Page 1


DOCE AMARGO II


EVELYN SANTANA


DOCE AMARGO II

Doce Amargo Copyright Julio Cortázar Prefácio Prólogo Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Capítulo 15 Capítulo 16 Capítulo 17 Capítulo 18 Capítulo 19 Capítulo 20 Capítulo 21 Capítulo 22 Capítulo 23 Capítulo 24 Capítulo 25 Capítulo 26 Capítulo 27 Capítulo 28 Capítulo 29 Capítulo 30 Capítulo 31 Capítulo 32 Capítulo 33 Capítulo 34 Capítulo 35 Capítulo 36


Capítulo 37 Capítulo 38 Capítulo 39 Capítulo 40 Capítulo 41 Capitulo 42 Epílogo Agradecimentos


Copyright© 2017, Evelyn Santana Copyright© 2017, Editora Essência Literária Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998 1ª Edição


Editoras Daiane Azevedo e Danusia de Paula RevisĂŁo Isie Fernandes


Capa Décio Gomes Diagramação A.J. Ventura Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Santana, Evelyn Doce Amargo – Livro 2 Evelyn Santana. – BrasíliaDF: Essência Literária, 2017. ISBN 978-85-92914-03-5 1. Ficção – Romance Contemporâneo. 2. Drama. I. Santana, Evelyn. II. Título. III. Série. CDD B869.3


“Já eu, era assim antes que você chegasse, caminhava pelas mesmas ruas, comia as mesmas coisas. Inclusive, antes que você chegasse, eu já estava apaixonado por você, e sentia saudades, como se já soubesse que você me fazia falta.” Julio Cortázar


“V em fazer o prefácio de Doce Amargo 2, vem?” Com estas exatas palavras, com essa simplicidade e como se não tivesse me dado uma grande honra e uma grande responsabilidade ao mesmo tempo, Evelyn Santana me convidou para fazer o prefácio do seu mais novo livro. Eu não tinha como negar, embora nunca tivesse feito isso antes. Foi um daqueles momentos em que não se tem opções. Não dá para dizer não quando a honra é maior que a responsabilidade. Quando seu respeito pela autora é enorme. Quando você quer muito saber como acaba a história antes de todo mundo. Quando se trata de Evelyn Santana. Minha história com Doce Amargo e com a autora dele se mistura de forma interessante. Li o livro e não acreditei na qualidade do enredo e da escrita, diferente, fluida e envolvente. Ficar amiga da Evelyn foi um bônus que eu nem acho que merecia, assim como a honra de fazer esse prefácio. De qualquer forma, recebo as duas situações de forma igual. De braços abertos e com um pouco de medo. Um sentimento Doce Amargo, que espero que acabe bem. O livro tem uma dualidade que começa no título, mas se estende para além dele. Os sentimentos de Linda e Robert são dúbios. As personalidades, opostas. As vidas e experiências que os levaram até ali, também. O leitor experimenta isso de maneira constante, inclusive na própria torcida pelos dois, afinal, a gente quer personagens reais, mas quer que sejam felizes para sempre. Robert e Melinda são reais e seus dilemas também. Não há ninguém


completamente bom ou mau. Não há maniqueísmo, e mesmo o clichê tão ao alcance da mão da autora é ignorado quando mais importa. Evelyn Santana se equilibra muito bem nessa corda bamba, especialmente ao nos fazer acompanhar o amargor da luta de um casal para salvar seu relacionamento de forma doce. Doce Amargo 2 conclui de maneira irretocável a jornada pela qual eu e muitos leitores nos apaixonamos. Robert e Melinda encontram sua conclusão e, assim como na vida real, isso não acontece sem percalços. Eles servem para reafirmar a noção de que temos protagonistas realistas e que amam e sofrem como qualquer um de nós. Pessoas que precisam provar do amargo para reconhecer e valorizar o doce. Por esse motivo, com um sentimento igualmente dúbio de quem queria muito ver a história concluída, mas que se entristece ao ver os personagens seguirem seu rumo, eu uso as palavras da autora para fazer um convite: “Vem ler Doce Amargo 2, vem!” Assim como fazer algo pela primeira vez ou se apaixonar, pode ser delicioso. É amargo, é doce e vale a pena! A. J. Ventura


M elinda trancou seu apartamento e encarou a porta por alguns segundos. Acabara de voltar e já estava partindo outra vez, mas era mesmo melhor assim. Ela se prometeu uma vida nova e, para isso, precisava de atitudes novas. Não dava para agir do mesmo modo de antes e esperar resultados diferentes, ela bem sabia, por isso estava fazendo sua parte. O passado estava morto, não devia ser lembrado, portanto já não havia mais razões para chorar pelo que passou, ou sentir pena de si mesma. Ela tinha um lugar para viver, amigos com quem contar… era digna de muitas coisas, e pena não era uma delas. Ajeitou a alça de sua bolsa a tiracolo sobre o ombro esquerdo e pegou as duas malas aos seus pés. Javier já tinha descido com as caixas restantes, não havia mais nada ali que pertencesse a ela. Pensar sobre isso doeu um pouco, no entanto, Linda não chorou. Não havia motivos para isso. Então ela sorriu, porque era o que pessoas fortes faziam ante a dor, lutando para manter a promessa de continuar sua busca pela felicidade, mesmo depois de ter o coração feito em zilhões de pedaços.


Ele estava enlouquecendo. A casa era monótona, a empresa era monótona, as reuniões de negócios e coquetéis eram monótonos… A vida era monótona. Se ao menos Linda estivesse ali para fazer com que um programa bobo se tornasse divertido… Linda. Trazia uma sensação atípica ao peito pensar nela, a qual Robert detestava. Tinha estragado tudo, ele bem sabia. Mas que a verdade fosse dita: aquele relacionamento estava fadado ao fracasso desde sempre. Ela era boa demais e Robert duvidada que conseguisse merecê-la algum dia na vida. Sentia falta dela, contudo, ainda que não admitisse nem para si mesmo. Tocava a música de que Linda tanto gostava ao piano vez ou outra, e era como se ela pudesse ouvir e sorrisse para ele em agradecimento. À noite, sozinho na mansão que mais parecia um deserto, sem Linda, insistia em cozinhar para si mesmo, seguindo as receitas dela, no intento de lembrar-se da sensação prazerosa em que consistia saborear uma refeição caseira. Porém Linda não estava ali. Jamais estaria. Ele mesmo se certificou disso sendo o canalha que foi. Todavia, sempre se perguntava se ela estaria pensando nele com a mesma frequência em que ele pensava nela. Talvez Linda já não o amasse, porém… a última noite deles estava tão vívida em seus pensamentos, que ele não duvidava que também estivesse viva nos dela. Uma mulher que se entrega de corpo e alma para um homem como Linda se entregou a ele… Não. Ela não tinha esquecido. Nenhum dos dois jamais esqueceria. E talvez por isso doesse tanto.


C hristine me inspecionou uma última vez, erguendo os polegares para mim e sorrindo em aprovação. — Me diz por que estou fazendo isso, de novo? — Porque eu pedi. Pedi muito, fui muito insistente e, como minha melhor amiga, é seu dever me ajudar. — Certo — concordei meio a contragosto, recebendo um beijo estalado na bochecha. — Mas eu ia visitar Eva hoje. Javier viria me buscar. — É. Claro, claro. Você pode fazer isso amanhã. Javier — ela falou, num tom desdenhoso — vai entender. Aquilo me fez sorrir. Christine não poderia gostar menos de Javier, e a recíproca não poderia ser mais verdadeira. Não era como se eles se odiassem de verdade, mas tinham essa mania — às vezes irritante, às vezes engraçada — de ficar disputando minha atenção. Javier era bem mais maleável que Christine, para ser sincera. Ele até achou legal que ela e eu dividíssemos um apartamento, mesmo isso significando que nós dois fôssemos permanecer meio longe um do outro. Mas ele compensava isso aparecendo a todo momento, sem aviso prévio, às vezes tarde da noite, testando os limites de Christine. Eu gostava da companhia dos dois, ambas me faziam bem. Não teria sobrevivido às últimas sete semanas se não fosse por eles. No começo fiquei


meio reticente com Javier, é claro, com medo de ele achar que, uma vez que eu não estava com ninguém, isso pudesse significar que ele e eu teríamos uma chance. Mas então descobri que ele estava saindo com alguém, e foi um alívio saber que esses ideais românticos tinham ficado no passado. Com a reviravolta que deu minha vida, perdi muita coisa, odiaria se, por acaso, a amizade de Javi fosse uma delas. Nós nos conhecíamos há tanto tempo… éramos uma família. Era como sentia no meu coração. A vida não era fácil, isso eu precisava admitir, mas ter amigos que me davam suporte tornava o fardo mais leve. Eu tinha um novo emprego, uma nova casa, um guarda-roupa novo, visual diferente e uma colega de quarto. Era um recomeço singelo, sim, porém eu estava seguindo em frente, como disse a mim mesma que faria. Sentia-me como uma nova Linda. Se melhor ou pior que a anterior, não saberia dizer, no entanto, com certeza, mais forte e menos ingênua.

A boate tinha um jogo de luzes que estava quase me deixando tonta. Esperava mesmo que o tal amigo do atual namorado de Christine não levasse jeito para a dança, porque eu não estava nem um pouco a fim de ter que me espremer entre todas aquelas pessoas. Especialmente com aquele arco-íris piscante me ferindo os olhos. Quem, em sã consciência, marcaria um encontro num lugar horrível como esse? — Ei, você está vendo Trevor? — Christine gritou ao meu ouvido, para se fazer ouvir através da música alta. — Não tenho certeza. Acho que não. A verdade era que eu só tinha visto Trevor uma única vez, em meio àquela confusão, seria impossível achá-lo. Meu Deus! Eu não conseguiria me achar, se


me perdesse! — Droga! Será que a gente chegou muito cedo? Assim vai parecer que estamos ansiosas demais. E Christine realmente estava, mas eu não lhe disse isso. Eu já tinha coisas demais para lidar depois de ter concordado com essa ideia absurda de encontro às cegas, só porque Trevor queria arrastar um amigo junto consigo. E, claro, Christine me escalou para ser a acompanhante dele. Outra exigência de Trevor. Eu já estava começando a não gostar nada desse cara. Enquanto Christine procurava por Trevor, usei a desculpa de ir até o toalete, apenas porque estava apreensiva e desconfortável demais com toda aquela situação. Eu não era adepta a encontros e Christine sabia disso, mas não parecia se importar. — O cara certo não vai simplesmente cair do céu pra você — ela resmungou, escolhendo o vestido que eu estava usando para meu encontro às cegas. — Você precisa estar disponível para encontrá-lo. Não respondi àquilo, claro, todavia, enquanto me afastava de Chris, após combinarmos que nos encontraríamos no bar, notei que talvez ela estivesse disponível demais, e nenhum dos extremos era bom. Ela estava uma pilha de nervos, e eu, me arrependendo amargamente de ter concordado com aquele absurdo. Encontros já podiam ser ruins o bastante quando se escolhia o par, eu não queria saber quão desastroso poderia ser com os dois assim, no escuro.

— Eu estou mesmo impressionado. Pensei que você tivesse o dobro de peso, uns dez dentes a menos e fosse um verdadeiro horror. Will Stewart tinha olhos gentis e sorriso acolhedor. Ele era divertido, espontâneo e conseguiu até mesmo me fazer sorrir. Um sorriso sincero, não um gesto educado para não parecer rude.


— Uau! — emiti surpresa. — Eu posso saber a que devo a gentileza? — Trevor me implorou pra sair com você. Ele está mesmo a fim de Christine, mas ela disse que não ia a lugar algum com ele se não prometesse trazer um amigo que fizesse companhia à amiga dela. Senti meu queixo cair em estupefação. Ele não podia estar falando sério. — Como é que é? — questionei, uma pontada de surpresa na voz. — Do que está falando? Foi Chris quem me implorou pra vir aqui hoje. Ela fez todo um drama pra me convencer. — Espera aí — ele falou, erguendo a mão direita como se o gesto realmente fosse me fazer esperar. — Então eles armaram pra gente? — testou, cético. — Isso faz todo o sentido do mundo! Eu sabia que uma mulher tão bonita feito você não precisava de encontros arranjados. Inevitavelmente, as palavras dele me fizeram corar. Mordi o lábio, tentando esconder um sorriso, mas não funcionou. — Tudo bem — por fim consegui dizer, depois de um pigarro. — Isso é parte do acordo? Trevor pediu pra que fosse educado e me elogiasse? — Não, essa parte é improviso. — Ele me lançou um riso aberto. — E falo sério. Você tem olhos incríveis, sabia? Will me encarou de um modo pouco discreto, perscrutador. Foi impossível desviar o olhar quando o dele estava tão fixo no meu, então, por um tempo, eu apenas o fitei de volta, sem saber ao certo o que falar. — Você é o cara de olhos azuis aqui — apontei, tentando forçar um sorriso para ele, porém constrangida demais com aquele contato que não parecia perto de acabar. — Eu sei — anuiu, revelando uma fileira de dentes brancos enquanto sorria. — Esses olhos aqui — retomou, o dedo indicador apontando para seu olho direito — já me ajudaram muito na hora do flerte, mas os seus olhos… Eles são ternos, doces… gosto de olhar pra eles… — Will hesitou por um momento, como se procurasse a palavra certa. Um vocativo, para ser mais precisa. — Seu nome, de novo? — perguntou, coçando a cabeça num gesto que demonstrava constrangimento. — Melinda — eu o lembrei. — Mas você pode me chamar de… — Mel. — Não foi uma pergunta, nem um pedido. Ele só se decidiu e pronto. — Bom… — murmurei sem jeito — na verdade, todo mundo me chama de Linda. — Eu não sou todo mundo. — Lançou-me uma piscadela, sorvendo um gole generoso de sua bebida. — Além do mais, Mel combina com você. Para o caso de você não se lembrar, meu nome é…


— Will — eu o interrompi, e foi minha vez de provar o drinque doce que ele pediu para mim. — É, eu sei. Sou boa com nomes. Alguém aqui precisa ser, não? — Ergui minhas sobrancelhas em desafio, num gesto presunçoso e provocador. — Eu me lembraria do seu nome facilmente se não tivesse ficado paralisado quando te vi. As palavras dele e o modo como seus olhos nunca se afastavam do meu rosto me fizeram enrubescer. De novo. Um riso nervoso me escapou, e eu desviei o olhar, sem coragem nenhuma de encarar Will. Aquilo era novo para mim. Ir a uma boate, encontrar um cara legal e receber elogios despropositados. Não foi assim que as coisas aconteceram com… bem, antes. As coisas não aconteceram assim antes. — Você está me deixando sem graça — murmurei por fim, genuinamente sem jeito. — Eu gosto do fato de você ser capaz de corar. Não se vê muito disso hoje em dia. Ele me observou de modo contemplativo por um tempo, mas não era incômodo, tampouco constrangedor. Sendo sincera comigo mesma, era diferente e eu até gostava. — Você deve achar que eu sou uma boba. — Acho você fascinante — retorquiu. — E adoraria se aceitasse sair comigo outra vez, qualquer dia desses, porque nós dois queremos, e não porque armaram pra gente. Estaquei por um momento, sem saber ao certo o que dizer, como dizer ou mesmo se deveria dizer alguma coisa. Então eu me peguei concordando num aceno de cabeça enquanto um sorriso singelo se abria em meus lábios, porque eu tinha gostado da companhia de Will. Ele me fazia sentir bem, de um modo que só pensei ser possível ao lado de amigos de longa data, mas era um feito que ele conseguia também, e de um jeito todo especial. Will era divertido, me fazia rir de um jeito fácil, e a premissa de me sentir assim mais vezes era simplesmente fantástica. Talvez eu não fosse uma nova Linda, afinal, e por mim estava tudo bem, contanto que eu também pudesse ser Mel.


Escondi meu rosto entre as mãos, abrindo uma pequena fresta com os dedos para conseguir enxergar a tela à minha frente, só para sentir um amargo arrependimento. — Meu Deus! — soltei em horror, tampando a boca com a mão sob o olhar acusador de Javier por eu fazer tanto barulho numa sala de cinema. — O que é? — cochichei de volta para ele. — É um filme de terror, será que não tenho o direito de ficar assustada? — Sim, mas só nas horas certas. Agora não é o momento de gritar — sussurrou de volta, olhando ao redor e devolvendo de modo mal-educado os olhares acusatórios que atraí por não conseguir manter a boca fechada. — Achei que eu pudesse decidir quando vou me assustar. — Não, pra isso servem os diretores do filme. Não seja uma mulherzinha, fica quieta, eu quero escutar. Ele levou a mão cheia de pipocas à boca, e eu o olhei, incrédula, tirando o celular do bolso e respondendo às mensagens pendentes em vez de prestar atenção ao filme estúpido. E daí que eu estivesse sendo uma mulherzinha? Eu era uma mulher, era direito meu ser uma mulherzinha. Ainda assim, decidi não discutir com Javier sobre isso. O namoro dele tinha ido por água abaixo e concordei em sairmos juntos para que ele tivesse alguma distração. Eu tinha imaginado que Javi não chegaria nem perto de um filme de romance, mas pensei que talvez comédia fosse uma opção. Bem, eu estava


enganada. — Se você veio pra trocar mensagens com o seu namorado, poderia ter ficado em casa. Ou poderia ter vindo com ele, tenho certeza de que Will ficaria feliz em te abraçar para fazer o seu medo ir embora — ele murmurou ao meu lado, inclinando-se em minha direção sem jamais tirar os olhos da tela, com seu humor mais ácido que o comum. — Ele não é meu namorado! — apressei-me em negar. — Nós só saímos juntos algumas vezes. — Quase todos os dias — Javier corrigiu. Não respondi àquilo, porque era mesmo verdade. Não a parte de Will ser meu namorado, claro, e sim a parte de estarmos saindo juntos praticamente todos os dias. Mas sempre que nos encontrávamos surgia a ideia de fazer algo novo e divertido numa próxima oportunidade, então nós acabávamos marcando. Não era proposital, meio que estava ocorrendo e fugindo do nosso controle. Eu entendia o motivo de Javier achar que estava acontecendo algo mais entre mim e Will, especialmente quando este demonstrou pensar o mesmo quando decidiu me beijar. Porém eu o afastei, dizendo não me sentir pronta depois do meu último relacionamento, e resolvi ir embora. Quando contei o que tinha feito a Christine, ela mal pôde acreditar, e então tivemos uma daquelas conversas onde só ela fala e eu escuto, me chutando mentalmente por não esconder nada dela. Chris gritou coisas como “acha que ele vai voltar a te procurar depois disso?”, “qual é o seu problema, Linda?”, “era só um beijo, ele não pediu sua mão em casamento!”. Eu sabia que no fundo ela tinha razão, e foi por isso que, no dia seguinte, eu mesma tomei a iniciativa de ligar para Will e convidá-lo para fazer alguma coisa legal. Nós continuamos saindo, nosso quase beijo foi esquecido e Christine até estava orgulhosa por eu ter tomado a iniciativa de chamar um cara para sair. Ao que parecia, a Mel de que Will tanto gostava era mais diferente de Linda do que eu poderia supor. Era estranho e confortador ao mesmo tempo saber que as duas podiam coexistir dentro de mim, fazia-me perceber que Melinda Calle era menos quebrável do que sempre julguei ser.


— Você é mesmo incrível, Mel. Espero que saiba disso. Apesar de ter me acostumado a ele e estar ciente de que ser educado e lisonjeiro era uma parte sua, eu sentia como se fosse inevitável corar a cada vez que Will dizia esse tipo de coisa. Sentada no bar de uma danceteria nova à qual ele me levou para conhecer, sorvi um gole do meu drinque, tentando ganhar tempo para encontrar algo elaborado para dizer. Quando olhei para Will, a intensidade do olhar dele me pegou desprevenida, e o que quer que eu estivesse prestes a articular foi esquecido quando ele pegou uma de minhas mãos e depositou um beijo cálido sobre o dorso. Engoli em seco, um sorriso nervoso nos lábios quando ele riu para mim, um gesto sexy e convidativo ao qual eu não sabia bem como reagir. O rosto dele se aproximava devagar, meio hesitante, como se testasse a minha reação. Não era a primeira vez que ele fazia aquilo, mas agora o gesto possuía uma calma deliberada e Will sondava minha expressão de forma atenta. O hálito dele bateu contra meu rosto e cheirava a vodca. Era diferente e bom ao mesmo tempo, mas, ainda assim, virei o rosto timidamente, me esquivando do contato, meio sem jeito. — Desculpe — balbuciei, porque queria que ele soubesse que realmente sentia muito por não poder seguir com aquilo. — Você não está pronta? — ele quis saber, afinal, foi como eu o afastei da outra vez, dizendo não me sentir preparada para um novo envolvimento. — É só que… eu não esperava por isso — deixei escapar num riso nervoso. — Como não? Eu já tentei antes, Mel, e te enviei sinais a noite inteira de que era isso que eu queria. Eu não duvidava que ele pudesse mesmo ter feito isso. Porém, eu não era boa lendo esse tipo de sinais. — Desculpe — tornei a dizer, na falta de algo melhor. — É só… ainda é muito recente.


Não precisei ser mais articulada. Ele sabia do que eu estava falando e eu também não queria ir a fundo naquele tópico. Eram minhas lembranças dolorosas e eu jamais seria capaz de esquecer se insistisse em esquadrinhá-las toda vez. — Eu não acho — retorquiu, e seu tom de voz soou tão casual, quase como se estivesse falando algo sobre sua bebida. — Acho que você só está com medo de se envolver com alguém. — Não — neguei mais que depressa, porque aquilo não era verdade. Eu não queria que fosse. — Não se trata disso, é que… — Estou muito a fim de você, Mel — ele me cortou. — E, honestamente, acho que você devia me dar uma chance. A expressão dele era séria, mas então se suavizou num sorriso, e eu espelhei seu gesto, mesmo que as bochechas ainda estivessem rubras pelo constrangimento. — Eu tive um relacionamento bem complicado, Will. Você sabe. Não quero que algo assim aconteça de novo. — Seu ex foi mesmo muito estúpido por deixar você escapar. Bufei para ele, cética, tentando sufocar aquele sentimento estranho que me assolava todas as vezes em que alguém se referia a Robert como meu ex. Não era assim que eu o encarava, porque sequer tivemos um relacionamento de verdade. — Ele discordaria de você… — retorqui — Ele me perdeu de propósito, Will, não foi sem querer. — Então esse cara não te merecia. — É — considerei, num leve aceno. — Foi o que me disseram. — E o que você acha? A pergunta me pegou de surpresa, bem como o olhar esquadrinhador que Will me lançou. Minha boca se abriu, porém, na falta de algo coerente que eu pudesse dizer, acabei ocupando-a com um novo gole da minha bebida, ganhando alguns segundos extras. — Acho que se não fazíamos bem ao outro, então é melhor que não estejamos juntos — articulei, por fim. — Mas você ainda está apaixonada por ele? — Não — respondi de pronto, sem ao menos me dar o trabalho de pensar. Eu não pensava sobre essas coisas, exceto quando Christine me obrigava, mas aquela resposta era a única que eu podia dar. Sempre ouvi dizer que o amor precisa ser cultivado para continuar vivo, e como sempre alimentei esse sentimento unilateral sozinha, agora que desistira dele… bem, significava que havia definhado até a morte. Will não pareceu se importar com a forma como respondi no ímpeto. Ele apenas acenou em concordância.


— Sabe o que acho? Que você está pronta, sim, só está com medo. — Medo de quê? — Franzi as sobrancelhas. Então Will se inclinou de novo em minha direção, seu rosto tão perto que eu podia sentir seu hálito batendo contra a minha boca. Contudo, o modo como ele me fitava tornou impossível que eu desviasse o olhar. Eu me perdi, por um momento ou dois, na firmeza e na sinceridade que eu via estampadas nos olhos dele. — De deixar alguém entrar e terminar machucada como da última vez. — Eu te trouxe pra minha vida, esqueceu? — perguntei, tentando empregar alguma leveza à minha voz. Sem muito sucesso. — Não tenho medo de deixar as pessoas entrarem. — Mas tem medo de se apaixonar — retorquiu, e dessa vez eu não tinha mesmo argumentos. Eu só me apaixonei uma única vez na vida, e as coisas não terminaram nada bem. Eu fui ao inferno e voltei, não queria ir até lá de novo, a experiência já foi o bastante por uma vida. — Só que… — ele retomou, seus dedos tocando meu rosto numa carícia tão suave e cálida que era até mesmo desconcertante — se você se apaixonar por mim, eu prometo não te desapontar. Aquele era um bom momento para afastá-lo e dizer que não, não iria acontecer, porque eu simplesmente não conseguia. Não era mentira, eu bem sabia, no entanto, nada me saiu pelos lábios. Apenas minha respiração ruidosa e trêmula. Os dedos de Will massagearam minha boca devagar, numa calma sem precedentes, e esse foi o único instante em que seus olhos se desviaram dos meus, para encarar meus lábios entreabertos. Eu me lembrava de ter feito uma promessa para mim mesma, de que iria me apaixonar de verdade e ser feliz. Genuinamente feliz, como nunca antes experimentei ser, porque jamais soube o que era ser correspondida. E olhando para Will, para o modo enternecido como ele me fitava, pensei que talvez houvesse mesmo um jeito de fazer isso funcionar. — E como faço isso? — perguntei baixinho, num fio de voz. — Isso o quê? — Will devolveu a pergunta, espelhando meu tom. — Como me apaixono por você? Talvez soasse ridículo articular algo assim, porém eu queria mesmo saber. Não me sentia pronta, entretanto, talvez jamais fosse me sentir, por isso, se Will guiasse o caminho, eu estava disposta a seguir por ele. Seus lábios moldaram um sorriso enorme e encantador. A mão em meu rosto escorregou até minha nuca e, por longos segundos, achei que ele tivesse mudado de ideia, reconsiderado. Fechei os olhos, exalando o ar com um pouco mais de força, incerta sobre o que viria a seguir, recebendo em meus lábios, logo em


seguida, a respiração dele. Eu queria abrir os olhos e analisar sua expressão, talvez medir através de seu olhar o que estava se passando em sua cabeça, mas a pressão da boca macia contra a minha me impediu. O toque me pegou desprevenida, mesmo que eu já estivesse esperando por ele. Foi um contato longo, demorado, porém, nenhum dos dois moveu um único músculo. Will se afastou, encarando-me, e eu fiz o mesmo. Ele parecia procurar por algo em meu rosto, e tendo ou não encontrado, trouxe os lábios ao encontro dos meus novamente, com bem menos calma, bem mais desejo exalando de seus poros. Receber a língua dele em minha boca foi diferente, e eu me surpreendi por achar o contato tão simples e descomplicado. Simplesmente tão bom.


— V ocê ainda está aí? Obriguei meus pensamentos a ficarem sob controle outra vez e encarei Lizzie por alguns segundos antes de finalmente responder. — Estou. Ela pareceu não acreditar muito, no entanto, quem poderia culpá-la? — Está pensando nela de novo, não está? — Não. — Mas era uma grande mentira. Pensar em Linda e em tudo o que tinha acontecido nas últimas semanas era a única coisa que vinha fazendo. Eu repassava as cenas em minha cabeça, tentando entender em que ponto foi que estraguei as coisas. Nós tínhamos uma boa chance de dar certo, nós vínhamos dando certo. Então Susan apareceu e tudo foi por água abaixo. Depois veio James, esfregando o maldito testamento na face de Linda, como se já não tivéssemos problemas o suficiente. Havia sido ele, eu tive certeza antes mesmo de confrontá-lo. Porém, quando o fiz, James me lançou aquele sorriso cínico e asqueroso que sempre me embrulhava o estômago. James voltou a falar sobre Britney, a dizer que meu casamento tinha cumprido seu propósito, mas que aquele circo todo precisava acabar. Eu queria socar a cara dele, só que quando ele disse que eu o auxiliei, mentindo para Linda desde o começo em vez de deixá-la me ajudar… bem, isso me desarmou. “Ela teria feito qualquer coisa que você pedisse, Robert. Estava escrito na


testa dela”, ele disse, e me incomodou que James a conhecesse assim tão bem, infinitamente melhor que eu. — Parece que está — Elizabeth insistiu, me trazendo de volta do devaneio. — Parece que estou o quê? — Pensando nela, oras. Não respondi. Era desnecessário. Não queria soltar algo pirrônico ou agressivo, então achei o silêncio a melhor opção. Elizabeth bebeu um gole de chá e eu fiz o mesmo, com uma calma deliberada, observando Sofie, entretida penteando uma boneca. — Eu a vi — deixou escapar. Foi tão baixo que por um momento pensei que poderia estar imaginando, entretanto, o modo como ela me olhou confirmava tudo. Meus dedos se esticaram e contraíram, as mãos percebendo-se vazias por tanto tempo que era até mesmo difícil me apegar à sensação de tê-las preenchidas com a textura suave da pele de Linda. — Onde? — Nós almoçamos juntas, anteontem. Quando vocês… bem, quando ela foi embora, eu a pressionei um pouco para que mantivéssemos contato. — E ela aceitou? Elizabeth riu. Um som breve e melodioso, com acordes familiares e tristes. — Claro que não. Sou sua irmã. Achou o quê? Que ela viria chorar as mágoas para mim e dizer o quanto você foi estúpido? Engoli em seco, ignorando a ofensa e trazendo o foco para o que realmente importava: Linda. — Mas você disse… — Ela me procurou — esclareceu. — Eu tinha dito que não era justo que todos nós pagássemos pelos seus pecados e Linda concordou. Costumamos sair para terminar de montar o enxoval de Matt e ela tem se mostrado uma boa amiga, apesar do que houve entre vocês. Ninguém pode dizer que ela não é sensata. — Ah, não? Ela foi embora sem me dizer uma única palavra. Não faço ideia de onde Linda esteja agora, o número antigo está desativado e eu achei que ela tivesse simplesmente evaporado. — Depois de descobrir que você tinha dormido com Susan e que você se casou com ela por causa do testamento do papai. — Elizabeth meneou a cabeça, como se pesasse o que acabara de dizer. — É, ninguém pode mesmo dizer que ela não foi sensata. Abri minha boca para dizer algo inteligente. Ou não. Só não queria que as palavras de Elizabeth me dessem aquele sentimento de ser golpeado no estômago, contudo, foi o que aconteceu. — Não é uma coisa ruim o fato de ela ser sensata — Lizzie retomou quando


eu não disse nada. — Isso pode significar que há uma boa chance de vocês conversarem. Então eu ri. Um riso cético, infeliz e ressentido. — Claro — concordei num tom dissimulado. — Eu meio que vejo Linda e eu sentados à mesa, conversando enquanto tomamos sorvete. — Falo sério, Robert — ela me repreendeu. — Pois é, eu, não. — Posso falar com ela, se você quiser. Não tive a chance ainda, mas posso insistir mesmo que ela se aborreça comigo, se eu sentir que você quer mesmo conversar com ela. Eu me ative à parte em que Lizzie disse não ter tido chance de tocar no assunto e que fazê-lo poderia aborrecer Linda. Testei a ideia de Linda repelindo um assunto em que eu estivesse no centro e aquilo me incomodou. — Você falaria comigo se estivesse no lugar dela? Elizabeth pareceu pensar por um segundo ou dois. As mãos descansaram sobre a barriga protuberante e os polegares traçaram círculos lentos e invisíveis sobre o vestido bege que ela usava. — Se eu te amasse… se te amasse muito, então sim. Eu iria querer ouvir um pedido de desculpas vindo de você. — Eu já disse isso. — Tente explicar sobre o testamento. Sobre Susan… — Fiz isso também — retorqui, mesmo que, em partes, fosse mentira. Não tive a chance de dizer a Linda que nada aconteceu realmente entre mim e Susan e que agora eu tinha certeza. Ela não gostaria de como descobri isso. O método foi sujo até mesmo para mim, entretanto, não conseguia me arrepender de ter embebedado Susan e agido como se mal pudesse esperar para que dividíssemos uma cama. A forma suja como ela me enredou me absolvia, além do mais, os fins sempre justificavam os meios. — Diga que sente saudades — insistiu —, que a quer de volta e que… — Feito — eu a cortei, impaciente, sem conseguir acreditar que Elizabeth verdadeiramente achava que eu me dera por vencido sem antes esgotar minhas possibilidades. Ela gesticulou, mas foi um gesto sem som, inarticulado. — Você precisa fazer alguma coisa, Robert. Por favor — implorou com olhos úmidos. — O quê, por exemplo? — perguntei num suspiro exausto. — Não sei. Qualquer coisa. O que trouxer Linda de volta mais rápido. Você precisa dela irrevogavelmente. — Não — eu me apressei em negar, porque a ideia de dependência me


desagradava em demasia. — Sim — refutou, decidida, estreitando os olhos em minha direção. — E ela precisa de você também. Eu sei. Por um momento meu peito se aqueceu. A lembrança de Linda me dizendo palavras gentis e ternas me sacudiram por dentro e um sorriso quase imperceptível moldou o contorno dos meus lábios. — Ela te disse isso? — eu quis saber. — Não. — Ela meneou a cabeça. — Nós não falamos sobre você. Ela não quis. Franzi o cenho. — Não conversaram nada sobre mim? Ela não perguntou? Você não disse? — Ela não perguntou e não me deixou dizer. — Encolheu os ombros, constrangida. Eu não sabia precisar se aquilo tinha me pegado de surpresa ou não, porque me parecia normal que Linda não quisesse falar comigo, no entanto, se recusar a falar sobre mim com Lizzie? Era normal também? Eu não fazia ideia se já esperava por algo assim, mas a sensação era incômoda. — Acho que ninguém pode acusá-la de não ser sensata, então — escarneci, perscrutando a expressão de minha irmã, que voltou a encolher os ombros e acariciou o espaço logo abaixo do estômago, onde Matt aguardava o momento de nascer.

O dia estava em um tom estranho de cinza, obrigando-me a ficar na cama por mais tempo. Dormi mal noite passada, revirando-me nos lençóis enquanto repassava na mente a conversa que tive com Elizabeth. Minha irmã queria que eu procurasse Linda, mesmo se recusando a me dizer onde ela estava. Queria que eu me desculpasse, sabendo que eu já tinha feito isso.


Ela queria, na verdade, que eu fizesse o impossível: trazer Linda de volta. Remexi-me na cama espaçosa — espaçosa até demais para uma pessoa só —, lembrando-me dos dias de ócio em que Linda e eu ficávamos deitados até mais tarde, acordados mesmo sem querer acordar, conversando baixinho para não deixar a letargia ir embora e, segundos depois, sem que nos déssemos conta, nos amando esfomeadamente, sem saber nem mesmo quem tomara a iniciativa. Eu sentia falta dela e a percepção me deixava ainda pior. Como se não bastasse o sentimento de abstinência, eu também me sentia impotente pela primeira vez em muitos anos. Não fazia ideia do que Linda tinha feito comigo para me deixar assim, porém sabia que não podia viver naquela agonia para sempre. Elizabeth estava certa em um ponto: Linda e eu precisávamos conversar, mesmo que o fato de ela ter se mudado e trocado de telefone indicasse que não queria ser encontrada. Eu também não queria que ela tivesse ido embora, e isso não a impediu. Não queria estar sentindo falta dela, e estava. Não queria dormir sem o calor de seu corpo entre meus braços, e dormia. Ela podia não querer me ver, tinha o direito de não desejar falar comigo, no entanto não iria evitar a situação para sempre. Eu já havia esperado tempo demais. Precisava encontrá-la, dizer que sentia muito por tudo — ainda que soasse repetitivo — e contar para ela a verdade sobre Susan. Que não dormimos juntos, como Linda — e até mesmo eu — pensou. Nada disso anulava o testamento, eu bem sabia, mas já me bastava que Linda estivesse disposta a me ouvir.


Havia uma linha muito tênue entre o que eu queria fazer e o que deveria. Desejava ver Linda e precisava me desculpar também. Okay, até aí estava tudo entendido. Era a incerteza quanto ao que me atingiria do lado de lá que me fazia hesitar. Porém eu já dera tempo ao tempo, para que a raiva e a indignação de Linda se dissipassem e dessem vazão a algo mais. Talvez Elizabeth estivesse mesmo certa, e Linda até mesmo quisesse me ver. Era bem possível. Eu queria vê-la. Especulei se ela me pareceria muito diferente depois de quase três meses, mas rejeitei a ideia. Foi ela mesma quem gritou para mim que nada a faria mudar sua essência e, de um jeito egoísta, até gostei disso. Não queria mesmo que ela mudasse, porque ela ser como era sempre foi a razão motriz para eu gostar dela. Iniciei minha busca por Linda no próprio escritório. Nem cogitei perguntar algo para Christine, afinal de contas, ela já havia dito, veementemente, que não fazia ideia de onde Linda se metera. Eu estava certo de que era mentira, ainda assim, entendia que ela não quisesse dizer nada. Foi até uma boa desculpa para deixar as coisas como estavam. Não mais. Talento para procurar por alguém eu não tinha mesmo, então achar alguma coisa foi bem mais difícil do que pensei. Dei de cara com alguns becos sem saída e isso me deixou frustrado. Então eu pedi ajuda a Elizabeth, que se negou a me dar qualquer informação sobre Linda, entretanto prometeu abordar o assunto com ela no próximo encontro, que provavelmente seria dentro de alguns dias. Mas eu


não tinha alguns dias e tampouco queria contratar alguém para encontrar Linda, quando ela mantinha contato com a minha irmã e me evitava de modo deliberado. — Por que tocou no assunto se não estava disposta a ajudar? — eu quis saber. — Não posso passar o telefone dela, desculpe. Mas vou falar com Linda, é sério. — Quando? — Logo. Também quero que vocês se entendam, só que ficar pressionando não vai dar muito certo. Compreenda, por favor. — Tudo bem — concordei, mais por estar impaciente e irritadiço que qualquer outra coisa. Elizabeth me deu um beijo demorado na bochecha, segurou minha mão e a pousou sobre a barriga imensa. Matthew deu um leve chute no local, lembrandome de que sua chegada estava bem próxima, e, por um momento, eu até senti certo conforto por ter Lizzie ali e poder contar com ela — mesmo que ela parecesse estar do lado de Linda, não do meu. — Falta pouco para ele nascer — sussurrou, um indisfarçável tom de orgulho na voz. — Quando tento imaginar como ele pode ser, não consigo. Sempre me vem a imagem do nosso irmão à memória. — Ainda se lembra dele? Ela riu, parecendo meio incerta. — Às vezes acho que sim. Outras, acho que me lembro de você e só. Concordei, sem saber o que mais poderia fazer ou articular. — Éramos bem parecidos. — Era o que a mamãe costumava dizer. Mas ela não falava muito disso. Era doloroso. — Perder um filho deve mesmo ser bem doloroso — anuí. — É. — Lizzie suspirou, um ar pensativo moldando seu semblante. — Imagine só como deve ter sido perder dois. Ela não precisava ser mais articulada para que eu compreendesse a mensagem oculta em suas palavras. De tal modo, sem pensar sobre o que estava fazendo, minhas mãos deslizaram por seu ventre e se detiveram em suas costas. Puxei Lizzie para os meus braços, e ela se acomodou ali. Mesmo sem fitá-la, sabia que o suspiro trêmulo que ela emitiu era devido às lágrimas.


T irar um tempo para dar atenção à minha família foi algo que aprendi com Linda, por isso olhar para o lado e perceber que ela não estava ali causava certa estranheza. Não só em mim, como também em Sofie, que constantemente perguntava pela tia Linda e por que ela não aparecia mais para uma visita. Eu não sabia ao certo como responder, foi Elizabeth quem interveio, dizendo que Linda estava muito ocupada no trabalho e não podia aparecer por enquanto, mas que logo as coisas voltariam ao normal. Voltar ao normal… Esse era o normal, então? Linda e eu juntos? Soava bem, para ser sincero, mesmo que eu não soubesse como fazer com que isso funcionasse. Foi apenas dias mais tarde que consegui ter uma pista sobre Linda. Descobrir onde era seu novo emprego não foi fácil, porém, a partir daí, foi mais simples seguir os passos dela e, inclusive, aprender o novo endereço. Acampado em frente ao seu prédio, foi Christine quem vi passar, não Linda. Concluí que elas deviam ser colegas de quarto e me perguntei como não pensei nisso antes. Ela não tinha simplesmente evaporado, só estava se esquivando de mim, fazendo de tudo para que as coisas seguissem como se não houvesse uma interseção em nossos caminhos. Contudo, havia, sim, e eu me lembrava de cada momento, do mesmo jeito que ela também se lembrava. Não se apaga da memória meses de convivência num piscar de olhos. As horas deslizavam lentamente, os ponteiros do meu relógio de pulso mal pareciam se mover. Irrequieto, busquei posições diferentes no banco para que a espera não fosse tão penosa, todavia, nada resolveu muito. Eu estava meio distraído quando a vi, porque não esperava que as coisas se desenrolassem daquele modo. Um carro estacionou junto à calçada. O motorista desceu e abriu a porta do passageiro. Foi a vez de Linda descer, com um sorriso tão bonito que chegou a me ferir. De um modo inenarrável, aquilo me incomodava a níveis estratosféricos. Meu primeiro instinto foi ir até lá, arrancá-la de perto dele e chamá-la para a conversa de que ela fugiu quando foi embora de casa sem me dizer absolutamente nada. Entretanto, se eu já não estava preparado para vê-la sorrir de modo tão genuíno para outro homem, vê-la nos braços dele, sendo beijada e correspondendo, foi ainda pior. A sensação era de ter sido golpeado bem no estômago. Era mesmo como uma dor física que me imobilizava, então eu apenas assisti à cena, em silêncio, sentindo a cólera se alastrar por todo meu corpo e trazer uma ardência desconfortável aos meus olhos. Linda foi abraçada pela cintura e pareceu gostar do que foi sussurrado em seu ouvido. Ela riu outra vez e tudo o que pude fazer em resposta foi apertar o


volante entre as mãos e trincar o maxilar. Pisquei demoradamente uma vez, esperando que a imagem se esvaísse. Não podia ser verdade, não quando há poucas semanas Linda estava em meus braços dizendo que me pertencia, ao mesmo tempo em que eu beijava cada pequeno pedaço de seu corpo. Ela repetiu isso centenas de vezes enquanto fazíamos amor e eu a levava ao ápice das sensações. Ela era minha, e não porque eu estava dizendo, mas, sim, porque seu corpo respondia ao meu. Quando finalmente abri os olhos, Linda e o tal homem ainda estavam lá, despedindo-se com um beijo calmo. Ela acenou levemente, dando as costas e encaminhando-se para o prédio. O homem a esperou entrar, tomou seu lugar no banco do motorista e então foi embora também. Já eu, fiquei ali, estático, atônito, com aquele sentimento estranho que me apertava o peito, querendo mais que tudo que Linda estivesse ali, porque era ela quem costumava fazer com que essas sensações ruins fossem embora e não me perturbassem mais. No entanto, agora, Linda era a causadora daquela emoção incômoda, e essa era a parte mais difícil de lidar e aceitar.


Depois de Linda ter me deixado eu dormi com outra mulher. Nós estávamos em um bar, ela me ajudou a esvaziar uma garrafa de tequila e então nós fomos para o seu apartamento. O gloss labial que ela usava tinha um gosto ruim, de qualquer modo, eu me obriguei a não me importar. As mãos dela estavam mais preocupadas em tocar todos os lugares errados e eu mesmo tive que guiá-las, eventualmente. Era estranho estar ali com alguém que não fosse Linda, e, só em pensar nela, o oco no meu peito pareceu adquirir um raio maior. A cólera também aumentou, porque era ridículo tê-la monopolizando meus pensamentos enquanto eu beijava outra mulher, cujo nome esqueci no terceiro shot de tequila. Era revoltante. Eu apertei a loira em meus braços, tentando esquecer absolutamente tudo: como era estar com Linda, como seria se fosse ela ali comigo, o que eu gostaria de fazer com ela, o que gostaria que ela fizesse comigo… Foi assim que tive o pior sexo de toda a vida. Ruim o bastante para tentar repetir, à procura de algo que pudesse considerar ao menos como satisfatório. Foram tentativas frustradas, e, mais vezes do que eu gostaria de reconhecer, eu me peguei desistindo dessa empreitada sem propósito. O que Linda e eu tínhamos era simplesmente bom demais para que eu me contentasse com tão pouco, e, ali, parado em frente ao prédio dela, perguntava a mim mesmo como ela podia estar nos braços de outro homem quando, há menos de três meses, me jurou amor eterno. Ela deveria achar o toque de qualquer outro homem asqueroso, não sorrir


para ele e beijá-lo. Não parecia coerente que eu estivesse aqui, este caos completo por dentro, quando Linda estava vivendo um romance. Aquilo não parecia ser do feitio dela. Absolutamente. Era como se eu a tivesse perdido de vez quando Elizabeth me disse que nós ainda tínhamos uma chance de esclarecer as coisas. Mas não tínhamos, verdade seja dita, nós já estávamos predestinados a não ir em frente.

— Esta vai ser uma ótima parceria, Robert. Suas ações na Wood Business vão se provar um verdadeiro tesouro sob a administração certa. Daniel McAuley estendeu a mão para um cumprimento amistoso, que retribuí com certa relutância. Não era de todo sua culpa, eu precisava admitir. Parte da aversão que sentia por ele era cortesia de Frederick, que insistia em fazer comparações entre mim e McAuley. Ele era o filho pródigo, de acordo com Frederick. Inteligente, dedicado aos negócios da família e apegado a valores tradicionais, o que, na opinião de Frederick, consistia em se casar com uma moça de família e ter herdeiros. Eu me perguntava como alguém que cultivou tantas amantes ao longo dos anos poderia ser tão apegado a assuntos familiares. Eu sabia bem que, para Frederick, ter se casado com Alexandra fora apenas mais uma transação de negócios, mas me perguntava se Daniel McAuley via as coisas do mesmo modo. — Espero não ficar desapontado, Daniel. A Wood Business tem valor sentimental para mim e eu realmente gostaria que ela prosperasse tanto quanto a R Blackwell. Ele me lançou um sorriso indulgente em resposta, acenando uma vez. — Tem a minha palavra, Robert. Sei como deve se preocupar com isso, especialmente tendo outra empresa para dirigir. Mas tenho certeza de que vai se sentir mais seguro quando conhecer todas as engrenagens da Wood Business, no


coquetel que agendamos para o próximo domingo. — Coquetel? — Eu não me lembrava de coquetel algum, no entanto, isso não importava muito. Não pretendia comparecer, de qualquer modo, e a verdade era que minha cabeça estava mais ocupada com assuntos pessoais que qualquer outra coisa. — Isso. No próximo domingo, na minha casa. Minha secretária enviou o convite há alguns dias e tomei a liberdade de confirmar sua presença. Você sabe como são os sócios mais antigos, eles esperam que todos compareçam. — Claro. Tudo bem, estarei lá — respondi a contragosto. — E não se esqueça de levar sua esposa. Todos nós estamos ansiosos para conhecer a senhora Blackwell, e você vem nos cozinhando. Engoli em seco, sem saber ao certo o que dizer. Claro que eu vinha cozinhando todos eles, porque não tinha como apresentar uma esposa que não existia. Era bem verdade que eu tinha mantido a aliança, mas não foi exatamente uma escolha. Tirá-la levantaria perguntas e eu não gostava de ninguém bisbilhotando e perguntando sobre minha vida pessoal. Além do mais, era estranho estar sem ela. Fazia com que me sentisse exposto, com um pedaço faltando. Era ridículo, porém me descobri bem ridículo nos últimos dias. — Ela é uma pessoa muito reservada — disse a Daniel com um sorriso indulgente. — Esses coquetéis não fazem o estilo dela. Ele sorriu também. — Tenho certeza de que vai conseguir convencê-la. — Linda tem um gênio dos infernos — retorqui, ofertando-lhe um sorriso forçado. — Ela é sua esposa, vai encontrar um jeito de negociar com ela. — Pode ser mais difícil do que parece, Daniel, você é casado, sabe do que estou falando. — Tentei soar divertido, contudo, a julgar pela expressão de Daniel, falhara miseravelmente. — Dê a ela um cartão de crédito ilimitado e a deixe comprar quantos sapatos quiser, Robert, mas faça com que ela esteja lá. Uma esposa sempre ausente levanta suspeitas sobre como as coisas de fato estão dentro de casa. — Minha vida entre as paredes da minha casa não é da conta de ninguém, Daniel, senão da minha — cuspi entre dentes, cerrando os punhos com força para não atingir o tal McAuley com eles. — Não é bem assim que funciona, e você sabe. Um casamento também precisa ser gerenciado, e isso diz muito sobre o tipo de homem de negócios que você é. — Aposto que o casamento de Frederick dizia uma porção de coisas sobre ele, hã? — escarneci, todavia, Daniel não pareceu se abalar pelo meu mau humor.


— O casamento de Frederick é notícia velha. É o seu casamento que interessa agora. Vejo você no domingo acompanhado da senhora Blackwell. Se vocês tiverem algum pedido especial, me deixem saber, por favor. A ameaça velada nas palavras de McAuley não foi atenuada nem mesmo pelo tom de voz polido e pseudodiplomático. Enquanto eu o observava se afastar, pude perceber a razão pela qual ele era motivo de orgulho para Frederick: eles eram exatamente iguais.

Encarei sem realmente ver os papéis à minha frente. Eu tinha começado a assinar, porém não continuei. Pus a desculpa no cansaço. Mais tarde, na falta de tempo, até admitir para mim mesmo que o que me faltava era interesse. Eu não queria assinar os papéis do divórcio, ainda que não pudesse precisar o porquê. Só não queria. Como também não queria me desfazer da aliança de Linda, nem devolver a Elizabeth o anel de noivado que fazia parte da herança deixada por nossa mãe. Claro que eu tinha desculpas para sustentar cada uma dessas atitudes, no entanto, acabei me convencendo de que eram mesmo apenas isso: desculpas. Eu já mentia para o mundo todo, não podia me dar ao luxo de mentir até mesmo para mim, especialmente depois de ter subornado o advogado de Linda para que ele a fizesse acreditar que o processo de divórcio estava mesmo caminhando e indo a algum lugar. O único problema era que eu me lembrava de tudo o que ela me disse na última vez em que nos encontramos, sobre como iria se apaixonar de novo e construir a família que eu jamais poderia dar a ela. Eu só não esperava que esse dia chegasse tão depressa e, agora, estava ali, perguntando-me que tipo de pessoa eu era por não querer dar a Linda a liberdade que lhe pertencia por direito. Sempre soube que nosso rompimento ocorreria cedo ou tarde e desejei que


Linda encontrasse alguém capaz de amá-la com a mesma intensidade que ela me amou, todavia, a imagem dela aos beijos com outro homem era incômoda de mais formas do que eu poderia conceber, num primeiro momento. Muito pior que assistir ao olhar lascivo de James sobre ela meses atrás, ou mesmo presenciar o momento íntimo que ela e Javier partilharam no hospital, pois agora não havia nada que eu pudesse fazer para mudar isso, ela já não me pertencia, já não era a minha Linda.

O coquetel foi um desastre, com todos perguntando pela Sra. Blackwell a cada 5 minutos e lamentando sua ausência. Como se de fato a conhecessem e sentissem falta dela. Finalmente entendi o que Daniel queria dizer sobre esposas ausentes serem motivos de questionamentos. Eu já estava ficando sem desculpas para justificar a ausência de Linda e isso causava estranheza, seguida de frases que falavam sobre “o quanto era importante para um homem de negócios ter uma mulher sempre ao seu lado”. Não me espantaria se metade dos homens da minha idade estivessem casados só para evitar algo tão monótono quanto homens de meia-idade tratando suas esposas como troféus e seus filhos como símbolo de virilidade. Eu tinha escolhido justo aquele dia para aparecer sem aliança e anunciar o fim do meu casamento, afinal de contas, Linda já estava vivendo uma nova vida e ela merecia um pouco de normalidade depois de tudo pelo que a fiz passar. Ainda assim, quando vi Daniel caminhando em minha direção para um cumprimento, meu primeiro instinto foi pegar o arco dourado de dentro do bolso e devolvê-lo a seu lugar de origem. Ele demonstrou o desgosto por eu não ter conseguido levar Linda comigo e dei a ele minha palavra de que no próximo evento eu não apareceria sem ela. Não era uma completa mentira, já que eu não pretendia comparecer de forma alguma.


Eu me convencera mesmo de que o melhor seria deixar Linda seguir em paz com sua vida, não obstante, havia algo dentro de mim que não se mostrava satisfeito com minha decisão de apenas me sentar e ver tudo pelo que lutei ruir tão depressa. Então, cansado de ponderações e movido apenas pelo meu próprio desejo de fazer alguma coisa, peguei o carro e dirigi para longe daquela casa que me deixava claustrofóbico. O tempo parecia não passar até eu finalmente chegar aonde queria. Parado à porta, consertei a gola da minha camisa e toquei a campainha. Segundos depois a porta estava aberta, e a expressão de espanto no rosto de Christine não poderia ser mais acentuada. — Sr. Blackwell… — ela murmurou num fio de voz, como se não acreditasse que eu realmente pudesse estar ali. — Onde ela está? Os lábios de Christine se abriram e ela tentou balbuciar alguma coisa, porém, tudo o que ouvi foi Linda falando algo em espanhol, ao fundo, e então a risada de Javier soou. Empurrei Christine para o lado, adentrando o apartamento e analisando uma Linda sorridente, que não se deu conta da minha presença até eu estar a apenas um metro de distância dela. O recipiente de vidro que ela carregava nas mãos foi ao chão e o único ruído que se ouviu foi o estilhaçar do vidro ao atingir o solo. Ela deu um passo para trás, vacilante, e percebi que o homem com quem a vi, noites atrás, também estava ali. Como se eles todos estivessem celebrando alguma coisa e eu tivesse acabado de estragar tudo. — Oi, Linda — eu finalmente consegui dizer, depois de observá-la por um tempo e notar as diferenças sutis que havia nela. Ela estava boquiaberta, perplexa enquanto me encarava. Os olhos assumiram um tom vermelho e estavam subitamente úmidos. Ela olhou para os lados


disfarçadamente, como em um lembrete de que não poderia deixar as lágrimas caírem sem ter que se explicar depois. Não para Christine ou Javier, claro, e sim para o homem com quem ela vinha saindo e que já tinha minha aversão, sem nem ao menos se esforçar para obtê-la. — Oi — ela devolveu, e foi tão baixo que eu mal tive certeza de que ela havia dito alguma coisa. Ainda assim, sorri, porque o som da voz dela era mesmo aconchegante. Enfiando as mãos nos bolsos do meu jeans, dei um passo para mais perto dela, surpreso por estar quase beirando o nervosismo. — Acho que nós precisamos conversar. Em resposta, Linda engoliu em seco, soltando o ar pela boca e tremendo levemente.


M inhas pernas estavam trêmulas, minha garganta seca como se eu tivesse engolido areia e meus olhos pinicavam e ardiam pelas lágrimas que me obriguei a segurar. Robert. Parecia um sonho, um pesadelo, qualquer coisa do gênero, então, para me obrigar a acordar, cravei minhas unhas nas palmas de minhas mãos, a fim de que a dor me fizesse despertar, porém nada aconteceu. Will, Javi e Chris ainda estavam lá. Assim como Robert. Perfeitamente imóvel e tão, mas tão bonito, que chegava até mesmo a ser desesperador. — Conversar? — testei, depois do que me pareceu uma eternidade. Eu precisava sair dali. Tirar Robert dali, na verdade, porque era enlouquecedor que ele estivesse justamente no lugar que escolhi para fugir dele. E como se não fosse o bastante, eu também não gostava nada de tê-lo sob o mesmo teto que Will. — Claro — concordei de pronto —, vem comigo. Não precisava olhar para saber que pelo menos três pares de olhos me encaravam, perplexos, então não me dei o trabalho de checar. Robert estava ao meu encalço, as lágrimas deixavam minha visão turva e o elevador parecia nunca querer chegar. Num rompante, eu me aventurei nas escadas de emergência, sem saber ao certo o que estava fazendo. Parei de caminhar três lances de escadas depois, ofegante, trêmula e sem o controle de minhas pernas. Apoiei a testa na parede e fiz a única coisa que ainda


conseguia fazer: chorar. Meu peito doía, minha cabeça também, e eu estava um verdadeiro caos por dentro. Dois meses, três semanas e cinco dias. Era esse o tempo que fazia desde que pusera os olhos em Robert pela última vez, desde que ouvi a voz dele me dizendo o que quer que fosse, desde que senti o cheiro dele invadir meu sistema como se queimasse minhas narinas no processo. Era estúpido saber a data com tanta precisão, no entanto, cada dia em que eu me levantava da cama inteira e disposta a seguir com a vida era uma pequena vitória. Eu tinha amigos, tinha Will e a esperança de que tudo iria se acertar. Até Robert se materializar no meu apartamento como se os últimos meses fossem apenas horas e as coisas não tivessem terminado de modo tão desastroso entre nós dois. — Linda — ele chamou às minhas costas —, por que está chorando? A mão dele tocou minhas costas nuas, graças ao decote do vestido, e me afastei do contato como se tivesse sido eletrocutada. Enxuguei as lágrimas sem cerimônia, porque estava frustrada comigo mesma e também por não querer que ele me visse chorar nunca mais. — O que diabos está fazendo aqui? — perguntei num rompante, em vez de responder à pergunta dele. — Como me encontrou? O que quer? — Já disse que quero conversar. Agora me diga por que está chorando. — Eu não sei! — admiti, exasperada. — Porque você está aqui, acho, e eu não queria te ver — eu me permiti dizer. — Vá embora. Ele não pareceu gostar muito do que ouviu. O maxilar travou numa linha dura antes de ele voltar a falar. — Não. — Robert meneou a cabeça. — Quero conversar com você. — Não temos nada pra conversar, Robert. — Pronunciar o nome dele foi mais doloroso do que eu poderia prever e me trouxe um gosto amargo à boca. — Já te disse tudo o que desejava dizer e não quero ouvir nada vindo de você. Vá embora — tornei a pedir. Tentei fazer o caminho de volta, me esquivando dele no processo, contudo, o que ganhei foi um aperto firme no pulso e, instantes depois, um desconforto na coluna por estar sendo prensada contra a parede e me encolhendo para tentar estabelecer algum espaço entre mim e Robert. Os braços dele mais pareciam duas barras de ferro que me mantinham presa no lugar, e suspendi a respiração, como se o simples movimento fosse brusco demais. — Não vou embora — ele sussurrou, e estava tão perto de mim que seu hálito bateu contra meu rosto, fazendo com que eu me retraísse ainda mais contra a parede. Eu me lembrava de como era inebriante sentir a respiração dele tomando espaço por minhas narinas e não queria descobrir se ainda me sentia da


mesma forma. — Preciso conversar com você, Linda, e falo sério. — Conversar sobre o quê? — perguntei quando encontrei minha voz. Ele pareceu hesitar por um momento, como se ponderasse. Virei o rosto para o lado, colando minha bochecha na parede atrás de mim para não precisar encarálo. — Sobre nós… o que aconteceu… — Não existe um “nós” — eu o lembrei, sentindo a ferida cicatrizada começar a ser aberta. — Existe a minha vida e a sua, e não vejo como isso possa interessar o outro. Houve silêncio por um momento e Robert mudou o peso do corpo para a outra perna, ficando alguns centímetros mais próximo de mim, o que não julguei que fosse possível. — Preciso de você — ele disse por fim, e eu não saberia jamais expressar o quanto aquelas palavras me doeram. Eu o olhei, incrédula, desejando mais que tudo lhe infligir dor física para que ele tivesse ideia do que fazia comigo naquele momento. — Como tem coragem de me dizer isso depois de tudo? — sibilei para Robert, em cólera. — Como se atreve? — É a verdade, você precisa acreditar em mim. As palavras dele eram tão sinceras, ao menos pareciam ser, que me balançaram inteira por dentro. Menos de quatro meses atrás elas teriam feito com que eu me jogasse em seus braços sem pensar em mais nada, porque minha confiança nele era resistente como uma muralha. No entanto, mesmo muralhas poderiam ruir, e ali estava eu, imóvel como uma estátua, um ser inanimado. — Eu acreditei em você antes, e isso não me trouxe nada de bom. Acha que sou estúpida o bastante pra cair no mesmo golpe duas vezes? — Não é um golpe, Linda, tem a minha palavra. Quando digo que preciso de você é porque… — Porque o quê? — eu o interrompi. — Você já tem tudo o que eu podia dar, inclusive o divórcio e sua vida antiga de volta, como se eu nunca tivesse cruzado o seu caminho. Do que mais você precisa? Não houve resposta. Ao menos não de imediato. Ele me observou por demorados segundos, todavia não desviei o olhar. Ao contrário, devolvi o gesto, em desafio, para que ele soubesse que já não poderia mais brincar comigo como fez antes. — Eu nunca quis que você desaparecesse, Linda, não sei de onde tirou isso — soltou num suspiro cansado. — Mas eu sim — confessei. — Queria desaparecer, queria que você desaparecesse pra eu nunca mais precisar te olhar e me lembrar de toda a dor que


senti quando descobri a verdade. — Você fala como se só tivessem existido momentos ruins, quando nós dois sabemos que as coisas não são bem assim. E, de fato, não eram mesmo. Ele me fez feliz, sim. Bem mais feliz do que já tinha sido em toda uma vida, e Robert sabia disso, porque eu mesma fui estúpida o bastante para contar a ele. Mas estava errado se achava que isso faria as coisas mais fáceis para mim, porque não fazia. Ao contrário. Pensar no pedido de casamento, na lua de mel, nos nossos momentos juntos como um casal de verdade, na forma terna com que ele me fitava, nos toques cálidos… estas eram as lembranças mais dolorosas, porque me davam a sensação de que alguém tinha roubado a minha felicidade, o que eu sabia ser mentira. — Os momentos felizes não eram reais. Foram um meio para um fim, só isso. Todas as palavras gentis… os gestos de preocupação… não foram nada além de fingimento — retorqui, magoada. — Certas coisas não se podem fingir, Linda. — Oh, é mesmo? — Havia incredulidade em minha voz e o riso que me escapou era mais por nervosismo que qualquer outra coisa. — Como o quê, por exemplo? — Desejo — respondeu simplesmente, e a intensidade do olhar que ele lançou em minha direção me fez emudecer e engolir em seco. — O desejo que demonstrei em todas as vezes que te fiz minha, absolutamente todas elas — continuou. — Não era fingimento… eu jamais conseguiria fingir algo assim. Sem que eu pudesse evitar, fragmentos das memórias que eu tinha de nós dois emergiram, bombardeando meus pensamentos. Os beijos dele, o toque, a sensação de recebê-lo em meu corpo como se não houvesse nada mais certo em todo o mundo. — Você só fez o que precisava fazer — consegui balbuciar, porque, apesar de todas as lembranças dos pseudomomentos felizes, também havia lembranças dos momentos dolorosos que vivenciei antes da calmaria que antecedeu o momento de agonia profunda. — Não, não — ele negou também num meneio de cabeça. — Eu não precisava. Queria fazer. É diferente, e você sabe. Não respondi de imediato. Estava incrédula, confusa e cansada. Num gesto infantil, cobri o rosto com as mãos, como se aquilo pudesse me esconder de todo o mundo. Entretanto, eu sabia que não era verdade, por isso desisti da ideia estúpida e encarei Robert, passando meus próprios braços ao meu redor. — Eu me casei com você — disse por fim, mesmo que parecesse óbvio. — E estava apaixonada de verdade. Doeu muito descobrir sobre Susan e sobre o testamento, Robert. Não espero que entenda isso, mas espero que entenda quando


peço que, por favor, vá embora. Eu não quero saber de você. Ele sorriu. Não como se eu tivesse contado uma piada, e sim como se tivesse dito algo que ele realmente tinha gostado de ouvir. Talvez ele de fato quisesse ir embora e só estivesse ali por um lapso de consciência que já tinha se esvaído. Pensar nisso foi como receber um golpe doloroso, e odiei a sensação. Sua boca se abriu, mas nenhum som veio dela. Um vinco se formou entre suas sobrancelhas e ele me encarou atentamente. — Na última vez em que nos falamos, você estava gritando comigo. — O olhar dele era indecifrável, por isso, franzi o cenho, sem saber aonde ele queria chegar. — Tudo em você exalava ódio, não achei que seria possível te ver daquele jeito. Mas agora nós estamos aqui, conversando como dois adultos civilizados, e é impossível não notar a estranheza. Acenei uma vez, em concordância, porque para mim também parecia estranho que estivéssemos ali, de frente um para o outro, tendo aquela conversa. Eu não acreditava verdadeiramente na hipótese de algum dia na vida voltar a encontrá-lo, porém, nas poucas vezes em que Christine me perguntou o que eu faria se acontecesse, eu admiti não fazer ideia quanto a isso, apesar de achar que nós dois apenas olharíamos para o outro lado e continuaríamos o que estivéssemos fazendo. Nenhum dos dois estava olhando para o outro lado agora. Eu me lembrava de como era ansiar beijá-lo e abraçá-lo como se minha existência dependesse disso. Lembrava como era estar com tanta raiva a ponto de querer esbofeteá-lo e machucá-lo com palavras, até fazê-lo sangrar na minha frente. Agora, no entanto, eu só queria que aquela conversa acabasse de uma vez, porque a presença de Robert me fazia sentir mal e eu não gostava nada disso. — Não odeio você — confessei por fim, mais para mim mesma que para ele, porque era como me sentia e queria que ele soubesse disso, sem saber precisar o motivo. — Eu estava com raiva, muita raiva mesmo, e pus em você toda a responsabilidade pelo que aconteceu — admiti, meus dedos brincando com o cordão delicado pendurado em meu pescoço. — É, você mentiu para mim, mas eu deixei que isso acontecesse. Eu deveria ter ouvido Javier, deveria ter sido prudente. — Não pude evitar que um sorriso envergonhado pela descrença me viesse à boca. — Você nunca disse me amar — lembrei a nós dois, como se aquela fosse a prova irrefutável de que Robert não merecia toda a responsabilidade pelo modo infeliz como conduzi minha vida. — Nunca disse que estava apaixonado, e, ainda assim, era nisso que eu acreditava. Não foi sua culpa se eu era estúpida o bastante pra crer que alguém como você se interessaria por alguém como eu. Quer dizer… — Balancei a cabeça de um lado para o outro, cética quanto à minha própria ingenuidade diante de uma situação tão clara. — Quais eram as chances? Um CEO que pode ter a mulher que quiser… por que


escolheria justo a mim? Que atrativos eu poderia ter? Eu deveria saber que minha estupidez e ingenuidade eram as únicas coisas que você possivelmente iria querer de mim — murmurei, o coração se afundando em meu peito, pois nem mesmo o tempo era capaz de apagar a dor e a vergonha que eu sentia ao pensar em tudo isso. Uma lágrima me escapou, e eu me apressei a empurrá-la para lá com a ponta do indicador. Outra vez, Robert abriu a boca para dizer algo, mas desistiu no meio do caminho. Balançou a cabeça de um lado para o outro, parecendo exasperado, e aumentou a distância entre nós, o que agradeci internamente. Até então, não havia me dado conta de que estava policiando tanto minha respiração devido à nossa proximidade. — Eu já disse que certas coisas não se podem fingir — ele me lembrou. — E sempre admirei sua ingenuidade e a forma como você busca confiar nas pessoas, Linda, porém nunca te achei estúpida, sequer por um momento… — Tanto faz — eu me apressei em dizer, antes que ele tentasse me fazer sentir melhor dizendo que todas as vezes em que me tocou foi porque ele realmente estava ávido para fazê-lo. Eu sabia que não era assim e não precisava dele tentando cuidar da minha autoestima. Nós nos encaramos em silêncio por um tempo, até ser constrangedor demais e eu assumir que não restava nada a ser dito. Afastei o braço dele, que me mantinha no lugar, com aquela conhecida sensação conflituosa no peito, ou ao menos tentei. Minha investida de me afastar fez com que Robert se aproximasse de novo e decidisse quebrar o silêncio. — Ninguém sabe que você me deixou. Não contei a ninguém. — Olhei para ele de pronto e, sem poder me conter, meus olhos buscaram sua mão esquerda, e ver a aliança de Robert no mesmo lugar onde eu me lembrava de tê-la deixado foi algo que me assaltou. — Sua aliança — balbuciei aturdida, sem saber se aquilo fazia algum sentido. — Eu me pergunto como você conseguiu ficar sem a sua tão facilmente. — Ele riu sem humor. — Tirei uma vez, por algumas horas. Foi como andar nu em público, então eu a coloquei de volta. Havia um nó imenso em minha garganta e meus olhos recomeçaram a arder. Eu entendia bem o que ele estava falando, porque esse detalhe bobo também me incomodou. Então, num gesto involuntário, passei a ponta do meu polegar sobre o anel que coloquei no lugar da minha aliança, a fim de não me sentir tão estranha. — Você acaba se acostumando — menti. Bem, mais ou menos. Era uma meia mentira, porque, apesar de não estar acostumada a ficar sem algum adorno no


dedo anelar, encontrei um substituto. Mas eu sabia que Robert se sairia bem nesse aspecto. — Deixei de tentar. — Foi a vez dele de tocar a aliança com o polegar. — Não me incomoda tê-la aqui. Na verdade, eu gosto. — Não respondi àquilo, porque não havia o que dizer. Apenas abaixei a cabeça, constrangida, girando meu anel em meu dedo e cravando as unhas nas palmas das mãos com um pouco mais de força. Outra vez, nada aconteceu. — Tenho ido a esses coquetéis, sabe? — continuou ante meu silêncio. — E todos me perguntam sobre a Sra. Blackwell. — Soltou um riso de esgar. — Eu digo que você está doente, ocupada, viajando a trabalho ou que simplesmente não gosta desses eventos. — Você devia contar a verdade de uma vez — sussurrei, mas, na realidade, eu queria mesmo era saber por que ele vinha mentindo. — Seria melhor pra todo mundo. — Dizer que você me abandonou? É o que quer que eu diga? — Uniu as sobrancelhas, numa expressão confusa. — Não abandonei você, Robert, não se atreva a dizer isso. — Você foi embora sem dizer absolutamente nada, levando tudo o que era seu e deixando um simples bilhete. — Não, não foi assim que aconteceu. Eu procurei você. Deixei que se explicasse. Meu Deus! — exclamei, exasperada. — Mesmo depois do que houve com Susan, eu te dei um voto de confiança! Ele balançou a cabeça de um lado para o outro, um brilho diferente dançando em sua íris. Um segundo depois, desviou o olhar do meu rosto, e eu também olhei para o outro lado, dividida entre o que deveria fazer: tentar sair dali outra vez ou esperar que ele indicasse que nossa conversa estava definitivamente acabada. A última coisa que eu queria era tê-lo batendo à porta do meu apartamento de novo para resolver um último mal-entendido. — Você se lembra de todas as coisas que me disse naquele dia? A pergunta me pegou desprevenida, com a guarda baixa, e antes que pudesse me dar conta, eu estava lá outra vez, no escritório dele, carregada de revolta e tristeza até a alma e com o coração em frangalhos. — Lembro — respondi após um pigarro, que não foi eficiente em me devolver uma voz firme. — Elas eram exatamente o que queria dizer? Ponderei por um momento, pesando tudo o que considerei nas últimas semanas sobre aquele dia. — Acho que sim — respondi meio incerta, porque, na verdade, me arrependia de uma coisa ou duas que disse a ele, na última vez em que nos vimos. — Sobre que parte você tem dúvidas?


— Sobre dizer que você é um monstro sem coração — murmurei constrangida, estalando os dedos das mãos como forma de me distrair. — Não ter me amado não queria dizer que não tivesse um coração, só que ele não era meu. Sei o quanto Lizzie e Sofie significam pra você, então não foi justo dizer aquelas coisas. Eu estava machucada e queria ferisse-te ferir também — concluí, dando meu melhor para que ele percebesse que nada daquilo importava mais. Ele acenou uma vez, no entanto não parecia ter terminado com as perguntas. — E o que você quis dizer quando falou que iria se apaixonar de novo e formar uma família? Foi quando me lembrei de Will, de como era simples e descomplicado estar com ele. Não fazia mais que umas poucas semanas que vínhamos saindo, mas ele já tinha se tornado parte da nova vida que eu vinha construindo, parte da minha rotina. Estar com ele era muito diferente de estar com Robert. Não havia aquele turbilhão de emoções como se eu estivesse saltando de paraquedas e não conseguisse saber em que momento iria encontrar o solo. Era calmo e tranquilo como andar de bicicleta numa tarde de verão, e essa calmaria era tudo de que eu precisava. — Eu quis dizer exatamente o que disse. — Dei de ombros, desconfortável. — Nós cometemos um erro, mas isso não sugere infelicidade e arrependimento eternos. O olhar dele pareceu mudar. O relampejo de algo passando por seus olhos e indo embora antes mesmo que eu pudesse decifrar o que era. — Aquele homem no seu apartamento… Eu vi vocês dois juntos na outra noite. — O quê? — testei, surpresa com o que aquilo implicava. Significava que aquela não era a primeira vez que ele ia até o meu apartamento, então? — É sério entre vocês? — questionou, ignorando completamente minha pergunta. — Isso não é da sua conta, Robert — devolvi ultrajada. — É da minha conta, quando eu quero te pedir um favor — interrompeu-me. — Um favor? — Em resposta, ele me lançou um aceno, a expressão séria e compenetrada, mas isso foi tudo. — Que tipo de favor? — Quero que volte para casa comigo. Um ofego e uma expressão estupefata foram as únicas respostas imediatas que pude esboçar.


Eu não estava certa de que realmente tinha entendido, então, por via das dúvidas, achei melhor me certificar. — Você o quê? — Eu preciso da sua ajuda, Linda. Você disse que, se eu fosse honesto, me ajudaria, lembra? Bem, este sou eu sendo honesto. Pisquei uma vez, demoradamente, tentando colocar os pensamentos em ordem, mesmo quando parecia que o mundo inteiro estava girando. — Eu não estou entendo… — balbuciei em confissão. — Você quer… quer que eu volte… — As palavras de há pouco me assaltaram como se reverberassem nas paredes ao meu redor. “Todos perguntam pela Sra. Blackwell…” — Espera! — exclamei, assim que o discernimento me abateu, interrompendo a explicação que ele já começava a articular. — Quer que eu volte pra desfilar ao seu lado como sua esposa? — testei, estupefata. E ele não negou. — Para que possa me esfregar na cara dos seus sócios e falar sobre como o admirável Robert Blackwell é perfeito, inventando qualidades que você não tem? — escarneci, fitando-o com minha melhor expressão incrédula. — É pra isso que quer que eu volte? A firmeza no rosto dele pareceu esmaecer um pouco, talvez pelo tom que usei, ou pelas palavras. Eu não fazia exatamente o tipo que acusava alguém e isso pareceu surpreendê-lo de modo considerável. — Não. Não é isso. Mais ou menos — reiterou quando sua certeza ruiu ante


o olhar incisivo que eu lhe lançava. — Quer dizer… Linda, você não é um troféu pra mim. Não é sobre isso. É só que… esqueça o testamento, está bem? “Esqueça o testamento”, ele disse, e foi impossível conter o bufar de ceticismo que me escapou. — Claro — zombei. — Por que não? O que mais quer que eu esqueça? Susan? — provoquei pirrônica. — Eu não… — Robert hesitou, titubeou e, por fim, balançou a cabeça de um lado para outro, parecendo resignado. — Por favor — insistiu, numa expressão que beirava súplica enquanto seus olhos me analisavam. Outra vez, fugi do olhar dele, porque era ainda mais perturbador encará-lo que tê-lo assim tão perto. — Então, só pra esclarecer — comecei, numa voz fraca, pigarreando logo após no intento de limpar a garganta. — Você não veio se desculpar ou procurar por perdão; você quer minha ajuda. Esperei por uma resposta pelo que pareceram horas intermináveis, contudo, não obtive nada. Era mesmo muita ingenuidade achar que Robert Blackwell, justo ele, se ocuparia em vir até mim para fazer um pedido de desculpas. Ele não precisava de perdão para viver, só de obediência e admiração cega e gratuita. Eu sabia que ele não havia medido as proporções do que acabara de me pedir, e talvez não fosse sua culpa, mas a raiva que eu senti pela audácia que ele teve em vir até mim depois do nosso desfecho catastrófico era impossível de ser ignorada. As lágrimas incomodaram outra vez e responsabilizei a fúria por conseguir esse feito. — A resposta hoje é não — consegui dizer, mesmo que minha voz não tivesse saído firme como planejei, muito menos resoluta. — Amanhã ainda vai ser não e mesmo dentro de 60 anos vai continuar sendo não — prossegui, porque não queria deixar margem para dúvidas. — Por favor — ele insistiu, e as palavras dele aliadas ao olhar pedinte me causaram uma dor imensurável e espantosa dentro do peito. — Se é mesmo verdade que você já me perdoou, Linda, então… — Eu não disse que te perdoei, Robert — eu o interrompi, antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa. Não queria que aquela conversa continuasse e que ele tentasse me dissuadir. Era revoltante, para dizer o mínimo. — O que eu disse foi que não odeio você e nem te responsabilizo inteiramente pelo que aconteceu, mas perdoar é outra coisa. Nunca vou perdoar a nenhum de nós dois pelo que houve. Não consigo, ainda que não me orgulhe disso. Sempre vai haver mágoa dentro de mim no que diz respeito à decisão imbecil de ter me casado com você. Ele acenou uma vez em concordância, sem dizer uma única palavra, me


fazendo acreditar que nossa conversa tinha chegado ao fim. Todavia, quando um de seus braços cedeu ao meu lado, em lugar de me deixar ir, Robert ergueu uma de suas mãos, aproximando-a do meu rosto. Catatônica demais para esboçar alguma reação, fiquei quieta, esperando tudo, menos sentir a textura de seus dedos contra minha pele. O dorso escorregando desde a têmpora até a maçã do meu rosto, ateando fogo por onde passava e fazendo-o se alastrar do mesmo modo que acontece quando ateamos fogo em algo banhado em gasolina. Era bom e agonizante ao mesmo tempo. Fazia com que me sentisse bem e estúpida. A dubiedade me apertava o peito numa sensação de angústia que suportei em silêncio, sem saber ao certo como estava sendo capaz de conter o choro. Quando o polegar dele tocou meus lábios entreabertos, em vez de afastá-lo como se o toque pudesse trazer uma doença contagiosa, eu apenas resfoleguei, surpresa. A sensação era exatamente a mesma de que me lembrava. Toque gentil, pele macia e cálida. Reconfortante, eu diria, e tão idêntico a um carinho de verdade que chegava a doer na alma me lembrar de que tinha dado as costas para algo tão sublime. Então, cedo demais, o contato morreu. Não havia braços ao meu redor me aprisionando, nem toque nenhum, lembrando-me de que aquela sensação de abandono era a única coisa duradoura que eu poderia ter vinda de Robert. — É melhor eu ir embora — ele murmurou, sem nem mesmo se dignar a me fitar uma última vez. Apenas continuou descendo as escadas de dois em dois degraus, me deixando ali. Já não havia mais motivos para não chorar, e como se estivessem apenas aguardando sua deixa, minhas lágrimas vieram, fortes e abundantes, enquanto eu culpava Robert por algo assim estar acontecendo. Eu não estava pronta para vê-lo nem achava que em algum momento estaria. Por Deus! Eu mudei minha vida inteira para que nada daquele gênero acontecesse. Não era certo que ele tivesse me encontrado justo agora, quando as coisas pareciam estar entrando nos eixos. Logo quando conheci Will… Will. Pensar nele me fez sentir suja de um modo indizível. O que ele pensaria se tivesse escutado minha conversa com Robert? O que acharia se soubesse que ele me tocou e que não pude fazer nada quanto a isso, porque as forças me escaparam quando mais precisei delas? Como ele reagiria se soubesse que estar tão próxima de Robert trouxe à tona sensações que ele, Will, jamais foi capaz de despertar? E tudo bem que não era como se nós estivéssemos nos declarando um para o outro, mas acontecia que não era o que Robert disse e fez que me incomodava, e sim o modo como me fazia sentir. A forma como me fazia reagir, as lembranças que despertava em mim e como estas coisas me afetavam.


Sobretudo, como se nada disso fosse o suficiente, eu estava em frangalhos por ter sido Robert a me deixar ali, sozinha, e não o contrário. Parecia infantil e eu me odiava um pouco mais por isso, no entanto, se ia mentir para o mundo inteiro, precisava ser honesta ao menos comigo mesma, nem que fosse por um segundo ou dois.

Javier e Christine estavam terminando de lidar com a sujeira no carpete da sala, que proporcionei quando deixei a travessa com a nossa sobremesa cair no chão. Não existia sinal de haver ninguém mais ali com eles. — Onde está Will? — perguntei. — Ele saiu logo depois de você — Javier respondeu, desviando a atenção da sujeira para olhar para mim. — O que diabos foi aquilo? — Não seja rude! — Christine interveio, cutucando Javier com o cotovelo. — Sem julgamento, lembra? — Tá — ele devolveu, mesmo que parecesse meio mal-humorado. Franzi as sobrancelhas, tentei entender o que possivelmente eles tinham conversado antes de eu chegar para acordarem que não iriam me apedrejar por eu ter saído para conversar com Robert. Acima de tudo, gostaria de entender o que eles achavam que minha atitude significava, e também o que Will achava, especialmente depois de ter ido embora tão depressa. Colocando essas ponderações em segundo plano, eu me ajoelhei junto a Javier e Christine. — Me deixa ajudar vocês… — Não — Chris me interrompeu, afastando minha mão para que eu não tocasse em nada. — A gente cuida disso. Vá descansar. Em qualquer outro dia eu teria discutido apenas pelo prazer de ajudar e me sentir útil, mas não hoje, e, certamente, não agora.


Lancei um sorriso sincero para Javier e Christine, dando um beijo na bochecha de cada um deles e lembrando-os de que eram os melhores amigos que eu poderia ter. Já em meu quarto, troquei de roupa e me joguei sobre a cama, confusa, incrédula e completamente revoltada comigo mesma. Foi, de fato, uma excelente ideia ter tirado Robert do meu apartamento e tê-lo levado até as escadas para uma conversa. Foi brilhante, exceto pelo modo como fiquei. Definitivamente, eu devia ter algum problema sério por ainda permitir que ele fosse capaz de me pôr para baixo. Sua simples presença me fez criar expectativas, como se eu já não o conhecesse. Ele não fazia o tipo que se desculpava, foi insano achar que era disso que se tratava, porém, nem tudo pelo que passei foi capaz de me preparar para o pedido dele. A pior parte era que a insensibilidade que ele demonstrava ainda era capaz de me machucar, de me fazer sentir mal. Ao mesmo tempo, era a única coisa nele que jamais pareceu ter mudado.

Eu me sentia péssima por ter dedicado tanto tempo pensando em Robert a ponto de me esquecer de quem realmente importava: Will. Não me preocupei em checar as horas antes de ligar, porque devia a ele uma explicação e não podia esperar até o dia seguinte. Num momento, nós estávamos comemorando a promoção dele e, no outro, eu estava saindo com Robert, sem dar nenhuma justificativa sequer. Talvez ele até mesmo estivesse chateado comigo, e com toda razão, o que só tornava tudo muito pior. Era bem verdade que eu ainda não o amava desesperadamente, até porque estávamos juntos há menos de um mês, mas eu sentia que poderia amar Will. Amor de verdade, como o que costumava sentir por Robert. Bem menos louco e desenfreado, porém o suficiente para querer tê-lo sempre por perto, dividindo


uma vida e sendo seu porto seguro, como esperava que ele fosse o meu. Will atendeu ao telefone quando achei que iria cair na caixa postal, e não pude evitar a sensação de conforto que me invadiu. A voz cautelosa e firme soou do outro lado e sorri, sem poder me conter. — Você foi embora sem se despedir, aconteceu alguma coisa? — perguntei, mordendo o lábio logo em seguida. Claro que tinha acontecido alguma coisa. Robert aconteceu. Eu só queria saber, numa escala de zero a dez, quão ruim isso poderia ser. — Achei que vocês fossem demorar. Esse tipo de conversa sempre demora. — Que tipo de conversa? Eu estava apreensiva, e provavelmente isto estivesse transparecendo em minhas palavras, mas não me importei. — Essas em que um cara idiota tenta convencer a ex incrível de que eles deveriam voltar — respondeu, e o sorriso em sua voz teve o poder de me lavar a alma e fazer suspirar de alívio. — Não foi disso que nós falamos. E não levamos mais que alguns minutos também. — Não eram mentiras. Robert não queria que eu voltasse para ele, senão para a casa dele, a fim de posar de esposa feliz. — Você não precisa me contar sobre o que falaram, Mel. Está tudo bem. — Okay. — Suspirei. — Você quer almoçar comigo amanhã? Se não tiver nenhum compromisso, claro, se não puder eu vou entender… — Pego você ao meio-dia em ponto, tá bem? — ele me cortou, fazendo com que eu abrisse um sorriso gigantesco, que contrastava com a lágrima que rolou por minha bochecha. Eu estava tão feliz por não ter estragado tudo entre a gente! — Meio-dia, então. Durma bem. — Sonhe comigo — devolveu, em seu tom alegre e provocador, já tão familiar para mim.


N ão. Esta foi a resposta de Linda ao meu pedido. E quem poderia culpá-la? Eu tinha pelo menos mil coisas diferentes para dizer a ela e escolhi as piores palavras para expressar como me sentia. Já devia ter aprendido, a essa altura, que, para Linda, o fato de eu precisar dela não era algo bom. Ao contrário. Desculpas não eram mesmo o meu ponto forte, disso nós já sabíamos, porém o que mais eu poderia dizer? Que sentia muito? Ela não me deixou concluir esse pensamento nem mesmo meses atrás, quando foi à empresa gritar comigo e esfregar o testamento de Frederick no meu nariz. Que sentia falta dela? Eu disse isso uma vez, e não surtiu efeito algum. O que mais eu poderia dizer, senão que precisava dela? E desta vez não tinha a nada a ver com uma cláusula estúpida em um testamento igualmente estúpido, tinha a ver com o fato de eu sentir falta da vida que partilhávamos, dos momentos de paz que antecederam todo este caos atual. Por isso, quando a vi, tão perto, tão exatamente igual e diferente, ao mesmo tempo, minhas mãos não me obedeceram e foram ao seu encontro. O contato com a pele cálida e macia era bem distinto de como eu me lembrava. Era melhor. As maçãs de seu rosto pareciam menos cheias que antes, mas isso não mudava a sensação de acariciar sua face e tocar seus lábios com meu polegar. Na verdade, eu queria beijá-la. Sentir os lábios tépidos contra os meus e


saber que o efeito esplêndido me inflando o peito também se apossava de cada pequena parte do corpo de Linda. Foi quando me lembrei dele. O homem em seu apartamento, responsável por fazê-la sorrir e manter a expressão descontraída no rosto dela, a qual ruiu no momento em que seus olhos me encontraram. Ela se tornou outra Linda a partir daí, chorando sem saber a razão exata, tensa, nervosa e com expressão ressentida. Parecia um pouco mais velha do que era de fato. Certamente, mais velha do que a mulher com quem me casei e que costumava me regalar sorrisos doces, gentis e acolhedores. O brilho de ingenuidade não estava mais presente em seu olhar nem em traço algum, e tal percepção foi como um golpe em meu estômago, porque eu sabia ser o causador das mudanças pelas quais Linda passou. Por outro lado, ouvi-la dizer que não me odiava tornava-me incapaz de recuar e apenas deixá-la seguir em frente. Certo, ela também disse não ser capaz de perdoar a nenhum de nós dois por tê-la sujeitado a tamanho sofrimento. Entretanto, se fosse eu a curar as feridas que causei… talvez fosse o bastante para que ela percebesse que funcionávamos bem juntos, mesmo com minha inabilidade para romance.

— William Stewart? — Torci o nariz. — Esse nome é ridículo, você só pode estar de brincadeira. — Não é um nome ridículo, você que é implicante. É diferente. Elizabeth colocou um pouco mais de mostarda sobre sua porção de lagosta, saboreando um segundo depois como se fosse o prato mais delicioso do mundo. Meu estômago embrulhou, então desisti de comer. Limpei os lábios com o guardanapo e o depositei sobre a mesa logo em seguida. — Você não quer mais? Posso comer o que deixou no prato? — Sem esperar por uma resposta, ela pegou a porcelana à minha frente, levando para junto de si e


acrescentando às sobras quantidades generosas de mostarda, ketchup e molho barbecue. Ignorei o fato de aquela ser a combinação mais estranha e nojenta que já vi, bem como Lizzie ter desejos bizarros mesmo com a gestação tão avançada. Ativeme à informação de meu interesse. — Você sabia que Linda estava vendo alguém e não me contou. Por que me fez acreditar que ela estava sozinha e inclinada a uma reconciliação? Para fugir da pergunta, Elizabeth colocou na boca uma porção maior do que conseguiria mastigar, dificultando a comunicação entre nós. Ainda assim, esperei pacientemente. — Primeiro: ela não está “vendo alguém”, Will e ela têm um relacionamento. Segundo: você não me perguntou nada. Terceiro: eu disse pra você se explicar, deixando claro que não podia ajudar tanto quanto gostaria, porque ela não me dava abertura para falar muito de você. Robert, são três meses. Três. Meses. Por que não a procurou antes? Por que deixou que ela fosse embora, para começo de conversa? — exasperou-se. — Eu não a deixei ir embora. Acha que ela pediu minha permissão? — bufei. — Eu a vi no escritório, Elizabeth, e, então, quando cheguei em casa, ela tinha simplesmente desaparecido. — E você achou bem confortável assim, não foi? Porque então não precisaria se explicar, pedir desculpas e assumir que errou, mas que estava disposto a se redimir. A raiva que cresceu em mim não foi súbita, eu bem sabia. Independente disso, ser acusado daquela forma justo pela pessoa que deveria estar ao meu lado, tentando entender meu posicionamento, não era de grande ajuda para tentar conter os ânimos. — Ela não me deixou pedir desculpas. Eu tentei — disse por entre dentes cerrados. Minha vontade era esbravejar com Elizabeth, fazer em destroços a porcelana cara em que ela servira o jantar e dar-lhe as costas. Mas não o fiz. Em vez disso, cruzei as mãos sobre a mesa e completei: — Você não entende, não é tão fácil quanto parece ser, Linda… — Não fale como se tivesse sido injustiçado, por favor — cortou-me, impaciente. — Você não é um pobre coitado em toda essa história, Robert, pare de assumir esse papel, ele não lhe cai bem. As palavras dela me pegaram de surpresa, retardaram qualquer reação ou resposta inteligente que eu pudesse ter. — Você… é… inacreditável — soltei, na falta de palavra melhor que pudesse descrevê-la. — Foi por isso que me disse para ir atrás de Linda? Para tripudiar com o fato de ela estar feliz com outro homem?… Elizabeth!


De súbito, ela também pareceu perder o interesse pela comida. Afastou o prato, limpou os lábios e trouxe seus olhos verdes para mim. Era impressionante como, ultimamente, olhares magoados eram tudo o que eu conseguia obter das pessoas com quem me importava. — O que você fez não foi justo! Eu queria que visse o que perdeu. O maxilar trincado era o sinal físico do que se passava dentro de mim, contudo, não pareceu fazer Elizabeth titubear ou considerar a postura que assumira. — Sei o que perdi, Elizabeth, eu não precisava ver Linda se esfregando em outro homem para me dar conta de que não gosto nada disso. Ela ergueu as sobrancelhas, em resposta, porém não parecia arrependida do que fizera. Não condizia muito com a postura de Lizzie, o que não a impediu de assumi-la, de qualquer modo. — Desculpe. É que… Will… ele é incrível. — Deu de ombros, uma das mãos alcançando uma taça com água. Lizzie sorveu um longo gole, sem pressa. — Pare com isso, por favor — pedi, pois sabia que ela estava longe de pôr um fim à minha aflição. Eu poderia ir embora e deixá-la sozinha ali, sabia disso, não obstante, havia uma parte em mim que queria escutar a absolutamente tudo o que ela tinha a dizer. Poderia ser uma forma de obter Linda de volta, e eu iria muito longe para tê-la ao meu lado outra vez. — Calma, me deixa terminar. Bem, ele é incrível e faz Linda feliz… — Lizzie fez uma pausa agonizante, impacientando-me. Os olhos verdes abrandaram um pouco, deixando de lado a postura mais arredia de minutos atrás. — Mas… ele não é você. Eu não sabia explicar muito bem o que senti quando aquelas palavras irromperam pelos lábios de Elizabeth, no entanto, meu peito se aqueceu de imediato. A sensação não durou por muito tempo, contudo, porque cedo demais a percepção me atingiu. Will e eu não éramos a mesma pessoa, e sim extremos opostos. — Isso explica por que Linda gosta dele. Elizabeth soltou um bufar incrédulo, irrequieta. — Ela ama você, Robert. Meu Deus! Ela aceitou se casar com você, não desistiu do casamento tão facilmente e lutou por ele por todo o tempo em que acreditou que valeria a pena. Será que não percebe que é isso o que faz doer tanto? Se ela te amasse menos, se você importasse menos… também doeria menos. As palavras dela me trouxeram um gosto amargo à boca. Eu conseguia me lembrar bem da expressão magoada no rosto de Linda, de todas as coisas que ela me disse antes de me dar as costas, meses atrás, e desaparecer da minha vida. Eu


cheguei a acreditar que o apartamento vazio, nos primeiros dias e, depois, minha mudança para a mansão, eclipsariam os meses que passamos juntos. Foi um ledo engano. — Isso deveria fazer com que eu me sentisse um pouco melhor? — consegui perguntar um tempo depois. — Porque, sendo bem honesto, não faz. — O que vocês conversaram? — quis saber, ignorando minha pergunta por completo. Talvez eu devesse dizer a ela, compartilhar o fardo e pedir ajuda para entender aquilo que eu não conseguia. Em vez disso, fiz um gesto de descaso com uma das mãos. — Não importa. Não mudou nada. — Isso quer dizer que você estragou tudo, não foi? — questionou tristemente, os ombros murchando de pronto. — Não tinha muito que estragar, na verdade. Ela tem outro cara… o que quer que ela faça? Que deixe Phill pra ficar comigo? — escarneci. — É Will. — Não estou nem aí para o nome dele. — Diga a Linda como se sente — insistiu. — Seja honesto. Cem por cento honesto, como não está sendo comigo. Como não está sendo com você. — Que quer dizer?… — Franzi o cenho, sem saber aonde ela queria chegar. A percepção me atingiu um segundo depois, quando minha irmã lançou seus olhos verdes ao meu encontro. O brilho deles foi como um soco que me acertou em cheio. — Elizabeth — comecei, tentando ao máximo ser gentil ou, ao menos, não parecer tão rude —, você é uma romântica incurável, eu entendo, mas entre mim e Linda… eu não… Não é exatamente assim. — Não fui articulado o bastante, a prova disso era a lividez no rosto de Lizzie e a estranheza dentro do meu peito. — Não estou… me sentindo como você acha que eu estou — reiterei, esperando que, desta vez, fosse melhor compreendido que antes. — Apaixonado? — testou, a voz saindo num sussurro quase inaudível. — Exatamente. Lizzie meneou a cabeça diversas vezes, a boca se abrindo e fechando, até que, por fim, ela voltou a me encarar. — Então o que é isso que sente por ela, Rob? — O tom baixo e decepcionado me desarmou um pouco mais e era como se as últimas esperanças de Lizzie, referentes à minha redenção por tudo o que fiz com Linda, se esvaíssem ali. — É complicado. Eu não… não sei como colocar em palavras, Elizabeth, não sou bom com elas. Recebi mais um olhar magoado, naquela noite, mas não durou muito. Com


um novo meneio de cabeça, assisti ao olhar de Lizzie se transformar em ultraje e cólera em menos de um milésimo de segundo. O rosto foi tingido de vermelho e a voz mais parecia um silvo quando ela voltou a falar. — Se não é bom com palavras, então guarde-as para si mesmo e não faça com que Linda perca tempo ouvindo o que você não tem a dizer — cuspiu, levantando-se em um movimento tão abrupto que o equilíbrio lhe faltou por um instante ou dois. Apressei-me para socorrê-la, porém ela se esquivou, afastando minhas mãos num movimento rude e agressivo. — Não preciso da sua ajuda — lançou, encaminhando-se para fora da sala de jantar e deixando-me completamente imóvel e sem reação. Perplexo, pisquei uma e outra vez, mal acreditando no que acabara de acontecer. Quiçá fosse a gestação, ou o enorme carinho e empatia que Elizabeth nutria por Linda. De qualquer forma, foi a primeira vez que ela saiu magoada de uma discussão e correu de mim, e não para mim. Tantas e tantas vezes, eu fui o consolo de Elizabeth, sempre a acalentando em meus braços quando o fardo se tornava pesado demais e ela precisava dividilo com alguém. Em silêncio, eu a deixava chorar baixinho, a cabeça em meu peito e as mãos me apertando até não poderem mais. Entretanto, não hoje. Eu não era seu alento, e sim quem lhe fazia mal. Dando a noite por encerrada, fiz o caminho até a mansão Blackwell, onde passaria mais uma das inúmeras noites solitárias que vinham me acompanhando, desde que Linda me abandonou. Foi impossível, então, me perguntar em que momento deixei de ser eu mesmo e me tornei uma cópia tão fiel de Frederick, quando todo o propósito de me casar com Linda foi justamente desafiá-lo e não me dobrar aos seus desejos.


