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Copyright © 2018 Sara Ester Capa: Barbara Dameto – Babi Designer Revisão: Sara Ester Diagramação Digital: Sara Ester

Esta é uma obra ficcional. Qualquer semelhança entre nomes, locais ou fatos da vida real é mera coincidência. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sob quaisquer meios existentes sem a autorização por escrito da autora. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na lei nº. 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do código penal.


Sinopse Ana Morais havia sido criada com todo o amor e mimos possíveis. Acostumou-se a ter sempre o que queria, pois tinha uma forma sutil de manipular as pessoas ao seu redor. Assim fazia com Lucas para tê-lo a sua mercê sempre que desejasse. Os dois possuíam uma conexão desde muito cedo, apesar de Ana ser quatro anos mais velha, isso não os impediu de descobrirem tudo um com o outro, até os prazeres da carne. O maior problema foi Ana ter decidido estudar fora do país deixando um Lucas destroçado emocionalmente. Ela agiu de maneira egoísta e não pensou nas conseqüências que isso teria na vida, e no coração deles futuramente. Em seu retorno, ela esperava encontrar Lucas exatamente como o havia deixado anos atrás, contudo, nada mais era como antes. Lucas não era mais um menino apaixonado e meigo... A decepção o transformou em um homem frio e ligeiramente detestável aos olhos de alguns. "— Acreditou que eu esperaria por você, Ana? Por que eu faria isso garota? — Eu pensei que... — Que eu a amava? — Sim... — E você estava certa — confirmou rancoroso. — Amei-a imensamente e sofri da mesma forma quando me abandonou. — Mas não abandonei você Lucas, eu... — Abandonou, sim! — cortou-a em um misto de mágoa e irritação. — Zombou do que tínhamos e saiu sem olhar para trás. Você nega? — Lindos olhos amendoados se ergueram para ele, completamente úmidos. — Estou arrependida — sussurrou. Uma risada sarcástica escapou da garganta dele. — Desculpa gata, mas esse problema não é meu — falou o mais cruel que conseguiu. — Se me quiser novamente, entre na fila."


Conteúdo Sinopse Prólogo Lucas Capítulo 1 Ana Morais Cinco anos depois Capítulo 2 Ana Capítulo 3 Duas semanas depois Capítulo 4 Ana Capítulo 5 Ana Capítulo 6 Ana Capítulo 7 Ana Capítulo 8 Ana Capítulo 9 Ana Capítulo 10 Ana Capítulo 11 Capítulo 12 Lucas Capítulo 13 Ana Capítulo 14 Ana Capítulo 15 Ana Capítulo 16 Ana Capítulo 17 Ana Capítulo 18 Ana Capítulo 19 Ana Capítulo 20


Ana Capítulo 21 Ana Capítulo 22 Ana Capítulo 23 Ana Capítulo 24 Ana Capítulo 25 Ana Capítulo 26 Ana Cinco dias depois Capítulo 27 Lucas Capítulo 28 Ana Capítulo 29 Ana Capítulo 30 Ana Epílogo Três anos depois Fim


Prólogo Lucas — A Ana está em casa, senhora Emily? — Está sim, querido. Assentindo com alegria, eu me voltei para a escada e subi de dois em dois degraus. Ansioso demais para vê-la. Passei pelo corredor em uma erupção de adrenalina até estar diante do quarto dela. Dei duas batidas na porta e a abri sem esperar por respostas. — Lucas! Ana estava completamente nua, coberta apenas por uma toalha branca. Eu não tive reação alguma, estava hipnotizado diante de toda a cena. Obviamente que já havíamos nos tocado mais intimamente, contudo jamais a ousadia ultrapassou o limite. Ana e eu nunca tínhamos transado. Percebi que o olhar dela desceu para o volume entre minhas pernas, sob minha calça jeans, e tentei disfarçar ajeitando-o, mas nada resolvia. Eu estava duro, feito rocha. Ana e eu namorávamos desde quando éramos crianças, de início de forma boba, lógico! Até o momento em que a malícia se fez presente entre nós dois. Ela era mais velha do que eu, mas ainda sim, nos descobrimos juntos. Nosso primeiro beijo, nosso primeiro amasso, nossa primeira briga... Eu temia que ela se cansasse de mim algum dia, afinal de contas, ela tinha dezenove anos e eu somente quinze. E se ela cismasse em me trocar por um cara mais experiente? — Feche a porta, Lucas — Ela disse com voz rouca sem deixar de me olhar. Fiz o que ela pediu, incapaz de deixar escapar qualquer detalhe de seu corpo. Segurei a respiração quando ela caminhou até mim. De olhos arregalados, eu assisti quando ela deixou a toalha deslizar aos seus pés. Não consegui desgrudar o olhar em nenhum momento, ansiava


conhecer e gravar cada nuance do seu corpo magnífico. Sorrindo maliciosamente, ela se aproximou um pouco mais e me fez tocá-la. Minhas mãos estavam trêmulas e eu tive medo... Medo de não agradá-la ou de não saber o que fazer na hora. — Ana... — Shiu... — sussurrou, colando o corpo no meu. Esticou o braço ao meu lado e escutei o momento em que chaveou a porta. Seus olhos nunca deixando os meus. — Eu quero que seja com você. — Pegou minhas mãos e repousou-as em seus seios médios. Gemi. Deliciado demais para me opor àquela idéia. Os nossos amassos sempre me deixavam desejando ardentemente que aquele momento se concretizasse entre nós. Contudo, eu nunca havia forçado a barra. Mesmo estando nervoso, eu colei nossas bocas consumindo seus lábios em um beijo quente e esfomeado. Eu seguia os meus instintos, tocando-a nos lugares que eu achava que ela teria prazer. E assim continuou pelos minutos seguintes. Quando a repousei sobre a cama e deslizei meus lábios por seu corpo, ela se contorceu. Cheguei ao centro do seu prazer tomando o cuidado de permanecer algum tempo ali. Lambendo... Chupando... Mordendo... — Você é tão... Linda — Seu corpo ainda se recuperava dos espasmos do recente orgasmo, quando me deitei sobre ela. — Eu te amo tanto, sabia? — Toquei nossos lábios, fazendo-a sentir o próprio sabor ainda preso em minha língua. Seus olhos deixaram os meus por um momento. Ela esticou o braço e retirou um preservativo de dentro do criado-mudo. — Estou com ele há alguns dias — falou referindo-se ao preservativo. — Só estava sem coragem de te propor. — Mordeu os lábios, constrangida. Ajoelhei-me na cama e rapidamente nos preveni com a proteção. Assim que voltei a deitar sobre ela, suas pernas abraçaram-me pela cintura. Gemi quando nossos sexos se tocaram. — Eu prometo que irei devagar — gemi, excitado demais. — Está pronta? Sua mão puxou-me pelo pescoço e logo seus lábios estavam nos meus, esfomeados. Lutei para controlar a tentação de avançar com tudo para dentro dela.


Lentamente, eu comecei a introduzir-me com calma e cuidado. Afastei o rosto para poder olhar em seus olhos conforme eu ia avançando um pouco mais. O olhar de safada que ela estava me direcionando em nada me ajudou e, quando percebi avancei os últimos centímetros com um tesão desenfreado, e ela reclamou. — Está doendo? — perguntei com o coração acelerado. Ela segurou meu rosto com ambas às mãos e, eu colei nossas testas respirando com dificuldade. — Só espera um pouquinho — pediu com a voz entrecortada. — Eu estou gostando, bebê... Franzi a testa, irritado com aquele apelido idiota que ela havia me dado. Levei a boca em seu ouvido e sussurrei: — O bebê vai mostrar do que é capaz. — Mordi sua orelha e ela gemeu quando retomei as investidas. Comecei a criar um ritmo firme e constante nas estocadas. Ana mordia os lábios para evitar com que os gemidos fossem ouvidos no corredor. Eu temia que meu tio James nos flagrasse, mas ao mesmo tempo, pouco me importava. Nada e nem ninguém me faria deixar Ana naquele momento. — Ana... — ergui o quadril e investi outra vez, repetindo o movimento —, eu não aguento mais. — Gemi roucamente. — Goza comigo, amor. Os seus músculos pélvicos me apertaram com força e intensidade. Segurei seu rosto quando tive a certeza de que ela estava tendo outro orgasmo. — Olhe nos meus olhos — ordenei. — Quero que veja que sou eu a estar proporcionando esse prazer a você. — Minha respiração acelerou devido à adrenalina correndo velozmente em minha corrente sanguínea. — Sou eu quem a está fodendo, eu quem está fazendo amor com você, Ana... Eu... No momento seguinte, o clímax nos atingiu com força e, juntos descobrimos um dos melhores prazeres da vida. Exausto, eu me joguei ao lado dela na cama. — Eu amo você, Ana. — Afundei o rosto em seu pescoço. Estávamos suados, cansados e com respirações aceleradas. Quando ergui a cabeça, ela estava me olhando com os olhos brilhantes. Um sorriso pairava em seus lábios. — Ao menos você terá uma lembrança minha — comentou e franzi a testa em confusão por suas palavras. Apoiei a cabeça sobre a mão. — Do que está falando? — Levei a mão até o seu seio e não resisti em


beliscar o seu mamilo eriçado. Minha ereção acordando outra vez. — Eu viajarei para Londres — Ela disse com a maior calma do mundo. — Fui aceita na The Royal Ballet School — explicou. Atônito, me ajeitei na cama. — Que papo é esse, Ana? — intimei angustiado com a possibilidade de não vê-la por algum tempo. — Pretendia me contar? Conversar comigo sobre isso? — Estou contando agora, oras. Eu já aceitei ir, Lucas. Caramba! Será importante para mim. — Ah, você já aceitou? — irritação tomou meu semblante e me levantei buscando minhas roupas, espalhadas pelo chão. — E o que o otário do seu namorado tem a ver com isso, não é mesmo? O que eu sou para você, Ana? Um passatempo? Um experimento? Ela revirou os olhos e desceu da cama. — Deixa de ser dramático, Lucas, pelo amor de Deus! — reclamou e veio até mim. O cheiro de sexo estava entranhado entre nossos corpos nus. — Eu prometo que não vou mais, então — disse ela sorrindo. Sua mão deslizou por meu peitoral e repousou em minha ereção, rígida outra vez. — Mas, você precisará repetir o que acabamos de fazer. — Sua língua lambeu meus lábios cerrados. — Terá que me proporcionar diversos orgasmos maravilhosos, intensos... E deliciosos... Ambos sorrimos e derrubei seu corpo na cama, avançando sobre ela com a mesma fome de antes. ♥ No outro dia, eu acordei tarde, exausto da sessão noturna que tinha tido com a Ana. Mordi os lábios com as lembranças de nossas aventuras. Depois disso, a nossa conexão havia aumentado. Nos tornamos mais íntimos em nosso relacionamento. Eu pude sentir nos olhos dela. Cansado de continuar deitado, me levantei. Por ser fim de semana, eu pensei em convidá-la para um passeio. Com a faculdade, ela quase não tinha tempo para sair comigo. — Lucas? A voz da minha mãe me despertou dos pensamentos aleatórios. — Oi, mãe — respondi ainda sentado na cama. Meu corpo parecia anestesiado devido às lembranças deliciosas. — Ainda não está pronto? — Ela intimou assim que abriu a porta do meu


quarto. Franzi o cenho. — Pronto para quê? Com os olhos revirados, ela caminhou em direção ao meu roupeiro e escolheu uma peça de roupa para mim. — Arrume-se — ditou, enquanto deixava as roupas ao meu lado na cama. — O vôo da Ana para Londres, sai daqui à uma hora. Eu estava sentado e ali mesmo fiquei. Chocado demais para reagir. Aquilo não podia ser verdade, pois ela havia me garantido que não iria mais viajar. Corri até o celular e disquei o número dela. — Não fica chateado comigo, Lucas — disse assim que atendeu. — Você não me deu opção, poxa... — Por que você me enganou? Por que mentiu para mim? — E o que queria que eu dissesse? — retrucou. — A verdade, porra! Que inferno! Sequer pensou em mim ou em nós dois? — Ela ficou muda. — Por acaso pensa que vou esperá-la? — Eu não quero que me espere — falou por fim, terminando de me arrasar. De coração partido, eu finalmente consegui compreender. Ela nunca me amou de verdade. O amor que eu devotava não era mútuo. O nosso relacionamento era somente uma via de mão única. — Não esperarei. Desliguei e joguei o celular longe. Olhei para o anel de compromisso e o arranquei com raiva do dedo. Nunca mais deixaria mulher alguma me ferir como ela fez. — Chega de ser bonzinho — rosnei em revolta. — Agora o lobo mal entrará em cena.


Capítulo 1 Ana Morais Cinco anos depois Vi-me em um estado intenso de emoções conforme empurrava minha pesada mala de rodinhas pelo salão do aeroporto de Joinville. A sensação de estar voltando para casa me deixava sem ar, me deixava em êxtase. Apesar dos anos fora, eu não podia me queixar, pois foram extremamente importantes para mim. Londres não foi somente uma aventura, mas o início para a carreira, cujo qual escolhi seguir na minha vida. Um grito alto chamou minha atenção e soltei uma risada assim que me deparei com minha irmã, Raquel, correndo em minha direção. Meus pais vieram logo em seguida. — Oh, meu Deus! Quantas saudades, Ana — disse Raquel me abraçando com força. Apesar de nos falarmos constantemente, eu me peguei surpresa com a mudança dela. Minha irmã tornou-se uma bela mulher —, pensei. No auge dos seus quase quinze anos, ela irradiava beleza. Minha mãe me puxou para ela com o rosto em prantos, enquanto eu lutava para me controlar e não chorar também. — Eu disse que não queria todo esse chororô — resmunguei sorrindo. — As mães podem! — ela replicou com a voz embargada. Em seguida, ela me soltou e eu me vi diante do meu pai. James poderia não ser meu pai biológico, mas isso era apenas um mero detalhe perto do lindo laço que ambos criamos entre nós dois. Emocionada, eu o abracei com força. Deixei com que toda a saudade que senti dentro daqueles cinco anos fosse absorvida por todo aquele amor. — É bom estar em casa — falei, ao olhar para eles. Longos minutos depois, meu pai estacionou na garagem de casa. Eu sequer era capaz de tirar o sorriso dos lábios, tamanha era a minha euforia. Rapidamente, abri a porta do carro e me vi no lindo jardim. Meus olhos


sequer perderam os detalhes da varanda — cenário de tantos momentos divertidos em família. Dentro da casa, em meio a risadas, mamãe, Raquel e eu subimos para meu antigo quarto enquanto o papai permaneceu no andar de baixo falando com alguém ao telefone. Larguei minha mala num canto do quarto e inspirei devagar. O cômodo era simples, com cores abstratas. Não havia luxo ali, pois nunca gostei de exagero em nada na minha vida. Ao olhar em volta, meus olhos focaram algo que chamou minha atenção imediatamente ao lado da cama. — Ainda está aqui... — falei para mim mesma enquanto analisava a foto do auto-retrato sob o criado-mudo. Era uma foto minha com o Lucas, ainda crianças. Senti o toque das mãos da minha mãe em meus ombros quando ela me abraçou pelas costas. — Eu o convidei para ir ao aeroporto conosco, mas ele... — Ele disse que não tinha nada a fazer lá — Raquel concluiu, recebendo uma advertência da mamãe em seguida. — O que foi? É a verdade — defendeuse. Nervosa, voltei a repousar o auto-retrato no criado-mudo e lutei para encontrar de volta o equilíbrio da minha respiração. Droga! Ainda não estava pronta para me lembrar do Lucas. — Filha, não se preocupe com isso. Tenho certeza que vocês terão tempo para conversar com calma. Virei-me para ela e sorri fraco. — Bom... — ela esfregou uma mão na outra enquanto olhava de mim para a Raquel, sentada na cama —, vou lá embaixo preparar o nosso almoço. Eu ri do enorme sorriso bobo pairando nos lábios dela antes de ela sair do quarto deixando-me sozinha com Raquel. Retirei os sapatos e me joguei na cama. Raquel me aconchegou em seus braços e lentamente passou a fazer carinho em meus cabelos soltos. — Vai, pode perguntar — disse ela, e senti seu tom de riso. — Não tenho nada para perguntar — resmunguei. Ouvi a sua gargalhada debochada, e me irritei. — Tenho vinte e quatro anos, Raquel, por que acha que quero saber do pirralho do Lucas? — Porque em todos esses anos, você me perguntou dele em cada ligação — ela respondeu.


Nervosa, eu ergui o corpo. Contudo, não consegui falar nada. — E, além do mais, Lucas cresceu, sabia? São plenos vinte anos de muito músculo e muita testosterona, eu devo salientar — ela concluiu. Atônita, eu olhei para ela e a peguei com a expressão risonha. — Não acredito que disse isso! — ela gargalhou e não resisti em fazer o mesmo. — Lucas me odeia, Raquel, eu sei disso. — O tempo tem o poder de apagar as feridas. — E as boas lembranças também — rebati amargurada. — Ah, lá vem ela com esse pessimismo idiota! — exclamou para si mesma e eu ri. — Olha só, a verdade que sabemos é que foi você a magoar o coração dele, certo? — Assenti. — Então, obviamente que se o quer de volta, você deve lutar para reconquistá-lo. Franzi os lábios. — Eu não sei, Raquel. — A mamãe não contou, mas ela fará um jantar em comemoração ao teu retorno. Certamente convidará a família dele. Meu coração acelerou com a possibilidade de revê-lo. — Ele virá? — Saberemos mais tarde. Beliscando meu nariz com a ponta dos dedos, Raquel saiu da cama enquanto me oferecia um sorriso lindo. Ao som da porta se fechando, eu me vi sozinha no quarto. Ajeitando-me melhor entre os travesseiros, eu deixei com que minha mente me levasse a um passado não muito distante. Lucas sempre foi especial para mim, apesar de eu nunca tê-lo priorizado de uma forma igual. O amor que ele devotava a mim não era devolvido com a mesma intensidade. Eu o amava sim, mas pensava que não era um sentimento forte. Me enganei... O tempo que fiquei em Londres, os rapazes, no qual conheci me mostraram que eu estava errada. Percebi que meu amor por Lucas crescia a cada dia e de uma forma dolorosa, pois eu não o tinha mais presente em minha vida. Os beijos dele já não eram mais para mim, os sussurros românticos não eram mais meus... Eu o havia perdido. Naquele momento, me peguei chorando. Desesperada, corri até a porta do quarto e chamei a Raquel. — Empresta o teu celular?


Não precisou de explicação, pois ela sabia que eu pretendia falar com o Lucas, uma vez que, ele bloqueou todos os meus números durante aqueles anos. Novamente no quarto, sentei na cama. Disquei o número dele e aguardei. — Fala, Quel — disse ao atender. Sorri com o apelido carinhoso. Era tão ridículo o fato de eu sequer conseguir falar. Minha garganta estava fechada, devido ao desejo de chorar. — Raquel? Ainda está aí? — insistiu, com um tom de voz diferente. Forte. Másculo. — Não é a Raquel — soprei com a voz trêmula. Eu estava muito nervosa. A linha ficou muda e eu temi que ele tivesse desligado, mas seu timbre de voz voltou a ecoar: — Ana. Mordi os lábios e me peguei fechando os olhos em deleite ao tê-lo pronunciando meu nome com aquela intensidade toda. Imagens dos nossos últimos momentos juntos antes da minha viagem se fizeram presente em minha mente e eu quis chorar. Naquele instante, eu percebi que nunca tinha dito que o amava, e ele merecia ter ouvido. — E-eu estou de volta. Cheguei hoje de Londres, e pensei que poderíamos nos encontrar. Lucas, eu... O telefone ficou mudo. Olhei para a tela do aparelho e percebi que ele tinha encerrado a ligação. Droga! Ele ainda está com raiva —, pensei entristecida. Aquela constatação, apesar de óbvia, me deixou destroçada.


Capítulo 2 Ana Já fazia alguns minutos que eu estava parada no Box do banheiro enquanto deixava a água quente deslizar sobre meu corpo. De olhos fechados, eu recordava de maneira frenética o som da voz do Lucas ao telefone. Céus! Eu não imaginei o quanto almejava aquilo até ouvi-lo. Meu peito se inflou de amor, e agora eu tinha plena certeza de que o queria de volta. Desliguei o chuveiro e me enrolei na toalha. No quarto, eu fui até a mala — ainda do mesmo jeito. Na verdade, eu teria que conversar com meus pais, pois a minha idéia era alugar um apartamento para mim no centro da cidade. Um lugar próximo ao instituto, no qual, eu começaria a dar aulas de dança dentro de alguns dias. Como seria apenas um simples jantar em família, eu optei por um jeans e uma blusa de alças. Calcei uma sapatilha e desci. Assim que cheguei ao pé da escada, ouvi o som de vozes vindo da varanda. Minha mente dizia que o Lucas não estava ali, mas a esperança me levou até lá com o coração galopando de ansiedade. — Oh, meu Deus! Ana, você está ainda mais linda. — Abri os braços para receber o forte aperto da minha tia Marie. — Olhe para você... — seus dedos desenharam a linha do meu rosto, até repousar um beijo em minha testa —, tornou-se uma bela mulher. Sorri sem jeito, mas agradeci. Em seguida, cumprimentei o meu tio Andrew, que por sua vez, continuava tão charmoso quanto o meu pai. Joana, a filha mais nova deles, também estava presente. Ela era três anos, mais velha do que a Raquel, mas minha irmã possuía um corpo mais torneado, deixando-a com um aspecto mais maduro. Depois de alguns minutos de muito abraço e piadas, resolvi me sentar na rede, pois o jantar ainda não havia sido servido. De repente, senti um beijo em minha bochecha. Raquel se aconchegou perto de mim.


— Pensou que ele viria, não é? — perguntou. Dei de ombros. — O papai comentou que ele ficou na academia treinando — ela acrescentou. Arqueei as sobrancelhas. — Eu não sei muito bem, mas parece que ele faz parte da equipe elite da academia. Lutadores. Peguei-me tentando imaginar o quanto os pesados treinos modificaram o corpo dele. Lucas desde cedo já demonstrava a sua paixão por lutas, e sempre deixou claro que desejava treinar com o papai. — Está ouvindo, Ana? Pisquei confusa. — O que disse? Ela revirou os olhos para mim. — Eu disse que você deveria ir à academia. Ele não quis vir até você, mas nada a impede de ir até ele — propôs com expressão sapeca. — Será? Fiquei pensativa por alguns instantes. — Meninas, vêm jantar — mamãe nos chamou. — Pegue as chaves do carro da mamãe. — Raquel ofereceu em um sussurro. — Mas... mas... — Mas, mas... — ela me imitou com impaciência e eu ri. — Vá atrás dele, guria. Não seja medrosa, pelo amor de Deus! Meus olhos estavam arregalados quando ela se afastou. O que foi isso? —, perguntei-me com vontade de rir. Balançando a cabeça, saí da rede e segui direto para o jardim. O carro da mamãe ainda era o mesmo, um utilitário em tom vermelho. Destravei as portas e entrei. Meu coração estava aos pulos devido à adrenalina que corria em meu sangue, mas meu corpo parecia eufórico com o desejo de novamente estar diante do Lucas. Uns vinte minutos depois, eu estacionei em frente à academia do meu pai. A fachada havia mudado um pouco. Agora, levava a imagem de um grupo de jovens. Percebi que a porta estava chaveada, mas havia alguém no lado de dentro, pois as luzes estavam acesas.


Estiquei os lábios sem saber como fazer para entrar, até olhar para o molho de chaves em minha mão. Era mais do que óbvio que minha mãe teria uma cópia da chave do lugar. Balancei a cabeça, ainda sorrindo e levei a chave à porta. Instantes mais tarde, eu estava do lado de dentro. Nervosa, comecei a caminhar em direção ao local onde era feito os treinos. Ao longe, eu pude ver a silhueta de alguém sob o tatame. Firmei os pés ainda na porta da sala. Lucas. Analisei seu perfil de costas e mordi os lábios diante da mudança considerável no corpo dele. Havia músculos em suas coxas desnudas; suas costas estavam mais largas; os braços maiores impulsionavam os golpes com extrema fúria contra o saco de areia. Ele parecia irritado. Será que tinha a ver comigo? Larguei as chaves sobre uma mesa e retirei minhas sapatilhas. Ao mínimo som, ele percebeu a minha presença e se virou. Antes, estávamos separados pelo intenso oceano, agora, por apenas alguns metros. Eu sabia que ele não queria me ver; sabia que estava magoado. Contudo, se ele ainda sentisse algo por mim, eu estava mais do que disposta a lutar. Conforme eu caminhava na direção dele, observei seus movimentos. O olhar direcionado a mim não era de todo ruim, mas também era inelegível. Ele não demonstrava nada. Diante dele, eu sorri e mordi os lábios ao notar o quanto ele estava deliciosamente suado e forte. Sim, muito forte! Sem deixar de me olhar, ele arrancou as luvas de Boxer das mãos. — O que faz aqui? — enfim veio a pergunta em tom rude. Céus! Que voz grossa era aquela? Como pude perder tamanha mudança? Mordi os lábios, nervosa. — Que eu saiba, essa ainda é a academia do meu pai — respondi irritada com ele. Balançando a cabeça, ele ergueu os braços antes de ameaçar se afastar de mim. Droga! — Espera, Lucas! — Ele freou os passos. Voltei a me aproximar, lutando contra o desejo de tocá-lo. — Você sabe que eu estou aqui por você, poxa... Eu


queria vê-lo. — Por quê? Franzi a testa e uni as mãos. Eu estava trêmula diante do olhar perturbador, no qual, ele me lançava. Poderia responder facilmente aquela pergunta dizendo que ainda o amava, mas certamente ele se zangaria mais do que parecia estar zangado. — Eu senti saudades — respondi no fim. Estávamos ao lado de outro saco de areia, que por sua vez, foi massacrado pela fúria do Lucas. Pulei de susto com o rosnado que saía da garganta dele conforme ele desferia os golpes. — FORAM CINCO ANOS, ANA! MALDITOS CINCO ANOS! Eu me encolhi, abraçando-me. De repente me senti um ser insignificante. Senti-me um monstro perante a dor estampada através dos olhos dele. Ele parou e respirou profundamente por alguns instantes. Depois, se voltou até mim com o dedo em riste: — Acreditou que eu esperaria por você? Por que eu faria isso garota? — Eu pensei que... — Que eu a amava? — Sim... — E você estava certa — confirmou rancoroso. — Amei-a imensamente e sofri da mesma forma quando me abandonou. — Mas não abandonei você Lucas, eu... — Abandonou, sim! — cortou-me em um misto de mágoa e irritação. — Zombou do que tínhamos e saiu sem olhar para trás. Você nega? Meus olhos se ergueram para ele, completamente úmidos. — Estou arrependida — sussurrei. Uma risada sarcástica escapou da garganta dele. — Desculpa gata, mas esse problema não é meu — falou o mais cruel que conseguiu. — Se me quiser novamente, entre na fila. Boquiaberta, eu não tive reação alguma nem mesmo quando ele me deixou sozinha e seguiu para o vestiário. A todo o momento, a minha mente buscava ligar as personalidades... O Lucas, no qual, eu deixei há cinco anos, jamais falaria dessa forma tão rude. “— Mas como você pensava em ser tratada?” — veio a pergunta do meu subconsciente.


Esfregando o rosto com a mão, eu enxuguei as lágrimas e fui atrás dele. Ao chegar no vestiário, eu o encontrei com as mãos espalmadas sobre o piso de mármore branco enquanto a forte corrente de água batia em suas costas musculosas. Prendi a respiração ao admirar a sua nudez. O corpo dele era ainda mais magnífico daquela forma. Assim que ele percebeu que eu estava ali, começou a rir descontrolado. — Ainda não entendeu, garota? Virou o corpo para mim e engoli em seco. Lucas parecia um animal preso em uma jaula, contudo a irritação dele começou a me deixar incrivelmente excitada. De repente, eu mirei os olhos entre suas pernas e senti um calor em todo o meu corpo ao me deparar com a rigidez do membro. Voltei a encarar seu rosto e notei que ainda havia raiva, mas o desejo estava se sobressaindo. Lentamente, comecei a me despir e quando me dei conta, eu também estava nua. Com alguns passos, estávamos a centímetros um do outro. O jato de água lavando nossos corpos ardentes. Lucas ergueu a mão e repousou-a em minha nuca, de modo, a firmar minha cabeça. Sua boca entreabriu como que para falar alguma coisa, mas desistiu. No instante seguinte, ele me beijou. Um beijo que consumiu todas as minhas forças; todo o meu raciocínio e autocontrole. As enormes mãos deslizaram por minha pele e agradeci por ele estar me segurando ou eu desfaleceria. Gemi, quando sua boca desceu com beijos pelo meu pescoço, tomando o cuidado de permanecer entre meus seios. Chocando minhas costas contra o mármore, ele decidiu me castigar com carícias deliciosas e enlouquecedoras. Levei a mão até o meio de suas pernas e passei a masturbá-lo com maestria. Os gemidos roucos que escapavam de sua garganta me deixavam ainda mais inebriada e excitada. Eu queria gritar. Ansiava dizer o quanto o amava e sentia muito. Arquejei no momento em que ele levou os dedos em meu clitóris e passou a massageá-lo. Afastando o rosto para me olhar, notei o quanto seus olhos estavam pesados de luxuria. — Não pretendo penetrar meu pau em você sem camisinha — murmurou sério. Chocada com suas palavras, eu senti meus olhos inundarem. — Por quê? Está com nojo de mim? Por acaso pensa que sou alguma vadia, Lucas? Minha acusação pareceu despertá-lo e ele prendeu-me contra a parede quando tentei escapar de seus braços.


— Não é nada sobre você, Ana. Eu não soube me expressar, na verdade. — Ele levou a boca no meu queixo e lambeu minha pele. — Nunca transo sem camisinha. Nunca. Não há exceções entre minhas parceiras. Sequer consegui administrar o turbilhão de emoções dentro de mim. A dor causada pelas suas recentes palavras me dilacerou por dentro. Meu corpo esfriou. A minha excitação tinha ido embora. De repente, eu não quis mais estar ali com ele. Senti-me exposta. — Então, eu estou aqui apenas como mais uma foda sua? Ele parou de beijar meu pescoço e me encarou. — Pensei que estávamos de acordo quanto a isso! Furiosa mais comigo do que com ele, eu o empurrei para longe do meu corpo. — Ah, Ana! — Cale a sua boca! — Virei-me para ele com fúria. — Burra fui eu em pensar que estava outra vez com o Lucas, no qual, amei e ainda amo. — Ele travou o maxilar, mas não disse nada. Lágrimas idiotas deslizavam em meu rosto. Quebrada, eu dei de ombros e fui até minhas roupas emboladas no chão. — Vou embora. Não que eu esperasse que ele viesse até mim para me impedir, mas lá no fundo... bem lá no fundo, eu quis... quis que ele me impedisse de partir.


Capítulo 3 Duas semanas depois Era quase oito horas da manhã de um sábado quando a campainha do meu apartamento começou a tocar insistentemente. Fazia pouco mais de meia hora que eu tinha saído da ducha e nem mesmo tinha escolhido uma combinação de roupas para o dia. Enrolada no roupão, eu fui até a porta, irritada com a insistência da pessoa do lado de fora. Ao abrir, a primeira coisa que vi foi diversas sacolas pardas de compras e, em seguida, o rosto da mamãe carregado por uma expressão culpada. Cruzei os braços diante dos seios e a encarei com os lábios comprimidos. — Meu armário ainda está abarrotado de compras mamãe, inclusive a minha geladeira também. E adivinha só? Foi a senhora mesma quem os encheu, e semana passada. Sem jeito, ela mordeu os lábios. — Ah, filha... Na verdade, eu estava passando aqui por perto e não resisti em fazer uma visitinha e ver como você está. Aí pensei: por que não aproveitar e levar algumas bobagens para o meu bebê? Revirei os olhos, mas acabei sorrindo enquanto abria espaço para que ela entrasse. Deixei-a na pequena cozinha e fui até o banheiro rapidamente pegar uma escova. — O que você vai almoçar, querida? — Ai qualquer coisa, mãe — respondi ao entrar na cozinha. Ela estava guardando os mantimentos no armário. — Eu tenho treino hoje à tarde. Vi que ela fez um bico desgostoso. — Você sabe que as portas da nossa casa estão abertas, não é, Ana? Desde o início eu fui contra essa idéia de você morar sozinha. Tão longe de nós! Não sei se está comendo ou dormindo direito. E se acontecer alguma coisa com você?


Parei de pentear os cabelos e a encarei, segurando o riso. Ela era tão previsível. — Já conversamos sobre isso, mãe. Eu estou bem aqui. Além do mais, eu preciso disso, sabe? Não sou mais criança. — Você sempre será uma criança para mim, Ana. Soltei uma risada gostosa e fui até ela, que me recebeu com um forte abraço. Eu havia alugado um apartamento há duas quadras do instituto, no qual, estava trabalhando e treinando. Com a correria da minha nova rotina nem tive tempo para pensar em nada além de tomar banho e dormir. — O papai está na academia? — perguntei indo me sentar à mesa. Fiquei observando-a preparar ovos mexidos com bacon. — Ele saiu de casa pensando em ir até a casa do Jonathan. Lembra-se dele? Aquele menino que perdeu a mãe em um assalto, e que depois encontramos pedindo ajuda no semáforo? — Lembro sim. Aconteceu alguma coisa com ele? — É isso o que ele pretendia descobrir — respondeu. — Jonathan faz parte da equipe de lutadores da academia, mas andou faltando demais e James ficou preocupado. — O papai gosta muito dele, não é? — Gosta sim. A conversa se prolongou por mais alguns minutos até a mesa do café estar completamente recheada para um batalhão. Contudo, decidi me calar e aceitei aquele carinho de bom grado. — A Raquel? — Quando eu saí, ela ainda estava dormindo. Dei uma mordida generosa no meu pão com ovos mexidos e fechei os olhos em êxtase. Ser dançarina me restringia em determinados alimentos, mas eu sempre abria uma exceção. — Minha apresentação será no próximo sábado — comentei. — A data já foi marcada? Meu Deus, Ana! Por que só me avisou agora? Revirei os olhos para o seu drama. — É na próxima semana, mãe. — Eu sei, mas preciso me preparar! Preciso chamar toda a família, os amigos...


O telefone dela começou a tocar, cortando a sua tagarelice. Sorrindo, eu me servi com um copo de suco. — Você tem certeza que deixou esses papéis no meu carro, amor? — a ouvi dizer. — O problema é que estou no apartamento da Ana, agora... uhum... Isso! Mande o Lucas vir até aqui de moto. Eu estava indo ao quarto, mas estaquei no caminho assim que ouvi aquelas palavras. Como assim mandar o Lucas vir aqui? Meus sentidos tornaram-se difusos na mesma hora, e não fui capaz de ouvir mais nada. Desde o nosso reencontro na academia, Lucas e eu não tínhamos nos visto mais. Na verdade, eu o evitava e, provavelmente, ele também. — Ana? — Pisquei confusa, assim que escutei a voz da mamãe. — Seu pai está precisando de uma pasta de documentos que está no meu carro, e vai mandar o Lucas para buscá-la aqui. De acordo com isso? Evitei ranger os dentes e, acabei assentindo com a cabeça. — Ótimo! Porque no fundo, eu necessito fazer mais algumas voltas e não queria ficar presa nesse compromisso nem ter que ir até a academia para leválos. Meu coração começou a acelerar com o entendimento. Chocada, eu assisti enquanto ela pegou a bolsa da cadeira e seguiu em direção a porta. — Mamãe? Como assim? Você já vai? Ela pegou a chave do carro de dentro da bolsa. — Primeiro, eu preciso pegar a bendita pasta de documentos e deixar aqui com você — respondeu com simplicidade. Parecia não notar o meu desespero visível. — Mas... — Já volto! E a porta bateu. Fechei as mãos em punho até sentir o beliscar das minhas unhas nas palmas. Engoli o grito de frustração e fui até o quarto. Foda-se! —, pensei. O apartamento era meu e não aconteceria nada demais nesse reencontro. Lucas havia sido incumbido a buscar os documentos para o meu pai, e era isso o que ele faria. Nada demais. Retirei o roupão e vesti um vestido leve de alças. Meus cabelos estavam soltos e úmidos. Optei por deixar meu rosto limpo de maquiagem, somente com um gloss labial.


Depois de alguns minutos, a mamãe retornou e gritou: — Está em cima do sofá! Respondi um “ok” e ela se despediu, prometendo que voltaria para me visitar no meio da próxima semana. Eu ri daquilo. Não podia julgá-la por querer cuidar de mim como toda uma mãe amável faria. Peguei meu aparelho de celular e fui até a sala. O apartamento, no qual aluguei, não era enorme. Decidi optar por um espaço de solteiro, pois mal teria tempo de arrumá-lo. A intensidade da rotina acaba com a pessoa no início dos meses. Contudo, eu estava imensamente feliz. Liguei o rádio em uma música aleatória e me deixei cair no sofá. Meu celular vibrou com algumas mensagens. Peguei-me sorrindo ao ler algo mandado pelo pai de uma aluna. Ele disse que decidiu ensaiar em casa junto com ela, já que nossas aulas aconteciam somente três vezes na semana. Em outra mensagem, ele me enviou uma foto dos dois e, eu ri ainda mais ao vê-lo com um macacão extremamente colado. Mandei uma resposta no momento em que a campainha tocou. Com o celular em mãos, eu fui até a porta e a abri. Lucas me encarava com a mesma intensidade da primeira vez. O boné escondia os belos cabelos curtos em tom de castanho claro. Os músculos também estavam escondidos por trás das roupas largas, quase de maloqueiro. — Estou aqui para... — Eu sei — cortei impaciente. — Espere aqui, por favor, e eu pego os documentos. Virei-me nos calcanhares e mirei o olhar pela sala, me deparando com a bendita pasta sobre o sofá. Peguei-a, e ao me voltar para a porta, eu vi Lucas fechando a mesma. — Eu não me lembro de tê-lo convidado para entrar — resmunguei. Com as mãos nos bolsos da jaqueta, ele deu passos lentos até mim. Seu olhar me dizia que ele não tinha boas intenções. — Isso prova que você não é uma boa anfitriã, uma vez que, eu sou uma visita. — Indesejável, devemos salientar — retruquei e ele sorriu. Que porra de sorriso charmoso era aquele?


