve Sarina para longe daqui. — E você? Não estou olhando para as mulheres, mas sei que as duas têm seus olhares em mim. Posso sentir a vibração e a energia pulsante em minhas costas. — Vou ficar e esperar por Mikail. — Não! — Sarina desce os últimos degraus e corre na minha direção — Você não pode fazer isso, Ivan! Ele quer te matar! Seus olhos molhados pelas lágrimas que descem por seu rosto ferido, são lindas e deixam sua pele negra brilhante. — Eu estou cansado de ficar me escondendo, está na hora de enfrentar Mikail e acabar com essa merda. — Não! Por favor, não faça isso... — Ela me abraça se agarrando em mim como um náufrago desesperado se agarra ao seu bote salva-vidas para evitar a morte em alto-mar — Vamos sair daqui juntos, Ivan. Me leve para longe daqui e depois podemos pensar em algum jeito de acabar com aquele demônio, mas não me deixe, por favor, não me deixe... Natasha faz um aceno com a cabeça avisando que levará os homens para fora da cabana. Eu agradeço, pois precisamos desse momento sozinhos, sem plateia. Apenas eu e ela, talvez pela última vez. Sua demonstração de amor é inesperada e surpreendente, além de muito tentadora. Eu posso ir com ela e fugir de Mikail, mas o que adiantaria? Ele deixou claro que é capaz de fazer qualquer coisa, inclusive assassinar inocentes para conseguir sua vingança, e se eu não fizer o que preciso, esse jogo de gato e rato não vai ter fim. Bóris, Pavel e Severino foram vítimas do ódio de meu irmão por mim, e eu me recuso a permitir que mais algum membro do Império seja


morto por minha causa. — Ele não vai me matar, Sarina. — Acarinho suas costas — Vá com Giuseppe e em poucos dias nos encontraremos em Moscou. A mulata se afasta pousando seus olhos nos meus. Suas mãos trêmulas seguram as minhas e nossos dedos se entrelaçam. A sensação única que emana de sua pele se espalha pelo meu corpo, fomenta o desejo vibrante dentro de mim. Seguro seu rosto entre minhas mãos e beijo sua boca, que se abre prontamente para recepcionar minha língua. Sarina me abraça apertando e puxando meus cabelos enquanto eu envolvo sua cintura e a puxo para mim. Quero senti-la o máximo que puder. O tempo que for possível. Não ouço mais nada além das batidas do meu coração e dos gemidos sussurrados que escapam de sua boca contra a minha, à medida em que minhas mãos percorrem seu corpo, maliciosamente. Nem mesmo em minhas melhores lembranças, o beijo foi tão gostoso assim. Não me preocupo em ser delicado com ela, aperto sua bunda, enfio as mãos por baixo de sua camiseta acariciando seus seios fartos e belisco os bicos durinhos. Sarina não me poupa de suas carícias. Sua mão massageia meu pau por fora da calça me fazendo gemer de prazer e agonia. Se tivesse mais tempo colocaria essa mulher de quatro em cima do sofá e comeria sua boceta mais uma vez. Mas a única coisa que me permito fazer, é desabotoar sua calça e sentir sua umidade em meus dedos para comprovar o quanto ela me deseja e também quer ser fodida pelo meu pau. Beijo seu pescoço, mordisco seu queixo e fodo sua boceta com meu dedo médio. Sarina geme abrindo mais as pernas me deixando maluco de tanto tesão. Ouvimos toques insistentes dos celulares, agora mais distantes, e nos afastamos com muita dificuldade. Ela não quer partir. Eu não quero ficar, mas a hora chegou e não existe a menor chance de eu sair daqui sem enfrentar o filho mais velho do meu pai. — Sarina, você precisa ir. — Natasha avisa. — Promete que vai sair daqui com vida? — Sarina me pergunta chorando. — Prometo que vou fazer de tudo para isso.


A mulata fica na ponta dos pés, beija meus lábios e olhando no fundo dos meus olhos, fala: — Eu te amo, Ivan. Sempre amei, e se um dia puder me perdoar por tudo que fiz, eu prometo que não vai se arrepender de me dar mais uma chance... Ela não espera a minha resposta, apenas me deixa sozinho depois de me beijar novamente. O cheiro de gasolina impregna a cabana. Estou prestes a jogar o palito de fósforo e acabar com tudo naquele lugar, quando a Imperatriz abre a porta e fica me encarando com as mãos na cintura. — Por que está demorando tanto, Ivan? — O que ainda está fazendo aqui? Ela enruga a testa como se eu tivesse feito a pergunta mais sem nexo de todas as perguntas já feitas pela humanidade. — Quem disse que eu vou deixar você sozinho? Lanço o fósforo a uma curta distância e aguardo, testemunhando a primeira labareda agir com extrema eficiência e se espalhar, rapidamente, por toda cabana. Seguro o cotovelo de Natasha e a levo para fora do local em chamas, sem machucá-la, mas com firmeza. Não sei o que ela tem na cabeça para ter ficado aqui comigo. — Por que fez isso? — Vocifero indignado — Quer deixar o Pietro órfão e o Fillipo viúvo, porra? — Nós não vamos morrer, Ivan. Pelo menos não hoje. A segurança dela beira a arrogância e no fundo invejo sua convicção. As coisas não saíram como previ, e agora teremos que enfrentar não apenas a fúria de Mikail, mas também, a decepção de mais uma traição dentro do Império. Giuseppe comandou a fuga de Sarina, auxiliado por Ivankov, Lenin e Petchkovich a alguns minutos atrás e em poucas horas, estará levando os agentes federais russos ao laboratório de Mikail, em São Petersburgo, onde sua equipe, antes liderada por Petrus, está realizando experimentos com a Female Fantasy, fórmula da droga que foi roubada no Brasil. Eu e Natasha estamos em frente a cabana. Apenas nós dois. Olhares cravejados na direção da estrada de terra de onde surgirá


o carro que trará, diretamente ao nosso encontro, o homem que merece morrer de forma lenta, perversa e cruel. Natasha e eu somos criminosos que carregam o sangue da máfia em nossas veias e amamos essa adrenalina demente que nos cega, nos motiva e nos desafia. A morte não amedronta tanto quanto a falta de perigo e ação, que nos abate ininterruptamente, afinal de contas qual outro motivo que leva um ser humano “comum” a se transformar em um mafioso, senão a constante urgência de lutar pela sua vida? Existe apenas um motivo além desse. A incansável, promissora e tão cobiçada conquista do poder e do direito de ocupar o mais alto cargo dentro da organização criminosa mais poderosa do mundo. O que torna esse motivo um grande erro, pois o que poucos sabem e a maioria que sabe se recusa a entender, é que esse poder não pode ser furtado, ofertado ou recebido. Ele deve ser destinado. Não há esforço, treinamento, preparação ou mérito que gratifique o membro ambicioso com tal qualificação. O verdadeiro chefe da máfia não se apoia ao título ou se esconde atrás dele; mas prova a cada ato o quão é merecedor de possuí-lo. O verdadeiro chefe da máfia não manda o seu soldado para a guerra lutar em seu nome; ele vai para o campo de batalha liderando seu exército. O verdadeiro chefe da máfia não abandona seu legado; mas se une a ele e enfrenta o inimigo até que o último suspiro deixe seu corpo. Olho de rabo de olho para a Imperatriz sentindo uma pontada de orgulho por estar ao lado dela agora. Se tivesse que escolher entre todos os lutadores que conheço, um parceiro para me acompanhar em uma batalha pela minha vida, sem sombra de dúvida ela seria a minha primeira opção. — Ainda dá tempo de sair daqui, Natasha. — E perder a melhor parte da festa? — Ela pisca com um olho — Achei que me conhecesse, Ivan. — Eu te conheço, pode apostar que sim. Seu semblante sério é uma afronta a sua postura relaxada. Apesar de me sentir mais confiante com a Imperatriz ao meu lado, odeio


pensar em Fillipo e Pietro e o quanto ela está se arriscando por minha causa. — Você sabe que não precisa fazer isso. — Eu sei, mas eu quero. — Seu olhar é digno de um pôster, pois o azul claro mescla com preto, azul escuro e cinza, descrevendo com perfeição através das cores, a sua cólera. — Esse desgraçado matou meus amigos, ameaçou minha família, está querendo destruir meus negócios e ainda, sequestrar pela terceira vez a mulher do meu konsult’ant. Estreito os olhos ao ver seu sorriso de lado. — Não força a barra, Natasha. — Depois do amasso que eu vi, nem que quisesse negar, Ivan. A fumaça que sai da cabana dispersa pelo céu. — Não sei do que está falando. — Seu segredo está seguro comigo. — Não guardo segredos, Natasha. — Todos nós temos nossos próprios demônios, Ivan. — Então preciso encontrar o meu com urgência, não quero mais me sentir excluído. Ela gargalha, mas logo fica em silêncio quando ouvimos o som dos carros se aproximando. Nós nos encaramos e assentimos um para o outro. Chegou a hora. — Você vai precisar confiar em mim, Ivan. — Ela fala sem tirar seus olhos da estrada. — Por que está falando isso? — Porque eu sei quem nos traiu. — Sabe? Natasha assente e eu franzo a testa, possesso. Porra! — Quem contou ao Mikail sobre o nosso esconderijo? Natasha desvia seus olhos para os meus, e volta a olhar para a frente no momento em que dois carros pretos se aproximam e o esportivo preto, que chega primeiro, derrapa. Dois homens armados com metralhadoras descem rapidamente e veem em nossa direção. Logo atrás, uma pick-up preta estaciona e mais seis homens descem, mas não se aproximam.


Eles se posicionam em pontos estratégicos ao redor dos carros, vigiando a plantação para assegurar a segurança do seu líder. — Ela. — A Imperatriz responde apontando com o queixo para a jovem loira que desce em seguida, acompanhando um homem alto, com cabelos negros e olhos verdes com nuances amareladas. O verde fluorescente é raro, como eu nunca vi. — Ramona... — Minha voz é um sopro. — Acho que vou processar o Império por depredação de propriedade privada. — O idiota fala com deboche, mas não consigo deixar de olhar para a mulher ao seu lado que exibe um sorriso cínico em seus lábios — Talvez eu deva abater o valor do processo da sua parte da herança, aquela que o nosso pai deixou pra você, irmãozinho. Mikail está pela primeira vez parado como um poste a minha frente. Ouvi muita coisa a respeito desse homem e involuntariamente, criei inúmeras facetas que combinassem com as descrições sobre ele, sua arrogância, seu poder e a maldade intrincada em sua alma. Mas nenhuma das fisionomias que imaginei para o meu irmão chegam perto da que ele tem. É como se nós não tivéssemos qualquer vínculo, pois somos completamente diferentes um do outro. Tanto fisicamente como psicologicamente, e posso me arriscar afirmando que nossas personalidades também divergem em altas proporções, senão completamente. Ao contrário dele e de Ramona, pois os dois possuem alguns traços semelhantes, herdados da mãe que eles têm em comum. Mas não há nada que fortaleça qualquer ligação dos irmãos com Sergei Desdeiev. — Me disseram que você era bem parecido com o velho, mas não imaginei que fosse tanto. Mikail cospe as palavras entre os dentes com ódio e inveja. Sorrio com certo deboche e o provoco: — Talvez seja por isso que nenhum de vocês não ficou com nada de Sergei, até parece que eu sou o legítimo e os dois irmãos, os bastardos. Ele tenta me acertar um soco, mas me esquivo e acerto seu estômago. Os dois seguranças me seguram por trás enquanto Ramona aponta sua arma para Natasha. — Isso vai ser divertido. — Mikail resmunga com humor.


— Qual o problema, irmãozinho? — Imito seu tom zombeteiro — Não consegue dar conta sozinho? Manda seus capangas me soltarem e vamos resolver essa merda logo! Ele gargalha jogando a cabeça para trás. — Você acha que eu vou ficar lutando como um adolescente para provar que sou muito melhor do que o bastardo filho da puta daquele velhote fraco? — Mikail caminha lentamente me olhando de cima a baixo — Não, Ivan. Eu já fiz o que eu queria e agora vou usar você e a sua Imperatriz vadia para garantir a minha diversão pelos próximos dias, ou quem sabe semanas? Sua mão alisa o cabelo de Natasha que está estática sem demonstrar qualquer emoção ou reação ao seu toque. — Os relatos que me passaram sobre a sua beleza também não condizem com a verdade, Natasha Olotof. — Ele cheira o pescoço dela e fala em seu ouvido — Estou curioso pra saber o que você tem no meio das pernas que deixou o Capo siciliano tão fodido de amores, Imperatritsa. Mikail fica olhando para a cabana que começa a desabar à medida que o fogo se alastra, consome e destrói a madeira velha e castigada pelo tempo. Aproveito para observar Ramona, que está séria e me encara de volta, suas olheiras denunciam a noite mal dormida e me pergunto se sua traição teve alguma motivação relacionada ao que aconteceu entre ela e Giuseppe, concluindo que não. Como o italiano disse, Ramona é uma mulher feita e pode perfeitamente lidar com as consequências de suas escolhas. Qualquer uma delas, inclusive a traição que culminou em nossa captura. Mais uma vez banquei o idiota acreditando que pudéssemos ser irmãos e até cogitei a hipótese de leva-la comigo para Moscou quando tudo terminasse. Senti vontade de cuidar dela, ter a chance de ser o irmão que nunca fui e ter a irmã que nunca tive. Parece piada, mas Ramona e Mikail são a única família que tenho, e pelo jeito se quiser continuar vivo, terei que matar os dois. Se meus pais estivessem vivos diriam que matar a própria família é o maior de todos os pecados que um homem pode cometer, mas no meu caso, ou eles morrem ou eu serei morto, e sinceramente,


não quero morrer pelas mãos desse cara. Nem fodendo! Natasha está do mesmo jeito. Séria, compenetrada e imóvel. — Tirem as roupas deles, deixem apenas com as de baixo. — Mikail ordena — Algemem os dois e enfiem eles no carro. Vamos brincar um pouco antes de chegar em casa. Um dos homens me solta enquanto o outro se move e para diante de mim. Ele é careca, forte e muito branco. Seus olhos azuis transitam pelo meu corpo me deixando confuso. — Não encosta em mim, porra! — Brado quando suas mãos ameaçam segurar a barra da minha camisa. Eu o acerto com uma joelhada e recebo um soco nas costelas do soldado que está imobilizando meus braços. O careca se recupera e quando me encara desliza a língua entre os lábios. Que porra é essa? — Czar! — Mikail rosna e se aproxima — Algum problema? — Não senhor. Só estava cumprindo suas ordens. — Responde sério e submisso. Puta merda. Alguma coisa acontece entre eles e pelo jeito que se olham posso jurar que existe uma tensão sexual aqui. — Solte as mãos dele e deixe que ele mesmo tire suas roupas. — Mikail fala olhando diretamente para o branquelo que abaixa a cabeça em sinal de respeito — Fique de olho e não permita que o bastardo faça merda. Quero os dois à vontade, principalmente a Imperatriz. — Sim, chefe. O constrangimento é surreal, pelo menos o meu. Mas Natasha me surpreende quando rapidamente se livra da calça e da camiseta ficando apenas de calcinha e sutiã pretos. Os olhos do meu irmão apreciam o corpo escultural da Imperatriz, que em momento algum demonstra qualquer tipo de recato. Ele a analisa por vários minutos antes de puxá-la pela mão e acomodá-la no banco traseiro, ao seu lado. — Quero você no outro carro, Ramona. — Mikail fala. — Por quê? Ele sorri quando Czar me empurra para dentro, ao lado de Natasha, e senta-se ao meu lado. — Porque esse assunto é apenas para adultos.


— O que vai fazer, Mikail? — Nada que seja do seu interesse. — Mika! — Ramona trinca os dentes estreitando os olhos para o irmão — Não faça nada que possa se arrepender depois. Sem perder tempo, ele a despacha e aperta um botão acionando uma divisória escura impedindo que o motorista veja o que está acontecendo na parte traseira. A arma de Czar está apontada para a minha cabeça. O carro começa a se movimentar sacolejando pela estrada de terra. — Quero compartilhar com vocês um filme muito bom e sei que irão adorar. A atriz principal é muito conhecida pelos meus homens e já frequentou a minha cama muitas e muitas vezes. Uma pequena tela posicionada estrategicamente na divisória preta é ligada e o que vem a seguir, infelizmente, surte o efeito que Mikail deseja. É uma sucessão de cenas entre ele e Sarina fazendo sexo, em diversas posições e lugares. Na maioria delas a mulata está amarrada, mas suas expressões e gemidos de prazer não desmentem a sua satisfação. Assistir outro homem com a mulher que eu amo é, certamente, uma das coisas mais difíceis que já fui obrigado a fazer e não sei se algum dia essas imagens deixarão minha mente em paz. Mikail desabotoa a calça, abre o zíper e coloca seu membro para fora. Segura a mão algemada de Natasha e o envolve com ela, obrigando-a a masturba-lo. — Já pegou num pau desse tamanho, Imperatritsa? Ela não responde. Seus olhos estão fixos na tela e seus ombros tensos. O barulho das algemas em seus pulsos denuncia o ritmo dos movimentos exigidos pelo Pakhan, e quanto mais alto Sarina geme, mais rápido Mikail ordena que Natasha o masturbe. Minha cabeça pesa. Meus pensamentos voltam a se desorganizar e uma dor irremediável no meu peito teima em se instalar. Mas quando Mikail empurra a cabeça de Natasha para baixo e deixa clara a sua intenção de gozar na boca dela, eu entendo o que aconteceu com Sarina e me revolto.


Com um único movimento, golpeio Czar no nariz que urra de dor. Natasha se desvencilha de Mikail e com um chute violento, quebra a tela de dez polegadas que se espatifa no chão. Meu irmão passa algumas ordens em código pelo fone e desfere um tapa na cara da Imperatriz. Tento me afastar de Czar e continuar socando sua cara branquela, mas não tenho tempo para mais nada. O carro derrapa novamente e poucos segundos depois, as duas portas são abertas e somos puxados para fora por várias mãos. Todos os recrutas estão a nossa espera. — Porra, Mikail! — Ramona xinga — Você não devia ter feito isso! São tantos homens em volta do carro, que quando minha irmã recebe uma coronhada e cai no chão, a maioria os olhares recai sobre ela. — Acha que pode falar assim comigo, sua vadia? — Ele a chuta covardemente atingindo suas costelas — Qual o seu problema, hein? Ciúme da Imperatriz, maninha? Quer pegar no meu pau também, é isso? A loira esfrega o rosto com a palma da mão. Seu olhar para o irmão é tão sombrio quanto o de Natasha. As duas estão petrificadas e sedentas por vingança, assim como eu. — Eu vou adorar quando Fillipo vier atrás da esposa dele e acabar com você, Mika! — Ninguém virá atrás de mim, Ramona. — Reza Mika, mas reza muito, porque se o Capo descobrir o que está fazendo com a mulher dele, será o seu fim. — Tenho a impressão que você se esqueceu com quem está falando. Nenhum Capo, nenhuma Imperatriz e nenhum bastardo vai me impedir de conseguir o que eu quero Ramona, é melhor que entenda e aceite isso de uma vez. A loira se levanta pronta para um novo confronto, mas é interrompida pela voz, alterada e preocupada, de um dos seguranças. — Chefe! Tenho notícias importantes para o senhor! Mikail ordena para que todos os recrutas reforcem a vigilância em torno da propriedade e informa que não deve ser incomodado nas próximas horas por ninguém. — O que foi? — Ele indaga contendo sua arrelia.


Eu e Natasha estamos sendo conduzidos para o interior da casa, a mesma que invadimos para resgatar Sarina, ontem de manhã. Mikail e os dois homens que estavam no carro nos seguem de perto, enquanto Ramona vem logo atrás deles, em silêncio. — Tivemos dois problemas em São Petersburgo e um em Volgograv. A voz aflita do soldado ativa meu instinto de alerta. — Me espere no escritório. — Sim senhor, chefe. Somos levados a uma espécie de calabouço, que fica na parte subterrânea da casa. O lugar fede a sexo e suor, as paredes são escuras e enfeitadas com objetos usados em puteiros e por praticantes de BDSM. São várias cabines separadas apenas por cortinas brancas, e em cada uma delas há uma cama, uma mesa e uma cadeira reclinável. Mas o que chama a atenção é o incinerador, instalado na única parede livre, no fundo do cativeiro. — Sejam bem-vindos ao meu porão. — Mikail fala — Aqui será o lar de vocês pelos próximos dias, meses e quem sabe, anos. Ele se aproxima de Natasha e a arrasta pelos cabelos até a cabine central ao lado direito. Prende seus tornozelos em uma cruz de madeira, e seus pulsos, ainda algemados são presos a uma corrente acima de sua cabeça, deixando completamente exposta e sem qualquer chance de se defender. Avanço dois passos quando Mikail arranca sua calcinha, mas sou impedido por Czar que coloca o cano de sua bareta na minha nuca e ameaça atirar se eu desobedecer sua ordem. — Linda Imperatritsa! — O Pakhan passa seus dedos pela intimidade de Natasha e os leva ao nariz, inspirando seu cheiro — Estarei de volta quando terminar de resolver meus problemas. Ele a deixa e chama mais três soldados, ordenando que atirem em mim, caso eu não faça o que Czar ordenar. — Relaxa, Irmãozinho. Meus homens têm muitas coisas para te ensinar. A princípio não entendo o que Mikail quer dizer, mas quando o amigo de Czar, um soldado bem mais novo do que ele me leva até uma cabine na parede oposta à de Natasha, na mesma direção que a dela, me prende da mesma forma que a prendeu, tira a minha cueca e se ajoelha a


minha frente sorrindo para mim, tenho certeza que a única intenção do Pakhan, é nos destruir emocionalmente a ponto de não conseguirmos mais olharmos um para o outro. Mikail me odeia, mas o ódio dele por mim não passa de uma desculpa para a sua real intenção que é desmoralizar a Imperatriz, seu konsult’ant, todos os membros do alto escalão e, consequentemente, destruir o Império enaltecendo a força da Bratva. Devo admitir que meu irmão pensou em tudo e planejou cada passo que deu nos últimos anos. Foi cauteloso, calculista e não hesitou em nenhum dos momentos, nem mesmo nos piores, que poderiam ter arruinado seus objetivos. Mikail matou o próprio avô e provou que nada nem ninguém o atinge. Seu plano é espetacular, inteligente, audacioso e ele até poderia ter sucesso, se a Imperatriz não fosse Natasha Olotof, seu konsult’ant, não fosse Ivan Keritov e o Capo, Fillipo Grasso. Mikail precisa aprender que não existe crime perfeito, assim como não existe plano perfeito, nem mesmo o dele...


CAPÍTULO 24 – MIKAIL SERGEEVICH DESDEIEV

Deixo Natasha e o bastardo no porão ainda com o cheiro magnífico da boceta da Imperatriz em meus dedos. Chupo os dois degustando seu sabor acidamente doce. O Capo vai ter que se conformar em dividi-la comigo, já que ajudou na fuga de Sarina. Entro no escritório e encontro o soldado que insiste em me dar péssimas notícias ao lado de Ramona. — Espero que seja importante, odeio que me interrompam quando tenho coisas a fazer no porão. Acomodo-me em minha cadeira sob o olhar amedrontado do jovem homem, enquanto minha irmã se senta à minha frente. — O laboratório em São Petersburgo foi atacado, nossos homens foram mortos e a fórmula da droga, que os subordinados do senhor Petrus estavam manipulando, foi roubada. Não me controlo e jogo tudo que está sobre a mesa no chão. Ramona se assusta com tamanha violência e o soldado se encolhe quando agarro a gola de sua camisa e o deito sobre a madeira, que agora está completamente desocupada. — Por que não me falou antes, porra? — O se-senhor es-esta-estava com os prisioneiros, chefe. Eles poderiam ouvir... Seus olhos arregalados e seu corpo trêmulo indicam que está se borrando de medo, e embora a vontade de mata-lo seja grande eu o solto, pois ele agiu corretamente. — Que horas foi isso? — Retiro o celular do bolso verificando que não há nenhuma notificação de chamada perdida ou mensagem — Por que Alik não me avisou? Como descobriram sobre o laboratório, caralho? — O ataque foi durante a madrugada, senhor, e só ficamos sabendo quando a polícia local soltou um alerta para que todas as saídas da cidade fossem bloqueadas e o seu nome foi citado como principal


suspeito pela fabricação da droga. — Onde está Petrus? — Questiono andando de um lado para o outro — Encontrem Alik! Quero os dois aqui, imediatamente! — O telefone do Petrus continua desligado. — Ramona avisa tentando entrar em contato com o noivo — Estou ligando para a mãe dele, mas o celular dela também está fora de serviço. Ligo para Alik, o chefe da gangue que se aliou a Bratva, mas não obtenho resposta. Alguma coisa saiu errada e preciso saber o que foi para me preparar. Aquele laboratório não é o principal, mas se foi descoberto, o outro também pode ser. Merda! — Senhor... A voz do soldado atrás de mim instiga o monstro adormecido. Quero matar tanto quanto quero foder. — Você tem cinco segundos para falar tudo que tem entalado em sua garganta ou a única coisa que vai sentir dentro dela será o meu pau. Ele engole seco, endireita as costas e se esforça para não gaguejar: — O escritório que o senhor mantém em Volgograv também foi invadido, e todos os homens que serviam o Padrinho foram mortos. Gargalho alto. Muito alto. Apenas uma pessoa com muito poder conseguiria informações sobre as minhas atividades nessas cidades. Somente um nome vem a minha cabeça e por um segundo me sinto fraquejar. Mas, nem mesmo Fillipo Grasso, o único homem que meu avô insistiu para que eu não desrespeitasse, vai conseguir estragar meus planos de invasão, conquista e domínio. Se ele quiser sua esposa viva, terá que se render a mim. — Se ajoelhe! — Ordeno ao soldado. Seus olhos procuram os de Ramona, que abaixa a cabeça ciente do que está para acontecer. Com apenas três passos chego até ele, que é bem mais baixo do que eu. — Obedeça ou morre. — Vocifero, contido e excitado como apenas o monstro é capaz de me deixar. O soldado dobra os joelhos e coloca as mãos para trás, unindo-as em suas costas. — Desabotoa minha calça.


Com os dedos nervosos, ele faz o que pedi e abre o zíper sem levantar a cabeça. — Segura meu pau. Por um breve momento seu olhar procura o de Ramona novamente, o que me irrita. Se esse filho da puta estiver interessado na vadia vai ter que se contentar com sua boceta virgem mais tarde. Primeiro ele terá que me fazer gozar ou ficará sem a língua, na melhor das hipóteses. Sua mão envolve meu pau iniciando os movimentos de vaivém. — Mama minha rola e engole tudo. Relutante e envergonhado, o soldado começa a me chupar timidamente. O barulho da cadeira sendo arrastada e em seguida a porta do escritório batendo é a confirmação de que Ramona não suportou assistir e nos deixou sozinhos. Seguro a cabeça raspada do homem ajoelhado, que eu nem sei o nome, e soco meu pau em sua boca gostosa com mais força. — Ela já saiu. — Rosno — Se mamar como uma putinha, posso deixar que foda minha irmã depois que ela se casar com aquele boiola do Petrus, o que acha? O soldado olha para cima e eu quase gozo ao ver sua boca cheia com a minha rola socando sua garganta. Ele pisca várias vezes antes de segurar minhas pernas e me presentear com um boquete dos deuses. Todo mundo precisa de motivação, e esse homem não é o primeiro que se vende aos meus desejos em troca de algumas horas de sexo com Ramona. A lista é grande e bem variada. Não vai ser difícil conseguir a aprovação de Petrus para que sua futura esposa seja fodida por alguns de meus homens, porque ele também me serve, mas ao contrário desse soldado a minha frente o noivo de Ramona implora para que eu coma seu rabo. O filho mais velho de Edik é um verdadeiro safado quando tem uma pica a sua disposição, diferente de seu irmão mais novo, que nunca aceitou meus convites implícitos. — Isso meu putinho, suga tudo que eu vou gozar na sua boca, porra! São poucas as mulheres que conseguem superar um homem no boquete e esse garoto tem uma das bocas mais gostosas que já tiveram meu pau.