A sensação de não conseguir tirar Robert dos meus pensamentos era péssima. Desde o dia em que ele reapareceu em meu novo apartamento, a vida parecia ter virado de ponta-cabeça outra vez, mas foi a conversa com Lizzie que me deixou mal. Eu não sabia dizer se era devido à gravidez, no entanto, os olhos dela estavam marejados enquanto ela me dizia que não voltaria a falar de Robert comigo, pois ele era uma causa perdida, não tinha mesmo jeito. — Ele teve a coragem de dizer que eu estava errada se pensava que ele estava apaixonado por você — dissera, e não fui capaz de medir o tamanho da dor que aquelas simples palavras me causaram. — Mas não importa, porque você tem Will e eu sei que vocês vão dar certo. Robert não vai mais te procurar, eu disse a ele que não fizesse isso. Não se preocupe, Linda, e me desculpe por ter insistido com meu irmão para que fosse atrás de você, é só que… Lizzie continuou falando e falando, entretanto, eu já não prestava mais atenção em nada do que ela dizia, já que todo meu foco se concentrava em dois pontos de tudo o que consegui absorver: Robert não me amava e só me procurou a pedido da irmã. “Claro que ele não te ama, imbecil, esse sempre foi o ‘x’ da questão”, eu lembrei a mim mesma. Ainda assim, aquela era, provavelmente, a primeira vez em que ele dizia as palavras exatas, em voz alta, e não me importava que não tivesse sido para mim. Ele dissera e não havia mais volta.


Era um pensamento bem estúpido, se eu fosse mesmo analisar, porque ele havia dormido com Susan e, quiçá, com tantas outras mulheres enquanto estávamos juntos… enquanto eu acreditava que estávamos juntos. Eu podia até mesmo escutar a voz dele, em uma mistura de escárnio e convencimento ao explicar a razão por ter se casado comigo, contrariando todas as expectativas… “Linda? São apenas negócios… lógico que não a amo.” Óbvio que não me chateei com Lizzie por ter pedido que Robert me procurasse e tentasse… sei lá, acertar as coisas comigo, ainda que a seu próprio modo. Estava ocupada demais sentindo-me miserável e ressentindo-me com Robert e comigo mesma para ter forças para o que mais fosse.

— Ei, você ainda está aqui comigo? — Will perguntou tocando uma de minhas mãos, sobre a mesa. Como já era de costume, nós saímos para jantar juntos, mas não me importei quando ele pediu licença para responder alguns e-mails importantes, enquanto esperávamos pela sobremesa. Eu sabia que ele estava se desdobrando muito no novo cargo como diretor de marketing, então, em vez de aborrecê-lo, puxei meu próprio celular, a fim de conferir a mensagem que chegara há uns poucos minutos, quando o senti vibrar. Havia duas mensagens de Christine, como já era esperado. No entanto, o número dançando à minha frente não era dela, e eu não precisava tê-lo agendado para estar ciente de a quem pertencia, não quando o sabia de cor e o discara tantas e tantas vezes, antes.

“P osso te ligar agora?”


Sem assinatura, claro, porque ele estava certo de que não era algo necessário. O coração bateu tão forte que mais parecia querer sair pela boca, as mãos suaram e se puseram trêmulas enquanto eu congelava em minha posição.

“N ão”, digitei de volta, engolindo a saliva com dificuldade e apertando o aparelho com força entre os dedos. A resposta chegou menos de meio minuto depois.

“Q uando, então?” Era a rispidez que eu bem conhecia vindo dele, então apenas tentei responder do mesmo modo.

“N unca, Robert, não há nada que eu queira falar com você.” “I sso não vai acontecer, Linda.” “L igue o quanto quiser, eu não vou atender. E pare de me mandar mensagens, porque não vou mais respondê-las.”

N um ato impensado e infantil, eu o bloqueei no aplicativo, desejando avidamente que aquilo o mantivesse afastado de mim também. Um segundo depois, o celular começou a vibrar de modo incansável, me sobressaltando.


Rejeitei a chamada, e Robert voltou a insistir. Uma, duas, três… — Mel? — Will voltou a chamar, quando não respondi. No ímpeto, desliguei o celular e o guardei dentro da bolsa. Senti as maçãs do rosto quentes graças ao sangue que corria com força total em minhas veias, ainda assim, vesti meu melhor sorriso e lhe dediquei minha total atenção. — Desculpe, o que disse? — Nada de mais… está tudo bem? Você estava encarando o telefone como se ele fosse te matar… e então como se quisesse matá-lo. — Riu, meneando a cabeça do modo descontraído que lhe era tão intrínseco. — Christine — menti, me sentindo péssima por fazê-lo, mas não encontrando arrependimento algum em mim. — Ela tem estado impossível desde que Trevor terminou o namoro. Você sabe. — Dei de ombros, pensando em que tipo de pessoa usa o sofrimento da melhor amiga para sair de uma situação desagradável. Oh, certo, o meu tipo. — Não era bem um namoro… — ele me lembrou. — Ela gostava dele, Will, independente de como Trevor quisesse chamar o relacionamento dos dois. — Tudo bem — concordou, entretanto, eu estava ciente de que ele só não queria entrar numa discussão comigo sobre isso, o que me fez sentir ainda pior pela mentira que contara. — O que importa é que eu tenho a namorada mais linda de todas. — Will levou o dorso de minha mão aos lábios, beijando-o suavemente. Meu peito se aqueceu com o gesto, todavia, isso foi tudo. O coração não bateu desenfreado, as pernas não amoleceram e o sangue não me veio ao rosto. O desapontamento, contudo, me atingiu tão forte que agradeci por estar sentada, não de pé.


— Você está melhor? Christine apertou o roupão felpudo em torno de si mesma, me fitando com olhos tão arregalados que fez com que me perguntasse o que havia de errado em minha interrogação. — Claro! Eu estou bem. Mais que bem, na verdade, por que não estaria? — apressou-se em falar, um sorriso nervoso nos lábios. — Por… — Trevor, era o que eu queria dizer, mas, em vez disso, desconversei. — … nada. — Dei de ombros, fingindo naturalidade. Christine respeitara, ao jeito dela, meu silêncio quando me divorciei de Robert e decidimos dividir o apartamento, era meu dever retribuir o favor. Eu já ficara ao seu lado ao mesmo tempo em que ela chorava e me dizia o quanto Trevor tinha sido injusto ao deixá-la para reatar um relacionamento antigo, não havia muito mais o que eu pudesse fazer para não me tornar uma intrusa. Ela não disse mais nada, depois disso, apenas foi para o quarto e se trancou lá por um longo tempo. Não me atrevi a importuná-la, tampouco, pois entendia que ela gostaria de um pouco de solidão, a princípio. Depois eu tentaria animá-la, de algum modo, mas não ainda. A vida me ensinou o bastante para que eu soubesse que a dor precisava ser sentida se quiséssemos encontrar um modo de fazê-la ir embora.

Havia três ligações não atendidas de Robert, esta manhã. O número estava longe de ser exorbitante, porém não anulava o fato de ser significativo. Depois de onze horas de trabalho incessante e um pequeno intervalo para o almoço, que usei para ver Will, a última coisa que eu queria era pensar nisso. Estava esgotada fisicamente e não me dei o trabalho de cogitar o que um homem sempre tão ocupado poderia querer justo comigo. Contudo, qualquer esperança de paz e sossego ruiu no instante em que encontrei, em meu


apartamento, o CEO da R Blackwell acomodado em meu sofá e servido com um copo de… água? Meus olhos procuraram Christine e eu a encontrei, estática, mordendo o lábio inferior em apreensão. — E agora o quê? — perguntei, fitando Robert como se o simples gesto pudesse fazê-lo desaparecer de vista. Odiava tê-lo por perto e precisar lidar com aquele turbilhão de sentimentos conflitantes dentro do peito. — Você bloqueou minhas mensagens e não atendeu às minhas ligações. Achou realmente que eu fosse cruzar os braços e deixá-la desaparecer outra vez? Mesmo, Linda? Um bufar incrédulo foi tudo o que me escapou à medida que Robert se levantava, Christine se esgueirava para o quarto, sem pedir licença, e eu depositava minha bolsa sobre a mesa de centro. — Aqui… — ele disse, estendendo o copo que segurava em minha direção. — Você parece precisar mais disso do que eu. É água, não vodca. A voz suave e o olhar condescendente me deixaram tão incrédula que meu queixo caiu em perplexidade. — Esta é minha casa — eu o lembrei —, você não me oferece nada, entendeu? Só vá embora. — Eu não vim até aqui apenas para ser mandado embora. Vamos conversar. — Robert depositou o copo sobre a mesinha de centro, o olhar deixando o meu por um milésimo de segundo. — Meu Deus, será que você não se cansa? — Não. — O sorriso que ele me lançou foi devastador, e eu odiei o fato de estar tão familiarizada com ele. Era assim que ele sorria para mim quando não queria uma resposta negativa, porque, no fundo, me desarmar de minhas defesas era o que Robert fazia de melhor, e ele sabia como aquele sorriso torto mexia comigo. — Tudo bem. Você quer conversar? Sobre o quê? — instiguei, pensando que, talvez, o melhor mesmo fosse ceder. Se ele queria despejar uma desculpa qualquer em meus ombros, eu aceitaria e o deixaria ir embora. Não havia muito mais que ele pudesse fazer para me machucar, afinal. — Você foi embora sem olhar para trás e eu te procurei por todos os lugares onde pensei que poderia estar. Aquilo não era nem de longe o que eu esperava ouvir. As palavras me pegaram de surpresa, e, por um momento, emudeci. — E só conseguiu me encontrar três meses depois? Uau, você devia mudar seu nome para Sherlock Holmes — escarneci, na falta de algo melhor para dizer.


— Engraçado, sempre tive você como alguém que faria referência a Jane Austen. — Sorriu, mas não durou muito. Logo sua expressão era sóbria outra vez e ele me encarava com intensidade. — Falo sério, Linda. Eu sequer pude me explicar, você apenas tirou conclusões e então foi embora sem que eu pudesse… — Sem que pudesse o quê? — eu o interrompi, a um único passo da exasperação. — Dizer que sente muito e que não foi sua intenção me machucar? Você já me disse isso uma vez. Lembra o que eu respondi? — Que eu te machuquei mesmo assim… e que só Deus poderia mensurar o quanto. Ele se lembrava! Robert me lançou um olhar que fez tudo tremer dentro de mim. Os orbes verdes pareciam condoídos enquanto me fitavam e eu estaquei, titubeante, sem ter ideia do que deveria dizer, depois daquilo. — Então entende que nada do que disser vai mudar a forma como me senti sobre tudo o que aconteceu… como ainda me sinto — murmurei, incerta, ainda balançada pelo modo como ele me encarava. — Eu não quero mudar a forma como se sentiu, Linda, não foi por isso que vim até aqui. Minhas sobrancelhas se uniram instantaneamente, em confusão, deixando o cenho franzido. — Para que veio, então? O que quer? — Você — disse simplesmente, como se não fosse nada de mais. E então, sem aviso prévio, todas as emoções que desejei sentir pelos gestos de Will afloraram com força: o coração bateu desenfreado, as pernas amoleceram e o sangue me veio ao rosto, tudo ao mesmo tempo, numa combinação que me fez perder o equilíbrio e dar um passo hesitante para trás. Em resposta, Robert se precipitou em minha direção, pronto para me amparar, contudo, rejeitei a oferta de sua mão estendida, sacudindo a cabeça e repelindo seu toque. — Por quê? — consegui perguntar, pigarreando para fazer com que as palavras entaladas na garganta continuassem fluindo. — Já cumpri o meu propósito, não? Disse sim à proposta de casamento, você recebeu sua herança, deixou a tal Paige a ver navios e agora é livre de novo. O que mais eu poderia oferecer que já não seja seu? — Eu já disse: você — repetiu, com a mesma determinação de antes, sem pestanejar. Ele se aproximou devagar, me fazendo sentir o cheiro bom que sua pele exalava, o mesmo ao qual me acostumei a sentir impregnado nos lençóis, quando acordava em sua cama. — Você deve me achar muito ingênua, não é? — questionei, sentindo o gosto


amargo das lembranças cada vez mais forte. — É a única explicação… Robert estacou a pouco mais de meio metro de mim. Sua expressão desentendida era adorável, e pensar assim me fez sentir raiva de mim mesma. — Não compreendi — admitiu, franzindo o cenho. — Lizzie mandou que viesse me procurar — elucidei. — Três. Meses. Por favor! — despejei, exasperada. — Não ouse dizer que me procurou incansavelmente, você só fez isso porque sua irmã o encorajou, achando que seria a coisa certa, o melhor a se fazer. — Linda, eu não… — Não deveria se incomodar, de verdade — cortei-o. — Afinal, Lizzie já entendeu o quanto não apaixonado por mim você está e não vai mais insistir nisso. Escárnio pingava de minhas palavras num modo tão atípico que surpreendeu a mim e a Robert. Eu lhe dei as costas, redescobrindo minhas pernas ainda moles e forçando-as a me levarem para um pouco mais longe dele. Não queria olhá-lo, não poderia… — Ela te disse o que conversamos… — constatou, a voz soando baixa e com uma ponta de surpresa. Foi impossível não lançar-lhe um olhar impaciente por sobre os ombros, todavia o contato durou poucos segundos. — Desfaça essa cara, não era um segredo, era? No fundo, todos nós já sabíamos, é só que você nunca tinha dito em voz alta, antes. Ao menos não para uma de nós — sussurrei, passando os braços ao redor do meu próprio corpo, na tentativa de aplacar o vento frio que pareceu soprar de algum lugar. Mas era apenas impressão, já que o clima antártico vinha de dentro para fora, não o contrário. Eu não precisava que Lizzie nem ninguém me dissesse o óbvio. Robert não me amava, nunca amou. E eu sabia disso perfeitamente. Então por que doía tanto? — É por isso que está aqui? — quis saber, disposta a instigar até que ele fosse honesto comigo pela primeira vez na vida. — É por isso que está me dizendo todas essas coisas? Acha que vai ser bom para o meu ego ou… — Não é sobre o seu ego ou o meu — Robert me cortou. — É sobre a vida que estávamos levando juntos antes de toda essa turbulência. Olhe nos meus olhos, Linda, e me diga que não era feliz comigo, que não sente saudade dos momentos descomplicados que vivemos juntos, das manhãs de ócio, dos beijos trocados… de fazer amor comigo… Eu não o olhei. Não me movi um único centímetro. O peito estava apertado ao passo que eu lutava para não me deixar levar pelas palavras dele. Não queria levá-las em consideração ou mesmo dedicar um único segundo pesando cada uma delas.


— Era tudo mentira, você sabe. — Não… — retorquiu, e, mesmo sem olhá-lo, eu sabia que sua negativa também era anunciada através de um meneio de cabeça. — Não, não era. — Você me pediu em casamento para receber uma herança, pelo amor de Deus! — exaltei-me. Meu corpo tremia inteiro pela indignação, cansado de lutar contra a revolta que crescia dentro de mim. — Mas passei a gostar de você muito antes dos nossos votos. Foi então que olhei para Robert, de novo. Toda a minha atenção voltou a ser dele e, sem controle, meus passos me levaram para perto do homem de quem tentei fugir nos últimos meses. Era uma tática que não funcionava, ao que parecia. Afastar-me dele não funcionava nunca… — Passou a gostar de mim? — testei, as palavras zombando de mim enquanto faziam seu caminho por meus lábios. Os olhos marejaram, a garganta travou, mas nem isso me impediu de continuar: — Eu te amava desesperadamente, Robert, com todas as minhas forças, e não havia nada, absolutamente nada, que eu não fizesse para te ver feliz, para te ver bem… qualquer coisa — eu o lembrei, como se fosse algo complicado demais para que ele pudesse entender, e talvez o fosse mesmo. — Não queria que gostasse de mim. Queria que me amasse ao menos um décimo do que amei você. Havia uma porção de coisas mais que eu gostaria de dizer a ele, todavia não pude. Minha voz se quebrou, a garganta doeu com o choro contido e os olhos ardiam. Entretanto, não deixaria que as lágrimas caíssem, não ali, na frente dele. — Você me dizia ser feliz, lembra? — murmurou de volta, em sua defesa. — Eu perguntei, várias e várias vezes, sempre obtendo a mesma resposta: que eu te fazia feliz, que o que tínhamos era o suficiente, que eu era o que você queria. Exatamente o que você queria. — Eu pensei que você também me amasse — soltei num bufar incrédulo. — E por que diabos a porra de uma palavra é mais importante que todos os beijos, toques e noites que passamos juntos? — Foi a vez dele de se exasperar. E como sempre acontecia quando ele era levado ao limite, as mãos rumaram os cabelos claros e sedosos, um pouco mais longos do que ele costumava usar, e os deixou tão revoltos quanto o olhar que ele me lançou em seguida. Era bem verdade que eu havia me casado com Robert sem que ele dissesse “eu te amo”, e me sentia estúpida por isso, agora, porém, na época, encontrei uma série de desculpas para tal comportamento. Sua dificuldade em se abrir com as pessoas, em deixá-las entrar… Eu sentia estar ruindo as muralhas que Robert erguera em torno de si ao longo dos anos. Nós tínhamos um relacionamento, ele me apresentou à família, era atencioso e carinhoso… não foi difícil somar dois mais dois e chegar à conclusão de que, sim, ele me amava. Ao jeito Robert de


amar, mas, ainda assim, ele se importava comigo e me queria por perto. Ao menos era o que eu achava. Entretanto… não era bem assim que as coisas funcionavam. — Porque amor unilateral não é o bastante — devolvi, por fim. Em resposta, ele trincou o maxilar, os olhos, antes consternados, tornando-se duros e implacáveis. — Então seja honesta consigo mesma e termine de uma vez com o tal Will, Linda, já que nós dois sabemos que ele está nesse relacionamento ridículo sozinho — rosnou. A cólera foi um golpe tão repentino que eu não me dei conta do que fazia até já ter um dedo em riste próximo ao nariz de Robert. Ele não recuou, e eu tampouco o fiz. — Você não sabe de nada e não tem o direito de falar assim! — vociferei. — Conheço você melhor que ninguém, não me venha com essa. — Se me conhecesse, não teria me feito assinar um acordo pré-nupcial estúpido temendo que eu quisesse te arrancar dinheiro com o divórcio — acusei, e ele pareceu titubear por um momento. — É diferente… — Quer saber? — interrompi. — Tanto faz. — Dei de ombros, fingindo desinteresse, mesmo que o gesto não fosse condizente com a realidade. — Mas saiba disso: Will é para mim o homem que você nunca foi, que jamais vai ser. Ele é mais que beijos, toques e noites que passamos juntos. Ele me vê, me enxerga de verdade e, pra ele, sou importante. Genuinamente importante. Robert soltou uma risada incrédula, porém contida. Um gesto pungente que alcançou seus olhos quando ele os trouxe de volta para mim. — Continue dizendo essas coisas e talvez convença a si mesma de que é feliz, mas sei que não é — contra-atacou, e foi um golpe duro e inesperado o bastante para me deixar sem fala. — Não, não sabe — gaguejei quando encontrei minha voz, recusando-me a ceder. — O brilho inocente e quase pueril no seu olhar era uma das coisas de que eu mais gostava em você, Linda, e ele não está mais aí. A forma intensa com que Robert me fitou também roubou o ar dos meus pulmões num arquejo que era um misto de dor e surpresa, porque eu sabia, melhor que ninguém, que era mesmo verdade. Obviamente, não a parte de ser algo de que ele gostava em mim — apesar de estar convicta quanto a ele apreciar minha ingenuidade, já que lhe foi tão útil — mas, sim, a parte de isso ter se perdido. Sendo honesta comigo mesma, eu estimava minha brandura, porque ela me fazia ver o melhor nas pessoas e isso tornava a vida mais suportável.


— Descobrir sobre Susan e o testamento me quebrou em zilhões de pedaços, Robert — admiti, por mais que me doesse, afinal, não era nada que nós já não soubéssemos ou tivéssemos dito em voz alta. — Eu não juntei todos eles, não poderia nem se quisesse. Aquela inocência foi perdida e não há nada que se possa fazer. Já não sou a Linda que aceitou se casar com você. Esta Linda tem pés no chão, ceticismo exagerado e consegue ver que homens como você não ficam com mulheres como eu. Aquela Linda, por outro lado, acreditava que você a amaria sempre e que vocês passariam o resto dos seus dias juntos. Consegue ver agora por que ela não existe mais? Nós nos encaramos por um momento, talvez absorvendo a estranheza de terme falando de mim mesma em terceira pessoa e percebendo o quanto aquilo fazia sentido. Eu era, de fato, uma nova Linda, tão diferente da que um dia fui. Pensamentos diferentes, atitudes diferentes… Sentia-me tão distante dela que só acreditava mesmo ter sido a outra, porque carregava em meu próprio corpo as feridas que cicatrizavam devagar, as quais Robert fazia tanta questão em reabrir. Ante o seu silêncio, assumi que o assunto estava encerrado de uma vez por todas e, ignorando que aquele era o meu apartamento e eu precisaria escoltá-lo porta afora, fui em direção ao meu quarto. — Você precisa saber que entre mim e Susan… — ele começou, mas eu estava exausta demais para permitir que continuasse. — Não é da minha conta — atalhei baixinho, pouco disposta a continuar uma discussão que não nos levaria a lugar algum. Ele teve a chance de me contar a verdade sobre Susan, meses atrás, e preferiu mentir para mim. Por que eu deveria acreditar nele agora? — Saia com Susan, Britney, com as duas, se quiser. Não é da minha conta. Quero que seja feliz e digo isso honestamente. Agora, por favor, vá embora. Foi um dia longo e eu preciso descansar. Contra todas as expectativas, ele concordou num aceno de cabeça. Robert enterrou as mãos nos bolsos de sua calça social, dando-me as costas e se afastando. Meu coração afundou no peito e perdeu o compasso no instante em que eu me dava conta de que agora, sim, tínhamos dado um final definitivo àquela história. Como vê-lo partir era a última coisa que eu queria, no momento, eu lhe dei as costas também, buscando refúgio em meu quarto. — Linda? — A voz dele soou, em meio a um passo e outro, fazendo-me voltar a fitá-lo, provavelmente, uma última vez. — Não vai ser assim tão fácil se ver livre de mim. Eu te perdi uma vez, mas não vai acontecer de novo. Era sobre isso que eu queria conversar, achei que você e Will mereciam saber. Então ele tornou a me dar as costas, sem me conceder a chance de revidar, apenas deixando-me com as palavras martelando em minha cabeça e uma


sensação de euforia dentro do peito.


Will depositou um novo beijo em meu pescoço, e apesar de o contato ser bom, não despertou em mim a mesma urgência que ele demonstrava sentir enquanto tocava minha pele com seus lábios e deixava o local avermelhado com pequenas mordidas. A sensação também era de estranheza. As emoções eram conflituosas, contudo, eu discernia o bastante para saber que não queria que ele parasse. Era o desejo certo, pelas razões erradas. Uma das mãos macias me acariciava, ao passo que a outra segurava os cabelos da minha nuca, posicionando meu pescoço num ângulo que lhe fosse de fácil acesso. A sensação que o gesto me causou foi prazerosa, até Will deslizar sua mão direita por toda a extensão de minha coxa. O toque, antes delicado, tornou-se brusco, os dedos afundando em minha carne, tateando, descobrindo. Foi impossível deter o retesamento que me acometeu, mas se Will notou, fingiu que não, e seus movimentos continuaram. A língua deslizou desde meu pescoço, passando pela mandíbula até explorar o interior da minha boca. Definitivamente, não era àquele tipo de beijo que eu estava acostumada, ao menos não com Will, deitada no sofá de seu apartamento, com ele acomodado entre minhas coxas e subindo a barra de meu vestido. Os dedos alcançaram o elástico da minha calcinha e, no ímpeto, agarrei sua mão, colocando-a de volta em minha coxa. Não estava 100% confortável com aquele contato, porém ele era mais fácil de administrar que o anterior. Aparentemente, entretanto, Will discordava, já que seus dedos refizeram o trajeto. — Will, não, espera… — consegui murmurar quando os lábios dele se afastaram dos meus e se ocuparam com a pele do meu colo. — Will… — voltei a chamar, quando ele não se deteve. — Por favor. Sua atenção era minha, por fim. Os olhos azuis me encararam, desejosos, e eu quase me senti culpada por não corresponder à altura, de tal modo, desviei o olhar. — O que foi? — perguntou, a boca pouco disposta a se afastar da minha pele, fazendo-me sentir o hálito quente bater contra ela. — Machuquei você? Desculpe, meio que perco o controle, tendo você assim… Engoli em seco. — Não é isso, é que… não acha que estamos indo rápido demais? Os olhos dele se estreitaram em minha direção, como se demonstrasse que ele e eu não estávamos exatamente na mesma página ou algo assim. — Rápido? Mel, estamos saindo há semanas, e você sequer conhece o meu quarto.


Eu não era ingênua a ponto de achar que Will estava disposto a manter um relacionamento casto eternamente, no entanto, me parecia um tanto quanto prematura toda aquela urgência. Era um passo bem longo, verdade fosse dita, e por mais que eu achasse que o momento estava se aproximando, tê-lo batendo à porta me sobressaltou. — Will — chamei, afastando-o gentilmente, porque não me sentir pronta naquele instante não queria dizer que eu pretendia erradicar toda e qualquer possibilidade de nos envolvermos de forma tão íntima. — Eu não tenho certeza se esse é o melhor momento. — Me parece um momento excelente, porque não consigo tirar as mãos de você — murmurou, a boca buscando a minha e encontrando a base do meu pescoço, quando desviei do contato. — Eu realmente acho que estamos indo rápido demais — insisti. — Entendo que primeiras vezes são sempre difíceis, Mel, mas sou eu, não precisa se preocupar. — Não é minha primeira vez — retorqui, incomodada mesmo sem saber por quê. — Comigo, sim — devolveu, sorrindo de lado, levando uma das mãos para tocar minha bochecha, num gesto que já havia se tornado costumeiro. — Olha, sei que saiu de um relacionamento há não muito tempo e que, talvez, comparações sejam inevitáveis, mas não é porque seu ex-marido era horrível na cama, que nós não vamos ser bons juntos. — Ele não era horrível na cama! — refutei, ultrajada. Não sabia de onde o sentimento surgira, no entanto, a expressão pouco confortável de Will e o modo como ele desviou o olhar do meu me fizeram pigarrear e tentar engolir as palavras de volta. — Quer dizer… não é sobre isso, é só que… é algo tão íntimo, Will, e nós ainda estamos nos conhecendo. Fitando-me como se eu fosse o ser mais absurdo de todo o mundo, Will se pôs de pé, estendendo-me a mão esquerda, a qual segurei, e me puxou para que eu me levantasse. — Vem cá — convidou, driblando o sofá de dois lugares e me levando para junto do espelho enorme que fazia parte do adorno da sala de estar bem-decorada de seu apartamento. — Me diz o que você vê. Analisei o reflexo por um breve segundo, ciente de que não precisaria me demorar muito. — Eu vejo a mim. — E o que você é? A pergunta era meio estranha e me fez franzir as sobrancelhas. Ainda assim, a pausa de Will me disse que não era uma retórica, então decidi me pronunciar,


por mais que não fizesse muito sentido. — Uma mulher comum, como qualquer outra. Vi seu sorriso se formar pelo reflexo no espelho. Uma das mãos arrastou meus cabelos para o lado, de modo a deixar meu pescoço e um dos ombros à mostra, onde Will depositou uma porção de beijos, mas que não me aqueceram o coração do modo que deveriam. — Sabe o que eu vejo? — instigou, no entanto, o olhar que me lançou através do espelho me disse que, agora, sim, se tratava de uma pergunta retórica. — Uma mulher espetacular, deslumbrante. Desde a primeira vez em que pus meus olhos em você, Mel, naquela boate, eu não consegui pensar em mais nada que não fosse te beijar. — Sorriu, apertando-me num abraço e depositando um novo beijo sobre meu ombro. — E é bem verdade que você não achou estar pronta para se envolver com alguém, mas aqui estamos nós. Eu estou muito feliz por não ter desistido de você, mas, desde que senti o gosto do seu beijo, não consigo parar de pensar em ter você pra mim, inteiramente. Antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, Will e eu já estávamos de frente para o outro, sua boca na minha e suas mãos me puxando mais para si. Com o corpo enrijecido, não fiz muito mais além de me deixar beijar, contudo, a insinuação de um toque mais ousado, vindo de Will, me sobressaltou e eu o afastei. — Eu não estou pronta para esse passo, Will, sinto muito — murmurei, envergonhada, recebendo seu olhar de decepção logo em seguida. — É por causa dele, não é? — Os olhos magoados fugiram dos meus por um instante, entretanto, retornaram depressa, os orbes azuis não conseguiam esconder o desapontamento. — Seu ex-marido — elucidou. — Ele reapareceu e agora você é outra pessoa. Me beija quando te beijo, me toca quando te toco… seus gestos são sempre espelho dos meus, nunca espontâneos, não como antes. — Não tem nada a ver com ele — menti. Bem, era uma meia verdade, ao menos. Robert reaparecer me desestabilizou, mas ainda que ele não tivesse ressurgido, eu estava certa de que não seria capaz de dar um passo tão largo com Will naquele momento. Relacionamentos não eram minha especialidade. — Então me olha nos olhos e diz que já não o ama. — O quê? — indaguei num fio de voz, totalmente pega de surpresa. Era difícil de acreditar que meus sentimentos estavam sendo postos à prova. Eu entendia o porquê da pergunta, o que não me deixava menos ultrajada por precisar ouvi-la. — Não pode estar falando sério. — Não consegue dizer? — provocou, a mandíbula trincada, os olhos parecendo faiscar. Abri e fechei a boca repetidas vezes, incerta sobre o que dizer. Não gostava


do modo como Will me fitava, do escárnio pingando de cada palavra e da postura banhada de ameaças veladas. — Ele me quer de volta! — cuspi, cravando as unhas nas palmas das mãos, tamanha a força com que cerrava os punhos. No fundo, eu sabia que as coisas não eram bem assim, Robert queria sua esposa capacho de volta, e, coincidentemente, esse costumava ser um posto ocupado por mim. Porém, não era justo que Will me lançasse aquele olhar recriminador sem que eu tivesse feito nada de errado. — Foi sobre isso que nós falamos, quando ele foi me procurar. Robert me quer de volta, mas eu lhe disse não. Se o amasse, por que estaria aqui com você? A expressão de Will alternou-se diversas vezes em poucos segundos e pude assistir à surpresa e revolta serem substituídas por uma tranquilidade fingida. — E você está? — Estou o quê? — Uni as sobrancelhas, impaciente. — Aqui comigo. Minha boca se abriu e, novamente, não emiti muito mais que um bufar incrédulo e exausto. A situação inteira era inacreditável. Caminhei para longe de Will, porque não queria estar perto dele naquele momento, como também não queria ser rude. Só precisava de espaço e esperava que ele pudesse entender. — Will, amanhã é um outro dia. Você se provou paciente antes e olhe só pra nós. Me dê apenas um tempo, está bem? Pode ser bem menos do que você imagina. — Assim como pode ser bem mais do que eu imagino, completei para mim mesma em pensamento. — E o tal Blackwell ter voltado, o fato de querer você de volta, não muda nada? — testou incerto. — Não, não muda nada. — Então prove. — Will… — murmurei, desejando mais que tudo fazê-lo desistir de tantos questionamentos, porque já estava exausta de ter que me defender. — Seu dedo anelar ainda tem a marca da sua aliança — interrompeu-me, rompendo a pouca distância entre nós com apenas duas passadas e tomando minha mão esquerda entre as suas. — Tire esse anel que colocou para ocupar espaço e deixe esse último sinal desaparecer. Assim, quando eu for pedi-la em casamento, seu dedo estará livre para receber o anel de compromisso que vou te dar. E antes que me diga para ir com calma, porque tudo está acontecendo rápido demais… — continuou, fazendo-me engolir meu protesto incerto. — … quero deixar claro que não estou dizendo que isso vá acontecer amanhã ou depois. Eu sei esperar, Mel, me dê algum crédito — disse numa piscadela. Ele parecia o mesmo Will leve e descontraído que me conquistou e a quem decidi dar uma chance, por isso não pude fazer muito mais além de concordar


com um aceno de cabeça e observar, impassível, enquanto ele retirava meu anel e o guardava no bolso. Entendi, então, a analogia de Robert, quando ele me disse que ficar sem a aliança era como estar nu em público. Era exatamente assim que me sentia, e não gostava nem um pouco.

— O que faz aqui a essa hora? — Christine me questionou, apertando com força o copo com água que trazia em uma das mãos, com os olhos tão arregalados que mais pareciam prestes a saltar das órbitas. — Eu moro aqui, esqueceu? Além do mais, nem é assim tão tarde. — Eu sei! — esganiçou, limpando a garganta em seguida para continuar: — Eu sei. É disso que estou falando! Você não ia passar a noite com Will? Foi minha vez de arregalar os olhos, engolindo em seco e sentindo meu rosto esquentar como se eu tivesse quarenta graus de febre. — Bem, eu… não disse que iria dormir com ele. — Dei de ombros. — Como não? Você disse, citando: “Estava pensando se não é o momento de dar o próximo passo…” — Mas eu não me decidi! Christine ergueu uma sobrancelha ruiva de modo pirrônico em minha direção, me deixando desconcertada enquanto cruzava os braços em frente ao corpo. — Oh, mesmo, Mel? — provocou, utilizando o apelido que era exclusivo a Will. — Na verdade, você decidiu, sim, só não optou pela opção que deixaria Will feliz, se é que me entende… — Nós estamos saindo há pouco tempo, Chris, você sabe que as coisas evoluem devagar comigo. Ela me fitou como se seus ouvidos fossem traiçoeiros e a estivessem enganando. Um segundo depois, com uma das mãos tampando a boca enquanto ela soltava uma risada tão verdadeira que me contagiou. — Exceto quando se trata de Robert Blackwell, é claro! — ela deixou escapar entre uma gargalhada e outra, fazendo meu sorriso morrer de imediato. Minha expressão se tornou sisuda e ela forjou uma tosse, para disfarçar, sorvendo um gole d’água generoso. — E então, o que houve? — perguntou, mudando de assunto no mesmo instante. Dei de ombros em resposta, porque não queria colocar em palavras todos os


motivos que fizeram com que eu rechaçasse os toques mais ousados de Will. — Só não me sinto confortável ainda — soltei, esperando que aquilo fosse o bastante para deixá-la satisfeita. — E isso não tem nada a ver com a pessoa que você não gosta de citar? — instigou, e eu revirei os olhos, impaciente, como se dissesse que aquilo era um completo absurdo. — Okay, então. A conversa estava encerrada, da minha parte, e mesmo parecendo a fim de despejar centenas de perguntas sobre mim, Christine apenas acenou de leve, lançando um olhar disfarçado em direção ao quarto. De repente, o ar surpreso e incrédulo que ela exalou quando cheguei ao apartamento fez sentido, e minha boca se abriu em choque e compreensão. — Meu Deus, Trevor está aqui com você? Estou atrapalhando alguma coisa? — Shhhhhh… — ela chiou para mim, em resposta, com o dedo indicador sobre os lábios, pedindo que eu me calasse. — Trevor e eu terminamos, você não lembra? — perguntou quase inaudivelmente. — Não, desculpe — murmurei de volta, espelhando seu tom. — Por um momento me fugiu da memória — menti, porque não fazia sentido, na minha cabeça, que ela tivesse superado Trevor tão depressa quando a vi chorar copiosamente por ele poucos dias atrás. Mas eu não lhe diria isso, claro que não. — Que grande novidade, você nunca escuta o que eu digo, e desde que Robert deu as caras por aqui, está pior do que nunca. — Isso é uma bela mentira! — defendi-me, por mais que não houvesse muito com o que refutar, quando Chris estava coberta de razão e meus protestos não convenciam nem a mim mesma. — Não é minha culpa não conseguir acompanhar seus relacionamentos… — Shhhhhhhh! — ela voltou a me repreender, quase horrorizada, olhando freneticamente para a porta de seu próprio quarto, ao final do pequeno corredor. — Desculpe — sussurrei sem jeito. — Mas se não é Trevor, então quem é? Eu conheço? — O quê? Não! Claro que não. Que pergunta é essa? Por que você conheceria? Não temos amigos em comum nem nada. — Temos, sim, Javi — eu a lembrei ao mesmo tempo em que Chris sorvia um novo gole de água, e o efeito foi desastroso. Ela tossiu ao engasgar, cuspindo água por todos os cantos, inclusive em mim. — Chris? — chamei, dando tapinhas em suas costas, sem saber o que mais poderia fazer para ajudar. Eu realmente acreditei que as diferenças entre Christine e Javier tivessem sido acertadas e não pensei que uma simples brincadeira a faria reagir tão mal. — Chris! — tornei a chamar, com um pouco mais de urgência, e ela acenou com a mão livre para me acalmar.


— Está tudo bem — murmurou, a voz ainda meio estrangulada. — Não foi nada, passou. — Tem certeza? — Ela apenas concordou com um aceno enquanto tentava recuperar o fôlego. — Desculpe, foi uma brincadeira horrível, eu sei que você e Javi nunca… — Tudo bem — cortou-me mais que depressa, e não era como se eu estivesse esperando um pedido de desculpas por ela ter cuspido em mim, mesmo que sem querer, contudo, foi estranho o fato de Chris ter me deixado ali, plantada, e ter saído correndo para o quarto, batendo a porta e trancando-a logo após. Um sorriso nasceu no canto dos meus lábios, ganhando espaço ao mesmo tempo em que eu pensava no quanto era sortuda por ter Chris por perto. Não nos tornamos amigas de imediato, mas ela esteve ao meu lado quando mais precisei, assim como Javi e Eva, e eu me sentia muito abençoada por tê-los na minha vida.


Elizabeth havia pedido — ordenado, de fato — que eu me afastasse de Linda, entretanto, o que fiz foi o extremo oposto. Não me importava se minha própria irmã debandara para assumir um lugar ao lado de Will ou se Linda insistia em dizer que não tinha volta. Eu havia cometido um erro, sim, e era bem verdade que eu não era o exemplo de romantismo, contudo, a felicidade no olhar de Linda quando estávamos juntos era inegável, e nem de longe lembrava a expressão amargurada de agora. Não duvidada de forma alguma que Will fosse capaz de gostar de Linda. Talvez até mesmo apaixonar-se por ela. Linda era adorável, capaz de ruir, com um único sorriso, muralhas que julguei intransponíveis. Claro que não queria dizer que, subitamente, passei a acreditar em ideais românticos, ou mesmo me encaixar em um deles, contudo, eu queria Linda ao meu lado, de fato, não para pisotear as expectativas de Frederick com relação a mim, ou mesmo para exibi-la como um troféu, mas, sim, para me sentir completo outra vez, do modo que só era possível quando ela estava por perto. Deitado em minha cama, depois de longos minutos encarando o teto, fechei os olhos e deixei que minha mente me conduzisse por entre as memórias que dividia com Linda. O encaixe perfeito de seu corpo sob o meu, os beijos cálidos, os lábios tenros, a risada doce e a voz melodiosa. Eu sentia falta dela e não mediria esforços até convencê-la de que eu era o homem certo para ela, não Will.


— Isso só pode ser brincadeira… Christine Westwood me encarava com olhos tão arregalados, que me perguntei se eles saltariam das órbitas e cairiam aos meus pés. — Eu pareço estar brincando? Ela abriu e fechou a boca diversas vezes, buscando algo bom o bastante para dizer e não encontrando nada. Então deixou um som estranho romper-lhe a garganta, uma mistura de bufar cético com uma risada nervosa. — Esqueça. Eu não vou fazer isso. Quer dizer… sem chance! Era exatamente a resposta que eu esperava ouvir, no entanto, ninguém poderia me culpar por pedir a ajuda de Christine a fim de reconquistar Linda. Eu jamais conseguiria sozinho e toda colaboração seria bem-vinda, já que no momento eu não possuía nenhuma, nem mesmo a de Lizzie, que era sangue do meu sangue. De qualquer modo, eu ainda possuía cartas na manga que me permitiam barganhar. — Sim, você vai, a menos que queira que eu conte a Linda sobre você se oferecendo para mim, há alguns meses, no meu escritório, quando ela e eu estávamos namorando. Se possível, os olhos dela se arregalaram ainda mais, a surpresa tingindo-lhe a pele de um tom escarlate, desde a base do pescoço até as bochechas. O sorriso que se abriu em meu rosto foi instantâneo e não pude conter o peito inflado ao pensar que acabara de conquistar uma aliada, mesmo à custa de chantagem. — Linda já sabe, eu mesma contei a ela, quando soube sobre vo… uhm… o senhor e Susan. O contentamento em forma de sorriso se esvaiu de mim com a mesma


rapidez em que chegou, dando lugar a uma expressão que mesclava incredulidade e derrota. — O quê? — testei, aturdido, estreitando os olhos para Christine, que engoliu em seco e desviou o olhar. — F-foi o que eu disse — gaguejou, pigarreando em seguida e endireitando os ombros, assumindo uma pose altiva. — Eu contei à Linda, porque não me pareceu lógico que o senhor e a tal Susan… — Christine titubeou por um instante, mudando o peso do corpo para o outro pé, as mãos irrequietas mexendo nos cabelos. — Enfim… sabe do que estou falando. — Deu de ombros, a expressão inamistosa. — Então, não. Não vou dizer a ela que é uma boa ideia ouvi-lo nem nada disso, não desta vez, não quando eu fui a pessoa que a juntou com Will e… — Você o quê? — atalhei, irritação emanando de cada um dos meus poros. — Eu… bem… fiz com que se conhecessem — reiterou, porém, a frase mais soou como pergunta que qualquer outra coisa. — O importante é que deu certo. Então, por favor, só deixe estar. Linda está feliz agora, o senhor mesmo a fez prometer que ela faria isso, lembra? Que seria feliz, mesmo que se separassem. Não era um jogo limpo que ela usasse minhas próprias palavras contra mim. Não quando ela sequer estava lá e não fazia ideia da real intenção do que eu dissera. As coisas não eram iguais a hoje. Eu gostava de Linda, todavia não precisava dela para me sentir bem comigo mesmo e com o restante do mundo, naquela época. Ou ao menos julgava não precisar. O que era uma bela mentira. — É diferente — retorqui. — Eu não pensei que fosse… que eu… — titubeei, incerto sobre como colocar em palavras o turbilhão de coisas que Linda me causava, especialmente para Christine. — Eu não tinha ideia de que me sentiria por ela como me sinto. — E como se sente? — Não foi uma provocação. Em vez de erguer uma das sobrancelhas de modo pirrônico, Christine as franziu, numa expressão confusa. — Isso não vem ao caso. Linda e Phill? Por favor! — escarneci. — Um cego consegue ver quão forçado e infeliz é aquele relacionamento. Linda não está emocionalmente envolvida, Christine, e você não vai me dizer que estou inventando isso, vai? — O nome dele é Will. Mas o senhor sabe disso, não sabe? — Agora, sim, uma de suas sobrancelhas se ergueu desafiadoramente, e um sorriso zombeteiro moldou seus lábios. — Ele não é suficientemente importante para que eu perca tempo aprendendo o nome dele. — Mas é suficientemente importante para que Linda lhe dê a chance de fazêla feliz — contra-atacou, e recebi suas palavras do mesmo modo que teria recebido um golpe bem administrado no estômago: doeu, me deixando


desnorteado o bastante para que não pudesse revidar. — Linda se importa com ele de verdade, e Will faz bem a ela — continuou, ante meu silêncio. — Você… digo… — Pigarreou, como se acabasse de perceber a gafe que cometera. — … o senhor — corrigiu-se — não sabe a bagunça que ela era nas primeiras semanas. Eu estive lá, e acredite em mim quando digo que não foi uma cena bonita de se ver. Outro golpe duro, vindo de todas as direções e me atingindo em todos os lugares. Mas não era um baque como aqueles que eu precisei aguentar quando praticava esportes, aos quais eu era tão acostumado e sequer tinham importância. Era parecido a perder Matthew para um afogamento e minha mãe para a depressão. Doía na alma que eu pensei estar morta há anos, o que me pegou de surpresa, porque aquela agonia era a prova de que Linda despertara em mim coisas há muito dormentes. — Acha que eu queria que algo assim acontecesse? — sibilei, aturdido. — Que Linda se machucasse e sofresse? Acha que ela foi a única a viver num completo inferno? — Não importa o que eu acho — Christine soltou num suspiro, a expressão condoída, os pensamentos parecendo distantes, fazendo com que eu me perguntasse se ela estava se lembrando das cenas não bonitas de que falara pouco tempo atrás. — Mas tente se colocar no lugar dela. Já está morto de ciúmes agora, mesmo sabendo que vocês dois não têm mais nada, imagine só se descobrisse que Will e Linda vêm mantendo um caso desde quando o senhor e ela ainda estavam juntos. Um sorriso mordaz e de desdém se insinuou no canto de meus lábios ao passo que eu me preparava para negar e dizer que não, eu não sentia ciúmes de Linda e Will. Contudo, tão rápido quanto surgiu, começou a morrer quando me lembrei da expressão magoada no rosto de Linda. “Não queria que gostasse de mim”, dissera. “Queria que me amasse ao menos um décimo do que amei você.” Senti-me ainda pior, o que não julgava ser possível. Eu tive muitas oportunidades de mostrar a Linda o quanto estimava tê-la ao meu lado e falhei em cada uma delas. Tivemos um péssimo início de casamento e, quando finalmente chegamos ao ápice da compreensão um do outro… Susan e James destruíram em dias o que levamos meses para construir. Ela com um teatro ridículo, fazendo-me acreditar que havia acontecido algo entre nós. Ele, mandando para Linda a cópia do testamento que fez ruir a fé que ela depositara em mim. Foram semanas intermináveis longe um do outro e eu tentei, com todas as minhas forças, deixar cada uma das lembranças do tempo que passamos juntos morrerem. Gostava de responsabilizar Elizabeth por ter me impelido a ir atrás de


Linda, mas a verdade é que o teria feito de qualquer forma. Ver Linda nos braços de Will me fez perceber o quão estúpido era pensar que seria certo que ela se entregasse a alguém que não fosse eu. Ela era minha, todavia, não se tratava de um pensamento egocêntrico ou mesmo machista. Nossos corpos pertenciam ao do outro e era algo além de nosso controle. — Eu não mantive um caso enquanto estava com Linda — finalmente contei, depois do que pareceram séculos. Não sabia se poderia confiar em Christine, entretanto, o que eu tinha a perder depois de tudo? — Um caso… uma única noite… faria diferença para o senhor? Porque, certamente, não faz para Linda. — Não houve um caso, nem mesmo uma única noite — impacientei-me, enfiando uma das mãos pelos cabelos compridos demais. — Susan e eu… Desde que Linda e eu nos beijamos pela primeira vez, eu não tive mais ninguém por todo o tempo em que estivemos juntos. Os olhos de Christine se arregalaram e o queixo pendeu numa expressão quase exagerada. Depois o olhar dela suavizou, como se estivesse enternecida, e odiei a sensação de ter alguém se condoendo por mim. Um segundo depois, seu olhar assumiu o brilho sagaz de costume e ela endireitou a postura. — Mas ela me disse que… — Que dormi com Susan — concluí. — Essa parte foi mesmo verdade, eu fui vê-la no hotel, ela batizou minha dose de uísque e a próxima coisa de que me lembro é de ter acordado nu, ao lado dela. — Não é essa a versão de Linda da história — rebateu, cruzando os braços em frente ao peito. — Eu disse a ela que não me lembrava de nada. Linda não acreditou, eu não acreditava no que estava acontecendo. Eu só precisava de um tempo para esclarecer as coisas com Susan, porque não conseguia crer que ela e eu… — Apertei os olhos, cansado de ter que me explicar. — Quer dizer, só não fazia sentido. — Porque Linda é a única mulher que venho desejando desde o dia em que senti o corpo dela contra o meu, completei em pensamento. — Como descobriu que entre o senhor e Susan não aconteceu nada, então? — sondou. — Ela fala mais do que deve quando está bêbada e responde a qualquer pergunta que seja feita sussurrada ao ouvido. Christine tossiu, um disfarce para o riso que lhe escapou, e senti, pela primeira vez na vida, que poderia gostar dela. Se concordasse em me ajudar a ter Linda de volta, claro. — Bem, isso muda tudo. Absolutamente tudo. Você… argh! — chiou para si


mesma, repreendendo-se. — O senhor — enfatizou. — O senhor precisa dizer isso a Linda. Se ela souber que não houve nada com Susan… — Ainda há o testamento — eu a lembrei, e seus ombros murcharam. — Alguma chance de ter descoberto que a amava e por isso ter proposto o casamento? — testou, recebendo de mim um bufar e um rolar de olhos. — Não? Nenhuma? — insistiu, ao que respondi erguendo uma sobrancelha, como se dissesse “O que você acha?”. — Okay. — Você precisa me prometer que não vai dizer a ela que tivemos esta conversa, ouviu bem? — Por que eu faria isso se já deixei claro que não vou ajudá-lo? O sorriso de esgar que se abriu em meus lábios foi involuntário e impossível de conter. Era inacreditável que Christine pensasse que eu tinha um único trunfo. — Você vai, sim, caso contrário, irei demiti-la e vai ter que arrumar um novo emprego sem uma carta de recomendação. Acredite, é mais difícil do que parece. Linda que o diga, você sabe bem o quanto ela trabalha em troca de um salário irrisório. Ceticismo tomou conta do rosto de Christine enquanto ela me fitava com atenção. — O senhor não faria isso… — Não faria? — provoquei, e fosse lá o que havia em meus olhos, foi convincente o bastante. Christine bufou, balançando a cabeça de um lado para o outro, estupefata. — Quero que fique claro que eu gosto mesmo de Will — ela disse, como forma de protesto pelo que eu supostamente poderia obrigá-la a fazer. — Mas é a mim que Linda ama, Christine. Então de que importa de quem você gosta?


— Assine logo esse maldito divórcio, Blackwell, aquela garota não é pra você! James possuía o dom de aparecer para piorar dias que já eram ruins. Desta vez, no entanto, eu duvidava que ele conseguisse algo tão extraordinário. — Aquela garota é minha mulher, James — eu o lembrei, sem me dignar a erguer os olhos dos papéis à minha frente para fitá-lo —, e é ela quem eu quero. Santo Deus, pare de me oferecer sua filha como se ela fosse um carro velho e enguiçado. Eu conhecia James Smith o bastante para saber que seu rosto estava retorcido e inflado numa expressão de revolta, tingido de vermelho desde a base do pescoço. Indignação crua emanava dele devido a minhas palavras. — Minha filha é uma dama e gosta de você. Não estou oferecendo Britney, estou apenas… — Tentando enfiá-la na minha cama? Desejando dar a ela o meu dinheiro para gastar? Visando netos com sobrenome Blackwell? — ofereci. Poderia jurar que o ouvi soltar um grunhido e me exultei em conseguir ser tão desagradável para ele quanto ele o era para mim. — Paige. A menção do nome fez-me encará-lo de pronto. O sorriso de um crocodilo velho se abriu na boca de James quando meu triunfo fugaz se esvaiu ante as cinco letras que, juntas, formavam o nome do ser mais desprezível e detestável que já cruzara meu caminho. — Não fale nessa mulher para mim, meu dia já está desastroso o bastante — cuspi as palavras para ele, meu semblante se fechando numa carranca malhumorada que me lembrava de nunca subestimar a inconveniência de James. — Paige Williams me procurou e quer entrar com recurso na justiça para obter o que é dela por direito. Por um momento estaquei, meu olhar tão atento sobre James, a audição aguçada como se eu duvidasse do que acabara de ouvir. Contudo, a percepção de que era sobre Paige que estávamos falando me disse que sim, eu havia entendido com clareza, por mais absurdo que aquilo pudesse parecer. — Boa sorte. Eu cumpri as cláusulas do testamento. — Abri um sorriso para James que era uma mescla de menoscabo e prepotência. O menoscabo continuou, já a prepotência… começou a ruir diante de sua expressão inalterada. — Todos sabem que Melinda pediu o divórcio — começou, tamborilando os dedos sobre o tampo da mesa do meu escritório. — Se você assinar depressa, podemos consertar as coisas. Deixe-me ajudá-lo, elaborei o testamento, sei bem onde encontrar as lacunas para que… — Você disse que não havia lacunas — eu o lembrei, exasperado,


indignação me corroendo. — Eu não queria me casar e você disse, com todas as letras, que não havia lacunas. Mas então, no dia do meu casamento com Linda, quando teve certeza absoluta de que eu jamais desposaria Britney, me ofereceu ajuda. Disse que compraria mais tempo para mim. Para nós. Se acha realmente que vou ouvir qualquer coisa que venha de você, está fora de si. As narinas de James inflaram. Cólera em sua forma mais pura emanando dele em uma camada espessa. Eu gostava de ser capaz de provocar a ira do homem desprezível à minha frente, de modo que sequer percebi quando um sorriso presunçoso se abriu em meus lábios. — Sorria o quanto quiser, Robert. Vamos ver quanto tempo dura o seu bom humor quando o juiz decidir que Paige, no fim, vai ficar com a mansão Blackwell. — Sabe que isso não vai acontecer, James. — Melinda Calle deu entrada no processo de divórcio. Uma vez que estiverem legalmente separados, Paige vai sair vitoriosa quando ficar comprovado que, apesar de Melinda ter pedido o divórcio, você é o responsável por ele — desafiou, o sorriso odioso moldando-lhe as feições do jeito que me embrulhava o estômago. Eu odiava que minha irmã carregasse o sobrenome de alguém tão repugnante feito James Smith. — Se isso fosse verdade, não acha que eu já teria assinado os malditos papéis? — provoquei. — Mas não assinei. E não vou assinar. Linda é minha mulher, e mesmo que você tenha agido pelas minhas costas e que ela tenha descoberto sobre o testamento de Frederick da pior forma possível, nada disso anula o fato de que vamos nos acertar, quer você queira, quer não. — Explique isso ao juiz quando ficar claro que a força motriz para que Linda — escarneceu — tenha pedido o divórcio são seus relacionamentos extraconjugais. Estaquei, atônito, encarando James com uma expressão boquiaberta enquanto seu sorriso asqueroso se abria. — Passar bem — falou em tom sarcástico, deixando-me ali, completamente desnorteado.


P arte da leveza do meu relacionamento com Will se esvaíra. Havia discussões, impasses, cobranças e, então, quando ele não estava por perto, em vez de sentir saudades e querer que as coisas se acertassem, eu sentia apenas alívio. E um enorme peso na consciência. Eu me lembrava do início de tudo, de como era fácil estar junto dele e de como me senti em um namoro de verdade sob seu cuidado, sempre alvo de suas palavras gentis e gestos cavalheirescos. Contudo, agora nossa relação se baseava mais em imposições, desconfiança e… rudeza, talvez. E eu devia tudo isso a Robert que, de novo, encontrou uma forma de se enfiar em minha vida e virá-la ao avesso. “Não vai ser assim tão fácil se ver livre de mim.” Quase impossível esquecer a ameaça velada em forma de persistência. Eu não sabia muito bem o que havia sentido com aquelas palavras. No fundo, acho que algo dentro de mim se regozijou. Entretanto, agora eu me sentia cansada, porque Will estava paranoico, querendo atualizações constantes do que eu fazia, sempre demandando saber onde e com quem estava, e até mesmo me proibindo de ver Lizzie, em rompantes absurdos de ciúmes. — Como se sentiria se eu saísse por aí com o irmão de uma ex? — ele lançara certa feita. — Eu não me importaria. A menos que você usasse isso como desculpa para se manter em contato com a tal ex — menti. Tristemente, constatei que eu só não


me importaria. Não vinha me importando com a distância, com os raros momentos a dois e com os beijos que eram simples toques fugazes. Importava-me, sim, que ele tentasse controlar como eu vinha levando a vida. Era verdade que Robert não facilitava. Mandava mensagens, telefonava… até mesmo para o número de casa. Christine sempre atendia, me pedia para falar com ele, para que eu escutasse o que Robert tinha a dizer. Associei isso ao fato de ela não estar em seus melhores momentos com Will, o que não fazia sentido, já que foi Chris quem arranjou tudo para que saíssemos. Mas, depois do término com Trevor e de ela parecer mais que satisfeita com seu mais novo namorado misterioso… Chris parecia diferente. Menos superficial, compreensiva ao extremo e com conselhos que me faziam pensar que ela fora abduzida: “Não durma com Will só por achar que é o que deve acontecer entre namorados”, ela aconselhou quando lhe contei que Will vinha reclamando da falta de intimidade. “Elizabeth é sua amiga, não é justo que você se afaste dela e das crianças só porque seu namorado não gosta da ideia”, argumentou. “Robert não tem mesmo tornado sua vida nada fácil. Mas isso só mostra que, talvez, você deva parar para ouvi-lo, independente do que Will ache. Você não fez nada de errado”, observou. Porém foi durante a nossa última conversa que o choque maior me pegou desprevenida. Eu estava revoltada com o ciúme de Will, quando ele vislumbrou uma ligação de Robert no meu celular — à qual eu não atendi, entretanto descobri, depois, era para falar sobre Lizzie, não sobre mim e ele — e insinuou que aquilo era reflexo da “liberdade sem fim que você dá para esse cara, Mel”. Palavras dele, não minhas. Christine não gostou muito da atitude de Will, menos ainda de como ela me fez sentir. Então, enquanto descansava os pés sobre a mesinha de centro de nosso apartamento alugado, soltou um bufar longo e cético, cravando seus olhos nos meus. — Esse relacionamento foi um baita erro e me arrependo amargamente de ter dado essa ideia absurda a você. Will não é melhor que Robert. Quer saber? Você devia dar um fim a essa relação, porque já bastam todos os outros problemas da vida que podem te deixar triste, você não precisa de um namorado que só sabe fazê-la infeliz.


— Você não precisa de um namorado que só sabe fazê-la infeliz — Lizzie falou, sorvendo um gole de seu chá, um comentário tão simples que era quase como se ela tivesse dito que o vento avivara um pouco mais gélido naquele outono. Olhei para os lados, como se procurasse algum indício de que Christine estivera ali, soprando aquelas palavras ao ouvido de Lizzie. Todavia, éramos apenas ela, eu, um sem-número de sacolas das compras do enxoval de Matt e mais uma meia dúzia de pessoas que, no fim da tarde, escolheram aquela cantina italiana para desfrutar uma bebida quente. — Por que diz isso? — eu quis saber, recebendo um revirar de olhos impaciente de Lizzie, que ignorou minha pergunta e comeu um dos biscoitos à sua frente. — Will não me faz infeliz. Um arquear de sobrancelhas e um riso cético foram suas respostas imediatas. — Você não tem o direito de mentir para mim, espero que isso fique claro. Nós somos amigas e podemos confidenciar o que quer que seja uma à outra. — Esticando as mãos sobre o tampo da mesa de madeira, ela alcançou as minhas, embalando-as entre o calor de sua pele aquecida por ter segurado a xícara de chá. — Eu entendo e aceito que meu irmão e você não vão se acertar, mas isso não significa que eu queira que você entre de cabeça num relacionamento com o primeiro cara de sorriso bonito e voz doce. “A voz de Will não anda exatamente doce, no momento”, eu quis lhe dizer, entretanto me contive. Em vez disso, apertei suas mãos de volta, abrindo um sorriso singelo. — Não se preocupe com isso, Lizzie. De verdade. Estou lidando com meu relacionamento com Will. Se der certo, ótimo, e se não der… paciência. — Sacudi os ombros, mostrando que o assunto não demandava muito da minha atenção, o que talvez fosse bem verdade. — Uma coisa que nunca, jamais vai mudar, é que somos amigas. Independente de seu irmão e eu não termos nada com


o outro, independente de como nos conhecemos. Você é parte da família que formei para mim. Você, Sofie, Matt e Mike. Os olhos dela se encheram de lágrimas, e Lizzie não se preocupou em disfarçá-las, porque sempre responsabilizava a gravidez pelo choro exacerbado. — E você é a irmã mais nova que eu não tive — fungou, rindo de si mesma por estar tão emotiva ultimamente. — É por isso que quero fazer um pedido. Mike e eu planejamos que faríamos juntos, mas… não consigo esperar. — Limpando as lágrimas delicadamente com as pontas dos dedos, Lizzie se endireitou na cadeira, as costas eretas apoiadas ao espaldar. — Linda Calle… — ela começou, e percebi que a menção ao meu sobrenome deixara de me incomodar já há algum tempo. — Você aceita ser madrinha de Matt? — perguntou, mordendo o lábio em seguida, meio apreensiva, talvez, enquanto me fitava com os impressionantes olhos verdes da família Blackwell. — Quê? — foi tudo o que consegui emitir devido à surpresa, um som tão baixo que nem mesmo eu estava certa sobre ter, de fato, dito algo. — Madrinha. Quero saber se você aceita ser a madrinha de Matt. Me ajudar a educá-lo, amá-lo e cuidar dele. Cuidado de verdade. Como você tem com Sofie… — Havia hesitação em sua voz, provavelmente porque ela estava esperando por uma resposta e eu não parecia apresentar indícios de que lhe daria uma tão cedo. — Posso entender se você preferir me dizer não… — retomou ante meu silêncio, os ombros murchando, o brilho de expectativa no olhar esmaecendo pouco a pouco. — É mesmo uma grande responsabilidade. Desculpe, Linda, eu… — Madrinha de Matt — balbuciei, por fim, desafiando o bolo enorme em minha garganta e a visão turva. Perguntei-me quão ridículo era chorar por um pedido tão simples, mas a emoção que me tomou era inexplicável. Era óbvio que eu já vira bebês antes. No orfanato, havia muitos deles. Chegavam, alegravam o ambiente e, depois, iam logo embora. Bebês eram adotados mais facilmente, eu aprendera isso bem cedo. Sendo assim, nunca me apeguei a nenhum deles. Quando pequena, jamais pude segurar um em meus braços, por razões bem óbvias… depois de crescidinha, aprendi a me manter longe. Bebês iam embora rápido, portanto eu não poderia me permiti sentir algo além de afeição. Parecia estranho pensar nisso agora, porque sempre sonhei em ter uma família. Casar-me, ter filhos, cuidar deles e educá-los… quando conheci Sofie, meu coração se encheu de um sentimento puro e doce que nada foi capaz de macular, sequer minha desilusão com Robert. Porém… jamais vi um recémnascido antes. De perto, bem próximo, no mesmo ambiente que eu. Em quase 25 anos de existência, apesar dos ideais românticos, do apreço por crianças, da vontade inexplicável de ser mãe e dar a uma criança o amor que


eu sequer conhecia… nunca segurei um bebê em meus braços. Era inexperiente, crua, quiçá desajeitada e sem tato. Todavia Lizzie estava me dando a chance da minha vida. A oportunidade de não apenas acompanhar sua gestação e ser expectadora de sua felicidade. Era um convite para ser parte dela também. De tal modo, as lágrimas rolaram, sim. Escaparam-me e não houve nada que eu pudesse fazer. Talvez eu não me casasse outra vez ou tivesse meus próprios filhos, e eu sabia que eram coisas diferentes… ser mãe… ser madrinha. No entanto, durante a vida toda, tanto amor me foi negado, que eu queria dar a Matt aquela forma de afeto que sequer conhecia, mas que ele já era capaz de despertar em mim antes mesmo de ter nascido. — Eu quero… — murmurei, esfregando as costas das mãos nas bochechas para apagar os vestígios de lágrimas. Não arrisquei olhar para os lados, a fim de checar se havia alguém nos fitando. Tudo o que importava eram as palavras de Lizzie, por isso foi dela minha atenção, de mais ninguém. — Eu quero muito — repeti, pouco articulada, meio sem jeito, porém com alegria e honestidade irradiando do peito. Lizzie soltou um suspiro aliviado, meio trêmulo, espelhado por mim. Nossas mãos se esticaram e apertaram os antebraços uma da outra, o que foi o mais próximo de um abraço que a mesa à nossa frente nos permitia. Sorrimos, meio que entre lágrimas, incrédulas com a novidade capaz de mudar o humor e energizar a alma. Ali, naquele momento, não havia problemas capazes de me alcançar, e pude saborear o gostinho de ter uma irmã. — Você vai ser a melhor madrinha do mundo, sabia disso? — Lizzie inquiriu, minutos depois, enquanto dirigia até sua casa, onde daríamos a notícia a Mike de que, bem… a esposa dele não aguentou esperar e acabou se adiantando. — Eu prometo me esforçar e estar presente a todo momento. Sempre vai poder contar comigo para ficar de olho nas crianças quando precisar de uma noite a sós com Mike. Lizzie sorriu, sem desviar os olhos da estrada. — Quem sabe a gente não acabe encomendando mais um bebê, hã? — provocou. — Eu bem que ia gostar disso. Uma música suave tocava ao fundo, preenchendo o silêncio durante o percurso. Eu me peguei pensando nas inúmeras coisas que gostaria de ensinar a Matt. Coisas que eu sequer sabia — como montar a cavalo, andar de bicicleta, me arriscar no bilhar — e outras tantas que eu adorava, como me aventurar pela cozinha latina, alguns passos de dança e um pouco de espanhol… De súbito, como num estalo, eu me lembrei de que haveria muitas pessoas na vida de Matt, ávidas por ensinar-lhe algo. Eu ocupava o papel de madrinha, mas


quando pensei em quem poderia ocupar o de padrinho… — Lizzie — chamei, hesitante. Ela lançou um olhar rápido em minha direção, de canto de olho. — Se eu sou madrinha de Matt, então… então quem será o padrinho? O rosto dela corou de pronto e eu a vi engolir a saliva depressa, as mãos agarrando o volante enquanto ela continuava a prestar atenção à estrada. Paramos num sinal fechado e então foi impossível seus olhos não encontrarem os meus. — Você sabe quem — sussurrou, contudo, não pude identificar se aquele tom era um pedido de desculpas ou uma mera confabulação.

— Pode me chamar de Linda, a propósito. — Sou Lilly. Lilly. Eu gostava do som doce e do modo como foi pronunciado. Enquanto comia, Lilly não pareceu se importar em nada com os olhares furtivos que as pessoas dentro do café lançavam em sua direção. Elas estavam curiosas, um pouco receosas, também. Lilly vestia roupas surradas, sapatos rotos e, quando começou a refeição, retirou a touca que cobria os cabelos escuros e oleosos, pousando-a sobre a mesa. Não apenas parecia faminta. Estava, de fato, faminta. Os dedos sujos de unhas curtas e cheias de terra agarraram o sanduíche à sua frente e ela até mesmo fechou os olhos, soltando um gemido de apreciação. Usou maionese, ketchup, mostarda, molho de pimenta e tudo o mais que encontrou para complementar a comida e, depois, com as bochechas estufadas por ter enfiado na boca porções enormes, sorveu seu refrigerante, para ajudar a empurrar tudo garganta abaixo. A maioria das pessoas fez cara feia. Uma mulher balzaquiana, na mesa ao lado, girou o rosto da filha de mais ou menos 7 anos, obrigando-a a olhar em


outra direção, com um sussurro enfático de que ela nunca, jamais, sob nenhuma hipótese, deveria comer daquele modo, com ou sem pessoas olhando. Eu me incomodei, remexendo-me desconfortável. Lilly, por outro lado, estava absorta demais mastigando quase tudo o que havia à sua frente: um sanduíche de queijo com peito de peru, torradas com geleia de amora, panquecas, bacon, ovos mexidos, mel, suco de laranja e uma latinha de Coca-Cola. Pensei em puxar conversa, mas eu me lembrava bem da sensação de passar um longo período em jejum e não iria atrapalhar Lilly. Em vez disso, me pus a recapitular as coisas que já sabia sobre ela durante os breves minutos em que conversamos. Eu a encontrei quando já estava indo embora, depois de esperar Will por mais de 30 minutos sem receber uma justificativa pelo atraso. Tomaríamos café da manhã juntos, porque ele tinha uma novidade para me contar. Bem, eu também… precisava dizer a ele que seria madrinha do filho de Lizzie e já sabia que a reação não seria das melhores. Mas ele não apareceu. Tampouco telefonou ou enviou alguma mensagem. Eu me cansei de esperar e decidi ir embora. Lilly estava logo à porta, tentando convencer as pessoas a lhe darem algumas moedas para, nas palavras dela, “completar o dinheiro do meu café”. Sequer parecia que ela estava ali, entretanto. As pessoas iam e vinham, não tropeçavam nela, não esbarravam… e conseguiam tal feito sem ao menos lançar-lhe um olhar. Derrotada, ela soltou uma imprecação, chutou o passeio, as mãos em punho, e caminhou para longe dali. — Ei, espere! — eu chamei, todavia ela não pareceu notar que minha atenção era sua. — Ei, você! Espere! — insisti, adiantando-me em sua direção e conseguindo agarrar-lhe o braço. Ela se esquivou do meu toque, assustada e arisca, e, por um momento, senti como se olhasse através de um túnel do tempo. Será que eu me parecia daquela forma, anos atrás, quando também dependia da boa vontade das pessoas para conseguir me alimentar? — Oi — murmurei para ela, oferecendo um sorriso. — Oi — devolveu secamente, cruzando os braços em frente ao peito, impondo distância. — Quanto falta? — perguntei, engolindo o nó que se formou em minha garganta ao notá-la segurar bem firme a nota de dois dólares que tinha nas mãos e umas poucas moedas. — Quanto falta pra quê? — Uniu as sobrancelhas, ainda mal-humorada. — Para o seu café. Lilly piscou, um misto de confusão e incredulidade. — Você quer dizer que…


— Vou te ajudar a tomar café da manhã. Me diz, quanto falta? Sem esperar por uma resposta, abri o zíper da bolsa a tiracolo e a vasculhei, à procura da minha carteira. — Você é doida — Lilly soltou num bufar ao meu lado. — Sabe que eu posso pegar sua bolsa e sair correndo, não sabe? — Não faz muito sentido pra mim. Você está com fome, posso te dar o que comer. Por que me roubaria? — Porque é o que moradores de rua fazem… — Alguns, é verdade. Mas, se você quisesse mesmo roubar, não estaria pedindo uns trocados em frente à padaria, certo? Ela me fitou com olhos estreitos, como se eu de fato tivesse um bom argumento. Então, após esfregar a manga do moletom grande demais para o corpo pequeno contra a bochecha suja, ela finalmente falou: — Tenho três dólares. A fala foi concomitante ao movimento que fiz para abrir minha carteira, não encontrando uma única nota ali, sequer. Fitei os olhos esperançosos de Lilly e a cena me cortou o coração. Quis ser capaz de chutar a mim mesma por deixá-la em expectativa para então ter que lhe dizer que a verdade era que eu não poderia completar o dinheiro que lhe faltava para um bom desjejum. Havia o cartão de crédito, é claro, entretanto… — E se você tomasse café da manhã comigo? — convidei, as palavras sendo mais rápidas que meu raciocínio lógico, recebendo um piscar de olhos frenético de Lilly, em resposta. — E então? — insisti. — O que me diz? Você me faria companhia, eu estava esperando o meu namorado, mas ele não pôde aparecer e acabei desistindo de comer sozinha. — Uhmm… e eu vou poder comer o quanto quiser? Era uma pergunta simples e genuína, tão leve que me fez rir. — Claro que sim. Vai poder comer o que quiser e o quanto quiser.


— M el? — Will chamou ao meu lado, ganhando minha atenção. Lilly estava terminando seu suco de laranja, aparentemente satisfeita. Eu já acabara meu desjejum e até mesmo consegui brecha para manter um diálogo com ela e descobrir um pouco mais sobre sua vida. E então Will apareceu, do nada, com tanto tempo de atraso que até mesmo me surpreendi por vê-lo ali. — Ei — balbuciei de volta, fitando sua expressão pouco amistosa sem ao menos entender o motivo de ela estar ali. — Você demorou, acabei tomando o café da manhã. Quer se sentar com a gente? O olhar dele foi de mim para Lilly, então voltou para o meu rosto. — Quem é essa? — Lilly — ela se apressou em dizer, e era um gesto quase pueril, pouco condizente com seus 17 anos, outra informação que consegui obter durante nosso diálogo. — Lilly? — Will franziu as sobrancelhas, encarando-a de modo especulativo e trazendo seu olhar para mim. — E de onde você conhece Lilly, Mel? — Daqui mesmo. Quer dizer, da calçada. Nós estávamos com fome, você não apareceu, então eu pensei… — Posso falar com você por um segundo? — atalhou e, sem esperar resposta, agarrou meu braço esquerdo firmemente, me rebocando para longe dali


e se preocupando em trazer minha bolsa junto. Olhei para Lilly por sobre o ombro e pedi um segundo, prometendo voltar logo. — Qual é o seu problema? — explodiu, esboçando tanta revolta que me pegou de surpresa. — Meu problema? — testei, confusa. — Convidar uma garota de rua para se sentar à mesa com você? Você perdeu o juízo? Ela pode te assaltar, te ferir… — Me ferir? — debochei, emitindo um som de descaso. — Ela só estava com fome, pedindo uns trocados aqui em frente, e eu… — Você o quê? — bufou. — Mel, ela não queria comida, queria uns trocados para comprar drogas! Automaticamente, meus olhos se arregalaram e meu queixo pendeu em estupefação. Encarei Will bem no fundo de seus olhos azuis, antes tão afáveis, mas não havia sinal de toda gentileza e condescendência que eu costumava ver ali. — Mesmo? — ironizei. — Então por que ela devorou uma quantidade absurda de comida praticamente sem respirar? Ele sacudiu a cabeça de um lado para o outro, apoiando uma das mãos no quadril e olhando ao redor, percebendo que seu gesto tempestuoso atraíra olhares indesejados sobre nós. — Okay, não estou dizendo que ela não esteja de fato com fome — concedeu, a contragosto —, mas você acredita mesmo que essa foi a razão de têla encontrado esmolando? Drogas são a única coisa em que essas pessoas conseguem pensar. — Essas pessoas? — testei, empregando escárnio à voz, porque a verdade era que a de Will esbanjava asco, e eu não gostava nada disso. — Sim, essas pessoas. Sem-teto, viciados… como quiser se referir a elas. Houve um momento de silêncio em que ele me encarou como se fosse o dono da razão, e eu, uma lunática. Eu quis perguntar o que havia de errado com ele. Se havia algum problema familiar, no trabalho… qualquer coisa que justificasse o tom aborrecido e a expressão impaciente. Todavia, nada seria capaz de justificar aquela tonalidade e os comentários maldosos. — Will, você está se ouvindo? — questionei, tentando oferecer-lhe a condescendência que ele negara a Lilly. — Está marginalizando uma garota que sequer conhece, apenas por um pré-conceito que… — Não é pré-conceito — cortou-me, impacientando-se. — Conheço essa gente, Mel, você, não. Olha, não estou dizendo que é culpa de Lilly, okay? Não é como se ela tivesse escolha ou perspectiva. No fundo, eu sinto pena, mas nós não podemos ajudar todos esses marginais, esperar que eles… — Cale a boca, William, por favor — sibilei, os olhos injetados em sua


direção enquanto eu cerrava os punhos com força aos lados do corpo. Se não o fizesse, não sei… talvez fosse até mesmo capaz de socá-lo no rosto e dar um fim ao sorriso que tanto admirei um dia, ao arrancar-lhe os dentes. — Como é? — Ele franziu o cenho, inclinando o rosto em minha direção, como se seus ouvidos o houvessem traído e ele tivesse entendido mal o que eu dissera. — Só cale a boca! — esbravejei, e os olhares feios que recebi dos poucos fregueses e atendentes do estabelecimento causavam-me claustrofobia. Lilly ainda estava sentada no mesmo lugar onde eu a deixara, os olhos esbugalhados em minha direção. Voltei-me para Will, nada complacente e pouco disposta a dar-lhe uma chance de se explicar. — Não vou te ouvir, não quero escutar mais nada vindo da sua boca. Depois de tantas decepções, eu não pensei que justo você pudesse me fazer sentir do modo horrível que me sinto agora — desabafei, fúria emanando de todos os meus poros. Se fosse possível machucar alguém fisicamente com um simples olhar, eu tinha certa de que Will estaria sangrando naquele instante. — Mel, do que diabos você está falando? — protestou, indignação genuína em sua voz. — Estou dizendo pelo seu bem, eu não confio em Lilly e em… — Pessoas como ela — escarneci. — Já sei, eu entendi seu ponto de vista. — Não, não entendeu. Caso contrário, não estaria se sentindo ofendida por algo que não tem nada a ver com você. Um bufar incrédulo e um revirar de olhos foram minhas reações imediatas. Ele era mesmo inacreditável, dono de uma insensibilidade impossível de mensurar. Qual era o meu problema com relacionamentos, afinal? — Como isso não tem nada a ver comigo, William, se, anos atrás, era eu quem ficava na rua esmolando e fazendo serviços que ninguém mais queria fazer, em troca de algumas moedas? — O quê? — Piscou, confuso. — Quer saber? — perguntei, contudo era apenas uma retórica. Arranquei minha bolsa de suas mãos, dando um passo atrás. A resolução tão firmemente arraigada em mim que era difícil acreditar que, há até duas horas, eu estava ali, esperando por Will, torcendo para que, talvez, pudéssemos acertar nossas diferenças. Mas nós éramos dessemelhantes demais e não havia nada a ser feito quanto a isso. — Que você tenha uma boa vida ao lado desse preconceito idiota — soltei, o peito apertado com todo o ressentimento e decepção causados por William Stewart, o homem que prometeu sarar as minhas feridas e que, agora, se mostrava tão ou mais estúpido quanto aquele que as abriu, em primeiro lugar. Sem mais nada a dizer, caminhei a passos firmes para junto de Lilly, agradecida pelo fato de a conta já estar paga e eu poder dar o fora dali o mais


rápido possível. — Mel… — William chamou às minhas costas, tentando segurar meu braço e frear o movimento. Agitei o ombro, rechaçando seu toque. Eu não queria suas mãos em mim, seus toques, seus olhares… apenas distância. — Me solta — exigi num sibilo, fuzilando-o com o olhar. Tornei a dar-lhe as costas, alcançando Lilly e apoiando minhas mãos em seus ombros, fazendo com que ela se levantasse. — Vamos, Lilly — chamei —, hora de ir embora. — Segurei-a com um pouco de brusquidão, afrouxando o aperto quando percebi a indelicadeza. William me chamou mais uma vez, e eu apertei o passo. — O que aconteceu? — Lilly quis saber, olhando para trás, buscando decifrar a expressão pouco amistosa do homem que, eu sabia, ainda nos encarava. — Aquele é seu namorado? Vocês brigaram? Me conta. — Nada. Não aconteceu nada. Só vem comigo, está bem? — retorqui, buscando com o olhar um táxi vazio que pudesse nos levar para longe daquela confusão tremenda que foi nosso encontro com Will. — Ir com você? Pra onde? Foi quando estaquei, ponderando sobre minhas ações pela primeira vez. Talvez eu realmente estivesse fora de mim. Talvez eu tivesse mesmo algum problema, como William sugerira, e talvez aquilo fosse um tremendo erro. Contudo, fitando a expressão aturdida de Lilly, as roupas em farrapos e os cabelos grudentos de sujeira, eu pude enxergar além disso. A mim mesma, para ser mais exata. Com 17 anos, perdida em uma cidade grande, apenas com incertezas e nenhuma perspectiva, tendo medo, frio e fome como minhas únicas companhias fiéis. Nunca podendo dormir e descansar de fato, receosa sobre o que poderia acontecer, se o fizesse. Possivelmente Christine fosse gritar comigo quando descobrisse o que eu estava a um passo de realizar, mas minha decisão já estava tomada e eu não voltaria atrás. — Praminhacasa — eu disse por fim, tão depressa que mais parecia uma palavra que uma frase. — Quê? — Lilly testou, atordoamento impregnado em cada uma de suas feições. — Vem logo — retorqui, puxando-a novamente e nos encaminhando até um táxi disponível, não nos dando chance de pensar sobre aquilo.


— Eu adoro a democracia! O modo como você decide as coisas apenas depois de me consultar e nunca me empurra nada goela abaixo! Christine tinha as mãos na cintura, expressão pouco — ou nada — amistosa e uma impaciência sem precedentes. — Desculpe — murmurei envergonhada, lançando um olhar furtivo em direção à porta do banheiro, onde Lilly esteve nos últimos 20 minutos. Talvez esteve não seja a palavra correta, uma vez que ela permanecia lá. — Desculpe? — Chris cuspiu, pirrônica, a testa franzida em descrença. — Você traz uma completa estranha para dentro da nossa casa, sem ao menos perguntar o que eu acho disso, a deixa ocupar o nosso banheiro e, provavelmente, usar todo o meu sabonete líquido de morango e champanhe, e só o que tem a dizer é desculpe? Melinda Antonieta Calle! — É temporário! — defendi-me. Um ato tão inútil que minha voz não passou de um sussurro débil. — Temporário? — Christine testou, no mesmo tom cético que usara antes. — Então o quê? Vamos mantê-la aqui por uma semana, talvez um mês, e depois jogá-la de volta na rua? — Claro que não! — Exatamente! Claro que não! Então não olhe na minha cara e diga que é temporário, porque não é. Chris fez uma mesura exagerada, jogando-se no sofá de três lugares, bufando e escondendo o rosto com as palmas das mãos. — Você é… inacreditável — murmurou através de sua voz abafada, mas o modo como disse a última palavra a fez soar mais como uma imprecação que qualquer outra coisa. — Chris, me descul… — Não peça desculpas, por favor — gemeu. Então me calei, sentando-me no outro sofá, os joelhos junto ao peito


enquanto apoiava a cabeça no espaldar e escutava o chuveiro ligado. Lilly não exagerou quando disse que ficaria uma hora inteira no banho. Outra vez, eu me condoí. Christine tinha razão. Não havia nada de temporário, eu realmente fizera aquilo… trouxe Lilly para a minha vida, para as nossas vidas, e era indelével. Contudo, se Chris não estava confortável, e se ela pagava metade das contas daquela casa, eu sabia que precisaria retornar ao meu apartamento antigo, agora que Lilly era minha responsabilidade. Foi insensato da minha parte levá-la para casa, eu bem sabia, mas como dar as costas para ela? Como voltar para o conforto de casa e deixar Lilly sozinha, na rua, apenas uma menina, passando fome e sentindo frio enquanto eu me aquecia sob os cobertores? Eu sabia exatamente o que era sonhar em ter um teto sobre a minha cabeça, comida quente e uma superfície macia onde pudesse me deitar. Ainda me lembrava da minha primeira noite no abrigo, anos atrás, quando pensei que meus dedos congelariam junto a cada pequeno pedaço do meu corpo, assim que a neve começou a se alastrar. O inverno estava chegando… e Lilly estava indefesa, lá fora. Não, eu certamente não podia abrigar o mundo inteiro, no entanto, se havia algo que pudesse fazer por Lilly… eu não seria nada melhor que William — que se provou um cretino — se simplesmente a abandonasse à própria sorte depois de ter-lhe oferecido uma única refeição. Apesar de amar Christine e encontrar nela a irmã mais velha que jamais tive, eu precisaria deixá-la. Com o coração apertado e sangrando, mas não havia outro modo. Eu já até mesmo conseguia visualizar toda a labuta que seria organizar uma quarta mudança e já sentia as forças se esvaindo só em pensar. Também precisaria encontrar um modo de alojar Lilly, é claro. Adquirir um sofá-cama, já que o apartamento só possuía um quarto. Teria também que encontrar um lugar para guardar as roupas de Lilly e as coisas que fosse adquirindo para ela aos poucos… um novo emprego se faria igualmente necessário, porque agora eu tinha duas bocas para alimentar, dois corpos para vestir e… — Precisamos comprar roupas para ela — Christine falou, interrompendo minha linha de raciocínio. — Produtos de higiene pessoal, sapatos… não vou dividir as minhas coisas. E nem o meu quarto. Que isso fique bem claro. Precisamos trocar um dos sofás também — continuou, olhando o estofado em que estava sentada e franzindo o cenho. — Provavelmente este aqui, que é maior e ocupa mais espaço. Vamos trocá-lo por um sofá-cama para que Lilly possa dormir. Você se vira e abre espaço no seu closet para as coisas dela. Quando a Miss Limpeza sair do banho, me avise, vamos às compras. Então ela se levantou, jogando uma almofada em mim, rumando o corredor,


em direção ao próprio quarto. Atônita, pisquei e meneei a cabeça, tentando clarear as ideias. — Então você não está chateada? — eu quis saber, esperançosa. — Porque se ofereceu para ir às compras… Ela se virou, colocando as mãos na cintura e erguendo uma sobrancelha ruiva para mim. — Ah, eu estou, sim. Por isso vamos usar o seu cartão de crédito. Chris me lançou uma piscadela, jogando o cabelo de cachos perfeitos para trás enquanto seguia o próprio caminho. Foi impossível conter o riso, visto que aquela era uma semana de boas notícias. Eu sendo madrinha de Matt, conhecendo Lilly e terminado um relacionamento que não me fazia bem. Era um recomeço natural e eu gostava da sensação.


— Q uando aquele cara que não pode ser mencionando souber que você e Will terminaram… — Ele não vai saber. Não tem como saber — cortei, fechando a expressão. Christine me lançou um olhar preguiço concomitante a um gesto de deboche, quando sacudiu uma das mãos e disse: — Claro. Não é como se vocês dois fossem apadrinhar o filho da irmã dele. Que estupidez a minha. Okay. Era um bom ponto. Mas eu não queria pensar na reação de Robert ou nas coisas absurdas que ele seria capaz inventar apenas para que eu aceitasse posar de esposa feliz ao seu lado. Eu ainda não conseguia entender como ele poderia estar insatisfeito, quando tinha tudo o que sempre sonhou: a mansão da família, as ações da Wood Business e, claro… toda a liberdade de não ter um compromisso. Não que isso o tivesse impedido de ficar com Susan também. Tentei evitar o pensamento. Em vez de remoer o passado, preferi me concentrar nas peças de roupa que Christine e eu estávamos escolhendo na loja de departamento para Lilly, enquanto ela se ocupava apenas em prová-las. Christine estava falando mesmo sério sobre usar o meu cartão de crédito, mas não me importei. Bem, não era algo que poderíamos fazer sempre, claro, porém Lilly precisava de roupas e calçados com urgência, era uma necessidade básica. Além do mais, nós bem que poderíamos usar aquele momento “de garotas”, como Christine gostava de chamar as ocasiões em que saíamos juntas para algum


programa, ou mesmo quando maratonávamos alguma série na Netflix com sorvete e pipoca.

Will ligou algumas vezes durante o dia, contudo eu ignorei todas as chamadas. Não queria falar com ele, tampouco tentar consertar algo que estava além do reparo. Poderia ser injusto, eu bem sabia, mas se ele era o tipo de pessoa capaz de dizer todas aquelas atrocidades sobre Lilly… bem, nesse caso, ele não era quem eu pensei que fosse e, certamente, não era o cara certo para mim, alguém que eu fosse querer manter ao meu lado. Após a tarde ociosa no shopping, chegamos em casa com inúmeras sacolas de compras, tanto para Lilly quanto para Chris, e eu me ofereci para cozinhar para nós. Christine tinha um apreço sem tamanho por comida caseira, entretanto era um desastre na cozinha. Eu não acreditava que Lilly sequer soubesse como acender a chama do fogão sem provocar um incêndio e, além do mais, eu gostava mesmo de cozinhar. Foi algo que aprendi com Eva, durante nossos inúmeros momentos partilhando receitas, onde ela me contava a história por trás de cada prato que aprendera a apreciar ainda na infância. Eram dias descomplicados, aqueles, e eu sentia falta dela e de Javier. Estar com Will me sugava todo o tempo disponível, eu percebia isso agora. Isso iria mudar. Também havia Lilly. Eu necessitava resolver essa situação, afinal de contas, ela precisava retomar os estudos, ter a chance de um futuro melhor… Chris e Lilly estavam tagarelando alguma coisa sem importância enquanto eu colocava a lasanha que teríamos para o jantar no forno. Segundos depois, Christine recebeu um telefonema e, esbaforida, me pediu para guardar um pedaço de massa para ela, porque tinha um compromisso urgente e inadiável. Ela vinha tendo muitos desses compromissos, ultimamente. O que eu sabia que queria dizer que ela estava vendo alguém, entretanto ela não me disse nada


sobre isso, nem mesmo quando lhe questionei a respeito. Era estranho, mas Chris estava aprendendo a ser reservada. Lilly e eu comemos juntas, à mesa da cozinha, falando sobre amenidades. Ela se ofereceu para dar um jeito na louça do jantar e aproveitei a deixa para levar o lixo para fora. Após descartar o entulho nos contêineres, quando me virei para voltar ao apartamento, senti dedos se fecharem com força ao redor do meu braço, puxandome bruscamente ao encontro de um corpo firme que me prendeu num abraço quase desesperado. — Por que não atendeu as minhas ligações? — Will questionou, seu hálito cheirando a álcool batendo diretamente em meu rosto. Sua expressão era inamistosa, o aperto, firme, por isso agitei-me entre seus braços, para que ele me deixasse estabelecer distância, o que não aconteceu. — Me larga — chiei entre dentes, estranhando o contato, ávida por me livrar dele. Quando Will não esboçou nenhuma reação, apoiei minhas palmas em seu peito e o empurrei para longe. Ele cambaleou, mas logo recuperou o equilíbrio. — O que deu em você? — O que deu em mim? — zombou, as sobrancelhas se unindo a fim de completar o ar incrédulo. — Tentei falar com você durante o dia inteiro, sem resposta. Onde você esteve? — Bem, isso já não é problema seu, Will — retorqui, mal-humorada, cruzando os braços em frente ao peito. — Achei que tivesse sido bem clara hoje de manhã. — Você foi — ele concordou a contragosto, a fala embolada denunciando que ele bebera muito além da conta. — É disso que vim falar — emendou, dando um passo em minha direção. — Mel, me desculpe. De verdade. Eu não queria ofender você ou aquela garota. — O nome dela é Lilly. E sim, você nos ofendeu. Mas sabe? De certa forma, estou contente por ter descoberto de uma vez o que você pensa sobre pessoas como eu — escarneci, me valendo das mesmas palavras que ele usara para se referir a Lilly, e a mim também, ainda que por tabela. — Eu penso que você é maravilhosa e que agi como um completo imbecil. Me perdoa. Eu não devia ter dito nenhuma daquelas coisas. A verdade é que entendo você. E quer saber? Estou feliz que tenha feito o que fez. Aposto como Lilly vai se lembrar do seu gesto generoso por toda a vida. — Não me pareceu que essa fosse sua opinião mais cedo… — Eu sei, eu sei… sinto muito — desculpou-se, vestindo uma expressão de arrependimento que não me convenceu nada. — Me deixa recompensar você. — Ele se inclinou em minha direção, oferecendo um beijo que eu não queria.


— Não, Will. — Desviei-me de seu toque, dando um passo atrás, fazendo-o dar outro em minha direção, a fim de nos deixar mais próximos. — Por que não? — Porque nós terminamos, lembra? — lancei, incrédula sobre ele assumir que as coisas já haviam se resolvido e que eu não falava sério quando lhe disse para ter uma excelente vida. Para mim, ficara bem claro que eu não queria ser parte dela. — Você não pode mesmo achar que é só pedir desculpas e tudo vai ficar bem, que vou me esquecer de todas as coisas horríveis que você disse sobre Lilly e também sobre mim, por mais que tenha sido de forma indireta. Ele bufou, exasperado, levando a mão direita aos cabelos e escovando-os uma única vez com os dedos. — Eu só estava estressado, Mel. Tenho andado tão tenso, com mil coisas na cabeça. — Seu rosto se tornou mais suave, então. Com um passo pequeno e hesitante, aproximou-se um pouco mais de mim, estendendo uma das mãos para me alcançar, mas, de novo, eu me afastei. — Por que não vamos até o meu apartamento, hã? Não precisamos ter essa conversa aqui, precisamos? Podemos dar um fim a essa discussão de uma forma que acabe extremamente bem para nós dois… Estamos juntos há tanto tempo, está mais do que na hora de nós… — Não, não vou a lugar algum com você — eu o interrompi, pois não estava certa sobre ser capaz de ouvi-lo até o fim sem vomitar ali mesmo. Encarei-o firmemente, os olhos cravados no semblante que me fez mil promessas, pedindo-me para que me apaixonasse por ele, alegando que não me machucaria se o fizesse. A verdade era que eu estava muito orgulhosa de mim mesma por não ter sido capaz de tamanha estupidez. — Mel, não seja assim, por favor. Não faz sentido algum você terminar comigo por uma coisa tão estúpida. Vamos para o meu apartamento, nós podemos sentar e conversar, deixar essa discussão sem sentido para lá e dar o próximo passo. Eu prometo que você vai gostar. Nós vamos com calma, devagar, sem pressa… — Ele tornou a fazer uma vã tentativa de me tocar, a qual me irritou profundamente. Num gesto efusivo demais, rechacei seu toque, marchando para longe dele. — Eu já disse que não! Não, Will. Acabou. Chega dessa conversa, Lilly está me esperando. Vá embora. — O quê? — ele testou, atônito, alcançando-me num segundo e apertando meu braço entre seus dedos, puxando meu corpo ao encontro do seu. — Como assim, Lilly está te esperando? — Exatamente o que ouviu. Lilly está me esperando. Eu a trouxe pra casa comigo. — Uma marginal? Mel, você levou uma marginal para dentro de casa?