E ali estava ele, cara a cara comigo. Evitei inspirar o seu cheiro, pois isso já seria considerado masoquismo. — O que houve com o desejo de me reconquistar? — indagou arrogante. Abri a boca para falar algo, mas acabei hesitando. — Você é fraca, Ana! É daquele tipo de pessoa egoísta ao ponto de selecionar somente o mais fácil, o que está mais próximo das mãos. Senti meu coração bater mais depressa. As mãos começaram a suar. — Você não sabe do que está falando. Ele voltou a sorrir, mas agora se aconchegou mais próximo a mim. — Tem certeza? — ele me desafiou com o olhar. Dei alguns passos para trás e acabei caindo sobre o sofá. — Eu só conheço a Ana fraca; a Ana mentirosa, a Ana que gostava de brincar com meus sentimentos. — Ele repousou um dos joelhos no sofá e, se inclinou sobre mim como um animal furioso. — Sinto muito por não ter notado antes que sua visão a meu respeito era essa — soprei resfolegando devido a nossa proximidade. Levando o rosto na dobra do meu pescoço, ele inspirou meu cheiro profundamente causando-me arrepios. Tombei as pernas, de modo, a deixá-lo ter um melhor acesso a mim. — Então, me diga: Quem é a verdadeira Ana? Engoli com dificuldade quando o rosto dele se afastou para me encarar nos olhos. Lucas parecia querer me decifrar, ao mesmo tempo em que queria me punir. Vi-me sem palavras, contudo, eu deixei com o que o desejo assumisse o controle do meu racional. Com a mão na sua nuca, eu puxei sua boca para a minha e mordi seus lábios, suspirando ao ouvi-lo gemer. Eu o amava tanto, tanto que chegava a doer. Suas enormes mãos embolaram-se em meus cabelos conforme nosso beijo foi se intensificando. Desesperada por mais, arranquei aquela enorme jaqueta do corpo dele e, toquei seus bíceps com meus dedos gulosos. Assim que tive meus lábios soltos, levei-os direto para aqueles braços e mordi a pele tatuada. Lucas me deitou contra o sofá e ergueu meu vestido, de modo a embolálo em minha cintura. Dedos atrevidos trilharam até o tecido da minha calcinha e, ele rapidamente a moveu para o lado. Gritei quando ele lambuzou os dedos em minha excitação e levou-os direto ao meu clitóris, fazendo uma pressão deliciosa naquele amontoado de nervos. Arqueei as costas e revirei os olhos lutando contra a tempestade de prazer que ameaçava me derrubar a qualquer momento. Eu gozei uma, duas, três vezes... Lucas parecia não querer parar. Forcei o corpo


nos cotovelos para olhá-lo com a boca entre minhas pernas. Os olhos dele estavam nos meus, tempestivos e perturbadores. O rosto úmido. — Lucas... — caí novamente no sofá e me vi sem ar quando uma nova onda de orgasmo me tomou tirando minhas forças completamente. Tentei fechar as pernas para evitar que ele continuasse a me torturar, mas suas mãos forçaramme a mantê-las escancaradas para ele. — Por favor, eu não agüento mais... Sua língua incansável continuava a trabalhar em minha intimidade, mas de um modo a imitar a penetração. — Mostre-me a verdadeira Ana — ele pediu, mas saiu em tom de ordem. — Eu não... eu... — O que você quer de mim? O que espera de mim? — questionou-me. Suas perguntas persistiam e persistiam, deixando-me em desespero. Meu corpo estava praticamente anestesiado e minha mente difusa demais para raciocinar. De repente, ele parou. Seu rosto pairou sobre o meu e senti seus lábios tocarem minha boca de maneira lenta. — Eu só quero amá-lo, Lucas — respondi em um sopro. Percebi um sorriso perverso nos lábios dele quando se afastou de mim. Sua calça de moletom não escondia o tamanho da sua excitação, mas isso não o impediu de vestir a jaqueta, outrora caída no chão. Observei seu perfil de costas conforme ele caminhava até a porta. — Todas as tardes da semana, fora domingo, eu treino no Instituto de dança aqui perto. Você poderia aparecer um dia desses para me ver dançar — pedi com a voz enfraquecida. — Sábado estrearei com uma peça. Ele parou com a mão na maçaneta, mas não respondeu nem se virou para me dar um último olhar antes de partir.


Capítulo 4 Ana A prática de pliés, tendus e extensões são primordiais no ballet. Mesmo com tantos anos de treinamento e exercícios diários, eu nunca relaxava com eles. Naquele momento, eu estava lutando para me focar nos exercícios, apesar de não estar obtendo sucesso algum. Lucas não deixava os meus pensamentos. Soltei um suspiro. Ergui a cabeça, as pernas esticadas e juntas, as costas retas. Levantei uma perna para o lado, o mais alto que pude, mantendo-a reta. Fiz ponta com meu pé assim que ele saiu do chão. Mantive os dois joelhos retos e a postura correta. Não levantei os quadris ou o glúteo para elevar a perna e sempre virada para fora. Tentei usar a técnica correta para abaixar lentamente a perna e ficar de pé na posição em que comecei, mas não consegui o equilíbrio necessário. — Droga! — resmunguei. — Confesso que certas posições do ballet me deixam com a cabeça fervilhando com ideias malvadas. Meu corpo se arrepiou imediatamente com o reconhecimento daquela voz grave. Virei a cabeça para a porta e encontrei os olhos do Lucas sobre meu corpo moldado apenas com um collant preto. Mesmo tendo o visto há pouco mais de cinco horas, eu me vi eufórica por vê-lo outra vez. — Eu não sabia que você estava aqui — falei sem jeito. Caminhei até a barra e encostei-me a ela enquanto observava os passos lentos do Lucas. Analisei-o dos pés a cabeça e senti-me quente quando o notei excitado sobre a calça de moletom. — Preferi ficar assistindo seus lindos rodopios e a forma sexy com que movia o corpo de lá para cá. Sorri das suas palavras bobas. Entretanto, o silêncio nos abateu. Eu estava sem jeito e ele parecia estar também. Pelo menos era isso o que eu achava. — Se eu soubesse que estava me assistindo, eu teria caprichado mais — brinquei com ele fazendo-o abrir um lindo sorriso. Ele se aproximou de mim com cautela e, eu o puxei pela cintura fazendoo firmar as mãos na barra ao meu redor. Eu estava suada, mas pouco me importei


com esse detalhe, e pelo jeito que Lucas estava me olhando, também parecia não se importar. — Aí, eu não resistiria e a atacaria em pleno treino — disse e ergueu a mão para tocar meu queixo delicadamente. Nossas bocas ficaram tão próximas que eu era capaz de respirar o aroma dele. Que perfume era aquele? — O que fará agora? Poderíamos jantar, talvez. O que acha? — Claro. Eu abri um sorriso enorme. As pontas de seus dedos desenharam minha bochecha rosada pelo rubor. — Quem sabe daqui a uns cinco anos, hun? — indagou pegando-me desprevenida. Imediatamente a minha expressão se tornou confusa e senti meu coração dar um baque. — Mas o que houve em meu apartamento? — argumentei nervosa. Ele havia demonstrado estar na mesma conexão que eu. Ou não? A intensidade com que ele me olhava era perturbadora. — O mesmo que houve em seu quarto anos atrás, querida. Lembra-se? Eu dei o meu coração e você me tratou como casual. Foi você quem me ensinou a ser assim. Eu ainda estava atônita quando ele se afastou. Havia um sorriso cretino no canto dos seus lábios. — Então é isso? Está se vingando de mim? Ele sorriu enigmático. — Isso é você quem está falando. Abri a boca para falar, mas hesitei quando uma garota se aproximou da sala de treino. Ela parecia ter vindo do vestiário. Meus olhos ameaçaram transbordar em lágrimas no momento em que a assisti agarrá-lo. Consegui reconhecê-la da outra turma de ballet. Ela era uma aluna extremamente dedicada, mas não tínhamos tido muito contato. — Por que não me avisou que já tinha chegado? — ela indagou contra os lábios dele. Lucas estava com os braços ao redor da cintura fina. — Eu poderia ter te convidado para tomar banho comigo... — a frase saiu sussurrada, mas como estava perto, eu pude escutar. Meu estômago embrulhou e meu coração doeu ainda mais ao ver o


sorriso do Lucas. Ele não tinha vindo por mim, afinal —, pensei entristecida. — Eu estava conversando com uma velha amiga — Ele se virou para mim exalando sarcasmo no olhar. A garota continuou pendurada no pescoço dele quando mirou os olhos em mim. Olhando-me dos pés a cabeça, ela desdenhou imperceptivelmente. — Está certo, mas agora estou aqui. Podemos ir? — Os lábios dela desceram até a orelha dele. — Estou louca para ficar sozinha com você. Enojada, eu reuni meus pertences e passei por eles como uma bala de canhão. Estava difícil de conter engasgo do choro. Doía demais vê-lo com outra. Poxa! Aquelas mãos deveriam estar tocando o meu corpo. Era eu quem ele deveria estar beijando, admirando... amando. Mas não! Eu não ia chorar! Antes de sair totalmente da sala, eu cheguei a ouvir alguns murmúrios, mas não liguei para nada. Sequer me importei de demonstrar desconforto ao vêlos juntos. Desnorteada, eu esbarrei em alguém sem querer. — Oh, me desculpe — pedi em uma súplica. A garota de olhos castanhos me encarava assustada, enquanto massageava o braço, no qual bati. — Eu a machuquei? Ela franziu a testa e negou com a cabeça antes de aprumar o corpo magro. Provavelmente ela era outra aluna. — Eu estou bem — disse ela. — Mas já não é o seu caso — observou com pesar. Soltei um arquejo e entrei no vestiário sendo seguida por ela. Todo o controle usado para não chorar foi por água abaixo e desmoronei ali mesmo. O pranto saiu rasgando por dentro. Eram lágrimas de dor. Lágrimas de raiva. Lágrimas de arrependimento. Senti mãos delicadas me erguerem do chão e, em seguida, senti-me repousando em um dos bancos. — O que eu posso fazer por você, hein? Quer que eu chame alguém? Entre soluços, eu encarei o rosto da garota ao meu lado. — Eu estraguei tudo. Como eu faço para consertar isso? — Obviamente que ela não entenderia o que eu estava tentando dizer, pois eu não estava sendo clara. — Eu o amo tanto, tanto...


Ela me ofereceu uma expressão compreensiva. — Está falando do rapaz, no qual conversava agora a pouco? — Eu a encarei de olhos arregalados. Enxuguei as lágrimas incessantes e acabei assentindo. — Eu vi quando você estava falando com ele antes da Letícia chegar. Ele vem buscá-la quase todos os sábados. Eu não sei direito, pois eu e ela não temos amizade, mas acho que eles têm um caso. Nada sério, mas têm. Depois de ouvi-la, eu funguei o nariz. As palavras vieram na ponta da língua, mas hesitei em todas às vezes. — Eu me chamo Andressa — ela disse no fim, ao ver que eu não falaria nada. — E, na verdade, eu estava indo embora quando você me atropelou, mas... Pisquei e sacudi a cabeça. Levei as mãos novamente ao rosto e limpei o rastro de lágrimas. — Oh, por favor, não se prenda por mim. Obrigada de qualquer forma. Dito isso, eu permaneci no mesmo lugar. Contudo, notei que ela continuou ali também. — Moramos no mesmo prédio — ela disse fazendo-me olhá-la. — Você é moradora nova, mas eu a vejo todos os dias. Nesse caso, eu vou esperá-la tomar um banho rápido e iremos juntas. Estou de carro. — Eu agradeço, mas não pre... — Detesto vitimismo, então cale a boca e vá tomar logo a ducha — pensei em retrucá-la no mesmo tom, mas ela acrescentou rapidamente: — Por mais que você o ame, deve se amar em primeiro lugar. Chore, mas chore em casa no aconchego do seu lar. Entendeu? Mordi os lábios para evitar que mais lágrimas transbordassem dos meus olhos. Soltando um arquejo sofrido, eu me levantei. — Você está certa. — Cabisbaixa, eu caminhei na direção dos chuveiros, mas me virei. — A propósito, eu me chamo Ana. Ela sorriu amigável. — Vou estar aqui quando sair, Ana. Assenti. Meu coração estava em pedaços, mas eu teria que dar um jeito de continuar seguindo.


Capítulo 5 Ana O trajeto para casa foi extremamente rápido, pois o Instituto ficava a apenas duas quadras do prédio em que morávamos. Andressa dirigiu em silêncio, mas hora ou outra, eu sentia seu olhar sobre mim. Naquele momento, eu estava me sentindo anestesiada. Meu cérebro parecia ter estagnado e a imagem de Lucas com aquela garota não saía da minha mente. A tecla “replay” havia sido ativada e nada me fazia esquecer aquela cena. — Ana? Estremeci imperceptivelmente com o susto e virei o rosto na direção dela. — Oi? Ela se recostou no banco e retirou as mãos do volante. Um sorriso calmo se estabeleceu nos lábios dela. — Chegamos. Levei os olhos para fora do carro e notei que estávamos na garagem do prédio. Eu estava tão absorta em meus pensamentos que não percebi nada além disso. Suspirando, eu me obriguei a arrastar o meu corpo para fora do veiculo e inspirei o ar com força. Atrás de mim, Andressa bateu a porta e travou o carro. Minhas pernas pareciam moles e, eu me sentia flutuar conforme caminhava. No elevador, Andressa começou a estalar os lábios fazendo-me olhá-la. Ela aparentava ter uns vinte anos. Os cabelos escuros presos em um rabo de cavalo balançavam conforme ela chacoalhava a cabeça. — Você não devia fazer isso — ela disse com a testa vincada. Arqueei as sobrancelhas. — Fazer o quê? Ela gesticulou com as mãos. — Se enclausurar nessa bolha de autodepreciação, sabe? Por que não sai comigo, hun? Conheço um bar de karaokê bem badalado — insistiu na intenção de me animar. As portas do elevador se abriram no andar dela. Ameacei recusar aquele convite pelo motivo obvio: Eu não estava no astral para me socializar com ninguém. Meu desejo era me aninhar entre as cobertas e chorar até adormecer.


Andressa deixou o corpo no vão das portas impedindo-as de se fecharem e insistiu um pouco mais: — Será bom para você, eu garanto! Está com despeito? Enche a cara, oras! Mas não fique em casa chorando, por favor. Arregalei os olhos e não segurei a risada. — Garota, você verdadeiramente não conhece o filtro para o que fala, não? — Ela deu de ombros, mas acabou sorrindo também. Respirei fundo e concordei: — Está bem. Que horas? — A partir das 22hs. Qual o número do seu apartamento? — 05 — respondi. — Próximo andar. Oferecendo-me um sorriso aberto, ela liberou a porta garantindo-me que passaria mais tarde no meu apartamento. Foi a minha vez de impedir as portas de se fecharem. — Apenas karaokê, certo? — indaguei desconfiada. — Ou devo me preocupar que isso possa se transformar em uma noite não-me-lembrarei-nadano-dia-seguinte? Ela me deu um tapinha no ombro. — Não posso confirmar nem negar nada. — Vou de sapatilhas então. As portas se fecharam, mas pude ouvir a risada alta dela. No fundo, eu torcia para que pudesse melhorar o meu astral com essa saída. ♥ Fernando, pelo menos eu acho que era esse o nome do cara. Era um homem bonito para se olhar. Ele tentou pegar a minha mão mais uma vez, mas Andressa o impediu. — Não há nenhuma maneira de eu deixá-la sozinha esta noite — disse ela agarrando uma das minhas mãos. — Mesmo bêbadas como o inferno. O cara franziu a testa, não gostando do fato de Andressa ter se metido entre nós. Olhei para minha nova amiga, apenas tempo suficiente para eu ser agarrada por Fernando e seus lábios descerem nos meus. Ele tinha gosto de cerveja velha. Raiva me tomou naquele momento. Eu estava acostumada a lidar com esse tipo de homem, especialmente os bêbados. Eles não gostam de rejeição. Coloquei todas as minhas forças na joelhada em suas bolas.


Ele caiu. Balançando a cabeça, eu voltei a encarar a Andressa, que estava me olhando como se tivesse crescido duas cabeças em mim. — O quê? — tentei agir naturalmente. Ela riu. — Vamos para um clube diferente. Boa ideia —, pensei. Nós voltamos para casa às cinco da manhã, levando nossos sapatos nas mãos. — Realmente gostei da sua interpretação daquela música do AVICII — Andressa disse rindo enquanto as portas do elevador se abriam. — Misturar passos de ballet naquela dança foi realmente um marco para a história — gargalhou alto. Sorri junto e comecei a vasculhar minha bolsa atrás das chaves do meu apartamento. — Foi definitivamente um dos meus melhores momentos — falei divertida. — Você se divertiu, e é isso o que importa — ela disse apoiada na parede. Seu telefone tocou. — Ah, droga! Eu prometi ao meu irmão que mandaria mensagem quando chegássemos, e ele provavelmente deve estar se perguntando por que eu não mandei as benditas mensagens — murmurou quando abri a porta. Nós estávamos começando a ficar sóbrias depois de uma longa noite cheia de diversão. Senti-me como nos velhos tempos. Deixei Andressa na sala conversando com o irmão ao telefone, e fui tomar um banho rápido. Vesti um pijama preto. Minutos depois, encontrei Andressa na cozinha, cozinhando bacon e ovos. — Espero que goste de bacon — ela disse enquanto saboreava um copo de suco. — Como consegue beber suco de laranja agora? — perguntei. — Por que não? Olhei para ela como se ela fosse louca. — Nós bebemos com vodca a noite toda, oras — falei, derramando água


em um copo. Sua boca sorriu em torno da aba do copo de vidro. — Agora é somente o suco. Nós duas sorrimos. — Então... — O quê? — perguntei enquanto me sentava. — Eu evitei chateá-la com o assunto Lucas, mas estou curiosa para saber sobre a história de vocês. Apoiei os cotovelos na mesa e esfreguei o rosto com ambas as mãos. — Ah, Andressa... Eu e ele nos conhecemos desde crianças. Nossos pais são extremamente amigos e isso facilitou para o nosso relacionamento, sabe? Mesmo eu sendo mais velha, eu sempre o vi como um par para mim. Nos apaixonamos de uma maneira pura e delicada. — O que aconteceu? Eu estava fazendo redemoinhos com o meu dedo sobre a mesa. — A nossa primeira transa e, consequentemente, a primeira vez de ambos, aconteceu horas antes de eu partir para Londres, cinco anos atrás. Eu menti para ele sobre a viagem e disse que não iria. Eu disse que por ele, eu desistiria. Contudo, eu menti. A imaturidade gritou mais alto em meus ouvidos e, eu pensei que logo o esqueceria. Na minha cabeça, esse amor era bobo e se apagaria com o tempo. — Então você foi para Londres e com isso partiu o coração dele. Eu bati o copo na mesa. — Eu era muito jovem e não tinha ideia do que estava fazendo. — Mas você o magoou — anunciou e, eu gemi de remorso. — Tenho pesadelos quando penso que ele pode ter se transformado nesse homem odioso por minha culpa. — Lembre-se disso: Você fez suas escolhas, mas ele também fez as dele, Ana. — Ela serviu a comida e colocou o prato na minha frente. — Eu aconselho você a agir com indiferença. Aposto que assim ele abaixa a crista. — Você é terrível — Eu ri, balançando a cabeça para ela. — Mas saiba que agora, você está no topo da minha lista de amigos. Ela encheu seu próprio prato e, em seguida, sentou-se ao meu lado. — Posso viver com isso. Nós compartilhamos outro sorriso e passamos a saborear a nossa comida.


Capítulo 6 Ana O latejar da minha cabeça era constante e me obriguei a abrir os olhos às 16hs do domingo. Levei a mão direita ao rosto, de modo a cobrir os olhos da claridade intrusa do quarto. Meu corpo estava todo dolorido, resultado das intensas horas de diversão na madrugada. Fazendo uma análise rápida, eu me senti satisfeita com a liberdade, no qual me permiti. Andressa havia se mostrado uma companhia excelente e muito divertida. Soltei um gemido ao ouvir o toque estridente do meu celular. Estiquei o braço e alcancei o aparelho com meus dedos. — Ana? — Oi, Raquel — Minha voz saiu consideravelmente rouca. Gemi baixo, pois senti o martelar direto no meu cérebro. — Por que sua voz está estranha? Está ou esteve chorando? O que aconteceu, Ana? Brigou com alguém? Lucas fez ou disse alguma coisa? Se aco... Obriguei-me a interrompê-la: — Ai, Raquel, já chega! Eu só estou de ressaca. Houve uma ligeira demonstração de euforia da parte dela no outro lado da linha. — Você passou a noite festejando? O que houve com minha irmã super responsável e discreta? — Eu ri de suas palavras. — Confesso que você me deixou surpresa agora, sabia? — Eu apenas quis me distrair um pouco, Raquel — falei sem muitos detalhes. Massageei de leve as minhas têmporas, enquanto mantinha os olhos fechados. — Mas, e então? Está tudo bem por aí? — Uhum... — ela soou sarcástica e, eu ri mais. — Bom, na verdade, eu te liguei, porque preciso da sua ajuda. Marquei de sair com a Joana, mas não tenho como ir até a casa dela, pois o papai saiu e o carro da mamãe está no conserto. — E, por que você não pede para a Joana ir te buscar com a tia Marie ou o tio Andrew? — O telefone dela só dá desligado e, eu não quero ligar para os tios. Evitei resmungar pelo desagrado daquele pedido. Além de a minha


cabeça estar estourando, eu ainda teria que correr o risco de ver quem menos ansiava. — Onde vocês pretendem ir afinal? Levantei da cama enquanto escutava as palavras dela. As duas haviam marcado de ir ao cinema com uma turma de amigos. Passando os dedos nos cabelos, eu caminhei até a sala me deparando com a Andressa esparramada no colchão de solteiro, no qual havia emprestado para ela mais cedo. Analisei-a e constatei que ainda estava dormindo. Raquel continuava falando e falando e falando... Meus pensamentos estavam se dividindo entre os recentes acontecimentos e entre o que minha irmã caçula estava tagarelando. Antes de sair de Londres, eu havia feito muitos planos, contudo o que mais ansiava não estava dando certo e isso de certa forma estava me frustrando. Estudar; depois praticar a profissão, mas e o coração? Eu esperava preenchê-lo com o amor do... Inferno! — Está me ouvindo Ana? — A voz da Raquel soava impaciente. — Ana? Levei o copo de água à boca e engoli junto com um analgésico antes de respondê-la: — Eu a deixarei na frente da casa dos tios — expliquei taxativa. — Minha cabeça está explodindo e tudo o que eu menos preciso é... — Ter um embate com o Lucas — ela completou e eu suspirei. — Fica tranqüila, pois ele não costuma ficar em casa nos finais de semana. Ignorei a pontada no peito ao permitir com que minha imaginação me levasse a diversos cenários dele com aquela garota do Instituto, ou até mesmo com outras. Por que não? Droga! — Estarei aí dentro de alguns minutos, ok? Trocamos mais algumas palavras e depois encerramos. Deixei o celular na mesa e me peguei nervosa. Meus lábios doeram quando eu os mordi sem querer, devido à adrenalina correndo em meu sangue. Aquilo era ridículo, eu sei. Mas como impedir? Sacudindo os ombros tensos, eu voltei ao quarto na intenção de trocar de roupa. Instantes depois, eu rabisquei um pequeno bilhete e o repousei sobre o sofá para o caso de Andressa acordar antes do meu retorno. Não demorou muito para eu estacionar minha moto na casa dos meus pais. Meu pai havia me presenteado com uma biz na semana passada, pois era econômica e me ajudaria na minha rotina intensa. Embora, na maioria das vezes, eu optasse por andar a pé, a moto tornava-se eficaz quando o trajeto era longo.


Raquel estava me esperando na varanda, contudo decidi entrar na casa e deixar um abraço apertado na mamãe antes de sairmos. Novamente ao lado da moto, eu observei o visual estiloso da minha irmã; calça jeans rasgada, regata e um par de tênis na cor preta. Os cabelos estavam erguidos no alto da cabeça em um rabo de cavalo. Observei que a maquiagem era leve, quase nula. — Qual o problema? Estou mal vestida? Eu ri enquanto ajeitava o capacete. — Pelo contrário e, eu a estava admirando. — Pisquei para ela, que me ofereceu um sorriso amplo. Aguardei ela subir na garupa da biz e, então parti em direção ao nosso destino. Longos minutos mais tarde, eu me vi acelerando para o interior da casa dos nossos tios, pois aproveitei que o portão estava erguido. Minha intenção não era essa, mas ignorei todos os alertas e fiz o que tinha que fazer. Raquel desceu e se despediu de mim com um forte abraço. Desejei que se divertisse, mas que redobrasse os cuidados perto de pessoas desconhecidas. Ela revirou os olhos, mas acabou assentindo e garantiu que me ligaria se acaso se sentisse em perigo e não conseguisse contatar nossos pais. Assim que ela se afastou, eu tive que descer para poder guardar o capacete auxiliar no compartimento do banco. Minha dor de cabeça havia amenizado um pouco, mas a verdade é que eu estava louca para voltar para casa e permanecer na cama pelo resto do dia. Prestes a seguir o meu caminho, eu notei a entrada de um carro esportivo. Rapidamente eu comecei a entoar o mantra: “Por favor, Deus, que não seja o Lucas! Por favor, Deus, que não seja o Lucas!”. Ergui a perna e me ajeitei sobre a biz, enquanto ameaçava colocar o capacete, contudo a porta do tal carro bateu com força, e a pessoa que eu não queria ver surgiu belo e pleno na minha frente. Eu tentei ignorar os batimentos acelerados do meu coração, também tentei ignorar a forma como meus olhos varriam o corpo musculoso; eu não quis dar ouvidos à forma como os meus pêlos se eriçaram nem como minha respiração tornou-se áspera. — Ana? — Por que a voz dele tinha que ser tão sexy? — Estava me procurando? Eu quase revirei os olhos para tamanha arrogância. — Não se preocupe, pois eu não me tornei nenhuma maníaca, Lucas —


falei com sarcasmo. Girei a biz e coloquei o capacete para ir embora. — Ei? — Ele segurou o meu braço e, eu estremeci com o toque. Virei a cabeça para ele e encontrei aqueles olhos que um dia me encaravam com doçura, mas que agora eram hostis. — Não tente me tratar com dissimulação quando eu sei que você passou a madrugada na farra. Um amigo me contou que a viu em uma boate. Eu o encarei de olhos arregalados. — Dissimulação? — questionei em um sopro. Ele riu de maneira cínica. Apoiou ambas as mãos ao meu redor sobre a moto, quase encostando o corpo ao meu. — Está fingindo estar magoada comigo pelo episódio que aconteceu ontem no Instituto, mas na verdade está pouco se importando, não é? Você ainda continua aquela garota fria e calculista. Ainda é aquela Ana que prioriza apenas o que lhe convém — acusou fazendo-me engolir o bolo que se formou na minha garganta. Naquele momento, eu quis chorar, mas segurei os soluços. Ele queria me ferir, pois isso o fazia se sentir bem. Retirei o capacete e olhei no fundo daqueles olhos frios. Aproximei os nossos rostos e sussurrei contra seus lábios: — Esqueceu de mencionar o quanto eu sei ser indiferente. — Eu sorri e me afastei para recolocar o capacete diante da expressão atônita do Lucas. — Mas saiba que gritei pelo seu nome ontem quando estava cavalgando no pau de um desconhecido. Liguei a moto e acelerei antes que ele pudesse retrucar qualquer resposta. Meu coração ainda batia descompassado, mas em meu sorriso pairava um sorriso maroto. Uma pequena mentira fazia bem quando contada uma vez ou outra —, pensei divertida.


Capítulo 7 Ana A semana seguinte passou rapidamente e, eu me pegava chegando tarde quase todos os dias devido aos treinos para a apresentação que ocorreria no próximo sábado. O tema da peça seria “A bela adormecida”, no qual foi dividido em um prólogo e três atos. A coreografia escolhida foi a do Marius Petipa, baseado no conto de fadas do escritor francês Charles Perrault. Quando a administração do Instituto me ofertou o convite para estrelar a peça, eu me senti extremamente emocionada, pois a minha paixão pelo ballet surgiu quando eu assisti ao espetáculo desse clássico. Ao longo das nossas reuniões, as escolhas dos personagens se deram conforme a disposição e esforço de cada um. Tanto professores quanto alunos ganharam papéis na peça e isso de certa forma serviu de estimulo. Lembro-me que quando eu estava em Londres, um bom papel em uma peça era extremamente disputado. Naquele momento, eu estava sentada confortavelmente em uma das cadeiras enquanto assistia ao ensaio do prólogo. Meu celular vibrou com novas atualizações das minhas redes sociais. Curiosa, eu decidi dar uma verificada e senti o meu coração dar um baque assim que li o que Lucas havia acabado de postar em seu status: “Amanhã será um dia especial para a minha garota.” Ridiculamente, eu me peguei sorrindo diante da clara constatação de que ele viria para me ver na apresentação. Apesar do nosso último embate na casa dele, no fundo eu sentia que ele me amava, mas não se permitia demonstrar esse amor novamente. — Ana? — Olhei para o lado e me deparei com Andressa me encarando com uma expressão curiosa. — Por que o sorriso? — Virei a tela do celular para que ela pudesse ler. — Vocês estão ficando? Por que não me contou? Eu ri do bico que se formou nos lábios dela. — Eu não contei, porque não tenho nada para contar, oras. Não falei com ele desde domingo, quando nos vimos na casa dele. — Franzi a testa. — Minha mãe está praticamente organizando uma excursão para me assistir no espetáculo de amanhã. — Nós rimos.


— Mas e se... — Andressa se calou assim que mirou o palco. Eu segui o olhar dela e encontrei com a Letícia. Ela havia ganhado um papel que lhe garantia uma pequena participação na introdução do prólogo. Voltei a sorrir, mas de nervosismo dessa vez. — Lucas não estava se referindo a ela, Andressa. Os dois nem mesmo namoram — falei quase com despeito. — E, além do mais, eu sinto que estamos nos encaminhando para o entendimento. Andressa abriu a boca para falar, mas no fim deu de ombros. Em seguida, a voz do diretor se fez presente: — Ana? Agora vamos para o Ato I, querida. Você entra como a princesa Aurora. Levantei-me e me preparei para a ação. “Aurora completou 16 anos. Quatro príncipes vieram pedir a sua mão em casamento. A corte reúne-se nos jardins e os camponeses e crianças dançam com as grinaldas de flores. A princesa dança com os seus pretendentes. Entra em cena uma velha que lhe oferece um ramo de rosas. Aurora aceita o presente e encontra uma agulha entre as rosas, um objeto que nunca havia visto. Segura na mão e, durante a dança, acidentalmente, fura-se num dedo. Parece desmaiar, mas depois se recompõe. A dança torna-se vertiginosa e Aurora desmaia de vez. Neste momento, a velha tira o seu disfarce e se revela Carabosse (fada má), exultante por ter se cumprido o seu feitiço. Mas de imediato surge a fada lilás para reafirmar também a sua promessa. Um véu cai sobre a cena e cresce uma floresta mágica para esconder o castelo, o reino e todos os seus arredores.” Longos minutos se passaram e, a todo o momento, eu buscava não pensar em quanto a Letícia atuava maravilhosamente bem. Mesmo que eu tivesse ficado com o papel principal do espetáculo, de uma forma estranha a presença dela parecia me incomodar. Ela era uma garota atraente em seus cabelos longos, olhos claros e pele alva. O corpo era permeado de curvas sensuais, apesar de aparentar estar na faixa dos dezenove anos. — Tem algum problema comigo? Pisquei de repente. Estávamos no camarim, no fundo do palco. Havia outras pessoas ao nosso redor. Busquei Andressa com os olhos, mas a mesma não estava por perto. Então, eu voltei a encarar os olhos altivos de Letícia. — Eu fiz uma pergunta a você — ela insistiu em tom rude. Arqueei as sobrancelhas diante de tamanha audácia. — Eu ouvi sua pergunta, contudo não entendi. Por que eu teria algum


problema com você se mal a conheço? Ela ficou me olhando, mas de repente começou a rir enquanto balançava a cabeça. — Você fica me olhando a todo o momento como se eu fosse algum ser alienígena. Isso por acaso tem a ver com o fato de você ter me visto com o Lucas na semana passada? — ela perguntou com tom sarcástico. Em seguida me olhou dos pés a cabeça. — Não fique preocupada, pois eu estou dando conta dele, viu? Dito isto, ela pegou seus pertences e saiu. Eu ainda estava atônita quando a Andressa surgiu em meu campo de visão. — Está tudo bem? — ela quis saber. — Acabei de passar pela Letícia e a vagabunda revirou os olhos para mim, acredita? — Ela disse que eles estão juntos — falei fazendo-a me olhar de cenho franzido. — O quê? — Letícia afirmou que ela e Lucas estão juntos — repeti debilmente. — Ela acabou de jogar isso na minha cara. — E você acreditou? — quis saber impaciente. — Argh, Ana! Ela provavelmente está despeitada, porque já deve saber da sua história com ele. Abri a boca para falar, mas hesitei. — Pegue suas coisas e vamos para casa, por favor — pediu em tom mandão. Eu ainda estava aérea quando a senti me puxar pela mão enquanto pegava minha mochila. — Você precisa descansar para o grande dia de amanhã e, eu preciso desesperadamente do seu café. Eu ri. — É exploração que se chama, não é? — zombei. Ela me cutucou, contudo sorriu também. — Não é exploração, pois eu só aprecio o seu café e nada mais — replicou atrevida e ambas gargalhamos. ♥ — Oh, meu Deus! Ana! Que linda! Virei o corpo de encontro ao abraço da minha mãe. Disfarçadamente, ela enxugou abaixo dos olhos, emocionada, assim que voltou a me analisar da cabeça aos pés. Eu já estava vestida com o figurino da princesa Aurora, pois faltavam poucos minutos para o espetáculo estrear.


— A casa está muito cheia? — perguntei. Raquel logo apareceu, seguida da minha tia Marie. — Está lotada, minha querida — respondeu minha tia ao me cumprimentar com um forte abraço. — Você está maravilhosa. Senti minhas bochechas esquentarem, mas acabei sorrindo em agradecimento. O camarim estava uma bagunça e muita correria de um lado ao outro. Senti-me sendo puxada pela Raquel, que por sua vez, me fez espiar por uma greta na cortina. — O Lucas está aqui — ela cochichou. Com o coração aos pulos, eu olhei para a direção, no qual ela indicava. Lucas estava sentado em uma das fileiras perto do palco. Notei que ele parecia inquieto e carrancudo. Suas mãos espalhavam os cabelos a todo o momento. — DOIS MINUTOS, PESSOAL! O assistente gritou. Raquel me abraçou apertado e piscou para mim antes de rumar para fora do camarim. Minha mãe e minha tia fizeram o mesmo, contudo me desejaram muita sorte e, eu sorri. Permaneci no canto em que estava, pois a minha entrada se daria apenas no ATO I. De soslaio, observei o nervosismo das outras garotas e, o entusiasmo de alguns. Letícia parecia segura e isso me fez arquear as sobrancelhas. Era tão ridículo que eu estivesse me sentindo insegura diante daquela garota. Mas no fundo, era assim que eu me sentia. Desviei os olhos e sacudi a cabeça buscando clarear a minha mente. Eu precisava de toda a concentração para atuar lindamente. Voltei a espiar o Lucas e me peguei sorrindo. Com os braços cruzados, ele agora olhava para o palco. A música da introdução iniciou e o espetáculo começou. Estalei os dedos, de modo a expulsar o nervosismo que ameaçava me invadir. Os minutos foram se passando e a minha entrada se aproximando. Assim que me coloquei próximo a entrada do palco, Andressa surgiu atrás de mim e me abraçou. — Boa sorte! — soprou em meu ouvido antes de repousar os lábios em minha bochecha maquiada. Eu sorri. Lentamente, eu entrei no palco sob os aplausos do público, devido à


mudança de cenário. Em um olhar rápido, eu mirei na direção em que o Lucas estava sentado e, notei que ele estava se levantando. Ele estava indo embora? Esfregando os cabelos, ele guardou o celular em um dos bolsos da jaqueta e seguiu por um dos corredores que o levaria a porta de saída. O entendimento daquilo se fez presente assim que me vi prestes a iniciar a encenação. Lucas não tinha vindo para me ver, mas veio para ver a Letícia, que por sua vez, participaria apenas no início da peça. Aquela constatação me destruiu de uma maneira que não fui capaz de suportar. Busquei respirar fundo para esvaziar a mente. Engoli os soluços e escondi toda a dor para me concentrar no meu trabalho. Em um movimento suave e lento, eu sustentei as pernas no ar, contudo quando tentei fazer o passo Jeté, no qual, atiro a perna com energia, sempre esticada e com os pés fora do chão, eu não obtive apoio suficiente na descida e torci um dos meus tornozelos. Assim que a produção percebeu o incidente, rapidamente a cortina foi fechada e a equipe veio ao meu socorro. Fui retirada do palco e, em seguida, a minha substituta tomou o meu lugar e continuou o espetáculo. Enquanto era verificada pela equipe do pronto entendimento, meu coração sangrava e, eu só conseguia me lembrar da imagem do Lucas indo embora no momento em que eu entraria no palco. “Amanhã será um dia especial para a minha garota.” Aquela mensagem não era sobre mim, afinal —, pensei arrasada. — É melhor aguardar aqui fora. — Eu não vou aguardar aqui! Quero saber o que aconteceu com a Ana, porra! Ergui os olhos e vi uma Andressa desesperada para entrar na sala, no qual, eu estava. Assenti para o assistente. Eu estava com uma das pernas erguidas, e Andressa se aproximou com as mãos na boca. — O que aconteceu? Eu percebi que você não estava concentrada, Ana. Juro que não entendi, pois você estava extremamente eufórica e firme, instantes antes de entrar no palco. O soluço estava prestes a escapar da minha garganta. — Lucas foi embora, Andressa. Ele partiu na minha vez... — meu rosto se contorceu, devido ao pranto — Ele só veio para assistir a Letícia. Ela é a garota dele.


Puxando-me para seus braços, Andressa me confortou enquanto eu me debulhava em lágrimas. Aquele que era para ter sido um dos melhores dias da minha vida se transformou em um dia de terror, principalmente para o meu coração.


Capítulo 8 Ana Os dias que precederam ao espetáculo foram de extrema tortura. A minha mãe ficou chateada, pois eu preferi o aconchego do meu apartamento quando ela se ofereceu para cuidar de mim na casa dela. Eu não tive a intenção de agir com ingratidão, mas não achei necessário todo esse cuidado quando na verdade, eu apenas tive uma torção no tornozelo. — Você está se alimentando direito, Ana? Poxa, filha, eu queria tanto que você viesse aqui pra casa, pois assim a mamãe poderia cuidar de você... Eu me peguei rindo daquelas palavras. Aconcheguei-me melhor no sofá e diminui o volume da televisão. — Não se preocupe comigo, mãe. Eu estou melhorando. — Olhei para meu tornozelo direito, no qual estava estabilizado com uma Órtese. — E, então? A Raquel comentou comigo algo sobre a festa de aniversário dela — perguntei para mudar o foco do assunto. Ouvi um suspiro do outro lado da linha. — Ela quer realizar a festa na casa da Marie, pois lá o espaço é maior. Também quer contratar DJ, bufê, garçons, baile e tudo o que uma festa de quinze anos exige. Eu ri. — Ah, será incrível mãe. A nossa garotinha merece. Trocamos mais algumas palavras e, em seguida, eu encerrei a ligação. Voltei a aumentar o volume da televisão, mas o programa não servia como distração para meus pensamentos atormentados. Esfreguei o rosto em frustração. Na verdade aquele enclausuramento em meu apartamento estava me deixando louca. Eu precisava sair. Precisava respirar ar puro. O médico havia me dado quinze dias de atestado, mas eu não conseguiria permanecer trancada dentro daquelas paredes. Novamente com o celular em mãos, eu liguei para a Andressa, que me atendeu no segundo toque: — Oi, amiga. Está melhor? Estava pensando em passar aí na hora do almoço e preparar algo para nós, o que você acha? Um enorme sorriso se abriu em meus lábios com aquele carinho.


