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1ª Edição 2017


Copyright © 2017 Sara Ester Capa: Barbara Dameto – ArtLivre Designer Revisão: Sara Ester Diagramação Digital: Sara Ester

Esta é uma obra ficcional. Qualquer semelhança entre nomes, locais ou fatos da vida real é mera coincidência. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sob quaisquer meios existentes sem a autorização por escrito da autora. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na lei nº. 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do código penal.


Prólogo Marcos Fontana Por longos minutos, apenas observei a força do vento, a forma como as folhas das árvores balançavam e os pássaros revoavam. Era sobrenatural o poder que ele tinha sobre a natureza, infelizmente ele não era capaz de levar a minha dor para longe como fazia com tudo. Por mais forte que o vento estivesse, o peso continuava ali em meu peito. A cada novo amanhecer, a cada novo alvorecer... - Papai? Olhei para o lado e me deparei com o único bálsamo capaz de me curar daquele calvário. Aquele par de olhos castanhos escuros dava-me forças para continuar persistindo. Por ela, apenas por ela. - Oi meu amor. – Estiquei os braços e, logo ela se aconchegou a mim. – Não está conseguindo dormir? – indaguei, beijando sua cabeça. - Tive um pesadelo. – respondeu fracamente. Eu sabia o que aquilo significava e temia imensamente que o psicológico dela se abalasse novamente. - Eu também tive um sonho ruim. – falei. Os pequenos olhinhos se detiveram nos meus. - Verdade? Abracei-a mais apertado e soltei um longo suspiro. - Está vendo aquela linda estrela? – Apontei para um ponto específico no céu. – É a sua mamãe. – sussurrei. - Ela sempre estará conosco meu amor, sempre estará cuidando de nós dois. Recostei minhas costas na cadeira e com isso ajeitei Mariana melhor em meu colo. Ela ainda era um bebê quando se tornou órfã de mãe. Ficamos em silêncio enquanto eu acariciava seus cabelos macios e negros. Deixei minha mente vagar para um passado não muito distante, mas que deixou muitas marcas. Clarice era uma bela mulher e, mesmo em seu leito de morte não perdeu sua beleza. Seus olhos estavam vazios e com manchas escuras ao redor deles, havia marcas rochas por todo o seu corpo, corpo esse que estava terrivelmente maltratado e sem as curvas que eu tanto amava, assim como seus cabelos que foram se perdendo com o passar do tempo, até não restar mais nenhum fio. Mas, independentemente de tudo isso, ela continuava linda para mim. Ainda conseguia escutar os seus sussurros e sorrisos doces. Podia me lembrar com detalhes dos primeiros anos do nosso casamento. A felicidade de quando descobrimos sua gravidez e de quando nossa pequena filha nasceu. Desviei os olhos da noite estrelada e fixei-os em uma Mariana adormecida nos meus braços. Sempre tão frágil e ao mesmo tempo tão forte. Deixei com que um sorriso suave pairasse em meus lábios. - Amor da minha vida. – sussurrei. – Seis anos me alegrando minha filha e me dando forças


para continuar de pé, apesar de tudo. Inclinei-me e repousei os lábios em sua testa suavemente. Instantes depois a carreguei até seu quarto. Depois de cobrir seu corpo com as cobertas, tomei o cuidado de deixar o quarto iluminado. Infelizmente ela não recebia muito bem os sonhos ruins que tinha. Deitado em minha cama, apoiei a cabeça sobre os braços. Algo diferente vinha me incomodando por aqueles dias, mas não conseguia ter certeza do que era. Um par de olhos azuis invadia minha mente e por mais que eu me esforçasse, era impossível querer esconder-me. Fazia tanto tempo que eu não me dava aquele prazer. Tanto tempo que eu não me permitia cometer uma loucura como aquela. E transar com Bianca naquele carro certamente foi algo surpreendente até para mim. Frustrado, esfreguei o rosto com as mãos e me virei de lado na cama. Por mais interessante que tenha sido, por mais excelente que foi sentir a maciez daquela pele clara e daqueles cabelos loiros sobre meus dedos. A delícia do contato íntimo de nossos sexos em um ritmo selvagem, mas sem hora para acabar... Não, não poderia me permitir aquele tipo de sentimento novamente. Em primeiro lugar, seria a minha filha -, pensei fechando os olhos e me concentrando em dormir. O despertador soou outra vez e rapidamente me levantei. Minha cabeça estava latejando em decorrência da noite mal dormida. Lavei levemente o rosto e corri para o quarto da Mariana, encontrando o mesmo vazio. Com o coração aos pulos, desci as escadas seguindo pelo restante dos cômodos a procura dela. - Ela está aqui, Marcos. – A voz da Amanda me parou, antes que eu saísse para o lado de fora da casa. Em seguida entrei na cozinha e as encontrei na mesa. Mariana estava vestida impecavelmente com seu uniforme, os cabelos presos em um perfeito rabo de cavalo enquanto tomava o seu mingau de aveia. Esfreguei o peito tentando aliviar a tensão que aquele susto me causou. - Por que continua fazendo isso? – intimei, lutando para manter a voz controlada. – Você sabe o quanto acho essa sua intromissão algo invasivo demais, Amanda. O rubor nas bochechas dela tornou-se visível para mim e ela desviou o olhar. Levantando-se da cadeira ao lado da Mariana, ela saiu da cozinha. Respirando profundamente, a segui. - Você devia evitar falar comigo dessa maneira quando estivermos perto da Mari – sussurrou ela. – Ela absorve tudo. - Não venha me dizer o que fazer dentro da minha casa. – Apontei o indicador para ela. – Eu não vou admitir que queira me ensinar a educar minha filha, Amanda, não quando eu dedico


meus dias e minha vida inteiramente a ela. - Eu não quis dizer isso, Marcos, eu... - Na verdade você se coloca peso demais, Amanda. – cortei-a. – Faz coisas que não tem obrigação de fazer. - Ela é minha sobrinha, Marcos – murmurou, com a voz embargada. – Eu amo cuidar de vo... Cuidar dela. Suspirei pesadamente e comecei a subir os degraus da escada. - Você sempre será bem-vinda, Amanda. Apenas peço para que respeite o meu espaço. Não deixei que revidasse e subi rapidamente ao meu quarto. Aquela situação já estava passando dos limites. Amanda não sabia dosar a influência que queria impor em nossas vidas. Logo mais tarde, deixei Mariana no colégio. - Tenha uma boa aula meu amor – falei, beijando-a. – Daqui a pouco o papai ou a tia Amanda vem te buscar. Direcionando-me um belo sorriso ela desceu do carro. Esperei que entrasse no colégio e voltei a ligar o carro. Meu rumo era a empresa do Andrew, apesar de ele ter me concedido férias. Entretanto, eu não estava acostumado a ficar avulso. A minha vida tornava-se vazia demais quando eu permitia que o silêncio me inundasse. Estacionei o carro no meio fio e desci em seguida. Cumprimentei alguns funcionários e me deparei com Andrew instantes depois. - Bom dia, senhor Andrew. – Estendi minha mão. - Bom dia, Marcos – replicou ele, aceitando meu cumprimento. – Venha até minha sala, por favor. Esperei que fosse à frente e o segui. - Era para você estar curtindo suas férias, Marcos – comentou, sentando-se em sua poltrona. – Não tem nem uma semana que o dispensei de seus serviços. Levei a mão em meus cabelos e os baguncei enquanto me ajeitava em uma das poltronas. - Na verdade, eu vim pedir para voltar a trabalhar. – A expressão de espanto no rosto dele não foi surpresa nenhuma. – Eu não sou o mesmo quando não tenho nada para fazer, senhor – expliquei. - Pode me chamar apenas de Andrew, por favor. - Quero meu emprego de volta, Andrew – insisti. Vi quando ele suspirou e inclinou-se sobre a mesa, apoiando o queixo nas mãos.


- Não posso fazer isso, Marcos. – Ele disse. – É um direito seu. - Mas, então eu o vendo. Compre minhas férias – sugeri. Ele se empertigou e voltou os olhos para a janela ao nosso lado. - Acontece que Marie não aceitará isso. Ela foi a primeira a dizer que você necessitava de descanso, Marcos. Eu já estava devendo umas duas férias consecutivas a você. - Droga! – exclamei, chateado. O desespero querendo me abater. O que eu faria o dia todo? Como poderia ocupar meu tempo? - A não ser que... - O quê? – indaguei esperançoso. Ele voltou a se ajeitar e me encarou com olhos determinados. - A não ser que queira passar uma temporada no Rio de Janeiro. Estou precisando treinar meus seguranças e os únicos que confio para essa função é você e o James. Porém com o James, eu não posso contar agora. - Mas... - É apenas uma idéia, Marcos. – cortou-me. – Aceite se quiser. Mas, fique ciente de que, providenciarei tudo para que você e sua família... – Ele franziu o cenho. – Você tem uma família, suponho? Desculpe... - Crio uma filha. - Certo – murmurou surpreso. Coçou a garganta. – Deixarei tudo agilizado para a chegada de vocês e tudo o que for preciso para a estadia no Rio de Janeiro, pelo tempo em que ficarem lá – pausou. – Como a Marie está ocupada com os preparativos do nosso casamento, mal terá tempo para perceber a nossa trama. – Soltou uma risada baixa. - Sem chances para eu voltar a trabalhar aqui? Ele negou com a cabeça. - Ao menos não enquanto suas férias não terminarem. Soltei um suspiro frustrado e me levantei ficando de costas. Pensativo, comecei a avaliar os prós e contras daquela mudança repentina. Mariana iniciou o primeiro ano a pouco tempo, quase não fez amigos, algo também que não me surpreendia muito infelizmente. Precisarei de alguém para cuidar do bem estar dela enquanto eu estiver trabalhando. Amanda! - Precisarei levar mais alguém – falei, olhando-o. – Para cuidar da minha filha quando eu estiver em expediente. - Se preferir, contratamos uma babá e... - Não! Sem estranhos. – Interrompi-o. – Minha filha não se dá muito bem com pessoas fora do seu ciclo rotineiro – expliquei, amenizando o tom de voz.


- Tudo bem – concordou compreensivo. – Vou ligar agora mesmo para a Bianca e... - Bianca? – Alterei a voz novamente, mas logo me contive quando o vi franzir o cenho. – Digo, por que ela? O que ela tem com isso? - No momento é ela quem está supervisionando os meus funcionários lá. Vou deixá-la encarregada para agilizar sua mudança provisória e preparar os documentos necessários para a sua nova função – explicou enquanto agilmente discava alguns números no telefone. Fiquei observando completamente atônito, sem saber o motivo de tamanho pânico que me abateu naquele momento. Andrew falava com ela pelo telefone, porém eu não era capaz de escutar. Parecia que eu estava preso entre duas atmosferas. Algo vibrava em mim internamente e era aquilo que estava me amedrontando. - Está tudo resolvido. – A voz do Andrew se fez presente, despertando-me. Minhas mãos estavam suadas. – Bianca prometeu resolver o mais rápido possível. E quando vocês chegarem ao aeroporto, ela estará esperando-os. - Obrigado, Andrew. – Forcei minha voz a sair. – Vou ficar a postos para qualquer informação nova. Irei resolver hoje mesmo, a situação da minha filha no colégio. - Faça isso, meu amigo. - Apertamos nossas mãos. – Estou feliz em te ajudar e mais ainda, pois com isso estou me ajudando também. Não resisti em soltar uma risada divertida. - Tenho certeza que sim. Despedimos-nos e assim que me vi novamente em meu carro, levei as mãos ao volante onde apertei forte algumas vezes. - Você é tão cheiroso, Marcos... – Gemidos... – De todas as transas que já tive, nenhuma supera essa. – Seus preciosos olhos se fixaram nos meus. Mergulhei naquela intensidade azul. – Nenhum homem será capaz de superá-lo... Sua boca se apossou da minha com avidez. Era pele, eram estupidez de ambas as partes, mas havia um fogo abrasador ali e eu senti... Fechei os olhos lutando para silenciar aquela voz da minha mente, lutando para apagar as imagens eróticas de nossos corpos conectados naquele banco do carro. - Eu pensei que não a veria tão cedo, senhorita impulsiva – sussurrei para mim mesmo, lembrando-me dos detalhes daquela nossa viagem. – Espero apenas não ter que virar alvo dos seus impulsos novamente... Liguei o carro e o coloquei em movimento. A única vantagem era a de que, meus momentos estariam preenchidos com meu trabalho e minha filha. Sem espaços para silêncios em minha vida.


Capítulo 1 Marcos Fontana - Não quero que se sinta obrigada a ir, Amanda – murmurei enquanto almoçávamos. – Esse é um projeto que estou idealizando no momento e, como a Mariana gosta de você, pensei que seria mais fácil para nós se viesse junto. - Por que acha que eu recusaria? Ergui meus olhos para ela e a encarei. - Eu não acho nada, apenas estou te dando as opções – falei com sinceridade. – Desde a morte de Clarice sinto que você está se doando para nós – referi-me a mim e Mariana. – Sinta-se à vontade para respirar um pouco, enquanto Mariana e eu passamos essa temporada no Rio de Janeiro. – Repousei o olhar sobre minha filha que saboreava tranquilamente seu almoço ao meu lado na mesa. - Eu jamais fiz algo forçada, Marcos. – Amanda murmurou e senti uma pontada de amargura. – Gosto de estar com vocês, sinto-me em casa aqui. – Seus olhos umedeceram ao olhar de mim para Mariana. – Vocês são a minha família agora. – Vi quando mordeu os lábios, como se impedindo de falar algo mais. Coçou a garganta. – E como o meu trabalho exige apenas uma boa internet para divulgação, posso perfeitamente trabalhar em qualquer lugar e isso inclui o Rio de Janeiro. – Sorriu animada. Sorri do seu entusiasmo. - Obrigado! – exclamei agradecido. – Confesso que ter você por perto me deixa mais tranqüilo. – Notei um brilho diferente nos olhos dela, porém não me atentei muito. - Do que vocês estão falando? – Mariana quis saber. - Sobre a nossa viagem para o Rio de Janeiro filha – respondi, bebericando meu suco. – Convidei a tia Amanda para ir conosco. Extremamente feliz Mariana abriu um enorme sorriso. - Oba! Assim não fico sozinha. Franzi o cenho. - Mas eu não deixaria você sozinha meu amor – murmurei, tocando suas bochechas. - Eu sei pai. Mas a tia Amanda é minha única amiga e me sinto muito segura com ela. Olhei de soslaio para a Amanda e a peguei emocionada. Em instantes, Mariana estava em seus braços e eu pude assistir a forte ligação entre as duas. - E comigo? – questionei enciumado. – Não se sente segura comigo mocinha? Escondendo o rosto no pescoço da tia, ela sorriu. Amanda me encarou divertida. - Há uma união de mulheres aqui, nada contra você – brincou Amanda. – E tenho plena certeza de que iremos nos divertir muito no Rio de Janeiro.


Recostei meu corpo na cadeira e olhei para meu prato parcialmente vazio. A expectativa brigava com a sensação de dejavu que possivelmente eu terei assim que me deparasse com aquela loira impulsiva. Bianca seduziu-me no carro em uma viagem que fizemos algumas semanas atrás. Houve uma libertação da parte dela e eu consegui sentir isso naquele dia. Ela havia me usado para se desfazer de algo que a atormentava, mas eu jamais seria hipócrita em afirmar que aquele momento não me satisfez em nada. A beleza do corpo dela ficou gravada em minha mente, assim como a sensação de desprendimento que ela me transmitiu e que por poucos minutos eu me permiti sentir também. - Marcos? – Pisquei freneticamente ao escutar Amanda me chamando. – Me escutou? – Olhei em volta e estranhei a ausência da Mariana. – Ela foi fazer os deveres – emendou ao perceber o meu questionamento interno. Eu sempre me surpreendia com a facilidade com que Amanda me lia. Levantei da cadeira e soltei um suspiro baixo. - Me desculpe – murmurei. – Deixei-me levar por algumas recordações. Ela sorriu fraco. - Eu compreendo – falou baixinho e calou-se por alguns instantes. – Na verdade, eu penso que você deveria descansar mais, sabe? Esquecer um pouco o trabalho e se concentrar mais em viver a sua vida. Quem sabe encontrar outra pessoa? Inspirei pesadamente e praticamente a fuzilei com os olhos. - Eu amo a sua irmã – respondi com dentes cerrados. – E estou bem assim. Virei às costas e parei quando ela abriu a boca novamente para falar: - Foi a Clarice quem faleceu, Marcos. Não se esqueça disso. Uma enxurrada de lembranças me abateu naquele momento e me vi novamente assustado com a sensação de impotência. Recordar daquela fase da minha vida me enfraquecia e mostravame o quanto a felicidade podia se tornar ilusória da noite para o dia. - Mas ela continua aqui. – Bati contra meu peito. – E isso não mudará. Ambos nos encaramos, ela havia se levantado da cadeira também. - Tenho certeza disso. Saí da cozinha a passos rápidos e senti uma necessidade imensa de abraçar minha filha. Encontrei Mariana deitada de barriga para baixo em sua cama enquanto lentamente lia uma história. Delicadamente me sentei ao seu lado e ela me olhou sorridente. - Estou estudando, pai – murmurou docemente. Deitei apoiando a cabeça em uma das mãos e fiquei a olhando com encantamento. - Pois continue – falei, sorrindo. – Ficarei te admirando. Posso?


Com as bochechas rosadinhas ela me encarou. - Pode! – exclamou envergonhada. Sorri completamente apaixonado. Mariana era minha base, minha sustentação nos momentos difíceis. Tão parecida com minha Clarice. “– E como viverei sem você meu amor? - Isso não vai acontecer, pois você terá a Mariana. A nossa Mariana, Marcos. – Um silencio se instalou por alguns instantes. – Promete que vai cuidar dela, amor? Promete que se esforçará para que ela cresça amada e feliz? - Eu prometo!” - Sua mãe se orgulharia de você – comentei nostálgico. – Você é uma menina muito inteligente. - Obrigada, pai. Enquanto ela lia o livro, fiquei acariciando seus cabelos macios. O aperto no peito foi se dissolvendo aos poucos e a sensação de conforto que a presença dela me trazia se intensificou, estava estável outra vez. Os dias, meses e anos poderiam passar, mas a dor da perda nunca se amenizava em meu peito. Era como se eu perdesse Clarisse a cada novo amanhecer... Alguns dias depois, Mariana, Amanda e eu desembarcamos no aeroporto do Rio de Janeiro. Andrew havia me informado de todos os detalhes no dia anterior, mas praticamente estaríamos dependendo do auxílio da Bianca no início. - Alguém virá nos buscar? – Amanda quis saber. Coloquei nossas malas no carrinho e ajeitei Mariana em cima. - Está tudo bem – sussurrei no ouvido dela, notando a sua apreensão. – O papai está aqui – emendei apertando-a contra meu peito. – Uma funcionária do meu patrão, Amanda – respondi a pergunta dela. - Certo. A correria com a mudança brusca de cidade foi intensa e cansativa nos últimos dias. Houve certo temor e ressentimento, pois Clarice e eu tínhamos uma história em Joinville e eu nunca pensei que um dia sairia de lá. Nem mesmo por alguns meses. - Está com fome? – perguntei a Amanda. - Um pouco – respondeu sorrindo. – A viagem foi bem cansativa também. Mariana apertou minha cintura na medida em que íamos caminhando.


- Papai... – soprou estremecida com o barulho. - Está tudo bem, querida – sussurrei mansamente. Nervoso com a situação olhei para frente e tive o vislumbre da mulher que vinha perturbando minhas lembranças com freqüência. Ela estava vestindo um camisete e uma saia justa. Seus cabelos loiros estavam erguidos em um coque desajeitado, deixando alguns fios soltos ao redor de seu belo rosto. Nossos olhares se encontraram e senti uma conexão intensa, estremecendo-me com a lembrança sensual. “Com força, Marcos... Quero que fiquem marcas suas em meu corpo... suas somente suas...” Sacudi a cabeça, constrangido com aquela recordação descabida. - Olá. – Cumprimentou-me ela. Seus olhos desceram até minha filha embolada ao redor da minha cintura enquanto estava sentada no carrinho. – Fico feliz em revê-lo. – Sorriu com simpatia. Percebi que encarou Amanda com curiosidade. - Esta é a Amanda, minha cunhada. – Apresentei-as. Fiquei observando a forma como conversavam. Não soube discernir o que estava sentindo naquele momento. Havia ficado tão tenso com nosso reencontro e no fim nada de mais aconteceu. Bianca agia como se fossemos estranhos, o que na verdade era exatamente isso o que éramos. Ou não? - Bom, espero que tenham tido uma viagem tranqüila. – Bianca comentou. – Consegui um excelente apartamento para a estadia de vocês e peço desculpas, mas, vocês terão que dividi-lo. – Ela mordeu os lábios, como se ponderasse o que falaria a seguir. – É que eu não sabia e... - Sem problemas. – Amanda interrompeu. – Marcos e eu somos excelentes amigos acima de tudo. – Sorriu para mim abertamente. Travei o maxilar e franzi o cenho um pouco. - Não há importância nesse detalhe, considerando que Mariana precisará de você enquanto eu não estiver – murmurei. Notei que Bianca fixou os olhos em minha filha com curiosidade. – Podemos ir então? – questionei a olhando. - Claro. Em seguida, ela se virou nos calcanhares. Enquanto caminhávamos para fora do aeroporto, observei disfarçadamente os trejeitos de Bianca a nossa frente. Em poucos minutos ela havia recebido uma ligação e naquele momento estava teclando em seu tablete. Parecia tensa e sobrecarregada. - Meu carro é aquele. – Apontou de repente, depois de finalizar o que quer que estivesse fazendo em seu aparelho eletrônico. – Deixarei vocês no apartamento e logo terei que voltar para a empresa. Terei que resolver algumas pendências que acabaram de surgir. - Se preferir, podemos ir de táxi – falei, incomodado com o fato de estar atrapalhando-a de alguma forma. – É só você me passar as coordenadas do prédio.


Estávamos próximos um do outro, ela ergueu os olhos para mim e imperceptivelmente vi quando inspirou, inalando meu cheiro. - Faço questão de deixá-los instalados, Marcos. – Sua voz soou aveludada ao pronunciar meu nome. A presença da Mariana a distraiu e suavemente sorriu para a menina. – Oi. Mariana permaneceu em silêncio e Bianca se inclinou para ela. - Eu me chamo Bianca e estou muito feliz em conhecê-la. Você é a menina mais linda que eu já vi. Céus! Parece uma princesa. – Colocou ambas as mãos na boca enquanto fazia um ar de espanto. Mariana sorriu de leve. Fiquei encantado com aquilo, considerando o quão difícil era para que ela se entrosasse com outras pessoas. - Nossa! E com esse sorriso então... – Bianca continuou. – Você quer ser minha amiga? Olhei para Mariana e a mesma encontrava-se grudada em mim. Amanda tocou-a no ombro e em seguida a ergueu em seu colo, afastando-se de nós. Bianca aprumou o corpo completamente encabulada. Percebi que havia ficado constrangida. Coçou a garganta: - Vamos? Apenas concordei com a cabeça, pois incrivelmente aquela situação estava me constrangendo também. Longos minutos depois e de extrema tensão, chegamos ao prédio em que iríamos nos instalar pelos próximos meses. A primeira a descer do carro foi Bianca. - Eu já comuniquei ao porteiro sobre a chegada de vocês – falou direcionando o olhar a mim. – O restaurante fica no andar de baixo e já está tudo acertado também. Qualquer dúvida que tiver, pode me ligar nesse número. – Entregou-me um cartão. – Ou se preferir, ligue para o Andrew. – Sorriu fraco. – Acredito que estará tudo certo para que seu início na empresa aconteça na próxima semana. - Ok. Foi a única coisa que me veio à mente para falar. Despedindo-se com um aceno de cabeça, ela entrou em seu carro. Instantes depois arrancou com ele. Olhei para o lado e me deparei com Amanda me encarando com um olhar estranho. Mariana ainda estava aninhada em seus braços. - Podemos ir? Havia algo em seu tom que não me soou bem, porém o cansaço e estresse do momento não permitiram que eu a questionasse sobre aquilo. Deixaria para outra ocasião.


Capítulo 2 Marcos Fontana Algumas horas depois, estávamos devidamente instalados no apartamento que seria nosso lar dentro dos próximos meses. Mariana estava assistindo desenho animado totalmente tranqüila e alheia à minha presença. Alegrei-me por perceber que a mudança não a havia afetado de forma negativa como imaginei que afetaria. - Ela está bem, Marcos. Quase nem sentiu a mudança. A voz da Amanda ressoou aos meus ouvidos e me virei, deparando-me com ela vestida em uma camisola modesta. A noite estava refrescante, propiciando para um visual mais leve realmente. Desencostei o ombro da porta do quarto onde Mariana assistia ao desenho e guardei ambas as mãos nos bolsos da calça de moletom. - Eu estava apavorado que isso acontecesse – comentei com sinceridade. – A mudança foi meio drástica e temi imensamente que ela se sentisse ainda mais acuada. Amanda dobrou os braços sobre os seios, evidenciando-os sem querer para mim. Desviei o olhar, constrangido. - Mariana é mais forte do que você imagina – falou ela e sorriu. Sorri também. – Está com fome? Mari e eu já comemos enquanto você estava inspecionando o prédio, mas se desejar, eu posso preparar algo para... - Não se incomode comigo – cortei-a. – Eu estou bem. Completamente sem jeito ela se afastou. - Vou trabalhar um pouco, então – disse ela. Balancei a cabeça em concordância e alarguei os passos, porém sua voz me parou: - Fiquei com a impressão de que você e aquela moça que nos acompanhou até aqui hoje, se conheciam. – Ridiculamente meu coração começou a acelerar-se. – A peguei te encarando algumas vezes... - É claro que nos conhecíamos – falei, imprimindo firmeza no meu tom de voz. – Ela trabalhava na filial de Joinville, consecutivamente nos víamos algumas vezes por semana. Amanda arqueou levemente as sobrancelhas e percebi quando ela se empertigou. - Hmm – resmungou resoluta. – Ela é uma mulher muito bonita e simpática – comentou. - É sim. Com agilidade voltei a me virar em meus calcanhares dando aquele assunto por encerrado. Meu psicológico estava muito balançado ultimamente com tudo o que vinha acontecendo e o assunto “Bianca” não ajudava em nada. Fui direto para a ampla sacada da sala e me curvei sobre o parapeito da mesma. O frescor da noite aos poucos foi aliviando minha inquietação. Esfreguei o rosto agoniado com aquela situação que estava sendo rotineira em meus dias. Há tempos que eu não me permitia sentir


emoções tão diferenciadas, pois minhas prioridades haviam se estagnado em minha filha. O que mudou? O barulho do aparelho celular despertou-me dos meus devaneios desgastantes. No fundo respirei em extremo alívio. - Marcos falando. – Atendi. - Boa noite, Marcos. – A voz do Andrew ecoou do outro lado da linha. – Como foi a viagem e como está sendo a estadia? Alguma reclamação ou dúvida? - Andrew! Está tudo certo, obrigado – respondi agradecido. – Mariana está encantada com as novidades. - Mariana é sua filha? – quis saber. - É sim – confirmei sorrindo. – Está com seis anos atualmente. - Fico contente em saber que estão gostando, Marcos – disse ele. – Bianca já entrou em contato comigo. Está agilizando para que fiquem o mais confortável possível – comentou. – Amanhã ela pretende levá-lo à empresa, para que você possa conhecer e ir se habituando aos novos ambientes. - Perfeito – falei. – Estou ansioso para começar. - Eu sei que sim – disse ele, sorrindo de leve. – Vou desligar agora, Marcos. Qualquer coisa pode me ligar ou converse com a Bianca. Engoli em seco e segurei um suspiro frustrado. - Ok. Obrigado por enquanto. - Eu que agradeço. Tenha uma ótima estadia aí no Rio. Despedimos-nos e logo em seguida encerrei a ligação. Eu não queria admitir, entretanto o simples fato de saber que na manhã seguinte veria Bianca novamente deixou-me ansioso. Senti minhas mãos geladas e uma sensação de estremecimento me abateu por um breve momento. - Bianca, Bianca... Loira impulsiva... – sussurrei enquanto voltava a me curvar sobre o parapeito da sacada. Senti-me extasiado quando me deparei com Bianca do lado de fora do prédio, ela caminhava sorridente em minha direção. A luz do sol atingia seus cabelos fazendo-a parecer uma deusa. Ela os usava para cima novamente, expondo o pescoço. Estatura mediana, bonita e vibrante, estava melhor do que eu podia lembrar. - Bom dia, Marcos – saudou-me ela. – Andrew o avisou que eu viria logo cedo? Estava para subir no seu apartamento agora mesmo -- acrescentou - Bom dia – respondi em tom neutro. – Ele avisou sim. Verificando as horas em seu relógio, ela voltou a me encarar. - Ótimo então – disse. – Pretendo te mostrar a empresa e deixá-lo inteirado de suas funções


– continuou ela enquanto se virou nos calcanhares forçando-me a segui-la na direção do carro. – A propósito, esse carro ficará com você. - Certo – falei apenas. Não conseguia escapar da estranha sensação em perceber que ela estava me tratando como se nada tivesse acontecido entre nós. Ao chegar ao carro, fiquei imóvel por um momento, hesitando, como se estivesse na beira de um precipício. - Relaxe, Marcos. Sou uma motorista prudente – disse ela, divertida. Ela se sentou no assento de couro na cor creme sem dizer nada. Uma nesga de perna nua apareceu antes que puxasse a saia sobre os joelhos dobrados. Observando enquanto ela tentava cobrir as pernas, senti um repentino desejo de levantarlhe a saia para conferir a maciez de sua pele outra vez. Mas contive-me. Nunca fui um homem das cavernas sem princípios, e podia controlar meus instintos. Fechei minha porta com um toque suave e dei um suspiro profundo, contendo meu desejo absurdo. - A empresa fica muito longe daqui? – perguntei instantes depois de ela ter colocado o carro no tráfego intenso do Rio de Janeiro. Ela me olhou de relance e sorriu. - Com medo de ficar sozinho comigo dentro do carro por muito tempo? – replicou em um tom brincalhão, mas com um toque de malícia que não pude deixar de notar. Encarei seu perfil. - Continua a ter problemas com a sua impulsividade, eu suponho? Um novo sorriso abrilhantou os lábios rosados dela, porém ela não se deu ao trabalho de me olhar para responder: - A impulsividade está no meu sangue, Marcos. Eu sempre faço coisas pelas quais eu me arrependo no mesmo instante, ou tempos depois. Permaneci em silêncio, ponderando suas palavras. Na verdade não era preciso ser um gênio para deduzir que ela havia se arrependido de ter transado comigo. Senti-me ainda mais estranho com aquela constatação. - Sua filha está conseguindo se adaptar à mudança de cidade? – perguntou, instantes depois quebrando o silêncio. - Sim, obrigado por perguntar – respondi. – No fundo o que a faz sentir-se confortável ou não, são as pessoas que estarão ao redor dela. - Você e a tia dela – comentou e me encarou rapidamente. Franzi o cenho, porém concordei.


- Sim. O silêncio voltou a reinar entre nós, até que chegamos ao nosso destino. Depois de estacionar o carro perfeitamente em uma das vagas da empresa, ambos descemos e pude admirar a fachada do pequeno prédio. Andrew havia construído um negócio muito bom e me orgulhava por ele. Pisquei freneticamente quando percebi que Bianca havia se afastado e caminhava a passos firmes, distanciando-se de mim. Rapidamente comecei a segui-la. - Conforme as informações que me foram repassadas, você poderá optar pelo horário comercial ou de acordo com suas táticas nos treinamentos, sendo assim, poderá preferir estabelecer os próprios horários – disse ela, enquanto caminhávamos. – Já encaminhei seus documentos para o RH, acredito que tudo estará de acordo para que você comece na próxima segunda-feira. - Quanto antes eu puder começar melhor – comentei, analisando as instalações da empresa conforme caminhávamos. - Você não descansa Marcos? A última vez que nos vimos foi há aproximadamente um mês atrás, não? – questionou-me ela de repente. Abriu uma porta e deu espaço para que eu pudesse entrar logo em seguida. Era uma sala ampla. - Você não lembra? – repliquei um pouco incomodado com sua indiferença. Ela sorriu e seu olhar encontrou o meu perigosamente. - A pergunta não é essa, Marcos – disse, aproximando-se da mesa. – O correto é: Você quer que eu me lembre? Trinquei o maxilar e guardei ambas as mãos nos bolsos. Preferi continuar parado diante da porta recém fechada. - Por que me trouxe para essa sala? – indaguei nervoso. - Não há necessidade de mudar de assunto, Marcos. Somos adultos e o que aconteceu entre nós... - Não aconteceu nada entre nós, Bianca – cortei-a de modo ríspido, fazendo-a arregalar os olhos. Seu rosto tornou-se rubro. – Foi apenas uma transa bacana e fim! – Esfreguei o rosto rapidamente sentindo-me sufocado. – Eu tenho outras prioridades em minha vida, minha meta é somente ocupar a mente com o trabalho e com minha filha. Bianca que estava recostada sobre a mesa e com os braços cruzados contra o peito desviou os olhos dos meus e suspirou baixinho. Sorriu fracamente quando voltou a me encarar. - Essa sala será sua – disse ela, de modo natural. Analisei-a tentando entender aquela mudança brusca de assunto. – Acredito que não haja necessidade de um assistente, mas se for preciso me avise que providenciarei. – Saí de perto da porta quando ela fez menção de abri-la. – Agora se me der licença, tenho muito serviço pelo resto do dia. – Sorriu com extrema simpatia,


admirei as covinhas adoráveis de suas bochechas. – Fique à vontade para visitar a empresa, Marcos. A chave do carro está na mesa. – Apontou. – Tenha um excelente dia. Fiquei completamente estático no lugar quando ela saiu deixando-me sozinho na minha futura sala. Um bom convívio profissional era algo que eu sempre priorizava, nunca fui adepto às amizades de grupos ou “casos” no trabalho. Na verdade eu fiquei viúvo, porém eu não conseguia me enxergar assim. Clarisse fazia parte do meu coração dia e noite. E provavelmente aquela sensação estranha que eu sentia a cada encontro com Bianca, era o peso da culpa me atormentando... Eu havia traído a memória da minha falecida esposa no momento em que transei com a Bianca naquele maldito carro.


Capítulo 3 Marcos Fontana A semana iniciou-se e com isso a minha nova rotina. O trabalho me mantinha equilibrado e com a mente ocupada. Eu tinha medo do silêncio ensurdecedor. Amanda tinha acabado de me enviar uma foto da Mariana, ela ainda estava de pijamas, porém estava me mandando um beijo de bom dia. Sorri agraciado. Mariana era o combustível para a minha felicidade, a motivação dos meus dias. Guardei o celular no bolso e me levantei, afastando-me da minha mesa. Analisei minha sala e observei a recente organização dos meus pertences. Em tudo o que eu fazia ou, onde eu estivesse sempre fiz questão de levar comigo o que era mais importante. Ter Clarisse e Mariana ao meu lado era primordial, independente do lugar. Dei uma última olhada na fotografia da minha falecida esposa com nossa filha nos braços e segui na direção da porta. Olhei de um lado para o outro e meu olhar encontrou com o de uma moça em sua sala. Ela estava sorrindo com expressão curiosa em minha direção. Sem jeito eu me aproximei, parando na porta da sala dela. - Bom dia. – Ofereci um sorriso educado. – Você poderia me informar a sala da senhorita Bianca? - Oh, bom dia – saldou-me primeiramente, com simpatia exagerada. – Você é o novo funcionário, suponho? - Eu mesmo – respondi e verifiquei o horário, preso entre a pressa e a necessidade de me entreter com meus potenciais alunos. - Que bacana! – exclamou ela eufórica, jogando os cabelos escuros para o lado. – Seja bem-vindo! – Abriu os lábios em um sorriso aberto, evidenciando dentes perfeitos. – Me chamo Fernanda e cuido do setor de contabilidade, mas estou sempre disposta a ajudar no que for preciso. – Ofereceu com olhos brilhantes. Engoli a vontade de revirar os olhos. - No momento ficaria feliz se me informasse a sala da senhorita Bianca – falei, arrependendo-me pelo meu tom ter soado tão rude. Cocei a garganta. – Digo isso por causa do avançar das horas, não gostaria de me atrasar em meus afazeres no meu primeiro dia aqui. – Sorri sem graça, tentando amenizar minha grosseria. - Ah, sim. Compreendo – disse ela, me analisando por mais alguns instantes. – A sala da Bianca é essa no final do corredor com a porta escura – disse por fim. - Obrigado. - Não por isso... – pausou, esperando que eu me identificasse. - Marcos. - Marcos! – repetiu ela. – Mais uma vez, seja bem-vindo.


Sem dar tempo para que ela puxasse outro assunto, consegui escapar encaminhando-me para a sala indicada por ela. Sentia-me em um misto de emoções. Ansiedade brigando com o nervosismo dentro de mim. Prestes a bater na porta da sala da Bianca, notei que a mesma estava entreaberta e no impulso espiei. Franzi o semblante imediatamente ao enxergar aquela cena. Bianca estava sentada confortavelmente em sua poltrona por detrás da mesa, enquanto um homem estava inclinado sobre a mesa a beijando. Estranhamente meus punhos se fecharam e meu coração se alvoroçou no peito. Um imenso calor se apossou do meu corpo em um aviso claro da minha fúria interior. Dei duas batidas na porta para chamar a atenção deles. - Oh, Marcos – disse ela, visivelmente surpreendida. O rapaz se virou para mim e rapidamente o analisei. Ele estava vestindo o uniforme da empresa, seu perfil era de um homem forte e viril. Não tive dúvidas de que se tratava de um profissional da segurança do Andrew. – Mais tarde conversamos Pedro – disse ela para ele. - Vai sair comigo? – perguntou ele, em um sussurro. Totalmente encabulada, Bianca desviou os olhos dos meus e sorriu fracamente para ele. - Vai Pedro, por favor. Conversamos depois. Sorrindo malandramente, o rapaz se afastou dela endireitando ridiculamente o tronco. Com uma piscada marota ele se virou e passou por mim, cumprimentando-me gentilmente com a cabeça. Por um momento me vi estático no lugar, sem sequer entender o que estava se passando em meu interior. - Marcos? Marcos? – Estremeci com o toque das pequenas mãos dela em meu ombro. – Desculpa, não tive a intenção de assustá-lo – explicou, afastando-se encabulada. Ela estava vestindo um daqueles ternos femininos que a deixavam deslumbrante. Sem deixar de encará-la fechei a porta. - Eu não conhecia essa seu lado anti-profissional – acusei, sem conseguir me conter. – Você deveria honrar o seu local de trabalho – acrescentei em tom de julgamento. Os olhos dela se arregalaram, porém seu rosto tornou-se rubro de irritação. - Como ousa me julgar? – perguntou entre dentes. - Não preciso julgar, eu vi com meus próprios olhos – falei rispidamente. – Na verdade eu nem deveria estar surpreso, não é? Considerando o seu histórico de atitudes impulsivas – decretei cruelmente. Segurei sua mão no ar, no momento em que ela se chocaria contra meu rosto. Agilmente a virei, recostando-a na parede ao lado da porta. Observei como as narinas dela estavam infladas de pura fúria. - Você não me conhece, Marcos. Não sabe nada sobre mim.


Com uma das minhas mãos segurei as dela e as ergui no alto de sua cabeça, deixando-a vulnerável e a minha mercê. Colei meu corpo no seu e me peguei completamente excitado. Eu estava perdido em nossas reações, perdido naquela imensidão azul dos olhos dela, preso no desejo que o aroma que vinha de sua boca me causava. - Você tem razão. – Soprei contra seus lábios. – Não conheço você – fechei os olhos quando nossas bocas se tocaram, porém não a beijei. – Mas sinto-me no direito de não aprovar as suas atitudes. - Eu não lhe dou esse direito – sussurrou enquanto se remexia, acendendo partes do meu corpo que não deveriam se acender. – Cuide da sua vida e eu cuido da minha. Abri os olhos e me deparei com os seus me encarando com intensidade torturante. Soltei suas mãos e não resisti em tocar seu delicado rosto quase em hipnose. A pele alva e macia era como veludo em minhas calejadas mãos. Permanecemos nos encarando por mais alguns instantes até que decidi me afastar dela que por pouco não caiu. Nervosa levou as mãos aos cabelos, evitando me encarar nos olhos. Caminhou até sua sala e pegou seu tablete antes de se voltar para mim novamente. - Creio que você tem alunos esperando-o – falou em um tom profissional. – Eu levarei você até a sala de treinamentos. Com o corpo trêmulo abri a porta para nós. Minha pele estava ardida e com a sensação de ausência. Eu queria entender aquilo, porém decidi isolar da mente, pelo menos por hora. Assim que fui apresentado como o novo instrutor de treinamento da segurança geral da empresa, Bianca se retirou e me deixou na liderança. Havia aproximadamente uns vinte funcionários ali. Observei que ambos possuíam um belo porte e muita força bruta também. - Sei que todos estão cientes da minha função aqui, porém gostaria de me apresentar formalmente – falei em tom alto. – Eu me chamo Marcos. Sou formado em diversos níveis de artes marciais e possuo alguns anos no currículo como soldado militar. – Caminhei lentamente pela sala espaçosa. – Andrew me contratou para que eu pudesse disponibilizar umas aulas como complemento à formação que cada um de vocês possui, considerando que a empresa está se saindo prejudicada com algumas falhas que vêm acontecendo. - Serão sessões diárias? – Alguém perguntou. Procurei com os olhos o dono da pergunta e me deparei com o rapaz que estava agarrando a Bianca minutos atrás. - A princípio sim, pois não conheço o desempenho de cada um ainda para poder avaliar a necessidade dos treinos – respondi. – Mas ao findar dessa semana, conseguirei estabelecer um cronograma que agrade a todos. – acrescentei. Fazendo um sinal em concordância com a cabeça, o rapaz se aquietou. Prossegui com a conversa, expondo meus conhecimentos e aproveitando para entender os pontos fortes e fracos de cada um. As táticas de treinamento visam avaliar o perfil do indivíduo, analisá-lo mais de perto.


