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DE REPENTE APAIXONADO Série Descobrindo – 2º Volume

MANU TORRES


Copyright © 2016 Manu Torres Capa: Dri K.K. Revisão: Débora Menezes e Hadassa Moreira Diagramação Digital: Wilka Silva Esta é uma obra de ficção. Seu intuito é entreter as pessoas. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência. Esta obra segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa. Todos os direitos reservados. São proibidos o armazenamento e/ou a reprodução de qualquer parte dessa obra, através de quaisquer meios – tangível ou intangível – sem o consentimentos escrito da autora. A violação dos direitos autorias é crime estabelecido na lei nº 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal. Criado no Brasil.


"Um dia eu quis brincar de amar, e eis que de repente, foi o amor quem comeรงou a brincar comigo." Fernando Teixeira


Agradecimentos Em primeiro lugar quero agradecer a Deus por ter me inspirado a escrever a história de Igor e Alice. Esse casal conviveu, diariamente, comigo parte de 2015. Foi maravilhoso estar com eles. Muitas vezes a caminho do trabalho me pegava sorrindo bobamente imaginando situações entre o Devasso e a sua Diabinha. Eles me ajudaram muito a relaxar e a esquecer dos problemas do cotidiano. Às minhas meninas, Wilka Silva, Maria Falcão, Andressa Clara e Luziana Lima, por serem completamente pacientes comigo quando achava que o texto estava uma porcaria ou quando mudava tudo de repente. Meninas, não tenho palavras para expressar toda atenção e dedicação que tiveram. Vocês são meu suporte... Muito obrigada por suas poucas horas de sono esperando os capítulos na madrugada. De Repente Apaixonado é de vocês também. À minha filha, Emily, por sempre ser compreensiva quando precisava ficar sozinha, apenas com as letras e a música me fazendo companhia. Meu amor, você é o centro do meu universo. Obrigada por ser tão especial. À Débora Menezes e Hadassa Moreira, que disponibilizaram gentilmente uma parte do seu tempo para revisar essa história. Meu Deus! Vocês não sabem o quanto o apoio de vocês significou para mim. Muito obrigada de coração. As minhas meninas do grupo do Whatsapp, Diabinhas da Manu, por fazerem parte do meu dia a dia, sendo atenciosas, carinhosas... e devassas. Vocês são maravilhosas! Não poderia deixar de agradecer a Camila Moreira, Biia Rozante, Caterine Santos, Caroline Yamashita, Drizinha Dri, Rita Cintra e Vanessa Fiorio por serem especiais na minha vida. Obrigada por tudo! À Layanne Feitosa por me ajudar com as traduções em francês, durante sua gestação. Mulher, você me seduz falando essa língua tão perfeita. E, especialmente, para todos os leitores que torceram, amaram e sofreram juntos com Igor e Alice. Vocês foram fundamentais no decorrer da história. Eu dedico este livro a todos vocês.


Índice Agradecimentos Índice Sinopse Prólogo Capítulo 01 - Algo Novo Capítulo 02 - Garota Folgada Capítulo 03 - E que os jogos comecem Capítulo 04 - Promessas Capítulo 05 - Nem tudo é o que parece Capítulo 06 - Afrontando a Fera Capítulo 07 - Mudança de tática Capítulo 08 - Ilustre visita Capítulo 09 - Caixa de surpresas Capítulo 10 - Com a boca na botija Capítulo 11 - Surpreendida Capítulo 12 - Desvendando sentimentos Capítulo 13 - Primeiras descobertas Capítulo 14 - Prevendo turbulências Capítulo 15 - Acontecimentos e expectativas Capítulo 16 - A matriarca Capítulo 17 - A casa caiu Capítulo 18 - Segredo Sujo Capítulo 19 - Abençoado Capítulo 20 - Regresso repentino Capítulo 21 - Chumbo grosso Capítulo 22 - O vento anuncia a chegada de tempestades Capítulo 23 - Pisando em cacos de vidros Capítulo 24 - Vivendo às escuras Capítulo 25 - Atitudes impensadas Capítulo 26 - Não é o que parece Capítulo 27 - Na mesma moeda Capítulo 28 - Seguindo em frente Capítulo 29 - Pesadelo Capítulo 30 - Remoendo erros Capítulo 31 - Momentos de tormenta Capítulo 32 - Esperando seu despertar Capítulo 33 - Um sonho real Capítulo 34 - Escolhas e recomeço Capítulo 35 - Diabinha x Devasso Capítulo 36 - Família Salazar


EpĂ­logo Sobre a autora


Sinopse O que você faria se o inesperado acontecesse? Alice Marie Ventura Schneider é a nova fisioterapeuta da Clínica Estevão Alencar. Uma mulher belíssima, determinada e totalmente desastrada. Filha de um relacionamento extraconjugal. Ela não aceita ser dependente de homem algum. Tudo o que ela mais queria era se dedicar à sua profissão, curtir a vida e se divertir com seus amigos. Em uma noite de balada, Alice se encanta por um loiro convencido, porém muito apetitoso. Mas o que ela não esperava, era que ele seria um sedutor médico e com fama de cafajeste. Aquele tipo que tinha decidido manter distância. Igor Salazar é um jovem ginecologista responsável e dedicado ao seu trabalho. É extrovertido e extremamente fiel aos amigos. Um homem irresistível e sensual, armas que usa ao seu favor quando o assunto é conquistar uma mulher. Mulherengo convicto, causador de vários corações partidos, foge de um relacionamento sério como o diabo foge da cruz. Tudo o que ele menos queria era se prender a alguém. Em uma noitada Igor conhece uma loira sexy e selvagem que desaparece sem nem lhe falar o nome. O que para ele parecia ser apenas mais uma noite de sexo fácil, acabou se tornando a descoberta de um novo sentimento. O que eles não contavam era que este encontro ao acaso poderia mudar suas vidas. Está pronta para ser levada do céu ao inferno? Às vezes o amor pode chegar quando menos se espera...


Prólogo

Igor — Por favor, Igor! Vamos comigo para a festa do Heitor. Você prometeu — minha irmã Ingrid implorava para ir a uma festa do cara que ela tem um rolo. — Hoje? Ah, me desculpe, mas não estou com vontade alguma de sair de casa — falei. Pode parecer estranho, mas esse fim de semana não estava a fim mesmo de sair. Já tinha desmarcado compromisso com Gabriel e Fernando. Não estava com saco para barulho ou uma festa com uma grande quantidade de garotos bêbados. Ainda estava me recuperando de uma dengue que não faço ideia de quando, onde e como fui picado por aquele maldito mosquito, que me fez um estrago grande. Fui vencido por um mosquito! Foram dias que prefiro esquecer. E agora, a pirralha da minha irmã me cobrava uma promessa que fiz há uns dias quando tinha bebido além da conta. Mas será que promessa de bêbado vale? — Eu não quero ir sozinha. E é dever do irmão mais velho acompanhar a irmãzinha — fez bico, essa chantagista. Ensinei todos os truques a essa charlatã, só nunca imaginei que usaria contra mim. Seu próprio irmão. E o feitiço virou, realmente, contra o feiticeiro. Ingrid é minha única irmã. Acabou de completar vinte e um anos e está cursando Publicidade. Desde que o nosso pai morreu, quando ela era ainda uma garotinha, assumi a figura paterna. Fiz de tudo para absorver a dor de não se ter um pai presente, esquecendo até a minha. Aos treze anos passei a fazer o papel do homem da casa e tomo conta da minha mãe e irmã até hoje. Tenho certeza que meu pai teria orgulho de mim. — E por que você não chama uma daquelas suas amigas sem sal para te acompanhar? — questionei. Ingrid consegue tudo de mim e, com certeza, eu acabaria indo com ela a essa festa, mas não custava nada fazê-la implorar. — Elas estarão lá — respondeu abrindo um sorriso malicioso — Você sabe, né? As minhas amigas sem sal acham o meu irmão um gato e muito gostoso — sorri maliciosamente já pensando em qual delas daria o prazer da minha presença. Ingrid sabia que meu ponto fraco era mulher. Mesmo sendo as ninfetinhas das suas amigas. Eu não deixaria passar. — Tá bom. Tá bom. Eu faço esse sacrifício de ir à festa com você — dei de ombros. Fingindo


boa vontade. Mas no fundo não negaria nada a minha irmãzinha. Realmente iria a essa festa apenas para acompanhar a Ingrid. Estava sem animação. As festas do Heitor eram famosas e atraía muitas beldades. Mas essa dengue acabou me deixando enjoado, e sem vontade para fazer nada. E não sei se teria paciência para ser gentil com a mulherada. E, também, ultimamente eram sempre as mesmas mulheres que encontrava. Aquelas que na maioria só comem alface e só falam de Carmen Steffens. Estava precisando de desafios maiores. Ingrid vibrou de felicidade quando falei que ia à festa. — Dessa vez, a festa será anos setenta. Haverá uma banda cover do ABBA. O Heitor fala que cresceu ouvindo as músicas da banda e decidiu homenageá-los — comentava toda radiante. Ela não admitia, no entanto eu sabia que sua relação com Heitor não era apenas um sexo sem compromisso. Ingrid nutria sentimentos por ele que não eram correspondidos da mesma forma. E isso me preocupava. Sou mulherengo e sempre fui sincero com as mulheres que fico. Não quero me enlaçar a uma mulher só, mas também não quero que as pessoas que amo sejam desiludidas, mas estava começando a achar que em breve alguém bateria na porta do meu apartamento com um pote de sorvete para chorar suas mágoas. Conhecia todo o lado feminino. Convivo com duas mulheres, e mesmo sem querer acabei aprendendo alguma coisa. Então vai por mim, sorvete de flocos ajuda bastante a recuperar desilusões. Essa receita não é daquelas que se aprende na faculdade, mas pode confiar, funciona. — Espera aí! — disse tomando consciência do tema anos setenta — Isso quer dizer que terei que usar aquelas roupas cheias de cores e sapatos altos? — perguntei, mas já sabia a resposta só de olhá-la. Ingrid caminhou até o sofá e pegou uma sacola que estava lá. Puxou a vestimenta e na mesma hora fechei os olhos e me arrependi profundamente por jurar amor eterno àquela fedelha. A disgramada sorria da minha cara. — Você ficará lindo, Gô — fuzilei aquela peste, puxando a fantasia da sua mão para ver o desastre que usaria. Nem aquele apelido carinhoso que consegue o que quer de mim, me faria não odiar a fantasia. Olhava aquela roupa e a xingava mentalmente. Era uma calça xadrez de boca larga, preta e rosa, uma camisa de manga longa branca com uma gola enorme, um colete preto, uma corrente enorme e grossa prateada e, por fim, sapato plataforma na versão masculina. Bem, foi o que a pestinha falou. — Ah! Ingrid. O que me alegra é saber que um dia cobrarei todos os micos que você me faz passar. E virá com juros altíssimos. Pode esperar — sussurrei bem pertinho do seu rosto provocando-a. — Vou usar o seu quarto de hóspede para me produzir — ela foi logo mudando de assunto. Porque ela sabia que me devia. E muito. — Não quero chegar à festa quando já estiver lotada —


virou e saiu indo em direção ao corredor que levaria aos quartos. Morava sozinho desde que terminei minha faculdade. Minha irmã morava com minha mãe num prédio residencial no bairro vizinho. Gozava da minha privacidade, mas queria estar perto delas para quando precisassem. Heitor costumava promover suas festas nas boates mais badaladas da cidade. E essa não seria diferente. Era uma boate famosa que tinha sido inaugurada há poucos meses. Ainda não tinha conhecido, mas Fernando tinha me dito que ela tinha uns corredores escuros, que ficava perto dos banheiros e que foi apelidado de “Labirinto”, pois quanto mais adentrava, mas corredores encontravam. Era point dos casais, por causa da meia luz e a discrição do local. Quando chegamos à boate já estava lotada. Todos estavam ridículos, vestidos com o tema da festa. Graças aos céus, eu era o menos feio. Tinha gente pior do que eu. Dá pra acreditar? Decidimos que ficaríamos no camarote. Como havia dito antes, estava enjoado e não queria ficar no meio daquela multidão e ter que sentir várias misturas de aromas pairando sob o ambiente. Não tenho nada contra quem usa Leite de Rosas e Kolene, mas que o cheiro daquelas porras me provoca ânsia, isso provoca. Já bastava o cheiro de naftalina que ficou impregnado na fantasia. Ingrid de imediato se atracou com Heitor e suas amigas, me deixando sozinho. A banda cover era boa. Minha mãe adorava a banda original ABBA. Lembro que a acompanhei para assistir a préestreia do filme “Mamma Mia” quando estávamos em Londres. Ela ficou tão fissurada com o filme que até hoje fala em conhecer a Grécia. Ela ainda não sabe, mas esse será o presente que darei no seu aniversário. Um passeio pelas belezas naturais, suas histórias, crenças e mitos do país grego. Não vejo a hora de entregar o presente e ver aqueles olhos brilhando de felicidade. Minha mãe era uma batalhadora, mesmo com toda minha ajuda, se dedicou totalmente a mim e a Ingrid, esquecendo-se da sua própria vida. Era uma bela mulher, chamava atenção por onde passava, porém nunca esqueceu meu pai. Dizia que o coração dela já tinha amado e nenhum outro preencheria o lugar do seu verdadeiro amor. Percebi que algumas mulheres já começavam a jogar seu charme. Já que estava na chuva decidi me molhar. Liguei meu radar para ver qual seria a gata que eu arrancaria a calcinha e levaria a loucura, mas não achei nenhuma interessante. Ah, mosquito filho da puta! Na hora fiz uma anotação mental: lembrar-me de na segunda-feira entrar em contato com a NASA para comprar uma roupa daquela pressurizada e evitar que aquelas hermafroditas cheguem perto de mim novamente. Ingrid e suas amigas se juntaram a mim e começaram a tagarelar, pareciam três maritacas. Já estava me vendo a caminho do hospício se ficasse ali por mais um minuto. Avisei a minha irmã que daria um pulo ao banheiro rapidinho, não esperei pra ver sua resposta e segui o caminho sufocando minha respiração ao passar pela multidão. Senti meu celular vibrar e saquei do bolso. Era uma mensagem do Gabriel avisando que estava


a caminho da festa do Heitor. Antes de sair de casa tinha avisado a ele que traria a Ingrid nessa festa e disse que se não encontrasse nada mais interessante pela cidade que viesse para cá. Só assim eu não sofreria sozinho tomando de conta da minha irmã e suas amigas. O pior que poderia acontecer é quando ele chegasse e me visse vestido com essas roupas cafonas, com certeza, seria zoação para o resto da noite, ou da vida. Isso se ele não tirasse uma foto minha e postasse nas redes sociais. O que de fato ele faria, não tenho dúvidas disso. A conta de favores da minha pestinha só aumentava. No momento que estava respondendo sua mensagem, escutei uma voz doce que me atraiu como um feitiço saindo do banheiro feminino. Levantei a cabeça rapidamente e o que vi foi fora do normal. Ela era linda e fodidamente sexy. E era ela que eu atormentaria a noite toda. — Opa! Opa! Opa! Ouvi dizer que em banheiros femininos só existiam mulheres falando e retocando essas coisas que vocês usam no rosto. Mas daí saber que existia um paraíso, e que daí de dentro sairia anjos, essa foi impressionante — falei impedindo que ela pudesse passar por mim — Antes de você me dizer seu nome e me pedir loucamente para que eu te leve para aquele corredor escuro ali, posso cheirar seu cabelo? Ah! Esqueci-me de falar. Pode ser que pareça estranho, mas tenho fraqueza por cabelos femininos. É o charme de uma mulher. Ela estava paralisada, mas o que falou em seguida me fez desistir do que havia perguntado há pouco instante. — Vou logo dizendo que não farei campanha alguma para seu salão de beleza e se você for daqueles gays que morrem de invejas de cabelos de mulheres, dispenso — pronunciou irritada. Até com raivinha sua voz era sexy — Você era até interessante, mas já vi que errei feio ao pensar que poderia ser heterossexual. Se desvencilhou da prisão que eu estava fazendo com meus braços e acrescentou provocando: — A propósito, estou usando uma minúscula lingerie e não precisa me levar para aquele corredor escuro e tentar tirá-la, pois já adianto que não entraria nesse seu traseiro imenso — a desgraçada deu um sorrisinho, e saiu rebolando pelo corredor em um pequeno vestido solto e curto, com botas brancas de cano longo. Antes que eu a perdesse de vista a segui e segurei-a por trás prendendo suas costas no meu peito e esfregando minha ereção naquela bundinha empinada. — Não sou preconceituoso. Mas fiquei curioso para te mostrar que de gay eu não tenho nada, nem um fio de cabelo — sussurrei no seu ouvido, mordendo o lóbulo da sua orelha e inalando um cheiro inédito e único dela. — O que está esperando para me provar? — senti seu sorriso malicioso. A diaba empinou ainda mais aquela bundinha e rebolou sensualmente passando suas mãos por cada lado do meu corpo. Não pensei duas vezes e a puxei direto para a primeira entrada que vi do labirinto. Dobramos por vários corredores, passando por alguns casais que estavam ali. Assim que percebi que ficaríamos mais à vontade, empurrei-a contra a parede. Enquanto uma mão a prendia pelos cabelos, a


outra fazia caminho subindo entre suas pernas. — Primeiro... — disse sério e cheio de tesão. Com a minha boca próxima a dela — Quero verificar se sua calcinha é realmente minúscula — assim que passei os dedos por cima do seu sexo senti sua umidade se formando. Alisei carinhosamente sua pele sedosa. Fiz caminho até sua bundinha e conferi que era fio dental. A calcinha realmente era bem pequena, mal cobria sua perdição. — Antes que pense em arrebentar minha lingerie. Aviso que ela tem dois laços de cada lado — ela disse. Suas mãos habilidosas já abriam a minha calça e puxava meu pau para fora. A beijei ferozmente, invadindo minha língua na sua boca. De uma só vez, puxei os laços de sua calcinha e a guardei no bolso do meu colete. A diaba sabia o que estava fazendo. Ela não era inibida. Apertou meu membro com precisão. E antes que gozasse afastei-me dela e agachei colocando uma perna sobre os meus ombros para dar apoio. Meu rosto ficou frente a frente com sua boceta. Mesmo à meia-luz vi que estava depilada e lisa, parecia uma rosa desabrochando. Inalei seu aroma e abri com dois dedos buscando seu brotinho. Assim que visualizei abocanhei com vontade. Chupando e mordendo. Senti seu corpo se desvencilhar e escutei seu gemido. Quando senti seus espasmos começando, ela começou a esfregar com mais força sua vulva em meu rosto. Enfiei a língua na sua boceta, friccionando o clitóris com o nariz. Minha diaba loira gozou, gemendo ao som de Mamma Mia para abafar o barulho que ela fez. Sem perder tempo puxei um preservativo que tinha colocado na carteira antes de sair de casa e coloquei rapidamente. Virei-a de frente para a parede. Seu corpo ainda tremia devido ao gozo que acabava de ter. Com as duas mãos empinei sua bundinha e a penetrei. Uivei como um lobo. A sensação de sentir meu pau escorregando por sua boceta era prazeroso demais. Ela estava apertada, como se não tivesse tido sexo há algum tempo. Na hora me senti um jumento, por ter sido tão ignorante com ela. — Te machuquei? — interroguei prendendo novamente seus cabelos na minha mão e puxando para encostar sua cabeça no meu ombro, saindo e entrando na sua bocetinha bem devagar. — Não... não para. Por favor. Não para — minha diaba implorava — Vá mais rápido. — Ah, diaba! Desse jeito eu vou gozar logo — comecei a chupar seu pescoço e aumentei a velocidade das estocadas para satisfazê-la. Nossos corpos se encaixavam perfeitamente e dançavam no ritmo das estocadas como se tivessem sincronizados. Não demorou muito e senti seu corpo tremer mais uma vez e gozar logo em seguida. Segundos depois explodi jatos fortes de esperma, gemendo em seu ouvido o prazer que ela tinha acabado de me favorecer. Ficamos em silêncio um sentindo o pulsar desacelerando do outro. Assim que tomei fôlego, quebrei o silêncio: — Se o inferno for bom assim como você, minha diaba, quero meu lugar na sala VIP e óculos 3D.


Capítulo 01 Algo Novo

Alice Ah, diaba! Desse jeito eu vou gozar logo. Acordei pela segunda vez consecutiva suada e desejosa. Desde sábado não paro de pensar na foda insana que tive na boate. Não sei o que deu em mim. Gosto de sexo, mas nunca tinha feito àquela loucura de pegar o primeiro cara que me cantou e trepar como uma cachorra no cio. Claro que a seca de um mês contribuiu bastante, já que eu tinha dispensado meu amigo com benefícios, Valentim, porém não justificava sair abrindo as pernas para qualquer um. Mas com “ele” tinha sido diferente. Sua voz tinha sido meu ponto fraco, minha ruína de sedução. Ele possuía uma voz rouca e sensual. O tipo de homem que por mais que soltasse uma cantada brega, o que ele realmente fez, demonstrava como era confiante de si. Sabia o que estava fazendo e agia sem medo de falhar. Convencido do seu poder de sedução. Ainda fingi estar irritada pelo seu atrevimento e entrei na brincadeira para ver até onde ele iria. Confesso que no momento em que me desvencilhei dele e saí abrindo caminho para voltar para a pista de dança, achei que ele desistiria. Ledo engano. O Sr. Gostoso seguiu-me e agarrou-me com precisão. Naquele momento sabia que iria ver estrelas, e realmente vi uma constelação inteirinha. Ele tinha me levado para um local discreto, o chamado “Labirinto”. Um local arquitetônico dentro da boate, cheio de corredores, onde havia vários casais buscando um momento de prazer a dois sem muitos voyeurs por perto. Tudo tinha sido tão rápido e ao mesmo tempo tão intenso, que nem ao menos perguntei o seu nome. Mas de olhos fechados consigo lembrar nitidamente dos seus traços, dos seus gemidos misturados aos meus e do seu aroma másculo misturado ao seu perfume amadeirado. Depois do nosso sexo selvagem agi como uma covarde e fugi dele no momento em que virou para se livrar do preservativo. Sabia que tinha sido apenas sexo, e não queria criar um mal-estar mostrando o quanto ele me afetaria quando me dispensasse, então facilitei para nós dois. Voltei para a agitação da boate, e depois de alguns minutos o vi circulando pela pista de dança. Seus olhos buscavam algo, a princípio tive esperança de que me procurava e ainda cogitei a possibilidade de ir atrás dele, e quem sabe passarmos mais um tempo juntos. Mas no mesmo instante


constatei que agi certo em ir embora sem dizer uma palavra. O bonitão logo se juntou a um grupo de meninas que dançavam no meio da pista e uma loira foi logo se pendurando em seu pescoço e ele agarrou sua cintura, a puxando para seus braços. Ambos sorriam e dançavam com muita intimidade. Sem vergonha! Ele tinha uma namorada, ou poderia ser sua noiva, esposa, quem sabe? Não tive tempo de analisar seus dedos das mãos, em busca de algo comprometedor. Sempre analiso dedos das mãos antes de qualquer encontro. É de lei. Não só para verificar marca de alguma aliança, mas também para verificar se seus dedos são realmente longos. Minha tia Lilian sempre diz que é através dos dedos das mãos de um homem que sabemos se ele é bem dotado nas partes baixas. Teoria da titia. Mesmo com o “cachorro” se esbaldando na pista de dança com a pobre namorada, que nem sequer imaginava o que ele tinha acabado de aprontar, tentei ainda me divertir. Sarah logo se atracou com um moreno bonitão e sumiu, enviando minutos depois uma mensagem dizendo que tinha se arrumado com o cara e iriam para um local mais tranquilo. Essa tinha sido a minha deixa para ir embora, mesmo com as reclamações da minha irmã. Não sou chegada à agitação, gosto de ficar em casa e assistir filmes e seriados comendo pipoca e tomando um bom vinho. Mas era o último sábado da minha meia-irmã, Sandrinha comigo. Ela estaria indo na segunda-feira à noite para França, onde ficará por dois anos estudando. Então, acabei sendo convencida por ela e minha melhor amiga Sarah, para saímos e fazermos uma despedida. Sarah está terminando arquitetura e trabalha em uma agência que promove eventos. Foi daí que ela conseguiu os convites para essa festa em uma boate recém inaugurada por algum riquinho da região. Na hora sugeri a ideia de irmos a um barzinho e tomarmos alguns drinks, mas Sandrinha amou a ideia da boate. Então não tive como negar. Minha história é meio dramática, tenho 26 anos e sou filha de um relacionamento extraconjugal. Minha mãe morou em Paris por cinco anos, ela é completamente apaixonada por tudo que é relacionado aos franceses, principalmente aos homens. Segundo dona Laura Ventura, os homens franceses são os melhores amantes. E foi lá, na França, que eu fui concebida, apesar do meu pai ser descendente de alemão. Mamãe conheceu meu pai, o judeu Ely Schneider, em um passeio com suas amigas por Besançon, uma cidade que fica situada às margens do rio Doubs. Lá existe uma pequena comunidade local judaica. E foi nessa visita pela Sinagoga de Besançon que Laura Ventura caiu nos encantos do boêmio. Tiveram um breve romance, porém intenso. Sempre que podia papai ia a Paris visitá-la. Até que um dia Laura Ventura descobriu que Ely Schneider estava de casamento marcado com uma judia e havia suspeita da moça estar grávida. Essa tinha sido a primeira decepção amorosa da minha mãe. Papai ainda a procurou várias vezes, mas mamãe o evitou de todas as maneiras. Pouco tempo depois do rompimento minha mãe se descobriu grávida. Sozinha e magoada em Paris, decidiu voltar para o Brasil sem falar da minha existência aos seus amigos da França e ao meu pai. E foi no Brasil que nasci sendo Alice Ventura.


Quando tinha 01 ano de idade, mamãe reencontrou o seu primeiro amor de adolescência, o primo Otávio Ventura. Ele passou a ser a minha presença paterna, o que me fez vê-lo e o chamá-lo de pai. Logo Otávio e mamãe foram morar juntos e quando eu estava com 03 anos de idade minha meiairmã, Maria Sandra, nasceu. Otávio era um homem bom e carinhoso com suas três mulheres. No entanto, o jogo e a bebida o destruíam, e ele não aceitava ajuda. O que levou minha mãe a ter sua segunda decepção amorosa. Ela não queria suas filhas sendo criadas nesse mundo, onde vários agiotas batiam a nossa porta cobrando dívidas exorbitantes e até mesmo nos ameaçando de morte. E outra vez Laura Ventura fugiu de um homem. Com duas filhas pequenas, minha mãe alugou um pequeno apartamento no bairro próximo à casa da tia Lilian. Professora de História e Língua Francesa, arrumou um emprego em uma escola particular e conseguiu bolsas de estudos para minha irmã e eu. Mesmo com um pequeno salário, mamãe nunca nos deixou faltar nada e construiu um lar para nós. Embora com todas as promessas de largar os vícios, mamãe nunca aceitou Otávio de volta. Permitiu que nos visitasse regularmente e sempre esteve disposta a ajudá-lo, mas ele nunca quis ser ajudado. Otávio foi encontrado morto quando eu tinha dez anos de idade, seu corpo tinha sido jogado em um matagal completamente dilacerado. Lembro que na época mamãe ainda tentou apaziguar sua morte, mas Sandrinha e eu sabíamos que tinha sido devido as suas dívidas de jogo. Quando criança sofri achando que era adotada, não compreendia porque minha mãe e Sandrinha eram morenas, ambas tinham cabelos semelhantes e castanhos, e eu, loira de olhos azuis, mesmo que Sandrinha também tivesse olhos claros, mas não era como os meus. Quando questionava minha mãe ela sempre inventava uma maneira de fugir do assunto. Muitos dos nossos amiguinhos da escola me zoavam por ser diferente delas. Perguntavam se o nosso pai era loiro e quando respondia que não, pois achava que era filha legítima do finado Otávio, riam e diziam que eu era filha de chocadeira, pois não tinha pai. Fiquei tão depressiva na época que mamãe precisou me levar a uma terapeuta, pois sofria de insônia devido ao medo de ir para escola, passei a não querer estudar e meu rendimento caiu bastante, me tornando uma garota rebelde. Na minha festa de quinze anos bebi descontroladamente, causando um escândalo na família. Dona Laura não conseguia me controlar e, não aguentando mais ver meu estado, decidiu contar a verdade sobre meu pai. Dizia que sentia muito medo que eu sofresse por ser uma filha ilegítima. Na hora tive uma mistura de alegria e raiva. Ela deixou em minhas mãos a decisão de querer procurá-lo e eu, de certa forma, compreendi e amei ainda mais a mulher que me gerou e protegeu. Laura Ventura tinha medo de perder o amor que eu sentia por ela, e principalmente tinha receio de como Ely Schneider reagiria ao descobrir que tinha uma filha adolescente. Passei todo aquele ano me dedicando a voltar a ser a garota que minha mãe me ensinou ser. Dediquei-me intensamente aos estudos, queria que meu pai tivesse orgulho de mim quando me conhecesse. Quando completei 16 anos, mamãe me enviou a França para estudar por seis meses. Entrou em contato com sua antiga colega de quarto, Abigail, e contou toda a verdade. Abigail era uma solteirona alegre, professora de Artes. Ela se disponibilizou a ajudar a procurar o meu pai. Para minha surpresa, quando desembarquei em Paris, Abigail já havia descoberto tudo sobre ele, até o número do seu seguro social.


Ely Schneider era viúvo e tinha um filho da minha idade chamado Levi. Lembro que na hora um pânico tomou conta de mim e quase desisti e retornei para o Brasil. Os primeiros dias em Paris tinham sido de adaptação. Aos 16 anos eu já tinha estabelecido metas para o meu futuro e, para isso, precisaria de muita paciência para cumprir cada meta desejada. Hospedei-me na casa da Abigail. Lembro que ela tinha feito questão que eu me acomodasse em seu pequeno apartamento de dois quartos. Claro que fiz também questão de ajudar nas despesas. Resisti aos trancos e barrancos à vontade de ir atrás do meu pai. Enfiei a cara nos estudos logo no início do semestre. Não tive dificuldades com o idioma, pois desde pequena mamãe tinha ensinado a Sandrinha e eu a língua francesa. Ely Schneider possui uma pequena rede de padarias e confeitarias, onde fabrica massas caseiras. Os estabelecimentos são famosos por seus croissants saborosos e de derreter na boca. Abigail, através de um amigo em comum com papai confirmou que ele sempre estava todas as quartas-feiras pela manhã em uma de suas confeitarias a poucos quilômetros da Pont Neuf. Fechando os olhos consigo voltar no tempo, há dez anos e rever nitidamente nosso primeiro encontro. Cheguei à confeitaria às oito horas. Com as mãos suando e as pernas tremendo de nervosismo, e mesmo com a temperatura baixa, sentia meu corpo em chamas. Entrei e busquei uma mesa reservada, mais próxima ao balcão de gostosuras. Uma moça ruiva de sorriso gentil me atendeu, e lembro que mesmo com o cardápio na mão não conseguia ler nada que tinha lá. Então pedi a primeira coisa que veio a minha cabeça. — Un café et un croissant, se il vous plaît — falei gaguejando, frisando um estranho sotaque. A ruiva me olhou estranho e ficou me analisando por alguns segundos, me deixando completamente envergonhada. Depois abriu um sorriso tímido. — Você é brasileira? — perguntou. Arregalei os olhos surpresa por falar meu idioma. Balancei a cabeça confirmando — sou Belinda. Sou portuguesa, mas morei no Brasil quando criança. Por isso percebi seu sotaque — disse gentilmente. — Sou Alice. Sou brasileira. E é minha primeira vez em um país estrangeiro — repeti. — Um café e um croissant. Isso? — perguntou percebendo meu desconforto. — Sim. Belinda voltou para o balcão, enquanto eu olhava cada detalhe da confeitaria. Era pequena, aconchegante e muito familiar. O aroma das massas era marcante. Havia poucas pessoas no local, no meu lado direito um grupo de jovens ria falando sobre um tipo de festival de música, uma senhora mais a frente apenas apreciava seu café e atrás de mim um jovem rapaz estava alheio ao que acontecia ao seu redor, provavelmente perdido em alguma aventura do livro que lia. A ruiva retornou e depositou meu pedido na mesa. — Bon appétit! — disse sorrindo, e indo atender a novos fregueses que adentravam ao


estabelecimento. — Merci — falei quase que inaudível. Antes mesmo de levar a massa deliciosa à boca. Uma porta à minha frente se abriu e um homem alto, de cabelos grisalhos, charmoso, de presença marcante e de olhar sagaz surgiu na minha frente. Meu pai, Ely Schneider. Não tive dúvidas. Mamãe tinha me dito que ele era um tipo de homem que intimidava as pessoas por sua confiança. Ele caminhou para o balcão. Observando e anotando algo em um caderninho. Não conseguia tirar os olhos dele. Buscava semelhança entre nós. E sim, havia muitas semelhanças. Percebendo que estava sendo observado. Levantou a cabeça para as mesas buscando com o olhar até encontrar com os meus. Naquele momento uma sensação muito forte de proteção surgiu dentro de mim. Levantei-me confiante e fui ao seu encontro. Seu olhar sempre fixo ao meu. Ele parecia deslumbrado. Fiquei em silêncio esperando que ele falasse algo. Depois de vários minutos apenas nos encarando Ely Schneider olhou para uma parede ao lado onde continha várias fotos e dentre milhares delas havia uma em destaque. Aproximei e entendi o motivo. Era uma foto antiga de uma mulher jovem de cabelos loiros até os ombros. A foto era preto e branco, mas podia perceber que a jovem mulher tinha olhos claros de uma tonalidade forte. Ela sorria lindamente olhando um bebê no seu colo. Aquela mulher era eu. Não eu propriamente. Eu era idêntica a ela, numa versão anos 50. — Essa era minha mãe — pronunciou em francês — Ela morreu quando eu tinha 20 anos — suspirou e voltou a me olhar como se quisesse gravar na sua memória minha face — ela era linda e alegre... Eu amava seu sorriso — sorriu ao lembrar — Se minha mãe não estivesse morta, eu poderia jurar que você era ela. Fechou os olhos e balançou a cabeça como se não acreditasse no que estava acontecendo. Eu apenas me mantinha calada, quieta, absorvendo tudo. Cada momento precioso com o meu pai. — Como se chama? — perguntou. Essa era a hora da verdade. Do tudo ou nada. — Ali... Alice... Alice Ventura — respondi tentando o meu melhor francês, mas só saiu o meu pior. Ely Schneider franziu o cenho, parecendo recordar de algo. Meu coração parecia querer saltar e sair pela boca. Papai nunca falou, mas tenho certeza o quanto ele percebeu meu pavor misturado com a ansiedade. — Sou filha de Laura Ventura. Lem... Lembra dela? — despejei de uma vez. Desejava abraça-lo, senti seu aroma e gritar que era sua filha. Sem dizer uma palavra, Ely Schneider, compreendeu no instante quem eu era. Seus olhos esbugalhados pela surpresa deram lugar a um sorriso, mas não um qualquer, era um sorriso acolhedor. Era a confirmação da sensação de proteção que senti minutos antes. Se minha mãe era meu


refúgio, meu pai seria o meu porto seguro. O barulho do alarme do meu celular despertou-me de um dos momentos mais felizes da minha vida. Papai me reconheceu como sua filha, não antes, é claro, de brigar com minha mãe por ter fugido grávida e omitido tudo dele. Mas o tempo o fez perdoa-la, e ambos tentam ter uma convivência pacífica, apesar dos excessos de proteção de ambos por mim. Papai me trata como uma garotinha de 10 anos. Poucos meses depois daquele lindo dia, meus documentos foram todos alterados. Passei a ser Alice Marie Ventura Schneider. Marie em homenagem a minha avó. Além de um pai protetor, ganhei um irmão ciumento. Levi Schneider é a versão mais jovem do nosso pai. Papai acabou abrindo duas pequenas confeitarias aqui no Brasil. Uma forma que encontrou de ficar mais perto de mim. Quando Levi completou vinte anos, veio morar no Brasil para gerenciar as filiais brasileiras. E com isso, ficar no meu pé 24 horas por dia. Mas eu amo ter um irmão mais velho. Nossa diferença é de apenas dois meses, mesmo assim, ainda é o meu irmão mais velho. Verifiquei a hora e levantei às pressas tropeçando no tapete e derrubando meia dúzia de livros que estavam na minha mesinha de cabeceira. Merda! Desastrada é o meu nome do meio. Hoje, segunda-feira, seria um dia cheio de emoções. Uma entrevista de emprego, levar minha irmãzinha caçula ao aeroporto e principalmente uma sensação estranha que vinha sentindo desde ontem. Uma sensação que há anos não sentia, avisava-me que algo novo estava surgindo. E eu não fazia a menor ideia do que seria.


Capítulo 02 Garota Folgada

Igor Acordei com uma dor de cabeça dos infernos, depois da festa de sábado minha quase melhora da maldita dengue foi por água abaixo. Tudo por culpa daquela peste da minha irmã. Mas também não deixei barato, a forcei ser minha enfermeira durante todo o domingo, o que a fez resmungar e fazer bico o dia inteiro por perder o passeio com seus amigos. No entanto, valeu a pena cada reclamação feita. Sua conta de favores comigo era enorme e cuidar de mim era o mínimo que ela poderia fazer. Ingrid ainda tentou coagir a nossa mãe para vir ao meu apartamento e ficar comigo, mas bastou ameaça-la de cortar sua gorda mesada extra que a esperta desistiu e inventou uma boa desculpa para dona Elena Salazar. Hoje, segunda-feira, ainda continuo indisposto, porém não posso e nem gosto de deixar minhas pacientes na mão. Posso não aparentar, mas detesto ser irresponsável, quando assumo um compromisso tenho em mente o dever de cumprir, e não será uma dorzinha pelo corpo que irá me impedir. Sou médico ginecologista e amo a minha profissão. Meu pai também foi um grande médico ginecologista, Alberto Salazar, era um homem forte e decidido, amava a vida de uma maneira inexplicável, e mesmo que não esteja mais nesse mundo, é nele que me inspiro. Trabalho há cinco anos na Clínica Estevão Alencar. Quando estava perto de terminar minha residência, tinha começado a procurar um local para montar um pequeno consultório para assim começar atrair meus próprios pacientes. Foi quando um dia levei minha mãe e irmã para almoçarmos em um dos nossos restaurantes favoritos. Lá encontramos o Doutor Estevão Alencar e sua esposa, Lorena, ele tinha sido um grande amigo do meu pai, além do que, meus pais também foram padrinhos do seu casamento. Em uma conversa agradável, mamãe acabou revelando sobre a minha busca por um local para montar meu consultório. O Doutor Estevão de imediato se interessou e me pediu que o procurasse no dia seguinte na sua Clínica, que é uma das mais conceituadas aqui da região. Nossa conversa foi bastante agradável e a sua proposta para trabalhar para ele era irrecusável, aceitei sabendo que muito daquela oferta se devia ao fato de ser filho de Alberto Salazar, seu amigo e parceiro de faculdade, porém com o passar do tempo provei minha capacidade e profissionalismo.


Tomei um banho frio, e enquanto me vestia liguei para Lilian e confirmei meus compromissos para aquele dia. Lilian já não trabalhava mais na recepção da Clínica. Com a ampliação da mesma, ela passou a ser responsável pela administração, ajudando o Leo e a Isa, que assumiram a responsabilidade da Clínica. No entanto, Lilian era sempre a primeira a chegar ao trabalho e não tinha perdido o hábito ainda de ficar com as agendas de compromissos dos médicos. Avisei que em 40 minutos chegaria e despedi-me. Abri a porta do meu quarto e fui atacado por um aroma delicioso de café. Minha irmã, Ingrid, poderia ser mimada e maluca, mas sabia preparar um café da manhã como ninguém. Sorri orgulhoso por saber que não teria que derrubá-la da cama para ir à faculdade. Ela era doidinha, mas assim como eu, era responsável. Entrei na cozinha e a encontrei colocando dois sanduíches na sanduicheira. Cantando desafinada alguma música que saía dos seus fones de ouvidos. Fui até ela e os puxei, o que a fez se assustar. — Bom dia, minha dama de companhia — falei, beijando sua testa e pegando uma xícara na mesa já posta com o café da manhã. — Bom dia, Gô — sorriu abertamente. O que já me deixou em alerta para o golpe a seguir. Ela sempre acordava de mau humor e estava alegre demais para aquele horário. Conheço a figura, bomba viria em seguida. — A sua linda e maravilhosa irmã preparou um delicioso café para o meu doentinho favorito — disse toda dengosa e carinhosa. Cínica! Essa alma quer reza, pode apostar. — Fala logo! O que você quer, Ingrid? — bradei de uma vez, o que a fez arregalar aqueles olhos verdes idênticos aos da nossa mãe e sorriu genuinamente logo em seguida. — Nossa! Só queria agradar meu irmãozinho — fez bico enquanto falava — Gostou do que preparei? — perguntou curiosa olhando para a mesa. Observei mais uma vez a mesa posta com salada de frutas, pão de queijo, suco de laranja, café fresquinho e tapioca. Quase sorri bobamente cedendo ao seu joguinho. Ingrid me conhecia muito bem e sabia dos meus gostos e preferências. Apesar de ser espevitada, tinha um coração de ouro e mesmo que resmungasse na hora, nunca conseguia dizer não. E era por essas e outras que cedia aos seus pedidos. Eu amo minha irmã mais que tudo. E seria capaz de dar o mundo a ela se preciso fosse, no entanto nem sempre facilito para ela. — Parabéns, pirralha. Parece delicioso — pronunciei puxando a cadeira e sentando. — Você precisa ir ao supermercado, sabia? Não tem aveia, ovos e leite. Joguei fora frutas e legumes estragados da geladeira — avisou tirando os sanduíches já prontos e trazendo para mesa, sentando também de frente para mim.


— Primeiramente, não alimento um batalhão, então não vejo necessidade de tanta coisa na minha despensa. Segundo, como você sabia que eu não comeria mais os alimentos que você jogou fora? Acha que eu sou sexy assim só por causa do sorvete do fast-food? Li no jornal que comida estragada aumenta massa corporal e inteligência — falei, tentando não gargalhar com a cara dela de que acreditou em cada palavra que saiu da minha boca. Mas antes que ela começasse a falar, decidi revelar a verdade, pois essa garota folgada sairia por aí dizendo que eu tinha virado um gnomo e comia cogumelo podre. — Na verdade, meu dia será cheio hoje e mal terei tempo de respirar. Se por um acaso eu me lembrar, à noite passarei em um supermercado. — Eu poderia ir com você se quisesse — comentou esperançosa. Na mesma hora parei e a encarei com um sorriso sarcástico. — Vamos parar com esse joguinho, maninha. Diz logo o que você quer e me deixa tomar meu café da manhã em paz — alertei. Enquanto me observava em dúvida se falava ou não, fingi não perceber. Peguei uma tapioca e levei um pedaço na boca apreciando a massa quentinha junto com o café. — Gô, me empresta seu carro? — pediu quase que inaudível. Fui pego de supetão e quase engasguei engolindo um pedaço de tapioca sem mastigar. Sabia que Ingrid queria algo, mas dessa vez ela superou minhas expectativas. O meu carro? O meu Hummer H3 5.3 Alpha 4X4 2010, para Ingrid desfilar na faculdade com suas amigas fúteis? Nunca. Jamais. Não sou uma pessoa extravagante que gasta ostensivamente, mas o “Meu Garoto” comprei porque tinha sido paixão à primeira vista. Sou louco por carros e desde criança, sempre sonhei em ter uma máquina quando crescesse. Juntei dinheiro praticamente durante toda a minha vida para quando encontrasse “O” carro investisse nele. E foi o que aconteceu. Encontrei Meu Garoto em uma feira de automóveis. Comprei de imediato, passei por apertos aqui e ali durante um tempo, mas não me arrependi. Nem precisei pensar para dar uma resposta a essa fedelha. — Não — respondi sucinto e taxativo. — Por favor! Por favor! Prometo que terei o maior cuidado. — Ingrid, você tem ideia do que está me pedindo? — Sim. Seu Garoto — inquiriu atrevida. Fechei os olhos e suspirei contando até dez para ter paciência com a aquela garota. — Gô, meu carro ainda está na oficina. — Mais um motivo para não emprestar o carro a você, barbeira. — Eu dirijo melhor do que muitos homens metidos a piloto — cuspiu raivosamente.


— Fala isso para o meu bolso e a traseira do pobre carro que você colidiu, enquanto estava se maquiando ao mesmo tempo em que dirigia. — Aquele idiota freou de supetão. Não tive como evitar — xingou. — Se você estivesse atenta ao trânsito seu carro não estaria na oficina. — Vai me emprestar ou não o seu carro? — insistiu cinicamente. — Não! — falei levantando — E se apresse. Tenho uma paciente em 30 minutos — saí da cozinha o mais rápido possível. Não estava com paciência para capricho de garota mimada. Retornei para meu quarto e segui direto para o banheiro. Escovei os dentes, passei perfume, peguei minha carteira, celular e a chave do carro em tempo recorde. Cheguei à sala e encontrei uma Ingrid me esperando de cara feia. Fingi não perceber, saímos do meu apartamento em silêncio. Permanecemos sem trocar nenhuma palavra até chegarmos à sua faculdade. Minha irmã entendia quando um não era definitivo. — Obrigada pela carona — disse emburrada já abrindo a porta do carro para sair. Agarrei seu braço e a forcei olhar para mim. — Para de charminho, Ingrid! — proferi sorrindo carinhosamente, mas ela continuou calada. Suspirei, suplicando mentalmente por paciência dessa bobagem toda — Vamos fazer o seguinte: quando você sair da faculdade pegue um táxi e vá direto para Clínica. De lá iremos ao supermercado e eu deixo você dirigir meu carro. Tudo bem? — era o máximo que eu poderia fazer por Ingrid em relação ao Meu Garoto. Ingrid me fuzilou com o olhar como se tivesse dito algo do outro mundo. — Topa ou não? É pegar ou largar — perguntei. — Aconselho colocar algum curativo adesivo para esconder esse chupão em seu pescoço, antes de começar atender suas pacientes. Será ridículo uma paciente visualizar a marca de suas safadezas — proferiu mudando de assunto — Mas... Lá vinha bomba de novo. Essa garota era pior do que um terrorista pronto para detonar tudo a qualquer momento. — Tenho um curativo aqui. Colocaria rapidinho. É só você me dizer que vai me emprestar seu carro e eu te dou, Meu Garoto — enfatizou o “Meu Garoto” com um curativo fuleiro nas mãos para que eu pudesse, a todo o momento, me lembrar do motivo do seu atrevimento. — Esqueceu, meliante? Trabalho em uma Clínica e posso encontrar em qualquer canto um curativo melhor do que esse projeto que você segura aí em sua mão? — disse debochado — E outra, isso não é um chupão! — ajustei a camisa tentando esconder a mancha roxa — Bati na quina da porta do banheiro — falei a primeira desculpa esfarrapada que veio a minha cabeça. — Você pensa que sou uma idiota, Igor Salazar?


Ás vezes esquecia que Ingrid não era mais uma garotinha que gostava de brincar de boneca. — Isso é um chupão, sim. Sei muito bem diferenciar — afirmou categórica — Percebi desde ontem de manhã essa marca, ou seja, alguém se deu bem na festa do Heitor — sorriu maliciosamente — E ainda vem todo dengoso dizendo que está doente... Homens! Sim. Eu havia me dado muito bem naquela festa temática ridícula dos anos 70. Tão bem, que eu não tinha certeza se tinha sido real, até o dia seguinte, quando entrei no banheiro e olhei-me no espelho e me deparei com uma pequena mancha roxa arredondada em meu pescoço. — Desce logo, pirralha abusada. Já estou atrasado — pedi fingindo estar com raiva. Sempre era assim, não conseguíamos passar muito tempo chateado um com outro. Ingrid beijou-me o rosto e desceu do carro. — Tá bom. Tá bom. Chego às seis da noite na Clínica — comunicou — Ah! E passe um gelinho nessa marca. Te amo, maninho! — saiu andando soltando gargalhadas. Aguardei até que ela entrasse na faculdade, assim como eu fazia quando ela era mais nova e ia deixá-la no colégio. Voltei meu olhar para o espelho retrovisor e visualizei aquela marca roxa no meu pescoço. A única prova que eu tinha que aquele diabo em pele de anjo tinha sido real. Ainda podia sentir o gosto e o cheiro do seu mel em minha boca. Tinha sido perfeito o nosso sexo. Pretendia ter prolongado mais aquele momento, mas a minha diaba sumiu como um fantasma, antes mesmo de perguntar seu nome. Ficando apenas aqueles olhos que mais pareciam duas pedras de ágatas, de tão azuis que eram, presos em minha memória.

Cheguei à Clínica em cima da hora. Estacionei o carro e entrei às pressas pela recepção. Minha primeira paciente já estava me aguardando e ostentando seu barrigão de 07 meses. Gentilmente fui até ela e pedi desculpas usando meu lado encantador de médico sério e culpei o trânsito pelo atraso. Avisei que em breve a chamaria. Segui pelos corredores a caminho do meu consultório e antes mesmo de entrar na minha sala, Gabriel, meu amigo e nutricionista da Clínica, surgiu no corredor. — Bom dia, Igão! — cumprimentou — Cara, você desapareceu na festa do Heitor. — Ah, mano! Encontrei uma morena no caminho até o banheiro. Muito gostosa e inteligente. Não resisti aos seus encantos e a levei embora dali para um lugar que poderíamos ficar mais à vontade — lembrei novamente da minha diabinha que também vi enquanto seguia para o banheiro. Santo banheiro! Só que não tive a mesma sorte que o Gabriel.


— Eu já não tive a mesma sorte — dei de ombros sem acrescentar nada mais. — Achei minha garota, Igor. Minha princesa é muito fogosa. Estou só o bagaço — confessou feito um bobo. — Minha princesa? Já está assim? — franzi o cenho surpreso. Gabriel não era uma cara de se impressionar com uma mulher tão fácil. — Sarah. É o nome da minha princesa — disse orgulhoso — Ela é incrível. Decidimos curtir mais um pouco. — Pelo visto muito em breve terei que alugar uma roupa de pinguim para um casório — brinquei. — Não vamos exagerar — ficou sério. Gabriel fugia de compromisso tanto quanto eu e, com certeza, casamento era uma palavra que também não existia em seu dicionário. — Ué! Você que disse que estava apaixonado — zoei com ele. — Falei que achei minha garota. A Sarah é muito linda, gostosa, inteligente e muito legal. Acabamos passando o dia juntos ontem — justificou — Iremos nos encontrar novamente essa semana. Isso não significa que já comprei um anel de noivado — parecia ansioso ao tentar explicar a diferença. — Sei... — decidi não zoar com ele naquele momento. Deixaria para quando estivesse com Fernando e Luís — Cara, preciso trabalhar, meu dia está lotado e já estou atrasado. Depois você me fala da sua garota... Ops! Sua princesa — sorri sarcasticamente. — Beleza, mano. Também estou atolado de trabalho — comunicou. Antes mesmo de seguir caminho Gabriel chamou-me novamente com uma cara que eu já conhecia muito bem. — Só para avisar que a nova fisioterapeuta eu vi primeiro — informou todo maroto — Parece um anjo de tão linda — proferiu. Gabriel sabia que a nova funcionária chamaria minha atenção. — Se for um anjo mesmo, pode ter certeza que é no meu altar que ela ficará — brinquei desafiando — Além do mais você agora tem uma princesa — entrei na minha sala gargalhando sem esperar Gabriel responder.


Capítulo 03 E que os jogos comecem

Alice — Relaxa! Você está linda, Alice. Sarah, minha melhor amiga tentava me acalmar depois que esvaziei todo meu guarda roupa procurando uma roupa que combinasse para ir a uma entrevista de emprego. — Como relaxar? É a primeira vez que faço uma entrevista de emprego! E se não gostarem de mim? — questionava, enquanto decidia se prendia o cabelo em um coque ou em um rabo de cavalo. Sou fisioterapeuta e antes mesmo de me formar já vinha trabalhando como voluntária em ONGs. E os meus estágios da faculdade foram, na maioria, realizados em instituições de caridade. Dediquei-me tanto a ajudar os mais necessitados que quando obtive meu diploma, decidi adquirir mais experiência e continuei trabalhando lá. Cheguei a ser coordenadora da ala de fisioterapia de uma instituição infantil para portadores de câncer. Recebi até condecoração por dedicação e empenho. Emendava uma pós-graduação atrás da outra, durante três anos seguidos minha rotina semanal era uma loucura. Ajudava meu irmão, Levi, de manhã nas confeitarias do nosso pai aqui no Brasil, à tarde trabalhava nas ONGs e à noite estudava feito uma doida. Fora as especializações que fazia nos fins de semana, uma vez por mês. Foi uma das melhores épocas da minha vida. Doei-me e ajudei aqueles que necessitavam de apoio. Fiz amigos inesquecíveis e ouvi histórias de superações que levarei comigo para onde fosse. Porém, já estava mais do que na hora de buscar minha própria independência. Claro que não abandonaria de vez meu apoio as ONGs, buscaria uma forma de poder ajudá-los. Mas sentia a necessidade de sair debaixo das asas dos meus pais e meu irmão. — Tenho medo de dar um branco na hora e não conseguir falar nada — confessei à minha melhor amiga. Sou uma pessoa muito ansiosa. Já estava comendo meus dedos, porque unhas já não existiam mais, todas já haviam sido roídas.


— Ei! Cadê a Alice decidida que eu conheço há quase dez anos? — Sarah falou tentando me animar. — Será que ela está escondida debaixo da cama? — retruquei dando um sorriso sem graça. Sarinha se aproximou de mim, segurou firme meu rosto com as duas mãos e encarou-me seriamente. — Ali, você irá arrasar na entrevista. Dedicada e profissional como é, eles serão uns estúpidos se não contratarem você de imediato. — Isso se eu não estragar tudo com o meu lado desastrado e andar de pata choca — disse sorrindo para suavizar meu nervosismo. — Mas é a sua marca registrada. É a coisa mais linda quando fica envergonhada por suas artes — Sarah me abraçou — Vai dar tudo certo. Eu tenho certeza. Minha melhor amiga nunca me deixava desanimar. Sempre foi assim. Sempre esteve ao meu lado. — E o moreno sedutor de sábado? — mudei de assunto para tentar relaxar — Você sumiu com ele da boate, não te vi no domingo e chega aqui hoje, não fala nada. Anda! Desembucha! — a puxei e sentamos de frente uma para outra na cama. — Depois conto todos os detalhes, mas posso adiantar que ele me quebrou, literalmente — sorriu com malícia — Além do sábado à noite, passamos o domingo inteiro juntos. E ele já me enviou uma mensagem hoje, bem cedinho — suspirou. — Isso quer dizer... — inquiri curiosa. —Aham! Isso quer dizer que ainda teremos segunda, terceira e quarta rodadas — gargalhamos juntas. Enquanto terminava de me aprontar, Sarinha me contava pequenos detalhes da sua nova isca. Ela é uma mulher decidida, foi obrigada desde cedo a batalhar para conseguir tudo que almeja. Morena da cor de jambo, olhos e cabelos pretos, boca carnuda, um corpo sedutor e uma alegria que contagia a todos ao seu redor. Quem vê não imagina o que ela teve que superar na sua infância. Perdeu a mãe muito nova para as drogas, tendo que ir morar com um tio e sua família que mal a conhecia. Foi humilhada de todas as formas possíveis que uma criança nunca deveria suportar, por uma mulher enciumada pelo o marido. Cansada de tanto sofrimento, aos 18 anos saiu da casa do tio sem olhar para trás. E nunca mais soube notícias deles. — Estou vendo uma paixão se aproximando — zombei, pois sabia que ela corria pro lado oposto ao que o amor vinha. — Eu hein! Sai pra lá, Ali — xingou — Está me agourando, é? — fuzilou-me. Sarinha lutava contra seu próprio coração para nunca se apaixonar. Ela sempre tinha o cara que quisesse para esquentar seus pés. Doava-se intensamente para a pessoa, mas a partir do momento que


ela via que as escovas de dente estavam prestes a se juntar, Sarah os dispensava. Sempre era assim. Às vezes eu tinha até dó dos pobres rapazes desiludidos. Muitos dariam a lua por ela, mas a fobia de amar que ela sentia era bem maior para aceitá-los. Nunca sequer conversamos sobre esse seu medo. Sabia que mais cedo ou mais tarde seria inevitável. O amor chegaria para ela. Chega para todos, afinal. Chegaria para mim também. Eu só pedia a Deus que fossemos correspondidas. E não machucadas pelo caminho quando realmente encontrássemos o amor verdadeiro. — Ali, o Danilo chegou — mamãe gritou do corredor que dava para os quartos do nosso apartamento. — Já estou indo, mamãe — avisei. — Apresse-se, Ali. Temos tempo, mas lembre-se que o trânsito nunca está a nosso favor — Sarah avisou levantando-se da cama. Olhei-me mais uma vez no espelho e sorri meio sem graça. Acabei decidindo por uma calça jeans escura reta, uma blusa sem manga em gola V, branca, um blazer azul marinho acentuado e botas pretas. Completei com um brinco de pérolas, que tia Lilian tinha me dado na minha formatura, um colar comprido, com um pingente de âncora e um relógio simples, que pertencia à mamãe, e que amo desde que ela comprou e sempre pego emprestado. O cabelo deixei em um rabo de cavalo para combinar com a maquiagem bem suave. Blush, rímel e gloss. E por fim acrescentei meu perfume favorito, que tinha um aroma suave e adocicado, porém de uma fragrância marcante. Seria hipocrisia minha se dissesse que me acho feia. Quando era mais nova me odiava por sempre ter sido a maior da turma da escola, até conhecer a Sarah e o Danilo, minha sobrevivência não tinha sido nada fácil no colégio e minha autoestima era lá embaixo. Depois deles tudo mudou para mim. Recebi várias propostas para ser modelo, mas papai me daria uma surra de chicote e depois me deserdaria se encontrasse alguma foto minha de lingerie estampada em algum outdoor da cidade. O Sr. Ely Schneider imagina que sua filha é pura e imaculada, pois nunca apresentei um namorado a ele. Não imagina que perdi minha virgindade aos 20 anos, na festa de boas vindas do Levi ao Brasil. Por ele já teria me casado com algum judeu de Besançon e teria lhe dado netos. Graças a Deus eu tinha a minha mãe para tirar essa insanidade da sua cabeça. Meus pais não admitiam, mas ainda existia algo inacabado entre eles. Tanto eu, como o Levi e a Sandrinha percebíamos, mas a mágoa e o orgulho ainda dominavam os dois. Mamãe por ter sido enganada e papai por ter perdido 16 anos de convivência comigo. — Bom dia! Como estou? — perguntei assim que adentrei na cozinha. — Linda! — falou mamãe orgulhosa. — Apetitosa. — Danilo meu amigo respondeu. — O vestido preto era melhor — Sandrinha disse mal humorada.


O que me fez dar a língua para minha irmã mimada. — Venha filha, tomar seu café. Sua tia Lilian já ligou e confirmou a entrevista para as 8h30. Para dona Laura eu sempre seria uma criança. Segui em direção à mesa, mas antes tive que esbarrar com o armário de canto do lado esquerdo da cozinha. Era minha sina esse armário. E ninguém tinha a coragem de mudá-lo de local. Merda! Sou desengonçada devido a minha altura, e muito estabanada, nunca lidei muito bem em ser tão alta, e foi um dos motivos para servir de chacota na minha infância. As louças de porcelana da minha mãe que o digam. Já quebrei várias. Danilo diz que não tenho senso de direção e tamanho. — Você não tem jeito, Alice — Sandrinha falou com desdém. — Cuidado, querida! — Danilo disse como sempre atencioso. — Babão! — resmungou minha irmã. Os santos da Sandrinha e do Danilo nunca se bateram e eles sempre se bicavam. Na verdade, a maioria dos meus amigos achava a Sandrinha metida e abusada. Só a aturavam por minha causa. No entanto, Danilo nunca escondeu seu desafeto por Maria Sandra. — Dois anos livre de você. Aqui, será uma paz — Danilo continuou alfinetando-a. Minha irmã está de viagem marcada para a França por dois anos para estudar. Um presente meu e de mamãe a ela. Lá ela ficará hospedada na casa de Abigail até se estabilizar e procurar um apartamento para alugar ou dividir com alguma amiga de estudos. Papai tinha oferecido um emprego em uma das suas confeitarias em Paris, mas Sandrinha recusou. Ela sonha em trabalhar em alguma boutique de algum estilista famoso e ficar por lá mesmo. — Eu que estarei respirando o ar puro de Paris e não precisarei olhar para essa sua cara de bicha mal comida. — Maria Sandra Ventura! Olha a boca suja — mamãe interviu. — Foi ele que começou — Sandrinha acusou Danilo soltando fumaça de raiva por ter sido chamada à atenção. — Dani, é melhor irmos. A Ali não pode chegar atrasada para sua entrevista — Sarah se pronunciou evitando uma briga que nunca teria fim. Terminei de tomar meu suco de laranja e saímos todos em direção ao estacionamento. Morava com minha mãe e irmã em um apartamento térreo de condomínio fechado, com três quartos. Era simples, mas muito aconchegante. Mamãe ainda estava pagando as prestações do financiamento. Quando completei 22 anos, papai havia comprado dois apartamentos em um bairro próximo. Um para mim e outro para o Levi. Como sempre, fomos só nós três, mamãe, Sandrinha e eu, não tive coragem de deixá-las para ir morar sozinha. Então, aluguei meu apartamento e com o dinheiro do aluguel mais


o salário que recebia quando trabalhava na confeitaria de papai, ajudava nas despesas de casa, mesmo com as reclamações de mamãe, ela jamais permitiria que o meu pai a sustentasse. Mas era o mínimo que eu podia fazer. — Que Deus te abençoe, meu amor. Vai dar tudo certo. Ficarei aqui orando — mamãe se despediu. — Obrigada, mamãe. Eu te amo — a beijei no rosto. — Vê se não chega muito em cima da hora para me levar ao aeroporto — Sandrinha gritou da porta do nosso apartamento, pois ainda estava de camisola. — Não se preocupe, Sandrinha — tentei tranquilizá-la. O avião dela só sairia à meia noite. Como tinha vendido meu carro, escondido do meu pai e do meu irmão, Danilo se prontificou em me deixar na Clínica Estevão Alencar, a qual provavelmente seria meu mais novo local de trabalho. — Como eu odeio a sua irmã, Ali — Dani falou todo irritado assim que saímos do condomínio — egoísta até para desejar boa sorte. Não vê o quanto você e sua mãe se sacrificam para dar o melhor a ela. — Ela só está ansiosa com a viagem — interrompi, mas recebi um olhar furioso dele. — Ali, apesar de achar muito infantil as trocas de farpas entre o Dani e a Sandrinha, devo concordar com ele. Ela abusa demais de vocês — Sarah expressou se aproximando no meio entre os bancos do carro. Ficando entre Danilo e eu. — Não quero falar da minha irmã agora. Estou ansiosa demais para debater com vocês sobre os caprichos dela — resmunguei séria olhando para os dois. — Você está certa. Positividade. É nisso que temos que pensar — Danilo proferiu entusiasmado — Veja só, Sarah, nossa menina está crescendo. Buscando novos ares. Quem sabe não conhece um médico delicioso que abrirá o coração peludo dela — sorri com sua piadinha. — Ei! Eu não tenho coração peludo. Quem pisa sem pena nos homens apaixonados aqui, é a Sarah — impliquei — Você errou o alvo. — Quem te falou que eles não gostam de ser pisados? — Sarah se pronunciou. — Você... — Danilo olhou pelo retrovisor para Sarah — É pior que a Malévola. Tenho até pena do homem que conseguir perfurar seu coração. Ou te deixará arriada e loucamente apaixonada por ele ou sofrerá demasiadamente. Sarah o xingou e socou seu ombro. — E você, Ali... — olhou em minha direção quando paramos em um sinal vermelho — Eu até tento entender a Sarah e o seu pavor em se apaixonar, mas você princesa... — suspirou — Você sempre quis o Valentim, desde a primeira vez que o viu. E agora que o cara está louco por você, dispensa-o. Explique-me isso?


— É bem simples. Cansei de esperar o Valentim querer algo mais sério. Cansei de ter sexo casual só com um cara, enquanto ele fodia várias piriguetes — dei de ombros — Enfim, cansei. — Cansei só de você falar — Sarah proferiu tentando desviar do assunto. Ela sabia o quanto tentei chamar a atenção do Valentim. Eu achava que ele era o homem certo para apresentar ao meu pai, era educado, gentil e trabalhador. Mas com o passar do tempo percebi que eu era mais uma no seu álbum de figurinhas. Não que ele me tratasse mal, mas ele nunca quis nada sério com ninguém. Ele é o tipo de cara que gosta de ser livre e sem amarras, e eu naquele momento queria algo sério com ele. Mas agora quem não queria namorar era eu. Passei a recusar seus convites, o que não o agradou. Azar o dele, iria viver minha vida. Danilo torcia pelo nosso relacionamento dar certo, ele admirava o Valentim por ser uma pessoa determinada e batalhadora. Eram sócios em uma construtora e amigos de infância. Esse era o defeito do Dani, quando gostava de alguém não conseguia enxergar os seus defeitos. Era assim comigo e Sarah, ele nos defendia com unhas e dentes, mesmo estando erradas. Eu sempre dizia que Sarah era a minha razão e Danilo o meu coração. Eu ainda não havia comentado com Sarah e Danilo sobre o que aconteceu sábado na boate. Na verdade, eu não saberia como começar a contar, eu mesma ainda não acreditava que tinha transado com um cara assim que o conheci quando saía do banheiro feminino. Foi loucura, eu sei, porém naquele momento pareceu tão certo, tão nosso. Tinha sido diferente de qualquer sexo casual que já tive. No entanto, a realidade bateu na porta logo em seguida, quando o vi agarrado tão em sintonia com outra garota na pista de dança. Naquele momento me senti vazia. Até chegar a Clínica fomos conversando amenidades. Os dois tentavam me distrair para não deixar meu nervosismo e a minha ansiedade me dominarem. Danilo nos contou sobre seu mais novo caso. Ele não era de ter longos relacionamentos, mas nunca deixava de procurar o amor. Agora o cara era um advogado que ele conheceu em um barzinho de happy hour. Meu amigo era lindo, alto, magro, mas bem definido. Tinha olhos verdes que hipnotizavam. Seu cabelo era cortado baixo, quase raspado. Vestia-se sempre elegante e arrebatava os corações da mulherada por seu jeito sedutor. Ele foi o primeiro rapaz que tinha chamado a minha atenção na adolescência. Fazia de tudo para atrair seus olhares para mim. Até que um dia cai e torci o pé. Danilo veio me salvar, levou-me ao Pronto Socorro e ficou comigo até ser atendida, e depois me levou para casa. Desse dia em diante, todos os dias me acompanhava até em casa no final da aula. Nossa amizade foi crescendo e se vinculando, até que um dia perguntei por que ele nunca tentou me beijar. E foi quando me confessou que era homossexual.

Cheguei prontamente às oito horas na Clínica. Minhas mãos já suavam e eu tentava andar sem esbarrar ou tropeçar em algo. Uma moça gentil e sorridente chamada Pamela me atendeu. Identifiquei-me e falei que tinha uma entrevista marcada com a senhora Isabela Alencar. Esse era o nome da pessoa que tia Lilian havia me dito que me entrevistaria.


— A Dra. Isabela atenderá você em instantes — Pamela comunicou assim que falou com alguém pelo telefone. Pediu-me que sentasse e aguardasse. Agradeci e caminhei lentamente até um sofá confortável, marrom em couro. Enquanto esperava ser chamada passei a observar o local. Era uma Clínica luxuosa e gritava modernidade pela sua decoração. Era visível que estava passando por uma reforma. Ainda pensei em avisar a tia Lilian que havia chegado, mas antes mesmo de pegar o meu celular avistei-a entre os corredores ao lado de uma moça pequena de pele clara que tinha um sorriso reluzente. Assim que me viu, tia Lilian acenou e veio em minha direção. — Olá, tia Lilian. — Oi, minha princesa. Que saudades! — tia Lilian me abraçou carinhosamente. — Nos vimos há dois dias, tia — disse sorrindo. — É verdade, mas como amo minhas sobrinhas, queria poder vê-las todos os dias — abraçoume mais uma vez — Ali, quero te apresentar minha amiga e na torcida para ser sua futura patroa, Isabela Alencar — apresentou a jovem que estava ao seu lado e até o momento só observava sorrindo lindamente a interação entre tia Lilian e eu. — Nada de patroa, amigas de trabalho. Meu pai que é o dono da Clínica, eu apenas o ajudo com a administração e tenho um consultório ainda, aqui — Isabela falou docemente me abraçando delicadamente, mas com firmeza. — Nossa! Você é linda — soltei admirada por sua beleza. Isabela tinha uma carinha de menina, com um ar de mulher sedutora. Meu nervosismo diminuiu bastante. Ela transparecia tranquilidade. Tinha certeza que iríamos nos dar muito bem. — Achei que você era bem mais velha — continuei tagarelando. — Será que pensou que eu era uma velha corcunda, de cabelos bagunçados, mal humorada e com uma verruga enorme no nariz? — Isabela interrogou curiosa. — Isso parece mais uma descrição de uma bruxa, Isa — tia Lilian completou, fazendo nós três rirmos. — Alice, a Lilian me falou tanto de você, que sinto que somos amigas há bastante tempo — Isabela agarrou minha mão. Era pequena e delicada — Uau! Você é linda e gostosa demais, Alice — soltou de repente me olhando de cima abaixo — Sua tia não exagerou em nada quando disse que tinha uma sobrinha linda... E gostosa — ressaltou novamente o “Gostosa”. — Se continuarmos contratando só deuses e deusas, em breve aqui não será mais uma Clínica médica, e sim uma agência de modelos. Tia Lilian e Isabela continuavam conversando comigo, mas minha mente bloqueou no momento que ela pronunciou a palavra “contratando”. Será que eu seria contratada?


Uma mistura de alegria e medo bateu-me de repente. Era uma sensação nova que me invadia. Como se a qualquer momento o inesperado acontecesse. O pior era que eu não fazia ideia do que viria pela frente.

— Alice, você tem um currículo incrível. Três pós-graduações e vários cursos de atualização. Isso mostra o quanto é estudiosa e esforçada. Tenho uma mina de ouro em minhas mãos — Isabela tagarelava animadamente avaliando meu currículo. Eu apenas sorria orgulhosa de mim mesma, demorei a tomar a decisão de escolher uma profissão, mas quando decidi, foi por amor. Para ajudar ao próximo. Não tinha recompensa melhor que ver o sorriso de uma pessoa ao vencer uma etapa do seu tratamento. — Obrigada — agradeci apenas. — Vou te confessar um segredo — Isabela debruçou sobre a mesa — Não tenho talento algum para fazer entrevistas — proferiu graciosamente. — Normalmente, essa parte burocrática quem faz é o meu pai e o meu marido me ajuda, mas papai pediu afastamento sem data para retornar e Leo teve uma cirurgia de emergência. — Se preferir, marcamos para outra hora para fazer a entrevista — informei tristemente por ter quer voltar outro dia. — Não! Acho que me expressei mal, Alice — interrompeu-me — Gostei muito de você. E seu currículo, como havia dito, é incrível — recostou-se na poltrona e me analisou em silêncio. — Não sei se a Lilian falou qual será seu cargo — questionou-me. — Imagino que seja para trabalhar com reabilitação e Pilates — deduzi. — Também. Acho que você percebeu que a Clínica está passando por algumas ampliações... Balancei a cabeça confirmando. — Haverá uma ala apenas para fisioterapia e ortopedia. E eu precisarei de pessoas de confiança para me ajudar a coordenar essa ala. Uma adrenalina de emoções acelerou meu coração. Será? Não! É verdade que tenho vários cursos e especializações, mas Isabela não conhecia meu trabalho. — Gostaria de saber se tem interesse? — perguntou — Nos conhecemos há poucos minutos, mas confio demais na sua tia Lilian. E ela teceu maravilhas sobre seu profissionalismo e principalmente sobre você. Sei que foi coordenadora em uma das ONGs que trabalhou. O que me faz acreditar que você tem a experiência que eu preciso para o cargo. O que acha? — Eu não sei o que dizer — ainda não acreditava no que Isabela estava me propondo. — Eu compreendo se não aceitar. Coordenar uma ala médica não é um trabalho fácil, mas...


— Não! Eu quero tentar... — quase gritei interrompendo-a. — Maravilha! — Isabela bateu palmas — Assim que te vi, a quis para ser minha substituta. — Substituta? Co... Como assim? — indaguei confusa. — Bem, como posso explicar — Parou e analisou uma maneira de me explicar — Não irei deixar de trabalhar na Clínica. Reduzirei a minha carga horária de trabalho e permanecerei atendendo somente os pacientes mais antigos que tenho — sorriu — Tentarei ser o máximo presente na Clínica, e se precisar de ajuda não duvide em me chamar. No entanto, você será responsável por todo o quadro de funcionários e estagiários da ala de fisioterapia. — Nossa! — eu estava em choque. Entrei aqui para um cargo de fisioterapeuta comissionada e iria sair como chefe da ala de fisioterapia e ortopedia. Quase me belisquei para ver se não estava sonhando. — Vamos discutir o seu salário inicial? — Isabela perguntou empolgada. Ficamos por mais alguns minutos conversando. Acertamos meu salário, que mataria de inveja minha irmã se descobrisse, e os horários de trabalho. Solicitou que eu entregasse minha documentação à tia Lilian para enviar ao setor de recursos humanos. Em seguida me apresentou a Clínica pessoalmente. E a cada funcionário, enfermeiro e médico que passava por nós, eu era apresentada como Coordenadora Chefe da ala de fisioterapia e ortopedia. E todas as vezes que era cumprimentada por alguém meu rosto ruborizava. Adorei as pessoas do refeitório. Pessoas alegres e engraçadas foram logo me apelidando de Anjo, diziam que me parecia com um. E que seria disputada pelo “Trio do Pecado”. Na hora, não entendi o que isso significava, mas quando falaram quem seriam os primeiros a me cantarem entendi a piada. Até Isabela caiu na brincadeira e apostou em um tal de Dr. Igor. Eu apenas sorria e ficava cada vez mais curiosa para saber se esse trio era mesmo do pecado como diziam. — Bom dia, Chefa. Que honra tê-la conosco — um moreno de sorriso safado adentrou ao refeitório. — Olá, Gabriel. Vim aqui apresentar Alice Schneider. A nossa mais nova Coordenadora Chefe da ala de fisioterapia — Isabela apresentou-nos — Alice, esse é Gabriel Brito, nosso nutricionista. — Alice? Nossa! Acho que estou no país das Maravilhas — disse com um olhar malicioso. E ali deduzi que este era um componente do certo Trio do Pecado. E que pecado! — Na verdade, já a apelidamos de Anjo — alguém, cujo nome ainda não tinha aprendido, comentou. — O apelido caiu como uma luva — completou sem tirar os olhos de mim. Tive a sensação que o conhecia de algum lugar, mas não lembrava, devia ser loucura da minha cabeça. Um gostosão como esse não deixaria passar despercebido. Fiquei observando-o enquanto sugeria a Isabela algo relacionado ao cardápio semanal dos funcionários.


Puta merda! Tirei na loteria, só pode. Dr. Gabriel era um pecado em forma de homem. Tinha a pele bronzeada, seu rosto parecia ter sido moldurado a mão, usava barba rala que escondia duas covinhas, olhos claros, ombros largos e um porte físico daqueles que suava a camisa todos os dias para manter a forma. Apostaria minhas calcinhas de renda, que seu abdômen daria para contar os gominhos que tinha. Iria matar Sarah e Danilo de inveja. Não via a hora de encontrá-los. — Espero que tenha apreciado a paisagem — o desgraçado falou descaradamente, percebendo que explorava seu corpo. Tentei mostrar seriedade, mas meus olhos denunciavam o quanto estava envergonhada por esse pequeno deslize. — Prazer em conhecê-lo — cumprimentei formalmente, fingindo não perceber seu comentário. Ainda sem se contentar, pegou minha mão e levou ao lábio beijando-a. — O prazer é todo meu, Anjo.

O dia passou que nem percebi, só me atentei para o horário quando tia Lilian entrou, na que seria minha nova sala, e perguntou como e que horas iria para casa. Foi então que percebi que passava das dezoito horas. Ainda tinha que ligar para o meu irmão e contar a verdade sobre a venda do meu carro e pedir que fosse comigo levar Sandrinha ao aeroporto. Ele me esculacharia quando descobrisse que vendi o carro por um valor muito inferior. E depois faria picadinho quando contasse que o motivo da venda, foi para ajudar a minha irmã a pagar uma dívida que fez escondida com um agiota. Na hora não pensei duas vezes e cedi meu carro como quitação do dinheiro. Mamãe jamais poderia sonhar que Sandrinha havia pegado dinheiro emprestado com esses urubus. Ela já tinha sofrido demais por causa do meu padrasto, Otávio, e seus vícios por jogos. Não permitiria que sofresse novamente. Foi unicamente por minha mãe que fiz essa loucura. Recolhi meus pertences e saí conversando animada com tia Lilian. Comentei sobre minha equipe de trabalho e o quanto todos se mostraram dispostos a contribuir para o funcionamento da nossa ala. Assim que chegamos à recepção, Isabela conversava toda sorridente com um homem alto de cabelo loiro escuro. Ele estava de costas para mim e não dava para visualizar o seu rosto, mas pela sua animação e o jaleco branco que vestia, conclui que seria o Dr. Leonardo Menezes, seu marido. Quando Isabela nos avistou, acenou e nos chamou. — Alice, venha conhecer o Dr. Igor. Caminhei a passos largos toda sorridente. Conheceria o tal Dr. Igor do Trio do Pecado, que tinha sido o mais solicitado na aposta da cozinha. O tal que, seria o primeiro a me fazer render aos seus encantos. No mesmo instante parei abruptamente. Como que em câmera lenta, o Dr. Igor virou sorridente buscando com o olhar a minha direção.


Meu coração gelou ao reconhecê-lo. Era, “Ele”. O homem que vinha preenchendo meus sonhos há dois dias, desde sábado. Deus! Eu estava perdida. — Essa é Alice. A nova fisioterapeuta que te falei — Isabela saudou-nos. Seu olhar era como brasa sobre mim. Senti seus olhos percorrerem cada centímetro do meu corpo até parar fixando em meu olhar. Ele parecia tão surpreso quanto eu, no entanto, se mantinha mais contido. Senti um calafrio percorrer toda a minha coluna, quando um pequeno sorriso malicioso surgiu no canto dos seus lábios. Sem dizer uma palavra, pressenti que estava em apuros. Deus! Por que comigo? A carne é fraca. Serei pecadora. Estendi minha mão, em sinal de cumprimento, assim como fiz com o Dr. Gabriel. — É um prazer conhece-lo, Dr. Igor. A princípio ele me olhou sem entender minha saudação. Contudo percebeu que não diria nada, nem que havíamos nos conhecido por acaso em uma festa. — O prazer é todo meu, Dra. Alice — tocou a minha mão e apertou fortemente. Enviando choques por todo meu corpo, ao lembrar-me dos seus dedos e língua dentro de mim. Se contenha, Alice! Foi por culpa dessa voz sedutora e safada que você caiu em desgraça. Não terei uma recaída. Não terei uma recaída. Repetia mentalmente. — Se antes vinha trabalhar só para olhar para você, Minha Deusa — passou os braços sobre o ombro da Isabela sorrindo amavelmente para ela. — Agora terei mais motivos para estar na Clínica a qualquer momento — voltou seu olhar ao meu — A todo instante — repetiu frisando bem cada palavra. — Tire esse seu olhar de cachorro pidão da minha sobrinha, Igor — tia Lilian se manifestou virando-se para mim — Ali, não caia na lábia desse ai! Agora tia Lilian me encarava avisando sobre o cachorro. Tarde demais, Titia. Já cai e me lambuzei toda. Oh, Deus! Forcei um sorriso para ela. — Alice já foi apelidada de Anjo pelo pessoal do refeitório — Isabela, inocentemente, eu acredito, instigava ainda mais — Até aposta rolou em cima da Anjo contra o Trio. Você está na liderança, Igor — ela o cutucava, sem imaginar nossa briga e acusações por olhar — O que acha? Ela poderia ser sua nova Deusa! Juro! Perdida era pouco para a minha situação.


— Ah! Você sabe que quando entro em uma aposta nunca é para perder — respondeu com um sorriso de conquistador barato — Principalmente quando a minha reputação está em jogo. Filho da puta! Pegou na mão da Isabela e a beijou calidamente. — Você sempre será a Minha Deusa — proferiu retornando seu olhar para mim. No mesmo instante, Isabela e Lilian foram chamadas na recepção para assinarem alguns documentos que precisariam ser enviados com urgência por fax para o Dr. Estevão Alencar. Deixando-nos sozinhos, para a minha ruína. Por favor! Não me deixem aqui. Voltem. — Você fugiu — cuspiu assim que elas saíram. Acusando-me por ter saído de repente daquele labirinto onde havíamos transado. — Foi melhor assim — retruquei. — Ah! Tem certeza? — perguntou sarcástico se aproximando discretamente de mim — Porque para mim não acabou, Minha Diaba — pronunciou quase inaudível para que apenas eu escutasse — Agora é que os jogos irão começar. Puta que pariu! Seria game over pra mim.


Capítulo 04 Promessas

Igor Era ela. A Minha Diabinha fujona, ali na minha frente, linda e tão surpresa quanto eu estava por revê-la. Tentei ser o mais natural possível, mas meus olhos acusavam a minha admiração, fixando firmemente naqueles olhos chamativos que não saíam da minha mente desde sábado. Apreciei cada detalhe do seu corpo, para ter a certeza se era ela mesma ou se eu estava tão exausto do dia corrido de trabalho que havia começado a ter alucinações. Suas pernas longas, escondidas em um jeans escuro, fizeram-me imaginá-las de imediato enroladas a minha cintura enquanto socava meu pau dentro dela, ferozmente, em cima da mesa em meu consultório. Ela havia percebido o quanto a comia descaradamente com os olhos e aproveitei para provocá-la, ainda mais na frente da sua tia Lilian e da Isa. Alice! Esse era seu nome. O nome do meu mais novo passatempo favorito. E eu aproveitaria ao máximo. Ela ainda tentou desfazer do nosso lance de sábado, o que me incitou mais a desejá-la. Minha Diaba mal sabia que adoro um desafio. A ala de fisioterapia seria meu mais novo ponto de lazer. — Igor, sério. Minha sobrinha não é como essas umas e outras que você está acostumado a pegar — Lilian disse ao se aproximar de mim. Eu estava observando Alice ao celular um pouco a frente de mim. Ela parecia nervosa. — Ah! Lilian. Você falando desse jeito até parece que estou atrás do fruto proibido... — sorri malicioso, pois daquele fruto quero chupar até o caroço dessa vez —... Mas pela Alice vale a pena cometer um grande pecado. Não acha? — Quem avisa amiga é — deu um tapinha no meu ombro — Depois não diga que eu não avisei. — Você vai contratar algum matador de aluguel, Lilian? — passei um braço por cima do seu ombro e a puxei no abraço — Isso seria um desperdício para o universo feminino — beijei sua testa com carinho.


— Eu sei como você é, Igor. Trabalhamos juntos há anos. Mesmo que você deixe claro para as mulheres que não quer um relacionamento sério, já vi muitas sofrerem por sua rejeição — olhou-me triste. Eu sabia que Lilian se referia a Dalila. Ela tinha trabalhado aqui na Clínica como enfermeira, era linda e carinhosa com todos. Sua timidez era um charme pra mim. Nossos colegas de trabalho sabiam que ela tinha uma atração por mim. Tentei de toda forma ficar longe dela, Dalila era uma menina romântica que merecia um cara que a amasse e eu não sou desse tipo. Eu não me apaixono. Nunca. Até que em uma noite de confraternização dos funcionários da Clínica, Dalila me pediu uma carona, pois não tinha carro e não estava conseguindo chamar um táxi. E foi onde tudo aconteceu. A carne é fraca e não resisti aos seus encantos e insinuações e fui cheio de fome ao ataque. Tivemos um final de semana intenso trancados em um quarto de motel. Mas, infelizmente, ela confundiu dois dias de prazer com um relacionamento sério. Na segunda-feira quando cheguei a Clínica, fui pego de surpresa. Ela havia espalhado para todos os funcionários que estávamos namorando, passei um sufoco com suas crises de ciúmes, até com as minhas pacientes Dalila implicou. Busquei várias maneiras de explicar que não éramos namorados, mas Dalila parecia não querer enxergar. Cobrava-me para levá-la ao meu apartamento e para apresentá-la a minha família. E sempre que tentava dizer a verdade, era impossível. Já não mais aguentando essa situação, em uma noite saí com meu amigo Fernando para um bar de um conhecido nosso para relaxar e jogar conversa fora. Dalila acabou nos seguindo e provocando um escândalo quando algumas amigas sentaram à nossa mesa. Ela tinha ultrapassado todos os limites da razão. Minha paciência já não existia mais e acabei sendo altamente cafajeste. Expondo-a ao ridículo. Humilhei-a na frente de outras pessoas sem me importar, a fúria tinha me cegado naquele momento. Fui embora do bar sem nem olhar pra trás. No dia seguinte, Dalila se demitiu da Clínica por minha causa e por vergonha do ocorrido. Tentei de uma forma, sem que ela soubesse, ajudá-la na busca por um novo emprego. Meu amigo Luís acabou arrumando em um hospital próximo de sua casa. Passei alguns dias muito mal por todo esse incidente. Alguns funcionários da Clínica me olhavam torto achando que a culpa era só minha, devido a minha fama de mulherengo. Aos poucos a notícia foi sendo esquecida, porém vez por outra ainda escuto cochichos sobre o episódio, mas me finjo de desentendido. — Alice é uma mulher decidida e batalhadora, mas ao mesmo tempo é uma menina frágil que deseja um dia se apaixonar — Lilian continuou falando — Pense nisso antes de atacá-la. Por amizade a Lilian eu até cogitaria não atacar, mas ao mesmo tempo voltando meu olhar para Alice, ali na minha frente, sabendo que já tinha provado do seu mel e o quanto era libertina no sexo. O desejo de possuí-la era muito maior que minha amizade por ela. Sua sobrinha seria a minha mais nova maravilha do mundo. — Prometo que serei um bom menino com Min... Alice — cruzei os dedos levando a boca fazendo um gesto de juramento.


— Você não tem jeito mesmo — socou meu ombro brava — O que me deixa feliz é que minha sobrinha só tem aquela carinha de anjo — apontou para Alice à nossa frente — Não vejo a hora de que o Doutor Igor Salazar seja derrubado do cavalo por uma linda mulher — Lilian gargalhou. Um calafrio passou pelo meu braço, eriçando os pelos. Essa risada da Lilian soou um tanto maléfica. Deixando-me um pouco receoso. O que será que ela quis dizer? Alice desligou o telefone e passou a mão pela testa em sinal de alívio. Aquela ligação tinha sido algo estressante para a Diabinha. Fiquei curioso para saber com quem ela estava ao telefone. Seus olhos no mesmo instante se fixaram aos meus. E por mais que ninguém ainda percebesse, seria questão de tempo para todos, inclusive a Lilian, notar o quanto éramos atraídos um pelo o outro. Parecia que nossos corpos clamavam para estar juntos. Um desejo que eu nunca havia sentido antes. Mas acredito que deveria ainda ser reflexo da surpresa de reencontrá-la de uma forma tão inesperada. Ela caminhou até nós timidamente, tentando desviar seus olhos dos meus. No pouco tempo que a observei descobri que quando ela estava envergonhada suas maçãs do rosto ficavam levemente ruborizadas, ao mesmo tempo em que mordia o canto esquerdo do lábio inferior, mas o mais bonitinho mesmo, e que teria prazer em provocá-la só para ver mais, seriam suas caretas. Já até me imagino filmando esses momentos só pra poder depois ter o prazer de provocá-la. — Tia Lilian, posso pegar um carona com a senhora? — perguntou gentilmente. — Claro que sim, meu anjo — Lilian respondeu de imediato. — Tenho que me despedir da Sandrinha, inclusive mandei a Ludmila ir direto para sua casa quando sair do curso de inglês — referiu-se a sua filha. — Que ótimo! Estou morrendo de saudades da minha prima — Alice comentou com aqueles olhos reluzentes e enfeitiçadores. — Quem é Sandrinha? — perguntei curioso. — É a irmã da Alice, minha outra sobrinha. Ela está viajando hoje para a Europa, para estudar — Lilian respondeu. Meu Deus! Será que é linda como Alice? Impossível, Minha Diabinha era exclusiva. — Por que nunca me falou que tinha sobrinhas tão lindas, Lilian? — perguntei à Lilian, mas encarando Alice que fazia uma caretinha perfeita. Definitivamente era um charme quando as fazia — Pergunto por que tenho certeza que sua outra sobrinha deve ser tão linda quanto a nossa fisioterapeuta — comecei a incitá-la, e de primeira deu certo, pois Alice me fuzilou com aquele mar azul que eram seus olhos. — Realmente é tão linda quanto, mas Alice é mais meiga e gentil — Lilian disse toda orgulhosa da sobrinha à sua frente. — Isabela foi embora? — questionou minha loira, mudando de assunto. Era perceptível que não gostava de elogios.


Lilian explicou que Isa precisou sair às pressas para resolver um problema, e como Alice estava ao telefone, preferiu não perturbá-la. — Que pena. Queria ter me despedido dela — respondeu um pouco decepcionada — Ela é tão apaixonante — Alice comentou olhando para sua tia como se só elas duas estivessem ali. — Minha Deusa é uma mulher incrível — me intrometi, entrando na conversa para que Alice percebesse que não me abalo com coisas pequenas. Ela olhou-me de rabo de olho, e recebi um sorriso forçado por educação. — A Isa é incrível mesmo, Alice. E ela gostou muito de você — Lilian falava da Isa com paixão. Era fato o quanto Lilian e Isa eram inseparáveis. Principalmente depois que a Isa vinha fazendo o tratamento para engravidar sem querer que o Leo, seu marido, soubesse. Minha Deusa queria fazer uma surpresa ao seu amado e eu a admirava cada vez mais por sua dedicação e empenho para conseguir. Não nego que muito tempo atrás, sentia-me atraído por ela. A forma como não se dava conta do quanto era sexy e sedutora fazia-me ter pensamentos nada convencionais, mas esse tempo havia passado. Isabela era como uma irmã para mim agora. — Tenho certeza que vocês se tornarão grandes amigas — proferi, novamente chamando sua atenção. — Também tenho certeza — concordou Lilian. — Tomara que sim, porque eu realmente gostei muito dela — Alice comentou olhando de mim para sua tia — Podemos ir, tia? Não quero chegar em cima da hora para levar a Sandrinha ao aeroporto — pediu. — Claro. Vou só pegar a minha bolsa no escritório — Lilian falou já saindo e nos deixando sozinhos — É rápido, querida. Preciso só imprimir um documento e poderemos ir — Terminou de falar já desaparecendo entre os corredores. Sorri internamente por estar naquele momento, mais uma vez, sozinho com a Minha Diaba. Quer dizer, não totalmente sozinhos, pois Pamela ainda estava na recepção com mais duas recepcionistas se preparando para irem embora, porém estávamos distantes o suficiente para não sermos percebidos. Fiz questão de me aproximar um pouco mais, não tão perto, mas apenas o suficiente para vê-la ruborizar. Vislumbrei um olhar faminto por todo o seu corpo, demorando no volume dos seus seios arredondados e empinados escondidos através de uma blusa fina e um blazer. — Será que seremos grandes amigos, Alice? — perguntei, continuando a conversa, mas pensando em devorar aquela boca deliciosa que ela levemente mordia com os dentes o canto do lábio inferior. — Claro. Seremos colegas de trabalho, não vejo razão para não sermos — retorquiu tentando ser firme e se distanciando de mim devagarzinho.


