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Mari Monni

Nunca vou me entregar

2018


Copyright © 2018 Mari Monni. Todos os direitos reservados. É proibida a distribuição ou reprodução total ou parcial de qualquer parte desta obra, de qualquer forma ou por qualquer meio mecânico ou eletrônico, sem o consentimento por escrito da autora. Registros de Direitos Autorais pela Biblioteca Nacional. Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas ou acontecimentos é mera coincidência. Capa: Débora de Mello Revisão de Texto: Andréia Evaristo Diagramação: Luísa Aranha Este romance segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa


Para Renata, Bebel e Michele. Obrigada por me aturarem durante meu surto de inseguranรงa.


Eu fico impressionado com a capacidade que nós, seres humanos, temos de fazer merda. Se eu fosse contar todas as que fiz, provavelmente passaria o próximo ano enumerando item atrás de item — e olha que eu não sou dos piores. Mesmo assim, tenho minha lista de coisas a não serem repetidas. Ou mencionadas. Errar uma vez é humano, errar duas é burrice. Certo? Mas ela está aqui, me olhando como se eu fosse o único homem na terra capaz de fazê-la feliz. Não sei se em todos os sentidos, mas, pelo menos, entre quatro paredes — e isso eu já fiz. Essa mulher ainda vai me enlouquecer. Os olhos dela me convidam, sua risada melódica me enfeitiça, o jeito como ela se mexe me encanta. Mas eu não estou apaixonado por ela: estou completamente obcecado. — Tá sonhando acordado, lindeza? — Gael estala os dedos na frente dos meus olhos, fazendo com que meus pensamentos se voltem para algo menos complicado. Eu desvio o olhar dela — que dança sensualmente com algumas amigas — e volto minha atenção para meu melhor amigo. Gael se senta na cadeira ao lado da minha e coloca uma mão no meu ombro. — Tá tudo bem, Lucca? — ele me pergunta, seu semblante preocupado. — Você tem estado muito estranho… Quando você vai se abrir — ele pisca com o trocadilho — e dizer o que tem te incomodado? Eu desvio meu olhar do dele e encaro a taça de champanhe à minha frente. Sem sombras de dúvida, preferia estar tomando uma cerveja bem gelada. De preferência uma artesanal e com alto teor alcoólico. Mas, em


casamentos, geralmente servem essas bebidas mais elegantes. — Tô com fome — digo, fugindo da pergunta que meu amigo acabou de me fazer. Não quero falar sobre o assunto, muito menos com ele. — Grande novidade. — Ele remove a mão do meu ombro e dá um gole de sua própria bebida. — Você não comeu, mais ou menos, uns cinquenta canapés? — São muito pequenos e cheios de verdinhos e queijos chiques. Essas coisas não enchem a barriga. Quando eu sair daqui, vou comprar uma pizza gigante. Ou um Big Mac. Não consigo entender por que as pessoas cismam que “menos é mais”. Isso não faz sentido. Não importa o assunto, menos nunca é mais. Menos é menos, mais é mais. Quando o assunto é comida, então, o ideal é sempre optar pelo mais. Quanto mais, melhor. Hoje, meu outro melhor amigo está se casando. Nem consigo acreditar nisso. Pior ainda, não consigo acreditar como não estão servindo uma coletânea de batatas fritas aqui. Imagina só. Isso que seria inovação. Menu de casamento: junk food em toda a sua glória. Pelo menos, eu estaria mais satisfeito. Odeio casamentos. Bebidas fru-fru — geralmente à base de alguma fruta —, comida de francês — chique e em pequenas quantidades —, roupas super incômodas — se você é o padrinho, o que é o meu caso — e toda essa felicidade e romantismo no ar. E ela… Tem que ter ela. — Porra, Lucca! O que tá acontecendo? — Gael só falta gritar. Pelo visto, deixei meu amigo falando sozinho. Ele não parece nem um pouco tranquilo. Sua testa está franzida e ele está procurando em mim um motivo para o meu comportamento estranho. Só que não há chance de eu me abrir com ele. Nem hoje, nem nunca. — Foi mal, cara. Eu tô com fome. Fico meio aéreo quando estou com o


estômago vazio — minto. Mais ou menos. O que eu acabei de dizer é verdade, mas não se encaixa no momento. Não é a fome que está me deixando assim. É a falta dela. — Vamos ver com a cerimonialista se a gente consegue contrabandear algo da cozinha. Aproveito e vejo se ela tem planos para mais tarde. — Ele dá uma piscadinha para mim. Meu amigo só pensa nisso. Sempre foi assim. As pessoas costumam pensar que, dentre nós três, Dante é o mais adepto ao sexo casual. Isso porque ele é mais escrachado e não mede suas palavras. Já Gael consegue esconder esse lado dele atrás dos óculos quadrados e pinta de nerd, mas, no fundo, ele é o que menos tem intenção de se relacionar exclusivamente com uma mulher. Diferente de Dante, que sofreu uma desilusão amorosa, Gael não quer um relacionamento porque não está a fim de um. Ele não tem traumas, não tem segredos obscuros e nem um fetiche escondido em um quarto secreto. Pelo que sempre diz, enxerga a vida como um buffet de possibilidades. Eu balanço a cabeça negativamente, mas não consigo conter o riso. Pelo visto, a próxima da lista é a tal cerimonialista. — O quê? Qual o problema? Ela é gostosa pra caralho. Ela e aquela Beca, a amiga da Clara. Te digo que foi um sacrifício ficar de frente pra ela enquanto Dante e Clara se casavam. Enquanto ele tem olhos para todas, eu só tenho olhos para uma. — Ficou com medo de as pessoas notarem que você é um tarado pervertido em vez do professor responsável que você finge que é? — eu questiono, levantando uma sobrancelha. Gael leva as mãos ao peito e me encara com olhos arregalados. Sua boca se abre, fazendo um grande O. Ele faz a cara de indignação mais ridícula da história e eu acabo rindo ainda mais. — Eu sou um professor exemplar! — ele afirma, convicto do que está falando. — Com certeza, amoreco… Agora, vai achar alguma coisa pra eu


comer. Não vou aguentar muito mais tempo aqui e vou acabar desmaiando de tanta fome. — Eu bato os cílios para ele, que dá um tapa na minha cabeça, mas sai para fazer o que eu pedi. Duvido que Gael traga alguma coisa para mim. No meio do caminho, muito provavelmente, ele encontrará alguma coisa, ou melhor, alguém que o distraia. É possível que esse alguém seja a tal cerimonialista. Ou a prima da cunhada da tia da noiva. Tem tanta gente nessa festa, que eu dou graças a Deus de poder estar sozinho. Tudo que eu não quero no momento é ter que conversar. Todos os meus amigos estão aqui em algum lugar, mas não quero companhia. A não ser a dela… Eu sempre quero a companhia dela. Infelizmente, não é possível. Muito menos aqui, com todas as nossas famílias juntas, nossos amigos… Não quero, nem vou, estragar a festa de casamento de Dante. Meu melhor amigo e sócio sofreu muito para chegar até aqui. A última coisa que quero é arruinar o momento dele com um escândalo desses. Ele e Clara parecem muito felizes. Os dois estão sentados lado a lado e é possível sentir o amor que eles sentem um pelo outro. É tudo tão doce que estou prestes a me tornar diabético. Dante não tira as mãos de sua esposa e, volta e meia, sussurra algo em seu ouvido — provavelmente alguma putaria, se conheço bem o meu amigo. Os dois merecem essa festa e merecem também uma vida juntos. Quando ele me disse que estava apaixonado por Clara, eu quase não acreditei. Há dez anos, Dante foi chifrado por sua ex-namorada. Eu vi meu amigo chorar que nem um bebê e se erguer com uma ideia. Mal sabia eu que aquela maldita ideia mudaria a minha vida, a dele e a de Gael. Ele nos fez jurar que nunca nos apaixonaríamos. Não permitiríamos que qualquer mulher fosse capaz de nos machucar da mesma forma que Ingrid fez com ele. Quando seu melhor amigo está à beira do total desespero, você acaba concordando com qualquer coisa — e não foi difícil. Não mesmo. É muito fácil não se apaixonar quando você não se envolve. Manter as


pessoas à distância é prático e, por mais que eu nunca tenha sido um playboy, como Dante era e Gael ainda é, eu também nunca me interessei por alguém a ponto de querer mudar. Só que, há alguns meses, eu cometi o maior erro da minha vida. Um erro que, até hoje, me traz consequências: eu transei com a irmã gêmea do meu melhor amigo. Agora, meu pacto é outro. Ele não envolve meus amigos, apenas eu e minha consciência, porque as coisas estão se complicando cada vez mais, e eu preciso repetir meu novo mantra para mim mesmo: nunca vou me entregar.


— Bom dia, Lucca — Paula cumprimenta, do outro lado do bar, assim que entro no Purgatório. — Como foi o casamento? “Uma merda”, quero responder, mas resolvo ser menos rude logo no início do expediente: — Foi tudo bem — é a única coisa que eu falo. Não estou a fim de contar como foi o casamento, de como eu fiquei perdido em pensamentos na maior parte do tempo e em como a mulher que quero praticamente me deu um ultimato. — Onde está Zurik? — pergunto, referindo-me ao novo gerente do Purgatório. — Ele está lá atrás, com o pessoal da cozinha — ela diz, apontando para a porta do canto, que também fica na parte de trás do bar. — Avisa a ele, por favor, que precisamos conversar. É urgente. Vou pro meu escritório e não posso ser interrompido agora, a não ser que seja Zurik ou um caso de vida ou morte, ok? — Pode deixar. — Ela me olha com preocupação, notando a rispidez atípica no meu tom de voz. Assim que entro no meu escritório e tomo meu lugar na cadeira de couro vermelha, apoio meus dois cotovelos na mesa e deixo que minhas mãos segurem a minha cabeça. Não sei o que faço. Não tenho ideia de como resolver a situação na qual me encontro. Queria encontrar a lâmpada mágica e realizar meus três desejos: ter mais paciência com pessoas burras, poder passar um ano viajando o mundo e provando as comidas locais e trepar com a Gia até não aguentar mais.


Mas o gênio da lâmpada não existe e os meus desejos são só isso: desejos. Meu celular apita, avisando que tenho uma mensagem. Gia: O que você achou dessa minha lingerie nova? Junto com a mensagem, uma foto. Se eu não estivesse sentado, minhas pernas provavelmente teriam cedido e eu estaria espatifado no chão. A diabinha tem uma missão: a de me fazer desistir dessa ideia de resistência — e as táticas que ela usa não são nada sutis. Vestida com uma calcinha tão pequena que deve ter sido feita sob medida para uma criança de três anos e um sutiã de renda completamente transparente, ela ainda faz uma cara de quem está em dúvida. Eu: Gia… É um alerta, uma súplica, é qualquer coisa que faça com que ela pare de me mandar mensagens tentadoras. Ou, quem sabe, mande uma foto mostrando a parte de trás. Também serve. Não demora muito e ela responde: Gia: Vou usar esse conjunto hoje à noite. Tenho um encontro. Você acha que ele vai preferir arrancar as peças de mim com as mãos ou com os dentes? Qual dessas opções você escolheria? Não sei se fico excitado, puto da vida por saber que ela tem um encontro com outro ou se saio correndo e respondo sua pergunta do jeito mais fácil: com os dentes. Para minha felicidade — ou não —, Zurik bate na porta, desviando-me dos pensamentos conflitantes. — Lucca? — ele me chama da porta entreaberta. Não posso pensar nela agora, senão passarei mais um dia sem fazer nada, ou fazendo algo que não deveria no ambiente de trabalho. Com Dante em lua-de-mel, estou sozinho no comando dos nossos três bares: Inferno, Purgatório e Paraíso. Há anos, eles têm sido nossa missão. A ideia inicial foi de Dante, que sempre quis ser o dono do Inferno (ele e suas referências…). Eu me joguei de


cabeça no projeto e trabalhei ao lado dele para que tudo pudesse sair conforme o planejado e confesso que não poderia ter ficado mais feliz com o resultado. Enquanto Dante comanda o Inferno, meu domínio é o Purgatório. Já o Paraíso, o mais novo dentre os três, ainda é meio que terra de ninguém. Ainda estamos nos organizando com ele, alternando entre os gerentes mais experientes que temos. Zurik foi o último que contratamos. Olho para ele, que está parado à minha frente, e me pergunto se tem capacidade suficiente para me ajudar durante o próximo mês. Eu mesmo o entrevistei e sei que o cara tem potencial. Mas isso não quer dizer que ele esteja pronto para assumir um cargo tão relevante. Uma coisa é ser o gerente quando eu estou aqui, supervisionando tudo que acontece enquanto eu fico nos bastidores. Outra é ter sozinho todas as responsabilidades de um bar como este. Ou como o Inferno. — Entre e feche a porta, por favor. — Ele obedece e eu gesticulo, indicando a cadeira de frente para mim. Zurik senta e me encara, nitidamente apreensivo. — Zurik, eu quero saber de você como estão as coisas aqui. Não estou pedindo um balancete nem nada disso. Quero saber o que você acha que funciona e o que não está funcionando tão bem assim. Quero sua opinião sobre o que podemos mudar e o que devemos melhorar. A melhor forma de avaliar um funcionário é pedindo a opinião dele. Assim, ele mostra o que tem observado e, de certa forma, me prova o quão comprometido está com o Purgatório. Eu tenho várias ideias do que fazer com o bar, mas quero ouvir as dele. Zurik pode não saber, mas este é um dos testes em que ele precisa passar para que eu tenha confiança nele e em seu trabalho, a ponto de deixá-lo comandar, sozinho, um dos meus bares. Por um momento, Zurik apenas me olha, como se não entendesse a minha pergunta. Mas algo parece clicar em sua mente. Ele se recosta na cadeira, cruza as pernas, assumindo uma postura mais relaxada, e começa a falar:


— Eu estou aqui há mais de um mês e gosto muito da dinâmica do bar. As pessoas vêm aqui com uma única intenção: sexo. — Eu ergo uma sobrancelha, curioso com a perspectiva que ele me apresenta. — Diferente do Inferno, que tem uma atmosfera mais “encontro de amigos”, o Purgatório traz uma vibe sensual. Eu acho que falta investirmos um pouco mais nisso. Eu olho para ele, surpreso com a avaliação que acaba de oferecer. Uau! Confesso que não tinha pensado nisso. — O que te faz ter essa perspectiva? — questiono. — Honestamente? Não sei — ele confessa, dando de ombros. — Desde a primeira vez que vim aqui, logo após a inauguração, eu tive essa impressão. Eu amo o Inferno, ia sempre lá com meus amigos, mas quando entrei aqui, a impressão era outra. É como se este fosse o melhor lugar para encontrar alguém para passar a noite, se você me entende. — Ele pisca pra mim e fico sem saber se ele está me dando mole ou apenas enfatizando o que acabou de dizer. Franzo o cenho e deixo que Zurik continue, mas ele não diz nada. — Então, o que você sugere que façamos? Por um momento, ele apenas me olha, como se ponderasse sua resposta. Não sei se algo em mim o intimida, mas, pelo visto, ele não se sente confortável em me contar. — Zurik, fica tranquilo, estou aqui para ouvir suas sugestões. — O motivo para eu ter contratado Zurik e não outros candidatos foi justamente sua postura relaxada. Por mais que eu espere um profissional sério e responsável, alguém que gerencia um bar tem que ser uma pessoa que se sinta bem no ambiente. O currículo dele é bom, suas referências são boas e sua experiência como barman o ajuda a entender como as coisas acontecem num bar. Outros tinham as mesmas qualificações. Agora, quero que ele me mostre o cara que eu contratei, aquele que se sente em casa quando as luzes apagam e o DJ começa a tocar. — Eu acho que poderíamos começar com alguns eventos focados em sexo. Eu tava pensando em algo diferente.


— Como assim? — Que tal a gente começar com a “Sexta Sexy”?


Eu estou exausto. Acho que nunca estive tão cansado na minha vida. Nem quando eu, Gael e Dante viajamos um mês pela Europa. Cidade após cidade, festa após festa. Foi um mês louco, mas nada se compara à minha última semana. Odeio o Dante. Principalmente, odeio a Clara. A esposa do meu melhor amigo foi a pior coisa que já aconteceu à minha vida. À dele, foi a melhor, com certeza. Mas eu tenho o direito de estar me sentindo um pouco egoísta e cheio de ódio no coração após uma semana longa e cheia de problemas. Três bares, só um Lucca. A matemática da coisa não é muito favorável. Já passa das três da manhã quando finalmente chego em casa. Morto de fome não é suficiente para explicar o buraco negro que habita no meu estômago neste momento. Fico em dúvida se eu caio no sofá ou se sigo para a cozinha. Estou tão cansado que a comida, pela primeira vez na minha vida, tem chances de ser deixada de lado. Olho para o sofá e ele me olha de volta, sedutor, convidativo e muito, mas muito tentador. Só que o ronco que escuto, vindo da minha barriga, é suficiente para que eu deixe a tentação de lado e foque no que é necessário. Ah, a história da minha vida… Vou para a cozinha, meu santuário, e abro a geladeira. Por mais que eu adore cozinhar, no momento não tenho condições físicas de fazer qualquer coisa mais intensa do que apertar alguns botões no micro-ondas. Pego três hambúrgueres, coloco no prato e seleciono o tempo necessário para a delícia congelada estar pronta para ser devorada. Enquanto isso, abro uma long neck e bebo quase toda a cerveja de uma


vez só. — Preciso de férias — digo para mim mesmo, sonhando com o dia em que poderei passar a tarde em uma praia paradisíaca, tomando uma cerveja e fingindo que não tenho quaisquer responsabilidades. De preferência acompanhado de Gia, que estará usando um biquíni branco e bem pequenininho. Deixo o resto da bebida na bancada e sigo para o banheiro. Decido tomar um banho antes de jantar. Quando jogo a blusa no cesto de roupa suja, a campainha toca. — Sério que tem alguém aqui às três da manhã? — sussurro para mim mesmo enquanto vou em direção à porta. Antes de abrir, espio no olho mágico quem está do outro lado. Gia. Por um segundo, eu hesito, sem saber o que fazer em seguida. Eu sei o que vai acontecer, sei o que ela vai dizer e sei que, muito provavelmente, eu acabarei cedendo. E eu não posso ceder. Puta que pariu, pareço uma menininha fazendo cu doce. — Abre a porta, Lucca, eu sei que você está aí — ela diz, o tom alto e acusatório. Eu respiro fundo, me preparando para tê-la à minha frente, perto suficiente para que eu possa tocá-la, sentir seu cheiro, beijar sua boca… e precisar resistir. O nervosismo me domina, eu seguro a maçaneta gelada. O frio na minha mão nem se compara ao que domina meu estômago. De olhos fechados, eu abro a porta. Quando meus olhos encontram os dela, a necessidade me invade. Como é possível desejar tanto alguém? — Posso entrar? — ela pergunta, eu não respondo. Por um momento, me permito apenas observá-la. Não sei qual será a próxima vez que estaremos tão próximos assim. Preciso absorver tudo que conseguir. Fito seus olhos azuis, que me olham com apreensão; sua boca rosada, que é maior do que deveria ser; seu nariz pequeno, seu queixo levemente


quadrado. Vejo quando a respiração dela acelera, provavelmente incomodada com o modo como a encaro. Não importa. Deixo meus olhos descerem por seu corpo, o mesmo que assombra meus sonhos e faz com que eu me sinta um babaca. Desejar lamber cada centímetro do corpo da irmã do seu melhor amigo é simplesmente errado. Pensar nas várias formas que vocês poderiam transar também é errado. Acordar no meio da madrugada, com uma ereção do tamanho de um trem, por ter sonhado com a noite que vocês passaram juntos meses atrás é muito errado. Tudo isso é errado, mas Gia é perfeita, e eu daria tudo para poder arrastá-la para o meu quarto e me perder entre suas pernas pelos próximos trinta anos. Ou até eu morrer de desidratação. A roupa que ela está usando parece ter sido escolhida a dedo com o intuito de me provocar. Ela sabe como me enlouquecer e, normalmente, não pensa duas vezes antes de fazê-lo. Chinelo de dedo, saia jeans e uma blusa que diz “Mantenha a distância se não gosta de pizza”. Se isso não é sexy, eu não sei o que é. — Para de olhar pra mim como se eu fosse a solução para o conflito entre Israel e Palestina — ela diz, passando por mim e invadindo minha casa. Uma vez do lado de dentro, ela presta atenção em tudo, menos em mim. — Pelo visto, nada mudou por aqui. — Nada mudou, Gia, ponto. Ela sabe exatamente o que quero dizer, e não tem nada a ver com este espaço. — Nada? — Nada. Ela sabe muito bem o que eu quero dizer com isso. Gia continua andando, observando cada canto da minha pequena sala. Apenas um sofá, uma televisão e, no canto esquerdo, uma estante com livros e filmes. Na parede, várias fotos estão penduradas. Fotos de momentos importantes e que


marcaram a minha vida. A maioria delas tem Dante e Gael ao meu lado. Formatura, viagens, inauguração dos bares, festas de Natal… É uma vida ao lado dos meus amigos. Ela para em frente ao trio de fotos que estão no centro da parede. Uma delas é nossa. Eu e Gia estamos abraçados, ela sentada no meu colo. Estamos nesta mesma sala, neste mesmo sofá. Foi a primeira foto que tirei no meu apartamento. Eu estava sentado no sofá, assim que me mudei, pronto para registrar o momento, quando ela veio e invadiu a foto. Nós dois estamos rindo e nos olhando. Na época, era tudo tão simples, tão sem maldade… Ela era apenas Gia, a irmã de Gael. Ao lado da minha foto com Gia, tem uma minha com Gael; ele fez a mesma pose que a irmã e sentou no meu colo, me abraçando. Do outro lado, uma de Dante fazendo a mesma coisa. Em todas elas, eu estou gargalhando e muito feliz por ter conseguido, finalmente, o meu apartamento, e os três estavam aqui para compartilhar o momento. — Eu amo essa foto — Gia diz, passando o dedo no porta-retratos, a nostalgia marcando sua voz. — Eu também — confesso. Por um momento, Gia fica calada, olhando para todas as fotografias que decoram a parede. Mais do que isso, ela está olhando para o registro da minha vida, dos vários momentos que me levaram a ser o que sou hoje. — Eu estou namorando… — ela joga a bomba, mas não se vira para me encarar. Dentre todas as coisas que eu esperava ouvir, esta, definitivamente, não estava na lista. Eu não sei o que dizer. Parece que acabei de levar um soco no estômago. O ar me falta e eu começo a ver embaçado. Preciso me sentar, mas também preciso de maiores explicações. — Com quem? — É a primeira coisa que me vem à mente, e minha voz sai mais ríspida do que deveria, mas é difícil controlar a raiva que começa a me consumir por dentro.


— Não importa com quem… Você não o conhece. Ele trabalha comigo na clínica — ela explica, mas isso não aplaca a raiva que estou sentindo. Eu sabia que, cedo ou tarde, isso ia acontecer. Esta não é a primeira vez que Gia entra em um relacionamento. Confesso que, desta vez, fui pego de surpresa, principalmente depois de tudo que aconteceu entre nós. Desde aquele dia, não sinto vontade de estar com qualquer outra mulher a não ser a que está na minha frente. A situação é confusa, tenho pela consciência disso, mas, por um momento, me permiti pensar que ela estivesse sofrendo o mesmo conflito que eu. Solto uma risada baixa e balanço a cabeça em um sinal negativo. Só de imaginar Gia abraçada a algum daqueles veterinários idiotas com quem ela trabalha já me deixa com vontade de socar a primeira parede que encontrar. Pelo visto, a recíproca não é verdadeira. — Do que você está rindo, Mellis? — ela questiona, me chamando pelo meu sobrenome, se virando para mim. Sua voz é ríspida e ela não parece nem um pouco contente com a minha reação. — Nada demais… Só da ironia dessa situação. — Dou de ombros. — Não era você quem estava me mandando uma foto seminua em algum dia desta semana? Minha pergunta atinge o alvo em cheio. Seu rosto fica vermelho de raiva e ela dá um passo para frente. — Não me julgue, Lucca. — É uma ordem, não um pedido. Gia nunca foi do tipo que leva desaforo para casa. — Não estou te julgando. Só estou querendo entender. — Coloco ambas as mãos na cintura e a encaro. É um desafio. — Eu cansei de esperar por você. A gente transou há sete meses! Sete! Foi uma delícia, eu gozei como nunca na vida e sei que você também aproveitou cada segundo na nossa sexcapada — ela diz, e sinto meu ego ir lá em cima. Eu sabia que ela tinha gostado. Pra mim, foi o melhor sexo da minha vida, sem sombra de dúvidas. Mas daí a ouvir da boca dela que foi


magnífico… Parece que eu cresci uns vinte centímetros e estou me sentindo o Vin Diesel. — Tira esse sorriso babaca do rosto, Mellis. Eu não estou te elogiando. Pelo visto, não consigo fazer cara de jogador de pôquer. Ao mesmo tempo, não quero. Ela precisa saber exatamente o que eu estou pensando. — Gia… — Eu dou três passos à frente, me aproximando ainda mais dela. Meu cérebro grita “perigo”, mas eu ignoro. — O que aconteceu entre a gente foi errado. Delicioso, mas errado. — O que aconteceu entre a gente foi perfeito, e você deveria esquecer essa ideia de que meu irmão não vai aprovar… — ela pausa e balança a cabeça, como se quisesse afastar os pensamentos. — Quer saber? Não foi pra isso que vim aqui. Eu tentei, Mellis, juro que tentei, mas você decidiu que não me quer, apesar de tudo. Então, estou te comunicando que, a partir de agora, sou uma mulher comprometida. Tenho um namorado e nada mais acontecerá entre a gente. Gia coloca ambas as mãos na cintura. Ela adota uma postura decidida. Eu não sei o que dizer. Afinal, ela está certa. Fui eu que não quis mais nada, fui eu que resisti a todos os avanços dela (deveria ganhar um prêmio por isso) e fui eu que decidi que minha amizade com Gael deveria vir antes do meu tesão por sua irmã gêmea. Então, por que saber que ela está namorando me incomoda tanto? — Gia, eu… — começo a falar, mas ela me interrompe. — Não quero mais saber, Lucca. Você teve a sua chance. Por meses, eu tentei. Você não quis. Não vou mais me humilhar e nem deixar que você me diga não novamente. Eu entendi seus motivos e, agora, vou fazer o que você quer: te deixarei em paz e seguirei o meu caminho. Vamos fingir que aquela noite não existiu, que eu não gozei cinco vezes e você três, que você não apreciou cada parte do meu corpo… Eu entendi. Demorou, mas eu entendi. Você não me quer. Mas tem outros que querem. Eu engulo em seco só de lembrar aquela noite. Sexo não pode ser assim


tão bom. É simplesmente errado. Se para todo mundo for do mesmo jeito que foi para mim e Gia, então as pessoas passariam o dia inteiro em casa, trepando. Foda-se. Eu fecho o espaço entre a gente e a puxo pela cintura, deixando meus lábios a poucos centímetros dos dela. — Para de brincar com fogo, Gi. Você sabe que eu sou louco pra te comer de novo, pra estar enterrado em você. Mas se você quiser se contentar com o veterinário, então vai lá. Quem sabe, com a sua ajuda, ele não consegue te fazer gozar de vez em quando. Termino a minha frase com um beijo, que mal tem tempo de começar antes de chegar ao fim. Gia me empurra, interrompendo o começo do que poderia ser outra noite inesquecível. — Para você, Lucca! Chega. Esta é a última vez que conversaremos sobre esse assunto. Eu não vou mais correr atrás e nem vou me oferecer para você. Mandei mensagens, fotos, tentei conversar e explicar o que eu quero. Você me ignorou e ficou aí, bancando o macho gostosão que não se envolve — ela acusa e tem toda a razão em cada uma das palavras que diz. Eu fiz exatamente isso: resisti a todos os avanços dela. Mas o que ela não sabe é que, em minha mente, ela deixou de ser uma vontade e passou a ser uma obsessão. — Por que você veio aqui? — pergunto, interrompendo seu rompante. — Vim pra te dizer que essa palhaçada entre nós não existe mais. Eu estou namorando um cara ótimo. — Então, por que não deixou que eu descobrisse sozinho? Ela hesita. Minha pergunta é honesta. Não sou eu quem fico correndo atrás dela. Pelo menos, não que ela saiba. Virei um stalker das redes sociais. Nunca passei tanto tempo olhando para o celular. Tudo isso porque não tenho coragem de assumir aquilo que tanto desejo. Ela também não sabe que, às vezes (mais vezes do que eu gostaria de admitir), vou até a casa dela, só para


ficar parado do outro lado da rua, tentando criar coragem para bater na porta e passar a noite ao seu lado. Eu sou um covarde. Na verdade, eu sou o cara mais forte desse mundo. Resistir a nudes de Gia não é pra qualquer um. Só que meu bom senso tem limites, assim como minha resiliência. A cada vez que a vejo, uma parte da muralha que nos separa se rompe — e, sinceramente, não sei o que fazer. Os últimos meses foram uma tortura. Saber que ela está assim, pronta para mim, e não fazer nada é a mesma coisa de estar morrendo de fome e passar na frente do McDonald’s, mas não entrar. — Hein, Gia? Conta pra mim o real motivo de você estar aqui — eu insisto, sabendo que ela quer continuar com o processo de tortura, fazendo com que eu me odeie cada vez mais por não me entregar àquilo que pode ser a melhor ou a pior decisão da minha vida. — Eu quero uma reação sua, Lucca. Não aguento mais você aí, pensativo e sob controle! — Seu tom de voz está mais elevado do que o normal e sua respiração acelerada. Neste momento, tudo que eu quero é poder beijá-la novamente e sentir seu gosto doce. — Quero que você me deseje com a mesma intensidade que lhe desejo. Quero que você seja louco por mim da mesma forma como sou por você. Mas eu não quero mais esperar… Ela continua me atiçando, e o que acontece em seguida vai ficar marcado na história como “O momento em que Lucca Mellis mudou sua vida”.


— Eu não acredito que você foi capaz de fazer isso — Gael acusa, olhando para mim de forma assassina. — Cara, foi mal. Eu juro que não queria que as coisas acontecessem assim — tento tranquilizá-lo, mas é em vão. Meu amigo parece a ponto de explodir. Seu rosto está vermelho, seus cabelos bagunçados depois de tanto passar as mãos por eles. Gael anda de um lado para o outro, nitidamente afetado pela notícia que acabou de ouvir. Eu tentei ser o mais gentil possível, tentei explicar que as coisas nem sempre acontecem do jeito como queremos, mas, pelo visto, ele está irredutível. Eu preciso fazer com que ele entenda o meu lado da história. Não é como se as coisas fossem tão preto no branco. — Você não podia ter feito isso, Lucca. Pelo menos, não desse jeito. É traição. De todas as pessoas do mundo, você era a que menos esperava que pudesse ser capaz disso. — Sua voz está alterada. — Você está exagerando, Gael. Não é como se eu tivesse muita opção. Ela praticamente me implorou. — E você cedeu! Como você pôde fazer isso comigo? — Com você? Onde você se encaixa nessa história?! — Você… — ele começa a dizer, mas eu interrompo. Essa palhaçada já está saindo de controle, e meu amigo precisa entender que nem tudo na vida acontece do jeito que ele quer. — Deixa de drama e sente-se, Gael. Você tá parecendo o Dante, dando chilique quando alguma coisa não acontece do jeito que você quer. — Deixo a minha voz sair firme. Certas decisões não são dele para serem tomadas.


Essa é uma delas. Ele começa a querer falar mais alguma coisa, mas eu ergo a mão, fazendo sinal para que ele se cale. — Eu fiz o que tinha que fazer. A Helena pediu para ser mandada embora e eu, como bom patrão que sou, fiz isso por ela. Apesar de ser uma excelente profissional, ela tinha outras prioridades. — Ela não era só uma excelente profissional! — Gael exclama, ainda irritado. — Ela era a barwoman mais gostosa da história e você deixou que ela fosse embora. Além disso, você sabia que eu estava a fim dela. Só falta Gael cruzar os braços e fazer bico. Puta que me pariu, nunca pensei que ele, um dia, seria do tipo de fazer birra. Mas eu não podia estar mais errado. Minha vida está muito complicada para, além de tudo, ter que ficar aturando crises alheias. Especialmente quando o motivo da crise é tão ridículo que me dá vontade de virar as costas e ir embora. Tudo que eu queria agora era poder relaxar um pouco, tomar uma cerveja e não ter que me preocupar com nada. Em um raro momento de tranquilidade no meu dia, resolvi sair do escritório para ver como as coisas estavam no Purgatório. Ter que me dividir entre os três bares tem sido bastante cansativo. Quando, finalmente, dei o primeiro gole, Gael apareceu como em passe de mágica, impedindo-me de continuar com meu ritual de relaxamento. Meu amigo era a última pessoa que queria ver hoje, principalmente por causa do que aconteceu ontem. Mas ele sentou ao meu lado, pediu uma cerveja e começou a conversar sobre os últimos acontecimentos. Ele me disse que estava preparando um novo curso para apresentar para o coordenador do departamento e blá-blá-blá… Eu quase não ouvi o que ele disse, filtrando as palavras para tentar descobrir se ele, de alguma forma, desconfiava do que se passou ontem em meu apartamento. Pelo visto, ele também não sabe de nada. Menos mal. Quando o assunto mudou de foco e eu comentei com ele que havia


demitido Helena, as coisas saíram de controle. Agora ele está aqui, reclamando incansavelmente e me irritando mais do que deveria. Nunca pensei que eu fosse pensar isso, mas eu quero o Dante de volta. Com ele por perto, eu posso ficar calado que ninguém nota. Ele e Gael falam o suficiente por nós três. — Lucca? Lucca? — Gael me chama, estalando o dedo na frente do meu rosto. — Você tem que parar com isso. É irritante ter que ficar conversando sozinho enquanto você se perde em pensamentos, sabia? — Você deveria ser menos dramático — eu peço, abrindo um sorriso falso e recebendo em troca um gesto bastante obsceno. — Pode ficar tranquilo que irei contratar outra barwoman tão gostosa e talentosa quanto Helena. Pense pelo lado bom: carne fresca. — Pisco o olho para ele, sabendo que Gael irá começar a refletir sobre a possibilidade de ter uma possível nova conquista pela frente. — Interessante… — ele diz, coçando o queixo e analisando a situação, da mesma forma como achei que faria. Meus amigos, às vezes, podem ser bastante previsíveis. Agora que Dante está completamente comprometido com Clara, sobrou para Gael o cargo de putão-mor. Não que ele tenha qualquer problema em assumir o trabalho. Muito pelo contrário: tenho certeza de que ele desfrutará de cada segundo. — Pois é. Agora, chega de drama. Preciso te perguntar uma coisa e quero que você seja bastante sincero. — Sim, eu acho que esse seu corte de cabelo já saiu de moda. Esse topetinho tá ridículo — ele diz, se fazendo de engraçadinho, e tenta bagunçar o meu cabelo. — Aham… Achei graça sim. — Eu finjo que o comentário dele não me incomoda, mas sem querer confessar que estou precisando desesperadamente de um corte de cabelo. E de fazer a barba. Só que, infelizmente, tempo não dá em árvore.


Dou um gole da minha cerveja, que já está começando a esquentar. O Purgatório está mais vazio do que o normal, o que acabou se mostrando uma benção. Felix, o barman que está trabalhando hoje, não está tão ocupado e percebe quase imediatamente quando faço um sinal, pedindo para que ele nos traga um refil. — Pode falar, amorzinho… O que te aflige? — Gael pergunta, usando um tom meloso e soltando uma gargalhada logo em seguida. Se eu fosse responder à pergunta dele com total sinceridade, diria “sua irmã e o fato de ela ter uma tatuagem num lugar muito, mas muito inapropriado (e sexy). Mas sei que não foi isso que ele quis saber. Então, me contento em compartilhar com ele o que tem acontecido no trabalho. — Eu preciso da sua opinião. Qual a grande diferença, no quesito vibe, entre o Inferno e o Purgatório? Gael ergue uma sobrancelha. Com certeza não era isso que ele estava esperando ouvir. Ele não responde nada por um minuto, apenas aceita a tulipa que lhe é oferecida por Felix. Eu também pego a minha e dou um gole generoso. O cansaço bate com força e tudo que eu quero no momento é a minha cama. De preferência, com Gia nela. Nua. Balanço a cabeça, afastando os pensamentos eróticos com a irmã gêmea do amigo que está ao meu lado no momento. A última coisa que quero é ter que explicar o motivo de uma ereção fora de hora. — Honestamente? — Gael pergunta, fazendo com que eu foque no assunto novamente. Pedi a ele para que me dissesse a diferença entre os dois bares justamente por causa da minha conversa com Zurik no outro dia. Meu novo gerente me deu algo sobre o que pensar. Desde então, tenho matutado a ideia da tal “Sexta Sexy”. Preciso da opinião de Gael para saber se o que tenho em mente é algo, de fato, a ser posto em prática. — Os dois bares parecem servir a propósitos diferentes. O Inferno é onde você vai pra bater papo com os amigos, pra relaxar depois de um dia cansativo de trabalho. Já


aqui tem um ar mais de boate, um lugar para dançar, conhecer gente nova… — Um lugar mais sexy, você diria? — questiono. — Isso aí! Você vai ao Inferno pra curtir os amigos e você vem pro Purgatório para pegação. — Foi exatamente o que Zurik disse — comento. — O gerente novo? — Ele mesmo. — O cara é perceptivo. Na verdade, não é aquela parada super consciente. Mas depois que você me perguntou, as coisas ficaram mais claras — ele diz, dando um gole de sua cerveja. Eu olho ao redor para tentar observar o que acabamos de concluir. Tanto o Purgatório quanto o Inferno e o Paraíso são bares. Dante e eu não queríamos abrir uma boate, apesar de, em todos eles, haver uma pista de dança, mesmo que pequena. É possível perceber que as pessoas vêm em grupos menores para cá. Mulheres acompanhadas de mulheres, homens na companhia de seus amigos homens. Hmmm, quem diria que o Inferno pudesse ser considerado um lugar mais família do que o Purgatório? — Ele sugeriu a ideia de uma “Sexta Sexy” — eu explico para Gael, que parece curioso com o nome. — O que isso quer dizer? — Zurik disse para tentarmos algo com músicas mais sensuais e bebidas com um quê afrodisíaco. — Parece interessante. — Eu não sei. Na verdade, pensei em algo diferente — comento. — Vai ficar fazendo mistério ou vai falar logo o que tá nessa sua cabecinha preciosa? — Gael pergunta. Vejo que toda a irritação de dez minutos atrás já foi embora e, no lugar, ficou meu amigo de sempre. — Eu pensei em fazer algo como uma noite de casais, mas para


solteiros. — Isso não faz o menor sentido — ele diz. — Deixa eu terminar de falar, gatinha? — peço e ele faz um gesto com as mãos para que prossiga. — A ideia era uma noite de encontros. A pessoa viria aqui para conhecer alguém. Na entrada, todos receberiam um número. Ao longo da noite, colocaríamos no telão a combinação de números e as pessoas poderiam conversar. — Nossa — Gael me interrompe —, você é péssimo para explicar suas ideias. Não sei como você consegue entrevistar pessoas com essa sua falta de eloquência. Neste momento, não sei se caio na gargalhada ou tento me defender. Pouco importa. Em vez disso, dou de ombros e termino com o que restou da cerveja em meu copo. — Vou tentar explicar sua ideia para você, posso? — ele pergunta e eu o mando à merda. Por isso, Gael continua: — Todos os participantes receberão números. Provavelmente, você fará uma distribuição entre homens e mulheres, certo? — Isso. Pensei em números pares para mulheres e ímpares para homens — confirmo. — Aleatoriamente, os números serão sorteados, formando pares. — Eu faço que sim com a cabeça, permitindo que ele continue a falar. — Quando virem o número sorteado, as pessoas irão para algum lugar para que possam conversar. — Exatamente. Pensei em separar algumas mesas para isso. — Ótimo. Acho uma boa ideia — ele diz e eu me sinto mais aliviado. Fiquei com medo de ser uma ideia idiota. Dante é quem tem essas ideias. Eu sou só o cara que gerencia o pessoal e consigo lidar melhor com os problemas que aparecem no dia-a-dia. — Precisa ser aperfeiçoada, mas acho que você está no caminho certo. Gael dá mais algumas sugestões. Uma delas eu acho genial. Em vez de


obrigar as pessoas a sentarem para conversar com alguém pré-determinado a todo o tempo, meu amigo sugere que apenas quatro pares de números sejam sorteados por vez, dando aos demais a oportunidade de se aproximar de outro participante por conta própria, o que facilita também caso não tenha um número exato de homens para mulheres. Muitas coisas a serem pensadas e estudadas antes de postas em prática. Consigo tomar mais duas cervejas com Gael antes de pedir arrego e precisar ir para casa. Estou há quase dois dias sem pregar o olho e a noite de ontem foi, no mínimo, interessante — tão interessante que ainda não consegui me recuperar por completo.


A principal refeição do dia é o café da manhã. Pelo menos, é o que todos os especialistas dizem. Aproveito que consegui acordar relativamente cedo hoje e vou tomar café no meu lugar preferido. Na esquina da minha casa, tem uma padaria que tem o perfeito buffet: pães de vários tipos, frios, cachorroquente, ovos mexidos, waffles, panquecas, bolos, frutas… Tudo que um menino em fase de crescimento como eu poderia querer. Quando chego à padaria, sou cumprimentado por uma das garçonetes que sempre estão por lá a essa hora da manhã. Tina é o nome que está na plaquinha de seu uniforme. — Bom dia, Lucca — ela diz com um sorriso no rosto. — Bom dia — digo, sem dar muito assunto a ela. Vou direto para aquilo que habita meu pensamento: a comida. Parece que estou há dias sem me alimentar direito. Tudo que consigo é encaixar um sanduíche aqui ou ali. A cada dia que passa, sinto mais saudade do desgraçado do Dante. Encho o primeiro prato com algo mais leve. Começo com uma seleção de frutas e cereais para fingir que sou uma pessoa saudável. Quando eu me sento à mesa, Tina já está lá, esperando para perguntar o que quero para beber. Como sempre, peço uma xícara grande de café e um copo de suco de laranja. Devoro as fatias das frutas em pouquíssimos minutos, meu estômago gritando por algo mais substancial. Antes mesmo que Tina traga minha bebida, corro novamente para onde os pratos estão distribuídos e, desta vez, opto por pão com ovo e bacon.


Ao retornar à mesa, quase deixo o prato cair quando vejo quem está sentada onde eu estava há menos de dois minutos. Respiro fundo, tentando me manter sob controle, mas é muito difícil quando estou na presença de Gia. — Que surpresa… — digo, olhando diretamente para ela, que está mais linda do que nunca. Tudo que eu queria era que Gia não fosse tão linda. Seria bem mais fácil de resistir. Mas não tenho tanta sorte assim: a mulher à minha frente é perfeita e me olha como se eu fosse um enigma a ser desvendado. — Na verdade, foi apenas uma coincidência. Eu e Fred viemos tomar café da manhã aqui. Você estava levantando da mesa quando chegamos — ela diz e dá de ombros. O gesto faz com que eu me lembre de seu irmão, que sempre faz isso. Eu estava tão focado nela que, por um segundo, não ouvi o que ela disse. Por isso, não sei se entendi direito. — Você e quem? — questiono para sanar minha dúvida. — Eu e Fred — ela diz, seus olhos fixos nos meus —, meu namorado. Se isso fosse uma novela, eu estaria bebendo um gole de qualquer coisa agora e acabaria cuspindo todo o líquido na cara dela. O que não seria tão ruim assim. Pelo menos, aliviaria um pouco da minha frustração ao saber que terei que passar os próximos minutos na companhia da mulher que eu desejo e seu namorado. A palavra traz amargor para minha boca e eu fico sem reação. Na verdade, são tantos sentimentos conflitantes dentro de mim que não sei qual deve prevalecer. Quero gritar e dizer a ela que o único namorado que ela deve ter sou eu; quero sair à procura do filho da puta e socar a cara dele até que ela descubra que sou o mais bonito; quero que ela diga que isso não passa de uma brincadeira. Quero muitas coisas. Infelizmente, não posso ter nenhuma delas. Gia e eu apenas nos olhamos. Ela sabe o que estou pensando, não


preciso dizer nada. Ao mesmo tempo, eu entendo que cavei minha própria cova. Tive minha chance. Tive várias chances, para falar a verdade. Mas resolvi me manter fiel ao meu pacto comigo mesmo. — Não vai falar nada? — ela pergunta, e vejo a apreensão no modo como me fita. Eu conheço Gia há uma vida inteira. Por mais que ela tenha esse ar de “foda-se o mundo”, eu sei que, por dentro, ela sangra que nem o resto dos mortais. — Eu tenho muita coisa a dizer, Gi, nenhuma delas apropriada para o momento. — Lucca, eu… Ela não consegue terminar a frase, pois somos interrompidos pela chegada de um homem alto, com porte de lutador de MMA e um sorriso fácil no rosto. Merda. — Oi, linda. É esse o seu amigo? — ele pergunta, coloca um prato na frente dela e senta ao seu lado. — Ele mesmo — Gia diz, fingindo não estar desconfortável com a situação. — Lucca, este é Fred, meu namorado. Fred, esse é o Lucca, o melhor amigo do meu irmão — ela nos apresenta. O brutamontes (decidi que é assim que o chamarei daqui pra frente) oferece a mão para que eu a aperte. Muito a contragosto, eu o faço, fingindo que sou uma pessoa bem-educada. Pelo visto, estou sentado à mesa acompanhado de vários pecados capitais. Gula, obviamente; inveja, já que gostaria de estar no lugar dele, com o braço em volta da garota que tem tirado o meu sono; ira (de mim mesmo, do brutamontes e do universo, por querer me foder); a luxúria, porque, se eu pudesse, passaria o dia inteiro na cama com essa mulher, pecando, pecando e pecando; o orgulho, por eu não ter dado o braço a torcer quando deveria. Só falta a avareza e a preguiça para eu ser excomungado.