— Acho uma ideia excelente — respondi agraciada. — Você está tendo aula agora? Ouvi-a conversar com alguém, mas logo retornou: — Terei daqui a pouco. Por quê? — Eu estou com vontade de visitar o meu pai na academia, mas infelizmente, não poderei ir de biz. — O que pretende fazer lá, afinal? Aposto que quer aproveitar para ver o Lucas, não é? — Ela riu, embora não negasse o pequeno desprezo por ele. — Não é por ele, Andressa — garanti. — Quero conversar com meu pai, pois andei pesquisando sobre torções no tornozelo e descobri que posso prevenir possíveis lesões mais graves com alguns exercícios. — Uhum, sei... — Ah, Andressa, pare com isso... Ela gargalhou alto. — Está bem, eu darei a carona. Espere-me na frente do prédio, ok? Concordei e, em seguida, desligamos. Levantei-me do sofá e desliguei a televisão. Com um pouco de dificuldade, eu fui até o quarto e optei por um vestido leve. Peguei minha bolsa e segui para fora do apartamento. ♥ Andressa me deixou na frente da academia e se despediu prometendo ir a minha casa no horário do almoço. Inspirando profundamente, eu ergui os olhos e admirei a fachada da academia do meu pai. Eu lutei para que as lembranças, nos quais, criei com o Lucas ali, não viessem a minha mente, mas foi impossível. O nosso reencontro havia acontecido exatamente naquele lugar. Caminhei de maneira lenta pela calçada e abri as portas duplas. Meu pai não estava na recepção quando eu entrei, mas logo apareceu e se surpreendeu a me ver. — Ana? — Ele veio até mim para me aconchegar em seus braços. — Aconteceu alguma coisa? A sua mãe não me avisou que você viria. Afastando o rosto, ele amoldou o meu com suas enormes mãos. — Ela não sabe que estou aqui, pai. Eu decidi agora. — Segurei suas mãos e as beijei carinhosamente. — Apenas pensei em vir visitá-lo. — Tem certeza de que não aconteceu nada? E o tornozelo?


— Está melhorando — respondi e baixei o olhar para o dispositivo de sustentação, no qual, eu estava usando. — Mas, gostaria de praticar alguns exercícios de fortalecimento, pai. Eu fiz algumas pesquisas e descobri que com a prática, eu consigo reforçar os tornozelos e assim evitarei uma Entorse, por exemplo. Sou formada em ballet, e necessito dos meus pés intactos para trabalhar. Ele riu. — Está certo. Adorarei ensiná-la algumas técnicas para o relaxamento e fortalecimento dos músculos e tendões. Quem sabe, eu não a ensine alguns golpes de autoproteção, hun? — Sério? — indaguei animada. — Eu adorarei aprender. Ele sorriu feliz e repousou os lábios em minha testa. — Por que não dá uma passeada pelo interior da academia? Logo volto a encontrá-la, mas preciso resolver algumas coisas antes. Assenti com a cabeça e segui com dificuldade. O barulho de golpes era alto, assim como os gemidos, que mais se pareciam com rosnados. Em nenhum momento, eu vi outra mulher ali, apenas garotos. Distraída, eu não percebi equipamentos no chão e acabei tropeçando, contudo fui segurada por alguém. — Opa! Eu peguei você — disse uma voz grossa. Constrangida, eu me estabilizei nos próprios pés e ergui o olhar para conhecer meu herói, e sorri. — Jonathan? — reconheci com surpresa. Ele sorriu fazendo-me admirar suas charmosas covinhas. — Fico lisonjeado que você tenha se lembrado de mim, Ana — disse ele. Em seguida, me soltou. Analisou o meu tornozelo. — Vejo que está tendo problemas. — Ah, eu... — Ana? Essa voz... Estupidamente o meu coração acelerou. Olhei para o lado e me deparei com um Lucas carrancudo assim que percebeu o Jonathan perto de mim. — Está me procurando? — perguntou arrogante. Ignorei-o completamente e voltei a conversar com o Jonathan.


— Eu me formei em ballet, mas no momento estou de atestado. Acabei de conversar com meu pai a respeito de alguns exercícios que eu possa fazer para reforçar meus tornozelos. — Ah, que bacana, Ana — disse ele enquanto começava a juntar os equipamentos espalhados. — Eu posso ajudá-la com isso — ofereceu. Uma risada sarcástica soou perto de nós. — Você auxiliá-la, “cabide”? — questionou Lucas. — Esqueceu que você é praticamente o meu Sparring Bob ? Havia tanta crueldade nos olhos dele, que me senti mal. Jonathan travou o maxilar, contudo decidiu não retrucar. — O que é isso? — Segurei-o pelo braço forçando-o a olhar para mim. — Vai o deixar insultá-lo? Que negócio é esse de cabide e Sparring Bob? Lucas continuou sorrindo e se aproximou. Ele estava sem camisa; peitoral desnudo, cabelos molhados... — Nada que interesse a você — disse Lucas no mesmo tom grosseiro. — O “cabide” sabe muito bem onde pisar — continuou atacando-o. Eu o fuzilei. Com o dedo em riste, eu rosnei: — Cale a sua boca, Lucas. Eu nem mesmo estava lhe dirigindo a palavra quando você se intrometeu na minha conversa com o Jonathan. Os olhos dele lampejaram sobre os meus. Jonathan suspirou e tocou meus ombros antes de se afastar. Olhei para a direção, no qual, ele havia seguido, mas meus passos ainda eram lentos para ir atrás dele. — Droga! — resmunguei chateada. — O que aconteceu com o seu pé? — Veio a pergunta do Lucas. Eu estava de costas para ele, entretanto me virei para encará-lo. Ele parecia confuso ao notar o meu ferimento. — Eu torci o tornozelo durante a minha apresentação no sábado — respondi em tom frio. — Mas é claro que isso não interessa a você, não é? Joguei as mãos para cima e me virei para sair dali. Meu tornozelo começou a doer, pois eu devia estar de repouso. Gemi alto e, de repente, Lucas estava ao meu lado. Uma de suas mãos enlaçou a minha cintura impedindo-me de cair. Meus olhos buscaram os dele em uma súplica silenciosa. — Por que está fazendo isso, Lucas? Lágrimas não derramadas inundaram meus olhos. [1]


— Filha? Rapidamente fomos interrompidos pelo meu pai, que surgiu e logo me tomou nos braços. — Eu sabia que você ainda não estava recuperada — analisou nervoso enquanto me erguia em seu colo com extrema facilidade. — Lucas, se quiser ir para casa pode ir, pois o Jonathan fecha a academia hoje. — Não consegui ouvir a resposta dele. — Estou saindo, pois preciso cuidar da minha filha. — Eu estou bem, pai — resmunguei, contudo me calei assim que ele me encarou com aquele olhar contrariado. Suspirei em frustração, pois era a única coisa que eu podia fazer.


Capítulo 9 Ana Uma semana se passou desde o incidente que ocasionou a torção do meu tornozelo. A fisioterapia estava me ajudando bastante, apesar de eu ainda estar utilizando o dispositivo. Naquele momento, eu estava deitada na rede da varanda da casa dos meus pais. Havia decidido ceder aos insistentes pedidos para passar uns dias ali. Meu pai se recusou a me deixar em meu apartamento aquele dia quando fui visitá-lo na academia. No fundo, eu cedi, pois me sentia carente de carinho e de cuidado. Soltei um arquejo alto. — O que foi, meu amor? Por que a frustração? Olhei para o lado e me deparei com minha tia Marie. Ela era tão linda. Rapidamente me sentei na rede. — Não é nada tia. Eu apenas estou me sentindo entediada — respondi em tom baixo. Observei quando ela se sentou em uma das cadeiras de madeira. — Eu entendo. Você estabeleceu uma rotina intensa há anos; escolher o ballet como profissão é uma escolha difícil. E, agora se ver presa por conta de uma torção deve ser frustrante. Eu sorri. — Não foi uma escolha tão difícil na época — comentei sem deixar de me lembrar do Lucas. Baixei os olhos e encarei as minhas mãos. — Ainda estamos falando sobre o ballet? Voltei a fitá-la e encontrei seu olhar compreensivo. — No fundo, eu sei que perdi o Lucas, sabe? E, incrivelmente, a dor da perda veio somente agora e, ela está me massacrando dia após dia... — minha voz falhou devido ao desejo de chorar, contudo me segurei —, a cada olhar não correspondido, a cada rejeição... Respirei fundo e soltei o ar devagar. Evitei encará-la, ou eu desmoronaria. A voz da minha mãe estava distante, então estávamos sozinhas ali.


— Depois que você partiu Ana, o Lucas não demonstrou nenhuma emoção. — Voltei meus olhos para ela, em choque. — Ele continuou a viver como se a sua existência tivesse sido nula para ele, entende? Não houve tristeza e, ou sofrimento. Lucas não chorou, mesmo quando eu fazia questão de lembrálo de você. Ouvir aquelas palavras me destruiu ainda mais. Levantei-me da rede e ameacei sair dali para enfim poder chorar, mas ela me segurou pela mão. — Eu não falei isso para feri-la, querida — disse com voz dócil. — Uma vez, Lucas me chamou e me entregou uma pequena caixa. Lembro-me que ele me pediu para queimá-la, porém me fez prometer que eu não a abriria. Eu fiquei confusa na hora, sem entender o motivo para ele ter me feito tal pedido. “Por que você mesmo não queima?” Eu o questionei. — Ela sorriu triste como se estivesse se lembrando. — Aí ele me respondeu apenas: “Eu não consigo mãe.” Meu coração estava aos pulos. De repente, minha tia se inclinou e pegou uma caixa de madeira que estava repousada ao lado da cadeira, no qual, ela estava sentada antes. Voltando-se para mim, ela prosseguiu: — Ele não sabe, mas eu também não consegui queimá-la — argumentou, quando me entregou a caixa. — Espero que isso sirva de munição para você não desistir da batalha. — Suas mãos preencheram meu rosto. — Não desista dele, querida, pois Lucas a ama. Eu sei que ama. Ainda em choque, eu não fui capaz de abrir a boca para dizer nada. Observei-a se afastar de mim e, quando me vi outra vez sozinha meus olhos voaram para a pequena caixa em minhas mãos. — O que você escondeu aqui, Lucas? — sussurrei para mim mesma. — Ana? — Raquel gritou ao longe. — Estou aqui — respondi, ainda de olhos na caixa. — Vem me ajudar a escolher o modelo do meu vestido. Sorri em contentamento. Ali, eu entendi um dos motivos da visita da nossa tia Marie. Certamente, ela havia trazido a pasta com os croquis para que Raquel escolhesse o modelo do vestido que seria usado na festa do aniversário dela. — Estou indo — gritei de volta. ♥ — Por que você não abre logo essa maldita caixa? — Andressa questionou pela milionésima vez. — Parece que nem está curiosa. Você é mulher mesmo? — Bati na mão dela quando a mesma ergueu meu vestido tentando


olhar o que tinha por trás do tecido. — Que tipo de mulher é você que não sente curiosidade? Revirei os olhos diante da gargalhada dela. — Não é questão de curiosidade, Andressa — falei. Terminei de passar o batom e verifiquei meu visual. — Mas de estar preparada para saber lidar com o conteúdo que me aguarda. Respirei fundo. Quatro dias haviam se passado e, falhei em todas as tentativas de abertura daquela caixa. — Ok. Olhei-a de soslaio e evitei sorrir do bico que havia se formado em seus lábios. — Como estamos de acordo quanto a isso, agora podemos ir? Resoluta, ela se levantou e eu a analisei; vestido curto em tom rosa, cabelos presos em um rabo de cavalo, contudo alguns fios estavam soltos ao lado do rosto levemente maquiado. — Quer parar de me olhar com esse olhar de desejo? — brincou e, eu ri enquanto revirava os olhos. — Agora, falando sério, Ana: Qual o real motivo de eu estar indo para a festa de aniversário da sua irmã? Eu nem mesmo recebi um convite. Eu arquejei enquanto saíamos do quarto. — Eu te convidei, oras. Ingrata! Chegamos à sala no mesmo instante em que a campainha soou. Ao abrir a porta, eu olhei para trás — para a Andressa. — O motivo para o convite está aqui — falei com um sorriso maroto. Voltei o olhar para o Jonathan, que por sua vez, estava sem entender. — Essa é a minha amiga Andressa. Andressa logo estava ao meu lado. Jonathan se inclinou e puxou uma das mãos dela para seus lábios, o que a fez resfolegar. — É um prazer conhecê-la, Andressa. — O prazer é todo meu — respondeu em tom abobalhado. Sentindo-me uma intrusa entre eles. Cocei a garganta. — Bom, eu acho que estamos atrasados, não? Os dois piscaram ao som da minha voz e se remexeram, incomodados


com o clima tenso. Jonathan se afastou e, Andressa aproveitou para sair do apartamento. Em seguida foi a minha vez. — Vamos no meu carro? — Andressa questionou. Jonathan me encarou. — O seu pai me pediu para vir buscá-las no carro dele, então... — Ok — Andressa respondeu e, eu apenas assenti. O jardim da mansão estava abarrotado de carros; a música alta chamou a minha atenção no momento em que Jonathan estacionou. Meu vestido era simples se comparado ao da Andressa, pois eu não gostava de chamar a atenção. — Acho que está cheio aqui. Ri do comentário dela. Ela e Jonathan vieram conversando quase o trajeto inteiro e, eu apenas fazia um comentário aqui e outro ali. Na verdade, eu apoiava uma possível relação entre eles. Quando avistei o convite com o nome do Jonathan, na mesma hora me veio o nome da Andressa. Não é porque minha vida amorosa não estava indo bem, que eu não desejava que minha melhor amiga se desse bem no amor —, pensei. Assim que entramos na mansão, eu rapidamente fui até minha irmã e a abracei forte. — Você merece isso e muito mais, meu amor — sussurrei no ouvido dela e logo a beijei na bochecha. — Você está uma verdadeira princesa. — Obrigada, mana. Sorri junto com seu enorme sorriso. Logo depois, ela foi puxada pela mamãe e me vi sozinha. Andressa não estava mais em meu campo de visão. De repente, alguém esbarrou em mim e um líquido gelado molhou o tecido do meu vestido na região dos seios. — Oh, me desculpe! Reconheci aquela voz antes mesmo de erguer os olhos para vê-la. Letícia me encarava com sarcasmo nítido nos olhos. O vestido sensual evidenciava a fartura dos seios e dos quadris. Verdadeiramente, ela era uma mulher atraente —, admiti com desgosto. — Posso fazer alguma coisa para ajudá-la? — perguntou, contudo sem esconder aquele ar de ironia. — Pode! Ficando longe de mim.


Saí de perto dela e comecei a me desviar das pessoas. Em algum momento, eu ouvi a voz da Andressa, mas não consegui parar, aliás, eu não queria parar. Subi as escadas e no andar de cima abri uma porta qualquer a fim de me esconder por alguns instantes. As lágrimas enfim desceram livres, desmanchando a maquiagem trabalhada. Meu tornozelo latejou levemente pelo fato de eu ter praticamente corrido até ali sobre os saltos. Ainda na porta, eu me virei de lado e toquei a madeira com a testa. Ignorei os soluços e os deixei sair, assim como dor de saber que Lucas fez questão de trazer aquela garota para que toda a família visse... para que eu os visse juntos. Irritada comigo mesma, eu me desencostei da porta e mirei o estrago em meu vestido; comecei a abrir o zíper... — Eu não acho que isso seja uma boa ideia — disse uma voz, no qual freou meu movimento. Funguei o nariz e passei a palma da mão em minha bochecha para limpar as lágrimas. — O que faz aqui? Observei-o se levantar da cama. Lucas estava delicioso dentro daquele smoking, apesar de ter abandonado o paletó. — Desde que eu sou filho dos meus pais, esse aqui é o meu quarto — zombou apontando ao nosso redor. Sentindo-me patética, eu mordi os lábios. Como não havia notado aquele detalhe antes? Estava tão desesperada para me isolar, que não percebi onde estava entrando. Balançando a cabeça, eu me virei para sair. — Do que está fugindo, Ana? Parei com a mão na maçaneta. — O quê? — soprei. Ele se aproximou. — Quando entrou aqui parecia estar fugindo de alguém ou de alguma coisa — argumentou sem tirar os olhos de mim. De frente para ele, eu lutei para enxergar algo que me fizesse ter esperança de que ainda tínhamos chances, contudo, eu não vi nada. — Acabei de me deparar com sua namoradinha e, ela me recepcionou assim. — Apontei para a mancha do meu vestido. — Letícia fez isso? — Por que a surpresa? — questionei, irritada com ele.


Ele franziu o cenho, ainda com as mãos nos bolsos da calça social. — Eu e ela não somos nada um do outro, além de parceiros na cama — ele disse com tranqüilidade. — Por que ela agiria dessa forma com você, que por sua vez, não significa mais nada para mim? Precisei respirar. Precisei respirar outra vez e outra e outra... Meu rosto estava contorcido com lágrimas novas. Ali estava um Lucas que tinha prazer de me espezinhar. — Desde o meu retorno ao Brasil, um dos momentos mais esperados por mim era o do nosso reencontro, sabe? Eu sonhava com esse dia, com o dia em que voltaria a ver o amor da minha infância, aliás, o meu primeiro e único amor. Naquela apresentação, dias atrás, eu me desconcentrei e torci o pé, pois eu o vi virando as costas para mim. — Nada diferente do que você fez comigo — retrucou incomodado, ou com minhas palavras, ou com minhas lágrimas. Mordi os lábios. — Você me odeia tanto assim? — Ele parecia ter sido pego de surpresa. — Ana, isso não tem nada a ver conosco. — Tem sim! Tem tudo a ver conosco. Veja só, você me culpa por um erro adolescente e, sequer parou para analisar a situação na maturidade. Eu achei que você estava na apresentação por mim, para mim. Mas você simplesmente se levantou e foi embora com ela. Me odeia tanto assim? Minhas palavras foram proferidas entre soluços enquanto meu corpo inteiro tremia. Não percebi quando aconteceu, mas quando dei por mim, eu estava aninhada nos braços dele enquanto o mesmo tentava me acalmar com sussurros gentis e doces. Apertei meus braços ao redor dos seus ombros e escondi o rosto na dobra do seu pescoço, inspirando aquele aroma único. Instantes depois, ele me afastou de modo a encarar meus olhos e, por um momento, eu vi emoção no rosto dele. — Eu não a odeio, aliás, nunca a odiei, Ana. Mesmo quando eu quis muito e, eu quis... Ah, como eu quis! Engoli em seco. Abri a boca para falar, mas fui interrompida com a entrada abrupta de alguém no quarto. Letícia olhou de mim para ele e, pegando-me de surpresa, ela o puxou para si e o beijou. A princípio, eu me vi sem reação, mas aos poucos fui me dando conta de que era eu quem estava sobrando ali. Lucas estava


compartilhando daquele beijo... o beijo que deveria ser meu.


Capítulo 10 Ana Os dias passaram e com isso a minha rotina intensa voltou com tudo. Meu corpo sofreu um pouco com o retorno dos exercícios, mas era questão de tempo para que ele voltasse a se adaptar. A presença da Letícia no meu ambiente de trabalho passou a ser figurinha carimbada e, no fundo, eu sabia que ela fazia questão de se mostrar. Ela queria se fazer presente na minha vida, apesar de eu ignorá-la. — Eu não sei como você aguenta isso — Andressa comentou, me fazendo dispersar meus pensamentos para olhá-la. Levei os olhos na direção em que ela indicava com o queixo e me deparei com Letícia, conversando em tom alto com duas garotas. Ela fazia questão de mostrar a mão direita, no qual brilhava uma linda aliança de prata no dedo anelar. — O que você quer que eu faça? — retruquei, incomodada. — Lucas não me quer, Andressa. E, além do mais, olhe para ela... é apenas uma garota fútil! Andressa me encarou de olhos arregalados, e eu sorri fraco enquanto terminava de guardar meus pertences na mochila. — Confesso que não teria essa sua maturidade — disse com uma expressão engraçada. — Eu sei — resmunguei. Com a mochila nos ombros, eu a encarei. — Estou indo para a academia do meu pai agora. Quer ir? Começamos a caminhar pelo corredor principal do Instituto em direção a porta. — Tenho que me encontrar com meu irmão daqui a pouco — respondeu com entusiasmo. — É o dia do mês em que nos vemos, sabe? Já que ele mora em outra cidade. Eu sorri com emoção. — Eu acho muito lindo essa união de vocês dois — comentei e a abracei. — Vejo você mais tarde, ok? Eu baixei um filme para assistirmos. Ela concordou e nos despedimos. No estacionamento, eu fui até minha biz e me preparava para sair com ela quando uma voz me parou: — Lucas já tinha me falado sobre sua indiferença, mas confesso que não


imaginei que fosse tão forte. — Olhei para trás e me deparei com Letícia. Ela ergueu a mão para mostrar a aliança. — Eu pensei que você me daria os parabéns, já que fui a vencedora. Lucas é somente meu agora. Arqueei as sobrancelhas diante daquelas palavras. Inspirei profundamente e sacudi a cabeça sem ter a mínima intenção de respondê-la. — Isso, foge! — disse quando me viu subir na garupa da biz. — Essa é a sua principal tática, não é? Fugir! — acusou. Irritada, eu desci e fui até ela, que não recuou. Segurei um de seus braços com agressividade e com a outra mão, eu apontei o indicador contra seu rosto. — Meu sentimento pelo Lucas é puro, contudo não posso obrigá-lo a ficar comigo. Em nenhum momento, eu te provoquei, garota! Então peço para que me deixe em paz, ou eu não responderei por mim! Ela se soltou do meu aperto e, em seguida, massageou a pele avermelhada. — Vou me lembrar do seu aviso mais tarde, quando Lucas estiver me chupando enlouquecidamente. — Travei o maxilar diante daquilo. — Você sabia que ele só se preocupa em gozar depois de me fazer gozar repetidas vezes em sua língua? Mesmo sentindo meu sangue ferver nas veias, eu forcei um sorriso de escárnio. — Eu conheço as táticas sexuais dele, querida, pois fui eu quem ensinou todas elas. Pisquei marota antes de me afastar. Voltei a subir na biz e baixei o capacete. Eu teria rido da expressão atônita no rosto dela, mas no fundo estava destruída. Longos minutos depois, eu estava estacionando em frente à academia do meu pai. Já era fim de tarde e, eu acreditava que não teria quase ninguém ali. Meu pai já havia ido embora, de acordo com a simpática garota da recepção. Na verdade, eu não tinha ido para visitá-lo, mas para me encontrar com o Jonathan, que se prontificou de me ajudar nos exercícios para o fortalecimento dos meus tornozelos e pernas. — O Jonathan está? — perguntei. — Eu estou aqui — Ele colocou a cabeça no vão da porta. Um belo sorriso pairava nos lábios carnudos e intensificava as covinhas charmosas de suas bochechas.


Fui até ele e o saldei com um abraço. — Estou pronta para começar a aprender — falei com entusiasmo, enquanto caminhava com ele pelo corredor estreito. — Vim direto do Instituto, na verdade. Meu corpo ainda está quente — Sorri quando ele desceu os olhos pelo meu corpo. — Estou com o collant por baixo da legging, Jonathan. — Revirei os olhos. Entramos em uma das salas. Notei que a mesma já estava vazia de alunos, mas estava muito bagunçada. — Você se importa de me esperar? — Olhei confusa para ele e ele sorriu sem jeito. — Eu preciso organizar a sala antes. — Apontou ao redor. — Ah, eu ajudo você — falei enquanto repousava a minha mochila em um canto da parede. — Não precisa, Ana. Eu faço isso todos os dias — disse mais do que depressa e, eu o encarei. — Por que você faz isso? Ordens do meu pai? Eu não estava entendendo o motivo de ele arrumar sozinho, a bagunça feita por todos os alunos. Era muito injusto. — O seu pai é a melhor pessoa que eu conheci — respondeu. — Ele me convidou para ser um dos alunos, também me auxiliou nos meus estudos durante muito tempo. Eu não tenho muitas maneiras de retribuí-lo, sabe? Então, me responsabilizo em manter a academia em ordem. Eu estava sorrindo. — Meu pai é um homem de coração enorme, mas você é um garoto incrível, Jonathan. — Percebi um tom rosado nas bochechas dele antes de baixar os olhos. — Sou nada — resmungou e se afastou para começar a organizar. — Estou longe de ser alguma coisa. Diante do suspiro desanimador, eu me deparei com uma amarga constatação. — É por isso que o Lucas o chama de “cabide”, não é? Porque você fica para organizar a bagunça — afirmei, apesar de ele não dizer nada. Senti-me mal diante desse fato. — Lucas é somente um garoto bom, que teima em se esconder na casca de um garoto mau — respondeu depois de alguns instantes. Analisei suas palavras, mas me recusei a entender o que Jonathan quis dizer. Estalei os lábios e decidi pelo silêncio enquanto o ajudava a juntar as luvas


e, ou equipamentos. Minutos mais tarde, estávamos livres para iniciar os exercícios. Peguei o meu iPod e coloquei uma música num volume ameno. No primeiro exercício, Jonathan me fez sentar em um banco e deslizar uma toalha embaixo de um dos pés. — O próximo passo é segurar a toalha com as duas mãos e puxá-la para a esquerda até que o tornozelo incline para a esquerda. Então, ir contra a força executada pelos braços e impulsionar o tornozelo para a direita — disse ele em tom sério. — Após isso, com o tornozelo inclinado para a direita, puxe com os braços para o sentido da direita e impulsione o tornozelo para a esquerda. — Quantas vezes eu devo fazer isso? — O tanto de vezes que se sentir confortável. Depois repita o mesmo com o outro pé. Assenti e comecei os movimentos. Jonathan permaneceu ao meu lado, contudo ele havia retirado a jaqueta. Seus músculos expostos chamaram a atenção dos meus olhos conforme ele praticava movimentos corporais. — Estou distraindo você? — brincou e eu ri. — Não seja arrogante — repliquei com o rosto rubro. A gargalhada dele ressoou no ambiente. Levantei-me do banco disposta a pegar pesado. Ele me encarou com um sorrisinho de canto. — Ensine-me um golpe — pedi, enquanto me alongava. — Um golpe? Revirei os olhos diante de seu olhar confuso. — Isso. Meu pai ficou de me ensinar alguns golpes de autodefesa, mas ele é muito ocupado e, eu não pretendo incomodá-lo. Você pode me ensinar? Ele franziu os lábios. — Podemos fazer uma coisa de cada vez? — Sua sobrancelha estava arqueada em sinal de sarcasmo. — Estarei aqui todos os dias da semana. Não acho legal forçar muita coisa em um dia só. Fechei a mão e o acertei no peito pegando-o desprevenido. Vi o choque passar em seus olhos enquanto via o divertimento nos meus. Voltei a golpeá-lo, mas ele se defendeu. Ergui a perna mirando em seu pescoço, mas ele a segurou e, em seguida, freou o movimento do meu punho, que mirava o seu rosto. Soltando-me, ele empurrou o meu corpo e segurou ambas as minhas mãos contra minhas costas


sobre meu quadril. Eu respirava com dificuldade, mas sorria com divertimento. — Você não deve se distrair em hipótese alguma — ele sussurrou. Levei os lábios na dobra do seu pescoço e beijei sua pele. Em instantes, suas mãos soltaram as minhas e, eu o golpeei nas costelas fazendo-o grunhir. — Você não deve se distrair em hipótese alguma — repeti suas recentes palavras. Não tive tempo de me vangloriar, pois me vi no chão com um movimento rápido dele. Comecei a gargalhar quando Jonathan passou a me fazer cócegas. — Ah, isso já é sacanagem, Jonathan... Em meio as nossas risadas fomos freados com o som de palmas. — Que cena mais linda! Lucas estava parado diante de nós. Seu semblante lembrava o de um assassino sanguinário, conforme aplaudia. Nervosa, eu me levantei assim que Jonathan me deixou livre. — Eu pensei que aqui era a academia do seu pai, Ana, e não um motel — cuspiu enojado. Senti meu rosto queimar. — Como ousa me insultar? Jonathan e eu estávamos treinando, seu idiota! Ele riu debochado. — Ah, eu vi muito bem o tipo de treinamento. — Ele disse enquanto simulava os movimentos do sexo. — Cala a boca, Lucas — rosnou Jonathan fazendo-me olhá-lo. Os olhos dele estavam ferozes e seus punhos cerrados contra o corpo. Irritado, Lucas estufou o peito e foi até ele para intimidá-lo, contudo Jonathan o derrubou com apenas um golpe. Eu gritei em pânico. Desesperada, eu corri até ele, que estava caído no chão. — Oh, meu Deus, Lucas... Ele se ergueu e eu pude ver o sangue brotando do seu nariz. Olhei para o Jonathan, que parecia estar indiferente àquilo. Lucas se soltou do meu toque com um safanão. — Você está sangrando... — soprei e olhei para o Jonathan novamente — Temos que fazer... — Foda-se! — disse o Lucas e eu o olhei. — Me deixe em paz!


Fiquei sem reação quando ele simplesmente saiu, deixando a sala em poucos passos. Minha adrenalina estava tão alta quanto meus batimentos cardíacos naquele momento. O que foi isso?


Capítulo 11 Já passava das oito da noite quando eu cheguei em casa. Minha cabeça estava explodindo e tudo o que eu ansiava era de um bom banho e um analgésico. Joguei minha mochila em um canto da sala e me preparava para seguir o corredor quando a campainha soou. Franzi a testa, incomodada com o barulho. Rapidamente fui até a porta e a escancarei. — Uau! Que cara é essa? — Veio a pergunta da Andressa, que vestia um pijama de ursinho e carregava uma enorme tigela de pipoca nas mãos. — Acabou de chegar? Assenti com a cabeça conforme massageava minhas têmporas. — Minha cabeça parece querer explodir — grunhi com dor, enquanto me deixava cair sobre o sofá. — O que aconteceu? Minha cabeça tombou para trás e eu fechei os olhos. Imagens dos recentes acontecimentos ricochetearam a minha mente sem controle. A verdade é que eu ainda estava tentando entender tudo o que havia acontecido na Academia do meu pai. — Ana? — A voz da Andressa se fez presente e, eu a encarei. — Agora você está me assustando. Soltei um arquejo baixo. — Deixe-me tomar um banho e, então eu conto tudo. Levantei e sorri dos resmungos dela. Andressa era uma pessoa extremamente curiosa. No quarto, eu fechei a porta e segui direto para o roupeiro. Conforme, me decidia sobre a roupa, no qual, eu pretendia vestir, os meus olhos se depararam com o baú secreto do Lucas. Desde o momento em que a minha tia Marie me entregou aquele objeto, eu não havia tido coragem necessária para abri-lo; simplesmente o guardei. Mordendo os lábios, eu estiquei o corpo e o alcancei. Depositei-o sobre a cama e respirei fundo enquanto me sentava ao lado. Era um pequeno baú de madeira com poucos detalhes. Imaginei o que Lucas diria se soubesse que eu estava em posse daquilo. Certamente se zangaria demais e ameaçaria socar o mundo inteiro —, pensei divertida. Com mãos trêmulas, eu o abri de uma vez.


Meus olhos observaram atentamente o conteúdo e, a princípio, eu não entendi, mas aos poucos fui me dando conta do que estava diante de mim; Eram cartas e pequenos bilhetes. Peguei uma delas e comecei a ler: “Hoje completou cinco dias desde que ela foi para Londres, e por mais que eu expresse todo o meu desprezo e a minha frieza por fora, de nada adianta, pois o meu interior está despedaçado. Ana me arruinou sentimentalmente, e tão cedo o meu coração não irá se curar.” Terminei de ler com lágrimas nos olhos. Obviamente que eu tinha noção do quanto minha decisão o havia feito sofrer, mas na época, eu não calculei as consequências dos meus atos. Naquele momento, eu me senti estúpida e malvada. Não que eu devesse ter aberto mão do meu sonho de ser uma bailarina profissional, mas poderia ter agido de maneira limpa e honesta com o Lucas. Afinal de contas, ele era o meu namorado e merecia isso. Nervosa, passei a folhear todo o conteúdo e a cada leitura novas lágrimas brotavam dos meus olhos diante da dor que eu havia causado ao homem, no qual amei e ainda amava. Terminei de ler e guardei tudo antes de me levantar e me encaminhar para o banheiro. Sentia-me anestesiada e entorpecida. Contudo, torcia para que um bom banho me fizesse relaxar um pouco. Longos minutos mais tarde, eu me acomodei ao lado de Andressa no sofá. A televisão estava ligada em um programa qualquer e Andressa a desligou imediatamente ao ver o meu semblante. — Desembucha! — exigiu. — Eu, antes estava preocupada, mas agora vendo seu rosto inchado com os olhos avermelhados, eu estou desesperada. Olhei para ela e senti meu rosto se contorcer. Ela abriu os braços e se ajeitou melhor no sofá, de modo a deitar minha cabeça em seu colo. Chorei baixinho enquanto ela acariciava minha cabeça com carinho. — Ele a pediu em namoro, Andressa... está namorando aquela garota... aquela... droga! Nem posso dizer que ela é feia. Até aquele momento, eu não tinha parado para absorver aquela informação. A vontade de ignorar aquele sentimento corroendo o meu coração às vezes parecia me cegar e eu enganava a mim mesma. Andressa permaneceu em silêncio, apenas deixando claro o seu apoio. — Jonathan e ele brigaram na Academia.


— Brigaram? Como assim? Soltei um arquejo. Ergui-me no sofá e peguei o pote com a pipoca. De pernas cruzadas e sentindo-me mais estabilizada, eu comecei a narrar tudo o que tinha acontecido. — Eu não acredito que ele insinuou que você e o Jonathan estavam... — Pois é — cortei-a. — Olha, Ana, me desculpa, mas Lucas é um completo idiota. — Eu sei — concordei. — Mas também sei que ele está magoado, e quando estamos ferrados emocionalmente fazemos coisas ruins. Ficamos em silêncio por alguns minutos e, eu voltei a encará-la. Peguei um pouco de pipoca. — Mas e você? Como foi o reencontro com seu irmão? A tensão no seu rosto lindo deu lugar a um brilho de alegria. Era bom falar de coisas felizes. — Ah, foi bem divertido. Continuamos conversando durante horas, e sequer sentimos vontade de assistir a qualquer filme. ♥ Dois meses se passaram. A primavera estava terminando e, eu estava quase dando boas vindas a minha estação preferida: o verão. Apesar de Joinville ser uma cidade extremamente quente nessa época do ano e muito chuvosa, eu ainda gostava. Estacionei a minha biz em frente à Academia do meu pai e me encaminhei para a entrada. Jonathan ainda estava me auxiliando com os exercícios ao menos três vezes por semana. Nossa relação era boa e eu já o considerava um amigo maravilhoso. Enquanto, eu caminhava na direção de uma das salas depois de ter cumprimentado meu pai com um abraço apertado, escutei a voz do Jonathan perto da porta. Ele estava de costas para mim e falava ao telefone com alguém. A princípio, eu pensei em me mostrar presente, mas de repente mudei de ideia ao ouvir o teor da conversa. — Caralho, Kevin! Eu sei que posso vencer, porra! — dizia ele em tom irritado. — Há quanto tempo estou invicto?... Então não venha com essa porra de sermão pra cima de mim. Eu preciso da grana. — Ele esfregou o rosto com a mão livre e soltou um suspiro cansado. — Pode marcar o desafio. Essa luta já está no papo.


Não percebi em que momento meus batimentos cardíacos começaram a acelerar, mas me vi apertando o batente da porta com força. Olhei para o corredor e notei que alguns alunos ainda circulavam por ali. Nervosa, eu entrei na sala e fechei a porta apressadamente pegando Jonathan de surpresa. — Ana! Ele estava assustado. Observei-o guardar o celular no bolso da jaqueta como se o aparelho fosse algo proibido aos meus olhos. — Você chegou mais cedo hoje — Sua voz entregou seu nervosismo. Cruzei os braços e o encarei com firmeza. — Que história é essa de luta, Jonathan? Vi o pânico se instalar em seus olhos escuros. — Luta? Do que você está falando? Ele tentou disfarçar enquanto passava por mim a passadas longas, mas eu segurei seu braço com firmeza. — Não tente me enganar — falei, séria. — Eu escutei a sua conversa agora a pouco pelo telefone. — Ele esticou os lábios em descontentamento e eu suspirei. — Luta clandestina, Jonathan? É serio? Ele fechou a expressão e se soltou do meu aperto em seu braço com um safanão. — Desculpe, Ana, mas você não sabe nada sobre minha vida — resmungou se afastando. Eu o segui. — Está precisando de dinheiro, não é? Eu posso te ajudar. Meu pai pode te ajudar. Ele se virou para mim. — Seu pai já me ajuda há anos, Ana. Ele foi o único a estender a mão para mim no momento em que eu estava desacreditado de tudo, até mesmo de Deus — confessou fazendo meu coração doer. Mordi os lábios sem saber o que dizer. Mas eu sabia que ele estava falando do momento em que perdeu a mãe tragicamente em um assalto há alguns anos. Éramos crianças. Ele se sentou no tatame e apoiou os braços sobre os joelhos erguidos. Parecia angustiado. — Minha avó sofre com câncer de pulmão — Ele disse com a voz pesada. — E ela sofre menos tendo um bom tratamento.


Esfregando uma mão na outra, eu me aproximei dele. — Meu pai sabe sobre o problema da sua avó? Ele negou com a cabeça. — Não quero trazer mais carga para ele. Sentei ao lado dele e permaneci em silêncio. De repente, Jonathan cutucou o ombro no meu fazendo-me olhá-lo. — Pronta para os exercícios? Fiquei olhando para ele. — Eu quero ir com você — falei e ele arregalou os olhos, tentou negar, mas eu insisti: — Leve-me ou eu conto para o meu pai — ameacei de maneira suja, mas foi a única arma que encontrei no momento. Irritado, ele se levantou. — Eu só quero ver, Jonathan — continuei, amenizando o tom. — Prometo que não contarei para ninguém nem mesmo para a Andressa. Ele me olhou de soslaio quando mencionei o nome da Andressa e, eu revirei os olhos. Levando as mãos aos cabelos, ele bagunçou os fios em completa frustração, contudo acabou cedendo. — Amanhã — disse a meia voz. — Eu passo para te pegar perto da meia noite. Uma intensa adrenalina se apoderou da minha corrente sanguínea. Era medo misturado a expectativa.