Só que, quanto mais ela se afastava, mas eu me encostava nela. Se continuasse assim, logo chegaríamos a uma pequena copa, onde as recepcionistas preparavam o café para servir aos pacientes que aguardam suas consultas na recepção, e eu não resistiria e a puxaria para dentro e atacaria sua boca pecadora. — Posso te visitar todos os dias no seu consultório? — interroguei maliciosamente. Ela percebeu minhas segundas intenções com a pergunta e tentou se desvencilhar para longe de mim, porém fui rápido e cravei minha mão com força em sua cintura fina. — Doutor Igor, por favor! — suplicou — Esqueça o que aconteceu. Não irá se repetir. Olhei em volta, e as poucas pessoas que estavam por perto, estavam alheias a mim e a ela. No impulso a puxei para dentro da copa, trancando a porta em seguida. Seu olhar era de pânico, mas antes que tentasse pronunciar qualquer palavra arremeti seus lábios, invadindo-a com força com a minha língua sem pedir licença. Apenas tomando posse do que era meu. Naquele momento minha vontade era de sugar todo o seu sabor só para mim. Tomar todas as suas energias, para que ela não esquecesse que tinha sido eu a descarregá-la. A princípio Alice tentou se soltar, entretanto aos poucos foi cedendo e me consumindo por igual. Suas mãos agarraram forte e entrelaçaram seus dedos aos meus cabelos puxando-os com força. Não aguentando mais de desejo, esfreguei minha ereção entre suas pernas para que ela soubesse o quanto a queria. Minha vontade era fodê-la ali, naquele instante, fazê-la gemer igualzinho na boate, como uma gatinha selvagem. Mas sabia que não poderia expô-la daquela forma. Teria que ser cauteloso nos próximos encontros, por agora seria apenas um aperitivo. Alice voltaria a ser minha novamente, e dessa vez eu diria quando acabaria. — Você foi a melhor surpresa da noite — pronunciei entre seus lábios — Não vejo a hora de provar do seu mel novamente — sussurrei mordiscando seu lábio inferior — Não me negue, Minha Diaba gostosa. Eu sei que você também quer. Seus olhos não conseguem disfarçar o seu desejo por mim. — Doutor Igor. Pode chegar alguém — pronunciou arfando baixinho no meu pescoço. — Eu só paro, se você me prometer que passará a noite de amanhã comigo — propus enquanto pressionava minha mão por cima do jeans, esfregando sua boceta — Me prometa, Diabinha. — Ah! Não... Eu não posso, Doutor Igor — gemeu — Isso não pode acontecer — sua boca negava, mas seu corpo implorava por mais. — Então vou te foder aqui e agora — ameacei. — Não! Minha tia... Ai! Hummm!... Ela já deve estar me procurando. — Só te solto se ficarmos amanhã — peguei sua mão e a levei até minha ereção — Sinta. Sinta como você me deixa. Duro como pedra, Alice. Não negue — no mesmo instante, ela o apertou com vontade, me fazendo uivar. Cravei meus dentes na curva do seu pescoço chupando com força. Queria marcá-la, assim


como fez comigo. — Tudo bem... Eu prometo! — proferiu esbaforida — Agora me deixe sair, por favor! — rogou sedutoramente me deixando ainda mais louco de tesão. Alice era como uma feiticeira que me dominava e me deixava ao seu dispor. Não conseguia me controlar perto dela. Mas antes a beijei longamente, deixando seus lábios vermelhos e marcados pela intensidade do beijo. Relutantemente a soltei, louco para que a noite de amanhã chegasse. — Vá na frente. Preciso acalmar o meu amigo aqui — disse apontando para meu pau endurecido dentro do meu jeans. Alice balançou a cabeça concordando, se recompôs virando para destrancar a porta, mas antes de abri-la a puxei novamente fitando-a. — Até amanhã, Minha Diaba — proferi beijando-a mais uma vez. Ela sorriu timidamente constatando o volume dentro da minha calça logo que a soltei. — Você precisa aliviá-lo com urgência — avisou zombeteira. — Se você demorar mais um segundo, garanto que ele será aliviado rapidinho — rebati maliciosamente fingindo avançá-la. Alice saiu em disparada, mas não sem antes dar um sorriso genuíno para mim. Ah! Não via a hora de tê-la nua e gemendo alto debaixo de mim por uma noite inteira. Depois que Alice saiu, esperei alguns instantes até meu amiguinho tranquilizar. Assim que chegasse em casa teria realmente que me aliviar e com urgência, senão teria um grande problema de bolas roxas durante toda noite. Minutos depois, saí da copa e avistei Lilian na recepção. Fui até ela estranhando não ver Alice por perto. — Pensei que você e sua sobrinha já tinham ido embora — articulei na esperança que ela falasse onde Alice estava. — Ué! Eu que achei que você já tinha ido embora — inquiriu desconfiada — Onde você estava? — interrogou. Lilian era muito esperta e não demoraria muito a sacar o lance entre Alice e eu. Se eu não saciasse logo essa minha vontade de tê-la por uma noite só pra mim, seria questão de tempo para Lilian descobrir tudo. — Eu precisei voltar ao meu consultório — menti. Lilian olhou-me por alguns instantes, como se estivesse me analisando. — Igor, não sou uma idiota. Por que ainda não foi embora? — interrogou quase que me acusando de um crime.


— Já falei. Precisei voltar ao meu consultório — disse tentando ser convincente, mas estava na cara que ela não acreditou. — Sei... Eu te conheço muito bem — já apontava o dedo — Se eu descobrir que... — Gô, desculpa o atraso. O trânsito estava um caos para as bandas da faculdade — salvo por minha fedelha favorita que chegou bem na hora certa. O que me livrou de um sermão. — Pirralha! — disse aliviado — Que demora, hein? Você sabe que odeio esperar — fingi que estava bravo com ela. Devido ao meu dia corrido que culminou com meu reencontro com a Diabinha, havia me esquecido completamente de Ingrid. Ainda bem que ela não tinha percebido, porque, com certeza, estaria em apuros. — Desculpa, Gô. Não tive culpa dessa vez, eu juro — fez bico vindo me abraçar. — Cadê seus modos, Ingrid? — reclamei — Cumprimente a Lilian. — Você por um acaso me deixou cumprimentá-la? — tentou reverter à situação culpando-me — Boa noite, Lilian. Como está? — falou indo até Lilian e a beijando no rosto ignorando-me totalmente. — Estou muito bem, Ingrid — Lilian retribuiu seu beijo e a abraçou — Você está a cada dia mais linda. Imagino que já tenha partido muitos corações. — Que nada! Está difícil encontrar alguém que queira um relacionamento sério — respondeu educadamente — Você tira pelo meu irmãozinho aqui. Vive enrolando as mulheres. — Ei! Não quero nenhum marmanjo se aproveitando da minha irmãzinha, e também não me compare aos fedelhos que você conhece — puxei-a para debaixo das minhas asas e beijei seu rosto com carinho — E vamos mudar de assunto. — cuspi enciumado fazendo as duas sorrirem. Não gosto de pensar na vida amorosa de Ingrid. Sei que não posso proibir, mas evito ao máximo saber. Sabia que não era mais virgem porque é bocuda demais e pegou-me de surpresa ao comentar. Foi um dos piores dias da minha vida quando descobri. Quase fui atrás do safado. — Vamos, pequena? Ainda temos que passar no supermercado — avisei fugindo totalmente daquela conversa. Ingrid e eu nos despedimos de Lilian e caminhamos até a porta de saída. Antes de sair, lembrei que Alice iria embora com Lilian. Parei abruptamente, fazendo Ingrid reclamar, pois a puxei com força, já que estávamos abraçados. — Lilian? — chamei e ela me olhou de imediato — Sua sobrinha não iria embora com você? — perguntei tentando parecer desentendido. — Sim. Ela vai comigo — confirmou — Pedi que fosse pegar o carro no estacionamento enquanto terminava de imprimir alguns documentos — falou mostrando algumas folhas que estavam em suas mãos.


— Sua sobrinha é uma loira alta? — Ingrid perguntou curiosa. Lilian e eu confirmamos olhando a pestinha da minha irmã. — Cruzei com ela no estacionamento quando desci do táxi — explicou — Acho que ela pensou que eu era uma paciente da clínica, mas disse que tinha vindo te procurar, Gô — sorriu para mim. — Daí ela me avisou que você estava na recepção e se despediu de mim — Respirou tomando ar — Reparei quando entrou em um carro estacionado mais a frente. fiquei observando porque a achei muito linda. Como essas modelos famosas. — Sim. Alice é um mulherão. Chama a atenção por onde passa — Lilian pronunciou orgulhosa da sobrinha. E seria só minha amanhã à noite. — Ela não te chamou atenção, mano? — Ingrid perguntou curiosa tirando-me do devaneio. — Com toda certeza — respondi firmemente — Mas segundo a titia protetora ali, ela é um fruto proibido, pelo menos para mim — sorri sarcasticamente, olhando para Lilian. Demonstrando que seria difícil manter minhas mãos longe de sua sobrinha. — Eu pegava ela com vontade também — Ingrid falou sem mais nem menos — Ela além de linda é muito gostosa. — Ingrid! — chamei sua atenção. — Gô, não me venha com preconceito idiota — fechou a cara. — Não sou preconceituoso — e não sou mesmo. Mas Ingrid me vinha com cada uma às vezes — Isso é maneira de falar? Você está em meu ambiente de trabalho — reclamei sério. — Desculpe — pediu olhando para mim e depois para Lilian, que apenas sorria de Ingrid — Mas confesso que tenho um amor lesbiano pela Shakira — continuou falando baixinho, fazendo Lilian gargalhar e dizer que nunca tinha pensando em um amor lesbiano, porém que iria pensar em alguém e que falaria assim que descobrisse. Eu fiquei com cara de idiota vendo a duas tricotando sobre qual mulher pegariam. — Mas agora, além da Shakira, pegava sua sobrinha também — acrescentou Ingrid sorridente. — Vamos embora pirralha, já falou merda demais por hoje — saí rebocando minha irmã sem ao menos me despedir direito de Lilian. Já pensou? Minha própria irmã como minha adversária. Era certo que cometeria um assassinato. Moleca mais atrevida! — Que merda foi aquela de pegar ou não pegar a sobrinha da Lilian? — acusei furioso assim que chegamos ao meu carro. — Não acredito! Já fisgou a loira gostosa? — acusou-me surpresa abrindo a porta do carro e me encarando ao mesmo tempo.


Maldita irmã que me conhecia como a palma da sua mão. — Isso não é da sua conta, pirralha enxerida — retruquei empurrando-a para dentro do carro. Assim que dei a volta, entrei no carro e sentei no banco do motorista, olhei de cara feia para Ingrid que gargalhava como uma gazela em crise, rindo de mim. — Quer parar? — Está com medo da concorrência, Gô? — atiçou, provocando-me — Olha que sou páreo duro. Era só o que me faltava! Minha irmã tendo ataques de amor platônico por Minha Diabinha.


Capítulo 05 Nem tudo é o que parece

Alice Cachorro! Só pode ser sina, não encontro outra resposta. Meu dedo é podre quando se trata de homem. Só me sinto atraída por mulherengos convencidos e metidos a besta. Igor era o nome do maldito da vez, aquele que perpetuou os meus sonhos todo o final de semana. O safado teve o desplante de me arrastar para uma pequena copa na Clínica. Mas sabe o que foi pior? Eu gostei de ser atacada por ele, de sentir o gosto do seu beijo novamente, da forma como me imprensou entre o seu corpo quente e viril e a porta. Meu cérebro gritava que era errado, que eu sairia machucada, mas o meu corpo, grandessíssimo traidor, o desejava como a um manjar. Por mais perigoso e errado, se ele não tivesse se afastado, eu não teria resistido a sua sedução. Assim que me fez prometer passar a noite de amanhã juntos, Igor me largou. E instantaneamente senti um vazio dominar o meu corpo. Sorri quando percebi que não era apenas eu que sofreria para aliviar aquele fogo entre minhas pernas. Seu pau estava visivelmente desconfortável dentro do seu jeans. Saí da copa cuidadosamente para não ser pega em flagrante. As recepcionistas não estavam mais por ali. Caminhei ainda com as pernas trêmulas até próximo ao balcão de recepção. Tudo estava tranquilo, olhei em volta e não tinha ninguém por perto, nenhuma sombra, sabia que a qualquer momento Igor surgiria pela recepção com aquele sorriso cínico na cara. Busquei um espelhinho dentro da minha bolsa e me olhei. Meus lábios estavam inchados e, com certeza, tia Lilian perceberia, ela era muito esperta, notaria logo o que tinha acontecido. Peguei rapidamente um gloss de tom rosa e passei nos lábios para tentar disfarçar um pouco. Ainda me observando reparei em uma pequena marca avermelhada se formado em meu pescoço. Droga! Amanhã amanheceria roxo, como esconderei essa marca? Ajustei a gola do meu blazer, antes que minha tia chegasse. Por ora tinha como passar imperceptível. — Onde você estava, Alice? — pulei de susto com tia Lilian falando e me pegando de surpresa.


— Nossa! Que susto a senhora me deu, tia. — disse levando minhas mãos ao coração e tentando me acalmar. — Eu? Hum! Fui… Ao banheiro. Estava muito apertada. — menti. Mas tive quase certeza que não a convenci o suficiente. Eu era um desastre para mentir. Tia Lilian inspecionou com o olhar toda a recepção da Clínica, buscando por algo, ou especificamente alguém de 1,90 m, cabelos loiros escuros e cara de safado com um sorriso sedutor. — E por que não passou o gloss no banheiro? — perguntou, apontando para o gloss e o espelhinho que estava em minhas mãos. Que pergunta mais boba era aquela? Mas eu não seria louca em questionar. — Deixei minha bolsa aqui — respondi bem tranquila. — Não vi sua bolsa quando voltei aqui na recepção — acusou duvidosa. — Estava em cima daquele sofá — falei cinicamente, apontando para um sofá um pouco distante do balcão de recepção. Ela ficou me observando, como se quisesse falar algo mais, porém desistiu. — Como vou chegar amanhã um pouco mais tarde, preciso imprimir um documento para Pamela enviar logo cedo para o Dr. Estevão — explicou. E eu dei graças a Deus que mudou de assunto — Ele está afastado da Clínica, mas gosta de saber de tudo que acontece por aqui. — Ainda temos tempo. O voo da Sandrinha só sai à meia-noite. — Mesmo assim. Não gosto de deixar ninguém esperando — avisou — tome. - Pegue a chave do meu carro e vá pegá-lo no estacionamento e traga-o até a porta de entrada da recepção — pediu me entregando um molho de chaves. — É o tempo para terminar tudo por aqui. Peguei suas chaves e saí em direção ao estacionamento. No momento em que atravessei a porta de entrada, reparei em um táxi um pouco a frente. Uma jovem descia. Será que era alguma paciente? Mas não tinha mais nenhum médico na Clínica além do Igor. Será que ele ainda tinha paciente para atender hoje? Reparei que a jovem falou algo com um dos seguranças da Clínica e em seguida caminhou, vindo em minha direção. À medida que se aproximava tinha a sensação que a conhecia de algum lugar. Só quando chegou bem perto de mim que a reconheci como a garota da boate, aquela que estava abraçada ao Igor, ambos tão sintonizados um com o outro na pista de dança. Meus pés travaram e eu não conseguia dar um passo. Merda! Como pude me esquecer dela e deixá-lo me tocar. Você não toma jeito, Alice Ventura Schneider. — Boa noite! — A garota disse gentilmente. — Boa noite. Posso ajudá-la? — mesmo sabendo de quem ela veio atrás. Fingi-me de sonsa. — Estou procurando o Dr. Igor — falou com uma voz doce. Ela me analisou da cabeça aos pés. Senti-me invadida, sem saber o que tanto especulava. Se estivesse em outro lugar que não fosse meu local de trabalho, com certeza, perguntaria se tinha algum


problema. Odiava me sentir intimidada. — Não sabia que o Dr. Igor ainda tinha consulta — instiguei curiosa pela sua resposta. — Oh! Não sou sua paciente. Ele está me esperando — explicou. Aquele ordinário! Gritei mentalmente, por enganá-la descaradamente. Como pode ser tão cara de pau? Intimando-me a passar a noite com ele, enquanto já tinha um encontro com outra mulher hoje. Talvez ela seja sua namorada. Idiota! Idiota que eu sou. Por pouco não caí na lábia daquele despudorado. Seria mais uma que ele traçou. Que ódio! — O Dr. Igor está na recepção — bradei sem deixá-la falar mais nada e disfarçando minha raiva. — Com licença — pedi e saí sem esperar sua resposta. Estava com tanto ódio que era capaz de matar aquele libertino só com o poder da mente. Entrei no carro de tia Lilian e bati a porta com força. Odiava ser enganada ou enganar as pessoas. Aquela menina parecia ser gentil, apesar de que me senti mal pela forma como me olhou, mas a coitada mal sabia quem era o sem-vergonha do seu namorado. Liguei o carro e estacionei próximo da porta da recepção, não tão perto como tia Lilian tinha pedido, mas o suficiente para ver como Igor abraçava a garota pela cintura, enquanto eles conversavam e sorriam junto com minha tia. Baixei a cabeça e encostei-me ao volante do carro, não queria e não precisava ver aquela cena do casalzinho 20. Ele não era nada meu. Não tinha me feito promessas. A noite de amanhã teria sido só sexo. Eu que deveria tomar vergonha na cara e não cair nas conversas de homens como Igor. Larguei Valentim pelo mesmo motivo. Ele só queria sexo, nada de relacionamentos, e Igor pelo visto era do mesmo jeito, ainda mais cretino que o Valentim, pois enganava uma pobre garota que, com certeza, sonhava com um futuro juntos. Ainda de cabeça baixa, escutei quando a porta do passageiro abriu e senti quando tia Lilian sentou no banco fechando a porta em seguida. — Por que não avançou mais para frente? — questionou. — Desculpa, tia. Acordei muito cedo e aproveitei para cochilar um pouco — respondi com o semblante cansado. — Oh! E essa sua tia aqui fazendo você esperar. Desculpe, Ali — respondeu fazendo carinho no meu braço. — Quer que eu dirija? Você aproveita e descansa mais um pouco. — Não. Eu gosto de dirigir — era verdade, me ajuda a espairecer. E era tudo que eu precisava no momento. — Falei pra sua mãe mais cedo, que você poderia ficar com o meu carro para levar a Sandrinha ao aeroporto — pronunciou. — Obrigada, mas o Levi se disponibilizou a nos levar — agradeci. — Ele acha perigoso, a mamãe e eu voltar sozinhas tão tarde do aeroporto.


— E ele está certíssimo. Seu irmão é um completo cavalheiro. Sortuda a mulher que fisgá-lo — comentou toda sorridente. — Sim. Meu irmão é um perfeito cavalheiro — reafirmei. Porém, ele também era um irmão ciumento e protetor além da conta. O pior que eu ainda tinha que enfrentar sua fúria essa noite. Contei a Levi o motivo da venda do meu carro, ele tinha me pressionando por telefone. Sabia que meu irmão não me deduraria para mamãe e papai, no entanto eu ouviria suas queixas por um bom tempo.

— Oi filha, que bom que chegou. Já estava preocupada. — mamãe disse, vindo me abraçar. — Você está com uma carinha abatida — analisou-me. — A culpa foi minha, Laura. Ali ficou me esperando terminar alguns trabalhos pendentes — tia Lilian explicou. — Estou bem, mamãe. É só um pouco de dor de cabeça. Mas vou tomar um analgésico e logo passará — tentei tranquilizá-la. Realmente estava com dor de cabeça e com muita raiva de mim mesma por ser tão estúpida. Quando transamos na boate eu não sabia quem era o Igor. Achava que nunca mais o veria, por isso não me senti tão culpada quando o vi dançando com aquela garota. Mas agora era diferente, ele seria meu colega de trabalho, nos veríamos todos os dias e, com certeza, sua namorada frequentava a Clínica ativamente. Com que cara olharia para todos? Não me permitiria ser uma pessoa sem escrúpulos. Nunca. — Cadê a Sandrinha? — perguntei afastando aquele sem-vergonha da minha cabeça. — Está no quarto com Ludmila, terminando de arrumar a mala. — mamãe respondeu. — E o seu irmão está no seu quarto te esperando. Está com uma cara de poucos amigos. — Ela deu de ombros. Mamãe já conhecia o jeito mal humorado do Levi. — Eu vou lá falar com ele primeiro e depois vou tomar banho — abracei mamãe beijando sua testa. — Por que a senhora e tia Lilian não vão para o quarto da Sandrinha? Daqui a pouco chego lá. — Está bem querida — beijou-me carinhosamente. — Oh, meu Deus! Com essa loucura toda da viagem da sua irmã, esqueci-me de perguntar sobre seu primeiro dia de trabalho — falou sobressaltada. — Mamãe, nos falamos duas vezes hoje por telefone e lhe contei tudo. E também tenho certeza que você e tia Lilian se falaram durante todo o dia e ela contou as novidades. — Isso é verdade, Laura. Falei que a nossa Ali agora é coordenadora da ala de fisioterapia e ortopedia. — tia Lilian falou orgulhosa. — Eu sei, mas quero saber de tudo do novo emprego da minha filhota. Estou tão orgulhosa de você — pronunciou emocionada. — Já avisou ao seu pai?


— Ainda não. Amanhã cedo ligo pra ele — comuniquei. Deixei mamãe e tia Lilian na sala e segui para meu quarto. Minha noite estava apenas começando. Agora escutaria a segunda sessão de reclamações do Levi. Entrei no meu quarto silenciosamente, Levi dormia tranquilamente na minha cama. Aproximeime devagar e o observei. Apesar de ser meu meio-irmão, éramos muito semelhantes. Alto, loiro e de olhos azuis idênticos. Ele chamava a atenção da mulherada por seu porte, beleza e principalmente pelo seu sotaque forte francês. Já tinha ouvido confissões de mulheres que passaram por sua cama e diziam amar quando ele sussurrava em seus ouvidos. E mesmo que fosse um irmão ciumento e antiquado, o amava e sentia muito orgulho dele. Sentei-me na beirada da cama, ainda observando-o. Alisei seu rosto delicadamente contemplando sua altivez. No mesmo instante Levi abriu aquele par de olhos de um azul-turquesa, capaz de fazer nos perder dentro deles. — Oi — disse gentilmente, ainda acariciando seu cavanhaque bem aparado. — Oi. Chegou agora? — perguntou com seu timbre de voz grossa misturada com seu sotaque. — Alguns minutos — respondi baixinho. Levi afagou seu rosto na minha mão e depois a puxou levando aos seus lábios e beijando-a. — Você sabe o quanto está encrencada? — olhou-me sério. — Mais ou menos — retruquei. Tentei me levantar da cama, mas Levi me puxou encarando-me. — Ali, o que você fez foi errado e muito perigoso. Você não deveria ter escondido isso. Ou pior, você não deveria passar a mão nas alienações dessa sua soeur envieuse. — Levi sempre chamava Sandrinha de “soeur envieuse”. Que significa irmã invejosa em francês. — Eu falei para a Sandrinha que essa seria a última vez que a ajudaria — e realmente eu tinha dado uma coça nela. — Mas dessa vez ela ficou assustada de verdade com a pressão dos agiotas. Tenho certeza que aprendeu a lição. — Da mesma forma que se arrependeu quando foi pega fumando maconha e quando o policial perguntou seu nome ela respondeu Alice Schneider? Ou quando penhorou o anel de esmeralda da nossa Grand-mère que Papa lhe deu de presente quando completou 20 anos? — instigou. — Você não vê, Ali? Ela sempre será assim com você, porque você aceita e a protege. — Eu sinto a necessidade de protegê-la, assim como você faz comigo. Sandrinha é só uma garota mimada. — Ela é uma mulher de 24 anos e não uma garotinha desprotegida — reclamou, sentando ao meu lado na cama e me puxando para um abraço. — Eu não vou brigar com você porque já fiz o suficiente pelo telefone e, principalmente, porque hoje é dia de comemorar seu novo emprego — abriu aquele sorriso lindo. Levi e eu ficamos conversando por mais algum tempo. Discordamos quando me disse que no


dia seguinte providenciaria outro carro para mim. Expliquei a ele que não aceitaria e que em breve daria entrada em um carro seminovo assim que recebesse meu primeiro pagamento. Depois de muita peleja consegui convencê-lo, no entanto, discutimos novamente quando se disponibilizou a ir me deixar e buscar no trabalho. Dessa vez foi mais difícil persuadi-lo, mas no fim o convenci de que Danilo fazia todos os dias o caminho que passava pela Clínica para ir ao trabalho e que me daria carona, e a noite voltaria com tia Lilian.

— Se cuida, meu amor. E assim que desembarcar me ligue — mamãe choramingava abraçando Sandrinha há horas. Dona Laura passou todo o trajeto do nosso apartamento até o aeroporto aconselhando Sandrinha. Ela sempre foi muito cuidadosa conosco, principalmente com minha irmã que parecia viver em um mundo imaginário. Aproximei-me das duas e abracei-as carinhosamente. — Boa viagem, Sandrinha. Aproveita essa oportunidade para conquistar seus objetivos — desejei. — Sim, mana. Paris que me aguarde — sorria empolgada. — Tenha juízo, Maria Sandra — pronunciou Levi fazendo a minha irmã olhá-lo furiosa. — Agora me deixem embarcar, família — desfez do nosso abraço. — Em breve mando notícias — falava sorridente, pegando sua valise. Caminhou até o portão de embarque e virou acenando com mãos. — Au Revoir — despediu. O caminho de volta para casa foi silencioso. No momento em que chegamos, mamãe agradeceu a Levi e entrou. Como já passava de uma hora da manhã, o convidei para dormir aqui em casa, mas Levi prontamente recusou. Ele gostava da sua privacidade, então me despedi dele e entrei. Estava tão exausta que assim que entrei em meu quarto tirei as minhas sapatilhas e caí de roupa e tudo na cama, adormecendo em seguida. Meu sono tinha sido tão profundo que nem lembrava se tinha sonhado. Levantei ainda com o cérebro adormecido, fazendo toda a minha higiene em modo automático. Odiava quando dormia poucas horas. Escutei mamãe avisar que Danilo já havia chegado, gritei que logo sairia. Depois de pronta, arrumei minha bolsa colocando calça legging, regata, tênis, chinelos, lingerie, toalha e produtos de higiene. Enquanto organizava, lembranças da noite passada vieram em meus pensamentos. Se aquela garota não tivesse aparecido, com certeza estaria nesse instante acrescentando também na bolsa a minha melhor lingerie e uma muda de roupas para o dia de trabalho da manhã seguinte. Balancei a cabeça tentando afastar esse pequeno vacilo. Doutor Igor seria apenas um colega de trabalho, mesmo


que precisasse agir rudemente com ele. Como o Dan tinha uma reunião marcada às oito horas da manhã, apenas tomei uma xícara de café e fiz uma pequena marmita com frutas e pãezinhos doces com requeijão. Como sempre, mamãe acompanhou Dan e eu até o carro. Despedimo-nos dela com beijos e abraços e partimos. Sarah não tinha vindo, mas havia ligado para dar bom dia e nos convidar para tomar um drink depois do trabalho. Fui todo o caminho contando empolgada sobre meu novo emprego e o cargo inesperado que consegui. Claro que ocultei a parte do cafajeste. Não tinha mais necessidade de falar dele. Até sobre nosso rolo na boate não valia mais a pena comentar. Danilo me parabenizava e vibrava de felicidade por minha conquista. Beijei meu amigo assim que parou o carro na porta da recepção, combinando ao mesmo tempo de me pegar no final do expediente para irmos ao barzinho que Sarah tinha falado. Entrei na Clínica sorridente e cumprimentei as recepcionistas e alguns pacientes que estavam por perto. Segui direto para a cantina, para comprar um cappuccino. Precisava estar bem disposta para os meus primeiros pacientes. Alguns funcionários do refeitório vieram me cumprimentar e acabamos conversando rapidamente. Eles me falaram o que teríamos para o almoço e perguntaram se eu gostaria de algo especial para que eles pudessem fazer para dar boas vindas. Agradeci pela hospitalidade e pedi que me surpreendessem. No caminho até a Ala de fisioterapia e ortopedia cumprimentei e conheci mais alguns funcionários da Clínica, inclusive estagiários de fisioterapia. Antes que pudesse entrar em meu consultório a recepcionista me chamou e avisou dos meus horários e obrigações para o dia de hoje. Tinha uma reunião para dali a 15 minutos. Seria como uma reunião de boas vindas com os funcionários da ala que coordenaria. Pedi alguns minutos para guardar minha bolsa antes de seguir para a sala de reunião. No instante que abri a porta do consultório meu coração acelerou ao deparar com um sorriso descarado. Igor estava sentado bem à vontade em minha poltrona na certa aguardando para me seduzir. — O que faz aqui? — disparei, sentindo minha pele começar queimar pela raiva se instalando. — Bom dia para você também, Minha Diabinha — proferiu com aquela voz rouca. — Dr. Igor, estou muito ocupada no momento. Gostaria que o senhor se retirasse — pedi, saindo de frente da porta para que ele fosse embora. Igor levantou lentamente e veio em minha direção, seguro de si e me encarando. Parou em minha frente e o aroma do seu perfume invadiu minhas narinas. Antes que eu pudesse dizer qualquer palavra, Igor fechou a porta e como a noite anterior encostou-me esmagando-me com seu corpo. — Você sempre acorda assim, mal humorada? — questionou com seus lábios roçando os meus.


— Me larga! — falei fitando-o furiosa. — Não. Quero te dar um beijo de bom dia — beijou-me, mordiscando delicadamente meus lábios e com a língua tentava adentrar a minha boca. Mordi seu lábio com tanta força fazendo-o gemer de dor. — Sou louco por gatinha arisca, sabia? — disse cinicamente levando a mão ao canto do seu lábio inferior que havia mordido. — Nunca mais se atreva a me tocar — bradei, quase gritando. — Me solte! — me debati tentando livrar-me de suas garras, mas era em vão. — Esqueceu-se de ontem? Da promessa que me fez? — Não irei pra cama com você, seu descarado — cuspi as palavras. — Nunca! Ele apenas me analisava. O safado achava que eu cederia ao seu charme. Ontem eu tinha sido fraca, mas hoje era outro dia. Não cairia na sua jogada. Maldito! Por que você tinha que ser tão gostoso? Foco, Alice! Foco. Não pense desta forma. — Posso saber o motivo da sua negação? Porque até ontem você me queria. E não negue — perguntou friamente olhando fundo em meus olhos. — Não seja cínico, Doutor — empurrei novamente, mas Igor me prendia cada vez mais. Quase me deixando sem ar. — Não quero ser amante de um homem comprometido, mesmo que por uma noite. — E esse homem comprometido por acaso sou eu? — interrogou duvidoso levantando uma sobrancelha. — Seu idiota! Eu vi a garota ontem à noite aqui. A mesma que você dançava todo alegrinho na boate — socava seu peito querendo me afastar dele. Estava sendo muito difícil de resistir, mas não podia me envolver com ele — Como você pode ser tão cafajeste? Dando em cima de mim enquanto mantêm uma relação com outra pessoa. Não negue que essa garota de alguma forma é especial pra você. Abruptamente, Igor me largou e seguiu até a minha mesa encostando-se e cruzando os braços. Em seu rosto um sorriso se formava, ainda maior do que já estava me acostumando a ver. — Como seria essa garota? — ele teve a cara de pau de perguntar. — Não preciso descrever ninguém. Você sabe a quem estou me referindo. Vai negar? A vontade que eu tinha era castrá-lo só pelo seu atrevimento. Como uma pessoa em tão pouco tempo conseguia me tirar do sério? — Não nego. Ela é alguém muito especial — confirmou.


— Devasso! — cuspi com nojo. — Minha Diabinha está com ciúmes? — Para de me chamar assim, seu imbecil — rosnei. Igor começou a gargalhar de mim. Eu deveria parecer uma ridícula diante de toda essa situação. — Você fica ainda mais sexy com ciúmes. Sem responder a sua piada, respirei fundo, contei até dez para me acalmar. Tentando transparecer tranquilidade, abri a porta do meu consultório. Com ele não valia a pena discutir. Era total perda de tempo. — Gostaria que você se retirasse, por favor — pedi calmamente, mas por dentro tremia fortemente. Ficamos em silêncio por alguns segundos apenas nos observando. Igor pegou um bloquinho de papel e uma caneta. Anotou algo descartando o rascunho em seguida. Caminhou e parou novamente na minha frente. — Eu vou. Por agora. Mas você irá atrás de mim — avisou colocando o pedaço de papel em minha mão — Quer apostar quanto que você passará a noite de hoje comigo? — minha vontade era socar sua boca só para desmanchar esse sorriso libidinoso. — Não apostarei algo que nunca acontecerá — rebati. — Iremos ver... Minha Diabinha — aproximou o máximo de mim frisando esse apelido cafona. Atravessou a porta e antes que eu relaxasse virou-se todo galanteador dizendo: — Aceitarei seu pedido de desculpas pelo cafajeste, mas adorei o devasso. Me faz pensar em tudo que quero fazer com você logo mais — comunicou — Ah! A propósito, não jogue fora esse papel, nele consta o endereço do meu apartamento. Te espero às 20h. Não se atrase! — piscou o olho e foi embora. Deus! Esse cara era completamente louco. Aonde eu fui me meter?


Capítulo 06 Afrontando a Fera

Alice — Como me saí? — perguntei a Isabela receosa no final da reunião de apresentação. Não vou mentir, fiquei muito nervosa na hora de me apresentar, as primeiras palavras que consegui pronunciar saíram gaguejadas, mas depois fui relaxando e me soltando. Coordenaria uma equipe com quinze profissionais, dentre eles, dois médicos ortopedistas, dois residentes em ortopedia, quatro fisioterapeutas, três estagiários em fisioterapia, três enfermeiras e uma recepcionista. Falei das minhas perspectivas e projetos para o crescimento da Ala de fisioterapia e também sobre a junção com outros profissionais da Clínica. — Você esteve maravilhosa, Alice. Sabia que tinha escolhido a pessoa certa para me substituir — disse com firmeza. Isabela tinha me explicado rapidamente os motivos que a levaram a não se comprometer totalmente com a Ala depois da ampliação. Essa ampliação era seu sonho. Um sonho que seu pai, o Dr. Estevão Alencar, realizou para sua única filha. Uma ala com toda uma infraestrutura para ajudar na recuperação de pacientes acidentados e portadores de distúrbios neurológicos, cardíacos ou respiratórios, trabalhar com idosos, gestantes, crianças e portadores de deficiência física ou mental e outras especialidades. Ela ainda atenderia alguns pacientes antigos e ajudaria tia Lilian na administração. Apesar de amar o seu trabalho, Isabela me disse que se tudo ocorresse como vinha planejando em breve, se dedicaria a outro sonho. — Alice, quero que você veja com Ana os horários para as aulas de Pilates o mais rápido possível — pediu — Preciso passar esses horários para os outros médicos da Clínica. — Certo. Farei isso agora. — Não. Agora vamos almoçar juntas — falou sorrindo — Tenho que lhe falar de dois casos de pacientes que venho tratando e vou precisar da sua ajuda.


— Tudo bem — sorri encabulada. Juntas, saímos a caminho do refeitório conversando sobre o meu primeiro paciente que atenderia logo mais à tarde. Ao chegarmos ao refeitório, infelizmente a primeira pessoa que vejo é o safado do Dr. Igor. Ele está sentado conversando em uma mesa, junto com o moreno lindo do nutricionista Gabriel e mais dois homens. E que homens! Diga-se de passagem. Todos lindos. Para minha decepção, Isabela seguiu em direção à mesa do quarteto. A última coisa que precisava nesse momento era olhar aquele sorriso desdenhoso para mim, já não bastava mais cedo no meu consultório? Ainda tinha que aturá-lo enquanto almoçava. — Alice, quero te apresentar meu marido, o Dr. Leonardo Menezes — Isabela pronunciou. Um homem alto, moreno, com cara de mau levantou da cadeira e abraçou Isabela possessivamente beijando sua testa. Doutor Leonardo parecia um homem durão, no entanto era visível o quanto era apaixonado por sua esposa. — Prazer em conhecê-la, Alice. Minha esposa só fala elogios sobre você — Doutor Leonardo proferiu sério, porém cortês. — O prazer é todo meu, doutor Leonardo — respondi encabulada. — E esse aqui é o nosso pediatra, o Dr. Luís Viana — continuou Isabela nas apresentações. — Seja bem-vinda, Alice — falou um jovem rapaz de estatura mediana, de olhos amendoados e sorriso gentil. Podia parecer bobagem, mas o Dr. Luís me fez lembrar da época em que fui fã da boyband N’Sync, devido ao seu cabelo espetado com gel e o rosto de menino bondoso. — Obrigada — apenas disse. Estava completamente sem graça, principalmente por causa do doutor Igor que não parava de me encarar abertamente, sem se importar que os outros na mesa percebessem o seu tipo de olhar. — Almoçam conosco? — Igor perguntou — Cabe uma cadeira bem aqui, do meu lado, Alice — o safado teve a petulância de piscar todo satisfeito. Antes que eu pudesse responder Isabela o cortou captando a tensão que se instalava em mim. — Bem rapazes, bom apetite! Mas a Alice e eu precisamos conversar sobre um paciente e vamos almoçar em outra mesa. Despedi-me rapidamente de todos e sentei numa mesa um pouco adiante deles e fiquei aguardando Isabela, enquanto falava com seu marido. — Olá, Anjo! — uma senhora baixinha e gordinha que trabalhava no refeitório veio me cumprimentar.


— Olá! — sorri. Conversamos um pouco e descobri que se chamava Irene e que trabalhava na Clínica há pouco mais de três anos. Quando a Isabela se aproximou, fomos juntas ao balcão de alimentos para colocarmos nossas refeições. Depois que descobri que o pessoal do refeitório tinha preparado pudim de sobremesa para mim, optei por comer uma salada de bacalhau e arroz branco regado no azeite e água com limão. Amava pudim e, com certeza, tia Lilian teria falado sobre a minha fraqueza por essa sobremesa. Meu almoço com Isabela foi proveitoso. A cada momento a admirava ainda mais por sua personalidade e a forma como era sincera com suas palavras. Discutimos sobre a reabilitação de um dos seus pacientes que estava desestimulado e que o tratamento não estava rendendo. Dei algumas sugestões e ela pareceu gostar. O almoço havia rendido algumas horas, Isabela percebeu meu olhar quando o cafajeste do Dr. Igor levantou-se da mesa em que estava e entregou seu prato a um funcionário do refeitório e antes de passar pelas portas vai e vem, olhou-me sorrindo lindo e sedutoramente. Para meu alívio, Isabela não comentou nada, o que agradeci internamente. Já passava de uma da tarde quando cheguei a uma pequena recepção que tinha na Ala que coordenaria. Ana estava lá ao telefone anotando uma consulta. Fiquei aguardando que ela encerrasse para falarmos sobre os horários de Pilates. Ela seria responsável por toda a minha agenda. — Oi Ana, será que podemos verificar os horários agora? — pedi envergonhada. Nunca tive uma secretária, e não queria que me achasse mandona — A Dra. Isabela precisa deles e tenho um paciente daqui a 30 minutos para atender. — Claro, Dra. Alice! Mas tem uma pessoa esperando pela senhora no seu consultório — proferiu. Ana era simpática e contida. Droga! Meu paciente já havia chegado. Odiava deixar pessoas esperando. — Faz tempo que o senhor Reginaldo chegou? — indaguei. — Não é o senhor Reginaldo. É uma moça bonita — respondeu. Uma moça? Será que era a Sarinha? Agradeci a Ana e me conduzi para meu consultório. No instante em que abri a porta fiquei estática olhando para ela, a reconheci instantaneamente, era a jovem loira, a tal namorada do doutor Igor. Era só o que me faltava! Ela não tinha percebido a minha presença, fiquei observando e aguardando sua atitude. A garota realmente era muito jovem, talvez uns 20 ou 22 anos no máximo. E linda. Seu estilo era despojado elegante. Vestia uma calça jeans clara destroyed, camisa básica branca, uma echarpe grafite envolta no seu pescoço e calçava um par de mocassim azul. Estava segurando o porta-retratos que tinha trazido de casa. Era uma foto minha com meus pais na minha formatura. Ambos estavam


felizes e orgulhosos de mim. — Posso ajudar? — perguntei firme, mas meu coração estava acelerado. Ela virou-se de repente. — Olá — falou docemente — Seus pais? — perguntou e confirmei balançando a cabeça — Você parece com seu pai. Ele é muito bonito. Realmente meu pai era um homem charmoso, e estava ficando cada dia mais atraente com o passar da idade. — Obrigada — agradeci — Você precisa de ajuda? — repeti a pergunta. Estava curiosa. — Oh! Onde estão os meus modos? — falou vindo em minha direção e reparei que mancava da perna direita — Sou Ingrid. Você, eu sei que é Alice — ela era muito gentil. — Como vai, Ingrid? — realmente estava muito curiosa com sua presença em meu consultório. — Acho que estou bem. Pedi que sentasse e andei até a minha poltrona e sentei também. — Pelo seu olhar curioso, Igor não falou com você, não é? — questionou. Não. Seu namorado descarado só pensa em me levar para sua cama. Que situação a minha! Droga! — Não. O Dr. Igor não comentou nada — expressei de forma profissional. — Por mim não teria vindo, mas hoje pela manhã quando Igor me buscou em casa para me levar a faculdade, percebeu que eu mancava. Então cismou que você olhasse minha perna, expliquei que não era nada, mas ele é teimoso — disparou rapidamente. Será que esse era o motivo de ele estar aqui logo cedo? E por que não buscou ajuda de um dos ortopedistas? Minha cabeça estava cheia de interrogações, mas não podia deixar que ela percebesse. — Reparei que está mancando da perna direita — inquiri. — Onde é a dor realmente? — Na coxa. É só um pequeno incômodo, nada demais. — Você sempre tem essas dores? — Algumas vezes, principalmente quando exagero nas aulas de natação ou quando viro a noite dançando. Avaliei Ingrid e fiz vários tipos de perguntas, poderia ser uma tensão muscular, devido ao excesso físico, nada que um relaxante muscular não resolvesse, porém expliquei que seria ideal buscar ajuda de um especialista. Falei que ela poderia ser consultada por um dos nossos ortopedistas para que eles pudessem solicitar alguns exames que diagnosticasse melhor o problema.


— Acredito que seja apenas tensão muscular, mas se persistir buscarei ajuda. Prometo — comunicou alegre. Ingrid parecia ser divertida, se não fosse pelo seu namorado, talvez pudéssemos nos tornar amigas. Isso me fazia odiar ainda mais o Igor. Como ele pode ser tão… Ah! Cafajeste. Fico revoltada com esses homens. — Faça isso — falei verificando a hora, daqui a dez minutos teria um paciente — Ingrid, a conversa está muito boa, mas tenho um paciente em instantes — levantei e fui em direção à porta. — Desculpa te incomodar, mas o Igor insistiu tanto que viesse. — Ingrid levantou-se me seguindo — Sabe como é. Ele sempre foi protetor comigo, acho que foi a forma que encontrou para que eu não sentisse tanto a falta do nosso pai — ouvindo suas últimas palavras, parei bruscamente fazendo com que ela esbarasse comigo. — Oh, meu Deus! Desculpe — falei morrendo de vergonha — Te machuquei? Eu sou tão destrambelhada! — Não foi nada — começou a rir. — Você parece engraçada, Alice — zombou de mim, porém na minha cabeça só processava a frase: Nosso pai. Lembrei que Igor tinha confirmado que ela era muito importante para ele, mas não confirmou ou desmentiu quando a acusei de ser sua namorada. O desgraçado debochou de mim. Um sentimento de alívio e raiva surgiu simultaneamente dentro de mim. Pelo menos tiraria o peso na consciência. — Sei muito bem o que é ter um irmão mais velho protetor — lembrei-me do Levi, do quanto ele fica preocupado quando fico adoentada. — Ah! Gô é estupidamente protetor, às vezes até me irrita, mas eu o amo demais. — Gô? — acho que era mal de família colocar apelidos. — É um apelido bobo, eu sei, mas adoro — retorquiu envergonhada. — É bonitinho — completei. Despedimo-nos com a promessa de que ela voltaria quando eu estivesse com mais tempo para conversarmos. Estava realmente aliviada, havia gostado dela, e ela não merecia ter um namorado cafajeste. Enfiei a mão no bolso e puxei o papel com o endereço do Igor. Saber que eles eram irmãos me fez pensar na boate. Do nosso sexo. Tinha sido tão bom, tão certo. Mas eu não queria isso pra mim. Queria um namoro sério, não sexo sem compromisso. Esse tinha sido um dos principais motivos de ter desistido do Valentim. Tudo bem que com o Igor seria apenas mais uma noite, no entanto, nos encontraríamos praticamente todos os dias aqui no trabalho. Não. Eu tinha que resistir. Mas será que eu conseguiria? Atendi o senhor Reginaldo, meu primeiro paciente na Clínica, oficialmente. Trabalharíamos com Pilates clínico. Ele sofria de osteoporose e o seu médico tinha solicitado para ajudar no fortalecimento dos ossos. O senhor Reginaldo elogiou-me e falou que seguiria os exercícios à risca, ou seja, três vezes por semana ele faria Pilates comigo. No final, o acompanhei até a porta que


levaria à recepção. — Ana, que horas chega o próximo paciente? — perguntei, assim que me despedi do senhor Reginaldo. — O paciente das 16h remarcou para amanhã, houve imprevisto. O próximo paciente será às 18 h. — Ótimo! Então podemos organizar os horários pendentes. Não gostava de deixar nada para depois. — Temos que organizar hoje, amanhã aqui será um caos com vários pacientes. – Ana acrescentou. — Vou só buscar um cappuccino na lanchonete e volto para começarmos. Você quer um? – ofereci. — Não, obrigada. Fico no meu cafezinho mesmo — agradeceu. Segui direto para cantina, pedi um cappuccino gigante e uma porção de pão de queijo. De longe avistei Igor se despedindo de uma mulher gestante, provavelmente uma paciente. Falou algo com a recepcionista e saiu. Ouvi dizer que ele era um dos melhores na sua área, inclusive Isabela era sua paciente. Assim que meu pedido ficou pronto paguei e fui para a recepção. Inspecionei os corredores na esperança de encontrá-lo, precisava saber se a Ingrid tinha falado com ele. — Dra. Alice, está procurando a Lilian? — uma das recepcionistas perguntou. — Não. Obrigada. Olhei novamente para os corredores. E pensei… Não! Não pense nisso, Alice. Não vá atrás dele. Meu cérebro alertava, mas meu coração estúpido era idiota. — Por favor, onde fica o consultório do Dr. Igor? — perguntei abruptamente a recepcionista. Sim! Eu era realmente burra, mas iria apenas falar da Ingrid. Principalmente, para dizê-lo o quanto ele era infantil omitindo sobre ela ser sua irmã. — Fica no terceiro corredor, a segunda porta à direita — a recepcionista falou gentilmente. — Ele está com alguma paciente? — interroguei. — Não. Hoje o dia está tranquilo aqui na Clínica. Sua próxima paciente é só daqui à uma hora — respondeu olhando uma agenda, que acreditei ser a do Igor. Agradeci a moça e entrei no corredor procurando por sua sala. Não foi difícil achar. Na porta tinha uma placa com o seu nome: Dr. Igor Salazar – Ginecologista e Obstetra. Coloquei meu lanche em cima de um aparador que tinha ao lado. Respirei fundo e pedi paciência para aturar seus deboches. Bati à porta e aguardei, mas não ouve resposta. Bati novamente, dessa vez um pouco mais


forte. Nada. — Está procurando por mim, Minha Diabinha? — Igor falou atrás de mim. Pulei de susto, que o fez me segurar firme pela cintura. — Opa! Cuidado. Não queria te assustar — disse baixinho bem próximo ao meu ouvido. — Pode me soltar agora — pedi assim que me recuperei do susto. — As pessoas que passarem pelo corredor podem interpretar mal. — Não seja por isso, entramos no meu consultório. — Não! — berrei praticamente. — Eu… Eu apenas vim perguntar da Ingrid. — Ah! Você veio me pedir desculpa pelo cafajeste — olhou para o aparador. — E ainda trouxe um lanchinho! Não precisava Minha Diabinha. Só a sua presença valeu a pena — seu olhar era malicioso. — Você veio sabendo o que acontecerá em seguida, também — afirmou. Subitamente, Igor abriu a porta do consultório e empurrou-me para dentro, fechando-a em seguida. Prendeu-me na porta, algo que estava virando um hábito, e de forma perspicaz beijou-me violentamente, sua boca mordendo a minha, obrigando-me a dar passagem para sua língua. Minha vontade era de empurrá-lo para longe e dizer o que tinha para dizer e ir embora, no entanto, o puxei ainda mais para mim, esfregando-me nele, cheia de desejo. — Ah! Diabinha. Está totalmente perdoada — falou entre os beijos. — Estou contando os minutos para te ver completamente nua, deitada em cima da minha cama. Vou beijar seu corpo inteiro — pronunciou mordiscando meus lábios. — Igor... Para. Isso não pode acontecer. Eu não vou para o seu apartamento. Literalmente, perto dele, eu não conseguia racionar. Nunca tinha agido assim com um homem. Nem com o Valentim, por quem eu era apaixonada. — Você vai sim, Alice. Você prometeu — esfregou seu membro em mim. Sua mão envolta nos meus cabelos, puxando-os, para me manter no local, enquanto meus lábios eram assaltados por sua boca. Consegui buscar o pouco de lucidez que me restava e o empurrei para longe de mim. — Igor, para! Isso é errado. Estamos no ambiente de trabalho. Eu não quero ser sua amante — falei apressadamente. — Vim aqui para falar da sua irmã. — Já falei com a Ingrid. Ela me explicou tudo — ele proferiu. — Também vim dizer que você é um idiota por deixar-me achar que ela era sua namorada. Que infantilidade! — rebati chateada. — A culpa foi sua Diabinha. Você que tirou conclusões precipitadas — sorriu cheio de desdém. — Já vi que não adianta ter uma conversa séria com você — virei-me para sair, porém Igor me


agarrou bruscamente e trancou a porta. Abraçando-me e caminhando para longe da porta. — Você precisa relaxar, Diabinha. Está muito agitada — enquanto falava, suas mãos acariciavam meus seios. — Desde que me surpreendi te vendo na recepção ontem à noite, quis te trazer para o meu consultório e te foder em cima da minha mesa. — Igor estimulava cada vez mais meus seios. — Igor! — gemi praticamente rendida. O pior é que eu queria aquilo, mesmo sabendo que era errado, pois ele não passava de um safado metido a gostosão. Oh, sina! — Quero te deixar louca de desejo. Te saciar completamente. Ele me empurrou, deitando-me delicadamente em cima da sua mesa. Beijou invadindo sua língua e sugando tudo de mim. Nesse momento eu estava completamente a sua mercê. Desceu beijando meu pescoço, levantou minha camisa mordiscando meus seios por cima do sutiã e fazendo uma trilha de pequenos chupões até o botão da minha calça. — Igor! Não — levei minha mão até a minha calça impedindo que abrisse. — Relaxa, Diabinha. Isso será apenas um aperitivo do que você terá logo mais à noite. Igor baixou as minhas calças até o meio das minhas pernas. Subiu e por cima da minha calcinha inalou minha excitação. — Ah, delícia! — murmurou, empurrando para o lado minha calcinha. Sem cerimônias abocanhou minha boceta chupando com força. — Porra, Igor! — uivei relembrando como tinha sido bom na boate quando fez sexo oral em mim. Ele poderia ser um convencido filho da puta, mas sabia fazer uma mulher sentir prazer. Ele lambia e chupava com gula meu clitóris. Deixando-me louca e necessitada de tudo que ele poderia me dar. Não demorou muito e gozei, tapando a minha boca com as mãos para que ninguém que passasse naquele instante pelo corredor escutasse meus gemidos. Ainda trêmula. Igor ajudou-me a descer de cima da mesa. Subi minhas calças rapidamente. Estava com tanta vergonha que não conseguia encará-lo. Queria sair dali o quanto antes. Senti quando se aproximou, tocou em meu queixo levantando para que o olhasse. — Você é linda! Eu amei provar novamente do seu sabor. Estava doido por isso desde a última vez — alegou, beijando calidamente meus lábios e pude sentir meu gosto em sua boca. — Preciso ir — disse, me afastando dele, porém percebi o quão excitado estava e tive uma ideia. Arriscada, mas resolvi tentar. Dei um sorriso safado para ele e abruptamente o empurrei na cadeira, ajoelhando entre suas pernas. — Agora é a minha vez. Você terá uma pequena recordação — abri a sua calça e puxei junto


com sua cueca. Seu membro saltou rígido e duro. Era lindo, grande, grosso e suas veias estavam inchadas, me deixando ainda mais excitada para o que ia acontecer. — Ah, Diabinha! Você acabará comigo — proferiu acariciando meu rosto. Lambi meus lábios e abocanhei seu pau, o fazendo grunhir. Chupei a cabeça arredondada, enfiando o máximo do seu comprimento na minha boca, tragando com vontade. Ele era saboroso e realmente estava excitada novamente, mas Igor precisava de uma lição e seria no seu ponto fraco. Sexo. Suas mãos estavam enroladas em meus cabelos, ele parecia perdido em prazer. Quando senti que estava quase gozando, parei repentinamente e levantei. — Quê? — olhou-me confuso. — Isso é uma degustação do que a sua Diabinha é capaz — disse ironicamente. — Você vai me deixar assim? — interrogou surpreso. Caminhei até a porta e antes de abri-la, voltei a olhá-lo. Sabia que tinha jogado sujo, mas jogaria e utilizaria a sua fraqueza para atingi-lo. — À noite você me aguarde — escutei Igor falando antes que fechasse a porta. Sorri comigo mesma imaginando sua noite de bolas roxas.

Passei o restante do dia organizando os horários com Ana, depois atendi a mais um paciente. Confesso que Igor não saiu um minuto sequer da minha mente, não só pelo que tinha aprontado com ele, mas pela forma carinhosa que fez sexo oral em mim. Liguei para Danilo e combinamos a hora que ele me pegaria aqui na Clínica, queria sair antes do Igor. Estava receosa de que ele estivesse me esperando na recepção para me levar ao seu apartamento. Mas por sorte, Igor havia tido uma emergência de última hora e ainda estava trabalhando na hora que cheguei à recepção. No horário certo Dan e Sarah chegaram, despedi-me de tia Lilian explicando que sairia com os meus amigos para tomarmos um drink para comemoramos pelo meu emprego. A convidei para se juntar conosco, mas recusou dizendo que Cláudio, seu namorado, passaria a noite na sua casa. Abracei meus amigos assim que entrei no carro. Escutei cada um contar suas novidades, tanto no trabalho como no pessoal. Sarah ainda estava encontrando-se com o moreno perigoso da boate e Dan continuava com seu rolo. Ambos prometeram que me apresentariam para eles em breve para saber se eu os aprovaria. O barzinho estava tranquilo e nós três estávamos aproveitando e relaxando com o happy hour. Liguei para mamãe avisando que tinha saído com os meus amigos, e que não se preocupasse me esperando acordada. Ela disse que tinha falado com minha irmã. Que a viagem tinha sido tranquila e que já estava instalada na casa de Abigail.


Já estava zonza depois de três drinks. Avisei ao Dan e a Sarah que iria ao banheiro. Precisava jogar uma água no rosto. Estava louca para ir embora, mas não gostava de ser a estraga prazer e ficar pedindo para irmos, principalmente quando dependia de carona. Assim que entrei no banheiro feminino do barzinho, senti meu celular vibrar no bolso da minha calça. Com certeza, era Levi querendo saber onde eu estava. — Levi... — atendi de supetão. — Antes de você reclamar, mano. Bebi só dois drinks — menti sobre o terceiro. — Quer dizer que Minha Diabinha está bebendo? — Igor bradou sério. — Você deveria estar aqui comigo, em meu apartamento. — olhei para o visor do meu celular e vi que era um número que não conhecia. — Co... Como você conseguiu meu número? — perguntei assustada, mas sabia que ele provavelmente usou seu charme e conseguiu com alguma recepcionista. — Foi muito fácil conseguir seu número. — ele parecia estar chateado. — Quer dizer que você me enganou? Não cumprirá sua promessa? — disparou. — Igor, eu disse que não iria — falei nervosa. Senti um sorriso se formar do outro lado da linha. — É assim que você quer, Alice? — perguntou — Tudo bem. Adoro brincar de gato e rato — advertiu ironicamente, desligando na minha cara. Eu teria que manter meus dois olhos bem abertos a partir de agora, com certeza Igor aprontaria quando menos esperasse. Graças a Deus, assim que retornei à mesa, Danilo pediu para ir embora. Sentia-me meio desnorteada depois do telefonema e não queria comentar sobre o Igor com meus amigos. Pelo menos por enquanto. Meia hora depois Danilo me deixou em casa. Mamãe já estava dormindo. Tomei um banho e deitei-me. Por mais cansada que estivesse não conseguia dormir com a última frase do Igor na minha mente. “Adoro brincar de gato e rato.” Pensei sobre todos os tipos de atitudes que ele tomaria para me constranger, mas não fazia ideia de nada. Não sei que horas dormi, mas acordei assustada com o toque do meu celular. Era o safado me ligando às três da manhã. Rejeitei a chamada, porém isso não o parou. Segundos depois um bip indicava que eu tinha uma mensagem.

Abri a mensagem e não sabia se sorria ou ficava com medo.

Não consigo dormir por sua culpa.


Minhas bolas estão totalmente roxas. Se prepare! Terá volta, Minha Diabinha. Igor.

Quase fiquei com pena dele. Quase! Meus dedos coçaram para responder sua mensagem atrevidamente, porém achei melhor não atiçá-lo ainda mais. Coloquei meu celular de lado e voltei a dormir com um sorriso bobo no rosto por saber que ele estava pensando em mim, mesmo que tramando algo. Estava tendo um sonho delicioso em Paris com meus pais e irmãos, quando um barulho despertou-me. Era novamente Igor me ligando. Verifiquei a hora e só tinha passando quarenta minutos depois que ele tinha enviado a mensagem. Rejeitei novamente a chamada, mas o devasso estava decidido a me atormentar na madrugada insistindo em ligar. Pensei em desligar o celular, mas fiquei receosa de que não conseguisse acordar sem o toque do despertador pela manhã e, principalmente, estava muito curiosa em saber o que Igor teria para me dizer dessa vez. Atendi ao celular. — Alô! — Hum!!! Isso Diabinha, chupa mais forte, não para, vou encher essa sua boquinha linda de porra, estou quase lá, vai! — meu coração rapidamente acelerou quando percebi o que Igor estava fazendo. — Igor? Seu idiota, o que você es... Minha frase foi cortada quando sons de fortes gemidos invadiram meus ouvidos e o telefone foi desligado na minha cara. Ele estava gozando? Filho da puta! Eu estaria perdida se caísse em suas mãos.


Capítulo 07 Mudança de tática

Igor Fiquei inquieto e ansioso depois do que a Diabinha tinha aprontando. Ela tinha sido muito má comigo. Em questões de minutos Alice conseguiu me levar do céu ao inferno com aquele sexo oral. Sua boquinha engolindo e sugando enlouquecidamente meu pau havia sido fenomenal, porém, a maldita, na hora “H” parou de repente evitando assim que eu gozasse. Na hora fiquei tão aturdido admirando sua audácia que não me manifestei. Realmente não acreditei que ela iria embora me deixando duro e desejoso. Depois que percebi que Alice não voltaria, fiquei sorrindo imaginando sua vibração ao me deixar naquele estado, achando que com essa atitude me pararia. Mal sabia que com isso e juntando o meu lado competitivo atiçou muito mais a minha vontade de possuí-la. Imaginei que Minha Diabinha não apareceria em meu apartamento, no entanto, por via das dúvidas, preparei um jantar para dois. Um risoto de vegetais com filé de linguado ao creme de espinafre. Não me ostentava, mas possuía alguns dotes culinários que aprendi desde a época que passei a morar sozinho, e não queria mudar meus hábitos alimentares saudáveis. Para beber, optei por um Sauvignon Blanc, originado de Bordeaux na França, presente do Luís quando esteve passeando por lá com sua loira platinada, apelido carinhoso que dei a sua namorada. Sou apreciador de bons vinhos, e havia escolhido esse em especial devido a Lilian comentar com as meninas da recepção que Alice era filha de um judeu francês. Sim. Confesso que era algo meio piegas, mas queria agradá-la, por isso a escolha. Alice não imaginava, mas Ana, sua secretária, era minha cúmplice e amiga, devia-me grandes favores e que comecei a cobrá-los. O primeiro foi o número do celular da Minha Diabinha. Como previ, a maldita não apareceu em meu apartamento. Então decidi atormentá-la. Na primeira vez que liguei descobri que ela estava bebendo e deveria ser em algum barzinho com música ao vivo, pois escutei uma música acústica tocando ao fundo. Ela ficou nervosa ao descobrir que era eu ao telefone, e é claro que me aproveitei para instigar e desliguei o telefone sem esperar sua resposta. Era madrugada e não conseguia dormir, minhas bolas doíam por culpa dela. Claro que me aliviei no banho logo que cheguei em casa, mas não era a mesma coisa, eu a queria. Queria que ela terminasse o que começou, queria que saciasse esse desejo insano de possuí-la que só vinha aumentando depois que começou a trabalhar na Clínica, só assim, minha vida voltaria ao normal. Só depois que ela fosse minha totalmente.


Era madrugada quando enviei uma mensagem provocando-a, e como sempre a diaba não respondeu. Fiquei ali, pensando nela, em como era linda, dedicada, inteligente, carinhosa e atenciosa com as pessoas. Mostrava um lado ingênuo, porém sabia ser provocativa e fodidamente sexy. Alice era uma mulher belíssima, muitos homens doariam toda sua fortuna para tê-la, mas o que a deixava ainda mais linda, era sua pureza, a forma como reagia às situações. Quando ficava nervosa, um pequeno rubor se acumulava em sua testa e nas maçãs do seu rosto. Seus olhos que pareciam duas pequenas pedras preciosas brilhantes, que iluminavam com um brilho único, principalmente quando ficava excitada. Eram nesses momentos que eu me perdia sendo encantado e dominado por ela. De tanto pensar nela meu pau respondeu automaticamente ao desejo, ficando duro. Sem pensar duas vezes levei uma das mãos até ele e comecei a acariciá-lo suavemente, movimentando minha mão para cima e para baixo. Imaginei Alice cavalgando em cima de mim. Eu precisava que ela sentisse o que eu estava sentindo. Imediatamente com a outra mão disquei rapidamente seu número de celular e aguardei quase uma eternidade, mas Alice não atendeu. Persistente e querendo importuná-la e mostrá-la o que era capaz de fazer comigo, disquei novamente e Minha Diabinha atendeu no segundo toque. Sua voz foi como um comando e imediatamente voltei os meus pensamentos ao meu consultório, quando ela sugava meu pau deliciosamente. Aumentei a velocidade da minha mão, estimulando ainda mais minha masturbação. A princípio, Alice se manteve em silêncio, apenas nossas respirações indicavam que a chamada telefônica estava em linha. — Hum!!! Isso Diabinha, chupa mais forte, não para, vou encher essa sua boquinha linda de porra, estou quase lá, vai! — não resisti e pronunciei quando senti o líquido pré-ejaculatório entre os meus dedos, gozando segundos depois. Respirei profundamente recuperando da sensação prazerosa imaginária de encher de minha porra a sua boquinha, e antes mesmo de deixá-la me xingar, encerrei a ligação triunfante. Agora nós dois estávamos empatados, mas muito em breve mudaria esse placar.

Na quarta-feira, passei praticamente o dia todo na Maternidade. Os bebês de quatro das minhas pacientes decidiram vir ao mundo no mesmo dia, o que me fez adiar e remarcar algumas consultas. Somente duas pacientes das que estavam marcadas para hoje, pedi que viessem até a Maternidade para fazer alguns exames, pois elas estavam com as gestações avançadas e precisariam de mais atenção. Já era fim de tarde e eu estava completamente exausto, não tinha parado sequer um minuto do dia e praticamente não dormi, no entanto assim que saí da Maternidade e entrei no meu carro decidi dar uma passada rápida na Clínica. Estava louco para reencontrar a Minha Diabinha, e ver seu rosto perfeito enrubescido ao lembrar-se da noite passada. Sentia-me empolgado e louco para chegar logo, pisei fundo no acelerador logo que saí do estacionamento. A Clínica ficava a poucas quadras da Maternidade e não demorei mais do que dez minutos para chegar. Estacionei o carro na minha vaga e desci seguindo direto para recepção, cumprimentando


rapidamente os dois seguranças do turno da tarde. — Olá, Pamela. Alguma novidade? — Pamela era responsável por toda a minha agenda, minha assistente. — Olá, Dr. Igor. Consegui remarcar a maioria das consultas para amanhã e sexta-feira — respondeu atenciosa. — Mesmo com toda a loucura que foi hoje por aqui — completou. — Dia cheio? — Muito. Não paramos um segundo — sorriu. — Mas o senhor precisa de algo? — questionou curiosa. — Vim pegar um documento que esqueci no meu consultório e preciso para hoje — menti, afastando da recepção. Caminhei indo na direção do meu escritório, mas parei no meio do caminho e chamei minha assistente novamente. — Pamela, sabe me dizer se a Dra. Alice ainda está trabalhando? — percebi seu olhar compreendendo que não tinha vindo buscar porra nenhuma de documento. — A Dra. Alice provavelmente encontra-se na Ala que coordena — falou ríspida, mas fingi não perceber. Sabia que Pamela nutria sentimentos por mim. Ela era uma morena linda e atraente, me envolveria com ela sem problema algum, se não fosse por dois motivos: primeiro, ela trabalhava diretamente comigo e não seria correto alimentar o sentimento de uma moça que conhecia todos os meus passos. Segundo e o mais importante, Pamela era noiva de um troglodita anabolizado e eu amava preservar meu corpinho inteiro, sem nenhum osso quebrado. Agradeci pela sua resposta e caminhei direto para a Ala de Fisioterapia. Logo que adentrei, avistei Ana entretida lendo um livro. Sem perceber marchei silenciosamente até ficar bem próximo a ela. O livro parecia estar muito interessante, porque Ana sequer respirava fixada a leitura. Olhei rapidamente para as páginas do livro, visualizando algumas frases. — Agora compreendo os ciúmes excessivos do Roberto — disse debochado, fazendo com que ela fechasse o livro imediatamente, ficando vermelha de vergonha. — Estuda a teoria nos livros eróticos e a prática com seu marido? Por isso que o meu amigo está magrelo — continuei falando, segurando-me para não cair na risada. — Dê sustância ao homem pelo menos, Ana. Ele precisa de nutrientes para aguentar todo o seu pique. Ana era casada com meu amigo da época do ensino médio, Roberto. Eles se conheceram através de mim, em uma festa de reencontro da nossa antiga turma da escola. Ana tinha acabado de começar a trabalhar na Clínica e a convidei para ir comigo a festa. Na verdade, minha intenção era de levá-la para cama depois da festa, porém à medida que fomos conversando, criei um afeto de amizade instantânea, levando por água abaixo meus planos para aquela noite. No entanto, a noite não foi totalmente perdida, durante a festa percebi troca de olhares entre Ana e Roberto. Dei uma de cupido e juntei o casal, que exatamente um ano depois da festa, se casaram, e eu fui convidado para ser padrinho.


— Igor! Seu idiota filho da... — Ei! Olhe o respeito com o seu cupido e compadre favorito — a interrompi sem deixar terminar de me escrachar. — Eu devo te considerar muito para aguentar seus desregramentos — bradou tentando recompor-se. — Desregramento? E ainda aprende a falar bonito nesses livros — continuei cutucando-a. — Vou fingir que é um elogio — abracei carinhosamente, ao mesmo tempo em que me esmurrava o peito. — Ai! Para. Você me ama que eu sei. Confesse. — Infelizmente — retrucou atrevida. — Não esqueça que domingo tem churrasco na casa da minha sogra e ela quer que você vá. Dona Iolanda, mãe do Roberto tinha um carinho por mim, e sempre me convidava para festas ou almoços de domingo. — Posso levar alguém? — perguntei de repente. Nunca havia levado mulher alguma a eventos familiares. Mas de repente senti essa necessidade de convidar Alice e compartilhar esses momentos. Estranho, essa minha necessidade de tê-la por perto o tempo todo. — Você quer levar a minha nova coordenadora? — inspecionou intrometida. — Talvez — fiz uma careta. — Desembucha! O que está pegando entre vocês? — Ana exigiu. — Primeiro você me liga tarde da noite querendo, ou melhor, exigindo, o número do celular dela — tomou fôlego e continuou falando — E hoje no refeitório ela ficou toda quieta quando a Isa perguntou por você e disseram que você não apareceria. Senti meu peito acelerar ao saber que a Minha Diabinha sentiu a minha falta. Sem perceber um sorriso bobo surgiu em meu rosto. — Como ela ficou? — perguntei curioso. Ana ficou em silêncio analisando por alguns segundos a minha reação. Seus olhos era uma mistura de surpresa e dúvida. Repentinamente um sorriso irônico surgiu entre seus lábios causandome um pequeno calafrio. — Se quer mesmo saber, vá você conferir pessoalmente — proferiu com o mesmo sorriso. — Ela está na sala de Pilates — apontou com o dedo indicando o caminho. Agradeci com um aceno e percorri todo o trajeto até onde Minha Diabinha estava. Assim que me aproximei, pensei em bater à porta, entretanto não havia perguntado a Ana se Alice estava com paciente. Sem fazer barulho abri a porta, e a princípio não avistei ninguém, entrei tranquilamente buscando encontrá-la. Era uma sala enorme com uma temperatura agradável, completamente branca do teto ao chão e com dois janelões imensos que davam vista para um pequeno jardim. Tinha todos


os tipos de aparelhos e acessórios para desempenhar exercícios de Pilates e RPG. Um pouco mais a frente vislumbrei-a, estava deitada sobre um colchonete alongando-se. Fique estático admirando sua flexibilidade misturada a sua beleza. Alice estava suada, vestia uma calça legging preta e um top comportado cinza. Sua barriga lisinha mostrava um pequeno piercing em seu umbigo. Meu pau vibrou em expectativa. Desejava ardentemente beijá-la, sentir o sabor do seu mel, vê-la gemer regozijando de prazer. Continuei parado no canto, unicamente venerando-a, aguardando-a. Mesmo sem eu ter feito qualquer barulho, algo fez com que ela me notasse naquela sala, e vi quando buscou-me, até que nossos olhos se encontraram, e neles vi desejo e medo. Ela permaneceu calada. Quieta. Esperando que me pronunciasse, mas surpreendentemente, pela primeira vez na minha vida eu não sabia o que dizer a uma mulher. E isso me assustou. Porra! Eu só precisava contemplar aquela escultura perfeita na minha frente. Conhecer cada detalhe e sensibilidade do seu corpo. — Eu tive algumas emergências hoje. Agora que pude voltar para Clínica — consegui proferir, escondendo um pequeno nervosismo que se instalava em mim. — Sentiu minha falta? — interroguei abrindo um pequeno sorriso irônico. — Ah! Você não estava na Clínica? — retrucou cinicamente. Ah! Baby. Se você pensa que me destratando conseguirá me afastar de você, o efeito está sendo o contrário. Tenha certeza disso. — Nem percebi — deu de ombros, recolhendo o colchonete do chão e guardando em uma estante. — Que pena — disse, me aproximando vagarosamente. Chegando bem próximo, o suficiente para que pudesse sussurrar próximo ao seu ouvido. — Porque eu senti muito a sua falta… — prendi minhas mãos a sua cintura, apreciando a maciez e quentura da sua pele. —… principalmente depois de me masturbar imaginando gozar deliciosamente na sua boquinha atrevida — finalizei, sentindo a tensão em seu corpo. — Igor! — choramingou quase que inaudível. — Aquilo foi ridículo e grotesco — falou tentando transparecer chateada. De forma ágil, virei seu corpo para que ficasse de frente para mim. Encaixando seu corpo totalmente ao meu. Apesar de ser alta, Alice era uns dez centímetros mais baixa do que eu. — Você não gostou? — indaguei elevando seu queixo para que me olhasse nos olhos. — A… Achei imaturo — respondeu visivelmente nervosa. Eu vibrava por conseguir mexer com seus estímulos. — Mentira! Eu tenho certeza que você não conseguiu dormir porque ficou excitada e toda molhadinha — rebati, beijando castamente cada canto dos seus lábios.


— Igor, precisamos conversar — disse, em meio aos beijos que estalava em lábios macios. — Fale. — Não podemos continuar desse jeito. Isso é errado e a qualquer momento interferirá nos nossos trabalhos. E eu não quero perder o meu emprego. E também não quero ser apontada como uma de suas amantes. Isso é ridículo, Igor — cuspiu as palavras rapidamente sem parar para respirar. — Concordo com o que diz — respondi sucinto. — Concorda? — perguntou surpresa, enquanto mordiscava seu lábio inferior. — Claro. Não podemos ficar assim às escondidas — confirmei, desfazendo com o polegar um franzido que se formava em sua testa. Sem entender do que eu falava. — Eu não compreendo — falou com uma voz doce, mas com um toque de decepção. Minha vontade era rasgar sua pequena roupa e possuí-la, mas me segurei. Tinha tomado uma decisão louca de repente para que a fizesse confiar em mim. — Alice, vamos começar tudo de novo? — Co… Como? — Eu te desejo, Alice. Não vou mentir que eu te quero na minha cama para nos enchermos de prazer — fui sincero, e acabei a surpreendendo. — Nesse instante estou completamente duro, tentando me controlar para não te foder em cima de algum colchonete — rocei meu membro em sua barriga para que sentisse o quão excitado estava. — Também sei que você me deseja. Seus olhos e seu corpo não negam. — Igor, aonde você quer chegar com tudo isso? — perguntou incrédula. Abracei ainda mais forte, a deixando na ponta dos pés. Trazendo seu rosto ainda mais para perto do meu. — Quero fazer conforme manda o figurino. Quero cobiçá-la, paquerá-la, cortejá-la, levá-la para jantar, irmos ao cinema, boates. É isso que os casais fazem, não é? Se preferir, podemos ficar sentados no sofá, dando uns amassos e curtindo um ao outro, ou podemos brincar de médico. Minha brincadeira favorita, aliás — despejei, deixando tanto ela quanto eu pasmos pelo que tinha acabado de falar. — Vo… Você quer na… namorar comigo? — perguntou espantada saindo dos meus braços. Até eu estava espantado. Porra, eu a queria na minha cama. Namorar? Eu não tinha tanta certeza, mas nesse jogo eu tentaria jogar todas as cartas até me saciar. — Igor Salazar não namora. Todos sabem e comentam aqui na Clínica — afirmou categórica. — Tem sempre uma primeira vez. — Isso não dará certo, Igor. Você é cafajeste demais. E…


— Pelo menos, me deixe tentar — a interrompi sem deixá-la terminar de falar. — Isso não é um jogo, Igor. — Diabinha — murmurei fechando os olhos e respirando profundamente reabrindo meus olhos em seguida. — Quer sair amanhã comigo? Vamos jantar e você escolhe o local. — Amanhã não posso — informou. — Não pode desmarcar? — Não. É um compromisso com minha mãe. — E na sexta? — Você não pode. É aniversário do Dr. Leonardo. A Isabela comentou hoje no refeitório. Droga! Tinha me esquecido completamente do aniversário do Leo. E eu não poderia fazer essa desfeita com eles, principalmente com a Isa. Amanhã ela teria sua consulta de rotina comigo. Há pouco mais de um ano, Isa vinha tentando engravidar e esse mês ela estava esperançosa e eu também. Amanhã faríamos os exames. E se Deus quiser, Dr. Leonardo receberia um dos melhores presentes de sua vida. — Vem comigo — pedi. — Não. A Isabela me convidou, mas estou há pouco tempo na Clínica. Não me sentiria a vontade. E, também não chamaria isso de um encontro, principalmente com tia Lilian conosco — ela estava certa. Droga. — Sábado? — Vou sair com meu irmão. E já tinha combinado há dias com ele, infelizmente não posso desmarcar — pronunciou sem graça. — Tem algum horário na sua agenda para mim? — dei de ombros já ficando estressado. Nunca foi tão difícil batalhar por uma mulher. Haja paciência! Esse negócio de namoro mal emendou e já estou saturado. — Domingo estou livre. — Ótimo! Domingo temos um churrasco para ir — falei de supetão. A levaria para o almoço na casa da mãe do Roberto. — Mas… — Não terá ninguém conhecido. Se esse é o problema — mentira, teria sua assistente, Ana, mas ela não precisava saber disso agora. Gravei mentalmente de lembrar-me de avisar a Ana que não comentasse com ninguém sobre o churrasco — Depois poderíamos fazer algum passeio. Você decide. — Tudo bem — concordou sem se queixar para o meu alívio.


Segurei sua mão puxando-a de volta para meus braços, no entanto antes que agarrasse e devorasse sua boca com a minha, Minha Diabinha desviou-se. — Você prometeu se comportar, Dr. Igor. E isso inclui se comportar, principalmente aqui na Clínica — avisou com um sorriso safado recolhendo sua bolsa que estava pendurada e saindo às pressas da sala me deixando sozinho... E duro mais uma vez. Ah, Diaba! Farei tudo o que você quiser, mas se prepare para quando eu te pegar.

Depois que Alice deixou-me largado e fugiu da sala de Pilates, a ficha caiu e entrei, literalmente, em pânico com a atitude que havia tomado. Até agora não entendia o que diabo eu tinha sugerido. Cortejá-la? Quem ainda pronunciava isso no século XXI? Se eu comentasse com um dos meus amigos, com certeza, eles não acreditariam que essa proposta tinha partido de mim. Então, para não enlouquecer decidi espairecer. No mesmo instante, saquei o meu celular e liguei para Fernando e Gabriel os chamando para sairmos e curtir uma noite e quem sabe encontrar algumas mulheres. Se a partir de domingo eu teria uma namorada, precisaria ter minha despedida de solteiro antes de selar o compromisso. Não é mesmo? O que não ocorreu, quer dizer, saímos e estávamos bebendo e colocando o papo em dia, mas a tal da despedida de solteiro não rolou. A tal princesa do Gabriel apareceu estragando de certa forma meus planos. Nenhuma mulher naquele barzinho chamava minha atenção pra falar a verdade. Eu só queria uma mulher, e ela estava muito ocupada me dizendo não até domingo. Agora entendia o porquê de o meu amigo estar tão interessado na sua princesa. Ela era uma morena alta e belíssima. Tinha um corpo de torcer o pescoço dos homens por onde passava e aparentava ser despojada e muito divertida. Conversamos rapidamente e gostei dela. Seu nome era Sarah e era estudante de arquitetura. — Esse é o amigo que te falei para apresentar a sua melhor amiga. O que acha? O moço é bem apanhado? — Gabriel perguntou a Sarah alisando e beijando seu ombro carinhosamente. — Acho que o moço faz o tipo dela — respondeu analisando-me. — Pelo que a conheço ela te achará interessante. — E pra mim? Não tem nenhuma outra amiga? — Fernando instigou empolgado. — Quero só ver a Larissa saber que você está interessado em conhecer as amigas da Sarah. — Gabriel caçoou, me fazendo rir. — Cuidado, poderá ficar de castigo — avisei zoando. Fernando e Larissa namoravam há pouco mais de um ano e ambos morriam de ciúmes um do outro. Na verdade, ele morria de medo dela, por isso tentava andar na linha. — Deus me livre! Se a Larissa descobre que estou sequer pensando em um rabo de saia é bem


capaz de eu amanhecer morto em algum lugar com a boca cheia de formiga. — Fernando proferiu referindo-se a sua namorada. Fernando e eu fomos amigos na infância. Quando meu pai faleceu, minha mãe decidiu vender a casa em que morávamos e comprar um apartamento num bairro mais distante. Acabamos perdendo contanto durante vários anos, nos reencontrando recentemente através da Isa. Fernando era seu professor de dança. — Essa é das minhas — Sarah retrucou olhando diretamente para Gabriel. — Acho que isso é algum aviso, Gabriel. Comporte-se ou então… — Fernando debochava. — Sarah, me fale da sua melhor amiga. Fiquei interessado — pedi. Mas sabendo que, enquanto estivesse com a Alice na cabeça não conseguiria olhar para outra mulher. Quem sabe essa amiga da Sarah não me ajudaria a saciar a vontade de querer a Diabinha. E tiraria um pouco ela da minha mente. — Ela é linda, muito mais linda do que eu… — Impossível, princesa — Gabriel disse lhe roubando um beijo. Meu amigo estava parecendo um idiota. Eu já estava oferecendo um babador a ele. — Como disse. Ela é linda, inteligente e muito divertida. Terminou um rolo recentemente e está precisando conhecer carne nova. Podemos combinar de sairmos todos juntos. O que acham? — indagou empolgada. — Por mim, tudo certo — Gabriel falou. — Dependendo do dia, é só avisar que chamo a mulher — Fernando explicou. Pensei na Alice, em como desejava estar com ela nesse exato momento e não marcando encontro às escuras com outra mulher. — É, pode ser, vamos marcar, mas será que ela fará meu tipo? Sou exigente também — proferi tentando soar bom humor, mas sentindo que estava fazendo algo errôneo. — Cara, se ela não fizer o seu tipo vou começar a duvidar da sua fama de pegador que o Gabriel comentou. — Sarah disse animadamente enquanto pegava o celular. — Aqui, o que você acha? Dê o seu veredicto. Olharia a foto para disfarçar que estava interessado, mas inventaria uma desculpa para dispensar o passeio em casais depois. Foi quando peguei o celular que ela me oferecia e baixei os olhos para a tela. Caralho! Quase cuspi minha bebida na tela quando olhei a foto. Era a Diabinha, e ela estava muito gostosa vestida apenas com um micro biquíni. Isso só podia ser um sinal, elas eram amigas! — Me deixa ver? — Gabriel pediu. Fechei imediatamente a imagem sem poder apreciar mais


um pouco da minha fisioterapeuta. Não queria esses marmanjos babando em cima do corpo dela. — Não. Você já tem sua morena — cuspi soando possessivo. Todos riram com a minha reação, na certa acharam que eu fiquei chocado com a beleza da amiga da Sarah, o que também era verdade, mas o que eles não sabiam é que aquela era praticamente minha futura e primeira namorada, e a mulher que vinha me deixando de pau duro só de pensar nela. Namorada? Cara, eu tô fudido! Será que irei ficar igual a Luís e Leonardo? Com cara de abobados quando estão com suas respectivas mulheres. Não. Não. Não. Você é Igor Salazar. Mulher nenhuma me dominaria, mesmo sendo a maldita Diabinha. — Olha, minha amiga não sabe, mas amanhã faremos um jantar surpresa na sua casa para comemorar seu primeiro emprego remunerado — explicou me tirando do devaneio. — Já combinei com meu moreno perigoso para ir. Quero que meus amigos o conheçam — comentou referindo-se ao Gabriel. — Amanhã eu não posso. Larissa e eu já temos um compromisso. Fica para a próxima então — Fernando anunciou, tomando em seguida um grande gole de sua bebida. — E você Igor? Topa? — Gabriel perguntou. — Claro. É só dizer o horário — disse por fim, empolgado e me sentindo um fudido de um sortudo, já imaginando a reação da Minha Diaba quando me visse chegando a sua casa.


Capítulo 08 Ilustre visita

Alice Namorar? O Igor queria que namorássemos? Até agora estava aturdida, sem acreditar nas suas palavras. Juro! Se outra pessoa me falasse, não acreditaria. Mas eu o escutei perfeitamente pronunciando o pedido. Não vou mentir que o Igor mexe completamente comigo, fazendo meus neurônios pararem de processar, bastava ele estar no mesmo ambiente que eu não conseguia resistir. Seu toque, seus beijos, seu aroma, a forma como me olhava, parecia tão apropriado. Tão certo. Nossos corpos pareciam peças de um quebra-cabeça que se encaixavam perfeitamente. Como se fossemos íntimos e nos conhecêssemos há décadas. Por uma fração de segundo que consegui raciocinar, fugi dos seus braços antes que me perdesse em seus beijos, e ficasse totalmente a sua mercê na sala de Pilates. Ainda com as pernas trêmulas e com a respiração ofegante, cheguei ao vestuário feminino da Clínica. Joguei minha mochila no chão e rapidamente me desfiz das roupas do corpo, enfiando-me debaixo do chuveiro. Precisava de um banho frio, só assim para ter um pouco de juízo que ainda me restava, e não cometer uma loucura e ir bater em seu apartamento, meu inconsciente estava gritando para tomar essa atitude. Eu precisava pensar nesse lance de namoro, urgente. Igor estava certo, eu o desejava. E muito. E esse desejo insano só aumentava depois daquele maldito telefonema. Na hora fiquei tão irritada com ele, de como sempre conseguia me desestabilizar. Entretanto, depois do episódio tinha perdido completamente o sono, e involuntariamente comecei a imaginá-lo deitado em sua cama nu, acariciando seu membro totalmente duro, se masturbando, pensando no boquete que eu tinha feito em seu consultório. Da irritação passei instantaneamente a excitação. Eu o queria na minha cama, me chupando vorazmente como só ele sabia, saciando minha sede e explodindo meus miolos de tanto prazer. Tinha amanhecido completamente frustrada e abusada, algo que mamãe e Dan perceberam devido a minha mudez. Saí do banho, sequei meus cabelos na toalha e vesti um vestido leve que tinha trazido de reserva. Já passava das dezenove horas. Escutei o meu celular vibrar. Era uma mensagem do Dan, avisando que já estava no estacionamento da Clínica. Juntei todos os meus pertences e enfiei na


mochila saindo do vestuário e seguindo direto para a recepção. Assim que cheguei à recepção avistei minha assistente Ana conversando com tia Lilian. — Ana, ainda por aqui? — interroguei curiosa por não ter ido embora. — Meu marido está atrasado — deu de ombros. — Está preso em um engarrafamento. Havia acertado com Ana que quando desse seu horário de saída e eu ainda estivesse com meu último paciente, ela poderia ir embora já que dependia do marido que vinha buscá-la todos os dias. Apenas pedi que me enviasse por mensagem de texto os recados e horários dos primeiros pacientes do dia seguinte. — Tomara que ele não demore — desejei. — Todos já foram embora? — perguntei, mas, na verdade, eu queria realmente perguntar se o Dr. Igor já tinha ido embora. — Sim. Só restamos nós três e os dois seguranças. Daqui a pouco o caseiro aparece por aqui para fechar os portões — tia Lilian respondeu. — Você quer uma carona? — Não. Obrigada! Danilo já está me esperando lá fora — expliquei. Despedi-me de Ana e tia Lilian com um abraço em cada e assim que cheguei ao estacionamento corri os olhos na esperança de ver o carro do Igor, mas para minha decepção o seu carro já não estava ali. Danilo buzinou achando que eu o estava procurando, acenei com uma mão e fui ao seu encontro. — Desculpa, te fiz esperar, Dan — pronunciei assim que sentei no banco do passageiro. — Relaxa, linda! Fiquei aqui trocando mensagens com o bofe — disse beijando meu rosto, em seguida ligou o carro e saiu do estacionamento, adentrando na avenida principal que seguiria direto para o bairro onde morávamos. — Cadê a Sarah? — estranhei sua ausência. — Quando estava indo buscá-la me ligou avisando que ia se encontrar com o seu moreno — sorriu mostrando seus lindos dentes brancos e perfeitos. Na verdade meu amigo era um deus grego. — A noite promete para nossa garota — falou maliciosamente. — Sortuda filha da puta — cuspi, feliz que minha amiga estava se divertindo, porém sentia um pouquinho de inveja, pois também queria estar com o Dr. Devasso da Clínica Estevão Alencar. — Você está precisando transar, Ali. Pensa que não reparei no seu humor hoje pela manhã — eu nunca conseguia esconder nada do Danilo e da Sarah, omitir era o máximo que conseguia, eles me conheciam tão bem, principalmente o Dan que era o mais atencioso. — Você pode enganar a tia Laura, mas a mim não. Cospe! O que ou, mas precisamente, quem está atormentando sua cabecinha? Porque o Valentim eu tenho certeza que não é. Viu?! Sempre era assim, por mais que omitisse algo, volta e meia o Danilo descobria.


— Não é ninguém em especial. Mentira! Era um médico metido, convencido e gostoso que estava atormentando tanto meus pensamentos desde sábado, e isso me assustava. Bastante. — Conta outra, Ali. Quem é? Eu conheço? Ou trabalha na clínica? — interrogou curioso. Respirei fundo sabendo que enquanto não falasse algo, meu amigo não pararia de me perturbar até que desembuchasse de vez. — É um cara que fiquei na boate no sábado passado. Coincidentemente somos colegas de trabalho. Ele é um dos médicos de confiança da Clínica — desabafei de uma vez. — Você transou com ele na boate? — perguntou, e eu assenti confirmando. — E na segunda ele me imprensou na porta de uma pequena despensa na Clínica, na terça fez sexo oral em mim debruçada em sua mesa de consultório, na madrugada de hoje ligou para mim e se masturbou, e hoje à noite me pediu em namoro — continuei soltando tudo como uma necessidade imensa de aliviar essa agonia em torno do Igor que me corroía. — Caralho! — xingou chateado. — Quando você pensava em contar pra mim e Sah? Olhei para o meu amigo e no instante que ele parou em um sinal vermelho, visualizou meu olhar, percebendo que eu estava em uma luta interna comigo mesma. Imediatamente Dan me puxou em um abraço como que com essa demonstração estaria protegida em seus braços. — Eu estou com medo, Dan — fui sincera. — Ele é diferente de todos os caras que já me envolvi. — Shiii!! Estamos chegando próximo à lanchonete do Zé. Vamos parar lá e pediremos uma rodada de cachorro-quente e conversaremos. Ligue para tia Laura e avise-a para não ficar preocupada — falou dobrando na rua seguinte que dava direto para Lanchonete. Liguei para mamãe e avisei que demoraria a chegar em casa. Pedi que não preparasse nada para o jantar, pois levaria um cachorro-quente. Ela disse rapidamente que tinha falado, com minha irmã, Sandrinha, e que ela amanhã faria as matrículas para os cursos. Lembrei que desde que comecei a trabalhar na segunda-feira, ainda não tinha ligado para o meu pai. Provavelmente ele lamuriaria por não dar atenção suficiente a ele. Chegamos a Lanchonete do Zé, e Danilo pegou em minha mão e marchou direto para as mesas do fundo que eram mais reservadas e poderíamos conversar tranquilamente. — Pronto. Agora me conta tudo desde o começo, Ali — inquiriu assim que o garçom tomou nossos pedidos. Relatei, contando tudo sem deixar escapar nada. Desde a boate, os amassos na Clínica, principalmente, a sua fama de amigo fiel, mas mulherengo de carteirinha, o pedido de namoro e o encontro no domingo. Dan apenas escutava atentamente. Quando finalizei parecia que tinha tirado um peso dos meus ombros.


— Uau! O cara quer mesmo você — soltou espantando, mas sorrindo com malícia. — O que eu faço? — implorei por conselho. — Ele mexe comigo, de uma forma que não sei explicar. É mais forte do que o sentimento que nutria por Valentim. E tudo isso está acontecendo de modo relâmpago. Danilo acariciou e tocou levemente minha mão que descansava em cima da mesa. — Vai fundo — bradou firme. — Eu te conheço, Ali. Quanto mais você fugir, mas indecisa ficará. Então se joga de uma vez e vamos ver no que vai dar. — Tenho medo de me apaixonar por ele. O Igor não é o tipo de cara que se envolve em relacionamentos — exclamei, procurando algo que me fizesse não tomar essa decisão. — Já pensou que ele também pode se apaixonar? — retrucou. — Ali, você é linda, inteligente, divertida. Qualquer cara sensato quereria você. Se eu gostasse da fruta, você já seria minha. — Sorri gentilmente. — Seu amigo Valentim não me quis — lembrei-o. — Mas agora que você o chutou, está louco querendo você de volta. E por falar nele, se bem o conheço, não aceitará muito bem essa concorrência — proferiu receoso. Nosso pedido chegou, comemos e ficamos conversando mais um pouco. Depois pedi mais um cachorro-quente para viagem, pagamos e saímos da Lanchonete. Cinco minutos depois Danilo me deixou na porta do meu prédio. Agradeci pelo apoio e carinho e desci do carro. Entrei em casa e mamãe, como sempre, me esperava no sofá. — Oi, filha! — levantou-se vindo direto me abraçar. — Trouxe seu cachorro-quente — entreguei a ela, que caminhou para cozinha e a segui. — Seu pai ligou. Ele está aborrecido por você ainda não ter ligado para ele. — Imagino que sim — amava demais meu pai e sentia muitas saudades. — Amanhã sem falta ligo para ele. Agora em Paris é madrugada e papai acorda muito cedo — justifiquei. — Mas não deixe de ligar, Ali. Você sabe o quanto ele quer participar da sua vida — comentou. Mamãe nunca admitiria, mas, no fundo, ela se arrependia por ter me escondido do meu pai por tanto tempo. Ela sabia que Ely Schneider era um pai excelente e amoroso. E que se ele estivesse participando da minha vida desde o nascimento, muitos problemas teriam sido evitados. Ficamos conversando enquanto mamãe comia seu cachorro-quente. Gostávamos de dividir e comentar sobre o nosso dia-a-dia. Depois despedi-me dela e segui para o meu quarto. Tirei minha roupa permanecendo apenas de lingerie. Abri meu guarda-roupa e busquei por uma caixa de sapato que mantinha escondida entre outras caixas. Peguei-a e levei até a cama. Retirei a tampa e visualizei o que estava procurando.


— Olá, Jared Leto. Sentiu minha falta? — indaguei, pegando meu vibrador que tinha apelidado com o nome do vocalista da minha banda favorita. — Será que você será capaz de tirar da minha mente certo médico presunçoso? Corri e tranquei a porta do meu quarto, retornando depois para a cama. Mamãe sabia que eu possuía um vibrador, até sugeri que ela comprasse um também, no entanto, a última coisa que eu queria era dona Laura abrindo a porta e encontrando sua filha se masturbando com seu brinquedinho erótico. Seria altamente constrangedor. Apaguei a luz e liguei o abajur de cabeceira, deixando apenas uma meia-luz sobre o todo o quarto. Peguei meu celular e fones de ouvidos e tateei escolhendo uma música que emanasse a voz do Jared Leto para facilitar o ato. Optei por uma de minhas músicas favoritas, City of Angels. A letra não era sexy, mas algumas partes falavam sobre o meu momento atual. De como me sentia. E nesse instante “perdida” era palavra certa que me definia. Lambuzei meu Jared Leto com lubrificante e deitei-me na cama, o deixando em cima da minha barriga. Comecei a acariciar-me imaginando que era uma fã que tinha sido sorteada há passar um dia com seu ídolo, mas que a atração entre os dois tinha sido tão forte que ambos não resistiam e transavam no camarim faltando quinze minutos para dar início ao show que encerraria o festival. Retirei meu sutiã e afaguei meus seios deliciosamente, idealizando Jared Leto mamando um seio, enquanto massageava e beliscava o outro. Contudo por mais que eu tentasse pensar na imagem do vocalista do 30 Seconds to Mars, só vislumbrava um sorriso sarcástico naquela pelugem loira escura e olhar sedutor debruçado sobre meu corpo. Sem conter, fantasiei aquele devasso descendo sua mão esguia com dedos longos até chegar a meu núcleo e lentamente afastando minha calcinha para o lado alisando meu clitóris com o polegar, enquanto introduzia outro dedo em meu canal molhado. Não resisti a tanta excitação, peguei meu vibrador e penetrei regozijando a sensação maravilhosa. Como em um filme, minha mente mudou automaticamente de cenário e foi parar na boate, especificamente no Labirinto. Gemi relembrando Igor metendo em mim com força encostada na parede. E aumentei a velocidade das estocadas, sentindo pequenos espasmos em meu corpo minutos depois, seguindo de um gozo trêmulo e sussurrando o nome do malfeitor que se impregnou na minha cabeça. — Igor!

— Meu Deus! Ana, hoje a Clínica está uma loucura! — exclamei com a minha assistente, no momento que me despedi do meu quarto paciente atendido. Eram onze horas da manhã e a Clínica estava a todo vapor em todas as alas. Mal consegui parar para fazer um lanchinho. — Sim, Dra. Alice. A recepção da entrada está uma loucura. Até sua tia Lilian está dando uma assistência as meninas — respondeu.