Gozo como um louco uivando e sentindo meu corpo relaxar. Sempre que as situações ficam complicadas, esse desejo insano de foder me açoita e se torna irrefreável. É uma premência inexplicável como se meu corpo fosse possuído por uma força superior e imbatível. Inúmeras vezes tentei dominá-lo e sem êxito, me esforcei para controla-lo, mas a cada tentativa frustrada de anulá-lo ele crescia mais resistente e foi se tornando tão visceral a ponto de me desestruturar, tanto fisicamente como psicologicamente. O soldado engole toda a minha porra, mas ainda estou duro e não posso ficar assim ou minha mente não vai funcionar na hora de resolver os problemas que precisam de soluções estratégicas eficazes. — Levanta e apoia as mãos na mesa. — Mas senhor... Ele ameaça reclamar e sem lhe dar qualquer chance de se esquivar, soco sua cara com força jogando seu corpo no chão. Não espero que se recupere do susto e monto em cima dele. — Nunca mais conteste uma ordem minha, garoto! — Desfiro um soco em seu queixo — Sempre que eu quiser te comer, eu vou comer, porra! — Mais um soco, só que agora na outra face — Agora faça o que eu mandei e dá esse cu pra mim sem reclamar ou eu acabo com você aqui mesmo. Saio de cima dele e o ajudo a ficar em pé. Seu nariz sangra, mas pouco me importo. Tudo que desejo é que fique logo de costas para que eu possa enfiar meu pau em seu rabo e é exatamente o que ele faz. — Bom menino. — Sussurro em seu ouvido empurrando meu pau para dentro dele — Tô vendo que é virgem, e eu garanto que depois que sentir minha rola dentro de você nunca mais vai querer outra coisa. Agora relaxa e deixa eu te mostrar como é bom ser um dos meus putinhos. Seu cuzinho apertado degola meu pau me levando ao delírio. Mal posso conter o tesão, e quando dou por mim já estou com a minha boca devorando a dele enquanto soco fundo seu rabo inexperiente e me desfaço em seu buraquinho, gozando como nunca gozei antes com nenhum outro homem. Não consigo soltar o garoto. Continuo beijando-o com violência até que meu pau amolece e escorrega para fora se acomodando em sua bunda branquinha e


arredondada. Sem que eu peça, ele se vira ficando de frente para mim correspondendo o beijo quente e intenso. Com ousadia ele segura minha mão e a coloca sobre seu membro enrijecido, é grosso e está todo lambuzado, estimulando a curiosidade em senti-lo em minha boca. Meu pau mole tenta se manifestar, mas agora tenho forças para impedi-lo e o ajeito dentro da cueca. Não posso ceder a luxúria por mais tempo ou vou colocar todos os meus objetivos em perigo. Mas tenho um jeito de associar o útil ao extremamente agradável. — Qual seu nome, recruta? Pergunto rispidamente me afastando e resgatando a postura severa que todos esperam do Pakhan. — Hedeon Barishnikov, senhor. — Hedeon... — Repito, experimentando chama-lo e gosto do que escuto — Preciso resolver os problemas que surgiram. Ele assente, agora desanimado e arruma sua calça. Sua expressão decepcionada me alegra e sei que consegui mais um fiel aliado, quer dizer, eu não, minha rola mágica conseguiu. — Quero que vá comigo a São Petersburgo, e seja meu segurança particular. — Como quiser, senhor. — O garoto se anima — Que horas iremos partir? — Arrume suas coisas e espere minhas ordens. Não fale nada sobre o que aconteceu com ninguém, nem mesmo com Czar. Tenho que descobrir quem está por trás desses ataques e confirmar com o irlandês se ainda é seguro fazer a entrega de amanhã. — Sim senhor. Hedeon gira nos calcanhares e me deixa sozinho, mas logo que ele sai, Ramona invade o escritório e volta a se sentar à minha frente. Ignoro sua presença e faço uma ligação para Flynn Moloney, o bêbado irlandês que receberá minha mercadoria. — Onde você se meteu, Mika? — O chefe da máfia irlandesa brada — O mundo está desmoronando e ninguém me atende, porra! — Tive meus próprios problemas pra resolver, Flynn, e não gosto do seu tom. — Meu aviso é oportuno para que o desgraçado não pense em falar comigo de qualquer jeito — A entrega de amanhã está confirmada?


— Como vou saber, Mikail? — Seu tom de voz, baixo e muito apropriado, quase me faz sorrir — São os seus negócios que podem foder o cronograma do avião e estragar tudo. O itinerário além de ser longo, é perigoso nas escalas da Arábia, da Turquia e do Afeganistão, se for interrompido ou modificado, podemos perder as mercadorias nesses países e se isso acontecer, não vamos conseguir recuperá-las. Tem muitos traficantes interessados no carregamento daquele avião, Mikail, mas é você que tem que me dizer se podemos seguir com a entrega ou não. Ramona está distraída mexendo no celular. Confiro o horário, duvidoso em autorizar a entrega antes de falar com Petrus e Alik. Eles são meus aliados e estão por dentro dos ataques que sofremos hoje, mas se a entrega não for feita e a mercadoria que está chegando da América do Sul for roubada por mercenários em um dos países, onde o tráfico de mulheres é considerado a galinha dos ovos de ouro, muitos receptores serão prejudicados e a Bratva enfrentará problemas sérios antes mesmo de ter seu regresso oficialmente anunciado. — Está confirmada a entrega, Flynn. — Decreto — Avise seu representante que o avião pousará na data, local e horário previstos para o carregamento da sua mercadoria. — Ele me disse o que aconteceu ontem na sua fortaleza, Mikail. Tem certeza que não é melhor recuar um pouco e suspender os ataques ao Império? — Não sou covarde, e se o Capo italiano acha que pode me enfraquecer ele está muito enganado. Tenho todo o departamento de polícia de São Petersburgo e Volgograv na minha mão, e estou com a Imperatriz e o bastardo. Se o filho da puta der mais um passo na minha direção, eu meto uma bala na cabeça da mulher dele, depois de meter meu pau naquela boceta gostosa que ela tem. — Você sequestrou Natasha Olotof? — Não. Ela invadiu minha casa e levou a pretinha do bastardo embora. Estou garantindo a segurança da minha família mantendo os dois desgraçados no meu porão. — Mexer com Fillipo Grasso não foi uma boa ideia, Mikail. — O irlandês bufa como uma criança chorona — Asker vai receber a mercadoria em meu nome, mas preciso de garantias que nada vai dar


errado e que seus homens não abrirão a boca se forem pegos. — Eu sou o Pakhan, Flynn Moloney, e não um frouxo qualquer para me borrar nas calças por causa de um Capo italiano que não dá conta nem da própria mulher. — A partir de agora o mundo vai conhecer quem é o homem mais poderoso da Rússia — Vou entregar sua mercadoria no dia, e garanto que nada vai dar errado. — Onde está Alik? — Não sei. — Confesso — Vou começar a busca e descobrir o que aconteceu com meus homens. Ele não foi o único que desapareceu, Petrus também não dá notícias desde domingo e já estou ficando irritado. — É estranho. Asker esteve ontem em Volgograv para receber meu dinheiro da boate, mas não encontrou Alik. Os homens dele disseram que ele tinha ido até a sua casa, mas ainda não havia dado notícias. — Ele esteve aqui pela manhã e foi embora cedo. Enviei os recrutas para encontrarem Sarina, mas hoje Ramona interceptou uma ligação da Imperatriz e descobriu que a desgraçada estava escondida no meio da minha plantação de heroína com o bastardo. — Cuidado com essa mulher, Mikail. Ela é perigosa. Gargalho sem esconder a minha diversão. Ramona levanta a cabeça com a testa franzida e faz uma careta de desgosto, reprovando meu comportamento. — Natasha Olotof é só uma mulher que nunca encontrou um homem que soubesse adestra-la, mas ela teve sorte Flynn, e vai aprender comigo como deve se comportar uma dama de verdade. — Como seu cliente, fiz a minha parte e te aconselhei. Se vai seguir ou não os meus conselhos, já não é problema meu. — Eu sei o que estou fazendo, e vou mostrar que a nova geração da Bratva é muito mais poderosa e preparada do que esse bando de mafiosos ultrapassados. Chegou a minha vez de dominar a Rússia, Moloney, e quem não estiver do meu lado, vai morrer. Encerro a ligação e encaro minha irmã. — Onde está o seu noivo, Ramona? A garota me encara de volta e fica em pé, apoia as mãos sobre a mesa inclinando o corpo a frente. Seu rosto está ferido onde bati e gosto de ver minha marca nela.


— Espero que não esteja enfurnado na cama de uma vagabunda qualquer, porque se eu descobrir que aquele desgraçado está me traindo vou mata-lo com as minhas próprias mãos, e a culpa será sua por me obrigar a casar com um traste. — Já disse que não precisa se preocupar com isso, Ramona. Garanto que Petrus não come nenhuma boceta por aí. — É melhor que isso seja verdade, Mika. — Confie em mim, seu noivinho não trai você com nenhuma puta, só comigo, mas isso não deve ser um problema certo? Nós aprendemos desde que você chegou a essa casa que devemos dividir tudo que temos. A primeira reação dela é de dúvida, mas ao perceber que não estou brincando, sua expressão muda radicalmente. — Não posso acreditar que você... Ramona faz uma careta de nojo. — Que eu como o rabo dele sempre que ele me implora? — Gargalho alto — Qual é, Ramona? Como você acha que eu consegui tudo que quis com aquele paspalho? — Você é doente, Mikail! — Não, irmã. Eu faço o que for preciso pra conseguir alcançar meus objetivos, e se enfiar meu pau no cu do seu noivo é o que ele quer pra aperfeiçoar aquela fórmula e continuar produzindo as bombas que vou usar pra explodir Moscou, é isso que ele vai ter. — Alguém explodiu o laboratório, Mikail! — Qual o problema? — A fórmula se foi assim como todas as outras merdas que o Petrus estava fazendo! Relaxo meu corpo na cadeira, e passo a ponta do dedo sobre a bala que tenho alojada em meu peito, o presente que Sarina me deu para que eu nunca mais esquecesse o que deve ser feito se para chegar aonde quer. — Aquele não é o laboratório principal maninha. Ainda não consigo entender o que as pessoas pensam a meu respeito, mas a sensação de que consigo surpreende-las é excitante ao extremo. — O que? Do que você está falando? Ramona passou toda a sua vida trancafiada nesse lugar, nunca


teve acesso ao mundo depois que foi trazida pela puta da sua mãe, e por isso não conhece as artimanhas que um homem como eu é capaz de usar para descobrir quem são seus soldados leais e, quem são os traidores. — Acha mesmo que eu ia contar a todos os recrutas onde nós guardamos a fórmula verdadeira da Famale Fantasy e todos os meus projetos de artefatos explosivos? — Se Ramona não fosse minha irmã e já não tivesse provado sua lealdade, poderia pensar que ela está decepcionada com a minha revelação — Não seja idiota, minha irmã, o laboratório que foi atacado hoje é apenas uma fachada para encobrir o verdadeiro, e esse, apenas duas pessoas sabem onde fica, eu e o seu noivinho que adora sentar no meu pau. — E se alguém sequestrou o Petrus para forçar ele a contar a verdade? — É uma possibilidade, mas se esse é o motivo do sumiço dele, eu ainda tenho algum tempo para desativar o laboratório antes que seja descoberto. — Pensa bem Mika, amanhã é o dia do carregamento, todos os recrutas estarão lá. Você está com a Imperatriz e o konsult’ant no porão, e não pode deixar a propriedade sem segurança. Como vai conseguir estar em três lugares ao mesmo tempo? Aliso a barba e observo a postura de Ramona. Meus homens ainda não conseguiram explicar como o bastardo e sua corja entraram na minha casa, instalaram seis explosivos e resgataram Sarina sem que ninguém visse absolutamente nada. Tenho certeza que há um ou até mais traidores infiltrados na Bratva, mas são poucos os que conhecem os caminhos para invadir minha propriedade e sair sem serem pegos. — Você acha que tem um traidor aqui em nossa casa, Ramona? — Eu não acho, Mika. — Ela responde prontamente, tentando me convencendo de sua lealdade — Eu tenho certeza que tem um traidor infiltrado passando informações sobre os seus planos para o Império e para o Capo italiano. Mas como vamos saber quem é? — Isso será fácil. — Fácil? — Ela força uma risada — Por que você não consegue deixar a prepotência de lado e agir como o verdadeiro Pakhan, Mikail? Bato os punhos na mesa com força, sentindo o ardor em minha pele após o impacto proposital. Quem essa piranha pensa que é para


falar uma merda dessas? — EU SOU O PAKHAN E FAÇO O QUE QUISER, PORRA! Ramona balança a cabeça de um lado para o outro, discordando novamente. — Tudo que ouvi sobre o nosso pai, a Bratva e como ser um mafioso desde que me conheço por gente, é bem diferente do que eu vi você fazer depois que matou Ruric e assumiu o lugar dele. A máfia é muito mais do que isso, Mikail. — Eu não quero ser como aquele velho fraco que largou tudo por causa de uma prostituta interesseira, nem quero que a minha Bratva seja como a de antigamente. — Como pretende descobrir quem está te traindo se nem ao menos conhece os homens que estão ao seu lado? — Não preciso conhecer ninguém para encontrar o que procuro, Ramona. — Então é melhor começar a sua busca, irmão, porque se der alguma merda no carregamento de amanhã, não vai adiantar ter a droga se não tiver as mulheres para consumi-la. — Não estou entendendo aonde quer chegar, Ramona. — Só estou querendo ajudar, mas vejo que você não quer a minha ajuda por achar que eu não sei o que estou falando. Sento-me avaliando suas palavras, e pela primeira vez, enxergo algo em minha irmã que até agora não tinha enxergado. Ramona e eu somos os únicos herdeiros de Ruric, e minha irmã tem tanto interesse nos negócios como eu. Ela sabe que se alguma coisa acontecer comigo, respingará fortemente nela. — O que você sugere que eu faça? Ramona tem um brilho desafiador em seus olhos. — Para que o mundo conheça, respeite e tema um homem, ele precisa conhece-lo. Ruric tinha motivos para se esconder atrás desses muros, mas você não. — Ramona apoia os cotovelos sobre a mesa e um sorriso camuflado de ironia desliza em seus lábios — Está mais do que na hora de dar um rosto ao Pakhan, e deixar que todos se curvem diante do seu poder, irmão. Eu sugiro que você reúna uma equipe pequena e de sua total confiança para desativar o laboratório verdadeiro e cuide pessoalmente da fórmula até descobrir o que aconteceu com Petrus. Use seus prisioneiros como moedas de troca e tire vantagem disso para


garantir que a entrega de amanhã seja feita sem intercorrências desnecessárias. Mostre a sua cara, Mika, e permita que o mundo conheça o homem por trás da Bratva. Da forma como Ramona fala, tudo parece fácil. Fácil até demais. — Não vou usar Natasha e Ivan como moeda de troca. Vou acabar com eles pouco a pouco, dia a dia naquele porão até que não sobre nada, nenhum vestígio de vida dentro dos olhos de cada um. Não vou mostrar minha cara, porque ainda não chegou a hora. O laboratório onde a mágica realmente acontece, está sob minha constante vigilância então você não precisa se preocupar com a segurança da fórmula. E quanto ao carregamento, vou mandar a melhor equipe para garantir que nada saia errado. — Como vai fazer isso? Sorrio como sempre faço todas as vezes que tenho o poder de golpear o bastardo sem dar-lhe a chance para o revide. — Vou me divertir essa noite no porão com meus convidados de honra e amanhã de manhã, partiremos para São Petersburgo. — Partiremos? — Claro, irmãzinha, você vai comigo e será a responsável pela equipe de recrutas que fará a entrega diretamente ao receptor. — Mika, eu não sou uma recruta como eles e você sabe disso. O meu treinamento foi voltado para trabalhos específicos. Eu me levanto, contorno a mesa e paro ao lado de Ramona. — Não se preocupe, quero que confie em mim assim como eu confio em você. — Acaricio seu rosto sentindo a tensão em seu maxilar delicado — Somos irmãos e tudo que tenho é seu também. De agora em diante, faremos tudo junto, Ramona, e vamos mostrar ao mundo o quanto somos unidos. Esteja pronta às 6hs. O carro estará nos esperando e não admito atrasos. Saio do escritório e em vez de seguir para o porão, atravesso o corredor em direção a porta de saída. — Chame o recruta Hedeon, e avise que não quero esperar mais do que dois minutos para que ele esteja aqui. Aviso o segurança, que sai correndo em direção ao alojamento três, e rapidamente volta com o jovem soldado atrás dele. — Mandou me chamar, senhor? Ele veste apenas um short preto e uma regata da mesma cor.


— Tenho uma missão para você esta noite, sigilosa e confidencial. — Estou as suas ordens, senhor. — Quero que vigie cada passo que Ramona der e me avise se minha irmã falar com qualquer pessoa aqui dentro. — Sim, senhor. Posso terminar de me arrumar antes de começar a tarefa? Olho para ele e embora me sinta tentado a comer seu rabo novamente, decido ignorar meus instintos e fazer primeiro o que devo. Outro dia eu pego esse garoto de jeito e arrombo seu cuzinho apertado. — Pode. E não deixe que ninguém perceba o que está fazendo. — Sim senhor. — Pode ir. Ele corre de volta para o alojamento e eu sigo para o porão. Essa noite ficará marcada na vida de Ivan e Natasha e depois dela, todas as noites quando fecharem os olhos lembrarão de mim e de tudo que fiz com eles. Até que não suportem mais e implorem para que a morte chegue...


CAPÍTULO 25

Não posso acreditar que isso está realmente acontecendo. — Não se culpe tanto. — O filho da puta fala com um sorriso sarcástico — No fundo, somos todos iguais. — Me solta por dois segundos e eu te mostro se sou igual a você, seu viado do caralho! Ele se aproxima encostando sua boca em meu ouvido e sussurra: — Nós dois sabemos como você ficou, bastardo. — Sua língua desliza pelo meu pescoço e eu me afasto o máximo que consigo — Estou com o gosto da sua porra na minha boca e posso apostar que você provou o melhor boquete da sua vida. — Sai daqui seu filho da puta! Ele gargalha e caminha até Natasha. Meu corpo está lerdo depois de ter gozado na boca do fodido. Como pude fazer uma coisa dessas com um homem, porra? Fecho os olhos apertando-os com força. Não consigo me conformar que esse desgraçado me deixou de pau duro e ainda me deu prazer com a sua boca. Puta que pariu! Não sei se vou conseguir me encarar no espelho algum dia. — Pena que o chefe me proibiu de comer você. — Ele fala para a Imperatriz que o olha com indiferença — Aposto que essa bocetinha é deliciosa e tem um sabor especial, não é mesmo? Ele se ajoelha a frente dela, como fez comigo e acaricia a intimidade de Natasha. Ao contrário de mim, ela não reage ou se manifesta, mas o desgraçado não para nem desiste. A porta do porão se abre e Czar entra. — Nikol! — O careca chama seu nome autoritariamente — Saia! Minha cabeça desaba para frente. Meus ombros relaxam como podem e sinto minha respiração normalizar. Enquanto esse verme ficasse aqui, eu não iria conseguir ter paz.


— Tudo certo para mais tarde? — Não sei. O chefe está trancado no escritório com um dos soldados da inteligência há mais de meia hora. — Czar responde incomodado e meu olhar é atraído ao de Natasha — Ramona deixou os dois sozinhos e isso não é um bom sinal. Eles conversam baixinho, mas ouço tudo e não há como negar que os soldados de Mikail é um bando de pervertidos do caralho que se pegam nas horas livres. Meu estômago embrulha com a ideia de convivência que esses homens têm. — Não posso reclamar porque eu me diverti muito com o bastardo. — Fique vigiando a porta e não deixe que ninguém entre aqui. — Cezar ordena — Vamos ver se ele guardou alguma coisa para mim. Não. Não. Não. Puxo meus braços e pernas tentando me soltar a todo custo, mas as correntes são chumbadas na parede e não permitem a fuga que eu tanto almejo. Czar surge no meu campo de visão com sua cara depravada de merda. Quero apenas uma chance para mata-lo. Sim. Eu posso matar todos eles com as minhas próprias mãos. Um por um. — Como está se sentindo depois de ter gozado na boca de um homem, Ivan Keritov? — Me sinto nojento. — Hum.... mas foi bom, não foi? Ele se aproxima olhando fixamente para o meu pau como se fosse uma relíquia e ele, um historiador. — Cala a boca e sai daqui você também! — Brado na esperança de ele me obedecer. O miserável continua se aproximando e só para quando seus dedos alcançam meu membro. Fecho os olhos e penso em coisas que me deixam com nojo, animais mortos, homens degolados, comidas estragadas e lixões onde despejamos cabeças decapitadas. Mas nada funciona quando sua mão envolve meu músculo e começa a massageá-lo lentamente, fazendo-o crescer dentro dela. — Para porra! — Seu pau está me pedindo para continuar, Ivan. — Czar solta


uma risada — Relaxa e aproveita o que eu tenho pra te dar... Como Nikol, ele se ajoelha e desliza a língua pelas bolas. Viro a cabeça para o lado usando o braço estendido para apoiar a testa e me negando a olhar para baixo. As pontas dos dedos substituem a língua quando seus lábios sobem e descem lentamente. O prazer é surreal e preciso reprimir todo meu corpo para não gemer. — Está gostando, Ivan? Czar pergunta com a voz arrastada. Não respondo. — Nunca vi um pau tão lindo assim... Uma mão me punheta, a outra acaricia minhas bolas enquanto sua língua brinca com a cabeça melada. Sinto as lágrimas escorrerem pelo meu rosto e a dor em meu peito é tão forte quanto o tesão que estou sentindo. Sinto nojo, asco e me odeio por não conseguir controlar as reações do meu corpo com esses homens. É deprimente e deplorável. Nunca imaginei que um dia pudesse passar por uma situação como essa e somente agora consigo entender, com tanta profundidade de sentimentos revoltantes transitando dentro de mim, como uma mulher se sente ao ser estuprada. Eu estou sendo estuprado. Meu corpo está sendo violentado e isso, não poderia ser mais humilhante para um homem. Como Natasha vai me encarar depois de ter visto tudo que está vendo? O que Sarina vai pensar a meu respeito quando souber que meu corpo reagiu dessa forma ao ser tocado por homens? E meus amigos? Estou devastado de milhares de maneiras incompreensíveis. A tristeza cresce e insiste em tomar meu coração, mas Czar percebe o que está acontecendo comigo e muda a tática. Sua boca macia engole meu pau e chupa forte trazendo a superfície todo o prazer que estava em declínio. Meu membro, interesseiro e cego, cresce ainda mais em sua boca, e por mais difícil que seja para mim acreditar, o desejo de gozar é ainda mais forte do que da primeira vez. Mordo meu braço para não verbalizar a sensação inebriante que sinto ao ser chupado por outro


homem. Tesão sufocante e nojo potencializado ao máximo possível. — Isso, Ivan... goza na minha boca, goza como o bichinha que é e eu vou tomar todo o seu leitinho, isso mesmo... assim, delícia! Não sou capaz de frear e esporro abafando o gemido que escapa de minha garganta. Estou suado e sem forças. Minhas pernas bambas e meus braços dormentes. — Se pudesse, ficaria te chupando a noite toda. — Czar continua lambendo meu pau — Você poderia me comer, se quisesse. Abro e fecho as mãos. Raiva. Ódio. Nojo. — Pode experimentar, Ivan. Alguns homens casados adoram se divertir com um cu de macho de vez em quando, o que acha? Sua boca lambe minha pele, enquanto suas mãos deslizam pelas minhas pernas. Czar vai subindo, percorrendo meu abdômen com sua boca, até chegar em meus mamilos. Ele suga um depois o outro. Trinco os dentes. Raiva. Ódio. Nojo. Ele circula meu corpo encostando-se nas minhas costas. Aperto os olhos e mãos fechadas travando o maxilar ao senti-lo esfregar sua ereção na minha bunda enquanto suas mãos percorrem meu peito e barriga. Seu peito suado cola em minha coluna como segunda pele. Minhas lágrimas caem. Faço caretas de dor, mas não é o que sinto. Raiva. Ódio. Nojo. — Gosta disso, bastardo? Czar empurra um dedo contra mim. Contraio as nádegas com toda força que tenho fazendo-o sorrir. — Não vou te machucar, Ivan. — O filho da puta se encaixa e se esfrega indo e vindo gemendo como uma gata no cio — Gostoso, não acha? Eu só penso em todas as formas que eu quero matar esse filho da puta. São várias, mas antes de mais nada vou arrancar suas bolas e fazêlo engolir, exatamente como a Imperatriz fez com Dimitri. Czar para a minha frente, em silêncio. Tira suas mãos de cima de mim e aperta meu queixo obrigando-me a encará-lo. — Está chorando, bastardo? Sinto meu rosto queimar. Fúria pura, cólera crua.


Seu punho se choca violentamente contra minha face esquerda. Minha cabeça tomba para o lado direito. — Vou perguntar de novo, bastardo. — Czar aperta meu queixo novamente obrigando-me a olhar em seus olhos — Está chorando? Não respondo e agora é a face direita que recebe o golpe jogando a cabeça para o lado direito. Minhas têmporas latejam e a inconsciência pede passagem. Não nego e até agradeço, pois assim, consigo esquecer as últimas horas e dormir um pouco, esperançoso, de que no momento em que eu acordar tudo não terá passado de um sonho, ou melhor, um grande pesadelo. *** Desperto com a água gelada em meu rosto. Pisco algumas vezes antes de abrir os olhos com muita dificuldade. Tento me mexer, mas não consigo, pois estou preso e sinto cada partícula do meu corpo doer. Tudo, exatamente tudo, dói. E não é uma dor qualquer. Meus braços e pernas estão dormentes, minha cabeça lateja e minhas mãos formigam. — Acho que ele está acordando. A voz masculina provoca uma onda forte de repugnância como nunca senti antes, que atravessa meu corpo de ponta a ponta. É forte e possessiva, destruidora e rebelde, e está prestes a abandonar qualquer fragmento de misericórdia que possa ter existido em minha alma. As horas de sono revigoraram minha mente e agora pressinto que, de um jeito ou de outro, o fim está próximo. Basta descobrir se será o meu ou o deles. Principalmente dos três homens que estão a minha frente, me encarando com seus sorrisos de escárnio e chacota. — Eu disse para pegarem leve com o meu irmãozinho, porque achei que ele não iria gostar muito de ser devorado por dois soldados da Bratva. — O demônio caminha a passos lentos em volta do meu corpo ainda pendurado e acorrentado como um animal a ser abatido — Mas, do jeito que ele apagou, vocês dois devem ter feito um ótimo trabalho. — Podemos continuar, chefe. — Czar fala com os olhos fixos em Mikail — Ou, se o senhor quiser, podemos desamarrá-lo e mostrar


coisas novas para o bastardo. O que acha? — Acho que vocês gostaram tanto quanto ele, não? Nikol está sério e parece faminto analisando meu corpo, completamente nu. Suas mãos abrem e fecham, como se ele estivesse se controlando para não avançar sobre mim. Eu só queria um pé livre para acertar sua cara quando ele se aproximasse novamente. De onde estou não consigo ver o rosto de Natasha. Uma das cortinas foi fechada e a única parte de seu corpo que vejo, é a perna esquerda acorrentada na cruz, exatamente como a minha está. — Já tive melhores. — Czar tenta disfarçar a empolgação — Mas ele não é de se jogar fora. — E você, Nikol? — O demônio se prostra à frente do soldado mais jovem, quebrando seu contato indiscreto e indesejável com meu corpo — Gostou do bastardo ou já teve melhores? Os segundos em silêncio deixam o clima tenso entre eles. Não existe mais apenas uma suspeita de que Mikail estimula seus homens a manter relações sexuais entre eles, talvez para garantir sua lealdade e se beneficiar da ilusão desses imbecis de que são pessoas importantes para o Pakhan. Bando de burros! Não enxergam o que está acontecendo ou distinguem que são apenas peças de um jogo muito bem elaborado por Mikail, onde a única coisa que interessa é a vitória, independente de quantas vidas ele tiver que tirar, quantas pessoas ele tiver que enganar e manipular. Para o demônio não existe ética, nem mesmo a que cultivamos entre os criminosos, quem dirá com seus subordinados que serão substituídos logo que se tornarem dispensáveis. — Só tive um melhor do que ele, chefe. A resposta não parece agradar muito o Pakhan, que segura os ombros do soldado e cochicha alguma coisa em seu ouvido que não consigo ouvir. Mas Czar pode, e vejo quando sua expressão se torna máscara de espanto e choque. — O que? — O careca pergunta chamando a atenção de seu chefe para ele — Não vai me levar? — Você fica para cuidar dos meus prisioneiros e quando eu voltar, decidirei quem irá ocupar os cargos que ficaram desocupados.