Lembro-me que na minha juventude as coisas comigo eram tão fora de controle, que eu me sentia fora do lugar. Conhecer a Clarisse na época me equilibrou de certa maneira, entretanto o que me fez enxergar a vida com coerência e organização foram as artes marciais. Eu sempre me vi como o dono da razão, meu comportamento era individualista, eu era uma pessoa sem controle próprio. Aventurar-me nas lutas, conseqüentemente no exército um tempo depois, me salvou de mim mesmo. Amadureci emocionalmente e fisicamente. Pude enfim ser um homem melhor em sociedade e um excelente marido para Clarisse. Obviamente que as necessidades de quem se aventura na área da segurança é extremamente diversificado. Olhando para ambos aqueles rostos diante de mim, pude enxergar um misto de emoções. Havia expectativa, cansaço e tédio. Respirei profundamente, esforçando-me para esvaziar a mente e com isso focalizar toda a minha atenção e dedicar-me inteiramente ao meu trabalho. A minha meta era transformar aqueles homens em verdadeiros seguranças, capazes de fazerem jus ao uniforme que trajavam. Ao final daquele dia me encaminhei para o estacionamento e enquanto caminhava na direção do carro, observei Bianca conversando com aquele rapaz... Pedro. Ela estava recostada na porta do seu próprio carro e ele parecia estar interceptando-a, mas ela não demonstrava incômodo algum, pelo contrário, estava sorrindo para ele. Assim que cheguei ao meu carro, hesitei, antes de abrir a porta do mesmo. Não resisti à tentação de voltar meu olhar para eles. Observá-los me irritava, entretanto eu não conseguia parar de fazê-lo. Em determinado momento ele a beijou, logo depois cochichou algo que a fez sorrir e virar a cabeça ainda rindo. Nesse momento nossos olhares se cruzaram. O sorriso dela desvaneceu-se. Nossa conexão pairou no ar como uma onda gigantesca e devastadora. Eu não conseguia esconder-me daquela nossa atmosfera real e irreal ao mesmo tempo. Nervoso com aquele sufocamento que a situação estava me causando, abri a porta do carro e entrei. Nada daquilo fazia sentido. A praticidade estava presente em meu DNA e não havia mais espaço para novas mudanças de rotinas.


Capítulo 4 Marcos Fontana Na manhã seguinte senti-me com um desespero abundante pelo simples fato de ter que levar Mariana para o seu primeiro dia de aula, em um colégio diferente e com pessoas estranhas. Amanda a abraçou apertado desejando-a boa sorte. - Marcos? – A voz dela me parou, no momento em que me preparava para sair do apartamento com Mariana. – Tenha uma manhã tranqüila de trabalho – desejou. Sorri agradecido. A convivência com ela estava sendo agradável. - Obrigado. Virei-me em meus calcanhares e depois de alguns minutos, eu estava ajeitando Mariana no banco de trás do carro. Ela estava nervosa, apesar de tentar disfarçar o pânico. Dei a volta no carro e assim que me vi pronto para ligá-lo, virei a cabeça na direção dela. - Está se sentindo bem meu amor? Ela apenas assentiu com a cabeça. Resoluto, porém ainda desconfiado me ajeitei e coloquei o carro no tráfego. Pelos próximos minutos puxei assuntos aleatórios com ela na intenção de relaxá-la. Eu estava nervoso também, preocupado com uma possível reação negativa dela, entretanto eu me esforçava para transmitir força e coragem a ela. Estacionei em frente ao colégio e soltei um suspiro baixo e tenso. Desci do carro e ajudei Mariana a descer com sua mochila. O colégio era particular e com instalações seguras, propiciando conforto. Não era muito amplo, o que me alegrou imensamente. Quanto menos barulho no ambiente, mas tornava-o adaptável para Mariana. - Papai... A mãozinha dela apertou a minha em temor, conforme nos aproximávamos do portão. A coordenadora estava nos esperando com um sorriso aberto. Ajoelhei-me de frente para Mariana e acarinhei o pequeno rostinho amedrontado dela. - Repita comigo: Eu sou forte! - Eu sou forte. - Uma menina inteligente – prossegui. - Uma menina inteligente. - Sou corajosa. – Ela hesitou. – Vai filha... – insisti. - Sou corajosa.


- Eu posso. Eu faço. Eu consigo – reforcei com firmeza. - Eu posso. Eu faço. Eu consigo. - E por último, mas não menos importante: Eu tenho o melhor pai do mundo! Na mesma hora ela gargalhou alto, rodeando meu pescoço com seus bracinhos. Apertou-me contra si enquanto eu soltava beijos frenéticos em sua cabeça, desejando que ela ficasse calma e que tentasse fazer amizades. Levantei-me e lentamente a entreguei nas mãos da coordenadora que nos encarava com encantamento. - Pode me ligar a qualquer momento – falei agoniado. – Estarei com o telefone em mãos, pronto para vir buscá-la ao mínimo sinal de desconforto – acrescentei. - Vai tranqüilo, pai – disse ela, sorrindo. Endureci o maxilar em nervosismo, porém forcei um sorriso encorajador para Mariana quando a mesma se virou para me olhar e se despedir. Fiquei alguns instantes no mesmo lugar, até retornar ao carro novamente. Abri o vidro da janela ansiando que o frescor da brisa acalmasse meu coração. Cheguei à empresa e enquanto seguia para minha sala, esbarrei em Bianca no caminho. - Opa! – exclamou ela. - Me desculpa – falei, envergonhado com minha agitação. - Sem problemas – disse ela, analisando-me antes de se abaixar para pegar os papéis que haviam caído no chão. – Você está bem? – questionou-me quando passei a ajudá-la. Nossos olhos se encontraram e pude ver o quanto os seus estavam preocupados. - Estou sim – respondi. – Apenas um pouco nervoso com o primeiro dia de aula da minha filha no novo colégio. - Ah – disse ela. – Vai dar tudo certo, Marcos – reforçou com mais ênfase. - Eu sei que sim – falei, entregando-a o último papel. Constrangido ensaiei passar por ela e prosseguir até minha sala, porém ela me parou. - Qualquer coisa, pode contar comigo – falou, olhando-me com intensidade. O rosto dela estava quase natural, havia apenas uma maquiagem leve e simples. Os olhos extremamente azuis contrastando com os lábios rosados. - Obrigado. Sorrimos um para o outro e em seguida nos viramos para realizar nossos afazeres do dia. ∞ No meio da manhã aproveitei um pequeno intervalo entre um treino e outro para me afastar


e poder ligar para o colégio. Fui até o refeitório da empresa, agradecendo que o mesmo estava vazio. Realizei a chamada e fiquei no aguardo para que alguém me atendesse. - Bom dia – falei, assim que fui atendido. – Gostaria de saber sobre o comportamento da minha filha Mariana Fontana. Sou o pai dela. Ela está no primeiro dia e estou um pouco receoso... - Só um momento. Passei a mão livre no rosto e nos cabelos. A agonia da preocupação estava me sufocando e sentia-me completamente aéreo às coisas ao meu redor. - Senhor? - Sim – respondi mais do que depressa. - Agora ela está mais calma, pai... - Como assim, agora ela está mais calma? – cortei-a, alarmado. – O que aconteceu com ela? – Meu tom de voz alterou-se imediatamente. - Peço para que se acalme pai e fique tranqüilo – disse a mulher, da forma mais calma possível. – Sua filha em determinado momento se sentiu assustada e começou a chorar, porém a professora conseguiu distraí-la. Agora ela está bem. Fechei os olhos e cobri a boca com a mão. Estava indignado com aquele episódio e por não ter sido comunicado. Era a minha filha, porra! - Estou indo buscá-la – decretei. Sequer dei tempo para a mulher argumentar. Encerrei a ligação e me virei para sair do refeitório. Meu corpo antes tenso, naquele momento encontrava-se rígido como rocha. Eu sabia que Mariana se sentiria assustada e acuada. Doía em minha alma saber que minha filha poderia estar sofrendo. Aproximei-me da sala da Bianca e dei duas batidas agitadas. Entrei quando fui permitido. Bianca surpreendeu-se a me ver, ela parecia estar se preparando para sair. - Algum problema, Marcos? – quis saber. – Estou de saída agora, mas se eu... - Preciso sair agora – falei em um fôlego só. – É urgente – acrescentei. Os olhos dela se estreitaram em preocupação e percebi seu corpo se empertigar. - O que aconteceu? Cocei a garganta, avaliando o que poderia responder. Poderia ser grosseiro e fugir da questão. Ou mentir. Ou ser honesto. Incapaz de passar mais um minuto convivendo com o pânico que se instalara no meu peito, a honestidade venceu. - A minha filha não parece estar bem no colégio. Preciso ir buscá-la – sussurrei meu rosto pressionado contra minhas mãos no momento em que o esfreguei.


- Marcos? – Senti seus olhos em cima de mim. - Eu sei que, abandonar o trabalho em pleno expediente não é nem um pouco profissional. – Limpei a voz, determinado a expulsar aquela vulnerabilidade que me abateu. – Mas, necessito estar do lado dela nesse momento. Conheço minha filha e sei que ela não está bem. – Minha respiração estava irregular, devido à adrenalina. Olhei para ela. – Se for preciso, eu ligo para o Andrew e explico eu mesmo. – Um riso nervoso escapou de minha garganta. – Eu só preciso ir... - Vou com você. Endireitei o corpo, um rubor rastejou em minhas bochechas. Empertiguei-me quando ela passou por mim em passos apressados. - O que pensa que está fazendo? – indaguei em um sussurro, quando a vi deixando recados a respeito de nossa saída. - Irei com você – disse simplesmente, enquanto rapidamente seguíamos para o estacionamento. - Não me lembro de ter pedido companhia. – Suspirei em frustração. - E não pediu, irei mesmo assim – falou ela, enquanto desligava o alarme do seu carro. Então a irritação tomou conta de mim. - Eu apenas lhe expliquei meus motivos, Bianca. É um tanto rude de sua parte, querer tomar uma decisão sem saber do meu consentimento. Não acha? - Marcos... – Foi a vez de ela suspirar em frustração. – Olhe para você. – Franzi o cenho tentando entender seu ponto. – Você está uma mistura de sinais confusos. Como pretende dirigir assim? Pior, como pretende confortar sua filha, quando claramente você precisa ser confortado também? Ela colocou a mão no meu ombro. Respirei profundamente. De olhos fechados me vi assentindo, claramente de acordo com a análise dela a meu respeito naquele momento. - Entre no carro, por favor. Levarei você até sua filha. Agindo no automático, fiz o que ela pediu e instantes depois estávamos no trafego da marginal. A tensão que havia se instalado em meu peito parecia apertar meu coração com força e crueldade. Abri o vidro da janela em busca de alívio para o calor da preocupação que se espalhava em meu rosto. - Vai ficar tudo bem. – Bianca disse de repente, sua voz doce como o mel. – Eu tive problemas com isso também quando eu tinha a idade dela. O medo faz parte do novo. - Mariana sofre com ansiedade, embora ela não tenha sido diagnosticada com a síndrome do pânico pelo fato de ser muito nova. Ela ainda era um bebê de colo quando perdeu a mãe, mas creio que de alguma forma, isso tenha acarretado a um grande impacto na cabecinha dela.


- É possível, sim – falou. – Quando crianças absorvemos tudo de maneira mais profunda e é assim que se criam os traumas. Olhei para ela e a senti completamente rígida. Os ombros tensos e o semblante endurecido. Abri a boca para falar, porém resolvi permanecer silencioso. Longos minutos se passaram e então estávamos lá. Bianca estacionou em frente ao colégio. Eu estava alheio aos movimentos que ela fazia ao fechar a porta do carro, guardar as chaves na bolsa e ao andar atrás de mim em direção à entrada do estabelecimento. O barulho ensurdecedor dos meus batimentos cardíacos, aliado ao tremor em meus músculos enrijecidos, tornou-me vulnerável demais. - Vim buscar a minha filha – falei diretamente a coordenadora. Minha respiração estava ruidosa. A mulher analisou o horário e me encarou com curiosidade. - Você é o pai da aluna nova, certo? A Mariana? - Correto. Sou eu mesmo – respondi agitado. – Pode fazer o favor de buscá-la? - Marcos... – Bianca sussurrou atrás de mim, de maneira cautelosa. - Penso não ser necessário levá-la tão cedo, pai. Ela está calma agora e... - Eu irei levá-la – cortei-a rudemente. – Conheço minha filha e sei do que ela precisa. Imediatamente Bianca tomou a frente e falou calmamente com a mulher. - Perdoe-o pelo tom rude, pois ele está um pouco nervoso – disse ela. – Ele como o pai, tem total direito de levar a filha para casa. Concorda? A Mariana possui uma fragilidade emocional e é correto levá-la para um lugar que a tranqüilize, caso contrário só irá piorar a vulnerabilidade dela. Soltando um suspiro baixo, a coordenadora concordou com a cabeça, em seguida se virou nos calcanhares pedindo gentilmente para que esperássemos. - Você precisa se acalmar, Marcos – disse Bianca para mim. – As coisas não se resolvem na violência – sibilou. – Lembre-se: Mariana é sua. Sua. Pisquei freneticamente, lutando contra as lágrimas. Aquela situação estava acabando com meu emocional. - Tudo bem – falei e suspirei. Coloquei as mãos na cintura e permaneci andando de um lado para o outro até que ouvi passos em nossa direção e o grito eufórico da Mariana. - Papai! Emoção e alívio me inundaram quando ergui minha pequena nos braços. Enchi sua cabeça de beijos enquanto me certificava de que ela realmente estava bem. Com ela ainda em meus braços olhei ao redor. Bianca me mostrou a mochila da Mariana em


suas mãos e com um sorriso me indicou o caminho de volta ao carro. Devolvi o sorriso e completamente emocionado e aliviado, caminhei com Mariana agarrada a mim. Assim que chegamos ao carro eu a depositei no chão. Ajoelhei-me diante dela e carinhosamente toquei seu rostinho infantil. - Você está bem, meu amor? – Ela me olhou por alguns instantes, em seguida desviou o olhar para a Bianca ao nosso lado. – Você se sentiu assustada? – insisti, tocando seu queixo e forçando seu rosto novamente para mim. Novamente ela me encarou, porém retornou a olhar para Bianca. Percebi quando a Bianca se ajoelhou ao meu lado e abriu um sorriso lento para a minha filha. - Você se lembra de mim, princesa? – perguntou ela, entretanto Mariana nada respondeu. – O seu papai é muito bobo, sabia? – Olhei de modo estranho para ela. – Às vezes ele fica com medo de que você se machuque, ele se preocupa com os seus passos quando não está por perto. – Pausou e lentamente se aproximou de Mariana. – Mas sabe o que eu acho, ou melhor, o que eu tenho certeza? – Olhei para Mariana e a mesma balançou a cabeça negativamente com os olhos fixos em Bianca. – Que você é uma menina muito, muito forte, tão corajosa quanto à princesa Elsa do Frozen. Conhece-a? Sorrindo envergonhada, Mariana confirmou. Havia um brilho diferente nos olhinhos dela. Bianca me surpreendendo ainda mais retirou a corrente no qual estava usando e descansou a mesma nas mãos, olhando Mariana cautelosamente. - Você aceita um presente meu? Mariana se aproximou dela e estendeu sua pequena mãozinha, deixando-me ainda mais surpreso. - Esse é um pingente que representa coragem. – Bianca explicou. – Vire-se princesa, assim posso colocar em você – pediu ela de forma branda e carinhosa. – Eu ganhei de uma pessoa muito especial para mim. – Ela sorriu. – Agora é sua. – Tocou o rosto da Mariana quando a mesma voltou a se virar para nós. Um enorme sorriso abrilhantava os lábios dela. – Quando estiver com medo, toque-a e tente se lembrar das coisas boas e dos sentimentos bons. Combinado? A resposta veio em forma de um abraço. Bianca me olhou de soslaio e sorriu piscando um olho para mim enquanto aninhava Mariana em seus braços. Ergui-me completamente atônito diante da cena que acabara de se desenrolar diante dos meus olhos. Mariana sempre fora tão reclusa que toda aquela inteiração com Bianca deixou-me pasmo. - Marcos? – Pisquei ao escutar a voz da Bianca. – Podemos ir? - Ah, sim – falei ainda zonzo. Mariana já estava instalada no banco de trás do carro. - Marcos? – Bianca me parou no momento em que eu me preparava para dar a volta no carro. – Prometi levá-la para dar uma volta na praia antes de ir para casa – explicou ela, me olhando com expressão culpada. – Desculpa, acho que me emocionei e...


- Tudo bem. – Interrompi suas palavras, eu estava muito sensibilizado com o carinho dela para com minha filha. – Acho a idéia perfeita. – Sorri contido. Completamente radiante ela sorriu também e aproveitei para pegar suas mãos e apertá-las. - Obrigado. Olhando para nossas mãos unidas, ela mordeu levemente os lábios antes de me olhar. - Não por isso.


Capítulo 5 Marcos Fontana - Acredito que não seja muito prudente o que estamos fazendo – comentei de repente. Bianca dobrou as pernas e me olhou intrigada. Estávamos a alguns minutos na praia, observando a queda das ondas enquanto Mariana encontrava-se brincando em nossa frente sob um guarda-sol. - E o que estamos fazendo? – intimou Bianca. – O que a sua mente condena como errado, Marcos? Empertiguei-me relaxando os joelhos e apoiei o corpo sob as mãos espalmadas na areia. - Estamos agindo como se não tivéssemos responsabilidades, oras – resmunguei, sem olhar para ela. Havia uma conexão inexplicável quando aquilo acontecia. - Você não se permite viver, Marcos – disse ela tranquilamente. – Vejo que você se fechou em uma armadura impenetrável, onde as prioridades são a sua filha e o seu trabalho. - E isso é errado a seu ver? – questionei-a. - Acontece que a questão não é essa, Marcos – respondeu ela. – Mas, é preciso haver limites, é necessário saber dosar as prioridades, do lazer. - Eu não tenho tempo para lazer – falei taxativo. - Está vendo? – retrucou. – Isso não é algo normal Uma risada sarcástica explodiu de minha garganta. - O normal seria agir de forma impulsiva como você, eu suponho? Surpreendendo-me, ela sorriu sem demonstrar ofensa alguma. - Por que não? – replicou com divertimento. – A leveza da vida se esconde nas coisas loucas. Nunca ouviu dizer? Soltei uma risada divertida e a encarei. Os olhos azuis me examinavam com extrema intensidade. - Com a idade que tenho não me sinto confortável em viver loucuras. Não mais – acrescentei. O silêncio se fez presente e ambos nos fechamos em nossas conchas. A leve brisa pairava entre nós, aliviando o calor dos raios do sol sob nossas peles. Uma tensão absurda me abatia internamente na presença da Bianca. - Em algum momento iremos conversar sobre o que nos aconteceu naquele carro, Marcos? – perguntou ela, quebrando o silêncio. – Iremos conversar sobre a nossa transa? - Eu não vejo motivos para tal, uma vez que foi algo impulsivo. Aqueles olhos de um azul perturbador chisparam em minha direção com indignação. - Então, não significou nada para você? – intimou, em um sussurro.


Endureci o maxilar, extremamente incomodado com aquele assunto. - Faz alguma diferença? - A sua grosseria é um costume ou, é somente direcionada a mim? Suspirei frustrado enquanto baixava os olhos. O incômodo persistindo em meu sufocar. - O que quer de mim, Bianca? Qual a porra do seu propósito com esse assunto? - Não existe propósito algum! – respondeu irritada. – Apenas tenho curiosidade em saber sobre seus pensamentos ao meu respeito – acrescentou em um tom mais ameno, logo em seguida se calou. Repousei os braços em meus joelhos e tornei-me pensativo por alguns instantes. Meu olhar caiu sob a Mariana e senti-me estranho com a sensação que invadiu o meu interior. Era extremamente sufocante ter de sair da minha zona de conforto. - Por que tem tanto interesse em saber? – indaguei por fim, virando-me para ela. Uma rajada de vento bagunçou alguns fios de seu cabelo e contive o desejo de embrenhar meus dedos entre eles. - A forma como você amou o meu corpo foi única, Marcos. Eu nunca tive tanto prazer como nos longos minutos em que você me tomou como sua – sussurrou, de modo que apenas nós dois ouvimos. A sinceridade estava dolorosamente expressa em seus olhos. – Sei que praticamente o induzi a fazer àquilo, mas juro que não me arrependo, Marcos. – Vi quando o olhar dela desceu por meu corpo, fixando-se em meu peitoral parcialmente desnudo, os lábios presos entre os dentes. Aquele simples ato me deixou quente. – Mas, não é como se eu fosse te perseguir ou coisa parecida. – Sorriu amplamente para mim, os olhos brilhantes. – Apenas estou sendo honesta com você sobre como eu me sinto. - E o que isso significa realmente? Ela voltou a sorrir, porém com um pouco mais de malícia dessa vez. - Significa que tenho tesão por você – respondeu com uma firmeza chocante. – Respeito você, a sua vida e suas prioridades, porém acho você gostoso pra caralho! Ficamos nos encarando, entretanto não controlei a gargalhada. Contudo me vi acuado diante da sinceridade dela e minha risada foi de extremo nervosismo. Levantei-me batendo a areia da minha roupa. No impulso segurei-a quando tentou se levantar, mas tropeçou nos próprios pés descalços. Arquejei quando notei nossos rostos próximos devido a minha mão ter ido parar em sua cintura. - Você possui uma boca muito suja, sabia? – sussurrei, referindo-me às suas palavras anteriores. Sem deixar que retrucasse me afastei de seu corpo. - Filha? – chamei. – Temos que ir amor – acrescentei.


Levantando-se ela esfregou a parte de trás de seu uniforme e fez uma careta ao notar suas mãos sujas. - Eca! Estou muito suja – queixou-se, fazendo eu e Bianca, sorrirem. - Se sujar faz parte da brincadeira, princesa. – Bianca comentou inclinando-se sobre os joelhos na frente dela. – Faz parte da diversão. – Mariana abriu um enorme sorriso. - Você acha? – perguntou ela, pela primeira vez falando com a Bianca. Bianca me olhou de soslaio, o brilho nos olhos era nítido. - É claro que sim! As princesas também possuem o direito de se divertir – disse ela, acariciando as bochechas da Mariana. - Vamos sair desse sol? – propus ansioso por acabar com aquela situação estranha. – Está perto do horário de almoço, também. Bianca coçou a garganta. - Podemos almoçar em algum lugar. O que acham? - Não se preocupe – respondi, enquanto me abaixava para pegar nossas coisas. – Fiquei de ir para casa. - Ah – Bianca resmungou em um muxoxo. - A tia Amanda está nos esperando. – Mariana comentou. – Você pode vir também – convidou-a inocentemente. Chegamos ao carro e Bianca nos encarou em constrangimento. - Obrigada querida – falou sorrindo fraco. – Mas, combinamos para outro dia. Está bem? Mariana apenas devolveu o sorriso, antes de entrar no carro. Bianca me encarou com um olhar repleto de significados, entretanto eu decidi permanecer em silêncio. ∞ - Obrigado, mas não era necessário ter nos trazido até aqui – falei sem jeito. – Você poderia ter ido até a empresa e eu viria em meu carro. - Não foi nenhum incômodo – disse ela, desligando o carro. – Garanto que será um enorme prazer para mim, ter de vir buscá-lo daqui a alguns minutos. Permaneci a encarando com um misto de emoções. - Até daqui a pouco então – falei por fim. Despedimos-nos e rapidamente caminhei com Mariana em direção à entrada do prédio. Instantes depois estávamos no apartamento. - Nossa! Chegaram cedo e... – Amanda se calou abruptamente ao analisar Mariana mais de perto. – Por que ela está suja de areia, Marcos?


- Nós fomos à praia, tia! – Mariana exclamou com entusiasmo. – Papai me buscou no colégio, junto com aquela moça bonita e... - Filha? – Interrompi sua tagarelice. – Vá tomar um banho, amor. Daqui a pouco iremos descer para almoçar. - Tudo bem – disse e saiu em um rompante. Amanda e eu permanecemos observando-a se afastar pelo corredor e, quando nossos olhares se encontraram novamente, percebi que Amanda estava com um ar acusatório. - O que houve? - Mariana teve uma crise de choro, então decidi ir buscá-la mais cedo – respondi enquanto passava por ela, seguindo na direção da sala. - E o que aquela mulher tem a ver com isso? Por que ela estava com vocês? - Bianca apenas teve a gentileza de se oferecer para ir comigo, uma vez que eu não estava em condições de dirigir. Em seguida decidimos levar Mariana à praia para que ela pudesse se distrair e relaxar mais rapidamente. - Isso não foi nem um pouco profissional, Marcos – decretou. - Ei, que tom é esse? – intimei irritado. - Estou sendo honesta, e isso você não pode me impedir – retrucou petulante. - Posso sim! A proíbo de se meter na minha vida, Amanda. – Rosnei. – Não dou e nem nunca dei direitos a você ou, a qualquer pessoa de apontar qualquer uma de minhas atitudes. Ela engoliu em seco, porém não recuou a postura. - Eu só acho que... - Pois pare de achar! – Cortei-a impaciente. Abri os botões da camisa e me preparei para ir ao quarto. – O seu problema é que você parou no tempo depois que Clarisse faleceu, Amanda – falei engasgado, os olhos dela umedeceram-se. – Esqueceu-se de viver e simplesmente se concentrou em mim e em Mariana. - Eu não me arrependo disso. - E é um direito seu. – Eu disse a encarando nos olhos firmemente. – Apenas peço para que não se esqueça do seu lugar de tia. Dito isto, eu me afastei. Minha cabeça começou a latejar em decorrência de toda aquela maldita tensão. A verdade era que, as coisas estavam acontecendo, ou melhor, se revelando rápido demais e eu pouco estava sabendo lidar com tudo àquilo. ∞ Eu tinha acabado de descer do prédio quando avistei o carro de Bianca estacionado.


Cumprimentei-a assim que entrei, ajeitando-me no banco do passageiro. - Você é pontual – comentei, na intenção de puxar assunto. Ela me olhou de relance e sorriu, arrancando com o carro. - Não gosto de deixar ninguém esperando – falou. Assenti com a cabeça. - Mariana está bem? - Está sim – confirmei sorrindo. – Obrigado por perguntar. - Ela é uma ótima garota. - Você é boa com crianças. – Observei. – Pensa em ter filhos? - Bom, eu... O toque do celular a interrompeu. Rapidamente ela colocou o fone na orelha e atendeu a ligação através do sistema de bluetooth do carro. - Fala, estou dirigindo... Não vai dar – Pausou. – Eu me lembro do que combinamos Pedro. – O tom dela soou exaustivo. – Sim, os planos mudaram e não consegui te avisar... uhum... Olha, só, estou chegando à empresa. Falamos-nos daqui a pouco. Beijos. Encerrou a ligação com um suspiro de frustração. - Relacionamento complicado? – perguntei no impulso. Ela me olhou. - Não. Pedro é um cara bacana. – Estranhamente me peguei de mal humor. Odiei aquela resposta. Odiei saber que ela estava com alguém, mesmo que não fosse nada sério. Qual era o problema comigo afinal? – Você não pensa em se relacionar com outra pessoa, Marcos? Pisquei para me concentrar na voz dela. Isolei meus conflitos internos. - O meu futuro é com minha filha – respondi sem pestanejar. Ela sorriu, porém permaneceu em silêncio por alguns instantes. Assim que entramos no estacionamento da empresa, não resisti ao desejo de perguntar: - Não vai comentar nada? - Acredito que você já é bem grandinho. É capaz de levar sua vida da melhor maneira em que almejar. - Por acaso acredita que estou agindo de modo errado? Ela desligou o carro e puxou o freio de mão com certa força. - Você é um homem novo, Marcos. Possui características incríveis e qualidades excepcionais para formar uma bela família com alguém. A sua filha irá crescer e certamente irá casar,


deixando-o só. Já pensou nisso? - Estou acostumado com a solidão – retruquei. - Mentiroso! – Ela exclamou. – Vejo em seus olhos o desejo de viver. - O que mais você vê? – perguntei, instigando-a. Recostando-se melhor em seu banco ela me encarou com mais precisão. Havia um brilho sedutor em seus olhos prestes a me queimar. - O seu desejo por mim – disse sem recuar. - Você acha? – Meu tom saiu rouco. - Eu tenho certeza! Uma mulher sabe quando é desejada. Entreabri os lábios em busca de ar. - Você tem razão – falei. – Eu a desejo furiosamente. – Ela arquejou audivelmente e notei que se contorceu de leve. – Mas, não pretendo dar maior importância a isso. É somente desejo, Bianca. Ela sorriu abertamente. - Não estou me candidatando para ser sua companheira, Marcos. Sinto muito se foi o que pareceu. Franzi o cenho na mesma hora e uma estranha sensação invadiu meu peito. Cocei a garganta. - Sei que não. – Coloquei a mão na maçaneta da porta e ameacei sair do carro, porém Bianca descansou uma de suas mãos em minha coxa. Uma intensa corrente elétrica percorreu o meu corpo, irradiando diretamente em minha virilha. - Vamos nos encontrar hoje à noite – propôs. - O quê? – Minha pergunta saiu em um sussurro abafado. - Acredito que uma noite inteira será o suficiente para nos saciarmos, Marcos. - Está louca? Agoniado com aquilo, me preparei novamente para sair, mas ela tocou-me no rosto e uniu nossos lábios com ânsia. Por um instante permaneceu paralisada, como se estivesse desfrutando do ato. - Eu não fui capaz de esquecer esse teu cheiro – sussurrou, esfregando nossos lábios e inspirando meu ar. – Acordo quase todas as noites com a sensação de ter suas mãos em mim. Apertando-me, marcando-me... – Minha respiração tornou-se descompassada. – A nossa conexão me deixa desnorteada e tenho certeza de que com você, acontece o mesmo. – A mão dela desceu e se alojou entre minhas pernas, apertando o meu pau rígido feito rocha. – Você me quer tanto quanto eu a você, então... - Aonde? – cortei-a ofegante. Minha mão repousou sobre a dela e a induzi a apertar-me


com mais força. – Aonde nos encontramos? Bianca afastou o rosto levemente e mordeu os lábios, enquanto gemia baixinho. Enrolei seus cabelos loiros e puxei sua cabeça para o lado expondo seu pescoço, afundando meu rosto ali. - Encontre-me às 23h00min de hoje no hall de entrada do prédio em que você está morando. Olhei para ela e me vi enlouquecido com todas as reações que ambos parecíamos ter um com o outro. Era desejo cru. Era fogo líquido em minha pele. Eu não era capaz de fugir daquilo. - Estarei lá. – Afirmei, afastando-me dela. – Vamos resolver isso.


Capítulo 6 Marcos Fontana Dizer que eu estava com meu autocontrole intacto, estaria mentindo descaradamente. A expectativa do que eu estava prestes a fazer movia-se freneticamente em minha corrente sanguínea, deixando-me extasiado e desnorteado ao mesmo tempo. Saí do meu quarto e fui direto ao quarto da Mariana. A mesma encontrava-se adormecida lindamente. Repousei os lábios em sua testa e inalei o seu perfume natural adocicado. Afastei-me de sua cama, tomando o cuidado de manter a porta entreaberta ao sair do quarto. Respirei profundamente quando me aproximei da sala onde Amanda trabalhava distraidamente. Analisei seu perfil por alguns instantes, admirando seus cabelos negros e de textura macia. Havia uma sutileza em cada gesto que ela fazia e isso eu até então, nunca havia reparado. - Marcos? – A voz suave dela me despertou. Seu semblante era curioso. – Está precisando de alguma coisa, ou é falta de sono? Dei alguns passos à frente sob seu olhar questionador. - Está trabalhando? – repliquei. Desviando os olhos de mim, ela se voltou ao seu laptop. - Estou revisando alguns arquivos apenas. Aproveitando a inspiração. – Sorriu. - Bacana – falei. Esfreguei uma mão na outra, exalando nervosismo. – Olha só, Amanda, pretendo dar uma saída. – Cocei a garganta, lutando para amenizar aquele desconforto. – Pretendo espairecer um pouco, ando muito estressado ultimamente. - Vai demorar muito? Fico um pouco receosa, Marcos. - Fica tranqüila – afirmei. – Levarei pouco tempo, entretanto eu preciso disso. Amanda me encarou. - Está bem. Assenti com a cabeça e segui em direção à porta de modo inquieto. - Irei levar a chave, ok? - Sem problemas. – Ela falou em tom baixo. – Fique bem, Marcos – desejou sorrindo minimamente. - Obrigado. Qualquer coisa basta me ligar. Assim que fechei a porta e a chaveei por fora, me peguei soltando suspiros ofegos. A tensão do que estava prestes a acontecer me abateu novamente como uma onda gigante e tempestuosa. Céus! Trinta e oito anos não foram suficientes para aplacar aquela euforia do pré-encontro? Droga Marcos! As portas do elevador se abriram e me vi no hall do prédio. Meus olhos analisaram cada


canto do lugar, rastreando ambos os lados à procura dela e eis que se detiveram em uma cabeleira loira. Bianca estava de costas para mim, observando o mural com algumas fotos culturais. Abri a boca para falar, porém me calei ao ouvi-la: - Senti seu cheiro de longe, Marcos. – Ao se virar para mim, pude enxergar aquela mesma fome explícita no olhar. Aqueles olhos de um azul intenso causando-me diversos tremores involuntários. - E então, aonde vamos? – sussurrei, guardando as mãos nos bolsos para evitar tocá-la. - Vem comigo – pediu, enquanto passava por mim fazendo o mesmo trajeto que eu tinha acabado de fazer instantes atrás. - Por que vamos subir? – indaguei confuso, assim que ela parou diante do elevador. – Vai me dizer o que está pretendendo? - Eu mantenho um apartamento aqui – respondeu tranquilamente. Franzi o cenho. - Por quê? – perguntei ainda mais confuso. As portas do elevador se abriram e ambos entramos. Assim que nos vimos isolados, Bianca me agarrou. - É um flat para as minhas fodas – respondeu, enquanto passeava o nariz sob a pele do meu pescoço. Embrenhei os dedos em seus cabelos e os puxei, forçando sua cabeça para trás. Virei-a contra a parede de metal e me aconcheguei ao seu corpo por trás. - É sério isso? – perguntei, sem esconder o espanto. - Não! – Ela exclamou, tentando arquear o corpo ainda mais contra o meu. – Estou nervosa, por isso eu falo bobagens... Beije-me, Marcos... Virei seu corpo abruptamente de frente para mim e desci uma de minhas mãos pela lateral de seu delicioso corpo, perfeitamente amoldado a um vestido verde justo. Toquei nossos lábios, em seguida raspei meus dentes em seu queixo. - Marcos... – Gemeu e ergueu uma de suas pernas, encaixando-a sob meu quadril. As portas do elevador se abriram no último andar do prédio. De forma atordoada, Bianca me puxou pela mão e ambos saímos para o corredor. Assim que paramos diante da porta do tal apartamento, Bianca me soltou para procurar as chaves. Esfreguei suas costas, incapaz de parar de tocá-la. - Entre. – Rosnou Bianca quando abriu a porta para mim. Nós apenas conseguimos passar pela porta e batê-la atrás de nós, quando a empurrei contra a parede próxima. Ela acendeu uma luz, depois pegou o meu rosto entre as mãos e a minha boca com a sua, empurrando sua língua para dentro para duelar com a minha. Gemeu com a


minha barba arranhando sua pele macia. Estranhamente aquela agressividade dela me excitava ainda mais, como se ela não conseguisse obter o suficiente do meu sabor. Eu queria colocar a minha boca em outras partes do corpo dela, tínhamos uma noite toda aos nossos pés e eu não iria desperdiçá-la. Enquanto eu segurava o seu rosto, controlando a intensidade do nosso beijo, suas mãos abriram a minha braguilha e começaram a acariciar-me. Mesmo através da cueca, gemi contra seus lábios ao sentir as carícias. - Seus sons alimentam o meu desejo – sussurrou, afastando-se do meu abraço e me encostando contra a parede. – Você vai precisar de apoio para o que irei fazer agora. – Sorriu marota e então, arriou minha calça e cueca o suficiente para liberar meu pênis. - Oh, Céus! Olhe para ele... – Ronronou lambendo os lábios, enquanto girava a mão pela cabeça do meu pênis. Circulou os dedos em torno da cabeça e deixou minha umidade escorrer na sua mão enquanto descia por minha ereção. Eu gemi quando ela ficou de joelhos. Segurou meu pênis pela base com uma mão, repousou os lábios em torno da glande e chupou-me suavemente. Engasguei, segurando seu cabelo entre os dedos, puxando-o levemente. - Ah, Bianca. Porra... Como que incentivada por meus gemidos, Bianca levou a mão para cima e para baixo do meu pênis, desenvolvendo rapidamente um ritmo constante enquanto lambia e chupava a glande. Deu-me o tratamento completo, arrastando a língua em torno da ponta grossa e macia, raspando os dentes na coroa. Meu pau cresceu e ficou mais duro com aquela atenção. - Bianca, já chega. Empurrei sua cabeça, fazendo meu pênis sair de sua boca. Chocada e confusa, deixou com que eu a ajudasse a se levantar. - O que foi? Não estava gostando? - Pelo contrário, a sua boca é maravilhosa. – Avancei contra seus lábios e beijei-a profundamente. – Mas necessito me enterrar em você desesperadamente. – Passei os braços por seu corpo e arranquei seu vestido pela cabeça. – E você precisa estar nua para que isso aconteça. Ela gemeu, lambendo meu pescoço. - Quero tocar em você... – Suspirou enquanto trabalhava nos botões da minha camisa. – Então você precisa ficar nu também. Puxei-a para mais perto para que pudesse ver sobre seu ombro o que eu estava fazendo. Desabotoei seu sutiã e expus seus belos seios. - Adoro a sensação dos meus seios sendo esmagados contra seu peito nu. – Gemeu ela, no momento em que prensei nossos corpos. Afastei-me e atrapalhei-me com minhas próprias roupas. De costas para mim, Bianca terminou de se despir enquanto eu colocava a camisinha.


- Deixe os sapatos – Pedi, impedindo-a de retirá-los. – Quero comer você desse jeito. Antes de se virar para mim, notei que ela respirou fundo, parecia nervosa. E, cara, eu precisei respirar fundo também quando a vi completamente nua. Aquela visão me afetou demais. Sua barriga era lisinha e seus seios eram fartos e durinhos. E, entre as pernas, o brilho delicioso de sua excitação, incitando-me, instigando-me. Finalmente o meu olhar encontrou o seu rosto e notei que ela estava me analisando com a mesma quantidade de desejo intenso que eu estava sentindo por ela. Nossos olhos se encontraram. Em seguida, já estava em meus braços, enquanto a beijava com fome profunda, os seios esmagados contra meu peito. Logo, enfiei as mãos debaixo de seu bumbum e a levantei. Envolvi suas pernas em volta da minha cintura e seus braços ao redor do meu pescoço. , enquanto ajustava seus quadris sobre meu pênis. Parei na entrada. - Droga! Eu não a deixei pronta... - Estou mais do que pronta. Penetre em mim, Marcos – implorou. Sorri quando a penetrei com um impulso feroz. Meu pênis ardeu dentro da vagina ainda não totalmente molhada, mas ainda era maravilhosamente delicioso. Tão profundo e duro. Eu não perdi tempo em estabelecer um ritmo constante, penetrando-a com vigor a cada golpe. A força para mantê-la naquela posição e fodê-la com tanto vigor sequer me incomodou. Eu estava em boa forma. Seus seios saltavam com o nosso movimento, e os choques de prazer atravessaram meu corpo enquanto seus mamilos sensíveis roçavam em meu peito. Senti a umidade de o seu sexo aumentar, permitindo-me entrar e sair com mais facilidade. - Marcos, sim. Sim. Nossos olhos permaneceram travados um no outro e eu pude ver a tensão e o prazer entalhados na testa, enquanto eu continuava a nos impulsionar para o clímax. - Uma... Delícia... – Arquejava. – Você é... Bom pra caralho. Seu encorajamento e o som de nossas coxas batendo me deixaram louco e, muito perto do orgasmo. A cada impulso dos meus quadris, seu sexo se apertava ao redor da minha ereção. Vireia para a parede para conseguir um apoio adicional, ajustando minha posição para que pudesse penetrá-la com maior ímpeto. A nova posição liberou minha mão e eu pude esfregar o seu clitóris enquanto a ponta do meu pênis encontrava um ponto sensível dentro dela. - Goze junto comigo, Bianca – ordenei. – Agora. Meu tom autoritário e meu polegar circulando o seu clitóris a fizeram desmanchar-se. Jogou sua cabeça para trás, na parede, sua vagina tremia quando o orgasmo a atravessou. Eu a segui, gemendo ensandecido enquanto me liberava dentro dela com jorros longos e quentes. Bianca soltou suas pernas da minha cintura e apoiou os pés no chão, o que eu agradeci, pois eu não conseguiria continuar carregando-a depois daquela violenta liberação.


Embora não suportasse mais o peso dela, não a soltei. - Vamos conseguir fazer isso de novo? – Ofegou antes mesmo de nossos corpos se esfriarem. Eu franzi o cenho quando soltei o braço, que estava em volta dela, para olhar para o relógio. - Precisamos estar no trabalho às 08h00min de amanhã. Sendo assim, temos bastante tempo ainda.