— Marginal? O que te faz pensar que ela é uma marginal? — Ela é uma morta de fome e sem-teto. O que mais poderia ser, além de uma marginal? Meu queixo caiu em estupefação. Eu estava cética. Com Will, comigo mesma. — Meu Deus… Como pude me enganar a seu respeito? Sempre te achei incrível e cheio de qualidades. Bom. Genuinamente bom. Mas não. Até mesmo Robert Blackwell, em toda sua arrogância e prepotência, conseguiria ser mais complacente que você — deixei escapar, sem saber ao certo de onde saíra aquela comparação ou mesmo o porquê de ela existir. Um aspecto mal-humorado se agarrou a cada pequena linha de expressão no rosto de Will. O corpo dele se retesou, as narinas inflaram e senti seu aperto ainda mais firme em meu braço. Os olhos estavam estreitos enquanto me observavam com atenção. — Então isso é sobre ele, não é? Você querer terminar comigo… é sobre ele! — acusou, e mesmo que eu me sentisse indignada com aquilo, conseguia enxergar que eu dera brecha para que ele chegasse a tal conclusão. — Não. Não é sobre ele. Tampouco é sobre Lilly. Isso é sobre mim e você, sobre não estarmos dando certo… — Como pode dizer que não demos certo quando sequer fomos pra cama? — Porque nosso relacionamento falhou antes mesmo de chegarmos a esse ponto. Porque não preciso me deitar com você para chegar à conclusão de que não estamos funcionando. Eu vi sua expressão mais cedo, William. Estou vendo sua expressão de puro horror, neste exato momento, por saber que Lilly agora é parte da minha vida. Não é com alguém assim que quero estar. — Com alguém assim? Assim, como? Que respeita as suas vontades? Que mesmo morrendo de de avançar no relacionamento precisa colocar os dois pés no freio, simplesmente porque você fica inventando razões e dizendo não se sentir pronta? Semanas, Melinda. Você e eu temos saído por semanas e, mesmo com todas as minhas investidas, você não cede. Estávamos quase lá, mas então Robert Blackwell apareceu e virou a sua cabeça! — Já disse que isso nada tem a ver com ele. — Mentirosa! Uma bela mentirosa. Você diz estar enganada sobre mim, mas não, eu estive enganado sobre você, ao achar que estava mesmo me levando a sério e que eu não era algum tipo de… sei lá… bengala emocional. — Bengala emocional? Do que está falando? — Que você mal pôde se conter até ir correndo de volta para a cama do tal Blackwell, não é mesmo? É por isso que está pondo um fim ao nosso namoro, para voltar depressa para o relacionamento de merda que mantinha com ele.


— Você é louco, isso sim. Precisa ser insano para cogitar a hipótese de eu trair alguém. Não vou ficar aqui te ouvindo me insultar. Vou embora, e faça o favor de não me procurar mais! — Como pode ter se decidido por ele quando sequer tivemos a chance de descobrir como seriamos juntos? Hein? — insistiu, brecando meu movimento de desvencilhar-me de suas mãos, agarrando meus dois braços e me empurrando contra a parede. — Pare com isso, Will. Eu quero ir embora, me deixa em paz. — Não! Se você vai terminar comigo… precisa saber ao certo o que está deixando escapar, precisa me dizer exatamente por que se decidiu pelo tal Blackwell. Os lábios dele buscaram os meus, mas virei o rosto a tempo de fazê-los esbarrarem na base do meu pescoço, o que não evitou que Will distribuísse diversos beijos molhados e ansiosos em minha pele, me tornando impaciente e ávida por sair dali. — Will… — eu chamei, tentando, sem sucesso, empurrá-lo para longe. — Você está me machucando! Me solta. Me larga, eu não quero, William, eu não quero! Não! E, então, no segundo seguinte, seu corpo estava longe do meu. A sensação era de ter algo sendo arrancado de junto de mim, e o sentimento foi mais que bemvindo. — Quando alguém diz não, em geral, significa mesmo não! Tudo aconteceu de súbito, como se um borrão passasse em frente aos meus olhos. Will sendo puxado para longe de mim, a voz grave de Robert soando e quebrando o silêncio da rua deserta, o som do gemido de Will ao receber um golpe no rosto, imprecações, urros, braços esticando e flexionando enquanto distribuíam golpes e… sangue. — Você está bem? — Robert inquiriu, a voz atravessando o torpor em que eu estava, me sobressaltando. Eu o encarei, o olhar perdido, o choro insano ameaçando irromper por minha garganta e as pernas trêmulas.


Durante os últimos dias, James vinha infernizando minha vida bem mais que de costume, com dezenas de e-mails diários, visitas inesperadas no escritório e tentativas para a intermediação de um encontro entre mim e Paige Williams. Jamais pensei que fosse viver o bastante para ter a amante de Frederick à minha procura, a fim de “negociar os termos do testamento e analisar o que meu divórcio iminente implicava”. Palavras dela, provavelmente após escutar orientações de James, já que era sempre ele a me trazer esse tipo desagradável de notícia. Havia também Daniel McAuley, o sócio mais repugnante da Wood Business, cujo assunto favorito era minha vida conjugal e o fato de Linda não estar disposta para eventos sociais há meses. Fechei uma das mãos com mais força ao redor do volante, enquanto, com a outra, enxugava o suor frio que se acumulou em minha testa, logo após, usando a mão livre para aumentar a potência do ar-condicionado, ainda que estivesse fazendo confortáveis 19ºC dentro do carro. Pisei mais fundo no acelerador, ávido por chegar logo ao meu destino, por poder esquecer, ao menos por alguns minutos, que a minha vida era um aglomerado de estresse, percalços e completamente vazia de sentido.


— Você está bem? — eu inquiri a Linda no segundo em que ela abriu a porta de seu apartamento e seus olhos me fitaram. Em resposta, ela apenas assentiu com um meneio de cabeça e, pela primeira em algum tempo, ao me ver, não me pareceu em choque e tampouco perguntou o que eu fazia ali ou me mandou ir embora. Eu precisava admitir que havia gostado muito desta última parte. A noite anterior não saíra da minha cabeça durante todo o dia de hoje, meus problemas com Paige, James, Daniel e as infernais dores musculares que eu vinha sentindo pelo estresse dos últimos dias… tudo isso foi eclipsado pela imagem de Linda. Frágil, trêmula e estupefata, os olhos perdidos entre mim e Will, assustada com a forma como a noite poderia ter terminado. Se isso acontecia comigo, se para mim já era difícil esquecer, não devia ser diferente com Linda. Era bem verdade que eu tinha motivos não tão nobres assim para não suportar Will, mas nem toda desconfiança do mundo me faria pensar que ele seria capaz da atrocidade que quase cometeu ontem à noite. Recusei-me a conjecturar o que provavelmente teria acontecido se a inquietude não tivesse me incomodado a ponto de fazer com que eu dirigisse a esmo até estar em frente ao prédio de Linda, assistindo à cena mais improvável de todas. No fundo eu sabia que fora atrás dela porque precisava de um momento de paz. Mesmo que Linda e eu iniciássemos uma briga, ainda que ela dissesse que eu era um ser humano horrível por tê-la magoado, o simples fato de estar ao seu lado já me traria conforto. Entretanto, não foi esse o desenrolar de tudo. Ver Linda e Will, ontem à noite, fez a cólera se espalhar por todo o meu sistema tão depressa, que mal pude me dar conta do que fazia. Quando dei por mim, meus punhos estavam ensanguentados, e Will, inerte. Linda foi o primeiro pensamento que me ocorreu assim que o frenesi passou, e a única coisa que eu consegui articular foi uma tentativa de saber se ela estava bem. Exatamente como agora. Igual a ontem, ela não disse absolutamente nada. Hoje, no entanto, ganhei um


meneio de cabeça. Mais cedo, no escritório, Christine se recusou a tecer qualquer comentário sobre o assunto, e eu fui obrigado a passar o dia inteiro remoendo os acontecimentos e me impedindo de mandar mensagens para Linda, as quais eu sabia que ela não iria responder, já que ignorar minhas mensagens e telefonemas se transformara em sua nova especialidade. — Posso entrar? — arrisquei, recebendo um olhar duvidoso e um cruzar de braços em resposta. — Não quero falar sobre a noite passada. — Ótimo, eu também não. — Eu não vejo outro assunto que tenhamos para tratar. — E eu discordo, mas você tem razão, em partes. O que me trouxe aqui noite passada não é nada que tenhamos pra discutir. Surpresa com o que eu lhe dissera, Linda estreitou os olhos em minha direção, contudo, não relaxou a postura defensiva. Os braços continuaram travados na frente de seu corpo e a expressão não suavizou em nada. — Então o quê? — Eu venho passando por umas coisas e… — Detive-me por um momento, meio incerto com a escolha de palavras. O que eu deveria dizer, exatamente? Que a vida estava um verdadeiro inferno e tê-la por perto ajudaria a melhorar as coisas? De modo algum. — O fato é que me lembrei de que ninguém é melhor em ouvir e aconselhar que você. Ela soltou uma lufada de ar pelos lábios, como por depauperamento, e esfregou o rosto com uma das mãos. — Robert… — chamou uma vez, meneando a cabeça de um lado ao outro. — Não me leve a mal, mas isso não vai acontecer. — Por que não? — Franzi o cenho. — Porque nós não somos amigos. Porque eu me retirei da sua vida e espero que você faça o mesmo com relação a mim. Linda pareceu olhar para todos os lugares, exceto para mim. Evitou meu olhar deliberadamente e, quando por fim me encarou, o contato durou apenas poucos segundos. Ela apertou os braços contra si outra vez, mas num gesto distinto do de antes e muito similar ao que ela sempre fazia quando tentava amparar a si mesma durante uma discussão ou mesmo em algum momento de desconforto. Em todo o tempo após o fatídico dia em que ela saíra do apartamento que dividíamos, ela nunca se pareceu tanto com a minha Linda quanto agora. Foi essa percepção que me impulsionou a liberar as palavras que expressavam quão atormentado eu me encontrava. — Paige ressurgiu — confessei, ganhando toda sua atenção. — Ela vem


infernizando a minha vida. Provavelmente James contou a ela sobre o nosso processo de divórcio e… — Meu Deus, Robert! — ela me interrompeu, incredulidade agarrando-se às suas feições. — Não acredito que tenha vindo até aqui para me convencer a voltar pra você! Não depois de ontem! Bufei, cético, porque, por mais que isso fosse o que eu desejava, não era a razão de eu estar ali. — Não, claro que não foi isso — apressei-me em negar. — Eu só queria… desabafar com alguém de confiança. Isso é tudo. — Eu não estou com cabeça para isso. E ainda que estivesse, eu te disse: nós não somos amigos. Agora vá embora, por favor. — Pensei que você fizesse o tipo que ajudaria até mesmo um desconhecido — escarneci, lembrando-me do dia em que ela sugeriu que me assistiria com a cláusula do testamento de Frederick, se eu tivesse pedido. Bem, ela certamente não teria. — Você não é um desconhecido. É alguém que me machucou. E tudo bem, mesmo que eu quisesse ajudá-lo e ouvir o que tem a me dizer, só não consigo, não hoje, nem tão cedo. Passar bem. Ainda havia mágoa em sua voz e eu conseguia me lembrar de como ela deixou bem claro que jamais perdoaria a nenhum de nós dois por ter saído tão machucada do nosso relacionamento. De qualquer modo, quando Linda ameaçou cerrar a porta, posicionei meu pé entre esta e o batente, impedindo-a de se fechar e empurrando-a em seguida, ganhando um pouco de espaço dentro do apartamento. — Linda, se isso for sobre noite passada… — É sobre muitas coisas, Robert. Mas são minhas coisas e não vou dividilas com você, por favor, só vá embora — suplicou, a face retorcida. — Me mandar ir embora não… — Ei, Linda! — um chamado vindo do que julguei ser a cozinha atalhou. — A lasanha já está cheirando, consegue sentir daí? — Essa não é a voz de Christine — observei, estranhando a sonoridade quase infantil. — Não, não é. Preciso ir, licença. — Linda pousou uma de suas mãos sobre meu peito, empurrando-me levemente para trás, e pude sentir o calor que irradiava do contato e trazia uma sensação prazerosa de reconhecimento. Ela também percebeu, uma vez que engoliu em seco e tentou afastar-se do toque. Contudo, segurei seu pulso entre meus dedos, no intuito de puxá-la de volta para mim. — Ei, espere — pedi, tocando-lhe o rosto com os nós de meus dedos. Linda


tencionou esquivar-se uma vez, todavia, quando a impedi de fazê-lo, dando mais um passo em sua direção e acariciando-a do mesmo modo que fiz na escada de emergência, semanas atrás, ela deixou um suspiro trêmulo escapar-lhe pelos lábios entreabertos e cerrou os olhos. Não pude evitar um sorriso exultante por tê-la ali, apreciando meus toques, sem o menor indício de afastar-se deles. Os lábios cálidos também eram macios ao toque, exatamente como me lembrava, e a vontade de beijá-los me fez salivar em expectativa. Inclinei-me em sua direção, meus lábios pressionados contra a maçã do rosto de Linda, passando por sua mandíbula, queixo, alcançando a comissura de sua boca e… — Será que eu já posso comer? — a voz tornou a soar, fazendo Linda sobressaltar-se e ir para longe de mim, dando-me as costas e abortando o que estávamos prestes a fazer. Soltei um grunhido de frustração, atingindo o batente da porta com o punho cerrado. — Não, Lilly! Você ainda não pode comer! Já estou indo! — ela gritou de volta, trazendo sua atenção para mim e fitando-me de modo desconcertado, antes de articular: — Falo sério, Robert, não insista, eu… — Mas por que não? — a tal Lilly perguntou, ainda da cozinha, interrompendo o que quer que Linda estivesse prestes a me dizer. — O que mais falta? Christine já deve estar terminando de se vestir para o jantar. — Sim, eu sei! — Linda devolveu, exasperada. A silhueta de Lilly apareceu no cômodo pequeno, enquanto ela dizia estar com fome demais para esperar por Christine. Seu olhar me alcançou e ela estacou, surpresa. — Oi! — cumprimentou timidamente, os olhos alternando entre mim e Linda. — Olá — devolvi, nada satisfeito com a inconveniente interrupção que ela representava. — Mais alguém que você queira me apresentar, Linda? — perguntou, meio incerta, as sobrancelhas franzidas em confusão. — Não exatamente — Linda começou, evitando fitar-me. — Na verdade ele… — Pronto. Já estou aqui — Christine anunciou, surgindo através do corredor ao passo que remexia nos cachos de seu cabelo com uma das mãos. — Posso colocar a mesa se você quiser… Robert! — exclamou ao me ver, pega desprevenida, e eu arqueei uma de minhas sobrancelhas, pirrônico, lembrando-a de que não era inteligente me chamar pelo primeiro nome na frente de Linda, quando esta não sabia que Christine e eu vínhamos nos comunicando a caráter pessoal na empresa. — Quer dizer… — Pigarreou, corrigindo-se em seguida. — … senhor Blackwell.


— Westwood. — Eu sou Lilly — a outra se pronunciou, colocando a franja que caíra sobre os olhos para trás. — Só para o caso de você… senhor estar se perguntando. Ela lembrava Linda. Não na aparência latina, quiçá, mas no modo contido de expressar-se e nos cabelos escuros moldando-lhe o rosto de aparência quase infantil. Ela não deveria ter mais que 19 anos e perguntei-me a razão de Christine não ter me dito nada sobre ela, quando nos falamos mais cedo. — Eu sou o marido de Linda — lancei, mais por querer medir as reações que receberia que por qualquer outra coisa. Linda pareceu sair do torpor em que se encontrava, todavia, era certo que não vira o modo como Christine revirou os olhos, pelo que eu acabara de dizer, nem mesmo a expressão estupefata de Lilly, que não conseguia se decidir sobre para quem olharia. — Ex-marido — Linda corrigiu, mal-humorada. — Nós nos divorciamos. Robert já está de saída. — Ela içou seus olhos para mim, fuzilando-me com eles. — Como eu disse, esse não é um bom momento — sibilou. — Tudo bem. Só me diga, então, quando vai ser. Não estou pedindo muito, só alguns minutos do seu tempo. Ela abriu a boca para redarguir, entretanto, Christine foi mais rápida, intervindo em meu favor com uma expressão casual e complacente. — Na verdade… bem, com a chegada de Lilly, nós — enfatizou — temos muito que resolver. Linda e eu. — Lilly está ficando aqui com vocês? — eu quis saber, ainda sem entender direito o que aquilo tinha a ver com a escassez de tempo que Linda poderia dedicar a mim, mas aproveitando a oportunidade de engatar um novo assunto. — Na verdade sou a razão para Will e Linda terem terminado — Lilly explicou. Apesar de ter desconfiado que algo assim aconteceria ou já acontecera, uma onda de regozijo me tomou com a confirmação de que Linda estava livre novamente. — Lilly não tem família — Christine elucidou. — Agora ela é nossa responsabilidade e estamos meio perdidas quanto a isso. Não pude evitar que o pensamento se formasse. O fato era que, se eu pudesse ajudar Linda a lidar com os entraves pelos quais estava passando, talvez ela pudesse ver que nosso relacionamento não se baseava apenas em mim tirando vantagens dela. Eu não gostava de vê-la sofrer, e ela já deveria ter se dado conta disso a essa altura, tampouco passar por dificuldades que eu poderia abrandar. — Talvez eu possa ajudar — ofereci, assistindo a Linda se preparar para recusar a oferta.


Outra vez, no entanto, Christine foi mais rápida. — Seria ótimo, na verdade! — Me diga do que precisam e posso ver se está ao meu alcance. — Não acho que essa seja uma boa ideia — Linda interveio, por fim, visivelmente aborrecida com minha oferta. — É uma excelente ideia, Linda — Christine arguiu. — Temos um CEO à nossa porta e uma adolescente desempregada e sem experiência. Você sabe o quanto é difícil conseguir um bom emprego. — Eu não escutei exatamente a parte em que Robert oferecia um emprego a Lilly — contrapôs. — Ele falou, citando: “me digam do que precisam e posso ver se está ao meu alcance.” — Então o que devo fazer agora? Convidá-lo para o jantar para que possamos falar melhor sobre o assunto? — Linda escarneceu, soltando um bufar incrédulo. Em contrapartida, Christine abriu um sorrisinho quase cúmplice para mim. Ignorando deliberadamente a ironia de Linda, lançou: — Linda fez lasanha pela segunda vez em dois dias. O senhor aceita ficar e jantar com a gente?

Desde a fatídica noite em que Linda e eu fomos enredados por Susan para acreditar no pior não tive a oportunidade de fazer algo que de fato apreciava: sentar-me com Linda à mesa, saboreando uma refeição feita por ela e conversar sobre assuntos cotidianos. Era bem verdade que ela não estava lá muito participativa, contudo, não relutou quando me ofereci para integrar Lilly no programa de estágio na empresa, tampouco retorquiu quando exigi que Lilly conciliasse emprego e estudos, assegurando-lhe que a ajudaria.


Talvez o sorriso aberto e encantado da garota tenha desarmado Linda. O fato era que, por mais inexplicável e absurdo que parecesse, mesmo me propondo a ajudar Lilly porque isso implicava ajudar Linda, eu não podia negar que gostava do modo animado como o olhar juvenil não saía de mim enquanto ela pesava as possibilidades da nova vida. Tudo isso fazia com que ela se parecesse ainda mais com Linda, e questionei-me como a vida desta última teria sido caso ela houvesse tido a chance de receber as mesmas oportunidades que eu agora oferecia a Lilly.


Era difícil acreditar que em tão pouco tempo as coisas tivessem chegado a extremos. Conheci o homem por quem fui apaixonada durante a adolescência e toda minha vida adulta, amei-o ainda mais, me casei, entreguei meu corpo e coração… para depois experimentar a dor mais excruciante de todas. Tentei remendar minha capacidade de confiar nas pessoas, busquei uma forma de não me tornar amarga e fria, como Robert era, e por isso dei uma chance a Will. Olhos meigos, sorriso gentil, palavras doces… atitudes de cafajeste. Fiz inúmeras comparações em meus relacionamentos. Endeusei as atitudes de Will e me obriguei a ver cada uma de suas pequenas qualidades, enquanto enumerava, interiormente, os defeitos de Robert e todas as coisas que me incomodavam nele. Contudo, nada disso adiantou, porque, apesar dos pesares, era sempre Robert quem surgia em meu socorro quando algo não ia bem. Foi assim anos atrás, no orfanato; quando comecei a trabalhar na empresa dele, mesmo sem experiência alguma, crua e recém-formada; com Javi, quando ele precisou de emprego e Robert o colocou na Wood Business; com Eva, na vez em que ela adoeceu e Robert custeou toda a medicação; noites atrás, quando Will se mostrou disposto a um dos atos mais vis de que um homem seria capaz, Robert surgiu do nada e impediu que algo irremediável acontecesse. Seus braços me ampararam, Will soltou um murmúrio ininteligível, provavelmente de dor, e, por instinto, eu me apertei a Robert, porque ele era toda a segurança e apoio de que


eu precisava no momento. As lágrimas não rolaram, mas o nó na garganta era indelével e eu não conseguia entender como um homem tão frio e com um coração de gelo poderia ser também o dono dos braços que me envolviam e aqueciam, derretendo a angústia e o medo que há pouco ameaçavam me sufocar. Robert me acompanhou até meu apartamento e prometeu lidar com Will; Lilly, por sua vez, respeitou meu silêncio, mas se aninhou a mim como se passasse segurança e apoio. Este, sem dúvida, era um assunto no qual eu não gostaria de pensar, e ter Lilly por perto ajudava a desviar minha mente das coisas ruins. Ela trazia tanta leveza e inocência… era como ver a mim mesma através de um túnel do tempo. Tudo tão exatamente igual, que Robert surgiu esbanjando charme e acabou colocando no rosto de Lilly um sorriso que parecia impossível de morrer. Justo quando pensei que não havia mais assuntos inacabados entre nós, ele encontrou um jeito de se enfiar em minha vida e resolver algo que estava além de meu alcance.

— Ainda estou tentando entender como você foi capaz de se divorciar de Robert para ficar com o idiota do Will — Lilly comentou, fingindo casualidade, ao mesmo tempo que devorava o segundo cachorro-quente da noite. Nós estávamos sentadas à mesa da cozinha. Christine, outra vez, precisou sair devido a um compromisso inadiável, e éramos apenas Lilly e eu em casa. E seu apetite, que não parecia diminuir nunca. — Primeiro: é senhor Blackwell para você, já que agora, ao que parece, ele é seu chefe. Segundo: não me divorciei dele para ficar com Will. Meu casamento já estava acabado quando Will apareceu e… — Por que acabou? — ela me interrompeu, no intervalo entre uma mastigação e outra. — Quer dizer, ele é… uau! Lindo pra caramba! E rico pra


caramba! Educado pra caramba! Cheiroso pra caramba! E sexy pra caramba também! — E você me parece ser fã pra caramba! — articulei, incrédula, recebendo um erguer de ombros em resposta. — Acredite em mim, ele não é tão bonito por dentro quanto é por fora. Recolhi as embalagens sobre a mesa e as descartei na lata de lixo, lavando as mãos para desengordurá-las, dando o assunto por encerrado. Mas Lilly não sabia o momento certo de simplesmente deixar um tópico morrer. — Ele me ajudou a troco de nada sem nem me conhecer, e, até agora, só encontrei uma outra pessoa louca o bastante pra fazer isso: você. Eu me virei para encará-la, estupefata pela comparação. Lilly arqueou uma de suas sobrancelhas, jocosa, numa espécie de afronta. — Robert nunca faz algo livre de segundas intenções, Lilly. O fato de ele não ter exigido nada agora não significa que cedo ou tarde ele não vá cobrar a dívida. Ela bufou, meneando a cabeça, como se eu tivesse acabado de dizer algo absurdo ao extremo. — Foi por isso que vocês se separaram? — instigou. — Não. Sim. Mais ou menos. É uma longa história — gaguejei de volta para ela, incerta sobre como dar-lhe uma resposta sucinta e satisfatória. — Eu tenho tempo. — Lilly, não vou discutir meu relacionamento e de Robert com você. — Por que não? Eu estou curiosa. Ele claramente ainda está a fim de você, e nem preciso dizer a cara que você faz quando está perto dele. — Lilly… — Ah, Linda! — chamou, jogando as mãos para o alto num gesto exagerado de exasperação. — Vamos lá! Você ama ele, ele te ama, por que não… — Robert se casou comigo para cumprir uma cláusula no testamento do pai dele — eu a cortei, as palavras atropelando-se no meio da sentença. Eu sentia o calor irradiando desde a base do meu pescoço até minhas bochechas, provocado pelo misto de revolta e vergonha que me assolava sempre que eu me lembrava de como e por que as coisas entre mim e Robert de fato aconteceram. — Quê? — Ela franziu as sobrancelhas, os olhos estreitos em minha direção dando-lhe um ar desentendido. — Eu não sabia — emiti num suspiro exausto. — Acho que estava tão deslumbrada pelo fato de ele finalmente reparar em mim, que… — Hesitei, buscando as palavras que melhor expressassem o ocorrido. — Fechei os olhos para o óbvio. Robert Blackwell não olharia para a garota da contabilidade a troco de nada — concluí amargamente, sentindo-me uma boba por algum dia ter


pensado o contrário. — Espera… está dizendo que para receber uma herança ele teve que se casar com você, é isso? — Não. Ele precisava se casar com qualquer mulher com quem quisesse. De preferência com Britney, suponho. Isso explicaria o porquê de ela e James me odiarem tanto — divaguei por um momento, lembrando-me de toda a animosidade de Britney com relação a mim e de todos os insultos que James me dirigiu, meses atrás, no escritório de Robert. Era difícil conceber que o homem a me defender com garras e dentes e que esteve tão vulnerável sob meus cuidados, naquela época, era o mesmo que me via como um simples mal necessário. — Espera! Quem é Britney? E James? Ele é o pai do Robert? — Lilly inquiriu, no rosto, uma expressão confusa e ávida por mais informações. — James é o advogado de Frederick, pai de Robert, quem teve essa ideia estúpida de casamento. — E Robert não escolheu essa tal Britney, e sim você, é isso? — É. É isso — concordei, também num meneio de cabeça, assistindo a um sorrisinho cúmplice se abrir nos lábios de Lilly. — Mas não porque ele gostava de mim — apressei-me em dizer, antes que ela formulasse alguma situação romântica, como eu mesma fizera. — Então pelo quê? — Para provocar o pai. Olhe para mim, Lilly. Pobre, comum, quase… — Titubeei, as palavras de James voltando a assolar minhas lembranças. — … quase vulgar — eu me decidi por fim, não sem experimentar o efeito doloroso que a escolha de palavras teve em mim. — Perto de pessoas tão requintadas, eu sou um completo vexame. Foi por isso que Robert me escolheu. A face de Lilly ainda era um espelho da desordem de seus pensamentos. — Você vai precisar explicar isso um pouco melhor… — Eu já disse que é uma longa história — lembrei-a. — E eu já disse que temos tempo.


Lilly se mostrou uma boa ouvinte. Curiosa e inquiridora, mas também capaz de longos silêncios. Eu a guiei pela novela que fora minha vida durante os meses em que me relacionei com Robert e ela escutou a tudo com atenção, obrigando-me a realizar pequenas pausas para sanar um ou outro questionamento seu. Foi uma longa conversa, porém, bastante esclarecedora. — Sinto muito que tenha passado por tudo isso sozinha — ela murmurou por fim, após um longo suspiro e uns poucos segundos de silêncio. — Bem, eu tive Christine, Javier e Eva também. Você vai conhecê-los logo, logo, eu prometo. — Sorri. — Eles parecem pessoas legais. — De fato. Sei que vai gostar deles, como gostou de Christine. — Só espero que eles não reajam exatamente como Christine. — Deu de ombros, com um sorriso travesso. Nós duas sabíamos que Chris não havia caído de amores por ela de modo instantâneo. — Você usou os produtos dela de higiene pessoal. Eu nunca fiz isso, por que acha que nos tornamos amigas? — brinquei, arrancando uma risadinha de Lilly, que acabou me embalando. Mas, então, tão logo surgiu o sorriso, ele desvaneceu. Os olhos cor de chocolate de Lilly me encararam, ela se inclinou um pouco mais sobre a mesa, torcendo os dedos das mãos e vestindo uma expressão sóbria demais para uma garota de sua idade. — Os González são o motivo de você nunca ter procurado pelos seus pais biológicos? — inquiriu, de pronto. — Digo, por eles serem uma espécie de família pra você… A pergunta me pegou de surpresa e não fui capaz de elaborar uma resposta imediatista. Lilly e eu ainda não sabíamos tudo uma sobre a outra, contudo conhecíamos detalhes suficientes de nossas vidas para estarmos cientes de que havia muitas coisas em comum. Ela fugiu do orfanato há quase um ano e, desde


então, vinha se virando sozinha na rua, como eu decidi fazer um dia. Não tinha família, amigos ou alguém em quem confiar. Lilly era como uma nova versão minha, a qual eu esperava que tivesse menos infortúnios em sua vida adulta. — Honestamente, Lilly, eu nunca pensei muito sobre isso — admiti. Ponderar sobre uma possível família foi algo que nunca me permiti fazer. Estranhamente, eu era muito boa em não me permitir. Talvez por isso ceder às investidas de Robert tenha sido tão atraente, porque ele foi tudo o que eu quis por tanto, tanto tempo, que sequer conseguia me lembrar de como era a vida antes de me apaixonar por ele. Soava como uma completa loucura, mas passei tantos anos podando minhas expectativas, abortando meus pensamentos acerca de como seria ir à procura de minha mãe biológica e questionar-lhe sobre o porquê de ela ter me deixado sozinha, tantos anos atrás, à porta daquele orfanato, que, quando alguém finalmente fez algo inesperado e bom por mim, foi impossível não me apaixonar e idealizar o ser humano perfeito por trás daquele jovem empresário bem-sucedido. — Por que não? — Lilly perguntou num sussurro débil. — Porque é tão doloroso imaginar as inúmeras razões que podem levar uma mãe a abandonar um filho — confessei, o coração apertado dentro do peito. — Em especial um recém-nascido. Faz você se perguntar o que há de tão errado com você por não ter sido capaz de inspirar amor nem mesmo na pessoa que deveria amá-la sobre todas as outras coisas… Lilly acenou em concordância. Era bem provável que ela se sentisse do mesmo modo que eu. Duas órfãs, sem memórias de seus pais e sem a menor ideia de por que a vida tinha que ter sido tão dura desde sempre. — Eu nunca quis ser adotada — confessou, os olhos marejados enquanto se fixavam num ponto qualquer às minhas costas, um gesto deliberado de fugir do meu olhar. — Sempre pensei que, se ficasse tempo o bastante no orfanato, meus pais voltariam por mim. Como se só estivessem esperando a fase ruim passar, sabe? Antes de me levarem pra casa. — Deu de ombros, enxugando a lágrima que escorreu sem permissão por sua bochecha. Sim, eu sabia. Foi o mesmo que pensei tantos anos atrás, antes de ir para o primeiro dos meus muitos lares provisórios. — Mas eles não voltaram — concluí, porque, por mais que Lilly e eu tivéssemos desejado aquilo, o fato de estarmos ali, sentadas, tendo aquela conversa, era a prova de que nossos anseios não se realizaram. — Ao menos meu sonho de não ser adotada se realizou. Não permanentemente. É impossível escapar dos lares provisórios, hã? — Ela tentou sorrir, porém, foi apenas um gesto fugaz que, quando foi embora, não deixou o menor sinal de já ter existido.


Não me preocupei em imitá-la, porque sabia que não ajudaria em nada. Sem pedir permissão, minha mente formou imagens de uma Lilly mais nova, sendo levada e trazida de lares provisórios, perguntando-se se chegaria o dia em que uma família não iria desistir dela. Esta era uma pergunta que eu fazia a mim mesma sempre que eu era levada para um novo lar. — Será como é a sensação? — Lilly rompeu o silêncio algum tempo depois. Os olhos continuavam marejados, bem como os meus, todavia, ela não se preocupou em escondê-los de mim. — Que sensação? — De ter uma família de verdade. Uma casa com uma mãe que te dá broncas, mas sempre prepara sua sobremesa favorita e conta uma história bonita pra te ajudar a dormir melhor. Um pai que te leva de carro pra escola e impõe horários pra voltar pra casa. Uma família de verdade, não igual àqueles lares provisórios. Você sabe, essas coisas que a gente vê em filmes. Será como é? Outra vez, Lilly me pegou de surpresa. Eu queria ser capaz de dizer-lhe algo reconfortante e que exorcizasse todos os seus pensamentos negativos de uma vez por todas. Queria assegurar-lhe que, por mais que as coisas não tivessem dado certo para nenhuma de nós duas, no passado, o futuro não precisaria ser do mesmo modo. Contudo, como eu seria capaz de afirmar algo assim quando minha vida era uma bagunça? — Eu não faço a menor ideia — retorqui, por fim, decepcionada por não ser a pessoa mais apropriada para palavras de incentivo. — Espero que seja bem chato — ela tentou gracejar, sem muito sucesso. — Bem, eu, dentre todas as pessoas, sei que não é a mesma coisa, mas… — Segurei suas mãos, antes pousadas sobre a mesa, entre as minhas. Lilly içou seu olhar em minha direção, fitando-me atentamente. — … agora você é parte da família formada por mim, Chris, Javi e Eva. Não somos muito tradicionais, só que há sempre espaço para mais um. Posso ser sua irmã mais velha e te dar broncas quando você quiser — caçoei, fazendo uma pinça com meus dedos indicador e do meio, prendendo o nariz de Lilly entre eles. Ela sorriu, rechaçando o contato irritante. — Okay. Prometo deixar sua vida impossível também. Feito? — ela disse, estendendo a mão para um aperto, como se estivéssemos prestes a firmar um negócio. — Feito.


C omo assegurei a Linda, providenciei para que Lilly fosse matriculada no colégio, a fim de retomar os estudos, os quais ela conciliaria com suas funções dentro da R Blackwell, mesmo que eu ainda não soubesse muito bem que funções seriam essas. As coisas pareciam estar entrando nos eixos: Linda aceitou minha ajuda e terminou seu relacionamento com Will — mesmo que eu não gostasse nada dos meios, era inegável o fato de que eu apreciava muito o fim; Rosalie, minha antiga secretária, decidiu que voltaria ao trabalho; Paige demonstrou desinteresse em fazer de James seu mensageiro particular e não mais me incomodou nos últimos dias… Tudo estaria perfeito, não fosse Linda seguir reticente quanto à minha oferta para ajudar Lilly. Na outra noite, quando me retirei de seu apartamento e ela me seguiu, pensei que talvez tivesse voltado atrás em sua decisão de não tocar no assunto Will, mas não. Em vez disso, ela içou os olhos em minha direção e sustentou meu olhar. — O que isso vai nos custar? — dissera, num tom, de certo modo, mordaz. — Do que está falando? — Franzi o cenho em confusão. — Da ajuda com Lilly. O que isso vai nos custar? Se tem algo que aprendi, Robert, é que nada vem de graça, quando se trata de você. Eu certamente não podia culpá-la por pensar assim, tampouco pude evitar me sentir mal com aquelas palavras. Elas eram mais uma amostra do quanto Linda


ainda guardava ressentimentos, e a dor dela jamais doeria menos em mim. Desistindo de refutar sua acusação, apenas dei um passo ao seu encontro, aproximando-me um pouco mais. Como fizera minutos antes, toquei sua face com os nós de meus dedos. — Só quero aliviar suas preocupações e resolver por você todas as coisas que estiverem ao meu alcance e longe do seu. Tenha uma boa noite — despedime, depositando um beijo na maçã de seu rosto, apreciando o contato de meus lábios com a pele cálida e me afastando em seguida. — A propósito, obrigado pelo jantar. Há muito tempo eu não tinha uma refeição tão boa assim.

— Deixa eu ver se entendi… basicamente, vou servir café e andar de um lado para o outro, levando e trazendo documentos, colhendo assinaturas e essas coisas todas? — Lilly inquiriu, pouco satisfeita com a função que Rosalie lhe designara. — Não se esqueça de que prometeu a Linda que iria estudar em todos os seus intervalos — eu a lembrei, recebendo um bufar e um girar de olhos. — Ela é mesmo o único motivo de você estar fazendo isso, certo? — Sim, ela é, entretanto não precisamos espalhar a informação. Lilly pousou as mãos sobre o tampo da mesa do meu escritório, inclinandose para mim. — Linda me disse que você não era a fim dela quando se casaram. Mas isso não é verdade, né? Você é super a fim dela. — Lilly abriu um sorriso enviesado. Eu a encarei, cético com o que acabara de ouvir saindo de sua boca. — Não acha que tem audácia demais para uma garota de 17 anos? — ralhei. — Desculpe — emendou, meio desconcertada. — Linda me disse que eu deveria chamá-lo de senhor. Só é difícil chamar assim o cara que é mais ou menos meu cunhado. — Deu de ombros, esboçando naturalidade.


Foi impossível conter a risada gutural que irrompeu por entre meus lábios logo em seguida. Fazia algum tempo desde que ri assim pela última vez. Linda e eu ainda estávamos na nossa bolha, o lugar seguro e inatingível no qual eu era perfeitamente capaz de manter um relacionamento saudável ao lado dela. Onde minhas atitudes para fazê-la feliz valiam mais que palavras vazias de alguma espécie barata de romantismo. — Quase cunhado? — instiguei, querendo que ela articulasse um pouco mais. — É. Você… senhor — corrigiu-se — sabe. Linda é minha irmã, agora. Uma bem osso duro de roer, mas o senhor tem minha simpatia. Muito diferente de Will, que foi um completo imbecil comigo. — O que ele fez? — questionei, receoso, porque se ele já foi capaz de agir como um crápula com Linda, por quem se dizia apaixonado, não me espantaria que fizesse coisa ainda pior com Lilly. — Me tratou como uma marginal — respondeu num fio de voz, parecendo desconfortável em ter que fazê-lo. — Ao menos você… o senhor — tornou a retificar-se — me tratou como um ser humano comum. — O esboço de um sorriso pairou em seus lábios, no entanto, não era um gesto feliz, e sim tristonho. Sorri para ela, regalando-lhe toda condescendência que havia em mim. — Will não vai mais incomodar você ou Linda — assegurei. — E você não precisa me chamar de senhor. Não quando eu estou tentando reconquistar sua irmã. O sorriso que ela abriu desta vez foi genuíno. Muito parecido aos de Linda, contudo Lilly tinha trejeitos irônicos e ardilosos que as diferenciavam. — Que fique bem claro que, depois de eu ter descoberto as condições do casamento, sou a favor de Linda dificultar um pouco as coisas pra você. — O quê? — Nada de “o quê?” pra cima de mim. Linda é minha família agora. Talvez tenha sido fácil demais conquistar ela da primeira vez, mas agora ela tem uma irmã mais nova superprotetora. Esteja avisado — despejou, lançando uma piscadela e recolhendo uma porção de envelopes de papel pardo sobre a mesa à sua frente. Permaneci estático, incrédulo, não obstante, com força e disposição renovadas para mostrar a Linda que o lugar dela era ao meu lado, nem um milímetro distante.


Os jantares em família tornaram-se tradição para mim quando me casei com Linda. Bem, de certo modo. Eles passaram a funcionar quando consegui que meu casamento também fluísse bem, e isso era algo de que eu sentia falta. Na casa de Lizzie ou no meu apartamento, o que importava era saber que Linda sempre daria um jeito de preparar algo delicioso para saborearmos, porque ela era apaixonada por cozinhar e também porque era excepcional nisso. Cada um tinha seu prato favorito e Linda fazia questão de satisfazer ao maior número de desejos que conseguisse. Desde que ela me deixou, no entanto, os jantares em família escassearam, dada minha inaptidão de contar a verdade a Sofie e dizer que Linda e eu já não estávamos mais juntos. No começo, tive o apoio de Elizabeth, agora, no entanto, sentada à mesa de jantar da mansão Blackwell, onde eu vivia sozinho, minha irmã impacientava-se ante minha demora em esclarecer para Sofie a razão de sermos apenas quatro pessoas à mesa, em vez de cinco. — Tia Linda nunca mais vai poder jantar com a gente, tio Rob? Por quê? Foi alguma coisa que Sofie fez e deixou tia Linda triste, foi? — ela insistiu, o semblante abatido, usando a terceira pessoa para referir a si mesma numa tentativa de infantilização que vinha crescendo com a proximidade do parto de Matt. — Você não fez nada de errado, querida — Lizzie interveio. Não em minha defesa, mas, sim, no intento de confortar a filha. — Tia Linda ama você. Ela até mesmo foi lá em casa recentemente, lembra? Quando aceitou ser a madrinha de Matt. — Linda aceitou ser madrinha de Matt? — inquiri, ansioso com a possibilidade, recebendo um olhar reprovador de minha irmã. — Quer dizer… — Ela não te contou, tio Rob? — Sofie quis saber. — Ela vai ser madrinha de Matt. O senhor vai ser o padrinho, não é, mamãe? — Sofie! — Michael ralhou, fazendo a filha encolher os ombros e


desculpar-se, voltando a cutucar com a ponta do garfo o jantar que tentei improvisar, baseando-me em uma das receitas de Linda. Não ficou ruim, tampouco parecido com o sabor que ela costumava obter. — O papai disse que era um segredo, lembra? Nós ainda íamos perguntar ao tio Robert. — Desculpe — Sofie voltou a murmurar, trazendo seus olhos azuis reluzindo para mim. — Mas o senhor aceita, não é, tio Rob? Porque tia Linda já aceitou, o quê que tem se o senhor também aceitar? Abri um sorriso para ela, segurando a mãozinha pequena e tenra sobre a mesa, acariciando-a. — Claro que sim, princesinha. Você sabe que eu jamais negaria um pedido seu, não sabe? Ela meneou a cabeça em afirmativo, sorrindo-me de volta, os olhos ainda mais brilhantes. Tão puros e vívidos que me desconcertaram. — O senhor bem que podia ser meu padrinho também, né, tio Rob? — lançou, recebendo um olhar doce de Lizzie, que a fitava com admiração. — E a tia Linda podia ser minha madrinha. O que o senhor acha? — Acho uma ideia excelente. Eu vou adorar — admiti, beijando o dorso de sua mão, nada preocupado em disfarçar o quanto ela me encantava, feliz por Lizzie ter me privado de assumir um posto importante na vida de Sofie, anos atrás, apenas porque isso implicava ter que estender o convite a Britney. Michael abriu a boca para dizer algo, contudo, a campainha soando roubou nossa atenção. Pedi licença ao me levantar da mesa, a fim de atender o visitante inesperado, porém, nada jamais poderia ter me preparado para o que aconteceu em seguida. À porta estava James, o mesmo olhar acinzentado que aprendi a detestar ainda mais nos últimos meses. A expressão sisuda tentando mascarar sua falta de bom senso. Ao seu lado, uma mulher elegante na casa dos 40 anos, pose altiva e um brilho argucioso no olhar acompanhado de um sorriso enviesado. Os cabelos castanho-avermelhados adornavam o rosto de feições harmoniosas e iam até abaixo dos ombros. Os olhos num tom de verde-musgo desafiando-me a fitá-la. — Boa noite — James Smith saudou num tom de voz indecifrável, rompendo o silêncio incômodo. — Espero que não estejamos interrompendo nada. Apesar de ser ele a tomar a iniciativa de dizer algo, minha atenção não era sua, e sim da bela mulher ao seu lado, que, por alguma razão indiscernível, despertava em mim um desconforto descomunal enquanto me analisava. — Na verdade estão, sim, interrompendo, James — articulei, vestindo minha melhor expressão inamistosa. — Estamos no meio de um jantar em família, e se você veio até aqui para servir de mensageiro particular outra vez… — Ah, longe disso, garoto — refutou a ideia, fazendo um gesto displicente


com uma das mãos. Trinquei os dentes, porque odiava ser chamado de garoto e James sabia disso. — Nada de recados. — Virou-se para sua acompanhante, mas ela não retribuiu o gesto. — Você ouviu? Jantar em família. Isso significa que Elizabeth também está aqui. Acho que este é o seu dia de sorte. — Riu, o mesmo sorriso reptiliano que me causava náuseas. — Michael! Elizabeth! Onde estão? — chamou em alta voz. Levou alguns segundos, mas o próximo som a ser discernido foi o arrastar das cadeiras sobre o piso amadeirado, vindo da sala de jantar, onde Elizabeth, Michael e Sofie me esperavam para juntar-me a eles. Eu não estava certo de como aconteceu, ainda assim, num estante James estava do lado de fora, à soleira da porta. No outro, estava se embrenhando pelo hall, cumprimentando uma Elizabeth atônita com um beijo no rosto, bem como Sofie e Michael. — Pai? O que faz aqui? — Michael questionou, confuso. — É muito bom que estejam todos reunidos — James tornou a falar, fazendo um gesto para que a mulher que viera junto com ele também adentrasse o cômodo. — Tem alguém que quero que conheçam. Esta é… — James, querido, por favor — a mulher o interrompeu, sua voz forçadamente melodiosa soando branda demais aos meus ouvidos. — Eu tenho esperado tempo demais por esse momento para que você o roube de mim. — Sorriu, dando passos graciosos para o interior do cômodo e fitando a mim e a Elizabeth. — Sou Paige. Paige Williams. A madrasta de vocês. Paige. Paige Williams… O nome reverberou em meus pensamentos enquanto Paige sorria, dissimulada, o olhar alternando entre mim e Elizabeth, seu contentamento crescendo concomitante ao choque que agoniava a mim e à minha irmã. A cólera me assolou em milésimos de segundos, acelerando meus batimentos cardíacos enquanto meus punhos se fechavam, parecendo pegajosos demais, devido ao suor. Em menos de 2 segundos, desferi um soco em James, os nós de meus dedos acertando-lhe a mandíbula e fazendo-o cambalear até atingir o solo. — Seu desgraçado! — grunhi para ele, dois gritos distintos e agudos soando no ambiente, aos quais identifiquei como sendo de minha irmã e sobrinha, seguidos do choro estridente de Sofie. Sequer tive tempo de administrar um novo golpe. Michael adiantou-se até mim, prendendo meus braços às minhas costas, gritando algo incompreensível, no intuito de que eu me acalmasse. Não funcionou. — Tire as mãos de mim, Michael! — exigi, a voz saindo mais parecida a um rosnado que a qualquer outra coisa. — Eu mandei tirar a porra das suas mãos de mim! — Debati-me, recebendo um aperto ainda mais firme enquanto James se levantava, sendo amparado por Paige. — Eu não vim causar discórdia — ela falou, a voz inalterada, apesar de os


ânimos o estarem. — Quero apenas resolver um pequeno mal-entendido — esclareceu, os olhos buscando minha expressão. — Esta casa, Robert. Acredito que o seu pai a tenha deixado para mim, não? — Mercenária! — cuspi em resposta, furor consumindo todo e qualquer bom senso que eu pudesse ter. — Você merece voltar para a sarjeta de onde Frederick a tirou! — Sua mãe não o ensinou a tratar uma dama? Sou viúva de seu pai, não acho que… — Viúva? — escarneci, os músculos ainda mais tensos e enrijecidos pela ira. — Você não passa de uma amante inescrupulosa. Isso é o que você é! Paige não me pareceu afetada. Em lugar disso, lançou-me um novo sorriso, desta vez, mordaz. — O testamento do seu pai diz outra coisa, Robert. Precisa que eu refresque sua memória? Talvez sua esposa possa fazê-lo, já que ela sabe muito bem do que estou falando. Onde ela está? Oh, é claro, eu havia me esquecido… você não tem uma esposa — provocou. — Cale a porra da boca! Você não sabe do que está falando! — Não? — Franziu o cenho, dissimulada. — Sei que sua mulher o deixou porque, convenhamos, a vida ao seu lado não deve ter sido nada fácil. — Cale a boca! — voltei a comandar, mas ela não se deteve. — A única coisa mais irrisória que a cláusula de Frederick foi o fato de você tê-la cumprido. Por que, Robert, com seu histórico de revolta, você precisava obedecer ao seu pai justo agora? — Eu estou avisando… — ameacei, tentando me livrar do aperto de Michael, que apenas se tornou mais preciso. — Você não é o filho favorito só porque fez a idiotice que ele ordenou! Você não é o filho favorito e nunca vai ser! Na verdade, Frederick não… — Chega! — Elizabeth berrou em protesto, levando as mãos aos ouvidos num gesto infantil, como se assim pudesse fugir das palavras de Paige. — Vá embora! Deixe a minha família em paz! Será que já não causou danos suficientes? — pranteou, lágrimas espessas rolando por sua face, aumentando meu desespero e também o de Sofie. — Deixe a minha família em paz! Deixe minha família… ai! — Lizzie gemeu, debruçando-se sobre seu ventre enquanto levava uma das mãos até o local, o rosto franzido de agonia. Michael soltou meus braços no mesmo instante, correndo até Lizzie, amparando-a nos braços enquanto ela gemia de dor e tentava voltar à posição ereta. Sem sucesso, contorcendo-se, Elizabeth soltou uma lamúria mais arrastada e sofrida, os joelhos batendo no chão em um baque surdo ao passo que Sofie chorava ainda mais alto, aumentando meu atordoamento.


— Lizzie — eu chamei, apreensivo, assistindo aos olhos dela se apertarem e darem vazão a lágrimas ainda mais abundantes. — Liz, por favor, fale comigo, o que está acontecendo? — praticamente implorei, sem norte, ajoelhando-me no chão, ao seu lado. Então, como que para exemplificar, ela levou uma das mãos até o meio das coxas, atraindo minha atenção e a de Michael. Meus batimentos ganhando um ritmo frenético quando vi minha irmã prostrada sobre uma quantidade absurda de líquido transparente que se tingia de vermelho em diversos pontos, talvez pontos demais. — Matt — ela soluçou entre o choro. — Oh, Deus, não, por favor, meu bebê não… Atônito, por alguns segundos, não pude fazer muito mais além de assistir à expressão de angústia e desolação estampada no rosto de minha irmã. A cólera ainda estava lá, contudo, e foi ela quem me despertou. Pela segunda vez na noite, soquei James como se minha vida dependesse disso, mas, agora, Michael estava preocupado demais com Lizzie para me deter. Paige não interveio, e foi a vez de James gemer de dor enquanto eu o segurava pelas lapelas de seu paletó, a fim de encará-lo. — Se alguma coisa acontecer a Lizzie ou a Matt, seu desgraçado, eu juro que vou fazer com que você deseje jamais ter nascido! — cuspi para ele, jogando a carcaça semi-inerte para junto de Paige. — Saia da minha casa. Agora! E leve essa mulher desprezível com você! Cambaleante, James fez o que ordenei. Paige não protestou, todavia, antes o tivesse feito, porque o olhar que ela me lançou prometia fazer da minha vida um inferno. — Robert — Michael chamou às minhas costas, e eu me virei para fitá-lo, encontrando sua expressão sofrida. — Lizzie… — murmurou simplesmente, e foi o bastante para tirar-me do torpor em que me encontrava e obrigar-me a fazer algo capaz de ajudar minha família e aliviar a desolação que eu via agarrada às feições infantis de minha sobrinha.


P or mais simplórias que fossem suas funções, Lilly estava feliz, na R Blackwell, e muito animada com sua volta aos estudos. Ela gostava de discorrer sobre as coisas novas que aprendia diariamente e, mesmo exausta, demonstrava empolgação pela chegada do dia seguinte. Incomodava-me apenas que ela e Christine tivessem decidido se juntar a fim de enumerarem todas as aparentes qualidades de Robert e apontá-las para mim. Pareciam empenhadas em dissuadir-me da opinião formada que eu tinha sobre ele, como se isso fosse mesmo possível. Assim sendo, cansada de discutir sobre o assunto, adotei a atitude de apenas escutar, em silêncio, enquanto Christine e Lilly rasgavam elogios exacerbados direcionados a Robert e diziam como eu deveria dar a ele uma segunda chance.


O dia no escritório fora insuportável. Era sábado, e eu não precisaria trabalhar, a menos que tivesse tarefas acumuladas. E eu sempre as tinha. Meu chefe era um homem truculento e difícil de lidar. Soltava piadas sem graça, reparava demais no comprimento das roupas de suas funcionárias e reconheceria o decote de qualquer uma mais facilmente do que reconheceria nossos rostos. Seria mentira dizer que não me aborreciam seus olhares enviesados e furtivos, porém, esse incômodo não era o bastante para fazer-me pedir demissão e pôr um fim à angústia que era adentrar aquele escritório, dia após dia, e sentir-me perscrutada a cada mísero movimento. Eu sabia quão difícil seria encontrar um novo emprego e tampouco suportava ficar mudando meu local de trabalho com tanta frequência como fiz desde que… bem, desde que me casei com Robert. Eu esperava poder desabafar com Christine quando chegasse em casa. Conversar com ela sobre os meus percalços e ao menos uma vez me dar o direito de reclamar de algo que me fazia infeliz. Por isso, após o expediente, decidi sair com ela e Lilly para uma volta no shopping. Christine declinou o convite, para minha surpresa, já que ela nunca dispensava a oportunidade de ir às compras. Durante nosso passeio, Lilly e eu encontramos alguns de seus amigos no shopping e ela me pediu — quase implorou, na verdade — que eu lhe deixasse ir ao cinema com eles. Relutei, é claro, mas lembrei-me de minha falta de vida social e eu jamais desejaria algo assim para Lilly, de modo que acabei cedendo. De volta ao apartamento, o primeiro som que me recebeu quando pus os pés dentro da nossa modesta sala de estar foi o choro de Christine, baixinho, como se ela tentasse escondê-lo ao ouvir a porta se abrindo. — Chris? — chamei, observando-a enxugar as lágrimas num gesto brusco. — O que houve? — eu quis saber, sentando-me ao seu lado no sofá e afagandolhe as costas, minha bolsa esquecida no chão aos meus pés. — Não é nada — fungou, usando o dorso de sua mão direita para limpar a coriza. — Como assim, não é nada? Você tem um nariz ultravermelho, olhos inchados e tudo o mais. Desde quando Christine Westwood chora por nada? Ela me fitou por um momento, num conflito interior, como se tentasse decidir sobre contar ou não o que estava acontecendo. — Nada importante… — Mordeu o lábio, após um longo suspiro, esfregando o rosto num gesto nervoso e impaciente. — Ei, se você não puder contar comigo, então com quem vai contar? — Segurei as mãos de Christine entre as minhas, pacientemente esperando que ela


decidisse expor o que a incomodava. Chris era a pessoa mais extrovertida que eu conhecia e fazia o tipo que não guardava suas aflições. Se algo a incomodava, ela fazia questão de deixar claro seu irritamento. — É tão complicado, Linda. — Sou especialista em coisas complicadas, sabe? Olha bem pra minha vida amorosa. — Você tem um CEO lindo e bilionário rastejando aos seus pés, implorando uma nova chance, mas é teimosa e não admite que ainda é apaixonada por ele. Essa é sua maior complicação, no momento. Abri e fechei a boca repetidas vezes, em choque, sem saber ao certo o que pronunciar, porque Christine estava realmente fora de si se achava que Robert seria capaz de algo como rastejar seja lá pelo que fosse. — Não era isso o que eu queria dizer — foi o que consegui articular. — Foi o que eu entendi — devolveu, numa intenção clara de desviar do assunto principal. — Chris, por favor. Nós sempre conversamos sobre nossos problemas. Por que precisa ser diferente agora? Tornou a morder o lábio, titubeante, soltando uma longa lufada de ar em seguida. — Okay — concordou, ainda reticente, contudo. — Mas promete que não vai me julgar? Promete mesmo? — Eu jamais julgaria você. Ela aquiesceu com um aceno de cabeça, respirando fundo antes de prosseguir. — Bem, é que… Então meu celular começou a tocar. Eu o ignorei, os olhos fixos em Christine, mas o barulho insistente era a desculpa que ela tanto queria para se esquivar de nossa conversa. — Esqueça — emitiu num suspiro, levantando-se e caminhando em direção ao seu quarto. — Não, Chris — intervim, alcançando-a e segurando-a pelo antebraço, a fim de que ela me encarasse —, eu retorno depois. O toque cessou por alguns segundos, provavelmente quando a chamada foi para a caixa postal, porém, quando Christine começou a tartamudear algo, o som ressurgiu, parecendo ainda mais insistente e irritante. — Não, tudo bem. Eu espero — lançou, mas desta vez não tentou fugir de mim. Apenas cruzou os braços, aguardando enquanto eu pegava o celular de dentro da bolsa e franzia o cenho ao ver o nome no identificador de chamadas. — Michael, oi… — atendi, meio incerta, porque não me lembrava de já ter


recebido ligações suas, antes. — Linda! Graças a Deus! — exclamou do outro lado da linha, a voz bem mais rouca que o normal e com uma nota de ansiedade indisfarçável. — Aconteceu algo terrível e preciso de você. Em quanto tempo acha que consegue chegar ao hospital… — Hospital? — eu o cortei, atônita, os olhos arregalando-se de imediato. — O que houve? — Lizzie — murmurou num gemido transtornado. — Parto prematuro. Eu não sei o que fazer. Ninguém sabe. Sofie está desesperada aqui, não tivemos escolha a não ser trazê-la para cá também. — E Lizzie? — perguntei num fio de voz, o coração em disparada, as pernas ameaçando fraquejar com a hipótese de que algo de mau pudesse acontecer a Elizabeth ou a Matthew. — Na sala de parto. Eu não sei o que está acontecendo com ela, não temos notícias. Robert está esbravejando em meio ao hospital, eu estou tentando acalmar Sofie, mas… — Ele se deteve, a voz vacilando, embargada, seu silêncio permitindo-me ouvir o choramingar de Sofie do outro lado da linha, o que só contribuiu para que meu coração se quebrasse ainda mais. — Linda, eu sei que não é justo pedir que você se envolva com os problemas dos Smith ou dos Blackwell, contudo… — Me envie uma mensagem de texto com o endereço. Estou indo para aí agora mesmo — atalhei. — Obrigado — soltou num suspiro, parecendo bem mais tranquilo que antes. — Não há o que agradecer. Encerrei a ligação, guardando o celular de volta na bolsa sob o olhar perscrutador e aflito de Christine. — O que houve? — ela perguntou de pronto. — Me desculpe — pedi com pesar —, eu sei que nós estávamos falando de algo importante, mas Lizzie está no hospital, parece que Matt não quer esperar mais algumas semanas… — Está tudo bem — cortou-me, genuinamente preocupada. — Meus problemas ainda vão estar aqui quando você voltar. Robert vai precisar de você. E Sofie, é claro. Eu quis retorquir dizendo que Robert era autossuficiente demais para necessitar de algo que eu pudesse oferecer, todavia, calei-me. Afinal, uma pessoa que se dispõe a esbravejar num hospital soa como alguém que precisa de qualquer ajuda que puder obter.


— Tia Linda! — Sofie cumprimentou assim que pus os pés na sala de espera do hospital, correndo em minha direção e abraçando minhas pernas, agarrandome como se não quisesse que eu fosse a lugar algum. Lágrimas espessas escorriam pelas feições infantis, machucando meu coração de modo incomensurável. Ainda sentindo minhas pernas vacilarem, optei por agachar-me em frente a Sofie, em vez de segurá-la no colo. — Ei, princesa. Não precisa chorar, eu estou aqui agora — confortei-a, trazendo-a para meus braços, tentando mostrar quão verossímeis eram minhas palavras. Ela fungou, escondendo o rosto no vão entre meu ombro e pescoço. — Por que demorou tanto? — perguntou numa vozinha débil, sem se preocupar em erguer o rosto para me fitar. — Tio Rob já está aqui há um tempão. Abri a boca para que pudesse dizer algo, mas nada bom o bastante me veio à mente. Com passos demorados, como se carregasse o peso do mundo sobre os ombros, Michael veio ao nosso encontro, estendendo uma das mãos para tocar o ombro de Sofie e afagá-lo. — Tia Linda não estava em casa, lembra? Ela tinha algo urgente no trabalho. O que importa é que ela está aqui agora… O olhar que Michael me lançou parecia dizer “obrigado”, mas não apenas isso. Eu soube, pelo que ele dissera, que falar sobre meu divórcio para Sofie era algo que ainda iria acontecer, porém, não naquele momento inoportuno. Eu não gostava da ideia de omitir nada dela, entretanto, se a outra saída era ter que lhe explicar sobre o desquite… bem, eu precisaria encontrar um modo de lidar com isso. — Como Lizzie está? — eu quis saber, voltando à minha posição ereta enquanto Michael tomava a filha nos braços. — Não faço ideia — respondeu num suspiro cansado, Sofie aninhando-se ainda mais a ele, como se a falta de notícias também a assustasse, algo de que eu


não duvidava. — Ela ainda está na sala de parto e não tivemos notícias desde então. Estou tentando manter a calma por todos nós, mas não é lá muito fácil. Anuí com um breve aceno de cabeça, engolindo em seco. — Onde está Robert? — inquiri, meio vacilante, as palavras soando estranhas aos meus próprios ouvidos. — Pensei que ele estivesse aqui com você. — Ele estava, entretanto foi convidado a esperar do lado de fora. — Michael soltou um bufar exausto, os olhos vermelhos e injetados não encontrando foco em nenhum ponto específico. — Robert não para de se culpar pelo que houve. Uni as sobrancelhas, em confusão. — Como algo assim pode ser culpa dele? Pela primeira vez desde que o conheci, assisti a um sorriso de escárnio sendo formado nos lábios de Michael. A expressão preocupada ainda estava ali, no entanto, havia algo mais emoldurando suas feições, algo bem próximo a cólera e revolta. — Paige Willians foi até a mansão Blackwell durante nosso jantar em família. Meu próprio pai a levou, consegue acreditar nisso? — Foi uma pergunta retórica, e ele meneou a cabeça, cético. — Ele queria provocar Robert. Os dois queriam, na verdade. Levá-lo ao limite e fazê-lo ceder quanto à mansão Blackwell. Tudo o que conseguiram foi causar tanto estresse em Lizzie que a bolsa acabou estourando e… — Michael se deteve, apertando Sofie nos braços, buscando nela consolo, enxugando as lágrimas no casaco de lã da filha ao passo que eu me ocupava em secar as minhas com o dorso de minha mão. — Calma, vai dar tudo certo — murmurei, tocando o braço de Mike numa tentativa vã de confortá-lo. — Lizzie é forte e vai sair dessa. Ela e Matt, você vai ver só. Michael acenou em concordância uma vez, indicando com a cabeça um conjunto de sofás onde poderíamos nos sentar e aguardar por notícias de Elizabeth. E assim fizemos, em meio a um silêncio nervoso, interrompido apenas por um fungar ou outro vindo de um de nós três, enquanto permanecíamos no escuro quanto à situação de Lizzie e Matt.


Robert parecia, basicamente, uma nova pessoa. Olhar imperscrutável, movimentos taciturnos e lânguidos, maxilar travado… mesmo após a notícia de que Lizzie e Matt estavam bem, este, um bebê saudável e de choro forte, a expressão corporal de Robert não relaxou nem um pouco. Como apenas um visitante foi permitido, por ora, Michael foi ver a esposa e Sofie ficou sob meus cuidados. Robert e eu não trocamos uma palavra sequer desde que sua entrada foi liberada e ele voltou à sala de espera. Na verdade, ele não trocou uma palavra com ninguém, exceto com Sofie, a quem ofereceu um copo de chocolate quente. — Tem gosto de terra, tio Rob — ela reclamou, o nariz franzido em desgosto. — Não quero. — Tudo bem, não precisa beber isso, princesa. — Ele tomou o copo das mãos de Sofie, descartando-o na primeira lata de lixo que encontrou e oferecendo colo para a sobrinha, que se mostrou aborrecida por não ter podido ver a mãe, porém aceitou a oferta do tio de bom grado. Michael ressurgiu minutos depois, um sorriso imenso no rosto, os olhos ainda vermelhos e inchados, devido ao choro recente, mas a expressão visivelmente aliviada. — Eles estão bem — contou, estendendo os braços para Sofie e tomando-a entre eles. — A mamãe e o seu irmãozinho estão bem e amanhã você vai poder vê-los. Todos vocês vão — emendou, olhando entre mim e o cunhado. Não era nada extraordinário, contudo, a postura de Robert relaxou após a fala de Mike. — Previsão de alta? — Robert inquiriu, encarnando o CEO sucinto e incisivo que conheci no dia em que ele me atropelou. — Matt precisa ficar em observação por uns 3 dias, só para garantir. Apesar do parto conturbado, Lizzie está fora de perigo, mas os médicos a querem aqui também, por algum tempo, de qualquer modo, devido à perda de sangue. Melhor


prevenir que remediar, certo? — E a mamãe vai ficar sozinha com o Matt aqui, papai? — Sofie questionou. Michael abriu a boca para responder, porém, Robert foi mais rápido. — Você devia ficar, Michael. Lizzie odeia solidão, ela vai gostar de ter sua companhia. — Sim, eu sei. — Michael suspirou, revelando todo seu desgaste emocional. — Mas tenho Sofie e não posso… — Eu posso ficar com Sofie — Robert ofereceu, dando de ombros, como se aquilo não fosse nada de mais, claramente pegando a mim e a Michael desprevenidos. Tentei conceber a imagem de Robert cuidando de uma criança. Eu sabia que ele amava Sofie, só que entre amar e cuidar… bem, ele não me parecia bom cuidando de nada que não fossem ações e contratos milionários. — Não — Mike negou, após titubear por alguns instantes. — Eu não pediria isso a você, Robert. — Não está pedindo. Estou oferecendo. A menos que não confie em mim para tomar conta de Sofie. — Bem, é que… — Tem a tia Linda, papai — a pequena interveio, os olhos azuis cintilantes fitando-me de pronto, um sorriso singelo abrindo-se em seus lábios. — Ela cuida de mim. Não é, tia Linda? A senhora cuida de mim na sua casinha e do tio Rob, não é? Pela segunda vez na noite, abri minha boca para dizer algo a Sofie, contudo, nada era bom o bastante. Michael não parecia inclinado a me ajudar, desta vez, e eu tampouco poderia esperar ajuda vinda de Robert, quando ele mal conseguia manter-se lúcido, graças à culpa que sentia pelo que ocorrera com Lizzie. — Claro que sim — consegui murmurar, segundos depois. — Eu cuido dela. Nós — enfatizei, incluindo Robert na equação — cuidamos dela. Não se preocupe. Lizzie e Matt precisam de você por perto. Estupefato. Era a melhor palavra para definir Michael nesse exato momento. Seus olhos migraram de mim para Robert e, então, de volta para mim. — Tem certeza de que vocês dois estão bem com isso? — testou, erguendo uma de suas sobrancelhas num gesto instigador. — Óbvio — concordei prontamente, ofertando-lhe um sorriso, a fim de tranquilizá-lo. Não seria fácil estar sob o mesmo teto que Robert outra vez, eu bem sabia, entretanto, o bem-estar de Lizzie, Matt e Sofie fazia qualquer sacrifício valer a pena. — Okay — aquiesceu, pouco eficaz ao tentar esconder o alívio exacerbado que sentiu ao saber que ele poderia se dedicar a cuidar de Lizzie e que a filha


também seria muito bem assistida. — Mas vocês vão precisar passar na minha casa para pegar algumas roupas para Sofie. — Não vai ser um problema — Robert se manifestou, já de pé, as mãos enterradas nos bolsos de sua calça. — Chaves — Michael murmurou, entregando a Sofie o molho de chaves que acabara de tirar do bolso. — Eu te amo, princesa. A mamãe e eu amamos muito você. Sabe disso, não sabe? — Eu te amo, papai — ela devolveu, os bracinhos em volta do pescoço de Mike. — Promete dizer pra mamãe que eu tava aqui, né? — quis saber, deixando sua formalidade precoce de lado. — Claro que sim. — Promete de mindinho? — insistiu, erguendo o dedo delicado, ao qual Michael entrelaçou o seu próprio. — Sim. Prometo de mindinho. Comporte-se. Sofie anuiu, balançando a cabeça, migrando do colo de Michael para o do tio e empoleirando-se ali. — Obrigado — Michael agradeceu, dirigindo-se a mim e a Robert. — Eu não sei o que faria sem vocês, não consigo pensar em ninguém mais a quem confiaria minha filha. — Seguramente não a Britney — Robert zombou. — Eu amo a minha irmã, mas não, não a ela — admitiu. — Obrigado de verdade — tornou a dizer, trazendo seu olhar para mim. — Especialmente a você, Linda, que sequer é parte disso. — Sou parte disso porque amo sua família como se fosse minha. Seus problemas são meus problemas também. Eu amo Sofie, independente do que um papel estúpido possa dizer. Entende isso? — inquiri, mesmo que não pudesse me valer de toda minha articulação ao lado de Sofie. Michael acenou uma vez, em positivo, um dos cantos de seus lábios repuxando-se num sorriso, dizendo-me que sim, ele entendia. Entendia o fato de que, independente de meu casamento com Robert ter chegado ao fim, o amor que eu nutria por sua família era algo que nem mesmo toda a desilusão do mundo seria capaz de apagar.


“E eles viveram feliz para sempre…” A história terminou com Sofie já adormecida sobre os lençóis confortáveis de um dos quartos de hóspedes da mansão Blackwell. Ela oscilou entre sono e consciência durante o trajeto de sua casa até o meu apartamento, o que foi bom, porque me deu a chance de pegar algumas coisas de que precisava para passar a noite sem ter de explicar-lhe por que tia Linda teve de buscar roupas num lugar que, teoricamente, não era minha casa. Fiz uma pequena mala para Sofie e enfiei numa valise alguns pertences meus. Lilly não acordou durante o tempo em que fiquei no apartamento, e agradeci mentalmente por isso, já que eu não queria esclarecer a razão de estar indo dormir na casa de Robert. Com ele. E Sofie. Claro que eu estava fazendo isso por Lizzie e pelas crianças. Contudo, a expressão agoniada no rosto de Robert também me machucava, em especial quando ele se culpava pelo ocorrido. Como se fosse responsabilidade dele o fato de a tal Paige ter se enfiado em suas vidas. Um suspiro exausto me escapou e, pela primeira vez, me permiti observar a magnitude do ambiente ao meu redor. Eu me propus a dividir um quarto de hóspedes com Sofie, na mansão Blackwell, alegando que, se ela era o motivo de eu estar ali, então deveríamos ficar juntas. Não era uma mentira, mas, se eu quisesse 100% de honestidade, precisava admitir que tampouco queria ficar sozinha em um daqueles quartos que pareciam pertencer à realeza.


Desde o piso de madeira até o papel de parede delicado e a decoração de bom gosto… tudo exalava requinte e sofisticação. Sentime diminuta ali. Uma verdadeira intrusa, em especial por saber que se tratava de um lugar com tanto valor sentimental. Se não fosse assim, Robert jamais teria passado por todos os percalços que enfrentou apenas para conseguir instalar-se naquela mansão.

A mensagem que enviei a Christine a caminho da mansão Blackwell, dizendo-lhe o porquê de eu não dormir em casa, foi respondida não muito tempo depois de Sofie ter se entregado ao sono. Mesmo desconfortável com a situação, tomei um banho demorado, como se a água pudesse levar as preocupações embora. Já vestida e impaciente, sem conseguir pregar os olhos, ponderei se, talvez, não seria melhor ir à procura de Robert, a fim de saber se haveria algo em que eu pudesse ajudá-lo. Sua expressão, da última vez que o vi, duas horas atrás, ainda era transtornada, e uma garrafa de uísque foi a primeira coisa que ele se preocupou em pegar assim que entrou em casa e me guiou, junto a Sofie, até o quarto que ela e eu dividiríamos. Cansada de minhas titubeações, deixei Sofie ressonando tranquilamente e me pus a caminhar pelo longo corredor que se estendia em direção às escadas. Desci os degraus devagar, avistando Robert de pronto, de costas para mim, num minibar parecido ao que ele mantinha em seu apartamento. Os cotovelos estavam fincados sobre a bancada de mármore enquanto ele segurava um copo contendo o líquido de cor âmbar com uma das mãos e, com a outra, maltratava os cabelos. Eles estavam maiores do que costumavam ser antes, em desordem, o que parecia combinar com o estado de espírito de Robert. — Como ela está? — ele perguntou assim que seus olhos pousaram sobre mim. Sua expressão era exausta e ele se serviu de um novo drinque antes mesmo


de esgotar a dose que havia em seu copo. — Consegui fazê-la dormir. Ela estava cansada e alimentada, não foi difícil. — Para você, é claro, que é expert em fazer com que as pessoas se sintam bem ao seu lado. — O esboço de um sorriso perpassou seus lábios, mas foi tão fugaz que me perguntei se eu me equivocara. Robert sorveu um longo gole, outro e mais outro, até esvaziar o copo e servir-se de mais. Doía vê-lo afogando seus sentimentos controversos em uísque, e, com suas palavras em mente, eu quis ser capaz de fazer com que ele se sentisse bem. Talvez isso me transformasse numa tola, dado nosso histórico, porém era impossível evitar. Não importava quão machucada Robert me fizera, tê-lo cabisbaixo era sempre um golpe duro. — Não sou expert em coisa alguma — retorqui, dando um passo pequeno em direção ao enorme piano de cauda branco que havia ali, já que fui atraída por ele desde que pus meus pés na mansão. — E Sofie te adora, tenho certeza de que você teria se saído muito bem. A verdade é que você também está transtornado e… — Não estou — apressou-se em negar, sorvendo um último gole generoso de seu uísque e caminhando em minha direção. — Não estou transtornado. — Sorriu, tentando, com o gesto, reafirmar o que dissera. Não funcionou, visto que eu sabia muito bem que camuflar emoções era a especialidade dele. Robert continuou seu caminho até mim e, num gesto instintivo, abracei meu corpo, em defensiva, seu olhar fazendo-me sentir nua, mesmo coberta com meu vestido de alças. Era bem verdade que eu sempre tinha palavras malcriadas para ele nos últimos tempos, contudo isso não queria dizer que sua proximidade tivesse deixado de me afetar. Eu ainda me sentia vulnerável perto de Robert, em especial agora, enquanto ele me fitava do alto de seu um metro e oitenta, fazendome sentir uma formiguinha ao seu lado. Preparei-me para dar-lhe as costas e sair dali, mas foi em vão. Suas mãos alcançaram meus braços, escorregando por eles e segurando meus pulsos até levar minha palma esquerda para perto de seus lábios e beijá-la longa e delicadamente. Engoli em seco, a sensação de seu toque reverberando por todo meu corpo, deixando-me atônita e sem reação por tempo demais. Quando senti a umidade de seus lábios em meu pulso, ainda desnorteada, tentei rechaçar o contato. Foi inútil. Robert puxou-me pela cintura, e o que antes era o contato de suas mãos em meus pulsos transformou-se em algo bem mais íntimo. — Preciso ir — gaguejei, mesmo sem saber a que me referia de fato, se queria dizer-lhe que necessitava sair da presença dele ou de toda sua vida. — Por favor, não… — pediu, o olhar suplicante preso ao meu, atordoamento agarrado a cada uma de suas feições. — Estou tão feliz que esteja aqui, Linda,


mesmo sabendo que faz isso por Lizzie. — Uma das mãos em minha cintura subiu, acelerando ainda mais minha frequência cardíaca. Seus dedos tocaram meu rosto e acariciaram-no do modo despreocupado intrínseco a Robert. Eu conseguia sentir tudo: a fragrância inebriante de seu perfume misturada à de sua pele, o aroma do uísque mesclado ao seu hálito quente, o toque gentil de suas mãos cálidas que irradiavam calor não apenas onde resvalavam, mas por todo meu corpo. De olhos cerrados, não vislumbrei, contudo, senti quando seus lábios se aproximaram de meu ouvido. — Sabe do que me lembro? — instigou, num sussurro lúbrico. — Lembrome de que seus beijos eclipsavam todo e qualquer problema no mundo… — E, então, como que para provar seu ponto, Robert prendeu o lóbulo de minha orelha entre seus lábios, mordiscando e umedecendo-o com sua língua. Num ímpeto de força e coragem, as quais eu não fazia ideia de como conseguiram emergir, afastei-me dele de pronto, dando-lhe as costas, precisando fugir dali depressa, porém, percebendo-me presa na gaiola que Robert fizera ao meu redor usando seu corpo e o piano. O toque da boca quente com a pele do meu ombro me sobressaltou, no entanto, permaneci estática. O coração batendo desenfreado, como se quisesse abrir um buraco em meu peito. — Não — tentei protestar, todavia, o que saiu de meus lábios foi um gemido arrastado. Apertei os olhos, revoltada por ser tão fraca ante suas carícias. — Por que não? — inquiriu, espalmando a mão direita sobre meu ventre, de modo a puxar-me contra seu corpo, grudando minhas costas ao seu peito. — P-porque eu n-não quero… — menti, de forma tão miserável que jamais convenceria a ninguém. — Se você não quer… então por que está ofegante? Por que está toda arrepiada? — A mão espalmada em meu ventre fez seu caminho para o norte, e apesar de irradiar calor por onde passava, não era um toque lascivo. Ela parou em cima do meu coração, os dedos longos de Robert pousados sobre meu seio, dificultando minha respiração já pesada. — Por que esse coração está batendo tão loucamente dentro do peito? — Ele depositou um beijo prolongado em meu pescoço, sua barba por fazer atritando minha pele sensível ao toque e fazendo crescer minha excitação. — Robert, por favor… — murmurei, sem saber ao certo a que me referia. Por favor, me beije de uma vez ou por favor, me deixe ir embora? — Linda — chamou, a voz rouca sussurrada ao pé do meu ouvido enquanto as mãos grandes manipulavam meu corpo e me posicionavam de frente para ele. Os olhos verdes que aprendi a amar tantos anos antes me encaravam, atentos, as pupilas dilatadas como piche maculando a imensidão esverdeada, graças ao


desejo. — Só quero beijar você — pontuou, roubando minha atenção para os lábios róseos, tornando-me consciente do quanto eu desejava senti-los contra os meus. — Não aguento mais de saudades e me recuso a acreditar que seja diferente com você. Abri a boca para protestar, porém, qualquer coisa que pudesse ser dita morreu junto com a pressão da boca de Robert contra a minha. Foi um toque suave, duradouro, que não condizia com toda a urgência que eu tentava manter latente dentro de mim. O contato não cessou de pronto, apenas deu lugar para que a língua de Robert deslizasse por meu lábio inferior, mordiscando-o logo em seguida. — Não… — emiti numa voz fraca, resfolegando ao mesmo tempo em que os lábios de Robert se ocupavam em meu pescoço, beijando, sugando e mordendo cada mísera porção de pele que encontraram no caminho até a minha orelha. — Não posso. Nós não podemos. — É claro que sim. Somos dois adultos ansiando a mesma coisa. Nós devemos. — Você não entende. É errado… — Provavelmente. Porque é tão bom que deve ser errado de alguma forma. Mas não importa, nada importa. Somos só você e eu, Linda e Rob, e não precisamos suportar a saudade um do outro. Não aqui, não agora. Então ele tomou minha boca de novo para si e me abraçou ainda mais apertado, fazendo minha resistência ruir pouco a pouco. A falta que eu havia sentido dos lábios dele nos meus era muito maior do que queria admitir para mim mesma, agora eu sabia. Robert me beijava com tanta voracidade e volição que era impossível não corresponder. As mãos grandes e macias apertaram minhas coxas com gana e ele me içou, colocando-me sobre o piano ao passo que erguia meu vestido e suas unhas curtas arranhavam minha pele, deixando-me ainda mais desejosa. O som de nossas bocas e línguas se encontrando daquele modo lascivo era mesclado aos nossos gemidos involuntários e respirações sôfregas. Ainda assim, eu não podia ceder. Sabia que era errado me deixar levar de novo, eu tinha a experiência anterior para me lembrar do que estava tentando me resguardar. Não era certo. Eu não voltaria a entregar meu corpo a alguém que pisou meu coração e fez sangrar minha alma. No entanto, qualquer pensamento coerente que eu pudesse ter foi espantado no exato momento em que senti os dedos longos de Robert no meu ponto mais íntimo. Eu arquejei em surpresa e deleite contra sua boca e, instantaneamente, meus olhos se abriram, apenas para visualizar os dele, encarando-me com tanta lascívia que faziam minhas pernas tremerem e meu coração assumir um ritmo ainda mais


desenfreado, ao mesmo tempo em que ele abria um sorriso de soslaio para mim. Robert puxou meu lábio inferior entre os dentes com uma calma que contradizia com a avidez com que me explorava. Num segundo, seus dedos me acariciavam sobre o tecido da calcinha e, no outro, deslizavam para dentro de mim com enorme facilidade. Foi minha escolha beijá-lo, então, e eu o fiz com tanta urgência que pareceu deixá-lo surpreso. Minha língua deslizou entre seus lábios macios, provando a boca morna que retribuía o contato. Minhas mãos apertaram seus cabelos e a camisa branca que ele usava, porque até mesmo da textura das roupas dele eu conseguia sentir falta. Um por um, tirei os botões de sua camisa das respectivas casas, minhas mãos espalmando-se em seu tórax, sentindo os músculos firmes sob a pele cálida. Ele também se livrou da minha calcinha, e ela ficou esquecida num canto qualquer enquanto ele me guiava em direção ao sofá e nos deitávamos ali. Seus dedos ainda estavam em mim, fazendo meus músculos internos se apertarem ao redor deles e um calor delicioso se apossar do meu baixo-ventre, irradiando por todo o corpo. Nossas respirações vinham em arquejos, descompassadas, ruidosas, e, quando eu tinha absoluta certeza de que Robert ignoraria o bom senso, tomandome para si no sofá sofisticado, onde Sofie poderia facilmente nos flagrar, caso acordasse, ele se levantou. A quebra do contato foi tão súbita que me deixou desorientada por um momento, mas tudo ficou bem outra vez quando ele me regalou um beijo úmido no pescoço e me abraçou, as mãos em meus quadris demonstrando que eu deveria enlaçá-lo pela cintura com as pernas, o que fiz de imediato. Foi assim que subimos as escadas: eu nos braços dele, sendo beijada e acariciada durante todo o percurso até seu quarto. No cômodo amplo e de decoração elegante, ele me pôs sobre meus saltos de novo, os olhos me perscrutando de cima a baixo. Talvez eu devesse estar constrangida, mas só conseguia me sentir desejada. Desejo. Vinha dele para mim e ia de mim para ele, e o impacto era o mesmo de um carro batendo contra uma muralha a mil quilômetros por hora. — Robert… — balbuciei, mesmo que não soubesse o que queria ou poderia dizer a ele. — Shhh… — ele devolveu num murmúrio, pousando seus dedos longos em meus lábios. — Não diga nada, Linda. Sei o que eu quero e sei que é o mesmo que você quer. Isso é tudo de que preciso. As mãos grandes tocaram minhas coxas e, instintivamente, elas se afastaram. As palmas deslizaram contra minha pele, indo ao norte, encontrando meus quadris e nádegas, ainda subindo, erguendo meu vestido no processo e me fazendo acreditar que ele iria tirá-lo, porém, não o fez. Em vez disso, me empurrou para


que me sentasse à beirada da cama, e senti a textura dos lençóis de seda sob mim. Robert apoiou as mãos aos lados dos meus quadris, inclinado em minha direção, e me deu mais um daqueles beijos de tirar o fôlego que sempre me faziam pensar que eu entraria em combustão espontânea. Eu estava quente em todos os lugares e extremamente úmida num ponto muito específico, e Robert sabia disso mesmo antes de me tocar. Os beijos mudaram de local e, agora, sua boca estava onde eu mais precisava dele. Foi impossível não gritar, ensandecida, ainda que eu tivesse tentado abafar o som estridente que me rasgou a garganta e me fez ganhar uma mordida, que só me deixou ainda mais excitada. Eu tremi, gemi, ofeguei e movi os quadris, impulsionada pelo desejo que parecia querer me devorar. Seria mentira dizer que não senti desejo durante esse tempo de abstinência, no entanto, nada poderia se comparar àquilo. Robert sabia o que aqueles toques faziam comigo e gostava. Talvez até mesmo tanto quanto eu. As unhas bemcuidadas continuavam arranhando minhas coxas, descendo pelas panturrilhas até os calcanhares. Ele desabotoou minhas sandálias enquanto olhava para mim sob os cílios longos e me lançou uma piscadela antes de beijar meu ponto intumescido como se quisesse devorá-lo. Tremi dos pés à cabeça, desistindo de simplesmente agarrar os lençóis enquanto aquele prazer sem precedentes ia crescendo dentro de mim. Eu não estava pensando quando tomei a barra do meu vestido nas mãos e o puxei, tirando-o de mim e jogando-o longe, dando o mesmo destino ao meu sutiã. Robert gemeu em resposta, fechando os olhos com força e deslizando a língua para dentro de mim ao mesmo tempo em que trazia suas mãos para apertar meus seios, em concha. Ele agraciou meus mamilos túrgidos e os beliscou concomitante aos movimentos que fazia em minha intimidade. Eu estava a um único passo de alcançar meu ápice, então, apertei seus cabelos entre os dedos, mantendo seu rosto exatamente onde estava e cingindo sua mão ao redor do meu seio, para que não parasse o que estava fazendo. E ele não parou. Ao menos a princípio. Quando eu achei que não duraria mais que 2 segundos, Robert se afastou abruptamente, levando-me a soltar um gemido contrariado e me apressar em saber por que ele se afastara. Foi quando ele se livrou dos próprios sapatos e das meias, trabalhando no botão de seu jeans com uma única mão enquanto estendia a outra para me tocar. Às pressas, eu me ajoelhei na cama, ficando mais ou menos à altura dele para que pudesse beijar-lhe a boca ao mesmo tempo em que eu mesma lidava com o que sobrou de suas roupas. Robert segurou meu rosto entre as mãos ao passo em que eu empurrava seu jeans e sua boxer para longe e trazia o membro rijo entre os


dedos, como sabia que ele gostava. O homem imponente e sempre dono de si tremeu sob meu toque, e aquilo era o que eu gostava. Eu o acariciei com uma calma que não tinha, só para perder o controle segundos depois e fazer movimentos de vai e vem em sua extensão enquanto beijava-lhe o pescoço e me arranhava em sua barba por fazer. Meus beijos migraram para a mandíbula, e eu me demorei um pouco em sua boca quando finalmente a alcancei, mas havia outro lugar que eu queria beijar. Meus lábios exploraram cada pedaço de pele em seu tronco antes de chegar à sua extensão. Foi a minha vez de olhá-lo por sob os cílios e então beijar-lhe a glande. Robert engoliu a saliva com dificuldade, o pomo de adão movimentandose enquanto ele me analisava substituir meus dedos por minha boca. Eu o explorei com a língua antes de tomá-lo entre os lábios e, quando por fim o fiz, Robert deixou um gemido gutural escapar-lhe, jogando a cabeça para trás, prendendo meus cabelos em seu punho num rabo de cavalo improvisado. Também fechei meus olhos, sendo transportada para a primeira vez em que me arrisquei a agradá-lo daquele modo. Eu estava incerta sobre o que deveria fazer quando o momento chegasse, apesar de ter sido eu a insistir para que acontecesse. A resistência débil de Robert ruiu quando eu lhe disse que queria poder tocá-lo do mesmo modo que ele me tocava. Nós éramos marido e mulher, afinal, que mal poderia haver? Naquela noite nós exploramos um ao outro de modo meticuloso e deliberado, nos demorando nas partes em que faziam com que o outro se perdesse no momento. Eu sabia como ele gostava de ser tocado e a prova disso era tê-lo ali, trêmulo e excitado, a um único passo de alcançar um clímax entre meus lábios. Entretanto, ele me deteve, puxando-me pelos cabelos e quebrando o contato. Seus olhos escurecidos pelo desejo estavam sobre mim outra vez e pareciam faiscar. — Não posso esperar mais — ele sussurrou, a voz rouca acariciando-me os ouvidos. Antes que eu pudesse articular qualquer coisa, sua boca estava na minha outra vez, e eu me entreguei ao beijo de modo esfomeado, porque também não podia esperar um segundo sequer. O contato de pele com pele era maravilhoso, e eu me deliciei com a sensação dos meus seios nus completamente espremidos contra o peitoral de Robert. Eu estava trêmula, sôfrega, latejante e necessitada no segundo em que, com um movimento preciso e duro, ele me presenteou com sua invasão. Uma lágrima me escapou, porque era quase fisicamente doloroso ser levada a um nível tão elevado de prazer. O ponto intumescido entre minhas coxas mais parecia latejar e meus músculos internos se fecharam ao redor do membro de Robert como se quisessem prendê-lo ali para sempre, e talvez eu quisesse mesmo.


Ele se movimentou devagar uma vez, me arrancando um gemido arrastado e deleitoso. Robert também gemeu, em uma nova investida, e eu mordi o lábio inferior, erguendo meus quadris em direção aos dele, apertando-lhe as nádegas e puxando-o cada vez mais para mim. — Linda… — sussurrou ao pé do meu ouvido. Foi um som rouco e arrastado, que me deixou inebriada e me fez sorrir. — Minha Linda… só minha. De mais ninguém. Seus lábios tomaram os meus outra vez, abafando minha resposta de que sim, eu pertencia a ele e a mais ninguém. Houve uma nova estocada, mais dura que as anteriores, fazendo-me arquear a coluna. E então um novo golpe. E outro. E mais outro. Movimentos rápidos, precisos, que faziam o calor aumentar, alastrar-se como se me queimasse por inteiro por dentro. Meu corpo deslizava sobre os lençóis devido às estocadas frenéticas, os beijos migraram para o meu pescoço e eu podia ouvir e sentir a respiração ruidosa de Robert em meu ouvido, me deixando ainda mais excitada, se é que isso era realmente possível, e tudo em que conseguia pensar era em como amava estar nos braços dele, em como não queria que aquele momento acabasse jamais e em como ele era capaz de me fazer sentir tão desejada e satisfeita. Sobretudo, em como era impossível forjar aquelas sensações. As mãos grandes me tocavam em todos os lugares que alcançavam, incitando prazer e propagando-o por toda parte. Robert se afastou um pouco para que pudesse me fitar, com os lábios entreabertos por onde o ar lhe escapava. Os músculos flexionados enquanto ele pairava sobre mim com nossos quadris completamente colados aos do outro. Ele se abaixou por um momento, tomando um seio entre os lábios e o outro em uma das mãos, sugando e apertando, sem jamais cessar os movimentos de quadril. Então senti meu corpo fugindo do meu controle. Eu estava arfando pelo prazer, o suor se acumulando em minha testa e nuca, convulsionando entre os braços de Robert, explodindo em zilhões de pedaços tamanha a força do clímax, suas investidas prolongando a sensação prazerosa. Ele trincou os dentes, uma das mãos puxando minha coxa como se, desse modo, pudesse ir ainda mais fundo em mim. Meus braços o apertaram com força junto ao meu corpo, minhas pernas fechando-se ao redor de sua cintura, prendendo-o ali. Os movimentos dele não cessaram, e eu não queria que cessassem também, porque apesar de já ter sido levada ao ápice da sensação, eu queria tê-lo ali comigo. Era bom. Delicioso e excitante. A voz dele ao meu ouvido era rouca e minha pele se arrepiava a cada palavra obscena que ele me sussurrava, o efeito potencializado pelo sotaque pelo qual eu era perdidamente apaixonada. Foi a vez de Robert encontrar a liberação,


segundos mais tarde, num movimento duro de quadris, com a boca colada à minha orelha, deixando-me escutar um gemido que mais parecia um grunhido. Ele se moveu terna e lentamente dentro de mim mais algumas vezes, depositando beijos cálidos onde seus lábios podiam alcançar. Após o frenesi, nós permanecemos ali, imóveis, em silêncio, aproveitando as sensações que ainda pareciam reverberar em nossos corpos. Robert e eu. Juntos. Numa cama. Nus, suados, ofegantes e satisfeitos. Ante o pensamento, minhas paredes se apertaram, de modo involuntário, fazendo com que ambos gemêssemos. Meus braços cederam, assim como minhas pernas, e Robert se retirou de mim, me arrancando um gemido de protesto. Pensei que ele se jogaria ao meu lado, agradeceria pelo sexo e então as coisas voltariam a ser como eram há duas horas. Contudo, ele me encarou. Não de um jeito presunçoso, como se tivesse acabado de provar que eu era fraca demais para resistir a ele, mas como se estivesse feliz. Genuinamente feliz pelo momento que dividimos, o que não fazia muito sentido para mim. Era a primeira vez que eu me entregava a ele 100% certa de que Robert não me amava e, por mais que isso devesse me fazer sentir horrível, meu corpo estava vibrando pela intimidade recém-partilhada, e tudo o que eu queria era mais daquilo, ainda que só durasse uma única noite. Os dedos longos de Robert tocaram meu rosto, do modo que ele costumava fazer quando sentia meus pensamentos a mil, e isso o fez ganhar minha atenção. Eu queria dizer alguma coisa, qualquer coisa sobre o que acabara de acontecer. Que jamais se repetiria, ou que estava ávida para que ele me beijasse de novo. Porém, Robert parecia ter um talento nato para fazer com que silêncios não fossem tão assustadores como pareciam ser. Ele mordiscou meu lábio inferior devagar, partindo para o superior, sugando, brincando, deslizando a língua sobre eles, tocando minha língua com a sua na fronteira de nossas bocas. A mão direita apertou meu seio com força, massageando, os dedos passando ao redor da aréola, no mamilo que se alongou com o contato. Um suspiro trêmulo me escapou quando senti suas mãos se insinuarem em meu corpo novamente, a boca se fechando ao redor do meu seio, sugando com precisão e vontade, provocando prazer, reascendendo as sensações que me consumiam por inteiro apenas instantes atrás. Robert deu a mesma atenção ao outro seio, mordiscando-o em seguida, fazendo o ar me escapar por entre os dentes. Beijou o vão entre meus seios, raspando sua barba por fazer ali, a ponta do nariz bem-esculpido escorregando pelo local até chegar ao meu pescoço e inalar com força. — Você não faz ideia de como senti falta do seu cheiro… — Ele sugou a


pele do meu pescoço, explorando o local enquanto suas palavras reverberavam em minha cabeça, porque a verdade é que eu senti falta do cheiro dele em cada mísero segundo em que estivemos separados. — Senti falta de estar com você, Linda, de fazer amor com você… Não vê o quanto me excita? O quanto me deixa louco? Os lábios dele beijaram o ponto atrás da minha orelha e meu corpo inteiro se arrepiou, como um lembrete de que Robert de fato sabia o que estava fazendo quando o assunto era ter-me completamente mole entre seus braços. Ele selou meus lábios com os seus repetidas vezes, e, no momento em que seus olhos buscaram e encontraram os meus, eu soube que minutos atrás nós só tínhamos matado a fome, saciado o desejo mais urgente para então construir um novo e alimentá-lo com uma calma deliberada, impossível há alguns poucos minutos e tão excitante agora. Por mais que devesse, porque talvez fosse o certo a se fazer, eu não conseguia dizer-lhe não. Não estava pronta para rechaçar seus toques. Ao contrário, queria cada centímetro do corpo de Robert grudado ao meu, suas mãos em mim, sua boca na minha, em meu pescoço, em todos os lugares…


M eus olhos estavam pesados de sono quando acordei pela manhã. Nua, com cobertores confortáveis me cobrindo e quase fundida a Robert. Os braços dele me prendiam contra seu corpo, do mesmo modo que costumavam fazer na época em que julguei tê-lo para sempre comigo. Minha cabeça, pousada sobre a pele morna de seu peito, ergueu-se apenas para que eu pudesse observar-lhe as feições adormecidas. E como ele era lindo! Desde os cabelos acobreados, cílios e supercílios de mesma cor, expressão serena enquanto ressonava baixinho, seu peito subindo e descendo com sua respiração, levando-me junto… Dizer que eu estava amando cada segundo daquilo fazia de mim uma má pessoa? Provavelmente. Mas senti tanta falta de poder estar assim com ele que era difícil obrigar minhas pernas a se moverem. Sem conseguir me conter, levei meus dedos ao encontro de seu rosto, contornando-o com cuidado, como se pudesse, assim, memorizar cada pequeno detalhe. Era o que eu teria feito meses atrás, em nossa última noite juntos, se soubesse que o encanto de tê-lo para mim se dissiparia de forma tão amarga. Meus lábios encontraram os seus num gesto casto e demorado, e então afundei minhas narinas em seu pescoço, inalando com força o perfume intrínseco a Robert e que eu tanto amava, aconchegando-me a ele e me permitindo desfrutar o momento apenas por mais uns poucos segundos. Aquela era nossa despedida, afinal, eu precisava aproveitá-la ao máximo, mesmo que, mais tarde, me odiasse por fazê-lo.


