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Copyright © 2017 Amanda Bittencourt Todos os direitos reservados. É vedada a produção, distribuição, comercialização ou cessão não autorizada da autora. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e incidentes são produtos da imaginação da autora ou são usados ficticiamente. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, eventos ou lugares é mera coincidência. Bittencourt, Amanda O Bilionário Vingativo| 1ª edição | São Paulo – SP Revisão e Diagramação: Érica Damaceno Design da Capa: Clay Arte Visual Foto da Capa: Shutterstock Publicação independente 1ª Edição São Paulo - SP 2017


Índice Sinopse Prólogo 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 Patrick e Elena 15 16 Patrick e Elena 17 18 Patrick e Elena 19 20 Patrick e Elena 21 22 23 Patrick e Elena 24 25 Patrick e Elena 26 27 Patrick e Elena 28 Epílogo


Cinco anos depois EpĂ­logo Extra Dezesseis anos depois


Sinopse Marco Villa-Lobos, um espécime raro de homem, lindo e sexy como o pecado. Extremamente rico, brilhante, formado em Harvard, e completamente irresistível. Amado e adorado pelas mulheres. Mas no fundo do seu coração, ele tem uma ferida que não quer curar. Ele foi quebrado por uma mulher. Uma mulher que ele pretende ter em suas mãos e destruir lentamente até que ela se arraste aos seus pés e implore por misericórdia. Ele quer vingança.


Prólogo

Todos na América conheciam Charlotte McKeena. Ela era a única filha do senador Bernard McKeena e da ex-Miss América, Judith Linvstone. Eles eram o exemplo perfeito de uma poderosa e famosa família americana. Charlotte McKeena sempre se destacou em tudo o que fazia. Ela não só foi oradora da sua turma na faculdade de Economia em Havard, mas também seguiu os passos da mãe e tornou-se a mais nova Miss América e, eventualmente, também ganhou o título de Miss Universo com apenas vinte e dois anos de idade. Seu rosto e sorriso lindos foram estampados em todos os lugares. De outdoors a revistas. Até mesmo na Times Square. Ela era a inspiração de toda garota americana e o sonho de consumo de todos os homens que a conheciam. Charlotte tinha treze anos de idade quando seu irmão mais velho morreu devido a um acidente de carro. Sua família desmoronou com o acontecido. Seu pai, o homem mais forte que ela conhecia, entrou em negação. Foi quando ele passou a dedicar-se apenas à sua carreira política, viajando sempre e ficando muito pouco em casa. Sua mãe levou quase um ano para superar a depressão. Ela se tornou uma alcoólatra e começou a fazer uso exagerado de medicamentos antidepressivos e ansiolíticos. Apesar de tudo, Charlotte manteve-se forte. Mesmo que tivesse sido doloroso para ela. Apenas depois de um ano, foi que sua família lentamente começou a se normalizar e aprendeu a aceitar a perda. Para garantir que seus pais ficassem felizes e não caíssem nunca mais em um estado emocional, remotamente parecido com o de antes, Charlotte passou a fazer a vontade dos pais a todo custo. E foi por esse motivo que ela escolheu a faculdade de Economia e a carreira de modelo ao mesmo tempo. Ela queria deixar ambos os pais orgulhosos e compensar o fato de que agora eles só tinham um filho para exigir as coisas e não dois. Mas todo mundo tem suas próprias falhas. Ela fez uma acusação imperdoável para alguém havia quatro anos. Ela arruinou a vida de uma pessoa e lamentava todos os dias o que acontecera. Todas as noites, sua consciência não a deixava dormir. Ela queria


voltar no tempo, pois desejava nunca ter posto os olhos em Marco Villa-Lobos. Aconteceu quando Charlotte tinha dezoito anos e começou sua graduação em Economia na Universidade de Harvard. Ela era uma caloura e ainda se sentia estranha em um novo ambiente com pessoas que ela não conhecia. Ela se perdeu durante seu primeiro dia de aulas em Harvard. Tinha certeza de que pegou o caminho certo, mas não conseguiu localizar sua sala. — Você está perdida? — Um cara se aproximou dela. — Ah sim. Eu estou procurando o meu quarto. — Charlotte respondeu ao cara nerd. Ele usava uma camisa cinza de lã, calças folgadas marrons, óculos com armação preta e sapatos pretos. Seu cabelo estava achatado na sua cabeça com gel. Ela imediatamente lembrou-se de Clark Kent. — Estou procurando o quarto 201. — Deixe-me ver o seu cartão de ingresso. Charlotte mostrou o cartão ao cara nerd. — Você está no prédio errado. O Departamento de Economia é do outro lado. — O cara sorriu. — Se você quiser, eu posso te mostrar onde fica. Eu estou indo para lá também. — Ok, se estiver tudo bem pra você. Eles estavam descendo as escadas quando ele disse. — Á propósito, eu sou Marco Villa-Lobos. — o cara estendeu a mão. — Oi Marco. Muito prazer em conhecê-lo. Eu sou Charlotte McKeena. — Eu sei. — Você me conhece? — É claro. Você é filha do senador McKeena. Charlotte ficou não ficou surpresa, já que toda a mídia a conhecia. — Você também é novo aqui? Ele respondeu educadamente. — Não. Eu estou no meu último ano. — Uau! Então você está prestes a se formar. — Sim, eu estou ansioso. — Ele disse humildemente. Charlotte e Marco instantaneamente se tornaram amigos. Ele foi seu primeiro amigo em Harvard. A todo tempo eles se batiam pelo campus. Marco era sempre muito


simpático e acessível. Charlotte soube por sua colega de quarto, Johanna Chan, que Marco era muito popular em Harvard. Ele era o presidente do Conselho Estudantil, editor chefe do Jornal Escolar, presidente do Time de Xadrez, e foi o último vencedor do Decágono Acadêmico. Era uma espécie de aluno prodígio e com certeza se formaria com honras em Administração de Empresas. Charlotte ficou muito impressionada com as realizações do amigo. — Você sabia que a família de Marco é dona da Villa-Lobos Internacional Holdings, Inc? — Johanna informou Charlotte. — Eles são muito ricos! Não duvido que sejam donos da metade dos prédios de Nova Iorque. — Realmente? — Charlotte ficou impressionada, pois Marco não parecia ser um riquinho besta. — Sim. E olhe para ele. Um cara simples. — Sim, eu concordo. Eu gosto da sua atitude, ele parece tão pé no chão. — Ele pode ser um nerd, mas tem um sex appeal que minha nossa... Pelo menos é o que eu acho. Mesmo assim, soube que ele nunca namorou, porque a maioria das meninas preferem os bad boys, não os caras bonzinhos. Mesmo sendo bonito, seu modo de se vestir afugenta todas. — Sério? — Sim, é o que eu soube. Mas olha só, se ele desse uma repaginada no visual e tirasse aqueles óculos, ficaria um gato muuuito gostoso, não acha? Charlotte sorriu. — Sim, você está certa. Mas eu não acho que ele ficaria feliz com uma reforma. Com todas as coisas que ele tem em mente, tenho certeza de que é muito ocupado para se preocupar com a aparência. Ambas as meninas riram. Uma manhã, enquanto Charlotte estava à espera de sua próxima aula, tomando cappuccino, Marco se aproximou dela. — Oi Charlotte. — Oi Marco. — Eu estou precisando de um favor. Será se você pode me ajudar?


— Depende. Qual é o favor? — Precisando de um editor para o jornal. Você gostaria de se juntar à nossa equipe? — Seria ótimo. — ela respondeu entusiasmada, pois precisava de créditos extras. — Mas eu não sou muito boa em escrever artigos ou colunas, eu não tenho experiência. — Oh, Não se preocupe com isso. Eu posso te ensinar. — Não tenho certeza. — ela hesitou. — É realmente muito fácil. Vamos lá, diga que sim, eu tenho certeza de que você vai se divertir. — Marco sorriu e tirou os óculos para limpar as lentes com a borda da sua camisa. Charlotte prestou atenção no rosto dele e percebeu que sua colega de quarto estava coberta de razão. Marco era um cara bonitão. Sem os óculos e com o cabelo voando ao vento, ela pôde ver todas as nuances do seu rosto e sorriu para si, pois sabia que se as outras meninas do campus o vissem desse jeito, ficariam loucas. Ele era lindo. — Ok, mas prometa que vai me ensinar. — Ela disse, ainda hipnotizada pelo homem à sua frente.. — Eu prometo. — Ele sorriu docemente e ela pensou que fosse morrer. Desde aquele dia, Charlotte e Marco ficavam sempre juntos durante o tempo livre. Ela saía com ele e com o resto da equipe editorial. Marco fazia questão de editar suas colunas pessoalmente e dava sugestões para tornar suas histórias mais interessantes para todos. Todas as quartas-feiras à tarde, eles tinham uma reunião no Gabinete Editorial do Jornal. Marco sempre trazia comida para todos. E nunca se esquecia de trazer uma caixa com os donuts favoritos de Charlotte. Um dia, ela estava almoçando com uma das editoras, Caroline. — Marco está encantado por você. — O que? — É isso aí, Marco gosta muito de você. Charlotte corou. — Por que diz isso? — Em primeiro lugar, ele nunca trouxe comida para a gente durante as reuniões, isso só começou quando você chegou. E em segundo lugar, ele não esquece seus donuts e seu Macchiato nunca. — Ele é apenas gentil, Caroline.


— Não. Acredite em mim, Charlotte. Eu acho que ele é apaixonado por você. Ele não consegue tirar os olhos de você. — Somos apenas amigos. — Ah garota, cresça! Todo relacionamento começa com a amizade. — explicou Caroline. O que Caroline disse era verdade. Marco a paquerava. Ele sempre levava flores, seu café e doces favoritos para ela no dormitório. Sem contar que ficavam sempre juntos, mesmo quando não tinham aulas ou coisas do jornal para tratar. O ano escolar estava quase no fim. Marco estava animado para a sua graduação, mas também estava agitado. Ele sentiria falta de estar com Charlotte, já que ela continuaria em Harvard e ele teria que voltar para Nova Iorque para assumir a empresa de seu pai. Embora ele tivesse planos de visitá-la, ocasionalmente, não seria suficiente. Ele queria vê-la e estar com ela todos os dias. Uma noite, eles estavam passeando no parque, quando Marco parou e tocou o rosto de Charlotte com ambas as mãos. — Tenho que ser sincero, Charlotte. Minha formatura está acabando comigo, porque sei que assim que as aulas acabarem, eu sentirei muito a sua falta. — Vou sentir falta de você também, Marco. Os olhos Marco escureceram um pouco. Ele não sabia se era hora de dizer, mas ele disse mesmo assim. — Eu amo você, Charlotte. Eu não quero ficar longe de você. Em seguida, ele a beijou com avidez e paixão. E ficou surpreso quando viu que ela correspondia energicamente. Seria possível que ela também o amasse? Eles se conheciam havia poucos meses, mas o que Marco sentia parecia ser amor para a vida toda. Será se Charlotte sentia o mesmo? Ele quis perguntar, mas preferiu continuar beijando-a, até que ela mesma quebrou o beijo, ofegante. — Oh Marco, eu também amo você. — Charlotte tirou os óculos dele e penteou seus cabelos para trás. Ele era lindo e nem notava. Ela, na verdade, ficava impressionada que as outras meninas da faculdade não notassem isso. Debaixo dos óculos de armação grossa, do cabelo de nerd e das roupas largas, ele era um grande pedaço de mau caminho.


Charlotte traçou o polegar pelo lábio inferior dele, admirando sua boca bem feita. Marco beijou o polegar dela, em seguida, a palma da mão e voltou para a boca. Ele a beijava como se esse fosse ser o último beijo entre os dois. Charlotte nunca tinha experimentado uma sensação tão eletrizante e por isso estava em chamas. Oh Deus! Marco parou de beijá-la e a abraçou com força. — Temos que parar, Charlotte, estamos no parque. — Ele riu. — Oh, eu esqueci. — Charlotte disse e abraçou-o de volta. — Vamos lá, eu vou levá-la de volta ao seu dormitório. Você terá aula amanhã cedo. — Sim, senhor. — Ela sorriu e os dois andaram abraçados. Depois do último dia de aula do ano, a colega de quarto de Charlotte a convidou para ir a um bar. A maioria dos seus colegas de classe estaria lá. Charlotte estava animada, pois nunca tinha ido a um bar antes. Ela não costumava frequentar esses ambientes, pois seus pais não eram a favor. Mas quando Marco soube dos seus planos para a noite, discordou deles. — Eu não quero que você vá a nenhum bar, Charlie. As pessoas nesses bares perto do campus são muito selvagens, ficam bêbados além da conta e usam drogas. Não vão te fazer nenhum bem. — Mas Marco, meus colegas vão estar lá. — Isso não significa que você tem que ir também. — Você está sendo muito protetor. Eu não sou mais criança. — Charlie, eu te amo. Só estou cuidando de você. Charlotte apenas deu de ombros. — Por favor, me prometa que não vai ao bar mais tarde. — Eu não posso. Johanna vai estar lá e nós não vamos nos ver até voltarmos das férias. Os ombros de Marco caíram. — Só me prometa, Charlotte. Se você me ama, por favor, não vá. — Isso é injusto. — Por favor, querida.


— OK. Eu prometo. Mas a promessa foi feita apenas para ser quebrada. Charlotte foi com Johanna ao bar, junto com seus colegas de aula. Eles estavam se divertindo no início, mas depois de algumas horas, o bar ficou muito cheio. Os alunos estavam muito bêbados, dançando loucamente e alguns até usavam drogas. Drogas que, de vez em quando, ofereciam quase à força a ela. Marco estava certo, pensou Charlotte. Era melhor sair dali. Seu celular tocou na hora em que ela se levantou da mesa onde estava. Oh Deus, era Marco. — Alô? — Charlotte? Onde você está? Charlotte não respondeu. Sentia-se culpada por não cumprir a promessa. — Você está no bar, não está? — Perguntou Marco. — Lamento, Marco. Eu realmente não pude dizer não a eles. — Tudo bem, fique aí. Eu vou pegar você. — Marco disse com raiva. — OK. Poucos minutos depois, o bar estava um caos. Um grupo de estudantes começou a gritar e xingar um ao outro e não demorou muito para que começassem a brigar. O lugar ficou muito tumultuado. Charlotte ficou contente quando Marco chegou. Eles já estavam prestes a sair quando um cara o socou e ele foi derrubado sobre a mesa. Quando se levantou, Marco socou o mesmo homem duas vezes entre a boca e o nariz e ele caiu no chão como um saco de batatas. — Vamos lá, vamos lá. — Marco agarrou a mão de Charlotte e saiu com ela antes que alguém mais procurasse confusão com ele. — Marco... — Amanhã conversamos, Charlotte. É tarde. Marco estava chateado com ela. Ela quebrou a promessa de não sair com os amigos para o bar. Ele lhe contou sobre os perigos e as coisas que aconteciam ali, mas ela não lhe deu ouvidos. Ou seja, ela não confiou nele. — Tudo bem. Eu te amo. — Charlotte disse quando saiu do SUV. Marco não respondeu apenas balançou a cabeça e, em seguida, partiu.


Marco acordou cedo na manhã seguinte. Ele iria para sua casa em Nova Iorque dentro de algumas horas, mas não queria ir sem falar com Charlotte e dizer que sentia muito por ter bancado o possessivo ciumento. Sua intenção era dizer para ela tomar cuidado, mas que não queria mandar na sua vida. Por volta das oito da manhã, ele bateu na porta do quarto dela e esta foi subitamente aberta por um homem mais velho, vestido com um terno fino que o fez lembrar seu pai. Os olhos de Marco se arregalaram. Inferno! — Bom dia, senador. — Bom dia. Você deve ser Marco Villa-Lobos. — Seus olhos diziam que ele estava muito irritado. — Sim senhor. — Marco entrou. Charlotte estava sentada em sua cama, com a cabeça inclinada. Sua mãe estava em pé ao lado dela e seus olhos brilhavam de raiva em direção a ele. — Então... você é o jovem responsável por aquela algazarra na noite passada. Como você ousa levar minha filha para aquele bar lotado e começar a brigar como um cachorro de rua? Eu poderia processá-lo por isso! — A Sra. McKeena disse, histérica. — Eu... Eu não... olha... deixe-me explicar. — Marco gaguejou. — Não negue. Olhe isso aqui. — A Sra. McKeena empurrou um jornal para ele. — Eu achei que você fosse um bom rapaz. Mas você é uma má influência para a nossa filha e eu não quero que você a veja novamente. Você me dá nojo, assim como esses seus amigos drogados do bar em que estava. Marco viu uma foto dele no jornal, socando o cara na noite passada. Outra foto mostrava-o arrastando Charlotte para fora. A manchete não era nem de longe algo para se dar uma boa primeira impressão aos pais de uma garota. O notório filho de Eduardo Villa-Lobos, Marco Villa-Lobos, começa baderna em bar no campus e é flagrado arrastando a princesinha do senador McKeena. Mas a manchete mentirosa não era bastante. Na matéria, ele foi mencionado como se estivesse bêbado e sob a influência de drogas. — Charlotte, por favor, explique aos seus pais o que realmente aconteceu. — Marco pediu à garota, mas ela parecia não estar ouvindo.


— Charlotte já nos contou tudo. Não há nenhuma necessidade de você tentar se explicar, meu jovem. Você a forçou a ir àquele bar. — disse o senador. — Isso não é verdade, senhor. — Confirme o que disse, filha. — O Sr. McKeena olhou para Charlotte. Marco ficou irritado, mas forçou um sorriso. Só podia haver um mal entendido. Charlotte não tinha dito nada disso. Não era possível que ela fosse tão dissimulada. — Charlie, fale comigo. O que o seu pai está dizendo não faz nenhum sentido. Conte a eles a verdade. — Meu pai já disse tudo, Marco. Eu não quero mais ver você, você é uma má influência para mim e para a minha futura carreira. Charlotte se virou de costas para ele na cama e começou a chorar, mas sem deixa ninguém perceber. Marco não podia acreditar em seus próprios ouvidos. Ele ficou chocado, magoado e principalmente, com muita raiva. Então simplesmente se virou e bateu a porta.


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Marco Villa-Lobos era um empresário que subiu na carreira rapidamente. Ele se tornou um dos empresários mais respeitados de Nova Iorque quando assumiu a função de vice-presidente da Villa-Lobos Internacional Holdings, Inc. Não satisfeito, ele abriu a própria empresa, a Villa-Lobos Land Group Inc, no ramo imobiliário e ao lado de Eduardo Villa-Lobos, era o mestre de Nova Iorque. Ele deixou a paixão por esse tipo de negócio aflorar depois de uma viagem a Dubai, ainda como vice-presidente da empresa do seu pai. Ele estava selando um acordo com uma refinaria de petróleo e ficou muito impressionado com os edifícios impressionantes do país. Ele queria levar para sua cidade aqueles mesmo designs inovadores, o estilo e a elegância daquele país árabe. Um ano depois, as realizações Marco tornaram-se sensação. Ele adquiriu a maioria das propriedades com pendências em bancos e transformou tudo em arranha-céus impressionantes e inovadores, fossem prédios comerciais ou hotéis cinco estrelas. Aos vinte e cinco anos, Marco era frequentemente citado como exemplo de poder e juventude nas maiores revistas e jornais do mundo. Mas é claro que todo esse sucesso e poder tinham um custo alto. Ele chegava a trabalhar dezoito horas por dia e por isso, não tinha tempo para nada que não fosse relacionado a trabalho. Seus pais, muitas vezes, chegavam a implorar por um pouco de atenção do filho. Eles sabiam que ele não fazia por mal, mas sim porque não queria ter tempo para pensar na decepção amorosa da qual nunca se recuperou. Eles sabiam que o filho ainda tinha Charlotte McKeena entranhada dentro da sua cabeça e do seu coração. Eduardo sempre lhe dizia que se ele abrisse um pouco a mente e seu coração para outra mulher, ele poderia facilmente esquecê-la. Mas Marco não dava ouvidos. Na verdade, a única coisa que ele acatava dos pais, era o pedido de sua mãe de não sair de casa. Ele não conseguia dizer não a ela, pois ela sempre fazia o mesmo discurso de que se ele morasse em outra casa, ela nunca mais o veria por causa da sua obsessão pelo trabalho. Mas Marco só ficava em casa durante a semana, pois no restante dos dias, ele


ficava na cobertura do Villa-Lobos Land Group Inc, o maior prédio de Nova Iorque. Mas a vida de Marco não era só trabalho, embora parecesse aos de fora. Ele também tinha alguns momentos de lazer, como quando voava em seu helicóptero ou quando bancava o copiloto no seu jatinho durante algumas viagens de negócios. E era apenas nessas viagens que ele se permitia ter uma amante ou outra durante as poucas horas que durasse o voo. Marco estava em sua escrivaninha de mogno, estudando o relatório mensal de contabilidade da Villa-Lobos Land Group Inc e observou algumas discrepâncias com os materiais e relatórios de custos de produção. Por isso, ele ligou para o chefe do departamento de finanças, o Sr. Murphy, e exigiu que ele controlasse melhor sua equipe e mandasse novos relatórios com números certos dessa vez, ou cabeças iriam rolar. Em seguida, ele desligou o telefone. Concentrou-se nos relatórios dos outros departamentos e depois de algumas horas, quando o novo relatório do departamento de finanças chegou à sua mesa, ele o estudou detalhadamente, não encontrando os mesmo erros de antes. Então, de repente, sua visão periférica pegou uma coisa. Seus olhos subiram das folhas de papel até a janela de vidro na parede à sua frente. Alguns homens trabalhavam em um outdoor no edifício vizinho. Não precisou de uma visão aguçada ou mais do que uma olhada breve para reconhecer a mulher na foto. Era Charlotte McKeena em tamanho gigante, sorrindo e acenando. MISS UNIVERSO CHARLOTTE MCKEENA VOCÊ É O ORGULHO DA AMÉRICA E o que poderia acontecer depois? A única coisa esperada. Marco arrastou sua muito pesada mesa de mogno para o mais longe possível das janelas de vidro que davam para o outdoor. A última coisa que ele precisava era ver a foto daquela mulher todos os dias durante o trabalho. Quando terminou o árduo trabalho de reorganizar seu escritório, Marco suspirou e sorriu satisfeito. Em seguida, sentou-se e voltou a analisar os relatórios. Um e-mail chegou em seu notebook e ele se apressou em verificar, mas antes que pudesse abri-lo, uma imagem aleatória do Google piscou em anúncios. Era a mesma maldita foto do outdoor. A mesma maldita Charlotte McKeena. Droga!


Marco instantaneamente ficou com raiva. Ela ainda o assombrava. Ela era realmente uma cadela. Ela o fez se apaixonar como nenhuma mulher fez, em seguida, o traiu como se estivesse apenas brincando com o seu pobre coração juvenil. Ele se perguntou por muito tempo por que ela teria feito aquilo. Como ela pôde mentir na maior cara de pau e ainda agir como se ele fosse o vilão da história toda? Graças às suas declarações, jornais de vários lugares do país escreveram absurdos sobre ele, custando-lhe a Summa Cum Laude na Universidade de Harvard. Não que ele se importasse com isso, mas seus pais sim. Eduardo ficou muito irritado com as calúnias dos jornais e com a entrega do título ao segundo aluno da sala de Marco apenas por causa de tais difamações. Marco VillaLobos era um ótimo filho e um estudante brilhante e de caráter, nenhum jornaleco deveria manchar o nome dele, então mesmo quando o garoto disse que não precisava dar muita importância ao que saía sobre ele na mídia, Eduardo moveu céus e terra para fechar o jornal pioneiro das manchetes mentirosas e processou de forma impiedosa os demais que espalharam tal infâmia. Quando isso aconteceu, Marco voltou a procurar Charlotte. Queria dizer aos pais dela que tudo já estava esclarecido e dizer a ela que entendia o fato de ela ter mentido por ter medo do pai. Mas os McKeena sequer se dignaram a recebê-lo. O mordomo o mandou embora como se ele fosse um reles vendedor enjoativo. Diante de um tratamento tão frio por parte do senador e sua esposa, e principalmente por parte de Charlotte, Marco não teve escolha a não ser aceitar que o que tinha acontecido não foi por medo dos pais ou por qualquer outro motivo no mínimo digno, mas sim porque Charlotte era uma vadia patética, uma criança mimada. Então ele jurou para si mesmo nunca mais colocar os pés naquele lugar. E jurou também que faria a garota pagar caro por ter quebrado seu coração. Ele iria destruí-la até que ela rastejasse e implorasse por misericórdia. Enquanto Marco se mantinha ocupado em seu escritório em Nova Iorque, seus pais tinham acabado de chegar da Malásia, onde comemoravam o aniversário de casamento. Vinte e cinco maravilhosos anos juntos e era como se tivessem se casado na noite anterior. Cada dia com Camila e Eduardo parecia ser o primeiro e o último ao mesmo


tempo, pois todos os dias eles os viviam intensamente. — Marco, estamos na Califórnia. Seu pai e eu decidimos visitar a Luciana. Estamos indo para o apartamento dela. — Camila disse ao filho por telefone. Marco gemeu. — Você ligou para ela primeiro? A Lu pode estar em outro país no momento. Ela anda muito ocupada com a carreira. — Não, nós queríamos surpreendê-la. E seu pai queria ver o que ela está aprontando. — Ela não é mais uma criança, mãe. Ela já tem vinte e um anos. — Eu sei, Marco. Mas você o conhece. Sabe como ele é protetor. Camila e Marco conversaram por mais alguns minutos, enquanto ela e Eduardo se dirigiam ao apartamento de Luciana, e quando desligou o celular, Marco ficou inquieto. Sim, seu pai era muito protetor, principalmente com sua mãe e Luciana. Se ele soubesse sobre... Marco ligou para a irmã. — Luciana, onde está você? — Oi irmãozinho, estou na praia. Tinha uma sessão de fotos hoje cedo. Por quê? — Por acaso você esteve com o Roman ontem? — Sim. Por quê? — Luciana fez uma careta. — Olha, eu sei que não é da minha conta, mas mamãe e papai estão indo ao seu apartamento agora mesmo. — O quê? Meu Deus! Roman ainda está lá dormindo. Apenas eu saí, e só saí porque tinha essa sessão de fotos. — Então ligue para ele e avise sobre o nosso pai, ou ele terá uma surpresa bem furiosa. Sem contar que mamãe vai surtar se souber que vocês estão transando mesmo sendo primos. Luciana deu um tapa na testa e ligou para Roman, mas ele não atendeu. Então lembrou que Roman tinha colocado o celular em modo silencioso para que eles não fossem incomodados e provavelmente ainda estaria até agora. Oh Deus, me ajude! Luciana pensava. Eduardo Villa-Lobos apertou o botão da campainha no apartamento da sua filha.


Demorou um pouco para que ela atendesse, então Eduardo ficou um pouco aborrecido. Ele já estava prestes a abrir a porta com uma chave mestra – já que o prédio era seu e ele a pedira na recepção antes de subir –, mas um belo homem, sexy e quase nu com apenas uma toalha na cintura a abriu. Eduardo e Camila ficaram muito chocados. Oh meu Deus! — Roman! O que você está fazendo aqui? — Eduardo rosnou. Os olhos de Roman Valdez se arregalaram. Inferno! — Puta merda! — É bom você ter uma boa explicação para estar aqui, meu jovem. E vestido desse jeito ainda por cima. — Eduardo praticamente soltava fogo pelo nariz. — Onde está a Luciana? — Camila perguntou a Roman. Mas ele ficou sem palavras, ainda em estado de choque. Eduardo entrou como um furacão no apartamento e abriu a porta do quarto da filha, mas ela não estava lá. Ele gritou com raiva. — Porra! Luciana! Luciana! Onde você está? — Então ele saiu do quarto e abriu as outras portas como um homem totalmente louco. — Luciana! Eu sei que você está aqui se escondendo, saia! — Querido, acalme-se. — Camila pediu. — Roman! Diga-me onde ela está. E escolha suas palavras para explicar porque está aqui quase nu antes de eu socar a sua cara! — Eduardo rosnou, seus olhos escurecidos com uma raiva intensa.


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— Tio, acalme-se. Ela não está aqui. Os olhos de Eduardo o encararam como duas bolas de fogo. — Então, onde é que ela está? — Ela saiu cedo, pois tinha uma sessão de fotos na praia. — Me explique porque você está quase pelado no apartamento da minha filha. Não é como se você não tivesse um lugar para passar a noite já que tem a mansão dos seus pais e todos os hotéis da família. É melhor me dizer a verdade, garoto, ou vai pagar caro. Por que você está aqui? — Eduardo exigiu. — Querido... — Camila tocou o braço do marido, mas ele só tinha olhos para Roman. Eduardo observava com atenção as marcas vermelhas nos ombros, braços e costas de Roman. Ele tinha certeza de que Luciana tinha feito aquilo. Assim como a mãe, ela podia ser uma tigresa na cama. — Dormi aqui ontem à noite. — Roman disse bravamente. — Mesmo? Então você está dormindo com ela? Pelo amor de Deus, Roman, vocês dois são primos. — Nós não somos primos. — Roman disse com firmeza. — Você e o meu pai não são primos de sangue. — De sangue ou não, ainda somos parentes! Vocês dois cresceram como primos e nada pode mudar isso. —Eduardo disse com raiva. — Mas eu ainda não recebi uma confirmação, você está ou não dormindo com a minha filha? — E se eu estiver? O que você vai fazer? Nos separar? Um duro golpe na mandíbula de Roman lhe jogou no chão. — Oh meu Deus! Eduardo, pare! — Camila gritou. Eduardo deu-lhe outro golpe e logo o rapaz estava sangrando. — Vamos, lute comigo! — Eduardo gritou. — Não, eu não vou tio, eu respeito você. — Roman respondeu, tocando sua boca


sangrando, e então se levantou. — Hã! Você está falando sobre respeito agora? Você não respeita a mim nem a minha filha. Você não poderia estar dormindo com ela. Seu pai sabe disso? — Não. Mas ele sabe como eu me sinto sobre a Luciana. — Foda-me! — rosnou Eduardo. — Eu vou ter que quebra-lo também? Luciana começou a lembrar da noite que tiveram enquanto voltava ao seu apartamento. Ela e Roman tinham começado a dormir juntos apenas na noite passada, apesar de já se sentirem atraídos um pelo outro havia muito tempo. Eles guardaram o desejo que sentiam a todo custo, apenas para não magoar seus familiares por causa da falsa ligação como primos. Mas é claro, que chegou uma hora em que não puderam mais se controlar. Se pelo menos papai não fosse tão antiquado... Tudo começou anos atrás quando Luciana perguntou se Roman gostaria de acompanhá-la a uma festa de um dos seus amigos de elite na Califórnia, onde o escritório de negócios dele ficava. Ela ficou sem graça de aparecer na festa sozinha, pois, por mais bonita que fosse, não tinha muito jeito com os rapazes, graças a superproteção do seu pai. Ela estudou em um internato para meninas regido por freiras durante toda a vida acadêmica e por isso, nunca havia namorado ninguém. Mas a verdadeira razão era também porque Luciana queria apenas um homem, e esse homem era Roman. Era inútil tentar algo com qualquer cara que ela conhecesse, por exemplo, durante as férias, porque toda vez que conhecia alguém, acabava comparandoo com o primo. Toda vez que estava com ele, ela se sentia como uma princesa, pois ele a tratava assim. Ele a fazia se sentir feliz e especial. Eles tinham acabado de sair da festa e entrado na Lamborghini de Roman quando ela lhe confessou que nunca tinha sido beijada. — Isso é sério? — Roman perguntou, rindo. — Não ria de mim, Roman. — Não, eu não estou. É que eu nunca imaginaria isso. Você é tão bonita... é simplesmente impossível de acreditar que ninguém nunca te beijou. — É ridículo, tendo em vista que eu já tenho dezoito anos, mas é verdade. — ela disse tristemente. — Afinal, você conhece o papai.


Roman riu. Ela olhou para ele com a cara feia. — Você está realmente rindo de mim, Roman. Isso não é engraçado. — Não é disso que eu estou rindo, Lu. É que... será que o seu pai não percebe que a sua boca foi feita para ser beijada? Se eu não fosse seu primo, eu mesmo te beijaria agora. Deixaria seus lábios inchados, pois eles são tão rosados e parecem tão deliciosos... Roman calou a boca antes que revelasse mais do que deveria. Ele tinha que se lembrar de que ela era sua prima, e que seu tio era um homem difícil e muito protetor. Ele a manteve em um colégio de meninas apenas para deixá-la protegida dos homens à sua volta. Roman sorriu com o pensamento de que seria uma boa lição para Eduardo Villa-Lobos se sua querida Luciana se revelasse lésbica. Mas descartou o pensamento logo, pois não queria de nenhuma forma no mundo, que ela não o achasse atraente como homem. Ainda que só em seus pensamentos. — Está falando sério, Roman? — É claro que estou. Luciana mordeu os lábios de uma forma inocente que deixou Roman vidrado. — Você me acha atraente mesmo sendo sua prima? — Não se subestime, Luciana. Você é uma mulher muito atraente. Qualquer homem cairia de quatro por você. — Então por que ninguém nunca fez isso? — Acho que todo mundo tem medo do seu pai. Fico pensando o que ele faria se soubesse que eu gosto de você. — Roman disse baixinho, na intenção de não fazer Luciana ouvir, mas ela ouviu. — Você gosta? Roman sorriu, tímido. — Infelizmente, sim. Ele não tinha por que negar, afinal a relação deles nunca sairia daquilo que era. — Oh Roman, eu gosto de você também. — O quê? Você não pode. Somos primos. — ele deu a ela um olhar de advertência. Luciana fez beicinho e, posteriormente, sorriu perversamente sem que ele visse. Quando chegaram à suíte em que estava hospedada, ela voltou a tocar no assunto. — Roman, você acha correto termos sido criados como se fôssemos primos, se na


verdade não somos? — Luciana perguntou ao servir um pouco de uísque a Roman. — Não acho certo, de verdade. — ele bebeu um gole com cuidado, sentindo o líquido esquentar seu interior. — Mas foi assim que fomos criados a vida toda, e agora não há nada que possa ser feito. — Mas você disse que gosta de mim. — ela sentou-se perto dele. — É , Luciana. — Respondeu Roman com cautela. — Mas... — Nada de mas. Eu também gosto de você, então o que acha que podemos fazer a respeito disso? Roman sorriu. Ela tinha coragem por perguntar isso. Se seu tio Eduardo ao menos sonhasse que eles estavam tendo esse tipo de conversa, acabaria com a sua raça. — Nada. Um dia, você vai encontrar alguém que amará verdadeiramente, e então se esquecerá de mim. — Eu não acredito nisso. Não acho que possa esquecer você. Nem me lembro quando comecei a gostar de você, mas agora... acho impossível deixar de gostar. Roman ficou sério. — Sabe Luciana, estou achando essa conversa muito estranha. Sim, eu disse e admito que gosto de você, mas seu pai nunca vai aceitar isso. Luciana entristeceu-se. Ela sabia o tamanho da cabeça dura do seu pai. Sabia que ele era teimoso e até mesmo nos melhores dias, jamais aceitaria sua paixão por Roman. Mas então ela pensou direito. Ela já tinha dezoito anos. Era legalmente adulta para votar, ir presa, sair da casa dos pais, beber... então por que não era adulta para amar? Se seu pai a amava como ela sabia que amava, teria que aceitar suas escolhas mesmo que fossem contrárias às dele. Já estava mais do que na hora de ela começar a agir como adulta. — Eu não estou me importando com o meu pai, nesse momento, Roman. — ela disse, tirando o copo de uísque das mãos dele. — Eu nunca fui beijada porque sempre quis que você fosse o primeiro para mim. — Luciana... Ela colocou os dedos na boca dele para conter seu protesto. Em seguida lançou-se contra ele e o beijou. Roman ficou tão alarmado e surpreso que não correspondeu de imediato, mas quando tomou consciência de que era Luciana quem o estava incitando,


colocou as mãos na sua cintura e a puxou para o seu colo. — Luciana, você está completamente louca. — ele disse ao se afastar um pouco para tomar fôlego. Depois sorriu. — Que bom que eu não sou o mais são de todos os homens. Agora foi ele quem tomou o controle da situação, beijando de forma violenta como sonhou tantas vezes desde que tomou consciência do que era desejo por uma mulher. Roman a beijava com amor e com luxúria. Seus lábios não eram a única coisa que ele queria provar, ele queria provar seu corpo todo. Então beijou o rosto dela, o pescoço, a curva dos seios e sentiu tanto prazer com isso que estava prestes a levá-la para a cama. Luciana não ficou atrás em seu desejo. Tudo o que ela mais queria era deixar o dogma de filhinha do papai para trás. Ela já tinha conseguido que Roman a beijasse, agora queria ir para a cama com ele. — Luciana, por favor, me peça para parar. — Eu nunca poderia pedir isso. Quero você, Roman. Roman gemeu quando ela arranhou seu peitoral e o incitou com os olhos a fazer aquilo que ele queria fazer. Mas então uma ligação inesperada acabou com o momento. Luciana considerou deixar a ligação cair na caixa postal, mas no último momento resolveu atender, pois se fosse seu pai e ela não atendesse, ele sairia da suíte onde estava com sua mãe e viria até seu quarto. — Luciana, você já está no hotel? — Era a sua mãe, graças a Deus. — Sim, mamãe. — ela respondeu ofegante. — Que bom, meu amor. Roman ainda está com você? — Sim, ele ainda está aqui. Eu lhe ofereci uma bebida por ser tão gentil. — Que ótimo, filha. Seu primo é um rapaz de ouro. Um grande beijo para os dois. — Outro pra você, mãe. E para o papai. Luciana desligou o celular e olhou para Roman. Ele tinha se levantado durante a ligação e estava andando para lá e para cá. — Você está bem? — Perguntou Luciana. — Eu não estou bem. Nós não podemos mais fazer isso Luciana, é errado. Ainda bem que sua mãe ligou ou você estaria nua agora. Meu Deus, o que meu pai diria? Pior, o que seu pai diria?


— Roman... — Devemos esquecer o que aconteceu aqui hoje. — Eu acho que nunca poderei esquecer esse beijo. Foi o meu primeiro. — Luciana, eu não vou esquecê-lo também. Seu sabor e seus sons vão me assombrar para sempre. Mas isso não é fácil para mim. — Roman sentou-se e esfregou o rosto com as duas mãos. — Acho que não deveríamos nos ver por um tempo. Em seguida, ele se levantou e foi embora. Roman sentia-se renovado e destruído ao mesmo tempo por causa daquele beijo. Por que fui tão burro? Nossos pais nunca vão aceitar isso. Ele tinha conseguido se controlar por tanto tempo, poderia muito bem continuar desse jeito. Mas por que ele foi cair em tentação? Pensando nisso, Roman foi para o seu apartamento e demorou muito a dormir, pois não tirava a lembrança de Luciana da sua mente. Ela também demorou. Mas não por ficar pensando e sim porque não parou de chorar desde que Roman saiu pela porta. Ela sabia que tinha feito uma besteira. Ela não poderia ter colocado o primo naquela situação. Ele deveria estar se sentido culpado agora quando ela era a única culpada. Mas como ela poderia resistir à proximidade dele? Ele era tudo aquilo que ela queria para si e agora ficaria longe por um bom tempo por causa da malfadada noite. Como ela queria que as coisas entre os dois fossem diferentes. Luciana e Roman ficaram muito tempo sem se ver, apenas em ocasiões em que a família toda estava presente. Mas sempre que ficavam um tempo sozinhos, o desejo mútuo falava mais forte que tudo. Foram quatro episódios em que eles repetiram a noite do primeiro beijo de Luciana. Apenas na noite passada, três anos depois, é que eles não puderam de fato resistir à proximidade um do outro. A distância só fez com que o desejo e o amor crescessem ainda mais. Luciana sabia que estava pronta para se entregar completamente a ele. Roman sabia que não poderia dizer não a ela como tinha feito todas as outras vezes. Eles só não contavam que Eduardo Villa-Lobos fosse descobrir tudo tão cedo.


3

— Marco, você tem que vir à Califórnia. Seu pai está em pânico. — Camila disse ao filho pelo telefone. — Eu liguei para Luciana, mas ela não está atendendo. Pelo que parece, sua irmã está muito ocupada hoje em uma sessão de fotos. Marco estava no meio de uma reunião de negócios durante o almoço com um grupo de investidores japoneses em um famoso restaurante japonês de Nova Iorque, quando sua mãe ligou. Ele havia saído da mesa para atender a ligação, mas notava que os homens que o aguardavam não estavam muito satisfeitos. — Eu não posso mãe. Eu tenho um grupo de investidores japoneses aqui comigo. Ainda estamos negociando nossa expansão na Ásia no início do próximo ano. — Esta é uma emergência familiar. Eu quero você aqui para falar com Luciana. Ela ouve você. Cancele sua reunião, você pode ir ao Japão na próxima semana para isso. — Mãe, eu sou uma pessoa muito ocupada. Tenho muitos compromissos. — Não precisa me lembrar da sua incapacidade de tirar umas férias. Eu sei perfeitamente da sua obsessão. — Camila repreendeu o filho como se ele ainda tivesse cinco anos de idade e não fosse um dos maiores empresários do país. — Mas você pode delegar algumas tarefas a um assistente pessoal, Marco. Nós estaremos esperando você. Caso você não venha, seu pai vai ter um ataque cardíaco. Por favor, filho, fale com a sua irmã. — Ora mamãe, por que não deixa que ela e o papai se entendam? — Porque o seu pai é o maior cabeça dura que eu conheço. E você sabe o quanto ele é antiquado em alguns aspectos. Com o humor que ele está, vai ser uma briga daquelas. Luciana é muito opiniosa e pode acabar ficando sem falar com ele por um tempo e eu não quero minha família dividida. — Camila disse determinada e continuou, em tom mais condescendente. — Na verdade, isso é em parte culpa do seu pai também. Ele acabou estragando a garota com sua super proteção e cuidado demasiado. Agora está ficando maluco.


Marco suspirou, ciente de que não poderia negar o pedido da mãe por mais tempo. — Não se preocupe, eu vou ligar pra ela mais tarde. Não há necessidade de falar pessoalmente. — Não, você não está entendendo. Eu queria que você falasse não só com Luciana, mas com Roman também. Explique a eles que essa relação não faz sentido algum. Meu Deus, eles são primos. — Mãe, eles não são realmente primos e você sabe. Como o papai pode ser tão conservador em relação a isso quando em relação a outras coisas... Marco não continuou. Não fazia sentido algum ele dizer à mãe que já os tinha flagrado várias vezes em momentos muito íntimos desde que tinha oito anos. Na verdade, talvez até antes, pois lembrava-se vagamente de uma vez ter visto sua mãe com pouquíssima roupa no escritório do seu pai quando não tinha nem cinco anos ainda. — Olha filho, essa situação é um pouco embaraçosa para o Eduardo. O que nossos amigos e parentes vão pensar? Marco, em seguida, concordou. — Ok. Eu vou no primeiro voo de amanhã. — Não, nós queremos que você venha agora, o mais rápido possível. Quanto mais cedo este assunto for resolvido, melhor. Marco gemeu. — Ok, ok... eu vou mandar prepararem meu jato. — Obrigada, filho. Me ligue quando sair, não quero me preocupar. — Certo, mamãe. Marco voltou à mesa e terminou sua reunião de almoço. Em seguida, ligou para o seu piloto e pediu que providenciasse a viagem de emergência. Eles sairiam de Nova Iorque em poucas horas. Depois de falar com o piloto e com sua assistente pessoal, Sra. Levine, a quem pediu que preparasse sua mala para uns três dias de viagem, ele ligou para Luciana, mas assim como Camila havia dito, ela não estava atendendo o celular. Então Marco ligou para Roman. — O que diabos vocês dois estavam fazendo? — Marco gritou assim que ouviu a voz do primo do outro lado da linha. Roman apenas suspirou e respondeu:


— Acredite cara, eu estou arrependido nesse exato momento de não ter saído do apartamento dela logo de manhã. Mas eu pensei que... Na verdade, Roman achava que seria muito bom se manter no quarto de Luciana por mais algumas horas até que ela voltasse da sua sessão de fotos. Ela chegaria, provavelmente, cansada e ele a ajudaria a aliviar o estresse de um dia de modelo com mais um pouco de sexo. Mas ele não contava que Eduardo fosse aparecer soltando vespas da boca e fogo pelos olhos. — Eu me apavorei quando vi seu pai. — Roman continuou, com a voz aflita. — Você sabe que Luciana e eu nos controlamos esse tempo todo, durante todos esses anos apenas para agradar a família, mas a verdade é que somos apaixonados um pelo outro. — Apaixonados? — Marco quase riu. — Droga! Eu tenho um monte de compromissos Roman, e meus pais querem que eu vá até aí para tentar colocar juízo na cabeça de vocês dois. E você me diz que está apaixonado? — Sabe o que dizem sobre o amor doer bastante? Agora eu entendo. Meus lábios ainda estão sangrando. Seu pai tem um soco de ferro e ele me deu dois. Dessa vez Marco não conseguiu conter. Ele tinha que rir. — Ei, — protestou Roman, — isso não é engraçado. Não me diga que você quer me bater também? — Bem, eu poderia. Afinal, ela é minha irmã. — Eu sou um homem morto então. Você e o tio Eduardo? — Roman se lamentou, mas depois sorriu. Ele sabia que o primo não tocaria nele. — Quando você vem? — Estou saindo daqui esta tarde. Estarei aí por volta das seis. — Bem, isso é ótimo! Finalmente, você terá um pouco de folga. — Não há nada de bom nessa maldita folga. Tenho investidores japoneses aqui para a nossa expansão na Ásia, e por causa de você e da Lu, minha reunião foi adiada. Eu estava muito ansioso para assinar o contrato! — Que droga! Me desculpa, Marc. Eu vou te recompensar, prometo. Primeiro, vamos passar um bom tempo na praia. Posso até te dar meu jet ski de estimação, se quiser. Vou ligar pra Nicole e dizer que você está vindo. — Faça isso. Eu senti falta dela e estou ansioso para vê-la. — Tenho certeza que ela sente sua falta também. Ela está trabalhando muito


ultimamente na gestão do hotel, até parece você. — Roman soltou uma risadinha e Marco rolou os olhos — Vou pedir pra ela te reservar a suíte presidencial. — Oh, agora estamos conversando direito. Vou fazer uma listinha das coisas que eu quero de você durante a viagem. Quero um tratamento de rei, ou vou matá-lo quando chegar aí por me meter nessa confusão. — Por mais que eu não queira arriscar meu pescoço, sei que você está feliz por mim e por Luciana. Vou fazê-la feliz e você sabe. — Espero que sim. Mas lembre-se que eu estou indo ajudar meus pais, então trate de pensar em algo. Diga isso à Luciana também se a vir antes que eu chegue. — Não sei como você poderá ajudar seus pais, pois só vou desistir da Lu se ela me der um pé na bunda. — Roman coçou a cabeça e reconsiderou sua afirmativa. — Ou melhor, nem mesmo se isso acontecer. — Roman... — Marco gemeu, esfregando os cabelos e o rosto. Ele não teria paciência para falar com sua mãe – ou pior, com seu pai – que sua opinião não mudaria em nada a decisão de Roman e Luciana ficarem juntos. Eles eram adultos. — Tenha calma, Marc. Quem sabe com você aqui, seus pais não nos dão uma chance. — Sonha. — Bom, veremos quando você chegar. Quer que eu mande meu motorista buscá-lo no aeroporto? — Sim, eu agradeceria. Tratamento de rei, lembra? — Certo. Nesse caso, vou mandar que ele coloque uma garrafa de champanhe pra você no frigobar. Quer uma mulher também? Marco desligou o celular ante as risadas do primo, revirando os olhos, mas com um sorriso no rosto. Talvez a viagem não fosse ser tão ruim. Ele sentia falta de Roman e de Luciana. E de Nicole, é claro. Talvez eu mereça mesmo uma folga afinal de contas, Marco pensou consigo enquanto embarcava. Mais tarde naquela noite, Marco saiu do seu avião particular carregando uma mochila de couro depois de pousar na pista de pouso privada dos Valdez. Todos que o viam, pensavam nele único e exclusivamente como um homem de negócios influente e


poderoso, mas a jaqueta de couro preta e o jeans desbotado que ele usava davam a ele um ar de bad boy. Ele ficou surpreso ao ver Roman encostado em sua Lamborghini. Achava que o motorista iria buscá-lo e não o primo. — Ora, ora, ora. Parece que você levou muito à sério o tratamento de rei que eu pedi. Afinal, não mandou seus lacaios, veio pessoalmente. Roman sorriu. Em seguida, eles se abraçaram. — Uau! Você está péssimo, Roo. Papai deve ter te batido forte mesmo, hein. — Marco disse ao se afastar, em seguida se aproximou e fingiu examinar de perto o estado do rosto de Roman. — Tem certeza que não precisa de pontos na boca? — Deixa de ser palhaço. — Minha irmã já viu isso? — Ainda não. Eu não disse a ela ainda. — Não se preocupe, ela conhece muito de maquiagem. Com certeza pode dar um jeito na sua cara feia. — Hahaha. Engraçadinho. Marco parou de rir e juntou as sobrancelhas ao ver Roman com uma expressão séria. Será que tinha acontecido alguma coisa? — Por que você está aqui? Pensei que seu motorista viria me buscar. — Ele vinha, mas fiquei sabendo de uma coisa que não podia esperar. Acho que você não vai gostar. — Sobre o que é? Roman coçou a cabeça com um gesto nervoso que fez Marco sorrir novamente. — É sobre a Charlotte. Ela está aqui. O rosto de Marco de repente ficou pálido e seus olhos escureceram com uma raiva intensa.


4

— Liguei para a Nicole e disse que você estava chegando. Ela ficou muito animada para vê-lo e disse que era uma coincidência que sua ex-namorada estivesse no hotel ao mesmo tempo. A Organização Miss Universo fará um baile para angariar fundos amanhã. Marco estava sério. Sua mente estava em algum lugar distante. Fazia tempo, mas ele ainda estava muito magoado pela vergonha e pela traição da garota anos atrás. Essa era uma ferida que parecia ter sido aberta ontem. — E aí, o que acha de dar uns amassos na sua ex? Que bela folga, hein. — Não brinque com isso Roman, é irritante. — Marco disse com raiva. — Eu não estou aqui de folga. Você esqueceu que meu objetivo é falar com você e Luciana sobre seu relacionamento proibido? — Isso é ridículo. — Roman bufou. — Nosso relacionamento não é proibido, só seu pai acha isso. Os meus pais não ligam. — Roman, somos parentes. Primos. Marco tinha prometido à sua mãe que tentaria. Bom... ele estava fazendo isso, mesmo que não acreditasse nessa coisa de primos que não eram de sangue. — Não, não somos e você sabe. Nossa família é louca por ter nos criado assim. E apenas o tio Eduardo encana com isso. — Seja como for, cara. Eu quero que você dê um jeito, porque se não, vai acabar virando um problema meu. Papai está irredutível e mamãe quer evitar uma briga dele com você ou seu pai. — Tio Eduardo é um cabeça-dura. — Roman balançou a cabeça. — De qualquer forma, se for para haver briga por causa disso, haverá, porque eu não vou abrir mão da Lu. Marco gemeu. Sua mãe cozinharia sua cabeça com esse assunto. Ele era um homem ocupado demais, não podia perder tempo com sua irmã maior de idade.


— E então, como será esse baile? — Marco mudou de assunto, esfregando a testa com as pontas dos dedos. Ele lidaria com isso depois. — O que é esperado? — Ah, o de sempre. Muito dinheiro e bebida envolvida. Marco não queria demonstrar, mas estava nervoso em rever Charlotte depois de tanto tempo. Porém, havia uma coisa boa nisso tudo. Se ela falasse com ele, Marco tentaria se aproximar... e então faria com ela exatamente o que ela fez com ele. Conquistaria sua confiança e em seguida destroçaria seu coração. Cadela maldita, era exatamente o que merecia. — Você está com uma cara nada boa, Marco. — Roman comentou, olhando fixamente para o rosto do primo. — Por acaso está planejando uma fuga só para não vêla? — Não. Não sou um covarde. Charlotte não é mais nada para mim. — Isso é bom. Nunca se sabe, talvez ela tenha mudado, mas se não mudou, não é bom confiar nela. Ela já te deixou na merda uma vez. — Você não tem que me lembrar, eu sei disso. O tom de voz de Marco deixou claro que ele não queria falar disso. O assunto “Charlotte” não era um assunto que deveria ser mantido em pauta. — Vamos para o hotel. — Roman disse, olhando Marco de soslaio. — Eu estou com saudade da Luciana, não nos vemos desde essa manhã. Marco suspirou. Ele sabia que Roman e Luciana iriam acabar na cama novamente. Que Deus os ajudasse se seu pai os flagrasse. — Odeio você, seu idiota. De tantas mulheres no mundo, tinha que trepar logo com a minha irmã? Nicole Valdez era a irmã mais nova de Roman de vinte e quatro anos. Era muito bonita, embora se escondesse do mundo. Tinha um rosto angelical, surpreendentes olhos verdes que escondia com óculos de armação grossa, e seus cabelos loiros sempre estavam presos em um coque. Era uma mulher deslumbrante, com um corpo lindo que ela mantinha escondido embaixo das suas roupas conservadoras de negócios. Nicole era um ano mais nova que Marco. Sempre foram muito unidos e tinham uma relação agradável. Marco até mesmo ensinou a garota a dançar quando eram


adolescentes. Mas já fazia dois anos desde que os dois se viram. Toda vez que ela participava de alguma reunião familiar, Marco não estava presente, ou vice-versa. Era como se eles brincassem de esconde-esconde um com o outro, nunca se vendo pessoalmente, apenas falando por telefone, às vezes. Nicole administrava o Royal Garden Hotel & Resort, na Califórnia. Era um dos hotéis cinco estrelas de propriedade da família Valdez no estado e era famoso por seu luxo, designs inovadores – desenvolvido pela empresa de Marco – e uma vista incrível. Roman subiu diretamente para o quarto dele, onde Luciana agora estava ficando, enquanto Marco saiu à procura da prima. Ele a encontrou ocupada na cozinha, fazendo mousse de chocolate. Ela adorava experimentar coisas novas, e andava fazendo aulas de culinária. Quando a cozinha do hotel fechava, ela colocava as mãos na massa. — Por que está se escondendo aqui na cozinha? — Marco perguntou e a abraçou, mantendo-a contra ele com firmeza. Ela ficou não ficou surpresa, pois já sabia que ele chegaria e fazia o mousse especialmente para ele, mas teve um susto por sua chegada furtiva. — Marc! Meu Deus, você me assustou, seu louco. Marco riu. — Por que você está aqui? Você deveria estar em seu escritório. — ele virou seu corpo de frente para si. Então pegou uma toalha de papel e limpou algumas manchas de chocolates das suas bochechas. Nicole corou um pouco. — Me apaixonei pela culinária recentemente. Comecei a fazer um curso. — Ela disse sorrindo. — Por que você ainda está usando óculos? Achei que faria a cirurgia LASIK mês passado. — Marco, tirou os óculos dela e os colocou em cima da mesa suja de chocolate. — No sei se devo. E se eu não me sair tão bem como você? Marco tinha feito uma cirurgia LASIK havia alguns anos para corrigir seu problema de visão. Ele decidiu fazer depois do que aconteceu com Charlotte e talvez aquilo tivesse sido a melhor coisa que resultou daquele relacionamento. — Sei que está nervosa, mas já conversamos sobre isso. — Ele sorriu. — Vai dar


tudo certo. É um procedimento bastante seguro. Nicole fez que sim, mas não respondeu. Pensaria depois nisso mais um pouco. Agora ela só queria curtir ter seu primo de volta. Luciana era ótima, e ela adorava poder conversar com uma garota, mas Marco era seu primo favorito. — Eu senti muito a sua falta. — ela disse, abraçando-o de novo. — Eu também senti sua falta. Marco beijou sua testa e acariciou seu cabelo. — Até que enfim um pouco de folga do trabalho, seu maníaco. — Sim, mas apenas graças ao idiota do seu irmão. Mamãe pediu para falar com ele e Luciana. Papai está soltando fogo pelas ventas. — Eu sei, Roman me disse. Oh, deixe-me dizer que Charlotte está aqui. Marco revirou os olhos com a mudança repentina de assunto. — O que você vai fazer quando a encontrar? — Quebrar seu pescoço, mandá-la ao inferno, ou talvez empurrá-la escada a baixo. Nicole soltou uma gargalhada. Marco não pôde deixar de notar como ela era linda fazendo aquilo. — Isso é muito bom. Você tem todos os motivos para odiá-la. — Eu não a odeio, só não gosto do jeito como ela me tratou. — ele disse com um pouco de amargura. — Hmm, sei... Marco pensou no que tinha dito e sorriu. Ele não a jogaria por uma escada ou a estrangularia, claro ele não era um criminoso, mas sabia ser um canalha. Anos atrás, seu pai lhe ensinou a arte de seduzir. Marco não era muito bom naquilo e teve o melhor professor que alguém desejaria. Ele sabia que se quisesse, deixaria Charlotte de joelhos. E quando ela estivesse desse jeito, ele partiria seu coração assim como teve o seu partido, ou até pior. — Você quer vingança. — Nicole, que observava a expressão dele, disse com um sorriso torto. — Você ainda a ama. A cor sumiu do rosto de Marco. — Não. Eu já superei isso, Nicole. Ele não precisava deixar ninguém saber que tinha um plano.