— O próximo paciente já chegou? — perguntei, sabendo que minha agenda para hoje estava repleta. — E o depois dele também — falou sem graça. — Por favor, Ana. Você poderia pedir na lanchonete um sanduíche natural com um suco? Com certeza, não terei tempo para ir ao refeitório. E estou ficando faminta. — Claro! — Obrigada. Estou na sala de Pilates. Pode encaminhar o paciente para lá. Virei-me e caminhei seguindo para a sala. Havia chegado a Clínica faltando poucos minutos para as oito da manhã. Peguei uma carona com tia Lilian de última hora. Dan havia precisado chegar mais cedo na construtora e eu queria dormir mais um pouco. Então pedi socorro a minha tia. Não via a hora de chegar sábado para ir com Levi em uma concessionária para poder comprar outro carro, mesmo que fosse seminovo. Queria esperar mais um tempo e juntar mais dinheiro para comprar um carro mais confortável e zero quilômetro, porém estava cansada de depender das pessoas. E como não tinha ônibus que vinha direto para a Clínica, ficava ainda mais difícil de me locomover. Para vir de ônibus eu precisaria sair bem cedo de casa e pegar um para o centro da cidade e depois outro que parasse próximo a Clínica. Ainda que involuntariamente, assim que tia Lilian entrou com seu carro no estacionamento da Clínica, corri minha vista novamente à procura do carro do Igor. E lá estava o seu carro, dizendo que o Dr. Devasso já se fazia presente. Mas para minha insatisfação, até esse momento não o tinha visto. E muito menos ele tinha vindo me procurar. Fazendo com que minha mente fizesse mil e uma perguntas, como, se ele já tinha se arrependido do pedido de namoro ou se estava me evitando. Ainda não tinha parado nem para respirar, quanto mais vagar deliberadamente pela Clínica com a intenção de vê-lo como quem não quer nada e tirar minhas dúvidas. Até a Isabela estava atolada de pacientes. Os estagiários não paravam, ajudando de lá para cá cada profissional da Ala que eu coordenava. O restante do dia continuou intenso como a manhã. Não vou mentir que eu amava essa agitação. Trabalhar diretamente com os meus pacientes, ver o quanto cada um necessitava, sabendo que podia ajudar e senti-me privilegiada por proporcionar o mínimo de alívio possível. Hoje, mamãe e eu sairíamos para um jantar. Ela queria comemorar a conquista do meu novo emprego. Tia Lilian havia oferecido o seu carro para que pudéssemos sair sem a preocupação de voltar muito tarde. Combinamos que eu iria para casa com o Danilo, e depois tia Lilian passaria no meu apartamento e deixaria o carro. Já estava na recepção há cinco minutos esperando por Danilo. Ele me ligou avisando que já estava a caminho. Mesmo curiosa não tinha ido lá fora para verificar se o carro “dele” estava parado no mesmo lugar que tinha visto pela manhã. Contudo ouvi quando Pamela atendeu uma chamada e comunicou a pessoa do outro lado da linha que o Dr. Igor não estava mais na Clínica. Eu precisava


parar com isso. Estava começando a parecer uma maníaca ridícula. Uma Igormaníaca. Escutei o barulho e a buzina do carro do Dan. Cumprimentei as meninas da recepção com um até logo e fui encontrar com meu amigo. Por mais que estivesse desanimada e muito cansada pelos acontecimentos do dia, o trajeto até em casa foi muito animado. O trânsito estava tranquilo e não demoramos muito para chegar. — Obrigada, Dan — agradeci beijando sua bochecha. — Vou com você. Vou pegar aquela receita de rocambole de carne com sua mãe — avisou, descendo do carro e vindo ao meu encontro. Seguimos juntos de braços dados. — Vai cozinhar para o novo paquera? — Talvez. Se ele merecer — Danilo retrucou e rimos juntos. Ele adorava fazer os caras correr atrás dele. Abri a porta do apartamento e avistei, no aparador perto da mesa de jantar, talheres, pratos e copos que mamãe usava apenas em datas comemorativas. Olhei para o meu amigo e ele sorria faceiro pelo meu olhar de espanto. — Surpresa! — Danilo anunciou baixinho beijando minha testa. — Não podíamos deixar de comemorar sua nova conquista, linda. — Vocês me engaram direitinho — soquei seu ombro. — Cadê todo mundo? — perguntei chamando por mamãe e caminhando para a cozinha. — Calma, Ali. Acho que trouxe você cedo demais — escutei Dan falando, mas queria ver minha mãe e abraçá-la agradecendo por esse presente. — Mamãe, a senhora não me ouviu cha… Estatelei próximo ao armário, ficando imóvel e muda ao me deparar com Igor no meu apartamento, na minha cozinha. Ele estava lindo, como nunca o tinha visto. Vestia uma calça jeans escura e uma camisa azul marinho de manga e gola em “V”. Seu cabelo estava bagunçado e úmido, e seu sorriso estava inebriante e sedutor. Ele estava em pé próximo a pia de louça com uma faca na mão picando cheiro verde. O que achei muito sexy. — O… O que… O que… Você faz aqui? — consegui pronunciar. — Oi, Diabinha — ele soltou a faca e veio até mim, beijando meus lábios castamente. — Vim comemorar a conquista de emprego da minha namorada — respondeu, como se já namorássemos há meses. — Quem te convidou? — inquiri, e na mesma hora virei-me para Danilo. — Foi você, linguarudo — acusei meu amigo, o fuzilando com um olhar. — Nem me olhe assim. Estou tão surpreso quanto você — Danilo se defendeu. — A propósito sou Danilo Guerra, melhor amigo da sua… é… Diabinha — ele estendeu a mão para Igor se


apresentando. Tinha certeza que por dentro estava vibrando com a situação. — Como vai? Sou Igor Salazar. Atual namorado da sua melhor amiga. — Igor! — chamei sua atenção. Ele não podia sair se apresentando como meu namorado, principalmente na minha casa sem a minha mãe saber. — O que eu fiz? — perguntou com um sorriso irônico. — Ali, você já chegou? — mamãe expressou espantada entrando na cozinha. — Era pra você ter se atrasado mais um pouquinho. — A culpa foi do Dan — incriminei meu amigo. — Não, tia Laura. A Sah me ligou avisando que podia pegar a Ali e trazer direto para cá — Danilo se justificou. — Tudo bem. O importante é que comemoraremos a sua nova etapa, filha — mamãe veio me dar um abraço. — Onde está a Sarah, mamãe? — Ela foi com o moreno dela comprar uma tábua de frios. Isso há uma hora — mamãe explicou com um pequeno sorriso. Quer dizer que finalmente conheceria o tal moreno da boate. — Nossa, filha! Quanta coincidência. O tal moreno da Sarah é seu colega de trabalho. O Gabriel. Gabriel? O moreno perigoso que a Sarah vinha se encontrando desde sábado era o nutricionista da Clínica? Claro! A boate. Igor estava lá, e como são melhores amigos, Gabriel também tinha ido. Agora compreendia como ele tinha vindo parar aqui. Mirei em sua direção e ele me olhava de maneira admirada. — Gabriel ficou pasmo quando descobriu que era você a melhor amiga da Sarah — mamãe tagarelava. — Trouxe até o Dr. Igor para arrumar um encontro com você. Um encontro? Igor veio aqui para conhecer a amiga da garota que seu amigo está ficando? Safado! Filho da puta! Mal começamos a namorar e ele já iria me chifrar? O fuzilei ferozmente, ele percebeu na hora que havia descoberto a sua sem-vergonhice, pois seu sorriso irônico se desfez. Era mesmo um devasso. — Vou tomar banho e trocar de roupa, enquanto a Sarah e Gabriel não chegam — avisei fingindo que ele não estava ao meu lado, pois minha vontade era chutar com muita força o meio de suas pernas. — Vá, filha. Os meninos ficam aqui comigo me ajudando. Sabia que o Dr. Igor me ensinou a


fazer um molho branco com manjericão de lamber os dedos? Ele é um excelente cozinheiro — mamãe soltou uma piscadela pra mim. Aposto que era. Sorri forçadamente, não queria que mamãe percebesse nada. Ela estava tão entusiasmada com o jantar que somente por ela engoliria esse sapo. Saí da cozinha e não voltei a encará-lo, queria que ele fosse embora. No entanto, Danilo notara que algo sério tinha acontecido, e nesse exato momento estava em uma guerra interior se viria me socorrer. Peguei uma toalha limpa no armário do corredor e fui para a suíte de mamãe. Entrei no banheiro tirei minha roupa jogando no cesto de roupas sujas. Liguei o chuveiro e entrei de vez. Agindo meio que mecanicamente, peguei uma esponja e derramei sobre ela um pouco de sabonete líquido. Esfreguei com força por todo o meu corpo, como se daquela forma arrancaria a frustração que acumulava dentro de mim. Como eu podia ter sido tão tola? Eu devia ter ouvido o que todos falavam dele. Até tia Lilian me alertou. Mas me iludi por causa de um sorriso encantador. Foi melhor descobrir agora do que depois. Com certeza o estrago em meu coração teria sido bem pior. Saí do banho e sequei-me demoradamente. Caminhei apenas com uma toalha envolta do corpo até o meu quarto. Queria vestir um pijama e dormir, a noite já havia sido estragada, mas não poderia fazer uma desfeita dessas com minha mãe e meus amigos que prepararam tudo com tanto carinho. Acendi a luz do quarto e me assustei ao me deparar com um corpo sentado em minha cama, encarando-me seriamente. — O que faz aqui, Igor? Vaza! — vociferei. — Diabinha, eu sei o que está passando nessa sua cabecinha — relatou, levantando-se e caminhando até mim. — Pode parar ai, Igor Salazar — quase gritei, mas Igor não deu atenção ao meu aviso e se aproximou o suficiente de mim. — Eu vim até aqui sabendo que era você, Alice — alisou meu rosto. — Quando falei que queria tentar, não menti. Eu quero você. — Igor, está na cara que isso não dará certo. Vamos parar aqui — implorei, me xingando internamente por querê-lo tanto. — Ontem me encontrei com Gabriel e outro amigo, chamado Fernando. Fomos para um barzinho. Alguns minutos depois, Sarah chegou e começamos a conversar. Ela falou de uma amiga e queria me apresentar — ele colocou suas mãos em minha cintura, apertando firmemente. — Já estava preparado para dar uma desculpa qualquer para fugir do encontro, quando Sarah me mostrou uma foto sua. Linda e muito gostosa. Não comentei com ela e nem com o Gabriel que era você, Minha Diabinha. Por isso o mal entendido — ele me puxou para seus braços abraçando e beijando o topo da minha cabeça.


— Igor. Essa relação… — Não. Não fala nada — exigiu, colocando os dedos em meus lábios. — Vamos curtir. Sem esperar, Igor puxou a toalha do meu corpo, me deixando completamente nua. — Meu Deus! Minha mãe pode entrar aqui a qualquer momento — pronunciei saindo dos seus braços e indo até minha cama pegar minha camisola que estava jogada em cima. Igor permanecia me olhando, venerando meu corpo. — Porra! Você é realmente linda — exclamou deleitando o seu olhar sobre o meu corpo. Ele passou a chave na porta trancando-a e veio até mim, exalando, luxúria e desejo. — Igor, não podemos. A qualquer momento alguém pode bater na porta — suplicava, mas ele estava determinado a não parar. Levou uma de suas mãos até o meu rosto e o contornou, percorrendo meu pescoço e descendo até chegar aos meus seios. Meu corpo queimava com seu toque misturado com o seu olhar intenso. — Você é simplesmente perfeita, Alice — soltou as palavras vindo me beijar, mas fomos interrompidos por uma batida na porta. — Ali, se não quiser que aconteça uma tragédia em seu quarto, saiam daí agora. Seu irmão acabou de chegar — Danilo anunciou do lado de fora da porta preocupado. Merda! Saltei de supetão para longe do Igor esbarrando na cabeceira derramando tudo que estava em cima. Igor agachou-se recolhendo os objetos que estavam no chão. — Por favor, Igor. Sai agora. Meu irmão vai surtar se te encontrar aqui — clamei, porém ele estava alheio ao que falava. Comecei a ajudá-lo a recolher, quando peguei a caixa que guardava meu vibrador percebi que o mesmo não estava ali. Meu Deus! Não permita que ele encontre o meu Jared Leto. Roguei, mas foi em vão. Igor acabara de pegá-lo e me encarava com uma risada leve e desdenhosa. — Ora! Ora! Ora! Que dizer que Minha Diabinha se alivia com um pau de plástico quando tem um bem maior, bem mais viril, que circula sangue muito quente nas veias e louco para estar dentro novamente da sua bocetinha? — declamou extasiado. — Sai logo daqui, Igor — pedi, tomando meu vibrador de sua mão escondendo a vergonha que estava sentindo, mas, ao mesmo tempo, receosa que o Levi nos pegasse. — Não fique assim, somos namorados. O que demais pode acontecer? — perguntou


tranquilamente. — Você se masturbou com isso ontem? — mudou de assunto sem imaginar a desgraça que estava prestes a acontecer. Vesti rapidamente minha camisola e o empurrei abrindo a porta. — Depois falamos sobre o que você quiser, mas você precisa ir para a sala agora — pronunciei jogando-o do lado de fora do meu quarto. No entanto, Igor era insistente e beijou-me puxando para os seus braços entre a porta do meu quarto e corredor. — Que merda está acontecendo aqui, Alice? — meu irmão surgiu subitamente. Seu olhar era mortal — Quem é esse idiota? E por que você está seminua com ele em seu quarto? — Você deve ser o irmão da Alice. Prazer, eu sou o seu cunhado. — Igor disparou de uma vez estendendo uma mão para cumprimentar o Levi. Fechei os olhos esperando a catástrofe. Que merda, Igor!


Capítulo 09 Caixa de surpresas

Alice Igor encarava meu irmão cara a cara tranquilamente, depois da sua declaração sobre estarmos namorando. — Repete o que você disse. — Levi bradou encarando minha mão entrelaçada a do Igor. — Isso mesmo que você escutou. Alice e eu estamos namorando. — Igor repetiu sem fraquejar sobre o olhar enfurecido do meu irmão. Não era porque o Levi não me deixava namorar. Ele, assim como o meu pai, achava que um cara decente deveria primeiro pedir permissão a eles para me namorar ou tinham esperança de que eu me convertesse de vez ao judaísmo, e seguisse a doutrina veementemente. Senti o quanto meu irmão estava se controlando, fechava as mãos em punhos, apertando ferozmente. Levi era um homem com um coração enorme e bondoso, porém seu maior defeito era o temperamento forte. O que ainda o segurava para não partir para cima do Igor, era o fato de estar na minha casa, mais precisamente na casa da minha mãe. E nisso seu lado cavalheiro e respeitador prevaleciam. — Isso é verdade, Ali? — Levi perguntou, fitando-me sério. Seu olhar demonstrava expectativa, eu sabia que iria decepcioná-lo por omitir sobre o Igor. Mas tudo vinha acontecendo tão rápido. Até eu mesma estava assustada com a mudança repentina em minha vida, principalmente em meu coração. — O Igor me pediu em namoro ontem — respondi implorando com o olhar que me deixasse explicar. Há pouco mais de dez anos nos descobrimos irmãos por parte de pai e desde então nos tornamos amigos, confidentes e protetores um do outro. Ele sabia do Valentim, algo que não o agradava muito, mas forçava-se a aceitar as minhas decisões mesmo não concordando. E assim era eu em relação a ele. Algumas de suas atitudes eu não aceitava, mas as respeitava por amor. — Eu perguntei se está namorando esse crétin, Alice. E não quando ele pediu você em namoro


— cuspiu com raiva. — Fala logo, porra! — Ei! Não fale assim com ela — Igor proferiu, tomando-me em seus braços de forma protetora. — Você por acaso me chamou de cretino em francês? — questionou sério. — Idiota e imbecil também. — Levi rebateu avançado para cima do Igor. No mesmo instante saí dos braços do Igor e fiquei entre os dois para evitar uma tragédia. Pela tensão que ambos exalavam, seria quase que impossível separá-los depois que se atracassem. Vi Danilo atento a qualquer movimento surpreso que pudesse ocorrer, e de alguma forma aquilo me tranquilizou. — Levi entre no meu quarto, agora! — proferi séria. — Precisamos conversar. Ele sequer mexeu-se. Continuava estático fitando Igor. — O que está acontecendo aqui? — mamãe apareceu no corredor. Seu olhar era de quem não estava entendendo nada. — E por que você está vestida dessa forma, Ali? — olhou-me exigindo uma explicação. — É só um mal entendido, mamãe — expliquei. — Por favor, faça companhia ao Igor na sala enquanto converso com meu irmão — pedi fitando o Levi. — Tudo bem, querida. Só vim avisar que a sua tia Lilian e sua prima estão a caminho, e nada da Sarah com o namorado — comunicou mamãe. — Venha, Dr. Igor. — Não se preocupe com a Sah, mamãe. Ela sabe se cuidar. Virei-me para Igor, implorando em silêncio que seguisse a minha mãe. — Se você quiser eu fico com você — Igor pediu. — Obrigada, mas não. Igor traçou seus dedos carinhosamente pelo meu rosto. Seu olhar era hesitante e duvidoso. — Eu não quero te deixar sozinha com ele — apontou para Levi com um leve balançar de sua cabeça. — Você acha que eu vou machucar a minha irmã, seu merde? — Levi bradou. — PAREM! — gritei assustando a todos. — Estou de saco cheio dessa situação ridícula. Eu só quero vestir uma roupa e curtir o jantar que a minha mãe e meus amigos prepararam para mim — respirei fundo. — Mamãe, Danilo e Igor, vão para a sala e esperem o restante do pessoal. Logo estarei lá com vocês — ordenei friamente. — E você, Levi Schneider, vem comigo — disse friamente entrando em meu quarto. Aguardei que Levi entrasse e fechasse a porta. Eu não queria magoá-lo, pois o amava demais, mas se ele não respeitasse a minha decisão, eu não poderia fazer nada.


Depois que ele fechou a porta esperei que se pronunciasse, porém permaneceu calado. Vireime e o encontrei encostado à porta do quarto me fitando. — Solta logo a merda dos cachorros, Levi. Eu não tenho muito tempo — disse grosseiramente. — Por que não me falou desse cara? — perguntou baixinho. — Porque tudo aconteceu rápido demais. Nem ligar para o papai eu liguei ainda, por falta de tempo, E o fuso horário não está me ajudando também — dei de ombros, caminhando para o meu guarda-roupa e procurando algo para vestir. — Você realmente está namorando esse babaca? — interrogou. — Primeiro, eu gostaria que não o chamasse assim. Você não o conhece, não sabe da sua índole — graças a Deus! Já pensou se o Levi soubesse que Igor não passava de um mulherengo. — Segundo, como disse antes, ele me pediu em namoro ontem. E terceiro, eu estou sim cogitando em aceitar. — Eu achei que você gostasse daquele outro cara. O sócio do Danilo — relatou, referindo-se ao Valentim. Sim. Eu era completamente encantada por ele, mas o Valentim nunca quis nada além de sexo selvagem e sem compromisso. Pensei em dizer isso, mas só pioraria a situação. — Relacionamentos terminam. Valentim e eu tínhamos incompatibilidade de gênios — disse apenas. Levi caminhou até a minha cama e sentou-se avaliando a bagunça sobre a minha mesinha de cabeceira. Ainda bem que meu vibrador estava dentro da sua caixa debaixo de toda aquela desordem de papéis e porta-retratos. Imagine se Levi o acha também? Já não bastava o Igor, que com certeza, ainda tiraria proveito da situação. Fiquei envergonhada só de imaginar como ele faria isso. Com o Igor tudo era inesperado. — Eu não gostei desse cara, Ali. Sei que os poucos minutos que estive com ele não podem me fazer julgar uma pessoa. No entanto, eu tenho a sensação que ele ainda vai te machucar — proferiu tentando soar naturalmente, mas era visível o quanto flagrar sua irmã beijando um desconhecido o incomodava. Vê-lo preocupado, fez com que minha raiva e constrangimento se esvaíssem por completo. Caminhei até a cama e sentei ao seu lado entrelaçando as nossas mãos. — Levi, eu te amo. Muito — pronunciei baixinho. — Eu adoro a forma como tenta me proteger, mas preciso fazer as minhas escolhas sozinhas. Mesmo que eu quebre a cara depois. — Então você gosta dele? — questionou curioso. — Eu mentiria se dissesse que não gosto. Ficamos em silêncio por alguns instantes, ambos perdidos em pensamentos. Sim. Eu gostava do Igor, me sentia atraída e desejosa por ele. E uma parte de mim queria muito tentar essa relação e


outra morria de medo de que o pressentimento do Levi acontecesse. — Desculpe pelo vexame de agora há pouco. Mas quando vi você com essa mini roupa e aquele cara te apalpando e beijando, como se você fosse uma salope qualquer fiquei cego de raiva — enunciou envergonhado, principalmente por me tachar como uma cadela vadia. — Você sabe, Ali. Nossa família é muito conservadora e, por mais que eu saiba que você não é nenhuma santa. Eu não consigo imaginar… É… Você sabe. — Levi sorriu envergonhado. — Imaginar um cara transando comigo da mesma forma que você faz com as suas mulheres — soltei sorrindo. — Alice! — arregalou os olhos, seu rosto estava completamente vermelho. — Eu não preciso saber disso — bufou irritado. Não aguentei e cai na risada com sua reação. Nós não conseguíamos ficar chateados um com o outro por muito tempo. Levi bem que tentou ficar sério, mas logo não resistiu e juntou-se a mim na risada. — Você não disse se me desculpa — perguntou assim que saciamos nossas risadas. — E eu consigo ficar furiosa com você? — beijei seu rosto carinhosamente. — Eu te desculpo, mas… gostaria que aceitasse minha relação com o Igor. E não o destratasse sem motivo — pedi fazendo cafuné em sua cabeça. — Tudo bem, mas não pedirei desculpas a ele — rebateu convicto. — Além do mais ele tem cara de ser muito debochado. Ah! Maninho. Debochado é elogio. Ele também é convencido, metido, arrogante, sarcástico, devasso e PHD em línguas quando se trata de sexo oral e sabe o que fazer para dar prazer a uma mulher, mas isso você não precisa saber. — Eu só quero que você seja feliz, Ali — por fim pronunciou. — Eu sei. De repente a porta é aberta de supetão, e minha amiga Sarah entra igual um furacão. — Ei! Todo mundo está te esperando. Que demora, Ali! — exclamou toda sorridente. — Desculpe. Já estou indo — falei, levantando-me e pegando um vestido solto azul de alças finas que papai havia trazido da França da última vez que esteve aqui. — Você e o Gabriel demoraram. — Desculpa, mas você sabe, né? — emitiu com um sorriso malicioso. — Olá, Sarah. — Levi falou friamente. — Levi! É... Oi... Como está? — Sarah o cumprimentou nervosa. Senti um clima estranho entre os dois. Fiquei observando como ambos estavam incomodados com a presença um do outro.


— Ali, vou deixar você trocar de roupa. Não demora — Levi proferiu saindo rápido do quarto, mas antes flagrei meu irmão e minha melhor amiga trocarem olhares rapidamente. — Vamos, Ali! — ela apressou-me, porém permaneci calada encarando-a séria. — O que foi isso entre você e o meu irmão? — despejei, pegando-a de surpresa. — O quê? — Sarah Cianca, não me faça de boba. Eu percebi uma tensão entre vocês dois — fiz cara feia. — É impressão sua, Ali — disse desconfiada, desviando olhar. Éramos muito amigas e nós duas nos conhecíamos muito bem. Assim como não conseguia esconder nada da Sarah e do Danilo. Ela também não conseguia me enganar quando estava mentindo. Subitamente liguei os pontos. — Puta que pariu! Você e o Levi já treparam — acusei-a. — Shiii! Cala a boca, Alice. Você quer que todos lá na sala escutem? — Sarinha pediu sem graça. — Como? Quando isso aconteceu? — perguntei ainda sem acreditar. — Por favor, Ali. Eu conto para você depois, mas vamos lá para sala — era a primeira vez que via minha melhor amiga envergonhada. — Aliás, eu também estou muito brava com você. Como pôde omitir sobre o Igor? — desviou o assunto. — É melhor conversarmos depois então — simplesmente disse, sabendo que se começássemos perderíamos a hora e adeus jantar e convidados. Vesti o meu vestido, fiz um coque bagunçado no cabelo, calcei uma rasteirinha em dois minutos. Optei por não passar maquiagem. Queria relaxar, conversar, me divertir com meus amigos e também dar uns beijinhos no Igor quando desse. Sarah e eu seguimos para sala e todos já se encontravam lá. Mamãe, Igor, Danilo, Levi, Gabriel, tia Lilian e minha prima Ludmila. Mamãe como sempre acolhedora, já havia servido vinho a todos e tinha duas tábuas de frios na mesinha de centro. Aparentemente tudo estava em perfeita harmonia. Tirando o olhar furioso da minha tia acusando-me de: que porra é essa de namoro entre você e o Igor, mocinha? — Até que enfim! — Igor proferiu vindo me beijar. O que me deixou completamente encabulada. — Igor! — O que foi? — se fez de desentendido. — Já pedi permissão a sua mãe para te namorar e ela adorou — sussurrou em meu ouvido.


Fitei mamãe que estava nos olhando sorridente. O restante da noite foi como eu tinha esperado. Todos reunidos e se divertindo. Levi e Igor até se envolveram em uma conversa junto com Gabriel e Danilo. Parecia até que o episódio no corredor nunca havia acontecido. Claro que eu sabia que ambos estavam levantando uma bandeira da paz. E isso me tranquilizava bastante. No final, todos foram embora aos pouquinhos, pois amanhã ainda seria sexta-feira e a maioria acordava cedo para trabalhar. Me despedi de cada um. Meu irmão, Levi, foi o primeiro a ir, pois levantava ainda de madrugada para preparar as massas folhadas da confeitaria. Depois Sarah e Gabriel saíram animados deixando claro que a noite para eles mal tinha começado. Danilo beijou-me no rosto e combinou o horário que passaria para me buscar e me deixar na Clínica. — Já está tarde. É melhor eu ir embora. — Igor falou. Faltavam poucos minutos para meia noite. Mamãe e tia Lilian estavam terminando de organizar a cozinha. Enquanto Igor e eu estávamos no sofá nos beijando. Me sentia como uma boba adolescente que levava o primeiro namorado em casa. Por incrível que pareça Igor se comportou como um perfeito cavalheiro. Nada de mão boba ou tentativa de me imprensar em alguma porta. — Vamos para meu apartamento, Diabinha — pediu mordiscando o lóbulo da minha orelha. — Ainda não, Igor — disse num sussurro, mas louca para passar a noite com ele. Esta noite tomei a decisão de tentarmos esse namoro relâmpago. Eu não conseguia lutar contra esse desejo que sentia pelo Igor. Entretanto, queria ir devagar, aprofundando a nossa relação. E por mais que eu estivesse excitada, queria esperar mais um pouco. Até quando pudesse resistir. Igor despediu-se de mamãe e tia Lilian e o acompanhei até o seu carro. — Amanhã é o aniversário do Leo. Tem certeza que não quer ir comigo. — Indagou encostando-se no seu carro e me puxando para seus braços. — Vamos devagar, por favor — clamei fazendo biquinho. — Tudo bem — concordou. — Mas você está proibida de usar aquele pau de plástico — proferiu tentando ficar sério, contudo seu sorriso debochado surgiu. — Se quer gozar me chame, eu venho te satisfazer quando quiser — avisou, fazendo meu rosto ruborizar. Igor beijou-me com intensidade, apertando-me contra seu corpo para que sentisse o quão excitado estava. Ainda ficamos trocando alguns beijos mais ousados, até que mandei que entrasse no seu carro e partisse. Caminhei, voltando para casa com um sorriso tolo no rosto. Me sentia uma adolescente que tinha experimentado o primeiro beijo. — Alice! — escutei uma voz conhecida me chamando. Virei rapidamente dando de cara com Valentim. — Valentim! — indaguei surpresa. Não esperava vê-lo aqui no meu condomínio. — Oi — murmurei envergonhada. Será que ele meu viu com Igor? Não que isso importasse, mas seria


estranho. — Oi. Vim te buscar para comemorarmos seu novo emprego. Comprei o seu espumante favorito — disse mostrando a garrafa em suas mãos. Valentim Castellamare tinha sido o homem dos meus sonhos por muito tempo. Ele era alto, corpo musculoso e definido, olhos e cabelos castanhos, sua pele era bronzeada da cor do pecado. Sua boca era carnuda e ele sabia usufruir muito bem dela. Sempre usava barba rala, que o deixava com um ar de homem sério e sexy. Houve um tempo, não muito distante, em que eu amava quando ele deixava meu corpo avermelhado por causa daquela barba, mas agora tudo havia mudado. O sentimento e desejo não existiam mais. — Valentim, eu acho melhor não. Está tarde e preciso acordar bem cedo — falei tentando ser gentil. — Vamos gatinha. Sempre nos divertimos tanto quando estamos juntos. Sinto falta do seu cheiro — rogou aproximando-se de mim e tocando meu rosto. — Prometo não te cansar muito — sorriu malicioso. — Não — rebati firme, me afastando dele. — Valentim, já disse que não quero mais. Eu acho que deixei bem claro da última vez que conversamos. — Ali, eu andei pensando. Eu quero muito firmar nossa relação. Você tinha razão, está mais do que na hora de assumirmos nossa relação — indagou. — Acho que agora é tarde — respirei fundo e o olhei firme. — Eu me envolvi com outra pessoa. E é com ele que eu quero ficar. — O cara que você estava se enroscando agora pouco? É ele? — sondou. — Ali, tá na cara que ele só quer sexo com você. Você é o desejo de muitos caras. Depois que usar e abusar te jogará de escanteio. — Isso não é da sua conta — bradei. Quem ele pensa que é para falar do Igor? Valentim era tão mulherengo ou safado quanto o meu Devasso — É melhor eu ir. Adeus, Valentim. Virei retornando o caminho de casa, mas antes que eu entrasse, Valentim agarrou meu braço, puxando até encará-lo. — Você é minha, Alice — avisou severamente. — Nada acabou entre nós dois — finalizou com um olhar duro, beijando meus lábios grosseiramente e partindo em seguida. Que porra foi isso? Precisava urgente conversar com o Danilo sobre a atitude do Valentim. Se ele queria me assustar. Digamos que conseguiu.


Era domingo, e eu estava completamente nervosa enquanto aguardava Igor vir me buscar para irmos a um churrasco na casa de um amigo seu. Ele havia combinado de me pegar ao meio dia. Faltavam apenas trinta minutos e já me encontrava totalmente pronta e ansiosa para passar o dia com ele. Desde o jantar de quinta-feira, Igor e eu mal nos encontramos. Almoçamos rapidamente juntos no refeitório da Clínica na sexta-feira, porém ele recebeu uma chamada de emergência e saiu sem ao menos terminar sua refeição. No sábado, passei o dia com Levi e minha mãe. Havia sido um passeio maravilhoso. Só nós três, até senti saudades da minha irmã Sandrinha nessas horas. Ela era abusada, mas me fazia falta. Primeiro fomos escolher meu carro novo. E com muita insistência do Levi acabei comprando um carro zero. Um Ford KA Hatch na cor vermelha, minha cor favorita. O vendedor havia nos dado um prazo de dez dias para que eu recebesse meu mimoso. O que significava que teria que abusar do Danilo por mais alguns dias para ir ao trabalho. Depois que almoçamos, compramos umas besteiras para a casa do Levi, coisas que ele achava que uma cozinha sempre precisava, e por fim, encerramos nosso passeio no cinema, assistindo uma comédia, comendo pipoca com refrigerante. Lógico que Igor não perdeu a oportunidade de ficar me mandando mensagem a cada hora. Ele também tinha insistido que eu fosse dormir em seu apartamento no sábado, e de lá irmos direto para o churrasco. Não vou negar que fiquei tentada a ir, mas estava exausta do passeio e também da primeira semana de trabalho, então optei por dormir cedo e descansar para hoje. — Filha, o porteiro avisou que o Igor chegou — mamãe apareceu na porta do meu quarto. — Pedi que ele o deixasse entrar para te pegar aqui na frente. Tudo bem? — Sim, obrigada, mamãe. Como estou? — perguntei, sabendo que ela diria que estava linda. Sandrinha e eu poderíamos vestir um saco de batatas que mamãe sempre diria que estávamos perfeitas. — Está maravilhosa. O doutor ficará doido — contemplou. Vestia uma saia jeans curta clara e desfiada, com uma blusa solta de gola canoa branca. Sapatilhas e muitas bijuterias de acessórios. — Colocou preservativos na bolsa? — mamãe perguntou normalmente. — Mamãe! — indaguei corando o rosto. — Ah, filha! Até parece que eu não sei onde isso vai acabar — deu de ombros. — Não que eu não queira um neto, mas a relação de vocês está apenas começando. E se você aparecesse grávida, provavelmente o Dr. Igor seria castrado por seu irmão e seu pai. — Deus me livre de ter um bebê agora na minha vida, mamãe — proferi, batendo três vezes na minha mesinha de cabeceira a fazendo rir. Escutamos a buzina do carro do Igor. Mamãe me acompanhou até a porta e beijou-me na testa. Igor estava apoiado em seu carro me aguardando. Assim que me viu seu sorriso se abriu e apesar dos óculos escuros que estava usando, que o deixava ainda mais bonito por sinal, o senti me


avaliando da cabeça aos pés. — Adorei a saia — falou cheio de malícia. — Adoro praticidade. — Você também não é de se jogar fora de bermuda — rebati, me aproximando dele e beijando sua boca, dando uma mordidinha em seu lábio inferior, o pegando de surpresa. Igor estava despojado e lindo, de bermuda lisa azul marinho e camisa polo branca. Seu cabelo estava bagunçado, porém fodidamente sexy. — Estou pensando seriamente em desistir de ir para o churrasco e te levar direto para o meu apartamento — comentou alisando meu rosto. — Você está mais linda do que nunca, Minha Diabinha. — Obrigada — por pouco não pedi que não fossemos para o churrasco, porém resisti me afastando um pouco dele. — Vamos! O quanto antes chegarmos ao churrasco, poderemos sair dele logo em seguida — comunicou abrindo a porta do passageiro para mim. Ainda devorando minhas pernas, enquanto sentava no banco e passava o cinto de segurança. O caminho até a casa da mãe do seu amigo durou quinze minutos. A casa era aconchegante, com um jardim enorme, repleto de flores, pássaros, coelhos, tartarugas, e outros animais pequenos. Tinha uma pequena piscina, onde duas crianças brincavam animadamente. Ao lado, uma cobertura com churrasqueira, mesas, cadeiras e um pequeno palco com alguns instrumentos musicais. Parecia uma pequena chácara escondida na cidade grande. — Igor, meu querido. Nem acreditei quando o Roberto me falou que você vinha — uma senhora baixinha morena de óculos com um sorriso animado veio nos receber. — Que saudades, dona Iolanda — Igor abraçou a senhora gentilmente. — Espero que apareça mais vezes — resmungou a senhora. — Prometo que virei mais vezes. — E essa moça linda? Quem é? — a senhora olhou carinhosamente. — Essa é Alice, minha namorada — Igor anunciou. — Jura! Glória ao Pai! Como eu esperei por esse momento, Igor. — Alice, essa é a dona Iolanda, mãe do meu amigo Roberto. — É um prazer conhecê-la, dona Iolanda — cumprimentei gentilmente. — Você deve ser muito especial, Alice. Conheço o Igor há anos e nunca o vi apresentar uma garota como sua namorada — a pequena senhora comentou alegremente. Fui apresentada a mais dois filhos de dona Iolanda e suas esposas. Eram pessoas animadas e que adoravam curtir o domingo em família. O Roberto, amigo do Igor chegou com sua esposa que para minha surpresa e vergonha era a minha assistente, Ana. Fitei furiosa o Igor, pois ele disse que


não haveria ninguém conhecido, e por mais que fôssemos oficialmente namorados, por enquanto não queria misturar mais do que já estava misturada nossa relação com o trabalho. — Olá, Alice — Ana veio me cumprimentar. — Desculpa ter escondido de você — pronunciou parecendo envergonhada. — Pelo menos agora eu sei de onde o Igor conseguiu meu número de telefone pessoal. — acusei-a. — Me desculpe novamente — disse sem graça. — Tudo bem, Ana. Só peço, por favor, que na Clínica seja discreta sobre minha relação com Igor. Pelo menos por enquanto. Ela assentiu com um sorriso tímido. Roberto, o marido da Ana, era muito animado, na verdade estava sendo uma tarde deliciosa e divertida com sua família. Mesmo com a Ana presenciando as carícias entre Igor e eu, estava amando passar o dia com todos eles. Dona Iolanda era o tipo de pessoa que gostava de combinar música com comida. E para ela, churrasco só combinava com pagode, e aparentemente todos na família gostavam de cantar e tocar. Então, era terminantemente proibido cantar outro ritmo de música. Ela também havia me confidenciado que quando Igor e Roberto eram mais jovens, eles tiveram uma banda de garagem, onde ensaiavam cantando rock. Eles diziam que atraíam a mulherada. — Vamos Igor! Solte o seu gogó e cante uma música — Roberto gritou do mini palco, assim que encerrou uma música. — Estou enferrujado. Hoje eu quero apenas assistir vocês cantarem — Igor respondeu debochado. — Está com medo de desafinar na frente de Alice? — Roberto o desafiou. Igor olhou para mim e sorriu, depois beijou meu rosto e levantou indo direto para o pequeno palco. Igor adorava um desafio. — Cara, eu estava tentando não ofuscar o seu brilho, mas já que você insiste — Igor expressou sarcasticamente para Roberto tomando seu microfone ao subir no mini palco. — Qual música você vai estragar com sua voz? — Roberto perguntou. — Só aceito pagode, Igor — Dona Iolanda gritou do meu lado. — Tudo bem, dona Iolanda. Vou cantar uma música que tenho certeza que a senhora irá gostar. Os primeiros toques dos cavaquinhos soaram, seguida da voz grossa e afinada do Igor. Mas o que me surpreendeu foi a música que ele havia escolhido. Coração Radiante do Grupo Revelação. O que mais quero é te dar um beijo E o seu corpo acariciar


Você bem sabe que eu te desejo Está escrito no meu olhar Eu sabia que ele tinha escolhido essa música de propósito. Era a forma que o Igor queria mostrar o quanto me desejava. E a intensidade do seu olhar a mim não negava. O teu sorriso é um paraíso Onde contigo eu queria estar Ai! Quem me dera se eu fosse o céu Você seria o meu luar Eu te quero só pra mim Como as ondas são do mar Não dá pra viver assim Querer sem poder te tocar Meu coração batia tão acelerado pelo simples fato dele não desviar um segundo seu olhar do meu. É nítido que todos naquele lugar perceberam que ele cantava para mim. Só para mim. E por mais safado e mulherengo, Igor foi o primeiro homem a demonstrar sentimentos sinceros por mim. Claro que ele não me amava, até porque ainda era tudo tão recente. Mas era visível que me desejava, e nesse instante eu queria aproveitar até enquanto durasse. No momento que terminou de cantar a última estrofe da música, todos aplaudiram entusiasmados e pedindo bis. Contudo, Igor sem pestanejar desceu do palco e veio direto a mim. — Está na hora de irmos — disparou fitando-me intensamente pegando minha mão. Eu sabia o que viria a seguir, mas desejava ouvir as palavras da sua boca. — Par… Para onde iremos? — gaguejei perguntando. Igor sorriu cinicamente e aproximou seus lábios do meu ouvido dando uma leve mordida no lóbulo, sussurrando palavras que deixavam a minha pele em chamas. — Primeiro, vamos dar uns amassos no meu sofá, Minha Diabinha.


Capítulo 10 Com a boca na botija

Igor Até agora esse lance de namoro estava dando certo. Alice era linda, divertida e muito inteligente. Adorava sua companhia, sentia-me confortado, uma sensação estranha, mas maravilhosa e, principalmente, inédita. A forma como ela me olhava e, era muito mais gostoso quando reagia as minhas atitudes, eram viciante. Reações às quais estavam cada vez mais me surpreendendo. Nunca na minha vida imaginei que um dia pediria permissão a mãe de uma garota para namorála. Foi assim que me encontrei na última quinta-feira, pedindo a dona Laura Ventura, mãe da Minha Diabinha. Eu, Igor Salazar, com quase 29 anos, que sempre fugiu de um relacionamento, agora me via desejando um anjo sedutor em forma de mulher. Não sei até quando esse desejo por Alice duraria, só tinha certeza que com ela queria fazer tudo conforme os padrões. Queria que todos soubessem que ela era minha, pelo tempo que durasse essa vontade insana que tinha de tê-la. Era final de tarde e Alice e eu estávamos a caminho do meu apartamento. A tensão sexual dentro do carro era perceptível. Tanto ela quanto eu, transbordávamos de desejo, exalávamos ânsia, fome e sede de nos tocarmos o quanto antes. Minha vontade era pisar fundo no acelerador do carro e sair como um louco pelas ruas da cidade e chegar o mais rápido ao nosso destino para saciarmos um ao outro. No entanto, meu inconsciente gritava que eu estava com algo precioso ao meu lado e não poderia cometer algo tão ilícito. Alice despertava sensações e sentimentos até então novos para mim, em relação às outras mulheres com quem me relacionei. Fora por minha mãe e minha irmã, nunca havia sentido esse instinto de proteção. Descobri isso no quase duelo com seu irmão. De um lado entendi a sua conduta, provavelmente também não gostaria de encontrar Ingrid, saindo do seu quarto com uma micro camisola e um barbudo ao seu lado, babando nela feito um idiota, mas a sua agressividade com a Minha Diaba tinha me causado um alerta de cuidado. Busquei dentro de mim o máximo de controle para não atacá-lo, algo que também me assustou, podia ser tudo, mas agressivo e violento nunca fui. Entretanto, até o meu lado desconhecido Alice despertava. Enquanto dirigia olhei de lado e ela estava distraída olhando pela janela. Sua saia curta exibia


suas pernas longas e modeladas. Instantaneamente, guiei minha mão até uma de suas coxas acariciando-a, chamando sua atenção de imediato. — Você pode ser multado com apenas uma mão no volante — falou abrindo um pequeno sorriso atraente. — Por essas pernas longas vale a pena pagar cada centavo de uma multa — rebati, subindo a mão devagarzinho por entre as suas pernas. — Igor! — chamou-me atenção, prendendo minha mão entre suas pernas. — Assim não vale... — Ah! Diabinha. Já disse, com você vale tudo — aproveitei o sinal vermelho e a puxei para meus braços abocanhando seus lábios deliciosos, chupando e mordiscando. — Meu pau está louco para saltar da bermuda — Peguei sua mão e a levei até ele, para que sentisse o quão duro eu estava. — Espero que seja por mim que ele esteja assim — Minha Diabinha apertou com vontade a minha ereção, me fazendo soltar um pequeno gemido. Eu adorava esse jeito desinibido dela. — Não tenha dúvidas! — declarei olhando para aqueles olhos que me tiravam o juízo. O sinal abriu e retirei sua mão do meu pau, acelerando o carro um pouco mais. Alice permaneceu encostada em mim com a cabeça deitada em meu ombro. O aroma do seu xampu pairava sobre meu rosto como um calmante, relaxando-me. Sem ao menos esperar, senti sua mão delicada passeando por todo meu corpo. Passando pelo meu peitoral, descendo por meu abdômen até tocar, novamente, no meu parceiro de todas as horas. — Se você continuar tocando-o é provável que eu perca o controle da direção — alertei, mas desejando que ela não parasse. — Fique atento e olhando para frente, Dr. Devasso. Quero testar seus limites — sussurrou maliciosamente em meu ouvido, mordendo de leve o lóbulo da minha orelha como fiz com ela na casa de dona Iolanda. Os pelos dos meus braços estavam totalmente eriçados com o seu toque. Puta merda! Alice acariciava firmemente meu pau por cima da bermuda. Apertei forte a direção em expectativa. Oh Deus, dai-me força! Ainda faltavam uns 10 km até meu apartamento, para alguns poderia ser nada, mas para mim estava sendo uma prova de resistência fatal. — Continue olhando para frente — repetiu com sua voz suave e enfeitiçadora. Para atormentar ainda mais meu juízo, Alice abriu o botão da minha bermuda, desceu o zíper puxando meu membro que pulou firme e rijo, pronto para o bote, ou no caso, ansioso para ser abocanhado. — Agora sim. Livre leve e solto — proferiu, movimentando sua mão para cima e para baixo ao longo da minha ereção. — Ainda bem que esses vidros são escuros o suficiente para não sermos vistos aqui, do lado dentro. É perfeito. — O quê?! Diabi… — antes que eu pudesse terminar as palavras, Alice atacou com fúria meu


pau. — Porra! — uivei completamente alucinado. Faltava apenas um quarteirão até o prédio onde eu morava. Pisei fundo no acelerador, tentando não cometer nenhuma tragédia. Dobrei a rua e comecei a buzinar desesperado para que o porteiro ouvisse, reconhecesse a buzina do meu carro e abrisse o portão da garagem. O que graças a Deus ele o fez. Quando me aproximei do portão que estava totalmente aberto, desci a ladeira que levava até minha garagem que ficava no subsolo. Não sei como, mas consegui buzinar de forma tosca agradecendo ao porteiro. Minha Diabinha continuava me chupando deixando pequenas marcas da cor do seu batom em meu pau. Avistei minha vaga e estacionei de qualquer jeito. Tudo que eu almejava era saciar a minha adrenalina que estava alta e sanar uma parte do meu desejo por ela. — Ah, Diaba! Eu estou ficando velho para essas aventuras — murmurei, enfiando minhas mãos em seus cabelos e os puxando. Nunca fui de comparar os boquetes que recebi durante toda minha vida, mas Alice sabia o que fazia. Ela poderia conseguir o quisesse de mim nesse momento. Estava alucinado, desequilibrado e totalmente rendido naquele sexo oral, gemendo e pronunciando seu apelido, louco para me libertar. O que não demorou muito. Sentindo o quanto estava perto, Alice aprofundou sugando fundo até a cabeça do meu pau encostar-se à sua garganta. Tudo aconteceu tão rápido que não tive tempo de avisá-la. Gozei fortes jatos dentro da sua garganta, sentindo meu corpo amolecer feito gelatina no banco do motorista. Alice levantou com um sorriso de criança que tinha acabado de aprontar, limpando os cantos dos lábios com a língua. — Vem aqui — a puxei para mim, tomando seus lábios e sentindo meu gosto ainda em sua boca. Tentei tragar tudo daquele beijo, chupando sua língua. Queria absorver tudo dela. Com muita dificuldade consegui desprender-me da sua boca gulosa. Nossas respirações ofegantes. Apoiei minha testa na sua, tentando recuperar o fôlego após tudo. Adrenalina e excitação. — Devo ficar traumatizado com seus boquetes — soltei sorrindo baixinho, ainda com nossas testas apoiadas. — Por que diz isso? — perguntou sem compreender. — Ora! Por quê? Primeiro você me faz um boquete que me deixa de bolas roxas durante todo um dia. Nem compressa de gelo aliviou. E agora esse boquete louco — fitei-a admirando as duas pedras azuis que eram os seus olhos. — Por pouco eu quase perdi o controle. — Desculpa. Isso não se repetirá — avisou, beijando de leve meu nariz. — Não se atreva! Você pode ter meu corpo onde e quando quiser — pronunciei maliciosamente. — Agora venha. Você precisa conhecer meu sofá — comentei, colocando meu pau de volta na cueca boxer, fechando a bermuda em seguida.


— Achei que você queria que eu conhecesse seu apartamento. — Também, mas primeiro o meu sofá — beijei a ponta do seu narizinho, assim como ela fez comigo. Saímos do carro e aguardei que ela viesse ao meu encontro. Entrelacei nossas mãos e seguimos para o elevador. — Em qual andar você mora? — Alice perguntou. — No 10º. — Faz tempo que mora aqui? — Desde que me formei. Quando comprei meu apartamento o prédio ainda estava sendo construído. O elevador não demorou a chegar. Acenei para que ela entrasse primeiro e entrei logo em seguida. Aquela tensão sexual retornava novamente. Estava ansioso para ter seu corpo, apreciar, morder, chupar, beijar, penetrá-la. Ter Alice em minha cama para dar prazer a ela. Depois cozinharia algo leve para repormos as energias e tentaria convencê-la a dormir aqui comigo, assim teríamos uma noite só de prazer. A porta do meu apartamento era praticamente de frente ao elevador. Esperei que ela saísse e procurei as chaves no bolso da minha bermuda. — Entre — pedi logo que abri a porta. — Obrigada — Alice parecia nervosa. Coloquei minhas chaves, celular e carteira em cima da mesinha de centro. Olhei para Alice e ela estava estática e envergonhada. — Ei! Não fiquei aí parada — fui até ela e alisei seu rosto. — Você quer conhecer o apartamento e depois iremos para o sofá ou você quer ir primeiro para o sofá e depois te mostro o apartamento? — questionei desdenhoso. — Você poderia perguntar primeiro se eu aceito uma bebida — disse, olhando-me de cara feia. — Desculpe. Você me acompanha numa taça de vinho? — Sim. Por favor — rebateu gentilmente. Fui até a cozinha e peguei duas taças de vinho. Voltei para a sala e quase que tropeço no tapete quando encontrei Alice sentada no sofá. Ela tinha prendido o cabelo em um coque alto deixando seu pescoço comprido à mostra para que logo eu pudesse beijá-lo. Peguei um vinho tinto suave na adega climatizada. Abri e despejei nas duas taças. Caminhei e sentei ao seu lado entregando uma das taças. — Ao nosso namoro! Que seja intenso! — levantei a taça para brindarmos.


— E que seja também sincero e verdadeiro! — Alice juntou nossas taças em um brinde. Provei meu vinho e esperei que ela provasse o seu. Nossos olhares estavam grudados um no outro e senti um arrepio quando baixei o olhar para seus lábios deliciosos tocando sensualmente a taça e sorvendo o líquido vermelho. — É delicioso — emitiu sem tirar os olhos dos meus. — O vinho pertence ao vinhedo de um amigo. — Nossa! Deve ser legal ter um amigo que possua um vinhedo — expressou admirada. — Sim. É muito bom. E muito lindo o lugar também — peguei sua taça e coloquei na mesa de centro. — Se você quiser te levo para conhecer. Poderíamos combinar de passar um final de semana por lá. Tem hotéis muito aconchegantes. — Adoraria. Onde fica? No Sul? — Sim. No Sul. Em Mendonza, Argentina. — Argentina? Eu nunca fui lá — proferiu surpresa. — Mas acho que um fim de semana seria curto para irmos até lá. Sem aguentar mais um segundo a puxei para meu colo e tracei beijos em seu pescoço descendo até sua clavícula. — Mendonza fica próximo da Cordilheira dos Andes. É um lugar lindo e aconchegante. Tem vários lugares para visitarmos, além de atrair montanhistas em busca de aventura para subir a montanha Aconcágua — expliquei, passeando com minhas mãos pelo seu corpo. — Você já escalou? — perguntou curiosa, entrelaçando os dedos em meu cabelo. — Uma vez, quando mais jovem, fui forçado a escalar. Com Álvarez, o meu amigo e dono do vinhedo, e Miguel, meu primo. Ambos são fissurados em aventuras. — Você não gosta de adrenalina? — Não como eles. Mas gosto sim. Acabei de ter uma aventura e tanto da casa de dona Iolanda até aqui — olhei-a malicioso. — Acho que foi a melhor que já tive. — Fico feliz que tenha gostado — retrucou enrubescendo. — Espero ser ressarcida em breve. — Pode ter certeza que sim — confirmei. — Alias, começaremos agora — finalizei. Nos atracamos aos beijos, ambos totalmente excitados. Era incrível como me sentia atraído por tocá-la, ouvi-la gemer era como uma sinfonia perfeita para meus ouvidos. Alice me atraía de todas as formas. Com certeza quando esse desejo passasse, ela seria uma das minhas melhores lembranças. Por agora, era a minha namorada e eu aproveitaria o máximo possível. Alice montou em mim, colocando uma perna de cada lado do meu corpo, ficando de frente para mim, se esfregando em meu pau, já duro de tesão por ela. Sua saia curta imediatamente subiu


exibindo uma minúscula calcinha de renda branca com tirinhas pretas nas laterais. Subi sua camiseta branca e logo um pequeno sutiã combinado com a calcinha surgiu, escondendo delicadamente seus seios, subi passando as mãos por cima da lingerie, apertando, sentindo-os. Como uma criança cobiçosa para provar da rapa do tacho de doce de coco, abri o fecho do sutiã que se localizava na frente, retirando em seguida. Esfomeado, abocanhei um seio chupando e mordendo, enquanto estimulava o outro, deixando eriçada sua pele e seu bico rosado endurecido. Minha Diabinha roçava sua bocetinha sobre meu pau ainda coberto pela bermuda, eu podia sentir o quanto ela estava gostando dos meus carinhos, a umidade através da sua calcinha estava me deixando louco, meu pau já estava latejando de tão duro. — Ah! Diabinha. Você me deixa ensandecido — sussurrei, enquanto dava a assistência ao outro seio, e empurrava meu quadril para cima fazendo mais pressão em sua boceta. — Tira essa roupa, Igor. Eu preciso te ver nu — rogou baixinho, subindo gentilmente minha camisa, retirando-a. Beijando e chupando meu pescoço enquanto a camisa caía ao chão. Como no carro, puxou, abrindo o botão e desceu o zíper da minha bermuda. Suspendi Alice em meus braços e levantei o quadril puxando a bermuda junto com a cueca e chutando quando caíram aos meus pés, ainda com a boca em seus seios, Alice segurava meu cabelo, puxando minha cabeça ainda mais perto, ela gemia baixinho e segurava tão forte em mim, assim como eu, a única certeza que tínhamos era que estávamos juntos. Não queríamos nos desgrudar, parecíamos como ímãs encaixados um ao outro. Deslizei sutilmente minha mão por cima do tecido fino e rendado da sua calcinha. — Putz! Você está totalmente pronta — gemi ao esfregar os meus dedos por sua bocetinha, acariciando, sentindo o quão ela estava excitada — preciso te chupar. Preciso provar novamente o teu sabor, Diabinha. — E eu preciso sentir você dentro de mim agora, Igor. Por favor! — suplicou, rebolando em minha mão que ainda estava entre suas pernas abertas, fazendo um olhar de pidona que não consegui resistir. Levei à mão a mesinha ao lado de porta retratos e abri a gaveta buscando por preservativos. Peguei um e a entreguei para que colocasse em mim. Prontamente Alice envolveu o látex em meu pau que vibrava apenas pelo simples fato da sua mão estar tocando-o de novo. Segurei seus cabelos, envolvendo meus dedos nos fios macios soltos do coque que se desmanchava, puxando sua cabeça para perto da minha, mordendo seus lábios, antes de lambê-los bem devagar. Beijei sua boca com desespero e paixão de quem não aguentava mais um segundo sem tê-la, entregando-me por completo. — Me possua como quiser, Diabinha. Estou aqui para te saciar — clamei, levando sua cabeça pra trás e sugando seu pescoço, enquanto ela se contorcia, se esfregando em meu pau, almejando por senti-la. Desesperado e ansioso puxei sua calcinha para o lado, e a ergui, encaixando meu pau na sua abertura para que ele deslizasse rápido e duro em sua boceta. Uivamos insanos enquanto a penetrava.


— Igor! — Alice gritou por mim jogando a cabeça para trás. — Estou aqui — a envolvi em meus braços, puxando-a pra mim e ajustando o ritmo das estocadas, beijando, lambendo e mordendo enquanto gemíamos um nos lábios do outro. Alice segurava meus ombros, enfiando as unhas em minha pele, aumentando o movimento, cavalgando como uma amazona em cima de mim. Ela estava me deixando louco, não conseguiria segurar por muito tempo. Sabia que ela estava próxima do orgasmo e queria dar todo o prazer que ela precisasse. Comecei a esfregar meu pau no vai e vem estimulando seu clitóris. Abaixei a cabeça até seus seios e coloquei um na boca, mordendo com força, enquanto ela ia mais rápido e fundo em cima de mim. Eu precisava senti-la gozar, antes de soltar meu gozo dentro dela. —Vem pra mim, Minha Diabinha gostosa. Goza no pau do seu homem. Eu sussurrava em seu ouvido, era tudo muito intenso, ela rebolava ainda mais, colocando minha ereção mais fundo dentro dela, apertando-me. Gemendo rouca em meu ouvido, e baixando a cabeça eu meu ombro, mordendo-o. —Porra! Que boceta gostosa… Alice… Você me deixa louco de tesão… Eu não consigo… Parar de te querer… Gostosa demais! Segurei sua bunda com as duas mãos, apertando e forçando minha amazona a ir mais rápido. Voltando a beijar sua boca desesperado por mais dela. —Igor… — ela gemia meu nome tão gostoso. Eu não conseguia mais segurar, eu precisava de tudo dela. —Goza, minha Diabinha! Eu vou te segurar… – Falei em sua boca. Ela jogou sua cabeça novamente para trás e gemeu alto o meu nome, apertando meu pau com sua bocetinha toda molhada. Juntos, chegamos ao clímax, suados e tremendo. Permanecemos por alguns minutos imóveis e em silêncio, recuperando nossas forças e tentando estabilizar nossas respirações ainda aceleradas. — Achei que primeiro iríamos ter uns amassos — pronunciou ainda ofegante, com os lábios inchados e vermelhos dos beijos. — Culpa sua. Eu queria, porém você me atacou faminta. Sou um cavalheiro não posso jamais negar a uma dama — sorri dissimulado, recebendo um tapa em meu ombro. — Você não passa de um convencido, Dr. Igor — fez bico me fazendo gargalhar. Alice saiu de cima de mim e eu retirei o preservativo usado, o amarrando e descartando ao lado. Com sede esvaziamos nossas taças de vinho e as enchi novamente. — Posso conhecer seu apartamento agora? — indagou sentando-se ao meu lado. — Daqui a pouco — respondi deitando-a no sofá e ficando em cima dela. — Agora irei te ressarcir — completei tocando seus lábios aos meus.


Sem esperar que respondesse algo, desci beijando, e incitando com pequenos chupões, seu corpo, que com certeza ficaria marcado do nosso sexo selvagem, ninguém duvidaria que ela possuía um homem que a servia bem, e que era minha. Retirei sua calcinha e a joguei de lado. Alice estava apenas com sua saia completamente enrolada na sua cintura fina, e eu completamente nu. Meu parceiro já dava sinal de vida outra vez. Depois que a fizesse gozar na minha boca, a colocaria de quatro e a comeria assim. Estava louco para dar uns tapinhas de leve em sua bundinha empinada, quando estivesse gozando novamente dentro dela. Cheguei a sua bocetinha. Levemente passei a língua saboreando seu sabor. Alice já se contorcia mesmo antes de devorá-la. Gentilmente com meus dedos abri seus lábios e chupei de leve seu clitóris. — Ah! Igor — choramingou se contorcendo. — Você é deliciosa, Alice — proferi intercalando entre chupões e mordidinhas. Alice estava completamente excitada de novo. E sem mais prolongar sua excitação, busquei seu ponto sensível e estimulei com ferocidade enfiando a língua. No mesmo instante, Minha Diabinha murmurou em deleite. Aumentei a velocidade das chupadas quando seu corpo anunciou que estava muito perto da libertação, enfiando dois dedos dentro dela, fazendo movimentos lentos, saindo e entrando. Forcei apenas mais um centímetro, o suficiente para fazê-la regozijar. — Igor! Igor! Igor! — gritou ensandecida enquanto libertava todo seu prazer em minha boca. — Ai, Meu Deus! Que vergonha! — escutei repentinamente a voz irreconhecível da minha mãe. — Puta merda! Gô, você é foda! Sou sua fã. Pegou a loira gostosa! — Ingrid! Percebi que não estávamos mais sozinhos quando minha mãe chamou a atenção da minha irmã. Levantei meu rosto e olhei para a porta, assustado. Lá estavam paradas minha mãe boquiaberta segurando uma caixa de comida delivery sem saber como agir e minha irmã com um sorriso de um canto ao outro dos lábios, parecendo uma viciada em voyeurismo. Voltei meu olhar para Alice e seus olhos estavam arregalados e assustados. Puta merda!


Capítulo 11 Surpreendida

Alice Não! Não! Não! Isso não pode estar acontecendo. Por que essas coisas só acontecem comigo? Oh meu Deus! Que vexame! Olhei para Igor implorando por socorro em silêncio. — Mãe! — Igor pronunciou alarmado me puxando para seus braços, onde enfiei o meu rosto em seu peito escondendo-me e suplicando baixinho que me tirasse dali. Não queria vê-las. Nunca. Sentia minha pele quente e dormente de tanta vergonha que estava sentindo. — Me desculpe, meu filho! Ai meu Deus! Que vergonha — a mãe do Igor divagava nervosamente. Sua voz era doce e firme, porém mesmo sem olhá-la, era perceptível o quanto estava constrangida. Toda a situação era muito embaraçosa. — Depois nos falamos. Me desculpe — ela continuava falando. — Ah não! Eu não quero ir embora — reconheci a voz da irmã do Igor, Ingrid. — Agora que o domingo estava começando a melhorar. — Ingrid! Que modos são esses? — sua mãe chamou sua atenção. — Mãe. Ingrid. Vão para a cozinha e me esperem lá, por favor — Igor interrompeu as duas. Fiquei encolhida em seu peito com os olhos tão fechados, implorando ao poder da mente que me desmaterializasse e me transportasse dali. Eu queria sumir. Como eu encararia essas duas mulheres? Será que tinha mais alguém além delas? Ai, Jesus! Eu lhe rogo que não! Seria demais para o meu currículo de desastres e micos anuais. Preferia mil vezes cair nas redes sociais com um vídeo meu levando um tombo e escancarando no chão de pernas para cima do que estar passando por essa situação — Venha, Diabinha. Vamos para o meu quarto — Igor falou soltando-me e recolhendo sua camisa do chão e entregando-me para que eu vestisse.


— Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus! Quero um buraco para me enfiar — sussurrei repetidas vezes. — Preciso sair daqui, agora — proferi levantando do sofá ajustando minha saia e vestindo sua camisa. Minhas pernas estavam tão bambas que se desse um passo com certeza tropeçaria e cairia estatelada no chão feito uma banana podre, para fechar com chave de ouro esse espetáculo cômico. — Não! — disse olhando-me sério e firme. — Me desculpe. Eu... Eu não sabia que elas apareceriam. Isso nunca aconteceu. Elas sempre ligam antes. — ele não sabia o que dizer. Era visível o quanto estava constrangido por minha situação. Imediatamente sem dizer mais nada, Igor colocou-me em seus braços levando-me por entre um corredor. — Abra essa porta, por favor, Diabinha — pediu gentilmente assim que paramos em frente a ela. Abri de imediato e vi que era seu quarto. Estava escuro, porém seu aroma estava lá presente e marcante no local. Igor entrou e bateu a porta em seguida com o pé. Caminhou até a cama e me depositou carinhosamente. Depois foi até uma enorme janela e abriu um pouco as cortinas para que a luz do fim do dia invadisse o quarto. — O banheiro é logo ali na frente. Lá você encontrará toalhas limpas no armário — retornou até a cama e sentou- se ao meu lado. — Vou até a cozinha falar com elas, depois irei recolher seus pertences e trazê-los — suspirou. — Diga alguma coisa, por favor. — Quero ir embora — disse baixinho. — Eu sinceramente gostaria que passasse a noite comigo — pediu. — Alice, olhe para mim. Estava tão embaraçada com toda a situação que até fiquei com vergonha de estar perto dele. Sei que a nossa primeira transa tinha sido numa boate com vários casais ao nosso lado. Mas o que aconteceu agora a pouco era totalmente diferente. Com certeza, a mãe dele sabe que o filho faz sexo, assim como a minha mãe sabe que eu faço, porém sermos pegos em uma posição intima de um casal, digamos que seja apavorante. — Eu preciso tomar um banho — proferi olhando-o. Não queria discutir com ele sobre ficar aqui ou não. Não nesse momento. — Tudo bem — concordou. — Volto em alguns instantes. Igor beijou-me os lábios e levantou-se, caminhou até o guarda-roupa pegou uma bermuda e vestiu. Quando estava abrindo a porta para sair o chamei, ele me olhou de imediato. — Você vai assim? — perguntei. — Alice, é a minha irmã e minha mãe. Elas estão acostumadas a me ver vestido assim.


— Eu sei, digo... — mordi o lábio meio que sem graça. —Você ainda está com meu gosto em sua boca. Não vai cumprimentá-las com um beijo? Um sorriso brotou em seus lábios e aquilo de certa forma diminuiu a minha tensão. Provavelmente quando contasse a Sarah e o Danilo o que aconteceu aqui, teríamos uma crise sem fim de risos, e eles me zoariam pelo resto das nossas vidas. — Não quero tirar o seu gosto da minha boca. Pelo o contrário quero muito mais. Apesar de sermos flagrados, quero repetir tudo outra vez. Hoje — enfatizou. — Bem que você disse que seu sofá seria inesquecível — rebati dando um meio sorriso. — Volto logo — devolveu um sorriso acolhedor. Igor saiu me deixando sozinha. Olhei em volta observando seu quarto. Era enorme, muito bem decorado. Um quarto totalmente projetado. O piso de madeira combinava com as paredes nas cores vermelho bordô e marrom, destacavam a masculinidade do local. Ao meio, uma cama king size bem arrumada com um conjunto de roupa de cama escuro. Mais a frente uma pequena escrivaninha com vários livros de medicina espalhados, alguns abertos e com anotações ao lado. Provavelmente ele estaria pesquisando ou se aprofundando melhor na sua especialização. Na cabeceira da cama acima havia um porta-retratos imenso com várias fotos, mas dentre todas, uma no meio se destacava. Era uma foto antiga. Um homem charmoso, com um olhar idêntico ao do Igor segurava um garoto em seus braços. Ambos sorriam alegremente. Era incrível como eram semelhantes. — É o meu pai e o Igor quando criança — dei um sobressalto assim que ouvi uma voz atrás de mim. Virei e encarei Ingrid me observando sorridente. — Não lembro muito bem dele. Era muito pequena quando morreu. Mas mamãe diz que o Igor a cada dia se parece mais com ele. Tanto fisicamente como na maneira de agir — disse olhando a foto. — Desculpe-me se a assustei — completou. — Desculpe-me pela cena na sala — rebati sentindo minhas bochechas corarem. — Ah! Relaxa. Aquilo foi muito legal — expressou animada. — Tenho que dar créditos ao meu irmãozinho. Ele sabe como fazer uma mulher gritar de prazer. E você, estava aos berros enquanto gozava. Minha mãe está chocada até agora. A encarei pasma com suas palavras. A garota realmente não media palavras. O que há no sangue dessa família? Eles simplesmente não têm vergonha de nada? — Eu sei. Eu sei. Sou meio desbocada na maioria das vezes. Não consigo controlar — respondeu ao perceber minha reação. — Acho que é mal de família — pronunciei. — Deve ser — deu de ombros. — Sua mãe deve achar que sou a pior vadia da cidade.


— Que nada! Dona Elena Salazar é tranquila. Na verdade, ela está mais surpresa com o que meu irmão revelou a pouco na cozinha — emitiu. Merda! O que será que ele falou? — O que ele disse? — perguntei sem disfarçar minha curiosidade. — Que estava chupando a boceta da namorada dele na sala — abri a boca chocada. Ele não teria dito de tal forma. Será? Ingrid gargalhou vendo minha cara espantada a cada palavreado seu. — Brincadeira. Você precisa ver sua cara de assombro nesse momento — continuava me zoando. Meu Deus! O que têm esses irmãos? Um convencido e debochado e a outra louca de tacar pedra. — O Gô disse que vocês estão namorando — proferiu fazendo meu corpo aquecer com o que escutei. Igor realmente estava me assumindo perante as pessoas que ele amava. — É uma pena — balançou a cabeça em sinal de desgosto. — Não que eu não goste de você como minha cunhadinha, vou adorar e estou muito feliz porque finalmente o meu irmão encontrou alguém. Porém perdi a chance de tentar te paquerar — exprimiu as palavras simplesmente. — Você é gay? — cuspi as palavras de supetão, antes que engolisse de vez todas as minhas palavras. — Algum problema com isso? — questionou. — De forma alguma — não sou uma pessoa preconceituosa, pelo contrário, abomino qualquer tipo de preconceito. Só não imaginava que a irmã do Igor fosse lésbica, mas pensando bem, não me surpreenderia tal proeza. — Não sou oficialmente lésbica. Curto os dois lados. Mas nunca transei com uma mulher. Ainda. Mesmo sendo um pouco maluca, gostei da Ingrid. Ela era direta, sem frescura e muito sincera. Pensei no quanto Danilo e Sarah iriam amar esse jeito desbocado da Ingrid. E já estava louca para apresentá-los — Preciso tomar banho — falei sem querer prolongar muito a conversa. — Tudo bem. Preciso voltar para a cozinha antes que o Igor me encontre aqui. Ele pensa que fui ao quarto de hóspedes pegar um livro que esqueci. — Compreendo — sorri da forma como ela falava. Ainda iria me divertir muito com ela. — Não demora. Trouxemos pizza para jantar. E só presta com o queijo derretendo — disse caminhando até a porta. Jantar? E encarar a mãe deles? Não. Não estou preparada para isso.


— Eu não tenho condições de conhecer a sua mãe nesse exato momento, Ingrid — fui sincera. — Alice, a culpa foi minha. Fui eu que dei a ideia de virmos até aqui e fazer uma surpresa ao meu irmão trazendo pizza. Eu tenho uma cópia da chave do apartamento, que por sinal o Igor a quer de volta. Não imaginei que vocês estariam aqui, e muito menos trepando no sofá — foi a primeira vez que ela pronunciou cada palavra com seriedade. — Eu entendo, Ingrid. Porém não tenho cara para olhar sua mãe. Foi muito constrangedor, não sei se me sentiria à vontade — nunca vou me sentir à vontade. Sempre que vir a mãe do Igor vou saber que ela primeiro conheceu a minha vagina. E pior. Com a boca do seu filho nela, chupando. — Olha, vai por mim. Por mais que minha mãe esteja tão constrangida quanto você, ela não deixará de te conhecer. Principalmente agora que ela viu a luz no fim do túnel para o meu irmão. Se você não for até a cozinha para jantarmos, dona Elena virá até aqui para te buscar. Eu garanto — explicou. — Ou você pensa que o lado teimoso e insistente de Gô e eu, puxamos do nosso pai? Dona Elena sabe ser muito persuasiva na maioria das vezes — sorriu batendo a porta assim que saiu do quarto. Fiquei estática olhando para a porta. Deus! Aonde eu fui me amarrar? Será que todos da família Salazar tem esse efeito de sempre me espantar com suas atitudes? Corri para o banheiro e tomei um banho bem frio, só assim conseguiria processar meus pensamentos para o que vinha a seguir. Com que cara eu olharia para mãe do Igor? Será que ela vai gostar de mim? Nunca fui apresentada oficialmente como namorada à mãe de alguém. E sinceramente, desejaria que a tal dona Elena Salazar gostasse de mim. Enquanto estava me secando uma batida de leve soou na porta do banheiro. Perguntei quem era e ouvi a voz grossa e rouca do homem que estava mexendo comigo de todas as formas possíveis. Enrolei uma toalha em volta do meu corpo e destranquei a porta para que Igor entrasse. — Oi — pronunciei encabulada assim que ele entrou ao seu banheiro. — Queria ter dado banho em você — proferiu maliciosamente. — Mas não faltarão oportunidades — se aproximou, me empurrando até que encostei o quadril ao balcão da pia do banheiro beijando-me intensamente. — Como se sente? — perguntou avaliando-me assim que soltou meus lábios. — Ainda muito envergonhada por toda essa situação — respondi dedilhando beijos por seu peitoral. — Entendo. Mas minha mãe quer conhecer a mulher que me enfeitiçou. — Eu te enfeiticei? — interroguei fitando seus olhos. — Completamente — esfregou sua ereção em minha barriga. — Igor! — resmunguei. Por mais que o desejasse não conseguiria transar com ele aqui no banheiro sabendo que a mãe e a irmã dele estão do outro lado da parede. Não depois do que aconteceu.


— Venha. Trouxe seus pertences. Se vista e depois vá para a cozinha. Estamos esperando você — beijou-me os lábios novamente. — Ou você prefere que eu te espere? Queria muito que ele ficasse aqui comigo me aguardando, mas nunca gostei de demonstrar ser uma pessoa fraca. E por mais envergonhada que estivesse, teria que conhecer a mãe dele algum dia se quisesse que essa relação desse certo. Era algo que não poderia protelar por muito tempo. — Não. Vá fazer companhia a sua mãe e irmã. Chego lá em poucos minutos — forcei um sorriso escondendo meu nervosismo. Assim que Igor deixou o quarto, virei-me e encarei-me no espelho do seu banheiro. — Você consegue, Alice. Seja forte — disse para mim mesma como uma súplica. — Finja que nada aconteceu — seria impossível, mas tentaria. Vesti minhas roupas, menos a calcinha usada. Graças a Deus que minha mãe ensinou-me a ter sempre um par de lingeries extra na bolsa para uma emergência, e antes mesmo de sair de casa, verifiquei se as tinham colocado. Passei um pouco de brilho labial e rímel para ao menos estar apresentável quando a mãe do Igor me olhasse da cabeça aos pés. Respirei fundo e abri a porta do quarto saindo por um corredor. Igor ainda não tinha me apresentado seu apartamento, sabia que a cozinha era próxima da entrada do apartamento, pois foi por lá que ele pegou as taças para o vinho. Não havia me enganado, me aproximando, pude ouvir o burburinho das conversas entre eles. Sorri baixinho quando a Ingrid reclamou com o Igor por estar beliscando a pizza antes que eu chegasse. Entrei sem graça, e é claro, com muito medo de esbarrar em algo. Se no meu normal sou totalmente desastrada, meu estado nervoso fica inábil e sujeito a situações muito piores, e por hoje já tinha batido a cota de micos escabrosos. — Ela chegou. Bem vinda ao mundo dos loucos que fazem parte da família Salazar — Ingrid desdenhou e segurei o riso. Ela era muito sem noção, mas de um jeito cômico. Busquei com o olhar pelo Igor que se levantava da cadeira e vinha ao meu encontro com aquele sorriso dissimulado, apenas com a bermuda que havia colocado no quarto. O cabelo estava todo bagunçado, mas incrivelmente sexy. Observei que ele tinha uma tatuagem acima do peito como um brasão. Como não tinha visto antes? Ah! Lembrei, o sexo louco misturado com o vexame do ano tinham me cegado. Igor puxou-me para seus braços assim que se aproximou apertando minha cintura e beijandome. — Você consegue ficar ainda mais linda e sexy quando está envergonhada — sussurrou baixinho em meu ouvido. — Fica tranquila. Minha mãe já te adora — finalizou. Voltei meus olhos para os seus e senti-me protegida.


— Mãe, quero te apresentar Alice, minha namorada. Alice, essa é Elena Salazar, minha mãe — Igor falou sutilmente, tentando passar tranquilidade para nós duas. Olhei a mulher à minha frente e fiquei simplesmente embasbacada. Ela era linda, elegante e muito, muito jovem. Tinha uma estatura mediana, um pouco mais baixa que a Ingrid. Um corpo que muitas jovens matariam um leão para possuir. Seu cabelo era curto, mas com um corte repicado e moderno que realçava a cor da sua pele clara e olhos verdes. E o mais espantoso era o quanto a Ingrid se parecia com ela e como todos os três tinham a mesma intensidade no olhar. — Nossa! Como você é linda. O meu filho demorou, mas encontrou uma linda mulher — Dona Elena proferiu sorrindo. — É um imenso prazer conhecê-la. — O prazer é todo meu, dona Elena. — Me chame apenas de Elena — pediu graciosamente. A cada segundo que se passava conversando com ela, meu corpo relaxava. Estava na cara que tanto Elena como eu, tentávamos fingir que o flagra do sofá nunca havia ocorrido. A todo instante me tratava bem e quando perguntava sobre minha família ou trabalho, percebia-se que não era por mexerico ou interesse, apenas uma conversa agradável de duas pessoas que acabavam de se conhecer. O Igor e a Ingrid tinham muito dela. A espontaneidade era o fator marcante entre os três. Sempre atenciosos e carinhosos uns com os outros. Eles se amavam e não tinham vergonha de demonstrar tal sentimento com pequenos gestos ou ações. E essas demonstrações me faziam desejar ainda mais que meu relacionamento relâmpago com o Igor desse certo. Eu estava me apaixonando por ele, e conhecer a sua mãe e irmã mais intimamente me fez aumentar esse desejo. Elas eram encantadoras. Já se passavam das vinte e uma horas quando Ingrid e Elena partiram. O jantar havia sido tão maravilhoso que o tempo voou. Rimos muito e descobri vários segredinhos do Igor. Ele fingia-se um convencido e devasso para todos, mas sua mãe com certeza era a única que o deixava sem palavras. — Minha mãe gostou muito de você — Igor falou assim que as portas do elevador se fecharam levando-as embora. — Também gostei muito dela. E da sua irmã também. — Minha irmã é maluca. — Mas você a ama. — Verdade. Não sei o que seria de mim sem aquela pirralha — abraçou-me encostando-se ao canto da porta. — Fica aqui comigo essa noite. Amanhã acordamos mais cedo e passamos na sua casa para você se trocar antes de irmos para a Clínica — pediu acariciando meu rosto. — Tudo bem — respondi carinhosamente. Queria muito ficar mais tempo com ele. — Jura? — perguntou espantado. — Droga! Achei que teria que usar meus métodos de seduções inegáveis para te convencer — brincou fingindo decepção me fazendo sorrir feito uma adolescente apaixonada.


— Posso te pedir uma coisa? — fiz carinha de dengosa quando falei. — Tudo o que você quiser — concordou passeando com seus dedos sobre os contornos dos meus seios. — Me faz gozar várias vezes essa noite. De preferência no seu quarto e com a porta bem trancada — roguei mordiscando seu queixo. — Ah! Diabinha. Te fazer gozar é minha especialidade — invadiu meus lábios, beijando-me loucamente.


Capítulo 12 Desvendando sentimentos

Igor 02 meses depois Semanas se passaram desde que resolvi assumir minha relação com Alice. Todos ao nosso redor se mostraram surpresos com a minha mudança, na verdade, até eu mesmo estava surpreso. Nunca na minha vida tinha passado tanto tempo com uma mulher, ainda mais, assumi-la como minha namorada. Até Lilian, sua tia, que no início se mostrava receosa, estava cedendo aos poucos e admirando a nossa relação. Levi, irmão da Diabinha, ainda me olhava de cara feia quando me encontrava deitado em sua cama, enquanto a esperava sair do banho ou trocar de roupa. Porém não dizia nada, apenas me cumprimentava. Minha mãe e irmã estavam radiantes e encantadas com Alice. Ingrid passou a frequentar assiduamente a Clínica e, vez ou outra saíamos todos para jantarmos. Os amigos da Alice, Danilo e Sarah, e Gabriel também nos acompanhavam. De cara, Ingrid se enturmou com todos, e eles a adoraram, principalmente o Danilo, os dois pareciam que eram amigos há anos. Até para as baladas eles passaram a sair juntos. Já a minha mãe, ela não se metia muito na nossa relação, apesar de que sempre perguntava pela Alice e cobrava para marcamos um jantar em família. Mamãe estava louca para conhecer dona Laura e Levi. Desde o dia do flagra no sofá, as duas não se viram mais, conversavam bastante por telefone, quase que todos os dias, estavam se tornando amigas. Claro que ambas nunca sequer citaram como se conheceram. Ambas ainda morriam de vergonha só em lembrar. Alice andava com sua agenda abarrotada de trabalhos e compromissos. Fora os seus pacientes, que vinham aumentando gradativamente, ela também coordenava todo o setor fisioterapêutico e ortopédico da Clínica, o que a consumia o dia inteiro, toda a semana. Dr. Estevão e dona Lorena, pais da Isa e donos da Clínica, só teciam elogios ao desempenho e dedicação da Minha Diabinha. Eu ficava todo orgulhoso do seu resultado. Ela se dedicava tanto que no final do dia praticamente desmaiava de tão exausta. Mas nunca deixando de ser amável com todos, principalmente comigo. A cada dia que se passava eu adorava mais estar ao lado dela, aprendendo a dividir meu dia a dia com alguém, conversar. Sentia tanto a sua falta quando não dormia em meu apartamento. Alice se revelava uma espécie rara de mulher. Lindíssima, inteligente, alegre e muito divertida. Sem contar que era incrivelmente desastrada, na medida certa, o que me fazia sorrir achando lindo quando ficava encabulada por sempre estar esbarrando ou derrubando algo.


No sexo, éramos insaciáveis, ela sabia onde e como me levar à loucura. Suas lingeries me deixavam a beira de um colapso. Descobri-me um fanático por suas peças íntimas. Nas noites em que não dormíamos juntos, Alice sempre dava um jeito de me provocar na Clínica, exibindo aqueles pedacinhos de tecidos transparentes e rendados encaixados perfeitamente em seu corpo, fazendo meu pau ficar duro de imediato e durante todo o dia. Às vezes não resistia e a atacava nos breves intervalos que coincidiam entre um e outro paciente, aliviando assim minhas bolas roxas. Gabriel, Fernando e Luís admiravam a Diabinha. Eles me zoavam querendo saber qual a poção mágica que ela teria feito para me dominar por completo, até minha irmã dizia que Alice havia me posto cabresto. O pior era quando a tratava carinhosamente na frente de todos, e eles se deleitavam falando que eu tinha sido picado pelo inseto do amor, e que estava um bobo apaixonado. Amor? Não. Era maravilhoso estar com ela, ter sua presença constante em meu dia a dia, sentia a necessidade de protegê-la e, lógico que ficava enciumado, sem que notasse, quando alguns dos pacientes da Clínica a olhavam como uma carne suculenta de primeira. Mas apaixonado? Não. Sabia que em algum momento nossa relação terminaria. Nada durava para sempre. Casamento e construir família nunca faria parte da minha vida. — Edith, quero que continue tomando suas pílulas de vitaminas. Estou prescrevendo comprimidos ricos em ferro, precisamos combater essa anemia o quanto antes. Recomendo também um excelente nutricionista, o Dr. Gabriel Brito. Juntos trabalharemos para que tenha uma alimentação saudável e adequada para seu estado. Se interessar, poderá marcar consulta na recepção. Seu consultório é aqui mesmo, na Clínica, e ele está associado ao seu plano de saúde — expliquei a minha quinta paciente do dia. Ela estava com nove semanas de gestação e eu iria acompanhar seu pré-natal a partir de hoje. — Tudo bem, doutor — concordou gentilmente. — No próximo mês traga seu marido. Faremos a ultrassom, acho que dará para sabermos o sexo do bebê — avisei levantando-me da poltrona e indo ao seu encontro para me despedir dela. — Ele está muito ansioso para saber o sexo — falou animada. — Imagino que esteja — sorri. — Muito obrigada, doutor Igor. Até mês que vem então — despediu-se, assim que abri a porta para que saísse. Retornei para a minha mesa, lembrei que estava precisando de amostras grátis de medicamentos para entregar às minhas pacientes. Liguei para a recepção procurando saber com a minha assistente se o representante farmacêutico havia entregado os pedidos solicitados. Pamela confirmou que sim, porém com o fluxo louco na Clínica com os pacientes de hoje, ela e as outras recepcionistas não tiveram tempo de separar os medicamentos e solicitou que um dos auxiliares levasse as caixas para o almoxarifado para evitar transtorno e volume na recepção. Como minha próxima consulta seria em quarenta minutos, avisei a Pamela que eu mesmo iria ao almoxarifado verificar as caixas e separar alguns medicamentos, e que qualquer urgência ligasse no meu celular.


No caminho passei pela Ala de fisioterapia para dar um beijo na Alice, e também com a esperança que ela estivesse sem muito trabalho, assim poderia sequestrá-la comigo para o almoxarifado. Ontem não havíamos dormindo juntos e com certeza, hoje, ela teria colocado uma lingerie provocativa. Precisava proporcioná-la urgente um orgasmo e nada melhor que um lugar tranquilo e reservado como o almoxarifado. No entanto, para minha decepção, Alice estava com um paciente, e segundo Ana, ainda restavam vinte minutos para a sessão de Pilates encerrar. Despedi-me de Ana e segui para o meu destino. Saquei meu celular do bolso e rapidamente enviei uma mensagem para Alice. Diabinha, acabei de passar pelo seu consultório. Curioso para saber como é sua lingerie. Será azul como seus olhos? Sacie meus desejos. Louco para provar teu sabor. Estou no almoxarifado. Apareça! Seu Devasso. Sorri imaginando sua reação. Adorava como ela arregalava os olhos surpresa com minhas atitudes. Mesmo com o tempo que estávamos juntos, Alice sempre se surpreendia. O almoxarifado localizava-se nos fundos da Clínica, quase próximo a residência do caseiro, era espaçoso e repleto de estantes de ferro lotado de caixas de arquivos de um lado e do outro lado, mais acima no mezanino, materiais e medicamentos hospitalares. Avistei as caixas que Pamela havia enviado para cá. Passei a inspecionar e separar os produtos que o laboratório farmacêutico enviou. Me distrai totalmente, só percebi a presença de alguém atrás de mim, quando a mesma vendou meus olhos com as mãos. — Ah! Diabinha. Estava me sentindo tão sozinho aqui — falei abrindo um sorriso feito um bobo. — Ainda bem que apareci para te fazer companhia — uma voz conhecida sussurrou em meu ouvido, gelando-me por inteiro. Rapidamente puxei suas mãos dos meus olhos ficando de frente para encarar a ruiva sexy de batom vermelho sangue sorrindo para mim. — Clarisse! O que faz aqui? — questionei um tanto receoso. Conhecia-a muito bem, e sabia que a qualquer momento poderia aprontar. — Vi quando entrou. Então pensei que poderíamos recordar os velhos tempos — ronronou feito uma gata no cio se aproximando. — Estou com saudades, Igor. Clarisse trabalhava na Clínica há anos. Nos envolvemos durante um tempo. Nada comparado como a minha relação com a Alice agora. Éramos como estepe um do outro. Quando estava cansado ligava para Clarisse e nos encontrávamos no seu ou no meu apartamento, e assim ela também fazia comigo. Afastei-me automaticamente. Tentava não transparecer o quanto estava desconfortável com ela e eu sozinhos naquele lugar reservado.


— Clarisse, se não veio pegar nada para a Clínica é melhor você ir embora — demonstrei desinteresse nas suas palavras. — Você não ouviu o que falei? Vim aqui para matar a saudade — insistiu. — Não sente minha falta? Você sabe o quanto somos bons juntos. — Ouvi, mas não me interessa. Já faz muito tempo o que aconteceu conosco, e não pretendo repetir — proferi friamente encarando-a. — Além do mais tenho namorada. — Faça-me o favor, Igor! — berrou feito uma vaca. — Essa história de namorado fiel da fisioterapeuta aguada está ficando ridículo. — Não a chame assim! Você não a conhece — rosnei enfurecido por tripudiar do meu relacionamento e, principalmente, por falar mal da Alice. — Não vale perder meu tempo com você. Se não vai sair, saio eu. Passei por ela indo de encontro à porta do almoxarifado. — Eu sou perda de tempo é? Até quando Dr. Igor Salazar? — gritou vindo atrás de mim. — Até sempre — virei-me, fuzilando-a. Estava de saco cheio. Não queria ser grosseiro com Clarisse, mas sabia perfeitamente o quanto ela adorava chamar atenção. E se permitisse, essa zoeira iria além dessa sala de arquivos. — Por favor, Clarisse. Não quero ser grosso com você — respirei fundo, implorando ao meu interior por paciência. — Estou namorando a Alice. E não pretendo ficar com mais ninguém. Aceite isso pelos velhos tempos. — Até quando, hein? Responda-me — incitou-me fingindo de magoada. — Até quando você irá ser fiel a uma só mulher, Igor? Eu te conheço. Logo você descartará a fisioterapeuta como fez com todas as outras. Faz parte de você ser livre e sem compromisso. Ouvi-la dizer essas palavras me atingiu como um soco no estômago. Realmente sempre fui uma pessoa que fugia de relacionamentos, porém a Diabinha tirava o melhor de mim apenas com um simples sorriso. E nunca a tratei como uma simples foda, sempre foi mais do que isso. Muito mais. — Somos iguais. Gostamos dos prazeres da vida, sem se preocupar com nada e ninguém — continuou soltando os fatos. — Muito em breve, sei que irá me procurar implorando por um boquete. De repente um estrondo de caixas caindo próximo nos assustou. Revelando uma silhueta fina e um par de olhos azuis assustados que pareciam como duas pedras preciosas. — Alice! — pronunciei seu nome, indo ao seu encontro. Ela hesitou quando tentei abraçá-la, mas fingi não perceber e agarrei sua cintura entre meu corpo, a prendendo firmemente. — Não quero atrapalhar os dois — Alice emitiu, não escondendo o quanto estava magoada com a situação. — Você nunca atrapalha — beijei seus lábios provando que era só ela. Que não existiam


outras. — Clarisse já estava de saída. Não é mesmo? — fitei-a informando que nosso assunto estava encerrado. — Bem, aproveite enquanto podem — Clarisse debochou, com um sorriso sarcástico caminhando até a porta de saída. — Até breve, doutor Igor. Ficamos em silêncio por alguns segundos depois que Clarisse saiu do almoxarifado. Sabia que Alice estava em uma luta interna, se me xingava ou se passava despercebido essa situação. — Você a namorou? — perguntou sem graça quebrando o silêncio. — Não — respondi firme. — Saímos algumas vezes— informei. Alice tentou se soltar de mim, mas não deixei. — Ei! Pare com isso — segurei seu rosto em minhas mãos fitando-a. — É só você, Diabinha. Como prometi, lembra? — Quantas funcionárias da Clínica você comeu? — Alice tinha a ousadia de ficar ainda mais sexy enciumada. Meu pau pulsou no mesmo instante. No entanto, não queria que ela achasse que não a respeitava. — Quantas você levou para cama, seu devasso cretino? — socou meu peitoral enfurecida. — aposto que todas zombam por me acharem uma songamonga. — Não! Ninguém pensa isso de você. Todos aqui na Clínica te adoram — confirmei o que de fato era verdade. — Quantas, Igor? — insistiu. — Fiquei com algumas — proferi sincero. — Mas isso não importa mais. Foi você quem eu assumi como minha namorada. Prometi respeitá-la, e estou cumprindo. Nunca neguei meu passado. O que importa é o agora. O hoje. Não vamos brigar por essa bobagem, Alice. Por favor! — a encostei na parede esfregando minha ereção entre as suas pernas fazendo-a sorrir. — Você é um tarado, Igor Salazar! — exclamou, mas se esfregou em mim também, me envolvendo com uma das suas pernas. — Ficando excitado só porque estou com ciúmes das mulheres em sua vida. — Hoje só existe você em minha vida, Alice. A Minha Diabinha, a minha loira gostosa que me deixa de bolas roxa — pronunciei em seu ouvido, mordendo o lóbulo da orelha. — A mulher que deixa meu pau duro, só de pensar ou sentir o seu cheiro. Olha como estou aqui, duro e cheio de tesão por você — peguei sua a mão e a fiz roçar em meu pau dentro da calça. — Tudo bem. Sou a única então — cedeu, acariciando meu membro rígido. — Mas se eu vir você de charminho com essa aí, farei um sexo louco com você, mas não deixarei você gozar. Exercitará as mãos, sozinho — mordeu seu lábio maliciosamente e depois lambeu minha boca. — Não é à toa que seu apelido faz jus a pessoa — invadi sua boca beijando e abrindo seus lábios com a minha língua e chupando a sua. Eu precisava ter a certeza que estava tudo bem entre nós. E a fazendo gemer enquanto chupava sua bocetinha rosada, seria a confirmação.


— Tenho certeza que não será necessário me castigar — pronunciei sem fôlego assim que soltei seus lábios. — Agora venha aqui. Quero te provar. — Não... Não... Não... — bradou afastando-se. — Vim aqui apenas para te ver rapidamente e dizer que não me espere no final do dia, pois meu último paciente será às dezenove horas — deu de ombros tristemente. — Mas irei direto para o seu apartamento assim que sair daqui. — Mas eu queria te dar um orgasmo agora — disse, tentando puxá-la para perto de mim novamente. — Eu sei, doutor Devasso. À noite você poderá me proporcionar até mais de um — debochou lindamente. Batendo em minhas mãos, que tentavam envolver sua bunda gostosa. — Agora preciso ir. Tenho paciente em… — verificou as horas. —… Três minutos. Droga! — saiu correndo deixando meu pau mais uma vez enrijecido. Gargalhei com sua pressa em fugir, pois sabia que se a pegasse não resistiria.