Às 8h, Robert ainda não havia acordado, o que era incomum para ele. Sofie, em contrapartida, levantou cedo e ficou satisfeita em saber que poderia me ajudar a preparar nosso desjejum. Atrapalhei-me um pouco na cozinha, um lugar amplo demais para uma função tão simples, porém, disfarcei, afinal de contas, seria estranho não saber onde estavam os utensílios dentro de minha própria casa, certo? Servi Sofie de torradas com geleia, sanduíche de manteiga de amendoim e suco de laranja. Fazendo algo que Lizzie reprovaria, se estivesse aqui, deixei que Sofie comesse assistindo a um desenho qualquer na televisão, em vez de obrigá-la a se sentar à mesa. Enquanto lidava com a pequena confusão na cozinha, fui pega de surpresa por um beijo cálido em meu pescoço, que arrepiou minha pele de pronto. Largando a louça suja sobre a pia, eu me virei num rompante, espalmando minhas mãos no peito de Robert e empurrando-o para longe, enquanto ele me roubava um beijo fugaz nos lábios. — Não — apressei-me em dizer, tentando me esquivar do contato. — Por que não? — Franziu as sobrancelhas, o rosto assumindo um ar de divertimento e embaraço simultaneamente. — Porque o que aconteceu ontem à noite não vai se repetir. Por isso — devolvi, tentando parecer o mais resoluta possível, o que não era tão fácil com sua proximidade. Robert bufou, um sorriso incrédulo moldando-lhe os lábios, os mesmos que beijei tão avidamente noite passada, e ele meneou a cabeça, em negação. — Você é inacreditável. E muito ingênua se acha que vou mesmo acreditar que noite passada não significou nada para você. — Não superestime o que houve, Robert. Eu estava… — Titubeei, buscando desculpas razoáveis, procurando palavras que soassem verídicas o bastante. — Estava carente de atenção. Pelo término do meu relacionamento com Will. Só isso.


Will. O nome soou tão estranho e amargo que me fez tremer. Parecia outra vida, de tão longe que se encontravam as lembranças, e falar nele só remetia à noite fatídica em que ele se provou parte da escória da humanidade. — Está insinuando que me usou para esquecer Will? Porque eu acho que é o contrário, Linda. Você se enfiou num relacionamento fracassado com um imbecil para me esquecer. — Meu Deus, como você é narcisista, Robert. — Tudo bem. Suponhamos que eu acredite que foi apenas carência que moveu você. Mas de jeito nenhum vou engolir essa desculpa esfarrapada para justificar o segundo round. A quentura pelo constrangimento se alastrou pelo meu rosto como fogo trilhando gasolina. Engoli em seco, cruzando os braços em frente ao corpo, numa tentativa vã de passar segurança e fazer Robert pensar que suas palavras não me afetaram. — E-eu… — gaguejei sob seu olhar incisivo, pigarreando a fim de clarear a garganta — estava fragilizada. Não só carente. Que raios de desculpa é essa? O que uma coisa tem a ver com a outra, Linda? Robert ergueu as sobrancelhas, umedecendo os lábios com a língua em um gesto lascivo que trouxe memórias da noite passada, as quais eu preferia esquecer. Demandava um esforço sobre-humano rechaçá-lo quando meus pensamentos se encontravam em nós dois nus, em seus lençóis, poucas horas antes. — E isso explica o terceiro round também? — provocou, dando um passo em minha direção, fazendo-me recuar até sentir meus quadris batendo contra a pia. — Ou o que fizemos ao acordar de madrugada? — emendou, inclinando-se para mim e apoiando suas mãos no mármore do lavatório, prendendo-me entre seus braços sem se encostar a mim. — Quem sabe o fato de você ter passado a noite inteira comigo e protelado para sair da cama, mais cedo, me agarrando como se sua vida dependesse disso. — Eu não… de jeito nenhum eu estava… Foi só sexo para mim. Por que é difícil acreditar? Por acaso todas as mulheres com quem dorme significam algo a mais para você? — Não sei exatamente o que pensa de mim, mas se acredita que eu trago um harém para dentro da minha casa, está equivocada. A verdade é que você sabe que não é assim, não entendo por que isso seja algo tão difícil de entender. — Devo me sentir especial, então, por você ter me deixado dormir aqui ontem à noite? — escarneci, meneando a cabeça em incredulidade. — Faça-me o favor, Britney teria vindo, se Sofie pedisse, você jamais lhe diria não.


— Linda, não é Britney aqui comigo. Certamente, não era ela ontem, na minha cama, não era ela quem eu queria. Mas que diabos! Eu me casei com você, isso não te diz nada? Tentei engolir a mágoa, como fizera tantas e tantas vezes, entretanto, foi impossível. Não era justo aplicar aquele argumento, não assim, não comigo. Não quando eu sabia da força motriz para ter sido desposada. — Seu pai te obrigou a fazer isso através daquele testamento ridículo, Robert Blackwell, não aja como se o fato de você ter se casado comigo fosse sinônimo de afeto — retorqui entre dentes. — Eu te trouxe para a minha vida, para a minha cama, para a minha família! Eu. Não Frederick. Eu, Robert Blackwell, fiz isso. Não sei o que você entendeu daquele testamento, porém deixe-me explicar uma coisa: eu não precisava concordar em dar a você a lua de mel que tanto queria, não precisava retribuir seus beijos, fazer amor com você… Tudo de que eu precisava era da porra de uma assinatura num papel. Aceito o fato de você ainda estar magoada comigo, de me odiar por ter mentido sobre o testamento, mas nada disso anula o que nós fizemos ontem à noite, o que fizemos tantas e tantas vezes durante os meses que vivemos juntos. Por isso, não, você não vai me fitar nos olhos e dizer que ontem à noite foi apenas sexo, porque é mentira. Acha que eu faria isso com qualquer mulher que encontrasse por aí? Que a traria para dentro da casa da minha mãe, me deitaria com ela na minha cama, sabendo que minha sobrinha dorme no quarto ao lado porque minha irmã está no hospital, sabe-se lá como? — devolveu em cólera, bufando revolta e insatisfação, as mãos migrando para os cabelos e deixando-os numa bagunça. Tão similar ao Robert introvertido de ontem à noite que senti um peso em meu coração. Meus sentimentos precisavam ficar de lado, eu sabia disso. Entendia que, na verdade, a rispidez dirigida a Robert não passava de um intento em eclipsar a noite anterior. E tudo bem que eu não queria me lembrar de quão bons foram os momentos partilhados, ainda assim, a expressão consternada de Robert me fez sentir horrível em saber que, como se não bastassem todos os seus problemas, agora ele também precisava lidar com minhas acusações. — Vai ficar tudo bem — murmurei em resposta. Ele continuou de costas para mim, sem me encarar ou dizer uma mísera palavra. — Ei… — insisti, tocando um de seus ombros por instinto — ela já está bem. Lizzie e Matt. Michael está lá, ele garantiu que Lizzie e o bebê estão fora de perigo, lembra? Se qualquer coisa tivesse acontecido, nós já saberíamos a essa altura. — Você não a viu como eu vi — devolveu. Os músculos ainda seguiam retraídos sob meus dedos, apesar de ele não ter demonstrado aversão ao toque. — O rosto contorcido de dor, Lizzie cambaleando e se prostrando, líquido


amniótico, sangue… — Robert fechou os olhos, como se estivesse preso em seu tormento particular, e meu coração se afundou ainda mais em meu peito. — Lizzie está tendo todos os cuidados de que precisa e é muito forte. Ela também é uma Blackwell, lembra? — E desde quando isso é uma boa coisa? — questionou, lançando seus olhos sobre mim. Duros, inflexíveis, até mesmo com uma pitada de ironia. Quiçá vê-lo daquele modo não devesse machucar tanto. Mesmo assim, o fez, e esquecendo-me das palavras mal-educadas e ásperas que lhe dirigi há poucos minutos, fiz a única coisa que poderia, naquele momento. A única que tudo em mim gritava para que eu fizesse. Eu o beijei. Desesperadamente, como se seus lábios estivessem longe dos meus por décadas inteiras e agora eu precisasse recuperar o tempo perdido. Fui correspondida com a mesma urgência. Com a mesma… paixão? Era irrisório definir desse modo, mas quando Robert reivindicava minha boca para si do modo que fazia agora, eu simplesmente… — Tia Linda, eu terminei — a vozinha doce de Sofie soou, meio cautelosa, como se ela tivesse interrompido algo importante demais. Afastei-me de Robert de pronto, as mãos espalmadas em seu peito empurrando-o a fim de estabelecer alguma distância entre nós. Pigarreei, tentando disfarçar o desconcerto. Ele sorriu, dissimulado, enterrando as mãos nos bolsos de seu jeans enquanto apoiava o quadril sobre a pia de mármore. — Que maravilha. Você comeu tudinho. — Repuxei meus lábios num sorriso forçado, agachando-me para ficar à altura de Sofie e recolher o prato de suas mãos. — Quando vou poder ver minha mamãe? — perguntou, os olhinhos curiosos alternando entre mim e Robert. Okay, talvez ela nunca tivesse presenciado os pais numa situação tão… comprometedora. O que só me fazia sentir ainda pior. Já era difícil explicar para ela sobre o fim do casamento antes, como eu faria isso agora, quando Sofie acabara de me ver com a língua praticamente enfiada na garganta do tio dela? — Após o almoço — respondi, levando uma das mãos para acariciar seus cabelos. — Até lá, vamos encontrar algo para mantê-la entretida. A mamãe precisa estar forte quando você chegar, então temos que dar um tempinho a ela, está bem? Sofie concordou com um aceno de cabeça, e o gesto seguinte derreteu meu coração. Os braços delicados me envolveram e ela depositou um beijo em minha bochecha, escondendo o rosto no vão de meu pescoço. — Posso tocar o piano da vovó? — inquiriu a Robert um tempo depois. Não pude ver sua expressão, de qualquer modo, soube que ela era irresistível e que


jamais teria uma negativa como resposta. — Claro que sim, princesa — Robert devolveu, um tom suave que ele não costumava destinar a muitas pessoas, e que era frequente quando se tratava da sobrinha, deixando-me enternecida todas as vezes. Sofie acenou em concordância, animada, correndo para fora da cozinha. Não demorou muito até que os primeiros acordes soassem. Eu não era grande conhecedora da música clássica, isso era bem verdade, mas estar casada com Robert e tê-lo tocando para mim com tanta assiduidade fez-me exigente. Quando o som doce invadiu meus ouvidos, foi impossível conter as lágrimas que arderam em meus olhos. Era a mesma música que Sofie tocou para nós na cerimônia de casamento, tema de nossa primeira dança como marido e mulher. As lembranças vieram sem pedir permissão. Os braços de Robert ao meu redor, seu olhar contemplativo, meu sorriso inapagável. Eu me sentia estúpida por ter confiado nele tão cegamente, contudo, como eu poderia adivinhar que nada daquilo era amor? — Talvez eu seja um pouco narcisista, sim — Robert quebrou o silêncio, ganhando minha atenção por completo. Os lábios estavam repuxados em um sorriso, os olhos com um brilho cálido. — Sou imensamente feliz por não ter assinado aquele maldito divórcio. Eu sabia que nós poderíamos contornar a situação. — O quê? — testei, confusa, um vinco se formando entre minhas sobrancelhas. Robert sacudiu a cabeça de um lado para o outro, um som baixo similar a uma risada escapando de sua garganta. — Como se você não tivesse desconfiado do fato de seu advogado não ter entregado os papéis do divórcio assinados por mim. — Deu de ombros, em casualidade, pouco se importando com a expressão catatônica estampada em meu rosto. — Ainda sou seu marido, Linda. Vê agora o quanto noite passada não poderia ter sido mais certa? — Não estou entendendo… — balbuciei, duvidosa, vacilando alguns passos e me apoiando sobre o balcão de mármore a poucos centímetros de mim. — Suborno, Linda. Não foi nada caro, eu realmente pensei que seu advogado fosse demorar um pouco mais para ceder. Choque, cólera, incredulidade, revolta… tudo isso se misturando dentro de mim e tornando-me uma bagunça sem precedentes. Não havia um pensamento coeso, uma atitude prestes a ser tomada… éramos apenas minha desordem e eu atrapalhando meu raciocínio lógico e meu discernimento. — Meu Deus, Robert — foi o que consegui tartamudear pouco tempo depois, em ultraje. — Você realmente me vê como algo sempre a postos, não é? Um


escape fácil que sai de controle por um tempo, mas que basta ouvi-lo estalar os dedos para voltar correndo. O sorriso em seu rosto morreu ao passo em que lágrimas de revolta pinicavam meus olhos. — Linda, não, claro que não é nada disso… — rebateu, aproximando-se de mim e tentando me alcançar com as mãos. — Não ouse me tocar! — protestei, mordaz, rechaçando-o e fugindo dali antes que minha torrente de lágrimas se tornasse impossível de combater.

Sofie estava suficientemente distraída, ao piano, para não notar minha saída até que já fosse tarde demais. Durante o trajeto até em casa, tentei não pensar no tamanho de minha estupidez ao passar a noite nos braços de Robert e adorar cada minuto. Pior ainda, atacá-lo em meio à cozinha, no intento de apagar a dor que ele sentia. As lágrimas que banhavam meu rosto eram, sim, tristeza transbordando. Todavia, também eram revolta e decepção. “Idiota, idiota, idiota!”, ralhei comigo mesma, frustrada. O apartamento estava silencioso quando cheguei, algo que seria impossível se Lilly estivesse ali, o que não era o caso. Lembrando-me de minha conversa inacabada com Christine, fui impelida a procurar por ela em seu quarto. Enxuguei minhas lágrimas, sufoquei a dor em meu peito e bati na porta de leve. Ela murmurou um “entre” fraquinho. — Ei… vim ver como você está. — Adentrei o cômodo a passos lentos, medindo sua reação. Chris não pareceu se importar, pois continuou com a cabeça enterrada entre as mãos, portanto, me sentei na cama, ao seu lado. — Um caco — confessou, içando seus olhos em minha direção. Eles estavam vermelhos, havia coriza no nariz de Christine e o rosto dela parecia amarrotado. Excetuando a coriza, eu não deveria estar muito diferente.


— Você pode conversar comigo — ofereci, segurando uma de suas mãos e apertando-a entre as minhas —, desabafar faz bem. — Seu silêncio era ensurdecedor, atípico e inquietante. — Okay, estou oficialmente preocupada agora. Chris, o que houve? Um riso de esgar foi sua resposta imediata, em seguida, Christine me estendeu um teste de gravidez adquirido em farmácia. Eu não precisaria ser um gênio para saber o que aquilo significava. — Deu positivo — ela disse num fio de voz, retomando o choro, que veio fraquinho, mas suficiente para sacudir seu corpo. — Santo Deus… — emiti em surpresa, sem nem mesmo perceber, recebendo um olhar irônico de Christine no mesmo instante. — Ei, não, calma. Isso saiu de um jeito muito errado. Não foi o que quis dizer, eu… — Sei o que quis dizer. “Santo Deus, como ela é burra, por que não se cuidou?” — cuspiu, enxugando as lágrimas rudemente. — Não. Claro que não era isso. Vem cá — chamei, abraçando-a pelos ombros. Apesar de não parecer muito amistosa, Chris não relutou, e sim pousou a bochecha em meu ombro. — Eu só… imagino o turbilhão de pensamentos na sua cabeça agora mesmo. Mas não fica assim, vamos fazer um exame de sangue e confirmar, você sabe que esses testes têm margem de erro — tentei animá-la. Sem sucesso. — Por isso eu comprei cinco. De marcas diferentes. O resultado positivo riu da minha cara todas as vezes — gemeu em desgosto. — Chris… — O que vou fazer, Linda? Olha só pra bagunça que eu sou. Acabei de sair da casa dos meus pais, não tenho um relacionamento estável, um lar pra criar uma criança… — Você… você já contou para o pai do bebê? Porque ele precisa saber. Independente do que você decida fazer sobre isso… — Não tive coragem. Quer dizer… o que ele vai pensar de mim? — Bufou, desfazendo nosso débil abraço e aninhando-se a seu travesseiro. — Que sou carente a ponto de engravidar apenas pra obrigá-lo a ficar comigo? Ele mal consegue se sustentar, seria o golpe da barriga mais errado de toda a história — tentou gracejar, mas o esboço de seu sorriso transformou-se em um tremular de lábios em instantes. — Ele não vai pensar nada disso. Vocês só precisam conversar sobre a situação. É de um bebê que estamos falando, Chris. — Não é só um bebê — ela negou também num meneio de cabeça. Seus olhos me fitaram intensamente por trás das lágrimas pesadas. — É meu bebê… e de Javi.


Senti como se o mundo rodasse ao meu redor por um momento. Não fazia sentido… as palavras não se encaixavam. — Javi? Javier González? — inquiri mesmo assim, porque… não sei por quê. As palavras só me escaparam. Um novo riso de esgar veio de Christine. Ela sacudiu a cabeça, afundando o rosto no próprio travesseiro em seguida. — Está vendo? Nós não conseguimos assumir nosso envolvimento pra você, que é nossa melhor amiga, como vamos lidar com um bebê? E se ele ainda for apaixonado por você? Hã? Por mim estava tudo bem quando era só uma aventura, mas, caramba, tem um bebê dentro de mim! Isso é uma loucura! — Ei, ei, ei! Calma! — eu a interrompi, afagando suas costas repetidas vezes. — Primeiro: Javier não está apaixonado por mim. Nunca esteve, de fato. Ele confundiu o que sentia, acontece. Segundo: não tem nada de louco nisso. É absolutamente normal, na verdade, você vai ver só. Fale com Javier antes de decidir se desesperar, está bem? Demorou um pouquinho, porém, Christine finalmente voltou a me encarar. Sacudiu a cabeça de leve, tornando a sentar-se. — Eu já disse hoje o quanto amo você? — inquiriu num murmúrio quase inaudível. — Uhmm… — Fingi ponderar. — Não. — Sorri. — Também te amo, Chris. — E como está Elizabeth? Sofie? Robert? Foi quando meu sorriso morreu. Eu não queria falar sobre Robert, no entanto, tinha a impressão de que Christine não partilhava de tal sentimento. — Bem — respondi simplesmente, evitando elaborar. — Pensei que você fosse ficar com Sofie durante todo o tempo em que Lizzie estivesse no hospital. — É. Mas Robert e eu acabamos discutindo — confessei, encolhendo os ombros. — Mas que novidade. — Ela rolou os olhos teatralmente. — Enfim, não é nada de mais. — Ah, então você não vai se importar de me contar, certo? — Na verdade… — Nada disso! — ela me interrompeu, levantando-se e indo em direção à porta. — Você passou mais de doze horas grudada a Robert, depois de meses de abstinência. Preciso saber de cada palavra que trocaram. Eu estou na pior e você me deve uma distração, preciso focar em algo que não seja o fato de que tem um bebê dentro de mim. Me espera aqui, vou fazer pipoca, tenho a impressão de que isso vai ser melhor que novela mexicana. — E então ela desapareceu, indo fazer exatamente o que disse que faria.


A pós dias internada com Matthew, Elizabeth finalmente recebeu alta do hospital. Foi um período conturbado, no qual Michael, Linda e eu nos revezamos nos cuidados com Lizzie, Matt e Sofie, mas, finalmente, minha irmã estava de volta em casa. No entanto, há males que vêm para o bem. Mesmo depois de nossa discussão, quando confessei não ter assinado o divórcio, Linda acabou voltando para minha casa, a fim de me ajudar com Sofie, e as únicas noites em que ela não dormia lá eram as que passava com Lizzie, no hospital. Não voltamos a dormir juntos depois disso, claro, porque a verdade era que Linda estava furiosa comigo. Ainda assim, nada atrapalhou que conseguíssemos formar uma rotina para nós. Era bom tê-la por perto, de volta à minha vida, mesmo que ela insistisse em se manter longe da minha cama e tivesse contratado um novo advogado para cuidar de nosso divórcio.


— Por que não vai até lá falar com ela? Pode usar Matt como desculpa… — Elizabeth encorajou ao meu lado. Linda estava à nossa frente, com Matthew no colo, ladeada por Sofie, Lilly e Christine. A recepção de boas-vindas a Lizzie deveria ser algo bem simplório e intimista, porém Michael errou a mão e acabou convidando pessoas demais. Eu não poderia culpá-lo, ao menos não inteiramente. Sem sombra de dúvidas, ele estava orgulhoso por Matt e aliviado por Lizzie estar bem, não era errado mostrar sua felicidade às pessoas. — Espera, estou um pouco confuso, não foi você mesma quem me disse para deixá-la em paz? Elizabeth ergueu uma de suas sobrancelhas em provocação, os olhos passeando pelo ambiente enquanto ela abria um ou outro sorriso educado em resposta aos cumprimentos que recebia de seus convidados. Assim como eu, minha irmã não gostava muito da ideia de ter seu lar preenchido por estranhos. Frederick era o Blackwell com complexo de grandeza, não Lizzie e eu. — Bem, isso foi antes de saber que você e Linda estavam trocando beijos sôfregos na frente da minha filha. — Seus olhos verdes e astutos estavam sobre mim outra vez, perscrutando minha expressão como se ela esperasse que eu fosse negar, todavia, tudo o que recebeu de mim foi um ar surpreso. — Pois é, Sofie me contou. Disse que tio Rob e tia Linda se beijam feito os casais da televisão. Não sei se me preocupo mais com o que minha filha anda assistindo ou se com você sendo péssima influência. Por Deus, ela tem cinco anos! Abri a boca para que pudesse dizer algo sagaz, porém, não obtive sucesso. — Foi sem querer. — Sem querer? — Bufou, incrédula. — Se Sofie tivesse demorado mais 5 minutos para entrar naquela cozinha, o que teria encontrado, exatamente? — Nada de mais, o que Sofie não poderia ver nós fizemos no quarto, com a porta trancada. Ela estava dormindo, não tem a menor chance de ter escutado


nada. Elizabeth tentou disfarçar sua expressão de choque, ainda que eu não soubesse ao certo a razão de seu espanto. Pigarreou, o olhar percorrendo o ambiente lotado e se demorando um pouco mais no ponto onde Linda estava, rindo alegremente enquanto Matt, na certa, derretia-lhe o coração com um sorriso sem dentes. — Rob, você é meu irmão, e eu te amo, mas não faça isso, não quebre o coração de Linda outra vez — pediu numa voz baixa, a expressão condoída. — Nunca foi minha intenção fazer algo assim, Lizzie. — Eu sei. Mas fez de todo o jeito, não foi? — Não respondi. Em vez disso, cruzei meus braços de forma arredia e assumi uma expressão sisuda. — Ei… — ela chamou, passando um de seus braços pelo meu e afagando-o, repousando a cabeça ali, logo em seguida. — Não tente ser o papai. Você não é nada feito ele, ouviu? Nada mesmo. Elizabeth era mesmo inacreditável. Num segundo, me fazia sentir o pior ser humano da face da Terra. No outro, tentava me animar explicitando quão não Frederick eu era. — Não é sobre o testamento — murmurei, a fim de quebrar o silêncio que permiti ser instalado após suas palavras de conforto. Elizabeth me encarou, um vinco entre suas sobrancelhas dizendo-me que ela não entendera aonde eu queria chegar. — Linda — elucidei. — Eu a quero de volta. Eu a quero para mim, não tem nada a ver com o testamento. A expressão confusa de Lizzie se acentuou, e ela meneou a cabeça, no intento de clarear as ideias. — Mas você disse… — Sei o que eu disse — cortei-a, soltando um bufar de exasperação. — É complicado, você não entenderia. — Você entende? — lançou. Eu nada disse, no entanto, ela encarou meu silêncio como um não, eu bem sabia. Eu não fazia ideia do que era aquela necessidade que tinha de Linda. Talvez necessidade não fosse a palavra certa. Eu sabia viver sem ela, e ela certamente sabia viver sem mim, o que não significava que isso fosse o que nenhum dos dois, de fato, quisesse. Com certeza eu não queria. Bem que tentei sufocar a gana de têla por perto — de estar por perto — durante todo o tempo em que ficamos sem contato, contudo, bastou uma centelha de incentivo partindo de Lizzie para que eu mandasse minha obstinação ao espaço e fosse procurar por Linda. Preso em meus próprios devaneios, demorei um pouco até perceber o aperto firme que Elizabeth empregava em meu braço. Lancei meus olhos em sua direção e, em seguida, rumo ao local que ela observava.


— Por favor, fique calmo… — ela sussurrou para mim, a voz saiu estranha, como se ela tentasse não gesticular muito com os lábios. Agitação começou a tomar conta de mim quando vi a figura de James, ao lado de Britney e da senhora Smith, adentrando o hall e cumprimentando alguns convidados pelo caminho. — O que ele faz aqui, Elizabeth? — sibilei para minha irmã, nem um pouco preocupado em esconder meu desgosto. — Nós o convidamos. — Você perdeu o juízo? Michael concordou com esse absurdo? Sua atenção era minha outra vez. Os olhos brilhantes fixos nos meus, observando-me enquanto sua mão esquerda acariciava a linha de minha mandíbula, numa tentativa inútil de acalmar os ânimos. — Vim de uma família quebrada, Rob, nós viemos, você e eu, não quero isso para os meus filhos. Uma vida como a nossa é o que você quer para os seus sobrinhos? Hã? Elizabeth não precisava que eu articulasse uma única palavra para saber de minha resposta. Entretanto, como eu poderia fazê-la enxergar que aquelas eram situações completamente diferentes? Elizabeth não era Alexandra. Michael não era Frederick. Eu precisaria desenhar para que ela entendesse? James e seu sorriso reptiliano se aproximavam. Num minuto havia ele, sua esposa e Britney interpretando o papel de família perfeita, no outro, cabelos castanho-avermelhados entraram em meu campo de visão, e eu não consegui distinguir nada mais que não fossem eles. — Filho de uma… — A imprecação morreu no meio do caminho, quando Elizabeth percebeu que havia algo ainda mais errado em meu semblante do que o simples vislumbre da família Smith. Foi a vez dela de ter a atenção roubada. Suas pernas cederam e eu a abracei de forma protetora, colando suas costas ao meu peito, amparando-a. — Não, de novo, não… — gemeu mais para si mesma. A senhora Smith abraçou Lizzie de forma afetuosa demais, em cumprimento, mas minha irmã permaneceu grudada a mim, estática em seu lugar. Britney também forçou um abraço e dois beijos no rosto, um de cada lado. Eu ignorei os cumprimentos, mais preocupado em assegurar o bem-estar de Lizzie e me impedir de desferir uns bons socos em James com uma plateia. — Lizzie, querida, eu sinto muito por tudo, não foi minha intenção… — ele começou, agarrando uma das mãos de Lizzie e levando-a aos lábios. Antes mesmo que pudesse concluir o gesto, minha irmã rechaçou o contato. — O que essa mulher está fazendo na minha casa, James? — inquiriu, a voz baixa, porém firme, as mãos segurando com força um de meus braços, que a


mantinha junto a mim. — Elizabeth, não vim causar problemas. Absolutamente — Paige Williams interveio em sua própria defesa. A voz aveludada soando ainda mais ensaiada que antes. Um suspiro trêmulo escapou dos lábios de Elizabeth, sacudindo também seu corpo, elevando minha vontade de chacinar James e Paige. — Tire essa mercenária daqui, James, ou não respondo por mim — ameacei, e o som pareceu um rosnado. — E o que vai fazer? Agredir-me diante de toda essa gente? — Paige provocou, o sorriso indefectível moldando os lábios cobertos com batom vermelho. — Trucidá-la seria o termo correto. — Bobagem. — Ela abanou uma das mãos, em descaso. — Vim apenas me desculpar pelo incidente desagradável… — Incidente? — Lizzie irrompeu, pirrônica, alto o bastante para atrair para si alguns olhares curiosos, o que a fez baixar o tom de voz. — Eu poderia ter perdido o meu bebê! Por Deus, você é mãe! Sabe o que estou dizendo! — Mas não perdeu, certo? Além do mais, se o seu irmão não fosse tão irredutível, querida, nós não teríamos chegado a esse extremo. — Espera — interferi, cético, lançando para Paige meu melhor sorriso de escárnio —, então isso é minha culpa também? Eu não te mandei ir até a minha casa me importunar! — Minha casa! — arguiu, os dentes trincados e as feições mais duras que antes. — O testamento do seu pai… — James, tire essa mulher daqui — Elizabeth implorou, o tom de voz embargado. Frederick não era o melhor pai do mundo, na verdade, ele foi um pai horrível, mas Lizzie não conheceu nenhum outro, o que era um infortúnio. Doíalhe ouvir que o homem que mais deveria tê-la protegido na vida era o responsável por todos os desastres que já lhe acometeram. — Paige, esse não é o momento — James interveio. Não por, de fato, importar-se com a nora, e sim por não querer ainda mais telespectadores indesejados. — Robert, se você concordar com uma reunião… — Não vou concordar com absolutamente nada! — cortei-o, exasperado, a voz elevada o bastante para gerar desconforto quando nos tornamos, irrevogavelmente, o centro das atenções. Houve um toque gentil às minhas costas, meio incerto, porém o bastante para ganhar todo meu foco. Linda. Matt já não estava em seu colo. Ela abriu um sorriso sem graça, os braços


alcançando Elizabeth enquanto lhe sussurrava um “está tudo bem?”, recebendo um meneio de cabeça positivo em resposta. Lizzie trocou meu abraço pelo de Linda e, de pronto, minha cólera burlou o resquício de latência existente e emergiu com tudo. — Você está de saída, senhorita Williams, me acompanhe, por favor. — Sem dar a ela espaço para retrucar, agarrei-lhe o braço, rebocando-a para fora dali. Apesar de estática, Paige não apresentou resistência alguma. Os olhos arregalados e estupefatos não combinavam com ela. De uma hora para outra, ela deixou de ser um poço de arrogância e se transformou em uma massa inerte de confusão. — Não… — ela murmurou debilmente quando lhe forcei a dar o primeiro passo para longe de Elizabeth. — Não, não pode ser. Faz tanto tempo, tanto tempo, como…? — Do que está falando? — inquiri a contragosto, meu olhar seguindo o mesmo rumo que o dela, o qual se encontrava fixo na direção de Lizzie e Linda. — Isabel… — Paige balbuciou, mas não entendi o que aquilo significa. — Isabel… — repetiu, e eu soube que ela tartamudeava para si mesma, e não para mim. Sem esperar nem mais um segundo sequer, eu a escoltei até a porta, instruindo para que os seguranças lhe chamassem um táxi e se certificassem de que ela realmente fora embora, pouco me importando com o estado catatônico de Paige. Assim que voltei a pôr os pés no hall de entrada da mansão de Lizzie e Michael, fui recebido por Linda. Michael estava com Elizabeth e as crianças, os ânimos pareciam ter voltado ao normal e a atmosfera, aos poucos, ia perdendo a densidade de outrora. — Quem é Isabel? — Linda perguntou de pronto, mordendo o lábio instantes depois, num gesto claro de expectativa. — Não faço ideia, Linda — emiti num suspiro. — Não tenho a mais remota ideia.


Era difícil acreditar que as coisas finalmente estivessem entrando nos eixos. Lizzie e Matt estavam bem, Christine e Javier, felizes com a notícia do bebê depois de o choque inicial passar, Lilly era uma aluna aplicada e estava indo bem no trabalho… Mas a minha vida continuava uma bagunça. Assim como a de Robert. Ainda havia resquícios de mágoa por todas as coisas que passei por ter cometido a estupidez de me apaixonar por ele, mesmo sabendo que Robert não tinha controle sobre isso, realmente. Entretanto, conhecer Paige dava sentido a tudo. Se ela fosse a amante de meu pai… era bem possível que eu fosse capaz de um absurdo para não deixar que tivesse nas mãos nada daquilo que um dia pertencera à minha mãe.


— Surpresaaaa! — um coro gritou, animado, assim que pus os pés em casa, após um dia exaustivo de trabalho. A mesa de centro do apartamento que agora eu dividia com Christine e Lilly estava repleta de diversos tipos de petiscos. Havia tábua de frios, mais tipos de queijo do que eu poderia contar, balões espalhados por todos os cantos, confetes caindo em minha cabeça, ameaçando me afogar, e uma faixa grudada à parede à minha esquerda, onde lia-se, em letras garrafais, “Feliz aniversário, Linda!”. Congelei em minha posição por tempo demais, olhos arregalados enquanto o mesmo coro do “surpresaaaa!” entoava um “parabéns-para-você”. Havia palmas, risos entusiasmados, cantoria e uma onda irrefutável de afeto engolindo-me e aquecendo meu coração. Nunca antes, em toda minha vida, comemorei meu aniversário. Não era um costume no orfanato, porque aniversários jamais foram motivo de festas, e sim um dado a ser armazenado. Sem festas, sem bolos, sem presentes… era só um dia comum, como outro qualquer. Quando tentei minha própria sorte na rua, certamente, celebrar uma data inventada também não era uma prioridade, já que eu estava ocupada demais tentando me manter viva para dispensar atenção a futilidades. Depois que conheci os González… bem, haviam sido tantos anos levando as coisas do mesmo modo, que não me incomodei em quebrar a tradição. Javier bem que tentou arrancar uma data de mim, achar um modo de me surpreender, mas foram tentativas frustradas. Agora, no entanto, observando os olhares travessos de Lilly e Christine, a desculpa de “estou mexendo na sua bolsa à procura de um Advil” era apenas para bisbilhotar meus documentos. Quando os parabéns acabaram, senti tantos braços ao meu redor, apertandome, mãos afagando minhas costas, cabelos, rosto, felicitando-me sem cessar. Meus olhos estavam rasos de lágrimas e eu economizei palavras, a fim de não começar a chorar convulsivamente. Por mais que fosse um choro feliz e mais que bem-vindo, eu não confiava em minha capacidade de pôr um fim a ele, caso desse um início, em primeiro lugar. Javier, Eva, Christine, Lilly, Elizabeth, Sofie, Michael, o pequeno Matt… Robert. Todos ali, mais que dispostos a me ofertarem um abraço caloroso. — Parabéns — Robert murmurou ao meu ouvido, seus braços ao meu redor, meu corpo grudado ao dele, e logo após depositou um beijo na maçã do meu rosto. O contato foi demorado, cálido, afável, e eu me permiti fechar os olhos e aspirar o cheiro de seu perfume enquanto minhas mãos apertavam suas costas, puxando-o de encontro a mim sem que eu sequer me desse conta de que o fazia. Meu coração estava acelerado dentro do peito, as pernas meio trêmulas pela


proximidade, e talvez eu tenha demorado tempo demais para responder, o que prolongou o abraço até que escutamos pigarros, lembrando-nos de que tínhamos companhia. — Obrigada — devolvi por fim, enrubescendo em constrangimento enquanto afastava-me minimamente de Robert. Os braços dele me abandonaram e pude ver, em suas mãos, o que antes não notara, dada a rapidez de sua aproximação e o modo repentino com que ele me envolveu em um abraço. — São para você — ele sussurrou com sua voz rouca e de sotaque adorável, fazendo-me derreter um pouco mais, pois nem mesmo toda a mágoa do mundo conseguiria eclipsar a forma como eu me sentia por ele. Robert me estendeu o buquê de flores mais lindo em que já tive o prazer de colocar os olhos, junto a uma caixa de chocolates meio-amargos, meus favoritos. Eu o fitei, meio incerta, num conflito interno, uma vez que não achava justo aceitar presentes dele na situação em que nos encontrávamos. — Você disse uma vez que preferia flores, chocolates e 15 minutos do meu tempo… — Ele deu de ombros, abrindo um sorriso singelo, o que só me deixou ainda mais estupefata. “Ele se lembra disso também!”, gritei internamente. Da discussão que tivemos, na qual ele tentou me empurrar um carro para me ajudar a engolir a mágoa, o que apenas desencadeou minha fúria. Ele se lembrava, e eu não fazia ideia do porquê de aquilo fazer com que as lágrimas incomodassem ainda mais. — Eu… bem… — balbuciei, lutando com a ardência nos olhos e engolindo a saliva com dificuldade. — Obrigada mais uma vez — eu me decidi por fim, sorrindo-lhe, tendo meu gesto espelhado por ele. Foi Sofie quem interrompeu o momento constrangedor, reivindicando minha atenção e estendendo os braços para que eu a pegasse no colo, brindando-me com um abraço efusivo muito bem-vindo. Em nome de seus pais e Matt, ela me entregou uma caixinha de veludo, dentro, uma pulseirinha de ouro muito linda e delicada, a qual Lizzie me ajudou a colocar imediatamente. — Obrigada, princesa, eu amei… — Beijei o topo da cabeça de Sofie, apertando-a em um abraço enquanto sentia minha pele arder sob o olhar atento de Robert.


Eva estava sendo tão atenciosa com Robert que, às vezes, mais parecia que ele era o aniversariante, não eu. Ele devolvia cada elogio com educação, enaltecia a comida que ela preparara para a festa e deixava claro a todos que galanteio era seu ponto forte. — O que Robert faz aqui? — inquiri a Lilly disfarçadamente. Robert e Eva continuavam conversando sobre um assunto qualquer, contudo, não pude ouvir do que se tratava, uma vez que as vozes de Lizzie, Mike, Javi e Chris se sobressaíam concomitante à sua conversa sobre os estágios da gravidez e como tudo seria ainda mais aterrador quando o bebê nascesse. — Eu o convidei. — Ela deu de ombros, enfiando um pedaço generoso de bolo na boca. Todo mundo havia se fartado com a comida de Eva e Javi, em especial com o bolo de mousse de chocolate. Lilly era a única que continuava comendo. Sempre a primeira a começar e a última a terminar. — E ele aceitou o convite? — instiguei, mordendo o lábio inferior em expectativa. Lilly me encarou como se eu tivesse um terceiro olho e um segundo nariz. — Ele está aqui, não está, Einstein? Abri a boca para contestar, contudo, Lizzie foi mais rápida, anunciando que precisava ir embora antes de todos os outros… uhm… convidados? Ela não queria ter que explicar a Sofie o porquê de tia Linda ficar ali e tio Rob ir para casa sozinho. Concordei com um aceno de cabeça, despedindo-me de Lizzie, Michael e das crianças e acompanhando-os até a porta, não sem antes prometer a Sofie uma visita em breve. Depois que Lizzie foi embora, não demorou muito para que Eva chamasse Javier para que eles também fossem para casa, alegando estar tarde. Christine já não precisava mais chamar as saídas com Javi de “compromissos inadiáveis”, então simplesmente se ofereceu para ir junto.


— Eu gosto mesmo dele — Eva me segredou num murmúrio ao meu ouvido, durante um abraço, ao despedir-se, de modo que apenas eu a escutei. Era estranho, mas ouvi-la dizer aquilo causava um alvoroço dentro de mim, ainda que eu não conseguisse dizer o motivo de isso acontecer. — Ele sabe enredar as pessoas — retorqui, abrindo um sorriso condescendente para Eva. Ela não seria a primeira nem a última mulher na face da Terra a se encantar por Robert e pelas palavras sempre tão bem colocadas. — Mas a verdade é que… — Você ainda está machucada demais para perdoar, yo lo sé muy bien… Abri a boca para negar, porém, de que adiantaria? Essa era mesmo a verdade. Eu estava machucada. Sempre estaria, em especial quando Robert não demonstrava estar indo a lugar algum e se embrenhava cada vez mais em minha vida. Já era difícil deixá-lo ir quando ele fazia questão de manter-me longe. Como eu poderia me afastar quando ele insistia que eu deveria fazer o extremo oposto? — Él me mintió… — devolvi em espanhol, porque se alguém nos ouvisse, eu sabia que apenas Javi seria capaz de entender. — Me traicionó, me hizo de idiota. Él no me quiere, sólo tiene interés en el dinero y… — Como eu disse, você ainda está machucada demais. — Eva depositou um beijo em minha bochecha. — Feliz cumple, mi amor. Então ela me deu as costas e foi embora, seguida por Javi e Chris, que se despediram com um breve abraço e com a promessa de que nos veríamos no dia seguinte. — Certo, essa é a minha deixa — Lilly anunciou quando éramos apenas ela, Robert e eu no apartamento. Meu corpo inteiro se retesou sob a perspectiva de estar sozinha com Robert num ambiente fechado de novo. Da última vez, as coisas não haviam terminado bem. Ou talvez tivessem acabado bem demais, era difícil dizer. — Deixa para o quê? — eu quis saber, acompanhando com o olhar enquanto ela colocava sua jaqueta de couro sobre a regata branca que usava e ajeitava a bolsa a tiracolo. — Eu combinei de sair com umas amigas — lançou, agarrando suas chaves de sobre a mesa e marchando em direção à porta. — Ei, mocinha, que amigas? A essa hora? Não acha que está um pouco tarde? Já passa das dez da noite, esse devia ser seu toque de recolher. Lilly me encarou incrédula, os olhos dançando entre mim e Robert como se fôssemos personagens estranhos de um filme dos anos 90. — Amanhã é sábado, Linda. O que quer dizer que eu não trabalho e também não tenho aula. Relaxa, está tudo bem. 1

2

3

4


— Sim, Lilly, eu sei, mas não acho… — Claire vai estar também, depois vamos para a casa dela — interrompeume, e eu quase lhe perguntei quem, em nome de Deus, era Claire, entretanto, me dei conta de que Lilly não se dirigia a mim, e sim a Robert. — É só uma saidinha inofensiva, eu juro! — murmurou, fazendo um bico pedinte em seguida, enquanto eu me mantinha calada ante a estupefação. — Você sabe que vou querer uma foto sua com Claire antes de você ir dormir, não sabe? — Robert interveio, arqueando uma de suas sobrancelhas em desafio, e eu me perguntei se aquilo era um pesadelo ou uma brincadeira de muito mau gosto. — Tá, o que quiser. Posso ir agora? Obrigada! — ela despejou de uma vez, alcançando a maçaneta mais que depressa. — Espera, eu te dou uma carona — Robert ofereceu, fazendo Lilly bufar e girar os olhos. — De jeito nenhum! Todo mundo já diz que sou sua protegida, se eu chegar ao local de encontro com você… — Fez uma careta. — Esqueça! Eu vou indo. Fique com Linda, é aniversário dela, ela vai adorar a companhia. Até segunda. Minha inércia pareceu ruir graças ao som estrondoso da porta sendo fechada com força. — Ei, Lilly! — gritei, mesmo que ela não pudesse me ouvir, precipitandome para ir atrás dela. Robert me deteve, segurando-me pelo pulso e me puxando de volta. — Ela é adolescente, Linda, por favor, nós já tivemos essa idade… — Quem é Claire? — foi o que pronunciei, ainda catatônica com o fato de ter tido minha reprimenda ignorada ante a autorização muda de Robert para que Lilly fosse se encontrar com a tal garota. — Uma estagiária na R Blackwell. Muito responsável, comprometida, sobretudo, excelente influência para Lilly, eu garanto. Cruzei os braços, um gesto infantil para demonstrar insatisfação por Robert saber mais sobre a vida e amizades de Lilly do que eu. — Não precisa ficar com ciúmes — ele provocou, abrindo um sorriso de lado. Corei, as bochechas queimando em constrangimento e revolta. — Não estou com ciúmes! — retruquei, mortificada. — Sou a única pessoa que enxerga o perigo em Lilly sair tarde da noite, sozinha, por algo tão supérfluo? — Lilly sabe se cuidar muito bem sozinha, você tem ciência disso. Ela é praticamente você com dezessete anos, Linda, só que com uma jaqueta de couro e uma língua afiada. Soltei uma longa lufada de ar, jogando-me no sofá mais próximo.


— Eu me preocupo com ela. Lilly é minha responsabilidade agora. — Sei disso, contudo, tente agir mais como uma irmã mais velha que a incentiva a se divertir e menos como uma mãe autoritária que quer cronometrar tudo o que ela faz. Ponderei por um momento. Eu odiava admitir, mas Robert estava certo quanto a isso. Lilly tinha o juízo no lugar, era 100% digna de minha confiança, ainda que isso não aliviasse a preocupação. — Sou uma péssima irmã mais velha — emiti num suspiro, dando o braço a torcer. Robert enterrou as mãos nos bolsos de seu jeans, balançando a cabeça de um lado para o outro, os cantos dos lábios repuxados num sorriso. Ele prendeu o inferior entre os dentes por um momento, tão despojado, descontraído… eu gostava de vê-lo com roupas casuais, como agora que vestia um jeans escuro e camisa de mangas três-quartos, na cor branca, destacando os músculos bem delineados sob ela. Daquele modo, Robert não se parecia com o poço de tensão que presenciei na casa de Lizzie, dias atrás, quando Paige invadiu a recepção de boas-vindas e quase pôs tudo a perder. Eu tentava não pensar nisso, porque lembrar-me de seu olhar fixo em mim enquanto murmurava Isabel ainda me causava calafrios. — Não seja perfeccionista, você é boa em várias outras coisas, pode ser um fracasso em um ou dois aspectos — Robert gracejou, dando de ombros e sentando-se no braço do sofá onde eu havia me jogado. — Está tudo bem mesmo com Lizzie? — mudei de assunto subitamente, movida pelas lembranças do ocorrido noites atrás. E também pelo fato de que queria mantê-lo falando. Manter nossas bocas ocupadas impediria que nossas roupas saíssem do lugar onde se encontravam agora. — Claro, por que não estaria? — Nada. É só que… — Hesitei, torcendo os lábios. — Bem, você sabe… Paige — disse simplesmente, o nome era autoexplicativo. A expressão de Robert endureceu e seus músculos também pareceram se retesar. — Eu vou cuidar para que ela não volte a se aproximar de Lizzie, não se preocupe. — O que ela quer, exatamente? — O que acha que ela quer? Não respondi. Foi uma pergunta estúpida, e o fato de Robert tê-la devolvido com uma nova interrogação apenas elucidava o fato. — Bem, você cumpriu a cláusula do testamento do seu pai, certo? — questionei, sentindo o gosto amargo característico, fruto do assunto


desconfortável. Robert levou o olhar para nenhum lugar em especial. Seu rosto apenas fugiu do meu enquanto ele permanecia em silêncio. — Certo? — insisti, veemente, inclinando-me para que eu pudesse apoiar os cotovelos sobre os joelhos e, assim, conseguisse enxergar um pouco mais de seu rosto, não apenas o perfil. — Não vou arruinar seu aniversário falando disso — foi o que ele me respondeu, a expressão sisuda e compenetrada não dando o menor indicativo dos sorrisos que ele deixara escapar durante a noite. — É uma escolha minha, Robert, eu quero saber. — Silêncio foi o único retorno que obtive. Bufei, cética. — Qual é o trunfo que Paige e James têm sobre você? — pressionei, a um passo da exasperação. — Nenhum — retorquiu, o maxilar trincado provando que aquilo não poderia estar mais longe da verdade, levando-me a ponderar se aquela era uma característica sua de quando mentia para mim, porém, dei-me conta de que não. Ele também sabia mentir com um sorriso no rosto e palavras bonitas. — É algo plausível o bastante para que eles tenham ido até a sua casa. Até a casa de Lizzie — redargui. — Linda… — Nós poderíamos ter perdido Matt. Ou Lizzie. Talvez até mesmo os dois. Se houver alguma coisa que eu possa fazer, Robert, você precisa me dizer. Matt é meu afilhado, Lizzie é minha amiga, o fato de você e eu não termos nada a ver um com o outro… — Melhor eu ir embora. Mais uma vez, feliz aniversário. Robert já estava alcançando a porta quando me levantei. Fúria queimando de dentro para fora, porque ele insistia em ser o mestre das evasivas sempre que eu lhe fazia perguntas às quais ele não estava a fim de responder. — Não fuja desta conversa — esbravejei, já de pé, os punhos cerrados ao lado do corpo. — O seu problema é esse, tentar se desviar de tudo, sempre usar meias-verdades, contornar o que realmente quer dizer, jogar com palavras. Não agora. Não quando o bem-estar da sua irmã e dos seus sobrinhos está em jogo. — E o que quer que eu diga? — inquiriu, ainda de costas para mim, a voz baixa e controlada, os músculos aparentemente tensos. — A verdade. Qual vantagem Paige tem sobre você? Silêncio. Ensurdecedor, capaz de me permitir ouvir minha própria respiração esbaforida. Robert permaneceu imóvel, fazendo-me querer sacudi-lo e perguntar o que havia de errado com ele e por que era incapaz de responder a algo tão simples. — Robert… — O divórcio, porra! — ele me interrompeu, exasperado, virando-se de


súbito, os olhos verdes injetados, o maxilar trincado, a postura arredia e ameaçadora ao passo que ele se aproximava de mim a passos largos. Inclinando o rosto em minha direção, nós nos encaramos fixamente, mesmo que eu quisesse ter desviado o olhar ante sua revolta e indignação em responder. — Essa é a vantagem — continuou, a voz mais baixa, porém mordaz. — Ela e James sabem sobre o maldito processo de divórcio e querem usar isso para me arrancar a mansão e as ações da Wood Business, então, a menos que você decida que se divorciar não é mais uma opção, ao menos por um tempo… — Eu não posso — atalhei, reafirmando o que dissera também num meneio de cabeça. A voz não era determinada, muito menos imperativa. Foi mais um sussurro débil e desesperado por compreensão. — Você já me cozinhou uma vez, não posso parar a minha vida por sua causa. Sei que é só um pedaço de papel, mas… — O nó na garganta voltou, tornando dolorido o processo de engolir a saliva antes de prosseguir: — … é um pedaço de papel que diz que nós pertencemos um ao outro. E isso não é verdade. Robert soltou um longo suspiro, parecendo exausto. As feições enterneceram, os olhos, de injetados, brilhavam em minha direção num gesto tão familiar que era como se mãos ásperas agarrassem e espremessem meu coração entre dedos pontudos e nada gentis. As dele, por outro lado, macias e cálidas, seguraram meus braços e me arrepiaram, mesmo o contato não sendo pele com pele, uma vez que minha blusa de mangas compridas estava no caminho. — Não precisa ser uma mentira, Linda — ele murmurou, as palmas subindo e descendo pelo meu braço até alcançarem meu ombro e fixarem-se ali. — É isso que estou tentando te dizer. Não foi uma mentira, como não vê isso? — Você se casou porque o seu pai o encurralou. E a única razão de você estar disposto a dividir um teto comigo é porque não quer admitir para o mundo que fracassou em algo. — Desvencilhei-me do contato com suas mãos. Tê-lo perto me deixava fraca. Fazia com que eu me lembrasse dos momentos de pseudofelicidade e carinho, tudo o que eu queria esquecer, sendo assim, dei-lhe as costas e estabeleci distância. — O poderoso Robert Blackwell sempre tem tudo o que almeja e nunca perde as suas conquistas, certo? Não é por isso que as pessoas te veneram? Mas chega. Isso não vai durar muito mais. — A veneração? — lançou em desdém. — Sua esposa capacho — eu disse num fôlego só, talvez sob ele. As palavras vieram do fundo do coração e eu as guardara por tanto tempo que elas dilaceraram todo o caminho por onde passaram. — É o que eu sou. O que eu fui. Nada diferente das pobres esposas dos seus sócios e dos magnatas com quem tem negócios. — Eu não deveria ter vindo — foi o que ele disse. Nada de desculpas ou


justificativas. Era estúpido sentir-me magoada por isso, mas inevitável. — Não. Não deveria — concordei, abraçando a mim mesma num gesto de autoproteção muito corriqueiro. — Nós não fazemos bem um ao outro. Você me manteve longe por acreditar não me merecer, e eu… eu acho que mereço o que fez comigo por ter cometido o erro de me apaixonar por você — admiti envergonhada, encolhendo os ombros, arrependida do que dissera antes mesmo de concluir a frase. O perfume de Robert invadindo minhas narinas foi o primeiro indício de que ele se movimentara, atrás de mim. Eu iria me afastar, entretanto, suas mãos tornaram a alcançar meus ombros, apertando-os com precisão. Não havia me dado conta de que estava tão tensa até sentir seus dedos trabalhando e desmanchando nós em meu pescoço. — Acontece que eu mereço você, Linda — ele quebrou o silêncio com sua voz rouca ao meu ouvido, o hálito quente batendo contra o meu pescoço como já ocorrera tantas e tantas vezes antes. Um suspiro trêmulo me escapou, ainda assim, não fiz menção de me afastar. Eu queria aquele toque. Precisava. A voz rouca ao meu ouvido também era bem-vinda. — Tudo bem, eu estraguei tudo. Omiti coisas importantes, cheguei a crer que não era digno de alguém tão especial quanto você e me convenci de que era incapaz de fazê-la feliz. Mas isso não é verdade. Nada disso é. Pense em onde estaríamos, não fosse James ter mandado uma cópia do testamento de Frederick para você. — Exatamente onde estamos agora — apontei tristemente, lembrando-me do momento exato da derrocada de nosso relacionamento. — Susan — elucidei. — Talvez você tenha se esquecido, mas eu, não. Talvez você não tenha tido alternativa quanto ao testamento, mas no que diz respeito a Susan… — Meneei a cabeça, por fim rechaçando seu toque, levando meu olhar magoado para fitá-lo no fundo de seus orbes verdes. — Você escolheu me trair. E isso é algo que eu não consigo perdoar. Quiçá você pense que sim, que eu posso, afinal, dormimos juntos há… o quê? Duas semanas? Só que, bem… não posso. Aquela não era eu. Os olhos dele se arregalaram levemente, segundos depois, as sobrancelhas se uniram, formando um vinco profundo entre elas. — Por acaso eu… eu — ele titubeou, repetindo a última palavra, algo que eu não me lembrava de já ter presenciado — te forcei a… — Hesitou, engolindo a saliva com dificuldade e umedecendo os lábios com a ponta da língua. — Eu coagi você, é isso que está dizendo? Foi minha vez de arregalar os olhos, pega de surpresa por ele interpretar daquele modo o que eu dissera. Eu sabia, por experiência reincidente, o que era me sentir coagida a algo assim. Não era sequer remotamente parecido com as sensações que Robert me provocava, e eu precisava que ele soubesse disso.


— Não — apressei-me em dizer, negando também num meneio de cabeça. — Absolutamente. Foram as circunstâncias. Eu não culpo você. Eu queria que acontecesse — deixei escapar, sentindo o rubor se apossar do meu rosto numa trilha que começava na base de meu pescoço e ia subindo. — Quer dizer… — tentei emendar — não de forma consciente. O meu corpo queria… — retifiquei, o que tampouco soou bom. — Por causa da abstinência, eu precisava, de alguma forma, eu meio que… “Oh, certo, deixa para lá!”, exultei em deleite quando Robert interrompeu minha enxurrada de palavras sem nexo com um beijo urgente, emitindo um gemido longo que expressava toda minha surpresa e apreciação. Talvez eu devesse ter titubeado, tentado afastá-lo, qualquer coisa do tipo, em especial após o discurso de segundos atrás, mas meus hormônios pareciam estar especialmente em ebulição, porque tudo o que eu conseguia fazer era explorar os cabelos de Robert com minhas mãos, provar-lhes a maciez, senti-los deslizar por entre meus dedos enquanto sua boca tomava a minha daquele modo sôfrego e desenfreado. Suas mãos estavam em meu corpo, em todos os lugares, apalpando, reconhecendo, provocando; as minhas se ocupavam em explorar tudo dele que eu pudesse alcançar. Afoita, no intento de tirar os botões de sua camisa das respectivas casas, arranquei alguns deles, que se perderam no chão sem que nenhum de nós dois se importasse. Essa pareceu ser a deixa para que Robert destruísse também os botões da camisa que eu usava. O contato da minha pele contra a dele, cálida, firme sobre os músculos bem trabalhados, era aterrador e lançava uma corrente de prazer que reverberava por todo meu corpo. Eu estava trêmula entre os braços de Robert, arfando a cada vez que ele separava seus lábios dos meus, para que tomássemos ar, e, então, os contornava com a ponta da língua, mordiscava meu pescoço, sugava o ponto atrás da minha orelha… — Quarto? — ele chiou num gemido rouco quando arranhei suas costas com as pontas de minhas unhas e mordisquei seu pescoço, a voz delatando o que seu corpo não conseguia esconder, arrancando-me um riso baixo de satisfação enquanto ele se livrava da parte de cima de minhas roupas. — Quarto — concordei, erguendo os braços para que ele me despisse da regata inconveniente, a qual, mais que depressa, se juntou à minha camisa de botões, esquecida no chão. Recebi um beijo cheio de volição e urgência ao passo que embolava minhas pernas ao redor da cintura de Robert para que ele consumasse o que tanto queríamos. Porque o meu corpo queria… e precisava.


Eu estava tranquila e relaxada quando acordei. Dolorida em alguns lugares, sim, contudo, a tensão dos ombros se esvaíra. Tateei com a mão esquerda o espaço à minha frente, na cama, mas só encontrei o vazio. Tentei abrir os olhos, porém a luz que invadia a janela os machucou, de modo que tratei de fechá-los. Demorou um pouco até que eu me acostumasse à claridade, e gostaria de não tê-lo feito, apenas para não ver que Robert não estava ali. Exceto pelo cheiro dele impregnado em meus travesseiros e em minha própria pele, não havia nem mesmo indícios de que ele já estivera. Apertando o cobertor com mais força contra o corpo e com um fio de esperança, caminhei para fora do cômodo, encontrando um apartamento vazio e silencioso. De volta ao meu quarto, eu me deparei com meu celular esquecido em meu criado-mudo e o peguei apenas para checar as horas, quando vi a notificação de uma nova mensagem de texto vinda do número de Robert. “Decidi vir para casa e te deixar descansar sem interferência. Sobre a nossa conversa… sei que você quer seguir com a sua vida, que talvez nunca seja capaz de me perdoar. Mas você mesma disse, Linda, que nós poderíamos ter perdido Lizzie ou Matt. Não estou pedindo para que volte para mim, tampouco que pare sua vida… só me dê um tempo para tentar acertar as coisas. Não estou pedindo por mim, mas pela minha irmã e sobrinhos. Sei que eles são importantes para você também. No que diz respeito à noite passada, uma vida repleta de noites como essa é o que estou te oferecendo, se você decidir voltar para mim. Apenas pense sobre isso, está bem? R.” Joguei o aparelho para lá, encolhendo-me em minha cama, os joelhos contra o peito, em posição fetal, sentindo-me estúpida por ter sido fraca a ponto de trazer Robert para minha cama. Contrariada comigo mesma, chorei, perguntandome por que ele me dera o melhor aniversário de todos apenas para arruinar tudo na manhã seguinte.


______________________ 1-Eu sei muito bem. 2-Ele mentiu para mim. 3-Me traiu, me fez de idiota. Ele não me quer, só tem interesse no dinheiro e… 4-Feliz aniversário, meu amor.


I sabel… Eu não fazia a menor ideia do que aquele nome significava, mas o olhar fixo de Paige Williams em Linda, ao murmurá-lo, deixou-me incomodado. Uma vez que eu já havia estabelecido quão ruim eu era encontrando informações pela internet, um nome me veio à mente como uma epifania. Rosalie. Ela vinha trabalhando em escala reduzida, por causa do bebê, o que me ajudava bem mais do que ter alguém que não fosse ela trabalhando em tempo integral. Portanto, disquei o número de seu celular depressa, sendo atendido alguns instantes depois por uma Rosalie bem mais agitada do que aquela à qual eu estava acostumado, sua voz acompanhada de um choro alto de bebê. — Alô — atendeu esbaforida, os gritos infantis insistentes. — Olá, Rosalie. Aqui é Robert Blackwell, preciso dos seus serviços.


Após a ligação, chequei meu celular por mensagens novas, sem sucesso. Eu sabia que não tinha sido justo com Linda ao pedir-lhe que colocasse o divórcio em stand by, contudo, o que mais eu poderia fazer, além disso? Paige estava me cercando de todas as formas e James não parecia disposto a ajudar, nem mesmo com a saúde de Lizzie em jogo. Ela era minha responsabilidade e eu já havia ultrapassado minha cota de perder as pessoas com quem me importava. Mas não havia mensagens de Linda, tampouco ligações perdidas. O silêncio era ensurdecedor e estava me enlouquecendo. Quando éramos apenas nós dois, na cama, nos braços um do outro, os problemas pareciam irrisórios. Em contrapartida, quando Linda me empurrava na direção contrária, parecia bem claro que isso era exatamente o que ela queria.

— Bem, como o senhor disse que ela murmurou esse outro nome, Isabel, enquanto encarava a senhora Blackwell, eu assumi que tanto ela quanto Isabel deveriam possuir características físicas muito parecidas, certo? Caso contrário, por que uma confusão assim aconteceria? — Rosalie inquiriu, sentada à minha


frente, na manhã seguinte ao meu telefonema. As pernas estavam cruzadas, o cabelo loiro bem menos indefectível que antes, mas a perspicácia de sempre continuava ali. Suas palavras soaram com naturalidade ao referir-se a Linda como senhora Blackwell, e eu me dei conta de que gostava muito da sonoridade. — Bem, eu fiz uma busca na internet — continuou, ante meu silêncio —, seria mais fácil se eu tivesse um desses programas de reconhecimento facial que o governo… — Rosalie — eu a interrompi, impaciente —, você sabe que eu não ligo para como obteve a informação, só me diga o que descobriu e pronto. — Certo — ela concordou de imediato, revirando alguns papéis que tinha no colo. — Eu contatei o orfanato, porque… — Ela se interrompeu, fitando-me de forma hesitante e repuxando os lábios para um canto só, ponderando. — Não importa o porquê, já sei. Mas tentei descobrir se havia algum vestígio da família da senhora Blackwell. O que quer que fosse. Tentei resgatar memórias antigas de funcionários remanescentes. Eles me disseram uma série de coisas, mas o que me chamou a atenção foi o fato de que não fui a única a levantar perguntas. — Ergueu as sobrancelhas, como se me incitasse. Eu não disse nada, então ela desistiu do suspense. — Uma senhora de meia-idade também queria saber sobre um bebê deixado no orfanato, há 25 anos. “Ela foi pessoalmente até lá, sendo muito minuciosa. Deu características físicas, falou da aparência latina e que se tratava de uma recém-nascida. Disse que o bebê foi entregue pouco tempo depois de uma chuva torrencial. Deixado, na verdade.” — E o que tem? — instiguei, irrequieto, sem saber quando exatamente Rosalie se tornara tão… prolixa. Ela me encarou como se minha capacidade cognitiva fosse uma piada, e talvez fosse mesmo. — Como assim, e o que tem? — perguntou, quase ofendida por eu ter feito pouco caso de sua enxurrada de informações. — Ela não tinha como saber de nada disso, a menos que trabalhasse no orfanato, o que não era o caso, ou fosse a própria pessoa a ter abandonado a criança. Talvez até mesmo a mãe da sua esposa, senhor Blackwell. Eu estava estático e permaneci assim enquanto absorvia a suspeita que Rosalie levantara. Fazia sentido, e era uma sensação estranha pensar que, quiçá, eu estivesse a um único passo de encontrar a genitora de Linda e preencher todas as lacunas existentes em sua vida. — Essa mulher deixou um nome? — eu quis saber, inclinando-me sobre a mesa, bem mais que interessado. — Taylor Scott — Rosalie respondeu. — Um nome falso, é claro, porque se


ela for mesmo a mãe da senhora Blackwell, de jeito nenhum vai dizer o nome verdadeiro depois de todos esses anos. Mas não se frustre. Não ainda, ao menos. Eu consegui descrições e, honestamente, aliadas ao fato de Paige ter murmurado o nome dessa tal Isabel… — Deu de ombros, como se eu pudesse concluir sozinho o pensamento. Bem, eu não podia. — Trate logo de dizer, Rosalie, não teste os meus nervos… Novamente ela me lançou um olhar de decepção, como se esperasse bem mais do meu cérebro do que estava conseguindo dele. — Eu mostrei uma foto de Paige a Vivian, a moça que me atendeu, e ela reconheceu a senhora… senhorita — Rosalie apressou-se em corrigir — Williams. Foi ela quem esteve lá. Paige perguntou sobre sua esposa, senhor Blackwell, no orfanato onde ela cresceu. — Certo… — concordei, sem saber exatamente aonde aquele raciocínio iria dar, ou talvez negando a possibilidade pelo bem da minha saúde mental. Rosalie não bufou de impaciência, como pensei que faria. Em vez disso, seus olhos se condoeram em minha direção quando ela finalmente disse: — Paige Williams é a mãe da sua esposa, senhor Blackwell. Tem que ser, é a única explicação plausível.

Senti o mundo sair do eixo por um tempo. As mãos suaram, o pescoço tensionou um pouco mais e minha incredulidade atingiu a estratosfera. Deixei Rosalie articulando algo sobre onde a tal Isabel se encaixaria e, sem me importar, peguei meu carro e fui, pela primeira vez na vida, ao endereço que eu bem conhecia, mas fazia questão de ignorar. O duplex localizado numa área nobre poderia muito bem abrigar uma família


decente. Em vez disso, era a residência de Paige e de seus filhos bastardos e exploradores, que jamais se interessaram em trabalhar na empresa do finado pai, porém, sacavam todos os meses um cheque recheado referente à sua parte dos ganhos da empresa que eu me matava para administrar com a R Blackwell. Minha entrada foi imediatamente liberada na portaria e, assim que toquei a campainha, Paige e seu sorriso forçado me receberam, à porta. Todavia, o que me chamou a atenção foi finalmente colocar os olhos em seus filhos, um deles, já na casa dos vinte, e notar o quanto se pareciam com Frederick Blackwell. Eu cheguei a cogitar que Frederick poderia ter sido ingênuo a ponto de arcar com os custos referentes aos supostos filhos ilegítimos, no entanto, vendo-os tão de perto, não havia dúvida alguma. Os sorrisos que se abriram à minha frente, contudo, não lembravam o de Frederick, mas, sim, o de Paige. Acolhedor demais. Amplo demais. Ensaiado demais. — Para quem não queria me ver, você teve um grande trabalho vindo até aqui, não acha? — ela cortou o silêncio, indicando com uma das mãos para que eu entrasse. Permaneci onde estava, sem mover um único músculo. Não me importava que algum vizinho pudesse ouvir nem nada do tipo. Tudo era exacerbadamente irreal e eu não iria me ater a algo tão supérfluo como manter em sigilo as atitudes duvidosas de Paige. — Deixe a minha mulher em paz, Paige. Ela não tem nada a ver com o que acontece entre mim e você, bem como Lizzie. Eu aceito que você queria fazer a minha vida impossível, porque fazer da sua existência algo miserável é quase um sonho de infância, mas não ouse chegar perto da minha família, entendeu? — ameacei, um tom mordaz e um sorriso que representava tudo, menos simpatia. — Eu não me lembro de ter feito nada contra sua ex-esposa, Robert. — Riu, um som forçadamente melodioso que me dava náuseas. — Nós nem mesmo fomos apresentadas. Ela é uma moça bonita, de fato, é uma pena que não tenha dado certo entre vocês. — Quem é Isabel? — perguntei de súbito, assustando até a mim mesmo. A expressão de Paige se fechou, os olhos endureceram antes de ela responder. — Quem é Isabel, Paige, e o que ela tem a ver com Linda? — reiterei, ávido para que sua resposta fizesse ruir a teoria de Rosalie e que Paige me dissesse que Isabel era uma velha conhecida, com quem perdeu contato, de tal modo, eu poderia me concentrar nela e no fato de que Isabel poderia ser a mãe de Linda. — Um fantasma do passado. Nada de mais. Esses latinos têm todos a mesma cara, não acha? — Como sabe que Linda foi deixada em um orfanato, Paige? — irrompi, porque a teoria de Rosalie era absurda ao extremo e alguém como Paige seria impossível de gerar alguém como Linda. — Isabel te contou? — ofereci. — Você


estava com ela? Me diga quem é essa mulher! — Pare de fazer perguntas cujas respostas não lhe agradariam, Robert Blackwell. — Pare de me dar evasivas quando está tentando obter alguma coisa de mim, Paige Williams. — Eu a encarei, ofertando-lhe uma chance de responder às minhas perguntas, todavia ela não aceitou a dádiva. — Certo. Não me diga nada, está bem, mas que fique claro que eu quero você o mais longe possível de Linda, senão… — Senão o quê? Hã? — ela explodiu, perdendo a expressão sempre comedida e a voz forçadamente educada. Agora mais parecia um bicho açoitado grasnando. — Termine, ao menos uma vez, sua ameaça vazia! — Inclinou-se para mais perto, a voz um sussurro cáustico: — Eu não tenho medo de você. Imitei seu gesto, levando meu rosto para mais perto do seu, para que ela mirasse bem fundo nos meus olhos e visse que eu falava sério. — Você deveria temer alguém que pode facilmente te enterrar viva — alertei. — Deixe. Linda. Em paz! — Me dê o que é meu! A mansão Blackwell, as ações da Wood Business. Todas as coisas que Frederick deixou para mim e você roubou com um casamento de conveniência! — Me diga como uma amante poderia ter mais direitos que um filho legítimo! — provoquei. Ela piscou, como se titubeasse e perdesse o equilíbrio, porém, logo se recuperou. O casal de filhos esquecidos se fez presente, as carrancas denotando que não gostaram nada do que eu acabara de dizer. Contudo, não se manifestaram. Como cães adestrados, continuaram em silêncio. Paige era o cabeça e eles não abririam a boca, a menos que recebessem uma ordem direta. Instantes depois, o ambiente foi preenchido por uma risada histérica e aguda ao extremo, que não combinava com a pose requintada que Paige insistia em passar. — Um filho de quem Frederick não gostava nem um pouco — ela soltou em meio ao som incômodo de seu riso, pegando-me desprevenido e fazendo-me dar um passo atrás. — O quê? É uma surpresa para você? — Juntou as sobrancelhas, em falsa inocência, a gargalhada transformando-se num mero sorriso de escárnio. — Matthew era o pupilo de Frederick, o filho obediente e centrado que você jamais foi. Você deveria ter se afogado, Robert, e sabe disso. No fundo, bem aqui — prosseguiu, batendo contra o próprio peito, elucidando —, você sabe que isso era o que todos desejavam. Frederick queria Matt, sua mãe queria ver o marido feliz, Elizabeth queria a família perfeita… você sempre sobrou nessa equação. O filho dispensável!


— Cale a boca! — exigi entre dentes, mantendo os punhos cerrados ao lado do corpo, as unhas fincadas em minhas palmas enquanto estas suavam e eu buscava algum autocontrole. Meu coração estava disparado no peito, eu conseguia sentir o pulsar em meus ouvidos, em especial agora, com a mandíbula trincada. Senti o suor se acumulando em minha fronte, entretanto, não me incomodei em enxugá-lo. Os punhos presos onde estavam eram tudo o que me impedia de ser um agressor de mulheres, no momento. — Ou o quê? — Paige provocou, dando um novo passo em minha direção, diminuindo a distância já ínfima. — Você está morrendo de vontade de me agredir fisicamente, não é? — Seu sorriso característico voltou a se fazer presente. Os lábios pintados de vermelho, repuxados sobre os dentes brancos, fazendo minha cólera crescer concomitante à minha vontade de esganar Paige. — Quer descontar em mim os anos de abuso psicológico que Frederick infligiu em você? Fazer-me sofrer por ter dado a ele dois filhos bastardos, que valiam muito mais para Frederick do que você jamais valeu, e tiveram dele a afeição que você nunca conseguiu? Vá em frente! Me bata! Mas se certifique de deixar hematomas em todos os lugares, porque eu quero mostrar todos eles a Linda, cada um deles, e contar exatamente o que você fez para que viessem parar aqui… Não discerni muito bem o que aconteceu a seguir. Paige estava a um centímetro de mim e, então, no outro segundo, um de seus filhos a agarrava pela cintura e a arrastava para longe enquanto ela esperneava e o nariz do que parecia ser o mais novo sangrava graças ao soco que eu lhe acertara, para que saísse da frente e eu pudesse alcançar Paige. — Eu mandei deixar Linda fora disso! — bradei, a impostação de voz fazendo com que a pressão em meu peito e costas aumentasse quase ao ponto de me fazer perder o controle de minhas pernas. — Não! — Paige devolveu, berrando de forma histérica e ignorando os murmúrios de seu filho mais velho para que se acalmasse. — Não vou deixar! Ela é minha! Ouviu? Minha filha! Você se casou com a minha filha, Robert Blackwell! Você se casou com a minha filha! O tempo parou. Os gritos de Paige cessaram, os braços que a seguravam cederam, inertes. Estupefato, cambaleei para trás, até apoiar-me contra a parede mais próxima. Desta vez, limpei o suor da testa, percebendo as palmas de minhas mãos ensanguentadas, devido à pressão de minhas unhas ali. Havia dores em todo meu corpo, bem como falta de ar. Meus pulmões pareciam ter desaprendido a exercer sua função. — Eu vou contar a ela — Paige prosseguiu ante o silêncio sepulcral que se instaurou, com três pares de olhos verdes sobre si, idênticos aos de Frederick. A


respiração dela vinha pesada e difícil pelo esforço de agora há pouco. — Vou dizer toda a verdade. E que Deus me ajude, se você não me ajudar, Robert… — continuou num ofego — eu não tenho mais nada a perder. Que Deus te ajude se você não me der o que quero.


N ão respondi à mensagem que Robert me mandara na manhã seguinte ao meu aniversário. Sentia-me estúpida por ter cedido a ele apenas para que, na próxima oportunidade, Robert viesse me pedir favores. Por isso o ignorei. Christine sondou se ele e eu havíamos passado a noite juntos, ao que neguei, porque vergonha me consumia ao imaginar quão estúpida ela me acharia se eu dissesse a verdade. Contra todas as minhas expectativas, Chris não acreditou nem um pouco no que eu dissera. — Você sabe que quando perguntei “vocês passaram a noite juntos?”, na verdade, eu quis dizer “como foi a noite que vocês passaram juntos?”, certo? — inquiriu, buscando uma posição mais confortável no sofá-cama de Lilly, agora aberto, enquanto maratonávamos Friends na Netflix. Bufei em resposta, já que não queria falar sobre nada daquilo. — Ruim assim? — Ela entortou os lábios, sondando minha expressão, os olhos atentos em meu rosto, que começava a arder de vergonha. — Não, não foi nada ruim… — decidiu-se com um sorriso na voz. — Não quero falar disso, Chris. Por favor. — Por favor digo eu, Linda, será possível? — Christine jogou as mãos para cima num gesto teatral de exasperação. — Não vê que está cometendo a maior estupidez da sua vida? — Não vai mais acontecer. Eu vou colocar um fim nisso. — É disso que eu estou falando. Da sua teimosia. Tudo bem, Robert errou,


pisou feio na bola, mas ele já se desculpou, não foi? Por que raios de motivo você não dá esse braço a torcer? — Acha que um pedido de desculpas resolve tudo? Que apaga as coisas… — Não resolve porcaria nenhuma — interpelou, antes que eu pudesse continuar redarguindo —, mas é um baita começo. Acha que ficar pelos cantos, cabisbaixa, pensando em mil formas de levar a vida longe de Robert, resolve alguma coisa? Especialmente quando bastam 5 minutos sozinhos, talvez menos, para vocês se atracarem? Ela ergueu uma das sobrancelhas, pirrônica, o olhar desafiador sobre mim, esperando o menor gaguejar para interromper-me de novo, a fim de continuar com um sem-fim de argumentos. Eu não sabia de onde surgira toda aquela sua vontade de me jogar nos braços de Robert, provavelmente do fato de ela e Javi parecerem um casal apaixonado de telenovela mexicana. Chris encontrara seu “felizes para sempre” e agora queria empurrar-me para o que julgava ser o meu. — Isso não quer dizer nada. Você, por acaso, caiu de amores por todos os homens com quem dormiu? — desafiei, arrependendo-me logo depois ao imaginar que não era justo dizer algo assim quando ela estava grávida e comprometida com Javier. — Não, Linda, mas também não me casei virgem com o homem dos meus sonhos aos 24 anos de idade — ela devolveu, e ouvir as palavras saindo de sua boca tornou tudo muito mais embaraçoso. Sem querer continuar ali, ouvindo coisas indesejadas sobre um assunto claramente indesejado, procurei me levantar, jogando para longe o cobertor que eu dividia com Chris. Entretanto, não fui longe. A mão firme segurou meu braço, trazendo-me de volta ao lugar e impelindo-me a fitar Christine. — Não, você vai me ouvir. Estou cansada disso. Você tentou, tá legal? Eu admito. Nós saímos, nos divertimos, você se encantou por Will, ele se mostrou um perfeito idiota e o maior erro que você poderia ter cometido. Principalmente: ele não é perfeito. Robert não é perfeito. Javier não é perfeito. Ninguém é, nem mesmo você! — Você fala como se eu não soubesse viver sem Robert — acusei, insultada. — Que idiotice, é lógico que você sabe. Tanto sabe viver sem ele quanto sabe ser feliz sem ele também. Mas você vai mesmo me dizer que ao lado dele sua felicidade não atinge as estrelas? Você rechaçou Will por não se sentir pronta para ir para a cama com ele, porque, pra você, nessa cabecinha morena e complicada, sexo não é só sexo. “Mesmo assim, depois de tudo, você partilhou esse momento de intimidade com Robert, e só foi preciso um beijo para que se sentisse pronta para chegar até as últimas consequências com ele, certo? Linda, eu entendo. Juro que sim. Eu sei


ser feliz sem Javi. A questão é que não quero, como você também não quer ser feliz sem Robert. Pensa nisso, tá?” Assenti, porque não havia muito mais que eu pudesse fazer. Engolindo o nó na garganta, presença constante, agora, não externei para Christine que ser feliz sem Robert era o que eu mais queria no mundo.

Eu ia mandar uma mensagem em resposta à que recebera, a fim de dizer a Robert o que eu havia decidido sobre o divórcio. Olhei ao redor, agradecida pelo breve momento em que meu chefe tirou os olhos de mim, e puxei o celular de dentro da bolsa. Contudo, como se lesse minha mente, Robert acabou se precipitando. “Quero te ver, precisamos conversar. Pessoalmente, de preferência, é importante…” Ponderei por um momento, sem saber ao certo o que responder, porém, ciente de que uma simples mensagem de texto não poria um fim àquele impasse gigantesco em que se transformara nossa relação. “Tudo bem. Quando?” “Posso passar na sua casa depois do expediente?” Claro que não!, era o que eu queria responder, porque já aprendera que nós dois, juntos e a sós, não éramos uma combinação confiável. Não ajudava em nada o meu caso o fato de eu me derreter em seus braços um segundo após dizer que não queria mais vê-lo. “Melhor não. Eu te encontro na cafeteria perto da R Blackwell amanhã, antes do expediente.” “Está bem. Eu… espero te ver logo. Você sabe que não suporto ficar digitando mensagens de texto.” “Então pare de digitá-las e enviá-las. Até amanhã.”


Não sei exatamente por que ou pelo que eu estava esperando… mas aguardei, com o celular em mãos, por um meio de saber que Robert lera minha última mensagem. Como não houve resposta, supus que ele ficara preso com algo do trabalho e me mandaria um okay mais tarde. Só que não aconteceu. Odiei o fato de sentir o coração pesado por uma coisa tão estúpida. “Você disse para ele não mandar mensagens. Talvez a estúpida seja você…”, a voz irritante em meu subconsciente me lembrou. Bufei para ela, para mim, para o mundo, e contei avidamente as horas que passavam a fim de que eu pudesse ir logo para casa.

A cafeteria continuava aconchegante do mesmo modo que eu me lembrava. Robert e eu costumávamos ir até lá, no começo de tudo; ele, para pegar um café, eu, para sorver chocolate quente. Nós dividíamos uma porção de cookies com gotas de chocolate e conversávamos sobre diversas coisas: os preparativos do casamento, as compras que precisavam ser feitas, o aumento de salário de Gemma, como eu era uma secretária brilhante e como ele sentia minha falta no trabalho, por não poder roubar alguns beijos… Espantei os pensamentos, avistando Robert na mesma mesa onde costumávamos nos sentar. Uma grande coincidência que não passou despercebida por mim. — Estou feliz que tenha vindo — ele disse assim que me aproximei, levantando-se para me receber. Não respondi a isso. Ao menos não em palavras. Apenas acenei educadamente, sem me importar de sequer lançar-lhe um sorriso, porque tampouco conseguiria esse feito. Era impressionante o desgaste emocional que Robert insistia em me infligir.


Do modo polido de sempre, ele afastou a cadeira para que eu me acomodasse, dando a volta ao redor da mesa e fazendo o mesmo, cruzando os dedos longos de pianista sobre o tampo do móvel e lançando seus olhos verdes e perscrutadores em minha direção. Eu não sentia incômodo com o gesto, ao contrário. Por mais que odiasse admitir, eu meio que gostava. Aquecia-me o coração o modo como Robert me fitava, porque a verdade é que me trazia boas lembranças do tempo em que julguei que seu amor por mim era genuíno e ele apenas não sabia como colocar nas palavras exatas. Nunca me senti mais estúpida por ter aceitado me casar com ele sem que Robert dissesse me amar quanto me sentia agora. A garçonete, vestida com um conjunto social de saia preta e camisa branca, se acercou apta para anotar nossos pedidos, após Robert tê-la chamado com um aceno. — Pode nos trazer uma porção de cookies com gotas de chocolate, por favor. Para beber, um chocolate quente e um café. “Ele se lembra disso também…”, foi a primeira coisa em que pensei enquanto engolia em seco. Causava uma sensação estranha em meu peito o fato de ele não ter se esquecido daquele detalhe tão banal. Era quase como se ele realmente se importasse e o tempo que passamos juntos significasse mais que apenas dar a ele o direito de assumir as ações do falecido senhor Blackwell e colocar as mãos na mansão da família. — Na verdade… — comecei, fazendo a atendente se virar em minha direção, caneta em punho e próximo ao bloquinho de papel. — Pode cancelar o chocolate quente. Não quero nada além de uma água com gás, por favor. Ela olhou de mim para Robert, como se procurasse a resposta sobre que ordem seguir. Não me virei para fitá-lo, no entanto, pelo modo como ela concordou e se retirou, eu poderia apostar que ele lhe lançou um aceno de cabeça em retorno. Uma vez a sós, retirei da bolsa os papéis que tanto requeriam atenção e os estendi na mesa à nossa frente, com o cuidado de também colocar ali uma caneta, para o caso de ele ter se esquecido — o que eu duvidava. Robert analisou o envelope pardo, depois me encarou, um sorriso zombeteiro repuxando um dos cantos dos lábios bem esculpidos. — Vocês, americanos, sempre indo direto aos negócios. Os ingleses não são exatamente assim, sabe? — Sempre pensei que você fosse exatamente assim. Negócios sempre em primeiro lugar. Ele aquiesceu uma vez. Não concordando comigo, mas, sim, num gesto claro


de quem não vai discutir nada daquilo. — Eu marquei o nosso encontro… — Reunião — corrigi, desconfortável com a palavra que ele decidiu usar. — Certo. Reunião. Eu marquei nossa reunião — frisou —, porque pensei que poderíamos conversar um pouco. — O que temos para conversar que já não tenha sido dito? Ele abriu a boca para falar, porém desistiu. Sua mão direita foi ao encontro de seu ombro esquerdo e ele apertou o local, como se para aliviar a tensão, o rosto contorcido em uma carranca de desconforto. — Christine e Javier, huh? Quem diria? — lançou, a frase saindo do jeito exato que era, um modo forçado de puxar conversa. — É sobre isso que quer conversar? Em vez de assinar de vez o divórcio? — Só estou surpreso — defendeu-se. — Até onde me lembro, ele era apaixonado por você. — Nós sempre fomos como irmãos. Já te disse isso. Mas não é de se espantar que você não estivesse ouvindo — devolvi sem conseguir disfarçar o tom amargo. Robert me observou por um momento, os olhos verdes perscrutando-me. Desviei o olhar do seu, deixando-o cair em suas mãos cruzadas sobre a mesa. Os nós de seus dedos estavam machucados, muito vermelhos, com algumas pelinhas soltas, parecendo que ele socara algo ou alguma coisa. Mordi a língua, no intuito de me impedir de perguntar-lhe o que acontecera. — Você já pensou na possibilidade de irmãos biológicos? — ele voltou a pronunciar, pegando-me desprevenida e sem a certeza de que realmente havia entendido o que ela queria dizer. — O quê? — Irmãos biológicos. Sua família biológica — falou simplesmente, empregando um tom tão casual que parecia forçado. Franzi o cenho, sem entender aonde ele queria chegar com aquela história. Era um assunto delicado, ele bem sabia. Talvez não desse a mínima também. Sustentei seu olhar pelo que me pareceu uma eternidade, até uma luz acender-se em minha mente, lembrando-me de algo que me deixou irrequieta. — Está dizendo isso porque Paige me confundiu com uma tal Isabel? — testei. — Você não ficou curiosa? Sim! — Não. Robert não parecia ter acreditado em minha pequena mentira, contudo, qualquer coisa que ele pudesse falar foi interrompida no momento em que nossos


pedidos chegaram. Minha água foi servida e beberiquei alguns goles enquanto Robert se ocupava em provar seu café. — Então, sobre o divórcio… — Não vai comer os cookies? — interrompeu-me, apontando o prato à sua frente. — Não, obrigada. Como eu dizia, temos um acordo pré-nupcial, lembra? Seu dinheiro está seguro, se você assinar, se essa é a razão de você estar protelando… — Você sabe que o acordo pré-nupcial não te deixa desamparada, não é? Nunca foi sobre eu não querer dividir o que eu tinha com você ou simplesmente usá-la e… — Não quero seu dinheiro — eu o cortei, antes que ele fizesse um discurso para aplacar o peso de ter premeditado cada passo que percorremos até aqui. Estava cansada demais para isso. — Já não queria antes, quero ainda menos agora que sei das atrocidades de que você é capaz para consegui-lo. — Me casar com você não foi uma atrocidade. — Com os meus sentimentos foi, sim — contrapus, observando-o se armar de novos argumentos com o propósito de me dissuadir. — Esqueça — prossegui, abanando uma das mãos como se desmerecesse o assunto —, você nunca vai conhecer a sensação de amar alguém e se decepcionar, então nem tente entender. Tomei um novo gole d’água. Então outro e mais outro, em uma tentativa infrutífera de aplacar a secura em minha boca. Pousei o copo sobre a mesa outra vez, mantendo meus dedos em torno dele. — Linda, quando eu digo que sinto sua falta, realmente falo sério. Não é mentira, esse não sou eu tentando te manipular nem nada do gênero. Não respondi de pronto, apenas senti as mãos de Robert alçando as minhas. Pela primeira vez, elas estavam ásperas ao toque. O contato foi distinto, porém, igualmente bom a todos os outros vindos dele. Ainda assim, virei suas palmas para cima, encontrando pequenos cortes em sua superfície. Encarei Robert, o rosto franzido em confusão, instigando-o a dizer como aquelas feridas foram parar ali. Em resposta, ele quebrou o contato, pousando as mãos em seu colo, onde eu não poderia vê-las. — Eu acredito — admiti um tempo depois, analisando a expressão introvertida que ele assumira após eu checar as escoriações em suas mãos. — Mas você sente falta de alguém ao seu lado, com quem possa conversar, desabafar depois de um dia ruim. Alguém que vai estar sempre lá para você, ouvindo sem julgar, dizendo o quanto você é capaz e vai tirar de letra qualquer problema iminente. Você não sente falta de mim, Linda, e sim de ter uma pessoa por perto — concluí tristemente. Por mais que fosse bobo admitir, uma parte


minha gostava da ideia de Robert sentindo falta dos nossos momentos juntos, porque seria, pela primeira vez, um sentimento compartilhado por ambos. — E se eu disser que sinto falta de você? — Robert… — comecei num suspiro, todavia ele atalhou. — Não, me escuta. E se eu disser que sinto falta de você, especificamente você, das coisas que vivemos juntos? — testou, o olhar fixo em mim, a expressão compenetrada. Pensei em responder, contudo, ele voltou a falar: — De acordar ao seu lado, de te observar dormindo, de como você enrubesce quando faço algum elogio… — Robert abriu um sorriso, não presunçoso, mas, sim, nostálgico, e o gesto fez com que meu coração afundasse dentro do peito ante a possibilidade. — Da textura da sua pele — continuou, inclinando-se em minha direção, a voz mais sussurrada que antes —, do gosto do seu beijo… dos seus lábios, de fazer amor com você, do calor do seu corpo. De só te abraçar depois de um dia ruim… O que você diria? O já conhecido nó na garganta estava lá outra vez. Meus olhos marejaram com lágrimas que os incomodavam, de modo que desviei o olhar por um momento, evitando que Robert visse o que se passava comigo. Não era justo ele me dizer todas essas coisas depois das recaídas que me levaram direto para os braços dele. — Eu diria que é impossível — obriguei-me a dizer assim que consegui engolir a saliva, com dificuldade. — Por quê? Por que nada disso pode ser verdade? Por que é tão difícil acreditar que estou sendo 100% honesto com você? Sem meias-verdades, como você mesma disse, sem omissões escusas. Você me enlouquece, me tira dos eixos. Eu fiz minha paz com isso, por que você não pode fazer o mesmo? Meneei a cabeça em negativo, como se desse modo as palavras dele pudessem se dissipar. Era incrível que ele, de fato, estivesse recorrendo àquele artifício. Um sorriso descrente e fugaz me escapou antes que eu pudesse articular qualquer outra coisa. — Essa não pode ser uma pergunta séria. — Por que não? — ele quis saber, soltando um bufar exasperado logo em seguida. As sobrancelhas estavam franzidas, as mãos novamente cruzadas sobre a mesa, deixando-me ver a aliança que seu dedo anelar esquerdo ainda exibia. Esvaziei meus pulmões lentamente, o ar saindo numa lufada trêmula. — Porque isso é amor, Robert — murmurei por fim, meus olhos fixos nos dele, como se, de tal modo, eu conseguisse fazê-lo compreender que nada do que ele falara era minimamente cabível. — Essa vontade incontrolável de estar perto, a importância de detalhes tão pequenos… — Dei de ombros, ganhando tempo, minha voz embargando, porque era como eu me sentia por ele. Depois de tudo, eu


sabia que ainda o amava, pelos mínimos detalhes, até. — Isso é amor — reiterei —, e nós dois sabemos que você não me ama. Nunca amou — concluí com pesar. Os olhos dele se arregalaram, a boca se abriu em estupefação ao passo que ele permanecia estático. Sem querer ou possuir forças para continuar naquele lugar por mais um segundo sequer, eu me levantei, colocando minha bolsa a tiracolo sobre o ombro e apressando-me para fora dali. Não queria encará-lo nem assistir a ele enquanto, possivelmente, se preparava para argumentar. Robert tinha um talento nato para me dissuadir. Mas não desta vez.


Desde o meu encontro “barra” reunião com Robert, nós não nos falamos mais. Na verdade, ele me mandou uma mensagem querendo agendar um novo encontro “barra” reunião, todavia, deixei claro que já não tínhamos nada a falar e que tudo o que eu queria dele era o divórcio. Ele pareceu entender. Forcei-me a esquecer meus problemas e focar em coisas felizes e saudáveis que estavam acontecendo ao meu redor. Como o fato de eu ser madrinha de Matt e ter tido o privilégio de segurá-lo em meus braços ainda na maternidade. A emoção foi tamanha que torrentes de lágrimas me escaparam sem que eu pudesse fazer nada para impedir. Aquele serzinho tão pequeno e indefeso apertado contra o meu peito, a premissa de que também era minha responsabilidade zelar por ele … Além disso, havia um zilhão de coisas para resolver antes da chegada do bebê de Chris e Javi. Eu me sentia até mesmo estúpida por não ter notado que os dois estavam vivendo numa bolha só deles há muito tempo, desde que o último relacionamento de Christine fora por água abaixo e ela e Javi, nas palavras deles, aconteceram. Justo Christine, que sempre quis um marido capaz de bancar todos os seus luxos, carregava um sorriso enorme no rosto a cada vez que seu olhar encontrava Javier e eles contavam praticamente os centavos para adquirir todas as coisas de que o bebê iria precisar. Com tudo isso, não foi de se espantar que Javier lançasse uma proposta de casamento, enquanto estávamos no meio de vários macacões, sapatinhos e


touquinhas de bebês. — A gente deveria se casar, em vez de só morar juntos — Javi dissera, de modo tão casual que todos os olhares se voltaram para ele. Chris tinha os olhos arregalados pela surpresa ao encará-lo. — Ca-casar? — gaguejara em resposta, e Lilly e eu assistíamos, sentadas no sofá, à cena toda. — É. Você acha mesmo que eu vou querer passar um segundo que seja longe de você e do nosso bebê? De jeito nenhum, Chris. Eu quero você, o mini Javi ou a mini Chris, a abuelita com a gente. Uma família de verdade. Eu quero absolutamente tudo com você. Christine se jogou em cima dele. Os braços ao redor do pescoço de Javier enquanto ela murmurava “sim, sim, sim” infinitas vezes. Lilly e eu fungamos quase simultaneamente, tentando disfarçar o choro. Mas, pela primeira vez, eu vertia lágrimas de alegria, porque amava Javi e Chris e a felicidade deles era minha também. Lilly e eu nos entreolhamos, porque sabíamos o que aquilo significaria. Muito em breve, já não seríamos ela, Christine e eu vivendo juntas e partilhando tudo. Chris estava formando sua própria família, e cabia a mim e a Lilly resolver o que faríamos com nossas vidas a partir dali.