— Marc, por que não admite? Sou eu, a Nicole. Você ainda a ama, admite pra mim vai. — Eu não a amo mais. Ela é uma vadia, ok. Nicole estalou a língua e franziu os lábios. — Diga isso mais um milhão de vezes e quem sabe você se convence. — Droga, Nicole. Pare com isso. — Marco disse, frustrado. Ele não queria se irritar com a prima. — Vamos lá, me mostre meu quarto. Estou muito cansado. — Ok, espere. Eu só vou lavar as mãos. Nicole tirou o avental e lavou as mãos. Ela pediu a um dos assistentes que terminasse de preparar o mousse e que fosse levar ao quarto do Sr. Villa-Lobos quando estivesse pronto. Então acompanhou Marco até a suíte presidencial, assim como Roman havia prometido. Ele assobiou, tirando a jaqueta e os sapatos. — Onde é o seu quarto? — Eu fico com metade do andar de cima. Roman com a outra. — Estou certo em presumir que Luciana está no quarto do Roman? — Sim. Eles estão apaixonados, Marco. É tão lindo. Lindo, sei. Sempre é lindo no começo. Marco quis dizer isso em voz alta, mas se resguardou, afinal, queria que sua irmã fosse feliz e odiaria cortar as bolas do seu primo se ele a magoasse. — E você? Tem namorado? — Você está brincando comigo? Eu não levo o menor jeito pra isso. — Porque você escolheu assim. Você é linda, Nicole. Inteligente. — Marco a examinou de cima a baixo e ergue uma sobrancelha. — Gostosa. Nicole corou e deu um tapa no braço dele. — Você pode ser tudo que quiser. Com sua voz, beleza e corpo, poderia ser tantas coisas. — Não estou interessada em ser alvo dos paparazzi. Quero uma vida calma. Mas se quiser, pode me ajudar a arrumar um namorado. Não é possível que com vinte e quatro anos eu ainda seja virgem. Marco começou a rir.


— Pare com isso, seu idiota. Te contei porque é meu primo favorito e meu melhor amigo, mas não é pra você rir. Nicole fez cara feia e se virou para ir embora, mas Marco pegou sua mão e a impediu. — Desculpe, eu não estou rindo de você. É que você soltou isso do nada, como esperava que eu agisse? — De qualquer jeito, menos assim. — Vem cá. — Marco a levou até o espelho. — Olhe pra você. Você é linda, não precisa da minha ajuda. Qualquer cara seria sortudo em ser seu namorado. Nicole, no fundo, sabia que Marco tinha razão quanto aos seus atributos físicos, mas não sabia como lidar com aquilo. Eles eram os nerds da família, e quando ele mudou, ela não teve mais ninguém que levasse a vida assim como ela levava, então se fechou. Agora, em parte, ela se arrependia disso. — Vá para o seu quarto e vista algo sexy. — Marco disse, observando as expressões dela. — Tenho certeza que você dará um nocaute em alguém. Hoje à noite, você será minha acompanhante. E eu serei invejado por todos os homens. — Achei que fosse dormir. — Por você, querida prima, eu faço qualquer coisa. — E isso não tem nada a ver com fazer ciúme para a sua ex? — Nicole perguntou com um sorriso não tão inocente. — Não. Hoje minha mente estará pensando apenas em você. Charlotte estava estonteantemente bonita em um vestido apertado de veludo preto, com as costas nuas até a cintura e gola alta. Seu cabelo estava amarrado em um coque francês elegante e ela bebia vinho no bar enquanto esperava seu agente, Craig Cooper, descer e se juntar a ela. Eles iriam jantar no restaurante do hotel e em seguida, passariam um tempo em uma boate próxima. Charlotte e Craig estavam no Royal Garden Hotel & Resort para um evento de caridade de angariação de fundos. Mas não era só isso, Charlotte achava a Califórnia um dos melhores lugares para descansar. Ela tinha tido um ano estressante, passando por inúmeros eventos como Miss Universo e no fim, estava feliz por seu tempo com a


coroa e a faixa estarem acabando. Ficaria muito satisfeita em ceder tais coisas a outra mulher, afinal, já tinha feito a vontade de sua mãe. Agora, ela só queria relaxar um pouco e com certeza, seu agente cuidaria disso. Ele adorava uma boa farra. Depois que todo o glamour acabasse, Charlotte pretendia por em ação o que tinha aprendido na faculdade. Desejava abrir seu próprio negócio e então seria completamente livre. Como sempre quis. Ela olhou no relógio por cima do ombro de um dos barmen e suspirou por Craig estar demorando tanto. Ao seu lado, um homem sentou-se em um dos banquinhos do bar e pediu um Martini. O coração de Charlotte começou a bater muito rápido, pois ela achou a voz muito familiar, embora que um pouco mais grave e rouca do que ela costumava ter em sua cabeça. Ela olhou para o lado devagar e sua garganta secou com a visão que seus olhos tiveram. Meu Deus, é ele. Marco virou-se para ela e arregalou os olhos, momentaneamente surpreso. Mas logo cobriu seu rosto com uma máscara e a encarou friamente. — Olá, Charlotte. — Marco deu um sorrisinho que fez as entranhas de Charlotte se contrair. — Há quanto tempo.


5

— Marco. — Charlotte disse suavemente. Marco sorriu. — Você parece diferente. Sabe, não parece ser mesma Charlotte que eu costumava conhecer. Charlotte tossiu e balbuciou. — Ah... ah... eu ainda sou a mesma pessoa. — Ela estava com vergonha, era ridículo estar gaguejando diante de Marco depois de tantos anos. — Eu... eu tenho que projetar a imagem perfeita de uma Miss Universo. Marco assentiu. Depois acrescentou em tom mais sério. — Não... não foi uma crítica fútil... quero dizer, você está parecendo mais cheinha, sabe. Um pouco mais gordinha. Mas não se preocupe, isso combina com você. — Ele pontuou a frase com um sorriso arrogante. Charlotte sentiu-se insultada. Ela mantinha uma dieta rigorosa e praticava exercícios como uma condenada apenas para manter a forma. Era um absurdo que ele tivesse dito que ela estava gorda. Mas mesmo assim Charlotte não pôde deixar de olhar para a sua barriga, apenas para conferir se tinha gordurinhas a mais aparecendo sob o vestido. Mas notou o sorriso de satisfação de Marco ao fazer isso e voltou os olhos para seu rosto com uma velocidade impressionante. — Obrigada, de qualquer forma. Você está diferente também. Parece mais velho. Se eu não te conhecesse há anos, poderia pensar que é um cara de meia idade e cá entre nós, eu não gosto muito de ser vista com esse tipo. — Charlotte disse, dando-lhe o sorriso que a fez ganhar o concurso de Miss Universo. Nenhum homem era forte o bastante para resistir àquele sorriso e Marco sentiu um frio na barriga. Ele imediatamente fechou a cara e essa foi a vez de Charlotte rir com arrogância. Bom, ele havia começado, agora tinha que aguentar. Esta mulher ainda é uma vadia! Marco pensou. Ele não poderia se deixar ser


afetado por ela. — Bom, isso é o que acontece quando você trabalha o suficiente para entrar na lista dos dez bilionários mais jovens do mundo da revista Forbes. — Ele sorriu largamente, mostrando todos seus dentes brancos. Charlotte bufou. Ele não se parecia em nada com o cara meigo que ela havia conhecido. Aquele cara era um nerd no modo de vestir, falar e agir, mas era um amor e por isso tinha sido tão fácil se apaixonar por ele. Esse parecia um galã de cinema frio e arrogante. Mas talvez, pensou Charlotte com um toque de culpa, isso fosse culpa dela. É verdade que quatro anos tinham se passado, mas será que existia a chance de ele ter mudado tanto apenas por causa dela? Ou era tolice pensar que ele mudaria completamente seu modo de se vestir e agir apenas por causa dela? De qualquer forma, ela sentiu-se na obrigação de se desculpar. — Sinto muito pelo que aconteceu na última vez que nos vimos. Eu era uma menina ainda e não tive força o bastante para defendê-lo. Vadia! Seu pedido de desculpas veio tarde demais. Marco sorriu para si. — Não precisa se desculpar. As coisas dão certo quando têm que dar. Meses depois de tudo aquilo, eu nem lembrava mais do que tinha acontecido, então relaxa. — Ele sorriu e continuou. — Pelo menos a experiência com você me deixou alerta em relação a alguns tipos de mulheres. — Que tipo de mulheres? Marco não respondeu de imediato e isso incomodou Charlotte. Ele estava insultando-a novamente? — Dessas que a gente vive uma aventura. É até bom de vez em quando. O coração de Charlotte cairia no chão se ela estivesse com ele em suas mãos. Felizmente ele estava seguro dentro de sua caixa torácica, então apenas deu uma guinada dolorosa. Marco realmente tinha mudado, mas não fora por sua causa. Ele a tinha esquecido, o que a fez pensar que talvez o amor que ele dizia sentir, não fosse assim tão grande. Claro, porque se não tivesse esquecido, estaria furioso. Ela sabia que mereceria cada pedaço de ira que ele quisesse derramar sobre ela. Assim, pelo menos, ela saberia que tinha estado em seus pensamentos por todo esse tempo, assim como ele esteve nos


dela, impedindo-a de dormir muitas e muitas noites por causa da culpa e do coração partido por si própria. Mas se ele nem se dava ao trabalho de fingir uma chateação, queria dizer que ele não se importava com ela nem um pouco, e que ela tinha sido exatamente o que ele falara há pouco, uma aventura e nada mais. Charlotte ficou calada por muito tempo, considerando se deveria contar-lhe a verdade sobre o que tinha acontecido naquele dia, mas eles estavam em um jantar formal e para que ele entendesse, ela teria que contar tudo. Mas Charlotte queria pelo menos perguntar se ele tinha uma esposa ou namorada no momento. Se ele respondesse que sim, ela deixaria toda essa história para trás, afinal, não havia motivo para ressuscitar o passado se nem ele mesmo lembrava como tinha sido, segundo suas palavras. Mas se ele dissesse que não, bom... ela queria marcar um encontro e explicarlhe cada passo que a levou a fazer o que fez naquela manhã. O pior erro de sua vida, pensou amarga, já que ainda o amava. — Marco, você tem... — Charlotte estava prestes a perguntar, mas os olhos de Marco se concentraram em outro ponto e ela percebeu que ele estava sorrindo para alguém. Charlotte olhou para a mulher que chamou a atenção dele e viu o motivo. Era uma loira absolutamente linda. Usando um vestido vermelho e com o cabelo solto, ela parecia realmente poderosa, o tipo de mulher com quem Marco, provavelmente, se envolvia agora. Charlotte de repente sentiu ciúmes. — Ah... desculpe-me. Foi um prazer enorme vê-la novamente. — Marco a dispensou sem nem ao menos olhar em seu rosto. Os olhos dele estavam voltados para a mulher de vermelho. Charlotte se sentiu rejeitada como nunca tinha sido antes. Marco sorriu quando viu Nicole entrar. Ela parecia absolutamente estonteante, um nocaute para qualquer homem. Mal podia acreditar que a garota mal arrumada e com óculos gigantes que ele vira havia poucos minutos estava tão deslumbrante agora usando um vestido vermelho marcante, cabelos soltos indo até a cintura e sem óculos. Devia estar usando lentes de contato. Suas pernas pareciam não ter mais fim e a sutil curva do seu decote dava a ela uma aparência sexy e recatada ao mesmo tempo.


Marco se aproximou, quase atropelando as pessoas pelo caminho, mas franziu a testa quando viu um homem alto atrás dela. Eles estavam sorrindo um para o outro, como se compartilhassem uma piada ou algo mais interessante. Marco não pensou duas vezes e foi diretamente para o lado de Nicole, em seguida, a beijou nos lábios, deixando-a momentaneamente desnorteada. Nicole não quis ser rude, mas empurrou de leve o peito dele. — Acho que isso é um pouco demais, Marco. — Depende. Quem é aquele cara? — Oh, o nome dele é Carlos. Ele é um príncipe. — Um príncipe? — Marco perguntou, franzindo a testa e olhando para trás dela, onde o homem ainda estava de pé. — Sim. Príncipe da Espanha! Eu o conheci no elevador. Nós estávamos conversando e eu disse que estava indo me encontrar com meu primo. Mas você me beijou na frente dele e agora ele deve estar pensando que eu sou uma cadela mentirosa. — Nicole o censurou, apertando os dentes. Marco quase rolou os olhos, mas não queria irritá-la. Também não estava confortável em deixá-la com aquele cara, que poderia muito bem ser apenas um cara a fim de se dar bem. Ele olhou para onde estava minutos antes e viu Charlotte bebericando sua bebida com um homem sentado ao seu lado. — Preciso de um favor. — Jura que ainda vai me pedir favor? Achei que era pra vir porque queria ver os homens babando por mim. — Isso foi antes de eu vê-la. — Quem? — Nicole perguntou com interesse. — Charlote. — Oh! Sério? Onde? — No bar. — E você quer fazer ciúme pra ela. — Nicole afirmou com um sorriso diabólico. — Eu só... — Marco bufou, pois não queria que Nicole pensasse isso, mas não é que não fosse inteiramente verdade. — Tudo bem, Marc. Seremos o par um do outro hoje, mas vê se pega leve nesses


beijos ou vou ficar tonta. Após a breve conversa, Nicole ficou muito cooperativa. Ela abraçava Marco o tempo todo e fazia questão de rir sobre tudo que ele dizia. Em alguns momentos, olhava de soslaio para o bar e via que Charlotte observava tudo. Sua expressão lembrava a de alguém que comeu algo desagradável. Engole essa, vadia. Marco parecia satisfeito consigo mesmo. Charlotte estava com uma cara péssima e Nicole não estava dando mole para o tal príncipe. Ele estava tendo as duas coisas que queria. De mãos dadas como um casal apaixonado, eles foram até a área do jantar, para a mesa de Roman e Luciana. — Santa mãe de Deus! O que aconteceu com você pra se vestir assim? — Roman perguntou a Nicole. — Bem, já era hora de uma mudança. — Respondeu Nicole. — E você? — ele perguntou a Marco. — Eu vi quando você a beijou. Por que fez isso, seu sem-vergonha? Marco fez uma careta. Como exatamente ele poderia fazer uma pergunta dessa? Luciana olhou diretamente para Marco e sorriu com sarcasmo. Ela estava consciente do plano dos seus pais de chamarem-no para colocar “juízo” na cabeça dela. Ela fez um gesto para que ele limpasse o batom da sua boca. — Diga isso a si mesmo, seu escroto. Era apenas fingimento. — Marco disse enquanto limpava os lábios com o guardanapo. — Você fode a minha irmã. É bem diferente. Luciana corou carmesim com as palavras do irmão. — Marco. — ralhou ela. — Charlotte estava no bar. — Marco disse a contragosto. — Eu só queria... — Fazer ciúmes à sua ex? — Roman riu. — Deveria ter escolhido então uma mulher que não fosse sua prima. — Vai pra merda, Roo. — Nicole disse um tanto enfezada. O próprio irmão estava tirando sarro da sua cara? — Irmãzinha, por que deixou ele te usar? — Roman perguntou a Nicole com falso interesse. Ela não quis responder que ela também o estava usando, pois assim, ao lado de um


homem como Marco, ela viu vários outros olhando em sua direção com muito interesse, além do príncipe. Ora, homens querem o que outros homens querem. Não é esse o ideal masculino? — Por que não? — ela respondeu simplesmente. — Nós somos uma família. E família ajuda um ao outro. De qualquer forma, eu conheci alguém esta noite. Ele é príncipe da Espanha. Seu nome é Carlos. — Sério? Isso sim é uma boa notícia. — Luciana deu uma risadinha. Ela não queria nem pensar em Charlotte logo ali no bar. Aquela cachorra tinha feito seu irmão comer o pão que o diabo amassou por anos. Imaginava que ainda fazia, mesmo que ele negasse até a morte. E por mais que ela gostasse de importuná-lo e tornar sua vida um pesadelo, como qualquer irmã caçula, ela amava Marco da mesma forma como amava seus pais e não gostaria de vê-lo enlaçado com aquela mulher outra vez. — Sim, quem sabe, finalmente, eu não arrumo um cara pra mim? — Não se iluda tanto. — disse Marco com uma cara nada bonita. — Ele pode muito bem ser o príncipe dos ladrões. — Ah, não seja mau... Ele não é. — retrucou Nicole. Luciana riu novamente. Parece que seu irmão estava com ciúmes. — Vou resolver isso já. Amor, me dá o celular, eu não trouxe o meu. — ela pediu a Roman. — Vou procurar no Google. Se ele for príncipe da Espanha, deve aparecer na pesquisa. Roman deu o celular à Luciana e todos aguardaram enquanto ela fazia a busca. Depois de um tempo, ela virou o celular para a prima. — Este é ele? Príncipe Carlos da Espanha? Nicole olhou de perto e confirmou: — Sim, é ele. — Ele é tão lindo! — Luciana deu o celular a Nicole para que ela visse as outras fotos. — Ei! Mais lindo do que eu? — Roman perguntou a Luciana, fazendo beicinho. — Claro que não, amor. Você é o homem mais lindo do mundo. — disse Luciana, beijando os lábios de Roman. — Só perde para o meu pai. Aquele ali ninguém supera, nem meu irmãozinho ou você. Marco e Roman fizeram menção de resmungar, mas desistiram. Talvez a maioria das


mulheres concordasse com ela. — Sim, este é o Carlos. — Nicole disse, como se não tivesse ouvido nada do que Luciana falou. — Veja Marco, ele é mesmo um príncipe. — Tudo bem, mas não se anime. Ele pode ser um playboy. — Marco respondeu. — Acho que não. Ele é de uma família real, não poderia ser um playboy. — Só estou avisando. Talvez seja bom você ficar com um olho esperto. — Marco, eu não sou criança. — Roman, quer, por favor, cuidar da sua irmã? — Prefiro cuidar da sua irmã. — Roman disse com uma piscadela para Luciana e um sorriso tão sacana que Luciana sentiu um calor imediato. — Nicole é adulta. Além do mais, ela tem você, não tem? — Podem calar a boa, os dois. — Nicole disse áspera. — Eu não preciso do meu irmão cuidando de mim. Nem do meu primo. Agora podemos ir logo para a clube, já que ninguém aqui tem a intenção de jantar? Ela levantou-se de supetão, o que gerou um frenesi nos outros, que logo a acompanharam. Marco viu Charlotte no momento em que entrou no clube. Ela estava com alguém, um homem. O mesmo de antes. Ele se perguntou se era seu namorado. Eles pareciam muito confortáveis um com o outro. Ele agarrou a mão de Nicole e a abraçou com força. — O que foi? — Nicole perguntou surpresa. — Ela está aqui. — Oh! Ok. — disse ela e abraçou-o de volta. A raiva momentânea já tinha passado. — Ei, não exagerem as coisas. Você são primos. — Roman disse atrás deles. Luciana deu uma cotovelada no namorado e o mandou ficar quieto. Marco deu a Roman um olhar irritado. — Vai se foder. — Só mais tarde. — disse Roman. Luciana jogou as mãos para cima e foi sentar-se em um sofá em um dos cantos do clube. — Vamos lá, vamos dançar. — Marco arrastou Nicole na pista de dança.


Eles dançaram até seus pés começarem a doer. Nicole pediu um tempo para descansar, mas quando a música ficou lenta, Marco pediu que ela continuasse a dançar com ele pelo menos aquela música, e seu sorriso foi tão lindo e galante que ela não teve como negar. Então alguém tocou o ombro de Marco. — Você se importa se eu dançar com Nicole? Marco ficou sem palavras. Ele estava prestes a dizer que se importava, quando Nicole respondeu. — Claro que ele não se importa. Certo, primo? — Marco olhou para ela com a cara feia, então ela apenas mexeu os lábios. — Por favor... — Ok, mas só uma dança. — Marco disse, encarando o príncipe. — Sim, senhor. Marco estava indo para o sofá onde Roman e Luciana praticamente começavam uma preliminar quando viu Charlotte olhando para ele. Ele olhou para ela e os dois ficaram assim por vários tensos segundos, até que ela se levantou e saiu do clube. Ele a seguiu. Charlotte andava em direção à varanda da casa noturna e sentia que Marco a seguia um pouco de longe. Então parou e esperou por ele perto do jardim. Não podia vê-lo, mas sentia sua presença, bem ali há alguns metros de distância. Ela passou a mão pelo pescoço, deixando exposto ao ar da noite e Marco sentiu sua boca salivar. Ele queria colocar os lábios ali e beijá-la por horas até perder os sentidos. Vadia. Ela ainda sabia como deixá-lo louco. Marco respirou fundo e se aproximou mais, deixando-a perceber que já estava a menos de meio metro dela. Ela virou-se com um sorriso sedutor. — Marco. Inferno, ela era muito linda. Seu corpo inteiro sentiu uma espécie de tremor, seu pau endureceu na hora. Sua pulsação acelerou. Charlotte não tinha muita experiência com homens na época em que eles namoraram, mas a essa altura já tinha alguma. E não deixou de notar a sutil mudança no comportamento dele. Então, apenas para provocar mais, ela lambeu os lábios e teve a satisfação de vê-lo murmurar um palavrão. De repente, eles se beijaram violentamente. Pareciam famintos. Como se não houvesse amanhã. Suas línguas duelaram o tempo todo, querendo cada uma assumir o


controle sobre o beijo. No fim, Marco venceu e não tinha como ser diferente. O rapaz antes tímido, tinha se tornado um predador e Charlotte, por mais mulher que tivesse se tornado, não tinha resistência o suficiente para ele. Marco beliscou e chupou os lábios dela de forma cada vez mais frenética. Depois a escorou em um poste que estava convenientemente próximo a eles no meio do jardim e segurou um dos seis dela por cima do vestido negro. Ela gemeu quando ele pressionou sua ereção contra o meio das suas pernas. Nunca eles tinham transado. Charlotte não era virgem quando eles namoraram, tampouco Marco, mas ambos quiseram esperar um pouco mais, e acabaram nunca tendo a chance. Não que eles não tivessem tido algumas provas de como era o corpo um do outro. Charlotte sabia que um pouco abaixo do umbigo, no meio do V que levava ao que Marco guardava com muito orgulho, pois realmente era motivo de orgulho ter um monumento tão grande e grosso, ele tinha uma pinta de nascença do tamanho do seu polegar. Marco, por sua vez, sabia que se mordesse embaixo dos seios de Charlotte, ela teria um espasmo de prazer. E por Deus, era exatamente isso que ele queria fazer. Talvez ele devesse esquecer tudo e apenas aproveitar o momento, quem sabe recomeçar. Talvez ele... — Eu quero você de volta. — Charlotte disse com a voz rouca e necessitada. Ou talvez não... Puta merda! Marco de repente ficou muito irritado. Então era assim? Um pouquinho de charme, uns amassos, estalar os dedos e ela o teria quando bem quisesse? Não mesmo. Ela ainda era a mesma menina egoísta e mimada que ele conheceu. — Sei que faz tempo que não nos vemos. — Charlotte disse com cautela ao perceber que Marco tinha parado de beijá-la e a olhava com curiosa expressão. — Mas talvez... — E você quer isso agora? — Marco perguntou, interrompendo-a. — Bom... — Seria besteira negar. Ela o desejava. Já não era uma menina com pouco conhecimento das coisas. Era uma mulher que ardia de desejo por ele. — Eu... não tenho camisinhas comigo aqui. — Eu não estava pensando em ser aqui. — Charlotte sorriu, inocentemente. — Vamos para um lugar mais reservado? — O banheiro? — Charlotte perguntou, lembrando-se da vez em que ele propôs isso anos atrás. Ela quase aceitou, só não transou com ele naquele banheiro porque queria


que sua primeira vez com ele fosse especial. — Não. Pensando melhor, é bom não ser por aqui. Por que não me espera no seu quarto? Eu prometo que será inesquecível. Charlotte se aproximou dele novamente e o beijou mais uma vez. Marco apalpou sua bunda e a trouxe para mais perto de si. — Vai ser uma delícia tirar esse vestido de você, Charlie. Charlotte se emocionou ao ouvi-lo chamá-la assim novamente. — Então estarei esperando no quarto. Nua. — Uau. — ele deu um sorriso diabólico. — Sim e por que não vai se aquecendo por enquanto? Mas nada de gozar, tá. Eu vou fazer isso quando me enfiar em você. Charlotte sentiu o corpo tremer em antecipação. Sorriu, beijou-o mais uma vez e começou a andar em direção ao hotel, digitando uma mensagem para Craig, dizendo que estava encerrando a noite. Marco a observou com o olhar atento, queria ter certeza de que ela estava mesmo indo para o quarto. Quando confirmou, sorriu para si mesmo e sentiu-se poderoso, pois sua vingança tinha acabado de começar.


6

Marco voltou para o clube e começou a procurar por Nicole. Logo a encontrou, dançando ainda com o tal príncipe. Caramba, ele tinha saído havia um bom tempo e pelo menos três músicas já tinham tocado, então por que ela ainda estava dançando com ele? E pior, rindo em seus braços. Marco não confiava nele e ficou irritado, caminhando em direção a eles. — Acho que é o bastante. — Marco disse firmemente ao príncipe. — Eu disse apenas uma dança. O príncipe ficou surpreso quando viu Marco ao seu lado. — Sí, sí, está bien. — Ele recuou, mas piscou para Nicole. — Eu te ligo. Marco perfurou a parte de trás da cabeça do príncipe com o olhar enquanto ele se afastava e Nicole deu-lhe um tapa forte no braço, claramente irritada. — Marc, o que você está fazendo? — ela reclamou com a voz ácida. — Você está flertando com ele. — Ele cerrou os dentes. — E o que você tem a ver com isso? Você está agindo muito estranho hoje. Ela deu outro tapa nele, dessa vez, na nuca. — Isso machuca, sabia? — Marco disse esfregando o local acertado. — Por que você deu a ele o seu número? Tá louca? Eu não confio nesse cara. Nicole colocou as mãos nos quadris e o olhou com fogo nos olhos. — E por que não? Quer saber, deixa pra lá, eu não ligo para o que você diz. Ele é muuuito gostoso. Marco fez uma careta e Nicole se afastou deixando-o boquiaberto. Quem ele pensava que era para agir daquela forma? Tudo bem que eles tinham um “pacto” para a noite, ser o par um do outro para fazer ciúmes à Charlotte e para que os homens olhassem para ela, mas ele não tinha que levar tão a sério. E agora que um cara realmente estava se interessando por ela, por que diabos ele estava agindo tão estranho? Não era esse o plano?


Nicole se dirigiu à mesa em que o irmão e a prima estavam e Marco a seguiu. — Ei, o que há de errado? Por que você está fazendo beicinho? — Roman perguntou a ela. — É o Marco, está agindo como um lobo mau, e implicou por eu dançar com o Carlos. — Vocês não estavam apenas dançando. — Marco disse atrás dela. — Estavam flertando. — Eu não estava flertando. Nem ele. Ele estava apenas me ensinando espanhol. — Oh, é mesmo? — Marco debochou. — Sim. Ele me ensinou algumas frases. Como estás? Como se llamas? Dónde eres? Qué haces aqui? — Isso é legal, útil caso um dia você vá à Espanha. O que mais? — Luciana perguntou. Nicole riu e continuou. — Eres muy hermosa... ahm... Quiero llevarte a la cama. — O quê? — Roman e Marco disseram juntos. — Você sabe o que isso significa? — Marco disse, vermelho de raiva. — Que ele quer te levar pra cama. — Você é muito inocente, irmãzinha. Eu quebro a cara dele se te tocar. Nicole acenou com a mão, desdenhando deles. — Ele não faria isso assim. Ele é muito cavalheiro. Sabe Luciana, — ela ignorou completamente os dois homens ao seu lado — ele tem um rancho e disse que adoraria me ensinar a cavalgar. Roman abriu a boca, pasmo pelas palavras da irmã, que claramente não tinha entendido o duplo sentido da oferta do príncipe. Marco ficou totalmente transtornado com a imagem de Nicole cavalgando o idiota na cama. Então ele esfregou o rosto. Oh Deus! O que estava acontecendo com ele? Por que estava tão preocupado com Nicole? Ele mesmo pensou que era estranho que em sua idade ela ainda fosse virgem e pediu que fosse seu acompanhante essa noite para provar a ela que era muito atraente e capaz de deixar um homem de quatro. Agora parecia estar morrendo de ciúmes desse imbecil?


Que porra havia com sua cabeça essa noite? Ele nunca tinha agido dessa forma com Nicole. Ela era sua prima, porra. Bom, não exatamente, mas era como se fosse. — Cá entre nós irmãozinho, — Luciana cochichou no ouvido de Marco — acho que você está mais fodido do que eu, digamos assim. Sua cara não está nada boa. — Não seja ridícula. Luciana riu alto, chamando a atenção de Roman e a irmã, mas não falou nada quando questionada. — Vamos beber. — Nicole disse. — Faz tempo que eu não faço isso e hoje quero aproveitar o fato de ter sido tirada do trabalho. — Eu concordo. — Marco complementou. — Eu também estou de folga e quero aproveitar. Luciana chamou uma garçonete e pediu uma bandeja de tequila. Se era pra beber, que bebessem até cair. — Não quero isso. — Nicole disse, olhando para a garçonete prestes a ir embora. — Vou querer um orgasmo estridente. — Isso aí, garota. — Luciana falou com entusiasmo. Roman, por sua vez, fez uma careta horrenda. — Isso lá é nome bebida. — ele resmungou. — E eu vou querer um boquete. Ou melhor, vários. Traga vários orgasmos pra ela e vários boquetes para mim. Marco balançou a cabeça com desgosto. Será se só ele e Roman beberiam algo de verdade? — Ok, traga a bebida delas e para mim e meu primo, traga uísque. A garçonete concordou, anotou o pedido em um bloquinho e saiu sorrindo. Minutos depois, cada um com sua bebida, eles fizeram um brinde. Beberam até quase de madrugada e quando começou a fase de karaokê no clube, Marco arrastou Nicole até o palco, mesmo com seus protestos. A música era conhecida por eles. A cantavam desde garotos, mas mesmo assim, Nicole estava nervosa. Ela nunca era o centro das atenções e agora, definitivamente, ela estava sendo. Mas Marco monopolizou um pouco a atenção, tocando guitarra divinamente e isso fez com que ela se acalmasse mais e soltasse a voz. E que voz! Era


simplesmente linda. O público aplaudiu quando eles terminaram. Marco abraçou Nicole e sem se conter, beijou-a levemente. Ela, dessa vez, não reclamou. Talvez fosse o efeito do álcool, mas ela não achou tão errado como antes. Eles voltaram para a mesa depois. — Isso foi incrível! — Luciana vibrou. — Vocês arrasaram. Roman estava franzindo a testa. Ele estava dando a Marco um olhar de “você beijou sua prima de novo, idiota”. Mas Marco não ligou. Quem era ele para falar sobre isso? Ele transou com sua irmã. Às duas da manhã, Marco acompanhou Nicole para seu quarto no andar de cima. Eles riam e contavam piadas maldosas um ao outro. Ele adorava provocar Nicole porque ela se irritava facilmente. Era assim desde menina. Quando chegaram ao quarto dela, Nicole disse: — Marc, eu estou cansada. Adoraria que me irritasse mais um pouco, mas estou morrendo de sono. Pega o rumo do seu quarto. — Não, eu vou dormir aqui. Sua cama parece tão grande e acolhedora. — Ele já estava tirando os sapatos e o terno. Era estranho, mas ele não queria ficar sozinho, sabendo que Charlotte estava tão perto dele. Ele preferia ter uma noite tranquila com Nicole do que dar voltas e mais voltas na cama, pensando na outra. — Tá louco? Não podemos dormir na mesma cama. — Por que não? Fazemos isso desde crianças. — Mas não somos mais crianças. — Nicole observou sabiamente. — Em algumas coisas, talvez. — ele riu. Por favor, que ela não o mandasse embora. Nicole revirou os olhos. — Que seja. — Ela tirou os sapatos de salto alto. Em seguida, sem qualquer malícia, virou as costas para Marco e começou a despir-se. Ela tirou o vestido vermelho, revelando a combinação de calcinha e sutiã de renda preta. Em seguida, foi para o banheiro. Os olhos de Marco escureceram ao ver Nicole quase nua. Seu corpo todo tremeu. Ele teve um súbito desejo de beijar toda aquela brancura e fazer amor com ela descontroladamente, imaginando seus sons, mas logo reprimiu seus pensamentos.


Aquilo não era certo. Claro, ela não era sua prima de sangue, assim como Roman e Luciana, mas ele sempre a tratou de tal forma, diferente de Roman e Luciana que sempre foram loucos um pelo outro. Mas, Deus, ela era muito sexy. Ele ainda vivia um dilema se dormia ali ou voltava para o seu quarto quando Nicole voltou do banheiro e se deitou, dando tapinhas no colchão para que ele deitasse ao seu lado. Ela estava usando um top e um short de algodão fino. Droga! Ela era muito gostosa. Perfeita. Ele observou seus mamilos pontudos sob o tecido e quase gemeu diante da visão, mas Nicole parecia alegrinha demais por causa do álcool, por isso não percebeu a fome com a qual Marco a encarava. Ele estava praticamente salivando. — Nicole, eu acho sensato voltar pra o meu quarto. Não acho que vá conseguir dormir aqui. — Por quê? — Eu... ahmm... — Vem logo, seu bobo. Marco tirou a calça, ficando apenas de cueca e camisa e deitou-se, ainda hesitante. Ela se inclinou contra seu peito, pronta para dormir e por sorte fez isso logo, assim, não podia ouvir ou sentir a aceleração do seu coração. De certa forma era reconfortante têla em seus braços. Fazia tempo que ele não dormia com uma mulher. Ele tinha alguns casos aqui e ali, mas não costumava dormir com ninguém. Estava feliz por estar com alguém que ele gostava. O problema é que quando Marco fechou os olhos e dormiu, não foi com a mulher que estava em seus braços que ele sonhou. Foi com outra loira. Uma loira que ele se esforçava para odiar e de quem queria se vingar a todo custo. Em seu quarto, Charlotte ainda estava acordada e esperando por Marco. Ela tinha tomado um banho, colocado um robe sexy e nada mais. A maquiagem e o perfume que usava eram tão sutis que apenas um amante podia notar. Marco. Hoje ela iria seduzi-lo. Seria dele e ele seria dela, por fim. Mas onde ele estaria agora? Talvez tivesse voltado para o clube bebido um pouco. Talvez tivesse se envolvido em uma briga. Ou talvez tivesse encontrado outra mulher


com quem ter prazer. Ok, ele não faria isso, ela estava ficando paranoica. Mas o que poderia ter acontecido? Porra, já eram três da manhã. Charlotte decidiu ir até o clube e procurar por ele. Então vestiu uma camiseta e jeans, mas o lugar já estava fechado. Ela resolveu ir até a recepção e perguntou em que quarto ele estava, não se surpreendendo quando disseram que era na suíte presidencial. Talvez ele tivesse mudado de ideia quanto ao lugar e quisesse lhe fazer uma surpresa, sabendo que ela o procuraria. Mas quando ela bateu na porta, ninguém atendeu. Ela ficou uns minutos ali, agitada. Onde diabos ele tinha se metido? Charlotte voltou para o quarto e olhou para o relógio. Eram três e meia da manhã. Meu Deus! Ela teria um evento super importante ás oito e não tinha dormido nem um pingo.


7

Marco acordou às nove horas da manhã seguinte. Sentia-se bem e cheio de energia. Foi a primeira vez em tantos anos que ele dormiu durante oito horas seguidas. Ele costumava dormir apenas cinco ou seis horas por dia. Marco saiu do quarto, esfregando os olhos e foi direto para a cozinha anexa, esperando encontrar Nicole preparando alguma das delícias que ela mencionara ter aprendido. Porém, ele não a encontrou de imediato, pois sua vista foi totalmente tomada por um enorme buquê de lírios, alguns balões em formato de coração e um bicho de pelúcia gigante. — Mas que galante! — Ele disse com sarcasmo para si mesmo enquanto lia o bilhete anexado ao urso. Nicole, Janta comigo esta noite? Eres tan bela. Quiero conocerte mejor. Eu vou ficar muito triste se você disser não. Carlos. Depois de um tempo Marco foi até a cozinha do hotel, já de banho tomado, vestido com camisa e calças pretas. Ele encontrou Nicole fazendo alguns biscoitos. Ela estava usando novamente suas roupas de negócios e os óculos de armação larga. — Oi! Eu chamei a camareira e mandei jogar toda aquela porcaria no lixo. — Marco cumprimentou. Os olhos de Nicole se arregalaram e ela sacudiu a cabeça em advertência. — Oh não, me diga que você não fez isso. — Eu fiz. — Marco disse olhando diretamente para os olhos, com um sorriso típico de um Villa-Lobos metido e arrogante.


— Marco! — Nicole gritou e jogou uma colherada de Nutella em seu rosto. — Calma, eu só estou brincando. Ela o encarou por alguns segundos, decidindo-se se deveria jogar, dessa vez a colher, em sua cabeça. Por fim, apenas concluiu que seu primo era um grande bobão e deixou para lá. — Vou jantar com ele esta noite. — Nicole riu. Marco revirou os olhos. — Ele é um playboy. Ele só quer te comer e te dar adeus na manhã seguinte. — Marco, eu não acho que seja assim. Ele não fez nada que me desrespeitasse. Além disso, ele é conhecido por ser cara pé no chão. Claro, ele era um príncipe. Quem falaria mal de um príncipe? — Esse é o seu conceito. Eu não concordo. — Você não tem que concordar ou discordar com nada. Sou eu quem vai sair com ele e não você. Marco esfregou as mãos com força no rosto. Ele não gostava da ideia de saber que sua prima – tão inocentemente encantadora – sairia com um cara que claramente só estava interessado em seu corpo virgem e no prazer que poderia extrair dele. — O que foi? — Perguntou Nicole com a cara fechada. —Nada. — Marco deixou os ombros caírem em derrota. Ele já tinha usado os argumentos que podia para impedir seu destino, a partir de agora não podia fazer mais nada. Apenas torcer para que Nicole tivesse um pouco de juízo e não se rendesse ao primeiro galanteio do tal príncipe. — O que você está fazendo mesmo? — Biscoitos e alguns cupcakes para o Carlos. Ele disse que adoraria comer o que eu tenho a oferecer. Marco gemeu e balançou a cabeça. Oh Deus, onde eu fui arrumar uma prima assim? Charlotte acordou às seis da manhã, totalmente exausta. Mal tinha dormido e seu corpo parecia que tinha sido atropelado por um trator. Geralmente, ela não ficava cansada depois de um dia inteiro de fotos e entrevistas, mas os eventos do dia seriam desgastantes demais com ela nesse estado. E para piorar, sua cabeça estava prestes a


explodir. Ela perguntou-se, com desânimo, se aguentaria todas as atividades programadas sem ter uma epifania. E tudo isso era culpa de Marco. Ou dela, pois, provavelmente, ele estava se vingando pelos acontecimentos de quatro anos atrás, ela não tinha dúvida. Por que mais ele diria que queria ir para cama com ela e depois lhe daria um bolo? Ela tinha que dar um jeito de esclarecer as coisas de uma vez. Tempo demais já havia se passado e tinha chegado a hora de contar a verdade a ele. Quando Craig bateu na porta do seu quarto, minutos depois, ela já estava vestida, porém ostentava uma cara péssima. Ele ajudou-lhe com a maquiagem, perguntou o que tinha acontecido para que ela estivesse naquele estado, já que tinha mandado uma mensagem para ele dizendo que encerraria a noite ainda cedo, mas quando Charlotte recusou-se a responder, seu agente apenas sugeriu que ela tomasse um pouco mais de café do que costumava. E como não tinha muita escolha, abasteceu-se de dois copos seguidos de café puro, fazendo careta, mas engolindo bravamente, pois ela tinha muitas pessoas a quem impressionar. O evento de angariação de fundos começou exatamente às oito da manhã e, graças ao seu combustível quente, Charlotte conseguiu acenar e sorrir para os convidados o tempo todo. Perto do meio dia, ela teve uma folga e ao ver que Marco estava em uma mesa no restaurante, pediu licença e dirigiu-se a ele. Ele estava com o mesmo grupo com o qual ela o vira na noite passada. Craig disselhe que a gerente desse hotel era Nicole Valdez, a loira com quem Marco estava agarrado a maior parte da noite. Seu irmão Roman a ajudava, mas era ela quem mandava e desmandava em tudo. Marco gosta de mulheres fortes e decididas, então? Ela sorriu ao ouvir isso. A outra mulher ao lado dele era sua irmã caçula, a aspirante a modelo, Luciana. Ela equivocou-se a imaginar que Marco tinha um harém. Na verdade, ele estava apenas em família. E ao aproximar-se mais da mesa onde eles estavam, Charlotte ficou nervosa. Ela deveria se aproximar e falar apenas com ele ou deveria falar com todos? Será se ele tinha falado dela para eles? E se tivesse falado, eles iriam querer falar com ela? Charlotte não tinha ideia do que pensavam dela se realmente sabiam quem era. Corajosamente, ela se aproximou e sorriu ao cumprimentá-los.


— Oi. Quatro pares de olhos olharam para ela. — Oh, oi! — Disse Nicole surpresa. Marco franziu a testa. — Olá, senhorita McKeena. O que podemos fazer por você? Charlotte sentiu o sangue ser drenado do seu corpo. Ela ficou triste e surpresa ao ouvir Marco dirigir-se a ela apenas como “Srta. McKeena”. Mesmo assim, Charlotte se forçou a sorrir. — Eu gostaria de falar com você, Marco, se não se importa. — Sobre o quê, senhorita McKeena? Como você pode ver, nós estamos almoçando. — Garanto que não irá demorar. — ela disse com um sorriso adocicado. — Se não pode mesmo esperar, pode falar na frente deles. São minha família. Charlotte não soube o que dizer. Ela queria perguntar o que realmente tinha acontecido na noite passada, já que sua mente dizia uma coisa a cada minuto, mas ele estava tão frio que ela sentiu-se enjoada. — Eu gostaria de convidá-los para o evento principal da Organização Miss Universo essa noite. — ela improvisou. — Será um baile para angariar fundos para infectados com HIV. — Isso é nobre. — Disse Luciana com um sorriso tímido e em seguida, voltou-se para Roman. — Vamos, querido? — Eu não tenho certeza. Tenho que voltar para o escritório depois do almoço. — Roman respondeu. — Eu também não posso garantir. — Nicole disse olhando diretamente nos olhos dela. — Mas farei o possível. Marco olhou para Charlotte com um sorriso maligno. Ele sabia muito bem o motivo de ela estar ali. Com certeza ela ainda queria o mesmo que a noite passada e ele desta vez estava muito disposto a dar. Ele iria provar-lhe que era ele quem decidia quando e como. E quando ela estivesse gemendo em seu ouvido, ele riria com o triunfo de mais uma parte bem sucedida da sua vingança. — Muito bem senhorita McKeena. Não sei sobre eles, mas nós dois nos vemos hoje à noite. — Marco disse com um sorriso zombateiro.


— Obrigada. — Charlotte sorriu timidamente para Marco e em seguida virou-se para os outros ocupantes da mesa. — Desculpem incomodar. Eu vou deixar vocês terminarem seu almoço em paz. Ela foi embora o mais rápido possível, com o rosto queimando de vergonha. Mais tarde, Charlotte viu Marco entrar no salão do baile enquanto discursava. Ele não estava com sua família como antes. Dessa vez, estava sozinho. Ela ficou nervosa e chegou a gaguejar em alguns momentos graças ao olhar pecaminoso e ardente que Marco lhe lançava. Após o fim do discurso, Craig disse a ela que o Sr. Marco Villa-Lobos tinha doado um cheque de meio milhão de dólares e todos da fundação tinham ficado pasmos e extremamente agradecidos por tamanha demonstração de generosidade. Charlotte também ficou muito contente e gostaria de agradecer pessoalmente a Marco pelo cheque, então logo o encontrou no bar com alguns outros homens, com certeza do mundo dos negócios, bebendo e rindo como se não tivesse preocupações em sua vida. Com seu dinheiro e família, não deveria ter mesmo. — Marco... — ela chamou hesitante. Marco viu Charlotte e ergue as sobrancelhas. Ela abriu a boca para falar, mas ele levantou a mão e fez sinal para que esperasse. Charlotte aguardou um momento e quando notou que ele estava muito engatado em sua conversa, o chamou novamente. Dessa vez com um pouco mais de ânimo. — Marco! Marco semicerrou os olhos na direção dela e pediu licença aos homens, indo em sua direção. — Senhorita McKeena, quando eu digo para alguém esperar isso significa que a pessoa tem que esperar. Não pareça tão carente. Você entende o que eu estou dizendo? Charlotte ficou irritada pelas palavras e tom de voz de Marco. Mas suprimiu a vontade de mandá-lo para a puta que pariu. Havia muitos convidados na sala e ela, decerto, não deveria parecer tão furiosa. — Claro, eu só gostaria de agradecer pelo cheque. — Ela disse ácida, fazendo-o entender que ela estava apenas sendo meiga, e não lhe dando mole. — Em nome da


fundação, é claro. — ela completou rapidamente, rindo um pouco em seguida. — Não foi nada. Agora se me der licença. — Marco disse sem se afetar pelas palavras dela e virou as costas para continuar falando com o grupo de homens. Charlotte trincou os dentes por sua farpa não ter feito o efeito desejado e virou-se para cumprimentar o restante dos doadores. Não com tanta emoção como fora com Marco, é claro. Já eram onze horas da noite, quando o baile terminou. Baile que de baile não teve nada para ela, Charlotte pensou com pesar, pois fora Craig, ela não dançou com ninguém. Não por falta de convites é claro, mas porque a única pessoa com quem ela queria dançar não parecia estar interessada. Casada, ela foi para o seu quarto e se preparou para ir dormir após tomar um banho quente. Ela ainda estava nua quando alguém bateu na porta. — Quem é? — Perguntou Charlotte, vestindo um robe fino de seda preto. — Abra a porta. — Marco gritou do lado de fora. Charlotte pensou por cinco segundos e em seguida abriu a porta, desconfiada. O que ele poderia estar fazendo ali depois de como a havia tratado? — Marco, o que você... Ele a olhou com desejo intenso. Não se passou nem um segundo e ele já a estava beijando, faminto, carnalmente, selvagem e violentamente, interrompendo o que quer que Charlotte fosse perguntar. Ele pegou um tufo de cabelo dela com força e o puxou, inclinando sua cabeça para trás para beijá-la com mais fervor. Marco acariciou a língua de Charlotte com a sua, desfrutando seu sabor e gemendo ao notar que ela ainda tinha o mesmo gosto. O gosto que o deixara louco anos atrás. Seu sangue estava fervendo, o dela estava em chamas. Ela gemia e passava as mãos por seus braços e costas, arranhando e apalpando. A mulher ainda sabia direitinho como deixá-lo louco. Á medida que o desejo crescia, Marco começou a explorar mais lugares do corpo de Charlotte com a boca. O queixo, as orelhas, o pescoço, o topo dos seios... Ele mordeu sua garganta e ela gritou, sentindo a dor repentina. Mas ao tentar empurrá-lo para longe, e falhar nisso graças ao corpanzil e força de Marco, ela apenas o atiçou mais. Ele


lambeu e chupou o lugar onde tinha mordido, deixando uma grande mancha roxa em sua pele. Ela quase desmaiou de prazer com a suavidade dos seus lábios e língua no lugar onde seus dentes estiveram pouco antes. — Me diz Charlie, você quer mesmo isso? O que mais ela poderia responder? — Sim, Marco. — sua voz saiu entrecortada de desejo. — E o que você sente por mim? — a mente de Marco dizia apenas para provocá-la, saber se teria êxito em sua vingança, pois com sentimentos favoráveis a ele, era certo de que tivesse mais sucesso. Mas em seu coração, ele realmente queria saber sua resposta. E torcia para que o agradasse. Charlotte respirou fundo antes de confessar. — Nunca deixei de te amar. Marco sorriu e passou as mãos pela sua coluna, descendo até a bunda, acariciando todo o caminho até apoiá-las em cada lado do robe que ela vestia. Ele desfez o nó frouxo e o jogou no chão. Sabia que ela estava nua, notou no momento em que a viu na porta, mas queria sentir sua pele na dele. Marco já tinha visto Charlotte nua uma vez, na ocasião eles apenas trocaram de roupa no mesmo lugar antes de um jantar, mas não puderam aproveitar o momento. Na época, tímido, ele a olhou discretamente, não querendo parecer abusado. Agora a história era diferente. Ele a olhou com fogo nos olhos e da maneira mais descarada possível. O corpo dela havia mudado durante esses quatro anos. Seus seios estavam maiores, sua cintura mais fina, suas coxas mais firmes e sua bunda com certeza mais redonda. Ela estava muita mais gostosa do que ele se lembrava. Marco quis beijar cada parte daquele corpo. E fez exatamente isso ao encostá-la à parede mais próxima, prendendo seus braços para que ela não o tocasse. Ele ainda não queria. Claro, gostaria de sair daquele quarto todo arranhado, mas queria desfrutar do seu corpo antes de tudo. Charlotte engasgou quando os lábios de Marco envolveram um dos seus mamilos pontudos. Com uma mão ele segurava os punhos dela acima da cabeça e com a outra rolava seu outro mamilo entre os dedos indicador e polegar. — Marco, por favor. — Charlotte implorou, gemendo. Havia muito tempo que ela


não transava e com certeza Marco estava se mostrando o melhor dos amantes. Nenhum homem a tinha deixado tão louca de tesão antes de realmente chegar ao ápice do meio das suas pernas. E ele ainda estava nos seios. Com a voz necessitada dela, ele tornou-se mais faminto, porém, com um toque de malícia, se afastou e apenas a encarou. Endireitou-se e limpou a boca com o polegar, sorrindo. Charlotte olhou para ele completamente chocada. — Mas que droga Marco, por que você parou? — Implore. Charlotte semicerrou os olhos, colocando as mãos nos quadris. — Vai se foder. Ele riu e balançou a cabeça devagar. — Não. — disse ele com a voz baixa e rouca. — Quero foder você. E, — acrescentou com um tom mais baixo — quero que implore. Charlotte apressou-se em pegar o robe do chão, estava nua e ele, totalmente vestido. Não parecia justo. Ela nunca havia implorado nada na vida, nem mesmo aos pais, não imploraria por sexo. Ela sabia que ele a desejava, sentiu isso enquanto seus quadris roçavam um no outro. Então pensou consigo mesma, com o que ela tinha mente, era ele quem imploraria. Ao virar-se de costas, Charlotte sorriu diabolicamente e inclinou-se sobre a cama, de quatro, como se fosse pegar a lingerie que tinha escolhido para dormir, e dessa forma, sua bunda ficou totalmente exposta a Marco. Ela ouviu com satisfação ele inspirar profundamente. Então virou o rosto por cima do ombro e olhou para ele. Deulhe um sorriso sedutor e ergueu uma sobrancelha ao notar que ele estava com os olhos semicerrados e uma expressão de sofrimento, mordendo o lábio inferior com força para suprimir seu desejo por ela. — Se não está disposto a terminar o que começou, sugiro que vá embora. Eu tenho um voo amanhã cedo. Marco encarou o chão, derrotado. Ele a desejava com todas as forças do seu corpo e não sairia dali sem sentir como era estar dentro dela. Então caminhou com passos determinados e parou bem atrás de onde ela se exibia tão desavergonhadamente para ele. Desabotoou a calça e a baixou junto com a cueca até os tornozelos, saindo delas


logo em seguida. — Você sabe levar um homem ao limite, garota. — disse ele ao se posicionar contra ela, acariciando sua coluna com uma mão. — Sei como levar você ao limite. — ela respondeu com uma piscada sexy. Marco rosnou e a invadiu de uma vez só, forçando Charlotte a conter o grito que quis escapar da sua garganta. Ele está tão duro, pensou ela. O ritmo dele não era suave, não era tímido, não era dócil... Ele estava sendo bruto, rude e intenso. E ela estava adorando cada momento das suas investidas, afinal, foi ela quem escolheu tal posição, que a fazia senti-lo profundamente. — Porra, Charlie. As bolas obscenamente grandes de Marco batiam violentamente contra o clitóris dela, suas mãos acariciavam a bunda de Charlotte o tempo todo e em um momento de luxúria completa, ela pediu que ele introduzisse um dedo lá. Ele quase não acreditou no seu pedido, mas não podia negar. Então levou o polegar à boca dela para o chupasse e o lubrificasse, e depois o inseriu na abertura pequena e virgem. Charlotte enlouqueceu de vez. — Isso... assim... — ela gemia, enquanto o dedo de Marco pressionava aquele lugar tão íntimo. — Merda. — Marco gemeu, frustrado, querendo retirar-se de dentro dela, mas não conseguindo. — Eu estou perto de gozar, Charlotte, mas não estou usando camisinha. — Não tem problema. — Charlotte fechou os olhos com força e gemeu ao senti-lo alcançar o ponto exato para levá-la ao orgasmo. — Eu tomo a pílula. Marco cerrou a mandíbula. Seu lado racional estava feliz, ele iria sentir sua umidade e calor até o fim sem se preocupar em sair dela para não gozar dentro. Mas o lado irracional estava puto de raiva. O fato de ela estar tomando a pílula queria dizer que ela, frequentemente, transava com alguém, quem quer que fosse. Só a imagem de outro homem fazendo com ela o que ele fazia agora foi suficiente para fazê-lo estocar com mais força e pressionar ainda mais o dedo em sua bunda, forçando-a a gritar e procurar um apoio na cama para não ser levada colchão acima. Quando Charlotte gemeu pela última vez, indicando que tinha chegado ao orgasmo, Marco segurou sua cintura com força, virou-a na cama e voltou a penetrá-la, dessa vez,


observando seus seios saltarem tamanha a força que ele usava. Ele jogou a cabeça para trás e em seguida, caiu sobre ela, ainda tremendo por causa do intenso clímax.