— Como vocês se conheceram? — ele pergunta, dando uma garfada das panquecas perfeitamente empilhadas em seu prato. Babaca. — Foi numa sexta-feira chuvosa — começo a explicar. — Eu estava sentado, de boa, quando Gia simplesmente sentou no meu colo e beijou minha boca. O brutamontes engasga com o que estava na boca e Gia dá dois tapinhas nas costas dele, olhando para mim de forma assassina, como se me prometesse uma morte lenta e dolorida. Eu apenas dou uma mordida do pão, me fazendo de superior. Toma essa, idiota. — Gia, você nunca me contou essa história — o brutamontes acusa, depois de o acesso de tosse ter passado. — O que Lucca esqueceu de acrescentar foi que isso aconteceu quando nós tínhamos mais ou menos dois anos. — Mas o que importa é que aconteceu e temos fotos para provar — eu digo e dou uma piscadinha para ela, que apenas balança a cabeça negativamente. O brutamontes solta uma risada (nitidamente falsa) e dá um beijo no topo da cabeça dela, olhando fixamente para mim. Ah… Então ele entendeu o que está acontecendo aqui?! Tento terminar meu café da manhã, mas não consigo. Não sei se por uma benção ou uma maldição, meu celular toca. — Fala — digo, meu tom mais ríspido que o normal. — Bom dia, princesa. Uma coisa que não entendo é como Gael consegue ser tão feliz de manhã. — Bom dia, Gael — cumprimento meu amigo, olhando diretamente para a irmã dele. Gia faz uma careta e mostra a língua. Eu solto uma risada. — O que foi isso? — Gael pergunta. — Por que você está rindo? — Porque a Gia acabou de mostrar a língua para você — explico,


sabendo o que ele vai perguntar a seguir. — O que a Gia está fazendo com você às oito horas da manhã, Lucca? Esse, senhoras e senhores, é o motivo para eu continuar resistindo à tentação. Não tenho dúvidas de que Gael iria pirar se soubesse que eu tenho qualquer envolvimento com sua irmã — especialmente se tal envolvimento incluir a falta de roupas. — Olha que coincidência. Eu estava tomando café da manhã, quando Gia apareceu na padaria com seu novo namorado. Gia arregala os olhos, surpresa com o meu comentário. Sinto vontade de mostrar a língua pra ela também, mas decido que já passei dos dez anos. Ela sabe que Gael vai dar um chilique por saber que ela está namorando. Seu irmão gêmeo nunca aprovou qualquer uma das tentativas de relacionamento dela. Junto com seu pai e, por vezes, eu e Dante, ele conseguiu espantar cada um dos “pretendentes”. Pobre Gia. — Como assim, namorado? — Gael pergunta e sinto seu tom mudar de alegre para puto da vida em menos de três segundos. Decidi que voltei a ter dez anos. Se eu não posso ter, o coleguinha também não. Foda-se. — Pois é, também acabei de descobrir. Os dois estão aqui, na padaria perto da minha casa — explico, já ouvindo a respiração acelerada que vem do outro lado da linha. — Ele é muito grande? — Gael pergunta em um sussurro. — Pra caralho — digo, olhando o mané de cima a baixo e tendo certeza de que ele me enfiaria a porrada com a maior facilidade do mundo. E olha que eu nem sou o cara mais mirrado, não. Eu sempre pratiquei esportes e meço quase um metro e oitenta e cinco. Mas Gia escolheu como namorado um monstro do tamanho de um armário. Aí fica difícil. — Vamos precisar de Dante? Não que Dante fizesse muita diferença. Dentre os três, eu sou o mais forte. Mas, nesse caso, de repente, a quantidade fale mais alto.


— Possivelmente, mas falamos sobre isso depois. Tenho que dar um pulo no Paraíso e resolver algumas coisas por lá. Não estou com tempo. Não é uma desculpa esfarrapada. Mas, se tiver que ser honesto, não estou nem um pouco a fim de ficar aqui, assistindo à Gia ser abraçada por um homem que, com facilidade, quebraria meu braço. — Eu passo lá mais tarde para conversarmos sobre o assunto. — Tudo bem. Beijos, amorzinho. — Beijos, lindona — ele diz e encerra a ligação. Fica um silêncio desconfortável à mesa. Eu termino de tomar meu café da manhã, revezando meu olhar entre o sanduíche e Gia, que parece estar tão incomodada com a situação quanto eu. Será que ela não percebe que isso tudo está errado? Ao mesmo tempo, sei que a culpa é minha. Principalmente pelo que aconteceu há duas noites. Eu poderia ter dito a ela que largasse o namorado. Poderia ter prometido a ela que daria um jeito de ficarmos juntos e deixaria de lado essa minha ideia de não me permitir estar com ela. Só que eu não fiz isso. Lá em casa, eu simplesmente a beijei. Depois, pedi desculpas e disse a ela que, por mais que eu quisesse, jamais deixaria que um relacionamento entre a gente acontecesse. Eu sei que é loucura e que a machuquei, mas não posso perder meu melhor amigo. Já perdi muita coisa nessa vida. Eu sei como dói. Quando finalmente termino de comer (ou não, pois adoraria ter enchido mais um prato), levanto da mesa e me despeço deles. Gia se levanta e nos abraçamos. — Foi você quem quis assim — ela sussurra no meu ouvido e eu preciso fechar os olhos. Ela beija minha bochecha e posso ver seus olhos encherem de lágrimas. Eu viro as costas e vou para a saída. Merda. O que está acontecendo com a minha vida?


Eu tenho muita coisa a fazer e disposição apenas para ficar em casa me afogando em autopiedade. Excelente. Caminho em direção ao Inferno, tentando chegar a uma conclusão sobre o que acabou de acontecer. Tudo que eu queria era tomar um bom café-da-manhã, mas acabei tomando um tapa na cara mesmo. Respiro fundo e continuo andando, tentando não imaginar o que os dois estão fazendo agora. Provavelmente se beijando e dando risadinhas enquanto um dá comida na boca do outro. Quando acabarem por lá, é possível que decidam fazer um passeio pelo centro da cidade — de mãos dadas, claro — e, quem sabe, visitar uma galeria de artes, onde discutirão sobre as influências do artista e de que forma ele pensa a sociedade capitalista. O brutamontes tem cara de ser metido a culto. Ou não. Sei lá. Foda-se. Gia tem todo o direito de encontrar um cara que lhe dê o valor merecido. Como ela disse, eu tive minha chance. Mas que chance um homem como eu teria com uma mulher como ela? Gia é perfeita, e eu… Eu sou apenas mais um no meio da multidão, apenas tentando sobreviver. Existe TPM masculina? Que bosta. Chego ao Inferno e vejo que está vazio. Ainda bem… Não sei se teria saco para ficar conversando amenidades com as pessoas. Hoje, não estou com vontade de ser simpático. Meu celular vibra no meu bolso e eu sei que acabei de receber uma mensagem.


Dante: O mundo já desmoronou sem a minha presença? Típico. Desde que saiu em lua-de-mel, esta é a primeira vez que meu amigo dá sinal de vida. Pelo visto, ele está se divertindo bastante. Só que seu lado profissional egocêntrico deve estar louco, precisando dar as caras. Quero dizer a ele que sim, o meu mundo está desmoronando. Mas não é a ele que Dante se refere. Eu: Melhor impossível. Acho até que você pode se aposentar. Titio Lucca tem tudo sob controle. Nem um minuto depois, ele responde: Dante: Quando usa a terceira pessoa para falar de si mesmo, sei que tem algo errado. Balanço a cabeça negativamente, querendo rir do comentário. Ah, se ele soubesse… Eu: Você não tem uma esposa pra satisfazer, não? Dante: Ela está muito satisfeita, obrigado por perguntar. Inclusive, já gozou quatro vezes hoje, e eu duas. E você? Babaca. Eu: Dezoito. Não que eu esteja contando. Tenho coisas a fazer. Como, por exemplo, três bares para gerenciar. Dante: Nossa, mas que gozador. Falando sério agora. Tá tudo bem por aí? Eu: Tá sim. Não se preocupe, tá tudo sob controle. Dante: Ótimo. Nós voltamos em alguns dias. Eu: Pare de se preocupar e vai curtir sua esposa. Se der merda (não vai dar), te aviso. Dante: Ok. Você ainda tá estranho ou já melhorou? O filho da puta me conhece a minha vida toda. Foi bastante difícil esconder dele o desconforto que passei a sentir desde que Gia e eu… enfim… Desde então, Dante tem me questionado sobre o que está acontecendo. Só que eu não tenho o que falar. Na verdade, não sei se devo falar ou como falar.


Não sei se posso chegar e dizer: “Ah, não tem nada demais. Sabe o Gael? Alto, loiro, nosso melhor amigo… Então, transei com a irmã dele. Muito. Foi uma noite louca, cheia de sexo, línguas e toques. Foi sensacional. Nunca tinha sentido tanto prazer na vida. Mas aí eu me dei conta que ela era a Gia, não uma garota qualquer, e, claro, eu fiquei todo estranho. Não tô a fim de arriscar minha amizade com o Gael e tenho certeza de que ele não vai entender. Muito menos se eu falar para ele que, se eu pudesse, assumiria um relacionamento com ela. Por isso, eu disse a Gia que nada mais entre nós aconteceria. Só que eu estou completamente obcecado. Ela não sai da minha cabeça e tudo que mais quero é poder chupar cada centímetro de seu corpo e mostrar a ela que minha mente é muito mais confusa do que parece”. Não, acho que não seria legal mandar uma mensagem assim. Eu: Ainda estou estranho. Acho melhor permanecer com a verdade. É do Dante que estamos falando. Com certeza, ele saberia no segundo que me visse. Dante: Quando eu voltar, nós vamos conversar. Tô cansado de mimimi. Eu consigo imaginar o rosto dele falando isso. Provavelmente, estaria fazendo uma careta. Meu amigo não consegue esconder nenhuma emoção enquanto fala. Tem gente que diz que os olhos são janelas para a alma. No caso dele, é o rosto inteiro — e com direito a caretas. Eu: Vai cuidar da sua esposa, vai. A não ser que você prefira pensar em mim… Aqui, sozinho, carente… Começo a rir antes mesmo de receber a mensagem de resposta. Dante: Fiquei tentado… Deixa-me ver: minha esposa gostosa, cheirosa e perfeita ou você, macho, peludo e chato pra caralho? Ó, dúvida cruel. Eu: Tchau, princesa. Dante: Tchau, boneca. Só o Dante para me fazer rir depois do encontro de hoje de manhã. Nunca vou admitir, mas o filho da puta faz falta. Não só na questão de trabalho, mas, principalmente, como amigo. Por mais que não esteja nem um


pouco inclinado a conversar com ele sobre o que aconteceu (e o que está acontecendo) tomar uma cerveja com meus amigos é uma excelente maneira de descontrair. Uma outra maneira seria encontrar uma mulher com quem passar o tempo. Mas, infelizmente, esta opção está fora de cogitação. Nunca fui um homem de ficar com qualquer uma. Na verdade, acho que sempre fui mais seletivo que a maioria. O que não quer dizer que eu me envolvia com cada uma que pegava. Muito pelo contrário. Minha vida toda, fui adepto do casual. Quanto mais a gente se entrega, maior será o sofrimento quando tudo acabar. Dante e Gael nunca tiveram muito problema em encontrar uma mulher para aquecer a cama (ou, no caso de Dante, a parede de uma boate qualquer). O meu caso é completamente diferente. Consigo contar nas mãos o número de mulheres com quem já transei. Uma delas é Gia. Sexo, pra mim, precisa de mais envolvimento do que um simples oi. Por isso que optei por ter algumas amigas com benefícios. Este não é o termo certo. Elas não são minhas amigas. Mas preferia poder ligar para elas quando estava com vontade do que sair por aí “caçando”. Já beijei algumas, ganhei boquete de outras… Só que, com poucas, realmente tive vontade de transar. O que não quer dizer que não sinta vontade de transar! Só gosto de saber por onde ela andou antes de estar comigo. O telefone toca, trazendo minha atenção de volta para a realidade. — Oi. — Você ainda tá com a minha irmã? — “Quem dera”, eu penso, mas acho melhor não falar nada. — Não. Eu já estou no Inferno. Tenho que conferir umas coisas aqui antes de ir para o Purgatório — eu digo, me lembrando de tudo que tenho que fazer hoje e segurando um grunhido de frustração. — Passo lá às quatro e meia, mais ou menos, e a gente conversa sobre a melhor forma de aniquilar o idiota que acha que pode enfiar o piru na minha


irmã — ele anuncia de uma forma tão enfática e determinada, que fico arrepiado. Puta que pariu. Se eu tinha qualquer dúvida de que Gael reprovaria o fato de eu ter ficado com Gia, agora não me restam dúvidas. Ele nunca pode saber o que aconteceu e eu tenho que me manter forte e seguir com o meu pacto. — Tá. O Dante volta em alguns dias — comento. — Ele me mandou mensagem hoje. — Melhor ainda. Precisamos de um bom plano. Vou ligar para a Tori. Ela pode ter algumas ideias. Vitória, ou Tori, como a chamamos, é o quarto elemento do nosso trio. Dante a conheceu numa época de trevas. Ele e Clara tinham terminado (ou sei lá o que aconteceu entre eles). Numa tentativa desesperada de esquecê-la, ou de provar para si mesmo que não estava completamente apaixonado por ela, Dante tentou encontrar uma mulher com quem transar. A mulher? Tori. Só que em vez de transar com ela, meu amigo abriu o coração e recebeu os conselhos que ela tinha a dar. Para a sorte dele, Tori é uma pessoa excelente. No fim das contas, viramos amigos, e ela tem sido companhia constante nas nossas saídas. É aí que uma ideia me vem à mente. — Chame a Vitória, sim. Se ela ajudou o Dante, de repente pode me ajudar também.


— Vamos ver se entendi direito — Tori diz, interrompendo o monólogo que Gael vinha fazendo por, pelo menos, vinte minutos. — Você está putinho porque sua irmã tem um namorado? Assim, Tori resume tudo em poucas palavras. É por isso que Gael é professor e Tori, tatuadora. Gael fica sem resposta e apenas a encara, o ódio dançando em seus olhos. Eu me recosto na cadeira, saboreando a fatia de pizza de pepperoni, e tento observar o máximo que consigo da postura do meu amigo em relação ao assunto que, não preciso nem dizer, é muito do meu interesse. — É muito mais que isso — ele começa a se justificar. — Gia é inocente, ela não vê maldade nas pessoas. Minha irmã ama os animais e lida muito melhor com eles do que com seres humanos. Lá vem ele defender sua irmãzinha. Aos olhos de Gael, sua gêmea sempre foi perfeita. Por mais que ela fosse alguns minutos mais velha — fazendo dele o caçula com quatro irmãs —, ele sempre teve como missão proteger Gia das maldades do universo. Por universo, entende-se qualquer pessoa que demonstre o mínimo interesse nela. Pobre Gael, mal sabe que o ingênuo da situação é ele e que, de perfeita, sua irmã só tem o corpo — que, puta que me pariu, é perfeito. Foda-se se estou sendo repetitivo. Tá… Gia é perfeita, sim. Mas não da forma que ele imagina. Enquanto Tori e Gael discutem se ele é ou não um babaca (meu voto, claro, é sim), eu pego meu celular para me distrair um pouco. Abro o Instagram e passo por todas as fotos que aparecem. Uma delas é de Dante e


Clara. Eles estão abraçados, deitados em uma praia paradisíaca e parecem genuinamente felizes. Dou dois toques na tela, deixando um coraçãozinho pro casal feliz. Aproveito e deixo um comentário: “Aproveite enquanto pode. O Inferno te espera.” Continuo vendo as atualizações de alguns amigos. Blá, blá, blá, pessoas felizes, blá, blá, blá, casais apaixonados, blá, blá, blá, propagandas de coisas inúteis… Sempre a mesma coisa, a mesma chatice. Até que não é mais, e a foto que preenche minha tela me faz sentir vontade de quebrar o aparelho com os dentes. Como eu disse, Gia é perfeita. Seus olhos são de um azul escuro, quase lilás. Seus cabelos loiros estão completamente bagunçados pelo vento e o sorriso em seu rosto é o suficiente para destruir tudo em mim. O problema é que esse sorriso não é para mim, e sim para ele: o desgraçado que a está abraçando por trás. Ao fundo, uma paisagem verde, como se eles tivessem saído do caos da cidade grande e ido passar um fim de semana romântico no campo. Por mais tempo do que deveria, fico encarando a foto. Sei que estou viajando, mas tenho a sensação de que o sorriso dela está me desafiando, me mostrando tudo aquilo que eu perdi. Coloco o celular no bolso, ignorando-o. Não quero mais ver o que ele tem a me mostrar. Pego meu copo de cerveja e, de um gole só, termino o líquido. Deixo Gael e Tori na mesa e vou até o bar, onde peço uma garrafa de tequila e três copinhos. Preciso beber. Minha vida está uma merda há meses. Na verdade, minha vida está ótima, mas sinto que eu estou fazendo dela uma merda. Não consigo deixar de pensar em Gia e na forma como ela se entregou a mim. Aquela noite vai ficar marcada na minha alma. Gia era tudo que eu precisava, mas não tinha ideia. Agora, não posso têla. Nunca pude. Que ridículo. — Chega dessa palhaçada que eu preciso beber — anuncio e coloco a


garrafa em cima da mesa e fazendo um baque. — Eu só preciso saber de uma coisa antes de te ajudar com qualquer plano mirabolante que você venha a ter. Gael se assusta com a firmeza da minha voz e me olha com curiosidade: — Diga. — Por que você não quer que a Gia se envolva com alguém? — Minha pergunta é direta e não deixa brechas para que ele faça firulas. Eu preciso saber exatamente o motivo. Tem muita coisa em jogo nessa pergunta. Gael apenas me encara e, por um momento, ele permanece em silêncio, como se ponderasse o que dirá em seguida. — Honestamente? — ele pergunta e eu faço que sim com a cabeça. — Porque a última coisa que eu quero é ver minha irmã chorar por causa de um babaca que vê nela o que eu sempre vi nas mulheres: uma forma de alívio, uma companhia pra noite. Eu não sou cego, sei que minha irmã é linda. Sei que atrai os homens. Mas eu quero pra ela a felicidade plena. Ela merece um príncipe encantado, não sapos como eu, você ou Dante. Sua resposta é como uma lança cravada no meu peito. Assim como eu sempre soube, Gael também sabe que eu não sou bom o suficiente para sua irmã. Eu não comento a resposta dele, mas a sinto em cada osso do meu corpo. Em vez de retrucar, encho os três copinhos com a tequila, entregando cada um deles para meus dois companheiros. Brindamos em silêncio e viramos as doses. O líquido forte desce queimando, mas não me incomoda tanto quanto saber que meu amigo nunca aprovará qualquer coisa que possa haver entre mim e sua irmã. Outra dose. Mais uma. Mais uma. Mais uma. Mais muitas.


Não sei quantas foram no total, só que, quando chego em casa, não consigo enfiar a chave no buraco da fechadura, o que me leva a cair na gargalhada. Tori está logo atrás de mim. O motivo, eu não sei. Mas ela me vê rindo e se junta a mim. Quando finalmente consigo abrir a porta, nós caímos para dentro do apartamento. — Agora que estamos aqui, você vai me contar o que está acontecendo? — Tori pergunta, enquanto tira os sapatos, arremessando-os para um canto qualquer da sala. Eu nem perco meu tempo. Sento-me no sofá, deixo minha cabeça pender pra trás e fecho os olhos. Quero dormir. Quero descansar. Quero esquecer. Pelo visto, tequila não é suficiente para tirar aquela mulher da minha cabeça. — Eu tô apaixonado por quem não devia — confesso. As palavras saem da minha boca e me sinto vinte quilos mais leve. É como se essa confissão estivesse entalada dentro de mim e, agora que ela saiu, finalmente posso respirar. — Gia? — ela pergunta e eu me viro para ela, espantado por ela ter percebido tão rápido. — Como você sabe? — O modo como você estava olhando para a foto dela com o namorado — ela diz e dá de ombros. — Eu vi. Gael não. Solto a respiração que estava prendendo. Essa é minha maior preocupação: Gael e o que ele vai pensar. — Eu não sei o que fazer, Tori — continuo com as confissões. — É recíproco? — Sei lá. Eu achava que sim, mas, agora, ela está namorando. — Pode parecer escroto, mas isso não significa nada. — O comentário dela faz com que eu vire meu rosto para encará-la. — Gael… — é a única palavra que eu digo, mas é suficiente para que Gia entenda tudo. Ela faz que sim com a cabeça e coloca uma mão na minha


perna, me oferecendo o apoio que preciso. — Ele não pode ditar a sua vida, Lucca. Se Gael for seu amigo mesmo, ele vai entender — Tori diz e eu apenas balanço a cabeça. — Ou… — Ou… — a possibilidade de uma nova opção faz com que eu me anime um pouco. — Ou você vê se dá certo com ela antes de falar qualquer coisa para Gael. Quando vocês dois tiverem certeza de que o que quer que exista entre vocês é sólido suficiente para aguentar os empecilhos, aí vocês contam pra ele. Eu não sei se é a tequila ou a vontade desesperada de ter Gia em meus braços novamente, mas a ideia de Tori parece bastante sensata. Eu e Gia podemos tentar, em segredo. Isto é, se ela me quiser.


Eu já deveria ter aprendido a beber. Ou, pelo menos, me acostumado com a ressaca. Ser dono de bares tem suas vantagens: a maior delas é ter acesso quase ilimitado a bebidas sem ter que pagar nada — ou, pelo menos, nada além da fortuna que já paguei para tê-las aqui. Isso pode não ser muito profissional de minha parte, mas não importa. Acordo com a cabeça martelando. Nem sei que dia da semana é hoje ou quais são as minhas responsabilidades do dia. Tudo que quero é fazer absolutamente nada. Nem tomar banho. Quero ser uma estrela do mar. Mas estrelas do mar vivem no mar. Daí eu ficaria todo molhado, o que é quase o equivalente a tomar banho, e meu melhor amigo seria uma esponja amarela. Pelo visto, estou muito pior do que pensei. Levanto da cama e sinto o mundo girar. Preciso me apoiar na parede para não cair. — Que merda — resmungo, tentando me manter firme. Não sei se ainda estou bêbado ou se esta é a pior ressaca da minha vida. Vou para o banheiro, tentando controlar a vontade de vomitar, mas é impossível. Minha cabeça dói, meu corpo parece não estar funcionando normalmente e parece que a bateria de uma escola de samba está ensaiando em minha cabeça. Maravilha. Respiro fundo, tentando controlar a náusea, mas é em vão. Ajoelho-me de frente para o vaso sanitário e deixo minha alma sair em forma de vômito. Não sei quantas vezes coloco tudo para fora. Acho que nunca me senti tão mal na vida. “Adeus, mundo cruel”, penso, não conseguindo ficar de pé.


Com muito esforço, consigo dar descarga e engatinho para o chuveiro. Ligo a água quente e sento-me no chão. Não sei quanto tempo passo ali, indo contra minha ideia de não tomar banho. Tento me lembrar de tudo que aconteceu ontem à noite. Daquilo que Gael disse, de Tori ter descoberto minha paixão por Gia, do possível novo plano… A dúvida me consome. — Desde quando você se tornou esse babaca que não sabe o que fazer da vida? — meu lado forte e corajoso pergunta. — Desde que eu me apaixonei pela irmã do meu melhor amigo — meu lado covarde e fracote responde. — Pois você deveria ter certeza do que quer e não ter medo de correr atrás — meu lado corajoso diz. — Não é tão fácil assim… — meu lado covarde tenta se justificar. — Você é um idiota. — Eu sei. Por mais um tempo, fico nessa de Gollum/Smeagle, conversando comigo mesmo e tentando chegar a uma conclusão. Nunca pensei que sofresse de dupla personalidade, mas, pelo visto, a tequila é responsável por muito mais do que uma ressaca assassina. Tequila e mulher. Nada mais é capaz de foder tanto com a cabeça de um pobre homem. — A água do planeta vai acabar — escuto um grito feminino vindo do outro lado da porta. Eu queria sorrir com o comentário, mas não tenho força para mexer meus músculos faciais. Tori está aqui em casa. Tinha me esquecido disso. Não estou acostumado a ter companhia aqui. Diferente dos meus amigos, que são pessoas bastante sociáveis, eu sou mais na minha. Meu apartamento é o lugar aonde venho para ficar quieto e escutar meus próprios pensamentos. Eu trabalho no meio do caos. Ao fim do dia (ou às altas horas da madrugada), tudo que quero é um pouco de paz e sossego. Tori aqui quebra um pouco essa minha rotina.


— Já vou sair — digo e tento concentrar toda a força que me resta nas pernas para que eu possa me levantar do chão. Leva um tempo, mas eu consigo. Passo o sabonete pelo corpo, tentando me livrar do cheiro de álcool que deve estar saindo pelos meus poros, passo um pouco de shampoo nos cabelos e na barba e rezo para estar minimamente apresentável. Jogo a roupa molhada no cesto de roupa suja e me enxugo. Noto, então, que não trouxe roupa para o banheiro. Enrolo a toalha na cintura e rezo para que Tori não se incomode. — Finalmente! Pensei que você tivesse morrido lá dentro — ela diz de forma reprovadora. — Quase isso. — Você tem quase trinta anos, Lucca. Pensei que já tivesse aprendido a beber. — Eu também, Vitória, eu também. Não estou com cabeça para bater papo, muito menos para ouvir sermão. Já basta a confusão em minha cabeça. Tudo o que eu não quero agora é ter que lidar com outras pessoas me criticando. Tori percebe o meu mau humor e não diz nada, apenas entra no banheiro, fechando a porta. Aproveito o momento de solidão e vou para o meu quarto, onde encontro um par de bermudas e uma camiseta para vestir. Estou me recuperando da ressaca. A cada minuto, menos terrível eu me sinto. Vou para cozinha preparar café. É exatamente disso que eu preciso agora. Mas, quando eu olho, a cafeteira já está cheia e, pela primeira vez na vida, agradeço por ter outra pessoa dividindo o meu espaço. Tomo uma caneca em tempo recorde, pouco me importando se o líquido quente queima um pouco da minha língua. Quando estou terminando a segunda caneca, Tori aparece na cozinha. Ela está de banho tomado, mas vestindo as roupas de ontem à noite. Eu me sinto um babaca por não ter lhe oferecido algo para vestir, nem que fosse uma camiseta.


— Eu acho que está na hora de você começar a conversar comigo — ela afirma, fazendo com que eu me arrependa de ter pensado que seria bom ter alguém aqui comigo, nem que esse alguém fosse uma amiga. — E não adianta ficar em silêncio, porque senão eu vou te infernizar até você me contar cada detalhe do que aconteceu. Tori enche uma caneca para ela e se apoia na bancada da pia. Seus olhos fixos em mim. Por um minuto, eu apenas fico calado, ponderando se devo ou não narrar para ela a minha história. Não que Tori não seja de confiança… Eu apenas não tenho o hábito de abrir meu coração. Dante e Gael são os únicos com quem me sinto confortável o suficiente para contar sobre os meus problemas — com exceção desse. Eu olho para minha nova amiga, tentando decidir o que devo fazer. Nos últimos meses, ela tem sido uma excelente companhia. Tori, por mais louca que pareça ser, é uma mulher muito sensata. Uns dois anos mais velha do que nós, ela sempre se gaba de sua maturidade. Eu gostaria de poder rir dessa afirmação, mas não posso. Apesar de ter os cabelos azuis (no momento, porque ô mulherzinha pra mudar o tom do cabelo! Parece até a Júlia, a outra irmã do Gael), pelo menos vinte tatuagens e alguns piercings (uns que ela diz serem muito inapropriados para sair mostrando por aí), Tori parece sempre saber a resposta certa para qualquer pergunta. Com ela, é aquela boa e velha história de não julgar um livro pela capa. Você pensa que está lidando com uma “porra louca” inconsequente, mas, na verdade, está lidando com uma “porra louca” bastante racional. — Sabe o que eu mais odeio em você? — ela pergunta, me pegando de surpresa. — Não…? — meio digo, meio pergunto. — Eu odeio quando você se isola em sua própria mente e esquece que


há outras pessoas ao seu redor. Esse seu senso de autossuficiência é bem chato. A gente fala e você demora cinco minutos para responder. O que ela diz tem um fundo de verdade, e essa não é a primeira vez que alguém reclama comigo sobre isso. — Eu prefiro pensar antes de responder. Melhor fazer isso do que falar merda — eu digo, dando de ombros. Coloco mais um pouco de café na minha caneca e gesticulo com a cabeça, indicando para irmos para a sala. Ainda não estou completamente recuperado da ressaca de ontem. Ficar em pé se mostra ser um desafio. Sento-me no sofá, com as costas para um dos braços. Tori repete o meu movimento. Ficamos de frente um para o outro. Eu respiro fundo e crio coragem para me abrir. Por mais que eu prefira manter meus problemas para mim, acho que toda essa coisa com a Gia tem saído do controle e acabou tomando proporções catastróficas. Pela primeira vez em muito tempo, sinto necessidade de conversar com alguém. Dante e Gael estão fora de cogitação. Ou seja, só me resta Tori. — Fala logo — ela diz, seus olhos fixos em mim. Eu respiro fundo, dou mais um gole do café e abro minha boca: — Como você descobriu ontem, eu estou apaixonado por Gia. — Mas como isso começou? Quando? Onde? Por quê? — Você vai me deixar falar ou vai ficar interrompendo o tempo todo? — pergunto, já sem paciência. Tori faz um gesto com os dedos, fingindo fechar um zíper em sua boca. Ela cruza as pernas, coloca ambas as mãos na coxa e me olha com curiosidade, como se mal pudesse esperar para ouvir tudo que tenho a dizer. Ótimo. — Um tempo atrás, mais ou menos na mesma época que Dante conheceu a Clara, eu fiz a maior burrada da minha vida: transei com a Gia. — Tori vai perguntar alguma coisa, mas, antes que consiga, ela vê minha


sobrancelha erguida e fecha a boca novamente. — Gia e eu nos conhecemos desde sempre. Assim como eu cresci com Dante e Gael, Gia também sempre esteve lá. Ela nunca foi especial… até ser. Não sei se isso faz sentido. Com ela, as coisas sempre foram bem naturais. Ela não é apenas a irmã do meu melhor amigo, ela é minha amiga também. Essa parte eu não falo para Tori, mas sempre tive um carinho especial por Gia. De todas as irmãs dos meus dois amigos, ela sempre foi a que mais gostei. Quando adolescentes, nós tínhamos várias aulas juntos e, apesar de termos círculos de amizade diferentes, eu sempre dava um jeito de conversar com ela nos intervalos ou levá-la para casa quando Gael estava ocupado. Ela estava sempre por perto, e sua companhia era muito agradável. Ainda é... Estar com Gia sempre foi fácil. Diversas vezes saíamos só nós dois. Para um almoço, uma cerveja, um cinema… Nada demais. Como eu disse, sempre foi algo bem natural. — Um dia, eu estava almoçando em um restaurante, sozinho. Sabe aquele dia que você não tá a fim de fazer nada? — eu pergunto retoricamente, mas Tori balança a cabeça, fazendo um sinal afirmativo. — Pois é… Era aquele dia. Eu estava cansado, estressado e com muita, mas muita fome. Por isso, acabei me dando o dia de folga. Fui ao meu restaurante favorito: um que você paga o buffet e come o quanto quiser. Quando cheguei lá, encontrei com Gia. Ela não estava sozinha, e sim acompanhada por algumas amigas do trabalho. Também não conto para Tori, mas lembro-me exatamente do momento em que nos vimos. O rosto dela se iluminou, e Gia abriu um sorriso de orelha a orelha. Ela ignorou o que suas amigas estavam dizendo e veio correndo em minha direção. Com a correria do trabalho, não nos víamos há mais de três meses. Ela me deu um abraço tão gostoso que eu imediatamente senti todos os meus problemas e frustrações se dissolverem. Gia disse que estava com saudade de mim. Ambas as suas mãos emolduraram o meu rosto e pude ver a veracidade de suas palavras. Beijei a


ponta de seu nariz, um gesto que me chocou no mesmo instante, e ela deu um risinho bem feminino. Depois disso, me puxou para a mesa, fazendo com que eu me sentasse ao seu lado. — Para resumir: passamos a tarde inteira conversando, rindo e comendo. As amigas dela voltaram para o trabalho, mas Gia não tinha que trabalhar à tarde naquele dia. Por horas, nós ficamos juntos. Ela me convidou para ir à sua casa, onde poderíamos tomar umas cervejas e colocar o papo em dia. Eu deveria ter dito não naquele momento, mas a companhia dela era tão boa que eu não resisti. Nunca tive muitos amigos, apesar de conhecer inúmeras pessoas. Na escola, sempre fui muito “popular”, apesar de não gostar de estar rodeado por pessoas. Como sempre pratiquei esportes e fazia parte de times, as pessoas acabavam me confundindo. Eu tinha o status, apesar de ele não ser nem um pouco verdadeiro. Minha lista de amigos se resumia a Dante e Gael, além de suas respectivas famílias. Por isso, estar com Gia sempre foi meio que novidade. Com ela, eu não me importava — e ainda não me importo — de passar horas conversando. Com ela, é possível fazer isso. — Eu aceitei seu convite e fomos andando para lá — retomo a história. — Já tínhamos bebido algumas cervejas, mas não o suficiente para estarmos bêbados. Porém, estávamos rindo à toa, fazendo piadas e comentários aleatórios. Eu não sei exatamente em que momento as coisas mudaram. Se eu tivesse que adivinhar, diria que foi quando ouvimos o clique da porta se fechando e descobrimos que estávamos a sós. Também não sei quem foi o primeiro a se aproximar, mas pouco importa. Quando vimos, estávamos perdidos um no outro. O mais estranho é que foi algo completamente natural, como se fôssemos um casal de namorados chegando em casa. Estávamos desesperados um pelo outro. Eu nunca pensei que sexo pudesse ser tão… simples. Mas complexo ao mesmo tempo. Tori escuta atentamente. Vejo em seus olhos que ela está doida para


fazer diversas perguntas, mas não sei se estou pronto para respondê-las. Não quero falar do quão fenomenal foi estar com Gia. Do quão perfeitamente eu me encaixei nela. E de como pareço uma mocinha apaixonada toda vez que me refiro àquele momento. — Vou pular os detalhes sórdidos, porque acho que você não precisa ouvi-los — digo e Tori faz beicinho, fingindo estar decepcionada. — No dia seguinte, quando acordei, eu me dei conta da merda que tinha feito. Se ela fosse qualquer outra mulher no mundo sem os sobrenomes Morelli ou MacKenna, hoje estaríamos juntos. Eu tentei explicar isso para ela, mas Gia não me escutou. Ela ficou muito puta comigo, virou as costas e saiu do próprio apartamento, me deixando lá, sozinho com meus pensamentos e minha vergonha. — Tori ergue a sobrancelha, como se questionasse minha última afirmação. — Sim, Vitória, vergonha. Eu tinha acabado de trair meu melhor amigo. Tinha dormido com a irmã dele. — Por que você simplesmente não conversou com Gael? — ela pergunta, ignorando meu pedido para que ficasse quieta e me deixasse contar a história. — Você ouviu o que ele disse ontem. Eu nunca serei bom o suficiente para ela e, no fundo, sempre soube disso. — Não… Você nunca será bom o suficiente para ela porque é um idiota, só por isso. Mas, por favor, continue sua história — Tori pede, cruzando os braços. Sua expressão é de completa e pura irritação. Ela me olha como se estivesse julgando tudo aquilo que acabei de contar para ela, e não sei o que pensar a respeito. — Depois disso, acho que Gia mudou de ideia e resolveu atacar ao invés de ficar quieta e aceitar que tínhamos cometido um erro. — Como assim? — Ela me mandou fotos, mensagens, me ligou… Enfim, fez tudo o que podia para deixar bem claro que ela estava a fim de mim e que, se fosse por ela, estaríamos juntos.


Não posso dizer, apesar de achar que Tori já entendeu, que as fotos que recebi foram de Gia completamente nua, ou com uma lingerie bem sexy. Pouco importa. A filha da mãe queria me seduzir, me enlouquecer. Eu me fingia de desinteressado, mas às vezes não resistia e respondia à altura. — E você continuou firme nessa sua história de amor proibido. — Não é uma pergunta. Tori afirma, seu tom de voz deixando claro que ela desaprova da minha decisão. — Sim e não… — confesso e Tori parece se animar um pouco com a minha revelação. — Eu também estava louco de vontade de ficar com Gia. Tudo que eu queria, e quero, é poder estar com ela. Tê-la em meus braços. Amá-la após uma noite cansativa no trabalho. Acordar ao seu lado e fazer amor de forma lenta e preguiçosa. E ela sabe disso. Eu seria capaz de desistir de muitas coisas para poder ficar com Gia, só não sei se estou pronto para abrir mão dos meus amigos, que são minha única família além de meu pai. Trabalho, carreira, dinheiro… Tudo isso seria facilmente deixado de lado se, em troca, eu tivesse Gia comigo. — Como ela sabe que você a quer? — Tori pergunta. — Porque eu disse. Nesses últimos meses, nós conversamos bastante por mensagens. Eu sempre tentava resistir no começo, mas era impossível, e acabava falando mais do que deveria. Não digo para Tori, mas, diversas vezes, disse à Gia que estava com saudades dela e que, se eu pudesse, passaria uma tarde inteira beijando seu corpo. Tudo isso para me arrepender depois. — Só que eu evitava vê-la a todo custo. Ou melhor, eu tentava não estar no mesmo lugar que ela… — Eu não sei como contar o que vem a seguir, mas Tori, perceptiva como é, entende que eu estou escondendo alguma coisa. — Fala logo, Lucca! — ela pede, seu tom de voz alterado. — É que… Eu… É… — Desembucha! — Eu virei um stalker. É isso.


Eu nunca pensei que fosse dizer isso, mas eu preciso de Dante e um dos seus planos. Meu amigo é famoso por eles — nem sempre por darem certo… Dante é o rei das ideias mirabolantes, dos planos mais alucinados e das maneiras menos tradicionais usadas para resolver quaisquer problemas que possam vir a aparecer. Confesso que, muitas vezes, eu zombei das ideias dele — afinal, elas eram, com muita frequência, absurdamente idiotas. Só que, no momento, até ideias idiotas eu estou aceitando. Qualquer coisa que me ajude a resolver essa situação com Gia. Porém, tenho dois problemas: 1) Dante está fora, em lua-de-mel; 2) Dante não pode saber que estou pensando em maneiras de poder transar novamente com a irmã gêmea do nosso melhor amigo. Quando foi que minha vida virou uma novela mexicana? Passo as mãos pelo meu rosto, tentando espantar o desespero que ameaça me consumir. Merda. Eu preciso dar um jeito na minha vida, mas não tenho a mínima ideia de onde começar. Meu celular vibra no meu bolso, indicando a chegada de uma mensagem. Será que é Gia? De uma forma bastante afobada e, confesso, ridícula — ainda bem que não tem ninguém aqui para me ver assim —, eu tiro o celular do bolso. Um sorriso estampa meus lábios, mas ele logo vai embora quando eu vejo o remetente. Pai: Hoje é dia 20. Nosso jantar está de pé? Puta que pariu, tinha me esquecido do jantar com meu pai. Na verdade,


tinha esquecido que hoje era dia vinte e todos os dias vinte, de todos os meses e todos os anos, nós temos um jantar de pai e filho. Fazemos isso há quase duas décadas, e posso contar nos dedos as vezes que precisamos cancelar. Eu: Claro! Sua casa? Minha casa? Pizzaria? Nós sempre tentamos variar. Meu pai adora quando eu cozinho, pois é quando ele come algo caseiro. Nicolas Mellis tem vários dons, cozinhar não é um deles. O homem é um gênio da matemática, saca tudo de política, conversa com facilidade sobre a cultura tailandesa, mas em hipótese alguma consegue fazer um ovo mexido. Ou um miojo. Ele é do tipo que toma café solúvel, porque não dá conta de ligar a cafeteira sem a iminência de uma tragédia. Como eu sobrevivi é um mistério. Por isso, sempre que jantamos em sua casa, ele pede alguma coisa em algum restaurante. Pai: Tô com vontade de comer pizza. Camilo? Há alguns anos, descobrimos a melhor pizzaria do mundo. O dono, seu Camilo, por incrível que pareça, é um colombiano. Não importa. O único problema é que é um pouco longe, em um bairro que fica no outro lado da cidade. De novo, não importa. Eu: Te encontro lá às oito. Pai: Até mais tarde, filho. Por mais que eu não devesse encontrar com meu pai hoje — não só pela confusão na minha cabeça, mas pela quantidade de trabalho que tenho a fazer —, estou ansioso para encontrá-lo. Infelizmente, são esses jantares mensais que fazem com que a gente se veja com regularidade. Quando dá, eu passo na casa dele no fim de semana, mas ser dono de bares tem esse problema: os dias que as pessoas descansam são os dias que mais trabalhamos. É exatamente por isso que, não importa o que esteja acontecendo em minha vida, eu nunca perco um jantar com meu pai. Ele é minha prioridade, minha única família. As pessoas normalmente cometem erros na hora de estabelecer a ordem de importância das coisas na vida. É muito comum ver o


trabalho vindo em primeiro lugar. Só que, se tem uma coisa que eu aprendi — e da forma mais dura e cruel — é que família sempre vem antes de tudo. Nós nunca sabemos quando eles podem não estar mais aqui e, quando se vão, deixam um vazio tão grande, que nada é capaz de preencher. Eu acho que eu nunca estive tão desconcentrado na vida. Preciso descobrir o que fazer. Eu deveria ser capaz de adiantar boa parte do trabalho — terminar algumas planilhas, confirmar as entregas, verificar as contas, pensar nos novos projetos… —, afinal, tenho que encontrar com meu pai mais tarde, mas não consigo focar. Estou no meu escritório, sentado na cadeira de couro vermelha que tanto amo, com o computador ligado à minha frente, dezenas de papeis espalhados pela mesa, mas nada me instiga. Olho para tudo, mas continuo sem fazer nada. Imagens de Gia me vêm à mente. Onde será que ela está agora? Será que está sozinha ou com o brutamontes? Será que está trabalhando? Essa loucura está me consumindo e eu preciso fazer algo a respeito. Não posso continuar a viver a vida assim. Levanto-me e caminho a passos rápidos para fora do Purgatório. Só tem uma coisa que vai me acalmar agora e é a mesma coisa que tem me mantido são nos últimos meses. ** Minha primeira parada é a casa dela. Gia mora em um bairro bastante residencial, um pouco afastado do centro da cidade. Desde pequena, ela dizia odiar o caos da cidade e que, se pudesse, se mudaria para uma cidadezinha do interior. O que não faz o menor sentido quando olhamos para ela. Gia é cheia de energia. O que uma mulher como ela faria em uma cidade pacata, com três mil habitantes? Porém, o que ela fez foi bem mais sensato. Em vez de se mudar para o interior, ela optou por morar um pouco afastada do centro, em uma rua onde não há prédios e nem comércio. O condomínio que ela escolheu é o mais


perto da vida do interior que se pode ter numa cidade grande. Eu já vim tantas vezes aqui nos últimos meses, que os porteiros e seguranças já me conhecem. Felizmente, quando vim pela primeira vez, descobri que meu nome estava em uma lista de pré-aprovados para entrarem, o que, para meu alívio, fez com que eles não precisassem ligar para Gia, pedindo autorização para que eu entrasse. Momento “ufa”. Sempre é a mesma coisa. Eu salto do táxi e entro no condomínio a pé. A rua onde ela mora fica a, mais ou menos, meio quilômetro de distância da entrada. Durante o percurso, eu fico criando possíveis cenários na minha mente. Ela com o namorado… Ela pelada e andando pela sala… Ela não estar em casa… Ela, ela, ela, ela. Nos últimos meses, ela é tudo que tem estado em minha mente. Merda. Passo pela primeira, pela segunda e pela terceira rua. Quando chego na esquina da quarta, eu viro à esquerda. Uma, duas, três, sete casas depois, estou de frente para a de Gia. Para a minha sorte, vejo o carro dela parado logo na entrada. Como sempre, vou para o outro lado da rua e me posiciono embaixo de uma árvore e fico olhando para onde ela deve estar. As janelas estão abertas, mas eu não a vejo. A ansiedade começa a crepitar dentro de mim. Eu preciso vê-la. Preciso da minha dose de Gia, nem que seja à distância. Não sei quanto tempo passa, provavelmente por volta de dez minutos, até ela aparecer. Ela está andando de um lado para o outro, segurando o celular na orelha. Ela parece não estar nem um pouco feliz, como se o que estivesse ouvindo a irritasse profundamente. Quando ela coloca a mão no rosto e abaixa a cabeça, sei que ela está prestes a chorar. Ou a gritar. Ela respira fundo e levanta a cabeça. A mão que estava em seu rosto vai para sua


cintura e ela olha para frente. Diretamente para mim. Eu consigo ver a confusão em seu olhar. A pessoa do outro lado da linha é ignorada. Meus olhos prendem os dela e eu consigo sentir a energia fluir entre nós. Estamos fisicamente afastados, mas só de poder vê-la, meu corpo responde. Eu a sinto em cada pedaço do meu corpo, e sei que ela sente o mesmo. Como eu fui capaz de ignorar isso por tanto tempo? Ficamos assim, nos entreolhando. Um tentando entender o outro. A energia fluindo, o desejo aumentando, a curiosidade amplificando o nervosismo entre nós. Gia não sabe por que estou aqui. Porra! Nem eu sei por que eu estou aqui. Eu não deveria sentir o que sinto por ela, mas é inevitável. Eu tentei resistir, eu juro que sim. Dou um passo para frente, depois outro, e mais um… Meus olhos nunca deixam os dela, pedindo que ela me entenda, que ela note a confusão de sentimentos que me domina neste momento. Eu atravesso a rua e paro de frente para a janela dela. Agora, apenas pouquíssimos metros nos separam. Eu não digo nada, nem ela. O celular continua completamente ignorado. Estamos presos no feitiço do momento. Tanto eu quanto ela sabemos que o que está por vir pode ser fantástico ou catastrófico. Mas eu preciso tomar coragem e fazer aquilo que meu coração vem exigindo há meses, mas que meu estúpido cérebro diz que não posso. Está na hora de Gia saber exatamente o que quero dela. Fodam-se as consequências.


Eu bato em sua porta, pedindo silenciosamente para que ela não me deixe do lado de fora que nem um otário. Escuto passos, mas nada de a porta abrir. Eu sei que ela está tensa do outro lado. Eu também estou. Meu coração está acelerado e o nervosismo ameaça tomar conta. Mas não posso permitir que ele me domine. Não agora. — Gia — chamo seu nome. Encosto minha testa na porta e espalmo as mãos na madeira escura. Ela não responde, mas posso senti-la ali. — Abra a porta, por favor. Precisamos conversar. Se ela soubesse o turbilhão que está acontecendo aqui dentro, provavelmente viraria as costas e sairia correndo para qualquer lugar longe de mim. É muito complicado saber o que quer e, ao mesmo tempo, saber que é exatamente aquilo que não deveria querer. — Gia… — tento mais uma vez. Escuto-a murmurar algo como “cachorro, filho da puta” e, então, a porta é aberta, me deixando cara a cara com a mulher mais linda que já vi na vida. É possível que ela fique mais bonita a cada vez que a vejo? — O que você quer, Mellis? — ela pergunta, arredia. Suas duas mãos na cintura, costas eretas e nariz empinado afirmam: Gia está pronta para a guerra. Pelo visto, seu maior oponente sou eu ou, quem sabe, isso sentimos um pelo outro. — Posso entrar? — peço, não querendo ter esse tipo de conversa no meio da rua, onde todos os vizinhos fofoqueiros possam ouvir. Gia me analisa por um momento, como se ponderasse se eu sou


confiável ou não. Ah, minha princesa… Quando se trata de você, com certeza não sou confiável. — Primeiro me responda o que você quer falar comigo. Se eu achar que vale a pena meu tempo, deixarei você entrar. Eu ergo minha sobrancelha, impressionado com o jeito como ela está me tratando. Essa é a Gia que eu conheço. A Gia do meu passado, de toda a minha vida. Não a Gia que tem me enlouquecido nos últimos meses. Confesso que não sei qual das duas me atrai mais. — Nós, Gia. Quero falar sobre nós. Por isso, deixe-me entrar. — Dou um passo para a frente, aproximando meu corpo do seu e deixando que ela sinta essa coisa entre a gente. Sentimento? Atração? Energia? Ainda não descobri o que é. — Agora você quer falar sobre nós? — Ela solta uma gargalhada falsa, seus olhos não desviam dos meus. — Eu acho que precis… — Lucca, para. Por favor — Gia diz, me cortando e impedindo que eu dê maiores explicações. — Você acha que pode vir aqui, do nada, com vontade de conversar e eu tenho que largar tudo, sentar e escutar você? Por que eu deveria ouvir você? As palavras dela são como um tapa na minha cara — e o pior é que não tenho ideia da resposta. Não sei dizer por que ela deve me ouvir se, durante tantos meses, eu simplesmente ignorei (ou fingi ignorar) a tal coisa entre a gente. Tento buscar as palavras certas. Tenho certeza de que se eu disser algo de errado agora, todas as minhas chances de ter Gia se dissolverão. No momento, ela está com três pedras na mão, pronta para a briga. Se eu não a desarmar, será difícil para que ela entenda o meu lado da situação. Por isso, faço aquilo que venho sonhando em fazer desde aquela bendita noite: eu a beijo.