— Ainda não acredito que estou me casando grávida. Como se um único enxoval já não fosse difícil o bastante, agora preciso organizar dois e acertar as coisas do casamento! Christine estava cercada de um sem-fim de revistas de noivas, ao mesmo tempo, eu pesquisava na internet o berço ideal para o bebê. Quando me voluntariei para o serviço, eu não fazia ideia de que haveria tantas opções assim para analisar…


— Do que você está reclamando? Disse sim antes mesmo de ver o anel de noivado — Lilly provocou. Christine mostrou a língua em seguida, num gesto infantil, erguendo a mão esquerda e exibindo um anel antigo que pertencera a Eva e que, agora, era o símbolo de seu compromisso com Javi. — Agora eu tenho um anel de noivado, okay? — Christine devolveu. — É herança de família, de prata, vindo diretamente da Colômbia. Muito melhor que essas coisas modernas e superficiais. Esse anel tem toda uma tradição. O senhor González presenteou a abuelita com ele quando eles ainda eram namorados. Um longo suspiro foi o que encerrou seu argumento, deixando-me ainda mais abismada. Se há um ano alguém me dissesse que a superficial Christine Westwood, a mesma que terminou um noivado porque a conta bancária do noivo em questão não fazia seu tipo, estaria a um passo do altar com um cara tão pobre quanto eu e grávida dele… bem, eu teria rido. Mas, de qualquer forma, muitas coisas mudaram de um ano para cá. Nossas vidas deram uma guinada, não apenas a de Chris. Todos nós nos encontrávamos muito diferentes do que éramos um ano atrás, o que era muito bom e, ao mesmo tempo, aterrador.

Para alimentar o vício de todas nós por doces, e também porque eu adorava cozinhar e odiava fazê-lo apenas para mim mesma, aproveitei um fim de semana de ócio, longe do escritório, para confeccionar alguns cupcakes. Meus dias dividindo o teto com Lilly e Christine estavam contados, e por mais que eu estivesse feliz por minha amiga, o breve silêncio de nosso até então apartamento já me levava às lágrimas. Sempre fui sozinha, contudo, havia me acostumado a não sê-lo mais. Viver com Chris e Lilly me habituara a ter sempre alguém com quem contar, e agora que aqueles dias estavam chegando ao fim, eu


teria que conviver com a minha velha solidão. Como Christine precisaria de um apartamento com três quartos, até cogitei a possibilidade de Lilly e eu continuarmos ali. Porém, nós duas sabíamos que não seria a mesma coisa, e Lilly decidiu apenas… seguir em frente. Preparando-se para ingressar na faculdade e dedicando-se cada vez mais ao emprego, ela achou por bem dividir o aluguel com colegas de trabalho em algum lugar mais próximo da empresa. Fui pega de surpresa, fiquei completamente desnorteada, mas, de qualquer modo, me vi assentindo, porque eu amava Lilly e queria o melhor para ela, ainda que isso significasse tê-la longe de mim. O pensamento trouxe lágrimas aos meus olhos, que foram prontamente enxugadas ao som da campainha. Algo que nós quase não ouvíamos por ali. Antes, Javier era o único que a utilizava, agora que ele tinha uma chave, bem… era até estranho o pensamento de que aquela velharia ainda funcionava. Lavei minhas mãos sujas de chocolate e apanhei um pano de prato para enxugá-las. Ao chegar à sala, vacilei, pensando que, talvez, pudesse ser Robert à porta. Respirando fundo, a fim de preparar-me para o fato de estar certa em minhas suposições, precipitei-me até a porta. Assim que a abri, a visão que tive me causou uma surpresa sem precedentes. Parada à soleira, com um sorriso diplomático, roupas elegantes e cabelos castanho-avermelhados indefectíveis, estava Paige Williams, a única pessoa a quem Robert conseguia desprezar ainda mais que ao próprio pai. Ante a surpresa, não consegui esboçar nenhuma outra reação, apenas pisquei, engolindo a saliva com dificuldade, a voz lutando para sair e balbuciar alguma coisa. O que ela estava fazendo ali, afinal? — Pois não? — foi o que consegui murmurar, meio incerta. — Melinda, não é? — ela perguntou casualmente, e não usei a voz para responder, apenas aquiesci num meneio de cabeça. — Eu sou Paige. Paige Williams. — Sei quem a senhora é — devolvi, erguendo o queixo um pouco mais, porque ela esbanjava confiança e altivez de um modo desconfortante. — Sabe que eu sou a madrasta de Robert, isso é verdade, mas não vim até aqui como aquela Paige. — Não estou entendo… — admiti, confusa, franzindo o cenho. — Vim como mãe, Melinda. A sua mãe, pois sei que você precisa de mim, tanto quanto preciso de você.


O mundo perdeu um pouco do sentido no instante em que Paige bateu à minha porta, apenas para desabar quando ela pronunciou as palavras que me marcaram indelevelmente. “Vim como mãe, Melinda. A sua mãe…” Minha mãe, minha mãe, minha mãe… As palavras entraram em loop na minha cabeça, fazendo tudo girar e transformar-se num borrão. Algumas vezes, muito tempo atrás, imaginei como seria o momento em que minha mãe voltaria ao orfanato para me levar embora dali. Ela me abraçaria, me pediria desculpas por ter me abandonado e prometeria nunca mais me deixar. Isso era o que uma mãe faria, por isso Paige não poderia ser minha mãe. Ela apenas me encarou, provavelmente esperando alguma reação, contudo, meu choque foi o bastante para manter-me estática. Paige esperou, com uma paciência exacerbada, até que eu dissesse algo, o que não aconteceu. Em choque, apenas cerrei a porta, a fim de refugiar-me em meu quarto e tentar descobrir o motivo de ela ter se dado ao trabalho de inventar uma história assim, tão absurda. Colocando um pé para dentro do apartamento, Paige impediu que a porta se fechasse, sacudindo a cabeça de um lado a outro, como quem diz “isso não vai funcionar”. Ela disse uma série de coisas a seguir, as quais não compreendi, e, então, se embrenhou em meu apartamento, colocando-me sentada no sofá-cama de Lilly, desaparecendo e voltando algum tempo depois, empurrando em minha direção uma xícara de café. O cheiro da bebida fumegante pareceu tirar-me do meu torpor, mas não aceitei a xícara que Paige me oferecia. Eu não tomava café, a menos que fosse com leite, algo que aprendi com Eva. Todo mundo sabia disso, até mesmo Robert, exceto Paige. Sem se importar, ela se sentou ao meu lado, estendendo uma de suas mãos para tocar as minhas. Eu rechacei o contato, como se ele tivesse me causado


uma descarga elétrica. — Melinda, querida, fale comigo — ela pediu num tom de voz suave e melódico, a expressão serena enquanto me fitava longamente. — O que você quer? — consegui perguntar, depois do que me pareceu uma eternidade. — O que pretende com esse absurdo de que… — Sou sua mãe? — atalhou. — Não é um absurdo. É a verdade, meu bem. — Não me chame de meu bem — protestei, no entanto, a voz que deveria ser um brado não passou de um sussurro débil. — Não sou seu bem… — emendei, sacudindo a cabeça para espantar o pensamento. — Não sou nada… — Eu entendo seu estado de negação, acredite, foi como eu fiquei. Mas também sei que você tem uma porção de perguntas para mim, não é? — Voltou a sorrir, num gesto tão… maternal… que me doeu o peito. — Tenho todo o tempo do mundo para conversar com você, querida. Acredite, não há nada que eu queira mais. — Paige estendeu a mão para me tocar. Novamente, esquivei-me do contato, arrastando-me no sofá para mais longe dela. — O que você pretende com isso? Ferir Robert? Será possível que você já não causou danos suficientes a ele? A expressão de Paige endureceu ante a menção do nome de Robert. Ela trincou o maxilar, os olhos faiscando revolta. — Não me espanta que ele tenha pintado a mim e aos seus irmãos como os vilões da história, Melinda… — Meus irmãos? — testei, cética. As habilidades de atuação de Paige eram dignas de um Oscar. — Seu nível de desespero me assusta, senhora Williams. Escute, eu não tenho nada a ver com isso. Se veio até aqui achando que sou uma órfã desesperada a ponto de me jogar nos braços de qualquer uma disposta a interpretar o papel da mulher que me abandonou, está enganada. Não tenho nada a ver com sua rixa com os Blackwell. Por favor, me deixe fora disso. — Não — negou, também num meneio de cabeça, a voz dura e inflexível enquanto seus olhos brilhavam com uma emoção desconhecida. — É impossível deixá-la fora disso, Melinda, quando Robert foi quem a arrastou para o centro de tudo. — Pelo amor de Deus! — bufei, exasperada, encontrando forças suficientes em minhas pernas para levantar-me e estabelecer mais distância entre mim e Paige. — Robert cumpriu a cláusula do testamento, ele se casou. Eu entendo os motivos dele para manter a mansão Blackwell, mas qual a sua desculpa para ser tão obcecada por ela? — Não é obsessão, eu… — Você acaba de vir à minha casa — interrompi, o dedo em riste em sua direção —, com uma história bizarra de que é minha mãe biológica apenas para


ganhar minha simpatia. O que pretende com isso? Que eu convença Robert a abdicar da mansão? Eu não tenho esse poder e, mesmo se tivesse, jamais faria algo assim, muito menos pra ajudar alguém que alega ter me abandonado quando eu era uma recém-nascida indefesa. — Eu não tive escolha a não ser abandonar você! — Paige irrompeu, as feições, antes endurecidas, assumiram uma forma quase desesperada no momento em que ela se levantou, apressando-se em minha direção até que seu rosto estivesse a centímetros do meu. Seus olhos verde-escuros fixos em mim, cintilando numa mistura de cólera e revolta e tingindo-se de vermelho, como se ela estivesse a ponto de chorar. — Se eu não tivesse feito… teríamos morrido as duas de fome, frio… o que viesse primeiro! Eu tinha 16 anos quando a trouxe ao mundo e uma vida miserável. Deixar você naquele orfanato foi o melhor que pude fazer na época, você precisa acreditar em mim — despejou, os punhos cerrados ao lado do corpo, um leve tremor perpassando todo ele. Parei por incontáveis segundos, tentando absorver o fato de que ela sabia que fui deixada na porta de um orfanato, e não levada diretamente do hospital, com todos os trâmites legais. Vacilei em um momento ou dois em minha convicção, ávida por perguntar-lhe como ela sabia sobre o orfanato. Entretanto, mordi a língua antes que pudesse dar a ela a chance de me enredar em uma mentira descabida. Paige não era minha mãe biológica. Bastava olhar para ela, com seu jeito imponente e orgulhoso, olhos verdes, cabelos em ondas perfeitas e pele alva… tão diferente de mim. Eu sabia que era mentira. Tudo era irreal demais e Robert me alertara de quão baixa Paige poderia ser. Apesar de tudo, meus olhos arderam com lágrimas de tristeza e meus lábios tremularam enquanto eu prendia meu choro. — Mas não acredito — disse por fim. Paige soltou um longo suspiro, cerrando os olhos por um momento, aparentemente buscando controle, quando tudo o que eu queria era que ela fosse embora de vez da minha casa. — Isabel… — murmurou num tom de voz arrastado, os lábios moldando-se num sorriso escarninho. Seus olhos se abriram, e Paige os pousou em mim antes de continuar: — Por que você precisa ser tão idêntica a ela até mesmo nesse ponto? — Não sei quem é essa Isabel de quem você tanto fala, mas… — A irmã do seu… — ela atalhou, todavia, hesitou também. A boca se retorceu e ela bufou, desgostosa: — genitor — cuspiu a palavra, como se lhe causasse um asco indizível e doesse pronunciá-la. — Os mesmos olhos… o mesmo rosto… é como voltar 25 anos no tempo e encarar Isabel gritando para


que eu deixasse o irmão dela em paz. Vinte e cinco anos… Certo, eu não sabia exatamente a data do meu aniversário, entretanto sabia o bastante para estar ciente de que há 25 anos fui deixada à porta de um orfanato com poucos dias de vida. Contudo, como Paige sabia disso? Ela não poderia ter se dado ao trabalho de investigar tanto sobre mim apenas para brincar comigo, era inescrupuloso demais, até mesmo para ela. — Pare com isso, Paige — pedi num murmúrio débil, sem forças para muito mais que isso. — O que eu ganharia mentindo? Um teste de DNA desmantelaria minha farsa, se fosse esse o caso, Melinda. Mas não é. Se não acredita em mim, por que não pergunta a Robert, hã? Balancei a cabeça de um lado a outro, incerta sobre, de fato, ter entendido sua sugestão. — Do que está falando? — Que ele sabe de tudo. Sempre soube. Desde o início, quando ele pôs os olhos em você pela primeira vez, ele soube que você havia saído de mim… — Você é louca — cortei-a, porque aquilo era um absurdo sem tamanho e também porque eu já tinha escutado muito mais atrocidades do que precisava. — Vá embora, estou falando sério, Paige — ordenei, caminhando em direção à porta, a fim de abri-la e até mesmo enxotar Paige dali, se essa fosse a única forma de livrar-me dela. No entanto, antes mesmo que eu pudesse fazê-lo, seus dedos estavam ao redor do meu pulso, puxando-me de volta e detendo meu movimento. — Acha que foi obra do acaso? — instigou, um riso de esgar irrompendo por seus lábios enquanto ela meneava a cabeça, encarando-me como se eu fosse a criatura mais ingênua da face da Terra e ela esperasse bem mais de minha argúcia. — Que Robert Blackwell escolheria aleatoriamente a mulher com quem iria se casar com o único intuito de tirar de mim o que Frederick me deixou depois de eu ter dedicado a ele os melhores anos da minha vida? Desvencilhei-me de seu toque, esfregando o pulso dolorido que Paige apertara, até então, uma carranca expressando o quanto sua insistência me deixava descontente. — Você destruiu uma família vulnerável, Paige. Isso não se faz. Não pode culpar Robert ou Lizzie por se ressentirem, em especial depois de ter causado um parto prematuro onde colocou a vida de Lizzie e do bebê dela em risco. — Não foi a minha intenção. Eu só queria o que era meu por direito — defendeu-se, ofendida. — Seu por direito? — testei, porque não era possível que ela realmente


acreditasse naquilo. — Você não passava de uma amante de luxo. Teve muito mais do que merecia, caso contrário, não haveria uma cláusula tão ridícula num testamento ainda mais ridículo. Sinto muito que você tenha desperdiçado sua vida com alguém que não valia a pena — eu disse honestamente, colocando de lado meus sentimentos por ela. Eu sabia, melhor que ninguém, como os Blackwell tinham o dom de enredar, usar e descartar as pessoas como se fossem seres inanimados. — Mas você ainda é jovem, bonita, pode… — Não! — berrou em revolta, enfatizando o que dizia com um movimento de cabeça. — Não! Acha que Robert algum dia vai se cansar de tripudiar em cima da minha desgraça? — Paige, ele não… — Argh, Melinda! Não seja tola! Por Deus! Robert é conhecido por sempre contrariar Frederick, sem exceção. Por que acha que justo agora ele decidiu obedecer ao pai casando-se com você? Engoli em seco, afinal de contas, uma coisa era eu saber das circunstâncias do meu envolvimento com Robert e compartilhar com Christine, que era minha amiga, uma pessoa em quem eu sabia poder confiar. Outra era ter Paige jogando a realidade na minha cara e fazendo troça do fato de minha ingenuidade ter beirado a burrice. Ainda assim, ignorei seu comentário ácido, focada no que eu sabia. Robert faria qualquer coisa para impedir que a amante do pai colocasse as mãos na herança da família dele, e, conhecendo Paige, quem poderia culpá-lo? — Frederick queria que Robert se casasse com Britney — contei. Apesar de que, dada sua proximidade com James, parecia-me pouco provável que ela já não soubesse disso. — Uma moça bem-nascida — prossegui, engolindo a saliva com dificuldade ao me lembrar da bela e escultural Britney, sem saber ao certo o que levara Robert a rechaçá-la. Verdade fosse dita, nenhum homem em sã consciência faria isso. — Eu não era parte do plano. — Do de Frederick, não. Mas do de Robert… — Um novo riso de esgar foi o que Paige me lançou, os olhos astutos estreitando-se ao me observarem. — Robert revirou o meu passado até encontrar o segredo que escondi por tanto tempo. Ele sabia, desde o início, quem você era. Nunca foi obra do acaso, Melinda, e sim de uma mente maquiavélica disposta a tudo para obter o que quer. — Não, isso não é verdade. — Meneei a cabeça, sem querer acreditar que aquilo era mesmo possível. — Robert me disse, ele me disse por que me escolheu, ele só… — Ele mentiu para você tantas vezes, querida — Paige me interrompeu, a voz soando doce, quase aveludada, o olhar maternal que reconheci mais cedo voltando a se fazer presente. De novo, ela estendeu as mãos para me tocar, porém,


desta vez, não me movi um único centímetro para repelir o contato. As palmas de suas mãos esfregaram meus braços, ombros e, então, abarcaram meu rosto de modo terno. — Em cada beijo, em cada toque, em cada gesto galante… por que acha que ele não mentiria sobre isso também? — incitou, tombando a cabeça para um lado, a fim de analisar-me melhor. Foi impossível não ser transportada para todas as vezes em que, entre beijos, ele dizia precisar de mim. “Bem mais do que você pode supor…”, ele repetia incansavelmente. Seus lábios estavam sempre prontos para me dissuadirem, suas mãos constantemente a postos para provocar em mim sensações que me faziam carente do contato com sua pele. As meias-verdades, o olhar por vezes distante e glacial, como no dia em que ele me atropelou e insistiu em levar-me até em casa. O modo como se redimiu e me conquistou aos poucos, levando-me a dizer sim a toda e qualquer proposta que saísse de seus lábios. Sua obsessão por manter-me virgem, a lua de mel indefectível, minha condenação ao purgatório quando, de volta à rotina, ele me empurrou para longe, recusando-se a dividir o mesmo quarto que eu. A forma como tudo mudou quando eu lhe disse que poderia, de fato, desistir de nós… Susan, a mensagem dela no celular de Robert, os lábios dele proferindo a primeira mentira que fui capaz de descobrir por mim mesma. Eu não confiava em Paige, não queria confiar, tampouco acreditar que tudo o que ela dizia fosse verdade. Entretanto, sentia a dúvida arraigando-se em meu coração, criando raízes, tão bem fundamentada que fazia um frio subir por minha espinha. — Robert não se importa com as pessoas — Paige continuou quando meu silêncio foi a única resposta que pude elaborar —, do mesmo modo que o pai dele não se importava realmente comigo nem com ninguém. Tudo que Robert queria era me ferir da maneira mais dolorosa possível, esfregando meu maior erro na minha cara, bem na frente dos meus filhos… — Pareceu ficção, entretanto, uma lágrima pesou no olho esquerdo de Paige, rolando por sua bochecha e morrendo no canto de seus lábios. Seu rosto não se contorceu em desolação, contudo, a gota de choro estava ali, marcando o caminho que percorrera, deixando-me atônita. — Ele a usou para se vingar de mim — acusou por entre dentes cerrados. — Isso não se faz, Melinda. As minhas mãos estão atadas, não há nada que eu possa fazer, mas você pode. — Os dedos dela, ainda em torno do meu rosto, roçaram minha pele numa espécie estranha de carinho, evidenciando quão ruim Paige era com um simples afago. — Tudo bem você não acreditar em mim agora, meu bem. Mas pergunte a ele. Confronte-o cara a cara, e eu sei que, mediante a surpresa, ele vai ser incapaz de negar. Pergunte a Robert como ele


berrou para mim, em minha casa, que ficasse longe de você e que não me atravesse a te contar a verdade. Estaquei, os dedos de Paige ainda roçando minha pele, seus olhos nos meus, um sorriso no canto de seus lábios, cujo significado não fui capaz de discernir. As informações se atropelando em minha cabeça, causando um latejar em minhas têmporas e aceleração cardíaca. Eu não sabia no que acreditar, ou mesmo em quem. Fitando Paige, pesando todas as vezes que Robert mentiu para mim, eu queria crer que, ao menos ela, apesar de tudo, estivesse dizendo a verdade. Então, de súbito, sem me dar indícios do que faria, sem que eu estivesse preparada para tal, os braços de Paige me envolveram, apertando-me entre eles junto a seu corpo. Poderia ser mentira, um simples modo de conseguir o que ela tanto queria, ainda assim, vi-me incapaz de rejeitar seu gesto. Se ela fosse de fato minha mãe, se todas as coisas que me dissera sobre meu abandono fossem mesmo verdades, aquela era minha chance de conhecer o amor materno que um dia me fora negado. Eu falaria com Robert. Ainda que me aterrorizasse o resultado de tal conversa, eu precisava dela para seguir a vida a partir dali.


“P orque isso é amor, Robert… Isso é amor… e nós dois sabemos que você não me ama. Nunca amou.” As palavras de Linda ribombavam em minha mente nos momentos mais inoportunos possíveis. Em meio a uma reunião de negócios, durante uma conversa com Rosalie sobre meus compromissos do dia, quando eu fitava os papéis do divórcio, agora à minha frente, quando eu fechava os olhos para ir dormir e sempre que os abria, ao despertar. Amor. Linda fazia parecer simples algo que não era. Eu não tinha familiaridade com o sentimento, tampouco com a forma de expressá-lo, mas sempre pensei que fosse algo fácil e simples de ser identificado, contudo, de acordo com Linda, o amor era uma espécie de doença da qual você precisava saber todos os sintomas, se quisesse um diagnóstico. Buscando colocar essas ponderações de lado e tentar obter uma boa noite de sono, algo que as dores espalhadas por todo o corpo não vinham permitindo que eu fizesse, tomei uma generosa dose de conhaque e fui para o meu quarto, odiando o fato de ter que fazê-lo sozinho outra vez.


Meses atrás, quando Linda soube do testamento de Frederick e todas as coisas que ele implicava, ela adentrou meu escritório num rompante, a fim de tirar satisfações. Já fazia algum tempo, porém sua expressão de transtorno ficou tatuada em minha memória, e eu não poderia esquecê-la nem mesmo que quisesse. E eu não queria. Por algum motivo, forçava-me a reviver a conversa na qual ela decidiu ir para longe de mim. Era uma forma de tortura para lembrar-me de como as coisas terminaram apenas por eu não ter feito como ela sugerira: simplesmente pedido. Linda me disse, naquela ocasião, que faria qualquer coisa que eu lhe pedisse, e eu acreditava. Talvez por isso, quando ela adentrou minha sala, senti como se fosse algum tipo de déjà vu. Era a mesma expressão alterada que tirava toda a leveza do rosto que eu adorava vislumbrar todas as manhãs, ao acordar. — Linda? O que faz aqui? Aconteceu alguma coisa? — inquiri, preocupado, porque ela parecia prestes a desfalecer à minha frente a qualquer minuto. Diferente da outra vez, minha secretária não tentou se desculpar com um gesto esbaforido. Rosalie se limitou a me dedicar um olhar, checando se estava tudo sob controle, ao que eu anuí com um aceno de cabeça. Ela se ocupou em fechar a porta e, então, deixar-me a sós com Linda. — Você mentiu pra mim, não foi? — irrompeu, os lábios tremulando num gesto bem mais familiar do que eu gostaria, os olhos injetados fixos nos meus. — Não — apressei-me em negar, sem nem mesmo saber a que ela se referia. — Quer dizer… do que está falando? — Bem aqui, nesta sala, eu te pedi… — Hesitou, negando num meneio de cabeça. — … não, eu implorei — decidiu — pra que você me dissesse por que eu. A característica dor no peito estava lá outra vez, a gravata mais parecia sufocar-me, por isso a afrouxei, jogando-a sobre a mesa e retirando meu paletó


logo após, como se, assim, pudesse ser mais fácil respirar. Os incômodos vinham piorando a ponto de Elizabeth perceber e ralhar comigo. Contudo, com aquele turbilhão de coisas atropelando-se, eu não tinha tempo a perder num consultório com algo tão estúpido. — Por que você o quê? — especulei, o cérebro com claras dificuldades de sinapse. Linda mudou o peso do corpo para a outra perna, um suspiro fatigado escapando-lhe pelos lábios enquanto ela cruzava os braços numa posição nada amistosa. — Por que se casou comigo — elucidou, a contragosto. — Havia Susan, Britney, quem você quisesse, eu perguntei por que eu, e você mentiu pra mim. — Não — neguei, também em um meneio de cabeça, as sobrancelhas franzidas em incredulidade por ela ter chegado àquela conclusão sem sentido. — Claro que não. — Você me disse que era por eu ser pobre. — Na verdade, você chegou a essa conclusão sozinha, não foi bem o que eu disse. — Como não disse que, na verdade, você só queria usar a filha bastarda da amante do seu pai para dar o troco nela — acusou com escárnio, as palavras saindo de sua boca como se lhe causassem nojo. E de fato causavam. Até mesmo em mim. Eu a encarei fixamente por longos segundos, cético quanto ao que acabara de ouvir. Os dentes trincados de Linda denotando seu ultraje ao passo que a percepção se abatia sobre mim. Paige. Não bastasse infernizar a minha vida e a de minha família, agora ela queria arruinar a vida de Linda também. Meus músculos já tensos enrijeceram-se mais um pouco, como se estivessem emaranhando-se em meu pescoço, o braço já problemático incomodou ainda mais, provavelmente fruto do estresse, a dor irradiando e estendendo-se, escalando seu caminho até a mandíbula, causando múltiplos incômodos. — Linda… — chamei, tentando dissuadi-la de sua ideia descabida, no entanto, ela foi mais rápida. — Quando eu penso que você não poderia me decepcionar mais… — murmurou tristemente, a raiva cedendo e dando lugar apenas ao desapontamento. — Ela foi te procurar? Quando? O que ela disse? — eu quis saber, porque defender-me das acusações de Paige, sem saber ao certo em que elas consistiam, não era uma saída inteligente. Eu não pensei que tivesse que lidar com tudo isso justo agora, não obstante, Paige Williams parecia não conhecer limites, nem mesmo quando os sentimentos


da mulher que ela alegava ser sua filha estavam em jogo. — Isso importa? — Linda devolveu numa voz trêmula, fazendo um esforço sobre-humano para manter as lágrimas sob controle. — Um exame de DNA, Robert. Eu me submeti a um exame de DNA e orei cada minuto pra que desse negativo, pela simples razão de isso significar que Paige era a mentirosa, não você, então… Ela se deteve quando sua voz falhou. Sacudiu a cabeça, rindo incredulamente a despeito de si mesma, dando-me as costas para que nossos olhares não se cruzassem e eu tampouco pudesse medir sua expressão. Eu odiava vê-la daquele modo, tão parecida à Linda destroçada de quando nos separamos, sempre porque alguém decidiu intrometer-se em nossos assuntos e fazer com que ela me visse como o monstro cruel que eu não era, ou que deixara de ser, ao menos. — Linda, eu não… eu só… — Titubeei, as palavras não fazendo sentido ao saírem por minha boca. — Linda, ouça… — Pra quê? — atalhou, trazendo seus olhos para mim uma vez mais, franzindo o cenho. — Seja lá o que você está prestes a dizer, não deve passar nem perto da verdade! — Mas que porra! — esbravejei, desorientado, cético com o quanto Paige era carente de escrúpulos ao passo em que esbanjava ganância e manipulação. — O que ela enfiou na sua cabeça? Me diga! — O bastante. Ela me falou o bastante sobre como você escondeu a verdade de mim e a ameaçou no caso de ela vir me procurar! Abri a boca para que eu pudesse retorquir de imediato, todavia estava estupefato o bastante por Linda não perceber o quanto a versão de Paige de toda aquela história era distorcida. — Eu só estava tentando te proteger, Linda, eu juro, não queria que Paige fizesse com você exatamente o que ela fez! — Abrir os meus olhos? — Encher sua cabeça de absurdos — contrapus, meneando a cabeça num gesto que enfatizava meu estado permanente de incredulidade. — Acha mesmo que ela se importa com você? Que depois de todos esses anos Paige simplesmente se deu conta do erro incomensurável que foi te deixar à porta de um orfanato, sozinha, como se fosse um objeto qualquer? — O fato de você não me amar não quer dizer que as outras pessoas passem pela mesma dificuldade, Robert! — Linda berrou, descontrolada, um dedo em riste apontando em minha direção, o rosto enrubescendo em revolta e impaciência no momento exato em que ela explodiu. — Nem todo mundo tem um iceberg no lugar do coração! — continuou, no mesmo tom irritadiço. — E eu estou cansada


de ser o seu Titanic, só para que você continue me afundando sempre que eu tento emergir! — Escuta aqui… — Também estou cansada de escutar — interpelou, soprando o ar com força e levando a mão ao rosto, a fim de jogar os cabelos que lhe caíram sobre os olhos durante seu ataque de fúria. — Assine a porcaria do divórcio e me deixe em paz. Pare de fazer o que acha ser o melhor pra mim, você não tem ideia do que possa ser isso. — Seu julgamento está completamente prejudicado, Linda. — Claro — ela deixou escapar com uma risada escarninha. — Diz o homem obcecado por uma herança. — Paige é a obcecada, só estou defendendo o que é meu por direito. — Paige não se casou por obrigação — apontou, dando de ombros, fingindo casualidade ou descaso, eu não tinha certeza. — Paige não está planando ao meu redor, querendo a todo custo que eu volte pra casa com ela por estar morrendo de medo de perder algumas ações e uma casa… — Acha que estou desesperado por isso? — eu a cortei, unindo as sobrancelhas ante aquele absurdo. — Olha para mim, Linda. Olha para a porra desta empresa — exigi, fazendo um gesto abrangente com uma das mãos, indicando o redor, nitidamente perdendo o controle enquanto esbravejava —, olhe bem e me diga se eu pareço desesperado com a possibilidade de Paige conseguir o que ela quer! — Então por que não me deixa em paz? — inquiriu e, naquele instante, a expressão de cólera deu lugar a uma pedinte. Os olhos brilhando em lágrimas contidas, a voz saindo como um murmúrio engasgado de pura fatiga. — Eu disse mil vezes — eu a lembrei, soltando um suspiro exausto enquanto esfregava o rosto com as mãos, como se o gesto fosse capaz de me revigorar. — Um milhão de vezes. No nosso último encontro, na cafeteria, eu disse exatamente o porquê. — E eu disse, com todas as letras, ser impossível. — Não, não é. Ela assentiu uma vez, um riso baixo escapando-lhe, ainda que não fosse feliz ou irônico. — Tudo bem — concedeu, arrumando sobre o ombro a alça de sua bolsa a tiracolo ao mesmo tempo em que me dava as costas e caminhava para longe, como fez da última vez em que esteve ali. — Continue enganando a si mesmo, eu não… — Olha para mim, Linda! — eu a interrompi, ao seu encalço, minha mão prendendo seu pulso e puxando-a ao meu encontro.


Como da última vez em que estivemos naquela situação, ela descobrindo algo que eu, estupidamente, tentara esconder-lhe. Contudo, para o meu alívio, ela não rechaçou meu toque. Nem mesmo quando minhas mãos rumaram ao seu rosto, os polegares traçando suas bochechas, sentindo a textura de sua pele. Havia algo que eu deveria dizer-lhe. Precisava, de fato. Entretanto, as palavras pareciam travadas em minha garganta, digladiando-se a fim de fazerem sua rota até os ouvidos de Linda. — Que… droga! — gemi em frustração, unido nossas frontes e cerrando os olhos, o rosto contorcido em uma careta de dor que incomodava desde o braço e estendia-se pela mandíbula, pressionando meu peito e costas. — Eu não sei fazer isso — admiti, a contragosto —, não sei dizer essas coisas que você gosta de ouvir, que quer ouvir… — Não quero ouvir nada de você — retorquiu num fio de voz, seu hálito batendo contra meu rosto e inebriando-me por um momento. — Não quero que me diga nada, Robert, de verdade. Se seu silêncio é o fim das suas mentiras, ele é o que espero de você. — Mas que porra, Linda! — deixei escapar, o som mais parecendo um rosnado que qualquer outra coisa. Em resposta, ela ofegou, dando um passo atrás para desvencilhar-se do contato. Todavia, não a deixei ir. Apoiei uma das mãos em seu quadril e a puxei de volta, colando seu corpo a mim. Meus olhos se abriram e encararam os dela, uma imensidão enegrecida que sempre fazia com que meu coração se aquecesse antes mesmo de eu ter a mais remota ideia do que aquilo poderia significar. Assim, trouxe sua mão direita até o meu peito, para que ela sentisse o pulsar frenético de meu coração sob sua palma. — Me deixe ir — ela pediu baixinho, os lábios trêmulos indicando que os olhos marejados eram a mostra de que ela tentava prender o choro. Neguei num meneio de cabeça, porque não estava inteiramente certo de que conseguiria retorquir com palavras que soassem firmes, e não um tartamudear irritante. Enchendo os pulmões de ar, engolindo em seco e sem desviar os olhos de Linda, acariciei a maçã de seu rosto com o polegar, forçando as palavras a saírem antes que minha covardia as brecasse. — Será que você não percebe que eu sou completamente apaixonado por você? — inquiri, mas era uma pergunta retórica. A expressão de choque no rosto de Linda foi minha deixa para continuar, e com sua boca, que se abriu em um arquejo pasmado, uma lágrima solitária verteu de um de seus olhos. — Foda-se Frederick, Paige e o maldito testamento, não é por isso que eu te quero, não é para isso que eu te quero! — confessei, e seu lábio inferior, trêmulo, foi capturado por seus dentes. — Você não é o cumprimento de uma droga de


cláusula de testamento, você é… — titubeei, buscando algo que definisse o modo como eu a via, o que me vinha à mente sempre que meus olhos a vislumbravam. — Você é minha mulher, Linda — eu me decidi, umedecendo meus lábios com a ponta da língua, de súbito ressequidos devido à minha apreensão. Tomei uma grande lufada de ar antes de prosseguir: — Tudo o que eu quero é te ter de volta, comigo, na nossa casa, como era antes de toda essa confusão. Eu sei que começamos de um jeito muito errado e que nada justifica o meu comportamento, mas você tem a minha palavra de que posso consertar as coisas daqui para frente — prometi, contemplando-a desviar o olhar do meu, balançando a cabeça de um lado a outro, como se seus ouvidos a estivessem traindo. — Olha para mim — pedi, impelindo-a a fitar-me. — Diga alguma coisa. — Por que está me falando tudo isso? — balbuciou, desnorteada, o rosto franzido. — Porque é como me sinto em relação a você e requer um esforço sobrehumano não te deixar saber que você é o que tenho de mais importante na vida — admiti num fôlego só, ávido para que sua expressão se suavizasse e nós pudéssemos acertar os ponteiros de uma vez. — Você nunca disse me amar antes — ela me lembrou. — Jamais sequer disse que gostava de mim. Quando me pediu em casamento, você não disse… nem mesmo depois. Absolutamente nunca — prosseguiu, reiterando o que falara com um meneio frenético de cabeça. — Eu sei. Sinto muito por não conseguir… por não saber como dizer essas coisas, eu… — Esse é um nível baixo demais até mesmo pra você — cortou-me, mágoa moldando suas feições. Atônito, pisquei demoradamente uma vez, sem saber ao certo o que responder de pronto. — O quê? Não, Linda… — tentei explicar, entretanto, ela tornou a me interromper. — Numa escala de zero a dez, quão idiota você acha que eu sou? — perguntou ultrajada, a mão sobre meu peito empurrando-me para longe. Deixei-a afastar-se de mim, minhas mãos caindo inertes ao lado do meu corpo quando Linda me deu as costas. — Não te acho idiota — defendi-me, bufando em incredulidade. — Você é uma das pessoas mais inteligentes que eu conheço e sabe disso. Eu já te disse isso. — Então pare de me fazer de imbecil! Abri a boca para refutar, no entanto, abandonei a ideia. Ir ao embate com Linda não resultaria em nada além de um impasse insolúvel.


— Certo — concordei, caminhando em sua direção, passando as mãos por seus braços e girando-a 180 graus em seu próprio eixo, para que ficássemos de frente um para o outro novamente. — Não precisa acreditar em mim de imediato, Linda, eu aceito isso. Só me diz o que eu preciso fazer para te convencer. Qualquer coisa. — Confie em mim, você não está disposto a qualquer coisa por alguém além de si mesmo… — despejou, ácida, retorcendo os lábios. — Qualquer coisa — reiterei, a expressão séria e veracidade nua e crua impregnada em cada uma de minhas palavras. Linda pareceu pensar por um instante, os olhos cintilando em direção aos meus quando ela murmurou num fio de voz: — Me dê o divórcio. Foi como levar um choque. Eu ali, em frente a ela, dizendo que estarmos juntos era o que eu mais queria, enquanto Linda pedia para que eu me afastasse. — O quê? — indaguei, incapaz de articular outra coisa de pronto. — Você não ouviu a parte em que eu disse estar apaixonado? Como deixá-la ir pode provar o quanto quero você? — Isso é amor! Prove que você quer que eu seja feliz acima de todas as coisas, mesmo que a minha felicidade seja longe de você. — Mas não é! — protestei, exaltado, a voz elevando-se outra vez, minhas mãos trêmulas devido ao pensamento de ficarem vazias eternamente, sem ter Linda entre elas. O aperto no peito voltando a incomodar, a dor estendendo-se, repuxando os músculos e fincando-se neles. — Minha vida é miserável desde que você foi embora — admiti, transtornado, uma de minhas mãos embrenhando-se na nuca de Linda, a outra apertando firme sua cintura, trazendo-a junto a mim outra vez. — Eu me recuso a acreditar que você seja mais feliz agora do que foi comigo. Diga o que quiser, que te causei sofrimento, que minhas atitudes nem sempre foram as melhores, mas você precisa admitir que eu te fiz feliz. O que vi no olhar de Linda, ao passo que ela me observava, pareceu tanto com hesitação que senti meu coração pulsar com mais força ante uma centelha de esperança. Contudo, ela se dissipou tão depressa que foi quase como se jamais houvesse passado por ali. — Me dê o divórcio — insistiu, entre dentes, com a voz embargada. — Desista dessa queda de braço com Paige. Se é mesmo verdade que você não se importa com essa herança estúpida, então… — Não — foi minha vez de interrompê-la. — Não, você não entende. Me peça outra coisa, Linda, mas não isso. — Você disse qualquer coisa — ela refrescou minha memória numa voz pequena e carregada de tristeza. — Qualquer coisa, menos isso — retifiquei, apreensivo, fitando-a com


atenção, ciente de que eu faria qualquer outra coisa que me pedisse. Como anular nosso acordo pré-nupcial, por exemplo, a fim de provar-lhe que uma separação não cabia dentro do nosso futuro juntos. Ou mesmo fazê-la acionista na R Blackwell, dar a ela o cargo de CFO, se Linda assim desejasse, sustentar Paige e seus filhos bastardos pelo resto da vida, contanto que eles não interferissem na nossa história. Qualquer. Coisa. — Não há nada mais que eu queira de você… — Deu de ombros, os olhos fugindo dos meus, todo seu corpo preparando-se para rejeitar-me. Eu não acreditava estar familiarizado com a percepção de temor, entretanto, podia apostar que era aquilo que me assolava ao sentir Linda pronta para rechaçar-me. Não havia um pensamento racional em mim quando, no segundo ulterior, eu a apertei fortemente entre meus braços e esmaguei meus lábios contra os dela. Seu corpo inteiro se retesou e eu detestei a sensação, ainda assim, seus lábios se entreabriram num ofegar surpreso que expulsou todo o ar de seus pulmões. Nossas línguas se encontraram e gemi contra sua boca, apalpando, com desespero, todas as partes de Linda que minhas mãos podiam alcançar, como se minha vida dependesse disso. Eu sabia que beijá-la era prazeroso desde a primeira vez em que a boca tenra e cálida se entreabriu para receber-me. A língua, a princípio tímida, passou a mover-se de forma lasciva, explorando todos os recantos da minha boca. Aprendi a apreciar aquilo instantaneamente. Passei a amar o contato na medida em que ele se aprofundava e, ali, com Linda entre meus braços, minha língua resvalando contra a sua e minhas mãos reconhecendo a extensão de seu corpo macio… eu sabia que não havia contato melhor, mais prazeroso e pelo qual ansiasse mais. O beijo de Linda era sempre doce e envolvente, porém deixou de sê-lo no instante em que senti o gosto salgado de seu pranto e suas mãos empurraram-me para longe com tanta força que Linda cambaleou para trás. — Odeio que faça isso! — despejou, o rosto banhando em lágrimas densas demais para que Linda pudesse conter. — Odeio como faz de tudo para conseguir o que quer, sem se importar com os sentimentos dos outros! — acusou aos berros, o choro em torrentes deixando-me atônito. — Odeio você e tudo o que o maldito sobrenome Blackwell toca! Não quero te ver nunca mais! Nunca. Mais! — vociferou, tão colérica que seu corpo inteiro vibrava ao passo que as palavras irrompiam por seus lábios. Linda deu-me as costas pelo que me pareceu ser a milésima vez, arrebatando-me de meu torpor. Precipitei-me em sua direção, a mão alcançando-


lhe o pulso para conseguir que ela me fitasse. Eu a deixara ir embora da última vez tão facilmente… precisava ser distinto agora. Perdê-la não era uma opção enquanto houvesse amor entre ambas as partes. — Linda, eu não… — Tenho nojo de você! — ela bramiu. Qualquer coisa que eu pudesse dizer foi interrompida nesse exato momento. A palma aberta de sua mão desceu sobre meu rosto com tanta fúria que me deixou estático e me quitou o ar por alguns segundos. O local ardeu, meu maxilar trincado em reflexo ao tapa e ao peito que se comprimia, tornando difícil o simples ato de respirar. Um arquejo foi o único som que consegui emitir, espelhado por Linda. Cerrei os olhos com força, cravando as unhas de minha mão esquerda em minha palma enquanto, com a outra, esfregava o local esbofeteado, como se o gesto fosse capaz de afastar o peso da mão de Linda dali. Dei um passo atrás. Depois outro… e mais outro. Não ousei olhar para Linda, eu não precisava fazê-lo no intento de sondar o que se passava por sua cabeça. Foi minha vez de caminhar para longe dela, não me apressei, tampouco me demorei. Apenas fiz meu caminho até minha mesa, o incômodo em meu peito exacerbando-se e comprimindo meu tórax. Ainda era difícil sugar o ar, mas não impossível, por isso suprimi os arfares. Um silêncio sepulcral havia se instalado no meu escritório, mesmo quando jurei que o ruído dos saltos de Linda marchando para fora dali fossem reverberar. Não havia nada além dos meus pensamentos estrepitosos e contraditórios. — Feche a porta ao sair, se possível — eu disse a Linda assim que me sentei em meu lugar costumeiro, na confortável cadeira de couro negro que sustentou o peso que fazia minhas pernas protestarem. Nem isso fez com que Linda se movesse, contudo. Eu queria inspecioná-la e medir sua expressão, porém não o fiz, porque não queria que ela visse a bagunça que era meu semblante naquele momento. Alcançando o telefone sobre a mesa, depois do que me pareceram incontáveis minutos, enquanto Linda permanecia ali, imóvel igual a um pilar, fiz a chamada, e sequer necessitei dizer algo para que Rosalie compreendesse que eu precisava dela em minha sala. Ela bateu à porta uma vez, meio hesitante, e entrou logo depois, sem dizer nada além de um “Senhor Blackwell”. — Rosalie, acompanhe a senhorita Calle até a saída, por gentileza — pedi, as palavras queimando através do nó que parecia haver em minha garganta, a voz soando demasiadamente grave até mesmo aos meus ouvidos.


— Sim, senhor — Rosalie devolveu ao passo que eu lia, ou tentava ler, a primeira coisa impressa que encontrei sobre a minha mesa, sem me dar conta do que se tratava, porque, afinal, eu mal conseguia discernir as palavras. — Por aqui, senhorita Calle, eu a acompanho — a voz de Rosalie voltou a soar e, enfim, o som de saltos contra o piso se fez ouvir, e Linda foi embora. Depois disso, apenas o baque da porta se fechando. O local onde Linda espalmou sua mão com toda a revolta que cabia dentro de si ainda pesava e ardia, no entanto, não era o que realmente me causava incômodo. Feria-me na alma o que ela fizera e, sobretudo, o que dissera. “Tenho nojo de você… tenho nojo de você… tenho nojo de você…” As palavras repercutiam em minha cabeça, porque aquela era uma sensação que eu reconhecia e desprezava. Era o que eu sentia por Frederick e Paige, algo bem mais familiar que amor e afeto. Amor. O simples pensamento me trouxe uma fúria incontida e, no ímpeto, arremessei contra a parede oposta o primeiro objeto que alcancei, vendo-o ser estraçalhado e revirando minha mesa em seguida, lançando ao chão tudo o que encontrei pela frente. Eu sentia minha pulsação em meus ouvidos, o aperto no peito crescendo, a dor lancinante em meu braço esquerdo ascendendo até travar minha mandíbula, ao passo que eu emitia um som rouco e gutural mais próximo a um rosnado que a algo humano. Passado o acesso de fúria, larguei-me outra vez em minha cadeira, pesadamente, esfregando o rosto e assimilando a ordem cronológica de como faria as coisas, desejando tê-las realizado eras atrás.


Q uando a palma da minha mão atingiu o rosto de Robert fui tomada por tamanha surpresa, que foi impossível segurar um arquejo. Arrependi-me do que dissera no momento exato em que as palavras escaparam de meus lábios, bem como me arrependi do que fizera no momento em que minha mão pareceu ganhar vida própria. Senti meu coração encolher-se dentro do peito e eu esperei, com a respiração suspensa, pelo olhar glacial de Robert sobre mim, esbravejando algo sobre eu ser insolente e como ousava agredi-lo daquele modo. Eu estava pronta para pedir desculpas no momento em que ele me encarasse, ainda que não soubesse como usar minha própria voz, do mesmo modo como minhas pernas pareciam uma tecnologia de ponta cujo manuseio estava além de minhas capacidades. Esperei, o coração batendo na garganta, a boca seca, os olhos arregalados. Robert se afastou sem nem ao menos uma olhadela em minha direção. Sua voz dizendo me amar soava tão distante que poderia muito bem ter sido um mero devaneio. “Feche a porta ao sair, se possível.” Como eu faria isso se nem sequer conseguia dar um mísero passo? Pronunciar uma mísera sílaba? Não fossem as mãos de Rosalie arrastando-me para longe e empurrando-me para dentro do elevador, talvez eu ainda estivesse parada no escritório de Robert, até hoje, imergida na inércia.


Caminhei trôpega e desnorteada ao sair da R Blackwell, olhando para cima, como se pudesse avistar Robert parado próximo à janela, aguardando o momento que me veria passar. Mas não havia nada. Apenas pessoas esbarrando em mim, impacientes por eu estar atrapalhando o trânsito de pedestres com a minha bagunça emocional, uma buzina soando de forma estridente, aos meus ouvidos, quando atravessei a rua. Cogitei, no mínimo uma dúzia de vezes, fazer meu caminho de volta até sua sala, porém, eu sabia que não tinha estruturas físicas ou emocionais para lidar com isso naquele momento. Depois, de volta à minha casa, pensei em ligar para ele, mandar uma mensagem, escrever uma carta… qualquer coisa que lhe dissesse que eu sentia muito por minhas últimas palavras e pelo meu último gesto. Contudo, sempre que surgia a imagem de Robert logo à minha frente, com aqueles orbes verdes cintilando em minha direção, a voz rouca dizendo me amar… eu fechava os olhos, tampava os ouvidos, num gesto infantil, e, então, simplesmente chorava. Soluçava, de fato, encolhida feito uma bola sobre minha cama, desejando que ele não tivesse brincado com meu coração de novo. Por que era tão difícil entender que eu não era indiferente a ele e que ser usada machucava? Robert já me dissera palavras bonitas antes. Doces, gentis… as coisas que eu queria ouvir nos momentos em que mais precisava. Ele me conhecia e sabia perfeitamente bem como me enredar. Ouvi-lo dizer que estava apaixonado por mim foi tudo o que eu quis por tanto tempo… Agora, quando ele me pedia para voltar, porque ninguém poderia saber sobre o divórcio, porque a mansão Blackwell era importante demais para ser perdida, porque a Wood Business não podia ficar sob o domínio de Paige… tudo o que parecia sair de seus lábios era uma tentativa desesperada de não perder a batalha contra a memória do falecido senhor Blackwell. Era como um jogo de xadrez; eu era um peão. E, por mais importante que pudesse ser um peão, de acordo com a disposição das peças sobre o tabuleiro, isso jamais o promoveria a rainha.


A notícia do divórcio chegou após um de meus encontros com Paige. Eu queria dizer a ela que Robert não sabia quem eu era quando nos casamos, visto que, por mais idiota que pudesse soar, eu acreditava nele. Paige, não. Por fim, ela decidiu que era o momento de eu conhecer meus meios-irmãos, Marc e Luke. Nenhum deles se parecia comigo. Ou com Paige. Nenhum de nós três se parecia com ela, tampouco. Os olhos verdes dos meninos lembravam os de Robert, mas nem de longe possuíam aquele brilho sagaz e repleto de vivacidade. Nós nos cumprimentamos com um simples aperto de mãos. Trocamos palavras educadas e, então, quando nos despedimos, apertamos as mãos outra vez. Eles não sorriam. Não com interesse, ao menos. Como Paige, sorriam apenas por educação. Sentime mal, como um peixe dourado longe do seu aquário, e nada foi capaz de aplacar o sentimento. — Nós precisamos de tempo para nos acostumarmos com você, isso é tudo — Paige dissera. — Fomos apenas os três por muito tempo. Talvez, se você fizer algo que eles considerem especial, como convencer Robert a nos deixar com a mansão Blackwell e um lucro maior na empresa… Não respondi com palavras, apenas acenei. Naquele mesmo dia, após o almoço estranho com os Williams, recebi o divórcio assinado por Robert. Não era sua letra bonita e desenhada, apenas uma rubrica colocando fim à união que nem mesmo devia ter tido início. Eu deveria estar radiante por segurar em minhas mãos algo que era quase como minha carta de alforria. Em lugar disso, meu choro vertido em gotas pesadas molhou o papel sem que eu pudesse controlar, manchando-o com minhas lágrimas e com o rímel que elas lavaram no processo.


A campainha soou enquanto eu vedava uma caixa com alguns de meus pertences. Christine e Javier haviam encontrado o apartamento dos sonhos e, com o aumento de salário repentino que Chris recebeu, eles conseguiriam conciliar aluguel, enxoval do bebê e os móveis e eletrodomésticos da casa nova. Não sem uma grande dívida no cartão de crédito, ainda assim… Deixando o suporte com a fita adesiva sobre uma pilha de caixas, apresseime até a porta, encontrando uma Lizzie de semblante sisudo. — Ei! — cumprimentei, empregando tanta animação em minha voz que fiquei sem graça quando não recebi de volta o mesmo entusiasmo. Nós não nos víamos há algum tempo. Desde o incidente com Robert eu vinha evitando ir até sua casa, com receio de encontrá-lo lá. Se o fizesse, tinha medo do que poderia acontecer. — Ei — Lizzie devolveu, movendo os lábios um único centímetro para o lado, em algo que não devia ser mais que um quarto de sorriso. — Posso entrar? — Claro. — Apontei o interior do apartamento, vendo o sofá-cama de Lilly apinhado com as coisas dela, o que significava que não havia lugar onde Lizzie pudesse se sentar. — Desculpe a bagunça, estamos empacotando tudo. — Vocês vão se mudar? — Franziu as sobrancelhas, dando passos pequenos para dentro do cômodo e pousando sua bolsa na abarrotada mesinha de centro. — É. Javi e Chris vão se casar, Lilly decidiu que vai dividir o aluguel com algumas amigas, perto do trabalho. Esse lugar é gigantesco apenas pra mim, então vou voltar para o meu antigo apartamento. — Dei de ombros, fazendo pouco caso, mas, na verdade, causava-me uma dor imensurável saber que eu voltaria a viver sozinha. — Tudo está se encaixando como era antes, pelo visto. Lizzie não me fitou. Os olhos percorriam o ambiente ao redor como se aquela confusão toda fosse uma obra de arte que merecia ser contemplada.


— Onde estão as crianças? — eu quis saber. — Por que elas não vieram com você? Digo… Matt, sei que seria difícil explicar pra Sofie por que vocês vêm me visitar aqui, quando… — Ela já sabe — Lizzie me cortou, a voz livre de sentimento como se ela dissesse que fazia frio lá fora enquanto o outono ia se despedindo para dar lugar ao inverno. — Sabe? — perguntei, piscando aturdida. — Oi? Você contou? — Robert — esclareceu, deixando o nome pairar no ar por tanto tempo que quase me pareceu um vocativo que faria Robert se materializar logo à minha frente. — Acordamos que era melhor explicar de uma vez e não adiar o momento — retomou, enfim. — Acho que demoramos até aqui apenas por pensarmos que, cedo ou tarde, as coisas iriam se ajeitar. Ainda sem me fitar, Lizzie torceu os dedos das mãos, num gesto que parecia ser puro nervosismo. — Lizzie, eu… — Não, tudo bem — ela voltou a atalhar, caminhando para longe e dando-me as costas quando fiz menção de aproximar-me e trazer suas mãos entre as minhas. — Os fatos são os fatos. Não havia chances com você e agora não há mais chances com o meu irmão também. — Outra vez, ela deixou que as palavras pesassem, meu cérebro trabalhando para encontrar o significado por trás delas. Não havia mais chances com Robert? O que isso significava? Que ele já não me queria? Por isso me deu o divórcio e não voltou a me procurar? Porque… — Ele me contou sobre Paige — Lizzie voltou a dizer, arrancando-me de meus devaneios. — É verdade? Assenti uma vez. — É, sim. — De acordo com quem? Ela mesma? Desde quando acreditamos em qualquer coisa que ela diz? Havia uma nota de revolta na voz de Lizzie. Uma ironia contida que não combinava com o timbre doce ao qual eu estava acostumada. — Nós fizemos um teste de DNA. O resultado foi positivo. Ela bufou, torcendo os lábios e apertando mais seu casaco ao redor do corpo. — Difícil imaginar que alguém como você tenha vindo de alguém como ela. — Frederick é seu pai e você não é nada como ele — eu a lembrei. Gostaria de estender o elogio a Robert, entretanto… até que ponto ele era tão diferente assim do pai? — Eu tive uma mãe decente. Sem pulso firme, mas decente até o último fio de cabelo.


— O que está querendo dizer? Que talvez eu seja como meu pai biológico? — Por que não? Pelo que eu soube, você herdou muitas coisas da sua família paterna. Talvez a herança não seja apenas a aparência, o caráter também. — Não tenho como saber. — Sua mãe não te disse nada sobre o seu pai? — inquiriu duvidosamente, a palavra “mãe” soando tão estranha que levei mais tempo para responder do que realmente seria preciso. — Não — balbuciei um tempo depois. — Ela disse que o passado deve permanecer onde pertence: no passado. — E você não pensa em procurá-lo mesmo assim? — Honestamente? — Era uma pergunta retórica e, a despeito da minha demora em continuar, Lizzie se manteve em silêncio. — Não — soltei num suspiro cansado, porque pensara tanto sobre aquilo que tive incontáveis enxaquecas. — Faz 25 anos, Lizzie. Ele nem sabe que eu existo. Provavelmente está casado, com filhos… além do mais, e se Paige for uma lembrança dolorosa com a qual ele não deseja ter contato? — ponderei, e Lizzie se manteve impassível. — Ela me disse que a irmã dele, Isabel, mandou que Paige se afastasse dele. Depois, não conheci meu pai, mas… conheci os meus irmãos. Marc e Luke. — Dei de ombros e, pela primeira vez, Lizzie deixou escapar um som que se assemelhava a um riso. Banhado em zombaria. — O que é tão engraçado? — eu quis saber, franzindo o cenho sem compreender seu gesto. — Nada. — Ela acenou com uma das mãos de modo displicente. — Só o fato de que você era minha cunhada e, agora, nós dividimos dois meios-irmãos. — Você sente vontade de conhecê-los? — Não — negou de pronto, sem levar um único segundo para ponderar a respeito. — Você pretende manter Paige na sua vida? Pesei minhas opções por um momento. Era algo que vinha demandando parte de minhas reflexões e, sendo bem sincera, eu não sabia aonde minha história com Paige iria chegar. Se ela quisesse ser parte da minha vida, eu não via por que não deixá-la ser. — Acho que sim. Talvez. Nós ainda estamos nos descobrindo — confessei, encolhendo os ombros enquanto, de novo, Lizzie emitia um riso escarninho. — Outra piada interna? Ela negou com um meneio de cabeça e, pela primeira vez, seus olhos se fixaram nos meus. Ela não vacilou, não desviou sua atenção. O par de esmeraldas me encarava com ressentimento transbordando dele. — Só acho engraçado o fato de você ser incapaz de perdoar e aceitar alguém que omitiu algo de você, mas que sempre esteve lá quando precisou, ao passo que aceita de braços abertos a mulher que te abandonou há tantos anos e nunca se


preocupou em nem ao menos checar se você ainda estava viva — articulou, mordaz. No ímpeto, abri a boca para refutar, porém, nada me veio à mente. Com Elizabeth parada logo ali, fitando-me daquele modo estranho e incômodo, as palavras pareceram fugir de mim, e tudo o que eu conseguia sentir era constrangimento. — Acha que Robert sempre esteve lá por mim? — rebati, quando, finalmente, falar voltou a ser algo que eu sabia fazer. — Não esteve? — devolveu, erguendo uma de suas sobrancelhas loiras e bem-delineadas de modo instigante. — Quando Javier precisou de um emprego, quando Eva ficou doente, quando Lilly surgiu precisando de uma oportunidade e apoio, com o súbito aumento salarial de Christine após a gravidez… — Ele fez todas essas coisas esperando algo em troca — contra-ataquei, por mais que me doesse ser a pessoa que desmistificava a bondade pseudoabnegada de seu irmão. — Além do mais, Paige teve seus próprios motivos para me deixar. Ela só tinha 16 anos quando eu nasci. Tudo bem, ela não é a melhor pessoa do mundo, mas é minha… — A palavra “mãe” ficou entalada em minha garganta e não saiu. — … ela me deu a vida — eu disse, em vez disso. — Com o intuito de arruiná-la mais tarde, ao que parece. — Não, Lizzie — neguei, a um único passo da exasperação. Paige me abandonara, sim, e não fora uma mãe exemplar. Não estava sendo uma mãe exemplar. Ainda assim, eu estava indo bem até Robert surgir no meu caminho e revolver minha vida do avesso. — Se quer mesmo penalizar alguém por isso, seja honesta e coloque no seu irmão a culpa que pertence apenas a ele. Okay. Talvez aqui eu estivesse sendo egoísta. Não era inteiramente responsabilidade de Robert. Eu tinha minha parcela também. — Robert tentou se redimir, Linda, não é culpa dele se você não permitiu — acusou, magoada. — Lizzie, por favor… — Linda, sou eu quem pede por favor! — cortou-me, exasperando-se e levantando as mãos num gesto desconexo. — Você o amava, ele te amava. Por que deixou que tudo terminasse da pior forma possível? Ensaiei uma resposta em minha cabeça, gaguejei e, por fim, bufei. — Eu não vou falar disso com você. — Claro que não, porque sabe muito bem que estou mais que certa e não quer admitir que só está sendo teimosa e imatura. Estupefata foi como fiquei. Meu queixo caiu, pisquei aturdida, focalizando Lizzie e vendo que ela não se arrependera do que acabara de dizer. — Imatura? — testei, levando o dedo indicador até meu próprio peito em


demonstração. — Imatura, eu? Humpf! — Joguei as mãos para cima, incrédula, meneando a cabeça de um lado a outro. — O que seria maduro, então? Sair correndo no momento em que seu irmão fizesse assim? — perguntei, estalando os dedos de uma das mãos para elucidar. — Não, aceitar nessa cabeça teimosa aquilo que já sabe no seu coração! Houve um momento de silêncio constrangedor, onde ficamos nos encarando. Lizzie respirando de forma sôfrega, exasperada, eu sentindo meu peito se apertar, porque… convenhamos, Elizabeth não precisava ser muito articulada para que eu conseguisse entendê-la. — Robert não me ama, Lizzie — murmurei com pesar, lágrimas incomodando meus olhos. — Ele te disse isso, lembra? Com todas as letras, você me contou. Eu o confrontei, bem aqui, nesta sala, e surpresa foi a única coisa que ele esboçou. — Desviei o olhar do de Lizzie, a última coisa de que eu precisava agora era encarar aquelas esmeraldas tão parecidas com as do irmão dela. Eu não precisava de lembretes para que pudesse de fato me lembrar. — Tão oportuno ele dizer me amar quando eu o confrontei sobre ter me escondido a verdade sobre Paige, não acha? Tudo o que ele queria era somente… — Pare de querer adivinhar como ele se sente, por favor, quando o próprio Robert já fez de tudo para provar que os sentimentos dele são de verdade — Lizzie atalhou, agitada. — Eu já disse que ele está desesperado e diria qualquer coisa para fazer com que Paige… — Ele assinou os documentos, Linda — Lizzie me interrompeu, contudo, sua voz não se alterou. Seus olhos estavam com uma coloração avermelhada, marejados. — O quê? — questionei, confusa. — Como assim? Que documentos? O que quer dizer? Ela respirou fundo uma vez, inalando com força e soltando o ar pela boca logo após. — Além do divórcio, Robert assinou os documentos abdicando da nossa parte na herança de Frederick. Ele já não é mais o proprietário da mansão Blackwell, tampouco acionista na Wood Business. A essa altura, eles já devem ter legalizado tudo. Sua mãe não te contou? O mundo pareceu ter saído do eixo por um momento ou dois. Lizzie ainda estava ali, à minha frente, e, através de minha visão turva, eu a via sem realmente enxergá-la. De súbito, uma secura incômoda tomou conta de minha boca, tornando difícil falar e engolir a saliva. — Não… — foi tudo o que consegui articular, algum tempo depois. — Não, isso não pode ser sério…


— Nós conversamos — Lizzie continuou, ignorando meu estado catatônico. — Ele disse que você tinha razão e que esse era o único modo de seguirmos em frente. — Deu de ombros, enxugando com as pontas dos dedos, num gesto delicado e gracioso, as lágrimas que desceram por suas bochechas. — Eu não entendo como você pode dizer, depois disso, que o que ele sente não é de verdade. Balancei a cabeça de um lado para o outro, freneticamente, mesmo sem saber o motivo de fazê-lo. — Mas ele… Robert… ele não… disse nada… quer dizer… eu não… — Você disse que não queria voltar a vê-lo, que sentia aversão, repulsa. Ficou bem claro todo o desprezo que você sente pelos Blackwell, Linda — Lizzie interrompeu meu gaguejar com sua voz branda. Ela estava magoada, e muito, isso eu podia dizer. Entretanto, diferente do que fiz com Robert, Lizzie não estava sendo arredia e tentando me ferir na mesma proporção em que se sentia ferida. Desse jeito doía mais. Sua gentileza fazia com que eu me sentisse abominável, indigna. — Eu só queria esclarecer que Robert não sabia que você era filha de Paige, quando vocês se casaram — continuou, a voz tremulando e vacilando repetidas vezes. — Sei que não confia, tampouco acredita nele, mas você tem a minha palavra de que Robert não teria se casado com você se soubesse que é filha da pessoa que ele mais odeia em todo o mundo. Nisso você precisa acreditar. Ele jamais a teria levado para o seio da nossa família se soubesse… — Ela se deteve, apertando os olhos, o que fez mais lágrimas rolarem e suas mãos se apressarem a enxugá-las. — Eu sei! — admiti, envergonhada por ter pensado o contrário mesmo que por um instante. — Meu Deus, eu sei! Eu só… eu estava com raiva! Com muita raiva mesmo! No calor do momento, eu meio que… — Hesitei, sem saber ao certo o que dizer. Nada justificava as palavras que proferi. Ódio. Nojo. Minhas lágrimas embaçavam minha visão enquanto eu fitava Lizzie. — Eu não queria dizer aquelas coisas. Eu não queria tê-lo agredido. — Eu pensei que pudéssemos conciliar tudo — ela murmurou num fio de voz, ignorando todas as coisas que eu dissera até ali —, mas não podemos. — Seus olhos brilhantes buscaram os meus novamente e Lizzie reiterou o que falara sacudindo a cabeça numa negativa. — E eu entendo que Robert tenha sido estúpido, eu bem sei o quanto ele pode ser muito estúpido, contudo, como isso que você fez pode ser melhor que algo que ele tenha feito? — Lizzie, eu não… — Aquela casa significa tanto para mim — choramingou. — Todos os nossos poucos momentos felizes em família, desde que chegamos à América, com


Rob, a mamãe e eu… os três juntos… absolutamente todos eles aconteceram naquela casa. E agora ela pertence a Paige. A alguém que fez com que minha mãe se sentisse um nada, um zero à esquerda como mulher, esposa… — soluçou, levando uma das mãos à boca, a fim de abafar o som, o corpo sendo sacudido pelo choro constante que não parecia nem perto de cessar. — Não era minha intenção prejudicar vocês — apressei-me em dizer, encaminhando-me até ela e tocando o ombro de Lizzie num gesto vão de trazer-lhe conforto. — Eu sempre soube que não precisavam daquela casa, do dinheiro… de nada. Mas a verdade é que eu jamais pensei que Robert faria algo assim. Juro que não — assegurei, buscando as mãos dela e mantendo-as entre as minhas. Tanto quanto o de Lizzie, meu rosto estava encharcado, porque doía vê-la daquele modo e machucava ainda mais saber que eu era a responsável por tamanho infortúnio. — Você o levou até o limite, ao que parece, e nós sabemos que Robert viajaria até o centro da Terra apenas para provar um ponto. — Ela arriscou sorrir ao falar do aferro do irmão, todavia foi um intento fugaz. — Você não entende — tentei explicar, um sorriso incrédulo, beirando o histerismo, moldando meus lábios. — Ele me disse que não faria. Ele me fitou nos olhos e disse que não faria, que eu poderia pedir qualquer coisa, exceto isso. Eu… — Engasguei em minhas próprias palavras, gesticulando sem produzir som. — Mas isso era tudo o que você queria dele. A única coisa que Robert poderia te oferecer. — Lizzie… — voltei a chamá-la, porém não sabia o que mais poderia lhe dizer. Aliás, minha enxurrada de palavras foi justamente o que nos colocou naquela situação. — Eu sinto muito — murmurei por fim, uma nota de ruína soando. — Sinto muitíssimo. Eu não estava raciocinando, você sabe que eu jamais faria algo assim se meu discernimento não estivesse prejudicado, eu… — Sei que sente muito pelos meios, Linda, mas não pelo fim — retorquiu. — Ver-se livre de Robert era tudo o que você queria e agora ele não vai mais incomodá-la, atrapalhar sua vida e nem nada disso. — Lizzie, por favor… — Entendo você — ela me ignorou, puxando suas mãos para longe do contato das minhas. — De verdade. Entendo e aceito que você tenha desistido dele, mas eu não posso. Robert é meu irmão e eu sou a única pessoa no mundo que continua o amando depois de conhecer todos os defeitos que ele tem. Porque isso é amar, sabe? Reconhecer as imperfeições e estar disposta a conviver com elas. Eu acredito em Robert e sei que ele faz o melhor que pode, considerando tudo. “Conhecer você e se apaixonar lhe fez bem, mesmo as coisas tendo dado tão


erradas. Compreendo que você não veja a situação assim, que queira esquecer o fato de sua vida ter cruzado com a do meu irmão. Também compreendo que queira esquecer tudo isso, mas, sejamos francas, você não vai conseguir a cada vez que olhar para mim e notar que meu irmão e eu somos tão parecidos. Ou nos aniversários de Matt e Sofie, quando Robert estiver lá, porque ele sempre vai estar, em tantos outros momentos…” Novas lágrimas pesaram em meus olhos e também nos de Lizzie. Ela se preocupou em enxugar as dela. Em contrapartida, tudo o que eu conseguia fazer era sentir, aguda e visceral, a dor de ter meu coração esmagado dentro do peito. — Nós não podemos ter tudo — Elizabeth continuou, fungando e caminhando para longe de mim, indo apanhar sua bolsa. Porém, não deixei que ela o fizesse. Sem me dar conta de minhas ações, num ato de desespero, segurei o pulso de Lizzie e a impeli a fitar-me. — Lizzie, nem pensar. — Balancei a cabeça freneticamente, enfatizando o que eu acabara de dizer. — De jeito nenhum eu vou deixar que o término do meu casamento com Robert seja também o término da nossa amizade! Eu sou madrinha de Matt — eu a lembrei, com um sorriso banhado a tristeza com a possibilidade de jamais voltar a vê-lo. — Não quero perder vocês. Não posso perder vocês. — Tampouco era o que eu queria, mas… — Deu de ombros, como se dissesse “não tem outro jeito”. — Você tem Christine, os González, Lilly… — Hesitou por um instante, mordiscando o lábio antes de prosseguir: — Sua mãe e os seus irmãos. Robert tem a mim e a mais ninguém. Eu queria dizer-lhe que não era bem assim. Que todas as outras pessoas jamais preencheriam o vazio que ela ameaçava deixar em minha vida e em meu coração. O lugar que ela, Sofie e Matt conquistaram era deles e de mais ninguém. Isso não iria mudar. — Não é justo — choraminguei, a garganta ameaçando fechar-se com o choro crescente. — Só não é justo. Foi a vez dela de agarrar minhas mãos, entrelaçando meus dedos aos seus enquanto se certificava de que minha atenção era toda sua. — Eu preciso que você entenda que não estou te punindo. Eu te amo, como a irmã que não tive. Sofie te ama. Muito. E me dói saber que você não vai ser parte da vida de Matt, como tanto sonhei que fosse. Mas eu sou uma Blackwell antes de ser uma Smith, lembra? — perguntou numa retórica, esboçando um sorriso que poderia ser de qualquer coisa, exceto alegria. — Também é minha responsabilidade que Robert tenha machucado você. E não há espaço para mim onde não há espaço para ele. Meu irmão prometeu sempre estar comigo, quando eu mais precisasse, e vem cumprindo essa promessa. Só que… — Lizzie deteve sua enxurrada de palavras por um momento, seu olhar condoído e o semblante


alquebrado. — É ele quem precisa de mim agora, ainda que seja orgulhoso demais para aceitar. — Lizzie… por favor — eu tentei mais uma vez, mesmo sabendo que seria em vão. Em resposta, ela me abraçou apertado, calando tudo o que eu pudesse vir a dizer. Suas mãos afagaram meus cabelos uma vez e ela não desfez o contato enquanto dizia: — Você é a melhor amiga que eu poderia ter em toda a vida. Muito obrigada, por absolutamente tudo, em especial por ter trazido meu irmão de volta para mim. Eu te desejo, Linda, toda a felicidade do mundo, e que sua nova família seja tudo o que você merece, tudo o que não pudemos ser. Então ela depositou um beijo no topo de minha cabeça, esboçando um sorriso banhado em lágrimas que não fui capaz de devolver. Lizzie buscou sua bolsa, enxugando o rosto e apressando-se para fora do meu, até então, apartamento sem lançar-me uma última olhadela. Permaneci ali, estática, incrédula, derrotada, um amontoado de carne e ossos que não conseguia se mover, falar ou raciocinar direito. Prantear era a única coisa da qual eu me sentia capaz e, por um longo momento, foi tudo o que eu fiz. Assisti a Lizzie ir embora, impassível, e fechar a porta atrás de si, os passos soando distantes pelo corredor até desaparecerem. Ela já não era mais Lizzie, a amiga que eu amava com todo meu coração, e sim Elizabeth Smith, cuja vida jamais tornaria a cruzar com a minha.


— P or que não me disse que Robert concordou em fazer exatamente o que você queria? Paige me fitou com as sobrancelhas arqueadas, o que era o máximo de surpresa que ela se permitira esboçar. Nós estávamos esperando a nossa refeição, um prato francês cujo nome eu não sabia pronunciar, de escolha dela. Ela sorveu um longo gole de seu vinho, observando o ambiente ao redor, e, em seguida, pousou a taça sobre a mesa, encarando-me. — Vejo que vocês se acertaram… — murmurou suavemente, com um sorriso nos lábios sempre tingidos de vermelho. — Quem poderia imaginar, não é mesmo? Robert Blackwell me recriminou tanto e terminou apaixonado pela mulher que eu gerei. — O sorriso de Paige se estendeu, como em um gesto de triunfo, o que me incomodou profundamente. — Não nos acertamos — neguei, também num meneio de cabeça. — Elizabeth me contou. Por que você não me disse? Paige cruzou os dedos longos sobre a toalha de tecido caro, os olhos verdeescuros, tão diferentes dos meus, encarando-me com atenção. — Eu não sabia como te dar a notícia, minha querida… — começou, a voz aveluda sempre no mesmo tom invariável. — É muito doloroso… o que Robert fez… — Ela fungou, mas eu não soube dizer se era um gesto verdadeiro. — Doloroso ele ter te dado a mansão e tê-la feito acionista majoritária da


Wood Business? Como isso pode ser doloroso? É tudo o que você sempre quis! — As condições impostas são dolorosas, Linda — ela devolveu, enxugando uma lágrima que não vi escorrer e que tampouco deixara seus olhos marejados. — Robert Blackwell é um homem vil e egocêntrico e impôs como condição que eu me afastasse de você. Pisquei aturdida algumas vezes, o olhar fixo no de Paige, perscrutando sinais de mentira, revolta, remorso, dor… qualquer coisa. Indiferença foi tudo o que encontrei. Eu estava ali, à frente dela, disposta a abrir espaço em minha vida para que pudéssemos ser mãe e filha, ao menos tentar… mas duvidava que ela pudesse me ver. — Que quer dizer? Paige respirou fundo, cerrando os olhos por um momento, como se medisse palavras dolorosas que precisavam irrevogavelmente ser ditas. — Eu me perguntei, por longos 25 anos, como você estaria, Melinda — ela sussurrou brandamente, as mãos macias buscando as minhas e apertando-as entre as suas. — Não houve um único dia em que eu não pensasse em você e, agora, que finalmente tenho a chance de tê-la para mim… — Foi com espanto que vi uma única lágrima solitária correr pela bochecha de Paige. Ela não a enxugou, ao contrário. Fez questão de deixá-la ali, como se, de tal modo, ela provasse a veracidade de suas palavras. — Mas Robert deixou bem claro que não quer que eu me aproxime de você. Eu achei, no começo, que fosse porque vocês estavam juntos e ele não me queria como sogra, contudo… — Sacudiu a cabeça, como se o pensamento fosse ridículo. — Ele jamais ficaria com você. Jamais seria capaz de nutrir amor por algo além do próprio dinheiro. — Paige levou uma das mãos até meu rosto, num gesto que deveria ser um carinho. Todavia, sua mão não se moveu. Apenas pressionou a linha da minha mandíbula, quedando-se estática bem ali. — Você é tão, tão linda! — falou com sua voz musical. — Eu sinto tanto que não possamos ser uma família… Paige sacudiu a cabeça, em revolta. Suas mãos abandonaram o contato com minha pele, os cotovelos fincados no tampo da mesa e os dedos retorcidos servindo de apoio para sua testa. — Os seus irmãos não merecem lhes ter negado o que pertence a eles por direito! — protestou, a voz comovida e vacilante. — Me perdoe, Melinda, me perdoe… Mas era a única forma de Robert ceder. Longos minutos pareceram transcorrer até Paige erguer o rosto para me encarar. Os olhos, desta vez, estavam marejados. Sua cabeça tombava para o lado esquerdo enquanto ela me analisava. Ao redor, casais apaixonados cochichavam entre si, tocavam as mãos, entrelaçavam os dedos. Uma família estava logo atrás de Paige, a garotinha derrubando suco em seu vestido enquanto o pai sorria e se


apressava em limpar, fazendo pouco caso da pseudorreprimenda que a mãe parecia dirigir à filha… Paige e eu continuávamos distantes. Bem mais que uma simples mesa entre nós. Havia um imenso abismo, uma vida inteira… 25 anos transcorridos que se transformariam em outros 25. Havia um nó imenso na minha garganta, lágrimas de vergonha e revolta em meus olhos lutando para escapar ao mesmo tempo em que eu lutava para mantêlas presas. Notei que o garçom se aproximava e, sem esperar mais, peguei minha bolsa sobre o espaldar da cadeira e me levantei. — Obrigada, senhorita Williams. Ela me encarou de cenho franzido, sem compreender. — Pelo quê? — instigou, confusa. — Você poderia ter dado um fim à minha existência 25 anos atrás, mas não o fez — elucidei, assistindo às suas feições endurecerem. Eu não duvidava que aquele fosse um assunto traumático para ela, ainda assim, precisava dizer o que estava me sufocando. — Em vez disso, assistiu ao seu corpo mudar para abrigar alguém que não desejava. Que não deseja — retifiquei, dando de ombros num gesto displicente, como se aquilo não fizesse diferença. — Principalmente, obrigada por me abandonar à porta daquele orfanato. Deixar que eu tentasse a minha própria sorte foi o melhor que você poderia ter feito por mim. Paige abriu a boca para dizer algo, contudo, o garçom chegou com nossos pedidos. Com os pedidos dela, na verdade, então eu me retirei. O nó na garganta se fora, as lágrimas rolaram e meu coração estava lavado, porém, ainda dolorido pelo dano que eu sabia ter causado em Elizabeth e Robert Blackwell. “Que sua nova família seja tudo o que você merece…”, Lizzie dissera, e aquelas palavras eram tudo em que eu conseguia pensar.


Há meses eu vinha lutando para me adaptar à minha nova rotina. Acordava cedo pela manhã, com o apartamento silencioso, preparava um desjejum simples, me alimentava e ia para o trabalho. Enfrentava um dia infernal com um chefe abusivo, que fazia uso de piadas sexistas, e engolia calada, porque ficar migrando de emprego não era bom para o meu currículo e as contas não se pagariam sozinhas. Eu ainda não havia encontrado tempo para entregar os documentos do divórcio assinados ao advogado de Robert e, mesmo que o tivesse feito, jamais aceitaria dinheiro algum vindo dele, sob nenhuma hipótese. Portanto, eu voltava para casa dia após dia, tirava os sapatos ainda à porta, sentindo o chão gelado, os ombros tensos… tomava um longo banho, preparava algo prático para o jantar e então ia me deitar. Era sempre a mesma coisa. Sempre monótono e solitário. Não havia Lilly atrapalhando a fila para o chuveiro ou comendo tudo o que encontrava pela frente, tampouco Christine inquirindo sobre como fora meu dia e contando-me sobre o seu. Por dias e dias, o som da minha voz só era ouvido no meu trabalho, afinal, com quem eu falaria enquanto estivesse em casa? Claro que eu costumava visitar Christine, em um fim de semana ou outro, mas não estar solitária por algumas horas era diferente de não ser solitária. Eu me esforçava para não deixar transparecer o quanto sentia falta de companhia, porque amava Chris e Lilly e queria que elas fossem plenamente felizes em suas novas vidas, o que de fato vinha acontecendo. Após uma cerimônia simples e intimista, Christine Westwood se tornara Christine González. A barriga estava proeminente e o pequeno Gabriel crescia saudável lá dentro, e, por algum motivo, isso me trazia Matt à memória. Eu havia perdido o contato com Lizzie e Robert. Não houve mais ligações ou visitas inesperadas, o que não me impedia de pensar em como arruinei as coisas para eles ao deixar que Paige entrasse em meu caminho, ainda que por um breve momento. Também não voltei a vê-la e tampouco sentia vontade de fazê-lo. A vida continuava, apesar de tudo, e o mundo não parava de girar para que eu me encolhesse e pudesse sentir a minha dor em paz. Por isso eu seguia mascarando, sorrindo quando queria chorar e dizendo estar bem, mesmo com o vazio me consumindo de dentro para fora.


Eu me espremi entre a multidão de pessoas, o arco-íris piscante do jogo de luzes incomodando meus olhos enquanto eu fazia meu caminho de volta até o bar. — O que você vai querer agora, gracinha? — o barman, um cara negro de músculos proeminentes e quase 2 m de altura, perguntou assim que me aproximei, e eu estava alta o bastante para não me importar com o modo que ele me chamava. Na verdade, era até… hilário. Então eu ri, por mais que não fizesse o menor sentido, correndo meus olhos pelo bar, observando o que os outros bebiam, porque, de fato, nomear drinques nunca foi meu forte. — Que tal aquele ali… com a azeitona? — Apontei, me referindo à bebida de um cara na outra extremidade do balcão. — Dry Martini — elucidou, me lançando um sorriso simpático, uma piscadela e manuseando a coqueteleira de um jeito que acabou me deixando um pouco tonta. Ele pareceu perceber, pois franziu as sobrancelhas, despejando o líquido naquela taça engraçada. Apressei-me em pegar a azeitona de uma vez. — Ei, bonita, você não acha que já bebeu demais? — Olhou ao redor por um momento, como se procurasse por alguém, antes de voltar a me fitar. — Você está sozinha? Sem amigos? Namorado? Quem sabe uma namorada? Não tinha graça nenhuma, mesmo assim, sorri, sorvendo o líquido que desceu queimando em minha garganta e que não era tão agradável quanto pensei que fosse. Fiz uma careta. — Estou sozinha… — admiti, tentando focar meus olhos pesados no homem à minha frente. — Eu estou aqui, na verdade, tentando ignorar o fato de que tenho uma vida miserável, porque acusei meu ex-marido de saber que eu era filha da amante do pai dele quando nós nos casamos. — Dei de ombros, como se não fosse nada importante, sorvendo um pouco mais da bebida sob um par atento de olhos escuros, julgando-me e zombando de mim. — Ei, eu sei que foi estúpido, okay? Mas sabe qual é a pior parte? — Ele não me respondeu, porém continuei, ainda assim. — No fundo, eu sempre soube que Robert não faria algo assim. Quer


dizer… você acha que ele faria? Sobrancelhas arqueadas enquanto eu tinha meu drinque retirado de minhas mãos foi a única coisa que obtive como resposta imediata. — Sabe o que eu acho? — o moço de sorriso simpático perguntou. — Que você devia ir pra casa. Tá tarde, você tá sozinha… depois você pode ligar pro Robert e ter uma longa conversa com ele, que me diz? Balancei a cabeça de um lado para o outro. Negando. Ele não tinha escutado o que eu acabara de dizer? — Eu esbofeteei Robert. E disse que tinha nojo dele — choraminguei, uma lágrima atrevida rolando pelo meu rosto. — Mas essa é uma baita mentira, sabe? Ele nunca vai me perdoar. — Você pode fazer que ele te perdoe, bonita. Um bom começo é ficando sóbria. — Ele sorriu, e foi um gesto tão acolhedor que me deu vontade de chorar. De novo. Malditas glândulas lacrimais! Sacudi a cabeça. Eu não iria chorar. Não ali, não na frente do… franzi o cenho, notando que não fazia ideia de como se chamava o barman. — Linda… — eu disse, estendendo minha mão para ele. — Kevin — devolveu, beijando o dorso de minha mão e piscando para mim. Era impressão minha ou ele tinha feito isso antes? Queria dizer que ele estava flertando comigo? Eu deveria flertar com ele de volta? Onde estava Christine para me ajudar numa hora dessas? Sem pensar muito, inclinei-me na direção de Kevin, sabendo que o que eu estava prestes a fazer era muito estúpido, mas eu lidaria com isso depois. — Você me acha mesmo bonita? — praticamente gritei, para que minha voz se sobrepusesse ao som ensurdecedor da música eletrônica que fazia as pessoas se jogarem na pista de dança, como eu me jogara pouco antes. Kevin tocou meu rosto, e o gesto era estranho. As mãos eram diferentes das de Robert. Não só isso. Robert não teria simplesmente tocado meu rosto. Primeiro, ele passaria o dorso de seus dedos em minha bochecha, indo até a têmpora, voltando ao queixo, o qual ele seguraria com seu polegar e indicador. Então, se eu tivesse muita sorte, após ofegar em expectativa, eu seria beijada. Não sem que antes seus olhos verdes faiscassem em minha direção. Os olhos de Kevin não estavam faiscando, ainda que ele parecesse a poucos segundos de me beijar. Era muito errado não querer ser beijada por olhos que não faiscavam? Isso fazia sentido? Quer dizer… não eram exatamente os olhos dele que iriam me beijar, certo? A respiração quente de Kevin bateu em meu rosto e, como se eu tivesse levado um choque, saltei de susto quando meu celular vibrou de um jeito que mais


parecia uma britadeira. Murmurando um pedido de desculpas qualquer, peguei o aparelho de dentro da bolsa e li no visor o nome de Christine. Pensei em ignorar a chamada e voltar para meu flerte desengonçado, mas, ao ver que aquela não era sua primeira chamada, desisti, deslizando o dedo pela tela e levando o celular ao ouvido. — Oi, Chris — atendi, dando as costas para Kevin. — Linda…? — ela chamou, e disse uma série de outras coisas que ouvi, mas não entendi. Levei o dedo indicador ao outro ouvido, tampando-o a fim de abafar o ruído externo. — Chris, eu não estou te escutando! — gritei, para que ela, sim, pudesse me escutar. — Pelo amor de Deus, onde você está? Que barulho é esse? Está perfurando meus tímpanos daqui! — A voz dela saiu urgente, e apesar de Christine não ser a pessoa mais paciente do mundo, no fundo eu sabia que havia algo por trás de sua agitação. — Estou me divertindo — menti, a diversão acabara em algum momento entre a pista de dança e o bar. — Bem, preciso que dê um tempo na diversão e arraste seu traseiro até o hospital. — O quê? Hospital? Oh, meu Deus, o bebê está bem? — apressei-me em perguntar, tirando algumas notas da bolsa e jogando-as sobre o balcão, para Kevin, sem me preocupar em me desculpar pela interrupção do nosso… lance. — O bebê e eu estamos bem. O problema é Eva. Ela passou mal e nós a trouxemos até o hospital. Vou te mandar o endereço por mensagem. Só venha logo, entendeu? Aquiesci com um aceno de cabeça, um gesto estúpido que demonstrava meu desnorteio, já que Christine não poderia me ver do outro lado da linha. Ela desligou a ligação, e demorei alguns segundos até reaver o controle sobre minhas pernas e ir à procura de um táxi.


A sensação era a mesma de ter alguém martelando um prego em meu crânio. Eu queria que parasse, todavia minhas vontades não importavam. Javier estava desolado, andando de um lado para o outro, as mãos na cabeça denotando seu estado catatônico. Christine tentava se manter forte, por Javi e por Gabriel também, aparentemente, no entanto, eu não conseguia me manter forte nem por mim mesma. Eu me lembrava bem de ver Javier daquele modo, meses atrás, quando Eva adoeceu. Não, não daquele modo… agora parecia pior, mesmo que eu não soubesse precisar por quê. Christine foi quem me viu primeiro, mas não pareceu gostar da imagem logo à sua frente. Por instinto, eu me encolhi, envergonhada sob seu olhar estupefato enquanto analisava meu vestido minúsculo e a maquiagem pesada que improvisei mais cedo. Sentime nua e desconfortável de uma forma indescritível, mantendome estática em meu lugar ao passo que ela vinha até mim. — Mas que diabos você estava fazendo, Melinda Antonieta Calle? — questionou mordaz, com os olhos faiscando. Não de um jeito bom, contudo. — Eu disse que estava me divertindo. — Dei de ombros, porém, quando Christine demonstrou ter algo com que refutar o que eu dissera, fui mais rápida: — Você me disse que eu deveria sair e conhecer gente nova, lembra? Quando me separei de Robert. — Não, não, não, mocinha, você não vai me acusar de coisa alguma! Escuta aqui, eu não te disse pra fazer nada estúpido, okay? Olha só pra você, Linda! Essa não é você, caramba! — Só porque estou mostrando mais pele que o normal? — Porque está cheirando a álcool, quando odeia beber, usando coisas que odeia vestir, com maquiagem borrada, o cabelo desgrenhado… você está uma bagunça! Tornei a encolher os ombros, desviando meu olhar do de Christine. O


médico surgiu, perguntando sobre os familiares da senhora González. Quando Javier disse que era o neto dela, o doutor pediu que Javi o acompanhasse. Ele o fez de pronto, no automático, e eu duvidava até mesmo que tivesse notado que eu estava ali levando um belo sermão da nova senhora González. — Não estou bêbada — foi o que, estupidamente, sussurrei para Christine quando Javier saiu de nosso campo de visão. Ela me fitou, incrédula, soltando um bufar de esgar. — Se eu acender um fósforo perto de você, consigo mandar o hospital inteiro pelos ares, Linda — debochou. — Só me diz que não fez nada estúpido, que não dormiu com o primeiro cara que viu pela frente só porque… — Isso é problema meu! — eu a cortei revoltada. — Você tem sua vida para cuidar, deixa que eu lido com a minha. Além do mais, Eva é o foco aqui, esqueceu? — Não, eu não esqueci! Eu venho segurando as pontas sozinha com Javi pelas últimas horas, porque você estava desaparecida, se acabando numa pista de dança ao mesmo tempo em que estávamos aqui, com o coração a ponto de sair pela boca! Javi transtornado, e eu… ai! — ela gemeu, levando uma das mãos à barriga e fazendo uma careta de dor. — Chris, está tudo bem? — inquiri assustada, precipitando-me até ela. — Sim, foi só um chute — devolveu, acariciando a barriga com o rosto ainda contorcido. — Ele faz muito isso, não é nada de mais. Acenei uma vez, lembrando-me das inúmeras chamadas perdidas no meu celular. Claro que na pista de dança eu jamais seria capaz de sentir o aparelho vibrar. Que idiota você é, Linda! — Me desculpa — sussurrei para Christine, os olhos enchendo-se de água sob a perspectiva de que, se algo mais grave tivesse acontecido… Deus, eu nem queria pensar. Christine me fitou, os olhos brilhantes de lágrimas. Ela não havia chorado. Não porque não se importasse com Eva, e sim porque deveria ser uma rocha inabalável na qual Javi pudesse se firmar. — Ela precisa ficar bem — Chris disse baixinho, os olhos caindo sobre a barriga e voltando a acariciá-la. — Gabriel precisa tirar o sono dela também… — Ela sorriu, mas não era um gesto feliz, senão melancólico. Meu peito estava apertado, o rosto banhado em lágrimas e coriza escorrendo. Porém, antes que eu pudesse dizer algo, Javier estava de volta. Sozinho, sem a companhia do médico. Christine e eu nos apressamos em enxugar nossas lágrimas, para que Javi não as visse. Com passos lentos, lentos demais, eu diria, ele caminhou em nossa direção,


entretanto, nós nos apressamos até ele. — E então? — perguntei, forçando um sorriso que ameaçava partir meu rosto ao meio. Javi não sorria. Ao contrário, engoliu em seco. Enterrou as mãos nos bolsos, baixou a cabeça e sugou uma longa lufada de ar antes de dizer algo. — O médico disse que o diagnóstico da abuelita é um aneurisma na artéria abdominal, com risco de rompimento. — Ele se deteve por um instante, pigarreando. — Ela precisa ser submetida a uma cirurgia endovascular, com caráter de urgência. Eu não percebi que havia prendido a respiração até que meus pulmões imploraram por ar. Respirei fundo, meu cérebro insistindo em me lembrar de todos os riscos que uma cirurgia poderia trazer. Contudo, Javier precisava de apoio e palavras de conforto. E era isso que ele teria de mim. — Vai ficar tudo bem, Javi — murmurei, tocando-lhe o ombro, tentando lançar-lhe um sorriso encorajador. — Você vai ver só, Eva é forte, ela… — O plano de saúde não cobre o procedimento, Linda — ele me cortou, a expressão séria como jamais presenciei antes. — C-como assim? — Chris gaguejou para ele, piscando, aturdida. — O plano de saúde não cobre o procedimento — repetiu, os olhos fixos nos de Christine. — E eu não tenho nem mesmo metade do dinheiro necessário para cobrir os custos da cirurgia. Se houver rompimento, ela não… — Javier apertou os olhos, a expressão sofrida. — Minha abuelita está morrendo e eu não posso fazer nada. Nada! Morrendo… A palavra ecoou em meus pensamentos, fazendo meu mundo girar. Javier desabou nos braços de Christine, enterrando o rosto molhado no pescoço da esposa enquanto chorava como um menino. Chris tentou, lutou contra as lágrimas, todavia elas eram demais para serem contidas e, então, ela também se desmanchou em pranto. Minhas pernas estavam trêmulas, o sangue gelado correndo por minhas veias, o coração oscilando entre bater num ritmo frenético e falhar algumas batidas. Levei uma das mãos à boca, a fim de conter o soluço que ameaçava rasgar minha garganta. O sentimento de inutilidade me assolou com força enquanto eu fitava, através de minha visão embaçada, a bagunça emocional que eram Javier e Christine. Eu conhecia bem a sensação de ter o chão arrancado de sob meus pés, conhecia o significado de perder alguém irrevogavelmente… mas não assim. Não como estávamos perdendo Eva. Javier, por outro lado, já passara por aquilo vezes demais para alguém que nem mesmo havia alcançado a casa dos trinta. Justo agora, quando ele e Christine estavam construindo uma família, com a


chegada de Gabriel… não era justo. Com nenhum de nós. Não era justo que eu perdesse o mais próximo do amor materno que eu teria em toda a vida… eu já havia perdido tanto, não suportaria ver a única família que conheci se quebrando daquele jeito. Eu tinha que encontrar uma solução, porém, necessitaria de tempo para raciocinar, e tempo hábil era tudo que não possuíamos. Em meu desespero, foi imediato pensar em Robert e na sensação de conforto que seu abraço costumava trazer. No fundo, Lizzie tinha razão. Ele esteve mesmo pronto para me ajudar em todas as vezes que mais precisei. Contudo, depois de como encerramos as coisas, não havia a mais remota chance de Robert vir em meu socorro. Ou talvez houvesse. Eu não sabia dizer. Robert deveria me odiar, sem sombra dúvidas. Entretanto, ele seria capaz de negar ajuda a Eva apenas para me punir? Eu precisava acreditar que não. Engolindo meu orgulho e também meu brio, decidi arriscar a minha sorte. Havia uma possibilidade gigantesca de ter minhas esperanças frustradas, disso eu bem sabia. Ainda assim, o intento de ver Eva bem era mais importante que meu ego, e se eu tivesse que pisoteá-lo a fim de salvar a vida dela, não hesitaria em fazê-lo e arcaria com as consequências mais tarde.