8

Charlotte afagava o cabelo de Marco calmamente enquanto ele tentava controlar a respiração. Não imaginava que sua primeira vez com ele seria tão intensa. Imaginara muitas vezes que seria uma noite romântica, afinal Marco era romântico pelo que ela se lembrava. Este Marco de agora parecia ser qualquer coisa, menos amante do romance. Mas não tinha sido ruim, ao contrário, foi delicioso e por mais que ela tivesse sonhado com uma coisa diferente, não trocaria pelo que realmente aconteceu. Marco, com a cabeça apoiada entre os seios de Charlotte, pensava em como deveria agir agora que tinha transado com ela. A coisa toda tinha sido muito boa, mas uma frase dela não saía da sua mente. Eu tomo a pílula. Ele sabia que não tinha o direito de exigir nada dela, afinal eles não eram namorados, mas isso não o deixava menos furioso. Ele queria perguntar se ela tomava regularmente por algum motivo médico ou se era porque tinha uma vida sexual muito ativa, mas não sabia como fazer isso. Então apenas se levantou, deixando a mão dela, tão confortavelmente em seu cabelo, cair sob seus peitos. — Aonde vai? — ela perguntou ao ver que ele procurava a cueca em meio às roupas no chão. — Meu quarto. — ele respondeu sem olhá-la. Ela ficou em silêncio, chocada, e ao notar, Marco finalmente olhou na sua direção e a viu com uma sobrancelha erguida em uma pergunta silenciosa. — Assim do nada? — É o que geralmente eu faço depois de uma transa. — ele respondeu, dando de ombros. Claro, por que ela esperaria que ele tivesse uma atitude diferente? — Pelo visto, você age como um idiota frequentemente então. Marco ficou boquiaberto. Como ela ousa?


— Olha só quem fala. A senhorita “eu tomo pílula”. Charlotte franziu a testa, sem entender absolutamente nada. Ele estava louco ou o quê? Qual o problema de tomar pílula? Não era o que toda mulher com vida sexual fazia para evitar inconvenientes? Não que ela tivesse uma vida sexual ativa, – depois que perdeu a virgindade aos quinze anos com seu primeiro namorado, só transou umas cinco vezes, e apenas duas dessas vezes foi depois de romper com Marco – mas era sempre melhor prevenir do que remediar. — Do que está falando, seu idiota? Você disse que não tinha camisinha. Eu deveria, aos vinte e dois anos, ser descuidada a ponto de engravidar? Marco riu, mas não de diversão, e sim de raiva. Ela não negou. Ela tem quantos amantes afinal de contas para precisar se preocupar em tomar pílula para não engravidar? Ela deveria ter dito a ele que não continuasse até o fim, que tinham sido descuidados por começarem a transar sem camisinha, que queria que ele gozasse dentro dela, mas que não queria arriscar uma gravidez... Não que ela tomava pílula diariamente. Aquilo só serviu para que ele ficasse com a cabeça um pouco mais fodida do que já estava. Ela era uma devassa, sem dúvida, saindo com os mais diferentes homens que faziam parte do seu mundo glamoroso. Marco, de repente, viu uma mão acenando na sua frente e se deu conta de que era Charlotte, agora vestida com o mesmo robe de antes. Ela devia estar falando alguma coisa, mas ele não prestou atenção. Então lembrou-se de que ela havia feito uma pergunta. — Engravidar, não, mas você... — Marco parou, sem saber como formular em palavras os seus pensamentos. — Você é mesmo uma vadia. — ele disse sem emoção alguma, não tinha por que ser amável com ela. Charlotte arregalou os olhos, não de surpresa, mas de fúria. Vadia? Ele a tinha chamado de vadia? Quem aquele idiota pensava que era? — Vadia? — ela praticamente gritou. — Vadia? Repita isso. Ele se afastou e se viu colocando as mãos em seus bens para protegê-los, pois sentia que levaria um chute daqueles. Nunca a tinha visto tão irada. — Vamos, Marco. — ela o incitou, com a cabeça rodando por causa da tontura momentânea. Ele a estava tirando do sério. — Quero ver se tem coragem. Repita.


— Eu... ahm... eu... Charlotte bufou. Ele achava que ela vivia por aí, transando com qualquer um apenas porque tomava anticoncepcional. Poderia ser mais machista? Ou mais idiota? Aquilo era o cúmulo. — Escuta aqui. — ela disse aproximando-se mais dele. Ele deu um ou dois passos para trás, olhando freneticamente em volta como se procurasse uma rota de fuga. Até fez menção em ir em direção à porta só de cueca, mas ela se interpôs em sua frente. — Oh, não tão depressa Sr. Villa-Lobos. Você me chamou de vadia e eu quero saber o motivo. Fala. Ele respirou fundo e resolveu encará-la bravamente. — Por que você teria a necessidade de tomar anticoncepcional, Charlotte? Está na cara a vida que você tem e me desculpe, mas não vejo descrição melhor. — Eu sou uma mulher desejada por homens do mundo todo e às vezes saio com alguns em eventos. — Tudo isso era verdade, mas ela queria por mais fogo na lenha, então contou uma inverdade. — E quando um desses homens me agrada, eu realmente vou para a cama com ele. Por isso tomo anticoncepcional. Marco trincou os dentes e fechou a cara. Ele era apenas mais um que ela levava para a cama depois de um evento... — E você ainda me pergunta por que te chamei de vadia? — ele não gritou, mas sua voz subiu alguns oitavos. — Em que mundo você vive, Marco? — ela deu um passo para perto dele e ele recuou. Ela deu outro e ele fez o mesmo de antes, até que estava encurralado na parede. — Você, por acaso, esperava que com essa idade eu ainda fosse virgem? Marco não precisou responder, pois ambos sabiam que ela não era desde antes de eles começarem a namorar. — E para futura referência, até onde sei eu sou solteira. Tenho tanto direito de sentir prazer como qualquer homem. O fato de eu ser mulher e procurar me divertir quando me der na telha não faz de mim uma vadia, faz de mim uma mulher completamente normal e livre. Eu posso estar com um homem hoje e outro amanhã se quiser. E nem você, nem qualquer outro cara têm o direito de falar nada, pois eu sou dona de mim e


faço o quiser com a porra do meu corpo. Marco abaixou a cabeça, ainda furioso, mas com um sentimento terrível de culpa que ele não queria que estivesse ali. Ela não era sua namorada, porra. Era solteira, como ressaltou, e tinha todo o direito de sair e transar com quem quisesse. O que tinha lhe dado para dizer tamanha besteira? Ele quis se desculpar, mas seu orgulho não o permitiu. — Não sou como você, que claramente usa quem quer e na hora que quer. Marco levantou a cabeça na mesma hora, olhando-a com a testa franzida. — O que disse? — Exatamente o que ouviu. É sério, Marco? Sua prima? Não tinha uma atriz, uma modelo ou até mesmo uma camareira do hotel para usar para tentar me fazer ciúmes? Tinha que usar justamente a sua prima? Me pergunto o que não faz com outras mulheres... — ela deixou a frase morrer no ar. Marco estava pronto para responder que não estava tentando fazer ciúmes a ela, que o que ele sentia por Nicole era verdadeiro e que quis beijá-la todas as vezes que fez isso, mas não teve coragem, pois sabia lá no fundo que não era de todo verdade. — Agora, se me der licença, eu preciso dormir. Tenho um voo amanhã e um evento que se eu der sorte, — ela sorriu ao provocá-lo — terá um fim de noite e uma companhia infinitamente melhor que essa. Ela virou em seus calcanhares e entrou no banheiro, batendo a porta com força. Marco, com as narinas abertas como as de um touro, vestiu o resto da sua roupa e saiu do quarto dela batendo a porta com mais força ainda. Ao ouvir a porta do quarto bater com força, Charlotte teve certeza de que Marco tinha ido embora, talvez para sempre agora. E ela não lhe falou a verdade sobre o passado. Mas como podia? Ele tinha agido como um idiota. — Deus, por que você simplesmente não sai da minha cabeça? — ela perguntou, olhando para seu reflexo no espelho. Ela sentia como Marco estivesse, frequentemente atrás dela como uma sombra. Depois de tomar mais um banho e vestir uma fina blusinha de algodão e nada mais, Charlotte se deitou para dormir. Mas não conseguiu. As lembranças não permitiram. A


noite em que seu irmão morreu voltou para assombrá-la. — Eu não quero nem acreditar que você ainda está de namorico com aquele garoto, Charlotte Linvstone McKeena. — Charlotte odiava quando sua mãe a chamava pelo nome inteiro era sinal de que ela não venceria a batalha. — Seu pai e eu já dissemos a você. Esse menino não serve para namorar a filha de um senador. — Não acredito que você e papai não gostam do Ken. Só porque ele é pobre, mãe? Sério que você não tem um argumento melhor? Sua mãe apenas colocou as mãos nos quadris e a encarou. Charlotte murchou diante do olhar frio dela. — Acredite em mim, Charlotte. Farei com que se arrependa se continuar a ver esse rapaz. Sabe que eu posso fazer isso e seu pai ficará mais do que satisfeito. A maioria das mães não daria muita importância a um namorico de adolescente. Charlotte tinha quinze anos e Ken tinha dezesseis. Eram apenas crianças brincando de faz de conta. Mas era um faz de conta que Judith McKeena não aceitava em hipótese alguma. Para ela, o envolvimento da filha caçula com alguém de nível inferior era uma vergonha e ela, ex-Miss América, não aceitaria tamanho desaforo. — De qualquer forma, eu não estava saindo para encontrá-lo. É aniversário da Cassie e se eu não for, ela ficará chateada. — Charlotte mentiu. — Sinto muito, mas não tem como ir. Eu e seu pai sairemos hoje à noite e Bob não está em casa. Bob nunca está em casa, ela teve vontade de dizer. Desde que completara dezoito anos, seu irmão não parava no quarto, mas seus pais não pareciam se importar. — Você vai pra cama, ok. Seu pai e eu não devemos chegar muito tarde, talvez às duas da manhã. E quero encontrá-la dormindo. — Tudo bem. — com um resmungo, Charlotte foi para o seu quarto e em vinte minutos estava arrumada. Enfiou-se embaixo do edredom e esperou que sua mãe viesse conferir se ela estava mesmo dormindo antes de sair. Como sempre, ela acreditou que sim, afinal, Charlotte já tinha ficado craque na arte de fingir o sono. Meia hora depois de ouvir o carro dos pais sair, ela pulou da cama e foi para a casa de Ken a pé. Ele morava a uns quinze quarteirões, mas ela não se importou de andar. Era aniversário dele e ela queria lhe dar um presente. Já tinha decidido ter sua primeira


vez e seria essa noite. Logo que chegou perto da garagem da casa dele, ela ouviu uma melodia muito bonita sendo tocada em um violão e sorriu ao notar que as palavras da música que Ken ensaiava falavam dela. Charlotte aproximou-se devagar e colocou as mãos nos olhos dele. — Feliz aniversário. Ele sorriu e a puxou para o seu colo, beijando seus lábios com amor. Depois de uma breve conversa, ela deixou clara a sua intenção e ele a levou para o seu quarto. Seu pai havia saído e sua mãe dormia no sofá, nada era capaz de acordá-la depois de pegar no sono. — Tem certeza? — ele perguntou. — Tenho. Amo você. Charlotte estava nervosa, mas não com medo. Não havia motivo para ter medo do Ken. Ele era o garoto mais doce que ela tinha conhecido na escola e era uma pena que seus pais só vissem sua condição financeira, pois, com certeza, não existia garoto mais adorável do que ele. Ken foi cuidadoso e amoroso com Charlotte o tempo todo. Ele era corpulento, atlético e seus olhos verdes pareciam dançar toda vez que ele sorria. Charlotte, ainda muito menina, não tinha muitas curvas, mas era atraente a seu modo e ele nunca a pressionou para fazer sexo. E foi exatamente por isso que ela resolveu fazer e sabia que não se arrependeria. Depois do momento mágico, um pouco doloroso, mas excepcionalmente romântico que eles tiveram, Charlotte entregou a ele mais um presente. Era uma pulseira de ouro branco, linda e muito cara. Ela esperava que pelo menos esse presente ele aceitasse. Ken nunca aceitava nada dela, pois dizia que não queria saber do seu dinheiro, mesmo ela dizendo que dava a ele com todo amor. — Charlotte, eu não posso... — Por favor, Ken. O que eu dei a você hoje vale mais do que qualquer presente que eu poderia dar, e você aceitou. Por que não pode aceitar uma pulseira? Ken não soube como responder. Era verdade. A virgindade de Charlotte era tudo de mais valioso que ela poderia dar a ele, exceto é claro, seu coração, que ele já sabia que


lhe pertencia. — Tudo bem. — ele deixou que ela colocasse a peça em seu braço. — Mas prometo que um dia serei eu a te cobrir de ouro dos pés à cabeça. — Não quero coisas materiais, só quero você. Ken sorriu, sentindo o coração inchar dentro do peito. Ele gostava muito dela e se conhecesse um pouco mais da vida, poderia dizer que a amava, mas como podia saber com apenas dezesseis anos? Um barulho na janela chamou a atenção dos dois. Era um galho que batia com força contra o vidro. Droga, estava chovendo. — Eu tenho que ir. — Charlotte disse. Seus pais chegariam às duas, ou talvez antes, e ela não podia estar na rua, tinha que estar na sua cama dormindo. — Eu te levo. — Na sua moto? Teremos sorte se não pegarmos uma pneumonia. — ela riu, vestindo a roupa. — Está chovendo à beça. — Vou chamar um táxi pra te levar, então. — Não precisa. — ela o impediu quando ele ia pegar o celular. O dinheiro que ele ganhava já era muito pouco para a sua família, ela não precisava que ele gastasse com ela. — Não vou deixar você ir a pé. — Eu vou ligar para o Bob. Charlotte pegou o celular e discou o número do irmão. Chamou duas vezes e então ele atendeu, soltando um palavrão, pois pelos barulhos que ela ouviu, ele estava “ocupado”. — Não posso ir buscá-la agora, Charlotte. — Por favor, Bob. — ela implorou. — Já é uma hora. Papai e mamãe vão chegar a qualquer momento e se eu não estiver na cama, vão me matar. E sei lá o que farão com o Ken. O irmão dela respirou fundo umas duas vezes e concordou em buscá-la, mas prometendo ter uma conversa bem séria no outro dia para saber o que diabos ela estava fazendo àquela hora na casa de um cara que os pais não aprovavam. Porém, depois de quarenta minutos, Bob ainda não tinha chegado.


Charlotte não pôde mais esperar. Bob devia ter se ocupado com alguma outra coisa, ou talvez, tivesse esperado terminar o que estava fazendo antes de ir pegá-la. De qualquer forma, estava atrasado. Seria sorte se os pais já não tivessem chegado em casa. Então ela aceitou a primeira oferta de Ken e foram de moto para casa. Chegaram devagar, ensopados, mas sorriram um para o outro enquanto Charlotte entrava de mansinho e constatava com um grande suspiro que seus pais ainda não tinham chegado. — Graças a Deus. Ela foi para o quarto e com apenas alguns minutos, adormeceu. Na manhã seguinte, barulhos frenéticos e estridentes vindos do lado de fora da casa a acordaram. Pareciam sirenes de polícia. O que poderia estar causando tamanho escarcéu? Ela levantou-se, esfregou os olhos e olhou da janela para baixo. Os carros da polícia estavam em frente à sua casa, sua mãe estava em prantos no meio da rua e seu pai a abraçava com força. O semblante dos policiais era desolador. Ela desceu apressada, sem nem mesmo se preocupar em vestir um roupão por cima do baby-doll de ursinhos que usava, e foi para o lado dos pais. — O que aconteceu? Ninguém lhe respondeu, então ela perguntou novamente. Sua mãe apenas se aninhou no peito do pai. — O que aconteceu? Bernard lhe olhou e ela viu seus olhos vermelhos, cheios de dor. — O Robert, filha. Ele... ele... — Ele o quê? — Ele sofreu um acidente de carro ontem à noite. Ele estava vindo do... não sei o que ele fazia naquele bairro, ele nunca ia para aqueles lados... Charlotte sentiu o sangue gelar. Não. — Pai, pelo amor de Deus, o que aconteceu? — Ele morreu, Charlie. Não. Bob estava a caminho da casa do Kent. Ele tinha ido buscá-la porque ela desobedeceu à mãe. Seu irmão estava morto por sua culpa. Charlotte caiu de joelhos e


chorou, jurando a si mesma que nunca faria qualquer coisa que nĂŁo agradasse os pais, pois claro, se soubessem do que ela tinha feito essa noite, nunca a perdoariam.


9

Charlotte acordou sentindo-se extremamente cansada. As lembranças do passado não a deixaram dormir direito. Tudo voltou como um pesadelo. A morte do seu irmão, seu rompimento com Ken e a sua traição ao Marco. Ela não conseguia esquecer o rosto de raiva e decepção de Marco quando saiu do seu quarto na manhã em que ela não foi forte o bastante para encarar os pais e impor sua vontade. Ele tinha se tornado um homem amargo e ela nem ao menos podia culpálo. Fora uma idiota, achando que talvez ele tivesse esquecido tudo, ou que se conversassem ou tivessem uma noite de amor, tudo seria perdoado. Mas estava claro no comportamento dele da noite anterior que tudo o que ele queria era magoá-la. Olhando sem ânimo para o relógio da cabeceira da cama, ela pegou o celular e ligou para Craig, bocejando alto enquanto esperava que ele atendesse. — Bom dia, Charlotte meu amor. — Preciso da sua ajuda. — ela disse quase gemendo, ao notar que sua voz ainda saía fraca e que ela estava à beira das lágrimas novamente. — Eu não posso mais ficar nesse hotel, por favor, arrume uma vaga em outro. — Por que, querida? O que aconteceu? — o agente perguntou com carinho. — Te digo mais tarde. Por favor... só me ajude a sair daqui, agora. — Charlotte não conseguiu conter a onda súbita de lágrimas e chorou antes de desligar, o que ela não queria que tivesse acontecido. Odiava chorar na frente dos outros, mesmo que por telefone. — Oh meu Deus, você está chorando? — Craig preocupou-se. — Está tudo bem, Charlotte? — Sim. — ela mentiu e fungou. — Só me tire daqui. — OK. Arrume suas coisas. — ele disse, sem acreditar nas palavras dela. — Eu vou pagar a conta e buscá-la no quarto, ok?


— Ok. Obrigada. Depois de trinta minutos, Charlotte e Craig deixaram o hotel. Marco acordou tarde. Ele continuou a pensar em Charlotte depois que foi para o seu quarto. Não teve como tirá-la da mente. Droga, não conseguiu fazer isso por quatro anos sem nem ao menos vê-la, como poderia em uma noite depois de transar com ela? Parte dele estava furioso por saber tudo o que ela contou a ele, que ela tinha amantes e que costumava dormir com eles quando sentia vontade. Mas outra parte estava chateado consigo mesmo. Ele a usou e a feriu, porque é claro, não tinha como não ter ficado ferida com o que ele disse a ela. Ele a chamou de vadia, pelo amor de Deus. Sim, ele sonhava em se vingar, e ainda queria isso, mas ao voltar para o quarto e imaginá-la, talvez chorando, ele sentiu-se muito mal. Será se tinha ido longe demais? Essa mulher é a mesma que mentiu na maior cara dura e partiu seu coração, seu idiota, ele pensou. Claro que não tinha ido longe demais. Mas, por mais que sua mente lhe dissesse uma coisa, seu maldito coração dizia outra. E talvez esse órgão inútil o fizesse ter pesadelos com as coisas que sua mente lhe mandava fazer. — Ah Charlie, Charlie... Por que diabos você não sai da minha cabeça? Seria tão mais fácil se ele não se importasse mais com ela. Não tivesse mais o desejo de vingança ou não sentisse mais o que quer que seu coração sentia. Se ele pudesse apenas deixar tudo para lá e viver sua vida... Marco suspirou. Esse era um sonho que ele sabia que não podia se dar ao luxo de ter. Para o bem ou para o mal, Charlotte estava atrelada a ele. Esfregando o rosto, ele se levantou, tomou banho e depois de se vestir, desceu para a cozinha do hotel. Com sorte, Nicole estaria lá fazendo alguma delícia e ele poderia curar seu mau-humor com ela. Ele a procurou pela recepção e pensou em chamá-la para surfar depois do café como nos velhos tempos. Ela estava conversando com um dos chefs na entrada da cozinha, desculpou-se quando o viu e foi em direção a ele. — Bom dia. — ela o beijou no rosto, cumprimentando-o. — Dormiu bem? — Não muito. — Ele a abraçou. — Por que não? — Ela perguntou, franzindo a testa ao se afastar.


— Eu... eu falo depois. Mas e você? Como foi o encontro com o príncipe? — Foi interessante. — Nicole disse, desviando o olhar dele. Marco ficou de orelha em pé. — Você dormiu com ele? — O que? Claro que não. — ela respondeu imediatamente. Marco ficou um pouco aliviado, mas não muito convencido. Interessante? Por que teria sido interessante? — Nicole, o que aconteceu? — Você tinha razão. Você e o Roman. Ele queria dizer que sempre tinha razão, mas se segurou. — Como assim? — perguntou apenas. Nicole corou. — Eu queria testá-lo. Sabe, para esfregar na sua cara que você estava errado. Então coloquei uma roupa mais provocante e... — E? — O beijei. — O quê? — Marco não gritou, mas sua voz não foi menos intimidante por causa disso. — Eu precisava saber. E ainda bem que agi assim, pois logo ficou provado que ele é mesmo um playboy patife. — Ele te forçou a alguma coisa? — a forma como os ombros de Marco cresceram diante de Nicole fez com que ela engolisse em seco antes de balançar a cabeça freneticamente. — Não. Mas quando eu deixei claro que não iria transar com ele, pelo menos não no primeiro encontro, ele simplesmente se levantou da mesa em que jantávamos e foi embora. Marco trincou os dentes de raiva. Nicole merecia mais consideração do que isso. — O que há de errado comigo, Marc? — de repente ela parecia prestes a chorar e Marco sentiu sua raiva pelo príncipe aumentar a níveis inimagináveis quando a abraçou. — Não há nada de errado com você. O problema é que a maioria dos homens é tola demais para não apreciarem a sua perfeição. O problema é deles e não seu.


— Mas eu já tenho vinte e quatro a... — Eu sei, vinte e quatro anos. Isso não quer dizer nada. Você é mais madura do que a maioria das mulheres e nem por um segundo deve se sentir inferior a qualquer uma delas. Nunca. Marco levantou o queixo dela com um dedo e Nicole confirmou com um aceno. Depois sorriu e afastou as poucas lágrimas com as costas das mãos. — Um dia você vai conhecer alguém que fará todos os outros parecerem pó. E esse alguém vai amá-la como você nunca achou que fosse capaz. Eu prometo. — Obrigada. Marco beijou-a na testa e depois a soltou. Ele queria ter uma conversinha com o príncipe – pouco se importava que ele fosse herdeiro do trono espanhol –, pois a pessoa a quem ele magoou era uma das pessoas mais importantes da sua vida. Mas não queria se estressar logo cedo da manhã, e queria mudar o ânimo dela, que estava mais sombrio depois dessa conversa, então mudou de assunto. — Que tal ir à praia? Nós poderíamos surfar um pouco. — Eu não posso. — Nicole espantou os últimos resquícios de tristeza do rosto e sorriu como se nada tivesse acontecido, como já tinha feito tantas outras vezes e por tantos outros motivos. Era uma das coisas mais lindas dela, gostava de estar sempre sorrindo por mais que por dentro estivesse sentindo-se totalmente diferente. — Papai e mamãe estão chegando. — Sério? Isso é ótimo. — Marco sorriu, satisfeito. Fazia algum tempo que não via seus tios. — Quero falar com tio Denis sobre essa coisa da Lu e do Roman. Nicole sorriu e balançou a cabeça. — Você não vai conseguir nada com eles, Marc. Papai e mamãe não são contra o relacionamento da sua irmã com o meu. — Oh. — Marco torceu os lábios. — É verdade, Roo já tinha me falado. Parece que o problema é apenas o meu pai. Nicole riu, pois sabia que sua tia Camila compartilhava a mesma opinião dos seus pais. — Espere um momento. — Marco franziu a testa com uma coisa que só lhe ocorreu nesse momento. — Onde estão meus pais? Eles deveriam estar aqui.


Nicole soltou uma gargalhada que chamou um pouco mais de atenção do que ela gostaria, mas que não teve como se conter. — Marco, faz quase três dias que você está aqui e só agora se deu conta de que seus pais não estão na Califórnia? Marco deu um meio sorriso. Esteve tão absorto com tudo o que aconteceu com a Charlotte, Roman e Luciana, Nicole e o tal príncipe, que nem estranhou a ausência audaciosa do seu pai e o carinho exagerado da mãe. Que ela não o ouvisse ou soubesse disso jamais, pois ficaria triste. Camila Cavalcanti tinha ficado meio molenga com o passar dos anos. — Sua mãe conseguiu convencer o tio Edu a voltar para Nova Iorque. Ele teria quebrado todos os dentes do meu irmão se passasse mais um minuto no hotel. — Ele simplesmente aceitou deixar a Luciana para trás com o Roman? — Marco pareceu incrédulo. — Acho que ele não teve muita escolha. Não ouvi muito, mas presenciei uma conversa dele com a sua mãe e... — Nicole corou. — Bom, é ótimo saber que existe alguém que pode segurar seu pai pelas bolas. Marco riu. Sim, sua mãe era a única capaz de tal proeza. Quanto à “conversa”, ele nem queria saber a respeito. Não gostava de imaginar sua doce mãe nas garras de um homem bruto como Eduardo, mesmo que ele fosse seu pai. — Mas mudando de um assunto ruim para um pior, Charlotte deixou o hotel hoje cedo com o agente. Me pergunto por quê. Eu sei por quê. Marco pensou. Nicole sorriu maliciosamente para a expressão culpada do primo, mas este não viu tal sorriso, pois uma voz agradável e familiar ressoou atrás dele, fazendo-o virar a cabeça. — Olá crianças. — Era Denis. — Como estão meus brinquedos? — Papai. — Nicole deu-lhe um sorriso gigante e correu para abraçá-lo como uma menina de dez anos. — Que saudade. — E de mim? — Caroline perguntou, fazendo um beicinho que parecia incrivelmente inusitado para uma mulher da sua idade. Nicole largou o pai e abraçou a mãe. Os tios se aproximaram de Marco e lhe cumprimentaram.


— Olá Marco, que bom vê-lo, jovem. — Denis o abraçou e tocou seu ombro. — Olá tio Denis, tia Caroline. — Marco beijou o rosto de sua tia. — Estivemos em Nova Iorque ontem. Passamos o dia com seus pais. — Caroline disse. Nicole fez um gesto para que eles fossem até um dos sofás da recepção. — Isso é ótimo. — Marco respondeu, parecendo curioso. — Por favor, digam que esse problema não é mais meu. Denis e Caroline franziram a testa, sem entender. Nicole explicou. — Tia Camila pediu ao Marc para vir falar com Roman e Luciana. Praticamente implorou, pelo que eu soube. — Ah. — Denis riu, balançando a cabeça. — Me desculpe Marco, mas seu pai é... — Um ogro? — ele completou. — Basicamente. Mas eu entendo, ele estava preocupado com a filha, mas já resolvemos tudo. — Como assim? — Nicole perguntou, curiosa. — Eu o lembrei de que nossa relação não é sanguínea e que quando nos apaixonamos, não controlamos por quem. Sua mãe parece ter tido um ponto a favor dela em algum momento. — Denis sorriu, olhando enviesado para o sobrinho, dando-lhe a entender qual era o ponto. — Eu acho que ele não vai querer vê-los aos beijos por algum tempo, mas pelo menos Roman não precisará se preocupar com uma plástica no rosto. Nicole riu. Caroline e Denis suspiraram aliviados, não queriam ter que cortar ligações com Eduardo por causa da relação entre seus filhos caso ele se mantivesse como uma mula empacada em sua opinião, então foi bom ele finalmente ter aberto os olhos. Os pais de Nicole beijaram a filha e abraçaram Marco mais uma vez, pediram licença, e foram para o quarto que era reservado para eles sempre que estavam no hotel. Marco e Nicole tomaram o café da manhã logo depois. Ele, sentindo-se infinitamente aliviado por não ter mais que se preocupar com isso e ela, parecendo distraída e até mesmo, calada. Se Marco percebeu a estranheza dela não comentou nada. Eles foram à praia e surfaram por um tempo, mas foram embora cedo e passaram a tarde com Roman e


Luciana – que estavam mais satisfeitos que políticos em época de eleição – em seu quarto assistindo filmes. — Só tenha cuidado para não engravidá-la, Roman. — Marco provocou. — Aí sim papai corta suas bolas e acho que até mamãe ajudará. Roman mostrou-lhe o dedo do meio. Luciana jogou um punhado de pipocas nele e Nicole apenas revirou os olhos enquanto ele ria sem parar. Naquela noite, depois de um jantar na Mansão Valdez, Marco levou Nicole de volta ao hotel. Mas antes que ela entrasse no elevador privativo que levava à cobertura que ela dividia com irmão, Marco a segurou pela mão e tomou coragem para falar o que queria dizer desde que transou com Charlotte na noite anterior. — Marc? — Nicole perguntou surpresa, olhando sua mão na dela. — Eu queria... queria falar com você. — Sobre? Marco soltou a mão dela e respirou fundo, como se tivesse tomando coragem. — Eu queria me desculpar. Nicole ergueu as sobrancelhas, totalmente surpresa. — Exatamente pelo quê você acha que tem que se desculpar? Marco escorou-se à parede perto do elevador e encarou o chão por alguns segundos. Era constrangedor falar isso com a prima. Ela era tão doce e ingênua. Talvez não o visse mais da mesma forma, mas ela merecia a consideração de um pedido de desculpa. — Eu fiz algumas coisas e pensei coisas a seu respeito que eu... eu não deveria. — ele disse finalmente. — Que tipo de coisas? — Acredite, é melhor você nem saber. — Por mais que quisesse se desculpar, não tinha coragem de dizer que desejou transar com ela na noite em que dormiram juntos. Isso era um pouco demais. — Mas eu te devo isso. Acho que não fui o exemplo de melhor tipo de primo. Não sei qual é o meu problema. — Oh Marc, — Nicole sorriu de forma meiga, — você é o melhor primo que eu poderia ter. É mais do que isso. É como meu irmão, além de melhor amigo. Eu amo o Roman, é claro, e amo a Lu, mas você... você é a pessoa com quem eu me sinto mais à


vontade no mundo. Ela aproximou-se dele e o abraçou. — Mas acho que você sabe exatamente qual é o problema. Esse problema tem nome e sobrenome. Marco afundou no chão. Sentou-se e agarrou os joelhos, encolhendo-se. Nicole abaixou-se e sentou ao lado dele. — O que aconteceu ontem entre vocês? — ela perguntou suavemente. — O que acha? — Marco perguntou com um ar triste. — Acho que você fez alguma coisa da qual está se arrependendo agora. Nicole o conhecia até os ossos, então é claro que sabia exatamente a luta interna que ele travava com a mente e o coração. — Por que não deixa tudo pra lá, Marc? Olha, eu admito que odiei a Charlotte quando soube o que ela tinha feito com você e a parte perversa de mim... — Não sabia que você tinha uma parte perversa. —... gostou de ajudar você a fazer ciúmes pra ela. — ela continuou, ignorando sua interrupção. — Mas agora que ela partiu e você está aqui desse jeito, eu me pergunto se não deveria ter feito o contrário. Talvez ajudado vocês dois a se entenderem. — Não tem como a gente se entender, Nicole. A voz de Marco saía suave. Nicole já o vira chorar, já o vira sorrir de forma diabólica, já o vira falar de forma arrogante, sexy e até irado. Mas nunca o vira desse jeito. Não parecia ser ele mesmo. Sua voz não era suave. Mesmo quando ele falava baixo, existia uma rouquidão brutal que traía sua meiguice. Isso a assustou, pois sabia que o primo estava apaixonado, mas assim como seu tio Eduardo, Marco era fechado como uma porta quando queria ser. E teimoso como uma mula. — Por que não tenta? Eu sei que você a ama. Qualquer um pode ver. Marco a encarou de forma inexpressiva. Ele não negou, pois ouvir isso da boca de Nicole fez com que ele, finalmente admitisse para si, mas talvez não fosse tão claro assim para outras pessoas. — Tá bom, talvez não seja qualquer um, mas eu sei e você também. — Não posso. — Por quê?


— Ela acabou comigo, Nicole. Eu não consigo perdoar. Como ela poderia me amar e fazer o que fez? — Por que não pergunta a ela? A pergunta de Nicole parecia simples, e na verdade era simples, mas Marco tinha medo da resposta. Achava que talvez Charlotte fosse dizer que na época ela não ao amava tanto – o que seria terrível, pois ele a amava desesperadamente e isso lhe partiria o coração mais uma vez –, ou poderia dizer que tinha outros planos em mente – que talvez envolvesse outros homens –, ou que sua ambição pela fama e o glamour era tão grande que ela não achava que valia a pena namorar alguém. De qualquer forma, Marco não conseguia ver uma resposta onde ela dizia que existia algum motivo cabível para ter feito o que fez. — Eu não posso. Talvez um dia... mas não agora. — E que diferença fará hoje ou amanhã? — Ela tem que saber o que é ter o coração partido por alguém que ama. Ela tem que saber o que é sofrer por amor. Eu não consigo deixar tudo pra trás, Nicole. — Acho que você está fazendo o jogo errado. — Nicole disse, triste por ele. — Está jogando contra o seu próprio time. — Ela me ama. — Marco disse ao lembrar-se das palavras dela na noite anterior. — Eu sei que sim. E se esse amor sobreviver a tudo... depois veremos como ficam as coisas, mas até lá, ela vai saber o que é amar alguém que te faz sofrer. Marco tinha algumas lágrimas nos olhos quando disse a última sentença. Nicole o abraçou e acalentou, segurando-se para não chorar também. Era triste que uma pessoa tão incrivelmente inteligente como Marco Villa-Lobos não visse a burrada que estava fazendo. Era triste que não percebesse que o amor não usava os caminhos por ele estava andando e que a mágoa nunca era uma boa conselheira.


10

Finalmente, o avião pousou. Charlotte estava completamente exausta depois de dezesseis horas de viagem. Então demorou um pouco para sair do avião com Craig, pois quis retocar a maquiagem antes de ser vista pelo público que, com certeza, a aguardava no aeroporto. Não demorou muito e logo, ela estava pronta para ir. — Bem-vinda às Filipinas, senhorita McKeena. Mabuhay! — Disse a comissária de bordo. — Salamat. Salamat. — Disse Charlotte. Craig ensinou-lhe algumas palavras no idioma do país que ela talvez fosse usar com frequência: obrigado, por favor, até logo... E algumas saudações básicas: bom dia, boa tarde e boa noite. O Concurso de Miss Universo seria realizado em Manila, e tanto Charlotte como as 126 candidatas deste ano chegaram duas semanas antes. Havia uma lista de itinerários que elas tinham que seguir antes do concurso e isso com certeza manteria a mente de Charlotte ocupada. Dessa forma, ela não precisaria pensar no seu último encontro com Marco, embora ainda se sentisse deliciosamente dolorida nos músculos certos. Seu coração, por outro lado, estava dolorido também, mas não de uma forma legal. Charlotte pisou na área de desembarque e logo sentiu-se bem. A vida de glamour que ela levava como atual Miss Universo era agradável, muito mais do que ela imaginava que seria. Então, acenando para a multidão, caramba, quanta gente!, ela dispôs-se a sorrir e percebeu que não era tão difícil. Havia vários cartazes, alguns ela não entendia, pois estavam na língua nativa, mas alguns eram claros como água, como um grande com seu nome cercado de coraçõezinhos. Também tinha uma multidão de fotógrafos e repórteres aguardando uma palavra que fosse. Ela sorriu e acenou para todos enquanto passava no meio deles, cercada por seguranças. Então um pouco mais à frente, uma garotinha gordinha de não que cinco anos de idade, correu até ela com uma guirlanda colorida. Charlotte se abaixou e a pegou no


colo – sentindo um pouco de falta de ar por causa do peso gorducho daquela coisinha deliciosa, mas com um sorriso no rosto. A menina colocou a guirlanda em volta do pescoço de Charlotte e em seguida, beijou sua bochecha, saudando-a com algo que ela achou que fosse um "Bem-vinda às Filipinas". — Oh! — ela sorriu e beijou a bochecha gordinha da garota. — Obrigada, linda. A garotinha não entendeu uma palavra dela, mas abriu um sorriso genuíno e Charlotte sentiu uma emoção enorme com todo aquele carinho. Quando ela colocou a menina no chão e observou enquanto ela desaparecia junto com a mãe no meio da multidão, um grupo de repórteres a cercou, fazendo perguntas sobre a viagem e suas expectativas em relação ao concurso desse ano. Ela respondeu a todos agradavelmente com um sorriso no rosto. Ela despediu-se de todos em língua nativa, meia hora depois, e foi ovacionada. Quando fez check-in no hotel, tudo o que Charlotte queria era um banho bem longo e uma cama macia onde ela poderia se perder pelo resto da noite. Sentia-se como se um trem de carga tivesse passado por cima dela e desejava descanso para o seu corpo, para a sua mente... e para o seu coração. Assim, pediu a Craig que fosse rápido no relatório das atividades do dia seguinte, e quando ele finalmente deixou seu quarto, Charlotte não demorou mais do que vinte minutos para estar na cama, quietinha e pronta para dormir. Na manhã seguinte, às dez da manhã, Charlotte participou de uma conferência de imprensa juntamente com os organizadores da Organização Miss Universo. As perguntas começaram fáceis – como ela se sentia após uma vigência tão maravilhosa como Miss, como foi a viagem até as Filipinas, do quê ela mais sentiria falta depois que entregasse a coroa a outra mulher... –, mas foram ficando difíceis à medida que o tempo passava, como por exemplo, quando um repórter lhe perguntou o que ela pretendia fazer após a carreira de Miss. Mas a pergunta que mais mexeu com ela foi a que lhe fizeram sobre o estado do seu coração. Uma repórter americana lhe perguntou como uma mulher tão jovem e bonita como ela podia se manter solteira, já que, com certeza, deveria viver partindo corações ao redor do mundo. Essa foi cruel. Ela sabia que tinha partido o coração de pelo menos duas pessoas e uma delas, ela


tinha certeza que talvez nunca a perdoasse. Claro que Ken tinha entendido o término deles após a morte do seu irmão, e embora tenha ficado chateado no início, disse-lhe que não poderia sequer imaginar pelo quê ela estava passando e assim, a deixou livre para voltar para ele, se esse fosse o destino dos dois. Já Marco... ele não conhecia a história. Ela não teve coragem de contar assim que o viu na Califórnia após tantos anos. E ele não lhe deu a chance quando tiveram finalmente um momento a sós. É claro, ela pensou, ele estava ocupado agindo como um idiota. Mas Charlotte, lá no fundo, acreditava que não deveria culpá-lo muito. O que ela faria se alguém mentisse, traísse e partisse seu coração sem nenhuma explicação? Provavelmente criaria um ódio mortal de tal pessoa. — E então, senhorita McKeena? — a repórter insistiu, ante a falta de resposta de Charlotte. Ela lembrou-se de sorrir antes de responder. — Bom, não me vejo partindo corações a todo lugar que vou, mas se isso acontece, de fato, eu gostaria de saber quem são todos esses homens. — Charlotte soltou uma risada, escolhendo o bom humor para lidar com a pergunta. O que mais poderia dizer? Que estava arrasada por causa de um relacionamento antigo que teve um fim trágico provocado pelos seus pais e sua falta de maturidade? Não na frente das câmeras. — Eu me mantive solteira até hoje porque aguardo o homem que irar virar minha cabeça de ponta cabeça, assim como meu coração. Houve um "awn" coletivo e Charlotte teve certeza de que mandou bem na sua resposta. Outra série de perguntas se sucedeu, mas ela lidou melhor com todas elas, já que a maioria focava na sua vida profissional e realizações como Miss, não na sua vida amorosa e coração partido. Os organizadores da Organização Miss Universo tomaram a palavra por mais um longo tempo e no fim de tudo, todos foram aplaudidos. O almoço foi público e por mais enervada que Charlotte estivesse por ser vista comendo por tantas pessoas, ela conseguiu manter a calma. Mais tarde, ela e algumas das novas candidatas a Miss foram a uma comunidade carente na cidade, participar da Missão de Equipe Médica. Charlotte ficou chocada com a pobreza do lugar, em comparação ao lugar onde ela estava, cercada de luxo, e


sentiu-se um pouco mal por presenciar o sofrimento de tanta gente que não tinha cuidados adequados – não porque os médicos voluntários não fizessem um bom trabalho, mas porque eram poucos – e comida suficiente para si e seus entes. O lugar estava lotado. Principalmente com crianças e idosos. Contendo a agonia que sentia em seu interior, Charlotte pôs-se a sorrir e apertou com carinho as mãos de quem lhe estendia. Ela e as outras foram levadas a uma espécie de ginásio, onde aguardariam um pouco para falarem com os médicos residentes e os voluntários de várias nações. Pouco mais de cinco minutos depois, um lindo médico loiro, que parecia mais um ator de Hollywood do que qualquer outra coisa, apareceu. Charlotte mal pôde acreditar nos seus olhos. Mas olha só... — Ken? O médico sorriu, mostrando todos os dentes brancos. — Olá, Charlotte. — Meu Deus! — ela levantou-se da cadeira e foi até ele. — Eu não posso acreditar que está aqui! — então o abraçou firmemente. — Acredite. Sou eu. — Ken a abraçou de volta, em seguida, a soltou. Seu sorriso deveria ser um crime, pois com certeza era matador. — Oh, este é o meu agente Craig Cooper. Craig, este é Ken Reynolds, quero dizer... Dr? Dr. Ken Reynolds. O sorriso de Ken se abriu ainda mais ao apertar a mão de Craig. — Prazer em conhecê-lo, Sr. Cooper. — É bom conhecer você também, Dr. Reynolds. — Disse Craig, amável. Era difícil de acreditar que de todos os lugares que Charlotte já tinha percorrido, ela tivesse encontrado Ken, seu primeiro namorado e amor, nas Filipinas. Tão distante de casa. — Como... — ela pigarreou. — Como é que você veio parar aqui, Ken? — Eu estou com o grupo de médicos voluntários dos Estados Unidos. Eles têm um acordo com a Organização Miss Universo, então... — Ele sorriu para ela. — Quando eu soube que você viria, estava contando os dias para que chegasse. Senti sua falta. Charlotte sentiu as bochechas esquentarem. Ficou meio sem jeito, mas não falou nada. Ela e Ken com certeza tinham muito o que conversar.


— Você está trabalhando onde? Sabe, lá nos Estados Unidos. Ken entendeu a mudança sutil da ex-namorada e sorriu. O que eles tinham para conversar não poderia ser dito ali na frente de tanta gente, pois, por mais que agora Craig tivesse se distanciado um pouco, eles ainda estavam muito próximos de todos. — No Columbia University Medical Center. Eu sou cardiologista. — Uau, impressionante. Eu sempre soube que você venceria. Tenho orgulho de você. — Obrigado, Charlotte. Significa muito, vindo de você. Ken não contaria nunca isso à Charlotte, mas o motivo de ter escolhido uma carreira de médico e de ter se empenhado tanto em ser extraordinário, era que ele queria que o senador e a Sra. McKeena enxergassem o homem que ele era e que seria capaz de fazer sua filha feliz, não só no âmbito emocional, mas no financeiro também. Ken não ficou magoado com Charlotte quando ela lhe disse, anos atrás, que o namoro deles não poderia ir para frente. Ele entendeu que como uma adolescente de quinze anos que acabara de perder o irmão, ela seria agora mais facilmente manipulada pelos pais controladores, mas ficou triste por se dar conta de que se sua condição financeira e seu nome fossem melhores, ele poderia consolá-la para sempre, pois seus pais o aceitariam. Charlotte, no entanto, sofreu sozinha apenas porque o Sr. e a Sra. MacKeena não admitiam uma pessoa de classe inferior ao lado da filha. Devem ter sido difíceis para ela os últimos anos, com a pressão dos pais e o peso dá culpa... Charlotte olhava admirada para o homem que Ken havia se tornado. Ele sempre foi bonito, mas os anos, claramente, tinham sido ótimos amigos para ele. O rapaz que ele era não se comparava ao homem que tinha se tornado. Então ela riu ao pensar em uma coisa e Ken, curioso, curvou a cabeça para um lado e perguntou qual o motivo de tanta graça. — É que eu estava pensando... — Em quê, Charlotte? — Ken perguntou, seu sorriso se ampliando. — Você tá parecendo o Jonny Bravo. Ken franziu a testa, quase perguntando: Quem? Mas então lembrou-se do desenho favorito dela quando era criança. — Ora, mas que honra. Eu sei que era apaixonada por ele.


Os dois riram, até não terem mais do que rir. Um silêncio incômodo prevaleceu entre eles é Charlotte pigarreou antes de dizer que precisava voltar para junto das outras meninas. — Tudo bem. Mas podemos jantar hoje? Charlotte não teve como negar. E então, após observar a tarde toda o amor com o qual Ken tratava seus pacientes, e ajudar em algumas ocasiões, junto com as candidatas a Miss Universo, Charlotte e Ken saíram para jantar. Ela não teve muito tempo para pensar em sua tristeza por causa de Marco. Estava feliz por encontrar Ken após tantos anos e mais, por saber que ele não guardava nenhum rancor. Ele ainda era o mesmo cara que tanto conhecia. Não só na aparência. Ele ainda era atencioso, engraçado é esperto. Não guardava rancor e a tratava cm carinho. Um carinho que ela precisava, que queria, mas que queria que viesse de outra pessoa. No momento em que pensou nisso, Charlotte balançou a cabeça e forçou-se a sorrir. Não queria pensar em Marco. Não era justo com ela... nem com o Ken. — O que está incomodando você? Ela foi puxada de seus pensamentos pela voz melodiosa e doce de Ken. Ele segurava sua taça de vinho na mão e a observava com o queixo apoiado na outra. — Não é nada. — ela respondeu suavemente. — Ah, qual é... Eu conheço você. Fala pra mim. Charlotte suspirou. Se ela contasse ao Ken sobre Marco, teria que contar tudo desde o início, quando ela partiu o seu coração. Mas Charlotte tinha vergonha, pois, quem poderia perdoar o que ela fez com ele? E talvez, se Ken ainda não a via como uma garota superficial e controlada pelos pais, com certeza pensaria assim após saber que ela tinha agido de forma muito parecida com outro homem, tantos anos após a morte do seu irmão. — É um cara, não é? A voz de Ken saiu ansiosa. Ele queria poder enchê-la de perguntas, mas entendia que não tinha mais esse direito. Ela não era sua namorada. — Ken, eu... cometi alguns erros no passado e... — Espero que não considere que nosso relacionamento foi um erro. — Não. — ela apressou-se em negar ao notar a melancolia na voz dele. — Não


estou falando da gente. Foi outra coisa e eu... eu não estou pronta pra contar pra você ainda. Ken sorriu. Não foi um sorriso alegre, mas ele não a estava julgando ou triste por ela não dividir o que quer que a estivesse afligindo com ele. Apenas sabia que algumas coisas na vida dela eram difíceis de serem ditas e com certeza entenderia se ela precisasse de um tempo. — Tudo bem, Charlotte. Quando estiver pronta, eu estarei aqui pra ouvir. Você sempre poderá contar comigo.