Mikail dá um passo para o lado desviando de Nikol, e vai até onde Natasha está. Suas palavras são sussurradas me impedindo de ouvir o que o desgraçado fala para ela, mas não deixo de ouvir o barulho do tapa que ele desfere e faz meu sangue correr mais rápido em minhas veias. — Está preparado para o que eu tenho reservado para você, bastardo? Os olhos verdes do filho de Sergei escrutam os meus, espelhando detalhadamente, os mesmos efeitos que a sua presença causa em mim. — E você, está? Mikail não sorri. Apenas continua seu aferimento ávido numa tentativa minguada de ser intimidante. Mal sabe ele que nada mais pode me atingir depois do que fizeram comigo, horas atrás. — Está me ameaçando, irmãozinho? Sorrio e cuspo a saliva ensanguentada que estava armazenada em minha boca ressecada. A gosma suja sua bota militar. — Não sou homem de ameaças. Ele devolve o sorriso e se aproxima de mim. Seus olhos recaem sobre meu corpo e sua mão direita envolve meu pau quando alcança meu olhar novamente. A massagem lenta estimula o membro adormecido que começa a dar sinal de vida, ignorando todas as minhas ordens e súplicas, voltando a crescer entre os dedos de um homem. — Concordo, bastardo, mas só na parte de que não é um homem. — Luto com todas as forças que ainda me restam para não deixar transparecer o encarniçamento dilacerante que quase me parte em dois — Não tente lutar contra mim, Ivan, vai ser perda de tempo. — Seus movimentos aceleram levando todo sangue circulante para a cabeça — Eu sou seu dono, bastardo, e você vai ser a cadelinha dos meus homens e garantir a satisfação de todos. Eles vão te chupar, te foder e ter o seu pau no cu de quem quiser ser fodido, não importa se é branco, preto, gordo, magro, feio ou bonito. Não vou te dar escolha. Ou faz o que meus homens querem ou vai morrer com os méritos de uma vadia e ser lembrado como a putinha mais arrombada que a Bratva já teve. Não preciso te dizer que já tivemos muitas prostitutas conhecidas


mundialmente não é mesmo? Mas isso é para provar que você não foi especial apenas para Sergei, bastardo. — Meu pau incha e suja a mão do desgraçado, que sorri satisfeito — Não falei que sou seu dono, cadelinha? Ele pega um pedaço de papel que Czar lhe oferece e limpa a gosma branca espalhada por seus dedos. Estou ofegante controlando como posso minha respiração. Sinto meu rosto queimar e esquentar pelo esforço e orgasmo repentino. Mas diferentemente das vezes anteriores, não me sinto tão abalado e sei que os dois expectadores notam a diferença em minha reação. Nikol parece preocupado enquanto Czar, em dúvida. — Hoje vai ser um dia memorável, Ivan. Não apenas para a Bratva, mas para você e sua Imperatriz também. Vamos fazer história juntos e vocês serão os protagonistas do meu roteiro cinematográfico. Não tiro meus olhos dos dele. Não falo nada. Mikail tenta esconder o incômodo que a minha postura provoca nele, mas não consegue. Ele joga o papel no cesto de lixo e volta a fixar seu olhar no meu com seu sorriso ultrajante. — Tente descansar um pouco e não gozar muito na boca dos meus homens, bastardo. Vou precisar que esteja disposto para fazer o que tenho em mente. — Ele faz um aceno de cabeça e sai do porão seguido por seus soldados. Quando a porta de ferro se fecha. Meus ombros arreiam e minha cabeça tomba para a frente. Não sei o que esse miserável está aprontando e tampouco desejo saber. Tenho que arrumar um jeito de sair daqui e libertar Natasha antes que ele se volte contra ela. Até agora recebi toda atenção e servi como seu depósito de frustrações e revoltas, mas quando suas tentativas para acabar comigo se esgotarem ou perderem a graça ele vai se voltar contra a Imperatriz. E isso eu não vou permitir que aconteça. As palavras de Sarina voltam a minha mente, mas agora, integralmente compreensíveis. Entendo o que ela passou ao longo dos meses que teve de suportar a violência que sofreu, e não me sinto mais habilitado para julgá-la da mesma forma que fiz quando me disse que preferia morrer a continuar nesse lugar. Estou preso a menos de doze horas e já pensei que a morte fosse


melhor, no mínimo, centenas de vezes. Não vou suportar por muito mais tempo e se não houver uma chance de escapar e matar a todos, terei que encontrar outro jeito de acabar com tudo. Só há uma escapatória plausível nesse porão, e nunca estive tão convicto de uma decisão como estou agora. Se eu tiver que viver, que seja em um mundo onde nenhum desses homens habitem ou, prefiro boicotar o dom da vida e pagar o preço que for preciso e preservar meu orgulho. Morrer como um covarde ainda será muito mais honroso do que viver arrastando essas horas como parte do meu passado, e isso eu não vou suportar. É uma bagagem pesada demais para mim, e não tem nada nesse mundo que supere ou comprima essa dor. Nessa história, ou melhor, ao final dela, a Imperatriz sobrevivente poderá usar-me como exemplo em suas conferências e provar que o orgulho de um homem quando atingido com perfeição, pode leva-lo a morte voluntária sem que nenhuma pessoa ou sentimento interfira em sua decisão. Nem mesmo o amor puro, real e verdadeiro por uma mulher, porque até mesmo o amor requer orgulho para perdurar e em mim, não há mais espaço para o vazio que me preenche. Minhas lágrimas voltam a cair, assim como minhas pálpebras e permaneço pendurado como um bicho capturado em uma armadilha no meio da selva e empalhado, até sentir um toque diferente em meu corpo. E quando reúno forças para ergue-las novamente, outro tipo de dor reverbera em meu peito. Agora mais familiar, mas tão arrasadora como todas as anteriores sentidas enquanto estive aqui. A dor da decepção. — Como vai Ivan? A voz em meus ouvidos é suave, calma e quase terapêutica, muito diferente do seu olhar, que se iguala a um mar em fúria, revolto e repulsivo. Tenho tanta coisa a dizer, tanto a desabafar, cuspir e xingar, mas me calo diante da figura que ainda me encara incrédula. — Estou bem como pode ver. E você, conseguiu o que tanto desejava? — O que acha que eu desejo? — Não sei...me diga você. — Achei que soubesse.


— Eu também, mas isso não faz nenhuma diferença agora, faz? — Tem alguma ideia do que estou fazendo aqui a essa hora da madrugada? Eu sorrio e cuspo mais saliva ensanguentada, mas erro o alvo e não consigo sujar suas botas. — Não sei há quanto tempo estamos presos aqui. Não sei que horas são e não, eu não tenho a porra de ideia do que está fazendo aqui. Mas deve ser pra garantir que eu não vá fugir, ou será que o Mikail também vai te obrigar a chupar meu pau? Seus olhos se estreitam e por alguns segundos penso que estou sonhando que suas mãos retiram um molho de chaves do bolso de sua jaqueta de couro e meus pulsos são soltos das correntes. — Não saia daí, vou liberar o aperto, mas eles não podem saber que você está livre ou vão pedir ajuda. — Por que está fazendo isso, Ramona? — Você vai saber, mas agora faça o que mandei. Se alguém vier aqui, certifique-se de que pode matar sem ser descoberto ou terá sérios problemas. — Preciso soltar Natasha. — Ela já está solta. — Como? — Estou aqui há mais tempo do que pensa, Ivan. Só estava esperando você acordar. O alívio que sinto em meus braços quando eles caem ao longo do meu corpo e próximo ao alcance do que eu imagino ser o paraíso. Apoio as mãos nas pernas inclinando o corpo a frente, envergonhado por estar pelado na frente da filha de Sergei. — Daqui a duas horas irei acompanhar Mikail até São Petersburgo para fazer a entrega da mercadoria. — Ela avisa me fazendo olhar para cima a fim de assimilar suas informações — Não faça nada antes de receber o meu sinal. — Que sinal? — Você vai saber na hora que ouvir, não se preocupe. Ramona se abaixa a minha frente, segura meu rosto entre suas mãos e deposita um beijo demorado em minha testa antes de falar e sair do porão: — Não sei o que fizeram e estou me lixando pra isso, Ivan. Pra


mim, você sempre será o único irmão que eu tenho e quero que faça parte da minha vida quando tudo isso acabar e Mikail tiver o que merece. Mas não vamos conseguir acabar com ele se você não fizer o que estou falando. — Seus olhos verdes cravados nos meus derramam lágrimas e só percebo que também estou chorando quando as costas das mãos de Ramona limpam meu rosto — Vai ter que ser mais forte do que foi até agora, se quiser que as suas garotas saiam vivas daqui. Eu e Natasha estamos contando com você, portanto, aguente firme e quando ouvir o sinal, libere o monstro e faça o que tiver que fazer pra acabar com todos eles. A porta do porão é aberta com força. Fico em pé rapidamente, mas ao contrário de antes, sinto todo o peso do meu corpo sobre as pernas e mantenho as pulseiras de ferro simulando a prisão. — Desgraçado! — Ramona bate na minha cara de repente — Você foi o único culpado, bastardo de merda! Eu me recupero rapidamente e compreendo sua atitude quando Mikail afasta a cortina branca aparecendo em meu campo de visão ao lado de Czar, Nikol e outro homem, também muito jovem. — Por que não chupa o meu pau também, maninha? — Falo entre dentes impondo veracidade a encenação — Essa porra de Bratva é a versão afeminada da máfia, onde os machos gostam de chupar paus e darem o cu em vez de foder bocetas e chupar peitos? — Gargalho apreciando a careta que todos eles fazem — Que merda de Pakhan é você, Mikail? Tudo isso é pra conseguir a lealdade dos seus soldados e garantir que deem a vida deles pela sua? — Pelo jeito a presença de Ramona não te fez muito bem, bastardo. Olho para Ramona e coloco a língua para num gesto obsceno, como se estivesse me deliciando entre as pernas de uma mulher. — Desde que eu cheguei aqui, a presença dela foi a única coisa boa até agora, irmãozinho. Por que não obriga a vagabunda da sua irmã a mamar meu cacete também, hein? Por que não ordena pra ela ficar de quatro e me deixa foder a bocetinha virgem dela? Qual é Mikail? Vai me dizer que com ela você é puritano? — Gargalho e de relance vejo o movimento onde Natasha está, mas não consigo identificar o que ela está fazendo — Prometo que eu serei bonzinho quando tirar o cabacinho


dela. Ramona estapeia meu rosto novamente, e apesar do barulho ecoar pelo porão, não foi tão violento quanto o primeiro. — Cala a boca seu bastardo! — Posso te dar algumas ideias pra você calar a minha boca, maninha, o que acha? — CHEGA! Mikail intervém quando a loira se prepara para avançar sobre meu corpo. Não sei o que ela pretendia fazer, mas pela sua cara sei que não seria tão ameno quanto o último golpe. — O que veio fazer aqui, Ramona? — Ele pergunta. — Eu tenho certeza que esse desgraçado sabe onde Petrus está. — Ela rosna e vira-se para encarar o irmão — Mas você não me ouve, Mika. Se deixar eu posso arrancar tudo dele, inclusive quem explodiu o laboratório em São Petersburgo! — Eu já disse que esse assunto está encerrado e você sabe o que acontece quando me desobedece, Ramona. — Não fui proibida de entrar aqui, Mika. — Ela cruza os braços bancando a irmã mais nova e mimada — Aliás, como soube que eu estava aqui? — Achou que iria vir até o porão no meio da madrugada e ninguém ia me contar? — Eu preciso saber onde Petrus está, Mika! — Eu mandei esquecer essa merda Ramona! — Mikail segura o braço da irmã rosnando antes de arrastá-la para fora do porão — Vamos sair daqui antes que eu faça uma merda e acabe com você! Czar e Nikol seguem os irmãos como filhotes esfomeados, deixando para trás o garoto mais novo que chegou ao lado de Mikail. Ele segura uma metralhadora semiautomática com os braços largados ao longo do corpo. — Tá olhando o que, porra? — Pergunto provocando-o — Tá esperando o que pra ir atrás do teu macho comedor de viado? — Ele não é meu macho! — Sua voz é grave e sua postura agressiva. — Garoto, você acha que pode me enganar? Mikail só tem ao lado dele quem faz o que ele quer e sabe o que ele quer? — Seus lábios estão pressionados formando uma linha — O Pakhan que a “Nova


Bratva” tanto venera não passa de um manipulador do caralho que usa o sexo pra controlar seu exército de marica. É isso que vocês são, a porra de um exército de marica que adora levar rola no cu! — EU NÃO SOU COMO ELES! Gargalho me divertindo com a reação do garoto. — Não... não é, não... O que eu vejo em seus olhos me abala. Ele não era mesmo, assim como eu também não, mas a dor quase palpável que extravasa e me atinge confirma que seu corpo foi tão ou mais violado que o meu. É nesse momento que as coisas começam realmente a melhorar. E uma luz fosca que eu vejo de muito longe simboliza a esperança renascida e talvez, renovada, de que a vitória de Mikail e da Bratva não é mais tão certa como eu achei que fosse.


CAPÍTULO 26

— Abra a boca ou vai ficar sem comer até amanhã. Czar empurra a colher para dentro da minha boca. A sopa está fria e o gosto é horrível, mas não sei qual foi a última vez que comi e preciso me alimentar para estar preparado ao sinal que Ramona garantiu que irá enviar. — Sua cara está péssima, Ivan. Não falo nada e não entendo como esse cara tem coragem de falar comigo depois de tudo que fez. Chega a ser patética a sua tentativa de ser amigável. — Eu sei que parece estranho no começo, mas com o tempo você vai se acostumar. Ele leva mais uma colherada a minha boca encarando meu gesto ao engolir a gororoba. Quero muito soltar minha mão e esmurrar sua cara, mas me contenho. — Muitos homens têm desejos incomuns, mas se sentem constrangidos em assumir o que realmente gostam de fazer com medo do que os outros irão pensar a respeito de suas preferenciais sexuais. Inspiro profundamente, contando os números mentalmente a fim de distrair minha ira e evitar que meus punhos deslizem para fora das pulseiras de ferro e desçam diretamente na sua fuça. Um barulho atrás da cortina chama a atenção do segurança, e a minha. Ele afasta o tecido branco e, estranhamente, o cubículo onde a Imperatriz foi colocada está completamente exposto. Czar coloca o prato no chão sacando sua arma. Avança alguns passos chegando ao corredor e vasculha todos os espaços. Estou perdido em pensamentos tentando entender o que aconteceu, já que desde a madrugada Mikail isolou Natasha atrás das cortinas para que ninguém visse o que estava fazendo com ela. Meu olhar encontra o dela, que está nua e falsamente presa a cruz chumbada a parede. Natasha faz gestos e tenta se comunicar


comigo, mas a distância não permite que eu entenda porra nenhuma do que ela quer me dizer. As botas batendo contra o piso denunciam a aproximação de Czar. Natasha fecha os olhos e deixa sua cabeça baixa como estava antes de o segurança se afastar. Entendo que ela não quer que ele desconfie quem abriu as cortinas. — Preciso saber quem esteve aqui e abriu as cortinas. — Ele avisa como se me devesse alguma explicação. — É só olhar as câmeras de segurança. — Falo pela primeira vez desde que Mikail e Ramona estiveram no porão, algumas horas mais cedo. — Não temos câmeras aqui embaixo. — Czar fala sem se dar conta de que acaba de me dar a melhor notícia que recebi nos últimos dias. — Por que só estou sabendo disso agora? Meu corpo reage imediatamente. Solto meus pulsos avançando sobre ele, que se assusta com meu ataque e tenta se defender. Agarro seu pescoço trincando os dentes, furioso demais para reprimir a cólera que me invade e guia meus atos a seguir. Czar me acerta um soco e consegue se afastar, mas sua arma cai no chão quando ele vem para cima de mim na tentativa de me imobilizar. Lutamos no chão trocando alguns golpes antes de eu montar sobre ele e bater sua cabeça contra o chão muitas e muitas vezes vendoo, lentamente, perder a consciência. — Precisamos dar um sumiço no corpo dele. Olho por cima do ombro e vejo Natasha atrás de mim com a arma de Cezar na mão, apontada na direção da cabeça dele. Seu rosto tão abatido quanto o meu evidenciam que ela também teve seus momentos de perversão nas mãos de Mikail. — Onde estão nossas roupas? Estamos pelados há mais tempo do que posso supor e me sinto fodidamente sem jeito ao encará-la dessa forma, ao contrário dela, que parece não se incomodar com a minha nudez. — Não sei, mas não podemos vestir nada antes da hora, Ivan. — Ela fala olhando para os lados — E pare de me olhar como se eu fosse um extraterrestre. Nunca viu uma mulher nua?


— Claro que já. — Respondo saindo de cima do careca desacordado — Mas não uma amiga e esposa do Capo italiano, então, por favor, releve a minha... — Vergonha? — Ela ergue uma sobrancelha. — Tanto faz. — Mantenho meus olhos em seu rosto — Tenho o lugar ideal para colocar esse filho da puta. — Onde? — Lá atrás, no incinerador. Tenho certeza que é de animais e Mikail usa para não deixar rastros de suas vítimas. Natasha sorri como uma criança levada me fazendo sorrir também. Acho que estou me tornando tão sádico quanto ela, e não me culpo por isso. Seguro os braços de Czar e arrasto seu corpo até o fim do corredor. Natasha abre a tampa e se certifica de que o aparelho está ligado. — Liguei na temperatura máxima. — Ela me encara com seus olhos azuis e aperta meu ombro quando me abaixo para pegar o corpo de Czar — Ele tem que estar acordado quando você for joga-lo, Ivan. — Ele está desmaiado, pode ser que demore pra acordar. — Vamos cuidar disso. Ela sai pelo corredor e volta com o balde de água que foi usado para me despertar durante a madrugada. — Vou amarrar os braços e as pernas para que ele não escape. — Aviso. Retiro uma das cortinas que cobrem a última divisória rasgandoa de uma extensão a outra produzindo várias tiras grossas. Prendo os tornozelos, pulsos e o pescoço do miserável, impedindo-o de se mover enquanto Natasha enfia uma bola do tecido na boca dele para que ninguém ouça seus gritos. Sim, ele vai gritar e essa ideia me anima muito. Quero ver sua cara quando descobrir o que está acontecendo, e sinto a adrenalina percorrer pelo meu corpo imaginando seu pavor ao deparar-se com o destino cruel que escolhemos para ele. A Imperatriz despeja toda a água de uma vez na cara de Czar, que começa a se debater freneticamente com os olhos arregalados nos encarando como se fôssemos dois fantasmas. — Eu poderia te colocar no incinerador enquanto estava desacordado Czar, mas você sabe que não teria a mesma graça, não


sabe? Natasha gargalha me levando junto em sua euforia. Depois de horas sob o domínio desses caras, nada melhor do que uma vingança improvisada e divinamente, muito bem-vinda. — Você não merece um enterro, seu filho da puta! — A Imperatriz ladra cuspindo em sua cara — Aqui é o lugar perfeito para homens como você. O Império se preocupa com o meio ambiente e só estamos fazendo a nossa parte na coleta do lixo. O homem se desespera quando vê a mão de Natasha aumentar a temperatura. — Oitocentos graus, está bom pra você, Ivan? — Pergunta com a mão sob o queixo teatralmente. — Não tenho certeza, Imperatriz. Czar é a escória e merece ter a sua ida para o inferno em alto estilo. Qual é a temperatura máxima? — Mil graus, mas acho que se empurrar um pouquinho mais a trava consigo alcançar mil e duzentos, o que me diz? — Hum... gosto de mil e duzentos. — Retiro o pano da boca de Czar e pergunto — O que você acha? — Por favor, Ivan! Não faça isso... — Me dê um motivo para não te jogar aí dentro. — Eu posso te ajudar a sair daqui! — Não sei se percebeu, Czar, mas nós já estamos soltos. Tem mais alguma coisa que possa usar para me convencer a mudar de ideia? — Sim! Sim! — Ele grita desesperado — Eu tenho! — Vá em frente e me convença. — Eu sei o que o Mikail está tramando para vocês dois! Encaro Natasha que se abaixa ao meu lado, tão interessada quanto eu no que Czar acaba de falar. — Acho que isso pode mudar tudo, não é Ivan? — Não sei. — Finjo pensar — Como vamos saber se ele está falando a verdade e não vai tentar nos entregar para o amante dele? — Eu não vou mentir, eu juro! O Pakhan está mais interessado nos soldados jovens, principalmente o novato da equipe de inteligência. Ele já me substituiu hoje no carregamento e não vai demorar muito para me afastar da cama dele também. — O que acha, Imperatriz? Devemos dar uma chance a ele? — Acho que sim, afinal, não foi culpa dele o que fizeram com


você, certo? Ele só estava cumprindo as ordens do Pakhan. — Sim Ivan, ela tem razão. Eu não tive culpa! Se não fizesse o que Mikail mandou ele iria me matar! — Tudo bem, Czar. Vou te dar essa chance, mas quero que me conte tudo que sabe sobre os planos de Mikail. — O laboratório que foi invadido em São Petersburgo não é o lugar onde a fórmula verdadeira está escondida. — Nós desconfiávamos disso, mas não sei quem foi o responsável pela invasão, pois estamos presos nesse lugar desde o resgate de Sarina — Onde Mikail guarda a fórmula verdadeira? — No cofre, atrás do closet que fica no quarto dele lá no terceiro andar. — Como você sabe? — Eu ouvi uma conversa entre ele e Petrus. — O que mais você sabe? — Mikail está negociando a venda da droga com Ivana e ela vai ser a responsável pela distribuição de pequenas quantidades, que serão vendidas em frascos de perfumes nos clubes de prostituição de São Petersburgo. — Mas o clube de Ivana fica em Moscou, por que não vender a droga lá? — Petrus está na fase final de uma bomba com capacidade para destruir a cidade de Moscou, e Mikail está planejando o maior atentado da história do país. — Onde Petrus está escondendo essa bomba? — No laboratório verdadeiro, que eles chamam de Krug Metchy (1)

— Que porra de nome é esse? — O Pakhan fala que é lá que a verdadeira mágica acontece. — Onde fica esse lugar? — Há alguns quilômetros da casa de Sarina, mas eu não sei o endereço exato. Ele nunca me falou nada, tudo que sei foi o que ouvi das conversas dele com Petrus. — Por que ficava ouvindo as conversas? — Não eram as conversas que eu queria ouvir... Natasha e eu trocamos um olhar cúmplice entendendo tudo. — Você ficava ouvindo Mikail e Petrus transarem?


Czar não responde e também não precisa. Está em sua cara o quanto é apaixonado pelo homem que não se importa com nada nem com ninguém. — O que mais tem para me contar? — Ele... — O segurança alterna seu olhar entre nós dois — Ele vai obrigar vocês dois a transarem e vai fazer o que fez com a Sarina. Meu corpo retesa. Natasha fica em pé e passa as mãos pelos cabelos. — Continue. — Ordeno. — O Pakhan quer filmar tudo e enviar o vídeo para o Capo. — Filho da puta! Desgraçado! — Natasha xinga. — Mikail estudou cada um de vocês Ivan, ele sabe o quanto são amigos e confiam plenamente um no outro. O Pakhan ordenou que usássemos seu corpo para avaliar suas reações, e depois do que viu, ele acredita que está enfraquecido e.... quando obrigá-lo a transar com a Imperatriz, será o seu fim, porque não vai aguentar conviver com tudo que aconteceu aqui nesse porão, sem contar com a fúria de Fillipo ao ver a esposa sendo fodida pelo seu Konsult’ant. Estou impressionado com a articulação de Mikail e confesso que por essa última revelação eu não esperava. Mas Czar realmente acredita que sairá vivo daqui e continua a esclarecer muitas coisas que não tinham respostas. — Ruric dedicou anos de sua vida infiltrando aliados da Bratva no Império, e quando Mikail conheceu Valeska a usou para conseguir informações sobre o seu relacionamento com Sarina. O plano de Ruric era para que eles a estuprassem como fizeram da primeira vez em que ela foi trazida para cá e produzir provas falsas para que todos pensassem que ela era uma garota de programa. Severino deveria ser morto na frente dela e Sarina esquartejada viva, mas quando você foi busca-la no hotel, depois do sequestro, e passou a noite toda velando o sono dela, Mikail se convenceu de que ainda a amava e decidiu que matá-la seria pouco. Foi então que ele teve a ideia de trazê-la novamente a Sóchi para estupra-la até que engravidasse e desse à luz a um filho dele. — O que ele pretendia fazer se Sarina ficasse grávida? — Natasha pergunta. Eu apenas ouço, pois não tenho mais palavras para descrever as atrocidades que esses homens se dispuseram a cometer em nome de uma


vingança sem fundamento. Chego à conclusão de que o pai de e o filho mais velho de Sergei são apenas dois sádicos fodidos em busca de motivos para praticar seus desejos insanos e cruéis. Assim como Anya fez, em proporções menores, mas com os mesmos propósitos e usando subterfúgios semelhantes. Ainda que tenha sido diagnosticada com a doença da mãe, a irmã caçula de Natasha nunca agiu em decorrência da doença, e sim, porque sempre foi um ser humano ruim, egoísta e invejoso. Mikail não é apenas isso. Ele um homem sem escrúpulos, empatia e respeito pela vida alheia. Não apenas de seus inimigos, mas de qualquer ser vivo que não sirva aos seus interesses. Um sádico. Um monstro. — Iria atrair Ivan para uma emboscada e permitiria que todos os soldados a estuprassem na frente dele. Mikail não queria um filho negro e jurou que mataria Sarina antes que a criança nascesse. — Eu vou matar esse verme! — Natasha vocifera e se afasta. — Ivan, já contei tudo que sabia. O que vai fazer comigo? — Czar, me contar tudo que sabe foi o mínimo que podia ter feito depois de todos esses anos que passou servindo de escravo para Ruric e Mikail, e agora eu vou te mandar para o lugar que merece. — Não! Não! — Ele grita. Abafo os sons com o tecido embolado em sua boca e o puxo pelos braços, levantando-o. A temperatura insuportável atingida pelo incinerador faz meus olhos lacrimejarem, mas não são lágrimas de tristeza ou remorso por erguer o corpo de Czar e desejar a ele uma boa estadia no inferno, antes de arremessa-lo dentro do devorador de animais mais rápido que já vi. São lágrimas pela proximidade do fogo e das faíscas superaquecidas. Por dentro me sinto satisfeito, mas não plenamente. Preciso de mais satisfações como essa para atingir o êxtase. — Ivan, precisamos manter a calma e seguir as instruções de Ramona. — Natasha, se o que Czar falou for verdade, não poderemos esperar o sinal para agir. — Nós vamos receber o sinal Ivan, e na hora certa vamos revidar com toda força. — Não sei se quero sair daqui, Natasha...


Minha voz é praticamente um sopro inaudível, mas a Imperatriz ouve e se aproxima de mim segurando minha mão com a sua. — Ivan, de todas as pessoas do mundo você seria a única que eu escolheria para passar por tudo isso comigo. — Você viu o que aconteceu Natasha! — Vi e sei o que aquele fodido fez comigo também, e é por isso que eu preciso que confie em mim e saiba que, se depender de mim, nunca ninguém vai saber o que aconteceu nesse inferno com a gente e eu espero que você faça o mesmo. — Como vamos esquecer essa merda, porra? — Engasgo, passo a mão livre pelo cabelo e barba — Olha pra nós dois, Natasha! Estamos pelados, tivemos nossos corpos violados e agora precisamos lidar com essa merda que Mikail está tramando pra foder ainda mais a nossa mente, caralho! — Nós não vamos esquecer Ivan, mas vamos superar mais essa como dois irmãos, porque é exatamente o que somos, e é isso que você tem que colocar na sua cabeça. — Seu aperto se intensifica tornando-se uma muda demonstração de carinho e companheirismo. — Eu olho pra você pelado e vejo apenas o meu irmão Ivan, não um homem que eu desejo sexualmente, e sei que não me olha com cobiça porque também me ama como uma irmã. Esse porão vai continuar na nossa cabeça, mas apenas nela. Se os pesadelos começarem ou as paranoias ameaçarem a nossa sanidade, vamos poder contar com o outro para conversar e desabafar. — Não vai contar nem para o Fillipo? — Enquanto eu estiver no controle das minhas emoções, não. Mas se as coisas se complicarem falarei apenas sobre o que eu passei e direi que ficamos em lugares separados. — Não sei se consigo... — Vai ficar mais fácil quando sairmos daqui. — Como pode ter tanta certeza? Natasha deposita um beijo em minha mão antes de soltá-la e fala: — Porque você vai ter certeza que as únicas pessoas vivas que sabem o que aconteceu aqui, somos nós. — Temos que matar todos eles e não deixar nenhum para contar a história.