Minhas tentativas através do celular foram inúmeras, porém, infrutíferas. As ligações iam direto para a caixa postal e minha urgência me impedia de deixar recados. Eu não queria passar uma mensagem, queria falar com Robert, e tinha que ser logo. Saí do hospital às pressas, e o Uber encostou à entrada poucos minutos depois. Nervosismo consumia cada pequena partícula do meu ser, entretanto, não me permiti vacilar. Meus dentes batiam uns contra os outros, de frio e angústia. Se eu já estava uma bagunça antes de todo o choro descontrolado, devia ser uma


imagem ainda pior agora, desgrenhada e atônita. Com o apartamento de Robert como destino, tentei ensaiar mil formas diferentes de pedir-lhe ajuda, e o resultado foi frustrante. Nada parecia bom o suficiente. Quando cheguei à portaria, porém, parecia-me tão pouco com a Linda ou com a senhora Blackwell à qual eles estavam acostumados que sequer me deixaram rumar aos elevadores. Talvez estivessem imaginando que eu era uma mulher doente e alucinada que Robert rejeitara e, agora, vinha infernizar sua vida. Quiçá, dado meu estado, acreditassem que eu era uma garota de programas. Vergonha me consumiu novamente enquanto eu esperava que interfonassem para o apartamento de Robert. Eu não sabia se ele estaria disposto a me deixar subir, mas não tinha muitas certezas no momento, portanto, decidi arriscar. Sem sucesso, contudo. Desorientada, não dei a mínima quando os seguranças me conduziram até a saída. Eu não era bem-vinda ali, e não me importava. Se Robert não estava, não havia por que eu estar ali. Talvez, se eu esperasse à entrada da garagem… Com a garganta travada, lágrimas pinicando os olhos e desespero crescente, foi com uma epifania que me lembrei de que dia da semana era aquele. Sexta-feira. Dia escolhido para os jantares em família. Uma tradição que eu criara e da qual já não fazia parte. Ainda assim, quando optei por pegar o próximo Uber, era a casa de Elizabeth que eu tinha como destino. Parada à sua porta, eu me lembrei da primeira vez em que estive ali. A entrada imponente fazendo-me vacilar, o nervosismo me consumindo por inteiro, as pernas meio molengas. Lembrava-me também da postura pouco amistosa de Lizzie, da simpatia de Mike e da receptividade de Sofie. Mais parecia uma era atrás. Outra vida, que não era minha, porém da qual eu sentia falta mais do que senti de qualquer outra coisa em toda minha existência. Com os olhos rasos de lágrimas e respirando fundo, toquei a campainha uma vez. Segundos depois, Lizzie surgiu à porta. Estava sorrindo e dizendo algo que não compreendi muito bem, talvez em decorrência dos nervos à flor da pele. Quando seus olhos pousaram sobre mim, eles cintilaram com um brilho tão familiar que senti meu peito se apertando. — Lizzie… — chamei em reconhecimento, com um único fio de voz, um suspiro pesado me escapando, porque sua expressão contente me assegurava que, diferente do que se passava comigo e com os González, tudo estava bem com eles. — Linda — ela devolveu, tomada pela surpresa de me ver ali. Sem pensar muito, cortei a distância entre nós e a abracei apertado. Minha amiga Lizzie. A quem eu amava e de quem sentia tanta falta! Foi quando o vi. Ainda parada à soleira, com os braços em torno de Lizzie,


vi quando Robert e Michael adentraram a sala, ambos segurando um copo com líquido âmbar em uma das mãos e com um sorriso aberto. Eu me lembrava de tudo sobre Robert. De como era seu rosto, seus olhos, o sorriso e de como era a sensação de estar em seus braços. Contudo, as lembranças eram apenas uma versão muito esvanecida do sentimento real e aterrador de estar a poucos metros de distância dele, e a percepção disso fez com que as lágrimas já formadas pesassem e rolassem por minhas bochechas. Vê-lo sorrir me dava a certeza de que, mesmo depois de todo esse tempo afastados um do outro, seu sorriso ainda era o meu favorito em todo o mundo e me trazia uma onda de conforto ao peito que era simplesmente indescritível. Meu mundo inteiro estava em colapso, mas meu coração pareceu encontrar um compasso outra vez. Entretanto, quando seus olhos verdes esbarraram em mim, seus lábios assumiram um aspecto sério. O sorriso começou a esmaecer e, enquanto eu o encarava, estática, sob o olhar atento de Michael com uma Lizzie ainda catatônica entre meus braços, Robert tomou um longo gole de sua bebida, dando-me as costas ao mesmo tempo em que dizia para Mike: — Vou esperar na sala de jantar. Era a mesma voz rouca que eu apreciava, o sotaque inglês moldando as palavras de um modo que eu jamais conseguiria enquanto Robert se afastava, o gesto arrancando-me do meu torpor. — Não, espera, Robert! — eu chamei, afastando-me de Lizzie e adentrando o ambiente sem pedir licença, apressando-me em direção a Robert, que não diminuiu o passo após o meu chamado. — Robert, espera um segundo! — insisti, apertando o passo até passar por ele e colocar-me à sua frente. Dessa vez, ele se deteve, encarando-me com o cenho sisudo ao extremo, o olhar indecifrável esquadrinhando meu rosto ao passo que o dele, devagar, ia esboçando desentendimento. — Eu te liguei mil vezes, fui até sua casa… — apressei-me em dizer quando ele não me dirigiu a palavra. — Sei que esse é um jantar em família, mas, por favor, eu só te peço 5 minutos do seu tempo, está bem? E então você pode me mandar ir embora, se quiser. Robert continuou em silêncio, sua expressão não mudou e eu não conseguia decifrar o que via exposto naquela imensidão esverdeada que não desviou sua atenção de mim desde o momento em que a obtive. Esperei calada, os dedos se entrelaçando uns aos outros num gesto de inquietude, o coração retumbando no peito, fazendo-me me perguntar se Robert seria capaz de ouvi-lo. Imaginei se aquela expressão impassível fora a que seu rosto assumiu em nosso último encontro, quando o esbofeteei, e me senti completamente ridícula por estar ali depois de tudo, porém, eu precisava ao


menos tentar. As maçãs de meu rosto estavam quentes pelo constrangimento, pelo sangue que corria com força por minhas veias e pela vontade absurda que eu sentia de gritar para Robert um pedido de desculpas, entalado em minha garganta desde a última vez em que nos vimos e que só não ganhava voz porque tão grande quanto meu remorso era minha covardia. Engoli em seco, baixando a cabeça e fechando os olhos, constrangida. Fora um erro ir até ali, se antes eu sabia, agora tinha certeza absoluta. Eu não conseguia precisar bem o que me levou a tomar aquela decisão precipitada, se o desespero ou os resquícios de álcool em meu sistema, todavia, ali estava eu. Resignada, inspirei profundamente, preparando-me para ir embora antes mesmo de conseguir articular um pedido de ajuda, sentindo-me miserável por ser dissuadida apenas com o olhar gélido que Robert me lançara. — Me desculpe por interromper o jantar — murmurei, tão baixo e rouco que eu não tinha certeza nem mesmo de que Robert me escutara. — Eu… — Lizzie — Robert atalhou, olhando para a irmã por sobre o ombro. — Podemos usar sua biblioteca?


A decisão de não mais procurar Linda foi tão difícil quanto teria sido engolir meu orgulho e ir até ela. Palavras já haviam sido usadas entre nós, antes, e ferimos um ao outro repetidamente, mais vezes do que poderíamos contar, todavia, chega um momento que um mísero punhado de letras reunidas é o estopim para tudo. E, como ações valem mais que palavras, Linda, enfim, me fez entender que amor unilateral não era capaz de sustentar um relacionamento. Foi como me dei conta de que, na verdade, apesar de ter tentado esconder de mim mesmo, talvez por não saber identificar os sinais, eu estava apaixonado por Linda há eras, ainda que não soubesse precisar o que exatamente me levou a isso. De qualquer forma, nada mais importava. Não quando ela me odiava. Não quando eu lhe provocava nojo. Não quando a última vez em que tivemos contato físico se tratava de sua mão espalmada em minha face. Poderia ser hipocrisia sentir-me assim, entretanto… aquele foi meu limite. A certeza de que Linda não nutria sentimentos bons por mim e que distância era a única coisa saudável que conseguiríamos manter entre nós dois. Claro que fui contra Elizabeth afastar-se de Linda também. Elas eram amigas e isso não tinha nada a ver com o fim do nosso casamento, eu não me permitiria influenciar assim a vida pessoal de nenhuma das duas. Entretanto, os argumentos de Lizzie faziam sentido. Nossa família possuía muita bagagem e, mesmo que por acaso, com minha irmã sendo parte da vida de Linda, ela e eu acabaríamos nos


esbarrando em algum momento. Não era o ideal para nenhum dos dois. Vê-la depois de tanto tempo, à porta de Elizabeth, foi um choque do qual não consegui me recuperar instantaneamente. Eu não sabia o que a levara até ali, mas sabia que não estava disposto a ficar por perto para descobrir. No entanto, antes mesmo que eu pudesse me retirar, ela me chamou. Não me detive para mirá-la, segui caminhando até ser barrado por Linda parada à minha frente. Causava estranheza fitá-la depois de tudo. Acendia a revolta que senti ao me expor para ela e receber repúdio em resposta. Eu tinha inúmeros defeitos e coisas pelas quais me desculpar com Linda, tê-la tratado com desprezo não era uma delas desde que me redimi pelo ocorrido após o acidente em que nos conhecemos. Mas talvez eu merecesse. Eu já deveria ter aprendido que amar, ou mesmo me apegar às pessoas, era um erro que não deveria cometer sob nenhuma hipótese. Amor não caía bem em mim. — Qual é o problema? — inquiri a Linda no segundo em que pisamos na biblioteca. Sorvi um longo gole do meu scotch, caminhando pelo cômodo até alcançar a mesa de madeira em frente a uma das prateleiras abarrotadas de livros e pousar meu copo ali. — Como sabe que tenho um problema? — A voz de Linda soou baixa e incerta, como eu não ouvia há algum tempo. Parecia haver décadas de distância entre a última vez que nos vimos e agora, ainda assim, o que eu sentia por ela não havia mudado ou esmaecido um único tom. Isso era uma droga, porque em vez de fitá-la com indiferença e rancor, tudo o que eu podia fazer era fugir de seu olhar para não tornar a ver o desespero que vislumbrei nele, minutos atrás, ou a personificação da desordem que ela era. Manchas pretas desde seus olhos até as bochechas, graças à maquiagem que escorrera, roupas revelando uma quantidade quase obscena de pele e um odor que nunca senti vindo dela antes: álcool. Era difícil imaginar o que a levara àquilo, mas, aparentemente, eu estava a ponto de descobrir. — Você parece a um único passo de desmoronar — admiti, ainda de costas para ela, a ponta de meu dedo indicador contornando a borda do copo. — Um caos cheirando a álcool. Diferente do que supus, Linda não falou de pronto, porém sua respiração era suficientemente ofegante para dar-me a certeza de que ela ainda estava ali. — Eva — murmurou um tempo depois, pigarreando logo em seguida, antes de continuar: — Ela está hospitalizada e… — Hesitou, e, mesmo sem fitá-la, eu poderia dizer que Linda estava retorcendo os dedos das mãos e mordiscando o lábio inferior, porque era isso que ela costumava fazer quando se punha nervosa.


— Ela precisa de uma intervenção cirúrgica e nós não podemos… não conseguimos arcar com as despesas. Incredulidade era o único sentimento que eu poderia discernir no momento. Meus ouvidos pareciam estar me traindo ou eu estava levando as coisas para um lado muito errôneo, o que era pouco provável. — É por isso que você está bêbada? A pergunta pareceu tê-la pegado de surpresa, pois a resposta não foi imediata. — Não — admitiu segundos depois, com a voz pequena. — Sua mãe não pode te ajudar? Eu ouvi dizer que ela está nadando em dinheiro — escarneci, sorvendo um novo gole generoso de minha bebida e virando-me, por fim, para encarar Linda. Sua expressão era atônita e confusa, os olhos brilhantes, provavelmente por lágrimas que ela estava se impedindo de verter, os dedos, como eu previra, engalfinhados uns aos outros. — Ela e eu não temos contato. — Deu de ombros, de forma tão sutil que foi quase imperceptível. Foi sua vez de me dar as costas enquanto abraçava a si mesma num gesto de autoproteção que eu conhecia bem. — Você deveria saber, não? Paige me disse que sua condição para dar-lhe a empresa e a mansão seria que ela se afastasse de mim. Não pude conter um riso irônico. Paige era mesmo digna de um Oscar e de uma profusa doação de escrúpulos, porque eu duvidava que ela soubesse ao menos o que a palavra significava. — Não vai negar? — Linda inquiriu, virando-se e franzindo o cenho ao passo que me observava atentamente. Ergui as sobrancelhas, como se ponderasse a respeito. Linda estava acostumada a me ver sempre negando acusações, nos últimos tempos, e dando justificativas para tudo. No entanto, eu não via pretextos para me dar ao trabalho de algo assim. Não havia motivos para tentar convencer Linda de que o que Paige alegara era absurdo e que minhas atitudes eram fruto de boas intenções. O tempo para tentar reconquistar Linda passara e argumentar era sem sentido. — Não vejo propósito algum nisso, uma vez que você vai acreditar na sua mãe, de qualquer modo. — Você impôs condições? — inquiriu, de pronto, parecendo ávida pela resposta. — Talvez — concedi. — Sim ou não? — insistiu. — Duas. — Quais?


— James não poderia representá-la. De jeito nenhum eu daria esse gosto àquele desgraçado. Paige ficou com tudo, mas ele não se beneficiou de nada. Ela aquiesceu uma vez, bem devagar, dando um passo pequeno para mais perto de mim. Em resposta à sua aproximação, meus músculos tensionaram, porém, tentei não deixar transparecer. Apoiei-me melhor à mesa, cruzando a perna direita em frente à esquerda e afundando minhas mãos nos bolsos de meu jeans. — E a segunda? — Linda voltou a perguntar num fio de voz, como se temesse a resposta. Era quase como se ela esperasse o pior de mim, e, ao mesmo tempo, não quisesse tornar a se decepcionar. — Ela deixaria a mim e as pessoas que eu amo em paz — despejei, sem rodeios, para acabar de uma vez com a expressão sofrida de Linda ante a espera. Não funcionou. Minha resposta pareceu abalá-la ainda mais, talvez pela surpresa de desvendar uma mentira de Paige, eu não sabia dizer. — Entendo… — foi tudo o que ela balbuciou, um tempo depois, que pareceu como se fosse horas. — Voltando ao seu problema financeiro… — retomei, a fim de evitar o desconforto do novo silêncio que ameaçava instalar-se —, meu advogado deveria ter te entregado um cheque, após o divórcio — eu a lembrei, contudo, no momento seguinte, eu me dei conta do absurdo que acabara de dizer. Óbvio que Linda jamais aceitaria um único centavo meu, a menos que a vida de alguém que não fosse ela estivesse em jogo. — Já tentaram um empréstimo? — emendei, observando-a engolir em seco ao passo que absorvia a fala anterior. Linda piscou repetidas vezes, meneando a cabeça, talvez a fim de clarear os pensamentos. — Empréstimo? — testou, as sobrancelhas unidas em um aparente desalinho interno. — Sim, empréstimo, em um banco. Vocês já tentaram? — N-não — ela gaguejou, reforçando o que dissera com um meneio de cabeça. — Eu… não pensei nisso — admitiu envergonhada, encolhendo os ombros enquanto voltava a passar os braços ao seu redor. — Você precisa de dinheiro, mas não pensou em ir ao banco? — instiguei, sem conseguir conter a nota de escárnio que modulou minha voz. Linda movimentou a cabeça de um lado a outro, lentamente, parecendo engolir em seco no processo. — Pensei em você — confessou, enrubescendo, seu olhar fixo ao meu pela primeira vez desde que adentramos aquele cômodo. Não pude evitar a agitação que me assolou, um misto de surpresa e regozijo


disputando espaço em meu peito, acelerando meus batimentos e descarregando em mim tanta adrenalina que me fez cravar as unhas nas palmas de minhas mãos, um gesto agora corriqueiro, no simples intento de sufocar a necessidade de tocar Linda. — Quer dizer… — ela emendou, após um pigarro, entretanto, não disse nada mais depois disso. A boca se abriu, ela gesticulou e, por fim, num ato de frustração e impaciência, escondeu o rosto entre as mãos. — Meu Deus, o que estou fazendo? — perguntou a si mesma, as mãos esfregando o rosto e, então, jogando os cabelos escuros para longe dos olhos, num gesto rude. — Isso vai soar muito, muito errado, mas… — Linda tornou a hesitar, gemendo em desgosto e dando passos incertos que a traziam cada vez mais para perto de mim. — Nós não temos tempo para tentar um empréstimo. A vida de Eva está por um fio e você é a única pessoa a quem posso recorrer para pedir ajuda. Estaquei por um momento, estarrecido, sem mover um único músculo enquanto encarava o rosto de Linda, ansioso por um posicionamento. A agitação no peito deu lugar a algo bem mais nocivo e perigosamente parecido a cólera. Por um momento fugaz, cogitei a hipótese de que pensar em mim, para Linda, era involuntário, porque a despeito do nosso passado, seria sempre para os meus braços que ela correria à procura de consolo e proteção. Assumi que o desespero a fizera perceber o quanto me necessitava, o quanto carecia dos meus beijos para sentir-se completa de novo, como eu carecia dos dela. Era patético admitir isso, ainda que somente para mim, contudo, apesar de todas as bocas que beijei nos últimos meses e de todas as mulheres com quem me deitei, pensar em Linda sempre fazia meu sangue ferver com a vontade de tocá-la, beijá-la e tê-la para mim. Ter o corpo dela contra o meu, enquanto fazíamos amor, nosso suor se misturando, seus gemidos de deleite e incentivo me levando ao limite… Pensar nisso enquanto a tinha ali, logo à minha frente, fazia com que o sangue fosse direcionado para todos os lugares errados. Entretanto, perceber que não era de mim que ela precisava, mas, sim, do meu dinheiro, era um balde de água fria capaz de apagar qualquer volição. — Você quer que eu pague pela cirurgia de Eva, é isso? — testei, ainda que a resposta, àquela altura, já estivesse clara o bastante para que até mesmo um simples idiota pudesse entender. — Sei que não tenho direito de pedir isso e que não é sua obrigação ajudar, mas… — Você está certa, definitivamente, não é minha obrigação — eu a interrompi, mordaz. Linda engoliu em seco, aquiescendo, desviando o olhar do meu por um


instante. — Seria como um empréstimo — emendou, o tom mais parecendo uma sugestão que um esclarecimento propriamente dito. — Eu me comprometeria a pagar até o último centavo. — Isso poderia levar uma vida inteira, para dizer o mínimo, tem certeza de que quer me dever por tanto tempo assim? Porque não acho… — Eu vou te dever eternamente de uma forma ou de outra — atalhou no ímpeto, caminhando para ainda mais perto de mim, causando-me desconforto e revolta incomensuráveis. Eu odiava ter Linda tão perto e saber que não poderia tocá-la sem ser esbofeteado em resposta. Nojo. A palavra ainda me incomodava de uma forma sem precedentes. — Robert, por favor — rogou, os olhos ainda mais brilhantes pelo acúmulo de lágrimas, os lábios trêmulos indicando que ela prendia o choro. Eu odiava aquilo, vê-la quebrada e me encontrar impotente, sabendo que eu nunca seria capaz de colocá-la inteira outra vez. — Não por mim — continuou, fungando no processo —, eu sei que não mereço, mas por Eva. Por Lilly. Sei que machuquei você, sinto muito por isso, mas não desconte o ódio que sente por mim em Eva. — A simples menção ao nosso último encontro me afetou mais do que eu gostaria, bem mais do que iria admitir, todavia, não deixei transparecer a confusão interna que eu era. Trinquei o maxilar, finquei as unhas em minhas palmas com ainda mais força e mantive meu olhar inflexível no de Linda. — Em nome de tudo o que você mais ama — ela suplicou, a voz vacilando em agonia e desesperança. — Meu apartamento é seu, como garantia. Não é muito, pra você não é nada, eu sei disso, só que é tudo o que eu tenho. Faço o que você quiser, qualquer coisa, até mesmo imploro a Paige que devolva a mansão da sua família… — Claro, porque um pedido seu deve valer bastante para ela — atalhei, empregando sarcasmo em cada maldita palavra, porque era ele que eu usava no intuito de criar uma barreira densa entre mim e minhas emoções. — Então me diga o que quer que eu faça, por favor! — Linda insistiu, num tom desesperado de angústia e desalento, os olhos tristes perscrutando minha expressão, buscando medir se eu cederia e não encontrando nenhuma pista. Foi impossível não ser acometido pela sensação de déjà vu, visto que, não muito tempo atrás, era eu quem me desesperava ao passo que dizia a Linda que a amava, orando internamente para um Deus em quem eu não cria para que minha mulher notasse a veracidade dos meus sentimentos e voltasse para mim. — Você não está disposta a qualquer coisa — retorqui, abrindo um sorriso nada verdadeiro. Linda piscou, aturdida, e eu soube, naquele momento, que ela se lembrara de nossa última conversa, daquela inversão de papéis. Eu estava disposto, de fato, a


qualquer coisa. Porém, Linda não estava. Ainda assim, ergueu o queixo, assumindo uma postura decidida e colocando de lado seu breve desnorteio, enxugando a lágrima que caiu teimosamente. — Estou — devolveu, depositando na voz o máximo de firmeza que conseguia. — Qualquer coisa — enfatizou. Foi minha escolha percorrer a distância que restava entre nós, então. Retirando as mãos dos bolsos, aproximei-me de Linda, e ela não recuou. Permaneceu firme no lugar, medindo meu intento, a boca entreaberta por onde escapava sua respiração, que vinha aos arquejos, enquanto ela passava a língua pelos lábios ressequidos, a fim de umedecê-los. Estávamos próximo o bastante um do outro para que seu hálito me alcançasse, com aroma de álcool, o cheiro de seu perfume me atingindo ao mesmo tempo em que eu levava uma de minhas mãos até seu cabelo macio. Com cuidado, brinquei com uma mecha, girando-a entre meus dedos, engolindo em seco ante a gana de beijá-la até que nos faltasse o ar. Em vez disso, formulei o questionamento que faria com que Linda me odiasse de forma irrevogável, porque necessitava saber até onde ela iria, o quanto precisou se embriagar antes de recorrer a mim por ajuda. — Qualquer coisa, hã? Isso inclui engolir todo o nojo que sente por mim e ir para a cama comigo? Linda arregalou os olhos no que era incredulidade e ultraje. Eles cintilaram, suas sobrancelhas franziram, o queixo caiu e ela piscou uma vez. — Q-quê? — tartamudeou um segundo depois. — Você me ouviu bem. — V-você quer ir p-para a cama c-comigo? — continuou a balbuciar, engolindo a saliva com dificuldade enquanto esperava por uma resposta. — Não é sobre o que eu quero. É sobre o que você está disposta a fazer. — Dei de ombros, fingindo uma casualidade que não possuía. — Eu já sei que não quer ser minha esposa, mas… e quanto a ser minha amante? — Essa é a sua condição? — Linda questionou num fio de voz, como se não acreditasse que eu pudesse jogar tão sujo. O que não era condizente, já que ela sempre costumava esperar o pior de mim. Apesar de seus olhos estarem fixos nos meus, eu me permiti analisar todo o conjunto de seu rosto. As feições comuns e que, num primeiro momento, não possuíam nenhum apelo, mas que, agora, me incitavam de maneira exorbitante, mesmo com aquele aspecto desalinhado. Ela estava frágil, tremendo, e eu queria poder abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem sem correr o risco de ser esbofeteado uma segunda vez. E eu o faria mesmo assim, ainda que ela me agredisse e gritasse imprecações, se meu toque não lhe causasse repulsa, em vez


de alento. Linda seguia aguardando uma resposta, a qual me recusei a dar-lhe. Socorrer Eva ou qualquer outra pessoa que Linda me pedisse para auxiliar era algo que eu faria sem exigir absolutamente nada em troca. Porém, ela jamais acreditaria nisso, se eu não tivesse a chance de provar. — Ajude Eva… — Linda murmurou quando desistiu de esperar que eu quebrasse o silêncio. Apesar do tom baixo e da voz rouca, as palavras eram firmes. — Ajude Eva — reiterou — e você vai ter o que quiser de mim.


A princípio, cheguei a duvidar de que Robert estivesse mesmo falando sério. Será que eu estava tão bêbada assim? Porém, seu olhar fixo em minha expressão, perscrutando, medindo… seus dedos enrolando uma mecha do meu cabelo, seu rosto próximo ao meu… prendi o fôlego, esperando um beijo que não veio, odiando as reações de meu corpo graças à proximidade de Robert. Eu tinha consciência de que a atração que sentia por ele era incomparável, contudo, tê-lo assim tão perto era, no mínimo, perturbador. Havia muitas coisas que eu gostaria de lhe dizer. A primeira delas seria um pedido de desculpas pela forma com que me comportei na última vez em que nos vimos. Queria poder afagar a face que agredi, mostrando a ele que eu me arrependia de ter feito o que fiz, dito o que disse. Que minha raiva era direcionada a mim mesma por sentir minhas pernas fraquejarem sempre que ele estava por perto. Sentir-me machucada não me dava o direito de machucá-lo, Lizzie deixou esse ponto muito claro para mim. Todavia, eu nada disse. Estava tão nervosa que apenas saí atropelando as palavras, até o momento em que ele me colocou contra a parede sem ao menos me tocar. E, droga, como eu queria que ele me tocasse! Magoou-me o que ele disse, e, ainda assim, eu não poderia culpá-lo. Eu reconhecia a similaridade de nossos diálogos. Ele se comprometeu a fazer o que fosse para me provar que me amava, e eu


lhe pedi algo que ia contra todos os seus instintos, tudo pelo que ele lutou. Agora era sua vez de me incitar a tal, desafiar-me a algo que feria meus princípios para provar que, sim, eu estava disposta a tudo. Robert abdicou das ações da Wood Business e da mansão de sua família. Isso provava que seus sentimentos eram reais? Até poderia ser, mas amor não combinava com aquele olhar gélido e distante do CEO introspectivo e reservado com que tive meu primeiro contato. De qualquer modo, engolindo meu ultraje por sua proposta, eu disse sim. Mostraria a Robert Blackwell que, aquele jogo, dois poderiam jogar.

Robert se comprometeu a encontrar-se comigo no hospital, visto que, antes de tudo, precisava passar em casa. Javier e Christine não faziam ideia do motivo de minha ausência, mas quando voltei ao hospital trazendo uma centelha de esperança, seus sorrisos se abriram instantaneamente. — E como nós vamos devolver o dinheiro depois? — Javier quis saber, preocupado com o pagamento antes mesmo de ter consumado o empréstimo. Sob nenhuma hipótese eu poderia dizer a ele os termos de nosso acordo. Ele não acreditaria. Eu não acreditava. — Não se preocupe com isso, Javi. Robert não está interessado em dinheiro, apenas no bem-estar de Eva. Claro, porque magnanimidade é a maior qualidade dele, certo? — Ainda assim, nós vamos dar um jeito, tá? Diz isso pra ele — Javier insistiu, e apenas aquiesci. Não demorou muito para que Robert chegasse ao hospital. Ele e Javier foram resolver os trâmites para a transferência de Eva. Javier estava reticente, no entanto, Robert não confiava em outra equipe médica que não fosse a de George Harrison, o médico que me atendeu na vez em que ele me atropelou. Garantindo o


bem-estar de Eva durante o trajeto até o hospital, fomos avisados de que a equipe do doutor Harrison já estaria a postos e que Eva poderia ser encaminhada de pronto até o centro cirúrgico. Javi decidiu acompanhar a avó na ambulância, ao passo que Christine e eu fomos com Robert, no carro dele. Não era o mesmo ao qual eu estava acostumada, o que ele dirigia quando nos casamos. Não era de se espantar. Havia muita coisa diferente em Robert. Fitando-o de soslaio, com ele ao volante, o maxilar travado e a expressão compenetrada, Robert não lembrava em nada o homem que demonstrou tanto interesse em ter a mim em seus lençóis, minutos antes.

Depois de horas no centro cirúrgico, o doutor George Harrison apareceu na sala de espera, com expressão cansada enquanto se encaminhava até Robert. — Tudo correu bem. A senhora González está fora de perigo e agora só nos resta prosseguir com o tratamento — o doutor se manifestou, provocando três suspiros distintos de alívio. Javier abraçou Christine, depositando um beijo em sua cabeça, os olhos fechados concomitante a suas feições que se suavizavam e lágrimas de desopressão que rolavam por suas bochechas. Chris se preocupou em enxugá-las com beijos, levando a mão de Javi até a barriga proeminente onde residia seu elo inquebrável. — Melinda, não é isso? — o médico voltou a dizer, tombando a cabeça para fitar-me melhor e estendendo a mão direita em cumprimento. Eu estava desconcertada, mas aceitei a oferta, agradecendo por Christine ter limpado minha maquiagem borrada com lenços umedecidos. — Como vai esse punho? Espero que não tenha tido mais problemas. — O senhor se lembra mesmo de mim? — perguntei, incrédula. Meses


haviam se passado, parecia surreal que ele se recordasse. — Claro que sim. Robert a trouxe e, então, se casou com você. Eu me lembraria disso ainda que nós nos encontrássemos somente dentro de uma década. Senti as maçãs do rosto esquentarem, porém nada disse. Apenas ofertei um sorriso simpático enquanto Christine parecia bem o bastante para soltar uma risadinha.

— Eu já conversei com George e está tudo acertado. Todas as despesas de Eva são por minha conta, incluindo a medicação e possíveis acompanhamentos de que ela precise, após receber alta. Sempre que ela sentir algum incômodo e vocês julgarem necessário levá-la ao hospital, é até aqui que devem trazê-la, entendeu? Aquiesci uma vez, os braços apertados ao meu redor a fim de aplacar o frio crescente que não parecia ir embora. O vestido minúsculo que eu usava também não ajudava muito. Não era à toa que Christine e Javier estivessem agarrados um ao outro em uma das poltronas confortáveis da sala de espera. Robert franziu as sobrancelhas ante meu gesto, mas não teceu comentários. — Obrigada — agradeci, porque, apesar de tudo, ele não precisaria estar fazendo todas aquelas coisas. Era bem mais do que pedi e, sem sombra de dúvidas, bem mais do que eu merecia. Ele me respondeu com um meneio de cabeça, a expressão séria em seu rosto não vacilava um segundo sequer e, sem se despedir, me deu as costas e caminhou para longe. Incerta sobre o que deveria fazer, apenas permaneci estática em minha posição, vendo-o se afastar. Respirando fundo, enquanto mordiscava o lábio numa tentativa inútil de dissipar o nervosismo, forcei minhas pernas a irem ao encontro dele. — Robert, espera — chamei, tendo que apertar o passo para alcançá-lo. Ele


parou de caminhar e se virou para encarar-me, contudo não fez menção de se aproximar. — Eu… — comecei, porém, as palavras pareceram fugir, e tornei a prender o lábio entre os dentes, em hesitação. — Como nós… — tentei, sem muito sucesso, gesticulando de forma desconexa com as mãos como se, de tal forma, milagrosamente, ele fosse entender o que eu queria lhe falar. — Quer dizer… o seu… uhm… pagamento — soltei por fim, corando em constrangimento e escondendo meu olhar do dele. Foi quando ele percorreu a distância que ainda havia entre nós, chegando perto o bastante para que seu perfume invadisse minhas narinas. Era, de fato, muito melhor do que eu me lembrava. Como fizera antes, Robert pegou uma mecha do meu cabelo entre os dedos, com todo o cuidado de não me tocar. Eu o fitei, percebendo seu rosto a poucos centímetros do meu, nossos narizes quase resvalando contra o do outro. Se da outra vez eu pensei que ele fosse me beijar, agora eu tinha certeza. E não me importava o fato de que eu deveria estar ultrajada por sua proposta indecente, ou qualquer outra coisa. Minha vida estava uma droga, passei por momentos de tensão, sentia cada músculo do meu corpo protestando em fatiga, minha cabeça estava latejando… eu queria aquele beijo. A boca de Robert sempre me arrebatava e espantava qualquer pensamento que eu pudesse ter para longe. Eu queria esvaziar a cabeça em seus braços, na cama dele. Era isso que eu queria. Era disso que precisava. Umedecendo meus lábios, eu os entreabri, embriagada pelo hálito com aroma de uísque que soprou em meu rosto como uma brisa de calmaria. — Não quero um pagamento, Melinda — Robert murmurou por fim. Meus olhos, antes presos em seus lábios, à espera do beijo iminente, rumaram os dele num misto de confusão e incredulidade. Melinda. Parecia outra vida desde que o ouvira me chamar assim. Eu gostava de como meu nome soava em sua voz, em seu sotaque, entretanto, eu não gostava que ele o tivesse usado como vocativo justo ali. — Que quer dizer? — perguntei aturdida. — Quer dizer que ajudei Eva porque era a coisa certa a se fazer, porque tenho consideração por sua família. Eu não brincaria com a vida de alguém assim. — A mão que segurava uma mecha do meu cabelo foi para longe, e senti falta do contato imediatamente. Ele enterrou as mãos em seus bolsos, dando dois passos para trás, voltando a estabelecer distância entre nós. — Você não me deve absolutamente nada. Eu machuquei seus sentimentos, você feriu meu ego; eu te usei para cumprir uma cláusula testamental e agora estou custeando o tratamento de Eva. Só espero que isso nos deixe quites. — Deu de ombros, em casualidade. Não consegui conter um bufar incrédulo, balançando a cabeça de um lado


para o outro enquanto a palavra reverberava em meus pensamentos, arrependendo-me do gesto amargamente, porque só piorou minha enxaqueca. — Quites? — testei, praticamente cuspindo o termo. Ele acedeu uma vez, num gesto de cabeça. — Se houver algo mais que eu deva fazer para equilibrar a balança, me deixe saber. — Isso quer dizer… — vacilei, tentando impedir que a revolta que me consumia encontrasse passagem através de minha garganta. — Nós não vamos… — Apertei os olhos, insatisfeita comigo mesma por ser incapaz de dizer uma frase completa sem pausas estúpidas. — Digo, você não quer… — Dormir com você? — atalhou, um sorriso de esguelha despontando enquanto ele meneava a cabeça de um lado ao outro, umedecendo o lábio inferior com a ponta da língua. — Não, não. Asco e ódio são as únicas coisas que desperto em você, e não me excita a ideia de me deitar com uma mulher que não me deseja e repudiaria cada mísero toque meu. Pagar por sexo é algo a que não estou acostumado. — Então ele me deu as costas, o sorriso zombeteiro fazendo fúria correr por minhas veias tão depressa que eu sequer me dei conta do que fazia até ser tarde demais. — Então por que perguntou se eu aceitaria, hã? — exigi saber, agarrando-o pelo bíceps e apertando-o com toda a força de que dispunha para que ele me fitasse nos olhos ao responder. — Por que fez disso uma condição, se… — Não fiz disso uma condição — cortou-me, negando também com um aceno, os olhos se demorando um pouco nos meus dedos em torno de seu braço antes de se fixarem em mim. — Eu teria ajudado independente da resposta. Mas, claro, você não precisa acreditar em mim. — Então era isso? Você só queria saber se eu diria sim? — insisti. Ele voltou a sorrir, esfregando os olhos com a mão direita e, então, a barba por fazer, os gestos casuais me bagunçando inteira por dentro, muito mais do que o flerte de Kevin jamais seria capaz. — O que eu posso fazer? Não consegui conter a curiosidade. Considere isso como um teste para medir seu nível alcoólico. Você não passou, a propósito, e não devia sair por aí embriagada, você se torna um perigo para si mesma. Eu estava a ponto de berrar uma imprecação, dizer algo malcriado que o fizesse… sei lá! Eu só queria gritar com ele por ter me feito pensar que, de fato, seria capaz de algo assim tão vil. Contudo, quando seu sorriso escarninho começou a dissipar-se, eu soube que, na verdade, tudo o que Robert queria era saber se eu havia me arrependido de minhas palavras. Se nojo era de fato a única coisa que ele era capaz de despertar em mim. Raiva ainda fervilhava em mim por ele ser tão… tão… Robert. Por me


deixar confusa, ultrajada, me fazer querê-lo mais que tudo, fazer-me acreditar que ele me desejava e, então, acenar e dizer que tudo não passara de um malentendido. Portanto, para responder à pergunta que ele foi incapaz de fazer do jeito certo, soltei seu braço da prisão de meus dedos e levei minha mão até seu rosto, para tocá-lo, afagá-lo, desculpar-me e agradecer-lhe por ter estado pronto para me ajudar quando mais precisei. Todavia, antes que meus dedos sequer resvalassem sua pele, Robert prendeu meu pulso entre sua mão num aperto tão firme que me fez soltar um gemido de dor no momento que ele rechaçou meu toque, afastando-se de mim como se tivesse acabado de levar uma descarga elétrica. Meu peito se apertou em ressentimento, não dele, mas de mim mesma. O olhar de Robert era de quem estava se esquivando de um novo tapa no rosto, de uma nova ferida na alma, e não de um simples contato indesejado.


Eva respondeu muito bem à cirurgia. Quando ela abriu os olhos pela primeira vez, após a operação, o sorriso que Javier exibiu ameaçava dividir seu rosto em dois. Ninguém poderia culpá-lo, obviamente. Eva era importante para todos nós, até mesmo para Robert, ao que parecia. Agora, sem álcool em minha corrente sanguínea e com o coração aliviado pela melhora de Eva, eu tinha ainda mais tempo e razões para me martirizar por ter sido idiota a ponto de deixar que as palavras de Paige me atingissem e me virassem contra Robert. Tampouco ajudava o fato de ele estar sendo tão… atencioso. Com Eva, com Lilly, com Christine, fazendo perguntas sobre o bebê ao passo que mal me fitava nos olhos nas vezes em que aparecia no hospital. E, claro, ele precisava também oferecer um belo emprego para Javier, para completar seu conjunto de boa ação. Basicamente, todos trabalhavam para ele e tinham salários maravilhosos enquanto eu estava presa a um chefe abusivo, com uma carga horária exaustiva, um salário irrisório e uma dívida enorme com Robert. E, tudo bem, eu deveria estar aliviada por saber que, na verdade, Robert não tinha a intenção de dormir comigo quando decidiu ajudar Eva. Mas eu me sentia… frustrada? Porque isso queria dizer que todo aquele desejo que ele insistia em dizer ser impossível fingir havia morrido, certo? Era por isso que ele evitava olhar para mim ou mesmo me dirigir a palavra. Porque, quando ele queria, eu estava ocupada demais remoendo o passado. E agora… bem, agora ele


já não queria mais. — Para de ficar olhando e vai lá falar com ele — Christine cochichou ao meu lado no momento em que Robert e Javier falavam com o doutor Harrison sobre as recomendações de Eva e o acompanhamento de que ela precisaria. Fiz uma careta, como se ela tivesse dito algo sem sentido. — Não estou olhando — defendi-me. — Só… olhando. — Dei de ombros, em indiferença. Christine rolou os olhos, mudando o peso do corpo para a outra perna e cruzando os braços sobre a barriga. — Claro, claro. Desculpe minha ignorância — debochou. Bufei, odiando o fato de Christine me conhecer tão bem. — Okay. Ele é um homem atraente. Grande coisa. — Tornei a dar de ombros. — Acredite, é grande coisa — ela falou e soltou um assovio baixo, inclinando a cabeça para o lado, recebendo de mim um olhar estupefato. — Ei, não me olha assim! Sou uma mulher casada. Muito bem casada, por sinal. Olha só todos aqueles músculos sob a camisa de lã. — Chris fez um movimento com o queixo, apontando na direção de Javier enquanto suspirava e levava o dedo indicador à boca, mordendo a ponta de um modo travesso. — Christine González, você não precisa ficar suspirando. Vá em frente. Os músculos são todos seus. — Ela sorriu, meneando a cabeça, porque, no fundo, adorava o fato de ser uma González, agora. — E você? Vai ficar só encarando o seu ex como se ele fosse inalcançável e vocês nunca tivessem transado na vida? — Santo Deus, você é impossível! — ralhei, corando miseravelmente. — Ele me chama de Melinda, agora, se isso te diz alguma coisa. — Ouch — soltou, levando a mão ao peito, dramatizando. — Você devia mesmo ter deixado de bobeira quando soube que ele Susan nunca dormiram juntos. — Quê? — esganicei, olhando ao redor para checar se não havíamos atraído atenção indesejada. — Bem, dormiram, mas não enquanto vocês ainda eram um casal. Enfim, você me entendeu. — Não. Não entendi — admiti. — Ele nunca te contou? — Franziu as sobrancelhas. — Não! — Ele também não se ajuda! — acusou depois de um bufar incrédulo. — Mas é isso. Não aconteceu nada. Ele foi ao hotel e se encontrou com ela, só que não tinha sexo em mente.


— Por que ele não me disse? — Ele disse que não se lembrava. Isso era verdade — apontou. — Como? Como isso pode ser verdade, se você disse… — Ele está logo ali, Linda — interveio, denotando impaciência —, por que não pergunta pra ele, hum? Abri a boca para insistir, porém, reconsiderei. Christine jamais me diria nada, não por ser discreta, e sim por não ter respostas, provavelmente. — Você sabe que ele não vai querer falar comigo sobre isso. Sobre nada — lancei num suspiro cansado, encolhendo os ombros. — Não, não sei. Você também não sabe. Anda logo. — Mas, Chris, eu não… — Anda! — atalhou, empurrando-me para longe e fazendo um gesto com as mãos como se me enxotasse. Ergui as sobrancelhas, abrindo os braços e gesticulando um “qual é o seu problema?”. Fui completamente ignorada, entretanto. Respirei fundo, estralando os dedos das mãos como se, assim, pudesse aliviar o estresse. Dei passos incertos em direção a Robert, que se despedia do médico, ainda sem ter nada em mente que pudesse lhe dizer. — Oi — cumprimentei, encabulada, quando o doutor Harrison se afastou. — Olá — ele devolveu, não lançando muito mais que uma simples olhadela em minha direção. Pigarreei, retorcendo as mãos, colocando uma mecha de meu cabelo atrás da orelha e mordendo o lábio, tudo ao mesmo tempo. Só faltava um post-it no meio da testa com letras garrafais formando a palavra “apavorada” para enfatizar que eu estava à beira de um ataque nervoso. — Eu… uhm… você quer ir tomar um café comigo? — lancei, pressionando meus lábios numa linha dura enquanto esperava a resposta. Robert me encarou, erguendo uma das sobrancelhas e franzindo o cenho ao mesmo tempo, algo de que eu jamais seria capaz. — Desde quando você bebe café? — Posso pedir um chocolate — sugeri, o que não fazia sentido. Quer dizer… a bebida era para mim, não para ele. — O daqui tem gosto de terra, de acordo com Sofie. — Eu peço uma água. Ele sorriu, mas não de felicidade. — Oh, certo, eu tinha me esquecido de que água gaseificada é uma bebida bem atraente para você. Engoli em seco. A memória dele era, de fato, muito boa. Você devia mesmo ter aceitado o chocolate quente no outro dia, lá na


cafeteria… — Você sabe que só estou fazendo do café uma desculpa para que nós possamos conversar, então por que está tentando dificultar tanto as coisas pra mim? — despejei de pronto. Protelar e contornar o que queria dizer não estava funcionando, talvez ser direta funcionasse. — Se for sobre as despesas de Eva, já disse que são por minha conta, nenhum de vocês precisa se preocupar em… — Sinto muito por ter gritado com você, ter te esbofeteado e dito que… — Minhas palavras morreram no instante em que, atrás de Robert, avistei a última pessoa que esperava ver ali. Paige adentrou o ambiente daquele modo altivo que lhe era intrínseco. As ondas castanho-avermelhadas de seus cabelos balançando a cada passo, os olhos, mesmo ao longe, exibindo a presunção e perspicácia presentes neles em todos os momentos. Notando minha estranheza, Robert se virou para enxergar o mesmo que eu. Inexplicavelmente, pude sentir quando os músculos de seu corpo se tensionaram. De modo instintivo, pousei uma das mãos em seu ombro, como se o gesto fosse capaz de acalmá-lo, no entanto, não surtiu o menor efeito. Eu queria dizer alguma coisa, qualquer coisa, ainda assim, nada saiu, então permaneci estática ao lado de Robert. — O que faz aqui? — ele irrompeu, falando através de dentes cerrados. Ela abriu o sorriso que lhe era característico antes de responder. — Uma mãe não pode vir em socorro de sua filha? Não é assim que as coisas funcionam na família Blackwell? Porque é como lidamos na família Williams. — Paige forjou seu sorriso materno de complacência, lançando seu olhar sobre mim. Robert fez o mesmo, porém seus sentimentos não eram fajutos. Havia revolta nua e crua em seu olhar. — Você a chamou aqui? — perguntou mordaz, o rosto contorcido numa expressão de desgosto. Apressei-me em negar com um meneio de cabeça, contudo, antes que eu pudesse articular algo, Paige interveio. — Ela não precisou. Você não entenderia uma ligação materna, mas eu simplesmente senti que minha filha precisava de mim. Acho que, no fundo, sempre soube que você se aproveitaria do primeiro momento de fragilidade pelo qual Melinda passasse para tentar comprá-la. — Paige meneou a cabeça, como se o que acabara de dizer fosse extremamente asqueroso. E, de fato, era. Seus olhos estavam sobre mim outra vez, e ela caminhou mais alguns passos até me alcançar.


— Está tudo bem, querida, esse monstro sem coração não vai mais machucar você. Eu prometo. — Ela estendeu as mãos em minha direção, e me esquivei do contato, entrelaçando meu braço ao de Robert instintivamente, incrédula com o quanto ela conseguia ser dissimulada, fazendo-a assustar-se com minha atitude, voltando sua atenção para Robert, o rosto em fúria incontida. — Como tem coragem de colocar minha própria filha contra mim? Robert mantinha os punhos apertados ao lado do corpo, um tremor percorrendo-o por inteiro. Um instante depois, suas mãos agarraram os braços de Paige, quando ele se desvencilhou do meu toque, sacudindo-a tão fortemente que pegou a todos de surpresa, até mesmo às poucas pessoas ao redor, dentre elas, Christine, que levou uma das mãos à boca, em espanto. — Você é mesmo uma víbora, Paige Williams, e sabe muito bem que eu, diferente de você, jamais viraria a cabeça de Linda contra ninguém. Diga a ela, aqui e agora, que eu te mandei ficar longe. Que proibi que tivessem um relacionamento em troca de ceder a empresa. Vamos, diga! Mas ela não disse. Ao contrário. Como se achasse tudo muito engraçado, soltou um riso que fez os pelos de meus braços se arrepiarem, o rosto sempre sóbrio assumindo tons de loucura que eu não reconhecia. — E o que você vai fazer, hã? Agredir-me? Vá em frente! Mostre a Melinda quão inescrupuloso você é, a ponto de atacar uma mulher indefesa depois de tê-la prejudicado tanto! — Eu te prejudiquei? — Robert retorquiu em tom de escárnio, voltando a chacoalhá-la. — Não seja absurda, Paige! Fiz tudo o que você queria, você tem tudo o que sempre desejou! — Uma empresa afundando é o que eu tenho! — Paige berrou de volta para ele, agitando-se dentro do aperto das mãos firmes de Robert. Eu sabia que ele estava empregando força o bastante para machucá-la e queria pedir-lhe que parasse. Não por ela, e sim por ele. Se ele chegasse de fato a machucá-la… — Você fez de propósito, covarde! — continuou. — Afundou a minha empresa para que eu viesse rastejando oferecê-la de volta em troca das migalhas que recebia mensalmente! Robert trincou os dentes, o maxilar travado. Então eu me obriguei a fazer algo ao praticamente arrancar Paige de seu aperto. Ele não queria soltá-la, por isso insisti. — Não faça isso, Robert, por favor — pedi, forçando seus dedos a libertarem os braços de Paige. — Você não é assim e não vale a pena machucá-la — argumentei, impelindo-o a afastar-se ao mesmo tempo em que me colocava entre os dois. Entretanto, isso não foi o bastante para fazê-lo relaxar ou amainar a raiva


que ele exalava. — O que você chama de migalhas custava meu esforço, minhas horas de sono, meu trabalho! — Robert vociferou, o dedo em riste na direção de Paige ao passo que ameaçava aproximar-se dela outra vez, o que impedi que ele fizesse ficando no caminho e tornando a empurrá-lo para trás, com ambas as mãos pousadas em seu peito. — Enquanto eu sacrificava tudo para que você e seus filhos imprestáveis vivessem confortavelmente, vocês não moviam uma única palha! — Você é o imprestável! — Paige esganiçou de volta. — O único Blackwell que jamais valeu a pena! Que não foi capaz de despertar afeto no próprio pai, assassino do próprio irmão! Ofeguei ante as palavras de Paige, e foi apenas um reflexo do que Robert fez ao escutar o que ela dissera. Ele piscou demoradamente, dando um passo atrás. — Foi um acidente! Eu tentei ajudar Matt! — protestou, no entanto, a voz não saiu altiva, nem mesmo firme. — Você sabia que ele era um péssimo nadador e o levou ao mar mesmo assim! — Paige acusou, ainda aos berros. — Porque queria livrar-se dele, queria o amor que era de Matthew, não seu! Você sempre foi descartável, desprezível, o maior desgosto que Frederick já teve. Era você quem deveria ter morrido, Robert Blackwell, você e só você, cuja existência não traz nada além de miséria e desgraça para quem está à volta! — Pare com isso! — foi minha vez de berrar na direção de Paige, transtornada, e ela engoliu as palavras de uma só vez enquanto me fitava, aturdida. As palavras dela eram como adagas afiadas penetrando a carne. Deixou-me atônita por tempo demais antes que eu, por fim, conseguisse protestar contra seu escárnio e inumanidade. Meus olhos pinicavam com lágrimas de revolta, o coração apertado com aquelas acusações descabidas. E se eu me sentia assim, imaginava como Robert não deveria se sentir. — Chega, Paige! — voltei a falar, ainda que ela permanecesse calada. — Pare de ser tão cruel, como pode dizer essas coisas? Eu queria devolver seus insultos, gritar para ela que nada daquilo era verdade. Robert não era desprezível, descartável, um monstro sem coração e nenhuma das coisas das quais ela o chamou. Contudo, não me importava que ela pensasse assim, porque não fazia diferença, para mim, o que ela achava ou deixava de achar. Eu só queria que Robert soubesse que nada daquilo era verdade. Ele era amado, importante, insubstituível… Era isso que eu iria lhe dizer, mas ante seu olhar perdido, a mão contra o peito enquanto ele cambaleava e, por fim, tombava sobre os próprios joelhos, eu


não fiz muito além de me ajoelhar ao seu lado. — Robert… — chamei, uma das mãos em suas costas ao passo que tentava erguer seu rosto. — Robert, você está bem? — insisti, ainda mais urgente. — O que está acontecendo? O que você está sentindo? Fala comigo, por favor… Um chiado foi tudo o que recebi como resposta. Era como se ele não me ouvisse, pálido, suando frio, o rosto contorcido em dor… — Ele está tendo uma parada cardíaca! — gritei, desesperada, assim que percebi o que estava acontecendo. Eu não era uma expert no assunto, mas me lembrava de ter estudado os sintomas e primeiros-socorros na época do colégio, por isso, após um grito desesperado por ajuda, eu já me preparava para iniciar o processo de reanimação cardiopulmonar. Todavia, mal pude apoiar a cabeça de Robert sobre o piso antes de sermos cercados por uma equipe médica. Afastaram-me dele, ainda que eu me debatesse e pedisse para ir junto aonde quer que fosse que eles o estivessem levando. Foi Christine quem me amparou, comigo ainda sentada no chão, agora, escondendo o rosto na curva de seu pescoço enquanto ela me abraçava e murmurava palavras de conforto em meu ouvido. — Não quero perdê-lo, Chris — chorei, agarrando-me a ela ao mesmo tempo em que as lágrimas banhavam meu rosto. — Shh… você não vai perdê-lo, meu bem. Ele já está sendo cuidado e não há equipe médica em que Robert confie mais, lembra? Vai ficar tudo bem — acalentou-me. Sacudi a cabeça uma vez, sem forças para muito mais além de pensar em como Robert estaria agora. E era tudo minha culpa, minha e só minha! Se eu não fosse tão imbecil a ponto de deixar Paige entrar em minha cabeça… Paige. O nome trouxe uma onda de cólera proporcional à dor que eu sentia por ter Robert em uma situação tão delicada. Levantei-me de pronto, percebendo-a ainda ali, recomposta como se não fosse a mesma que esbravejara aos quatro cantos há poucos minutos. O rosto sereno e limpo de emoção ganhou um sorriso diplomático que fez meu sangue ferver e, sabendo exatamente o que fazia, desferi um tapa em Paige que a fez vacilar e levar a mão ao rosto. Ela me encarou, mortificada e boquiaberta. — Como ousa? — chiou. — Ore, Paige, ore muito para que Robert fique bem logo, porque se alguma coisa acontecer a ele, eu sou capaz de esganá-la sem o menor remorso, entendeu? — Eu sou sua mãe! Você perdeu o juízo? Como pode se virar contra mim em defesa de um Blackwell? — redarguiu, o tom imperativo e superior ganhando


notas de ultraje. — Você não é nada! — sibilei, sem conter a onda de contentamento por, enfim, ter acertado as coisas. Era Paige quem merecia minha repulsa e rompantes agressivos, ninguém mais. — Você é só uma mulher desprezível, enquanto Robert é tudo para mim. — Melinda… — Era o seu coração que deveria ter falhado! — berrei, indignada, mais lágrimas pesadas banhando meu rosto. — Mas você não tem um, tem, senhorita Williams? — Enxugando as lágrimas rudemente, ergui o queixo, porque eu não iria vacilar na frente dela. Não mais, pelo menos. — Vá embora. E, desta vez, faça o favor de não voltar.


— C omo ele está? — inquiri a Lizzie pelo que me pareceu ser a milésima vez. — Bem melhor. Vai para o quarto dentro de, no máximo, dois dias. — Ainda não posso vê-lo, posso? Lizzie fez que não num meneio de cabeça, os lábios comprimidos numa linha dura que denotava toda sua consternação. Meus ombros murcharam, como faziam sempre, porque estando na UTI, apenas a família tinha autorização para visitar Robert, e eu não podia ser menos parte da família dele do que era naquele momento. Se ao menos fôssemos casados… se eu não tivesse os papéis do divórcio assinados por ele… eu me sentiria no direito de voltar a usar o sobrenome Blackwell, vestir toneladas de arrogância e berrar para que me deixassem ver meu marido. Pensei em pedir a Lizzie, implorar, na verdade, que corroborasse minha pequena mentira e me ajudasse a vê-lo, contudo, faltou-me coragem. Depois de todas as atrocidades que eu disse a Robert, depois de ser a responsável por levá-lo ao limite, graças ao meu vínculo com Paige, talvez fosse mesmo melhor deixar as coisas como estavam.


A saúde de Eva não poderia estar melhor, o que era um alívio. Eu não saberia dividir meu tempo muito bem entre visitá-la e fazer plantão na sala de espera, aguardando migalhas de notícias, sem nunca poder atestar com meus próprios olhos. Eu odiava Paige e cada uma das coisas que ela disse a Robert. Odiava reviver em minha mente a expressão sofrida que o rosto dele assumiu enquanto o homem sempre altivo desfalecia logo à minha frente. Odiava o fato de ele ser mantido sedado para que seu coração estivesse seguro. Se eu tivesse estado ao lado dele, se não tivesse desistido de nós dois e sido tão teimosa… droga! Agora estávamos ali. Ele, inconsciente; eu, esperando-o acordar para que pudéssemos resolver as coisas. Talvez não houvesse mais chance para nós dois, não depois de tudo o que houve. Entretanto, eu não me perdoaria se nem ao menos tentasse.

— O que faz aqui? Eu estava pronta para responder à pergunta de Lizzie, porém, quando ergui a


cabeça, percebi que ela não se dirigia a mim. Sua carranca de mau humor era destinada a um homem perto da casa dos quarenta, muito bonito, trajando terno e gravata e com sorriso forçado no rosto. Ele estendeu a mão para Lizzie, em cumprimento, e ela aceitou o gesto a contragosto. — Elizabeth Blackwell… ainda mais bonita do que eu me lembrava — ele gracejou, depositando um beijo no dorso da mão de Lizzie. — Ninguém se refere a mim como Elizabeth Blackwell desde que… — Você se casou com Michael Smith, eu sei, querida. — Abrindo um sorriso apaziguador, ele soltou a mão de Lizzie, que cruzou os braços, em defensiva. — Vim visitar seu irmão, mas disseram que eu não poderia. Ao que parece, só os familiares podem vê-lo. — Exatamente — Lizzie anuiu. — Ele está bem, se é isso que gostaria de saber. Agora, se me der licença, eu preciso ir. A atenção de Lizzie tornou-se minha. Os olhos verdes, marca registrada da família Blackwell, condoeram-se no momento que ela me fitou. Era sempre assim. Eu ficava ali, à espera de notícias de Robert, que só ela poderia me dar, e, quando o fazia, o olhar de Elizabeth era pesaroso por presenciar minha agonia de notícias racionadas sem que pudéssemos fazer muito mais. — Você vem? — questionou baixinho, a cabeça tombada para um lado enquanto me esperava responder. — Não ainda… você sabe que não gosto de deixá-lo aqui sozinho por muito tempo. — Dei de ombros num gesto casual, para mascarar a dor que carregava no peito por estar há dias sem poder colocar os olhos sobre Robert e ver por mim mesma aquilo que Lizzie jurava ser verdade. “Ele está bem”, era o que ela sempre dizia. “Eu não mentiria para você sobre isso. É do meu irmão que estamos falando, se algo estivesse errado, eu não saberia disfarçar.” — Linda… — ela começou, dando um passo em minha direção e fazendo com que eu me pusesse de pé, no entanto, suas palavras foram interrompidas pelo homem ali presente. — Linda? Como em Linda Blackwell? — ele inquiriu, estreitando os olhos em minha direção. — Mas é claro que sim! Você está diferente, mas eu me lembro da sua foto no jornal — continuou, abrindo um sorriso e estendendo uma das mãos em cumprimento. — Daniel McAuley, ao seu dispor. — Jornal? — testei enquanto McAuley sacudia minha mão em um aperto firme, sem ter ideia do que ele estava falando. — No aniversário de Robert. As fotos estavam mesmo fantásticas. Agora eu entendo por que seu marido faz questão de escondê-la, o ciúme fala mais alto.


Ele, provavelmente, morre de medo de perder a esposa para algum outro homem interessante, sofisticado e com uma conta bancária ainda mais atraente. Talvez fosse cedo demais para dizer algo assim, contudo, eu sabia que detestava Daniel McAuley do mesmo jeito que detestei Susan à primeira vista. As razões eram diferentes, claro, o que não mudava o sentimento. — Não me casei com Robert por causa do dinheiro, ele não me perderia para um homem mais interessante e de conta bancária atraente — devolvi, cruzando os braços em frente ao corpo, nada preocupada em esconder o quanto suas palavras me aborreciam. — Absolutamente. Não foi minha intenção ofendê-la, senhora… — É Linda. E não me ofendeu — menti. De um modo desagradável, escutar McAuley trouxe de volta a sensação de oportunismo por ter buscado a ajuda de Robert depois de ter dito que não queria voltar a vê-lo. — Mesmo assim, sinto muito — desculpou-se, abrindo um sorriso que não tocou seus olhos. — De verdade. Mas você há de convir que é estranho que o seu marido esteja sempre desacompanhado em todos os eventos. Causa questionamentos, comentários… em especial agora, que ele enfiou a tal Paige Williams na Wood Business. Aquela mulher está afundando a empresa e Robert se recusa a dizer de onde ela saiu. Como eu já disse, as pessoas comentam… — O que elas comentam? — apressei-me em inquirir, notando o olhar de Lizzie pesar sobre mim. Fitando-a, deslumbrei quando ela meneou a cabeça em negação, muito devagar, como se me repreendesse por estabelecer um diálogo com McAuley, o que me fez morder o lábio em apreensão ao ter sido incapaz de segurar minha língua. — Que o casamento de vocês não anda nada, nada bem. O surgimento de uma mulher misteriosa, colocada à frente de algo em que Robert investia tanto esforço, não ajuda muito. Ouça, só estou dizendo isto porque a Wood Business é importante para mim também. Sou um dos acionistas e aquilo está caindo aos pedaços desde que Robert deu as costas e retirou os investimentos. Meu coração afundou ainda mais dentro do peito, se é que isso era realmente possível. Havia culpa, sim, pois eu era a responsável por Paige estar à frente da Wood Business, porém, havia mais revolta que qualquer outra coisa. Além de mim, e da família de Robert, apenas Christine e Lilly apareceram a fim de terem notícias dele. Dezenas de cartões foram enviados, isso era verdade, eu mesma tive o desprazer de abrir alguns deles, endereçados à senhora Blackwell, no entanto, em nenhum deles havia sentimento genuíno. Não passavam de mensagens prontas de pessoas que não se importavam realmente com Robert.


Agora ele, por fim, recebera uma visita. Daniel McAuley permanecia parado à minha frente, o cenho sisudo enquanto ele me fitava à procura de posicionamento. A única visita social que Robert recebera não estava preocupada com ele, e sim com dinheiro. — Você não veio saber como ele estava — deixei escapar, assumindo um semblante de pura descrença. — Veio para convencê-lo a voltar para a empresa, não foi? — Se quer saber se eu estava apostando em um momento em que ele estaria fragilizado… sim, eu estava. Talvez ele tenha se cansado de administrar duas companhias, mas eu me proponho a negociar os 51% das ações que Robert herdou. — Você entende que ele está na UTI neste exato momento? Que ele teve um ataque cardíaco? — Eu entendo que negócios são negócios e não posso esperar a boa vontade do coração do seu marido para voltar a funcionar como deve. Suas palavras foram como um soco em meu estômago. Eu ofeguei e poderia jurar que escutei Lizzie fazer o mesmo. No fundo, eu sabia que detestaria Daniel McAuley, todavia, não pensei que o asco viria como um bônus inevitável. — Isso só pode ser brincadeira… — soltei junto a uma risada incrédula e nervosa, meneando a cabeça de um lado para o outro, como se, assim, as atrocidades que ouvi pudessem ser transformadas em algo um pouco mais humano. — Brincadeira é o que Robert vem fazendo com todos nós! — esbravejou, o tom aveludado dando vazão à cólera. — Mas, honestamente, não sei por que me espanto. Frederick sempre disse que o filho era irresponsável e sem rédeas. Todos pensaram que isso mudaria com o casamento, que assumir uma família faria dele um homem respeitável e… — Robert é um homem respeitável! — disparei, cerrando os punhos ao lado do corpo como se de tal modo eu pudesse conter minha revolta. — É por isso que ele a deixa trancada em casa enquanto comparece a eventos onde uma multidão de mulheres atraentes o bajula? — provocou com um sorriso escarninho, fazendo meu sangue ferver. — Você não sabe absolutamente nada sobre Robert e seu caráter — retorqui, fazendo meu melhor para manter um tom de voz baixo. Estávamos em um hospital e, apesar de Daniel não parecer respeitar a paz alheia, eu precisava de um esforço hercúleo para fazê-lo. — Acho melhor que vá embora, Sr. McAuley. Como bem sabe, só é permitida a entrada da família. — Mas é claro. Eu vou voltar quando… — Não se incomode em voltar — eu o interrompi, sem me importar em


fingir gentileza. Ele não era bem-vindo, e eu fazia questão de que ele estivesse ciente disso. — Como eu já disse, Robert teve um ataque cardíaco, e eu não vou deixar que o senhor tente se aproveitar de um momento de fragilidade do meu marido para tirar proveito dele. Fui pega de surpresa por minhas próprias palavras e, olhando de relance para Lizzie, eu podia dizer que não era a única que se impressionara com o que eu acabara de dizer. Nos últimos dias, o ínfimo pensamento de me passar por esposa de Robert me fez sentir culpada, mas ali, diante daquele homem odioso, o único peso na consciência que senti adivinha do fato de não ter cedido quando Robert me pediu que eu voltasse para casa com ele. — Será que não entende que a Wood Business está afundando? — Sinto muito — devolvi honestamente. — Sou casada com Robert Blackwell, e não com a Wood Business. Para mim, meu marido vem antes da sua empresa. Não esperei por uma resposta, porque não me interessava nada mais que Daniel McAuley tivesse a falar. O que eu lhe disse era mesmo verdade: o bem-estar de Robert estava acima de qualquer outra coisa e era meu dever zelar por ele. Assim sendo, em vez de me martirizar e remoer meus erros, decidi que eu iria consertar as coisas que ajudei a arruinar quando levei Robert ao limite e fiz com que ele deixasse sua herança para Paige. E só havia um modo de fazer isso: assumindo o fato de que eu ainda era Melinda Blackwell. Jamais deixara de ser. Provavelmente eu não deveria agir enquanto Robert estava inconsciente em um hospital, todavia, pouco me importava. Eu era a única pessoa apta a dar um jeito na bagunça em que nos encontrávamos, e não haveria nada de que eu não fosse capaz para fazer exatamente isso.


Q uando abri os olhos, desnorteado, o rosto de Elizabeth foi a primeira coisa que vislumbrei. Ali, naquele momento, eu me dei conta de que minha irmã era, de fato, a única pessoa que sempre estaria ao meu lado, não importando o quanto as coisas seguissem um rumo desagradável. Lizzie sorriu para mim, mas havia lágrimas densas escorrendo por suas bochechas enquanto ela soluçava e perguntava se eu estava realmente bem. — O que você está sentindo? Dói? Você está com fome? Quer que eu chame um médico? Precisa que eu ajeite seus travesseiros? Eu posso… — Ei, Liz — chamei, cortando sua enxurrada de palavras, e ela tomou seu tempo para apenas me encarar e deixar que mais lágrimas caíssem. Dei uma olhadela em mim mesmo, logo após, no ambiente ao redor, reconhecendo o quarto de hospital e franzindo o cenho, sem compreender o contexto. — O que diabos estou fazendo aqui? — inquiri, impulsionando meu corpo para que pudesse me erguer. Contudo, Lizzie foi mais rápida, empurrando-me de volta à cama de modo que eu tornasse a me deitar. — Você sofreu um infarto, será que pode desacelerar um pouco? — ralhou, acomodando os travesseiros sob mim. — Eu pedi tanto que procurasse um médico… por que não me deu ouvidos? Você me assustou — admitiu num sussurro débil, sentando-se ao meu lado e segurando uma de minhas mãos entre as suas. — Eu te amo tanto, tive medo de que… de que você pudesse…


— Eu estou bem aqui — eu a interrompi, movendo a mão que ela prendia entre as suas, de modo que pudesse lhe acariciar o dorso. — Não precisa se preocupar, okay? Eu me sinto bem. Na verdade, nem me lembro direito do que aconteceu. Eu estava conversando com Linda e, então… Paige. O nome reverberou em meus pensamentos, colocando-me irrequieto. No entanto, não tive tempo de seguir essa linha de raciocínio, porque Lizzie verteu novas lágrimas, abraçando-me do modo desengonçado que nossa posição nos permitia. — Calma — pedi, afagando seus cabelos macios com uma de minhas mãos, ao mesmo tempo em que ela escondia o rosto em meu pescoço. Lizzie concordou num aceno de cabeça, no entanto, eu conhecia minha irmã o bastante para saber que, quando eu não estivesse olhando, ela tornaria a se debulhar em lágrimas e lamentaria pelo ocorrido ainda que eu lhe assegurasse que não havia necessidade de algo assim. — É que eu te amo demais — tornou a dizer, fungando. — Eu também. — Sorri, um gesto sincero e simples, algo que Lizzie ainda conseguia despertar facilmente mesmo com o decorrer dos anos. Os olhos dela se iluminaram, porque, ao contrário de um simples “eu sei”, ela, por fim, recebera a resposta que merecia. — Te amo muito, irmãzinha — reiterei, porque eu queria que ela soubesse. Precisava, na verdade. Se eu aprendi algo com a rejeição de Linda, foi que privar as pessoas que eu amava de saber como eu me sentia só iria afastá-las de mim. E, sendo honesto comigo mesmo, eu já tivera minha cota de solidão por uma vida toda. Mais tarde, após convencer Elizabeth de que ela deveria ir para casa a fim de dar atenção às crianças, pensei por muito tempo nas palavras de Paige. A pior parte foi concluir que ela, de certo modo, tinha razão. Eu costumava desencadear desgraças por onde passava e Linda era a prova viva disso. Meu egoísmo a arrastou para um problema familiar que não lhe pertencia, e, se não fosse por mim, ela jamais teria tido contato com Paige, o ser mais vil e desprezível que já conheci. Não era de se espantar o fato de ela me odiar. Não era de se espantar o fato de minha presença causar-lhe asco. Ainda assim, a última memória que tive antes de apagar completamente, graças ao infarto, foi de Linda me amparando, com voz alarmada e olhar preocupado. Eu queria dizer-lhe para não se preocupar, que estava tudo sob controle. Porém, por tempo demais eu contei aquela mentira, e havia chegado o momento de todos descobrirem que a verdade não era bem assim. Nunca me senti mais fraco e vulnerável do que naquele momento, mas eu não me incomodava com


minha falta de comando sobre a situação, de fato. Incomodava-me que Linda estivesse ali, assistindo a tudo, porque demonstrar debilidade diante dela não era algo que eu gostaria de voltar a fazer. Ela não reagia bem quando eu me expunha.

— Oi — Linda cumprimentou num murmúrio, ao passo que adentrava o quarto de hospital e vinha se sentar na poltrona, ao lado da minha cama, esboçando um sorriso tímido. Seu rosto estava pálido, com círculos roxos sob os olhos e uma expressão de cansaço sem igual. A imagem era tão ruim quanto a que presenciei quando ela me procurou, bêbada, pedindo ajuda para cuidar da situação de Eva. A diferença era que ela parecia sóbria agora. — O que faz aqui? — perguntei de pronto, o cenho franzido em confusão. Talvez tenha sido meu tom, entretanto, ela deteve seus movimentos por um instante ou dois, titubeante. Em seguida, se acomodou melhor na poltrona, mesmo que ainda me parecesse pouco confortável. — Eu… vim ver como você estava — disse simplesmente, dando de ombros num gesto que deveria aparentar casualidade. Deveria. — Algum problema com Eva? — eu quis saber, porque não conseguia pensar em outra razão para ter Linda ali. — Não. Ela está bem, graças a você. Obrigada, a propósito. — Esboçou um sorriso singelo. — Como se sente? — Bem, obrigado. Nós nos encaramos por alguns instantes, em silêncio, até que este tornou-se incômodo e eu cerrei os olhos, afundando a cabeça nos travesseiros nem tão confortáveis assim, desejando mais que tudo me ver longe dali, de volta à minha casa, à minha rotinha, à empresa, que deveria estar um caos graças à…


— Ouça — Linda pronunciou, roubando minha atenção para si novamente —, eu sinto muito por Paige. Juro que não pensei que ela teria a audácia de vir até aqui e dizer todas aquelas coisas… — Não me importo, de verdade — eu a interrompi, e Linda piscou longamente algumas vezes, como se o que eu acabara de dizer não fizesse o menor sentido. — Paige não significa nada para mim, tampouco a opinião dela a meu respeito. Certo, quiçá aquilo não fosse exatamente a verdade nua e crua, no entanto, era próximo o bastante. — Ela foi cruel, Robert — Linda devolveu, cética. — Eu vi como o que ela disse te afetou, você não precisa negar, não quando eu… — Não quero falar disso — cortei-a, mal-humorado. — Se você veio se desculpar em nome da sua mãe, honestamente, não precisa. Ela acenou uma vez, após engolir com dificuldade. — Okay. Eu só queria que você soubesse que não disse a ela onde eu estava. Não faço ideia de como Paige me encontrou aqui e também não… — Melinda… — chamei, exigindo sua atenção. O nome soou estranho, e ela pareceu perceber, porque sua expressão demonstrava desconforto. Eu me lembrava de reagir de modo diferente sempre que pronunciava seu nome, em vez do apelido, e foi impossível não notar a estranheza. — Podemos abortar o assunto Paige? Ele não é do meu interesse, já disse. Outra vez, Linda meneou a cabeça, concordando. Os dentes prenderam o lábio inferior, como sempre faziam quando ela não sabia ao certo o que dizer. Torcendo os dedos, seu olhar foi para longe do meu, analisando o último arranjo de flores que eu recebera de alguém pouco importante, posicionado ao lado de minha cama. — Você quer que eu vá embora? — perguntou por fim, surpreendo-me com sua objetividade. Abri a boca, pronto para dizer-lhe que sim, mas não pronunciei uma única palavra. Eu não queria despejar mentiras sobre Linda, ainda que isso não fizesse o menor sentido, contudo, tampouco sabia o que desejava. Ela era tão bonita, mesmo em seu estado catatônico, e eu não poderia negar que gostaria de companhia e que o simples ato de fitá-la parecia bom o bastante para matar o tédio de sentir-me impotente, atado a um leito de hospital. — Se a cada dez palavras suas, nove forem sobre Paige, então eu realmente acho… — tentei dizer, todavia, Linda me interrompeu. — Nós estávamos conversando — ela me lembrou. — Você e eu. Antes disso tudo. Quer dizer… — Hesitou, esboçando um sorriso meio nervoso. — Eu estava tentando fazer com que você me ouvisse, mas Pai… — Ela se deteve,


encarando-me de um modo alarmado ao mesmo tempo em que eu erguia uma de minhas sobrancelhas ante uma nova menção a Paige. — Bem, nós fomos interrompidos — emendou, após um pigarro. — Eu já disse que você não precisa me agradecer por ajudar Eva e que não fiz o que fiz esperando nada em troca, mesmo que não tenha sido essa a impressão que passei. Linda expirou ruidosamente, meneando a cabeça de um lado para o outro com um sorriso descrente. — Eu me sinto estúpida por ter ao menos cogitado a hipótese de que você falava a sério. — Você deveria saber que eu jamais faria uma proposta daquele tipo a sério. Ela concordou com um aceno, colocando uma mecha de seus cabelos longos atrás da orelha enquanto apoiava as costas no espaldar da poltrona. — Naquela noite eu te disse que sentia muito, lembra? — inquiriu, titubeante, os dedos das mãos voltando a se remexer de modo desengonçado. — E depois eu tornei a dizer a mesma coisa, quando te convidei para um café. Eu queria me desculpar por uma série de motivos. Por ter gritado com você, pelo tapa e, principalmente, acho, por ter dito que você me… — Você não precisa se desculpar — atalhei, desconfortável, porque eu sabia o que viria a seguir e, francamente, eu não queria ouvi-la outra vez dizendo que sentia asco por mim, ainda que, agora, fosse para se desculpar. Aquele era um episódio que eu adoraria esquecer e não ajudava ficar revivendo-o. — É só que… — Também não precisa me agradecer. Eu já disse: estamos quites. Linda soltou um riso contido de puro ceticismo, balançando a cabeça, mordendo o lábio e estalando a língua, tudo quase ao mesmo tempo. — Se você quer que eu vá embora, por que não me manda dar o fora daqui de uma vez, hein? — impacientou-se. — Só estou tentando me desculpar, Robert, não mereço ser tratada desse jeito! Tudo bem, eu cometi um erro, fui injusta, mas você nem mesmo está me dando a chance de dizer que sinto muito! — protestou, gesticulando de forma desconexa e exasperada. Franzi o cenho, porque aquela reação não era o que eu esperava quando tudo o que queria fazer era com que Linda não sentisse como se me devesse algo, mesmo que o algo em questão fosse um simples pedido de desculpas ou um agradecimento. Eu bagunçara sua vida o bastante para não merecer nem uma coisa nem outra. E era isso que eu deveria ter lhe dito, contudo, não pude deixar de apreciar a ironia do momento. — Você me deu? — eu quis saber.


— O quê? — Uniu as sobrancelhas, sem entender aonde eu queria chegar. — A chance de dizer que eu sentia muito. Linda puxou uma longa lufada de ar, a boca se abriu e ela iniciou um protesto qualquer, que não foi bem-sucedido. Então ela cerrou os olhos com força, inspirando profundamente antes de soltar um pigarro e me fitar. — Você só estava arrependido de eu ter descoberto a verdade do pior modo possível — disse por fim. — Sendo sincero, você estava arrependido de ter se casado comigo apenas para afrontar Frederick, quando foi me procurar, meses atrás, no apartamento que eu dividia com Christine? — inquiriu, inclinando-se de modo a apoiar os cotovelos sobre suas coxas cobertas por jeans, e o olhar que ela me lançou não aparentava nenhum resquício da irritação de agora há pouco. Trinquei o maxilar, pois nem mesmo eu sabia a resposta para aquele questionamento. Eu estava arrependido por fazê-la sofrer? Indubitavelmente. Eu estava arrependido dos momentos bons que tivemos graças à minha obstinação em tê-la? — Não — foi o que eu lhe respondi, e Linda acenou em concordância, porque aquela era a resposta pela qual ela esperava. Ainda assim, não conseguiu esconder o olhar de desapontamento, provavelmente por acreditar que eu não aprendera nada, em absoluto, com meus erros e sua dor excruciante. — Mas certamente estou arrependido de ter me casado agora — emendei, pois a expressão desolada em seu rosto e todos os males que lhe causei não poderiam ser ignorados. Não mais. — O importante é que nos divorciamos. Era o que você queria, não era? O divórcio, a herança nas mãos de Paige, nunca mais precisar me ver… o que nos leva de volta ao porquê de você estar aqui. Se Eva está bem e você não precisa de nada que eu possa fazer… — Eu vim porque me importo — ela me interrompeu, o tom de voz baixo contrastando com exasperação. — Você, melhor que ninguém, sabe que mascarar sentimentos nunca foi meu ponto forte. — Eu não… — A verdade é que — continuou, ignorando o que quer que eu estivesse prestes a dizer —, na última semana, eu vim até aqui todos os dias, mesmo sabendo que não poderia entrar. Porque não sou da família — elucidou, dando de ombros, como se não fizesse diferença. Entretanto, parecia fazer. — Mas o fato de não ser uma Blackwell não diminuiu um único grama da preocupação que eu senti quando te vi desfalecer à minha frente. — Aquilo não foi nada — menti. — Aquilo poderia ter te matado — retorquiu, fungando em seguida para disfarçar o choro iminente, todavia, os olhos marejados e vermelhos a


denunciaram. Eu queria dizer algo que amenizasse a situação, mas nada poderia ser bom o bastante. Talvez eu devesse lembrá-la de que meu coração não pertencia ao seu hall de inquietações. — Não se preocupe, o iceberg que carrego no peito continua aqui, intacto, capaz de naufragar uma dúzia de outros Titanics — despejei, e seu olhar cintilou com o reconhecimento de minhas palavras. Linda esboçou um sorriso, porém, não era um gesto feliz. Levantando-se de seu lugar, ela se sentou na cama, ao meu lado. Hesitante, segurou uma de minhas mãos entre as suas, ignorando o fato de eu ter apresentado certa resistência. Seus dedos passearam por minhas palmas, tocando os cortes que infligi a mim mesmo todas as vezes em que apertei os punhos com força, cravando as unhas em minha pele no intuito de esmaecer as outras dores. — E se nós tivermos entendido tudo errado? — questionou num sussurro quase inaudível, sem trazer seus olhos para mim. — E se você for o meu Titanic? Foi impossível não sorrir. Não por felicidade ou escárnio, porém, foi a única reação que pude ter com a possibilidade absurda que aquilo implicava. — Não, eu não sou — assegurei. — E o mais importante: você não é um iceberg. — Então o que nós somos? Ponderei por alguns instantes, lembrando-me de nossa conversa no dia do seu aniversário, sem conseguir entender como fui capaz de duvidar do que Linda me dissera naquela noite. — De acordo com você — comecei, levando minha mão para longe do contato com as dela —, somos duas pessoas que não fazem bem uma à outra. E, se quer mesmo saber, eu acho que você está certa. Mas isso não é realmente uma novidade, é? Seu único erro foi ter se apaixonado por mim, algum dia; um erro que você já tratou de consertar. Foi difícil, contudo, esbocei um sorriso, como se parabenizasse Linda por ser inteligente o bastante por me superar da melhor maneira possível, entretanto, ela não me sorriu de volta. Apenas se levantou, fazendo seu caminho em direção à porta e detendo-se no meio do caminho, a fim de fitar-me por sobre o ombro antes de responder: — Eu cometi mais erros do que você imagina, Robert, mas pretendo consertá-los. Se não todos, ao menos a maioria. — Foi sua vez de sorrir. Não num gesto feliz, e sim como se ela selasse uma promessa. — Tente descansar. Vou estar na sala de espera, para o caso de você precisar de alguma coisa.


— O que quer dizer com “eu moro aqui”? Linda mordeu o lábio, empinando o nariz como se, desse modo, pudesse demonstrar altivez. — Exatamente o que você ouviu. Eu moro aqui… mais ou menos. — Deu de ombros, em falsa casualidade, enquanto abria a porta do seu antigo quarto, em meu apartamento, e adentrava o cômodo, aparentemente tão confortável ali que era quase como se ela jamais tivesse ido embora. Já era estranho o suficiente que, na semana em que fiquei no hospital, após o coma, durante a recuperação, Linda tivesse ido me visitar, impreterivelmente, todos os dias. Também era incomum que fosse ela a me levar embora, quando recebi alta, porque julguei que seria Lizzie. Mas, claro, eu não imaginava que, na verdade, Linda não estava me levando para casa, e sim indo para casa. — Okay… — foi o que consegui dizer de pronto, estarrecido pela estupefação, assistindo a Linda trocar os sapatos que calçava por chinelos ao passo que ela deixava sua bolsa a tiracolo sobre a cama. — Por quê? — inquiri, após o que pareceram horas. — Porque você precisa de uma esposa. — Não, eu não preciso. Ela soltou uma risada irônica, cruzando os braços em frente ao peito e mudando o peso do corpo para a outra perna.


— Eu conheci Daniel McAuley, Robert. — E ele pediu para você vir morar aqui? — escarneci. — Ele foi até o hospital. Acredito que não sabia que você estava em coma, porque queria falar sobre a Wood Business. — Eu não tenho mais nada a ver com a Wood Business, não é um segredo para McAuley. — Mas é segredo que nós nos divorciamos, não é? Porque ele me reconheceu, pelas fotos do seu aniversário. Foi minha vez de cruzar os braços, pouco contente com o que ela parecia insinuar. O que Linda achava? Que eu anunciaria aos quatro ventos que já não estávamos juntos? — Bem, não me ocorreu fazer um memorando para informar as pessoas de que estamos divorciados. Nós somos as únicas pessoas que importam, e você poderia ter dito a McAuley que já não temos mais nada a ver com o outro. — Exceto que nós temos — retorquiu, desfazendo a postura defensiva enquanto caminhava para mais perto de mim. — Fiquei de vigília naquele hospital, esperando que você acordasse. Alguém que não tem nada a ver com o outro não se comporta assim. Engoli a saliva com dificuldade, dando-lhe as costas e esfregando o rosto com uma das mãos. Olhar para Linda, tê-la tão perto quando eu nem mesmo tinha o direito de tocá-la era perturbador. Para dizer o mínimo. Eu odiava o desejo de querer beijá-la alucinadamente bem ali. — Isso ainda é sobre eu ter passado as ações da Wood Business para Paige e ter ajudado Eva, não é? — testei, exalando o ar com força. — Porque, pela milésima vez, juro que… — Não estou aqui por achar que te devo alguma coisa — ela me interrompeu, soando exasperada. — Apesar de dever, de fato. Eu estou aqui porque me importo e sinto que preciso consertar algo que arruinei. — Você não arruinou nada. — Bem, eu discordo. — Eu iria protestar, contudo, senti a mão de Linda sobre meu ombro e, logo depois, ela estava à minha frente, numa distância tão ínfima que não me parecia segura. — Por que não me disse, desde o começo, o que a mansão da família Blackwell significava para você de verdade? — inquiriu num sussurro, e senti quando seu hálito varreu meu rosto, desviando minha atenção da pergunta para seus lábios e, então, para seus olhos, que derramavam ternura do jeito que só Linda tornava possível. Exatamente como eu me lembrava. — Porque eu disse — devolvi, lutando contra a gana de esmagar meus lábios contra os dela num beijo sôfrego e saudoso. — Não, não disse. Você usou meias-palavras. Meias-verdades. Como


sempre. — Linda soltou um suspiro, uma de suas mãos indo para a linha da minha mandíbula, acariciando o local de um modo tão íntimo que meu coração pareceu se descontrolar dentro do peito. Não do modo ruim, como se eu estivesse prestes a enfartar de novo, e sim da forma prazerosa que Linda costumava despertar. — Por que é tão difícil ser honesto comigo? Dizer exatamente o que quer dizer? — ela interpelou num murmúrio, como se estivéssemos falando de um segredo. Foi um questionamento simples, e eu sabia que Linda não tinha a menor ideia das lembranças ruins e de toda a cólera que ele acabara de trazer à tona. Porque eu conseguia me recordar perfeitamente do instante exato em que abri meu coração para ela, mostrei-me frágil e vulnerável, derramando sentimentos que não foram bem-vindos. O momento se perdeu, meu corpo se retesou sob o toque de Linda e, em resposta, eu me afastei dela, porque nossa proximidade se tornou perturbadora de um modo que me fez querer distância. — Você só pode estar de brincadeira — escarneci, meneando a cabeça, tamanha minha incredulidade. Aquilo não poderia ser sério. Não depois de eu ter lhe dito que a amava e ter recebido nada além de animosidade em resposta. — Não, não estou — apressou-se em negar, dando um passo em minha direção e fazendo-me recuar dois. — Apenas seja sincero comigo, Robert, e me deixe saber o que você pensa realmente. Eu quero te ajudar a recuperar sua herança, quero te ajudar com McAuley, mas não consigo fazer isso se você continuar me dando evasivas e sendo intransigente. — Não é seu dever ter que parar a sua vida para me fazer um favor, é disso que estou falando, não estou sendo intransigente! — protestei, exasperado. — Tampouco está sendo gentil — acusou. — E okay, entendo que eu disse coisas que não devia, e estou arrependida, mas será possível que você nunca vai me perdoar? Porque eu meio que já estou me cansando de ser condescendente aqui! — continuou, gesticulando de modo exagerado e sem sentido com ambas as mãos. Foi impossível não rir. E não tinha nada a ver com regozijo ou nenhum outro sentimento bom. O que havia era escárnio, revolta e ceticismo graças a tantos absurdos despejados ao mesmo tempo. — O que é tão engraçado? — ela quis saber, franzindo o cenho numa expressão mal-humorada, aparentemente insatisfeita com a troça. — Que você anseie gentileza depois de ter gritado na minha cara que me odiava, que eu te causava asco e que você não queria mais me ver! — retorqui, arrependendo-me do que dissera um segundo após. Eu já estava começando a soar repetitivo até mesmo para mim. E, aparentemente, para Linda também, porque ela rolou os olhos, soprando o ar com


força em seguida. — Pela milionésima vez, Robert — começou, devagar —, já admiti que sinto muito! Eu não quis dizer nenhuma daquelas coisas! Mas eu estava magoada, agindo como uma idiota, igualzinho a você, neste exato momento. Será que não consegue ao menos entender o que eu estava sentindo àquela altura? Com você e Paige mexendo com a minha cabeça já aturdida? Ignorei a ofensa nada velada, decidindo ater-me ao outro ponto do que ela dissera. — Eu estava mexendo com a sua cabeça? Eu? Então qual era a porra do nome que ela dava para o que vinha fazendo comigo? — Estava, sim, porque isso é o que você faz! — insistiu, a um único passo da exasperação. — Aparece e coloca o meu mundo de ponta-cabeça e nem mesmo tem a decência de ser 100% claro comigo durante uma conversa! — O que há de tão obscuro no que eu digo, Linda? Hein? — Por que você não me contou que não dormiu com Susan? — questionou, a respiração ofegante pela rapidez com que pronunciou as palavras. Então ela fechou os olhos, sacudindo a cabeça como se estivesse arrependida de dar voz à dúvida. — Christine — pronunciei em entendimento, descrente por ela ter feito algo que jurou não fazer. — Ela não devia ter contado. Linda soltou uma risada incrédula, umedecendo os lábios com a ponta da língua como se ponderasse o que diria a seguir. — Por que você não me disse? — inquiriu, a expressão séria sem o menor traço de humor, genuíno ou zombeteiro. — Você teria acreditado se eu tivesse dito? Ou acharia que se tratava apenas de uma medida desesperada para te ter de volta aqui, como a boa esposa capacho que você sempre foi? Porque é nisso que você acredita, não é? Que era uma esposa capacho e nada além disso. — Eu não… — ela começou a arguir, exaltada, o que não durou muito. Cerrou os olhos com força, mordendo o lábio e acenando com uma das mãos, como se dissipasse a ideia que vinha formando. — Esqueça. Você acabou de receber alta, teve um ataque cardíaco. Discutir é a última coisa que eu quero. — Você não acreditaria — insisti. — Provavelmente, não — concedeu, encolhendo os ombros. — Desculpe. — Tudo bem, não é como se fizesse diferença. — Fingi não me importar, pois não queria deixar transparecer o quanto sua falta de fé em mim me afetava. — Faz toda diferença — contra-atacou. — Na verdade, eu… — Hesitante, deu passos pequenos para mais perto de mim, enterrando suas mãos nos bolsos de


trás de seus jeans. — Tem uma porção de coisas que eu queria te dizer. Se você estiver disposto a ouvir, claro. — Então ela abriu um pequeno sorriso, o qual não chegou até seus olhos, porém, já era o suficiente para dissipar os resquícios de exasperação dentro de mim. — Que tipo de coisas? — Nós podemos conversar durante o jantar, o que acha? — sugeriu. — Agora você pode tratar de descansar um pouco. Pisquei surpreso algumas vezes, unindo as sobrancelhas, sem saber se havia entendido direito. — Jantar? — testei. — Como em um encontro? Foi a vez de Linda piscar repetidas vezes, boquiaberta. — Eu pensei em cozinhar. Vo-você quer que seja um encontro? — gaguejou em resposta. — Não — apressei-me em negar, emitindo um som quase de desdém. — Claro que não — reiterei. — Só estava checando, porque isso jamais daria certo. E não precisa cozinhar, eu vou pedir comida tailandesa. — Oh… — ela deixou escapar, pigarreando logo em seguida. — Okay.

O primeiro dia de volta ao meu apartamento não foi nada parecido com o que pensei que seria. E, apesar de não esperar uma visita de McAuley no meio da tarde, não foi isso que mais me surpreendeu, e sim o fato de ter sido Linda a lidar com ele enquanto eu me obrigava a descansar, em meu quarto. — Ele veio trazer o convite para um coquetel — Linda dissera um pouco mais tarde, entregando-me um envelope requintado que não fiz questão de abrir. — Eu disse que nós pensaríamos a respeito, porque você acabou de receber alta e eu não acho uma boa ideia irmos a esses eventos onde as pessoas só falam de negócios. Não quero que você se estresse.


Assenti, porque não havia muito mais o que eu pudesse fazer além de esboçar um sorriso pelo simples fato de Linda se importar comigo. Eu acreditava nela, por mais que não entendesse seu comportamento dúbio, ora querendo-me longe e, então, mudando-se para minha casa sem que eu nem mesmo soubesse. Apesar disso, eu gostava de saber que ela estaria logo ali, ao lado. Talvez ajudasse meu sono não ter que ficar ponderando sobre onde ela estaria — mais importante ainda: com quem. Saber que ela estaria no quarto ao lado mais tarde, naquela mesma noite, como estivera tantas outras vezes, meio que trazia uma satisfação imprópria, ainda que eu preferisse que ela usasse a minha cama, e não a de seu antigo quarto. Contudo, isso já era exigir demais da sorte.

— Eu te disse que não precisava cozinhar — lembrei Linda, simultaneamente, colocando a mesa do jantar, após descartar as embalagens que embrulharam a comida do restaurante até aqui. — Disse também que pediria comida tailandesa — devolveu, emergindo da cozinha com uma lasanha fumegante, acabada de sair do forno, prato que descobri ser meu predileto desde que me casei com ela. — Você não gosta? — perguntei, sentando-me e indicando minha porção ainda intocada de Pad Thai. — Prefiro ficar na minha famigerada lasanha, obrigada — disse num sorriso, tão bonito e natural que, provavelmente, fiquei tempo demais admirando-o. Ela se serviu de uma fatia generosa de lasanha, e minha boca se encheu de água com a liga formada pela quantidade exacerbada de queijo, algo típico de Linda, que pareceu notar o quanto minha própria comida tornara-se desinteressante. — Tem o bastante para nós dois, você sabe. — Ela deu de ombros, soprando


a porção que pegara em seu garfo. — Estou bem, obrigado. — Forcei um sorriso, sem querer dar o braço a torcer, ainda que fosse infantilidade. — Tem certeza? — Linda provocou. — Não quer nem mesmo provar, sem compromisso? — Então ela estendeu o garfo em minha direção, o aroma fortalecendo-se ao passo que eu salivava em expectativa. — Coloquei azeitonas pretas em conserva no azeite e… — Ela não precisou me convencer de mais nada. Fechei os lábios ao redor do garfo que ela me estendia, sem me importar com o fato de o molho estar quente ao extremo. Um longo gemido de prazer escapou dos meus lábios enquanto eu tentava não me queimar com a comida e Linda sorria; substituindo meu prato com Pad Thai pelo seu. — Qual o sentido de tentar resistir à sua comida favorita quando você já a estava devorando com os olhos? — perguntou, o sorriso ainda em seus lábios concomitante ao sacudir de sua cabeça, de um lado a outro, divertindo-se com minha teimosia em frangalhos. E, por um instante, era como se ela não estivesse falando apenas da massa à minha frente. — Como sabe que é meu prato predileto? — inquiri, pego de surpresa, abocanhando uma nova porção. — Porque você sempre se oferecia para me ajudar a cozinhar lasanha quando passávamos uma semana inteira comendo qualquer outra coisa. — Rolou os olhos, como se fosse óbvio demais, e eu sorri, sentindo meu peito se aquecer com a sensação de familiaridade. Parecia tão absurdamente certo que estivéssemos ali, juntos, desfrutando nossa refeição e conversando sobre amenidades. — Culpado — murmurei em resposta, dando de ombros. Linda apoiou o cotovelo sobre a mesa, descansando o queixo na palma de sua mão enquanto me fitava sem se preocupar em ser discreta. — O que foi? — questionei, pouco confortável com a atenção em excesso. — Nada — respondeu, acenando com uma das mãos de modo displicente, no processo. — Só estou feliz em ter você de volta. Esse lugar é gigante para uma única pessoa, como você consegue? Desviei o olhar, cutucando uma azeitona com a ponta do garfo e fazendo-a rolar pelo prato antes de finalmente levá-la à boca. Eu queria ganhar tempo e dizer a Linda, de forma confiante, que com o passar dos dias as pessoas se acostumam a absolutamente tudo, porém, aquilo era mentira. Meses se passaram e a dor de sua ausência não diminuíra um único milímetro. — Elizabeth te deu as chaves do apartamento para que você se instalasse aqui, não foi? — decidi perguntar, a fim de levar o assunto para outro terreno.