Capítulo 7 Marcos Fontana Completamente recostado contra a cabeceira da cama, observei a beleza do corpo da Bianca que se encontrava deitada de costas para mim. Os belos cabelos loiros estavam espalhados por sob os lençóis e pescoço, exalando um perfume formidável. Havia se passado quase duas horas desde o momento em que havíamos nos atracado ainda na porta do apartamento. Eu nunca transei tantas vezes seguida e por incrível que pareça ainda me excitava à visão do seu corpo nu. - O que está pensando? – Ela perguntou de repente. Virou-se de barriga para cima e meus olhos se fixaram em seus mamilos eriçados. Belisquei um e, depois o outro. - Estou pensando no quanto você é bela – falei sincero. – E no quanto é fácil se perder nos seus encantos. Ela sorriu abertamente e voltou a virar o corpo, entretanto em minha direção, apoiando a cabeça sobre a mão. - É isso o que está acontecendo com você? – quis saber. Desviei do seu olhar, ignorando qualquer emoção que me abateu naquele momento. - O que aconteceu conosco hoje e semanas atrás naquele carro foi tesão puro, Bianca. Foi impulsividade de ambas as partes, foi fogo e pele... - Não pense que estou te cobrando algo mais, Marcos – disse ela, me cortando e fazendome encará-la. - Isso é bom – concordei. – Sequer tenho psicológico para relacionamentos que exija mais do que eu posso suportar. - Por quê? Emoções diversas ameaçaram me abater e senti-me aliviado por não estar olhando para ela. Eu estava condenado a viver o resto da minha vida com medo de me tornar próximo das pessoas? - Meu... Meu coração está quebrado. O pedaço que sobrou é exclusivamente da minha filha. A mão da Bianca enrolou-se no meu cabelo, acalmando-me. Ela se sentou, ajeitando-se ao meu lado, nossos ombros se roçando. - Sua filha tem muita sorte de tê-lo. Um pai amoroso e presente como você, é uma dádiva. Com a testa franzida, olhei nos olhos dela. - Você fala como se não tivesse tido esse carinho. – Observei, passando a mão em sua bochecha e retirando algumas mexas de seu cabelo do rosto. - E não tive. – Ela se concentrou em suas mãos em seu colo. – Fui criada apenas por minha mãe e, ela definitivamente não foi um exemplo. Deixei de acariciar os seus cabelos e olhei para além dela. Uma dor profunda entranhou-se


em meu peito. Em seguida, relaxei e voltei a me concentrar nela. - Eu sinto muito por você. - Obrigada. – Sorriu fraco e surpreendeu-me ao se sentar em meu colo, as pernas ao meu redor. – Aceita tomar um banho comigo? Passei os braços em volta dela e mordisquei sua orelha. - Sua sutileza em mudar de assunto é admirável. – Seu rosto ruborizou automaticamente. - Não sou de dar muita importância à assuntos que me desagradam. Por que é a prova de minhas loucuras. - Todos nós já fizemos coisas insanas no passado. – Beijei seu nariz. - Sempre tive medo de pirar, sabe? Na verdade a forma com que eu enfrento as rejeições é tranqüila. Sou firme e forte. - É assim nos relacionamentos amorosos também? Ela corou novamente. - Sou intensa, Marcos. Mas, aprendi a me virar sozinha muito cedo. Jamais parei a minha vida por conta de um coração ferido. - Você é forte... - Eu tento ser. - Eu também – confessei. Naquele momento a nossa proximidade não poderia ter sido mais intensa. Havia algo além da cumplicidade de confissões, havia uma bagunça de sentimentos e tudo o que consegui fazer, foi beijá-la e amar o seu corpo um pouco mais. ∞ Alguns dias se passaram e com isso a rotina se fez presente. Bianca e eu decidimos permanecer com a nossa relação distante e profissional, entretanto aquela situação estava me consumindo por alguma razão que eu ainda não sabia dizer o porquê. Nossos encontros e esbarrões aconteciam freqüentemente e quase sempre aquela conexão louca entre nós se fazia presente e um desejo insano de agarrá-la se apossava de mim com uma força faminta. Sentia-me aterrorizado diante de tais reações. - Estamos indo tomar uns drinks e jogar conversa fora, Marcos. Está a fim de nos acompanhar? Saí dos meus devaneios quando escutei a voz do Felipe ao meu lado. Ele fazia parte da turma de segurança no qual eu estava auxiliando nas novas técnicas. Analisei o horário e voltei a encará-lo. - Já passou das 17hs, Felipe. Gosto de estar em casa cedo para brincar um pouco com a minha filha antes de ela dormir.


Ele sorriu e deu um tapinha no meu ombro, empurrando-me de leve para o estacionamento da empresa. - Alguns minutos, Marcos. Um homem precisa de um momento de descontração entre amigos. Ponderei suas palavras e no fim, concordei. O estresse estava exalando por meus poros e no fundo, eu necessitava de um espaço para respirar e tentar aliviar a tensão dos músculos. - Você tem razão – falei sorrindo. Espelhando o mesmo sorriso animado, ele me passou as coordenadas do lugar onde a turma sempre se reunia e em seguida se encaminhou para o carro onde o aguardavam. - Te esperamos lá – Gritaram em uníssono. Animado, entrei no meu carro e aproveitei para segui-los. No caminho liguei rapidamente para a Amanda e avisei do meu pequeno atraso. Eu não tinha a intenção de preocupá-la em vão. Longos minutos depois, observei o carro deles adentrar em um estacionamento aberto. O local parecia extremamente despojado e parecia ser anexado a um prédio de aspecto simples, mas de bom gosto. Estacionei meu carro um pouco mais adiante e ao descer algo me chamou a atenção, aliás, uma voz. Os rapazes começaram a me chamar para poder acompanhá-los, porém o meu foco estava fixado em uma cena em frente ao tal prédio. Eu não conseguia escutar perfeitamente, pois o som de vozes alteradas e da música ao vivo atrapalhava consideravelmente. Decidido, fiz sinal para que eles seguissem sem mim e que logo mais eu os encontraria e, com isso voltei a me focar no que minha curiosidade estava gritando. Eu não tive a certeza no momento em que desci do carro, porém me aproximando um pouco mais, pude ver claramente a silhueta da Bianca. Ela estava recostada no carro e praticamente parecia estar sendo acuada por Pedro. Ele estava nervoso com ela por alguma razão. Olhei para a fachada do prédio e imaginei que ela morava ali. - Eu nunca falei que nosso relacionamento era sério, Pedro. – Escutei a voz dela. O tom saiu exaustivo com uma pitada de nervosismo. - Mas eu sempre te respeitei, Bianca! Ficava somente com você, porra! Escondi-me atrás de um carro e permaneci ali. Bianca esfregou o rosto com ambas as mãos e soltou um suspiro ofego. - Como eu disse: Sinto muito. Ela tentou escapar passando por ele, mas sequer conseguiu dar dois passos à frente. - De quem é? – Ele perguntou, segurando-a pelo braço. – Pelo menos eu tenho o direito de saber. Franzi o cenho diante daquelas palavras, mas respirei fundo e continuei escutando.


- Não é da sua conta. – Ela respondeu taxativa. – Eu permiti que você fizesse parte da minha vida por esse tempo, Pedro, porém agora acabou! Peço para que cuide da sua vida daqui por diante – decretou. Ele gargalhou e se aproximou dela. Preparei-me para me meter caso ele a ameaçasse, agredindo-a fisicamente. - Então é assim? Simples? Bianca se encolheu, rodeando o próprio corpo com suas mãos. Ela estava desconfortável e aquilo era notável. - Eu não vejo razão para dramatizar. - Pelo amor de Deus, Bianca. – Ele gritou de repente, assustando-a. – Você está grávida, caralho! - Mas o filho não é seu, droga! – revidou ela e em seguida virou-se nos calcanhares deixando-o sozinho enquanto seguia na direção do prédio. As palavras explodiram feito vidro estilhaçado no meu ouvido. Por instantes intermináveis, meu mundo e minha mente pararam. Imediatamente busquei o apoio do carro próximo a mim e comecei a respirar freneticamente. Lutei bravamente para deixar o ar entrar e sair pelas minhas vias respiratórias. Meus batimentos cardíacos aceleraram-se de modo aterrorizante, contudo o que mais estava me aterrorizando era a pequena confissão que havia acabado de sair da boca da Bianca. Como assim ela estava grávida? Desde quando? Incapaz de ficar perdido nas próprias divagações, eu parti em direção ao prédio que ela havia seguido anteriormente. Pedro já tinha ido embora, o que eu agradeci internamente. Com meu estado de espírito abalado como estava provavelmente não seria possível eu controlar meus instintos assassinos. Assim que eu entrei no hall de entrada, um pequeno tumulto estava formado perto do elevador. Ao me aproximar vi Bianca estirada no chão e alguém pressionava algo contra o rosto dela. Suor frio cobria a sua pele que se encontrava pálida. - Você desmaiou querida. Fique quieta por enquanto. – Uma mulher disse. Desesperado, me inclinei ao lado dela e forcei seu olhar para mim. - Bianca. – Ela me encarou, os olhos assustados. – Você está com alguma dor? Quer que chamemos a ambulância? Fechando os olhos com força, ela soltou respirações curtas. - Eu estou melhor – falou. – Foi uma tontura. Pode me ajudar a levantar? – pediu. Fiz sinal de positivo para as outras pessoas que aos poucos foram se dissipando. Dali em diante eu mesmo cuidaria dela. Com seu corpo apoiado no meu, entramos no elevador e em silêncio subimos ao andar no


qual ficava seu apartamento. Eu desejava não ter compreendido o que ela havia revelado na discussão com o Pedro, entretanto aquilo estava visível para mim. - É aquele no final do corredor. – Apontou para o último apartamento assim que saímos do elevador. Obviamente eu não conhecia o apartamento dela. Quando entrei, fiquei surpreso por sentirme imediatamente como se estivesse voltando a um lugar ao mesmo tempo confortável e familiar. O lugar era tão ela. Bianca era uma pessoa organizada e de gostos simples, mas sua sensualidade inata transparecia em sua escolha de texturas e nas fáceis misturas de cores. O espaço aberto, com a cozinha integrado à sala, era minúsculo, no entanto, havia lugar para tudo. Instantes depois gentilmente a ajudei a se sentar no pequeno sofá e fiquei ao seu lado. - Está se sentindo melhor? – quis saber. – Quer que eu traga alguma coisa? Aliás, quer que eu faça alguma coisa? Ela mordeu os lábios e jogou-se para trás no sofá. - Eu estou bem. Apenas uma tontura, Marcos – disse. – A propósito, o que estava fazendo aqui? - Eu estava bebendo com os rapazes lá embaixo – expliquei nervoso. Ela permaneceu me olhando, como se esperasse um complemento à minha resposta. – Você me conhece, Bianca e sabe que não sou adepto à enrolações – emendei. – Eu escutei a sua discussão com o Pedro e foi por isso que segui você, coincidindo em encontrá-la caída no piso da recepção. Ela soltou um suspiro e encolheu as pernas. Convidou-me para me sentar ao seu lado. - O que quer saber, Marcos? – perguntou em um sussurro quando me juntei a ela no sofá. Nossos olhos estavam conectados com intensidade. - Nós não usamos camisinha quando transamos naquele carro – afirmei o coração aos pulos. – Existe alguma possibilidade de esse filho ser meu? Imediatamente ela tocou o seu ventre carinhosamente. - Sim. Minha pele se arrepiou e quase engasguei com as próximas palavras: - Si-sim o quê? - Estou grávida de você, Marcos. O bebê que estou gerando é seu. Choque misturado à náusea, tontura, pânico e horror trespassaram por meu corpo. Eu achava que nada poderia ser mais estressante do que ter que lidar com a correria que eram os meus dias; contudo ter de lidar com uma gravidez não planejada ultrapassava meus próprios limites.


Capítulo 8 Marcos Fontana A adrenalina percorrendo meu corpo trêmulo fez-me levantar apavorado. Diversos pensamentos se apossando da minha mente, ameaçando o meu autocontrole. - Marcos? Ao longe ouvi a Bianca me chamando, porém eu estava preso em minha própria nuvem carregada de pânico e horror. - Desde quando você soube? – Minha voz saiu em um fiapo. - Fiz um teste na semana passada. Acredito que eu esteja de uns dois meses e meio – respondeu no mesmo tom baixo e cauteloso. Comecei a caminhar de um lado para o outro enquanto o meu cérebro processava toda aquela descoberta. - E quando pensava em me contar? – Virei-me para ela expondo a minha indignação. – Aliás, como pode ter certeza de que eu sou o pai? – acusei. Suas sobrancelhas se arquearam e imediatamente seu semblante se fechou enquanto ela cruzava os braços sobre o peito. - Na verdade eu não estava com a intenção de contar a você – disse, deixando-me atônito. – Eu não transei com o Pedro ou com qualquer outro, apenas com você nos últimos meses – explicou com um pouco de irritação. Ela parecia ofendida. - Não a conheço o suficiente para ter essa certeza. Na mesma hora ela se levantou e esticou o dedo indicador diante de mim, completamente revoltada. - Estou pouco me lixando para os seus questionamentos ou suas dúvidas, Marcos. – Ela disse entre dentes. – Esse bebê é somente meu e nenhum de nós dois precisa de caridade alheia. Em que momento você me ouviu te cobrando alguma coisa? – questionou ela. Trinquei o maxilar. - Pare de falar besteira, Bianca. – Rosnei impaciente. – Você não me cobrou, mas se eu realmente for o pai, irei arcar com minhas responsabilidades. Não me compare a esses moleques no qual você está acostumada. Uma de suas mãos partiu em cheio em um dos lados do meu rosto. Senti minha bochecha queimar com a ardência do tapa. O olhar de Bianca trazia uma mistura de emoções e seus olhos claros estavam marejados, pareciam magoados. - Saia da minha casa. – Seu tom estava engasgado pelo choro. Fechei os olhos, angustiado e confuso. – Saia, Marcos! – repetiu. Ergui a mão na intenção de tocá-la, porém ela se esquivou e gritou: - SAIA! Recuei quase imperceptivelmente.


- Eu irei. Entretanto, vamos deixar algo bem claro. Qualquer acordo em que cheguemos depende do teste de paternidade que prove que eu sou o pai. - Tenho uma vida além da sua gloriosa presença. – Suspirou. – Não quero nada de você, Marcos. Apenas quero o meu filho. – Ela foi até a janela com a mão pousada na barriga. Seu rosto estava sério. Tirei relutantemente os olhos de cima dela, inquieto com o quanto a sua simplicidade honesta me afetou. Ela fez-me contorcer com o desejo de confortá-la, e não apenas verbalmente. Por motivos desconhecidos, eu queria tanto abraçá-la que meu corpo todo doía. No dia seguinte me peguei observando Mariana enquanto ela saboreava o seu café-damanhã. Eu havia passado a noite praticamente em claro, sequer fui capaz de fechar os olhos. Aquilo não combinava comigo. Eu tinha meus momentos de delicadeza quando se tratava da minha filha ou da Clarisse na época em que estava viva. Sempre foram amadas por mim e eram minha responsabilidade. Eu ainda me encolhia de culpa quando me lembrava de como passei meus primeiros anos de adolescência na farra, bebendo e andando atrás de garotas, completamente alheio ao que acontecia na minha volta. Apesar de o vício do meu padrasto ter sido tão brutal e egoísta, a morte do homem estilhaçou os corações das pessoas no qual eu deveria me importar profundamente, mas não o fiz. Sequer dei importância à dor da minha mãe e minha irmã casula. Por mais que eu tentasse ser solidário, nunca fui do tipo sensível e tátil, disposto a abraçar e acarinhar para afastar o sofrimento, pelo menos não com qualquer pessoa. Aquele tipo de consolo me aturdia. - Marcos? – Amanda me chamou. Seu olhar era preocupado. – Você está bem? Parece aéreo – emendou. Sacudi levemente a cabeça e voltei à atenção à minha xícara de café. - Amanheci com um pouco de dor de cabeça – respondi em tom baixo. Surpreendi-me quando Amanda repousou sua mão por cima da minha na mesa. Ergui meus olhos encontrando com os seus. - Você anda muito estressado, Marcos – comentou ela. – Poderíamos dar uma saída hoje, já que é sábado. Que tal? – propôs. Mariana automaticamente começou a manifestar a sua euforia com aquela idéia. No fundo eu não estava com cabeça para nada, meus pensamentos estavam todos voltados para a gravidez de Bianca e minha possível paternidade. Aquela situação estava me desgastando. – Vamos, Marcos. – Amanda apertou minha mão de leve para chamar a minha atenção. – Podemos passear no shopping, assistir a algum filme que estiver em cartaz no cinema... Abri a boca para responder, mas fui interrompido por uma Mariana eufórica: - Vamos papai! Vamos! Abri um sorriso fraco, porém carinhoso para ela. Eu me alegrava em vê-la com aquela leveza de menina, verdadeiramente vivendo os prazeres da sua idade e da sua infância.


- Está bem. Vocês venceram – falei, afastando delicadamente minha mão da Amanda. Encarei-a e notei um pequeno rubor em suas bochechas. - Oba! – Gritaram em uníssono, fazendo-me dar risada. Uma espairecida na mente poderia ser uma saída para a inquietação dentro de mim, pelo menos por hora. ∞ - A Mari está muito parecida com a Clarisse. – Amanda comentou de repente enquanto observávamos Mariana brincando no parquinho do shopping. Apenas sorri assentindo. Estávamos ali há algum tempo já. – Eu sinto falta dela. – Ela acrescentou com um olhar distante. Respirei profundamente e beberiquei meu refrigerante. Minha garganta ficou seca. - Eu também – falei por fim. – Infelizmente as coisas nem sempre saem da forma que queremos – queixei-me. - Concordo – disse ela. – Nossa sorte é que temos o tempo para mudar àquilo que queremos, podemos tentar fazer a diferença a cada novo amanhecer. Olhei para ela. - Você é uma mulher admirável, Amanda – comentei com sinceridade. – Em todos esses anos se manteve firme e forte, foi incapaz de abandonar a Mariana. - Ela precisava de mim, e... Você também, Marcos – emendou olhando-me com intensidade. – Prometi a minha irmã que permaneceria do lado de vocês dois. Baixei os olhos e me tornei pensativo por alguns instantes. - Eu não acho justo que você desperdice a sua vida dessa maneira, Amanda. Olha para você... Ainda é jovem, bonita – argumentei. – Poderia estar realizando os seus sonhos, ou formando a própria família. - Vocês dois são a minha família, Marcos. – Ela disse com fervor, arrepiando-me. – Não me arrependo de nada. – Seu tom tornou-se baixo. – Tenho plena certeza do que eu almejo para o meu futuro. Recostei-me no banco e a encarei com convicção. - E o que você almeja Amanda? Lembro-me vagamente de seus planos de adolescência, suas conversas com a Clarisse nunca me passaram despercebidas. Você sonhava em se casar e em se tornar uma escritora. Ela sorriu abertamente para mim, os olhos estavam iluminados. - Escritora eu me tornei, basta me casar agora... - Você nem ao menos namora, e... Mariana interrompeu minha fala ao se jogar em meus braços. Ela estava eufórica, extremamente excitada pelas brincadeiras.


Nos minutos seguintes decidimos partir para o cinema e assim finalizar o nosso sábado com chave de ouro. Em vários momentos peguei o olhar da Amanda sobre mim e não fui capaz de decifrá-lo. Ela me lembrava tanto a minha Clarisse e aquilo às vezes me deixava desestabilizado, aliás, era exatamente como eu estava depois dos recentes acontecimentos. Desestabilizado. A semana se iniciou, porém não foi o suficiente para amenizar o peso dos meus ombros. Descobri que a Bianca havia pedido um afastamento das suas funções na empresa por alguns dias, em decorrência de seu estado de saúde fragilizado. Eu sequer estava conseguindo separar aquele problema de meus outros afazeres e aquilo nunca havia me acontecido. Sempre me orgulhei da eficiência e excelência das minhas habilidades em qualquer função que eu me disponibilizava a fazer, mas com tanta coisa acontecendo em minha mente, estava quase impossível me concentrar. - Está legal por hoje, pessoal – falei encerrando mais um treinamento. Meus nervos encontravam-se à flor da pele. – Acredito que a partir de amanhã já poderei observá-los em ação e checar se todas as minhas dicas estão surtindo efeito. Comecei a organizar algumas coisas enquanto o pessoal ia se dispersando da sala. Observei quando Pedro passou por mim conversando com outro camarada. - Então vocês não estão mais juntos? – quis saber o rapaz que estava ao lado dele. – A Bianca é um mulherão, cara! – Ele sussurrou a última frase. - Ela nem ao menos deu a boceta pra mim – desdenhou Pedro me enojando. Fechei as mãos em punho e ameacei ir pra cima dele, entretanto fui parado por Felipe, um dos alunos. - Ei ei... Calma aí – sussurrou segurando-me pelo ombro. Ergui meus olhos para ele e percebi precaução em seu olhar. – Não vale à pena – emendou cauteloso. Instantes depois estávamos sozinhos na sala e enfim pude soltar o ar de frustração. Os meus músculos estavam completamente enrijecidos e sequer conseguia parar de tremer devido ao nervosismo e ao estresse. - Estou passando por alguns problemas pessoais e por isso ando muito nervoso – expliquei encabulado. – Cismo com qualquer coisa – acrescentei soltando um riso nervoso. - Você não precisa se explicar, Marcos. Eu percebi que existe algo a mais entre você e a senhorita Bianca. Meu coração se acelerou e minha boca ficou seca. - Não, eu... - Só te digo uma coisa: - Interrompeu-me ele. – Uma conquista à base de muito esforço o sabor é mais intenso, concorda comigo? Se você a quer, não a deixe escapar meu amigo. Balancei a cabeça rindo nervosamente. - Você entendeu errado, Felipe. Bianca e eu...


Ele repousou a mão em meu ombro e sorriu. Felipe era mais jovem do que eu, aparentava ter uns vinte e sete anos. - O Pedro é um otário que ela sequer dava moral – afirmou ele em um tom de deboche. – E eu vi você entrando no prédio em que ela mora no dia em que o convidei para beber com a turma, Marcos. – Engoli em seco. – Posso ser jovem, mas aprendi a lutar por aquilo que quero. Sempre me permito a chance de viver novas conquistas. Ponderei suas palavras, mas não tive a capacidade de retrucá-lo. Com um sorriso ele se afastou de mim, garantindo-me que eu tinha um amigo para o que quer que eu precise. Deixei-me cair na cadeira mais próxima ainda em choque, sem conseguir raciocinar. O que estava acontecendo comigo afinal? O que era aquela sensação de queimação em meu interior? Esfreguei o rosto e baguncei os cabelos desesperado por encontrar uma solução eficaz diante daquela situação desesperadora que eu estava de frente. A minha vida antes era tão centrada. Tudo estava tão certo... - Por que você teve que surgir para bagunçar tudo Bianca? Droga! “Ela nem ao menos deu a boceta para mim...” As palavras escrotas pronunciadas de forma tão cruel por Pedro vieram em minha mente. Então ela havia dito a verdade para mim afinal, quando disse que não tinha transado com ele. O significado daquela constatação serviu apenas para me desesperar ainda mais!


Capítulo 9 Marcos Fontana Passar os dias agindo normalmente era quase que impossível, considerando que meus pensamentos não me davam sossego. A todo o instante eu me recordava da gravidez da Clarisse e de como suas emoções se intensificaram conforme as mudanças foram acontecendo gradativamente. Foi uma das melhores fases do nosso casamento, cada novo detalhe fazia com que ficássemos muito mais íntimos. Muito mais unidos. Eu sabia o quanto aquela parceria era importante para ela. Deixei um suspiro escapar por meus lábios de repente, mesmo com toda a pressão recaída sobre mim, eu sentia a necessidade de estar ao lado da Bianca. Fazia alguns dias que não nos víamos, mas eu sabia que ela deveria estar assustada também, apesar de demonstrar autosuficiência. Por várias vezes tive vontade de ligar para ela, disquei seu número no visor do celular, entretanto não conseguia finalizar. Sentia-me frustrado. Indeciso e desestabilizado. O que dizer? O que fazer? - Porra! Estou me sentindo de mãos atadas – resmunguei em um sussurro. Ergui outra vez os olhos para além de mim e uma onda de nervosismo me inundou tremendamente. Eu estava há algum tempo com o carro estacionado diante do prédio em que a Bianca morava. Xinguei-me mentalmente por estar agindo daquela maneira infantil, porém era uma força maior do que eu. Decidido, desci do carro e não evitei bater à porta com força. Meu coração estava aos pulos devido à adrenalina de saber que logo iria voltar a vê-la. Eu não poderia continuar convivendo com aquela agonia infinita, era preciso agir como dois adultos. Havia uma criança a caminho. Entrei no prédio e segui direto para os elevadores. A inquietação aumentou conforme eu me aproximava do andar indicado. Forcei as minhas emoções a se estabilizarem. Ordenei ao meu corpo para se acalmar. Assim que pisei no corredor que levava ao apartamento dela, vi que um homem estava sendo praticamente expulso de lá. - E não volte mais! Esquece-me! – Gritou Bianca, batendo a porta com força. Arqueei as sobrancelhas diante daquilo. Meu radar indicou-me que algo não estava bem. Cabisbaixo o homem se virou nos calcanhares e pude reconhecê-lo como sendo o assessor do Andrew, Estevão. O nervosismo dele era tanto que ele sequer me reconheceu quando passou por mim praticamente se arrastando. Diminui os passos e não evitei em tentar raciocinar sobre a cena que tinha acabado de ver. O que o assessor do Andrew estaria fazendo ali? Se fosse algo profissional, Bianca nunca o trataria daquela maneira. Soltei um suspiro ofego e verifiquei se estava finalmente sozinho no corredor e enfim tomei


coragem para bater na porta do apartamento dela. Instantes depois comecei a escutar diversos xingamentos. Insisti com as batidas na porta e quando a mesma foi aberta, quase fui atingido. - Oh, Marcos! – Ela exclamou em choque, as bochechas ruborizando. – Eu sinto muito, eu... Pensei que fosse outra pessoa – explicou completamente encabulada. Firmei uma de minhas mãos no batente da porta e a encarei com intensidade. Sua silhueta, voluptuosa como sempre, tinha uma nova curva que me fez inspirar rapidamente surpreso. Até aquele momento, grávida, tinha sido apenas uma palavra atirada ao vento. Enquanto eu observava a calça justa e a blusa esticada sobre um corpo que não havia se alargado muito ainda, exceto pela suave saliência na barriga. Arrepiei-me. Bianca estava gerando um bebê. Obrigando-me a olhar para o rosto dela, vi cautela defensiva e vulnerabilidade, o que disparou os meus mais profundos instintos protetores. Felizmente ela desviou os olhos, o cabelo espesso caindo sobre o rosto para esconder sua expressão. Obriguei-me a me recompor, mas não conseguia tirar os olhos daquela curva firme. Queria tocá-la, começando pela nova curva em sua barriga e depois explorando o restante das formas sedutoras. Enfiei as mãos nos bolsos e a encarei. - Vou tomar água e comer uma laranja. Você quer café? – perguntou ela. Assenti com a cabeça e no instante seguinte estávamos em seu apartamento. Era estranha aquela tensão entre nós, depois de tanta intimidade que trocamos há tão pouco tempo atrás. Era estranha aquela sensação de não saber como me comportar diante de uma mulher que ao mesmo tempo eu conhecia, mas que de nada me era familiar. Uma olhadela em sua barriga de grávida novamente não deveria me afetar tão profundamente, mas tudo em que eu podia pensar era como minha vida tinha mudado. Cada decisão dali por diante seria pesada em comparação com o efeito que teria naquele ser minúsculo abrigado no âmago da bela gestante. Ela levou para a mesa seu copo com água e o prato com uma laranja cortada em gomos. Um olhar me convidou para ocupar a cadeira em frente à dela, enquanto repousava uma xícara de café bem quente para mim. - Como você está? – perguntei. - Melhor. Agradeço pela preocupação – respondeu ela. – Eu precisava tirar uns dias para repousar – acrescentou. Cocei a garganta. - E... E o bebê? - Precisamos esclarecer uns detalhes, Marcos – declarou ela com um tom exigente e áspero. – Eu me precipitei ao afirmar que você era o pai do meu bebê. - Como?


- Isso mesmo o que ouviu – afirmou. – Não é justo que você carregue um peso que não é seu. Fique tranqüilo, Marcos. Eu me viro. Trinquei o maxilar e apertei a xícara com certa força. Aquela mulher era extremamente frustrante. Esfreguei o rosto. - Quantos anos você acha que eu tenho Bianca? Você acha que tenho cara de palhaço? Por acaso está escrito “otário” na minha testa? - Me desculpa tá legal! Eu fui impulsiva... A interrompi. - Ah, claro! – exclamei revoltado enquanto me levantava. – Devo acrescentar esse ato em sua lista de atos impulsivos, então? Bagunçar com a minha cabeça foi bacana para você, garota? Agora entendi o motivo de nenhum homem querer algo sério com você. Eles cansam desse seu jeito manipulador. - O que o faz pensar que me conhece, Marcos? Você alguma vez perguntou sobre a minha vida? Meus planos? Do que eu gostava, do que não gostava? Tudo o que me lembro são das exigências que giravam em torno das suas vontades. Sua decisão em esconder o momento que tivemos. - Você concordou com tudo isso. - E o estou isentando de todo o peso que joguei em seus ombros. Não há motivos para estarmos discutindo, droga! As coisas rapidamente ficaram mais confusas e audaciosas. - Por que diabos você está fazendo isso comigo, Bianca? Qual o propósito de ter me atormentado dessa maneira, hein? Ela engoliu em seco e notei sua expressão escurecer levemente. - Andrew me mandou para a filial aqui do Rio, justamente por desentendimentos que eu estava tendo com o assessor dele – disse em tom baixo. – Estevão e eu tínhamos um caso, porém o relacionamento tornou-se turbulento e eu resolvi acabar com tudo. - Você transou comigo naquele carro para esquecê-lo? – acusei. - De certa forma, sim. – Ela respondeu. – Mas, sou sincera em afirmar que não me lembrei daquele traste em nenhum momento... - Ele é o pai? – perguntei, lutando para dispersar as lembranças que começaram a explodir em minha mente com a forma pela qual a expressão dela brilhara de excitação. A forma como ela havia encaixado o corpo no meu e arqueado as costas para colar-se inteira a mim, e gritado de alegria quando os tremores do clímax invadiram a ambos. - Eu sou a mãe e isso já basta – retrucou. - Você não está sendo razoável. - Quem não está sendo razoável é você. Eu peço para que vá embora, por favor. Você não


é o pai do meu bebê, Marcos. Ela se levantou e peguei-a pelo braço quando tentou passar ao meu lado. O pequeno inchaço de grávida me empurrou de leve, estranho e desconcertante, fazendo minhas mãos se fecharem com mais força, com desejo possessivo de mantê-la perto. Manter o bebê perto -, me corrigi em silêncio. - Não me toque! - Tem certeza de que você não quer tentar me persuadir outra vez? - Saia de perto de mim. Saia da minha casa. Ou terei que prestar uma queixa por assédio? Suas palavras me atingiram. Com força. Soltando-a, recuei profundamente ofendido. - Eu lamento ter conhecido você. – As palavras simplesmente flutuaram através de meus lábios. Nada daquilo fazia sentido e a insatisfação com toda aquela situação deixou-me derrotado. Arrasado.


Capítulo 10 Marcos Fontana Dois meses se passaram e meu retorno para Joinville se aproximava. Na verdade eu já poderia ter retornado antes, porém estava receoso pela retirada brusca da Mariana do colégio novamente. Eu mais do que qualquer um era consciente do transtorno que causava na mente dela toda àquela mudança e em um intervalo de tempo tão curto. Mariana havia tido um pequeno progresso na interação com novos colegas e aquela pequena conquista foi surreal para mim, pois ela estava finalmente conseguindo se abrir para o mundo e seus desafios. Estava conseguindo sobressair-se ao medo. O que era algo que eu estava precisando aprender a fazer também. Ao analisar o meu passado, eu podia ver claramente que nunca fui o tipo de pessoa que acreditava ser capaz de amar e ser amado. Eu temia e desconfiava de tudo e de todos. O que na verdade, justificava as merdas que eu fazia. Clarisse foi um anjo enviado à minha vida para que eu pudesse ao menos ter tido a chance de viver anos maravilhosos ao lado dela e que, como um presente me deixou a nossa filha Mariana. Minha luz. Como teria sido a nossa vida sem aquela maldita doença? Teríamos tido mais filhos? Imediatamente aquele pensamento disperso levou-me à Bianca e todo aquele assunto que no fundo ficou definitivamente mal entendido. Quase não havíamos nos falado depois do último impasse há dois meses, apenas o suficiente e tudo relacionado ao âmbito profissional. Olhar para ela me enfraquecia, eu me sentia indefeso e aquela sensação de que algo estava fora do lugar não me abandonava. O que eu poderia fazer, afinal? Droga! Ela própria me dispensou e abonou-me de uma possível paternidade. Freqüentemente eu me pegava observando-a de longe, seu corpo estava se modificando de maneira sutil e lindamente. Diversas vezes eu me obrigava a frear os impulsos de ir até ela, minhas mãos coçavam para tocá-la, afagá-la. Algo em meu interior gritava que Bianca necessitava de afeto. ∞ Era um dia qualquer da semana quando eu estava me encaminhando para o estacionamento e franzi as sobrancelhas quando notei que Bianca estava discutindo com um homem. Por um momento pensei em ignorá-los, mas uma força além de mim não permitiu. - Você deveria se envergonhar por ainda ter coragem de me procurar, Estevão – Bianca disse. – Eu além de não o querer mais, ainda estou grávida de outro. Você não vê? - Eu posso muito bem ser o pai. – Ele retrucou. – Estávamos nos relacionando quando você decidiu vir para cá. - Acontece que eu nunca me descuidei com você. – Suspirou ela, parecia exausta. – Olha só Estevão, apenas me esquece. Pode ser? Eu não sinto mais nada por você, nada mesmo!


- Eu sinto que você está magoada, branquinha, deixe-me explicar a você o que aconteceu, por favor... – Ele tentou tocá-la, porém a mesma se esquivou. - Não me toque! – Rosnou com um tom irritado. – Pegue suas desculpas e enfie naquele lugar seu filho da puta! Ela tentou passar por ele para poder entrar em seu carro, porém ele a segurou pelo braço insistentemente. - Bianca... - É melhor você deixar a senhorita Bianca em paz. – Eu falei, interrompendo-o sem constrangimentos. Ambos detiveram o olhar em mim. – Está mais do que nítido que ela está incomodada com a sua insistência. - Marcos... Ele a interrompeu: - Estamos conversando aqui, irmão! Irritado, eu me aproximei um pouco mais e impus a minha imponência a ele. - Você confirma que ele está te importunando, Bianca? – perguntei encarando-o com severidade. - Bom... – Ela coçou a garganta. – Estou cansada e louca por um bom banho quente – falou. – Quero ir para casa. Assim que ela me respondeu cruzei os braços e fiquei peitando-o. Instantes depois e completamente contrariado, ele se afastou resmungando. Boa escolha! – pensei. Aguardei até que ele tivesse ido realmente embora e enfim me virei novamente para a Bianca. Na hora vi-me sem ar, a presença dela sempre me desestabilizava. - Você está bem? – Forcei a minha voz a sair. Ela sorriu fraco e passou as mãos nos braços suavemente. Meus olhos desceram e se detiveram na saliência em seu pequeno ventre. Uma agitação em meu peito deixou-me agoniado. - Estou – respondeu ela. – Estevão não consegue entender que não o quero mais. – Revirou os olhos. - Ele não deveria estar em Joinville? – questionei. - Está de férias. – Sua voz soou derrotada. – Contudo, ao invés de curtir os dias de folga, ele decidiu vir para cá me atormentar. – Ela ameaçou abrir a porta do carro, mas não resisti ao desejo de segurar seu braço. - Saiba que pode contar comigo – falei com firmeza na voz. – A qualquer momento em que você se sentir ameaçada, basta me ligar... Nossos olhos estavam conectados e nossas respirações se misturaram devido à proximidade


de nossos rostos. Vi quando ela olhou para os meus lábios e mordeu os seus lentamente. - Eu agradeço Marcos – soprou. – Pretendo conversar com o Andrew sobre isso também – confessou soltando um suspiro ofego. – Tenho esperança de que ele converse com Estevão e o faça acordar para a realidade, pois... - Ele não é o pai do seu bebê. – A interrompi, fazendo-a engolir em seco. - O quê? - Estevão não é o pai do seu bebê – repeti, encarando-a com intensidade. – Eu escutei uma parte da conversa de vocês. Um breve silêncio se instalou entre nós. - Não. Ele não é. Minha respiração travou na garganta e sequer consegui falar qualquer coisa que fosse. Senti quando ela repousou os lábios em minha bochecha e beijou suavemente, acariciando com os dedos depois. - Boa noite, Marcos – sussurrou. Afastei-me e a assisti entrar no carro. Mesmo depois que ela se afastou do estacionamento, eu continuei parado no lugar. Pensamentos confusos e dispersos. Ao mesmo tempo em que o entendimento se fazia claro em minha mente, o medo e a desconfiança se atropelavam chamando a minha atenção para eles. Aquilo estava me enlouquecendo.


Bianca Melo Lágrimas brotavam de meus olhos sem eu ao menos conseguir freá-las. Eu não deveria me sentir tão sensível devido à situação no qual estava enfrentando. Afinal de contas, aquilo fazia parte da minha rotina por anos... A solidão sempre foi a minha fiel companheira. As minhas conquistas sempre aconteceram à base de muito esforço e dedicação, entretanto o meu maior tempero foi era a impulsividade. Atitudes e escolhas impensadas me colocaram onde eu estava naquele momento... Grávida de um homem completamente refém de suas inseguranças. O meu histórico para relacionamentos era extremamente negativo e eu me odiava por constatar aquilo. Não que eu estivesse arrependida por ter me relacionado com o Marcos, pois ele me deu o meu maior presente: Meu bebê. Contudo, minha inexperiência estava me apavorando e ainda tinha o fato de eu estar praticamente sozinha e repleta de conflitos internos para me torturar. Meu telefone tocou fazendo-me expulsar os pensamentos dilacerantes. Enxuguei o rosto grosseiramente e funguei o nariz antes de atender. - Bianca falando. - Oi Bia – disse Aline, uma amiga de infância. – Como você ficou alguns dias sem me ligar, fiquei preocupada. Sorri do seu cuidado. Encolhi as pernas e me aninhei melhor no sofá. - Muita coisa acontecendo de uma vez só, Aline – falei suspirando. – E o trabalho está me ocupando tempo demais também. - Você estava chorando – afirmou ela com uma certeza que me gelou. Aline me conhecia melhor do que minha própria mãe. – O que está acontecendo? Ou o que está me escondendo? Suspirei exasperada. - Estou sensível hoje – respondi. – Os hormônios estão acabando com meu psicológico. - Você já contou para a sua mãe sobre sua gravidez? - Não. - Bianca! – exclamou ela em tom de reprimenda. – Você não pode passar por isso sozinha e a sua mãe, ela... - Ela nem ao menos se importa comigo, Aline – cortei-a. – Só me procura quando está precisando de dinheiro, fora isso prefere me ver pelas costas. - Céus! E o pai do bebê? Conversou com ele? - Não. - Argh, Bianca! Você é muito complicada – disse ela resignada. - O Marcos é um homem com problemas maiores do que os meus Aline. Ele é viúvo e teve que juntar os próprios cacos para poder criar a filha gerada naquele relacionamento. Eu sinto que ele


ainda sofre demais com a perda da falecida mulher e eu não acho justo jogar essa responsabilidade sobre os ombros dele, sabe? Eu o adoro, nem sei dizer o quanto, apesar dos poucos momentos que tivemos. De todos os homens que passaram em minha vida, o Marcos foi capaz de me marcar de uma maneira única e não digo isso apenas pela gravidez. - Você está apaixonada por ele? - Eu não sei... Mas você me conhece – falei em tom fadigado. – Sou muito apegada e extremamente impulsiva. - Oh, minha amiga... – Ela respirou profundamente. – Eu gostaria de estar aí com você, mas você sabe que estou tendo aquele tratamento especializado e isso leva tantos meses... - Eu sei Aline. – Sorri compreensiva. – O seu carinho mesmo de longe já me conforta. Escutei o seu sorriso. - Eu amo você. – Ela afirmou. – Mas, não acho correto que você esconda do Marcos a paternidade. Ele merece saber, Bia. - Ele sequer tinha a intenção de se envolver comigo, Aline. Praticamente o estuprei. – Soltei uma risada alta, sendo seguida por ela. - Compreendo seus argumentos, mas ainda sim, opto pela verdade. Sempre. Suspirei pensativa. Aline tinha o dom de me fazer refletir sobre as situações, ela conseguia a proeza de me confundir em decisões tomadas. - Daqui a pouco ele retornará para Joinville com a filha e a cunhada estranha – falei em tom baixo. – Nem se lembrará de mim e não pretendo dar motivos para que se lembre. - Teimosa! - Você me conhece bem. – Sorri brincalhona, ansiando me livrar daquela tensão. - Está com planos para o final de semana? Olhei ao redor do meu apartamento e mordi os lábios em frustração. Fazia apenas algumas horas desde que eu havia tido um impasse com Estevão, onde Marcos gentilmente fez o favor de me livrar da presença irritante daquele homem. Eu sequer tinha ânimo para pensar em relaxar, pois na verdade aquilo não seria possível, nem se eu quisesse. - Vou ficar em casa mesmo. - Bianca! Você está se tornando reclusa de sua própria vida – queixou-se ela. – Gravidez deve ser motivo de saúde e alegria. - Mas eu estou alegre. – Apressei-me em dizer. – Só não acho que seja necessário sair todo o final de semana para demonstrar isso, ainda mais que ando tendo muitos enjôos e tonturas. – Ela riu. – Não ria de mim, Aline. Isso é horrível. - Resultado de sua impulsividade – pontuou ela, sarcástica. - Engraçadinha – brinquei. – Preciso desligar agora, mas ligarei para você no meio da semana.


- Está bem – disse ela. – Se cuide. - Eu prometo. Instantes depois, nos despedimos e encerrei a ligação. Um sorriso de gratidão pairava em meu rosto quando eu me levantei do sofá na intenção de tomar um banho. Apesar de toda a solidão que me enclausurava, eu tinha Aline para me mostrar que estava do meu lado e que mesmo estando longe, eu poderia, sim, contar com ela.