11

Charlotte respirou profundamente. A conversa que tivera com Ken dois dias antes durante um jantar ainda ia e vinha em sua mente. Ele não ficou chateado quando ela lhe contou sobre Marco, mas deixou claro que ainda tinha sentimentos por ela e esperaria. — Eu estou machucada, Ken. E não quero machucar você também. — Esse tal Marco deve ser um imbecil, não é? Quem faz uma coisa dessas com uma garota como você? — Ele não sabe do meu passado. Eu nunca lhe contei. — Mesmo assim. Não se trata uma mulher dessa forma. Me desculpe dizer, mas ele te tratou como se fosse uma prostituta. Eu gostaria de arrancar sangue dele para lhe dar uma lição. Charlotte riu um pouco. Ken era forte e atlético, mas claramente não era páreo para Marco. Os anos lhe fizeram muito bem e agora o garoto um pouco franzino que ela um dia conheceu, era um verdadeiro brutamontes. Se houvesse, por alguma razão do destino, uma briga entre eles, era claro que Ken seria nocauteado. Mas ela não teve coragem de dizer isso em voz alta e acabar com a confiança do bom médico, então apenas continuou a sorrir. — Mas me fala uma coisa... olha, não me leva a mal, eu não estou dizendo que estou do lado dele nem nada, mas... por que não contou a ele? — Por que não tive chance, ou coragem, para dizer a ele o que aconteceu no dia em que terminamos. Charlotte abaixou a cabeça e lembrou-se do dia em que seus pais foram ao seu quarto com um jornal nas mãos e ódio nos olhos por causa da manchete, mesmo que fosse mais favorável para ela do que para Marco. — Eu não consigo acreditar que você foi tão burra a ponto de ir a um lugar desses, minha filha. — sua mãe gritou. Charlotte apenas chorava, segurando o lado do rosto que estava vermelho depois do


tapa que levou do pai. — Você sabe o que isso pode me custar? — a voz do senador era baixa, mas fria, mortal. — Isso pode custar minha candidatura à reeleição. A filha de um senador não pode andar com esse tipo de gente, não pode fazer esse tipo de coisa. O que você tem na cabeça, pelo amor de Deus! Charlotte encolheu-se fisicamente, preparando-se para um novo tapa, mas ele não veio, pois o homem se controlou no último minuto. Era provável que mais uma agressão deixasse marcas e isso levantaria suspeitas, foi o que Charlotte deduziu como empecilho para não ser agredida de novo, não porque o pai tivesse mudado de ideia. — Ainda bem que sua mãe conhece pessoas importantes naquele jornal e convenceu o editor a mudar a manchete. Já pensou se tivesse mais de um fotógrafo lá? O que poderiam ter dito de você? — Você não vai mais ver esse rapaz, Charlotte. Eu a proíbo. — disse Judith com a voz ácida. — Não foi o Marco que me levou lá. — Charlotte disse baixinho. — Eu fui sozinha. Ele só foi me buscar. — Não interessa. — o senador gritou e ela se encolheu mais uma vez. — Por que nunca nos falou sobre seu envolvimento com esse moleque? Sabe quem o pai dele é? — Sei. — Charlotte fungou. Não entendia o motivo da pergunta. Seus pais não aceitaram o Ken alguns anos atrás porque ele era pobre. Mas Marco era herdeiro de uma multinacional, não que fosse esse o motivo de ela o amá-lo, mas não entendia a revolta dos pais. — Um empresário importante. — Ele é a porra do meu maior concorrente ao senado. — O quê? — Charlotte perguntou chocada. Não se lembrava de Marco ter mencionado que seu pai tinha aspirações políticas. — Ele está investindo na campanha do meu maior adversário. — o senador explicou, revirando os olhos, ante à confusão da filha. — Eu não a quero com ele. — Então foi só por isso que vocês mudaram a manchete? Para prejudicá-lo e ao seu pai? — Charlotte perguntou irritada. Sua voz subiu alguns decibéis. E isso lhe rendeu mais um tapa. Dessa vez, da sua mãe. — Escute aqui. — o senador sentou-se na cama e fez Charlotte encará-lo, segurando


seu queixo com força para manter sua cabeça erguida. — Você vai confirmar tudo o que esse jornal diz. Qualquer coisa fora disso aqui é mentira, entendeu? É o que você vai dizer para qualquer um que perguntar. Você foi obrigada a ir a esse bar e Marco, drogado e bêbado como estava, é o único culpado pelo que aconteceu ontem à noite. — Eu não vou fazer isso. — Charlotte respondeu entre os dentes. — Podem bater em mim de novo se quiserem, mas não direi isso. Ele vai se formar com honras e seu nome ficará manchado com esse tipo de acusação. O senador riu friamente. — Não basta ter matado seu irmão, ainda tem que ser um desgosto tão grande para seu pai e para mim? — sua mãe chorou falsamente, destilando veneno. Charlotte sabia que seria um erro confessar que Bob estava a caminho da casa do Ken para buscá-la quando um caminhão desgovernado bateu nele, tirando sua vida, mas fez isso porque queria consolar os pais diante de tamanho sofrimento. Agora, ela tinha plena certeza de que realmente tinha sido idiota, pois só bastava se negar a fazer qualquer coisa para agradá-los que eles jogavam a culpa nas suas costas. Sem dó nem piedade. Como se a culpa que sentia já não fosse suficiente. — Oh minha filha, nós não vamos bater em você. — o senador disse, ignorando o que a esposa disse momentos antes. — Se não confirmar o que estamos vendendo, seu castigo será muito pior. Você será obrigada a ver seu casinho romântico pagar por você. Charlotte quis dizer que ele não tinha poder para prejudicar os Villa-Lobos a ponto de fazê-la temer por Marco, mas reconsiderou. Afinal, seu pai era um homem com conexões importantes no meio político e em alguns meios mais obscuros, segundo tinha descoberto recentemente. Assim, Charlotte não teve escolha a não ser seguir o que os pais e o jornal disseram sobre seu amado, e quando Marco apareceu alguns minutos depois em seu quarto, e ela mentiu na maior cara de pau para ele, ela soube que o tinha perdido para sempre, pois jamais seria perdoada. Estava agora a caminho de Nova Iorque. Ela havia entregado, duas noites atrás, sua coroa à Miss Itália, que agora era detentora do título de Miss Universo. Ao pensar


nisso, Charlotte sorriu consigo mesma, pois tinha cumprido seu dever com o país, com o mundo... e com seus pais. Agora sua vida era apenas sua para seguir o que queria da vida. Não devia nada aos seus pais e nem a ninguém. Tinha estudado muito e queria aplicar o que aprendeu em Harvard, tornando-se a empreendedora que sabia que tinha chance de ser. Com todos os anos em que se dedicou tanto à sua vida acadêmica como à sua vida de modelo, Charlotte tinha certeza que a boutique que pretendia abrir em Nova Iorque iria para frente. Afinal, talento não lhe faltava e nem conexões, tanto com o mundo empresarial como com o mundo fashion. Dessa forma, não foi difícil para ela conseguir patrocinadores para dar início ao seu projeto, já que não pretendia pedir nenhum centavo ao senador ou à ex-Miss América, ou seja, papai e mamãe. Não, Charlotte queria vencer por seu próprio suor, por seu próprio mérito e esforço. Não cortou relações com os pais, quando entregou a coroa de Miss Universo, para pedir um favor que seja a eles. Com dois meses, a Glitz Fashion Company já era um sucesso entre os novaiorquinos e com três, o armazém no Queens que era usado como QG da empresa não era mais suficientemente grande. A quantidade de encomendas tinha crescido muito e ela precisava se mudar para um lugar maior para acomodar mais máquinas e empregados. Charlotte sabia que tinha apoio, mas não imaginava que o sucesso da sua marca seria tão grande em tão pouco tempo. Aparentemente, ser ex-Miss Universo abria muitas portas, pois as amizades que fez durante esse tempo tinham vindo bastante a calhar. Mas para mudar-se para outro lugar, Charlotte precisaria de mais dinheiro. Seu capital de giro ainda não era suficiente para um investimento maior. O problema é que ela ainda não sabia como conseguiria isso, pois apesar de boas conexões no mundo empresarial, parece que algumas portas simplesmente não estavam abertas para ela recentemente. — Não consigo entender porque o banco não quis ceder o empréstimo, senhorita McKeena. — disse Fiona, a assistente pessoal de Charlotte. — Pelo que eu soube, o Sr. Redfield da outra rua conseguiu um bom empréstimo no mesmo banco para ampliar sua padaria. — Simplesmente não entendo. — Charlotte concordou. — Levamos tudo o que o


banco pediu, todos os relatórios... Como puderam mudar de opinião de última hora? Até parece que tem alguém querendo ferrar comigo. — ralhou ela, abaixando o rosto nas mãos em sua mesa. — Não sei, mas se não cuidarmos disso logo, a coisa vai ficar feia. A Fashion Week está quase aí e nós temos muitas encomendas. Os estilistas já criaram muito, mas sem o maquinário e o pessoal necessário, as coisas estão bastante atrasadas. Charlotte meneou a cabeça e gemeu baixinho. Aquilo estava acabando com o seu sono nos últimos vinte dias. Como iria gerir um negócio daquele jeito por vários anos se não estava aguentando nem dois meses? As coisas foram tão bem nos primeiros três meses, como poderia estar se mal encaminhando no último? — Pensou no que eu propus? Sobre os empregados. — acrescentou Fiona ao notar a confusão na expressão da chefe. — Eu não posso pagar mais hora extra para eles. — respondeu Charlotte, odiando o som fraco da sua voz — Eles já estão trabalhando praticamente dobrado e se eu aumentar as horas extras, não sei se terei dinheiro para pagá-los. — E o que pretende fazer? Os dias estão se esgotando. — Nem me fale. — Charlotte lamentou. — Acho que a única maneira de conseguir algo, é atirar para todo lado. Alguém há de ser acertado. Quem quer que fosse que estivesse querendo ferrar com seu sonho, não teria sucesso. Ela não aceitaria a derrota tão fácil. Não bastasse ter de vê-la em outdoors e anúncios de jornais como Miss Universo pelo ano inteiro, agora Marco tinha que ver tais anúncios de Charlotte como a mais recente empresária bem sucedida. Ela não era mais Miss, mas com certeza ainda era a queridinha da América. Marco estava irritado. Suas tentativas de frustrar o negócio recém-aberto de Charlotte não pareceram ter muito efeito. Mesmo pedindo pessoalmente aos gerentes dos principais bancos da cidade – como amigo e um dos principais clientes – que negassem qualquer pedido de empréstimo que ela fizesse, a empresa dela estava indo de vento em popa. Suas roupas vendiam como pão quente e suas conexões se mostraram ter um pouco mais de firmeza do que as dele. Aquilo era inaceitável. Ele era Marco


Villa-Lobos, e conseguia sempre o que queria no mundo empresarial. Havia quase quatro meses que vira Charlotte pela última vez e desde essa época, ela não era mais Miss, tinha virado empresária e, por Deus, estava namorando um médico? Os boatos não eram claros, mas alguns paparazzi os flagraram nas Filipinas juntos logo depois da coroação da nova Miss Universo. E de maneira um tanto... íntima. Mas quem poderia ser o tal cara? E o que diabos James Hardy, seu investigador particular, estava fazendo que não lhe trazia as respostas que ele buscava? Pelo amor de Deus, o cara era apenas um fodido médico do inferno, não o presidente dos Estados Unidos, deveria ser fácil conseguir informações. Fazia quase um mês que ele e Charlotte eram fotografados juntos em restaurantes e outros lugares públicos, o que queria dizer que qualquer que fosse o relacionamento que tivessem, estava em um nível mais sério. E, por todos os santos, Marco queria saber tintim por tintim. Ela disse que ainda o amava havia pouco tempo, como poderia estar com outro? E agora? Como ele poderia se vingar dela, se claramente não existia mais nenhuma brecha por onde ele pudesse entrar em sua vida? A menos que... Marco, de repente, teve uma ideia brilhante. Ele estava usando o caminho errado, para chegar à Charlotte, ele precisava caminhar por outras trilhas. — Sim, Charlotte. — Marco disse, sorrindo para o novo outdoor em frente ao seu prédio. — Me aguarde.


12

— Charlotte, há um monte de rosas para você lá fora. — informou Fiona. — O entregador perguntou onde deve colocá-las. — O que? De quem? — Do Sr... — Fiona examinou o bilhete — Marco Villa-Lobos. Charlotte ficou instantaneamente com raiva. — Diga ao entregador para levar tudo de volta. Eu não vou aceitar isso. — Charlotte sorriu com arrogância e um tantinho de humor — Ou melhor ainda, mande levar para o cemitério. Com certeza as pessoas lá precisam mais do que eu. — Que desperdício. As rosas são lindas e parecem bem caras. É claro que são caras, pensou Charlotte. Ele era Marco Dono Do Mundo VillaLobos, poderia comprar todas as malditas flores que quisesse, mas ela não aceitaria. Não daria a ele o gostinho. — Tudo bem, então. Vou dizer ao entregador que você não vai aceitar. Charlotte se apoiar em sua cadeira e encarou Fiona tempo suficiente para ela saber que deveria mandar as flores exatamente para o lugar onde ela havia dito. Sua assistente corou um pouco e confirmou com um aceno que tinha entendido a encarada da patroa. Quando Fiona saiu, Charlotte esfregou o rosto com as duas mãos. Por que Marco estava fazendo isso? O que ele poderia querer dela depois do que tinha feito no seu último encontro? Será se praticamente chama-la de prostituta já não era bastante? Ele tinha mesmo que continuar a feri-la? Ele só podia ser um sádico... Não, eu não vou deixá-lo me machucar novamente, não mesmo. Ela continuou fazendo seu trabalho, fingindo para si mesma que não estava tremendo como vara verde ou que sua ansiedade não a estava corroendo por dentro. Só Marco Villa-Lobos mesmo para tirar sua concentração mais rápido que um tem bala, e olha que ela não tinha pouca coisa com o quê se preocupar não. Ao contrário, seus dias


estavam cada vez mais desgastantes, pensando sempre em como e onde encontrar uma pessoa disposta a investir em sua empresa. Deus, ela não achava que seria tão difícil. E quando achou que seus pensamentos a respeito de Marco e sua capacidade de lhe tirar totalmente do sério já eram o bastante para deixá-la fora de foco o resto do dia inteiro, seu telefone tocou. — Alô. — Charlotte atendeu. — Charlotte. — disse a pessoa do outro lado. A voz era tão familiar. Charlotte sabia instantaneamente que era Marco. — O que você quer? — perguntou ela com firmeza. — Eu queria saber por que não aceitou as flores. — a voz dele estava melosa. — Eu ainda estou viva, Sr. Villa-Lobos. Se você me quer morta, envie uma bomba da próxima vez, então terá efeito desejado. — Aquilo era uma oferta de paz, Charlotte, pelo amor de Deus. — Marco ignorou a alfinetada dela. — E por que diabos você está me chamando de Sr. Villa-Lobos? — E como exatamente eu deveria chamá-lo? — Pelo meu nome. — E esse não é seu nome? Charlotte jamais admitiria, mas estava adorando provocar Marco, por que é claro, ele parecia estar irritado e fosse qual fosse o motivo, pouco lhe importava. — Escuta, eu liguei porque... — Por que queria saber das flores? — Charlotte perguntou de uma forma falsamente inocente. — Também. — ele rosnou, o que ela achou muito sexy, mas também não admitira isso. — Mas foi para perguntar se você gostaria de jantar comigo. Charlotte fez um silêncio enorme e proposital, mordendo o lábio para não deixar escapar um riso antes de responder. — Eu posso me dar ao luxo de comprar meu próprio jantar, Sr. Villa-Lobos. Você não precisa falar doce comigo. Não vai funcionar. — Eu não estou falando doce. Só quero uma chance para mostrar que... — Não. Você não terá mais chances. Você teve uma e pelo que me lembro, me tratou como uma puta.


— Pelo que eu me lembro, você bem que gostou. — Marco disse com um ar sedutor que até por telefone era capaz de enviar arrepios pela espinha de Charlotte. — Adeus, Sr. Villa-Lobos. Fique. Longe. De. Mim. Charlotte desligou o celular, pois não poderia continuar aquela conversa com Marco e sair ilesa. Droga, seu coração a traía. Seu maldito corpo a traía. O que havia de tão gostoso naquela voz que a fazia ficar toda molhada? Ela não sabia exatamente por que Marco tinha ligado, mas sabia que tinha sido para torturá-la. Ela estava com raiva e precisava aliviar aquilo de alguma, então olhou por uns minutos para a tela apagada do celular e depois discou o número do Ken. Marco sabia que Charlotte devia estar soltando fogo pelas orelhas e estaria ainda pior se tivesse visto seu riso de satisfação quando ela desligou na cara dele. Deus, ele gostava de provocá-la. Quando namoravam, ele fazia isso uma vez ou outra, de forma inocente, e gostava muito quando ela descontava, dando-lhe tapas fortes até que os dois acabavam aos beijos. Se fosse hoje em dia, eles acabariam na cama e não havia nada que ele quisesse mais talvez apenas vê-la ajoelhada implorando seu perdão pelo que tinha feito, mas isso poderia esperar uma oportunidade melhor do que transar violentamente com ela. Não que a primeira vez dos dois tivesse sido muito gentil, mas ele precisava de mais. — Ah, Charlie, Charlie. — ele estava parado em frente à enorme janela do seu escritório que dava para um outdoor com Charlotte estampada. — O que eu vou fazer com você? Nos últimos meses, com a ausência de Charlotte da mídia fashion, por assim dizer, Marco sentiu falta da sua dose diária de tortura ao ter que ver uma entrevista ou a reprise de algum programa que ela havia participado. As fotos nos jornais e revistas não eram mais as mesmas. Ela havia entregado a coroa de Miss Universo e saído um pouco dos holofotes e, por mais que, de alguma forma, ainda fosse a queridinha dos ricos e famosos, agora por causa da sua boutique, ela não aparecia tanto quanto antes. Marco então se pegou pensando se estava perdendo a razão. Talvez devesse estar ficando louco ao querer ver novamente seu rosto estampado em todo lugar, pois a alternativa era admitir em alto e bom som que ainda a amava loucamente e que talvez,


apenas talvez, sua vingança contra ela não estivesse mais fazendo muito sentido. O problema é que ele não estava louco. Se estivesse, não estaria pensando, pois loucos não pensam sobre sua sanidade. Mas também não se sentia pronto para abrir mão de uma coisa que ele cultivou por tantos anos apenas para manter aflorado o sentimento visceral que ele tinha por ela. Fosse amor, fosse ódio, os dois estavam interligados e agora Marco não sabia como separá-los. Sem contar que ele também estava com medo. Medo das palavras de Nicole, que lhe dissera apenas um mês atrás – quando lhe mostrou uma manchete de revista que mostrava Charlotte e o tal médico, com quem ele ainda teria uma conversinha, muito agradavelmente juntos em um iate – que se ele não abrisse o olho, outro poderia dar a ela o que ele se negava a fazer apenas por ser incapaz de deixar o passado para trás. Bom, se Marco ainda não estava louco, era provável que ficasse e ele não poderia culpar ninguém a não ser Charlotte McKeena. — Você ainda vai acabar com o pouco juízo que me resta. Alguém tossiu atrás dele. Marco se virou assustado e viu seu pai, Eduardo, de pé a poucos passos de distância da porta. — O que foi isso? — perguntou Eduardo, com um meio sorriso. Marco ficou um pouco envergonhado. Seu rosto até ficou vermelho. — Você está falando com o outdoor? — Eduardo se aproximou e olhou para foto gigante de Charlotte e sua marca recém-nascida. — Eu não te criei para ser um covarde, filho. Converse com a garota pessoalmente. Marco gemeu e foi até sua mesa, onde sentou, fingindo ser ele o dono do mundo e não o Villa-Lobos mais velho à sua frente. — O que veio fazer aqui, pai? — Um pai não pode mais visitar seu filho? — Eduardo perguntou com um sorriso torto que Marco achou irritante. Fechou os olhos e concordou silenciosamente com sua mãe sobre o assunto. — Claro que pode, mas não só para isso que você veio e sabe disso. Eduardo se sentou na cadeira em frente à do filho e brincou com um fiapo invisível em sua calça por alguns segundos – uma coisa mais irritante do que o sorriso torto – antes de começar a falar.


— Filho, você está vendo Charlotte McKeena de novo? — Por que está perguntando? — Marco não tinha a intenção de parecer irritado, mas não teve como evitar que sua voz saísse dessa forma. Eduardo, no entanto, ignorou o tom do garoto. — Sabe que o senador e eu tivemos alguns... problemas ao longo dos últimos anos. — Sei. Como poderia esquecer? Seu pai e o senador quase chegaram aos finalmente depois de um jantar beneficente que Eduardo havia planejado para seu candidato ao senado, principal concorrente de Bernard. A briga foi feia, um bate-boca dos infernos, que só não teve repercussão maior porque os jornalistas presentes foram todos comprados para não divulgarem as imagens e vídeos. — Não ajuda em nada o fato de Thomas ter morrido por "causas naturais" — disse Eduardo, fazendo aspas no ar, — dias depois de assumir o senado, fazendo do cachorro do Bernard o sucessor legal ao cargo. — Pai... — Sei que não há provas, Marco, e é provável que nunca tenha, mas não quer dizer que não tenha sido ele. Marco também não duvidava disso, mas não queria acusar o pai de Charlotte, por mais que soubesse que ele provavelmente merecia. — Por que está falando do Thomas? — Não estou falando do Thomas. Estou falando do Bernard. — E? — Quero saber se você ainda sente alguma coisa pela filha dele? Marco apenas abriu a boca, sem ter o que dizer, ou sem saber o que dizer. Ele poderia dizer ao pai que planejava se vingar de Charlotte pelo que ela tinha feito quatro anos atrás? Será se deveria dizer que agora estava se perguntando se isso valeria a pena? Ou deveria dizer que estava mais confuso do que quando ouviu falar de aritmética pela primeira vez? — Sim. Não, eu não sei. Ficamos juntos na Califórnia. Mas não deu certo. Ela me disse pra ficar longe dela. — E eu, com certeza, concordo.


Marco não disse nada. Então Eduardo continuou. — Não gosto daquela família e tenho motivos para isso, mas acima de tudo aquela menina brincou com o seu coração. Menina. Charlotte não parecia mais uma menina, no entanto, era uma quando eles namoraram. Ela só tinha dezoito anos. Nem mesmo ele era maduro o suficiente na época. — Acho que, — Eduardo pigarreou antes de continuar, — você nunca deixou de gostar dela. É admirável que depois do que você passou, e eu sei que não foi pouca coisa, você ainda nutra sentimentos bons por ela. Era, de alguma forma, reconfortante falar sobre isso com seu pai. O único homem que poderia chutar sua bunda e ele nunca ergueria um dedo para revidar, mas também o único homem que o tratava tanto como um garoto quanto como um homem ao dizer apenas uma única frase. — Não sei como agir, pai. Minha mente quer uma coisa, mas acho que meu coração quer outra. E não sei quem ouvir. — Se eu fosse sentimental diria para você ouvir seu coração. Mas você sabe que seu velho não entende de coisas do coração. Marco sorriu, sabendo que o pai estava sendo sarcástico, pois sabia perfeitamente que ele entendia muito bem das coisas do coração. Não tinha como ter se casado com sua mãe, uma mulher geniosa e temperamental, sem ser loucamente apaixonado por ela, mas não o desmentiu. — Eu sugiro que use os dois. Um cara esperto não é aquele que segue a razão ou a emoção separadamente, um cara esperto de verdade é aquele que flerta com os dois e sai de cara limpa depois de foder com os dois. Marco se perguntou se essa era a hora em que ele deveria dizer ao pai que não tinha entendido porra nenhuma do que ele tinha falado, mas não se deu ao trabalho, pois Eduardo já estava se levantando. — Namore com a razão, case com o coração. — Eduardo completou com uma piscadela. Marco sorriu enquanto Eduardo se dirigia até a porta, mas por experiência, ele sabia que o pai não sairia sem dizer mais uma coisa.


— Odeio o McKeena, filho. Mas esqueço tudo se for pela sua felicidade, então me mantenha informado se eu precisarei ou não continuar minhas investigações a respeito dos seus... contatos mais obscuros. Marco balançou a cabeça e acompanhou o pai com olhar pelos vidros foscos do seu escritório enquanto ele se afastava até o elevador. Por falar em contatos, Marco ainda não tinha recebido a resposta de dois dos seus e estava ansioso, por isso pegou o telefone e ligou para o primeiro. Seu investigador. Na manhã seguinte, Marco, ainda na cama, lia as manchetes de um jornal, que mostrava no canto inferior uma coluna sobre Charlotte e o Dr. Ken Reynolds em um jantar íntimo na noite anterior. Ele ficou zangado na mesma hora, amassou o pedaço de papel com toda a força que tinha e com a destreza de um jogador de basquete, lançou-o até a lata de lixo do outro lado do seu quarto. Pareceria ser muito fácil para Charlotte encontrar alguém com quem sair. E é claro que o fato de seu investigador, James Hardy, ter pedido mais um dia para levar a ele suas descobertas, não estava ajudando em nada na sua ansiedade e humor negro. Então como se fosse uma deixa, seu celular tocou. Era James. — Bom dia, chefe. Já tenho os resultados. Marco caminhou até a cozinha e pôs grãos na cafeteira para uma xícara de café. — Ok, isso é bom. Fale. — Dr. Reynolds foi o primeiro namorado da Srta. McKeena. Descobri que... — Espera aí, o quê? — Sim, minha pesquisa revelou que ele é um garoto com quem ela teve seu primeiro envolvimento amoroso ainda durante o colegial. Marco então sabia quem era ele. Ken. É claro. Como não tinha lembrado antes? O cara que tirou a virgindade dela. Ela o mencionara quando eles namoraram, mas nunca contou porque terminaram. E se estavam juntos agora, talvez tivessem resolvido os problemas de antes. Porra. — Continue, James. — Ahm... Ele é médico na Columbia e eles se encontraram durante o concurso de


Miss Universo nas Filipinas. O Dr. Reynolds estava lá como chefe da missão médica que colaborou com a Organização Miss Universo. — Qual a especialidade dele? — Ele é cardiologista, senhor. — Sei. — Marco respondeu, sem humor. Sua mente estava divagando por um lugar não muito agradável. Não gostava nada do tal médico. Não gostava nada de ele estar se jogando todo pra cima da sua Charlotte. Sim, sua Charlotte. Seus sentimentos por ela podiam até ser ambíguos, mas ela era dele. — Dr. Ken Reynolds ganhou o prêmio... — Não... pule essa parte. Não estou interessado em suas conquistas. Mais alguma coisa sobre ele? — Bom, tenho informações detalhadas sobre ele e seus pais, número de identidade, da previdência, até mesmo o número que calçam. Não era o que Marco queria. — Algo sobre seu passado, fora ser o namorado da Charlotte, que precise de menção honrosa? — Ainda não. Ele parece ser o menino de ouro. Mas posso continuar investigando. — Ótimo, faça isso. E me ligue assim que conseguir alguma coisa. — Certo, senhor. Tenha um bom dia. Marco desligou, seu humor ainda pior do que quando acordou. Menino de ouro? Não, Marco não acreditava nisso. Ninguém é perfeito, e por tudo que é mais sagrado, aquele doutorzinho também não era. Não podia ser. Marco tomou café e foi para o escritório. Seus empregados sabiam quando ele estava de mau humor e não o incomodavam a menos que fosse algo importante, então quando perto do meio dia, a sua secretária lhe passou uma ligação, ele sabia que só podia ser seu amigo de faculdade, o único que conhecia seu sentimento de vingança, o cara que lhe ajudaria a colocar em prática o plano que tinha contra Charlotte. Patrick Matarazzo. Charlotte havia sido convidada para um almoço com um jovem empresário


benfeitor, o CEO da Matarazzo Corporation, e aguardava ansiosamente por ele no restaurante marcado. Aparentemente, o homem queria ser o investidor que ela tanto precisava e tinha ligado de manhã para sua assistente Fiona, marcando um almoço às pressas, pois tinha um compromisso em outro continente no final do dia. — Senhorita McKeena, que prazer vê-la. Fico feliz que tenha se disponibilizado a comparecer mesmo em cima da hora. — cumprimentou Patrick, ao sentar-se à mesa em que ela já o aguardava. — O prazer é meu, Sr. Matarazzo. Eu que agradeço sua disposição. Um garçom chegou para anotar seus pedidos, trazendo também a carta de vinhos, e alguns minutos de silêncio agradável se passou até que o vinho escolhido fosse trazido e servido. — Mas devo dizer que estou um pouco surpresa com o seu convite, Sr. Matarazzo. — Charlotte disse depois de tomar um gole do seu Chardonnay. — Bom, eu ouvi seu apelo. — Patrick disse, e completou com um pequeno sorriso. — Nada sutil, devo dizer. Charlotte corou um pouco. Não queria ser derrotada e diante dos vários "Não" que recebeu de gerentes de bancos, negando-se a lhe concederem um empréstimo, se viu obrigada a apelar, atirando para todos os lados, enviando e-mails, discretos e diretos ao mesmo tempo, para vários empresários de Nova Iorque. No entanto, não se lembrava de ter mandado algum para o Sr. Matarazzo. — E decidiu que quer investir na minha empresa? — perguntou Charlotte, não querendo parecer mal agradecida. Na verdade a oferta do Sr. Matarazzo era sua salvação, já que fecharia a empresa, mas não pediria ajuda aos seus pais. — Bom, sim. Eu gosto de investir em gente que está começando. Gosto de ver algo com o qual tive participação crescer. Meio arrogante da sua parte, Charlotte quis dizer, mas segurou a língua. — Certo. E então? Qual sua oferta? O garçom voltou com a comida dos dois e Charlotte contou os segundos até que estivessem a sós, pois estava ansiosa demais com a resposta de Patrick. — De quanto precisa? — Patrick perguntou sem preâmbulos. — Oh, isso é um pouco embaraçoso. Mas... eu preciso comprar mais maquinário e


aumentar a mão de obra, é claro. Os meus fornecedores precisam de um pagamento adiantado, devido ao número crescente de pedidos devido à Fashion Week. — Humm. — Patrick gemeu em apreciação à comida. — Então quanto? — Patrick falava de dinheiro como se estivesse falando da entrada do seu almoço e como por coincidência... — Está uma delícia isso, não? — Ah, sim. — Charlotte respondeu mais por educação do que por qualquer coisa, pois a comida estava com gosto de palha seca em sua boca devido o seu nervosismo. — Bom, acho que cerca de dois milhões de dólares. — OK. — ele respondeu simplesmente. Charlotte precisou tomar um gole de vinho para não engasgar e jurou ter visto um discreto sorriso nos lábios dele, mas fingiu não notar. — Faremos o seguinte, senhorita McKeena, investirei cinco milhões, acho que isso é suficiente para colocar a empresa nos eixos, mas quero participar ativamente dela. — O que quer dizer? Tipo uma porcentagem nas ações? — Sim. Digamos que eu fique com... quarenta por cento da empresa? Charlotte não sabia muito bem como reagir, mas achou que a oferta dele estava boa demais. Cinco milhões era mais do que necessário para sustentar a empresa por alguns anos e ele apenas pedir quarenta por cento das ações... Bom, ela não tinha checado a Bolsa recentemente, mas sabia que sua empresa, tão nova, não valia tanto assim. Logo, parecia um negócio injustamente justo. — O que me diz, Srta. McKeena? Se precisar de um tempo... — Ah, não. Não é necessário. Charlotte não queria perder a oportunidade. E se ele se arrependesse? Não. Tinha que decidir já, afinal, não via nenhum mal no que ele estava propondo. — Que ótimo. Vou pedir que meu advogado redija um contrato e lhe entregue para que possa analisar e então fechamos o negócio. — Bom, obrigada. — Não agradeça, é um prazer. E pronto, estava resolvido. As coisas são muito fáceis no mundo de quem tem dinheiro de sobra. Ela sorriu e continuou a comer, sentindo como se uma grande pedra tivesse sido tirada dos seus ombros. Quando terminaram, ele pagou o almoço e apertou


sua mão, beijando-a logo em seguida, num gesto cavalheiresco. — Espero que como minha nova sócia, aceite participar do baile beneficente que darei no fim de semana. É para uma causa nobre e eu garanto que não irá se arrepender. — É claro. Será uma honra. Dois dias depois, o contrato foi assinado. O dinheiro foi depositado na conta da Glitz Fashion Company. O Sr. Patrick Matarazzo tinha direito a uma quota de quarenta por cento da empresa de Charlotte e ela tinha verba suficiente para fazer o negócio crescer. Sim, ela venceria. No final da mesma tarde, outro contrato estava sendo assinado, com quatro pessoas sentadas em uma mesa redonda. Dois homens e dois advogados. — Parabéns, Marco. Você agora é dono de quarenta por cento das ações da Glitz Fashion Company. — disse Patrick ao amigo. — Obrigado pela ajuda, amigo. Te devo uma. — Marco respondeu.


13

— E aí, Pat? Sobre o quê tanto vocês falaram no almoço? — Após o contrato assinado, Marco e Patrick foram até o bar do St. Regis para tomar um drinque e comemorar o acordo firmado entre os dois. Ou melhor, os três, mesmo que uma das partes ainda estivesse no escuro. — Sobre nada em especial, apenas de negócios. — Patrick respondeu enquanto bebericava. Mas tinha um sorriso no rosto e isso deixou Marco com uma pulga atrás da orelha. A verdade é que Patrick estava curioso sobre a tal garota. Sabia tudo sobre ela, claro, tudo o que Marco havia lhe contado, mas depois de conversar com ela por quase uma hora enquanto almoçavam, Patrick não achava que ela era o monstro que o amigo pintava. — Achei que não era para haver segredos entre nós. Pelo menos não em relação à minha Charlotte. Minha Charlote? Patrick pensou, satisfeito. O amigo estava em apuros. O tipo de apuros que pode deixar um homem louco. Deus sabe que ele mesmo estava passando por uma situação parecida com sua Elena. A diferença é que era o pai de Elena que Patrick queria machucar, Marco queria machucar a mulher que amava. — Não há necessidade de me mostrar a quem a loirinha pertence, meu amigo. Jamais ultrapassaria os limites da nossa amizade e você sabe disso. — Patrick disse com um sorriso açucarado. Marco não melhorou sua cara, no entanto. — Fala de uma vez. Patrick respirou fundo e contou que convidou Charlotte para o baile beneficente da Fundação Matarazzo contra o Câncer Infantil no fim de semana, e que ela, muito alegremente, aceitou comparecer. — E o que eu devo esperar desse baile?


— O de sempre. Mas eu tenho um programa para o evento e acho que você vai gostar muito. — Patrick sorriu diabolicamente e Marco o acompanhou. Conhecia bem aquele homem, era seu melhor amigo, então sabia que seja lá o que fosse, seria realmente bom. — Mal posso esperar. — Ela é muito interessante, sabe. A sua Charlotte. — O que quer dizer com isso? — Marco perguntou, fazendo um gesto para o garçom servi-lo novamente. — Ela me contou algumas coisas sobre sua empresa. Sabia que os pais dela não aprovam? Marco não sabia disso, é claro. Por que saberia? Para ele, todos os McKeena viviam sua vida tranquila e um sempre fazia o que o outro queria. — Ela disse que estava aliviada por não precisar mais fechar a empresa. Claro, porque preferia fechá-la a pedir ajuda aos pais. Marco continuou calado. Seu amigo estava sabendo de mais coisas sobre Charlotte do que ele. Essa foi uma sensação que não o agradou nem um pouco. Não por que achasse que Patrick ousaria se aproximar dela – Marco sabia que Patrick amava Elena e tinha planos para ela, apesar da vingança contra seu pai –, mas porque outra pessoa parecia saber coisas mais importantes do que ele. — Sabe amigo, acho que você deveria tomar cuidado com o que vai fazer. Você, em todos esses anos, já parou para se perguntar por que ela fez aquilo? Já considerou ouvir a história toda? Patrick deu um tapinha amigável no ombro de Marco, bebeu o resto do seu drinque e se levantou do bar. Tinha muitas outras coisas que fazer. — Nossa décima e última solteira é ex-detentora do título de Miss Universo, proprietária da Glitz Fashion Company e filha do proeminente senador do Estado de Nova Iorque. — O MC do leilão de caridade do baile da Fundação fez uma pequena pausa dramática. — Vamos todos dar boas vindas à senhorita Charlotte McKeena! Charlotte saiu de trás das cortinas e foi para o centro do palco, ovacionado pelos presentes, que não podiam ver como ela estava tremendo. Pai celestial!


A situação em si não era nada diferente das diversas vezes em que Charlotte ficou na frente de uma multidão, sendo o centro das atenções, mas o que ela estava fazendo ali era o que a estava deixando nervosa. Ser leiloada. Ser comprada por algum magnata rico, provavelmente careca e barrigudo, que a levaria para jantar, e sabe-se lá o que mais tentaria, na noite seguinte. Mas ela não teve como dizer não para o seu novo sócio. Patrick Matarazzo tinha salvado sua pele ao investir na sua empresa, e os ganhos do leilão iriam para uma excelente causa. Portanto, tudo o que Charlotte podia fazer era ser o centro das atenções mais uma vez, o evento principal do leilão. O prêmio. O maior lance tinha saído para a quarta garota, uma modelo da Victoria Secrets. O interessado senhor de idade que a levou, comprou-a por uma bagatela de 150 mil dólares. E esse era o lance mínimo para ela agora. Por mais que não gostasse da ideia de ser vendida, Charlotte também sentia um frio na barriga por ser colocada em tão alta taxa. E se ninguém achasse que valia a pena gastar tanto dinheiro por um jantar com ela? E se ninguém desse um lance tão alto? Ela seria humilhada. Charlotte precisava de alguém em quem focar. Alguma pessoa que a fizesse manter a calma, e desejou ter convidado Ken para ir com ela, mas entendia que seu plantão no hospital era uma coisa muito mais importante. Além do mais, não seria justo com o pobre homem continuar a sair com ele, sem dar-lhe a chance real de conquistá-la novamente, e sem dizer definitivamente que os dois não tinham como engatar um novo namoro. Eu estou usando ele. Ela pensava, toda vez que ligava e o chamava para sair. Assim como quando Marco mandou-lhe flores e em seguida ligou para ela dizendo que aquilo era uma oferta de paz. Ela ligou para Ken e o convidou para ir a uma pizzaria, pois precisava tirar o ex da cabeça. Não era prudente, não era justo, mas sofrer por Marco também não era. O leilão começou e Charlotte balançou a cabeça para desanuviar a mente. Alguns poucos minutos depois, os lances já estavam na casa de 230 mil dólares. Sua preocupação em pagar o maior mico tinha sido uma tremenda bobagem, mas agora ela estava enervada. O que aqueles homens poderiam querer com ela para pagarem um preço tão alto?


— Duzentos e cinquenta mil dólares. — disse um senhor baixinho, gorducho e careca, assim como ela imaginava. Talvez ele fosse uma companhia agradável, mas Charlotte não seria hipócrita e dizer que não preferia ser comprada por alguém que tivesse todos os dentes e pelo menos o dobro da sua idade. Um homem que parecesse seu avô ou mais era um pouco demais para suportar. Calma, Charlotte. É só um jantar, aqui não é uma casa de prostituição . Ela teve que lembrar a si mesma. — Trezentos mil dólares. — disse outra voz. Charlotte se arrepiou. Conhecia aquela voz. Mas estava vendo seu dono, por mais que procurasse o rosto entre os muitos ali. — Trezentos e vinte mil dólares. — irritou-se o senhor baixinho e careca. Ele não conseguia imaginar que outra pessoa iria querer colocar as mãos em sua preciosidade loira. — Quatrocentos mil dólares. — aumentou a outra voz. A multidão estava barulhenta agora. Eles se divertiam e ovacionavam cada vez que o lance subia. — Ora, ora, ora. — disse o MC. — Que jogadores excepcionais. Quem quer aumentar a oferta? As pessoas ficaram de pé. O senhor baixinho e careca olhou de um lado para o outro, querendo achar seu concorrente, mas onde quer que ele estivesse, não estava às vistas. — Ora, mas que droga, quatrocentos e cinquenta mil dólares. — sorriu o velho, pois não tinha como alguém dar um lance maior que o seu. Quem se atreveria? Houve uma pausa. Ninguém falou nada, nem mesmo o MC, todos esperando que aquele fosse mesmo o último lance. Mas do fundo do salão, Marco veio andando com um sorriso convencido e os braços abertos em uma pose arrogante, vestindo um smoking azul escuro, então anunciou. — Um milhão de dólares. À vista. A boca de Charlotte caiu. A de todo mundo, por assim dizer. Até o MC pareceu perder a voz por um minuto inteiro antes de voltar ao falatório. — Um milhão de dólares para o senhor de azul. Dou-lhe uma. Marco encarou o velho.


— Dou-lhe duas. E sorriu. O MC olhou na direção do senhor e pediu uma confirmação... que não veio. Ele abaixou a cabeça e fez um gesto desdenhoso com a mão. — Vendida! Todos bateram aplaudiram, entusiasmados. Marco sorriu ainda mais diante da expressão taciturna de Charlotte. — Parabéns ao nosso maior lance. O cavalheiro pode vir ao palco buscar seu prêmio. Um jantar com a senhorita McKeena. A multidão aplaudiu de novo enquanto Marco se encaminhava para o palco e pegava Charlotte pela mão, sorrindo sempre, como o bom bastardo que era. Eles desceram e após serem cumprimentados por algumas pessoas, Charlotte e Marco foram para trás das cortinas, onde ela tirou o sorriso falso que ostentava. — Como você pôde? — O quê? Doar um milhão de dólares para crianças com câncer? Acredite, não foi sacrifício algum. — Você não fez isso por ser um filantropo e sabe disso. Eu não vou sair para jantar com você. — É claro que vai. Não quer que eu diga a todos que a senhorita McKeena não tem palavra, quer? Charlotte fez cara feia. Isso seria péssimo, não só para a sua imagem, mas para a da Fundação. E ela tinha certeza de que seu novo sócio não iria gostar nem um pouco se ela tomasse a atitude, digamos, de mandar Marco para o inferno e não sair com ele. — Eu vou buscar você amanhã às sete no seu apartamento. Vou levá-la a um lugar que você não vai esquecer nunca. Exatamente às sete horas da noite, o telefone tocou no apartamento de Charlotte. Era da recepção, perguntando se podiam deixar Marco Villa-Lobos subir? Charlotte estava pronta, então disse que não. Ela iria descer. Assim, entrou no elevador e aguardou alguns tensos minutos até descer os dez andares. Ao sair das portas duplas, Charlotte imediatamente atraiu a atenção dos estavam por ali. Ela vestia um Valentino vermelho tubinho e um par de Jimmy Choo altíssimo. As


argolas de ouro branco nas orelhas eram uma visão à parte. Ela estava deslumbrante. Um jovenzinho quase torceu o pescoço enquanto ela passava. O porteiro olhou embasbacado para ela, antes de bater na aba do quepe e abrir as portas de vidro do prédio. Ela sentia-se linda e poderosa, mas ao chegar à calçada e dar de cara com Marco – vestido com uma jaqueta de couro preta, calças jeans, botas – encostado em uma Ducati preta e com dois capacetes no colo, ela fechou os olhos frustrada e sentiu um frio na barriga. Filho da mãe. Ele tinha feito isso de propósito. Disse que iriam jantar e vem buscála vestido assim? Ele não iria a um restaurante respeitável vestido como um roqueiro do submundo. — Charlotte, você está maravilhosa. Espero que seu vestido não impeça você de subir na moto ou então teremos que ir a pé. Ela olhou para os saltos que usava e lançou um olhar mortal para Marco. Só se ela quisesse chegar ao lugar com os pés quebrados ou apenas de madrugada. — Não se preocupe. — ela respondeu, tentando fingir que não estava queimando de raiva por dentro. — O vestido tem uma fenda que não irá atrapalhar. Ela se recusava a deixá-lo saber que estava com raiva. Recusava-se a pedir para trocar de roupa. Recusava-se a dar o gostinho a ele. Então apenas apoiou-se no ombro dele e subiu na moto, colocando o capacete em seguida. Seria uma longa noite.


14


Patrick e Elena Patrick estava a caminho de casa após um longo de dia de trabalho. Se tudo desse certo essa noite, ele e Elena poderiam tentar progredir na relação estranha que estavam tendo. Ela ainda sentia-se mal por estar na casa dele contra sua vontade, mas não tinha como dizer não. Essa foi a condição que Patrick impôs para não liquidar de vez a empresa do pai dela pela dívida que tinha com ele. Patrick passou as mãos pelo rosto e apertou com força o volante. Tudo o que ele queria era poder amar uma mulher que não fosse filha do seu pior inimigo. Do homem que tinha lhe ferido tanto. Do homem que tinha tentado matá-lo e que tinha conseguido matar sua amada mãe. Enquanto estava parado em um semáforo, lembrou-se de quando morava no Brasil, quando seu nome ainda era Felipe Martins, o filho pobre de uma vendedora de cosméticos, não Patrick Matarazzo, herdeiro bilionário de um grande minerador italiano. A vida para ele tinha mudado muito desde que seu avô, havia mais de dez anos, após quase esse mesmo tempo, conseguiu encontrá-lo, quase morto devido ao incêndio criminoso ao qual foi sujeitado pelo pai da garota que ele amava. O garoto antes pobre agora era dono de uma fortuna de dar inveja a empresários renomados, nascidos em berço de ouro. Giorgio Matarazzo, dono da Matarazzo Corporation, perdera o filho havia alguns meses quando finalmente encontrou o neto que ele sabia que existia, mas de quem não tinha permissão para se aproximar. O garoto de dezesseis anos estava embaixo se uma grande viga de madeira com parte do corpo esfaqueada e queimada, disseram os investigadores particulares quando o encontraram e o levaram para o hospital. Foi um verdadeiro milagre ter sobrevivido. Quando acordou no hospital de Nova Iorque, Felipe deu de cara com o homem que mudaria sua vida para sempre. Ele lhe contou quem era, o que acontecera com ele e quem era a pessoa responsável por isso. O pai da sua namorada Elena Pacheco. Diante da raiva, da mágoa e da dor, o garoto não quis mais voltar ao Brasil sendo quem era e decidiu ficar nos Estados Unidos com o avô, onde passou por inúmeras


cirurgias reconstrutivas e decidiu mudar seu nome para nunca mais ter que se lembrar de quando era um zé ninguém. Quando fez vinte e três anos, seu avô se afastou da presidência da Matarazzo Corporation e deixou Felipe – agora Patrick – em seu lugar como CEO. Foi quando ele começou a colocar em prática a vingança que vinha alimentando em sua mente por anos. Tiraria tudo do homem que tinha destruído sua vida, inclusive sua filha. E para isso, ele seria advogado e juiz, juiz e carrasco. Por sorte, a empresa de telecomunicações de Luís Fernando Pacheco passava por algumas dificuldades financeiras e Patrick resolveu ajudá-lo, concedendo-lhe um empréstimo, com o intuito de tê-lo em suas mãos quando chegasse a hora. E assim aconteceu. Três anos depois, Patrick investiu em outra empresa de telecomunicações, que se tornou a pior rival de Luís Fernando, tirando-lhe a maioria de seus clientes, e isso fez com que o homem praticamente declarasse falência à Receita Federal do Brasil. A segunda parte da sua vingança estava prestes a começar. Voltar ao Brasil e pedir o dinheiro que tinha emprestado ao seu inimigo, sabendo que ele não teria como pagar. Assim, ele poderia tirar tudo dele e deixá-lo na miséria. Essa parte tinha sido a mais satisfatória de todas. Ver o desespero no rosto do homem quando foi anunciado em sua reunião de acionistas que tinha chegado a hora de pagar sua dívida, nem que ele tivesse que liquidar todos os seus bens para isso. Patrick humilhou Luís Fernando diante de todos da diretoria da sua maldita empresa. Praticamente fez com que ele implorasse por misericórdia e pedisse mais tempo para tentar pagar a dívida. Patrick não podia provar que ele havia tentado matá-lo, mas podia mandá-lo para a cadeia por outros motivos, entre eles, a dívida milionária que tinha. Foi quando ele viu Elena. Ela entrou na sala de reuniões e sentou-se ao lado do pai, claramente preocupada com a situação financeira que enfrentavam. Patrick não conseguiu tirar os olhos dela e foi quando teve a melhor ideia da sua vida. Ele daria mais tempo a Luís Fernando para pagar a dívida se em troca Elena aceitasse ser sua... acompanhante. É claro que essa proposta não foi feita na sala de reuniões, e sim em um jantar, horas


mais tarde. Por mais que odiasse Luís Fernando, ele amava Elena, e não a colocaria em uma situação tão desconfortável na frente de todos aqueles homens da diretoria da empresa da sua família. — Isso é um disparate. — Luís Fernando disse depois de ouvir a proposta de Patrick. — Não basta cobrar sua dívida toda de uma vez, colocar o bem estar da minha família em risco por causa disso e criar uma situação em que eu terei que decretar falência mais cedo ou mais tarde, você ainda quer a minha filha? — Eu sou um homem de negócios, Sr. Pacheco. E como um homem de negócios, não tenho tempo para namoro e essas bobagens. Mas preciso estar cercado das melhores companhias. Acredite, sua filha é exatamente o que eu preciso. — Patrick respondeu sem se alterar pela voz firme do homem à sua frente. — Elena não é uma prostituta. — E eu não estou dizendo que é. Ela apenas deverá ficar comigo para me acompanhar quando eu for a algum evento. Eu disse que quero uma acompanhante, não uma puta. — Eu posso opinar ou só uma mera expectadora? — Elena perguntou, pronunciandose pela primeira vez desde que o jantar havia começado. — Claro, minha filha, você pode dizer a esse sem vergonha que não aceitará uma proposta tão indecente. Mas antes que Elena pudesse falar qualquer coisa, Patrick fez questão de esclarecer as coisas. — Eu estou voltando para Nova Iorque em dois dias, Sr. Pacheco. Se sua filha não vier comigo, eu executarei cada parte da sua dívida. Levarei você a juízo, seja aqui no Brasil, seja nos Estados Unidos. Então pensem com cuidado na decisão que vão tomar. Você ainda pode me pagar se tiver tempo, mas se eu resolver cobrar agora, você está arruinado. Patrick não deu chance para Luís Fernando resmungar seus impropérios. E Elena não teve opção a não ser se sujeitar a um homem que ela não conhecia, mas com quem teve uma forte ligação desde a primeira vez que o viu, sentindo que de alguma forma o conhecia. Dessa forma, ela foi para Nova Iorque com Patrick para dar uma chance ao se pai de pagar a dívida, porém não estava feliz.


Agora, tudo o que Patrick mais queria era poder dizer a ela que ele era Felipe, o amor da sua vida que ela pensava estar morto, mas sabia que não podia, pois implicaria em duas coisas: perdoar Luís Fernando pelo seu crime se quisesse ficar com ela ou perdê-la para sempre por ser o homem que mandaria para a cadeia o seu pai. E nenhuma das duas coisas parecia ser boa para Patrick. Durante dez anos ele maquinou sua vingança contra o Sr. Pacheco. Durante dez anos ele sabia o que tinha que fazer para deixá-lo na ruína. Mas só bastou um segundo para foder com tudo. Só bastou olhar para Elena mais uma vez e deixar tudo se complicar. Ele a amava. Ele a queria. Mas não sabia como amá-la e odiar seu maldito pai ao mesmo tempo. E sabia que mais cedo ou mais tarde as coisas se complicariam de um jeito que ele teria que tomar uma decisão drástica. Só esperava que essa decisão não fosse partir seu coração ou quebrar sua alma mais uma vez.


15

Marco estacionou a moto na frente de um bar no Bronx. Um lugar horrível para os padrões que tanto ele como Charlotte estavam acostumados. E é claro que isso era proposital. Charlotte desceu da moto e após uma pausa, tirou o capacete e olhou para o lugar para onde o filho da mãe a havia levado. Marco estava claramente se divertindo, esperando que ela falasse alguma coisa. — Você me trouxe para um maldito bar? — ela não queria reclamar, mas não conseguiu se conter. Porra, o que era aquilo? Ele sorriu antes de responder. — Qual o problema? Não é como se você nunca tivesse ido a um, não é? Charlotte fechou a cara. Ele claramente estava se referindo ao bar em que ela foi quatro anos atrás. O bar, cuja visita, fez com que ela cometesse o maior erro de sua vida no dia seguinte. — Tudo bem, Marco. Se é assim que você jogar, então vamos jogar. — ela disse com um falso sorriso depois de respirar fundo. Charlotte jogou o capacete para ele e pelo menos teve a satisfação de vê-lo xingar quando não conseguiu pegá-lo antes que caísse no chão. Em seguida, os dois entraram no bar de lona vermelha e placa de neon verde. Lá dentro, rolava um som underground. Um rock pesado ou o som de cachorros latindo... Charlotte não soube diferenciar. Não era um bar de motoqueiros, aliás, eles nem sabiam se existia algum em Nova Iorque, mas se parecia bastante com um. Todo mundo lá dentro parecia ser do tipo de pessoa que frequentava a noite perigosa da cidade. As mulheres tinham maquiagem pesada e se vestiam de couro praticamente dos pés à cabeça e os homens, basicamente o mesmo, só que de uma forma bem menos sexy e provocante. — Você é mesmo um bastardo filho da mãe.


— Olha a boquinha. — ele disse com um sorrisinho safado. — Estou sendo bem educada, acredite. — ela disse, dando a ele um olhar mortal. E estava mesmo. As palavras que rondavam a cabeça de Charlotte naquele momento não eram mais bonitas do que as que ela tinha falado. Ela estava irritada e tinha todos os motivos para isso. Não via problema em estar ali, na verdade, mas a forma como ela estava vestida não era apropriada. Ela estava com um vestido que normalmente seria usado para um jantar em um restaurante chique, ou para ir a um show na Broadway, ou qualquer outra porcaria do mundo glamoroso de Nova Iorque. Não estava vestida para estar num bar do subúrbio. E os risinhos das garotas por quem ela passava, obviamente se divertindo às suas custas, a estavam deixando ainda mais irada. Marco puxou uma cadeira no balcão do bar para ela e sentou-se ao seu lado, totalmente satisfeito. Sua escolha para a noite não poderia ter sido melhor. Assim, ele poderia se dar ao luxo de tomar uma boa cerveja – pois sabia que apesar da aparência, aquele era um dos melhores bares do bairro – e assistir Charlotte irritada do jeito que ele queria. — Eu vou querer uma Guinness. — Marco pediu ao barman assim que este veio tomar notas do pedido deles. — E você Charlotte? Talvez um coquetel? Os olhos de Marco brilhavam diabolicamente e Charlotte recusou-se a fazer cara feia novamente. Tinha entendido a intenção de Marco e o faria pagar por isso. — Na verdade, eu também quero uma cerveja. Stella Artois. O barman anotou o pedido dos dois, sorrindo. — Traga também um cheeseburger duplo e uma porção gigante de batata frita. Marco arregalou os olhos, surpreso pelo pedido dela. Mas depois sorriu e pediu o mesmo para si. Ele iria curtir muito essa noite. Houve um minuto ou dois de silêncio e então ela resolveu quebrá-lo. — E então? Por que me comprou no leilão? — Eu queria doar dinheiro para uma boa causa. — Jura? Mas não havia outras mulheres lá? Por que eu? — Eu queria doar uma boa quantia, Charlotte e Deus sabe que você era a única naquele palco com quem valia a pena gastar tanto dinheiro. Charlotte ficou calada. Completamente em choque. Marco só podia ser louco. Como


poderia ser um sádico insensível uma hora e um amor de pessoa na outra? — Olha, eu acho que sem querer você me fez um elogio. — Charlotte provocou. Ele sorriu. — Foi totalmente intencional, acredite. — Bom, obrigada por gastar tanto dinheiro por minha causa. — Você ficaria surpresa. — ele murmurou. — O que disse? — Esquece. O barman voltou com os pedidos deles e após abrirem as cervejas, brindaram batendo uma garrafa na outra, tomando um gole logo depois. — Eu não entendo você. — Charlotte riu. — Você pode ser um cara legal quando quer, mas faz coisas que me deixam sem palavras. Marco jogou uma batata frita na boca e a engoliu antes de perguntar. — O que quer dizer? — Por que me trouxe a esse bar, Marco? Você poderia pelo menos ter me avisado. — E qual seria a graça? — ele piscou um olho para ela e a fez se virar para ver algumas meninas atrás deles que não paravam de olhar na direção dos dois. — Está vendo aquelas meninas? Não tem uma delas que não queira ser você. — Vai dizer que é porque eu estou deslumbrante? — Charlotte bateu os cílios, fazendo charme. — Na verdade, eu ia dizer que é porque você está comigo e elas estão com inveja, então... Charlotte deu um tapa no braço dele, que por sua vez, começou a rir. — Vai lamber sabão antes que eu esqueça. — ela atirou. Charlotte começou a comer e não olhou para Marco – que tentava com muito empenho não sorrir – até chegar à metade do cheeseburger. Foi quando ela viu um bilhete ser colocado na frente dele pelo barman, mas fingiu que não estava prestando atenção. Porém, pelo canto do olho, viu quando Marco franziu a testa e ignorou o papel. Ela conseguiu ler, não tudo, mas o suficiente para fazer sua cabeça ferver. Quando a patricinha for embora, me liga.