— Sob protestos, devo ressaltar — gracejou, oferecendo-me um sorriso, contudo, não fui capaz de retribuir. — De onde você tirou a ideia absurda de que vir morar aqui resolveria as coisas? — despejei, já que o questionamento esteve preso à minha garganta por todo o dia. — Antes de termos essa conversa, eu preciso te entregar uma coisa. — Ela me pediu para esperar com o gesto de uma das mãos, desaparecendo por poucos segundos e voltando com um envelope de papel pardo entre os dedos. Era estranho como papéis pardos, vindos de Linda, costumavam ser sempre motivo de alarme. — Eu gostaria de lembrar que já assinei o divórcio — adiantei-me, perdendo o apetite graças à menção da palavra e depositando meus talheres sobre a porcelana que não consegui esvaziar. — Só abra, sim? — encorajou, após uma breve hesitação, estendendo-me o envelope. Não o fiz de bom grado, todavia, Linda não pareceu se importar com o mero detalhe. Seus olhos continuavam sobre mim, ao passo que ela me esperava inteirar-me do que parecia ser nosso próximo assunto. Fitei a folha de cheque, pasmo, levando meu olhar tingido de confusão para Linda. — Como você… — Eu consegui o dinheiro de volta. Com o banco, como você sugeriu, antes — contou, exibindo um sorriso tão radiante que me deixou desconcertado. Dei atenção ao cheque outra vez, checando a assinatura de Linda, ainda como Melinda Blackwell, e o valor ali presente. — Essa parte eu meio que percebi. A questão é: como? — Uni as sobrancelhas, a ideia se formando em minha mente sem que eu pudesse impedir. — Não me diga que você hipotecou seu apartamento… — Só não conte a Christine — pediu com urgência, mordiscando o lábio no que era seu típico gesto de apreensão. — Ou a Javier. Lilly também não pode saber de nada. Na verdade, não conte a ninguém. Por favor. Você é a única pessoa que sabe disso. — Eu disse que não queria o dinheiro de volta. Você sabe que não fiz isso esperando receber. E isso é mais do que eu gastei! — lancei, transtornado. Linda era simplesmente inacreditável quando desejava, e não pude evitar a culpa que me assolou ao me lembrar do modo frio e inamistoso em que a tratei. Tudo bem que eu estava apenas tentando me proteger do efeito de sua proximidade, porém, ela não sabia disso. De qualquer modo, eu me arrependia amargamente de tudo o que lhe disse antes de assegurar que ajudaria Eva.


— Menos de dois mil dólares a mais. Grande coisa — desdenhou. — Empréstimos têm juros, e eu não… — Não sou um banco, Linda! — eu a cortei, em revolta. — Não te emprestei dinheiro. E não vou descontar esse cheque. — Posso transferir para a sua conta bancária. — Linda… — Você me disse que queria que ficássemos quites, lembra? — perguntou, descansando os antebraços sobre a mesa e inclinando-se em minha direção. — Que, se houvesse alguma coisa que você pudesse fazer, eu poderia te falar. Bem, isso nos deixa quites. — Uma hipoteca, Linda? — testei, passando uma das mãos pelo rosto e cabelos, num gesto de exasperação. — Qual é o seu problema? — Não sou a primeira ou a última pessoa a passar por isso — defendeu-se. — Está tudo bem. Eva está bem, você está bem, não ouvimos mais falar de Paige. Enfim… — Deu de ombros, casualmente. — Obrigada. Outra vez. Você foi minha tábua de salvação quando mais precisei, não há dinheiro no mundo que pague isso. — Aparentemente, há, sim — cuspi de volta para ela, com cara de poucos amigos. Era impossível lidar com ela! — Eu fiz o que fiz porque te dei a minha palavra de que devolveria o dinheiro. E cumpri. Por isso espero que você acredite quando eu digo que vou recuperar as ações e a mansão de sua família, e que Daniel McAuley não vai mais te perturbar por eu nunca comparecer aos eventos com você. Então, entenda: não estou aqui porque te devo favores por você ter pagado o tratamento de Eva. Estou aqui porque quero te ajudar. — Já disse que não preciso de ajuda. — Trinquei os dentes. — Não é só sobre você. Há Lizzie, Sofie, Matt… — Por favor! — eu a interrompi, jogando as mãos para o ar, e uma risada de puro nervosismo irrompeu por meus lábios. — Você sabe que eles não precisam realmente daquela casa, tampouco daquelas ações. — Não. Nenhum de vocês precisa — concordou, também com um gesto de cabeça. — Mas todas essas coisas têm valor sentimental, e disso eu entendo. Eu estava prestes a retrucar quando percebi que de nada adiantaria. A obstinação de Linda não era vencida facilmente, e eu já devia saber disso. — Você se lembra de quando me disse que Frederick estava morto e não podia me admirar ou nada do tipo? — questionei e, agora, eu que me inclinei para ela. Queria ter certeza de que sua atenção era minha, por mais que me doesse dizer todas as coisas que desenterraria a seguir. — Foi quando descobriu sobre o testamento. Você foi até o meu escritório e me disse para parar de tentar


impressioná-lo. — Suspirei longamente, pois as palavras de Linda não feriam menos só porque era eu quem as estava dizendo. — Bem, o mesmo vale para Alexandra. Ela está morta, Linda — falei com pesar, um nó gigantesco crescendo em minha garganta. — Continuar nessa peleja com Paige perpetuamente não vai trazê-la de volta, não vai fazê-la se orgulhar do homem que me tornei. Ao contrário. Obrigar que você me ajude seria a coisa mais mau-caráter a se fazer no momento. — Você não está pedindo ou obrigando — arguiu mais que depressa, estendendo suas mãos para segurar as minhas. — Estou oferecendo. Quero fazer isso. Olhei para suas mãos entrelaçadas às minhas, o anel de pérola negra de volta ao seu dedo anelar, junto à aliança, de onde eu desejava que jamais tivessem saído. Ri sem humor a despeito de meus pensamentos, tornando a encarar Linda. — Claro, porque quando é minha ideia te arrastar para esse circo é uma péssima coisa a se fazer, mas quando você sugere… — Titubeei, buscando pelas palavras certas. — O quê? É uma ideia brilhante? — São situações diferentes. Você sabe disso, como eu sei que por minha causa Paige está, nesse momento, na casa que pertenceu à sua mãe. Eu também sei que isso dói em você e em Lizzie, e se eu posso fazer algo para… — A questão é que você não pode. — Você me disse que Paige e James estavam usando o divórcio para obter a mansão Blackwell, Robert — ela me lembrou, erguendo as sobrancelhas como se dissesse touché. — Eu cedi os bens para Paige, são dela. Isso já não é mais uma disputa judicial, Linda. — Mas pode voltar a ser. Se os fizermos acreditar que nosso casamento nunca esteve melhor, então… — Por quanto tempo? — atalhei, com um sorriso zombeteiro. Não era minha intenção ser um canalha, contudo… a simples hipótese de ter Linda por uns dias apenas para vê-la ir embora e seguir em frente fazia cólera correr por minhas veias. — Um mês? — instiguei. — Dois? Um ano? Por quanto tempo você vai colocar sua vida em stand by para tentar resolver os problemas da minha família? — Uma vez que a casa for sua… — Linda — chamei, voltando a interrompê-la, tomando uma longa respiração —, Paige nunca vai desistir. Ela nunca vai se cansar. Me desculpe, sei que ela é sua mãe, mas, infelizmente… — Genitora — corrigiu-me, parecendo incomodada com minha escolha de palavras. — É o que ela é — reiterou, apertando minhas mãos um pouco mais entre as suas.


Aquiesci uma vez, devagar. — O ponto é que o que você está se propondo a fazer não é nada que eu já não tenha pedido que fizesse. Você se lembra do que me disse? — Robert… — ela tentou, no entanto não deixei que prosseguisse. — Você disse que não podia parar a sua vida por minha causa. E você não pode. — São cenários diferentes, e você sabe, por que está sendo tão teimoso? — Porque já arruinei sua vida o bastante — admiti tristemente, e foi minha vez de apertar suas mãos, deslizando meus polegares sobre os dorsos de pele macia. — Não vou fazer isso novamente. Vá para casa, Linda. Esqueça essa história estúpida e tudo ligado ao maldito sobrenome Blackwell. Nada disso é problema seu. Por um momento ou dois, pensei que ela fosse acenar em concordância, porém, ganhei um sorriso em resposta, que me desconcertou de modo inimaginável. — Há tantos erros no que você acabou de dizer que eu nem mesmo sei por onde começar. Mas preste bem atenção no que vou falar… — Linda fez uma pausa. Não era hesitação, e sim um gesto deliberado. Estávamos o mais próximo que a mesa entre nós nos permitia: o bastante para que respirássemos o hálito do outro, não o suficiente para que eu pudesse beijá-la sem ter que me levantar. Ela umedeceu os lábios, e minha atenção se tornou toda deles, fazendo Linda esboçar um sorriso que exibia uma fileira perfeita de dentes brancos. — Você não arruinou a minha vida — assegurou, reiterando o que dizia também num gesto de cabeça. — E é uma boa coisa que eu esteja fazendo isso pela minha consciência, nesse caso, e não pela sua. Não vou a lugar algum, Robert, poupe o fôlego. Acostume-se com o fato de que vou estar sempre por perto, em vez de tentar me afastar. Nunca funciona quando tentamos afastar o outro. Eu aprendi isso do pior jeito, acredite. Eu estava pronto para arguir quando, sem aviso, Linda se levantou de seu assento, inclinando-se ainda mais para mim e selando meus lábios com os seus enquanto uma de suas mãos se enterrava nos cabelos de minha nuca. Não esbocei reação alguma além de engolir em seco no momento em que ela se afastou, os olhos se abrindo para encararem os meus. — Isso é para você entender que me faz sentir muitas coisas, Robert Blackwell. Nojo não é uma delas. Ela tornou a sorrir, depositando um beijo na comissura de minha boca antes de me deixar sozinho com minha estupefação.


P ouco mais de uma semana havia se passado desde que recebi alta do hospital e vinha dividindo o mesmo teto que Linda. Era demais dizer que nós éramos amigos, contudo, costumávamos conversar sempre, em geral à noite, durante o jantar, que ela insistia em preparar, mesmo quando eu assegurava não ser necessário. De tal modo, ela tornava impossível a não associação com a rotina que tivemos quando ainda estávamos casados. Quiçá fosse muito imprudente sentir-me assim com relação ao fato de Linda estar vivendo comigo outra vez, de qualquer modo, eu gostava do nosso… arranjo, e, por mais egoísta que isso pudesse parecer, eu não queria que ele acabasse, porque ter Linda por perto preenchia o vazio que ela deixou em meu peito no momento em que decidiu ir embora e me arrancar de sua vida.


— Estou pronta — ela anunciou terminando de descer as escadas, detendo seu movimento logo em seguida, meio hesitante, trazendo o lábio inferior entre os dentes como se esperasse minha avaliação. E eu, definitivamente, avaliei. De cima a baixo, demorando-me em seu colo e em cada pedaço de pele exposta, ainda que não houvesse muito. Se eu soubesse que Linda usaria aquele vestido para ir ao coquetel, eu teria concordado em comparecer ao evento muito antes. — Você achou exagerado, não é? Eu avisei a Christine… — Exagerado? — atalhei, fitando-a nos olhos, uma vez que eu não via como o bonito vestido azul de mangas compridas pudesse ser considerado demais. Apesar de ter apreciado muito o decote, isso eu precisava admitir. Foi quando percebi. Num movimento discreto, Linda posicionou a perna esquerda um pouco mais à frente, revelando uma fenda em seu vestido que ia bem acima de seu joelho e, com ela, uma quantidade quase obscena da pele de sua coxa, que me fez salivar quase literalmente. Minhas sobrancelhas se ergueram em surpresa, ao passo que eu seguia analisando a visão estonteante que ela era. — Sabe que posso me trocar, certo? Espere 5 minutos e eu… — Não — interrompi, negando também em um meneio de cabeça, não querendo que ela se movesse um único milímetro para longe dos meus olhos. — Você não tem que se trocar por minha causa. — Tem certeza? — insistiu, parecendo em dúvida, ao que acenei positivamente. — Você está perfeita, Linda — confessei e assisti, em deleite, às maçãs de seu rosto se tingirem de vermelho concomitante ao sorriso tímido que ela me lançou. Era um gesto corriqueiro, porque Linda sempre respondia assim aos meus elogios, como se não conseguisse acreditar que eles fossem mesmo verdade. — Obrigada — agradeceu num sussurro, tentando brecar o riso que ameaçava lhe escapar. Uma tentativa miserável, que eu apreciei e acabou por roubar-me um sorriso também. — Eu preciso estar à sua altura, certo? — Você está muitos níveis acima. E não tem nada a ver com o vestido que está usando. Podemos ir, então? Ela aquiesceu, dando passos pequenos em minha direção e parando logo à minha frente. — Falta só um detalhe — falou, erguendo o dedo indicador como se enumerasse. Vasculhando a bolsa de mão que trazia consigo, ela tirou um arco dourado de lá de dentro. Com cuidado, e até mesmo certa oscilação, Linda


segurou minha mão esquerda, deslizando minha aliança por meu dedo anelar e tomando alguns minutos para analisar seu trabalho. — Agora, sim, você também parece perfeito — elogiou, aparentemente mais orgulhosa do que acabara de fazer do que de minha aparência em si. — Tudo pronto. Vamos? — convidou, e eu instintivamente estendi meu braço para que ela entrelaçasse o seu ali.

— É simplesmente fabuloso que você tenha vindo, Sra. Blackwell. Eu estava ansiosa para conhecê-la. Confesso que é bem mais jovem do que supus que fosse — Janet McAuley despejou assim que teve uma chance de abordar a mim e a Linda no coquetel. Eu não acreditava que ela fosse má pessoa, apesar de não saber como alguém decente poderia se casar com um tipo como Daniel. Porém, uma vez que minha mãe se casou com meu pai, tudo era possível, isso eu precisava admitir. — Me chame apenas de Linda, por favor — ela pediu, ofertando ao casal à nossa frente seu melhor sorriso simpático. — Não gosta de ser chamada pelo sobrenome do seu marido? — Daniel provocou, sorvendo um gole generoso de champanhe, fazendo-me odiar o fato de não poder beber nada alcóolico, a fim de aliviar a tensão. — Claro que sim — Linda retorquiu, sem deixar de ser simpática. — Mas me sinto mais à vontade quando posso utilizar o primeiro nome das pessoas. Caso contrário, sempre penso que a ocasião é formal demais. Isso era verdade. Eu me lembrava de como custou até que ela fosse capaz de me chamar apenas de Robert, e não de senhor Blackwell. — Como quiser, Linda — a senhora McAuley devolveu. — E você, me chame apenas de Janet, está bem? Nossa diferença de idade não é tão grande assim. Okay, aquilo era mentira. Ainda assim, Linda anuiu, oferecendo um novo


sorriso a Janet ao mesmo tempo em que eu amaldiçoava o fato de estar lá e ter que beber chá gelado, em vez de um scotch. — Devo admitir que não acreditei que você viria, Linda — Daniel interveio, interrompendo qualquer trivialidade que sua esposa pudesse vir a dizer. — É impressionante, mas Robert sempre tem a desculpa perfeita para a sua ausência. Acho que a última foi o fato de o seu humor ser aborrecível. O que, sendo bem sincero, não faz o menor sentido para mim. Você me parece adorável. Linda forçou um novo sorriso, algo bem comum durante aquela noite. Nós havíamos tido uma breve conversa sobre o que usaríamos como desculpa por ela ter passado meses no anonimato apenas para ressurgir de repente. Talvez eu tenha mesmo dado justificativas sem nexo, na época, no entanto elas eram o melhor que eu conseguira fazer sob tanta pressão. — Tenho certeza de que eu disse que o gênio de Linda era dos infernos, o que é bem diferente de ter um humor aborrecível — defendi-me, recebendo um olhar reprovador de Linda, num pedido mudo para que eu me mantivesse quieto e a deixasse lidar com a situação por conta própria. — A verdade é que esses eventos não são bem o meu estilo — ela contrapôs, entrelaçando seu braço direito ao meu, do mesmo modo que fizera enquanto saíamos de casa. — Sei que Robert sempre termina muito ocupado e mal teria tempo para mim, eu só não queria me sentir deslocada. — E o que a fez mudar de ideia? — Daniel insistiu, parecendo pouco satisfeito com a explicação que recebera. — Espero que não tenha sido algo que eu tenha dito. — Ele lançou uma piscadela para Linda, que, por alguma razão que eu não fazia ideia de qual seria, pareceu desconfortável. Os dedos dela apertaram meu bíceps com força, como se buscasse por vestígios de estabilidade, e Linda limpou a garganta. — Não — ela negou, tentando, sem sucesso, esboçar um sorriso, e nada em sua expressão denotava sinceridade. — De forma alguma — tornou a garantir. — Foi algo que nós vivemos. Robert e eu. Acompanhar tudo pelo que ele passou nas últimas semanas… a responsabilidade de administrar duas empresas do porte da Wood Business e da R Blackwell, o estresse por ter que equilibrar a vida pessoal e a profissional, o fato de seu coração ter sido sobrecarregado… — Titubeou, afagando meu braço no processo, os olhos buscando os meus antes de ela continuar: — Bom, independente de qualquer coisa, mesmo com tantas atribuições, Robert sempre esteve lá por mim quando eu mais precisei. Sempre disposto a ajudar e a resolver os meus problemas, fazer com que desaparecessem em um passe de mágica. — Ela sorriu brilhantemente, porém, o gesto não era destinado a Daniel, senão a mim. — Tudo isso me fez perceber que, do mesmo modo que ele está inserido no meu mundo, eu preciso estar inserida no dele. E se


vir aos coquetéis significa tanto para os sócios, por que não? Para ser sincera, não é ruim como eu pensei. Além do mais, aproveito para ficar de olho no meu marido. Foi minha vez de esboçar um sorriso, o qual não passou de um leve repuxar de lábios na direção de Linda, que exibia uma fileira perfeita de dentes brancos para mim, em resposta. — Você faz muito bem — Janet corroborou, contudo, não me virei para fitála, diferente de Linda, que quebrou nosso contato visual para estabelecer um com a senhora McAuley. — Não é certo deixá-lo sempre desacompanhado. As pessoas comentam. E há uma porção de mulheres solteiras rondando maridos dedicados no intuito de roubá-los para si mesmas. Nós devemos assegurar o que é nosso — aconselhou, buscando uma das mãos do marido, num gesto ineficaz, com intuito de denotar posse. Revirei os olhos discretamente, achando graça da cena patética e esperando encontrar a mesma reação vindo de Linda, todavia, o rosto dela estava sério, enquanto ela, percebi, fugia de um olhar efusivo de McAuley em sua direção. Algo que não gostei nada de presenciar, diga-se de passagem, porque não me cheirava a boa coisa. Instintivamente, passei meu braço esquerdo ao redor da cintura de Linda, puxando seu corpo para mais perto do meu e depositando um beijo no topo de sua cabeça, sentindo-a relaxar dentro do meu abraço e apoiar a têmpora em meu ombro.

Diferente dos coquetéis aos quais eu vinha comparecendo sozinho, aquele não estava sendo de todo ruim. Eu sabia que isso se devia ao fato de Linda estar ali, porque ela poderia não ter viajado o mundo inteiro e conhecido os melhores estilistas da atualidade, porém isso não mudava o fato de que ela era a mulher mais linda da noite e, também, a mais interessante, capaz de prender a atenção de


qualquer um por conseguir conversar sobre assuntos diversos e ter o bom senso de ouvir mais do que opinar quando falavam de algo que ela não dominava. Ela era excepcional, para dizer o mínimo, e eu não era o único a ver as coisas sob esse ângulo. Linda cativava as pessoas facilmente, foi assim comigo, por que seria diferente com o restante do mundo? Eu deveria ter percebido, desde a primeira vez que ela sorriu para mim, que aquele sorriso me faria irrevogavelmente apaixonado por ela a ponto de ter-me indo aos confins da Terra, se isso fosse o necessário para vislumbrá-lo. E como se lesse meus pensamentos ou adivinhasse o quanto eu me sentia afortunado apenas por tê-la ali comigo, Linda esboçou o sorriso mais encantador da noite, ainda que à distância, ao passo que dedicava alguns minutos de seu tempo a um grupo ansioso por conhecer a senhora Blackwell além do que as poucas menções nos jornais diziam sobre ela, desde que nos casamos. Simultaneamente, Daniel McAuley enchia meus ouvidos falando sobre como a administração de Paige vinha afundando a Wood Business. Contudo, sendo bem sincero, ter Linda me lançando olhares furtivos de flerte, fazia com que eu não pudesse me importar menos com o mundo ruindo ao meu redor. — Robert? — uma voz suave e contida perguntou logo atrás de mim, tirando-me de minhas ponderações e cortando as falas initerruptamente monótonas de Daniel McAuley. — Grace? — testei, não totalmente certo de que se tratava mesmo dela. — Você se lembra de mim! — exclamou, esboçando um sorriso incrédulo ao passar os braços ao meu redor, num gesto tão abrupto que não pude fazer nada além de deixar-me abraçar. Ela estava diferente e, ainda assim, igual a quando nos vimos pela última vez, há mais de uma década, quando ela completou 16 anos. Eu me lembrava, porque Frederick insistiu que fosse eu a acompanhá-la no que ele dizia ser uma das danças mais importantes na vida de Grace McAuley, irmã mais nova de Daniel e a candidata número dois de Frederick na lista para se tornar a futura senhora Blackwell, atrás apenas de Britney Smith. — Claro que eu me lembro — afirmei, afastando-me dela e estabelecendo algum espaço entre nós. — Você não mudou nada. — E eu estava sendo sincero. Grace exibia o mesmo cabelo louro em ondas sedosas que se detinham sobre os ombros. Os olhos azuis destacando-se mesmo com a iluminação parca. Ela já não era uma menina, entretanto, não era diferente de quando a conheci, exceto pelos bons centímetros que ganhara, ficando quase do meu tamanho. — Eu não sabia que você estava de volta ao país. Ela sorriu, dando de ombros.


— Só por algumas semanas. Vim a trabalho — explicou, e como eu não fazia ideia de qual ramo ela seguira, me abstive de comentar qualquer coisa. — Sou modelo, para o caso de você estar se perguntando. — Ergueu uma das sobrancelhas, em troça, divertindo-me de um modo que Britney jamais fora capaz de fazer. Honestamente, eu não entendia por que Britney era a primeira opção de Frederick para carregar seu sobrenome. — Não é tão difícil assim de adivinhar, certo? — Daniel intrometeu-se, e Grace não pareceu contente com sua intervenção. — Você é bonita demais para o mundo dos negócios, irmãzinha. Grace voltou a erguer as sobrancelhas, mas não em gesto de humor, e sim de ultraje. — Como você consegue transformar um elogio em algo tão nojento, Dan? — perguntou, o rosto franzido em insatisfação. Daniel preparou uma resposta qualquer, porém, Grace ergueu uma das mãos para ele, a palma virada em sua direção. — Não tente consertar, por favor. Você só vai deixar as coisas ainda piores. — Bufou, incrédula. — Por que não busca uma bebida para sua irmã bonita demais? Obrigada. — Ela voltou sua atenção para mim, tentando deixar o estresse com o irmão para trás ao me lançar um sorriso enquanto Daniel ia fazer o que lhe fora dito. — Eu soube que seu pai faleceu. Sinto muito — falou num sussurro, o olhar consternado. — O senhor Blackwell sempre foi muito gentil comigo. Imagino que esteja sendo difícil para você administrar sua própria empresa e também a Wood Business. — Um ano inteiro já se passou desde a morte de Frederick, você não precisa me dar os pêsames. Ela acenou em concordância uma vez, desviando o olhar por breves instantes antes de fixá-lo em mim novamente. — Eu pensei em ligar, quando soube, mas estava presa no trabalho e, também, não pensei que você fosse achar de bom tom. Quer dizer, da última vez que nós nos vimos eu tinha 16 anos e sérios problemas com acne, não queria que, ao falarmos por telefone, fosse aquela imagem que você tivesse em mente — gracejou, arrancando-me um riso contido. — Você já era estonteante aos 16 anos, Grace, com ou sem acne. Ela gostou do que ouviu, porque as maçãs de seu rosto enrubesceram no instante em que ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, parecendo embaraçada. — Obrigada, é muita gentileza. Na verdade, você também… — Ei, aí está você! A voz de Linda veio junto ao beijo nada discreto que ela fez questão de


depositar em meus lábios, permitindo-me experimentar um sabor que jamais encontrei em sua boca anteriormente: álcool. E, por mais forte que pudesse ser o gosto, nada era capaz de eclipsar a sensação deliciosa que era ter sua língua buscando espaço entre os meus dentes para atrelar-se à minha. Nós havíamos nos beijado antes, noites atrás, quando ela deixou claro que asco não era algo que sentia por mim, entretanto, nada se comparava ao contato de agora. — Eu te procurei por todos os lugares — prosseguiu, ao afastar sua boca da minha, e passou os braços ao redor do meu pescoço, ao contar sua pequena mentira. Os olhos dela não saíram de mim por muito tempo e, mesmo que o tivessem feito, eu não saí do lugar desde que McAuley deu início a seu monólogo irritante. — Você bebeu? — inquiri, franzindo as sobrancelhas ante a situação incomum. Eu já vira Linda alterada antes — uma única vez, verdade —, e isso me bastava para saber que aquela Linda não era a mesma que chegou comigo horas atrás, 100% sóbria. — Uma taça ou duas de champanhe. No máximo três — defendeu-se, acenando com uma das mãos como se aquilo não fosse nada de mais, puxando meu rosto para um novo beijo logo em seguida. E, diferente do breve selar de bocas durante o jantar, no dia que recebi alta do hospital, senti quando sua língua deslizou por entre meus lábios, pela segunda vez na noite, pedindo passagem para um beijo que prometia ser repleto de volição, ao qual cedi por breves segundos até ouvir o pigarro de Grace, à minha frente. Distanciei-me de Linda, que não parecia querer estabelecer espaço entre nós, e acabou passando seus braços por minha cintura. — Desculpe o mau jeito — ela se dirigiu a Grace, apesar de não parecer realmente querer fazê-lo. — Sou Linda. Blackwell. A esposa — emendou, estendendo uma das mãos para Grace em cumprimento, que retribuiu o gesto visivelmente desconcertada. — Grace McAuley — devolveu, repuxando os cantos dos lábios em um sorriso pouco natural. — Amiga de infância. — Deu de ombros, o olhar buscando o meu, como se perguntasse se estava tudo bem apresentar-se daquele modo, ao que assenti. — Oh — Linda deixou escapar, pega de surpresa. — Como em Daniel McAuley? Então vocês se conhecem há um longo tempo, hã? — É — Grace concordou, sem jeito, encarando-me em seguida. — Parabéns pelo casamento. Eu não sabia que vocês… — Hesitou, como se procurasse pelas


palavras certas, mas desistiu logo após. — Enfim… — Foi logo após a morte de Frederick. Seu irmão não te contou? Grace aquiesceu brevemente, mexendo nos cabelos louros num gesto que me pareceu de desconforto. — Claro que sim… é só que eu pensei que vocês dois… — Mordeu o lábio, meneando a cabeça de um lado para o outro e acenando com a mão em seguida, dando pouca importância ao que iria dizer. — Esqueça. Eu devo ter entendido errado — emendou num sorriso, porém ela não precisava colocar em palavras para eu saber do que aquilo se tratava. Era certo que McAuley dera meu relacionamento com Linda como fracassado. Isso explicava a surpresa de Grace ao conhecê-la e descobrir que estávamos juntos. — Nós optamos por uma cerimônia pequena, por isso não houve um convite — decidi dizer quando o silêncio pareceu desconfortável. — Eu entendo — assegurou. — Só fiquei surpresa por não ter sido com Susan. Mas compreendo a escolha. — Sorriu. — Estou feliz que você não tenha achado que Britney e eu… — Oh, não! — ela me interrompeu, fazendo uma careta engraçada, como se o que eu acabara de dizer fosse um completo absurdo. — Se acontecesse, eu saberia que você deveria estar internado em uma clínica psiquiátrica, não comandando um conglomerado. O comentário me fez rir, genuinamente, e Grace me acompanhou, mostrando que me conhecia melhor do que julguei ser possível. Não nos víamos há mais de 10 anos, e era como se houvesse se passado apenas 10 dias. — Eu não quero interromper o momento de reencontro, mas… — Linda começou, tão baixo que eu duvidava que até mesmo Grace pudesse ouvi-la claramente. — Não me sinto muito bem. Será que podemos ir? — pediu, o olhar baixo enquanto ela mexia em sua bolsa de mão à procura de algo que eu não saberia dizer o que era. — O que você está sentindo? — eu quis saber, erguendo seu rosto pelo queixo para que pudesse fitá-la nos olhos, encontrando-os vermelhos e marejados. — Acho que bebi mais do que supus. — Tentou sorrir, no entanto, não conseguiu. — Eu te espero no carro. Leve o tempo necessário para se despedir. — Então ela se virou para Grace, abrindo um sorriso que não queria realmente estar em seus lábios e decerto não tocaram seus olhos. Até mais, Grace. Foi um prazer conhecê-la. — Igualmente — Grace respondeu, com um breve aceno, ao passo que Linda assentia e se afastava de nós.


Linda ficou em silêncio durante todo o trajeto de volta, ora de olhos fechados, ora encarando a cidade iluminada pela janela. Os dedos retorcidos sobre o colo, tamborilando sobre a coxa exposta, puxando o tecido do vestido bonito que ela usava a fim de cobrir-se melhor. Eu quis saber o que ela estava sentindo, porém ela insistiu em dizer que não era nada com o que eu devesse me preocupar. — Sua amiga é muito bonita. Sinto muito por ter interrompido o momento de vocês — ela se pronunciou assim que adentramos o apartamento, enfatizando a palavra momento. — Ela não é exatamente minha amiga. Nós não nos víamos há mais de uma década. — Humph — Linda fez em desdém, apoiando-se na cauda do piano para retirar as sandálias de saltos que usava. — Seja como for, vocês dois pareceram muito felizes em rever o outro — continuou em tom de deboche, e não combinava em nada com a expressão introvertida que ela assumiu dentro do carro durante todo o trajeto de volta. — O que está insinuando, Linda? — questionei, incomodado com o fato de ela parecer dizer algo quando pretendia dizer outra coisa. — Qual é a verdadeira razão de você ter me mandado ir embora, Robert? Você está saindo com alguém? — inquiriu de súbito, com uma carranca, cruzando os braços em frente ao peito. Minha boca se abriu em estupefação. Aquele não podia ser um questionamento sério e, provavelmente, Linda tinha muito mais álcool no sangue do que supus. — De onde saiu essa pergunta? — Não se faça de desentendido, eu estava lá, lembra? Vi vocês, nem conseguiam disfarçar, pareciam dentro dessa bolha de… — Ela hesitou, gesticulando de forma exagerada e desconexa, à procura de algo bom o bastante


que pudesse expressar o que ela julgava ter visto. — Sei lá! — Deu de ombros, como se já não importasse, caminhando até mim. — Mas eu sei o que eu vi, tá legal? Mais 5 minutos e você teria se esquecido de que eu estava a menos de 50 metros de distância só pra arrastar Grace para o quarto mais próximo! — Linda… — Argh! Por que ela precisa ser tão bonita, tão educada, tão… tão… tão perfeita? — gemeu em desgosto, ignorando meu chamado e andando de um lado para o outro enquanto fazia movimentos descoordenados com a bolsa de mão no ar. — Seria infinitamente mais fácil se ela fosse detestável como Susan e Britney! Permaneci estático, sem saber como reagir àquilo, ou se deveria reagir, em absoluto. Linda estaria com ciúmes? Porque isso não combinava… — Não estou com ciúmes! — ela bradou, o rosto vermelho, apertando os pulsos com força ao lado do corpo. — É óbvio que eu não estou com ciúmes! — soltou com um bufar de esgar, fazendo pouco caso do que eu provavelmente dissera sem nem mesmo perceber. A despeito de sua negação, fui incapaz de conter o riso que nasceu do meu contentamento por saber que eu ainda mexia com Linda o bastante para que ela estivesse enciumada. Eu me lembrava do que ela dissera, sobre ser capaz de fazêla experimentar uma gama de sensações e nojo não estar entre elas. Bom, ao que parecia, ciúme estava. — Não é engraçado — Linda protestou ante minha expressão de divertimento. Acenei positivamente em resposta, ainda que não concordasse, caminhando em sua direção apenas para convencê-la a subir para o quarto e descansar, a fim de curar a bebedeira com uma boa noite de sono. Espalmei uma de minhas mãos no final de suas costas, sentindo o contato de sua pele cálida e macia graças ao decote que seu vestido trazia na parte de trás, deleitando-me com o arrepio que perpassou o corpo de Linda, fazendo-a tremular sob meu toque. Seu olhar buscou o meu, por sobre os ombros, e nós nos encaramos demoradamente, com Linda engolindo em seco e sua atenção vacilando entre meus olhos e boca. A dela se abriu, a língua indo umedecer os lábios ressequidos, e nós seguíamos nos encarando com a tensão espessa crescendo entre nós. Eu não sabia dizer quem deu início ao frenesi, mas o gemido arrastado de Linda no momento em que eu suguei sua língua num beijo voraz tornou tudo ainda mais real. Suas mãos enterradas em meus cabelos, as pontas das unhas arranhando minha nuca e arrancando de mim sons de prazer desconexos. Minhas mãos agarraram as coxas torneadas e tenras, impulsionando para sentar Linda sobre o piano, extraindo acordes desarmônicos quando os pés dela esbarraram nas teclas, fazendo-a sorrir entre o beijo. E lá estava a sensação


prazerosa outra vez, de ter meu coração batendo com tanta gana, quase como se ele quisesse escapar do meu peito. Os lábios de Linda migraram para minha mandíbula, quando nos separamos à procura de ar, porém o contato não durou muito, porque enterrei minhas narinas em seu pescoço, aspirando seu cheiro delicioso com força, o único capaz de me levar à loucura, do qual senti tanta falta. Com minhas mãos, explorei cada uma de suas curvas, e ainda que quisesse me demorar nos lugares que, eu sabia, ela apreciava de modo descomedido, a ânsia de tocá-la por inteiro e tomá-la para mim, ali mesmo, era maior que qualquer outra coisa. Com as palmas de minhas mãos acariciei cada pequeno pedaço de pele ao meu alcance, enquanto meus lábios se ocupavam de sua boca, pescoço, vão entre os seios… até o momento inevitável em que trouxe um deles à boca, sugando o mamilo intumescido junto a uma porção generosa do monte cálido e macio. Deleitei-me com o som agudo e arrastado que Linda não se preocupou em conter. Ela estava entregue em meus braços, arrepiada da cabeça aos pés, absorvendo as sensações de ter-me manipulando seu corpo do modo que eu sabia que ela adorava. Ouvir seus gemidos sôfregos pedindo por mais, ao passo que ela me deixava saber o quanto cada um de meus toques a fazia perder o controle, tornava tudo ainda melhor e mais viciante. Eu a desejava tanto! Com um ímpeto jamais experimentado antes dela, e no momento em que Linda tomou uma de minhas mãos, levando-a para o meio de suas coxas, indicando-me quão molhada e pronta para me receber em seu interior ela estava, minha ereção tornou-se ainda mais insuportável dentro das minhas calças, concomitante às minhas carícias em seu ponto de maior necessidade. Linda pareceu perceber, visto que levou suas mãos trêmulas para trabalharem no meu cinto, livrando-se dele e partindo para o botão da minha calça com uma das mãos, enquanto, com a outra, arrancava os de minha camisa das respectivas casas. Minha boca buscou a sua, mordiscando, beijando, traçando os contornos com a ponta de minha língua. — Rob… — ela gemeu perdida entre um beijo e outro, fazendo um sorriso de regozijo brotar em meus lábios. — Por favor — ela pediu com sua voz ofegante, e eu não precisava que ela fosse mais articulada para saber o que ela queria. O que necessitava. Burlando o tecido delicado sob meu toque, invadi a entrada úmida com dois de meus dedos, massageando, estocando, sentindo seus músculos internos fecharem-se ao redor deles ao mesmo tempo em que Linda soltava um gemido ainda mais alto, tombando a cabeça para trás ao agarrar meus bíceps com ambas as mãos, buscando equilíbrio ao passo que eu mordiscava os seios macios e


completamente expostos à minha frente. Eu mesmo estava próximo ao meu limite quando o celular de Linda tocou, o som reverberando tão alto em meio ao silêncio, maculado apenas por nossos gemidos de deleite, que ela se sobressaltou, buscando o aparelho apressadamente apenas para desligá-lo. Seus lábios tomaram os meus com urgência, incentivandome a continuar com o que estava fazendo, no entanto, minha consciência me alertou para o fato de que eu não deveria me aproveitar do estado alcóolico de Linda, porque eu não me perdoaria se ela se arrependesse do que estávamos fazendo na manhã seguinte. Ela mordiscou meu pescoço e ombro, arrastando sua língua pelo local, querendo dissuadir-me de minhas dúvidas silenciosas, e teria conseguido, não fosse o caso de meu próprio celular começar a vibrar no bolso de minha calça. — Deixe tocar — ela murmurou ao pé do meu ouvido, prendendo o lóbulo de minha orelha entre os dentes, abraçando-me e pressionando os seios desnudos contra meu peito. — Pode ser importante — eu a lembrei, mesmo que minha vontade fosse esquecer o barulho e continuar com o que estávamos fazendo. — As necessidades da sua mulher também são — devolveu, e, talvez, se ela tivesse feito uso de outras palavras, não teria crescido dentro de mim a maldita revolta ao me lembrar do divórcio e do fato de que, apesar de seu corpo responder ao meu, Linda escolhera não ser minha mulher ao insistir no divórcio repetidamente. Com isso em mente e sentindo o gosto de champanhe em seu beijo, eu chequei meu celular, escutando Linda bufar em insatisfação e, em seguida, fitarme alarmada quando viu o nome que brilhava na tela. — Christine — leu em voz alta. — O bebê vai nascer!


— N ós ainda temos que esperar por algum tempo até que ela dilate tudo o que tem para dilatar — Javi explicou quando Robert e eu chegamos ao hospital, depois de termos interrompido nosso momento tórrido achando que Chris já teria dado à luz quando chegássemos. — Bem, não foi exatamente isso o que o médico disse — Lilly interveio, vindo com Eva da cafeteria e me cumprimentando com um abraço apertado. — Eu estava com saudades — murmurou, apoiando a bochecha em meu ombro, e eu a embalei. — Eu também — admiti, porque a verdade é que graças a todo o estresse com Eva, o infarto de Robert, nós dois morando juntos e minha tentativa de conciliar o meu emprego, meu tempo vinha se mostrando insuficiente, não deixando muito espaço para os meus amigos. Era bem verdade que Christine e eu passamos um momento de qualidade juntas, recentemente, mas isso porque ela já havia parado de trabalhar e apenas esperava a chegada de Gabriel. Com Lilly era diferente. Ela estava se preparando para a faculdade e levando o trabalho na R Blackwell muito a sério, o que me enchia de orgulho, apesar da pontada de decepção que me abatia sempre que eu pensava que ela já não precisava de mim quanto antes. E tudo aconteceu tão rápido! Observá-la interagir com Robert também era sempre uma surpresa, porque eu nunca imaginaria que ele pudesse ser tão prestativo e carinhoso com um


estranho. Porém, ele vinha mostrando que, nos últimos meses, me esforcei tanto para detestá-lo e trazer à tona as coisas que me incomodavam quando nos relacionamos, que acabei me esquecendo do motivo maior para ter me apaixonado por ele, em primeiro lugar. E, tudo bem, ele podia negar e dizer que a ajuda ao orfanato foi apenas em memória de sua mãe. Mas foi um gesto dele, e não da senhora Blackwell. Ainda que Robert não quisesse admitir nem para si mesmo, sua generosidade havia tocado as vidas de todos ali, naquela sala de espera, e foi pensando nisso que sorri ao ser telespectadora do seu diálogo com Lilly sobre banalidades. Quando nossos olhares se encontraram, no entanto, Robert me pareceu desconfortável, e logo tratou de desviar sua atenção para Lilly outra vez, o que estranhei. Depois de todos os toques de poucas horas atrás, não parecia fazer sentido que ele voltasse a ser o homem distante que insistia em ser, apesar de eu sentir que havíamos quebrado parte do gelo entre nós. Verdade fosse dita, estávamos imersos em uma rotina que vinha funcionando, ainda que eu não tivesse tido a coragem de dizer a ele com clareza como me sentia ao seu respeito. E isso explicava o fato de eu ter ficado levemente alcoolizada no maldito coquetel. Não bebi por sentir ciúmes de Grace — eu repeti isso para mim mesma durante todo o trajeto até em casa —, e sim porque, quando saímos juntos, a fim de escolher o vestido que eu usaria no evento, Christine insistiu que Robert fizera o bastante para demonstrar como se sentia. Agora, contudo, era minha vez. Eu deveria ter dito, desde o dia em que ele recebeu alta, que meus sentimentos por ele não haviam mudado. Entretanto, eu o beijei, esperando que ele entendesse minha confissão muda e nós nos acertássemos. Já era de se esperar, porém, que Robert não responderia àquilo depois de tudo pelo que passamos. Por isso eu bebi uma taça ou duas de champanhe. Porque Christine disse que o álcool me dava uma coragem absurda, e eu não duvidava dela. Quer dizer… eu estava ingerindo bebida alcóolica quando assumi que me relacionar com Will seria uma boa ideia, uma decisão da qual me arrependia amargamente e mais parecia pertencer a uma outra vida. Para corroborar a teoria de Christine, ainda havia o fato de eu quase ter beijado um bartender apenas para ir correndo, logo em seguida, pedir ajuda a Robert com o tratamento de Eva. E, sendo honesta, nada disso poderia ser pior do que eu aceitando dormir com Robert no caso de ele pagar as despesas hospitalares de Eva. Não que Christine soubesse desse último detalhe, claro. De qualquer modo, enquanto bebia, eu também tentava me convencer de estar fazendo a coisa certa, pois precisava de algum incentivo para dizer a Robert


como me sentia com relação a ele. Porém, vê-lo conversando tão animadamente com Grace não fez nenhum bem ao meu… plano. Sorvi goles generosos, a ponto de esvaziar três taças de champanhe em tão pouco tempo, que senti meu mundo orbitando depressa demais, o que não me impediu de ir até Robert e Grace e protagonizar uma cena de ciúmes que pareceria patética até mesmo aos meus próprios olhos. Ainda assim, por um momento, quando Robert e eu estávamos nos braços um do outro, senti como se nada mais importasse no mundo, porque, afinal, éramos nós dois ali, poderíamos encontrar um modo de fazer as coisas funcionarem, a forma saudosa como seus lábios tomavam os meus me dizia que não havia nada mais certo. Entretanto, nos encontrávamos ali, à espera de Christine dar à luz, muito diferente do modo como eu gostaria de terminar a noite.

As horas pareciam se arrastar, e talvez fosse por Gabriel ainda não ter vindo ao mundo, ou pelo fato de eu querer mais que tudo falar com Robert sobre nosso momento… tórrido antes de sermos interrompidos pelo celular. Eu estava com a consciência aliviada por termos ido ao hospital quando fomos, mas isso não mudava o fato de eu continuar me perguntando como Robert pôde parar o que fazíamos para dar atenção ao seu celular, já que fui incapaz de tal feito. — A senhora Westwood disse que eu posso ir pra casa, porque ela vai ficar aqui com a Chris. Parece que vai ser uma longa noite — Javier contou, sentandose ao meu lado na sala de espera e desferindo um olhar rápido para a roupa que eu usava, fazendo uma careta em seguida. — Espero não ter interrompido nada interessante. Ah, você não faz a menor ideia… — Não. Claro que não — menti, abrindo um sorriso ao segurar uma de suas


mãos, uma vez que conhecia Javier o suficiente para saber que ele não estava nada bem. — Vai dar tudo certo, a propósito. — Eu sei — falou num aceno. — É que… eu queria ficar com Chris. É o meu bebê, Linda. Mas não quero deixar a abuelita sozinha, você sabe, depois de tudo pelo que ela passou… — Deu de ombros, e eu não precisava que ele continuasse para saber aonde queria chegar. — Fique com Christine. Eu vou passar a noite com Eva, só para garantir que vai ficar tudo bem. O sorriso que recebi em resposta ameaçava partir o rosto de Javier ao meio, e ele passou os braços ao meu redor, puxando-me para um abraço. — Você é a melhor amiga do mundo. Obrigado, Linda. — Bobagem — devolvi, mesmo sabendo que estava me custando uma dose elevada de magnanimidade para ignorar o fato de que aquilo implicaria no adiamento da minha conversa com Robert sobre o que aconteceu logo após o coquetel.

— Eu dou uma carona para Lilly. Você vai direto para a casa dos González, Eva precisa descansar, já está tarde. Aquiesci, incomodada com toda aquela distância quando, poucas horas antes, ele estava perdido em gemidos ao mesmo tempo em que me fazia sentir a mulher mais desejada do mundo. — Está tudo bem? — perguntei, na falta de algo melhor que pudesse dizer no intuito de mantê-lo falando. — Por que não estaria? — Robert uniu as sobrancelhas, em confusão. — Porque nós estávamos… — Hesitei, mordendo o lábio, sem saber ao certo como dar voz ao pensamento. — Você sabe… — Olhei ao redor, assegurando-me de que não havia olhares curiosos sobre nós, enquanto


permanecíamos no que chamei de “lugar mais reservado”, aonde levei Robert para explicar que eu precisaria ficar com Eva. — Está tudo bem — garantiu, mas sua expressão não me dava indícios sobre ele estar sendo sincero ou não. — Tem certeza? Porque você está distante desde que recebemos a ligação de Javier avisando sobre Christine, como se as coisas tivessem ficado mal resolvidas e… — Nós fomos interrompidos no momento exato, Linda — ele me cortou. — Você estava bêbada, e eu não me sinto disposto a te ouvir explicar como tudo foi um erro. Ergui as sobrancelhas, pega de surpresa pelo modo como ele via as coisas. Fiz isso uma única vez! Que injustiça! — Uau! — exclamei um tempo depois, pigarreando em seguida. — Eu não estava bêbada — defendi-me, recebendo um olhar escarnecedor em resposta. — Talvez um pouco alterada, sim, mas não bêbada — reconsiderei. — De qualquer forma… pareço bêbada agora? Ele negou em um meneio de cabeça, mesmo não parecendo entender aonde eu queria chegar. Sem rodeios, eu joguei meus braços ao redor de seu pescoço, sem saber de onde surgira a coragem, esmagando meus lábios contra os dele. Houve um breve momento de surpresa onde Robert não soube exatamente como reagir, e antes que ele decidisse se afastar, deslizei minha língua por entre seus lábios, sentindo a calidez do interior de sua boca, o gosto indiscutivelmente maravilhoso de seu beijo. As mãos firmes apertando minha cintura, o peito rígido pressionando meu corpo entregue, a barba por fazer arranhando minha pele e deixando-me arrepiada… o conjunto fez com que um gemido baixo de apreciação escapasse de meus lábios, o qual se transformou num som de desgosto quando Robert interrompeu o beijo. — Aqui não é lugar para isso — ralhou com sua voz rouca, o sotaque que eu tanto amava modelando cada pequena sílaba. Acenei em concordância, entretanto, me inclinei em sua direção e capturei seu lábio inferior com meus dentes antes de sugá-lo. — Tudo bem. Mas nós vamos conversar sobre o que aconteceu, okay? Ele aquiesceu, levando a língua para umedecer os lábios e esfregando o rosto, denotando cansaço. — Vou procurar Lilly — anunciou, dando um passo atrás. — Me deixe saber quando Christine finalmente der à luz. — Sem problemas — devolvi, segurando a vontade de roubar um beijo de boa noite e assistindo a Robert hesitar logo à minha frente, até que, por fim,


pressionou seus lábios contra a minha têmpora, dando-me as costas e indo fazer o que disse que faria. Foi impossível não esboçar um sorriso. E, certo, não era grande coisa, para a maioria das pessoas, mas eu havia aprendido que pequenos gestos de afeto vindos de Robert Blackwell poderiam significar grandes coisas.

Gabriel era enorme, saudável e, se o choro estridente fosse algum indicativo, seus pulmões não poderiam estar melhores. Eu havia convencido Javi a ir para casa e ter algum descanso, oferecendome para ficar com Christine no hospital, uma vez que a senhora Westwood também poderia usar algumas horas de sono. — Ele é tão perfeito — Chris murmurou num suspiro, alisando a cabecinha com fios escuros de cabelo sedoso, iguais aos do pai, ao passo que Gabriel se alimentava do leite materno. — Ai! — deixou escapar, fazendo uma careta de dor e retirando o seio da boca do filho por alguns instantes. — Okay, um pouco menos perfeito agora! Amamentar não é tão divertido na vida real. Eu ri, e Christine me acompanhou. Ela continuou dedicando toda sua atenção ao bebê em seus braços, enquanto eu… bem, eu assistia à cena mais improvável de todas, algo que jamais pensei em ver: Christine Westwood, minha colega de trabalho, alguém que sempre fora fútil, presa aos encantos de uma criança que ela gerara. Tantas coisas haviam mudado no último ano… — É estranho pra mim também — Chris quebrou o silêncio, trazendo-me de volta dos meus devaneios. — Nossa inversão de papéis — elucidou, apontando com o indicador entre mim e ela. — Sempre pensei que seria eu a te visitar no hospital depois de você dar à luz um bebê Blackwell. Meneei a cabeça em concordância, ponderando se as coisas seriam


diferentes para Robert, agora, com a chegada de Matt. Ele não queria ter filhos, e em parte, ou talvez por completo, sua resistência à ideia de ser pai se devia ao fato de ter sido criado por Frederick Blackwell. Entretanto, uma vez que ele se mostrara um tio tão fantástico para Matt e Sofie, a situação poderia mudar. Christine, sem sombra de dúvidas, mudara de ideia com relação à maternidade. E talvez fosse muito cedo para tal afirmação, mas eu sentia que ela seria uma mãe maravilhosa, e estava prestes a dizer-lhe isso quando meu celular tocou e precisei pedir licença para atendê-lo. Já do lado de fora do quarto, eu não estava preparada para a voz que me saudou do outro lado da linha. — Paige? — inquiri estupefata, sem conseguir acreditar que, depois de nosso último encontro, ela seria capaz de entrar em contato comigo outra vez. — Nós precisamos conversar. É importante — continuou, não dando a mínima para o meu possível estado catatônico. Mas o que havia de novo em Paige não demonstrar respeito pelo que outra pessoa estava sentindo? Ainda assim, ela tinha razão num quesito: nós precisávamos conversar. Eu pretendia fazê-la devolver os bens de Robert e não tinha outro jeito de fazer isso, senão marcando um encontro. — Podemos combinar em algum lugar, num outro momento. — Não! — apressou-se em arguir, sua voz saindo urgente através do telefone. — Tem que ser agora! Bufei, incrédula quanto à sua petulância. — Agora não posso. Estou no hospital com uma amiga. Depois eu… — Eu sei onde você está — Paige me interrompeu de pronto. — É também onde eu estou.


Nunca acreditei em coincidências, já que minha vida nunca foi alvo delas. Quiçá ter ido trabalhar para Robert, dado nosso histórico unilateral, pudesse ser considerado coincidência, exceto por eu saber exatamente o que estava fazendo da vida quando me candidatei a uma vaga na R Blackwell. Todavia, depois dos últimos acontecimentos, era possível mesmo que houvesse muito mais coincidências no meu caminho do que pude supor anteriormente. Como o fato de Robert ter atropelado alguém que já nutria sentimentos platônicos por ele, um ano atrás, e eu ser filha da amante do pai do meu marido. Outra coincidência? Eu estar no mesmo hospital onde me propus a ficar para cuidar de Christine, porém, com outra paciente. Paige era bem distinta sem maquiagem. Havia mais linhas de expressão do que se podia notar comumente, e a pele dela estava um pouco mais amarelada do que eu me lembrava. Era uma sensação estranha, e eu não gostava de estar ali, de frente para ela, naquele estado. — Por que me chamou aqui? — decidi perguntar após um silêncio desconfortável. Marc e Luke saíram do quarto, nos deixando a sós, então não havia a opção de um momento em família nem mesmo que um de nós quisesse. E a julgar pela estranheza que causava o fato de estarmos juntos no mesmo cômodo, nenhum de nós queria. — Eu sei que nós iniciamos com o pé esquerdo — Paige começou, ajeitando-se melhor nos travesseiros. Os cachos de seus cabelos, sempre perfeitos, agora pareciam ressequidos e em completo caos. Olhando-a logo ali, era difícil acreditar que éramos mesmo mãe e filha, e não pude evitar de me perguntar se, na verdade, ela não forjou os testes de DNA apenas para atingir Robert. — Mas eu estou doente — prosseguiu, ante meu silêncio. — Pensei que talvez nós pudéssemos nos reconectar, de alguma forma. — Não se pode reconectar algo que nunca esteve conectado antes, senhora Williams. — Por favor, não me chame assim. Se não consegue dizer mãe, pode tentar Paige — sugeriu, e um riso escarninho escapou de meus lábios antes que eu pudesse fazer qualquer coisa para impedir. Eu me lembrava das palavras dela sobre a Wood Business estar afundando, além disso, Daniel McAuley confirmara a situação. Eu não precisava ser um gênio para saber o rumo daquele diálogo. — Se acha mesmo que eu vou intermediar qualquer conversa sua com Robert, está muito enganada.


— Eu não me importo nem um pouco com Robert Blackwell ou com o fato de vocês dois estarem desfilando por aí como o casal feliz que não são — contraatacou, repuxando os lábios no que deveria ser um sorriso. — O quê? — testou, zombando de minha expressão surpresa. — Estou doente, não morta. — O que estou fazendo aqui, então? Por que me chamou? — insisti, a um único passo da exasperação. — Se não é dinheiro, o que você quer? — Preciso de um doador — ela me interrompeu, contudo, seu olhar não estava sobre mim. Inclinei-me para frente, os cotovelos fincados em minhas coxas enquanto eu ponderava sobre ter escutado certo ou tido alucinações. — Quê? Ela exalou o ar com força, pouco feliz em ter que repetir o que dissera, aparentemente. — Preciso de um doador — tornou a dizer, decidindo fitar-me. — E antes que você diga qualquer coisa, saiba que não estaríamos aqui se Marc ou Luke fossem compatíveis. Permaneci estática, provavelmente por tempo demais, sem entender — ou talvez não desejando fazê-lo —, aonde Paige queria chegar. — Sinto muito — foi o que consegui dizer, engolindo o nó que se formara em minha garganta. — Que bom — ela falou e, pela primeira vez, me pareceu sincero. O ar escapou de seus lábios através de um suspiro trêmulo, e Paige trouxe seu olhar para mim logo em seguida. — Porque preciso que seja você a me doar parte do fígado. — Oi? — inquiri duvidosamente, franzindo o cenho numa careta de estupefação. — Você não pode estar falando sério. — Mas estou — retorquiu, empinando o nariz, do mesmo modo que eu costumava fazer quando queria parecer altiva, e, por dentro, me sentia diminuir a cada novo olhar recebido. — Você é minha última esperança, Melinda. Até agora… não houve nenhum doador compatível e eu não aguento esperar muito mais. Preciso que você faça os exames de compatibilidade. Minha boca se abriu em “O”, e não me preocupei em evitar que Paige soubesse o quanto aquela conversa toda me parecia absurda, e de tantas formas diferentes que eu estava tendo dificuldade até mesmo em enumerá-las. No entanto, o fato era que aquilo significava que o teste de DNA não fora forjado, o que me trazia uma ponta de tristeza ao peito. Por outro lado, aparentemente, eu tinha algo de que Paige precisava, ao passo que ela estava em posse de algo que não era seu por direito e que, coincidentemente, eu estava tentando reaver. Parecia loucura, era bem verdade, porém, que escolha eu tinha? Como conseguiria negociar com ela de outra forma?


Eu sabia que era extremo, ainda assim, apesar do medo crescente, não conseguia sentir dúvidas sobre o que estava prestes a dizer. — Eu não tenho motivos para te ajudar, Paige. — Ela abriu a boca para me interromper, contudo, fui mais rápida: — A menos que você esteja disposta a barganhar.


Eu segurava com ambas as mãos as implicações do teste de compatibilidade com Paige, encarando o resultado positivo, e era quase impossível manter algum pensamento coerente sobre o que me propusera a fazer. Pareceu-me muito lógico no momento, uma troca justa, contudo, o pavor crescente em meu peito não podia ser contido. Inalei o ar com força, a fim de encher meus pulmões o máximo que pude, e tentei acalmar o tremor que se apossou de minhas mãos, sentando-me na cama do quarto que vinha ocupando na casa de Robert. Compatível… compatível… compatível… A palavra estava em loop em meus pensamentos, e, ainda que eu quisesse desviar minha atenção, não poderia. Concordei em ser a doadora de que Paige precisava no ímpeto, quando ainda havia uma pequena parte minha que duvidava que nós ao menos teríamos alguma relação consanguínea. Porém, não poderia estar mais equivocada. Paige era mesmo a mulher que me abandonou à porta de um orfanato, tantos anos atrás, e nunca se arrependeu. Talvez eu devesse manter isso em mente quando minha consciência pesasse por eu ter concordado com o transplante apenas no caso de ela devolver os bens de Robert. Ainda me lembrava de sua expressão de horror. Os lábios entreabertos, as sobrancelhas franzidas enquanto ela piscava demoradamente, checando se entendera bem. — Este é um caso de vida ou morte, Melinda! — ela dissera, atônita. — Não é uma brincadeira. Eu estou morrendo! Consegue entender isso? Estou morrendo! Engoli o caroço que se formou em minha garganta, não sem alguma dificuldade, tentando ignorar a sensação de sordidez que me assolou quando condicionei a sobrevivência de Paige à herança da família Blackwell. — Sendo assim, acho que você tem que medir sua vontade de continuar vivendo, Paige — foi o que lhe respondi, e as palavras pareceram pegá-la desprevenida, pois ela me encarou como se não me reconhecesse.


E quem poderia culpá-la? Não se pode conhecer alguém 25 anos após tê-lo abandonado à própria sorte. Ao menos não no que dizia respeito a Paige e a mim.

— Você consegue acreditar que em menos de duas semanas faz exatamente um ano que você veio até aqui, pela primeira vez? — Lizzie perguntou, mergulhada nos preparativos finais para a festa de aniversário de Sofie. Nós permanecíamos à mesa e ela degustava mais um dos biscoitos que eu trouxera para o lanche da tarde. Ela me lançou um sorriso ao passo que Matt ressonava tranquilo em meu colo, já que eu me recusara a colocá-lo no berço após ele ter pegado no sono. Têlo ali me trazia tanta paz, algo de que eu definitivamente precisava, graças a todo o estresse do meu acordo com Paige. A pior parte era ser obrigada a guardar segredo, esconder de todos minhas idas furtivas ao hospital para checar o estado de saúde de Paige e também o meu próprio — a fim de marcarmos a cirurgia —, porque, desse modo, não havia ninguém com quem eu pudesse desabafar quando as dúvidas e o medo sobrepujavam minha confiança de que aquilo era o certo a se fazer. E, tudo bem, nunca me imaginei como alguém que tivesse medo de hospitais, contudo, me sentia tremer a cada vez que pensava na anestesia, na incisão, no pós-operário e no fato de… — Linda! — Lizzie pronunciou com urgência, arrancando-me dos meus devaneios de supetão. — Oi! — devolvi em sobressalto, limpando a garganta antes de continuar: — Estou bem aqui. — Não parecia — ela falou divertida, inclinando-se em minha direção, por sobre a mesa. — Mas eu perdoo a ausência se você tiver me ignorado para sonhar acordada com o meu irmão.


Rolei os olhos teatralmente para ela, porque não importava quantas vezes eu dissesse o contrário, Lizzie sempre iria acreditar que Robert e eu estávamos juntos de novo. O que não era verdade, nem de longe. Nosso momento abrasador foi completamente eclipsado pela minha rotina louca no meu emprego desgastante, as idas frequentes ao hospital e pela volta de Robert à empresa. Ele reassumira seu ritmo frenético no trabalho, e meus pedidos de “vá devagar” eram sempre refutados com algo como “estive parado por tempo demais para me permitir ir devagar justo agora”. — De fato, sonhar com ele é a única coisa que posso fazer — admiti, murchando os ombros. O semblante de Lizzie esmoreceu, e ela cruzou os dedos sobre o tampo da mesa, tombando a cabeça para um lado a fim de fitar-me melhor. — Por quê? O que houve? — Nada. Ele ergueu uma das sobrancelhas para mim, exatamente como Robert costumava fazer quando não acreditava no que eu estava dizendo, numa expressão pirrônica. — Falo sério — defendi-me. — Não aconteceu nada. Nós mal nos vemos, desde que ele voltou a trabalhar. Esse é o problema. — Vocês ainda não se acertaram, não é? Neguei num meneio de cabeça, recebendo de Lizzie um suspiro e um olhar condoído. — Às vezes eu acho que nós nunca vamos nos acertar — confessei, sentindo um aperto no peito que incomodava bem mais que qualquer outra coisa pela qual eu pudesse estar passando no momento. — Ei! — Lizzie exclamou numa falsa reprimenda, levantando-se e vindo se sentar ao meu lado. Escondi os olhos marejados ao fitar Matt, ressonando tranquilo e aconchegando-se mais a mim. — Não diga isso. Eu sei que vocês se amam. Essa história não tem como terminar mal, ouviu? Aquiesci, movendo a cabeça, querendo mais que tudo acreditar naquilo, por mais difícil que fosse. — Agora me prometa que vai falar com Eva e que vocês vão se encarregar da comida da festa, porque eu amei todas as coisas que provei no seu aniversário surpresa — ela disse de forma cúmplice, arrancando-me um sorriso. Eu não estava feliz, mas ali, com Lizzie e Matt, tive um momento feliz.


— Espero que esteja feliz — Marc falou mal-humorado ao me entregar os documentos que asseguravam a Robert sua herança, e, a Paige, parte de um fígado em perfeito estado para ajudá-la na luta contra a hepatite autoimune. — Ainda acho um erro te entregar o que quer quando minha mãe ainda não recebeu o que lhe foi prometido. Não confio em você. Aquele era o nosso primeiro diálogo de verdade, e não começara nada bem. Eu pensei, por um momento, que, talvez, independente da minha relação com Paige, ele, Luke e eu pudéssemos tentar alguma aproximação. No entanto, eu, claramente, havia arruinado qualquer resquício de chance de isso acontecer pelo próximo século, e tudo o que restara era a estranheza de conversar com meu meio-irmão como se ele não passasse de um estranho. — Sinto muito por isso, Marc. Mas a cirurgia já está marcada para amanhã, e eu não… — Não tem a menor compaixão? — cortou-me de pronto, soltando um riso de esgar. — Eu consigo ver isso. Neguei com um meneio de cabeça, sem saber ao certo o que dizer para melhorar a situação. — A mansão Blackwell e as ações da Wood Business são algo que cabem a Robert, e você sabe, caso contrário, Frederick as teria deixado para vocês, não acha? Ele soltou o ar com força pelo nariz, balançando a cabeça de um lado para o outro, em descrença. — Sabe o que é engraçado? — Era uma pergunta retórica. — Robert menospreza tanto Frederick, e acabou se casando com alguém ainda pior que ele, capaz de negociar com a vida de uma pessoa doente! — Marc… — Se você acha que meus pais são monstruosos, deveria se olhar no espelho com mais frequência, senhora Blackwell — cuspiu, pronunciando o vocativo


como se lhe causasse asco. E eu não poderia me sentir mais solidária no que dizia respeito a Robert. Mesmo numa relação inexistente, como a minha e a de Marc, era indizivelmente incômodo despertar tamanha repulsa em alguém. Tentando ignorar a sensação ruim e crescente dentro do peito, assisti a Marc entrar no quarto de Paige, que se recusara a me entregar pessoalmente os documentos onde retornava a herança de Robert para ele.

Segurando o envelope de papel pardo nas mãos, eu não via a hora de poder dar a boa notícia a Robert. Eu recuperara seus bens, todavia não era o mérito — se é que poderia ser chamado desse modo — que me alegrava, e sim o fato de eu poder vislumbrar seu semblante quando ele se desse conta de que tudo pelo que lutara era finalmente seu e jamais deixaria de ser. Como eu estava ciente de nossa rotina louca, eu lhe enviei uma mensagem através do aplicativo, perguntando se poderíamos jantar juntos, porque havia algo importante que eu gostaria de lhe dizer. A resposta só chegou horas mais tarde, porém, a tempo de eu passar no supermercado, na volta do trabalho, e comprar algumas coisas que eu queria para o jantar. Preparei seu prato favorito, esforçando-me para que tudo saísse perfeito. Talvez, quando eu entregasse a Robert o que havia lhe prometido, ele fosse capaz de perceber que minha estadia ali nada tinha a ver com uma possível dívida, mas, sim, com o fato de eu me importar com ele genuinamente. Quando ele chegou em casa, bem depois do que eu esperava, foi direto para o banho e demorou muito mais do que faria normalmente. Estranhei, contudo não me atrevi a ir à sua procura. Em vez disso, coloquei a mesa do jantar e… esperei sentada. Literalmente. De acordo com o rumo que nossa conversa tomasse, quem sabe eu não


poderia falar com ele sobre o transplante? Okay, talvez não fosse uma boa ideia, já que, provavelmente, ele gritaria coisas sobre como aquilo era um absurdo e que eu não deveria me submeter a algo assim. Todavia, eu já dera minha palavra, não podia voltar atrás, certo? Por mais que Paige fosse um ser humano horrível, ela ainda era um ser humano, e eu não tinha o direito de fazê-la cultivar esperanças apenas para arrancá-las de forma tão brutal. Além do mais, eu já vinha mantendo segredo por alguns dias, e uma vez que a cirurgia fosse realizada, não haveria nada mais que Robert nem ninguém pudesse fazer. Eu manteria minha palavra com ambas as partes, e essa era a atitude correta a tomar. Porém, quando Robert adentrou a cozinha, com expressão sisuda e distante, perguntei-me se agregar mais um segredo à nossa lista já imensa de coisas que mantínhamos em sigilo do outro seria uma boa ideia. — Está tudo bem? — quebrei o silêncio, uma vez que, a julgar por sua expressão, ele não o faria. — Desculpe o atraso — retorquiu, sentando-se à mesa à minha frente e servindo-se de um copo generoso de suco de laranja. — Fiquei preso no trabalho, surgiu uma viagem de última hora e eu precisava deixar algumas coisas em ordem antes de ir. — Viagem? Quando? — Hoje mesmo. Eu estava lá em cima fazendo a mala, por isso me demorei um pouco mais. Anuí com um gesto de cabeça, todavia, por algum motivo, senti uma compressão no peito, como se a viagem de Robert trouxesse implicações com as quais eu não gostaria de lidar. Era certo que eu não queria ficar longe dele e que planejava falar sobre o transplante de Paige assim que fosse realizado, porém, eu não acreditava que o mau pressentimento se tratava apenas disso. Tinha a ver com a expressão compenetrada de Robert. — E quando você volta? — arrisquei-me a perguntar, ainda que com certa hesitação. — Dentro de duas semanas. — Mas e o aniversário de Sofie? — Lizzie vai entender — assegurou, sorvendo um gole de suco sem dar indícios de que se serviria com o jantar. — Passei tempo demais afastado, tenho uma empresa para comandar, não posso me dar ao luxo de simplesmente diminuir o ritmo. — Robert, isso não é um luxo! — protestei, com um quê de aborrecimento na voz. — É da sua saúde que estamos falando. Você se esqueceu de que teve um ataque cardíaco?


— Por acaso você me deixa esquecer? — escarneceu, e, por mais que eu tentasse, não fui capaz de entender sua reação. Eu quis arguir, contudo, se o fizesse, nós teríamos uma longa e infrutífera conversa, e não era isso o que eu tinha em mente. A noite já não seria como imaginei, eu necessitava me esforçar para que, ao menos, ela não fosse completamente arruinada. — Não quero discutir com você — cedi, preparando-me para servi-lo de um pedaço de lasanha. Entretanto, Robert deteve meu movimento, indicando que não queria. — Não vai comer? — Franzi o cenho. — Comi qualquer coisa antes de sair da empresa, não tenho tempo para jantar, tenho que ir para o aeroporto, só me sentei porque você disse que queria conversar. Abri um sorriso falso, na tentativa de fazer com que parecesse verdadeiro e, provavelmente, falhando. — Me dê só um minuto — pedi, levantando-me e indo até a sala de estar, onde deixara a documentação que pretendia entregar a Robert. Diferente do que requeri, ele me seguiu, e não deixei de notar também sua mala ao pé das escadas, por isso engoli em seco. — Aqui — eu disse, virando-me em sua direção e estendendo-lhe o mesmo envelope de papel pardo que Marc me dera, mais cedo. — O que é isso? — questionou, unindo as sobrancelhas e apressando-se a tomar os papéis da minha mão. Nem sequer tive que encorajá-lo a abrir, pois ele o fez de pronto. Esperei ansiosamente pelo momento em que me deleitaria com sua expressão no instante em que se desse conta do que tudo aquilo se tratava. Mordi o lábio, apreensiva, enquanto ele corria os olhos pelos documentos. O que recebi como resposta foi um cenho franzido e, então, maxilar trincado. Seus olhos buscaram os meus, e pareciam mais endurecidos do que estavam antes. — Eu já te disse, Linda, mas vou repetir: não tenho interesse na Wood Business e tampouco na mansão Blackwell — foi o que ele falou por fim, quando eu já estava prestes a quebrar o silêncio, deixando escapar um suspiro exausto ao mesmo tempo em que depositava os papéis que eu lhe entregara sobre a mesinha de centro. — Tenho minha própria companhia para administrar, funcionários que dependem do meu bom desempenho profissional. Este apartamento é grande o bastante para mim, confortável, exatamente o que eu necessito. Foi inconsequente, estúpido e imaturo me casar com você por uma herança, Linda, e, sim, eu deixei Frederick manipular minha vida a esse ponto, mas já chega. Paige quer os bens? — Deu de ombros, enfiando as mãos nos bolsos de sua calça social. — Honestamente, ela precisa bem mais deles do que eu.


— Mas… — Busquei as palavras, sem sucesso, demasiado aturdida para conseguir elaborar uma objeção decente. Por isso suguei uma longa lufada de ar, tentando ganhar tempo antes de prosseguir: — A mansão da sua mãe. A casa onde Lizzie cresceu… — Minha mãe… — ele me cortou — se casou por uma questão de negócios. Ela não iria querer o mesmo para mim. Ou para você. — Ela não me conhecia — eu o lembrei, numa espécie de protesto, mesmo sem saber por que o fizera. — Ela nunca desejou o mal de ninguém — retorquiu, levando uma das mãos até o rosto, esfregando-o e parecendo fatigado ao extremo. — Eu não sei o que você fez para conseguir com que sua mãe assinasse esses papéis, Linda, todavia, não faz diferença. — Genitora — eu o corrigi, cerrando os punhos ao lado do corpo e trincando os dentes. Robert sabia que eu não gostava que se referissem a Paige como minha mãe. Não era isso que ela significava para mim. Ele esboçou um sorriso sardônico, exalando o ar com força, em incredulidade. — Vá para casa, Linda — ele devolveu no lugar do que deveria ser um pedido de desculpas, e nenhuma outra reposta poderia ter me deixado mais embasbacada do que eu me encontrava naquele momento. Eu estava estática, sem acreditar no que ele acabara de dizer, as pernas parecendo pesar toneladas, de modo que eu não poderia me mover um mísero milímetro sequer. Pisquei demoradamente algumas vezes, buscando me situar, sem saber como aquela conversa seguira tal rumo. — Quê? — eu disse por fim, quando encontrei minha voz, pega de surpresa. — Isso — ele falou, apontando com o dedo indicador de mim para ele — não está funcionando. Você vivendo aqui… não é certo. Além do mais, é o único jeito de nós dois seguirmos em frente e deixarmos toda essa confusão de lado. Chega de sustentar um casamento de aparências. Eu estou cansado. Você não? Ofeguei em surpresa, as palavras atingindo-me como um golpe no estômago. Cambaleei, dando um passo atrás e buscando apoio no espaldar do sofá, a primeira coisa que achei pela frente onde poderia me sustentar. — Paige não quer a casa — balbuciei, incoerente, sabendo que aquilo não tinha nada a ver com o tópico abordado agora. Ainda assim, era meu dever retomar o assunto que, de algum modo, nos levou até ali. — É dispendiosa — prossegui, tentando fazer minha voz soar firme e falhando miseravelmente. — Além do mais, ela não sabe administrar a empresa, quer voltar ao arranjo antigo, onde recebe apenas uma parte dos lucros e…


— Linda — Robert chamou, interrompendo minhas meias-verdades —, eu não quero nenhuma dessas coisas — reiterou. — É dela. Absolutamente tudo. Paige pode vender a casa e as ações, ao menos parte delas; contratar uma junta administrativa, conversar com McAuley sobre as possibilidades… Eu não quero ter nada a ver com isso — concluiu, falando tão compassadamente que era quase como se estivesse lidando com uma criança. — Mas… Robert, é tudo seu — protestei, correndo o risco de soar repetitiva, cética por ele ignorar algo de suma importância. — Como eu prometi, lembra? — instiguei, forçando um sorriso que não convenceu a nenhum de nós dois. — Eu sei — assentiu, meneando a cabeça. — E eu agradeço. De verdade. No entanto… — Titubeou. — Nós merecemos mais que isso — soltou num suspiro cansado. — Depois de tudo pelo que passamos, definitivamente merecemos bem mais. — O que quer dizer, realmente, com isso, Robert? — gaguejei, incoerente, porque eu não carecia ser um gênio das sinapses para entender nada daquilo. — Que quero que você vá para casa. Para a sua casa — retorquiu pausadamente, e não havia o mais remoto sinal de arrependimento em seu olhar. — É o melhor a se fazer, Linda, para os dois. Eu não queria, contudo, senti as lágrimas ardendo em meus olhos e fiz o melhor para disfarçá-las, o que ainda não era bom o bastante. — Robert… — O problema é que nunca tivemos um desfecho — ele me interrompeu, e engoli em seco, tentando fitá-lo e tendo a tarefa dificultada pelas lágrimas espessas. — Então vamos nos fazer esse favor e colocar um ponto final. Nada de vírgulas ou reticências. Um ponto final de verdade. Inarticulada, permaneci muda, petrificada, catatônica. Uma bagunça emocional, pensamentos incoerentes e frenéticos fazendo minha cabeça latejar e meu peito se apertar. Ele não poderia estar falando sério! Era impossível que estivesse! — Leve seu tempo para arrumar as coisas e organizar sua mudança — Robert voltou a falar quando não consegui fazê-lo. — Não estou te dando uma ordem de despejo, e você não tem que fazer nada às pressas. Se precisar de ajuda, só me deixe saber. Você tem esse talento para fazer tudo de um jeito eficaz e instantâneo, mal consigo acompanhar — gracejou, abrindo um sorriso que talvez tenha tocado seus olhos, mas não busquei checar. — Ainda assim… — Nós nos beijamos — consegui dizer, por fim, depois do que me pareceram horas. — Bem ali. Naquele piano — continuei, apontando para o local em questão. De forma automática, Robert olhou de relance naquela direção. —


Nós quase fizemos amor alucinadamente e cada segundo foi bem real pra mim. Você, por acaso, estava fingindo? Arrependime da pergunta assim que a fiz, porém, era tarde demais para voltar atrás. Robert meneou a cabeça, em negação, parecendo ter sido pego de surpresa pela minha pergunta. A mão esquerda — já livre da aliança, notei com pesar — esfregou seu rosto, denotando o cansaço emocional e insatisfação presentes em cada um de seus poros, por ter-me redarguindo, e o gesto fez meu coração se apertar. — Eu não disse que não havia atração — objetou. — Mas você sabe, melhor que ninguém, que isso não é o suficiente para que duas pessoas possam dividir uma vida. — Você disse que me amava… — eu o lembrei, e, se minhas vistas embaçadas não estivessem me traindo, Robert se pôs hesitante e pouco confortável. Ainda assim, não retorquiu, por isso eu continuei: — Você disse que me queria de volta. Ele aquiesceu uma vez, erguendo as sobrancelhas do modo que sempre fazia quando escutava algo inesperado. Então enterrou uma das mãos em seus cabelos sedosos, maltratando-os, para logo após apertar a ponte de seu nariz entre o indicador e o polegar, como se ganhasse tempo. — Não importa como costumávamos nos sentir pelo outro, Linda. Importa como nos sentimos agora — pontuou, e se havia um incômodo em meu peito antes, agora, era como se ele tivesse sido transpassado por um objeto pontiagudo. “Costumávamos nos sentir…”, ele dissera, e o uso do verbo no pretérito não passou despercebido. — Foram tantas coisas, ditas e não ditas. Nós nos ferimos simultaneamente, deixamos feridas abertas, e nenhum relacionamento saudável pode nascer de algo conturbado a esse ponto. — Então você está terminando comigo… — concluí, porque, por mais doentio que pudesse parecer, eu necessitava ouvi-lo dizer com todas as letras que já não me queria mais. — Não havia nada para terminar, de fato — retorquiu, retorcendo o objeto pontiagudo alojado em meu coração e me machucando um pouco mais. — Eu não queria que estivéssemos tendo essa conversa agora. Tenho que ir para o aeroporto e não queria deixar nenhum mal-entendido, mas não posso demorar muito mais — anunciou, dando-me as costas enquanto ia até as escadas e apanhava sua mala. E eu o teria deixado ir embora, não fosse o fato de que havia coisas demais que ele devia saber sobre mim, sobre nós. Ele não poderia simplesmente desaparecer quando eu estava engasgando em sentimentos que jamais puderam ser ditos em voz alta. Eu estava farta de ter que camuflá-los, e ainda que não fossem


correspondidos, eles precisavam ganhar voz. E não haveria outro momento, senão aquele. — Espera! — exigi com minha voz trêmula, o que fez com que Robert se virasse para me fitar. — Você disse o que queria, agora é minha vez. — Sinto muito, Linda, mas não tenho tempo — falou com pesar. — Melhor eu ser rápida, nesse caso — contrapus, determinada a dizer-lhe todas as coisas que vinha guardando para mim mesma nos últimos tempos. Ainda sentindo as pernas fraquejarem, arrisquei um passo pequeno em sua direção, e depois outro, até que estivéssemos frente a frente outra vez. Perto o bastante para que eu pudesse alcançá-lo com meu toque, mas a anos-luz de distância emocionalmente. Eu o encarei, fitando-o fundo na imensidão esverdeada que eram os olhos dele, os quais aprendi a amar do modo mais abnegado possível, sem jamais esperar nada em troca. — O que eu sentia por você… não morreu. — Franzi o cenho, porque não havia sido articulada como desejava. Eu carecia de palavras que o fizessem entender exatamente como eu me sentia, sem dar aberturas para interpretações errôneas. — Nunca senti tanto medo na vida quanto no dia em que te vi tendo um ataque cardíaco bem à minha frente — prossegui, quando ele deu indícios de que iria atalhar. — Eu pensei que perderia para sempre o único homem que já amei na vida. O homem que ainda amo — corrigi, sem deixar margem para dúvida. — E, não, nunca senti nojo de você. E eu só disse isso porque estava descontrolada, machucada e queria te ferir na mesma proporção que fui ferida. E a verdade é que a única razão para o testamento ter doído tanto era porque… — Vacilei, tomando uma lufada generosa de ar, sem me importar com as lágrimas teimosas que terminaram por verter. Eu as enxuguei de qualquer jeito, não por não desejar que Robert as visse, e sim para tirá-las do caminho, no intuito de mirá-lo do melhor modo possível. — Eu não me apaixonei por você quando nos conhecemos — confessei, numa voz pequena, mas tinha que continuar. Era justo que ele soubesse. Eu já havia mantido segredo por tempo demais e era desgastante ser obrigada a mascarar sentimentos justo em frente à pessoa que os fazia fervilhar. — Não foi o seu charme ou persistência que me ganharam. Meu coração já era seu há muito mais tempo. Fiz uma pausa, para deixá-lo absorver a notícia, e ele estreitou seus olhos em minha direção. — Não estou entendendo… — No orfanato — elucidei, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha, seu olhar em mim. — Quase uma década atrás, quando eu ainda vivia lá. Eu


encontrei a matéria falando sobre seu ato filantropo e recortei sua foto do jornal. Robert ergueu as sobrancelhas, boquiaberto, e então fechou os olhos por um momento ou dois, para tentar digerir a informação. — Soa bem menos mórbido na minha cabeça — defendi-me, com uma risada infeliz. Como eu conseguia ser tão patética? — Mas o ponto é que sou apaixonada por você desde quando consigo me lembrar. — Dei de ombros, num gesto casual que não condizia com o que eu acabara de dizer. — Quando você me beijou foi… — Tentei encontrar o melhor modo de descrever a sensação, entretanto, foi inútil. Não havia palavras que fizessem jus àquele sentimento. — Eu não podia me permitir ter um vislumbre de algo que sempre almejei e que jamais seria meu — decidi dizer. — Eu fugi de você, da sensação… até meus pulmões arderem — admiti, lembrando-me de como cheguei em casa esbaforida naquela noite por ter corrido como se não houvesse amanhã. — Eu não sei o que dizer — Robert soltou numa voz vacilante que lhe era atípica. Bem, ao menos ele não parecia aterrorizado com o fato de eu ter me descrito como uma stalker adolescente. — Você não precisa dizer nada — assegurei, dando ênfase com um meneio de cabeça. — Não estou dizendo nada disso para que você volte atrás na sua decisão. Eu sei, melhor do que ninguém, que nossos sentimentos estão fora do nosso controle. O motivo de eu estar te contando todas essas coisas é porque sempre quis que você fosse honesto comigo, mas eu não estava sendo honesta com você. Não sobre tudo. Talvez, se eu tivesse contado a verdade, as coisas poderiam ter sido diferentes — ponderei, ainda que fosse em vão pensar em possibilidades que jamais se concretizariam. Nós nos encaramos por alguns segundos, que mais pareceram horas, o que não fazia sentido algum, pois eu acabara de dizer a Robert que não esperava que ele me dissesse nada, porém, a verdade era o oposto a isso. — Sinto muito pelo testamento, Linda — ele falou, cortando o silêncio do modo mais improvável possível. — Nunca foi minha intenção te machucar. Aquiesci, levando as mãos para enxugarem as novas lágrimas que se formaram, e também a coriza, sem me preocupar em ser delicada. Eu acabara de expor meu coração dilacerado, o que poderia ser pior que isso? — Eu s-sei — gaguejei, graças ao choro que ameaçava irromper por minha garganta a qualquer minuto. — Por experiência própria. Também nunca foi minha intenção te machucar. Mas nós fazemos coisas estúpidas sem querer. — Respirei fundo, tentando me acalmar, porque ainda havia uma última coisa que eu precisava que Robert soubesse antes de eu poder me refugiar em algum lugar e me entregar à dor em meu peito. — Você se lembra de como costumava dizer que eu


era uma das pessoas mais inteligentes que já conheceu? — instiguei, tentando sorrir, porém foi um intento miserável. Robert acenou uma vez, um movimento de cabeça quase imperceptível, todavia existente. — Bem, você estava enganado. — Dei de ombros, para fazer parecer que aquela informação não era nem um pouco importante, mesmo sabendo que aquilo não poderia estar mais longe da verdade. — Eu sou uma boba. No seu escritório, quando você disse que me amava e que faria qualquer coisa para me provar, sabe o que eu deveria ter dito? — Era uma pergunta retórica, e Robert sabia, por isso não esboçou reação alguma além de me fitar. — Eu também — articulei por fim, e, pode ter sido só impressão minha, contudo, eu poderia jurar que vi algo especial cintilar nos olhos dele enquanto Robert assistia a mim feita em caos logo à sua frente. — Eu deveria ter te pedido para me levar pra longe dali. Só nós dois, para um lugar sem Paiges, Fredericks, testamentos ou Susans. Mordi o lábio, para impedir seu tremular. Talvez houvesse mais coisas que eu necessitasse dizer, mas não consegui pensar em nada além do fato de que aquele era o fim irrevogável de qualquer relacionamento que pudesse existir entre nós dois. Não havia volta. Não sobrara nada para tentar salvar, e eu sabia que fui a pessoa que tornou tudo em cinzas com minha teimosia. — Eu… — ele começou, no entanto logo se deteve. Seus olhos estavam injetados. Brilhantes, até, porém, não me ocupei em tentar decifrar o que seu semblante enternecido poderia significar. Eu não me daria esperanças para tê-las arrancadas de mim um segundo depois. — O que você quer que eu diga? — Nada — menti num suspiro trêmulo, tão baixo que nem mesmo estava certa de que ele ouvira, odiando que até mesmo minha respiração estivesse fora de controle. Eu queria que ele dissesse que me amava, entretanto, se eu tivesse que dizer-lhe isso, então não valeria a pena escutar. — Não espero que você diga nada, porque isso não muda os fatos — reiterei para mim mesma. — Eu vou empacotar minhas coisas assim que puder, você tem a minha palavra. Quando você voltar, o apartamento já vai estar desocupado e vou ter deixado a chave com Lizzie — prometi, forçando um sorriso que, obviamente, só deixava transpassar sofrimento. — Linda… — Você tem um voo para pegar — atalhei, tentando parecer menos destroçada do que realmente estava. — Faça uma boa viagem, Robert — desejei, saindo dali e subindo as escadas o mais rápido que minhas pernas trêmulas conseguiram, incapaz de desejar-lhe toda a felicidade do mundo sem desmoronar à sua frente, por saber que eu não estaria lá para testemunhar sua alegria e dividila com ele.


Mais lágrimas vieram, nublando minha visão, banhando meu rosto abundantemente ao passo que eu procurava por um lugar isolado onde pudesse extravasar toda dor e aflição comprimindo meu peito. Eu sabia que já deveria estar acostumada à sensação, mas enquanto deslizava pela porta fechada do quarto que vinha ocupando nas últimas semanas, eu não conseguia me lembrar de alguma vez que já tivesse me machucado tanto. Vinha de dentro para fora, como se a dor rasgasse meu peito com suas garras afiadas, buscando escape, e por mais que ela abrisse e dilacerasse, parecia nunca ter fim. E, ali, encolhida, em posição fetal, eu simplesmente parei de tentar me sentir menos miserável, pois aquela sensação era a única constante que eu já tivera em toda a vida.


Eu sabia bem dos riscos que envolviam o transplante, assim como o motivo de decidir correr todos eles. Era um plano bem simples: eu seria a doadora de que Paige necessitava, ela devolveria os bens de Robert e aquele consistiria em mais um passo rumo ao nosso acerto. Todavia, ao fazer meu caminho até o quarto onde Paige estava, esperando pelo momento do transplante, eu desconhecia a força que fazia com que minhas pernas se movessem. Minhas olheiras estavam severas, e não me preocupei em escondê-las. Meus olhos estavam inchados, meu semblante, abatido, mas tampouco liguei em mascarar nada disso. Todas essas coisas eram efeito da minha noite deplorável, e eu não iria colocar curativos inúteis nas minhas feridas enquanto elas ainda sangravam. Encontrei Marc e Luke na sala de espera, assim que cheguei, porém não despendi muito mais que um aceno na direção dos dois. O gesto não possuía nenhum significado especial, era só o que eu faria caso encontrasse qualquer outro conhecido. Eles, por sua vez, me ignoraram, não fazendo a menor questão de esconder o quanto repudiavam a atrocidade que eu fizera com sua família em seu momento de maior desespero. De tal modo, segui meu caminho, adentrando o quarto de Paige, que pareceu ansiosa demais ao me ver. — O que houve? O que você faz aqui? Não deveria estar se preparando para


ir para o centro cirúrgico? — despejou de uma só vez, alarmada, sentando-se na cama, no processo. — Já estou indo — prometi, mesmo sem saber por que o fazia. Qual era o propósito, afinal? — Só passei pra ver como você estava. O médico sugeriu. Não era uma mentira. Ele supôs que eu fosse querer ver “minha mãe” e, para todos os efeitos, esse era o papel ocupado pela mulher à minha frente. — Que tolice. Como acha que estou? Carente de um fígado saudável, é óbvio. Em outras circunstâncias, eu teria rido, ainda que fosse por puro ceticismo. Mas não ali, naquele momento. Meus lábios pareciam atrofiados naquela posição séria e era difícil movê-los até mesmo para falar. Fitando Paige, eu me perguntei o que havia de tão errado comigo por não ser capaz de despertar amor na pessoa que deveria me defender com unhas e dentes e amar acima de todas as outras coisas. Eu entendia o fato de ela não ser maternal. Christine não era nada maternal quando nos conhecemos. Ainda assim, quando ela soube da gravidez, após o pânico inicial, ela não cogitou abandonar seu bebê à porta de um orfanato, sem a certeza de que alguém o encontraria a tempo e asseguraria que ele sobrevivesse. Porém, Chris tinha Javi, e talvez um pai fosse o fator decisivo que faria Paige lutar por mim ao menos um pouquinho. Tendo isso em mente, não consegui impedir meus lábios de pronunciarem as palavras que eu vinha remoendo. — Por que não me entregou para o meu pai, em vez de me deixar no orfanato? Paige me encarou, os lábios abrindo-se devagar no seu melhor sorriso presunçoso, até que ele se transformou em um riso contido. — Eles já começaram a administrar medicações em você? — escarneceu, o sorriso zombeteiro chegando até seus olhos. Ignorei seu comentário maldoso, engolindo a saliva com dificuldade enquanto ajeitava minha bolsa a tiracolo sobre o ombro. — É uma pergunta séria, Paige. Por que nunca fala dele? Por que mantém a identidade dele em segredo? Você sabe quem ele é, você mesma disse que eu me pareço com a minha tia, Isabel — eu a lembrei. — Só me diz quem ele é — praticamente implorei. — Eu preciso mesmo saber. — Não — redarguiu, enfatizando o que dissera num meneio de cabeça. — Você não precisa. — É meu direito saber! — Seu direito? — ridicularizou, erguendo os cantos dos lábios. — Não comece com absurdos, por favor!