Capítulo 12 Lucas Força. Foco. Força. Foco... Inferno! Toda essa merda ia por água abaixo quando meus olhos se deparavam com os dela... Ana. Havia se passado tantos anos e mesmo assim, eu sentia como se o tempo tivesse parado. Era como se eu tivesse estagnado no momento em que minha mãe entrou no meu quarto avisando daquela maldita viagem. Obviamente que eu cresci, contudo cresci amargurado; obriguei-me a erguer uma muralha ao redor do meu coração despedaçado. Assistia diariamente o lindo romance dos meus pais e ficava me perguntando: Por que Ana? Por que você me abandonou? Eu era um namorado ruim? Os dias tristes, rapidamente, se transformaram em anos tristes. Optei por esconder-me das pessoas e, então passei a demonstrar um Lucas falso, arrogante e frio. Será que isso manteria meu coração a salvo de uma nova desilusão? Eu não sabia a resposta para essa pergunta, como também não sabia responder o motivo por ter sido abandonado pelo primeiro e único amor da minha vida. E, naquele momento, eu estava me perguntando o que ela estava fazendo com o Jonathan naquele horário? Meu semblante estava carregado de culpa, pois eu tinha escutado metade da conversa dela com ele no dia anterior na Academia, e tinha consciência do que o Jonathan fazia há algum tempo. Mas ele não teria coragem de levar a Ana para aquele ambiente, ou teria? Sentia-me nervoso conforme seguia aquele carro; eu estava perto do prédio em que Ana morava e assisti o momento em que ela adentrou com Jonathan em um carro escuro. Minhas mãos se fecharam em punho e tive que me esforçar para conseguir respirar, pois meu desejo era de socar aquele infeliz. Nunca nos damos bem e eu não negava a minha aversão a ele. O carro se afastava cada vez mais da cidade e se encaminhava para uma região isolada e meu nervosismo com aquela situação ia se intensificando. Ana não deveria ir para um ambiente perigoso como aquele. Passado longos minutos, eu estacionei a moto e aguardei enquanto observava Jonathan e Ana entrarem. Havia muitas pessoas e muitos carros. Não havia nada que indicasse que aquele lugar era palco para lutas clandestinas, mas eu sabia o que acontecia ali. Fazia algumas semanas desde que descobri por acaso que Jonathan participava dessas batalhas, e saber disso me irritou bastante. O que James diria


se soubesse disso? Meu tio, praticamente, o idolatrava, tratava-o como um filho pródigo. Então, o que ele diria? Decidi guardar essa informação para mim, mas me perguntava se seria capaz de continuar mantendo segredo agora que ele havia envolvido a Ana. Droga! Que porra de roupa é aquela que ela estava usando? Eu não quis acreditar que ela estava usando aquela maldita legging! Assim que eu atravessei a porta, uma multidão me sufocou e me desesperei um pouco quando perdi os dois de vista. A música estava alta, o que dificultava um pouco os meus sentidos. Analisei o ambiente com calma e comecei a caminhar enquanto me desvencilhava das pessoas. O aroma de maconha se fez presente em minhas narinas e tive vontade de vomitar. Estremeci ao ver vários caras armados, embora tentassem esconder por baixo das camisetas. Definitivamente aquele lugar não era para a Ana. Avistei-a, completamente, alheia ao que acontecia ao seu redor. Mas também percebi que ela estava intimidada com alguns olhares maliciosos e vi vermelho quando um cara passou a mão na bunda dela. — Faça isso de novo se quiser morrer! — ameacei, rugindo feito um animal. Ana se assustou quando me viu. Abriu a boca para falar, mas eu não dei tempo e comecei a arrastá-la para a saída. — Ei? Me solta! — Ela se livrou do meu aperto e me encarou com irritação. Por que ela tinha que ser tão malditamente linda até quando estava irritada? — Qual é o seu problema? Você! Esfreguei o rosto, frustrado. Apontei ao redor. — O que pensa que está fazendo aqui, Ana? Por acaso tem ideia do perigo que está correndo? Ela franziu o cenho e cruzou os braços. Parecia querer se mostrar autossuficiente, mas eu a conhecia bem para saber que ela estava com medo. — O que está fazendo aqui? Certo! Ela estava agindo na defensiva. Observei o movimento repetitivo que ela fazia com os cabelos. Eu podia dizer que tinha vindo por causa dela, que o único motivo para eu estar naquele lugar era ela, contudo eu não faria isso. Ela não merecia saber. — Eu não te devo satisfações — respondeu o Lucas mau. Ela se encolheu com meu tom ríspido. — Mas devo satisfação ao seu pai, pois ele


jamais me perdoaria se a deixasse frequentar um lugar como esse — apressei-me em explicar, e a segurei com a mão quando ela ameaçou se afastar de mim. Tocar sua pele era a mesma sensação boa de estar de volta ao lar. Seu semblante estava irritado em minha direção e seu dedo em riste contra mim. — Vá se foder, Lucas! Deixe-me em paz. Eu estava prestes a retrucar quando Jonathan me afastou dela com um empurrão. — Afaste-se dela, porra! — disse ele em tom rude. Irritado, eu o empurrei de volta. Algumas pessoas abriram espaço e ficamos quase em uma roda com plateia. — Jonathan... — Ana tocou seu ombro em um pedido silencioso para que ele se afastasse de mim. Seu rosto carregava uma expressão de pânico. — Por que a trouxe para cá, hein? Não sente culpa por arrastá-la para a sua lama? — Lucas! Eu me aproximei dele, que por sua vez, continuou no mesmo lugar. Nossos olhares eram repletos de fúria. — Quer impressioná-la, não é? — zombei com um sorriso de escárnio. — Mas saiba que a sua insignificância ainda é visível, cabide. Um alvoroço se iniciou ao nosso redor. Gritos e risadas tornaram-se estridentes e Jonathan olhou para ambos os lados. Um sorriso brincava nos lábios dele. Erguendo os braços, ele instigou e instigou a plateia antes de se voltar para mim. Meus olhos estavam em Ana a todo o momento. Ela está assustada —, pensei. — Eles querem uma disputa — disse ele. — Querem saber se a sua força está só nas palavras ou se também está nos braços. — Jonathan... Ana voltou a segurá-lo no ombro, mas ele a ignorou com um safanão. — Vamos ver do que o grande mocinho é capaz. Meu sangue fervia e piorou quando encontrei o pavor nos olhos da Ana. Naquele momento, ela me implorava para irmos embora, mas eu não podia. Pelo menos não ainda.


Capítulo 13 Ana Dizer que eu estava assustada era nada se comparado ao pavor real que estava sentindo por dentro. Quando, praticamente, forcei o Jonathan a me levar junto com ele para aquele lugar, eu não fazia ideia do que me esperava. Nunca estive em um ambiente tão diferente do meu convívio, e quando cheguei àquele galpão repleto de pessoas mal encaradas, senti meu coração baquear; minhas mãos suaram e tive que enxugá-las no tecido da minha legging. O que eu estava pensando quando decidi colocar aquela roupa tão apertada? Não demorou muito até eu perceber que Jonathan era quase um “deus” para eles. Todos queriam estar com ele, falar com ele. Meus olhos estavam em todos os cantos, analisando e espreitando. Odiei as piadinhas masculinas, as passadas de mãos... contudo, eu me fixei no Jonathan. Ninguém sabia que estávamos ali, pois tomei o cuidado de manter segredo. E, obviamente, me vi confusa ao me deparar com o Lucas diante de mim. Eu ainda estava assustada com a ideia de estar em um ambiente como aquele, embora tentasse negar; e isso apenas piorou no momento em que observei Jonathan subir ao pequeno ringue com o Lucas em seu encalço. Meu coração não cabia mais no peito; minhas mãos, outrora suadas, agora estavam suadas e trêmulas; minhas pernas pareciam ter virado gelatina. Levei a mão ao bolso do meu casaco e peguei meu celular, mas para quem eu ligaria? Droga! Meu pai encheria minha cabeça com discursos moralistas e, definitivamente, eu já estava cansada só de pensar. Pensei em Andressa, mas não seria justo trazê-la para dentro daquela loucura. Nervosa, não vi o momento em que minhas pernas se moveram na direção daquele maldito ringue. Meus olhos estavam em Lucas; eu não queria que eles se machucassem, e também não entendia aquela desavença contínua entre os dois. Estalei os dedos das mãos conforme ouvia o anúncio da luta; diversas vaias soaram com a menção do nome do Lucas. Meu coração tremeu de medo, de dor, de expectativa. Jonathan não deveria permitir que aquela situação chegasse ao cume. Droga! Eu não vim para vê-los se machucarem. A luta começou e eu me espremi entre os expectantes para poder assistir melhor. Assim que meus olhos tiveram um melhor acesso, eles se encheram d’água. Lucas começou uma sequência de vários golpes, e assisti o momento em que Jonathan caiu no tatame. Levei as mãos ao rosto, de modo a não ver,


entretanto não conseguia desviar o olhar. — Você não deveria ter trazido ela aqui — ele gritou contra o rosto do Jonathan, ainda no chão. Meu coração estava acelerado e dolorido. Jonathan se ergueu, limpando o rastro de sangue do nariz e dos lábios. Por um momento, o seu olhar correu pela plateia e parou em mim. Sua expressão estava anuviada. Lucas também me encarou. Não sei ao certo o que senti, mas os próximos movimentos foram rápidos e torturantes; Jonathan virou o jogo e Lucas parecia não adivinhar a direção dos golpes. O alvoroço das pessoas ao meu redor era histérico, irritava-me ver o prazer e a excitação nos olhos de todos eles. Será que eles não percebiam o mesmo horror que eu? Desesperada para acabar com aquilo, eu me aproximei um pouco mais. Lucas não reagia enquanto estava sendo massacrado por um Jonathan implacável. Por que ele não reagia? Tentei passar pelo cordão formado por homens armados, contudo não fui longe. Eles me empurraram e eu acabei caindo. Senti meus cotovelos arderem devido à queda. Levantei-me com dificuldade, e limpei as lágrimas. Voltei a olhar para o ringue e passei a gritar para chamar a atenção. — Já chega, Jonathan! JÁ CHEGA! PARE COM ISSO! Lucas rolou, e seu corpo ficou virado na minha direção. Ele olhou para mim e meus olhos voltaram a umedecer. Enquanto Jonathan estava sendo ovacionado, eu estava despedaçada ao ver o estado do Lucas. Nervosa, novamente fui até o cordão de homens maus e consegui chegar até a grade do ringue. — PARE, JONATHAN! Ele me olhou, o sorriso do seu rosto desapareceu ao se dar conta do meu desespero. Eu não acreditava no que ele tinha sido capaz de fazer com o Lucas. Não precisava ter chegado tão longe. Alguns homens voltaram a me agarrar, mas foram proibidos por Jonathan. Aparentemente, ele possuía certo prestigio ali. Corri até a entrada daquele tatame e me vi diante do Lucas, que tentava se levantar. — Lucas... — Deixe-me, Ana. Ele bloqueou minha tentativa de tocá-lo. Seu rosto estava extremamente inchado e havia um corte em um dos supercílios. Notei que ele levou a mão na lateral do corpo, sobre as costelas. Eu tremia dos pés a cabeça, e não conseguia pensar em nada além da decepção por Jonathan. — Ana? — Encolhi-me quando Jonathan tocou meu braço. — Deixe-o.


Lucas sabe se cuidar. Irritada, eu olhei para ele e o soquei no peito. — Você é um monstro, sabia? Gostou dos cinco minutos de fama? Pois os engula, seu estúpido! Lucas me encarou no momento em que me virei para ele. Vi que abriu a boca para falar, mas ergui o indicador para interromper suas baboseiras. — Cale essa maldita boca! Eu estou horrorizada, quase em estado de choque e não admito que você vá para qualquer lugar nessas condições. Vou com você e vou levá-lo ao hospital. O rosto dele estava tão deformado, que não pude observar sua expressão. Saímos debaixo de vaias e insultos grosseiros. Lucas entrelaçou os dedos nos meus em determinado momento do caminho, e esse gesto me fez sentir um pouco mais segura. No lado de fora, eu o intimei sobre sua condução. — Ok, Ana. Agora você pode pegar um táxi e deixar eu me cuidar sozinho. Revirei os olhos e tomei as chaves da moto da sua mão. Ele começou a resmungar baixinho, contudo eu não dei ouvidos. Eu jamais o deixaria sozinho naquele estado. Meus olhos brilharam ao me deparar com sua enorme moto, estacionada logo adiante. — É uma 700X? — indaguei, incapaz de não soltar um arquejo. Meu pai sempre compartilhou comigo a paixão dele por moto e isso era um assunto que me fascinava demais. — Você não vai pilotar a minha moto, Ana — disse ele, rabugento. — Ninguém possui esse direito, além de mim. Fingi um bocejo dramático depois que ele terminou de falar e subi na moto. Depois apontei a garupa para ele. — Para tudo existe uma primeira vez, bebê — calei-me na mesma hora. Eu o chamava de “bebê” quando namorávamos. Cocei a garganta, nervosa e constrangida. — Eu apenas quero sair daqui, Lucas. — Soltei um suspiro. — E não tem uma maldita chance de deixá-lo para trás. Ele continuou me encarando. — E você pilotar está fora de cogitação, pois mal consegue respirar — completei meu argumento. Não tive certeza, mas notei um leve sorriso no canto de seus lábios


inchados. Em silêncio, ele se aconchegou atrás de mim na moto; suas enormes mãos deslizaram da minha cintura ao meu abdômen. Eu não queria que minha respiração se desestabilizasse, mas foi impossível. Liguei a moto na chave e, rapidamente, nos tirei dali. De repente, um sorriso começou a iluminar meu rosto; abaixei a viseira do capacete para poder sentir o vento em meu rosto. Lucas apertou minha cintura conforme eu acelerava um pouco mais; o toque dele não ajudava em nada, estava me desestabilizando. No caminho, eu ameacei seguir direto para o hospital, porém Lucas se negou a ir. Revirei os olhos, mas não contestei. Na curva que nos levaria ao prédio em que eu morava, acelerei e freei de modo brusco. Uma gargalhada alta escapou da minha garganta quando retirei o capacete para encarar Lucas. Os olhos dele estavam arregalados, e com o inchaço deixou sua expressão ainda mais engraçada. — Se quer me matar, deixe-me ao menos escolher a forma de morrer. Sua voz soou ríspida, mas senti um tom divertido ali. Ele estendeu a mão num pedido silencioso para que eu entregasse a chave, mas eu neguei. — O que pensa em dizer quando chegar em casa com esses hematomas? Tenho certeza de que a tia Marie vai chamar até a polícia. Ele soltou um muxoxo e, em seguida, passou a mão pelos cabelos. Estava nervoso. — O que sugere? Respirei fundo. — Bom, eu tenho vários kits de primeiros socorros no meu apartamento. Você pode entrar, depois toma um banho e cuidamos dos seus ferimentos. Eu não quis transparecer tanto, mas estava preocupada com ele. Ansiava cuidar dos seus ferimentos e doía demais imaginá-lo sozinho naquele momento. Ou talvez, sendo cuidado por Letícia. — Por que quer fazer isso, Ana? Ele se aproximou de mim. Seus olhos não perdiam nenhum dos meus movimentos. — Porque de certa forma você está assim por minha causa. — Franzi a testa. — Toda essa situação entre você e o Jonathan é real, mas hoje se iniciou por minha causa. Um sorriso sádico brilhou nos lábios dele. — Por que você se acha o centro de tudo, Ana? Nada relacionado a mim tem a ver com você. Absolutamente nada!


Meu coração doeu. Assenti com a cabeça e dei um passo para trás. — Ok. Se você quiser que seus ferimentos tenham alguma melhora relacionada aos meus cuidados, sabe onde fica meu apartamento. Entreguei-lhe as chaves e me afastei. Eu estava cansada, na verdade, estava exausta de tudo. Meus músculos tremiam e todo o meu esforço naquele momento era poder arrancar do meu cérebro a imagem horrenda da luta entre Jonathan e Lucas.


Capítulo 14 Ana Abri meu apartamento, completamente, anestesiada emocionalmente. Flashes das últimas horas não me deixavam em paz para respirar; era como se eu continuasse revivendo aquela cena milhares de vezes na minha mente. Arranquei meu casaco e o joguei no chão mesmo. Arrastando-me para o único sofá que enfeitava a minha minúscula sala, eu deixei meu corpo cair com um baque. De olhos fechados, eu lutei para silenciar meus pensamentos, minhas emoções conflitantes, mas nada parecia funcionar. Meus esforços eram em vão. Desanimada, obriguei-me a levantar e seguiria para o banheiro com a ideia de me afundar na banheira, mas o som da campainha pausou minha intenção. Ergui os olhos e os fixei no relógio de parede: 1h37. Gelei por dentro, desesperada pelo fato de alguém estar na porta do meu apartamento em uma hora dessas. Contudo, eu franzi a testa. Rindo do meu ridículo momento de pânico, eu segui até a porta sabendo exatamente quem estaria do lado de fora assim que a abrisse. Nos olhamos por alguns instantes, eu de braços cruzados, e ele com um olhar constrangido e olhos perdidos. — Você tem razão, Ana, a minha mãe vai surtar. — Apontou para seu rosto ferido. Dei um passo para o lado em um convite para que entrasse. Em seguida, fechei a porta na chave. Virei-me e o encontrei de costas para mim; parecia deslocado e sem saber o que fazer ou como agir. Olhá-lo era doloroso, pois estávamos perto fisicamente, mas nossos corações estavam a quilômetros de distancia. De repente, ele se virou e me pegou o analisando. Sorri sem jeito. Pigarreei: — Errrh... vou pegar algumas roupas para você, pois acredito que se sentirá melhor depois de um banho. — Comecei a dar alguns passos, enquanto apontava para a direção do quarto. — A mamãe passou na lavanderia nessa manhã antes de vir me visitar, e acabou esquecendo as roupas aqui. A maioria é do papai. Ele permanecia me olhando. Por que ele fazia isso? Será que ele não percebia o quanto aqueles olhos mexiam comigo? Esfreguei uma mão na outra e decidi apressar os passos. Chegando ao quarto, eu fechei a porta e encostei as costas contra ela. Parecia que eu tinha


terminado uma maratona de corrida; minhas mãos tremiam e meus batimentos cardíacos estavam acelerados. E o que era aquela ausência de oxigênio nos pulmões? Droga! Comecei a me arrepender de ter oferecido ajuda a ele. Eu estava agindo como uma masoquista. Lucas não me queria mais, a não ser para me magoar. Engolindo o desejo de me xingar até a morte, eu me desencostei da porta e fui até o armário. Peguei uma toalha limpa, camiseta e calça de moletom. Obviamente que o corpo do meu pai era maior, contudo era melhor do que Lucas ter que usar uma das minhas roupas. Eu ri daquele pensamento. Deus! Como eu era deprimente! Novamente na sala, eu o encontrei no mesmo lugar. Seu semblante não demonstrava nada e, no fundo, eu me sentia ainda mais nervosa diante daquele silêncio ensurdecedor. — Tudo o que você precisa está no banheiro. — Indiquei com a mão e, em seguida, cruzei os braços sentindo-me estranha com aquela tensão. — Por favor, fique a vontade. Ele abriu a boca para falar, porém hesitou. Baixou os olhos. Era como se estivesse tendo uma luta interna. — Obrigado, Ana. Assenti, muda. Observei seu perfil de costas até que sumiu no corredor e, logo em seguida, o som da porta do banheiro se abrindo e fechando. Soltei o ar em lufadas fortes e extensas. Lutar contra o desejo de correr contra os braços dele estava me desgastando demais. Eu odiava continuar o amando mesmo depois de tantas humilhações. Odiava vê-lo com aqueles hematomas, contudo o que mais me doía era saber que seu interior estava igualmente destruído e, eu odiava saber que a culpada era eu. Levaram longos minutos até Lucas surgir na cozinha. Eu estava na bancada da pia enquanto terminava de preparar um café. Observei de soslaio a figura majestosa no pequeno cômodo. — O que pensa que está fazendo? Eu ri. — Olá, querida vítima, eu sou a bruxa má e estou preparando uma poção extremamente venenosa para você tomar. Ele soltou uma risada baixa. Foi um sorriso bobo, mas mesmo assim eu me peguei sorrindo em contentamento. Depois de adoçar o café e colocá-lo na garrafa, eu me virei para o Lucas. Notei que o banho serviu para mostrar as


feridas reais e graças a Deus não eram muitas. Havia um pequeno inchaço no canto esquerdo dos lábios e abaixo do olho direito. O supercílio direito estava cortado, mas era um corte superficial — deduzi. Aproximei-me dele e percebi que sua respiração se tornou irregular. Tentei não criar esperanças com aquele mero detalhe. Ergui a mão para tocar seu rosto, mas ele a pegou no ar, impedindo-me de tocá-lo. — O que... —... pensa que está fazendo? — completei num tom de ironia, mas com uma pitada de irritação. — Estou apenas querendo avaliar a gravidade dos seus ferimentos mais de perto, tá legal? Qual é o seu problema, cara? É impressionante o quanto você não consegue perceber que acima de tudo, eu quero ser sua amiga. Soltei meu braço do seu agarre e saí de perto dele com a expressão anuviada. Passei por ele, seguindo para a sala. — Olha, Ana... — Aqui está o kit de primeiros socorros — cortei sua ladainha, ainda com irritação na voz. — Depois que terminar, feche a porta quando sair! Novamente passei por ele. Não ergui os olhos, pois não queria ver seu rosto. O sangue fervia em minhas veias. Eu estava irritada. Cansada demais. Na cozinha, eu mirei a pia repleta de louças sujas. Em seguida, comecei a lavá-las, agoniada para me ocupar com alguma coisa. — Ana? Senti meu corpo pular de susto ao ouvir a voz dele tão perto. Ele estava parado na porta. Continuei o que estava fazendo, lutando para ignorá-lo. — Ana? — repetiu. Estremeci e soltei um suspiro resignado. Virei a cabeça e o encarei. Ele era tão lindo, mesmo em meio à escuridão de seus sentimentos. — Terminou? — indaguei em tom frio. Ele abriu a boca, mas a fechou. Fiquei o encarando, observando suas diversas tentativas falhas de respostas. — Lucas... — Eu preciso de ajuda — disse por fim e voltou a me encarar com aqueles olhos que pareciam enxergar a minha alma. — Eu quero a sua ajuda. Escondi minha emoção e apenas assenti dando um mínimo sorriso. Ele voltou para a sala e eu fui ao seu encalço. Aguardei ele se ajeitar no sofá e, em seguida, sentei ao seu lado. Primeiro; peguei o anticéptico e umedeci


um algodão, depois comecei a limpar seus ferimentos. Meus olhos evitavam mirar os seus diretamente, mas aos poucos, aquilo foi me deixando sufocada. — Por que fez aquilo? — perguntei, desesperada por qualquer comunicação. Ele deu de ombros. — Você estava lá, oras. Viu quando Jonathan incitou a briga. — Não estou falando disso, Lucas — falei, olhando-o por um breve momento. — Perguntei sobre o fato de você ter se deixado abater. Veja bem, eu estou a algum tempo observando o treinamento de vocês e sei do potencial de luta de ambos. Você começou a golpeá-lo no começo, eu vi que era uma luta de igual para igual, mas no final... — engasguei, tentando ignorar a dor das lembranças —, você não ofereceu resistência alguma. Você entregou a vitoria ao Jonathan. Por quê? Terminei de falar e o encontrei com o olhar em mim. Estava chocado. — Eu ainda me surpreendo com o fato de você me conhecer tão bem, sabia? — confessou me deixando desnorteada. Suspirou e virou a cabeça para o outro lado, pois eu precisava limpar outro corte pequeno. — Quando subi no tatame, eu tinha a intenção de lutar pra valer — disse ele. — Minha irritação estava em um nível extremo e nada me faria parar de socá-lo, mas aí, eu me lembrei do motivo de ele estar ali. — ele parou de falar e suspirou. — Ele precisava da vitória para no final da noite arrecadar o dinheiro necessário para o tratamento da avó dele. Meu coração parou de bater por um segundo. Esperança e amor pulsando em meus poros. Ali estava o Lucas, no qual me apaixonei; o Lucas amável, que se importava com os outros ao redor. — Não me olhe assim, porra! Eu sorri. — Assim como? Ouvi-o bufar impaciente. — Como se eu tivesse feito um marco no mundo. Eu continuei sorrindo. — Para o mundo, eu não sei, mas fez para mim. Nossos olhos se encontraram e, pela primeira vez, desviei o olhar antes dele. Continuamos em silêncio até eu terminar. Fui à cozinha e retornei com uma porção de gelo envolta em uma toalha de algodão.


— É bom para evitar inchaços — ofereci, indicando o local mais propicio a inchar dentro de algumas horas. — Estou ansioso para ver o estado do Jonathan — disse ele, sorrindo e, eu revirei os olhos. — Por que você o odeia tanto? Qual o real motivo para toda essa desavença? Ele pareceu pensar, mas acabou dando de ombros. — Não existe um motivo aparente, na verdade. Isso surgiu na infância. Inexplicavelmente sempre acabávamos competindo entre as mínimas coisas, eu acho. É isso. Fiquei quieta, analisando suas palavras. Fazia sentido, mas ainda não explicava todo aquele ódio. Contudo decidi não insistir, considerando que finalmente estávamos tendo um dialogo normal. Sem querer, olhei para suas mãos e franzi o cenho ao notar a ausência da aliança. — Aposto que sua namorada não vai gostar nada de saber que você se feriu em luta e que acabou passando algum tempo no meu apartamento. Não era para ter soado num tom provocativo, mas não consegui controlar. Ele afastou a toalha do rosto para me olhar melhor, seu cenho era confuso. — Namorada? Do que está falando? Agora, era eu quem estava confusa. — Da Letícia, oras — respondi em tom óbvio. — Ela vive esfregando a aliança que você deu a ela, na minha cara. Aliás, um lindo anel de compromisso. Parabéns. Lucas continuava me olhando, mas agora como se eu tivesse duas cabeças. — Que porra é essa? Eu não estou namorando ninguém, muito menos aquela garota! — Não? — Meu coração galopou no peito. — Mas, ela... — Se ela afirmou isso, então deve estar vivendo um conto de fadas na própria mente. — Ele bufou. — Eu sabia desde o começo que não daria certo, mas ela insistiu tanto. — Lucas... — Apenas sexo. Nada mais do que isso.


Ele parecia falar consigo mesmo. Os minutos passaram. Embora o silêncio reinasse entre nós, nossos olhos falavam tudo o que um queria dizer ao outro. Tantas perguntas, tantas cobranças, tantas confissões. Eu sei que Lucas ainda guardava muita dor e mágoa no seu coração, mas hoje verdadeiramente consegui sentir um resquício do antigo Lucas. O Lucas que amei e ainda amava enlouquecidamente. — Está muito tarde — Ele observou, quebrando o silêncio. — Considerando o horário e o estado do meu rosto, tem problema se eu ficar aqui nessa noite? Ao menos o inchaço irá diminuir um pouco. Eu fiquei o olhando feito uma retardada. Na verdade, eu estava analisando seu pedido sem acreditar nele realmente. Nervosa, eu me levantei e sorri sem jeito. — Claro que sim — respondi. — Não há problema nenhum. Pedi que esperasse um pouco e logo retornei a sala carregando um travesseiro e algumas cobertas. — Acredito que isso irá servir — Entreguei tudo a ele. Esfreguei uma mão na outra sem saber o que dizer. O clima estava muito constrangedor. Cocei a garganta. — Bom, tenha uma boa noite. Afastei-me depois de ouvir o seu boa noite. Meu desejo era de passar o resto da noite remoendo tudo o que tinha acontecido nas últimas horas, mas meu corpo estava exausto demais para seguir o ritmo do meu cérebro. Ajeitei-me entre as minhas cobertas e cedi ao cansaço. Não sei quanto tempo se passou, mas fui acordada pela voz do Lucas na porta do meu quarto. Abri os olhos, sonolenta, e me apoiei nos cotovelos. Meus olhos estavam semicerrados. — O que foi? — Minha voz soou rouca. — É melhor eu ir embora, Ana — disse, rabugento. — Aquele maldito sofá é duro demais e pequeno demais para mim. Deixei meu corpo cair contra o colchão e bati no meu lado da cama. — Deita aqui comigo — sussurrei, presa entre a realidade e a inconsciência. Lucas não se demorou em deitar. Ele ergueu um dos braços no alto da cabeça e quando percebi, estava aninhada no peito dele. Seu cheiro entrou em minhas narinas como um bálsamo e, o sono novamente me venceu. Adormeci nos braços dele, mas não sem antes soprar: — Obrigada por voltar para mim, meu amor. Eu te amo.


Não tive certeza se foi a minha mente traiçoeira ou se foi um sonho, mas pensei ter escutado um “Eu também te amo” sair dos lábios dele.


Capítulo 15 Ana Eu não tinha mais noção de nada a não ser da cabeça do Lucas entre minhas pernas, e de sua língua enlouquecedora. Meus olhos, hora se fechavam, e hora se reviravam nas órbitas. A sensação do clímax estava perto, embora Lucas a todo o momento retardasse o meu orgasmo numa mudança de pressão e movimento. O cansaço e o desejo de gozar estavam me deixando desnorteada. De repente, eu o encarei quando ele se afastou; dois dos seus dedos se afundaram dentro de mim. Nossos olhos se conectaram em uma intensidade ainda maior do que a do seu toque abrasador. Era um olhar que dizia tudo, mas ao mesmo tempo não dizia nada. Não houve palavras. Explicações. Acusações. Lucas estava ali me dando prazer e, eu de alguma maneira estava tentando demonstrar o meu amor a ele. Abri meus olhos e os mirei para baixo deparando-me com o cobertor embolado no meio das minhas coxas. Eu sentia meu centro latejando e demorei a tomar consciência de que tudo não passou de um sonho erótico. — Droga! — gemi, pressionando o travesseiro contra meu rosto. Fiquei alguns minutos tentando estabilizar minha respiração até olhar para o outro lado da cama, e constatar com pesar que tudo não tinha passado da minha imaginação; Lucas não tinha passado a noite no meu apartamento. Será que aconteceu aquela maldita briga entre ele e o Jonathan? Céus! Pareceu tão real que eu era capaz de sentir o cheiro do Lucas em mim. Sentindo-me exausta psicologicamente, eu me levantei. Meio sonolenta, abri a porta do quarto e segui até o banheiro. Depois de terminada a minha higiene pessoal, eu comecei a caminhar pelo corredor, contudo parei, assustada. — Tem alguém aqui! — constatei em um sussurro de pavor ao escutar um barulho na cozinha. Corri até meu quarto a procura do meu celular, mas não tive sorte de encontrá-lo, pois provavelmente estava na cozinha. Desesperada, eu pensei em me trancar no quarto, mas e se a porta fosse arrombada? — Droga! Droga! Droga! Decidida a não me acovardar, fui até o banheiro e com o rodo em mãos, voltei a trilhar o corredor. O barulho parecia mesmo vir da cozinha e tive essa certeza quando cheguei à sala. Com mãos trêmulas e o coração aos pulos,


avancei mais alguns passos e quase tive uma sincope ao me deparar com o Lucas, que surgiu na minha frente como uma assombração. Fiquei paralisada, o rosto estava pálido e o coração galopando. — O que pretendia fazer? As sobrancelhas dele estavam arqueadas, e ele apontava para o rodo em minhas mãos. Segui seu olhar e afrouxei os dedos, deixando-o cair no chão. — Eu... eeee... — minha voz definitivamente havia desaparecido — É que eu achei que meu apartamento havia sido invadido e... — Você se esqueceu que eu tinha dormido aqui? Oh, meu Deus! Ele estava sem camisa! Sim, ele estava sem camisa. Como não percebi esse detalhe antes? Deslizei as mãos em meus cabelos soltos, levando-os para trás da minha orelha. Eu estava nervosa com o fato de ter passado por mais um constrangimento. — Bom, tecnicamente sim — respondi e ele franziu o cenho. Caminhando até mim, ele apontou para o rodo no chão. Seu semblante traía a diversão. — Você pretendia enfrentar alguém com isso? Abri a boca para responder, mas hesitei por um momento. Sentia-me ridícula. — Melhor do que quebrar o meu punho. — respondi e ele abriu um meio sorriso. Ficamos nos olhando. — O que estava fazendo na cozinha, afinal? Ele deu de ombros, meio tímido. O que me fez ter vontade de beijá-lo. Observei quando ele se virou fazendo-me segui-lo. A mesa estava posta. — Não sei, talvez um bom café a você para agradecer por ontem. Abri a boca para falar, mas acabei apenas assentindo. Surpresa com aquele gesto. Ele foi na frente e tomou um lugar à mesa e, em seguida, eu fiz o mesmo. Havia ovos com bacon, pães frescos, suco e café. Tentei não demonstrar o quanto aquilo me deixou impactada e comecei a degustar em silêncio. Estava aprendendo a não bater de frente com ele. Lucas não lidava bem sob pressão. — O que pretende dizer a sua mãe? — perguntei depois de alguns minutos. Lucas me encarou com a testa franzida. — A respeito de seus ferimentos — expliquei. — As marcas do seu rosto ainda estão visíveis. Ele deu de ombros antes de morder seu pão.


— Eu posso dizer que fui defender você de algum otário. Aposto que ela ficará até orgulhosa. Encarei seus olhos. — Por que eu estaria com um otário? Saiba que eu sempre soube escolher bem os meus parceiros — falei em tom divertido, mas logo me calei, constrangida com a tensão. Pigarreei. — Mas aceito ser o seu álibi. Nossos olhos voltaram a se encontrar e Lucas sorriu minimamente. O silencio retornou, menos tenso dessa vez. De repente, ele se levantou, pegou a camiseta do meu pai e a vestiu. — Preciso ir agora — disse. Levantei para segui-lo até a saída. Observei-o pegar seus pertences, que estavam sobre a mesa de centro da sala. Juntei as mãos e as esfreguei uma na outra, nervosa. — Bom, então... se cuida. — Franzi o cenho, sentindo-me patética por não saber o que falar. — Eu acho. Ri de maneira débil. Xinguei-me mentalmente quando ele estava de costas. Prestes a sair do apartamento, Lucas se voltou para mim. Sua mão parou na maçaneta. — Acho que podemos tentar... — naquele momento, o meu coração parou de bater. Ele finalmente estava cedendo? —, o lance de sermos amigos — ele concluiu, fazendo-me murchar um pouco. — Foi bom ficar com você, Ana. Fiquei sem palavras e ele foi embora. Em seguida, eu fui até a porta e a fechei, encostando-me na madeira. Apesar de não ter sido as palavras que eu ansiava ouvir, me senti feliz. Antes de tudo, Lucas sempre havia sido o meu melhor amigo. ♥ — O que está escondendo de mim? — Ergui os olhos para encarar a Andressa. Estávamos descansando em um dos bancos numa das áreas livres do Instituto. Estiquei as pernas e passei a mirar meus tênis. — Nada. De repente, ela me deu um tapa no braço e, eu ri. — Anda, desembucha! — intimou. Virei o corpo para ela e encontrei seus olhos expectantes. Levei a garrafinha de água à boca e tomei um longo gole, enquanto Andressa saboreava


seu sanduíche natural. — Bom, ontem o Lucas dormiu no meu apartamento — falei, e na mesma hora pulei de susto com o grito dela. — Como assim? Explica isso direito. Ele não está com a Letícia? Assenti e soltei um suspiro. Nos próximos minutos, eu narrei todos os recentes acontecimentos, desde minha descoberta das lutas clandestinas até o momento em que Jonathan e Lucas brigaram naquele galpão. — Ainda não decidi quem é mais babaca nessa história; você, Lucas ou Jonathan. Empertiguei-me. — Por que eu? Andressa me encarou com um ar, que denunciava seu tédio. — Fala sério, Ana! Desde que você voltou para Joinville só tem levado patadas do Lucas. Não acha que já está na hora de se valorizar e virar a página? Sei lá, apenas deixar de se preocupar com ele e com suas escolhas. — Mas eu saí com o Jonathan, oras. Lucas quem apareceu depois — defendi-me. — Eu entendi isso. Mas convenhamos que você... Andressa se calou quando olhou para a porta de saída a nossa esquerda. Segui seu olhar e arqueei as sobrancelhas. Lucas havia acabado de entrar e mirava seu celular. Em seguida, ouvimos o som de saltos vindo da nossa direita; Letícia trilhava o piso com ar altivo. Passou por nós fazendo questão de deixar a aliança exposta. Revirei os olhos. — Vamos sair daqui — pedi, ameaçando sair, mas Andressa me freou. — Calma aí, calma aí... — disse, ainda com os olhos na direção dos dois. — Acho que o teu menino mau, está um pouco impaciente... Franzi o cenho e, em seguida, voltei a encará-los também. Vi que Letícia levou as mãos ao rosto do Lucas, mas ele segurou sua mão direita. — Que merda é essa? — gritou, apontando para a aliança dela. — E que papo furado é esse de ficar falando que eu te dei isso? É horrendo, garota! Meu gosto é melhor. Letícia se encolheu antes de tentar dialogar com ele, mas Lucas não parecia estar a fim de ouvi-la. — Nós não estamos namorando! Não estamos mais ficando. O que quer que tenha entre nós dois acabou. Então pare de inventar histórias mirabolantes e


vá caçar outro cara. Entendeu? Ou quer que eu desenhe? A voz da Letícia soou baixa. Notei que ela gaguejou algumas frases, mas não consegui escutar. — Nossa! Ele é um verdadeiro ogro — Andressa sussurrou e, eu tive que concordar com ela. Eu não gostava de presenciar a face daquele Lucas. Aquele era mau. Eu estava tão focada nos meus pensamentos, que não percebi o momento em que Andressa se levantou. — Você vem? — indagou me olhando. Pisquei, mas rapidamente obriguei meu corpo a se mexer. — Claro. Peguei minhas coisas e me preparava para seguir com Andressa, quando a voz do Lucas me parou: — Ana? — Virei na direção dele. Seu olhar estava ameno. — Está de saída? — Bom, eu... — olhei dele para a Andressa, que me aguardava com impaciência. —, vim de carona com ela. Estamos indo embora. — Você pode ir comigo — disse. — Eu a levo para casa. Abri a boca para responder, mas hesitei. Minhas mãos estavam suadas e me vi indecisa. A expressão carrancuda da Andressa também não me ajudava em nada. — Eu não... — Ah, qual é, Ana? Amigos dão carona um ao outro. Mas se não quer, beleza! — Está bem — falei, quando o vi virar as costas. De soslaio, eu vi quando Andressa bufou levantando as mãos. Ignorei-a e segui o Lucas, que se encaminhava para fora do Instituto. Meus olhos brilharam quando nos aproximamos da sua moto, e ele me entregou o capacete reserva. — Estou começando a achar que você só aceitou a carona por causa da minha moto — brincou e, eu ri. — Aceite isso como um ponto positivo ao seu favor — falei piscando um olho. Ouvindo a risada dele, eu me ajeitei na garupa. Minhas mãos enrolaramse em sua cintura, contudo diminui a pressão dos dedos quando o senti tenso com o meu toque. Em seguida, ele repousou suas mãos nas minhas.