Nossa noite havia sido perfeita. Jantamos e depois fomos direto para a cama. Alice estava exausta, mas ainda sim, me presenteou com um excelente boquete e um sexo duro e selvagem, acabamos gozando juntos, gritando e gemendo de tanto prazer. Tomamos um banho logo em seguida, e apagamos fatigados quando nos deitamos. Era tão bom quando ela estava aqui. Acordava sempre primeiro do que Alice. Corria até a padaria para comprar pão fresquinho e quando voltava a acordava e a levava para o banheiro para transarmos e tomarmos banho pós foda. Essa era a nossa rotina. — Esqueci a chave do carro em cima da mesinha de centro. — Alice falou assim que adentramos o elevador e o mesmo começou a descer. Ela tinha recebido seu carro poucos dias depois que começamos a namorar. Quando dormia comigo, sempre deixava o carro com a sua mãe. Mas como ontem havia saído tarde da Clínica, veio dirigindo-o. — Merda! Esqueci mesmo a chave do carro. Vá tirando seu carro da garagem. Não demorarei — avisou, depois que verificou sua bolsa. — Me dê sua mochila e bolsa — pedi, já pegando. Alice deixaria a chave do seu carro na portaria, para Sarah pegar no final do dia e deixar com dona Laura. Tinha a convencido a dormir hoje, novamente, aqui no meu apartamento. Segui para o carro. No instante que parei em frente ao portão da garagem para esperá-la, ouvi o toque do seu celular. Sem pestanejar, abri sua bolsa e peguei o seu aparelho. Provavelmente era sua mãe ou irmão, que sempre ligavam essa hora. Contudo, para a minha surpresa era o Valentim, seu exficante. Alice nunca tinha me falado dele. Descobri por acaso em uma conversa com Sarah e Danilo, que sem perceber que eu escutava, citaram a relação deles. Rejeitei a ligação, mas o filho da puta era persistente e enviou uma mensagem. Sabia que era errado invadir a sua privacidade, mas estava


curioso, então sem hesitar abri a mensagem. Ali, o que sentimos um pelo outro é mais forte do que tudo. Não fuja do nosso amor. Sempre seu, Valentim Li e reli várias vezes. Não conseguia acreditar no que lia. Será que a Alice ainda o encontrava às escondidas? Não. Ela não desceria tão baixo. Alice era sincera e verdadeira. Um ódio subiu-me preenchendo e aquecendo todo meu corpo, cegando. Quem ele pensava que era? Alice era minha namorada. Minha. Apaguei a mensagem e a chamada rejeitada e coloquei seu celular de volta na bolsa, deu tempo suficiente para que a Diabinha voltasse e não me flagrasse com seu celular nas mãos. — Demorei? — ela perguntou assim que entrou e sentou no banco do motorista. — Vamos. Não gosto de chegar atrasado — enunciei sério. Estava furioso. E não tinha ideia de como cobrar isso dela. Nunca precisei passar por isso. Uma das vantagens de não ter namoradas. Era a cobrança. Meu humor tinha dado um giro de 180 graus, e eu não conseguia tirar as palavras do filho da puta da minha cabeça. Ela era minha, e aquele safado a estava incomodando. Pensando que voltaria para ele. — Aconteceu alguma coisa? — interrogou receosa devido a minha mudança de humor. — Não — respondi seco. Seguimos nosso trajeto até a Clínica em silêncio. Alice bem que tentou puxar conversa, mas eu respondia de forma monossilábica, o que a fez se calar e passar o resto do trajeto em silêncio. Quando chegamos a Clínica, também não foi diferente despedi-me rapidamente dela, com uma desculpa de que precisava verificar alguns exames de uma paciente que atenderia hoje. Precisava esfriar a cabeça. Com a raiva que estava sentindo nesse momento, provavelmente diria palavras que me arrependeria depois. A manhã na Clínica foi péssima. Atendi minhas pacientes de forma automática e sem ânimo. Algumas até estranharam meu jeito e questionaram se eu estava bem. Na minha cabeça eu não parava de pensar na Minha Diaba. Sabia que enquanto não perguntasse a ela sobre esse tal Valentim ficaria com o assunto martelando na minha mente sem parar. Quando me despedi da minha última paciente, antes de ir almoçar, decidi que precisava vê-la e olhar naqueles olhos que me fascinavam, e perguntaria sobre o tal. Peguei o telefone fixo do meu consultório e liguei para Ana, sua assistente. Não queria enviar mensagens. Ela tinha me enviado algumas pela manhã, mas não respondi nenhuma. — Ana. É o Igor. Alice está ocupada? — perguntei assim que ela atendeu. — Ela está com sua irmã no consultório. — Ingrid está aí? — indaguei confuso. Essa hora a Ingrid deveria estar na faculdade.


— Sim. Ela chegou querendo falar com urgência com a Dra. Alice. — Ana confirmou. — Acho que ela brigou com o namorado porque parecia que havia chorado. Namorado? Chorando? Mas a Ingrid não estava com ninguém. Até o seu amigo colorido ela dispensou. — Obrigado, Ana — agradeci desligando apressado à ligação. Precisava urgentemente saber o que estava acontecendo com a minha irmã. Ela nunca foi de chorar, principalmente na frente das pessoas. O que será que aconteceu? Por que não me procurou? Marchei cego, sem cumprimentar ninguém por quem passava. Se fosse frescura da Ingrid ela escutaria poucas e boas por estar atrapalhando a Alice no horário de trabalho. Passei por Ana e sem bater, abri a porta do consultório da Alice de uma vez. As duas se assustaram com a minha presença. Olhei diretamente para minha irmã e confirmei o que Ana havia dito pelo telefone. Ingrid realmente havia chorado, seus olhos inchados não omitiam. — Igor — a voz doce de Alice chamou-me atenção. Não pela suavidade, mas porque transmitia inquietação. — O que está acontecendo? Por que está chorando, Ingrid? — interroguei, olhando de uma para outra. — Não é nada Gô — minha irmã falou tão baixo que por pouco não escutei. — Que porra não é nada! — cuspi nervoso. — Te conheço desde as fraldas e você nunca agiu assim. O que fizeram com você? Desembucha. — Fique calmo, Igor — Alice se aproximou tocando meu ombro. — Desse jeito você a deixará ainda mais nervosa. Encarei Alice na esperança que ela dissesse mais alguma coisa, mas permaneceu em silêncio apenas me fitando. — Ingrid, me diga logo o que aconteceu para você estar chorando. Por favor! — supliquei calmamente. Foi quando notei que ela escondia algo por debaixo do vestido. — O que é que está escondendo de mim? — Igor — Alice chamou-me novamente. — Não se meta, Alice. Isso é entre Ingrid e eu — avisei secamente. Ingrid vendo o meu desespero e minha atitude com Alice decidiu falar antes que as coisas se complicassem. — São exames, Gô! — ela sussurrou. Se antes de entrar na sala eu estava nervoso, sem saber o que havia acontecido e com toda a situação com a Alice. Agora estava para explodir. — Exames? Exames de que, Ingrid? — perguntei, baixando o nível da voz. Para passar uma


calma que não existia mais dentro de mim. — Você está grávida, Ingrid? No mesmo instante ela levantou o olhar pra mim, que até então estavam no chão, e pela primeira vez na vida não consegui traduzir o que olhos da minha garotinha queriam dizer. Deus! Não suportaria vê-la sofrer.


Capítulo 13 Primeiras descobertas

Alice — Você está grávida, Ingrid? — era visível o quanto Igor estava tenso e muito preocupado com a irmã. — O quê? Não! — Ingrid o encarava surpresa. Os olhos ainda inchados pelo choro. — Não! — negou novamente. Perguntei-me silenciosamente se uma gravidez não seria melhor do que o desconhecido. Ainda estava atônita com os exames da Ingrid. E sabia que isso enlouqueceria o Igor. Nesses últimos meses convivendo com ele, percebi que sua família estava acima de tudo. Igor era dedicado e atencioso com sua mãe e irmã. Mesmo quando não as via durante um ou dois dias, sempre se comunicavam de alguma maneira. O admirava tanto por zelar um bem precioso que é a família. Com certeza, se papai convivesse com ele, seria um fator crucial para admirá-lo como meu namorado. — Me deixe ver esse exame? — Igor exigiu, puxando os papéis das mãos da sua irmã. Eu apenas os observava, quieta, encostada na minha mesa. Minha vontade era de estar confortando-o, dizendo que tudo ficaria bem, como vinha fazendo com a Ingrid, no momento antes de ele entrar em meu consultório. No entanto, Igor, de certa forma, colocou um muro entre nós hoje pela manhã. E eu não fazia a mínima ideia do por quê. Estávamos tão bem quando acordamos. Ele como sempre me mimando e, é claro, levando-me a loucura com muito sexo matinal. E bum! Do nada ficou calado. Frio. Mal me respondia. Procurei saber o que havia ocorrido, porém ele agiu de forma seca comigo. Não respondeu as mensagens que enviei durante toda manhã. E agora mandava eu não me meter em seus assuntos familiares. Tudo bem que daria um desconto a ele nessa parte. Estava nervoso e preocupado com a irmã. Eu também ficaria se encontrasse alguém que amo chorando copiosamente. Igor desdobrou os papéis dos exames, observando atentamente. À medida que lia, sua expressão oscilava de nervoso para assustado. E principalmente, de muito medo, assim como eu fiquei quando li.


Há pouco mais de vinte minutos, quando me despedia de um paciente na recepção. Ingrid entrou aos prantos na minha ala de trabalho, chorando desesperadamente e vindo direto em minha direção. Vendo seu estado, a trouxe para o meu consultório e pedi a Ana que trouxesse um pouco de água. Esperei que se acalmasse, para só assim ela me contar o que estava acontecendo. Na hora pensei em tudo, menos que seria algo tão sério. Nos exames constatavam que Ingrid possuía na região da coxa direita um nódulo rígido, de aparentemente cinco a seis centímetros de diâmetro. Não informava que tipo de tumor era. Se benigno ou maligno. — Qua… Quando você fez esses exames? — Igor questionou sua irmã, ainda fitando os papéis em sua mão. — Semana passada. Peguei os exames agora de manhã — Ingrid respondia cabisbaixa. — Me deixe analisar sua coxa. Levante o vestido — Igor pediu, aproximando-se dela. Ingrid obedientemente levantou seu vestido, revelando suas coxas. Ela pegou uma das mãos do seu irmão e levou até a sua coxa direita, fazendo-o apalpar para sentir o nódulo. — Quando percebeu esse nódulo? — perguntou, olhando-a preocupado ao mesmo tempo em que apalpava a região, onde se encontrava o nódulo. — Há umas duas semanas, quando lesionei no treino de musculação. Senti um pequeno nódulo e procurei o doutor Petrúcio — Ingrid soluçou baixinho, evitando derramar mais lágrimas. — Por que não falou comigo ou com a mamãe antes de procurar um clínico geral? — expressou magoado. — Eu achava que não era nada sério. Apenas uma lesão — ela respondeu. — Um desses exames é de raio-X. Onde está o raio-X para que eu possa analisar melhor? — era perceptível o quanto Igor tentava se manter tranquilo, mas o suor que acumulava em sua testa demonstrava o quanto tentava se controlar. — Está no carro da mamãe, no estacionamento. Peguei o carro dela para ir buscar os exames — Ingrid pronunciou. — Tudo bem. Vamos para o meu consultório. Vou pedir para Pamela cancelar minhas consultas da tarde — ele baixou o vestido dela cobrindo novamente suas pernas. — Depois vou ligar para o Miguel. Se possível, quero ele no primeiro avião dos EUA para Brasil. — Você vai incomodar o nosso primo? — Sim. Além de ser um oncologista de renome, é o único que confio. Venha! Temos muitas coisas para fazer — Igor estendeu sua mão para Ingrid. — Você vem, Ali? — Ingrid sondou-me dengosa. Nesse instante, Igor olhou-me notando-me mais uma vez. Até então, me sentia invisível na sua presença. Queria dizer a Ingrid que sim, que iria com eles. Não sabíamos de nada concreto sobre o nódulo, que tipo de tratamento seria necessário. Ela provavelmente passaria por uma nova bateria de


exames. — Ingrid, Alice está cheia de pacientes para atender. Depois vocês duas conversam — Igor respondeu friamente por mim, fitando a irmã. Vê-lo agir tão gélido comigo, sem nem ao menos saber o motivo, me deixou arrasada. Queria gritar com ele. Exigir uma explicação para estar agindo de forma tão idiota comigo. Mas sabia que não era a ocasião certa. Nesse momento, a saúde da Ingrid vinha em primeiro lugar. — Prometo te visitar à noite — forcei um sorriso para ela. — Ligarei para Danilo e Sarah para irmos todos. — Obrigada por tudo, Ali — Ingrid veio me abraçar. — O Gô é sortudo de tê-la. Até mais tarde então — beijou-me a bochecha e caminhou até a porta. Sorri para ela enquanto abria a porta do meu consultório. Seu semblante ainda estava pesado, os olhos ainda inchados, mas aparentava tranquilidade, preparada para a batalha que enfrentaria. Esperei uma atitude do Igor antes de ir embora. Um beijo. Um te ligo mais tarde. Ou um simples até logo. Mas ao invés disso, ele fitou-me e sem dizer mais nada virou para seguir sua irmã. — Igor! — o chamei no impulso assim que alcançou a porta, o fazendo me encarar. — Está tudo bem conosco? — diminui um pouco nossa distância, na esperança de uma atitude positiva sua. — Desde cedo você está tão indiferente comigo. Eu fiz algo de errado? Ele continuava olhando-me cético, sem dizer uma palavra. Sem expressar um sorriso ou um olhar amoroso. — Mais tarde eu ligo pra você — proferiu segundos depois. — Ligue para Sarah e peça que venha te buscar assim que pegar o seu carro. Provavelmente dormirei na casa da minha mãe. Não quero ficar longe da Ingrid. Então, é melhor você ir para sua casa — sem nem ao menos esperar uma resposta minha saiu fechando a porta. Levei as minhas mãos ao peito, como se dessa maneira protegeria a dor que começava a surgir em meu coração. Um sentimento triste e doloroso emanava de dentro para fora do meu corpo, dilacerando-me. Senti as lágrimas se formando em meus olhos, mas rapidamente espantei para longe esse desejo de chorar. Não era o momento, e principalmente, não tinha feito nada de errado para ser tratada com tanta indiferença. Por mais que doesse ser tratada tão secamente por ele, meu orgulho era muito maior. Verifiquei as horas, a qualquer momento Ana bateria na porta do meu consultório avisando sobre meu próximo paciente. Seria no trabalho que me jogaria para afastar qualquer pensamento sobre o Igor durante o resto do dia. À noite conversaria com meus amigos e, com certeza, eles não me deixariam sozinha. Éramos mais do que amigos. Éramos uma equipe que apoiava um ao outro. Um porto seguro. E eu precisava deles.


— Estamos no estacionamento, Ali — Sarah disse assim que atendi o celular. — Estou saindo — respondi, desligando a chamada, e apressando-me em guardar o material que usei na minha última aula de Pilates da noite. O dia havia sido longo depois que Igor e Ingrid saíram do meu consultório. Enfiei minha cara no trabalho, para esquecer os últimos acontecimentos. Porém a cada segundo livre agarrava meu aparelho celular na esperança de notícias. Queria saber como a dona Elena recebera a notícia sobre a Ingrid e se haviam falado com o primo oncologista. Eles não saíam dos meus pensamentos. Estava preocupada e desejava que não fosse nada sério. No meio da tarde, quando tive uma folguinha de quinze minutos entre um paciente e outro, liguei para Sarah e avisei da mudança de plano em relação ao meu carro, que ela havia ficado de pegar na garagem do prédio que o Igor morava. Contei por cima sobre a Ingrid e pedi que avisasse ao Danilo. Tranquei a sala de Pilates e me despedi da Ana, caminhando em direção à recepção principal da Clínica. Tia Lilian estava lá conversando com as recepcionistas. Cumprimentei rapidamente a todas, e saí o mais rápido para evitar o interrogatório da minha tia. Ela sabia que algo estava acontecendo. Igor tinha cancelado repentinamente suas consultas do período da tarde, e minha cara não escondia o ar de preocupação. Se ela me encostasse em algum lugar, na certa só me soltaria quando lhe contasse tudo. E agora eu não tinha cabeça para explicações. Chegando ao estacionamento franzi a testa estranhando ao ver o carro do Dan e não o meu. Meus dois amigos conversam distraídos dentro carro, sem notar que me aproximava. — Olá, intrusos — chamei a atenção dos dois. Ambos olharam para mim carinhosamente. — Como se sente, linda? — Danilo perguntou, virando para me olhar assim que sentei no banco de trás do seu carro. — Acho que estou bem. Sei lá. Estou meio anestesiada com tudo que está acontecendo — falei sentindo meu corpo exausto. — Você e o Igor discutiram? — Sarah disparou perguntando. Olhei para ela assustada com a sua pergunta. Quando nos falamos à tarde, lembro-me perfeitamente de não ter comentado sobre a indiferença do Igor comigo. Não queria preocupá-la ainda mais. — Falei com a Ingrid há poucos minutos. E ela comentou que o clima entre vocês estava tenso hoje cedo. E que estava estranhando a reação do irmão. Acabei comentando com a Sah para saber se você tinha dito algo além da Ingrid — Dan explicou vendo minha reação. — Reação? Que tipo de reação a Ingrid esperava dele? — inquiri sem entender. — Não entendi direito, Ali. Mas ela esperava que ele a xingasse por ter escondido que tinha ido ao médico. Porém, passou o dia calado — Dan continuou.


— Eu não faço a mínima ideia do que está acontecendo conosco — baixei a cabeça. Contei ao Danilo e a Sarah tudo que aconteceu hoje, da sua mudança de humor repentina e como tinha me ignorado na frente da irmã. — Ele ainda não te ligou? — Sarah indagou curiosa. Neguei balançando a cabeça. — Prometi a Ingrid que te pegaria aqui na Clínica e iríamos visitá-la — Dan se ajustou ao banco do motorista, ligando o carro e saindo do estacionamento, se embrenhando na avenida onde se aglomerava um pequeno congestionamento. — Mas se você não quiser poderemos ir a outro lugar — olhou-me pelo retrovisor. Eu sabia que o Danilo queria visitá-la. Ingrid e ele criaram um vínculo de amizade desde o primeiro instante em que se viram. E tinha a Sarah que também estava preocupada com ela. Seria egoísmo demais da minha parte, colocar as mudanças de humor do Igor acima de problemas mais sérios. — Não. Eu quero vê-la também. Saber o que ela fará a seguir — afirmei. E era verdade. Precisava conversar mais com a Ingrid. Saber se realmente estava bem. Que poderia contar comigo. — Igor que se dane com suas crises existenciais! — É isso aí! — Sarah vibrou. — Mostre para aquele doutor gostoso filho da puta quem é Alice Marie Ventura Schneider. — Você é o nosso orgulho, linda — Dan sorriu. — Só uma pergunta. Sarah, onde está o meu carro? — Relaxa! Já peguei seu carro e deixei com sua mãe — pronunciou lindamente. — Ah! E também falei que você dormiria em casa. O trânsito fluía lentamente. Era por volta das dezenove horas de quinta-feira. O congestionamento dos carros aos poucos diminuía. Pessoas indo para suas casas depois de mais um dia de trabalho. Enquanto isso, minha cabeça martelava de tudo um pouco. Reveria a dona Elena depois daquela vergonha que passei na primeira vez que fui ao apartamento do Igor. Não tínhamos mais nos visto, porém sempre nos falávamos por telefone. Minha vida profissional vinha sendo reconhecida. E além dos médicos da Clínica, vários pacientes passaram a me indicar a seus amigos e parentes como uma excelente profissional em Pilates e RPG. O que estava fazendo minha agenda aumentar gradativamente. Meus pais e meus irmãos estavam felizes com a minha realização profissional. Mesmo com as reclamações do Levi e do papai, em dizer que eu não precisava trabalhar. Só que eles não sabiam o quanto me sentia realizada trabalhando e ajudando, de certa forma, dando esperanças às pessoas. Meu pai estava planejando vir ao Brasil. Ele dizia que estava com muitas saudades dos filhos, e que tentaria ficar um tempo maior dessa vez. Mas eu sabia que sua vinda repentina era devido ao meu namoro com Igor. Para papai, tudo relacionado a mim era novidade e descoberta. Na sua cabeça,


sua filhinha ainda tinha apenas dez anos. Já que quando nos conhecemos tinha acabado de completar dezesseis. Ou seja, era muito nova para me relacionar com um estranho. Mas com certeza sua opinião mudaria se me envolvesse com algum judeu de sua comunidade. Papai nunca interferiria nas minhas escolhas ou nas do meu irmão. No entanto, não negava o desejo dos seus filhos de seguir sua tradição. — Estamos chegando — Dan anunciou. — Ingrid já comunicou ao porteiro, só precisamos nos identificar. O toque do meu telefone desviou minha atenção. Peguei rapidamente na esperança que pudesse ser o Igor, mas para minha decepção era o Valentim. Rejeitei a ligação e guardei o aparelho na bolsa. Cada vez mais ele me pressionava sobre nós dois. Ainda não tinha comentado com ninguém sobre sua insistência em namorar comigo, principalmente ao Danilo que era seu sócio e melhor amigo. Mas já estava no meu limite. Valentim precisava entender o que significava um não. — É o Igor? — Sarah perguntou. — Não. Valentim — respondi, ainda decepcionada por não ser o Igor quem tinha ligado. — Valentim? — Dan inquiriu, enquanto estacionava o carro de frente ao prédio de classe média alta onde a mãe do Igor morava. — Bem que ele me falou que iria te procurar. Aquele problema no joelho dele apareceu novamente, e seu ortopedista pediu que ele fizesse umas sessões de fisioterapia. — Ah! Sei que é antiético, mas não quero ser a fisioterapeuta dele — bradei decepcionada. — Qual o problema, Ali? Valentim e você já não têm mais nada. E você já cuidou do joelho dele na época em que trabalhava na ONG. O que há de errado nisso? — Dan insistiu. — Não quero falar do Valentim agora, Dan. Depois conversamos — falei firme, afirmando que não era a hora ou momento. Danilo analisou meu rosto por alguns segundos. Ele me conhecia perfeitamente, logo perceberia que tinha algo mais para estar evitando o seu amigo. — Certo. Depois conversaremos mesmo — afirmou, ainda me avaliando. — Vamos, quero ver a Ingrid — Sarah se intrometeu, nos puxando para a portaria do prédio. Nos identificamos e o porteiro autorizou nossa entrada, avisando que o apartamento ficava no décimo primeiro andar. Seguimos para o elevador. Internamente estava em uma luta de emoções, tinha vindo por causa da Ingrid, porém meu coração era egoísta demais para entender e ansiava em rever o Igor também. Assim que as portas do elevador se abriram no andar, Ingrid nos aguardava linda e cheia de vida do outro lado. Quem não soubesse jamais diria que ela tinha um tipo de tumor na coxa. Fiquei muito feliz em vê-la agir assim, positividade era tudo. — Que bom que vieram — Ingrid expressou abraçando nós três de uma só vez.


— Jamais deixaria minha nova parceira de lado — Dan disse beijando sua testa. — Venham, entrem. Mamãe está no quarto dela, falando há horas ao telefone com a parentada. Toda a família Salazar está sendo informada do meu tumor misterioso, mas pediu que ficassem à vontade — Ingrid explicou a contragosto. O apartamento era espaçoso, bem decorado e claro. Tinha um ar de aconchego e paz. As paredes eram todas brancas do teto ao chão. Toda decoração, do sofá à cortina, combinavam em tons pastéis, branco e dourado associando requinte e modernidade. — Como você está? — Sarah perguntou à Ingrid assim que nos acomodamos no sofá macio. — De manhã fiquei maluca quando peguei os exames. Corri para Clínica para chorar nos braços do meu irmão, mas fui direto para os da Ali — ela sorriu. — Agora, eu não sei o que sinto. É estranho! Estou mais preocupada com minha mãe e meu irmão. Eles estão tentando não demonstrar preocupação, mas sei que internamente estão desesperados. — E o seu primo? — interroguei curiosa. — Gô falou com ele por horas no telefone. Depois enviou meus exames por e-mail, para o Miguel ter uma ideia do tipo de tumor que surgiu. — Ele virá para o Brasil? — Dan interrompeu. — Sim. Ele estava de viagem marcada para África, porém cancelará e embarcará o mais rápido para cá — deu de ombros. — Miguel é muito ligado a mim, e ao Igor, principalmente. Ele poderia estar em Marte, mas largaria tudo e viria, assim como o Gô faria por ele. Depois de uns vinte minutos conversando. Nem dona Elena, nem o Igor apareceram na sala. Ingrid tinha dito que sua mãe estava ocupada ao telefone, comunicando o seu problema a família. Com certeza, deveria ser uma família unida para ela estar mobilizando-os. Já o Igor, eu não fazia ideia se ele se encontrava aqui. Ou se haveria saído para resolver algo mais primordial. — Ali, se está pensando no meu irmão, ele está em seu antigo quarto — Ingrid proferiu como se tivesse lido meus pensamentos. — Por que não vai até lá? É a quarta porta à esquerda no final do corredor. — É melhor não. Ele pode estar ocupado e só atrapalharia — menti para todos. Minha vontade era de vê-lo. E muito. — Ah! Me engana que eu acredito! Tá na cara dos dois que aconteceu algo. Igor está todo borococho e caladão desde que saímos da Clínica — Ingrid queixou-se. — Vai lá, boba! Tenho certeza que ficará mais animado. Olhei para os meus amigos implorando por uma confirmação. E ambos sorriram, me incentivando. Beijei o rosto dos três e marchei firme, mas com o coração quase saltitando pela boca de tão nervosa. Parei em frente à porta e respirei fundo orando baixinho para que tudo desse certo. Bati levemente e o escutei quando pronunciou que entrasse. Será que ele sabia que era eu? Provavelmente, não.


Devagarinho abri a porta e o encontrei deitado em uma cama box de casal apenas de calça jeans. Quando me viu, sentou rapidamente na cama encostando-se a parede. — Oi — murmurei. — Oi — respondeu. Seu rosto estava mais relaxado com o olhar menos frio. — Posso entrar? — perguntei receosa. — Sim. Entrei fechando a porta, mas me mantive parada próxima a ela. Esperando uma atitude gentil do Igor. Ele apenas me fitava, deixando-me ainda mais nervosa. — Como você está? — perguntei quebrando o silêncio. — Uma merda! — Imagino — mordi os lábios, me segurando para não bater o pé insistentemente, em sinal de nervosismo. Tinha esse hábito ridículo. — Comeu alguma coisa? — Vem aqui — estendeu a mão para mim. Queria ter sido mais fria e forte com ele, perguntado e insistido em saber o motivo da sua indiferença, mas meu corpo e coração eram traidores o suficiente para agir dessa forma. Eu almejava sentir sua pele quente junto à minha. Sem titubear, avancei em sua direção. Assim que nossas mãos se encontraram, Igor me puxou para seus braços segurando-me firme e buscando meus lábios, beijandome calorosamente. Gemi quando sua língua invadiu a minha boca, massageando a minha, como uma dança erótica. Ele me prendia fortemente em seus braços. Senti seu membro endurecendo e me esfreguei ainda mais nele desejando que me penetrasse. Porém não era a hora certa. — Igor, precisamos conversar — falei, soltando seus lábios e ofegando. — Por que agiu daquela forma comigo hoje pela manhã? — Porque sou um imbecil — respondeu mordiscando meu pescoço e inalando. — Eu sei que é! Mas é sério, o que aconteceu? — soltei-me dos seus braços, sentando no meio das suas pernas. — Descobri que morro de ciúmes de você. Imaginar outro homem te tocando me deu um desespero. Quero você só pra mim, Alice! Não quero dividir você com ninguém — pegou meu rosto, fazendo com que o olhasse nos seus olhos. — Descobrir esse ciúme, me assustou bastante. Não soube como agir. Me desculpe. — Você vai me contar o que aconteceu? — insisti. Estava sorrindo por dentro em saber que ele me desejava tanto quanto eu, mas não poderia deixar passar, ou ele sempre agiria dessa maneira. — Sim... Vou. Fiz algo errado. Mas peço, por favor, para conversarmos em outra hora. Minha cabeça está a mil com a doença da Ingrid — puxou-me novamente para seus braços. — Estou com medo, Alice. Estou com muito medo do que virá pela frente. Não sei se conseguirei suportar ver


minha irmã sofrer — apertava-me em seus braços como apoio. — Não conheço ao certo o tipo de tumor que ela tem. Mandei os exames para o Miguel, não dá pra afirmar nada, e ela precisará fazer outros exames, ser examinada. Seu corpo tremia. Era a primeira vez que o via tão fragilizado e impotente. — Calma! Vai dar tudo certo! A Ingrid é forte e determinada — tentei tranquilizá-lo. Não poderia o deixar perder a fé. — Senti tanto a sua falta, Diabinha — pronunciou gentilmente dedilhando seus dedos pelo meu rosto. — Estou completamente viciado em você. — Eu também senti muito a sua falta. Muita mesmo — queria poder acrescentar que estava perdidamente apaixonada por ele, mas ainda não era o momento. — Quero fazer amor com você. Agora! — Hum! Isso é muito bom. Mas... — levantei de supetão, fazendo-o olhar-me sem entender nada. - Primeiro, preciso trancar a porta do quarto — sorri atrevida. — É uma boa ideia, Diabinha. — Será que não pega mal transarmos? — questionei duvidosa logo que tranquei a porta e sentei na beirada da cama. Ao ver suas feições cansadas e as evidências que o dia realmente foi exaustivo para cada um de nós, eu só queria deitar e dormir em seus braços, mais do que isso eu queria consolá-lo, pois seus olhos mostravam um medo e uma tristeza enormes. Igor encostou sua cabeça em meu colo, e passei a alisar seus cabelos sedosos, nossos olhares sempre presos um no outro. — Isso é tão bom. Há tempos não recebia um carinho assim. Como um cafuné — sorri carinhosamente e me inclinei para beijar a ponta do seu nariz. Com o passar dos minutos me perdi em meus pensamentos. Pensei na Ingrid lá fora e como tudo tinha mudado como um passe de mágica. Ela era tão nova para passar por tudo isso. Mas talvez por ser tão extrovertida e feliz com a vida, a sua confiança serviria para ajudar a todos da sua família e seus amigos com a preocupação de um possível e doloroso tratamento. Notei que Igor estava quieto demais e quando voltei a olhá-lo havia adormecido serenamente. Acomodei-o de forma que ficasse mais confortável e não acordasse para que descansasse um pouco. — Estou completamente apaixonada por você, doutor Devasso — sussurrei quando tive certeza de que ele não escutaria. Poderia ficar velando seu sono, mas achei melhor retornar para sala e ficar mais um pouco com a Ingrid. Quem sabe dona Elena já não estaria lá. Levantei-me da cama e saí do quarto fechando a porta silenciosamente pedindo a Deus que lhe


desse um bom descanso e um sono tranquilo.


Capítulo 14 Prevendo turbulências

Igor “Estou completamente apaixonada por você, doutor Devasso.“ Essa frase não saía da minha mente desde ontem à noite. Ouvir Alice sussurrar deliciosamente cada palavra enquanto acariciava meu rosto achando que eu dormia profundamente trouxe-me uma mistura de aconchego e desespero. Eu a desejava tanto. Alice conseguia tirar de mim sensações que até então desconhecia. E isso me causava um enorme desespero. Sentia-me como se estivesse pisando em ovos a cada segundo que estava com ela. Não por achar Alice frágil, pelo contrário, ela era forte e determinada. Mas algo dentro de mim havia mudado, e muitas vezes me deixava confuso desde que a Diabinha passou a ser minha namorada. Quando estávamos juntos tudo parecia correto, prazeroso e acolhedor. Era como se eu tivesse encontrado algo que faltava para completar a minha vida. Isso! Completa. Seria a resposta que daria se me pedissem para definir Alice em uma só palavra. Ao mesmo tempo um desespero se alastrava dentro de mim. Nunca havia passado tanto tempo com uma mulher. Tudo antes de Alice para mim era casual. Transava várias vezes com as mesmas mulheres por um determinado tempo, mas sempre eram em momentos casuais, sem explicações, sem cobranças ou sem comprometimentos. Já com a Minha Diabinha desde o início eu queria mais do que um sexo sem compromisso. E ouvi-la sussurrar baixinho que me amava, mexeu comigo. E muito. Não fazia a mínima ideia de como a olharia de agora em diante. Tinha a sensação de que a qualquer momento iria machucá-la. E isso me deixava meio que impotente. Sem ação. Porém ao mesmo tempo queria beijá-la e fazê-la feliz. Sempre fui uma pessoa que soube trabalhar o meu controle emocional, até porque isso era uma peça-chave para a minha profissão. Sempre cauteloso e de raciocínio rápido, porém sem ansiedade ou estresse, passando firmeza e segurança para meus pacientes e familiares. No entanto, ontem me deparei com duas situações extremamente diferentes, mas que me provaram que qualquer ser humano é frágil e inapto. A vida às vezes nos dá uma rasteira para mostrar que não somos invencíveis. E, quando isso acontece, mexe direto no seu alicerce, no seu ponto fraco, fragilizando a sua base completamente.


Descobrir que sinto ciúmes de uma mulher, me deixou meio perturbado momentaneamente. E até entender esse sentimento, agi de forma estúpida. Fui frio e indiferente com Alice de propósito, querendo que ela sentisse o que eu estava sentindo. Sim. Fui um completo idiota, confesso, mas ao mesmo tempo descobri a doença da minha irmã, algo ainda mais inesperado. Isso cegou-me completamente de preocupação, querendo apenas cuidar da Ingrid, o que culminou para que destratasse ainda mais a Diabinha, magoando-a totalmente. Ontem realmente tinha sido um dia estressante e muito preocupante. Fingir tranquilidade sobre o problema da minha irmã na frente da minha mãe tinha sido uma das tarefas mais difíceis de toda a minha vida. Por dentro estava em pânico com o descobrimento do tumor. Eu tinha uma leve ideia de que tipo de nódulo era. Passei praticamente a tarde toda pendurado ao celular com meu primo Miguel, que é um excelente oncologista, explicando e enviando por e-mail todos os exames que a Ingrid tinha feito para que analisasse e tentasse me explicar o que deveria fazer a seguir. Era incrível como situações como essa da Ingrid, faziam de mim um total ignorante em relação ao problema. Via-me aturdido. Agora entendia, perfeitamente, como era estar do outro lado. Do lado do paciente e da família, que queria apenas uma resposta 100% convicta do médico de que tudo ficaria bem. Porém Miguel se mantinha calado e passivo. Tinha certeza que ele já sabia qual tipo de câncer se tratava, mas como médico, eu sabia que só diria algo quando tivesse absoluta certeza. E isso acabava comigo. Miguel como esperado se mostrou cauteloso, preocupado e atencioso a tudo que eu falava. Conversou com Ingrid, perguntando como e quando ela sentiu o nódulo em sua coxa. E antes mesmo que o implorasse que largasse tudo temporariamente nos EUA e viesse para o Brasil, ele mesmo se prontificou. Éramos mais que primos, éramos irmãos. Crescemos e estudamos juntos, praticamente a vida inteira. Ele era filho único do meu tio Bento Salazar, irmão mais velho do meu pai. E era louco pela Ingrid desde bebê. Sempre a protegeu. Eu sabia que Miguel jamais a abandonaria. — Bom dia, mãe! — falei entrando na sua cozinha e beijando seu rosto. — Bom dia, querido — respondeu forçando um sorriso. Seu rosto estava abatido, e mesmo por debaixo da maquiagem leve, aparentava que havia chorado bastante durante a noite. — Dormiu bem? — perguntou tentando disfarçar, sabendo que eu a analisava. — Sim, dormi — menti. Havia dormido muito pouco. Não parava de pensar nas palavras de Alice e no problema da Ingrid. — A Ingrid já está pronta? — Está se trocando. — É bom apressá-la. Não quero chegar atrasado a Clínica — conhecia muito bem a dona Ingrid quando se tratava de escolher uma roupa. Meu primo havia solicitado que Ingrid fizesse uma ressonância magnética para avaliar melhor o tumor. Ontem mesmo havia marcado o exame com urgência para hoje em uma clínica especializada em diagnóstico por imagem que tem parceria com a Clínica, onde eu trabalho.


— Calma, filho! — disse docemente. — Temos tempo. — Eu quero esse exame pronto antes do Miguel desembarcar — chiei. — E estará filho — pronunciou esperançosa. — E por falar no seu primo, pensei dele ficar aqui. Tem o quarto de hóspedes e ele ficará de olho na sua irmã. O que acha? — Sempre que ele vem ao Brasil fica no meu apartamento — lembrei-a. — Não se preocupe é o Miguel, mãe. Ele é praticamente meu irmão. Não precisa fazer cerimônia. — Eu sei, meu querido. Tenho o seu primo como um filho. Mas pensei, já que a Alice dorme no seu apartamento alguns dias da semana. Será que ela ficará a vontade com seu primo no quarto ao lado? — questionou. Pensando dessa forma, mamãe estava certa. A Diabinha do jeito que ficou traumatizada desde o episódio do sofá, poderia evitar ir dormir no meu apartamento, ou até dormiria, mas com certeza seria privado dos seus gemidos enquanto gozava. Eu não queria isso de forma alguma. — Quando o Miguel chegar eu vejo com ele — respondi ainda pensativo. — Veja, mas seria ideal ele perto da Ingrid. Além do mais, quando a Alice dormisse na casa dela você dormiria aqui e faria companhia ao seu primo. E eu teria você mais tempo pertinho de mim — sorriu gentilmente. Se dependesse da minha mãe, eu ainda estaria morando aqui com ela e Ingrid. Mesmo depois de anos, ela nunca se desfez do meu quarto. E sempre que vinha visitá-la, insistia para que eu dormisse com a desculpa que estava tarde e era bastante perigoso. Mesmo eu morando a poucos quilômetros. — Verei o que eu posso fazer — proferi achando graça da forma que sugeria a ideia. — Bom dia, família mais linda do mundo! — Ingrid apareceu na cozinha sorridente. Mas também, assim como minha mãe, disfarçava por debaixo da maquiagem que havia chorado. — Está atrasada. Temos que chegar a clínica de ressonância meia hora antes do horário marcado. Fora que ainda tem o trânsito que sempre atrapalha — resmunguei enquanto ela beijava nossa mãe no rosto. — Também te amo, Gô — proferiu cinicamente, soltando beijinho para mim. Mesmo com toda a preocupação, estava feliz como a Ingrid vinha reagindo. Claro que ela estava apavorada, mas procurava manter-se firme. — Venha, filha. Tome seu café — mamãe a chamou. — E você também filho, sente-se. Nada na pressa dá certo. Sentamos os três à mesa e por um momento relaxei e curti a minha pequena, mas preciosa família. Não falamos propriamente do tumor, mas mamãe comentou que conversou com nossos tios e primos tanto por parte de mãe, como por parte de pai. E todos ficaram sensibilizados e dispostos a ajudar no que fosse preciso. A única que ainda não tinha sido informada era a nossa avó paterna, a


matriarca dos Salazar, dona Elza. Ela era a única avó que Ingrid e eu tínhamos ainda viva. Os meus avôs maternos e meu avô paterno já haviam falecido há anos. Vovó Elza mora numa fazenda no interior, a 80 km da capital. Vive a maior parte do seu dia sentada em uma cadeira de rodas devido à osteoporose. Aos 92 anos, é lúcida e sua palavra sempre é uma ordem. E ai daquele que não obedecer. Miguel e eu cansamos de ficar de castigo quando crianças por desobedecê-la. E por mais que achássemos melhor não contá-la sobre o problema da Ingrid, vovó sempre foi intuitiva o bastante para saber quando algo ruim acontecia. E omitir um caso desses seria considerado uma ofensa para ela. — Como amanhã é sábado, pensei em irmos a fazenda conversar com a Vovó Elza — Ingrid proferiu. — Saímos daqui amanhã cedinho e podemos voltar no domingo depois do almoço. — Vai depender do que o Miguel dirá. Só assim iremos visitar vovó Elza — expressei sério. Isso não era hora para lazer. Com certeza, depois desse exame Miguel solicitaria uma biópsia para uma avaliação patológica. E isso requer tempo. Depois tiraríamos um dia só para visitar a vovó Elza. — Igor, você acha que eu sou idiota? — bradou chateada. — Passei a noite inteira pesquisando sobre tumores na região da coxa. Pelas características e sintomas que eu vi, é um tipo de câncer que atingiu o tecido conjuntivo, conhecido como sarcoma. Sim. Era Sarcoma. Desde que apalpei sua coxa no consultório da Alice, e pelas características, imaginei que seria esse tipo de câncer. E por mais que Miguel não afirmasse, ele também sabia que era. Agora só faltava descobrir que tipo de sarcoma Ingrid possuía. Se era benigno ou maligno. Se só a remoção cirúrgica resolveria ou se precisaria passar por quimioterapia e radioterapia. E toda essa incerteza estava me deixando louco. — Eu irei fazer essa ressonância magnética, hoje. Mas amanhã quero ir ver a vovó Elza. Quero matar a saudade da fazenda — Ingrid pronunciava olhando de mim para mamãe séria. — Na segundafeira, farei tudo que vocês quiserem, serei um anjo de tão comportada que ficarei, mas preciso desse fim de semana pra mim. É só isso que peço. Minha vontade era embalar minha pestinha nos braços e aninhá-la, protegendo-a como fazia quando criança cada vez que tinha pesadelos e corria para o meu quarto de madrugada, assustada. A deitava ao meu lado e a abraçava protegendo-a. — Sim, iremos amanhã para a fazenda — mamãe concordou antes que eu pudesse intervir. As duas olharam para mim aguardando que eu concordasse. E mesmo querendo ficar e começar os tratamentos o quanto antes. Sabia que isso era o início de uma longa caminhada. Forcei um sorriso para duas balançando a cabeça concordando em irmos para a fazenda amanhã. — Obrigada! — minha irmã sorriu sapeca. — Tenho certeza que se você não concordasse o Miguel o faria. Ele também está morrendo de saudades da vovó. — Você poderia convidar a Alice para ir conosco — mamãe exprimiu.


— Isso! Chama a Ali. Ela vai amar conhecer a fazenda e a vovó Elza — Ingrid vibrou. — E você pode transar com ela na cachoeira. É maravilhoso. Foi lá onde perdi minha virgindade. — Ingrid! — mamãe a repreendeu. — Vou fingir que não ouvi esse seu comentário, Pestinha — falei, fechando a cara. A fazenda tinha uma belíssima cachoeira. E por ser um local reservado, era perfeito para namorar. E com certeza seria maravilhoso combinar a paisagem do local com a beleza da Alice. — Irei falar com a Alice — concordei, cortando Ingrid que já abria a boca para dizer algum despautério. — Convida a mãe dela também. O casarão tem bastante quartos e acomodará todos confortavelmente. Além disso, sua avó adora a fazenda cheia de pessoas. Pelo menos não levaremos apenas notícias ruins — finalizou sorrindo tristemente.

Após deixar Ingrid e minha mãe na Clínica que onde ela faria o exame, segui direto para o trabalho. Tinha pedido a Pamela que cancelasse uma parte das minhas consultas, deixando apenas aquelas de pacientes que já vinha acompanhando há certo tempo ou em caso de extrema urgência. Por mais que o problema da Ingrid me afetasse, não poderia parar a minha vida. Existiam pessoas que também dependiam de mim. Passei pela recepção e encontrei Lilian e Pamela. Conversei com as duas explicando o que acontecera ontem que me fez cancelar tudo e sair angustiado. Ambas se mostraram surpresas e condescendentes, se disponibilizando para qualquer apoio que precisasse, deixando-me muito agradecido pela sinceridade das duas. Antes de seguir para meu consultório solicitei a minha assistente que providenciasse um café forte para me ajudar numa pequena enxaqueca. Adorava meu consultório, era amplo e arejado. Tinha gastado uma fortuna comprando aparelhos modernos e especializados em ginecologia e obstetrícia, para que pudesse atender confortavelmente as minhas pacientes. No entanto hoje, sentado em minha poltrona, sentia-me sufocado e ansioso. Devido aos cancelamentos e ajustes de horários atenderia apenas quatro pacientes pela manhã, e a tarde estaria livre, como havia pedido à Pamela que fizesse. Miguel chegaria ao Brasil ao meio dia, e até lá teria tempo suficiente para ir buscá-lo no aeroporto. Peguei meu celular e liguei para Alice. Queria saber se ela já se encontrava na Clínica. Desejava abraçá-la. Ainda estava surpreso com sua declaração, mas como ela achava que eu não havia escutado, decidi que agiria como se nada tivesse acontecido. E nesse momento tudo que eu queria era vê-la. — Alô? — sua voz soou lindamente do outro lado da linha.


Meu coração vibrou pelo simples fato de escutar o doce tom da sua voz. — Achei que você dormiria comigo. Acordei sentindo sua falta — pronunciei. De certa forma era verdade. Por mais que tivesse dormido mal devido às preocupações, senti muita falta do corpo quente e delicioso da Minha Diabinha ao meu lado. — Você estava tão cansado. Adormeceu rapidamente. Achei melhor deixá-lo descansando — respondeu gentilmente. — Não queria incomodar. — Você nunca me incomoda. — Mas estava receosa, devido a tudo que aconteceu ontem, e também você estava na casa da sua mãe. Não sei se ficaria legal dormir lá sem ser convidada — proferiu sem graça. — Tudo bem. Eu sei que fui um estúpido com você — afirmei. — Está ocupada? — Estou tomando café. Terminei a poucos minutos de atender um paciente e parei para comer algo antes de começar a atender o próximo. Olhei para relógio e vi que ainda tinha dez minutos antes que Pamela encaminhasse a minha primeira paciente ao consultório. Levantei de repente saindo e marchando firme até a ala onde Alice trabalhava. — Estou a caminho — avisei desligando sem esperar sua resposta. Cumprimentei rapidamente Ana que se encontrava na recepção da Ala de fisioterapia conversando com um paciente. Indo direto para seu consultório. Assim que abri a porta encontrei Alice sentada em sua mesa tomando seu café da manhã. — Você está linda! — soltei de imediato assim que seus olhos encontraram os meus. E realmente ela estava deslumbrante. O cabelo preso em um coque alto, deixando à mostra seu pescoço alongado. Meu pau vibrava só na expectativa dos meus lábios mordiscarem seu pescoço. Sem esperar qualquer reação dela, imediatamente fui em sua direção e a puxei para os meus braços, juntando nossos corpos e atacando seus lábios ferozmente. Trazendo-me o conforto e tranquilidade que almejava desde ontem. Alice era como uma planta com o poder de me acalmar. Perto dela meus pensamentos fluíam e me sentia completamente relaxado. — Hum! Retificando. Você está linda e gostosa demais essa manhã — sussurrei mordiscando seus lábios. — O que você fez para me deixar totalmente enfeitiçado? Alice se aninhava ainda mais ao meu corpo. Percorri, beijando e chupando levemente, da sua orelha, passeando pelo seu pescoço, até mordiscar seu queixo. — Estou com saudades dos seus gemidos enquanto fazemos amor, Diabinha ​— expressei, esfregando meu membro entre as suas pernas. — Parece que faz séculos que não transamos — proferi pegando a sua mão e levando até o meu pau sorrindo maliciosamente. — Não. Não. Não. Doutor Devasso. Tenho um paciente em exatamente cinco minutos — disse


verificando a hora no seu relógio de pulso. — Então, aconselho explicar ao seu pau delicioso que, por enquanto, não poderei satisfazê-lo. Fingi estar magoado e sentei em sua poltrona, puxando-a para o meu colo na tentativa de admirá-la, enquanto terminava seu café da manhã. — Posso ficar aqui apreciando a vista enquanto se alimenta? — perguntei fazendo cara de pidão. Alice observou a forma como a mantinha presa em meu colo e deu de ombros. — Se eu disser que não, você iria embora? — Provavelmente, não — tracei beijos pelo seu pescoço deixando-a excitada. — Adoro quando prende o cabelo assim. — Igor, assim não vale — gemeu baixinho, reagindo aos meus beijos. De repente, lembrei-me de comentar sobre a fazenda e convidá-la. — Alice, amanhã Ingrid quer ir para a fazenda visitar a nossa avó. Queria muito que você fosse conosco — avisei já convidando-a. — Sem contar que minha mãe faz questão da sua presença e também de dona Laura. — Uma fazenda? Não sabia que sua avó morava em uma fazenda. — Sim. É um lugar lindo. Passei a minha infância praticamente lá. Tenho certeza que você irá adorar. Percebendo meu entusiasmo, Alice parou por alguns segundos analisando silenciosamente. — Será legal — falou sem hesitar. — Preciso respirar um pouco do ar puro da natureza. — Sim. Lá o ar é totalmente puro. E podemos namorar bastante no meio da natureza — mordisquei o lóbulo de sua orelha. — Tarado! — acusou-me. — Por você? Totalmente. — Preciso ligar para minha mãe para saber se ela já não tem planos para esse final de semana. — Tudo bem. Confirma com ela e me diz. Iremos em dois carros, já que o Miguel estará conosco. Alice limpou o rastro do suco de laranja que escorreu no cantinho de sua boca. Deixando-me ainda mais excitado, louco para morder forte os seus lábios rosados. — Ingrid falou que ele chega hoje à tarde. — Sim. Seu voo está previsto para chegar ao meio dia — disse. — Você pode, por gentileza, parar de esfregar sua bundinha gostosa no meu pau? — proferi na mesma hora que se inclinou para


pegar um recipiente e guardá-lo em sua mochila que estava em cima da mesa. Ela parou onde estava e olhou para trás só para foder mais ainda meu juízo e, deliberadamente rebolou em cima de mim. — Me desculpa, Dr. Igor. Não foi minha intenção — pronunciou maliciosa tentando segurar o riso. — Ah, Diabinha! A sua sorte é que a qualquer momento Ana anunciará a chegada do seu próximo paciente — repreendi ajustando-a em meu colo. — Senão faríamos nessa sala um concerto só com seus gemidos. E seria em cima dessa mesa. Nesse momento o telefone tocou e Alice atendeu. Como esperado, era a Ana avisando do seu próximo paciente. Fiquei triste por ter que deixá-la. Mas também teria que atender as minhas quatro pacientes. Rapidamente avisei que só teria paciente pela manhã e que depois iria buscar Miguel no aeroporto e passaria a tarde com ele, Ingrid e minha mãe. Combinei que viria no final da tarde para pegá-la e iríamos para sua casa para organizar sua bolsa e viajarmos para a fazenda. Despedi-me beijando-a carinhosamente e prometendo que conversaríamos logo mais a noite sobre minha crise de ciúmes. Sabia que ela ficaria chateada por fuçar suas coisas, mas era o certo a fazer. Quando passei pela recepção da Ala de fisioterapia Ana sorria alegremente, pois sabia que tinha atrapalhado. — Sua estraga prazeres! Da próxima vez puxo o telefone da tomada — brinquei. — Custava nada você segurar o paciente só mais um pouquinho — Ana começou a rir me desafiando. — Caraca! Não sabia que você tinha mudado de emprego. De ginecologista passou a ser caçador de fisioterapeuta no horário do expediente? — zombou. — O que aconteceu com vocês mulheres que ficaram tão atrevidas com o passar dos tempos, hein? Antes que pudesse me responder o telefone da recepção tocou. Gesticulei um “bom dia” e caminhei para o meu consultório. A manhã passou rápida, e antes de sair para o aeroporto, liguei para Alice para avisar que já estava indo embora. No entanto, a chamada caiu na caixa postal. Liguei para Ana, e fiquei sabendo que Minha Diaba acabara de começar a atender outro paciente. Resolvi enviar uma mensagem de texto avisando. Indo para o aeroporto. Te vejo logo mais. A propósito. Minhas bolas, como sempre, estão roxas. Posso ter esperança à noite? Seu Devasso. Peguei um trânsito intenso, mas consegui chegar a tempo ao portão de desembarque. De cara avistei meu primo Miguel.


Como um autêntico Salazar, Miguel possuía todos os traços da família. Alto, olhos claros, cabelo loiro escuro. Não que eu apreciasse a beleza de um homem, mas meu primo era um homem que chamava a atenção da mulherada. Depois de mim, é claro. — Cara, você está horrível. A terra do Tio Sam não está te fazendo bem? — me aproximei brincando. — Também estava com saudades, Sedutor — disse debochando. Nos abraçamos fortemente. Abraço de um primo que era praticamente um irmão e há tempos não o via. Depois caminhamos e fomos conversando de tudo um pouco até chegar ao problema da Ingrid. Falei sobre a ressonância, e que estávamos a caminho para pegar o exame. Miguel afirmou que era um Sarcoma o tipo de nódulo que surgiu na minha irmã. Desconfiava até do tipo de Sarcoma, mas por enquanto não afirmaria nada até que visse o resultado da ressonância e avaliasse Ingrid. Ao chegar à clínica onde a Ingrid havia realizado o exame, Miguel coincidentemente descobriu que o médico que tinha auxiliado minha irmã na ressonância era um amigo de faculdade. Para meu desespero o resultado ainda não tinha saído, pois, mais cedo tinha ocorrido uma pane no sistema, e a equipe de TI estava correndo contra o tempo para solucionar. O médico amigo do Miguel prometeu que ainda hoje o resultado ficaria pronto. E pegou o número do meu celular para me ligar. Já passavam das catorze horas, quando seguíamos para o apartamento da minha mãe. Meu celular começou a tocar, verifiquei e vi que era Pamela, minha assistente. Parei no acostamento e atendi. Infelizmente uma das minhas pacientes estava sofrendo um aborto e estava na Clínica esperando por mim. Sem pensar duas vezes, fiz um retorno na avenida, para voltar e segui direto para a Clínica. Miguel não se importou, afinal também era médico, sabe que esses contratempos são comuns, e decidiu ir comigo. Ele queria rever Gabriel e Luís.

Infelizmente minha paciente perdera o bebê. Situações como essa me deixavam completamente exausto de todas as formas. Ela não era a minha primeira paciente que abortava, no entanto, nunca sabia o que dizer nesse momento para uma mulher que almejava tanto um filho. Já havia escurecido, e era pouco antes da dezessete horas, quando o amigo do Miguel me ligou avisando que os exames da Ingrid estavam prontos. Como não podia sair naquele momento, Miguel decidiu ir buscar o exame e marcamos de nos encontrar no apartamento da minha mãe. Ofereci meu carro para ele levar, mas Gabriel se ofereceu para ir com ele. Depois que minha paciente, ainda muito abalada, foi embora, passei na recepção e verifiquei minha agenda para a segunda-feira, com Pamela. Perguntei se Alice estava com a tia na administração, e fui informado que ela ainda estava atendendo. Na hora estranhei, pois ela tinha me dito que seu último paciente seria no final da tarde. Agradeci à minha assistente e segui para a Ala de fisioterapia. Ficaria com Ana conversando e aguardando Alice terminar de atender seu último


paciente. Antes mesmo de chegar à ala avistei Alice conversando com um homem alto no corredor. Eles pareciam que já se conheciam. Sorrateiramente me aproximei para ouvir a conversa. Não sei o que me deu, mas algo me deixou alerta. Parei no corredor adjacente, eles não me viam, principalmente Alice que estava de costas. Meu corpo gelou e minhas mãos se fecharam em punhos ao ouvir Minha Diabinha pronunciar o nome Valentim. — Valentim, tenho conhecimento do seu problema, mas... Sem ao menos eles esperarem me aproximei cortando a conversa. Puxando Alice pela cintura para meus braços, assustando-a. Mostrando para aquele filho da puta que quem cantava naquele terreiro era eu. — Atrapalho? — fuzilei o moreno queixudo.


Capítulo 15 Acontecimentos e expectativas

Alice Minha última paciente do dia atrasou, chegando meia hora depois do horário marcado. Dona Renata, uma senhora de 55 anos, alegre e cheia de vida, porém sofria horrores por causa da fibromialgia, e como dependia de outras pessoas para trazê-la à Clínica, fiz questão de atendê-la. Liguei para a recepção para pedir que avisassem ao Igor assim que chegasse que iria me atrasar para o horário combinado. Fiquei surpresa ao saber por Pamela que ele já se estava há algumas horas na Clínica devido a uma emergência. Momentaneamente fiquei curiosa se tudo havia corrido tranquilamente com a chegada do seu primo e o resultado da ressonância magnética da Ingrid. Mas sabia que independentemente de qualquer situação, Igor faria questão de cuidar e assistir as suas pacientes até ter certeza de que estariam bem. Fiz uma sessão de eletroterapia com a dona Renata de quarenta minutos para ajudar a reduzir a dor nos pontos dolorosos da fibromialgia, e também para melhorar a circulação nos locais. Estávamos nos tornando amigas, já que era uma das minhas pacientes que mais atendia durante a semana, em média quatro vezes, entre pilates, alongamento, massagem, eletroterapia e, muito em breve, hidroterapia, logo que a piscina aquecida estivesse pronta. Como esperado, a sessão tinha sido animada e muito proveitosa para nós duas. Acompanhei dona Renata até a recepção da ala que trabalhava para que pudesse marcar suas sessões da próxima semana. Aguardei enquanto Ana anotava seus horários, e depois me despedi da minha paciente recebendo um abraço carinhoso e agradecido. — Nossa! Estou exausta — expressei para Ana. — Preciso de um banho bem quente para relaxar. — Somos duas — Ana concordou. — Nem acredito que hoje é sexta-feira. Mas acho, Alice, que ainda teremos que esperar mais alguns minutos — falou sem graça. Olhei sem entender o que ela havia me dito. — Há poucos instantes chegou um homem, diga-se de passagem, lindo e gostoso — sorriu envergonhada, me fazendo rir também. — É sério! Ele tem um pequeno furinho no queixo sexy, que dá vontade de morder e é alto. Bem alto — suspirou. — Ali, sou casada, mas não custa nada apreciar


uma boa paisagem quando aparece do nada na sua frente. — Uau! E onde está esse cara do furinho sexy? — perguntei ainda rindo dos seus devaneios. — Chegou procurando por você — explicou. — Disse que tinha sido seu paciente há um tempo e que precisava falar com você. No mesmo instante pensei no Valentim. Pela descrição da Ana só podia ser ele. Desde que me formei, trabalhei apenas nas ONGS e na maioria das vezes tratei de idosos e crianças. Valentim foi o único paciente que tive no passado com um pequeno furinho sexy no queixo, que por sinal já havia adorado mordiscar. Na época só aceitei tratá-lo por ser um dos benfeitores de uma das ONGS que trabalhava, e também por estar encantada por ele. Um calafrio percorreu meu corpo eriçando meus pelos dos braços. — Onde está esse homem, Ana? — perguntei olhando em volta à procura dele. — Ele foi até a lanchonete, mas falou que não demoraria. Saí da recepção a caminho da lanchonete. Segundo o Danilo, Valentim estava novamente com dores no joelho, mas sabia que estava usando o seu problema com intuito de se aproximar de mim. Desde que me viu com Igor, na frente do meu apartamento há mais de dois meses, Valentim tentou se aproximar novamente, com uma conversa de querer um relacionamento sério. Que eu era a mulher que ele sempre desejou para construir uma família. E até esse momento havia sido bastante inconveniente. Na maioria das vezes eram telefonemas e mensagens que me enviava. Também o vi várias vezes me esperando no portão de entrada do condomínio em que morava, mas nunca tentou se aproximar, pois sempre estava acompanhada do Igor ou do meu irmão Levi. Busquei por ele na lanchonete, mas tudo estava tranquilo por lá. Até porque, pelo horário, já não estava mais em funcionamento. Voltando para a minha Ala de trabalho avistei entre os corredores um corpo alto e definido vestido em uma calça jeans justa preta e uma camisa de botões com a manga dobrada até os cotovelos. Mesmo a distância reconheceria o dono daquele corpo. Já havia suspirado e sonhado várias noites por ele, desejando que me assumisse como sua namorada. Como se pressentisse que estava sendo observado, Valentim virou, encontrando-me do outro lado do corredor. Seu olhar era sagaz. Examinando-me dos pés a cabeça como um leão esperando para dar o bote em sua presa. Senti-me totalmente invadida com aquele gesto. Em outra época, com certeza estaria com o coração palpitando eletricamente e o corpo em chamas almejando pelo seu toque. Apressou os passos até o meu encontro sem em nenhum momento desviar seu olhar do meu. — Olá, linda. Sentiu minha falta? — perguntou, com sua voz grossa e sedutora. — Como vai, Valentim? Soube que estava me procurando — tentei soar o mais profissional possível. — Você está cada vez mais encantadora, Ali — aproximou buscando um abraço, mas me afastei automaticamente fazendo-o franzir o cenho em dúvida. — Tudo bem. É seu local de trabalho.


Você continua a mesma. Lembra quando ia te buscar na ONG e sempre que tentava te beijar você dizia que não podíamos, pois era seu local de trabalho? — O que você quer, Valentim? — desviei do seu comentário. Por dentro estava assustada com sua presença marcante tão próxima de mim, mas tentava disfarçar. Percebendo que não queria falar sobre o nosso passado ele mudou de assunto. — Estou com aquele problema novamente no meu joelho. Dessa vez é o joelho esquerdo que estrala e incomoda bastante — disse movimentando a perna para cima para baixo. — Fui ao meu ortopedista e ele me aconselhou a fazer algumas sessões de fisioterapia. E aqui estou — abriu um sorriso sedutor. — Vim em busca da minha fisioterapeuta favorita. Ele sabia que jamais negaria atendimento a um paciente. Até por ser antiético e eu havia feito um juramento de dignidade e honra com o ser humano, na proteção e recuperação da saúde. — Você precisa marcar uma consulta para que eu possa fazer uma avaliação e depois marcamos as sessões. Estou com meus horários lotados — não menti. Realmente meus horários estavam lotados. — Eu pensei que você poderia abrir uma exceção para mim — proferiu malicioso. — Como fazia antigamente. Poderia ser no último horário. Depois eu te levaria para casa. Respirei fundo pedindo paciência para não o confrontar e agir de forma imparcial. Não adiantaria bater de frente com ele. Valentim era totalmente ciente do meu relacionamento com o Igor, mas fingia que tudo estava bem entre nós dois. — Valentim, tenho conhecimento do seu problema, mas… Fui surpreendida com um braço forte me puxando pela cintura firmemente para um corpo rígido e quente. — Atrapalho? — Igor perguntou encarando, sem pestanejar, o Valentim. Mesmo receosa do que poderia acontecer a seguir, meu corpo relaxou por saber que meu homem estava ali. Igor já havia confidenciando que sentiu ciúmes de mim por algo que ele ainda me revelaria, e eu não tinha a mínima ideia de como reagiria quando soubesse que Valentim e eu fomos amantes. — Igor — proferi alvoroçada. Até nesses momentos meu lado destrambelhado não me abandonava. Era capaz que se tentasse correr agora tropeçaria nos meus próprios pés. — Olá, Diabinha — olhou-me intensamente beijando meus lábios. — Vamos? Temos muitas coisas para organizar antes de viajarmos amanhã — falou sendo indiferente à presença do Valentim. Tentando provocá-lo, ou melhor, marcando seu espaço. — Claro, querido — forcei um sorriso. Não estava à vontade com a situação. — Igor, esse é Valentim. Um antigo amigo. Ele veio aqui em busca de tratamento fisioterapêutico para o seu joelho


— soltei tudo de uma vez. Claro que a parte do amigo ficou um pouco pitoresca, mas seria melhor que dizer que fui amante casual do Valentim. — Prazer — Valentim estendeu a mão para apertar a do Igor, fingindo um sorriso simpático, mas seus olhos não escondiam o quanto estava chateado por meu namorado ter atrapalhado a nossa conversa. Igor apenas o encarou sem demonstrar nenhuma reação, muito menos retribuiu o aperto de mão do Valentim. — Bem, linda. Eu preciso ir, mas ligarei marcando a consulta — Valentim encarou mais uma vez o Igor. Depois retornou seu olhar para mim. — Você é a única que sabe como me consertar. Quem manda ter mãos mágicas. Até breve, Ali — Valentim saiu com o ar de satisfação por ter provocado Igor. Igor encarou-o enquanto Valentim partia. Seu corpo estava rígido e tenso. Seu olhar era de fúria. Pressenti que ele tomaria alguma atitude insana, capaz de prejudicá-lo aqui na Clínica. Imediatamente fiquei de frente para ele. — Por favor! Por favor! — supliquei para que não fizesse nada. Não valeria a pena. Igor olhou-me por alguns segundos. Provavelmente estava em uma luta interna consigo mesmo. — Pegue sua bolsa. Vamos embora — cuspiu ainda sério. Seu corpo ainda tenso. — Venha comigo, por favor! — o puxei para que me acompanhasse. Tinha receio que ele fosse atrás do Valentim. — Vem, querido — roguei, puxando-o. Forçadamente Igor acabou cedendo e acompanhou-me até o meu consultório para pegar minha bolsa. Depois que nos despedimos da Ana e Pamela. Igor e eu caminhamos lado a lado pelo estacionamento até o seu carro. Ele permanecia calado e indiferente. Depois que soltou a minha mão na recepção, quando Pamela pediu que assinasse alguns papéis, Igor não fez nenhum movimento para pegá-la novamente. Percebi também que ocupou as mãos, uma com a chave do seu carro e a outra com o seu celular, para que eu não tentasse tocá-las. Ficou o tempo todo perto de mim, porém não disfarçava para ninguém que estava chateado, deixando nossas assistentes embaraçadas. Logo que destravou o alarme do seu carro. Entrei e sentei no banco do passageiro sem esperar que abrisse a porta para mim, como sempre fazia. Esperei que entrasse e se acomodasse no banco do motorista. — Vai me tratar indiferente novamente? Não vai falar nada? — perguntei séria, no minuto que colocou a chave na ignição. — Porque se for para agir feito um imbecil, prefiro ir embora sozinha. — Não quero falar agora — retrucou chateado. — Então, é melhor eu ir sozinha para casa — meu carro estava com mamãe. Chamaria um táxi, mas não voltaria com Igor. — Não preciso ser tratada com tanta frieza.


Virei para abrir a porta do carro e descer, no entanto Igor foi mais rápido do que eu e me puxou para perto dele fechando a porta com força. — Não vou permitir que volte sozinha — pronunciou carrancudo. — Me larga, porra! — xinguei tentando soltar-me dos seus braços. Estava cansada de um dia de trabalho. Não permitiria que ele me tratasse de forma tão grosseira todas as vezes que tivesse uma crise de ciúmes. Compreendo que o que aconteceu foi muito chato, mas era a ele que eu respeitava. Era ele que eu queria. — Que merda, Alice! Para com isso. Eu não vou te deixar aqui sozinha. Está tarde. — Eu prefiro ficar sozinha a ser tratada desse jeito. Você está sendo um idiota, e me magoando com essa grosseria toda, eu não sou uma qualquer, Igor! — rebati com olhos lacrimejando. — Ei! — segurou meu rosto com as duas mãos fitando-me. — Não diga isso! Estou sendo um idiota novamente, né? Diabinha, você é a minha mulher. Minha namorada. — Então me trate como tal — pedi deixando uma lágrima escorrer pelo meu rosto. Fazendo com que Igor a secasse com dedo. — Me desculpe — encostou sua testa junto a minha. — Eu nunca passei por isso, Alice. Nunca tive esse sentimento — acariciou meu rosto. — Estou com muita raiva, mas não é de você. E sim daquele imbecil. Eu queria socar a cara dele pelo seu atrevimento. Estou furioso por isso. Por favor, me perdoe se a magoei novamente. Se você não tivesse me impedido provavelmente teria feito uma grande merda. — Eu só quero que você converse comigo. E não me trate assim — roguei. — Dessa forma nosso namoro nunca dará certo. Eu não quero e nem preciso ser tratada desta maneira. Por mais que o amasse, jamais deixaria que me tratasse com indiferença, principalmente quando não tive culpa. — Claro que não. Nunca. Você está certa, eu sou um imbecil. — Seus olhos estavam mais suaves. — Mas dá próxima vez que aquele queixudo me provocar, não respondo por mim. Tomou meus lábios sugando com intensidade. Suas mãos automaticamente começaram a passear pelo meu corpo, me deixando quente. — Eu quero me perder dentro de você, Diabinha — Sussurrou entre os beijos, puxando meu corpo para cima dele, me fazendo sentir o quão duro estava seu membro. — Ah! Igor — gemi. — Aqui não. Vamos para outro lugar — clamei desejosa por ele, mas sabia que ali no estacionamento não poderíamos. Por mais que os vidros do seu carro fossem escuros. Havia seguranças por perto e eles, com certeza, saberiam o que estávamos aprontando. Igor soltou-me bruscamente, recuperando o fôlego e fazendo com que eu voltasse para o banco do passageiro.


Depois de alguns segundos, Igor ligou o carro e saímos do estacionamento da Clínica. Percebi que ele ultrapassou a avenida que nos levaria para minha casa e estranhei. — Era para você ter entrado na última avenida — comuniquei. — Não vamos agora para sua casa. Vamos primeiro a casa da minha mãe e depois iremos a para sua — explicou olhando-me rapidamente, mas voltando a atenção para rua. — Miguel pegou os exames da Ingrid. Tive uma emergência e não tive como ir pegar. Combinei com meu primo que fosse para a casa da minha mãe com os resultados. — Por que você não me disse? Você fará duas viagens. Indo até sua mãe, depois indo me deixar e depois voltando para seu apartamento. Ficará cansado para pegar a estrada amanhã — queixei-me. Todos nós estávamos ansiosos querendo saber o resultado do exame que a Ingrid tinha feito hoje pela manhã, mas a forma como o Igor planejara as coisas o deixaria muito cansado para viajarmos na manhã seguinte. Eu sabia que estava agindo dessa forma apenas para demonstrar o quanto queria que eu participasse de tudo. Mesmo que não pronunciasse. — Relaxa, Diabinha. Eu não farei duas viagens — proferiu debochado. — Igor, eu preciso ir para casa. Não posso dormir em seu apartamento, ainda não arrumei nada para levar na viagem. — E quem disse que dormiremos em meu apartamento? — questionou parando em um sinal vermelho. — Vou dormir no seu apartamento. Na sua cama e de preferência com meu pau enterrado em sua bocetinha gulosa — piscou o olho, abrindo um sorriso cheio de malícia. Meu corpo praticamente convulsionou em expectativa para tê-lo dentro de mim.

Chegamos ao apartamento da dona Elena, vinte minutos depois que saímos da Clínica. Estava tudo em silêncio, como se não houvesse ninguém em casa. Agora com a mão entrelaçada firme a minha, Igor me guiava pelo corredor que levava aos quartos. — Mãe! — Igor chamou com a voz mais elevada. — No quarto da Ingrid, filho — Dona Elena respondeu. Seguimos até o quarto da Ingrid, e logo que adentramos nos deparamos com dona Elena e Ingrid abraçadas, mãe e filha. Ingrid deitada com a cabeça no colo da mãe abraçando as suas pernas, enquanto dona Elena acariciava carinhosamente as madeixas loiras da filha. Mas o que mais me deixou em alerta sobre o resultado do exame, foi perceber que ambas haviam chorado. Sem pestanejar Igor correu de imediato para as duas, juntando-se ao abraço, consolando-as enquanto elas se debulhavam em mais lágrimas. Permaneci estática, mas muito emocionada, e ainda mais preocupada, observando mãe e filhos vivenciando um momento de união e compaixão.


Notei que alguém me espionava. Virei e encostado próximo à janela, fitando-me atentamente, havia um jovem homem alto, provavelmente da mesma altura do Igor, cabelo louro escuro bem cortado, barba rala, corpo magro, mas com um porte atlético e olhos verdes. Com certeza era Miguel, primo do Igor e da Ingrid. Seria hipocrisia se mentisse sobre sua beleza. Ele era simplesmente lindo e muito atraente. O tipo de cara que faria Sarah e Danilo se estapearem, caso o bonitão desse mole. Ele se aproximou devagar, porém seu andar era bastante familiar, decidido e confiante, assim como o Igor. Será uma característica dos homens da família Salazar? Na certa não perderia a oportunidade de tirar a prova amanhã na fazenda se chegasse a conhecer algum outro membro da família, fosse um tio ou outro primo do Igor e Miguel. — Como vai? Sou Miguel Salazar, primo do Igor e da Ingrid — cumprimentou baixinho. Sua voz era grave e com um pequeno sotaque acentuado. — Olá, sou Alice Schneider, namorada do Igor — rebati o cumprimento da mesma forma que ele. — Namorada? — perguntou espantado, elevando a sobrancelha. — Bem, até cinco minutos atrás eu era a namorada do doutor Igor Salazar — sorri achando engraçado como estava surpreso por eu ser namorada do seu primo. — Nossa! Quantas novidades — comentou. — Vejo que conheceu Miguel — Igor abraçou-me. — Não lhe dê muito cabimento, Alice. Ele morde — disse sério pelo momento em questão, mas com um ar irônico. — O meu primo querido fala isso porque sabe que sou mais charmoso. A concorrência é grande — disse abrindo um meio sorriso de hipnotizar qualquer mulher. Ainda bem que já tinha sido picada por outro Salazar e aquele sorriso sexy não me afetava. — Sabia que sempre compartilhamos tudo desde criança, Alice? — Miguel instigou zombeteiro. — Nem se atreva em continuar a falar merda — Igor bravejou ríspido. — Quero saber do resultado do exame. Era evidente que os primos tinham uma relação de amizade e confiança. No entanto, Igor não perdeu a oportunidade de marcar o território novamente. — O resultado infelizmente era o que imaginei — Miguel soou preocupado. — Qual é o próximo passo? — Igor perguntou sem titubear. — Venha, vamos nos acomodar — Miguel sugeriu. Cumprimentei dona Elena e Ingrid carinhosamente, deixando evidente que independente do resultado estaria ali para ajudar e apoiar. Todos nos acomodamos próximos a elas. — Bem, desde que nos falamos por telefone, suspeitei que fosse Sarcoma, mais precisamente


Lipossarcoma — explicou Miguel. — Os sarcomas são um grupo de tumores que se originam do mesoderma embrionário, estrutura que se forma após a terceira semana de gestação e dá origem a diversos sistemas e tecidos, podendo ocorrer em qualquer parte do corpo, no caso da Ingrid na coxa, mas precisamente em tecidos moles... Ouvi-lo explicar sobre o problema da Ingrid partia meu coração. Ela era tão jovem e cheia de vida. Igor tentava se manter firme ao meu lado a cada explicação do primo, mas eu sabia que por dentro sentia-se impotente. Após a morte do seu pai, ele praticamente cuidou da irmã como um pai. E agora, não dependia dele a saúde dela. — Qual próximo passo, Miguel? — Dona Elena perguntou. — Com a ressonância pude avaliar a deformidade do nódulo. Não sabemos há quanto tempo esse nódulo se desenvolveu em seu corpo. Já que esse tipo de tumor cresce lentamente e de forma indolor. A Ingrid só notou o nódulo rígido na região quando se machucou fazendo exercícios físicos. O próximo passo é analisar se é benigno ou maligno, ou seja, faremos um estadiamento e biópsia. Precisamos verificar que subtipo de lipossarcoma é, para só assim começarmos o tratamento mais adequado. — Podemos colher a biópsia amanhã. Eu posso verificar com o Hospital… — Não! — Ingrid interrompeu o irmão. — Eu quero passar esse fim de semana com a vovó Elza. Não quero pensar em tumor, sarcoma, lipossarcoma o caralho que for — bravejou. — Quero curtir minha vó e minha família. Segunda-feira o Miguel providenciará tudo para começarmos o tratamento. — Mas Ingrid, o quanto antes começar o… — Gô, já disse que não — reafirmou. — Já até liguei para vó Elza e avisei que iríamos. E convidei também o Danilo e a Sarah. Não desmarcarei nada. Um fim de semana não mudará nada dessa porcaria toda, tenho certeza — finalizou. Eu me mantinha calada apenas escutando tudo acontecendo. — Filho, por favor — Dona Elena o fitou tristemente. — Sua irmã sabe que precisa se tratar o quanto antes, mas primeiro deixe-a absorver tudo. E esses dois dias na fazenda ajudará. — Tia Elena está certa, Igor — Miguel interferiu. — Está tudo muito recente. E todos nós da família também precisamos descansar para podermos apoiá-la. Igor encarou-me esperando que dissesse algo. — Você concorda, Alice? Olhei ao redor observando todos que estavam no quarto. Era fato a preocupação no rosto de cada um. Mas também era visível o quanto estavam todos cansados e estressados. — Sim, querido — apertei sua mão firme, acalentando. — Dois dias respirando ar puro e perto da família ajudará a todos.


— Está bem — Igor levantou-se no impulso. — Está tarde e todos nós estamos exaustos. Amanhã cedo estarei aqui para seguirmos para a fazenda. — Gô — Ingrid o chamou dengosa. — Não fique chateado comigo. — Não! — ele foi até ela e a puxou em seus braços beijando sua testa. — Você está certa, precisamos recarregar a bateria para lutarmos com o que vier pela frente. — Eu te amo, Gô — Sussurrou Ingrid. — Eu também, Pestinha. Eu te amo muito. — Rebateu carinhosamente. Nos despedimos de todos e seguimos para a minha casa. Amanhã cedo nos encontraríamos todos novamente na casa da mãe do Igor e partiríamos para a fazenda. Estava tão exausta que tudo que eu mais desejava ao chegar em casa era um banho bem quente e deitar abraçada com o meu homem. Aquele arrepio e desejo por sexo já havia passado depois dos últimos acontecimentos. Igor se manteve tenso e calado todo o caminho até chegar ao meu apartamento. Procurei não interromper seus pensamentos. Queria deixá-lo à vontade. Ele estacionou seu carro ao lado do meu. Desceu do carro e caminhou até a porta do passageiro e a abriu para que eu descesse. Pegou minha mão e a beijou suavemente. Ainda de mão dadas nos deslocamos até o meu apartamento. Mamãe estava sentada no sofá assistindo TV. — Olá, querida — levantou-se, vindo nos cumprimentar. — Como vai, Igor? — Estamos caminhando — ele respondeu. — Mãe, o Igor passará a noite aqui — avisei. Sei que era meio piegas explicar para mãe sobre o meu namorado vir dormir comigo, no entanto essa era sua casa e querendo ou não eu tinha que respeitá-la. — Tudo bem — mamãe concordou. — Já jantaram? — Eu não estou com fome dona Laura. Obrigado — Igor proferiu. — Se sentirmos fome preparo alguma coisa mais tarde, mamãe — avisei. Conversamos rapidamente sobre a viagem de amanhã. Igor se despediu antes e seguiu para o meu quarto. Mamãe e eu ainda ficamos falando sobre o que levar para a fazenda. Ela estava empolgada e ansiosa, e fiquei feliz e agradecida ao Igor e sua família por proporcionar essa alegria a ela. Mesmo com a situação atual. — Ali, falei com sua irmã. Ela pediu que você ligasse para ela. — Depois eu ligo — beijei a testa da minha mãe, me despedindo. — Na certa precisa de mais dinheiro e não estou com saco para ouvir as suas lamentações. Mamãe revirou os olhos sem protestar, no fundo ela sabia que a sua filha caçula só me


procurava quando precisava de algo. — Boa noite, mamãe — falei indo para meu quarto. — Boa noite querida — sorriu gentilmente. — Ah! Seu pai ligou também. E seu irmão esteve aqui. — Obrigada, mamãe. Vou enviar uma mensagem para o Levi e amanhã tentarei falar com o papai — respondi abrindo a porta do meu quarto. Entrei no meu quarto e quase tropeço no tapete ao me deparar com Igor sentado na beirada da minha cama segurando a caixa onde eu guardava Jared Leto, meu vibrador. Droga! Eu tinha escondido. Como ele achou? — O que está fazendo? — perguntei buscando tomar a caixa das suas mãos, mas em vão. — Você vai tomar banho primeiro ou depois de nos sujarmos? — abriu um sorriso debochado prendendo a caixa em seu braço direito. — O quê? — questionei. Senti minha pele esquentar automaticamente, ao me dar conta do que se passava na cabeça do Igor. — Igor — roguei seu nome. Não queria transar e usar o Jared Leto com minha mãe do outro lado da parede. Tinha pensando em um sexo básico só para extravasar. — Você sabe que gemo muito alto e minha mãe pode ouvir. — Ah! Diabinha. Então aconselho você a fechar bem essa boquinha. Porque eu pretendo te fazer gozar bastante — aproximou-se, puxando minha nuca fortemente e mordendo meu lábio inferior com precisão. — E aí? Banho antes ou depois?


Capítulo 16 A matriarca

Alice — E aí? Banho antes ou depois? O olhar quente e intenso de Igor me derrubava de todas as formas. Eu o desejava loucamente. E depois de um dia estressante e tenso, tudo o que eu mais almejava era me perder em seus beijos e abraços. — Hum! — Eu, que já estava em seus braços, mordisquei seu lábio inferior, chupando lentamente. Desci distribuindo beijos pelo seu pescoço, alisando seu peito por cima da camisa. Ele sempre ficava louco quando o provocava dessa forma. — Pensei em escolher o banho primeiro, mas estava cogitando seriamente em deixar para depois. — Ah! Diabinha... — Gemeu deliciosamente. — Você me deixa insano e muito, muito, duro. — Então ele precisa ser aliviado urgentemente — proferi descaradamente. Lentamente comecei a desabotoar sua camisa, sem deixar de beijar e mordiscar seus lábios e pescoço. Igor parecia estático, apreciando o momento. Até a caixinha, onde estava Jared Leto, ele havia esquecido que a sustentava em baixo do seu braço. Vagarosamente retirei a caixinha, e coloquei em cima do criado mudo. Antes que Igor pudesse se pronunciar, ataquei sua boca com desejo, o beijando, e chupando sua língua com força, fazendo com que se esquecesse de tudo. Voltei a passear minhas mãos pelo seu peito, sentindo sua pele se arrepiar por meu toque. — Ali… Você é uma feiticeira — sussurrou. Igor seguiu agarrando e puxando para trás meu cabelo, até ter acesso total ao meu pescoço, onde deslizou seus lábios, beijando e mordendo, igual como tinha feito com ele ainda a pouco, a única diferença seria que amanhã, com certeza, estaria repleta de marcas. Ele sempre as deixava em mim, mordidas, chupões e às vezes uma marca de sua mão no meu bumbum. Igor poderia não assumir, mas inconscientemente era possessivo. E isso de alguma forma me excitava, eu me entregava a ele totalmente. Desvencilhei-me dele e ajoelhei a sua frente. Sem desviar um segundo do seu olhar, abri sua


calça devagarinho, primeiro o botão e depois o zíper, sempre apertando e massageando seu pau, o fazendo gemer bem baixinho. Senti seu membro latejar louco para ser libertado da sua calça jeans e cueca boxer. — Parece que alguém necessita de carinho e beijinhos — disse lambendo meus lábios, louca para prová-lo, mas me contendo para deixar a ocasião mais ardente. — Diabinha, não faça essa carinha de safada, ou não haverá preliminares — falou encarandome cheio de tesão. — Te jogo nessa cama e esqueço que sua mãe está perto, te como com tanta força que faço você gritar meu nome de tanto prazer. Ela vai saber que a filhinha dela gosta de brincar de médico e paciente. Sorri com seu comentário e vibrei internamente por deixá-lo tão alucinado e desejoso. Rapidamente baixei suas calças e cueca até seus tornozelos, não antes de dar uma mordida nele por cima da cueca. Seu membro saltou duro e latejante, molhado na ponta. Abocanhei seu pau, engolindo todo comprimento de uma só vez e voltei vagarosamente chupando a sua glande avermelhada, e passando a língua vagarosamente. — Porra! — Igor uivou sem se preocupar se minha mãe ou os vizinhos escutariam. Busquei seus olhos esverdeados, cheios de paixão e desejo, sabia que ele ficava cheio de tesão quando o encarava enquanto seu pau estava na minha boca. Beijei toda sua ereção, começando pela base, beijos de boca aberta o acariciando com a língua, até chegar à cabeça do seu pau. —Você gosta disso, Doutor Devasso? — perguntei, passando de leve a mão em seus testículos, ao mesmo tempo em que massageava sua ereção. —Alice… Você… Está… Brincando com fogo — gemeu, enquanto seus olhos se tornavam selvagens e enrolava sua mão em meus cabelos. Dei um sorriso travesso para ele e abocanhei de vez o seu membro, até a cabeça bater no fundo da minha garganta, Igor soltou um rosnado, puxando meu cabelo. Minha boca subia e descia por todo seu comprimento, passando a língua, chupando com força enquanto massageava seu saco. Eu nunca havia ficado tão excitada, enquanto chupava um homem. Mas o Igor tinha o poder de me deixar molhada só com a ideia de tê-lo na minha boca. Ver o seu prazer era um disparador em minha excitação. — Porra… Que boca gostosa… Maldita, você vai me matar de tanto tesão. Chupa todo, coloca meu pau todo nessa boca gulosa, Diabinha… — disse ensandecido. Meu doutor Devasso rosnava e balançava os quadris pra cima, alucinado, enquanto eu o colocava mais fundo em minha boca, chupava cada vez mais forte, e eu gemia ao seu redor mostrando o quanto isso me dava prazer. Ele já estava perto de chegar ao orgasmo, seu pau estava inchado e seu abdome tremia. O chupei com mais força, usando a minha mão para massagear a base do seu pau, necessitada, desejosa do seu gozo. — Diabinha… Não quero gozar na sua boquinha — gemeu, tentando me puxar. Não parei, eu o queria mais fundo na minha boca e que ele gozasse nela.


— Vem cá — ele puxou-me bruscamente, levantando-me e segurando meu rosto com as duas mãos e encarando-me, ofegante. — Por mais que eu ame essa sua boquinha gulosa em meu pau, eu não quero gozar nela. Hoje, — beijou-me e voltou a me olhar com malícia. — Eu quero te lambuzar com meu gozo e depois levá-la ao banheiro e lavá-la, te deixando limpinha novamente. — Igor — proferi seu nome como uma súplica, desejando seu toque loucamente. — Fique totalmente nua e se deite na cama. — Ordenou firme, mas ainda ofegante. Igor observava-me como um gavião enquanto eu tirava peça por peça. Era uma sensação única. Meu coração batia aceleradamente, apenas por sentir seus olhos fixos em meu corpo. — Agora se deite e abra um pouco suas pernas para que eu possa ver sua boceta e o quanto está molhadinha — pediu quando fiquei completamente nua. — Quero admirar o corpo da minha mulher enquanto tiro o restante das minhas roupas. Sua voz era como um comando. Meu corpo automaticamente o obedeceu. Deitei na cama e abri um pouco as pernas, o suficiente para que ele pudesse ver o quanto estava excitada, e gemi baixinho pra ele. — Você tem ideia do quanto é belíssima? — perguntou contemplando-me ao mesmo tempo em que retirava a sua roupa. — Sou um filho da puta de um sortudo por tê-la só pra mim. Não aguentava mais. O desejava dentro de mim, preenchendo-me totalmente, levando-me a ver estrelas e gozando enquanto mordia seu ombro para abafar os gemidos, o marcando como meu. — Vem logo, Igor — implorei, abrindo mais as pernas, fazendo-o abrir um sorriso orgulhoso de si, por perceber o quanto eu o almejava. Igor sentou na beirada da cama ao meu lado e beijou minha boca suavemente sem tocar em nenhuma parte do meu corpo. Depois virou em direção ao criado mudo e abriu a caixinha onde guardava meu vibrador. Ele não havia esquecido, claro que não! Esse era o Igor. Uma sensação de anseio e expectativa passeou pelo meu corpo só em pensar o que ele faria comigo. — Não quero usar mais preservativos com você, Alice — emitiu retirando a tampa da caixinha pegando o vibrador e o gel lubrificante. — Já tomou sua injeção esse mês? Balancei a cabeça afirmando. Igor sabia que eu utilizava a injeção anticoncepcional como contraceptivo, inclusive ele mesmo havia me indicado um excelente anticoncepcional injetável que não me causava tanto efeito colateral quanto o antigo. — Tudo bem para você que eu não use mais preservativo? — interrogou. Novamente afirmei que sim. Já estávamos com quase três meses juntos e sem estar com outras pessoas. Sempre fui cuidadosa com a medicação, então não via problema algum darmos mais um passo para nosso relacionamento. Um passo importante, eu sei, mas sentia que já havíamos atingindo esse nível. — Maravilha. Sei que é importante o uso do preservativo, mas há dias queria falar com você


sobre isso — explicou. Com precisão, Igor subiu em cima da cama ficando de joelhos entre as minhas pernas. Abaixou sem deitar seu corpo sobre o meu e beijou-me, buscando minha língua e chupando-a fazendo com que eu gemesse. Minhas mãos imediatamente enroscaram em seus cabelos puxando-os com força. Necessitava do seu peso sobre o meu corpo. Igor passou a deslizar beijos em meu pescoço, colo, chegando até meus seios onde chupou fervorosamente um e depois o outro na mesma medida. Desceu por minha barriga, dando assistência e atenção por onde passava. — Não canso de admirar sua beleza, Alice… Sem falar nessa boceta gostosa, que toda hora quero estar dentro dela — disse, passando os dedos em minhas dobras molhadas constatando o quanto estava pronta para ele. – Vou te comer a noite inteira, Diabinha. Levantava meu quadril implorando que penetrasse seus dedos em mim aliviando esse desejo. Precisava senti-lo, minha boceta estava dolorida, necessitando-o. — Adoro quando você fica assim. Seu clitóris inchado… — acariciou levemente. — Pronta para gozar, basta eu dar apenas uma mordidinha e você gritará, gozando e gritando feito uma gatinha arisca. Soltei um grito de repente quando Igor enfiou o meu vibrador, Jared Leto, dentro de mim sem aviso. A penetração me fez perder a voz, meu corpo convulsionava de tanto prazer, e meus gemidos saíam cada vez mais altos. Apertava os braços do Igor e o arranhava, deixando minha marca em seu corpo. Eu estava prestes a gozar, não conseguiria segurar por muito tempo minha libertação. Igor conhecia meu corpo perfeitamente e sabia disso. —Igor! — consegui pronunciar ofegante. — Isso! Chama meu nome, o nome do teu homem. Goza pra mim, Minha Diabinha safada — ele falava em minha orelha, enquanto enfiava mais rápido e forte, massageando meu clitóris. Eu não segurei por muito tempo, chegando ao orgasmo tão rápido que não consegui avisá-lo, mas Igor sabia que estava gozando naquele instante. Quando meu corpo ainda dava sinal de pequenos espasmos, Igor tirou o Jared Leto de dentro de mim, descartando ao lado da cama, melado com o fluxo do meu gozo mais o que restou do gel lubrificante. Passou a esfregar a cabeça do seu pau em meu clitóris, fazendo uma gota da sua pré-ejaculação escorrer por minha fenda. Eu sabia que ele estava perto de gozar, eu também conhecia as reações do seu corpo. Comecei a me esfregar nele, massageando seu pau com minhas dobras, fazendo-o segurar meu quadril com uma mão e sua ereção com a outra. Ele gemia e se masturbava, a visão do Igor fora de controle, selvagem e cheio de tesão, me deixava alucinada, ele era tão erótico subindo e descendo sua mão por todo comprimento de sua ereção, gozando logo em seguida por entre minhas pernas, vagina, e espalhando por toda a minha barriga e seios. — Diaba! Você é minha perdição — disse, enquanto seu corpo soltava o resto do seu orgasmo. — Agora eu preciso que me dê um banho — provoquei acariciando sua mão que ainda sustentava seu membro.


— Sim. Com certeza — puxou-me para seus braços sem se preocupar se eu estava toda melada. — Quero te limpar e ao mesmo tempo te comer por trás — instigou-me rebatendo minha provocação, e apertando meu bumbum.