— Mas que droga! — esbravejei, jogando as mãos para cima num claro sinal de exasperação. — Será possível que você não pode, nem por um momento, colocar os seus sentimentos de lado, Paige? Eu estou a ponto de deixar que segmentem um dos meus órgãos para salvar a sua vida, ao mesmo tempo em que arrisco a minha, e você não tem a decência de responder uma simples pergunta? — Você não está me fazendo um favor! Nós temos um trato, esqueceu? Porque eu, não! — devolveu, mordaz. — Bem, então considere essa maldita pergunta como parte do trato! — improvisei, pois meu rompante de sinceridade dos últimos dias havia estilhaçado minha tolerância para evasivas. — O quê? — Por que não me diz quem é o homem que te engravidou? — De que isso adiantaria? — Adiantaria para mim. Quem ele é? — pressionei, a um único passo da exasperação. — Você não pode estar falando sério… — Por que não fala de uma vez, porra?! — Porque ele me mandou abortar! — Paige berrou em resposta, depois de ter sido levada ao limite pela minha insistência. Sua confissão me deixou paralisada por um momento, enquanto ela me encarava com seus olhos injetados fervilhando fúria. — Entende agora? — perguntou, vestindo uma carranca. — Ele não queria ser pai, por que acha que, de repente, ele vai ficar feliz em ver você, quando eu disse que, sim, me livrei da criança? — Ergueu as sobrancelhas, assumindo o ar provocativo que lhe era tão intrínseco. — Você está morta para ele, por que mudar isso? Isabel sempre me disse que eu não era boa o bastante para o irmão, mas, no final, ele tampouco era bom o bastante para mim. Pisquei aturdida algumas vezes, perguntando-me quais as chances de Paige só estar dizendo aquelas coisas no simples intuito de me ferir. E por mais que tal ideia tenha me ocorrido, não consegui evitar a pergunta que se seguiu: — Mas você não abortou. Por quê? Ela me observou com atenção, demoradamente, soltando uma longa lufada de ar. Os olhos esverdeados cintilando com uma emoção desconhecida antes de Paige levá-los para longe de mim. — Eu sou muitas coisas horríveis, como você mesma faz questão de apontar — alfinetou —, porém nunca me senti no direito de colocar fim à existência de alguém. Minha mãe fez isso comigo. Ela me matou por dentro. Eu não faria isso com você. Aquiesci, suavemente, e eu estava certa de que Paige conseguiria vislumbrar


o gesto através de sua visão periférica. Era inegável o quão surpresa eu estava com sua confissão. Quando eu poderia imaginar que justo ela possuísse um pensamento tão conservador? De qualquer modo, era impossível não apreciar a ironia de Paige ter ido contra a mãe, no intento de “fazer diferente”, sendo que seu abandono também me matou aos poucos, dia após dia, pelos últimos 25 anos. — Isso não muda nada, no entanto — ela prosseguiu quando eu não me propus a tecer nenhum comentário. — O fato de eu não ter abortado não quer dizer que eu cultive bons sentimentos por você. Eu a carreguei por nove longos meses e odiei cada momento. Cada chute, cada pequeno movimento, cada um dos enjoos matinais… Ofeguei, sentindo o golpe em meu estômago e dando um passo involuntário para trás. Eu queria dizer alguma coisa a Paige. Que sentia muito por ela ter tido que passar por aquilo, mas que não era minha culpa, porque do mesmo modo que ela não pediu para ser mãe, tampouco pedi para vir ao mundo naquelas circunstâncias. — Minha mãe não queria que eu tivesse o bebê, afinal, como nós explicaríamos que alguém de 16 anos, sem marido, estava grávida? Ela riu com amargor, e eu não pude deixar passar a ironia de que, 25 anos depois, sendo mãe de Marc e Luke, Paige não só permanecia solteira como também foi amante de um homem que deveria ser um pai de família respeitoso por, pelo menos, duas décadas. — E-eu sinto muito por isso — consegui dizer por fim, ainda que minha voz não tenha passado de um murmúrio débil graças ao nó que se instalou em minha garganta e ao familiar aperto no peito. — Você não tem o dever de falar disso comigo, eu entendo que sejam memórias que você prefere esquecer e… — Fui expulsa de casa, porque minha mãe não queria que nossos vizinhos soubessem da gravidez. Passei fome, frio e senti o medo me congelar até os ossos, tudo por sua causa — tolheu-me, ignorando minhas palavras e fazendo-me duvidar se de fato as escutara. — Dei à luz como um animal. Sem médicos, sem ninguém que pudesse amenizar a dor. Quando você chorou pela primeira vez, tudo em que consegui pensar era que aquele não era um direito seu. — Foi quando seus olhos pousaram sobre mim, e estavam tão repletos de ferocidade que um tremor involuntário percorreu toda a minha coluna. — Era direito meu. Eu sofri tudo sozinha, por que precisava ser você a chorar? — Estreitou os olhos em minha direção, e eu soube, naquele momento, que aquela pergunta era direcionada a mim. Eu não era a única a ansiar por respostas, Paige também o fazia. Com o olhar firme em mim, ela esperava que eu lhe dissesse algo, qualquer coisa que pudesse aplacar sua confusão. No entanto, como eu poderia ser capaz de algo assim,


quando eu mesma era um poço sem fundo de desalinho? — Foi por isso que me abandonou no orfanato? — perguntei inutilmente. Eu já sabia a resposta há tempo demais para surgir com uma pergunta tão estúpida. Contudo, como aconteceu com Robert na noite passada, eu precisava ouvir. Precisava que Paige me dissesse, com todas as letras, o quão não arrependida estava por ter tomado a decisão de desistir de mim. Eu me sentiria ainda pior e rechaçada, porém, ao menos expurgaria a sensação ruim de ter barganhado com ela num momento tão delicado quanto o de agora. Para a minha surpresa, todavia, Paige meneou a cabeça em uma negativa, prendendo os lábios numa linha dura. — Você era um ser humano. Eu tinha a obrigação de cuidar de você até encontrar uma família que pudesse acolhê-la. E eu iria fazer isso, Melinda — reiterou, com o olhar marejado também banhado em revolta. Sua expressão nada tinha a ver com a da Paige prepotente e dona de si à qual eu estava acostumada, e sua voz não saía veludínea do modo forçado que lhe era intrínseco. — Eu iria procurar uma família para você. Assim que minhas forças voltassem. Mas elas não voltaram, porque você continuava, literalmente, sugando todas elas de mim. — Soltou uma risada infeliz, enquanto eu, atônita e petrificada, vi rolar pelo rosto de Paige não uma, e sim diversas lágrimas generosas, muito diferentes daquela forçada que ela havia derramado quando mentiu sobre Robert ter lhe dito para se afastar de mim. Era um choro genuíno. Com lágrimas que Paige não pôde conter, e qualquer coisa que eu pudesse desejar proferir ficou presa à minha garganta ante a incredulidade. — O meu seio doía quando você se alimentava — continuou num fio de voz. — Eu detestava essa parte, mesmo sabendo que era imprescindível para te manter viva. Só que… — Retorceu o rosto em uma expressão pesarosa. — … doía tanto, incomodava tanto… “Então teve essa noite, houve uma chuva torrencial, e você não calava a boca, eu nem mesmo conseguia escutar meus próprios pensamentos, graças ao seu choro. Por isso eu… cobri seu nariz e sua boca com o travesseiro. E foi o momento mais silencioso e cheio de paz, para mim, desde que você veio ao mundo. Foi quando eu soube que não suportaria muito mais e te deixei à porta do primeiro orfanato que encontrei, antes que eu fizesse uma besteira ainda maior. “Eu não me arrependo. Nem por um segundo. Porque eu olho para você e vejo o rosto de Isabel, dizendo o quanto o irmão dela merecia coisa melhor. Os seus olhos… são idênticos aos dele. Você me remete ao pior momento da minha vida e te abandonar foi encerrar esse capítulo da minha história. Não me arrependo. Não consigo. Se eu não tivesse feito o que fiz, jamais teria conhecido


Frederick. Ele não me amava. Nem um pouco. Mas me respeitava, respeitava meus limites. Frederick nunca me tocou sem que eu quisesse. Nunca me beijou sem que eu permitisse. Quando engravidei, não disse para eu me livrar da criança. Disse que, exceto pelo sobrenome Blackwell, o bebê teria tudo que ele poderia oferecer.” Engoli em seco, agradecida pelo fato de Paige ter levado seus olhos para longe de mim, porque, desse modo, eu me sentia mais confortável para deixar que as lágrimas escapassem. E justo quando pensei, depois de ontem à noite, que elas haviam secado, recebi a prova irrefutável de que não. Tentei me mover, abordar um novo tópico, deliberadamente buscando fingir que Paige não acabara de despejar seu passado conturbado sobre mim. Soltei a respiração que vinha prendendo num suspiro trêmulo, enxugando as lágrimas teimosas que insistiam em molhar meu rosto. Eu estava tão cansada de chorar e me sentir mal, só queria que a sensação ruim passasse de uma vez para que eu pudesse voltar ao meu estado antigo, que até poderia não ser feliz, mas era o céu, se comparado a como eu me sentia agora. Por ter vivido em um orfanato e ter migrado de um lar provisório para outro, eu entendia bem a dor da rejeição. Era incômoda, insistente e não desaparecia tão fácil. Quando eu vivi na rua, na adolescência, sentia os olhares acusadores e enojados de pessoas que me viam apenas como mais uma marginal, sem saber ao certo o que me levara até ali e tampouco desejando fazê-lo. Porém, nada se comparava ao quanto doía ouvir de Paige que, olhar para mim, era reviver seu pior pesadelo. E eu tentei me lembrar de que não era minha culpa que ela tivesse passado por tantos percalços, entretanto, não conseguia me convencer de nada daquilo. Não naquele momento. Ainda assim, engoli o choro o melhor que pude, fungando no processo de me recompor e buscando no interior de minha bolsa o real motivo para que eu estivesse ali. Dei passos vacilantes até a cama onde Paige estava, depositando ali o mesmo envelope que Marc me entregara no dia anterior. — O que é isso? — Paige quis saber, sua voz soando alarmada, entretanto, não me atrevi a sondar sua expressão. — Esses são os documentos que você assinou. Marc me entregou ontem e eu estou devolvendo. Robert não tem interesse em nada disso — expliquei, e se antes aquilo me fizera triste, agora só conseguia trazer alívio. — Ele me pediu para vir te entregar e dizer que usufrua como quiser. Ele não se importa. — Mas… — ela objetou, engolindo em seco logo em seguida, como se não soubesse bem o que dizer. — Mas o transplante… eu… — Eu te dei a minha palavra de que realizaríamos o procedimento e vou cumprir — asseverei, olhando para qualquer lugar, menos para Paige. — Espero


que tudo corra bem na sua cirurgia. — E sem mais o que dizer, apressei-me para fora dali. Contudo, assim que minha mão alcançou a maçaneta, a voz dela soou atrás de mim. — Por quê? — inquiriu, de pronto, fazendo-me deter meu movimento. Respirei fundo, virando-me para fitá-la pelo que eu sabia ser a última vez. — Porque é a coisa certa a se fazer, Paige. Encare isso como uma recompensa por todas as coisas ruins que já te aconteceram. Você tem o seu órgão, sua casa, suas ações… — Dei de ombros, como se não fizesse diferença para mim o fato de eu estar prestes a entrar num centro cirúrgico e assumir riscos por alguém que me desprezava. Poderia parecer magnânimo, porém, não era. De algum modo, eu sentia que aquele era o meu dever, alguma espécie de propósito. Em 25 anos de vida, aquela seria a primeira coisa verdadeiramente importante que eu faria por alguém. Então, era mais por mim do que por Paige. Para a minha consciência, uma vez que eu não saberia como viver comigo mesma se ela morresse quando eu poderia ter feito algo para impedir. — Não pode ser — ela devolveu, boquiaberta. — Quem disse que não se podia ter tudo, certamente, não conhecia Paige Williams — zombei. — Só uma última coisa: não ouse tornar a me procurar. Eu não sou seu depósito ambulante de órgãos, ouviu bem? — prossegui, apontando um dedo em riste em sua direção. — Sou um ser humano, Paige. Com sentimentos. E, okay, talvez eu não tenha passado pelas mesmas coisas horríveis que você, mas possuo meus próprios traumas, meus próprios medos e inseguranças. Você me deu à luz, só que isso não te dá o direito de aparecer do nada solicitando um rim, uma córnea ou um coração, entende? Foi você quem decidiu levar adiante uma gravidez indesejada, não eu. E, se quer mesmo saber… — Hesitei, ganhando tempo o bastante para me arrepender do que diria a seguir. Mas remorso era a última coisa que eu sentia no momento. — Um aborto não faria de você um monstro. O que te fez um monstro foram suas escolhas desde então. — Você não entende! — defendeu-se, indignação nua e crua agarrando-se às suas feições. — Eu… — Tenha uma vida longa, saudável e feliz, Paige — eu a cortei. Seja lá o que ela tivesse a dizer, não seria capaz de mudar nem mesmo o futuro, que dirá o passado, então, qual era o ponto? Dando-lhe as costas, eu me retirei de seu quarto, irrompendo em um choro silencioso que era o resultado de várias coisas: do ponto final que Robert deu ao nosso relacionamento; das informações recém-adquiridas sobre o passado de Paige; e, por último, e não menos importante, do pavor que me consumia por eu estar prestes a ser aberta e ter um de meus órgãos feito em dois.


“F aça uma boa viagem, Robert…” As últimas palavras de Linda para mim não saíam da minha cabeça. Sendo sincero comigo mesmo, nada do que ela dissera havia saído da minha cabeça. Estive presente em diversas reuniões, porém, não vinha dando meu melhor em nenhuma delas, uma vez que solicitava que repetissem o que diziam com frequência, e aquilo já começava a me incomodar. Tentei me convencer de que minha situação com Linda fora resolvida e que não havia muito mais que pudéssemos dizer para o outro, mas seria mentira. Ela foi sincera comigo, ao passo que eu voltara a esconder como realmente me sentia sobre ela. No entanto, tê-la despejando todas aquelas informações sobre mim era aterrador, e tive que lutar com cada um dos meus instintos para não beijá-la ali mesmo e dizer que, sim, ela era correspondida à altura. O que eu não sabia dizer era até que ponto aquilo seria verdade, quando Linda começou a se apaixonar por mim há tantos anos, quando ainda estava no orfanato. Eu imaginei sua versão adolescente, e a imagem que me veio à cabeça lembrava muito a de Lilly assim que nos conhecemos. Tolamente, eu me perguntei se haveria ao menos a mais remota possibilidade de Linda ter se guardado durante todos esses anos pelo simples fato de estar emocionalmente envolvida comigo. Independente de qualquer coisa, não parecia certo que, sendo apaixonados um pelo outro, nossas vidas tivessem seguido caminhos tão distintos. Entretanto, no fundo, eu sabia que estávamos separados porque aquilo era o melhor para nós


dois. Já havíamos passado por coisas demais, até quando poderíamos sustentar aquela situação? E ainda havia Paige. Fora muita ingenuidade minha acreditar que a capacidade de perdão de Linda era estendida apenas a mim, porque não era. Depois de anos sem notícias e uma explicação plausível para ter abandonado a própria filha, Paige parecia estar disposta a estreitar laços. Ao menos foi o que entendi quando o celular de Linda tocou, dias atrás, e eu me atrevi a olhar o visor antes que ela atendesse. Quando o fez, parecia apreensiva, pediu licença e foi dar continuidade à conversa. — Era Christine — ela mentira, forçando um sorriso que não alcançou seus olhos. — Está tudo bem? — Tudo ótimo! — assegurara, enfatizando com um aceno displicente de uma das mãos. — Nós combinamos de almoçar juntas amanhã, só isso. Aquiesci uma vez, sem acreditar que Linda se dera ao trabalho de inventar uma desculpa a fim de esconder que ela e a mãe vinham se comunicando. Eu não sabia como aquilo acontecera, pois até onde eu me lembrava, Paige e Linda não tinham um relacionamento saudável. Na verdade, a meu ver, elas não tinham relacionamento algum. Por isso a estranheza de tê-la mentindo, ininterruptamente, usando encontros com Lilly e Christine para acobertar o que, na realidade, eram encontros com Paige. Demandou um esforço hercúleo não lhe dizer que Paige, provavelmente, estava se achegando apenas no intuito de usá-la para me atingir, como fizera anteriormente. Funcionara uma vez, afinal, e eu não culpava Paige por acreditar que talvez tornasse a funcionar. Ela não fazia o tipo que desistia fácil, não media esforços para alcançar seus objetivos e era capaz de atingir níveis estratosféricos de crueldade. Eu ainda conseguia recordar perfeitamente bem todas as atrocidades que ela me dissera, levando-me ao meu limite e fazendo com que meu coração falhasse. Linda também estava lá, portanto, não cabia a mim dizer-lhe quão vil Paige poderia ser e quão sujo ela poderia jogar. Restava-me apenas saber que, do mesmo modo que eu lutara para preservar as memórias de uma família despedaçada, Linda faria de tudo para obter a família que jamais teve e com a qual sempre sonhou. Nesse caso, não havia nada que eu pudesse fazer ou dizer que fosse capaz de impedir Linda de continuar em contato com Paige, assim sendo, o melhor para ambos era seguirmos caminhos diferentes.


Lizzie fingira entender que eu tinha que trabalhar e por isso não poderia comparecer à festa de Sofie. Contudo, mandava mensagens diárias perguntando se não haveria mesmo a menor possibilidade de eu fazer uma aparição rápida. Ela também tocou no assunto Linda, perguntando por que ela estava tão distante, dando evasivas para não se encontrarem. Preferi não dizer a Elizabeth o que eu achava a respeito, porém, não me ocorria nada mais além de Linda, provavelmente, estar presa em encontros e mais encontros com a mãe, como vinha ocorrendo nos últimos dias. O que eu não conseguia entender, no entanto, era a razão de Paige ter abdicado dos bens pelos quais tanto lutou. Independentemente, aquilo não cheirava a boa coisa. Eu não confiava em Paige Williams, e saber que Linda estava envolvida em sua teia de mentiras uma vez mais causava-me revolta e fazia emergir um sentimento de impotência, pois não havia nada que eu pudesse fazer a fim de impedir Paige de manipular Linda a seu bel-prazer. Como eu poderia intervir sem que a ex-amante de Frederick me pintasse feito um monstro egocêntrico para Linda, do modo que fizera antes? Tentando evitar aquelas ponderações, dei o meu melhor para concentrar-me no trabalho e, assim, quem sabe, conseguir adiantar algumas coisas para comparecer ao aniversário de Sofie, mesmo que brevemente. Demorara um pouco, eu devia admitir, mas enfim consegui estabelecer minhas prioridades. Por tempo demais eu coloquei a R Blackwell no topo de tudo, entretanto aquilo havia chegado ao fim. O trabalho estava, no máximo, em segundo lugar, porque nada viria antes da minha família outra vez.


— Tio Robert! — Sofie exclamou alegremente, correndo em minha direção assim que me avistou adentrando sua festa. Eu a peguei nos braços, sorrindo-lhe enquanto depositava um beijo demorado em sua bochecha e recebia seu abraço afetuoso. — Feliz aniversário, princesa — murmurei ao seu ouvido, e foi minha vez de receber um beijo estalado na maçã do rosto, junto ao seu olhar enternecido e contente. — Eu não trouxe um presente, mas… — O senhor é o meu presente! — apressou-se em dizer, com os braços ao redor do meu pescoço e um sorriso gigantesco, e eu jamais poderia colocar em palavras o quanto aquilo me fazia sentir bem. — Meu e da tia Linda — corrigiu baixinho —, porque ela estava muito tristinha, mas agora vai ficar bem feliz, não é? — Ela ergueu as sobrancelhas diversas vezes, de um modo engraçado que me arrancou uma risada, por mais que parte de mim ainda estivesse preocupada com o fato de Linda aparentar tristeza. Depositei um beijo na testa de Sofie, negando-me a responder à última parte de seu questionamento, pois não havia motivos para que Linda ficasse feliz em me ver. Isso, no entanto, não me impedia de pensar o que poderia tê-la deixado abatida, ainda que suspeitasse que Paige fosse a força motriz. — Por que não vai procurar a sua mãe e avisar que estou aqui, hein? — sugeri, e seus olhos se acenderam quando ela acenou efusivamente em concordância, descendo do meu colo e desaparecendo entre os convidados. Uma breve olhadela ao redor foi tudo o que levou para que eu soubesse que Linda não estava ali no cômodo, o que não era, de fato, uma surpresa, visto que ela não apreciava multidões e tendia a isolar-se quando algo a incomodava, o que, de acordo com Sofie, era exatamente o que acontecia naquele momento. Por isso, cumprimentando algumas pessoas pelo caminho, eu decidi procurála pelos lugares aonde poderia ter ido, surpreendendo-me quando não a encontrei na sacada, onde jurei que ela estaria. Então, dirigindo-me à biblioteca, o próximo


lugar em potencial, eu a encontrei sentada no sofá de leitura de Lizzie, com um carrinho de bebê à sua frente enquanto ela segurava a criança no colo, envolta por um manto azul-claro, ninando-a. Ao barulho da porta fechando-se atrás de mim, Linda ergueu o olhar, encontrando o meu, e diferente do que acontecia quando nos encarávamos, não me senti aquecido por dentro apenas por poder vislumbrá-la, ao contrário. Era como se um vento gélido soprasse de algum lugar desconhecido e me envolvesse, trazendo um aperto nada bem-vindo ao meu peito. Pouco mais de uma semana havia se passado desde que nos vimos pela última vez, contudo, pareciam eras. Seu rosto estava mais fino, como se ela tivesse perdido peso. Os olhos, sempre cálidos e reluzentes, estavam opacos, e eu jamais a vira usar tanta maquiagem como agora, nem mesmo no dia em que nos casamos. — Pensei que tivesse dito que não viria — ela falou de pronto, sem se preocupar com formalidades, ao mesmo tempo em que eu me aproximava e sentava-me ao seu lado, ainda sem entender completamente o que fazia ali, dada a estranheza do ato. Estranheza era mesmo a palavra chave. Éramos dois estranhos, apesar de Linda ter aberto seu coração para mim. Eu não a deixei saber como de fato me sentia a seu respeito e, enquanto a mirava, questionei-me se havia tomado a melhor decisão, visto que ela nem mesmo parecia confortável com uma simples troca de olhares. Ainda assim, era impossível rechaçar a sensação de familiaridade que causava tê-la daquele modo, perto o bastante para sentir o calor que emanava de seu corpo. — Lizzie sabe como ser convincente — retorqui, esboçando um sorriso a fim de deixar o clima mais agradável, depois de nossa última conversa. Ela aquiesceu de leve, levando o olhar para o bebê em seu colo, que dormia tranquilamente, embalado nos braços de Linda. — Estou feliz que tenha vido — devolveu, sem esboçar a menor reação que me levasse a crer que aquilo era mesmo verdade. — Sofie não estava 100% contente sem você aqui. — Esse é Gabriel? — perguntei, apontando para ele, mesmo que já soubesse a resposta. — É, sim — confirmou, e apesar de sua voz ter saído um pouco mais suave, eu não saberia dizer se Linda trazia um sorriso nos lábios, pois seus cabelos formaram uma cortina negra e espessa sobre seu rosto, e ela ainda não parecia nem um pouco inclinada a fitar-me. — Ele está enorme. — Sim, ele está. E se parece muito com Javi. — Bem, a saúde vem em primeiro lugar, certo? — caçoei, exibindo um


sorriso que ela não se preocupou em contemplar. — Não precisa fingir, eu sei que no fundo você gosta de Javier — devolveu, no mesmo tom de voz monótono que vinha usando desde o início de nossa conversa, o que já estava me deixando incomodado. — Certo. Mas ele não faz o meu tipo. — Porque ele não é uma modelo bonita de olhos azuis, suponho — retrucou com aspereza, pela primeira vez demonstrando sentir alguma coisa. E por mais que sarcasmo não fosse minha reação favorita, ainda conseguia ser melhor que o marasmo. — Porque ele é um homem — contrapus, deixando escapar um bufar incrédulo. Foi quando, devagar demais, quase como se fosse em câmera lenta, Linda se virou para me encarar, e seus olhos, que antes só me pareciam carentes de seu brilho corriqueiro, se mostraram sem vida também. — Grace ligou alguns dias depois de você ter ido viajar — murmurou, pegando-me desprevenido e deixando-me boquiaberto. — Ela queria se despedir antes de voltar para casa — explicou, quebrando o contato visual logo em seguida para dar atenção a um defeito invisível na manta que envolvia Gabriel. — E o que você disse? — A verdade. — Ergueu os ombros, como se dissesse “o que mais?”, todavia, foi um gesto tão breve que, quando terminou, foi como se nem tivesse existido. — Que você estava em uma viagem de negócios e demoraria a voltar. Mas passei o número do seu celular pra ela e disse que você amaria receber notícias. Icei as sobrancelhas, surpreso pela escolha de palavras. Linda me conhecia bem demais para saber que eu não amava algo tão facilmente. — Ela não me ligou. — Sinto muito — pronunciou com pesar, encolhendo os ombros ante minhas palavras quase como se eu tivesse dito algo que a chateasse. — Mas você bem que poderia ligar, nesse caso — retomou, umedecendo os lábios como se ponderasse a respeito do que diria a seguir. — Ela parece gostar muito de você. E, pelo que vi, não é um sentimento unilateral. Pela primeira vez na noite, Linda arriscou um sorriso, que nasceu tímido demais e alargou-se de modo forçado ao extremo ao passo que ela me encarava atentamente. — Se eu não te conhecesse bem, acharia que você está tentando encontrar uma namorada para mim — instiguei, tentando sorrir a fim de dissolver a excentricidade do pensamento. Demorou alguns segundos até que Linda respondesse. E, quando o fez, não


havia o menor divertimento em seu olhar. — Talvez eu esteja — lançou num murmúrio débil, a voz trêmula. Linda mordiscou o lábio, em um sinal claro de embaraço. — Ela é diferente de Susan e Britney. E você sabe. Grace é especial. Ela te faz sorrir, genuinamente, como poucas pessoas conseguem. É bonita, inteligente, educada e também pode te fazer muito feliz, se você deixar. Meneei a cabeça de um lado para o outro, como se isso fosse capaz de amenizar o sentimento de desconforto infligido pelas palavras de Linda. Era inacreditável como, num momento, ela estava se declarando para mim e, no outro, planejando me empurrar para qualquer mulher que estivesse por perto e demonstrasse o mais remoto interesse. — Justo quando eu pensei que as coisas não poderiam ser mais estranhas entre nós dois — soltei num riso pirrônico, esfregando o rosto com uma das mãos, a um passo do enfurecimento. — Só quero que você seja feliz. Acima de tudo. Isso foi o que sempre desejei. Abri a boca para atalhar, no entanto, desisti. Não adiantaria dizer a Linda que Grace e eu jamais funcionaríamos, porque para cada contra que eu apontasse em nosso possível relacionamento, Linda refutaria, valendo-se de algum pró. Apoiei os antebraços sobre os joelhos, apertando a ponte do meu nariz entre o dedo indicador e o polegar, sem saber ao certo o que poderia fazer para esvaecer o clima constrangedor. — Você leva muito jeito com bebês — mudei de assunto, assistindo ao modo como ela embalava Gabriel nos braços e como ele parecia satisfeito e tranquilo ali. — Vai ser uma excelente mãe um dia. — É… quem sabe um dia? — deixou escapar num suspiro trêmulo, levando uma das mãos à têmpora e fazendo um pequeno círculo ali com as pontas dos dedos, como se algo a incomodasse. — Achei que fosse seu sonho ser mãe. — Franzi as sobrancelhas, em confusão. — É, sim. Mas não vou me iludir que vá ser fácil adotar uma criança, dadas as circunstâncias. — Você se refere ao fato de ser solteira? — eu quis saber, e o rosto dela se contorceu numa expressão de descontentamento, parecendo nada confortável com a pergunta. E eu não poderia culpá-la, porque aquela situação tampouco me agradava, em especial quando senti estar sendo invasivo. Mas verdade fosse dita: eu amava conversar com Linda sobre qualquer coisa e ouvir o que ela tinha a dizer, por isso o questionamento foi inevitável.


— Não só a isso. Meu apartamento é minúsculo e meu salário, irrisório. Aquiesci num meneio de cabeça. — Você pode gerar — articulei, compungido com o desconforto causado pelo que aquilo implicaria: Linda grávida de outro homem. Houve um som parecido a um sorriso, vindo dela, contudo, nem de longe transparecia felicidade. — Pra isso eu precisaria de um companheiro. Engoli em seco, cerrando os punhos com força ao me lembrar da sensação de observá-la com outro. Fui transportado a meses atrás, quando a vi nos braços de Will, os lábios exibindo um sorriso tão bonito que era até mesmo capaz de machucar só por saber que ele era destinado a outro, e não a mim. — Você é linda — eu a deixei saber, porém ela negou num meneio de cabeça, soltando um bufar incrédulo. Estendi uma de minhas mãos, colocando uma mecha de seu cabelo atrás da orelha e tocando a maçã de seu rosto com o dorso de meus dedos. — Falo sério. Não vai ser nada difícil encontrar alguém que queira dividir a vida com você — forcei-me a dizer, sentindo um gosto amargo subir à boca. Todavia, o que eu esperava? Que Linda vivesse sozinha pelo resto de seus dias, depois de eu ter dito, com todas as letras, que ela deveria seguir em frente? De modo algum. Quiçá não tivesse lógica sentir aquela estranheza no peito, uma vez que eu, de fato, queria que Linda tivesse a vida que merecia. E ela estava certa, meses antes, quando descobriu sobre o testamento e me disse que eu jamais poderia dar a ela a família que desejava. Que eu nunca seria capaz de dar-lhe o que merecia. De fato, eu não podia mesmo. E, como se se lembrasse do fato, Linda se afastou do meu toque gentilmente, parecendo desconfortável com a aproximação. — Acontece que não estou aberta a envolvimentos amorosos, não quero dividir a vida com ninguém — admitiu, e eu me senti culpado pela onda de regozijo que reverberou por todo meu corpo. Era provável que eu até mesmo tivesse esboçado um sorriso, não obstante, ao ver o rosto retorcido de Linda, coloquei meu ego de lado por um momento e foquei no que realmente importava. — Linda, você está se sentindo bem? — eu quis saber, assistindo a ela pressionar a têmpora com as pontas dos dedos outra vez, o cenho franzido — Estou, claro — mentiu, forjando um sorriso que não durou mais que um segundo ou dois. — Foi só uma vertigem. Eu estava cuidando de alguns ajustes finais com Lizzie e acabei me esquecendo de comer o dia todo — explicou, como se a ideia tivesse acabado de ocorrer-lhe, porém, fizesse todo sentido do mundo.


— Tem certeza de que isso é tudo? — insisti, preocupado. — Tenho — assegurou, aquiescendo também num meneio de cabeça. — Devo ter tido uma queda de pressão, no máximo, só isso — concluiu, ajeitando Gabriel um pouco melhor nos braços, mas ela já não parecia o poço de destreza nos cuidados com bebês como quando adentrei o cômodo. — De qualquer forma, melhor colocarmos Gabriel no carrinho por um momento, não acha? — sugeri, pondo-me de pé e trazendo o corpo frágil e pequeno para mim, apenas para depositá-lo no carrinho de bebê e tornar a sentarme ao lado de Linda. — Você também leva muito jeito com crianças — Linda elogiou, numa voz pequena que pouco era audível. — E vai ser um pai incrível — continuou, erguendo o canto dos lábios num sorriso tímido. — Não quero filhos, você sabe disso — atalhei no ímpeto, o cenho mais sisudo do que era necessário para fazer valer meu ponto. Todavia, Linda não pareceu se intimidar por minha animosidade, visto que apenas sacudiu a cabeça de um lado para o outro, rejeitando a ideia. — Isso porque tem medo de ser pra eles o que Frederick foi pra você — apontou e, num gesto tímido, tomou uma de minhas mãos entre a sua, com um aperto débil, o qual, provavelmente, deveria me passar conforto. — Mas você não é nada parecido com ele, ouviu? — testou, os olhos castanho-escuros fixos nos meus, tão iguais e tão diferentes de como eu me lembrava deles. — Tenha sempre isso em mente. Nós não somos os nossos pais. — Esboçou um sorriso, contudo, um segundo depois, cerrou os olhos com força, como se uma nova vertigem a tivesse assolado, e foi inevitável a onda de preocupação que tomou conta de todo meu corpo, deixando-me tenso. — Linda, tem certeza de que está tudo bem? — insisti, inclinando-me para mais próximo dela e erguendo seu queixo com o indicador e o polegar, a fim de poder fitá-la com atenção. Ela piscou lentamente algumas vezes, anuindo num movimento suave enquanto engolia com dificuldade. — Claro. Vou só jogar uma água no rosto para despertar. Acho que estou mais cansada do que supus. — Forçou um sorriso. — Você fica de olho em Gabriel pra mim, por favor? Vou tentar não demorar. — Tudo bem — retorqui, vendo-a levantar-se, sem muita firmeza, e, com passos curtos e vacilantes, encaminhar-se para fora da biblioteca. Meio trôpega, ela levou mais tempo do que normalmente faria para cruzar o espaço e, uma vez que desapareceu do meu campo de visão, a inquietude crescente dentro do meu peito alcançou níveis estratosféricos e não me permitiu ficar quieto e esperá-la voltar.


Eu sabia que ela não estava bem desde que meus olhos esbarraram em seu semblante abatido. Os sorrisos não convenciam, a voz estava sempre embargada e soava como se lhe ferisse a garganta. E como se nada disso fosse suficientemente plausível, eu conhecia Linda o bastante para saber que, depois de nossa última conversa, antes de eu sair de viagem, e, em especial após nossa tentativa fracassada de estabelecer um diálogo qualquer, ela jamais admitiria uma fraqueza para mim. De tal modo, assegurando-me de que Gabriel ainda ressonava tranquilamente enquanto desfrutava do sono dos justos, eu me encaminhei para fora dali, encontrando Linda ainda no corredor, pouquíssimos passos à frente de onde eu estava. Ela não parecia mesmo bem, e a mão espalmada contra a parede, usando-a de apoio ao passo que Linda se curvava para frente, denotava que suas pernas mal eram capazes de sustentar seu próprio peso e era a prova irrefutável de que eu fizera a coisa certa ao vir à sua procura. Eu iria chamá-la pelo nome e, ainda que corresse o risco de soar impertinente, sugerir que procurássemos um médico. Todavia, tudo ao redor pareceu ficar em câmera lenta no momento em que os joelhos de Linda flexionaram, cedendo sob seu peso ao mesmo tempo em que ela se aproximava cada vez mais do chão. Era como assistir ao meu mundo inteiro desmoronar bem à minha frente. Disparei até ela, forçando minhas pernas a percorrem a distância que nos separava, por mais vacilantes que eu as sentisse, amparando-a em meus braços antes que seu corpo atingisse o solo, ajoelhando-me ali e mantendo-a contra meu peito. Levei dois de meus dedos até seu pescoço, apenas para sentir a pulsação enfraquecida sob eles. Eu conhecia o sentimento de medo, por mais que odiasse admitir. Ele me era infinitamente mais familiar do que eu gostaria que fosse. No entanto, enquanto mantinha Linda ali, em meus braços, a sensação que me assolou foi a de puro pavor, arraigando-se em cada pequena célula do meu ser, embaraçando meus sentidos e nublando minha capacidade de discernimento. — Linda — chamei, desejando mais que tudo que seus olhos devolvessem o olhar urgente que eu lançava em sua direção, para que eu pudesse ter ao menos uma remota ideia do que diabos estava acontecendo. Porém, não surtiu efeito. Linda não me fitou, e não importava quantas vezes eu chamasse por seu nome, ela seguiu inerte em meus braços, o corpo parecendo gélido demais sob o meu toque. — Vai ficar tudo bem, amor, eu vou cuidar de você… — prometi ao pé do seu ouvido, porque, ainda que ela não pudesse se comunicar comigo, eu tinha esperança de que minhas palavras chegariam até ela de uma forma ou de outra. Todavia, nem mesmo eu fui capaz de acreditar 100% no que acabara de dizer, tendo minha confiança abalada ao vislumbrar um filete rubro tingindo o


tecido claro do vestido de Linda, na altura de seu abdômen. O pavor já presente cresceu de forma exponencial, cravando suas garras em mim e deixando-me paralisado ante o pensamento de que, possivelmente, os olhos doces, alegres e gentis que eu tanto amava jamais tornariam a se abrir para mim, e eu desconhecia sensação mais aterrorizante do que a de ter em meus braços tudo o que eu mais amava no mundo, ao passo que sua vida se esvaía.


O gosto amargo em minha boca foi a primeira coisa que me deu as boas-vindas de volta à consciência. Logo em seguida, quando tentei engolir, senti também a sequidão, como quando ia ao dentista e ele colocava aquele tubo plástico apoiado ao lado de um dos sisos inferiores, embaixo da língua, para sugar todo o acúmulo de saliva. Mas eu sabia que não estava no dentista, e sim no hospital. Sentia-me zonza e com dor no abdômen, por isso tentei levar uma das mãos, a que julguei livre do acesso venoso, até o local, apenas para checar se estava tudo certo com a sutura, pouco — ou nada — disposta a abrir os olhos e vislumbrar os pontos. Um gemido de dor irrompeu por meus lábios, porém não me preocupei com isso. O lado positivo de fazer uma cirurgia às escondidas era não ter ninguém esperando que eu abrisse os olhos. Desse modo, eu não precisaria fingir estar bem. E eu, definitivamente, não estava. — Linda, você está acordada. — A voz familiar soou e, por um momento, eu considerei estar sonhando. “Robert…”, chamei, por mais provável que tenha sido apenas em pensamento, porque não estava certa sobre já ter redescoberto minha própria voz. Chutei-me internamente por ser tão estúpida. De que adiantava trazê-lo à memória justo agora? Aliás, por que meu pensamento sempre corria para ele quando eu sentia necessidade de proteção? Não era como se… — Estou aqui. Como se sente?


“Okay, isso foi um toque…”, pensei, ao sentir a textura cálida e familiar contra minha mão direita. Forcei meus olhos a se abrirem, e eles tremularam diversas vezes antes de fazê-lo. Esperei a dor infligida pela claridade, no entanto, a iluminação parca não machucou meus olhos, e assim que eles se acostumaram à pouca luz, pude discernir o rosto de Robert pairando sobre o meu no momento em que ele se sentou na cama, ao meu lado. O bipe insistente e singelo que eu percebera pouco antes tornou-se mais rápido e incômodo aos meus ouvidos quando Robert pousou a palma de sua mão sobre minha bochecha, e ele sorriu, olhando para algo ao seu lado. Meu olhar acompanhou a mesma direção, e eu senti o calor queimar minha pele desde a base do pescoço até as raízes dos meus cabelos ao perceber que o barulho vinha do monitor cardíaco, o qual entrara em alvoroço graças ao ritmo frenético que meu coração assumiu quando notei Robert ao meu lado. Mas o que ele fazia ali, quando saíra de viagem um dia antes, após terminar tudo comigo? Não fazia sentido… nós não nos falávamos desde então, ele não iria à festa de Sofie, não estava lá quando cheguei, apareceu muito tempo depois, e eu estava com Gabriel… E como ele sabia que eu estava ali? Recém-operada? Onde estava Paige? Um novo gemido me escapou, e eu sentia como se estivesse vivendo a pior enxaqueca de todas. Minha cabeça girava, meus pensamentos não faziam sentido, o mundo não parecia se encaixar. — Água — pedi, antes de qualquer coisa, e minha voz saiu arranhando minha garganta como se estivesse em desuso por longos dias. Robert me serviu com água fresca da jarra ao lado da minha cama, sobre um criado-mudo, não confiando em minhas mãos para sustentar o copo e levando o conteúdo à minha boca, mantendo-o ali até que eu sanasse minha sede. — O que você está fazendo aqui? — eu me apressei em perguntar, apoiando as costas em meus travesseiros, sentindo-me mais confortável após os goles generosos de água. — Você passou mal na festa de Sofie, eu te trouxe para cá — explicou. Fiz uma careta, levando uma das mãos até a têmpora, completamente desnorteada. Festa de Sofie? Tudo estava tão confuso, até mesmo a Terra parecia estar orbitando muito mais rápido do que deveria. Tentei me situar por alguns minutos, porém, ter o polegar de Robert fazendo círculos sobre o dorso de minha direita, de modo displicente, não ajudava muito. Não ajudava em nada. — Arruinei o aniversário de Sofie, não foi? — consegui dizer por fim, travando uma luta interna sobre esquivar-me de seu toque ou aproveitá-lo pelo máximo de tempo que eu pudesse tê-lo.


Escolhi a última opção. — Claro que não — ele negou, balançando a cabeça de um lado para o outro, abrindo um sorriso tão bonito que eu sentia ter meu coração arrancado do peito e posto de volta no lugar, inúmeras vezes, ao saber que eu não teria muito mais chances de contemplá-lo. Havia um nó enorme em minha garganta, aliado a uma vontade insana de chorar, porque eu não ainda não estava pronta para ficar cara a cara com Robert sabendo que ele jamais seria meu. E, verdade fosse dita, talvez eu jamais estivesse. — Lizzie encurtou o evento, mas ninguém pulou nenhuma etapa, não se preocupe — tranquilizou-me, e sua mão direita afagou minha bochecha com tanta ternura que senti meu lábio tremer concomitante à luta que eu travava com minhas lágrimas. Ao que parecia, aceitar seus toques não fora a escolha inteligente. Mas não era como se eu fosse a pessoa mais sagaz do mundo. Sem saber se minha voz sairia firme ou se vacilaria em cada maldita palavra, apenas anuí com um aceno breve de cabeça, ainda que o gesto não fizesse o menor sentido. A despeito da bagunça que eram meus sentimentos, minhas memórias estavam se alinhando mais uma vez, e respirei aliviada ao me dar conta de que Robert não estava ali por ter descoberto sobre o transplante, o que era excelente, porque eu odiava até mesmo me lembrar de como foram difíceis os dias imediatamente após a cirurgia. E a quem eu estava querendo enganar? Todos os dias desde então foram um verdadeiro inferno, uma vez que eu mal conseguia me mexer na cama sem sentir que minha carne estava sendo rasgada — Você ainda não me disse como se sente — Robert me lembrou, e eu não me recordava de já ter escutado sua voz mais suave do que estava agora. Meu peito se aqueceu com o pensamento, apenas para ser transformado numa geleira do Ártico quando me dei conta de que toda aquela atenção e doçura não passavam de um gesto educado. — Eu me sinto bem — menti —, só preciso ir pra casa. — Esta parte era mesmo verdade. Eu passara dias o suficiente ali a fim de me recuperar da cirurgia, não aguentava mais a comida insossa, as perguntas sobre como eu estava, o entra e sai de enfermeiras e ter alguém me auxiliando durante o banho. — Isso não vai ser possível antes do amanhecer, já que você vai passar a noite toda aqui, em observação. Nesse caso, por que não tenta descansar, hã? — sugeriu, tomando a iniciativa de afofar meus travesseiros para que eu me aconchegasse melhor a eles. — Não quero ficar aqui — protestei, sentindo meu corpo se retesar pela


possibilidade de ter que passar mais uma noite naquele lugar inóspito. — Estou bem — assegurei, sentando-me melhor na cama. — Não foi exatamente isso que o médico disse. Tampouco o seu desmaio — contrapôs, erguendo uma das sobrancelhas do jeito presunçoso de quem estava com a razão, do jeito que eu achava simplesmente adorável. — Por que não me contou que estava fazendo tratamento hepático? — questionou, franzindo o cenho. Engoli em seco, com certa dificuldade, e, então, levei minha língua para umedecer meus lábios novamente ressequidos, sem saber ao certo o que responder. — Meu fígado está saudável, não se preocupe — resolvi dizer, mesmo sabendo que sua pergunta não fora essa. — Você está se recuperando de uma cirurgia no fígado, Linda — retorquiu, paulatinamente, como se falasse de algo importante com Sofie. — O que mais poderia ser, além de uma doença? Desferi um segundo chute interno em mim mesma, odiando-me por ser ingênua a ponto de estar em um hospital, com a equipe médica de confiança de Robert, e cogitar a hipótese de eles não lhe contarem nada a respeito da incisão na parte superior direita do meu abdômen. — Não quero falar sobre isso — admiti, mordendo o lábio em nervosismo. — Desculpe. — E aonde foi parar toda aquela sinceridade de pouco antes de eu viajar, hein? — desafiou, provocando-me com um olhar incisivo que parecia enxergar no mais profundo da minha alma. Cogitei mentir, porque, afinal, que diferença fazia? Entretanto, quando abri minha boca para dar uma desculpa qualquer, desisti, sacudindo a cabeça de um lado para o outro, recriminando a mim mesma por ter considerado proferir alguma mentira quando eu odiava ser vítima de uma. Bufei, a despeito de mim mesma, sugando uma generosa lufada de ar em busca de coragem para admitir o que fizera. — Eu me submeti a um transplante — confessei, todavia, o sentimento de culpa, o qual julguei que me abateria, assim que o fizesse, não estava presente em lugar nenhum. — O quê? — testou, as sobrancelhas unidas formando um vinco entre elas, denotando sua confusão. — Mas você disse… — Meu fígado está saudável — reiterei, interrompendo-o de pronto. — A ponto de eu ter podido doar parte dele. — Doar? Como assim? — Se anteriormente seu semblante denotava confusão, agora havia um misto de emoções perpassando cada pequeno traço de seu rosto enquanto os olhos de Robert se acendiam em entendimento. — Não…


— murmurou, mais para si mesmo do que para mim, um sorriso incrédulo brincando em seus lábios. — Não, não pode ser… — Os filhos dela não são compatíveis. Mas eu sou — expliquei e, disfarçadamente, girei minha mão, a qual ele ainda segurava entre a sua, de modo que nossas palmas se tocassem, à procura do conforto que sua pele morna sempre ofertava. — E você aceitou fazer parte desse absurdo? — Nós fizemos um trato. Eu daria algo de que ela precisava e, em troca, receberia algo que eu queria. — E o que você poderia querer justo de Paige? — inquiriu, descrente, contudo, foi preciso pouco mais de um segundo até que a compreensão o atingisse e, logo após, toda doçura e calmaria que Robert vinha demonstrando até ali foram extintas. Ele se pôs de pé, andando pelo quarto de hospital de um lado para o outro, irrequieto, maxilar trincado em revolta ao mesmo tempo em que suas mãos reviravam os fios sedosos de seus cabelos impetuosamente. — Não! — ele explodiu, negando também com um meneio de cabeça. — Não, não, não. Linda! No que diabos você estava pensando? — exigiu saber, e cólera parecia irradiar dele em minha direção, fazendo com que eu me encolhesse e desviasse meu olhar do seu. — Eu assumi o compromisso de restituir os seus bens. Foi o único jeito que encontrei. — Dei de ombros, como se não tivesse importância, no entanto a animosidade que Robert exalava demonstrava que eu não poderia estar mais equivocada. — Eu te disse que Paige poderia ter o que quisesse, Linda! — ele me lembrou, colérico, ainda tentando afundar o piso do cômodo. — Você disse da boca pra fora — acusei, arrependendo-me do que falara no momento em que seus olhos voltaram a encontrar os meus, parecendo decepcionados. — Ou eu pensei que fosse — emendei. — Acho que não te conheço o bastante para adivinhar algo assim, aparentemente. Robert soltou um suspiro exasperado, apertando a ponte do nariz entre o polegar e o indicador, como sempre fazia quando tentava ordenar os pensamentos. — Quando você se submeteu à cirurgia? — questionou, depositando o peso do corpo sobre a perna direita ao passo que apoiava as mãos nos quadris, de modo displicente, mas provocativo o bastante para deixar meu coração descompassado outra vez. Gemi em frustração, me sentindo exposta graças ao monitor estúpido. Porque não bastava minha overdose de sinceridade ao dizer a Robert que o amava, aquela máquina imbecil também o faria saber como meu coração ficava louco por


tê-lo por perto. — Um dia após a sua viagem — respondi a contragosto. — Santo Deus! — ele soltou, exalando com força ao mesmo tempo em que caminhava até mim, tornando a sentar-se ao meu lado. — Você faz ideia dos riscos que correu? — demandou, a voz assumindo um tom mais brando. — E por algo tão… supérfluo. Eu te disse para devolver os malditos documentos! — E eu devolvi, mas não podia voltar atrás na minha palavra. — Você poderia ter morrido no processo, Linda, entende isso? — pressionou, olhando-me de modo enternecido, os orbes verdes cintilando do modo que eu bem me lembrava, porém, aprendi que não sabia interpretá-lo direito. Então desviei o olhar, porque me sentia envergonhada. Não por ter feito o que fiz, e sim por ter escondido das pessoas que eu amava que estava me colocando em risco de forma quase deliberada. Todavia, a quebra de contato não durou muito, porque logo Robert ergueu meu queixo, de modo que eu pudesse fitálo. — E que diferença isso faz? — perguntei tristemente, porque, verdade fosse dita, no nosso atual arranjo, pouco lhe importaria o meu estado. — Poderia, mas não morri — apontei, não conseguindo deixar de pensar que, se caso a cirurgia tivesse se complicado, ele teria, sim, o transtorno de ter que esvaziar seu apartamento das minhas coisas. Senti uma pontada no peito, que assumi ser embaraço, porque da última vez que nos vimos Robert me disse para ir embora, e eu continuava vivendo em seu apartamento. Culpei a cirurgia e o mal-estar infindável que me assolara desde então, contudo, eu sabia que, se o cenário fosse outro, se Robert tivesse feito algo que eu julgasse monstruoso e imperdoável, eu teria deixado seu apartamento ainda que, para isso, precisasse me arrastar para fora dele. — Ouça… — retomei, encolhendo os ombros, sem jeito por precisar reconhecer o que viria a seguir. — Sei que eu disse que, quando você voltasse, o apartamento já estaria desocupado, mas não consegui terminar a mudança ainda, por causa da cirurgia. Se você puder me dar mais um único dia, posso pedir ajuda a Lilly e nós… Minha enxurrada de palavras foi detida pela pressão gentil e impetuosa de lábios cálidos e tenros. Afundando uma de suas mãos em minha nuca, mantendo nossas bocas unidas, Robert me beijou de forma tão saudosa que meu peito se apertou com a possibilidade de aquele ser o nosso beijo de despedida, porque não tivemos um, propriamente dito. Não um de forma consciente, onde os dois sabiam que seria o último. Bem, agora eu estava ciente. Por isso, em lugar de afastá-lo, a fim de


preservar os frangalhos dos meus sentimentos, eu correspondi, sentindo sua língua deslizar por entre meus lábios, enroscando-se à minha enquanto a sugava gentilmente, maculando o silêncio que imperava com os sons de nossas bocas degustando uma à outra. A mão em minha nuca me fez um carinho sutil, apenas para agarrar uma porção generosa do meu cabelo e puxá-lo, angulando minha cabeça de modo que Robert pudesse explorar cada pequena parte do interior de minha boca. Os bipes indicando meus batimentos cardíacos foram à loucura e, pela primeira vez, eu não me incomodei com isso. Como poderia, se o homem que eu amava estava ali, me beijando, como se cada segundo longe de mim fosse um martírio que ele já não precisava suportar? As lágrimas foram inevitáveis e molharam meu rosto sem que eu pudesse fazer nada a respeito. Seus lábios abandonaram os meus, todavia, não abri os olhos. Não queria ver o olhar de arrependimento de Robert ao se dar conta do que acabara de fazer. Entretanto, indo contra tudo o que imaginei, ele me apertou em seus braços, enterrando seu nariz em meus cabelos e aspirando com força, uma de suas mãos percorrendo toda a extensão de minhas costas, de cima a baixo, num afago. — E de que me adiantariam algumas ações e uma mansão se eu perdesse o que mais me importa? — murmurou ao meu ouvido, depositando um beijo demorado ali, e aquele foi o meu fim. Lágrimas silenciosas deram vazão a um choro barulhento, que sacudiu meu corpo preso no abraço de Robert. — Shh, calma, amor — tornou a sussurrar, e o vocativo aqueceu meu coração de um jeito que eu nunca poderia colocar em palavras. — Está tudo bem, por favor, não chore… — N-não entendo… — gaguejei, com o rosto escondido em seu peito, encolhida contra ele, que me embalava suavemente, os dedos ainda em meu cabelo, flexionando e relaxando, da forma que ele sempre fazia quando éramos casados. — V-você disse que n-não tinha jeito pra ge-ente — eu o lembrei, mais balbuciando que proferindo algo com sentido. — Eu sei — devolveu num suspiro, depositando um beijo demorado no topo de minha cabeça. — Sinto muito por ter te machucado… de novo — enfatizou, soltando um riso amargo. — Só esqueça tudo o que eu disse, está bem? Tente descansar. Nós vamos falar disso quando pudermos ir para casa. — Mas… — Linda — ele me cortou, erguendo meu rosto à altura do seu e segurando-o entre suas mãos firmes, encarando-me. — Apenas descanse, está bem? Eu queria aquiescer, mesmo com um simples gesto de cabeça, porém, necessitava perguntar até quando precisaríamos adiar aquela conversa. Ele estava


ali, agora, no entanto, eu sabia que ele retornara apenas pelo aniversário de Sofie. O que eu faria quando sua volta para seja lá onde ele estava fosse inadiável, e eu ficasse ali, completamente perdida depois de ter sido chamada de amor e ter recebido o beijo mais apaixonado da história? — Estou bem aqui, Linda, e não estou indo a lugar algum, ouviu? — ele questionou, como se lesse meus pensamentos, e, finalmente, eu consegui anuir, com o coração sendo liberado do peso que parecia querer esmagá-lo, a sensação de paz me envolvendo junto aos braços de Robert, que se deitou na cama estreita comigo, permitindo que eu me aninhasse a ele até que a exaustão fosse demais para que eu pudesse suportar.


V oltar para casa nunca me trouxera tanta satisfação como trazia agora. Assim que coloquei meus pés no interior do apartamento, sentindo a mão de Robert espalmada ao fim das minhas costas, foi como se meu mundo desconexo ganhasse sentido outra vez. Nem mesmo a noite no hospital fora de todo ruim. A experiência estava longe de ser agradável, porque eu conseguia sentir o local onde trazia o acesso latejando em certos momentos, mas, de qualquer modo, ter Robert ali comigo, por toda a noite, aliviava o processo penoso, em especial quando eu podia afundar meu nariz em seu peito e aspirar seu cheiro, em vez do estranhamente estéril odor do hospital. De volta ao apartamento, junto a Robert, mais parecia que eu não pisava ali há meses, quando a verdade era que saí dali no dia anterior, no intuito de ir até a casa de Lizzie para o aniversário de Sofie. Porém, nada se comparava ao fato de ter Robert comigo, agora, pois ele possuía o dom de preencher o ambiente, e o local nunca parecia vazio demais ou gélido ao extremo, porque ele deixava tudo mais confortável e com a sensação de lar. — Você sabe que não precisava me trazer pra cá só porque minhas roupas estão aqui, certo? — eu perguntei assim que Robert fechou a porta atrás de nós dois, prendendo o lábio inferior entre os dentes, à espera de sua resposta. Então ele colocou suas chaves no aparador ao lado, enquanto trazia uma bolsa com as roupas que eu usara no dia anterior, onde Lilly armazenara as que eu


vestia naquele exato momento, quando as levou para mim, no hospital, a fim de que eu tivesse algo limpo para usar, já que meu vestido estava manchado de sangue. — Eu te trouxe para cá por uma série de fatores. O mais importante: como eu cuidaria de você à distância? Aquiesci uma vez, sem saber se ficava feliz por ele se propor a tomar conta de mim durante os dias que o médico me recomendou repouso, ou se me entristecia pelo fato de a força motriz de ter-me ali não ser saudade. Na dúvida, escolhi um meio termo. — E quanto à sua viagem de trabalho? — Franzi as sobrancelhas, já que o pensamento não me ocorrera novamente desde a noite anterior. — Sei que é importante, você mesmo disse. — É importante, de fato — acedeu, valendo-se de um suave meneio de cabeça também. — Mas onde você estava quando eu disse, com todas as letras, que nada é mais importante que você? “Okay, esse me parece um bom motivo para ficar feliz, Linda!”, exultei internamente, mordendo o lábio para esconder um sorriso ao passo que meu sangue mais parecia ferver sob a pele, fazendo o rubor se apossar do meu rosto sem que eu pudesse evitar. Senti os dedos longos de Robert sob meu queixo, erguendo-o para que pudesse fitar-me nos olhos, e assistir à sua expressão leve e casual tornou impossível que meu sorriso não se fizesse presente, arrancando um dele também. — Por que não sobe e descansa um pouco? — ofereceu, pousando a palma de sua mão sobre minha bochecha e me presenteando com um carinho, usando as pontas dos dedos para traçar círculos em minha pele. Eu me inclinei em direção ao contato, soltando um suspiro de apreciação ao mesmo tempo em que fechava os olhos e desfrutava do toque, cobrindo sua mão com a minha pelo simples prazer de tocá-lo. — Antes vou tomar um banho e tirar esse cheiro de hospital impregnado em mim — sussurrei, sem a menor vontade de afastar-me dele e do afago que me oferecia. — Quer ajuda? Meus olhos se abriram de pronto, arregalados em surpresa, e meu queixo pendeu formando um perfeito “O”. Oi? — Ajuda? — testei, incerta sobre ter de fato escutado o que julgara escutar. — Isso. Ajuda — reiterou. — O médico recomendou repouso, porque alguém passou dos limites e acabou arrebentando alguns pontos — ralhou, erguendo uma das sobrancelhas para demonstrar que não ficara nada feliz com a


minha falta de tato durante o pós-operatório. — Mas é só um banho — apontei. — E eu vou estar… sem roupas — completei, corando miseravelmente, a última parte soando tão baixo que eu nem mesmo estava certa sobre ele ter ou não entendido o que eu dissera. Então ele abriu um sorriso, lançando-me um olhar perscrutador e provocativo ao mesmo tempo, umedecendo o lábio inferior com a ponta da língua num gesto que esbanjava lascívia. — Não é como se a sua visão sem roupas fosse novidade para mim, Linda — ele me lembrou. — E pode até fazer algum tempo desde a última vez em que a vi nua, mas eu tenho uma excelente memória — falou, lançando-me uma piscadela capaz de fazer minhas pernas tremerem.

Obviamente, aquilo não era algo inédito para nós dois. Contudo, fazia tanto tempo desde a última vez que mais parecia ter sido em outra vida que senti o peito desnudo de Robert pressionando minhas costas, suas mãos ensaboadas percorrendo cada recôndito do meu corpo, demorando-se em lugares estratégicos, como meus seios, aos quais ele dedicou atenção exacerbada, a ponto de deixar meus mamilos intumescidos. Sua boca explorou desde meu ombro, passando pelo pescoço até o ponto atrás de minha orelha, prendendo meu lóbulo entre os dentes e sugando-o logo após. Minha cabeça apoiada em seu ombro enquanto Robert se ocupava do meu banho apenas lhe dava ainda mais acesso aos pontos que eu adorava ter agraciados por ele, e não me preocupei em conter meus ofegos de apreciação a cada toque, a cada beijo e mordida, afinal de contas, de que adiantaria ser comedida nos sons emitidos por meus lábios quando meu corpo inteiro gritava por Robert sob o jato de água morna? Eu sabia que nós não iríamos muito longe, ao menos não ali, naquele


momento, graças aos pontos ainda sensíveis e reabertos da cirurgia, porém, meu lado racional não foi capaz de refrear a onda de desejo que se apossou do meu corpo, tomando cada pequena célula dele e trazendo uma comichão para o meio de minhas coxas, as quais fiz questão de manter bem juntas, no intento de aplacar o desejo crescente. Era uma tentativa falha, eu bem sabia, mas nenhuma atitude que eu pudesse ter seria capaz de suavizar a avidez com que eu queria Robert por todo o tempo em que tivesse suas mãos me provocando e atiçando do modo que só ele sabia fazer. Ansiando tocá-lo mais que tudo, eu me permiti virar de frente para ele, ainda entre seus braços, tomando sua boca com a minha num beijo ávido, incapaz de conter toda a volúpia que ele despertava em mim. Meu coração já havia assumido um ritmo frenético desde o momento em que, no quarto, com toda a paciência do mundo, Robert me livrou de minhas roupas, deixando-me completamente nua à sua frente e lançando-me um olhar que brilhava em lascívia e saudades. Todavia, nada se comparava a tê-lo ali, correspondendo ao meu beijo com urgência e voracidade, as mãos em concha em minhas nádegas, deixando-me nas pontas dos pés ao impulsionar-me um pouco mais para cima até que, por fim, enlacei minhas pernas ao redor de sua cintura, sendo prensada contra seu peitoral firme e os azulejos gelados às minhas costas, que contrastavam com o calor de seu corpo. Ofeguei em puro deleite com a nova posição, perguntando-me se aquilo significava que Robert estava disposto a ignorar as recomendações médicas e tomar-me para si ali mesmo. Talvez eu devesse ser mais cuidadosa, porém, enquanto explorava sua pele cálida sob meus dedos, arranhando-a com as pontas de minhas unhas, como sabia que ele apreciava, eu não conseguia pensar no porquê de não ir até as últimas consequências. Eu o desejava ardentemente, e se a forma como ele agraciava um de meus seios com os lábios e sua ereção, que se mostrava imponente, pudessem ser levadas em consideração, eu também me atreveria a apostar que ele me queria na mesma proporção, contribuindo para que eu não me importasse com o fato de ter uma cicatriz de aparência duvidosa logo no abdômen. Contudo, no momento em que os dedos de Robert esbarraram no local, em meio ao seu passeio preguiçoso por meu corpo, eu me retesei, sentindo-me insegura outra vez, como me senti assim que ele me despiu. Então seus olhos procuraram os meus, e eu os vi banhados em lubricidade ao passo que ele me encarava. — Você é indefectivelmente linda — sussurrou com sua voz rouca, o sotaque inglês melhorando, e muito, o modo como as palavras já bem-vindas soavam aos meus ouvidos. — E eu nunca desejei tanto uma mulher como desejo você — continuou, deslizando a ponta de sua língua sobre meus lábios, como se para


demonstrar o que dizia. Passei meus braços ao redor de seu pescoço, encarando-o fixamente, e a sensação de regozijo se espalhou por cada pequena partícula do meu corpo. Minha face estava corada, sim, mas, desta vez, não tinha nada a ver com acanhamento. — Isso quer dizer que estamos juntos? — eu quis saber, porque eu não podia depositar esperanças em algo que teria prazo de validade pré-estabelecido. Por mais que me doesse, poderia haver essa possibilidade, certo? E eu precisava da verdade. — Quer dizer que eu quero ficar com você, contanto que isso seja o que você também quer — retorquiu, esboçando um sorriso contido ao passo que meu coração parecia prestes a sair pela boca. Eu estava muito feliz por ter me livrado do monitor cardíaco, porque se estivéssemos tendo aquela conversa no hospital, provavelmente toda a equipe médica invadiria meu quarto acreditando que eu estivesse à beira de um colapso. Mas ali éramos apenas Robert, eu e o sorriso enorme que tomou conta dos meus lábios como reflexo de como eu me sentia por dentro. Era felicidade genuína. Nua e crua. Correndo por minhas veias, penetrando cada poro, percorrendo cada ínfimo pedaço do meu ser. Por isso eu tornei a beijá-lo, sabendo que nem de longe aquela seria a última vez, pois haveria incontáveis oportunidades para que nossas bocas se encontrassem. — Eu te amo tanto, tanto, tanto… mais que tudo! — confessei, sem afastar minha boca da de Robert, tampouco desmanchar meu sorriso. — Eu também amo você, Linda — sussurrou, selando meus lábios com os seus demoradamente, quitando-me o ar apenas para ter-me encarando-o em seguida, catatônica. — Eu te amo e sinto muito por ter demorado tanto a conseguir articular o que você merecia ouvir — pontuou, e eu queria dizer a ele que nada mais importava, além do fato de termos encontrado nosso caminho de volta um para o outro. No entanto, sua língua deslizando entre minha boca eclipsou meu poder de articulação e não me preocupei em interromper o que estávamos fazendo. Robert correspondia aos meus sentimentos, e não havia palavras suficientes em idioma algum que pudessem expressar de forma digna o que sua confissão me fazia sentir. Ouvi-lo dizer que me amava foi tudo o que mais ansiei mesmo antes de nos casarmos, e ter sua declaração cantada ao meu ouvido não abria espaço para mais nada. Qualquer coisa que ainda precisasse ser dita poderia ficar para depois, porque tempo não nos faltaria e eu me asseguraria disso.


T udo estava de volta ao lugar. Na maioria dos aspectos, ao menos. O trabalho na R Blackwell consumia parte considerável do meu tempo, entretanto, deixei de usá-lo como desculpa para afastar a minha família de mim. Eu estava ciente das minhas obrigações profissionais, do mesmo modo que não me deixava esquecer que eu tinha uma família, a qual amava e requeria minha atenção. Os jantares na casa de Elizabeth uma vez por semana eram inadiáveis, com o bônus de ter Linda de volta. Agora, ela era a última pessoa que eu via ao adormecer e a primeira ao despertar, e nada parecia mais certo em todo o mundo do que embalá-la em meus braços, sua cabeça apoiada em meu peito e uma das pernas jogadas de forma displicente sobre as minhas. E nem era sobre sexo — apesar de eu contar os dias até que pudéssemos dar um fim à abstinência, instaurada graças ao seu processo de recuperação —, era sobre tê-la ali. Comigo. Acordar ao seu lado, observá-la dormindo, como ela enrubescia a cada elogio. Sobre como eu sentia falta da textura da sua pele, do gosto do seu beijo, dos seus lábios e do calor do seu corpo. E não importava o quão ruim pudesse ser meu dia, porque, ao final dele, eu poderia abraçá-la e receber uma carícia suave em meus cabelos que faria com que as coisas melhorassem. Tudo girava em torno do fato de que eu a amava, irrevogavelmente, como jamais julguei ser possível. Por isso, quando passei em frente a uma joalheria,


após um muito bem-sucedido almoço de negócios, e vislumbrei um lindo solitário em ouro rosé encrustado com diamantes rosas, eu soube que, por mais que Linda amasse a história sobre o anel de pérola negra com o qual meu avô pediu a mão de minha avó em casamento, aquele era o momento de Linda e eu forjarmos nossa própria tradição.

— Você está deslumbrante — eu tornei a elogiar, assistindo, em deleite, ao momento em que suas bochechas enrubesceram um pouco mais. — E você está soando um pouco repetitivo e exagerado — rebateu, mas não se preocupou em esconder o sorriso satisfeito que cada galanteio a fazia esboçar, ainda que Linda não compreendesse como eu era capaz de achá-la absurdamente sexy quando vestia um jeans surrado e uma camisa preta de mangas compridas e botões. Ela deu uma breve olhadela no ambiente ao redor, parecendo satisfeita com o que via. A pizzaria simplória onde tivemos nosso primeiro encontro não mudara muito, apesar de aparentar ter passado por uma boa reforma. Não obstante, as mesas e cadeiras continuavam sendo feitas da mesma madeira barata de sempre, contrastando com o cardápio, que parecia um pouco mais incrementado, apesar de eu não ter dedicado muito tempo checando nada do que havia ali. Eu já sabia o que Linda iria escolher, mesmo que ela tivesse conferido item por item e vibrado em excitação ao notar que seu sabor predileto de pizza continuava disponível. Linda pediu sua “pizza de lombinho com bastante milho e azeitonas extras”, sendo fiel às suas palavras, e, para beber, eu concordei em acompanhá-la quando ela se mostrou interessada por uma Coca-Cola KS. Quando eu liguei para Linda, mais cedo, naquele mesmo dia, convidando-a para jantar, era óbvio que eu planejava algo muito diferente do que estávamos vivenciando naquele momento. Porém, quando ela sugeriu que fôssemos


justamente ao local onde tivemos nosso primeiro encontro, foi impossível negar, em especial ao lembrar-me de todas as coisas pelas quais havíamos passado desde que estivéramos ali pela primeira vez. E não apenas isso: numa noite como aquela, exatamente um ano atrás, eu pedi a Linda que ela fosse minha esposa. E recebi um sonoro não como resposta. Sorri ante o pensamento, perguntando-me se, depois de tudo o que vivêramos juntos, ela me diria não outra vez. — O que é tão engraçado? — Linda quis saber, inclinando-se sobre a mesa enquanto esperávamos nossa refeição, apoiando os antebraços no tampo do móvel, com as palmas das mãos viradas para cima, num convite para que eu colocasse as minhas ali. Convite, esse, que aceitei de bom grado, apreciando a textura macia de sua pele e entrelaçando nossos dedos. — Tem uma coisa que eu queria perguntar. Pensei em fazer isso de um modo diferente, mas, ao que parece, você tinha outros planos — observei, indicando num gesto desleixado o ambiente ao redor, sem abandonar o contato com suas mãos, no processo. — Perguntar? — Uniu as sobrancelhas, deixando clara sua confusão. Anuí, tomando uma longa lufada de ar e procurando em minha mente as melhores palavras a serem usadas, a fim de deixá-la saber como eu me sentia sobre o que estava prestes a propor. Pensei sobre isso por toda a tarde, e nenhuma opção me pareceu à altura de Linda. No entanto, ali estávamos nós, e eu não podia mais protelar o inadiável. — Linda — comecei, umedecendo com a ponta da língua os lábios subitamente ressequidos —, nós já nos conhecemos há algum tempo — prossegui, franzindo o cenho em desgosto, porque as coisas não estavam saindo nada bem. Ela sorriu, divertida, meneando a cabeça de um lado para o outro, incrédula com minha falta de tato com as palavras. — Eu sei que você me ama — apontou, apertando minhas mãos entre as suas enquanto me regalava um olhar enternecido e apaixonado que me aquecia o peito de modo sem precedentes. — E eu também te amo. Você não precisa de rodeios para me fazer perguntas, porque não há nada que nós não possamos falar para o outro, certo? — inquiriu, fazendo alusão a uma dos milhares de conversas que nós tivemos nos últimos dias acerca do futuro, onde eu lhe disse que manter segredos entre nós foi o que nos causou tantos problemas e que o melhor era mesmo abolir a prática. Por isso, confirmei com um meneio de cabeça, trazendo suas mãos até os meus lábios, para que eu pudesse beijar-lhe os dedos. — Case-se comigo — pedi, contemplando sua expressão divertida e relaxada oscilar diversas vezes num ínfimo espaço de tempo, até se tornar uma


máscara de incredulidade. O queixo pendeu, os olhos se arregalaram e eu seria capaz de jurar que a única razão de ela não ter pronunciado uma única palavra era ter tido a habilidade de articulação quitada por um momento. — É um pedido sério? — foi o que ela murmurou um tempo depois, e, em resposta, desentrelacei nossos dedos, buscando no bolso de minha calça jeans o porta-joias aveludado. Melhor do que dizer-lhe que sim, eu sabia o que estava pedindo e aquilo era o que eu realmente queria, era mostrar-lhe que a proposta não saiu da minha cabeça por todo o dia. De tal modo, depositei o objeto delicado sobre a mesa, abrindo-o e deixando que Linda vislumbrasse o solitário que comprei pensando nela. Talvez nós tivéssemos plateia, contudo, não me ocupei em checar. Meus olhos estavam fixos em Linda e eu desejava apenas que não fôssemos interrompidos com a chegada abrupta de nosso pedido. E, claro, que ela me dissesse sim. Os olhos escuros que me tiravam do eixo com o simples fato de me encararem com atenção reluziram no momento em que se prenderam ao diamante sobre a mesa. Linda levou ambas as mãos aos lábios, admirada, alternando o olhar entre mim e o objeto. — Rob… — ela resfolegou, pousando a mão direita sobre onde deveria ser seu coração, como se, assim, pudesse acalmá-lo de toda sua euforia. — Volte a ser a minha senhora Blackwell, Linda — insisti, sem conseguir conter a onda de pânico que assolou meu peito sob a possibilidade de ela negar meu pedido. Não seria a primeira vez que, mesmo apaixonada por mim, Linda dizia não à minha proposta de casamento. E eu entendia seus motivos para quitar-me o sim que eu tanto ansiava um ano atrás, porém, depois de todas as coisas que vivemos juntos e de eu ter deixado claro que a amava, eu não poderia conceber o pensamento de que… — E-eu n-não posso — balbuciou de volta para mim, fazendo-me piscar algumas vezes, aturdido. — Por que não? — inquiri no ímpeto, sentindo meus músculos tensionarem e meu coração falhar uma batida. — Porque eu nunca deixei de ser. — Deu de ombros, em sinal de casualidade, mas o longo suspiro de alívio que escapou de seus lábios denunciava que Linda tinha suas próprias ressalvas no que dizia respeito ao nosso relacionamento. — Você não assinou o divórcio… — constatei, tomado por um sentimento de euforia nascido do fato de que, mesmo quando seus lábios e sua razão diziam que


o melhor era que nos separássemos, o coração de Linda não tinha dúvidas de que pertencíamos um ao outro. — Me desculpa, amor, de verdade — ela apressou-se em dizer, estendendo a mão esquerda sobre o tampo da mesa, a fim de segurar uma das minhas, enquanto, com a outra, ela contornava o diamante rosa entre nós. — Ele é tão lindo — deixou escapar num suspiro. — Eu ia te contar sobre o divórcio, só estava esperando o momento certo. Como eu ia imaginar que você me pediria em casamento, quando nós dois já moramos juntos? — Nós não seríamos o primeiro e nem o último casal a decidir morar juntos e pensar em casamento depois. — Eu sei. Sinto muito. E pode não parecer, mas o fato de sermos casados não diminui em nada o tamanho do gesto e o quanto eu o amei. Porque sei que, agora, foi de coração. — Ela me ofertou um sorriso deslumbrante ao passo que tentava me confortar, acreditando que havia estragado o momento que eu idealizei. Porém, aquilo não poderia estar mais longe da realidade. — Então vamos renovar os nossos votos. Na igreja. Onde você quiser. Só quero esperá-la no altar outra vez e vê-la caminhar em minha direção usando um vestido de noiva, véu e grinalda. Pela segunda vez na noite, assisti à sua expressão se metamorfosear incontáveis vezes em poucos segundos, e se antes Linda esboçava um sorriso radiante, eu tinha certeza de que nada se comparava ao que ela trazia nos lábios agora. — Você está brincando, certo? — testou, contudo, sua expressão de felicidade não vacilou um único momento. Estendendo a mão para o estojo aveludado sobre a mesa, segurei o solitário delicado entre as pontas de meus dedos, tomando a mão esquerda de Linda com a minha e deslizando seu mais novo anel de noivado pelo seu dado anelar, ao passo que seus olhos iam tornando-se mais e mais marejados e eu ponderava sobre nunca antes ter apreciado tanto o fato de o atendimento de um restaurante demorar mais que o necessário. O anel, que já era bonito aos meus olhos, pareceu ter ganhado vida quando visto repousando na mão de Linda, e ela não conteve um ofego emocionado e satisfeito ao observar a joia que, por mais valiosa que pudesse parecer, não representava sequer um décimo do que Linda significava para mim. Depois de tudo, tê-la comigo era um milagre, e eu jamais seria inconsequente outra vez. Eu jamais deixaria Linda partir. — Nunca falei tão sério em toda minha vida. A única razão de você não ter tido um casamento como sempre sonhou foi por eu saber que se tratava de um


momento único e que precisaria ter grande significado — admiti, depositando um beijo demorado no dorso de sua mão. — A verdade é que eu te imaginei diversas vezes, vestida de noiva, pronta para se casar com um homem que te amasse e fizesse feliz como você merece. Mas já que estabelecemos que eu sou esse homem em questão — gracejei, lançando-lhe uma piscadela, e Linda sorriu brilhantemente em resposta —, vou encarar o fato de você não ter assinado o divórcio como um sim. — Claro que é um sim! — apressou-se em dizer, e foi sua vez de levar nossas mãos unidas aos lábios, depositando um beijo demorado e terno sobre o dorso da minha. — Vai ser sempre sim pra você, Rob. Sempre!

O trajeto de volta fora feito num tempo significativamente menor do que o de ida. Apesar disso, o caminho de casa nunca me pareceu mais longo, graças ao fato de que, durante o jantar, Linda me regalou com a informação de que, segundo o médico, ela poderia retornar às atividades normais. Fitando-a nos olhos, sendo alvo do olhar que ela me lançava por sobre a borda do copo, enquanto sorvia seu refrigerante, eu sabia que a noite terminaria para nós dois do melhor modo possível. Nós fizemos nosso caminho até o quarto cegamente, livrando-nos das roupas um do outro no segundo em que pusemos os pés no hall de entrada do apartamento. Não éramos muito mais que mãos e bocas se explorando, reconhecendo… Sem tempo a perder, eu arrebentei os botões da camisa de Linda, para despila de uma vez, e recebi o mesmo tratamento em retorno. Seus dentes se fecharam sobre meu lábio inferior quando tomei os seios redondos e tenros entre as mãos, massageando-os, e ela deixou um gemido baixo escapar no momento em que prendi seus mamilos intumescidos entre meus indicadores e polegares, puxando-


os para mim. Nossas roupas já estavam esquecidas pelo chão ao chegarmos à cama. Ergui Linda nos braços, descansando seu corpo sobre os lençóis macios e juntando-me a ela logo após. Suas coxas se abriram para me receber, e um som de puro deleite rasgou nossas gargantas assim que nossas excitações se encontraram. Minha boca buscou a sua, beijando-a esfomeadamente e apreciando o seu beijo, cujo sabor era, para dizer o mínimo, o melhor que eu já experimentara e o único que eu desejava sentir pelo resto da vida. Levei meus lábios para o seu pescoço, mordiscando-o ao passo que aspirava fundo seu cheiro, sentindo-o adentrar minhas narinas do modo como ansiei por todo o tempo em que fui obrigado a manter-me longe dela. As palmas de minhas mãos acariciaram cada pequeno pedaço de pele que poderiam alcançar e meus beijos migraram para o colo de Linda, rumando o vão entre os seios, até que eu, finalmente, trouxe um deles aos lábios, apreciando o instante em que seu corpo ondulou sob o meu, por puro prazer, e seus lábios se entreabriram para modular um arquejo. Continuei meu caminho, indo mais para o sul, demorando-me nas partes que Linda mais apreciava e que a faziam mais afoita, até o momento em que toquei sua intimidade úmida com minha língua, provando-lhe o gosto intrínseco e soltando um gemido arrastado. Eu suguei o ponto túrgido, do mesmo modo que fizera com os mamilos, e os quadris de Linda se ergueram em direção ao contato com minha boca enquanto ela afundava a cabeça nos travesseiros, perdida nas sensações, murmurando palavras desconexas e enterrando uma das mãos em minha nuca, incentivando-me a continuar, ao passo que, com a outra, apertava os lençóis sob seu corpo até que os nós de seus dedos tornaram-se brancos. Penetrei-a com minha língua, sorvendo sua umidade, e senti o primeiro espasmo se apossar do corpo de Linda. Seus gemidos deram lugar a um grito agudo de excitação, e ela pressionou meu rosto com mais força contra sua intimidade, instigando-me a seguir com os movimentos e conduzi-la ao clímax. Mas não ainda. Depositei um beijo demorado sobre o ponto túrgido, traçando com beijos meu caminho de volta. Linda soltou um muxoxo de insatisfação, contudo, no momento em que tomei sua boca com a minha, ela correspondeu ao beijo sem reservas, deslizando uma das mãos entre os nossos corpos, trazendo minha ereção entre os dedos e acariciando todo o comprimento, fazendo qualquer resquício de coerência que eu ainda pudesse ter se esvair sob seu toque. Soltei um gemido gutural, rouco e arrastado, trincando o maxilar, os cotovelos fincados no colchão, aos lados do rosto de Linda, para que eu pudesse me apoiar melhor. Seus olhos se abriram para encontrar os meus, e eu jamais vislumbrara tanto


desejo, antes, nos orbes negros e convidativos, que exalavam luxúria. Linda fechou seus lábios em torno da linha da minha mandíbula, sugando o local, mordiscando e resvalando sua língua até o meu pescoço, alcançando o lóbulo de minha orelha. Ela guiou meu membro até sua entrada úmida, encaixando-o ali e prendendo minha cintura ao circundá-la com suas pernas, puxando meus quadris mais para baixo, de encontro aos seus. E eu me deixei levar, sentindo as paredes quentes e escorregadias me receberem e contraírem ao meu redor enquanto eu me afundava ali. Linda deixou um ofego escapar, ao pé de meu ouvido, arqueando os quadris para receber-me em seu interior. Engoli em seco, sentindo o coração assumir um ritmo ainda mais desenfreado. Os músculos de meus braços tensionaram, devido ao esforço, e meu abdômen contraiu de modo involuntário quando a intimidade de Linda se fechou com força ao meu redor, como se me puxasse para mais fundo dentro dela. Gemi em deleitamento, sendo acompanhado por Linda, e deslizei minimamente para fora de seu corpo, apenas para voltar a enterrar-me nele. — Está tudo bem? — eu consegui inquirir, buscando seu olhar, a rouquidão em minha voz sendo acentuada pelo desejo. Eu necessitava me garantir de que não a estava machucando, porque não sabia por quanto tempo mais conseguiria manter o controle. — Nunca estive melhor — Linda retorquiu, com um sorriso na voz, depositando um novo beijo em meu pescoço e me provocando com um movimento de quadris. — Mas ainda estou com saudades… continue, amor. Em resposta, eu me movi dentro dela, sentindo meu peito inflar em regozijo no momento em que um novo arquejo escapou de seus lábios, seu hálito se chocando contra minha pele, e o que antes eram investidas lânguidas, transformou-se na busca desenfreada por nosso ápice. Nós nos beijamos sofregamente, sorvendo o gosto do outro, as línguas se encontrando e atrelando-se uma à outra. Linda afundou as unhas bem-cuidadas em minhas costas, e a ardência me fez emitir um gemido de prazer. Minhas mãos acariciavam suas coxas torneadas e tenras, meus dedos enterrando-se na pele macia enquanto eu apalpava seu abdômen e seios, como se nunca pudesse ter o suficiente dela. As investidas continuaram, até que todo o corpo de Linda saiu do controle, convulsionando sob o meu ao passo que ela emitia meu nome num gemido ansioso e arrastado. Suas paredes se apertaram com ainda mais força ao redor de minha ereção, de modo implacável, e aquele foi o meu fim. Eu me deixei levar, derramando-me dentro dela como tanto ansiei durante todo o tempo em que estivemos separados, beijando-lhe a boca quando o prazer sobrepujou meu controle e eu me entreguei ao que foi o melhor clímax que eu já experimentara até então, com a mulher que eu amava relaxada e satisfeita em meus braços,


enterrando minhas narinas na curvatura de seu pescoço, inalando seu cheiro delicioso longamente e beijando sua pele suada. — Isso foi incrível — ela soltou num arquejo, irrompendo numa risada um segundo depois. Abri um sorriso de lado, afastando seu cabelo suado de sua testa e erguendo meu rosto para mirá-la fundo em seus olhos. — A noite está só começando, amor. Você ainda não viu nada — confidenciei, mordiscando seu lábio inferior demoradamente e iniciando um novo beijo apaixonado.


A quela era a terceira vez que eles presenciavam algo assim, contudo, nada amenizava a emoção de assistir a um filho dar seus primeiros passos. Faltando pouco menos de dois meses para o primeiro aniversário da pequena Alexia Blackwell — ou Lexi, como os gêmeos Jared e Alexander Blackwell, agora com 7 anos, gostavam de chamar a irmã mais nova —, a garotinha de cabelos e olhos escuros decidiu que engatinhar já não era o suficiente para atender às suas exigências. Fazia uma temperatura agradável de 25ºC, e Linda aproveitou o clima propício do verão para estender uma toalha listrada nas cores vermelho e branco no jardim da casa nova — a qual fora adquirida no período de gestação dos gêmeos, graças à necessidade da família prestes a aumentar. Tanto Linda quanto Robert gostavam muito do apartamento em que viviam no centro, entretanto, no instante em que os olhos de Linda avistaram o jardim espaçoso e a piscina, ela pousou a mão sobre a barriga de seis meses, sentindo quando Robert fez o mesmo. Foi inevitável, para ambos, imaginar os gêmeos correndo pelo local, desfrutando cada pequeno recôndito da propriedade ampla e jamais permitindo que ela parecesse vazia. Ainda assim, na opinião de Linda, aquela construção de proporções quase faraônicas era exagerada demais, porém, ela se lembrou da mansão Blackwell, que era a referência de lar que Robert tivera na infância, e entendeu que a quantidade exacerbada de suítes e metros quadrados era algo de


que ele fazia questão. Como para ela nada daquilo faria diferença, resolveu aceitar. Dois meses depois, eles se mudaram, juntos, do apartamento que dividiram nos dois últimos anos pelo que seria a última vez. Observando o par de cabelos acobreados e olhos verdes idênticos aos do pai, que também atendiam por Jared e Alexander, batizados com os nomes do meio dos gêmeos Robert e Matthew Blackwell, Linda não poderia se arrepender da escolha que fizera nem mesmo se assim desejasse. Os meninos traziam da cozinha as duas cestas com a comida que ela preparou, ao passo que Lexi engatinhava pela grama, em busca da bolinha colorida com que brincava e acabou rolando para longe. Era sábado, o que significava que Robert estaria em casa para o almoço a qualquer minuto, e, naquele dia, eles almoçariam ao ar livre, sobre a toalha de piquenique, como gostavam de fazer com as crianças, às vezes. Durante quase toda a vida, Robert teve medo de passar para os seus filhos a forma errônea como Frederick o educou, por isso, quase oito anos atrás, na época em que Linda e ele foram pegos de surpresa com a notícia da gravidez, ele sentiu o medo congelar seus ossos e espremer o coração. Não obstante, a vida que Jared, Alex e Lexi levavam nada tinha a ver com a dos pais, em suas respectivas infâncias. Linda e Robert permitiam que os filhos fossem crianças, uma oportunidade que eles mesmos não tiveram. Eles corriam descalços pela grama e então se lançavam na piscina, comiam sem estarem sentados à mesa e dispensando o uso de talheres. A melhor parte de tudo era que o faziam na companhia dos pais. Pensando em como sua família era muito além do que um dia poderia ter sonhado, Linda não percebeu que Robert chegara em casa até vê-lo descer do carro, o qual não se preocupou em deixar na garagem. Como sempre acontecia, Jared e Alex correram para recebê-lo e foram erguidos, um de cada vez, no colo do pai, ganhando um beijo nas bochechas para logo em seguida correrem rumo ao local onde a mãe conferia as cestas que eles haviam acabado de trazer da cozinha. Linda cogitou se levantar com Lexi, a fim de receber o marido, contudo, a garotinha foi mais rápida. Sem muita firmeza, ela apoiou as mãozinhas no chão, usando seu pouco equilíbrio para colocar-se de pé e arriscar passos trôpegos e curtos em direção ao pai. — Papa, papa… — balbuciou sem nexo, os braços esticados para Robert, que não conteve o sorriso imenso que nasceu nos seus lábios e precipitou-se para pegar Lexi no colo, antes que ela atingisse o chão, assim que tropeçou nos próprios pés. — Isso mesmo, eu sou o seu papai — murmurou, depositando um beijo


demorado na bochecha rosada pelo sol. — E você é linda demais, minha Lexi. — Ele levou o dedo indicador até o pescoço da filha, fazendo cócegas e arrancando dela uma risadinha estridente. — Ela já tinha feito isso antes? — inquiriu a Linda, que, com os olhos marejados, negou num meneio de cabeça. — Acho que ela estava guardando as habilidades para mostrar para o homem da vida dela — Linda brincou, depositando um beijo demorado nos lábios de Robert e, em seguida, beijando o topo da cabeça de Alexia. — Parabéns, filha — sussurrou ao ouvido infantil, sentindo o coração transbordar de amor. O sentimento não era raro, apesar de sempre parecer único. Todavia, sempre que seus olhos vislumbravam o marido, todas as vezes em que que se lembrava da sensação de carregar seus filhos no ventre ou mesmo durante uma reunião modesta na companhia dos González e dos Smith, Linda sentia que não era capaz de absorver tamanha felicidade. Mas era.

— … e eles viveram felizes para sempre … — Linda concluiu a história improvisada que contara para as crianças, a fim de colocá-las para dormir, entretanto, a julgar pelos olhares de Jared e Alex, deitados na cama de modo displicente, ao lado do pai, ela não fora bem-sucedida. “Era tão mais fácil na época em que eles dormiam durante a amamentação”, pensou, sentada em sua poltrona corriqueira, fitando Lexi que ressonava tranquila em seu colo, recém-alimentada. — Por que suas histórias sempre terminam depois do casamento? — Jared questionou, sentando-se na cama e tombando a cabeça para o lado enquanto fitava a mãe com os olhos perscrutadores idênticos aos do pai. — E por que nelas nunca tem dragões? — foi a vez de Alex protestar, cruzando os braços em frente ao corpo, erguendo uma única sobrancelha, como o pai costumava fazer.


Linda bufou em resposta, rolando os olhos ao passo que Robert a fitava de modo presunçoso. — Porque as histórias do papai são melhores que as minhas — ela admitiu, a contragosto, lançando um olhar para Lexi como se implorasse que ao menos ela gostasse de suas histórias pouco elaboradas. — É verdade! — os gêmeos disseram em uníssono, trocando um sorriso cúmplice. Talvez não fosse pelo motivo certo, ainda assim, Linda amava ver o modo como os filhos eram os melhores amigos um do outro. Inseparáveis em absolutamente tudo. Inflava-lhe o peito saber que os fantasmas do passado não exerciam poder algum sobre as criaturas inocentes que ela teve o prazer de gerar, frutos do seu amor com Robert. Para ele, que sempre fora tão pragmático e dono de si, era uma experiência nova saber que, apesar de seu coração seguir batendo forte dentro do peito, agora ele era dividido em quatro partes iguais. Sempre tão cético no quesito amor, Robert ainda se surpreendia com a quantidade de sentimento que conseguia guardar no peito sem que ele ameaçasse explodir. — Vocês podem jogar um pouco de videogame antes de irem dormir — ele falou bagunçando os cabelos dos gêmeos, que vibraram em exultação e se apressaram para fora da cama. — Shhhh… — ele repreendeu, pousando o dedo indicador da mão direita sobre os lábios enquanto, com o outro, apontava na direção de Lexi, que não se abalou com o barulho. Jared e Alex se desculparam com o olhar, envolvendo o pescoço do pai ao mesmo tempo num abraço triplo, murmurando ao seu ouvido quase em uníssono: — O senhor é o melhor pai do mundo! — A declaração veio seguida de beijos estalados na bochecha, e, apesar de não ser a primeira vez que surgia, Robert tinha fé de que não seria a última, pois aquelas palavras aqueciam seu coração de uma forma inenarrável. Ele ainda era o homem de negócios implacável de sempre, contudo, zelar por sua família era o que Robert sabia fazer de melhor na vida. — E a senhora é a melhor mãe do mundo! — Alex se dirigiu a Linda, correndo para abraçá-la também e tendo o gesto imitado pelo irmão. — Suas histórias são ruins, mas ninguém joga videogame melhor que a senhora, mamãe — Jared concluiu, estalando um beijo em sua bochecha. Ele e Alex se despediram com beijos de boa noite também em Lexi, precipitando-se até a porta e parando ao ouvir a voz do pai: — Meia hora de videogame e então quero os dois na cama. E eu vou checar! — avisou, o dedo em riste apontando entre Jared e Alex. — Fechado! — Alex anuiu.


— A gente ama vocês! — Jared completou. — Nós também amamos vocês — Robert devolveu, enquanto eles fechavam a porta atrás de si, meneando a cabeça de um lado para o outro, achando graça como eles sempre se revezavam para dizer o “eu te amo” da noite. — Você ouviu? Sou a melhor no videogame — Linda provocou, levantandose de sua poltrona e caminhando até junto do marido. Ela lhe entregou uma Alexia ainda adormecida, que ressonou e se aconchegou melhor nos braços do pai. Mil anos poderiam se passar, porém, sempre que pegava um de seus filhos no colo, a sensação que Robert tinha era a de que estava segurando seu mundo inteiro nos braços. E talvez fosse isso mesmo que acontecesse. — Você é a melhor, Linda. Ponto — ele devolveu, segurando o corpo de Lexi com o braço direito e levando a mão esquerda para acariciar o rosto da esposa, com tanto amor estampado em seus olhos que Linda sentia ser possível afogar-se nele. — E você é infinitamente mais do que eu sonhei para mim — ela confessou num suspiro. Robert se inclinou em sua direção, tomando os lábios de Linda num beijo calmo e apaixonado, sentindo quando as mãos dela foram para sua nuca e brincaram com os fios de seu cabelo acobreado. Houve momentos em que a saudade do outro foi quase como uma dor física e o amargo da ausência era tudo o que poderiam sentir. Não mais. Tão felizes quanto um ser humano que possui tudo o que sempre almejou — e até um pouco além — poderia ser, a vida que Robert e Linda construíram juntos era doce como cada um dos beijos que ofertavam ao outro.


M ais difícil do que escrever os agradecimentos de um livro é escrever o agradecimento final de uma duologia! Preciso admitir que morro de medo nesse momento, porém, é inevitável gratular as pessoas que estiveram sempre ao meu lado, apoiando e não me deixando desistir de contar esta história. Aos meus parceiros e leitores betas: o que seria de mim sem o apoio incondicional que encontrei em todos vocês? Provavelmente, mais uma autora que mata o mocinho ou a mocinha no final do livro. Então, obrigada por me obrigarem a ser uma pessoa do bem e que escreve finais felizes. Vou tentar burlar as falhas da minha memória e citar os nomes daqueles que fizeram com que Robert e Linda tivessem o final que mereciam. E, sim, fui eu que os criei, mas ninguém no mundo os ama mais que a Ana Bittencourt. Ela esteve comigo durante todo o processo de escrita, chorou, se enterneceu, apontou os defeitos da narrativa e foi imprescindível para que o livro terminasse do modo que vocês acabaram de ver. Assim sendo, se o final não foi de seu agrado, a culpa é dela, no entanto, saibam que a Ana extraiu de mim o meu melhor, e por isso serei eternamente grata e a levarei por todos os livros que vier a escrever. Às minhas autoras e amigas lindas, que me deram o prazer de comentar na capa do livro e não fazem ideia do quanto admiro seu talento. Foi uma honra ler coisas tão bonitas destinadas a essa história que tem lugar cativo no meu coração. Soraya Abuchaim, Helô Delgado e Camila Pelegrini: obrigada pelo carinho. Sou


fã número 1 de todas vocês. À Isie Fernandes, claro, que não só fez um comentário para a orelha, como também passou madrugadas em claro junto comigo, me ajudando a deixar DA o mais próximo possível da perfeição. E, falando em ajuda: Jas Silva, Géssica Fernanda e Mary Oliveira, nossa conversa, naquele quarto de hotel, tarde da noite, recheada de pizza e regada a Coca-Cola foi fundamental para o fechamento desse ciclo. Obrigada por ouvirem minhas ideias loucas e, mais importante ainda, apoiar todas elas e dizer que dariam certo. Claro que não posso deixar de fora dos agradecimentos a pessoa que apareceu nesse livro antes mesmo de mim, Robert e Linda, né? A. J. Ventura, obrigada pela amizade, pelo lindo prefácio, pelos momentos memoráveis em frente ao Rei do Mate, por me apresentar ao Johnny Rockets e sustentar meu vício em Pringles e Lindt. Minhas definições de pessoas 5 estrelas foram atualizadas depois que você entrou na minha vida. À Míddian Meireles, obrigada por me perdoar depois de 4 anos guardando rancor e se oferecer para opinar sobre os capítulos; você esquentando meu juízo foi de suma importância para que Robert e Linda viessem a ser tão felizes quanto um casal pode ser. À Roberta Costa e à Nayara Yanne, me perdoem por ter deixado vocês no escuro depois da cena do infarto. Não era a minha intenção bagunçar o psicológico de ninguém. E se você achou que não entraria aqui, dona Maira Zamproni Pereira, saiba que sua “lilou” não te esquece nunquinha e que DA sempre vai ter seu dedinho, sua carinha, mesmo você ficando em off nessa finalização, porque a sementinha plantada é a mesma, não mudou. Obrigada! Por último, mas não menos importante, meu muito obrigada a você, leitor, que acompanhou toda essa jornada, sorriu, sofreu, sentiu raiva, derramou lágrimas e foi feliz junto a Linda e Robert com o final que, agora, sendo honesta, preciso admitir que não poderia ser outro. Roubando as palavras de Lizzie: eles se amavam demais para que essa história desse errado. O coração fica apertado, porém já não podemos mais adiar o momento de os personagens seguirem sua jornada. Resta apenas esse gostinho doce amargo da despedida ao saber que Linda e Robert estarão felizes, mesmo sem a gente por perto. Até a próxima história. Com todo meu amor, Evelyn Santana.


Table of Contents Table of Contents Doce Amargo Copyright Julio Cortázar Prefácio Prólogo Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Capítulo 15 Capítulo 16 Capítulo 17 Capítulo 18 Capítulo 19 Capítulo 20 Capítulo 21 Capítulo 22 Capítulo 23 Capítulo 24 Capítulo 25 Capítulo 26 Capítulo 27 Capítulo 28 Capítulo 29


Capítulo 30 Capítulo 31 Capítulo 32 Capítulo 33 Capítulo 34 Capítulo 35 Capítulo 36 Capítulo 37 Capítulo 38 Capítulo 39 Capítulo 40 Capítulo 41 Capitulo 42 Epílogo Agradecimentos

Profile for Ana Paula Oliveira

Doce Amargo: Livro 2 - Evelyn Santana  

Para Melinda Blackwell, descobrir que seu casamento era apenas uma farsa foi a coisa mais dolorosa que poderia ter lhe acontecido. Os beijos...

Doce Amargo: Livro 2 - Evelyn Santana  

Para Melinda Blackwell, descobrir que seu casamento era apenas uma farsa foi a coisa mais dolorosa que poderia ter lhe acontecido. Os beijos...

Advertisement