Capítulo 11 Bianca Melo Começar a semana com estresse era tudo o que eu menos precisava. Obviamente que eu estava sendo paga para manter as coisas em ordem enquanto o Andrew estava dirigindo a outra filial em Joinville, entretanto o meu psicológico não estava colaborando para agilizar o andamento de todos os processos. Eu me via exausta. - Não havia necessidade de você se deslocar até o Rio, Andrew – falei enquanto esfregava o rosto. Frustração me descrevia nitidamente. – Eu sempre resolvo os problemas, você sabe. - Não estou dizendo o contrário Bianca. – Ele disse, sentando-se na cadeira diante da minha mesa. – Marie fechou uma parceria com uma marca nova, por isso a viagem inesperada. - Sério? - Certamente. Você sempre recebe as pessoas dessa forma? – brincou ele. – Com essa desconfiança toda? - Estou perguntando sobre a Marie, Andrew. – Revirei os olhos fazendo-o gargalhar. - Havia me esquecido do quão insuportável você consegue ser. Soltei uma risada alta e me levantei. Abraçamos-nos carinhosamente e me emocionei com a forma linda com que ele recebeu a minha gravidez. Eu já havia os comunicado sobre o meu bebê, mas não tínhamos tido a oportunidade de nos encontrar ainda. - Estava com saudades, sabia? – choraminguei. – Onde está a Marie? Vocês chegaram agora? E a lua-de-mel como foi? – Sorri maliciosa. - Marie encontrou com o Marcos na portaria e ficou conversando um pouco com ele. – Ele disse. – A lua-de-mel teve que ser bem rápida, mas conseguimos curtir bastante. Pretendemos fazer outra daqui uns meses. – Sorriu malandro. – Viajamos ontem no final da tarde para cá – explicou voltando a se sentar. – E então? O que está acontecendo de tão grave aqui? Digo isso pela forma com que fui recebido – alfinetou. Mordi os lábios e fechei brevemente os olhos. - Primeiro preciso de um café. – Eu falei. – Aqui. – Apontei para alguns documentos em cima da mesa. – Estamos tendo alguns problemas nesta empresa. Parece-me que está tendo divergências entre os profissionais. – Andrew franziu o cenho desgostoso. – Vai analisando que eu logo estarei aqui. Sem ao menos erguer o rosto para mim, ele assentiu com a cabeça, completamente concentrado na papelada. Saí da sala em uma erupção de adrenalina, meus nervos outrora tensos, naquele momento encontravam-se retorcidos. Gritando. A pressão de ter a presença do Andrew na empresa fazia com que meu estresse aumentasse. Eu nada tinha a temer, porém a necessidade de demonstrar o meu profissionalismo se sobressaía ao desconforto que meu corpo vinha sentindo ultimamente.


Caminhei pelo corredor em direção à sala de café, mas fui parada pela presença iluminada da Marie diante de mim. - Bianca! – exclamou eufórica. – Que saudades de você. Abraçamos-nos apertado e pude regozijar daquele carinho gostoso. - Olha para você – disse ela, afastando-se um pouco para me analisar melhor. – Está uma grávida linda – acrescentou emocionada. Eu sorri constrangida. - Obrigada. – Eu comentei. – Vocês poderiam ter avisado que viriam. Ela suspirou. - Não foi algo planejado, na verdade aconteceu – desculpou-se. – E será bem rápido, pois sequer consigo me imaginar muito tempo longe da do Lucas. Meu filho é o meu calcanhar de Aquiles. Abri um amplo sorriso e como que por instinto, abracei meu ventre. - Já está sentindo não é? – Marie perguntou, enquanto repousava a sua mão sobre a minha. – Esse amor sem fim... Lágrimas de emoção ameaçaram deslizar sobre meu rosto, entretanto as segurei. - Está procurando o Andrew? Porque ele está na minha sala, no final do corredor – desconversei sem jeito. - Onde está indo? - Vou tomar um gole de café – respondi. – Aceita? - Claro que sim – disse ela sorrindo. – Dessa forma podemos colocar os assuntos em dia. - Perfeito. No caminho ela foi me confidenciando suas conquistas em relação a sua grife. Marie em pouco tempo havia firmado um excelente espaço no mercado da moda, sua marca estava se expandindo grandemente. - Mas, e então? – questionou-me ela, de repente ao nos sentarmos nas poltronas da sala. – Como... – Ela se calou e começou a gesticular em direção a minha barriga. – Quero dizer, sobre o bebê... – Coçou a garganta e eu ri do seu embaraço evidente. - Não foi algo planejado, Marie – falei sorrindo fraco. – Confesso que ainda não me acostumei com a idéia de estar gerando um bebê aqui. – Massageei meu ventre com carinho. – Quando vim para cá os planos eram outros, mas... - Mas o destino resolveu dar uma bagunçada neles. – Marie interrompeu-me divertida. Eu sorri e concordei. – E... – Ela voltou a coçar a garganta e me encarou de forma cautelosa. – Você está tendo o apoio do pai do bebê? Andrew comentou comigo que o Estevão está de férias, imaginei que ele viria atrás de vocês – disse, referindo-se a mim e ao meu bebê.


Beberiquei todo o restante do café que havia na minha xícara e balancei a cabeça com indignação. - Estevão não é o pai do meu filho, Marie – respondi apenas. – Podemos ir? Acredito que o dia será corrido para vocês, considerando que pretendem retornar a Joinville ainda hoje – acrescentei sem jeito. Minha cabeça estava fervilhando e não estava a fim de falar do Marcos naquele momento. Respirando fundo ela se levantou e me encarou compreensiva. - Está bem, Bianca – disse. – Imagino que as coisas ainda estão um pouco confusas, mas quero que saiba que pode me ligar a qualquer momento. – Segurou minhas mãos apertando-as fortemente. – Você sempre terá uma amiga em mim, viu? Para tudo! Malditos hormônios! Meu rosto já estava banhado com infinitas lágrimas. - Obrigada. – Choraminguei enquanto nos abraçávamos. – Isso é muito importante para mim. Saber que eu não estava sozinha de alguma forma amenizou o enorme pânico que havia se instalado em meu peito. Eu buscava ser auto-suficiente em tudo, porém em meu íntimo o medo encontrava um lugar para se instalar e causar-me a sensação de impotência. Mais tarde naquele dia depois de me despedir dos outros funcionários, decidi permanecer um pouco mais na empresa para agilizar alguns processos. Eu não queria deixar lacunas em meu lado profissional, daquilo eu não abria mão de jeito nenhum. Lembro-me que com extremo custo eu me formei em administração. Na época não obtive ajuda e muito menos apoio da minha família, aliás, em nada eu obtinha o apoio deles, era tudo com o meu próprio esforço e dedicação. Conheci o Tiago, meu ex-namorado na faculdade e rapidamente engatamos em uma relação. No começo sem compromisso, mas logo ambos exigimos exclusividade um do outro. Pena que a exclusividade aconteceu apenas da minha parte... Cafajeste! Soltei um longo suspiro e apoiei a cabeça entre as mãos. Estava exausta e com os nervos em frangalhos. Ergui os olhos e tentei focalizar a tela do computador, porém isso não aconteceu como o esperado... Meus batimentos cardíacos se agitaram tremendamente e comecei a sentir o ar me faltar aos poucos. O que estava acontecendo? - Socorro... – Gemi, apesar de não ter certeza que havia alguém ali para me socorrer caso fosse preciso.


Marcos Fontana A visita do Andrew e da Marie na empresa causou-me certo incômodo interno. Eu sentia como se tanto eu, quanto Bianca, fazíamos parte do ciclo familiar daquela família e não me sentia confortável com toda a situação no qual estávamos expostos. Apesar de Bianca ter deixado claro que não tínhamos vínculo algum, o que para mim deveria ser libertador, algo martelava firmemente em meu coração e em minha mente. Eu conhecia aquela teimosia. Conhecia aquela rebeldia... Clarisse era assim... - Droga! – resmunguei cansado. Ao mesmo tempo em que eu sentia uma onda de arrependimento e culpa por ter de algum jeito traído a memória de Clarisse, me sentia vivo com a sensação de novamente vivenciar a expectativa de ser pai outra vez. Obviamente que aquilo não estava em meus planos, nem tampouco me envolver emocionalmente com ninguém ou com qualquer vínculo que fosse. Bianca chegou feito um furacão e bagunçou a barreira tão bem construída em todos aqueles anos. Dispersei meus questionamentos e recordações, precisava terminar de organizar a papelada com os arquivos dos seguranças. Andrew havia me dado a ordem de enviar-lhe por e-mail, assim ele poderia ficar por dentro dos resultados do treinamento extra. Distraí-me por alguns instantes, contudo algo chamou minha atenção. Ergui a cabeça e me concentrei nos sons. Eu sabia que não estaria sozinho na empresa, entretanto meus instintos me forçaram a ficar alerta. Levantei abruptamente quando uma voz sussurrada ecoou no corredor. Apressei os passos e me apavorei quando me aproximei da sala iluminada da Bianca, era ela quem estava sussurrando daquela maneira intensa e estranha. Abri a porta sem cerimônias e arregalei os olhos ao vê-la caída no chão ao lado de sua mesa. Ela estava pálida e tremia dos pés à cabeça. Meu coração deu um baque na mesma hora, meu cérebro amaldiçoou-me com o passado e resolveu me assombrar justamente naquele momento com imagens da minha Clarisse... - Marcos... Aquela era a Bianca ou a Clarisse?


Capítulo 12 Marcos Fontana Momentaneamente eu me vi paralisado, minhas mãos suavam e tive que me apoiar no batente da porta por alguns instantes para poder respirar. Aquela situação me angustiava de forma intensa... - Marcos... Pisquei freneticamente e me forcei a focar no que era real. Bianca estava ali e precisava de mim naquele momento. Agilizei os passos e rapidamente me joguei sobre ela pegando-a em meus braços. Limpei grosseiramente a mesa e depositei-a com gentileza sobre a mesma. - O que você tem? – perguntei, meu tom saiu trêmulo devido ao nervosismo da situação. Ela estava mole e parecia desorientada. – Bianca? – Toquei seu rosto e forcei seu olhar em mim. – Ei? Fala comigo, por favor. - Eu... Eu não sei... – Virando para o lado, ela vomitou. Desesperado, voltei a pegá-la no colo e corri com ela para fora da empresa. - Vou levá-la para o pronto socorro – decretei. Rapidamente comuniquei um dos vigilantes e voltei a me concentrar em Bianca. Ignorei o carro dela e fui em direção ao meu. Delicadamente a ajeitei no banco do passageiro e dei a volta entrando logo em seguida. - Está conseguindo respirar? – questionei apreensivo. Ela estava muito pálida. – Aliás, você está se alimentando direito? - Não use esse tom comigo – resmungou ela, em tom birrento irritando-me. - Você precisa pensar no bebê, Bianca. Droga! Completamente tenso liguei o carro e acelerei para o pronto socorro mais próximo. ∞ - O que está acontecendo, Marcos? Mariana está um pouco assustada com a sua demora... Suspirei audivelmente ao escutar as palavras de Amanda ao telefone. Fazia algum tempo que eu estava aguardando notícias da Bianca que estava sendo atendida pelo médico. - Precisei trazer minha colega de trabalho para o pronto socorro – expliquei sem dar muitos detalhes. – Ela passou mal e não tinha ninguém na empresa além de mim para ajudá-la. - Hum. – Ela resmungou. Senti um ar de desconfiança, mas resolvi não falar nada. - Está tudo bem, Amanda. Daqui a pouco estarei em casa.


- Certo. Vou explicar para a Mari – disse. – Estamos preparando o jantar juntas. Eu quis distraíla – acrescentou. Eu sorri. - E Está saindo alguma coisa comestível? – brinquei fazendo-a dar risada. - Somos quase profissionais, Marcos – disse ela em tom brincalhão. – Não demore... Olhei para a recepção do pronto socorro e suspirei. - Vou tentar. Despedimos-nos. Esfreguei o rosto exaustivamente depois de guardar o celular no bolso. Eu estava uma pilha de nervos com aquela situação, preocupava-me a idéia da Bianca caindo de fraqueza por aí. - Senhor? – Levantei abruptamente quando o médico me chamou. – Você é o marido da paciente? – quis saber. - Somos colegas de trabalho – respondi mais do que depressa. – Ela passou mal enquanto eu ainda estava na empresa e a socorri – acrescentei. Ele me encarou por alguns instantes. - Certo – disse por fim. – Ela já está estabilizada, pode vê-la se quiser. Franzi o cenho e o indaguei: - Mas o que houve com ela? E a saúde do bebê? - A paciente já foi medicada e orientada – respondeu enquanto analisava o prontuário dela. – Com o excesso de trabalho houve um pequeno acúmulo de estresse, o que ocasionou em um choque em seu sistema nervoso – explicou. – Se vocês são amigos, peço para que fique de olho e veja se ela está se alimentando direito. Para uma gravidez saudável, é necessário que a gestante esteja saudável também. Completamente sem palavras, apenas assenti com a cabeça. Instantes depois e com as emoções um pouco mais estáveis fui orientado sobre o quarto no qual ela estava e suavemente abri a porta. Bianca estava quietinha e encolhida na cama. Uma bolsa de soro encontrava-se pendurada ao seu lado. Nossos olhos se cruzaram e senti aquela sensação rotineira, coração acelerado e um desejo enorme de abraçá-la, acalentá-la. - Oi. – Eu disse, sem jeito. - Oi. Aproximei-me de modo cauteloso, porém cuidadosamente, incapaz de parar de me preocupar.

sem

deixar

de

encará-la.

Analisei-a

- Você está melhor? – perguntei, ansiando quebrar o clima tenso. – Acabei de conversar com o médico e...


- Conversou com ele? – cortou-me. Estranhei, mas confirmei com a cabeça. – Por quê? – Os olhos dela estavam um pouco marejados. - Porque eu estava preocupado, Bianca. Almejo o seu bem e ao do seu bebê. Pegando-me desprevenido ela começou a chorar copiosamente, desesperando-me. Com o rosto coberto, Bianca passou a resmungar baixinho, o que me obrigou a me aproximar um pouco mais e inclinar-me sobre ela. - Ei? Está tudo bem... O pior já passou. – Cautelosamente toquei suas mãos. – O médico recomendou um bom descanso e uma alimentação mais rigorosa. - Sim, eu sei – disse ela em um tom muxoxo, seus lábios formaram um pequeno beicinho charmoso. Ela evitou meus olhos. – Estou fazendo tudo errado, sabe? Na verdade, às vezes penso que nasci para fazer burradas – queixou-se. Baixei meus olhos e respirei profundamente analisando suas palavras. Questionar-se sobre a vida era extremamente normal. - É normal se sentir impotente às vezes, Bianca. – Eu falei, voltando meus olhos para ela. – Isso faz parte da luta diária do ser humano. Ela virou o corpo de lado para mim e me encarou com aqueles olhos claros e iluminados pelas lágrimas. Exalava cansaço, palidez e uma emoção que não consegui identificar. - Eu menti para você, Marcos – falou de repente. Franzi a testa e permaneci em silêncio, esperando que ela prosseguisse. – Lembro que quando nos conhecemos eu não consegui ter uma boa impressão de você. O seu jeito sério e calado me irritou tremendamente. – Pausou para secar as lágrimas. – Sei que praticamente forcei a barra com você, sei que invadi um espaço que não era meu, mas... – Ela voltou a pausar. O choro se intensificando. – Meu bebê é seu, Marcos – confessou, deixando-me momentaneamente atônito. – Eu neguei antes pelo simples fato de não ser justo que você carregasse uma responsabilidade que sequer buscou, sabe? Fui eu quem o seduzi naquele carro, eu quem agi na impulsividade e isso resultou em uma gravidez. Como poderia exigir que você assumisse? Obriguei-me a respirar profundamente, lutando para raciocinar diante das palavras que tinha acabado de ouvir. - O que você está dizendo é que... - Você é o pai do meu bebê, Marcos – cortou-me entre lágrimas. – Acredita em mim? Pode confiar que estou sendo sincera com você? Apoiei os cotovelos nos joelhos e baixei a cabeça respirando ofegante. Uma enxurrada de emoções se apossando do meu peito. - Eu... – Cocei a garganta e não evitei o desejo de olhar para a saliência da barriga dela. – É meu? – Senti meus olhos pinicarem. Bianca apenas confirmou com a cabeça completamente emocionada. - Meu Deus! – exclamei em uma mistura de euforia e pânico. Levantei da poltrona e me virei


de costas para ela. – Não acredito nisso. Minhas mãos tremiam desesperadamente e minha mente começou a tomar medidas para garantir que eu estaria pronto para enfrentar o que viria. Vi-me ansioso e amedrontado de forma extrema. Será porque era um novo desafio? Ou por causa da Bianca? Fechei-me contra esse pensamento. O bebê era meu único interesse. Estava curioso para descobrir o sexo, saber que era saudável e ter a confirmação definitiva de que era meu. Não que eu ainda tivesse muitas dúvidas a esse respeito. A sinceridade nos olhos de Bianca tocou meu coração dolorosamente. Voltei meus olhos para ela e percebi com vaga insatisfação o quão descuidada com a saúde dela e do bebê ela estava. - Pelos meus cálculos você deve estar com quase cinco meses? É isso? - Sim – respondeu ela, em tom baixo. - E você já procurou um obstetra? Iniciou o pré-natal? - Não, eu... - Como não, Bianca? – cortei-a em agonia. – Quanta irresponsabilidade. - Marcos, eu peguei umas semanas muito pesadas de serviço e... - E achou melhor deixar o nosso filho ou filha de lado? Voltei a interrompê-la no impulso. Nossos olhares se cruzaram, ambos em choque pelo o que eu havia acabado de dizer. Verdadeiramente eu já me sentia pai daquele bebê, aquilo não tinha dúvidas. Ficamos em silêncio no momento em que uma enfermeira entrou na sala para verificar a bolsa de soro da Bianca. Aguardei enquanto ela fazia algumas perguntas de praxe e logo em seguida se retirou alegando que Bianca já estava livre para ir para casa. - Você pode me levar até a empresa? Lá eu pego o meu carro e vou direto para o meu apartamento – disse ela, enquanto se sentava no leito. – Não quero te dar mais trabalho, Marcos. Com o semblante carregado de emoções diversas, eu a ajudei. Suas pequenas mãos estavam geladas e ela parecia fragilizada. Diante daquilo tomei uma decisão que poderia ser precipitada, porém foi algo por puro instinto protetor. - Irei levá-la ao meu apartamento, pelo menos por essa noite – decretei. – Você não está em condições de ficar sozinha. - O quê? – perguntou, afastando-se de mim. – Enlouqueceu? - Não, por isso está decidido: Você irá comigo. Eu irei cuidar de vocês. Dito isto, dei o assunto por encerrado. - Não fale besteiras, Marcos. – Ela retrucou. – Não me trate feito uma criança pelo amor de Deus.


Irritado, temi explodir com ela. - Então não haja feito uma – falei entre dentes. Aproximei-me dela e ameacei circular o braço em sua cintura, porém ela recusou-se com o semblante carrancudo. – Consegue ficar de pé sem apoio? Eu posso ajudá-la, aliás, estou aqui para isso, Bianca – sibilei. - Pretende mesmo me ajudar, Marcos? – Ela perguntou em tom duro. – Ou está pensando em me tratar como um dos seus subordinados? – Havia amargura em seu tom. – Sequer imagina o que eu já enfrentei em minha vida... – Ela sorriu em amargura enquanto se levantava lentamente do leito. – Pois fique sabendo que eu sou sim, capaz de seguir com minha gravidez sozinha, Marcos. Engoli em seco e baixei a cabeça enquanto guardava as mãos nos bolsos. Via-me impotente ao extremo diante daquela situação. Novamente tentei me aproximar, mas ela voltou a recusar-se. - Acontece que você não está sozinha, Bianca – sussurrei. – E eu não costumo abandonar os meus... Ela me encarou com os olhos lacrimejantes. - Não quero que abandone – disse. – Apenas caminhe ao meu lado, Marcos, sem impor as suas vontades na minha vida. - Caminharei – afirmei com veemência. – Mas também a carregarei em meus braços quando for preciso. Vi quando seus olhos se arregalaram e notei que engoliu em seco, mas nada disse. Baixou os olhos e pegou sua bolsa que se encontrava em cima do leito. - Me contento com isso – falou por fim. – Deixo que tome conta quando minhas forças ruírem... Segurei suas mãos e as apertei com força calculada. - Essa criança será uma ponte entre nós, Bianca. – declarei com carinho. – Serei seu amigo acima de qualquer coisa – acrescentei. Um sorriso lindo se abriu em seus lábios rosados, iluminando seu rosto inchado pelas lágrimas. Uma nova rotina começaria em minha vida. Um novo rumo. Um novo desafio. Novos planos.


Capítulo 13 Bianca Melo - Sinceramente, eu não sei como conseguiu me convencer a vir com você, Marcos. – Bianca resmungou ao meu lado enquanto subíamos ao meu apartamento pelo elevador. Ela não parecia estar totalmente segura quanto àquela decisão, mas eu jamais abriria mão daquilo, ao menos não naquela noite, não com ela tão enfraquecida. - Sinal de que ainda existe um lado sensato em você – falei sorrindo. Ela revirou os olhos. As portas do elevador se abriram e ambos saímos no corredor amplo do prédio, meu apartamento era o último. - Isso não se trata de sensatez, Marcos – disse ela em tom baixo. – Sequer temos um relacionamento, não acho certo essa intimidade toda. – Suspirou. – Eu poderia ficar no apartamento que mantenho aqui, que tal? Ao menos é próximo o suficiente para deixar você tranqüilo – propôs cautelosamente. Parei no caminho e me virei para ela. Analisei como o seu corpo reagiu à proximidade com o meu, ela exalava nervosismo e exaustão. - Não abro mão de tê-la sobre meus olhos nessa noite, Bianca – falei calmamente. – E a respeito da intimidade entre nós, bom... – Pausei encarando-a nos olhos intensamente. – Você está gerando um filho meu... Creio que já compartilhamos intimidade o suficiente. – Meu olhar aqueceuse e não fui capaz de frear nossas lembranças mais quentes. Percebi quando ela engoliu em seco tentando disfarçar o rubor em suas bochechas. Coçou a garganta constrangida. - Aquilo foi diferente – justificou, evitando meus olhos. Um ensaio de sorriso brotou em meus lábios sem que eu conseguisse evitar. O constrangimento nítido dela mexeu com meus hormônios mais selvagens. - Eu discordo disso – insisti. – Se encaixa perfeitamente na ocasião. Estávamos bem próximos do meu apartamento, entretanto não resisti à vontade de dar alguns passos para mais perto dela. Encarávamo-nos com intensidade, havia tanta carga emocional que passei a sentir minha respiração falhando e minhas mãos suando. O barulho de uma porta sendo aberta nos despertou, obrigando-nos a nos afastar daquela conexão louca. Amanda nos analisava com extrema estranheza e desconfiança. - Marcos... Aprumei o corpo e voltei a olhar para Bianca que se encontrava ainda mais tensa ao meu lado, toquei em seu ombro levemente. - Boa noite, Amanda. – Saldei-a. – A Bianca irá passar essa noite conosco – comuniquei. Sua testa franziu imperceptivelmente, notei que seu semblante tornou-se carregado com


emoções que eu não soube identificar, porém não me atentei àquilo. - Está tudo bem? – quis saber enquanto saía da porta abrindo espaço para que pudéssemos passar. Em seus lábios estava um leve sorriso de boas-vindas. Abri a boca para responder, mas Bianca foi mais rápida: - Eu estou bem, apesar de o Marcos estar pensando ao contrário – disse, em um tom brincalhão. Entramos no apartamento e Amanda fechou a porta atrás de nós. Larguei as chaves na bancada e comecei a explicar o que havia acontecido sem muitos detalhes, enquanto caminhávamos para a pequena sala. - A Bianca é a funcionária que havia passado mal, Amanda. Havia comentado com você no telefonema mais cedo. – Eu falei direcionando-me a ela que se encontrava nos encarando com precisão. – Onde está Mariana? – perguntei olhando para os lados. Em um suspiro, ela cruzou os braços e seguiu até o sofá. - Está dormindo – respondeu cabisbaixo. – Juntas preparamos a janta, mas você demorou demais para chegar e ela não conseguiu esperar, apesar de estar eufórica para vê-lo. Bianca olhou-me exalando um ar culposo, mas neguei com a cabeça de uma forma que ela pudesse entender que não era culpa dela. Existem coisas que saem do nosso domínio. - Vou vê-la agora – falei massageando minha nuca. Parei na porta que dava acesso à sala e virei o rosto. – Ajude a Bianca a se instalar em meu quarto, Amanda, por favor. - O quê? – Gritaram juntas, com espanto no olhar. Espremi os lábios evitando sorrir. - Irei dormir na sala, oras. – Ergui os braços dramaticamente. – Eu hein...


Bianca Melo Havia uma enorme tensão instalada no ambiente e eu mal estava conseguindo respirar. Era possível sentir a adrenalina corroendo-me por dentro, meu coração batia descompassadamente alertando um perigo abundante que eu sequer conseguia identificar. Na verdade, toda aquela situação tanto me constrangia, quanto me enervava. Eu não fui obrigada a acompanhá-lo até seu apartamento, Marcos sequer me coagiu àquilo, porém não me vi com escolhas para negá-lo... Quando criança sonhava em encontrar uma pessoa que fosse capaz de me amar do jeito que eu era, sem preconceitos. Cresci almejando sentir carinho, ansiava por momentos em que minha presença pudesse ser desejada por alguém... - Você está com a saúde frágil? – Pisquei um pouco confusa. Obriguei-me a me recompor e me foquei na figura da cunhada do Marcos diante de mim. - Desculpe-me, mas posso me sentar um pouco? – Apontei para o sofá. Meu corpo estava dolorido e eu mal estava me agüentando em pé. – Sinto-me mole, feito uma gelatina. – Sorri fraco. Cocei a garganta enquanto me ajeitava. – Excesso de trabalho mesmo – respondi a pergunta dela. - Você não possui família para cuidar de você? – Franzi o cenho diante daquela pergunta, havia um resquício de raiva em seu tom. – Desculpe-me se estou sendo rude, não é minha intenção. – Sorriu abertamente. – Apenas não estou entendendo o motivo de o Marcos ter tomado essa atitude tão... – Calou-se buscando uma palavra que pudesse melhor descrever o que estava tentando dizer. – Solidária com você – falou por fim. – Ele não é adepto a compartilhar a intimidade dele com qualquer um... Senti-me sendo sufocada por uma série de palavrões que me veio na garganta, mas engoli todos eles. Quem aquela mulher pensava que era para falar comigo daquele jeito? - Acontece que eu não sou qualquer uma – falei em tom baixo, lutando contra todas as minhas emoções distintas. Fiquei de pé sentindo uma leve tontura, mas firmei minhas pernas. - Que isso, eu não quis ofendê-la. – Ela falou levantando-se também. Seus braços se cruzaram e percebi que seu olhar em minha direção estava altivo. – Acredito que eu não consegui me expressar como verdadeiramente queria. Respirei profundamente, tensa sem saber como agir diante daquela situação inusitada. - Está tudo bem. – Cocei a garganta e peguei minha bolsa nervosamente. Minhas mãos tremiam. – Por favor, avise ao Marcos que precisei ir embora. Sequer encarei-a, agilizei meus passos para a saída da sala, contudo me deparei com o Marcos no caminho. - Onde está indo? – Boquiaberta, não consegui me expressar. Os braços dele firmaram-me no chão. – Você está bem? Parece pálida. – Ele olhou por trás de mim, provavelmente perguntando-se o que havia acontecido entre eu e sua cunhada. - Estávamos seguindo para o quarto agora mesmo. – Ela disse, em tom carinhoso. – Bianca comentou que está muito cansada, acredito que seja bom que ela descanse um pouco. – Marcos


voltou os olhos para mim quando tentei me afastar dele, minhas mãos em seu peito. – Mariana jantou, mas eu esperei você, Marcos – prosseguiu ela. – Preparei o prato que a Clarisse sempre fazia para você, sabe? Aquele assado... - Obrigado, Amanda. – Marcos a interrompeu, parecia cansado. – Mas estou sem apetite e além do mais, está muito tarde para jantar. Você está com fome, Bianca? – Neguei com a cabeça. – Certo. Venha, vou levá-la ao quarto. Com sua mão firme em minha cintura caminhamos pelo curto corredor em silêncio. Nem em meus mais insanos sonhos, eu seria capaz de imaginar-me passando por uma situação como aquela. Gentilmente, Marcos me amparou até sua cama. Ajeitou os travesseiros atrás de mim e com carinho retirou meus sapatos antes de colocar meus pés sobre o colchão. Não consegui olhar para os lados, me vi hipnotizada por cada gesto, cada detalhe daqueles cuidados. - Você não precisa fazer isso – sussurrei olhando-o. - Não haja como se isso fosse uma obrigação para mim. – Ele disse cobrindo-me com cobertores. – Por que você fica tão receosa quando eu tento ajudá-la? – Sentou-se ao meu lado. Baixei os olhos para meu colo e cruzei as mãos. – Por acaso sente medo de segundas intenções? Ergui os olhos na mesma hora e me deparei com a intensidade dos seus. Marcos me assustava com a sua sinceridade cortante. - É claro que não. – Senti minhas bochechas esquentarem. – Você já deixou mais do que claro que o que houve entre nós dois, foi apenas um momento. Estou tranqüila quanto a isso. - Está? – insistiu ele. Respirei fundo e franzi a testa. - O que está tentando me dizer, afinal? Um longo suspiro escapou pelos lábios dele. Olhando-me por mais alguns instantes ele relaxou os ombros e se levantou, ficando de costas para mim. Mordi os lábios ao analisá-lo por aquele ângulo. Ele era tão lindo e másculo. - Precisa de mais alguma coisa? – replicou, fugindo da minha pergunta. – Se quiser tomar um banho, tem toalhas no armário. E se sentir fome... - Eu estou bem, Marcos. Fique tranqüilo. – cortei-o sorrindo amavelmente. – Vá descansar agora, por favor. Assentindo com a cabeça de leve, ele saiu do quarto. Aprumei o corpo na cama de modo a ficar sentada e me vi com a respiração ofegante. Aquilo era muito estranho. Como eu deixei acontecer? Ergui os olhos e observei a organização do quarto, levantei e comecei a caminhar analisando tudo minuciosamente. Havia uma peça de roupa recém abandonada sobre uma poltrona, não resisti ao desejo de levá-la ao meu nariz para sentir aquele perfume maravilhoso. Com minha pouca experiência com o sexo masculino, nunca havia ficado tão fascinada pelo cheiro de um homem antes. Marcos era cheiroso demais e não era necessário muito esforço para tal, era


o cheiro dele, era apenas... Ele. Meus olhos continuaram passeando pelo recinto até que me deparei com algo específico e que tomou minha atenção completamente. Retornei para perto da cama e me sentei novamente. Havia um autorretrato sobre a cabeceira. Na foto havia uma bela mulher de cabelos negros com um sorriso repleto de felicidade enquanto Marcos a abraçava com um amor abundante. Senti meu coração apertar-se enquanto passeava meus dedos sobre aquela imagem. Um sufocamento me abateu e quando percebi, estava com lágrimas em meus olhos. Sei que parecia loucura, mas senti como se eu estivesse apagando algo na vida do Marcos de alguma maneira. Senti-me uma intrusa ali, aliás, nada diferente do que eu sempre senti em minha vida toda...


Capítulo 14 Marcos Fontana Fazia tanto tempo desde a última vez em que me vi tendo que rever meus planos e minha rotina. Antes, tudo estava tão certo, tão centrado. Ter Mariana em minha vida era a minha única dádiva, era o mel dos meus dias. O motivo para que eu acordasse todas as manhãs... Outro filho. Eu teria outro filho. Lembro-me do dia em que Clarisse me presenteou com a notícia da sua gravidez. Estávamos em um momento íntimo, curtindo a presença um do outro quando de repente ela abriu um imenso sorriso para mim... “- Eu amo deixá-la assim, sabia? - Assim como? – Ela indagou. Apoiei minha cabeça em uma de minhas mãos e com a outra passei a deslizar os dedos por seu corpo nu. - Relaxada e rindo à toa. – Brinquei, mas sem esconder a satisfação da certeza de que a fazia feliz em todas as áreas do nosso casamento, especificamente no sexo. A risada alta dela me fez encará-la e admirá-la. Sempre tão linda e meiga. – Eu vivo pelos teus sorrisos. Vivo pelo teu amor. Vivo para amar você. A mão dela acariciou-me no rosto carinhosamente e não resisti em beijá-la nos lábios. Nossos corpos suados e exaustos, mas eu nunca me cansava de tê-la sobre mim ou abaixo de mim. Amá-la era a minha melhor parte. - E eu vivo para sentir o seu amor. – Ela disse, com a voz entrecortada enquanto sentia minhas carícias. – Apesar de você me fazer a mulher mais satisfeita na cama, meu sorriso nada têm a ver com isso.. - Ah, não? – Abocanhei um dos seus mamilos e lentamente deslizei meus dedos por sua pele, descendo até o umbigo. Sua mão segurou a minha exatamente sobre sua barriga e ali as fixou. Ergui meus olhos e me deparei com os dela lacrimosos. – O quê... - Eu estou grávida, Marcos. – Cortou-me, apertando minha mão. – Iremos ter um bebê meu amor... Encarei-a com os olhos repletos de lágrimas, emoção tomando conta do meu ser naquele momento. - Céus... – Gemi em prantos. Aconcheguei meu corpo sobre o dela e comecei a beijar seu rosto freneticamente fazendo-a sorrir feliz. – Há meses atrás eu dormia todas as noites imaginando formas de fazê-la ceder às minhas investidas e, hoje aqui estamos nós. – Afastei um pouco o rosto para poder olhá-la. – Você me dará um filho... – Beijei seus lábios. – Eu a amo mais do que você imagina, Clarisse. Seria capaz de passar o resto dos meus dias tentando conquistá-la, fazê-la me enxergar como um homem especial... É assim que quero que você me veja.


- É o que você é para mim – sussurrou ela. – Especial em todos os sentidos. A melhor pessoa que eu já tive o prazer de conhecer e sinto-me sortuda de tê-lo em minha vida dessa forma, como o meu homem. – Sorrimos um para o outro. Ajeitei-me entre suas pernas abertas e lentamente a penetrei outra vez. Olhávamos fixamente um para o outro, nossos rostos banhados por lágrimas... Um brilho de emoção e de amor exalava de nossos olhos. “A nossa história estava apenas começando...” - Pai? A voz sonolenta de Mariana despertou-me de minhas lembranças. Levantei da poltrona no qual estava e fui até sua cama repousando os lábios em sua cabeça. Exalei o perfume de seus cabelos. - Oi minha querida – sussurrei. – Acordei você? Juro que não fiz barulho algum. – Ela sorriu. - Por que você demorou hoje? – Sentei na cama ao seu lado e segurei suas mãos, levando-as aos meus lábios. – Amanda e eu preparamos o jantar – emendou. - Eu fiquei sabendo desse grande feito. – Eu disse demonstrando orgulho. O sorriso dela era a minha alegria. – Mas eu tive um contratempo meu amor, uma amiga precisou da minha ajuda e não tive como não ajudá-la. - O que aconteceu? Baixei os olhos e soltei um suspiro baixo. - Eu tive que levá-la ao hospital – respondi. – Mas não pense nisso agora. – Curvei-me novamente e beijei sua testa. – Volte a dormir filha, estou aqui agora. Fiquei com ela por mais algum tempo, até que ela pegasse novamente no sono. Encostei a porta de seu quarto com cuidado temendo acordá-la outra vez. Assim que passei pela porta do meu quarto não resisti à tentação de dar uma leve batida, ansiava saber se Bianca estava tranqüila ou se estava precisando de alguma coisa. Sem obter respostas tomei a liberdade de entrar. Bianca encontrava-se deitada completamente encolhida entre as cobertas. Aproximei-me da cama e analisei-a. Ela havia tomado banho e estava usando uma de minhas camisas. Apesar da atitude ousada, me peguei sorrindo. Apreciei o ato. - Espero que não se importe – sussurrou pegando-me desprevenido. Recostou-se melhor na cabeceira, seus olhos sobre os meus. – Depois do banho eu não quis colocar a minha roupa, na verdade não sou acostumada a dormir... – Coçou a garganta, suas bochechas avermelhando. – Vestida... Mordi os lábios e desci os olhos pelas partes descobertas de seu corpo, imaginando-o sem aquela camisa, lembrando-me dos momentos em que desfrutei dele. - Sem problemas. – Eu disse no mesmo tom sussurrado. – Entrei para ver se você estava bem


e se precisa de alguma coisa. – Sentia-me tão desconcertado que mal consegui permanecer olhando-a nos olhos. - Obrigada pela preocupação. – Ela disse. – Eu estou bem. – Meu olhar fixou-se na cabeceira, especificamente no porta-retratos com a foto de Clarisse. – Ela era muito linda. – A voz de Bianca chamou minha atenção para ela que também observava a fotografia. – Mariana se parece com ela, os mesmos cabelos e sorriso... –Travei o maxilar e comecei a respirar com dificuldade. A sensação de culpa me abateu com força e impiedosamente. Olhar para Bianca esparramada em minha cama fazia-me sentir um peso no coração. Apenas Clarisse tinha dividido aquele espaço comigo... Apenas Clarisse teve o direito de dividir a vida comigo... A minha paciência, minha compreensão, minhas conversas, meus dias, meu coração... – Marcos? – Ergui os olhos, meu coração acelerado demais para compreender o que estava se passando em meu interior. – Está tudo bem? Falei alguma coisa errada? Esfreguei as mãos em minha calça nervosamente. - Não é nada – respondi me virando para a porta. – Vou deixá-la dormir. Boa noite. - Boa noite. Fechei a porta e me vi respirando profundamente ainda no corredor. Instantes depois, Amanda surgiu vindo da sala. - Ah, você está aí. – Ela disse, mas tornou-se desconfiada ao me analisar. – Aconteceu alguma coisa? – Seu olhar era acusatório ao perceber que eu tinha acabado de sair do quarto. - Oh, não... – Cocei a garganta e me afastei da porta. – Fui pegar um travesseiro e uma coberta. Ela continuou me encarando, deslizou os olhos para minhas mãos vazias. - E onde estão? – Senti o ar fugir de meus pulmões, aquilo estava ridículo. Atravessei o corredor a passos rápidos e pesados. - Você está agindo como uma esposa, Amanda – alfinetei com estranheza. – E isso é muito constrangedor, pois o que eu faço ou deixo de fazer não é problema seu. - Não pense que estou tentando me meter na sua vida, Marcos – disse ela me seguindo. – Você não precisa me atacar de forma tão grosseira assim. – Seu tom saiu surpreso. - E como você quer que eu haja? Ultimamente você está sempre com esse tom acusatório, porra! – Me joguei no sofá exausto, tanto psicologicamente quanto fisicamente. - Marcos! – exclamou. – Me desculpa poxa... Eu me preocupo com você e,... A interrompi extremamente irritado. - E o quê? Amanda arregalou os olhos e encolheu-se diante do meu tom. - Você está se relacionando com ela? – replicou de repente, referindo-se a Bianca. Fiquei em silêncio. – Não o estou julgando, apenas me preocupo com o bem estar da Mari. Temo que seja


difícil encontrar alguém que a ame mais do que eu. Franzi o cenho e a encarei. - O que está insinuando? - Nada – respondeu nervosamente. – Vou pegar um travesseiro e uma coberta para que você possa dormir um pouco mais confortável aqui. Sequer tive tempo para tentar argumentar um pouco mais, pois ela saiu da sala rapidamente. Levei as mãos ao rosto e o esfreguei em frustração. Em minha frente parecia ter um tsunami a caminho, contudo eu mal conseguia me mexer.


Bianca Melo Na manhã seguinte eu estava de pé logo cedo, na verdade mal tinha dormido tranquilamente. Minha mente atrevida não me deixou descansar. Levantei assim que a luz do sol bateu nas janelas. Coloquei minhas roupas e delicadamente dobrei a camisa do Marcos guardando-a novamente no armário onde eu havia pegado na noite anterior. Fechei os olhos por um instante, lembrando-me do seu olhar quente a me ver com sua camisa. Meus nervos chegavam a tremer com aqueles pensamentos. Em um ato impulsivo, voltei a pegar a camisa e de um modo sapeca guardei-a em minha bolsa com a certeza de que ele não sentiria falta dela. Olhei para a fotografia de sua falecida mulher e sorri sem jeito. - Desculpa, viu? Mas o seu Marcos é um homem muito cheiroso – sussurrei audaciosa. – Já que eu não posso tê-lo, pelo menos poderei dormir com o cheirinho dele no meu nariz. – Terminei de arrumar a cama e me preparei para sair do quarto. Eu estava ansiosa para sair dali, aquela situação beirava a insanidade na verdade. Marcos era sim, o pai do meu bebê, entretanto não era a sua obrigação cuidar do meu bem estar daquela forma tão... Íntima. Passei pelo corredor e escutei a voz da Mariana, encontrei-a na pequena sala assistindo a um desenho animado. Seus olhos brilharam a me ver. - Bom dia. – Saldei-a com um sorriso. - Bom dia. Aproximei-me dela com calma. - Posso me sentar ao seu lado minha princesa? – perguntei vendo o seu sorriso. – Eu adoro assistir desenhos animados – comentei. - Sério? – indagou enquanto se arrastava para o lado, dando-me espaço para sentar também. – A Amanda não gosta. Franzi as sobrancelhas. - Cada pessoa possui um gosto diferente – expliquei. Ela tornou-se pensativa, em seguida virou o rosto para a televisão. - Você dormiu aqui? – questionou ela de repente. – O papai falou que uma amiga tinha passado mal, foi você? Por isso que dormiu aqui? Vi-me sem ar diante de tantas indagações. Eu não sabia como agir com aquela menina, pois me sentia tomando um espaço que não era meu. Eu apenas carregava um filho fora dos planos, Marcos e eu não tínhamos nada. - Eu dormi aqui sim – falei apenas, tomando o cuidado de olhá-la nos olhos. Aquilo dava segurança. - O meu pai gosta de cuidar e ajudar as pessoas. – Ela confidenciou orgulhosa.