— Essa é a nossa história Ivan, e as únicas pessoas que tem o direito de conta-la somos nós. Ninguém mais. — Você sabia que ia me convencer, não é mesmo? — Sabia, mas achei que o seu orgulho fosse me dar mais trabalho. Nós dois sorrimos com sinceridade. — Eu queria te dar um abraço, mas acho que não é uma boa ideia. — Falo fazendo-a gargalhar. — Somos irmãos, Ivan, mas não precisa exagerar na dose. — Eu sei, eu sei... — Agora faça o que tiver que fazer e não poupe a vida de ninguém que tentar nos impedir de acabar com essa porra de Bratva. — Eu jamais desobedeceria uma ordem direta da Imperatriz. — Além de tudo é um homem inteligente... O cheiro de queimado empesteia o ar. Voltamos aos nossos lugares depois de escondermos as duas armas de Czar em locais estratégicos para que pudéssemos usá-las ao lado de nossas roupas, e engolimos a comida que o segurança havia guardado para comer com tranquilidade. — Não vai demorar muito para os soldados aparecerem aqui. — Falo baixo — Finja que está desacordada que eu me viro com eles. — O que vai falar? — Deixa comigo. Com a pulseira de ferro da corrente, acerto duas vezes meu supercílio e o canto da boca, que começam a sangrar. Encaixo os pés deixando as travas soltas e envolvo os pulsos mantendo a frouxidão para facilitar a retirada rápida. A porta de ferro começa a ser empurrada, mas está trancada por dentro e se nega a cooperar com a invasão. Jogo a cabeça para o lado revirando os olhos e deixo a boca aberta, permitindo assim que a baba escorra avermelhada pelo canto dos lábios. A resistência do ferro fundido aumenta a tensão dos soldados que gritam histericamente do lado de fora numa cacofonia desesperada, e quando enfim conseguem arromba-lo, atirando com balas de fuzis, a voz do Pakhan irrompe o silêncio provocado propositadamente por duas pessoas que farão tudo que estiver ao alcance delas para saírem vivas desse lugar.


— Procurem Czar. Ele foi o único autorizado a entrar aqui na minha ausência. Quero saber que merda aconteceu e por que o incinerador foi ligado. Mikail atravessa o corredor e chega ao local onde o corpo do segurança, possivelmente, já está cumprimentando o capeta e sendo recebido em sua nova morada. — NIKOL! — Mikail grita desesperado — HEDEON! ANDEM LOGO CARALHO! Vários soldados passam correndo em direção ao fundo do porão. Meu olhar farsante encontra o sinistro de Natasha e sem que ninguém perceba, sorrimos cinicamente, ao mesmo tempo. A Imperatriz tem razão, e se eu tivesse que escolher uma entre todas as pessoas do mundo para passar por toda essa merda comigo, certamente ela seria a minha primeira opção. Da mesma forma que eu escolheria Sarina para viver ao meu lado, como minha esposa e mãe dos meus filhos, mas esse assunto é para uma outra hora. Primeiro, eu preciso me preparar para matar o Pakhan... (1)

CIRCO MÁGICO


CAPÍTULO 27

— Quem esteve aqui, bastardo? Mikail aperta meu queixo cuspindo contra meu rosto. — Não... — Reviro os olhos fingindo esforço sobrenatural para falar. — Sei o nome dele... Suas mãos circundam meu pescoço dispostas a me estrangular. O aperto é forte e impede que o ar chegue aos meus pulmões por alguns segundos. Resisto, ciente de que não posso perder o controle agora. — Chefe! — Hedeon chama. — Veja o que encontrei. Por sorte ele me solta e vai até o soldado que está perto do incinerador. Não consigo ver o que estão fazendo, mas ouço a conversa com clareza: — O que é isso? — Acho que é terra. — O jovem soldado responde — Essas marcas são das botas que os recrutas usam e só podem pertencer ao assassino de Czar. Ele esteve na plantação antes de vir aqui e pelo formato o calçado é do modelo novo que chegou mês passado. O súbito silêncio me dá chance de pensar sobre a afirmação, infundada do garoto, pois o único que calçava botas era o próprio defunto já que eu e Natasha estamos descalços. — O traidor é um dos nossos e tinha a confiança de Czar chefe, ou não teria recebido permissão para entrar aqui. — Tem certeza que essas marcas são das botas irlandesas que recebemos? — Está vendo esse contorno na parte do calcanhar? — Hedeon pergunta e sem ouvir a resposta de Mikail, ele continua sua explicação — É o desenho de uma harpa, o símbolo do brasão irlandês utilizado para identificar a nacionalidade do material. Apenas as botas mais novas possuem. Tenho certeza que o garoto está despistando o Pakhan da verdade dos fatos, e agradeço mentalmente por isso. Ele foi bem


convincente em sua explicação, embora eu não saiba o motivo pelo qual está nos ajudando e também não faço questão de descobrir. — Quero uma lista de todos os soldados que receberam as botas e as imagens de segurança da casa. Faça uma comparação e veja qual deles esteve com Czar durante a minha ausência. — Mikail ordena. — Sim senhor, chefe. — Igor! — O Pakhan chama outro jovem que está presente no porão e corre em direção ao seu líder, apressado em lhe servir. — Reúna todos os responsáveis pela vigilância da casa em meu escritório. Todos, sem exceção, e avise Ramona para vir até aqui, imediatamente! — Sim, chefe. — Prestem atenção! — Mikail fala alto requerendo toda a atenção de seus homens para si — Estamos em guerra e nenhum traidor será perdoado. Nikol é o novo responsável pela formação de defesa e distribuição de armamentos. Chegou a hora de tomarmos o poder do Império e provar que a Bratva está mais viva do que nunca! Matem sem piedade! Se posicionem e mostrem a esses porcos imundos porque somos considerados os mais perigosos do mundo. Os homens gritam palavras em reverência à organização, se cumprimentando e comemorando o momento mais esperado por todos. Ruric e seu neto fizeram uma lavagem cerebral nesses homens os transformando em marionetes em seu jogo pela disputa do poder do crime organizado na Rússia. Enquanto os homens se dispersam, Mikail anda de um lado para o outro. Acredito que esteja ponderando o ocorrido com o seu suposto “braço direito” e tentando adivinhar quem estivesse interessado em sua morte. A porta de ferro é aberta e Ramona surge em meu campo de visão, trazida por um dos soldados, que agora está encapuzado, impedindo seu reconhecimento. O irmão mais velho a pega pelo braço jogando seu corpo no chão. A loira está gravemente ferida no rosto, e pelo que consigo enxergar as marcas foram adquiridas recentemente. Possivelmente durante a entrega da mercadoria, na cidade de São Petersburgo. — Vai me dizer agora quem está por trás disso ou vou ter que te matar? Como o verdadeiro covarde que é, o Pakhan chuta as costelas de


Ramona. Ela se contorce de dor sem emitir qualquer som. Meu corpo enrijece com tamanha violência que ele a agride. — Eu vou cuidar dela pessoalmente. Saia daqui! — Ele grita para o jovem que salta para fora do porão fechando a porta atrás de si. Mikail se livra do terno, arregaça as mangas da camisa preta e limpa o suor que escorre por sua testa. — Eu já estava desconfiado que você era uma vadia traidora, mas dessa vez a sua audácia foi longe demais, irmãzinha! — Mais chutes disparados contra o corpo miúdo a seus pés, estirado e entregue. Ramona suporta cada agressão em silêncio. — Vai continuar protegendo o desgraçado que quer me derrubar, sua puta?! — Mikail agarra os cabelos de Ramona arrastando seu corpo na direção do incinerador — Está pronta para tudo que vou fazer com você por ter me traído, sua vadiazinha de merda? A loira segue sua convicção muda, rasgando meu peito com sua dor. — Eu quero saber tudo, Ramona! — Ouço o barulho do impacto deduzindo que seja um tapa — Onde está Petrus? — Outro estrondo — Onde está Alik? — Mais um, dessa vez o barulho de correntes se mistura ao da pancada — Quem armou a explosão do avião que trouxe a mercadoria? Depois da última pergunta vem uma sucessão de golpes desferidos no corpo que não demonstra nenhum sinal de resistência ao ataque irracional de Mikail. Aperto os olhos me sentindo culpado por seu espancamento. Não consigo me controlar e sacudo meus braços para soltar os pulsos, mas a Imperatriz é mais rápida e quando consigo me livrar da primeira pulseira de ferro o corpo do desgraçado despenca no chão após ser golpeado na parte de trás da cabeça. Natasha está com uma das pistolas de Czar na mão direita, olhando fixamente para o abutre abatido temporariamente a seus pés. Termino de me libertar e corro em direção as roupas e sapatos. — Vista isso. — Entrego a ela sua calça e blusa — Não podemos perder nem mais um minuto. Temos que nos preparar antes que os soldados voltem e com Ramona nesse estado, o único jeito de tirar ela daqui seria carregando seu corpo. Nós não teríamos chance de fugir.


Em tempo recorde estamos vestidos e prontos para o combate. — O que está pensando em fazer? — Natasha me pergunta. Olho para o ser desprezível no chão e sorrio: — Vamos usar o Pakhan para conseguir a nossa fuga. — Como, Ivan? — Os soldados não sabem que Ramona está do nosso lado, e ficarão perdidos quando entrarem aqui e se depararem com o que irão encontrar. — Aponto para as correntes em que estive preso por quase um dia inteiro — Vamos ver por quanto tempo Mikail aguenta do seu próprio veneno. Natasha assente com um pequeno sorriso maroto em seus lábios. — O que faremos com Ramona? — Coloque ela em uma cadeira com as mãos para trás e prendaa de uma maneira fácil de ser libertada. Eles devem pensar que a irmã do Pakhan também é nossa prisioneira. Puxo Mikail pelos braços arrastando seu corpo como um saco de estrume, satisfeito por fazer com ele o mesmo que fez com a mulher frágil e desacordada minutos atrás. Arranco suas roupas e quando ele ameaça recobrar sua consciência soco sua cara com força fazendo-o apagar novamente. Sua boca incha rapidamente e uma linha fina de sangue escorre de sua face arroxeada. A satisfação que me envolve é uma das melhores que já senti e eu me deleito ao provar o doce sabor da vingança, sendo que a minha sequer começou. Estou me sentindo fraco, mas a adrenalina age estimulando meu organismo e consigo prender o corpo do miserável sem dificuldade na cruz. Seus pulsos largos atingem a abertura máxima das pulseiras e seus tornozelos sangram quando fecho o trinco que impedirá a sua escapada. Sempre prezei pela lealdade, até mesmo com o mais ignóbil viciado que comete atrocidades em troca de algumas gramas do pó apropriado para inalação com o intuito de degenerar qualquer constituição molecular ou pedras ceifadoras de cérebros ou ervas alucinógenas, ou quem sabe, algumas doses intravenosas letais, mas Mikail será privado de tudo e qualquer ato solidário em sua morte. Idealizo sua dor em escalas, substituída por doses gradativas de pânico e terror, antecessoras de um esquartejamento minguante para


então encaminhá-lo direto ao inferno, literalmente. Não o pouparei e ninguém o salvará. A única alternativa para a sua vida, será a sua morte. E isso acaba hoje. — Ela precisa de um médico. — Natasha me tira dos devaneios — Está com febre e esse corte parece infeccionado. — Precisamos dar um jeito de sair daqui primeiro, mas antes vou matar esse filho da puta. — Quando os soldados perceberem que ele está demorando virão aqui para saber o motivo da sua demora. — Então é melhor começar a festa sem os convidados. — Encho o balde com água despejando de uma vez o líquido na cara dele que resmunga um palavrão e abre os olhos. — O que pensam que estão fazendo? Grunhe tentando se libertar me fazendo gargalhar com seu desespero. — Decidimos fazer uma festinha no seu porão, irmãozinho, e não podíamos deixar o anfitrião de fora. — Natasha pega sua faca que estava escondida entre as bugigangas de Czar e se aproxima dele como uma leoa sedenta e faminta pela próxima refeição — Agora que acordou, podemos começar. O que acha? — Me solte, seu bastardo filho da puta! — Ele rosna encarando a Imperatriz — Meus soldados vão acabar com vocês! — Então teremos que ser rápidos, certo Ivan? — Natasha pergunta parando a frente dele — Vou começar pelo dedo que enfiou em mim para que se lembre do grande erro que cometeu ao me tocar sem a minha autorização. — NÃO! Mikail grita como uma mulher ao sentir a lâmina transpondo sua carne, músculos e ossos até que o dedo médio cai no chão e a Imperatriz se abaixa para pegá-lo, segurando-o como um prêmio. — Agora pode cheirar à vontade, poderoso e invencível Pakhan... Ela enfia o dedo ensanguentado até o fundo de sua narina direita. Não consigo parar de rir com a expressão de descrença de Mikail e sei que ela está apenas começando. — Mas me lembro que não foi apenas um dedo, não é mesmo?


— Seu questionamento é sarcástico. — NÃO FAÇA ISSO, SUA VADIA! — Para quem está na sua posição, essa é uma péssima escolha de palavras, dorogoy. (1) — Natasha corta o indicador da mesma mão sem deixa-lo cair no chão dessa vez — Já tentou respirar apenas pela boca, Pakhan? Dizem que é uma experiência bem desagradável, mas não consigo controlar a minha vontade de ver a sua cara de paspalho. Uma poça vermelha se forma no piso, na direção da mão capenga, que agora conta com apenas três dedos. Natasha enfia o furabolo na narina esquerda do homem aprisionado empurrando-o com força e provocando uma dilatação extraordinária em toda região facial. Olhos arregalados, bochechas inchadas e lábios alargados, sem contar com as sobrancelhas desalinhadas que tentam acompanhar a assimetria artificial da testa amplificada. — Como se sente Mikail? — Pergunto com o cenho enrugado e dedos no queixo fingindo estranheza em sua aparência — Nunca vi nada tão feio em toda minha vida, mas definitivamente, combina com você. — Parem com isso! Já chega! — A voz amedrontada não possui mais o timbre empoderado e nem a coragem ameaçadora de antes. — Não, irmãozinho. — Soco seu estômago com força várias vezes, embevecido por seus gemidos de sofrimento — Isso é só o começo. Sem perder tempo, Natasha segue cortando os dedos da mão direita logo que me afasto, e introduz um em cada orelha do Pakhan. Confesso que a visão é digna de filmes de terror e Mikail mais parece o Frankestein. Enquanto seus olhos exprimem ódio e dor, o sangue jorra de sua mão amputada e uma baba amarelada escorre de sua boca parcialmente aberta. — Só falta mais uma coisinha para encerrar o primeiro ato. — Pego a faca de Natasha e seguro sua mão esquerda, arrancando de uma vez só dois de seus dedos. Contorno o corpo de Mikail me posicionando em suas costas e sussurro com deboche, não tão baixo como deveria — Depois de tanto te ouvir se gabar por foder seus soldados me recuso a deixar que morra sem experimentar a sensação de ter seu cu arrombado, não é mesmo, benemerente Pakhan? Sinto nojo ao abrir sua bunda, mas tranco a respiração me


obrigando a fazer o que devo e num golpe certeiro arremeto os dois dedos melados de sangue em seu buraco enrugado e contraído. Mikail urra ao sentir a invasão inesperada, crua e vingativa. O som de sua dor conforta meu coração parcialmente danificado pela maleficência mafiosa, que agora transpõe a composição genética do meu corpo e alcança a minha alma corrompida de tantas formas e me intitula como um monstro pervertido. Igualmente cruel. Desprovido de sentimentos. Encolhido ao desejo de retaliação. Cobiçoso pela morte e degradação. Esse sou eu nesse momento, e não estou certo se um dia conseguirei me desvencilhar do inédito nível alcançado de barbaridade e selvageria. Há dois anos presenciei a tortura de Leonardo Galo, e me questionei se algum dia iria me acostumar aquela cena. Hoje sei que não permitiria que outra pessoa tomasse meu lugar nesse momento, devido a satisfação que me embevece plenamente. A dor de Mikail está me agraciando, fortalecendo e felicitando. Seu sofrimento aquece todas as partes congeladas do meu ser. Os gritos estarrecidos que explodem de seu âmago revigoram meu desânimo. Como posso parar a alegria? Como posso impedir a felicidade? Como posso negar a emoção? Mesmo que nada disso se estenda por muito tempo e ainda que ao acordar amanhã pela manhã, o remorso decida disputar um cabo de guerra com as sensações pulsantes e prazerosas que irrigam meu corpo com serotonina, me oponho a recusar o prazer que essa tortura sanguinária me oferece. Deixei de ser o homem benevolente e crédulo do amor. Onde havia esperança, ficou a casca. Onde havia rumores de renascimento, ficou o vazio. Onde havia um coração, ficaram as marcas que irão perdurar eternamente me lembrando de cada curva, cada pequeno atalho, cada rua sem saída que tive que atravessar e me trouxeram até aqui. Exatamente onde estou.


— Ivan! — Natasha me chama quando o barulho do ferro ecoa dentro do porão. Sacamos nossas armas e nos posicionamos à espera do exército da Bratva. Natasha ao lado de Ramona, apontando sua pistola para a cabeça da jovem desacordada e eu ao lado de Mikail, o Pakhan estropeado, humilhado e subjugado pelo seu irmão bastardo. Os olhares em nossa direção são de espanto, surpresa, choque e lamúria. O porão é invadido por três jovens fortemente armados o que me deixa em estado de alerta, pois sei que chegamos ao limite da estrada. Ainda que seja pequena, estamos em desvantagem numérica. — Pakhan! — Nikol é o primeiro a apreciar o corpo de seu líder e lamentar o ocorrido — O que vocês fizeram com ele? Com o cano da minha pistola enfiada na boca de Mikail, lhe ofereço um sorriso de escárnio. — Ainda não terminamos, mas sintam-se à vontade para assistir o fim do espetáculo dessa aberração chamada Mikail Desdeiev. Nikol avança em minha direção. — Se der mais um passo eu estouro os miolos dele! — Aviso com a voz firme. — Eu disse que não sou um homem de ameaças, lembra? Czar não acreditou e acabou assado. Seu admirável Pakhan não acreditou e olha só no que deu. Vai querer pagar para ver? Ele estaca no lugar, surpreendido ao entender que não há o que fazer para impedir a morte do seu líder. — Vocês não vão sair com vida daqui. A sincronia que se sucede é perfeita e pode até parecer ensaiada. — É sempre a mesma ladainha de sempre. Vocês, da Bratva, não cansam de passar vergonha? — A voz grossa de Fillipo Grasso chama a atenção dos jovens, e a minha, fazendo com que todos se virem na direção da porta de ferro onde ele está parado com as mãos nos bolsos da calça, encarando fixamente sua esposa na companhia de Giuseppe, que ocupa o lugar ao seu lado — Senti sua falta, mio angelo? — Está atrasado, Capo! — Natasha grunhe — Espero que tenha um bom motivo para ter me deixado esperando esse tempo todo. — Você sabe que não gosto de serviços inacabados amore mio, e o número de stronzo do lado de fora era um pouco maior do que Giu informou, mas agora que estão todos mortos e a propriedade foi tomada


pelos meus homens podemos fazer uma votação e decidir como vamos matar os que estão aqui dentro. — Eu sabia que teria uma explicação convincente para a sua falha, meu Capo. — Natasha zomba. — Quem é você e o que está fazendo aqui? — Nikol indaga um pouco mais assustado. Fillipo dá dois passos à frente desviando o olhar da Imperatriz para o ajudante de Mikail. — Eu sou o homem que vai arrancar a sua língua com um alicate se não abaixar essa arma e ordenar que seus homens façam o mesmo. — Ninguém além do Pakhan dá ordens aos soldados da Bratva! — Nikol enche a boca para falar aquela merda como se fosse algo digno. Infelizmente, Mikail tem uma arma em sua boca e todos os buracos de seu corpo entupidos com os próprios dedos. As pálpebras pesadas indicam que está começando a se entregar, mas sei que consegue ouvir a conversa um tanto... peculiar. O fim está próximo e o primogênito de Sergei sabe que o sonho de seu avô em dominar a máfia russa será arquivado, mais uma vez. Mas agora será para sempre. Assim como a sua tão sonhada vingança. — Bratva? — Fillipo cai na gargalhada acompanhado por Giu — Você e essa meia dúzia de gatos pingados foi o que sobrou dessa merda que o miserável do Ruric insistia em chamar de máfia, e se não quiserem acabar embaixo da plantação de heroína junto com os outros figlios di puttana, aconselho que abaixem suas armas antes que eu me arrependa de ter dado uma chance a vocês. A firmeza das palavras do Capo italiano não permitem contestações ou ameaças de enfrentamento por parte dos jovens recrutas. Nikol é o último do exército da “Nova Bratva” a se render, mas não permito que saia do porão juntamente com os últimos sobreviventes do massacre italiano em terras russas, pois ainda temos contas a acertar. E naquele momento eu soube, que a melhor parte daquele filme de terror criado por Mikail Sergeevich Desdeiev ainda está por vir. O homem que almeja ser o mais poderoso líder da máfia mundial irá interpretar o papel principal da sua fodida história, com


direito a uma morte épica que será lembrada por todos que a conhecerem futuramente. Mas para mim essa história ficará marcada e será impossível esquecê-la, como tudo que aconteceu nesse maldito porão...

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QUERIDO


CAPÍTULO 28

— O que pretende fazer? Fillipo pergunta me encarando diretamente. Sua confiança corresponde a atual aparência, livre dos traços da doença que quase o matou. Os cabelos negros cresceram e estão mais compridos do que me lembro, o olhar azulado indicando a frieza do Capo italiano condiz com suas atitudes perante a decisão de exterminar todos os seguidores da “Nova Bratva” e a tranquilidade exigida de um homem que comanda uma das maiores organizações criminosas mundiais. — Matar os dois lentamente. Ele olha por cima do meu ombro, onde Mikail e Nikol estão acorrentados nas cruzes bem atrás de mim. — O Pakhan de merda já está todo fodido e o outro não vai durar dez minutos. — Avalia criterioso sem deixar a ironia — O que aconteceu nessa merda para que você queira mais do que isso? — Nada que não estivesse previsto — Respondo sem fraquejar —, mas quero que fique registrado o que acontecerá com qualquer um que tente se meter em nossos negócios daqui pra frente. Ele assente passando o braço por cima dos ombros de Natasha, que está ao seu lado, em silêncio. — Tenho mais de cinquenta homens espalhados pela propriedade vasculhando cada perímetro. Não vou deixar nenhum vivo e já estou garantindo que toda a plantação seja destruída para acomodar todos os corpos dos maledettos. — Eu agradeço por tudo que fez. — Agradeço com sinceridade — O que aconteceu com Ramona? Fillipo inspira profundamente quando seu olhar acompanha o meu até minha irmã, sentada na cadeira com Giuseppe ao seu lado, gesticulando e falando coisas em seu ouvido que não conseguimos ouvir. — Nós chegamos ao local onde seria feita a entrega da


mercadoria duas horas antes do horário marcado, e conseguimos surpreender o piloto na hora do pouso, mas Bernardo Asker dificultou meus planos e tivemos que agir para impedi-lo de levar algumas mulheres com ele para a Irlanda. — Fillipo volta a me encarar — Quando Mikail e seus homens chegaram a merda já estava feita e foi ela que liderou o ataque contra nós. Acho que ele fez de propósito para colocá-la na linha de fogo e descobrir se ela estava do nosso lado. — Ela foi atingida? — Foi. Ninguém sabia que era ela até Giu nos avisar. Não dava para reconhecer ninguém, pois estavam todos de máscaras, mas de alguma forma ele a reconheceu mesmo por baixo de todos aqueles panos ridículos. — Como Mikail descobriu que ela estava nos ajudando? — Ele não descobriu, mas acho que estava desconfiado e a suspeita dele pode ter aumentado quando notou que ela foi a única da equipe de ataque que sobreviveu. — Os homens que estavam com ele morreram? — Sì, menos esse babaca aí. — O Capo aponta para Nikol — Ele ficou o tempo todo protegendo o Pakhan de merda e os dois fugiram quando o avião explodiu. — E o outro? — Pergunto me referindo a Hedeon. — Que outro? — Mikail levou dois homens para acompanha-lo na entrega da mercadoria. Nikol e outro recruta, tão jovem quanto ele. — Só havia um fazendo a segurança particular do miserável. Enrugo a testa sem entender, assim como Natasha. O jovem recruta que encobriu a morte de Czar no porão estava com Mikail após o fracasso da entrega da mercadoria ao líder da máfia irlandesa pelo que ouvimos do careca antes de ser jogado no incinerador. — Ele conseguiu escapar. — A Imperatriz conclui — Não entendi porque nos ajudou encobrindo a morte de Czar, e também não o vi mais depois que saiu para atender as ordens do filho da puta. — O garoto foi esperto e percebeu que as coisas iriam ficar feias por aqui. Ele sabia como sair da propriedade sem que ninguém visse e aproveitou a invasão dos soldados italianos para escapar. — Temos que descobrir quantos, além dele, conseguiram fugir.