— Segure mais firme. Eu arquejei, mas fiz como ele pediu. — Assim? Vi quando ele praguejou baixinho, mas assentiu. Ligou a moto e nos tirou dali.


Capítulo 16 Ana Lucas desligou a moto quando chegamos em frente ao meu prédio. Desci e retirei o capacete. Tive vontade de convidá-lo para entrar, mas depois pensei melhor. Não seria uma boa ideia. — Obrigada pela carona. Ele apenas sorriu, e foi aquele sorriso lindo, no qual, eu tanto amava. Mordi os lábios, nervosa. — Eu torço para que essa tensão entre nós dois acabe um dia — falei em um murmúrio. — Porque acima de tudo, a nossa amizade é muito importante para mim. Entreguei o capacete a ele. Nossos dedos se tocaram e ele segurou a minha mão. Observei ele tirar o próprio capacete antes de me olhar diretamente nos olhos. — Estar com você ainda é muito doloroso, Ana. As feridas não estão nem perto de cicatrizar. Eu não soube dizer o que foi mais sufocante: seu olhar ou suas palavras. Contudo, fiquei satisfeita por ele ter exposto o que sentia. Entrelacei meus dedos nos dele, e olhei para nossas mãos unidas. — Obrigada por me contar. Ele não disse nada, embora continuasse me olhando. Inclinando-me, eu repousei os lábios em sua bochecha. Em seguida, me despedi e segui em direção a entrada do prédio. ♥ — Ana? — Aqui no quarto — gritei. Escutei o som dos saltos da Andressa contra o piso de mármore. — E, então? Eu já es... — ela se calou de repente, assim que me viu deitada na cama — O que está fazendo aí? Arqueei as sobrancelhas. Apoiei-me nos cotovelos e a analisei. Andressa estava usando um vestido preto; o modelo adornava as lindas curvas de seu corpo. — Eu estou aninhada entre as minhas deliciosas cobertas — respondi o


óbvio com uma pontada de diversão. — Ah, mas que engraçadinha, não é? — ironia escorria de seu tom. Ela estava muito irritada. — Esqueceu do nosso programa? Ana! Nós combinamos de sair para a balada. O meu irmão já está lá embaixo. — O teu irmão está na cidade? Ela revirou os olhos e veio até a cama. Em segundos, os cobertores foram arrancados de mim e, eu gritei em meio à gargalhada. — Eu não acredito que você se esqueceu que ele viria hoje, Ana — disse com ar magoado. — Poxa! Eu combinei com você. Mordi os lábios, sentindo-me a pior amiga do mundo. — Será que ainda dá tempo de eu me arrumar? — perguntei a olhando sem jeito. Soltando o ar dos pulmões, ela disse: — Eu te espero lá na sala. Virou nos calcanhares. Corri até a porta e coloquei a cabeça para fora, no corredor. — Você sabe que não vai poder beber com esses saltos matadores, não sabe? — Cale a boca e se arrume logo. Eu ri. ♥ — O que está fazendo? — Andressa perguntou no instante em que me viu tirar uma foto do Bruno, seu irmão. Ele tinha acabado de se levantar para pegar mais bebidas. — Não vai me dizer que já está caidinha pelo meu irmão? Olha, eu quero que você saiba que eu super apoio um lance entre vocês, mas já digo que ele é um cara bem difícil e... Ergui os olhos para ela e meu olhar foi o suficiente para fazê-la se calar. — Sem ofensas, mas não é nada disso — falei. — Então, explique. — Pronto! — falei com um sorriso travesso nos lábios. Voltei a olhar para ela e a encontrei confusa. — Eu enviei a foto para o Lucas, perguntando a opinião dele. Andressa ainda continuava me encarando como se eu fosse louca. Rolei os olhos. — Agora somos amigos, oras. Amigos opinam sobre as coisas, não? Eu


disse pra ele que estou em uma balada e que estou pensando em ficar com o rapaz da foto. — Por quê? — Ah, Andressa, eu... — Se você decidiu se afundar nessa relação doentia com o Lucas, o problema é seu! Mas não arraste o meu irmão nisso. Eu a encarei em choque. O tom de suas palavras me cortando. Abri a boca para falar, mas fui impedida pelo retorno do Bruno a nossa mesa. Rapidamente peguei uma das doses de bebida e entornei em um só gole. — Se me dão licença, eu preciso dançar. Dito isto, eu os deixei. O barulho dos meus pensamentos precisava ser silenciado. As recentes palavras da Andressa precisavam ser silenciadas. Aquela certeza de que ela provavelmente tinha razão, precisava ser silenciada. Fiquei no meio da pista de dança e me deixei levar pelo embalo da música. Esforcei-me para me esquecer do quanto estava me sentindo patética naquele momento. O suor começou a se formar em minha testa, mas aquilo não foi o que me fez parar. Minhas pernas doíam e meu coração batia descompassado quando mãos enormes aconchegaram-se em minha cintura. Virei a cabeça para o lado e me surpreendi ao me deparar com o Lucas. — O que veio fazer aqui? — perguntei num tom mais alto do que a música. Ele puxou meu corpo mais junto ao seu e, minhas costas se chocaram contra seu peito másculo. — Eu estava entediado, então aproveitei para sair com os amigos. Eu me virei de frente para ele. — É sério? Ele deu de ombros. — A propósito, eu não gostei do carinha da foto. Arqueei as sobrancelhas. — Por quê? Ele voltou a dar de ombros. — Não acho que ele está a sua altura — respondeu simplesmente. Um sorriso de satisfação ameaçou se abrir em meus lábios, mas logo


fechei a expressão ao notar que Lucas encarava uma bela loira perto de nós. Seu olhar era de pura cobiça. Enfurecida, eu passei por ele indo em direção ao bar. Pedi uma bebida forte ao barman e, em seguida, voltei a sentir a presença do Lucas ao meu lado. Eu não fazia ideia de que ele apareceria ali depois que enviasse aquela maldita foto. Estava claro como água que ele estava ali para zombar de mim; estava fazendo daquilo um jogo. Peguei a minha bebida, e ingeri um gole generoso antes de me virar para ele, que me encarava com um semblante impenetrável. Dois podem jogar esse jogo —, pensei. — Quantos rapazes, você acha que eu posso seduzir essa noite? — Ele não respondeu de imediato. — Vamos lá, Lucas... vai ser divertido. — Voltei a levar o copo de bebida à boca. — Vá em frente. — Ele cruzou os braços em desafio, e com o queixo, apontou para a pista de dança. Então vamos testar essa sua autoconfiança, bonitão... Voltei para a pista de dança, e comecei a dançar novamente, contudo de um jeito mais sensual. Não demorou para que eu sentisse a presença de alguém atrás de mim. Virei o corpo e me deparei com um rapaz alto, contudo sem muita massa corporal. As mãos dele deslizaram para a minha cintura e, eu permiti aquela carícia. — Você é muito gata — Ele falou, ao levar a boca perto do meu ouvido. Eu apenas sorri. Em seguida, eu troquei de lugar com ele e permaneci com as costas contra seu peito, mas de frente para Lucas, que continuava me encarando do bar. Ergui a mão direita e gesticulei o número 1 para ele. Sorrindo, eu me virei para o rapaz e o dispensei. Aleguei que tinha acabado de ver meu namorado e que era melhor ele sair de perto, pois o cara era barra pesada. Incrivelmente aquilo foi o que bastou para afastá-lo. Covarde —, pensei. Levei os olhos para o meu lado direito e me deparei com um rapaz trajando um visual esportivo. Seus olhos encontraram os meus também, e ele me ofereceu um sorriso. Não esperei que ele se aproximasse, e usando o ritmo da música, eu cheguei até ele em passos sensuais. — Nossa! — exclamou, inclinando-se para que eu pudesse ouvir. O sorriso dele era lindo em seus dentes perfeitamente alinhados. — Me senti


seduzido. — Eu dei risada, e ele insistiu: — É sério! Ergui os braços e depositei as mãos em seus ombros. O perfume dele era suave e forte ao mesmo tempo. As batidas da música nos permitiam aproximar mais os nossos corpos e, eu percebi que o rapaz estava se aproveitando para me tocar um pouco mais. Novamente dei um jeito de me virar para ficar de frente para o Lucas, e sinalizei o número 2 para ele, que já estava com a sobrancelha erguida. Bom, muito bom. Depois disso, eu inventei outra desculpa e me distanciei daquele segundo alvo e parti para o terceiro. A adrenalina daquela provocação estava me deixando eufórica. No embalo da música, eu esbarrei em alguém. Assim que ergui os olhos, eu reconheci o Bruno, irmão da Andressa. Nervosa, pois ele me fez lembrar o meu pequeno desentendimento com ela, eu simplesmente peguei a taça de bebida dele e entornei tudo em um só gole. Meu rosto se contorceu quando o líquido passou rasgando pela garganta. — Essa bebida é muito forte para você — Ele disse, me olhando com intensidade. Estávamos muito próximos. — É? — Ele assentiu. — Então ela combina comigo, porque eu sou muito forte. Eu sou uma fortaleza, sabia? Não existe pessoa mais forte do que eu na face dessa terra... — eu me calei quando notei que ele estava sorrindo. — O que foi? Qual é a graça? Ele não respondeu. E no instante seguinte, me beijou. Foi um beijo úmido e intenso. Sua língua pediu espaço e, eu acabei cedendo. Senti suas mãos espalmarem em minhas costas, e as minhas automaticamente subiram para seu pescoço. Eu estava quente. Mas num rompante, eu fui puxada dos seus braços. Não tive tempo para reclamar, pois logo perdi o Bruno de vista enquanto estava sendo arrastada por Lucas. Senti-me irritada, enraivecida. — Pare de me arrastar! — gritei, mas foi em vão. Internamente, senti-me vitoriosa. Aquela confiança de que ele ainda sentia algo por mim, voltou a queimar em meu coração. Aquilo só podia ser ciúme. Fora da boate, eu pude enfim respirar fundo quando ele me soltou.


— Por que fez aquilo? Ele parecia nervoso. Notei que passava as mãos furiosamente nos cabelos. Droga! Eu precisava pedir um táxi para ir embora. — Eu estava me dando bem, sabia? O beijo daquele cara era bom e ele me fez sentir coisas... — eu falava, enquanto entrava no aplicativo do Uber. — Ana... — A minha sorte é que você não chegou a arruinar completamente o meu lance com ele, pois ele é irmão da minha melhor amiga e... — Ana, pare... Eu o encarei com raiva. — Por que fez aquilo, então? RESPONDE! — PORQUE EU NÃO GOSTEI, PORRA! Fiquei em choque diante de sua explosão. Vi quando ele soltou o ar aos poucos. Abaixou a cabeça e, em seguida, virou o corpo de lado. Esfregava o rosto e os cabelos diversas vezes. Parecia frustrado com alguma coisa ou alguém. Seria comigo? — Eu nem sei porquê vim até aqui, mas quando vi a foto, no qual me mandou, como se tivesse me pedindo permissão para ficar com outro cara, eu não consegui controlar o impulso. O encarei, sentindo-me ultrajada. — Não controlou o impulso? Não controlou o impulso? — repeti com deboche, mas minha voz escorria ira. Fui até ele e soquei seu peito. — Eu não preciso pedir sua permissão para ficar com outro cara, seu idiota. Fico com quem eu bem entender e na hora que quiser. — Eu estava muito revoltada. Ele riu com ironia. — Ah, é? Não foi bem isso que você deu a entender naquela maldita foto. “Lucas, o que você acha se eu ficar com esse cara?” — ele fez uma imitação debochada da minha voz. — O que você queria? Me provocar? Fiquei o encarando sem conseguir acreditar no que estava acontecendo, e muito menos no que estava ouvindo. Naquele momento, o táxi que eu havia pedido, chegou. — Você não pode ser meu amigo assim, não pode ser quem eu quero, porque você não quer ser... então, não podemos ser nada. Dito isso, eu me virei e segui para o táxi. Com o coração descompassado, eu entrei naquele carro. Não havia


planos. Apenas a certeza de que a partir daquela noite, eu viveria um dia de cada vez.


Capítulo 17 Ana Eu estava a algumas horas me revirando na cama; meu corpo estava exausto, mas a minha mente não parava de trabalhar. Estiquei o braço para alcançar meu celular: 02hs23 da madrugada. — Inferno! Ajeitei-me de barriga para cima com um dos braços sobre a cabeça. Eu me sentia inquieta demais para dormir. Os recentes acontecimentos borbulhando em meus pensamentos. Joguei os pés para fora do colchão e decidi ir até a cozinha para beber um copo de água. Minha garganta estava seca devido à ressaca leve. Não que eu tivesse bebido um porre, horas atrás na boate, mas meu pequeno joguinho com o Lucas me ocasionou algumas doses. Estava na cozinha quando minha campainha tocou. Depositei o copo de água na pia e caminhei até a porta de entrada. De imediato, eu imaginei que pudesse ser a Andressa, pois eu tinha simplesmente ido embora da boate sem falar com ela, entretanto ao espiar no “olho mágico” da porta, minhas sobrancelhas se arquearam. Girei a chave e abri a porta. Lucas estava com ambas as mãos, espalmadas no arco de madeira. O silêncio da noite foi quebrado apenas pelo som das nossas respirações. Não fazia nem cinco horas desde nosso último encontro. Cruzei os braços, e tomei o cuidado de me proteger atrás de uma barreira invisível de indiferença. — O que quer? Ele não respondeu. — O que está fazendo aqui, Lucas? São duas horas da manhã. Ele continuava em silêncio. Notei que ele estava com as mesmas roupas, nos quais usava quando me encontrou na boate. Irritada com aquilo, eu ameacei fechar a porta. — Você me fez ter ciúmes... — ele disse, impedindo meu movimento —, está mexendo com a minha mente desde que voltou para Joinville. — Ergui os olhos para seu rosto e me deparei com seus olhos em chamas. — Eu tive inveja daquele cara que a tocou, odiei a sensação de impotência que me tomou no


momento em que você estava me provocando; odiei sentir ciúmes, aliás, eu odeio sentir ciúmes de você, porque isso significa que por mais que eu tente me enganar, eu ainda te amo. — Eu não piscava, sequer me movia. Suas palavras e o timbre rouco de sua voz estavam me hipnotizando. — Eu amo tudo em você, Ana; amo a forma como suas bochechas ruborizam quando fica nervosa, e como você enrola os cabelos nos dedos enquanto está pensativa. Ele se calou por um momento e soltou um suspiro antes de abaixar a cabeça. Pude sentir o aroma pungente do álcool vindo dele. Sua enorme figura podia parecer assustadora, mas naquele momento, eu enxerguei apenas sua vulnerabilidade. — Lucas... — Você não pode me julgar por querer odiá-la, Ana, não depois do que me fez. Eu fiquei pensativa, apenas absorvendo todas aquelas emoções em forma de palavras. Lucas ainda estava de cabeça baixa. — Isso não é o álcool falando? Porque, eu... Ele levantou a cabeça e, eu parei de falar. — Pergunte-me isso depois... Em um movimento abrupto, ele me empurrou para dentro avançando contra meus lábios. A sua urgência era tão quente e bem-vinda, que eu me recusei a parar para raciocinar sobre o que era tudo aquilo. Lucas fechou a porta com o pé e, em seguida, me ergueu pela cintura. Com as pernas enroladas no alto de seu quadril, eu me segurei em seu pescoço e ambos intensificamos o beijo. Era um beijo faminto; um beijo de saudades. Lucas não estava apenas me beijando, mas parecia estar me marcando. Sempre foi assim. Descendo os lábios pela pele do meu pescoço, Lucas lentamente caminhou comigo até o quarto. Instantes depois, eu senti o macio do colchão em minhas costas. Gemi em contentamento quando a quentura da língua dele pairou em meu umbigo; seus dedos ergueram o tecido fino da minha blusa de alcinhas e, em seguida, abafei um grito quando ele tomou um dos meus mamilos em sua boca. Contorci-me abaixo dele, amedrontada com as reações que ele me fazia sentir com tanta facilidade, mas ansiosa por mais. De repente, eu senti o vazio; Lucas se afastou e começou a arrancar suas roupas. Rastejei-me para perto da cabeceira da cama e mordi os lábios enquanto assistia aquele pequeno espetáculo de pura sedução masculina. Lucas havia se tornado um homem forte; seu porte atlético era um colírio para qualquer mulher. Apenas com a boxer, ele se arrastou até minhas pernas, e arrancou meu


mini short deixando-me apenas de calcinha. Sentei-me para tirar minha blusa, e com isso nossos corpos ficaram colados. Lucas voltou a me beijar na boca, e seus lábios se arrastaram para meu nariz, queixo... de olhos fechados, eu tentava apenas me deixar levar pelo desejo e pelo amor que sentia por ele; estar com ele era tudo o que eu queria. Soltei um gemido agudo no momento em que ele beliscou meus mamilos. Delicadamente, eu fui empurrada novamente contra o colchão. Ajeitando o corpo sobre o meu, Lucas voltou a me encarar. Seus olhos me diziam tudo, mas ao mesmo tempo não diziam nada. E, eu fiquei com medo. Medo de novamente ser rejeitada. Medo de sofrer. Senti uma de suas mãos deslizando pela lateral do meu corpo, seguindo direto para o vão entre minhas pernas, contudo, eu o fiz parar. — Não, Lucas. Ele parou e arregalou os olhos. Afrouxando o corpo, ele o deixou cair ao meu lado. Nervosa, eu me ergui sobre os cotovelos, depois voltei a encará-lo. — Você não quer? Ele parecia muito confuso. Apesar do hálito forte, ele não parecia estar tão bêbado. — A pergunta não é essa — respondi em tom baixo. — Eu não entendo — disse com a testa franzida. — Eu estou com medo de continuarmos, e depois você se arrepender — falei com sinceridade. Na verdade essa certeza estava me afligindo. — Veja bem, você parece ter bebido um pouco e... Fui calada com um beijo. Minhas costas voltaram a se chocar contra o colchão. — Eu não estou como você pensa — afirmou colocando-se sobre mim. — Bebi apenas o suficiente para ter coragem de dizer o que estava preso na garganta desde que você voltou. Alívio tomou conta de mim naquele momento. Um sorriso se abriu em meus lábios, então levei as mãos à nuca dele e o beijei. Expulsei todos os meus medos e decidi aproveitar aquele momento lindo entre nós dois. ♥ O dia amanheceu e, eu demorei a entender o que estava acontecendo nem


o que havia acontecido horas antes. Meu corpo estava quente e nu, mas o que me surpreendeu mesmo foi ter os braços fortes do Lucas ao meu redor. Eu estava de costas para ele, que me apertava contra seu corpo enorme e convidativo. De repente, eu voltei a fechar os olhos com medo de que aquele momento acabasse. — Isso parece um sonho — sussurrei para mim mesma. Lucas se remexeu atrás de mim. — Por um longo tempo, eu também sonhei com isso — ele disse. Mordi os lábios, nervosa. Eu não pensei que ele estivesse acordado. Apertei os braços dele contra meu corpo e suspirei baixinho. — O que vem agora? — perguntei, incapaz de segurar minhas inseguranças. — Por que se tiver sido apenas dessa vez, eu vou entender, mas não serei a sua garota brinquedo. Nós já sofremos demais para prolongarmos esse sentimento. Ou é tudo, ou será nada. Ele me soltou e forçou meu corpo; eu fiquei de barriga para cima, enquanto ele me encarava, com sua cabeça apoiada em uma das mãos. — Me diz você, Ana — soprou, com os olhos nos meus. — Você foi a única a partir meu coração, e não ao contrário. Franzi a testa e desviei os olhos por um momento, envergonhada. — Está certo — falei por fim. — Eu sei que a culpa é totalmente minha, mas estou aqui agora. Se a sua intenção for me dar o mesmo que eu te dei no passado, prefiro que você saia e não volte mais, porque não vou suportar e... Em um rompante, ele me puxou para cima dele; eu acabei sentada em seu quadril. Lucas cobriu meus lábios com seu indicador. — Eu não quero mais ficar longe, Ana. Será que não entendeu? Não dá, eu tentei. Tentei odiá-la, tentei machucá-la como você me machucou, mas não consigo mais. — Os dedos dele deslizaram por meus cabelos em uma caricia sensual. — Eu quero o que tínhamos, e podemos ser melhor. Contudo, quero ser o único a te tocar, porra! Eu quis chorar naquele momento, mas tudo o que fiz foi me inclinar sobre ele para beijá-lo. Lucas acompanhou a minha intensidade com o mesmo desejo, e quando percebi, ele já estava com o corpo sobre o meu. Minha mão direita desceu até estar entre nós, segurando seu membro para acariciá-lo. Aproveitei quando Lucas abandonou meus lábios para alcançar a gaveta do criado-mudo em busca de uma camisinha. Eu precisava dele dentro de mim, como precisava de ar para respirar.


Entendendo minha necessidade, Lucas tomou a camisinha da minha mão e, instantes depois me penetrou. Eu gritei. Não era um sonho. Era real. — Eu senti saudades — ele sussurrou colando a boca em meu ouvido. — Eu também.


Capítulo 18 Ana A semana se iniciou de maneira rápida. Eu ainda me sentia anestesiada devido aos acontecimentos do final de semana. Minha pele cintilava e meu coração palpitava em um ritmo frenético. Desde o momento em que eu saía da cama ao amanhecer, e retornava ao anoitecer, o meu sorriso permanecia nos lábios; era um sorriso de pura felicidade; de pura satisfação. Eu e Lucas decidimos começar um relacionamento lento e sincero; eu o fiz prometer que me diria quando estivesse se sentindo desconfortável ou quando estivesse sendo demais para ele. Eu era consciente do que o peso das minhas escolhas havia acarretado em nosso relacionamento no passado, mas a certeza de que ainda nos amávamos pairava no meu coração. — Então vocês voltaram? Raquel me encarava com expectativa. Eu estava em seu quarto, enquanto assistia ela organizar seu guardaroupa. — Estamos nos entendendo — respondi, e ela me olhou com as sobrancelhas arqueadas, provavelmente considerando aquela resposta vaga demais. — Na madrugada de ontem nós ficamos juntos. — Dei de ombros. Observei um pequeno sorriso no canto dos lábios dela. — Eu sabia que Lucas ainda te amava. Peguei-me sorrindo também. — Mas e então? Como vai as suas paqueras? — questionei, ansiando mudar o foco do assunto. Eu precisava parar de pensar no Lucas, para que minhas inseguranças não me dominassem. Raquel colocou a última peça de roupa em um dos compartimentos do roupeiro, e veio se sentar ao meu lado na cama. — Estou afim de um carinha da minha turma — respondeu com as bochechas rubras. — Ele tem dezessete anos. Não gostei de saber que ele era mais velho do que ela, mas evitei falar qualquer coisa que pudesse desanimá-la. O brilho naqueles olhos não poderia ser apagado. — E você já falou com ele? Já rolou alguma coisa? Raquel baixou os olhos, e negou com a cabeça.


De repente soltou um suspiro antes de se jogar sobre os travesseiros. — Não aconteceu nada ainda, porque eu sou muito tímida. Ele pediu para ficar comigo duas vezes. Ajeitei-me ao lado dela, de modo a massagear seus cabelos macios. — E o que você disse? — Eu disse não. Eu dei risada. — Você disse não, querendo dizer sim? — indaguei com diversão. Raquel cobriu o rosto com as mãos. — Eu sou tão patética. Rolei os olhos. — Não se autodeprecie, minha irmã — falei. — Você terá outras oportunidades. Ela virou o corpo para mim. — O pessoal está organizando uma festa na sexta-feira à noite. Ele vai estar lá. — Você sabe que o papai nunca deixaria você ir — interceptei. — A não ser que você diga para ele que vou dormir no seu apartamento — argumentou. Franzi os lábios, e me afastei dela. — Ah, Ana, por favor... Passei as mãos no meu cabelo. — Não será uma boa ideia, Quel — Eu estava nervosa, pois não suportava mentir para nossos pais. — Você não precisa falar nada, deixa que eu falo com eles. Rolei os olhos para ela. — Vou pensar. Ela abriu a boca para retrucar, mas a voz da nossa mãe a impediu: — Ana, tem visita para você — ela gritou lá do andar debaixo. Raquel e eu nos olhamos sem entender. — Quem será? Dei de ombros. Levantei-me da cama e segui para o andar debaixo. Observei que a mamãe estava ocupada na cozinha quando passei pela sala, seguindo na direção do portão de fora. Enquanto caminhava, eu peguei meu celular rapidamente do bolso para


verificar o horário. Precisava estar no Instituto dentro de alguns minutos. Assim que cheguei ao portão da casa, meus olhos chisparam para além de mim e resfoleguei. Lucas estava sentado sobre sua moto, e com o capacete nas mãos. Seus olhos estavam em mim e em cada um dos meus movimentos. Imagens de nós dois invadiram meus pensamentos e, eu me senti quente. — Como sabia que eu estava aqui? — indaguei ao me aproximar dele. — Fui ao seu apartamento e você não estava, então deduzi que estaria aqui. — Deu de ombros. Um de seus braços enlaçou minha cintura e, eu suspirei quando seus lábios buscaram os meus. Arquejei com sua mordida leve e ele sorriu. — Eu aposto que minha mãe está espiando lá da janela da cozinha — falei, sorrindo. — Não tem problemas. Nós não temos nada a esconder. Senti-me aquecida com suas palavras. Apertei seu pescoço com meus braços e permanecemos em silêncio. — Eu vim para levá-la ao Instituto — disse, de repente. Afastei a cabeça para poder olhar em seus olhos. — Não estamos indo rápido demais? — perguntei. Ele negou com a cabeça. — É só que... ah, sei lá. Eu tenho medo. — Não tenha. — Ele espalmou meu rosto com suas mãos quentes. Sua testa colou na minha e ele respirou o meu ar. — Nós estamos bem — afirmou. — Repete comigo. Eu sorri de olhos fechados. — Nós estamos bem — murmurei. Instantes depois, eu coloquei a cabeça no portão e gritei: — Mãe? — Aguardei ela responder, e continuei: — Estou indo. Lucas vai me dar uma carona. ♥ Assim que chegamos ao Instituto, nos despedimos e Lucas foi embora com a promessa de voltar mais tarde para me buscar. Enquanto caminhava, eu senti meu celular vibrar no bolso com uma mensagem. Peguei o aparelho e percebi que era uma mensagem da Raquel: “— Você foi embora sem se despedir de mim! Não se esquece de


pensar sobre aquele lance da festa.” Eu mordi os lábios, mas acabei sorrindo. No momento em que ia respondê-la, alguém esbarrou em mim e meu celular acabou caindo no chão. — Ai que droga! — resmunguei. Inclinei-me para pegá-lo, mas a pessoa chutou o aparelho para longe. Irritada, eu ergui os olhos. Letícia me encarava com deboche. — Eu acho que o teu celular está ali. — Apontou com um sorriso sarcástico. — Você precisa se arrastar um pouco mais, querida — disse, antes de se virar nos calcanhares. Senti a fúria se apossar dos meus poros, contudo decidi engoli-la. Aquele era o meu local de trabalho e, eu não poderia me dar ao luxo de esfregar a cara daquela infeliz no chão. Observei-a se afastar e contei lentamente até dez, enquanto meus punhos se fechavam. — Vadia! Enfim, peguei o celular e me levantei. Agradeci por não ter quebrado o display. No momento seguinte, a Andressa passou por mim. Ameacei chamá-la, mas seu semblante carrancudo me impediu. Sua cabeça se movimentou em um sinal negativo e, eu entendi. Ela ainda estava irritada com o lance da foto do irmão dela na boate. Droga! Desanimada, eu segui para uma das salas de treinamentos. Ao menos teria uma boa distração com minhas lindas alunas. ♥ Ao final do dia, eu estava me encaminhando para fora do prédio, pois Lucas havia me mandado uma mensagem dizendo que me aguardava. Ao longe, observei a silhueta da Andressa, mas ela não havia me notado, já que falava com alguém pelo celular. Soltei um suspiro triste. Eu não queria estar brigada com ela. — Ana? — Virei a cabeça na direção da voz. — É você? Um sorriso surpreso se espalhou em meus lábios. — Felipe? O que faz aqui? Ele veio até mim rapidamente, tão surpreso quanto eu.


— Como assim: o que eu faço aqui? Minha família é fundadora do Instituto. O que você faz aqui? Nossos corpos se chocaram em um abraço apertado. — Devo interromper? — A voz do Lucas se fez presente. Olhei para o lado e me deparei com seu olhar intrigado, mas com uma pontada nítida de irritação. Tomei o cuidado de me afastar do Felipe. — Ah, humm... Lucas, esse é o Felipe — apresentei. — Nos conhecemos em Londres, e aparentemente ele é o dono do lugar. Lucas esticou a mão, enquanto se juntava a mim. — Prazer. Eu sou o namorado. Ignorei o desejo de revirar os olhos diante daquela demonstração de ciúmes. Felipe apenas assentiu. — Rapaz de sorte. — Felipe me encarou com um sorriso de canto. — Nossa, que mundo pequeno, hein? Jamais pensei que encontraria você aqui. — Ele apontou para a fachada do prédio. — Faz muito tempo que retornou? Quando saí de Londres, acabei perdendo seu contato. — Já faz alguns meses — respondi. — Ah, que bacana! Podemos marcar um programa algum dia desses para relembrar os velhos tempos. — falou e, em seguida, riu como se tivesse se lembrando de algo. — Ainda nesses dias, eu estive conversando com o pessoal, e nós relembramos de algumas festas e das nossas boas risadas. — Foi uma época divertida — falei, nostálgica. — É, foi sim. Lucas enrolou o braço em minha cintura de modo possessivo. — Será que podemos ir? Olhei para ele, que estava com o semblante impaciente. — Ah, claro. — Foi bom revê-lo, Felipe. Nos despedimos, e cada um seguiu seu caminho. Minutos mais tarde, abri a porta do meu apartamento. Lucas estava em silêncio, e isso já estava me deixando agoniada. Abandonei minha mochila no canto da sala e, em seguida, me joguei


sobre o sofá. — Que foi? — questionei. — Nada — resmungou, resignado. — Você está com uma cara estranha, Lucas. Não venha me dizer que não é “nada”. Vi quando ele soltou o ar, e se voltou para mim com extrema raiva nos olhos. — Você já dormiu com ele? Arqueei as sobrancelhas, incrédula. — É sério isso? Você tem noção de que está querendo puxar uma briga desnecessária comigo, não é? Ele esfregou o rosto. — Dormiu com ele? — repetiu, soltando o ar. Levantei do sofá. — Por acaso, eu te questiono sobre as garotas que você já dormiu? — Não tente virar o jogo — retrucou num tom baixo. Eu ri. — Que jogo, Lucas? Céus! Você está paranóico. Cruzei os braços contra o peito e permaneci encarando o perfil dele de costas. Lucas estava com ambas as mãos, espalmadas na parede. — Você dormiu com ele, Ana? Dessa vez, a pergunta saiu sussurrada. Baixei a cabeça e fechei os olhos. — Você e eu nunca paramos para conversar sobre essa época de afastamento. Eu conheci outras pessoas, assim como você; também vivi outras histórias, Lucas. — Nesse momento, ele me olhou. — Felipe teve uma pequena participação na minha vida em Londres. E, eu sinto muito que isso de alguma forma te magoe, mas também não me sinto a vontade de saber que você já esteve com outras garotas. Dei de ombros. Caminhei até ele, nervosa, mas respirei aliviada quando seus braços me acolheram. — Vou precisar sujar as mãos cada vez que ele estiver por perto? — indagou e, eu ri. — Por favor, não — respondi, ainda rindo. — Você precisa aprender a


confiar em mim. Suas mãos acariciaram minhas costas, enquanto ele caminhava comigo até me jogar sobre o sofá. Em seguida, se juntou a mim; o corpo em cima do meu. — Eu odeio o fato de saber que você construiu um pedaço da sua vida, no qual eu não faço parte — disse, e mordi os lábios, entristecida. — Mas agora voltamos a estar juntos. — Segurei seu rosto, e ele uniu nossos lábios. O beijo foi singelo. Lucas colou nossas testas, enquanto respirava com dificuldade. — Nós estamos bem. Ele não disse nada. — Repete — pedi. — Nós estamos bem.


Capítulo 19 Ana A semana se passou rapidamente. Era sexta-feira, e meu celular não parava de tocar. Meus olhos ainda estavam fechados, e meu corpo ainda sentia resquícios de sono. Nervosa com aquela insistência, eu estiquei o braço até o criado-mudo e alcancei o celular. — Ai, Ana, até que enfim! Rolei os olhos ao reconhecer a voz da minha irmã. Pisquei os olhos antes de erguer meu corpo e me sentar na cama. Olhei para o visor do celular e constatei que ainda eram 7hs21. —... aí, eu meio que já dei a entender que você... — Por que está me importunando tão cedo, Raquel? — cortei sua tagarelice, sem nem saber do que ela estava falando. Bocejei. — Hoje é sexta-feira — Ela disse simplesmente. Permaneci em silêncio, pois o sono não me permitia raciocinar. Ouvi quando ela praguejou do outro lado da linha. — É o dia daquela festa, Ana. Poxa! Eu pensei que podia contar com você para me ajudar. Notei que ela falou baixinho, a última parte. Suspirei e, em seguida, joguei os pés para fora da cama. — Ok, ok — resmunguei, enquanto soltava diversos bocejos. — Eu preciso de um café primeiro. Daqui a pouco, eu passo aí. Afastei o aparelho do ouvido quando ela começou a gritar, eufórica. — Vou estar te esperando. Desliguei a chamada e abandonei o aparelho sobre a cama. No banheiro, eu joguei uma água no rosto e escovei os dentes. Olhei para meu reflexo no espelho e sorri ao notar uma marca vermelha no meu pescoço. — Desgraçado! — murmurei, referindo-me ao Lucas. Na noite anterior, nós havíamos decidido ficar em casa para assistir a um filme. Nosso relacionamento estava seguindo o curso e, apesar do medo, eu estava feliz. Saí do banheiro, e fui em direção à cozinha; preparei a cafeteira.


Enquanto aguardava, a campainha tocou. No fundo, eu estava mal humorada, mas respirei fundo antes de seguir até a porta. Meus olhos se arregalaram e minhas sobrancelhas se arquearam quando me deparei com a Andressa, parada do outro lado. Fiquei sem reação, pois não esperava por sua visita. Notei que ela ficou sem jeito, e cruzou os braços. — Posso entrar? Estou me sentindo um ser de outro planeta diante do seu olhar. Pisquei freneticamente, e me afastei da porta. — Oh, me desculpe. Por favor, entre. — Ela passou por mim e, eu fechei a porta. — Acabei de acordar e não tomei minha cafeína ainda — Soltei uma risadinha. — Agora entendi o olhar de ‘zumbi’ — Fez aspas com as mãos, rindo. Rolei os olhos, mas acabei sorrindo junto. Ela me conhecia bem. O silêncio reinou entre nós. Eu, parada ainda perto da porta e, ela perto do sofá. — Olha, Andressa... — Olha, Ana... Rimos, quando falamos juntas. Caminhei até ela, ainda rindo, e peguei sua mão, puxando-a para se sentar ao meu lado no sofá. — Eu juro que não tive a intenção de te magoar com aquele lance do seu irmão — falei com sinceridade. — Também não tenho culpa por ele ter me beijado depois e... — Ele te beijou? — Ela me cortou. Minhas bochechas ruborizaram. Droga! — Bom, éee... você não sabia? Fiquei nervosa. De repente, ela começou a rir. — Estou brincando com você, Ana — disse. — Eu vi o Bruno te beijando; e sei que você não quis me magoar. É só que... — ela soltou um suspiro —, eu sou muito ciumenta com meu irmão. — Deu de ombros.


— Me desculpe — falei. Nos olhamos, e um sorriso tomou nossos lábios. — Ah, eu estava com saudades — Ela disse, enquanto me puxava para um abraço forte. — Eu também! Beijei sua bochecha. — Tem café? — intimou e, eu revirei os olhos. — Sinto cheiro de fraude nessa reconciliação — comentei entre risos. Segui até a cozinha, com Andressa em meu encalço. — Eu gosto de você, mas confesso que amo ainda mais o se café. — Como passou os últimos dias? — perguntei, enquanto servia nossas xícaras. — Ah, eu me virei — disse, enigmática. Olhei para ela, que tentou disfarçar. — O que foi? — questionei, oferecendo-a uma das xícaras. Recostei-me sobre o balcão da pia. — O que está me escondendo? Andressa me encarou em choque. — Como assim? — replicou na defensiva. — Não estou escondendo nada, oras. — Observei-a puxar uma das cadeiras, diante de mim. — E como estão as coisas com o Lucas? Quero saber de tudo. Levei a xícara de café à boca, e permaneci analisando sua postura. Eu sabia que ela estava escondendo alguma coisa, contudo decidi não insistir. — Ah, estamos nos entendendo — respondi, sem deixar de sorrir. — Ele me faz bem. E, pelas próximas horas, eu narrei cada detalhe dos últimos acontecimentos. Percebi o quando conversar com a Andressa me fez falta durante aqueles dias. ♥ — Certo, agora repita tudo o que conversamos. Raquel fez uma expressão de tédio, mas reconsiderou quando me viu arquear as sobrancelhas. Suspirou baixo antes de falar. — Não beber nenhum tipo de álcool e, ou usar drogas, pois eles


prejudicam minha capacidade de julgamento; recusar bebidas de taças alheias; jamais me descuidar do copo da bebida, no qual eu estiver bebendo, porque alguém pode batizar a minha bebida com alguma substância. — Eu virei te buscar a partir da meia noite — decretei. — Mas estarei com o celular em mãos para buscá-la a qualquer horário. — Segurei suas mãos nas minhas. — Se você se sentir desconfortável com algum convite, Quel, não aceite, entendeu? Um sorriso lindo se formou em seus lábios rosados, e ela me abraçou. — Obrigada, Ana. Em seguida, abriu a porta do carro e saiu. Da janela, eu permaneci prestando atenção em seus movimentos; ela estava linda naquele vestido justo, porém recatado; seus cabelos estavam soltos e ondulados. A festa estava rolando em uma bela casa. Rapidamente, Raquel se enturmou, e sumiu do meu campo de visão. Liguei o carro, e saí dali. Eu tinha decidido a não compactuar com aquela mentira, pois eu como irmã mais velha, deveria dar o exemplo. Minha mãe chegou a emprestar o carro dela, para que viéssemos para meu apartamento. Raquel e eu dissemos que íamos fazer uma festa de meninas, e é obvio que me senti mal por mentir. Mas então, eu me lembrei que também tive a idade da Raquel; era gostoso essas descobertas, esse calorzinho no peito cada vez que estava perto do rapaz, no qual estava afim. No trajeto de volta, eu busquei me convencer de que tudo daria certo. Raquel estava feliz, e isso já acalmava o meu coração. ♥ Eu tinha acabado de preparar um pote de pipoca, quando meu telefone começou a tocar. Enquanto seguia até a sala, eu ergui os olhos para o relógio de parede, e constatei que ainda eram 22hs34. Assim que peguei o aparelho, franzi o cenho quando notei que se tratava de uma ligação de um número desconhecido. — Alô? — Atendi, preocupada. — Oi, moça. Aqui é uma amiga da Raquel. Eu peguei seu número no telefone dela — disse, uma voz desconhecida. — Será que você poderia vir buscá-la? — O que aconteceu com ela? — questionei em desespero, conforme me preparava para sair.