Não segurei o sorriso aberto, mas resolvi mudar de assunto: - Hoje você não irá para a aula? – Inclinei-me um pouco e pude ver em seu pescoço, a corrente que eu havia dado a ela. Meu sorriso se abriu ainda mais diante daquilo. Ela encolheu os pés enquanto se ajeitava entre as almofadas. - Hoje eu não tenho. É reunião – explicou. - Hmm. Então quer dizer que,... Fui interrompida pela entrada abrupta da cunhada estranha do Marcos. - Mariana você já tomou café? - Eu quero terminar de assistir esse desenho tia – disse a menina. - Nada disso – falou autoritária. – Preparei ovos e torradas, estão na mesa esperando por você. Sem ter muita escolha, Mariana saiu da sala sorrindo para mim. Acenei carinhosamente para ela. Instantes depois me vi sozinha com Amanda. Levantei, ficando de frente para ela. - O Marcos... - Está no banho. – Interrompeu-me grosseiramente. – Acabei de levar uma toalha para ele. Senti meu coração dar uma baqueada na mesma hora. Como assim ela levou a toalha para ele? Que intimidade era aquela? - Ah. – Fui a única coisa que consegui dizer. - Você quer tomar café? Aliás, dormiu bem? Fiquei a olhando, irritada com a tentativa tosca de gentileza. Estava mais do que óbvio que ela não gostava de mim, ou melhor, não gostava de mim com o Marcos. - Agradeça ao Marcos por mim, por favor. – Eu disse me encaminhando para a saída. - Eu aviso sim. Saí de lá com uma sensação de perda no coração. Ao mesmo tempo em que eu sabia que Marcos estava fora do meu alcance, também sabia que havia uma conexão intensa entre nós. Será que eu estava imaginando coisas? - Droga, Bianca! – exclamei frustrada. Quando eu estava no saguão do prédio, meu telefone começou a tocar. Imaginei com o coração ridiculamente acelerado que fosse o Marcos, exigindo saber o motivo de eu ter saído sem me despedir dele, mas tamanha foi a minha decepção ao atender e constatar que se tratava de uma ligação do Estevão. - Não desligue, por favor. – Ele disse rapidamente e com desespero. - E por que eu não faria isso? – indaguei irritada. Avistei um táxi e não perdi tempo em chamá-lo.


- Estou precisando de você, branquinha. -Ah, vai se... Interrompeu-me. - É sério! - Eu não me importo – falei enquanto entrava no táxi. - Estou no hospital, Bianca. – Ele declarou fazendo-me entrar em choque. – Sofri um acidente ontem. Lembranças de nós dois passou a pipocar em minha mente, não era possível que aquilo estava realmente acontecendo. Estevão podia ter sido um babaca, mas eu jamais ficaria imune a algo tão grave. - Em que hospital você está?


Capitulo 15 Bianca Melo Uma senhora abordou-me na recepção do hospital assim que cheguei. De óculos vermelhos, usava um pulôver tricotado à mão e o cabelo preso em uma trança grossa. Sua expressão era séria. - Bianca? Eu sou Tereza. – Ela estendeu a mão e sorriu tensa. – Estevão me disse que eu a reconheceria quando a visse. Ele está no andar de cima. A cirurgia foi complicada, mas agora ele passa bem. – Ela parecia preocupada e desconcertada. Talvez porque não quisesse me preocupar com o verdadeiro estado de saúde do Estevão. - Cirurgia? - Foi necessário que operassem o joelho dele, senhorita. Infelizmente no acidente o mesmo foi esmagado – explicou fazendo-me respirar com dificuldade. – Mas o pior já passou – emendou. A falta de detalhes me aborrecia, porém Estevão parecia estar ótimo. - Fico satisfeita em saber que ele passa bem. – Fiz um gesto para que ela apontasse o caminho para o quarto de Estevão. – Leve-me até ele, por favor. Queria correr, gritar. Aquilo não era real. Não poderia ser. - Não posso. Mas... Bem, irei indicar-lhe a direção. Forcei-me a caminhar, como se atravessasse uma parede gelatinosa, densa e sufocante. O que me deixava um pouco mais tranqüila era saber que ao menos Estevão tinha um bom plano de saúde e estava sendo bem cuidado. Ao chegar diante da porta do quarto dei duas batidas de leve, a mesma estava entreaberta. Estevão abriu um enorme sorriso a me ver diante dele, seus olhos ganhando um brilho intenso. - Obrigado por vir – disse quando eu me aproximei de seu leito. – Eu não tenho mais ninguém aqui. - Estranho – resmunguei sarcástica. – Eu pensei que você tinha a sua mulher. Um gemido de angústia escapou dos lábios dele. - Esquece, não vim aqui para acusá-lo, muito menos para julgá-lo. – Minha voz soou quente e reconfortante, apesar de claramente amarga. - E por que veio? As paredes eram brancas, o dia doía de tão brilhantemente claro. Aos poucos, o aço acinzentado do meu olhar tornou-se nítido. - Em consideração a tudo o que vivemos – respondi com indiferença. – O que aconteceu com você, afinal? – Sentei-me em uma das poltronas. Com dificuldade ele virou-se de lado, a fim de ficar olhando diretamente para mim. Em seu


rosto havia pequenas escoriações. - Eu me perdi em uma curva – respondeu sem muitos detalhes. – A pista estava um tanto escorregadia e não consegui estabilizar o carro. - Você já avisou a mais alguém? – questionei procurando o meu aparelho celular no qual estava tocando. – Ao Andrew, por exemplo – acrescentei. - Lembrei apenas de você, branquinha... – sussurrou ele, fazendo-me encará-lo com exaustão psicológica. Ao analisar o visor do celular constatei que se tratava de uma ligação do Marcos. Meu coração disparou imediatamente e uma corrente elétrica atravessou o meu corpo. – O que foi? Ergui os olhos outra vez, encarando-o. - O que disse? – indaguei com ar perdido. - Não vai atender a ligação? É da empresa? Pisquei freneticamente e voltei à atenção para o telefone novamente, no momento em que o mesmo parou de tocar frustrando-me. Mal tive tempo de me auto-condenar pela demora em atendê-lo, pois o mesmo voltou a me ligar. - Desculpe Estevão. – Apontei para o aparelho. – Preciso atender. Deixei o quarto em passos rápidos e a caminho da sala de espera, atendi: - Oi, Marcos. - Por que saiu sem me avisar? – confrontou-me sem cerimônias. – Aconteceu alguma coisa? Por instantes analisei suas perguntas e me peguei mordendo os lábios. A verdade é que eu havia ficado mexida com o fato de a cunhada e ele serem tão íntimos. Mas o que raios eu tinha a ver com aquilo? - Recebi uma ligação de um amigo – respondi por fim. O que não era mentira. – Você já está na empresa? - Estou a caminho – respondeu. – Você está em condições de trabalhar, Bianca? Droga! Eu não gostei de não tê-la visto mais cedo – resmungou em um tom rouco arrepiando-me. - Eu estou bem, Marcos – respondi, buscando convencê-lo. – Mas provavelmente não comparecerei à empresa hoje, aconteceram alguns imprevistos e... - Algo com o bebê? – cortou-me agitado. Fechei os olhos deleitando-me daquele carinho exagerado, mas ao mesmo tempo doce dele. - Fique tranqüilo – falei. – O bebê está bem. – Sorri enquanto acariciava o meu ventre. – Bom, nos vemos amanhã? - Vou dar uma passada no seu apartamento mais tarde. - Marcos... - Estou apenas comunicando a minha decisão, Bianca. – Revirei os olhos diante de suas


palavras arrogantes. – Até mais tarde. Segurei a vontade de mandá-lo se danar e me contentei em despedir-me apenas. Fiquei olhando para o visor do celular por alguns instantes mesmo após ter encerrado a ligação, a adrenalina corroendo-me. Era tão intensa a briga de sensações que Marcos me fazia sentir que eu via-me perdida em emoções. Assim que me estabilizei resolvi retornar ao quarto onde estava Estevão. No fundo, meu subconsciente obrigava-me a abandoná-lo ali e deixá-lo a própria sorte. - O que está fazendo? – perguntei, ao vê-lo sentado confortavelmente em uma cadeira de rodas. Parecia estar me esperando. – Por que não está na cama? – intimei. Ele abriu um sorriso enigmático. - Estou de alta, branquinha – disse, irritando-me por me chamar por aquele apelido. – Podemos ir. Arqueei as sobrancelhas, obtendo a certeza de que ele já havia planejado tudo. - Como assim, podemos ir? O que está insinuando? - Eu necessito de cuidados, sequer consigo caminhar normalmente – respondeu sem nenhum constrangimento. – E já comentei com você que não tenho ninguém por mim... - E o que eu tenho a ver com isso, droga? – gritei, mas logo me recompus ao dar-me conta de que ainda estávamos no hospital. – Você sequer merece a minha preocupação seu canalha! – rosnei apontando-lhe o indicador. – Onde está a sua amada numa hora dessas? O maxilar dele trincou nitidamente, contudo não recuou o olhar. - Está diante de mim. – Apontou em minha direção. Suspirei audivelmente e me virei de costas com as mãos na cintura. Meu corpo estava dolorido ainda e dava sinais da falta de apetite. Meu humor ficava péssimo naquele estado faminto. - Quanto tempo de recuperação? – perguntei ainda sem olhá-lo. – O que o médico disse? - Preciso de no mínimo um mês. – Ele respondeu cauteloso. - Duas semanas e nem um dia a mais – falei impaciente. – Aliás, provavelmente eu irei me arrepender dessa decisão, sei disso. – Soltei outro suspiro. - Iremos conversar – disse ele. – É inevitável que você me ouça – insistiu. Cerrei os olhos e o fuzilei. - Vou descer – alertei entre dentes. – Chame alguém para ajudá-lo com a cadeira. Virei-me nos calcanhares e saí dali em passos duros, irritada com o rumo que aquilo tomou.


Marcos Fontana Não fui capaz de trabalhar tranquilamente naquele dia, pois com uma freqüência assustadora me via com Bianca em meus pensamentos. Irritava-me aquele fato, assim como me enervava que ela tivesse saído do meu apartamento sem ao menos falar comigo. Será um sentimento de frustração em saber que ela nem hesitou em me evitar? Aquilo era extremamente ridículo, pois o que eu e ela tivemos além de alguns momentos? Eu precisava parar e repensar os meus sentimentos, as minhas reações diante de tudo o que vinha acontecendo e o mais correto seria retornar para Joinville, mas como fazer aquilo e deixar a Bianca sozinha? A minha preocupação sobressaía-se ao incômodo que me corroia por dentro. Jamais me perdoaria se algo acontecesse a ela ou ao bebê. - Você parece incomodado com alguma coisa. - Felipe comentou de repente. Já era final de tarde e o treinamento já havia se encerrado, Felipe era um dos poucos que sempre ficava para me ajudar com a organização da sala. - Você é um bom observador – falei em tom leve, esforçando-me para estabilizar os sentimentos conflitantes dentro de mim. – Estou tendo alguns problemas pessoais. - Quer conversar? – O encarei com desconfiança e ele sorriu. – Você não parece ser acostumado a compartilhar os seus problemas com mais alguém além de si mesmo. - E você tem total razão – reconheci. – Não faço isso há bastante tempo. Minha única ouvinte foi arrancada de mim. – acrescentei em amargura, referindo-me a Clarisse. Felipe descansou a mão em um dos meus ombros em um gesto amigo. - Entendo isso perfeitamente, eu tive muitas perdas também – confessou. – Mas é necessário aprender a trilhar novos caminhos, sabe? Aprender a confiar novamente nas pessoas, Marcos. - E qual o segredo? Ele soltou uma risada e se encaminhou para a porta. - Ah, mas isso é individual. Você precisa descobrir o seu. Tornei-me pensativo, analisando suas palavras. Eu não conseguia entender o que eu poderia estar fazendo de errado. Clarisse havia me deixado, mas eu continuava a viver conforme tinha prometido a ela. Por que aquela constante sensação de sufocamento no peito? Não era fisicamente, vinha de dentro. - Estou enlouquecendo, porra! – Finalizei minhas tarefas e logo depois segui na mesma direção em que Felipe havia seguido instantes antes. Verifiquei o horário e sequer pestanejei, iria direto para o apartamento da Bianca. Precisávamos ter uma conversa longa e definitiva a respeito daquele bebê. Eu faria questão de acompanhar tudo de perto, compareceria a todas as consultas e exigiria maiores cuidados para a saúde dela, consecutivamente para o bebê.


Longos minutos depois e eu me vi subindo ao apartamento da Bianca através do elevador, estava cansado do dia cheio, estressado com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. Assim que parei diante da porta dei duas batidas e aguardei. - Marcos! – O rosto de Bianca iluminou-se a me ver em sua frente. – E não é que você veio mesmo? – Sorriu. Apoiei ambas as mãos no batente da porta, inclinando-me sobre ela. - E como proceder com pessoas fujonas? – Brinquei, fazendo seu sorriso aumentar. – Vai me convidar para entrar? – Analisei seu visual casual e leve. Seu rosto completamente limpo de maquiagem deixava-a ainda mais deslumbrante. – Nós precisamos conversar Bianca. Ela baixou os olhos suspirando audivelmente. - Eu estou consciente disso, Marcos, mas essa conversa deverá esperar um pouco – disse ela um pouco tensa. – Nós precisamos de privacidade e no momento... – Calou-se erguendo os olhos para mim. - O que foi? – intimei intrigado. - Bianca? – Uma voz masculina ecoou de dentro do apartamento, fazendo-a se encolher imperceptivelmente. – Está tudo bem? Nervosa, Bianca evitou meus olhos e respondeu: - Não se preocupe Estevão. – Deu dois passos para trás e com uma das mãos segurou a porta impedindo-me de entrar. – Podemos deixar isso para outra ocasião? – questionou-me. - Como assim? – Repousei a mão na madeira da porta. – O que significa isso, Bianca? O que esse cara está fazendo aí? – Uma fúria expandia-se em meu interior. Com ar espantado ela disse: - Qual a necessidade desse tom? – Dobrou os braços e me encarou com irritação. – Não ouse me confrontar com perguntas que não lhe dizem respeito, Marcos. Afastei-me da porta com o maxilar trincado. Ela tinha total razão, sua vida pessoal não me dizia respeito. Nosso bem em comum era somente o bebê. - Está certo – falei entre dentes. – Irei embora, não quero atrapalhar o seu momento. – Ela revirou os olhos e tentou se justificar, mas a interrompi: - Amanhã nos falamos. Saí de lá a passos duros e firmes. Ignorei o elevador e desci pelas escadas. Uma série de xingamentos pairava em meus lábios, mas sequer ousei pronunciá-los. Era algo que saía da minha zona de conforto e eu temia entender o que aquilo realmente significava. Nem sei como consegui dirigir até meu apartamento. Em meio a tanta irritação, havia também as contradições que serviam somente para me confundirem ainda mais. - Marcos? Marcos é você? – A voz da Amanda se fez presente assim que abri a porta do


apartamento. - Sim, sou eu – respondi cabisbaixo. Larguei minhas chaves na bancada e lentamente retirei meu casaco, enquanto caminhava até a cozinha em busca de um copo de água. Necessitava refrescar minha garganta seca. - Oi. – Amanda saldou-me animadamente. – Está sentindo o aroma gostoso? Virei para ela e a encontrei com uma expressão reluzente. Deslizei os olhos por seu corpo e algo nela me lembrou Clarisse automaticamente. Eram os cabelos negros caídos sobre os ombros? Ou o vestido de tecido leve que Clarisse tanto amava usar? - Está cozinhando? – repliquei, sem evitar ser ranzinza. Tomei um longo gole de água e depositei o copo na pia. - Na verdade eu já cozinhei – respondeu ela. – Eu estava esperando você chegar para jantarmos. Está com fome? – perguntou enquanto retirava uma travessa do forno. – Você parece cansado. – Observou. Vi-me atônito diante daquilo. - Isso é... - Macarrão de forno. – Interrompeu-me com um sorriso lindo. – Eu lembro que você amava quando Clarisse preparava para vocês. – Rapidamente serviu dois lugares na mesa, sentou-se em um e convidou-me para sentar no outro. Estranhei a ausência da Mariana. – Ela já jantou e está no quarto, creio que até pegou no sono. – Ameacei ir vê-la, mas Amanda segurou-me pela mão, o que me surpreendeu um pouco. - Ela está bem, Marcos – disse puxando a cadeira para que eu sentasse. – Diferente de você – concluiu. – Muito estresse no trabalho? Ajeitei-me na cadeira e apoiei a cabeça entre as mãos. Todos os recentes acontecimentos bombardeando minha mente. A idéia de que Bianca estaria novamente com Estevão me incomodava enormemente. - Estou estressado realmente – confessei em um suspiro. Amanda gentilmente me serviu com uma porção generosa de macarrão. - Quer conversar sobre isso? – Neguei com a cabeça e ela sorriu compreensiva. – Espero que me tenha como uma amiga de confiança, Marcos – brincou. Limpei os lábios com o guardanapo e joguei as costas para trás contra a cadeira. - Se existe alguém no qual eu confie plenamente, com toda a certeza esse alguém é você, Amanda – falei, vendo o seu belo rosto se iluminar. – Sei que tenho sido grosseiro com você ultimamente, mas peço que me perdoe. Toda essa mudança está me consumindo, ainda mais agora que eu descobri... – Calei-me, incapaz de confessar. Ainda não estava preparado para revelar sobre a gravidez da Bianca. Amanda arqueou as sobrancelhas.


- O que você descobriu? – quis saber. - Esquece – pedi, me levantando. – Obrigado pelo jantar, mas eu vou... Amanda se levantou bruscamente e impediu o meu movimento. Seu corpo ficou bem próximo do meu o que ocasionou para que eu pudesse sentir o seu perfume de rosas. - Deixe-me cuidar um pouco mais de você, Marcos... – sussurrou enquanto forçava meu corpo para frente e se posicionava atrás de mim, suas mãos delicadas em meus ombros. – Irei fazer uma boa massagem para que você possa ter uma noite de sono tranqüila e serena – avisou, deslizando as mãos em minhas costas, ombros e pescoço. Eu estava tão cansado e tenso que sequer recusei aquele agrado. Fazia tanto tempo que eu não sabia o que era ser cuidado por alguém que me senti bem com aquele gesto de Amanda. - Lembre-se que você sempre poderá contar comigo, Marcos. Estarei sempre aqui para você e para a Mari... Sempre.


Capítulo 16 Bianca Melo - Eu não acredito que você foi burra ao ponto de levá-lo para o seu apartamento, Bia – Exasperou Aline. Estávamos tendo uma vídeo chamada em meu quarto. – Ele não havia sido um canalha com você? Mordi os lábios, constrangida ao extremo. - É, ele foi. – Soltei um suspiro enquanto me recostava entre os travesseiros. – Mas eu... - Na verdade estamos falando de quem mesmo? – interrompeu-me. – Do teu ex-namorado, ou do cara da empresa que você ficou? – indagou confusa. Franzi as sobrancelhas e sorri. - De onde você ressuscitou aquela peste do Tiago, Aline? – Bati três vezes contra a madeira da cabeceira da cama. – Para a minha sorte, nunca mais o vi ou ouvi falar dele. Depois que troquei meu número ficou mais fácil de me livrar de alguns infortúnios... - Menos desse. – Ela voltou a me interromper, referindo-se ao Estevão. - Sim. – Respirei profundamente. – Ele me pegou desprevenida, sabe? Tinha acabado de sair do apartamento do Marcos e... - Como assim? Revirei os olhos. - Quer parar de me interromper, chata? – Ela sorriu. – Resumindo: Passei mal na empresa e o Marcos me socorreu, levando-me ao hospital. A forma linda e generosa com que ele cuidou de mim mexeu comigo e eu não tive como continuar escondendo a paternidade dele. Depois ele me convenceu a dormir em seu apartamento, pois não ficaria tranqüilo sabendo que eu poderia passar mal novamente sem que ele pudesse estar por perto. - Ai que amor, Bia – disse Aline, em tom meloso. – Ele é muito cuidadoso com você. - Com o bebê – corrigi na mesma hora, fazendo-a revirar os olhos. - Você entendeu o que eu quis dizer – retrucou. - Fico imensamente feliz que você seguiu o meu conselho e confessou a verdade para ele. – Me senti muito mais leve eu confesso. – Acariciei meu ventre em contentamento. Ergui os olhos e voltei a me concentrar no que eu estava falando. - Bom, assim que acordei hoje, me deparei com a cunhada dele. - Argh! A maligna. – Aline disse em tom de tédio, fazendo-me gargalhar. - Isso, mesmo – falei entre risos. – Perguntei do Marcos, pois eu não o tinha visto ainda. Ela então deu a entender que eles haviam tomado banho juntos e aquilo me pegou de surpresa, sabe? Não sei explicar o que eu senti na hora, Aline, só sei que não esperei um segundo a mais e saí praticamente fugida de lá.


- Você ficou com ciúmes. Eu também ficaria. - Mas, Aline, ciúmes do que? – indaguei frustrada diante daquela situação. – Eu e o Marcos tivemos apenas alguns momentos. - A hora em que você parar de tentar se enganar terá a sua resposta – falou ela com firmeza. Tornei-me pensativa e me aninhei nas cobertas ajeitando o laptop na mesinha ao lado da cama. - Nesse momento onde está esse Estevão? – perguntou ela, de repente. - Dormindo no quarto ao lado. Quase não dei atenção a ele. – Revirei os olhos. – Ele até tentou se justificar sobre o nosso passado, mas eu não dei chance. - Típico de todos os cafajestes querer se explicar do óbvio. - Concordo. – Bocejei de sono. – Irei ver até onde conseguirei tolerar isso tudo, pois no fundo ando muito sobrecarregada. - Vêm me visitar – convidou-me. – Assim é uma oportunidade de fugir dessa avalanche e descansar um pouco. Adoraria babar nessa barriga linda – emendou completamente eufórica. Sorri de sua alegria nítida. - Seria uma briga e tanto com o Marcos. Ambas tivemos que concordar e gargalhamos em seguida. ∞ - Não vai atender ao telefone? – indaguei ao Estevão na mesa do café. – É a terceira vez seguida que seu celular está tocando. - Não é importante. – Ele disse indiferente. Assenti com a cabeça e continuei tomando o meu café, lutando para ignorá-lo. - Branquinha... - Pare de me chamar assim. – Eu disse enojada. – Você perdeu esse direito no momento em que descobri a sua pilantragem comigo. - Deixe-me explicar... - Foi para isso que me coagiu a trazê-lo para cá não é mesmo? – Voltei a interrompê-lo. – Forçar-me a engolir as suas desculpas – Levantei-me e levei minha xícara para a pia. – Saiba que irei telefonar para o Andrew e avisá-lo do acontecido. Quem sabe assim ele não encontre algum parente seu. - Bianca, espere. – Sua mão segurou a minha quando passei por ele, mas eu puxei automaticamente me livrando do seu aperto. - Ouça Estevão: Você estar aqui, não significa que voltaremos com o nosso relacionamento –


expliquei friamente. – A nossa história acabou, além do mais, estou grávida de outro homem. O maxilar dele enrijeceu e seus olhos desceram para meu ventre. - E posso saber quem é esse homem? Odiei-o ainda mais por seu semblante sarcástico. Apontei o indicador para ele completamente indignada. - Um homem maravilhoso, não um merda feito você – cuspi. Virei-me nos calcanhares. – Seus remédios estão sobre o armário. Se vire com eles e seus horários. Eu já tenho o meu bebê para cuidar. – Um sorriso pairava em meus lábios, como reflexo de minha leveza em menosprezá-lo. Canalha! Mais tarde na empresa me vi estática diante de uma ligação do Andrew: - Ainda está na linha, Bianca? - Estou Andrew. - Ah. Bom, como eu estava dizendo... - Eu escutei o que disse. – O interrompi. – Só não entendi como eu deixarei a matriz do Rio para voltar a Joinville. Quem ficará no meu lugar aqui? - Eduardo concordou em cobrir você por um tempo. - Mas ele não havia saído do Rio para fazer um curso? – rebati. - Sim, mas agora está de volta. Ele ainda está revendo algumas propostas. Inclinei-me sobre minha mesa e massageei as têmporas. - Estou tão habituada aqui no Rio de Janeiro, Andrew – queixei-me. - Mas eu havia deixado claro a você que seria provisório Bianca. Lembra-se? E pense pelo lado positivo: ficará mais perto de nós justamente na sua gravidez. Eu sorri de sua tentativa em me agradar. - Está certo, então. – Eu disse. – Final do mês retornarei. Vou precisar de tempo para me organizar, além de conseguir outro apartamento e... Interrompeu-me. - Sinta-se convidada a se hospedar em nossa casa pelo tempo que quiser e precisar. Marie ficará encantada em mimá-la. Uma onda gigante de gratidão atravessou o meu peito. - Obrigada, meu amigo. – Minha voz tornou-se embargada, mas logo consegui me estabilizar. – Logo estarei de volta. - Ótimo, então. Eu sabia que podia contar com você.


- É claro que sabia. – Revirei os olhos, divertida. – E quanto ao Estevão, Andrew? Ouvi-o grunhir. - Esperaremos que ele se recupere. - Eu não quero trabalhar ao lado dele de novo. – Deixei claro. - Sei disso. Respirei aliviada. Conversamos por mais alguns minutos até encerrarmos a ligação. Verifiquei o horário e ao me levantar alguém bateu na porta da minha sala. - Entre – pedi enquanto me preparava para sair. De costas para a porta, não me preparei psicologicamente para me deparar com Marcos me encarando com a rotineira intensidade. – Marcos. - Bianca. – Sorri. Amava a forma como ele pronunciava o meu nome. – Está de saída? - Sim, estou. Hora do almoço – comentei com espontaneidade fazendo-o sorrir pelo óbvio. - Verdade. – Abriu a porta e se pôs de lado esperando eu passar. – Podemos almoçar juntos e conversar? O encarei com estranheza e cautela. - Não sei se é uma boa idéia, Marcos. Da última vez, Mariana ficou muito magoada com a sua demora e por minha causa – lembrei-o. - Conversei com ela antes de deixá-la no colégio, Amanda irá buscá-la com o carro que alugou. Parei ao escutar o nome da cunhada dele. - E ela aceitou tranquilamente? - Claro que sim – respondeu. – Mariana gosta de você. - Não estou falando da Mariana – retruquei voltando a caminhar. Atravessamos a recepção e logo estávamos no pátio do estacionamento. - Não entendi. O que está insinuando? – Ele segurou-me pelo braço me forçando a parar. Nossos olhos fixos. – Seja clara, por favor. - Marcos? – Uma voz feminina ecoou atrás de nós, fazendo-nos olhar na direção da mesma. Amanda nos encarava com um sorriso forçado. Marcos me soltou e afastou-se. - Mais claro do que isso? Impossível. – Deixei-o e segui até o meu carro. Era óbvio que a cunhada o amava e estava claramente marcando território. Ajeitei-me no banco do motorista, frustrada com o fato de ele não ter me seguido ou tentado me impedir de ir, afinal de contas iríamos almoçar, poxa!


Liguei o carro na ignição, porém antes de acelerar olhei pelo retrovisor. Marcos conversava fervorosamente com ela e sequer parecia se importar com o meu afastamento. Aquela constatação amargou-me por dentro, assim como a descoberta cada vez mais certa de que Marcos não era apenas o pai do meu bebê... Meu coração queria mais do que isso.


Capítulo 17 Bianca Melo Eu não soube dizer se era os hormônios da gravidez ou simplesmente o fato de meu coração besta sentir-se atraído por Marcos, mas o meu rosto estava completamente banhado de lágrimas. Eu nem mesmo sabia para onde estava dirigindo, simplesmente estava sem rumo e buscando entender o que se passava em meu interior. Meu telefone começou a tocar pela quarta vez seguida e não tive como continuar ignorando ao verificar o visor e constatar que se tratava de uma ligação de Estevão, não queria carregar o peso de saber que ele poderia estar precisando de mim e eu não o atendi. Utilizei o sistema de bluetooth. - O que você quer? – Atendi sem me incomodar ao estar sendo grosseira com ele, afinal ele não merecia minhas gentilezas. – Estou dirigindo, então se não está precisando da minha ajuda para nada e só me ligou para me atrasar, poupe meu tempo. - Uow! – exclamou ele. – Quanta falta de paciência com o seu querido hóspede – disse de modo sarcástico. – Educação mandou lembranças... - Ok, estou desligando. – Ameacei, mas ele foi rápido em me impedir. - Me desculpe, por favor. – Implorou. – Estou te ligando para dizer que preparei um almoço bem gostoso, mas que não acho certo degustá-lo sozinho. Por acaso você já almoçou? - A nível de curiosidade, como conseguiu cozinhar se mal anda? E qual seria o motivo que me faria aceitar confraternizar com você? Ele riu audivelmente. - Apesar de eu achar esse teu jeito arisco um charme, às vezes irrita pra caralho, sabia? – Revirei os olhos e buzinei para um carro que me ultrapassou perigosamente. – O que foi isso? – Estevão quis saber. – Está tudo bem? Bianca venha almoçar comigo, por favor... Eu estou no seu apartamento, são as suas coisas, eu apenas quis agradá-la e... Porque eu estava com fome também, claro. Foi a minha vez de sorrir. - Eu tenho que admitir o quanto você é descarado, Estevão. Desconhecia esse seu lado atrevido, confesso. - Tivemos pouco tempo para conhecer melhor um ao outro – disse ele com pesar na voz. - E de quem foi a culpa? – revidei com ira. - Promete que virá almoçar comigo? – Ele ignorou minha indagação e eu suspirei cansada. Na verdade eu estava exausta de brigar e sinceramente, estava faminta também. - Está bem, você venceu. Estou indo. - Perfeito! – exclamou feliz do outro lado da linha. – Espero ansiosamente, branquinha.


∞ Poucos minutos depois e me vi entrando em meu apartamento, o aroma de temperos estava espalhado pelo ambiente. Estevão estava me esperando na cozinha. - Desculpa não ter ido te receber – disse ele. - Não tem problema. Na verdade nem era para você estar fazendo esforços desnecessários – referi-me ao fato de ele ter cozinhado. – Você possui condições para pedir um delivery – emendei, sentando-me à mesa. - E onde fica o prazer de preparar com minhas próprias mãos, algo para agradar a quem eu amo? – contrapôs. - Não me irrite com suas mentiras, por favor. Não quero me arrepender de ter vindo para cá, ainda tenho uma tarde inteira de serviço e quero tranqüilidade, aliás, eu preciso de tranqüilidade. Ele se calou e permaneceu me olhando enquanto eu me servia com diversas delícias que ele preparou. No fundo eu estava surpresa e deliciada com todas aquelas iguarias, mas não daria o braço a torcer, sequer o parabenizei. Agoniada com o silêncio, não me contentei e alfinetei-o: - Avisou alguém sobre o seu paradeiro? Aposto que deve ter pessoas a sua procura, não? Ele soltou um suspiro e inclinou-se sobre a mesa apoiando o queixo nas mãos. - Eu não sou casado, Bianca, apesar de tudo ter conspirado para que parecesse isso. Larguei os talheres com força no prato e o encarei com mágoa, as lembranças se aflorando em minha mente. - Eu estive na sua casa e encontrei uma mulher nua em sua cama enquanto você estava no banho – sibilei pausadamente. – Ela me disse com todas as letras que eu era somente um passatempo na crise conjugal de vocês, Estevão. Eu me lembro de cada palavra cruel que ela me disse, de cada risada... - Branquinha... - Não me chame assim. – Cortei-o. – Chega disso! Nem me interessa mais, felizmente eu não sinto mais nada, nem um sentimento sequer. - O nome dela é Miranda – insistiu em desespero. – Fomos casados por quatro longos anos, mas foram os piores da minha vida. Muitas brigas em decorrência de ciúmes e desconfianças, praticamente o nosso casamento era um tormento para mim. – Minha atenção passou a ser dele totalmente. – Cansado de continuar tentando, insistindo em algo que só estava me desgastando, resolvi me separar e acabar logo com aquilo. – Ele se serviu com uma taça de vinho e olhei torto para ele. - Isso inibirá o efeito dos antibióticos. – lembrei-o. - Não têm problema. – Soltou o ar aos poucos e me olhou intensamente. – Ela nunca aceitou


a separação, Bianca – declarou deixando-me chocada. – Passou a me perseguir e a criar situações constrangedoras como aquela onde você a flagrou em meu apartamento. Até hoje eu não entendo como ela conseguiu entrar sem que eu a notasse – comentou pensativo. - Meu Deus! – exclamei ainda atônita. – Eu não fazia idéia. - Agora você entende? Consegue acreditar em mim? - Eu... – Calei-me sem saber o que dizer. Havia escrito uma página obscura em nossa história em vão -, pensei. Pisquei freneticamente e notei que Estevão estava diante de mim na cadeira de rodas, suas mãos buscando as minhas. - Eu jamais iria magoá-la. - Não tenho palavras, eu... Céus! O destino foi muito ingrato conosco. – Exasperei. - Mas nós ainda estamos aqui, podemos continuar... Um sufocamento me abateu de repente e me obriguei a interrompê-lo com agonia cortante. - Agora o momento é outro. – Baixei os olhos e afastei suas mãos das minhas. – Estou grávida e... - Está apaixonada pelo pai do seu filho? Levantei da cadeira e fui até a pia ansiando por um copo de água. Vi-me nervosa demais. - Bianca? Voltei a encará-lo nos olhos. Emoção gritando em nossos semblantes. - Sim – confessei em prantos. – Perdidamente apaixonada por ele. – O ar deixou meus pulmões por alguns instantes diante daquela confissão surpreendente até mesmo para mim. Estevão fechou os olhos e quando voltou a abri-los os mesmos estavam úmidos e entristecidos. Aquilo era muito injusto conosco. Havíamos feito tantos planos, apesar do pouco tempo de relacionamento. Amamos-nos com força e intensamente, contudo o nosso tempo passou. Estevão teria que aceitar aquele fato.


Capítulo 18 Marcos Fontana Não acreditei quando meus olhos encontraram com Amanda esperando por mim na frente da empresa. Ainda estava tentando digerir as recentes palavras de Bianca, aquilo sequer fazia sentido. - O que faz aqui? – indaguei com a testa franzida. Imediatamente procurei Mariana dentro do carro e avistei a mesma lendo um livro. Alívio tomou o meu peito. - Bom, como você tinha me explicado o endereço da empresa, resolvi dar uma passada aqui com a Mariana. – Sorriu abertamente. – Acabei de buscá-la no colégio. Apoiei uma das mãos no carro e respirei profundamente. - Você me assustou, Amanda – falei um pouco nervoso. – Já estava me preparando psicologicamente pensando que tinha acontecido alguma coisa ruim. – Sorri nervosamente. – E sem falar que estava de saída com a Bianca e... – Me calei ao olhar para trás e não mais vê-la, jurava que ela tinha me seguido. – Estranho! Ela estava aqui agora mesmo. – Arqueei as sobrancelhas em desgosto. Mulher difícil! - Vocês estavam de saída? – Amanda questionou indiferente. - Sim – respondi, olhando para ambos os lados na esperança de encontrá-la mesmo após ter conferido que o carro dela não estava mais no pátio. – Temos alguns assuntos para tratar e iria aproveitar o horário propício. - Hm – resmungou enquanto dava a volta no carro para entrar no lado do passageiro. Sem alternativa, entrei também. – Você e ela estão bem próximos – comentou no momento em que arranquei com o carro. Olhei Mariana no banco de trás pelo retrovisor e sorri amavelmente quando nossos olhos se encontraram. - É porque possuímos algo em comum agora. – Eu disse extremamente evasivo, não estava pronto para revelar a Mariana que ela teria um irmão ou irmã. Amanda tornou-se pensativa e virou-se para a janela. – E como foi a sua manhã de passeio? – puxei assunto. - Foi interessante – respondeu. – Ao menos quando voltarmos a Joinville terei o que contar para as amigas. – Brincou sorrindo. – A propósito, quando voltaremos? Trinquei o maxilar e senti-me gelar por dentro com a sensação de entorpecimento. - Eu não sei. Amanda arqueou as sobrancelhas, porém não me atentei muito e prossegui prestando atenção no trânsito. - Como assim não sabe Marcos? Que eu saiba nossa estadia aqui seria provisória – acusou. - Não altere o tom de voz comigo – falei baixinho, evitando que Mariana percebesse minha irritação com sua tia. – Se está descontente aqui, poderá voltar a qualquer momento, droga!


Encarei-a com raiva vendo o espanto em seu semblante misturado a decepção. - Sem problemas – disse simplesmente. O restante do caminho foi feito em total silêncio, sendo quebrado apenas por perguntas aleatórias de Mariana a nós dois. Assim que entramos no apartamento, pedi para que Mariana fosse trocar de roupas e lavar as mãos que logo desceríamos para almoçar no restaurante. Amanda ignorou-me, contudo segurei seu braço no momento em que tentou passar por mim. - Me desculpe, eu fui completamente grosseiro com você – falei em tom ameno. Encarou-me por alguns instantes, contudo sorriu. - Isso já está virando um costume seu. – Acusou, mas usou um tom brincalhão, porém senti-me ainda pior. – Fica tranqüilo, está tudo bem. - Não diga isso – falei com pesar. – Agi feito um ogro com você e isso foi egoísmo da minha parte. Praticamente largou sua vida para acompanhar a mim e a minha filha e sequer tenho demonstrado gratidão. Os olhos dela brilharam intensamente. - Estar ao lado de vocês é o que preenche os meus dias, Marcos. Eu só sinto falta de um pouco mais de confiança da sua parte, sabe? Estou com você desde sempre e às vezes parece que sou uma intrusa na sua vida. Soltei um suspiro longo e esfreguei o rosto em frustração. - Eu perdi o hábito de partilhar minha vida com outra pessoa, Amanda. Estou acostumado a fazer e resolver tudo sozinho e... - Eu estou aqui para dividir o fardo com você. – Amanda sussurrou apertando minha mão, pegando-me de surpresa. A intensidade do seu olhar me deixou desconcertado e um pouco desestabilizado diante da semelhança com Clarisse. – Sou sua amiga. – Lentamente umedeceu os lábios com a língua e meus olhos seguiram o movimento. Fomos interrompidos por Mariana que atravessou o corredor feito um furação. Afastei-me de Amanda com um franzir de testa. O que foi aquilo? Esfreguei ambas as mãos na calça, em seguida bati uma na outra: - Pronta para comer um prato cheio e repleto de verduras? – perguntei, vendo Mariana fazer um bico desgostoso. Amanda e eu sorrimos. – Eu sei o quanto você é corajosa e enfrenta aquilo que a deixa desconfortável. – Instiguei-a. - Eu sou sim. – Sorriu abertamente e a ergui em meus braços com carinho. Coloquei-a em meus ombros deleitando-me com a sua risada feliz. Ao menos eu podia desfrutar daqueles momentos ao ponto de me esquecer dos infortúnios. ∞ Dois dias se passaram e não tive mais oportunidade de conversar com a Bianca. Aquilo me agoniava enormemente. Ambos estávamos tão atarefados em nossos afazeres que ficava bem


difícil parar. Era sexta-feira e eu estava me preparando para finalizar o meu expediente, praticamente eu não estava tendo mais tanta utilidade, já que as equipes vinham demonstrando considerável melhora. Aproveitei meu momento livre e fiz uma ligação para o Andrew. Ele atendeu no quinto toque. - Marcos! Perdoe-me a demora em atendê-lo. - Sem problemas, Andrew – falei com tranqüilidade. - E então? Acabei de receber seu e-mail com o relatório da semana, mas não tive tempo de ver ainda. Mal cheguei em casa e Lucas já me atacou na porta. – Ele deu risada, era nítida sua emoção quando mencionava a relação com o filho. - Eu sei bem o que é isso – falei, sorrindo ao me lembrar de Mariana. – Pois bem, seus seguranças estão com o treinamento extra quase concluído – expliquei. – Logo poderei retornar. - Perfeito, Marcos – disse. – Estou bem satisfeito com o seu trabalho. Bianca sempre me deixa a par do feedback e é extremamente positivo. Sorri orgulhoso. - Fico feliz em saber. - Bom, Marcos, você já deve estar sabendo que Bianca estará retornando a Joinville por esses próximos dias e... - Como é? – interrompi-o abruptamente. Andrew ficou em silêncio por alguns instantes, provavelmente estranhando o meu tom. - Meu antigo administrador, Eduardo, ficará no lugar dela e Bianca voltará a me ajudar aqui – explicou. – Na verdade é a Marie quem está precisando da ajuda dela – emendou. Pisquei os olhos freneticamente de modo a clarear a bagunça dos meus pensamentos. Cocei a garganta: - Está certo, Andrew – falei por fim. – Continuarei aqui até que se completem os três meses do contrato. - Acredito que não haja necessidade disso, Marcos – disse ele. – Eu ia ligar para você na próxima semana já. – Inclinei-me sobre a mesa e me atentei ao que ele tinha para me dizer. – Acontece que com o crescimento da marca de grife da Marie, tivemos um aumento na demanda, e, consecutivamente foi preciso abrir outra filial. Inauguramos na semana passada. Um sorriso sincero pairou em meus lábios. Eu havia sido testemunha diária da luta da Marie em conquistar o próprio espaço. Ela era merecedora das alegrias com que vinha tendo em sua vida e daquela conquista profissional. - Que alegria! – exclamei feliz. – A senhora Marie sempre sonhou com esse crescimento. - Verdade! Minha marrentinha é sinônimo de orgulho para mim. – Inevitavelmente a imagem da


Clarisse me veio à mente e vi-me frustrado com saudades dela. – Enfim, Marcos, como as coisas aumentaram consideravelmente, eu preciso que retorne ao cargo de segurança dela. O James até designou um de sua confiança, mas eu não estou satisfeito. O cara exala muita simpatia para o meu gosto. Segurei a vontade de sorrir. Obviamente que ele estava se ardendo de ciúmes da mulher. - Entendi Andrew – falei. – Vou agilizar o meu retorno. Uma agitação do outro lado da linha chamou a minha atenção e me assustei ao escutar a voz doce da Marie: - Isso, Marcos, por favor. – Ela disse. – Não agüento mais esse homem reclamando do pobre segurança que está comigo agora. Soltei uma risada divertida e ela se alegrou. - Fica tranqüila. - Obrigada. – Sorriu, notei pelo tom de sua voz. – Deixe um beijo em sua filha linda. - Deixarei. – Sorri agraciado. Troquei mais algumas palavras com Andrew antes de encerrarmos a ligação. Repousei o celular na mesa e fixei o olhar para o vazio. Vi-me sem reação, sem conseguir raciocinar sobre quais seriam meus próximos passos dali em diante. Uma batida na porta da sala chamou minha atenção e ergui meus olhos. Bianca estava lá. - Oi – disse um pouco encabulada. – Como está perto do horário de ir para casa, pensei em convidá-lo para conversar. Está a fim? Precisei de alguns segundos para reagir e comandar o meu corpo que se acendia a cada encontro com ela. Ajeitei-me na cadeira fazendo um convite mudo para que ela se aproximasse e se juntasse a mim na mesa. - Não só estou a fim, como acho uma excelente idéia, inclusive estou louco para saber quando pretendia me contar sobre o seu retorno a Joinville – acusei fazendo-a parar o movimento de se sentar. Encarou-me com cautela. – Acabei de saber pela boca do Andrew. Ela semicerrou os olhos e cruzou os braços. - Óbvio que eu contaria a você, Marcos. Apenas não havia tido oportunidade ainda – respondeu totalmente na defensiva. – Quando iríamos conversar a sua cunhada apareceu feito uma sombra, aliás, é isso mesmo o que ela é. Franzi a testa, surpreendido. - Uow! Que ataque gratuito é esse contra a Amanda? – perguntei indignado. – Não conversamos naquele dia por culpa sua, que é incapaz de enxergar além de si mesma - decretei. – Simplesmente foi embora sem me dar explicações.