Alguma das vadias que riam dela estava claramente se jogando em cima de Marco como se ele fosse um pedaço de carne em um açougue e o fato de se referirem a ela como uma patricinha que não se encaixava ali, a deixou mais incomodada do que antes. Ela tinha que fazer alguma coisa. — Com licença. — Charlotte levantou-se, não dando chance a Marco de perguntar aonde ela ia. Ela andou até o banheiro feminino e lá, esperou até que a garota – que ela sabia ser a dona do bilhetinho – entrar. Charlotte estava se arrumando o cabelo no espelho quando a garota cruzou a porta acompanhada de uma amiga. — Ele é lindo, não é? — Charlotte perguntou alto e claro, deixando ambas as meninas boquiabertas. — O cara que tá comigo. Ele é gostoso demais, não é? A Senhorita Bilhetinho Anônimo deu um sorrisinho convencido. A garota só podia estar louca se achava que Marco lhe daria bola só porque estava vestindo couro preto, distribuído entre calça, jaqueta e botas. Charlotte estava em um Valentino exclusivo e seu Jimmy Choo era uma preciosidade rara. — É sim. E pra falar a verdade, acho que ele poderia estar melhor acompanhado. — Quer dizer com você? — Charlotte tirou a tampa do seu batom e aplicou um pouco enquanto elas a olhavam através do espelho. — Você claramente não pertence a esse lugar. Charlotte sorriu. — Nem ele, sabia? Eu perdi uma aposta, só isso. Na verdade aquele gostosão lá fora come na palma da minha mão e se você acha que pode fazê-lo olhar pra você com um bilhetinho, coitadinha, não faz ideia de como eu sei domá-lo. A garota fechou a cara, mas tomou as palavras como um desafio. — Acho que até o fim da noite nós veremos se isso é mesmo verdade. — ela disse, preparando-se para sair do banheiro. — Acho que seria melhor você procurar algo para se distrair, meu bem, pois o fim dessa noite já é certo e é na minha cama que ele vai dormir. Ops, ou melhor, onde não vai dormir. A garota saiu soltando fogo pelas ventas e Charlotte, satisfeita, esperou uns


minutinhos antes de sair também. Ao olhar na direção de Marco, viu que outras mulheres estavam por perto, azarando-o. Ora, pelo amor de Deus, ele não podia ficar um minuto sozinho sem que esse bando de galinhas fosse cacarejar no seu terreiro? — Caiam fora agora. — Charlotte disse ao sentar no seu banquinho, olhando incisivamente para cada uma daquelas mulheres. Elas piscaram e se afastaram. Marco deu uma olhadinha rápida de lado para Charlotte e sorriu ao notar que ela estava com ciúmes. — Elas só estavam me oferecendo o número do celular. — Qual? Zero oitocentos vadia? — Não precisa ficar emburradinha. Eu nem toquei nelas. — Marco disse, levantando as mãos. Charlotte estreitou os olhos. Ele estava se achando demais, mas ela não queria que a garota do bilhete pensasse que ela não podia dar conta da situação, então sorriu para Marco e chamou para jogar sinuca. — Você nem acabou de comer. — ele disse, apontando para a metade do cheesburger e a porção quase intacta de bata frita ainda no prato dela. — Está com medo de perder para uma mulher, Marco? — Medo? Eu? De uma garotinha como você? Faça-me o favor. — ele desdenhou. — Ora, então vamos. Deixa a comida aí, já está fria mesmo. Quando eu acabar com você, pode comprar outro cheesburger para mim. — Você não vai ganhar de mim, Charlie. — Quer apostar? — Charlotte perguntou, tentando não se afetar pela forma como ele a chamou. — Tudo bem. Se você ganhar, pode pedir qualquer coisa de mim. — ele disse e ela sorriu. — Mas se eu ganhar, eu vou pedir qualquer coisa de você. — Ok. — É qualquer coisa, hein. — Qualquer coisa. Marco soltou uma gargalhada e se levantou, estendendo a mão para ela. Eles foram para uma mesa que estava vazia e pegaram dois tacos. — Prepare-se para perder, querido. — Charlotte disse, sorrindo e mostrando todos


os dentes no processo. — Na verdade... — Se importam se mais duas jogadoras se juntarem a vocês? Charlotte olhou para o lado e viu a senhorita vadia bilheteira com um sorriso afetado e a amiguinha sem graça dela, ambas olhando para Marco com olhos pidões. — Sinto muito, querida, estamos apostando. — Charlotte disse, colocando o triângulo no centro da mesa. — Nós também. — ela respondeu. Charlotte se empertigou e se aproximou da garota, ficando cara a cara com ela. A garota, por sua vez, não se intimidou. A encarou de volta. Marco pigarreou. — Seria maravilhoso formarmos duas duplas. Acho que as coisas acabaram de ficar muito mais interessantes. Charlotte não queria que as duas vadiazinhas soubessem que ela estava uma pilha de nervos no momento, muito menos que Marco visse que ela estava com ciúmes, então deu um sorriso falso às duas intrometidas e concordou com um aceno de cabeça. — Muito bem, Marco e eu... — Oh não, eu e você apostamos um contra o outro lembra? O que quer dizer que você vai escolher uma delas para ser sua dupla enquanto eu fico com a outra. — Por que não faz dupla comigo, gato? — a oferecida praticamente se jogou em cima de Marco, sorrindo descaradamente. — Você se opõe, Charlotte? — Marco perguntou com um sorriso de lado e Charlotte percebeu que ele estava jogando. Ele sabia exatamente qual era a situação ali e nem morta ela faria uma ceninha. — Claro que não. — Então, quais são as apostas? — a amiga da oferecida perguntou. — Entre eu ela? Quem ganhar pode pedir o que quiser ao outro. — Marco respondeu, com o queixo apoiado na mão sobre o seu taco. — O que vocês propõem? As garotas se entreolharam e concordaram com alguma coisa entre si. — Se eu e ela ganharmos, vocês pagam as bebidas até o fim da noite. — a amiga disse e Charlotte achou o pedido razoável. Marco concordou. — Mas se você e eu ganharmos, — a oferecida falou, — além de você cobrar sua


dívida a ela, eu também quero uma coisa. — Claro. — Marco respondeu com seu melhor sorriso sedutor. — E o que seria? — Você. Charlotte sentiu os pelos do pescoço se arrepiarem. De repente, ela tinha que ganhar a qualquer custo, pois de maneira alguma ela deixaria Marco ir embora com aquela vadia bem debaixo do seu nariz. Marco tinha razão, a aposta tinha acabado de ficar muito mais interessante.


16


Patrick e Elena Patrick estacionou o carro na garagem da sua casa, mas não saiu imediatamente, pois estava nervoso. Até parece que tenho quinze anos novamente. Ele tinha comprado uma boa garrafa de Bollinger Rose e pedido para sua governanta, Sra. Philips, preparar um jantar especial. Fazia três semanas que Elena morava com ele e não tinha aceitado nenhum dos seus pedidos para sair. Ele só poderia tentar fazer com que o “encontro” fosse em casa mesmo. Quando finalmente tomou coragem, Patrick saiu do carro com a garrafa na mão e foi direto para a cozinha, onde a colocou na geladeira. Depois subiu a grande escada e virou à direita, indo em direção ao quarto de Elena. Ele bateu na porta duas vezes e esperou pacientemente que ela abrisse, minutos depois. — Boa noite, Elena. — ele cumprimentou, parecendo um pouco envergonhado. — Ora, se não é meu raptor. — ela respondeu, com um sorriso agridoce. — O que posso fazer por você hoje, meu senhor? Patrick ficou desconfortável, mas não demonstrou. — Eu gostaria de convidá-la para jantar... — Eu já disse que não sairei com você, a menos que seja realmente um evento em que você precise de uma acompanhante. Foi esse o trato. — Na verdade, eu queria convidá-la para jantar aqui mesmo. Em casa. — Já que eu estou morando aqui contra minha vontade, o mais normal é que pelo menos você me alimente. — ela disse com sarcasmo. — Eu quis dizer comigo, Elena. Jante comigo. — Eu janto com você todas as noites. Patrick bufou, irritando-se um pouco. Ele sabia que ela estava agindo dessa forma de propósito e que não tinha nenhuma intenção de facilitar as coisas para ele e foi só por isso que continuou com sua expressão controlada, embora, estivesse bem perto de perder o controle. — Quero dizer só eu e você. E antes que diga que você janta apenas comigo toda noite, eu quero dizer em outro lugar, longe da vista dos empregados. Elena ficou calada. Poderia dizer que era porque diante das palavras dele, ela não


poderia falar nenhuma outra gracinha. Mas a verdade é que a ideia de ficar sozinha, realmente sozinha, com Patrick a deixou sem palavras. Ela tinha aquela estranha sensação de já tê-lo visto antes, embora fosse impossível, já que a última vez que tinha vindo aos Estados Unidos foi quando tinha sete anos de idade. Ainda assim... — Tudo bem. Vou troca de roupa. — ela disse, olhando para o pijama que já estava vestindo e as pantufas nos seus pés. Patrick sorriu timidamente, acenou com a cabeça e voltou pelo longo corredor cheio de quartos até chegar ao dele. A suíte principal da enorme casa. Lá, ele começou a se despir e entrou no banheiro, parando na beira da banheira apenas para tirar a prótese que usava na perna esquerda a partir do joelho. Uma dolorosa lembrança de uma das coisas que ele perdeu no incêndio que matou sua mãe. Claro, sua pele era quase toda coberta por tatuagens, com exceção do rosto, algumas partes do pescoço e das mãos, mas o restante tentava encobrir as marcas deixadas pelas queimaduras. A tinta escondia as cicatrizes, mas não escondia a dor. Ás vezes ele ainda podia sentir o cheiro de pele queimada que vinha dele mesmo enquanto tentava escapar do inferno em que ele quase morreu. Patrick apoiou a prótese perto da pia e se olhou no espelho. Seu rosto tinha mudado muito, seis cirurgias reconstrutivas tinham feito um bom trabalho em não deixá-lo desfigurado, mas ele não se parecia em nada com o garoto que enfrentou uma barra tão dura. Não era de se admirar que Elena não o tivesse reconhecido. Ele mesmo não se reconhecia às vezes. — Só espero que você não se assuste se um dia me vir por completo, Elena. — disse ele para o espelho, não conseguindo tirar a imagem dela da cabeça. Elena não entendia o motivo de estar tão nervosa. Era só o Patrick. O cara que a estava mantendo contra vontade na sua casa por puro capricho. Mas então... por que ela sentia que não podia se afastar por completo? Desde que tinha chegado, foi insensível, arrogante, irritante e até mesmo odiosa com ele, apenas para fazê-lo cair na real e mandá-la embora. Mas por que todas as noites ela sonhava com ele? Por que sentia o corpo formigar toda vez que ele a olhava? E por que diabos suas pernas ficavam bambas quando ela ouvia aquela voz rouca?


O mais natural era que ela sentisse uma repulsa enorme por aquele homem, mas por mais que tentasse, não conseguia. Determinada a não demonstrar nada a ele durante o jantar, Elena se vestiu. Nada muito extravagante, mas sensual e bonito. Um vestido branco na altura dos joelhos, com amarrações no pescoço, apertado até a cintura e solto para baixo. Colocou só um pouco de maquiagem – um pouco de blush, gloss e rímel – e calçou uma sandália de salto meio alto, dando-lhe pelo menos cinco centímetros a mais de altura. Houve uma batida suave na porta e ela soube que era Patrick. Seu coração acelerou um pouco e ela foi forçada a respirar fundo e contar até vinte antes de abrir. E ficou boquiaberta. Deus Todo-Poderoso, que homem! — Você está linda, Elena. — Você está... — Lindo? Gostoso? Delicioso? — Você não fica atrás. Ele sorriu e ofereceu o braço. Elena não sabia dizer se seus braços estavam tensos ou se ele era forte assim mesmo, pois cada músculo era duro como pedra. Ela esperou que ele a levasse para a mesa principal e depois mandasse os empregados fazerem algo de mais útil com seu tempo, mas ele se encaminhou para a área externa. E foi quando ela viu uma mesa para dois, montada à beira da piscina. Toda iluminação tinha sido apagada e apenas algumas velas não os deixavam no completo escuro. Além da lua, é claro. — Uau. — ela não conseguiu manter-se calada. — Vou tomar isso como um ponto a meu favor. — ele disse docemente. — Tudo está muito lindo. — ela sorriu e agradeceu quando ele puxou a cadeira para que ela se sentasse. — Pediu à Mary que preparasse tudo? — Sim. A Sra. Philips tem muito bom gosto e eu achei que ela teria mais sucesso do que eu em fazer algo. — Acertou na mosca. Os empregados apareceram apenas para servir os dois, mas em seguida sumiram. Elena e Patrick conversaram sobre muitas coisas, suas vidas, suas carreiras e seus sonhos para o futuro. Mas quando ela perguntou a ele sobre seu passado e como ele tinha se tornado um dos empresários mais implacáveis que a cidade já tinha conhecido, ele retesou o queixo e levantou-se abruptamente da mesa.


Não tinha a intenção de parecer frio a ela, mas não pôde olhar em seus olhos quando aquela pergunta o feria tanto. Ele queria dizer que tinha passado por um pesadelo e que o responsável era seu maldito pai, mas sabia que se fizesse isso, corria o risco de não vê-la nunca mais. E Patrick a amava muito para arriscar. — Desculpe. — Elena sussurrou, com a cabeça baixa. — Não queria ser intrometida. Não é da minha conta. Patrick suspirou e olhou para ela. Depois colocou um joelho no chão ao seu lado e ergueu sua cabeça para olhar em seus olhos. — Você não estava sendo intrometida. É que... eu não gosto de falar sobre o meu passado. É ...doloroso. — Tudo bem. Sinto muito. Elena sorriu e Patrick achou que teria um infarto. Já tinha visto muitas coisas lindas no mundo, mas nada se comparava ao sorriso dela. Seus cabelos negros emoldurando seu rosto de forma sensual e meiga ao mesmo tempo fizeram o estômago dele cair em queda livre. Ele levantou-se e a colocou de pé também, envolvendo uma mão na sua cintura esguia e pressionando o corpo contra o dela. — Eu vou te beijar, Elena. Me desculpe, mas não consigo mais resistir. Ela abriu a boca para respirar, em seguida lambeu o lábio inferior. — Acho que não poderei impedi-lo. Então ele a beijou.


17

O que Marco não sabia era que Charlotte era uma verdadeira craque na sinuca. É claro que ela não tinha contado seu trunfo a Marco quando o convidou para uma partida e fez uma aposta. E é claro que ela não ficou nem um pouco preocupada quando ele, apenas para irritá-la, aceitou que duas estranhas participassem do seu joguinho privado. Seu nervosismo inicial foi apenas pela situação em si, não porque achasse que fosse perder. — Confiante? — Marco sussurrou quando passou por trás dela para preparar sua tacada. Charlotte mantinha um sorriso discreto, mas convencido durante toda a partida. Ela e Heather – a piranha amiga da parceira de Marco – estavam ganhando com folga. Mérito puro de Charlotte, pois a outra claramente não estava jogando, chegou até mesmo a afundar a bola branca em uma oportunidade. Coisa que Charlotte sabia que tinha sido proposital. Ela queria garantir que a amiga ganhasse seu prêmio. — Apenas o suficiente para saber que você não vai ganhar de mim. O que quer dizer que além de pagar as bebidas pelo resto da noite, vai ter que me dar o que eu quiser. Marco gargalhou e se inclinou ao seu lado para dar sua tacada. Ela não pôde evitar e deu uma olhadinha na direção da sua bela bunda. Bela mesmo. Marco era aquele tipo de homem que era completo em tudo. Aparência do rosto, músculos e excessos em todos os lugares legais. Ok, não é muito saudável lembrar dos “excessos” dele nesse momento, Charlotte pensou. A última coisa da qual ela precisava era lembrar-se de como algumas partes do corpo de Marco eram deliciosas. A bola de Marco caiu na caçapa e ele conseguiu diminuir um pouco a diferença em mais duas jogadas até errar e ceder a vez a Charlotte novamente. Ela não precisaria se esforçar muito, havia poucas bolas na mesa e se ela se concentrasse, conseguiria afundar todas. Foi uma tacada certeira atrás da outra, mas quando faltavam apenas três bolas, ela


viu a vadia Reyna passar a mão pelo peito de Marco e o ordinário sorrir com todos os dentes, coisa que faria qualquer mulher se derreter e entender aonde aquilo ia dar mais tarde. Sem conseguir se conter, ela se preparou para fazer sua jogada e alinhou o taco em um ângulo que fez a bola correr pela mesa e ir de encontro diretamente com a mão da garota que estava repousando tranquilamente na borda. — Ai! Charlotte levou a mão à boca. — Opa, desculpa querida. Foi sem querer, acho que minha visão embaçou um pouco. — Eu não acredito em você. — Reyna reclamou, fazendo uma cara de poucos amigos. — Então eu não posso fazer nada. Já pedi desculpas. Marco estreitou os olhos na direção dela, mas Charlotte já tinha virado de costas e por isso ele não pôde ver o sorriso travesso que ela tinha no rosto. A garota pegou seu taco e se preparou para jogar, mas errou feio, afundando a bola branca. E por isso, a diferença de pontos entre as duas equipes ficou insuperável. Charlotte e Heather ganharam a partida e para pagar a aposta, Marco pediu uma rodada de bebidas para a mesa onde as duas estavam e que ele não perdeu tempo em se instalar. Charlotte achou que ele só podia estar de brincadeira. A tinha levado até ali para dar mole para uma mulherzinha qualquer? Ora, mas aquilo não ficaria assim. Ela pediu licença mais uma vez para ir ao banheiro, onde retocou a maquiagem, deu um jeitinho no cabelo – não que precisasse – e respirou fundo várias vezes. Se era assim que ele queria jogar, então ela jogaria pesado. Durante o jogo de sinuca, ela vira alguns carinhas que eram bastante atraentes. Um deles, um loiro alto e forte, estava vestido bem parecido com Marco, calça jeans surrada, jaqueta de couro e botas. Mas o loiro tinha uma vantagem. Ele estava o tempo todo de olho nela, diferente do seu acompanhante que claramente estava mais interessado em transar com uma daquelas oferecidas, ou as duas. Então, ao sair do banheiro, ela jogou uma olhada sensual para o loiro e foi para o balcão do bar. Não se passou nem dois segundos e o cara já estava ao seu lado, sorrindo e pedindo uma bebida para ela.


— Não sei se deveria aceitar. — ela fez charme — Nem te conheço. — Bom, podemos nos conhecer enquanto bebemos um pouco. Ou se quiser, podemos dançar. Charlotte apurou os ouvidos para prestar atenção na música – não que precisasse, já que ela estava estourando nas caixas de som – e fez careta. — Certamente não com essa música. — Isso é uma coisa que eu posso mudar. Conheço o cara do som e posso pedir pra ele colocar algo mais... sensual. — Ótima ideia. Charlotte observou o loiro ir até um homem que operava o equipamento de som do bar e conversar com ele por alguns minutos. Instantes depois, uma música pop famosa começou a tocar. Charlotte já estava na pista de dança improvisada quando o loiro voltou, sorridente. — Está melhor assim? — Muito. — respondeu ela, dançando no ritmo do som. Charlotte fechou os olhos e se deixou levar. O loiro colocou as mãos no quadril dela e acompanhou seu ritmo, não avançando o sinal ou sendo desrespeitoso, embora ela sentisse que tudo o que ele mais queria era ter sinal verde para cair dentro. Ela esticou os braços para trás e tocou as costas dele, aproveitando a proximidade para colocar a cabeça contra seu ombro e deixá-la cair para trás. Em seguida, rebolou um pouco mais e se virou, enlaçando os braços no pescoço dele. Quando abriu os olhos, Charlotte viu que o loiro estava sorrindo abertamente, ainda com as mãos firmemente apoiadas em seus quadris. — Você dança muito bem. — ela elogiou. — Talvez seja a companhia. Nunca tinha dançado pop. — Não, você não tem mesmo cara de quem curte esse tipo de música. Ela estava se divertindo. Talvez pela primeira vez na noite, estava se divertindo de verdade. Tanto que nem percebeu quando Marco parou ao lado deles, com os olhos escuros de raiva e a boca pressionada em uma linha fina. — Acho melhor você se afastar, cara. — ele disse, lançando um olhar mortal ao loiro que se mexia com Charlotte.


— Foi mal, cara. Mas o olhar dela é mais penetrante do que o seu. — o loiro disse sem se abalar. Charlotte jogou a cabeça para trás, dando uma gargalhada. — Talvez. — Marco respondeu, fechando as mãos com força. — Mas garanto que meu punho é mais forte do que o dela. Charlotte ficou de costas para o loiro novamente, ainda rebolando ao som da música , e encarou Marco. — Que porra você pensa que está fazendo? Cai fora. — Com todo prazer, mas você vem comigo. — Marco disse, puxando-a pelo braço. — Ei cara, pode soltá-la agora mesmo. — o loiro interferiu, seguindo os passos deles. — Ninguém te chamou na conversa, intrometido. — Marco disse sem nem mesmo olhar para trás. — Ela está comigo. — Jura? Pois não parece, já que o tempo todo em que te vi você estava com aquelas duas ali. Marco parou e o encarou. O cara era uns bons sete centímetros mais alto que ele, mas Marco não se intimidou. Com todo o seu treino de kickboxing, poderia facilmente lutar com alguém aparentemente mais forte que ele. — Escuta cara, desculpa estragar sua conquista da noite, mas essa garota aqui já está acompanhada. Por que não volta ao que estava fazendo antes de se jogar em cima dela? — Marco pelo amor de Deus, quer parar com isso? — Charlotte puxou o braço das mãos de Marco com um sopapo. — Quem você pensa que é? Ela começou a andar para fora do bar e ele a seguiu. Mas o olhar gélido e irado que ela lhe lançou fez com que ele ficasse parado onde estava. Ao chegar lá fora, Charlotte soltou um gritinho de frustração. Marco Villa-Lobos tinha passado de todos os limites essa noite e ela não pretendia deixar as coisas como estavam. É claro que ela tinha pensado em fazer charme com o tal loiro para deixar Marco com ciúme, mas ele não tinha o direito de tratá-la daquela forma. Ele estava dando mole para duas vadias ao mesmo tempo sem sequer se importar com ela e no minuto em que ela resolveu dar o troco ele vai escorraçar sua paquera da pior forma? — Marco, seu filho da... — Nada disso, nada de xingar a minha mãe. Ela não te fez nada.


Charlotte olhou para trás e o viu com uma mancha vermelha de sangue nos lábios, o que só significava que ele se meteu em briga lá dentro durante os dois minutos em que ficou sozinho. E se era ele quem estava ali, quer dizer que o loiro deveria estar apagado no chão ou no banheiro tentando conter o sangramento do nariz ou da boca. — Você não tinha o direito. — ela acusou, com raiva. — Não tinha o direito? Eu te trouxe aqui. E te trouxe pra ficar comigo, não pra ficar dando mole pra um babaca qualquer. — Babaca aqui só você. Ele me tratou muito bem, melhor do que você a noite toda. — Que porra há de errado com você? — Marco gritou. — O que há de errado comigo? — ela perguntou incrédula. — Você me compra em um leilão por um milhão de dólares. Eu acho que você vai me levar pra jantar, mas me traz pra porra de um bar. Passa metade da noite flertando com duas vadias. E pergunta se há algo de errado comigo? O que há de errado com você, seu idiota? — Eu não estava flertando... — Me poupe, Marco. — Charlotte fez um gesto de desdém dramático. — Agora se me der licença, vou chamar um táxi e ir pra casa. Você pode ir se foder. Ela deu alguns passos para se distanciar dele e começou a discar o número do taxista com quem ela sempre contava. — Eu levo você, Charlie. — a voz de Marco saiu baixinha e ela percebeu que talvez, apenas talvez, ele estivesse reconsiderando os atos da noite. — Não, obrigada. Você bebeu demais e eu não quero acabar no hospital. Tampouco queria que ele acabasse no hospital, mas não queria dividir o táxi. — Você deveria ligar pra alguém e pedir pra vir buscar sua moto. — ela disse sem olhar para ele. — Não é bom você sair ziguezagueando por aí com todo o álcool no seu organismo. Vinte minutos depois, o taxista dela chegou e ela entrou no banco de trás, deixando empoleirado na moto um Marco totalmente diferente do início da noite. Na manhã seguinte, Marco encarava uma dor de cabeça dos infernos. Ele não tinha bebido tanto assim, mas lidar com Charlotte tinha derrubado todas as suas defesas. Ele queria provocá-la. Queria chateá-la um pouco. Mas não queria que ela ficasse


envergonhada ou fosse humilhada. Só queria que ela sentisse um pouco da vergonha que ele sentiu quando foi injustamente acusado de se embriagar e se drogar até começar uma briga, fazendo-o perder, entre muitas coisas, o Summa Cum Laude da Harvard. Hoje em dia Marco não se preocupava muito com isso e não se importava com o que as pessoas falavam dele, mas na época, foi algo muito difícil. O nerd bom moço teve que lidar com a vergonha de ter seus falsos podres expostos a garotos que ele não suportava e professores que admirava. Fazer Charlotte sentir um pouco disso, mesmo que só por uma noite, por causa de uma roupa inapropriada, ou por ser deixada de lado alguns minutos não pareceu tão mal. Mas a forma como ela falou com ele antes de ir embora e a raiva no olhar que ela lhe dirigiu, fez Marco se sentir como um garotinho de quinze anos que tinha sido pego fazendo algo errado e escondido dos pais. Com um gosto desagradável na boca, Marco se levantou da cama, tomou banho, se vestiu e foi para o escritório. Antes de se trancar na sua sala, pediu ao seu assistente que lhe levasse um café bem amargo e alguns Donuts. No meio da manhã, James Hardy foi anunciado para entrar em sua sala e Marco preparou uma dose de Sngle Malt para ambos. Se seu investigador estava ali, é porque tinha alguma nova informação sobre Charlotte. — E então, James? James colocou uma pasta marrom sobre a mesa de Marco e começou a explicar as recentes descobertas. Algumas sobre seus pais, que ele não dava a mínima importância, algumas sobre o tal Ken, que ao parece estava mais para um amigo do que para namorado ou amante, e uma coisa sobre seu passado. Uma coisa que deixou Marco de orelha em pé. — Pelos registros, Sr. Villa-Lobos, Charlotte McKeena perdeu um irmão quando tinha quinze anos. Ele tinha dezoito anos na época. — Como aconteceu? — Acidente de carro. Um caminhão bateu no carro dele. Marco perguntou-se como isso tinha modificado a vida dela. E o mais importante, por que ela nunca tinha lhe falado sobre isso. Ela lhe contou sobre Ken, droga, o cara que tirou sua virgindade. Como não lhe contou sobre um irmão morto?


— Alguma coisa mais? — Eu averiguei algumas informações com a polícia e jornais da época, em que o acidente aconteceu, conhecidos da família e amigos, tentando ligar a morte do irmão à senhorita McKeena e descobri uma coisa que talvez o senhor queira saber. — Então fala. — Marco o encorajou, levantando-se da sua poltrona e indo para frente da mesa, onde se sentou na beirada. — Charlotte McKeena estava na casa de Ken Reynolds na hora do acidente. Na verdade, ela esperava o irmão na casa dele. — Ele estava indo buscá-la? — Foi o que a mãe do Dr. Reynolds contou. Marco se perguntou como James tinha conseguido tais informações, mas deixou para lá, pois sabia que além de muito bem pago para, aquele homem era brilhante na arte de espionar. Marco suspeitava que ele tivesse trabalhado para o FBI, mas isso era uma coisa que James jamais admitiu, nem mesmo para seu pai Eduardo. — O que mais essa senhora contou? — Pelo que o filho dela lhe disse, Charlotte McKeena terminou o namoro com ele logo em seguida, pois seus pais nunca aprovaram o relacionamento deles e ela sentia-se culpada pela morte do irmão. — Isso é besteira. Não foi culpa dela. — Bom, Sr. Villa-Lobos, isso é algo que eu não posso opinar. Marco ficou calado, pensando em tudo o que James tinha lhe dito. Era possível que tudo o que Charlotte havia feito na manhã em que partira seu coração fosse apenas por causa dos seus pais? Para fazer com que eles não a vissem com outros olhos por ir a um bar como aquele? Para ser a filha perfeita deles? E se sim, isso justificava o que ela fizera com ele? Charlotte não sabia mais como tirar Marco da sua cabeça. Desde a noite no bar ela pensava nele o tempo todo. Ele estava com ciúmes, claramente. E era duro admitir, mas ela também. Vê-lo deixar aquelas mulheres se jogarem em cima dele com certeza fez com que sentimentos que ela preferia que não existissem mais subissem à superfície com força máxima.


Agora, quase uma semana após deixá-lo parecendo confuso na calçada do bar, talvez ela fosse encontrá-lo novamente. Estava em um jantar formal com alguns empresários, entre eles, seu sócio Patrick, e não duvidava que Marco fosse aparecer. Ainda era cedo, portanto, ele tinha pelo menos mais quatro horas para dar o ar de sua graça, e era exatamente isso que a deixava nervosa. — Não está se divertindo? — perguntou Elena, acompanhante de Patrick. Elas haviam se conhecido uma hora antes enquanto ele fazia um breve discurso. — Só estou um pouco apreensiva. Sabe, todos esse engravatados poderosos me fazem parecer uma ovelhinha. Elena lançou um olhar para seu par, metros à frente conversando com alguns homens, e sorriu. — Até ele? — Não. Acho que o Sr. Matarazzo é um dos poucos homens aqui que não me intimida. Na verdade, eu acho que é o único. — Quando o conheci, — Elena sussurrou, — achei que ele fosse filho do capeta ou algo assim. Ele tinha uma cara de mau e seu porte... — ela estremeceu. — Nossa, me dá arrepios só de lembrar. Patrick havia tirado a barba que cobria parte do seu rosto e a juventude em seus olhos ficou mais evidente. Ele também sorria um pouco mais e sua feição era a de um homem feliz. Muito diferente da que ele exibia quando estivera no Brasil. — Me pergunto o que o fez mudar. — Charlotte sussurrou de volta, com um ar de insinuação. Elena corou um pouco. — Bom, digamos que ele e eu temos nos conhecido um pouco melhor. — Então vocês... — Somos amigos. Eu o acompanho nos eventos que ele tem que ir, mas não é nada demais. — Elena respondeu sinceramente, não vendo motivo para se envergonhar. Elas tinham se conhecido havia pouco tempo, mas Charlotte se mostrara uma ótima companhia. — Talvez uma relação platônica. — Charlotte jogou. — Mais ou menos isso. — Elena respondeu. Também não tinha necessidade de dizer a ela logo de início que Patrick a beijava de uma forma que a fazia ver estrelas. Um pouco mais de meia hora depois, o anúncio de que o jantar começaria a ser


servido fez com que Elena e Charlotte sentassem-se perto uma da outra na mesa. Elas estavam conversando alegremente quando Charlotte viu Marco se juntar ao grupo de homens que falava com Patrick. Ela ficou pálida e calou-se na mesma hora. Ele estava mesmo ali. — O que foi? — Elena perguntou, notando a mudança na postura dela. — Eu... ahm... não é nada. Elena olhou na direção em que os olhos de Charlotte estavam e viu um homem que conhecera semanas atrás. Lembrava-se de algumas reuniões entre ele e Patrick e de advogados ao redor dos dois por pelo menos um dia e meio. — Por acaso você não está assim por causa de Marco Villa-Lobos, está? Charlotte chicoteou a cabeça na direção dela, totalmente surpresa. — Você o conhece? — Não tanto quanto você, pelo que parece. — Elena disse sorrindo — Mas sim. Ele e Patrick são grandes amigos e eu o conheci há algumas semanas. Eles fecharam um negócio junto. Os pelos da nuca de Charlotte se arrepiaram todos. — Que tipo de negócio? — Uma fusão de empresas pelo que pude ver. Marco comprou uma porcentagem de ações que pertencia a Patrick. Charlotte ficou imediatamente nauseada. Ela não queria acreditar que as ações em questão fossem da Glitz Fashion Company, mas conhecendo Marco como ela conhecia, achava que torcer por algo contrário era um desejo difícil de ser alcançado. — Por acaso você sabe que empresa era? — Charlotte perguntou com a voz fraca, suando de nervosismo, apenas para confirmar. — Não lembro o nome, mas parece que era de uma nova boutique. Charlotte levantou-se imediatamente, deixando Elena confusa com sua mudança e foi ao bar do salão, onde ignorou o jantar e pediu algumas taças de vinho. Ela não tinha condições nenhuma de engatar uma conversa razoável com qualquer pessoa. Tudo o que mais queria na vida era ser livre e independente e agora estava atada a Marco de uma forma que ela não gostava nem um pouco. Simplesmente não conseguia acreditar que ele fora baixo a ponto de se envolver em um negócio dela apenas para lhe dar uma lição sobre algo que acontecera havia quatro anos.


Quase duas horas se passaram até que todos estivessem satisfeitos e começassem a circular novamente pelo local. Foi quando Marco notou que Charlotte estava ali, mas não se lembrava de tê-la visto durante o jantar. Patrick não lhe dissera nada sobre a presença dela. Querendo falar com ela sobre o que seu investigador havia descoberto e temendo ter cometido um grande erro ao julgá-la sem saber a história toda, Marco se encaminhou para o bar. — Charlotte? — ele a chamou suavemente. — Ora, ora, ora. — ela disse, virando-se. — O que quer de mim hoje, Sr. VillaLobos? Sr. Villa-Lobos? Será se ela ainda estava chateada sobre a noite no bar? — Eu gostaria de falar com você. Fazer algumas perguntas, se não se importa. — Sobre seu rendimento? — O que disse? — Sobre o rendimento das ações que você comprou da minha empresa. — ela disse, rolando os olhos e tomando o último gole da taça de vinho que tinha nas mãos. Merda. Como ela tinha ficado sabendo disso? Ele precisava explicar. — Olha, Charlie... — Não. — ela colocou uma mão na boca dela, calando-o. — Você não vai falar nada hoje. Apenas eu falo. Marco engoliu em seco. — Eu não quero nada que venha de você. Eu não acredito que você tenha feito isso apenas para me prejudicar, seu egocêntrico. Isso não é uma coisa boba, é minha vida. Minha empresa. Minha chance de liberdade e nem você, nem ninguém, vai tirar isso de mim. Então acredite, eu vou devolver cada maldito dólar que você investiu. Vou comprar os quarenta por cento de volta porque não quero nenhum tipo de parceria com você. Marco sentiu vergonha do que tinha feito. Ele podia nunca ter admitido, mas comprara as ações para tê-la em suas mãos. Para o bem ou para o mal, Charlotte seria sujeita a ele. Mas desde que ficou sabendo das coisas que seu investigador disse, tudo o que mais queria era nunca ter feito nenhuma idiotice. — Charlie...


— Não me chame de Charlie. — ela pegou sua bolsa no balcão e começou a andar, assim como tinha feito na semana anterior, indo embora, mas parou antes de sair do hall do prédio e encarou Marco, que a seguia. — Eu ganhei uma aposta de você. Você me disse que eu poderia pedir qualquer coisa. Bom, o que eu quero é que você fique o mais longe possível de mim. Eu nunca mais quero ver você na minha frente. Em seguida, ela virou-se e foi embora sem olhar para trás.


18


Patrick e Elena — Eu fiz algo de errado? — Elena perguntou no caminho de volta para casa. Patrick manteve-se calado depois do jantar, esperando a melhor oportunidade para falar com ela sobre Charlotte. Marco o procurou pouco antes de ir embora, com uma cara de poucos amigos, acusando-o de contar à Charlotte sobre os negócios dos dois em relação à Glitz Fashion Company. Porém, ele não tinha dado com a língua nos dentes, então apenas Elena poderia ter contado. — Não. — ele respondeu sério, mas não rude. — É que você está com uma cara nada boa. E já faz um tempinho. — Eu prefiro não conversar no carro. — Patrick continuou sério, mas com uma olhada na direção dela e ao ver a preocupação em seus olhos, ele lhe deu um pequeno sorriso. — Tá. Elena concordou, mas não parecia tranquila. Não entendia o motivo de Patrick estar tão distante. Não se lembrava de ter feito nada de errado, ou de ter sido rude com ninguém, ou de ter se comportado de maneira inadequada em nenhum momento na última semana. A verdade é que depois do beijo arrebatador no dia do jantar na piscina, eles estavam se dando muito melhor. Felizmente, Elena não precisou se corroer por muito tempo. Em poucos minutos Patrick estacionou na garagem e a acompanhou até o quarto. Ao chegar lá, Elena o pegou pela mão e o levou para dentro, fechando a porta logo depois. — Tudo bem, o que foi? — ela perguntou, franzindo as sobrancelhas. — Eu não quero que você me interprete mal, nem nada, mas preciso fazer algumas perguntas. Ela ergueu as sobrancelhas e soltou uma risadinha. — Fique à vontade. — Certo. Eu vi que você passou boa parte da noite conversando com uma mulher... — Charlotte. — Isso. Vocês conversaram sobre o quê? Elena não entendeu o motivo da pergunta, mas vasculhou o cérebro mesmo assim,


tentando lembrar se tinha feito algo impróprio para ela, porém não se lembrou de nada de mais. — Nós apenas conversamos um pouco. Ela é bastante divertida. — Não é exatamente isso que eu quero saber. — ele passou as mãos pelos cabelos, parecendo um pouco exasperado. — Então o que é? Elena sentiu um frio na barriga. Talvez Charlotte tivesse despertado o interesse de Patrick e ele quisesse se certificar de que ela não tinha falado nada sobre a última semana e os... carinhos que ele vinha lhe fazendo. Nada muito escandaloso, mas com certeza excitante. — Você gosta dela? — a voz de Elena era apenas um sussurro. — O quê? Não! A negação enfática dele enviou uma onda de alívio tão grande para Elena que ela não conseguia acreditar ou entender como tinha chegado naquele ponto. Ela não deveria se sentir assim em relação a ele, mas se sentia. Patrick não sabia de onde ela tinha tirado que ele gostava da garota do seu melhor amigo, mas achou que teria mais chance de saber sobre o que as duas conversaram se fosse direto ao ponto, mesmo que para isso, precisasse expor um pouco do segredo de Marco. — Na verdade, Elena, eu quero saber se você falou com ela sobre aquele meu amigo, o Marco. — Aquele que comprou uma ações de uma tal empresa que você tinha investido? — Esse mesmo. — ele sorriu, sabendo que ela estava brincando, pois não havia motivo para perguntar a qual Marco ele estava se referindo, já que só tinha conhecido ele desde que chegara a Nova Iorque. — Alto, forte, cabelo preto, feio à beça. Elena gargalhou, em seguida falou a verdade. — Ah, ela estava olhando muito pra ele e eu perguntei se eles se conheciam. — E? — E... ela perguntou de onde eu o conhecia. Disse que ele era seu amigo. — Só isso? Patrick sabia que Charlotte era uma garota esperta, se Elena tinha dito que ele e


Marco eram amigos, ela poderia muito bem ter ligado os pontos sozinha. — Bom, talvez eu tenha dado um informação ou duas. Patrick engoliu em seco. Ou não... — Que tipo de informação? — ele perguntou, sentindo que talvez tivesse que dar um belo pedido de desculpa ao amigo por sua acompanhante ter dado com a língua nos dentes. — Ah, sabe, sobre o negócio de vocês. A compra das ações. — ao ver a expressão petrificada de Patrick, Elena se aproximou e perguntou baixinho. — Dei mancada? Era segredo? Patrick colocou as duas mãos no rosto e virou de costas. Elena esperava que ele gritasse com ela e dissesse que ela deveria manter a língua segura na boca, mas ficou surpresa com sua real reação. Ele simplesmente começou a rir. Histericamente. — Patrick? Ele sentou-se na beirada da cama, mas em seguida deitou-se e colocou os braços sobre os olhos, ainda rindo. Elena não sabia o que fazer, então apenas encarou aquela cena, com um pequeno sorriso nos lábios ao ver uma criatura tão intimidante como o seu anfitrião, bolando de rir por algo que, aparentemente, não tinha a menor graça. Quando conseguiu se controlar, Patrick se apoiou nos cotovelos e respirou fundo. Elena tinha jogado seu melhor amigo na fogueira ao contar sobre o negócio deles à Charlotte, mas por algum motivo isso o divertia muito. Talvez esse fosse o gancho necessário para Marco deixar de lado a obsessão de se vingar daquela garota. E também, serviria para tirar a consciência dele da lama, já que se Marco resolvesse levar aquilo até o fim, até levar a Glitz Fashion Company à falência, ele teria uma bela parcela de culpa com Charlotte, que pelo que ele pôde ver, não era nada além de uma doce garota com problemas com os pais. — Acho que você me livrou de um problema, Elena. — ele disse, secando algumas lágrimas nos cantos dos olhos. Ela ajoelhou-se em frente a ele e mordeu os lábios. A expressão de surpresa de Patrick não passou despercebida, mas Elena não recuou. — Fico feliz por ter ajudado. A verdade é que desde que ele a beijou naquele dia na piscina e todas as outras


vezes durante a semana, Elena tinha uma constante sensação de inquietação. Não se lembrava de ter dado uns amassos em um cara sem chegar aos finalmente. Não que ela vivesse fazendo isso, mas teve seus momentos na faculdade e claro... teve Felipe. Patrick sentou-se e ela aproveitou para sentar no seu colo, enroscando as mãos em seus cabelos sedosos. O gemido rouco dele quando ela enfiou a língua na sua boca foi tão estimulante que ela sentiu sua calcinha ficar molhada no ato. Ele não perdeu muito tempo e levou as mãos até a bunda de Elena, massageando um pouco antes de espalmá-las nas suas costas e trazê-la mais para perto. O sinal evidente da excitação dele roçava contra as coxas dela, deixando-a ofegante. Com as mãos um pouco trêmulas, Elena levantou mais a barra do seu vestido e se acomodou melhor no colo de Patrick. Em seguida, tirou a primeira peça do terno dele, logo depois o colete e então os botões da camisa branca que ele usava começaram a ser abertos um por um. — Elena, eu não acho... — Shh. — ela o calou com um beijo poderoso que serviu para que ele cravasse os dedos na bunda dela. — Você não deveria estar no meu colo. Ele tinha plena consciência de onde aquilo ia dar, e não sabia se seria capaz de ver os olhos dela examinando seu corpo queimado e sua perna amputada. — Vou ficar no seu colo sim. — ela mordeu a orelha dele, fazendo-o grunhir. — E se reclamar muito, vou começar a rebolar em cima de você. Com um pouco de esforço, Elena conseguiu tirar a camisa dele e ficou impressionada com a quantidade de tatuagens que ele tinha. O quarto estava apenas com meia luz – um abajur estava ligado no canto esquerdo da cama – e por isso ela não podia ver muito bem, mas dava para notar a forma de algumas. Seu ombro esquerdo tinha uma espécie de tatuagem tribal, muito detalhada, cheia de formas e sem deixar muita pele exposta. O resto do braço tinha uma serpente de fogo que ia até o punho, por isso ela nunca tinha visto, pois só o tinha visto com camisa de manga comprida e elas ficavam escondidas o tempo todo. O braço esquerdo tinha um conjunto de mandalas interligadas, também até o punho. No centro do peito, havia uma grande fênix flamejante, com as asas cobrindo os dois


peitorais e a cauda chegando até o umbigo. Elena perdeu o fôlego ao vê-la e sentiu uma pontada no coração ao imaginar o que aquilo significava. — Parece que você foi um grande bad boy quando era mais novo. — ela jogou, traçando as asas da fênix com a ponta dos dedos. — É. — ele confirmou, de olhos fechados. — Tem mais alguma? — Um filtro dos sonhos na nuca. Um anjo da morte nas costas e engrenagens nas pernas. Elena não soube o que dizer sobre isso. Elas eram lindas e o fato de serem todas em 3D era o mais fascinante. Mas seria mentira se dissesse que não ficou chocada com o anjo da morte. Ela queria perguntar sobre isso, mas achou melhor deixar para outra hora. Então apenas voltou a beijá-lo. — Elena... — Transa comigo. — ela pediu, necessitada. E sem esperar que ele absorvesse suas palavras, Elena se levantou do colo dele, desfez o botão que prendia seu vestido no pescoço e deixou que ele escorregasse pelo seu corpo até a cintura, onde enfiou os polegares e o fez cair no chão, ficando apenas de calcinha na frente de Patrick, pois não usava sutiã. Ouviu com prazer o som sibilante da respiração dele sair pelos lábios semicerrados. Ele a queria demais. Não que ela duvidasse, pois sentiu o quanto ele estava excitado enquanto estava no seu colo. — Sua vez. — Elena disse, voltando para a cama e fazendo um gesto para que ele se levantasse e tirasse o resto da roupa. — Eu não sei se devemos. — ele se levantou e ficou de costas para ela, dando-lhe a chance de ver o anjo negro que ele carregava atrás de si. Era enorme, tomando conta de cada centímetro daquelas costas musculosas, e pavoroso também. — Do que está falando? Eu quero você e sei que você me quer. Apenas para provar, Elena levantou-se novamente e encostou os seios naquele desenho quase realístico que o seguia. Em seguida, espalmou as mãos na barriga de Patrick e deixou que elas descessem até entrar na cueca dele, onde seu pau estava duro e quente.


— Por que não fazer com que isso aqui seja domado? — ela perguntou acariciandoo, ao mesmo tempo em que lambia o meio das suas costas. Quando viu que ele não moveria um dedo – mesmo sem entender o motivo de tamanho recato –, ela o virou abruptamente, abriu a braguilha da calça e puxou-a junto com a cueca até chão. Foi quando viu as engrenagens da qual Patrick havia falado. Mas elas estavam em apenas uma perna, pois na outra, ele usava uma prótese de fibra de carbono. Elena caiu de bunda no chão, olhando embasbacada para aquilo. Mas quando olhou para cima, preferia não ter feito isso. O rosto de Patrick, na penumbra do quarto, parecia ainda mais sombrio do que a primeira vez que ela o viu. — Satisfeita? — ele perguntou com a voz dura. — É por isso? Por isso não fez nenhum avanço durante a semana? Por isso ficou aí parado enquanto eu me esfregava em você? — Acredite, eu queria lhe dizer. Mas não é fácil para mim e eu sei que todos... Elena viu dor nos olhos dele, mas Patrick imediatamente virou-se. Ela levantou-se do chão, pouco se importando se estava quase nua. Queria saber o que ele ia dizer. — Sabe que todos, o quê? Patrick abaixou os ombros, derrotado. Não queria abrir a ferida e deixá-la sangrar na frente de Elena. — Você tem vergonha disso? — Eu só... eu... — ele sussurrou. — Porque, me desculpa, mas se você acha que ser desse jeito te diminui diante das outras pessoas, então você é muito preconceituoso. E se pensa isso de você mesmo, não quero nem imaginar o que pensa dos outros na mesma situação que a sua. — Eu não tenho vergonha de mim. O problema é... — Então você achou que eu não iria querer você por causa disso? Acha que eu sou preconceituosa ao ponto de negar meus desejos por causa de uma simples deficiência física? Valeu a consideração. Elena estava furiosa. Ela o conhecia havia pouco tempo, tudo bem, mas na última semana, sempre que eles chegavam a um ponto mais quente no amasso, ele dava um jeito de fugir, fosse por uma dor de cabeça que aparecia magicamente ou por um


telefonema importante do escritório. Enfim, sempre havia um motivo. Mas o tempo todo ele estava com medo da reação dela, achando que sentiria nojo dele? Elena pegou a camisa dele do chão e a vestiu, sentindo-se nua de uma forma ruim. — Não é isso. Patrick arriscou uma olhada para trás e então se virou para encará-la. Ela estava entendendo as coisas de forma errada. Ele não sentia vergonha de si mesmo, mas também não achava que ela o rejeitaria se o visse de verdade, só não estava pronto para contar o motivo de ele ser assim, porque, é claro, ela iria querer saber mais cedo ou mais tarde. — Então o que é? — ela gritou, mais de exasperação do que de raiva. — Você tem o corpo coberto de tatuagens, algumas até bizarras, mas achou que eu iria recusar você por causa da sua perna? A dor, a mágoa, a raiva e a paixão explodiram dentro de Patrick como um 4 de julho. Alguma coisa tinha que sair ou ele poderia simplesmente ter uma epifania e desmaiar ali naquela hora. — Eu não sou coberto de tatuagens porque fui um bad boy no colégio. Sou coberto de tatuagens porque metade do meu corpo foi queimado em um incêndio criminoso. Elena colocou a mão na boca, mas não impediu que um suspiro surpreso saísse por ela. — E eu não tenho vergonha de ser amputado. Não tenho preconceito e francamente não ligo se outras pessoas tiverem. Não gosto da minha perna porque não era para eu ser assim. As lágrimas queimavam nos olhos dele, mas Patrick se recusou a deixá-las cair, se abaixando para vestir a cueca e a calça que ainda estavam aos seus pés. — Eu nasci perfeito, Elena. E não falo de beleza física como se fosse um metrossexual qualquer, falo de ter nascido com tudo o que uma pessoa tem o direito de nascer. Agora meu corpo parece uma tela macabra para esconder as queimaduras, eu mal me reconheço no espelho porque tive que fazer inúmeras cirurgias reconstrutivas para não ficar desfigurado e tenho que usar um aparato qualquer para poder andar, então me desculpe se eu estava nervoso em compartilhar isso com a garota que tem a porra do meu coração nas mãos.


Elena sentou na cama, pois não confiava nas suas pernas para mantê-la em pé. Mordeu os lábios e abaixou a cabeça antes de sussurrar. — Felipe.


19

Sempre que Marco tinha algum medo quando pequeno, ele procurava seu pai. Fosse por algum inseto que o deixasse apavorado, por um suposto monstro embaixo da cama, criaturas noturnas que o visitavam durante a noite ou o medo irracional que muitas crianças têm de perder os pais por algum motivo. Sentado no banco de trás de uma limusine alugada, ele voltou a ser uma criança. Estava com medo. Na verdade, estava apavorado. Queria, com todas as suas forças, que não tivesse cometido um erro tão grande. E novamente ele precisava do seu pai para lhe dizer que tudo ficaria bem, que não existia nada a temer e que quando ele acordasse na manhã seguinte, o medo da noite anterior não seria nada além de uma lembrança. Quando ele entrou na mansão dos seus pais, viu James Hardy e Eduardo sentados na sala, cada um com uma dose de uísque na mão, parecendo muito compenetrados em uma conversa. O que James está fazendo aqui a essa hora? — Marco. — Eduardo sorriu ao ver o filho parado nas portas duplas da sala da sua casa. — Que bom vê-lo, mas não estava esperando sua visita a essa hora. — ele completou, olhando com a testa franzida para o relógio. Passava da meia noite. — Eu estava em um jantar no Waldorf-Astoria. Aquele que o senhor faltou. — Marco respondeu com um sorriso sarcástico. — Estava maçante e resolvi sair mais cedo. Marco sabia que seu pai não cairia nessa, mas não queria falar o real motivo de estar ali, na frente do seu investigador, embora suspeitasse que talvez ele soubesse por alto. Eduardo fez que sim com a cabeça e olhou para o investigador, colocando um fim na conversa. — Tudo bem James, terminamos amanhã. — Eduardo sorriu e o acompanhou até a porta. Quando James foi embora, Eduardo olhou para o filho e cruzou os braços sobre o


peito. — Ok Marco, pode falar. Marco coçou a cabeça e sentou no lugar em que James estava. O que ele diria ao pai? E, pela primeira vez em sua vida, se perguntou se Eduardo o ajudaria dessa vez, afinal seu pai é o senador não se davam e Marco sabia que Eduardo não era muito a favor do seu envolvimento com Charlotte. — É a Charlotte. — ele disse mesmo assim. — É claro que é. — Eduardo retorceu a boca com um sorriso cansado. Já devia esperar por isso. Em seguida, foi até o bar – apropriadamente instalado no canto esquerdo da sala – e preparou mais duas doses da mesma bebida que ele e James tomavam. — Aqui. — entregou um copo com o líquido âmbar ao filho. — Eu me lembro de você querendo conversar comigo quando era pequeno. Só que tomávamos chocolate quente com marshmallows na época. Marco sorriu, tomando quase a dose toda antes de criar coragem para falar. — Acho que perdi quatro anos da minha vida com uma bobagem, pai. — Explique isso melhor. — Acho que Charlotte me esconde alguma coisa... grande. — Marco, meu filho, isso não deveria ser novidade para você. — Eduardo disse com um pequeno sorriso tenso. — Não, o senhor não está entendendo. Eu descobri que ela tinha um irmão e que ele morreu há uns anos, antes da gente se conhecer. Eduardo já sabia disso. — Foi o James quem descobriu isso? — Foi. — E aí? O que tem isso de mais? Marco contou a ele o que James havia lhe falado, sobre a noite do acidente, sobre Charlotte estar com Ken Reynolds e a questão de se sentir culpada pelo que aconteceu. — Acho que ela mentiu naquele dia para os pais porque não queria ser uma decepção pra eles. Pelo que James descobriu com a Sra. Reynolds, ela terminou com Ken por causa disso, então é provável que tenha agido assim comigo pelo mesmo


motivo. — Mesmo que seja verdade é que o motivo de ela ter agido assim foi a culpa, acha que isso justifica o que fez com você? Marco não sabia o que era perder um parente. Nunca tinha lidado com a morte e esperava não lidar com isso tão cedo. Mas achou que se tivesse no lugar de Charlotte, com a idade que ela é tinha na época, talvez tivesse agido da mesma forma. Durante quatro anos a mágoa e a raiva o cegaram, tudo o que queria era fazê-la sofrer como ele tinha sofrido, e pela primeira vez, ele se forçou a enxergar que talvez existisse outro lado da história, um motivo por trás, afinal quando perguntou sobre seus sentimentos, Charlotte disse que nunca tinha deixado de amá-lo. — Eu não sei se isso é inteiramente verdade, Marco. Não estou nem falando de Harvard, afinal você se saiu muito bem sem as honras. Estou falando do seu coração. — Eu não sei bem o que pensar, papai. Eu amava Charlie e tudo o que vi foi ela dizendo que não me queria na sua vida porque eu era uma influência má para sua futura carreira. — Marco deu de ombros, desanimado. — Eu estava com tanta raiva... Mas me lembro de vê-la com lágrimas nos olhos naquele dia. Não sei, estive pensando que talvez fosse por mim. Eduardo virou o resto da sua bebida e olhou com o rosto sério para o filho. Havia muitas coisas que Marco não sabia e ele achava que talvez não fosse prudente contar, uma vez que o coração do filho parecia ter sido amolecido pela "cachinhos dourados". Mas se o filho tivesse realmente superado o que aconteceu, talvez merecesse o benefício da dúvida. — Marco, me diga a verdade, filho. Isso significa que quer dar uma chance a ela? — Eduardo perguntou. — Eu a amo. — Marco disse com sinceridade. — Mas acho que a perdi. E eu estou apavorado com essa possibilidade. Desde que seu amigo Thomas morreu, Eduardo tinha feito de tudo para desencavar algum podre do senador, a fim de mandá-lo para a prisão, pois nada, nem ninguém lhe tirava da cabeça que Bernard era o responsável pela morte do homem. O fato de Marco parecer odiar a filha dele era um ponto a seu favor, pois quando esmagasse aquele imprestável, seu filho não ficaria ressentido com ele.


Mas agora a coisa tinha mudado de figura. Marco não só se dera conta de que ainda amava Charlotte como também achava que o motivo da atitude dela anos atrás era totalmente compreensível. Eduardo estava em dúvida entre levar Bernard McKeena à justiça sem se importar com os sentimentos do filho, e contar tudo o que havia descoberto com o intuito de trazê-lo para o seu lado. Assim, o Villa-Lobos mais velho soltou um longo suspiro. No final, não havia o que pensar, pois a felicidade dos seus filhos era tudo para ele e Camila. — Filho, poderia trazer Charlotte aqui? Marco enrugou a testa e encarou o pai. — Pra quê? — perguntou desconfiado com o pedido. — Pai, eu te amo, mas eu juro por Deus que se o senhor acha que eu vou deixá-lo dizer poucas e boas pra ela... Eduardo sorriu. — Eu tenho muita coisa pra falar pra ela, sim. Mas, acredite, ela vai querer ouvir. — Do que está falando? — De algumas coisas que James descobriu pra mim. Marco deixou o copo no console central da sala e se inclinou para frente, colocando os cotovelos nos joelhos. — Pode me contar. — ele exigiu. — Acho melhor esperar até que ela esteja aqui. Não quero me repetir. Marco se entristeceu. Talvez ela nunca mais queira me ver, pensou. — Eu não acho que ela queira vir aqui, pai. Ela me pediu pra ficar longe. — E você pretende fazer isso? — Não! Mas não sei como me aproximar depois das merdas que fiz com ela. — Marco não resistiu e voltou a pegar o copo, virando o resto do líquido que havia deixado. — A última vez que nos falamos, ela parecia tão... magoada... e triste. — Deixe-me ver, ela descobriu sobre seu negócio com o Patrick? Marco empertigou-se. — Como sabe disso? — Eu sou seu pai. — Eduardo respondeu calmamente. — É meu dever saber tudo sobre meus filhos. Me diga, foi isso? Marco fez que sim. Agora ele se envergonhava disso.