Emolduro seu rosto com as minhas mãos e colido minha boca com a dela, não permitindo que ela pense no que está acontecendo. No momento em que sinto seu gosto, todas as dúvidas e os “e se…” parecem desaparecer dos meus pensamentos. Somos apenas nós dois e o desejo reprimido que vem nos consumindo há meses. Gia não se entrega facilmente. Ela resiste. Mas eu não: dou mais um passo à frente, eliminando qualquer espaço que haja entre nós. Sugo seu lábio inferior e quase morro de tesão quando escuto seu gemido. Gia, enfim, abre sua boca, permitindo que nossas línguas se encontrem. Não existe qualquer outra coisa nesse mundo que se compare ao prazer que sinto quando estou beijando esta mulher. Quando ela se permite ser amada por meus lábios, Gia relaxa, se derretendo em meus braços. Suas mãos vão para a minha nuca, e ela fica na ponta dos pés, chegando mais perto ainda. Ela puxa meu cabelo e eu aperto sua cintura. Deixo que uma mão suba, posicionando-a atrás de sua cabeça, para que ela não possa se afastar. Nunca. Quero ficar aqui para sempre, sentindo seu gosto adocicado, ouvindo seu suspiro de prazer, sentindo seu corpo contra o meu. O beijo está cada vez mais intenso, mais forte, mais desesperado. Simplesmente mais. O mundo ao nosso redor desaparece e é como se estivéssemos em uma bolha. Aqui, podemos fazer o que nós bem entendermos; ser de quem quisermos. Até que… — PODE VIR, FREGUESA. OVOS GRAÚDOS, OVOS FRESQUINHOS. ESSE É O CARRO DO OVO. TRINTA OVOS POR DEZ REAIS. Eu nunca pensei que fosse perder o controle na minha vida. Sempre fui um cara bem equilibrado, educado. Mas, tem certos momentos na vida de um homem que ele pode simplesmente esquecer de tudo e gritar: — Enfia os trinta ovos no cu! — eu berro, depois de o beijo ser


interrompido de forma tão brusca. Gia começa a rir, mas ela não me solta. Pelo contrário, ela passa os braços ao meu redor e encosta sua cabeça no meu peito. Minha respiração está ofegante, não sei se por tesão ou ódio. Mas senti-la balançar com a risada faz com que eu me acalme. — Gia, por favor… — eu peço não sei o quê. — Vem, vamos entrar — ela diz, e não consigo entender seu tom de voz. Não está irritado como antes, mas também não está tranquilo como pensei que estivesse depois do nosso beijo. Ela vira as costas para mim, entrando em casa e deixando a porta aberta para que eu a siga. Respiro fundo e vou atrás da mulher que, com apenas um sorriso, é capaz de me transformar em uma marionete de seus desejos. Aproveito que ela está andando à minha frente para analisá-la. Gia está vestindo uma calça legging cinza — que mostra com exatidão o formato de sua bunda — e uma blusinha branca e sem mangas. Pés descalços… Adoro ver Gia com os pés descalços. Isso me traz uma sensação de cotidiano, de rotina. Algo que eu gostaria de poder dividir com ela. Gia segue para dentro de casa, em direção à cozinha, e eu a sigo, hipnotizado pelo movimento de seu quadril. É como se ele tivesse uma coleira e estivesse me puxando para onde quer ir — e eu iria sem criar resistência. É claro que ela nunca pode saber disso. Nem meus amigos. Principalmente meus amigos. Mas meus amigos não podem saber de nada disso… O pensamento traz um gosto amargo para a minha boca. Gia abre a geladeira e tira de lá duas garrafas de água mineral e me estende uma, que eu aceito. Minha boca está seca. O nervosismo de estar prestes a fazer a melhor e pior coisa da minha vida está falando cada vez mais alto — e o pior: eu não sei como ela reagirá. Ela dá um gole. Seus olhos estão fechados, como se tivesse medo de abri-los e me ver ali.


Será que ela não entende que eu também tenho medo de estar aqui? Será que ela não consegue ouvir como o meu coração está acelerado? — Por que você está aqui, Lucca? — ele me pergunta, indo direto ao ponto. Sua voz está, mais uma vez, firme. Procuro em seu olhar a paixão que sentiu há alguns minutos, mas não está mais lá. Pelo visto, Gia voltou a ter o controle da situação. Será que ela não entende que sempre tem o controle? Que ela é a única que tem o poder de me controlar? Ela olha para mim, esperando por minha resposta. — Acho que chegou a hora de conversarmos — eu digo, meu olhar focado em seu rosto. Seus olhos azuis brilham com travessura, e sei que o que ela irá falar a seguir não será do meu agrado. — Sobre o que você gostaria de conversar? — As mãos dela voltam para sua cintura, assumindo a mesma postura de quando abriu a porta. Mas, desta vez, acho que um beijo não será o suficiente para fazê-la esquecer de tudo que vem acontecendo entre nós. A pergunta dela é um desafio. Ela quer que eu me exponha, do mesmo jeito que ela se expôs durante esses últimos meses. Será que ela não vê que tudo que eu queria era proteger a nós dois do que pode ser o relacionamento mais catastrófico de todos? — Sobre nós dois, Gia. Precisamos conversar sobre nós dois — falo as palavras de forma direta e sem hesitação. — Existe um “nós dois”, Lucca? — Eu consigo sentir a acusação em sua pergunta. Não preciso ser um mestre de leitura nas entrelinhas para entender o que ela quer dizer. Será que ela não entende que eu daria tudo para que houvesse um “nós dois”? — Gia, eu… — Não, Lucca. Quer saber? Não fala nada. É a minha vez de falar — ela


diz, colocando a garrafa de água em cima da bancada da cozinha e dando um passo em minha direção. Mas, desta vez, sinto que não é para me beijar ou abraçar. Ela está na guerra, avançando contra o inimigo. Gia vai atacar e eu preciso estar pronto para o que vou ouvir. Afinal, eu provavelmente mereço cada uma de suas palavras. — Então, fale. — Faço um gesto com a mão para que ela continue. Gia precisa desabafar, jogar para fora todo esse sentimento negativo antes que eu possa falar, pedir ou propor qualquer outra coisa. — Por que você acha que tem o direito de vir aqui, na minha casa, para conversar sobre “nós”? — Ela faz o sinal de aspas com os dedos, zombando daquilo que é meu maior desejo. — Por… — Não, eu falo! — ela briga, interrompendo-me. — Você não tem esse direito. Ponto. Eu tentei, te dei todas as chances e oportunidades para que houvesse esse tal de “nós”, mas você simplesmente me ignorou, repeliu meus sentimentos e meus avanços. Agora, que estou com outro cara, você acha que tem algum direito de vir aqui, me beijar e dizer que quer conversar? Não existe nós, Lucca. Você nunca permitiu que existisse um nós! Se tem uma coisa que eu admiro nessa mulher é sua capacidade de não levar desaforo para casa. Gia não engole sapos. Quando tem algum problema com qualquer coisa que seja, não hesita em apontar o que a desagrada. Eu sabia que um desafio estava à minha espera. Tudo que ela disse faz sentido. Eu não quis um relacionamento, eu não permiti que algo crescesse entre nós. — Gia… — Não, Lucca. Por favor, vá embora. Não volte aqui, não me beije e, principalmente, não me confunda. Sim, a ambiguidade é verdadeira. Não me confunda no sentido de criar confusão em minha cabeça. Uma hora, você me ignora. Noutra, você me beija. O outro sentido, e é nesse que eu quero que você preste mais atenção, é que você não me confunda com outras mulheres.


Eu não sou uma qualquer que você pode brincar. Eu sei que você, Dante e meu irmão fizeram um tal de pacto… Blá blá blá, não se envolver… Blá blá blá, sexo sem compromisso… Eu não sou uma delas! E você me tratou como uma, Lucca. As palavras dela são como um tapa na minha cara. Eu dou dois passos para frente, tentando encurtar a distância entre nós — tanto a física quanto a emocional. — Eu não sei usar bem as palavras, por isso fico sempre calado. — Não me vem com essa. Você poderia não dizer uma palavra sequer, mas demonstrar através de ações. Só que você optou por ficar calado e não fazer nada. Verdades… Todas elas jogadas na minha cara. Eu não sei o que fazer, como mudar essa situação na qual eu me meti. Mea culpa, sem dúvidas. Será que ela não entende que eu nunca estive tão confuso em minha vida? Que ela é a causa da minha insônia? Que a falta dela é o que me angustia? Então, a ideia me bate: eu não preciso de ideias mirabolantes ou ajuda de amigos. A única coisa que eu preciso é conversar com ela. Mostrar, através de palavras e ações, o quanto ela é importante para mim. Porque ela é. Eu não sei o que aconteceu, mas aquela noite mudou a minha vida e está na hora de ela saber exatamente o quanto.


— Você já acabou de falar ou tem mais alguma coisa que gostaria de jogar na minha cara? Porque, se tiver, esta é a hora. Fique à vontade — eu digo, encarando seus olhos azuis, que brilham com a raiva que sei que Gia está sentindo. Eu também estou com raiva. Raiva de mim, por não ter feito aquilo que desejava, por ter deixado que a mulher da minha vida escapasse. Raiva do universo, por ter me permitido descobrir que tudo que eu nunca soube que queria estava logo aqui, debaixo do meu nariz, por toda a minha vida. Raiva dela, por tornar tudo muito mais difícil. E raiva dessa coisa que existe entre nós e que, não importa o quanto eu tente, não consigo explicar. — Por que você está fazendo isso, Lucca? Por que agora? O que mudou? — ela quer saber. Seus olhos buscam a resposta nos meus. — Nada mudou, Gia — eu confesso e posso ver a confusão na maneira como me encara. Ela está desesperada para entender o que está acontecendo. Seu olhar mostra isso. Mas, ao mesmo tempo, sua postura demonstra que ela está pronta para uma briga. — Então, o que… — É a minha vez de falar, princesa. Eu só preciso que você me escute por um minuto, ok? Gia apenas faz que sim com a cabeça, ainda sem entender muito bem o que eu estou tentando fazer. Tenho vontade de dizer para ela a verdade, que sou um babaca. Mas, no momento, a única coisa que eu quero é que ela me entenda. Coloco uma mão em seu rosto, buscando a coragem que preciso


para resolver nossa situação de uma vez por todas. Ou, pelo menos, a parte que nos diz respeito. Meu toque parece tranquilizá-la. Há um minuto, ela gritava comigo. Agora, quando minha mão encosta suavemente em seu rosto, Gia parece ter voltado ao seu estado normal. É possível que eu tenha nela o mesmo efeito que ela tem em mim? — Gi, como eu disse e você já sabe, eu não sou muito bom com as palavras. Mas uma coisa eu sei dizer: eu odiei o fato de você ter um outro homem que não eu ao seu lado. — Pronto. Deixo a primeira (das muitas) verdade sair. — Muita hipocrisia da sua parte, não acha? — ela revida, mas é apenas um sussurro. Gia desvia o olhar, evitando meus olhos a todo custo. — Olha para mim — é uma ordem disfarçada de pedido. Felizmente, ela faz exatamente o que eu digo. Tê-la assim, tão perto, encarando-me com tamanha intensidade quase me faz perder o ar. Ela é tão linda… — Eu não sei o que fazer — confesso. — Não faço a mínima ideia de como podemos viver isso que existe entre nós. Não digo para ela, mas tenho medo de muitas outras coisas além de Gael. Claro que perder a amizade dele rasgaria um pedaço da minha alma. Gael é mais que um amigo, é um irmão. Ele já deixou claro que não sou suficiente para Gia e sei que, se ele descobrir este nosso envolvimento, nada voltará a ser como antes. Provavelmente, perderei um amigo. O grande problema — e o que mais me assusta também — é a possibilidade de que Gia descubra isso; que ela tenha a consciência, assim como seu irmão, de que eu não sou bom o bastante. Não sou tão inteligente quanto Gael nem tão despojado e sociável quanto Dante. Não tenho uma família perfeita, muito menos uma grande fortuna. Não sou o homem mais eloquente e nem o mais romântico.


Olá, complexo de inferioridade, como vai você nesta bela quarta-feira? Hoje é quarta-feira? Já nem sei mais… — Lucca, saia da sua cabeça e olhe para mim um momento — Gia pede e eu deixo que minha atenção se volte para ela. — Você fez a sua escolha. Nós não vamos ficar juntos. Oi? — Eu sei que você tem seu namorado e… — Exatamente — ela me interrompe, impedindo que eu ao menos tente verbalizar aquilo que está entalado dentro de mim. — Eu tenho meu namorado e já errei o suficiente quando deixei você me beijar. Isso não vai acontecer novamente. Você fez sua escolha. Várias e várias vezes. Eu fui teimosa e tentei fazer com que você mudasse de ideia, que enxergasse em “nós” — mais uma vez, ela faz o sinal de aspas — aquilo que eu enxergo. Não mais. Não vou mais me humilhar. Não vou mais implorar. Não vou mais nada. De agora em diante, você segue a sua vida e eu sigo a minha. — Não — eu digo. — Como assim, “não”? — Eu não aceito o que você acabou de dizer. As palavras dela me atingiram em cheio. Ao mesmo tempo, me fizeram perceber o quão babaca eu tenho sido. O quão babaca eu fui com ela. Nesse tempo todo, a única coisa em que eu pensei foi em mim mesmo. Eu, eu, eu, eu. Quando foi que me tornei esse cara tão egocêntrico? — Em primeiro lugar, eu quero te pedir desculpas por esses últimos meses. Eu não fui justo com você. Em segundo lugar, quero você entenda o meu ponto de vista. Em terceiro, preciso que você me perdoe para que possamos achar uma forma dessa coisa dar certo. Deixo as palavras saírem de forma rápida. Não posso dar tempo para ela pensar muito a respeito. — Lucca, não é assim tão fácil. Eu tenho o Fred agora…


— Três encontros — é a minha vez de interrompê-la. Digo a primeira coisa que me vem à mente. Num ato de desespero, é isso que eu preciso. Essa ideia, junto à anterior — aquela de falar toda a verdade e mostrar para ela, através de ações e palavras, o que está acontecendo e o que eu estou sentindo —, é minha chance de tentar entender essa nossa confusão e, principalmente, esse turbilhão de sentimentos que me impedem de viver normalmente. — Não entendi — ela diz, erguendo a sobrancelha e inclinando a cabeça para o lado esquerdo. — Eu quero três encontros com você. Prometo que, durante esses encontros, eu vou te contar tudo que penso e sinto. Prometo falar tudo aquilo que deveria ter falado nos últimos sete meses. Principalmente, prometo que, ao fim desses três encontros, saberemos o que acontecerá de lá para frente. Não sei se consegui me fazer entender direito. Gia me olha como se eu não fizesse muito sentido. Como se eu fosse um grande enigma. Eu vou explicar para ela que tudo que eu quero é entender e dar a ela uma chance de decidir se vale ou não a pena estar comigo, mas ela me interrompe: — Eu tenho um namorado — ela insiste. — Eu sei. — Então preciso que você saiba que, se eu for nesses três encontros com você, nada além de conversa irá acontecer entre nós. Ah, então é isso que ela quer dizer quando bate na tecla do tal namorado. Por mais que essa barreira imposta por ela me incomode, sei que não posso forçar a barra. Não quero (nem vou) deixar Gia desconfortável com alguma coisa. — Tudo bem… — digo, na esperança de que ela aceite logo. Eu não sei no que estou me metendo, muito menos no que isso vai dar. De repente, vamos nos afundar ainda mais. Só que eu não consigo mais me manter afastado. Essa ideia de resistir é completamente insana.


— Três encontros para conversarmos. Apenas isso — ela diz, me olhando fixamente. Neste momento, tenho um flashback de quando ela estava embaixo de mim, se contorcendo de prazer, gemendo meu nome, enquanto eu entrava e saía de dentro dela. Se Gia acha que vai ser fácil estarmos no mesmo lugar e nada acontecer, ok. Boa sorte para ela. — Três encontros — confirmo, uma mão para trás, meus dedos indicador e médio cruzados.


Como foder com tudo? Em meio ao caos, tire quase um dia inteiro de folga. Trabalhar em um bar chamado Inferno nunca foi tão pouco metafórico. Se eu soubesse que ter passado a manhã no dilema Gia e ainda ter que sair cedo por causa do meu pai fosse ser tão complicado, teria deixado os dois de lado e resolvido as dezenas de pendengas que decidiram aparecer no mesmo momento. Mentira. Por nada no mundo eu deixaria Gia ou meu pai de lado por causa de trabalho. Apesar de amar o que faço, ainda mantenho minhas prioridades intactas. Eu acho que o bom humor pode ser um bom incentivo para que eu consiga resolver os problemas com mais rapidez e, quem sabe, sair a tempo de ver meu pai. Há meses não me sentia tão tranquilo. Tão leve. Se pudesse, cantaria na chuva. Mas não está chovendo e eu não sou tão idiota assim. Gia disse que sim, que me daria três encontros para que eu pudesse me explicar e mostrar a ela o que eu sinto. Basta apenas eu entender tudo primeiro. O resto é fácil. Eu acho. Ou não. Sei lá. Merda. Nunca pensei que eu, quase aos trinta anos, seria parecido com uma garota de treze quando tem seu primeiro crush. Excelente. Depois de encontrar meu pai na pizzaria, vou tentar dar uma passada na academia. Preciso de um pouco de testosterona para ver se eu volto ao normal. Daqui a pouco, estarei comprando a Vogue e lendo sobre como fazer


decoração de banheiro com uma lâmpada quebrada. Mesmo decidido a entrar no modo eficiência, minha mente se volta para Gia. Por que será que eu me sinto desta forma em relação a ela? Por que nunca antes? Há um ano, Gia era apenas a Gia, irmã de Gael, amiga de infância. Por mais que nós sempre tenhamos nos dado muito bem, ela não era isso. Ela não me causava essa sensação estranha. O que mudou? Tomo um gole do refrigerante que está em minha mesa (mentalmente desejando que vire uma cerveja bem gelada) e tento afastar uma certa loira da minha mente, mas é impossível. A planilha à minha frente não faz sentido, não consigo me lembrar do assunto da ligação que precisava fazer e nem ao menos sei com quem era uma reunião que estava agendada para hoje. Merda. Eu quero o Dante. ** Quando mais se precisa de tempo, mais rápido o dia passa. Quando vejo, faltam vinte minutos para eu ter que encontrar com meu pai. Ótimo. No meio da tarde, apareceu um imprevisto aqui, o que me fez ter que sair do Inferno e ir para o Paraíso. Eu estou parecendo o Dante com todas essas metáforas. Estou do outro lado da cidade e agora tenho que correr. Nem penso em arrumar a minha mesa, apenas tranco a porta do meu escritório e sigo para fora do Paraíso. Porém, são apenas isso: metáforas. Porque em momento nenhum eu consegui alcançar qualquer coisa que se assemelhe com o tal paraíso, ou a tranquilidade que ele promete. Muito pelo contrário, onde quer que eu esteja, o caos me persegue. Noto que o bar está começando a encher quando passo pelo salão em direção à saída. Eu tento entender melhor a vibe daqui, mas ainda não


consigo apontar exatamente. Quando começamos com toda essa ideia de bares, nosso pensamento inicial foi de criar o lugar ideal para que as pessoas pudessem relaxar com os amigos. Um lugar para se divertir, beber, socializar. O propósito foi muito bem alcançado com o Inferno. Até hoje, lá é o lugar ideal para isso. O Purgatório veio depois, com o intuito de ser uma extensão do primeiro. Não era para ter uma atmosfera tão diferente assim. Era apenas para ser mais um. Só que (por vontade própria, creio eu) acabou se tornando algo completamente diferente. Enquanto o Inferno é mais como o Dante — fanfarrão e bem-humorado —, o Purgatório é mais como eu — calmo, intenso e reservado. Desde as cores — tudo em tons de cinza (sem quaisquer referências ao livro, quero que fique bem claro) —, até a disposição das mesas, que permitem momentos mais reservados, o Purgatório é completamente diferente de tudo que pensávamos que seria. A ideia da Sexta Sexy me parece mais tentadora a cada minuto quando penso no Purgatório. O problema — e não sei se essa é a melhor palavra para definir — é o Paraíso. A ideia de completar o trio nos pareceu brilhante na época. Agora, nem tanto. O Paraíso simplesmente existe, mas tanto eu quanto Dante não temos ideia de que tipo de bar ele virá a ser. Sua inauguração foi há menos de dois meses e, até o momento, não sabemos muito bem o que fazer com ele. Eu olho para os dois lados, tentando entender um pouco mais sobre o comportamento das pessoas. Qual a finalidade de terem vindo aqui? Estão sozinhas? Acompanhadas? Em busca de diversão? Não tenho tempo para pensar nisso agora. Acelero o passo, cruzo a porta e dou um aceno de cabeça para Minion, o gigante que fica na entrada. Depois do problema que tivemos com Kill — o segurança do Purgatório que acabou virando cafetão —, redobrei o cuidado com quem estava sendo


contratado. Minion apareceu no momento certo e com o currículo perfeito: ex-carcereiro, ele resolveu deixar o presídio de lado e se concentrar em sua paixão, a confeitaria. Como estava precisando de uma graninha extra, resolveu buscar um trabalho como segurança. Além de ser um cara bastante gente boa, ele assusta qualquer brigão em potencial. Não tenho uma fita métrica, mas o cara passa dos dois metros. Com um gesto, Minion pede para que eu vá até ele. Droga. Preciso sair daqui o mais rápido possível. Tudo que eu não quero agora é mais um problema para resolver. — Fala aí, algo errado? — pergunto, apreensivo. — Que nada. Tudo às mil maravilhas. Só para te lembrar que neste fim de semana eu tenho aquele curso de modelagem em pasta americana e não vou poder vir trabalhar — ele diz, refrescando minha memória. Sim, ele havia dito, há pelo menos duas semanas, que não estaria disponível neste fim de semana. Merda. Mais uma pendenga que eu tenho que resolver. — Tudo bem, Minion. Fica tranquilo. Eu vou achar alguém para te substituir. Obrigado por ter me lembrado. Ele me dá um aceno de cabeça e eu sigo meu caminho. Faço sinal para o primeiro táxi que passa. Dito o endereço para o motorista e sigo para encontrar meu pai. ** — Então quer dizer que você está completamente atolado? — meu pai pergunta, depois de eu ter chegado ao restaurante parecendo exausto e sentado à mesa, praticamente desabando na cadeira. Quando ele me perguntou o que estava acontecendo e o porquê de eu estar desse jeito, eu dei um breve resumo do que tem acontecido nos últimos dias. Pelo visto, meu pai consegue simpatizar com a minha situação. Melhor do que ninguém, ele sabe como é difícil ter que acumular várias funções. Quando minha mãe foi embora, ele teve que assumir as tarefas de casa, a


criação do filho e o trabalho. No início, ele perdeu totalmente o rumo. Depois as coisas foram se acertando. Pouco a pouco, ele aprendeu a bela arte de multitarefar. Nicolas Mellis pode não ser perfeito, mas o cara é meu herói, além de ser um dos meus melhores amigos. Se não fosse por ele, não sei o que teria sido de mim. — Sabe qual seu maior defeito, filho? — ele pergunta retoricamente, recostando-se na cadeira e olhando para mim. Eu apenas dou de ombros. — Você pensa demais. Olho espantado para ele, mas, quando vou retrucar, seu Camilo aparece para nos cumprimentar. — Ora, ora, ora, se não é o menino Lucca! — Seu Camilo me puxa para um abraço. O homem, pequenininho e sempre cheirando a molho de tomate, me envolve em seus braços e dá alguns tapas nas minhas costas em um gesto carinhoso. — Você está muito magro. Perdeu peso. O que aconteceu? Por um momento, eu me sinto nos braços de uma avó, que olha o neto com desaprovação. Mas seu Camilo me conhece há muito tempo, desde a época que as coisas não eram tão fáceis quanto hoje. — Excesso de trabalho. Estou precisando desesperadamente da sua pizza — digo e ele me dá dois tapas no ombro. Não sei qual sua fixação por tapas, mas acho melhor não perguntar. — A de sempre? — ele pergunta e eu digo que sim. — Alguma coisa pra você, Nicolas? — Duas cervejas. Lucca está precisando — meu pai comenta, olhando para mim. — É pra já. Eu volto a me sentar no momento em que o senhorzinho vai para a cozinha preparar a melhor pizza do universo. Só de pensar, já fico com água na boca. — Voltando ao assunto… — meu pai interrompe meu sonho.


Eu olho para ele, já imaginando o que vem a seguir. Porém, não consigo encará-lo por muito tempo e volto minha atenção para a interessantíssima toalha verde que está disposta sobre a mesa. O saleiro em formato de porco também é algo a ser analisado com minúcia nos próximos minutos. — Seu maior problema é pensar demais, filho, porque você acaba não se permitindo viver. Você está sempre aí em cima — ele aponta para minha cabeça — e esquece que outras partes do corpo também funcionam. Eu quero poder retrucar, dizer que ele está errado, que eu me permito viver. Só que não posso. Ele tem razão. Eu sempre fui do tipo “pense cinco vezes antes de agir”. — Eu não sei ser de outra forma, pai — respondo, minha voz é baixa e pouco enfática. Não que eu duvide do que acabei de falar, mas porque não me sinto confortável em compartilhar certas coisas com qualquer outra pessoa, inclusive meu pai. Não sei como dizer a ele tudo o que vem acontecendo com Gia, como, nos últimos meses, eu fui um babaca com ela e agora, que estou com ciúmes, resolvi agir de forma diferente. Ele vai não apenas rir da minha cara, mas me xingar, dizendo que sou um covarde — e cadê a novidade nisso tudo? — Lucca, meu filho, eu te conheço melhor do que ninguém. Não duvide disso. Até Dante e Gael já perceberam que tem algo de errado com você — ele diz e eu reviro os olhos. Será que um homem não pode ter problemas sem ter que compartilhar com os outros? — Eu sei que você não vai me contar o que está acontecendo. Você nunca conta, a não ser quando não tem mais como controlar. — Eu quero falar alguma coisa, mas meu pai ergue a mão, pedindo para que eu pare, que eu continue quieto que é a vez dele de falar. — Não precisa dizer nada. Mas, para fazer a vontade do seu velho pai aqui, por favor feche os olhos. Hein? Eu não entendo o pedido dele e acabo franzindo a testa. Meu pai apenas me encara e não diz nada. Cruza os braços e espera que eu faça aquilo que ele


me pediu. Meu pai sempre foi do tipo que usa psicologias estranhas para resolver problemas da vida. Uma vez, quando eu era criança, acabei brigando com um menino da escola. Eu me recusei a contar pra qualquer um o motivo, inclusive para o diretor da escola. Quando chegamos em casa, meu pai disse para eu conversar com uma árvore, já que ela não me responderia. Eu ignorei sua sugestão (que era de verdade, não um deboche como algumas pessoas poderiam pensar) e acabei indo almoçar na casa dos Morelli. Dona Lila, a mãe de Dante, fez macarronadaterapia e conseguiu extrair todas as informações de mim. Resignado, expiro o ar com força e fecho os olhos, fazendo o que meu pai diz e aceitando mais uma de suas técnicas infalíveis de como ajudar seu filho. — É uma manhã de domingo… — ele começa, uma voz de narrador de livro em áudio —, você está passeando pela praia. A brisa batendo em seus cabelos e levando embora todo o stress da semana. — Eu acho que quem precisa de terapia é meu pai, mas resolvo ficar quieto. — De repente, seu celular toca, e você sabe que é aquela ligação que você tanto espera. Você pega o aparelho e olha o visor. Qual nome você vê? Gia. — A pessoa está ligando porque quer te encontrar. Vocês vão para aquele lugar especial. A casa de Gia. — Quando você chega lá, a pessoa está te esperando. Gia está só de calcinha e uma camiseta com a imagem de uma rosquinha. — Você abre um sorriso e a pessoa faz exatamente aquilo que você quer. Gia pula no meu colo, envolvendo minha cintura com suas belas pernas e me dá um beijo na boca. Daqueles sem pressa. Ela estava com saudade de


mim, da mesma forma como eu estava dela. Ficamos ali, na porta da casa, sem qualquer preocupação. — Agora, Lucca, vai lá e faça isso acontecer. — O tom de voz do meu pai muda, voltando ao normal. Quando eu abro os olhos, ele está me analisando. Eu quero falar para ele o que está acontecendo, qual é o problema que tanto me aflige, mas não consigo. Apenas faço que sim com a cabeça, rezando mentalmente para que a pizza e a cerveja cheguem logo e quebrem essa tensão. Não quero conversar sobre sentimentos. Eu não os entendo muito bem. Mas esse “exercício” apenas confirmou aquilo que eu já sei: eu quero Gia em minha vida. Ao mesmo tempo, quero seu irmão. Melhor eu reformular. Eu não quero ter conflitos com seu irmão. Quero poder ter a garota e o meu melhor amigo. Não acho que seja pedir demais. Já que eu não sei como explicar a situação para o meu pai, decido pedir a ajuda dele para algo que sei que ele é capaz de me ajudar. — Pai, eu tenho que planejar um encontro perfeito para uma garota perfeita.


Eu nunca pensei que planejar um encontro pudesse ser tão difícil. Para ser honesto, nunca fiz isso antes, o que faz de mim um virgem. Excelente. Enquanto comíamos, meu pai me deu várias ideias do que fazer para agradar uma mulher. Nenhuma delas boa o suficiente para Gia. Ele sugeriu cinema, jantar, um passeio de mãos dadas, galeria de arte… Quem diria que meu pai era um cara tão clichê pra certas coisas? Eu saí da pizzaria mais confuso do que entrei. O pior é que não tenho ideia de quem possa me ajudar. Mesmo que eu pudesse conversar com meus melhores amigos, com certeza, eles não saberiam o que dizer. Acredito que nenhum dos dois tenha, na vida inteira, organizado um encontro. Nem Dante, que hoje é um homem casado, sabe qualquer coisa sobre romance. E Gael… Além de ser o motivo de minha apreensão, provavelmente diria que romance é ser o único a se esforçar na hora do sexo e, depois, oferecer um copo d’água. Pelo visto, estou sozinho nessa. Ou não… Na era da tecnologia, temos o conhecimento na palma de nossas mãos (isso deve ser o slogan de alguma empresa, mas enfim…). Pego meu celular e abro o mecanismo de busca. Digito: encontro perfeito. Aparece uma música gospel. Excelente. Isso deve ser Deus me dizendo que preciso de muito mais ajuda do que apenas de um aparelho de cabe no meu bolso. Mas eu não vou desistir. Tento de novo e, desta vez, digito “como organizar um encontro perfeito”. Bingo!


Agora, sim, eu encontro o que preciso. A terceira opção é uma lista de quinze dicas para um encontro perfeito. Alguma coisa aqui deve me ajudar. Antes de abrir o site, deixo o celular na mesinha ao lado do sofá, vou até minha geladeira e pego uma cerveja. Depois, tiro a camisa e as calças, colocando-as no cesto de roupa suja. Preciso estar completamente relaxado para uma coisa importante como essa. Eu estico meus braços, alongando minhas costas e afastando um pouco da tensão. Movo o pescoço de um lado para o outro, ouvindo uns estalos perigosos. Vou à minha estante e pego um bloco de papel e uma caneta. A tecnologia pode ser muito boa, mas nada como o bom e velho papel para te ajudar a pôr as ideias em ordem. Volto a me sentar no sofá, agora pronto para os próximos passos. No topo do papel, escrevo: MISSÃO: CONQUISTAR GIA E NÃO FODER MINHA AMIZADE COM GAEL. Abro o site e começo a ler as dicas que ele dá. Pelo visto, o lugar onde o encontro vai acontecer é fundamental. É ele que garante o sucesso do encontro. De acordo com quem quer que seja que tenha escrito esse artigo, preciso pensar em um local que tenha importância afetiva, ou seja, onde nós tivemos momentos felizes. Não posso ter um encontro com ela em seu quarto. Não tenho memória nossa mais feliz do que aquela. Porém… Isso! Não preciso me encontrar com ela onde transamos, mas onde tudo começou naquele dia. No restaurante em que, acidentalmente, nos encontramos na hora do almoço. Perfeito. Procuro o telefone de lá e ligo para fazer uma reserva. A mulher que me atendeu estranha o meu pedido, já que é uma mesa para apenas duas pessoas e em um dia de semana. Além do que, lá não é o lugar mais romântico para se ter um encontro. Foda-se o romantismo. De acordo com o site, é a memória afetiva que importa. Então, um jantar num buffet pode ser considerado excelente para um primeiro encontro.


Faço a reserva para amanhã às sete e meia. Volto para o site e leio um pouco mais. Quero que tudo seja inesquecível. Pelo visto, um encontro tem que ser mais do que apenas um jantar. Hmmm, interessante. É preciso também algum tipo de atividade, como um cinema, um show, uma caminhada. Ainda bem que eu resolvi procurar por ajuda, jamais teria adivinhado sozinho. Parece que há toda uma ciência envolvida por trás da arte do encontro. Penso, então, em que tipo de atividade agrada à Gia. Eu sei que ela gosta de animais, por isso é veterinária. Será que tem algum abrigo de animais que possamos visitar? Novamente, busco a informação e… é claro que a resposta é sim! Descubro que, a alguns quarteirões do restaurante, tem um centro de resgate de animais de rua. Ligo para lá, mas ninguém atende. Olho para o relógio e vejo que já passa das dez da noite. Faço uma nota mental para não esquecer de ligar para lá amanhã cedo e me informar. Jantar, ok. Atividade, ok (ou quase). Agora, só falta pensar na parte final do encontro. Não preciso retornar ao site para pensar nessa parte. Depois de sair com Gia do abrigo de animais, eu a levarei para casa. Nesses momentos, eu penso que seria útil ter um carro. Nunca quis realmente ter um. É muito complicado ter um carro na cidade. Tudo lotado, sem vaga, não tenho garagem no meu prédio, não posso beber e dirigir… Enfim, ter carro é ficar limitado. Por isso, preciso achar um meio alternativo. Quem sabe eu não acho um motorista para a noite? Nada disso de limusine. Gia, com certeza, não curtiria esse tipo de coisa. Mas, quem sabe, um Uber mais chique. Lembro-me de que tenho um conhecido que é motorista de Uber. Se isso não é o destino trabalhando ao meu favor, eu não sei o que é. Ligo para Dan e pergunto se ele pode ser meu chofer por uma noite. Ele estranha meu pedido, me diz o preço e eu topo.


Gia, prepare-se para o melhor encontro da sua vida. Quem precisa das ideias de Dante quando se tem a internet a seu favor?


Mandei uma mensagem para Gia assim que acordei. Não queria dar brechas para ela dizer não. Simplesmente avisei que iria passar em sua casa às sete horas, que tínhamos reservas para sete e meia. Acho que eu nunca me senti tão nervoso em toda a minha vida. O dia se arrastou. Olhava para o relógio de cinco em cinco minutos na esperança de que seis horas chegasse logo para que eu pudesse ir para casa me arrumar. Não consegui trabalhar direito. Minha mente voava o tempo todo, pensando no que aconteceria mais tarde. Ainda são quase quatro da tarde e eu estou andando de um lado para o outro no meu escritório no Purgatório. Eu deveria estar trabalhando, deveria estar fazendo qualquer coisa útil. Mas não. É impossível. As pilhas de papel em cima da mesa gritam o meu nome, mas a última coisa que quero é resolver problemas. Meu corpo pede por Gia. Ele sabe que, em pouco tempo, ela estará ao meu lado. Desta vez, sozinha. Eu poderei abraçá-la e, se eu tiver muita sorte, beijá-la. Tudo em mim deseja qualquer coisa dela. Como eu fui tão idiota durante todo esse tempo? Nesses últimos sete meses, foram raros os momentos em que ela não esteve na minha mente. Gia é uma obsessão que desisti de tentar resistir. — Chefe? — Zurik me chama da porta, interrompendo meus pensamentos. Acho sempre engraçado quando alguém me chama de “chefe”. Ultimamente, tem acontecido com mais frequência. Era mais comum alguém se referir a Dante dessa forma, mas parece que o apelido pegou. Tanto


comigo quanto com meu sócio, o modo como nos chamam não tem um tom sério e hierárquico. É mais como uma brincadeira. — O que foi? — Queria saber se você tem um tempinho para conversar. Há uns dias ele tem pedido esta conversa, mas sempre há algum imprevisto, evitando que ela aconteça. Como estou atolado com os três bares, volta e meia preciso sair daqui e ir para outro lugar — e isso geralmente acontece no meio do dia, quando os problemas resolvem vir à tona. — Claro. Entre e fique à vontade. Ele faz o que eu peço e toma o assento na cadeira de frente para a minha mesa. Eu resolvo fazer o mesmo que ele e me sentar. Ficar andando de um lado para o outro não vai fazer com que o tempo passe mais rápido. A única coisa que pode acontecer é me deixar cansado. Vai que alguma coisa mais aconteça entre Gia e eu… Paro de pensar nela e foco minha atenção no homem à minha frente. Se nosso olhar focar apenas nas aparências, qualquer um acharia que meu gerente é um perigo para a sociedade. De acordo com aqueles que são mais tradicionais (e por tradicionais quero dizer caretas e preconceituosos), Zurik se encaixa perfeitamente no perfil de meliante. Quase careca com um moicano azul, alargador, tatuagens, piercings no nariz e na sobrancelha, roupas largadas, normalmente pretas. Mesmo com os olhares atravessados que recebe, eu resolvi dar uma chance a ele. Até hoje, não me arrependi. — Eu andei pensando sobre a Sexta Sexy e sobre aquilo que você comentou. Junto com a minha ideia inicial de fazer algo temático, com drinks e comidas específicas, preparei uma proposta para você — ele diz e eu ergo minha sobrancelha, curioso com o que vem a seguir e, ao mesmo tempo, impressionado por ele ter tomado a iniciativa. Nos quarenta minutos seguintes, Zurik me mostra o que vislumbrou para o Purgatório. Confesso que não esperava tanto dele — e não pude deixar de sentir uma pontada de orgulho por ele ter mostrado que as expectativas


depositadas nele não foram em vão. Em sua proposta, ele fez uma lista do que deve ser servido, uma playlist gigantesca de músicas para serem tocadas e esquematizou como o salão seria organizado. Sua apresentação foi completa. — A ideia é que a noite seja restrita a esse grupo. Para entrar, tem que participar. Porém, não queremos afastar clientes; por isso, que pensei que a Sexta Sexy poderia ser um evento mensal em vez de semanal. Se der certo, passará a ser quinzenal. — Eu fico calado enquanto ele explica cada detalhe que pensou. — Mas a questão da obrigatoriedade facilita a interação, porque tem gente que vai ficar com vergonha ou se sentir excluído caso alguém não se aproxime imediatamente. Por isso que pensei em sortear por cores e números. Assim, não ficamos restritos a homens e mulheres héteros. Teremos cores para homossexuais e bissexuais também. Se aparecerem pessoas com outros gostos diferentes, acrescentamos cores. Zurik está empolgado. O modo como ele fala, gesticulando e já de pé, é um indicativo de que ele está completamente investido na ideia. Fico bastante contente em vê-lo assim. Permaneço sem dizer nada. Esse é o show dele, não quero interferir. Apenas mantenho minha concentração voltada para ele (pelo menos na maior parte do tempo, já que, volta e meia, meu cérebro volta a pensar em Gia). — Vou tentar explicar melhor — ele diz, como se fosse necessário. — Você chega e pega sua ficha na porta. Preta, para homem hétero; amarela, para mulher hétero; laranja, para homem gay; vermelha, para lésbicas; verde limão, para bissexuais. Cada um pega a sua cor e o seu número. No telão, teremos, a cada dez minutos, um sorteio de números entre as cores certas. O que você acha? — ele me pergunta, e posso ver a expectativa em seu olhar. Nessa breve apresentação, Zurik me mostrou tudo aquilo que eu queria ver dele: paixão pela profissão, ideias adequadas e possíveis de serem postas em práticas, organização, criatividade e profissionalismo. Pelo visto, um dos meus problemas foi resolvido de forma natural.


— Parabéns, Zurik. Você acaba de ser promovido a gerente do Purgatório — eu digo com um ar de pai orgulhoso. Mas Zurik me fita com curiosidade, pendendo a cabeça para o lado direito, como se não tivesse entendido o que acabei de dizer. — Eu pensei que já fosse o gerente. — No contracheque, sim. Ao meu ver, não. — Ele arregala os olhos, surpreso com minhas palavras. — De agora em diante, você tomará conta do Purgatório sozinho. Eu voltarei minhas atenções para o Paraíso. Se precisar de qualquer coisa, estou a uma ligação de distância. Eu já tinha ensinado tudo que Zurik precisava saber para ocupar o cargo. A questão financeira e de administração do pessoal continuará sob o meu comando e de Dante. Porém, no dia a dia, quem gerenciará o Purgatório será ele. Eu me levanto e dou dois tapinhas em seu ombro. Zurik olha para mim ainda de forma atônita. — Vamos comemorar — eu digo, puxando-o para o salão. O bar ainda não abriu para o público, mas a maioria dos funcionários já estão aqui. Todos precisam chegar pelo menos uma hora antes das portas abrirem, justamente para que tudo esteja devidamente organizado. — Atenção, purgatorianos! — eu grito, chamando a todos para virem até aqui. — Félix — chamo o barman —, pegue a garrafa especial. Uma tradição que eu e Dante criamos desde que começamos com o bar foi ter uma garrafa de tequila guardada para momentos especiais: contratos fechados, novas contratações, algum prêmio, abertura de um novo bar… Felizmente, já foram várias garrafas ao longo desses últimos anos. Félix, que está conosco desde o começo, sabe o que isso significa e logo abre um sorriso. Ele faz o que eu peço e alinha vários copinhos de shot. Quando, enfim, todos os funcionários estão aqui, ele enche os copos. — Ao nosso novo gerente! — Ergo o meu, propondo um brinde e viro a dose de uma vez. — Se quiserem me ver, estarei no Paraíso.


** Camisa: branca ou preta? Calça: jeans ou social? Sapato: de mauricinho ou tênis? Pênis: real ou imaginário? Puta que me pariu! Eu não tinha ideia de que me arrumar para um encontro daria tanto trabalho. Ainda bem que nunca fiz isso antes. Como será que mulheres conseguem? Pelo menos, eu não tenho que fazer o cabelo. Eu me olho no espelho, tentando decidir o que fazer, o que usar. Eu nunca tive muitos problemas de autoestima, nem de vaidade em excesso. O que vejo refletido é apenas um cara normal, mais alto que a média, forte, mas nem tanto, cabelos escuros e olhos azuis. Tudo herança da minha genética grega. Passo a mão pelos meus cabelos, que estão mais compridos do que eu gostaria — o problema é ter tempo de cortá-los —, e tento colocá-los em ordem. Sem muito sucesso, claro. Eles parecem ter vontade própria. Ou, na verdade, só obedecem ao artefato mágico chamado pente. Quinze minutos depois, saio de casa. Mãos suando frio, estômago revirado e toda a apreensão do mundo. Eu terei meu primeiro encontro com Gia.


Dan estava me esperando conforme o combinado. Assim que eu entrei no carro, ele começou a me perguntar sobre o motivo de estar ali, servindo de chofer. Em poucas palavras, eu expliquei que eu estava determinado a ter o encontro perfeito com a garota perfeita. Ele apenas assentiu com a cabeça, como se entendesse tudo. Ele não entende nada! Se nem eu entendo, como ele, que não conhece Gia ou a nossa história, vai entender? Quando paramos na porta da casa dela, meu coração está prestes a sair pela boca. Isso não deve ser nem um pouco saudável. Será que é normal se sentir prestes a explodir apenas com a expectativa de ter uma mulher em sua companhia? Mas ela não é qualquer mulher, esta não é uma situação qualquer: é a minha única chance de tentar entender a coisa. Toco a campainha e espero, respirando fundo e tentando não morrer de ansiedade. Quando ela abre a porta, toda minha ansiedade parece se elevar a um nível catastrófico. A única explicação que tenho para o que está à minha frente é que Gia me odeia. Só pode. Se ela gostasse um pouquinho de mim, não teria feito isso. Ela poderia estar linda como sempre, mas não. Gia está espetacular. Olhando para ela neste momento, é fácil esquecer de respirar. Nada mais tem importância, a não ser ela. Um vestido vermelho, curto e justo, exibindo todas as curvas pecaminosas de seu corpo escultural. Engulo em seco. Meu cérebro para de funcionar e foca exclusivamente nela. Salto muito alto, deixando-a quase da minha altura e fazendo com que aquelas pernas sensacionais fiquem ainda


mais em evidência. Tudo que consigo pensar no momento é que morreria feliz se tivesse a oportunidade de ter essas pernas em volta da minha cabeça por pelo menos meia hora, enquanto eu me delicio com o que tem entre elas. Eu nunca tive uma ereção instantânea. Inclusive, sempre achei que fosse lenda urbana, tipo o chupacabra. Mas não. Vou de zero a mil em questão de segundos, só por ela estar aqui. — Lucca? — ela chama meu nome, mas eu ainda não tenho eloquência suficiente para responder. Meus olhos passeiam por seu corpo, tentando decidir por onde eu gostaria de começar a saboreá-la. — Estou bonita? — ela pergunta, querendo me torturar ainda mais. Gia dá uma voltinha, exibindo a parte de trás. Eu juro pelo Dante mortinho que meus joelhos fraquejam quando eu vejo aquela bunda fenomenal. Meu Deus, como eu vou conseguir resistir? Se eu já tinha aceitado que deveria me permitir viver essa coisa com Gia, agora mesmo que não tenho mais chance. É só ela estalar o dedo que eu vou correndo. Inclusive, estou pensando em mudar meu nome para Rex, o cachorrinho adestrado. Depois de não sei quanto tempo — espero, sinceramente, que tenha sido menos do que eu acho foi —, minhas funções cerebrais parecem voltar ao mais próximo possível do normal e eu consigo abrir a boca para falar: — Gia… — hesito, ainda tentando encontrar as palavras certas para descrevê-la. — Você nunca teve muito jeito com as palavras, mas só de ver sua expressão, já me sinto elogiada o suficiente — ela diz, rindo da minha cara. Como eu consegui fazer essa mulher sair comigo, mesmo depois de tê-la rejeitado tantas vezes? O universo deve me amar, só pode. Eu pigarreio e balanço a cabeça na tentativa de me livrar do feitiço que me prende.