Os olhos dela encheram-se de lágrimas. - Eu sou incapaz de enxergar além dos meus problemas, Marcos? É essa a visão que você tem de mim? – questionou, magoada. Droga! Os hormônios da gravidez -, pensei. Esfreguei o rosto e baguncei meus cabelos. - Não, Bianca, eu... – Calei-me e me levantei para impedir que a mesma saísse da sala. – Espere. – Ela começou a se debater para se soltar de mim. – Bianca, calma... – Segurei suas mãos e forcei seu olhar no meu. – Me desculpe, peguei pesado agora. Ela respirava ofegante. - Você é um completo idiota, Marcos. – Ela disse com a voz embargada. Seus lindos olhos nos meus hipnotizando-me. – Um grosseirão! - Eu sou – sussurrei, caminhando com ela até bater suas costas na porta. Arquejou com o susto. Ela fungou. - Você não sabe de nada. – Sua boca formou um delicioso beicinho devido ao choro e aquilo foi demais para mim. Soltei suas mãos e colei nossas bocas em um beijo urgente e faminto. Descansei as mãos em seu delicado rosto e passei a ditar o ritmo e a intensidade do nosso beijo. Senti quando suas mãos fecharam-se na barra da minha camiseta com força e fervor. Céus, eu a queria! Ali e naquele momento.


Capítulo 19 Bianca Melo Eu lutava para compreender o que estava acontecendo, ao mesmo tempo em que permitia que aquela intensidade toda me queimasse. Em que momento passou do desentendimento e brigas, para a luxúria dominante e atrevida? Marcos me beijava de uma maneira única, como se desfrutasse de uma fruta extremamente saborosa. Tentei ditar o ritmo, porém ele não permitiu e pressionou-me um pouco mais contra a porta. Vi-me alucinada quando senti a rigidez de sua ereção em minha barriga, não resisti à tentação e levei a mão até ela, apertando com vontade. Ambos suspiramos extasiados. - Marcos... – Gemi, buscando novamente os seus lábios com sofreguidão enquanto sentia-o enrijecer ainda mais sob minha mão. De repente, Marcos interrompeu meus movimentos e se afastou consideravelmente. - Não... – Sussurrou, colando sua testa na minha. – Isso não está certo. – Sua respiração estava tão desestabilizada que mal conseguia falar. Concentrei-me em seus olhos tentando ignorar o desejo insano que percorria em minha corrente sanguínea. - Por que estaria errado? – retruquei ofegante. – Olhe para nós. – Repousei as mãos em seu peito e surpreendi-me ao constatar o quanto seu coração estava acelerado sob meus dedos. – Percebe a conexão que temos? Marcos embrenhou os dedos em meus cabelos por trás da nuca, de maneira sedutora. Sentime ainda mais excitada com o olhar predador que ele estava me direcionando. - Para começar, ainda estamos na empresa e aqui não é lugar para isso. - Mas eu não me importo – falei mais do que depressa segurando seu rosto com ambas as mãos. - Eu me importo Bianca. – Se afastou negando o meu beijo. Virou-se de costas passando a mão na nuca. Irritada, fui até ele e o puxei para mim. Seus olhos se arregalaram surpreendidos devido a minha explosão. - Primeiro: Você me ofende; Segundo: Você me faz chorar; Terceiro: Beija-me como se sua vida dependesse disso e, agora que eu estou com a boceta latejando, quer me deixar na mão? – As pupilas dele dilataram-se quando pronunciei aquelas palavras chulas. Foda-se! Eu me mexi inquieta, o interior das minhas pernas estava pegajoso e úmido. Fazia poucos dias desde minha descoberta sobre os sentimentos que eu nutria por ele e ainda estava buscando refletir sobre aquilo. Mas uma coisa era certa: Eu o desejava ardentemente. - Você está grávida – falou em um tom perigosamente baixo, estremecendo-me. Céus! Como


eu o queria. - E quero dar para você – declarei, avançando contra ele. Seus braços rodearam-me pela cintura instintivamente. – Quero sentir suas mãos outra vez em mim, Marcos. – Beijei lentamente seu pescoço, lambendo-o em seguida. Seus dedos afundaram na pele com força. Ele parecia estar se controlando. – Você pode me saciar? – O encarei com um olhar devasso e enxerguei um vulcão em seus olhos prestes a entrar em erupção. - Eu odeio a idéia de querer você, sabia? – Ele confessou pegando-me desprevenida. – Me irrita essa bagunça de sensações que estou sentindo agora. Estávamos perto de sua mesa, então ele me empurrou sobre ela debruçando-me e me forçando a ficar com o bumbum empinado para ele. Gritei de susto. - Está machucando o bebê? – Ele quis saber em um tom carregado de preocupação. - Não. – Gemi roucamente. Estava expectante demais para raciocinar sobre qualquer outro motivo. Satisfeito com minha resposta ele descansou suas enormes mãos em minhas costas e as deslizou até meu bumbum. Lentamente ergueu minha saia lápis expondo meu traseiro amoldado por uma tanga fio de renda. Arrepiei-me quando ele soltou um gemido de apreciação. Senti seus dedos deslizarem por minhas nádegas e então resfoleguei quando me tocou por cima da calcinha. - Você está tão excitada – comentou roucamente, massageando-me. Minha umidade era abundante. – Tão deliciosamente molhada... – Ele se colocou por trás de mim e esfregou-se em meu quadril. Sua boca veio parar em meu pescoço onde mordiscou minha pele macia. – Está sentindo o quão desejoso estou? – sussurrou enquanto soltava beijos molhados em minha orelha, pescoço e queixo. Sua ereção cutucando-me incansavelmente através da calça. – Juro para você que estou me controlando... - Não quero que se controle – falei em um gemido baixo. – Se solte, por favor... – implorei, sem fôlego. – Dê-me tudo! Então em um instante ele me prensava e no outro estava arrancando a minha calcinha impaciente. Em um movimento abrupto ele me virou de frente para ele. Seu olhar direcionado a mim era puro fogo. Quase não tive tempo de reagir quando sua boca fechou-se sobre a minha, consumindo meus lábios e a minha língua em um frenesi tórrido. Ele colocou a mão por trás do meu pescoço para me guiar, aprofundando o beijo, acariciando minha língua com a dele. Marcos chupou e lambeu dentro de mim, provocando arrepios em minha espinha. Sem tirar a boca da minha, ele me ergueu. Assim era melhor -, pensei. Eu poderia pressionar meu corpo contra o dele, sentir seu desejo pressionando a minha barriga, sentir o contato que tanto ansiava. Alguns objetos caíram, mas sequer demos atenção. Estávamos mais preocupados com nosso desejo mútuo e aterrador. Corri minhas mãos por seus cabelos e para baixo, ao longo da base de seu pescoço, desfrutando dos formigamentos que atravessavam as minhas pernas enquanto ele gemia contra meus lábios. Minhas mãos se arrastaram até sua camisa, desejando estar sobre sua pele. Eu podia sentir


os músculos firmes do seu peito sob meus dedos. Eu queria correr as unhas sobre seu corpo, desejando sentir novamente os pêlos de sua pele, desesperada para estar nua e apertada contra ele. - Me toque... – Abri minhas coxas para ele, levando sua mão para cima com uma das minhas. Ele sorriu contra meus lábios enquanto, de bom grado, eu lhe mostrava a minha necessidade. Seu toque era fogo contra a minha pele, e eu me agitei com sua carícia, querendo mais daquele calor, ansiando pelo inferno que estava à espera. E, então, seus dedos estavam dentro de mim, afastando o tecido fino da calcinha, alcançando o ponto sensível do meu desejo. Eu gemi ao seu toque, seu polegar circulando o feixe de nervos com uma mistura hábil de pressão, profunda e suave ao mesmo tempo. Toques leves como pena era seguido de fricções calculadas. Eu já estava me contorcendo quando ele mergulhou um dedo em mim. Engoli em seco, levantando meus quadris de encontro ao seu dedo, incapaz de raciocinar por causa da vontade de gozar. Marcos murmurou contra a minha boca: - Bianca, você está me deixando louco com os seus murmúrios e com o jeito que está molhada para mim. – Ele levou meu sulco até meu clitóris e, em seguida, enfiou dois dedos dentro de mim, provocando uma série de gemidos em meu corpo. Mais um roçar em meu clitóris e eu estava no limite, meu orgasmo me levava a ter convulsões. Mas, mesmo gozando em sua mão, ele não parou o seu ataque. - Você fica tão deslumbrante quando goza. – Sua voz traiu a sua admiração e seu próprio desejo. – Preciso fazer de novo. Ele puxou minha calcinha enquanto eu ainda tremia. - Incline-se para trás e se apóie nos cotovelos – ordenou. Fiz o que ele disse, aliviada por ter um apoio. Então senti suas mãos em meus joelhos, afastou minhas pernas e abriu-as ainda mais. E, antes que eu me desse conta, seus dedos voltaram à minha vagina, três deles agora, e sua língua estava em meu clitóris. - Oh, Céus! – murmurei com voz entrecortada. Seus dedos hábeis me fodiam, entrando e saindo em golpes longos, profundos e uniformes, enquanto ele chupava e lambia meu clitóris. Agarrei a beirada da mesa atrás de mim quando senti uma nova onda de outro orgasmo me assaltar, todos os meus músculos se apertando, minha vagina apertando-se em torno dos seus dedos. Ainda assim, ele se alimentou de mim, observando com prazer a evidência do meu êxtase, acariciando os meus tenros nervos com a língua, numa devoção infinita. Era demais. Um terceiro clímax me atravessou logo em seguida ao último. Atirei minha cabeça para trás tremendo violentamente gritando sons ininteligíveis, totalmente irracional e incapaz de saber o que dizia. Quando minha visão clareou e meu cérebro voltou a funcionar, vi que ele estava me segurando, sussurrando em meu ouvido, meu cheiro em seus lábios.


- Você está bem? Meus dedos agarraram tufos de seus cabelos. - Sim – respondi em um gemido. Meus batimentos acelerados. Ele me beijou, meu gosto ainda agarrado a sua língua. Apesar de saciada, a excitação começou novamente com o toque de seus lábios e a consciência da enorme protuberância em sua calça. Logo, ele se afastou. Lutando para me recompor, deslizei para fora da mesa, encontrei minha calcinha no chão e rapidamente a coloquei. Eu o segui com os olhos quando ele caminhou até o armário e pegou sua pequena mochila. Quando olhou para trás, me pegou olhando e sorriu. Corei. Aquela era uma familiaridade que eu desconhecia apesar de meu corpo responder tão fácil a ele. - Podemos conversar em seu apartamento? – Notei sua expressão satisfeita. - Não, hã, Estevão, está comigo ainda. Uma carranca substituiu o seu sorriso. - O que está acontecendo entre vocês? Respirei fundo e senti-me inquieta demais para iniciar aquele assunto no momento, ainda mais com o corpo tão sensibilizado. - Ele foi hospitalizado em decorrência de um acidente de trânsito e precisou se hospedar em meu apartamento. - E por que lá, com você? – Ele se aproximou de mim, colocando as mãos nos meus braços. – Bianca, sei que não temos nada e nem ao menos entendo o que está acontecendo conosco. Porém, definitivamente, não me sinto confortável em saber que você está convivendo ao lado de outro cara. – As palavras eram severas, como se estivesse repreendendo uma criança rebelde. – Na verdade, isso me deixa muito descontente. Ora, ora... Marcos tinha uma veia ciumenta? Mas eu não podia permiti-lo se infiltrando em todos os aspectos da minha vida. - Estou apenas sendo solidária com ele. Ele cruzou os braços sobre o peito. Eu o encarei. - Você sequer possui o direito de me cobrar qualquer coisa que for, não quando convive com a sua cunhada. – Minha frustração ficou clara em meu tom de voz. – Sabe de uma coisa? Nem éramos para estar discutindo algo que não nos levará a lugar algum. Você nunca irá me assumir como sua não é mesmo? Prefere conviver com a sua dor...


Ele fez uma careta. - Não há necessidade de entrar em assuntos delicados, Bianca. Abaixei-me e peguei minha bolsa que havia caído no chão, minha expressão tensa. - Você tem razão – falei com voz estrangulada. – Não precisamos disso, aliás, nosso assunto deveria ser apenas a respeito do bebê que estou gerando... - Pare com isso. – Ele voltou a segurar meu braço. – Agora você está sendo infantil e egoísta. - Outra vez você está me subjugando, Marcos – acusei, soltando-me do seu aperto. – E é engraçado o quanto é fácil para você fazer isso e ao mesmo tempo não aceita que eu faça com você. - Nós não nos conhecemos o suficiente, é isso... – Soltou em um suspiro culpado. - O problema é que você parece não querer essa evolução em nossa relação. – Meu tom saiu trêmulo. – Prefere ficar preso em um passado triste e profundo. Nem mesmo da cunhada consegue se livrar. - De novo mencionando a Amanda? É sério isso, porra? – Explodiu assustando-me. – O que ela tem haver com o nosso assunto? Irritada, apenas dei de ombros, embora minha vontade fosse a de dizer: Ela tem tudo a ver seu idiota! Odeio saber que ela convive tão perto de você e eu não. Odeio saber que ela possui infinitas oportunidades de te conquistar e tê-lo como eu não posso ter... O encarei, embora seus olhos ardentes e sua boca não davam nenhuma indicação de que algo fora do comum tivesse ocorrido instantes atrás entre nós dois. Relutante em ser honesta, mas incapaz de deixar o assunto morrer, pressionei: - Você é um homem regado de uma inteligência e profissionalismo excepcionais. Dono de uma sinceridade cortante e de uma personalidade forte. Ama lindamente a sua pequena filha e exala integridade por seus poros, contudo, é incapaz de enxergar que a própria cunhada o ama. Os olhos dele se arregalaram e percebi o quanto aquela constatação o deixou atônito. Cansada daquele clima pesado, me virei em direção à porta. Rapidamente ele me puxou para encará-lo, mas nada pronunciou, apenas permaneceu me olhando com espanto. - Estarei viajando domingo agora para Joinville. Ficarei provisoriamente na casa do Andrew e da Marie – expliquei. Abri a porta e ameacei sair, entretanto me voltei novamente para ele. - Ah, lamento por você não ter gozado. Saí de lá com o coração aos pulos e agoniado por mais uma conversa sem sucesso. Nosso relacionamento teria futuro ou estaria fadado ao fracasso?


Capítulo 20 Marcos Fontana “Não existe palavras capazes de expressar a dor da perda, é uma sensação indescritível. Um enorme vazio se forma no coração e nada consegue preencher. Qual o sentido do amor? Seria ele um destruidor de corações? Inclinado sobre meus joelhos ali permaneci na parede daquele hospital. Tão enfraquecido fisicamente quanto psicologicamente. Foram nove meses de puro sofrimento e dor, longos meses de frustração e lamentos ao testemunhar o amor da minha vida me abandonando aos poucos enquanto eu estava de mãos atadas. Impotente ao extremo. Um toque em meu ombro me fez estremecer, mas não ergui a cabeça, continuei como estava. Afundado em minha tristeza, afundado em minha insignificância e dor. - Marcos? – A voz de Amanda soou como um gemido. – Eu deixei a Mariana com a mamãe. – Ela falou em tom baixo. – Eu vim o mais rápido que pude, assim que soubemos da notícia. – Permaneci em silêncio. – Levante-se desse chão, por favor, você precisa ser forte. Balancei a cabeça em negação. - Eu não sou forte, Amanda. – sussurrei a olhando nos olhos, seu semblante abatido espelhando o meu. – A minha força vinha dela e agora a sua irmã me deixou. Ajoelhando-se diante de mim ela segurou fortemente minhas mãos. Seus olhos estavam marejados e carregados de dor. - Clarisse estava sofrendo muito, Marcos. - E eu, Amanda? – gritei, mergulhado em meu egoísmo. Ela olhou ao redor desculpando-se com alguns enfermeiros, eu pouco me importava. – Olhe para mim, veja o quanto estou despedaçado... Desesperada, ela se jogou em meus braços e abraçou-me apertado enquanto ambos desfrutávamos da mesma dor. - Como vou sobreviver sem ela agora? – gemi entre lágrimas, sentindo ela me apertar com força. – Como sobreviver a essa ausência torturante? – Me afastei dela e voltei a me jogar contra a parede. As pessoas passavam por nós, dentre eles, enfermeiros e médicos, contudo o tempo parecia ter dado uma pausa. Eu apenas enxergava borrões, a minha consciência me levava ao passado, de quando eu era feliz antes de toda aquela tragédia. - Tínhamos muito para compartilhar, não é justo – queixei-me em prantos. - A morte não é justa, Marcos. Ela apenas destrói, contudo também serve para aliviar o sofrimento. Clarisse sofria com dores intermináveis, ela estava cansada. Esfreguei meu rosto grosseiramente com as mãos e respirei de maneira profunda, ansiando despertar daquele pesadelo sem fim. Eu estava consciente que aquilo aconteceria mais cedo ou mais tarde,


porém não queria aceitar. Nunca me conformaria com a morte dela. - Eu perdi a minha luz, nada mais faz sentido. – Olhei para minhas mãos, em especifico para a que possuía a aliança. – Clarisse era o meu bálsamo. - Mariana ainda está aqui, e, ela precisa do pai dela. – Virei o rosto em direção a ela. – Ainda não é o fim, ao menos não para você... Levantei com muito esforço, meu corpo pesava e minha cabeça estava latejando dolorosamente. - Estou aqui com você, viu? Você não está sozinho, Marcos. – As mãos dela buscaram as minhas outra vez. – “Vou cuidar de vocês dois, eu prometo...” Recordar o passado não era algo no qual me agradava, doía-me enormemente lembrar-se dos dias de sofrimento de Clarisse e do seu findar... Aqueles momentos me marcaram de um modo sobrenatural, doloroso demais. Contudo, transformouse em um divisor de águas agora que meus olhos finalmente se abriram para o óbvio. A conversa que tive com Bianca algumas horas atrás me deixou momentaneamente atônito. O pânico deu lugar à incredulidade, entretanto os pequenos detalhes deixados dia após dia durante todos esses anos passaram a fazer sentido para mim. - Aconteceu alguma coisa, Marcos? – Pisquei freneticamente com a pergunta da Amanda. Estávamos jantando, aliás, eu nem havia tocado na comida ainda. – Você não gostou do que eu preparei? Tomei o cuidado de fazer como a Clarisse fazia e... - Você não precisa imitar a sua irmã, Amanda. – A interrompi, nervoso diante de toda aquela descoberta. Ela arregalou os olhos e notei que suas bochechas coraram. Observei ela conversar com Mariana e logo ficamos sozinhos no recinto. - Você acha que eu a imito? – questionou-me, decidida. Ela estava em pé diante de mim, por um momento me vi intimidado. - Em certos momentos, sim – respondi sem recuar. – Na verdade tomei consciência disso somente agora. – emendei. Cruzando os braços no peito, ela me intimou: - E por que você acha isso? Como chegou a essa conclusão? Soltei um suspiro alto e apoiei o queixo sobre as mãos enquanto me inclinava sobre a mesa. - Quando eu conheci a sua irmã você ainda era uma adolescente, possuía sonhos, era cheia de vida. Entretanto, agora me deparo com uma mulher adulta com limitações que sem querer lhe foram imposta. - Como assim? – quis saber, confusa. – Do que você está falando? - Quando a Clarisse faleceu você fez uma promessa a mim de que ficaria ao meu lado e me


ajudaria com a Mariana, entretanto, você não parou para ouvir o que eu queria, simplesmente impôs a sua presença. – O rosto dela tornou-se pálido e sua expressão se anuviou, apressei-me em explicar o meu ponto. – Não me tome como uma pessoa egoísta ou ingrata. Sou extremamente consciente do que você fez por mim e pela minha filha, sua sobrinha. Você se doou para nós, Amanda. – Meu tom de voz saiu baixo. – Fez tanto por mim que me sinto em dívida com você, contudo creio que não serei capaz de pagar da maneira que você almeja. – Ergui meus olhos para ela e notei seu olhar surpreso. – Sendo assim, não a quero perdendo os seus dias comigo, entendeu? Não há motivos para continuar ao meu lado, você precisa sair e conhecer o mundo. Curtir baladas, namorar... - Por que está me dizendo isso, Marcos? – Ela perguntou sua voz falhando. – Quem está enchendo a sua cabeça contra mim? Arqueei as sobrancelhas, estranhando aquele tom. - Ninguém está enchendo minha cabeça, Amanda, não fale besteiras! – Arrastei a cadeira para trás e me levantei, havia perdido o apetite. – Simplesmente percebi que não é justo, ou melhor, não é certo que continue comigo assim... – calei-me, constrangido. - Assim como? – insistiu, puxando-me pelo braço. Seus olhos ardentes nos meus. Firmei nosso olhar e não recuei. - Você não é e, nem nunca será a minha mulher, Amanda – decretei de uma vez. Ela precisava saber, precisava acordar para a realidade. Em choque, ela soltou meu braço e se afastou de mim. – Sequer a vejo com outros olhos. Para mim você continua sendo a irmã do grande amor da minha vida. Algumas lágrimas deslizaram por seu rosto, partindo o meu coração. Eu a amava por ser quem era e por tudo o que ela representava na minha vida, mas jamais almejei algo fora dos meus limites. Nunca a desejei como homem e aquilo não mudaria. - Você não vai terminar o seu jantar? – perguntou, enquanto enxugava o rosto com as costas das mãos. – Nem mesmo tocou na sua porção. – Observou enquanto ignorava propositalmente o que havíamos acabado de conversar. – A Mariana anda com mania de deixar comida no prato assim. – Sorriu balançando a cabeça. – Mas é turrona igual você, apesar de ter herdado a doçura da mana... - Amanda? – Ela continuou a tagarelar nervosamente, me deixando preocupado. – Amanda, pare. - Me solta. – Agitou-se quando toquei em seu ombro na intenção de acalmá-la. – O que você quer agora? Não se satisfez em me humilhar? – Seu semblante estava revoltado. – Esse tempo todo eu estou ao seu lado, amando-o em segredo. – Sua voz entrecortada. – E agora você quer me descartar como se eu não fosse nada? – acusou, impiedosamente. - Isso não é verdade, Amanda. – Tentei me aproximar, mas ela continuou se afastando. – Eu só almejo o seu bem, você precisa se libertar para encontrar alguém que a ame. Esse alguém não sou eu. - Você não sabe do que eu preciso – retrucou magoada. – Não sabe o que é melhor para mim, Marcos. Não sabe. – Novamente tentei me aproximar, mas foi em vão. – Farei o que você quer,


mas você jamais será feliz. Sabe por quê? – Bateu no próprio peito. – Porque ninguém o ama como eu. Nem mesmo a Clarisse conseguiria amá-lo com tanta intensidade. Travei o maxilar diante da menção a memória da minha falecida mulher. - Não ouse questionar o amor que sua irmã devotava a mim. – Rosnei, me controlando. – Em nenhum momento eu lhe faltei com respeito, Amanda, não me force a isso, porra! Ela se voltou para a porta, enxugando as lágrimas. Soltou uma risada amarga. - É aquela mulher não é? – perguntou, me encarando. – Se apaixonou por ela? Arqueei as sobrancelhas, meu coração acelerando gradativamente. Minha pele ainda estava sensível devido às recentes carícias que compartilhei com Bianca mais cedo. Obviamente que ela me despertava reações que nenhuma outra conseguiu, ao menos depois de minha amada Clarisse. Porém, afirmar que eu estava apaixonado, já era demais -, pensei. - A Bianca não tem nada a ver com isso. – Minha garganta ficou seca e precisei me servir de um copo de suco. Ela abriu a boca para falar, mas hesitou. - O “x” da questão, é que a quero como uma amiga, uma pessoa que possui um lugar especial em meu coração. Sem malícia, Amanda. Você sempre será bem-vinda em minha casa, na vida da Mari. – Encarei-a nos olhos para dar uma melhor ênfase no que eu dizia. – Mas é somente isso que posso oferecer, chega de se enganar. Percebi quando ela engoliu em seco e assentiu com a cabeça. Saiu da cozinha em silêncio, deixando-me com uma sensação de tristeza por ela, mas muito mais leve por ter deixado as coisas mais claras entre nós.


Capítulo 21 Bianca Melo Fazia pouco tempo que eu havia chegado da empresa e simplesmente me tranquei em meu quarto. Estevão havia me chamado algumas vezes, entretanto eu não respondi. A minha mente estava aflita demais para conversar, ainda mais com ele. Depois de longos minutos mergulhada na banheira, decidi sair enrolada na toalha. O cansaço parecia ter amenizado um pouco, contudo minha pele continuava sensível pelas carícias do Marcos. Aquele homem parecia estar entranhado em mim de uma forma como nenhum outro foi capaz. Joguei-me na cama assim que me vesti com uma camisola simples, porém delicada. Minha vontade era a de chorar até o amanhecer. Aquilo não era justo. Por que eu não conseguia ser feliz no amor? O que havia de errado comigo afinal? Lembro-me que na adolescência eu não era a garota que se destacava entre as demais, aliás, eu nunca fui bem quista pelos garotos, ao menos não pelos meus atributos. Os anos foram passando e as coisas não mudaram muito, continuei não tendo sorte com meus paqueras, continuei não sendo a mais desejada das mulheres. Meu ex-namorado, Tiago, me traiu com minha até então melhor amiga, logo depois eu pensei que tivesse sido enganada por Estevão, o que não impediu que o sofrimento me abatesse com força, pois eu o amava, ou pensava que amava pelo menos. Encolhi-me entre as cobertas e ajeitei a cabeça nos travesseiros. Ainda era cedo se comparado ao horário que eu estava acostumada a dormir, mas o cansaço psicológico estava me desgastando demais. Levei as mãos ao meu ventre saliente e deixei uma lágrima deslizar por meu rosto, sentindo-me culpada pela enorme negligência com o meu bebê. Nem ao menos tinha tido a primeira consulta, não havia comprado nenhuma roupinha, não estava sendo uma boa mãe e aquilo partiu o meu coração quando tomei consciência daquele fato. - Oh, meu bebê... Desculpa a mamãe? Sou uma completa desnaturada. –Suspirei entre lágrimas. Fechei os olhos e a imagem constante do Marcos continuava lá, persistindo em me atormentar. A sua voz rouca em meu ouvido, os seus gemidos e sorrisos direcionados a mim... Céus! Eu o amava e não era mais um engano. Meu coração o queria. Com as mãos em meu ventre eu me encolhi ainda mais e não segurei o desejo de chorar. Lamentei por minha falta de sorte em amar um homem no qual estava preso em sua viúves, lamentei por mais uma vez sofrer com a rejeição de não ser amada como eu amava... Uma batida na porta do quarto me despertou de minhas lamentações, fiquei quietinha enquanto enxugava meu rosto com as costas das mãos. - Bianca? – Estevão me chamou. – Bianca? Está tudo bem com você, branquinha? – insistiu, sua voz doce. Engoli as insistentes lágrimas que teimavam em cair e me sentei na cama. - Entre, Estevão – pedi enquanto me ajeitava contra a cabeceira da cama. Desejei que ele não percebesse os meus olhos vermelhos e inchados. – Está precisando de alguma coisa? Cheguei tão cansada que mal te dei atenção não é? – brinquei na tentativa de quebrar o gelo. Caminhando com dificuldade, ele se aproximou de mim e sentou-se na beirada da cama.


- Eu que vim te perguntar se está precisando de alguma coisa, oras – falou com carinho, buscando minhas mãos por cima do cobertor. – Parece tão tristonha. Quer desabafar? – Neguei com a cabeça. Constrangia-me conversar com ele a respeito de minhas falhas amorosas. – Certo, então eu vou desabafar a respeito do meu dia, posso? – Eu abri um sorriso aliviado assentindo, nada melhor do que escutar sobre outros assuntos que não fosse relacionado a você mesmo. Nos minutos seguintes ele buscou narrar com detalhes as suas peripécias do dia, arrancando-me risadas sinceras e divertidas. Enquanto ele narrava as suas aventuras, eu fiquei o observando atentamente, perguntando-me se de repente ele não poderia finalmente ser o meu parceiro ideal. Por que não? Eu cheguei a amá-lo um dia, poderia amá-lo outra vez -, pensei. - Você precisa prestar uma queixa contra ela, Estevão. Essa mulher está te perseguindo e isso é crime – comentei quando entre um assunto e outro, ele contou sobre as insistentes ligações de sua ex-mulher. – Ela precisa de tratamento, isso não é normal. - Ela alega me amar demais – brincou, porém fiz uma careta pela sua tentativa vã de fazer piada de algo tão sério. – Ah, Bianca, já deixei de me estressar com a Miranda faz tempo. – O encarei com um olhar compreensivo. Eu havia tido um pequeno momento com aquela mulher e a lembrança não era das melhores. – Não relembre daquele dia, por favor – disse ele, como se tivesse lido meus pensamentos. – Odeio-me ainda mais em saber que a deixei passar por algo tão constrangedor. Busquei suas mãos e as apertei com carinho. - Vamos esquecer – pedi, abrindo um sorriso fraco. Bocejei de sono logo em seguida, o que o fez rir. - Será que estou entediando você? Gargalhei alto. - Não me leve a mal, mas ando muito cansada ultimamente. A gravidez e o excesso de trabalho – expliquei sem dar muitos detalhes. – Por falar em trabalho, terei que retornar para Joinville. Andrew encerrou o meu contrato aqui. - Sim, eu sei – falou ele. – Eu conversei com ele ontem. Abri a gaveta do criado mudo e retirei um pacote de jujuba de dentro. - E como você fará para se cuidar sozinho? Apesar de que mal estou te auxiliando em sua melhora não é? – Sorri culpada antes de começar a degustar a bala. - Preocupada comigo, branquinha? – questionou-me com um sorriso aberto e com os olhos brilhantes. - Deixa de ser bobo, oras. – Revirei os olhos. – Eu... Fui interrompida por uma ligação em meu celular, pedi licença para poder atender. - Alô. - Bianca?


- Marcelo? – retruquei. Minhas sobrancelhas arqueadas com a surpresa. Meu irmão raramente me ligava. – Está tudo bem? E a mamãe? Escutei ele suspirar do outro lado da linha. - Ela não está nada bem – respondeu, desesperando-me. – Teve que ser internada ontem às pressas. Meu corpo enrijeceu e levantei da cama no embalo da adrenalina. - Como assim? O que aconteceu com ela? – desesperei-me. Ele começou a se lamentar irritando-me. - Eu não estava em casa quando ela foi levada ao hospital – disse instantes depois. - Está me dizendo que nossa mãe precisou da ajuda de estranhos para ser socorrida, Marcelo? – Me alterei consideravelmente, Estevão se agitou ao meu lado. – Quando que você vai amadurecer, hein? Quando pretende dar valor ao amor que ela devota a você, seu incompetente? - Quer parar de me xingar? Eu não tenho culpa das suas frustrações – emendou, magoando. Fechei os olhos segurando a enxurrada de lágrimas. – Dê-se por contente que eu liguei para avisá-la, agora você vem ver a “velha” se quiser. Desligou sem ao menos dar-me a chance de falar, na verdade eu iria xingá-lo um pouco mais. Eu permaneci estática no lugar, sentindo meu corpo trêmulo e minhas mãos suando contra o aparelho de celular. - Bianca? – A voz do Estevão me despertou para a realidade. Virei o rosto para ele que me encarava com preocupação nos olhos. – Aconteceu alguma coisa que queira compartilhar comigo? Meus lábios retorceram-se e quando percebi estava nos braços dele em prantos. - Vou precisar viajar para São Paulo. Minha mãe está no hospital. – Gemi entre lágrimas. – O traste do meu irmão acabou de me avisar. - Oh, minha branquinha, eu sinto muito. – Ele passou as mãos em minhas costas de modo a me acalentar. - Preciso avisar ao Andrew – gemi, afastando-me dele. - Se acalme e sente-se um pouco – falou, enquanto me repousava delicadamente na cama. – Eu ligo para o Andrew e explico tudo. Apenas assenti com o rosto banhado de lágrimas, sequer tive forças para pensar naquele momento.


Marcos Fontana Os dias que se seguiram após a minha conversa com Amanda foram extremamente tensos e frustrantes. A nossa convivência se tornou desagradável demais e eu não estava conseguindo apaziguar aquele clima tão carregado entre nós. Amanda parecia querer me evitar a todo o custo e aquilo estava me angustiando, pois eu a amava com todo o meu coração. A tinha como uma irmã querida, entristecia-me aquela nossa situação pesada. As coisas tornaram-se insuportáveis quando Amanda surgiu com as malas prontas na segunda-feira da semana seguinte a nossa discussão. Eu já havia avisado no colégio que Mariana não iria mais comparecer, pois estávamos de mudança e eu apenas precisaria dar uma passada rápida no RH da empresa e comunicar o meu retorno a Joinville. Portanto, ver Amanda diante de mim agindo como uma desconhecida me enervou ao máximo. - Por que está com as malas prontas, tia? – Mariana quis saber e logo se virou para mim no sofá onde eu estava. – Vamos viajar papai? - Vamos sim, mas não hoje amor – respondi tentando sorrir. – Será que você poderia ir um pouquinho no seu quarto para que eu possa conversar com sua tia? – Assentindo ela desceu do sofá e rumou em direção ao quarto como eu havia pedido. Voltei meu olhar sério para a Amanda. – O que significa isso? – Apontei para as malas. – Prefere agir com infantilidade? É isso? Ela cruzou os braços e me encarou altiva. - Não vejo motivos para continuar adiando isso – disse. – Você já deixou claro, aliás, mais de uma vez que não está contente com a minha presença constante na vida de vocês, então irei me afastar. - Não distorça as minhas palavras, por favor – falei com irritação. – Eu aturei sua mudança de atitude durante esses dias, compreendi a sua tristeza e lhe dei o espaço que precisava para digerir o que conversamos antes. Porém, isso aqui. – Apontei para suas malas em seus pés. – Já passa dos limites aceitáveis. Você está sendo ridícula – acrescentei sem me dar ao trabalho de soar gentil. Ela havia me irritado com aquela atitude. - Eu não sei o que você quer Marcos. – Suspirou baixando a cabeça. – Quero respeitar o seu espaço, compreender o que diz, mas não estou conseguindo acompanhá-lo assim – queixou-se, e se aproximou de mim. – Já que não é mais novidade o meu sentimento por você, confesso que conviver ao seu lado vêm sendo um martírio, Marcos. – Sentou-se ao meu lado com os olhos sobre os meus. – Eu o amo incondicionalmente e nada me faria mais feliz se você me desse uma chance... – Sua mão buscou a minha, mas não permiti o toque e rapidamente me levantei. – Desculpe, não foi a minha intenção deixá-lo desconfortável. – Ela sussurrou e escutei quando fungou. Estava chorando. – Você tem razão, Marcos. – A encarei com atenção, ela enxugava as bochechas. – Eu preciso me libertar desse amor não correspondido. Preciso encontrar a minha felicidade em outro lugar. – Sorriu fraco e alívio invadiu o meu peito. Não fui capaz de ignorar a fragilidade dela e a puxei para um abraço apertado, acalentando o seu choro e a sua dor. - Tudo o que eu almejo é a sua felicidade, Amanda. Quero vê-la feliz, mas não há necessidade de


se afastar completamente, sabe? Você não precisa tomar uma atitude drástica assim, ao ponto de ir embora como se eu tivesse a expulsado. Isso eu jamais farei, pois não é justo com você que fez tanto por mim e por minha filha. As mãos dela me apertaram contra si. - Obrigada, Marcos – sussurrou. ∞ Alguns dias se passaram e eu não tive mais contato com a Bianca, a última vez foi na empresa quando quase transamos. A minha consciência ainda me condenava por aquele deslize, pois eu sempre prezei o meu local de trabalho. Aquele tipo de atitude não condizia com minha natureza profissional. Eu me contentei em continuar em silêncio durante esses dias, pensei em dar esse espaço de tempo para ela e somente quando eu chegasse a Joinville a procuraria para conversar definitivamente. Precisávamos decidir o que faríamos a respeito de nós dois. Franzi a testa para aquele mero pensamento. Na verdade, surpreendia-me constatar que o meu coração e o meu corpo vibravam quando eu estava próximo dela. Em todos esses anos jamais me imaginei pensando em outra mulher, senão em Clarisse. Aquilo estava me assustando e confundindo ao mesmo tempo. Eu precisava conversar abertamente com Bianca, necessitava abrir meu coração e expor os meus medos e desejos. Iríamos ter um bebê, mas nossa relação ia, além disso, e eu estava começando a concordar, assumindo aquilo para mim mesmo. - A tia Amanda não vai morar mais conosco, papai? – Mariana quis saber, chamando a minha atenção para si. Fazia algumas horas desde que desembarcamos em Joinville e estávamos fazendo um lanche, apenas nós dois. - Não meu amor. A tia Amanda agora possui outras prioridades – respondi e me inclinei para ela. – Agora somos somente nós dois. Engoli em seco me lembrando do bebê que Bianca estava gerando e que seria o irmão ou irmã dela. Toquei suas bochechas com os dedos carinhosamente. Ela sorriu. - Eu vou sentir saudades. – Ela disse e eu senti uma pontada de culpa. - Eu também vou, mas sua tia não vai abandonar você querida. – Fiz um olhar carinhoso enquanto me servia com um pouco mais de suco. – Afinal de contas, ela ama você. Percebi quando ela se encolheu e baixou os olhos. - Nos últimos dias, ela conversou bastante comigo e me explicou que não poderia mais ficar comigo, pois as coisas tinham mudado entre vocês – falou e me encarou. – O que ela quis dizer? Arqueei as sobrancelhas e uma pontada em meu coração ameaçou sufocar-me assim que notei o


semblante entristecido da minha filha. Arrastei a cadeira e abri os braços para recebê-la. Apertei seu pequeno e frágil corpo contra o meu e repousei meus lábios em seus cabelos sedosos e perfumados. - Algo que sua tia queria muito, mas eu não podia dar a ela – falei com voz baixa. – Ela se entristeceu com isso, mas não era culpa dela. – Esfreguei suas costas com minhas mãos. – Existem coisas que fogem totalmente do nosso controle. Senti que ela estava chorando e aquilo me machucou tremendamente. Mariana era o meu tudo e imaginá-la ferida ou magoada me doía demais. ∞ Assim que o dia amanheceu aproveitei que Mariana ainda dormia e peguei o celular para ligar para o Andrew. Eu ainda não tinha o avisado da minha chegada devido à correria dos recentes acontecimentos. - Marcos, bom dia – disse ele, quando atendeu. – Só um minuto. Aproveitei a pausa e fui até a varanda. Os raios de sol estavam leves e brilhantes sobre a grama do jardim. Reparei que necessitava aparar as folhagens e fazer uma limpeza geral ali. Havia ficado muito tempo fora e o jardim se tornou extremamente descuidado. - Desculpe Marcos. – A voz do Andrew se fez presente outra vez. – Lucas estava fazendo um escândalo agora, tive que pegá-lo no colo – explicou, com voz cansada. – E então? - Já estou em Joinville – respondi, debruçando-me sobre a balaustrada. – Não pude te avisar antes – argumentei. - Sem problemas, Marcos – disse ele. – Você pode me encontrar mais tarde? – perguntou e estalou os lábios em seguida. – Estou tão atarefado. – queixou-se. – E ainda não consegui falar com a Bianca que simplesmente sumiu. – Meu coração acelerou na mesma hora depois de suas palavras. – Ela tinha ficado de vir domingo passado, mas apareceu um imprevisto de última hora e ela viajou para São Paulo. - Como assim? – intimei, sem me importar se ele estranharia. Escutei-o chamando a Marie ao fundo e perguntando se ela sabia de alguma novidade da amiga. - Parece que a mãe dela teve que ser internada às pressas no hospital, Marcos. Marie conseguiu contato com ela hoje pela manhã e disse que ela ainda está em São Paulo com Estevão – disse, por fim. – Estevão tinha me ligado avisando, mas foi algo muito rápido e sem muitos detalhes. – emendou. Senti minhas mãos suarem e meu sangue ferver no momento em que compreendi o que a presença do Estevão ao lado dela poderia significar e não gostei nada. - Se Estevão foi junto é provável que eles tenham se entendido. – comentou Andrew. – Aqueles dois tinham tido um enorme desentendimento no passado, acho que agora estão de boa novamente. Acredito que o bebê que ela está esperando seja dele, apesar de ela não expor para nós. Engoli em seco e me segurei para não explodir, apesar de Andrew não ter nada a ver com minhas frustrações. Decidi mudar de assunto e combinei de nos encontrarmos mais tarde na mansão. Eu


não estava em condições psicológicas naquele momento e tão cedo não me acalmaria. Logo em seguida a ligação do Andrew, decidi ligar para a Bianca. Na terceira tentativa eu já estava impaciente e quando a ligação foi finalmente atendida eu rangi os dentes de tanta raiva. - Alô... Alô... A Bianca não pode atender agora – complementou, a voz masculina no qual reconheci como sendo a do Estevão. - Diga a ela que o Marcos ligou. – Consegui dizer, apesar da raiva pulsando em meus poros. Desliguei e me curvei sobre a balaustrada. Sentia-me irritado demais para raciocinar. Bianca estava ao lado de outro homem carregando o meu filho no ventre e imaginá-la sendo consolada por ele me enervava demais. Eu não poderia aceitar aquilo, aliás, eu não aceitaria...