Durante toda a noite meu corpo ardeu de tanta paixão. Eu procurei demonstrar ao Igor tudo o que realmente sentia por ele. A cada dia eu o amava mais e rezava suplicando que esse sentimento fosse recíproco. Eu sabia que ele nutria sentimentos por mim, porém não me sentia 100% segura e temia sofrer. Era a primeira vez que sentia algo tão forte e intenso por alguém. Achei um dia, que amava o Valentim, mas com o passar do tempo, percebi que essa fixação não era nada se comparado com o que nutria pelo Igor. Nossa noite havia sido mágica e como prometido, Igor me fez gozar várias. Cinco vezes no total. Mesmo dormindo poucas horas, acordamos dispostos e saciados. Arrumei minha mala ao mesmo tempo em que falava com meu irmão, Levi, ao telefone. Comentei da viagem e o convidei a ir conosco. No início ele se fez de difícil, como esperava, mas quando expliquei rapidamente o motivo da viagem, ele concordou. Levi colocava a família em primeiro lugar, e com certeza o Igor havia ganhado uns pontinhos por essa atitude com a irmã. Depois que passei o endereço da mãe do Igor, dona Elena, desliguei. Fomos os últimos a chegar à casa de dona Elena, pois tivemos que passar no apartamento do Igor para pegar suas coisas. Danilo, Sarah, Miguel, Ingrid, dona Elena e até meu irmão, Levi, já nos aguardavam. — Que demora! — Ingrid chiou, mas sabia que era apenas para provocar o irmão. — Bom dia, Pestinha. — Igor beijou sua testa sem ligar para sua provocação. — Ah! Já vi — Ingrid desviou o olhar para mim. — Meu irmão atentou você a noite toda. Está de bom humor e uma pele ótima. Quero dizer, os dois estão com uma pele maravilhosa. Pelo visto liberaram bastante endorfina durante a noite. Imediatamente enrubesci com seu comentário. Olhei de repente para Levi que até então conversava tranquilamente com Miguel e Danilo, mas agora fechava a cara para mim e Igor. Esquecime de avisá-lo o quanto a Ingrid era uma excelente garota, mas muito maluquinha e sem papas na língua. Ele também não tinha ainda, se acostumado com Igor dormir vez ou outra em meu apartamento. — Vamos, então? — Igor proferiu. — Com certeza vovó Elza está nos esperando com aquele banquete para tomarmos café. — Opa! Essa é a melhor parte. Estou faminto — Dan comentou. — Sim. Vamos querido, mas deixe-me primeiro conhecer finalmente, a mãe da Alice — Dona Elena inqueriu. — Somos amigas só por telefone, Laura. Que prazer conhecê-la pessoalmente —


sorriu gentilmente. — Como vai, Elena? O prazer é todo meu — mamãe rebateu carinhosamente abraçando a sua nova amiga. Sorri feito uma boba ao ver o quanto aquelas duas mulheres lindas se deram tão bem. Amava quando minha mãe se divertia. Ela abdicou de muitas coisas para proporcionar conforto e bem-estar a mim e a minha irmã. Dona Laura Ventura era uma mulher linda e muito jovem, e tudo que eu desejava era que encontrasse a felicidade. — Não vai me apresentar a sua sogra, primo — escutei Miguel falar para o Igor que automaticamente resmungou algo que não consegui compreender, porém fez as apresentações educadamente, mas sempre encarando firme o primo, como se eles tivessem conversando pelo olhar. Fiquei curiosa e mentalizei para depois, quando estivéssemos sozinhos, perguntar ao Igor sobre o episódio. Mas o melhor de tudo foi admirar a faceta do Miguel em conseguir de primeira tirar um sorriso suave e espontâneo da minha mãe. Normalmente ela sempre era mais contida quando conhecia alguma pessoa. Mas acho que isso era o efeito que o sangue Salazar proporcionava nas pessoas, pois o Igor a conquistou logo na primeira vez que foi a nossa casa. Depois das apresentações, todos nós nos dividimos em dois carros. No carro do Igor: mamãe, Levi, Sarah, e eu. E no carro do Danilo: Ingrid, dona Elena e Miguel. Levi guardou seu carro em uma das duas vagas que dona Elena possuía no prédio onde morava. Percebi que Sarinha estava cabisbaixa e muito calada, e que também, Gabriel não estava presente indo conosco para a fazenda. Quis perguntar por ele, mas pressenti que algo havia acontecido. Decidi que quando chegássemos a arrastaria para um local mais tranquilo e arrancaria tudo. Não gostava de ver minha amiga triste. Ela já havia sofrido bastante na sua vida e merecia ser feliz. A viagem foi tranquila e rápida. Antes mesmo de atravessarmos a porteira, onde acima estava escrito “Fazenda Arco-Salazar”, o cheiro do campo invadiu nossas narinas. Era incrível como em tão poucos quilômetros de distância o clima e o ar mudavam bruscamente. A fazenda era um atrativo de belas paisagens. Uma imensidão de pastos de campos verdes que você não conseguia enxergar o final. Havia várias casas pequenas e idênticas parecidas como um pequeno vilarejo, e mais à frente uma casa imensa estilo colonial. Deveria ser o casarão onde a avó do Igor vivia. — Uau! Que lugar lindo — mamãe exclamou admirada. — Deve ter sido maravilhoso crescer aqui, Igor. — Sim. Tenho recordações inesquecíveis da minha infância e adolescência — Igor sorriu. — Aquele vilarejo, todos os trabalhadores da fazenda moram ali? — Sarah perguntou curiosa, enquanto seguíamos a pequena estrada de terra que levava direto para o casarão. — Sim e não. Na verdade, a Fazenda Arco-Salazar foi uma promessa do meu avô — explicou


Igor, mas todos nós o olhamos sem entender. — É uma história longa, mas vou tentar resumir. Minha avó tinha dificuldade em engravidar, e naquela época não existiam tantos recursos e tecnologia como hoje. Já fazia quase seis anos que eles vinham tentando e nada. Até que um dia, o antigo dono da fazenda, que era muito amigo do meu avô, os convidou para vir passar uns dias aqui e aproveitar a festa junina que o dono proporcionava todos os anos. Ele não pensou duas vezes e aceitou, pois vovó Elza vivia esmorecida pelos cantos e o meu finado avô Dante, que era completamente enfeitiçado pela mulher e fazia tudo por ela, achou que uns dias no campo poderia alegrar um pouco o coração da sua esposa. — Nossa! Que romântico. Eu acho lindo quando um homem faz tudo pela mulher amada — mamãe pronunciou encantada com a história. — Parece até os romances que costumo ler. — Todo Salazar quando está encantado por uma mulher, faz de tudo para vê-la sorrindo — Igor olhou-me intensamente abrindo um pequeno sorriso. Minha pele se arrepiou e meu coração acelerou automaticamente com a intensidade de seu olhar e suas palavras. — Continue — mamãe o apressou, curiosa com o resto da história. — Continuando... Minha avó foi criada em fazenda e desde que casou, sempre dizia que sonhava um dia possuir um pequeno sítio para criar alguns animais e se tivesse filhos, os verem crescendo em um lugar voltado para a natureza. Então, vovô Dante sabia que a fazenda seria perfeita para sua mulher. E foi o que aconteceu. Vovó Elza se apaixonou perdidamente pela fazenda assim que ultrapassou aquela porteira lá atrás. Lembro-me dele falando que no instante que ela viu a porteira, dona Elza abriu o sorriso mais lindo do mundo — Igor proferiu orgulhoso. Fiquei deslumbrada e orgulhosa do quanto ele era dedicado a sua família. — Ao invés de passarem um final de semana, meus avôs ficaram por uma semana. E dentre um desses dias vovô Dante foi naquela capela — Igor apontou para uma pequena capela pouco acima do vilarejo. — E fez uma promessa a São José que se sua esposa concebesse um filho, ele compraria uma fazenda para morar com sua família. Depois que eles voltaram para a capital, um mês depois minha avó ficou grávida do meu tio Bento, o pai do Miguel. — Que história linda, Igor — Sarinha falou pela primeira vez desde que saímos da casa de dona Elena. — Como foi que seu avô comprou essa fazenda? — Levi indagou também curioso. — Bem. Quando meu avô soube da gravidez, a primeira coisa que ele fez foi procurar seu amigo, o antigo dono da fazenda, para ajudá-lo na procura por uma fazenda à venda ou terras para que pudesse construir uma. No entanto, devido à briga por herança, não lembro direito como foi, o dono tinha acabado de decidir vender as terras. Meus avôs tinham uma reserva de dinheiro guardado, juntaram com a venda da casa deles na cidade e deram de entrada. E desde então essa fazenda pertence a minha família — finalizou no mesmo minuto que parava o carro em frente ao casarão. — É uma linda história — enfim me pronunciei apertando a mão que Igor acabara de colocar


em cima da minha coxa. — Só para concluir antes de descermos e conhecer a melhor mulher do mundo — Igor referiuse a sua avó. — Depois que meu tio nasceu, seis meses depois vovó Elza ficou grávida do meu pai. E um ano após o seu nascimento, descobriu-se novamente grávida, agora da minha tia, que hoje mora em Recife, mas sempre está por aqui. Claro que eles tiveram alguns problemas durante sua trajetória, mas nunca perderam a esperança de vencer e batalhar pelo que almejavam. — É melhor descermos, ou a dona Elza irá me conhecer de cara inchada do tanto que chorarei — mamãe pediu secando as lágrimas que começavam a transbordar. — Sou manteiga derretida, choro com tudo. Todos nós rimos de suas palavras e Levi carinhosamente beijou sua testa. Descemos do carro admirados pela beleza do lugar. Sarah logo ficou deslumbrada com o casarão. Uma futura arquiteta, era de se admirar se não ficasse. — E aí? O que acharam? Aqui não é perfeito? — Ingrid se aproximou falando, ao mesmo tempo em que erguia a cabeça e fechava os olhos aspirando o ar puro do local. — É um paraíso — Danilo concordou observando o lugar. Enquanto Igor, Ingrid, sua mãe e seu primo iam de encontro a um senhor moreno de meia-idade, aproveitei para falar com minha melhor amiga e descobrir o que estava acontecendo. Na certa, ela percebeu que o Gabriel estava apaixonado e terminou devido a sua “fobia” para amar. — Sah, o que houve? Você e o Gabriel terminaram? Minha amiga encarou-me tristemente e com os olhos marejados de lágrimas. Senti um aperto em meu peito, pois em mais de dez anos de amizade, nunca a vi daquela forma por causa de um relacionamento. — Ali, depois conversamos — disse baixinho. Olhei para Dan que se aproximava de nós já percebendo o que estava acontecendo. Com certeza, ele já sabia o que tinha ocorrido. — Que droga! Detesto quando vocês me escondem algo sério — bradei já ficando irritada. — Um desastre. Só que não podemos falar no momento, Ali — Danilo esclareceu. — Só adianto que quando você souber, desejará assassinar o nutricionista na calada da noite. E eu vou junto. — Vocês estão me deixando preocupada — insisti. Realmente fiquei ainda mais preocupada com o que poderia ter acontecido. — Alice! — escutei Igor me chamar. — Vem. Vamos entrar. — Vai conhecer a avó do seu bofe, Ali — Danilo pediu. — Não se preocupe. Eu cuido da nossa garota.


Assenti duvidosa. Sarah era mais que uma amiga, era uma irmã. E saber que alguém a havia machucado, partia meu coração. Fui em direção ao Igor que me aguardava na escadaria que dava acesso ao casarão. Ele entrelaçou sua mão a minha e ficamos aguardando enquanto os outros se juntavam a nós. Ao chegarmos ao topo da escadaria uma senhora baixinha de sorriso acolhedor nos esperava. — Zica! — Ingrid gritou correndo em direção da senhorinha a abraçando fortemente. — Minha menininha, que saudades — a senhora respondeu enquanto era imprensada pela Ingrid. — Me deixa ver você. Cada vez que a vejo está ainda mais linda. — Ah! Zica. Você sempre diz isso — Ingrid rebateu. — Zica! — Igor e Miguel gritaram em uníssono abraçando juntos a senhora e levantando-a no ar igual a um abraço de urso. — Meninos! Parem! O que as visitas pensarão? — Ela reclamou com os dois. — Estava morrendo de saudades da sua comida, Zica — Miguel enunciou beijando a sua testa. — Por isso que eu sou o seu garoto favorito. Não venho só por causa da sua comida deliciosa, Ziquinha — Igor beijou as bochechas da senhora. Os primos começaram uma pequena discussão sobre quem era o preferido. Claro que não passava de uma brincadeira. Ingrid entrou no meio, à medida que todos nós observávamos a interação. — Já chega! — Dona Elena exigiu. — Deixem a Zica ao menos respirar. Obedientemente os três pararam, igual a três crianças malcriadas, o que me fez rir. — É melhor entrarmos antes que a dona Elza, apareça perguntando o porquê da demora. Depois que todos fomos apresentados à dona Zica, uma senhora que trabalhava há anos para a família Salazar, atravessamos uma varanda imensa, repleta de redes, plantas e cadeiras de dois lugares, tudo de muito bom gosto, combinando com o estilo colonial de casa de fazenda. Adentramos em seguida na sala, também enorme, e muito bem decorada. Mais a frente, avistamos uma senhora sentada em uma cadeira de rodas, cabelos brancos perfeitamente penteados e presos em um coque, com um vestido preto longo social e maquiada suavemente. Ela usava joias de ouro delicadas, porém o que me chamou mais atenção foi um medalhão muito bem desenhando em forma de coração que sustentava pendurado como um colar. — Sejam bem vindos! — pronunciou firme, mas graciosamente. Os netos imediatamente foram ao seu encontro e a beijaram, pediram sua bênção e ouviram atentamente suas reclamações por falta de notícias. Em seguida, começaram as apresentações. Um por um, fomos apresentados à dona Elza, assim como havia pedido. Fiz questão de ficar por último. Estava nervosa, e visivelmente Igor admirava bastante a avó, e sentia receio de não agradá-la.


— Vovó, essa é Alice. Namorada do Igor — Ingrid enunciou quando chegou a minha vez. — É um prazer conhecê-la, dona Elza — estendi a mão para cumprimentá-la. A senhora sentada à cadeira de rodas, olhou-me dos pés à cabeça sem dizer uma única palavra. — Você dorme com meus dois netos? — Indagou firme, encarando-me. — Vovó. A Ali… — Não dirigi a palavra a você, Igor — Dona Elza interrompeu Igor sem deixá-lo terminar de falar. — Me responda, mocinha — exigiu voltando a me encarar. — Você é uma dessas garotas que dorme com meus netos? Desde sempre, eles dividem tudo. Até mulher. — Don…Dona El… Elza — gaguejei sentido meus olhos enchendo de lágrimas. — Acho que houve um mal entendido. — Vovó, Deus sabe o quanto a respeito e a amo, mas não admito que destrate a minha namorada — Igor se aproximou de mim enlaçando seu braço em minha cintura e segurando-me firme. — Eu acho melhor irmos embora. Todo meu corpo tremia, mas surpreendente era perceber que fora o Igor, ninguém se manifestava em me defender. Todos apenas assistiam a cena, calados. Meus melhores amigos, meu irmão e minha mãe sequer se mexiam. Eu não conseguia ter reação alguma, não entendia nada. De repente um coro de risos soou por toda a sala. Todos estavam rindo, apenas Igor e eu, olhávamos assustados para todos. — Vó Elza, a senhora deveria ter sido atriz, foi maravilhosa — Ingrid emitiu gargalhando. — O que… Está acontecendo aqui? — Igor questionou irritado. — Se acalme, Igor — Dona Elza bradou. — A Ingrid quis aprontar uma peça com vocês, e sua velha avó estava louca para se divertir e concordei. Coisas da cabeça maluca da sua irmã. Eu estava simplesmente estática. Chocada com o que tinha acabado de acontecer. O meu coração estava para sair da minha boca. — Igor, vá até a cozinha e pegue um corpo de água para Alice antes que ela desmaie. — Sua avó pediu gentilmente. Sem dizer nada, Igor observou-me e beijou-me a testa saindo em seguida e sumindo ao dobrar em um corredor. — Vem aqui, Alice. Deixe-me ver você — Dona Elza estendeu a mão. Fui até ela, ainda com as pernas trêmulas, e ajoelhei-me em sua frente a encarando. — Você é realmente linda, Alice — pronunciou segurando meu rosto e me admirando com ternura. — Não é à toa que o meu menino esteja apaixonado.


Arregalei os olhos com o seu comentário, mas, ainda assim, fiquei calada. Estava ainda sobre efeito do choque da brincadeira. — O quê? Duvida que o meu neto a ama? — perguntou beijando minha testa. — Alice, eu conheço meus netos perfeitamente. Sei decifrá-los de olhos fechados, cada um. E eu te garanto. Igor está completamente apaixonado por você. Enfim, consegui sorrir para a senhora à minha frente. Definitivamente todos daquela família me levariam algum dia, à loucura.


Capítulo 17 A casa caiu

Igor — Gostou do quarto? — perguntei à Alice assim que entramos no quarto que dormiríamos. — É lindo — respondeu observando o local. Como toda a fazenda, o quarto era rústico, com móveis de madeiras escurecidas e paredes brancas que faziam contraste, dando uma beleza única. Uma cama de casal forrada com lençóis rendados se encontrava ao meio, do lado de uma cômoda e um pequeno sofá. Mais à frente tinha um janelão com as cortinas abertas, também rendadas, deixando o sol entrar iluminando o lugar. — Como você está? — interroguei-a pela milésima vez desde o ocorrido na sala, observandoa atentamente. Depois da brincadeira, que foi de muito mau gosto por sinal, eu ainda não tinha me recuperado totalmente do susto. Nunca pensei na vida que poderia um dia bater de frente com dona Elza. Minha avó era a mulher que mais respeitava na vida, mas no momento que a vi desprezando Alice, visto que não sabia que era uma pegadinha, deixei automaticamente esse respeito de lado, e senti a obrigação de intervir e proteger a minha mulher contra aquela atitude insana da minha vó. Naquela hora parecia que eu estava vivendo um pesadelo. Atônito, caminhei até a cozinha para pegar água para Alice. Bebi primeiro um longo gole da água gelada, para ver se ajudava o meu cérebro voltar ao normal e compreender o que havia acontecido. Retornei para sala minutos depois, trazendo sua água, e logo que cheguei a busquei imediatamente para ver como estava. Aparentemente, se mostrava mais tranquila, estava ajoelhada de frente para minha avó e assim que seus olhos encontraram os meus, meu corpo relaxou ao perceber que tudo ficaria bem. No entanto, se manteve calada durante todo o café da manhã. Enquanto todos conversavam animadamente e elogiavam a Zica pelo banquete que ela havia preparado, Alice mal tocava na comida. Respondendo apenas quando era questionada. — Estou bem. Não se preocupe — tentou me tranquilizar forçando um sorriso. Aproximei-me dela e a entrelacei com meus braços, abraçando-a fortemente, buscando seus lábios e os beijando com fervor, demonstrando toda a minha atenção.


— Desculpe-me. Eu jamais pensaria que aquilo poderia acontecer — sussurrei, baixinho. — A Ingrid ultrapassou todos os limites. Irei ter uma conversa muito séria com aquela pestinha. — Não, Igor. Por favor — saiu dos meus braços e sentou na cama. — Não quero que brigue com sua irmã por minha causa. — Mas, Alice… — ajoelhei-me, ficando cara a cara com ela. —… Aquilo foi de muito mau gosto. A Ingrid não é mais nenhuma criança. Usar a vovó Elza para aprontar suas brincadeiras. Só não culpo a minha avó porque sei que está caducando. — Quem está caducando aqui, Igor? — a voz de vovó Elza soou atrás de mim. Virei-me e a avistei parada em sua cadeira de rodas motorizada, bem na entrada da porta, que havia me esquecido de fechar. Olhava-me séria. Locomoveu-se firmemente até ficar diante de mim e Alice. — Alice, quero pedir desculpa pela brincadeira — Vovó Elza pediu pegando em sua mão. — Eu deveria ter pensando melhor antes de concordar com isso, mas fiquei tão feliz ao saber que todos viriam que acabei me empolgando. — Por favor, dona Elza, não estou chateada — Alice rebateu. — Na verdade, estou sur… — De repente Minha Diabinha parou de falar, e desviou seu olhar para mim, desconfiada. Pressenti no exato momento que as duas escondiam algo. — Vim até aqui avisar que quero conversar com você, Ingrid e Miguel, no escritório do seu avô — Vovó Elza mudou de assunto. Mesmo com o meu avô já falecido há dez anos, ela nunca perdeu o hábito de indicar que determinado lugar ou objeto pertencia a ele ou qualquer outra pessoa. — Irei em breve, vó. Eu vou só mostrar o casarão à Alice. — Não. Quero conversar agora. Sua irmã e seu primo já se encontram lá — disse impassível. — Será uma conversa rápida. Depois você mostra toda a fazenda à Alice. Olhei para Alice que balançou a cabeça concordando. Levantei e beijei sua testa falando que não demoraria. Ela disse que não tinha pressa, e que aproveitaria esse tempo para conversar com a Sarah e Danilo. — Vamos, vovó — chamei para que seguisse na frente. — Vá na frente, Igor. Quero trocar umas rápidas palavras com Alice — rebateu sem tirar os olhos de Alice. Por mais que achasse que Alice estava assustada ou até mesmo amedrontada por causa da minha avó, ao olhá-las senti que as duas se dariam muito bem. Vovó Elza encarava a Diabinha com admiração e carinho. E somente por isso consegui me afastar do quarto, deixando-a sozinha com a dona Elza Salazar. Passei pelos outros aposentos verificando se todos haviam sido bem acomodados, enquanto me direcionava até o escritório. Avistei Levi encostado na cantoneira da porta corrediça que dava para a


varanda. Ele estava admirando a paisagem do lugar e aparentemente tão perdido em seus pensamentos, que achei melhor não atrapalhá-lo. Ao chegar ao escritório do meu avô, Ingrid e Miguel já se encontravam lá, assim como vovó Elza tinha falado. Adentrei observando o lugar que há meses não via. Desde a morte do meu avô, vovó Elza manteve o lugar intacto, do jeito que o velho Dr. Dante Salazar havia deixado. Ela só usava o lugar em caso de extrema urgência. — O que a vovó Elza quer falar conosco? — perguntei olhando diretamente para Miguel. — Não sei. Mas deve ser algo sério — Miguel respondeu. — Provavelmente reclamará que nunca mais viemos aqui — Ingrid indagou. Ao ouvir a voz daquela pentelha, lembrei-me da sua última brincadeira. Virei furioso para encará-la. — Eu só espero que a mocinha tenha a decência de pedir desculpas à Alice — bradei fumaçando. — Onde já se viu, Ingrid? Fazer aquilo. E pior, colocar a nossa avó no meio. A coitada da Alice está assustada até agora. — Eu disse a você que ele odiaria — Miguel avisou com um meio sorriso. — Desculpa, Gô. Eu só queria fazer uma brincadeira. Não queria magoar ninguém — respondeu triste. — Depois irei me desculpar com a Ali. — Acho bom mesmo. Eu quero que ela descanse esse fim de semana. Alice tem dado um duro na Clínica e precisa espairecer um pouco. — Tudo bem. Eu já disse que pedirei desculpas a ela. Além do mais, acho que ela está mais surpresa, do que assustada com o que a vovó disse depois que você saiu para buscar água — Ingrid rebateu abrindo um sorriso malicioso. — O quê? O que ela falou? — perguntei curioso. O que será que a vovó Elza disse a meu respeito que a deixou receosa? — Depois você mesmo pergunta a Alice, Igor — minha avó entrou no escritório falando. — Temos questões a serem ditas e esclarecidas aqui. Ela como sempre fazia suas aparições espetaculares. Mesmo em uma cadeira de rodas devido à idade avançada e à osteoporose, dona Elza nunca perdeu o porte e a altivez diante das pessoas. — Primeiro, eu quero saber o motivo do Miguel ter voltado ao Brasil repentinamente. Porque até onde eu saiba até você estava a caminho da África — disparou de uma vez, nos encarando. — E não me enrolem porque eu conheço muito bem os três. Então, nada de embromação. Ficamos os três em silêncio. Nossa vinda para a fazenda tinha sido para relaxarmos e nos prepararmos para a luta que enfrentaríamos à frente. Mas, principalmente, para contar pessoalmente a nossa avó sobre o câncer da Ingrid. No entanto, queríamos que ela se divertisse, apreciando a nossa


presença e a dos nossos convidados, para só então jogar a bomba. Mas esquecemos de que, com a dona Elza, nada passava despercebido, e, com certeza, pressentiu que algo acontecia. Sempre era assim, nunca conseguimos enganá-la. Até mesmo quando crianças e fazíamos algumas travessuras, ela sabia. Muitas das quais ela fingia não ver, tornando a artimanha mais ousada. — Vó… — Miguel começou a falar lentamente. — Eu estou com câncer, vovó Elza — Ingrid disparou sem rodeios. — Fiz alguns exames e foi confirmado que tenho Lipossarcoma. Pela primeira vez em toda minha vida vislumbrei medo e fragilidade nos olhos da minha avó. Nem com a morte do meu pai e depois com a do meu avô ela reagiu assim. Sabíamos que até hoje ela sofria devido às duas perdas, mas se mantinha firme e forte. Dona Elza levou a mão ao coração como se tivesse sentindo algo. Imediatamente Miguel e eu corremos para verificar sua pressão. — Ingrid, pega o aparelho de verificar pressão do vovô Dante em sua maleta — pedi. Ingrid correu, pegando a maleta que ficava em cima de uma mesinha de canto. Abriu e pegou o aparelho trazendo rapidamente e me entregando. — Es…Estou bem — Vovó tentou nos acalmar. — Vovó, me desculpe. Eu… Eu… Não queria provocar isso — Ingrid se aproximou chorando. — Não peça desculpas, minha menina. Essa velha aqui está bem. — Caiu um pouco sua pressão, mas nada anormal — proferi aliviado. — Está vendo, essa velha é dura na queda — Vovó disse sorrindo, tentando acalentar os três rostos assustados a sua frente — Miguel, me diga tudo. Você é especialista nessa área. Qual o próximo passo? Miguel explicou, passo a passo, tudo o que já havia descoberto do câncer da Ingrid e o que viria a seguir. Dona Elza atenta, não deixava passar nada, sempre questionando, perguntando e tirando todas suas dúvidas. — Entendi — disse pensativa sobre tudo que Miguel explicou. — E por que não faz logo a cirurgia de remoção? — Porque preciso saber que tipo de Lipossarcoma a Ingrid tem, e o quanto ele pode progredir, só assim poderei saber qual o próximo passo — Miguel continuou falando, enquanto todos nós escutávamos atentamente. — Uma vez que o tumor tenha sido caracterizado e feito o estadiamento completo, farei o procedimento cirúrgico, para remover completamente o tumor e prevenir recidivas. — Ela precisará fazer quimioterapia e radioterapia? — Vovó perguntou, segurando firme a mão de Ingrid, que escutava tudo o que o nosso primo falava absorta e estática. — A radioterapia sim. A quimioterapia depende muito do tipo de sarcoma e como o organismo


da Ingrid reagirá. Ficamos em silêncio, pensativos. Se na teoria, tudo que o Miguel explicou já me deixava preocupado, não queria pensar quando todo o procedimento começasse. — Miguel — Vovó o chamou sem olhá-lo, seu olhar estava preso ao janelão a sua frente. — A sua prima… — parou e respirou fundo, desviou seu olhar para Ingrid e sorriu graciosamente alisando seu rosto. —… Ela corre o risco de perder a perna? Ser amputada? Na mesma hora encarei minha irmã e visualizei pânico em seu rosto. Tive certeza que até esse momento, por mais esperta e inteligente que fosse, essa hipótese jamais passara em sua cabeça. Imediatamente todos nós olhamos para o Miguel em busca de sua resposta, mas, no fundo, eu já sabia qual seria. — Sim. Dependendo do tipo de lipossarcoma, para o tratamento seria necessário uma amputação para obter a cura — respondeu tentando ser firme, mas eu sabia o quanto ele estava preocupado com a Ingrid. Ele a amava tanto quanto eu. Éramos mais que primos. Éramos irmãos. — Não. Não. Não — Ingrid se debateu caindo ao chão chorando. No mesmo instante, a puxei para os meus braços, acalentando-a. — Eu não quero, Gô. Eu não quero perder a perna. Prefiro a morrer a ter que amputar minha perna. — Shii! Não diga isso, por favor! Nunca mais repita isso novamente! Eu não suportaria te perder! — pronunciei eufórico, sentindo meus olhos encherem de lágrimas. — Nada disso acontecerá, você verá. Logo, logo. Você estará intacta enchendo o saco de todos. — Menina, não repita isso! Seu irmão está certo — Vovó Elza falou mantendo-se firme, mas sabia que estava tão assustada quanto eu. — Ingrid, olhe pra mim — Miguel chamou sua atenção. — A amputação só é feita em último caso ou quando a pessoa não faz o tratamento corretamente. Não pense assim. Eu estarei aqui, ao seu lado, e vou fazer de tudo pra não deixar isso acontecer. — Promete? Promete que ficará comigo o tempo todo? E não omitirá nada de mim, por mais grave que seja. Promete? — Ingrid inquiriu o primo, pegando em sua mão como uma forma de reforçar seu pedido. — Sim. Eu prometo — Ele sorriu carinhosamente para ela, apertando a sua mão. — Você ainda vai enjoar de mim de tanto que olhará meu rosto. Depois que Ingrid se acalmou, e tanto ela como a vovó Elza estavam mais tranquilas, passamos para o próximo a assunto. — Bem, como vocês sabem, vocês três são meus herdeiros e, consequentemente os futuros donos da fazenda — Vovó começou a falar. — Não queria me desfazer desse lugar. Seus pais e até mesmo vocês cresceram aqui. — Vó... — tentei, pois sabia onde ela queria chegar. Mas foi em vão.


— Deixe-me terminar, por favor — suplicou. — O amor da minha vida está enterrado nessas terras. Meu primogênito Alberto, pai de vocês, Igor e Ingrid, também está enterrado nessas terras. Muito em breve eu irei me juntar a eles. Mas gostaria de ir com o coração em paz sabendo que deixei esse lugar em boas mãos. — Vó, o quê a senhora quer dizer? — Ingrid perguntou. — Eu recebi uma oferta de compra pela fazenda. O dinheiro é cem vezes maior que o avô de vocês e eu pagamos por ela. Deixarei os três confortáveis para ter uma vida tranquila, financeiramente — Dona Elza olhou-nos buscando uma resposta. — Mas o tio e a tia? Eles são seus filhos. Eles têm direito mais do que nós três — questionei. — Eles abriram mão das suas partes, deixando exclusivamente para vocês. Claro que não os abandonarei por completo e receberão o merecido. Mas quero firmar meu testamento o quanto antes. — Vovó eu não gosto de falar desse assunto — Ingrid reclamou. — Até parece que a senhora vai partir amanhã. — Nunca se sabe minha menina. Sua vó já viveu bastante, e convenhamos, não demorarei muito mais por aqui — sorriu graciosa. — Você não diz nada, Miguel? — Eu não quero que venda a fazenda. Ela faz parte de mim. De nossas vidas — proferiu sério. — Mas seria egoísta se impedisse de vender. Moro em outro país. Não poderei estar aqui sempre. — Eu só quero que pensem e analisem. Não tomarei nenhuma decisão sem o consentimento de vocês, mas não demorem — Vovó Elza pediu. Eu também não queria me desfazer da fazenda. Pensava em tudo que vivi aqui. As recordações. Tudo. Mas também não sei como a administraria. Pensei nos moradores que viviam na vila. Será que o novo dono manteria todos? E Zica? Ela era como uma mãe para nós. Não permitiria que eles também saíssem perdendo. Depois sentaria com Miguel e Ingrid e tentaríamos buscar uma solução para manter a fazenda em nossa família. No fundo, no fundo, eu sabia que dona Elza estava nos desafiando. A fazenda era seu sonho. O presente que ganhou do homem da sua vida. Ela só venderia em última hipótese. Saí do escritório procurando por Alice por todos os lados. Estava louco para mostrar as belezas que a fazenda possuía e namorarmos um pouco. Não via a hora de sentir seus lábios, e ouvir seus gemidos, enquanto a deixava louca de tesão. Quem sabe até seguiria os conselhos da Ingrid e a levaria à cachoeira. Procurei-a no nosso quarto, mas não encontrei. Fui até a varanda e avistei minha mãe e dona Laura sentadas apreciando a passagem. — Oi, filho. Terminou a reunião com sua avó? — mamãe perguntou. — Sim. Ela já sabe sobre a Ingrid. A princípio se assustou, mas se manteve firme como esperávamos — respondi. — Cadê todo mundo?


— Levi saiu com o senhor Joaquim para ver as plantações da parte sul da fazenda. Alice e Danilo estão no quarto da Sarah, parece que ela não estava se sentindo bem — mamãe disse. — Eu vou lá saber o que aconteceu — avisei, mas dona Laura impediu. — Conheço aqueles três há anos, Igor. Quando um deles têm problemas, se unem como ímãs. Espere aqui conosco. Muito em breve eles aparecerão. Mesmo a contragosto fiquei esperando Minha Diabinha. Alice estava virando um vício delicioso em minha vida. Era tão bom ter sua presença, ver aquele sorriso contagiante, o cheiro da sua pele. Tudo nela me trazia paz e tranquilidade. Passaram-se quinze minutos e nada de Alice aparecer. Mamãe e dona Laura decidiram passear pela fazenda de charrete. E eu fiquei sozinho esperando minha mulher aparecer e fazer o mesmo com ela, só que com mais tesão e muitos orgasmos. — Por que não leva sua namorada para conhecer a fazenda? — Miguel se aproximou falando de repente e deitando na rede. — Estou esperando por ela. Está com seus amigos resolvendo um problema. — Apesar de tudo, estou feliz que tenha encontrado alguém. Alice parece ser uma garota legal... Cuide bem dela. Olhei surpreso para meu primo. Desde quando ele se preocupava com alguma mulher? Miguel era tão galinha quanto eu... fui. — Quem é você? O que fez com o meu primo? — Debochei dele, fazendo-o gargalhar. — É sério, Igor. Chega um momento na vida que você quer dividir com alguém sua vida. Acho que estou ficando velho ou é a solidão de morar em outro país sozinho, longe de vocês, me faz pensar mais — indagou sério. — Acredita que nos últimos tempos até em filhos venho pensando? Estava chocado com cada palavra dita por Miguel. Antes mesmo que pudesse questionar senti meu celular vibrar. Tirei do bolso e visualizei o nome de Gabriel. Imediatamente atendi. — Gabriel, qual foi à merda que você fez com a Sarah? — fui logo disparando, mas já tinha ideia do que havia acontecido. — Ela contou para todo mundo? — perguntou receoso. — Ainda não. Mas já até imagino o que foi. Cara, quando você aprenderá? — Foi sem querer, mano. Eu ia contar para ela, mas quando vi, ela descobriu sozinha e a merda já estava feita. Ela sequer me deixou explicar. Já foi logo me socando e terminando nossa relação. — Putz! Eu deveria dizer bem-feito, mas sei o quanto você gosta dela. — Eu adoro a minha princesa, Igor. Ela foi a única mulher que me fez querer me entregar em uma relação — eu sabia perfeitamente o que o Gabriel falava. Eu sentia a mesma coisa pela Alice.


— Me ajuda, mano. Estava pensando em ir até aí conversar com ela. — Cara, dê um tempo para a garota. Ela hoje cedo estava muito mal, deixe-a assimilar tudo e depois você a procura para se explicar. Vou ver o que posso fazer para amenizar sua situação. Desliguei o telefone e Miguel já imaginou o que o Gabriel tinha aprontado. No entanto, não se manifestou. Cinco minutos depois vislumbrei a Diabinha me procurando. Automaticamente levantei e fui ao seu encontro. Mas para meu espanto, Alice não me recebeu muito bem. Seu olhar era de mágoa e decepção. — Está tudo bem? — interroguei buscando seu olhar. — Não sei se está tudo bem, Igor — respondeu ríspida. — Você que deve me dizer se está tudo bem. — Do... Do que você está falando? — Você realmente não sabe? Porque eu duvido muito. Mas refrescarei a sua memória — fuzilou-me. — Vou matar o seu amiguinho, Gabriel.


Capítulo 18 Segredo Sujo

Alice Observei Igor sair do quarto deixando-me sozinha com sua avó. Virei o rosto para olhá-la assim que ele fechou a porta nos deixando. Dona Elza mantinha seus olhos fixos em mim. Sentia-me intimidada perante ela, mas ao mesmo tempo confortável. Era uma mulher vivida e experiente, com certeza forte e determinada. Mesmo em uma cadeira de rodas, na maior parte do tempo, seu porte altivo se mantinha. Seu rosto cálido e impassível abriu um pequeno sorriso repleto de ternura. — Alice, você pode me dar alguns minutos? Gostaria de dizer algumas palavras — ela pronunciou docemente. — Cla… Claro, Dona Elza — gaguejei. Não por estar nervosa. Mentira! Estava muito nervosa. A quem eu queria enganar? Na certa, tinha curiosidade em saber quem era a namorada do seu neto. — Gostaria de pedir mais uma vez desculpa pela minha brincadeira. — Por favor, Dona Elza! Eu… — Foi uma brincadeira de muito mau gosto. Eu sei — interviu, sem que me deixasse terminar de falar. — Acho que o Igor tem razão, estou caducando. Na mesma hora abriu ainda mais o sorriso, revelando seus dentes brancos. Um gesto que me lembrou de traços familiares, como o sorriso da Ingrid. — Alice, faço tudo pela minha família. Fui imprudente com aquela brincadeira. Mas no momento em que minha neta me ligou falando que o Igor estava apaixonado, não pensei direito, e quando percebi aceitei — gentilmente tocou em minha mão, acariciando. — Quando chegar a minha hora de ir, quero saber que meus netos estarão bem encaminhados. Não só profissionalmente, mas aqui… — tocou em seu peito, próximo ao coração. —… E o meu Igor merece mais do que tudo. Seus olhos brilhavam de amor, carinho e orgulho ao falar do neto. Eu me mantinha muda e muito curiosa para ouvir tudo que dona Elza falaria. — Depois que meu filho Alberto morreu, um pouco da infância do Igor morreu junto com o pai — apertou minha mão, firme, ainda me olhando. — Quero dizer, ele foi uma criança feliz e muito


amada, mas com a morte do pai sentiu-se obrigado a tomar a frente de tudo. Ser o homem da casa. Cuidar e proteger a sua mãe e irmã. E assim ele faz desde os treze anos. Meu coração acelerou e eu amei ainda mais o Igor só em imaginar um garoto de cabelos louros escuros e corpo franzino sendo o homem da casa. Sendo responsável por sua família. — E por causa dessa responsabilidade, Igor fechou o coração para conhecer o amor. Claro que tanto ele, como o Miguel, partiram corações de muitas garotas, principalmente aqui pela região. Mas eles nunca desrespeitaram uma mulher, ou fizeram promessas de “felizes para sempre”. Até porque eu seria a primeira a dar uma coça de cinto nos dois. Nós duas gargalhamos juntas. Será que ela sabia o quanto os netos eram mulherengos? Não sei direito das histórias do Miguel, mas do Igor já tinha ouvido muitas das suas aventuras. E apesar de me sentir protegida perto dele, ainda tinha receio dos seus sentimentos por mim. Não é à toa que ainda estava aturdida com suas palavras sobre ele estar apaixonado. — Dona Elza — parei subitamente de rir e mordisquei o lábio inferior receosa em perguntar, mas respirei fundo e soltei de uma vez. — A senhora falou sobre o Igor estar apaixonado... Abaixei a cabeça envergonhada sem conseguir terminar. Para uma mulher experiente e inteligente como dona Elza, ela entendeu aonde eu queria chegar. — Olha para mim, minha filha — proferiu firme. — Tem dúvidas dos sentimentos do Igor com você? — Eu me sinto protegida e desejada por ele — lentamente levantei a cabeça e a encarei. Merda! Desejada? Ela vai achar que sou a pior libertina. Calma, Alice! É só uma conversa simples. Nada de fobia. — Mas? — questionou-me curiosa. — Todo mundo sabe que Igor Salazar não se apaixona — soltei de uma vez. — De onde você tirou esse absurdo, Alice? — perguntou-me espantada. Fiquei estática. Calada. Sem saber o que falar. Não poderia falar para a avó do Igor, que esse foi um dos primeiros comentários que ouvi assim que comecei a trabalhar na Clínica. Assim que descobri que era “Ele”, o cara da boate, até minha tia Lilian me alertou sobre o Igor. E mesmo receosa, uma parte de mim o quis loucamente. Aceitei seu pedido de namoro. E desde então, eu o amava intensamente, como nunca amei outro homem. Mas tinha muito medo de dizer que estava apaixonada com medo de assustá-lo. — Não tem como negar o quanto vocês dois estão apaixonados. É perceptível a qualquer um — ela pronunciou docemente percebendo que não sabia o que responder. — Serei breve, pois preciso falar com meus netos. Meu menino a ama. Não duvide. Meus olhos se encheram de lágrimas e um sorriso bobo surgiu em meus lábios. Dona Elza aproximou de mim e beijou minha testa carinhosamente.


— Sabe Alice, você faz lembrar-me de mim aos 17 anos. Naquela época a maioria dos casamentos eram arranjados, e o meu não foi diferente. Desde menina sonhei em casar, construir uma família e ser feliz ao lado do meu marido e dos filhos que tivéssemos — suspirou saudosa. — Quando meu pai anunciou que me casaria com Dante Salazar, o avô do Igor, chorei e implorei que não permitisse essa tragédia. Eu não o conhecia pessoalmente, nunca sequer o tinha visto, mas todos sabiam da sua fama de garanhão e boêmio. Até minha mãe tentou impedir, mas nada fez com que meu pai mudasse de opinião. Ele já tinha dado sua palavra, e assim seria. Minhas amigas olhavam-me com pena, pois seria apenas uma esposa de procriação e nada mais. Dona Elza falava como se estivesse vivendo aquele momento, agora, no presente. — Dois dias antes do meu casamento soube que ele estava em um prostíbulo tendo sua despedida de solteiro. Pensei em fugir, mas não fiz por causa da minha mãe e minha irmã mais nova que sofreriam as consequências. Então orei e pedi a Deus que me fizesse conformar com meu destino — uma de suas mãos apertou o seu medalhão. — Conheci meu marido um dia antes do nosso casamento. Um dia depois de saber que tinha passado a noite com várias mulheres. Fui de encontro a ele, o odiando e com nojo, no entanto quando pus meus olhos em cima de Dante, eu me apaixonei perdidamente. Quando nossos olhos se encontraram eu tive a certeza que ele me amaria. Ele jurou no altar que nunca me decepcionaria e seria fiel a mim. Eu me sentia amada e protegida, assim como você se sente em relação ao Igor. Meu marido demorou anos para pronunciar que me amava, porém demonstrava-me todos os dias esse amor. Se eu fechar o olhos consigo vislumbrar nitidamente seu olhar diante de mim. Só aquele olhar me preenchia de todas as maneiras possíveis. E hoje, mais cedo na sala, eu presenciei o mesmo olhar apaixonado que tive durante 65 anos de casamento, e que há dez anos só tenho através de sonhos. Hoje, eu vi o meu Dante em meu Igor. Não tenha medo, Alice. Meu menino a ama. Confie em mim, e ame-o também. — Obrigada... Obrigada, dona Elza — a abracei de surpresa. — Eu o amo. Amo muito. — Eu sei menina. E estou muito feliz. Agora preciso ir conversar com meus netos — proferiu ainda emocionada. — Quanto antes conversarmos, mais cedo vocês poderão aproveitar a fazenda. Beijei seu rosto enrugado e a acompanhei até a porta do quarto. Fiquei observando enquanto saía, guiando sua cadeira de rodas motorizada pelo corredor e analisando cada palavra dita. Meu coração pulsava aceleradamente de felicidade só de imaginar que o meu Devasso me amava. E o seu olhar? Eu amava a forma como ele tinha o poder de me hipnotizar apenas com os seus olhos. Fechei a porta do quarto e corri até as minhas malas, busquei um vestido branco rendado de alças finas e soltinho que Levi me deu de presente quando viajou para o Nordeste. Troquei de roupa e calcei um par de botas velhas e desgastadas que tinha comprado há uns três anos quando fiz uma especialização de fisioterapia e equitação para portadores de necessidades especiais. Fiz uma trança mal feita de lado e saí para procurar o pessoal enquanto esperava Igor terminar a conversa com sua avó. Antes mesmo de chegar à varanda, avistei Sarah e Danilo cochichando. Imediatamente meu sorriso se desfez. Marchei até eles a passos largos pegando-os de surpresa. — Que susto, Ali! — Sarah expressou surpresa logo que encostei.


— Onde fica seu quarto? — perguntei séria, olhando para os dois e demonstrando o quanto estava decepcionada por me esconderem algo sério. Danilo compreendendo, apontou a direção onde o quarto de Sarah ficava. Virei e caminhei em direção ao quarto sem dizer uma palavra. Ambos sabiam que era para me seguir, e assim o fizeram. Abri a porta do quarto e aguardei que os dois entrassem primeiro. Silenciosamente passaram por mim e adentraram sem dizer uma palavra. Quando estava fechando a porta, mamãe e dona Elena passaram fazendo o mesmo caminho que tinha feito com meus melhores amigos. Cumprimentei com um aceno para as duas e em seguida fechei a porta. Mamãe com certeza explicaria a mãe do Igor. Ela já conhecia os sinais de problemas quando Dan, Sarah e eu os tínhamos. E sempre respeitava quando precisávamos conversar. Girei buscando os dois, que estavam sentados em cima da cama. Danilo sério e Sarah assustada. — Vamos Sarah Cianca, desembucha! Que merda aconteceu para você estar assim? — Bradei chateada, mas principalmente preocupada. — Ali… — Danilo, não! Eu quero saber o que aconteceu — interrompi meu amigo sem deixá-lo terminar de falar. — Sem segredos, lembra? Sarah levou as mãos ao rosto e começou a chorar compulsivamente. Aproximei-me como um raio e a abracei tentando acalentá-la. — Por favor, Sah — implorei, com olhos cheios de lágrimas por ver minha amiga tão despedaçada. Levantei seu rosto para que me olhasse. Sequei suas lágrimas e aguardei para que se pronunciasse. — Minha vida acabou, Ali. Minha carreira como arquiteta mal começou e já serei marcada — soltou num suspiro doloroso. — Do que… Do que você está falando? — Gabriel estragou minha vida, Ali. Imediatamente olhei sua barriga, pensando ser uma gravidez, mas logo foi descartada. Por mais que um bebê viesse em um momento errado, Sarah jamais diria que seria um estrago em sua vida. — Ele te bateu? — perguntei procurando por marcas em sua pele. — Não, Ali. O filha da puta tem um pequeno hobby — Dan desdenhou. — Seu apartamento é repleto de câmeras de última geração e tecnologia. — O quê? — o olhei estupefata. — Isso mesmo que está passando em sua cabeça, Lindinha. O Gabriel ama colecionar vídeos


eróticos. Mas nesse caso, ele é o ator principal e as mocinhas são… — apontou para Sarah. —… O problema é que elas não imaginam que estão sendo filmadas. Como? O Gabriel filmava suas relações sexuais sem que as mulheres soubessem? Eu simplesmente estava em choque. Nunca imaginaria isso dele. — Com… Como você descobriu? — interroguei Sarah. — Ontem. Eu tinha ido até seu apartamento como havíamos combinado. Rolou sexo e depois tomei um banho rápido e prepararia um lanchinho para nós, enquanto ele tomava banho. Como sempre, tinha me esquecido de pagar a mensalidade da faculdade, e até ontem era a data estipulada para pagar com desconto — limpou o nariz com a mão. — Vi seu notebook em cima da mesa de jantar e pensei em fazer um pagamento automático. — Então, deu-se a desgraça toda — Dan interpelou. — No notebook tem vídeos seus transando com ele? — Não só os meus, Ali. Há centenas de vídeos com outras garotas. Com certeza, todas elas não imaginam que foram filmadas. — Ele também é sócio ou participa, sei lá, de algum clube internauta “Apreciadores”, que dividem suas experiências. — Dan finalizou. Na mesma hora pulei da cama sufocada com tanta canalhice. — Você está querendo me dizer que aquele cafajeste espalhou vídeos seus transando com ele pela internet? Eu iria matar o Gabriel. Não! Melhor. Eu iria capá-lo. — Ele me disse que não espalha suas gravações. Apenas grava e arquiva, mas eu não acredito, Ali. Eu vi o blog. É de dar nojo. — Meu Deus! O que faremos? — levei as mãos à boca. Se esses vídeos da Sarah se espalhassem sua vida viraria um inferno, esse é o tipo de coisa que pode marcar a vida de uma pessoa pra sempre. — Sarah salvou alguns vídeos nesse pen drive — Dan retirou o objeto do seu bolso. — Mas não sei como poderíamos usar contra o Gabriel. — Talvez tenha alguém conhecido em algum desses vídeos e podemos entrar em contato e… — Os dois se entreolharam sem graça e envergonhados. Pressenti na hora que tinham mais a acrescentar nessa história —… O que foi? — Ali, nós assistimos aos vídeos que tem nesse pen drive ontem à noite — meu amigo expressou sem jeito. Um aperto forte abateu sobre o meu coração. Eu não tinha certeza se queria seguir adiante, mas seria necessário, independentemente de quem sairia machucado.


— Fala, Danilo. Quem mais está nessa merda de pen drive? — pedi calmamente, porém por dentro estava ardendo de nervosa. — Tem vídeos do Igor — disse cabisbaixo sem acrescentar mais nada. Mas entendia que além de ser com outras mulheres, ele compartilhara também com o Gabriel. Claro que o Igor sabia dos gostos do amigo, poderia até ter os mesmos gostos, e eu também ter sido filmada sem saber. Eu mataria os dois. — É recente? Tem a data de quando foram gravados? — interroguei sustentando o pouco de razão que existia em meu corpo antes de surtar de uma vez. Danilo acenou a cabeça em negativa. Beijei a testa de Sah e saí do quarto. Igor teria que me explicar bem direitinho essa história. Fui até a sala e encontrei dona Zica. Ela me disse que a reunião havia acabado e que provavelmente Igor estaria na varanda. Agradeci e caminhei até lá buscando por ele. A primeira coisa que visualizei assim que o encontrei foram seus olhos brilhando ao me ver. Lembrei-me das palavras de dona Elza. Respirei fundo e fui direto ao seu encontro. Mas Igor me conhecia, seu olhar logo mudou e uma preocupação pairou sobre eles. Por mais que tentasse não conseguia disfarçar a mágoa que o Gabriel havia causado na minha amiga. E pior, Igor sabia de tudo, seus olhos não negavam. — Está tudo bem? — perguntou preocupado. — Não sei se está tudo bem, Igor — cuspi magoada. Será que os vídeos dele eram recentes? Não queria acusá-lo antes de ouvi-lo. Eu daria sua chance de me explicar. Por amor, daria um voto de confiança. — Você quem deve me dizer se está tudo bem. Internamente torci para que ele pronunciasse que estava tudo bem, mas infelizmente não estava. Eu vi em seus olhos que ele já sabia do por que eu estar agindo desta forma. Uma raiva me subiu e esqueci completamente onde estava. Graças a Deus, Levi não estava por perto, pois ele mataria o Igor se sequer cogitasse a possibilidade de eu ser filmada sem saber enquanto transava com ele. — Vou matar o seu amiguinho Gabriel — vociferei. — Diabinha! — Não me chama assim! — gritei. — Eu estou com muita raiva nesse instante. Acho melhor conversarmos depois. — Não! Eu não vou sair de perto de você. Me xingue o quanto quiser, mas não irei te deixar sozinha. — Essa é minha deixa para ir andar a cavalo — Miguel falou levantando-se da rede e nos deixando sozinhos. Eu estava tão decepcionada com tudo que havia escutado no quarto da Sarah que nem o tinha visto ali. — Vem comigo, Diabinha — ele pegou minha mão e saiu me puxando até seu carro.


— Onde você está me levando? — perguntei logo que ele deu a partida no carro e saiu pela estrada. — Você precisa esfriar a cabeça — sorriu debochado, tentando de alguma forma amenizar o clima. Mas não eu consegui devolver o sorriso. A raiva e o medo ferviam dentro de mim. Depois de dez minutos dirigindo por uma estrada de terra, Igor parou subitamente próximo a uma pequena trilha. Olhei em volta e só vi vegetação. — O carro só vai até aqui. O resto, faremos andando. Igor desceu do carro, contornou abrindo a porta para mim me ajudando a descer. Começamos a seguir a trilha. Era uma descida e havia bastante buracos e pedregulhos. Cuidadosamente e conhecendo perfeitamente o caminho, Igor me guiava e me ajudava para que não escorregasse. — Está perto? — perguntei quando ouvi barulho forte de queda d’água. Ele apenas sorriu para mim me segurando para não cair. Andamos em média 2 km e cada vez que nos embrenhávamos na mata mais o barulho de queda d’água aumentava. Contornamos uma pequena escultura de pedra e na mesma hora fiquei imobilizada, admirando o lugar. Uma cachoeira linda jorrava fortemente em queda em uma piscina natural repleta de pedras. A água era tão transparente que podíamos ver os peixes dançando conforme o vento movimentava a água. Coberta por uma vegetação, era discreta e visivelmente pouco visitada. Apenas o barulho das águas e o canto dos pássaros animavam o local. Senti Igor se aproximar lentamente por trás de mim. Suas mãos envolveram minha cintura, puxando-me para encostar-se a seu peito. Seus lábios imediatamente deslizaram beijos ao longo do meu pescoço me deixando arrepiada. — Você ainda quer brigar comigo, Diabinha? — soprou baixinho sem deixar de beijar a minha pele. — Um pouco. Quero dizer, preciso te perguntar algumas coisas — respondi, mas meu corpo traidor já dava sinais da excitação que ele me provocava. — Então primeiro vamos tomar um banho e esfriar a cabeça, depois conversamos. Soltou-me de repente, o que fez meu corpo resmungar de desejo. Tirou suas roupas ficando apenas de cueca boxer. — Deixe-me te ajudar a tirar seu vestido — veio para cima de mim todo atencioso. — Estou sem soutien — falei subitamente. Um sorriso malicioso surgiu em seus lábios arrepiando toda a minha coluna vertebral. — Ninguém irá nos ver. Não tenha medo. Fique só de calcinha — disse me convencendo.


Retirei primeiro as botas e em seguida o vestido, ficando apenas com uma micro calcinha de renda. Automaticamente, devido ao vento, os bicos dos meus seios endureceram. Igor me admirava, faminto e desejoso, o volume em sua cueca não negava o quanto estava excitado. — Você é perfeita. Eu não mudaria e nem acrescentaria nada em você — proferiu cheio de paixão. O que fazia com que minha raiva diminuísse cada vez mais. — Agora venha. A água deve estar deliciosa. A água estava fria, mas muito deliciosa. Fomos até a cachoeira, brincamos e ele me puxava para nos beijarmos. Sempre atencioso e carinhoso. Nadamos bastante e quando me cansei encosteime a uma pedra e deixei que o sol secasse meu rosto. — Cansou, Minha Sereia? — sorri e esguichei água em seu rosto. — Ainda está brava? — Decepcionada para falar a verdade. — Comigo? — Um pouco. Talvez muito. Depende — abaixei a cabeça. — Ei! O que aconteceu? — se aproximou me entrelaçando em seus braços e beijando meus lábios. — Estou preocupada com a Sarah e com o que Gabriel pode ter feito para prejudicá-la. — O Gabriel não irá prejudicá-la. Ele está louco por tê-la magoado. — Ah! Tá bom. Que dizer que o que ele fez é correto? Justificável? — Não. Eu não aprovo a atitude dele, mas o Gabriel jamais espalharia vídeos pela internet. Além de prejudicar suas companheiras, prejudicaria a ele também. Ele não seria tão imbecil quanto já é — expressou sincero. — E a você também, ele poderia te prejudicar — falei, enquanto analisava sua reação. Igor franziu a testa aparentemente sem entender o que eu tinha pronunciado. — Tem vídeos seus também — dei de ombros, fingindo não me importar, mas foi em vão. — Ah! Agora entendi — aquele sorriso zombeteiro que tanto me irritou no início do nosso namoro surgiu largamente. — Eu adoro quando você fica enciumada. Consegue ficar ainda mais linda fazendo biquinho. — Não estou com ciúmes. Este não é o ponto, Igor. Só não quero que minta pra mim. — Não sabia que tinha vídeos meus transando com outras mulheres. Nunca escondi de você meu passado. E quando Gabriel e eu compartilhamos mulheres na casa dele, eu não sabia dessa sua mania — acariciou meu rosto docemente. — Foi há muito tempo, Diabinha. Muito antes de ser enfeitiçado por você. — Mas, o que o Gabriel fez com a Sarah é imperdoável — reclamei. — Ele não pode filmar


suas amantes sem que elas saibam. Isso é errado. Sem escrúpulos. — Sim. É errado. E Luís e eu já discutimos muito sobre isso com ele. Porém, eu te garanto, Alice, ele não fará nada que prejudique a Sarah. Do contrário eu serei o primeiro a tomar iniciativa de pará-lo. — Tomara, Igor. Tomara. Suas mãos apalparam meus seios. Igor passou a brincar com os bicos endurecidos levando sua boca a um e chupando com força. Gemi alto esquecendo completamente do que estávamos conversando há pouco. Deslizei minhas mãos por todo seu corpo até chegar a sua cueca boxer e sentir seu membro duro, pronto para saltar fora da vestimenta. E obedientemente assim eu fiz. Liberei seu pau e passei a masturbá-lo, deixando-o ainda mais duro. — Eu quero você, Diabinha. Sempre — clamou. — Jamais faria algo que te magoasse. Confie em mim. Com a outra mão afastei minha calcinha para o lado e pressionei seu membro na entrada do meu núcleo excitado. Com um só golpe, Igor me penetrou fazendo com que gemêssemos juntos com o prazer arrebatador. Envolvi minhas pernas em sua cintura para que facilitasse as estocadas precisas que Igor dava. — Eu quero gozar junto com você, Alice — sussurrou mordiscando o lóbulo da minha orelha. — Vem gozar com o seu Devasso. Sou seu, gostosa… Apenas seu. Vem pra mim. Como um comando e depois de mais duas estocadas gozamos juntos. Amando-nos e nos saciando apenas com a natureza presenciando a nossa paixão. — Eu te amo, Igor Salazar — finalizei na certeza que não poderia mais omitir o que sentia por ele.


Capítulo 19 Abençoado

Igor Ao ouvir Alice declarando seu amor por mim enquanto gozávamos um sentimento intenso e libertador, reverberou dentro de mim. Ataquei, sem piedade, sua boca, sugando tudo dela para mim. Derramando e preenchendo-a com todo o meu prazer. Depois de suas palavras eu a queria mais. Muito mais dela. Completá-la. A confirmação do seu amor por mim era a essência que faltava para consumar nossa relação, mas, também a hesitação e o medo de nunca poder retribuir como ela merecia. Eu nunca amei ninguém. Eu a desejava tanto e a queria comigo, só para ser minha, me sentia totalmente entregue a ela. Mas eu ainda não tinha ideia dos meus sentimentos. Claro que sentia algo muito forte e arrebatador por Alice. Com ela tudo era diferente, uma gama de emoções e descobertas inéditas. Se isso era amor, eu ainda não fazia a menor ideia. A única certeza que tinha era de que éramos mais do que amantes e parceiros. Alice me fazia querer ser melhor, ao mesmo tempo em que adorava essa afeição, sentia ainda mais pavor de que tudo poderia acabar a qualquer momento. — Repete o que você disse, Alice — pedi assim que soltei os seus lábios inchados e fixei o meu olhar ao seu. Eu me perdia sempre em seus olhos, principalmente quando ela estava excitada e satisfeita. A tonalidade deles sempre mudava para um azul tão profundo, que era capaz de me dominar apenas por encará-los. — Eu te amo — repetiu como um gemido. — Quem você ama? — necessitava comprovar que era eu, somente eu, quem ela amava. Mesmo que tivéssemos acabado do nos deliciarmos de prazer, permanecíamos ainda excitados, querendo mais um do outro. — Amo você, Meu Devasso... Eu te amo, Igor. Sua declaração era a sinfonia perfeita. A deixa para sugar tudo dela somente para mim. Sem pestanejar virei-a, deitando-a de bruços sob a pedra comprimindo seus seios apetitosos, a mesma estava molhada e não causou nenhum desconforto. Empinei sua bundinha redonda e linda. Arranquei sua calcinha e a penetrei novamente, como um louco alucinado em busca da sua redenção, deslizando


beijos ao longo da sua coluna enquanto estocava cada vez mais rápido e forte. A água chacoalhava junto com nosso êxtase. Sustentando sua bundinha com as duas mãos, abri devagarzinho e passei delicadamente um dedo por cima do seu orifício sem introduzir. No mesmo instante senti seu corpo reagir insegura ao pequeno toque. Debrucei por cima dela até chegar ao seu ouvido. — Não será hoje, mas muito em breve irei comer sua bundinha toda meladinha de lubrificante e ao mesmo tempo estocando seu amiguinho vibrador em minha bocetinha rosada. Porque essa boceta é minha, só minha — murmurei, fazendo-a gemer ainda mais. — Você vai me deixar comer seu cuzinho, Diabinha? — Igor! — rogou em um suspiro. — Me responde. Prometo te deixar tão excitada como está agora. — Si... Sim. — Sim, o quê? — Prometo deixar você comer meu bumbum — ela completou. Levantei puxando-a junto comigo aumentando a velocidade das estocadas, beijando e chupando a curva do seu pescoço. Estava próximo do meu ápice, mas precisava satisfazê-la antes. Estimulei seu clitóris inchado e sensível, liberando seu gozo. Alice esfregava sua bundinha, friccionando ainda mais nossa pele ao mesmo tempo em que liberava seu gozo me deixando alucinado e encontrando também o meu prazer. Depois que o sol ajudou a nos secar, nos vestimos. Cedi minha camisa para Alice para que colocasse por cima do vestido, sua calcinha tinha ficado destruída e o vestido não disfarçaria a sua nudez. Retornamos até o meu carro de mãos dadas, parando vez e outra para trocarmos carinho. Seu semblante estava um pouco relaxado, no entanto, Alice não escondia a tensão e preocupação sobre o caso de sua melhor amiga e o meu amigo Gabriel. Claro que repudiava atitudes como as dele. Várias vezes, Luís e eu sentamos e tentamos convencê-lo do quanto àquilo era errado. Sim, é legal os casais que gostam de gravar um momento junto para depois assistirem ou guardar de recordação, mas o simples fato de uma pessoa ser filmada sem saber em um momento íntimo com seu parceiro era doentio. Eu tinha certeza que Gabriel jamais iria expor sua intimidade ou prejudicar uma pessoa exibindo-as em redes sociais, mesmo assim, não justificava essa obsessão por vídeos íntimos. Chegamos à Casa Grande por volta do meio-dia. Todos já estavam sentados à mesa para almoçar. — Queridos, não sabíamos que hora vocês voltariam, então, decidimos começar a refeição sem vocês — minha avó anunciou gentilmente. — Não tem problema dona Elza. Igor e eu perdemos a hora — Alice proferiu encabulada por todos que nos observavam. Alguns com um sorriso irônico no rosto e outro, no caso de Levi,


olhando-nos de cara feia. Estava na cara para todos que estavam à mesa e na forma como chegamos, descabelados, que fizemos muito mais que um passeio pela fazenda. — Espero que tenham se divertido — Vovó Elza continuou. — Com certeza o tour pela fazenda rendeu — a pestinha da minha irmã sorria maliciosa. — Podemos esperar por vocês enquanto se trocam — mamãe disse. — Não, podem começar sem a gente. Iremos tomar banho e nos trocarmos — respondi. — Só não demorem muito ou irão comer comida fria — Ingrid expressou debochada, deixando Alice ainda mais envergonhada. — Ingrid! — mamãe chamou sua atenção. Sem dizer nada seguimos para o nosso quarto. Por mim ficaríamos trancados o resto da tarde lá, mas infelizmente esse não era o intuito do passeio pela fazenda. — Acho que um dia ainda morrerei de vergonha na frente da sua família — Alice expressou logo que entramos no nosso quarto. — Acho que eles pensam que sou uma ninfomaníaca. Não consegui me segurar e gargalhei da maneira como ela se manifestou. — Igor! É sério — disse furiosa. — Quantos micos já passei na frente da sua família? Umas quatro ou cinco vezes acredito. Você não liga porque é descarado. Avancei jogando-a em cima da cama e caindo sobre ela, fixando meus olhos aos seus. — Deixe de bobagem. Todos na minha família te adoram e acham você inteligente, dedicada e muito linda — afirmei. — E por mais que eu seja obcecado pelo seu lado fogoso, o tarado ainda sou eu. E eles sabem disso. Sem deixá-la falar, invadi sua boca buscando sua língua e a chupando com desejo. Meu pau automaticamente reagiu ficando duro. Dedilhei passeando e acariciando por seu corpo até chegar entre as pernas forçando que ela abrisse um pouco mais para sentir o seu mel se acumulado só para minha satisfação. — Igor! — ronronou desejosa. — Precisamos nos trocar. — Eu sei... — confirmei passando um dedo por cima do seu clitóris incitando-a. — Então, para! — suplicou baixinho. — Vou parar, assim que vir você gozar na minha boca — desci até o meio de suas pernas levantando o seu vestido que estava por baixo da minha camisa que ela vestia. Enfiei minha língua em seu canal buscando seu ponto de prazer, chupando com vontade como se tivesse provando do melhor sabor de sorvete.


Enquanto me saciava daquele manjar, que era o sabor delicioso da bocetinha da Minha Diabinha, ela lutava contra seus próprios gemidos. A casa era grande, e eu sabia que se ela gritasse de prazer, provavelmente ninguém a escutaria, sobretudo, era incrível a forma como duelava sobre seu próprio tesão na tentativa de se manter silenciosa. Friccionei meu nariz em seu clitóris, enquanto minha língua a massageava por dentro. Aumentei o ritmo, conforme seu corpo demonstrava os primeiros espasmos de prazer. Segundos depois, Alice tampava a boca abafando os gemidos devido a sua libertação me fazendo rir escondido para que não percebesse. Subi novamente até ficamos cara a cara, capturando sua boca para que sentisse seu sabor em meus lábios. — Você é um tarado — resmungou recuperando o fôlego. — Sou mesmo. Nunca neguei. Mas você, Alice Schneider, é a minha dependência. Sou um viciado quando se trata de você. Sempre quero mais. Muito mais. — Desse jeito vou ficar mimada — enunciou abrindo o sorriso mais belo e singelo que me inebriava todas às vezes. — Sempre irei te mimar — beijei a ponta do seu nariz, sentando em seguida sobre os meus joelhos. — Vem. Vamos tomar banho. Precisamos repor energias para a segunda maratona logo mais. — Devasso! Desse jeito irei ficar totalmente assada — sentou-se tirando minha camisa e o seu vestido ficando completamente nua. — Se ficar com a bocetinha vermelhinha, prometo passar uma pomada contra assaduras e cuidar de você como merece — tirei minha roupa ficando completamente pelado como ela. — Agora vem. Preciso que você me dê banho — anunciei maliciosamente puxando-a para o banheiro.

O restante da tarde a Diabinha e eu passamos na companhia dos nossos amigos e familiares. Passeamos sobre os pastos e plantações, mostrei os meus lugares favoritos, fomos na vila e a apresentei às pessoas que fizeram parte da minha infância. Convidei todos para apreciarmos o pôr do sol. Já havia presenciado muitos em vários lugares que visitei, mas nada se comparava ver o sol se pôr sentado no alto da pedra do Sabiá, nome que meu pai havia dado quando criança para uma pedra que existia na fazenda. Na minha infância, sempre que vínhamos para a fazenda, ele me levava para assistirmos o sol indo descansar. Dizia que era o seu lugar favorito em todo o mundo. E logo que ele morreu, passei horas e horas, sentado na pedra na esperança que ele aparecesse. No final, só Alice e eu fomos ver o pôr do sol. Minha mãe e dona Laura decidiram ir à capela que meu avô Dante havia reformado logo que adquiriu a fazenda. Enquanto todos os outros se despediram e seguiram para a fazenda vizinha, onde haveria um pequeno encontro de sanfoneiros,


com exceção do Levi que ficou conversando com minha avó, na verdade, mais escutando entusiasmado com as histórias que ela falava das aventuras dos primeiros anos morando na fazenda. Aliás, de certa forma, adorei que estaríamos apenas eu e Minha Diabinha. Depois da morte do meu pai, a pedra havia se tornado um lugar sagrado pra mim. Nada seria mais perfeito que contemplar aquele lugar apenas nós dois, sozinhos. — Nossa! — Alice expressou admirada assim que subimos até o topo da pedra. Mesmo tentando recuperar o fôlego, devido à subida, Alice olhava os quatros cantos que o alto da pedra nos permitia, impressionada. — Isso aqui é um paraíso, Igor — sorriu docemente. — A subida é muito cansativa, mas vale o esforço. Eu poderia vir aqui todos os dias só para meditar e tirar tudo de negativo de dentro de mim. — A intenção é essa — a abracei por trás aspirando o cheiro do seu xampu. — Sempre que estou indeciso, estressado, ou até mesmo quando preciso tomar decisões importantes, aqui é o lugar que venho me refugiar. Abrir minha mente e purificar minhas ideias. — Estamos aqui há pouco mais que dois minutos e já me sinto revigorada — virou-me abraçando. — Obrigada por me trazer aqui. Sorri feito um bobo por deixá-la feliz. — Venha. Vamos nos sentar. Deslocamos e sentamos no topo de uma ondulação de rocha. Alice sentou entre as minhas pernas. Abri meu casaco e a abracei protegendo-a do frio devido à ventania. Ficamos ali em silêncio, abraçados, por vários minutos. Seu corpo escorado ao meu peito, ao mesmo tempo em que meu queixo estava encostado no alto da sua cabeça. — Você é muito abençoado, Igor — Alice quebrou o silêncio, sem desviar o olhar do horizonte. — São poucas as pessoas que tem o privilégio de ter um lugar tão calmo e revigorante como refúgio. — Esse era o lugar favorito do meu pai. Alberto Salazar era o meu exemplo, meu super-herói. Quando o perdi, algo dentro de mim se partiu. Não sei dizer o quê. A primeira vez que subi aqui após a sua morte, foi na esperança de encontrar o que perdi. Mesmo um menino, jurei aqui para ele, que nunca abandonaria minha mãe e Ingrid. Que sempre buscaria deixá-lo orgulhoso. — Eu tenho certeza de que ele tem muito orgulho de você, querido — ela interrompeu virando o corpo para me olhar. — Toda sua família tem muito orgulho de você. — Quando te falei que é aqui o lugar que sempre encontro à resposta certa... — fixei meu olhar ao seu. —... Eu sinto que é meu pai me aconselhando. Direcionando-me. Acariciei seu rosto delicadamente e emocionado. Ela era tão linda. Tão certa pra mim. Olhei para céu, os últimos raios de sol se perdiam com a chegada da noite. Fechei os olhos e senti a brisa me tocar trazendo respostas que até então eu não sabia.


— É melhor irmos. Esqueci a lanterna e daqui a pouco aqui ficará um breu. Não quero que você se machuque — Alice balançou a cabeça concordando. Ajudei-a levantar. Segurei firme sua mão para não escorregar na descida, pois havia várias pedrinhas que facilitavam um tombo feio. Enquanto ela se apoiava entre uma rocha e minha mão, sem esperar, senti um sopro passar pela minha nuca eriçando alguns pelos. Fiquei parado esperando que acontecesse novamente. — Querido, está tudo bem? — o som doce e preocupado de Alice retumbou me tirando do devaneio. — Igor, olha pra mim. — Estou bem — respondi para tranquilizá-la, uma sensação boa percorria por todo o meu corpo. Como se quisesse mostrar-me algo. — É melhor irmos. Suas mãos já estão geladas, não quero que pegue um resfriado. Olhei para os últimos raios de sol no céu e sorri. Eu sei, papai. Ela é perfeita pra mim.

Já passavam das 22h, estávamos todos reunidos na varanda. Até a vovó Elza que costumava dormir cedo, ainda se mantinha acordada rindo com Ingrid, Danilo e Sarah a cada partida de dominó. Miguel dedilhava o velho violão do nosso avô. Levi sustentava uma taça de vinho assistindo a dupla, vovó e Sarah, esmagando os adversários, Danilo e Ingrid, para o riso e gargalhada da minha mãe e dona Laura. Alice e eu estávamos deitados na rede, após, também termos perdido, e feio, das “Feras” do dominó. — Está com sono, Diabinha? — perguntei ao sentir sua respiração ficando mais suave. Ela estava deitada de bruços em cima de mim. Sonolenta após o dia longo e agitado e completado com duas taças vinho bebidas agora à noite. — Não — respondeu preguiçosa. — Se quiser, podemos ir para nosso cantinho. Garanto que lá irei te despertar — sussurrei maliciosamente, beijando sua testa. — Só mais alguns minutinhos — remexeu se aconchegando mais ao meu corpo. — Está tão bom aqui. Na verdade não queria sequer sair daquela rede, me sentia reconfortado com ela ronronando baixinho. De repente, um rompante de gargalhada e reclamações surgia da mesa de dominó. Ingrid e Danilo reclamavam por terem sido detonados. Sorri ao me lembrar da infância quando vovó nos


ensinava a jogar dominó. — Só mais uma — Ingrid se queixou fingindo estar brava por ter que ceder a vez para outro que esperava. — Nada disso. Regras são regras agora é a minha vez e a do Levi — mamãe pronunciou. Ingrid e Danilo deixaram a mesa e seguiram sentando-se perto de Miguel. — Toca alguma música, primo — minha irmã falou enchendo duas taças com vinho e entregando uma para o Danilo. Ainda pensei em reclamar com ela por beber, mas Miguel percebendo meu olhar balançou discretamente a cabeça afirmando que não tinha problema algum tomar um cálice de vinho apenas. Escutei os primeiros acordes do violão e um sorriso espontâneo surgiu em meus lábios ao perceber a música. Miguel era fã de Jorge Vercillo, e quando jovem o acompanhei em vários shows do músico, e acabei gostando de algumas de suas canções. Dentre elas, Monalisa, uma das minhas músicas favoritas. Fechei os olhos apreciando a melodia na voz do Miguel. Para um médico, até que ele não fazia feio cantando. Um pequeno vento ultrapassou a rede fazendo Minha Diabinha estremecer com frio. Abracei-a ainda mais para que o calor do meu corpo a aquecesse. Senti a mesma sensação boa que tive no alto da pedra. Vislumbrei aquela mulher deitada sobre mim, me cobrindo e me trazendo paz, felicidade e... esperança. Muita esperança. Ela me amava, ela já tinha murmurado uma vez enquanto achava que eu dormia no meu antigo quarto, na casa da minha mãe. E hoje na cachoeira clamou em voz alta para que eu soubesse que ela me amava. E eu tinha me sentido um filho da puta de um sortudo por isso. Comecei a comparar a minha vida amorosa antes e após Alice, percebi que não queria ficar sem ela. Minha Diabinha me completava, depois dela passei a planejar. Planejar nossas viagens. Levá-la a França e conhecer seu pai e sua cultura. Dividir minhas conquistas, ter seu apoio nas minhas derrotas. Alice era a única mulher que me fazia sentir vivo. A admirei mais uma vez e aquela sensação se instalou entre nós dois e de repente concretizei que estava apaixonado. Alice Ventura Schneider havia prendido meu coração. A princípio achei que surtaria, mas olhando-a cochilando tão serena percebi que até meus receios e medos ela tinha o poder de eliminar. Fui de encontro ao seu ouvido e baixinho acompanhei o refrão junto com Miguel Paralisa com seu olhar Monalisa Seu quase rir... ilumina


Tudo ao redor, minha vida Ai de mim, me conduza Junto a você, ou me usa Pro seu prazer, me fascina Deusa com ar de menina — Diabinha? — a despertei logo que a música acabou. — Hum! — Vamos para o nosso quarto. Eu preciso fazer amor com você.


Capítulo 20 Regresso repentino

Alice Acordei com beijos em meu pescoço, e ainda de olhos fechados sorri apreciando a sensação deliciosa dos lábios quentes e molhados do Igor em minha pele. — Acorda, dorminhoca — ele sussurrou mordiscando minha orelha. — Hrrum! — falei preguiçosa. Estava tão exausta, o dia de ontem, apesar dos pesares, tinha sido tão bom, porém muito cansativo. Havia dormido muito pouco de sexta para o sábado, e aqui na fazenda passeamos praticamente o dia inteiro. E para completar havia bebido duas taças de vinho após o jantar. Não que eu seja fraca com bebida alcoólica, no entanto a fadiga do dia junto com a bebida, conseguiram me derrubar igual a um animal quando é derrubado com tranquilizantes. — Temos que aproveitar a manhã, preguiçosa — Igor me balançou tentando me despertar. — Iremos embora logo após o almoço. — Hrrum! Minha mente queria abrir os olhos e aproveitar o paraíso que era a fazenda da família Salazar, mas meu corpo não obedecia. — Que horas são? — perguntei. — Falta pouco para sete horas. — Isso é madrugada para mim em fim de semana — chiei brincando, me aconchegando em seu corpo e esfregando meu bumbum em seu membro. Independente da hora que fosse dormir Igor sempre acordava bem disposto causando-me inveja. — Por mais que eu deseje essa bundinha deliciosa, eu ainda quero andar a cavalo e tomar banho de rio com você. A manhã passa rápido, e logo teremos que ir embora. Por isso não me atente, Diabinha ou não sairemos desse quarto até a hora de irmos embora — deu uma tapa em meu bumbum,


levantou da cama pelado e caminhou para o banheiro. — Dois minutos. É o prazo que você tem para levantar-se da cama e vir até aqui, ou não respondo por mim — completou, soando debochado. Mexi-me na cama espreguiçando e sentindo o quão meu corpo estava tenso. Forçadamente, consegui abrir os olhos ajustando a pequena luminosidade dos raios solares que entravam pela cortina, dando ao quarto um toque especial. Os lençóis da cama estavam todos amassados e sorri ao me lembrar de pequenos flashes da noite passada. Igor tinha me carregado da varanda até o nosso quarto em seus braços. Minha cabeça estava encostada em seu ombro e meu nariz na curva do seu pescoço aspirando seu aroma inebriante. Ele não parava de murmurar que antes de dormirmos faria amor comigo. E de fato ele o fez. De forma lenta e carinhosa. Sempre me beijando e dizendo o quanto eu era linda e ele era sortudo por eu ser dele, apenas dele. Depois, enquanto eu estava totalmente esgotada, Igor foi até o banheiro pegou uma toalha molhada com água quente, limpou-me idolatrando meu corpo e cuidando de mim. Depois jogou a tolha ao chão e deitou ao meu lado aninhando meu corpo ao seu, apagando instantaneamente. Sentei-me na cama e procurei a toalha que havia jogado ao chão. Lá estava ela, suja, com resquícios do seu prazer que havia despejando em mim. — Alice, vou contar até dez para você estar aqui no banheiro — ele gritou me fazendo pensar se esperava ou não ele vir me pegar, o que certamente aconteceria. Nua, enrolei-me em um lençol. Peguei a toalha suja do chão e segui para o banheiro. Realmente estava muito cansada, mas não queria perder a manhã na fazenda. Mais tarde descansaria quando chegasse em casa. O que me lembrou de que seria uma luta convencê-lo de que não iria para o seu apartamento. Queria ficar um pouco com minha mãe e conversarmos curtindo o restinho do domingo. Depois que Sandrinha foi para a França e eu comecei a namorar o Igor, ela ficou mais sozinha, e às vezes me sinto culpada por deixá-la de lado, mesmo sabendo que está muito feliz pelo meu relacionamento. Porém, queria um pouco de colo de mãe e desabafar sobre meus sentimentos em relação ao Igor. Dona Laura sempre me dava as respostas de que precisava. Entrei no banheiro, e através do vidro embaçado do box apreciei o corpo delicioso do meu homem enquanto tomava banho. Igor era um homem viril e sabia muito bem disso. Não era à toa que era tão convencido. Ele exalava masculinidade, causando estragos por onde passava. À primeira vista, quem o conhecia o achava presunçoso e até um pouco esnobe, no entanto, possuía o melhor coração que eu já tinha conhecido. Era devoto ao seu trabalho e principalmente à sua família. E até esse momento vinha cumprindo sua missão em me fazer feliz. — Vai ficar aí parada admirando seu homem enquanto toma banho? — proferiu, tirando-me dos devaneios. — Sei que sou irresistível, confesso, mas temos uma manhã linda lá fora para aproveitarmos. Então, venha já para esse box! — Metido! — zoei, jogando a toalha suja no cesto de roupas e deixando cair o lençol ao chão. Ele desligou o chuveiro esperando que eu abrisse o box e entrasse. De cara o vapor quente me atingiu, passando uma sensação reconfortante.


— Agora vou te limpar, pois te deixei muito sujinha ontem — puxou-me para seu corpo todo ensaboado beijando minha testa. — Vai me deixar limpinha? — questionei passando a língua por entre seus lábios. — Muito limpinha — confirmou, voltando a ligar o chuveiro.

— Enquanto você termina de se aprontar, eu vou ao quarto da vovó Elza para ver se ela precisa de ajuda — Igor avisou. — Tudo bem. Eu já estou acabando. — Te encontro na mesa do café — veio até mim e beijou meus lábios. — Vê se não demora. Fiquei rindo feito uma adolescente boba enquanto ele deixava o quarto. Estava tão feliz que às vezes me sentia culpada. Principalmente com o problema da Ingrid e agora a questão da Sarah com o Gabriel. Por mais que minha amiga não admitisse, Dan e eu sabíamos que ela nutria sentimentos fortes pelo Gabriel. Terminei de me arrumar, aproveitei e organizei também as nossas malas, deixando tudo preparado para quando chegasse a hora de partirmos. Saí do quarto e segui o caminho do quarto onde minha mãe tinha ficado. O nome Casa Grande fazia jus ao tamanho da casa da avó do Igor. Ela era enorme e com vários quartos de hóspedes. Poderia até ser confundida com um hotel fazenda. Entretida observando os quadros e fotos nas paredes do corredor, me assustei ao deparar com Levi saindo sorrateiramente do quarto da Sarah beijando os seus lábios em despedida. Ambos também se assustaram quando me viram. Sarah fechou a porta rapidamente. Conhecendo-me, ela sabia que eu tomaria satisfação do que havia presenciado. Até ontem ela estava sofrendo e decepcionada por causa do Gabriel. E agora a vejo toda se derretendo pelo meu irmão. — Não pense que irá se esconder de mim por muito tempo, dona Sarah Cianca. Bati na porta do seu quarto apenas para alertá-la que ainda teríamos uma conversa franca. — Você! Não fuja de mim — chamei meu irmão, furiosa. — Nem vem, Ali. Você não manda em mim. Eu não tenho que te dar satisfação da minha vida — retrucou entrando em seu quarto, comigo logo atrás em seus calcanhares. — Mas na minha vida você quer meter o bedelho não é, Levi Schneider? — rebati fechando a porta para não chamarmos atenção. — É diferente. Você é minha irmã e eu tenho como obrigação cuidar de você. Eu prometi isso ao nosso pai.


— Que papo mais machista é esse? — contestei sem acreditar. — Eu tenho o mesmo direito de me preocupar com você. Principalmente por ser sua única família aqui, no Brasil. — Você pode sair, por favor. Preciso tomar banho — desviou do assunto. Levi sempre fazia isso quando sabia que estava errado. — Cadê o carrapato do seu namorado que não está grudado em você? Que milagre vocês não estarem vivendo em sua bolha de amor? — Não faça isso, Levi. Não use o meu namoro para esconder suas merdas — falei tristemente, porque no fundo me sentia culpada por dar mais atenção ao Igor nos últimos tempos. Levi suspirou sabendo que tinha exagerado com suas palavras. Sentou-se na beirada da cama e encarou-me. — O que você quer saber? Se eu passei a noite com sua amiga? — indagou com seu sotaque acentuado. Desde que chegou ao Brasil, foram pouquíssimas vezes que falávamos em francês, ele queria aprimorar sua dicção em português e eu sempre o ajudava. E mesmo sem perder o seu sotaque, Levi falava fluentemente o português. — Sim. Passamos a noite juntos, mas não irei entrar em detalhes. Se quiser pergunte a Sarah como foi nosso desempenho. — Eu não quero saber disso — me aproximei ficando em sua frente. — Eu só não quero ver as pessoas que amo machucadas. — Foi só sexo. Ela estava afim e eu também. O vinho ajudou e pronto... rolou. Não vou pedi-la em casamento — ele levou suas mãos em cada lado do meu quadril. — Tudo volta ao normal. — Será mesmo? — levantei seu rosto para que me olhasse nos olhos. — Você acha que não percebo como a olha? Como você muda e fica mais reservado quando a Sarah está por perto? Levi, eu sei, eu sinto que você nutre sentimentos por minha amiga. E eu juro que seria a primeira a torcer por essa relação se esses sentimentos fossem retribuídos. Mas a Sah gosta do Gabriel, e eu sei que no final, você sairá machucado. — Não foi isso que ela demonstrou na noite de ontem. Pelo contrário, ela gostou bastante — resmungou ofendido. — Eu conheço minha amiga, assim como conheço você. E sei que ela também tem atração por você, mas querendo ou não o Gabriel ainda é o cara que mexe com ela. — Você sabe como jogar um balde de água fria em alguém — falou encostando sua cabeça em minha barriga. — Me desculpe — encostei meu queixo em sua cabeça. — Mas eu te amo demais para te ver sofrendo. — Eu também te amo muito, chérie. Eu entendo perfeitamente você. — Ao menos posso saber como e quando isso aconteceu entre vocês? — instiguei curiosa,


sabendo que não me revelaria. — Um homem de verdade não revela seus casos amorosos. Se quiser saber pergunte à sua amiga. — Irei mesmo perguntar — afirmei recebendo um sorriso debochado. Ele levantou-se, me abraçando, dizendo que ficaria tudo bem e que não precisava ficar preocupada. Mudamos de assunto e conversamos sobre a vinda do papai para o Brasil e sobre o quanto nós estávamos encantados com a fazenda, a ponto de ele pensar em comprar um pequeno rancho, porém decidimos debater melhor o assunto quando o senhor Ely Schneider, nosso pai, estivesse por aqui. Deixei Levi em seu quarto, tomando banho para ir tomar café da manhã com todos. Percorri o restante do corredor até chegar à sala grande de estar. A maioria já se encontrava lá. Menos Igor e Levi, que ainda estava se trocando. Cumprimentei cada um com beijos e abraços. — Onde está o Igor? — perguntei a dona Elena. — Ele foi te buscar no quarto — respondeu sorridente. — Ah! Olha ele ali. Virei-me dando de cara com aqueles olhos claros fixados em mim, consumindo-me e deixandome completamente em transe, apenas por me observar daquela forma. — Onde você estava? — perguntou logo que se aproximou de mim. — Estava conversando com o Levi — disse e mirei séria para Sarah que havia escutado e estava me observando envergonhada. Alguns minutos depois Levi se juntou e todos nos reunimos à mesa já posta com o café da manhã. Havia sido uma manhã agradável. Passeamos a cavalo e tomamos banho de rio. Dessa vez, Igor e eu não deixamos meus amigos e nossos familiares de lado, ficando no nosso mundinho, como o Levi havia falado. Brincamos e nos divertimos bastante com todos. Até deixei de lado minha conversa com a Sarah, porém deixando bem claro para ela que nós duas sentaríamos e conversaríamos em breve. Amo demais a minha amiga, mas não quero que use o meu irmão para curar suas lamúrias. E deixaria isso bem claro, principalmente por saber dos sentimentos dele por ela, mesmo que negando. Depois do almoço nos organizamos para pegar a estrada e voltarmos para casa. Claro que Igor reclamou e fez birra como um garotinho mimado quando disse que ficaria em casa. Acabei o convencendo dizendo que ele precisava dar mais atenção ao primo. No entanto, o ganhei quando prometi que dormiria com ele no dia seguinte. — Dona Elza, muito obrigada pela acolhida. A senhora mora no paraíso — agradeci beijando sua testa. — Ah! Menina. O prazer é todo meu. Venha quando quiser. Todos vocês estão convidados.


Amo ver essa casa cheia — rebateu sorrindo docemente. Agachei para ficar cara a cara com ela e olhar em seus olhos. — Obrigada pelos conselhos — pronunciei baixinho para que apenas ela escutasse. — Me sinto mais confiante em relação aos sentimentos do Igor. — Não duvide, Alice. Meu menino te ama — afagou meu rosto com carinho. — E muito obrigada por estar fazendo-o muito feliz. Abracei-a, depois me levantei e me despedi da Zica e de mais duas moças que a ajudavam nos serviços da Casa Grande. Me acomodei no carro e percebi que atrás estava sentada apenas minha mãe e Sarah. — Cadê o Levi? — interroguei imediatamente. — Ele disse que voltaria no carro do Danilo. Como o carro dele está na garagem da casa de Elena, nós não precisamos passar lá só para deixá-lo. E assim seguiremos direto para casa. — Entendo — disse, mas sabendo que tanto ele quanto Sarah estavam evitando a proximidade. Foi assim durante toda a manhã. Um evitando o outro. — Vejo a senhora quinta-feira, vovó — Igor falou entrando no carro dando tchau para sua avó. Saímos pegando a estrada de terra e deixando para trás a fazenda e um final de semana inesquecível. — Sua avó vai para a cidade essa semana? — perguntei minutos depois que ultrapassamos a porteira e saímos das terras da família Salazar. — Sim. Ela quer acompanhar a biopsia da Ingrid. Vovó Elza acha que esconderemos algo dela. — E vocês irão esconder? — Dona Elza é muito esperta. Mesmo se quiséssemos não conseguiríamos — completou levando suas mãos até as minhas coxas e acariciando. Assim como a ida, a volta também tinha sido rápida e muito tranquila. Nos despedimos brevemente do pessoal que estava no carro do Danilo e seguimos o trajeto até a casa de Sarah para deixá-la. Igor estacionou em frente ao meu condomínio. Descemos, e ele ajudou a mim e a mamãe a tirar as malas do seu carro. — Gostou do passeio, dona Laura? — Claro! Muito obrigada. Foi um final de semana maravilhoso — mamãe respondeu entusiasmada. — Podemos marcar um passeio mais prolongado em breve. O que acha?


— Com certeza. Um dia é muito pouco — os olhos de mamãe brilhavam de felicidade. Olhei para Igor sorrindo agradecida por proporcionar alegria a minha mãe. Eu jamais a abandonaria, mas desejava muito que ela encontrasse alguém para fazê-la feliz e que não a deixasse sozinha. — Vocês não vão entrar? — mamãe perguntou. — Eu só vou me despedir do Igor e já entro — respondi. Percebendo que eu não iria para a casa do Igor e que ele não iria ficar, se despediu dele e entrou em nosso apartamento. — Obrigada por esse final de semana — proferi me aproximando dele que se mantinha encostado ao seu carro. — Podemos ir para a fazenda quando quiser — contornou seus braços pelo meu corpo, enfiando seus lábios em meu pescoço e deslizando sua língua até chegar a meu ouvido. — Tem certeza que não quer vir para minha casa, Diabinha? Já estou com saudades de você todinha. — Igor! — sussurrei arrepiada pelos seus carinhos. — Isso é golpe baixo. Eu preciso ficar um pouco com minha mãe. Além do mais amanhã serei todinha sua para abusar de mim o quanto quiser. — Ah, Diabinha! Você já é todinha minha, mas com certeza amanhã irei abusar desse corpinho delicioso que sempre me deixa excitado — enunciou se esfregando em mim. — Igor! As pessoas podem nos ver. Ele apenas deu seu conhecido sorriso malicioso e que não estava nem aí para o que as pessoas falavam ou achavam. Despedimo-nos combinando de nos ver amanhã bem cedo antes dos nossos primeiros pacientes. O restante do domingo, fiquei coladinha na minha mãe. Pedimos sushi para jantar, conversamos bastante, confessei que falei ao Igor que estava apaixonada por ele, mas que ele não pronunciou nada, no entanto, demonstrava através de atitudes que me amava. Mamãe sorriu bastante e assim como a dona Elza, ela também disse o quanto o Igor estava apaixonado. Que tanto ela como dona Elena estavam felizes por nossa relação, e o quanto um fazia bem ao outro. Por fim assistimos a um filme antigo. Eu deitada com a cabeça em seu colo enquanto ela fazia cafuné em mim. Por mais que estivesse sentido saudades do corpo quentinho do Igor colado ao meu na hora em que me deitei, valeu cada segundo ficar um tempinho com minha mãe.

Um mês depois A Clínica, como sempre, estava uma loucura. Mal tinha tempo para respirar. Na maioria das vezes, Igor preparava a nossa refeição no refeitório e levava para almoçarmos juntos em meu consultório. Estava evitando ir ao refeitório também e dar de cara com o Gabriel. Ele até que tentou conversar comigo e se explicar, mas Igor com medo da minha reação pediu-lhe que deixasse as


coisas irem se acalmando por si só. Infelizmente, ainda não tinha conversado com Sarinha. Ela havia recebido uma proposta irrecusável de estágio com uma das melhores arquitetas e designers de interior do Brasil. O estágio, juntamente com a faculdade e o trabalho, deixou minha amiga realmente sem tempo para mim e para o Danilo. O que fez a amizade do Danilo e Ingrid se firmarem ainda mais. Eles dois estavam tipo unha e cutícula para cima e para baixo. Até o fim de um rolo que o Dan tinha, foi a Ingrid quem o apoiou. Fiquei um pouco enciumada e me senti de escanteio por meu amigo sequer ter me avisado. No entanto, ele como sempre me surpreendia e mostrava o quanto era meu amigo-irmão. Enviou-me na Clínica um enorme buquê de rosas amarelas e um lindo cartão dizendo de várias formas o quanto a nossa amizade era inquebrável. E é claro que chorei lendo sua declaração escrita deixando o Igor aflito sem entender. Hoje sairia o resultado da biópsia da Ingrid. Todos nós estávamos nervosos e torcendo para que fosse benigno o tumor. Estava marcado para sair no final da tarde. Miguel havia ido pegar dona Elza na fazenda. Ela esteve junto da Ingrid no dia que fizeram a incisão para colher uma amostra do tecido para avaliação e queria também, estar na hora que o resultado ficasse pronto. Igor estava ansioso à espera do resultado dos exames e não parava quieto. Dei graças a Deus que não tinha nenhuma cesariana marcada para hoje, e ficava quietinha orando para que não surgisse uma emergência de última hora para ele atender no Hospital. — Alice, sua paciente ligou e avisou que iria se atrasar uns trinta minutos — Ana me avisou. — Como não tem paciente para esse horário eu troquei. Tudo bem? — Certo. Vou aproveitar e descansar um pouco. Estou com um pouco de dor de cabeça. — Tomou alguma coisa? — Sim, tomei. Obrigada, Ana. — Quer que eu avise ao Igor? — Por favor, não. Ele já está nervoso demais à espera do resultado dos exames da Ingrid. Não quero preocupá-lo com besteira — pedi gentilmente. Ana deixou-me sozinha em meu consultório. Encostei a cabeça na poltrona e fechei os olhos para descansar. Acordei dez minutos depois com o som do meu celular pessoal. Verifiquei e era um número desconhecido. Recusei e voltei a fechar olhos. O mesmo número voltou a ligar insistentemente mais três vezes e todas, eu recusei. Na quarta vez sem paciência e curiosa atendi, talvez pudesse ser algo sério. — Alô? — pronunciei duvidosa. — Até que enfim atendeu! Que mania chata essa de não atender números desconhecidos. — Sandrinha? — reajustei-me na cadeira, surpresa com minha irmã ligando.


— Sim. Sou eu — confirmou abusada. — O que acont... Onde você está Maria Sandra? — perguntei confusa, percebendo que o número ao qual me ligava não era internacional. E sim daqui, do Brasil. — Estou no aeroporto. Desembarquei há uma hora — disse simplesmente. — Como assim? Era para você estar na França — indaguei. Sandrinha tinha ainda um ano de estudo em Paris. O que a fez voltar? — Por que você voltou antes do tempo? — Ali, você vai poder vir me pegar ou terei que pegar um táxi? — cortou-me atrevida como sempre fazia quando aprontava algo. Minha vontade era de dizer que se virasse, pois não era sua babá. Mas tinha minha mãe, e na certa inventaria uma boa desculpa para enrolá-la como sempre fazia. E eu precisava saber o que minha irmã tinha aprontado para deixar a França tão repentinamente sem avisar a ninguém. — Me espere na entrada do aeroporto. E iremos conversar primeiro antes de te levar para casa — desliguei o telefone na sua cara sem ao menos esperar uma resposta.