— Vamos? — pergunto, oferecendo minha mão para que ela a pegue. — Antes de irmos, quero apenas lembrar que eu apenas concordei com isso para que você pudesse se explicar — ela afirma, seu olhar fixo no meu, como se precisasse que eu entendesse a seriedade do que está falando. — Eu tenho um namorado e não vou traí-lo com você. Quero dizer que ela já fez isso quando eu a beijei, mas acho melhor ficar quieto. Ela sabe. Eu também. — Eu a entendo. Mesmo assim, preciso te mostrar. — Respiro fundo, buscando as palavras exatas. Em vez de falar tudo que sinto agora, resolvo deixar esse encontro acontecer. Preciso que ela relaxe, que se sinta mais aberta a ouvir. — Vamos. Tenho um encontro planejado para você — eu digo e volto a estender minha mão. Gia ergue a sobrancelha, mas, desta vez, aceita. — Você também está muito bonito hoje — ela comenta, sua voz baixa, como se relutasse em falar. Agradeço aos céus que tenha deixado a ideia de camiseta e tênis de lado e optado por usar as roupas de mauricinho. Não curto muito usar calça social, mas fiz uma exceção. Por ela, vale a pena. Eu abro a porta do banco de trás e ajudo-a a se sentar. Dou a volta no carro e sento-me ao seu lado. Antes de chegar aqui, eu já tinha instruído Dan sobre as etapas do encontro. Ele, então, nos leva até o restaurante. O caminho é feito em silêncio, mas tenho certeza de que Gia consegue escutar meu coração disparado. A energia entre nós parece crepitar. É como se fosse um vidro segurando litros e litros de água. A qualquer momento, ele vai romper. Respiro fundo mais uma vez, tentando manter o controle e respeitar os desejos dela em vez de ceder aos meus. Estes serão os vinte minutos mais torturantes da minha vida. ** — Só você para me trazer aqui — ela diz, dando uma risadinha baixa e


balançando a cabeça. Seu braço está no meu, fazendo com que meu coração continue acelerado. Não importa que todos aqui estejam menos bem vestidos que nós, ou que este não seja, de fato, o melhor lugar para trazer uma mulher no primeiro encontro, mas espero que o tal artigo que li esteja certo e que a memória afetiva seja o mais importante. — Eu espero que você goste. E se lembre… — Essa última parte é apenas um sussurro, mas ela parece ter ouvido, pois se vira para mim e faz que sim com a cabeça, um sorriso radiante estampando seus lábios. Eu não resisto e abro um sorriso também. Então, Gia faz o inesperado: ela beija a minha bochecha. — Toda vez que você sorri de verdade, uma covinha aparece na sua bochecha esquerda. Há anos eu tenho vontade de beijar essa covinha, mas nunca tive coragem. — Se fosse qualquer mulher que tivesse dito isso, provavelmente viraria o rosto ou enrubesceria, mas não Gia. Ela apenas pisca para mim e me dá um sorriso torto, fazendo com que eu me apaixone ainda mais um pouco. Dessa frase, eu poderia tirar várias conclusões: 1) Ela nota coisas em mim que poucos sabem; 2) De alguma forma, eu desperto mais do que apenas o sentimento de amizade nela; 3) “Há anos”. Meu Deus, há anos. Será que, durante todo esse tempo, eu fui cego e não percebi que algo mais acontecia entre a gente ou será que foi apenas um modo de dizer? Eu apenas a encaro, minha mente cheia de dúvidas. Gia faz o mesmo. Mais uma vez, estamos presos numa bolha onde essa coisa entre nós parece nos envolver e isolar do resto do mundo. Será que sou apenas eu que sinto isso? Pelo jeito como a respiração dela acelera, eu já sei a resposta para a minha pergunta silenciosa. Algo nela me puxa. Dou um passo em sua direção, refém dessa sensação. Ergo minha mão para emoldurar seu rosto, porém, sou interrompido pela chegada da hostess.


— Bem-vindos ao Gulosinho. Mesa para dois? — ela pergunta, com uma voz estridente e uma felicidade ensaiada na frente do espelho, e Gia cai na gargalhada. Não sei se a bolha foi estourada pelo excesso de animação da moça ou se pelo nome do restaurante. — Sim, somos só o gulosinho aqui e eu — Gia diz, segurando meu braço. Eu não consigo evitar a risada, ao mesmo tempo pensando nos trocadilhos que poderia fazer com o “gulosinho”. A hostess ri também e faz um sinal afirmativo com a cabeça. Antes que ela possa falar alguma coisa, eu a interrompo: — Na verdade, eu tenho uma reserva para dois. Gia olha para mim, surpresa ao saber que eu me dei ao trabalho de reservar uma mesa para nós. Inclusive, quando falei com o gerente, fiz questão de pedir a ele para reservar a mesma mesa que sentamos da outra vez. Gia, prepare-se para ser romanceada (romantizada? Sei lá…). — Ah, claro. Venham comigo. Ela nem precisa perguntar o meu nome. Pelo visto, sou o único idiota que reserva uma mesa num buffet. Fazemos o que a hostess pede e a seguimos até a mesa. Gia aperta meu braço levemente quando vê um vasinho de margaridas amarelas enfeitando a mesa. — Obrigada — ela diz e sinto uma pedra da muralha sendo removida. Ponto para mim. A vantagem de estar em um encontro com uma pessoa que você conhece é poder surpreendê-la com aquilo que faz parte da sua história, mostrando que você se lembra, que entende. Eu não preciso explicar a ela o porquê de ter pedido por margaridas amarelas. Gia sabe. Eram as flores preferidas de dona Ofélia, a babá dela e de Gael quando eram pequenos. A mulher sempre enfeitava a casa com flores, e margaridas amarelas eram as mais frequentes.


São as flores da nossa infância. Quando Gia resolvia ser menininha, ela gostava de brincar de casamento. Gael a levava ao altar para casar comigo ou com Dante. A gente tirava no par ou ímpar, brigando para quem iria ser o padre. Ninguém queria casar com Gia, claro. Afinal, ela era uma menina e meninas são chatas. Na maioria das vezes, precisávamos brincar do que ela queria antes para que ela parasse de encher nosso saco e pudéssemos jogar videogame ou futebol no quintal. São fatores como esses que deixam claro que eu e ela temos uma vida inteira juntos e que, se isso evoluir, será apenas uma mudança no status quo. Eu puxo a cadeira para que Gia possa se sentar e vou para o meu lugar à sua frente. — Vocês gostariam de beber alguma coisa? — a hostess pergunta, mesmo não sendo sua função. Eu olho para Gia, que analisa o cardápio que já estava na mesa. — Eu quero… Coca-Cola com whisky, eu penso. — Coca-Cola com whisky — ela diz para a outra mulher, e eu sorrio internamente. — E para o senhor? — O mesmo. A hostess se afasta, nos deixando a sós. — Então, conte-me um pouco sobre você — ela pede, quebrando o gelo e fazendo com que eu solte uma gargalhada. — Até parece que você precisa saber ainda mais sobre mim. Não diria que ela é a pessoa que mais me conhece, pois isso seria mentira, mas, com certeza, está no top cinco. — Você tá brincando comigo, né? — Ela apoia os dois antebraços na mesa e chega um pouco para frente, fornecendo uma vista deliciosa do seu decote. Mas eu sei que isso é um teste. Por isso, me limito a usar a minha


visão periférica para admirar seus seios enquanto meus olhos permanecem fixos nos dela. Quando esta noite acabar, estarei vesgo. — Claro que não. Com exceção do seu irmão e de Dante, provavelmente você é uma das pessoas que mais sabe sobre a minha vida — eu digo, recostando-me na cadeira. — Da sua vida, eu sei. De você, nem tanto — ela comenta, um tanto enigmática. Como eu prometi a mim mesmo e a ela que esses três encontros seriam a minha chance para mostrar a ela o que penso e sinto, resolvo fazer o que ela quer. — O que você quer saber? — pergunto, temendo sua resposta. — Hmmmm — ela murmura, emoldurando o queixo com uma mão e batendo nele com o indicador e finge estar pensando. — Com quantos anos você realmente parou de fazer xixi na cama? Eu jogo a cabeça para trás e solto uma gargalhada alta, fazendo com que vários outros clientes se assustem. Mas não consegui evitar. De todas as perguntas que ela poderia ter feito, essa é a pior delas. — Vamos, Mellis. Eu quero a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade. — Seus olhos brilham com travessura e eu fico feliz em ver que toda a estranheza de antes foi embora, deixando em seu lugar a Gia e o Lucca de sempre. — Ok, ok. — Eu me rendo, sabendo que estarei fadado a uma vida inteira com ela me sacaneando. — Mas você precisa prometer que nunca vai contar para outra pessoa, especialmente Dante e Gael. — Qual é a graça de saber um segredo tão precioso como esse e não poder usá-lo? — Então, não te conto. — Ah, não. Desembucha, Mellis! — ela pede, sorrindo amplamente. Eu ergo apenas uma sobrancelha e ela entende o que estou pedindo. — Tá bom,


eu juro. — Nove — eu sussurro, pronto para ser zoado para o resto da vida. Os momentos seguintes são assim: Gia gargalha, as bebidas chegam, Gia continua gargalhando, eu bebo todo o conteúdo do meu copo de uma vez só, Gia ri mais ainda, todos o restaurante olha para a minha cara e Gia não para de gargalhar histericamente. Excelente. Quando, por fim, ela consegue voltar ao seu estado normal, seus cabelos estão bagunçados, parte de sua maquiagem (que estava tão perfeitamente aplicada) está borrada, suas bochechas estão rosadas e seus olhos brilham. É clichê demais dizer que, apesar do motivo, eu me sinto um macho alfa piruzudo por tê-la deixado feliz desse jeito? Melhor ainda, que eu quero ser quem a fará feliz desse jeito no futuro? — Você é a mulher mais linda que eu já vi na vida. — As palavras saem sem permissão, fazendo com que Gia congele, seu olhar preso no meu. Antes que a bolha possa se formar novamente, ela desvia o olhar, voltando sua atenção para o copo à sua frente. Parabéns, Lucca, seu idiota. Você conseguiu constrangê-la. — Lucca, eu… — Não precisa falar nada, Gia. Eu só precisava que você soubesse. Você não precisa dizer que eu também sou o homem mais bonito que você já viu na vida — tento fazer uma piada, mas não sou desse tipo, e ela acaba saindo mais séria do que eu intencionei. Mesmo assim, ela ri — e suas bochechas ganham uma coloração avermelhada. O que isso quer dizer? Depois disso, a conversa ganha um pouco de leveza. Como isso é um buffet, a comida não vem até nós, mas nós vamos até ela. Eu faço, no mínimo, umas oito viagens, e Gia me sacaneia a cada uma delas, não entendendo como eu consigo comer tanto.


— É um talento… — eu me limito a dizer, dando de ombros e levando mais uma garfada de lasanha à boca. — Posso te perguntar uma coisa? — Contanto que não seja algo que possa me envergonhar por toda a eternidade… — Por que você mudou de ideia? Eu juro que tento te entender, Lucca, mas, de verdade, não consigo. Pelo visto, chegou a hora do assunto sério. Eu faço sinal para que o garçom venha aqui e peço mais uma coca com whisky. Gia faz o mesmo. Preciso de uma coragem líquida para entrar em um assunto que nem eu sei como explicar direito. Só espero que ela me entenda, apesar da minha falta de eloquência. — Eu vou começar a falar, a tentar me explicar, mas preciso que você apenas me escute. Pode ser? Gia faz um sinal afirmativo com a cabeça e eu busco sua mão, criando coragem para o que vem a seguir.


Por uns minutos, eu apenas acaricio sua mão, tentando organizar as ideias em minha mente. Quando o garçom retorna com nossas bebidas, dou um gole generoso, respiro fundo e começo com minha explicação: — Em primeiro lugar, quero que você saiba que aquela noite foi, sem dúvidas, a melhor da minha vida. — Eu acho melhor começar com a parte boa. Gia me dá um sorriso sacana, como se dissesse “eu sei”. Essa mulher ainda vai me destruir. — Então, por que você fugiu depois? — ela quer saber, e sinto um pouco de deboche em seu tom. Gia jamais deixaria as coisas baratas para mim. Pelo visto, não adianta nada pedir para falar sem ser interrompido. Eu já devia saber: Gia faz sempre o que quer. — Porque eu tive medo — confesso. Ela vai falar alguma coisa, mas eu continuo, a impedindo. — Gia, nós nos conhecemos há quase trinta anos, nossa vida inteira. Não é tão fácil quanto parece. — Por causa de Gael? — ela pergunta, sua voz se deixando ouvir por cima da minha. — Por causa de Gael, mas por causa de você também. — Do que você está falando? — Sinto a apreensão em sua postura. Ela se retrai, cruzando os braços na frente do peito. — O que você queria de mim naquela época, Gia? — pergunto, invertendo a situação. Ela hesita e baixa o olhar. Quando o retorna para mim, ela respira fundo e responde:


— Sexo, Lucca. Eu queria sexo — ela diz como se a palavra não carregasse qualquer importância. Mas vejo algo em seu olhar que denuncia que tal simplicidade pode não ser tão verdadeira assim. — Eu preciso explicar uma coisa que pode não fazer muito sentido para você, não por você não compartilhar dos meus princípios, mas talvez por você não entender a profundidade deles — eu chego então à parte crucial do problema. — O sentimento que tenho por seu irmão vai muito além de amizade. Ele é como se fosse meu irmão, Dante também. Com família a gente não brinca, Gia. Para mim, lealdade vem sempre em primeiro lugar. Sempre! A última coisa que eu quero é apunhalar meu melhor amigo pelas costas. Agora, voltando ao que você disse, o que tivemos foi sexo. Maravilhoso, fora de controle, suado e cheio de gemidos altos, mas foi sexo. Eu transei com a irmã do meu melhor amigo. Se continuássemos com algo que fosse “apenas sexo” — faço o sinal das aspas com os dedos para dar ênfase —, eu estaria piorando a situação. Errar é humano. Errar duas vezes é burrice. — Então, foi um erro dormir comigo? — ela retruca e sinto o veneno em sua voz. — Foi o melhor erro da minha vida, mas foi um erro. Não o que aconteceu, mas como aconteceu. — Ela vai falar alguma coisa, mas eu a impeço e continuo com o que está em minha mente. — Eu não podia continuar fodendo a irmã do meu amigo, Gia. Não tinha como! Por isso que eu esperei tanto, quase morri de desespero, de vontade de te ter novamente. E você não me ajudou nem um pouco. Só que eu precisava desse tempo para saber o que eu estava sentindo. — As palavras saem com fluidez e, pela primeira vez na minha vida, eu não preciso ficar caçando a melhor forma de falar algo. Tento deixar o mais claro possível todo aquele turbilhão de emoções que está acontecendo dentro de mim, torcendo para que ela entenda. — Você sabe o que está sentindo? — Gia pergunta, olhando-me atentamente.


— Essa é a pergunta que vale um milhão de reais — eu digo. Mas acho que Gia me interpreta mal e baixa o olhar. — Olhe para mim, Gi — peço e ela me obedece. Quando foca seus dois faróis azuis em mim, eu sou sugado por toda a intensidade que eles demonstram. A apreensão está ali e não posso deixar que ela duvide, por um segundo sequer, que ela é a pessoa que mais desejo nessa vida. — Eu sou completamente obcecado por você — confesso em um sussurro. Minha voz sai mais grossa do que o normal, tamanha a força que nos envolve neste momento. — Eu te observei durante todos esses meses, não parava de reler as mensagens e de ver as fotos que você me mandava. Não sei quantas vezes eu me masturbei olhando para elas. Nem sequer cheguei perto de uma mulher, já que meus pensamentos estavam presos em ti. Eu vejo o exato momento em que as minhas palavras a atingem. Sua respiração oscila e suas pupilas dilatam. Gia passa a língua pelos lábios, preparando-os para um beijo que não virá. — Lucca… — Não, Gia — eu peço e seguro sua mão, que está suada. Pelo visto, não sou o único nervoso da mesa, mas toda a minha apreensão foi embora. Agora, meu foco está em fazer com que ela acredite em minhas palavras. — Eu só quero que você saiba que eu não te ignorei, nem tentei fazer com que você se humilhasse… Suas mensagens foram o que mantiveram minha sanidade durante esse tempo, ao mesmo tempo que me levaram à beira da loucura. Tudo que eu queria era ter você junto a mim, mas eu não podia. Não podia arriscar minha amizade com Gael e, principalmente, não podia arriscar estar te iludindo. Ou a mim. Se fosse apenas sexo, seria mais fácil me manter afastado. Você me perguntou o que mudou, e eu te respondo: sim, foi o fato de você ter outro. Eu percebi que você não iria me esperar para sempre, esperar que eu resolvesse a bagunça que estava em minha mente. Mas eu sei,


sem sombra de dúvidas, que quero estar com você. Se eu tiver que falar com seu irmão, pelo menos saberei o que dizer e, em momento nenhum, eu quero que ele pense que isso — aponto dela para mim — é apenas uma diversão entre quatro paredes. — O que você está dizendo, Lucca? — Estou dizendo que, mesmo tentando não me entregar a essa coisa que parece existir entre a gente, eu estou completamente apaixonado por você, Gia. Ela apenas me olha, assustada com minhas palavras. Sua respiração está acelerada e seus olhos ficam marejados. Eu não sei se isso é bom ou se é ruim. Gia não diz nada, só fica me encarando boquiaberta. — Gia… — sussurro seu nome, pedindo, implorando qualquer palavra sua. — Eu não posso, Lucca. Gia se levanta, arrastando a cadeira para trás, e sai correndo do restaurante. Eu vou atrás dela, mas meus reflexos não foram tão rápidos. Quando chego à porta, vejo-a entrar em um maldito táxi. Merda.


Há momentos em que precisamos dar um passo para trás, deixar a poeira baixar. Em outros, precisamos insistir. Ou melhor, não desistir. Pedras no caminho, a vida apresenta várias. Algumas são montanhas; outras, a gente pula. Tem aquelas que a gente pega e leva conosco. Gia fugiu de mim. O motivo, ainda não sei. Mas não importa. Eu fugi dela quando precisei, mas não lhe darei a mesma cortesia. Ela não terá a oportunidade de fugir de mim até que eu entenda exatamente o que a fez sair correndo. Ao mesmo tempo, sei que não tenho direito algum de bater em sua porta, exigindo uma explicação. Ou seja: preciso deixar claro que, desta vez, eu vou lutar por aquilo que temos (ou que, um dia, poderemos ter). Eu: Você está bem? Já chegou em casa? Por favor, não me deixe no vácuo. Você sabe que me preocupo. Por quinze minutos, fico olhando para a tela do celular, esperando ansiosamente para que ela me responda. Antes de mais nada, preciso saber se ela está em segurança. Cheguei em casa e nem me dei ao trabalho de trocar de roupa. O resto do encontro foi arruinado pela minha boca grande. Eu não deveria ter dito aquilo tudo a ela. Lucca, você é um idiota mesmo. Por sete meses, você a ignora, foge dela como o diabo foge da cruz e, do nada, revela que é um louco apaixonado. É claro que ela saiu correndo. Quem não sairia? Fiz questão de pagar a Dan o que havia prometido pela noite inteira, mesmo que as coisas tenham mudado no meio do caminho. Ele me agradeceu


e me deixou em casa. Ainda no carro, aproveitei e liguei para o abrigo de animais, avisando que não iríamos mais. Depois, pensei melhor: quem é o babaca que leva uma mulher no primeiro encontro para ver os animaizinhos que estão no corredor da morte? O idiota do Lucca, claro. Quando vou ao banheiro para tomar um banho e lavar o desapontamento, meu celular apita, indicando a chegada de uma mensagem. Eu corro para ver de quem é e solto um suspiro de alívio quando leio o nome dela. Gia: Eu estou bem. Só precisava respirar. Já estou em casa. Obrigada pela noite e peço desculpas pelo modo como ela acabou. De cara, estranho a formalidade com que ela me responde. Esta não é Gia — pelo menos, não a que eu conheço bem. Preciso fazer alguma coisa para que ela volte ao normal. Eu: Se o seu plano foi aniquilar com meu ego, parabéns! Você acertou em cheio. Gia: Lucca… Não foi fácil ouvir tudo aquilo de você. Era tudo aquilo que eu NÃO estava esperando. Eu: Sei disso, Gi. Desculpa. Gia: Você não tem motivos para pedir desculpas, é que… sei lá, eu fiquei confusa e não sabia como lidar com a informação. A confissão dela me faz relaxar um pouco. Não é que ela tenha odiado o que eu disse. Ela apenas não sabe como reagir. Exatamente como eu fiz há sete meses. Pelo visto, fomos feitos um para o outro. Eu: Fique tranquila. Você vai ter tempo para se acostumar com a ideia. Eu te busco no domingo, às nove da manhã. Calça jeans, camiseta e tênis. Pego você aí. Gia: Lucca, o que você está aprontando? Eu: Nada, Gi. Mas você me prometeu três encontros, e não vou deixar você voltar atrás. Prepare-se para se apaixonar por mim!


Tento aliviar o tom, na esperança de que ela entenda. Ao mesmo tempo, toda brincadeira tem um fundo de verdade. Eu ainda tenho mais dois encontros com ela — e preciso fazer com que eles valham a pena. Nada de pesquisas na internet. Dessa vez, vou usar as informações que tenho. Eu conheço Gia a minha vida toda. Sei do que ela gosta. Vestidos apertados e saltos não são ela. Mas eu sei exatamente quem ela é. ** O resto da semana passa voando. Todos os dias, eu mandei uma mensagem para ela, fazendo a contagem regressiva: Eu: Faltam três dias para você se apaixonar por mim. Eu: Faltam dois dias para você se apaixonar por mim. Eu: Falta um dia para você se apaixonar por mim. No domingo de manhã, antes de sair de casa, mandei uma outra mensagem: Eu: Estou indo ao seu encontro. Prepare-se para se apaixonar por mim. Mais uma vez, fiz uso dos serviços de Dan. Quando for rico, vou contratar o cara permanentemente. Ele apenas riu quando expliquei o que queria. — Boa sorte. Espero que ela não saia correndo desta vez — ele diz, estacionando no mesmo lugar que da outra vez. Olho para o outro lado da rua, exatamente em frente à casa dela, onde fica a árvore que era meu abrigo quando eu a observava. Ainda bem que as coisas mudaram. Não sei por mais quanto tempo eu aguentaria ser apenas um espectador na vida dela, quando tudo que eu mais quero é poder ser a atração principal. Bato na porta e espero. Déjà vu. Quando Gia abre a porta, eu a reconheço imediatamente, o que faz com que um sorriso tome conta do meu rosto. — Essa é a Gia que eu conheço. Não que a da outra noite não tenha


virado motivo para minhas futuras fantasias, mas essa aqui… — eu digo e a puxo para um abraço —, …essa é a que eu mais gosto. Ela me abraça de volta. Por alguns segundos, ficamos assim. Eu não consigo de deixar de pensar como é bom tê-la em meus braços. O cheiro dela, tão familiar e, ao mesmo tempo, tão sedutor, me envolve, fazendo com que eu saiba que estou no lugar certo. A cada dia que passa, minha certeza se solidifica: eu preciso achar uma maneira para que Gia faça parte da minha vida, não apenas como a irmã do meu melhor amigo. — Oi — ela diz, saindo dos meus braços, e imediatamente sinto sua falta. — Oi. — Beijo sua bochecha, só para ter a desculpa de poder tocá-la novamente. — Está pronta para um dia de diversão? Ela sobe e desce as sobrancelhas, olhando para mim de forma sedutora e, ao mesmo tempo, bem-humorada. — De que tipo de diversão estamos falando? Eu jogo a cabeça para trás e solto uma gargalhada. Adoro quando ela está completamente relaxada, a ponto de fazer piada com qualquer coisa. Pelo visto, ela absorveu a informação e aceitou que eu não vou desistir. — Nunca é tarde para eu mudar meus planos… — digo, tentando fazer uma voz grossa e sexy, semicerrando os olhos para ela. Gia ri da minha tentativa de sedução e me puxa pelo braço em direção ao carro. Ela mesma abre a porta, não deixando que eu o faça. Acho que não estamos mais no modo romance. Confesso que estou bem mais feliz assim. Eu deveria estar apreensivo, pensando na repercussão das minhas palavras, mas não. Estou relaxado. Com essa Gia, eu sei lidar. — E aí, Dan. Tudo bem? — ela pergunta ao nosso chofer, dando dois tapinhas em seu ombro. — Tudo ótimo, Gia, e você?


— Melhor agora que estou na sua companhia, bonitão. — Ela dá uma piscadinha para ele, completando a brincadeira. Dan ri e dá partida no carro. Eu não deveria ficar chateado — ou enciumado — com a ceninha que presenciei, mas é impossível. Não quero que ela flerte com outro homem. Já me basta saber que ela tem um namorado e, tecnicamente, eu sou “o outro”. Se eu tiver que competir com mais todos os caras do planeta, aí mesmo que não terei chance. — Tira esse bico da cara, Mellis, e me conte aonde vamos — Gia pede, apertando minha coxa de leve. O toque foi suave, mas o suficiente para despertar algo em mim. Fecho meus olhos, tentando me manter sob controle. — Para com isso, Gi — peço e seguro sua mão. — Então me diga para onde vamos, senão eu continuo com a tortura — ela tenta fazer uma expressão ameaçadora, mas que acaba sendo adorável. Eu não resisto e dou um selinho em seus lábios. Quando percebo o que fiz, afasto-me rapidamente. — Desculpa, Gi… Sério, desculpa, eu… Ela me encara, a surpresa evidente em seu rosto. — Só… Por favor, não faça de novo — ela pede e vira o rosto, fingindo observar a paisagem. — Ei — chamo, puxando seu braço levemente e fazendo com que ela me olhe. — Foi sem pensar. Prometo que não vai se repetir. — Tento manter minha voz firme e esconder tudo aquilo que borbulha dentro de mim. — A não ser que você me peça. Pisco para ela, tentando trazer um pouco de leveza para o momento. Droga! Por que eu tenho sempre que fazer a coisa errada? — Tudo bem — ela diz, sua voz um pouco murcha. Adeus a Gia alegre de cinco minutos atrás. — Preparada para o nosso passeio? — Você ainda não me disse para onde vamos.


— Você vai ver… ** Quarenta minutos depois, estamos saindo do carro, e Gia começa a pular de alegria. — Eu não acredito que você me trouxe aqui! — Ela se lança em meu colo e eu a seguro pela bunda. Esquecendo os limites que ela mesma impôs, salpica meu rosto com vários beijos — uns, inclusive em meus lábios. Mas, desta vez, é diferente. A felicidade toma conta dela. Quando ela se solta, corre para a entrada, ignorando-me completamente. Eu não consigo segurar a risada. Gia parece uma criança com acesso ilimitado a todos os brinquedos de um parque de diversão. Mas, para ela, isso aqui não está muito longe de ser um parque de diversões. Se tem uma coisa que Gia ama é cavalo. Por isso, eu a trouxe para passar o dia num haras que tem a pouco tempo do centro da cidade. Eu liguei com antecedência e agendei para passarmos o dia aqui — com direito a almoço, claro. Assim que eu passo meus dados na recepção, um funcionário vem ao nosso encontro. Ele nos leva até os estábulos, onde buscaremos nossos cavalos. Gia está eufórica. Ela olha para mim como se não acreditasse na surpresa e, quando encontra a égua em que vai montar, fica ainda mais feliz. Kiera é o nome dela. Toda branca de uma raça que não faço a menor ideia qual, é paixão à primeira vista. Gia passa uns dez minutos apenas conversando com ela, acariciando sua crina e prometendo que irá cuidar muito bem dela. O jeito que ela tem com animais vai muito além de sua prática profissional. É instinto, amor. Desde pequena, ela tinha o hábito de resgatar animais de rua. Sua mãe ficava louca, mas Gia nem ligava. Sempre que via um animal que estivesse precisando de ajuda, ela não hesitava e o pegava no


colo, oferecendo sua proteção. Isso está se refletindo agora. — Se esse bobalhão tivesse me dito que passaria o dia inteiro montada em você, teria feito dieta durante a semana. Eu não resisto e começo a rir do seu comentário. Gia é linda. Perfeita em todos os sentidos. O funcionário do haras explica o que podemos ou não fazer, mas Gia não o escuta. Ela está completamente entretida com Kiera, que parece admirá-la da mesma forma. — Ela é sempre assim? — o cara me pergunta, fazendo um gesto com a cabeça para Gia. — Quando o assunto é animal, sim. — Você é um cara muito sortudo — ele diz, me dando um tapinha no ombro e deixando-me a sós com a mulher da minha vida e a égua. E eu não sei disso?


— Eu estou exausta — Gia exclama, deitando a cabeça sobre o bar do Inferno. — É isso que dá quando uma pessoa fica cavalgando o dia inteiro — brinco, dando uma piscadinha para ela. — Com certeza. Eu adoro cavalgar. Inclusive, acho que você se lembra muito bem desse detalhe… O feitiço se volta contra o feiticeiro. Impossível tentar jogar esse jogo com Gia. A mulher consegue fazer com que qualquer coisa pareça sexy. Se ela disser “os óculos da vovó desapareceram” com aquela voz suave que só ela tem, impossível não pensar naquilo. É uma arte. Quando as palavras são dirigidas a mim e possuem um duplo sentido, o resultado só pode ser um. Não preciso olhar para minha calça para saber o que está acontecendo. — Mozart, uma cerveja, por favor — peço para o barman do Inferno, que faz um sinal positivo com o dedo. — Isso deveria ser considerado como o terceiro encontro. — Sua expressão não esconde o quão exausta ela está. Eu acaricio suas costas, aproveitando a oportunidade para tocá-la um pouco. Por mais que tenhamos passado o dia inteiro juntos, na maior parte do tempo ela ficou com Kiera. Culpa minha ter escolhido logo uma coisa que ela ama fazer. Deveria ter sido bem clichê e escolhido assistir a um filme de terror para que ela pulasse no meu colo quando se assustasse. Mas não, fui querer mostrar que a conheço, acabei passando o dia inteiro desejando tê-la em meus braços, mas sem sucesso. Mesmo assim, não mudaria nosso dia por nada. Acho que nunca vi Gia


sorrir tanto — e fui eu quem fiz isso. A não ser na hora do almoço, o resto do dia quase todo passou com ela em cima de um cavalo. Pelo menos, Gia estava completamente relaxada. Conversamos sobre tudo e nada e, principalmente, nos divertimos. Só que, se ela acha que esse pit stop no Inferno vai ser considerado nosso terceiro encontro, ela está muito enganada. — Claro que isso não vale como um encontro. Principalmente porque seu irmão vai chegar a qualquer segundo. Se isso não fosse suficiente, já digo que, para ser considerado um encontro, você não pode estar cheirando a cavalo. É a regra número um — eu digo, dando de ombros. — Ei! Eu não estou fedendo a cavalo. — Ela puxa a camisa até seu nariz, tentando sentir o cheiro — Estou? Eu faço uma careta, como se estivesse sentindo um cheiro terrível, e Gia bate no meu braço. Minha vontade neste momento é de puxá-la para o meu colo, pouco me importa seu perfume atual. De longe, este foi o melhor encontro que eu já tive. Até porque, o outro em que já fui foi o desastre daquele outro dia. Mesmo se não fosse, acho que esse pode entrar no ranking de melhores encontros. Gia estava livre, se divertindo, rindo e completamente feliz. Para mim, é suficiente. — Pra onde você foi? — ela pergunta, estalando o dedo na frente do meu rosto. — Honestamente? — Ela faz que sim com a cabeça. — Estava pensando em como você parecia feliz hoje à tarde. — Obrigada por isso. Acho que há muito tempo não me divertia tanto — ela confessa no exato momento em que Mozart coloca as duas tulipas de cerveja à nossa frente. Eu e Gia paramos de falar no mesmo momento. É fácil esquecer que isso não é permitido. Que algo que parece tão certo, na verdade, é errado. Ao mesmo tempo, é completamente errado por vários motivos, inclusive por ela


ter um namorado. Nós nos afastamos um pouco. Eu nem tinha notado que a distância entre nós havia sido encurtada. Felizmente, não foi Gael quem nos viu assim. Dou um gole da minha cerveja, deixando que o líquido gelado me acalme um pouco. Se as coisas continuarem assim, vou acabar virando um alcoólatra. — Volto em dez minutos. Vou ver se tudo está certo para a Noite do Quiz — eu digo, mas, na verdade, só preciso de um tempo para reorganizar meus pensamentos. — Eu preciso tentar tirar um pouco desse cheiro de cavalo de mim — ela avisa, enrugando o nariz. Tem como alguém ser mais adorável? — Vai no banheiro do meu escritório. Lá tem mais espaço e privacidade —ofereço e ela me agradece com um sorriso. Gia pula do banco e me segue até meu refúgio. Assim que chegamos lá, ela se tranca no banheiro, e eu vou para a minha mesa na intenção de conferir alguns papéis. Mentira. Na verdade, preciso me sentar. Com ela ali, do outro lado da porta, tudo fica mais difícil. Noite do Quiz: é nisso que preciso focar. Hoje, vim aqui por um motivo específico e não posso deixá-lo de lado. Eu sei que a equipe do Inferno sabe exatamente o que fazer, mas Dante e eu gostamos de sempre estar presentes quando um evento acontece — mesmo sabendo que a equipe é preparada e já está acostumada. Por mais que o Inferno não tenha sido o meu lugar mais constante nos últimos anos, ainda tenho um escritório aqui. Este é e sempre será o domínio de Dante (acho que muito mais pelo nome e por todos os trocadilhos que ele pode fazer do que pelo bar em si). O meu era o Purgatório, mas, depois do monólogo de Zurik (o que eu acho que daria um título perfeito para um filme ou um livro), achei que meu tempo lá tinha se acabado. Eu escuto alguém bater na porta e pego uns papéis, tentando fingir que estou ocupado em vez de pensando na mulher que, provavelmente, está sem


blusa a poucos metros daqui. — Entre. — Oi, chefe — Angélica diz, sorrindo para mim. De todos os funcionários do Inferno, Angélica é a que mais combina com a casa. Uma diabinha em formato de mulher. Seus cabelos estão muitos curtos, o que deu a ela um ar mais sério. Por mais que seja fofoqueira, intrometida e adore flertar em momentos inoportunos, Dante viu nela uma excelente aliada. Durante alguns meses, ele a treinou para ser gerente do Inferno, e ela tem se saído muito bem. — Algum problema? — Não, muito pelo contrário. De acordo com Gnomo, não podemos mais receber convidados esta noite, pelo menos até que alguém saia daqui. Estamos com a capacidade máxima. Nós nunca estamos com a casa legalmente lotada. Depois de ver desastres acontecendo por conta de um número excessivo de pessoas em casa de festas, Dante e eu decidimos que o limite de lotação seria sempre menor do que o imposto pelos bombeiros. Mas saber que estamos no nosso limite é muito bom. Eu sorrio para Angélica e dou um aceno de cabeça. — Avisa ao Gnomo que só pode entrar se for família. Agora, você sabe o que fazer. Vamos deixar essas centenas de pessoas muito feliz hoje à noite. Quero que o Kiwi — digo, me referindo ao DJ — se supere esta noite. — Pode deixar, chefe. Vamos colocar fogo no Inferno — Angélica diz e dá uma piscadinha para mim. Provavelmente, aprendeu essa piadinha com Dante. Ela sai da sala com um andar mais rebolante do que o de quando entrou. Apenas balanço a cabeça em negativa. Eu amo a Noite do Quiz. Desde que começou até agora, ela sempre supera nossas expectativas. Já virou um dos eventos mais importantes do Inferno. Tentamos implementá-la no Purgatório, mas não teve tanto impacto assim.


— Lucca, você tem uma blusa para me emprestar? Essa aqui está praticamente arruinada — Gia grita do banheiro exatamente na mesma hora em que Gael entra na minha sala. — Que porra é essa? — ele pergunta, sua voz alterada e seu olhar prestes a lançar lasers. Ele olha de mim para a porta, tentando entender por que motivo Gia está aqui. — Hein, tem alguma blusa sobran… — ela deixa a frase morrer quando vê seu irmão parado no meu escritório. Para melhorar a situação, Gia resolveu usar este momento para sair do banheiro. A blusa que estava usando não está mais em seu corpo. Agora, Gia a está segurando em frente aos seus seios, mas é possível ver a alça do sutiã roxo. Eu preciso segurar um rosnado. Da última vez que estivemos juntos, não tive muito tempo para apreciar a escolha de lingerie dela. Talvez se Gael não estivesse aqui, este seria o momento ideal para verificar se Gia usa calcinha e sutiã combinando. — O que você está fazendo seminua aqui, Gia? Volte já para o banheiro! — Gael ordena, e é possível sentir a raiva em sua voz. — Eu não estou seminua, G. Estou usando calça e tenho uma blusa escondendo as meninas — ela diz, apontando para seus peitos. Eu preciso fechar o olho e pensar no quão errado é ter Gia e Gael num ambiente só. Merda. Tudo estava indo tão bem… — Só preciso de uma outra camisa, porque essa está arruinada — ela continua. — Você tem alguma sobrando, Lucca? Eu preciso de alguns momentos para recuperar a minha voz. Pigarreio e vou para trás da minha mesa, abrindo algumas gavetas e procurando o que ela precisa. Para a sorte de todos e felicidade geral do mundo inteiro, eu encontro. É uma camiseta que os funcionários costumavam usar, que eu e Dante guardamos de souvenir. Gael também deve ter uma em casa. Na frente, está escrito em caixa alta “BEM-VINDOS AO INFERNO”. A blusa é preta, com


os escritos em vermelho e algumas labaredas embaixo das palavras. Entrego-a para Gia, que sorri e me agradece, voltando para o banheiro e me dando uma perfeita vista de suas costas nuas. Respiro fundo, mas tento não parecer afetado. — Você pode me explicar o que está acontecendo aqui? — meu amigo pergunta em tom acusador. — Deixa de ser chato, Gael — Gia grita de dentro do banheiro e eu preciso segurar o riso. Se tem uma pessoa que consegue botar Gael em seu lugar, essa pessoa é Gia. — Ela só precisava se lavar e trocar de blusa. Só isso — eu digo, tentando acalmá-lo. — E por que ela precisava se lavar e trocar de blusa, Lucca? Eu juro por Lúcifer que se você tiver feito alguma coisa com ela, eu… — Ei, ei, ei! Pode parar com isso nesse instante — Gia ordena, abrindo a porta do banheiro e saindo de lá completamente vestida. São os pequenos milagres que fazem da nossa vida algo feliz. — Eu preciso saber: vocês dois estavam…? — Gael ergue uma sobrancelha, olhando de mim para ela. — Claro que não. — Não. Gia e eu dizemos ao mesmo tempo, e posso ver Gael soltar um suspiro de alívio. — Nós passamos o dia no haras — Gia explica, contando a verdade. — Chegamos aqui há pouco tempo e eu estava cheirando a cavalo. Precisava trocar de roupa. Adorei o fato de ela ter contado a verdade. Afinal, nós não precisamos nos justificar. Sempre passamos tempo juntos. Somos amigos, e Gael sabe disso. O que ele não sabe é que eu agora quero muito mais do que ser apenas amigo dela. — É claro que vocês não estavam… — ele não termina a frase. É como


se usar o verbo “transar” na mesma oração que “Gia e Lucca” fosse algo inconcebível. — Desculpa, cara. Eu nunca devia ter duvidado de você. Meu melhor amigo jamais me trairia dessa forma. Ele me dá dois tapinhas no ombro, mas a sensação que tenho é que acabou de me dar dois tiros no peito. — Vamos tomar uma cerveja? — ele oferece e eu faço que sim com a cabeça. Quando Gael se vira de costas para mim, eu olho para Gia, que tem uma expressão indecifrável no rosto. Apenas nos olhamos. Se ela pensou que eu estava exagerando, agora não pensa mais. Com certeza, Gael não será apenas uma pedra no nosso caminho. Ele será uma cordilheira — e eu não faço ideia de como mudar a situação. Ao mesmo tempo que não quero abrir mão dela, não posso perder meu melhor amigo.


— “…Num instante eu imagino uma linda gaivota voar no céu. Vai voando, contornando a imensa curva…” — Gael canta com toda a sua alma. Confesso que preferia vender a minha a ter que continuar ouvindo meu amigo cantar. Como sempre, a Noite do Quiz foi um tremendo sucesso. Já é de praxe que a gente participe, mas, sem o Dante, não tem muita graça. Ao fim da noite, mantemos nossa tradição de encher a cara e cantar no karaokê. Tradição esta que deveria ser completamente ignorada e excluída da lista de coisas que fazemos. Mas eles gostam. Principalmente Gael, que tem complexo de Celine Dion depois de um determinado número de chopes. Gia ri do irmão, enquanto Tori, que chegou em algum momento da noite, finge que é a backing vocal. Tudo isso acontece depois que o bar fecha para os clientes. Apenas nós ficamos. Mozart, apesar de cansado após um turno louco, também é um dos resistentes e mantém nossos copos cheios. Quando Gael acaba de cantar, todos aplaudem — menos eu, que não estou nem um pouco no clima da brincadeira. Se pudesse, estaria a sós com Gia, fazendo com que ela se apaixonasse por mim, mas acho que terá que ficar para o nosso terceiro encontro. — Sua vez, delícia — Gael me estende o microfone e eu apenas o encaro, sobrancelha erguida e uma expressão facial que diz “Você tá de sacanagem, né?!”. — Ah, Lucca, vai lá! — Gia pede, batendo palmas e tentando me encorajar. — Não mesmo — afirmo, recostando-me na cadeira e cruzando uma


perna por cima da outra. — Lucca! Lucca! Lucca! — Tori puxa o coro, e é logo seguida por Gael, Gia e Mozart. Puta que me pariu. A última coisa que quero é ter que cantar. A penúltima é ter que aturar a felicidade alheia. — Tá, tá. — Eu me levanto da cadeira e vou em direção ao computador. Seleciono a música que tenho em mente e vou para o pequeno palco que é, na verdade, apenas um tablado que sempre tiramos da despensa. Todos parecem me olhar com ansiedade, como se eu fosse o próprio Bon Jovi. Eles sabem muito bem que não tenho qualquer talento musical, mas acho que essa é a alegria do karaokê: a ideia não é ver as pessoas cantarem bem, e sim rirem da desgraça alheia. Já que é pra sacanear, escolho logo a melhor música de todos os tempos. — “Mexe a cadeira e bota na beira da sala / Mexe a cadeira agora bem na minha cara / Mexe a cadeira da maneira que te tara / Mexe a cadeira e perde a vergonha na cara…” Todos estão rindo e cantando junto comigo. Para meu desespero, Gia obedece a letra da música e começa a rebolar, totalmente sem vergonha na cara. Tori a acompanha. Não sei se morro de tesão ou de raiva, pois, logo ao lado, Mozart está completamente hipnotizado. A música acaba e é um alívio. O grupo me aplaude como se eu fosse a próxima sensação pop do país, mas eu quero me esconder de vergonha. Odeio ser o centro das atenções. — Senhoras e senhores, a princesa do pop! — Gael finge me apresentar e todos dão gritinhos de felicidade. Eu volto para o meu lugar e termino a cerveja à minha frente, desejando poder sair daqui o mais rápido possível. De preferência, bem acompanhado. ** Meu desejo foi realizado e, de fato, saí do Inferno acompanhado. Infelizmente, não da pessoa que eu queria, mas de seu irmão: um bêbado


semiconsciente. Acho que há anos não via Gael beber tanto. Hoje, ele realmente se superou. Não sei quantas cervejas foram ao todo, nem quantas doses de algo que parecia ser água (mas com certeza não era). Eu carrego meu amigo para casa, não sem antes pedir desculpas a Gia, que pega um táxi. Mozart se oferece para ir com ela e Tori, mas não sei se elas estariam mais seguras com ou sem ele. Com muita dificuldade, abro a porta do meu apartamento e cambaleamos para dentro, Gael apoiado em mim. Eu o deixo no sofá e vou para o banheiro tomar um banho. Depois do dia que tive, é tudo que eu preciso. Deixo a água lavar o cheiro de cavalo e um pouco da tonteira causada pelo álcool. Passo mais shampoo do que deveria, criando muita espuma. Esfrego a tensão do dia até que eu esteja um pouco mais calmo. Queria estar com Gia agora. Terminar a noite com ela, levá-la para casa e dizer o quanto amei estar em sua companhia hoje — porque, sem dúvidas, foi um dos dias mais incríveis da minha vida. Como é possível que uma pessoa consiga deixar tudo mais tranquilo? Quando saio do banheiro, apenas com a toalha enrolada na cintura, escuto Gael gritar meu nome. Vou até a sala, torcendo para que ele não tenha vomitado a porra toda. Para minha sorte, ele está na mesma posição que eu o deixei: sentado no sofá, pernas e braços abertos, cabeça jogada para trás e olhos fechados. — Luccaaaaa — ele me chama e eu sinto vontade de rir da cena. Parece que ele está chamando pela mãe. — Fala, gatinha — digo e ele tenta me olhar, mas sem muito sucesso. Puta que pariu, ele está mais bêbado do que eu pensava. — Você não mente pra mim, né? — ele pergunta, as palavras saindo mais emboladas do que o normal. Mesmo assim, o impacto delas é o mesmo. — Só se for para o seu próprio bem — eu digo, não querendo mentir


ainda mais para ele. — Ela goxta de você… — ele comenta. — Quem? — Gia. Ela goxta de você. Mas você é meu melhor amigo… Sabe que ela é pobrida. — Acho que ele tentou falar “proibida” na língua dos bebuns. É então que eu registro o que ele acabou de dizer, e o ar me falta por um momento. — Você está bêbado, Gael. Vai dormir que isso passa — eu digo, virando as costas e deixando meu amigo sozinho. Antes de entrar no meu quarto, vejo que ele tombou no sofá e, agora, está deitado de lado. Quando eu finalmente consigo deitar na minha cama, luzes apagadas e pronto para dormir, o sono não chega. No lugar dele, imagens do dia me mantêm acordado. Gia rindo; Gia andando a cavalo; Gia conversando sobre coisas normais da vida; Gia respondendo às perguntas do quiz com animação; Gia cantando Work, bitch no karaokê… Gia, Gia, Gia, Gia… Essa mulher não sai da minha mente, invade meus pensamentos e elimina meu bom senso. Só ela para me fazer sentir dessa forma e de ter vontade de ignorar todos os meus princípios. O que Gael me disse há pouco também não me permite pegar no sono. Será que ela realmente gosta de mim? Tudo que aconteceu entre a gente foi muito natural, como se, no fim daquela noite, já soubéssemos o que iria acontecer. O grande problema foi o depois. Em momento algum Gia deixou transparecer que ela sentia qualquer outra coisa por mim a não ser tesão. Mas as palavras de Gael, o modo como ela fugiu e alguns olhares que me deu acabam por me dar esperança. De repente, não será tão difícil assim fazer com que ela se apaixone por mim.