— Fillipo delibera — Não quero correr o risco de ser surpreendido por jovens russos fanáticos dispostos a ressuscitar essa porra de Bratva daqui a alguns meses de novo. — O que aconteceu com as mulheres que foram resgatadas? — Pergunto. Fillipo passa a mão livre pelos cabelos e solta o ar pesadamente. — Elas foram levadas a Moscou e irão passar por uma avaliação psicológica antes de serem interrogadas pelos agentes federais. Depois serão extraditadas para seus países de origem. A expressão do Capo não é boa contradizendo a notícia que acaba de me dar o que sugere que alguma coisa não saiu como ele gostaria. — O que tem de errado nisso? — Indago — Por que está com essa cara? — Acho melhor falarmos sobre isso mais tarde. Ele beija a cabeça da esposa puxando o corpo dela para perto do seu. Sei que está com saudade de Natasha e embora o Capo não alimente ilusões de que as coisas saíram como desejávamos, no final, conseguimos o que viemos fazer. Mas algo aconteceu em São Petersburgo e ele não que me contar. — Acabe logo com o suspense e me conte o que está acontecendo, Fillipo. — Eu vou contar Ivan, mas não antes de sairmos dessa merda de lugar. Acabe logo com isso e vamos embora daqui. Quero levar minha mulher para casa... Sem mais delongas ele se vira e começa a caminhar na direção da porta de ferro, que está completamente destruída, arrastando Natasha com ele. Mas antes que o Capo consiga atravessá-la, a Imperatriz se afasta avisando: — Eu vou ficar com Ivan. Fillipo esfrega o rosto com as palmas das mãos, nitidamente irritado com a decisão da esposa. Não quero e nem devo me meter, mas entendo o motivo pelo qual minha amiga não quer sair do porão. Pelo menos, não ainda. — Natasha, essa merda foi longe demais e até agora tudo foi feito do seu jeito, mas agora acabou. — Ele enfia as mãos novamente


nos bolsos encarando sua esposa diretamente nos olhos — Deixe que Ivan resolva os problemas dele com o bastardo e vamos embora. — Não. Eu quero ficar até o final. — Ele não precisa de babá para matar os dois, porra! — Não vou ficar por ele. Vou ficar por mim. Fillipo avança dois passos cortando a distância entre eles, segura o rosto da esposa entre suas mãos e pergunta com o maxilar trincado: — O que eles fizeram com você? Ela não desvia o olhar, mas capturo o segundo em que vacila e demora tempo demais para responder. — Nada que não estivesse previsto. — Não minta pra mim, angelo mio. — Então não me faça perguntas como essa. — Cazzo di inferno, Natasha! — Fillipo aponta para Mikail — O que esse desgraçado fez com vocês, porra? A pergunta é feita em um segundo e no segundo seguinte, o Capo já está com as mãos em volta do pescoço de Nikol estrangulando o recruta que ganha uma cor arroxeada em seu rosto, rapidamente. — O que vocês fizeram com a minha mulher, seu bastardo figlio di puttana? Nikol engasga e tosse quando as mãos de Fillipo relaxam o aperto lhe oferecendo a chance de confessar toda a merda. Natasha vai até o marido, sob os olhares atentos de Ramona e Giuseppe, segura seus braços forçando-o a encará-la quando solta o ajudante de Mikail. — Nós vamos conversar sobre isso Fillipo, apenas você e eu. — Ela repete o gesto do Capo e envolve o rosto dele com suas mãos delicadas — Essa vingança é minha e de Ivan, por favor, nos deixe fazer isso. Em um primeiro momento ele a avalia, depois a envolve em seus braços demonstrando sua frustração e impotência para logo depois se afastar dela. — Mande os dois para o inferno como eles merecem, amore mio. — Fillipo a beija com paixão evidenciando seu amor e veneração pela esposa. O Capo ataca a boca de Natasha novamente como se aquele fosse o último beijo que daria em sua mulher. É admirável o amor que irradia entre eles e antes de sair do porão esmurra a cara de Nikol


algumas vezes e para a frente de Mikail, que está num estado lastimável, mas consciente. Fillipo arranca os dedos que estão enterrados nos ouvidos do neto de Ruric jogando-os no chão como se fossem palitos de fósforos inúteis e fala: — Nunca vi um mafioso que se preze terminar dessa forma. O Capo segura o queixo de Mikail apertando suas bochechas inchadas e levanta a cabeça dele, obrigando o filho da puta a encará-lo contra a sua vontade. Os olhos verdes fluorescentes estão vazios e carregam um tom amarelado e opaco. Sem brilho. Sem vida. — Mas se serve de consolo, o único bastardo dessa família é você. — Fillipo afirma recebendo um olhar mortal de Mikail e a minha total atenção com a sua declaração — Sergei Desdeiev teve apenas um filho homem, e ele se chama Ivan Keritov. Você não passou de um substituto para os planos de Ruric, mas a máfia nunca esteve em seu sangue. — Mentira! — Mikail mesmo sem forças se esforça para balbuciar — Eu sou o herdeiro de Sergei! Fillipo sorri retirando sua mão do rosto que se sustenta sozinho agora. O ódio extravasado através do olhar de Mikail é palpável apontando o quanto aquele título de “único filho legítimo” é importante para ele. — A puta da sua mãe traía Sergei com o motorista da família, e enquanto ele travava as batalhas da Bratva ela fodia seu verdadeiro pai em todos os lugares. Até que um dia ele descobriu e decidiu abandonar a esposa para ficar com a mulher que realmente amava. Mas Ivana foi esperta e sabia que não poderia admitir que era uma adúltera, então usou a única arma que tinha e anunciou a gravidez do primeiro filho do casal em uma reunião do alto escalão da Bratva impedindo que Sergei a deixasse. — Cala a boca, seu miserável! — Mikail está fraco, mas seu corpo se chacoalha na tentativa de se soltar. — Imagina o que aconteceria com Sergei se ele abandonasse a mulher. Além de passar o atestado de corno, ainda teria que matar a prostituta para provar o quanto era leal a organização. Foi por isso que Ruric proibiu o filho de contar a verdade. Foi por isso que Sergei


decidiu abrir mão do posto que ocupava e foi por isso que ele decidiu voltar a se encontrar com a mulher que ele realmente amava. — Eu sou filho de Sergei. — Mikail insiste titubeando debilmente. — Eu sou o herdeiro... — Não, você não é. Eu tenho as provas e quando o verdadeiro herdeiro te mandar pro inferno, ele vai assumir os negócios da família Desdeiev. Consegue entender por que você está com todos os dedos atochados até o rabo e o Ivan está ali, pronto para foder a sua vida e tomar tudo que um dia Ruric disse que era seu? Mikail não responde, mas seu rosto ganha cor, força e ele se sacode como se estivesse convulsionando. Baba e espuma escorrem de sua boca. Sua cabeça balança enquanto o sangue volta a jorrar dos cotocos de suas mãos. — Eu vou acabar com você! — A voz enfraquecida é de dar pena e chega a ser cômica a cena que ele nos proporciona. Fillipo gargalha retirando o lenço de linho do paletó e limpa uma mancha vermelha que respingou em sua camisa branca. — Sabe qual é a maior ironia nessa história toda, Mikail? — O Capo pergunta quando o corpo do verme se entrega à exaustão e volta ao estado letárgico de antes — O homem que vai matar você foi o mesmo que matou seu pai. Não é uma grande coincidência? O olhar de Fillipo busca o meu. Tenho certeza que ele vê o brilhante ponto de exclamação em minha cara, pois não tenho a menor ideia do que o Capo está falando. Nunca conheci o pai de Mikail tampouco sei quem ele é ou, se for verídica a afirmação de que eu o matei, quem ele era. — O pai de Mikail sempre soube a verdade, mas por medo de uma retaliação de Ruric concordou em compactuar a história inventada por Ivana sob a única condição de que ele pudesse ficar perto do filho e ajudar a protege-lo. Há alguns anos, quando Petrus Falin iniciou a produção das bombas que a Bratva queria usar em Moscou, o antigo motorista da família Desdeiev se mudou para a capital russa para ficar de olho no jovem, a mando do velho. Mas a intromissão inesperada da Imperatriz nos negócios dos membros do Império que traficavam mulheres, confrontando suas ordens, abriu as portas da mansão de Gravel Olotof para ele, na mesma noite em que Sarina e Severino foram levados para lá.


— Feliks? — Indago sem acreditar. O segurança da boate jurou lealdade a Imperatriz quando ela degolou Edik Falin na frente de todos seus funcionários e foi acolhido por todos nós na mansão como um amigo. Agora entendo o motivo de tudo que Feliks fez quando fomos a Volgograv para investigar o assassinato de Severino. O tempo todo ele esteve nos vigiando e repassando informações das transações do Império para a Bratva. Filho da puta do caralho! Tal pai, tal filho. Não dá para negar. — Exato! — Fillipo dá de ombros e bate levemente no rosto apático de Mikail — Como eu disse, você é o bastardo e vai morrer pelas mãos do homem que mandou seu verdadeiro pai para o inferno. Sinta-se privilegiado, desgraçado! Nem todos os maledettos fodidos têm a honra de serem mortos por um herdeiro da máfia, e Ivan Keritov, é o herdeiro legítimo de Sergei Desdeiev. Você não passa do filho do motorista, o empregado, o medíocre escravo. Esse era o seu destino desde que nasceu, Mikail. Capisce? O Capo beija sua esposa pela última vez e antes de deixar o galpão, apoia sua mão em meu ombro e fala: — Eu não sei o que aconteceu nessa merda, mas confio em você para acabar com esses desgraçados como eles merecem. Faça jus ao sangue que corre em suas veias e honre o nome de sua família. Apenas assinto e espero Giuseppe ajudar Ramona a ficar me pé com dificuldade. Ela não olha para o irmão e me pergunto se ainda irá querer a minha presença em sua vida depois de tudo que ouviu a respeito de Feliks e Ivana. — Me espere lá fora Giuseppe, eu quero falar com Ivan. — Você não consegue nem ficar em pé, bambina. Deixa para falar com ele mais tarde. Vocês terão tempo para conversar depois que essa merda acabar, sì? Eu a abraço com força tomando cuidado para não encostar em seus ferimentos. Beijo seus cabelos desgrenhados e olho no fundo de seus olhos verdes para me certificar de que ela consiga enxergar a sinceridade em minhas palavras. — Ele tem razão, Ramona. Nós teremos a vida toda para conversarmos sobre tudo que aconteceu. Agora precisa cuidar de sua saúde, mas eu estarei ao seu lado o tempo todo se você permitir.


— Está certo. — Ela concorda fazendo uma careta de dor — Só quero que saiba que nada mudou e tudo que eu falei para você da última vez que estive aqui é verdade, Ivan. Sorrio satisfeito e sinto meu coração desapertar um pouco o nó, ao ouvir sua declaração. — Obrigado. Agora saiam daqui e nos deixem trabalhar um pouco. Giuseppe gargalha e recebe um olhar de reprovação da loira quando seu corpo chacoalha colado ao dela. — Se eu não tivesse uma mulher linda e brava em meus braços Ivan, juro que compraria um pacote de pipoca e me sentaria na primeira fileira para assistir o fim desses fottuto vigliacco! — Quer parar de falar em italiano? — Ramona repreende. — Não disse que ela é brava? — Giu sorri — Eu disse que eles são covardes de merda. Capisce? Ela revira os olhos e os dois saem do porão, finalmente, deixando Mikail e Nikol a minha inteira disposição e claro, como não poderia deixar de ser, de Natasha também. — Por onde quer começar? — A Imperatriz me pergunta quando para ao lado dela. — Primeiro as damas. — Faço uma reverência como um verdadeiro cavalheiro. Ela sorri e como eu previa, pega sua faca examinando a lâmina e interpretando o papel perfeito de uma amoladora profissional. Enquanto Natasha se prepara para dar início ao fim do legado de Ruric, o avô que nunca me aceitou como neto e nomeou o filho do seu motorista para seguir seus passos fadados ao fracasso, eu aproveito para decidir o que irei fazer quando chegar a minha vez. A distância entre os últimos representantes do legado naufragado da Bratva, é de menos de um metro e meio. Algemados as cruzes de madeira chumbadas na parede. Empalidecidos, inofensivos e cientes de que irão morrer. Mikail não apresenta sinal de reação ou qualquer traço de que ainda deseja lutar por sua vida. Nikol por outro lado, está inteiro e parece disposto a provar que é forte o bastante para suportar horas de tortura. O que o jovem recruta não sabe, é que a sua frente estão duas


pessoas que não são mais tão jovens, já não possuem a mesma disposição física que possuíam aos vinte anos e não veem a hora de sair daquele lugar para mirar o céu e respirar do ar puro e fresco novamente. Cada minuto que passei neste porão ficará registrado como parte da minha história, mas pretendo fazer desses últimos momentos aqueles que servirão de consolo quando os pesadelos chegarem, e sei que eles chegarão, para que eu possa fechar os olhos e me lembrar de todas as cores que se tornarão as representantes oficiais do inferno. Eu mandarei Mikail e Nikol para uma dança exclusiva com o capeta e espero que a coloração do fogo e das chamas ilumine minha alma cinzenta cada vez que o passado decidir vir me visitar. E tão certo quanto os pesadelos, eu sei que ele virá. Mesmo com todos os meus esforços e tentativas de esquecê-lo. Ainda que eu tente desesperadamente apaga-lo da minha memória. O passado é insistente, forte e poderoso. Debochado, sempre aparece sem ser convidado. Não admite ser ocultado e por isso faz questão de voltar. E vai continuar voltando, até que o futuro o surpreenda. Então ele será apenas fragmentos de uma fase da minha vida; importantes e decisivos para sentenciar minhas próximas ações e decisões, e essas se tornarão responsáveis por reiniciar o ciclo e determinar um novo passado.


CAPÍTULO 29

Do lado de fora da propriedade que pertenceu a Ruric e foi deixada de herança para seus netos, vejo o laranja avermelhado tocar o céu escuro durante a madrugada. O fogo invade e destrói cada metro quadrado do que um dia foi construído e reformado para destruir o Império russo... e a mim. — Fizemos um bom trabalho. Viro a cabeça e vejo o sorriso contido no rosto de Natasha. — Sim, fizemos. — Está na hora de voltar para casa. — Pensei que fosse com Fillipo para Palermo. — Eu vou. Não aguento mais de saudade de Pietro, mas pretendemos ficar em Moscou por algum tempo. — Perla? — Está mal. — Quanto tempo? — O médico não quis estipular nenhum prazo, só pediu para que estivéssemos preparados. — Giuseppe já está sabendo sobre a decisão do Capo? — Estão conversando nesse momento sobre isso. — E você? Ela me encara com seus olhos azuis da cor do mar e sorri novamente. — Em outra época teria vergonha de admitir que a vingança abranda a revolta, mas não hoje e nem com você. — Natasha suspira pesadamente — O que fiz lá dentro lavou minha alma Ivan, e sei que vou superar como fiz da outra vez em que algo parecido aconteceu. — Dimitri Volkov? — Sim. Ficamos em silêncio admirando a destruição escaldante da fortaleza armada em Sóchi pela Bratva fajuta que tentava se reerguer, e


a chegada tardia de dois caminhões de bombeiros transportando homens corajosos e esperançosos em encontrar sobreviventes à tragédia que abateu a família Desdeiev e seus comandados. Eles não sabem que o início de tudo foi há mais de seis horas e que só foram chamados quando o fim, foi oficialmente decretado. — Onde ela está? — Finalmente tenho coragem de perguntar. — Em Moscou. — Ela... está bem? — Aparentemente, sim. — O que o Fillipo tem para me contar sobre o carregamento? — Questiono quando Natasha cruza os braços e encara os próprios pés — O que está acontecendo? — As mulheres que estavam no avião foram levadas pelos agentes federais e serão extraditadas de volta a seus países. — Isso não é novidade. — Eu sei, o que meu marido me contou depois que te deixei sozinho no porão, foi que Sarina se juntou a elas e voltará ao Brasil nos próximos dias. Meu coração sofre uma mini parada e posso jurar que ele perdeu algumas batidas. — O que? — Não sei exatamente que tipo de conversa ela teve com a psicóloga ontem e nem se foi ameaçada pelo Governo. Tudo que Fillipo me disse é que o nome dela estava na lista dos federais e Sarina não se recusou a aceitar a extradição. — Ela não pode fazer isso! — Desencosto do carro e começo a caminhar na direção de Giuseppe e Fillipo. — Para onde você vai? — Pegar a chave do carro e ir para o aeroporto. — O voo sairá em duas horas, Ivan. — Não posso esperar, Natasha. Preciso falar com Sarina antes que seja tarde demais. — Posso saber o que pretende falar para ela? Paro de andar sentindo meu corpo, até então tranquilo e aliviado por ter aniquilado Mikail e Nikol, se agitar como uma massa de bolo dentro de uma batedeira velha. — Sarina não tem família, amigos ou trabalho no Brasil. —


Meus olhos varrem o alto da colina que fica a poucos quilômetros da propriedade incendiada — A vida dela está em Moscou, é burrice voltar para lá. — Esse é o argumento que vai usar pra convence-la a ficar no país que quase destruiu a dela? — É o único argumento que tenho. Merda! O que mais eu posso fazer? — Se é só isso que tem a dizer para Sarina, sugiro que fique com essa sua maldita boca fechada e aceite a decisão que ela tomou. Natasha emburra com os olhos estreitos. — Você não quer que ela fique no Império? — Não sei o que posso alegar para que Natasha me ajude a convencer Sarina de que a Rússia é o melhor lugar para ela — Vai abrir mão da sua melhor “hacker” assim, tão facilmente? — Eu gosto muito da Sarina, Ivan. — Ótimo, então deve me ajudar a convencê-la a ficar. — Por que eu faria isso? Passo as mãos pelos cabelos sentindo o ressecamento dos fios. A barba maior do que o normal também é vítima de meus dedos furiosos enquanto meu cérebro envia ordens contínuas para que eu embarque no primeiro avião e parta em direção a Capital russa. — Você acabou de dizer que gosta dela, porra! — Exatamente. — Se gostasse realmente da sua amiga, iria comigo agora mesmo para Moscou e me ajudaria a convencê-la a ficar. — Não, Ivan. — Natasha retruca com firmeza — É justamente por gostar de Sarina que não posso pedir para que ela fique. Solto uma risada desprovida de humor. — Qual o seu problema? A Imperatriz avança dois passos e para repentinamente, apontando o dedo em riste na minha cara. Ela está com raiva e suponho que seja de mim. Caralho! — Meu problema? Está perguntando qual é o meu problema? — Sua voz se altera, mas não me movo e nem demonstro o quanto estou puto da vida — Qual é o seu maldito problema, Ivan? — O meu problema é não entender como você fala que gosta da


sua amiga, mas se recusa a me ajudar a convence-la a ficar na Rússia em vez de voltar para o Brasil. — Você passou os últimos dois anos ignorando, provocando, desdenhando e desprezando aquela mulher por acreditar que ela tinha sido uma filha da puta interesseira quando te abandonou em Kazã, e agora que sabe toda a verdade quer a minha ajuda para convence-la a ficar nesse país que só levou sofrimento e dor pra vida dela alegando que o Império precisa dos seus serviços de hacker? — Natasha vocifera em alto e bom tom — Você não foi o único que sofreu nos últimos oito anos, Ivan! A diferença é que você teve seus amigos, estava na sua casa e do jeito que pôde tentou seguir em frente, enquanto a Sarina não teve ninguém para conversar, desabafar ou se aconselhar, porra! Será que não enxerga isso? Meu peito sobe e desce tão apressado quanto o da Imperatriz. A respiração ofegante, as pernas trêmulas e as mãos suadas são apenas complementos do meu estado de ansiedade e nervosismo por conta dessa discussão entre nós. — Eu não tinha como saber o que Mikail fez pra ela! — Mas agora sabe e não tem mais desculpa para agir como se a Sarina fosse uma mulher qualquer, que entrou e saiu da sua vida como tantas outras. — O que você quer que eu faça, porra? — Quero que fale com ela e diga a verdade, Ivan! — Não sei do que você está falando. — Vai continuar fingindo que não sente mais nada por ela? — Natasha me desafia — Vai continuar agindo como se o que sente por ela vai simplesmente desaparecer? Um belo dia você vai acordar e pronto, não amo mais a Sarina. É isso que vai fazer pelo resto da sua vida? — E se for? — Minha garganta queima com a pergunta — E se eu quiser esquecer tudo que aconteceu e seguir em frente? Os ombros da Imperatriz desabam e a decepção é extravagante em sua voz e em seu olhar. Meu estômago embrulha, a boca seca e o suor das mãos se deslocam para a testa, banhando meu rosto. — Se me disser que a sua escolha é viver longe da mulher que ama por causa da porra do seu orgulho de bosta, problema seu, Ivan. Viva sozinho, arrume outra namorada inútil, foda uma boceta por noite e seja eternamente infeliz. Mas não conte com a minha ajuda para impedir


que a Sarina tenha uma chance de ir para bem longe de você, do seu orgulho ridículo, do seu amor hipócrita e tente ser feliz com um homem que a ame de verdade, que lute ao lado dela e a ajude a resgatar a dignidade que aqueles desgraçados roubaram dela a força, muitas e muitas vezes! — Natasha inspira profundamente recuperando o fôlego — Você é meu irmão Ivan e eu já te disse o quanto é importante pra mim, mas não fique procurando mais desculpas para justificar as suas fugas e assuma que o seu amor não é tão grande nem tão forte quanto o seu orgulho. Você merece ser feliz, mas a Sarina também merece e se pegar um avião para Moscou e pedir para que ela fique porque a ama e precisa dela for um sacrifício desmedido para você, então é melhor esquece-la de uma vez e deixa-la voltar para o Brasil. Pelo menos assim, um de vocês terá a chance de deixar o passado pra trás e seguir em frente. — Eu estou quebrado... — Sarina também está e talvez muito mais do que nós dois juntos, mas ao contrário de você ela desconhece o orgulho e acredita que o homem que ela ama vai se casar com uma vagabunda de quinta categoria porque a odeia e a culpa por tudo que aconteceu com ele. — Eu não culpo a Sarina por nada. — Eu sei disso, mas ela não sabe Ivan. E no fundo acho que ela também se culpa mesmo sem saber o que realmente aconteceu com você naquele porão, porque a Sarina mais do que qualquer outra pessoa nesse mundo sabia do que aqueles desgraçados eram capazes de fazer. Volto a caminhar em direção aos dois italianos, que interromperam a conversa, e estão assistindo de camarote a confronto entre a Imperatriz e seu Konsult’ant. — Preciso da chave do carro. Fillipo alterna o olhar entre sua esposa e eu, e depois de alguns segundos enfia a mão no bolso da calça e me entrega o chaveiro prateado. — Para onde você vai? — Giuseppe me pergunta. — Vou voltar para Moscou. Só então reparo em seus olhos avermelhados, mas relaciono o inchaço e a cor aos minutos que ficou exposto ao calor do fogo. — Leve Ramona com você, por favor. Enrugo a testa.


— Onde ela está? Giu aponta para uma pedra no alto da colina a uns quinhentos metros acima de onde estamos. — O que aconteceu? — Pergunto, preocupado. — Meu primo é um idiota e vai se arrepender de ter dispensado a loirinha. — Fillipo brada. Há pouco mais de quatro horas deixei aquele porão sozinho, com a certeza de que todos os meus problemas tivessem sido resolvidos no momento em que selei o destino daqueles homens e decretei suas mortes. Mas até agora, a minha paz só se estendeu pelo tempo em que mantive a boca fechada e não permiti que meus ouvidos absorvessem qualquer ruído, a não ser o do fogo castigando e destruindo a madeira e toda a plantação que cercavam aquele lugar. — O que você fez com ela, porra? Giuseppe fica nervoso. Seu rosto avermelhado ganha tons ainda mais fortes, sendo possível enxerga-los mesmo na escuridão da madrugada fria em Sóchi. — Nada que você não esperasse de mim. — Seu filho da puta! — Parto para cima dele, mas Fillipo me impede de esmurrar sua cara de pau deslavada — Eu falei pra não encostar nela, porra! — Você acha que eu não tentei ficar longe da sua irmã, Ivan? — O loiro argumenta frustrado — Eu tentei e muito! Mas... — Mas o que caralho? Não conseguiu resistir a uma boceta virgem? — Não fala o que você não sabe! — A única coisa que eu sei é que você sabia como essa merda entre vocês ia acabar e mesmo assim foi lá e fez, merda! — Foi um erro, porra! — Ele lamenta gesticulando freneticamente — Um grande e fodido erro, confesso, mas eu não consegui dizer não. — Um erro? — Vocifero tentando me livrar dos braços de Fillipo, que circulam meu corpo como a porra de um escudo protetor de seu primo — Está me dizendo que transar com a minha irmã foi a merda de um erro? — É isso mesmo, Ivan! — Ele retruca com raiva — Ramona é


uma mulher linda e mesmo sabendo que a única coisa que sinto por ela é uma monstruosa atração como nunca senti por nenhuma outra, eu fui um grande filho da puta e permiti que ela acreditasse que pudesse ser algo a mais. Foi o que eu fiz e é por isso que aquela noite não passou de um erro! UM GRANDE ERRO! — Seu italiano de merda! Eu vou te matar seu desgraçado... — Chega Ivan! — A voz de Ramona chega aos meus ouvidos milésimos de segundos antes de sua imagem surgir entre as folhagens esverdeadas. — Giuseppe não teve culpa nenhuma pelo que aconteceu. Seu rosto ferido, olhos vermelhos, cabelos presos no alto da cabeça e roupa rasgada machucam ainda mais meu coração dilacerado pelas palavras assertivas de Natasha. Minha irmã se aproxima de mim, ignorando os dois homens que estão conosco e também a Imperatriz. Seus olhos focam exclusivamente os meus. Apesar da dor que emana de cada poro de seu corpo, ela mantem a postura altiva demonstrando o quanto é forte, ao menos em sua aparência. — Posso ficar na sua casa por uns dias? — Você pode ficar o tempo que quiser, Ramona. — Afirmo. — Fique o quanto precisar. — Obrigada. — Ela sorri docemente — Se pudermos ir agora, eu agradeceria muito. Preciso descansar. Fillipo abre espaço para que eu envolva a mulher jovem em meus braços e a ampare. — Ramona, eu... — Giuseppe tenta se aproximar. — Vou esperar você no carro. — Ela fala pegando o chaveiro da minha mão e olha para o italiano que a encara de uma forma diferente — Todos nós cometemos erros Giuseppe, e tenho certeza que eu não fui o primeiro que você cometeu. Esqueça o que falei hoje mais cedo, e eu garanto que jamais vou esquecer o que acabei de ouvir. — Ramona, por favor... — Por favor, o que? — Ela indaga o encarando com uma mistura de raiva, dor e desapontamento em seu olhar esverdeado. — Eu quero pedir perdão pelo que fiz. Ramona sorri, constrangida. Ela abaixa a cabeça balançando-a de um lado para o outro e quando a levanta fixando seus olhos nos do italiano idiota, fala:


— Duvido que o Consigliere seja o tipo de homem que perde perdão a todas as vagabundas que ele fode quando elas acordam em sua cama, iludidas de que serão suas namoradas. — O que... — Ele tenta argumentar novamente fazendo uma careta, mas Ramona o interrompe de novo. — Não vamos estender esse assunto, Giu. — Ela o corta educadamente deixando a todos nós sem fala — Eu fui mais uma vadia que abriu as pernas pra você e se não fosse por Ivan, nós não estaríamos aqui tendo essa conversa. Mas eu já entendi e sei que meu irmão também. — Ramona... — Eu vou garantir para que você não cometa o mesmo erro duas vezes, Giuseppe. Pode confiar em mim. As últimas palavras que saem de sua boca surtem o efeito de uma bofetada na cara do italiano garanhão, e posso jurar que o golpe foi certeiro quando minha irmã nos dá as costas e segue para o carro sem olhar para trás. Uma coisa eu posso garantir, tanto Ramona quanto eu temos muito a aprender em relação ao amor. Só não faço a menor ideia de como iremos conseguir essa proeza. No percurso de volta a Moscou, conversamos sobre tudo que aconteceu nos últimos meses e o quanto nossas vidas estão prestes a mudar. Em nenhum momento Ramona toca no nome de Giuseppe e embora eu tenha curiosidade em saber o que havia acontecido entre eles, opto por respeitar seu silêncio e esperar que ela se sinta à vontade para me contar um dia. Se quiser. Mas em determinado momento o nome de Sarina surge no meio da conversa, e tudo que consigo é tentar explicar para minha irmã os motivos que me impedem de ir até a mulata e implorar para que ela fique em Moscou; por mim, comigo, para sempre. E a resposta dela é: — Só não demore muito para superar seus traumas, Ivan. Qualquer homem inteligente gostará de dividir sua vida com uma mulher como Sarina, e uma mulher quebrada como ela, mais do que qualquer outra saberá dar valor a alguém que a trate de uma forma especial.


— Não sei se consigo, Ramona. Ela segura minha mão e com os olhos molhados por suas lágrimas encarando os meus igualmente encharcados pelas minhas, diz: — Nosso pai me deixou uma carta antes de morrer em que ele dizia: Sempre olhe para frente. Nunca esqueça suas origens nem o seu passado, mas não permita que nenhum deles interfira no seu futuro”. — Me emociono ao ouvir a frase dita por Sergei todos os dias em que ia nos visitar quando eu era pequeno — E todas as vezes que Ruric, Ivana ou Mikail diziam que ele foi um homem fraco e traidor, eu sabia que eles estavam mentindo. — Ramona beija meu rosto suavemente — Quanto é preciso de coragem para não permitir que o passado influencie em nossas escolhas futuras? Quanto de honestidade é necessário para que nossas origens continuem enraizadas dentro de nós, mesmo depois de termos sido violados e deturpados pelo mundo de milhares de formas? Sergei acreditava no amor, Ivan assim como você e eu. Nós só precisamos aprender a ser tão corajosos e honestos como ele foi. Seco suas lágrimas e as minhas logo depois. Puxo minha irmã para perto de mim e beijo o topo de sua cabeça com carinho. — Nós vamos conseguir Ramona... eu sei que vamos. Uma hora e meia depois chegamos ao meu apartamento. Tomo um banho demorado e acomodo minha irmã no quarto de hóspedes, que pega no sono rapidamente. Meu corpo está moído, mas minha mente não para, inquieta, falante. Pego meu celular e sem pensar muito ligo para Sarina várias vezes, mas seu telefone está desligado. Tento falar com Reynaldo para descobrir o paradeiro dela, mas o garoto também não atende minhas ligações e sem perceber, acabo pegando no sono, no sofá mesmo. Acordo com o barulho estridente do aparelho vibrante em meu peito. — Alo. — Ivan? — A voz masculina me deixa confuso. — Sou eu, Rey. Acabei de chegar do aeroporto e só agora vi que tinha algumas ligações perdidas. Aconteceu alguma coisa? — Eu preciso falar com a Sarina, mas não consigo falar com ela. Sabe onde ela está? — Você não soube?


Rapidamente sento-me em estado de alerta. — Soube do que? — A Sarina voltou para o Brasil, cara. Acabei de levar ela no aeroporto. — Como assim, Reynaldo? — Cacete! A repercussão do que aconteceu em São Petersburgo foi mundial Ivan, e pra esconder os detalhes do esquema de tráfico humano da Bratva, o Governo russo fretou um avião e mandou todas as mulheres embora do país. A Sarina voltou para casa Ivan, eu sinto muito. Desligo o telefone sem sequer me despedir do garoto. Apoio a cabeça nas mãos e me deixo ser levado pela dor, mas diferente das outras vezes não permito que ela me abata ou desmotive. Se eu quero Sarina de volta na minha vida, está na hora de enfrentar o meu passado e me preparar para o futuro. Por mim. Por ela. Pelo nosso amor.