— Não sei como, Patrick disse que não falou nada, mas ela descobriu e dizer que ficou chateada seria um eufemismo. — O que você esperava? — Eu sei que pisei na bola. Não preciso de um sermão do meu pai. — Talvez a única coisa que precise seja de um sermão do seu pai. — Eduardo disse com a voz mais dura, mas suavizou com um pequeno sorriso no final. Houve um silêncio de alguns minutos. Marco esperou que Eduardo falasse mais alguma coisa, mas não fez isso. Seu pai devia saber o merda que ele já estava se sentindo. Então Marco resolveu voltar ao assunto anterior. — O que quer com Charlotte? Eduardo se levantou, pegou o copo de Marco e foi novamente ao bar, o de o encheu juntamente com o seu. Depois se sentou ao lado do filho mais uma vez. — Existe muito mais coisa na morte de Robert McKeena do que você imagina. Ele entregou o uísque a Marco e tomou um gole do seu próprio. — Há anos James vem investigando o senador. Ele descobriu muitas coisas, mas nada que eu pudesse usar. Porém, ultimamente, coisas mais podres têm sido desenterradas. — Que tipo de coisas? E o que tem a ver com o irmão da Charlie? — Ele não era o garoto perfeito. Tinha envolvimento com drogas. — Caramba. Por essa eu não esperava. — Marco murmurou surpreso. — É. E não era como usuário. Ele tinha um fornecedor e revendia tanto na Columbia como em bairros próximos. Especialmente na região mais pobre do Harlem. Marco lembrou-se do relatório de James, falando sobre Ken Reynolds. Era onde ele morava quando namorava a Charlotte. — Acontece que Robert teve alguns problemas com um chefão de gangue de lá, pois estava roubando muitos dos seus clientes. Na noite em que morreu, Robert não estava a caminho da casa de Ken Reynolds para buscar a irmã, ele já estava naquele bairro. Pelo que James descobriu, ele tinha um caso com a filha do chefão da gangue, talvez pra ter alguma vantagem, não sei... Enfim, ele foi surpreendido pelo cara e teve que fugir. Houve uma perseguição de carro e depois de ultrapassar um sinal, um caminhão bateu no carro do Robert, matando-o.


Isso é inacreditável, Marco pensou. Durante anos Charlotte se culpou pela morte do irmão, acabando com seu relacionamento primeiramente com Ken e em seguida com ele por causa dessa culpa. Mas na verdade, seu irmão tinha morrido por algo que estava além do seu conhecimento, provavelmente. Isso era muito fodido. — Porra. — Marco gritou, dando um soco no braço da poltrona. — Porra. Porra. Porra. — Silêncio, Marco. Sua mãe já está dormindo. — Eduardo o repreendeu com veemência. — Se for pra perder o controle assim, vou encerrar a história por aqui. Marco estava nervoso e com certeza seu controle tinha ido para o espaço, mas ele forçou-se a respirar fundo e pediu que o pai continuasse. Ele precisava saber de tudo para poder falar com Charlotte. — Muito bem, onde estávamos? Marco pressionou as unhas no estofado da poltrona e trincou os dentes. — Na noite da morte do Robert. O que mais James descobriu? — Fora essa história das drogas, algumas coisas sobre o senador. — É isso que eu não entendo. Eu não sabia da existência desse cara até o James mencioná-lo. Ele era filho de um senador federal, porra, como não há nada sobre ele? — Como você mesmo disse, ele era filho de um senador. E ordinário como o Bernard é, não quis seu nome envolvido com toda essa merda, então praticamente comprou todos os meios de mídia. A morte do filho foi mencionada pouquíssimas vezes e atribuída a outra causa. Além do mais, na época em que isso aconteceu, estávamos em Olimpíadas. Então quem iria se preocupar com a morte do filho de um senador quando o país estava ganhando medalhas de ouro, uma atrás da outra? Eduardo sentiu o estômago embrulhar. Em que mundo um homem poderia se importar mais com sua carreira política do que com um filho? — Tenho certeza de que o McKeena usou isso a seu favor, aproveitando a distração do país com os jogos. — Com certeza. Até onde James pôde apurar, a influência da Sra. McKeena com a mídia ajudou a encobrir tudo. — Não acho que a Charlie saiba disso. — Duvido muito. Se é verdade essa história de culpa e tal, com certeza os pais dela


a manteriam na linha usando isso. — Eu tenho que contar a ela, pai. Ela merece saber. — Concordo. Eduardo notou que Marco dedilhava o celular e não precisava ser um gênio para saber qual contato ele buscava. — Mas não hoje, filho. — ele colocou uma mão sobre a mão em que Marco segurava o celular. — Já é tarde. Espere até amanhã. Na verdade era um ótimo conselho. Por mais que achasse que Charlotte o agradeceria por tirar esse peso dos seus ombros, Marco sabia que era pouco provável que ela atendesse a uma ligação a essa hora. Honestamente, ele não achava que ela fosse atender a qualquer ligação dele, logo teria que procurá-la, até porque esse com certeza era um assunto para ser tratado pessoalmente. Marco foi até a porta e Eduardo o acompanhou. Antes de sair, ele se virou e abraçou o pai com força. — Obrigado, velho. — Sempre que precisar, garoto. — Não vai me falar sobre os podres do senador? — Se não se importa, não. Fale com a Charlotte, conte isso a ela e depois que vocês se resolverem, ou não, eu vejo se devo contar... ou não. Eduardo sorriu e Marco o imitou. — Diga à mamãe que mandei um beijo. Eu volto depois para vê-la. — É melhor mesmo. Você mal vem aqui e se Camila souber que você veio a essa hora e não esperou até de manhã para vê-la, eu é que vou ser mandado pra fora do quarto. — Ok, pai, isso é muita informação. Marco tirou as chaves do carro do bolso e abraçou novamente o pai, se encaminhando para onde sua Ferrari estava estacionada. — E se falar com a Luciana, diga que quero vê-la. Parece que faz séculos que não falo com ela. — Eduardo gritou atrás dele. — Tudo bem. Vou ver se Roman dá a ela alguma folga. — Marco piscou para o pai, abrindo a porta. — Você sabe, ele a mantém muito ocupada.


— Marco! — Eduardo rosnou diante da provocação do filho, em seguida entrou em casa. Marco sorriu sozinho, entrou no carro e deu partida. Conversar com seu pai sempre era a melhor coisa a fazer. E essa última conversa lhe deu munição para lidar com Charlotte, afinal, ele precisaria de toda artilharia possível para ser perdoado.


20


Patrick e Elena — O que você disse? Elena tinha os olhos no chão. Sua mente voava de volta há dez anos, ao garoto que ela tanto amou, e que partiu seu coração ao ir embora desse mundo sem dizer adeus. É claro que não tinha sido culpa dele, mas isso não a impedia de se sentir traída pela vida por lhe tirar algo que ela conhecia havia pouco tempo, mas que amava como se estivesse com ela há séculos. — Sua história... — Elena pigarreou. — Ela meio que me lembrou de um cara que eu conheci. Patrick suspirou com alívio. Por um minuto, achou que seu segredo tivesse sido descoberto. Era aterrorizante, mas reconfortante ao mesmo tempo. Talvez tudo desse errado se Elena soubesse quem ele era de verdade, mas talvez houvesse a chance de tudo ficar bem. O sentimento inquietante que ele sentiu lhe deixou tonto. — Gostaria de compartilhar? — ele perguntou quase com um sussurro. Elena olhou surpresa para ele. Por que aquele homem estava interessado em qualquer coisa sobre o seu passado? Não era como se fosse um crime ou algo assim, mas era algo realmente íntimo. Talvez até mais do que sexo. Porém, sentindo que – de alguma forma – podia confiar nele e que não tinha motivo para se negar, Elena resolveu contar um pouco sobre Felipe. — Foi um cara que eu namorei quando era adolescente. — Imagino que tenham terminado. Ela mordeu o lábio inferior, relembrando o ocorrido. — Na verdade, ele morreu. — Oh. — Patrick pigarreou, tentou falar, mas acabou pigarreando de novo. — Sinto muito. — sussurrou quando sua voz estava apenas meio limpa. — Acho que o amava. — Você acha? — Bom, tanto quanto uma garota de quinze sabe sobre amor. Uma lágrima desceu pelo rosto triste de Elena. Parecia que ela estava novamente no Morro da Mangueira, na pequena casa em cima de um amontoado de outras residências,


olhando para os restos em chamas daquele lugar. Felipe e sua mãe não tinham conseguido sair antes que um balão junino caísse ali, causando um incêndio trágico em questão de minutos. Ela estava em sua casa, no Alto Jardim Botânico, sem conseguir dormir, quando viu as notícias que passavam em um jornal de madrugada. A verdade é que Elena não era muito de assistir jornais, mas por algum motivo, enquanto zapeava os canais, parou em um específico e acompanhou o que o repórter dizia... E tomou o maior choque da sua vida quando viu que a notícia – que falava sobre a morte de duas pessoas – se passava no morro em que Felipe morava. As chances de ser a casa dele eram mínimas, considerando a quantidade de casas daquele morro, mas algo dentro dela estalou. Com um pulo da cama, Elena correu ao quarto dos pais e chamou sua mãe, implorando que a levasse lá. E ao chegar lá, chorou amargamente com a constatação de que seu amado estava morto. Felipe era pobre e seus pais, principalmente seu pai, não aceitavam seu namoro com ele. Para Luís Fernando, qualquer morador de morro era bandido ou vagabundo, mesmo Felipe sendo um aluno exemplar – ela sabia disso porque ele estudava na mesma sala que ela, como aluno bolsista, é claro – e trabalhar em dois lugares diferentes para não ser obrigado a se envolver com o mundo do crime. Mas naquele momento de dor e angústia de alguém que sofria pela primeira vez uma perda tão grande, Elena contava com sua mãe ao seu lado, que pelo menos parecia estar realmente triste pelo rapaz. Ela tentou consolá-la, dizendo-lhe que acidentes acontecem; que doía, mas que não iria matá-la; que essa era apenas sua primeira desilusão amorosa e que isso acontecia com todas as adolescentes. O problema é que não era uma desilusão amorosa. Felipe não tinha terminado com ela. Ele estava morto. E naquela hora, Elena sentiu que parte sua morrera também. Não fazia sentido voltar à escola no dia seguinte se Felipe não estaria lá. Tudo o que ela faria seria olhar para a cadeira vazia ao seu lado, desejando que a noite anterior tivesse sido apenas um terrível pesadelo. Não fazia sentido olhar para o futuro e ter a plena certeza de que a pessoa que ela via ao seu lado não estaria lá de fato. E, com certeza, não fazia sentido continuar vivendo uma vida de dor, sabendo que os dias não ficariam mais fáceis com passar do tempo, como sua mãe dissera.


Assim, ao voltar para casa e se trancar no quarto, para dar a Felipe o luto que ele merecia, chorando até amanhecer, Elena pegou sua mochila e esvaziou o conteúdo em cima da cama. Só bastou uma olhada rápida para conseguir achar o que procurava. Quando amanheceu, ela estava consciente do que queria fazer e com um último “eu te amo” para a foto polaroid de Felipe que mantinha escondida dentro da fronha do seu travesseiro, ela deslizou o estilete pela pele, rasgando sua dor e deixando-a vazar para os lençóis brancos e imaculadamente ricos que a cercava, dando a eles a cor rubra que tanto amava. Agora, diante de Patrick, Elena lembrava-se de um momento de paz, onde a dor não existia, onde seu namorado estava com ela. Mas ao ser reanimada, ela soube que a breve felicidade não passara de uma espécie de sonho que a envolvera enquanto seu corpo aguardava que a transfusão fizesse seu efeito. Seus pais a tinham encontrado quase morta em seu quarto e a levaram para o hospital às pressas. O estado era grave – os cortes eram fundos e feitos verticalmente, a hemorragia fora enorme – e se tivessem demorado um pouco mais, Elena não teria conseguido sobreviver. Mas felizmente – ou infelizmente para ela – os ricos no Brasil tinham atendimento a qualquer hora. A mulher de vinte e cinco anos hoje, passou os dedos pelas cicatrizes nos pulsos e sentiu um arrepio passar pelo seu corpo, como acontecia toda vez que fazia isso. Era um lembrete do quão perto ela esteve do seu amado e do quanto sua dor ainda estava viva dentro de si. — Na verdade, — ela levantou-se da cama e deu as costas a Patrick — eu tenho certeza de que o amava. E que ainda amo. O peito de Patrick se encheu de sentimentos ambíguos. Em parte, estava feliz por saber que ela não tinha se esquecido do garoto que ele fora um dia. Mas por outro lado, sabia que se isso era realmente verdade, as chances de que ele, como Patrick, conseguisse sua afeição verdadeira eram inexistentes. — Sinto muito, Elena. Não queria lhe trazer lembranças desagradáveis. — Não se desculpe. Você não tinha como saber. Virando-se para olhar nos olhos dele, Elena sorriu um pouco. — Felipe sempre será o amor da minha vida. Eu era jovem e talvez não soubesse nada sobre esse sentimento ainda, mas tudo o que sei é que nunca senti isso por


ninguém. Ela mordeu os lábios novamente. Patrick apareceu na sua vida como uma besta fera, um homem ganancioso, cruel e implacável. E isso fez com que ela sentisse algo parecido com ódio por ele. Mas ao conhecê-lo melhor e depois das suas revelações, ela viu que não poderia estar mais errada. Patrick Matarazzo, empresário, era sim um homem implacável, mas Patrick Matarazzo, amigo e amante, era doce, gentil e tinha um coração gigante. — Você tem muita sorte, Patrick. Eu não sei se tem mesmo alguém especial na sua vida, mas o fato de ter sobrevivido ao que contou, me diz que você é um guerreiro e com certeza seria uma honra para qualquer mulher conhecer o homem que você realmente é. Com isso, Elena pediu que ele saísse do seu quarto e, em seguida, deitou-se para dormir. Ou pelo menos, para tentar. Patrick não conseguiu pregar o olho o resto da noite. Não conseguia parar de pensar na expressão de Elena enquanto conversavam no quarto dela, parecendo imersa em pensamentos dolorosos. Ela confessara que ainda amava o garoto que um dia ele tinha sido e pela primeira vez desde o incêndio, Patrick se pegou pensando em como fora a sua vida após sua morte ter sido confirmada. Como reagira? Será se acreditara que o motivo fora mesmo um balão junino? Todos esses anos, ele imaginou que ela tivesse superado em apenas alguns meses o que aconteceu. Ele sabia que Elena o amava, mas como tinha dito apenas algumas horas atrás, ela era apenas uma adolescente e o que os adolescentes sabem a respeito desse sentimento tão complexo? Porém, a mulher madura que ela tinha se tornado lhe garantiu que aquele garoto sempre seria o amor da sua vida. E era exatamente aí que morava o problema. Patrick não era mais aquele garoto. Aquele garoto morreu naquele incêndio. O homem que ele era hoje, talvez não merecesse a inocência, a pureza e o amor de Elena. Esse homem não media esforços para conseguir o que queria, e quando queria destruir alguém, com certeza conseguia. O fato de seu alvo ser o pai da sua amada parecia ser uma tremenda piada de mau gosto. — Ah Elena, se você soubesse o quanto eu te amo. — disse Patrick para a escuridão


do seu quarto. — Se soubesse o quanto eu gostaria que nossa vida tivesse sido desenhada de outra forma. Com traços menos sombrios. Ele daria tudo para tê-la em seus braços. Inclusive seu desejo de vingança. Claro, se não tivesse prometido à única outra mulher que amou que não iria embora desse mundo sem fazer Luís Fernando pagar pelo seu crime. Era impossível esquecer. O calor estava tão intenso naquele dia. Parecia que ele estava na padaria em que trabalhava, mais precisamente dentro do forno. Patrick olhou ao redor, ao abrir os olhos, e viu sua mãe dormindo profundamente na cama ao lado no pequeno barraco que ele chamava de casa. A fumaça negra que vinha de uma pilha de pneus – que ele pretendia vender no dia seguinte para conseguir algum dinheiro extra – não o deixava respirar direito, além disso, seus olhos ardiam como se tivesse sido jogado pimenta neles. Felipe não sabia como aquele incêndio tinha começado, mas sabia quem tinha provocado, pois mais cedo naquela noite, o pai de Elena o tinha visitado com um presente vermelho brilhante. — Eu não quero a porra de uma moto, tio. — Não sou seu tio, seu porra, e veja lá como fala comigo. Eu poderia simplesmente mandar você para a cadeia por qualquer merda, mas estou oferecendo uma oferta mil vezes melhor, não acha? — Não pode comprar meu amor por Elena. O coroa riu com deboche. Seus seguranças também. — Escute aqui, seu delinquente do caralho, você vai deixar minha filha em paz. Eu não quero que ela acabe grávida de um zé ninguém como você ou que acabe pegando uma doença. Elena não é para o seu bico, então aceite o que estou dando e se afaste dela. Felipe não era de responder os mais velhos, sua mãe sempre lhe ensinou a respeitar as pessoas, mas o simples fato de Luís Fernando colocar um preço na garota que ele amava tanto, era suficiente para fazê-lo esquecer da educação que tivera. — Pegue a porra dessa moto e enfie no cu. Eu gosto de Elena pra caralho e só vou ficar longe dela no dia em que eu morrer.


— Não brinque com fogo, moleque. Ou vai se queimar. Diante do fogo que se expandia aos poucos, Felipe não teve dúvidas de que a ameaça não fora vazia. Principalmente ao ver um homem passar pela porta que dava para a cozinha com um balde de gasolina na mão. — Ei! — Felipe gritou. O homem olhou para trás. Era um dos seguranças de Luís Fernando. — Merda. — ele xingou. — Não era pra você já ter acordado. Eu ainda não terminei com você. Com um canivete nas mãos, o homem de quase dois metros entrou no pequeno quarto e o apunhalou, mas não antes que Felipe conseguisse se virar, assim, sendo acertado nas costas. Ele sentiu três golpes antes que seu corpo caísse inutilmente no chão. A fumaça aumentou e, xingando, o homem foi embora, deixando-o ali caído perto da cama da mãe. Pouco tempo depois, houve uma explosão na cozinha e o calor começou a aumentar. A fumaça queimava seus pulmões e mesmo com a vista embaçada, ele via que sua mãe não se movia. — Mamãe! — Felipe tossiu. — Mãe, acorda. A mulher parecia ter sido pega pelo sono da morte. Ou estava embriagada, ou drogada, mesmo nunca tendo colocado uma gota de álcool na boca ou usado nada mais forte que comprimidos para dor de cabeça. Felipe olhou para trás de si e viu o fogo se alastrar rapidamente para o quarto, seguindo um rastro específico, molhado, e indo diretamente para a cama da sua mãe. — Não! Mamãe. Mamãe. A mulher não se movia e após alguns segundos de agonia, ele sabia que ela nunca mais se moveria. — Não, mamãe. Lágrimas quentes como todo aquele inferno inundaram seus olhos. E foi nessa hora que uma viga em chamas caiu do teto nas costas de Felipe, fazendo o fogo logo se espalhar pelo seu corpo. Ele gritou e chorou, sentindo uma dor tão intensa que foi um alívio quando tudo ao seu redor se apagou. Patrick lembrava-se de ter acordado em um espaço clínico e estéril, rodeado de médicos e com um senhor de cabelos brancos ao seu lado, segurando sua mão


enfaixada. Lembrava-se de chorar ao ter certeza de que o que tinha vivido não fora um sonho. Lembrava-se da dolorosa recuperação. Lembrava-se dos detalhes policiais contados pelo homem que se revelou seu avô. Lembrava-se das noites em que não conseguia dormir. Lembrava-se da promessa que fez à memória da mãe de que faria Luís Fernando pagar caro pelo seu crime. Lembrava-se do exato momento em que seu ódio e sua vingança o cegaram para qualquer outro sentimento. Lembrava-se do exato momento em que sabia que tinha perdido Elena para sempre.


21

— Charlotte, tem uma ligação na linha 2 pra você. — Fiona disse pelo interfone. Finalmente depois de duas semanas, Charlotte tinha conseguido concretizar a mudança do depósito no Brooklin para um andar alugado em um prédio. Não era um dos arranha-céus mais imponentes da cidade, mas era na Quinta Avenida e com certeza ali ela tinha muito mais espaço para si e seu pessoal. Com a ajuda de uma nova amiga, Elena Pacheco, foi muito mais fácil dividir a empresa por departamentos. Cada um dos seus novos empregados cuidaria de um setor e ela poderia ter um pouco mais de tranquilidade. Elena só não aceitou o cargo de diretora financeira porque disse que sua estadia em Nova Iorque não era permanente e que em breve voltaria ao Brasil. Charlotte não acreditava muito nisso. Desde a noite do jantar em que soube que Marco era seu sócio e não Patrick, ela já os tinha visto juntos algumas vezes e o sentimento que ela via entre os dois não era coisa da sua cabeça. Para Charlotte, estava mais do que na cara de que Patrick e Elena eram completamente loucos um pelo outro, mesmo que não mostrassem um ao outro. E era quando se lembrava da forma como eles interagiam, que ela sentia um pouco de inveja, pois gostaria de ter alguém em sua vida que lhe olhasse com Patrick olhava para a sua amiga. — Ok, vou atender. Charlotte apertou um botão e logo uma voz masculina preencheu sua sala, rouca e forte. — Bom dia, Charlotte. Era Marco. De novo. — Achei que tivesse deixado claro que não queria mais saber de você. — ela respondeu fria. — Charlie, por favor, tenho uma coisa muito importante pra te falar, estou tentado entrar em contato com você nas últimas duas semanas, mas você não me atende.


— Então você é realmente um bastardo muito burro. Não sacou a dica? Ela o ouviu praguejar longe do telefone. E sorriu por isso. — Olha, eu sei que me odeia agora, mas... — Adeus, Sr. Villa-Lobos. Charlotte desligou o telefone sem deixá-lo terminar. Em seguida, chamou sua assistente. — Da próxima vez que o Sr. Villa-Lobos me ligar você não vai passar a ligação pra mim, entendeu? Na verdade, eu quero que você saiba exatamente a identidade de quem está me ligando para evitar perdas de tempo. — Sinto muito, Charlotte. Ele disse que era importante e eu... — Tenho certeza que ele disse. Mas faça o que eu estou dizendo, sim? — Com certeza. Não se preocupe. Charlotte a mandou de volta à sua mesa, e para puni-la, a chamou logo em seguida para pedir que lhe trouxesse um Macchiato e alguns Donuts. Em seguida, voltou ao trabalho. *** Marco bateu o telefone com força na mesa. Ele não sabia mais o que fazer. Charlotte tinha lhe bloqueado nas redes sociais. Não atendia suas ligações. Não respondia suas mensagens privadas. E não aceitou nenhum dos seus mimos como ofertas de paz, inclusive um lindo colar da Cartier que lhe foi enviado juntamente com um bilhete especialmente longo, redigido a punho por ele mesmo. Marco não se lembrava da última vez que tinha escrito algo pessoalmente. — Porra. — ele resmungou, jogando os papéis da sua mesa no chão. Como achou pouco, pegou seu copo de conhaque e o arremessou contra a parede do outro lado da sua sala. E foi exatamente com essa cena que Nicole se deparou ao entrar. — Nossa Marc, o que o pobre copo fez a você? — ela ergueu uma sobrancelha. — Deixe-me adivinhar, Charlotte? Ele apenas bufou em resposta, se jogando na sua poltrona em seguida. Nicole soltou uma risadinha, mas parou quando ele lhe lançou um olhar no mínimo mortal. — Desculpa. — ela sorriu, sentando-se em uma cadeira em frente à mesa dele.


— Tudo bem. Eu só... precisava descontar em alguma coisa. — Então por que não liga para o Igor e pede uma sessão especial. Ele me ajudou outro dia. Igor Hernades era seu treinador de MMA e kickboxing. Na verdade, ele atendia toda a família, com exceção da sua irmã Luciana, que praticava com o personal do Roman. Coisa que Marco desconfiava que servisse apenas para deixá-los mais tempo juntos. — Acho que vou marcar algo com ele hoje à noite. — Marco enrugou a testa. — Preciso aliviar toda essa tensão. — Por que não me conta o que aconteceu? Não sou boa de briga, nem psicóloga, mas ainda sou sua melhor amiga. Marco não hesitou. Nicole era de longe a melhor pessoa que ele conhecia e pedir um conselho ou dois a ela era um luxo ao qual a maioria das pessoas não poderia se dar. Então contou tudo. Sobre seu negócio com Patrick, a reação de Charlotte e as descobertas de Eduardo sobre o senador. — Uau. — Nicole assobiou. — Se eu fosse você, chutaria pessoalmente a bunda desse homem. E se eu fosse ela, nunca mais olharia na cara de um pai desses. Credo. — Ela não sabe. Não quer falar comigo desde que descobriu sobre a parceira forçada. — E você pode culpá-la? — Eu sei que não. Mas isso é tão importante... — Marc, eu te amo, você é uma das pessoas mais importantes da minha vida, juro, mas às vezes eu tenho vontade de bater na sua cabeça com um porrete. Porra, ela está coberta de razão. Marco se sentiu com oito anos de novo, quando fazia algo errado e seus pais lhe davam um sermão daqueles... E tal como aquela criança, ele não disse nada, pois sabia que estava errado, e apenas acompanhou as palavras de Nicole com um aceno. — Vai, me conta, quais os seus esforços pra tentar se redimir? — Eu já tentei de tudo. Já liguei, mandei mensagens, mandei flores, mandei joias... Caralho, eu não sei o que fazer. — Lamento dizer, priminho, mas você está no caminho errado. — O quê? — Marco perguntou com descrença.


— Você pode enviar uma floricultura ou uma joalheria inteira pra ela e não vai servir para nada. Não lembra o que te colocou nessa situação? A única coisa que você vai mostrar pra ela é que é um cara de vinte e cinco anos podre de rico e nada mais. E ligar, mandar mensagens? Quantos anos você tem, pelo amor de Deus? Doze? — Não precisa exagerar. — Marco sorriu um pouco envergonhado. — Olha, pode usar todos os meios eletrônicos pra tentar falar com ela, mas vou te aconselhar a usar outra coisa. Um equipamento de alta tecnologia chamado campainha. Vai falar com ela pessoalmente, não fica com a bunda aqui nessa cadeira como se fosse um deficiente físico. Marco passou as mãos pelo rosto, considerando as palavras da prima. Ele sabia que quando precisava de um abraço, ela fazia isso. Quando precisava de palavras de consolo e encorajamento, ela também era a pessoa indicada. Assim como quando precisava de um pé-na-bunda verbal. — Quando foi que ficou tão madura? — ele riu. — Eu sempre fui, Marc. — ela deu-lhe um sorriso enviesado. — Por isso sempre fui melhor que você na escola. E com uma piscadela, Nicole se levantou. Com certeza o primo tinha muita coisa para fazer e ela não deveria incomodá-lo com suas preocupações. — Você já vai? — Marco perguntou quando viu que ela ajeitava a bolsa no ombro. — Pois é, tenho algumas coisas para resolver. — Mas você não veio aqui para nada. Muito menos pra me ouvir falar dos meus problemas. Então por que veio? — Deixa pra lá, eu sei que você está ocupado... — Nicole! — ele a repreendeu. — Vamos lá, você nunca incomoda. E se veio até aqui deve ser importante. — Tudo bem. Eu fui ver o Dr. Culkin hoje de manhã. — Mesmo? — ele sorriu e foi para o lado dela, pois parecia preocupada. — Qual o problema? Ele não pode fazer sua LASIK? — Pode. Na verdade, ele disse que tem uma vaga disponível para daqui a duas semanas. — Isso é bom, Nicole. Qual o problema? Não me diga que ainda está com medo?


— Não da cirurgia. Mas é que... ele me disse que eu precisarei procurar um cardiologista. Você sabe que a minha bisavó teve problemas cardíacos e, pelo que parece, é hereditário. Meu pai herdou, mas Roman está limpo, então... — Relaxa. Você não tem nada. Não tem como um babaca como o Roman não ter problemas com o coração e você sim. Marco sorriu para aliviar a tensão dela, mas Nicole apenas olhou para ele com o rosto preocupado. Ela cresceu com isso, sabendo que mais cedo ou mais tarde, alguém da sua família sofreria da mesma doença que sua bisavó sofreu. Seu pai tinha a doença, mas ela era contida, pois começou seu tratamento muito jovem. Roman nunca apresentou os sintomas e mesmo sendo jovem, Nicole tinha medo de que ou um ou outro acabasse tendo o mesmo problema. Porém, havia três meses que seu irmão fizera os exames e o médico lhe disse que seu coração não poderia estar em melhor estado. O que a deixava na berlinda. — Olha, se quiser eu vou com você. — Não, tudo bem. Vá fazer suas coisas, eu vou ficar numa boa. — Tem certeza? — Tenho. O Dr. Culkin me indicou um cardiologista ótimo. Disse que eu ficarei em ótimas mãos. Passava um pouco das três da tarde quando Marco chegou ao prédio onde Charlotte tinha alugado uma área para a Glitz Fashion Company. Ele achava que ela merecia estar em um lugar melhor, talvez em algum dos seus prédios, mas ficou receoso de se meter nisso e acabar de uma vez por todas com as poucas chances que ainda tinha de se entender com ela. Ele adotou sua melhor postura de homens de negócios e passou pelo hall como se mandasse ali. Pegou um elevador vazio e apertou o botão do décimo quinto andar. Contou exatamente um minuto e meio antes que as portas duplas se abrissem e revelassem um lugar que mostrava moda em toda parte. — Boa tarde, senhorita... Louise. — ele disse, inspecionando o crachá da bela morena à sua frente na recepção. Por sorte a assistente de Charlotte, Fiona, não estava. Ela o reconheceria. — Estou aqui para ver Charlotte McKeena.


— Seu nome, por favor, senhor? Preciso anunciá-lo. — Patrick Matarazzo. — Só um minuto. Marco aguardou apenas vinte segundos, antes de ser concedida passagem para a sala da presidência. Ele sorriu ao ver a escrita CHARLOTTE MCKEENA, CEO na cor rosa na porta de vidro preto fosco. Ao entrar, viu que ela estava de costas, arrumando uma pilha de papéis em um arquivo atrás da sua mesa. Aproveitou para trancar a porta. — Um instante, Patrick, eu já falo com você. Marco manteve-se em silêncio, esperando estar cara a cara com ela para poder falar. Mas ficou completamente sem voz, quando ela se virou e sua expressão mudou ao ver que era ele e não seu amigo. — O que porra você... — Não quero brigar. — Marco disse erguendo as mãos. — Só quero conversar. — Eu não tenho nada pra falar com você. — Então apenas ouça. — É alguma piada? — Charlie... — Não me chame de Charlie. Caramba, ela estava fervendo de raiva. — Tudo bem. Charlotte. Melhorou? — Vai melhorar mais ainda quando você der meia volta e for embora. Só por conveniência, ele sentou-se em uma cadeira em frente à mesa dela e sorriu. Tinha ido até ali para conversar com ela e não sairia sem conseguir. Charlotte estreitou os olhos e foi até a porta. — Boa sorte para abrir a porta sem a chave. Ele não viu, mas ouviu o gritinho frustrado que ela soltou, provavelmente ao sentir que não valeria a pena esmurrar a porta de vidro grosso e à prova de som. Também ouviu o som dos seus saltos andando de volta até ele e parando perto o suficiente para que ele pudesse sentir sua respiração nas suas costas, antes de ela se mover novamente e se jogar na sua cadeira. — Fale de uma vez e vá embora.


— O que tenho pra falar com você é importante demais para ser dito com esse seu estado de humor. — Você é o único responsável pelo meu estado de humor. — ela soltou, ácida. — Eu sei. E não sei mais como tentar me desculpar. — Poupe-me da hipocrisia, Marco. — Charlotte, é realmente importante o que tenho a dizer. Acredite em mim, você vai querer ouvir. E eu não vou desistir até que você me escute. — Fale de uma vez então. — Eu vou, mas não aqui. Você não gostaria de ir... — Você só pode estar brincando se acha que vou com você a qualquer lugar. — Eu posso ir até o seu apartamento. — Não. Não quero você na minha casa. — Tudo bem, então venha ao meu apartamento essa noite. Charlotte ficou calada e Marco achou que estivesse considerando a possibilidade, mas então ela explodiu em uma gargalhada. Uma gargalhada que vinha do fundo da barriga, fazendo sair lágrimas dos seus olhos e seu rosto se contorcer. — Você é um ótimo piadista. — ela disse, secando os olhos. Marco bufou, mas não fez cara feia. Sabia que merecia cada palavra ruim ou descaso por parte de Charlotte. Ele tinha agido como um imbecil com ela. — Olha, eu juro que não é um plano elaborado pra te levar pra cama ou te envergonhar. Droga, eu só quero conversar... — Fale aqui. —... em um lugar tranquilo. — ele terminou, pressionando os lábios numa linha fina. Charlotte colocou a cabeça nas mãos e demorou alguns tensos segundos antes de voltar a falar. — Você não vai mesmo me deixar em paz até que me dizer seja lá o que tem pra dizer, não é? — perguntou com desgosto. — Não. — ele respondeu orgulhoso. — Então nem adianta tentar me fazer desistir. — Tudo bem então. Eu vou ao seu apartamento hoje, mas vai ser jogo rápido, hein. Não tenho tempo pra ficar de papo furado. — Ok. Ás sete? — ele perguntou ansioso.


— Ás sete e meia. — ela sorriu, mostrando quem era que mandava. Exatamente às sete e meia, Charlotte despontava no elevador que levava à cobertura de Marco. Ela esperava todos os cenários possíveis e de certa forma estava preparada para qualquer um deles. Mas definitivamente não estava preparada para o que realmente estava à sua frente. Um Marco usando apenas calça jeans folgada, sem camisa e descalço, com um avental no peito e uma colher de pau na mão lhe recebeu. Meu Deus. — Você é um maldito trapaceiro. — ela passou por ele, colidindo contra seu ombro e jogando sua bolsa nele com força. — Eu não fiz nada. — ele respondeu, pegando a bolsa antes que ela caísse no chão. Em seguida a colocou em um aparador no corredor perto da porta do elevador e seguiu Charlotte apartamento adentro. — Como pode me receber vestido desse jeito? Você sabia exatamente a hora que eu viria, então por que ainda está sem camisa? — Por quê? O fato de eu estar sem camisa incomoda você? — ele sussurrou ao passar perto dela, indo novamente para a cozinha. Ela o seguiu. — Na verdade, sim. — O fato em si ou o que provoca em você? — ele piscou um olho e foi para perto do fogão, terminar de mexer o ensopado de frutos do mar. — Seu... seu... seu... — Com certeza “seu”, Charlotte. — ele não olhou para trás, mas sentiu o olhar dela nas suas costas. — Tem vinho na geladeira ou cerveja, se quiser. Sirva-se. Charlotte não queria admitir, mas a visão das costas de Marco, musculosa e escultural, fez com que ela precisasse mesmo de algo gelado. E não era vinho. Talvez um banho, um banho bem frio. Mas mesmo assim, ela abriu a geladeira e pegou uma garrafa de Stella Artois, se perguntando se ele costumava beber aquilo ou comprara apenas porque sabia que ela estaria ali naquela noite. — O que você está preparando? — perguntou, sem querer parecer mal-educada. Afinal, ele estava cozinhando para ela.


— Ensopado de frutos do mar. Lembro que você gostava. — ele apoiou a colher na panela e se virou. — Acertei no menu? Não havia motivo para negar. Então Charlotte sorriu e fez que sim. Enquanto ela dava um gole na cerveja, Marco se permitiu observá-la. A forma como sua garganta se movia para engolir. A cabeça levemente para trás. Os olhos fechados por causa do álcool. Sem poder controlar, seu corpo reagiu na hora. Seu pau endureceu em um minuto e começou a pressionar o tecido da calça jeans. Porra, ela só pode estar querendo me matar, ele pensou ao vê-la se levantar para jogar a garrafa vazia na lixeira. Charlotte usava um short jeans curtinho preto, uma camiseta branca um pouco cavada demais e sandálias, que mesmo não sendo muito altas, pareciam... perigosas demais para um mulher como ela. Marco deu um passo em sua direção, mas um momento antes de tocá-la, recolheu a mão e pegou uma taça na prateleira ali perto, fingindo que era isso que ele queria o tempo todo. Em seguida encheu de vinho e o bebeu inteiro. E durante todo o processo de cozinhar, Marco suava e respirava quase ofegante. Charlotte pediu para ajudá-lo e parecia estar fazendo de tudo para deixá-lo louco. Tudo o que ele queria era prensá-la contra a geladeira ou colocá-la em cima da ilha da cozinha e transar com ela até perder os sentidos. Mas temia ser isso um jogo dela para testá-lo. Meia hora depois, finalmente o jantar estava pronto. Enquanto Marco tinha cuidado do ensopado e do arroz, Charlotte fez uma salada bem elaborada para acompanhar. — Anda, fala logo o que queria dizer. — Charlotte disse ao sentar no banquinho da ilha. Ela serviu-se e fechou os olhos, apreciando o sabor delicioso da comida que Marco tinha feito. — Primeiro me diz se eu fiz gostoso. Charlotte, é claro, percebeu o duplo sentido na pergunta dele, mas não queria lhe dar o gostinho de rir ou ficar sem graça com isso. — Com certeza é o melhor polvo que eu já comi. — ela gemeu. — Humm, a lula e o camarão também estão ótimos. — Que bom. Sim, ela quer me deixar louco. Onde já se viu gemer desse jeito como se estivesse


trepando? — Então agora, abre o bico. A comida tá boa, mas não é incentivo o bastante para me fazer ficar. — Ok. Só me promete que vai ficar calma e que não vai surtar. — Eu não prometo nada. Fala logo. Marco respirou fundo. Tinha treinado isso várias vezes durante a semana, sempre imaginando que em uma ocasião ela iria falar com ele, mas estava nervoso agora que realmente estava com ela. Quando tomou coragem, começou. Contou sobre James e a investigação que fez para ele. Em seguida sobre a que fez para Eduardo. Contou o que descobriu sobre Ken e ela – dizendo que agora entendia o motivo de ela ter agido daquela forma no dia em que os dois romperam – e por fim contou sobre as descobertas de James sobre seu irmão Robert e a relação dos seus pais na omissão dos motivos reais da morte para a imprensa. A essa altura, Charlotte não conseguia engolir mais nada. A comida de Marco estava deliciosa, mas ela sentia que jogaria tudo para fora. Porra, ela queria gritar. Queria quebrar as coisas e acima de tudo, queria bater em alguém. Marco era a pessoa mais próxima, mas não queria descontar nele sua raiva. Dessa vez, ele não era o alvo. Não era culpado de nada. Seus pais, seus malditos pais, a tinham manipulado por anos, a tinham deixado sofrer uma culpa que sabiam que não era dela. Porra, eles eram seus pais, deveriam ser aqueles que garantiriam sempre a sua felicidade. Mas a verdade é que Judith e Bernard McKeena só se preocupavam com suas carreiras e com suas imagens na mídia. Lágrimas começaram a queimar em seus olhos, mas ela não queria derramá-las. Não queria chorar por causa dos seus pais, eles não mereciam. Mas no fim, não conseguiu aguentar. Colocou o rosto nas mãos e saiu correndo da cozinha. Mas não foi muito longe, Marco logo estava atrás dela, segurando-a pelos ombros e trazendo-a de encontro ao seu peito largo e firme. E quando se alocou ali, Charlotte sentiu uma paz tão grande que gostaria de nunca mais sair daquele lugar. Ele tinha cheiro de sabonete, colônia pós-barba e algo único que era só dele. — Sinto muito, Charlie. Droga, sinto muito.


Marco a embalava de um lado para o outro, sentindo na alma a dor que ela sentia. Como tinha sido idiota ao ponto de, algum dia, achar que ficaria feliz com sua dor? Como achava que sobreviveria a ver Charlotte arruinada e sofrendo? Apenas suas lágrimas quentes agora eram capazes de parecer agulhas enfiadas em seu coração. Ele agradeceu a Deus por ter aberto os olhos a tempo de não fazer uma coisa da qual se arrependeria para sempre e prometeu que a partir daquele momento, faria todo o possível para compensá-la e fazê-la feliz. — Me beija. — era a voz fraca e rouca de Charlotte. Marco piscou e olhou para ela, corada e com os olhos inchados, com a boca a meros centímetros da sua. — Por favor, Marco. Me beija. — Não quero que se arrependa disso amanhã, Charlie. Deus, eu te amo e não aguentaria saber que você me odeia ainda mais por causa disso. — Nem em um milhão de anos eu poderia te odiar. — ela sussurrou. — E agora mesmo preciso que você tire isso de mim. Tire essa dor de mim. Por favor, me faça esquecer. Ao ouvir essas palavras, Marco esmagou a boca dela com a sua. O gosto do seu beijo era salgado pelas lágrimas, mas incrivelmente revigorante. Ele a sentiu criar vida junto ao seu corpo e precisou procurar um apoio quando Charlotte enfiou as unhas no seu couro cabeludo. Ele sentou-se no sofá e Charlotte não perdeu tempo para montá-lo, beijando com fome e desespero. Ela precisava daquilo. Precisava como nunca tinha precisado de nada antes. A calça de Marco, única peça de roupa que ele vestia, pois nem mesmo cueca ele usava, saiu do seu corpo como mágica. As roupas de Charlotte sumiram com a mesma rapidez, e logo, ele estava entrando nela, profundamente, lentamente, deliciosamente. — Oh Deus. — ela gemeu quando ele impulsionou os quadris para cima, chegando ao exato lugar que ela o queria. — Assuma o controle, Charlie. — Marco rosnou, recostando-se no encosto do sofá. — Você me fode. Charlotte apoiou as mãos no peito dele e começou a subir e descer. Descendo sempre com mais força do que antes, sentindo cada centímetro daquele pau, fazendo


Marco sibilar e apertar suas coxas e bunda com força o bastante para deixá-la marcada. Quando sentiu o orgasmo se aproximar, Charlotte colou a boca na dele, entregando seus gemidos a ele e largando-o apenas para gritar seu nome. Marco a seguiu, estocando rápido e forte, esvaziando-se completamente dentro dela. O resto da noite parece ter passado como um borrão sexual. Após o sexo na sala, Marco e Charlotte foram para o banheiro, onde transaram novamente, e em seguida para o quarto, completando uma terceira rodada. Marco adormeceu após o quarto orgasmo, mas Charlotte apenas fingiu. O sexo tinha sido maravilhoso e tudo o que ela mais queria era ficar ali ao lado do seu amante enérgico até de manhã, mas precisava ser a mulher forte e decidida que sabia que era. Então se levantou com cuidado para não acordá-lo, vestiu as roupas e foi embora. Era hora de visitar a casa onde cresceu. Era hora de falar com papai e mamãe.


22

— Desculpe por acordar você, Loretta. — Charlotte disse quando a governanta da casa dos seus pais abriu a porta para que ela entrasse. — Sei que é tarde, ou cedo, dependendo do ponto de vista, mas eu preciso ver meus pais. A mulher sorriu. Ela tinha ouvido a discussão que Charlotte tivera com os pais, onde a garota decretou que nunca mais colocaria os pés nessa casa e que não queria mais ouvir falar deles. Tinha cortado ligações por motivos fortes, supôs a governanta, e se agora estava de volta, algo muito grave deveria ter acontecido. — Não se preocupe, senhorita Charlotte. Estou aqui para isso. Charlotte sorriu de volta para a mulher e entrou. Loretta perguntou se ela precisava de alguma coisa, e quando negou, a governanta voltou aos seus aposentos. Era estranho estar ali novamente, fazia algum tempo que tinha cortado ligações com os pais, mas Charlotte sabia que era necessário um último enfrentamento. Nem que fosse apenas para dizer na cara deles a espécie nojenta de pais que eram. Lá fora, os primeiros tons de laranja começavam a pintar o céu e ela imaginou que logo seu pai acordaria. Acordar depois das seis da manhã era completamente inadmissível para Bernard McKeena. Isso seria bom, pois por mais que sua mãe tivesse tido participação para encobrir a morte do irmão para a imprensa, ela não tinha dúvidas de que fora do seu pai a ideia de mantê-la no escuro. Eles podiam lidar com a morte de Robert do jeito que quisessem com a imprensa, mas deveriam ter lhe contado a verdade. Ele era seu irmão, droga. Com certeza ambos mereciam um pouco mais de consideração. — Minha filha. — Charlotte ouviu a voz espantada do pai atrás dela, minutos depois. — Que prazer... — Economize. — ela o cortou. Então a fachada de bom pai se foi. Bernard fechou a cara, serviu-se do seu habitual


três dedos de puro scotch e sentou em sua poltrona. Charlotte rolou os olhos e riu baixinho. Aquilo poderia muito bem ser chamado de trono, já que apenas ele se sentava ali, achando que era o rei do universo. — O que veio fazer aqui? Achei que tivesse deixado claro quando foi embora que só voltasse quando crescesse. Para pedir desculpas pelos absurdos que disse a mim e à sua mãe. — Eu cresci há muito tempo. Voltei aqui porque queria olhar nos seus olhos quando me dissesse por que você e a mamãe mentiram para mim por tanto tempo sobre a morte do Bob. O homem nem sequer pestanejou. Deu um gole na sua bebida e olhou para a filha com frieza. — Não faço ideia do que está falando. — disse o senador. — Puta que pariu. — Charlotte rosnou. — Vai mesmo dizer que a morte dele foi exatamente como saiu na mídia? Exatamente como vocês me contaram? — Sinceramente, Charlotte, não sei por que você está tão interessada nisso. Faz anos que aconteceu, esqueça. Alguém poderia pensar que o senador estava se referindo a uma viagem ruim, a um empreendimento fracassado ou a qualquer merda superficial que da qual vida dos McKeena era repleta. Mas ele estava se referindo à morte de um filho e Charlotte sentiu enjoo ao ver essa reação do pai. Era difícil acreditar que poucos anos atrás, ela ficava acordada à noite, esperando que ele voltasse para casa apenas para colocá-la na cama e verificar se haviam monstros debaixo dela. Nessa época, ela achava que beijos, abraços e sorrisos eram tudo o que qualquer pessoa poderia querer da vida. — Vocês não tinham o direito. — disse Charlotte com a voz embargada. — Como puderam me enganar desse jeito? Me deixando acreditar que eu era a culpada pelo meu próprio irmão ter morrido. Bernard não falou nada. Bebeu todo o líquido de uma vez no seu copo e ficou encarando o chão, mas não como se sentisse culpado. Sua expressão estava mais para enfadonha. Então ele se levantou e se aproximou da filha. — Eu fiz o que considerei melhor para você.


Aquilo teve o efeito de um chute no estômago. Por um minuto ou dois, Charlotte ficou como se tivesse perdido o ar, juntamente com a capacidade de falar. — Todos esses anos eu sofri com a culpa... — Você precisava de limites. — Bernard levantou a voz pela primeira vez, mostrando sinais de descontrole na postura. — Você era uma garota rebelde e sabe disso. Se eu não tivesse feito isso, você teria desgraçado a sua vida com aquele moleque com quem saía. Por que mesmo eu estou me explicando pra você? — Por que foi com a minha vida que você brincou. — foi a vez dela de gritar. — Você só se importou com seu nome, sua carreira, nunca com o meu futuro ou meu sofrimento. Nunca comigo. — Não diga absurdos, Charlotte. — Bernard desdenhou da filha, fazendo um gesto no ar. Em seguida ficou de costas para ela, claramente dando um ponto final naquela conversa. — Ainda bem que sua mãe está dormindo. Ela ficaria histérica. A raiva se apossou do corpo de Charlotte e transbordou pela sua boca. — Então você poderia dar a ela algumas pílulas e o Martini de costume e tudo ficaria bem no mundo McKeena. — ironizou. O tapa atingiu seu rosto, sem aviso, o som ecoando pelas paredes da casa. Doeu tanto que seus olhos lacrimejaram. Charlotte se encolheu no chão com as mãos na face. E foi com essa cena que Marco se deparou ao entrar na casa. Mais cedo, quando chegou, Charlotte não tinha trancado a porta após Loretta abri-la, então ao chegar agora, Marco não encontrou resistência. — O que está havendo aqui? — ele gritou, correndo para ficar ao lado da sua amada. Ele viu as lágrimas nos olhos dela e se virou furioso para Bernard. — O que fez com ela? — Nada que seja da sua conta, moleque. — o senador rugiu e teria assustado qualquer homem, mas Marco não era qualquer homem e sua amada estava ferida e chorando no chão. — Saia da minha casa antes que eu chame meus homens para tirá-lo à força. E você, — disse olhando para a filha — deixe de ser dramática. Marco agarrou Bernard pelo colarinho e o sacudiu. Estava irado com aquele homem pelo que provavelmente tinha feito à Charlotte, porque é claro, mesmo não tendo visto, sabia perfeitamente que ela tinha sido agredida.


— Eu deveria encher você de porrada, seu grande pedaço de merda. Como pôde bater na sua própria filha? — Me solte agora mesmo. — Bernard disse com veemência. — Você não sabe com quem está lidando. — Marco, por favor. — Charlotte chorou aos seus pés, agarrando sua perna para chamar atenção. — Solte ele. Ele olhou para baixo, dentro dos olhos dela, e viu... medo. Não era normal que uma filha tivesse tanto medo do pai. Por que ela estava daquele jeito? Como se suas mãos estivessem pegando fogo, ele soltou o senador e se ajoelhou ao lado dela para consolála. — Amor, você está bem? — Você é uma vergonha para mim, Charlotte. Deus, onde eu fui errar com você? Vá embora. — Bernard gritou com a filha a plenos pulmões. — Eu não quero ver você nunca mais na minha frente. Suma daqui. — Irei com todo prazer. — Charlotte secou as lágrimas e respondeu ao levantar com a ajuda de Marco. — E você é que é uma vergonha para mim. Sempre foi, seu doente. Bernard levantou o braço para estapeá-la novamente, mas Marco segurou seu braço e deu-lhe um soco forte no nariz, tirando sangue quase que instantaneamente. O senador gemeu, colocando a mão para estancar e olhou com ódio para os dois. — Você não deveria ter feito isso, filho da puta. Você vai se arrepender. — Vamos Marco. — Charlotte pegou-o pelo braço e juntos saíram dali. — Tem certeza de que não precisa de gelo? — Charlotte perguntou a Marco depois de subirem para o seu apartamento no Upper West Side, do outro lado do Central Park, no extremo oposto de onde seus pais moravam, o Upper East Side. — Tenho. — Marco flexionou os dedos um pouco, se encostando mais no sofá. — Está doendo, mas não muito. Você por outro lado... Ele tocou o olho dela, ao seu lado, que mostrava uma pequena mancha roxa. Os tapas do senador sempre deixavam marcas. Aquela desapareceria em alguns dias. — Esquece. Não é nada que um pouco de maquiagem não esconda. — Me corrija se eu estiver errado, mas essa não é a primeira vez que ele te bate,


não é? — Marco perguntou, cauteloso. Charlotte mordeu os lábios, um pouco envergonhada. — Na verdade, não. Depois que Bob morreu, ele ficou violento. Sempre reagia dessa forma quando eu “passava dos limites” por qualquer coisa. — ela respondeu, fazendo aspas no ar. — Eu gostaria de bater nele. — Marco explodiu de raiva. — Queria bater nele até matá-lo. Aquele monte de merda não tinha o direito de fazer isso com você. — Já passou, Marco. É só nunca mais chegarmos perto dele. — ela se aninhou no peito dele e respirou seu cheiro. — Por falar nisso, como sabia que eu estava lá? — Eu acordei e você tinha sumido. Não deixou bilhetes, nem nada. Fiquei nervoso e preocupado, mas daí lembrei da noite maravilhosa que tivemos e sabia que não tinha como eu ter te perdido de novo. — Convencido. — ela deu uma cotovelada de brincadeira na barriga dele. — Na verdade, eu estava falando sobre nosso amor. — Marco riu. — Acho que está mais forte agora do que antes e não tinha como eu permitir que essa história acabasse sem ser com você sendo minha. Charlotte ergue a cabeça e olhou nos olhos de Marco. — É verdade o que eu falei, ouviu? Eu te amo, Charlie. Quero você na minha vida de agora em diante. — Oh, Marco. — ela suspirou. — Ouvir isso me faz... faz tão feliz. — em seguida o beijou com ardor. — Eu te amo. Te amo. O rosto de Marco quase parecia uma caricatura por causa do sorriso de orelha a orelha. — Então por que ainda não está nua? — ele disse, ajeitando-a no sofá para tirar sua roupa. — Espero que tenha uma boa razão para praticamente ter dormido a reunião inteira, Marco. — Eduardo repreendeu o filho, horas mais tarde, depois de uma reunião com a minoria acionária da Villa-Lobos Internacional Holdings, Inc. Marco era CEO da sua própria empresa, mas ainda fazia parte do Conselho da empresa do pai por causa das ações que mantinha.