— Ela está muito louca, se é que você me entende — Soltou uma risadinha. — Desconfio que a bebida dela foi batizada e, eu tenho medo de que alguém abuse dessa vulnerabilidade. Mordi os lábios enquanto balançava a cabeça. Droga, Raquel! Droga! Droga! — Qual é seu nome? — É Laura. — Obrigada, Laura — falei. — Você é uma ótima amiga. Trocamos mais algumas palavras e, em seguida, desligamos. Eu estava com o corpo trêmulo. Meu raciocínio foi por água abaixo naquele momento devido ao medo do que viesse a acontecer. Eu estava ferrada! Nossos pais não sabiam de nada. Voltei a pegar o celular na intenção de ligar para o Lucas, mas acabei me lembrando que ele tinha dito que não viria me ver naquela noite, porque teria treino pesado em decorrência da aproximação de um torneio importante. — Andressa! — pensei. Peguei as chaves, e fui em direção ao apartamento dela. Eu precisava de alguém ao meu lado nesse momento. Assim que cheguei ao andar dela, corri até seu apartamento e bati na porta com impaciência. — Andre... Minha voz se esvaiu no momento em que a porta foi aberta, contudo não me deparei com a Andressa. O choque ainda pairava em meu rosto quando escutei a voz dela. — Quem está aí... Ela se calou quando me viu. Meu coração palpitava no peito. Cambaleando para trás, eu não fui capaz de continuar ali nem mais um segundo. — Ana? Apertei o botão para chamar o elevador e me apoiei na parede. Eu não conseguia respirar direito. — Ana? Ela segurou meu braço e me forçou a encará-la. Seu corpo estava coberto por uma toalha. Eu quase ri, mas estava muito zangada para fazer isso.


— Me deixa explicar — pediu. Apontei o indicador para ela. — Você me julgou por aquele lance com o seu irmão — falei. — Virou a cara pra mim durante os últimos dias, e fez eu me sentir a pior das amigas. — Balancei a cabeça, e voltei a apertar o botão do elevador repetidas vezes. — E o que você está fazendo agora? — Ana, é o Jonathan, poxa! Ele não é nenhum estranho — disse. — Não fale como se tivesse sido traída. — Mas de certa forma, eu fui — explodi, virando o rosto na direção dela, que se encolheu. Vi quando ela ergueu a toalha um pouco mais acima dos seios. Olhei para a porta do seu apartamento, e Jonathan nos observava em silêncio. — Eu contei para você o que aconteceu naquela noite, Andressa; eu disse o que ele fez ao Lucas — sibilei com raiva. — Você sabia do medo que ele me causou, eu disse a você. O elevador chegou. — Espere, Ana... — Eu pensei que fôssemos amigas — falei com pesar.


Capítulo 20 Ana Saí do prédio sentindo meus músculos tenros; minhas pernas tremiam consideravelmente e, eu estava temendo sofrer um colapso. Encaminhei-me na direção da garagem a fim de pegar o carro, e de repente o Lucas surgiu no meu campo de visão. Ele sorria abertamente para mim, contudo o sorriso desvaneceu no momento em que ele notou meu rosto úmido. Corri até seus braços, e Lucas foi rápido em me segurar; amparando-me. — O que foi? Por que está chorando? Funguei. — Eu preciso buscar a Raquel, pois acabaram de me ligar para dizer que ela está fora de si. Lucas sacudiu a cabeça, indignado. — Eu te disse que deixá-la ir nessa festa não ia ser legal — resmungou e pegou em minha mão, entrelaçando nossos dedos. — Vamos, eu levo você. Apenas assenti, incapaz de discordar de suas palavras. Alguns minutos depois, estávamos na estrada. — Eu pensei que você não viria me ver hoje — comentei para quebrar o silêncio. Deitei a cabeça no vidro da janela do carro. Lucas soltou o câmbio do carro e segurou minha mão. — Fiquei com saudades — disse, me fazendo olhá-lo. Sorrimos um para o outro, embora meu sorriso houvesse sido um pouco triste. Lucas voltou a se concentrar na estrada. — Não se preocupe com a Quel. Ela só está curtindo as loucuras de ser uma adolescente. Eu sabia disso, mas na verdade, boa parte da minha tensão vinha também da minha discussão com a Andressa. Droga! Por que ela tinha que estar logo com o Jonathan? Por que não me contou sobre eles? Suspirei. Mas evitaria o assunto “Jonathan” com o Lucas, pois acarretaria em mais estresse. — Eu sei — murmurei, mordendo os lábios em frustração. — Mas isso não muda o fato de eu estar me sentindo uma péssima irmã, Lucas. — Esfreguei o rosto. — Eu devia ter previsto que alguma coisa ruim pudesse acontecer. Porra! Raquel tem apenas quinze anos.


— Fatalidades e imprevistos acontecem, Ana — disse. — Mas eu a instrui — argumentei. — Eu deixei instruções claras para que ela evitasse os possíveis perigos. — Estalei os lábios. — Nunca vou me perdoar se alguma coisa ruim acontecer com ela. Lucas não disse nada. O silêncio predominou pelo restante do trajeto. Assim que Lucas embicou o carro na rua da casa, no qual rolava a festa, a música alta pôde ser ouvida. Havia muito mais carros estacionados, e muito mais pessoas também. Meu coração batia descompassado quando Lucas parou o veículo. Seu toque em meu ombro me despertou e, eu o encarei. — Prefere que eu entre com você? Sacudi a cabeça. — Não precisa — respondi enquanto retirava o cinto. — Será rápido. Abri a porta do carro e desci. Respirei profundamente antes de começar a me encaminhar para dentro daquela casa barulhenta. Havia adolescentes, contudo percebi que nem todos eram menores de idade. Eu deveria ter deduzido esses detalhes. Ou Raquel sabia e se omitiu, ou ela realmente era inocente ao ponto de acreditar que seria apenas uma simples festa com amigos do Colégio. Infiltrei-me entre a algazarra, conforme varria os olhos por todos os cantos. A música e a gritaria eram insuportáveis. Onde estavam os adultos daquela casa? Cheguei ao cômodo, que provavelmente seria a sala, e me deparei com uma pequena roda. Três garotos se encontravam recostados em uma das paredes; ambos com uma taça de bebida nas mãos. Eles riam conforme observavam a cena diante deles. Pulei de susto quando alguém segurou meu braço. — Você é a irmã da Raquel? — questionou-me. Virei a cabeça para o meu lado direito, me deparando com uma garota morena, de olhos esverdeados. — Sim, sou eu. Você é a amiga que me ligou? Ela respirou fundo, enquanto assentia e, em seguida, apontou para o aglomerado à nossa frente.


— Ela está ali — disse. — Está discutindo com outra menina, porque ambas estão apaixonadas pelo mesmo garoto. — E quem é esse maldito garoto? — questionei, irritada com o fato de Raquel estar se humilhando dessa forma. Agradeci quando a garota apontou o alvo. Tomando respirações rápidas, eu rumei em direção àquela roda; Irritada, empurrei algumas garotas, que insistiam em fechar o círculo. Meus olhos se detiveram em Raquel, que tinha uma das mãos enroladas nos cabelos de outra garota; ela estava descabelada também, e uma das alças do seu lindo vestido havia sido rasgada deixando uma parte do seio à mostra. — Você sabia que eu era afim dele, sua vadia! Você sabia e mesmo assim decidiu esfregar esse rabo na cara dele — Ela gritou contra o rosto da outra menina. Todos que estavam ao redor riam e aplaudiam; aquelas pessoas não estavam preocupadas com o bem estar delas, mas com quem bateria e, ou apanharia primeiro. Voltei a analisar minha irmã e quase tive vontade de rir com sua selvageria nítida, pois não fazia ideia que ela era tão brava. Ignorei aquele desejo e segui até as duas. — Já chega, Raquel — decretei, segurando uma das mãos dela. Houve um coro de vaias, Mas ergui a mão em um gesto obsceno para todos eles. — Me deixa — Raquel resmungou com raiva, numa tentativa de pegar os cabelos da outra garota novamente. Irritada, eu ergui o queixo dela forçando seu olhar; as pupilas dela estavam um pouco dilatadas, sua maquiagem borrada. Notei que havia um pequeno corte em seu lábio inferior. Ela pareceu me reconhecer. — Vamos embora agora — falei com firmeza. Aproveitando a distração da minha irmã, a outra garota esticou o braço a fim de atingi-la, mas fui mais rápida e segurei seu pulso. — Não ouse tocar nela — sibilei entre dentes. — Eu posso ir presa, mas eu juro que acabo com você, garota! Ela recuou. Irritada, eu apontei o queixo na direção do garoto — alvo do pequeno showzinho das duas.


— Enquanto vocês duas estavam se ferindo físico e psicologicamente, o otário estava rindo. Rindo de vocês! A música ainda era alta, mas todos escutaram o que eu falei. Cansada, porque sabia que de nada minhas palavras surtiriam efeito, eu pedi licença e arrastei Raquel para fora daquele lugar. Saímos abaixo de vaias, e Raquel praguejava ao meu lado. Ela não conseguia caminhar com firmeza, sinal de que estava muito chapada. Decepcionada, comecei a brigar com ela, mesmo sabendo que ela parecia muito louca para discernir sobre o que eu estava falando; eu estava furiosa. Já na rua, eu a carreguei na direção do carro, contudo o Lucas não estava no veículo. Deixei Raquel recostada no capô e comecei a olhar ao redor, encontrando-o a poucos metros de distância. Embora não estivesse só, ele estava conversando com alguém. Fui até eles a passos duros e rápidos. Os ombros do Lucas pareciam estar tensos, e ele gritava. — Você deveria ter mais consideração com a mãe do seu bebê — Ela dizia. — O quê? — gritei em choque. Lucas se virou para mim e, eu enfim pude ver quem estava com ele. Era Letícia. — Você terá um bebê? — perguntei para ele. Lucas me encarou com um olhar de pânico, entretanto, me entregou as chaves do carro. — Ana, me deixa conversar a sós com a Letícia. Minha boca se abriu, e minhas pálpebras ganharam vida própria, conforme piscava com velocidade, tentando entender a realidade à minha frente. Ele estava me mandando ir embora? — O quê? — Me deixa com a Letícia, porra! — explodiu em um misto de emoções no olhar. — Leve sua irmã, eu te encontro depois. Ainda sem acreditar, eu levei os olhos para a Letícia, ela sorria debochada enquanto acenava um tchauzinho cínico com a mão. — Não se dê ao trabalho de me procurar — rosnei antes de me virar. — Ana... — Vá se foder! Encontrei Raquel no mesmo lugar.


Minha cabeça estava prestes a explodir, mas me concentrei em cuidar da minha irmã naquele momento. Assim que ela estava posicionada no banco do passageiro, eu tomei meu lugar no volante e acelerei para longe. ♥ Meus braços estavam ao redor da cintura da Raquel, pois suas pernas não se sustentavam com firmeza. — Eu o beijei, Anaaaa — ela resmungava sem parar. — Eu beijei... e teve língua, teve um amontoado de línguas. De repente, ela começou a rir, dificultando nossa caminhada, já que seu corpo começou a sacudir. — O beijo dele era babado, sabia? — continuou a falar, entre risos. — Eu disse isso pra ele. Eu falei que ele não sabia beijar direito. Arqueei as sobrancelhas. — Você disse? — indaguei, divertida. Raquel sempre foi sincera. — Ele não gostou muito. — Ela fez um bico enorme. — Acho que foi por isso que ele ficou com aquela vadia — lamentou. Estávamos saindo do elevador. — Eu sou patética... Levei os olhos pelo corredor, tentando ignorar a tagarelice bêbada da minha irmã, e respirei profundamente quando me deparei com Jonathan, plantado na frente da porta do meu apartamento. Ele estava sentado, mas se levantou assim que me viu carregando a Raquel. — O que faz aqui? — indaguei num tom nada amigável, enquanto lutava para pegar a chave do bolso. — Precisamos conversar — disse. Olhei para ele, séria e, em seguida, apontei a cabeça para minha irmã, que estava chorando e rindo ao mesmo tempo. — Além de não ser uma boa hora, eu não estou a fim de papo. Alcancei a chave e abri a porta. Raquel se arrastou para o sofá, jogando-se de qualquer jeito. Prestes a fechar a porta, Jonathan me impediu. — Estou esperando você há mais de uma hora, Ana — disse. — Sei que


você está com problemas agora, mas não pretendo sair daqui até você me ouvir. Com as duas mãos no batente da porta, eu abaixei a cabeça. Estava um caco; minha irmã estava bêbada e possivelmente drogada, meu namorado preferiu ficar com a antiga amante, que possivelmente estava esperando um filho dele, e em minha frente, estava a pessoa que tinha sido peça fundamental para meu desentendimento com minha melhor amiga. — Esteja consciente de que a minha paciência está no limite — falei, antes de abrir espaço para ele entrar. Fechei a porta. Fui até a Raquel, que parecia desmaiada no sofá. — O que aconteceu com ela? — ele quis saber. — Você quer que eu ligue para o James? — Não! — exclamei mais do que depressa. Com dificuldades, voltei a erguer uma Raquel anestesiada. — Ninguém precisa saber disso aqui — afirmei olhando para ele. — Vou dar um banho nela e, em seguida, conversamos se ainda quiser esperar. Ele apenas assentiu, antes de se sentar no sofá com as pernas dobradas. Rolei os olhos, e segui arrastando a Raquel pelo corredor. Quantas horas a mais aquela terrível noite ainda duraria?


Capítulo 21 Ana Assim que coloquei a Raquel na cama, eu fui em direção à sala, onde Jonathan me aguardava pacientemente. Minha cabeça estava dolorida devido a toda aquela tensão e estresse, mas havia prometido que o ouviria, e faria isso. Fui até a cozinha e, em seguida, voltei para a sala enquanto carregava um copo de água. Ajeitei-me no sofá, e me virei para Jonathan, que até então me observava em silêncio. — Agora você tem os seus minutos — falei, antes de levar o copo de água à boca. Suspirando, ele jogou o corpo para frente e apoiou os braços sobre os joelhos. Seu olhar ficou em suas mãos. — Sei que está com raiva de mim pelo que aconteceu naquela noite, mas isso não deve interferir na sua relação com a Andressa, que não tem nada a ver com minhas merdas — disse, erguendo os olhos para mim. — Eu juro que não quis assustar você, Ana; quando a levei para assistir a minha luta, não previ nada daquilo. Veja bem, o meu propósito é somente arrecadar dinheiro para o tratamento da minha avó, que é minha única família. — Como ela está? Ele desviou o olhar e soltou um suspiro triste. — O câncer avançou para a coluna e isso ocasionou lesões e deficiência de movimentos. Meu coração se compadeceu da dor dele, e me inclinei para poder depositar o copo sobre a mesinha de centro. Em seguida, dobrei uma das pernas. — Eu sinto muito. — Ele continuou calado, e sem se mover. Nervosa, eu toquei em seu ombro para forçá-lo a me encarar. — Eu realmente sinto muito quanto a isso; meu coração dói ao saber do sofrimento da sua avó e, consequentemente, do seu — falei com sinceridade e ele assentiu. — Olha, Jonathan, eu não odeio você e nem mesmo estou com raiva; mas o que aconteceu naquela noite, entre você e o Lucas, me deixou apavorada. — Eu sei — murmurou, enrugando a testa. — Eu não estava preparada psicologicamente para ver aquilo, na verdade, acho que nunca estarei. — Baixei os olhos, sentindo meu corpo tremer de medo ao imaginar outra briga entre eles. — Você sabe que pegou pesado com


o Lucas, sabe que se aproveitou da situação para expor todo o ressentimento, no qual sente por ele. E foi isso que me fez ficar decepcionada com você, Jonathan. — Ficou decepcionada por eu ter dado uma surra nele? Revirei os olhos e tive vontade de socá-lo. — Não seja cínico! Você sabe que não estou falando nesse sentido — ele resmungou, e voltou a olhar para o outro lado. Suspirei. — Eu odiei aquele Jonathan, no qual você se mostrou naquela noite; tive medo de você; tive raiva. Poxa! Eu estava habituada a lidar com as merdas do Lucas, não com as suas. Você era diferente, Jonathan. Ao menos, eu o via diferente dele. Parei de falar e olhei para minhas mãos. Eu realmente estava exausta. — Depois do que aconteceu, eu procurei você para conversarmos, mas nunca consegui te encontrar. Eu queria explicar, pois imaginei o quanto deveria estar me odiando. Olhei novamente para ele. — Não odeio você, Jonathan. Ele sorriu. — Eu sei. O silêncio se estabeleceu entre nós por alguns segundos. — Desde quando você e Andressa estão... A risada dele me calou. — Isso, eu vou deixar para Andressa lhe contar pessoalmente e nos mínimos detalhes como toda a garota gosta. — Ele disse num tom zombeteiro e rolou os olhos enquanto se levantava do sofá. Segui seu movimento e me levantei também. Frente a frente, eu o puxei para um abraço. — Me perdoe, Ana — disse durante o abraço. — Prometo que nunca mais deixarei algo interferir em nossa amizade. Eu gosto muito de você. Fechei os olhos, sorrindo. Afastei o corpo e segurei suas mãos. — Eu também peço desculpa pela minha reação exagerada de mais cedo... — entortei os lábios —... é que, eu não estava em um bom momento, e vocês me pegaram de surpresa. Respirei fundo. Ainda segurando em sua mão, eu o levei até a porta. — Amigos outra vez? — indagou, divertido.


Eu ri enquanto assentia. Com a porta aberta, ele me puxou para outro abraço forte. — O que está acontecendo aqui? A voz alterada do Lucas nos fez separar. Meu rosto tornou-se atormentado quando encarei o Jonathan, que entendeu e se despediu de mim rapidamente. Lucas resmungou alguma coisa, mas fui até ele para impedi-lo de agir feito um lunático. — O que ele estava fazendo no seu apartamento, Ana? — insistiu, enquanto eu fechava a porta. Suspirei em agonia. — Ele veio conversar, Lucas, mas isso não importa no momento. — Me virei para ele com os braços cruzados. — O que aconteceu com a Letícia? Que história é essa sobre ela estar grávida de um filho seu? — Eu não sei direito — confessou, meio inerte. — Ela estava um pouco alterada e... — Vocês transavam com camisinha, certo? Ao menos, eu me lembro de você dizendo que jamais transava sem proteção — falei num tom rancoroso. Lucas me encarou em agonia e, em seguida, levou as mãos ao rosto. — Uma ou duas vezes, mas eu não sei ao certo — confessou deixandome em choque. — Ela afirmava que tomava anticoncepcional regularmente. — Oh, céus! Homens e essa mania de sair comendo geral sem o mínimo de cuidado — falei comigo mesma. — Que porra você estava pensando? Quantos anos aquela garota tem, hun? Dezoito? Dezenove? Eu estava fervilhando de raiva por dentro. Por um momento, Lucas parou de andar pela sala, e me encarou com fúria contida. — Não me julgue, caralho! Pois eu bem vi como aquele seu “amiguinho” de Londres olhou para você. Semicerrei os olhos. Com as mãos na cintura, eu caminhei na direção dele. — Mas eu não fodi com ele sem camisinha. Ao menos nós transamos com proteção. O rosto dele ganhou uma coloração estranha e, eu cobri os lábios com as mãos sentindo que tinha acabado de falar demais. Merda!


— Então você transou mesmo com ele, mas preferiu mentir para mim. — Lucas, eu não menti — defendi-me. — Não há nada entre mim e o Felipe; isso foi há dois anos. — MAS ELE TE COMEU, PORRA! Afastei-me, encolhida com sua explosão. Meu coração batia acelerado. — Pare! Não mude o foco das suas merdas, para mim. Eu era solteira, jovem, e foi apenas uma aventura. Por que eu deveria te contar? E o que isso tem a ver com o fato de Letícia poder estar esperando um filho seu? Vi quando ele abaixou a cabeça. Aquela situação estava se agravando e, eu estava ficando apavorada com o rumo que estava tomando. — Ainda temos muito caminho até ficarmos bem. Estremeci com suas palavras. Ele estava terminando? Com apenas alguns passos, eu estava diante dele. — Você cometeu um erro, Lucas. Se esse bebê for seu, o que vai fazer? — Eu não sei se é meu, mas se for, pretendo assumir. — Vai contar aos seus pais? — Por enquanto não — respondeu, cabisbaixo. — Não levarei isso a eles até ter certeza. Já basta a decepção que vi nos olhos da minha mãe quando optei por não cursar uma faculdade. Assenti, tentando engolir o enorme bolo na minha garganta. — O bebê não será um problema, Lucas. Se ele for seu, será um pedacinho de você, no qual vou amar também. O problema é a mãe dele. Com os olhos tão atormentados quanto os meus, Lucas ergueu a mão e afagou meu rosto e, em seguida, deslizou os dedos para minha nuca, colando nossas testas. Sua respiração estava ofegante. — Não vou deixá-la nos separar, Ana. Eu tenho você agora, e não vou saber perdê-la novamente. Mas estou com medo, porra! Colei nossos lábios em um selinho, antes de apertá-lo contra mim. Ficamos nessa posição por um tempo, até Lucas se afastar e quebrar o silêncio. — Você fodeu mesmo com aquele babaca? Pisquei algumas vezes, mas acabei revirando os olhos. Empurrei-o. Aquela conversa não nos levaria a lugar algum. — Estou cansada — falei, e segui até a porta. — Quero dormir agora.


— Tudo bem — falou, dando passos lentos até mim. — Eu preciso mesmo ir para casa e pensar em tudo isso. Além do mais, você precisa lidar com Raquel pela manhã. Concordei, entortando os lábios. Antes de ir embora, ele me puxou para seus braços. Seu beijo foi bem vindo, apesar das circunstâncias. — Se aquele cara encostar um dedo em você, eu o mato — avisou, fazendo-me empurrá-lo para fora do apartamento. — Boa noite, senhor nervosinho — falei. Ameacei fechar a porta, contudo a mão do Lucas freou o movimento. Seu olhar era apreensivo sobre o meu. Eu podia sentir o medo fluindo através de seus poros, pois era o mesmo sentimento que eu estava sentindo. Medo de que isso pudesse influenciar em nosso relacionamento de maneira negativa. Eu estava com medo de perdê-lo, assim como ele a mim. — Nós estamos bem, Ana. Sua mão ainda bloqueava a porta. Mordi os lábios, mas assenti. — Nós estamos bem.


Capítulo 22 Ana O dia amanheceu e, apesar de eu não ter conseguido pregar o olho durante o restante da noite, tive que levantar. Raquel havia acordado sentindo uma enorme ressaca; vê-la daquela maneira fez minha raiva emanar dos meus poros, mas evitei chateá-la com meus sermões. Era pouco menos das oito horas da manhã quando estacionei o carro no gramado da casa dos nossos pais. — A mamãe vai estranhar o fato de você não ter ido para a aula hoje, então se prepare para ouvir um sermão — falei, enquanto desligava a ignição do carro. — Melhor do que ouvir as zoações dos meus amigos do colégio — resmungou com rancor. Encarei-a com o semblante franzido. — Do que está falando, Raquel? E que tom é esse comigo? Ela riu com desdém. — O que acha que a galera vai dizer sobre o fato de você ter bancado a minha babá, hein? — Seus olhos chisparam os meus com fúria. — Se toca, Ana! A verdade é que você acabou destruindo a minha vida social com a sua tentativa de heroísmo. Eu estava em choque. — Acho que você enlouqueceu — murmurei enquanto sacudia a cabeça, ainda incrédula com tudo o que tinha acabado de ouvir. — Não! Você que não deveria ter me feito passar vergonha. — Eu fiz você passar vergonha? — revidei em tom alto, mas diminui o tom ao perceber que nossa mãe poderia escutar. — Ah, me desculpe, Quel, mas esse trabalho você fez sozinha e muito bem feito por sinal! — ironizei, incapaz de me segurar. Ela abriu a boca para falar, mas hesitou. Vi quando seus olhos se encheram de lágrimas. — Eu o amo — soprou com a voz embargada. — E agora por sua culpa, eu não sei como vou encará-lo. Soltei um suspiro frustrado. Minha cabeça já estava começando a doer. — O que você sente por aquele garoto não é amor, Raquel, é uma


simples paixão. — E quem é você para rotular o que estou sentindo, hein? Você não ama ninguém, além de si mesma. Dizia amar o Lucas, mas na primeira oportunidade, o abandonou. Então não venha me dizer que o que sinto não é amor, quando nem mesmo você sabe o que é isso — ditou, e se virou para abrir a porta. — Raquel... Pulei de susto quando ela bateu a porta com força. Eu ainda estava tentando me recuperar do peso com que a crueldade das suas palavras me abateu. No fundo, tentei me convencer de que ela ainda poderia estar sob o efeito do álcool ou drogas. Recusava-me a acreditar que aquela era a real visão que minha irmã tinha a meu respeito. Nervosa e abatida, eu saí do carro. Minha mãe estava na varanda quando me viu. — O que deu na sua irmã? — questionou. — Passou por mim feito um furacão e apenas disse que não foi pra aula, porque estava indisposta. Vocês brigaram? — sondou, enquanto eu a abraçava. — Ela comentou alguma coisa sobre estar com muita cólica — menti. — Bom, aqui está a chave do seu carro, mãe. — Entreguei a ela. — Já tomou café? — quis saber, enquanto se encaminhava para dentro de casa. — Eu tomo mais tarde — falei, desesperada para sair dali. — Preciso trabalhar e já estou quase atrasada. Além do mais, financiei o apartamento onde moro, recentemente, então não posso me dar ao luxo de faltar ao expediente. Peguei a chave da minha biz, sobre o aparador. — Você sabe que não precisa disso, não é? Eu e o seu pai podemos ajudar. Eu sorri e fui até ela. — Eu sei, mãe. Mas quero conquistar as coisas por mim mesma, entende? Com o meu próprio esforço. Já basta o papai ter me presenteado com a biz. Ela soltou um muxoxo, mas acabou sorrindo. — Você e o Lucas reataram? Rolei os olhos com a súbita mudança de assunto. — Outra hora, nós conversamos, mãe — falei enquanto virava às costas, sob os protestos dela. — Agora, preciso ir.


♥ Assim que estacionei a biz em frente ao prédio do Instituto, meus olhos detectaram o carro da Andressa. Com a mochila nos ombros, comecei a caminhar em direção a entrada. Meu celular vibrou com o sinal de alguma mensagem, mas decidi ignorar, já que estava atrasada. Prestes a entrar na sala, no qual daria aula, fui barrada por alguém. — Ana! — Oh, Felipe. — Sorri sem jeito. Com tanta coisa acontecendo, acabei me esquecendo dele. — Bom dia. — Melhor agora — comentou, guardando as mãos nos bolsos da calça jeans. A forma intensa, no qual ele me olhava fez com que me sentisse constrangida. — Você tem um tempinho para mim? — quis saber. Nervosa, troquei a mochila de ombro e apontei para a porta ao lado, no qual ele bloqueava. — Infelizmente, tenho que dar aula agora. Já têm alguns alunos me esperando. — expliquei sem jeito. Ele se afastou da porta. — Ah, sim! Me desculpe. Sorri fraco. — Sem problemas. Tentei avançar mais alguns passos, mas ele me segurou. Nesse momento, alguém passou por nós. — Bom dia — Letícia saudou, sem deixar de analisar o detalhe da mão do Felipe em meu braço. Odiei a forma como ela encarou aquilo. Droga! Certamente aquele ato seria mal interpretado por ela. — Agora, eu sou o novo diretor do Instituto, Ana, e quero conversar com você mais tarde. Nervosa, me afastei dele. — Tudo bem, Felipe — resmunguei, sem me atentar muito ao que ele dizia. — Até mais. Virei nos calcanhares e entrei na sala para iniciar a aula. ♥ Havia duas mensagens do Lucas, quando enfim, eu pude olhar o celular. Na primeira, ele apenas me saudava com um “bom dia”, e na segunda, me


convidava para almoçar com ele. Eu sorri, aliviada com a ideia de que, talvez, nós pudéssemos passar intactos por aquela situação tão tensa. Caminhando pelo longo corredor, que me levaria até a saída, eu estava prestes a respondê-lo quando avistei a Andressa. “Vamos trocar o almoço pelo jantar. Combinei de almoçar com a Andressa e, eu tenho alguns assuntos para tratar com ela, mas depois te explico.” Depois de enviar a mensagem, apressei os passos para alcançar a Andressa, já que a mesma não tinha me avistado e, simplesmente, correu para fora do prédio do Instituto. Na rua, eu mirei o olhar para o local em que tinha visto o carro dela logo cedo, mas não tive tempo de correr até ela, pois fui novamente interceptada por Felipe. — Aceita almoçar comigo? Olhei para o carro da Andressa, e a mesma estava prestes a entrar no veiculo. — Perdoe-me, Felipe, mas... — Eu realmente preciso falar com você, Ana — cortou-me. — E, ao menos, que você tenha algum problema comigo, eu ficaria muito feliz que aceite o meu convite para almoçar. Olhando outra vez para o carro da Andressa, notei-o em movimento. — Ana? — Felipe me encarava com intensidade. — Há algum problema? Abri a boca para falar, mas hesitei. — O que tem para me falar? — intimei, incomodada. — Eu tinha ficado de almoçar com o meu namorado, Felipe — esclareci. Ele sorriu e, em seguida, olhou ao nosso redor. — E onde ele está? Cruzei os braços, deixando claro, a minha irritação. — Olha só, Ana, você não precisa se armar contra mim dessa maneira— ele disse no fim. — Acredite, eu apenas quero tratar de um assunto profissional com você. — Pensei em perguntar se esse tal assunto não poderia esperar para mais tarde ou outro dia, mas ele pareceu ler meu pensamento. — Estou de viagem marcada para amanhã, e ficarei fora por dois dias. — explicou. — Preciso conversar com você ainda hoje.


Respirando fundo, decidi ceder, já que ele parecia ansioso. — Tudo bem. — Ótimo! — sorriu. — Podemos ir no meu carro, eu conheço um restaurante excelente. Enquanto caminhávamos, Felipe espalmou o meio das minhas costas com a palma da sua mão. Tentei ignorar o quanto aquilo soava estranho. Minha consciência estava tranqüila, e era somente isso que importava.


Capítulo 23 Ana O restaurante escolhido pelo Felipe era bem agradável. Assim que fizemos nosso pedido, o garçom trouxe as nossas bebidas. — E então? — questionei, enquanto bebericava o meu suco de laranja. — O que de tão urgente você tem para me falar? Os olhos de Felipe estavam em mim, iluminados. Lembro-me que quando nos conhecemos em Londres, me vi deslumbrada pela intensidade com que ele me olhava; Felipe tinha algo no olhar que me atraía e, naquela época, eu gostava de ser o centro das atenções. — Ao menos, você continua impaciente, assim como quando a conheci — comentou sorrindo. Fiquei sem jeito, pois não estava com intenção de conversar sobre o passado. — Não é nada disso, Felipe. — Pigarreei. — Mas você me pegou desprevenida e, eu ainda estou tentando digerir tudo isso... — gesticulei —, nosso reencontro inesperado; depois o seu cargo de diretor no lugar em que trabalho, a sua urgência em falar comigo... Veja bem, eu não tenho mais a imaturidade de antes. Agora tenho metas e, além do mais, tenho namorado e não quero me indispor com ele por algum mal entendido entre você e eu. Vi quando ele abaixou a cabeça e estalou os lábios. — Eu entendo — resmungou. — Não aprovo, mas entendo. Arqueei as sobrancelhas. — Como assim, não aprova? Felipe jogou o corpo para trás, encostando-se contra a cadeira. Seus olhos claros se voltaram para meu rosto, que o encarava com atenção. — Eu me encantei por você, justamente pelo seu espírito livre e aventureiro, Ana — disse. — Agora, vendo-a novamente, percebi que mudou, isso se perdeu. Culpa do seu namorado atual, talvez? Trinquei os dentes. Odiei ouvir tais palavras. Quem ele pensava que era? Droga! — Se me trouxe aqui para me contar sobre sua análise ridícula ao meu respeito, eu vou me retirar agora mesmo — sibilei. — Meus últimos dias estão sendo extremamente tensos e desgastantes, Felipe, então, por favor, não estrague


as nossas boas lembranças com comentários maldosos e dissimulados. Ele me olhou em choque. Certamente não esperava pela minha explosão. Abriu a boca para falar, mas hesitou quando o garçom apareceu com os nossos pedidos. — Ok, Ana — murmurou, quando voltamos a ficar sozinhos. — Peço que me perdoe. — Tudo bem. — Soltei uma lufada de ar, enquanto manuseava os talheres. Passaram-se alguns minutos, até Felipe quebrar o silêncio. — Bom, eu gostaria de te fazer uma proposta. — Ergui meus olhos para ele, atenta às suas palavras. — Consegui fechar parcerias valiosas para a nossa companhia e nossa peça está sendo requisitada para uma longa turnê. Minha boca se escancarou. — Oh, meu Deus, Felipe. É sério? — Minha euforia se tornou visível. Ele sorriu. — É claro que é sério. “A bela adormecida” é uma das nossas melhores peças de acordo com o antigo diretor, e com toda a influência da minha família, eu acabei conseguindo abrir essa porta para o Instituto. Meu coração batia descompassado. — Eu estou sem palavras — soprei, ainda em choque. — É só dizer que aceita acompanhar a equipe, já que você contracena como a personagem principal — Ele disse, antes de levar o copo de bebida à boca. Pisquei. — Como? Ele sorriu. — Durante o tempo que fiquei em Londres, Ana, eu fiz muitos amigos e, consequentemente, muitos contatos. Sou um homem de almejar grande, e agora que estou na direção do Instituto, quero tornar nossa companhia conhecida. As primeiras apresentações acontecerão em Londres, mas já estou conversando com amigos de Nova York — explicou. — O que me diz? — Eu não sabia o que responder. Ele soltou uma risadinha. — Não precisa me responder agora, Ana, você terá o mês inteiro para pensar a respeito. — Você já conversou com o pessoal? — Nos reunimos ontem à noite — respondeu. — Mas preferi conversar


com você pessoalmente. — Piscou de maneira sedutora. Joguei o corpo para trás. — Eu ainda não tenho palavras. A mão dele repousou sobre a minha, em cima da mesa. — Pense com calma, e cuidado — disse, me olhando profundamente. — Mas saiba que essa é uma oportunidade única para a sua carreira, Ana — lembrou-me do óbvio. — É a chance de você se tornar conhecida no mundo. Soltei a respiração e, em seguida, lhe ofereci um sorriso genuíno. — Eu vou pensar, Felipe. Mostrando-se satisfeito com a minha resposta, ele também sorriu. Ambos nos concentramos em nossos próprios pratos. ♥ “Se divertiu no almoço?” Franzi a testa para a mensagem do Lucas, quando retornei ao Instituto. Eu estava caminhando em direção à sala de treinamento quando senti meu celular vibrar. Acabei mandando outra mensagem. “Hmm... normal, Lucas. Você vem me buscar hoje? Parei de caminhar um pouco e me recostei na parede enquanto aguardava a resposta dele. Entretanto, ele não respondeu. Dando de ombros, me concentrei nas próximas horas que teria pela frente. Passei por uma das salas e acabei me deparando com a Andressa. Nossos olhares se cruzaram, e gesticulei que gostaria de conversar com ela mais tarde. Seus olhos não esconderam a surpresa e, eu sorri. No fundo, senti-me uma vaca egoísta por ter criado aquela intriga boba entre nós. Em seguida, voltei a trilhar o corredor em busca dos meus compromissos do período da tarde. Era fim de tarde, e Lucas não estava me aguardando na frente do prédio do Instituto. Voltei a verificar o celular e não encontrei nenhuma mensagem dele, então entendi que ele não viria. Decidida e cansada pelo dia cheio, eu fui para casa. Longos minutos depois, estava saindo do elevador quando me surpreendi ao me deparar com Lucas em frente ao meu apartamento. Aproximei-me, sorrindo, mas achando estranho. — Por que não me ligou? — intimei, oferecendo meus lábios para ele.


— Achei melhor fazer uma surpresa — respondeu, me encarando com um olhar diferente depois do nosso beijo. Dei de ombros. Abri a porta e, fiz sinal para que ele entrasse na minha frente. Assim que ele passou, meus olhos se detiveram no pacote em suas mãos. — O que você tem aí? — Ah, é uma garrafa de vinho. Peguei da adega do meu pai. Sorri, enquanto rolava os olhos. — Escondido dele, aposto — brinquei. Arranquei meus tênis dos pés e joguei a mochila no canto da sala. Eu estava exausta. — Você parece cansada — observou, vindo até mim. Uma de suas mãos enlaçou a minha cintura, e a outra deslizou em minha nuca. Em seguida, seus olhos perfuraram os meus. — Aconteceu alguma coisa hoje, que queira me contar? Fiquei o encarando, sem entender o que ele queria dizer com isso. — Hmm... ah, tirando o fato de a Raquel ter me insultado pela manhã e, praticamente, jogado toda a culpa das merdas dela em mim, bom... — dei de ombros — Acho que só isso já preenche a cota de estresse do dia. — Raquel enlouqueceu? Abracei-o enquanto suspirava alto. — Eu não sei — lamentei. — Mas agora não quero falar disso. Afastando-se, ele falou: — Eu vou preparar algo para comermos enquanto você toma um banho. — Hmm... que delicia! Adoro a ideia de ter um namorado prendado — brinquei, e ele sorriu. — Sou bem mais do que isso. Por um momento, senti um resquício de raiva em suas palavras, mas sacudi a cabeça, ignorando a sensação. Fiz como ele pediu, e um tempo depois, estávamos degustando de um delicioso macarrão ao queijo. — Juro que esse delicioso jantar fez minhas pernas enfraquecerem— comentei, sentindo minhas pálpebras pesarem. — Agora estou com sono. Em um rompante, Lucas se colocou ao meu lado, na mesa; sua mão buscou a minha, e ele retirou a taça de vinho, no qual eu estava prestes a beber.