Capítulo 22 Bianca Melo O dia mal havia amanhecido e eu já estava me preparando pra viajar para São Paulo. Praticamente havia passado a noite em claro devido ao nervosismo e a ansiedade. Eu sabia das diversas enfermidades que minha mãe tinha, era por isso que eu sempre depositava um fundo de pensão para que ela pudesse comprar os remédios necessários, pois alguns eram caríssimos. Saí do quarto com minha pequena mala nos braços e encontrei Estevão na sala me aguardando. Minha cabeça latejava com força e intensidade, dificultando o meu humor. - Estou indo – falei com a voz rouca. – Liguei há alguns minutos para a companhia aérea e tem um vôo que sai daqui a pouco, pretendo pegar esse. - Só darei uma passada rápida no banheiro e estarei pronto para ir – dizendo isso, desapareceu no banheiro social, deixando a porta aberta. - Você estará “pronto para ir”? Não esperava que ele fosse comigo. Ele não me respondeu ou, pelo menos, não ouvi a sua resposta por causa do barulho da água corrente. - Você disse alguma coisa? – perguntou ele quando voltou. Vestia um paletó e carregava sua mala em uma das mãos. Fiquei estática no lugar. - Estevão. – Coloquei ambas as mãos em minha boca buscando paciência. – Eu não me lembro de tê-lo convidado para ir comigo. - Eu vou. – Ele me puxou para a porta principal até o corredor com o elevador. Ele soltou minha mão e apertou o botão enquanto esperávamos. – Isto é um problema para você? - Certamente. – Cruzei os braços sobre o peito. – Isso é algo particular e não me sinto confortável em ter você ao meu lado sendo que não temos nada um com o outro – falei sincera, sem me importar em estar sendo grosseira. Ele respirou profundamente quando entramos no elevador vazio, apertou o botão do térreo e me encarou com uma firmeza invejável. - Como não temos nada? A nossa amizade é nada para você? Soltei um suspiro envergonhado e senti meu rosto queimar com o rubor da culpa. - Me desculpa se fui rude. – Não tive coragem de encará-lo nos olhos. – É claro que a nossa amizade é especial para mim – falei por fim. – Mas não sei se é certo que você vá, além do mais, o seu joelho ainda não está bom. - A fisioterapia está surtindo efeito Bianca, estou conseguindo apoiar o pé no chão e isso é de grande valia. Revirei os olhos.


- De grande teimosia, isso sim! – resmunguei consciente de que era para ele estar se cuidando melhor. – Era para você estar repousando mais e não forçando uma recuperação. Ele mudou de posição atrás de mim, envolvendo-me em seus braços. Sem querer eu me afundei nele. Eu precisava disso: carinho. Depois de tanta frustração durante os últimos dias e em contrapartida a notícia da internação da minha mãe, eu estava me sentindo abandonada e exposta. Enquanto descíamos, voltei meus pensamentos para o Marcos e a ligação que tínhamos. Ah, Deus. Uma nova onda de pânico me atingiu. - Será que nós...? – Nem sabia como ia perguntar o que eu queria saber. – Nós podemos fingir, hã, que estamos juntos? Ele levantou as sobrancelhas e apressei-me em explicar. - Apenas para evitar rumores sobre minha visível gravidez. - Só se eu puder beijá-la – sussurrou em meu ouvido. – Como antigamente. Balancei a cabeça sorrindo de seu atrevimento. - Espertinho. O táxi esperava por nós em frente ao prédio. Eu torcia para que o trânsito colaborasse e que chegássemos a tempo de pegar o próximo vôo. Deitei a cabeça contra o encosto do assento e busquei limpar a minha mente, libertando meus pensamentos conflitantes, enquanto Estevão dava alguns telefonemas. Normalmente eu não me sentia confortável em recordar do passado da minha família, pois não era algo agradável. Algumas pessoas comentavam com orgulho sobre sua infância e, ou adolescência, contudo, comigo não era da mesma forma. Não havia alegria ou orgulho em minhas recordações, somente tristeza e frustração. Éramos de origem humilde, minha mãe trabalhava como costureira e com isso auxiliava o meu pai, hoje falecido, nas contas da casa e no nosso sustento. Nessa época existia uma harmonia grande entre nós duas, papai ficava fora o dia todo, então éramos somente eu e ela. Infelizmente nada me preparou para o que vinha a acontecer em minha vida, à mudança que culminou em uma trajetória de vida repleta de frustração e decepções. Minha mãe conheceu outro homem, vindo a trair o meu pobre pai e com isso o abandonando quando descobriu uma gravidez. Ela sequer me deu escolha quando saiu de casa, obrigando-me a ir embora com ela tendo que conviver com um homem estranho que não fazia questão nenhuma em ser agradável comigo. Tornei-me invisível para a minha própria mãe que passou a ter olhos somente para o novo bebê, o filho do seu novo marido, o homem que foi capaz de cegá-la ao ponto de me tratar como um simples objeto daquela casa. Eu já não era mais a filha amada, deixei de ser a sua doce abelhinha e me tornei um mero estorvo. Nem mesmo com meu próprio pai eu tive consolo, pois o pobre se tornou refém de suas frustrações afundando-se na bebida, falecendo alguns anos mais tarde. Uma lágrima deslizou por meu rosto e rapidamente a enxuguei de modo a esconder de Estevão.


Não queria mais questionamentos. Cansada, abracei meu pequeno ventre e prometi a mim mesma que seria uma mãe melhor para o meu bebê, do que a minha mãe foi para mim.


Marcos Fontana Mais tarde naquele mesmo dia decidi ir conversar com Andrew. Ajeitei Mariana no banco de trás do carro e sorri quando nossos olhos se encontraram, eu sempre tinha a sensação de estar olhando para a minha Clarisse. Mariana era parecida com ela em tudo. Até em seus trejeitos. - Aonde vamos? – quis saber. Dei a volta no carro e me sentei no banco do motorista. - O papai precisa resolver uns problemas com meu patrão. Lembra dele? – Ajeitei ambos os retrovisores e em seguida liguei o carro na ignição. - O da casa bonita? – Eu soltei uma risada gostosa diante de sua simplicidade nas palavras. - Isso, querida – concordei entre risos. Concentrei-me no trânsito e me esforcei para manter meus pensamentos ali. Desde o momento em que eu soube pelo Andrew que Bianca havia viajado com Estevão, minha mente não me deu mais sossego. Meu coração apertava-se com a possibilidade de eu não poder mais tocá-la, entristeciame a idéia de saber que ela estava recebendo consolo de outros braços em um momento tão difícil. Droga! Havíamos compartilhado tanta intimidade, mas ao mesmo tempo éramos tão distantes um do outro. Chegamos à casa do Andrew alguns minutos depois. Desci do carro e segui com Mariana em direção a entrada. Eu já havia me identificado, então Andrew veio me receber logo na porta. - Olá, Marcos – disse cumprimentando-me com alegria. – Você não sabe a alegria que estou em vê-lo. A risada divertida da Marie ecoou no saguão e logo a avistei caminhando até nós. - Tudo pelo ciúme do outro segurança, Marcos – confidenciou. – O pobre rapaz está passando um dobrado nas mãos dele. – Revirou os olhos sorrindo. Abri os braços e aceitei o seu abraço carinhoso, apesar de estar um pouco constrangido. - Não se meta mulher. – Andrew falou com diversão. – Venha Marcos, entre. Puxei Mariana que estava em silêncio ao meu lado, porém atenta a tudo ao nosso redor. - Essa é a sua filhinha? – Andrew perguntou, olhando para ela. - Não está vendo o quanto se parece com ele, amor? – Marie se atravessou na resposta, olhando para Mariana com carinho. – Será que teremos uma menina tão linda assim? – perguntou com olhos brilhantes. Andrew soltou uma risada e balançou a cabeça. - Mal damos conta do Lucas, Marie – falou com cautela. – Vamos com calma, por favor. Soltei uma risada. Encorajei Mariana quando a Cassandra convidou-a para comer um pedaço de bolo enquanto eu conversava com o Andrew. Apesar de um pouco receosa e temerosa, ela foi.


No escritório, Andrew gentilmente me ofereceu uma das poltronas, convidando-me para me juntar a ele. - Pois bem, Marcos. – Suspirou. – Basicamente você irá retornar para a sua antiga função e... Ergui a mão o interrompendo. - Desculpa, mas eu preciso fazer algo antes – falei nervoso. Ele se recostou na poltrona e me olhou com atenção me dando a deixa para prosseguir. – Serei bem direto, Andrew. – Engoli em seco e cocei a garganta. – Eu preciso ir atrás da Bianca. Ele arqueou as sobrancelhas em clara confusão. - Não entendi. Esfreguei o rosto com ambas as mãos, buscando coragem para confessar. Expor meus problemas e minha vida nunca foi algo que gostei de fazer. Prezo por minha privacidade. - Eu sou o pai do bebê dela, Andrew. – Os olhos dele se arregalaram na mesma hora, abriu a boca para falar, mas nada pronunciou devido ao choque da minha confissão. – A primeira vez que nos relacionamos foi quando a levei de carro para o Rio de Janeiro meses atrás – expliquei, lembrando-o da ocasião em questão. – Soube da gravidez há poucas semanas, mas não chegamos a decidir nada ainda. – Suspirei frustrado. – Eu estava com intenção de conversar com ela quando estivéssemos os dois aqui, mas fui pego de surpresa ao saber que ela está em São Paulo com Estevão. – Torci a boca ao pronunciar o nome dele. Andrew continuou me olhando em um silêncio cortante. - Obviamente que foi um choque e tanto quando descobri que seria pai outra vez – falei sincero. Desci os olhos para meu colo e observei a minha aliança – Desde que fiquei viúvo, jamais almejei me relacionar com outra pessoa. Eu me fechei para tudo e todos, direcionando a minha atenção e o meu amor apenas para a Mariana, minha filha. – Ergui meus olhos. – Bianca foi a única mulher desde então que foi capaz de trincar as barreiras que construí em torno de mim... Andrew desviou o olhar e soltou o ar, completamente atônito. - Uau! – exclamou por fim. – Não faço a menor idéia do que dizer a você, Marcos. – falou. – Mas não vou mentir em dizer que não estou surpreso. - Eu sei. – Esfreguei as mãos em meus joelhos. – Você consegue descobrir o endereço de onde eles estão? – consegui chegar ao assunto que eu tanto queria. - Está pensando em ir atrás dela? – retrucou me encarando com diversão. Trinquei o maxilar. - Eu quero ficar ao lado da mãe do meu filho nessa hora difícil. – Cocei a garganta e me ajeitei na poltrona, sentindo-me desconfortável. – Ela está com quase seis meses e nem ao menos teve a primeira consulta, inclusive já chegou a passar mal uma vez na empresa. É um direito meu estar com ela em um momento de tensão. Andrew sorriu.


- É claro que é um direito seu. – Seu tom soou sarcástico. – Provavelmente isso não tem nada a ver com a presença do Estevão ao lado dela então? – O sorriso em seus lábios era irritante. Levantei batendo uma poeira invisível em meu casaco, nervoso demais para raciocinar. Minhas mãos suando e meu coração pulsando velozmente em meus ouvidos. - Bianca e eu somos muito complicados juntos, Andrew – murmurei. – Mas é obvio que estou me ardendo de ciúmes em saber que é ele quem está confortando-a. Não consigo admitir isso. Andrew se levantou e caminhou até mim. Seu olhar era compreensivo. - A partir do momento em que você admitir para você mesmo o que está sentindo, ficará mais fácil conseguir administrar em sua mente e em seu coração. Assenti com a cabeça, ponderando suas palavras. Nada fazia mais sentido naquele momento. - Vamos atrás da Marie – disse ele, encaminhando-se para fora do escritório. – Ela sabe de mais detalhes, pois foi com ela que a Bianca conversou. Segui atrás dele preparando-me para a conversa que teria que ter com Mariana. Eu iria para São Paulo, mas não a deixaria no escuro. Já era hora de ela saber do futuro irmão ou irmã dela.


Capítulo 23 Marcos Fontana Encontramos as duas na cozinha com Cassandra. Marie estava sentada ao lado de Mariana enquanto Lucas debatia-se em seu colo em prantos. - Vocês dão muita manha para esse menino – dizia Cassandra quando nos aproximamos. – Quando ele crescer não vai saber ouvir uma resposta negativa de ninguém – acrescentou ela, em tom de censura. Marie revirou os olhos e Andrew estalou os lábios inclinando-se para pegar o menino nos braços. - O que foi? – quis saber. - Ele quer brincar com a Ana, mas eu não estou com tempo para levá-lo lá. Estou com muito pedido e mal consegui desenhar a nova coleção – queixou-se Marie. Andrew assentiu em compreensão. - Eu o levo na casa do James – falou e olhou feio para a Cassandra em diversão. – Nosso menino pode tudo, viu? Cassandra resmungou algumas palavras enquanto saía da cozinha, fazendo Marie e Andrew sorrirem. Respirei fundo e olhei para uma Mariana atenta na mesa. - Comeu o bolo, querida? – Ela assentiu timidamente. – Estava gostoso? Hun? – A ergui em meu colo, beijando seu rosto com carinho. Ouvi Andrew e Marie conversando, mas os interrompi: - Se importam se eu for conversar com minha filha ali fora rapidinho? - Sem problemas. – Marie sorriu. Caminhei calmamente com ela em direção ao jardim, pois era preciso um ambiente tranqüilo para a conversa que teríamos. Optei por sentar com ela perto das rosas. Ela amava rosas. - Por que estamos aqui, pai? – Ela perguntou com sua voz doce. Olhou para as rosas e sorriu. – São tão lindas! – exclamou e eu sorri com ela. - É, são sim – confirmei nervoso em não saber como iniciaria a conversa. – Filha? - Sim? – Os olhos dela tornaram-se brilhantes em expectativa pelo o que eu tinha a dizer. Cocei a garganta e baixei a cabeça, buscando coragem. - O papai tem algo para te contar, mas eu estou com medo. - Medo? Por quê? - Da sua reação, querida. – Busquei suas mãos e as deixei mantidas entre as minhas. – Você é tudo para mim, sabia? Eu vivo por você. Vivo para manter o seu bem-estar, para mantê-la segura.


- Eu sei disso, pai. – Ela disse amavelmente. – Eu também o amo. Puxei-a contra mim e abracei seu pequeno corpo. Respirei profundamente. - Como você reagiria se soubesse que iria ter um irmão ou, uma irmã? – Afastei-me um pouco para poder olhá-la nos olhos. Aguardei ansioso por sua resposta. - Eu não sei papai – respondeu no fim. – Mas, ficaria feliz eu acho. – Voltou a se sentar ao meu lado, enquanto passava as mãos nos cabelos. – Por que está me perguntando isso? Trinquei o maxilar. - Lembra da moça que trabalhava com o papai lá no Rio de Janeiro? – Ela pensou um pouco, mas assentiu instantes depois. – Então, ela está esperando um bebê – pausei, dando tempo para ela digerir e entender os pontos. – E esse bebê, é meu também querida. Um sorriso lindo surgiu nos lábios dela e ela correu para os meus braços, surpreendendo-me pela reação inesperada. - Eu vou ter um irmãozinho! – exclamou com felicidade. Soltei o ar aos poucos e enfim relaxei. Apertei-a contra mim e sorri de sua euforia. - Se eu soubesse que você ficaria tão contente, já teria contado antes – falei entre risos, alívio me tomava por completo. - É claro que eu ficaria feliz – disse. – Terei com quem brincar. Eu dei risada. - De início ele será apenas um bebê querida, mas com o tempo você poderá brincar muito com ele sim. Levantei e a puxei pela mão para que se levantasse também. O brilho de seus olhos tocando o meu coração. - A sua mãe seria muito orgulhosa de você, sabia? – Inclinei-me e deixei um beijo em sua testa. – Menina de alma pura e coração bom. ∞ Fazia tanto tempo desde a última vez em que estive naquela casa -, pensei assim que estacionei em frente ao chalé da minha ex-sogra. Eu não tinha certeza se encontraria Amanda ali, mas não tinha alternativa. Precisava dela. Desci do carro com Mariana e juntos caminhamos até o portão de ferro. Chamei apenas uma vez e logo uma senhora baixinha, de cabelos brancos veio me atender com um sorriso de orelha a orelha. Uma pontada de culpa me abateu ao perceber que fazia tempo que não a visitava. - Oh, meu filho. – Abraçou-me com carinho. – Quanto tempo que não nos víamos. Deslizei as mãos em suas costas em um abraço apertado.


- É verdade dona Noêmia – sussurrei. – Eu sinto muito por isso. Suas mãos tocaram-me no rosto e assisti a sua emoção sincera. Afastei-me para que ela pudesse olhar a neta. Apesar da minha ausência na vida da dona Noêmia, nunca permiti que Mariana deixasse de conviver com ela. Clarisse havia deixado aquele pequeno pedaço dela para nos confortar de sua ausência e não era justo esconder comigo. Segui com ela para dentro de casa e aguardei Amanda na varanda, assim que pedi para falar com ela. Dona Noêmia levou Mariana para comer um dos seus doces caseiros. Ela era uma das melhores confeiteiras da região. Estava de costas quando escutei a voz da Amanda, virei-me e me deparei com seu rosto iluminado a me ver. - Fiquei surpresa quando a mamãe falou que vocês estavam aqui – disse se aproximando. – Sentiram saudades? – Brincou. Eu sorri fraco. - Na verdade eu vim porque preciso que você cuide da Mari por alguns dias para mim – falei e vi seu semblante murchar. – Preciso viajar para São Paulo, tenho alguns problemas para resolver. – Não vi motivos para contar detalhes. – Tem algum problema para você cuidar dela? Ela voltou a sorrir e sentou-se em uma cadeira. - É claro que eu cuido da Mari – falou. – Ainda não me decidi sobre qual rumo tomar, então... Ainda estou livre. – Terminou de falar sorrindo triste. – Está tudo bem com vocês? Pensei em fazer uma visita, depois pensei melhor e não fui. Eu preciso me desapegar. Entristeci-me por ela, pela situação constrangedora em que estávamos. Ela não tinha culpa de ter se apaixonado por mim e nem eu por ser o alvo de sua paixão. Éramos vítimas do destino. - Estou feliz que esteja conseguindo forças para retomar a sua vida – falei com sinceridade. – Tenho certeza de que as coisas irão se ajeitar e logo você encontrará o seu destino. Ela baixou o olhar e suspirou. - Eu sei que sim. Trocamos mais algumas palavras e logo me vi saindo de lá em direção ao aeroporto. Expectativa brigando com a ansiedade dentro de mim.


Capítulo 24 Bianca Melo Diversas vezes eu me perguntei o motivo de estar ali, naquele hospital. Seria culpa? Remorso? A verdade é que eu estava extremamente desconfortável com toda aquela situação. - Você está bem? – Estevão quis saber pela quarta vez seguida. – Estou me preocupando. – Tocou em meu rosto. – Você está muito pálida, Bianca. Soltei um suspiro exausto enquanto passava as mãos no rosto. Eu estava com a cabeça latejando demais. A viagem havia durado umas duas horas e eu sequer quis parar para descansar, o meu desejo em saber do estado de saúde da minha mãe ultrapassava o meu cansaço. - Estou cansada – soprei e deitei a cabeça em seu ombro. Sua mão acariciou meus cabelos e ele repousou os lábios em minha cabeça. - O que acha de irmos descansar um pouco? Eu peço uma comida gostosa para nós dois enquanto você relaxa em um banho quentinho e revigorante, hun? Ergui os olhos para ele e sorri de seu olhar atrevido. - Está pensando em se aproveitar de mim? – perguntei em tom brincalhão. Ele se levantou e me puxou para ele. - Eu estou consciente do meu espaço em sua vida, branquinha – falou beijando minha testa. – Agora vamos para o hotel, pois você está exausta. Isso não faz bem ao bebê. Sorri e o olhei enquanto caminhávamos para fora do hospital. - Você alguma vez pensou em ser pai? Ter filhos com a Miranda? - No início sim – respondeu, com uma tensão na voz. Obviamente que ele não gostava de falar dela. – Mas quando as coisas foram se tornando complicadas em nossa relação, eu tive que rever os planos para o meu futuro. Passamos pela recepção do hospital. Estevão ainda caminhava com dificuldade. - Então é algo que você deseja ou, ao menos, chegou a desejar – afirmei sorrindo. Ele me olhou e sorriu também. Sua mão veio parar em minha barriga onde acariciou pegando-me de surpresa. - Qualquer homem ficaria feliz em descobrir-se pai de um bebê vindo de você, Bianca – sussurrou com emoção contida e eu engoli em seco. - Bianca? Pulei de susto quando ouvi a voz do Marcos ao meu lado. Eu quase não acreditei que ele estava diante de mim. O que ele fazia ali? - Ma-Marcos? – Gaguejei ridiculamente. Estar diante dele depois de tantos dias me deixou extasiada. – O que faz aqui?


Marcos Fontana Ter testemunhado a cena onde o Estevão acariciava a barriga dela deixou-me quase em estado de choque. Minhas mãos se fecharam em punho e me vi com uma fúria avassaladora dentro de mim. Aquele bebê era meu... E Bianca era... Engoli em seco. - Bianca? Estava ansioso para quebrar o contato dos dois. Os olhos dela tornaram-se surpresos ao se depararem com os meus. Obviamente que ela não esperava me ver ali. - Ma-Marcos? – internamente me senti satisfeito em causar tamanho nervosismo nela. – O que faz aqui? Aproximei-me dela odiando ver as mãos do Estevão em sua pele. - Eu liguei ontem para o seu celular – falei. – O seu acompanhante não te avisou, suponho. – Cruzei os braços e encarei-o com olhos ameaçadores. Bianca surpreendeu-se e encarou Estevão acusatoriamente. Ele coçou a garganta constrangido. - Foi no momento em que você estava visitando sua mãe na UTI. – Ele não conseguiu esconder o olhar culpado fazendo Bianca suspirar. - Eu não fazia idéia, Marcos – disse ela se voltando para mim. Estendi a mão. - Vamos conversar um pouco? Podemos encontrar alguma lanchonete e... - Era exatamente o que iríamos fazer agora, cara – interrompeu-me o folgado. – Bianca está muito cansada e não pode se incomodar. - O que você está insinuando, hein? – Aproximei-me dele com fúria, mas Bianca se atravessou em minha frente impedindo-me de atacá-lo. – Por acaso pensa que eu faria mal a mãe do meu filho? Você não me conhece. - Já chega! – explodiu Bianca. – Mas que porra, vocês dois! – Ela se afastou pisando duro, enquanto resmungava. Tive vontade de segui-la, mas a deixaria respirar um pouco. Parecia cansada demais. Estevão deu um passo em direção a ela, mas o segurei pelo braço. - Não pense que o deixarei ficar com ela – falei entre dentes. – Isso nem em seus melhores sonhos – avisei em tom perigoso. Soltando-se do meu aperto ele nada disse e apenas se afastou seguindo Bianca que já estava longe. Observei a dificuldade dele em caminhar por conta de sua perna engessada. Nem mesmo dá conta de cuidar de si mesmo -, pensei desgostoso. Suspirei guardando as mãos nos bolsos. Esperaria ela retornar ao hospital. Afinal eu tinha ido


atrรกs dela para conversar sobre nรณs e nada mudaria os meus planos.


Bianca Melo Assim que entramos no quarto de hotel, explodi: - Eu não acredito que fizeram aquilo, Estevão. – Joguei minha bolsa sobre o sofá. Repousei as mãos na cintura e o encarei: - O que foi toda aquela manifestação de testosterona entre vocês, hein? Porra! Senti-me um pedaço de carne sendo disputado por cães. Vi seu rosto rubro de constrangimento. - Me desculpe branquinha, eu... - Não me chame de branquinha. – Apontei o indicador para ele. Odiava quando ele me chamava por apelido quando eu estava irritada. Ele baixou a cabeça e engoliu em seco. Apesar da adrenalina em meu sangue, me obriguei a sentar ou enlouqueceria. O que o Marcos veio fazer aqui, afinal? Apoiei a cabeça nas mãos e permaneci em silêncio, pensativa e confusa com o que acabara de se desenrolar diante dos meus olhos. O assento ao meu lado foi cautelosamente ocupado por Estevão. - Não sei o que dizer... - Então não diga nada – falei impaciente, sem olhá-lo. Ele suspirou derrotado. - Agi feito um idiota. - É uma colocação perfeita para você. – Me virei para ele com irritação estampada em meu rosto. Ele abriu a boca para falar, mas uma batida na porta o interrompeu. - Eu atendo – murmurei, imaginando o quanto sua perna deveria estar dolorida devido a todo o esforço. Respirando profundamente eu abri a porta e controlei o olhar surpreso ao me deparar com meu irmão. Era difícil estar diante dele e não me recordar de toda uma infância frustrada. - Olá doce irmã. – O sarcasmo predominava em seu tom. – Será que poderei entrar ou conversaremos por aqui mesmo? Relutante abri um espaço para que ele pudesse passar. - Você está sendo o assunto entre a vizinhança maninha. Todos ficaram surpresos ao notar a gravidez da doce abelhinha. – Soltou uma risada debochada. - Chega de deboche, Marcelo! – Bati a porta com força desnecessária. Ele sempre conseguia mexer com meus hormônios. Cruzei os braços e o encarei enquanto dava alguns passos em sua direção. Estevão e eu tínhamos o procurado na antiga casa da mamãe no dia anterior, mas não o encontramos. Provavelmente estava enfiado em alguma casa de jogatina. - Sinto muito em não estar em casa para recebê-la. – Sorriu e esticou o pescoço para olhar


Estevão. – É o seu marido? – quis saber. - Eu sou – respondeu ele, sem me dar chance de abrir a boca para falar. O olhar dele estava tenso com a presença do Marcelo. - O que quer aqui? – perguntei de uma vez. – Eu não preciso de sua visita, a pessoa necessitada encontra-se entre a vida e a morte no hospital – acusei. Notei um breve relance de emoção trespassar por seus olhos, mas logo retornou ao olhar debochado de antes. - Não tenho culpa se ela não se cuidou – argumentou infantilmente. - Você ficava com o dinheiro dela seu desgraçado. – Apontei o indicador com raiva. – Dinheiro esse que eu mandava exclusivamente para os remédios caríssimos do tratamento dela. - Eu nunca a obriguei a me dar nada. – Gritou me assustando. Massageei as têmporas e apontei para a porta. - Por favor, saia. - Eu preciso de dinheiro – disparou ele, fazendo-me encará-lo atônita. Estevão que até o momento estava quieto se manifestou: - Quem você pensa que é? Não tem vergonha nessa tua cara? - Eu não sou banco, Marcelo – falei em seguida. – Agora saia daqui. Estou cansada e não posso me incomodar por conta do meu bebê. Resoluto, ele guardou as mãos nos bolsos. - Nesse caso, saiba que venderei a casa da mamãe – decretou sem culpa. – E pretendo colocar a culpa em você. – Sorriu. – Mamãe irá compreender os meus motivos e certamente não irá perdoála por não ter me ajudado quando precisei. – Os olhos brilhantes em maldade me angustiaram automaticamente. Lembranças das vezes em que eu pagava por coisas que nem ao menos tinha feito vieram em minha mente. Marcelo sempre a persuadia e ela não acreditava em mim quando eu colocava a culpa nele. Para ela, ele nunca fazia nada, era sempre eu. Lágrimas ameaçaram deslizar por meu rosto, mas engoli os soluços. - Faça como quiser – falei com a voz entrecortada. Rapidamente fui até a porta e a escancarei. – Agora saia. Recomendo que se existe algum amor em seu coração pela nossa mãe, vá vê-la enquanto ainda há tempo. Sem dizer uma palavra ele saiu pisando duro. Debulhei-me em lágrimas assim que fechei a porta. Inclinada contra a madeira, senti quando Estevão me abraçou acalentando-me. - Eu não agüento toda essa pressão. – Gemi. – Quero que isso acabe logo, Estevão... - Calma. – As mãos dele deslizavam freneticamente em minhas costas. – Estou aqui com você... Virei para ele e aceitei o seu abraço, espalmando as mãos em seu peito. Eu necessitava de


conforto naquele momento. Era muita coisa para digerir. ∞ A minha cabeça ainda latejava quando saímos do hotel para ir ao hospital. Havia passado praticamente à noite em claro, mas a preocupação com a minha mãe era ainda maior. Conversava tranquilamente com Estevão quando quase fui atingida por uma mulher. Estávamos no estacionamento do hospital. - Você ainda está com essa vagabunda, Estevão? – Gritou ela enquanto era segurada por ele. Os olhos dela detiveram-se em minha barriga e senti um arrepio de horror. – Ela está grávida de você? Aquele filho ali é seu? Fiquei estática no lugar sem saber o que dizer ou fazer. - Já chega Miranda – sibilou Estevão puxando-a para longe de mim. – Pelo amor de Deus mulher, chega de escândalo! Irritada, a mulher conseguiu se esquivar dos braços dele e mirou-me com raiva, sequer consegui me mexer. Porém, em um movimento abrupto eu fui lançada para trás de alguém. Surpresa percebi que esse alguém era o Marcos. - Não chega perto dela. – Rosnou ele assustadoramente. – Eu não sou adepto a agredir mulheres, mas se você ousar encostar um dedo em Bianca eu não responderei por mim – ameaçou. Nervosa, eu mal conseguia raciocinar sobre o que estava acontecendo. Percebi que Estevão voltou a segurá-la e me encarou com olhar culpado. Instantes depois ele se afastou arrastando a mulher aos berros. Eu ainda respirava com dificuldade quando Marcos se virou para mim, suas mãos em meu rosto forçando o meu olhar no seu. - Você está bem? – Os dedos dele acariciaram meu rosto. Sua voz outrora furiosa, agora estava doce e macia. - Eu... – Calei-me buscando uma respiração profunda. – Acho que sim. – Repousei as mãos em seu peito sentindo seus batimentos acelerados sob meus dedos. – O que ainda está fazendo aqui? – sussurrei. Nossos olhos fixos. Uma de suas mãos embrenhou-se em meus cabelos por trás da nuca e senti minha pele arrepiar-se. Seu olhar era intenso sobre o meu. - Fiquei esperando você para conversar. Senti a irritação se apossar do meu interior e tentei empurrá-lo, porém ele não me permitiu ir além. - Não estou com cabeça para me desgastar com você, Marcos. Percebeu que estou aqui por causa da minha mãe? Ela está mal no hospital e infelizmente não posso me estressar ainda mais. Estou cansada. Ambas as mãos dele me seguraram pela cintura, buscando o meu corpo para junto de si com força. Afastei a cabeça, mas Marcos firmou-a no lugar encarando-me com determinação.


- E quem disse que estou aqui para estressá-la, porra? – Os olhos dele brilhavam com um ardor torturante. – Sequer fui capaz de sair daqui, dormi praticamente em pé enquanto esperava por você ali naquela maldita porta. – Apontou para a entrada do hospital. – Vim de Joinville porque o meu coração chamou pelo seu, Bianca. – Arquejei diante de suas palavras. – Garota petulante e impulsiva. – Fechei os olhos quando ele passou a alisar o rosto no meu, seu aroma me intoxicando. - Marcos? – Ele resmungou, segurei-me em seus braços com força devido a minha fraqueza nas pernas. – O que isso significa? Ele voltou a me olhar. Olhos nos olhos. - Significa que eu estou aqui por você – respondeu ele, acelerando o meu coração. – E que quero ficar com você. Não controlei as lágrimas e sorri em infinita alegria. - Não está brincando comigo? Seu polegar desenhou sensualmente o meu lábio inferior. Ele parecia compenetrado em admirar meus traços. - Nunca brincaria com algo tão sério para mim. – Seu tom de voz causou-me arrepios pelo corpo. – Eu ainda não posso afirmar o que estou sentindo, mas juntos iremos descobrir. – Sua boca tocou na minha de leve. – E eu quero descobrir. – Soprou antes de avançar sobre meus lábios com fome e intenso desejo. Não tive alternativa senão deixar-me ser consumida pelo seu beijo avassalador. Eu estava confusa, mas uma intensa felicidade pulsava em meu peito conforme a minha mente dava-se conta do que realmente estava sob minhas mãos. Marcos estava ali por mim e por nosso bebê.


Capítulo 25 Marcos Fontana Eu estava exausto, pois havia passado a noite de plantão na porta do hospital em expectativa ao retorno da Bianca. Minha cabeça latejava torturantemente, contudo permaneci firme em meu propósito. Obviamente que o ambiente hospitalar não me trazia boas recordações, meus pensamentos a todo o momento me presenteava com imagens da Clarisse: “Seus belos cabelos negros caindo sob meus dedos, suas feições empalidecendo, a sua beleza física se perdendo aos poucos...” Certamente que foi uma etapa bastante difícil da minha vida, pois eu não aceitava que estava perdendo o grande amor da minha vida. Clarisse havia me resgatado quando eu mesmo já não me encontrava. Eu havia abandonado a minha mãe, hoje falecida, e a minha irmã, por confusões familiares. Afundei de cara na bagunça e fui conseguir frear esse meu lado negativo somente quando me alistei no exército, onde a conheci. Ela era a tenente e eu, um mero subordinado. Apaixonei-me como nunca antes e não sosseguei até conquistá-la. Clarisse não deixou o caminho fácil para mim, mas quando finalmente ficamos juntos, foi mágico e único. Lembrar desses momentos apenas servia para aumentar a minha revolta diante das circunstâncias que me afastaram dela. Era impossível entender que a vida havia a roubado de mim. Não havia motivos, muito menos, explicações. Os dias, meses e anos passavam, mas a dor continuava. Contudo, estava suportável. Os recentes acontecimentos me fizeram refletir sobre diversos pontos da minha vida, dentre eles, a minha história com Clarisse e a minha visão atual sobre o bebê que a Bianca estava gerando. Havia uma pontada de culpa que persistia em me atormentar. Eu não havia feito um voto de castidade, nem nada do tipo, mas era algo que partia da minha consciência e coração. Jamais encontraria alguém como a Clarisse. E, então surge a Bianca, com seu temperamento sapeca e totalmente impulsivo. Vi-me de mãos atadas outra vez, apesar de não ter admitido no início. O medo tem o poder de nos afastar das melhores oportunidades da vida, ele impõe um peso no qual nos impede de conquistar a felicidade. Sou grato por ter finalmente me dado conta disso. Era um amor e admiração diferente. Bianca me fez enxergar que existe algo melhor do outro lado do medo e, foi o que me acordou para a nossa realidade. Despertando dos pensamentos dispersos concentrei-me nos doces lábios dela. O seu perfume natural e a forma receptiva com que seu corpo recebia as minhas carícias me excitaram tremendamente, contudo a saliência do seu ventre me parou e, então a encarei: - Eu demorei a entender que é possível construir uma nova história sem apagar outra – falei.


A mão dela repousou em meu rosto carinhosamente. - Eu nunca quis que você apagasse a linda história que construiu com a mãe de sua filha. – Ela disse com voz doce. – Foi uma trajetória intensa e que deixou marcas em sua vida. Todos nós possuímos um baú onde guardamos as nossas lembranças e sua amada Clarisse faz parte do seu baú. Eu sorri. - Obrigado por me compreender – sussurrei. – Vamos entrar? – Apontei a direção do hospital com a cabeça. Observei ela verificar as horas em meu relógio de pulso. - Penso que será melhor se eu vir no horário da tarde. – Ela disse e me encarou. – Estou em suas mãos. – Sorriu abertamente. Apertei sua cintura levemente. - Qual o plano? – Minha voz dele soou rouca em seu ouvido. Notei sua pele arrepiar-se quando mordi sua orelha. Minha ereção tornou-se rígida sobre minha calça jeans e tive que me segurar para não arrastá-la. - Vou com você para onde for – falou com veemência e meus olhos brilharam satisfeitos. Peguei-a pela mão e a levei em direção a um táxi. Expectativa brigando com a excitação dentro de mim. ∞


Bianca Melo Mal entramos no quarto da pousada em que Marcos havia se hospedado e logo nos atracamos, repletos de amor e desejo reprimido. Senti suas mãos tentando desatar os laços do meu vestido. Ergui os olhos para ele e seu olhar guloso me prendeu. Quando terminou de folgar meu vestido, as mãos dele viajaram para as alças finas apoiadas em meus ombros. Eu olhei enquanto ele descia as alças sobre as curvas dos meus ombros e pelos meus braços. O vestido caiu no chão, deixando-me sem nenhuma roupa além da sandália de tiras e a tanga rosa claro. Os olhos dele se arregalaram e meu sexo pulsou. Eu o queria. Todo o amor que floresceu em meu coração por ele, brilhou com intensidade dentro de mim. Virando-me de costas para ele, Marcos correu as mãos em volta da minha cintura, encontrando-se acima do umbigo. Então, enquanto uma mão subia para agarrar o meu seio inchado, a outra se moveu sob o cós da minha tanga. Eu afastei as minhas pernas, um convite para ele procurar o meu clitóris necessitado. Seus lábios desceram da minha orelha ao meu pescoço e o ouvi gemer deliciosamente quando seus dedos deslizaram pelo meu tesão escorregadio, separando as dobras do meu sexo e liberando o aroma do meu desejo almiscarado. Naquele momento, molhada como eu estava, ele pôde ter certeza do quanto eu ansiava por ele. Ele continuou a acariciar o meu seio, que ficou ainda mais pesado, enquanto ele roçava o polegar em meu mamilo eriçado. A atenção que ele deu ao meu seio ampliou a ação lá embaixo, sua palma voltando a provocar o meu clitóris, e deixei escapar um gemido. - A gravidez deixou o seu corpo mais sensível. – Sua voz grossa no meu ouvido obrigou meus olhos a se abrirem. – Veja como ele reage fácil aos meus estímulos... Minha história sexual não tinha sido tão abrangente. Meus parceiros em nada se pareciam com Marcos. Seu polegar continuou circulando o meu clitóris, mergulhando o dedo no meu centro molhado. Era linda a forma como ele me acariciava, como ele sabia o que fazer para que eu sentisse aquilo que eu queria, como minha pele corou e como minhas costas se arquearam no momento em que o clímax me tomou. Marcos me segurou quando me contorci em seus braços, meu orgasmo subindo em uma erupção prolongada. Delicadamente, ele repousou o meu corpo sobre a cama e ajeitando-me de lado, se colocou atrás de mim. - Faremos assim para não machucar o bebê – disse ele, em seguida ergueu uma de minhas pernas. A antecipação do que ele estava prestes a fazer comigo desencadeou uma nova onda de excitação, ainda mais forte do que antes. Atrás de mim, ouvi seu zíper abrindo, o som deixou-me mais molhada. Sabia que seu pênis fora liberado e estava a poucos minutos de me penetrar. Os saltos que eu usava deixavam a cena extremamente erótica. Instantes depois, Marcos se empurrou facilmente para dentro do meu canal quente e úmido com um gemido.


- Porra, Bianca! Eu mordi os lábios para reprimir os gemidos que ameaçavam escapar. Eu não era adepta a escândalos na hora do sexo, porém estava difícil de controlar a devassa dentro de mim. Marcos conseguia me enlouquecer de forma assustadoramente deliciosa. Mas, quando gozei dessa vez, não segurei o grito de prazer, desesperada para deixá-lo ver o que fazia comigo. Ainda estava choramingando quando seu próprio orgasmo o tomou, seu peso caiu sobre mim quando ele se inclinou para o gozo. E, caso eu estivesse me perguntando se tudo aquilo ainda fosse um sonho, seu sussurro em meu ouvido disse o contrario: - Isto, é nosso. É de verdade.


Capítulo 26 Bianca Melo Marcos e eu passamos o restante da manhã praticamente enrolados na cama. Aproveitamos para falar sobre nossas curiosidades a respeito um do outro. Era importante para nos conhecermos melhor. Tivemos um belo almoço em um restaurante próximo do lugar onde ele estava hospedado. - Onde a Mariana ficou? – perguntei enquanto degustava uma bela porção de batatas. Marcos relutou, mas acabou confessando. - Deixei-a com a Amanda. – Soltei os talheres no prato e o encarei com ar cansado. – Bianca, ela continua sendo a tia da menina, e isso não vai mudar – argumentou ele. – Nós conversamos e deixei claro que nada acontecerá entre eu e ela, além da amizade. – A mão dele repousou sobre a minha na mesa. – Isso aconteceu logo depois da nossa última conversa na sala da empresa. Foi você quem abriu os meus olhos para o óbvio. – Sorriu malicioso e eu corei. - Não foi bem uma conversa que tivemos... - Eu achei extremamente prazerosa – disse atrevido e eu ri. Continuamos a degustar o almoço em silêncio por alguns minutos, cada qual perdido em seus pensamentos. - Não há necessidade de você me acompanhar no hospital, Marcos – falei quebrando o silêncio. Aquele ambiente deve ser horrível para você e, não quero lhe impor algo que lhe traga péssimas recordações. Os olhos dele encontraram os meus com carinho. - Estarei ao seu lado em todas as ocasiões. Meus lábios chegavam a estar doloridos de tanto que eu estava sorrindo nas últimas horas. Era tanta felicidade que eu até temia. - Eu sou apaixonada por você. – Me inclinei sobre a mesa. – Espero ser capaz de fazê-lo feliz. Marcos puxou minha mão e levou aos seus lábios. - Você já está fazendo. Depois do almoço, partimos em direção ao hospital. Marcos havia conversado um pouco com a Mariana e lhe explicou que logo retornaria para casa. - Já está louco de saudades dela, não é? – comentei quando ele encerrou a ligação. Estávamos no táxi. - Sim – concordou. – Em todos esses anos, nós nunca havíamos nos afastado. - Nossa! – exclamei assustada e um pouco culpada. – Ela deve estar me odiando, Marcos. Praticamente roubei você dela.