CAPÍTULO 30 – SARINA

(Dois meses depois) São quase sete horas da noite e o sol ainda brilha iluminando a praia de Ponta Mar, em Fortaleza. Aproveito para me misturar a multidão que transita pelo calçadão e parto em direção ao Centro Comunitário onde duas vezes por semana participo das reuniões oferecidas as mulheres que sofreram ou ainda sofrem abusos, físicos ou psicológicos. Atravesso a avenida quando chego no último semáforo antes de entrar na favela, e quase sorrio ao perceber o Mercedes Benz preto, completamente escuro parado na fileira de carros, que está me seguindo desde que cheguei a cidade. Quando aceitei o acordo que o Governo russo ofereceu para que eu saísse do país, pensei que Ivan viria atrás de mim, mas minhas esperanças foram sendo desfeitas dia após dia sem nenhuma mensagem ou ligação dele. Ainda converso com Natasha vez ou outra e continuo realizando alguns trabalhos extraoficiais para o Império, mas meu foco agora é outro e depois que descobri o quanto posso ajudar mulheres que passaram pela mesma coisa que eu passei enquanto estive no cativeiro, em Sóchi, decidi me dedicar aos serviços prestados por voluntários em comunidades pobres. A Imperatriz nunca mencionou nada sobre o que aconteceu com Mikail e o que sei se limita ao que a imprensa mundial relatou do incêndio criminoso que destruiu a propriedade de Ruric Desdeiev e matou alguns de seus “funcionários”. Desconfio que os recrutas da Nova Bratva foram todos eliminados, mas não tenho ideia do que Ivan e Natasha fizeram com os corpos daqueles abutres para que não fossem encontrados. Serei eternamente grata por tudo que o Império fez com aquela


organização nojenta e desejo profundamente que cada um deles esteja pagando pelos crimes que cometeu contra mim e tantas outras pessoas inocentes. Principalmente Mikail, o monstro maldito que destruiu a minha vida e todas as chances de ser feliz ao lado do único homem que amei. — Boa noite, Sá! — Marieta me cumprimenta com um abraço apertado quando me vê — Hoje a sala está lotada e tivemos que colocar mais algumas cadeiras extras. Todos estão falando muito bem das suas conversas na comunidade e isso está atraindo mais mulheres. — Isso me deixa muito feliz. Guardo minha bolsa dentro do armário depois de verificar o celular pela última vez, e embora tenha certeza de que não há nenhum sinal de Ivan acho que meu coração reprime a ilusão de que ele possa me perdoar um dia. — O Giba veio até aqui e deixou isso pra você. Marieta me entrega uma rosa com um cartão grampeado no celofane vermelho, do mesmo tom da flor. — Foi muito gentil da parte dele. — Falo guardando o presente no armário. — Não vai ler o que ele escreveu? — Marieta pergunta curiosa me fazendo sorrir. — Não sei se é uma boa ideia. — Eu não quero me meter na sua vida Sá, mas desde que chegou a única coisa que tem feito é trabalhar o dia todo, estudar e vir aqui ajudar essas mulheres. O Giba é um homem bom, honesto, trabalhador e lindo de morrer. — Seu sorriso malicioso me faz sorrir também — Sem dizer que é o mais cobiçado do morro por todas as solteiras e até algumas casadas da comunidade. Por que não dá uma chance a ele? Marieta é uma senhora de quase sessenta anos. Foi dela a iniciativa de iniciar o trabalho voluntário na comunidade do Mingau, onde nasceu e foi criada, a vinte anos atrás depois de ter seu corpo quase todo queimado pelo ex-marido. Assim como eu e tantas outras mulheres, Marieta foi vítima de um homem agressivo e descontrolado que usava o corpo da esposa para descontar suas frustrações. Ela matou o homem que deveria amá-la e protege-la, mas precisou de ajuda profissional durante muito tempo para se reerguer e


retomar sua vida. As marcas em seu rosto são irrisórias se comparadas as que foram gravadas em sua alma, e quando vejo seu sorriso acolhedor sinto que todas as merdas que vivi na Rússia não foram tão ruins quanto eu achei que fossem. — Porque ele merece uma mulher inteira e eu não posso oferecer nada de bom por enquanto. — Olhe para mim. — Eu a encaro com as lágrimas beirando meus olhos — Nenhuma mulher merece viver enclausurada dentro do próprio passado, e você já provou que é muito mais forte do que pensa. Sorrio tristemente secando algumas gotas salgadas que escorrem pelo meu rosto. — Nunca fui forte, Marieta. O que você vê em mim é apenas o que eu permito que veja, mas o que está guardado em meu coração e em todas as minhas memórias é muito mais feio e sombrio do que possa imaginar. — Ninguém está pedindo para que mostre o que está guardado, Sarina. O Giba só quer uma chance de te conhecer melhor, e eu, como sua amiga e admiradora gostaria que desse uma chance não só a ele, mas a você também. Sei que deixou alguém que amava naquele país, mas agora está aqui reconstruindo a sua vida e não precisa mais enfrentar seus problemas sozinha. Eu a observo e assinto. Talvez Marieta tenha razão. Não é fácil chegar em casa todos os dias e não ter alguém para conversar sobre o que aconteceu. As noites são longas demais e o sono quase nunca aparece com medo de que os pesadelos voltem e me arrastem para aquele maldito porão. — Tudo bem, vamos ler o que ele escreveu no cartão. — É assim que se fala, nega! Abro o pequeno envelope retirando o papel branco decorado com uma caligrafia bonita. “Estarei na porta da escola quando sair do Centro Comunitário. Se quiser tomar um sorvete comigo passe aqui e saberei que aceitou meu convite” — Que perigo um sorvete representa? — Marieta indaga


sorrindo como uma menina ateira. — Ainda tenho quase duas horas, então vamos começar a reunião e depois eu decido se aceito ou não. Chegamos juntas a sala onde mais de vinte mulheres conversam baixinho. É bom saber que cada uma delas tem uma história diferente para compartilhar e estão empenhadas em superar as dificuldades que um relacionamento abusivo impões as nossas vidas. — Boa noite. — Falo me posicionando ao centro do grande círculo formado — Hoje vou começar falando um pouco sobre o amor e como ele pode afetar e mudar radicalmente a vida de uma pessoa. Respiro profundamente deixando que meu coração se abra para essas mulheres e como todas as vezes que inicio um de nossos encontros, tento mostrar que nem sempre o que presumimos ser amor é o que realmente é. — Nós, mulheres, ainda somos criadas e educadas para servir aos homens. Sua refeição, sua vaidade e seus desejos. Parece mentira, piada, mas é a mais pura verdade. Algumas de nós conseguem se libertar das amarras machistas ainda na juventude, mas a maioria apenas pensa que é livre para se vestir do jeito que se sente bem ou cortar o cabelo como quer e até mesmo estudar e trabalhar com aquilo que nos faz feliz, e com o tempo percebemos que não é verdade, porque no fundo não somos livres e se não nos esforçarmos, nunca seremos. Não são apenas os nossos namorados, noivos e maridos que nos podam da maneira que querem, a principal culpada por estipular o padrão de comportamento correto de uma mulher “decente”, é a sociedade. Quantas vezes ouvimos nossos pais nos comparando com alguma amiga, afirmando que devíamos ser como a fulana que faz tal coisa, se veste de tal modo e estuda em tal escola? Mas de onde veio esse molde perfeito de mulher? Quem determinou que, se uma menina decidir transar pela primeira vez com quinze anos nenhum homem irá se apaixonar por ela por causa disso? Quem ainda alimenta a ideia de que as mulheres devem ser submissas aos homens, obedecer e aceitar o que falam sem questionar? Nós não somos objetos. Não fomos compradas em uma loja com a garantia do vendedor de que seríamos prestadoras de serviços domésticos quando aceitássemos um pedido de namoro ou casamento e


concordaríamos em ser punidas se falhássemos nos cumprimentos dos nossos “deveres”! Quem nunca se vestiu para acompanhar o marido ao cinema e em vez de usar um vestido que adora optou por outro, apenas para agradá-lo e ouvir um elogio que nunca saiu da boca dele? Quem nunca preferiu preparar o bife acebolado em vez da macarronada para satisfazer a vontade do marido abrindo mão da sua própria vontade só para agradar e vê-lo satisfeito ao se levantar da mesa após o almoço de domingo? Quantas vezes agimos para ver o outro feliz, nem que a felicidade dele represente a nossa infelicidade, sem que ninguém tenha nos forçado a isso? Qual de nós teve a coragem de negar ir para a cama com o marido naquele dia que estávamos indispostas, chateadas com as palavras brutas que ele nos agrediu pela manhã, ou simplesmente não estávamos com vontade de transar? A quem estamos dedicando nosso amor, afinal? Porque eu garanto a cada uma de vocês que se estamos nos anulando ou deixando de ser quem somos para agradar quem quer que seja, essa pessoa não nos ama e o pior, estamos deixando de nos amar também e no final, sucumbiremos as agressões verbais, as ofensas que nos arremetem ao fracasso e vamos acreditar que não somos boas o bastante para vivermos sem “ele”. Muitas de nós até pensarão que merecem ser tratadas como lixo. Nós não precisamos de um homem que nos agride para ser felizes. Nós não precisamos de um homem que nos diminui, rebaixa e ofende para sermos felizes. Nós não precisamos de um homem que queira nos moldar em seus próprios padrões para sermos felizes. Acreditem, nós não precisamos de homem nenhum para sermos felizes. Nem sempre ter alguém dividindo a mesma casa, as despesas e as responsabilidades que um casamento exige significa que não estamos sozinhas, porque muitas vezes nos sentimos solitárias mesmo com uma aliança dourada enfeitando o anelar esquerdo. Mas quando nos apaixonamos e decidimos nos tornar esposas, namoradas ou companheiras de um homem, merecemos alguém que nos respeite, nos aceite e nos ame do jeito que somos. Um homem que


enxergue nossas virtudes e releve nossos defeitos. Que realce nossa beleza em vez de destacar nossas rugas. Que admire nossa ascensão profissional e não desmereça nossa capacidade. Que nos enxergue como sua aliada e não como inimiga ou concorrente. Um homem prova que nos ama quando nos oferece a sua mão e caminha ao nosso lado, pois sabe que somos iguais e não inferiores a ele. Antes de amar alguém, devemos conhecer o amor mais importante de todos em sua plenitude e só então vamos conseguir partilhar o amor com outra pessoa. O primeiro amor de uma mulher, aquele que vai prepara-la para dar e receber todos os outros amores que virão, é o Amor Próprio. De hoje em diante, todos os dias, nós vamos nos encarar no espelho, olhos nos olhos, sem mentiras ou falsidade e repetir a pergunta: O que eu fiz para demonstrar o meu amor por você, HOJE? E enquanto não tivermos essa resposta, vamos saber que ainda estamos nos colocando em segundo plano e não podemos cobrar que outras pessoas nos amem se nem mesmo nós estamos fazendo isso. Nesse encontro quero que me digam o que fizeram HOJE, para demonstrar o amor de vocês por vocês mesmas e espero ser surpreendida por suas respostas...

***

— Eu nem estou acreditando que você veio. Gilberto, ou Giba, como ele é conhecido na favela do Mingau, é o diretor pedagógico da única escola da comunidade. Ele é um negro lindo, alto, forte e careca. Seu sorriso poderia ser usado em comerciais de creme dental de tão brancos e perfeitamente alinhados que são. — Obrigada pelo cartão e pela rosa também. Agradeço quando saímos da sorveteria e seguimos em direção à avenida da praia. São quase dez da noite e o calçadão continua movimentado. A lua enfeita o céu e uma brisa leve ameniza o calor. — Posso te fazer uma pergunta, Sarina? Sinto sua mão na base da minha coluna na hora de atravessar a


avenida. Meus olhos escrutinam os carros a procura do Mercedes, mas não o encontro e não entendo o motivo pelo qual me sinto entristecida por não o ver. — Pode. — Dou de ombros. — O que fez você aceitar meu convite essa noite? — Não sei, mas acho que a menção ao sorvete e não a um jantar ou a um encontro amoroso me pareceu menos comprometedora. Gilberto solta uma risada me fazendo olhar diretamente para ele. — Desculpa. — Ele fala lambendo o sorvete de flocos — Eu estava preparado para ouvir várias coisas, mas definitivamente, nada que se comparasse a isso. — É a verdade. — Eu sei e admiro a sua sinceridade, Sarina. Poucas mulheres hoje em dia expressam o que sentem de verdade. — Vou entender como um elogio, então obrigada de novo. — Com certeza é um elogio. — Giba me encara e posso ver em seus olhos o mesmo brilho que via nos de Ivan, quando ele dizia que me amava — Você é uma das mulheres mais lindas que já conheci. Por um momento me sinto perdida nas minhas lembranças, mas me recupero desviando meu olhar do seu e sorrio, gostando dessa atenção que estou recebendo. — Se não parar a única coisa que vai ouvir hoje será a palavra obrigada. — Não precisa me agradecer, é um prazer passar um tempo com você. O que tem feito desde que chegou na cidade, além de se tornar voluntária no Centro Comunitário? Por mais de meia hora nós conversamos assuntos leves, nada que mencionasse meu passado e tudo que aconteceu na Rússia nos últimos dez anos. Giba me faz sorrir como há algum tempo eu não sorria e sua companhia agradável me surpreende de várias maneiras positivas. Chegamos a porta da minha casa e paramos ao lado de fora do portão de alumínio. — É aqui que eu moro. — Não tem medo de ficar sozinha? — Não, estou acostumada. — É um bairro perigoso, Sarina. — Todos os lugares são perigosos se não tomarmos cuidado.


— Se você quiser, posso ver se tem alguma casa para alugar na comunidade. — Não... eu gosto daqui e já me acostumei. — A casa é alugada? Eu posso dizer a ele que comprei o imóvel com o dinheiro que ganhei durante o tempo que vivi sozinha em Moscou, mas não é uma informação que eu queira dividir agora. — É sim. — Não me sinto bem em mentir — O proprietário se mudou e fez um precinho bom pra mim. — Acho que vou ter que acompanhar você todas as noites para não ficar preocupado. Ele sorri e dá uma piscadela. — Não será necessário. Eu sei me cuidar... — O que vai fazer no sábado à noite? — Eu... Tantas coisas passam pela minha cabeça e nada serve como justificativa para recusar o convite que sei que ele irá fazer, mas tenho aprendido a viver sozinha sem lamentar por isso e hoje posso afirmar que não é tão ruim suportar a minha própria presença. — Não tenho nada marcado, mas pretendo ficar em casa e colocar os estudos em dia. — Eu gostaria de te convidar para ir ao cinema e jantar comigo, Sarina. — Ainda não estou pronta para um encontro, Giba. Seus olhos negros se estreitam e ele morde o lábio inferior com um sorriso de lado no rosto. — Não tem problema. — Ele cruza os braços — Podemos continuar tomando sorvete até você aceitar sair comigo em um encontro, o que me diz? — Se for para tomar sorvete, acho que posso tentar. Giba se aproxima e sua boca vem em direção a minha, mas consigo virar o rosto a tempo lhe oferecendo a bochecha. Suas mãos apertam meus braços me decepcionando por não me fazerem sentir todas as sensações maravilhosas, que apenas um resvalar do russo provocava em todo meu corpo. — Eu passo aqui as sete. Ele gira nos calcanhares quando abro o portão e atravesso o


pequeno jardim. Minha casa é pequena e precisa de algumas melhorias que pretendo fazer quando tiver estabilizada no trabalho. Abro a porta e acendo a luz. Tiro as sapatilhas, jogo a bolsa em cima do aparador e quase sofro uma síncope quando me viro e dou de cara com um homem parado no meio da sala. — Eu sou capaz de arrancar as mãos daquele filho da puta fora se ele tocar em você de novo, Sarina. Não sei se estou sonhando. Não sei se é fruto da minha imaginação. Mas a imagem do que vejo me deixa imóvel e tudo que ouço são as batidas aceleradas do meu coração. — Ivan... O homem que vem em minha direção é o mesmo que eu vi pela última vez em Sóchi, quando nos beijamos ardentemente na cabana de Mikail há dois meses, mas o olhar esverdeado sereno, calmo e pacífico que antes ilustrava seu rosto deu lugar a um vislumbre selvagem, lascivo e imoral. — Não gosto que toquem no que é meu, Sarina. Suas palavras fazem meu corpo se eriçar. Seus cabelos estão presos por um elástico. Suas mãos enfiadas dentro dos bolsos da calça social mantem o paletó aberto e deixam seu peitoral coberto por uma camisa social preta, exposto. A barba também cresceu e cobre parcialmente seu rosto. Ele está ainda mais lindo. Mais sexy. Mais forte. Mais... mafioso. Minhas mãos se coçam para tocá-lo. Minha boca anseia por um beijo seu. Meu corpo quase implora para ser devorado por sua boca carnuda. Mas então me lembro que Ivan tem uma namorada do outro lado do mundo. Não tem o direito de invadir minha casa como e nem de falar comigo como se eu fosse sua propriedade. Onde está seu amor próprio, Sarina? — Eu não sou sua. — Minha voz não sai da minha boca tão determinada quanto eu gostaria que tivesse saído. Ivan ergue uma sobrancelha e um sorriso cínico desliza em seus


lábios. — Não? — Mais um passo e ele está parado a minha frente — Tem certeza? — O que veio fazer aqui? Droga! Onde foi parar minha determinação? Não consigo desviar meus olhos de sua boca e quando ele percebe, molha os lábios com a ponta da língua me fazendo ofegar. Sinto o meio das minhas pernas molhar e acabo reprimindo um gemido involuntariamente, fazendo seus olhos se estreitarem. A ponta de seus dedos desliza pelo meu rosto. Seus olhos se fixam nos meus num aviso rudimentar de que ele não está brincando. — Vim buscar o que me pertence, e preciso que saiba que dessa vez, será para sempre. — Seu polegar percorre meu lábio inferior me forçando a abrir a boca — Eu estou pronto para ser seu por inteiro, Sarina, e quero que seja minha... vou tomar seu corpo, seu coração, sua alma. Vou cuidar de você, te proteger e te amar como eu sempre quis. Mas não vou fazer nada antes de saber se quer voltar para Moscou comigo, se quer que eu te foda todos os dias em qualquer lugar e quantas vezes me der vontade, se quer dividir comigo seus dias, suas noites, minha casa, minha vida e ainda dizer que nunca amou ninguém como me ama. Ivan apoia as mãos na porta atrás de mim, prendendo meu corpo entre seus braços. Ele abaixa a cabeça encostando sua boca em meu ouvido e sussurra: — Quero uma resposta, Sarina, e não me faça esperar para arrancar sua roupa e te foder contra essa porta como eu sei que você gosta. — Estou tremendo dos pés à cabeça, quero protestar contra o desejo que está me assolando e entorpecendo como uma droga, mas não tenho forças nem mesmo vontade para lutar contra esse sentimento inexplicável que sobreviveu em meu coração depois de tanto sofrimento — Se disser que sim, que me quer como eu quero você, primeiro só vou afastar sua calcinha para o lado e meter forte e duro porque não vou aguentar esperar nem mais um segundo pra provar essa boceta gostosa de novo, mas depois eu vou te arrastar pro banheiro e foder esse rabo apertado, e quando eu terminar de arrombar seu cuzinho nós vamos direto para o quarto onde eu vou te jogar em cima da cama e te comer até você não aguentar mais sentir meu pau dentro do seu corpo


delicioso. Deus... Eu preciso decidir e pela primeira vez em anos tenho a chance de escolher o que desejo para o meu futuro sem depender de ninguém, mas antes preciso saber o que aconteceu nesses dois meses em que estivemos afastados sem qualquer contato. — Você vai ter a sua resposta Ivan. — Eu me afasto para garantir a ordem dos meus pensamentos — Mas eu também preciso de respostas. Acompanho seu semblante confiante ganhar apreensão e.... medo? — Acho que no fundo eu temia por isso. — Temia o que? — A sua dúvida e a sua desconfiança... — Não tenho dúvidas em relação ao amor que sinto Ivan, mas não seria justo comigo nem com você se mentisse e dissesse que não tenho dúvidas em relação ao que sente por mim. — Eu amo você Sarina, e acho que sempre soube disso. — Sua aspereza me surpreende. — Não eu não sabia, e se bem me lembro, você pretendia pedir sua namorada em casamento até pouco tempo atrás. — Muita coisa mudou. — Preciso saber o que mudou, Ivan. Suas mãos são guardadas nos bolsos, seu olhar vagueia pela sala pequena e simples, perdido, completamente sem rumo atemorizando meu coração com seu pesar. — Depois que Giuseppe levou você da cabana, eu e Natasha fomos... — Ele abaixa a cabeça e coloca a mão direita sobre o peito acima do coração — Mikail nos prendeu no porão. Tampo minha boca aberta com a mão direita sem acreditar no que acabo de ouvir. O peito de Ivan sobe e desce tão rápido quanto o meu coração acelera repentinamente. — O que eles fizeram com vocês Ivan? Suas mãos cobrem seu lindo rosto e sem que eu espere, o corpo de Ivan chacoalha. Ele está chorando. Tento me aproximar, mas o homem que transmite com sua postura altiva a segurança e a força de um touro, se afasta acenando em rendição.


— Não Sarina! — Ele grunhe — Não quero que sinta pena de mim. Franzo a testa. — Quem disse que estou com pena? — Eu sei o que está pensando... — Não, Ivan. — Minha voz é firme — Você não faz ideia do que estou pensando. Ele joga a cabeça para trás inspirando pesadamente. Ainda de costas suas mãos secam o rosto. Quero abraça-lo, confortá-lo e dizer-lhe que estou aqui, disposta a ajudar na cura de suas feridas tão profundas quanto as minhas. Por um momento me arrependo de ter forçado sua confissão, mas jamais poderia imaginar que o demônio fosse capaz de fazer com outras pessoas o que fez comigo de forma tão horrenda. Principalmente com a Imperatriz e seu konsult’ant. — Foi por isso que não vim antes e você acaba de me provar que foi um erro ter vindo agora. Ele ajeita o terno. Meu coração se comprime. — O que vai fazer? — Indago receosa. — Eu estava ansioso e desesperado para te encontrar, mas queria me preparar e procurei um psicólogo para me ajudar. — Ivan evita meu olhar, até o vaso feito com garrafa pet em cima da mesa de centro parece mais interessante do que a mulher a sua frente — Depois das primeiras sessões achei que estivesse melhor, mas ele me convenceu a continuar por mais algumas semanas antes de dar um passo tão importante para mim. Eu já não aguentava mais e todos os dias Lenin me enviava fotos suas. Acompanhei cada passo que deu desde que pisou nessa merda de país. — O cara do Mercedes? Ivan assente. — Foi o único jeito que encontrei de manter a nossa conexão e na última sessão, há três dias, avisei o psicólogo que embarcaria para o Brasil e.... convenceria a mulher que eu amo de que não consigo mais viver sem ela. Minhas lágrimas se unem em meus olhos embaçando minha visão. Nunca vi Ivan Keritov tão arruinado como agora. Sua beleza estonteante ofusca a dor irrefutável que afugenta sua áurea de poder e


força. — Agora entendo tudo que passou nas mãos daquele monstro Sarina, e não a julgo por nada do que fez achando que estava me protegendo. Apenas quem esteve naquele lugar sob as garras afiadas de Mikail e seus homens é capaz de compreender o significado da palavra “violação”. — Ele ajeita os cabelos, endireita os ombros e finalmente me encara com seu olhar duro e ao mesmo tempo, destruído. — Não sei se um dia serei capaz de superar completamente o que aconteceu naquele inferno e a última coisa que eu quero é arrastar você comigo. Eu admiro e invejo a sua força e coragem, mas ainda não posso garantir que serei capaz de fazer o mesmo. Ivan se afasta contornando os móveis e caminha em direção a porta. — Para onde você vai? O tom amargurado revestindo minhas palavras é notório e evidencia o quanto sua partida é malquista. Quero que ele fique aqui, que diga que me ama e que está disposto a ser forte por mim, pelo amor que diz sentir. — Você merece ser feliz ao lado de um homem que não carregue um passado como o meu, Sarina. — Pensei que me amasse. — Cruzo os braços a frente do peito o desafiando — Então era tudo mentira? Ivan trinca os dentes enrugando o cenho. Seu olhar enraivecido substitui o amedrontado facilitando a minha estratégia. Um homem orgulhoso como ele precisa do confronto para crescer, e para uma mulher como eu, é muito mais fácil lidar com esse tipo de personalidade. — Eu sempre te amei, porra! — Que tipo de amor é esse que na primeira dificuldade sai correndo? — O encaro insistindo na conduta que o deprecia — Isso não é amor, Ivan, o nome disso é conveniência. Ele refaz o caminho com passos lentos e ameaçadores. Agora seus olhos não desviam dos meus nem por um milésimo de segundos e meu corpo reage a mera proximidade que destrói a distância entre nós com desprezo e arrogância. — O amor que eu carrego há quase uma década aqui, Sarina. — Ivan segura minha mão direita e a coloca em seu peito, no mesmo lugar


onde estava a sua, acima do coração que bate tão descompassado quanto o meu — Foi o que me deu forças para lutar todos os dias e não permitiu que eu me entregasse. É assim que eu fico só de ouvir sua voz. — Ele conduz minha mão pelo seu abdômen e a apoia em seu membro duro como uma pedra — Nenhuma mulher provoca essas reações em mim. Nenhuma mulher me faz querer ser o homem perfeito. Nenhuma mulher consome todos os meus pensamentos. Nenhuma mulher consegue me enlouquecer só de imaginar outro homem tocando seu corpo. Só você. Eu nunca amei outra mulher em toda a minha vida, Sarina, é por te amar mais do que a mim mesmo que eu ia sair por aquela porta e desaparecer da sua frente. — Repita a pergunta, Ivan. Ele é incapaz de camuflar a dúvida que serpenteia em seus olhos verdes, e de repente sou tomada pela angústia de tê-lo perdido para sempre por conta das maldades que Mikail impôs a ele naquele porão. Não sei o que aconteceu e talvez nunca venha a saber, mas posso deduzir que para um homem como Ivan ter sido destruído desse jeito, o demônio superou todos os seus índices de maldade e perversão. Suas mãos trêmulas seguram meu rosto. Sua testa se apoia na minha e sinto seu hálito fresco em minhas narinas quando ele finalmente fala: — Eu estou pronto para ser apenas seu, Sarina. Você está pronta para ser minha para sempre? Ivan está me dando o direito de escolha e cabe a mim decidir se quero me entregar plenamente ao nosso amor ou traçar um novo caminho, sem ele. E quando a balança da vida exige uma resposta apenas um sentimento é importante para que a decisão seja tomada. E quanto a isso não me resta nenhuma dúvida...


CAPÍTULO 31

— Não consigo esperar mais, Sarina. Preciso que... — Sim! — Sua voz rouca me interrompe — Eu quero ser sua Ivan. Mal consigo controlar minhas mãos e muito menos meu cérebro, que agora está irracional movido pelo desejo que consome meu corpo. — Porra! Tomo sua boca vorazmente enfiando minha língua o máximo que posso. Agarro sua bunda deliciosa pressionando meu pau contra ela. Com desespero, enquanto saboreio seu gosto, desabotoo sua calça jeans arrancando-a por suas pernas e abrindo passagem para que meus dedos enfurecidos possam mergulhar em sua boceta gulosa. — Toda molhada... Ela geme. Eu rosno. Chupo seu pescoço, beijo e mordisco cada pedacinho de sua pele negra. Seu cheiro se apodera de minhas narinas libertando o animal faminto que há anos habita adormecido dentro de mim. Preciso dessa mulher como do ar para respirar. — Tem ideia do quanto eu sonhei com isso? — Seguro seu pescoço com minha mão esquerda e sou agraciado com a visão erótica de seu rosto consumido pelo prazer que ofereço a ela. Fodo sua boceta com dois dedos, atormentando o ponto mágico enquanto suas mãos delicadas me livram da calça e da cueca. Meu pau salta feliz e se acomoda em sua palma suada, quente, úmida. — Eu disse o que aconteceria se me dissesse sim, Sarina. Levanto sua perna esquerda a encaixando em volta da minha cintura. Posiciono meu pau em sua entrada e antes de meter como um tarado pervertido, encaro seus olhos nublados pela excitação. — Não vou colocar camisinha. — Aviso e vejo a surpresa em seu olhar — Você é minha e vai ser só minha como eu serei só seu. Quando eu estiver dentro, não terá mais nenhuma chance para se arrepender e voltar atrás. Tem certeza que é isso mesmo que você quer?