Capítulo 21 Chumbo grosso

Igor — Rebeca, aguardo você e sua pequena na próxima semana — despedi-me gentilmente da minha paciente ao acompanhá-la até a recepção da Clínica, admirando sua barriga arredondada de 38 semanas. Mulheres quando estavam grávidas ficavam ainda mais iluminadas. Sua aura era mais pura e sem exceção, existia um brilho diferente, especial. Achava mágico ver o desenvolver de uma gestação. E como ginecologista e obstetra, tinha o privilégio de acompanhar várias gravidezes e poder trazer ao mundo esses anjos. Simplesmente era uma dádiva. E eu era muito grato por isso. — Sim, doutor Igor, até semana que vem — Rebeca estendeu a mão em cumprimento. — Nada de extravagância, mocinha. Lembre-se que a sua princesinha está pertinho de chegar — avisei em tom mais sério. Rebeca era uma jovem de 21 anos que engravidou do ex-namorado. Sua mãe tinha sido paciente do meu pai, ele fez todos os três partos dela. Um menino e duas meninas. Quando ela descobriu que o filho do doutor Alberto Salazar havia se formado em medicina com especialidade em ginecologia e obstetrícia, dona Dulce Castilho, me procurou e junto com suas duas filhas, passaram a serem minhas pacientes. E muito em breve daria segmento a sua geração, trazendo sua primeira neta ao mundo. — Sim, senhor — fez continência. Fiquei observando aquela jovem e futura mãe se despedir das meninas da recepção e em seguida caminhar em direção ao estacionamento. Na mesma hora, lembrei-me da pentelha da minha irmã, Ingrid, ambas tinham a mesma idade. E cada uma com um “fardo” a carregar. Rebeca que seria uma mãe solteira, que provavelmente enfrentaria os meios jurídicos para que sua filha pudesse ter o nome do pai em seu registro de nascimento e uma pensão alimentícia. E minha Ingrid, que vivia na esperança de um prognóstico positivo para aquele tumor recém-descoberto e poder ter sua vida normal de volta. Puxei o celular do jaleco e verifiquei as horas. Faltavam três horas para que o resultado da


biópsia de Ingrid ficasse pronto. Mas para mim e minha família pareciam três anos de espera. Por mais que eu tentasse mostrar placidez, estava chegando ao ponto de explodir de apreensão. — Doutor Igor? — Pamela chamou, tirando-me do devaneio. — Desculpe-me, Pamela. O que disse? — sabia que ela havia pronunciado algo, mas estava com o pensamento longe. — Disse que por hoje é só. Não há mais pacientes. — Sim... Sim. É claro — confirmei. — Estarei na Ala de Fisioterapia. Se precisar de mim é só me chamar. Ficaria conversando com Ana, enquanto Alice atendesse as suas duas últimas pacientes. Tínhamos combinado de agendar poucas consultas para a tarde de hoje, devido ao resultado da biópsia. Eu queria… Não, eu necessitava que Alice estivesse presente. Ela era como um alicerce para me sustentar caso as coisas desandassem. Depois que me descobri apaixonado por ela, Alice passou a participar ainda mais em minha vida. Eu queria dividir tudo com ela. Aquela diabinha em forma de anjo havia me possuído por completo. Eu era dela. Não sentia mais interesse em olhar para outras mulheres. Era a minha mulher que tomava todos os meus pensamentos e desejos. Passei a me ver planejando nosso futuro. Uma semana após voltarmos da fazenda, Alice decidiu que precisávamos de tempo para ficar com nossos amigos. Na hora não concordei e sugeri que saíssemos todos juntos. Não queria imaginála em algum lugar com Sarah e Danilo, correndo o risco de algum filho da puta a paquerar. Era estranho, mas depois de Alice comecei a compreender o instinto possessivo do Leo e Luís com suas mulheres. Eu me sentia da mesma forma. Alice era minha. Só minha. A primeira mulher que me derrubou, me deixando de quatro por ela. — Doutor Igor — uma recepcionista que nunca lembrava o seu nome me chamou encabulada. — A doutora Alice passou por aqui há uns cinco minutos. Percebi que ela ficou sem graça por falar da Alice. Com certeza, se Lilian estivesse presente chamaria sua atenção por fofocas alheias. — Ela foi para o estacionamento? — perguntei marchando preocupado em direção da saída da Clínica, com o celular em mãos para ligar caso não a encontrasse. Alice não tinha costume de sair sem avisar, mesmo que precisasse comprar algo ou pegar a mãe em algum lugar, ela sempre me comunicava ou me enviava uma mensagem. — Sim, senhor — respondeu, mas eu quase não a escutei. Avistei Alice conversando com um dos seguranças. Dei cinco passadas largas, me aproximando dela. — Alice! — chamei aliviado por encontrá-la. Ela me olhou e no mesmo instante meu semblante voltou ao modo preocupado.


— Oi — forçou um sorriso singelo. — O que faz aqui? — Estou esperando um táxi. — Eu já chamei um táxi para a doutora Alice, doutor Igor. Ele já está a caminho — o segurança respondeu. — Então cancele Edson, por favor — pedi, pegando na mão de Alice para que me acompanhasse. Queria saber o porquê de ela estar saindo de táxi sem me avisar. — Não! — Alice expressou-se. Olhei-a sério, alertando que ela não sairia do estacionamento em um táxi, sem eu saber o que estava acontecendo. Agradecemos ao segurança e nos afastamos para termos mais privacidade. — O que está acontecendo? Por que está tão nervosa? — Minha cabeça está no mundo da lua. Achei que tinha vindo com o meu carro. Só me dei conta quando vi minha vaga vazia. Nas últimas semanas decidi que Alice iria e viria comigo para a Clínica, mesmo que ela não dormisse em meu apartamento. No começo ela relutou bastante, no entanto concordou quando falei que sua mãe ficaria menos cansada, pois não precisaria pegar ônibus para ir trabalhar. Eu sabia que Alice faria qualquer coisa por sua família. Então me aproveitei do seu ponto fraco. Mesmo assim, a Diaba era tinhosa e vez ou outra vinha de carro. — E? — insisti que continuasse. — Minha irmã ligou. Está no aeroporto me esperando. Franzi o cenho sem entender nada. Pelo que Alice tinha me falado, sua irmã estava na França há quase seis meses e ficaria mais um ano e meio por lá. — É isso mesmo! — confirmou, sabendo o que se passava em meus pensamentos. — Maria Sandra retornou para o Brasil de surpresa. Me ligou agora. Tenho certeza que mamãe não faz ideia do seu retorno. — Mas ela disse por que voltou? — Não. Mas ela vai dizer. Ah, se vai! Sabia pouco sobre a irmã dela. Apenas que tinha ido para França estudar para aprimorar a língua e cursar Design de Moda. De resto, que eram meias-irmãs por parte de mãe e que o padrasto de Alice havia sido encontrado morto quando ambas eram pequenas. Na sala de estar no apartamento de Alice, tinha uma foto em porta retrato com ela, dona Laura e outra moça que deduzi provavelmente ser sua irmã. — Fique aqui. Vou pegar a chave do carro e minha carteira. Vamos pegar a minha cunhada — beijei sua testa notando sua temperatura mais quente. Automaticamente levei minha mão, passeando


por sua testa e pescoço, examinando-a. — Você está febril. Sente alguma coisa? — Não é nada, meu amor. Só uma dorzinha de cabeça, logo passará. E... Não precisa ir comigo ao aeroporto, eu pego um táxi. Não quero ocupá-lo — respondeu tentando me tranquilizar e mudando de assunto, depois que voltamos da fazenda ela sempre me chamava de meu amor, fazendo com que meu coração batesse mais rápido. Ela sabia o quanto estava nervoso em relação à Ingrid, mas não funcionaria. — Não é apenas uma dor de cabeça, Alice — discordei. — Tá na cara que você pegou alguma virose. Tenho certeza que é excesso de trabalho e aposto que sua imunidade deve estar em baixa — resmunguei, pois sabia dos seus exageros no trabalho. — E não discutirei com você. Vou com você pegar a sua irmã. — Tudo bem — deu de ombros sabendo que não a deixaria ir sozinha, ainda mais de táxi. — Ainda bem que eu tenho um médico exclusivo e todinho meu — abriu um sorrisinho apaixonado. — Totalmente seu. Para cuidar e dar muito prazer. É meu dever como seu médico — aproximei do seu ouvido sussurrando e mordiscando o lóbulo de sua orelha discretamente. Minha vontade era agarrá-la e saborear seus lábios, porém estávamos no estacionamento da Clínica à vista de todos que passassem por ali. — Fique aqui! Vou pegar a chave do carro — exigi. Passei apressadamente pela recepção até chegar a meu consultório. Desliguei todos os equipamentos, peguei a chave do carro e a carteira antes de sair liguei para Ana e pedi que cancelasse as consultas da Alice. Expliquei que ela não estava se sentindo bem e Ana me confirmou que ela tinha mesmo se queixado de dor de cabeça. Minha Diabinha iria me matar, mas jamais a deixaria trabalhar doente. A encontrei encostada em meu carro. Abri a porta do passageiro, esperei que se acomodasse. Dei a volta e entrei, sentando e colocando o cinto de segurança, encaixando a chave na ignição. Saímos do estacionamento seguindo para o aeroporto o qual Alice falou que sua irmã estaria. Como era meio da tarde, as ruas e avenidas estavam tranquilas, sem muito congestionamento. Alice se mantinha calada e perdida em seus pensamentos. Ainda tentei puxar conversa, mas sempre me respondia com poucas palavras. Meu celular vibrou e abri logo que parei em um sinal vermelho. Era uma mensagem do Miguel avisando que já estava retornando da fazenda com a nossa avó. E que dependendo da hora que chegasse a cidade iria direto para a clínica oncológica que Ingrid havia feito a incisão para a biópsia. Respondi dizendo que tudo bem e que pegaria minha mãe e Ingrid e nos encontraríamos na clínica. — Era o Miguel? — Alice perguntou. Eu não tinha percebido que ela me observava usando o celular. — Sim. Avisando que está voltando da fazenda e que iremos nos encontrar na clínica.


— Vai dar tudo certo, Igor — declarou confiante, colocando sua mão sobre a minha coxa e acariciando. — Sim. Irá — assegurei não tão confiante quanto ela, pegando sua mão e levando aos meus lábios, beijando cada nó dos seus dedos. Seu celular tocou fazendo com que soltasse sua mão para atender. — É um número desconhecido, com certeza é a minha irmã... Alô? — atendeu receosa. Mesmo atento à estrada, observei Alice conversando com sua irmã por telefone. Era visível o quanto estava se aborrecendo por algo que sua irmã falava. Respondendo fria. — Só um minuto — ela tapou o celular e me encarou. — Qual o melhor lugar para Sandrinha nos esperar? — Não vamos descer? — interroguei. — Não precisa. — Bem… Hum… Peça que espere na frente da segunda porta do aeroporto. Lá tem uma pequena entrada. — Ok. Alice repassou para sua irmã onde nos encontrar. Parecia que as duas estavam em uma discussão. Não nego que fiquei atento e curioso. As duas não se viam há meses, mas era nítido o quanto a Diabinha estava mal-humorada. — Não vou descer do carro, Sandrinha… Não se preocupe, eu vejo você… Não quero saber. Esteja no local combinado em dois minutos — finalizou a ligação, passeando com uma de suas mãos pelos cabelos. — Está tudo bem? — inquiri desconfiado. Maria Sandra era terreno novo para mim. E sinceramente eu nunca tinha visto Alice tão estressada. Ela sempre era doce e gentil com todo mundo. — Vai ficar tudo bem — forçou um sorriso. — Desculpe, antecipadamente. — Por quê? — Primeiro por ouvir essa discussão boba e segundo pelo que você presenciará logo que a minha irmã entrar nesse carro. — É normal, Diabinha. Irmãos brigam — tentei acalmá-la. — Quando você ficar 20 minutos com Maria Sandra entenderá do que eu estou falando. Balancei a cabeça em sinal de compreensão. Chegamos ao local combinado cinco minutos depois que Alice avisou a sua irmã onde nos


encontrar. Baixou o vidro da porta procurando por sua irmã. — Droga! Não a vejo — reclamou olhando para todos os lados. — Se quiser eu posso estacionar e iremos procurá-la — sugeri. — Não. É isso que ela quer. Sandrinha acha que o mundo gira em torno dela. Liguei o pisca alerta para não ser multado. Se demorasse muito teria que sair dali, mesmo que a Diabinha não gostasse. — Depois que sairmos daqui, gostaria de voltar para a Clínica. Quero conversar com a Sandrinha antes de minha mãe saber que ela está de volta — pediu massageando a testa. Com certeza a dor de cabeça não tinha passado. — Falei com Ana e pedi que cancelasse suas últimas consultas — disparei de uma vez, sabendo que vinha chumbo grosso. — O… O que você fez? — encarou-me enfurecida. — Como você se intromete em meu trabalho? Pegou o celular, na certa ligaria para Ana. Rapidamente tomei o aparelho de suas mãos. — Você não vai perturbar a Ana — rebati guardando seu celular no bolso da minha calça. — Me devolve meu celular, Igor — exigiu firmemente. — Já viu seu estado, Alice? — bradei. — Você está visivelmente estressada, aborrecida e adoecendo. Que ficar com raiva de mim? Que fique! Porém você não voltará para a Clínica hoje. — Nesse momento eu estou com muita raiva de você, Igor Salazar — cuspiu fumaçando, fazendo meu pau pulsar. Ela conseguia ficar fodidamente mais sexy e linda zangada. Soltei meu cinto de segurança e depois o dela, puxando-a fortemente para os meus braços. Enrolei seus cabelos em minha mão prendendo-a sem ter como se mexer, aproximando sua boca da minha. Com a mão livre peguei a sua e a levei até o meio das minhas pernas, a fazendo sentir por cima do jeans meu pau ficando ereto. — Adoro você brava — chupei seus lábios, os mordendo de leve. — Eu juro! Que se você esbravejar mais uma vez, iremos até o estacionamento do aeroporto e eu irei te foder no banco de trás do carro até te amansar, me deliciando dos seus gemidos e gritinhos até gozar. — Você não teria… coragem — titubeou receosa. Alice sabia que eu adorava um desafio. — Está duvidando do seu Devasso? — desafiei, agora mordendo seu pescoço. Alice permanecia em cima de mim com a mão acariciando meu pau sem perceber. Ela não respondeu, pois sabia que coragem e vontade de transar com ela nunca me faltavam. — Muito bem — beijei seus lábios delicadamente a soltando. — Agora procure por sua irmã.


— Mas ainda estou brava com você — retrucou se ajeitando no assento e voltando a olhar pela janela procurando por sua irmã. — Já a encontrei. Abriu a porta do carro colocando uma parte do seu corpo para fora para que sua irmã a visse. — Ela está vindo. Graças a Deus! Faltava pouco mais de uma hora para o resultado da biópsia sair e não queria que Alice se sentisse culpada achando que estava incomodando. — Que droga, Ali! Faz meia hora que estou empurrando esse carrinho — uma voz soou áspera. — Também estava morrendo de saudades de você, Maria Sandra — Alice proferiu irônica. — Você tem noção o quanto essas malas es… — calou-se de repente olhando de Alice para mim. — Você não me disse que viria com um amigo. — Meu carro está com a mamãe, e o Igor fez questão de me acompanhar. — Olá! Sou Maria Sandra, irmã da Alice — sorriu castamente. Maria Sandra era uma morena de olhos amendoados. Um pouco mais baixa que Alice. Possuía um rosto angelical e ao mesmo tempo misterioso. Apesar de serem completamente diferentes fisicamente, era tão bonita quanto Alice. Se não estivesse completamente apaixonado pela Minha Diabinha, na certa ela seria uma das minhas presas se a encontrasse em uma festa ou barzinho. — Olá! Sou Igor, namorado da Alice — me apresentei simpaticamente. — Namorado? — encarou a irmã surpresa. — Você não me disse que estava namorando quando te ligava. — Sandrinha, mal conversamos durante sua estadia na França. Sempre estava apressada ou ocupada demais. Desci do carro e dei a volta para guardar a bagagem da Sandrinha no porta-malas. E sairmos dali o mais rapidamente possível, pois estávamos parados há muito tempo. — Deixe que eu guarde sua bagagem — pronunciei pegando o carrinho de malas do aeroporto. Alice desceu do carro para me acompanhar, mas a impedi, alegando que eu mesmo guardaria e que me esperasse sentada. Caminhei para trás do meu carro e comecei a descarregar as malas quando fui surpreendido por Maria Sandra que me observava encostada ao carro. — Obrigada por vir me buscar. Eu teria pegado um táxi, mas a Ali é insistente demais e decidiu vir até aqui — expressou harmoniosa. — Sua irmã gosta de ajudar as pessoas que ama. — Sim, com certeza — revirou os olhos. — Sabe? Estou surpresa que a Alice esteja


namorando você. Ela sempre foi louca e apaixonada pelo Valentim. Há quanto tempo vocês estão juntos? — Quase seis meses — vociferei. Meu recente lado ciumento e possessivo reagiu automaticamente por ouvir o nome de Alice e do queixudo na mesma frase. Especialmente por saber que um dia Alice havia gostado dele. — Nossa! Ela nunca namorou outra pessoa tanto tempo. E… — É melhor irmos antes que um guarda apareça e me multe — a cortei, impedindo que falasse mais alguma coisa do passado de sua irmã. Alice e eu tínhamos um passado e nós dois evitávamos comentar sobre tal, pois sempre nos aborrecia. — Tudo bem — respondeu simplesmente. Entrei no carro, busquei por Alice que estava com os olhos fechados. Minha vontade era puxála até meus braços e beijá-la sugando todo o mel de sua boca para que esquecesse que um dia outros haviam tocado seus lábios. No momento em que liguei o carro, Alice despertou do seu breve cochilo. Sorriu lindamente me hipnotizando como só ela sabia fazer. Voltei o olhar para a pequena rua de acesso ao aeroporto e segui pegando a estrada principal retornando por onde viemos. Pelo retrovisor, Maria Sandra permanecia calada e atenta a tudo que Alice e eu conversávamos. A princípio, achei que as duas entrariam em uma conversa de mulheres e falariam sobre a moda francesa. Me enganei completamente, não houve nada de perguntas. A pedido da Diabinha, fomos direto para o seu apartamento. Chegamos em 20 minutos e ajudei descarregar as malas deixando-as na sala. — Obrigada, Igor — Maria Sandra agradeceu. — Acredito que iremos nos ver mais vezes. Apenas sorri educadamente, segurei na mão de Alice seguindo em direção à saída. — Acredito que você não irá comigo saber o resultado dos exames — afirmei assim que paramos onde meu carro estava estacionado. — Me perdoa, Igor. Mas apareceu esse imprevisto. E eu preciso conversar com a minha irmã antes que ela invente uma conversa fiada para minha mãe — disse tristemente. Eu estava chateado. Eu queria muito que Alice estivesse comigo e minha família na hora que saísse o resultado. — Eu não entendo. Sua irmã voltou. O que há de ruim nisso? — questionei aborrecido. — Sandrinha é complicada demais. E parte disso é minha culpa — abraçou-me aconchegando sua cabeça na curva do meu pescoço. — Eu só preciso jogar as cartas na mesa para ela. Prometo que será a última vez que isso acontecerá. — Você vai me contar depois? — inquiri, e ela confirmou dizendo que explicaria e me diria a


razão. — É melhor eu ir. Ainda tenho que pegar a Ingrid e minha mãe. — Você me pega mais tarde? Quero dormir com você — concordei avisando que ligaria assim que possível. Despedi-me de Alice e esperei que entrasse antes de dar a partida. Sua irmã estava na porta e quando liguei o carro acenou, buzinei apenas e segui meu caminho.

Cheguei à clínica de oncologia na hora exata. Acabei não precisando ir pegar minha irmã e minha mãe. Danilo havia conseguido sair a tempo de uma reunião e passou no apartamento de mamãe para pegá-las. Quando cheguei todos se encontravam na sala de espera. Cumprimentei o pessoal, perguntando ao mesmo tempo sobre o exame. Miguel informou que o médico logo nos chamaria. — Onde está Alice? — Vovó Elza indagou. — A irmã dela chegou de surpresa da França, ela não pode vir. — O quê? A Sandrinha voltou para o Brasil? — Danilo proferiu abismado. — Que merda! Pegou o seu celular discando rapidamente e levando a orelha. Segundos depois senti algo vibrar em meu bolso, tateei percebendo que havia esquecido de devolver o celular de Alice, que vibrava com a foto do Danilo à mostra. — Danilo! — chamei exibindo o celular da Alice em minhas mãos. — Alice esqueceu o celular comigo. — Droga! Vou ligar para Sarah e avisar que a bruxa voltou — contestou manuseando rapidamente o celular. Aguardei enquanto ele falava ao celular com Sarah. Precisava saber o porquê de Alice e Danilo reagirem tão negativamente em relação à Maria Sandra. — O que está acontecendo, Danilo? — pressionei discretamente logo que finalizou a ligação. Vovó Elza era muito esperta e na certa perceberia que havia algo estranho no ar. — Por que essa reação ao saber da chegada da irmã da Alice? — Porque aquilo é o cão em pessoa — retorquiu indignado. — Aquilo não presta. É a fruta podre da família. Com certeza aprontou algo muito grave na França e voltou fugida. O olhei desconfiado. Acho que Danilo estava exagerando. O que vi foi apenas duas irmãs que possuíam incompatibilidade de gênios. — Sandrinha inventará uma desculpa e tanto, Alice e Laura acreditarão até que as dívidas batam em sua porta e minha amiga se desfaça de algo valioso para quitar a dívida para que sua mãe


não fique sabendo — completou. Que merda era isso que ele estava falando? Destravei o celular de Alice, procurando em sua agenda pelo número de dona Laura. Alice iria me odiar por se meter novamente em sua vida. Mas Danilo conseguiu me deixar receoso em relação à Maria Sandra. E sua mãe precisava saber o que estava acontecendo. Antes mesmo que eu pudesse realizar a chamada. Seu celular começou a tocar, e para meu espanto e fúria ao constatar que o nome Valentim iluminava o visor. O que esse filho da puta queria ligando para minha mulher? E por que Alice ainda tinha seu contato salvo em sua agenda? Imediatamente lembrei-me das palavras que Maria Sandra usou ao saber que eu era namorado de sua irmã. “Estou surpresa que a Alice esteja namorando você. Ela sempre foi louca e apaixonada pelo Valentim.” Impulsivamente atendi e levei ao ouvido sem dizer nada. Curioso apenas para saber o que ele diria. — Alô… Alô… Ali, está me ouvindo? — o queixudo repetia. — Sei que está me ouvindo. Consigo ouvir sua respiração ofegante. Fala comigo, gatinha. Sei que está com saudades de mim. Preciso de você. Preciso ouvir seus gemidos enquanto me enterro dentro de você… Ali, fale comigo. Eu vou matar esse filho de uma puta! Desliguei a chamada enfurecido. Depois sozinho, e talvez mais calmo, analisaria o que estava acontecendo. Alice não podia estar me enganando. Fixei novamente meus olhos ao aparelho com uma vontade imensa de bisbilhotar, para ver se achava algo incriminatório, porém me lembrei de que me senti muito mal pela a última vez que havia fuçado sua mensagem. Daria um voto de confiança a Alice. Ela me amava, com certeza me explicaria essa história do seu ex-amante ligando. — Ingrid Salazar — a recepcionista da clínica chamou minha irmã que ficou de pé em segundos. — O doutor Enrico irá recebê-la. Nesse instante, minha irmã era minha prioridade.


Capítulo 22 O vento anuncia a chegada de tempestades

Alice Estava irritada, e a dor de cabeça junto com a chegada inesperada da minha irmã culminou para que essa irritação aumentasse. Queria muito ter ido com o Igor saber o diagnóstico da Ingrid. Eu sabia que por mais que ele tentasse entender os meus motivos, no fundo ele também ficou magoado por não acompanhá-lo. Mas eu precisava conversar com Maria Sandra antes da minha mãe saber do seu retorno. E não podia adiar. Sentei no sofá e fiquei aguardando minha irmã entrar. Ela na certa estava curiosa sobre o Igor e iria me interrogar sobre nossa relação para me distrair das minhas perguntas. Mas dessa vez não funcionaria. Estava decidida a não acobertá-la como sempre fazia. Minha única tristeza era que certamente minha mãe passaria a noite chorando escondida. Amei minha irmã desde o primeiro instante em que pus os olhos nela. Era o bebê mais lindo do mundo. Jurei que sempre a protegeria e nunca deixaria que nada lhe faltasse. Devido nossa mãe trabalhar o dia inteiro, Sandrinha cresceu debaixo das minhas asas. Era a minha menininha. Era doce, gentil e morria de medo de palhaço. Sempre que tinha pesadelos, corria para minha cama e me abraçava com força, como se eu fosse seu escudo. Éramos tão grudadas uma na outra que quando um dia passei um final de semana viajando com tia Lilian e minha prima Ludmila pelo interior, Sandrinha adoeceu. Passou todo esse fim de semana febril e chamando por mim. Implorando a mamãe que fosse me pegar para cuidar dela. Não lembro, ao certo, quando ela deixou de ser a minha menininha gentil e carinhosa, e passou a ser essa mulher egoísta e abusada. Só lembro que depois que voltei da França quando tinha 16 anos e junto trouxe meu pai que tinha acabado de conhecer, para que me reconhecesse como sua filha legítima, Sandrinha se afastou completamente de mim. Observei silenciosamente minha irmã entrar e fechar a porta. Ela tinha ficado lá fora espiando Igor e eu, enquanto nos despedíamos, entrei antes dela. Não quis ver o Igor partindo sabendo que estava chateado por não acompanhá-lo, sequer olhei para trás, pois sabia que veria seus olhos tristes. Sem dizer uma palavra, Sandrinha seguiu direto para a cozinha. Escutei quando abriu a geladeira. Segundos depois retornou a sala com um copo de água na mão. — Precisa ir ao supermercado. Não tem o iogurte que eu gosto — disparou abusada, como se


fosse minha obrigação fazer todas suas vontades. — Sente-se, Sandrinha. Precisamos ter uma conversa séria — a encarei e fingi não ter ouvido os seus abusos. Mesmo a contragosto e sabendo que não sairia do seu pé até que me dissesse algo, minha irmã sentou-se na poltrona reclinável da nossa mãe. Apenas a olhava. Minha vontade era gritar, xingar e exigir que falasse o que tinha aprontado na Europa, mas sabia que apenas contribuiria para se fazer de vítima. Nos últimos anos posso ter acobertado todas as suas armações, mas também aprendi a lidar com ela. — Vai ficar apenas me olhando? Não tenho o dia todo. Já viu o tanto de mala que tenho que desfazer? — atacou-me. Ela sempre me atacava com palavras. Era uma fraqueza e sinal que tinha algo a esconder. — Estou esperando você falar — respondi friamente. Minha cabeça latejava e sentia meu corpo começando a doer. Com certeza estava ficando doente. — O que você quer que eu fale? — perguntou descaradamente. — Não se faça de sonsa, Maria Sandra. Você sabe o que eu quero saber — rebati calma. Ela tentaria me provocar para que perdesse a cabeça e alterasse minha voz, e assim ela conseguiria escapar do meu interrogatório, porém no caminho do aeroporto até aqui, prometi para mim mesma que não agiria feito uma maluca, gritando e exigindo a força por respostas. Maria Sandra agia feito uma menina mimada. — Não me adaptei na França — disse cinicamente, dando de ombros. Continuei olhando-a e esperando que me desse uma resposta coerente. Porque essa não me convenceria. — Estou falando a verdade. Me empolguei… Imaginei Paris de uma forma, mas me decepcionei completamente — insistiu. — Maria Sandra, eu conheço Paris. E conheço você. Se é para inventar uma mentira. Invente. Mas seja mais convincente. Essa até a mamãe não acreditará — sorri debochada. — Novidade! Você não acredita em nada que eu falo. Como esperado, sabia que ela usaria tática de defesa, porém estava exausta demais para bater de frente. Olhei a hora em meu relógio de pulso e calculei se seria muito tarde para fazer uma ligação interurbana. Peguei o telefone e comecei a discar os números. — Para quem você está ligando? — inquiriu arregalando os olhos. — Para meu pai — pronunciei tranquilamente. — Vou pedir que procure saber o que aconteceu. Saber se você realmente se matriculou nos cursos. — Você acha que eu não me matriculei? — Sim. Acho — na verdade, eu sabia que ela havia feito às matrículas. Abigail já tinha me


confirmado logo que a Sandrinha chegou à França. No entanto, queria provocá-la. — E também vou ligar para Abigail. Ela conhece muita gente e, com certeza, descobrirá o que você aprontou. Rapidamente ela tomou o aparelho telefônico das minhas mãos. — Isso não é da sua conta, Alice. Para de se meter na minha vida — gritou. — Isso é da minha conta, sim. Eu investi parte das minhas economias nessa sua viagem. Mamãe aumentou sua carga de trabalho, e assim poderia juntar o dinheiro que você precisaria para estudar fora — bradei secamente. — Não me venha com “Isso não é da sua conta.” Se não quisesse que eu me metesse na sua vida, não dependeria de mim e da mamãe para comprar até suas calcinhas. Sustentei com as mãos minha cabeça que latejou, me deixando zonza. — Vai jogar na minha cara que me sustenta? — Você que pediu — minha paciência estava longe. — Vamos, Sandrinha! Diz logo o que você aprontou. O telefone tocou, e como estava nas mãos de Sandrinha ela atendeu. A princípio fiquei com medo imaginando que seria mamãe, mas logo relaxei quando vi minha irmã revirar os olhos. Na certa era Sarah ou Danilo. — Telefone para você — Sandrinha entregou-me o aparelho fazendo caras e bocas. Peguei da sua mão e levei ao ouvido estranhando por não me ligarem no celular. — Alô? — A bruxa retornou mesmo? — a voz da minha amiga soou do outro lado da linha. — Sim — respondi. Não queria conversar por telefone e ainda mais com Maria Sandra me olhando. — Ali, não caia na conversa dela. Não deixe essa bruxa te enrolar. Está me ouvindo? — minha amiga alertou-me. — Não tenho como estar ai agora, mas se cuida. — Como você ficou sabendo? — Dan me ligou preocupado. Ele está com a Ingrid, e o Igor falou para ele da Sandrinha — explicou. — Você esqueceu seu celular com Igor, por isso liguei no fixo. Merda! Por culpa da Sandrinha não lembrei que o Igor havia tomado meu celular e colocado no bolso da sua calça, no aeroporto. Só espero que o Valentim não ligue ou envie alguma mensagem. Sei que está errado esconder do Igor os telefonemas e mensagens que Valentim tem me enviado. Já tentei várias vezes contar a ele, mas nos últimos tempos Igor anda muito cabisbaixo e preocupado com a Ingrid. Além de que, Valentim não me escuta. É em vão pedir que ele não me ligue ou envie mensagens. Ele acha que estou querendo chamar sua atenção namorando o Igor. O pior é quando ele fica a espreita me espionando chegando ou saindo de casa. — Tu…Tudo bem, Sarinha. Eu sei me cuidar. Não cairei na conversa da minha irmã — falei rápido. Odiaria se eu machucasse o Igor por omitir sobre o Valentim. — Agora preciso desligar.


— Ok. Se precisar já sabe, é só me procurar — disse gentilmente. — Eu te amo, Pequena. — Eu também te amo… Obrigada. Desliguei o telefonei e voltei a olhar para minha irmã que até o momento apenas me examinava. — Os seus guarda-costas já estão sabendo que eu cheguei? — proferiu irônica. Maria Sandra achava que Danilo e Sarah não passavam de dois babões e interesseiros. Vivia a soltar farpas e piadas com os dois. Com Sarah, ela não mexia tanto, desde que a minha amiga deu-lhe uns tapas na cara por chamá-la de vadia. No entanto, com Danilo sempre soltavam insultos. — Você vai me contar ou não por que voltou? — fingi não ouvir sua chacota sobre meus amigos. — E não me enrole, pois descobrirei de qualquer forma, nem que eu mesma vá à França para saber — disse séria. Maria Sandra ficou calada por alguns segundos. Com certeza, mentalizando sua estratégia mentirosa. Mas dessa vez iria até o fim. Amanhã ligaria logo cedo para Abigail e pediria que procurasse saber o que de fato aconteceu. Abigail era uma grande amiga da minha mãe, e das vezes em que estive na França ficamos muito próximas. — Me envolvi com um cara — disparou de uma vez. Fiquei calada esperando que continuasse. — Ele era mais velho, porém muito atraente. Você sabe como os homens franceses sabem ser galanteadores — sim, eu sabia. Meu pai mesmo, com mais de 50 anos, ainda eram um homem que chamava a atenção de muitas jovens. — Foi algo muito intenso e arrebatador. Eu estava apaixonada e ele vinha cuidando de mim e me dando atenção o tempo todo. Eu tinha comprado uma bicicleta, e um dia pela manhã decidi passear pelo parque, deitar na grama e comer cachorro quente. Apoiei minha cabeça no encosto do sofá para que amenizasse a dor de cabeça enquanto Maria Sandra falava. — Estava andando pelo parque quando avistei Jérôme. Na hora meu coração pulou de alegria, mas depois esfriou quando percebi que ele estava rodeado de crianças e uma mulher, que descobri ser sua esposa. Fugi de lá para não ser vista. Dias depois, vendo que não conseguia falar comigo, Jérôme me procurou, terminei com ele, mas ele não aceitou e passou a ficar no pé… Me perseguindo por todos os lados — seus olhos estavam marejados e assustados. Nesse momento reconheci aquela menininha assustada que pulava na minha cama com medo dos seus pesadelos. — Ali, eu fiquei com medo. Eu juro! Não fugiria de lá se não fosse por isso. Eu até já tinha começado a trabalhar em um atelier. Mas… Mas ele parecia um louco. Falando que eu era dele. — Ele sabe onde você mora aqui no Brasil? — questionei. — Não. Mas ele é poderoso e tem muita influência. Tenho medo que ele me ache. — Qual seu sobrenome? — precisava saber quem era de fato esse cara. Ou se era mais alguma invenção da Sandrinha.


— Benoit. Jérôme Benoit. Por favor, Ali não faça nada. Ele é maluco e perigoso — ajoelhouse diante de mim. — Mas uma razão para saber quem ele é — me levantei. — Se ele for tudo isso que você diz, preciso proteger a mim e minha mãe — respirei fundo antes de sair da sala e ir tomar um banho. — Só espero que você não tenha inventado essa história. Saí da sala, entrei em meu quarto e peguei um conjunto de lingerie e meu roupão. Voltei para o corredor e entrei no banheiro. Depois do banho tomaria algo para dor de cabeça e me deitaria um pouco, antes do Igor vir me buscar. Lembrei-me de Ingrid e orei mais uma vez para que o resultado da biópsia desse benigno. Eu amava Igor e amava sua família. A Ingrid não merecia passar por isso. Enquanto tomava banho passei a arquitetar meus planos para descobrir quem era esse Jérôme Benoit. Abigail era influente e com certeza me daria a resposta, ou procuraria descobrir a verdade. Se tudo isso que Sandrinha havia dito fosse verdade, tinha que encontrar uma maneira de protegê-la. Ela era minha irmã, e por mais que fosse irritante e atrevida eu a amava e jurei cuidar dela. — Você e o Igor se conheceram onde? — a voz da minha irmã tirou-me dos meus pensamentos. Xinguei-me internamente com essa mania que tenho de nunca trancar a porta do banheiro. Não queria conversar sobre o Igor com ela. Na verdade só queria me deitar. — Vai falar a verdade para a mamãe? Sobre seu retorno? — mudei de assunto mais uma vez. — Sim. Não mentirei para ela. — Que bom. Odiaria ter que presenciar mais uma mentira sua. Você sabe que ela não merece. — Eu sei… Você pode não acreditar, mas senti falta de vocês duas. Imaginei várias vezes nós três passeando por Paris. Teria sido maravilhoso. Eu já havia cogitado em visitar meu pai e Sandrinha na França e levar a mamãe junto para passarmos o Natal por lá. — Você não me respondeu sobre o Igor. Onde vocês se conheceram? — insistiu. — Ele trabalha na Clínica que eu trabalho. Retirei o excesso do óleo que adorava passar durante o banho, em seguida saí do box pegando meu roupão e me secando. — É fisioterapeuta também? — Não. Ele é médico. Ginecologista. Vesti o roupão e saí do banheiro, voltei para o meu quarto secando os cabelos com uma toalha que peguei no armário e, com minha irmã me seguindo logo atrás. — Ele parece ser legal. Faz tempo que vocês estão juntos? — Sandrinha sabia ser insuportável. — Olha, estou cansada e com dor de cabeça. Não estou com vontade de brincar de irmãs


unidas e amigas. Eu só quero me deitar um pouco, por favor. — Nossa! Eu só queria conversar um pouco. Depois você reclama porque sou chata. Ela saiu do meu quarto, batendo a porta com força. Procurei um comprimido para dor na gaveta do criado-mudo. Engoli com o resto de água que tinha na garrafinha em cima, deitei-me fechando os olhos tentando me esquecer de Sandrinha. Não demorou muito, senti meu corpo relaxando caindo em um sono profundo.

Acordei assustada e suada. Estava tendo um pesadelo onde era perseguida e encurralada. Implorava que me soltassem e apenas escutava gargalhadas. De repente, era acalentada por braços fortes e quando olhava para ver quem era, via o Valentim me colocando em seus braços e dizendo que me protegeria. Conferi a hora. Já passava das dezenove, na certa o resultado dos exames da Ingrid já tinha saído. Levantei da cama, ajustei meu roupão em meu corpo, fiz um coque em meu cabelo que ficou todo armado por não ter secado direito antes de me deitar. Saí do quarto e não encontrei minha mãe e Ingrid. Fui direto para a porta da geladeira para ver se tinha algum recado. E o encontrei. Querida, Fui para casa de sua tia Lilian. Hoje é o aniversário de Marcos e ela decidiu fazer um jantar entre amigos para comemorar. Sandrinha me falou que você estava com dor de cabeça e preferi não te chamar. Se estiver melhor quando acordar apareça na casa da sua tia. P.S: Estou decepcionada com sua irmã. Ela me contou tudo. Depois conversamos nós três com calma. Mamãe Abri a geladeira, peguei uma jarra de suco de cajá e enchi um copo. Estava com sede. Minha cabeça já não doía tanto, porém meu corpo dava sinal de cansaço e estava dolorido. Escutei um barulho e reconheci como o motor do carro do Igor, como o porteiro já o conhecia, aprendi dessa forma, a saber, quando meu homem estava chegando. Saí correndo em direção à entrada do prédio. Essa era uma vantagem de se morar no térreo de um condomínio. Abri a porta ansiosa para receber seus abraços e beijos. Isso seria a cura para as dores pelo meu corpo. Igor desceu do carro e acionou o alarme. Mesmo sem me olhar nos olhos pressenti que algo estava errado. Sustentei meus pés, aguardando que se aproximasse. No entanto, quando seu olhar se encontrou com os meus não resisti e saí correndo ao seu encontro. Seus olhos estavam vermelhos e amedrontados. Igor me recebeu com um abraço forte, encaixando seu rosto na curva do meu pescoço e inalando meu cheiro como se esse gesto pudesse liberar a dor que estava preso dentro dele. — Minha irmã… Ali… Minha irmãzinha vai… morrer. E eu não posso fazer nada! — declarou despedaçado, jogando seu peso contra o meu corpo.


— O resultado? — sussurrei, com medo da resposta. Balançou a cabeça confirmando. — Vamos entrar. Praticamente o carreguei sustentando-o em meus braços. O levei direto para meu quarto, e o ajudei a sentar na cama. Voltei e tranquei a porta. Sabia que não havia ninguém em casa além de nós, mas preferi garantir que ninguém nos interromperia. Igor estava sentado à beira da cama com os braços encostados em seus joelhos e de cabeça baixa. Aproximei-me devagar, meus olhos já marejados por vê-lo naquele estado. Pensei em como a Ingrid estaria nesse momento. Também em dona Elena e dona Elza. Tenho certeza que o Dan e Miguel estariam com elas para apoiá-las. Ajoelhei-me entre suas pernas e levantei seu rosto para me olhar. Nunca o vi tão abalado. Lágrimas desciam sobre o rosto. — Desculpa por não ter estado com vocês — disse a primeira coisa que surgiu em minha mente. Odiava situações como essas, pois nunca sabia o que dizer. — Foi melhor. Foi horrível, Ali — afagou meus cabelos carinhosamente. — Mamãe desmaiou, vovó Elza passou mal e Ingrid… — fechou os olhos respirando fundo. —… Ficou em choque. Catatônica. Se o Miguel e o Danilo não estivessem lá eu não saberia o que fazer. Pela primeira vez me desesperei. O abracei forte beijando seu pescoço. — Estou com medo. Estou com medo de não saber o que fazer. — Calma, meu amor. Não tenha medo. Eu entendo que está abalado. Tudo aconteceu tão rápido. A Ingrid precisa de você. Busque forças por ela — pronunciei secando suas lágrimas. — E ainda tem o tratamento. Não é? — Sim. Ela começará o mais rápido possível o tratamento. Só que… — puxou-me para seus braços, deitando na cama comigo por cima dele. —… Pelos resultados da biópsia, constatou-se um subtipo de lipossarcoma raro. Lipossarcoma pleomórfico. Ele é raro de alto grau, atinge apenas de 5 a 10 por cento dos casos. Miguel tem experiências com casos de sarcomas, mas nunca teve um caso desses, especificamente, em suas mãos. — O que vocês pensam em fazer? — eu precisava me dedicar ao máximo ao Igor e a sua família. — Ela fará a cirurgia de remoção do tumor? — Pelo tamanho do tumor, Miguel acha melhor que ela comece pela radioterapia, para que diminua um pouco o tamanho do tumor e só assim fazer a cirurgia de remoção. Mas… — calou, levando uma das mãos até o rosto. — Mas? — insisti que continuasse. — Ele tem medo que a radioterapia atrapalhe no processo de cicatrização. E ainda tem as sequelas do pós-operatório. Mesmo assim essa parece ser a melhor escolha para o caso dela, pois dessa forma talvez consigam preservar mais da perna dela, já que o tumor deverá reduzir com a radioterapia. E também tentar diminuir os riscos de metástase.


— O Miguel é especialista. E ele ama a Ingrid como sua própria irmã. Tenho certeza que ele não fará nada que seja arriscado e que não seja o melhor para a Ingrid. — Eu sei. Eu sei… Não quero mais falar disso por hoje. Só preciso ficar com você. Sinto-me em paz ao seu lado. Sei que não era o momento, mas não consegui deixar de abrir um sorriso por proporcionar essa tranquilidade. — Que ir para seu apartamento? — indaguei, e ele confirmou balançando a cabeça. Na sua casa teríamos mais privacidade. E com mamãe e Sandrinha haveria perguntas e ele ainda não estava preparado para responder. Também evitaria falar ou perguntar sobre a Ingrid. Escutaria quando ele dissesse algo. Mas hoje tentaria dar essa paz que tanto buscava em mim. Amanhã falaria com Danilo. Ele esteve junto com a Ingrid na hora do resultado. E me explicaria melhor. Amanhã também cancelaria meus últimos pacientes da noite e iria visitá-la. Saí dos seus braços e caminhei até meu guarda-roupa. Separei algumas roupas para dois dias. Com todo esse problema acontecendo ficaria o máximo de tempo com ele e sua família. Depois veria uma hora para vir conversar com mamãe e minha irmã. Peguei um vestidinho e tirei meu roupão ficando apenas de lingerie. Olhei para Igor e vi que me observava. Em outra ocasião ele já teria me agarrado e estaria com sua boca entre as minhas pernas fazendo o que ele mais sabia fazer tão bem. Sexo oral. Mas nesse instante, ele apenas me olhava, me admirando é claro, mas o meu Igor estava muito longe do seu corpo.

— Próximo paciente daqui à uma hora — Ana falou assim que me despedi do meu último paciente da manhã na recepção. Era quinta-feira e meu corpo doía ainda mais, no entanto com as novas atribuições, ainda não tinha tido tempo para cair de vez doente. — Vou me certificar que o Igor coma algo. Hoje de manhã não comeu nada — Igor passou a noite rolando na cama de um lado para outro. Acordei de madrugada sem ele na cama. E quando o procurei, ele estava na sua varanda com o olhar perdido. — Imagino o quanto ele está abalado. Ele é louco pela irmã. Pamela me disse que o doutor Leonardo pediu que cancelasse todas as pacientes do Igor por hoje e amanhã. — Que bom. Ele não está com cabeça para atender ninguém, mas é tinhoso e quis vir para a Clínica. Fiz de tudo para que Igor ficasse com sua irmã e sua família, mas disse que precisava esvaziar a cabeça enfiando a cara no trabalho. Então dei de ombros e viemos juntos trabalhar. Claro que depois de mil brigas não deixei que dirigisse. Sabia que ele morria de ciúmes do seu carro, mas desde ontem quando saímos da minha casa tomei as chaves da sua mão. — Qualquer coisa, Ana, estou no consultório dele — avisei.


Ana sorriu, e saí direto para o consultório do Igor. Passei pela entrada da Clínica e falei rapidamente com as meninas da recepção. Assim que dobrei o corredor que daria direto na sala do Igor, parei subitamente ao ver Sandrinha, minha irmã, saindo de seu consultório. — O que faz aqui? — perguntei me aproximando da minha irmã e verificando se realmente era a porta do consultório do Igor. — Vim te ver e chamar para irmos almoçar. Chegamos ontem em casa e vimos seu recado avisando que dormiria com o Igor — disse simplesmente. — Estou perguntando o que faz saindo do consultório do Igor. — Ah! Você estava com um paciente. Então para não ficar sozinha decidi vir conversar com o meu cunhadinho — respondeu na cara dura. Conhecia minha irmã, estava sondando o terreno para depois atacar. — Poderia ter ido conversar com tia Lilian — expressei friamente. — O que? Está ciúmes, Ali? — abriu um sorriso cínico. — Não confia no homem que tem? — olhou-me dos pés a cabeça. — Ou no seu taco? Aproximei-me, ficando cara a cara com ela. — É aí que você se engana, maninha. Confio no meu taco e confio em meu homem — sorri cínica da mesma forma que fez. — Não confio em você!


Capítulo 23 Pisando em cacos de vidros

Alice — Calma, maninha! Estou apenas brincando — Sandrinha levantou os braços em sinal de rendição se fazendo de inocente. — Acho que você está estressada. Mamãe falou que você vive dentro dessa Clínica. Realmente eu estava exausta meu corpo nos últimos dias não estava rendendo, e uma dor de cabeça infernal não passava nunca, apesar de que culminou que piorasse desde ontem quando peguei minha irmã no aeroporto. — Não posso almoçar com você — disse simplesmente. Não valeria a pena trocar farpas com Maria Sandra, uma criança de cinco anos tem mais juízo que ela. — Tudo bem — deu de ombros sem se importar. — Vou aproveitar que mamãe me emprestou seu carro e vou à faculdade verificar se poderei voltar às aulas ainda neste período. Quer que te pegue mais tarde? — Não precisa — respondi. Mais tarde iria visitar Ingrid e a última coisa que eu precisava era da minha irmã atrás de mim para cima e para baixo, principalmente em um momento delicado no qual a família do Igor estava passando. — Então, tudo bem — ela me avaliou intensamente. — Você parece doente. Tem certeza que está tudo bem? — Sim. Agora vá e dirija com prudência. — Sim, senhora — soou sarcástica. Maria Sandra passou por mim e seguiu para a recepção. Queria que nos déssemos bem como éramos quando criança, mas a tendência era que com o tempo nos afastaríamos totalmente. Não vou mentir que a amo e sinto a necessidade de protegê-la, porém estava mais do que na hora de Maria Sandra sair debaixo das minhas asas e lutar suas próprias batalhas. Mesmo sabendo que sempre seria amparada por nossa mãe.


Bati levemente na porta do consultório do Igor. Não esperei que respondesse abri e enfiando a cabeça entre uma pequena brecha e o encontrando sentando em sua poltrona perdido em seus pensamentos da mesma forma que o vi na madrugada passada. — Olá — pronunciei adentrando em seu consultório e fechando a porta. — Vim te buscar para irmos almoçar. — Não estou com fome — ele respondeu desanimado. — Mas você precisa comer — me aproximei dele, encostando-me em sua mesa ao seu lado. — Desse jeito você ficará doente, Igor. Automaticamente ele me puxou sem dizer nada, encaixando-me entre a mesa e o meio de suas pernas. Deitou a cabeça em meu ventre agarrando meu quadril. — Igor, você precisa reagir — acariciei sua cabeça, alisando seus cabelos por entre meus dedos. — A Ingrid precisa de você. Por que você não vai para casa da sua mãe? Depois que eu sair daqui me encontro com você lá. Quero ver a Ingrid. — Eu... Eu ainda não estou pronto para olhar minha irmã. Eu preciso passar tranquilidade para ela, e nesse momento, eu tenho certeza que não posso fazer isso — proferiu sem olhar em meus olhos, mas eu sabia que ele estava arrasado e aquilo me quebrava por vê-lo tão sem chão. Ficamos em silêncio apenas um sentindo o toque e a carícia do outro. Tudo estava acontecendo rápido demais. Esperamos quase um mês para o resultado da biópsia da Ingrid sair, sempre na expectativa do tumor ser benigno, jamais imaginávamos a possibilidade de um tumor maligno, e pior, de um tipo raro. Tínhamos sido pegos todos de surpresa. — Eu quis vir trabalhar para ver se esquecia um pouco essa nova realidade — quebrou o silêncio e me encarou. — No entanto, Leo, juntamente com a Isa, pediu que Pamela cancelasse minhas consultas de hoje e amanhã. E eu não sei mais o que fazer. — Queria poder tirar essa angústia de dentro de você, mas infelizmente eu não posso — sentei em seu colo, e ele me acolheu com carinho. Deitei minha cabeça em seu ombro me deleitando do seu cheiro que emanava do seu pescoço. — Você está com o corpo quente, Diabinha — levou sua mão até minha testa sentindo a temperatura do meu corpo. — Sente algo? Você está febril. Eu me sentia exausta mentalmente e fisicamente. Não via a hora de chegar sábado e passar o dia deitada descansando. — Estou bem — menti, mas sei que ele não acreditou, no entanto, estava tão abalado que não insistiu. — Almoça comigo? — meu estômago estava totalmente embrulhado, mas faria um esforço para comer, pois Igor também precisava se alimentar e eu faria qualquer coisa para que isso acontecesse. Sem responder nada, Igor pegou o telefone e discou o ramal do refeitório. Perguntou a pessoa que atendeu qual era o cardápio do dia.


— Filé de merluza ao molho de espinafre, batata sauté e risoto de vegetais — repetiu o cardápio para que eu ouvisse. Balancei a cabeça confirmando que queria. Igor conversou mais um pouco com a pessoa do outro lado da linha e em seguida desligou. — Gabriel está no refeitório. Ele irá trazer nosso almoço quando estiver indo para o seu consultório. Tudo bem? — inquiriu sem graça. — Tudo bem — tranquilizei-o. Desde que soube do hobby do Gabriel, evitava ao máximo encontrá-lo, mas sabia que uma hora ou outra não teria mais como evitá-lo. Ele era um dos melhores amigos do Igor e com certeza estava tão preocupado com ele quanto eu. E não deixaria de apoiar o amigo. — Achei que você iria almoçar com sua irmã. Ela esteve aqui há alguns minutos — mudou de assunto, mas eu sabia que ele estava curioso com a minha relação com Maria Sandra. — Encontrei com ela saindo daqui, do seu consultório. Disse a ela que iria almoçar com você, então ela foi embora. — Ah. Poderia ter ido almoçar com ela. — Igor, não é que eu não ame minha irmã, no entanto, temos uma relação conturbada — expliquei. — Ela só quer um pouco mais de atenção da irmã. Já pensou nisso? Não. Maria Sandra quer ser o centro das atenções, demorei muito para perceber isso, mas infelizmente minha irmã não passava de uma garota mimada e interesseira. — Eu já tive muitos problemas com a Sandrinha. Já salvei sua pele inúmeras vezes. Ela nunca aprendeu. Você a conheceu ontem, por favor, não me diga o que fazer em relação a ela. — Ontem quando o Danilo soube que ela havia retornado da França, ficou muito preocupado com você. Na hora fiquei assustado, achando que sua irmã era uma louca que iria te fazer algum mal... — parou de falar e analisou meu rosto inexpressivo durante alguns segundos. —... Mas hoje enquanto ela estava aqui esperando por você, vi uma mulher que ama a irmã e se sente rejeitada. O quê? Sério mesmo que eu estava escutando isso? Igor mal conhecia Maria Sandra. Quem ele pensava que era para me julgar dessa forma? Ele não sabe o que já passei por causa da minha irmã. Não vou negar que quando Levi veio morar no Brasil percebi que Sandrinha sentiu-se enciumada por eu ter um irmão mais velho, mas nunca, em nenhum momento a excluí da minha vida. Pelo contrário, o próprio Levi a tratou como irmã caçula. E o que ela fez? Merdas e mais merdas. Até que um dia ele próprio bateu de frente com ela. Da mesma forma aconteceu com Danilo e Sarah. Minha irmã era egoísta demais para sentir amor mútuo. Saí do colo de Igor e caminhei para o outro lado da mesa. Eu não iria discutir com ele por causa de Maria Sandra. Era isso que ela queria. Ela tinha vindo à Clínica simplesmente para sondar


e se fazer de sonsa e me fazer de irmã cruel, como sempre. Foi assim com o Levi, Valentim e agora com o Igor. Só que dessa vez eu não iria permitir. — Não vou ter essa conversa com você — o encarei. — Sei quem é minha irmã. Tenha certeza, Igor. Sandrinha nunca faz nada sem beneficio próprio. Maria Sandra não sabia, mas hoje cedo, logo que cheguei à Clínica, liguei para Abigail em Paris. Não consegui falar com ela, mas deixei um recado na sua caixa de mensagem falando do retorno inesperado da Sandrinha ao Brasil e sobre o tal Jêrome Benoit, se poderia descobrir se ele realmente existia e quem era. — Estou começando achar que você realmente não conversa nada comigo — expressou irritado. Meus olhos arregalaram surpresa com suas palavras. Como ele podia dizer isso? Eu me dei toda para ele. Confiei e acreditei nele, mesmo quando todos achavam que eu não passava de mais um casinho. Eu me apaixonei por ele sem ter a certeza se seria retribuída. — Na verdade, esconde ou mente pra mim também — acrescentou irritado. Antes que eu pudesse dizer uma palavra, uma batida soou na porta nos interrompendo. Gabriel entrou trazendo consigo nossa refeição. — Desculpa a demora — falou. — Não tem problema, Gabriel. Eu que agradeço por trazer nossa refeição — Igor desviou seu olhar do meu para o amigo. — Como vai, Alice? — Gabriel me cumprimentou acanhado. — Olá, Gabriel! — o saudei educadamente. Estava estática e muito magoada com as palavras do Igor comigo. Tentaria relevar, pois sabia que ele estava com a cabeça quente devido à doença da Ingrid, mas também não deixaria dizer o que bem entendesse a meu respeito. Fiquei quieta enquanto os dois amigos conversavam. Observei o quanto eles interagiam entre si. Um conhecia o outro o suficiente para saber o que cada um sentia ou pensava. Gabriel o confortou em relação à Ingrid, declarando que estava à disposição para o que precisasse. Ontem à noite quando estávamos a caminho de seu apartamento, Luís, Fernando e o próprio Gabriel haviam ligado para o Igor preocupados com ele e dando esperanças de que sua irmã iria superar essa barreira. — Semana que vem é seu aniversário. Precisamos comemorar — Igor anunciou. — Nossa! Agora você me deixou muito feliz — Gabriel respondeu surpreso. — Hoje cedo estava comentando com o Luís que estava pensando em fazer algo mais tranquilo, nada de boate como ano passado. Pensei em um churrasco com os amigos mais chegados em casa mesmo, só para não passar em branco. Mas estava na dúvida se você iria querer ir ou não por causa da Ingrid. — Claro que irei. Churrasco está ótimo. Pode contar que marcarei presença — Igor forçou um


sorriso. — Então vou reservar logo a área da piscina antes que algum morador do prédio o faça — Gabriel disse empolgado. — Alice, gostaria que você fosse também — ele voltou a me olhar. — Obrigada pelo convite — apenas agradeci. Provavelmente não iria, entendia perfeitamente o Igor ir, eles eram amigos, mas ainda não me sentia confortável perto do Gabriel. Claro que eu namorando seu melhor amigo, nossa convivência seria inevitável, no entanto, preferia que esses momentos acontecessem naturalmente. — Bem... Tenho uma paciente em três minutos — Gabriel avisou. Pressenti que ele queria dizer algo mais, porém se conteve. — Bom apetite. Saiu, deixando-nos sozinhos novamente. Igor arrumou nossa refeição em sua mesa. Pegou uma garrafa de água em seu frigobar, despejando em dois copos de acrílico coloridos. — Você poderia ter sido mais simpática com ele — acusou-me de repente. — Ele está arrependido por ter magoado a Sarah. Eu simplesmente estava abismada com tudo que estava acontecendo nos últimos minutos. Em qual momento eu passei a ser a vilã da história? — É melhor eu ir almoçar em meu consultório — mesmo magoada com suas palavras não queria discutir com ele. Tinha vindo aqui para fazer companhia e cuidar dele, mas sabia que Sandrinha, de certa forma, conseguiu plantar a semente da discórdia entre Igor e eu. — Acho que não sou uma boa companhia para você nesse momento. — Bem que sua irmã disse que você foge todas as vezes que se sente acuada. — O que você disse? — uma raiva subiu por todo meu corpo. Sentia minhas bochechas em chamas. — Isso que você ouviu — bradou friamente. — Pelo visto a Sandrinha fez a lição de casa com você perfeitamente. Até parece que vocês são melhores amigos há décadas. Virei-me para ir embora. Algo dentro de mim rogava que não discutisse com ele. Abri a porta para sair, mas antes mesmo de por os pés para fora, fui puxada e prensada entre a porta e um Igor furioso. — O que foi, Alice? Está com medo? Seu irmão e seus amiguinhos da Liga da Justiça não estão aqui para beijar o chão onde você pisa? Ou vai fugir e ligar para o seu ex e suplicar que ele te faça gemer loucamente enquanto te fode? — Você está sendo um imbecil, Igor Salazar — bradei tentando me livrar dele. Ele começou a se esfregar em mim, passeando suas mãos pelo meu corpo e fazendo caminho com pequenas mordidas pela curva do meu pescoço até chegar a meu ouvido.


— O Valentim te excita tanto quanto eu, Diabinha? — sussurrou. Lágrimas invadiram meus olhos por Igor estar me tratando como uma qualquer. Senti-me enojada. — O que a Maria Sandra te falou? — perguntei, buscando o mínimo de lucidez que dentro de mim ainda existia. — Ela não disse nada. Eu sei. Eu vi... Estava com seu celular ontem, lembra? Ele não precisou falar mais nada. Valentim com certeza havia ligado para meu telefone enquanto Igor estava com ele. — Eu estava procurando um momento mais adequado para te falar sobre essas ligações. Eu sequer estava atendendo — tentei explicar. — Será mesmo Alice? Por que será que eu me sinto enganado? — soltou meu corpo, se afastando de mim. — Igor, não faça isso — o alertei. Eu poderia ter falhado quando omiti sobre a insistência do Valentim comigo, e até entendo a mágoa do Igor sobre isso. Mas isso não lhe dava o direito de me destratar de tal maneira. — Eu ia te contar... — Iria mesmo, Alice? — ele não me deixou falar. — Não me venha com a desculpa do tumor da Ingrid — esbravejou. — Porque não é de hoje que ele te telefona ou te envia mensagens. Fechei os olhos e respirei fundo. Sequei as lágrimas que insistiam em cair. Fixei meus olhos novamente nele. Decepcionada por ele duvidar de mim. Maria Sandra com certeza disse algo que colaborou para que agisse tão ensandecido. — É melhor eu ir. Esse não é o local e nem o momento para falarmos sobre o Valentim — proferi firme, sustentando meu olhar ao seu. — À noite, com calma, conversaremos. — Quando você inventa a desculpa de ficar sozinha com sua mãe é para poder se encontrar com ele? Quando não dorme em meu apartamento é com ele que passa a noite? Te fodendo? Como um reflexo de defesa, estapeei seu rosto. Senti minha mão arder com a força que usei. — Nunca... Nunca mais me acuse de algo — levei minha mão dolorida ao meu peito e a sustentei. — Eu errei em esconder que meu ex me procurava, mas isso não lhe dá o direito de me insultar, ou pior, de duvidar da minha índole — abri a porta do seu consultório. — Quando quiser conversar sabe onde me encontrar. Se não aparecer saberei que tomou sua decisão. Saí sem esperar sua resposta. Passei como um furacão pelos corredores sem parar para falar ou cumprimentar ninguém. Tudo que eu queria era me trancar em meu consultório e soltar o choro que estava preso em minha garganta. Igor estava de cabeça quente e chateado. Eu não o culpava, no entanto, não lhe dava o direito de me acusar e me denegrir. Eu o amava demais, mas jamais iria


tolerar que duvidasse de mim. Passei, sem falar com Ana, direto para meu consultório. Tranquei a porta e desabei ao chão chorando copiosamente, soluçando e com uma dor insuportável em meu peito. Mal fazia 24 horas que Maria Sandra havia retornado e ela já tinha destilado seu veneno. Pelo resto da tarde, não tive notícias de Igor e muito menos procurei saber se ele ainda se encontrava na Clínica. Trabalhei até às dezoito horas no piloto automático. Liguei para Danilo e pedi que viesse me buscar. Precisava espairecer antes de voltar para casa. Do jeito que estava se encontrasse minha irmã estrangularia seu pescoço quebrando igual quando se mata uma galinha. Danilo me enviou uma mensagem avisando que estava no estacionamento me esperando. Segui até o estacionamento. Passei pelas meninas da recepção desejando boa noite. Tive uma imensa vontade de perguntar a Pamela do Igor, mas não fiz. No mesmo instante que cheguei ao estacionamento, meus olhos varreram para a vaga onde estacionava seu carro, e o mesmo já não estava lá. Vi o carro de Dan e para minha alegria Sarah estava junto. Era tudo que eu precisava, estar perto de pessoas que me amavam e, principalmente, confiavam e acreditavam em mim. — Não diga nada. Pela sua cara a vadia da sua irmã já aprontou — Danilo comentou assim que me sentei no banco de trás. — Maldita — Sarah bradou. — O que foi que ela fez dessa vez? De certa forma a Maria Sandra não era tão culpada. Ela foi sortuda, para falar a verdade. Não fazia a mínima ideia do que ela tinha conversado com Igor, mas com certeza alimentou a ira do Igor contra mim. Saímos do estacionamento e contei tudo o que havia acontecido desde a chegada da minha irmã, as mensagens e telefonemas do Valentim. A reação do Igor sobre a doença da irmã e a mudança brusca em me ofender hoje. Precisava desabafar e eles eram as pessoas que me sentia à vontade para isso. Queria muito o carinho do Levi, mas se ele soubesse das acusações do Igor comigo, nunca o perdoaria. — Eu quero ser a Mulher Maravilha — Danilo brincou quando comentei sobre forma que o Igor se expressou os chamando da Liga da Justiça. — Com o laço mágico amarraria alguém que estou de olho. Caímos na gargalhada e me senti um pouco melhor por estar com eles. — Você acha que essa história de amante casado que a sua irmã contou é verdade? — Sarah questionou. — Não sei. Vou esperar uma resposta de Abigail. Ela conhece bastante gente em Paris, com certeza saberá me dizer algo. Caso contrário, colocarei Ely Schneider na história e do jeito que ele é acabará descobrindo todos os podres da minha irmãzinha. — Que raiva que estou do Igor! — Sarah vociferou. — Como ele pôde te desmerecer dessa forma.


— Não o procure, Ali — Danilo inquiriu. — Você pode ter errado em omitir sobre o Valentim, com quem, aliás, amanhã irei ter uma conversa muito séria, mas como diz a Sah isso não lhe dava o direito de te ofender. Doía pensar que ele não me procuraria. Que deixaria Valentim afetar nossa relação, mas Danilo estava certo, eu teria que esperar que ele me procurasse. — Domingo completaria seis meses que nos conhecemos — Lembrei de repente da data. Da boate e do sexo louco e delicioso que tivemos. — Não diz isso. O Igor pode ter sido um idiota com você, mas logo ele irá perceber a mancada que deu e virá te procurar. — Assim espero — concordei esperançosa. Não queria pensar que nossa relação acabaria assim tão estupidamente. — Queria ter ido visitar a Ingrid hoje. Como ela está, Dan? — Péssima. Fiquei com ela até de madrugada. Chorou o tempo todo, está assustada — meu amigo relatou. Decidi que mesmo Igor não me procurando para conversar, amanhã iria visitar Ingrid. Não deixaria nossa relação afetar o carinho e consideração que tenho por sua irmã, mãe e avó. Comemos uma pizza e já passavam das vinte duas horas quando Danilo me levou para casa. Nada do Igor ligar ou dar sinal de vida. Sarah se ofereceu para passar a noite comigo. Os dois estavam receosos que Maria Sandra pudesse me convencer que realmente tinha ido a Clínica para matar a saudade de irmã. — Que merda é aquilo? — Danilo queixou assim que passamos por um barzinho no caminho da minha casa. Olhei e por incrível que pareça não me surpreendi ao ver Sandrinha e Valentim conversando animadamente em frente ao bar. — Abre os olhos, Ali. Sua irmã vai aprontar. E o panaca do Valentim vai cair como um patinho. — Eu sei que ela é sua irmã, mas minha vontade é socar muito a cara dela — Sarah declarou. — Eu te entendo perfeitamente, de ontem para hoje estou tendo a mesma vontade — afirmei. Sarah e eu nos despedimos de Danilo. Entramos em meu apartamento sem fazer barulho, mamãe já estava dormindo. Com certeza ela achava que eu dormiria com Igor e decidiu dormir mais cedo. Independentemente da hora que chegava em casa, ela me esperava acordada para conversarmos um pouco. Com Sandrinha era do mesmo jeito. E hoje, na certa minha santa irmãzinha havia dado mais uma desculpa esfarrapada de rever as amigas.


Acordei com o corpo todo dolorido, minha cabeça latejava e sentia calafrios. Sarah percebendo chamou minha mãe que automaticamente me tratando como uma criança, pegou um termômetro constatando que estava com febre. Mesmo me queixando, ela ligou para tia Lilian avisando que eu não tinha condições de trabalhar. — Nem pense em sair dessa cama, Alice Marie Ventura Schneider! — mamãe alertou-me séria quando disse que a tarde daria para ir trabalhar. — Vou preparar algo para você comer. Dona Laura saiu do quarto deixando Sarah e eu sozinhas. Ainda não tinha visto a cara da minha irmã, aposto que estava dormindo. — Ontem eu vi o Gabriel — comentei para minha amiga. — Como você está depois de tudo que aconteceu? — Eu... Eu não sei como te dizer isso... — pronunciou envergonhada. —... Mas estou cogitando em voltar para o Gabriel. — Sarah! Depois de tudo que ele fez! É isso mesmo que você quer? — eu queria dizer que ela era uma estúpida por aceitá-lo de volta. Porém não era a melhor pessoa para dizer isso. — Ele me procurou, Ali. Ele parece arrependido. Prometeu que tiraria todas as câmeras do seu apartamento se voltássemos e me daria todas as senhas do seu notebook e e-mails para que eu mesma apagasse todos os vídeos existentes. Olhei para a minha amiga sem saber o falar. Tinha me decepcionado com o Gabriel, mas se ele realmente estava fazendo isso para ficar com minha amiga não poderia julgá-la se o aceitasse de volta. — Você sabe que o meu irmão gosta de você, né? — pensei no Levi e o quanto essa notícia o deixaria triste. Óbvio que ele não demonstraria, mas eu sabia. No fundo eu sabia que era apaixonado por Sarinha. — Sabe, eu nunca te falei, mas houve uma época que eu era encantada pelo Levi. Aquele sotaque dele me fazia molhar a calcinha só em ele pronunciar “Oi.” — sorriu. — Quando ficamos a primeira vez, tive esperança que ele me pedisse em namoro, mas infelizmente não aconteceu. Ficamos mais algumas vezes. O Levi sabe satisfazer uma mulher, eu não resistia aos seus encantos. Só que não passava de sexo. Até que o Gabriel apareceu e me quis, me assumiu como sua princesa. Eu entendia perfeitamente minha amiga. Com o Valentim eu sentia a mesma coisa, sempre na esperança que déssemos um passo a frente e fôssemos mais que amantes. Cansei de esperar e quando o Igor apareceu eu me entreguei. Ele me quis desde o primeiro momento. E não desistiu até que cedi. Levi era meu irmão, mas eu não poderia culpar Sarinha por ter se apaixonado pelo Gabriel. Assim como eu, ela simplesmente cansou de ficar em segundo plano. Eu só não entendia o porquê do Levi não querer nada sério com a minha amiga. Se estava na cara que ele era louco por ela. — Isso que dizer que você estará no churrasco de aniversário que ele fará semana que vem? — cogitei brincando.


— Sim. Ele quer fazer uma comemoração sem muita agitação. — Espero que ele cuide de você — abracei minha amiga que estava deitada ao meu lado. — Você não está chateada? — perguntou receosa. — Não. Eu quero sua felicidade, independente com quem você namore — expressei tranquilizando-a. — Mas... corto as bolas do Gabriel se ele aprontar novamente com você. — Nossa! Ele me disse que quando te viu logo que voltamos da fazenda achou que você o fuzilaria com o olhar. Caímos na gargalhada imaginando o Gabriel assustado. — Ele ontem me convidou para o seu aniversário — confessei. — Eu sequer cogitei na possibilidade de ir, mas quem sabe agora. — Ele realmente quer que o Dan e você compareçam ao seu aniversário — disse sincera. — O Gabriel sabe que vocês são a minha família e quer consertar suas mancadas. — Todo mundo merece uma segunda chance — dei de ombros. — Acho que vou fazer dieta até o dia do churrasco. — Oba! Ouvi falar em churrasco. Quando será? Estou dentro — Maria Sandra entrou em meu quarto com a maior cara de pau. Vadia!


Capítulo 24 Vivendo às escuras

Igor Minha cabeça latejava. Sentia-me inútil com tudo que estava acontecendo. A confirmação do tumor maligno da Ingrid havia me tirado o chão. Jurei que a protegeria que nunca deixaria que nada lhe acontecesse, e agora eu tinha falhado completamente. Ingrid não só estava com câncer, como ele ainda era de um tipo raro. Depois que saímos da clínica de oncologia não consegui encarar minha família. Eu sabia que todos estavam abalados tanto quanto eu, porém não conseguia ser forte e ampará-los. Ver o desespero nos olhos da minha mãe, o choro angustiante da minha irmã e o pavor da minha avó, que era a mulher mais forte que eu já havia conhecido, estava sendo um martírio. A minha sorte foi Miguel e Danilo tomarem as rédeas de toda a situação percebendo o quão inútil e sem reação eu estava. Depois do resultado dos exames, pedi que eles cuidassem da Ingrid, minha mãe e da nossa avó. A princípio saí sem rumo da clínica, queria ficar sozinho colocar minha cabeça e raciocínio no lugar, porém mesmo com o pensamento vazio segui direto para a casa de Alice. Eu precisava estar perto dela, ela conseguia me acalmar, me dar esperança que tudo se resolveria o mais rápido possível. E por mais que eu soubesse que a luta da Ingrid contra o câncer estava apenas começando, as palavras e conforto dos braços da Diabinha me ajudariam. Durante todo o trajeto até a casa de Alice, chorei como uma criança. A última vez que havia chorado com tanto desespero tinha sido quando perdi meu pai, no entanto, ainda tentei me manter forte perante a minha mãe, pois seria o homem da casa, que protegeria a ela e minha irmã mesmo sendo um adolescente, que precisaria se mostrar forte e não decepcionar meu pai. Quando cheguei à casa de Alice, ela já estava na porta do seu prédio me esperando ansiosa. Bastou seu olhar encontrar os meus olhos para saber a resposta dos resultados dos exames da minha irmã. No mesmo instante correu ao meu encontro e me acalentou em seus braços, me dando o conforto que necessitava no momento. Depois de estar com ela, comecei a agir como um robô, porque sabia que ela cuidaria de mim. Falei rapidamente sobre o que havia acontecido e depois seguimos para meu apartamento, onde me deitei com ela em meus braços depois de ter me forçado a tomar um chá.


Depois de rolar durante horas na cama, consegui dormir um pouco, mas acordei na madrugada de supetão e assustado. Alice dormia, seus cabelos espalhados pelo meu tórax, ela estava abraçada a mim como se estivesse me protegendo de algo. Devagarinho, evitando que acordasse, a tirei de cima de mim deixando-a confortável na minha cama. Era linda dormindo, ronronava baixinho como uma gatinha. Fiquei alguns instantes admirando-a, me perguntando o que ela teria feito para conseguir prender meu coração ao seu tão facilmente. Eu realmente a amava e a queria comigo. Nunca fui um homem de planejar, tão pouco sobre relacionamento, mas Alice havia me mudado e moldado totalmente, me sentia outro homem e, até o momento estava gostando dessa minha nova fase. Eu passei a me pegar planejando o nosso futuro juntos. Ela era minha, eu me sentia assim em relação a ela, mas queria mais, muito mais. Queria dar meu nome a ela. Gritar aos quatro ventos que ela seria minha esposa. Até em filhos me surpreendi pensando. Imaginava-me pai de uma menina linda de cabelos loiros e olhos azuis enfeitiçadores como os da mãe. E eu completamente domado pelas duas. Se contasse isso a alguém, ninguém acreditaria e no caso dos meus amigos, com certeza cogitariam a possibilidade de uma internação. Beijei seus lábios adormecidos e saí do quarto indo para a varanda. Gostava de sentir o ar frio da madrugada. Sempre ajudava a pensar e colocar a mente no lugar. Não sei quanto tempo fiquei perdido em meus pensamentos. Alice chegou de mansinho e sentou em meu colo, aninhando-se. Não disse uma palavra, mas não precisava, ela sabia respeitar meu silêncio, porém queria estar ao meu lado, me apoiando, e só isso já me bastava.

— Como assim cancelou todas as minhas consultas? — questionei indignado à Lilian. — Desculpe, Igor! São ordens do Leonardo. Fale com ele — respondeu profissionalmente. — Ele saberá te responder melhor. — Com certeza falarei com ele. Onde Leonardo está? Na administração? — indaguei já fazendo o caminho para lá. — Não. Em seu consultório — respondeu. Sem dizer mais nada, marchei em direção ao consultório do Leonardo, que era bem próximo ao meu. Bati em sua porta e já fui logo abrindo e entrando sem esperar sua permissão, ou se estava ocupado com algum paciente. — Quem te autorizou a cancelar minhas consultas de hoje e amanhã? — bradei, assim que confirmei que realmente estava sozinho. Leonardo estava sentado em sua poltrona avaliando alguns exames. Levantou seu olhar para mim. Eu o admirava por tudo que havia conquistado, e lutado para estar com a mulher que amava. Ultrapassou seus próprios erros e deixou de lado o orgulho para ser feliz. E agora estava colhendo os frutos. Era um cardiologista implacável, totalmente responsável e respeitado. Assumiu a administração da Clínica junto com Lilian e Isabela, sua esposa adorável.


— Bom dia, doutor Igor — disse sério. — Bom dia — respondi carrancudo. Adorava debochar dele e enfurecê-lo ao declamar o quanto ele era sortudo em ter a Isa como esposa. Houve uma época, há muito tempo, em que desejei a sua esposa. Isabela era aquela mulher que intrigava um homem com o seu jeito de menina mulher. No entanto, com o tempo esse desejo se transformou em carinho e depois em uma amizade verdadeira. Eu passei a vê-la como uma irmã e provei ao Leonardo isso, porém seus ciúmes em relação a ela nunca haviam diminuído, e eu adorava provocá-lo, mas hoje pelo visto seria o contrário. Estava sem ânimo para isso. — Por que cancelou minhas consultas? — Porque a Isabela me contou sobre sua irmã. E conhecendo você, sei que está com a cabeça a mil. Então, concordamos que você precisaria de um tempo. Pelo visto as notícias voavam. Na certa, Miguel havia comunicado ao Gabriel e Luís sobre os exames da Ingrid. Ontem não quis falar com ninguém, desliguei meu celular para evitar ser incomodado. E hoje cedo quando votei a ligá-lo, estava repleto de chamadas perdidas e mensagens dos meus amigos, primos e minha mãe. — É aí onde vocês se enganaram. Trabalhar iria me ajudar a pôr a cabeça no lugar para saber o que fazer — rebati. — O que eu vou fazer agora? — Você poderia ficar com sua irmã. Acredito que ela precisa de você — Leonardo falou, ignorando minhas reclamações. Eu ainda não estava preparado para enfrentar a doença da Ingrid. Ela precisava de pessoas que passassem determinação e força. E por mais que eu fosse uma pessoa determinada, ainda não estava pronto para encará-la. Sabia que essa hora teria que chegar e o mais rápido, mas precisava de no mínimo um dia para aceitar tudo, e conseguir apoiá-la como merecia. — Olha Igor, eu sei que não está sendo fácil, mas… — Não está — não deixei que continuasse a falar. — Mas você ou a Isa poderiam ter me consultado primeiro sobre cancelar minhas pacientes. — Fizemos o que achamos que era certo. Somos seus amigos e você sabe que estaremos aqui para te apoiar. — Eu sei — caminhei até a sua porta. — Estarei em meu consultório. O restante da manhã, passei em meu consultório pensando, pensando e pensando sobre qual passo seguir sobre o tratamento da Ingrid. Miguel como especialista havia sugerido iniciar com a radioterapia, na tentativa de diminuir o tumor para depois partirmos para cirurgia. Mas como em qualquer tratamento deste tipo também havia riscos. Mas com certeza Miguel estava buscando o melhor para minha irmã. Depois que saí do consultório do Leonardo e me enterrei no meu, no fundo agradeci a decisão


que ele e Isa haviam tomado. Amo trabalhar e amo minha profissão, porém tudo o que eu precisava era ficar sozinho. O que não ocorreu. Miguel não parava de ligar para saber como eu estava. E também porque vovó Elza estava preocupada e não queria voltar para fazenda sem falar comigo. Além de Gabriel e Luís que zanzaram a manhã toda em meu consultório sempre questionando se eu precisava de algo. Mais ou menos ao meio dia, uma batida soou na minha porta, pensei em dizer que não estava para ninguém, mas poderia ser a Diabinha. Ela, como sempre estava com sua agenda lotada pela manhã, e agora devia ter arrumado uma folguinha. Consegui abrir um sorriso e pedi que entrasse. Contanto meu sorriso se desmanchou ao ver Maria Sandra entrando em meu consultório. Apesar de perceber que ela não era uma pessoa bem vinda entre os amigos de Alice, eu não poderia sair julgando a garota sem saber ao certo o que estava acontecendo. — Olá, doutor Igor — abriu um sorriso. — Incomodo? — Como vai, Maria Sandra? Não incomoda — na verdade queria ter dito que me incomodava, pois não estava disposto a interagir socialmente. — Que bom! Odiaria ficar na recepção esperando a Ali. Ela está com um paciente — comentou assim que aproximei dela para cumprimentá-la. — E, por favor, me chame de Sandrinha. Afinal somos praticamente parentes. — Sente-se, por favor — pedi, desconsiderando seu último comentário. Esperei que se acomodasse e voltei a me sentar em minha poltrona. — Veio conhecer o local de trabalho da sua irmã? — perguntei curioso. Maria Sandra era o tipo de pessoa enigmática. — Também, e convidar minha irmã para almoçamos. Mal conversamos ontem. Saí com mamãe e quando voltamos ela havia deixado um recado que tinha ido para sua casa — explicou. — Senti muita falta dela enquanto estava em Paris. Deduzi que Alice não tenha conseguido descobrir o motivo do retorno inesperado da irmã. Ontem não conversamos, estava tão perdido com os meus próprios problemas que me esqueci dos dela. — Sinto muito ter atrapalhado, mas tive uns problemas e Alice quis me apoiar. — Ah! Mamãe comentou sobre sua irmã. Sinto muito — pareceu ser sincera. — Obrigado. — Mamãe conversou um pouco com a sua mãe por telefone hoje mais cedo. E prometeu visitála assim que possível. Ouvindo Maria Sandra comentar da minha mãe, me senti culpado por ter fugido da clínica de oncologia como um covarde. — Fico feliz que elas se deram bem. E estou louca para conhecer a Ingrid. Acho que iremos


nos dar muito bem. Sorri educadamente do seu comentário. Conhecendo bem minha irmãzinha, Maria Sandra não era o tipo de pessoa que ela teria como amiga, e sendo unha e carne do Danilo, não demoraria muito para ele a convencer que ela era uma bruxa. — Estou tão feliz que a Ali esteja namorando — pronunciou depois de alguns minutos. — Eu desejei tanto que ela encontrasse alguém legal. Ela era muito cega e submissa de amor pelo Valentim. Automaticamente meu corpo reagiu ao ouvir o nome daquele queixudo. Uma raiva incontrolável se estabeleceu dentro de mim e lembrei-me do telefonema que ele havia feito para Alice ontem, enquanto estava com seu celular. Com o resultado dos exames da Ingrid acabei me esquecendo dessa ligação completamente, mas agora a lembrança voltava junto de uma fúria ao pensar que Alice omitia sobre ainda ter contato com ele. — Sua irmã é uma pessoa especial — comentei, disfarçando a minha raiva sobre aquele assunto. Minha vontade era perguntar tudo sobre eles. Sabia que eles não chegaram a namorar sério, pois a própria Alice havia me confidenciado que nunca teve um relacionamento sério, ou seja, o que eles tiveram foi apenas sexo sem compromisso. Mas queria muito perguntar o que significava cega e submissa de amor por ele? Só que não seria à Maria Sandra que faria essa pergunta. — Sim. Ela é incrível. Sempre cuidou de mim — mesmo me sentindo receoso com a índole da Maria Sandra, senti que no fundo ela tinha um amor muito grande pela irmã. Seus olhos brilhavam ao falar da minha Ali. — Quando era criança e tinha medo ou pesadelo era para sua cama que eu corria. — Posso estar enganado, mas vocês não me parecem muito unidas — tentei instigá-la. — É verdade. Depois que ela voltou da França e descobriu sobre seu pai verdadeiro e que tinha um irmão, toda nossa relação mudou — disse. — Ela simplesmente ficou deslumbrada com a nova família, o sobrenome que adquiriu. Muitas vezes destratando até nossa própria mãe. Então passamos a discutir bastante, pois não aceitava a forma como ela vinha agindo. Além de que tinha a Sarah e o Danilo a incentivando — despejou de uma só vez. Não consegui imaginar a Alice destratando dona Laura. Ela sempre se preocupava com a mãe. Isso era impossível. — Desculpa estar falando isso da sua namorada. Amo muito minha irmã e não quero que pense que estou falando mal. Mas às vezes nos enganamos. Esse sempre foi um dos motivos que o Valentim nunca quis assumi-la. Mas uma vez ela citava o nome daquele desgraçado. — Maria Sandra, gostaria muito de prolongar essa conversa, mas tenho uma paciente em poucos minutos — menti. Precisava analisar tudo e conversar com a Alice sobre esse idiota continuar ligando. — Oh! Claro. Não quero atrapalhar — disse se levantando. Do meu lugar mesmo estendi a mão


e me despedi com um aperto. — Até breve, Igor. — Até logo — despedi-me. Assim que ela saiu e fechou a porta do meu consultório respirei fundo aliviado. Eu não fazia a mínima ideia de quem era Maria Sandra, mas, com certeza, ela não inventaria mentiras descabidas correndo o risco de que eu pudesse falar tudo para Alice. No entanto, a única certeza que tinha era que a Diabinha escondia suas conversas com o seu ex-amante de mim. E isso ela teria que me explicar detalhadamente.

Saí da Clínica enfurecido. Pela primeira vez em meses de namoro, Alice tinha me tirado do sério. Assim que sua irmã saiu do meu consultório, poucos minutos depois ela adentrava pela mesma porta. A princípio minha reação foi puxá-la para os meus braços. Senti seu cheiro e sua presença me acalentando. Porém bastou ela evitar falar dos seus problemas com sua irmã para que tudo desandasse de vez. “Não vou ter essa conversa com você… Sei quem é minha irmã. Tenha certeza, Igor. Sandrinha nunca faz nada sem benefício próprio.” Disse quando questionei o simples fato de achar que a irmã dela a amava e que talvez elas duas pudessem achar uma forma de se relacionarem bem. Essas palavras foram o estopim para que me irritasse por ela nunca conversar nada de sua vida comigo. Perdi de vez a cabeça e joguei na sua cara que escondia de mim suas ligações com o queixudo. Pior! A tratei como uma qualquer. No fundo, no fundo, meu inconsciente dizia que estava fazendo uma merda das grandes. Seu olhar era de decepção, mas só o fato dela não negar sobre as ligações do seu ex, me fez perder a razão. Pela primeira vez agi como um idiota. Sempre achava ridículas atitudes como essas, muitas vezes até recriminava a pessoa por ser tão estúpida. Agora me via na mesma situação. E era doloroso demais. Pela primeira vez estava experimentando o lado ruim de um relacionamento. Dentro do meu carro ainda no estacionamento da Clínica, meu celular tocou. Pensei que poderia ser Alice, mas depois de quatro ligações perdidas vi que era Miguel. — Algum problema, Miguel? — indaguei atendendo a chamada rapidamente. — Nenhum, mas haverá se você não estiver na casa da sua mãe dentro de trinta minutos — a voz da minha avó soou autoritária. — Está me ouvindo, Igor Salazar? — Vovó! — fechei os olhos já esperando o sermão que viria seguir. — Como você pôde sumir assim, meu filho? Você acha que não estamos sofrendo com tudo que está acontecendo também? — escutei ela desabafar em silêncio, sem interferir. — Sua irmã precisa de você. E agora mais do nunca. Ouvir vovó Elza falando o quanto a Ingrid precisava de mim fez-me parecer um crápula. Como


sempre ela estava certa. Eu não poderia fugir. Minha irmã e minha família precisavam de mim. Eu tinha que deixar meus medos, receios e problemas de lado e ser o homem que prometi diante do túmulo do meu pai. — Já estou dentro do carro, vovó. Daqui a pouco chego aí. — Eu sabia que você nunca me decepcionaria, meu querido — ressaltou carinhosa. — Venha com Deus. Desliguei a chamada. Olhei para a porta de entrada da Clínica na esperança de Alice aparecer, mas não aconteceu. Ela deixou claro que eu deveria procurá-la. Liguei o carro e saí a caminho da casa de mamãe. Estaria mentindo se dissesse que não estava com medo. Na verdade, estava aterrorizado com o que podia acontecer à Ingrid, mas eu nunca a deixei de lado, e não seria agora que faria. No caminho lembrei-me das refeições que o Gabriel havia levado para o meu consultório e que ficaram intocadas em cima da minha mesa. Consequentemente lembrei-me que provavelmente Alice não teria comido nada depois da nossa discussão. Ela estava abatida e com o corpo febril, se não se alimentasse, era provável que piorasse. Liguei para Gabriel e expliquei rapidamente por alto o que tinha acontecido. Pedi que pegasse as refeições para que não estragasse e levasse para Alice e Ana. Depois ligaria para Ana e me certificaria se Alice tivesse se alimentado. Encontrar minha irmã depois da tarde de ontem, havia sido um dos momentos mais difíceis da minha vida. Minha vontade era tomar todo seu sofrimento. Por mais que tentasse se manter forte, Ingrid estava visivelmente abatida e com os olhos inchados. Ficamos todos na sala. Mamãe, Miguel, vovó Elza, Ingrid e eu. Conversamos e relembramos os melhores momentos da nossa infância. Depois segui minha irmã até o seu quarto. Vovó tinha exigido que ela descansasse. Deitei-me com ela e deixei que chorasse em meus braços até que adormecesse. Ela me confidenciou que estava com medo, mas tentava ser forte na frente da nossa mãe e avó. Começou a divagar que não saberia dizer como reagiria com o resultado do tratamento. E pior, com medo do que a cirurgia poderia desencadear, destruindo por completo sua coxa e mesmo com a possibilidade de que uma cirurgia plástica, não conseguisse corrigir uma possível sequela. Eu apenas dizia que tudo daria certo, que tirasse esse pensamento de sua mente, pois Miguel e eu faríamos o impossível se fosse preciso para curá-la. Ela estava nas mãos de um dos melhores oncologistas do Brasil. Já passava das vinte e uma horas quando consegui sair do quarto de Ingrid. Mamãe, vovó Elza e Miguel estavam na cozinha sentados à mesa cada um com uma caneca de chá nas mãos. — Quer jantar agora, filho? — mamãe perguntou-me. Seu semblante mostrava que estava preocupada e as manchas ao redor dos seus olhos demonstrava que fazia horas que não dormia. — Não. Obrigado — agradeci. Quando cheguei da Clínica fui forçado a almoçar. Claro que fazia horas que isso havia ocorrido, mas meu apetite estava muito longe de mim. — Ela adormeceu? — meu primo perguntou. Apenas balancei a cabeça confirmando.


— Graças a Deus! — mamãe expressou. — Ontem não pregou o olho. Coitada da minha menina. Ela não merecia passar por isso. — Não chore, mamãe — abracei-a imediatamente. — A Ingrid é forte e tirará isso de letra — disse para ela, mas muito mais para mim mesmo. — Tomara, meu filho. — Cadê a Alice que não veio visitar a Ingrid? — indagou vovó Elza. — Acho que ela ficou presa na Clínica — proferi. Alice tinha me dito que viria hoje à noite visitar a Ingrid, mas como discutimos, acho que preferiu não correr o risco de encontrar comigo. — Não me diga que vocês discutiram? — minha avó levantou uma centelha desconfiada. — Tivemos uma divergência, não se preocupe. Todo casal briga — falei sucinto. — Mas não sejam orgulhosos. Tente resolver suas divergências o quanto antes. Alice é uma boa moça, meu filho. — Eu sei, vovó. Mas a boa moça me escondia telefonemas e mensagens que mantinha com seu ex. — Estou indo naquele barzinho na beira da praia — Miguel interpelou, me salvando das chamadas de atenção de dona Elza. — Fernando me ligou. Ele está lá junto com o Gabriel e disse que o Luís também apareceria por lá. Vamos? — Claro — tudo que eu precisava agora era espairecer. — Cuidado! Se forem beber. É melhor pegar um táxi — mamãe alertou. — Não se preocupe, tia. Eu não beberei álcool — Miguel a tranquilizou. Saímos em silêncio. Quando chegamos ao meu carro joguei as chaves para ele. — Nossa! As coisas aqui estão mudando. Igor Salazar deixando que outra pessoa dirija seu carro precioso. Isso é um progresso — debochou da minha cara. — De ontem para hoje fui obrigado a abrir algumas concessões — respondi entrando e sentando no banco do passageiro. No mesmo instante, Alice veio em meus pensamentos. Ontem praticamente entramos em uma disputa na frente do seu prédio quando ela tomou a chave do carro das minhas mãos, insistindo para dirigir.


— Quer dizer que você e Sarah se reconciliaram? — Fernando questionou curioso ao Gabriel. — Eu adoro aquela morena. Faço qualquer coisa por ela — meu amigo respondeu todo feliz. — Se vocês estão se arrumando de novo por que não está com ela em vez de estar em uma mesa de bar com mais quatro marmanjos? — Miguel perguntou enquanto descascava seus amendoins. — Íamos passar a noite juntos, mas sua amiga precisou de ajuda e Sarah foi ficar com ela — Gabriel falou e todos olharam para mim ao mesmo tempo. — Todo casal discute — dei de ombros, tomando mais um gole do meu chopp. — Então, eu acho que a briga de vocês foi feia, porque a minha princesa estava fumaçando pelo celular, com raiva de você. Acreditava que estava mesmo. Alice também ficou com muita raiva do Gabriel quando soube do seu tipo de hobby. Será que a minha Diabinha estava sofrendo mesmo? Será que ela olhava a cada minuto o seu celular como eu estava olhando? A cada vibração do aparelho corria os olhos nele achando que era ela me pedindo para ir buscá-la e levá-la para o meu apartamento para fazermos amor a noite toda. Estava magoado por ter mentido para mim, mas estaria me enganando se falasse que não a queria ao meu lado nesse momento. Sentia tanto a sua falta. Assim como eu, Miguel também estava mais contido e sempre se afastava para falar ao telefone. E quando voltava sempre vinha emburrado. — Está feio assim a situação? Levando fora de mulher. Achei que você era um Salazar — revidei o deboche que tinha feito sobre meu carro. — Nunca! — deu aquele sorriso malicioso. — Apenas houve um imprevisto. — Mulher mais velha? — interroguei. Miguel sempre teve fetiche por mulheres mais velhas. Lembro que na época da faculdade muitas meninas achavam que não passava de um gigolô por nunca cair nas suas cantadas e depois aparecia com uma coroa nas confraternizações. — Cuide da sua mulher. E me deixe quieto — ironizou. Ficamos conversando até altas horas. Luís foi o primeiro a ir embora, seguido do Gabriel que agora estava tentando entrar na linha por causa de sua morena. Estava feliz por ele e por ter encontrado alguém. Eu gostava muito da Sarah. Alice tinha me falado por alto como sua infância havia sido difícil, e esperava realmente, que o Gabriel a fizesse feliz. Miguel me deixou em casa e seguiu com o meu carro para a casa da minha mãe. Insisti que dormisse aqui, mas negou com a desculpa da vovó Elza precisar dele. Já que minhas consultas de sexta-feira haviam sido canceladas. Combinei que pegaria um táxi e almoçaria na casa de mamãe e que chegaria por volta do meio dia. Quando consegui dormir um pouco, já passava das oito da manhã. Não conseguia tirar Alice da cabeça, e para completar, os lençóis da minha cama só tinha o seu cheiro delicioso, o que culminou


para sentir ainda mais a falta dela. Esse negócio de brigar era horrível! Não sei quanto tempo mais aguentaria ficar sem vê-la. Minha esperança era ela ir logo mais, à noite, na casa da minha mãe visitar a Ingrid. Então arrumaria uma desculpa para conversarmos. Troquei de roupa e liguei para portaria para que avisasse ao táxi que estava descendo. Quando cheguei à casa da minha mãe o silêncio dominava todo ambiente. Saí procurando por todos, mas não tinha ninguém. Peguei o celular e disquei o número da Ingrid. Antes que começasse a chamar. Miguel apareceu apenas de toalha e cabelos molhados pelo corredor. — Não ouvi a companhia tocar — pronunciou sacudindo os cabelos com as mãos. — Eu tenho cópia da chave — disse. — Cadê a mulherada? — Você acha que o Danilo é gay mesmo? — fingiu não escutar minha pergunta. — O quê? Por que essa pergunta? — instiguei surpreso. Será que meu primo estava mudando os hábitos? Será que o Danilo era a pessoa com quem ele estava de minutos em minutos ao celular? — Nada não — respondeu entrando na cozinha. Fui seguindo, pois precisava saber o porquê daquela pergunta tão de repente. — Ah! A propósito, a mulherada foi visitar a sua mulher. Parece que ela amanheceu doente e não foi trabalhar. — Como assim? — o olhei estupefato. — Não sei direito, mano. Só sei que as três foram para a casa da Alice. Depois que o Danilo ligou para Ingrid — abriu a geladeira ficou olhando o interior da mesma. — A propósito novamente… Você terá que cozinhar para mim. Estou faminto — vislumbrei um sorriso sarcástico vendo meu desespero por não me responder com veemência. Deixei meu primo na cozinha e corri para sala já discando um número e aguardando ansioso que atendesse o mais rápido. — Alô! O que manda Igor? — questionou Luís assim que atendeu. — Está na Clínica? — Não. Saí para almoçar. Aconteceu alguma coisa com a Ingrid? — perguntou preocupado devido ao tom da minha voz. — Cara, preciso de um grande favor — roguei para que ele aceitasse. — Preciso que você vá à casa da Alice examiná-la. Ela amanheceu doente. — Hum! Igor, você também é médico. — Eu sei, mas estamos brigados e não quero importuná-la — era verdade. Não queria causar um mal-estar por estarmos magoados um com o outro.


— Tudo bem, eu vou. Me passa o endereço — indiquei a forma mais fácil de chegar ao apartamento dela e pedi que repetisse para confirmar se tinha anotado corretamente. — Igor? — O quê? — Você lembra que minha especialidade é pediatria, né?