Ressaca nunca é legal. Ressaca na segunda-feira deveria ser ilegal. Principalmente quando você acorda fazendo piadinhas idiotas. Depois de determinada idade, já deveríamos ter aprendido a quantidade certa de beber para não sofrer com as consequências no dia seguinte. Mas não. Este não é o caso. Reunindo todas as minhas forças, eu me levanto da cama e vou para o banheiro. Pelo menos, desta vez, eu não preciso botar todo o conteúdo da noite anterior para fora. Progresso. Quando me sinto minimamente pronto para começar o dia, vou para a sala verificar se meu amigo ainda está vivo. Gael está deitado de costas no sofá, um braço em um dos olhos. Ele resmunga incoerências e sei que, assim como eu, não está se sentindo tão bem. — Bom dia, gatinha — eu digo e, em resposta, ele solta um grunhido. Pelo menos, ele está consciente. — Vou fazer café. — Outro grunhido. Preparo a cafeteira toda — sei que vamos precisar de muito café para conseguir sair da merda — e me perco em pensamentos, vendo o líquido preto encher a jarra. — Queridas, chegue-ei! Ouço uma voz muito conhecida vindo da sala e me apresso para ver se tenho razão ou se minha mente ligeiramente bêbada está me fazendo delirar. Não estou delirando. — Que saudades de você, delícia! — Dante diz e finge correr em câmera lenta em minha direção. Quando está próximo o suficiente, ele me puxa para um abraço.


— Seu pau caiu de tanto trepar e você resolveu voltar para a realidade? — eu pergunto, dando dois tapas no ombro dele. Dante é só sorrisos. Aparentemente, lua-de-mel faz bem para um homem. — Em primeiro lugar, meu pau continua no mesmo lugar. Na verdade, meu pau é como um halterofilista: quando mais se exercita, em melhor forma fica. Quer ver? — Ele começa a desabotoar a calça e eu o empurro para cima de Gael, que continua em um estado semivegetativo. Com o peso de Dante, Gael solta um grito — pelo menos não foi um grunhido. — É assim que você demonstra que sentiu saudade de mim, Hanson? — Dante brinca, usando o apelido que demos a Gael quando ele era adolescente. Cabelos loiros, olhos azuis e adora cantar? Claro que ele passou a ser chamado de Hanson. Inclusive, Dante usa Mmm-bop como toque de celular. — Vocês têm que mudar o dia da Noite do Quiz — é a primeira coisa coerente que Gael diz. — A brincadeira acaba às nove e meia, Gael. A culpa foi sua que cismou de beber até levar a gente à falência. — Eu olho para Dante, que está com um sorriso de orelha a orelha tatuado no rosto. — Karaokê e shots? — ele pergunta. — E cerveja — complemento. — Até, pelo menos, duas e meia da manhã. — Que horas você dá aula hoje, amoreco? — Só à noite — Gael responde. Ninguém nunca sabe exatamente os horários dele. A cada semestre, ele pega turmas diferentes na universidade onde trabalha. Quanto mais turmas tem, mais feliz o desgraçado fica. Enquanto a maioria dos seres humanos normais preferem receber muito para trabalhar pouco, Gael fica mais empolgado cada vez que tem a chance de dar mais aulas do que no semestre anterior. Principalmente quando pode criar disciplinas eletivas que, de acordo com ele, são “interessantes”. Nada disso


tem a ver com dinheiro. Ele trabalha muito porque ama o que faz. Enquanto todo mundo passa pela fase “o que vou ser quando crescer”, meu amigo nunca teve dúvidas de que gostaria de dar aulas de História em faculdade. Desde criança, ele gostava de brincar de professor. Quase nunca tinha muita chance, já que a última coisa que eu e Dante queríamos era passar nosso tempo livre fingindo estar estudando. A nerdice dele é tanta que, aos vinte e nove anos, já é doutor em História Antiga e se diz uma pessoa realizada profissionalmente. Quanto ao lado pessoal, ninguém sabe ao certo. Se tiver que ser sincero, até mais ou menos um ano atrás, nenhum de nós podíamos dizer com exatidão a quantas andavam nossas vidas. É fácil viver sem sentir nada. O tempo passa e você não percebe. Cada dia é igual ao anterior. Estávamos em constante estado de entorpecimento. Não sou daqueles que acredita que o amor é a solução para todos os problemas e blá blá blá. Mas é impossível negar o quanto Dante mudou desde que conheceu Clara, sua esposa. Foi como se ele tivesse ganhado um propósito, algo pelo que lutar, mudar, crescer. A personalidade dele continua a mesma — um metido a engraçadinho com um enorme repertório de metáforas —, mas o modo como ele conduz a vida ganhou uma nova ótica. Pela primeira vez na vida, sinto que meu amigo está genuína e inteiramente feliz. O sorriso de bobo na cara dele enquanto tenta convencer Gael a se levantar do sofá é um indicativo. Fico feliz pelo meu amigo. Sendo bem honesto, gostaria de me sentir do mesmo modo que ele. Digo para mim mesmo que, se tudo der certo, em breve estarei assim. Só basta Gia admitir que me quer e dar um pé na bunda do namorado. Tem também o fator Gael, mas eu não quero pensar nisso agora. Olho para os meus dois melhores amigos, que estão conversando sobre os acontecimentos pós-festa de casamento. Gael narra para Dante, nos mínimos detalhes, o que aconteceu entre ele e a cerimonialista.


O resto da manhã passa com nós três na sala da minha casa, conversando sobre a lua-de-mel de Dante e do que aconteceu enquanto ele estava fora. É bom tê-lo de volta. Nunca vou admitir, mas o filho da puta faz falta. ** A melhor coisa em ter Dante de volta é poder ficar em um só lugar. Ou, pelo menos, tentar. Antes de ir para o Paraíso, nós dois vamos para o Inferno para que eu possa colocá-lo a par do que tem acontecido nas últimas semanas. Dante pode ser o cara mais engraçado que há, mas quando o assunto é trabalho — ou melhor, seus “filhos” —, sua seriedade é admirável. Nossa reunião demora mais do que o planejado. Eu explico todas as mudanças que foram feitas, principalmente sobre o Purgatório. — Você tem certeza disso? — ele questiona, se referindo a Zurik e minha decisão de permitir que assuma um cargo tão relevante assim. — Vamos chamar de intuição. — Você que sabe. Eu confio em você e, se você confia nele… — ele não termina a frase, mas não é preciso ser um gênio para entender o recado. Fico muito contente que Dante confie tão cegamente em mim. Por mais que, durante todos esses anos, eu tenha dado o meu sangue para fazer com que os bares deem certo, a ideia inicial foi dele (assim como a grana investida no início). Por mais que eu pudesse entrar com o trabalho, não sou de uma família rica e nem tinha de onde tirar tanto dinheiro assim. Isso não fez diferença para Dante. Ele disse que não conseguiria sem mim e, em momento nenhum, me fez sentir menos importante. — Eu tive um bom pressentimento no início, que foi se mostrando correto ao longo do tempo. Zurik parece ser o cara certo para ficar no Purgatório. Principalmente porque acho que devemos investir um pouco mais de tempo e ideias no Paraíso. Os outros dois já estão, de certa forma,


consolidados. Já têm identidade. Agora, o Paraíso ainda não — eu explico. — Você tem razão. Acho também que deveríamos investir um pouco mais em marketing… — Dante começa a falar um pouco sobre a ideia genial que teve durante seu tempo fora. Ele dá sugestões de coisas que possivelmente atrairão mais clientes. Mas minha preocupação continua no Paraíso. Nossa conversa continua por mais um tempo. Dante concorda comigo em investir um pouco mais de tempo e amor no nosso novo bar. Combinei de passar os próximos dez dias lá, analisando tudo com mais cuidado e pensando no que podemos fazer para melhorar. Ele concorda comigo e sugere uma outra reunião depois desse período. — Eu sei que ainda é segunda-feira, mas Clara pediu para te convidar para um almoço no sábado — Dante avisa. — Ela quem vai cozinhar ou você? — quero saber. Inclusive, a resposta para essa pergunta é vital para eu dizer se vou ou não ao tal almoço. — Nenhum de nós — ele diz. — Minha mãe ficou responsável por levar a comida. — Dante pisca para mim e eu solto um suspiro aliviado. Se fosse ele a cozinhar, não perderia tempo saindo de casa. Mas se a cozinheira será dona Lila, então não perderei por nada nesse mundo. Confirmo minha presença e me despeço de meu amigo. Por mais que o dia já esteja acabando, eu me encaminho para o Paraíso, ansioso para começar logo com meu novo projeto. Chamo um Uber e, enquanto espero, tomo um refrigerante no bar. Mal dou um gole quando meu celular apita e vejo que uma mensagem chegou. Gia: Meu cabelo ainda tem cheiro de cavalo. A culpa é toda sua, Mellis. Abro um sorriso não apenas com o conteúdo da mensagem, mas pelo fato de Gia ter entrado em contato comigo. O dia foi tão corrido que nem tive tempo de falar com ela e, agora, estou me sentindo mal. Minha mente volta e meia vai até ela. Será que Gia ficou chateada por eu não ter sequer mandado uma mensagem depois de ontem?


Porra, que merda. Esse negócio de encontros é muito complicado. Todo cheio de regras. Eu: Da próxima vez, vou sozinho ao haras. Eu ia digitar algo como “Até com cabelo fedido você é a mulher mais perfeita desse mundo”, mas achei melhor pegar leve. Não quero assustá-la de novo. Gia: Não se atreva! Eu: Isso quer dizer que você gostou do nosso encontro? Gia: É muito difícil não gostar de passar tempo com você, Mellis. A resposta dela é como ganhar na loteria: ao mesmo tempo em que você fica feliz, não faz a menor ideia de o que deve fazer com o prêmio. O que eu digo? “Então, passe todo seu tempo comigo?” ou “Fique à vontade para estar ao meu lado até o fim da eternidade”? Não… Esse último é muito cafona. Sou salvo pelo gongo quando ouço a buzina no Uber, que está na porta, me esperando. Uso esses três minutos para pensar em minha resposta. Essa necessidade de ser o cara perfeito está me matando. Eu juro que estou tentando, mas não sei se vou conseguir. Entro no carro e explico para onde vamos, o motorista assente e segue na direção do Paraíso. Eu: Então, que tal ter mais um encontro comigo hoje? Envio a mensagem e minhas mãos começam a suar. Eu devo ser louco. Não tenho nada planejado. E se ela disser sim, o que eu faço? Gia: Hoje? Você tá louco. Eu: Se eu disser uma coisa, você promete não me matar? Gia: Fala logo, Mellis. Eu: Eu já estou com saudade de você. Depois de ontem, adoraria poder passar um pouco mais de tempo ao seu lado. Depois de apertar o enviar, eu prendo a respiração, com medo do que ela


vai responder. Gia é completamente imprevisível. Posso esperar uma declaração de amor eterno ou um vai tomar no cu. A probabilidade de eles acontecerem é a mesma. Gia: Eu te espero às onze horas no Paraíso. É a única coisa que ela diz, e eu não sei se isso é bom ou ruim.


Nunca pensei que fosse dizer isso, mas acho que já estou acostumado a esse nervosismo. Será que um dia eu não me sentirei ansioso logo antes de encontrar com Gia? Não sei o que a levou a pedir para me encontrar a essa hora, mas eu temo a possibilidade de ela estar com seu namorado. Estou me sentindo o lanchinho da madrugada, apesar de saber que nada acontecerá entre nós. Mas a esperança é a última que morre. Eu estou sentado no bar, olhando ao redor e tentando entender um pouco mais sobre o Paraíso. Com um bloquinho à minha frente, passo pelo menos duas horas apenas observando. Bebo apenas uma cerveja. Preciso me manter em estado de total consciência para me encontrar com Gia. Eu sinto o exato momento em que ela entra. Algo em mim desperta sempre que Gia está por perto. É a tal coisa que não me deixa esquecer de que essa mulher tem poder sobre mim. Eu me viro para a entrada, sabendo que os momentos seguintes serão intensos e, muito possivelmente, me reduzirão a um completo idiota, fissurado pela irmã do melhor amigo. Dito e feito: Gia está ali, a alguns metros de distância, e meu coração dispara no segundo que meus olhos batem nela. Que merda. Eu odeio essa sensação. Quero poder beijá-la, puxá-la para um abraço, perguntar como foi seu dia e fazer propostas indecentes para sua noite. Mas eu sei que não posso. Por isso, me limito a observá-la. Como sempre, ela está linda. Seus cabelos estão presos e minha boca fica seca só de pensar em passar a língua em seu pescoço, sentindo seu gosto e sussurrando


tudo aquilo que pretendo fazer com ela. Quando, enfim, ela me vê, abre um sorriso de orelha a orelha, me deixando completamente sem reação. Será que os sentimentos que tenho por ela são recíprocos? Não tenho tempo de ponderar sobre isso, pois logo Gia está ao meu lado. — Nem te conto o que aconteceu hoje — ela diz, colocando a bolsa sobre o balcão e me dando um beijo rápido na bochecha, bem no canto da boca, como se fosse a coisa mais comum do mundo. — Pelo jeito como você está sorrindo, algo muito bom. — Pode ter certeza que sim. — Ela acena para Linda, uma das barwomen do Paraíso, pedindo para que ela venha aqui. — Eu nem posso acreditar. Estou quase pulando de alegria — Gia comenta e eu me sinto contagiado por sua alegria. Apoio o cotovelo no balcão e a cabeça na mão e deixo minha atenção se voltar completamente para ela. Linda aparece para tirar o pedido, mas não perco meu tempo me virando para ela. Tudo que eu quero está bem aqui. Eu vejo os lábios de Gia se moverem enquanto ela fala com a outra mulher. Quando nota que a estou encarando, Gia se vira para mim e seu sorriso vai de radiante para tímido. — O que foi? — ela pergunta. — Você é linda — eu me limito a dizer, meu tom baixo e meus olhos fixos nos seus. — E você está provando que é um tremendo galanteador, senhor Mellis — e brinca e me dá um tapinha no braço. Eu sei o que é isso: Gia está flertando comigo. Pelo menos, eu acho que é isso. Não desvio minha atenção dela, não consigo. Eu cedo à minha vontade e aproximo meu rosto do dela até estar a poucos centímetros de distância. Porém, Gia se afasta. — Lucca, eu não posso — ela sussurra e eu preciso fechar os olhos e respirar fundo para controlar o desapontamento que me toma. — Eu tenho


um namorado e disse pra você que qualquer coisa entre nós além de uma boa conversa não aconteceria. — Eu consigo sentir a tensão em sua voz e, quando abro os olhos, vejo nela o mesmo sentimento conflitante que há em mim. — Eu sei, Gi… Mas é difícil. Desculpe. Por um momento, a tensão entre nós é evidente. Linda escolhe essa hora para aparecer com a Coca-cola e whisky que Gia deve ter pedido. Quando ela dá um gole, solta um gemidinho de prazer e eu sinto vontade de bater com a minha cabeça três vezes na bancada. Ela precisa me torturar dessa forma? — Essa sua nova funcionária faz exatamente do jeito que eu gosto. “Eu também sei fazer exatamente do jeito que você gosta. Inclusive, já fiz”, penso em dizer, mas acho melhor manter a boca fechada. Meu comentário seria muito mal recebido, tenho certeza. — Para de fazer mistério e me diz por que você chegou tão eufórica — eu peço e ela volta a sorrir. — Há anos eu quero abrir minha própria clínica. — Eu sei. Desde a faculdade você fala que, um dia, terá seu próprio espaço. — Exatamente. Mas nunca foi possível. Não só por questões financeiras, mas por falta de experiência — ela explica e eu faço que sim com a cabeça. Eu sei muito bem quais são as dificuldades em abrir o próprio negócio. — Pois é… Eu pensei em ter alguém como sócio, mas duvido que encontre alguém com quem me dê bem o tempo todo. — Sociedade é uma coisa bem complicada. Você tem que conhecer muito bem a outra pessoa, além de confiar nela integralmente. Eu tenho muita sorte de o meu sócio ser meu melhor amigo, praticamente meu irmão. Acho que não conseguiria nem cogitar a ideia se fosse com qualquer outra pessoa. — Pois é. Infelizmente, não conheço essa pessoa, nem quero colocar minhas amizades em risco. — Ela começa a falar de suas amigas e a explicar


o porquê de não querer sociedade com elas. — Gia, pelo amor de Deus, vá direto ao ponto — eu peço, minha curiosidade falando mais alto. — Desculpa… — ele pede e morde o lábio, sorrindo para mim. São pequenos momentos como este, tão simples e corriqueiros, que fazem com que eu me apaixone mais um pouquinho. Estou virando um paspalho mesmo. Puta que pariu. — Fala logo! — Tá. Então, preciso de dinheiro e experiência, certo? Dinheiro a gente sempre consegue dar um jeito. Eu devo ter um tio-bisavô prestes a morrer e que vai deixar uma herança gorda para mim. Isso não importa tanto — ela fala, abanando a mão, e eu balanço a cabeça, tentando não rir da sua hipótese louca. — Muito possível. — A ironia escorre das minhas palavras. — Sim, claro. Ou seja, o que me falta no momento é a experiência. Mas não vai faltar mais. Ano passado, eu me candidatei para a Clínica do Animal Amado — ela diz, se referindo a uma ONG local, famosa por seu trabalho de resgate e cuidados de animais de pessoas com baixa renda. — Recebi a ligação deles logo antes de te mandar mensagem. Eu passei! Você está olhando para a nova chefe do departamento cirúrgico da CAA! Gia começa a pular de alegria e se joga em cima de mim. Eu consigo sentir a alegria emanando dela. — Parabéns, Gi. Você merece — eu sussurro em seu ouvido. — Você não tá entendendo, Lucca. A CAA, apesar de ser uma ONG, tem o hospital mais bem equipado da cidade. Além da experiência médica em si, eu também terei contato direto com as questões burocráticas. É tudo que eu poderia querer. O sorriso dela é radiante, e eu me sinto um bobo apaixonado, prestes a poetizar sobre o momento. — Obrigado por compartilhar isso comigo. Você vai chegar exatamente


aonde sempre sonhou. — Dou um beijo em sua bochecha e a puxo para mais um abraço. — Estou orgulhoso de você, princesa. — Lucca… — ela começa, mas hesita. Quando se afasta de mim, quero puxá-la para perto novamente, mas me seguro. Gia morde o lábio inferior e desvia o olhar, e esse nervosismo dela é muito estranho para mim. — Ei… — Eu ergo seu queixo, fazendo com que nossos olhos se encontrem mais uma vez. — Você sabe que pode me contar o que quiser. Não precisa ficar assim. — Eu sei disso, mas é que… — Ela parece procurar algo em meu rosto, e eu não dou mais tempo para que ela pense. Sei que não posso beijá-la, mas preciso sentir seu calor. Encosto minha testa na dela e fecho os olhos, criando coragem para o que pedirei a seguir. — Termina com ele, Gi, e dá uma chance pra gente? — Minha voz é um sussurro, mas que carrega um misto de sentimentos conflitantes: amor, desejo, apreensão, desespero. — Lucca, eu… — Por favor, Gi. Você sabe que a gente pode ser muito mais do que apenas uma noite de sexo. Ou várias noites de sexo — acrescento. — O que eu sinto por você nunca senti antes. Sei que demorei a admitir, mas é que nunca soube lidar com essas coisas de sentimento e declarações. Respiro fundo e seguro seu braço com um pouco mais de força. Minha testa ainda está encostada na dela, nossos olhos fechados, mas sinto sua respiração acelerar, o que me incentiva a continuar. — Dê uma chance para nós. — Eu dou ênfase à palavra e me permito abrir os olhos. Vejo quando uma lágrima escorre por seu rosto e beijo-a. Gia sorri e passa as mãos pelos meus cabelos. O que ela diz a seguir me deixa completamente sem chão: — Eu terminei com Fred antes de vir para cá.


Novamente, vem a questão de ganhar na loteria. É algo tão surreal que, quanto se torna realidade, você não sabe o que fazer. Será que é algum tipo de brincadeira sem graça? Em vez de beijá-la, eu faço exatamente o oposto: afasto-me dela e procuro em sua expressão a veracidade do que acabou de dizer. — Você está falando sério? — Eu preciso ter certeza antes que possa dar o próximo passo. — Não era isso que você queria? — ela rebate, erguendo uma sobrancelha e trazendo a Gia que eu conheço de volta, mas ainda vejo o rastro da lágrima que há um minuto estava ali. São coisas como essa que me fazem ter certeza de que há muito mais nela do que apenas uma frente forte e determinada. — Você é o que eu quero, Gia. Seu namorado era apenas mais uma pedra no nosso caminho — confesso. — O que eu preciso saber é: você está disposta a enfrentar os próximos obstáculos? Porque, eu vou ser sincero, serão vários. Seu irmão, o maior deles. — O que você está sugerindo, Lucca? — Uma pergunta tão simples, mas que carrega tanta coisa por trás. Acaricio seu rosto, postergando minha resposta. Na verdade, preciso pensar exatamente no que dizer. As palavras que Tori me disse aquela noite passeiam por minha mente. Eu só preciso achar a melhor forma de expô-las sem arriscar que ela diga não. — Eu não sei, Gia — resolvo ser sincero. — Só sei que eu estou completamente apaixonado por você e quero passar o máximo de tempo


possível ao seu lado. Quero poder te beijar se eu sentir vontade, acordar ao seu lado após uma noite inteira fazendo você gritar meu nome, te buscar no trabalho depois de um dia cansativo, cozinhar para você… Eu quero muitas coisas com você, Gia. Ela me olha como se não acreditasse em minhas palavras. Uma de suas mãos emoldura meu rosto e, novamente, estamos em nossa bolha. O resto do mundo não importa. Neste momento, somos apenas nós dois. — E o Gael? — ela pergunta, e noto a insegurança em seu semblante. — Ele será contra, disso eu não duvido. Por isso eu acho que poderíamos… — hesito, sabendo do peso daquilo que direi a seguir — …não contar para ele. — Você quer que eu seja seu segredo, é isso? — Era exatamente isso que eu não queria que ela pensasse. Então, me apresso em corrigi-la. — A única pessoa que me impede de gritar para o mundo que você é minha é seu irmão. Se não fosse por ele, nós nem estaríamos tendo essa conversa. Mas ele existe e é meu melhor amigo. Ele é tão meu irmão quanto seu. Ela sabe que o que estou falando é verdade. Acho que, por isso, ela apenas faz que sim com a cabeça e permite que eu continue sem me interromper. — Eu não quero que você seja meu segredo. Apenas quero começar meu relacionamento com você sem ter essa complicação logo de início. Honestamente, Gi, quero ter a fase boa do relacionamento, porque eu sei que assim que ele ficar sabendo disso entre nós, tudo irá mudar. Preciso que, antes, você me ame o suficiente para não desistir de mim quando ele se virar contra nós. Esta é a verdade nua e crua. Eu sou louco por Gia. Ao mesmo tempo, não estou tão ansioso assim para destruir minha amizade com Gael e sei que, no momento em que deixarmos de ser um segredo, não teremos mais tranquilidade.


— Eu queria que você pudesse me beijar agora — ela diz, me pegando de surpresa. Em seu olhar, a paixão está estampada, fazendo-me lembrar do modo como me olhou naquela noite. — Me leve para sua casa, Lucca. Se eu vou ser o seu segredinho sujo por um tempo, é melhor aproveitarmos bastante. Dizem que ter um relacionamento às escondidas pode ser bastante… — ela lambe os lábios, me olhando com luxúria — …excitante. — Gia… Eu não posso acreditar que isso tudo esteja acontecendo. A energia entre nós é palpável, e eu sou refém do quer que seja que Gia peça de mim agora. Todo meu bom senso se evapora. Dane-se o resto do mundo. Eu fiz tudo que estava ao meu alcance, mas não me entregar foi impossível. Eu tentei ser leal a Gael, mas até que ponto eu posso deixar meus sentimentos de lado por causa de outras pessoas? — Faça o que estou pedindo, Lucca. Me leve para sua casa agora e cumpra com todas aquelas promessas que você acabou de fazer. — Ela puxa minha camisa com as duas mãos e aproxima seu rosto do meu, nossas bocas a meros centímetros de distância. — Eu quero gritar seu nome a noite inteira. Um rosnado reverbera em meu peito e minha ereção já começa a dar sinais de vida. Game over. Eu faço exatamente o que ela pede. Levanto-me do banco em que estou sentado e puxo-a pela mão. Destino: minha cama. ** O caminho até minha casa é tenso. De mãos dadas dentro do táxi, eu tento pensar em qualquer outra coisa que não seja Gia completamente nua, mas é impossível. Minha respiração é ofegante. Minhas pernas não param de balançar. Minha ereção é tão grande que chego a sentir dor. A expectativa do que vai acontecer está quase me matando. Ela também está sentindo. Volta e meia aperta minha mão com mais força, fazendo com que eu olhe para ela. Não posso começar com algo que


sei que não vou conseguir parar. Se eu a beijar agora, o taxista vai assistir a um show, porque só vou conseguir soltá-la depois de ambos estarmos completamente exaustos. Tenho quase oito meses de tesão preso em mim. Se ela conseguir andar amanhã, será um milagre. — Lucca… — ela sussurra meu nome, provavelmente incomodada com essa antecipação do que está por vir. Assim como eu, ela sabe o que acontecerá no momento em que estivermos entre quatro paredes. Eu apenas a encaro. Permito-me encará-la sem censura, sem medo de ser pego, sem que ela se sinta constrangida. Eu nunca conheci uma mulher tão linda quanto Gia, duvido que conhecerei. O apelo dela é mais do que os olhos azuis e os cabelos loiros. É o jeito como ela olha, o jeito como ela se move. Sua boca parece gritar meu nome: foi feita para mim, para os meus beijos. Por não sei quantos minutos, nossos olhos não se desgrudam. Não precisamos dizer nada. É evidente o que queremos, o que precisamos, o que teremos muito em breve. — Você já está molhada, Gi? — pergunto baixinho, não querendo que o homem no banco da frente escute. Gia não me responde com palavras, mas morde o lábio inferior e balança a cabeça afirmativamente. — Ótimo. Porque a primeira vez vai ser rápida e com força. Não aguento mais esperar para estar dentro de você. — Gia fecha os olhos e solta um gemido baixo. Eu aperto mais sua mão, e ela responde na mesma intensidade. Estamos desesperados. Quando o táxi para, eu arremesso uma nota de cinquenta para o motorista, sem ao menos ver o valor da corrida. Preciso de Gia. Agora. Entramos no prédio com tanta pressa que ignoramos completamente o porteiro que nos cumprimenta. Hoje, nada mais importa, a não ser a mulher


ao meu lado. Quero poder mostrar a ela que tudo que eu disse era verdade; que, de fato, eu estou completamente apaixonado e todas essas coisas de sentimentos, mas antes eu preciso que ela não duvide do quanto eu a desejo; que, independentemente de todas as vezes que eu disse não, meu corpo gritava sim. A viagem de elevador parece mais longa do que o normal para quem vai subir apenas três andares. Gia aperta o botão pelo menos sete vezes, e fico aliviado por saber que ela está tão desesperada quanto eu. A porta desliza para o lado e estamos correndo, a chave de casa na mão. Eu noto que estou tremendo, mas não é de nervosismo, e sim de tesão. — Se eu não estiver dentro de você nos próximos três minutos, eu juro que vou explodir — confesso. No momento que entramos no meu apartamento, o resto do mundo deixa de existir. Tranco a porta e passo a corrente, apenas para garantir que nada e nem ninguém nos interromperá esta noite. Desculpem-me, vizinhos, mas vocês dormirão muito mal hoje. Assim que termino de trancar a porta, Gia já está em mim, me beijando com desespero. Que saudade desse beijo… Como eu consegui passar todo esse tempo sem beijá-la, sem sentir seu gosto. Gia geme em minha boca e nossas mãos estão frenéticas, tocando tudo aquilo que encontram. Eu ergo Gia do chão, minhas mãos segurando-a por debaixo da bunda, e ela enlaça minha cintura com suas pernas. Preciso dela na minha cama. Agora. Levo-a para meu quarto e a deposito onde ela pertence. Deito-me por cima dela e deixo que ela sinta meu peso, que sinta exatamente o que está fazendo comigo. Ela puxa minha camisa e o único momento que minha boca deixa a sua é quando precisamos nos afastar para que a peça possa sair do caminho. Aproveito, então, para descer beijos por seu pescoço, encontrando aquele lugar mágico que a deixa ainda mais louca. Gia solta um gemido alto e


impulsiona o quadril para cima, se esfregando em mim. — Pelo amor de Deus, Gi, diz que isso está acontecendo mesmo e que você não mudou de ideia — eu digo entre beijos e lambidas. minha voz grossa, nitidamente afetada por tudo que está acontecendo. — Lucca, este não é um momento para dúvidas. Mas se são palavras que você precisa, então eu vou ser bem clara: eu nunca me senti assim antes, só com você. Cada parte do meu corpo está doendo de tanto tesão. Só você é capaz de fazer parar. Não hesite. Eu sou sua. As palavras dela são a minha ruína. Removo sua blusa, jogando-a para o lado e pouco me importando com o barulho de algo espatifando. Beijo seu colo, descendo por seus seios. O decote que o sutiã dela faz é perfeito. Olhando para ela, eu passo a língua pelo vale entre seus peitos. Gia segura meu olhar e suas mãos vão para o meu cabelo, segurando-me ali. Ela empina sua pélvis, friccionando seu sexo, ainda coberto pela calça jeans, contra o meu. O movimento me enlouquece, mais ainda quando ela aumenta a velocidade. — Lucca… Eu preciso… — Ela joga a cabeça para trás e geme mais uma vez. Gia é a criatura mais sexual que eu conheço e, neste momento, é minha. Minha para dar prazer. Minha para satisfazer. Minha. Uma das minhas mãos afastam um bojo do sutiã, liberando um mamilo rosado e eriçado. Sem pensar duas vezes, eu o coloco na boca, sugando-o com vontade. Ela treme embaixo de mim e chama meu nome. Suas mãos puxam mais os meus cabelos, como se implorassem para que eu não saísse dali. Eu faria qualquer coisa para que ele gemesse assim pelo resto de sua vida. Qualquer. Coisa. Minha outra mão procura o botão de sua calça e escorrega por dentro da calcinha. Quando meus dedos encontram sua umidade, é a minha vez de soltar um grunhido.


— Porra, Gi… Assim você me mata. Ela está encharcada. Eu brinco com seu clitóris até que ela começa a gritar de prazer. Continuo chupando seu peito e deixo que um dedo a penetre. Meus olhos se fecham só de imaginar que, em breve, meu pau estará ali. Ele trinca de tão duro e eu já não estou aguentando mais. — Lucca, para de brincar. Eu preciso de você dentro de mim. Agora. É como se ela pudesse ler meus pensamentos. Em um segundo, afastome dela e termino de remover sua calça. Depois, removo a minha, a cueca vai junto. Os sapatos já foram chutados em algum momento anterior. Pouco importa. Eu preciso dela, de estar nela. — Cabeceira — eu digo e ela alcança a gaveta, retirando uma camisinha de lá. Em tempo recorde, rasgo o pacotinho laminado e envolvo meu membro com o látex. Gia remove o sutiã, ficando completamente nua à minha frente. — Perfeita… — eu digo e, com as duas mãos, acaricio todo seu corpo, subo e desço. Nada fica intocado: barriga, seios, costelas, coxas, braços. Minhas mãos passeiam por ela, grossas contra sua pele macia, criando um contraste delicioso. — Perfeita pra caralho. — Lucca… — ela pede e sei exatamente o que ela quer. É exatamente o mesmo que eu quero. Alinho minha ereção com sua entrada e, lentamente, a preencho. É. A. Melhor. Sensação. Do. Mundo. Gia é apertada e quente para caralho. Quando estou dentro dela por completo, sinto que eu morri e fui para o paraíso. É a única explicação para tanta perfeição. Eu sabia que era bom, mas não me lembrava que era tão espetacular assim. Só de senti-la ao meu redor, já estou à beira do orgasmo. Mas ainda não… Preciso de mais. Deito-me sobre ela, encaixado entre suas pernas, e deixo que meu rosto encontre seu pescoço. Preciso sentir seu cheiro. Eu começo a me mexer e tudo no mundo parece fazer sentido.


Eu e ela. É isso. A coisa entre nós, que agora tem um nome: amor com muito tesão. Eu me mexo, aumentando os movimentos, e Gia me acompanha, se mexendo junto comigo. É uma sincronia perfeita e sei que nunca mais serei o mesmo. Ela grita meu nome e começa a tremer. Quando suas unhas cravam nas minhas costas e ela morde meu ombro, eu me permito relaxar. Seus músculos se contraem ao meu redor, extraindo de mim um orgasmo tão intenso que juro ter perdido a consciência por um segundo. Gael que me perdoe, mas eu nunca mais deixarei esta mulher.


Eu sou um homem de princípios. Um deles é a gratidão. Por exemplo: serei eternamente grato por Gia ter uma fascinação quase incontrolável pelo V que se forma no meu quadril e aponta para a outra parte da minha anatomia pela qual ela desenvolveu afeição nas últimas doze horas. A língua de Gia percorre as veias do tal V, seu rosto volta e meia roçando no meu mastro erguido — chamar de pau ou pênis não é mais suficiente: o negócio está tão em pé que chega a oferecer perigo. Para piorar a minha situação, as mãos dela beliscam meus mamilos e ela se esfrega em minha perna. Estamos assim há horas: descobrindo novas formas de nos darmos prazer. O dia já amanheceu há bastante tempo, e a luz entrando pela janela parece apenas deixá-la mais desinibida. Deitado de costas, olhos fechados e absorvendo todo o prazer que minha Gi quer me dar… Se isso não é felicidade, não sei o que mais poderia ser. Mas a devassa quer me torturar e me deixa na apreensão, sem saber em que momento ela me envolverá com o calor de sua boca. Sua língua apenas passeia pelo meu corpo, intercalando com mordidas leves e alguns chupões em locais estratégicos. — Porra, Gi… — eu solto um gemido rouco, já alucinado com o que eu sei que vem a seguir. — Alguém já lhe disse que você é uma delícia? — ela pergunta, esfregando-se contra minha perna, que fica molhada com o contato. Só de saber que me dar prazer a excita, preciso fechar os olhos e me controlar para não explodir.


— Hein, Lucca? Alguém já disse isso? — ela pergunta e eu solto mais um grunhido quando sinto seu dente cravar em meu quadril. A pontada de dor em meio a tanto prazer só deixa as coisas mais intensas. — Não… — eu respondo. Gostaria de dizer mais coisas, mas meu cérebro parece não estar funcionando muito bem. Afinal, todo sangue que eu tenho parece estar concentrado em uma parte específica do meu corpo. — Pois então eu te digo. — Uma lambida longa e molhada que vai da minha pélvis até meu umbigo. — Você. — Ela deixa a língua rodear meu umbigo. — É. — Mordiscada. — O. — Outra lambida. — Homem. — Um beijo no meu quadril. — Mais. — Sua boca vai se aproximando da minha ereção. — Gostoso. — Sinto seu hálito quente próximo à cabeça. — Do. — Sua língua encosta na pontinha. — Mundo. Ela me toma por completo, levando-me de uma vez só até o fundo de sua garganta e eu solto um rugido alto. Caralho. Gia me chupa com vontade, gemendo junto comigo. Eu gostaria de ter mais controle, mas não consigo me controlar. Seguro seus cabelos com força e ajudo-a a ir na velocidade que eu quero. Preciso gozar. Estou perdido no prazer e, quando Gia massageia minhas bolas, é o fim. Meu orgasmo vem com força e eu solto um urro alto, liberando jato após jato em sua boca. A sensação é tão boa que eu estremeço da cabeça aos pés e quase não escuto alguém me chamar: — Luquinha do meu coração, abre a porta pro papai. Gia também ouve e dá um pulo. Ela me olha com apreensão, pois a voz lhe é muito familiar. Dante está aqui. — Levanta, rápido — ela diz, me puxando da cama e tentando fazer com que eu fique em pé. — Lucca! Abre a porta, eu sei que você está aí — meu amigo continua


gritando. Por sorte, a corrente está passada, o que garante que ele não entre. — Vai lá, manda ele embora. Rápido — Gia pede, mas eu ainda estou em um estado meio entorpecente. Querer que um homem recobre a consciência depois de gozar dessa forma é pedir demais. Gia me joga uma toalha, que eu amarro frouxamente em volta do meu quadril, e me empurra para fora do quarto. — Luuuuucca! — Dante faz uma voz fina, imitando uma mulher. — Pera aí, filho da puta! — eu peço, já irritado por ter tido que parar o que estava fazendo. Quando eu abro a porta, Dante está do outro lado, sorrindo que nem um idiota. Ele me olha de cima a baixo, notando meus “trajes” e meu cabelo de quem acabou de sair da cama e balança a cabeça afirmativamente. — Atrapalho alguma coisa, amoreco? — ele pergunta e me dá uma piscadinha. — Você sabe que sim, agora vá embora. — Tento fechar a porta, mas ele coloca a mão, impedindo-me de trancá-lo do lado de fora mais uma vez, e força a entrada. — Ah, que isso? Você nunca foi de esconder com quem está transando. Não que eu queira ver a cena em si… — Dante brinca, o que me deixa ainda mais irritado. Odeio pessoas que não têm senso de privacidade. — Quem está no seu quarto, a Raquel? — Não, não é a Raquel — eu me limito a dizer. — É alguma das suas amiguinhas? — ele tenta de novo, subindo e descendo a sobrancelha várias vezes. Dante sabe quem é cada uma delas e como a rotatividade funciona. Para todas, sempre foi a mesma coisa: sexo sem compromisso e descomplicado. Elas podiam passar a noite ou o fim de semana, eu não me limitava a uma trepada só. Quando estava a fim, eu ligava. Se elas estivessem a fim, podiam me ligar também. Tudo simples e descomplicado. Quando estavam


namorando, se afastavam. Quando terminavam, voltavam para mim. O que Dante não sabe é que, desde aquela noite com Gia, nenhuma delas tinha qualquer apelo. Elas me ligavam, mas eu dava uma desculpa. Não as queria em minha cama. A única que despertava (e continua despertando cada vez mais) o meu desejo é a loira que, neste momento, está me esperando em meu quarto. — Não, Dante. Não é nenhuma das minhas amiguinhas. E você já ficou mais tempo do que deveria. A gente se fala mais tarde. — Eu o empurro para a saída e ele vai embora, rindo da minha cara. Quando finalmente fecho a porta, solto um suspiro de alívio. Meus amigos conseguem ser bastante inconvenientes quando querem. — Quem é Raquel? — Ouço a voz de Gia e me viro para ela. Quase morro com a visão que tenho: Gia está completamente nua, parada à porta do meu quarto. Uma mão apoiada no batente. Os olhos fixos em mim parecem soltar faísca. — Ficou com ciúmes? — eu revido, evitando propositalmente sua pergunta. — Quem é Raquel, Mellis? — Há cinco minutos, eu era “Luccaaaa” — eu imito um de seus gemidos — e agora eu sou Mellis? — É melhor você responder ou nunca mais ouvira um “Luccaaaaa” vindo de mim. Quem sabe a Raquel não consegue chamar seu nome assim também. — Dá para ver o veneno escorrer de sua boca quando ela fala o nome de uma das minhas amigas. — Você fica uma delícia quando tá ciumentinha — eu digo, me aproximando dela, que desencosta do batente e cruza os braços na frente do peito. Sua nudez parece não a incomodar, o que é sexy pra caralho. Eu a olho de cima a baixo, o desejo ganhando intensidade. Nem parece que eu gozei há apenas alguns minutos. — Eu não estou com ciúmes. Só não gosto de dividir.


Ótimo, porque eu também não. Mas não digo isso a ela. Neste momento, quero cutucar a onça com vara curta. Gia sempre teve um temperamento explosivo e esta é a minha chance de ver o que acontece quando ela fica puta da vida ao mesmo tempo em que estamos os dois nus na minha sala. — Não mente pra mim, Gi. Basta admitir que está com ciúmes e eu digo tudo que você quiser ouvir. — Para de brincar comigo, Mellis. Eu não sou uma qualquer que você pode trepar às escondidas enquanto come a Raquel na frente dos amigos. Ela descruza o braço e fica cara a cara comigo. Seus olhos não desviam dos meus. Posso ver a raiva refletida neles, junto com algo mais… Insegurança? Não sei. — Só se admitir que você morre de ciúmes de mim, que você quer que eu seja seu e de mais ninguém. Minhas palavras parecem despertar algo nela. Gia me empurra, até que minhas costas batam na parede mais próxima. Ela fica na ponta dos pés, deixando sua boca a centímetros da minha. — Não duvide disso por um segundo, Lucca. Eu esperei tempo demais pra ter que dividir você com outra mulher. Eu estou, sim, com ciúmes, porque não quero e nem vou ter você pela metade. Não quero ficar imaginando se você está com outra. É tudo ou nada. Decida-se. Para certas coisas, palavras não são necessárias. Eu a levanto no colo e inverto nossas posições. Minha boca toma a dela num beijo cheio de línguas e alívio. O que ela acabou de dizer é tudo que eu precisava ouvir. Essa mulher é o que eu quero. O resto do mundo pode tentar ficar no nosso caminho, mas não vai conseguir. Porque não há a mínima chance de eu deixar que ela escape mais uma vez. Nosso beijo escala, o desespero aumenta. Gia puxa meu cabelo, retribuindo meu beijo com raiva. Nossos dentes se chocam. Não é um beijo de amor. É um beijo de posse, de controle, para provar que não há chances de outra pessoa tentar mexer com o que nós temos.


Minha toalha cai no chão. Sem pensar duas vezes, entro nela de uma só vez. Gia grita meu nome e eu pauso por um segundo, deixando que ela se ajuste ao meu tamanho. Mas o beijo não para e, quando ela começa a se mover, sei que eu já posso tomá-la do jeito que eu preciso: com força. Minhas estocadas aumentam e o prazer intensifica. — Você é a única mulher da minha vida — eu digo, encostando minha testa na dela e focando em seus olhos. — Nunca duvide disso — repito suas palavras. — Você é minha, Gia, assim como eu sou seu. Nosso ritmo é frenético. Estamos suados, desesperados. O cheiro de sexo toma a sala. Os barulhos são eróticos demais para serem ignorados: o meu corpo batendo contra o dela, nossos gemidos e grunhidos… É tudo muito intenso, muito nosso. É apenas o começo.


Algumas tradições precisam ser quebradas urgentemente, como o karaokê depois da Noite do Quiz. Outras, são essenciais, como o brunch de sexta-feira. Há anos, Dante, Gael e eu nos encontramos às onze horas, nesse mesmo dia da semana para conversarmos sobre o que está acontecendo em nossas vidas. Parece meio babaquice, mas é a forma que temos de, não importa a correria da vida, não deixarmos de lado o que é importante. Não sei há quanto tempo fazemos isso. O local de encontro é o Hotel Morelli, cujo dono é o pai de Dante, seu Luigi. Anos atrás, ele decidiu implementar o brunch em uma das filiais. Antes de pôr em prática, ele nos convidou para uma degustação. Não preciso nem dizer que foi amor à primeira vista. Eu nunca tinha ido a um brunch antes. Como minha vida era simplória naquela época… A felicidade estava ao meu alcance, mas eu nunca tinha prestado atenção. Quando nos limitamos ao que conhecemos, deixamos as melhores oportunidades passarem. Nunca mais. Todas as sextas-feiras, às onze da manhã, na varanda do salão de jantar do Hotel Morelli, eu e meus amigos compartilhamos as melhores e piores coisas das nossas vidas. Esta é a primeira sexta desde que Dante voltou de lua-de-mel. Por isso, estamos os três reunidos, na mesma mesa de sempre. — Eu estou pensando em começar o pós-doutorado em breve — Gael comenta e dá um gole de sua mimosa, a bebida que normalmente escolhemos para o brunch. O engraçado é que ele não disse que vai tentar o pós-doutorado. O cara é


tão inteligente que nunca teve problema em conseguir qualquer resultado no meio acadêmico. — Ah, é? Já sabe onde você quer estudar? Sobre o que será o seu projeto? — Dante quer saber. Assim como eu, ele está genuinamente interessado. Podemos não gostar das mesmas coisas (e, realmente, temos interesses bastante diferentes), mas sempre nos apoiamos integralmente. Mesmo se o outro estiver fazendo merda. Deixamos claro que está fazendo merda, mas apoiamos mesmo assim. Gael começa uma explicação detalhada sobre seu novo projeto. Sua paixão por História Antiga parece aumentar com o tempo. Só que, desta vez, ele diz que quer mudar um pouco as coisas e vai tentar algo diferente, algo mais ligado a religiosidades. Eu não entendo muito bem o que ele está explicando, mas a empolgação com que fala é contagiante. — Eu ainda não tenho certeza se vou fazer o pós-doc ou não. Mesmo assim, eu já comecei a estudar umas coisas novas. Assim, só pra passar o tempo. Eu e Dante nos entreolhamos. Nós dois nunca passaríamos o tempo estudando documentos históricos, ou lendo livros de um francês pomposo e prolixo só para poder criticá-lo (Gael já fez isso. Várias vezes). — Alguma aluna já te ofereceu um boquete neste semestre? — Dante muda um pouco de assunto, porque, se deixarmos, Gael engrena nas nerdices e só sairemos daqui amanhã. Eu solto uma gargalhada, lembrando da última vez que ele desabafou com a gente sobre o assunto. Pelo visto, é muito difícil ser um professor novo e boa pinta numa faculdade cheia de mulheres com os hormônios em alta. — Para de rir, seu babaca — Gael aponta a faca de manteiga para mim. — Não é uma situação tão fácil assim. — Ah, claro. Porque ter mulheres oferecendo boquetes deve ser realmente um horror — Dante zomba. — Eu que casei e você que deixou os dias de putaria para trás?


— Em primeiro lugar, eu continuo na putaria. Muito mais solitário agora que você casou e que nosso amigo aqui — Gael aponta pra mim — finge estar ocupado o tempo todo. Felizmente, não preciso de vocês pra pegar mulher. — É que o Lucca tá apaixonado e não quer contar pra gente — Dante explica para Gael na hora que eu estou dando um gole do café. É óbvio que, ao ouvir o que meu amigo diz, acabo me engasgando, e uma quantidade considerável de líquido sai pelo meu nariz. Não é uma cena bonita. Gael dá dois tapas nas minhas costas, ao mesmo tempo que ri da minha desgraça. Olho para Dante com incredulidade, mas ele apenas dá de ombro e coloca um minissanduíche na boca. Eu fico pasmo por um momento, sem entender muito bem o intuito da afirmação dele. Mas Dante apenas ri e balança a cabeça negativamente. Filho da puta. — Como assim, ele está apaixonado? — Gael questiona. — Não só apaixonado, mas de namorico com uma mulher misteriosa — Dante complementa. — Uuuuuuhhhhh… — Dá pra parar com isso — peço, mas os dois continuam me sacaneando. Gael faz sons de beijos enquanto Dante fala meu nome várias vezes, fingindo que é uma mulher gemendo. Vários clientes voltam suas atenções para nós, já que meus amigos não estão sendo nem um pouco discretos. Meu celular vibra em meu bolso, avisando que eu tenho uma mensagem, e eu preciso resistir à tentação de olhar. Se eu pego o telefone e é uma mensagem de Gia, com certeza eles saberão pela cara de idiota apaixonado que farei. Pior ainda, podem tentar tirar o aparelho da minha mão e lerem a mensagem que, provavelmente, tem um cunho pornográfico, assim como todas as outras que trocamos durante a semana.