— Sim. — Um sorriso tímido surge em seus lábios acompanhado por lágrimas que escorregam pelo seu rosto — É isso que eu quero... O mundo a minha volta deixa de existir como eu sabia que aconteceria quando meu pau voltasse a comer a única boceta que o satisfaz. É como voltar a viver depois de anos apenas fingindo existir ocupando um lugar no mundo sem propósito algum. — Caralho! Gostosa pra caralho! — Ah, Ivan... Agarro seus cabelos com força e meto sem pensar em nada além do prazer de estar dentro da mulher que eu sempre amei. Os sentimentos se misturam, as emoções e sensações são elevadas e tudo que importa está bem aqui, na minha frente ao alcance das minhas mãos. A mulher completamente entregue a luxúria, aberta e oferecida para ser consumida por mim. Apenas por mim. Nunca mais nenhum homem irá tocá-la novamente. Nunca. Nenhum. Não vou permitir que o mal se aproxime dela, é a promessa que faço a mim repetidamente a cada estocada permissiva. Empurro meu pau com força. Soco fundo sua boceta sem me conter. Os gemidos, os grunhidos, os sussurros agora são gritos e pedidos de mais. Eu aceito e obedeço. Mais forte. Mais fundo. Mais rápido. Minhas mãos apertam sua bunda. Minha boca assalta a sua exigindo a resposta que vem rapidamente e tão alucinada quanto a foda que marca o nosso reencontro após tantos anos de abstinência um do outro. A porta de madeira determina o ritmo das investidas cada vez mais profundas. Não quero parar de comer essa boceta e a vontade de gozar se aproxima a cada investida fulminante. — Ahh... eu vou gozar Ivan... Sarina geme me deixando maluco de tanto tesão sufocado. — Goza minha putinha... — Mordo deu lábio inferior e puxo do jeito que eu sei que ela gosta — Vou gozar também. Enfio a cabeça no vão do seu pescoço e me concentro no calafrio que perpassa minha coluna atingindo minhas bolas e explode num


orgasmo fodidamente delicioso dentro da boceta mais gostosa que já comi em toda minha vida. — Puta merda! Ouço sua risada e não consigo deixar de sorrir também. Meu pau lateja dentro dela, pulsa satisfeito numa demonstração gratuita de felicidade ao alcançar o tão aclamado êxtase. — Ivan... Sua voz me chama. — Machuquei você? Questiono quando a vejo com a testa franzida. — Não, de jeito nenhum. Eu me afasto apenas o suficiente para admirar seus olhos escuros e brilhantes. — O que foi? — Nós precisamos conversar um pouco... Ela tem razão e iremos falar sobre todas as coisas que aconteceram e muitas outras que estão por vir, mas definitivamente, não agora. Arranco sua blusa pela cabeça e seu sutiã vai pelo mesmo caminho, ignorando descaradamente sua afirmação. Beijo sua boca novamente enquanto me livro das minhas próprias roupas. Minha porra escorre pelo meio de suas pernas deliberadamente. Ela é minha, finalmente. Livre de todo passado. Livre para escrever nosso futuro, junto comigo. — Nós vamos conversar Sarina, mas só depois que eu te comer a noite toda, de todas as formas que eu imaginei. — Minhas mãos envolvem seus seios arredondados — Não precisa ter pressa porque eu não vou a lugar nenhum sem você... Pego minha mulher no colo e a levo para o banheiro. Abro o chuveiro e aproveito para me ajoelhar a sua frente com a desculpa de lavar sua boceta. Abro os lábios grossos deslizando a ponta da língua por todo seu canal umedecido e inchado. — Abre as pernas, Sarina, e deixa eu te foder com a minha boca. Ela se arreganha. — Esfrega essa boceta gulosa na minha cara, bombom. — Ordeno e ela obedece segurando meus cabelos enquanto me oferece a parte de seu corpo que me faz seu refém — Isso gostosa!


Enfio dois dedos dentro dela deslizando controladamente. Chupo seu clitóris prendendo-o entre os dentes obrigando a mulata a gritar de prazer. Sarina enlouquece sob meu comando e trava uma batalha entre me afastar e me puxar para mais perto. Louca de tesão. Seu desespero recarrega minhas forças. Maltrato o pontinho responsável pela sua perda momentânea de lucidez cutucando-o fortemente com a ponta do dedo sem lhe dar trégua. Estou faminto e alucinado para come-la de novo. — Ivan! — Goza na minha boca, porra! Sarina puxa meus cabelos com força e grita matando minha sede com seu mel. Chupo até a última gota que jorra de sua boceta, radiante ao senti-la amolecer em meus braços. — Vem cá, deixa eu cuidar de você, meu bombom. Sarina segura meu rosto. Ela está sorrindo me brindando com sua beleza natural. Minha mulher nunca esteve tão linda como agora, nua, satisfeita e feliz. — Todos os dias eu sonhei que você viria atrás de mim. — Ela confessa. — Me perdoe por não ter vindo antes. Suas lágrimas se misturam com as gotas de água que caem do chuveiro quando ela descansa a cabeça em meu peito. — Não precisa me pedir perdão. O importante é que agora você está aqui agora. — Eu nunca mais vou ficar longe de você, Sarina. — Promete? — Prometo. Ela levanta a cabeça e beija minha boca antes de falar com a voz embargada pelo choro contido. — Eu te amo Ivan, como nunca amei ninguém em toda a minha vida. Afasto seu cabelo molhado do rosto. Relembro cada traço conhecido e decoro alguns novos que surgiram enquanto estivemos distantes. Nunca tive em meus braços uma mulher como Sarina e sei que se não fosse com ela, não seria com nenhuma outra.


— Eu te amei desde a primeira vez que te vi, naquele dia em que você invadiu o hospital e foi atrás da Antonela. — Confesso — Quando você me deixou, tudo se perdeu e a minha vida se transformou em um enorme buraco negro, girando em torno do nada à espera de coisa alguma. Mas sem que eu esperasse, tudo mudou novamente e de novo senti o chão se abrir sob meus pés. Sempre foi você, Sarina. Jamais houve outra em meu coração. Ele é seu e vai ser até o dia da minha morte. Eu a beijo com força, com fome, com paixão, tesão e agonia. Quero devorar essa mulher, cada pedaço dela. Chupar, morder, degustar. Viro seu corpo de frente para a parede. Sarina apoia as mãos no azulejo oferecendo sua bunda empinada para mim. — Abre as pernas. — Ordeno secamente. Esfrego a cabeça do meu pau no meio de sua bunda rosnando em seu ouvido: — Dá esse cuzinho pra mim, dá? Ela rebola jogando a cabeça para trás. Seguro seu rosto com força apertando seu queixo. — Quer que eu coma essa bunda, minha putinha safada? Quer minha rola enterrada no cuzinho, quer? — Oh, por favor, sim! — Eu sabia que a minha gostosa queria foder. Estava com saudade, não é? Ela geme, ronrona como uma gatinha sem parar de rebolar. Abro sua bunda e posiciono a cabeça do meu pau na sua entradinha apertada. Olho para baixo precisando me concentrar para não gozar antes de meter. Puta que pariu! Puxo seu quadril apertando os dedos em sua pele deixando-a marcada. Enfio devagar rosnando baixo a cada centímetro do meu pau que é engolido por seu cuzinho apertado, e quando estou quase enterrado dentro dela, solto seus flancos e agarro seus seios. — Caralho! Se estiver doendo me avisa, ou eu vou arrombar esse rabo de tanto foder. — Para de falar e me come, Ivan. O atrevimento de Sarina alavanca a libertinagem implícita em cada gesto meu. Aperto seus bicos endurecidos urrando como um


animal raro e indomável que está prestes a atracar sua presa quando seu rabo me engole e faz meu pau desaparecer dentro dele. Aperto os olhos com força. Trinco os dentes ouvindo-os ranger uns contra os outros. Quero me mexer, quero sentir, quero fazer parte de quem ela se tornou, incorporar meu corpo ao seu e torná-los apenas um. Quero me perder nessa mulher e nunca mais me achar novamente. Mordo seu ombro com força antes de comer seu cuzinho apertado, que esmaga meu pau e me obriga a gozar muito mais rápido do que eu gostaria. — Que delícia, Sarina. — Você acabou comigo, Ivan. Saio de dentro dela virando seu corpo de frente para o meu. — Isso é só o começo... Depois do banho, fodemos em cima da cama e recebi de Sarina o melhor boquete de toda minha vida antes de ela se acomodar em meu peito e dormir, extasiada e exausta. Meus olhos estão fixos no teto branco. A respiração da dona de todos os meus pensamentos é leve, quase um ressonar. Calmo. Tranquilo. Bem diferente dos meus pensamentos que são desatinados e conflitantes. Obedeço a ordem do psicólogo e encaro todos eles de frente, um a um, confrontando, esclarecendo e justificando a mim mesmo os motivos que me levaram a fazer tudo que fiz e tomar todas as decisões que tomei. É pesado, intenso e desgastante. As últimas imagens de Mikail ainda me perturbam e indagam minha consciência de forma rude, questionando se não houve exagero de minha parte. Confesso que houve e também admito que não nutro remorso ou arrependimento, muito pelo contrário. Faria tudo de novo sim, talvez até mais se tivesse que voltar no tempo. Apenas eu sei o quanto foi difícil ver Sarina chupando meu pau e não pensar naqueles filhos da puta de joelhos a minha frente. O quanto foi perturbador me deliciar ao ver a mulher que eu amo me dando prazer e me culpar por ter sentido o mesmo com aqueles desgraçados. Nesses dois últimos meses que passaram me dediquei a sessões de terapia com um dos melhores especialistas de Moscou. Não foi fácil


segurar a ansiedade e conter a necessidade do meu corpo de foder uma boceta para me livrar das lembranças daquele porão. Muitas vezes pensei em contratar uma prostituta apenas para aliviar meu tesão, mas com a ajuda de Lavinsk entendi que não era o meu corpo que precisava de alívio, e sim o meu cérebro machista e completamente fodido que precisava de uma comprovação de que a minha virilidade continuava intacta. Eu não queria outra mulher na minha vida nem na minha cama, mas tive que lutar como nunca contra as torrenciais provocações e os boicotes aplicados estrategicamente pelo meu subconsciente, diversas vezes nesse curto período, para não colocar tudo a perder e foder a única chance que eu tinha de resgatar o que havia sido perdido naquele porão e o amor da minha vida. Minha hombridade. Minha masculinidade. Meu orgulho. Sarina. Agora, ao me lembrar dos últimos momentos que passei naquele lugar ominoso as recordações não me sufocam como sufocavam. Não me atormentam como atormentavam. Nem me incomodam como incomodavam.

*** — O que vai fazer, seu louco? A voz de Nikol depois que Natasha cortou todos seus dedos dos pés e das mãos e enfiou um cano de ferro usado em uma tubulação de esgoto, encoberto por larvas brancas e gosmentas em seu rabo, sai arrastada. — Bem menos do que eu gostaria. — Aviso. Escolho uma serra pequena para arrancar suas bolas e seu membro. O garoto chora, pede, implora, clama por misericórdia, mas dentro de mim não há nada além do ódio implacável e a necessidade de lhes causar a mesma dor que me causaram. Enrolo cada uma de minhas mãos no tecido branco cortado e


reproduzo no corpo de Nikol a mesma coisa que Natasha fez com o corpo de Leonardo, salvo seu membro que eu reservo para o Pakhan. A cada membro mutilado, o garoto resmungava menos até ficar completamente em silêncio. — Chegou a sua hora, Mikail. Vou deixar os fãs do Império felizes com o seu fim, o que me diz? Ele balbucia alguma coisa ininteligível e eu me aproximo com o intuito de compreender o que o amaldiçoado está querendo dizer. — Bas... tar... do... O idiota gasta grande parte da energia que lhe resta tentando me afetar com o que ele acha que é uma ofensa para mim. Eu gargalho antes de tirar meu celular do bolso e selecionar o aplicativo de filmagem. Pego o membro de Nikol, seguro a cabeça de Mikail para cima abrindo sua boca e enfio metade das bolas ensanguentadas em sua goela, deixando o pau atrofiado pendurado para fora como um piercing gigante. — Quem é a putinha agora, irmãozinho? — Falo em seu ouvido, e não tenho dúvida de que foi a última coisa que o maldito ouviu antes de correr para abraçar o capeta nos quintos dos infernos. Despejo o querosene em seu corpo e ateio fogo. Ligo a câmera dando início a filmagem. O fogo demora a ganhar vida, mas o deleite ao vê-lo carbonizar lentamente bem diante dos meus olhos é egrégio. “Esse é Mikail, o filho bastardo de Sergei Desdeiev, que se uniu a Ruric numa tentativa pífia de ressuscitar a Bratva. O desgraçado se despede ao vivo e em cores, com seus dedos entrochados no rabo, o pau de um de seus amantes enfiado na boca e está indo direto para o inferno, já que se orgulhava em ser conhecido por seus inimigos como demônio. O aviso é direto e deve servir de exemplo a qualquer um que estiver disposto a desafiar a Império da Máfia: Tente e acabará como esse verme” *** Demorei a deixar o porão naquela noite, e quando finalmente, cheguei ao lado de fora fui recepcionado pelos homens de Fillipo que


enterravam mais de oitenta recrutas da Nova Bratva que haviam sido fuzilados durante a invasão italiana. O vídeo foi editado por Reynaldo dois dias depois e enviado aos nomes mais importantes da máfia mundial para que a notícia da morte do fodido Pakhan viralizasse, e foi o que aconteceu. A fama da Imperatriz cresceu e ganhou ainda mais notoriedade, mas foi o meu nome que ficou marcado por narrar a emblemática cena. E embora o Império seja citado por nove em cada dez pessoas que são perguntadas sobre a máfia mundial, junto com a fama veio também a inveja e a sede de sangue de nossos inimigos o que nos forçou a tomar atitudes drásticas, como por exemplo, contratar matadores de aluguel para “resolver pequenos problemas” em nosso nome. Ramona Desdeiev encabeça essa lista, contrariando todas as minhas indicações, apelos e até ordens. A garota rebelde convenceu a Imperatriz em uma conversa particular de “mulher para mulher” que se estendeu por mais de uma hora no escritório da mansão, a portas fechadas, e se tornou a primeira arma letal a contribuir para a segurança dos membros do alto-escalão. Ainda me rebelo cada vez que uma de suas missões é relatada, mas até agora Ramona tem se mostrado uma exímia profissional da morte. Foi ela a responsável pela execução de Valeska, uma semana depois da nossa chegada a Moscou. Eu havia ensinado uma pequena lição para a assistente social, na noite em que a vi na boate de Ivana acreditando que ela era apenas uma vagabunda, mas depois de descobrir através de Czar que a puta estava ajudando Mikail a Imperatriz não hesitou em mandar a vadia para a casa do caralho e foi a minha irmã a responsável pelo trabalho. Trancafiá-la em uma sala com mais de dez homens embriagados e drogados e deixa-la ser usada como bichinho de estimação por todos eles, não foi o suficiente. Palavras da Imperatriz. Natasha gostou do que viu e em poucos dias estava enviando Ramona a diversos países vizinhos para realizar serviços pequenos. Com a repercussão dos resultados da garota, decidimos manter sua identidade em completo sigilo, assim como sua verdadeira função e seu paradeiro. Ainda não sei como me sinto a respeito dessa nova profissão da minha irmã, a única certeza que tenho é que os poucos cabelos brancos


que ganhei inesperadamente são exclusivamente graças a ela e a sua maldita decisão. Sarina vira para o lado e comete um grande erro ao se afastar de mim, pois sua bunda fica descoberta e meu pau impertinente ganha vida com a visão de seu rabo empinado a minha mercê. Não perco tempo ao me encaixar atrás dela e meter gostoso em sua boceta melada. Agarro seus seios, acaricio seu clitóris, beijo seu pescoço e chupo sua orelha sem deixar de come-la com brutalidade. A mulata geme gostoso, diz que me ama e ama o que faço com seu corpo. Rebola, se arreganha e me dá total permissão para consumi-la viva. A cama balança embalando nossa trepada gostosa na madrugada. É a primeira vez que venho ao Brasil, e espero que seja a última. Quero levar minha mulher para casa, contar a ela sobre meus planos para o nosso futuro e passar o resto da minha vida assim, exatamente como estou nesse momento. Enterrado tão fundo dentro dela onde nenhum pensamento sobre passado seja capaz de me atormentar tampouco os pesadelos, e apenas a certeza de que, finalmente encontrei meu caminho ganhe espaço preenchendo tanto os meus dias como também as minhas noites...


CAPÍTULO 32 – NATASHA OLOTOF GRASSO

— O que está acontecendo aqui? — O mesmo de sempre. — Ivan responde sem esconder a satisfação que sente ao ver o semblante frustrado de Giuseppe. — Por que eu sou o único que não posso saber, Natasha? — Porque não é da sua conta. — Respondo à pergunta feita pela milésima vez pelo Consigliere, nos últimos oito meses. — Como não é da minha conta? — Ele rebate e todos nós já sabemos o que vem a seguir. — Achei que já tivesse entendido, Giu. Quer que a Imperatriz desenhe dessa vez? — Ivan aproveita para espezinhar a cara do italiano que desprezou sua irmã depois de ter tirado a virgindade da pirralha. — Cala a boca, caralho! Jogo minha bolsa em cima da mesa junto com as pastas que acabei de pegar com Sarina. Guardo minha pistola na primeira gaveta e sento-me largando o corpo sobre a cadeira giratória atrás da minha mesa. — O que veio fazer aqui, Giu? — Fillipo me pediu para ir até Dublin resolver as pendências com Flynn Moloney. — Como veio parar em Moscou? — Ergo uma sobrancelha o provocando e não posso negar que a sua insistência em descobrir o que está acontecendo com Ramona é uma das coisas mais engraçadas que já vi — Perdeu o voo ou se perdeu durante a conexão aérea? — Não estou brincando, Natasha. — Ele rosna impaciente. — Nem eu. E não estou mesmo. Quando decidimos contratar mercenários para executarem nossos inimigos declarados pelos cinco continentes, a pirralha não era uma opção, mas ela veio até mim e me convenceu de que podia ser a pessoa certa para dar o pontapé inicial nessa nova empreitada do Império.


Óbvio que Ivan e Fillipo foram contra, mas a pirralha tinha um argumento infalível que me deixou de mãos atadas. *** — Ramona, eu sei que está fazendo isso para fugir daqui e não ter que encarar Giuseppe. — E se for? Qual o problema? Isso não tira os méritos de tudo que aprendi e do que posso fazer para executar essa função. — É perigoso e seu irmão não vai concordar. — Minta ou então faça como você fez quando me convenceu a ajudar o Império contra Mikail. — O que foi que eu fiz? — Quero ver até onde vai sua ousadia. — Mentiu e omitiu informações do seu Konsult’ant. — Foi para o bem dele. — Agora também será. — Ramona tem uma determinação em seu olhar que eu vi em poucas pessoas, muito poucas para ser sincera. — Ivan vai ficar preocupado. — Eu sei que vai, mas apenas no começo. Quando ele perceber que não sou a garota frágil que aparento ser meu irmão vai se acostumar. — Quem me garante que você sabe mesmo o que está fazendo? — Me deixe provar. Eu só preciso que confie em mim para mostrar que uma mulher com a minha aparência e as minhas habilidades, é a melhor arma que o Império vai ter contra os homens que ameaçarem a vida de qualquer um de vocês. — E se você falhar? Ela dá de ombros. — Não vou. — Como pode ter certeza? — Do mesmo jeito que você sabe que uma mulher que é criada pela máfia tem apenas duas opções: ou ela se torna a melhor entre os homens ou sucumbe a eles. Eu sou a melhor que você vai ter Natasha, e você também sabe disso. ***


— Eu só quero saber como ela está. — Ramona está ótima, Giuseppe. — Ivan tira o telefone do bolso do paletó e mostra o display com a fotografia do perfil de uma mulher, em preto e branco — Nunca vi minha irmã tão... feliz desde que nós nos conhecemos. O italiano fica vermelho e grunhe. — Essa foto nem é da Ramona, Ivan! — Claro que é. — Não é. Eu conheço aquela mulher como a palma da minha mão, meu amigo, e garanto que essa fotografia é uma montagem. Meu konsult’ant fica em pé e caminha na direção do primo de Fillipo. Seu sorriso escrachado é a prova de que a sua provocação não tem limites. — Sabe aquela menina que você acusou de ter sido o maior de todos os seus erros? — Ivan bate algumas vezes sobre o ombro do Consigliere sem esconder o sorriso — Ela não existe mais e se eu fosse você, esqueceria essa história de uma vez, porque eu garanto, meu amigo, a Ramona com certeza já esqueceu. Antes de Ivan sair do escritório, ele olha por cima do ombro diretamente para Giuseppe, que ainda está vermelho e espumando de raiva e coloca um fim à sua petulância: — Se quiser tirar suas próprias conclusões Giu, daqui a duas semanas minha irmã voltará a Rússia para o meu casamento, mas o meu conselho é para que não se iluda. Se Ramona se transformou em uma mulher fria e descrente do amor a culpa foi sua por ter jogado o coração dela no lixo quando ela o entregou a você. Agora aguente as consequências... Quando a porta se fecha, Giuseppe abaixa a cabeça respirando com dificuldade. Nunca vi esse italiano agir desse jeito por causa de nenhuma mulher e ainda tenho dúvidas se ele está assim por Ramona ter seguido em frente sem ter rastejado como todas as outras fizeram, ou se Giu realmente se arrependeu de ter dispensado seu “erro”. — É verdade? A voz é tão baixa que eu quase não ouço. — O que? — Isso que o Ivan falou. — Ivan falou muitas coisas Giuseppe, seja mais específico.


Claro que eu sei do que ele está falando, mas ainda que quisesse, não posso contar tudo que sei a respeito da vida da pirralha. — Não faça isso, Natasha. — Seus olhos azulados manchados de vermelho destacam as poucas linhas de expressão que começam a surgir — Apenas a verdade, eu preciso saber. Mordo a tampa da caneta analisando o loiro que me encara fixamente. Nos últimos oito meses estamos vivendo um bom período no Império. Os negócios vão bem, os inimigos se aquietaram e os que insistem em nos ameaçar a pirralha aniquila. Mas em Palermo as coisas não estão tão fáceis assim. A doença de Perla está consumindo a nonna em vida e consequentemente, seus bambinos sofrem sem moderação. Fillipo passa quase todos os dias trancafiado no quarto do hospital e se recusa a abandonar a avó em seus últimos momentos. Em contrapartida os negócios ficaram por conta de Giuseppe, e embora o Império ajude em tudo que pode, algumas coisas precisam ser resolvidas pessoalmente e nesses casos, apenas o Capo, o Consigliere e seus subordinados podem atuar. — Quer saber se Ramona mudou? — Quero saber tudo que puder me contar sobre ela, Natasha. — Ele se levanta me sensibilizando com seu desespero e inquietação — Eu sei que fui um canalha e sei que todos vocês me disseram para me afastar dela antes que dessa merda, mas... porra! Eu não consegui e acabei falando o que não devia. Mas depois de algumas semanas as coisas começaram a mudar dentro de mim. Giu anda de um lado para o outro dentro do escritório. Ele gesticula e fala alto como todo bom italiano. Seu rosto ainda estampa dor, mas agora é como se ela representasse seu arrependimento e não mais a sua frustração por não ter notícias da garota. — Eu não sei explicar o que é. Não sei denominar o que sinto. Tudo que eu sei é que quando eu caí na real já sonhava com ela todas as noites, procurava por ela em todos os lugares, pensava nela enquanto fodia outras mulheres, imaginava que era ela na minha cama quando acordava. Cavolo di cazzo! — Giuseppe para de falar, esbaforido — Me diga que isso não é verdade e que esse figlio di puttana só disse aquelas coisas pra me deixar pior do que eu já estou, Natasha, por favor. Eu posso rir, gargalhar e jogar na cara dele que tudo que está


acontecendo é sua culpa, que ele foi o único culpado, que eu estava certa quando disse que um dia o garanhão italiano ia se ferrar por ter esnobado as mulheres russas e blá, blá, blá. Mas Giuseppe está tão, tão fodido, que até eu estou com pena e decido agir com solidariedade para provar que não sou uma mulher sem compaixão, como as pessoas insistem em afirmar. — Sinto muito Giu, mas o que Ivan falou é verdade. — Sobre o que exatamente, Natasha? — Sobre tudo. — O que? — Ele rebate descrente — Não é possível. — Você me pediu a verdade Giuseppe, eu te dei a verdade. Se vai acreditar ou não, o problema é seu e não meu. — Como vocês querem que eu acredite que em menos de um ano, a Ramona mudou completamente e se transformou em uma garota fria e sem coração? Foram essas as palavras de Ivan, não foram? — Ele fala com a voz alterada e aponta os dedos numa contagem — Fria e sem coração! De repente, quero bater em sua cabeça com o cano da minha pistola e faze-lo entender que uma mulher não precisa de mais de uma hora para mudar completamente. Ela só precisa do estímulo certo. — Primeiro, não existe mais “uma garota”, Giuseppe. Ramona é uma mulher feita e em nada se parece com a menina que você fodeu em Sóchi. — Seus olhos se arregalam, mas agora quero mais é que se lasque — Segundo, a Ramona que você conheceu nunca foi uma mulher tapada, burra e inofensiva, a única diferença entre ela e todas as outras se limitava na falta de experiência sexual. Não sei o que aconteceu, mas aposto meu Império que você não tirou apenas a virgindade dela ou ela não teria me pedido o que pediu e feito tudo que fez e.... continua fazendo. — Dio santo! — Ele se joga no sofá completamente derrotado — Não pode ser. Ela não pode ter mudado tanto, Natasha! Nos encaramos por alguns segundos. — Posso garantir que foi para muito melhor, Giuseppe. Deveria se sentir orgulhoso por ter conseguido tamanha façanha. — Natasha, por favor, olha pra mim e fala: o que aconteceu com a garota que nós conhecemos a oito meses atrás? Inspiro profundamente quando meus olhos recaem sobre o meu


celular que brilha em cima da mesa com a mesma imagem que Ivan mostrou a Giu antes de sair do escritório. — Aquela garota morreu Giuseppe. E se eu fosse você aceitaria o conselho de Ivan e esqueceria essa história de uma vez. — Não! — Ele nega veementemente — Não vou desistir de encontrar a Ramona. Eu preciso falar com ela e me explicar. Seguro o aparelho para que o italiano não veja quem está me ligando e falo encerrando a nossa conversa: — Você é bem grandinho para saber o que faz, mas depois que fizer merda de novo não adianta se lamentar. — Aponto para a porta — Agora saia que eu preciso atender essa ligação. Os ombros do italiano despencam para frente. Ele está completamente derrotado. — Estou a caminho de Dublin. Fillipo está com Perla e disse que o estado dela é crítico. Se precisar de alguma coisa é só me telefonar. — Obrigada, Giu. Peça para Ivan e Sarina virem aqui, imediatamente. — Está atrasada. — Falo no mesmo instante em que a porta do escritório se fecha. — Meia hora não é atraso. — O que aconteceu? — Tive que adiar. — Por quê? — Eles estão indo para a Irlanda e se encontrarão com o fornecedor em Dublin amanhã ao meio-dia. — O que pretende fazer? — Ir com eles. — Quantos são? — Doze no total. Esfrego a testa e inspiro o ar numa tentativa avariada de conter a porra da preocupação. Sempre soube que Ramona era uma mulher corajosa e destemida, mas nunca pensei que fosse uma contempladora do perigo. — Ramona, não quero que se arrisque dessa forma. — Falo calmamente — Siga para a Romênia e faça o próximo serviço, quando finalizar pode voltar aos Estados Unidos e acabar com os irmãos. — Se perder essa oportunidade, não saberemos quem realmente


está dando as ordens, Natasha. A pirralha tem razão. Ela descobriu que em algum lugar do mundo existe um grupo, conhecido apenas como “The Cleaners” (1) juntando forças e aliados para eliminar os maiores criminosos do planeta. Ninguém nunca os viu e pelo que Ramona descobriu, o grupo também não mantém um endereço fixo para evitar de serem descobertos. Alguns mafiosos dizem que o grupo é formado por ex-policiais norte-americanos, outros afirmam que são homens comuns revoltados com a criminalidade ou que tiveram entes queridos assassinados por facções criminosas. A verdade é que ninguém sabe quem são, onde se encontram e o que querem realmente. Mas Ramona tem uma teoria interessante e bem plausível, por isso está determinada em seguir para a Irlanda com Bryan e Steve Sandler, os irmãos que prometeram servir minha cabeça em uma bandeja de prata em um jantar beneficente em Nova York. — Conseguiu mais alguma informação sobre o ponto de encontro? — Ainda não, mas o voo será daqui a quatro horas e até lá pretendo me enturmar com os seguranças para descobrir o local exato. — Ramona... — Começo a adverti-la, mas sou interrompida pela entrada de Ivan e Sarina — Eu... — Sem sermão dessa vez, Natasha. Não preciso de uma mãe agora. Quero catar a pirralha pelos cabelos e dar umas boas palmadas em seu traseiro branquelo. Eu entendo que ela queira seguir a vida e acredito que toda essa merda que criou em sua cabeça sobre a maldição do amor só vai ter fim quando encontrar alguém que ame de verdade, ou no caso, reencontrar alguém. Mas Ramona está indo por um caminho perigoso, embora não posso negar que é um tanto excitante e até.... prazeroso, ela coloca a própria vida em risco constantemente ao se envolver com os mais impiedosos marginais do mundo. — Salva pelo gongo, pirralha! — Murmuro para que Ivan não me ouço — Seu irmão acabou de chegar. — Graças a Deus.