Capítulo 25 Atitudes impensadas

Alice — Mamãe, já chega! Não quero mais — era a quinta vez que reclamava com ela por me forçar a comer. — Você precisa se alimentar, Ali. Você está doente porque se esquece de se alimentar — mamãe reclamou com a mesma desculpa. — Eu quero esse prato de papa de aveia limpinho! Minha mãe era a melhor pessoa que existia no mundo. Era bondosa e atenciosa. Sempre pronta para ajudar as pessoas. No entanto, virava uma fera quando minha irmã ou eu a desobedecia. — Não sou mais criança, dona Laura — disse emburrada, mas no fundo eu amava esses cuidados que mamãe tinha comigo. Lembrava a minha infância. — Só mais uma colherada — insistiu. Desisti e acabei concordando. — Viu? Não foi tão ruim assim. Agora se deite um pouco enquanto vou à cozinha levar a bandeja de café. Esperei que mamãe saísse do quarto para só então olhar para a ponta da minha cama onde estavam sentados meus amigos, Danilo e Sarah. Os dois segurando os risos, por estar sendo tratada como uma criança. — Não digam nada — adverti aos dois, fazendo cara feia, mas não adiantou. Ambos caíram na gargalhada assim que mamãe saiu do quarto. Sempre era assim quando eu ficava doente. Eles amavam zoar comigo devidos aos paparicos de dona Laura. Na verdade, tenho quase certeza que eles só vinham aqui apenas para ver cenas como essa de agora a pouco e não para me visitar. — Isso é o que dá, trabalhar e foder demais — Sarah pronunciava aos risos. — Tem que repor as energias, minha linda. O seu corpo não aguenta. — Os dois não têm trabalho hoje? — fuzilei-os ainda mais. — Ah! Ali, admita. É muito engraçado e bonitinho, todo esse mimo — Danilo falou vindo sentar ao meu lado direito da cama, ao mesmo tempo em que Sarah sentava do lado esquerdo. Ambos


me abraçando. — Você ainda está com febre — minha amiga afirmou colocando a mão na minha cabeça. — A cabeça ainda dói? — Um pouco — ainda doía um pouco mesmo, o que me incomodava mais era a tontura. — Ele te ligou? — Danilo perguntou, e eu sabia que ele estava se referindo ao Igor. Balancei a cabeça negando. Sentia tanta falta daquele filho da puta. Pensei várias vezes em ligar para ele, mas a forma como Igor tinha me tratado me impedia. Ele que deveria vir atrás de mim e pedir desculpas por tudo que disse ao meu respeito. Ele me destratou. Entendia seus ciúmes. Eu também tinha muito ciúmes dele, principalmente de algumas funcionárias da Clínica que não se importavam com o seu atual status de relacionamento, mas Igor tinha que aprender a confiar em mim. Eu confiava nele. — Ingrid me disse que ele saiu ontem para beber com o Miguel e outros caras — meu amigo proferiu sem graça. Meu coração se apertou ao saber que ele tinha saído, talvez para um barzinho com os amigos, sabia que ele tinha todo esse direito de se distrair e colocar o papo em dia, mas era diferente agora que estávamos brigados. Mil coisas passavam em minha cabeça. Aprendi a confiar no Igor, porém às vezes de cabeça quente tomávamos atitudes impensadas. — Não fica assim, Ali — Sarah acalentou-me percebendo o quanto essa notícia mexeu comigo. — Falei com o Gabriel há alguns minutos, ele me falou que só ficaram jogando conversa fora e que o Igor a cada cinco minutos olhava para o celular. — Por que ele teve que ser tão idiota ontem? — debrucei minha cabeça no ombro da minha amiga. — Estou com tanta raiva de mim. Eu não queria sentir saudades dele, mas estou lutando contra a necessidade que eu sinto de ligar e escutar sua voz. — É normal, minha linda. Você o ama! — Danilo disse. — Por mais que as pessoas que amamos nos magoem, sempre tendemos a perdoar. Faz parte da vida. — Mas o Igor terá que me pedir desculpas por tudo que me disse — expliquei. — Além do mais, se ele não confiar em mim, não tem como nossa relação dar certo se for seguir dessa forma. Ficamos os três em silêncio, apenas curtindo a presença um do outro. Eles eram meus melhores amigos. E sempre estavam ao meu lado me apoiando. — Ali, minha querida, a mamãe precisa dar um pulinho na escola. — mamãe entrou de repente no quarto. — Aconteceram uns problemas por lá e todos estão loucos sem saber o que fazer. — Mamãe, eu não quero que você falte ao trabalho por minha causa — resmunguei. — Estou bem. Eu juro! — Vou lá num pulo e volto no outro — ela fingiu não me ouvir. — E vocês dois não vão trabalhar hoje? — perguntou para meus amigos.


— Sim. Já estou atrasado — Dan respondeu levantando da cama e beijando o topo da minha testa. — Se cuida, minha linda. Qualquer coisa me liga. Sorri para o meu amigo e agradeci pela visita. — Sah, precisa de carona? — Quero sim — ela respondeu ao Dan. — Tenta descansar. Logo, logo você estará novinha em folha — minha amiga beijou meu rosto se despedindo. — Filha, durma um pouco. E se precisar de alguma coisa, sua irmã está no quarto dela. Já avisei para ficar cuidando de você — mamãe beijou-me também o rosto. — Eu te amo, meu anjo. — Eu também te amo. Esperei que todos saíssem e fechassem a porta. Aconcheguei-me em meus lençóis e abracei um dos meus travesseiros. Igor imediatamente veio em meus pensamentos. Queria saber como ele estava em relação a sua irmã e nós dois. Sentia-me culpada por não ter ido visitar Ingrid ontem, mas estava tão magoada e decepcionada com a forma que o Igor havia me tratado. No entanto. o queria desesperadamente aqui comigo. Realmente estava muito exausta. Que mamãe não me escutasse, mas ela tinha razão, andei descuidando da minha saúde e meu corpo estava reagindo a essa fraqueza. Fechei os olhos e abracei ainda mais forte o travesseiro, inalando seu cheiro e imaginado ser o cheiro delicioso da curva do pescoço do Igor. Era assim que amava dormir em seus braços. Não demorou muito, adormeci, sonhando com cenas quentes e prazerosas com o meu Devasso.

Acordei desorientada com batidas suaves em minha porta. Não fazia ideia de quanto tempo tinha dormido, mas com certeza não teria sido muito tempo. Ajustei-me em minha cama e pedi que entrasse. Sabia que era a minha irmã. Graças a Deus que pelo menos ela, de certa forma, respeitava minha privacidade, quando a porta estava fechada. — Pode entrar — anunciei. A porta foi aberta lentamente. Minha irmã apareceu descalça vestida com uma legging preta e uma regata branca. Eu a achava linda e deslumbrante. Maria Sandra tinha sido uma criança linda. Até concurso de bebê ela tinha participado e ganhado. Lembro que quando criança amava desfilar pelas ruas exibindo minha irmãzinha que pra mim era o bebê mais bonito do mundo. Até hoje mantinha em minha carteira uma foto dela com quase 01 aninho e apenas dois dentinhos na boca sorrindo abertamente com suas covinhas à mostra. — Está melhor? — perguntou sorridente. Franzi o cenho sem entender o motivo de toda aquela simpatia. Porém, por estar muito cansada, decidi fingir não perceber sua bondade.


— Sim. Estou melhor. — Pergunto por que você tem visitas. E elas me pediram para verificar se você estava acordada. Elas? Quem será? Agora compreendia o motivo de tanta bondade da Maria Sandra. Ela amava se fazer de boa moça na frente das pessoas. — Quem são? — perguntei curiosa, pegando meu relógio em cima da mesinha de cabeceira e verificando as horas. Eram 11h30. — Sou eu! — Ingrid apareceu ao lado da minha irmã com aquele sorriso encantador, no entanto, seus olhos tinham certa tristeza, mas ela era ótima em fingir estar tudo bem. — Na verdade, somos eu, mamãe e vovó Elza. Imediatamente abri um enorme sorriso por vê-la ali na minha frente e, por saber que sua mãe e avó também estavam em minha casa me visitando. — Ingrid, minha filha isso são modos de invadir a casa das pessoas — escutei a voz de dona Elena da sala recriminando a filha. — Que surpresa! — enfim consegui pronunciar. — Sandrinha, por favor, chame-as aqui para o quarto. Ingrid entrou e sentou ao meu lado, beijando meu rosto. Ela não parecia estar doente. Era cheia de vida e energia. — Como se sente? — ela perguntou. — Eu que deveria te perguntar — sorri sem graça. — Desculpa por não estar lá. Ingrid revirou os olhos dizendo que entendia os meus motivos. Disse que Danilo explicou a ela sobre minha irmã e que até tentou imaginar que era exagero do nosso amigo, mas vendo e conhecendo a Sandrinha há poucos instantes, percebeu que não passava de uma fingida. Segurei a gargalhada quando falou que seu santo não bateu com o dela. Dona Elena e vovó Elza entraram segundos depois e nos cumprimentamos. Esperei que se acomodassem. Vovó Elza em minha poltrona e dona Elena em uma cadeira que minha irmã havia pegado na cozinha. Fiquei ainda mais chocada quando Maria Sandra com sua boa vontade inesperadamente ofereceu café. — Desculpe, viemos sem avisar, Alice, mas Ingrid insistiu bastante para vir — Dona Elena emitiu educada. — Eu amei a visita — proferi alegre. — Você parece um pouco abatida, minha filha — Vovó Elza argumentou. — Ela é teimosa, senhora — Maria Sandra adentrou ao quarto, trazendo consigo uma bandeja


com xícaras de café. Não disse nada, esperei que servisse as nossas convidadas. — Trabalha sem parar e não se alimenta direito. Qual o corpo que aguenta? — minha irmã continuou falando. — Inclusive, mamãe acabou de ligar avisando que vai demorar mais do que imaginava. Pediu que lhe desse um caldo que ela deixou pronto. Vou buscar. — Não precisa ser agora, Sandrinha — eu odiava esse caldo que mamãe fazia quando estávamos doentes. Ela aprendeu com a minha avó. Era uma mistura de todos os tipos de ervas e raízes. Horrível! — Se for por nossa causa, não se preocupe Alice — a mãe do Igor falou. Sandrinha retornou à cozinha para pegar o caldo. Ela também o odiava, mas como uma criança birrenta iria vibrar assistindo enquanto eu bebia o caldo e fazia caras e bocas. — Estamos indo para a fazenda esse final de semana. Bem que você poderia vir conosco — Ingrid anunciou. Será que o Igor também iria? Ele ama aquele lugar e com certeza queria ficar perto de sua irmã. Um pequeno sentimento de inveja bateu dentro de mim. Queria que também cuidasse de mim. — Eu não fui convidada. E acredito que mamãe não me deixaria ir sabendo que estou um pouco debilitada — expliquei sem jeito. Na certa elas já sabiam que Igor e eu tínhamos discutido. — Eu estou te convidando — Ingrid enunciou. — Alice, todo casal discute — Vovó Elza assegurou. — O melhor de uma discussão são as pazes — ela sorriu e piscou o olho. Sandrinha retornou trazendo uma caneca com o vaporoso caldo de cura dos Ventura. Só em sentir o cheiro meu estômago embrulhou. Peguei relutante a caneca e respirei fundo antes de dar o primeiro gole. — Isso parece horrível — Ingrid fez uma careta enquanto me observava beber o caldo. — Pode ter certeza que é — minha irmã afirmou amando me ver naquela situação. — Mamãe acha que esse caldo faz milagres. — Não parece tão ruim — Dona Elena expressou. — Depois pedirei a receita a Laura. — Nem vem, dona Elena! A senhora não vai me forçar a tomar isso — Ingrid chiou e todos nós caímos na gargalhada. O enjoo aumentou assim que o caldo bateu em meu estômago. Aquela sensação desagradável de expulsar o conteúdo pela boca surgiu. E antes que eu pagasse um enorme mico... novamente na presença daquelas mulheres... Pulei da cama passando por cima da Ingrid correndo para o banheiro e vomitando. Sentia minhas mãos suarem. Odiava vomitar.


— Alice, você está bem querida? — a voz de dona Elena soou do outro lado da porta do banheiro. — Eu saio em instantes — avisei. Depois de ter vomitado tudo que havia dentro de mim. Lavei meu rosto e escovei os dentes. Estava muito zonza. Se até o final da tarde não melhorasse ligaria para o Levi e pediria que me levasse ao hospital. Voltei para o quarto e com a ajuda de Ingrid e dona Elena me deitei. — Será que você está grávida? — Ingrid soltou essa piada. — Já pensou? Um sobrinho. Certamente o moleque iria ser o garoto mais paparicado do mundo. Eu a olhava chocada. Ela havia se esquecido de quem eu era namorada? Igor era totalmente cauteloso com a medicação contraceptiva que eu tomava. Até mais do que eu. Claro que um dia iria querer ter filhos, mas agora sequer poderia cogitar nessa possibilidade. — Alice não está grávida — Vovó Elza disse categórica. — Eu saberia a partir do momento que entrei por aquela porta. — Vovó sente cheiro de mulher grávida — Ingrid declamou. — Não sinto cheiro. Apenas sei — a senhora disse orgulhosa do seu dom. — Ela adivinhou todas as gravidezes da família. Conversamos mais um pouco e depois as três mulheres que aprendi a amar foram embora. Antes de vir até a cama se despedir, dona Elza disse que as porteiras da fazenda estariam sempre abertas para quando eu quisesse ir visitá-la, e que tinha certeza que em breve Igor e eu estaríamos bem. Agradeci e me senti mais segura. Dona Elza sempre passava essa segurança. Tomei um banho e vesti algo confortável. Falei por volta de vinte minutos com o meu irmão por telefone. Prometi a Levi que caso a minha dor de cabeça não passasse, o deixaria me levar ao hospital, porém não disse a ele que já havia pensando nisso. — Toma. Mamãe quer falar com você — minha irmã entregou o seu celular. — Oi, mãe. — Oi, meu amor! Como se sente? — sua voz doce soou do outro lado do aparelho. — Estou bem. Não se preocupe. Fique aí na escola, você é a diretora e todos precisam de você. — Acredito que em uma hora saio daqui — explicou. Era em vão lutar contra dona Laura Ventura. — Sua irmã me disse que você vomitou. — Mamãe! — ela sabia que eu vomitava praticamente todas as vezes que tomava aquele caldo. — Tudo bem. Já sei que foi por causa do caldo. Me desculpa meu anjo, mas ele ajudaria


bastante na sua recuperação. Tenho certeza que sua imunidade está baixa. É sempre assim que você fica quando isso acontece. — Eu vou tentar me alimentar melhor. Eu prometo, mas sem seu caldo. Meu estômago ainda está queimando por conta dele. Disse a ela sobre a visita da mãe, avó e irmã do Igor. Ela ficou triste por não estar aqui. Mamãe e Dona Elena tinham se tornado boas amigas. E eu estava muito contente com essa amizade. Ambas eram mulheres inteligentes, lindas e solitárias. Mereciam ser felizes novamente e quem sabe encontrar um novo amor. — Ah, filha! Antes que eu me esqueça. Você ligou para Abigail? — perguntou receosa. — Ela te ligou? — retruquei curiosa. Espero que Abigail não tenha comentado sobre o tal Jérôme Benoit, e principalmente, que estava investigando sobre ele. — Sim, me ligou. Ela disse que te enviou um e-mail — mamãe indagou. — Alice você está querendo fazer algum curso na França? — O quê? — Abigail pediu para avisar que tudo que você precisava ela enviou em seu e-mail. E que ligasse para ela o quanto antes. Com certeza, Abigail havia entendido meu recado de não comunicar nada a mamãe até que eu soubesse se a história que a Sandrinha nos contou era verídica. Tentei mudar o rumo da conversa com mamãe para que ela não desconfiasse de nada ainda. Desliguei o telefone, o devolvi para minha irmã e me tranquei no quarto. Liguei meu notebook e acessei meu e-mail, buscando o nome de Abigail na caixa de entrada. Encontrei e abri o e-mail, lendo rapidamente, mas paralisava a cada palavra escrita por ela. Estava em francês, mas eu entendia perfeitamente o que dizia, porém não acreditei e achei que meu francês estaria enferrujado. Antes fosse, a cada palavra dita, eu, pela primeira vez na vida, amaldiçoava a minha irmã por ser tão inconsequente. Alice, Quando vi seu recado na secretária eletrônica fiquei tão feliz e animada. Sinto saudades das nossas conversas, querida. Você foi a melhor colega de apartamento que já possui, tirando sua mãe, é claro, nada se compara a minha doce amiga Laura. Porém quando me contou sobre sua irmã um arrepio passeou por todo o meu corpo. Sinto ser eu a portadora dessa decepção, mas sua irmã mentiu para vocês todo esse tempo que esteve aqui. Sim, ela se matriculou nos cursos, no entanto mentiu sobre o emprego em um atelier famoso e sobre o dinheiro dar para custear as despesas. Maria Sandra se envolveu com um homem poderoso e muito perigoso. Jérôme Benoit é um renomado professor e diretor de uma das melhores escolas de belas artes do país. Tudo fachada para encobrir o seu real trabalho. Agiota. E há boatos de que ele também está envolvido com o tráfico de mulheres.


Alice, tenha cuidado, ele é conhecido por ser uma pessoa vingativa. E parece que a sua irmã o deixou com muita fúria. Ligue-me assim que puder. Estou realmente preocupada com a segurança de vocês. Beijos Abigail Meu Deus! Até onde a insensatez da minha irmã a levou? Se envolvendo com pessoas tão sem escrúpulos por troca de luxo. Corri até a cama pegando meu celular, buscando pelo nome da Abigail. Precisava saber o tamanho da desgraça que minha irmã provocou. Se ela tinha posto mamãe e eu em perigo, precisávamos nos proteger. Antes que pudesse fazer a chamada. Escutei a campainha tocar. Fui até a porta e ouvi Sandrinha falando com alguém. Saindo devagar pelos corredores para ver quem seria, me deparei com Luís entrando. — O que... O que você faz aqui? — perguntei ainda atordoada pelas últimas notícias. — Olá, Alice. Soube que tinha uma mocinha doente aqui — abriu um sorriso gentil. — Se você se comportar enquanto a examino, no final ganhará um pirulito.


Capítulo 26 Não é o que parece

Igor Fazia horas que estava aguardando o retorno da minha mãe, Ingrid e vovó Elza da casa da Diabinha. Não é possível que elas ainda estivessem visitando-a. E, justo hoje mamãe esqueceu o seu celular em casa, o da Ingrid só caía na caixa postal todas as vezes que liguei e, minha avó era avessa à tecnologia. Então, não tinha como ter notícias de nada. Queria saber da Alice, se ela estava melhor. Para ter faltado ao trabalho deveria estar bem doente. Ela era uma das pessoas mais responsáveis que já conheci, e tenho certeza que foi sua mãe quem a proibiu de ir para Clínica. Para completar, Luís não me dava notícias também. Ele havia concordado em ir até a casa da Alice, saber o que ela realmente tinha, ficou de me dar notícias o quanto antes. E até agora, nada. — O telefone não vai tocar com a força do seu pensamento — meu primo Miguel tirou-me do devaneio. — Faz meia hora que você não tira os olhos do aparelho. Deixa de ser imbecil, e liga logo para sua mulher. — Estou esperando uma ligação do Luís — avisei. — Sim. Para ter notícias da Alice — completou debochado. — Mano, nos conhecemos, praticamente, desde que viemos ao mundo. Sabemos tudo um do outro. Miguel se aproximou e sentou-se de frente para mim segurando uma tigela de ensopado de marisco que achei perdido em um pote de plástico na geladeira de mamãe, e que havia esquentado para almoçarmos com um arroz branco que fiz rapidinho, enquanto ele preparava uma salada verde. — Você nunca foi um cara orgulhoso. Por que não deixa essa birra, de moleque mimado e criado por avó, e liga para ela? — encarou-me. Miguel me conhecia perfeitamente. Na verdade, eu também o conhecia muito bem. Só em nos olharmos sabíamos o que o outro estava sentido. Para ele não tinha como enganar. Ele percebeu que eu estava apaixonado por Alice no segundo que me viu com ela. E, eu também, sabia, mesmo sem termos conversado ainda, que ele estava se envolvendo com alguém às escondidas. — Eu disse coisas a Alice que a magoaram — desabafei. Não estava mais aguentando aquela


situação. Não aguentava mais estar longe da minha Diabinha. — Mas na hora fiquei cego de ciúmes e juntou com o resultado dos exames da Ingrid e, não pensei direito. Quando percebi a merda já estava feita. Contei a Miguel sobre a ligação que atendi do Valentim no celular da Alice. Como ele tinha agido. A confirmação dela sobre ele a procurar de vez em quando e as insinuações da sua irmã em dizer que Alice era ainda ligada a ele. — Eu não acredito que a Alice ainda tenha algo com esse cara. É visível para todos que ela é completamente apaixonada por você — meu primo pronunciou. Pior! No fundo do meu coração também tinha certeza disso. Alice não fingiria um sentimento. Ela era transparente, demonstrava suas emoções para todos. Mas tudo aconteceu tão rápido. O telefonema do queixudo, depois o tumor maligno da minha pestinha e para completar Maria Sandra dizendo coisas que incitava mais o meu ciúme. Não é que caí na conversa daquela maluca, mas digamos que ela soube temperar a dúvida que pairava na minha cabeça sobre Alice omitir que o seu ex-amante estava sempre a procurando. Isso eu não conseguia entender. Ela deveria ter me falado. Somos um casal. — Mas ela escondeu que aquele cara a procurava. Ela devia ter dito para mim— expliquei. — Ela devia ter as razões dela. Você sequer a escutou — repreendeu-me. — Pelo que entendi foi logo a agredindo verbalmente. Dê graças a Deus se ela te perdoar. — Vira essa boca para lá, Miguel. Farei o que for preciso, mas iremos nos acertar e esquecer tudo — falei exaltado. Não queria nem pensar no pior. — E o que está esperando para ir até a casa dela e pedir perdão de joelhos? De preferência — zombou. Miguel nunca imaginou que uma mulher fosse capaz de me dominar tão fortemente assim como a Alice tinha feito, e tenho que confessar que eu também não imaginava. Da mesma forma que não o imagino apaixonado. Porém não é impossível. Aconteceu comigo poderia muito bem acontecer com ele. — Estou só esperando o Luís me dar um retorno — olhei novamente para o meu celular na esperança de uma mensagem dele. — Sei... — sorriu sarcástico. — O quê? — Nada! Esse ensopado está uma delícia — disse ainda com aquele sorriso sarcástico levando uma colher cheia do caldo a boca. — Quem é a mulher? — decidi mudar de assunto e no mesmo instante ele soube ao que me referia. — Alguém que conheci por acaso.


— E? — E... — parou e pensou por alguns segundos. —... Ela é do jeito que imaginei quando a vi pela primeira vez. Graciosa no dia a dia e selvagem na cama. — Eu a conheço? — indaguei curioso. Um barulho de chaves na porta de entrada interrompeu nossa conversa. Minha mãe, vovó Elza e Ingrid adentravam ao apartamento sorrindo por algo que a minha irmã tinha falado. Um conforto acalentou meu coração por ver minha pequena não se deixando abater por causa seu problema. Ingrid havia puxado a minha avó. Forte e decidida. Podia chorar e ficar receosa, mas jamais se permitiria ser sucumbida por sua enfermidade. E era isso que eu mais admirava nela. — Olá, rapazes! — mamãe cumprimentou Miguel e a mim gentilmente. — Que demora! Liguei várias vezes para o seu celular Ingrid e só caía na caixa de mensagens — disse beijando o rosto de cada uma. — Depois que saímos da casa da Alice fomos almoçar naquele restaurante de comidas típicas do Nordeste. Há anos não voltava ali. E tudo continua delicioso. Me fartei de comer — Vovó Elza disse animada. — Por que não me ligaram? Eu teria ido - Miguel resmungou. — A última vez que fui lá, era um moleque com a cara cheia de espinhas. Vovô Dante sempre nos levava lá quando vinha da fazenda. Lembra, Igor? Balancei a cabeça confirmando. Nosso avô amava aquele restaurante. Acredito que muitas vezes vinha à cidade apenas para comer naquele lugar. Ele amava reunir os netos para almoçar com ele. — Decidimos de última hora, querido — Vovó continuou — Mas não nos esquecemos de vocês. Ingrid levantou as mãos mostrando duas sacolas com marmitas. — Almoçamos tem alguns minutos — disse e olhei para o meu primo, pois tinha absoluta certeza que não negaria a comida. Mamãe olhou receosa. Por certo, imaginaria que Miguel e eu havíamos pedido comida em algum delivery. — Esquentei o ensopado de marisco que encontrei na geladeira. Fiz um arroz e voilá — expliquei. — Porém... — Miguel me olhou e levantou-se indo até a Ingrid e pegando as sacolas com as embalagens de comida das suas mãos como imaginei. —... Ainda cabe mais um pouquinho, tia Elena. Afinal, estou em fase de crescimento e preciso me alimentar bem. Todos nós rimos, enquanto Miguel seguia para a cozinha alegre igual a uma criança que acabara de receber um presente.


— Vou descansar um pouco — Vovó Elza inquiriu. — Essa velha aqui já não aguenta mais tanta agitação. — Vou ajudar à senhora a se acomodar na cama — mamãe se prontificou indo a caminho para ajudá-la. Ingrid e eu ficamos olhando-as enquanto desapareciam pelos corredores indo para o quarto de hóspede. — Ela deve estar exausta. Depois que saímos da casa da Alice, ela não quis mais usar a cadeira de rodas — Ingrid comentou sentando-se ao meu lado e colocando a cabeça em meu ombro. Devido a sua idade, a osteoporose e alguns colapsos de dores nos músculos que sofreu a ponto de cair e se machucar, a contragosto, vovó Elza se viu obrigada a usar cadeira de rodas para nos tranquilizar, principalmente, para andar pelo casarão da fazenda. Como ela mesma deixou claro que só saía da sua casa para ser enterrada. Não tinha outra opção senão a de aceitar. Tínhamos receios que caísse em algum lugar do casarão e Zica ou os outros trabalhadores da fazenda não estivessem por perto para acudi-la. — Como se sente? — interroguei minha irmã beijando o topo de sua cabeça. — Bem. Na verdade estou em pânico com tudo que virá pela frente, mas, ao mesmo tempo, me sinto confiante — respondeu segura. A puxei para meus braços abraçando-a forte, Ingrid deitou sua cabeça em meu peito ficando mais confortável. — Tenho tanto orgulho de você, Pestinha. — Estou tentando não pensar muito sobre tudo. Para não surtar de uma vez. — Vai dar tudo certo — assegurei tentando confortar a ela e a mim também. — Alice está tão tristinha — falou de repente mudando de assunto. — Ela tentou disfarçar, mas todas nós vimos. — Como ela está? — só de imaginar que ela estava triste por minha culpa me sentia mais estúpido por termos discutido por ciúmes. Nunca tinha tratado uma mulher tão rudemente, no entanto, nunca também estive apaixonado. E só de imaginar Alice nos braços de outro homem, o lado bruto e possessivo, que até então desconhecia que existia dentro de mim, saía fora do controle. Alice não sabia, mas ela tinha o poder de me destruir se quisesse. Eu era completamente obcecado pela Minha Diaba. — Está abatida, febril e com dores de cabeça — Ingrid relatou. — Por que não vai vê-la? Ela ficou feliz em nos receber, mas quando sua irmã anunciou que tinha visita seus olhinhos brilharam achando que era você. — Eu vou — pronunciei seguro, principalmente agora por saber que ela também desejava que a procurasse.


Eu já não aguentava mais protelar essa angústia. Mesmo magoado por ela ter escondido sobre o seu ex estar ligando para ela, Alice nunca me deu motivos para duvidar do seu amor por mim. Eu me sentia completo com ela por perto. — Sabe, teve uma hora que ela saltou da cama às pressas e correu para o banheiro — minha irmã contou dando risadas e eu me senti ainda mais culpado por não estar junto da Diabinha nessas horas para acalentá-la. — Tomou um caldo horrendo que a mãe dela havia feito e seu estômago não recebeu legal. Na hora pensei que estava grávida, mas vovó Elza garantiu que não. Grávida? Não poderia. Mesmo surpreso e consciente que não era uma gravidez, pois eu mesmo injetava regulamente seu anticoncepcional e, que eu me lembre nas últimas semanas Alice não havia tomado nenhuma medicação que pudesse cortar o efeito. A verdade era que teria ficado extasiado de felicidade se a notícia fosse verdadeira. Imagina! Um serzinho fruto do nosso amor. Quem diria que um dia cogitasse a possibilidade de ser pai. Meu trabalho era trazer crianças ao mundo, porém, antes de ser enfeitiçado por Alice, nunca imaginei na possibilidade de uma dessas crianças ser o meu bebê. — Ela perguntou por mim? — sondei esperançoso. — Perguntar. Perguntar. Não perguntou — Ingrid deu de ombros. — Mas você foi citado algumas vezes. — Como? — sorri feito um bobo querendo saber. — Quando a convidei para irmos para a fazenda esse fim de semana. — Por que fez isso, Ingrid? — a fiz sentar direito para olhá-la. — Sua primeira sessão de radioterapia começa segunda-feira bem cedo. Minha irmã desviou o olhar, aquele que eu conhecia muito bem desde que era uma menininha. Um olhar de que aprontou ou me escondia algo. — Desembucha — exigi. — É... Gô, nós achamos que é a melhor solução... — rebateu sem graça. — Fala — meu sensor de irmão mais velho detectava que a notícia não me agradaria. — Eu decidi me tratar nos Estados Unidos — disse cabisbaixa. — O quê? — me levantei do sofá no impulso. — Filho, escute primeiro sua irmã — minha mãe apareceu na sala, ao mesmo tempo em que Miguel aparecia na porta da cozinha. — Você! — apontei para meu primo. — É você que está colocando isso na cabeça da minha irmã? — Ela perguntou como era o hospital em que trabalhava. Expliquei e não menti — meu primo retrucou. — Conheço oncologistas renomados e com experiências no tipo de Lipossarcoma da Ingrid


que poderiam ser de suma importância ao seu tratamento. — E é claro que a convenceu — afirmei categórico. — Aqui também tem médicos especializados. Você mesmo me garantiu. — Eu que decidi Igor — minha irmã gritou me interrompendo. — O Miguel não pode ficar aqui o tempo todo, ele tem a vida e o trabalho dele nos Estados Unidos. Não pode simplesmente largar tudo só para cuidar de mim. — E como a mocinha pensa em custear suas despesas lá? — questionei. — Temos uma vida tranquila Ingrid, mas não somos ricos. E esse tipo de tratamento fora do país custa dinheiro. Muito dinheiro. Além do mais, ainda tem moradia e alimentação. — Essa parte não se preocupe. Elas ficarão em minha casa — Miguel interferiu. — Elas? — busquei o olhar da minha mãe surpreso. — Mãe, a senhora concordou com isso? — Eu farei o que for preciso para salvar a vida da minha filha —proferiu decidida. — Sua irmã tem uma oportunidade de se tratar com médicos especializados no caso dela. Eu vou ao fim do mundo para curá-la, se for preciso. — Não temos dinheiro suficiente para as despesas hospitalares — pronunciei sentindo-me enganado por minha própria família. — Vou vender a casa e o apartamento que herdei dos seus avós — mamãe esclareceu. — A localização dos imóveis é excelente e dará um bom dinheiro. Se precisar de mais dinheiro vendo esse apartamento também. Meus avós maternos moraram a vida toda em São Paulo. Lembro que sempre passava parte das minhas férias escolares os visitando. Eles eram avós atenciosos e sempre faziam todas as minhas vontades. Como por exemplo, encher a casa de crianças do bairro para brincarmos no jardim e na piscina. Foram tempos inesquecíveis. E até hoje, mesmo adulto, mantenho contato regulamente com os amigos de infância que fiz por lá. — É isso mesmo que você quer? — indaguei percebendo que não adiantaria ir contra. — Sim. E a vovó Elza concordou. Certamente que sim. Nossa avó era capaz de vender sua estimada fazenda para salvar a vida de um dos seus netos. — Você sabe que não poderei estar lá o tempo todo — não poderia simplesmente largar minhas pacientes e viajar com a minha irmã. — Eu sei — minha irmã veio me abraçar. — Não escondemos esse assunto de você. Tomei essa decisão hoje cedo no café da manhã. A princípio, a mamãe e a vovó também se espantaram e quando o Miguel explicou a elas tudo, viram que tomei a decisão certa. — Tudo bem, Pestinha — a tranquilizei devolvendo o abraço. — Eu faço tudo e qualquer coisa para te ver curada. Desculpa se fui um idiota. Na verdade ando sendo um idiota ultimamente —


lembrei novamente como destratei a minha Diabinha. — Gô, você irá me visitar? — indagou dengosa. — Pelo menos quando eu for fazer a cirurgia de remoção? — Claro que estarei lá — beijei sua testa. — Eu vou bem perder a oportunidade de te ver sedada e poder te riscar toda com caneta pilot. — Você não faria isso — olhou-me carrancuda. — Mas é claro... Que eu faria — todos nós rimos. Não queria ficar longe da Ingrid, enquanto estivesse fazendo o tratamento de radioterapia. Queria apoiá-la em tudo. Cuidar dela como sempre vinha cuidando desde que era pequenina. No entanto, sabia que Miguel jamais a colocaria em risco. E ele estando com ela era a mesma coisa que eu estivesse. Sabia que cuidaria da Pestinha tão bem quanto eu, pois a amava como sua irmãzinha. E com certeza isso já me tranquilizava, um pouco. — Eu te amo, Gô. — Eu também te amo, Pestinha. Depois que Miguel explicou-me como se daria o início do tratamento, fiquei mais confiante. Eles tinham planos de ir embora o mais rápido possível. Só o tempo de resolver algumas questões burocráticas. Me prontifiquei em resolver a venda dos imóveis da minha mãe em São Paulo. Não queria que ela também tivesse essa preocupação. Peguei meu celular e vi que tinha uma mensagem do Luís. Abri imediatamente torcendo por uma notícia boa sobre a Alice. Examinei a paciente. Ela se comportou como uma mocinha e ganhou um pirulito de sabor uva. Não se preocupe, é apenas uma virose, provavelmente devido a sua imunidade que está baixa. Receitei alguns exames laboratoriais que ela fará segunda-feira bem cedo na Clínica e analgésicos para impedir as dores de cabeça. Agora é só repousar e se alimentar bem. Depois mando a conta. Vai sair caro. Abraços, Luís Li e reli duas vezes. Pedi licença e sai rumo ao meu antigo quarto que estava sendo ocupado pelo Miguel. Disquei o número de Luís e aguardei que ele atendesse. Precisava saber tudo detalhadamente. Não meias palavras em uma mensagem de celular. Depois de uma infinidade de toques, enfim, Luís atendeu. — Cara, que demora — xinguei sem deixá-lo sequer dizer "Alô." — Me explica melhor, essas dores de cabeça, não é estranho? Você não acha melh... — Se está tão preocupado comigo, por que você não veio pessoalmente me examinar? — A voz da Diabinha soou irritada do lado da linha.


— Alice! — sussurrei estático. Ouvir sua voz me fez perceber que a saudade que estava dela era ainda maior do eu pensava. Já fazia mais de 24horas que a tinha visto. — Como se sente? — Você além de idiota, é um covarde que se esconde por trás dos seus amigos — ela bradou chateada. Mesmo assim eu estava com um sorriso bobo de um lado ao outro. Se me xingava era sinal que estava um pouco melhor. — Eu fui um completo idiota — disse a fazendo silenciar. — Você tem toda a razão. Só peço que me desculpe. — Esse não é o momento — rebateu duvidosa. — Estou com meu médico e ele pediu que não me estressasse. — Eu posso ir te ver depois? — pedi esperançoso que dissesse sim. — Quero implorar de joelhos seu perdão e te prometer que nunca mais duvidarei de você. — Eu não sei... — respondeu. — Meu médico disse que preciso de repouso. — Diabinha, eu sei que fui um imbecil ignorante. Não devia ter descontado em cima de você meu stress — disparei. Faria o que fosse preciso para obter seu perdão e não a magoar mais. Mesmo sem vê-la, sabia que um pequeno sorriso se abria em seus lábios. Sim. Ela ainda estava magoada, mas compensaria a minha imbecilidade. — Esse seu médico não sabe de nada. Você precisa de uma segunda avaliação — brinquei. — Posso te enviar outro médico muito mais interessante. Garanto que esse fará um exame mais detalhado. — Como posso ter tanta certeza que esse outro médico é mais interessante? — sorriu baixinho. Pelo menos ela entrou na brincadeira. Era isso que eu amava na Alice. Sua simplicidade e humildade com as pessoas. Ela não conseguia ter raiva das pessoas. — Ah! Garanto que esse outro médico tem mãos e boca habilidosas para inspecionar melhor o seu corpo delicioso. — Igor! — queixou-se envergonhada. — O Luís e meu irmão estão aqui. Se comporte, Devasso. Gargalhei alto, pois mesmo Luís e Levi não escutando nossa conversa, aposto que deduziram o que falávamos devido ao rosto enrubescido que minha Alice estaria nesse momento. — Tenho passe livre para ir te ver? — É que... O Levi chegou há poucos instantes para me ver — respondeu sem jeito. Ela amava aquele irmão, eu sabia que devido ao trabalho de ambos, eles mal se vinham durante a semana e desde que começamos a namorar os seus finais de semana eram na maior parte do tempo comigo ao seu lado. — Tudo bem. Posso passar aí à noite? — insisti. Se ela negasse iria assim mesmo. — Se


quiser podemos ir para o meu apartamento. — Lá pelas 19 horas você pode vir, mas não irei para o seu apartamento — declarou firme. Mesmo sentindo que me queria por perto não me perdoaria facilmente. — Se seu castigo é deixar minhas bolas roxas, garanto que conseguirá facilmente — completei.

O restante da tarde, passei com a minha família, dando início a algumas questões burocráticas. Ingrid foi com o Miguel até a faculdade para fechar a matrícula e o curso. Ela estava triste por ter que adiar sua graduação e se separar da sua turma, mas entendia que era necessário. Enquanto isso, mamãe e eu ligamos para um corretor de imóveis que era amigo do meu pai. Explicamos a situação e pedimos a maior urgência, se possível nas vendas dos imóveis. Ele garantiu que a casa seria mais fácil vender, pois a localização era excelente e tinha uma construtora interessada naquela área. Liguei para o contador da família e solicitei que providenciasse toda papelada para que se fizesse uma procuração em meu nome para facilitar e agilizar as vendas dos imóveis. Mamãe tinha uma reserva guardada, e por enquanto o dinheiro das vendas dos imóveis não faria falta. E é claro que vovó, Miguel e eu também ajudaríamos. Já era início da noite quando Gabriel ligou para mim, avisando que tinha antecipado a sua festinha de aniversário para hoje. Como Sarah havia conseguido dois dias de folga do trabalho. Os dois decidiram aproveitar. Juntaram as folgas com o fim de semana e viajariam para comemorar a dois o seu aniversário. Disse que daria uma passada rápida, mas que não demoraria, pois como Alice estava doente provavelmente não poderia ir. — Você vai para a casa do Gabriel hoje? — perguntei ao Miguel assim que ele chegou com Ingrid da Faculdade. — Talvez dê uma passada por lá mais tarde. — Tem encontro com sua gata selvagem? — alfinetei. — Provavelmente — retrucou sério. — Você não vai mesmo me dizer quem é? — continuei insistindo. Miguel sempre fora discreto com seus casos, porém sempre comentava algo ou dizia que estava com alguém. Dessa vez, ele se esquivava todas as vezes que perguntava. — Você não deveria ir cuidar da sua namorada? — rugiu irritado. — Não liga, Gô — Ingrid surgiu na sala, trazendo consigo um potinho de iogurte. — Ele está enfezado desde que a mulher misteriosa ligou avisando que talvez não pudesse ir ao encontro. — Ah! Tenha santa paciência — Miguel levou levantou as mãos intolerante. — Vou dormir um pouco. Fui.


Ele saiu estressado seguindo o caminho do seu quarto. — O que deu nele? — questionei a minha irmã. — Nunca o vi assim. — Ah! Até parece que você não sabe — caçoou de mim. — Ele é um Salazar. Não aceita um não como resposta. E recebeu um da Misteriosa. — Então é melhor ele esfriar a cabeça trancado dentro do quarto — proferi sorrindo. — Verdade — ela concordou rindo também. — Escuta! Que horas você vai para casa de Alice? — Agora — respondi levantando do sofá e pegando minha carteira. — Por quê? Precisa de algo? — O Danilo vai passar na casa de Alice para vê-la antes de irmos para a casa do Gabriel. Então aproveitaria e pegaria uma carona com você até lá. — Então, vamos. — Me dá 15 minutos para trocar de roupa? — Ande logo! — Pedi que se apressasse, pois não queria chegar tarde à casa da minha Diabinha. Como ela já tinha deixado claro que não iria para meu apartamento, tentaria dormir lá. No entanto, também não sabia se aceitaria. Fiquei no quarto de hóspede conversando com minha avó e mamãe enquanto Ingrid se aprontava. Eu havia tomado um banho aqui mesmo e vesti uma roupa do Miguel. Desde criança sempre tínhamos o hábito de usar as peças de roupa um do outro. No caminho até a casa da Alice, minha irmã e eu fomos conversando e fazendo planos para quando eu fosse visitá-la nos Estados Unidos. Estacionei o carro em frente ao prédio, estranhei ao ver um carro desconhecido na garagem do apartamento da Alice, mas deixei passar, poderia ser algum amigo da Maria Sandra. Esperei que Ingrid descesse e juntos fomos de braços dados até a porta de entrada. Para minha surpresa a porta estava apenas encostada, o que foi mais estranho era que não havia vozes na sala, em todo esse tempo que estive na casa da Alice a porta nunca ficava aberta. Empurrei a porta e um pânico se apoderou quando vi todas as luzes apagadas. Apenas uma meia-luz refletia pelos corredores. Ainda silêncio total no apartamento. — Fique aqui fora Ingrid — exigi. — O que foi, Gô? — Não sei, mas vou verificar. Entrei sem fazer barulho. Na minha cabeça duas coisas se passavam. Alice tinha passado mal e na pressa para ir para ao hospital esqueceram-se de trancar a porta. Ou alguém havia entrado sorrateiramente para roubar e machucaram a minha Diabinha. Só em pensar nisso senti mil facas


perfurando meu corpo. Apressei os passos pelo corredor que levava ao quarto da Alice, quando ouvi discussões vindas de lá. Parei perto da porta tentando escutar se era algum familiar dela, e para minha surpresa era a voz de um homem. Meu sangue gelou, abri a porta de uma vez assustado e parei estarrecido com a cena que via. Minha mulher deitada e aquele cão dos infernos do seu ex-amante em cima dela, em sua cama. Uma toalha apenas dividia sua carne da dele. Meu corpo automaticamente esquentou e uma sombra turva atravessou minha visão deixando-me cego. Agora entendia como uma pessoa poderia ver vermelho, meu corpo todo tremia com emoções que ameaçavam explodir. Raiva, ódio, ciúmes, tristeza e um sentimento de querer matar alguém. Foi o último pensamento racional que tive, antes do maldito sorrir debochado para mim. — Que porra é essa aqui? Caralho! — avancei tirando-a de cima dele e a olhando com nojo. — Como pude me enganar com você! Me fala! — Igor, não é o que parece — disse aos prantos, tentando me segurar. Lágrimas escorriam pelo seu rosto. — Por favor, me deixe explicar. Você prometeu que me escutaria. O Valen... — Cala sua maldita boca! — rugi como um touro vendo tudo vermelho, afastando suas mãos do meu corpo e tapando os meus ouvidos. Não queria ouvir sua voz. — Dessa vez você não me engana. Porra... Como você foi capaz? Você era minha, Alice, você disse que era minha, você disse que me amava e eu acreditei! Caralho! Segurava seus braços e a sacudia. Querendo que tudo aquilo não passasse de um maldito pesadelo, e que quando acordasse estaria com ela deitada em meus braços. Mas tudo era real, dolorosamente real, eu estava caindo aos pedaços. A mulher que eu amava, e que pensei que me amava, havia brincado comigo. — Eu sempre disse que Alice era minha. Só bastou estalar os dedos — o som da voz debochada daquele desgraçado ecoou pelo quarto, assim como o movimento dos seus dedos estalando. Virei olhando para aquele homem que tomava a minha mulher. Sem dizer mais nada parti para cima dele o pegando de surpresa. — Filho da puta... Seu desgraçado! Cala a boca! Arremeti-o para fora da cama, caindo por cima dele e socando com uma força sobre humana. Eu queria matá-lo, eu precisava matá-lo para aliviar um pouco a dor que estava sentindo. Eu desejava destruir aquele sorriso boçal. Escutava os gritos de Alice tentando tirar-me de cima do maldito. Mas ela sequer conseguia me mover. Eu não largaria aquele infeliz enquanto não apagasse aquele sorriso. — Para Igor! Você vai matá-lo. Meu corpo foi puxado fortemente de cima do Valentim por Danilo e outro cara que não sabia quem era. Só debatia meu corpo, tentando me soltar e voltar a esmurrar a cara daquele maldito, eu estava fora de controle. Eles me carregaram para fora do quarto e me arremessaram no sofá da sala,


ainda me segurando como podiam. Ingrid veio chorando para cima de mim, tentando me abraçar. — Me Larga! — gritei para Danilo e o outro cara que me seguravam. — Meu Deus! Você está machucado? — perguntou analisando minhas mãos ensanguentadas. — Estou bem! Vamos embora daqui! — levantei do sofá, onde eles haviam me empurrado, puxando minha irmã comigo. Eu não conseguiria ficar mais nenhum momento naquele apartamento, sem cometer um assassinato. De repente, Maria Sandra e dona Laura chegaram ao apartamento. — O que aconteceu aqui? — a mãe da Alice perguntou em pânico. — Cadê a Alice? Alice! Saiu correndo para quarto da filha, enquanto tentava puxar minha irmã para sair dali, mas ela não se moveu. — O quê? — indaguei. — Você vai embora assim? E se o cara morreu? — Que morra! Por mim ele iria para os quintos dos infernos que não estava preocupado. — O Valentim está bem — Danilo surgiu novamente na sala. — Quebrou o nariz e ficará com o rosto deformado por alguns dias. Mas vai sobreviver. Por trás do Danilo, Alice apareceu amedrontada. Eu não conseguia nem olhar para ela, sem relembrar aqueles poucos minutos em que a encontrei na cama com outro. — Estou indo, Ingrid — saí do apartamento sem esperar minha irmã. Tudo que eu mais queria era sumir para longe daquela maldita. — Igor — senti a mão de Alice puxando meu braço. — Me solta. Porra! — gritei, puxando meu braço, até o toque das mãos dela me causava raiva. Virei olhando seu rosto tomado por lágrimas e vislumbrei um pequeno machucado se formando em seu queixo. — Por favor! Me escuta. Não tire conclusões precipitadas. Olhei-a da cabeça aos pés. Por que a maldita tinha que ser tão linda? Com os cabelos dourados molhados, descalça e enrolada com uma tolha, era completamente uma perdição de mulher. A única mulher que conseguiu me levar do céu ao inferno em um segundo. — É melhor você entrar — rebati seco. — Seu amante precisa de cuidados. Segui voltando para meu carro. Não queria ouvir sua voz. Queria esquecer. Tirar a cena dela


nos braços daquele homem da minha mente. — Ele me agarrou a força — pronunciou desesperada vindo atrás de mim. — Eu estava no banho e... quan... quando saí do ele estava deitado em minha cama. Pedi que saísse, mas o Valentim não me ouvia. Mesmo sem ver seus olhos sabia que estava aos prantos, desesperada. Eu não conseguia sentir nada, além da tristeza por ter sido enganado. — Quando decidi sair do quarto ele me puxou a força e tudo aconteceu. Você chegou e... — Para Alice! — gritei, chamando a atenção de curiosos que circulavam por dentro do condomínio. — O que foi? Uma aposta? Para inflar seu ego? Uma brincadeira? Um jogo simples e frio! Foi? Brincou e acabou de ganhar o jogo. Parabéns! — O quê? Não! Eu te amo, Igor — me abraçou, beijando desesperada toda a frente do meu corpo — Por favor! Por favor! Respirei fundo. Agarrei suas mãos que entrelaçavam meu corpo e as tirei de mim. — É melhor você entrar — falei derrotado, me afastando dela. — Venha, Ali — seu amigo Danilo apareceu junto com minha irmã colocando um casaco sobre seus ombros. — Ele não acredita em mim, Dan — murmurou choramingando, enquanto o amigo a acalentava em seus braços levando ela para dentro do apartamento. — Você vem comigo Ingrid? — Não. Vou ficar — disse decidida. — Sinto cheiro de armação. — Sim. Houve uma armação. Para me fazer de otário — chiei tentando acalmar meu corpo que ainda tremia de raiva. — Gô, eu entendo que está sendo difícil para você até para raciocinar nesse momento — argumentou calmamente. — Mas procure não fazer mais besteiras. Eu preciso averiguar. Não me entra na cabeça que Alice é esse tipo de mulher sem escrúpulos. — Se quer ficar, tudo bem — dei de ombros. Para mim naquele momento nada me importava mais. — É uma pena que irá se decepcionar ainda mais. Minha irmã veio me dar um abraço e voltou para o apartamento daquela mentirosa. Destravei o alarme e entrei sentando no banco do motorista e deitando a cabeça sobre o volante. Uma batida de leve soou ao meu lado. Desci o vidro da janela e visualizei Maria Sandra com um olhar preocupado. — Desculpa por tudo que aconteceu. Sinto vergonha da minha irmã — proferiu triste. — Você


não merecia isso. — Você não tem culpa — enunciei ligando o carro. Não queria falar com ninguém, muito menos com alguém que me lembrasse da Alice. — Eu acho que você não tem cabeça para dirigir. Dirigir me ajudava a pensar. Com certeza passaria a noite rodando pela cidade pensando em como arrancar aquela Diaba com cara de anjo do meu coração. — Que tal tomarmos um chopp? Tem um barzinho aqui perto — sugeriu empolgada. — Também passei por uma desilusão amorosa há pouco. Sei bem o que está sentindo — acariciou meus braços gentilmente. — Eu... Acho melhor não — tudo que eu não queria agora era um ombro amigo. E se precisasse não seria a Maria Sandra a amiga que escolheria. — Ah, qual é! É só um chopp — insistiu. — Um pouco de álcool ajuda amenizar a decepção. — Está bem — disse receoso destravando a porta do lado do passageiro para Maria Sandra entrar. Se uma voz dentro de mim falava que eu tinha feito merda por não ouvir Alice. Agora ela berrava desesperadamente. Perigo! Perigo! Perigo!


Capítulo 27 Na mesma moeda

Igor Minha cabeça rodava, já tinha perdido as contas de quantos chopps havia bebido. Só sei que depois de várias canecas de cerveja decidi partir para uma bebida mais quente. Solicitei ao garçom que trouxesse uísque, e quando tomei a primeira dose, exigi que deixasse a garrafa. Não lembro quando tinha sido a última vez que havia bebido tanto, provavelmente fora na minha formatura, há anos. Estava tão feliz naquele dia, que me deixei embebedar para comemorar. Foi a ressaca mais vantajosa que tive no dia seguinte. No entanto, dessa vez era completamente diferente. Bebia para esquecer. Queria tirar essa dor dilacerante do meu peito. Apagar aquela imagem da minha cabeça. A minha mulher seminua debaixo daquele escroto. Ele a tocando. Tocando o que era meu. Mas, principalmente, precisava esquecer aqueles olhos de safira chorosos e implorativos suplicando para que a escutasse. Algo dentro de mim não parava de me atormentar, e de me xingar de burro por não tê-la escutado. Como eu poderia fazer isso? Tudo que eu queria era sair daquele lugar. Antes que eu perdesse de vez as estribeiras e cometesse algo ainda pior. Eu nunca tinha me entregado a uma mulher como me entreguei para a Alice. Doei-me de corpo e alma para ela. E agora descobri as desvantagens de se estar apaixonado. Fui arrastado pela Maria Sandra até um barzinho a três quarteirões depois do condomínio em que a Diabinha vivia. A princípio deixei-me levar pela sua conversa chata de moda, marcas de bolsas e calçados. Achei que com aquilo, eu pudesse esquecer os últimos acontecimentos. Porém, volta e meia Maria Sandra fazia questão de criticar sua irmã, e no lugar de concordar com suas palavras, sentia raiva e nojo por estar fazendo aquilo. Ao ponto de ser ignorante e pedir que parasse e me deixasse sozinho, que fosse embora. Ela não deveria estar aqui comigo. Eu estava ciente disso. Ela deveria estar na sua casa, com sua família e sua irmã, menos comigo. — Estou vendo algumas amigas da faculdade — disse, acenando para um grupo de meninas por trás de mim, mas sequer me interessei em conferir quem eram. — Vou só dar um oi, e volto logo para irmos embora. — Se quiser ficar com suas amigas sinta-se à vontade — sugeri. Seria um favor se ela me deixasse aqui sozinho.


— Jamais me perdoaria se te deixasse nesse estado — disse amigavelmente. — Você não tem nenhuma condição de dirigir. Ela estava certa. Mas quem disse que eu queria ir para casa? Quando Maria Sandra se afastou, lembrei-me, como num passe de mágica, que Ingrid havia ficado na casa de Alice. Imediatamente catei meu celular do bolso da calça, verifiquei que passava das vinte e duas horas. Havia várias chamadas perdidas da Ingrid e do Miguel. Disquei o número do telefone da minha irmã, mas não me permiti concluir a chamada. Ingrid, com certeza, falaria algo sobre a Diabinha, e por mais que uma parte de mim desejava ter notícias dela, achava melhor evitar. Coloquei o celular em cima da mesa, virei à dose de uísque de uma vez, implorando que tirasse de mim aquela dor insuportável de meu peito. Uma dor que parecia um punhal rasgando meu coração. Minutos depois percebi o celular vibrando. Tateei o aparelho, visualizando o nome do meu primo, Miguel, era quem me ligava. Não recusei a chamada, mas deixei chamar até cair. No entanto, insistente como era, tornou a ligar. Eu sabia que enquanto não atendesse ele não desistiria. — Fala! — disse grogue. — Porra, Igor! Faz horas que te ligo — esbravejou. — Onde você está? — Não escutei o telefone tocando ou vibrando — realmente não estava mentindo. — O que você quer? — Ingrid me contou o que aconteceu na casa de Alice — proferiu preocupado. Fechei os olhos em angústia só por escutar o nome dela sendo pronunciado pela boca do Miguel, meus olhos começaram a arder. — Mano, me diz onde está. Pela sua voz percebo que bebeu além da conta. Não te julgo, mas… — continuou falando. — Ingrid está aos prantos, preocupada com você. Ela quer muito saber onde você está. — Fale para ela que estou bem — exigi. Não queria que minha irmã se preocupasse comigo quando me olhasse nesse estado deplorável de bebedeira. Ela já tinha suas preocupações. — Não vou fazer mais nenhuma loucura. Só quero beber e esquecer o dia de hoje. — Igor, houve um mal entendido. Alice não te traiu. Ela… — Por favor, Miguel! — impedi que falasse, eu só queria esquecer esse maldito dia. — Por hoje chega. Nesse momento só quero esquecer tudo. Escutei sua respiração forte. Se conhecia bem o meu primo, ele estaria neste momento pensando em o que falar em seguida. — Tudo bem, por agora — lamentou. — Só espero que não seja tarde demais. Já era tarde demais. Eu descobri o que é sofrer por amor. — Estou na casa do Gabriel, mas já estou de saída — comentou. Lembrei que meu amigo tinha


falado sobre antecipar sua comemoração de aniversário. — Me diga onde está, que pego um táxi e vou te encontrar. A Ingrid esteve aqui na esperança que estivesse também, porém, acabou indo embora há pouco tempo. — Estou bem. Só quero ficar sozinho. — Mentira! — afirmou. — Só quero que saiba que Luís, Gabriel e eu estamos aqui para o que precisar. — Obrigado, mano — agradeci sabendo que era verdadeira a preocupação deles, mas ninguém poderia tirar a aflição que sentia dentro de mim. Desliguei a ligação prometendo que não dirigiria e pegaria um táxi. Levantei e saí em busca do banheiro. Minha cabeça rodava, sentia-me tonto e enjoado, contudo, percebi que o barzinho era aconchegante, com música cover ao vivo e acústica. Já tinha passado várias vezes em frente ao local quando fazia o caminho até a casa dela, porém nunca tínhamos vindo aqui. Era um lugar ideal para casais, o que já não éramos mais, pensei com tristeza. Entrei tropeçando no banheiro, esbarrando em um cara gordo e careca, de cavanhaque, que me chamou de bêbado idiota, o que era a pura verdade. O efeito do álcool já dominava todo o meu corpo. Não conseguia controlar meus reflexos. Com dificuldade abri a torneira da pia e lavei meu rosto. A zonzeira veio com força quando levantei a cabeça de uma vez. Amanhã certamente a ressaca seria das brabas, mas se me ajudasse a tirar aquela mulher da minha mente, seria mais que válido. Saí do banheiro decidido a ir embora. Não pegaria um táxi, descansaria um pouco dentro do carro e depois partiria para casa, ou quem sabe direto para fazenda. Lá, com certeza, eu colocaria minha cabeça no lugar e seguiria em frente, sem ela ao meu lado. Até pronunciar seu nome me corroía por dentro. Voltaria a ser o Igor safado de antes. Nada de se apaixonar. Nunca mais. Amar era doloroso e te destruía por dentro. Era como eu me sentia nesse momento, destruído. — Ei! Onde você estava? — a voz de Maria Sandra zumbiu alto e enjoativa. Já havia me esquecido que ela estava comigo. — Achei que estivesse indo embora. — Não fui… Ainda — respondi sem olhá-la, avistei o garçom e pedi que trouxesse a conta. Maria Sandra ficou ao meu lado aguardando que eu efetuasse o pagamento. Seguiu-me até o meu carro sem dizer uma palavra. Estava decidido a dormir um pouco ali mesmo dentro do carro antes de ir embora. — Igor, você não tem condições de dirigir — ela alertou-me logo que destravei o alarme do meu carro. Confesso, eu realmente estava fora de mim e muito alterado quando aceitei tomar um chopp com esse grude. Sua presença só mostrava o que eu queria esquecer. Ela era a irmã da Alice. E por mais que elas não se dessem bem, estava errado em estar ali com Maria Sandra. — É melhor você ir para casa, Maria Sandra — indaguei indiferente. Nessa altura pouco me importava o cavalheirismo. — Tem dinheiro para pagar um táxi? — busquei minha carteira no bolso


da calça para dar a ela. — Não vou deixar você dirigir nesse estado — repetiu a mesma ladainha, avançando para cima de mim e tomando a chave do carro de minhas mãos. — Te deixo em sua casa e pego um táxi em seguida. Prometo te deixar em paz. — Eu acho melhor não — soltei sem pensar. Mesmo embriagado aquela vozinha na minha cabeça não parava de alertar que era perigoso. — E, não estou indo para casa. — Tudo bem, me diz aonde quer ir que te levo — respondeu decidida. Depois de alguns minutos discutindo para que ela me entregasse a chave, desisti. Entrei em meu carro, no banco do passageiro, enquanto Maria Sandra sentava no lado do motorista com um sorriso de vitoriosa. — Vou para a casa de um amigo — lembrei da festa do Gabriel. Com certeza, terminaria de encher a minha cara por lá e apagaria em seu sofá sem me preocupar em ter que dirigir. — Onde seu amigo mora? — perguntou. Com olhos semifechados, mostrei o GPS apontando para o endereço salvo do Gabriel. — Hum! Vai levar uns vinte minutos até lá — soou dando partida no carro. Eu só podia estar muito bêbado para deixar essa garota dirigir o meu carro.

“Ele me agarrou a força… Quando decidi sair do quarto, ele me puxou à força e tudo aconteceu.” “Eu te amo, Igor! Por favor. Por favor.” — Acorda bonitão! — uma mão me sacolejando despertou-me do pesadelo que tinha vivido horas atrás. O desespero na voz de Alice para que eu acreditasse nela. Seus olhos banhados por lágrimas suplicando. Ela estava enrolada apenas em uma toalha na frente do seu apartamento implorando por mim. E eu a rejeitei. Mesmo assim ela tinha o poder de me enlouquecer. De me fazer desejá-la. De querer sentir seu cheiro enfeitiçador e seus gemidos enquanto gozava se derretendo em meus braços. Deus! Por que esse martírio? — Onde estou? — perguntei desorientado, forçando os olhos a abrir. Minha cabeça já dava sinais de uma dor forte se aproximando. — Chegamos ao prédio em que seu amigo mora. Qual o nome dele para pedir ao porteiro que o avise que você chegou? — Maria Sandra indagou. Assim que saímos do barzinho adormeci de imediato. Revivendo aquela maldita cena que se


enterrou em meus pensamentos. — Gabriel… Ele se chama Gabriel. Maria Sandra desceu do carro indo até a guarita do prédio falar com o porteiro, que por sinal já me conhecia. Chequei novamente meu celular. Uma vontade enorme de ligar para Alice e exigir que me dissesse por que me traiu. Antes de tirá-la de vez da minha vida, eu precisava saber se de tudo que tínhamos vividos juntos, algo tinha sido verdadeiro para ela como foi para mim. Das várias chamadas perdidas que tinham, a maioria era do Miguel, Ingrid e Gabriel. Nenhuma dela. Na certa ela deveria estar cuidando daquele queixudo dos infernos. De uma coisa eu tinha certeza, eu jamais me arrependeria de ter acabado com a cara daquele desgraçado. Espero que fique com uma cicatriz para lembrar quem o marcou pelo resto de sua maldita vida. Aquela fúria por imaginar os dois juntos e felizes abateu-me fortemente. Digitei algumas palavras furiosamente e enviei para Alice. Em algum momento do nosso relacionamento você me quis de verdade? Igor. — O porteiro falou que seu amigo Gabriel saiu há alguns minutos — Maria Sandra surgiu abrindo a porta do carro do lado que eu estava. — Mas ligou para ele. E o mesmo pediu que você não fosse embora e que esperasse por ele em seu apartamento. Olhei para o celular procurando uma resposta da mensagem que acabara de enviar, porém ainda não tinha nada dela. Desci do carro sem dizer nada, fui cambaleando em direção à entrada do prédio do Gabriel. — Precisa de ajuda, doutor Igor? — o porteiro de Gabriel percebendo minha embriaguez se prontificou em ajudar. — Não, senhor Ari. Obrigado. — Liguei para o Dr. Gabriel e ele autorizou sua entrada no apartamento. Avisou que a porta está destrancada e que não demorará. — Obrigado — agradeci, passando por ele indo para os elevadores e apertando o botão para chamá-los. Percebi que Maria Sandra continuava em meu rastro, me seguindo. Parei virando e a encarando. Ela tinha alguns traços que lembrava sua irmã. Ambas tinham cara de anjo. O que me dava à certeza de serem as mais perigosas. — Obrigado pelo apoio — enunciei sendo mais educado do que sincero. Pedi que me devolvesse a chave do carro. — Bem, agora estou seguro e você não precisa se sentir culpada por isso. Pedirei que o senhor Ari chame um táxi de sua confiança para você ir para casa. — Tudo bem — disse receosa. — Mas antes preciso ir ao banheiro. Estou muito apertada.


Não! Eu não queria que ela subisse comigo para a casa do Gabriel. — Tudo bem — mais uma vez estava agindo mais por educação do que por vontade própria. Subimos no elevador em silêncio. Ao entrar no apartamento do Gabriel, mostrei a Maria Sandra o banheiro social. — Obrigada. Não demorarei — agradeceu. Esperei que Maria Sandra entrasse no banheiro e passei por ele a caminho do quarto do Gabriel. Acendi a luz caminhando até o banheiro da suíte. Gabriel sempre mantinha uma caixa com vários medicamentos lá. Achei na primeira porta do armário. Avistei de primeira os comprimidos antieméticos e analgésicos. Peguei um de cada, logo em seguida engolindo-os. Enfiei a boca na torneira da pia bebendo água com vontade. Sentia minha cabeça pesada. Depois que Maria Sandra fosse embora deitaria no sofá do Gabriel, e esperaria que os remédios fizessem efeito, eu precisava apagar e esquecer toda essa noite. Meu celular vibrou no bolso. No ímpeto saquei o celular imaginando ser a Alice respondendo a mensagem que havia enviado minutos atrás. Infelizmente, ou felizmente, pois não sei se estava preparado para ouvir sua resposta, era o Gabriel pedindo que me sentisse a vontade em seu apartamento, e que em pouco tempo estaria de volta. Com raiva por ela não ter me respondido, disquei seu número que chamou até cair na caixa postal. Tentei novamente furioso por não me atender. Dessa vez a ligação foi atendida. — Está cuidando dele? É por isso que não pode responder a minha mensagem? — vociferei com ódio por imaginar ele deitado em sua cama. A cama que fazíamos amor todas as vezes que dormia lá, sussurrando em meus braços que me amava. Maldita! — Igor, eu só vou dizer uma vez por consideração a sua irmã, Ingrid. Se houver uma próxima vez eu juro que arrebento sua cara. — Uma voz masculina bradou do outro lado da linha. A princípio achei que era o filho da puta do Valentim, mas logo deduzi que era Danilo. — Fique longe da Alice. Está me ouvindo? Se eu souber que você a humilhou novamente eu juro por meus pais que te mato. Mesmo que para isso eu perca a amizade da sua irmã. Antes que eu pudesse dizer que aquilo não era assunto dele, Danilo desligou a ligação. Uma onda de fúria que até a noite de hoje nunca havia sentido, atravessou meu corpo como uma chama me queimando vivo. Olhei para o espelho percebendo o quanto o homem não conhecia seus limites até o instante que era testado. No ímpeto para extravasar aquela ira. Arremessei o aparelho celular no espelho estilhaçando o vidro em vários pedacinhos por todo o banheiro da suíte do Gabriel, ricocheteando caquinhos de vidro em meu rosto. — Igor! — Maria Sandra gritou por mim entrando no banheiro, abaixando-se para pegar meu celular, logo o colocando em cima do balcão do banheiro. — Meu Deus! O que aconteceu aqui? Você está com o rosto sangrando. Passei a mão em meu rosto sentindo-o molhado. Olhando para ela coberta com o meu sangue.


— Precisamos limpar para ver se ficou algum caco de vidro — proferiu avançando para mim e tocando meu rosto. — Espero que não precise dar pontos. — Não será preciso — afastei-me dela, procurando no armário por um kit de primeiros socorros. — Vou limpar com água oxigenada e colocar curativos. Não encontrei kit de primeiros socorros. No entanto, achei uma garrafinha de soro fisiológico, algodão e adesivo para curativos. Peguei os produtos e saí do banheiro sentando na beirada da cama do Gabriel, quase caindo por estar tonto. — Igor me deixa te ajudar — insistiu se aproximando, sentando-se ao meu lado. — Você não conseguirá ver se tem caquinhos de vidro. Mesmo contra a minha vontade, pois sabia que não conseguiria realizar a tarefa sozinho, aceitei que Maria Sandra me ajudasse. Ela limpou delicadamente passando o algodão ensopado de soro fisiológico. Catou de sua bolsinha tiracolo uma pinça e retirou os pequenos vidrinhos que aterraram em meu rosto, limpando e finalizando com curativo. — Pronto. Assim está melhor — disse afagando sua mão pelo meu rosto ternamente me deixando em alerta. — Ainda bem que não precisará levar ponto. Mesmo com esses curativos, você continua sendo um homem muito bonito e charmoso, Igor. — Maria Sandra! — resmunguei tirando sua mão do meu rosto. — Está tarde. Eu vou chamar um táxi. — Me chama de Sandrinha — sussurrou mais próxima, fingindo não me ouvir. — Meus amigos me chamam assim. — Não somos amigos — declarei convicto, apesar de sonolento. — É verdade. Não somos — sorriu maliciosa. — Mas podemos ser algo mais. Sem que eu esperasse, subitamente colou sua boca na minha, passeando com sua língua por entre meus lábios. Eu tentava afastá-la, mas me sentia sem forças, exausto. — Eu te desejei desde o momento que te vi no aeroporto — murmurou. — De lá pra cá não paro de imaginar você dentro de mim. Até sonhei com você entre as minhas pernas, me chupando. Segurei seus ombros, conseguindo enfim afastá-la de mim, em choque não só pelo beijo, mas principalmente pela sua declaração. — Isso nunca acontecerá, Maria Sandra. Nunca— afirmei, olhando fixo em seus olhos. — Por que não? Não me acha bonita? — Sim. Você é linda e muito atraente. Tenho certeza que muitos homens desejam ter você na cama deles. Menos eu – falei mais calmo, tirando a mão dos ombros dela. — É por causa da minha irmã? — bradou raivosa. — Ainda a quer depois de tudo que ela fez? Permaneci calado. Estaria mentindo se dissesse que não desejava a Alice. Eu sabia que seria


difícil tirá-la do meu coração. — Ela te traiu, Igor — gritou alterada. Tentando se aproximar. — É melhor você ir, Maria Sandra — levantei da cama parando na porta do quarto. Iria até a cozinha interfonar para o porteiro solicitando um táxi para que ela fosse embora o quanto antes. — Foi um erro, desde o momento que aceitei ir naquele bar com você. — Me desculpa! Meu Deus que vergonha — disse cabisbaixa. — Vou a cozinha procurar por uma vassoura e a pá de lixo para juntar os cacos do espelho, e aproveito para pedir um táxi pra você. — Não precisa. Eu sei me virar sozinha — pronunciou recolhendo sua bolsa de cima da cama, aborrecida. — Olha, Maria Sandra — indaguei me aproximando dela novamente. — Não é você. Só que eu não posso fazer isso — tentei me explicar. — Primeiro porque é muito errado. E segundo porque não quero estar com outra mulher… — Além da minha irmã — ela completou a minha frase. Balancei a cabeça afirmando. Mesmo depois de tudo que tinha acontecido, eu ainda queria Alice com loucura. — Tudo bem, já entendi. Você é completamente obcecado pela minha irmã — deu de ombros atrevida. — Já percebi que será um corno manso dela. — Não sou obcecado por Alice, Maria Sandra — a olhei sincero e furioso com suas palavras. — Eu amo a sua irmã! Sem dizer mais nada Maria Sandra passou por mim, indo em direção à sala. Um alívio percorreu todo o meu corpo quando escutei a batida, vinda da porta de entrada do apartamento, se fechando. Me dando a certeza de que ela havia ido embora. Busquei na cozinha uma vassoura e pá de lixo para limpar o estrago do banheiro. Teria que comprar um novo espelho para o Gabriel. Quando terminei, pensei em ligar na portaria para confirmar que Maria Sandra tinha pegado um táxi, mas estava tão exausto que apenas deitei na cama do meu amigo para esperá-lo. Sabia que ele me acordaria assim que chegasse. Não demorou e apaguei, sonhando com a mulher que me enfeitiçou com sua doçura desde a primeira vez que a vi de botas brancas de cano longo saindo do banheiro feminino de uma boate.

“Eu te amo, Igor! Por favor. Por favor.” “Ele não acredita em mim, Dan.”


Abri os olhos assustado gritando alto o nome de Alice. Eu queria abraçá-la. Acalentá-la. Encontrar a Diabinha em cima daquele filho da puta havia me deixado cego de fúria. Agredi-a verbalmente, sem deixá-la explicar. Eu agi novamente como um imbecil. E, eu tinha prometido que a escutaria. Falhei e machuquei mais uma vez a mulher da minha vida. Respirei fundo e tentei me orientar. Reconheci que ainda estava no quarto de Gabriel. O dia já havia amanhecido. Não tinha a mínima ideia de que horas eram. Mas tinha certeza que ainda era cedo. Levantei sentindo a cabeça pesada. Franzi o cenho quando notei que vestia apenas uma cueca boxer. Tentei lembrar se havia tirado a roupa ao me deitar, mas não lembrei. Provavelmente Gabriel chegou logo depois que adormeci e não conseguiu me acordar. Tudo parecia um borrão em minha cabeça. —Mano, precisamos conversar – disse Gabriel, com uma voz baixa. Ele se encontrava na porta do quarto, com cara de poucos amigos. — Gabriel! — a voz de Sarah soou por detrás da porta do corredor. — Você está dentro do quarto com esse filho da puta? Pelo tom da voz de Sarah, deduzi que ela também estava querendo me matar. Eu não tive tempo para raciocinar, antes que percebesse, estava com uma Sarah raivosa invadindo o quarto e apontando o dedo na minha cara. —Você, Igor, é um merda. Não serve para minha amiga. Maldito o dia em que ela te conheceu — bradou raivosa, enquanto Gabriel a segurava — Você não teve respeito por ela, e só a machucou. Olhei atônito para ela. Mas logo a raiva me dominou, quem era ela para falar dos meus sentimentos. — Você está louca? — indaguei irritado, não me importando de estar apenas de cueca. — Eu fui o machucado aqui. Eu que encontrei a minha mulher na cama com outro. Eu fui o enganado e o idiota da história. Então, não me venha falar de respeito. —Você é um imbecil mesmo — ela gargalhou, mas seus olhos permaneciam frios — O que você pensa que vai acontecer quando Alice descobrir que você comeu a irmã dela? — Hã? Do que você está falando? — perguntei, olhando para Gabriel, mas meu amigo só me olhava com pena. Eu começava a achar que estava sonhando. — Eu não dormi com ninguém, muito menos com a Maria Sandra. Não foi? Minha cabeça fervilhava. — Além de ser um canalha, cretino, é mentiroso! — ela se soltou dos braços do meu amigo e se aproximou — Espero que você se arrependa eternamente por ter dormido com essa vaca. E se você ainda tem algum respeito por minha amiga, nunca mais se aproxime dela. Você não é um homem, é um moleque. Ela saiu com passos decididos do quarto, enquanto eu olhava para o corredor e em seguida de volta para meu amigo. Isso só podia ser um pesadelo.


— Mas… — tentei falar, porém, as palavras não saíam da minha boca. — É melhor você tomar um banho, Igor — Gabriel pronunciou colocando a mão em meu ombro e me empurrando para o banheiro. — Eu vou falar com Sarah, e depois volto para conversarmos. Antes que pudesse protestar, meu amigo saiu do quarto, fechando a porta. Derrotado e mais exausto do que estava ontem, fui em direção ao banheiro. Tomei um banho gelado para despertar. Minha cabeça latejava bastante. Enquanto tomava banho pensei em Alice e no sonho que tive com ela. Estávamos na fazenda, deitados na rede, namorando abraçadinhos, porém a cada momento do sonho flashes da noite de ontem surgiam e, todos eram com ela tentando me contar sobre o que havia acontecido. O desespero de seus olhos era o que mais me marcou no sonho. Saí do banho, pegando uma bermuda e camisa do Gabriel. Reparei minhas roupas e calçados espalhados por todo o quarto. Escutei a porta do apartamento bater e decidi tirar essa história a limpo, Gabriel certamente saberia me dizer o que havia acontecido. Entendia o fato de a Sarah estar magoada comigo devido ao que tinha acontecido na casa da sua amiga, mas me acusar de dormir com Maria Sandra? Ela devia estar ficando louca. Ou seria eu? Abri a porta, porém antes de sair fui empurrado de volta para dentro do quarto por Gabriel. — Que droga aconteceu, Gabriel?— chiei. — Você fez merda, mano — proferiu alterado. — E das grandes. —Tem notícias de Alice? — perguntei preocupado. — Não. Mas ela está arrasada com tudo que aconteceu ontem. Saí da casa dela já passava das três da manhã. — Você estava na casa de Alice ontem? — vociferei alterado. — Como? Mesmo nervoso Gabriel me explicou que devido ao incidente de ontem, Sarah havia decidido ficar com Alice, desistindo de vir para a festa do Gabriel. Só Miguel, Ingrid e Luís que passaram por aqui na esperança de me encontrar. — Foi uma loucura lá na casa dela — continuou falando. — Dona Laura queria chamar a polícia, depois o irmão da Alice chegou, e por pouco quase não matou o tal do Valentim. Foi um sacrifício para Danilo e eu tirarmos ele de cima do cara — respirou fundo. — Você já tinha feito estrago demais nele, e o Levi terminou de estragar de uma vez. Eu preferia que ele o tivesse matado. Uma satisfação momentânea surgiu em mim por saber que ele estava pior do que eu havia deixado. — Dona Laura chamou a polícia? — perguntei sentindo um frio percorrer por todo o meu corpo. Fechei as mãos em punhos me dando conta da merda a que o Gabriel se referia. Alice estava


sendo agarrada à força por aquele filho da puta em seu quarto. E ao invés de protegê-la, mais uma vez a raiva me cegou. — Eu preciso ir vê-la! — tentei abrir a porta do quarto, mas Gabriel me impediu. Eu estava desesperado. — Eu preciso corrigir a merda que eu fiz. Eu tenho que falar com Alice. Implorar que me perdoe. — Não, Igor! — meu amigo disse sério. — Deixe a garota em paz. Eu vi o estado dela ontem. Depois que você saiu de lá a acusando de traição. As palavras do Gabriel entraram em mim como mil facas me apunhalando. Agora eu conseguia assimilar a situação, depois de um banho frio, sabia que deveria ter parado e conversado com ela. Mas, no momento eu estava tão cego de ciúmes, me sentindo tão enganado que acabei sendo um idiota. Que merda eu fiz! — E outra. Se você for lá, é possível que seja morto. O irmão dela não quer te ver nem banhado a ouro. Sentei-me derrotado na cama. Eu precisava encontrar uma forma de falar com Alice. Mesmo que ela nunca me perdoasse. — Você precisa me ajudar a encontrar Alice, Gabriel — implorei. — Não, mano — negou cabisbaixo. — Não depois do que aconteceu ontem. — Porra! Eu sei que errei. Mas fiquei possesso quando encontrei aquele cara na cama, com ela debaixo dele. Perdi completamente a lucidez naquele momento. — Não falo do que aconteceu na casa da Alice — interrompeu-me, me olhando sério. — Falo do que aconteceu aqui, nesse quarto. — Se está falando do espelho do banheiro, eu vou pagar por ele. — Não ligo para uma merda de espelho quebrado, Igor — fiquei calado esperando que continuasse, pois não estava entendendo nada. — Igor, eu sei que não sou a pessoa certa para dizer certas coisas, mas jamais dormiria com a irmã da minha namorada — disse sem graça. O olhei estupefato. Que merda era aquela? — Eu não dormi com ninguém, Gabriel — rugi categórico. Eles estavam me deixando confuso, eu já não sabia o que era real e o que era sonho. — Mano, não precisa mentir para mim. Eu vi — afirmou. — Eu vi você e a irmã caçula de Alice dormindo abraçados, seminus. O quê? Não! Maria Sandra tinha ido embora. Eu me lembro disso perfeitamente. Ou acho que lembro. Que porra é essa? Eu jamais dormiria com ela. Eu estava tão bêbado assim? — Eu não dormi com ela! — gritei. Deixando meu amigo sem saber o que dizer. Levantei da cama, e comecei andar pelo quarto, tentando me lembrar da noite de ontem. Eu não


poderia ter feito isso, eu não seria capaz de uma maldade dessas. Ou seria? Eu estava fora de mim, muito bêbado. — Gabriel, eu não fiz isso — falei desesperado e olhando para o meu amigo, que me olhava com compaixão — Cara, eu nunca faria isso com a mulher por quem sou apaixonado. Eu realmente estava muito bêbado, e tomei alguns remédios para dormir. Mas foi só isso… — Mano, eu não sei o que pensar — Gabriel tentou me fazer entender a situação — Mas quando chegamos aqui, a irmã da Alice estava deitada com você, e a Sarah meio que a expulsou. E o resto você já sabe. — Ela tinha ido embora, Gabriel. Eu escutei a porta da frente do apartamento fechando — disse derrotado, sentando novamente na cama. — Eu não transei com ela! Eu não estou ficando louco! Meus olhos ardiam, e eu estava sem esperança, destruído. Com certeza a Sarah contaria para a Alice, o que acabaria com as mínimas chances de que ela me escutasse. E se ela não quisesse mais me ver, teria todos os motivos, depois das merdas que fiz. Quando levantei a cabeça e olhei fixamente para a parede onde havia uma estante com livros que Gabriel tinha em seu quarto, uma luz no fim do túnel surgiu. Lembrei-me das câmeras que o meu amigo tinha por todo o seu apartamento para gravar os vídeos. —Você já retirou todas as suas câmeras? — interroguei repentinamente saltando da cama e olhando-o esperançoso. Ele encarou-me com surpresa, mas antes que pudesse me responder, escutei o toque de mensagem vindo do meu celular. Peguei aparelho e quando visualizei o nome da Diabinha abri a mensagem ansioso por sua resposta. “Sim. Eu sempre quis, mas...” Alice Porra! Que merda eu tinha feito?


Capítulo 28 Seguindo em frente

Alice O dia ainda não havia clareado quando senti a minha cama balançando devagarzinho. Meu irmão, Levi, saía cuidadosamente dela com receio de me acordar, mal sabia ele que não tinha pregado o olho durante toda a noite. Levi ficou comigo, ao meu lado, desde a noite terrível de ontem. Na verdade, todos que eu amava ficaram comigo até acharem que eu tinha adormecido, depois de tomar um chá que tia Lilian preparou para me acalmar. Exceto ele, Igor, o homem que eu amava. Ele havia conseguido me machucar muito mais do que ser agarrada à força pelo cafajeste do Valentim. Igor me humilhou de uma das piores formas que uma mulher poderia ter sido humilhada. Ouvir seu desprezo por achar que eu o traía me causara sentimentos tão devastadores que conseguia comparar essa dor que sentia com a mesma de ser agredida fisicamente. Seus olhos estavam turvos e escurecidos como se estivesse cego de ódio. Quando mais precisei dele, seu ciúme o dominou enxergando algo que não existia, provando-me que jamais daríamos certo, pois ele não acreditava em mim, no nosso amor. Não bastasse, muito tarde da noite, Igor me enviou uma mensagem que perguntava: Em algum momento do nosso relacionamento você me quis de verdade? Igor Mesmo com os olhos turvos de tanto chorar, li e reli mil vezes sem acreditar que ele me fazia mesmo àquela pergunta. Será que eu nunca havia demonstrado, com gestos e palavras, o quanto ele era importante pra mim? O quanto o amava? Escondi o celular embaixo do travesseiro para que meus amigos e meu irmão não soubessem dessa mensagem. Só aumentaria mais a raiva que eles estavam do Igor. Ainda fingindo estar dormindo, senti quando Levi beijou levemente meus cabelos e saiu do meu quarto deixando a porta semiaberta. Não duvido que se dependesse dele, ficaria comigo até ter a certeza de que eu estaria bem, e não o trapo como me encontrou assim que foi avisado sobre a noite de ontem. Mas as obrigações com a confeitaria o faziam pegar cedo no batente. Porém, tão logo tudo estivesse encaminhado, certamente voltaria para ficar comigo. Meu irmão se achava responsável por


mim, e, como um bom filho, prometeu ao nosso pai que sempre me protegeria. Escutei cochichos vindos do corredor. Sem dúvida, era a minha mãe conversando com o Levi, ela com certeza também não havia dormido. Mamãe ficou tão desesperada ao chegar a meu quarto e se deparar com Valentim caído no chão com o rosto todo machucado. De imediato pensou em chamar uma ambulância, chegou a imaginar que o Igor o havia matado. Quando Danilo retornou ao quarto, após tirar Igor de cima do Valentim e leva-lo à sala para evitar uma tragédia ainda maior, mamãe pressentiu que algo mais grave havia acontecido ao ver meu amigo chutando as costelas do seu sócio e também melhor amigo, chamando-o de porco imundo. Depois tudo só piorou, Igor me repulsou, mamãe ao invés de chamar a ambulância chamou a polícia acusando meu ex-amante de invasão de domicílio e tentativa de estupro. Levi chegou minutos depois e por pouco não cometeu um assassinato de tanto socar o Valentim. Enfim, foi uma noite que precisaria tirar da minha cabeça e esquecer, porém flashes, volta e meia, passavam por minha cabeça. Escutei a porta da frente do apartamento sendo aberta e fechada logo em seguida, constatando a saída do meu irmão. Queria dormir para aliviar a dor que dilacerava meu coração. Minha cabeça latejava e meu peito queimava. Estava doente de todas as formas possíveis. Não só pela invasão do Valentim, era tudo, principalmente por culpa do homem a quem entreguei meu coração. O homem que mesmo com todas as provas do que ocorrera aqui ao alcance de seus olhos, preferiu acreditar em sua imaginação. Abandonando-me. Duvidando dos meus sentimentos. Acusando-me sem direito a defesa. Senti que o sono até que enfim chegava, puxei o aparelho celular debaixo do meu travesseiro e li mais uma vez a mensagem que Igor me enviara, na certeza de que tudo entre nós realmente chegara ao fim. No entanto, antes de apagar a mensagem respondi a sua pergunta. “Sim. Eu sempre quis, mas...”.

Acordei assustada e desorientada, procurando pelos os braços do homem que jurou me proteger, mas falhou. Como um filme de terror, a noite de ontem voltou em meus pensamentos, indicando que o pesadelo que achei que tivera quando dormia tinha sido real. Bem real. Desanimada decidi sair da cama. Uma noite mal dormida te ajuda a pensar em várias situações e tomar decisões sérias, e uma delas é que não me permitiria enfraquecer, quer dizer, pelo menos tentaria ser forte. E a primeira decisão que havia tomado, e a mais difícil também, seria arrancar, à força, Igor da minha vida e pensamentos. Mesmo que com isso meu coração congelasse, evitando amar outra vez. Peguei meu roupão e saí pelo corredor rumo ao banheiro. Tomei um banho delicioso com sais de banho e sabonete líquido de maracujá. Esfregando a esponja vegetal em minha pele com tanta força, como se ali eu pudesse tirar tudo que me destruía por dentro. Chorei embaixo do chuveiro, tapando com a mão os gritos que insistiam ser liberados da minha boca. Demorei mais do que o


normal para sair do banheiro. Não queria que ninguém me visse de rosto inchado e olhos vermelhos. Já não bastasse a cena deplorável que fiz ontem, implorando amor a quem não me queria. Sim, pois era essa a verdade. Igor não me merecia, jamais em minha vida mendigaria amor, a ninguém. Assim que abri a porta do banheiro, encontrei mamãe encostada na parede olhando para mim. Seus olhinhos ansiosos esperando que me jogasse em seus braços, como refúgio, como se aquilo fizesse esquecer tudo que aconteceu. Na verdade quis muito me jogar em seus braços e depois deitar minha cabeça em seu colo, me deliciando com seu cafuné em meus cabelos. No entanto, me mantive forte e forcei um sorriso, que é claro, como uma mãe que conhece seus rebentos, sabia que fingia. — Bom dia, mamãe! — beijei seu rosto e passei por ela entrando em meu quarto. — Como se sente? — questionou de imediato, me avaliando. — Eu vou sobreviver. Eu prometo. Peguei do guarda-roupa uma camisa cinza desgastada, larga, de mangas, que amava vestir em casa. Coloquei uma calcinha caleçon branca com detalhes delicados floridos do lado. — Ali, meu amor. Não precisa fingir que está tudo bem quando nós sabemos que não está — mamãe se aproximou ficando atrás de mim. Eu era mais alta do que ela, uns dez centímetros mais ou menos, mas sua presença conseguia me deixar bem pequenina. — Eu sei, mamãe. É uma dor insuportável, mas irá passar — concordei forçando para não chorar mais. — Tem que passar. — Sim meu bem, passará — virou-me para que a olhasse em seus olhos. — O tempo cura tudo, meu amor. E se não curar, amenizará a dor dentro do seu coração. Eu sabia que com aquelas palavras ela se referia a si própria. Por mais que nunca comentasse, mamãe não tinha esquecido a decepção que teve ao descobrir que meu pai estava de casamento marcado com outra mulher que já carregava o meu irmão Levi em seu ventre. — Sim, mamãe. É tudo que eu preciso. Tempo — consenti. — Venha. Vamos tomar café. — Não tenho fome. Vou tentar dormir mais um pouco — falei, sentindo meu corpo sendo vencido pelo cansaço físico. — Nem pensar — insistiu. — Vamos mocinha. Já para a cozinha. Ou você prefere que eu traga aqui para seu quarto? — Ah, não! Quero tomar café da manhã na cozinha ao lado da minha lindinha — Danilo indagou, aparecendo de supetão na porta do meu quarto. Mamãe olhou-o curiosa. — A porta estava destrancada — meu amigo explicou. — Merda! Devo ter esquecido de trancar com chave quando fui pegar a correspondência na portaria — resmungou.


Mamãe estava agindo assim não porque meu amigo entrou em nosso apartamento sem bater, Danilo tinha total liberdade para isso, mas devido à noite de ontem. Já que Valentim entrou silenciosamente sem ser convidado. Pelo menos foi o que ele disse ao delegado. Seguimos os três para a cozinha. Forcei-me a comer um pouco. Se com minha mãe seria impossível deixar de me alimentar, com Danilo ao seu lado era como se eu tivesse declarado uma greve de fome. Então, como diz o ditado, se não pode vencê-los, junte-se a eles. Ligaram da portaria anunciando a chegada da minha amiga, Sarah. Certamente meus dois melhores amigos fariam o que fosse preciso para me animar. Sempre era assim, um cuidava do outro. E, nesse momento, era a minha vez de ser mimada por eles. — Oi... É... Bom dia! — Sarah entrou na cozinha afobada, tentando esconder sua agitação. No entanto, Danilo e eu nos olhamos um para o outro sabendo que algo tinha acontecido para ela estar agindo nervosa. — Bom dia, Sarah — mamãe a cumprimentou com um beijo em seu rosto. — Sente-se e tome café conosco. — Obrigada, dona Laura — Sarah sentou ao lado do Danilo. — É! Seja mais uma a me forçar a comer — esbravejei, mas forçando um sorriso amigável. — Você precisa se alimentar— mamãe reclamou e meus amigos concordaram. — Sua imunidade está baixa. Muito baixa. Para pegar uma pneumonia é rápido. Ficamos nós quatros em silêncio enquanto comíamos. Nenhum deles comentou nada sobre a noite de ontem. Contudo, logo teríamos que falar sobre o assunto. Principalmente, sobre a queixa que mamãe e Levi fizeram na delegacia contra Valentim. Mais cedo ou mais tarde eu precisaria comparecer à delegacia para prestar meu depoimento. Porém, estava receosa sobre isso. Sei que não deveria sequer cogitar em retirar a queixa, mas como Valentim era sócio do Danilo, temia que a denúncia pudesse atrapalhar os negócios na construtora deles. Nunca me perdoaria se meu amigo sofresse qualquer consequência por minha culpa. Se mamãe percebeu a tensão que se instalou depois que Sarah chegou, disfarçou muito bem, pois meus amigos e eu praticamente conversávamos com o olhar de um para o outro. Interrogando Sarah. — Crianças lavem, sequem a louça e coloquem os frios e suco na geladeira — mamãe pediu minutos depois. — Ali, a mamãe vai ao apartamento da dona Antônia aferir sua pressão. Não irei demorar. Sua irmã ainda está dormindo, chegou com o dia amanhecendo. A danada sequer ligou para avisar. Depois teremos que ter uma conversa séria com ela. Está muito perigoso ficar fora de casa até altas horas da noite sem dar uma satisfação — indagou aborrecida, mas sorriu, beijando minha testa e saindo da cozinha. Eu apenas dei de ombros com o comentário sobre a Sandrinha. Ontem estava tão abalada que mal senti sua falta.


Dona Antônia era uma senhora de oitenta e poucos anos que morava no bloco de apartamentos ao lado. Sua companhia eram os gatos que a velha senhora catava na rua. Sofria de hipertensão e era teimosa, vivia comendo bobagens que o seu médico dizia que a matariam. Mamãe vez ou outra a visitava e ajudava com o que precisava. — Desembucha, Sah! Vejo a sigla SOS saltando dos seus olhos — meu amigo proferiu agitado. — É... Ali... Como eu vou dizer... — Sarah me olhava sem graça e sem jeito. Deveria ser algo muito sério. — Dizendo, Sarah — insistiu Dan. — Seja o que for, fale de uma vez. Acredito que nada me deixará mais abalada do que já estou — a incentivei, mas por dentro meu coração batia acelerado e com medo do que sairia de sua boca. — Bem... Ontem, como vocês sabem, iria haver uma pequena reunião de amigos no apartamento do Gabriel para comemorar seu aniversário antecipado — proferiu vagarosamente. — Daí como aconteceu tudo aquilo quis ficar com você, então o Gabriel achou melhor cancelar a reunião. — Poxa! Você não devia ter permitido isso. Agora vou me sentir culpada — bradei magoada. Tinha me esquecido completamente dessa reunião. — Não fique! O Gabriel entendeu meus motivos de querer ficar com você — forçou um sorriso. — Prometi a ele que assim que pudesse iria para seu apartamento para ficarmos juntos. Como era tarde da noite, Gabriel achou melhor vir me buscar aqui, como você mesma viu. Minha amiga apertava seus dedos nervosamente. Seja lá o que fosse, ela não sabia como me dizer, e eu já presumia que era sobre o Igor. E mil coisas passavam em minha cabeça. Será que aconteceu algo grave com ele? Um acidente? Meu Deus! — Poucos antes de irmos embora, o porteiro do prédio do Gabriel ligou avisando que o Igor estava na portaria completamente embriagado, e que uma mulher o ajudava a se manter em pé — ela continuou confirmando minhas suspeitas sobre o assunto ser sobre Igor. Menos sobre “a mulher”. Meu corpo esfriou automaticamente com suas palavras. Um calafrio percorreu pela minha espinha só de imaginar que Igor estaria com outra mulher, a tocando, mesmo sabendo que ele não merecia meu amor. Esperançosa, imaginei que fosse Ingrid. — Gabriel autorizou a sua entrada em seu apartamento. Por mais que naquele instante eu odiasse o Igor, eu não poderia impedir que o Gabriel o ajudasse. Eles são amigos há anos, assim como nós — eu a entendia perfeitamente. Um amigo sempre ajuda outro. — Bem... Quando chegamos ao apartamento não encontramos Igor deitado no sofá, então Gabriel deduziu que ele estava em seu quarto. Fomos direto para lá e quando abrimos a porta... Sarah me olhou com os olhos cheios de lágrimas. Ela não precisava dizer mais nada, a mulher que o havia levado para o apartamento do Gabriel não era sua irmã, Ingrid, e sim, uma qualquer que ele pegou em algum puteiro.