— Acontece que tenho outros planos para você — decretou, erguendome. Sua boca colou na minha com sofreguidão, confesso que fui pega desprevenida, mas fui incapaz de não correspondê-lo. Desde que o assunto da gravidez da Letícia, caiu como uma bomba entre nós, nosso relacionamento ficou balançado; então, tê-lo ali, e daquela forma; desejando-me, me amando, deixou-me em êxtase. Não vi o momento em que Lucas me carregou até o quarto, pois só percebi quando minhas costas sentiram a maciez da manta da minha cama. Rapidamente, retirei a pequena camisola, no qual optei colocar após o banho, e me preparei para sentir o corpo nu, de Lucas sobre o meu. Seus beijos estavam mais agressivos, embora não pensasse em reclamar, já que aquela selvageria estava me enlouquecendo. Toda a tensão daquele dia infernal estava acumulada em mim e, eu me sentia prestes a explodir; então nada melhor do que ter um bom sexo duro. Lucas alcançou uma camisinha dentro da gaveta do criado-mudo e, em seguida, voltou a se juntar a mim; penetrando-me com uma fúria avassaladora. Suas estocadas foram ritmadas, porém intensas. Uma de suas mãos segurou em minha perna, erguendo-a a fim de me penetrar mais fundo. Seus olhos eram ferozes, mas luxuriosos. — Eu aposto que ele não faz igual... Minha respiração ofega não me permitiu escutar suas palavras com clareza e, no instante em que ia pedir para ele repetir, sua boca grudou na minha. Gritei alto quando uma de suas mãos desceu e seus dedos passaram a manipular meu clitóris. — Oh, Lucas... isso... Não demorou para que eu me visse caindo do precipício delicioso do êxtase. As intensas ondas do clímax fizeram com que meu corpo se contorcesse com os espasmos. Com mais algumas estocadas, Lucas se derramou. As investidas perderam o ritmo, até que ele parou de vez. Pendendo o corpo para o lado oposto da cama, ele se deixou cair. Nossas respirações ainda estavam ofegantes quando me virei para ele. Meu sorriso de satisfação era enorme. — Uau! Você me deixou acabada — brinquei. — Não que eu esteja reclamando, mas confesso que não entendi o motivo para toda essa intensidade na cama. Ergui a mão para poder tocar seu peito, mas ele freou o meu movimento,


impedindo-me. Em seguida, ergueu o corpo para poder se sentar. — Para deixar gravado na sua mente, que o único que deve lhe tocar sou eu. Agora, vamos falar sobre o seu almoço com aquele mauricinho. Chocada, eu também me ergui. Tentei não acreditar que o intenso sexo, no qual tínhamos acabado de ter houvesse sido uma espécie de marcação de território, já que ele não precisava disso. — Que tom é esse comigo? Do que está falando? — Estou falando do fato de você ter dito que iria almoçar com a sua amiga, mas que no final acabou almoçando com seu antigo amante. Por que mentiu, Ana? Meu rosto tornou-se rubro, de raiva pela forma rude, no qual ele estava falando comigo, e de constrangimento também. — Porque, eu... hun... — Seus olhos ferozes estavam me deixando ainda mais nervosa. — Vocês foderam? Por isso que mentiu pra mim? Você queria foder com ele? — O que está pensando que eu sou Lucas? — indaguei em tom alto e ultrajado. — Alguém que mente! — rebateu com o mesmo tom exaltado. — Fodeu com ele? — Você está me vigiando? — Responda a maldita pergunta, Ana. Soltei um rosnado. — Sim, eu almocei com o Felipe, mas ao contrário do que está imaginando, foi um almoço de negócios. — E o negócio dele entrou em você? Meus lábios se firmaram em uma linha rígida. — Você está me ofendendo e vai se arrepender depois — falei, mas ele não disse nada. — Afinal de contas, como sabe que almocei com o Felipe? Ele pegou o celular, e então visualizei uma foto, no qual eu aparecia almoçando com o Felipe. Encarei-o sem entender. — Eu recebi essa foto da Letícia. Uma fúria se apossou de mim naquele momento, e coloquei os pés para fora da cama. — Ah, claro. Agora entendi tudo. Eu sabia que seria assim, queria


acreditar que não, mas já está acontecendo. Inacreditável! Essa garota só quer nos ferrar e você não vê! — Isso não muda o fato de que você mentiu para mim — ele resmungou, fazendo-me virar o corpo para olhá-lo. — Presta atenção, Lucas, eu realmente pretendia almoçar com a Andressa, pois nós duas acabamos brigando ontem e, eu queria consertar as coisas entre nós, mas o Felipe me interceptou no caminho alegando que tinha algumas questões para tratar comigo a respeito do meu trabalho, mas que teria que ser hoje já que ele está de viagem marcada para amanhã. No fim, acabou que a Andressa saiu sem que eu conseguisse falar com ela, e acabei aceitando almoçar com o Felipe. Mas foi apenas um almoço. — Isso ainda não muda o fato de que você mentiu, Ana. — Também não muda o fato de você acreditar mais naquela vagabunda do que em mim — rosnei, tentando me controlar. — Ao contrário do que pensa, eu sou fiel, sou correta, Lucas. Mas e você? Devo me preocupar de você indo transar com ela por raiva, em uma vingança estúpida? Saí da cama, e fui em direção ao banheiro a passos duros. Fechei a porta com força. Permaneci encostada na madeira da porta, enquanto ouvia as insistentes batidas. Eu tentava raciocinar diante de todos os absurdos que tinha acabado de ouvir, mas o nervosismo em meu ser não permitia. Praguejei-me mentalmente por não ter dado atenção aos detalhes logo quando cheguei ao apartamento. Lucas estava estranho. Merda! Levei os olhos para o Box, e fui até o gancho, no qual apoiava o meu roupão. Depois de vesti-lo, eu abri a porta do banheiro. Lucas estava vestido, e me aguardava na porta do quarto. Passei por ele, e segui em direção à sala. — Ana, não é que eu acredite na Letícia, mas fiquei com raiva quando vi a mensagem. — Não importa, Lucas! Isso não deveria partir dela, pois eu diria a você quando nos víssemos; não tenho nada a esconder. Mas e você... e esse bebê? Eu fiquei do seu lado, enquanto você está desconfiando de mim agora. Seus olhos se detiveram nos meus, culpados. Esfregando o rosto, ele me encarou com frustração. — Eu exagerei, me perdoe — disse num tom calmo. — Vamos esquecer,


ok? Apontei o dedo na direção dele. — Não! Não vamos esquecer, Lucas. Temos que passar por isso e sermos maduros. Ou não vai funcionar. — Está terminando comigo? — Não, mas estou pedindo que confie em mim como confio em você, ou não vejo sentido para seguirmos. Amar nem sempre é a solução para tudo. Vi quando ele abaixou a cabeça, desolado. Eu também estava. Observei seus passos lentos. — Vou embora — disse. Assenti, já que realmente não tinha clima para passarmos aquela noite juntos. Com a mão na maçaneta, ele virou a cabeça para mim. Nossos olhares se encontraram. Emoções diversas se misturando. — Estamos bem? Não consegui responder. — Ana? Estamos bem? Inspirei o ar pesadamente, contudo, não consegui olhá-lo quando respondi: — Até amanhã, Lucas.


Capítulo 24 Ana Quando a Andressa abriu a porta e me viu na frente de seu apartamento, seu semblante demonstrou surpresa. — Eu trouxe café — Ergui a caneca quente da cafeteira, enquanto oferecia um sorriso fraco. Andressa sorriu, e abriu um pouco mais a porta para que eu pudesse entrar. — Esperei você ontem — comentou num tom baixo. — Pensei ter entendido o seu recado de que conversaríamos. Abandonei minha mochila ao lado do sofá e depositei a caneca da cafeteira sobre a mesinha de centro. O apartamento dela era basicamente igual ao meu, o que mudava eram os moveis e a disposição deles. — E íamos, mas acabei tendo uns contratempos com o Lucas e... — soltei o ar, frustrada, enquanto me deixava cair sobre o sofá. Andressa me encarou compreensiva e, em seguida, bateu uma palma na outra. — Certo, entendi. Vou buscar duas xícaras e um pote com bolachas. Instantes depois, ela se sentou ao meu lado. — Olha, Ana, antes de mais nada, eu quero pedir desculpas por ter omitido sobre o Jonathan, mas é que... Servi nossas xícaras com café e ofereci a ela. — Não se preocupe, na verdade, eu que devo pedir desculpas — cortei. Baixei os olhos, sentindo-me envergonhada — Acho que exagerei um pouco. — Dei de ombros. Ouvi sua risada. — Você foi um pouco dramática mesmo — brincou e, eu a encarei, fingindo ultraje. Em seguida, ela segurou minha mão. — Mas fiquei muito triste com nossa discussão, Ana. Não gosto de brigar com você, pois você é minha melhor amiga. Sorri agraciada. Levei os olhos para o relógio de parede.


— Bom, nós temos algum tempo antes de irmos ao Instituto — falei. — Vou contar tudo o que vem acontecendo, já que você é a única, no qual posso desabafar. E pelos próximos minutos, eu narrei desde o retorno do Felipe à minha vida, até meu ultimo desentendimento com minha irmã e com o Lucas. Eu ainda não estava sabendo lidar com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. — Eu não acredito que aquela vagabunda está grávida — Andressa parecia incrédula. — E se for um plano sórdido para desestabilizar vocês dois? Eu não ficaria admirada já que ela até tentou fazer intrigas ao mandar aquela foto pra ele. Meu sangue ferveu quando me lembrei. — Lucas é muito manipulável — rosnei. — Odiei o fato de ele ter se deixado levar tão facilmente por ela, sem nem conversar comigo primeiro. Andressa pegou mais algumas bolachas do pote e, em seguida, começou a saboreá-las. — Ele deve estar confuso com tudo isso — comentou. — Sei lá, Ana, imagina como está a cabeça dele com a notícia de poder ser pai aos vinte anos? Ainda mais quando vocês dois pareciam estar se acertando? — questionou. — Eu acho que ele deve estar com a mente bem abalada. Olhei para ela, incrédula. — De que lado você está? — perguntei, fingindo irritação enquanto pegava o pote de bolacha de suas mãos. Sua risada soou alta. — Eu apenas estou tentando entender a situação por todos os ângulos, oras — defendeu-se. — Uma de nós precisa pensar com clareza. Eu ri. Voltei a olhar para o relógio. — Mas e mudando de assunto, conte-me sobre sua relação com o Jonathan. Como foi isso? Observei suas bochechas se tornarem rubras. — Ah, dias atrás, eu cruzei com ele no corredor do andar do seu apartamento; ele comentou que estava esperando por você. — Então como uma boa anfitriã, você o convidou para me esperar no seu apartamento — deduzi, com ironia. Sua risada saiu divertida. — Mais ou menos isso.


Peguei-me sorrindo. — Eu estou feliz por vocês — afirmei. — De verdade. Nossas mãos voltaram a se unir e, eu a puxei para um abraço forte. — Nossa amizade é mais importante do que qualquer desavença — expliquei. — Eu amo você, amiga. — Eu também. Nos afastamos, emocionadas. — Agora precisamos ir — comentei, enquanto me levantava. — Você ainda não me explicou sobre o convite do Felipe — lembrou conforme nos preparávamos para sair. — Pretende aceitar a proposta? — Ainda não sei o que farei, mas te explico melhor no caminho. — Ok. ♥ Assim que chegamos ao Instituto, Andressa e eu nos direcionamos para o setor das salas de treinamentos. Na verdade, eu tinha uma turma para dar aulas, e Andressa apenas se exercitaria. Andressa estava se esforçando para conquistar o próprio espaço dentro da companhia. No caminho, enquanto Andressa tagarelava, meus olhos se detiveram em uma figura, no qual fez meu sangue ferver de imediato. Em um rompante, deixei a Andressa falando sozinha e me lancei sobre a Letícia, agarrando seu braço de forma agressiva e a arrastando para a sala dos vestiários. — Escuta aqui, sua vadia infeliz... — Ai, sua louca! — cortou-me, num tom agudo. — Você não pode agredir uma garota grávida. — Ah, mas acredite que isso não é nem um terço do que eu gostaria de fazer com você, agradeça por ter um bastardinho na sua barriga — rosnei contra seu rosto. — Ana, se acalme — Andressa repousou uma das mãos em meus ombros, mas eu a ignorei. — Está aproveitando qualquer oportunidade para se jogar no colo do meu namorado, não é? Mas você precisa aceitar que ele não te quer mais, querida. Acredite em mim quando digo que, Lucas apenas está te aturando por causa desse bastardinho. — Pelo amor de Deus, Ana, pare com isso! — Andressa exclamou, me


puxando de cima da Letícia. — Aqui é o seu local de trabalho, e você não deve... — Bastardo? A única bastarda aqui é você, filhote de estupro! Aquelas palavras não somente calaram a Andressa, como me desnortearam completamente. Engoli com dificuldade sentindo todo o meu corpo tremer. Reuni todo o meu autocontrole para perguntar em tom baixo: — Como sabe sobre isso? — Eu sei muito mais do que imagina... — soou enigmática. — Tive uma boa cartilha. Meu coração galopava no peito e fui incapaz de segurar as lágrimas. Tive o lapso de presenciar a Andressa expulsando Letícia da sala, mas estava área demais para falar qualquer coisa que fosse. — Ei, Ana? — Andressa espalmou as mãos em meu rosto. — Ana, olha pra mim... — fixei meus olhos embaçados sobre os dela e funguei. — Respira, por favor... Um soluço escapou. — Foi o Lucas, Andressa — soprei em prantos. — Foi ele quem expôs isso pra ela. Andressa ficou me encarando sem entender nada, já que o detalhe a respeito da forma como fui gerada era intimo demais para sair espalhando e, eu jamais faria isso. Entretanto, Lucas fez... movido pela raiva... Decepção e dor preencheram meu coração naquele momento.


Capítulo 25 Ana Os próximos três dias, eu passei praticamente trancada no meu apartamento; consegui me ausentar do trabalho, pois conversei com a administração, e deixei claro que não estava em condições psicológicas para dar aulas. Obviamente que minha ausência nesses dias seria debitada do meu salário, mas naquele momento, eu não me importava com mais nada. Lucas me procurou durante todos esses dias, contudo me recusei a recebê-lo. Meu coração estava destroçado e, eu temia não ser forte o suficiente para me reerguer novamente. Quando eu tinha quinze anos, meus pais se sentaram comigo para conversar e minha mãe me contou sobre a minha verdadeira história; lembro-me que me odiei depois disso, odiei saber que havia sido gerada através de tanta dor e sofrimento da minha mãe. Contudo, ela me fez entender que em determinado momento, eu fui a causa da sua dor, mas também fui o motivo da sua paz; o motivo para ela querer continuar vivendo, apesar de tudo. Era difícil ser a protagonista da minha própria história, e Lucas sabia disso. Então, por que ele compartilhou esse segredo com a Letícia? Eu não conseguia aceitar que isso tivesse sido feito por causa de uma vingança egoísta; doía demais pensar o quanto amei e ainda amava um homem assim. Durante esses dias de enclausuramento, eu tentei não pensar na minha família, tentei não pensar na Raquel e nem em suas palavras duras. Minha maldita mente apenas refletia a maldade da Letícia e do Lucas. No quarto dia, eu me obriguei a sair de casa, já que necessitava trabalhar. Andressa me ofereceu uma carona, mas recusei. — Ana, tem certeza de que está bem? — quis saber, perto do estacionamento do prédio em que morávamos. Assenti com a cabeça e lhe ofereci um sorriso fraco. — Obrigada por se preocupar. Ameacei colocar o capacete, mas ela segurou minha mão e freou meu movimento. — Você passou os últimos três dias, trancada no seu apartamento, como pode dizer que está bem? — Seus olhos eram preocupados. — Eu bati na sua porta diversas vezes, Ana, e juro que quase chamei a polícia.


Fechei os olhos, tentando engolir a vontade de chorar. — Eu estou bem agora — menti. Andressa continuou me olhando. — Tem certeza de que não quer conversar? — Tenho. Eu estou bem, Andressa. Assentindo, ela se afastou. A verdade é que eu não queria conversar com ninguém. Liguei a biz e acelerei para o Instituto. Eu sentia que minha mente estava longe, era como estar anestesiada. Ao contrário do que afirmei a Andressa, eu não estava nem um pouco bem. Caminhando a passos lentos, eu não me atentei a aproximação de alguém atrás de mim, somente quando fui interceptada. — Ana? Meu corpo se retorceu ao som daquela voz e, eu me afastei quando Lucas tentou me tocar. Meus olhos se encheram de água automaticamente quando olhei para ele. As palavras da Letícia martelando em minha mente feito disco arranhado. — Eu estive no seu apartamento, por que não me atendeu? Porra, fiquei preocupado com você. — Permaneci o encarando, tentando encontrar alguma razão para ele ter feito o que fez. — Sei que nosso último encontro terminou tenso, mas eu sinceramente gostaria de me redimir com você. Anseio ficar bem com você de novo. Senti os soluços querendo escapar, mas os engoli e desviei o olhar. Eu não me permitiria chorar na frente dele. Enojada, tentei lhe dar as costas, mas não fui muito longe. — Não! — exclamei sem forças. — Não toque em mim. Vi o pavor nos olhos dele quando me soltou. — Olha, foi por causa da sua discussão com a Letícia? — questionou, inconformado. — Porque ela me disse que vocês se estranharam, mas que ela sentia muito por ter chateado você. — Ah, coitadinha, não é? — ironizei, tentando não explodir. — Quando foi que ela te disse isso? Antes ou depois de vocês foderem? Sua expressão se tornou estática por alguns instantes. — Do que está falando? Ana, eu estou com você e apenas com você — falou num tom desesperado. — Tive que levá-la para fazer os primeiros exames


já que a gravidez foi confirmada — explicou e, em seguida, ergueu a mão para tocar meu rosto, mas não deixei. — Mas deixei claro que nas próximas consultas, eu quero que você vá junto, pois não quero que você pense que estou envolvido além desse bebê. Revirei os olhos. — Agradeço pela oferta, mas não estou disposta a nada disso. Passei por ele feito uma bala de canhão. — Qual é o seu problema, hein? Eu já pedi desculpas, porra! — O meu problema é você e suas merdas! — respondi, assim que me voltei para ele. Seu peito subia e descia devido à adrenalina. Era possível ver que ele estava nervoso. Foda-se, pois eu também estava. Vi quando ele abriu a boca para falar, mas hesitou. — Você não confia em mim e, eu não confio mais em você — falei num fio de voz. Prestes a entrar no Instituto, a voz do Lucas voltou a me parar. — Deixe-me me redimir com você — pediu, mas não me virei para olhálo. — Encontre-me mais tarde na minha casa? Voltei a caminhar sem respondê-lo. — Por favor, Ana... — continuei caminhando. — Às oito da noite — gritou, no momento em que saí do seu campo de visão. ♥ Estacionei em frente à mansão dos meus tios, decidida a dar um ponto final a minha história com o Lucas. Entretanto, nada me preparou para me encontrar com toda a família reunida assim que cheguei ao hall. Lucas enlaçou minha cintura e não tive tempo de impedi-lo de me beijar. — Obrigado por vir — soprou, antes de me oferecer um sorriso encantador. Entrelaçando nossos dedos, ele me levou até a sala; minha mãe e minha tia começaram a gritar, eufóricas. — Então é verdade? — Minha tia quis saber. Minha expressão estava constrangida, já que não esperava nada daquilo. Lucas me soltou, quando minha mãe veio me abraçar. De soslaio, percebi meu pai abraçando o Lucas, que parecia radiante. Minha tia me puxou para seus braços, apertando-me com força.


— Eu sabia que vocês reatariam o namoro — murmurou em meu ouvido. — É nítido o amor nos olhos dos dois. Meu coração despedaçado, naquele momento sangrou um pouco mais. — Ana? Olhei para o lado e espanto tomou meus olhos quando me deparei com o Lucas, de joelhos aos meus pés. Ele tinha uma pequena caixinha de camurça nas mãos. Em choque, assisti quando ele a abriu e pude ver um par de alianças. — Sei que nossa história teve altos e baixos... — ele começou, com os olhos nos meus. Ouvi alguns suspiros dramáticos a nossa volta, mas não dei atenção a nada nem ninguém, exceto Lucas. —, crescemos juntos, aprendemos tudo um com o outro; você foi embora e, eu não soube lidar muito bem com seu abandono. — Seu rosto se contorceu levemente, como se essa lembrança ainda o fizesse sofrer. — Mas, então você voltou disposta a reatar a nossa história, disposta a mostrar a mim, que ainda tínhamos chances e, eu vi que realmente tínhamos; o amor estava adormecido, mas ainda aqui — Repousou a mão livre no peito, sobre o coração. — E é por isso que reuni toda a nossa família, Ana. Eu quero confessar diante deles, o quanto sou louco por você, o quanto a amo. Eu já não tinha mais controle das lágrimas. — Quer voltar a namorar comigo? Aceita voltar a caminhar ao meu lado do ponto onde paramos? O silêncio se fez presente depois disso, apenas os meus soluços podiam ser ouvidos. Mas, infelizmente, eu não tinha resposta para dar. Incapaz de continuar ali, virei às costas e saí correndo da sala. Minha mente apenas me mandava correr e correr e correr. Antes de chegar ao jardim, onde estava a minha biz, eu tive o braço puxado pelo Lucas. Seu olhar era de puro tormento. — O que mais eu preciso fazer para que me perdoe? É por causa do bebê? Por causa da nossa última briga? Por favor, Ana, não desista de nós. Desesperado, ele aninhou ambas as mãos em meu rosto. — Para quem mais, além da Letícia, você contou sobre a maneira como eu fui gerada, Lucas? Assisti seu olhar se tornar assustado. — O quê? Do que está falando? Soltei uma risada amarga e o empurrei, com raiva.


— Não seja cínico! — acusei. — Afinal, o que é isso tudo, hein? Essa ceninha diante da nossa família? Porque quem realmente ama, Lucas, não faz o que você fez. Você me traiu e, eu nunca vou te perdoar. Nunca vou te perdoar por ter me exposto e, pior, ter exposto a minha mãe. — O quê? Juro que não estou entendendo aonde você quer chegar com isso. Engoli o desejo de socá-lo. — Letícia jogou na minha cara que sou fruto de um estupro — respondi. — Satisfeito? Horror abrilhantava o semblante dele, e ele se tornou tenso. — Você acha que fui eu? — Ele parecia ofendido. — Como ela poderia saber? Hun? — Levei as mãos no rosto para enxugá-lo. — Eu não faço a menor ideia, mas não foi por mim. Mesmo diante de toda a minha ira, jamais iria expor algo da nossa família dessa maneira. É sórdido demais, e me admiro você pensar que eu teria essa coragem. Voltei a chorar, enquanto dava passos aleatórios. Eu estava com as emoções à flor da pele. — Ela jogou na minha cara que sou uma bastarda, Lucas. Tem noção disso? — Ana... — Não! — Ergui a mão para impedi-lo de se aproximar, e ele travou o maxilar. — Letícia não teria como saber sem ter sido através de você. Isso é um fato. — Essa é a sua certeza? Ou o que deseja acreditar? — perguntou, tentando esconder a dor em seu tom. Estávamos nos machucando. — Pare de mentir, Lucas! — exclamei com a voz embargada. — Eu não estou mentindo, caralho! — explodiu fazendo-me pular de susto com seu tom de voz. — Ana? Lucas? Está tudo bem? — Ouvimos a voz do Andrew, seu pai. Lucas continuou me olhando quando respondeu: — Está sim, pai. Só estamos conversando. Em seguida, ele começou a se aproximar de mim, mas fui me afastando. — Em nenhum momento, eu te odiei — falou. — Mesmo quando


demonstrei isso com palavras e, ou atitudes. Quando você chegou de Londres e foi me ver na Academia do seu pai, eu reagi como um escroto, mas por dentro estava devastado, porque eu a estava fazendo sofrer com minhas palavras e ações. A primeira vez que você me viu com a Letícia no Instituto, queria que você visse que eu tinha seguido em frente com a minha vida, mas me odiei por vê-la destruída, assim como odiei saber que fui o causador da sua torção no dia da sua apresentação. — Vi quando ele mordeu os lábios, frustrado com as próprias palavras. — Eu tentei, Ana, juro que tentei te odiar, tentei fazê-la sentir a mesma dor que senti quando me deixou, mas não consegui, porque vê-la sofrendo era ainda pior. — Por que está me dizendo isso? — Minha voz saiu sem forças. — Eu transei com diversas garotas, e posso ter transado com a Letícia sem camisinha. Fui e sou grosseiro com o Jonathan, sou egoísta e mimado em determinadas ocasiões; fiz, faço e provavelmente farei muitas merdas nessa minha vida, Ana, mas digo, afirmo e reafirmo a você: eu não contei isso para a Letícia. Não fui eu. Sem forças, eu não o afastei dessa vez, quando seus braços se fixaram em minha cintura. Seus dedos deslizaram em meu rosto úmido e o senti afastar alguns fios de cabelo para trás da minha orelha. Minhas mãos espalmaram em seu peito e pude sentir o movimento frenético da sua respiração. Seu rosto estava próximo do meu. — Você jura? — soprei. Seus dedos enxugaram o rastro de lágrimas e, em seguida, ele desenhou meus lábios com seu polegar. — Eu não sei como a Letícia descobriu sobre isso, mas tenho certeza de que ela queria prejudicar meu relacionamento com você. Não tenho como provar a você, Ana. Apenas dependo da sua confiança em mim e no meu sentimento por você. Eu a amo. Meu rosto se contorceu com novas lágrimas e, o segurei pelos ombros forçando seu corpo no meu. Nossos lábios se tocaram com sofreguidão. — Olha, eu estou confusa. Essa história é delicada e meus sentimentos profundos. Se não foi você, então como ela sabe? Porque convenhamos, Lucas, com quem ela tem contato? Afastando-se de mim, ele abaixou os olhos. — Analisando por esse lado, é verdade. Mas eu não faço ideia, porque jamais a machucaria dessa forma, Ana.


Soltei um suspiro profundo, e me tornei pensativa por alguns instantes. Em seguida, esfreguei meu rosto. — Não quero assumir algo com alguém, no qual não consigo confiar totalmente. Ficamos nos olhando; era um olhar carregado de emoções. Havia amor, raiva, mágoa, desejo... — Eu vou provar que você pode confiar em mim, e você vai se arrepender por não tê-lo feito.


Capítulo 26 Ana Cinco dias depois — Então, ele foi viajar brigado com você? — Andressa quis saber. — Não exatamente. Mas estamos abalados com tudo o que aconteceu. Levei o copo de bebida aos lábios e sorvi um pequeno gole. — Letícia é uma vadia — Andressa rosnou. — Ainda não consigo acreditar que Lucas será pai — Jonathan comentou, fazendo-me olhá-lo. Ele estava sentado ao lado da Andressa, com o braço sobre os ombros dela. A música tocava em um volume ameno ao nosso redor, num barzinho agradável. Na verdade, o meu desejo era continuar enfornada em casa, mas Andressa e Jonathan não arredaram o pé do meu apartamento até que eu aceitasse sair com eles. — Pois é, infelizmente — resmunguei, enquanto mexia com meus próprios dedos. — Há três dias, ele conseguiu convencê-la a realizar o procedimento de teste de paternidade; o exame de ultrassonografia já confirmou que ela está com pouco mais de oito semanas de gestação, então isso não traria riscos para ela nem para o bebê. Andressa segurou na minha mão. — Eu sinto muito, amiga. Isso deve estar sendo uma barra pra você. Dei de ombros, antes de voltar a sorver da minha bebida. — As famílias de vocês já sabem? — Veio a pergunta do Jonathan. Neguei com a cabeça. — Ele disse que primeiro quer ter certeza. Jonathan soltou uma risadinha. — Isso me cheira a maturidade, algo incomum no Lucas — zombou. — Argh, Jonathan! — Andressa o cutucou, e ele a beijou nos lábios quando a mesma virou o rosto em sua direção. Recostei o corpo contra a poltrona, constrangida pelo fato de estar sem acompanhante entre um casal. Senti meu celular vibrar no bolso da minha jaqueta, no mesmo momento em que Andressa me convidou para dançar, mas eu recusei. Em seguida, ela e o


Jonathan se posicionaram em um cantinho estratégico do bar e ambos passaram a curtir o som. Tirei os olhos dos dois e me concentrei no meu celular. Lucas tinha acabado de me enviar uma mensagem. “Eu estou deitado, e gostaria que você estivesse aqui. Estou infeliz por estarmos brigados. Eu te amo.” Fui incapaz de não suspirar com suas palavras. Dois dias atrás, ele me procurou para dizer que estaria viajando para participar de um torneio de luta, no qual havia sido classificado há alguns meses. Como era em outra cidade, ele ficaria fora por umas duas ou três semanas. Lembro-me que fiquei ainda mais triste, pois estávamos abalados um com o outro, embora continuássemos nos amando. “Eu também sinto muito. Gostaria de estar com você...” “O que você está fazendo? Falou com a Quel?” Mordi os lábios ao ler a sua mensagem. No dia seguinte à nossa discussão na casa dos pais dele, Lucas apareceu no meu apartamento e acabamos discutindo novamente; ele deu a entender que Raquel também teve contato com a Letícia naquela maldita festa e que ela poderia ter falado alguma coisa já que estava chapada. “Ainda não tive oportunidade, já que ela me ignora totalmente.” “Raquel está sendo infantil agindo dessa forma.” Eu ri. “Todos nós carregamos uma porcentagem de infantilidade, Lucas.” Ele demorou um pouco para responder. “Você ainda não me disse o que está fazendo...” Levei os olhos para a Andressa, que estava aos beijos com o Jonathan e acabei suspirando. Eu não estava com inveja, pelo contrário, estava feliz ao vêlos juntos. Mas por que eu e o Lucas não podíamos manter um relacionamento assim também? “Eu estou bebendo em um barzinho badalado. No momento, estou na mesa enquanto assisto a minha melhor amiga aos beijos com o Jonathan” “Jonathan?” Rolei os olhos. “Qual é o seu maldito problema com ele, hein?”


“Nenhum. Ele que insiste em puxar o saco do meu tio... e isso me irrita profundamente.” Arqueei as minhas sobrancelhas diante daquela confissão. O entendimento se fazendo presente na minha mente. “Oh, meu Deus, Lucas! Você tem ciúmes do Jonathan com meu pai? É por isso que o trata com tanto desprezo? Não acredito nisso!” A resposta veio de imediato. “Não sei do que você está falando...” Soltei uma risada, e beberiquei o restante da minha bebida. Em seguida, me levantei e segui na direção em que Andressa e Jonathan estavam para avisá-los que eu estava indo embora. Ambos tentaram me convencer a ficar, mas é obvio que eu estava apenas atrapalhando-os. Agradecios e me afastei, garantindo que pegaria um táxi. Meu celular vibrou, mas ao contrário de antes, agora era uma ligação. — Devo me preocupar com os abutres em cima de você nesse bar? Rolei os olhos diante de sua tentativa tosca de ciúmes. — Eu não sei, me diz você. Ouvi o peso da sua respiração do outro lado da linha. — Estou com saudades, Ana. Fechei os olhos, sentindo toda a sua intensidade. Fora do bar, acenei para um taxista. — Estou indo pra casa. Pode me ligar dentro de alguns minutos? Vou adorar dormir ouvindo a sua voz. Senti que ele sorriu e acabei sorrindo também. — Está bem. Até depois. ♥ — Por que você acredita nisso? — Veio a pergunta incrédula da Andressa. Estávamos recostadas sobre a barra de uma das salas de treinamentos. Não havia ninguém, além de nós duas ali. — Letícia está sumida há alguns dias, Andressa. — E por isso você já deduziu que ela esteja com o Lucas? Praguejei enquanto esfregava meu rosto com as mãos, de maneira frustrada.


— Eu não sei, porra! Pode ser, por que não? Andressa balançou a cabeça, parecia desapontada. — Essa história está mexendo demais com você. Mordi os lábios. — O que você faria no meu lugar? Ela deu de ombros. — Eu seria honesta com ele — disse. — Você precisa colocar na balança o que é mais importante na sua vida, Ana: o Lucas e toda a bagagem dele, ou a sua desconfiança. Não é tão simples assim —, pensei, enquanto a via se afastar. — Espero você na lanchonete. Assenti. Acabei indo até a minha mochila, e peguei meu aparelho de celular. Fiz a ligação para o Lucas, mas ele não atendeu na primeira tentativa, o que me deixou ainda mais desconfiada. Desisti na terceira tentativa. Mais tarde naquele mesmo dia, eu estava entrando em meu apartamento quando meu telefone tocou e, atendi sem me dar ao trabalho de ver quem era. — Aconteceu alguma coisa? Eu cheguei no hotel quase agora e vi as suas mensagens e chamadas perdidas — disse o Lucas. — Saí muito cedo, e acabei esquecendo o celular no quarto de hotel, me desculpe. Respirei fundo enquanto me deixava cair no sofá. Andressa tinha razão, eu deveria ser honesta sobre meus receios. — Você tem noticias da Letícia? — Resolvi sondar. — Ontem liguei para a mãe dela, e fiquei sabendo que Letícia anda sofrendo bastante com enjoos e indisposição, sei lá... não entendo muito dessas coisas de gravidez. — Faz alguns dias que ela não vai ao Instituto — comentei em tom baixo. — Sim. Agora que a barriga está mais visível, ela não quer se expor. — Consegui sentir a indignação no tom de voz dele. — Tentou usar a gravidez contra mim, mas isso acabou se voltando contra ela mesma. — Você tem razão — falei, e acabei deixando escapar um suspiro ofego. — Confesso que acabei pensando besteira. — Besteira? Sobre o quê?


— Ah, eu achei que Letícia pudesse estar aí com você. O silêncio se estabeleceu na linha e, fiquei com medo de ele ter desligado. — Definitivamente devemos trabalhar a nossa troca de confiança — lamentou, mas em um tom ameno, o que me surpreendeu. — Você não parece chateado... Ele acabou sorrindo. — E não estou, já que também estou me remoendo de ciúmes daquele mauricinho ao seu lado no Instituto, todo o santo dia. Então não posso te julgar. Mordi os lábios, e não tive o que dizer. No fim, permanecemos em silêncio, apenas ouvindo a respiração do outro.


Capítulo 27 Lucas O avião aterrissou em Joinville perto das 10hs. Quase duas semanas longe de casa já foram suficientes para me fazer sufocar com a saudade dos meus pais e, principalmente, da Ana. Durante todo esse tempo, busquei manter um contato ativo e intenso com ela, pois sabia que não estávamos bem. Meu coração doía com o medo de perdê-la outra vez. Durante a nossa conversa na noite anterior, eu deixei claro que estaria retornando hoje para casa, e que não via a hora de estar com ela. Enquanto caminhava pelo salão do aeroporto, senti meu telefone vibrar. — Já estou na cidade, mãe — falei assim que atendi. — Não, não, eu vou direto para o apartamento da Ana, combinamos de almoçar junto... também estou com saudades, mãe... — Soltei uma risada diante de suas palavras dramáticas. — Nos vemos daqui a pouco, está bem? Eu te amo, mãe. Encerrei a ligação e deslizei sobre o número da Ana. Ela atendeu no segundo toque. — Já chegou? — Sorri da sua euforia, pois demonstrava a sua saudade. — Sim, e estou indo para o seu apartamento. Ouvi a sua respiração pesada do outro lado da linha. — Estou esperando, ansiosa — soprou, fazendo meu corpo arrepiar. Sorrindo, desliguei enquanto acenava para um dos taxistas de plantão. Eu sabia que Ana e eu ainda tínhamos um longo caminho para trilhar, pois nossa confiança um no outro havia sido abalada, contudo eu acreditava em nós dois. No trajeto, o meu celular voltou a tocar, distraindo-me dos meus pensamentos. Franzi os lábios ao ler o nome da Letícia no visor. — O resultado está pronto — Ela disse quando atendi. Meu coração parou de bater por alguns instantes, devido ao susto. — Ma-as... — pigarreei — Você me disse que ficaria pronto apenas dentro de um mês. Ouvi a risada dela do outro lado da linha. — Eu menti — murmurou com tranquilidade. — Já estou com o resultado em mãos desde a semana passada. Fechei os olhos segurando o desejo de esculachá-la.


— Será que você é incapaz de não agir feito uma cadela, Letícia? — perguntei em tom baixo, para que o taxista não escutasse. Novamente, ela riu em deboche. — Eu ajo com você de acordo com o que merece, já que na primeira oportunidade preferiu me trocar por aquela bastarda! — Travei o maxilar. — Enfim, estou em casa agora, então se quiser saber o resultado do teste a hora é essa. — Letícia... Ela encerrou a ligação antes que eu pudesse contestar. — Filha da puta! Apertei o aparelho de celular com força, enquanto sentia a fúria se apossando do meu interior. — Brother, preciso ir a outro lugar — chamei a atenção do taxista e, em seguida, lhe passei o endereço da casa da Letícia. Inferno! Minutos mais tarde, desci em frente à casa dela. Paguei o taxista e segui até o pequeno portão de madeira. A família da Letícia não possuía um bom patrimônio, mas ela sempre deixou claro pra mim que a sua meta era mudar de vida e sair do buraco, no qual morava. Palavras dela. Antes que eu começasse a bater palmas para chamar a atenção de alguém na casa, Letícia surgiu na janela e fez sinal para que eu entrasse. Eu estava cansado, já que os últimos dias haviam sido desgastantes por causa do torneio. — Entre — ela disse, quando cheguei à porta. Automaticamente, meus olhos voaram para sua barriga saliente, embora Letícia estivesse usando uma camiseta larga para tentar esconder. — Onde está o resultado? — perguntei sem preâmbulos. — Argh! Acalme-se — disse enquanto fechava a porta. — Você poderia ser mais gentil e me perguntar como estou, sabia? Passando por mim, ela foi rebolando em direção a pequena sala. Busquei uma respiração profunda. Fiquei tentando me lembrar do momento em que nos conhecemos. Foi numa balada? Na verdade, eu não fazia ideia, já que minha intenção sempre foi comê-la. Depois da Ana, nenhuma garota me fez pensar em um futuro. — Eu conversei com a sua mãe há alguns dias, e ela me disse que você


estava sentindo alguns enjoos, mas isso é normal. Vi quando ela bufou e, em seguida, se jogou em um puff gigante. — Normal? Diz isso, porque não é com você — resmungou irritada. — A porra do resultado está ali. — Apontou para a estante. Rapidamente, fui até lá e peguei o envelope. Minhas mãos tremiam quando abri. Minhas pernas vacilaram e me vi obrigado a sentar no sofá mais próximo assim que li o que dizia naquele papel. — 99,9%, Lucas. Você é o pai do meu bebê. Ergui os olhos para ela, que sorria abertamente para mim. O cinismo do seu olhar me deixou enojado. Dobrei aquele papel e o guardei no bolso. — Ótimo! Estou ao seu lado desde o inicio, e agora não será diferente. — falei, antes de me levantar, ainda tentando raciocinar. — Vou assumir o nosso filho e participar ativamente da vida dele, mas não se iluda quanto ao meu envolvimento. — Apontei na direção dela. — Eu estou com a Ana, apesar de você ter tentado me ferrar com ela. Os olhos dela chisparam em minha direção. — Não seja melodramático, Lucas — ela riu. — Desse jeito, eu me sinto um monstrinho — debochou, entre risos. Revirando os olhos, rumei para a saída. — Por que o motivo da pressa? Pensei que ficaria para lembrarmos os velhos tempos... Senti seu toque em meu ombro. Quando virei o corpo, Letícia estava diante de mim. Uma de suas mãos ergueu a camiseta e a outra levou a minha mão sobre a sua barriga. Meu coração batia descompassado. Era uma sensação inexplicável. — Poderíamos ficar juntos, Lucas, como uma família. Eu, você e o bebê. Minha mão tremia quando retirei da sua barriga. — Não viaja, garota! — exclamei. — O único elo que nos une é esse bebê. Virei às costas. — Vá atrás daquela bastarda, vai, seu corno manso! Meu corpo se retesou com suas palavras e tive que me segurar ao máximo para não esmagar o pescoço dela. Encarei-a com os olhos em chamas e ela riu enquanto dava de ombros.