Ele soltou uma risada gostosa ao meu lado. - Não fale besteiras – murmurou entre risos. – Eu já falei que ela adorou a idéia de ter um irmãozinho ou irmãzinha – insistiu. - É sério? – questionei e ele se inclinou sobre mim. - Claro que sim. – Beijou meus lábios delicadamente. – Não se preocupe com isso. – Sua mão repousou sobre o meu ventre e permaneceu ali até chegarmos ao nosso destino. Toda a tensão que havia se dissipado enquanto eu estava com Marcos, retornou com força total assim que entramos no hospital. Era uma situação estranha, pois ao mesmo tempo em que eu temia o que quer que viesse a acontecer com minha mãe, logo torcia para que acontecesse de uma vez, pois assim poderia voltar para a minha vida. Egoísmo meu? Retaliação pela falta de afeto dela para comigo? Não saberia dizer, mas era justamente aquilo que eu sentia. As horas que se seguiram foram extremamente cansativas. Houve um momento em que um dos médicos que estava cuidando do caso da minha mãe chamou-me e me aconselhou a entrar na sala para me despedir, pois provavelmente ela não passaria com vida naquela noite. Choque estampou o meu rosto, mas no fundo eu já estava preparada para o pior. Há anos que eu enviava dinheiro para que ela fizesse o tratamento correto para as diversas doenças que foram surgindo no decorrer de sua vida. Acredito que foi castigo diante de todo o mal que ela fez a mim e ao meu pobre pai. - Conseguiu se despedir? – Marcos quis saber instantes depois que retornei da sala de UTI. Eu estava em silêncio ao lado dele. O encarei e percebi que seu olhar estava longe. – Eu não fui capaz de dar adeus a Clarisse – falou em tom baixo sem esperar por minha resposta. – Saí em disparada, fui o mais longe que consegui do hospital. Quando retornei desabei na porta, fraco demais diante de tanta dor e impotência. Meu coração contorceu-se com a dor expressa em suas palavras. - Qual foi a causa da morte dela? - Câncer no colo do útero. – Ele soltou o ar aos poucos. – Quando nos conhecemos, éramos do exército. Clarisse sempre foi durona e teimosa. Assim que nos casamos eu tentei persuadi-la a permanecer mais em casa, cuidando de nossas coisas, sobretudo da nossa menina que recém era nascida. – Ajeitei-me melhor no banco para poder prestar atenção em sua história. – Mas com aquela mulher nada saía como eu queria, ela não me ouvia, aliás, nunca me deu ouvidos. – Ele sorriu tristemente. – Eu a conheci livre como um pássaro e foi assim que ela se foi... – Abaixou a cabeça e focou em sua aliança no dedo anelar. – O corpo dela começou a indicar pequenos sinais, porém ela não quis dar atenção. Quando fomos verificar, já era tarde. O câncer já havia se espalhado. - Nossa Marcos! Eu não fazia idéia. - Eu nunca contei para ninguém – confessou e busquei sua mão. – Mas incrivelmente me sinto melhor em ter desabafado um pouco com você. – Sorriu e lhe devolvi o sorriso. - Fico feliz por confiar em mim os seus fantasmas.


Meu telefone tocou e me vi apreensiva ao constatar que se tratava de uma ligação do Estevão. Atendi deixando Marcos desconfiado e muito irritado quando percebeu com quem eu falava. A ligação durou uns dois minutos, mas foi o suficiente para criar um clima desconfortável entre mim e Marcos. - Eu precisava atendê-lo, poxa. Afinal de contas, eu vim com ele para cá. - Estavam dormindo juntos também? – acusou, deixando-me tensa. - Não faça isso – falei. – Nós somos adultos o suficiente para conversarmos sem precisar agredir um ao outro com palavras. Ele suspirou e se levantou ficando de costas para mim. - Eu não menti para você quando contei sobre ele. – Eu disse. – Estevão ficou no meu passado quando viajei com você para o Rio de Janeiro. - Então qual o maldito motivo de vocês ainda manterem contato? Você o hospedou em seu apartamento Bianca, porra! Mordi os lábios, presa entre a irritação da cena toda e o deslumbramento de saber que ele estava se ardendo de ciúmes. - Nós tínhamos um relacionamento curto quando eu descobri da pior maneira que ele era casado – falei vendo sua boca formar um “o” mudo. – Permanecemos trabalhando por mais alguns dias após esse episodio, mas eu não conseguia aceitar o que ele havia me feito e sequer tinha estômago para deixá-lo me explicar – continuei explicando enquanto recordava. – Foi quando Andrew decidiu me mandar para o Rio de Janeiro, devido as intensas discussões entre eu e ele. - Lembro que você comentou sobre ter sido traída pela sua melhor amiga... - Ah, não – cortei-o. – Essa já é outra história. – Sorri de sua confusão. – Resumindo, Estevão tirou férias e resolveu vir atrás de mim no Rio. Continuei me esquivando de suas tentativas de me explicar o inexplicável, até que por um azar do destino ele sofreu um acidente de trânsito – pausei para ver se ele estava acompanhando. – Fui visitá-lo no hospital, lembra que comentei isso com você? – Ele assentiu rapidamente. – Então, não tive escolha senão levá-lo para o meu apartamento, pois o cara não tinha ninguém para ajudá-lo. Ele havia quebrado o joelho. - Ainda não consegui entender o motivo dessa aproximação. – Ele rosnou impaciente. Revirei os olhos. - Ele me explicou que a mulher dele, na verdade é ex. Porém, ela não aceita a separação e o persegue desde então. Você mesmo teve uma amostra mais cedo aqui no estacionamento. – Tremi com a lembrança, jurava que seria agredida por aquela louca. – Ele acabou de me ligar pedindo perdão, mas que estaria levando ela para casa. – Sorri de seu semblante desconfiado e emburrado. - Não há motivos para ficar assim – falei indo até ele e o abraçando. – Nada irá nos separar, amor. – Beijei seu ombro. - Fala de novo – pediu, circulando minha cintura com suas mãos. - O quê?


- A parte em que me chama de amor – repetiu e eu sorri emocionada. Olhei para ele. - Meu amor. Ambos sorrimos. ∞


Marcos Fontana Lidar com a morte é algo para poucos e mesmo assim é difícil de administrar dentro de si. Eu não tive como evitar a onda de lágrimas assim que acompanhei Bianca no enterro de sua mãe. Em nenhum momento a vi chorar ou pronunciar qualquer palavra que fosse, permaneceu calada o tempo todo. Observei com tristeza que poucas pessoas compareceram ao velório para se despedir da pobre mulher, mas mesmo essas, não deixaram de reparar e cochichar quando olhavam-nos com as mãos dadas. - Provavelmente estão estranhando que eu esteja com você hoje, já que ontem era com o Estevão que eu estava – sussurrou Bianca, como se houvesse lido meus pensamentos. O padre estava pronunciando as últimas palavras antes de lacrar a sepultura. Senti Bianca apertar minha mão com força e a encarei com dor do peito. Aquele era o pior momento na vida de alguém. A despedida nunca era aceitável. - Me tira daqui, Marcos. – Olhei para ela. – Por favor... – implorou. Com o braço em sua cintura, firmei seu corpo e rapidamente nos retirei do cemitério. Bianca tremia dos pés a cabeça quando a repousei em um banco de praça. - Eu acabei de enterrar a minha mãe. – Ela disse quase em choque. – Oh, meu Deus! – Seus olhos encontraram os meus e ela finalmente chorou. – Eu a amava, Marcos, sempre amei. – Sentei ao seu lado e ofereci o meu ombro para que ela chorasse. Seus soluços se intensificaram e eu permaneci acalentando-a até que se acalmasse. Passei os dedos abaixo de seus olhos e enxuguei os resquícios de lágrimas. Seu belo rosto ficou marcado pela dor. - Ela não foi uma boa mãe para mim, sabe? Traiu o meu pai com um homem que a levaria a ter o meu único irmão. Depois me obrigou a segui-la em toda essa loucura, mas praticamente me ignorou como filha dela. – Novamente os seus belos olhos encheram-se de lágrimas. – Lembro-me que eu pedia para que Deus me permitisse ter ao menos um terço do amor que ela devotava ao meu irmão. – Sorriu com amargura. – Ela foi uma mulher tão infeliz que, direcionou seu amor a um único filho e ele nem teve a decência de estar aqui para se despedir dela. - Eu sinto muito – falei com sinceridade. Eu não fazia idéia de que a história de vida dela fosse tão triste. Os olhos dela repousaram no horizonte. - Eu também sinto – soprou. – No fim, ele vai acabar com o patrimônio que ela deixou e logo terá o mesmo fim que o próprio pai teve. Morto por dívida de jogo. Assenti em tristeza. Deitei sua cabeça em meu ombro e ali permanecemos em silêncio. Eu sabia o quanto ela estava quebrada, tinha consciência do peso que uma situação como aquela acarretava. Mais tarde nos preparávamos para deitar e enfim descansar do dia cheio quando o meu celular


tocou. Alívio me abateu quando constatei se tratar de uma ligação da Amanda. Estava a horas tentando ligar para ela, mas só dava fora de área. - Amanda – soprei aliviado. – Que bom que me ligou, eu... - Só liguei para me despedir, Marcos. – Ela me cortou. – Estou indo embora com a Mari – emendou, fazendo o meu coração sofrer um baque. – Ela me contou da gravidez daquela vagabunda. – A voz dela tornou-se raivosa. – Você tinha me afirmado que não tinha nada com ela, Marcos, você disse pra mim. – De repente ela começou a chorar. – Eu e a Mariana não merecemos um mentiroso igual a você nas nossas vidas. – Seu tom voltou a se estabilizar, apesar da loucura de suas palavras. – Por isso que você nunca mais irá nos ver. - Espera aí Amanda – implorei instantes depois de encontrar a minha voz devido ao choque. – Pelo amor de Deus, não faça isso. Bianca veio para o meu lado assim que percebeu a urgência em meu tom de voz. Desesperei-me quando a linha ficou muda. - O que foi Marcos? – Bianca questionou preocupada. Olhei para ela com os olhos arregalados de pânico. - A Amanda raptou minha filha.


Capitulo 27 (Último) Marcos Fontana Chegar a Joinville era para estar sendo um motivo de festa e não de horror. Bianca e eu havíamos viajado logo em seguida a ligação da Amanda. Ainda era cedo quando deixamos a delegacia onde nos foi informado que infelizmente teríamos que aguardar as vinte e quatro horas desde a queixa de desaparecimento. - Esses desgraçados não entendem que a essa altura aquela doente já deve estar a quilômetros de distancia daqui com a minha filha? – Chutei a porta do carro. – Como eu vou fazer para recuperar Mariana agora? – O medo voltou a assolar-me. Bianca me abraçou apertado, chorando comigo. - Nós vamos dar um jeito, meu amor – sussurrou em eu ouvido. – Você já tentou ligar novamente para a dona Noêmia? Afastou-se e me entregou o celular, encorajando-me. O chalé da dona Noêmia havia sido o primeiro lugar que fomos quando entramos na cidade, mas infelizmente o encontramos vazio. - Ela não seria capaz de fazer parte de uma loucura dessas, Marcos. Provavelmente aconteceu alguma coisa e ela precisou sair bem cedo de casa – argumentou. – E se de repente ela resolveu ir atrás de você para te alertar sobre a fuga da filha com a neta? Ponderei suas palavras. Fazia sentido, afinal. - O telefone encontra-se desligado ou fora da área de cobertura – falei depois de mais uma tentativa frustrada de ligação. – Estamos de mãos atadas. - Vamos falar com o Andrew – falou e a olhei. – Ele pode nos ajudar, afinal ele é um investigador. Apegando-me a qualquer sinal de esperança, fiz o que ela pediu. Assim que chegamos à mansão do Andrew, todos ficaram alarmados e espantados com os recentes acontecimentos. Não fazia muito tempo desde que algo parecido havia acontecido com a Marie, então certamente que o clima tornou-se completamente pesado. - Oh, meu Deus! Que horror! – Marie exclamou em choque. Pegou Lucas no colo e o abraçou instintivamente. Bianca veio para meu lado. - Não temos uma pista sequer, a única que poderia nos dizer algo seria a mãe dela, mas a mesma desapareceu – explicou. - Vocês tinham tido algum desentendimento, Marcos? – Andrew perguntou no momento em que Cassandra surgiu na sala com uma bandeja de chá. - Na verdade estávamos bem ou, ao menos, eu achava que estávamos. – Suspirei. – Ela se dizia


apaixonada por mim, e no telefonema ela me acusou de ter mentido para ela. Mariana contou sobre a gravidez de Bianca e ela surtou diante da revelação. – Esfreguei o rosto. – Ela quer me ferir. Afastar-me de minha filha foi a forma que encontrou de me machucar por de alguma forma ter ferido ela. Meu coração ardeu com a possibilidade de não ver mais a minha filha. As horas seguintes foram as mais torturantes possíveis. Andrew e eu, juntamente com alguns de seus homens vasculhamos todos os lugares que eu pensasse que elas poderiam estar. A cada tentativa falha o meu coração comprimia-se ainda mais em meu peito e a dor espalhava-se em meu ser. O dia seguinte chegou e com ele a ajuda da polícia. Eu sequer havia pregado o olho e saber que finalmente a polícia iria começar a investigar deu-me uma pontada de esperança. Bianca em todo o tempo permaneceu ao meu lado me dando todo o suporte e apoio necessário para que eu agüentasse firme. Era injusto dizer, mas naquele momento é que me descobri envolvido por ela de maneira intensa e pura. Verdadeiramente eu conseguia afirmar que estávamos apaixonados um pelo outro. - Marcos? – A voz da Marie me parou no momento em que eu estava entrando no carro com Andrew. Iríamos a mais uma sessão de busca. – A Bianca não está aqui. Gelei na mesma hora. Aquilo não estava acontecendo -, pensei aterrorizado. - Como assim? Para onde ela iria? Marie se aproximou do carro, ela estava pálida e assustada. - Eu pensei que você pudesse responder – falou. – A última vez que a vi, ela estava falando ao telefone com alguém. Parecia bastante nervosa. Coloquei a mão na cabeça e gemi em desespero. Não havia motivos para ela ter saído da mansão. - Ela levou o celular dela, amor? – Andrew perguntou. - A bolsa dela não está no quarto. - Então podemos rastreá-la, Marcos. – Afirmou animado. – Mandei instalar rastreador em todos os aparelhos dos meus funcionários. Agitado, entrei no carro. Agora a procura havia se estendido.


Bianca Melo Minhas mãos sequer paravam de tremer sobre o volante do carro enquanto eu dirigia. Fazia aproximadamente meia hora desde que eu havia saído da casa do Andrew depois de ter praticamente furtado o carro da Marie. Eu repetia mentalmente que aquilo era uma loucura e das grandes, mas como faria diferente? Com meu histórico de impulsividade, ao menos estaria fazendo algo certo ou eu pensava que era. “- Venha sozinha e não conte a ninguém ou, Marcos nunca mais verá a Mariana.” As palavras de Amanda invadiram meus pensamentos. Ela havia conseguido o meu número de telefone para me ligar e ameaçar a Mariana caso eu não fosse ao seu encontro. Eu estava com medo, apavorada era pouco para expressar a minha situação naquele momento. Repousei uma das mãos em meu ventre largo e respirei profundamente evitando chorar. As ultimas quarenta e oito horas estavam sendo terríveis, apesar do momento lindo entre Marcos e eu. Será que o meu destino era permanecer sozinha? Terá sido uma praga da minha mãe? Suspirei nervosamente diante da gravidade da situação no qual nos encontrávamos. Parecia surreal. Longos minutos depois me peguei entrando em um lugar fechado de mato e longe de casas. Havia uma espécie de cabana praticamente destruída e um carro estacionado na frente. Estacionei ao lado, nervosa diante da situação sinistra. A todo o momento pensava em Mariana nas mãos daquela louca e em Marcos de mãos atadas, temendo pela segurança da filha. Cautelosamente eu comecei a me aproximar. - Amanda? – chamei. – Eu estou aqui. – Usei um tom mais alto. Mal entrei naquele casebre abandonado e insalubre, fui atingida com um soco no rosto. Mesmo com dor levei as mãos na barriga por instinto. Ergui os olhos para encarar o que quer que tivesse diante de mim. Gelei e me encolhi diante da cena. Varri o local com os olhos a procura da Mariana, mas não a encontrei em lugar algum. - Não perca seu tempo procurando por ela. – A voz da Amanda chamou minha atenção. – Ela não está aqui sua idiota. – Deu risada enquanto me tinha na mira de um revólver. – Eu jamais faria mal a minha sobrinha – afirmou. – Ela é como uma filha para mim. Engoli em seco dando alguns passos para trás. Estava vulnerável ao extremo. Droga! Tinha caído em uma cilada. - Então onde ela está? – perguntei, lutando para continuar de pé, apesar da moleza nas pernas. - Eu paguei um dia de lazer para ela e minha mãe – respondeu. – As duas estão se divertindo maravilhosamente. – Gargalhou. – Óbvio que eu me certifiquei de mandá-las para um lugar onde não houvesse sinal telefônico, assim mamãe não estragaria meus planos. - Que planos? – Engoli em seco temendo a resposta.


Os olhos dela brilharam de forma arrepiante enquanto o seu semblante escurecia. - Acabar com você. – Pulei de susto quando ela atirou ao meu lado para dar ênfase ao que tinha em mente. Comecei a chorar copiosamente clamando pela minha vida. - Eu estou grávida, pelo amor de Deus. – Gemi. - E por que você acha que isso irá me frear? Não entende que saber disso. – Apontou para a minha barriga com desdém. – Só aumentou a minha raiva? Eu estou ao lado dele durante anos e você chegou agora sua vagabunda! – Gritou fazendo eu me encolher. Naquela altura eu já tinha noção do erro que havia cometido ao ter dado ouvidos a ligação dela. Errei em pensar que sozinha poderia resgatar Mariana que no fim, estava sã e salva. - Você nunca vai saber o que é abdicar da própria vida em função de outra pessoa – continuou ela, aproximando-se de mim. – Deixar os próprios sonhos de lado para viver os de outro e tudo isso por amor. Fui pega desprevenida quando ela chutou minha perna desequilibrando-me. Caí no chão de mau jeito ferindo meus joelhos. - Você não sabe o que é amar – choraminguei. Ela se inclinou e me encarou com ódio. Naquele momento percebi que ela estava extremamente parecida com a falecida mulher do Marcos, parecia ter feito aquilo de propósito. - Eu amo até demais – retrucou descansando a ponta do revólver na minha cabeça. Fechei os olhos em prantos. – Marcos não merece o que eu fiz por ele durante todos esses anos. Ele iludiu-me, me fez pensar que um dia me amaria para depois jogar você na minha cara com esse bebê ridículo na barriga. – Ela gritou e tentou agredir o meu ventre, mas eu reagi conseguindo derrubar a arma da mão dela. Ambas começamos a medir força, entretanto a gravidez me deixou em desvantagem e rapidamente eu estava outra vez em sua mira. - É por isso que vou tirar vocês dele. – Engatilhou a arma e me arrastei por instinto, mas não tinha para onde correr. – Se eu não posso ser feliz com ele, muito menos você será. Fechei os olhos me preparando para morrer. - Não faz isso, Amanda! Ambas nos assustamos com a voz do Marcos. Ele estava caminhando lentamente em nossa direção com as mãos erguidas. - Não se aproxime. – Ela disse me puxando pelos cabelos. – Ou eu acabo com a raça dela na sua frente, Marcos – ameaçou. Marcos tremeu os lábios ao me olhar, eu sabia o quão apavorado ele estava. - Solte-a, Amanda, por favor – pediu. – Olhe o estado dela – insistiu.


- Está preocupado? - É claro que estou caralho! Ela está carregando um filho meu. – Ele gritou. - Calma Marcos – sussurrei trêmula. - Cala a boca, sua vagabunda! – revidou ela batendo com o cano do revólver em minha cabeça. A última imagem que me lembro de ter visto, foi o Marcos me olhando com preocupação e intenso medo.


Marcos Fontana Eram raras às vezes em que eu me via sem reação como naquele momento. Amanda estava totalmente desequilibrada e sem controle algum dos próprios atos. Aquela mulher eu não conhecia. Em nada me lembrava da mulher que conviveu comigo, dentro da minha casa com a minha filha. - Larga essa arma – pedi lentamente me aproximando. Ela se assustou e começou a se afastar deixando Bianca desmaiada no chão. – Vamos conversar um pouco, mas sem armas ou agressões. - Eu não quero conversar, Marcos – disse chorando. Andrew e seus homens entraram na cabana o que a assustou fazendo com que atirasse diversas vezes na direção deles. Um dos disparos me acertou devido a sua falta de experiência com armas. - Oh, meu Deus! – Desesperou-se vindo até mim. – Me perdoe Marcos... – Levou as mãos em minha perna ferida. – Eu não queria feri-lo, eu o amo. – Seus soluços se intensificaram. – Você e Mariana são tudo para mim, são minha vida, eu... Levei minha mão em seu rosto e forcei a sua atenção em meus olhos. - Escute... – Fiz uma careta devido à dor. – Eu quero que você fuja – falei com angústia. – Vá para bem longe daqui, Amanda. - Marcos... – Gemeu segurando minha mão e beijando-a freneticamente. - Fuja antes que a polícia chegue – alertei nervoso. – Vai. – Gritei empurrando-a de perto de mim. Assustada e completamente desesperada, ela saiu correndo com a arma em punho. Soltei diversos gemidos de dor e baixei os olhos para o meu ferimento. Observei para a minha sorte que a bala havia atravessado. Rastejei-me até Bianca, angustiado para saber se ela estava respirando. - Bianca? Meu Amor? – Segurei sua cabeça e depositei em meu colo. Ela estava muito ferida. – Bianca? Acorde, por favor... Andrew se aproximou agitado da adrenalina. - Amanda acabou de fugir. Vocês estão bem? – Observou minha perna. – Você foi atingido... - Chame uma ambulância – cortei-o. Acariciei os cabelos de Bianca. – Ela está ferida. – Lágrimas deslizavam por meu rosto. - E onde está a sua filha? – Ele quis saber. - Ela está... Com a avó... – Bianca respondeu com a voz fraca. Seus olhos ainda fechados. – Está segura. Inclinei-me sobre ela e repousei meus lábios nos seus, aliviado por sentir a sua respiração e ouvir a sua doce voz. Minha mão desceu ao seu ventre e ali permaneceu. - Ah, graças a Deus que vocês estão bem. – Soprei contra seus lábios. – Eu nunca me perdoaria se acontecesse algum mal a você ou a Mariana.


Bianca deslizou a mão em meu pescoço e gemeu baixinho. - Amanda me ligou, disse que eu deveria vir até aqui ou... Ela faria mal a Mari... - Shi... Não se esforce, por favor – falei carinhosamente. – A ambulância está a caminho, meu amor... - Você está ferido, não está? – perguntou em prantos. – Aquela louca, ela... Oh, meu Deus, ela me disse tantas coisas horríveis... - Está tudo bem agora – afirmei. – Nós estamos juntos. - Marcos? – Andrew surgiu com o telefone na mão e os olhos arregalados. – Acabei de saber que aconteceu um acidente aqui perto – falou com pesar. – Um carro capotou e ao que tudo indica o motorista veio a óbito. – Meu coração acelerou. - Você acha que... - A descrição bate com o carro da sua cunhada – disse ele me cortando. – Eu sinto muito meu amigo. Uma dor excruciante tomou conta do meu peito naquele momento. Tudo aquilo não fazia sentido dentro de mim. Toda aquela tragédia na minha vida não tinha propósito. Por quê? - Marcos? Bianca me chamou e voltei meus olhos para ela. Seu rosto machucado e semblante abatido feriram-me. Ela era o meu propósito juntamente com Mariana. Tínhamos um bebê a caminho e uma longa trajetória pela frente. - Nós vamos ficar bem, viu? – garanti com um sorriso sincero. – Eu, você, Mariana e o nosso bebê. Com os olhos umedecidos ela devolveu o sorriso e ambos firmamos as nossas promessas de amor.


Epílogo Um ano depois Bianca Melo. - Tudo bem, Marcos, precisamos ter uma conversa séria. – Nós estávamos na estrada, indo para o norte do estado de Santa Catarina havia menos de dez minutos, mas eu estava muito ansiosa. Girei no banco da frente do carro e levantei meus óculos de sol até a minha cabeça, para que eu pudesse vê-lo claramente. Ele olhou de soslaio para mim, seus olhos escondidos atrás de seus óculos escuros Ray-Ban. - Quando você vai aprender a viajar em silêncio, hein? – Brincou fazendo meus olhos revirarem. - Você pode até negar, mas adora esse meu lado impulsivo. A sobrancelha dele ergueu-se acima de seus óculos de sol, mostrando que ele estava cético, mas ele manteve os olhos na estrada. - Não estou falando dessa parte. – Soquei o braço dele de brincadeira. – Assanhado – sussurrei, dando uma olhadela em Mariana e no nosso pequeno Bernardo no banco de trás. - Estou curioso. Respirei fundo. - Eu sei que essa viagem já havia sido combinada há bastante tempo meu amor, só que... Interrompeu-me. - Qual é o problema? Seja direta, por favor. - Você tem certeza disso? Será que a sua irmã irá querer recebê-lo? – Levei as mãos nos cabelos e o baguncei. – Eu digo isso, pois fico tão preocupada com você. Eu não quero que você sofra. Ele tirou os óculos e me observou como se estivesse tentando avaliar se eu estaria falando sério. Eu estava muito séria. Estava cansada de ser massacrada pelo meu irmão e não almejava aquilo para o Marcos. Ele colocou seus óculos escuros no compartimento acima do seu espelho, não precisava mais deles já que o sol se pusera. - Faz tanto tempo desde a última vez em que a vi. – Ele disse. – Quando crianças, quase não éramos muito apegados um no outro, mas o amor reinava em meu coração por ela. - Você a protegia dos badboys pelo menos? – perguntei tentando arrancar aquela preocupação de dentro de mim. Ele riu lindamente. - Ninguém ousava se aproximar dela enquanto eu estava por perto – afirmou ele. – Ela me dava um pouco de trabalho, pois gostava de chamar a atenção dos rapazes. – Me olhou de relance. – Cheia das impulsividades também...


- Ah, não exagere. -... Você é magnífica. – Ele estava sério. – Amo cada parte de você, cada detalhe que cooperaram para que estivéssemos juntos hoje, aqui e agora com os nossos filhos. Eu abri minha boca, mas descobri que não tinha uma resposta. - Amo esse seu lado espontâneo. –Isso foi o que melhor pude responder. Seu sorriso maroto me avisou que ele sabia o quanto eu estava uma bagunça por dentro. - Você precisa aprender a ouvir elogios. – Tirou uma das mãos do volante e pegou minha mão, depois a levou na boca e mordeu meu dedo antes de soltá-lo. – Se libertar desse senso de inferioridade, pois você é linda sim! E eu a amo com fervor e a desejo com intensidade. Afastei os pensamentos que a sua boca na minha pele tinha incitado. - Você me lembra disso todos os dias. – Sorri agraciada com todo aquele amor. – E saiba que o amo infinitamente mais. Meu telefone vibrou no bolso. Uma mensagem de Estevão. Perguntando algo sobre os documentos que deixei sobre a mesa de sua sala. Quando meu foco voltou para o Marcos, ele estava me olhando, a cabeça inclinada. - Quem está mandando mensagem para você? Seu ciúme sempre me fazia querer ronronar. - Estevão. – Vi quando ele trincou o maxilar. Mesmo depois de tantos meses, ele ainda não confiava em Estevão. – Ele quer saber sobre uns papéis que deixei para ele analisar, Marcos. - E por que ele não pergunta ao Andrew? Revirei os olhos. - Porque Andrew não saberia explicar, oras. Marcos, apesar de eu achar o seu ciúme extremamente excitante, já chega! - Quem disse que estou com ciúmes? – retrucou emburrado, tive vontade de morder o beicinho charmoso que ele fez. - Faz três meses desde que ele voltou com a ex-mulher – lembrei-o. – Mas, independente disso, você deve confiar em mim. Ele me olhou na mesma hora. - E eu confio – falou convicto. – Não confio é nele. Soltei uma risada divertida. - Desisto por hora. Mariana pediu para que ligássemos o radio do carro, pois ela gostava de viajar cantando. Bernardo estava em um sono profundo, o que eu agradeci imensamente.


No caminho tivemos algumas paradas para lanchar e descansar, retornando a viagem em um ritmo relaxado, deixando longos momentos de confortável silêncio preencherem os espaços entre as falas de cada um. Finalmente, Marcos saiu da rodovia para uma estrada de chão batido. Notei o quanto seus ombros tornaram-se tensos de repente. Mariana baixou o vidro de sua janela e foi curtindo a vista já que Marcos havia reduzido a velocidade consideravelmente. Eu estava tão ou mais nervosa do que ele. Ele estacionou a meio metro de uma casa simplória, mas muito bem cuidada. Um pequeno jardim com rosas de todas as cores abrilhantava a frente da casa rodeada por uma cerca de madeira de cor branca. Estalei os dedos e puxei a mão do Marcos para apertá-la. - É ali? – Apontei e o vi assentir. Notei que seus olhos brilhavam. - Não mudou nada. – Sua voz indicava a sua emoção. – Continua tudo do mesmo jeitinho. – Reparou sorrindo. – Apenas a cor da casa é outra, mas o restante está como sempre foi. Nos minutos seguintes ficamos ouvindo as suas boas histórias infantis, algumas eu já tinha escutado antes, contudo não o freei, sabia que era conseqüência de seu nervosismo. - Está pronto para rever a sua irmã? Respirou fundo antes de assentir. Saímos do carro sentindo os raios de sol castigar a nossa pele. Rapidamente passei o protetor solar na Mariana e no meu pequeno Bernardo que sorria lindamente para o pai assim que o avistou. Marcos o pegou em seus braços. De mãos dadas com Mariana, segui Marcos até o portão e o encorajei a chamar. Permaneci ao lado dele, dando todo o apoio necessário e torcendo para que aquele momento fosse verdadeiramente algo especial para ele. Marcos precisava preencher aquele vazio que havia ficado desde que ele se afastou de sua família de sangue. Um menino com idade entre sete ou dez anos nos atendeu. Os olhos dele eram questionadores em nossa direção, entretanto não tivemos tempo de perguntar sobre a irmã do Marcos, pois uma mulher surgiu por de trás do menino. Marcos tornou-se tenso ao meu lado e tive a certeza de que ele estava sim, diante da irmã. - Eleonor? – questionou assim que ela se aproximou de nós. Abriu o portão com os olhos emocionados. - Filho traga os meus óculos, por favor. – Gritou ela sem tirar os olhos do Marcos. – Ou eu estou louca ou, estou diante do meu irmão aqui... – baixou o tom de voz. Peguei Bernardo dos braços do Marcos e assisti deslumbrada a sua emoção. - Sou eu mesmo, irmã – soprou entre lágrimas. – O Marcos.


Ela hesitou apenas por um instante antes de aceitar o abraço apertado do irmão. Havia tanto amor ali, naquele abraço. Tanta saudade. Mariana permaneceu ao meu lado enquanto assistíamos as lindas palavras trocadas pelos dois. Era o momento deles e estava lindo. - O procurei por tanto tempo meu irmão – queixou-se ela tocando-o no rosto, como se estivesse em duvida que realmente era ele ali. – Você sumiu. Com carinho Marcos segurou as mãos dela e as beijou. - Eu saí por essa porta sozinho – referiu-se a casa em que cresceu. – Mas, hoje estou retornando com a família que eu construí. – Estendeu a mão para mim. – Essa é a minha mulher e nossos filhos, Mariana e Bernardo. Eu amava quando ele se referia a mim como a mulher dele, apesar de que ainda não havíamos oficializado na igreja, apenas no civil. - E saiba que todos são bem-vindos em minha casa. – Ela abriu o portão com alegria. – Que também é sua meu irmão, por favor, entre. Com um sorriso que não cabia em seu rosto ele me olhou como um menino. O vazio em seus olhos dera lugar à felicidade em estar de volta ao convívio familiar. De volta às suas raízes e eu não podia estar mais feliz por ele. Depois de tanta tragédia, Marcos merecia aquela realização. Merecia estar vivendo aquela alegria boba, pois eu sempre dizia à ele: - Há felicidade sim, depois da despedida. Fim


Bônus (Prólogo do livro 5) Lucas Cooper - A Ana está em casa senhora Emily? - Está sim, querido. Assentindo com alegria, eu me voltei para a escada e subi de dois em dois degraus. Ansioso demais para vê-la. Passei pelo corredor em uma erupção de adrenalina até estar diante do quarto dela. Dei duas batidas na porta e a abri sem esperar por respostas. - Lucas! Ana estava completamente nua, coberta apenas por uma toalha branca. Eu não tive reação nenhuma, estava hipnotizado diante de toda a cena. Obviamente que já havíamos nos tocado mais intimamente, contudo jamais a ousadia ultrapassou o limite. Ana e eu nunca tínhamos transado. Percebi que o olhar dela desceu para o volume entre minha calça e tentei disfarçar ajeitando-o, mas nada resolvia. Eu estava duro feito rocha. Ana e eu namorávamos desde quando éramos crianças, de início de forma boba lógico, até o momento em que a malícia se fez presente entre nós dois. Ela era mais velha do que eu, mas ainda sim, nos descobrimos juntos. Nosso primeiro beijo, nosso primeiro amasso, nossa primeira briga... Eu temia que ela se cansasse de mim algum dia, afinal de contas ela tinha vinte anos e eu somente dezesseis. E se ela cismasse em me trocar por um cara mais experiente? - Feche a porta Lucas. – Ela disse com voz rouca sem deixar de me olhar. Fiz o que ela pediu incapaz de deixar escapar qualquer detalhe de seu corpo. Segurei a respiração quando ela caminhou até mim. De olhos arregalados assisti quando deixou a toalha deslizar aos seus pés. Não consegui desgrudar o olhar em nenhum momento, ansiava conhecer e gravar cada nuance do seu corpo magnífico. Sorrindo maliciosamente ela se aproximou um pouco mais e me fez tocá-la. Minhas mãos estavam trêmulas e eu tive medo... Medo de não agradá-la ou de não saber o que fazer na hora. - Ana... - Shi... – sussurrou, colando o corpo no meu. Esticou o braço ao meu lado e escutei o momento em que chaveou a porta. Seus olhos nunca deixando os meus. - Eu quero que seja com você. – Pegou minhas mãos e repousou-as em seus seios médios. Gemi. Deliciado demais para me opor àquela idéia. Os nossos amassos sempre me deixavam desejando ardentemente que aquele momento se concretizasse entre nós. Contudo, eu nunca havia


forçado a barra. Mesmo estando nervoso, eu colei nossas bocas consumindo seus lábios em um beijo quente e esfomeado. Eu seguia os meus instintos, tocando-a nos lugares que eu achava que ela teria prazer. E assim continuou pelos minutos seguintes. Quando a repousei sobre a cama e deslizei meus lábios por seu corpo, ela se contorceu. Cheguei ao centro do seu prazer tomando o cuidado de permanecer algum tempo ali. Lambendo... Chupando... Mordendo... - Você é tão... Linda. – Seu corpo ainda se recuperava dos espasmos do recente orgasmo quando me deitei sobre ela. – Eu te amo tanto, sabia? – Toquei nossos lábios, fazendo-a sentir o próprio sabor ainda preso em minha língua. Seus olhos deixaram os meus por um momento. Ela esticou o braço e retirou um preservativo de dentro do criado-mudo. - Estou com ele há alguns dias, já – falou referindo-se ao preservativo. – Só estava sem coragem de te propor. – Mordeu os lábios constrangida. Ajoelhei-me na cama e rapidamente nos preveni com a proteção. Assim que voltei a deitar sobre ela suas pernas abraçaram-me pela cintura. Gemi quando nossos sexos se tocaram. - Eu prometo que irei devagar – gemi excitado demais. – Está pronta? Sua mão puxou-me pelo pescoço e logo seus lábios estavam nos meus, esfomeados. Lutei para controlar a tentação de avançar com tudo para dentro dela. Lentamente comecei a introduzir-me com calma e com cuidado. Afastei o rosto para poder olhar em seus olhos conforme eu ia avançando um pouco mais. O olhar de safada que ela estava me direcionando em nada me ajudou e quando percebi avancei os últimos centímetros com um tesão desenfreando e ela reclamou. - Está doendo? – perguntei com o coração acelerado. Ela segurou meu rosto com ambas as mãos e eu colei nossas testas respirando com dificuldade. - Só espera um pouquinho – pediu com a voz entrecortada. – Eu estou gostando, bebê... Franzi a testa, irritado com aquele apelido idiota que ela havia me dado. Levei a boca em seu ouvido e sussurrei: - O bebê vai mostrar do que é capaz. – Mordi sua orelha e ela gemeu quando retomei as investidas. Comecei a criar um ritmo firme e constante nas estocadas. Ana mordia os lábios para evitar com que os gemidos fossem ouvidos no corredor. Eu temia que meu tio James nos flagrasse, mas ao mesmo tempo, pouco me importava. Nada e nem ninguém me faria deixar Ana naquele momento. - Ana... – Ergui o quadril e investi outra vez, repetindo o movimento. – Eu não agüento mais... – Gemi roucamente. – Goza comigo, amor. Os seus músculos pélvicos me apertaram com força e intensidade. Segurei seu rosto quando tive a certeza de que ela estava tendo outro orgasmo.


- Olhe nos meus olhos – ordenei. – Quero que veja que sou eu a estar proporcionando esse prazer a você. – Minha respiração acelerou devido à adrenalina correndo velozmente em minha corrente sanguínea. – Sou eu quem a está fodendo, eu quem está fazendo amor com você, Ana... Eu... No momento seguinte, o clímax nos atingiu com força e juntos, descobrimos um dos melhores prazeres da vida. Exausto, joguei-me ao lado dela na cama. - Eu amo você, Ana. – Afundei o rosto em seu pescoço. Estávamos suados, cansados e com respirações aceleradas. Quando ergui a cabeça, ela estava me olhando com os olhos brilhando. Um sorriso pairava em seus lábios. - Ao menos você terá uma lembrança minha – comentou e franzi a testa em confusão por suas palavras. Apoiei a cabeça sob a mão. - Do que está falando? – Levei a mão até o seu seio e não resisti em beliscar o seu mamilo eriçado. Minha ereção acordando outra vez. - Eu viajarei para Los Angeles. – Ela disse com a maior calma do mundo. – Consegui uma vaga de intercâmbio e pretendo me especializar em meu curso – explicou. Atônito, me ajeitei na cama. - Que papo é esse Ana? – intimei angustiado com a possibilidade de não vê-la por algum tempo. – Pretendia me contar? Conversar comigo sobre isso? - Estou contando agora, oras. Eu já aceitei ir, Lucas. Caramba! Será importante para mim. - Ah, você já aceitou? – irritação tomou meu semblante e me levantei buscando minhas roupas espalhadas pelo chão. – E o que o trouxa do seu namorado tem a ver com isso não é mesmo? O que eu sou para você, Ana? Um passatempo? Um experimento? Ela revirou os olhos e desceu da cama. - Deixa de ser dramático pelo amor de Deus – reclamou e veio até mim. O cheiro de sexo estava entranhado entre nossos corpos nus. – Eu prometo que não vou mais, então – disse ela sorrindo. Sua mão deslizou por meu peitoral e repousou em minha ereção, rígida outra vez. – Mas, você precisará repetir o que acabamos de fazer. – Sua língua lambeu meus lábios cerrados. – Terá que me proporcionar diversos orgasmos maravilhosos e intensos... E deliciosos... Ambos sorrimos e derrubei seu corpo na cama, avançando sobre ela com a mesma fome de antes. ∞ No outro dia acordei tarde, exausto da sessão noturna que tinha tido com a Ana. Mordi os lábios com as lembranças de nossas aventuras. Depois disso a nossa conexão havia aumentado. Tornamos-nos mais íntimos em nosso relacionamento, eu pude sentir nos olhos dela. Cansado de continuar deitado, me levantei. Por ser fim de semana, pensei em convidá-la para um passeio. Com a faculdade, ela quase não tinha tempo para sair comigo.


- Lucas? A voz da minha mãe despertou-me dos pensamentos aleatórios. - Oi, mãe – respondi ainda sentado na cama. Meu corpo parecia anestesiado devido às lembranças deliciosas. - Ainda não está pronto? – Ela intimou assim que abriu a porta do meu quarto. Franzi o cenho. - Pronto para que? Com os olhos revirados ela caminhou em direção ao meu roupeiro e escolheu uma peça de roupa para mim. - Arrume-se – ditou, enquanto deixava as roupas ao meu lado na cama. – O vôo da Ana para Los Angeles sai daqui à uma hora. Eu estava sentado e ali mesmo eu fiquei, chocado demais para reagir. Aquilo não podia ser verdade, pois ela havia me garantido que não iria mais viajar... Corri até o celular e disquei o número dela. - Não fica chateado comigo, Lucas – disse assim que atendeu. – Você não me deu opção, poxa... - Por que você me enganou? Por que mentiu para mim? - E o que queria que eu dissesse? – retrucou. - A verdade, porra! Que inferno! Sequer pensou em mim ou, em nós dois? – Ela ficou muda. – Por acaso pensa que vou esperá-la? - Eu não quero que me espere – falou por fim terminando de me arrasar. De coração partido finalmente consegui compreender. Ela nunca me amou de verdade. O amor que eu devotava não era mútuo. O nosso relacionamento era somente uma via de mão única. - Não esperarei. Desliguei e joguei o celular longe. Olhei para o anel de compromisso e o arranquei com raiva do dedo. Nunca mais deixaria mulher alguma me ferir como ela. - Chega de ser bonzinho. – Rosnei em revolta. – Agora o lobo mal entrará em cena. Em Breve...

Profile for Ana Paula Oliveira

Em Busca do Amor - Livro 04 - Depois da Despedida - Sara Ester  

Quais os perigos que uma atitude impulsiva pode acarretar? Marcos não tinha a mínima intenção de se envolver emocionalmente com outra pessoa...

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