— Na verdade, eu tenho. Não dormi muito ontem à noite. — ele apertou o botão do elevador. Quando as portas se abriram, os dois entraram. — Mulher? Não quero que esteja com insônia por outro motivo. Eduardo apertou o botão do térreo. — Sim. A melhor de todas elas. Eduardo sorriu. Sabia exatamente a quem o filho se referia. — Então as coisas se resolveram entre vocês ou foi só um momento? — Não foi só um momento. Demorou, mas ela me ouviu. Estamos juntos. — Bom, acho que essa garota ainda vai ter que provar que é boa para você depois do que aprontou, mas fico feliz por vocês estarem bem. Deus sabe que você estava parecendo um mendigo nas últimas duas semanas. Marco soltou uma gargalhada. A falta de resposta de Charlotte em relação às suas tentativas de falar com ela o deixara com um humor péssimo e no dia em que seu pai o visitou, ele não tinha tomado banho havia três dias, não tinha trocado de roupa ou feito a barba e estava meio bêbado. — Para onde você vai agora? — Eduardo perguntou quando saíram do elevador. — Vou me encontrar com o Patrick no St. Regis. Ele disse que tem um assunto importante para me contar. E o senhor? — Sua mãe quer que eu a leve para fazer compras. Por sorte Luciana desgrudou do Roman e vai junto. — Roman também está na cidade? — Marco abriu a porta do hall de entrada e esperou o pai sair primeiro antes de por o pé fora do prédio. — Está. Acho que Nicole também, mas não tenho certeza. — Está sim. Falei com ela ontem. Foi ela quem ajudou com a Charlie. — Estou muito feliz, filho. Espero que as coisas finalmente deem certo. — Vão dar, papai. O motorista de Eduardo abriu a porta do seu Bentley e aguardou que o patrão se despedisse do filho. Mas isso não aconteceu, porque no momento em que Marco abraçou o pai para dar tchau, um motoqueiro todo vestido de preto passou lentamente na rua, por trás do carro, e apontou uma submetralhadora Uzi na direção deles. Eduardo estava de costas, então não o viu, mas Marco arregalou os olhos e se virou,


tomando o lugar do pai. Houve uma sucessão de tiros e então ele caiu no chão, vendo tudo à sua volta escurecer. Eduardo foi atingido de raspão no ombro e no peito, mas seu filho tinha recebido duas balas nas costas. E estava desfalecido nos seus braços. — Trenton, ligue para a polícia. Descreva aquele filho da puta pra eles. — ele disse ao motorista, com lágrimas nos olhos. — Filho, acorde. Marco, é o papai, acorde. Mas Marco não reagiu. Eduardo pediu ajuda a Trenton e juntos o colocaram no carro, seguindo para o hospital mais próximo. Marco mal respirava e seu pulso era fraco. Eduardo nunca sentiu tanto medo na vida.


23


Patrick e Elena

Patrick entrou no St. Regis pouco antes das três da tarde. Tinha um encontro social com seu amigo Marco, precisava contar a alguém, a ele, as coisas recém-descobertas sobre Luís Fernando, o pai de Elena. Ele tinha acabado de almoçar com seu investigador, e saíra do restaurante totalmente abalado. Agora aguardava o amigo, mas não conseguia tirar as palavras do homem da cabeça. — Encontramos o Betão vivendo confortavelmente em Cancun, Sr. Matarazzo. — o investigador disse, satisfeito. — Filho da puta. Com certeza Luís Fernando deve ter lhe pagado uma bela quantia pelos serviços prestados. — Patrick disse com os dentes cerrados de raiva. — E então ele abriu o bico? — Conseguimos ser bastante... persuasivos, senhor. Patrick sorriu. Conhecia a reputação da equipe que tinha contratado para encontrar o homem que botou fogo na sua casa. Encontrá-lo seria o primeiro passo para levar Luís Fernando Pacheco à justiça, logo depois de arruiná-lo. — E então? Ele entregou o chefe? — Sim. Mas receio dizer que o mandante, ou seja, o chefe real dele, não era o Sr. Pacheco. Patrick quase cuspiu o vinho que bebia. — Repita, por favor. — Ele disse que o trabalho para o Sr. Pacheco era apenas uma fachada. Seu chefe era Pedro Alemão. — O dono do morro na época? — Patrick não poderia estar mais surpreso. — Ele mesmo. Segundo o Betão, Pedro Alemão estava planejando um sequestro à filha do Sr. Pacheco há algum tempo, então o infiltrou na equipe dele para obter informações. — Como? — Patrick perguntou, pasmo. Luís Fernando era um homem cuidadoso, não contrataria qualquer um para sua equipe de segurança. Como um traficante poderia


ter conseguido infiltrar um dos seus homens no pessoal dele? — Betão não contou os detalhes, mas disse que Pedro Alemão tinha contatos na PM e foi fácil conseguir uma identidade falsa e credenciais como segurança para ele. — E o que os planos do Alemão têm a ver comigo e minha mãe assassinada? — Betão nos informou que quando o Alemão descobriu que você, morador do morro, namorava Elena, aguardou que você a levasse para lá algum dia, já que facilitaria para sequestrá-la, então mantiveram vigilância constante na sua casa. — Eu nunca levei Elena lá. Patrick sabia o buraco em que morava e mesmo que ela não fosse uma riquinha, que poderia ser assaltada a qualquer momento, não achava seguro levá-la àquele lugar. — Exato. — o investigador continuou. — E quando se deu conta de que ela nunca apareceria, Alemão tentou dissuadir sua mãe a ajudar. O plano era fazer com que ela convencesse você a entregar Elena e em troca, seriam recompensados financeiramente, ganhariam uma bolada. — Minha mãe jamais concordaria com isso. — Patrick disse convicto. — E não concordou mesmo. E foi exatamente por isso que Pedro Alemão mandou que Betão incendiasse sua casa. Era arriscado ela saber daquilo, poderia te contar e você alertar à família da Elena, então... — Então o Luís Fernando ter me visitado na noite do incêndio foi apenas... — Coincidência. — Meu Deus. — Patrick colocou as mãos na cabeça. — Então todos esses anos, eu... Jesus, eu culpei o homem errado. — O Sr. Pacheco com certeza é um grandessíssimo babaca, mas isso não é crime nenhum. — Elena nunca vai me perdoar. Como poderia? Ele havia arruinado a empresa da sua família, quase levado seu pai à falência e humilhado seu nome publicamente. Apenas por vingança... — O que deseja, senhor? — Patrick piscou para o garçom à sua frente, reconhecendo que estava no St. Regis, não mais no Daniel’s. — Hendricks com pepino e limão, por favor. — Sim, senhor.


Patrick olhou a hora no celular e enrugou a testa. Já passava das três e meia e Marco ainda não tinha aparecido. Então fez uma nota mental de lhe dar um belo chute no traseiro por se atrasar. Ele precisava muito falar com o amigo, tinha que se aconselhar sobre como lidar com Elena a partir de agora. Não que Marco fosse um grande exemplo de conselheiro, principalmente no que se tratava de vingança, mas antes ele que ninguém. O garçom voltou com sua bebida e Patrick começou a bebericar, trazendo à tona todas as conversas que teve com Elena desde que falou sobre o incêndio e seu corpo queimado, desde que ela mencionou que nunca deixaria de amar Felipe. Foram tantas as chances de dizer “Eu sou Felipe”, mas ele recuava sempre no momento antes de abrir a boca. E por que não recuaria? Tinha tanto medo de dizer a ela e perdê-la para sempre ao revelar que pretendia deixar seu pai na ruína. Agora que não precisava mais, que sabia que o pecado de Luís Fernando foi apenas ter sido arrogante, ele tinha medo de que ela não pudesse perdoá-lo. Quando deu quatro horas, Patrick desistiu de esperar por Marco. Talvez ele tivesse ficado preso no escritório e não pôde avisar, mas de qualquer forma, mandou uma mensagem malcriada para ele. Porém, antes de entrar em seu carro para voltar para casa, viu uma mensagem de Elena no visor, anunciando algo terrível, algo que lhe abalou profundamente. Ligou para ela imediatamente. — Patrick, onde você está? — ela perguntou logo que atendeu. — É verdade isso? Como ele está? — Patrick perguntou, nervoso e com medo. — Ainda não temos certeza, mas acho que você deveria vir para cá agora mesmo. — Estou à caminho. — ele disse, entrando no carro e saindo em disparada rumo ao Columbia University Medical Center. — Rápido, por favor. Patrick, os médicos não sabem se ele vai resistir. Porra. Marco estava entre a vida e a morte. Seus problemas tinham que esperar.


24

Charlotte tinha acabado de sair do banho quando seu celular tocou. Era um número desconhecido, mas era de Nova Iorque, então ela resolveu atender. — Alô. — disse enquanto secava os cabelos. — Srta. McKeena, é Eduardo Villa-Lobos. O pai de Marco? Mas o que ele poderia querer com ela? — Ahm... olá, Sr. Villa-Lobos. Tudo bem? — ela perguntou, um pouco desconfortável. — Na verdade, não está. — Eduardo respondeu e Charlotte notou o desespero na sua voz, ficando imediatamente alerta. — Marco foi baleado agora a pouco em frente o nosso prédio. Eu... desculpe não ter ligado antes, mas... — Tudo bem, Sr. Villa-Lobos. — Charlotte disse, com lágrimas nos olhos. Papai, ela pensou na mesma hora. — Estou indo para o hospital. — Sim, venha... e... eu... — o homem parecia completamente desconcertado. — Tudo bem, Sr. Villa-Lobos, Marco ficará bem. Nada pode com ele. — Sim, sim. Até daqui a pouco. Assim desligou o celular, Charlotte caiu de joelhos em frente à penteadeira do seu quarto. E chorou. Não tinha dúvidas de que o responsável pelo ataque a Marco tinha sido seu pai. Ela queria ir vê-lo, queria confortar sua família e ajudá-los a passar por esse momento difícil, mas... como conseguiria olhar nos olhos deles sabendo que sua família era responsável por aquele momento de dor? — Por que ele, papai? Por quê? — ela perguntou ao quarto vazio, ainda com o cheiro do seu amado impregnado. Mesmo com as pernas bambas, Charlotte levantou-se do chão e se trocou. Sua preocupação com a família de Marco e sua decepção com o pai podiam ser problemas a serem resolvidos depois, Marco precisava dela ao seu lado. E era exatamente para lá


que ela iria, tomar seu lugar de direito. Camila Villa-Lobos estava em prantos nos braços do marido, cercada pela filha e o restante dos parentes em uma sala de espera no Columbia University Medical Center. A mulher estava completamente desconsolada por seu filho mais velho estar passando nesse momento por uma cirurgia de alto risco devido às duas balas alojadas em seu corpo. — Meu bebê, meu bebê. — ela repetia enquanto era ninada por Eduardo. — Por que fizeram isso com o meu bebê? — Calma, tia. Marco é forte. — Nicole lhe dizia, mesmo que tivesse mais lágrimas nos olhos do que a própria Camila. — Ele vai ficar bem, a senhora vai ver. — Isso, meu amor. — Eduardo concordou, querendo fazer qualquer coisa para tirar a esposa daquele estado de desespero. Ele já tinha tido o seu momento, no carro enquanto o trazia e pouco antes de ligar para Charlotte. Agora precisava ser forte por ele e por todos ali, principalmente sua mulher e filha, que choravam como se Marco já tivesse morrido. Roman tentava consolar a namorada, Denis e Caroline passavam todo apoio que podiam e juntos eles aguardavam notícias dos médicos. A cada vez que os altos falantes chamavam um médico, indicavam uma emergência ou uma enfermeira passava correndo pelo corredor, todos eles ficavam em alerta, esperando e temendo ser algo com Marco. Já fazia um bom tempo que a cirurgia tinha começado e a espera era a pior parte de tudo. Em um dado momento, Charlotte irrompeu pelas portas duplas da sala de espera, com os olhos inchados e os cabelos amontoados em um coque malfeito. Ela parou diante da família de Marco e rezou para que ninguém a mandasse embora. Tecnicamente ela não poderia ficar ali se a família não deixasse e se qualquer um deles tivesse algo contra ela pelo que aconteceu no passado e a mandasse embora, não havia dúvidas de que sua dor chegaria a níveis insuportáveis. — O que você faz aqui? — Camila olhou para ela com olhos acusatórios. — Você não tem motivo para estar aqui. — Querida, Marco não tinha lhe contado ainda porque iria fazer isso com Charlotte


presente, mas eles dois estão juntos novamente. — Eduardo disse, temendo que sua esposa mandasse embora a garota dali. Claro, se Camila quisesse Charlotte longe, ele não ficaria contra ela, mas torcia para que as coisas não chegassem nesse ponto, pois sabia que a menina não tinha culpa de nada e se Marco fora capaz de perdoá-la pelo passado, quem eram eles para não fazer o mesmo? — Senhora Villa-Lobos, — Charlotte falou, com a voz suplicante — por favor, acredite em mim. Eu amo seu filho. Sei que a senhora tem motivos para não gostar de mim, mas... — ela começou a chorar. — Marco sempre foi tudo para mim. — Então como pôde partir seu coração daquele jeito? — Camila desvencilhou-se dos braços do marido e andou em direção a Charlotte, fazendo-a recuar um pouco, engolindo em seco. — Sabe o quanto meu filho sofreu por sua culpa? — Eu... eu... — Como ela poderia se defender pelo que tinha feito? — Marco deixou tudo no passado. — Foi tudo o que conseguiu dizer. — Porque ele é homem, e homens são muito fáceis de agradar. — Camila disse, cheia de insinuação, com os olhos piscando lágrimas. — Mas eu sou mãe e cada noite em que ele chegava bêbado em casa por causa do coração partido era uma noite que eu não dormia, preocupada, e acredite, foram muitas noites. Cada hora extra de trabalho que ele fazia na semana para tentar tirar você da cabeça foi um tempo com meu filho que eu não vou recuperar. Eduardo tocou os ombros de Camila, tentando acalmá-la. — Meu amor... — Não me venha com “meu amor”, Eduardo. Essa menina fez meu filho sofrer como um condenado. Você pode não se lembrar mais, mas eu lembro muito bem. Não quero ter que olhar para ela enquanto espero notícias para saber se meu filho vai viver ou morrer. Camila não precisou falar mais nada, pois no momento seguinte, Charlotte saía às pressas com as mãos no rosto, escondendo as lágrimas e com o coração em pedaços. Ela bateu de frente na porta do hospital com Elena – que tinha recebido uma mensagem de Eduardo Villa-Lobos, e informado Patrick minutos depois sobre o estado do amigo –, e só então parou de correr. Seu estado era lastimável. — Charlotte, o que aconteceu?


Charlotte sequer conseguia dizer. As palavras não saíam pela sua garganta, sua voz estava embargada. — Venha comigo até a cafeteria. Se acalme um pouco. Chegando à cafeteria do hospital, Elena pediu um Macchiato para Charlotte – lembrava-se de ela ter dito que era seu preferido, em uma de suas conversas – e um Capuccino para si. Quando as duas deram alguns goles em suas bebidas e Elena percebeu que Charlotte parecia um pouco mais calma, resolveu tentar saber o que estava acontecendo, além do fato de Marco estar passando por cirurgia, porque é claro que havia mais alguma coisa. — Me conta o que houve, Charlotte. — Elena pediu, segurando as mãos da amiga com força. — Por que estava saindo correndo daqui daquele jeito? — Ela me odeia. — Charlotte respondeu, com a voz fraca. — Quem odeia você? — A Sra. Villa-Lobos. Ela nunca vai me perdoar pelo que fiz com Marco no passado. Elena soltou um suspiro tenso. Não sabia – e nem era da sua conta saber – o que Charlotte tinha feito no tal passado, mas podia ver como a amiga amava o homem que agora lutava pela vida e tinha certeza de que a Sra. Villa-Lobos também via, só que, com certeza, estava apenas nervosa pela situação no geral. Elena tentou dizer isso a Charlotte, mas a garota apenas repetia que Marco estava ali por sua culpa e que a família dele tinha todos os motivos para odiá-la. Se caso o homem que amava chegasse a morrer, ela nunca se perdoaria. — Não tem como ser culpa sua, Charlotte. Provavelmente era algum bandido atrás de grana ou um rival. Homens poderosos tendem a atrair gente ruim querendo sua ruína. — Não foi esse o caso, Elena. Estou te dizendo... Então Charlotte se calou, se dando conta do que deveria fazer para não ser odiada pela família de Marco. E o que era certo, diga-se de passagem. Ela precisava colocar na cadeia o responsável por ele estar ali. Ou seja, seu pai. E sabia exatamente como fazer isso. Elena continuava matraqueando sobre alguma coisa, mas Charlotte a cortou, colocando a mão na boca dela. Precisava falar com Eduardo Villa-Lobos e contar a ele


o que achava sobre o atirador. E o mandante. Pelo menos ele a defendeu, ligou para ela para avisar sobre Marco, então talvez estivesse mesmo do seu lado. Não podia se dar ao luxo de ter o restante da família com ela agora. — Elena, poderia me fazer um favor enorme? — Charlotte perguntou com a voz decidida. — Claro. — Elena respondeu surpresa, ao ver como ela já estava recuperada do seu momento de pânico e desespero. — O que quer? — Pode chamar o Sr. Villa-Lobos aqui? Apenas ele... e talvez o Patrick. Sim, Patrick poderia ajudar, afinal era melhor amigo de Marco. E alguém poderoso. — Tudo bem, vou chamá-los. — Discretamente, por favor. Não quero causar alarde na família. — Certo. Elena saiu rapidamente e foi até a sala de espera onde a família Villa-Lobos estava, falou discretamente com os dois homens com quem Charlotte havia pedido e em poucos minutos, ambos já estavam na cafeteria. — Devo me desculpar por minha esposa, Srta. McKeena. — Eduardo se sentou na cadeira ao lado da de Charlotte, dando-lhe um sorriso de desculpas. — Ela está nervosa e... — Não se preocupe, Sr. Villa-Lobos. — Charlotte sorriu de volta para ele. — Eu entendo perfeitamente. — Olá, Charlotte. — Patrick a cumprimentou, sentando-se também. — Patrick. E Elena? — Ficou lá com minha mulher. — Eduardo informou. — Mas diga-me, por que queria falar conosco? Charlotte se ajeitou na cadeira para que pudesse olhar os dois homens nos olhos – mesmo que para isso tivesse que levantar muito a cabeça. — Posso ajudá-lo a achar o motoqueiro que atirou no Marco e colocar o responsável na cadeia. — E como você pode ajudar? Desculpe-me, não quero ser cético, mas não vejo como você pode ajudar. — Eu sei quem é o responsável por mandar o Marco para o hospital, senhor Villa-


Lobos. — Como? Quem é? — Eduardo fez uma carranca, já se preparando para o que achava que iria ouvir. — Foi meu pai. Depois que o Marco me contou a verdade sobre a morte do meu irmão, eu fui falar com meu pai. Prefiro não entrar em detalhes sobre como a coisa ficou feia, mas Marco apareceu lá. E agrediu o meu pai, não que ele não merecesse. Eduardo sorriu orgulhoso. — Só que ele não deveria ter feito aquilo. — Charlotte balançou a cabeça, triste. — Meu pai, ele... não deixa as coisas impunes. Ele ameaçou o Marco. Não foi uma ameaça nítida, mas conheço o meu pai e sei do que ele é capaz. — Está dizendo que por uma pequena surra, seu pai mandou matar meu filho? — Eduardo levantou a voz, com as narinas abertas, ele parecia um touro bravo. Charlotte piscou algumas lágrimas para fora dos olhos e confirmou. — Porra. — Eduardo gritou, em seguida, tentou se recompor por se dar conta de onde estava. Patrick colocou a mão no seu ombro, dando dois tapinhas tranquilizadores. — Sei que tem seu próprio investigador, mas posso ceder minha equipe se quiser, Eduardo. Pode tentar cavar provas para mandar o senador pra cadeia. — Obrigado, Patrick. Toda ajuda é bem-vinda. — Não é necessário cavar provas. Acredito que tenho tudo o que possamos precisar. Os dois homens olharam para Charlotte, chicoteando a cabeça com violência. — O que quer dizer? — Há muito tempo, quando tinha quinze anos, eu namorava um cara que meus pais não aprovavam. Então pra conseguir sair de casa sem que eles me vissem, pedi a um amigo nerd do colégio que instalasse uma câmera no escritório do meu pai. — E? — Eduardo perguntou, ansioso. — Eu podia contornar minha mãe, mas precisava saber exatamente onde meu pai estava o tempo todo, e ele passava a maior parte do dia ali. A câmera gravava vinte e quatro horas e enviava tudo ao vivo para uma livestream em meu nome, assim quando eu queria sair ou checar se era seguro voltar pra casa, só bastava acessar a conta e eu sabia se meu pai estava no escritório ou não.


— E o que tudo isso tem a ver com meu filho, Srta. Charlotte? — Eu nunca desativei a conta. Na verdade, depois que meu pai me fez terminar com o Marco, quatro anos atrás, eu recebi um e-mail me pedindo para atualizar a senha e foi quando eu vi... uma das piores coisas que meu pai já fez. Até onde eu sei, meu pai nunca fez nenhuma reforma no escritório, então é provável que a câmera ainda esteja lá e ainda esteja filmando. — Isso só seria uma prova se seu pai tivesse encomendado a morte do meu filho no escritório dele. — E é aí que tudo dá certo, porque nenhuma decisão do meu pai, legal ou ilegal, é feita em outro lugar. Se ele encomendou a morte do Marco, com certeza a conversa com os envolvidos foi feita ali. — Espere aí. — Patrick interrompeu. — Como assim você viu uma das piores coisas que seu pai já fez? Charlotte engoliu em seco. Tinha vergonha daquilo. Tinha vergonha de saber que seu pai era o mandante do assassinato de um senador federal. E tinha mais vergonha ainda de nunca ter tido coragem de contatar a polícia e contar seus podres. — Eu... — ela gaguejou. — Charlotte? — Eduardo insistiu, agora muito interessado nisso. Ele queria saber onde estava se metendo, com quem estava lidando, afinal, era a vida do seu filho que estava em jogo. — Era Natal quando eu voltei para casa para as festas. Estava arrasada por causa do término com o Marco por causa dos meus pais, é claro. Então, navegando um pouco para me distrair, recebi esse e-mail. Eu nem lembrava mais que tinha essa conta, então entrei novamente apenas para apagá-la. Ela fechou os olhos com a lembrança. A prova definitiva de que seu pai era muito pior do que pensava. Charlotte tinha crescido ouvindo ligações estranhas na calada da noite e com visitas de homens... assustadores. Por isso temeu quando o senador lhe disse que faria mal a Marco se ela não o obedecesse. Mas o que viu na noite de Natal foi a prova ao vivo e a cores de que Bernard McKeena era um tremendo bandido. — Assim que liguei a livestream, vi meu pai no escritório dele com dois homens. Eles falavam sobre o recém-eleito senador Thomas. Falavam sobre como iriam matá-lo


sem que ele parecesse suspeito. Nossa, aquilo acabou comigo. Eu sempre soube que meu pai era um homem sombrio, com conexões sombrias, mas aquilo... eu não estava preparada para aquilo. Então fiz minhas malas, voltei para Havard e cortei ligações com meus pais. É claro que mesmo assim, ela se certificou de concluir a faculdade, – até porque, na verdade, amava aquilo – e se candidatar a Miss. Não por que devesse alguma coisa a eles, mas por temer que se não o fizesse, Marco acabasse pagando. Porque, é claro que o senador e sua esposa pensariam que a culpa era dele e que provavelmente, estavam se encontrando às escondidas. — Por que não o entregou à polícia, Charlotte? — Eduardo parecia decepcionado, não que Charlotte pudesse ter certeza, mas a cara dele não era nada boa. — Eu tive medo, Sr. Villa-Lobos. Não terminei com Marco porque queria agradar meus pais, terminei com Marco porque meu pai o ameaçou, caso eu não fizesse isso. Eduardo passou as mãos pelo rosto, exasperado. Ele tinha vontade de socar o senador, na verdade, de matá-lo. Seu filho estava em uma mesa cirúrgica agora por causa daquele homem, mas saber que antes mesmo que ele se tornasse um homem maduro, já tinha sido ameaçado também, era a gota d’água. — Sinto muito. Minha família... ela é... — Não se desculpe por sua família, Charlotte. Ninguém escolhe o pai, ou mãe, ou filhos... Você não é culpada pelos erros dele. — É verdade que durante muitos anos, a culpa foi a motivação para seguir o que eles mandavam, mas eu só deixei Marco naquele dia porque não queria que meu pai fizesse algum mal a ele. — Eu entendo. — Eduardo colocou a mão sobre a dela, consolando-a. — O que importa é que agora podemos fazer justiça. Se a história da livestream fosse mesmo verdade – levando em consideração que a câmera não tivesse dado nenhum defeito ao longo dos anos ou que o senador não a tivesse encontrado em algum momento nesse meio tempo –, ele poderia finalmente fazer Bernard McKeena pagar por seus crimes. Com certeza o senador tinha escolhido o filho do homem errado para mexer. — Você pode me dar as informações necessárias para o login na livestream?


— Claro. Eu as tenho salvo no meu e-mail. — Minha empresa tem um ótimo técnico de TI. Pode ser necessário, então se precisar... — Patrick ofereceu a Eduardo. — Obrigado, Patrick. Escutem, eu tenho que voltar pra ficar com Camila, mas se não se incomodam, podem cuidar disso para mim? — Eduardo perguntou aos dois. — Verifiquem com o técnico se a prova existe mesmo e então encaminhem tudo para os investigadores. — Claro, Eduardo. Fique com sua esposa, ela precisa de você. Nós vamos cuidar disso, não é Charlotte? — É claro. — Charlotte sentiu um bolo na garganta. Queria ver Marco, queria estar com ele quando saísse da cirurgia, mas também queria ajudar com a prova contra seu pai. Eduardo se levantou e começou a se encaminhar para o corredor de volta à sala de espera. Mas parou antes de passar pela porta da cafeteria, olhando para Charlotte. — Obrigado por isso, Charlotte. — ele sorriu. — Vou falar com Camila, tenho certeza de que quando ela estiver mais calma, vai reconsiderar suas palavras. — Obrigada, senhor. Por favor, apenas... me avise se ele sair da cirurgia antes de voltarmos. — Aviso sim. Mantenham-me informado sobre os avanços. O técnico de TI da Matarazzo Corporation estava analisando as imagens capturadas pela câmera, que graças a Deus, continuava em gravando em boa performance. Patrick e Charlotte estavam com ele havia mais de uma hora, e por mais que ela estivesse cooperando bastante, sua mente não tinha saído do hospital. Ela só queria saber do homem que amava. — Charlotte? Charlotte? — Hã, o quê? — ela piscou, olhando para Patrick que parecia compreensivelmente divertido. — Ele quer saber se existe quaisquer momentos que possam ser, humm, íntimos nessas filmagens? Sabe, relacionado a você. — Não. — Charlotte respondeu corada. — Eu não costumava visitar o escritório do


meu pai, muito menos para isso. — Então tenho total liberdade para checar todas as imagens? — o técnico arrumou os óculos de armação grossa em cima do nariz. — Claro, fique à vontade. Eduardo tinha instruído Patrick a procurar primeiro a prova que o ligava ao atentado a Marco e, agora que já estavam com a prova separada, apenas sendo trabalhada para melhorar o áudio e a imagem, as ordens eram cavar quaisquer podres sobre o senador. Desde corrupção até – quem sabe – imagens mais antigas que o ligassem à morte do senador Thomas. — Não sei se a livestream guarda arquivos tão antigos. — Charlotte comentou. — Lembro do meu amigo dizer que ela só armazena no máximo três anos. — Nada é realmente apagado no mundo digital, Srta. McKeena. Sempre ficam vestígios e se eu os encontrar, conseguirei o que o Sr. Villa-Lobos quer. — Ótimo. — Patrick comemorou. — Quanto tempo até que essa prova possa ser entregue aos investigadores? — Mais algumas horas e todos os ruídos terão sido retirados. — o técnico disse, orgulhoso, dedilhando o teclado do computador. — A imagem ficará muito mais nítida. Mas recomendo que fiquem com uma cópia do vídeo original, caso queiram comprovar a autenticidade. — Concordo. — Patrick disse e estendeu a mão para o técnico chefe da sua equipe de TI. — Nós temos que voltar para o hospital, mas me mande uma mensagem ou ligue para mim assim que isso estiver pronto, certo? — Sim, senhor. — respondeu o homem, com os olhos pregados no monitor. Patrick e Charlotte deixaram a sede de tecnologia da Matarazzo Corporation e voltaram para o hospital o mais depressa possível. Ela estava receosa de entrar novamente na sala de espera, pois não sabia se Eduardo tinha convencido a esposa a aceitá-la ali, mas decidiu que Marco valia a pena. E se surpreendeu ao ver Camila com a expressão bem melhor do que antes, até mesmo sorrindo para ela quando entrou com Patrick à sua frente. Charlotte se encolheu defensivamente quando a Sra. Villa-Lobos caminhou na sua direção, mas diferente da outra vez, não caiu logo em prantos.


— Srta. Mckeena, acho que lhe devo um pedido de desculpas. — Camila disse, com um sorriso fraco e uma expressão culpada. — Imagina, Sra. Villa-Lobos, eu... — Não. — Camila ergueu uma mão, fazendo-a se calar. — Eu fui uma megera com você mais cedo, mas peço que compreenda, por favor. Eu estava nervosa demais, meu filho estava passando por cirurgia e eu apenas... pfff, queria culpar alguém ou alguma coisa por aquele desespero. Charlotte permaneceu calada, sabia que Camila tinha mais alguma coisa para falar e aguardou que a mulher fizesse isso. — Eduardo me contou o que você fez pelo meu Marco. — Camila agora tinha lágrimas nos olhos. — E não estou falando de hoje, mas de quatro anos atrás. Acho que só posso respeitar a mulher que abriu mão do homem que amava para salvar a vida dele. E saber que você está disposta a colocar na cadeia o próprio pai para fazer justiça pelo meu filho, só me faz respeitar você ainda mais. E por isso, espero que me perdoe pelo que eu disse. Charlotte secou os olhos com um lencinho que tirou da bolsa e sorriu. Talvez Camilla Villa-Lobos ainda ficasse com ela atravessada em sua garganta por um tempo, mas pelo menos agora que as coisas tinham se esclarecido, talvez ela não a odiasse mais. — A senhora não precisa se desculpar. Eu mesma não consegui me perdoar pelo que fiz até Marco fazer isso. Mas tudo o que posso dizer é que ele foi a melhor coisa que já aconteceu na minha vida. Eu amo, sempre amei e amarei até o dia em que eu morrer. — Oh querida. — Camila abriu os braços e instintivamente Charlotte se encaminhou até ela, abraçando-a, sentindo um conforto e carinho de mãe que nunca sentiu com a sua própria. — Será se eu posso vê-lo? — Camila perguntou, enxugando as lágrimas novamente quando se afastou. — Desculpe perguntar assim, mas eu estou ansiosa demais. — Ele saiu da cirurgia há dez minutos. Estamos esperando o médico, mas é claro que quando entrarmos você pode vir também. — Obrigada. Apenas mais alguns minutos depois, o médico chefe da equipe de cirurgia entrou na


sala de espera e Eduardo imediatamente se colocou em alerta. — Como está meu filho, doutor? O restante da filha se levantou em um pulo das cadeiras onde estavam. Charlotte seguiu Camila e ficou ao lado de Eduardo enquanto o médico respirava fundo. — A cirurgia foi um sucesso. Conseguimos extrair o projétil sem maiores dificuldades, então dificilmente ele terá sequelas. Porém houve uma pequena complicação. — Como assim? Que complicação? Como está meu filho? — Camila se desesperou novamente. — Ele entrou em choque logo após a cirurgia, o que ocasionou uma Síndrome da Angústia Respiratória Aguda. Ele está em coma no momento. Houve um murmúrio geral na sala por parte de todos ali presentes. — Coma? — Charlotte levou a mão à boca, aturdida. O rosto de Camila era uma verdadeira máscara de horror. — Quanto tempo ele vai ficar assim? — Eduardo perguntou. — Algumas horas, alguns dias, não posso ser preciso quanto ao tempo. Tudo o que posso dizer é que Marco agora está por conta própria, não podemos fazer nada.


25


Patrick e Elena Depois de dar uma olhada em Marco após ele ser transferido para um quarto, dar força à sua família e dizer que estaria disponível a qualquer hora, Patrick chamou Elena e foi para casa. Durante todo o caminho, ele pensou no que estava fazendo da sua vida. O acontecimento trágico com Marco o fez pensar em como a vida é curta e pior, como ela pode ser encurtada ainda mais por algum motivo fora do seu controle. Elena estava ao seu lado, serena e pacífica, olhando pela janela. Tudo o que Patrick conseguia pensar, é que queria se acertar com ela. Não sabia qual seria sua reação ao saber a verdade sobre ele, mas sabia que ela tinha, pelo menos, o direito de saber. — Ele vai ficar bem. — Elena quebrou o silêncio, ainda focando a estrada. — Não o conheço muito, mas dá pra ver que é um cara durão. — Eu não tenho dúvidas disso. O idiota quase não tira férias, só desse jeito mesmo pra descansar um pouco. — Patrick respondeu, esperando que seu humor negro não fosse inconveniente. Elena sorriu. Felizmente, ela entendia que as palavras de Patrick eram carregadas, além de sarcasmo, muito carinho. — Mas com certeza essa situação nos faz repensar a vida, não acha? — ele jogou, dando-lhe um olhar de soslaio. — Claro. Ele é tão jovem e ao ver o desespero da Charlotte quando o viu inerte naquela cama... — ela fechou os olhos com pesar. — Nossa, dá pra imaginar o que ela estava sentindo. — Se refere ao seu namorado? — Bom, pelo menos no caso dela, ainda há esperança. Patrick mordeu os lábios. Apertou as mãos no volante e a encarou quando parou em um sinal vermelho. — O que você faria, hipoteticamente falando, se descobrisse que ele não morreu? Elena sorriu e levantou os olhos para o teto do carro. — Falando de uma coisa impossível, de forma hipotética, bom... não sei dizer. Na verdade, eu passei muito tempo fantasiando que ele apareceria do nada um dia. Nos


meus pensamentos ou sonhos, ele dizia que tinha conseguido escapar, ou que não estava lá na hora do incêndio... Em todas as ocasiões, eu o enchia de beijos e caía na cama com ele. Elena terminou a última parte com uma grande gargalhada. Patrick sorriu também e voltou ao trânsito quando o sinal abriu. Em poucos minutos, os dois estavam em casa. Ele a acompanhou até seu quarto, mas quando ela estava prestes a fechar a porta após dar boa noite, Patrick, em um surto de desejo e desprovimento de bom senso, talvez, se lançou sobre ela e colou suas bocas. A maior satisfação que sentiu foi ouvir seu gemido contido. Eles não se beijavam mais, não tinham qualquer contato mais íntimo, desde que Patrick confessara seu “acidente” e ela lhe contou sobre Felipe. Mas todos esses dias sem contato com o seu corpo, com o alívio de saber que não amava a filha de um inimigo e a convicção de que Elena ainda o amava, deixaram Patrick em um estado de excitação difícil de controlar. Entre algumas reuniões em que ele pediu que ela lhe acompanhasse, ou jantares informais e eventos durante as últimas duas semanas, Patrick não precisou se preocupar muito com seu tesão, pois fazia o possível para não passar tempo suficiente com ela para ficar tentado a tirar-lhe as roupas. Porém agora, a meros centímetros de distância de Elena, diante do decote do seu vestido de verão e com os pensamentos voltados apenas para ela e nada mais, ele não teve como se controlar. — Meu Deus, eu quero você. — ele disse, entre beijos. — Como eu quero você. — Patrick... — ela sussurrou, sentindo o corpo em chamas. — Eu não deveria, não deveria te querer, mas não consigo evitar. Estar com Patrick a deixava febril. Era um sentimento avassalador que Elena não conseguia entender e não tinha forças para controlar. Ele voltou a beijá-la e sua boca não hesitou, sua língua sequer pediu permissão. Forçando os lábios dela a se separarem, Patrick fez suas línguas dançarem em um ritmo perversamente erótico. Um calor intenso percorreu o corpo dela, enviando ondas de prazer para todos os lugares que precisava. A boca dele era áspera e exigente. Sua língua, ávida pela dela. Os dentes e lábios de Patrick roçavam a garganta e clavícula de Elena, e ela arqueava o corpo, agarrando seus cabelos e empurrando os quadris contra ele com força, gemendo enquanto


pressionava contra sua dureza. — Seu gosto é doce demais. — Patrick murmurou, deslizando a mão até a cintura dela e depois acariciando seu seio. Elena gemeu quando o polegar dele roçou seu mamilo. — Eu quero você fora desse vestido. Agora. — Você primeiro. — uma das mãos de Elena começou a desabotoar os botões da camisa dele, enquanto a outra lutava contra o cinto. Estavam muito entrelaçados para se despir com facilidade, e com impaciência, Elena deslizou os dedos sob a camisa para sentir a pele nua e quente dele. A suavidade da sua pele era um forte contraste com os cumes duros daquele abdômen, e o contato lhe causou um formigamento. Patrick era tão... gostoso. Com um puxão forte, a camisa se rasgou, lançando os botões para todos os lados. Elena encarou o homem com cicatrizes cobertas por tatuagens e mordeu os lábios. Ela queria prová-lo. E fez isso ao por a língua para fora e lamber o corpo de Patrick desde o umbigo – onde terminava a cauda da fênix – até o oco do pescoço – onde começava o pássaro flamejante. Patrick sibilou e pegou-lhe um tufo de cabelo, rosnando, totalmente excitado. Ele reivindicou a boca de Elena com tanta intensidade que ela viu explosões de luz atrás dos olhos. O mundo ao redor dos dois tornou-se um borrão. Nada existia além deles. Patrick e Elena. Suas respirações eram pesadas e as batidas sincronizadas dos seus corações combinavam com a trilha sonora de grunhidos e gemidos. Abastecidos pela luxúria, Patrick tomou o caminho da cama. Desnecessário. As peças de roupa foram caindo no chão a cada passo. Um sapato de Elena tinha ficado perto da porta e o outro, ela chutou para longe com força. No momento em que colidiram com a cama, Patrick vestia apenas jeans e ela estava só de calcinha. Violentamente, ele a jogou na cama e abriu suas pernas para se meter entre elas. Abriu seus joelhos e então suas mãos deslizaram sobre as coxas macias até enganchar um dedo na calcinha de renda rosa que ela usava, despedaçando-a com um puxão firme. — Oh Deus... — Elena gemeu quando Patrick lhe roçou o clitóris com o polegar. Segurando um gemido assustado, ela pressionou o quadril contra seu dedo e deslizou


até a borda da cama para dar-lhe mais acesso. — Mais, por favor. Ele enfiou dois dedos dentro dela e gemeu. — Caralho, você está encharcada. Inclinando a cabeça para trás, Elena gemeu alto, mas Patrick engoliu seus sons com um beijo tórrido, enquanto seus dedos começaram a se mover para dentro e para fora. Primeiro lentamente e tortuosamente, depois com velocidade e intensidade até que ela mordesse seu ombro, pedindo por mais. Patrick empurrou mais forte e as pernas de Elena começaram a tremer. Seus dedos se curvaram em uma deliciosa agonia, enquanto todos os nervos do seu corpo enrolavam em preparação para o alívio que tão severamente desejava. Ondas de prazer lhe bateram quando Elena gozou com um grito gutural. Seu corpo quase flutuou da cama, ficando amassado contra a parede de músculos que era ele. Havia algo... extremamente doce... sobre entrar em colapso nos braços de Patrick. Ele levantou-se e tirou a calça. Em seguida, suspirou e tirou a prótese da perna, colocando-a ao lado da mesa de cabeceira antes de se ajoelhar no colchão entre as pernas ainda aberta de Elena. — Você é linda demais. — ele disse, rolando um preservativo que pegara no bolso da calça antes de tirá-la. Os mamilos dela estavam duros, mas quando ele rolou-os nos dedos hábeis, eles ficaram tensos e apertados. As mãos de Patrick viajaram mais para o sul, deslizando sobre as costelas, como se estivesse memorizando cada osso. Suas pupilas estavam tão dilatadas que Elena enxergou piscinas tempestuosas de luxúria. Todos os movimentos dele eram cuidadosamente calculados e dolorosamente lentos. Ela queria gritar. Implorar que ele acabasse com aquela agonia e a penetrasse, mas desconfiava que isso só o faria ir mais devagar. Elena engoliu em seco quando Patrick finalmente a penetrou, com seu comprimento enterrado até o fundo, sua espessura a esticou tanto que ela teve que morder os lábios com bastante força para não gritar. Quando olhou para o rosto de Patrick, viu que ele estava com olhos fechados, o maxilar tenso e a expressão compenetrada. As mãos dele seguravam seu quadril com tanta força que com certeza teria marcas ali no dia seguinte. — Porra. — ele gemeu, quase desmoronando. Fato que apenas a enlouqueceu.


— Me fode, Patrick. Agora. O que havia com aquele homem que a deixava tão devassa? Normalmente ela não era uma criatura tão desbocada. Esteve com pouquíssimos homens desde Felipe e em nenhuma das vezes, fez algo tão quente quanto o que fez com Patrick essa noite. A última vez que alguém lhe fez sexo oral... bom, foi Felipe. Ela nunca deixava que os caras chegassem a esse ponto, pois era algo que ela considerava íntimo demais, mas quando Patrick abriu suas pernas, tudo o que ela pensou foi que queria sua língua ali mais do que qualquer coisa. O desconcerto de Patrick ao penetrá-la a deixou eufórica. Talvez ele não tivesse muitas mulheres por causa do preconceito das pessoas e por medo de rejeição. Talvez fizesse muito tempo que ele não transava e estava se controlando para não terminar aquilo antes da hora. Talvez estivesse querendo prolongar o momento por causa do que disse antes, que ela tinha seu coração nas mãos... Agora mesmo, tudo que Elena queria era fazê-lo gozar. Uma, duas, três vezes... quantas a noite permitisse. Sem conseguir se controlar, ela forçou-se para cima e o fez virar de costas. Ele piscou, parecendo acordar de um sonho, mas Elena apenas o beijou, montandoo. Sem perder tempo, guiou aquele comprimento duro e latejante até sua abertura novamente, gemendo com a fricção. — Tudo bem. — ela disse depois de tê-lo completamente dentro de sim outra vez. — Pode deixar que eu assumo o comando. Patrick queria dizer que tinha toda capacidade de comandar aquilo, mas seus argumentos perderam o sentido quando ela começou a subir e descer, lentamente. Centímetro por centímetro. Gemido por gemido. — Oh Deus. — a cabeça de Elena caiu para trás e ela praticamente cantarolou seu nome enquanto seus músculos se contraíam em torno dele. Patrick deslizou as mãos sobre a bunda dela antes de estabelecê-las nos quadris, direcionando o ritmo que ambos precisavam, rendendo-se ao controle, adorando a forma como Elena o cavalgava. — Porra, eu te amo, Elena. — ele gemeu, levando as mãos aos seios dela. — Eu te amo demais.


Elena queria dar prazer a ele. E com sua nova confissão, ela queria fazer-lhe perder o controle completamente. E mostrar que sim, por mais que tivesse tentado evitar, também tinha sentimentos fortes por ele. Então pulava para cima e para baixo, primeiro devagar, depois mais rápido, quebrando o ritmo às vezes até que ambos estavam totalmente ofegantes. As pernas dele tremeram, os olhos reviravam e ao sentir que Patrick estava prestes a gozar, Elena deixou-se levar pelo prazer, alcançando o clímax pouco antes dele, sentindo suas estocadas profundas quando ele finalmente se rendeu ao prazer. Acordar com Patrick ao seu lado após uma noite deliciosa de sexo ininterrupto era tudo o que Elena precisava para se sentir energizada para um novo dia. Porém, teve que deixar seu ninho de luxúria para procurar um banheiro. Precisava checar sua aparência, que apesar de ser de uma mulher completamente satisfeita, também deveria estar um caos. Seu corpo doía em todas as partes certas e ela se sentia como se tivesse corrido uma maratona. Durante a segunda rodada da noite, Patrick tomou completamente o controle, colocando-se atrás dela e penetrando-a mais profundamente do que nunca. Elena ainda podia sentir a cadência dos quadris dele contra seu corpo e os sons dos corpos se chocando. Ela estava dolorida, mas extremamente feliz. Com um beijo demorado nos lábios dele, ela se levantou e se encaminhou para a porta que achava ser o banheiro. Mas surpreendeu-se a notar que era qualquer coisa menos o que procurava. Havia fotos enormes dela em todas as paredes. Um grande mural de colagens de reportagens sobre um incêndio no Brasil. E um porta-retratos com uma foto antiga. Uma foto que a fez perder o fôlego. Era Felipe e sua mãe. Elena era uma mulher inteligente e não precisou de mais de dois segundos para entender a situação por completo. O homem com quem ela passou a noite era o mesmo homem por quem ela chorou por dez anos, o mesmo homem por quem ela quis abandonar a vida, o mesmo homem que ela sempre amou. E agora, o homem que partiu seu coração de uma forma da qual ela temeu nunca se


recuperar.


26

Marco foi levado para um quarto com monitoramento especial. Seu quadro não era realmente grave, os médicos haviam dito que quando seu corpo estivesse pronto ele acordaria, mas era bom estar sempre de olho nele para qualquer alteração no quadro. Não era permitido que muitas pessoas ficassem ali por muito tempo, então após cada um dos familiares vê-lo, apenas Camila, sua mãe, pôde passar a noite com ele. Charlotte gostaria de ter tido essa honra, mas entendia que a pobre mulher estava desesperada para ficar perto do filho e além do mais, ela tinha que ajudar Eduardo a pegar seu pai. Por volta das duas da madrugada, os investigadores do Patrick e do próprio Eduardo se comunicaram com ele. Já tinham as provas que precisavam para entregar Bernard à polícia. Não só as que o ligavam ao atentado a Marco, mas também um vídeo recuperado de anos atrás em que o senador tramava com dois mafiosos a morte de Thomas. Sim, mafiosos. James Hardy os identificou na gravação. Eram homens do mafioso procurado pelo FBI, Yohan Jenks, responsável pela entrada da maior parte do carregamento de drogas em Nova Iorque. Em todos os anos em que trabalhou para Eduardo Villa-Lobos, investigando o senador, tentando cavar seus podres, James nunca conseguiu uma ligação clara entre ele e a máfia, mas agora... tinha recebido tudo de bandeja pelas mãos da própria filha do cretino. O material era suficiente para colocar McKeena atrás das grades até a morte, pois além das encomendas das mortes principais que Eduardo havia mandado investigar, havia horas e mais horas de outras tramas, tão sujas e maquiavélicas como tais. Mas uma coisa com a qual tanto James como Eduardo estavam preocupados, é que Charlotte deixasse o lado familiar falar mais alto e que de alguma forma, avisasse ao pai o que estava acontecendo. E, é claro que se Bernard McKeena soubesse que tinha alguém no seu encalço, sumiria no mundo e dificilmente seria encontrado novamente. O


ideal seria esperar alguns dias, criar uma fundamentação bem elaborada antes de comunicar a polícia e entregar as provas que tinham, mas para não dar ao senador nenhuma chance de fuga, Eduardo resolveu agir rápido. E ficou feliz ao saber que Bernard já estava sendo investigado pelo FBI por outros crimes, ligados à assassinato, lavagem de dinheiro e desvio de verbas públicas. Assim, antes do sol nascer de verdade atrás dos prédios de Nova Iorque, uma equipe do FBI já tinha sido formada e invadia a casa do senador, praticamente tirando-o da cama para levá-lo preso. — Eu exijo saber por qual motivo estou sendo levado. — o senador rugiu, enquanto um dos agentes colocava-lhe um par de algemas. — Bernard! Bernard! Por que estão levando meu marido? — Judith McKeena perguntava, atrás da equipe, enrolada em um roupão. O detetive Chase, chefe da equipe, estava com um mandado de prisão expedido pela promotoria em nome do senador e lhe recitava seus direitos. — O senhor tem o direito de permanecer calado. Tudo o que disser será usado contra o senhor em tribunal. O senhor tem direito a um advogado, se não puder pagar por um advogado, o estado resignará um para lhe acompanhar. Bernard McKeena praticamente fuzilava cada um dos agentes com os olhos, sua esposa foi deixada para trás aos prantos, e em poucos minutos, o senador estava a caminho da agência residente em Nova Jersey. Os agentes estavam distribuídos em dois carros, que andavam um atrás do outro durante todo o percurso. Porém, ao chegarem à metade da I-95 S, um Dodge preto muito ameaçador entrou no campo de visão do agente que dirigia o carro em que o senador estava. — Tem alguma coisa errada, senhor. — ele avisou ao detetive. — O que? Por que diz isso? — Tem um carro vindo muito rápido atrás de nós. O detetive olhou para trás e viu o Dodge. Em seguida, olhou para o senador que soltava um risinho de deboche. — O que está acontecendo aqui? — o detetive perguntou com a voz fria. — Chegou seu fim, filho da puta.


Nessa hora, o carro da frente desacelerou, não em uma estratégia contra a possível ameaça vinda de trás, mas para bloquear o caminho do carro em que estavam o detetive, alguns dos seus agentes e o senador. Então em uma manobra arriscada, o carro da frente parou, ficando atravessado na rodovia, forçando o carro de trás a parar também. — Droga. — o motorista quase não conseguiu frear a tempo. — Todos alertas. — o detetive gritou a todos. — É uma emboscada. Os agentes empunharam suas armas, mas na verdade, não tinham muita chance, pois quando o Dodge parou atrás deles, cinco homem encapuzados portando metralhadoras de calibre 40 mm saíram. Os agentes do carro da frente saíram também, mas pareciam estar do lado dos encapuzados do Dodge. Logo, era possível dizer que eles eram falsos agentes. Homens infiltrados. Juntos, eles formaram uma força armada impossível de ser superada pelo detetive e seus homens. Ordens para sair do carro foram dadas pelo que parecia ser o chefe ali, um homem alto com capuz vermelho, e sem ter o que fazer, os agentes saíram, largando as armas e sendo brutalmente assassinados pelo esquadrão de homens armados. O detetive ainda tentou revidar após ser atingido de raspão e rolar para baixo do carro, mas foi inútil. O encapuzado de vermelho disparou uma sucessão de tiros na direção dele, parecendo muito satisfeito em vê-lo morrer. — Tudo bem, senhor? — um dos encapuzados perguntou a Bernard, enquanto ele saía do carro. — Não, nada bem. Essas algemas estão apertadas. — Desculpe, senhor. Vou soltá-lo. — disse o mesmo homem que o tinha algemado em casa, tirando a chave do bolso e libertando suas mãos. — Tínhamos que parecer autênticos até o reforço aparecer. — Por que demoraram tanto, porra? Jenks? Jenks? — Bernard gritou. O encapuzado de vermelho ficou na sua frente e mostrou o rosto. — Livrar sua barra está me saindo caro demais, meu amigo. Perdi o disfarce na agência de Nova Jersey pra poder te livrar da cadeia. — E é exatamente para isso que eu pago você. — É melhor irmos, não podemos chamar atenção aqui.


Eles entraram nos carros e partiram, deixando para trás toda a bagunça. Todos os mortos. — Quer me dizer que merda foi essa que aconteceu? — Bernard estava irritado, tanto que deu um tapa forte na nuca do encapuzado à sua frente no banco do passageiro. — Por acaso eu não pago você pra evitar esse tipo de coisa? Achei que a operação do FBI estivesse empacada. — E estava. — Jenks respondeu. — Mas foi apressada essa madrugada. Eu não posso fazer nada se um dos seus inimigos envia provas para a promotoria. Meus homens infiltrados quase não descobriram a tempo. — O quê? — Bernard gritou. — Como assim provas? Que tipo de provas? — Parece ter sido uma espécie de gravação de vídeo. Uma câmera de segurança pelo que pude apurar. Mostra você falando sobre o ataque ao Villa-Lobos júnior e sobre a trama na morte do senador Thomas, anos atrás. — Não há câmeras de segurança no meu escritório, por motivos óbvios, Jenks, então como isso foi acontecer? — Não sei como conseguiram, mas foi isso que a promotoria relatou ao detetive Chase. Era tudo o que aquele filho da puta precisava pra te prender. Ele recebeu as provas ainda de madrugada e resolveu agir de imediato. Eu tive que ser rápido, mas não deu pra ser tão rápido a ponto de avisar. Tudo o que pude fazer foi arrumar uns homens extras pra acabar com os agentes antes que você fosse realmente preso. Pelo menos eu pude matar aquele rato com minhas próprias mãos. — Como assim inimigo? — Bernard parecia frio agora, calculista. — Você deve saber, afinal não acabou de mandar o filho dele para o hospital? — Um puro jogo de azar. Se seu homem tivesse feito o trabalho direito, ele estaria numa cova, não numa cama. — Acredite, Conner já pagou caro por ter errado aquele tiro. Mas acho que você tem problemas maiores agora. Depois de hoje, você é praticamente um inimigo público. E você deve tudo isso a Eduardo Villa-Lobos e James Hardy. Foram eles quem enviaram todas as provas à promotoria. — Filhos da puta. — Bernard bateu no banco do carro, repetidas vezes. — Eles me pagam. Eu juro que eles pagarão caro.


— Você tem que sumir, Bernard. Eu tenho um helicóptero esperando você em Downtown. — Obrigado, mas eu tenho meu próprio método de sair do país. — Porra. Porra. Porra. — Eduardo urrava de raiva. Havia alguns minutos que James Hardy ligara para ele, contando sobre a malfadada operação do FBI na casa do senador Bernard McKeena. Aparentemente, ele tinha espiões infiltrados na agência e já sabia sobre parte da operação, assim, seus homens conseguiram dar um jeito de livrá-lo da prisão, matando quatro agentes federais e um detetive no processo. Era óbvio que nesse momento ele se preparava para sair do país. E talvez nunca mais voltar. Algo que arrepiava todos os pelos do corpo de Eduardo. — Querido, acalme-se. — Camila pediu, temendo que o marido acabasse tendo um problema de saúde. — Como eu vou me acalmar? Aquele verme colocou meu filho em coma só porque levou uns sopapos. O que acha que ele vai fazer com o resto de nós quando descobrir que fui eu quem o entregou à polícia definitivamente? Isso se ele já não souber. — Marco vai ficar bem. — Sim, vai. Mas eu não quero passar o resto da vida temendo que a qualquer momento ele, você ou a Luciana acabem aqui também ou pior. Por que é claro que McKeena não vai deixar isso pra lá. Ele vai querer se vingar de mim. Um arrepio correu o corpo de Camila. Ela não podia sequer pensar em perder qualquer um dos seus filhos ou seu amado marido. Mas o que eles podiam fazer? Bernard tinha fugido e já tinha mostrado o quão longe iria para evitar a prisão. James tinha dito que não fazia ideia de para onde ele poderia ter ido. Todas as suas propriedades assim como Judith McKeena, estavam sendo vigiadas, mas o senador poderia querer ir embora sozinho. Com certeza ele tinha uma conta bem gorda em algum paraíso fiscal para não se preocupar em levar alguma coisa. — Eu nem sei se prendê-lo seria suficiente, Camila. — Eduardo falou, em um tom mais comedido, porém, um tanto sinistro. — Você viu o tamanho da influência dele? Viu a bagunça que aprontou na interestadual? Ele poderia ser preso e mesmo assim nos


fazer mal. — Amor, não pense assim. E... por favor, não fale assim. Você está me assustando. — Eu não vou deixá-lo fazer mal a vocês. — Ele não vai. — Charlotte, que tinha acabado de ficar sabendo da fuga do pai pelo jornal, apareceu na sala de espera, ouvindo a última parte da conversa dos pais de Marco. Ela estava a caminho hospital quando ouviu no rádio do táxi sobre a prisão e a fuga do senador McKeena naquela manhã. — Charlotte? Desde quando está aqui? — Camila perguntou com a voz trêmula. — Acabei de chegar. Vim rendê-la. Achei que poderia querer descansar um pouco enquanto eu ficava com o Marco. — Oh, querida, que atencioso da sua parte. — E gostaria de vê-lo. — ela sorriu. — Mas com a fuga do meu pai, acho que serei mais útil fora daqui. — Do que está falando? — Eduardo perguntou. — Eu sei onde achá-lo. Ele é meu pai, afinal de contas, sei exatamente para onde está indo. Meia hora depois, Charlotte, Eduardo e James estavam no Porto Newark, mesmo com os insistentes pedidos de Camila pelo contrário. Ela pedira, pelo amor de Deus, que Eduardo não fosse ao encontro do senador. Ela não sabia, na verdade, quais eram as intenções do marido, mas tinha certeza de que nada de bom poderia sair daquele encontro. Mas, aproveitando um momento de distração da esposa com sua filha que lhe ligou na hora exata, Eduardo pegou Charlotte pela mão e ambos saíram apressados do hospital. Em outras circunstâncias, ele jamais agiria de forma tão imprudente – ligando apenas para seu investigador e não para a polícia –, mas era a paz e possivelmente a vida da sua família que estava em jogo. Se ligasse para a polícia, talvez eles o obrigassem a ficar fora do caminho. E ele não poderia deixar Bernard fugir. Não tinha certeza sobre o que faria ao senador quando estivesse cara a cara com ele, mas se precisasse chegar às vias de fato e matá-lo, não queria a polícia como testemunha.