— Oh, oh... eu acho que ela ainda não te contou, não é? — Ela colocou as mãos na boca, simulando ter falado demais. Em seguida, passou por mim indo até a porta para abri-la. — O novo diretor convidou a sua namoradinha para viajar o mundo com a companhia; parece que ele é um homem bem influente e está investindo pesado na companhia de dança do Instituto. — Ela ergueu a mão e começou a analisar as próprias unhas. — Sei que não deveria dizer, e longe de mim querer fazer intrigas, mas enquanto você estava fora, eu peguei os dois juntos em diversas ocasiões constrangedoras, sabe? — Cale a boca! Com as mãos em punho, eu me aproximei dela. — Faça um enorme favor a nós dois: ao invés de gastar energia para fabricar veneno, preocupe-se com o bem estar do bebê, que está crescendo no seu ventre. Não esperei ela responder, e saí dali pisando duro. ♥ Quando cheguei ao apartamento da Ana, já estava perto do horário do almoço. Eu dei duas batidas na porta e arrisquei colocar a mão na maçaneta e percebi que a mesma estava aberta. Ana estava deitada no sofá, mas deu um pulo quando me viu. Meu peito estava apertado. Abri os braços para receber o aperto da Ana, que se jogou sobre mim. Fechei a porta atrás de mim, ainda com Ana agarrada em meus braços. Afastei seu rosto do meu peito e fiquei a encarando, admirando... — O que houve? — ela quis saber, preocupada. — Você me faz esquecer tudo, Ana. Eu te amo tanto. Eu a agarrei com mais intensidade, e tomei seus lábios com sofreguidão. — Nós precisamos conversar, mas primeiro preciso matar minha saudade de você — soprei contra seus lábios carnudos. Ainda sem tirar meus lábios dela, eu a levei lentamente até o sofá. Permanecemos nos beijando por longos minutos, apenas nos deleitando com nossas caricias. De repente, me obriguei a me afastar. Precisava reaver o meu controle emocional para dizer a ela sobre minha conversa com a Letícia. — No caminho para cá, eu recebi uma ligação da Letícia — falei, e senti a tensão se estabelecendo entre nós. — Tive que seguir direto para lá, pois ela


disse que estava com o resultado do teste de paternidade. — Mas não ficaria pronto dentro de um mês? — Pois é, ela mentiu — respondi, e Ana revirou os olhos, indignada. — Enfim, o teste deu positivo, Ana — falei de uma vez. — Eu sou o pai do bebê que ela está esperando. Vi quando ela engoliu duramente, e colocou as mãos na cabeça. Em seguida, se virou para mim, respirou fundo enquanto eu apenas a observava. O que fazer para aliviar a dor nos olhos dela? — Era somente isso que eu me perguntava. — Eu queria me sentir feliz, afinal de contas, é uma vida. Mas eu não consigo, Lucas. Me desculpe. Eu puxei suas mãos com as minhas. — Eu sei, meu amor, eu sei. Sempre pensei que o momento em que me tornasse pai, seria com você. Uma família, planos... mas não posso fugir disso, Ana. — E nem deve. — Senti suas mãos acariciando levemente as minhas. — Eu vou estar com você nessa. O bebê não tem culpa. Abaixei minha cabeça, concordando. Ela era impressionante e, eu estava feliz por ela não ter me chutado para fora da sua vida. — Agora, preciso contar aos meus pais... — Eu vou com você. Ela me puxou para um abraço apertado, garantindo que ficaria tudo bem. — Que seja lindo igual ao pai. Afastei o rosto para poder olhá-la nos olhos. — Hmmm, então, eu sou lindo? Ela concordou, mordendo os lábios. — Aliás, também preciso te contar algo... Mas antes, vamos comer. Ela se levantou, mas eu a segurei e a joguei contra o sofá novamente, enquanto me estabelecia sobre ela com o meu corpo. — Não, querida. Sou eu quem vai comer... Um sorriso sedutor se espalhou nos lábios dela, antes que eu os devorasse com os meus. ♥ — Eu estava esperando você chegar de viagem para conversarmos pessoalmente — Ana falou, enquanto me servia com uma porção de arroz. Ela


estava com os cabelos molhados, já que tínhamos tomado um banho depois que acabamos fazendo amor no sofá. — Há alguns dias, eu recebi uma proposta do Felipe para acompanhar a companhia de dança do Instituto em viagens pelo mundo. Eu não sabia dizer se o choque daquela noticia tinha sido pior, agora que estava ouvindo direto da boca dela. — Combinamos honestidade um com o outro, e é isso que estou fazendo, Lucas — ela continuou. — Eu odiaria que você descobrisse essa noticia pela boca de outra pessoa e de uma maneira distorcida. Encarei os olhos dela, apreensivo. — Você aceitou? — indaguei, sem me preocupar em comentar que a Letícia já havia me contado. Vi quando ela abaixou a cabeça e suspirou baixinho, antes de tomar seu próprio assento à mesa. — Ainda não dei minha resposta. — Entendi — resmunguei, sentindo minha garganta fechar com o engasgo da vontade de chorar, feito um menino abandonado. Ficamos em silêncio. Instantes depois, Ana me cutucou fazendo-me olhá-la. Ela estava com o corpo inclinado para mim, pedindo silenciosamente para que eu a beijasse. Toquei seu belo rosto com carinho, e a beijei nos lábios. Em seguida, colei nossas testas. Permanecemos assim, por alguns instantes. Verdadeiramente, eu quis acreditar que ficaríamos bem. Ana estacionou a biz perto do jardim da minha casa. — Eu já disse o quanto acho sexy quando você pilota? — perguntei, assim que ela retirou o capacete. Inclinei a cabeça e cobri seu pescoço com beijos deslumbrando-me com seus arrepios. — Fico louco para fodê-la com força... — minha língua tocou o lóbulo da sua orelha, e a Ana gemeu. — Céus, Lucas! — exclamou, enquanto me afastava. — Estamos no jardim da sua casa, por favor, se comporte. Rindo, eu desci da biz e, em seguida, foi a vez dela. Ela também sorriu quando me encarou. Ambos estávamos excitados. Entrelaçando os dedos nos seus, eu a puxei em direção a porta de entrada. Enquanto caminhávamos, eu mirei os olhos para o portão e notei a figura da Raquel. Provavelmente tinha vindo passar algumas horas em


companhia da minha irmã —, pensei. — Vá na frente, que eu já te encontro — pedi para a Ana. Ela me encarou confusa, mas voltei a explicar que já a encontrava. Esperei até ela sumir do meu campo de visão e, rapidamente, fui em direção à Raquel, que se assustou quando a arrastei para um canto isolado. — Que isso, Lucas? Ficou louco? Me solta! — Eu solto sim, mas quando você me contar o que mais andou aprontando naquela maldita festa, dias atrás. Ela continuou me encarando, sem entender. — Por acaso você falou mais do que não devia? — insisti. Raquel puxou o braço do meu aperto com um safanão. — Agradeço se puder ser mais claro, ou então libere o meu caminho. — A Letícia jogou na cara da sua irmã que ela é uma bastarda — falei e pude ver o espanto nos olhos dela. — Você sabe o que isso significa, não? Observei quando ela franziu a testa enquanto se tornava pensativa. — Você está me acusando? Rolei os olhos, e busquei me acalmar. — A Ana está me acusando de ter espalhado esse segredo, mas tenho a minha consciência tranqüila, porque jamais faria isso. Agora você? Já não tenho certeza, não depois da forma em que a encontramos naquela festa, que por sinal, a Letícia também estava presente. — Pare de falar besteira, Lucas! Resmungou, e depois passou por mim a passos rápidos. Aguardei alguns instantes antes de seguir pela mesma direção. Lutando para acalmar os tremores do meu corpo, eu segui até a sala, onde meus pais estavam me aguardando junto com a Ana. Abri os braços para receber o abraço apertado da minha mãe. — Que saudade, meu amor — murmurou, beijando meu rosto frenéticas vezes. Meu pai também me abraçou. — Eu também estava com saudades de vocês — falei, sorrindo agraciado. — É muito bom estar em casa. Minha mãe enxugou uma lágrima e me puxou para o sofá. — Ana nos disse que você tem uma noticia para dar.


Meu coração voltou a acelerar e, eu me sentei ao lado da Ana. Minha mãe se aconchegou no sofá adjacente, enquanto meu pai preferiu ficar em pé. — É, eu tenho — murmurei, tentando controlar o nervosismo. — Bom, vocês sabem que não sou de rodeios, então vou logo ao assunto... — respirei fundo — Eu vou ser pai. Houve uma comoção histérica por parte da minha mãe, que se levantou em um rompante e puxou a Ana para ela. — Oh, meu Deus! Eu e a Emily seremos avós? — murmurou, abraçando a Ana. — Andrew? Meu amor, nós seremos avós. Meu pai parecia aéreo, mas abraçou a minha mãe a fim de tentar acalmála. — Mãe? — Ela se voltou para mim, em prantos, contudo o brilho da alegria estava nos seus olhos. — A senhora não me deixou terminar de explicar... — É a ex do Lucas quem está grávida dele, tia — Ana me interrompeu, indiferente. — Não sou eu. Eu a encarei de olhos arregalados. — Confesso que estava me segurando para não descascar os meus sermões, filho, mas não consigo parar de me perguntar: quantas vezes conversamos sobre educação sexual? — Agora não, Andrew! — Minha mãe rosnou. — Pelo amor de Deus, Marie! Pare de passar a mão na cabeça dele — rebateu. — Lucas já é um homem. Ele parecia transtornado e me encarava com um olhar de pura decepção. — Eu sou um homem, e pretendo assumir minhas responsabilidades — falei em minha defesa. — Como? Se você não estuda e nem ao menos possui um emprego remunerado?— ele rebateu. Travei o maxilar. — No torneio em que acabei de participar, consegui uma empresa para me patrocinar como lutador. Ele soltou uma risada amarga. — Ah, claro — resmungou. — Isso já basta para você sustentar e educar uma criança. — Já chega! — Minha mãe gritou. — Mas o que é isso, Andrew? Pretende expulsar o nosso filho de casa?


Irritado com toda aquela tensão, eu virei a cabeça para a Ana, que estava em silêncio, contudo completamente assustada. — Vamos sair daqui? — pedi em um sussurro. — Por favor? Assentindo, entrelacei nossos dedos e segui em direção a porta. — Filho, aonde vocês vão? — Minha mãe quis saber, preocupada. Não respondi. Tudo o que eu queria e necessitava naquele momento era me isolar do mundo ao lado da única capaz de me fazer esquecer os meus problemas. Ana...


Capítulo 28 Ana O trajeto de volta foi feito em silêncio. Eu sentia a tensão nos ombros do Lucas, e me sentia inútil por não saber como ajudá-lo. Abri a porta do apartamento, e me afastei para o lado para que Lucas pudesse entrar primeiro. Estávamos estranhos um com o outro. — Você está legal? — perguntei, ansiando quebrar aquele silêncio ensurdecedor. Fechei a porta e quando me virei, eu dei de cara com o Lucas. Suas mãos me enlaçaram e espalmei seu peito quando ele apertou meu corpo no seu. — Não. Eu não estou legal. Deslizei as mãos para suas costas e o apertei mais contra mim, ansiando que aquele abraço pudesse aplacar um pouquinho da sua tensão. Eu me sentia angustiada com tudo o que estava acontecendo. Nosso relacionamento, infelizmente não estava como deveria estar; estávamos abalados emocionalmente. — Venha... — peguei na sua mão —, vou preparar um café para nós dois. Tentei me afastar dele, mas sua mão voltou a me segurar contra si; seus lábios tocaram os meus com carinho e um toque de urgência. — Não... — soprou entre um beijo e outro —, eu só preciso de você, Ana... — seus dedos desceram até a barra do meu vestido, e ele o ergueu retirando-o pela minha cabeça. — Eu só preciso que você me ame. Deixei-me levar pela sua intensidade. Erguendo-me em seus braços, eu enrolei as pernas em sua cintura. Lucas levou os lábios famintos até meus seios desnudos e os beijou, sugando os mamilos intumescidos. Suas mãos estavam em todos os lados, e todas as nossas emoções à flor da pele. Caminhando comigo em seu colo, Lucas me carregou até o quarto, onde me jogou contra o colchão. Os lençóis estavam bagunçados, mas pouco me importei; minha atenção estava em Lucas e em toda a sua intensidade. Arrastando-se até mim, ele deslizou a língua pela minha perna e parou quando chegou em minha intimidade. Lambi os lábios em expectativa no momento em que ele arrancou minha calcinha. Estiquei o braço até o criadomudo e peguei uma camisinha dentro da gaveta, contudo me contorci na cama


quando senti o toque macio da língua do Lucas em meu clitóris. Apertei as mãos em punho tentando controlar as sensações em meu corpo; queria prolongá-las ao máximo. Bruscamente, Lucas me virou de barriga para baixo. Virando a cabeça, eu o encarei por sobre o ombro; ele estava nu e lindo, e se preparando para me tomar como dele. Seu olhar estava tomado de luxuria, mas pude ver o amor e cuidado em cada toque. Desesperada para tê-lo dentro de mim, eu me coloquei de quatro. Mas ao contrário do que pensei, a sua penetração foi lenta. Lucas arremetia com calma e precisão, parecia observar e curtir as minhas reações. Longos minutos e, eu já estava me desmanchando abaixo dele enquanto ele investia contra mim de maneira incansável. — Eu te amo... te amo... te amo... Seu corpo se aconchegou ao meu e seus lábios pairaram em meu pescoço, beijando minha pele quente e suada. Um sorriso de satisfação se estabeleceu em meus lábios. De repente, Lucas se deixou cair ao meu lado na cama, porém seus braços me puxaram para seu peito. Permanecemos nus, sentindo os batimentos acelerados um do outro. — Eu também te amo — murmurei sem fôlego. Senti quando ele beijou meus cabelos. — Quer conversar? — perguntei depois de um tempo. Lucas voltou a beijar minha cabeça. Estávamos de conchinha. — Não — respondeu baixinho. — Posso dormir aqui hoje? Massageei seu braço, que estava ao meu redor. — Claro que sim. Em seguida, ele escondeu o rosto na minha nuca e acabamos nos isolando em nossos pensamentos. ♥ Acordei assustada; olhei para o lado oposto da cama e percebi que Lucas não estava ali. Alcancei meu aparelho de celular no criado-mudo e vi que faltavam poucos minutos para 1hs da manhã. Na verdade, acabamos pegando no sono logo depois da nossa transa — aproximadamente umas 18hs. Nervosa e preocupada, eu decidi sair da cama para ver onde o Lucas estava. Vesti uma calcinha e optei por colocar a camiseta dele, que ainda estava


caída num canto do quarto. Encontrei-o na sala, ele estava sentado no sofá e com a luz do cômodo, totalmente apagada. — O que foi? — questionei, enquanto acendia a luz. — Aconteceu alguma coisa? Fui até ele e me ajeitei ao seu lado. — Estava muito inquieto para continuar deitado — explicou. — Então para não acordá-la, eu preferi vir para a sala. — Vejo que você ficou abalado com as coisas que seu pai falou — deduzi. Ele me encarou. — Eu estava pensando, e percebi que ele pode ter razão, Ana. — Ele jogou a cabeça para trás e colocou o braço nos olhos. — Não posso sustentar um filho contando com patrocínios e prêmios de torneios de luta, eu preciso de um emprego de verdade. — Como assim? O que está pensando em fazer? — Vou sair da casa dos meus pais e arrumar um emprego remunerado. Meu coração deu um baque e, eu o encarei em choque. — Mas o seu sonho é ser um lutador famoso. Ele me ofereceu um sorriso triste e, em seguida, ergueu o braço para que eu me aconchegasse a ele. — Na verdade, isso meio que partiu do seu pai, sabe? Meu tio James sempre fazia questão de me buscar em casa para me levar a sua academia; aos poucos, ele foi me incentivando, incitando-me a gostar daquele ambiente — contou nostálgico. — Mas agora é diferente. Tudo mudou. Crescemos, e ao crescer surgem as responsabilidades. Ergui os olhos, e o encarei, fascinada. — Estou orgulhosa de você. — Ele sorriu. Seus lábios tocaram os meus com delicadeza. — Apenas quero consertar as coisas — murmurou. — Aliás, ontem coloquei a Raquel contra a parede. — Franzi o cenho e voltei a olhar para ele. — Ela não confessou, Ana, mas tenho certeza que se você ir a fundo nessa história da festa poderá descobrir a verdade. Torci os lábios, pensativa. — Então talvez, eu deva conversar com a tal amiga que me ligou naquela


noite — comentei. — É uma boa. Voltei a me aconchegar no peito dele. — Está mesmo pensando em sair de casa? — questionei. — Sim — respondeu. — Tenho uma reserva dos prêmios em dinheiro que ganhei dos torneios ao longo dos últimos meses; posso alugar um apartamento ou uma casa pequena. — Ou você pode morar comigo — convidei, um pouco incerta da ideia. Lucas afastou meu rosto para me encarar nos olhos. — Está falando sério? Beijei seus lábios. — Você está abrindo mão de um sonho e demonstrando maturidade, Lucas. É meu dever como namorada abrir as portas para você. Um brilho divertido tomou seus olhos. — Pode abrir as pernas também? Abri a boca, fingindo ultraje e ele gargalhou. — Pervertido — Bati em seu braço enquanto ele ria. Seus lábios avançaram nos meus, contudo comecei a beliscá-lo. Seus resmungos, devido as minhas agressões, se misturaram às risadas e aos seus beijos em meu rosto. De repente, ele me deitou no sofá e segurou minhas mãos no alto da minha cabeça. Paramos de rir. — Obrigado — disse sério. — Eu não faço ideia de como estaria a minha cabeça nesse momento se eu não estivesse com você ao meu lado. Sorri com amor. — Eu amo você. Amo demais.


Capítulo 29 Ana A semana se passou rapidamente, e as coisas pareciam estar se acertando. Lucas teve uma conversa séria com seus pais e dentro de poucos dias começaria a trabalhar em uma das equipes de seguranças da empresa do tio Andrew. Eu fiquei triste por ele ter decidido deixar o sonho de lado, embora estivesse orgulhosa por ver o seu amadurecimento. — Então vocês estão morando juntos? — Andressa quis saber, enquanto saíamos do Instituto. Visualizei uma mensagem do Lucas em meu celular, no qual ele dizia que já estava me esperando no estacionamento. — Sim — respondi. — Estamos literalmente brincando de casinha. Andressa soltou uma risada gostosa. — Aposto que sim — rebateu com divertimento. Paramos perto do seu carro e, eu me despedi. — Te ligo mais tarde para contar como foi — falei e ela me abraçou. Em seguida, fui na direção em que Lucas havia mencionado na mensagem. Sorri ao me deparar com ele ao lado de fora do carro e a Letícia no lado de dentro. Provavelmente ele quis me privar de constrangimentos. Aproximei-me dele e, ele beijou meus lábios. — Fico feliz que a sua mãe tenha emprestado o carro — comentei para quebrar o gelo. — Será que podemos ir, agora que a namoradinha chegou, Lucas? — Letícia questionou em tom desagradável. Rolei os olhos e abri a porta do carona, enquanto Lucas dava a volta no carro para entrar no lado do motorista. — É um prazer ver você também, Letícia — falei em tom irônico. — Foda-se! — resmungou. Lucas apertou a minha mão fazendo-me olhá-lo, e piscou um olho para mim. Sorri com a sua tentativa doce de me fazer sentir bem, apesar das circunstâncias. Estávamos indo para a primeira consulta da Letícia com o obstetra, e Lucas fez questão da minha presença.


A princípio, eu não soube lidar muito bem com a ideia, mas a apreensão dele me desarmou. Eu havia garantido que enfrentaria a situação com ele e via o quanto ele estava se esforçando. Longos minutos mais tarde e de um silêncio extremamente constrangedor, nós chegamos a clinica. Descemos do carro e ambos seguimos na direção do consultório. Lucas entrelaçou os dedos aos meus e permaneceu ao meu lado o tempo todo, tentando amenizar qualquer desconforto que eu pudesse estar sentindo com aquela situação. Não demorou para que a Letícia fosse chamada, então logo estávamos diante do médico. Para evitar estranheza, Lucas deixou claro logo no inicio que eu era a companheira dele, e que Letícia era somente a mãe do seu bebê. Sem mais delongas, o obstetra começou a explicar os cuidados essenciais durante a gestação. A todo o momento, notei que Letícia estava inquieta e pouco prestava atenção ao que o médico dizia. — Bom, agora vamos ver o bebê — disse o profissional. Esfreguei uma mão na outra, sentindo-as suadas. Eu estava nervosa e ansiosa, apesar de não ser eu a estar carregando o filho do Lucas. A imagem que surgiu na pequena tela do monitor era embaçada e confusa, contudo o som alto que invadiu a sala era inconfundível. Na mesma hora, Lucas buscou a minha mão, encarando-me com um brilho nos olhos. — Esse é o som do coração do meu bebê, Ana — disse com a voz engasgada de emoção. — Veja o quanto é forte. Ele sorria com euforia, traindo a sua emoção visível. Observei, deslumbrada o interesse dele em perguntar ao médico sobre suas dúvidas. Lucas queria saber sobre o sexo do bebê, mas ainda era muito cedo; ele também teve o cuidado de perguntar sobre a alimentação da Letícia e cuidados, que ela teria que ter. Disfarçadamente, enxuguei uma lágrima que deslizou em meu rosto. Nisso, o meu olhar se deparou com a Letícia e notei seu semblante enojado, bem longe da expressão encantada de uma mãe que está vendo seu filho pela primeira vez, embora estivesse sendo através de um monitor. Quando o médico terminou o exame e se afastou, Letícia se ergueu na maca.


— Parabéns, Letícia. O seu bebê está forte e crescendo com saúde — falei, buscando ser cordial com ela. Ela sequer se dignou a me olhar. — Que seja — disse sem um pingo de emoção. — Podemos ir embora agora? — questionou ao Lucas. Arregalei os olhos, presa entre o horror e a indignação diante da frieza daquela garota. Contudo, optei por não falar nada. Contentei-me em me alegrar com a emoção do Lucas. Mais tarde no mesmo dia, aproveitei que Lucas estava tomando banho e comecei a fuçar no meu celular em busca do número da tal amiga da Raquel. Na verdade, eu vinha evitando aquele assunto por medo de me decepcionar. Encontrei o número em questão e disquei para fazer a chamada. Meu coração estava batendo forte no peito quando a garota atendeu. — Oi, eu não sei se você ainda se lembra de mim, mas você me ligou um tempo atrás para me alertar sobre o estado da minha irmã numa festa em que vocês estavam. — Ah, eu me lembro sim. Você é a irmã da Raquel — disse ela. — Aconteceu alguma coisa? Mordi os lábios e suspirei. — Bom, é exatamente isso que eu preciso saber e talvez você possa me ajudar — expliquei, e ela continuou em silêncio. — Naquela festa, a Raquel por acaso comentou sobre assuntos familiares? A garota permaneceu calada. — Por favor, é muito importante para mim. Ouvi o seu suspiro. — A Raquel falou e fez muita merda naquela noite — garantiu. — Tem certeza de que quer mesmo saber? Respirei fundo. — Sim.


Capítulo 30 Ana No dia seguinte, eu estava extremamente aérea, avulsa a tudo o que acontecia ao meu redor. Andressa tinha acabado de falar comigo antes de entrar em uma sala logo atrás, mas eu não fazia ideia do que ela tinha falado, já que meus pensamentos estavam na minha conversa do dia anterior com a amiga da Raquel. No fundo, eu ainda não tinha decidido o que fazer, nem mesmo sabia discernir o que estava sentindo. De repente, meu corpo esbarrou em uma mulher. — Oh, me desculpe — murmurei, constrangida. Observei as vestimentas simples da pobre mulher, que aparentava ter entre cinquenta e sessenta anos. — A senhora está bem? — Oh, não se preocupe, querida. Eu estou bem. Assenti, enquanto ela passava por mim ajeitando sua bolsa amarela nos ombros. Seus olhos estavam perdidos enquanto olhava de um lado para o outro. — A senhora está procurando alguém? — perguntei, sentindo um desejo de ajudá-la. Ela se voltou para mim. — Eu estou procurando a minha filha — respondeu com simplicidade. — Ela é uma aluna e saiu de casa dizendo que teria treinamento hoje. — Eu posso ajudá-la — falei com um sorriso nos lábios. — Sei onde ficam as salas de treinamentos. Sorrindo, ela me agradeceu e ambas começamos a caminhar pelo extenso corredor. No caminho, ela começou a explicar que tinha uma intensa preocupação com a filha, que nos últimos meses estava muito agitada e voltando a ter crises. — Crises? — Sim, ela sofre com transtorno bipolar possessivo. — Deve ser uma batalha lidar com isso. Eu sinto muito. — Nem me fale. O último namorado teve que mudar com a família. Ela é complicada demais. E hoje saiu muito transtornada. Eu tenho medo pela gravidez... Cristo! O pobre rapaz não sabe o que fez a si mesmo. — Gravidez? — indaguei sentindo meu peito se apertar.


— Sim, ela está grávida, embora o filho seja de outro rapaz, no qual ela também perturbou. Meu Deus! Dois namorados. Dois problemas. Ela parecia inconsolável. — Como é o nome da sua filha? — Letícia. Era só o que me faltava —, pensei. ♥ No final do dia, Lucas estava me esperando no estacionamento do Instituto com a sua moto. Pensei em contar a ele sobre o que tinha descoberto sobre a Letícia, mas decidi deixar para outra ocasião. — Tudo bem? — quis saber e, eu assenti. — Antes de irmos pra casa, podemos ir à casa dos meus pais? Ele apenas confirmou, ciente de que eu estava decidida a conversar com a minha irmã. Chegamos à minha antiga casa em tempo recorde. Não esperei pelo Lucas assim que desci da moto, e segui para o interior da residência a passos rápidos e duros. Encontrei minha mãe descendo as escadas, e meu pai saindo da cozinha. — Ana? — Ela me abraçou. Meu pai também veio até mim. — Está tudo bem? — ele quis saber, beijando o alto da minha cabeça. Lucas chamou a atenção quando entrou, mas ele apenas os cumprimentou. — A Raquel está em casa? — Está no quarto dela. Por quê? — Por favor, esperem aqui. Não dei tempo para retrucarem e, praticamente, corri escada acima. Escancarei a porta do quarto dela e a encontrei deitada na cama. — Ei? Esqueceu a educação para bater antes de entrar? — É, eu esqueci. Agora, além de bastarda, eu me tornei inconveniente — falei num tom irônico fazendo-a arregalar os olhos. — Ana... — Cale a boca! Peguei seu braço e saí do quarto arrastando-a. Minha mãe, que


conversava com o Lucas sobre o bebê, arregalou os olhos quando me viu carregando a Raquel escada abaixo. — O que isso? Enlouqueceu Ana? — meu pai questionou, surpreso com minha explosão. — Por que está tratando a sua irmã desse jeito? Meu rosto estava tomado de fúria, e meus olhos não saíam da figura da minha irmã, acolhida nos braços da nossa mãe. — Vocês se lembram da noite em que a Raquel saiu afirmando que dormiria no meu apartamento, pois pretendíamos fazer uma noite de pijamas? — Sim, inclusive, ela não compareceu a aula no dia seguinte, pois estava com indisposição — respondeu a minha mãe. Eu ri. — Tudo mentira! Raquel me contou que os amigos do colégio estavam planejando fazer uma festa, no qual queria muito ir, mas vocês não deixariam. Então, ela me convenceu a participar da mentira, pois me garantiu que a festa seria tranqüila. — Quê? Que história é essa? — Eu a deixei naquela maldita festa, com todas as orientações; expus os meus receios e dei todas as dicas para que ela não caísse em nenhuma cilada. — Comecei a andar na frente deles, pois estava me sentindo inquieta para permanecer parada. — No meio da festa, eu recebi uma ligação de uma garota, amiga da Raquel, que dizia que era para eu ir buscá-la, pois a mesma estava muito chapada e ela temia que acontecesse o pior com a minha irmã. — Oh, meu Deus! — Horror cobria o rosto da minha mãe. Raquel se afastou em prantos. — Por que você levou a sua irmã para esse lugar sem o nosso conhecimento, Ana? A responsabilidade é sua, já que Raquel é menor de idade — disse meu pai em tom repreensivo. — Ah, eu sei. Estou ciente das minhas responsabilidades e assumo todos os meus erros, pai. — falei fuzilando a Raquel. — Na verdade, essa história jamais viria à tona, mas algo aconteceu que me fez mudar de ideia. — Em uma discussão com a Ana, a Letícia, que está grávida do meu filho, proferiu palavras grosseiras, entre elas, que a Ana era uma bastarda, fruto de um estupro. Vi quando minha mãe deu alguns passos para trás e meu pai teve que ampará-la.


— Eu acusei o Lucas, pois deduzi que tivesse sido ele a contar. Vejam bem, essa é uma história íntima e dolorosa, jamais imaginei que fosse sair daqui. Lucas convivia com a garota e, além disso, estava com raiva de mim por questões obvias. Achei mais fácil acusá-lo do que atentar para minha verdadeira realidade. Olhei para a Raquel, que estava sentada no último degrau da escada. Sua cabeça estava baixa. — Ontem conversei com a mesma garota que me ligou para buscar a Raquel naquela festa, ela me disse que Raquel começou a beber e beber e beber e... as palavras foram simplesmente saindo da boca dela... — eu me aproximei da escada e me ajoelhei — Por que você expôs a nossa mãe dessa forma, Raquel? Eu juro que pouco me importo comigo ou com as palavras horríveis que você me disse naquele dia, contudo a única coisa que não admito é o fato de você ter exposto a nossa mãe para aquele bando de desconhecidos. — Eu estava bêbada — soprou entre os soluços. — Não consigo me lembrar direito, mas sei que estavam falando sobre temas polêmicos e, eu queria me enturmar... — SE ENTURMAR? — gritei. Agarrei os cabelos dela. — Eu tenho vontade de te dar uns tapas, garota... Meu pai me retirou de perto dela. — Você me fez sentir a pior das irmãs; me fez acusar o Lucas por algo que ele não fez. E tudo para quê? Por acaso sente vergonha de mim? É vergonhoso saber que a mamãe sofreu algo assim? — Já chega! A mamãe gritou. — Vai para casa, Ana — disse. — Dê um tempo para os ânimos se acalmarem. Os soluços da Raquel se tornaram altos, mas não consegui sentir um pingo de pena. Estava irritada demais para isso. — Tudo bem — resmunguei e me virei na direção do Lucas. Antes de sair totalmente, a voz do meu pai me parou. — Eu e a sua mãe amamos você, Ana — disse, fazendo meus olhos umedecerem. — Obrigada, pai. Sorrimos um para o outro e, eu saí de lá com o Lucas. ♥


— Você acha que peguei pesado com a Raquel? — questionei. Estávamos deitados no chão da sala; Lucas tinha baixado uns filmes no pendrive para assistirmos. — Você estava na sua razão, e como irmã mais velha tem o direito de dar sermões. Peguei-me sorrindo. Virei o corpo de barriga para baixo, enquanto mantinha o peso do corpo sobre os cotovelos. — Eu sei, mas estou me sentindo mal por causa dos meus pais. Eles não mereciam isso. A minha mãe não merecia isso. Lucas ergueu a mão e acariciou meu rosto com carinho. — Discussões e brigas acontecem até nas famílias mais nobres, minha querida. Eu soltei uma risada gostosa. — Hmm, querida? — Sim, agora estamos praticamente casados, e um bom marido trata a sua companheira por “querida”. Minha risada se tornou mais divertida. — Ok, ok, meu bom marido — brinquei e foi a vez de ele sorrir. Acabei deitando a cabeça em seu peito. Nos próximos minutos, aproveitei para contar a ele sobre a novidade que eu havia descoberto mais cedo sobre a Letícia. Surpreendi-me com a tranquilidade do Lucas quando contei. — Eu já sabia. — Sério? — Sim. — Ela precisa se tratar, Lucas. É perigoso para ela e para o filho de vocês. — Eu sei. Mas é a Letícia quem necessita entender que precisa de ajuda, Ana — Ele disse com pesar. Soltei um suspiro entristecido. — Ei? — Tocou meu rosto com carinho. Seus olhos me encararam com amor e doçura. — Vai ficar tudo bem — garantiu. Assenti e nos beijamos. — Você já decidiu se vai aceitar a proposta do Felipe? Porque, vou entender se você for, Ana. Hoje, eu entendo, pois minha vida vai virar uma bagunça, e o bebê... Eu o calei com um beijo. — Eu não vou a lugar algum. Cometi esse erro por achar que era o


melhor, tenho uma carreira, mas não quero o mundo. Meu mundo é vazio sem você. Já cometi esse erro antes, e se você desistiu de tudo por uma família, eu estarei bem aqui para a sua bagunça. Um sorriso lindo se espalhou nos lábios dele. Naquele momento, eu tive a certeza de que vale a pena lutar pelo amor verdadeiro. Lucas e eu crescemos, e juntos descobrimos o amor; descobrimos as dificuldades de se tornar um adulto, porém aprendemos que o verdadeiro sentido de amar um ao outro, é ceder, perdoar e apoiar.


Epílogo Três anos depois A nossa casa estava toda enfeitada com o tema infantil preferido do Nicolas. Nosso pequeno menino estava crescendo rapidamente e, isso de certa forma me assustava. Eu ansiava tê-lo sempre pequenino e debaixo das minhas asas. Lucas e eu adquirimos a nossa casa há apenas um ano. Com muito custo e trabalho, nós conseguimos economizar para financiar a casa dos nossos sonhos. Eu continuava trabalhando no Instituto, apaixonada pela minha profissão, Lucas ainda trabalhava na empresa do pai, e cada vez mais buscava especializações para se atualizar na profissão de segurança, que acabou aprendendo a amar. Sentia-me agraciada com a união da nossa família, que se mantinha intacta a cada ano que passava. Raquel estava se preparando para fazer intercâmbio fora do País e estava extremamente eufórica com a ideia. Eu e ela conseguimos nos perdoar com o tempo. Afinal de contas, éramos irmãs e nos amávamos. Comecei a caminhar pelo jardim enfeitado, carregava uma taça de refrigerante na mão. — Aqui está. — Entreguei a Andressa, que estava grávida de cinco meses do Jonathan. Os dois estavam de casamento marcado e, eu não poderia estar mais feliz por eles. Felizmente, Jonathan e Lucas conseguiram resolver suas diferenças e hoje eram excelentes amigos. Ao final de tudo, Lucas acabou confessando a mim que sempre sentiu ciúmes do meu pai com o Jonathan, e ele acabou crescendo com esse sentimento. — Dá para acreditar que Letícia nunca mandou uma foto? Nunca imaginei que ela fosse abrir mão do filho — comentei, enquanto olhávamos para o Nicolas, que corria com euforia. — Letícia sempre deixou mais do claro que não estava feliz com a gravidez — disse, relembrando-me dos meses de gestação. Eu me sentia triste com isso. Foi uma surpresa para todos nós quando Letícia decidiu passar a guarda do pequeno Nicolas para o Lucas, quando o menino estava com dois meses. Na época, o Felipe a convidou para viajar o mundo com a companhia, e ela não pensou duas vezes em aceitar. — Ele pode não ser meu biologicamente, mas é meu no coração. Quando me chamou de mamãe pela primeira vez, chorei por minutos.


Andressa sorriu com doçura e, em seguida, passou a mão por sua barriga saliente. — Você irá contar a ele sobre a Letícia? — Nós sempre dissemos a ele. Decidimos que ele não pode crescer com segredos. E é mais fácil introduzir aos poucos enquanto ainda é pequeno. Ele cresce e a situação amadurece junto sem ser um problema no futuro. Ele é muito amado. Nicolas veio até mim feito um furacão. Suas mãozinhas gorduchinhas puxaram a barra do meu vestido. Lucas veio logo em seguida. — Telo boio, mamãe. Telo boio. — Nosso menino quer bolo, mamãe — disse Lucas, com a voz orgulhosa. — Eu ouvi, papai. — Eu o peguei no colo. — Vamos lá, pequenino. Vamos comer boio. Olhei para trás, para a mesa onde a Andressa estava, e sorri ao me deparar com Jonathan a abraçando. Os dois eram lindos juntos. Um completava o outro. Andressa foi fundamental na vida do Jonathan depois da morte da avó. Senti a mão do Lucas se enrolar em minha cintura e, eu o encarei. Seus olhos brilhavam de felicidade, assim como os meus. Aquela era a minha família e, eu não poderia estar mais feliz. ♥ Eu tinha acabado de sair do banho e encontrei com o Lucas no quartinho do Nicolas, admirando o pequeno dormir. — Conseguiu fazê-lo dormir? — questionei em um sussurro, enquanto me aproximava do berço também. Lucas me abraçou. — Ele tem muita energia e, eu estou exausto. Você viu o tanto que ele correu durante a festa? — Você não pode entregar os pontos agora, Lucas, pois vai gastar muito mais energia daqui a oito meses. Ele me encarou com o semblante confuso. — O que quer dizer? — Estou grávida de aproximadamente um mês. Um sorriso se espalhou nos lábios dele e ele me pegou no colo. Sua boca colou na minha com precisão. — Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo...


Definitivamente, eu era a mulher mais feliz do mundo.


Fim [1]

Um Sparring Bob ĂŠ um boneco de pancada, usado por lutadores como treinamento, quando estes nĂŁo tĂŞm um colega com o qual possam treinar.


Table of Contents Sinopse Prólogo Lucas Capítulo 1 Ana Morais Cinco anos depois Capítulo 2 Ana Capítulo 3 Duas semanas depois Capítulo 4 Ana Capítulo 5 Ana Capítulo 6 Ana Capítulo 7 Ana Capítulo 8 Ana Capítulo 9 Ana Capítulo 10 Ana Capítulo 11 Capítulo 12 Lucas Capítulo 13 Ana Capítulo 14 Ana Capítulo 15 Ana Capítulo 16 Ana


Capítulo 17 Ana Capítulo 18 Ana Capítulo 19 Ana Capítulo 20 Ana Capítulo 21 Ana Capítulo 22 Ana Capítulo 23 Ana Capítulo 24 Ana Capítulo 25 Ana Capítulo 26 Ana Cinco dias depois Capítulo 27 Lucas Capítulo 28 Ana Capítulo 29 Ana Capítulo 30 Ana Epílogo Três anos depois Fim

Profile for Ana Paula Oliveira

Em Busca do Amor - Livro 05 - Eu sou o seu menino mau - Sara Ester Pereira  

Em Busca do Amor - Livro 05 - Eu sou o seu menino mau - Sara Ester Pereira  

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