— E você por acaso acredita em Deus? Nós duas gargalhamos, e é em momentos como esse que eu sei que gosto demais dessa pirralha e jamais vou me perdoar se algo acontecer com ela. — E Ele que não acredita em mim, Imperatriz. — Bom... não posso negar que muitas vezes eu quero te matar, mas definitivamente, confio em você, Ramona. Ela fica em silêncio e parece que ainda absorve minhas palavras. — É bom saber disso, obrigada. — Não me agradeça, você está sendo muito bem paga para colocar essa bunda pálida em perigo. — Da próxima vez que te ligar vou te contar o que aprendi em um clube exótico de putaria que tem no Texas. Abafo a risada sob o olhar atento de Ivan. Sarina estreita os olhos e cai na gargalhada quando pisco em sua direção. Ela sempre é convidada a ouvir as histórias de Ramona em suas aventuras sexuais pelo mundo e a cada ligação da pirralha, nós descobrimos coisas novas para incrementar o sexo em casa. — Vou aguardar ansiosa a sua ligação. — Ivan faz um sinal com as mãos me pedindo para confirmar a presença da irmã em seu casamento — Você vem para a cerimônia, certo? — Claro que sim. — Sua falsa animação não me contagia — Mas não poderei ficar muito tempo. — Venha e fique o tempo que puder. Todos estão com saudade de você, Ramona. — Eu também estou, Natasha. — Nos encontramos em duas semanas, pirralha. — Sim senhora, Imperatriz. Encerro a ligação e encaro o casal a minha frente. — Ela está indo para Dublin hoje à noite e amanhã vai acompanhar os irmãos no encontro com o homem que pediu a minha cabeça. — Temos alguma ideia de quem são esses caras? — Ainda não. — Acha que Moloney tem razão sobre eles serem ex-policiais? — Ramona tem certeza que são agentes norte-americanos. — Por que se reuniriam para matar criminosos?


— Esse é o ponto, Ivan. A pirralha acha que o Governo ou alguém de dentro da Casa Branca está por trás de tudo. O grupo foi criado para tirar o foco de quem realmente financia a “limpeza”. — Se isso for verdade, é muito pior do que imaginávamos, Natasha. — Eu sei. Precisamos nos preparar porque estamos na lista de criminosos mais perigosos do mundo, segundo o Governo americano. — É um privilégio para você encabeçar essa lista, Imperatriz. — Mas é a sua irmã que está arriscando a cabeça para me proteger Ivan, e isso não é privilégio nenhum... Meu telefone toca e o nome do meu marido aparece na tela. Encaro meu konsult’ant e sua futura esposa, ciente de que estamos prestes a receber a notícia que já era esperada, mas que nenhum de nós está de fato preparado para ouvir. — Meu Capo. Ouço seu choro contido do outro lado e meu coração se aperta pela dor do homem que eu amo. — Ela se foi, angelo mio... minha nonna se foi... — Estamos a caminho. — Non ritardare... — Não vou demorar, prometo. Eu amo você, meu Capo. — Ti amo, mia Imperatrice. Sem precisar de uma só palavra, deixamos a mansão em Moscou e seguimos para Palermo em meu avião particular. Durante o voo fito Ivan e Sarina, sentados à minha frente, abraçados e profundamente apaixonados. Penso que a morte de Perla representa o fim de uma geração de mafiosos que perpetuou o crime de maneira rude, crua e perversa. E o casamento do casal que passou por todos os tipos de provações até finalmente, se livrar do passado e permitir que o amor tomasse a frente de suas vidas, só confirma que mais uma geração de mafiosos está por vir. Tão rude, tão crua e tão perversa quanto a que se foi com a morte da nonna de Filippo Grasso. A dúvida que surge em minha cabeça é se a dosagem de maldade que impregna nosso sangue mafioso será mantida ou virá ainda mais alta em nossos filhos.


Pietro Olotof Barbieri Grasso foi o primeiro, e carregará a hierarquia de duas máfias em seu nome. Nunca na história um herdeiro acumulou tal responsabilidade. Encaro Ivan e seus olhos esverdeados e torço para que seus filhos sejam tão leais ao meu, quanto ele é a mim. Em meio a crueldade, durante uma hora dentro desse avião sou presenteada com a mais pura e verdadeira prova da existência do amor entre um homem e uma mulher. Ivan e Sarina não se esforçam para transbordar o sentimento que já tomou seus corpos e agora precisa extravasar para que o mundo assista, venere e inveje a devoção e a adoração que reina abertamente em suas vidas. Lembro de Ramona e sorrio tristemente, pois apesar de saber que ainda é jovem e tem uma vida inteira novamente, sei que ela fará de tudo que estiver ao seu alcance para evitar a toda custo, o que um dia a destruiu e também torço para que Giuseppe consiga atingir seu objetivo e convença a pirralha a dar mais uma chance para o amor. Tudo bem, talvez eu esteja querendo demais da garota, mas depois de tudo que Ivan Keritov fez em nome do seu amor pela mulata, nada nesse mundo pode me surpreender. Um homem que abre mão do próprio orgulho, é de fato, um homem que merece ser feliz... O avião pousa em Palermo e eu desço correndo para me jogar nos braços do meu Capo, do meu marido, do homem da minha vida. Somos mafiosos, criminosos, desprovidos de compaixão e adoramos matar, mas somo leais aos amigos e amamos com a mesma voracidade com que odiamos. Assim são os mafiosos. Assim é o Império da Máfia. (1)

OS LIMPADORES


EPÍLOGO

Se eu estou nervoso? Para caralho! Acho que nunca fiquei assim. — Sarina Oliveira. Minha mulher levanta a cabeça que está apoiada em meu ombro e se levanta ao ouvir seu nome. — Vamos? — Ele me oferece sua mão, mas eu não consigo me mexer — Se continuar com essa cara de assustado a médica vai duvidar que é um mafioso temido no mundo todo. — Nenhum inimigo nunca me deixou apavorado desse jeito, (1) konfeta — É só um exame, Ivan. Levante logo e vamos entrar, ou vai ficar aqui me esperando e não... — Já entendi, porra! — Murmuro irritado evitando chamar a atenção das outras mulheres barrigudas que estão acomodadas na sala de espera e me olham como se eu tivesse três olhos e alguns pares de chifres. Minhas pernas ainda tremem quando entramos no consultório da mulher que irá examinar Sarina. — Bom dia. Sentem-se. — Ela fala atrás da mesa — Como está se sentindo, Sarina? — Bem, apesar do sono que parece não ter fim. — Minha mulata maravilhosa responde com um largo sorriso em seus lábios carnudos. — Isso é muito comum no início da gravidez, assim como os enjoos. Está pronta para fazer o primeiro ultrassom? — Estou. Ela aperta minha mão com força. Ainda não sou capaz de formular nenhuma frase e nem sei se vou chegar inteiro ao final da consulta. — Pode tirar a roupa e vestir o avental que está atrás da porta do banheiro. Vou arrumar a maca para você. — A voz calma da mulher de meia idade aponta o quanto isso é comum em sua vida, em seu cotidiano


— Pode sentar-se aqui, senhor Ivan, assim vai conseguir ver melhor as imagens na tela do computador. Respiro profundamente. Apoio as mãos no estofado da cadeira me colocando de pé e apresso os passos até o espaço reservado para a realização do primeiro, de muitos exames que serão feitos nos próximos nove meses. Alguns dias após o funeral de Perla, em Palermo, Sarina começou a passar mal e vomitar. Fiquei preocupado achando que minha mulher estava nervosa com a aproximação do nosso casamento que será amanhã e pedi para que um médico conhecido a examinasse em casa mesmo. A suspeita de que ela estivesse grávida foi imediata e nos pegou de surpresa. Confesso que desde fui ao Brasil e a fiz minha novamente, eu estava esperando por essa notícia, mas quando a confirmação chegou, meu cérebro deu pane e todas as minhas convicções foram colocadas a prova. Em um mundo perfeito nosso filho seria criado em uma casa ampla, cercada por um enorme jardim e viveria tranquilamente sob os cuidados de seus pais. O problema é que não somos pessoas normais, não vivemos em casas amplas nem desfrutamos de tal tranquilidade ou liberdade. Nossa casa é cercada, mas não por um jardim, e sim de seguranças fortemente armados que irão atirar para matar qualquer invasor. Temos professores particulares que ensinam os herdeiros do Império em uma escola particular, atualmente frequentada por apenas um aluno, Pietro Olotof Barbieri Grasso. E todos nós, de dentro da mansão, temos acompanhado a solidão do garoto diariamente em sua jornada de aprendizagem, que infelizmente, seguirá por mais alguns anos até que o meu filho, o segundo herdeiro, tenha idade para iniciar sua própria jornada. Poderia ter sido diferente, mas não foi. Deveria ter sido diferente, mas não foi. Então... não me resta nada além de fazer o melhor por essa criança que virá ao mundo indefesa e será inserida em um mundo distinto, que gira em torno do mundo das pessoas consideradas “normais”. O Império da máfia.


Esse é o nosso mundo e é nele que vivemos. São suas regras que seguimos. Suas Leis que respeitamos. Sua Imperatriz que obedecemos e é dessa forma que somos felizes a nossa maneira. Fico me perguntando se escolheria outra vida se tivesse a opção de mudar, e não preciso de mais de poucos segundos para encontrar a resposta. Não, eu não mudaria nem se pudesse, porque não consigo imaginar minha vida sendo vivida de outra forma, em outro lugar ou com outras pessoas. Ajudo Sarina a se acomodar sobre a maca branca. A médica espalha um gel sobre sua barriga, ainda plana, e liga o aparelho conectado ao computador de última geração que passa a exibir uma imagem borrada em branco e preto. São linhas estranhas e um barulho difícil de interpretar. É como se tivesse um microfone dentro do estômago da minha mulher que transmite em tempo real sua digestão. — Este aqui é o bebê de vocês. Com nossos dedos entrelaçados, focamos no minúsculo pontinho que a médica afirma ser o nosso filho, mas sinceramente, tenho muitas dúvidas. — E este é o som do coraçãozinho dele... Sinto o suor em nossas palmas unidas e quando a médica aumenta o volume do aparelho permitindo que o estrondo rápido e, inexplicavelmente familiar, invada o ambiente como uma rajada de tiros certeiros, todas as dúvidas que teimam em questionar aquele pontinho, simplesmente desaparecem. — É o nosso bebê, Ivan... A voz de Sarina me tira do traspassamento e eu a encaro. Seu rosto brilha com as lágrimas que escorrem e encharcam sua pele negra. Seu sorriso ilumina minha alma que viveu perdida por muitos anos sem saber para onde ir esperando o seu retorno. Seus olhos confessam seu amor através de sua íris escura. Um soluço escapa, mas então percebo que é o meu peito que sacode e quem está chorando como uma criança, sou eu. — É o nosso bebê... — Seco seu rosto ao som do tambor apressado que eu poderia ficar ouvindo por horas. — Obrigado meu amor.


Descanso minha testa na dela e choramos juntos, compartilhando um dos melhores momentos que já compartilhamos até hoje. Beijo seus lábios enquanto ela retribui o favor secando as minhas lágrimas. — Como viram, o bebê é saudável e está completando dez semanas. — Eu me afasto de Sarina e volto a atenção para a tela onde o pequeno ponto continua sua missão de me encantar sem deixar de ouvir o que a obstetra fala — Vou esperar você se trocar para falarmos sobre as vitaminas que irá tomar e decidir o que faremos em relação as medicações que está tomando. A médica se levanta e nos deixa a sós. — Não vou conseguir dormir sem o remédio, Ivan. — Nós vamos dar um jeito, meu amor. Não se preocupe com isso. Eu seguro sua mão para que ela desça em segurança e a acompanho até o banheiro. Volto ao consultório sentando-me à frente da médica. — Minha mulher toma alguns remédios diariamente com o acompanhamento do psicólogo. Quais são os riscos para o bebê se ela não parar com a medicação durante a gravidez? A verdade é que eu também tomo alguns remédios para dormir. Depois que voltamos a Rússia, Sarina concordou em me acompanhar nas sessões de terapia e passamos por várias etapas de um processo doloroso de aceitação, visando alcançar a superação até nos libertarmos do passado. A palavra “definitivamente” é o próximo passo, mas para alcança-la ainda temos um longo caminho a percorrer e até lá, usamos a palavra “parcialmente”, pois ela representa com mais honestidade a fase em que nos encontramos. Superamos muitas coisas, aceitamos outras tantas, mas ainda somos pisoteados com lembranças aterrorizantes que impedem a atuação do sono reparador. Em uma de nossas sessões, Lavinsk nos questionou se estávamos usando o sexo intenso para provocar o esquecimento momentâneo das merdas que lutávamos para ignorar, e depois de muita conversa chegamos à conclusão que sim. As trepadas durante o dia e à noite sem restrição de horário, dentro do carro, no escritório, no elevador, em provadores de lojas ou


em banheiros de restaurantes ajudavam a afastar a dor enclausurada e enfatizada pelas memórias ainda recentes. Mas também usávamos o álcool, o trabalho, a violência e o amor da mesma forma, então sabíamos que estávamos buscando a cura, ou ao menos, a melhora progressiva de várias maneiras e o sexo, havia se tornado apenas mais uma válvula de escape. E só estava sendo mais requisitadas do que as outras, por ser disparadamente a mais prazerosa de todas. Foder Sarina sempre foi o meu passatempo favorito, e quando experimentei seu corpo pela primeira vez, não havia passado entre nós. O que importava mesmo era que estávamos juntos, nos amando, nos conhecendo, nos entregando e nos apoiando um no outro para cruzarmos a linha de chegada. Não importa quando tempo demorasse, pois não havia nenhuma dúvida de que conseguiríamos, contanto que estivéssemos juntos. — Os riscos são incontáveis Ivan, e eu não recomendo o uso de qualquer medicação nesse período. — Ela não vai tomar nenhum remédio. — Afirmo quando Sarina se acomoda ao meu lado apoiando sua cabeça em meu ombro novamente — Quando voltarmos da lua-de-mel passaremos em consulta com o psicólogo e vamos decidir o que fazer com mais calma. — Existem algumas opções alopáticas que podem ajudar e vocês podem procurar ajuda nos exercícios físicos para provocar a exaustão muscular, o que também melhora o sono. — Tudo que pudermos fazer, será feito. — Aqui estão as primeiras fotos do bebê. — Ela entrega três imagens do pontinho borrado — Vou deixar agendada a próxima consulta e receitar as vitaminas, mas se acontecer alguma coisa não deixem de me ligar a qualquer hora. — Obrigada, doutora. — Sarina fala com as pálpebras pesadas. Minha mulher dorme antes de chagarmos em casa. Telefono para Natasha informando sobre a consulta e confirmo que está tudo pronto para a cerimônia que acontecerá no dia seguinte. Abro uma garrafa de uísque e me sirvo de uma dose generosa. Sento-me na poltrona e encaro o céu de Moscou no fim da tarde de sexta-feira. Fecho os olhos sem medo de ser consumido pelas lembranças que, com menos potência, ainda diligenciam em me levar ao


fundo do poço. Mas pela primeira vez nos últimos oito meses, não é o rosto de Mikail, Nikol ou Czar que ocupam minha mente, e sim o pontinho solitário rodeado por linhas, borrões e órgãos. Sorrio com a facilidade de imaginar uma menininha com a pele da cor do chocolate mais adocicado que existe, cabelos desalinhados que balançam quando ela corre em minha direção, sorrindo o mesmo sorriso de sua mãe antes de se jogar em meus braços me chamando de “Papai”. Posso sentir seu cheirinho de fruta, o calor de seu corpinho macio e me orgulhar ao ver em seus olhos arredondados o mesmo verde estampado nos meus. Ela é perfeita, linda e não consigo encontrar uma descrição para o que sinto dentro de mim. Só posso dizer que não há nada tão grande e forte quanto o desejo de tê-la em meus braços para amar, cuidar e protege-la com a minha própria vida. Eu me deito ao lado de Sarina e tenho a melhor noite de sono agarrado a minha mulher e nenhum passado consegue superar a menina dos meus sonhos. Moya doch’... (2) ***

— Meus parabéns Ivan! — Obrigado Fillipo! — Sarina já sabe onde será a lua de mel? — Ainda não. Ela já está preocupada com a viagem, então achei melhor poupá-la dos detalhes. — Quantos homens vai levar? — Dez. — Acha que eles dão conta? — Ramona estará lá e ela que vai fazer a parte mais “complicada”. — Por falar nisso, ela não disse que viria hoje? Olho para os lados a procura da minha irmã, mas não a vejo. O jardim da mansão está decorado com flores por todas as partes. Os convidados conversam, dançam e se divertem depois de terem presenciado a cerimônia onde Sarina se tornou oficialmente


minha esposa. — Não sei o que pode ter acontecido. — Retiro o celular do bolso interno do smoking confirmando que não há nenhuma mensagem dela. — Talvez só esteja atrasada. — Qual foi a última vez que falou com Ramona? — Há duas semanas, antes de ela ir a Irlanda com os irmãos Sandler. — Giuseppe me disse que tentaram matar Flynn Moloney no mesmo dia em que esses irmãos estiveram em Dublin. — Não sei se ele é tão poderoso assim para estar na lista do The Cleaners. — Também achei estranho, mas não foi coincidência o ataque ao irlandês e se Ramona ainda não deu notícias é porque descobriu alguma coisa importante. — O prazo para ela no Brasil é quarta-feira, caso não apareça vou ter que cuidar pessoalmente do sujeito. — Tome cuidado, Ivan. Ele já provou que não é um idiota qualquer. — Não pretendo perder tempo com trabalho Fillipo, e se a Sarina descobrir o que estamos fazendo é capaz de me matar. — Qual a graça de estar casado e não ser ameaçado de morte? — Você tem razão, depois que as mulheres começaram a dominar a máfia, o casamento se tornou muito mais perigoso do que enfrentar um inimigo. — Somos privilegiados, Ivan. — Sem dúvida, Fillipo. O Capo aponta para a mesa onde seu primo está sentado em uma mesa acompanhado apenas por uma garrafa de conhaque e um copo. — Tem gente que também está ansioso pela chegada de Ramona. — Estou começando a ficar com pena... — Minto sorrindo com deboche. — Quem um dia diria que Giuseppe Grimaldi Grasso estaria de quatro por uma mulher? — Giu não está de quatro Fillipo. — Rebato — Ele só não se conforma de Ramona ter ido embora sem lhe dar qualquer satisfação. — Acredite em mim, Ivan. — O Capo apoia a mão direita em


meu ombro e ergue a taça para brindarmos — Meu primo nunca se importou com mulher alguma, mas desde aquele maldito dia em Sóchi, Giuseppe parece outro homem. — Ele ainda duvida que ela tenha mudado? — Não, minha mulher falou a mesma coisa que você, mas pelo jeito Giuseppe só vai acreditar quando ver com seus próprios olhos. Um dos seguranças se aproxima avisando discretamente que tem uma mulher no portão pedindo a minha presença. Aviso Sarina que Ramona quer falar comigo e sigo apressadamente para fora da mansão. — Mas que merda! — Não posso demorar, só vim te dar um abraço. Minha irmã está vestida de couro da cabeça aos pés. Está usando luvas e segura um capacete preto completamente escuro. Olho para a moto estacionada e quase tenho uma parada cardiorrespiratória. — Não me diga que está pilotando essa merda! — Foi o único jeito que encontrei de vir aqui sem levantar suspeitas, Ivan. — Ela está agitada — Preciso falar com você e tem que prestar muita atenção. — O que está acontecendo Ramona? — Eu estava certa sobre o The Clinears. Eles recebem ajuda de uma divisão do Governo americano para “varrer” os maiores criminosos do mundo sem comprometer os verdadeiros mandantes. — Conseguiu a lista? — Ainda não, mas entendi como eles estão agindo e ao contrário do que pensamos os alvos não serão os chefões. — Não? — Não, eles acreditam que é mais fácil destruir uma organização se destruírem a pirâmide por baixo. Mas apenas o alto-escalão. Nada de perder tempo com os soldados e rua. — Então... — Redobre a sua segurança e avise Fillipo para fazer o mesmo. — Fillipo? — O ataque em Dublin não foi contra Molloney, eles queriam o Consigliere. — Giuseppe? — Foi tudo muito bem armado e quase deu certo. — O que aconteceu? Por que eles falharam?


— Porque eu fiz o meu trabalho. — Ouvimos vozes alteradas vindas do jardim da mansão — Encontro você em alguns dias e avise sua mulher que eu quero ser a madrinha da sua filha. Ramona beija meu rosto, monta em sua motocicleta preta de corrida e parte em disparada sem perder tempo. O barulho do motor impede que os chamados de Giuseppe sejam ouvidos. O italiano ainda tenta correr atrás do veículo de duas rodas, mas desiste facilmente quando Ramona desaparece de nossas vistas em alta velocidade. — O que foi isso, Ivan? — Giu ofega com o rosto vermelho. — Isso foi o último aviso para você esquecer a Ramona de uma vez. — Brado deixando-o para trás. — Eu não vou desistir, Ivan! Finjo que não escuto sua afirmação de merda. Continuo meu caminho de volta a mansão avistando minha esposa conversando com um casal. Não vejo a hora de embarcar para o nosso destino e aproveitar os trinta dias de férias longe de tudo e de todos. — Podemos ir? Sussurro em seu ouvido. Sarina gira seu corpo envolvendo seus braços em torno do meu pescoço e cola sua boca na minha. — Ramona? — Já foi embora. — Problemas? — Alguns. — Quando ia me contar sobre o que vai acontecer no Brasil? Aperto os olhos abaixando a cabeça, envergonhado por ser pego em flagrante. — Não ia contar. — Por que, Ivan? — Porque não quero que se aborreça com esse tipo de coisa. — Esse tipo de coisa é o seu trabalho e o meu também. — Eu sei, mas.... Ela coloca os dedos em meus lábios impedindo-me de terminar a frase. — Você me prometeu que eu seria sua e que você seria meu, por inteiro. Não quero apenas as coisas boas, as alegrias, o dinheiro e o


luxo. Quero dividir tudo com você inclusive as preocupações. Eu te amo Ivan, e não tente me esconder nada porque eu vou descobrir, aliás, já deveria saber disso, certo? — Me perdoe... você está certa. Prometo que conto tudo quando chegarmos ao Rio de Janeiro, está bem? — Hum hum... por que não aproveita para se desculpar enquanto eu troco de roupa? — Eu sei tenho um jeito ótimo de te pedir perdão. — É mesmo? — Sim, e pra mostrar o quanto eu estou arrependido, vou ficar até de joelhos. Sarina gargalha. Eu a arrasto para dentro da mansão e subo com ela em meus braços até o quarto colocando-a sobre a cama. A barra do vestido branco sobe expondo a cinta-liga da mesma cor fazendo meu pau endurecer ainda mais com a visão da boceta de Sarina sob a renda delicada e minúscula. — Acho que vou começar a fazer uma merda atrás da outra só para ter que me desculpar com você o tempo todo. Eu me acomodo de joelhos entre suas pernas e acaricio o interior de suas coxas com as pontas dos dedos, quando nossos olhares se cruzam. — Pode começar agora mesmo... Cubro seu corpo com o meu e a beijo apaixonadamente. Depois de tantos anos Sarina se tornou minha esposa, mas ela nunca deixou de ser a única mulher que amei. A minha mulher. Não foi fácil e tive que buscar ajuda profissional para entender que o orgulho na medida certa torna um homem digno, mas quando atua com excesso é o maior aliado do fracasso. Se o meu amor por ela não fosse tão grande e verdadeiro, eu não teria chegado onde cheguei. Não teria tido a vontade de ser um homem melhor do que era. Não alcançaria a humildade de admitir que não fui humilde quando deveria. E não teria conquistado a coragem para ir atrás de Sarina com meu coração aberto e pedir para que voltasse a ser minha. Porque eu sabia que eu nunca encontraria a felicidade se não estivesse com essa mulher.


A minha mulher. A minha esposa. Para sempre...

(1)

BOMBOM

FIM


O PRE Ç O DA MINHA LIBERDADE SÉRIE IMPÉRIO DA MÁFIA – LIVRO 4

LANÇAMENTO JULHO/2019


SINOPSE

Ramona Desdeiev teve uma infância difícil e tudo piorou quando foi vendida pela própria mãe e obrigada a fazer parte de um plano de vingança para destruir o Império Russo e.... seu próprio irmão. Em meio ao caos e a violência da máfia, ela conhece Giuseppe, o Consigliere. Lindo, arrogante e promíscuo, o loiro forte e bem-humorado tirou Ramona de sua zona de conforto e, como bônus, sua virgindade — que ela guardava para o noivo arranjado por seu avô —, em uma noite inesquecível com direito a muito sexo e promessas não cumpridas. Para Ramona, Giuseppe não foi apenas um homem em sua cama, uma transa casual ou um ato desesperado de uma jovem virgem e iludida. Ele foi o primeiro homem que a conheceu verdadeiramente e por quem ela se apaixonou perdidamente. Mas Ramona descobriu da pior forma que para o italiano garanhão, tudo que viveram entre aquelas quatro paredes não havia passado de um “erro”. O maior de todos que ele já havia cometido. Vida que segue. Bola para frente. É o que dizem... e foi exatamente o que aconteceu. Bom para uns, péssimo para outros. Dois anos depois, o Império havia transformado Ramona em uma arma letal, programada para aniquilar inimigos por todo o globo terrestre levando a mensagem de que a máfia russa não permitia falhas, não tolerava traições de seus aliados e não pouparia os inimigos que tentassem desafiá-la. A jovem inexperiente, carente e insegura se tornou uma mulher fria, calculista e mestre no jogo da sedução. Giuseppe achava que tinha a vida perfeita até conhecer a irmã de seu amigo, mas depois de experimentar a jovem russa que o tirava do sério, a maré de sorte do italiano virou um tsunami de amargura o jogando em alto mar, à deriva e sem bote salva-vidas. Foram dois anos sem notícias da mulher que executava os


serviços mais perigosos para a Imperatriz mundo a fora e ainda invadia seus sonhos, todas as noites sem a sua permissão. Qualquer coisa relacionada a Ramona, seu paradeiro e suas missões eram assuntos proibidos e motivos de discussões infindáveis em Moscou. Mas... a vida de Giuseppe agora está sendo ameaçada por um inimigo invisível e muito poderoso, e ninguém melhor do que a assassina número um do Império para proteger o Consigliere e garantir que nada de mal lhe aconteça. O destino parece que gosta de uma brincadeira atrevida e ao que tudo indica, o reencontro entre eles será explosivo, quente e sensual, mas dessa vez Giu e Ramona estarão em lados opostos. O italiano descobrirá que a liberdade custa caro e nem todos os homens estão preparados para pagar um preço tão alto por ela. Ele, com certeza, não está...


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SÉRIE IMPÉRIO DA MÁFIA: O PREÇO DO MEU AMOR – PARTE 1 O PREÇO DO MEU AMOR – PARTE 2 O PREÇO DO MEU ORGULHO O PREÇO DA MINHA LIBERDADE SÉRIE IRMÃOS ANTUNES (COMPLETA) AMOR BANDIDO – LIVRO 1 HERÓI OU VILÃO – LIVRO 2 PROMÍSCUO – LIVRO 3 ANJO MAU – LIVRO 4 100 RETICÊNCIAS – LIVRO 4.1 TREM BALA – LIVRO 5

SÉRIE FERIDAS DO PASSADO FERIDAS DO PASSADO – LIVRO 1 CICATRIZES – LIVRO 2

LIVROS ÚNICOS PERDÃO AMOR.... Eu não sei te perdoar EM NOME DO AMOR EU ERA AQUELA MENINA PAYBACK – A SUA CASA NOTURNA


SOMBRAS DE UMA VIDA A HERDEIRA LEGÍTIMA A ÚLTIMA VÍTIMA IMPOSSÍVEL NÃO TE AMAR DEPOIS DE UM TEMPO – PARTES 1 E 2

PRÓXIMOS LANÇAMENTOS A ESCOLHA ARMADILHA

Profile for Ana Paula Oliveira

O PREÇO DO MEU ORGULHO - Silmara Izidoro  

Um homem romântico. Uma mulher descrente do amor. Um encontro inusitado. Duas vidas conectadas de maneira permanente. Ivan Keritov e Sarina...

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