Definitivamente, não é assim que eu quero que Gael saiba que eu e sua irmãzinha gêmea estamos envolvidos. — É serio… Chega de palhaçada. Vocês dois estão parecendo duas menininhas do sexto ano. — Meninas do sexto ano não abrem a porta de casa com uma toalha na cintura, o cabelo todo bagunçado e com cara de quem tava fodendo — Dante acusa. — Quando foi isso? — a outra candinha quer saber. — Algum dia desta semana. Terça ou quarta-feira, sei lá. — Interessante… Será que essa mulher misteriosa tem a ver com o motivo de nosso querido Lucca ter passado por uma fase tão estranha? — Gael coloca a mão no queixo e finge estar pensando. Os dois continuam com suas especulações, fingindo que eu não estou ao lado deles. Suas perguntas são diversas e as hipóteses, as mais loucas. Não sei se eu rio ou tento desviar o assunto, o que eu acho que será impossível. Mesmo assim, os dois não param de falar um segundo. — Agora, outra coisa que eu quero entender é por que motivo nós ainda não a conhecemos? — Dante dá um gole de sua quinta xícara de café. — Será que ele tem vergonha da gente? — Gael finge estar chocado. Ele coloca uma mão no peito e abre a boca, fazendo um O. — Ou pior… Será que ele tem vergonha dela? — Uuuuuhhhhhhh… Os dois voltam seus olhares para mim, que coloco mais um pedaço do waffle na boca. Se eles vão fingir que eu não estou aqui, então eu também não vou participar da conversa. Além do mais, não acordei com vontade de mentir para os meus amigos hoje. Eu sabia que uma conversa dessas aconteceria, mais cedo ou mais tarde. Porém, ainda não estou pronto para responder a todas as perguntas. O que eu diria? A verdade? — Você vai ficar calado? — Gael me pergunta e joga uma uva na minha


cabeça. — Não tenho nada a dizer. — Dou de ombros e volto a minha atenção para o waffle no meu prato. — Como assim, não tem nada a dizer? — ele insiste. — Para de charme, Lucca. Quem é ela? — é a vez de Dante me colocar contra a parede. Eu preciso pensar em uma forma rápida e segura de me livrar de todas essas perguntas. Odeio estar sob os holofotes, principalmente quando há risco de eu foder com tudo. — É uma mulher que eu reencontrei há pouco tempo. Mas ainda estamos… em fase de teste, digamos assim. — Pronto, acho que isso vai ser o suficiente por agora. — De onde vocês se conhecem? Como ela é? O que faz da vida? E, principalmente, qual sua pontuação na escala Gal Gadot? Ou não. Pelo visto, ser vago não será o suficiente. A escala Gal Gadot foi recentemente inventada por Gael, fazendo referência à mulher mais idolatrada por ele no momento. — Nós nos conhecemos há algum tempo. Ela é linda e muito gente boa. É cirurgiã. E, com certeza, mais bonita que a Gal. Resolvo não mentir, apenas omitir algumas coisas. Nós nos conhecemos há algum tempo, mais ou menos vinte e oito anos. Ela é cirurgiã veterinária, mas não deixa de ser cirurgiã. Pelo menos não foi uma mentira deslavada, o que me tranquiliza um pouco. — Você tinha razão, Dante — Gael diz, se virando para nosso amigo. — Lucca está realmente apaixonado. Eu queria poder dizer que não, mas qual seria o propósito? Dou um gole na mimosa e deixo que meu silêncio fale por mim.


Gia: Faz menos de quatro horas que estive na sua cama e já estou com vontade de voltar pra lá. Leio a mensagem de Gia assim que deixo meus amigos no restaurante do hotel para ir ao trabalho. Ainda bem que eu não li enquanto estava na presença deles, pois o que eu suspeitava se tornou verdade: um sorriso bobo toma meu rosto. Eu: Te busco no trabalho mais tarde e a gente continua de onde parou. Que horas você sai? Só de pensar que estarei com ela de novo, uma sensação de tranquilidade me toma. Desde que acordamos juntos na quarta-feira, não conseguimos ficar longe por muito tempo. Se ela não estava comigo, estávamos trocando mensagens. Confesso que foram dois dias maravilhosos e, se eles servem como indicativo do que está por vir, mal posso esperar pelo que nos reserva. Apesar daquele probleminha. Gia: Hoje eu só saio às nove, estou de plantão. Mas não sei se vou conseguir esperar até lá. É possível que eu tenha que cuidar das coisas sozinha… Só de pensar que, em algum momento do dia, ela se esconderá em um canto daquela clínica onde trabalha para se tocar pensando em mim, algo começa a ganhar vida em minhas calças. Eu balanço a cabeça. Ninguém além de Gia é capaz de causar esse tipo de reação em mim. Resolvo entrar na brincadeira e continuar com a troca de mensagens. Eu poderia dar uma de macho alfa e dizer para ela algo como “o seu prazer


pertence a mim”, mas não tenho talento para ser tão ridículo assim. Por isso, opto por algo que é muito mais a nossa cara. Eu: É melhor você tirar muitas fotos. Prêmio especial se for vídeo. Assim que vejo o sinal de que ela leu minha mensagem, imagino sua reação. Provavelmente, ela está rindo mais alto do que deveria e pensando não apenas no que responder, mas onde será o melhor lugar para gravar o vídeo que pedi. Gia: É melhor você estar aqui às nove em ponto… Porque eu não vou aguentar muito mais tempo longe de você. Se você for muito sortudo, receberá um presentinho durante o dia. Eu: Já posso sentir seu gosto… Gia: Já posso sentir você dentro de mim… Eu: Porra, Gia, para com isso. Senão, eu não vou conseguir trabalhar. Gia: Te vejo mais tarde, gostoso. Eu mal posso esperar. Em vez de mandar uma mensagem pra ela com essas palavras, resolvo inovar. É sempre ela quem me manda fotos. Quem sabe eu também não posso fazer uma graça? Nunca tive alguém com quem sentisse vontade de ter qualquer coisa além de um pouco de prazer. Mas com Gia eu quero tudo, não só o prazer. Quero, inclusive, poder mandar fotos, sejam elas nudes ou não. A sensação é nova, porém não me assusta. Tudo com ela é muito fácil, o que complica é o restante. Como estou no meio da rua, tirar uma foto sensual se mostra um sério problema. Mas posso tentar algo apenas sugestivo. Em vez de levantar a camisa e mostrar que tenho um abdômen ligeiramente definido, opto por algo mais simples. Eu tiro a foto do meu sorriso, deixando que ela veja a covinha que sempre diz que adora, a mesma que só aparece para ela. Pode não ser a foto mais sexy do mundo, mas o significado por trás dela não pode ser ignorado. Eu estou sorrindo porque estou pensando em você. É


isso o que eu preciso que ela saiba. A resposta demora a chegar e eu fico um pouco apreensivo. Será que não é esse tipo de coisas que ela curte? Eu pensei que… Não tenho tempo para continuar pensando. Meu celular apita, anunciando a resposta. Solto uma gargalhada assim que leio o que ela escreveu. Gia: Precisamos te ensinar a tirar nudes. Eu: Estou no meio da rua. Minha namorada possessiva não gosta de me dividir com ninguém. Achei que seria inapropriado tirar a roupa aqui. Vai que ela não gosta… Assim que aperto enviar, me dou conta do que acabei de fazer. Chamei Gia de minha namorada. Merda. Merda. Merda. Mil vezes merda. Eu não sei como ela se sente em relação a isso, não sei se ela está pronta para esse passo. Será que eu ultrapassei alguma barreira invisível? Odeio esse estado de constante insegurança. As coisas sempre foram muito simples. Daí entram sentimentos e complicam tudo. Não estou reclamando dos sentimentos em si, porque são maravilhosos, mas de toda a confusão que vem com eles. Continuo caminhando em direção ao Paraíso. Checo meu celular a cada trinta segundos, como se ele pudesse esquecer de apitar e vibrar caso a mensagem dela chegue. Quando estou entrando na minha sala, na parte de trás do bar, o aparelho toca. Não é uma mensagem, como eu estava esperando, e sim uma ligação. Gia. Eu atendo. — Gi… — eu começo a tentar explicar, mas ela me corta. — Eu sou sua namorada? — Sua pergunta vai direto ao ponto. Sem rodeios, sem possibilidade de criar algum tipo de confusão. Perguntas como essa são consideradas pegadinhas. Qualquer uma das


respostas pode ser catastrófica. Se eu disser que não, ela com certeza vai me criticar por tê-la chamado assim. Além disso, pode resultar na boa e velha DR — discussão de relacionamento —, que também pode ser bastante perigosa. Se eu disser que sim, que ela é minha namorada, Gia pode reclamar, dizendo que eu tomei essa decisão sem ela e que eu não deveria pressupor algo desta maneira. Ou seja, estou entre a cruz e a espada. Opto por não mentir. Até agora, tem dado certo. Cruzo os dedos, na esperança que dê certo mais uma vez: — Eu não sei o que somos, Gi, mas adoraria que você fosse… minha… namorada — eu gaguejo um pouco, não porque a palavra me incomoda, mas pelo medo que sinto de ela dizer que não quer ser minha namorada, que o que temos se limita apenas a sexo: gostoso, porém casual. Preciso parar de pensar merda. Tudo que vivemos até agora deixa claro que isso é muito mais do que apenas sexo casual. Todas as suas atitudes demonstram isso. Eu preciso parar de parecer uma garota de dezessete anos e começar a mostrar que sou um homem de quase trinta. — Lucca… — Gi, eu sei que nós devíamos conversar sobre isso pessoalmente, mas você sabe exatamente o que sinto. É claro que eu quero que você seja minha namorada. Inclusive, já penso em você dessa forma. Mas vamos fazer o seguinte: eu te pedirei em namoro hoje à noite, do jeito que você merece. Daí você diz se quer ou não ser minha namorada. O que acha dessa ideia? Minhas mãos suam e minhas pernas não param de se mexer. Estou nervoso. Prendo a respiração, ansiando por sua resposta. Merda. — Eu acho que é a melhor ideia que você teve hoje — ela diz, e eu respiro aliviado novamente. — Melhor até do que te buscar no trabalho e te levar pra minha casa, onde passaremos a noite inteira acordados?


— Você não joga limpo — ela diz e posso escutar o sorriso em sua voz. — Eu não jogo, Gia. Com você, tudo é sempre verdade. Já bastam os segredos e mentiras que preciso manter com o resto das pessoas. Com ela, tudo será sempre a verdade. — Até mais tarde, Lucca. Vou te esperar às nove. — Beijos, linda — eu digo, uma expressão de idiota apaixonado no rosto. Termino a ligação e olho ao meu redor. Até esse escritório tão… sem nada parece ter mais vida quando Gia está na minha mente. Quem diria: Lucca Mellis de quatro por uma mulher? Mas não posso ficar pensando nela o dia inteiro. Ok, vou reformular. Não posso ficar só pensando nela o dia inteiro. Tenho outras coisas a fazer. Uma delas é formular uma ideia genial para alavancar o Paraíso. Primeiro passo: meu escritório. Se vou trabalhar neste espaço daqui pra frente, ele precisa ter mais estilo. As paredes brancas e vazias estão me incomodando. Tudo aqui é muito sem personalidade. Sento à minha mesa e começo a fazer uma lista das coisas que eu preciso para o meu dia a dia. Depois, começo outra lista. Desta vez, anoto tudo aquilo que dá certo no Inferno e no Purgatório. Se eu vou transformar este bar em um sucesso, preciso me espelhar naquilo que eu sei que funciona e adaptar a esta realidade. Eu passei muito tempo no Purgatório. Agora, preciso me adaptar ao Paraíso. Dante ia adorar esse meu trocadilho.


Nove da noite parece não chegar rápido o suficiente. Não importa quantas mensagens a gente troque, não é a mesma coisa. Eu preciso abraçála, sentir o calor de sua pele, beijá-la, conversar com ela e saber o que ela fez durante o dia. Nossa brincadeira foi interrompida por duas cirurgias de emergência que apareceram durante o dia. Gia acabou só me mandando mensagens para avisar que estaria ocupada e dizer que estava com saudade. Hoje é o último dia dela na clínica. Semana que vem, ela começa o emprego novo no CAA — a ONG onde ela será a chefe do departamento cirúrgico. Durante a semana, dava para perceber que ela estava absolutamente animada com o novo emprego. Ela não parava de tagarelar e contar para mim quais eram os benefícios em trabalhar lá. Ao mesmo tempo, eu sei que ela sentirá falta da clínica. Logo no último dia, as coisas parecem estar complicadas por lá. Eu passo o dia inteiro pensando nela — o que não é novidade — e pedindo mentalmente para que o relógio ande mais rápido e chegue logo a hora em que poderei estar com ela de novo. Nunca pensei que me tornaria esse tipo de homem… Se Dante e Gael pudessem ouvir meus pensamentos, passariam o resto da vida me sacaneando. Com razão. Meus pensamentos são desviados quando ouço alguém batendo na porta do meu escritório. Olho para o relógio e vejo que já são quase sete horas. — Pode entrar — eu digo para quem quer que esteja do outro lado. — Lucca, a Bel precisa da sua ajuda com um cliente lá fora — Figo, um


dos garçons do Paraíso, me avisa. Nunca pensei sobre o porquê de ele ter um apelido de Figo. Mas foi assim que ele se apresentou quando o contratei, e é assim que eu continuarei chamando-o. Ergo a sobrancelha, sem entender o motivo de estarem me chamando. Isso raramente acontece, e é a primeira vez aqui no Paraíso. — Já estou indo. Alguma coisa que eu precise saber? — Eles estão reclamando alguma coisa com a Bel — diz, referindo-se à hostess. — De mais, eu não sei. Ela não me disse. Eu dou um aceno de cabeça e vou atrás de Figo, em direção ao salão principal. Penso logo em todas as possibilidades. “Por mais que o cliente tenha sempre razão, nem sempre o cliente tem razão.” Confúcio. Às vezes, ele só quer encher o saco para conseguir alguma coisa de graça. Não preciso de muito para identificar o casal barraqueiro. O homem está sentando, os cotovelos apoiados na mesa e a cabeça nas mãos — gesto universal do desespero e cansaço —, enquanto a mulher está em pé, mãos na cintura, queixo erguido e discutindo algo com Bel, que parece tentar acalmála. Eu me aproximo deles, pressentindo drama à frente. — Boa noite, meu nome é Lucca e eu sou um dos donos desse bar. Em que posso ajudá-los? — O olhar de alívio de Bel ao me ver chega a ser cômico. Coloco a mão em seu ombro e faço um aceno de cabeça, dizendo sem palavras que eu assumirei a partir daqui. Ela se vira para voltar ao seu posto, mas aparentemente a mulher barraqueira não vai aceitar as coisas tão facilmente. — É sobre essa sirigaita que precisamos conversar — ela diz, e penso em há quando tempo eu não escuto o termo “sirigaita”. Provavelmente desde


que eu assisti a alguma reprise de novela. — O que houve, senhora? — Bom… — Lucca — eu repito meu nome que, pelo visto, ela não entendeu antes, já que estava tomada pelo ódio, ou algo dramático do tipo. — Então, Lucas — ela diz e eu imediatamente perco a minha paciência. Odeio quando erram meu nome. — Essa aí estava dando em cima do meu namorado. Eu vi quando ela deu uma piscadinha para ele. Eu não sei pra você, mas pra mim isso é falta de profissionalismo e de caráter! — ela está quase gritando, completamente alterada. Olho para Bel, que parece assustada com tudo que está acontecendo, enquanto o pobre coitado do namorado parece ter desistido de viver. Esta não deve ter sido a primeira vez que ela faz barraco por causa do mesmo motivo. — Qual o seu nome? — eu pergunto, olhando para ela. É quando a mulher finalmente olha para mim. Durante todo o tempo, ela tinha seus lasers focados em Bel, que parece querer cavar um buraco no chão e desaparecer. Minha expressão não é de contente, nem complacente. Eu olho de forma firme para ela, que parece titubear. — É-Érica — ela gagueja o próprio nome, mas não desvia o olhar do meu. — Dona Érica, eu posso te garantir que meus profissionais são exatamente isso: profissionais. Todos eles são muito bem treinados e instruídos a não olhar para o cliente de qualquer outra forma que não ética — tento deixar bem claro. Ela vai falar alguma coisa, mas eu a interrompo e continuo: — Entretanto, eu e minha funcionária teremos uma conversa muito séria. Eu peço perdão pelo mal-entendido e vou designar um garçom para servir vocês de agora em diante. Bel olha para mim com apreensão e eu não tenho tempo para reassegurá-la agora. A mulher parece ter recobrado os sentidos e volta a falar: — Obrigada por isso, mas eu acho um absurdo uma mulher ficar


flertando com um homem acompanhado assim. Se eu e você estivéssemos em um encontro e um outro homem flertasse comigo, o que você faria? — ela pergunta e sinto quando seus olhos passeiam pelo meu corpo. Ah, a hipocrisia humana… — Eu não estaria em um encontro com você, senhora. Minha mulher não ficaria nem um pouco satisfeita com isso. Mas pergunte ao seu namorado, ele pode ter uma resposta melhor para te dar — eu digo, meu tom calmo, porém firme. — Ah, sim, claro. — Ela parece um pouco desconsertada, mas não vou perder mais do meu tempo com esse tipo de coisa. Eu ofereço a eles dois chopes por conta da casa e a mulher diz que não gosta de cerveja. Ainda por cima, tem a cara de pau de me perguntar se pode trocar a cortesia por uma taça de vinho. Eu digo que não e desejo aos dois uma boa noite. Saio em direção ao meu escritório e faço um sinal com a cabeça para que Bel me acompanhe. No caminho, digo a Figo para cuidar daquela mesa e que, se derem mais trabalho, ele pode me chamar que eu resolvo. Quando entramos em meu escritório, Bel começa a falar sem freio, tentando se desculpar e explicar o que aconteceu. Eu a ignoro, sento em minha cadeira e aponto para a que está à minha frente. — Por favor, Bel, sente-se. — Lucca, eu… — ela começa, mas não quero que fique nervosa à toa. — Fique tranquila. Não vou brigar com você. Aquela mulher é maluca e não acredito em uma palavra do que ela disse. Só trouxe você aqui para que pudesse respirar tranquilamente. Não precisa se explicar. Bel respira aliviada e vejo quando a tensão deixa seus ombros. Ela se recosta na cadeira e cruza as pernas. — Tem sempre um louco… — ela não termina a frase, mas eu sei exatamente o que quer dizer. Eu faço que sim com a cabeça e ficamos em silêncio por alguns minutos, até que Bel volta a falar: — É verdade que você


tem uma mulher? — ela pergunta, olhando para o meu dedo, provavelmente procurando por um anel. — Eu não sou casado — limito-me a dizer. Não gosto de ficar compartilhando sobre minha vida pessoal com pessoas que não conheço. Na atual circunstância, nem com quem eu conheço. — Ah, tá. — Bel coloca uma mecha de cabelo castanho atrás da orelha e olha fixamente para mim. Quando ela morde o lábio inferior (de um jeito completamente deliberado e tão diferente de como Gia faz), eu me levanto. Já não estava com vontade de ficar aqui até às nove da noite. Agora, então, tenho ainda mais motivos para ir embora. Não quero dar a entender que estou disponível. Muito menos para uma das minhas funcionárias. Nem se eu quisesse eu me envolveria com alguém que trabalha para mim. Tudo que eu não preciso nesta vida é um processo nas minhas costas. Vou aproveitar que está um pouco cedo e ir para casa tomar um banho antes de me encontrar com Gia. — Estou indo. Se tiver algum outro problema, fale com Hugo. Se for muito grave, ligue para mim ou para Dante — digo e ela entende a deixa, pois se levanta e vai em direção à porta. — Certo. Então… Boa noite… — ela hesita, como se esperasse algo mais de mim. — Boa noite, Bel. Até outro dia. Viro de costas para ela, fingindo estar procurando algo na estante, e só me viro de volta quando escuto o barulho da porta abrir e fechar. Chega de mulher maluca por um dia. Já basta a que eu vou encontrar daqui a pouco. Mas as loucuras dela eu aceito. Inclusive, incentivo. Principalmente quando me envolvem sem roupa.


Cinco para as nove e eu estou parado na frente da clínica, esperando ansiosamente que Gia termine seu turno e venha me encontrar. Estive com ela hoje de manhã, mas parece que foi há semanas. Como é possível eu estar com saudade dela? Fico olhando as fotos alheias numa rede social enquanto espero. Quando escuto barulhos de pessoas e risos, volto minha atenção para frente — e lá está ela. Linda. Cercada de pessoas, conversando animadamente sobre alguma coisa. — Não esquece: amanhã, às oito horas, no Inferno — uma mulher morena e de cabelos curtinhos diz. — Todos confirmados? — Gia pergunta e recebe a resposta afirmativa de todos que estão ao seu redor. Ela ainda não me viu e eu aproveito o momento para observá-la. As pessoas começam a se afastar, cada uma delas indo em direção ao seu destino, mas uma fica para trás. O brutamontes segura o braço de Gia e meu corpo fica tenso no mesmo instante. — Podemos conversar? — ele pergunta. Eu quero dizer que não, que a única coisa que ele pode fazer é manter distância dela, mas Gia faz que sim com a cabeça e volta sua atenção para ele. — Não temos muita coisa pra conversar, Fred. Eu já expliquei tudo pra você — ela diz e se afasta um pouco dele, fazendo com que a enorme mão solte seu braço. Ele tinha que ser tão grande? — Eu acho que a gente terminou muito abruptamente. — Nossa, ele


sabe usar palavras grandes. Que menino inteligente. — Nós merecemos mais uma chance, Gia, porque eu sei que podemos dar certo. Meu sangue começa a ferver quando eu escuto o que ele diz. Fico em dúvida se apareço lá para dar um oi e dizer que Gia está indisponível para homens que, possivelmente, têm um piru de noventa e sete centímetros ou se espero para ver o que acontece. — Fred. Eu sei que teríamos dado certo — ela diz e eu dou um passo à frente, assustado com o que ela vai falar a seguir —, mas eu não posso continuar te enganando desse jeito. Eu sou louca por outro cara. É só isso. Viu, babaca? Ela é louca por outro cara. Posso não ser todo musculoso, mas ainda assim ela me quer. Resisto à tentação de voltar a ter cinco anos e mostrar a língua para ele, ou então de fazer uma dancinha de comemoração. As palavras dela me acalmam, me dão a segurança que eu precisava e não sabia. Assim como eu, ela também leva isso entre nós a sério. — Poxa, Gia — odeio a forma como o brutamontes fala o nome dela —, você nem nos deu uma chance real. Como eu posso competir com ele assim? — Você não pode competir, Fred. Não há qualquer competição. Quando eu disse que era louca por ele, quis dizer completamente apaixonada. Meu coração para de bater por um minuto. Gia é completamente apaixonada por mim. Caralho! Gia é completamente apaixonada por mim. Sinto vontade de gritar essas palavras, mas me contenho. Meu coração volta a bater, mas de uma forma tão descompassada que acho que estou enfartando. Será que é possível ter um enfarto de felicidade? — Desculpa mesmo, Fred. Mas isso entre a gente nunca teve futuro. Não com ele tão por perto. Gia vira as costas, deixando seu ex para trás. Ela dá dois passos e para, seus olhos fixos nos meus. Ela deve estar vendo o sorriso ridículo que toma meu rosto inteiro, porque também sorri. Gia corre em minha direção e se joga em meus braços. Eu a mantenho aqui, presa em um abraço. Depois de tudo


que eu ouvi, preciso sentir seu corpo contra o meu. Beijo seus cabelos, apertando-a um pouco mais. Gia esconde a cabeça no meu pescoço, me fazendo arrepiar. ** Certos momentos de silêncio podem ser bastante desconfortáveis. Você não sabe o que dizer, fica pensando no porquê de a outra pessoa não falar nada… Eu sou o rei do silêncio desconfortável, mas isso acontece porque eu não gosto muito de falar. Quem me conhece sabe disso e já está acostumado. Só que, com Gia, o silêncio é confortável. Diferente de outras pessoas que insistiriam saber por que motivo eu estou calado depois de um momento tão intenso, Gia simplesmente entende que, às vezes, preciso organizar meus pensamentos antes de conseguir verbalizá-los. Algumas pessoas pecam por falar demais; eu peco por falar de menos. De acordo com meu pai, eu penso demais e isso me impede um pouco de viver. Durante o trajeto até a casa dela, não falamos uma palavra sequer. Parece que está virando um hábito: toda vez que andamos de táxi, a tensão toma conta do carro. Desta vez, não é o tesão que domina o pequeno espaço, e sim a sensação de que as coisas vão mudar. Eu deveria ficar preocupado com a velocidade com que as coisas estão acontecendo, mas tive sete meses para pensar, para pesar os prós e os contras, para questionar tudo — desde as minhas intenções até as possíveis consequências. Por isso, estou tranquilo em relação às minhas escolhas. E às dela. As coisas estão prestes a ficar ainda mais intensas, e isso é tudo que eu poderia pedir. Gia apoia a cabeça no meu ombro e eu sinto o perfume do seu cabelo. Ela deveria estar cheirando a cachorro, mas não. Seus cabelos têm um cheiro floral. Dante tinha razão (nunca direi isso para ele), mas não tem nada melhor do que o cheiro da pessoa que você ama.


Beijo o topo de sua cabeça e aperto um pouco mais sua mão, que está entrelaçada na minha. — Temos muito para conversar, né? — ela sussurra. — Muito. — Dou outro beijo em sua cabeça. — Mas tudo vai ficar bem — eu tento reassegurá-la. — Eu sei. — Gia dá uma mordida leve em meu braço e eu solto uma risadinha baixa. Poucos minutos depois, o carro para em frente à casa dela. Eu pago a corrida e desço primeiro, oferecendo a mão para ajudá-la. — Nossa, mas que cavalheiro — ela brinca. — Parece que você aprendeu a educação que seu pai te deu. — Não é uma questão de educação — entro na brincadeira —, apenas quero garantir a foda dessa noite. Você sabe como é… Tenho que tentar impressionar, senão ela pode desistir e ir embora. Gia solta uma gargalhada e me dá um tapa no ombro. — Ir embora da minha própria casa? Eu acho que não. Mais fácil eu te expulsar — É outra possibilidade pela qual não estou tão animado assim. Eu passo a mão em torno da sua cintura, minha frente contra suas costas, enquanto ela abre a porta. Chego seu cabelo para o lado e beijo a lateral de seu pescoço, sentindo seu gosto. — Está com algum problema, gostosa? — pergunto entre lambidas, notando que ela erra a fechadura umas três vezes, e aproveito para me esfregar um pouco nela. — Lucca… — ela geme meu nome e eu juro que não há som no mundo melhor do que esse. — Se você quer conversar, acho melhor parar de fazer isso. A foda já tá garantida, não precisa tentar me seduzir. Considere-me uma mulher seduzida. Eu solto uma risada baixa com o comentário dela e fico feliz por saber disso. Não que eu duvidasse, mas, a cada dia que passa, valorizo mais o


poder que as palavras têm. Quando finalmente consegue colocar a chave certa no buraco, cambaleamos para dentro do apartamento. Ainda com ela de costas para mim, minhas mãos acariciam seu corpo, segurando seus seios, enquanto beijo seu pescoço e deixo claro meu estado de excitação. — Você não facilita — ela diz, sua voz ofegante. Os braços dela vão para a parte de trás da minha cabeça, enquanto minhas mãos entram por baixo de sua blusa. Preciso sentir sua pele, beliscar seus mamilos e deixá-la pronta para aquilo que tenho em mente. — Não estou aqui para facilitar. Eu estou aqui para te dar prazer — digo ao pé do seu ouvido e ela estremece. De surpresa, eu a pego no colo, um braço em suas costas e outro embaixo dos seus joelhos, e Gia solta um gritinho. Sua boca encontra a minha em um beijo calmo. Carrego-a até seu quarto, rezando para não esbarrar em nada no caminho. — Eu preciso sentir seu gosto. — Arremesso-a na cama posiciono-me em cima dela. Ela abre as pernas para que eu me encaixe entre elas e nossas bocas se encontram novamente. Se eu tiver a chance de estar na mesma cama que ela por todos os dias da minha vida, morrerei o homem mais feliz desse mundo. Mas não é hora de ficar perdido em pensamentos. Eu passei o dia inteiro desejando Gia, sonhando em tê-la assim, embaixo de mim, completamente entregue àquilo que preciso fazer com ela. Roupas são removidas e arremessadas pelo quarto até ficarmos completamente nus. O corpo dela se molda perfeitamente no meu. Sua suavidade contra a minha rigidez… É tudo tão perfeito que chega a dar medo. Parece bom demais para ser verdade. Desço por seu corpo, prestando atenção para não esquecer um pedacinho sequer. Eu a beijo por inteiro, venerando a mulher que me domina os pensamentos e me excita de uma forma surreal.


Eu não sabia o que era prazer até que Gia apareceu em minha cama. Antes, eu vivia em um mundo cinza, para o qual ela trouxe a cor. Hoje, tudo tem vida, tem gosto, tem um propósito. — Lucca, por favor… — ela pede, suas mãos no meu cabelo, tentando me empurrar para onde eu desejo ir e ela precisa que eu vá. — Você nunca vai precisar implorar por nada, Gia. O que você quiser, é seu — eu digo, logo antes de sentir seu sabor. Eu lambo sua extensão, recebendo um gemido alto como recompensa. O corpo dela quase se levanta da cama, mas eu a empurro para baixo, mantendo-a no lugar que eu quero. Faço com que suas pernas se apoiem no meu ombro e continuo me deliciando. Eu chupo seu clitóris com força, e Gia grita meu nome. Seu néctar é doce e intoxicante. Se eu já não fosse completamente tarado por esta mulher, isso seria o suficiente para me viciar. Com cuidado, deixo que um dedo meu a penetre. Ela é quente, úmida e muito apertada e mal posso esperar para estar dentro dela mais uma vez. Mas preciso que ela goze antes. — Lucca, por favor, não para — ela pede rebolando na minha boca e encontrando os movimentos do meu dedo. Eu faço o que ela pede e a lambo com mais força, com mais vontade. Acrescento outro dedo, encontrando o tal ponto mágico feminino. Gia solta um grito e aperta meu cabelo com muita força. Ela se movimenta com desespero, em busca do seu orgasmo. É então que sinto quando ela tensiona por inteiro e depois começa a estremecer. Seu líquido escorre pela minha mão, e eu tento não desperdiçar nada. Seu gosto é ainda mais doce depois que ela goza. Quando Gia relaxa, respiração ofegante e braços abertos na cama, eu subo por seu corpo novamente, beijando-a com carinho. Nossas bocas se encontram, e ela parece não se importar em estar provando seu próprio gosto. — Se você disser que quer conversar agora, eu juro que te mato — ela diz e eu começo a rir.


NĂŁo, eu nĂŁo quero conversar agora. Quem sabe mais tarde, depois de eu ter me perdido um pouco mais nela?


— Acho que a sua intenção foi me deixar completamente morta e zonza de prazer para depois começar com a conversa séria — Gia diz, fazendo carinho na minha barriga com a ponta das unhas enquanto deixa a cabeça apoiada em meu peito. Estamos exaustos. Não faço a menor ideia de que horas são e nem por quanto tempo fizemos amor. Maratonas sexuais são ótimas, mas só quando você tem vinte anos e não passou a semana inteira trabalhando igual a um corno. Mesmo assim, não trocaria esse momento por nada na minha vida. Mas, ao mesmo tempo, nós precisamos colocar alguns pingos no “i”. — Temos muita coisa pra conversar. Quanto mais satisfeita você estiver, maior a probabilidade de você não brigar comigo. — Você fez alguma coisa de errado para eu ter que brigar com você? — ela mordisca meu peito e eu me arrepio por inteiro. — Brigar, não. Mas tem algumas coisas que eu preciso perguntar e quero respostas satisfatórias. — Gia dá uma risada gostosa, completamente relaxada, e passa uma perna por cima das minhas. A posição é intima, e eu percebo que nunca tive isso com ninguém. Que nunca quis ter isso com ninguém. Só com ela. O momento não poderia ser mais perfeito para o que eu tenho em mente. Eu sei que já estamos envolvidos, que sabemos o que o outro sente e que nos conhecemos muito bem, mas isso não significa que rótulos não sejam necessários. Não sei se ela precisa deles, mas eu preciso. Beijo o topo de sua cabeça e a puxo para cima de mim. Gia continua sorrindo, seu corpo completamente colado ao meu.


— Vamos terminar aquele assunto que começamos hoje de manhã? — Que assunto? — ela se finge de desentendida e eu dou um tapa em sua bunda. Ela arregala os olhos e depois morde o lábio. — Para de pensar em sexo, Gia. Eu estou tentando te pedir em namoro aqui e você só quer saber de uma coisa… — eu censuro. — Estou me sentindo usado. Faço um beicinho e ela ri mais ainda, mas se empina um pouco e me dá um selinho. — Pobre coitado. Está se sentindo objetificado. — Sim, a mulher da minha vida só me quer pelo meu corpo. Que tragédia. — Não só pelo seu corpo — ela diz de forma manhosa. Gia ainda está em cima de mim e eu aproveito para acariciar suas costas. — Eu também quero você por seu dinheiro e seu status. — Ela dá uma piscadinha para mim e é a minha vez de dar risada. — Deve ser isso mesmo. — Vai ficar mudando de assunto ou vai voltar àquilo que começamos de manhã? — Ela cutuca meu peito, tentando retomar o rumo da conversa. — Até parece que fui eu quem mudou de assunto. — Ergo uma sobrancelha e ela me dá um sorriso inocente. Fico impressionado a facilidade com que consigo conversar com ela. Tudo é simples. A conversa vem naturalmente, a intimidade é natural e o sexo é, puta que pariu, espetacular. Se eu soubesse que as coisas com ela seriam dessa forma, teria começado tudo há, pelo menos, quinze anos. — Gia — chamo seu nome, não querendo esperar nem mais um minuto para tornar isso oficial —, eu sei que muitos problemas aparecerão daqui pra frente e, mesmo que tenhamos combinado de manter segredo por um tempo, quero que as coisas fiquem muito claras entre a gente. Eu quero… não, preciso de exclusividade. Quero você pra mim e poder estar na sua cama sempre que tivermos vontade.


— O que será todos os dias — ela me interrompe, revirando os olhos como se fosse a coisa mais óbvia de todas. — Exatamente. Vamos tornar isso oficial, princesa. Quer ser minha namorada? — eu pergunto, meus olhos fixos nos dela, que estão marejados. Ela abre um sorriso radiante e não me responde com palavras e, sim, com gestos. Ela me beija como nunca havíamos nos beijado antes. É um beijo calmo, lânguido, sem intenção de acabar logo. Temos todo o tempo do mundo. Suas mãos emolduram meu rosto e eu nos viro na cama, ficando por cima dela. — Isso foi um sim? — Eu preciso ter certeza. É raro, mas, às vezes, as palavras são importantes para mim. — É um claro que sim. Por mais que eu não duvidasse do nosso envolvimento — até porque, seria muita burrice se eu não tivesse certeza de que estamos mais que envolvidos —, fico aliviado ao ouvir as palavras dela. Pronto, agora temos um rótulo. Gia é minha namorada. — Excelente. Como seu namorado, eu preciso saber se seu ex será um problema para a gente — solto logo a bomba, sem pensar duas vezes. Desde que eu os vi hoje mais cedo, fiquei muito incomodado. Ouvi cada palavra que ela disse e sei que, de sua parte, não preciso me preocupar. O que não quer dizer que eu não precise me preocupar com o brutamontes. — Você estava lá, viu a nossa conversa. — Não é isso, Gi. — Eu saio de cima dela, deitando na cama e virandome de lado, ficando de frente para ela. Gia imita a minha posição, deixandonos cara a cara. — Eu não entendi muito bem esse relacionamento de vocês. Uma hora você apareceu lá em casa, bradando que tinha um novo cara em sua vida. Duas semanas depois, vocês tinham terminado. Eu não estou te julgando, minha linda — apresso-me a dizer, notando sua expressão chateada — e nem pensando que você fará o mesmo comigo. Por favor, não pense isso. Eu só quero saber o que aconteceu.


Vejo suas bochechas ruborizarem e quase morro de curiosidade. Gia fecha o olho e respira fundo, como se tomasse coragem para começar a falar. — Gi… — digo seu nome com suavidade, tentando encorajá-la. — Você promete que não vai me odiar? — ela pergunta e eu arregalo os olhos, surpreso com essa insegurança que ela está demonstrando. — É impossível eu te odiar — eu afirmo, minha mão na lateral do seu rosto e meus olhos fixos nos seus. — Não me julgue, mas eu só comecei a namorar com Fred por sua causa — ela confessa, me pegando de surpresa. — Como assim, por minha causa? — quero saber. — Não por sua causa, mas para te causar ciúmes. — Esta última frase sai em um sussurro, como se ela tivesse vergonha do que acabou de revelar. Mas eu não a estou julgando. Muito pelo contrário. Eu solto uma gargalhada, aliviado por ter escutado isso. — Ei! Para de rir da minha cara! — ela pede e empurra meu ombro. Sua expressão deixa nítida a sua frustração. Eu a puxo pela nuca e dou um beijo estalado em sua boca. — Eu não estou rindo de você, só estou aliviado — confesso. — Aliviado? — Claro. Pelo menos, você não estava com ele porque tinha sentimentos pelo brutamontes. Não quero você pensando em outro homem quando estiver comigo ou, sei lá, remoendo sentimentos — explico e é a vez dela de rir. — Como se fosse possível pensar em outro homem quando estou com você… — ela diz, beijando minha boca com carinho. — Exatamente. É impossível — eu digo com ironia. — Mas é melhor prevenir do que remediar. — Então, você não ficou me achando uma filha da puta por ter usado um outro cara? — Gia, contanto que você esteja comigo, pouco me importa. Não quero saber dos outros homens que fizeram parte da sua vida. Por favor, nunca me


conte sobre eles — eu peço, sabendo que enlouqueceria se ela me dissesse com quantos transou, onde foi, se foi bom… — Espero que você tenha apenas usado todos idiotas que te tiveram antes de mim. Se isso me faz um filho da puta também, então que seja. Somos um casal de filhos da puta, perfeitos um para o outro. Ela solta uma gargalhada e me beija mais uma vez. Esta noite eu dormirei feito um anjo: tenho a namorada mais perfeita do mundo.


Os últimos quase dois meses ao lado de Gia têm sido simplesmente espetaculares. Nós entramos em uma rotina, o que, para mim, é novidade. Há anos, não tenho horário para entrar ou sair do trabalho. Eu sou dono de bares. Não posso trabalhar de nove às seis como a maioria das pessoas. Mesmo assim, eu me organizei de acordo com a agenda dela. Se isso faz de mim um pau mandado, que seja. Pelo menos, eu tenho sexo de qualidade (tá, tudo bem: o melhor sexo da vida) todos os dias quando chego em casa. As coisas têm estado tão certas e tranquilas que revezamos entre a minha casa e a dela. Aos poucos, fomos dominando a vida um do outro, entrando sorrateiramente e ocupando um espaço que nenhum de nós sabia que estava vazio. Meu banheiro tem uma escova de dentes rosa ao lado da minha. Minha gaveta de cueca tem várias calcinhas também. Não ofereci uma gaveta a ela, apenas misturamos nossas coisas, como se fosse a coisa mais normal do mundo ter um creme de depilar ao lado do meu de barbear. — Lucca, você me busca hoje ou quer que eu pegue carona com a Olívia? — Gia grita do banheiro enquanto eu termino de fazer a cama. — Posso te responder isso depois? Hoje temos a reunião geral — grito de volta. Agora que as coisas nos bares estão evoluindo e não somos mais só Dante e eu a tomarmos conta de tudo, achamos por bem instituir uma reunião mensal entre todos os gerentes para que possamos conversar. Nós dois continuamos no comando de tudo, mas aprendemos a delegar mais funções e, portanto, focar em coisas mais importantes. Nem por isso


ignoraremos o que acontece no dia a dia e ou deixaremos de lado a opinião dos gerentes. — Que horas deve acabar? — ela pergunta, abrindo a porta do banheiro e saindo de lá apenas de calcinha e sutiã. Meu cérebro para de funcionar enquanto a observo andar até o armário e retirar algumas roupas de lá. Quando ela se abaixa, empinando a bunda, para pegar alguma coisa da última gaveta, eu tenho certeza de que ela chegará atrasada no trabalho. Bem atrasada — e eu não vou me sentir nem um pouco culpado por isso. ** — Eu preciso comprar um carro — digo para Dante, que está sentado à minha frente, analisando alguns relatórios. Ele ergue o olhar do papel para mim e arqueia uma sobrancelha. — De onde veio essa ideia? — Desculpa, eu estava pensando alto — tento me corrigir. Estávamos falando sobre trocar de fornecedor de carne quando, do nada, eu abro a minha boca para falar isso. Meu amigo estranha, claro. Principalmente por eu ter verbalizado um pensamento. — Cara, o que está acontecendo com você? — Dante coloca os papéis de lado e foca sua atenção em mim. Resignado, eu solto o ar. Por mais que eu queira compartilhar com ele tudo que tem acontecido em minha vida, sei que ainda não posso. Será que eu não posso? Será que eu não estou fazendo uma grande tempestade em copo d’água? Esfrego meu rosto e solto um grunhido de frustração. — Desculpa, cara. Mas não posso… — Lucca, somos apenas nós dois nesta sala. Você pode me contar o que quiser e eu não vou falar com ninguém. Você sabe disso — Dante parece preocupado. Logo ele, que sempre está rindo e fazendo alguma piada inapropriada.


— Eu não tenho dúvidas disso — tento reassegurá-lo. Não quero que ele ache que o problema é falta de confiança. — A situação só é mais confusa do que você pensa. — Eu odeio o fato de você estar guardando segredo. Nós nunca tivemos isso. Sempre pudemos dizer para o outro exatamente o que estamos sentindo e pensando. Mas acho que, antes, precisamos dar uma coçada no saco e uma escarrada no chão, porque estamos parecendo duas mocinhas. — Ele engrossa a voz na última parte e eu dou uma risada baixa, sacudindo a cabeça em negativa. Podemos até, e eu o cito, estar “parecendo duas mocinhas”, mas o que ele disse é verdade. Nunca hesitamos em dizer o que estava acontecendo. A vida inteira compartilhamos tudo — ou quase tudo —, e confesso que me sinto mal por não poder contar para o meu melhor amigo que nunca estive tão feliz na vida. Parece sacanagem do destino. Minha vida tem tudo para estar perfeita, mas ninguém pode saber — e isso está começando a me incomodar bastante. — Garanto pra você que eu também odeio não poder falar o que está acontecendo. — Olho para o teto e coço a minha cabeça com as duas mãos, irritado não só pela situação em si, mas por estar sendo posto contra a parede. — Eu tive uma ideia — Dante diz e dá um pulo da cadeira. Dante e suas ideias… — Novidade. — Pego uma caneta e começo a morder a tampa. — Sério, sério. Preste atenção. — Ele parece bastante empolgado com o que tem em mente, o que pode ser extremamente perigoso. — Já que você não pode falar, eu vou tentar adivinhar. — Eu vou falar alguma coisa, mas ele me interrompe, literalmente, calando a minha boca. — Eu vou observar cada movimento seu, ficar atento a cada ligação, a cada mensagem que você recebe. Vou investigar a fundo. Fazer perguntas por aí. Posso, inclusive, usar um chapéu de detetive. Vou falar com a minha fadinha e ver se se ela topa ser o Watson do meu Sherlock. — Agora, ele parece estar falando sozinho,


andando de um lado para o outro como se bolasse um plano infalível. — Ela ainda está trabalhando, mas posso tentar convencê-la a tirar uns dias de folga. Sei que as coisas nos bares estão sob controle. Angélica tem dado conta de tudo com tranquilidade. Vou pedir a Clara para fazer uma tabela de horários, ela é boa com organização. Podemos também fazer uma lista de atividades… Eu não sei o que dizer. É tanta insanidade, que acho melhor não comentar. Apenas cruzo os braços e fico observando meu amigo ter seu momento de epifania enquanto eu tenho um meu: Dante não é normal. Ele continua falando sozinho e eu opto por não dizer nada e tentar deixar que o surto de loucura passe. Meu celular vibra no meu bolso e eu aproveito que ele está se auto entretendo para ver se é Gia quem está falando comigo. Gia: Não precisa me buscar hoje. Alguns amigos do trabalho querem tomar uma cerveja no Inferno. Podemos nos encontrar lá mais tarde. O que você acha? Eu acho uma péssima ideia. Não quero ficar no mesmo lugar que ela sem poder tocá-la. Não consigo pensar em chegar em um ambiente e não poder cumprimentá-la com um selinho. Vai ser muito estranho. Nós ainda não tínhamos passado por uma situação assim. O tempo que passamos juntos é sempre em casa. Claro que nós saímos ocasionalmente. Eu já a levei para comer a pizza do Camilo — tive que suborná-lo para não dizer nada a ninguém — e assistimos a um filme no cinema — na cidade mais próxima à nossa. Não poder sair com ela, segurar sua mão, beijá-la a qualquer momento… Tudo isso me incomoda muito. Mas é o que precisamos, por enquanto. O que não quer dizer que eu esteja contente por ter que estar ao seu lado sem poder realmente estar com ela. Eu: O que você quiser, pra mim, está ótimo. Contanto que, no fim do dia, eu possa estar na mesma cama que você, o resto não importa. — AHÁ! — Dante grita, fazendo com que eu me assuste e quase deixe o


celular cair no chão. — Você tá maluco, imbecil? — brado, meu coração acelerado. — Eu conheço essa cara — ele diz, apontando para mim. — É a cara de idiota apaixonado que eu uso desde que conheci minha fadinha. — Dante, eu não vou… — Não quero que você fale nada. Apenas estou começando com meu novo trabalho de detetive. Não que eu duvidasse que seu “problema” — ele faz o sinal de aspas com os dedos e me dá uma piscadinha — fosse mulher, mas agora tenho certeza. Inclusive, acho que é a mesma mulher que estava na sua casa naquele dia, certo? Eu me dou o direito de não responder. Se ele quer investigar, que faça isso, mas sozinho. — Quem cala consente, bonitão — ele diz. — Eu vou descobrir tudo, Lucca. Mas não pense que estou fazendo isso por mim. Estou fazendo isso por você, para te livrar do sofrimento de ter que manter um segredo. Eu permaneço calado, observando meu amigo, que está bastante empolgado com a possibilidade de descobrir o que está acontecendo. Dante parece que acabou de comer uma batata frita aceleradora: fala rápido, gesticula, anda pra lá e pra cá. Estou em dúvidas se quero que ele deixe toda essa “investigação” de lado e pare de fuçar em minha vida ou se deixo algumas pistas pelo caminho para que ele descubra logo tudo e eu não precise guardar mais segredo. — Vamos a uma análise. — Dante se senta na mesa, ficando de frente para mim, e pega um bloquinho e uma caneta. Assim como eu, meu amigo também adora fazer uma lista. Eu faço um gesto com a mão, indicando para que ele continue. — Tudo mudou mais ou menos na mesma época em que eu conheci a Clara, ou seja, há quase um ano. Dez meses e cinco dias, mas quem está contando? — De lá pra cá, você tem estado bem diferente. Mais calado, se isso é possível, mais introvertido e, definitivamente, mais afastado das mulheres.