Só que Eduardo tinha se esquecido de uma peça crucial. Charlotte. Na pressa em se livrar da esposa, ele não pensou em como seria ter a filha do seu inimigo ao seu lado. Ele deveria ter perguntado o lugar para onde ela o levaria e dizer que ela deveria ficar no hospital com Camila por motivos de segurança. Ao invés disso, estava agora com ela ao seu lado, na espreita atrás de um grande container, observando Bernard negociar com um homem que parecia ser o capitão de um dos navios ancorados. Ela é filha dele, porra. — Como sabia que ele viria para cá? — James perguntou a Charlotte. — Eu apenas sabia. — ela respondeu, lembrando-se de quando era ingênua a ponto de achar que toda vez que seu pai viajava de navio – navio de carga, mais precisamente – quando ela era criança, era apenas porque ele gostava do mar. A verdade era bem mais feia. Pelo mar, ele tinha menos problemas para ir e vir com suas mercadorias... de origem duvidosa. E agora, facilitaria sua fuga, pois ninguém imaginava que ele fosse meter no meio de um monte de mercadorias em um navio de quinta. Era difícil para ela saber que seu pai era um criminoso de marca maior. Sem ter conseguido dormir muito na noite anterior, ela resolveu assistir alguns vídeos na livestream que tinha repassado a Eduardo e James. E chorou o tempo todo, a coisa nova que descobria. Seu pai era uma decepção. E sua mãe também, pois não tinha dúvida de que ela fosse uma criminosa passiva. — Olhe ali. — Eduardo alertou. — Aquele cara ali vai começar a carregar o navio. Aposto que é agora que o Bernard vai entrar. — Temos que rendê-lo antes disso. — James murmurou, engatilhando sua arma. — Será difícil depois que ele entrar. — Charlotte, James e eu vamos até lá. — Eduardo olhou nos olhos dela. — Fique aqui, tudo bem? Eu preciso que fique segura. Ela apenas concordou com a cabeça, incapaz de falar qualquer coisa. Soltando um suspiro trêmulo, ela observou os dois homens se aproximarem mais de onde estava seu pai. O porto estava calmo do lado em que eles estavam, apenas alguns homens podiam ser vistos conversando e jogando cartas. E mesmo esses, estavam a mais de cem metros


de distância. Charlotte fechou os olhos e virou de costas. Não queria ver aquilo. Mas não significava que não ouvia. O porto estava razoavelmente silencioso, apenas as gaivotas faziam um pouco de barulho, então as vozes de Eduardo e James podiam ser ouvidas, mesmo à distância. Ela não entendia o que diziam, mas ouvia o timbre mal contido do pai de Marco. Então, de repente, houve um silêncio, e depois ela ouviu um tiro ressoar. Charlotte saiu de trás do container e viu a cena. James estava no chão, aparentemente ferido e Eduardo mantinha as mão no alto. O homem com quem Bernard conversava antes, o capitão do navio, estava com uma arma em punho, mirando para a cabeça de James, de costas para ela. O senador andou até ele e pegou sua arma do chão, depois voltou para onde Eduardo estava, na beira do cais, com um misto de raiva e medo nos olhos. Ela quase podia ouvir seus pensamentos. Minha família. Meus filhos. Sem pensar direito no que fazia, Charlotte pegou um pedaço de ferro perto do container e andou cuidadosamente na direção deles. A voz do seu pai ficava mais clara a cada passo. — Você não devia mesmo ter se metido comigo. Se tivesse deixado o assunto Thomas descansar junto com seu corpo, não estaria nessa situação agora. Bernard soltou uma gargalhada. — Adoraria ver sua cara quando meus homens fizerem uma visitinha à Sra. VillaLobos e seus filhos. — Você não... — O quê? — Bernard cortou o protesto de Eduardo, divertindo-se com a situação. — Você tirou tudo de mim ao me entregar à polícia e eu vou tirar tudo de você. Começando pela sua vida. Bem atrás do capitão do navio, que aguardava ordens para finalizar James, Charlotte ergueu a barra de ferro e o acertou bem na nuca com toda força. O homem caiu no chão na mesma hora. Felizmente, seu pai estava ocupado demais para prestar atenção no acontecia atrás de si e não viu quando ela pegou a arma do capitão e andou em sua direção.


— Papai. — ela disse, mirando a arma, com os olhos cheios de lágrimas. Bernard se virou parcialmente, apenas o suficiente para ver Charlotte lhe apontando uma arma e o capitão do seu navio desmaiado no chão logo atrás. — Que porra você faz aqui? — Deixe ele... deixe ele ir. — ela disse, apontando com o queixo para Eduardo. — Sabe o que esse maldito fez a mim? Ao seu pai? — Não foi ele. Fui eu. E não foi nada que o senhor não merecesse. — Você? — os olhos de Bernard brilharam de raiva. — Minha própria filha? — Charlotte, vá embora daqui. — Eduardo ordenou, dando um passo à frente. Bernard viu sua intenção de se jogar em cima dele e atirou, acertando seu ombro. — Não, papai. — Charlotte gritou. — Por favor. Ela destravou a arma e voltou a apontá-la para o pai. — Você não seria capaz. — o homem riu. — Ou seria? Mataria seu próprio pai? — Eu não quero. — ela respondeu, chorando tanto que as lágrimas embaçavam sua visão. — Eu vou matar esse desgraçado e depois eu e você teremos uma conversinha, filha. — Por favor, papai. Por favor, não me obrigue. Mas Bernard não acreditava que sua filha tivesse coragem de disparar uma arma, muito menos contra ele. Então mirou a cabeça de Eduardo e sorriu, saboreando sua vingança. — Vá para o inferno seu filho da puta. — Eduardo cuspiu. — Você primeiro. — o senador respondeu. — Deus me perdoe. — Charlotte rezou, erguendo os olhos para o céu antes de voltar a olhar para as costas do pai. Em seguida ela atirou.


27


Patrick e Elena Elena não conseguia acreditar. Sua respiração falhou enquanto ela tentava absorver o que tinha acabado de descobrir. Como Felipe tinha escapado do incêndio no morro? E por que usava o nome Patrick Matarazzo agora? — Como não liguei os pontos antes? — Elena perguntou-se ao lembrar de tudo o que aquele homem tinha lhe dito. Um incêndio criminoso, não foi isso que ele contou? Como poderia não ter imaginado? Droga, ela nem sequer cogitou. Mas não podia se culpar. Nunca cogitou que Patrick pudesse ser Felipe porque no fundo imaginava que se ele tivesse sobrevivido àquela noite infernal, a teria procurado de imediato. Essa era a imagem que ela tinha do cara que conhecia e amava. Não se passou pela sua cabeça nem por um mísero momento que ele um dia se tornaria um homem tão calculista. Mas onde seu pai entrava nessa história? Por que Patrick fez o que fez com a empresa da sua família? Por que levou seu pai quase à ruína? Ou melhor, por que o odiava tanto? Mesmo que não quisesse se dar conta, seria impossível não supor que era porque, de alguma forma, Patrick achava que seu pai era o responsável por aquilo. A percepção de que talvez tudo o que ele dizia sentir fosse mentira, que sua estadia naquele lugar fosse apenas uma vingança cruel, fez com que Elena perdesse o equilíbrio, tendo que se apoiar em uma mesinha ali. Felipe a amou, ela não duvidava. Mas Patrick... era um homem totalmente diferente. — Eu posso explicar. — disse uma voz vinda da porta. Elena olhou para trás e viu Patrick em pé ali, segurando o batente superior da porta com força. Estava usando a prótese, mas não tinha se dado ao trabalho de por roupas, vestia apenas a cueca de antes. Sua expressão era indecifrável. — Pode explicar por que não está morto como eu achei que estivesse durante dez anos? — sua voz saiu ríspida, furiosa mesmo. — Uma pessoa me tirou do incêndio antes do meu corpo ser totalmente consumido. Ele me trouxe pra cá, onde fiz toda a recuperação. Patrick deu um passo para dentro do quartinho em direção a ela, mas Elena ergueu as


mãos, avisando-o com os olhos que mantivesse distância. — E em nenhum maldito momento você achou que eu merecia saber que você estava vivo? Patrick abaixou os olhos e os fechou com força. Elena não conseguiu segurar as lágrimas. Ela não sabia bem por qual motivo chorava. Com certeza estava magoada e com raiva. Mas existia algo mais além disso. Um tipo de emoção que era um misto de tudo que já tinha sentido. — Não houve um dia que eu não quisesse voltar ao Brasil e te contar. — Patrick respondeu, a voz trêmula. — Mas eu... eu não suportava a ideia de voltar lá e ver... — Ver o quê? — ela incitou. — A pessoa responsável por tudo? Patrick levantou o olhar e Elena não precisou perguntar para ter certeza. A resposta estava em seus olhos. Todos esses anos, ele achara que seu pai tinha sido o responsável. — Meu pai não é um assassino, Patrick. Ele não era a favor do nosso namoro e Deus sabe quantas vezes brigamos por isso, mas ele nunca faria mal a você. Agora ele sabia disso, mas na época... — Ele me visitou na mesma noite do incêndio. Foi lá com alguns seguranças e uma moto para me comprar. Disse pra ficar longe de você e quando me recusei, ele disse que eu estava brincando com fogo. O que queria que eu pensasse quando acordei de madrugada com minha casa em chamas e um dos seguranças dele lá? Elena não tinha resposta para sua pergunta. Não sabia da visita do pai a Felipe. Desde que Luís Fernando descobrira sobre o envolvimento dos dois, ele apenas ameaçava tirá-la da escola e mandá-la para um colégio interno, mas não sabia que seu pai tinha chegado a tentar comprar seu namorado. Mas isso não justificava Patrick ter ido embora depois do incêndio e deixá-la sofrer por tanto tempo. No fundo, sabia que seu lado racional deveria pelo menos tentar entender os motivos dele, mas ela estava magoada de mais para ouvir a razão. — E isso prova tudo? Isso prova que ele foi o culpado? Podem existir dezenas de razões para aquele homem ter ido lá. Você julgou e condenou meu pai sozinho. — Eu queria justiça. — a voz dele aumentou, seu peito subia e descia com rapidez. — Minha mãe morreu naquele inferno e as provas... elas apontavam...


— Que provas Patrick? — Elena gritou. — Você não queria justiça. Você queria vingança. Em toda a sua busca pela verdade, ao menos procurou saber se estava certo antes de destruir um homem inocente? Se você quisesse mesmo justiça, teria lidado com as coisas de outra forma. Patrick não sabia como explicar pra ela que ficara cego depois do incêndio, que tudo o que via na sua frente era sua mãe morrendo e o rosto do homem que ele achava ser culpado. Mas sabia que ela tinha razão em estar triste, magoada e com raiva. Afinal, Luís Fernando acabou sendo inocente e dez anos apenas sentindo ódio foram perdidos. Um tempo que ele não poderia mais recuperar. Elena saiu pisando duro do quartinho, passando por Patrick com uma trombada que quase o derrubou e voltou para o quarto principal, onde começou a recolher suas roupas para vesti-las. Ficar só de lingerie no meio de uma briga nunca era uma boa opção. — Você agiu como um carrasco cruel, sem o menor senso de justiça. Você destruiu a minha família e sequer pensou no que me aconteceria no processo. — ela falou depois de colocar o vestido da noite anterior. Patrick apenas a observava, sentado na cama, ainda de cueca. — Achei que me amasse, mas acho mesmo que o cara me amava morreu naquele barraco. — Elena, não houve um só dia que eu não tenha pensado em você. — Então enquanto você elaborava seu plano de vingança contra meu pai, era em mim que estava pensando? Enquanto tentava destruir a empresa da minha família, era em mim que estava pensando? Havia fogo nos olhos de Elena e por mais que Patrick não pudesse sentir fisicamente o calor que emanavam, teve medo de ser queimado assim como dez anos atrás. Ele entrou em pânico. — Por favor, por favor, por favor, Elena. — ele se ajoelhou aos pés dela. — Tente enxergar meu lado. Olha, eu sei que errei, eu vejo isso agora, mas eu estava destruído. — em seguida, começou a chorar. — Eu estava com medo, envergonhado, cheio de dor... eu não sabia como me guiar. Fechando os olhos com força e virando-se de costas, Elena tentou fugir da dor que transparecia nos olhos de Felipe. Ela riu tristemente e balançou a cabeça. Não sabia se


deveria se referir desse jeito ao homem com ela naquele quarto. Felipe era doce, gentil e nunca, nunca nem em mil anos, a magoaria. Mas Patrick era rude, egoísta, cruel, calculista... Pensar nele como sendo Felipe, mancharia a memória do garoto que ela tanto amou. Porém, talvez, agora ambos fossem a mesma pessoa. — Eu quase tirei minha vida porque não suportava a ideia de viver sem você. Mas você me deixou para trás, abrindo mão do nosso amor tendo como combustível apenas uma vingança. Você escolheu sua vida, Felipe. Você escolheu se vingar a me amar. Agora eu escolho partir a deixar você me magoar mais um segundo que seja. — Eu errei. — Patrick admitiu com um sussurro afogado. — Sei que não mereço seu perdão, mas estou implorando. Por favor, Elena. Por favor, não me deixe. Ela não conseguia olhar para ele. Droga, ela o amava. Sabia que se olhasse em seus olhos, não conseguiria ir embora. Mas precisava ir. Precisava pensar. Precisava se curar. Então apenas caminhou até a porta, deixando para trás um homem arruinado, chorando desconsoladamente. Por quê? Por que não contei quando tive a maldita chance? Patrick pensava. Fazia pouco mais de um mês que Elena estava em sua casa e ele teve várias chances para se abrir. Por que então tinha se deixado levar pelo medo? Se tivesse contado antes, talvez agora ela não estivesse fazendo as malas para ir embora definitivamente da sua vida. Suas lágrimas se misturavam à agua quente que batia nas suas costas enquanto Patrick tomava banho. De repente, ele tinha dezesseis anos de novo. De repente, ele estava se queimando de novo. De repente, estava morrendo de novo. Elena iria embora e não havia forma no mundo de suportar a dor de perdê-la outra vez. Se fosse para abrir mão dela novamente, era preferível tirar a própria vida. Ele não iria desistir. Não iria perdê-la nunca mais. Ele lutaria por ela. Patrick terminou seu banho, fez uma ligação e pegou a pequena caixinha que mantinha guardada desde o dia em que Elena voltou para a sua vida. Elena não quis aceitar a oferta do motorista de Patrick de levá-la ao JFK. Então, a última visão que teria de Nova Iorque, seria o taxista pedindo o pagamento. Isso e os


casais felizes que se despediam com um beijo demorado. De qualquer forma, isso era o que menos importava, pois não tinha como sua dor se ampliar mais. Seu coração estava em pedaços. Parte dela queria que Patrick aparecesse como nos filmes e a impedisse de ir, e parte queria que ele nunca mais voltasse a ficar na sua frente. Era doloroso demais. Ele havia ido embora, depois mentido sobre sua identidade. E apenas isso era suficiente para fazê-la sangrar. Não precisava nem mesmo acrescentar o que ele fizera a seu pai. Por sorte, não foi difícil conseguir uma passagem de última hora para o Brasil. E ao passar para a sala de embarque, os minutos que faltavam para o voo pareceram horas. Ela só queria voltar para casa e pedir conforto à sua mãe. Incrivelmente, ela não era o tipo de pessoa que procurava a mãe por qualquer problema, nunca tinha sido, mas assim como precisou dela quando soube do incêndio na casa de Felipe, precisava agora. Enfim, seu voo foi anunciado e o embarque começou. Mais dez horas e ela estaria em casa, apenas um pouco mais que isso se o trânsito estivesse bom no Rio. Elena sentou em sua poltrona na área econômica – única com vaga de imediato para o voo – e respirou fundo. Ela sabia que indo embora agora, as chances de nunca mais ver Patrick, ou Felipe, eram gigantes. E isso a levou a um pânico momentâneo. A quem ela queria enganar? Amava aquele homem com toda sua alma. O amava como Felipe, e por Deus, tinha aprendido a amá-lo como Patrick. Elena lembrou-se das palavras dele sobre a noite do incêndio. Se fosse ela em seu lugar, teria agido diferente? Lembrava-se de ter ficado quase seis meses sem falar com o pai apenas por saber que ele não aprovava seu namoro com Felipe, nem mesmo depois que ele tinha morrido. Sua mãe lhe deu os pêsames, mas seu pai não mostrou nenhuma emoção. Não foi desagradável, mas também não pareceu triste. Nada. Era como se Felipe nunca tivesse existido. Isso a magoou na época. Seu pai era totalmente indiferente ao homem que ela amava. Por que Felipe não teria o direito de pensar que ele teria mandado matá-lo? Na verdade, qualquer pessoa poderia pensar isso. E talvez, seu pai até mesmo pudesse entrar para lista de suspeitos da polícia se alguém testemunhasse seu encontro com


Felipe naquela noite. Ela sabia que seu pai não faria mal a uma mosca, mesmo que passasse a todos a fachada de durão. Mas isso não significava que outras pessoas não pensassem isso. A desculpa de Felipe para seu ódio e seu desejo de vingança era plausível. Porém, não apagava a dor. Se ele tivesse deixado tudo para lá e a procurado, teriam evitado tanto sofrimento... para ambos. Elena não era cega. Sabia que tinha deixado um homem que a amava para trás. Sabia que ele sofreria por ela. Sabia que tinha sido sempre assim. — Mas que demora. — um homem reclamou ao seu lado. — Já deveríamos estar no ar. — Eu não posso me atrasar. Por que está demorando tanto? Elena tentou ignorar o murmúrio ao seu redor. Voar lhe deixava um pouco nervosa e a última coisa que precisava era pensar em algum problema com o avião. Então, uma voz começou a cantar... Elena se arrepiou. Don't wanna close my eyes. I don't wanna fall asleep. 'Cause I'd miss you, babe And I don't wanna miss a thing. 'Cause even when I dream of you. The sweetest dream will never do. I'd still miss you, babe. And I don't wanna miss a thing Caramba, ele era muito desafinado. Ela riu enquanto a figura surgia por trás da cortina que separava a área econômica da área VIP. Felipe sempre foi um péssimo cantor, mas também sempre foi muito romântico e apesar da desafinação, ninguém cantava I Don’t Want To Miss a Thing como ele. As pessoas que reclamavam do atraso no voo, pareciam fascinadas com o péssimo cantor e o lindo gesto dele para tentar convencer a mulher que amava a não abandonálo. Quando a música terminou, todos aplaudiram. — Eu sou um idiota. — Patrick disse, diante de Elena. — Sou estúpido. E sim, sou egoísta. Sou egoísta demais pra deixar você ir embora mesmo sabendo que era isso o que eu deveria fazer. Então ele se ajoelhou, assim como no quarto. Elena levou a mão à boca.


— Eu sou tudo isso, Elena. Mas sou um idiota, estúpido e egoísta que te ama mais do que qualquer coisa na vida. Nunca vou desistir de você. Por favor, não desista de mim. Casa comigo. Não houve aquele silêncio tenso onde todo mundo espera a resposta da moça pedida em casamento. Não houve porque no momento em que Patrick terminou suas palavras, Elena colou sua boca na dele. — É um sim? — ele perguntou sem fôlego. — Se não acredita, podemos sair daqui, ir para o seu quarto e eu te mostro. As portas foram seladas e o capitão deu ordem para por os cintos de segurança. — Acho que vou ter que acreditar no beijo. — Patrick murmurou junto aos lábios dela. Então se pôs de pé e sentou na cadeira vazia ao seu lado. Elena sequer tinha notado que as cadeiras do seu lado direito e esquerdo estavam vazias, mas não poderia ter ficado mais feliz por isso. Apenas um olhar para Patrick e ela sabia que ele tinha comprado os dois assentos. — Se você planejava fazer isso tudo, — disse ela, olhando de forma travessa para ele — poderia ter feito lá no hall do aeroporto ou mesmo na sala de embarque. Agora estamos a caminho do Brasil. — Que bom. — ele sorriu, em seguida franziu a testa — Tenho muitos assuntos a tratar no Rio. Milhões de desculpas para pedir. Patrick parecia pensativo, distante por um momento, mas em seguida estava de volta. — Preciso bolar um plano para ter a aprovação do seu pai. — Boa sorte com isso. — ela deu um tapinha no peito dele. — Meu Deus, vou ver meu futuro sogro e estou com a imagem totalmente fodida. — Não precisa se preocupar com meu pai. Duvido que sua imagem possa piorar. — Que belo incentivo. Elena sorriu com todos os dentes. Não podia acreditar. Estava voltando para casa com o homem que amava ao seu lado. Estava tudo perfeito. Ele tinha feito tudo perfeito. Na verdade, perfeito até de mais. O avião tinha atrasado de propósito por ele. E o piloto ou os comissários em nenhum momento tentaram pará-lo durante seu showzinho. Oh, oh... — Como você sabia em que voo eu estava? — ela estreitou os olhos para ele.


Mas Patrick não teve nenhum problema em admitir. — A companhia aérea é minha. À propósito, está faltando uma coisa no meu pedido. — ele disse, como se tivesse ouvido os pensamentos dela. Ele chamou a aeromoça e cochichou algo em seu ouvido. Ela sorriu e saiu, voltando poucos minutos depois com um carrinho. Nele havia uma caixinha aberta com um anel de diamantes e uma garrafa de Bollinger Rosé. — Ah, agora sim está tudo perfeito. — disse ele, enchendo uma taça. — Continue fazendo isso, — Elena disse, tirando a taça da mão dele, — e eu até posso ajudar você com o meu pai. Ele sorriu. — A você. O amor da minha vida inteira. — ele ergueu a sua nova taça. — A nós. E ao nosso futuro juntos. — ela respondeu, tocando na taça dele. O futuro prometia ser mais brilhante para os dois. O felizes para sempre estava apenas no início.


28

As semanas que se seguiram não foram nada fáceis para Charlotte. Na primeira, imediatamente após a morte do seu pai sair nos jornais e a causa, ou seja, a própria filha, ela teve que enfrentar sua mãe – que a renegou publicamente, dizendo que nunca a perdoaria por tirar-lhe seu marido, pouco antes de ser presa pelo FBI por corrupção passiva –, a polícia – a quem teve que dar várias explicações e descrever passo a passo o que tinha acontecido no Porto, tendo que provar que agira em legítima defesa – e a imprensa, sendo essa a pior de todas. Depois das notícias se espalharem, ela não podia dar um passo a qualquer lugar sem ser cercada por repórteres de todos os meios de comunicação. A ficha criminal do seu pai foi quase toda revelada e era extremamente extensa. Além disso, ele tinha alguns projetos que acabaram vindo à tona. Sendo um deles, uma grande ação no Harlem e parte do Brooklin que tiraria a moradia de centenas de pessoas, pois incluía demolir alguns prédios antigos, que segundo o senador, apenas ocupava espaço que poderia ser aproveitado em outras coisas. É claro que as famílias que seriam atingidas por tal projeto, não ficaram satisfeitas, e cada vez que Charlotte ia a algum lugar, sempre avistava pessoas com cartazes ofensivos com o nome McKeena. Eles não pareciam se importar com o fato de ela não ter nada a ver com os negócios sujos do pai. O nome da sua família não podia estar em pior situação. Tanto que na segunda semana, a Fashion Week, com a qual ela contava para alavancar sua empresa, veio e se foi, sendo um fracasso doloroso. Os estilistas e lojas não queriam ter seu nome associado a qualquer coisa referente à McKeena, não importava o quanto suas propagandas tentassem desvinculá-la do nome dos pais. Mas o pior de tudo não era nem mesmo seu nome, seus pais, ou sua empresa. O pior de tudo é que depois de três semanas em coma, Marco ainda não tinha acordado. Os médicos estavam ficando um pouco preocupados, pois não imaginavam que fosse


demorar tanto. O quadro de SARA já tinha melhorado, ele respirava sem ajuda de aparelhos invasivos, mas não voltava à consciência. Em uma manhã, após dormir apenas três horas à noite, Charlotte foi ao hospital, render Camila e ficar em seu lugar por um tempo, quando foi cercada por uma porção de repórteres. Era de se esperar que depois de algum tempo, eles fossem largar o osso, mas os urubus pareciam pior que cachorro. — Senhorita McKeena! Senhorita McKeena! Como se sente por ter matado seu pai? — Senhorita McKeena, o FBI revelou que seu pai tinha conexão com fornecedores de drogas vindos da Colômbia e também com o famoso mafioso Yohan Jenks, o que tem a declarar a esse respeito? — Você tinha conhecimento, assim como sua mãe, dos negócios sujos do senador? — É verdade que Marco Villa-Lobos está nesse hospital por culpa do seu pai? — Como se sente em ser uma McKeena nesse momento? Charlotte ficou sem ar diante de tantas perguntas. Os repórteres vieram de todos os lados. Algumas pessoas que estavam do lado de fora, ao ver o alvoroço da mídia, se aproximaram e ao constatarem ser ela o centro das atenções, começaram uma série de protestos. — Eu não consigo respirar. — ela sussurrou. Tinha que sair dali, mas não via nenhuma brecha. Então um braço gigante a puxou pela cintura. Ela olhou para cima e viu Eduardo Villa-Lobos com os olhos fumegantes, direcionados para cada uma das pessoas que a importunavam. — Charlotte não é uma McKenna. — disse ele em alto e bom tom. — Pelo menos não mais. Meu filho e ela se casaram algumas semanas atrás, mas não tiveram a oportunidade de sair em lua de mel antes do terrível atentado a ele. Ela é uma VillaLobos, é da minha família, e ninguém se mete com a minha família. As últimas palavras de Eduardo eram de causar calafrios em qualquer pessoa de bom-senso. Os repórteres piscaram, meio incrédulos, mas em seguida, começaram suas perguntas, agora bem mais amigáveis. Eduardo não se incomodou em responder, mas tentou ser o mais breve possível, notando o desconforto de Charlotte sob sua proteção. — Obrigada. — Charlotte sussurrou, depois de entrarem. Eduardo a levou para a


cafeteria do hospital e pediu um chá para ela. — Não precisa agradecer. Cheguei agora também e vi o movimento. Gostaria de ter chegado antes. — Tudo bem, é só que... nunca foram tantos. — Seu corpo todo tremia. — Sempre eram dois ou três, apenas tirando fotos e especulando através das fotos. Nunca foram tão agressivos. — Eu odeio que tenham feito isso a você. Se você tivesse me deixado fazer alguma coisa... — Era minha família, Sr. Villa-Lobos. Deus, eram meus pais. Eu precisava passar por isso. — Então ela sorriu. — Mas obrigada por dizer que sou da sua família. Foi muito gentil. — É a verdade. — Eu nem sei se Marco vai querer ficar comigo depois que souber que meu pai o colocou ali. — Olha, eu sei que meu filho é meio idiota, à vezes, mas ele deixar você escapar, eu juro que vou castrá-lo. Dei aquelas bolas a ele e posso muito bem cortá-las fora. Charlotte sorriu, sentindo-se muito melhor. Era incrível como apenas algumas semanas com a família de Marco a faziam rir e se sentir melhor do que anos e anos com a sua própria. — Além do mais, se ele não quiser ter você como esposa, terá que ter como irmã. Porque faço questão de adotá-la. Lágrimas se formaram nos olhos dela, mas ela tinha um sorriso feliz no rosto. — Se bem que prefiro tê-la como nora. — Eu também prefiro. Camila estava dormindo na poltrona ao lado da cama de Marco quando Eduardo e Charlotte entraram no quarto. Luciana mexia no celular, sentada no sofá do canto. Eduardo tinha pedido permissão para que mais de uma pessoa ficasse com o filho, afinal, ele tinha várias mulheres preocupadas com seu bem-estar e cada uma delas era relutante na hora de ceder o tempo para a outra. Noite passada tinha sido a vez de Camila e Luciana, essa noite seriam Charlotte e Nicole, que tinham ficado muito amigas


nas últimas semanas. — Parece que alguém precisa de uma cama. — Eduardo murmurou no ouvido da esposa, despertando-a com um pulo. — Por Deus, Eduardo. Quase me mata de susto. — Charlotte está aqui. Por que não vem pra casa um pouco? Nicole deve chegar em pouco tempo e Luciana poderá ir também. — Tudo bem. — Camila levantou-se e se esticou toda, deleitando seu marido. Em seguida, piscou para ele. — Charlotte, querida, se alguma coisa... — Sim, senhora. Eu ligo. Todos os dias Camila pedia a mesma coisa. Que se houvesse mudança, ligasse para ela imediatamente. — Obrigada. — ela beijou o rosto da Charlotte. E viu quando a garota fechou os olhos e pôs a mão na testa, desequilibrando um pouco. — Tudo bem? — Está. Foi uma tontura. — Charlotte sorriu e se sentou. — Outra? — Luciana levantou os olhos do celular. — Aliás, bom dia. — Bom dia. — Charlotte riu. — Mas é sério, eu estou bem. — Você disse a mesma coisa ontem. E em seguida, saiu correndo para o banheiro. — Deve ser porque não estou comendo ou dormindo direito. Camila olhou para Eduardo e ambos sorriram, cúmplices. Quando Nicole chegou, ainda com óculos escuros por causa da cirurgia LASIK que tinha feito na semana anterior, a mulher pediu que Luciana ficasse um pouco mais, pois levariam Charlotte à ala obstétrica. — Eu não acho que eu esteja grávida. — ela disse a Camila, levemente corada, enquanto aguardava que a médica voltasse com o resultado do exame. Mas, pensando bem, era bastante possível. Ela e Marco tinham transado antes de ele ser baleado e devido à ocupação com a mudança da empresa do depósito no Brooklin para o prédio na Quinta Avenida, não seria difícil de acreditar que ela tivesse se esquecido de tomar sua pílula um ou dois dias. — Conheço uma mulher nesse estado. Passei por isso duas vezes, Charlotte. Suas


tonturas e enjoos estão cada vez mais frequentes e são quase sempre na parte da manhã. — Meu Deus, eu vou ser avô. — Eduardo não podia se conter. — Ainda nem temos o resultado. — Charlotte sorriu, incapaz de conter a ansiedade. Ele desdenhou dela com uma mão. — Ah eu não preciso. Eu sinto. Tem um Villa-Lobos aqui dentro. — ele disse, colocando a sua mão grande em cima da barriga dela. — E ele sente mesmo. — Camila concordou. — Também não acreditei quando fiquei grávida de Marco, mas esse bobo soube na hora. Charlotte ficou emocionada com o amor que via nos olhos dos dois. Vinte e cinco anos tinha se passado e eles ainda se amavam como se tivessem se casado ontem. Ela queria isso também. Depois de uma vida esquisita e sem amor, fazer parte da família de Marco era a maior bênção que poderia ter. A médica voltou ao consultório com um enorme sorriso no rosto. Eduardo piscou para as duas mulheres ao seu lado, cheio de si, como dono da razão. — Vou mandar prepararem o enxoval. — ele disse, com um sorriso gigante. — Agora só resta saber a cor. Nicole e Luciana não paravam de tagarelar quando os três voltaram ao quarto com a novidade. Charlotte parecia uma boneca nas mãos de todas elas e principalmente de Eduardo. — Já que o senhor ficou tão alegre com a gravidez da Charlotte, essa seria uma boa hora para contar sobre a minha? — Luciana perguntou. Eduardo sorria muito e seu rosto congelou quando a filha perguntou isso. — O que disse? — ele se virou para a filha com o rosto branco de pavor. — Filha? — Camila imitava o marido. Então Luciana gargalhou, rindo tão alto que qualquer pessoa poderia do lado de fora do quarto poderia ouvir. Camila relaxou, provavelmente a filha estava apenas brincando, mas Eduardo estava tenso e suave frio. — Calma, papai, não tenha um infarto, tá bem. Era só uma brincadeirinha. — ela se levantou do sofá e beijou a bochecha do pai, que após alguns minutos, conseguiu respirar com mais tranquilidade.


Camila revirou os olhos. — Você é tão hipócrita. Me lembro de querer que eu engravidasse de propósito pra me forçar a subir no altar. — Sim, eu podia fazer isso. Aquele moleque não tem permissão. Se ele engravidar minha filha antes de casar com ela, eu vou literalmente cortar a bolas dele, fazer um colar e usar no meu pescoço. — Obrigada pela visão desnecessária das bolas do meu irmão, tio. — Nicole disse, fazendo careta. — Então é melhor eu não cometer o mesmo descuido da Charlie aqui, pois gosto muito do lugar onde as bolas dele estão. Eduardo deu um olhar severo à filha, que apenas sorriu em resposta. — Na verdade, acho que vou ter uma conversinha de homem pra homem com esse garoto. — Quer minha ajuda? — disse uma voz fraca e rouca. Os olhos de todos se voltaram para Marco. Ele estava com os olhos abertos e fazia certa força para tentar se sentar. — Meu Deus, Marco. — Camila levou as mãos à boca, tentando – e falhando miseravelmente – conter o choro. — Meu bebê. Ela se sentou com cuidado na beira da cama e abraçou Marco, deixando transbordar toda a angústia que sentira nas últimas semanas e o alívio de ouvir sua voz novamente. Eduardo e as garotas cercaram a cama. Charlotte chorava desesperadamente, segurando uma das mãos dele, enquanto Camila segurava a outra. Marco sorriu para ela e fez um gesto para que se aproximasse. Quando Charlotte se deitou ao seu lado, tomando cuidado com a IV em sua mão, pôde ouvir seu coração bater forte. — Então eu vou ser papai? — a voz de Marco era fraca, mas agora de emoção. — Você ouviu? — ela perguntou, com a voz embargada de lágrimas. — Era impossível não ouvir. Vocês estavam gritando. Todos riram. Charlotte o olhou nos olhos, beijou seus lábios demoradamente e então confirmou com um aceno de cabeça. — Sim, Marco. Você vai ser papai. — Oh meu Deus. — ele começou a chorar, parando um pouco por conta dores que


sentia nos lugares onde tinha sido atingido pelos tiros, mas manteve as lágrimas saindo dos seus olhos. — Parabéns, filho. — Eduardo disse, emocionado. — E bem-vindo de volta. A semana foi cheia. Marco passou por uma série de exames antes de ser liberado do hospital. Charlotte também teve algumas consultas, todas para saber sobre o bebê. A mesma ginecologista que cuidou de Camila durante suas duas gestações também cuidaria de Charlotte. E nesse exato momento, enquanto ela falava com a boa médica sobre os cuidados pré-natais que precisaria tomar, Marco estava na sede da sua empresa, em uma reunião com os conselheiros. Todos estavam felizes por ele ter finalmente acordado e por já ter voltado ao trabalho. Ele também havia chamado seu pai para ouvir o que ele tinha a dizer. Depois que Eduardo anunciou que ele tinha se casado com Charlotte em segredo, a mídia e a sociedade num geral estavam curiosos sobre os detalhes da cerimônia. Marco não queria que isso fosse uma mentira, então a primeira coisa que fez ao sair do hospital foi pedir-lhe em casamento de verdade. A cerimônia ficou marcada para a semana seguinte. Agora, faltavam dois dias e ele estava resolvendo as coisas para uma lua de mel longa e proveitosa. Seus conselheiros não ficaram chocados quando ele disse que se afastaria da empresa por no mínimo três meses, mais ainda, fizeram questão de pedir um herdeiro para seu império. Nessa hora, Marco e seu pai trocaram um olhar cúmplice, mantendo o segredo que guardariam até não ser mais possível. Charlotte apareceu na empresa com Camila e Luciana à tiracolo. Agora que sabiam que ela estava grávida, ambas não lhe davam sossego nem um minuto. Não que Charlotte reclamasse, teve mais atenção em algumas semanas do que a vida inteira. Mas às vezes... — Só acho que eu poderia ter vindo sozinha, afinal depois daqui, Marco e eu vamos ver o reverendo e só. Não temos planos para sair. — Charlotte disse quando subiram o elevador. — Olhem só, não é tão longe. A Nicole nem quis vir. Nicole era outra que não desgrudava dela, exceto quando tinha coisas mais... interessantes a fazer com um certo médico loiro.


— Isso porque ficar com o Ken é bem melhor hoje, já que ele só tem plantão amanhã, os dois têm que aproveitar. — Luciana disse, fuçando o celular, com certeza verificando se Roman tinha lhe mandado algo. Os dois pareciam adolescentes. — Eu vim porque não vou tirar os olhos de você e nem adianta pedir o contrário. — Camila falou com descaramento. — É meu netinho que você carrega aqui, mocinha, então se prepare para ser mimada. Charlotte apenas sorriu e balançou a cabeça. Olhou no relógio e murmurou baixinho. Eles se atrasariam para a reunião com o reverendo. Ela tinha que apressar seu noivo, pois apesar de ser um casamento praticamente às pressas, e pequeno, contando apenas com a família de Marco e alguns amigos, Charlotte não queria que nada desse errado. Queria o casamento perfeito. As três chegaram à sala de reuniões e avisaram à secretária de Marco que estavam ali. Ela imediatamente repassou a informação a ele, que chamou Charlotte para um escritório anexo. — Aconteceu alguma coisa? Você está bem? — ele perguntou preocupado. — Estou bem. — ela pôs a mão na barriga instintivamente. — Nós estamos. — Que bom. — Marco suspirou aliviado. — Fiquei assustado. Você nunca veio aqui. — Vim te apressar, não vou mentir. Temos que ir falar com o reverendo sobre nossos votos e o ensaio hoje à noite. — Eu sei, meus votos estão prontos. Ela estreitou os olhos e sorriu em seguida. — Que bom, odiaria te dar um pé na bunda por não ter escrito ainda. Marco soltou uma gargalhada e a abraçou, beijando sua testa. — Ainda falta muito lá dentro? — ela perguntou, apontando com o queixo para a porta atrás dos dois, onde os conselheiros estavam. — Não, já estávamos terminando. Estava contando o motivo de eu ficar tanto tempo afastado depois do casamento. — Huum, e qual seria? — Bom, eu quero uma lua de mel bem longa. Quero que me leve para conhecer o mundo.


Charlotte sorriu, dando um tapinha no ombro dele. — Você já não conhece o mundo inteiro? — Que nada. Meu mundo era totalmente diferente sem você na minha vida. Eu quero conhecê-lo direito a partir de agora. Charlotte se derreteu, e mordendo os lábios, sussurrou perto do seu ouvido. — Sabe, quando você diz coisas como essa, a garota malvada em mim fica com vontade de fazer coisas perversas com você. O sorriso de Marco foi tão malicioso que Charlotte corou um pouco. — E por acaso a garota malvada em você está usando calcinha agora? Hum? Os lábios dele escovaram os dela e sua língua saiu para prová-lo. — Por coincidência, ela se esqueceu de colocar hoje de manhã quando saiu. — Sabe, eu adoro a garota malvada que há em você. — Marco disse, segurando as coxas de Charlotte e a erguendo para colocá-la na mesa. — E acho que ela vai gostar do que eu vou fazer agora... — Marco. — era a voz de Eduardo pelo alto falante da sala. — Ouviu isso? — Charlotte perguntou, pulando da mesa e arrumando o vestido. Marco gemeu. — Marco, a sua lapela... não me diga que se esqueceu de desligar o microfone antes de vir falar comigo? Ele sorriu, culpado. — Foi exatamente isso que aconteceu, querida. — a voz de Eduardo soou novamente pelo alto falante. — Por que vocês dois não saem? Quando voltaram para a sala de reuniões, Marco tinha um sorriso presunçoso no rosto, Charlotte sorria envergonhada. Eduardo tinha um sorriso orgulhoso e Camila um de quem sabia das coisas. — Meu Deus, eu quero morrer. — Charlotte murmurou. — Ah, meu amor se você soubesse... — Camila murmurou, olhando de relance para o marido. Ele lhe deu uma piscadela. Os homens do conselho arrumavam os papéis em suas pastas, fingindo não terem ouvido nada, mas o mais velho deles, um homem que havia trabalhado para Eduardo antes de ir trabalhar para Marco, parou na porta antes de sair e deu dois tapinhas nas costas de Marco.


— Conhece aquele ditado? Filho de peixe, peixinho Ê. O homem olhou para Eduardo, que continha o riso, e para Marco, que estava sabiamente calado, em seguida foi embora.


EpĂ­logo


Cinco anos depois Marco entrou em casa com um enorme sorriso no rosto. Essa noite, ele e Charlotte comemoravam cinco anos de casamento abençoado com filhos e muito amor. Parecia que a cada dia que passava, ele amava mais a esposa e o contrário também era verdadeiro. Charlotte tinha ficado ainda mais linda com o avançar da idade e mesmo depois de duas gestações, uma de gêmeas, ela ainda era considerada uma das mulheres mais bonitas do mundo, perdendo o páreo para a cunhada Luciana, que tinha alavancado na carreira de modelo internacional. Marco estacionou o carro na garagem e no momento em que abriu a porta, duas meninas loirinhas, com rostos idênticos correram em sua direção. — Papa! Papa! Papa! — Beatriz e Juliana gritaram alegremente. Tinham apenas três anos de idade, mas seus pulmões pareciam maiores do que eram. — Olá anjos da minha vida. Eu senti saudade das minhas princesinhas. — Marco beijou profundamente cada uma delas, fazendo-as rirem. — Papa, você tá me fazendo cócega. — disse Beatriz, empurrando os lábios de Marco para longe dela. — Papai, a Beatiz quebô o baço da minha Bábi! — Juliana disse, abraçando Marco. — Eu não quebei. Foi o Tistian. — Beatriz negou tão veementemente quanto uma garotinha poderia fazer. — O que?! Eu ouvi meu nome de novo. — Um menino de cabelos escuros, com cinco anos, apareceu. Ele estava horrivelmente sujo, com as mãos e as pernas totalmente enlameadas. Um cãozinho branco, mas sujo também, estava atrás dele. Marco levantou as sobrancelhas. — Por que está tão porquinho assim, carinha? Onde esteve? — Fazendo uma casa para Shaggy. — Christian respondeu, apontando o cão. Marco levantou-se e andou até seu filho. Ele sorriu e beijou seu rosto. — Vamos lá, você precisa de um banho. — Papa, ele quebô o baço da minha Bábi. — Juliana puxou as calças Marco, tentando chamar a atenção do pai. — Meu anjo, eu vou comprar uma dúzia inteirinha pra você, tá bem? — Marco


prometeu, pegando Juliana nos braços. — Pa mim também, papa. — Beatriz fez a mesma coisa que a irmãzinha, tentando ter a atenção do pai para si. — Claro meu amor, vamos lá. — Marco pegou a outra menina no outro braço e gemeu. — Oh Deus, vocês estão ficando pesadas. — Ele riu. — E você, rapazinho, siga-me. — Ele disse a Christian. Charlotte estava na cozinha, fazendo um jantar especial para comemorar o aniversário de casamento. Ela não costumava cozinhar, mas, às vezes, nos fins de semana, ou quando era uma data especial, ela pedia que a empregada a deixasse à vontade. — Meu amor, eu já cheguei. — Marco gritou, levando as meninas. — Eu sei, eu ouvi o carro, querido. — Charlotte gritou de volta e foi correndo para Marco. Ela o abraçou, em seguida, o beijou profundamente. — Feliz quinto aniversário de casamento, meu amor. — disse Marco. — Pra você também. — disse Charlotte entre beijos. — Vamos lá, querida, vamos para... você sabe... — Marco moveu a palavra “quarto” nos lábios, silenciosamente. — Pa onde? — Perguntou Beatriz. — Papa, eu vou com você. — Juliana disse com firmeza. — Espere por mim! Vou tomar um banho primeiro! — Christian gritou. Marco revirou os olhos. — Eu já disse que deveríamos ter uma babá. Assim, nós poderíamos... — ele sorriu, mexendo as sobrancelhas. — Já disse que não. Não vou abrir mão de cuidar deles apenas para... você sabe pra quê... Marco riu. Em seguida, beijou a esposa novamente. Mais profundamente que antes. — Ecaaa! — Beatriz e Juliana disseram juntas. Marco e Charlotte apenas riram das suas filhas. Mais tarde naquela noite, Marco estava deitado na cama. O jantar que ela tinha preparado estava uma delícia, mas ele estava ansioso mesmo era para estar no quarto


com ela. Charlotte dissera que tinha comprado uma lingerie especial e o deixaria louco a noite a toda. Mas por que estava demorando tanto no banheiro? Então as luzes foram desligadas e somente o abajur da mesinha de cabeceira ficou aceso. Charlotte saiu do banheiro e Marco ficou chocado quando a viu vestida de coelhinha da playboy. — Porra, Charlie... Seus olhos se acenderam com desejo desenfreado. Ela estava linda, sexy e gostosa demais vestida com aquela pequeniníssima fantasia. — Se lembra da festa da playboy que eu te falei que participei logo que ganhei o título de Miss? — Lembro, mas você não falou dos acessórios... — E aí? O que acha? — ela perguntou, andando até ele bem devagar. — Acho que se demorar um pouco mais para eu entrar em você, terei um espasmo muscular na região da cintura e mais para baixo. Charlotte mordeu os lábios e caminhou lentamente até a cama. Quando chegou lá, subiu devagar e engatinhou sobre os lençóis, montando Marco e beijando seus lábios furiosamente. Ele não era o único excitado ali. — Nossa, Charlie, você é gostosa demais. — Marco gemeu quando ela mordeu seu pescoço, lambendo em seguida. Ele segurou a bunda dela com força e passou as mãos pelas suas costas, trazendo-a ainda mais para cima do seu peito. — Quero que você faça o que quiser comigo hoje à noite. — Charlotte disse, passando as mãos pelo peito esculpido do marido, se esfregando nele como se sua vida dependesse disso. — Eu quero que você... — Mama, eu não consigo dumí. Eu tô com medo. — Juliana gritou. Charlotte imediatamente saltou do colo de Marco e se cobriu com o cobertor. Oh meu Deus, ele tinha esquecido de trancar a porta novamente. Oh droga, eles estavam tão entretidos no corpo um do outro que nem ouviram a porta se abrir. Marco ficou chocado também. Inferno! Ele olhou para Charlotte, com um pedido de desculpas. Ambos estavam excitados e loucos de desejo, mas os filhos vinham primeiro. — Papa, eu posso dumí aqui no seu quarto? Tô com medo. — Juliana perguntou,


quase chorando. Marco suspirou. — Claro, meu anjo. Venha aqui. — Marco abraçou a filha e colocou-a entre ele e Charlotte. — Mama, por que você está com olhelhas de tuelho na cama? Posso usar também? — É claro. Mamãe compra para você amanhã, está bem. — Charlotte tirou as orelhas da fantasia e as colocou na mesinha de cabeceira. Aquelas eram dela. — Vá dormir agora, meu amor. Marco e Charlotte esperaram que Juliana dormisse, eles fizeram sinais, apontando para o banheiro. Não seria o sexo quente que planejaram, mas era melhor do que passar a noite toda frustrados. Só que então, a porta se abriu de novo. Beatriz entrou chorando também e pediu pra dormir na cama deles. Marco olhou para Charlotte. Ela apenas sorriu e moveu a boca: “Amanhã de manhã”.


EpĂ­logo Extra


Dezesseis anos depois Felipe a viu no momento em que entrou na sua casa em Nova Iorque e ficou sorridente na hora, pois teria um momento a sós com sua princesinha. Depois que tinham crescido, seus filhos quase não tinham mais tempo para o velho pai. Nada que ele não entendesse, agora tanto Eric como Carla tinham sua própria vida. Carla estava sozinha no pátio em uma cadeira de vime almofadada. Seu cabelo castanho escuro ondulado cobria seu rosto e ela tinha os olhos fixos nas mãos, parecendo perdida no seu mundinho. Estava tão distraída que sequer notara a presença do pai. Ele lentamente subiu os degraus que levam à porta principal e virou-se para o pátio. Ao chegar perto, Felipe notou que que Carla estava chorando e segurando um lenço. Seu cérebro ficou alerta, esperando que alguma coisa tivesse acontecido. — Carla? Qual é o problema? — Ele disse e rapidamente se ajoelhou ao pés da filha de catorze anos. — Por que está chorando, princesa? — Pai... — Carla chorou tanto e o abraçou com tanta força que Felipe temeu o pior. Alguém tinha morrido ou sofrido um acidente? — O que aconteceu? Onde está sua mãe? Alguma coisa aconteceu com Eric? — Felipe levantou-se, atordoado. — Elena! Eric! — ele gritou com todo o ar dos pulmões. — Pai! Nada aconteceu com eles. Por que está pirando? — Ela parou de chorar e franziu a testa para ele. Felipe se acalmou um pouco, mas ficou confuso. — Então por que você está chorando? — Por causa do Eric. — O que aconteceu com Eric? — seu coração bateu rápido, mais uma vez. — Ele bateu no Christian. Deixou o nariz dele sangrando. — e então a garota estava chorando de novo. — Papai mande o Eric cuidar da própria vida. Eu não sou mais um bebê. Agora o Christian vai ficar com raiva de mim. — Shh... me conte essa história direito, princesa. Por que o Eric bateu no Christian? Felipe não podia acreditar que o seu filho de dezesseis anos tinha agredido um amigo de infância. Eles brigavam às vezes como qualquer adolescente, mas nunca


tinham se agredido. Felipe conhecia o filho e sabia que ele jamais agrediria alguém sem ser provocado, então alguma coisa grave devia ter acontecido para incitá-lo a fazer isso. — Ele... ele viu Christian e eu... ahm... — Viu Christian e você, o quê, princesa? — Felipe ficou de orelha em pé. Então os dois ouviram a voz de Eric atrás deles. — Ele estava quase comendo ela, pai. Lá no porão. — O que! — Felipe exclamou. Ele estava completamente chocado com a revelação. Não sabia que sua filha já beijava alguém, muito menos que conhecia... outros tipos de coisas. Felipe desviou os olhos da filha e encarou Eric, parecendo muito imponente com tão pouca idade. — Eu fui buscar meu taco de beisebol e vi os dois se agarrando. — Eric continuou. — A gente não estava se agarrando, seu fofoqueiro! Ele está mentindo papai, estávamos apenas nos beijando. — Carla disse com raiva e jogou seu lenço no rosto de Eric. — Você não me engana, Carla. A mão dele estava embaixo da sua blusa, eu sei muito bem o que ele estava fazendo ali. — Isso não é verdade! — Carla se defendeu. — Não era nada demais. Você não tinha que ter batido nele daquele jeito. Nem deu chance de ele se defender. — Ele mereceu. Ele vinha até minha casa, mexia nas minhas coisas, ouvia meus cd’s, jogava meus games, mas estava pegando você... eu deveria ter batido mais. — Eric parecia furioso. Felipe botou as mãos na cabeça. Aquilo era um caos. Estava feliz em saber que tinha um filho que defenderia a irmã de qualquer um, até mesmo do melhor amigo, mas não queria que ele perdesse uma amizade tão boa por um motivo que eles ainda teriam que discutir. — Olha, eu vou falar com a mãe de vocês. Até lá, tentem não brigar, tudo bem? Elena estava na adega, escolhendo o vinho para o jantar quando sentiu as mãos quentes do marido na sua bunda. — Oi, minha linda. — Felipe mordeu a orelha dela. — Sentiu minha falta? Elena ronronou.


— Com certeza. — ela virou-se e o beijou profundamente. — Já está sabendo da briga do Eric e do Christian? — Eles acabaram de me contar. — Felipe franziu a testa em desgosto. — Não acredito que aquele moleque estava bolinando minha filha. — Ah Felipe, não foi nada demais. — Elena desdenhou. — Carla me contou e eu acredito nela. Eric deve estar exagerando, você sabe como ele é ciumento. — Eu sei, mas... não gosto da ideia dela beijando garotos por aí. Nem que seja o filho do Marco. — Ela não é mais uma criança e se nós dois impedirmos que eles se vejam e namorem, será pior. Deixe que ela cresça e aprenda sobre o amor sozinha. — Farei o possível, mas não prometo nada quanto ao Eric. Ele está possesso. Elena sorriu. Tinha o filho mais ciumento do mundo, fosse com ela ou com a irmã, aquele garoto parecia ser o dono das mulheres ao seu redor. Ele abaixou a cabeça e beijou-a avidamente. Então perguntou. — Querida, ainda vai demorar a escolha do vinho? — Hmm... não sei. Estou escolhendo um legal, já que convidei Marco e Charlotte para falar sobre o que aconteceu. — Será se eu poderia convencê-la a deixar a escolha para mais tarde? Felipe sussurrou algo no ouvido da esposa que a fez sorri travessamente. — Oh Deus, você é inacreditável, Sr. Matarazzo! Então imediatamente deixou a garrafa que tinha nas mãos na adega e correu para o quarto com ele.


FIM

Profile for Ana Paula Oliveira

O Bilionário Vingativo (Série Bilionários Impetuosos Livro 2) - Amanda Bittencourt  

Marco Villa-Lobos, um espécime raro de homem, lindo e sexy como o pecado. Extremamente rico, brilhante, formado em Harvard, e completamente...

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