Inclusive, nesse último ano, se me lembro bem, eu não te vi com qualquer mulher. Nem um beijo sequer. Interessante… — ele diz e anota alguma coisa em seu bloquinho. — Você teve algumas fases diferentes nesses últimos tempos. Você teve a fase irritado, a deprê e agora é só sorrisos e segredos. Vou pensar sobre o que isso pode significar. Fadinha vai saber interpretar os dados. Clara (ou fadinha, como ele a chama) é a esposa de Dante. Um metro e sessenta de pura fofura, mas com um senso de trabalho e eficiência maior do que qualquer outra pessoa que eu conheço. Dante pode ser, na falta de melhor adjetivo, um paspalho. Mas se Clara estiver realmente investida na situação, é possível que cheguem a alguma conclusão sensata. — Você não tem nada melhor pra fazer, não? — Não. Desde que nos tornamos importantes, eu tenho estado meio ocioso. Outro dia, encontrei com a minha fadinha às três da tarde para uma trepada extra. — Ele pisca para mim. — Muita informação, Dan-Dan. Não quero saber quantas vezes por dia você trepa com sua mulher. — Geralmente, duas. De manhã e à noite. Eu casei com uma ninfomaníaca, cara! Não sei se comemoro ou se fico preocupado com meu pau — ele diz com um sorriso de orelha a orelha, o que me faz ter certeza de que a segunda opção nem passou por sua cabeça. — Olha quem chegou para uma visita surpresa! — Gael invade o escritório de Dante, escancarando a porta. — Justamente a pessoa que eu precisava! — Dante exclama e abre os braços. Será que os dois têm que ser tão teatrais assim? Não é possível que sejam apenas dois caras normais? — Fala aí, delícia, como você está? — Gael pergunta para mim e se senta na cadeira ao lado da minha. — O que você está fazendo aqui? — pergunto, meu tom mais ríspido do


que o normal. A última coisa de que preciso é de Gael. Tenho evitado meu amigo ao máximo desde que eu e Gia começamos a namorar. Não quero ficar mentindo para ele. Os brunches de sexta são inevitáveis, assim como ocasionais almoços ou jantares na casa de Dante. Fora isso, tenho estado sempre muito ocupado. — Nossa, que recepção calorosa. Assim eu me sinto muito amado, Luquinha — Gael fala e o sarcasmo não me escapa. — Acordou carente, foi? Quer um beijinho? — pergunto, tentando aliviar a tensão. Não quero que ele desconfie de nada. Ele ri e tudo parece voltar ao normal. Dizemos a Gael que logo entraremos em reunião com os outros gerentes, e nosso amigo diz que só passou para ver se a gente queria tomar uma cerveja hoje, mais tarde. Imediatamente, meu pensamento vai para Gia, que estará aqui no Inferno com alguns amigos do trabalho mais tarde. Ou seja, todos estaremos aqui. Excelente.


O que era para ser apenas uma situação desconfortável acabou se tornando algo fora de controle. Eu sabia que seria difícil disfarçar o que eu e Gia temos quando estivéssemos na frente dos nossos amigos. Só não sabia que seria quase impossível. Estamos todos aqui — e quando digo todos, quero dizer TODOS. Redundante? Acho que não. Só preciso enfatizar mesmo. Dante, Gael e eu, normal. Gia e mais três amigas, também. Clara, a mulher de Dante, e Dina, a irmã dele, também apareceram. Não satisfeitas, trouxeram Júlia, a uma outra irmã de Gael. Como se não fosse suficiente, Clara ainda trouxe mais uma amiga, a Becca, sendo que esta trouxe seus dois primos, que estão na cidade de visita. Todos nós, sentados a uma grande mesa. Gia, por coincidência (ou karma), de frente para mim. Então, repito: o que era para apenas uma situação desconfortável acabou se tornando algo fora de controle. O grande problema não é apenas o número desproporcional entre homens e mulheres, isso pouco me importa. O problema é que os dois forasteiros (vamos chamá-los assim para não usarmos outros adjetivos… chulos, por assim dizer) resolveram focar logo em quem não deviam. Principalmente um deles. Só que ele é tão ridículo, que não sei se rio da cara bonitinha dele ou se dou um soco. O maluco quer ser levado a sério, mas está usando um chapéu de cowboy dentro de um bar na cidade. O pior é que as mulheres estão encantadas pelo sotaque dele e prestam atenção nas histórias que ele conta. Ah, faça-me o favor! Um tremendo de um poser, isso sim. Usar chapéu


e bota é fácil, quero ver se sabe laçar um touro bravo. Eu, Gael e Dante nos entreolhamos. Não estamos acostumados a ter outro galo cantando no nosso galinheiro. Queremos a atenção de todas as nossas galinhas, sem exceção. Mas o que me enerva mais é o fato de Gia estar completamente derretida pelo filho da égua. Bem na minha frente! Só que eu não posso fazer nada. O irmão dele é mais quieto, mesmo assim não para de falar com uma das amigas de Gia. Danem-se os dois. O que não pode continuar acontecendo é a minha mulher de papo furado com o pseudogalã do interior. — Mas você sabe montar? — ele pergunta sugestivamente para Gia e eu preciso sair daqui para não encher o mister equestre de porrada. As pessoas à mesa me olham, sem saber o motivo da minha ira repentina. Foda-se todo mundo. Vou até meu escritório e fico andando de um lado para o outro. Nunca fui um cara muito ciumento. Possessivo, muito menos. Só que também não sou de ferro, e tudo nessa vida tem limite. Pelo visto, o meu é olhar enquanto outro cara tenta roubar minha mulher. Há muito tempo não me sentia tão puto. Chateado, decepcionado, apreensivo? Ok. Mas estou morrendo de ódio. Menos de cinco minutos depois de eu te me escondido na minha sala (até agora sem nenhum sinal da minha raiva passar), a porta se abre. — Eu quero ficar sozinho — digo, sem ao menos me virar para saber quem entrou. Só que quando sinto a energia mudar, eu sei que é ela. — Pouco me importa. — Sua voz é firme e, mesmo sem ter meus olhos nela, sei, apenas por seu tom, que Gia tem ambas as mãos na cintura e está olhando para mim de forma desaprovadora. Eu não me viro. Não quero olhar para ela. Se eu fizer isso, minha raiva vai começar a passar. Ela vai chegar perto de mim, me abraçar, blá blá blá e eu vou acabar cedendo. Eu quero ficar puto. Tenho esse direito. — Gia, volta pra lá, vai — eu peço, querendo ficar a sós por mais um


tempo e poder xingar mentalmente o filho da puta. — Pra quê? Pra você ficar aí, perdido em pensamentos, remoendo sei lá o quê? — ela pergunta e sei que não está esperando uma resposta. — Eu preciso que você converse comigo e diga por que você saiu da mesa batendo o pé. Eu respiro fundo três vezes antes de pensar no que farei em seguir. Só que não é o suficiente. Então, inspiro mais cinco vezes. — Lucca, por favor, conversa comigo — ela pede. Desta vez, seu tom mais brando e convidativo. Eu passo minhas mãos pelos meus cabelos, bagunçando-os em frustração. — Gia, eu não estou a fim de conversar, ok? Agora não. — Não sei como explicar o turbilhão dentro de mim. Por isso, prefiro ficar calado. — Agora sim, Lucca. Você perdeu o direito de se limitar à sua mente no momento em que me pediu em namoro. De lá pra cá, você já mudou muito. Está mais aberto, menos introvertido. Pelo menos, comigo. Não vou deixar que você se retraia novamente. Então, ache uma forma de verbalizar tudo isso que você está pensando para que a gente possa voltar lá pra fora e curtir a companhia dos nossos amigos. Seus olhos azuis brilham com o desafio. Como eu previ, suas mãos estão na cintura e ela parece uma mãe brigando com o filho. Deus me livre tentar analisar o porquê de isso me deixar com tesão. O problema de olhar para Gia é esse: eu acabo me derretendo. Essa mulher tem um poder sobre mim que nem Freud explica. Que merda. Como dizer a ela que odeio o fato de ela querer conversar com outros homens? Que preciso que a atenção dela seja voltada exclusivamente para mim? Quando foi que me tornei um desses? — Eu estou puto porque você passou a noite inteira de papinho com aquele cowboyzinho de quinta categoria. Era isso que você queria ouvir?


Pronto. Eu estou com ciúmes — despejo as palavras de uma só vez, antes que eu desista. Gia não diz uma palavra sequer. Ela apenas caminha lentamente em minha direção, até que para de frente para mim e coloca ambas as suas mãos em meu peito. De imediato, sinto seu perfume suave e doce. Ela fica na ponta dos pés e cola seus lábios aos meus em um beijo rápido. — São tantas as coisas que preciso dizer que nem sei por onde começar. — Comece dizendo por que você está tão amiguinha daquele babaca — eu peço, minha voz firme e o veneno escorrendo. — Não… Vou começar dizendo que você fica uma delícia quando está bravo. — Ela acaricia meu tórax, deixando suas mãos descerem até o cós da minha calça jeans, só para depois subirem novamente. — Gia… Eu estou falando sério. — Seguro suas mãos, mas ela se empina novamente e cola os lábios nos meu. Eu me afasto. — Para de bobeira, Lucca. Pensei que você tivesse mais confiança na gente — ela diz, e noto em seu olhar um pouco de… sei lá, desapontamento, talvez. — Não é só uma questão de confiança, Gi. É mais que isso — eu hesito, sem saber explicar o que está por trás de tudo. — Eu sei, Lucca. O problema é que, apesar de sermos, nós não somos. Ninguém sabe da gente. Se uma mulher ficasse te dando mole na minha frente, eu não sei qual seria a minha reação — ela diz e eu fico bem mais aliviado ao saber que não estou sozinho nesse conflito de sentimentos. — Fui eu que coloquei a gente nessa, Gi. A culpa é minha. Mas tudo que eu fiz é porque eu não tenho dúvidas de qual será a reação do seu irmão. — Eu acho que você está exagerando. Ele vai ficar puto no início, mas não dou uma semana para ele esquecer tudo e ficar feliz por nós. Pobre Gia! Vive num mundinho onde o irmão é tão perfeito aos seus olhos quanto ela é aos dele. Só que os dois não enxergam por trás do romantismo do irmão gêmeo. Eles sempre foram muito unidos e até hoje os


dois são super amigos. Assim como eu, Dante e Gael temos o brunch de sexta, Gael e Gia têm o Martini de terça. — Eu entendo que esteja sendo difícil para você esconder isso do seu irmão, mas confie em mim: ele vai surtar. — Então, eu peço a mesma coisa: confie em mim quando eu digo que não tenho interesse em qualquer outro homem a não ser você — ela diz e eu relaxo. Puxo-a para um abraço e me perco, por um momento, em seu cheiro. — Vocês estavam tão empolgados conversando, que foi impossível não sentir ciúmes. Especialmente por não poder chegar lá e te beijar, para que ele tivesse certeza de que você não está sozinha. — Se ele sabe ou não, pouco importa. Eu não estou sozinha. Além do mais, ele é um cowboy. — Exatamente! Um idiota de fantasia de YMCA! — eu digo, feliz por ela compartilhar o meu pensamento do quão ridículo é um cowboy na cidade grande. — Nada disso, seu preconceituoso ridículo. — Eu ergo as sobrancelhas, perplexo com o que ela acabou de me chamar. — Eu me referi a ele ser um cowboy porque compartilhamos de uma grande paixão. — Cavalos… — eu deduzo em um sussurro. — Exatamente. Cavalos — ela concorda e eu começo a me sentir um idiota. — Estávamos conversando sobre os que ele tem na fazenda, novas vacinas… Enfim, tudo aquilo pelo qual você não se interessa. Merda. Ela vê pela minha expressão o que eu estou sentindo, porque ela cai na gargalhada. — Você acha isso engraçado? Vou lá, então, conversar sobre bebidas e eventos com uma morena peituda e ver se você gosta — em vez de me desculpar, é isso que eu digo. Pelo visto, além de ciumento, eu também sou imaturo.


— Serve uma loira peituda que está morrendo de vontade de te beijar? Internamente, eu começo a rir. Mas, por fora, eu finjo avaliar. Minha atuação não dura três segundos. Gia puxa minha cabeça e nos perdemos em um beijo. Estou morrendo de saudade dela, sem falar em todas as frustrações das últimas duas horas. Eu a coloco sentada na mesa e Gia abre as pernas para que eu me encaixe entre elas. A posição é perfeita, nossos rostos ficam na mesma altura. Gia acaricia minhas costas, enquanto uma das minhas mãos segura sua nuca e a outra brinca com um mamilo. Ela geme em minha boca, intensifica o beijo e começa a desabotoar minha camisa. Eu desço para seu pescoço, lambendo o ponto exato que sei que a faz tremer. Logo, estamos desesperados. Ela arranca minha blusa e eu removo a dela também. Minhas mãos vão para o seu sutiã e minha boca se enche de água com a vontade de chupar seus seios. Gia joga a cabeça para trás, segurando minha cabeça enquanto eu me delicio com seu gosto. Minha ereção está quase rompendo a calça, trincando. Estou tão duro que chega a doer. — Quero você dentro de mim, Lucca. Não me faz esperar — ela pede, sua voz ofegante e começa a desabotoar minha calça. Dou graças aos céus que ela está usando saia. Chego sua calcinha para o lado e meus dedos encontram o caminho para dentro dela, precisando ter certeza de que ela está tão excitada quanto eu. Mordo seu pescoço enquanto ela tenta abrir o botão. Gia rebola nos meus dedos. Estamos perdidos no momento, completamente entregues à luxúria que nos domina. É quando ouço o pior som do mundo neste momento: — Lucca, pra onde… Olho para trás, assustado, e vejo Dante, parado e boquiaberto à minha porta.


Eu tento esconder Gia ou, pelo menos, não a deixar tão à mostra. A última coisa que quero é que Dante a veja sem roupas. — Sai daqui! — grito para ele, que parece hipnotizado pela cena. — Dante, agora! Ele recobra os sentidos e é quando sua expressão muda de confuso para cheio de raiva. Mas não mais que eu. — No meu escritório em três minutos, Lucca — ele diz e eu quero falar várias coisas para ele, começando por explicar que ele não pode sair me dando ordens. Porém, estou mais preocupado em ocultar o corpo seminu de Gia dos olhos do meu amigo. Ela tenta se recompor, fechando os botões da blusa, mas eu só me permito voltar meu olhar para ela quando Dante sai da sala, fechando a porta atrás de si. — Lucca… — Gia chama meu nome e olho para ela pela primeira vez desde que fomos interrompidos. Emolduro seu rosto com as minhas mãos e beijo sua boca com carinho. Não quero que ela se preocupe ou que duvide que eu vá resolver isso. — Fica tranquila, princesa — digo e lhe dou mais um beijo. — Vai ficar tudo bem. — Mas o Dante… — ela começa e eu não deixo que termine. Apenas puxo-a para meus braços, não sei se para confortá-la ou a mim. — Eu vou conversar com o Dante. Volte para lá e, por favor, fique longe daquele cowboy metido a Luan Santana. Ela ri do meu comentário e balança a cabeça.


Deveríamos estar apreensivos, cheios de medo do que vai acontecer, mas não é esse o clima. Em silêncio, ajudo-a a se recompor. Os botões estavam nas casas erradas. Eu abotoo um por um e permito que ela se levante da mesa. Com os dedos, ajeito seus cabelos enquanto ela me olha. — E se todos forem contra? — ela pergunta em um sussurro. — Então, todos serão contra. Mas uma coisa é certa: você é minha, Gia, e nada vai mudar isso. Ela me dá um sorriso tímido e seus olhos azuis brilham, não sei se de emoção ou de alguma coisa que eu ainda não consegui decifrar. Ela fica na ponta dos pés e junta seus lábios nos meus. — Volta pra mim? — ela pede e sei que não está falando só de agora. — Todos os dias. Ela sai do meu escritório e volta para o salão onde todos devem estar sentindo nossa falta. Respiro fundo e recoloco minha camisa, imaginando o que acontecerá a seguir. O que será que Dante está pensando? Por mais que a dúvida esteja presente, me sinto aliviado por ele ter descoberto. O filho da puta disse que descobriria tudo. Nem precisou bancar o detetive para isso. Vou ao seu encontro, torcendo para que ele não fique contra mim e Gia. Assim como ele fez na minha sala, eu também não bato na porta antes de entrar na dele. Dante está andando de um lado para o outro, como se estivesse nervoso demais para sentar. — Você podia ter trancado a porta. E se fosse Gael e não eu? — É a pergunta que ele me faz e eu me sinto mais tranquilo. Pelo menos, ele não me xingou. — Com certeza, teria sido muito pior. — Dou de ombros. — Há quanto tempo, Lucca? — Você não é o detetive? Faça as contas. Dante apenas me encara, boquiaberto.


— Foi Gia esse tempo todo? Você tá de sacanagem — ele quase grita e eu continuo sem esboçar grandes reações. Antes de me expor, quero saber o que ele está pensando. Dante volta a andar pela sala, e eu começo a pensar nas diversas coisas que devem estar passando por sua cabeça. Ao mesmo tempo, não quero que ele pense muito. Merda. Mais uma vez, sou tirado à chance de poder refletir e pensar antes de tomar alguma decisão. Quando foi que minha vida ficou tão complicada? Não queria poder contar tudo para ele assim. Ao mesmo tempo, fico aliviado por meu melhor amigo saber o que está acontecendo. Menos uma pessoa para quem preciso mentir. — Desde antes de você conhecer a Clara — eu começo, fazendo com que Dante pare de andar e se vire para mim. — Eu a encontrei em um restaurante num dia qualquer. Passamos a tarde inteira conversando, bebemos um pouco, rimos demais. Quando a levei para casa, as coisas meio que… aconteceram. Sei lá. Foi tudo muito natural. — Meu amigo não me interrompe. Ele se encosta na mesa e me observa, deixando que eu continue com a história. — Foi perfeito, cara. Eu não quero falar da minha garota pra você, mas preciso que você saiba disso: foi perfeito — repito, dando ênfase na palavra. — Vocês estão juntos esse tempo todo? — ele quer saber. — Queria eu… Mas não. Eu disse que não, que não podíamos fazer isso com Gael. — Então, quan… Não deixo que ele termine. Preciso explicar tudo que aconteceu: — Foram meses resistindo. De início, ela viajou com as amigas e eu aproveitei para me afastar. Não deu certo. A distância era pior. Depois, acabei virando um stalker maluco. Eu a seguia não só pelas redes sociais, mas ficava observando sua casa, seu trabalho. Era uma merda — confesso e Dante


arregala os olhos. Sinto que ele quer rir, mas se controla. Se tivesse no lugar dele, provavelmente começaria a rir também. — Eu juro que eu tentei. Até fiz um pacto comigo mesmo. — Um pacto? Que nem o que eu fiz com vocês? “Nunca vou me apaixonar”? — Exato, mas o meu era diferente. “Nunca vou me entregar.” Porque era isso que eu queria. A amizade de Gael é muito importante para mim e a última coisa que quero é perder meu irmão. Olho para Dante, que apenas assente com a cabeça. Ele sabe o quanto Gael e ele são importantes para mim. — E quando foi que você quebrou seu pacto? — Quando ela resolveu ter um namorado para esfregar na minha cara. É então que Dante começa a rir da minha cara. Afinal, meu amigo é um tremendo filho da puta. Se isso tivesse acontecido com ele, provavelmente teria se desesperado, bolado planos, se fingido de Batman para assustar o cara. Exagerado como é, não duvido que teria tomado medidas extremas. Em vez de retrucar, eu apenas explico para ele o que aconteceu enquanto estava em lua de mel, de como Gia invadiu meu apartamento de madrugada para me dizer que estava “fora de alcance”. Conto do brutamontes e da ideia de Gael de quebrar a cara dele. — Como ele desistiu dessa ideia? — Dante pergunta. — Você sabe que Gael e Gia se encontram semanalmente, certo? — Ele faz um sinal afirmativo com a cabeça, e eu continuo: — Ela usou um desses encontros para explicar para ele que eu estava exagerando, que eles eram apenas amigos de trabalho. Gia disse que, no início, Gael não acreditou muito, mas você sabe como as coisas são entre eles… — Aos olhos de Gael, Gia é perfeita. Nada que ela faz é errado — Dante conclui meu pensamento. — Alguém mais sabe do seu envolvimento com ela? — Tori sabe. Mais ou menos — retifico. — Eu estava bêbado e acabei


contando a ela o que tinha acontecido. Só que isso foi antes de eu e Gia ficarmos juntos mesmo. Tori me aconselhou um pouco, mas, depois disso, não conversamos mais. Pelo menos, não sobre isso. Ela não perguntou e eu não contei, mas acho que ela sabe. Ou desconfia. Dante não diz nada por um momento, apenas me olha como se tentasse entender o que está se passando na minha cabeça. Quero poder dizer a ele que tudo está bem, mas não acho legal mentir. Não mais do que sou obrigado. — Você está caidinho por ela, não é? — ele tenta a sorte. — Eu a amo, Dante. Não consigo imaginar minha vida sem ela — confesso e ele abre um sorriso. — Se essa situação tivesse acontecido ano passado, eu provavelmente teria te xingado de todos os nomes chulos do meu amplo vocabulário e me juntaria a Gael na hora de te espancar — Dante diz, ainda apoiado na mesa e com os braços cruzados na frente do corpo. — Mas…? — eu o encorajo a continuar, torcendo para que a frase seguinte seja mais favorável do que a anterior. — Mas eu sei o que é estar apaixonado e odiaria ter alguém tentando me impedir de ficar com a minha fadinha. Clara é tudo para mim e, quando você disse que não consegue se imaginar vivendo sem Gia, eu entendo. — Solto um suspiro aliviado. Pelo menos, tenho alguém no meu time. Provavelmente o único, mas, ainda assim, é melhor do que nada. — Eu imagino como você deve estar se sentindo e confesso que, se fosse eu, provavelmente já teria enlouquecido. Amo você e Gael, vocês são meus irmãos e melhores amigos. Só que a cabeça de um homem muda quando a mulher certa aparece, Lucca, se chegasse a um ponto em que eu tivesse que escolher entre um de vocês e Clara, ela seria minha escolha. — A revelação de Dante me faz erguer uma sobrancelha. — Não porque eu não ame meus amigos ou não seja grato por tudo que passamos juntos — ele se apressa em continuar —, mas porque as prioridades mudam. Meu lado clichê diz que amigos de verdade não nos fazem escolher. Só que você sabe que isso não será verdade quando Gael


descobrir o que está acontecendo. O que ele acabou de dizer me alivia por um lado. Por outro, apenas consolida tudo aquilo que sempre soube: vai dar merda. Dante desencosta da mesa e vem em minha direção. Ele para ao meu lado e dá dois tapas no meu ombro. Não sei se está me desejando boa sorte, se está dizendo “se fodeu” ou se demonstrando que está ao meu lado. Mas ele me deixa sozinho e volta para a companhia dos outros. Não preciso pedir para que ele mantenha segredo. Tudo não passava de uma brincadeira quando ele disse que iria investigar o que estava acontecendo. Agora que ele sabe que tudo é muito mais complicado e intenso do que jamais pensou que pudesse ser, não tenho dúvidas de que ele não vai compartilhar a informação com ninguém. Talvez com Clara. Com certeza, com Clara. Perco mais um tempo ali, a sós, tentando colocar meus pensamentos em ordem. Não quero voltar para lá e ficar com essa cara de bunda. Quem desconfia de alguma coisa, passará a ter certeza. ** — Quando vocês vão me dar sobrinhos? — Júlia pergunta para Clara e Dante de uma forma nada discreta. Eu devo ter passado pelo menos uns quinze minutos sozinho no escritório depois que Dante saiu de lá. Apenas voltei para a mesa quando voltei a me sentir no controle. Foi só me aproximar novamente para ele voltar a ruir. O cowboy estava — surpresa, surpresa — dando mole para minha garota mais uma vez. Eu apenas olhei para ela, que piscou para mim. Fora isso, ela me ignorou e continuou dando conversa para o babaca. Gael está mais falante que nunca, sentado entre as novas amigas de trabalho de Gia. Carne fresca no pedaço, ele não pode perder a oportunidade de jogar seu charme nerd para elas, que parecem fascinadas por ele. Pelo menos, o nosso lado é mais divertido. Eu, Dante, Clara, Tori e Júlia


estamos conversando como sempre. Meu amigo volta e meia me olha, como se quisesse ter certeza de que estou bem. — Posso te garantir que estamos treinando bastante — Dante diz e dá uma piscadinha para Júlia. Clara está no colo dele e fica vermelha de vergonha com o comentário do marido. — Ainda não começamos a tentar. Queremos curtir um pouco esse tempo a dois antes de focarmos em começar uma família — Clara explica. Eu só fico imaginando o dia em que os dois tiverem um filho. A criança será a mais mimada do universo, disso não tenho dúvidas. — Imagino que dona Lila não esteja muito paciente — comento e Dante apenas balança a cabeça. — Minha sogra está desesperada. Parece que somos os únicos responsáveis pela perpetuação da espécie. Ela me pergunta se estou grávida três vezes por semana! — Clara abre os braços e quase grita de indignação. — A mulher não tem filtro. Outro dia, ela disse que eu preciso colocar um travesseiro embaixo do quadril quando eu e Dante estivermos fazendo sexo para não deixar, e eu a cito, “a sementinha do amor escorrer para fora do meu canal de fertilidade”. Eu me engasgo com a cerveja que estava bebendo. Júlia solta uma gargalhada alta, o queixo de Tori quase cai e Dante apenas apoia a testa no ombro de Clara, querendo se esconder da vergonha que sua mãe lhe causa. — Ela não tem limites… — eu digo, depois de ter me recuperado do susto. Meu olhar instintivamente volta para Gia, que parece estar se divertindo enquanto conversa com o cowboy e com Becca. Eu odeio não poder estar com ela aqui, no meu colo, enquanto conversamos com nossos amigos. Às vezes, esquecemos de dar valor às coisas mais simples da vida. Dante nota a mudança em minha expressão, porque logo se apressa em mudar o rumo da conversa para algo que me interesse muito mais: — Vocês sabem quem é o Brokeback Mountain ali? — meu amigo


pergunta e eu começo a rir com a comparação. — Não sei… — Júlia diz —, mas adoraria que ele usasse seu chicote em mim e me chamasse de potranca. Um coro de “eca”, “não” e “que merda” ecoa pela mesa, mas ela simplesmente ri e dá um sorriso safado, passando a língua pelos lábios. — Ah, para. O cara é uma delícia — ela volta a comentar. — O que você acha, Clara? — É, Clara, o que você acha? — Dante pergunta, olhando fixamente para sua esposa, que estava rindo até agora, mas quando vê que seu marido mudou o tom de voz de animado para cheio de ciúmes, ela para de rir. Ela segura o rosto de Dante com ambas as mãos e o beija suavemente. — Ele é horrível, não tem nenhum sex appeal e tem cara de que tem piru pequeno — Clara diz e ninguém sabe se ela está falando a verdade ou apenas tentando aplacar o ciúme de Dante. — E foi por isso que eu me casei — ele conclui e dá um beijo na testa de Clara, puxando-a para que se aconchegue em seus braços. A interação dos dois é muito diferente do que eu pensei que fosse acontecer com meu amigo. Se for sincero, confesso que sempre soube que o pacto dele de nunca se apaixonar foi apenas uma forma de se proteger. Ele tinha acabado de ser chifrado pela namorada, claro que ele precisava de uma forma de impedir que ele se ferrasse de novo. Felizmente, ele se deu conta de que aquilo tudo era fachada antes que fosse tarde demais e se permitiu confessar que amava Clara. Hoje, eles estão casados e, pelo visto, absurdamente felizes. — Claro que ele não tem piru pequeno! — Júlia exclama, mais alto do que deveria, fazendo várias cabeças se voltarem em nossa direção. — Não digam a ela que eu comentei com vocês, mas Gia tem detector de homem com piru pequeno. Ela sabe, só de olhar para o cara, se ele tem “conteúdo”. A mesa explode em risos, mas eu fico quieto, sem saber o que comentar. Não sei se fico feliz por saber que Gia acha que eu sou grande ou se fico


preocupado com a tal fita métrica imaginária da minha namorada. Será que ela tá pensando nisso quando olha para o cowboy? Porra! Júlia tinha que falar isso… Aquela desgraçada sem alma. A outra irmã de Gael sempre foi uma figura à parte. Sem dúvidas, é a pessoa mais espírito livre que eu já conheci. Ela não tem medo de mudar e pouco se importa para o que os outros pensam. Da última vez que a vi, Júlia tinha adotado o estilo vegana do amor. Hoje, ela está na fase universitária bêbada e desbocada — pelo menos, eu acho. Seus cabelos estão mais bagunçados que nunca, seu decote beira à indecência. Pouco importa, é Júlia. Tentar entendê-la é perder tempo. — Como você sabe que ele não tem piru pequeno, a não ser por Gia estar conversando com ele? — Tori pergunta e tudo que eu quero é estar em uma conversa que não inclua o pau de outro homem. — Dizem que o tamanho do membro de um homem é exatamente igual à distância entre o topo do polegar e a ponta do dedo indicador — Clara diz, fazendo um revólver com o dedo e indicando como medir. — Mas mole ou duro? — Júlia pergunta e é demais para mim. Eu me levanto, precisando com urgência fugir desse tipo de conversa antes que alguém resolva descobrir o tamanho do meu Júnior. Vou em direção ao bar, onde encontro um banco vago. — Quer alguma coisa, chefe? — Mozart pergunta. — Quero paz e sossego — desabafo. Quero acrescentar “dar um beijo na minha namorada”, mas não sei se caberia no momento. — Tá em falta. Tenho cerveja, serve? Solto uma risadinha baixa e faço que sim com a cabeça. Enquanto ele pega meu elixir da felicidade, eu me permito tentar relaxar, mas ouço o riso melódico de Gia e meu sangue volta a ferver. Merda! Quero ir até ela, puxá-la para o meu colo e beijá-la até que ambos estejamos sem ar. Que ideia de jerico essa de manter tudo em segredo. Claro que ia dar


merda. Claro! Os três últimos meses foram ótimos e serviram seu propósito: consolidar o que sabíamos que havia entre nós. Agora que tudo está consolidado, não há mais motivos para tudo ser mantido em segredo. Na verdade, só há um motivo. Mas ele parece cada vez menos importante. Eu estou cansado, frustrado. Mozart coloca a tulipa na minha frente e pisca descaradamente para mim. Eu fico sem entender o motivo, até que sinto alguém tocar o meu ombro e ouço uma voz feminina sussurrar perto do meu ouvido: — Posso te fazer companhia?


— Você poderia ter dito não, Lucca! — Gia grita, apontando o dedo para mim. — Por que eu diria não? Nada demais aconteceu. Não ficamos sozinhos nem por um segundo — eu tento me justificar, mas ela parece não estar ouvindo. Gia nervosa é uma delícia e, por mais que eu queira deixar bem claro como eu me sinto quando ela dá uma de ciumenta, me mantenho quieto e apenas tento me defender de todas as acusações que ela faz. Ficamos por horas no bar sem poder conversar. Quando Nina, uma das amigas de Gia, se aproximou de mim para conversar, sabia que estava entre a cruz e a espada. Ao mesmo tempo em que não podia ser rude com ela e pedir para que ela se afastasse, também não tinha como evitar que as pessoas — Gia, inclusive — pensassem que algo a mais poderia estar rolando. Nina não escondia seu interesse, mas eu apenas a tratei com educação. Não incentivava a conversa, mas também não desencorajava. Apenas respondia às perguntas dela. Só que, pelo visto, Gia não ficou muito contente. Saímos separados do Inferno — por motivos óbvios — e, apesar de termos combinado de ir para a minha casa depois, ela ignorou e seguiu para a dela. Claro que eu fui atrás. Foi só cruzar a porta que ela começou a me atacar verbalmente, dizendo que eu era um idiota por ter dado em cima de uma das amigas dela bem na sua frente. Se não fosse louca, seria linda. Na verdade, apesar de ser louca, ela é linda.


— Poxa… Você poderia ter se afastado, dito que tinha namorada e não se sentia confortável em ficar conversando com uma mulher que, obviamente, estava dando em cima de você — ela diz e cruza os braços. — Eu não tive que dizer nada. A gente só estava conversando e na frente de todo mundo, Gia. Assim como você estava super íntima do cowboyzinho. — Então, você ficou conversando com ela de propósito? Só pra me causar ciúmes? Passo as mãos no rosto em um gesto de frustração. Estou cansado dessa discussão. — Não, Gia. Eu não tentei te causar ciúmes. Eu estava morrendo de ciúmes! — Minha voz sai mais alto do que eu esperava. Olho fixamente para ela, minha paciência no limite. Odeio discutir. Principalmente quando sei que não vai dar em nada, apenas nos estressaremos. Mas Gia parece determinada a conversar e eu só consigo segurar o que está entalado na minha garganta por um certo tempo. — Eu já disse que estava conversando com ele sobre cavalos. — A mesa virou e é a vez dela de se defender. — Foda-se o assunto. Perdoe-me se eu fico puto quando minha namorada está se derretendo toda pra cima de um outro cara que, de acordo com as outras mulheres da mesa, tem cara de ter uma pica do tamanho de uma sucuri. — Jogo as mãos para cima num sinal de rendição. Eu já tinha explicado isso para ela quando nos encontramos no meu escritório, mas, pelo visto, não foi suficiente. — O que o pênis dele tem a ver com a situação, Lucca? Eu não quero saber do que ele tem entre as pernas. Pouco me importa. — Ainda bem, né?! — Era você quem estava interessado nos peitos enormes da minha amiga. Eu saio andando em direção à cozinha, esse assunto já esgotou minha paciência. Preciso de água, de preferência com um teor alcoólico alto. Estou


quase virando um alcoólatra. É o efeito Gia. — Eu não vou nem comentar, Gia. Sério. Cansei. Odeio brigar com você, principalmente por um assunto tão babaca. Eu odiei o fato de você ter passado a noite com aquele babaca, mas sei que a culpa não foi sua. — Ela vai tentar falar alguma coisa, mas eu a interrompo, erguendo a mão e pedindo para que ela pare. Abro a porta da geladeira e pego uma garrafinha de água, virando tudo de um gole só. — O grande problema é que nós não podemos nos comportar como o casal que somos e isso está tendo um preço muito alto no nosso relacionamento. Ela apenas me ouve, recostando no balcão da cozinha. Eu entrego uma garrafa para ela, que aceita, mas seus olhos não desviam dos meus, nem quando ela toma um gole. Depois, ela vem até mim e envolve minha cintura com seus braços, encostando a cabeça no meu peito. Abraço-a também. Ficamos em silêncio, apenas processando o problema em que nos metemos. — Vamos contar? — ela pergunta baixinho e, se não estivesse tão próxima a mim, provavelmente não a teria ouvido. — Você está pronta para encarar as consequências? — devolvo a pergunta e beijo o topo de sua cabeça. — Não. — Nem eu. — Eu te amo. — Eu também te amo. — O que vamos fazer? — Sinto a apreensão em sua voz e fico angustiado por toda essa zona que a nossa vida virou. Eu queria poder ser um melhor namorado para ela. Queria poder realizar todas as suas vontades e exibi-la por aí, andar com ela ao meu lado, minha cabeça erguida e o peito estufado, orgulhoso por tê-la comigo. Mas nenhuma das opções anteriores são viáveis. Pelo menos, não sem mudar drasticamente a dinâmica das coisas. — O que você quer fazer? E não estou te perguntando isso porque estou


com medo de enfrentar seu irmão. — Afasto-me um pouco dela, apenas o suficiente para poder olhar em seus olhos. Seguro seu queixo com uma mão, pedindo para que ela preste atenção no que vou dizer. — Eu quero te dar a chance de decidir o que você quer. Seja lá o que for, eu faço. A única coisa que não vou aguentar é ficar longe de você. O resto, não importa. Eu encaro. O sorriso que ela me dá, tão genuíno e singelo, faz com que eu sinta coisinhas estranhas no meu estômago. Eu preciso fazer desta mulher a mais feliz do mundo. Beijo suavemente seus lábios e sinto quando ela relaxa. Não importa o que aconteça, isso é o que terei para o resto da minha vida. — Mais um mês — ela sussurra contra a minha boca. Gia pode ser forte e determinada, mas, assim como eu, tem medo das mudanças que vão acontecer. — Quanto tempo for preciso — eu digo, não sei se para ela ou para mim. — O que Dante disse? Ele ficou me olhando estranho a noite inteira — ela comenta e eu tenho vontade de matar o meu melhor amigo. Eu a levo para o sofá e peço para que ela sente no meu colo. Preciso dessa proximidade. As últimas horas — tão perto, porém tão longe dela — foram uma tortura. Mas aqui, na nossa bolha, podemos agir do jeito que queremos, sem pensar nas consequências. — Na verdade, ele apenas me escutou, o que foi ótimo — confesso. — Isso me lembra uma coisa: você contou sobre nós para alguém? Quando as bochechas de Gia ficam vermelhas, eu sei qual a resposta. Mas ela tenta disfarçar e monta em cima de mim. — Eu já te disse que você é o cara mais gato que eu conheço? — ela diz e começa a beijar meu pescoço. Salafrária, manipuladora. — Gia… — é um alerta. — Não vamos falar nada. Estou louca para terminar aquilo que começamos no seu escritório, mas fomos tão rudemente interrompidos.


Se ela acha que pode me enganar com mordiscadas na orelha, me distrair com as mãos que percorrem meu tórax e me excitar enquanto esfrega seu corpo delicioso em mim, ela acertou. Foda-se se alguém sabe sobre nós. Eu a pego no colo e a carrego para a cama. Preciso mostrar para ela que cowboy nenhum vai tirar o que é meu.


— Como está a Sexta Sexy? — Gael pergunta entre uma garfada e outra do seu prato preferido do brunch: waffles. Nosso encontro semanal, sempre recheado das maravilhas preparadas pelo Hotel do pai do Dante, está mais calado do que nunca. O clima está estranho e não precisa ser um gênio da sensibilidade para notar. Até Dante, que tem sempre uma história ou uma piada, está mais calado do que o normal. Pelo visto, o segredo está tendo um peso maior do que ele esperava. Bem-vindo ao meu mundo. Eu olho para Dante, mas ele mantém o foco na sua xícara de café. — Está ótima — eu respondo depois de um tempo desconfortavelmente longo. — Zurik me surpreendeu. Ele está realmente dando seu melhor no Purgatório. — Mas tá dando os resultados que vocês esperavam? — Gael continua com a conversa, tentando aliviar uma tensão que ele não entende por que existe. — Ainda não é a Noite do Quiz… — comparo com uma das noites mais movimentadas no Inferno. Nós a implementamos no Purgatório também, mas não é a mesma coisa, não tem a mesma animação. — Mas tá dando bastante certo. Se continuar assim no próximo mês, pensaremos em fazer dela algo quinzenal em vez de mensal. — Tenho que passar por lá um dia desses — Gael comenta, subindo e descendo as sobrancelhas. — A frequência está boa? Eu sei exatamente o que ele quer dizer com isso: se as mulheres que estão aparecendo são bonitas.


Eu balanço minha cabeça negativamente, rindo dele, que sempre tem o pensamento no mesmo lugar. — Uma frequência excelente. — Pisco para meu amigo, que ergue uma taça de mimosa em minha direção, como se brindasse à informação. Eu imito seu movimento e bebo um gole da minha. Então, ficamos em silêncio mais uma vez. De nós três, Dante é o pior. Ele nem sequer consegue olhar Gael nos olhos. Depois de tentar manter a conversa fluindo, mas sem muito sucesso, Gael desiste e vai embora, alegando que tem aulas para preparar. Eu sei que é mentira, mas também não consigo deixar de me sentir aliviado por não precisar mais estar na presença dele e ser obrigado omitir o que tem acontecido. — Como você consegue? — É a primeira coisa que Dante pergunta quando ficamos a sós. — É um inferno, mas eu não tenho opção. Ele respira fundo e dá um gole generoso no seu café. Quando volta a me olhar, sinto um quê de desaprovação no modo como me encara, como se estivesse desapontado — e eu não sei como me sinto em relação a isso. — O que Gia acha? — ele quer saber. — Para ser sincero, acho que ambos estamos um pouco perdidos em relação a tudo. É muito difícil ir de amigos para amantes sem foder com tudo. — Cara, quando eu e fadinha começamos, nós éramos amigos e… — Nem vem comparar meu relacionamento com Gia com o de vocês — eu o interrompo. — Desde que conheceu Clara, sua vida se voltou para ela. Só que ela era virgem e você tinha o pacto em mente e blábláblá: tudo foi confuso. Mas eu Gia nos conhecemos há tanto tempo quanto eu e você. Nós crescemos juntos e, um belo dia, descobrimos que podíamos ser muito mais. Muito, muito mais. A sensação que tenho é de que desperdiçamos todos esses anos, quando deveríamos ter começado, sei lá, há quinze anos. Eu não sei como eu não a notei antes, e isso é um dos maiores arrependimentos que


tenho. Mas tudo a seu tempo. Pelo menos, hoje nós temos um ao outro, apesar de todas as complicações. Às vezes, me pergunto se tudo teria sido diferente se tivéssemos nos apaixonado quando adolescentes. É inútil chorar sobre o leite derramado. O que passou, passou e agora precisamos encarar o futuro. — Contar para Gael ainda está fora de cogitação? — ele pergunta. — Gia pediu mais um tempo. Sei lá, não estamos prontos para que tudo mude. — Há quanto tempo vocês estão juntos? — Uns dez meses desde a primeira vez que ficamos e três meses desde que eu me rendi e deixei de ser um covarde. Pelo menos, parcialmente. — Como você tem conseguido viver em segredo esses três meses é um mistério para mim. — Eu não sou como você, Dante. A maior parte das coisas que acontecem comigo vocês não sabem. Ninguém sabe. Isso não quer dizer que não confie em vocês, só que eu não sinto a necessidade de compartilhar tudo o tempo todo — explico. É difícil de entender como um introvertido pensa quando se é a pessoa mais sociável num raio de duzentos quilômetros. Só que, enquanto Dante é sempre sorrisos e piadas, eu prefiro me manter quieto. Não é só pensar antes de agir. A questão toda é não ter que me justificar e, principalmente, não me expor. — Eu estou quase enlouquecendo e só sei da história há uma semana. — O que mais me incomoda não é manter o segredo em si. Até porque, eu não conversaria com qualquer um sobre o meu relacionamento. Você sabe que eu e Gia estamos juntos, mas não sabe da nossa dinâmica. Nem vai saber, a não ser que ela queira contar. — Estou me sentindo ofendido com a falta de comunicação do nosso relacionamento, Lucca. É assim que a separação começa. — Dante faz uma expressão dramática, acho que para aliviar a tensão.


Quando o assunto fica sério demais, Dante tem o terrível hábito de quebrar a tensão com alguma piada ou um comentário idiota. A não ser, claro, quando ele é forçado a mentir — vide o que aconteceu minutos atrás, quando ainda estávamos na presença de Gael. — Deixa de ser babaca. Você sempre será minha linduxa, não precisa ficar com ciúmes. — Ele bate os cílios de forma exagerada e eu não consigo segurar a risada. — Mas, voltando ao assunto, o que mais me incomoda com todo esse segredo é não poder estar com Gia da forma que eu quero. — Quando vejo Dante erguer uma sobrancelha, indicando que não entendeu o que quis dizer, eu tento explicar novamente: — Quando estávamos no bar naquele dia, tudo que eu queria era dar um beijo de cinema nela para que o cowboy não duvidasse que ela tem um homem em sua vida. — Ou seja, você quer que todos saibam que vocês estão juntos para ninguém “invadir seu território”, mas você não quer que saibam que vocês estão juntos para ninguém ficar no caminho. Olho para Dante, surpreso por ele ter entendido tão bem o que estou sentindo e ter sido capaz de resumir de forma simples e direta. — Exatamente! — Bato na mesa de empolgação. Finalmente tenho as palavras para o que estava pensando. — Então, você sabe que é um tremendo de um idiota, né? — ele pergunta calmamente, passando manteiga num pedaço de pão, como se não tivesse acabado de me ofender. — Por quê? — Não estou dizendo que você está errado. Eu provavelmente pensaria do mesmo jeito se estivesse na sua situação. Mas, de fato, você é um babaca. Talvez eu também seja um. — Ela dá de ombros e faz uma cara de tédio, como se dissesse “até parece que isso é novidade”. — Agora, torça para que Gia não perceba isso, senão ela vai achar que você só a enxerga como a trepada fácil e escondida. Fico boquiaberto com o que ele acabou de dizer.


— Gia jamais vai pensar isso. Ela sabe que eu a amo. Antes mesmo de começarmos com esse relacionamento, eu deixei claro o que sentia por ela. Nunca que ela irá achar que eu a vejo apenas dessa forma. — Ah, meu amigo, você é tão ingênuo quando o assunto é relacionamentos… Dante coloca ambas as mãos atrás da cabeça, em uma postura totalmente relaxada (e falsa). Odeio quando ele começa com esse complexo de rei da porra toda. Pego um pedaço do bolo trichocolate — massa de chocolate, recheio de chocolate e cobertura de, adivinha, chocolate — e solto um “hmmmm” assim que ele derrete na minha boca. Puta que pariu, essa merda é um orgasmo na colher. Ignoro completamente tudo o que meu amigo acabou de dizer, minha atenção voltada para a delícia negra à minha frente. Em algumas garfadas, devoro a fatia que estava em meu prato, feliz por ter descoberto minha nova comida preferida. — Lucca, eu estou tentando mostrar que sou um connoiseur quando o assunto é relacionamentos, e é assim que você presta atenção? Faça-me o favor! Seu tom é mais alto do que o apropriado para o local, o que faz com que várias pessoas olhem em nossa direção. Ele sabe que eu odeio ser o centro das atenções. Deve estar fazendo isso de propósito. — Desculpe-me, senhoras, mas meu namorado ainda não entende que um relacionamento entre dois homens pode ser ainda mais complicado do que um entre homem e mulher — ele diz para o grupo de idosas na mesa ao lado e segura a minha mão para dar o efeito desejado. Senhoras e senhores, Dante Morelli, o mais idiota dos meus amigos. — Tá bom, lindeza, compartilhe comigo seu exímio conhecimento nas questões do amor — eu digo, entrelaçando meus dedos com os dele e fazendo com que as senhoras arregalem os olhos em choque. Acho que acabamos de eliminar algumas pessoas da lista de clientes do


seu Luigi. Mas pouco importa. Meu amigo pisca para mim, satisfeito por eu ter entrado na brincadeira, e logo solta a minha mão. O dano já foi causado, isso é o suficiente para ele sossegar por alguns minutos. — Como eu estava falando antes de ser tão rudemente interrompido por seus gemidos, você não entende nada de relacionamentos — ele declara como se fosse a maior novidade do século. — Chegou a hora do tio Dante aqui te explicar uma coisa que é óbvia, mas aparente você é muito tapado para perceber. — O que é tão óbvio, ó, mestre do amor? Ele abre um sorriso satisfeito com a forma de eu perguntar e ignorando o sarcasmo que escorre do canto da minha boca. — Simples, caro aprendiz: mulheres não pensam que nem homem. Para piorar nossa situação, elas vivem sob a regra de fale uma coisa, pense outra. — Ergo a sobrancelha, curioso para saber o pedaço de sabedoria que vem a seguir. — Se você pergunta se tá tudo bem e ela diz que sim, então a resposta certa é não. Se ela te pergunta se a roupa que está usando a deixa gorda e você diz que não, na cabeça dela, você disse que sim. Se ela te pergunta se a amiga dela é mais bonita que ela e você diz não, quer dizer que você olhou para a amiga. São várias pegadinhas, meu amigo, e você caiu em uma delas! Eu não sei se Dante é brilhante ou um machista enrustido. Mas, como estou no inferno, resolvo abraçar o capeta e dar uma chance a ele de explicar sua teoria. — Qual pegadinha? — Não adianta nada dizer. Palavras são facilmente esquecidas. Ações falam mais alto que palavras. Um “eu te amo” não vale nada se não for acompanhado de um gesto que prove que o que você disse é verdade. — Como bom descendente de italiano, Dante gesticula enquanto fala, tentando deixar claro a importância do que acabou de dizer. Dantismos a parte, acho que — e ele nunca vai saber disso — ele tem razão. Pela minha expressão, Dante percebe que estou refletindo sobre o que


ouvi. Fica calado, deixando que eu absorva a informação. Merda. Eu nunca fiz nada para demonstrar a Gia que eu a amo. — Sexo oral conta? — pergunto. — No ponto de vista masculino, sim. No feminino, não — Porra. — Também não conta. Merda. — E agora? — Agora, torça para que ela seja tão tapada quanto você, o que duvido muito, e que ache que sexo oral pode ser uma forma de prova de amor, o que duvido também.


Assim que consigo sair do Paraíso, vou correndo para a casa de Gia. Eu passei o dia inteiro pensando no que Dante me disse. Como eu pude ser tão babaca? Durante todos esses meses, eu fiquei aqui, pensando na merda que poderia causar caso eu contasse a todos — e por todos, quero dizer Gael — sobre o meu relacionamento com Gia. Problematizei, criei hipóteses, analisei possíveis resultados. Enquanto isso, pensei que as coisas estivessem se solidificando entre nós dois. Não queria que ela duvidasse do quanto sou louco por ela. Que eu sou péssimo com as palavras, todos sabem. Mas eu pensei que dizer “eu te amo” pudesse ser suficiente. Que resumiria todas as outras coisas que penso a seu respeito. Não apenas que ela é linda, mas que é perfeita para mim em todos os sentidos. Tenho que dizer a ela que amo sua companhia, que seu cheiro me excita, que sua voz me hipnotiza, assim como seus olhos e seus cabelos loiros e compridos. Mais do que isso, eu preciso deixar claro que não há qualquer possibilidade de eu me separar dela, que nada vai fazer com que isso entre nós seja menos do que é. Quando eu acordo, ela é a primeira coisa que me vem à mente. Acordar ao seu lado é… certo. Para que eu consiga pegar no sono, preciso do seu corpo junto ao meu, sua respiração leve é o que me embala. Será que ela não sabe que disso? O que eu posso fazer para demonstrar tudo o que eu sinto? Pelo visto, palavras são dispensáveis quando não acompanhadas de atitudes.


Abro a porta da casa, mas a encontro vazia. As luzes estão apagadas e o silêncio é incômodo. Diferente de mim que estou sempre quieto, Gia é barulhenta. Ela canta, fala sozinha e ri alto. Outras coisas que eu preciso adicionar à minha lista de coisas que eu amo nela. Aproveito que ela não chegou para preparar uma surpresa. Pode ser o primeiro passo para o tal “grande gesto” que Dante estava me falando. Vou para a cozinha e vejo o que posso preparar para ela. A geladeira está abastecida e eu escolho fazer um filé mignon ao molho de mostarda e batatas assadas — uma das comidas preferidas dela. Eu amo cozinhar, sempre gostei. Na verdade, eu amo comer e cozinhar é a forma que me leva até lá. Lavo as mãos e começo o preparo do nosso jantar. Quem sabe algo bem cafona e romântico… quem sabe à luz de velas? Estou descascando as batatas — o filé já está temperado —, quando meu celular toca. Eu corro para limpar as mãos para poder atender a tempo. Deve ser Gia. Ela está demorando mais do que o habitual. Sempre que isso acontece é porque chegou alguma emergência e ela precisou entrar em cirurgia. Normalmente, ela me avisa, mas, desta vez, não recebi uma mensagem sequer. Quando pego o celular de cima do balcão, vejo o nome de Gael no visor. Não queria falar com ele agora… Odeio essa situação. Penso em ignorar, mas acabo atendendo: — Oi, amoreco. — Lucca… — a voz dele é nada além de um sussurro, pelo menos até eu ouvir um soluço. — Gael, o que tá acontecendo? Por um tempo, ele apenas chora. Eu não sei o que está acontecendo, mas fico mais nervoso a cada segundo. Desligo o fogo e esqueço as batatas. Alguma coisa me diz que terei que ir ao encontro dele. — Gael, fala comigo — tento mais uma vez. Ele balbucia algumas palavras, mas não as entendo. — Respira, cara, pelo amor de Deus. Diz pra


mim o que está acontecendo. — Gia… — é a única coisa que ele consegue dizer com eloquência. Meu coração dispara, meus joelhos perdem as forças e meus olhos se enchem de lágrimas. Eu não sei o que está acontecendo, mas não importa. Não posso perdê-la. Do jeito que Gael está tenso, coisa boa não é. — O que tem Gia? — Quero gritar, exigir que ele me explique o que está acontecendo, mas também não tenho forças para isso. Meus pés me levam para a saída, ignorando as luzes acesas pela casa. Eu preciso vê-la, preciso saber o que aconteceu, onde está, se está bem. — Hospital Santa Maria — Gael consegue dizer. — Estou a caminho. Saio correndo em direção à saída do condomínio. Minhas mãos tremem e eu sinto uma lágrima escorrer. Puta que pariu, Gia está no hospital e eu não estou lá com ela. Assim que entro no táxi e digo o destino, pego meu celular e ligo para Dante. — Você está chegando? — ele atende. — A caminho. O que aconteceu? — quero saber, estou desesperado por respostas. — Não sei. Estou entrando no hospital agora. Gael me ligou desesperado. — Liga pra mim assim que tiver notícias. Chego em cinco minutos — peço. Minha voz está controlada, mas, por dentro, sou uma reviravolta de sentimentos. Preciso chegar até ela e fazer qualquer coisa para que Gia fique bem. O que será que está acontecendo? Será que ela sofreu algum acidente? Será que foi mordida por algum animal? Minha mente conjura inúmeras possibilidades, mas não tenho como ter certeza. Preciso chegar até ela. — Te dou cinquenta reais a mais se você acelerar esta merda — digo


para o motorista, que faz um sinal afirmativo com a cabeça e pisa no acelerador. ** Não sou um cara mal-educado, mas — puta que me pariu — não estou com paciência pra essa galera andando de muletas na minha frente. Pelo menos não agora, que Gia está em algum lugar desse hospital, precisando de mim. — Dá pra sair da frente? — Saio esbarrando em alguém, mentalmente torcendo para não ter jogado a pessoa no chão, mas ao mesmo tempo não me permitindo virar para ver se a pessoa está bem. Se tiver se machucado, olhe pelo lado positivo: já está no hospital. A mensagem que recebi de Dante disse que ela estava no quarto 411, e eu corro para o quarto andar, louco para ter mais informações sobre o estado da minha garota. Quando chego ao corredor, vejo meus amigos sentados nas cadeiras de frente para o quarto. Além de Dante e Gael, Clara e Júlia também estão aqui. — O que aconteceu? A gente pode entrar? Onde está Gia? — eu solto as perguntas. Estou tenso, agitado, a um passo do precipício. Preciso saber como ela está. Olho para os meus amigos, que também não parecem nada bem. Gael tem os olhos inchados, que fitam a porta à frente. Ele nem sequer olha para mim, parece estar em estado de choque. — Não sei. Mas ela já saiu da sala de emergência e está no quarto com o médico e algumas enfermeiras. Quando chegamos aqui — ele aponta para ele mesmo, Júlia e Clara — ela tinha acabado de entrar e Gael estava no mesmo lugar. Também não sabemos de nada. Meu desespero só aumenta, mas ao mesmo tempo tento manter minhas esperanças. Se ela está no quarto e não no CTI é porque seu estado não é crítico. O que não quer dizer nada. Pelo visto, sou do tipo que entra em parafuso se a namorada tem uma farpa. No hospital, então, estou quase


pedindo para ser internado junto. Fico andando de um lado para o outro, desesperado por qualquer notícia que o médico tenha a me dar. Gia tem que estar bem. Esfrego o rosto, mexo o pescoço, estalo os dedos. Não consigo ficar parado, não consigo me acalmar. Gael ainda não disse nada, continua na mesma posição, olhando fixamente para onde a irmã está. Em momentos como esse é que a gente tem certeza do laço que eles têm. Meu amigo está destruído com a possibilidade de algo ruim ter acontecido a ela. Mesmo sem conseguir me sentar, eu vou para o lado dele e coloco uma mão em seu ombro. Assim como eu, ele também precisa de apoio. Todos estão calados, um silêncio tenso. Júlia rói as unhas nervosamente. Dante sacode as pernas, mas mantém seu braço ao redor do ombro de Clara, que apoia sua cabeça nele. Estou quase invadindo o quarto quando a porta se abre e, de dentro, sai um médico e duas enfermeiras. Ele olha para nós e dá um aceno de cabeça para as enfermeiras, indicando que elas podem sair. — Quem de vocês é o pai do bebê? — ele pergunta. Nesse instante, o mundo para de girar. Minha respiração congela e eu juro que meu coração deixa de bater por alguns segundos. Meus músculos se contraem e eu sinto que vou cair a qualquer momento. Gael parece ter saído do estado de choque e se levanta bruscamente da cadeira. Meu cérebro ainda está tendo dificuldade de processar a informação, mas consigo ouvir Gael falar com o médico. — Pai de quem? Que bebê? Eu sou o irmão dela — ele se apressa em dizer. — Eu sou o doutor Miguel Alencar, chefe do departamento de obstetrícia e ginecologia e cuidei de Gia quando ela entrou com um caso de hemorragia. O pai do bebê está por aqui? As palavras dele me chocam. Gia… grávida… hemorragia… bebê. — Eu sou o pai — digo, dando um passo à frente.


O médico me encara e vejo pena em seus olhos. Provavelmente, estou um caco. Não sei nem o que pensar neste momento. — Como assim, você é o pai? — Gael pergunta, empurrando meu ombro e me forçando a olhar pra ele. Não há vestígio da apreensão que ele tinha no olhar há alguns minutos. Agora, seus olhos brilham de raiva e indignação. Eu sabia que seria assim, mas não estou a fim de brigar com ele, muito menos de contar uma história longa que eu sei que ele não vai me deixar contar. — Depois a gente conversa. — Afasto-me dele e vou em direção ao médico. — Como está minha mulher, doutor? Eu posso vê-la? Antes que o médico possa falar qualquer coisa, Gael nos interrompe: — Mulher é o caralho! Ela é minha irmã, Lucca. Como você foi capaz de uma cosia dessas? — Ele me puxa novamente, mas, desta vez, Dante o segura. — Calma, cara, essa não é a hora. Pense em Gia. Isso parece fazer com que Gael se acalme, pelo menos um pouco, até que o médico possa falar o que está acontecendo. Eu me volto para ele, que observa com curiosidade a cena que Gael está criando. — Como eu disse, Gia chegou aqui com muitas dores e uma hemorragia atípica. Fizemos alguns exames e descobrimos que ela está grávida de doze semanas, ou seja, chegando ao fim do primeiro trimestre de gravidez. Com doze semanas, a placenta já está completamente formada, por isso, sangramentos são mais perigosos e acontecem com menos frequência. Ela teve um deslocamento de placenta de quatro centímetros, o que nos deixou bastante preocupados. — E o bebê, doutor? — é Dante quem pergunta. Eu ainda estou parado, absorvendo cada detalhe de informação que o médico tem a passar. — O bebê está bem, mas ela precisa fazer repouso absoluto por algumas semanas, até que a situação esteja normalizada. Ela fará tratamento com


progesterona e nós acompanharemos sua recuperação de perto. Não sei se ela já tem um obstetra, mas recomendo que encontre um com urgência. É muita informação. De tudo que ele falou, só preciso saber de uma coisa: — Como ela está? — Minha voz falha e eu preciso me controlar para não deixar que a apreensão tome conta de mim. O médico coloca a mão no meu ombro em um gesto tranquilizador. — Ela está bem no momento. Está descansando. Demos um calmante a ela, que estava muito nervosa. Ela também não sabia da gravidez. Foi tudo um susto muito grande. — Posso vê-la? — Pode, claro. Mas peço que não a acordem. Ela precisa descansar bastante, e a última coisa que recomendo no momento é mais um fator de estresse. Gia tem que ficar bem, senão as chances de perder o bebê são grandes. — Ele olha de mim para Gael várias vezes, como se soubesse que essa crise entre a gente pode estourar a qualquer momento. — Tudo bem, doutor. Muito obrigado — eu digo. O médico avisa que estará de plantão até amanhã e que, qualquer coisa, podemos chamá-lo. Quando ele sai, todos vamos em direção ao quarto, mas a mão de Gael me segura mais uma vez. — Presta atenção — ele diz, me encarando. — Nós vamos entrar porque eu preciso ter certeza de que minha irmã está bem. Depois disso, nós vamos lá fora e você vai me contar cada detalhe dessa história, Lucca. Eu não sinto medo dele nem do que vai acontecer no momento em que estivermos a sós. Toda minha preocupação se resume à mulher da minha vida, que está do outro lado dessa porta, deitada em uma cama de hospital após quase ter perdido nosso filho. Filho. Caralho. Eu hesito, meus pés não se movem e, por mais que eu precise ver que


ela está de fato bem, algo me impede de andar os poucos metros que nos separam. Filho. Eu vou ser pai. — Ei, agora não é a hora para você travar. — Dante me dá um tapa no ombro e usa mais força do que o normal. — Gia precisa de você. As palavras dele penetram a névoa que engloba meu cérebro nesse momento. Gia. Eu preciso ver minha Gia. Sem responder, cruzo a porta, tomando cuidado para não fazer qualquer som que possa acordá-la. Júlia já está ao lado dela, chorando silenciosamente. Gael está do outro lado da cama, sua mão segura a dela e a tristeza. Eu me mantenho um pouco afastado. Não quero desabar na frente de todos os meus amigos. Preciso do meu momento a sós com ela. Vê-la assim, tão tranquila enquanto dorme, alivia um pouco o pânico que me consumia. Pelo menos, sei que ela está bem — dentro do possível. O bip dos batimentos me irrita, pois me dizem que ela está ligada a equipamentos de um hospital. Este não é o lugar dela. O lugar dela é comigo, na minha cama, rindo da minha cara ou então me beijando depois de termos feito amor. — Eu preciso ficar a sós com ela — falo baixo, mas todos me escutam. Clara é a primeira a me abraçar. Ela passa os braços pequenos em volta da minha cintura, sua cabeça mal chega ao meu peito, mas o conforto que ela me traz faz com que algo dentro de mim relaxe um pouco. — Parabéns, papai — ela sussurra e eu olho para ela, que apenas pisca para mim. Eu vou ser pai. Caralho. Não sei quantas vezes eu vou ter que repetir isso para que a ficha finalmente caia. Como assim, Gia está grávida de um filho meu? E os anticoncepcionais


que ela toma, não serviram pra nada? Lucca, essa não é a hora de pensar nisso. O foco agora é em Gia e ela estar bem. O resto a gente resolve depois. Gael parece hesitante. Ele não quer sair do lado da irmã, e tenho certeza de que isso se deve ao fato de ele ter descoberto, da pior forma possível, que eu e ela estamos envolvidos. Foda-se ele. Cansei se pensar em Gael, em nossa amizade e no modo como ele vai reagir. Minha mulher está no hospital, com o meu filho em risco. Nada que ele diga vai fazer qualquer diferença neste momento. Olho para Dante, que entende o meu pedido sem eu ter que falar qualquer palavra. Ele vai até Gael e o guia para fora do quarto. Júlia para ao meu lado, seus olhos marejados. — Ela me contou que vocês estavam juntos. Tem muito mais dessa história que você não sabe, Lucca, e as coisas vão piorar muito antes de melhorarem. Meu irmão pode ser muito inteligente, mas sempre foi um menino mimado e seu brinquedo mais precioso é Gia. Seja paciente com ele, mas não desista dela — Júlia diz de forma enigmática e me dá um beijo no braço antes de sair. É difícil vê-la assim, tão controlada e… normal, o que me deixa sem saber o que pensar. Eu me aproximo de Gia, que nem se mexeu. Pelo visto, o remédio que deram a ela fez um bom efeito. Só espero que não atrapalhe a gravidez de alguma forma. Por um minuto, me contento em apenas observá-la, mas é impossível estar na presença dela e não querer tocá-la. Desta vez, não preciso me privar. Uma mão vai para seus cabelos loiros que estão esparramados pela cama. Eu não sei qual fixação que tenho pelos cabelos dela, mas trago uma mecha até meu nariz. O perfume de seu shampoo está bem lá no fundo, escondido pelo cheiro de hospital. Com cuidado, eu acaricio seu rosto. Ela está fria, e não sinto o calor que normalmente irradia de sua pele. A vontade que tenho é de acordá-la para


perguntar se está tudo bem mesmo, mas me contenho. Meus olhos vão para sua barriga, coberta por uma daquelas roupas de hospital. Não consigo ver muita diferença. Eu vejo Gia nua quase todos os dias. Como eu não percebi que ela estava grávida? Você estava olhando seus peitos deliciosos e aquilo que ela tem entre as pernas, que sempre te leva à loucura. Não estava nem um pouco preocupado se ele engordou um pouco ou se tinha uma barriguinha. Fico impressionado com a ideia de ter alguma coisa crescendo dentro dela. Lentamente, aproximo minha mão de sua barriga, mas hesito antes de encostar. Gia está grávida. Não posso acreditar nisso. Dentro dela, tem um pedacinho de mim. Permito então que minha mão encontre seu ventre. — O que você está fazendo aí? Quem deixou que você invadisse a barriga da minha garota? — eu sussurro para o local onde minha mão se encontra. Sem muita surpresa, não tenho resposta. — Já que você está aí, por favor, não crie mais nenhuma confusão. Eu não vou aguentar se tiver que ver sua mãe no hospital de novo. É a pura verdade. Gia tem o poder de evocar as emoções mais extremas em mim. Nunca pensei que poderia sentir com tanta intensidade. Tudo com ela é muito. Até quando brigamos as coisas escalam facilmente. Isso não deve ser normal. Não estou acostumado. Vê-la assim está mexendo comigo de uma forma que não sei explicar. Passei quase trinta anos sem saber o que é tê-la como o centro do meu universo, não estou disposto a deixar que ela vá embora. — Ouviu? Você não pode fazer com que ela volte pra cá. Quer ficar aí, tudo bem, fica. Mas não a tire de mim. Por favor, não a tire de mim e eu prometo que cuido de você. Prometo que vou ser o melhor pai desse mundo, mas essa é a minha condição. Antes dela, eu não estava vivo… apenas existia. Nunca pensei que um dia conversaria com uma barriga. Filhos não


estavam nos meus planos. Mas não há nada que eu não faça para poder estar com Gia. Até fazer promessas para uma criatura que ainda nem nasceu. — Se você não acordar logo, eu vou acabar enlouquecendo. Mas preciso resolver aquela situação antes que você acorde, princesa. — Dou um beijo em sua testa, que não dura mais do que dois segundos. Não quero sair de perto dela, mas me forço a deixá-la por um tempinho. Chamo Júlia para ficar ao seu lado, não quero que Gia fique sozinha. Está na hora de enfrentar meu melhor amigo.


Gael está andando de um lado para o outro na saída lateral do hospital. Quando ele me vê, estaca no lugar e me encara. — Você é um traidor, filho da puta — é a primeira coisa que ele me diz. Como se eu estivesse esperando qualquer outra coisa dele. — Eu vou deixar você me xingar o quanto quiser. Inclusive, se estiver com vontade, pode me dar um soco. Não vou te impedir. Mas depois vai ser a minha vez de falar e você vai me escutar. — Você acha que tem algum direito de me obrigar a qualquer coisa? Eu poderia esperar esse tipo de traição de qualquer pessoa, Lucca, mas nunca você. As palavras dele me atingem muito mais do que qualquer soco conseguiria. Ele sabe que não há nada mais importante para mim do que lealdade e está usando exatamente meu ponto fraco para me atingir. O que ele não sabe é que meu ponto fraco agora é outro: ele se chama Gia e está deitado num quarto frio de hospital. — Você agiu pelas minhas costas, transou com a minha irmã, mesmo sabendo que eu seria contra. E não tente dizer que ficou em dúvida sobre qual seria minha reação. Eu jamais aceitaria que você tivesse um caso com minha irmã. As palavras dele são certeiras. Quando quer, Gael sabe ser cruel, e toda sua ira está voltada para mim. Ele não vai ser gentil com as palavras, não mesmo. — Por que, Gael? Por que você não pode aceitar um relacionamento meu com ela? Não estou falando de um casinho bobo, uma trepada casual.


Estou falando de um relacionamento sério. — Você não é bom o suficiente para ela! — ele grita na minha cara. Estamos a centímetros um do outro e eu preciso me controlar para não dar um soco na cara dele e acabar logo com essa palhaçada. — Não, Gael. Na sua cabeça, ninguém nunca será bom o suficiente para ela. Ele não desmente. Não precisa. Sabe que o que eu acabei de dizer é verdade e não tenta negar. — Mesmo assim, você foi atrás dela. Não contente em comer a minha irmã, você ainda a engravidou! Gael tem os olhos arregalados e sua postura é a de quem está pronto para uma briga, mas não sinto o menor medo dele. Não porque eu sei como dar um soco decente e ele não, mas porque eu sei que isso tudo é apenas pose. Júlia estava certa: Gael pode ser um menininho mimado de vez em quando, principalmente quando alguém mexe com algo que ele considera dele — e Gia é sua irmãzinha perfeita, sua protegida. Eu preciso respirar fundo para não falar alguma merda. Este não é o momento de piorar as coisas agindo da mesma forma que ele e tentando jogar coisas na cara do outro. — Eu não comi sua irmã, Gael. Eu amo a sua irmã. Sei que qualquer coisa que eu disser você não vai assimilar. Nada passa pela sua cabeça depois que você decide alguma coisa, mas eu preciso que você entenda uma coisa: ela não é um brinquedinho pra mim. Eu não a trato da mesma forma que você trata as mulheres. Eu amo Gia e nós estamos juntos. Queira você ou não. — Quando, Lucca? — ele exige saber. Já chegamos a esse ponto, não adianta mais esconder qualquer coisa dele. — A primeira vez foi logo antes de Dante conhecer Clara — eu vejo quando os olhos dele se arregalam e sei que acabei de piorar tudo. — Mas


estamos juntos oficialmente há quase três meses. — Oficialmente… — ele bufa, dando um sorriso falso e balançando a cabeça de um lado para o outro, como se não acreditasse no que acabou de ouvir. É então que as coisas tomam um rumo que eu realmente não gostaria que tomassem. Gael me acerta um soco no rosto e eu cambaleio para trás. A dor me atinge em cheio e eu sei que terei um hematoma muito em breve. — Você é um traidor! Nunca pensei que meu melhor amigo fosse fazer isso. Você sabia, Lucca. Sabia! Foda-se se você a ama. Você. Não. É. Bom. O. Suficiente. Para. Gia. — E você é um idiota, Gael, que não se deixa ver que ninguém nesse mundo vai amar sua irmã mais do que eu. Que ninguém vai beijar o chão que ela anda como eu faço. Eu sei que eu não sou bom o suficiente para ela. Porra! Concordo com você que ninguém nunca será bom o suficiente para ela. Mas eu vou dar o meu melhor para que ela seja a mulher mais feliz desse mundo. O idiota começa a rir e eu sinto meu peito encher de raiva. Eu sabia que isso aconteceria. Sabia que Gael reagiria da pior maneira possível. Gia pode ter achado que eu estava exagerando, mas é uma vida de amizade, sei como ele funciona. Assim como sei que nada que eu disser agora vai fazer com que ele mude de ideia. — Você acha que essa promessa de amor eterno vai fazer com que eu mude de ideia? Sério, Lucca? — ele debocha. — Não, eu não acho. Mas precisava dizer assim mesmo. Agora, a escolha é sua. — A escolha já foi feita, e foi você quem a fez. Eu não vou perdoar você. Nunca. Nunca pensei que meu melhor amigo de trinta anos pudesse dizer isso para mim. Eu sabia que ele ficaria puto, sabia que ele não aceitaria, mas o


jeito como ele disse a última palavra faz com que eu pense que, talvez, esse seja o fim de nossa amizade. Ele está se afastando quando, de repente, para e vira para mim novamente: — Não é só pelo fato de você ter transado com a minha irmã. Mas por você ter escondido isso de mim por quase um ano. Eu não sei o que é pior: sua traição ou sua falta de confiança em mim. — Você não faz sentido, Gael! — eu grito. — Uma hora você diz que nunca aceitaria; na outra, você diz que eu ter mentido é o pior. Decida-se. Mas pense em Gia também. Antes de jurar ódio eterno, pergunte a ela se eu a faço feliz. — O pior é que você não entende… — ele diz, mas não conclui sua frase, me deixando sem entender o que ele quis dizer com isso. — Não entendo o quê? Ele não me responde, não diz mais nada. Apenas vira as costas e vai embora. Eu fico no mesmo lugar até perdê-lo de vista. ** — Gael é um babaca — Júlia diz, dando um gole do seu drink colorido. — Acho que ele foi um pouco longe demais dessa vez — Dante comenta. Estamos os três sentados no bar do Paraíso. Depois que eu apareci no quarto de Gia e eles viram o inchaço começar a tomar conta do meu rosto, me levaram para longe do hospital para que pudéssemos conversar um pouco. O médico nos garantiu que Gia ainda dormiria por, pelo menos, mais algumas horas. Pedimos para que Clara ficasse ali, já que Júlia disse que queria conversar comigo. — Eu sabia que ele não aceitaria, estava preparado para o soco, mas, de verdade, nunca pensei ouvir tanto ódio vindo dele — confesso e dou um gole do refrigerante. Por mais que eu deseje tomar uma cerveja gelada, minha mulher está no


hospital e eu quero voltar para lá o mais rápido possível. Se eles não tivessem insistido muito para eu vir até aqui, provavelmente não teria arredado o pé do hospital. Mas Clara me prometeu que, se Gia acordasse, ela ligaria na mesma hora. — Lucca, eu sei que você não está muito feliz com Gael neste momento. Nem eu estou! Mas vocês conhecem Gael melhor que eu e sabem que ele não muda de opinião facilmente. Não é só chegar e dizer que A agora é B. Ele é muito racional. Se você não prova, ele não acredita. — Eu sei disso, Júlia, mas é… — Por favor, me escuta — ela pede e se vira para mim. Dante, que estava entre nós, se levanta, ficando de pé ao meu lado. — Gael é muito mimado, sempre foi o centro das atenções. Era paparicado por todas as irmãs, o queridinho do papai, o gênio da família. A lista é enorme, assim como o ego dele. Gia sempre foi a pessoa que ele mais amou neste mundo. Mexer com ela é atrair a fúria dele. Pode ser um motivo aparentemente babaca, mas as coisas são como são. Só que tem mais um agravante que você não sabe. Dante dá dois tapinhas no meu ombro. Eu olho para o meu amigo, que apenas dá de ombros. Pelo visto, ele sabe qual é esse “agravante” que Júlia falou. Eu faço um sinal para que ela continue a falar. — Ele tem medo que Gia sofra ainda mais por sua causa. Eu ouvi as palavras que ela acabou de dizer, mas não entendo o significado delas. — Como assim, “ainda mais”? — pergunto, minha testa franzida, e dou mais um gole no refrigerante. — Lucca, Gia é apaixonada por você desde sempre — Dante diz. Eu olho dele para Júlia, que apenas faz que sim com a cabeça. Eu devo estar com uma expressão ridícula no rosto, porque os dois me olham e começam a rir da minha cara. — Ele não fazia ideia — Dante fala para Júlia, que continua rindo. — Eu imaginei que essa fosse a situação.


— Do que vocês estão falando? Como assim? Vocês estão me dizendo que Gia sempre foi apaixonada por mim? — Com exceção de quando ela se apaixonou perdidamente por um dos Backstreet Boys, sim. Ela te seguia pra cima e pra baixo, sempre querendo estar perto de você. Queria brincar de casamento, tentava se misturar com os seus amigos na escola… Sério que você nunca percebeu? — Júlia pergunta e prende seu cabelo em um rabo de cavalo. O gesto me faz lembrar de Gia, que também detesta quando o cabelo cai nos olhos. Não. Não pode ser. Gia não era apaixonada por mim. Nós sempre fomos amigos. — Ela sempre dava um jeito de te encontrar, de te chamar para um cinema, de comer uma pizza com você… — Júlia continua, como se, a qualquer momento, uma lâmpada fosse se acender em minha mente. Mas não é o caso. — Eu sempre pensei que fôssemos amigos. Só isso — tento me defender. — Para você era só isso. Para Gia, era o amor da vida dela a tratando como uma amiga. Porra! Eu me levanto do banco e começo a andar de um lado para o outro, tentando lembrar dos momentos que eu e Gia estivemos durante todos esses anos. Tudo sempre me pareceu muito… normal. — Eu juro para vocês que nunca nem desconfiei que ela pudesse ter esse tipo de sentimento por mim. — Eu sei disso, mas era óbvio, mano — Dante toma meu lugar no banco e dá um gole da minha bebida. Folgado. — Enfim, não importa se você sabia ou não. Gael a viu sofrer por você a vida inteira. Ela chorava todas as vezes que você beijava outra menina, e era Gael quem a consolava. Gia nunca escondeu dele o que sentia por você, e ele


segurava as pontas e dizia que, um dia, ela encontraria um cara que a mereceria. Isso explica muita coisa. Aquela reação de Gael, que na minha cabeça era totalmente exagerada, agora faz sentido. Merda. Como eu pude ser tão cego? Como eu pude fazê-la sofrer dessa forma? — Não se martirize por isso, Lucca. — Como não? A mulher da minha vida chorava por minha causa e eu não fiz nada para que ela se sentisse melhor. Eles falam várias coisas que eu não escuto. Bloqueio todos. Preciso falar com Gia, pedir desculpas, sei lá… Deixo os dois falando sozinho e vou em direção ao hospital. Nunca mais vou deixá-la sozinha e nem permitir que ela duvide o quanto eu a amo. Nós vamos ser uma família e eu vou fazer de tudo para compensar os anos que estivemos separados.


Quando abro a porta do quarto, Gia ainda está dormindo, mas vejo que seu sono não é mais tão tranquilo. Clara está ao lado dela, cantando alguma música bem baixinho. Ela nota minha presença e abre um sorriso tímido. — Ela estava chamando seu nome enquanto dormia — Clara diz e se levanta. — Espero que as coisas deem certo. Finalmente, estou sozinho com Gia. Eu tomo o lugar que Clara ocupava há pouco, mas não é suficiente. Preciso estar mais perto dela. Aproximo meu rosto do seu, escondo minha cabeça em seu pescoço. Mesmo mascarado com o cheiro de hospital, o perfume dela me acalma. Não sei quanto tempo passo assim, apenas me permitindo relaxar. Que dia! Estou quase pegando no sono quando sinto a mão de Gia brincar com meu cabelo. Eu me afasto dela rápido, louco para poder falar com ela, saber se tudo está bem. — Calma, eu estou bem — Gia diz, como se pudesse ler meus pensamentos. Eu não preciso dizer nada. Apenas encosto minha testa na dela, segurando seu rosto e impedindo que ela se afaste de mim. Minha respiração é ofegante e parece que tem algo bloqueando minha garganta. — Shhh, calma… — ela repete e sua mão vai para a minha cabeça. — Tudo está bem, amor. — Nunca mais, Gia. Por favor, nunca mais me dê um susto que nem esse — eu peço.


Quando ela emoldura meu rosto para me dar um beijo, eu tensiono. Ela afasta um pouco e vê o motivo para meu chiado. — O que foi isso, Mellis? — Ela tenta se levantar, mas eu não deixo e a empurro levemente para que fique deitada. — Não faça esforço, Gi… Por favor, você precisa melhorar. — Nós temos muitas coisas para conversar, mas, antes de qualquer outra coisa, quero saber que hematoma é esse no seu rosto. Ela começa a se levantar novamente e, em vez de impedi-la, eu a ajudo. Ajeito os travesseiros para que ela consiga se recostar. Sei que essa cama tem aqueles controles remotos que ajustam a altura e tal, mas não estou a fim de tentar entender como ela funciona. — Mellis… — Gael sabe de tudo e digamos que nossa conversa não foi das melhores. — Eu que deveria ter contado tudo a ele — ela diz, mas não quero que ela se martirize por algo que está fora do nosso controle. — Já passou. Depois conversamos sobre ele, ok? — Coloco uma mecha de seu cabelo atrás da orelha e dou um beijo em seus lábios. — Eu devo estar um horror — Gia fala e tenta ajeitar os cabelos, mas eu a impeço de continuar. — Não importa a situação, você é a mulher mais linda que eu já vi na minha vida — digo com sinceridade e a beijo novamente. Ela sorri contra meus lábios e eu finalmente me sinto mais em paz. A entrada do médico interrompe nosso momento. Ele conversa um pouco com a gente e explica para Gia o que aconteceu e as precauções que precisa tomar. O tempo todo eu seguro sua mão, servindo de apoio para ela. Não quero que ela se sinta desamparada nesse momento. O doutor Miguel explica um pouco sobre como uma gravidez funciona. Parece óbvio, mas tem muita coisa que eu não fazia ideia. Sempre ouvi as mulheres falando que estavam de não sei quantos meses, mas o obstetra


explica que a gestação é medida por semanas. Ele diz o nome de umas vitaminas que Gia precisa tomar e explica que ela precisará ter algumas restrições, principalmente por conta do que aconteceu. Ele passa a receita da progesterona, de remédios para casos de dor e enjoo e também faz uma lista de recomendações, principalmente alimentares. Também faz uma lista de exames que ela precisa realizar ao longo da gestação. Nunca pensei que ser grávida daria tanto trabalho. — Quando podemos saber o sexo do bebê? — eu pergunto, tentando fingir que sou útil e ligeiramente informado. — Muito em breve, na verdade. Pelo ultrassom que fizemos, ainda não deu para ver, mas sabemos que é apenas um feto e que está tudo normal com ele. Em duas semanas, acredito que vocês já consigam descobrir. Por conta do deslocamento, você terá que fazer mais algumas ultrassonografias para ter certeza de que a progesterona está fazendo o efeito desejado. Ele continua com a explicação detalhada do que aconteceu com Gia, que presta atenção a cada palavra que ele diz. Volta e meia, sua mão aperta a minha, como se ela estivesse precisando de algo concreto. Ouvimos tudo que o médico tem a dizer e somos liberados com uma lista enorme de restrições e recomendações, a mais importante é que Gia fique de repouso absoluto por tempo indeterminado. Ela tenta contestar, mas o doutor Miguel é irredutível. Nós perguntamos se ele atende em um consultório particular, mas ele diz que não e anota o número de um colega em quem confia. Quando ele nos deixa a sós, eu solto um suspiro aliviado. — Quanta informação… — digo e Gia, assustada, olha para mim. — Eu juro que não tinha ideia — ela começa a se justificar, mas eu apenas balanço a cabeça. — Gi… vai dar tudo certo. Eu tive uma conversa com nosso filho e nós chegamos a um acordo. Está tudo bem.


Ela me olha como se eu tivesse criado mais três cabeças e eu resolvo não dizer nada sobre o papo que tive com a barriga dela e o ser que lá habita. — E você está bem em ter um filho? — Gia pergunta e eu posso sentir a apreensão em sua voz. — Eu vou ser sincero. Não estava esperando ter um filho, muito menos descobrir nessas circunstâncias. — Tento não lembrar da voz desesperada de Gael ao telefone, mas é impossível. Ver Gia numa cama de hospital também não estava na minha lista de “coisas a fazer” do dia. — Mas é um filho nosso… E jamais eu pediria para que você tirasse essa criança. O momento não é perfeito, mas vamos fazer dar certo. Disso, eu não tenho dúvida. — E se eu quisesse tirar? — ela sussurra. — Eu seguraria a sua mão o tempo todo — digo sem um pingo de hesitação. — A escolha é inteiramente sua, Gia. Só que você precisa saber que, não importa o que você decidir, eu estarei ao seu lado, te amando a cada segundo e te apoiando sem pensar duas vezes. Minha voz é firme e meu olhar não desvia do dela por um segundo sequer. — Você acha que devemos abortar? — Gia pergunta, mas uma lágrima escorre por seu rosto, deixando claro que essa nunca seria a escolha dela. — Honestamente? — Ela faz que sim com a cabeça. — Eu acredito que devemos viver com as consequências dos nossos atos. Nesse caso, a consequência vai dar muito trabalho, mas eu jamais pediria para que você tirasse o nosso bebê. O momento pode não ser perfeito, mas essa criança será, assim como você é. Minhas palavras parecem ser suficientes para tranquilizá-la. Eu a abraço e deixo que ela tire de mim toda a confiança que precisa. Não tenho dúvidas de que conseguiremos. Quem diria que eu seria o primeiro do trio a ser pai? O pensamento logo me leva de volta a Gael e à conversa que tive com Dante e Júlia.


Eu preciso conversar com Gia sobre o que eles me contaram, mas não acho que este seja o momento certo. Não quero que nada a estresse. Decisão tomada, agora é descobrir como funciona essa parada de ter filho. ** — Lar, doce lar — ela diz assim que entramos na casa dela. — Por falar em lar, onde nós vamos morar? — pergunto, colocando-a na cama. Gia bufa e já sinto que será muito difícil manter essa mulher em repouso absoluto. — Acho que não precisamos ter essa conversa agora, né? Ainda temos alguns meses até que essa criança nasça. — Mesmo assim, precisamos decidir algumas coisas. Minha cabeça é um turbilhão de informações, mas ela tem razão: não precisamos decidir nada agora. Principalmente quando essas decisões serão permanentes. É então que eu me lembro de uma coisa que ainda não tinha parado para pensar. — Nós vamos nos casar?! — eu pergunto a ela, surpreso com a minha dedução. — Você não precisa ficar tão feliz assim, meu amor. Deixa um pouco de felicidade para mim. — O modo irônico como ela fala me faz perceber a merda que acabei de dizer. — Não foi isso… É que… — Lucca. — Gi, espera. Eu amo você, quero me casar com você e ter esse filho com você. Tudo que for com você eu quero. Eu já disse várias vezes que te amo, mas preciso que você entenda que eu nunca vou te deixar. Que isso entre nós é pra sempre. Quando vejo os olhos dela marejarem, eu sei que falei a coisa certa. Deito-me na cama ao seu lado e a encaro.


— Diz que você entende isso. Eu sei que não dei todas as provas de amor que você merece, mas, por favor, diz que você sabe o quanto eu te amo. Ela não me responde com palavras, mas permite que seus lábios encontrem os meus em um beijo cheio de emoção. As últimas doze horas foram confusas, cheias de problemas e sustos. Todos esses sentimentos estão presentes no nosso beijo. A cada toque dela, uma parte de mim se acende. É como se ela fosse a luz para a minha escuridão e eu só posso agradecer ao universo por ter-me feito abrir os olhos para o que sempre esteve bem na minha cara. Quando nos afastamos, nossas respirações estão ofegantes. Eu sei que ela não pode fazer esforço e sexo está fora de cogitação no momento, mas isso não me impede de tê-la em meus braços. Eu levanto da cama e removo minha roupa, deixando apenas a cueca para fingir que sou decente. Depois, ajudo-a a colocar uma camiseta limpa. Ficamos assim, deitados um ao lado do outro. Eu coloco minha mão sob a camiseta, encostando em sua pele, que agora está quente de novo. Acaricio seu ventre, imaginando o que virá a seguir. — Eu te amo mais que tudo nessa vida, Gia — sussurro ao pé do seu ouvido e sinto quando ela abre um sorriso. — Eu te amo, Lucca — ela diz e eu respiro aliviado. — Então, tudo vai ficar bem.


Gia Três meses depois Lucca Mellis. Quem diria que, um dia, eu acordaria com ele ao meu lado completamente nu e com uma ereção do tamanho de um trem cutucando minha bunda? Acho que, quando desejamos algo com muita intensidade, nosso desejo acaba se tornando realidade. Eu não sei exatamente quando foi que me apaixonei por ele, mas sei que, a cada dia, eu o amo mais — e de todas as formas imagináveis. Lucca pode não ser perfeito, mas é o homem perfeito para mim. Com apenas um olhar, ele sabe o que eu quero. — Bom dia, senhora Mellis — ele sussurra ao pé do meu ouvido, acariciando meus seios já sensíveis. Desde que me recuperei do susto que nossa filha nos deu, ele faz questão de demonstrar, a cada minuto do dia, o quanto me deseja. Não que eu esteja reclamando, muito pelo contrário. Acordar com ele beijando meu pescoço é melhor do que eu poderia imaginar quando tinha quinze anos. Principalmente quando ele levanta uma perna minha e me penetra com cuidado. — Porra… Que delícia, Gi. Todas as manhãs é assim. Quem diria que a rotina poderia ser tão prazerosa. Ele faz amor comigo de forma lenta, como se reverenciasse meu corpo, mas sei que ele fica preocupado com a minha gravidez, que ainda é


considerada de risco. Por mais que eu já esteja completamente apaixonada pela Bela, o desejo que sinto pelo meu marido fala mais alto. Ele brinca com meu clitóris enquanto continua com o entra e sai delicioso. Quando mordisca a minha orelha, meu corpo inteiro se arrepia e eu relaxo, permitindo que o orgasmo me tome. Ele vem logo em seguida, gemendo no meu ouvido e dizendo que não consegue viver sem mim. Lucca me vira para ele e me dá um beijo gostoso, que demonstra tudo que ele sente. Meu marido tinha medo de que eu não soubesse o quanto ele me ama, mas é impossível não saber. O jeito como ele me beija, como ele me olha, como sempre me coloca em primeiro lugar… Desde o início, ele deixou muito claro o que sentia por mim. Eu precisei ser muito persistente, mas, finalmente, consegui aquilo que queria. Nós nos casamos há alguns dias. Sem festa, sem nada. Não tinha clima para festão. Sem Gael, as coisas não são mais as mesmas nem para mim e nem para Lucca. Por isso, apenas assinamos os papéis. Lucca odeia ser o centro das atenções e eu tenho tudo o que eu quero aqui comigo. Uma festa não me faria feliz, pelo menos não hoje. Quem sabe quando eles fizerem as pazes? O que me faz feliz no momento é acordar todos os dias nos braços do homem que eu sempre amei, sabendo que nós dois estamos bem e que nossa filha, que está a caminho, será a criança mais amada desse mundo. Tanto pelos pais quanto pelo tio, tenho certeza.


Fiquem calmos que em breve teremos mais! Todas as dúvidas que vocês têm neste momento serão resolvidas no livro do Gael, que será lançado dia 17 de agosto de 2018. Fiquem muito tranquilos! Tudo vai dar certo. Fechem os olhos e confiem na tia Mari. Além disso, Nunca Vou Me Apaixonar será lançado em formato físico pela Sociedade Secreta Editorial no dia 1 de agosto, no Rio de Janeiro, e no dia 5 de agosto na Bienal de São Paulo. Quem não puder ir aos eventos e quiser adquirir os livros, basta ir no meu site: www.marimonni.com.br Além da loja, lá você pode conhecer um pouco mais sobre mim, ler meu blog e descobrir as próximas novidades. Já conhecem meus outros livros? Não?! Dá uma olhada: Uma Chance Para Amar Deixa-me Te Amar Nunca Vou Me Apaixonar Noite de Núpcias Meu Vizinho Indiscreto (em parceria com a Luísa Aranha) Meu Mecânico Indecente (em parceria com a Luísa Aranha) Um crush melhor que o outro !


Decidi que hoje serei muito breve nos agradecimentos. Em primeiro lugar, quero agradecer à minha família por todo o apoio que sempre me dão. Monnis, amo vocês! Ao Raphael e à Ane, lindos que me aturaram quase todos os dias enquanto escrevia esse livro. Sem o café de vocês, ele nunca teria ficado pronto. Lindos! À diva, divíssima, divérrima Andréia Evaristo. Ainda bem que posso contar com você para revisar meus livros em tempo recorde! Aos melhores parceiros do mundo! Vocês sabem quem são. Luísa Aranha. Você é uma figurinha tão repetida nos meus agradecimentos que nem sei mais o que dizer. Bla bla bla bla bla bla bla. Te amo! Camila Ratier, minha fotógrafa não profissional mais profissional do mundo. Muito obrigada por todo carinho. Te amo. Debs, minha capista maravilhosa, que a cada capa se supera. Quero você pra sempre do meu lado! Camila e Danilo Deus Dará, obrigada por me aceitarem na melhor casa editorial de todas. Tenho muito orgulho de ser parte dessa família. Um agradecimento especial para cada um de vocês que leram Nunca Vou Me Apaixonar e me mandaram inúmeras mensagens pedindo o livro do Lucca. Obrigada por cada palavra! Vocês não têm ideia de como me emocionam e motivam. Por vocês, vale a pena continuar! Nos vemos no livro do Gael!


Escritora, revisora e tradutora, Mari Monni recentemente deixou sua vida de professora para se dedicar às palavras escritas em vez das faladas. Depois da sua filha, os livros são suas maiores paixões. Nascida no Rio, mas apaixonada pela vida no interior, é mãe solo de uma filha princesa e de um filho canino. Aprendeu que os livros podem ser bons companheiros em tempos difíceis e brinca que seu Kindle é seu melhor amigo. Apaixonada por histórias de romance, sejam elas clássicas ou new adult, está sempre em busca de um novo crush literário. Em 2017, criou coragem para correr atrás do seu sonho e lançou sua primeira obra. Desde então, não para de escrever histórias com humor, sexo e finais felizes. Jura que é uma pessoa legal e adora conhecer gente nova. Não tem paciência para frescuras e é viciada em café, coca cola, livros e sorrisos. Quer falar comigo? Entre em contato pelas redes sociais. Será um prazer ouvir o que você tem a dizer. Aceito sugestões como, por exemplo, “Mari, quero o livro do Lucca!”. Instagram: @marianamonni Facebook: mariana.monni


Facebook: Mãe Solo Procura – Livros da Mari Monni Já conhece meus outros livros? Uma Chance Para Amar Deixa-me Te Amar Meu Vizinho Indiscreto (escrito em parceria com Luísa Aranha)

Próximos lançamentos: Aprendendo a Amar Meu Mecânico Indecente (em parceria com Luísa Aranha) Casada Por Acidente Diário De Uma Adolescente Em Crise Posso pedir um favor? Leu? Gostou? Deixa uma avaliação! É muito importante para mim.

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Nunca Vou Me Entregar - Mari Monni  

Quem nunca teve um amor proibido que atire a primeira pedra. Eu, com certeza, tenho o teto de vidro. Quando meus dois melhores amigos vieram...

Nunca Vou Me Entregar - Mari Monni  

Quem nunca teve um amor proibido que atire a primeira pedra. Eu, com certeza, tenho o teto de vidro. Quando meus dois melhores amigos vieram...

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