— Não precisa terminar, Sah — pedi com olhos já marejados. Odiando-me ainda mais por amá-lo. Por ter sido uma boba romântica. Sonhando com o “felizes para sempre”. — Filho da puta! — Danilo uivou com muita fúria. — A vida segue — dei de ombros, quando Danilo apertou minha mão confortando-me. — Algumas pessoas viram a página um pouco mais rápido que outras. Minhas lágrimas não paravam de cair. Eu queria gritar, ir até o Igor e socá-lo por desprezar nossa relação, por não estar sentindo-se culpado pelo o que me fez ou disse. Eu o odiava por tudo. E principalmente por não me amar. — Com certeza, você escorraçou a vadia de lá? — interrogou meu amigo. — Sim, peguei suas roupas e sai rebocando ela pelos cabelos e a joguei para fora do apartamento do Gabriel — respondeu orgulhosa. — Eu sempre sonhei em fazer isso com aquela vadia. — Espera! Você a conhece? Melhor, nós a conhecemos? — Danilo esbravejou. Minha amiga olhou-me penosamente, a bomba não era o Igor ter dormido com outra mulher. Mas quem era a outra mulher. — Sinto muito, Ali... — Sarah falou. —... Mas era seu carma que estava com Igor. Maria Sandra. — O quê? A vadia dos infernos? — Danilo bradou e Sarah assentiu tristemente, confirmando o que seria uma dupla traição. Minha irmã e o homem que eu amava. Eu apenas fiquei ali, parada e estática. Tentando assimilar tudo que minha amiga acabara de dizer. Se Igor fez isso com a intenção de se vingar, deveria o aplaudir de pé pela performance, pois ele conseguira enfiar o último punhal que dilacerava meu coração em pedaços. — MARIA SANDRA! — rompi em um grito cortante, como se tivesse me libertando de uma prisão. Todo o amor que um dia senti por minha irmã, desapareceu como pó. Levantei da cadeira, o corpo ainda anestesiado pelas notícias recentes. Parti pisando duro pelo corredor direto para o quarto da cadela que um dia chamei de irmã. Danilo e Sarah vieram logo atrás de mim assustados com a minha reação. Abri a porta com força, batendo na parede e derrubando uma moldura de vidro com uma foto de Maria Sandra e eu quando crianças. O vidro partiu-se ao meio constatando o que era certo, o fim de um elo familiar que até minutos atrás achei existir. — Está maluca? — Maria Sandra proferiu, ao acordar com o barulho. — Acabei de ficar, sua vadiazinha traidora — uivei avançando para cima de Sandrinha, pegando-a desprevenida. Ela ainda tentou se levantar, dando as costas para mim, mas fui mais rápida. Agarrei seus cabelos enrolando-os em meu pulso e a puxando até derrubá-la no chão.


— Já soube é? — sorriu vitoriosa, percebendo porque a atacava. — O doutor Igor, quis brincar de médico comigo, maninha. Achou a irmã caçula mais apetitosa. — Sua... Cretina dos infernos — sentei em cima da sua barriga prendendo-a entre as minhas coxas. — Por que tanta inveja, maldita? Sem deixar que respondesse, comecei a estapear cada lado do seu rosto simultaneamente com as minhas mãos. Maria Sandra ainda tentou cobrir o rosto com os braços, mas a impedi, segurandoos no topo de sua cabeça. Uma força quase incontrolável exalava do meu corpo. Quanto mais arrebentava a cara daquela vadia, que um dia amei e me doei, mais vontade tinha de espancá-la. Era como se eu estivesse extravasando tudo de errado que guardei de Maria Sandra. Se hoje ela não passava de uma piranha traidora, boa parte era minha culpa, por eu sempre passar a mão em sua cabeça. Agora entendia perfeitamente o que Igor sentiu quando socava o rosto do Valentim. Era como se algo se apossasse do meu corpo com vontade de exorcizar o demônio que existia dentro da minha irmã. — Maldita! Maldita! Maldita! — berrava a cada tapa que lhe dava. — Eu te amava, maldita — estapeei com tanta força que meu anel de terço pontudo rasgou seu rosto em um corte fino na maçã do seu rosto. — Você me cortou, sua vaca — gritou ensandecida. — Ali, chega! — Sarah pediu apavorada, porém só enxergava o alvo podre da minha irmã. — Só mais um pouquinho, Sarinha — Danilo a impediu que viesse até mim. — São só uns tapinhas. — Ela pode acabar matando a infeliz, Dan. — Que nada! Vaso ruim não se quebra fácil. Só racha! — meu amigo gargalhou. — Mais alguns tapinhas e eu a tiro de cima da vadiazinha. Vai lindinha! Uhul! Aproveita e arrebenta essa cachorra. — Para! Mãe! Mãe! — Maria Sandra não parava de gritar, assim como eu não parava de estapeá-la. — Vai! Bate mais. Desconta sua raiva... Foi a mim que ele procurou. Foi por mim que ele gemeu, chamando meu nome enquanto enfiava seu pau bem fundo dentro de mim — Maria Sandra disse, alterando as palavras entre gargalhadas e choro. — Desgraçada! Você não é uma irmã. É uma praga que precisa ser exterminada — bati sua cabeça no piso. — Meu Deus! O que... está acontecendo aqui? — a voz de mamãe soou pelo quarto, mas continuei batendo em Maria Sandra. — Os gritos dão para serem ouvidos do último bloco. — Acabou, lindinha — Danilo veio até mim. Tirando-me de cima de Maria Sandra. — Quem sabe depois haverá um segundo round?


— Não diga uma insanidade dessas, Danilo — mamãe advertiu, ajudando Maria Sandra a se levantar. — O que diabos está acontecendo aqui? Por que você estava batendo na sua irmã, Alice? — Mãe, olha o que ela fez com o meu rosto? — Sandrinha chorava enquanto era amparada por nossa mãe. — Acho que precisarei levar pontos nesse corte. — Não exagera, Sandrinha — Sarah desdenhou. — É só um cortezinho. Mamãe a olhou de cara feia. Exausta e cansada de tudo, saí do quarto daquela ordinária, sob os protestos da minha mãe. Pela primeira vez em minha vida, depois de anos, eu me rebelava. A desobedecia. Senti naquele instante que aquele lugar já não me pertencia. Não conseguiria conviver sob o mesmo teto em que Maria Sandra viveria. Eu acabaria matando-a. Entrei em meu quarto, abrindo meu guarda-roupa e puxando duas malas grandes do maleiro de uma só vez. — O que está fazendo? — Danilo perguntou entrando no quarto junto com Sarah. — Fazendo as malas — dei de ombros. Lágrimas já não mais caíam dos meus olhos. Sentia-me vazia. Seca. — Não tem a mínima condição de morar no mesmo lugar em que aquela cobra peçonhenta vive. — E você vai para onde? — Sarah perguntou, ajudando-me a juntar minhas roupas, colocandoas em uma das malas. — Um hotel, até segunda-feira. Depois vejo um lugar para ficar — respondi recolhendo meus produtos de higiene pessoal e jogando em uma valise. — Tenho o apartamento que papai me deu. Está alugado, mas posso pedir de volta. — Nem pensar! — Danilo e Sarah disseram em uníssono. — Não vou deixar você ficar em um hotel — continuou Dan falando. — Tem a minha casa e o flat de Sarinha. — Além do mais, Levi jamais permitirá — Sarah completou. Isso era verdade. Quando Levi soubesse o que tinha ocorrido e que tinha decidido sair de casa, viria me socorrer como o irmão mais velho e protetor que era. — Não quero incomodar — proferi. — Vocês têm suas próprias vidas e eu acabaria atrapalhando. Além disso, estou cogitando a possibilidade de passar um tempo na França. Ficar com meu pai e me aperfeiçoar em mais cursos por lá. Quem sabe quando voltar abro meu próprio studio de pilates? — Você está pensando em deixar a Clínica? Você ama aquele lugar — Sarah indagou surpresa. — Não faz sentindo trabalhar no mesmo local que o Igor trabalha — falei pesarosa. Tinha sido um sonho trabalhar na Clínica Alencar. Com equipamentos e estrutura modernas,


para uma excelente reabilitação, no entanto não suportaria estar próxima do Igor. Vê-lo com outras mulheres, sabendo que me doei toda para ele. Eu precisava seguir em frente, mesmo com o caminho repleto de pedras para ultrapassar. Terminamos de arrumar as duas malas e mais uma valise média com minhas bugigangas. Peguei todas as minhas documentações, diplomas e certificados e guardei em uma pasta. Depois veria com mamãe um horário que pudesse vir pegar o restante das minhas coisas. Mamãe ainda estava no quarto de Maria Sandra, provavelmente escutando alguma mentira e limpando seu rosto. Vesti uma calça jeans, calcei uma rasteirinha e fiz um coque frouxo no alto da minha cabeça. Não troquei de blusa, tudo o que menos me preocupava nesse momento era a minha aparência. Danilo pegou uma mala e Sarah outra, saindo os dois puxando-as rumo à sala. Olhei em volta do meu quarto sentindo uma mistura de melancolia e alívio. Peguei a valise, minha bolsa e a bolsa do meu notebook e saí do meu quarto fechando a porta sem olhar para trás. — Aonde você pensa que vai, Alice Ventura? — mamãe saiu do quarto de Maria Sandra com a vadia surgindo em seguida. — Estou indo embora — disse sem encará-la. — Ali, minha filha. Não precisa agir tão precipitadamente — veio me seguindo até a sala. — Você, sua irmã e eu precisamos conversar. A família é mais importante que tudo. Não se deixe levar por causa de um homem que abusou dos sentimentos e de sua confiança e da Maria Sandra. — O quê? — virei para olhá-la, mas avistei primeiramente Sandrinha por trás de mamãe. Seu rosto estava cheio de hematomas e tinha um curativo cobrindo o corte que eu tinha feito com o anel. — Foi isso que inventou para ela? — exigi encarando-a. — Até quando você viverá assim, Maria Sandra? Mentiras em cima de mentiras. — Não estou mentindo. Igor e eu passamos a noite juntos — respondeu empinando o nariz. — Isso eu não duvido, porém inventar que o Igor te seduziu é exagero. — Filha, eu sei que você está magoada. Eu também estou surpresa e decepcionada com o Igor. Não esperava uma atitude tão baixa vindo dele. Colocar duas irmãs uma contra a outra. Não aguentando mais toda aquela situação, decidi que já passava da hora de mostrar a minha mãe quem era sua filha caçula. — Mamãe, meu maior erro foi esconder a verdadeira Maria Sandra da senhora. Isso será algo que nunca me perdoarei — olhei terna para a mulher que eu mais amava. — Sua filha caçula não presta, não vale um centavo. É mesquinha e egoísta. Só pensa em si. Eu demorei a enxergar porque a amava demais e tinha a esperança de que um dia ela acordasse para vida. Mas falhei. — Do que você está falando? — Mentiras, mamãe! — gritou insolente. — Inventará um monte de merda. Ela morre de inveja


de mim. — Será mesmo, Maria Sandra? — a desafiei. — Então explique para a nossa mãe como você consegue comprar roupas caras e joias? Explique para a mamãe por que tive que vender meu último carro às pressas? — A máscara está caindo, bitch — Danilo zombou, fazendo Maria Sandra fuzilá-lo com o olhar. — Mamãe, escuta... eu precisava... — Vai inventar mais mentiras? — esbravejei. — Pelo menos uma vez na vida seja verdadeira. — Sandrinha, o que você fez? — Mamãe perguntou com uma expressão angustiante. Partindome ao meio por vê-la assim. — Lembra-se do Beco 45, mamãe? — com sofreguidão, citei o lugar onde muitas vezes mamãe era obrigada a ir pagar as dívidas de apostas e empréstimos aos agiotas de Otávio, meu padrasto e pai de Maria Sandra. — Foi lá que deixei meu carro em troca da vida da sua filha caçula. — O quê? Não! Não! Não! — mamãe gritou andando de um lado para o outro da sala, desesperada. — Eu não posso viver isso outra vez. Por que, Maria Sandra? Nunca te deixei faltar nada. — Mãe, eu... — Você viu como foi o fim do seu pai. É isso que você quer? — lágrimas banhavam o rosto de mamãe. Isso era um dos motivos que me fazia esconder os erros de Maria Sandra. Mamãe sustentava o mesmo olhar sem esperança que tinha quando meu padrasto aprontava. —Você também aposta? — perguntou quase como um suplício. — Não — afirmei no lugar de Sandrinha. — Apenas negocia com os agiotas... que eu saiba. — Mãe, eu posso explicar — minha irmã proferiu chorosa. — Eu falo com você depois. Isso não é uma conversa que se resolva com poucas frases — mamãe respirou fundo. — Primeiro falarei com sua irmã — completou cética, não permitindo que Sandrinha abrisse a boca. — Há quanto tempo você esconde de mim e paga os empréstimos de sua irmã, Alice? Expliquei a ela como tudo tinha começado, e o quanto virou uma bola de neve a ponto de Maria Sandra correr risco de vida. Mamãe sentia-se enganada por nós duas, suas filhas. Mas de certa forma me entendia, pois desde pequena eu sempre protegi Maria Sandra. Aproveitei que estávamos falando tudo. Contei sobre o francês Jérôme Benoit, o que a deixou bastante assustada, pedi que ligasse para Abigail, pois só ela saberia dizer realmente quem era o homem de quem Sandrinha havia fugido da França.


Pediu-me que não fosse embora, mas tentei explicá-la de maneira sutil que não tinha mais como convivermos juntas, tudo seria insuportável e ela só se magoaria mais em ver suas filhas em pé de guerra constantemente. Finalizei tranquilizando-a dizendo que sempre viria visitá-la e que ela poderia sempre ir me visitar. Claro que não comentei sobre meus planos de ir passar uma temporada na França. De ontem para hoje mamãe já tinha passado por muitas tribulações. E não queria gerar mais uma. Já fora do apartamento de mamãe, Danilo me ajudou a guardar as malas em meu carro. Voltei para me despedir dela, que estava encostada na porta de entrada do nosso prédio. — Tem certeza, Ali? — indagou esperançosa. — Sim. Está na hora de seguir meu rumo. — Eu vou sentir tanto a sua falta, meu amor — disse com os olhos cheios de lágrimas, colocando os fios soltos do meu cabelo atrás da orelha. — Eu também... — Eu só quero que você e sua irmã sejam felizes. Que tenham um futuro esplendoroso. — Ah, mamãe! A senhora é a melhor mãe do mundo — abracei-a beijando e sendo beijada por ela. — Eu te amo. — Eu te amo mais, minha menina. Saí dos seus braços e segui para meu carro, onde meus amigos estavam lado a lado me esperando. — Que horas você e Gabriel viajam? — perguntei a Sarah tentando ser forte e não chorar por deixar a minha mãe. Ela e Gabriel iriam passar uns dias juntos em algum resort de alguma ilha paradisíaca. — Estou pensando em cancelar... — Eu a proíbo! — bradei séria. — Eu não quero que desmarque nada. E isso serve para você também, Danilo. A Ingrid precisa mais de você agora do que eu. Os dois nem pensem em ficar nos meu pé 24h por dia. — Não queremos te deixar sozinha nesse momento — minha amiga tentou se justificar. — Eu ficarei bem — confortei-os. — Decidi ficar uns dias com o Levi. Antes que pudéssemos continuar nossa conversa. Fomos interrompidos por uma buzina de carro que estacionava de frente ao prédio de mamãe. Eu reconhecia aquela buzina e carro, e o dono em questão. Igor. Era muito cínico e cara de pau a ponto de aparecer aqui depois de tudo. Os olhos de Igor encontraram com os meus assim que desceu do carro. Ele estava com o rosto preocupado e assustado. Do lado do passageiro saltou Gabriel, juntando-se ao seu amigo e vindo até nós.


— É um filho da puta! — Danilo esbravejou. — Eu avisei a você que ficasse longe da Alice. Danilo avançou para Igor, socando seu rosto, o fazendo se desequilibrar e cair no gramado. Gabriel correu segurando Danilo que tentava novamente golpeá-lo. — Porra! Gabriel. Por que trouxe esse cretino aqui? — Sarah berrou para o namorado que sustentava Danilo à força. — Princesa, o Igor foi enganado. — Alice, eu sei que você pensa que passei a noite com sua irmã, mas fui enganado — Igor pronunciou. — É verdade, Alice. Temos as provas — Gabriel afirmou. — Não fique brava, Princesa. — Eu vi vocês dois juntos. Seminus — Sarah afirmou fuzilando Igor com o olhar. — Sim. Você viu o que aquela vadia quis mostrar — Igor levantou-se vindo até mim. Eu continuava quieta e parada, olhando tudo o que estava acontecendo ao meu redor. — A sua irmã quis me colocar contra você. Porém ela não sabia das santas câmeras, que Gabriel ainda não havia tirado. Graças a Deus! — É verdade, Ali. Gabriel e eu decidimos retirar as câmeras quando voltássemos de viagem — Sarah falou surpresa. — Merda! Como não pensei nisso. — Está tudo aqui nesse pen drive — ansioso Igor mostrou o pequeno objeto em suas mãos para mim. — Eu jamais dormiria com sua irmã, Diabinha. Nunca. Ainda sem dizer nada, apenas o olhava cética. Reparei que o lado direito do seu queixo começava a ficar inchado devido ao soco de Danilo. — Precisamos conversar... — ele continuou falando. —... Eu fui estúpido, não enxerguei o que estava diante dos meus olhos. E acabei... — É melhor você ir — enfim consegui dizer alguma coisa. — Diabinha, eu sei que... — Nós não temos mais o que conversar — pronunciei cada palavra friamente, mas por dentro tremia a ponto de fincar os dedos dos meus pés na rasteirinha. — Alice, Igor está falando a verdade — Gabriel defendeu o amigo. — Ok! Você tem as provas que não dormiu com a cadela da minha irmã. Eu acredito. Agora pode ir embora. Estou de saída — sentindo uma vontade louca de chorar por estar ali, ao seu lado, vivendo novamente um pesadelo, me mantive fria. — Alice... Diabinha... sei que fui um estúpido com você ontem... só me deixa conser... — Já chega, Igor! — gritei assustando a todos.


Busquei o restante das energias que ainda tinha em meu corpo e criei coragem para colocar para fora o que eu precisava para poder seguir em frente, contudo, falhei ao permitir que as lágrimas banhassem meu rosto. — Eu realmente não quero saber o que aconteceu, Igor — fitei-o séria, secando minhas lágrimas com as mãos. — Você deixou bem claro, com a sua atitude, ontem, que você não ama ninguém além de si próprio. Você permite que esse narcisismo todo reine dentro de si, sem sequer deixar que alguém divida esse amor contigo. Desça desse altar em que você se encontra e transforme-se em um homem, porque eu não preciso de um menino inseguro a todo o momento questionando o que eu sinto ou me humilhando quando as coisas fogem do rumo. Dessa vez, foi Igor quem ficou paralisado, sem reação devido as minhas palavras. Senti Danilo segurar firme os meus braços para que eu entrasse no carro. O que eu tinha para dizer, disse, mesmo corroendo o peito e esmagando àquele amor que sentia pelo Igor. Ao entrar no carro não quis abaixar os vidros e virei o rosto para o lado contrário ao que o Igor batia, pedindo para que o escutasse, no entanto, não queria mais. Queria sair dali e esquecer esse dia, e, se possível... esse amor. — Lindinha... — Danilo limpou as lágrimas do meu rosto. — Tem certeza que é isso mesmo que quer? — Sim, Dan — afirmei convicta. Percebendo que não daria mais oportunidade para se explicar, vi Igor entregando o pen drive a Sarah. Segurando com força as suas mãos e pedindo ajuda para que eu visualizasse o conteúdo que tinha ali. Sufocando, baixei a cabeça e pedi para que Danilo me tirasse de perto de Igor. Vi quando Sarah beijou os lábios de Gabriel e entrou no carro, segurou meu ombro me dando forças. Danilo depois voltaria para pegar seu carro. Meus amigos sabiam que nesse momento não teria a mínima condição de dirigir. Ao chegar aos portões para sair do condomínio que morei por anos, me permiti olhar pela última vez para Igor. Mesmo de longe consegui vislumbrar arrependimento em seus olhos. Por uma fração de segundos, pensei em saltar do carro e correr para os seus braços. Mas era o fim da nossa relação. No caminho até a casa do meu irmão, Sarah ligou para Levi e contou tudo o que tinha acontecido. Depois que ela desligou, o restante do caminho foi feito totalmente em silêncio. Danilo parou o carro no acostamento de frente ao prédio de Levi, que nos esperava angustiado na portaria. Ao me ver, correu até a porta do passageiro, abriu, me puxando para seus braços. Acalentando-me com amor fraterno, mas verdadeiro e com muito carinho. Era tudo que eu precisava naquele momento.


Capítulo 29 Pesadelo

Alice Três dias depois — É sua decisão final, Alice? — Isabela questionou-me sobre meu pedido de demissão da Clínica. Nos últimos três dias, desde que saí de casa, tentei encontrar uma maneira de permanecer na Clínica a pedido da minha tia Lilian. E, também, porque amava trabalhar naquele lugar. Sentia-me realizada fazendo o que amo, a profissão que escolhi. Porém, nesse momento estava decidida a ficar o mais longe possível do Igor. E a única maneira seria deixar o meu atual emprego. Poderia até estar agindo como uma garota mimada, mas tudo que eu queria era ficar o mais longe possível dele. Como dizia o ditado popular: “o que os olhos não veem o coração não sente”. Eu jamais conseguiria tirá-lo do meu coração encontrando com Igor constantemente pelos corredores da Clínica. No domingo à noite fui até a casa de tia Lilian e comentei sobre a minha decisão. Expliquei meus motivos e a escolha que havia tomado de ficar um tempo com meu pai na França. Claro que, assim como Levi, tia Lilian foi totalmente contra. Disse que eu estava misturando meu lado pessoal com o profissional. Não tirava a razão deles, estava sendo fraca mesmo e, quem sabe, me arrependeria no futuro. Contudo, almejava virar a página, tirar essa dor insuportável de dentro de mim e seguir em frente. E a meu ver, nesse momento, o mais correto seria começar do zero. Quando cheguei hoje cedo na Clínica para conversar com Isabela, imaginei que ela tentaria de todas as maneiras me fazer desistir da minha escolha. Tia Lilian já tinha adiantando a conversa com a Isa e, mesmo se não tivesse, com certeza ela já teria escutado as fofocas, pois era o assunto de toda a Clínica, segundo Ana tinha me falado por telefone. Durante todo o trajeto da casa do Levi até aqui, fiquei imaginando se Isa conseguiria me convencer a continuar trabalhando na Clínica. Porém, ao entrar no estacionamento, meu coração já acelerou só de imaginar ver o carro do Igor estacionado em sua vaga. A partir dali soube que não teria jeito algum de permanecer no mesmo lugar que ele. — Sim — falei convicta, mas Isa percebeu o receio em meus olhos.


— Hum! Entendo — ela encostou-se a poltrona e ficou me olhando pensativa. — Sabe Alice, sei muito bem o quanto é difícil estar diariamente no mesmo lugar da pessoa que amamos, quando esse relacionamento não está funcionando — proferiu. — Desculpa se estou sendo intrometida, mas gosto demais de você e tenho o Igor como um irmão. E me sinto no dever de dizer alguma coisa. — Você não está sendo intrometida — respondi. Nos últimos meses que trabalhei na Clínica, Isa e eu criamos uma amizade. Embora seja uma mulher muito jovem, Isabela tinha o dom da sabedoria e percepção. Igor admirava-a demais, e até uma vez me confessou que se sentiu atraído por ela na primeira vez que a conheceu. No entanto, com o tempo esse sentimento tornou-se um carinho especial entre amigos. Mesmo que vez ou outra adorasse provocar ciúmes no Leonardo, marido da Isa. — Todo casal tem problemas. E às vezes uma separação ajuda você a enxergar os erros. Claro que meu caso foi totalmente diferente do seu — sorriu genuinamente. — Mas posso te garantir com 100% de certeza que Igor mudou completamente por amor a você. Não quero defendê-lo, longe de mim, ele errou por não escutar você. Mas você já parou para pensar o quanto tudo isso está sendo novo para ele? Franzi o cenho sem entender onde Isabela queria chegar. — Deixe eu me explicar melhor — mexeu na poltrona mudando de posição. — Igor nunca se apaixonou. Ele nunca se sentiu dependente de uma mulher, pelo contrário, as mulheres que na maioria das vezes o procuravam. Do nada um sentimento avassalador, novo, toma conta dele. Deixando-o possessivo e ciumento, algo que ele nunca foi. E é natural, quando não sabemos lidar com determinadas situações, agimos de forma imprudente, fazendo besteiras, e só depois, com a cabeça fria, conseguimos analisar tudo, e quase sempre nos arrependemos dos nossos atos. — Compreendo suas palavras, mas ele tinha que ter confiado em mim — argumentei. — Não me acusar e humilhar-me. Não há relação que evolua dessa maneira. Ele me magoou muito, foi estúpido quando precisei dele. Não me deu nem o “benefício da dúvida”. — Não estou pedindo que o perdoe, Alice — continuou. — Ele errou e merece ser castigado. No entanto, só você está se punindo, deixando seu trabalho por medo de estar próxima a ele. Com medo de vê-lo seguindo em frente, o que eu acho muito improvável. — Isa, eu entendo o que você diz — respirei fundo. — Mas nesse momento eu quero, mais que isso, eu preciso de um tempo pra mim, longe de tudo. Não foi só o Igor que me decepcionou, há toda uma bagagem também. Não entraria em detalhes com Isabela sobre minha irmã. Ninguém precisaria saber que tinha uma cobra venenosa como meia-irmã. E tinha também o Valentim, seus atos foram covardes, eu ainda estava tentando entender tudo que tinha acontecido em minha vida nos últimos dias. — Lilian me disse que você está pensando em passar um tempo na França — enunciou. — Sim, é verdade — confirmei. — Faz um tempo que não vejo o meu pai.


— Já sabe quando vai? — Eu quero ir o mais rápido possível. — E o que está faltando? Isabela me interrogava analisando cada resposta minha. — Resolver minha saída daqui. Não quero deixar buraco em meu lugar. Esperarei que contrate alguém para me substituir. — Não precisa ficar, Alice. Não contratarei ninguém. Temos um quadro excelente de fisioterapeutas. — Mas... Mas quem ficará como coordenador pela Ala de fisioterapia e ortopedia? — perguntei surpresa. — Por enquanto, eu. Olhei-a boquiaberta. Todos na Clínica sabiam o quanto doutor Leonardo era protetor com a esposa, e não queria que se esforçasse demais no trabalho, por isso ela havia reduzido os números de pacientes para atender e trabalhava junto com tia Lilian na administração da Clínica. Isabela estava grávida de gêmeos, com seis meses, depois de anos tentando engravidar. Ela descobriu dias depois que comecei a trabalhar na Clínica, Lembro-me da tia Lilian comentando o quanto foi especial o momento em que Isa revelou para seu marido em um jantar no dia do seu aniversário. Havia sido convidada, mas acabei não indo. — Eu acho que doutor Leonar… — Com o Leo eu me entendo depois — falou gentilmente, me impedindo de terminar a frase. — E também terei a Ana e a Lilian que poderão me ajudar bastante na parte administrativa e o doutor Eudes e os estagiários. — Isa, não quero sobrecarregar meus colegas de trabalho — insisti. — Posso esperar contratar alguém. — Achei que a questão toda é que você não suportaria estar no mesmo lugar em que o doutor Igor estivesse. Não era isso que você queria evitar? — perguntou olhando-me maliciosamente. Era exatamente isso, mas sempre fui responsável. Minha saída da Clínica estava sendo repentina, mas não achava correto prejudicar outras pessoas com os meus problemas pessoais. — Vamos fazer o seguinte — Isa prosseguiu. — Não colocarei ninguém no seu lugar. Você será afastada do cargo por três meses, sem remuneração. Até lá, se ainda mantiver sua decisão, promoverei um fisioterapeuta do quadro de funcionários. O que acha? — Eu acho que os hormônios da gravidez te enlouqueceram — concluí — Isso é muito louco! Doutor Leonardo e doutor Estevão não concordarão. — Não se preocupe com meu pai e marido. Estou grávida! Os dois fazem todas as minhas


vontades — gargalhou lindamente. Eu a admirava demais. — Eu não sei, Isa… — Aceite, Alice. Tenho certeza que essa sua decisão está sendo tomada no calor da emoção. E outra, três meses passam rapidinho. Algo dentro de mim me dizia que eu não voltaria, mas acabei concordando, com a condição de que se ficasse muito pesada a distribuição da carga horária entre os funcionários, Isabela esqueceria essa proposta maluca e contrataria um substituto. Me despedi de Isabela e segui até meu consultório para recolher alguns pertences. Depois iria me despedir de todos os colegas de trabalho. Juntei, em uma caixa de papelão que Ana me arrumou, dois jalecos, algumas calças legging, porta-retratos, dois livros de pilates que Danilo havia comprado recentemente para mim, alguns papéis e um embrulho de um presente que comprei para dar ao Igor pelos seis meses, não de namoro oficialmente, mas seis meses desde que ficamos juntos na boate. Era um relógio esportivo. Ele tinha adorado o relógio que a Isabela havia dado ao marido alguns meses atrás, em seu aniversário. Um dia perguntei a Isa qual modelo era o relógio e comentei que queria comprar um para o Igor. Por sorte quando fui comprar, duas semanas atrás, acabara de chegar um modelo mais novo. Com novas funções. Planejara fazer uma surpresa para ele nesse fim de semana, com um jantar romântico e depois que fizéssemos amor daria o presente. Meus olhos encheram-se de lágrimas por constatar que isso jamais aconteceria. Sentia-me vazia, oca por dentro. Meu celular vibrou, aparecendo em seguida a imagem da minha mãe com um sorriso doce. Sequei as poucas lágrimas que caíram e atendi ao celular, forçando um sorriso encorajador. — Oi, mamãe. — Oi, filha. Como você está? — Estou bem. Estou na Clínica. Não precisei dizer mais nada, dona Laura já sabia da minha decisão. Ontem fui pegá-la no trabalho para jantarmos e conversamos por horas. Queria saber como ela estava depois de tudo. Havia decidido castigar Maria Sandra, tirando todas suas mordomias e exigiu que procurasse um emprego. Mamãe não se conformava por, mesmo tendo nos criado igualmente, com o mesmo amor e atenção, ver sua filha mais nova se transformar nesse ser sem coração. Culpava-se por não ter enxergado a maldade na filha. E mesmo com o coração despedaçado estava sendo imparcial com Maria Sandra. Estaria mentindo se dissesse que estava sendo fácil ficar longe dela. Não, de forma alguma. Sinto falta, mas sabia que teria que me acostumar. Não deixaria de ir visitá-la em seu apartamento, porém nesse momento preferia ficar longe para não cometer um assassinato encontrando Maria Sandra.


— Deu tudo certo por aí? — perguntou. Mamãe não opinou sobre minha decisão de sair da Clínica. Ela sempre respeitou minhas escolhas. — Sim, estou apenas recolhendo alguns pertences e já vou para a casa do Levi — expliquei, verificando a hora no monitor do notebook. — Se quiser passo aí na escola e podemos almoçar juntas. — Ah, Ali! Já tenho um compromisso. Não posso desmarcar. Desculpa — pronunciou ressentida. — Tudo bem, mamãe. Amanhã combinamos algo. Despedi-me dela quando começou a falar de Maria Sandra e suas crises, devido aos cortes que mamãe fez. Ela queria desabafar, eu a entendia perfeitamente. Não é fácil descobrir a víbora que tem dentro da própria casa. E por mais que estivesse decepcionada com a minha irmã, ela era mãe e a amava tanto quanto a mim. Porém eu era a pessoa menos indicada para ajudá-la em relação à Maria Sandra. Pediria a tia Lilian que intervisse por mim. Terminei de juntar meus pertences na caixa. Apaguei algumas imagens no notebook e enviei outras para o meu e-mail. Peguei minha bolsa e a caixa, olhando com carinho para o consultório que tinha sido meu por alguns meses. Sentiria muita falta daqui, mas me afastar era o melhor pra mim. Demorei mais do que imaginei para me despedir de todos da Clínica. Segurei por vezes as lágrimas com alguns colegas. Agradeci a Ana por toda paciência, atenção e principalmente, amizade que teve comigo. Ela tinha sido a primeira e excelente assistente que eu tive. Antes de deixar de vez a Clínica fui até a sala de tia Lilian, agradecer pela oportunidade. Graças a ela, que tive a chance de fazer parte da Clínica Estevão Alencar. E levaria lembranças e experiências inesquecíveis. Não me despedi de Luís e Gabriel. Luís não se encontrava na Clínica e Gabriel estava viajando com a minha amiga Sarah. Provavelmente chegariam hoje à noite. Uma viagem que quase foi cancelada, pois Sarah não queria me deixar sozinha, mas acabei ameaçando-a se não viajasse. Passei pela recepção me despedindo das recepcionistas. Senti naquele momento que meus colegas estavam, de fato, lamentando a minha partida, todos me olhavam com pesar, e eram gentis o tempo todo. Congelei automaticamente assim que cheguei ao estacionamento. Igor estava estacionando seu carro. Forcei meu cérebro a me obedecer fazendo com que meus pés saíssem do lugar. Caminhei a passos largos até o meu carro, abrindo a porta do passageiro e colocando a caixa dos meus pertences e minha bolsa dentro, fechando em seguida e dando a volta para o lado do motorista. Precisava sair dali o mais rápido, vê-lo traria dor e choro. Contudo, meus sentidos eram teimosos, e mesmo sem querer, visualizei Igor vindo apressadamente ao meu encontro. Abri a porta do carro, mas fui impedida de entrar. Igor me puxava pelo braço fechando a porta e me prendendo entre ele e o carro. — Alice… — proferiu meu nome com desejo e desespero ao mesmo tempo.


Seus olhos estavam fundos e cansados como se não dormisse há dias. Barba por fazer e os cabelos despenteados. Eu deveria estar feliz por vê-lo tão ruim quanto eu, no entanto, me doeu muito mais. Por que ele tinha que ter sido tão idiota? — Como você está? — perguntou tão próximo que pude sentir o seu hálito e o cheiro forte de uísque. — Péssima — disse a verdade. — Oh, Diabinha! Eu sinto tanto — passeou com dois dedos pelo meu rosto, alisando com precisão em meus lábios. — Eu sou um merda mesmo. Me perdoe por não ser bom o suficiente para você. — Igor… Por favor! Eu preciso ir — eu não suportaria ficar ali por muito tempo. Essa era uma das razões que me fizeram decidir sair da Clínica. — O que faz aqui? Luís me falou que você só voltaria amanhã. Parecia que fazia tanto tempo que estive com Luís me examinando, porém fora na manhã daquele dia horrível. Meu corpo desde então vive tão anestesiado que não me lembrei de que estive doente. — Eu vim pedir minha demissão — soltei de uma vez. Logo que atravessasse a recepção da Clínica ele saberia da minha saída. Por que não saber de uma vez, por mim? — O QUÊ? — gritou. — Não. Não. Não. Eu não posso permitir que se prejudique ainda mais por minha causa. — É o melhor, Igor. — Quem tem que sair sou eu, Alice. Não você — questionou. — Eu vim aqui justamente falar com o Leo e pedir meu afastamento. — Não precisa mais. Eu já fiz — completei. — Não, meu amor. Vamos entrar. Falaremos com a Isa ou com o Leo e resolveremos tudo. Não me faça sentir pior do que já estou — falou, mas meu coração traiçoeiro só frisou a parte que Igor pronunciou meu amor. Ele nunca tinha dito nada carinhoso além de Diabinha. Respirei fundo e busquei forças. Precisava sair dali. De perto dele. Não poderia prolongar mais essa conversa. — Eu tenho que ir — enunciei fingindo desastrosamente, não me importando com sua presença. — Alice, por favor, me escuta — suplicou — Estou viajando hoje à noite para São Paulo. Vou resolver a situação de uma casa que minha mãe pôs a venda. Devo voltar na quinta pela manhã. Na sexta, viajarei para os Estados Unidos. Ingrid começará a radioterapia na segunda-feira e eu preciso estar com ela. Até vovó Elza irá. Danilo havia comentado comigo sobre a Ingrid tratar-se fora do país. A princípio, imaginei que


Igor não aceitaria, pois ele é muito apegado a ela e certamente gostaria de estar presente em tudo. Todavia, houve tantos desastres que não conversamos mais. — Estarei aqui torcendo e orando pela Ingrid. — proferi sinceramente. — Tenho certeza que tudo dará certo. Igor não disse mais nada. Apenas ficou olhando fixamente meu rosto por alguns minutos, como se o tivesse gravando em sua memória. — Eu não dormi com a Maria Sandra — disse, passeando suas mãos pelos cabelos. — Eu sei. — Você assistiu ao vídeo que está no pen drive? — Não. Não tive ainda coragem de ver. Esse vídeo só me faria odiar ainda mais Maria Sandra. E tudo que eu queria era excluí-la da minha vida. E um vídeo em pen drive não ajudaria muito. — Veja — pediu, e para não prolongar o assunto confirmei balançando a cabeça. — Eu sei que você não quer conversar sobre nós dois. Eu te entendo. Mas quero que saiba que se tivesse só mais uma chance com você, te faria a mulher mais feliz. — Até você me encontrar conversando com um homem e deduzir que somos amantes. Sem me dar uma chance de defesa. Nenhum relacionamento dá certo se não tiver confiança e respeito — indaguei magoada, pois infelizmente era a verdade. — Não, Alice — expressou sério. — Compreendo que não acredita no que falo, mas seria diferente. Esses dias sem você me fez questionar meus atos e sou culpado por todas as vezes que fui impulsivo, te acusando. Não vou mentir, está sendo uma baita merda aceitar que não a terei em minha vida. Porém, sei que toda a culpa é minha. Por que ele estava fazendo isso? Já estava sendo tão difícil desistir dele, mas saber que ele estava fazendo o mesmo era mil vezes pior. Saí dos seus braços não suportando mais ser tocada por ele. Era doloroso demais renegar alguém que se ama. Abri a porta do carro e entrei segurando firme o volante. Aquela mulher que se fingiu de forte dizendo algumas verdades em frente à casa de minha mãe dias atrás, havia sumido completamente de dentro de mim. Depois que saísse daquele estacionamento seria um dia difícil. Parecia tão errado estarmos separados. Minha cabeça girava entre o certo e errado. De deixar tudo para trás ou puxá-lo para os meus braços dizendo que o amava loucamente. Olhei para o lado vislumbrando a caixa com meus pertences. Catei o embrulho de presente e voltei meu olhar para aquele homem segurando a porta do carro, olhando para mim tão arrasado quanto eu. — Igor — chamei. Automaticamente ele agachou, deixando nossos olhares rente um do outro.


— Me promete que voltará atrás na sua decisão de sair da Clínica? — rogou esperançoso. — Estou indo para Paris — sussurrei. Seus olhos arregalaram-se espantados com as minhas palavras. Deixando-o sem saber o que dizer. — Toma — entreguei-lhe o embrulho, e ficou mirando curioso para a embalagem. — Seria o presente de seis meses que nos conhecemos na boate — expliquei. — Ah! — disse sobressaltado. — Eu não tenho nada para te dar nesse momento. — Não precisa — agradeci. — Espero que goste. — Tenho certeza que gostarei — fez movimento para desembrulhar o presente, mas o impedi. — Abra quando estiver sozinho, por favor — pedi e ele concordou. — Agora… Tenho que ir. Boa viagem. Não perca a fé, Igor, tudo dará certo. — Assim espero — disse em um sorriso forçado. — Ligue para Ingrid antes de viajarmos. Tenho certeza que ela irá amar. — Ligarei sim — com certeza ligaria para ela e dona Elena, desejando que tudo desse certo. Por mais que não estivéssemos mais juntos, amava sua família. Esperei que Igor levantasse para que eu pudesse dar a partida e sair dali para chorar por tudo que deu errado entre a gente. No entanto, ao invés de levantar, Igor colocou sua mão por trás do meu pescoço e puxou-me até encostar nossas bocas. A princípio, fiquei estática sem saber o que fazer, mas quando Igor forçou sua língua implorando para entrar, me perdi em seus lábios, sucumbida como uma viciada. Ele chupou minha língua com desespero e paixão, gemendo ao sentir meu gosto. Friccionei as pernas sentindo meu sexo palpitar com um tesão avassalador. Deixei que me beijasse e o beijei em despedida. Igor soltou meus lábios, porém não se afastou, deixando o toque sensível entre nossas bocas a milímetros uma da outra. — Você… — murmurou eufórico. —… É a mulher mais importante da minha vida. Meu coração pertence a você. Beijou rapidamente meus lábios e levantou, deixando-me ali, vazia e sozinha sem seu toque. O olhei andar até a entrada da recepção da Clínica. Em nenhum momento olhou para trás, para onde eu estava. Fechei a porta do carro e liguei a ignição, dando vida ao meu carro, saindo daquele estacionamento pior do que havia chegado. E as lágrimas, para variar, sendo minhas únicas companheiras.

A semana, segundo Levi, havia passado rápido demais. Para mim, parecia que os dias se arrastavam. Eu me forçava a sair da cama a cada dia, a fazer algo que não trouxesse lembranças do Igor, mas era impossível. Volta e meia, algo ou palavras me faziam lembrar momentos que


compartilhamos juntos. Pensei muitas vezes em ligar para ele unicamente para ouvir sua voz grossa e firme chamando-me de Diabinha. Porém resistia, cheguei a ponto de pedir a meu irmão e a Danilo que escondessem o meu aparelho celular. Na quarta-feira, mamãe e Levi me acompanharam até a delegacia para prestar meu depoimento contra Valentim. Tentei conversar com Danilo sobre o assunto e o quanto isso poderia prejudicar seus negócios, porém ele não me deu ouvidos, disse que nunca me impediria de fazer o que é correto. “Valentim errou feio, e precisa pagar por seus erros… E não quero falar mais nisso! Não se preocupe com os meus trabalhos, lindinha.” - disse firme dando o assunto por encerrado. Não entendo muito bem de leis, mas pelo que compreendi o advogado que Levi contratou entrou com um pedido de medida protetiva, garantindo o afastamento do Valentim até que houvesse uma instauração do processo criminal. O que o Valentim fez foi terrível, me senti fraca e impotente. E mesmo insegura e preocupada com o que essa agressão poderia causar nos negócios do Danilo, sabia que era a coisa certa a fazer. Desconfiava que sua atitude estúpida tivesse sido por influência de uma certa víbora chamada Maria Sandra, claro que nada justificaria o Valentim ter me agredido daquela forma. Infelizmente, não tinha como provar que minha irmã também estava envolvida. Na quinta-feira à noite, Ingrid tinha feito um jantar de despedida apenas para os amigos mais chegados. Ela insistiu que eu fosse, mas expliquei que não havia a mínima condição de estar no mesmo lugar que o Igor. Esperava que um dia isso fosse revertido e quem sabe nos tornarmos bons amigos, mas só em pensar nessa possibilidade sabia que seria impossível. Tinha a sensação que jamais conseguiria amar outra pessoa tão fortemente como amava o Igor. Como Danilo e Sarah comentaram antes sobre essa despedida, liguei um dia antes para Ingrid e dona Elena convidando-as para almoçar. No início Ingrid, esperta como ela, tentou arrumar uma desculpa para que não a encontrasse, sendo forçada a ir ao seu jantar. Contudo me mantive firme e taxativa de que não iria. Então, na quarta-feira após sairmos da delegacia, mamãe e eu nos encontrarmos com Ingrid e sua mãe em um restaurante italiano. Foi um almoço de despedida agradável entre mães, filhas e amigas, requintado, com vinho, massas, risos e muita comoção. Disse a Ingrid que em breve nos veríamos, contudo, ela com toda sua segurança e persistência, informou que logo estaria visitando-a nos Estados Unidos com seu irmão ao meu lado. Sorri tristonha sabendo que nunca aconteceria tal fato. Hoje, sexta-feira, era o dia que Igor e sua família partiriam para os Estados Unidos. Não o vi mais desde o nosso encontro no estacionamento, porém Sarah como num passe de mágica passou a citar seu nome a cada segundo. Pelo que entendi Gabriel, Luís e Miguel estavam sempre por perto, dando apoio. Ela também comentou que Igor a princípio ficaria apenas uma semana para ver como a Ingrid estaria reagindo à radioterapia. Mas ontem à noite ela havia me ligado e durante a conversa, divagou que teria ouvido Gabriel ao telefone com Fernando dizendo que Igor ficaria durante todo o tratamento. Fiquei acordada a noite toda analisando o quanto nossas vidas estavam tomando caminhos totalmente diferentes e de uma forma muito rápida. Igor indo para os Estados Unidos e eu para a França. Milhares de quilômetros nos separando. Talvez fosse melhor assim.


— Que horas você vai para casa da sua mãe? — Levi perguntou enquanto partia uma fatia de bolo. — Umas cinco ou seis horas da tarde — respondi, sentando à mesa e enchendo uma caneca de café. Desde que passei a ficar na casa do Levi, ele sempre acordava cedinho ia até a confeitaria para preparar tudo e depois retornava trazendo croissants quentinhos para tomarmos café juntos. — Se você quiser não precisa ir até lá. Danilo e eu podemos pegar o restante das suas coisas. Havia combinado com mamãe de pegar o restante de minhas coisas em meu antigo quarto. Ela sabia que estava evitando encontrar-me com Maria Sandra, por isso marcou esse horário, pois a víbora chegaria mais tarde do que de costume, já que era uma sexta-feira. — Não precisa. Que dizer, vou precisar de ajuda sim, mas não deixarei de frequentar a casa de mamãe — afirmei. Claro que se pudesse evitar o faria, mas não queria que mamãe visse seu cantinho como um empecilho. — Tem certeza? — insistiu e eu confirmei tranquilizando-o. Levi estava sendo mais que um irmão. Ele em nenhum momento criticou ou xingou-me. Apenas tinha me acolhido e vinha cuidando de mim. — Por volta das 17h30 chego com a caminhonete. — Ótimo! Foi o horário que combinei com o Dan e a Sarah — meus amigos me ajudariam na minha pequena mudança. Terminamos de tomar o café da manhã. Limpamos os dois a cozinha rapidamente. Levi sempre conversando comigo. Ele sabia que logo mais à noite Igor viajaria. E querendo ou não isso estava me martirizando. — Que ir para a confeitaria comigo? — perguntou, se preparando para sair. — Não. Vou aproveitar e pesquisar uns cursos que achei em Paris. — Já sabe quando vai? — Espero que semana que vem. Papai está eufórico, me liga a cada cinco minutos fazendo planos. Rimos os dois, pois sabíamos o quanto nosso pai amava a nossa companhia. — Você já sabe se poderá tirar umas minis-férias e ir para lá? — cogitei. Desde que meu irmão soube que iria para a França, ele ficou interessado em tirar uns dias de folga para ir visitar papai e juntos passearmos. — Sim. Estou vendo isso. Levi beijou a minha testa se despedindo. Fiquei de bobeira a manhã inteira navegando na internet. Achei cursos de especializações


ótimos para fazer na França. Anotei todos os endereços. Tomei banho, vesti um jeans surrado, uma camisa soltinha branca, calcei uma sapatilha, juntei umas contas e coloquei dentro da bolsa. Pararia em qualquer lugar e comeria alguma coisa, depois passaria no banco para efetuar alguns pagamentos e depois seguiria para o colégio para buscar mamãe e irmos para sua casa. Não a tinha visto desde nosso almoço com Ingrid e dona Elena na quarta-feira. Ontem a convidei para irmos ao cinema, mas me surpreendi quando falou que já tinha um compromisso. Na hora, achei que seria com tia Lilian, porém disse que não. O que me deixou curiosa. Será que mamãe estava saindo com alguém? Precisaria descobrir. Almocei em um restaurante vegetariano pequeno, muito delicioso. Segui para o banco. Estacionei o carro ao lado de um sedan preto. Havia dois caras muito bem vestidos com belos paletós conversando encostados ao carro. Ambos pararam e me olharam fixamente, deixando-me enrubescida. Percebi que um deles sacou o celular do bolso e disse algo que não entendi à pessoa do outro lado da linha. Segui indo para a entrada do banco. Efetuei os pagamentos. Encontrei com um amigo da época da faculdade, havíamos estudado juntos, ficamos conversando por alguns minutos enquanto ele esperava sua noiva. Meu telefone tocou e vi que era mamãe. Despedi-me do meu amigo e atendi o celular, saindo do banco indo para o meu carro. — Oi, mamãe. — Está onde, Ali? — Estou saindo do banco e indo te buscar. — Maravilha! Hoje é semana de prova e praticamente a escola já está vazia. Você não precisará esperar. — Não tem problema, mãe — disse sorrindo, sentido saudades do seu jeito carinhoso de se expressar. — Agora que são 15h30. Levi só chegará com a caminhonete no final do dia. — Eu sei. Mas odeio fazer as pessoas esperarem. Me despedi dizendo que precisava dirigir. Percebi o sedan preto ainda estacionado ao lado do meu carro, mas os homens bem vestidos já não estavam lá fora. Destravei o alarme do carro, entrei, mas antes de dar partida no carro, um pânico tomou todo o meu corpo ao ver os dois caras sentados no banco de trás do meu carro. Como os vidros eram fumês não notei a presença deles. — Como vai, gostosinha? — um dos caras aproximou-se murmurando com um sotaque carregado, colocando uma pistola em minha cabeça. — Sem gritar, eu quero que coloque a chave na ignição e vá para o outro banco — com certeza, ele não era brasileiro. Com o corpo entorpecido, fiz o que ele pediu e passei com dificuldades para outro lado. O outro cara saiu do carro e entrou do lado do motorista. Deu a partida e seguiu saindo do estacionamento do banco. — Tu...Tud...Tudo que precisam tem na bolsa — disse no suplício, gaguejando, imaginando que seria um sequestro relâmpago.


— Não queremos sua bolsa, gostosinha — o cara de sotaque proferiu, alisando o cano da pistola pelo meu rosto e pescoço — iremos dar um passeio. Há alguém que deseja conhecê-la. Mas quem sabe poderemos nos divertir bastante depois, hein? Ele me agarrou, colocando um pano cheio de clorofórmio em meu rosto, fazendo meu corpo enfraquecer e perder os sentidos. Lembro que nesses poucos segundos roguei a Deus que me permitisse voltar a ver minha família novamente. Desmaiei vendo o rosto do Igor. Acordei com a cabeça rodando. Ainda grogue tentei me mexer, mas me desesperei ao constatar que estava amarrada em uma cadeira. Era um lugar escuro, fétido. Parecia ser distante da cidade, pois não se escutava barulho de trânsito ou outra zoada qualquer. Fiz forças para soltar meus braços, sendo em vão. Escutei um barulho de passos que aumentava, anunciando que se aproximava. Uma luz incandescente acendeu em cima de mim deixando-me cega. — Alice Marie Ventura Schneider — uma voz grossa e assustadora soou meu nome. Essa voz também tinha sotaque, mas reconheci perfeitamente. Era o mesmo sotaque que Levi e meu pai tinham falando português. — Qu... Quem é você? O... que quer de mim? — Primeiro. Deixe-me que eu me apresente — pronunciou em um excelente francês. — Sou Jérôme Benoit. E você é a irmã de uma ladrazinha. Ali, eu tive certeza que não sairia viva. Lembrei-me do e-mail de Abigail. Do quanto ela tinha dito que Jérôme Benoit era vingativo e perigoso. — Eu posso encontrar uma maneira de saldar a dívida da minha irmã — supliquei em desespero, meu rosto já banhado por lágrimas, a desesperança tomando conta de mim. — Não quero dinheiro algum. Apenas mostrarei a vadia da sua irmã que não se tenta enganar Jérôme Benoit. Eu sei tudo. Cada passo de quem eu quero saber. Sei tudo da sua família. Sua mãe, pai, irmão. Até do seu namorado médico. Isso eu não duvidava. Eu precisava tentar intervir para me salvar. Não fazia ideia que horas seriam. Minha família e meus amigos certamente já davam por minha falta. — Olha. Eu po... — Tais-toi! — gritou alto me mandando calar a boca. — Jérôme Benoit não faz acordo. Se vinga. Por favor Deus! Nãaaao! — Eu poderia ganhar um bom dinheiro vendendo você para algum sheik — alisou meu rosto descendo pelo meu corpo e apertando fortemente um dos meus seios. Esperei que dissesse algo, mas ao invés disso fui surpreendida com um soco, que me levou ao chão presa a cadeira. Começou a chutar-me sem piedade, ao mesmo tempo em que gritava repetidas


vezes “Vengeance”. Pequenas brechas de luz passavam pelos meus olhos a cada chute e soco. Não resistindo mais a dor, fui desfalecendo até perder totalmente a consciência, entregando-me a escuridão. Eu apaguei.


Capítulo 30 Remoendo erros

Igor Soltar Alice e deixá-la sozinha no estacionamento da Clínica tinha sido insuportável, era visível o quanto eu a tinha magoado e decepcionado. Meu coração se rasgava por dentro, mas sabia que merecia, e muito, sentir cada dor por fazê-la sofrer, por destruir algo puro e vivo entre nós. Não olhei para trás para vê-la partir saindo do estacionamento enquanto eu seguia para a recepção, seria muita tortura visualizar mais uma vez seus olhos tristes. Apenas apertei fortemente o embrulho de presente que Alice havia me entregado para suprimir o desejo de correr de volta para ela e ajoelharme implorando seu perdão, seria o mínimo que ela merecia. No entanto, sabia que ela precisava de um tempo. De seu tempo. Suas palavras em frente ao apartamento da sua mãe me deixaram desnorteado. Alice estava certa, minha atitude tinha sido infantil e machista. Não a deixei se explicar, apenas enxerguei o que os meus olhos quiseram ver e a julguei. Pior ainda, foi descobrir mais tarde, pelo Gabriel, a confusão que houvera entre ela e sua irmã. Tudo por minha culpa. Por ser um fraco. Depois disso, passei os últimos dias vigiando o prédio onde seu irmão morava, na esperança de ter notícias suas ou pelo menos vê-la de longe. Segundo Sarah, Alice tinha se mudado temporariamente para a casa do irmão. Eu sabia que ele tomaria conta dela e a protegeria até de mim, porém parecia tão errado Alice estar lá, na casa dele. Era comigo que a minha Diabinha deveria estar. Eu quem deveria protegê-la, mas nesse momento era eu o responsável por todo seu sofrimento. Passei rapidamente pela recepção, cumprimentei Pamela com um aceno de cabeça e me dirigi direto para a administração. Exigiria à Isabela que voltasse atrás com a saída de Alice. Ela não merecia perder o emprego que tanto amava por minha culpa. Bati na porta uma vez e abri em seguida sem esperar que alguém autorizasse a minha entrada. Isabela e Lilian estavam sentadas uma de frente para a outra, analisando alguns documentos sobre a mesa. — Bom dia, Isa. Lilian — cumprimentei as duas. Lilian me fuzilou com raiva. Eu a compreendia perfeitamente. Eu tinha magoado sua sobrinha. — Isa, tem um minuto? Por favor. — Sim, claro — disse docemente.


Entrei e fechei a porta caminhando até estar em frente à Isabela. — O que deseja, Igor? — Isabela perguntou, mas pelo seu olhar ela já imaginava o que seria. — Eu vim pedir para você reconsiderar a saída de Alice. E solicitar que ela volte para a Clínica. Imediatamente. Escutei Lilian resmungando baixo. Isa a olhou pedindo calma com o olhar, porém foi em vão. — Me Desculpa, Isa. Mas não dá — Lilian vociferou levantando-se. — Nesse momento, é impossível deixar o lado pessoal de lado, quando eu só quero estrangular esse cretino — voltou a me fuzilar com ódio. — Volto assim que essa reunião terminar. Com licença. Isabela e eu esperamos até que Lilian se retirasse para voltarmos a nos falar. — Me Desculpa por isso, Isa — falei com sinceridade. Admirava a Lilian e me sentia péssimo por estarmos passando por essa situação. — Alice é a sobrinha dela, Igor. Espero que compreenda que Lilian não está nem um pouco feliz que ela tenha pedido demissão — ela explicou. — Compreendo perfeitamente — disse francamente. O telefone tocou e Isa pediu que sentasse enquanto ela atendia à chamada. Esperei pacientemente admirando a mulher na minha frente. Houve um tempo em que me senti atraído por ela. É tão engraçado como a vida muda completamente. Hoje a tenho como uma irmã-amiga. — Então, Igor… Infelizmente eu fiz de tudo para que Alice desistisse dessa ideia de deixar a Clínica. Mas foi em vão. Ela estava irredutível — Isa pronunciou quando encerrou a ligação. — Insistisse mais — disse exasperado. — Eu não quero que ela saia prejudicada. Por favor, Isa. Liga para ela e tente convencê-la. — Ela não quer ficar no mesmo lugar em que você está. Sinto muito, Igor — Isa completou envergonhada. — É por isso que estou aqui — olhei minha amiga, sério. — Alice volta e eu saio da Clínica. Isabela arregalou os olhos surpresa. Levantando-se depressa. — Está maluco? — gritou. — Eu não vou aceitar sua demissão. Você é um dos nossos melhores médicos. Sem chances, Igor! — Eu como seu obstetra e amigo, aconselho que nunca mais se levante impulsivamente. Não faz bem para os bebês — rebati sério, mas para acalmá-la. — Estão vendo meus amores o que o seu tio Igor fez com a mamãe? — ela falou alisando e admirando sua barriga arredondada. Trazendo-me um sorriso aos lábios. Isabela estava ainda mais radiante grávida. Leonardo era um filho da puta de um sortudo. — Isa, eu sou completamente louco por aquela mulher. Eu farei qualquer coisa que estiver ao meu alcance para que Alice fique bem — aproximei de Isabela, pegando suas mãos enquanto


pronunciava cada palavra. — E se eu saindo da Clínica amenizará um pouco a dor que eu causei, assim eu farei. — Você a ama — afirmou com um brilho de admiração nos olhos. — Loucamente — confirmei. — Mas eu a perdi… Perdi a única mulher que domou meu coração — finalizei lembrando a realidade. Eu não tinha mais minha Diabinha comigo. — Não. Ela te ama. Dê um tempo. Foram tantas coisas acontecendo de uma só vez. A cabeça dela deve estar a mil por hora. Acredite, ela vai voltar — Isa proferiu esperançosa. — Como você pode ter tanta certeza? — Não sei explicar, eu só tenho certeza — ela me abraçou carinhosamente, me passando esperança e pedindo que eu não desistisse de Alice, que tudo voltaria ao seu lugar no seu tempo. Isabela me explicou a proposta que tinha feito a Alice, sobre os três meses de afastamento para pensar se realmente deixaria a Clínica definitivamente. O que amenizou um pouco meu remorso. Convenceu-me também a esquecer do assunto da demissão. Disse categoricamente que eu pertencia a Clínica, o que fez cairmos na gargalhada quando brinquei que se o Leo escutasse seu comentário me chutaria a bunda até o estacionamento expulsando-me de vez do local. Por fim, conversamos sobre meu pedido de afastamento para estar com Ingrid nos primeiros dias do seu tratamento. Garanti que logo que percebesse que Ingrid estava indo bem com a radioterapia, voltaria correndo ao trabalho. Então combinamos que já era hora de tirar uma mini férias. Depois que me despedi da Isa, passei no meu consultório e fiquei durante duas horas trabalhando e organizando tudo para o médico que iria me substituir durante os dias em que estivesse afastado da Clínica. A cada minuto que passava lá, olhava o embrulho de presente que Alice me dera no estacionamento. Era uma pequena caixa quadrada embalada com um papel brilhante preto e uma fita branca que finalizava com um laço. Havia prometido que só abriria quando estivesse sozinho, mas não queria abrir aqui na Clínica. Teria que ser paciente até chegar ao meu apartamento.

Já era início da noite quando cheguei ao meu apartamento. Tinha passado na casa da minha mãe para pegar alguns documentos, que seriam necessários para fechar a venda da casa que ela havia herdado dos meus avós em São Paulo. Meu voo estava marcado para 20h45. Seria uma viagem rápida. Se tudo desse certo, amanhã pela manhã resolveria tudo com o corretor e poderia voltar para casa, no entanto decidi que retornaria apenas na quinta-feira à noite. Inventei uma desculpa para minha família que haveria uma reunião com meus amigos de infância de São Paulo. Na verdade, não seria uma mentira propriamente dita. Já tinha acertado de me encontrar com eles. Apenas me aproveitei da situação para fugir do jantar de despedida que Ingrid e mamãe tinham inventado de fazer na quinta-feira. Como eu tinha certeza que Alice não apareceria, não teria motivos para estar lá. Se eu aparecesse só causaria mal-estar entre Danilo e eu. Tomei um banho rápido e arrumei uma pequena mala com poucas peças de roupas, produtos de higiene pessoal. Troquei de roupa e verifiquei a hora em meu celular. Logo Miguel passaria aqui


para me buscar e me levar até o aeroporto. Avistei o presente em cima da mesinha de cabeceira. Peguei mais uma vez e o admirei. Alice tinha comprado como presente para comemorar seis meses que nos conhecemos, na boate, naquela festa ridícula dos anos 70. Em pensar que praticamente fui forçado pela Ingrid a ir. Um dia ainda agradeceria à minha irmã por me levar a conhecer o amor. Ali, naquela boate, Alice me marcou como dela. Definitivamente. Devagar fui abrindo o embrulho. Uma caixa sofisticada de uma marca famosa de relógio surgiu em minha frente. Abri e me surpreendi com um relógio esportivo. Um sorriso bobo surgiu em meus lábios. Há alguns meses havia comentado com Alice sobre o relógio que o Leonardo ganhara em seu aniversário. A minha Diabinha lembrou e, com certeza, pediu ajuda a Isa. Era lindo e com um design muito mais bonito que o do Leo. Procurei por algum cartão, mas não encontrei. Ajustei a hora certa e comecei a mexer como uma criança curiosa. Meus olhos se arregalaram em espanto quando, no fundo, me deparei com uma pequena frase gravada em francês. Je suis à toi pour toujours. Avec amour. A.S. Apesar de ser saber várias línguas, o francês não era uma das línguas que dominava. Peguei meu celular, busquei um site de tradução e digitei a frase. Sufoquei um grito, deixando-o preso na garganta ao ler o significado da frase. Eu sou para sempre sua. Com amor. A.S. Alice estava afirmando que era minha. Minha para sempre. Desesperado, soquei a parede várias vezes na tentativa de liberar toda aflição que aquelas palavras me causava. Certamente essa frase havia sido gravada antes que agisse feito um idiota e a perdesse. Não sei quanto tempo fiquei perdido em meus pensamentos. Despertei quando meu celular chamou e o nome do meu primo apareceu. — Alô? — pronunciei ainda inerte. — Já estou te esperando na portaria — Miguel anunciou. — Estou descendo — respondi seco, finalizando a ligação. Peguei o relógio e coloquei em meu braço, admirando-o. Levaria uma parte dela para onde eu fosse. Recolhi a caixinha e coloquei de volta na mesa de cabeceira. Peguei minha bolsa de viagem e caminhei para sala apagando as luzes e trancando a porta do meu apartamento. Em meus pensamentos a única certeza que tinha era de que precisava trazer Alice de volta para a minha vida. Para ser minha. Para sempre.

— Olha só quem está perdido na noite paulistana. Igor Salazar, o arrebatador de corações das donzelas — meu amigo Davi chegou zoando. Estava em um barzinho famoso pelo seu happy hour. —


Como você está? — perguntou me dando um abraço forte. — Estou levando — retruquei forçando um sorriso. — Cara! Sinto muito. O Marcelo me falou da Ingrid. Que merda! Não sei como estaria em seu lugar — disse sem graça. — Minha vida está meio louca. Tudo está acontecendo de uma vez. — Igor, você pode contar comigo para o que precisar — Davi falou com sinceridade. Davi, Marcelo, Eduardo e Ricardo tinham sido meus amigos de infância quando vinha para São Paulo passar férias na casa dos meus avós maternos. Mesmo com a distância, nossa amizade se solidificou e sempre que podíamos nos reencontrávamos. Tínhamos histórias incríveis. — Mas me fala de você. Como anda a agência? Seu irmão Felipe? — mudei de assunto, queria espairecer e não falar dos meus problemas. — A agência está indo muito bem. E Felipe… Aquele moleque sempre me dando dor de cabeça — resmungou. — Mas confesso que sou louco por ele. Dos quatros, era com Davi Guillen que mais me identificava. Ele era um publicitário que herdou do pai sua agência de publicidade. Assim como eu, Davi sentia a necessidade de fazer o melhor para que o pai se orgulhasse dele. Ele compreendia perfeitamente o que eu estava sentindo em relação à Ingrid. Ele sentia a mesma necessidade de proteger o irmão mais novo. A única diferença era sua mãe, uma maluca que só pensava em si própria. — E a cama do Igor? Sempre lotada? — perguntou malicioso. Essa também tinha sido outra semelhança que tínhamos. Davi era um pegador que nunca se deixou apaixonar. — Acho que o posto de pegador agora, é exclusivamente seu — forcei um sorriso. — O QUÊ? — gritou surpreso chamando atenção das pessoas sentadas ao nosso lado. — Preciso conhecer essa mulher que conseguiu fisgar o Don Juan. Com certeza, deve ser maravilhosa. — Ela é perfeita — anunciei orgulhoso. Mostrei algumas fotos que tinha de Alice em meu celular. Davi podia ser um cafajeste, mas sempre respeitou a mulher dos amigos. Assim aconteceu quando Eduardo, Du para os íntimos, caiu de amores por uma jovem secretária de sua empresa. — Já vi que em breve terei outro casamento para ir — proferiu sarcástico. Mês passado, Du tinha se casado com seu anjo, era como ele chamava sua esposa, o que me fez rir ao lembrar o apelido que dei a Alice. Acabei não comparecendo ao casamento, a revelação do tumor da Ingrid tinha me tirado o chão e esqueci completamente do evento mais importante do meu amigo. — Quem em breve vai casar? — Du chegou chamando atenção por onde passava. Eduardo Williams assumiu a presidência da empresa do pai quando o mesmo decidiu se aposentar. Vestido em um terno elegante, ele não se dava conta o quanto chamava atenção da mulherada.


— Nossa! Que milagre. Precisamos brindar essa façanha. Eduardo Williams deixou sua linda mulher em casa e veio se encontrar com seus amigos em um bar — Davi ironizou. — E você continua um idiota — Du proferiu sério. — O que me deixa tranquilo é que sua hora vai chegar e você estará preso feito um cachorrinho. Du e eu gargalhamos e Davi fechou a cara. — Não haverá mulher que me faça com que me apaixone por ela — Davi resmungou. — Nem a prima DJ da Ju? — Quem é Ju? E quem é DJ? — questionei. Du explicou que Davi tinha ficado fissurado em Melina, a DJ que tocou em seu casamento e que era prima da Ju, melhor amiga da sua esposa. — Nem a Melina. Já tivemos nossas três vezes — Davi afirmou. — Cara, você ainda faz essa regra de três? — inquiri. Davi nunca fazia sexo com a mesma mulher mais de três vezes. Acho que era uma maneira de burlar o seu coração de se apaixonar ou se livrar daquelas piriguetes mais pegajosas. Quando era mais jovem cheguei a usar a regra de três. Mas depois deixei de lado e só pensava em ter um sexo gostoso com a parceira. — Sim. Isso funciona muito bem para mim — confirmou. — Então a Melina foi só mais uma? — Du perguntou — Sim — admitiu depois de pensar por um momento. — Aquela gostosa não faz mais parte da minha vida. Du e eu nos entreolhamos. Já tínhamos visto aquele filme. Em breve teria novidades do meu amigo. Comentei sobre a venda da casa dos meus avós e que apenas faltava vender o apartamento. Graças a Deus a venda tinha dado certo. Fechei negócio com uma construtora que estava interessada no local. Poderia pegar um voo e voltar para casa. Mas decidi que só voltaria mesmo no dia seguinte. Na quinta-feira, almocei com Du e sua esposa, Carol. Fiquei boquiaberto ao descobrir que ela estava grávida. Na noite anterior depois de ter bebido além da conta passei a lamuriar, e como bons amigos que sempre foram, me escutaram. Contei tudo que tinha feito com a Alice. O quanto tinha sido estúpido e perdido a melhor mulher que já tive na vida. Mostrei o relógio que ganhei um dia antes, junto com aquela maldita frase que me atormentava desde que a li. Ela tinha que voltar a ser minha, ou eu iria enlouquecer. Senti inveja da relação de Du e Carol. Eu queria ter aquilo que eles estavam vivendo. Era visível o quanto meu amigo estava feliz. Eu não podia desistir da minha mulher. Eu precisava lutar por ela. Logo que voltasse dos EUA, iria à França se fosse necessário, mas batalharia para reaver o amor da minha vida. Mostraria a ela que poderia confiar em mim. Que eu nunca mais duvidaria de sua índole. Queria casar e ter filhos com a minha Diabinha.


Cheguei em casa por volta das 23h da quinta-feira, não liguei para Miguel para que fosse me pegar no aeroporto. Não estava a fim de companhia, mesmo que essa companhia fosse meu primo. Tomei um banho rápido, coloquei uma cueca boxer e me deitei. Peguei o celular e admirei a foto que tinha colocado como papel de parede. Era uma imagem minha e de Alice deitados na rede na varanda da fazenda. Ela mesma tinha pegado meu celular e feito uma selfie. Eu estava beijando seu pescoço enquanto ela olhava para a câmera com aqueles olhos enfeitiçadores e o sorriso mais lindo e genuíno do mundo. Fechei os olhos e adormeci desejando voltar no tempo. O alarme soou por volta das 7h30. Levantei, arrumei novamente minha mala de viagem, mas dessa vez acrescentando mais peças de roupas. Se tudo desse certo com o início da radioterapia de Ingrid, em menos de uma semana estaria de volta. E ficaria indo vê-la mensalmente. Peguei meu passaporte e juntei com os outros documentos. Tranquei meu apartamento e desci para a garagem. O nosso voo estava marcado para 22h30, mas como ainda tinha que ir pegar vovó Elza na fazenda resolvi ser precavido e já levar minha bagagem para casa da minha mãe. Como não tinha cabeça para estar na despedida da Ingrid, decidi que tomaria café da manhã com ela. Passava das nove horas quando cheguei ao prédio em que minha mãe vivia com Ingrid. Certamente aquela pestinha ainda estaria dormindo. Estacionei meu carro em uma das vagas que mamãe tinha direito. Ao chegar à sala um silêncio dominou o ambiente. Em cima da mesa de canto havia um recado de minha mãe avisando que tinha ido à manicure. Segui pelo corredor e abri um sorriso malicioso. Vagarosamente abri a porta do quarto da Ingrid e a avistei toda enrolada ainda dormindo. Segui de mansinho até ela segurando o riso. Quando ela era criança sempre pulava em cima dela assustando-a. A pestinha fingia que odiava, mas sempre se vingava em grande estilo toda feliz. Bons tempos aqueles. Pulei sem fazer impulso para não machucá-la. — Acorda, preguiçosa! Seu Gô veio tomar café da manhã com você, estou aqui implorando seu perdão pela minha falta ontem — puxei o cobertor de sua cabeça, mas automaticamente fiquei estático sem acreditar em que meus olhos enxergavam. — Que porra é essa? — esbravejei saindo de cima daquele filho da puta. — Você está transando com a minha irmã? — Igor! Calma, cara — Danilo se sentava na cama, puxando a coberta para cobrir sua nudez. — Puta merda! Você finge que é gay para pegar as amiguinhas — vociferei andando de um lado para outro, mas parei quando um pensamento surgiu em meus pensamentos. — Pelo amor de Deus! Não me diga que você já dormiu com a minha mulher? — O quê? Não! Não! — Danilo negou. — Alice é como uma irmã para mim. — E minha irmã é o que para você? — cerrei os punhos para não socar a cara do filho da puta enganador.


— Gô! O que faz aqui no meu quarto? — Ingrid surgiu na porta com uma camisola minúscula. Olhei para minha irmã que estava tão envergonhada quanto eu. — Vim te fazer uma surpresa, mas pelo visto eu que fui surpreendido — disse com dureza. — Há quanto tempo isso vem acontecendo? A mamãe sabe disso? Sentia-me enganado. Será que todos sabiam menos eu? Será que Alice sabia? Não, ela não esconderia essa história de mim. — Gô, não é nada disso que você está pensando — ela entrou no quarto indo até o Danilo. — E o que é então, Ingrid? Eu encontro um cara nu deitado na cama da minha irmã. Um cara que até cinco minutos atrás se dizia homossexual, mas que trepa com você. — Não fala assim com ela — Danilo bradou, passando por Ingrid e avançando para cima de mim apenas com uma cueca que tinha acabado de vestir. — Não fale nada o que você não sabe. Foi por essas atitudes estúpidas que você perdeu a Alice. Fechei os olhos e respirei fundo antes de abri-los. De certa forma Danilo estava certo. Precisava controlar meus impulsivos. — Então me explique, Danilo. Desde quando você anda dormindo com a minha irmã? — Isso não é da sua conta, Igor — Ingrid falou me fuzilando com o olhar. — Dan, você não precisa dizer nada. Isso é algo entre você e eu. — Eu sei, minha linda. Mas por respeito a sua família falarei — Danilo pronunciou beijando carinhosamente sua testa. — Igor, por favor, poderia me esperar na sala enquanto me visto? Sem dizer nada, saí do quarto e voltei para sala. Assim que sentei, a porta de entrada se abriu e Miguel entrou com cara de poucos amigos. — Você sabia que o Danilo estava dormindo com a Ingrid? — acusei, lembrando-me do dia em que me questionou o que eu achava do Danilo. — Bom dia para você também, primo — passou por mim entrando na cozinha. Fui atrás dele e fiquei em silêncio observando enquanto pegava uma caneca e enchia com café. — Não vai me dizer nada? — indaguei. — Não estou a fim de conversar. A única coisa que preciso é me deitar e acordar na hora de irmos para o aeroporto — respondeu sem ao menos olhar para mim. Era a primeira vez que via Miguel agindo estranhamente. — Está tudo bem? — Não. Mas logo ficará — indagou, saindo da cozinha, seguindo para o meu antigo quarto e se trancando. Pensei em ir até ele novamente e forçá-lo a dizer algo, no entanto desisti. Daria o tempo que ele precisava. Na hora certa ele conversaria comigo e me diria o que a mulher misteriosa tinha feito


para deixá-lo dessa maneira. Porque com certeza foi ela quem provocou tal reação. Retornei para a cozinha e preparei um sanduíche, enquanto aguardava Danilo. Não demorou muito e tanto ele como Ingrid surgiram vestidos adequadamente na cozinha. — Sentem-se e tomem café — falei friamente mastigando meu sanduíche. Danilo sentou à minha frente e me encarou. — Eu amo a sua irmã — soltou de repente. — Nós transamos ontem sim, mas foi a primeira e última vez que isso aconteceu. Amassei o sanduíche com força. O que ele queria dizer com isso? — Só peço que me escute antes de julgar a mim e a Ingrid — pediu. — Eu nunca tinha estado com uma mulher. Ela… — Olhou para Ingrid com carinho. —… Foi a primeira garota que me chamou a atenção. Nunca fui atraído por mulher alguma. Nem pela Sarah e Alice que são mulheres espetaculares. Eu as amo como minhas irmãs. Mas com Ingrid foi diferente. Tudo nela me trazia sentimentos que nunca senti. Nos aproximamos e adoramos estar na companhia um do outro. Sua irmã é divertida e incrível. Fiquei encantando pelo jeito dela. Olhei para Ingrid que sorria lindamente para o amigo, ou ficante, sei lá o que eles eram. — Ontem após o jantar decidimos ir para uma boate e nos divertir. Apesar de ser forte, ela está com medo do que vem pela frente com o tratamento. Então eu quis proporcionar uma noite em que ela pudesse esquecer tudo por algumas horas, sua ansiedade principalmente — Danilo tomou um gole do café que Ingrid havia colocado para ele. — Tudo aconteceu sem esperarmos. Estávamos dançando e quando percebemos estávamos nos beijando, excitados… E aconteceu. — Deixa ver se eu entendi — mexi na cadeira buscando uma posição. — Minha irmã foi a primeira mulher que você se sentiu atraído e pelo visto foi a primeira mulher que você levou para cama? — Na verdade fui eu que o levei para cama — Ingrid indagou. — Eu o provoquei. Estava querendo fazer sexo. O Danilo estava ali. E quis desafiá-lo... E consegui — completou com um sorriso orgulhoso. — Quer dizer que alguns beijos calorosos e uns amassos na pista de dança levaram vocês para cama? — senti-me idiota fazendo essa pergunta. Eu mesmo já tinha feito isso várias vezes. — Não foram só beijos e abraços — ela respondeu maliciosa olhando para Danilo que estava vermelho da cor de um pimentão. — Pelo amor de Deus, Ingrid! Me respeite — levantei rapidamente. — Eu não preciso saber os detalhes. — O que é, Gô? Vai me dizer que uma mulher nunca te levou a loucura com um boquete a ponto de você pegá-la e possuir seu corpo ferozmente? — Ingrid! — Danilo gritou chocado. — Eu não quero ouvir isso — tapei os ouvidos saindo da cozinha. — Nossa conversa ainda


não terminou, Danilo — avisei. — Vou para a fazenda pegar a vovó. Saí do apartamento entalado com o sanduíche na garganta por culpa de Ingrid. Quando é que essa menina criará juízo? Meu Deus!


Capítulo 31 Momentos de tormenta

Igor — Vó, ainda vai demorar muito para irmos? Não quero chegar no final da tarde na cidade e pegar um congestionamento — cheguei à fazenda ainda de manhã para buscar minha avó, dona Elza, viajaríamos logo mais à noite para o EUA. Porém, como esperado, ela estava resolvendo os últimos detalhes para deixar toda a fazenda em ordem. — Não me apresse, Igor! — resmungou séria. — Estou quase finalizando a lista de materiais que Raul precisará comprar enquanto eu estiver fora. Quando cheguei à fazenda achei que não demoraríamos muito, já que vovó Elza foi logo pedindo a um dos trabalhadores da fazenda para guardar sua bagagem no porta-malas do meu carro. No entanto, quando subia a escadaria para entrar na casa encontrei com o contador da fazenda saindo. Naquele minuto soube que minha ida para buscá-la não seria tão rápida. E de fato não foi. Era dia de pagamento dos funcionários. Fato que levou a manhã inteira para separar salário por salário e colocar em envelopes com o nome e contracheque de cada trabalhador. Era um trabalho que rendia tempo e atenção, já que para dona Elza fazer pagamentos salariais através de conta-salário de bancos estava fora de cogitação. Saí do escritório do meu avô, onde vovó Elza ficou com Zica e Raul finalizando as últimas pendências para poder viajar tranquilamente. Em parte eu a entendia, ela não fazia ideia quanto tempo ficaria fora. A fazenda era seu bem precioso. E eu sabia que vovó Elza só retornaria para casa quando tivesse a certeza que Ingrid estaria curada. A fazenda podia ser seu bem mais precioso, porém seus netos eram sua vida. E isso ninguém poderia negar. Deitei-me em uma das redes da varanda. O dia estava ensolarado e muito quente para início de tarde. Olhei para a pedra do Sabiá e imediatamente meu pai surgiu em minha memória. Era incrível como nunca tinha esquecido o formato do seu rosto. Pensei em subir até o alto da pedra e meditar, pedindo respostas e discernimento para saber lidar com os acontecimentos. Estava com medo de que o tratamento da Ingrid desse errado. Mesmo eu sabendo que Miguel tomaria todas as rédeas da questão caso eu caísse, contudo precisaria ser forte por minha mãe, minha avó e, principalmente, por minha irmã.


— Igor... Igor, meu filho — A voz de Zica me despertou. Estava desorientado, sem noção do tempo. Fiquei tão inerte em meus pensamentos que acabei adormecendo. — Dona Elza pediu que o acordasse para comer algo antes de partirem. — Que horas são? — perguntei ainda zonzo, mas depois lembrei que usava o relógio que Alice havia me dado. — São três da tarde, meu querido — Zica respondeu docemente, confirmando a hora exatamente como o meu relógio mostrava. Eu devia estar muito cansado para dormir tão profundamente, e duas horas exatas. — Vou só jogar uma água no rosto e vou para a cozinha — avisei, levantando-me da rede. Zica deu um aceno concordando e saiu. Caminhei até o banheiro social, lavei o rosto, e fui logo pegando a toalha e me secando automaticamente. Peguei meu celular e verifiquei se tinha chamadas perdidas e mensagens de texto. Tinha, mas nenhuma de quem realmente eu queria. Rapidamente respondi dois e-mails que Pamela havia me enviado, uma mensagem do Luís que perguntava que horas seria meu voo e uma ligação de minha mãe querendo saber se ainda estávamos na fazenda. Saí do banheiro e segui para cozinha encontrando com Zica e com vovó Elza que estava linda e elegante pronta para viajar. — Nossa! Como minha vozinha está linda — disse ao entrar na cozinha, me aproximando dela e beijando seu rosto. — Acho que Miguel e eu não sairemos de perto da senhora quando chegarmos ao EUA, dona Elza. — Por que Igor? — Zica perguntou sorridente trazendo uma jarra de suco de acerola até a mesa. Funguei no pescoço de vovó fazendo cócegas. Ela deu um tapa em meu braço para que parasse. Miguel e eu sempre fazíamos isso. Meu pai tinha nos ensinado. Dizia que era o ponto fraco de dona Elza quando queria alguma coisa. — Gata desse jeito os americanos vão ficar loucos — brinquei — Quem sabe até arruma um segundo casamento? — Igor! — esbravejou vovó Elza, tentando ficar séria, mas quase sorrindo. — Seu avô lhe daria uma coça se o ouvisse dizendo isso. Já pensou ,Zica. Eu, na minha idade casando novamente? — E com direito a lua de mel — completei rindo, recebendo outro tapa de leve, agora na mão. — Aposto que os ossos do doutor Dante estão se revirando nesse exato momento no túmulo só em pensar na senhora casada com outro homem — Zica disse. — Cuidado, Igor! Para seu avô não vir te assombrar à noite. — Que nada, Zica. Se vovô aparecesse pediria uns conselhos. Mais galanteador do que ele, o mundo nunca teve — indaguei lembrando o quanto vovô Dante dizia que uma mulher tem que se conquistar todos os dias, principalmente sendo a mulher amada.


Esse pensamento lembrou a minha Diabinha. Eu havia falhado com ela. Pior. Eu a havia decepcionado. Nunca precisei tanto, como agora, ouvir os conselhos do meu avô e do meu pai. — Seu avô se tornou um galanteador graças aos encantos de sua avó — Zica rebateu. Vovô Dante antes de cair de amores por minha avó, não passava de um boêmio que conhecia os cabarés de toda a região. — Isso é verdade, Zica — peguei a mão de vovó confortando-a enquanto falava. Ela amava quando falávamos do quanto o seu marido a venerava. — Uma mulher deslumbrante como a minha avó, quem não cairia de amor? — Obrigada, meu querido — Vovó Elza beijou minha mão. — Você não tem noção do quanto é parecido com seu avô. Seu pai, seu tio e até seu primo, mesmo sendo homens incríveis, nenhum deles é tão semelhante ao meu Dante quanto você. — Quisera eu ter as mesmas qualidades que o vovô tinha — disse tristonho. — Não diga isso, meu amor. Você é um homem maravilhoso. Aonde quer que seu avô e pai estejam, estão muito orgulhosos. — Menos Alice — suspirei tomando um gole do suco que Zica tinha colocado pra mim. — Eu a perdi. — Coma, meu amor — vovó pediu com um sorriso e um olhar genuíno. Daqueles que expressam dizendo que tudo ficará bem. Comemos em silêncio. Depois Zica e Raul nos acompanharam até o carro. — São três e meia da tarde, Dr. Igor — Raul proferiu enquanto colocava a cadeira de rodas de vovó no porta-malas. — Se a estrada estiver tranquila, vocês chegarão à cidade antes de escurecer. — Tomara, Raul. Tomara — falei caminhando até o lado do motorista, mas parei subitamente, sentindo um calafrio percorrer por todo o meu corpo. Deixando-me tenso e com uma sensação estranha. Ruim, na verdade. — Está tudo bem, Igor? — Zica perguntou, olhando-me preocupada. — Você está branco como um fantasma. — O que foi, Igor? — Vovó Elza indagou também preocupada de dentro do carro. — Não sei. Senti um calafrio. Uma sensação estranha, de que algo muito ruim estivesse para acontecer. — Suas mãos estão geladas, filho — Zica questionou. — Não é melhor o Raul levar vocês? Vai que você passa mal na estrada. — Estou bem para dirigir — a tranquilizei. —Logo vai passar.


— Sei não, doutor. Já vi muita gente sentir essas sensações estranhas — Raul pronunciou sério. — Isso tá parecendo um mau presságio. Um aviso de que irá acontecer algo. — Cruz credo, Raul — Zica protestou. — Vira essa boca pra lá. Não vai acontecer nada de ruim. — E se for um aviso de acidente de avião? — ele continuou falando. — Já vi reportagens de pessoas que sentiram sensações estranhas minutos antes de embarcar em um avião. E boom! O avião caiu. — Deus me livre e guarde de uma coisa dessas, Raul — Zica bateu no ombro dele se queixando. — Vou rezar fervorosamente para que nada aconteça. — Raul! Pare de assustar a Zica. Não vai acontecer nada com o avião — Vovó esbravejou. — Desculpe, dona Elza — Raul disse sem graça. — Pois bem. Cuide da minha fazenda. Estou contando com os dois para que tudo fique bem até a minha volta — Vovó continuou falando, e os dois acenaram com a cabeça. — Entre, Igor. Vamos embora. Dei um abraço e beijo em Zica e apertei a mão de Raul em despedida, entrando no carro em seguida. Movi a chave na ignição dando vida ao automóvel guiando para a estrada de barro seguindo o caminho da porteira de acesso à fazenda. — Está tudo bem mesmo, Igor? — vovó inquiriu assim que passamos pela porteira pegando a estrada asfaltada. — Sim — apenas disse. Mesmo atento na estrada senti os seus olhos me analisando. — Certeza? Não queria olhá-la. Ela saberia que não, e a última coisa que eu queria era preocupá-la. Principalmente com algo que nem eu mesmo sabia o que era. Mau presságio ou não, só sei que era um sentimento diferente que deixou meu corpo frio e temeroso. — Logo estaremos com a Ingrid — forcei um sorriso, tendo a certeza de que ela não acreditou em mim.

— Todas as malas já foram despachadas. E agora é só esperar a hora para embarcarmos — Miguel disse assim que fizemos o check-in. Ele continuava de cara fechada. Então decidi que quando chegássemos a sua casa, o encurralaria e o forçaria a me dizer o que estava acontecendo. — Ainda falta uma hora. Vamos tomar um café? — mamãe sugeriu.


Caminhamos até uma cafeteria próxima ao portão de embarque. Fui empurrando a cadeira de rodas de vovó e a ajudei se acomodar quando sentamos em uma pequena mesa redonda. Fizemos nossos pedidos e enquanto aguardávamos observei a movimentação no aeroporto. Por incrível que pareça o aeroporto estava tranquilo, sem muita agitação para uma noite de sexta-feira. — Você está melhor?— Ingrid perguntou chamando minha atenção. Desde que tinha chegado da fazenda, vovó Elza comentou o que aconteceu comigo antes de sairmos de lá. Depois disso, a cada cinco minutos mamãe e Ingrid não paravam de me perguntar como estava. — Estou melhor. Obrigado por perguntar. Novamente — beijei o topo de sua cabeça. Mas a verdade era que nada tinha mudado. Pelo contrário, a sensação tinha piorado e uma dor martelava em meu peito em sinal de aviso. Estava começando a cogitar que realmente poderia ser um mau presságio como Raul dissera. — Não se preocupe tudo vai dar certo. A viagem será longa e cheia de conexões, mas tranquila. E o tratamento será um sucesso — Ingrid disse esperançosa. Eu a invejava. Ela era cheia de vida e por mais que sentisse receio ou medo, nunca deixava se abater. Sempre deixava sua coragem e força sobressair. Papai teria muito orgulho da Ingrid, assim como eu tinha. — Cadê seu novo namorado que não veio se despedir de você? — mudei de assunto. — Ele foi ajudar Alice com a mudança — disse receosa por citar o nome da Diabinha. — Ela ia pegar o restante de suas coisas na casa da mãe dela. Saber que toda essa mudança na vida de Alice em parte era por minha culpa, me fazia querer bater a minha cabeça com muita força na parede. Ela não merecia passar por isso. No entanto, por mais que admirasse dona Laura, me sentia tranquilo sabendo que Alice ficaria longe daquela cobra invejosa que é a sua irmã. Em pensar que eu quase caí na lábia dela. — Além do mais, Danilo e eu não somos um casal... — continuou minha irmã. — Então... Foi só sexo ontem? — instiguei, deixando-a ruborizada e olhando para os lados para ver se alguém tinha me escutado, mas eu sabia que não. Mamãe e vovó estavam entretidas conversando entre si, e Miguel estava em seu mundo com fones de ouvidos e um livro na mão. — Quero deixar algo bem claro, Gô — exclamou séria — Danilo e eu não somos namorados. Ainda somos muito amigos. Nada mudou em nossa amizade. Ele apenas me ajudou em um momento que precisei esquecer-me dos meus problemas. Ficou claro meu resumo? — Como uma nuvem em dias ensolarados — sorri sarcástico — Agora me tira uma curiosidade. Danilo agora gosta de mulher? — Isso importa pra você? — Não. Desde que fiquei longe da minha... Ingrid gargalhou chamando a atenção de Miguel. — Bobo. Ele tem a Alice como uma irmã. Mesmo que ele torne a ficar com outras mulheres, o


que eu acho difícil, Danilo jamais dormiria com Alice ou Sarah. — Bom saber disso — aconcheguei-a ainda mais em meus braços. — Se você acha que ele não dormirá com outras mulheres... Isso quer dizer que a noite de vocês foi... Você sabe. Sem graça? — Se gozar quatro vezes durante toda a noite é ser sem graça... Então foi — Ingrid finalizou. Quatro vezes? Arregalei os olhos. — Acho melhor mudarmos mais uma vez de assunto — sugeri. Se continuássemos, era bem capaz de Ingrid me falar de todos os detalhes da sua noite de sexo sem compromisso com o Danilo. Ficamos jogando conversa à toa, até que mamãe sugeriu que seguíssemos para o portão de embarque. Enquanto nos dirigíamos senti meu celular vibrar no bolso da minha calça jeans. Peguei o aparelho, visualizando o nome de Luís. — Fala, mano — atendi a chamada. — Igor, você já embarcou? — ele perguntou. No mesmo instante senti aquele mesmo calafrio passar mais uma vez por todo o meu corpo. Principalmente por Luís soar tão receoso. Ele sempre foi uma pessoa calma ao falar. E isso me deixou bastante atento. — Estou chegando ao portão de embarque internacional — respondi parando automaticamente. — Aconteceu alguma coisa? — Nos espere. Gabriel e eu iremos te encontrar. Já estamos dentro do aeroporto. Luís desligou me deixando apreensivo. Com certeza, algo aconteceu para os dois virem até aqui. Já tinha me despedido deles assim que cheguei da fazenda. — Vem, Igor — Ingrid me chamou quando viu que eu não andava. — Tenho que esperar Luís e Gabriel. Eles estão vindo falar comigo. — Aconteceu alguma coisa? — Miguel se pronunciou pela primeira vez durante todo o dia. Certamente estranhou também a atitude dos caras. — Vai ver eles só querem se despedir de você — mamãe proferiu. Tomara que seja. Olhei para Miguel e vovó Elza automaticamente, os dois também estavam apreensivos. — Olha eles ali! — Ingrid apontou. Virei rapidamente na direção que minha irmã apontou e ao vê-los tive a certeza que o tal mau presságio se concretizaria naquele instante. Ambos me olhavam receosos. Fui ao encontro deles, sentindo Miguel vindo logo atrás de mim. Ele me conhecia perfeitamente. — O que foi? — perguntei angustiado. Os dois se entreolharam, duvidosos para saber qual se pronunciaria primeiro.


— Igor, desculpa virmos aqui atrapalhar sua viagem. Nós sabemos o quanto é importante essa... — Sem suspense, Gabriel. Desembucha logo de uma vez — interpelei meu amigo. Odiava rodeios. — Igor, Alice sumiu desde o final da tarde — Luís se pronunciou. — Ninguém consegue falar com ela ou saber onde está. — O quê? Como assim? — perguntei exasperado, pegando meu celular e discando seu número. — O telefone dela só cai na caixa postal. Todos nós já tentamos e nada — Gabriel proferiu. Confirmando o que meu amigo disse o seu número foi direto para caixa postal. — Já tentaram a Clínica? A casa de uma amiga? As ONGS que ela trabalhou? — Tudo. Desde o início da noite estamos à procura dela e nada. Todos estão começando a ficar desesperados. Não. Não. Não, meu Deus. Não permita que nada aconteça a minha mulher. Isso seria demais pra mim. — Quando foi a última vez que falaram com ela? — Miguel questionou. Gabriel nos contou que Alice ficou de pegar a mãe na escola onde trabalhava e não apareceu. Dona Laura tinha sido a última a falar com ela por telefone. Alice estava saindo do banco no exato momento. — Foram à polícia? Precisamos pedir para ver as câmeras do banco no qual ela estava — Miguel continuou, enquanto eu estava estarrecido sem acreditar. Sem ação alguma. Minha mente pensava em procurar Alice por toda a cidade se fosse preciso. — No caso de pessoas desaparecidas a polícia só começa fazer buscas após 24h — Luís informou. — O banco, Fernando já procurou saber quem é o gerente, mas o segurança não quis informar. E também não o conhecemos. Sem ajuda da polícia, só segunda-feira. Alice não poderia ficar desaparecida por tanto tempo. Logo teríamos uma resposta para tudo isso. — E aquele seu primo investigador? Ele não pode nos ajudar? — perguntei a Luís. O primo dele era um policial civil que tinha muita influência. — Átila já está a par de tudo — informou — Já passamos tudo do que ele precisa. Como o número da placa do carro, fotos, tipo sanguíneo. Tudo. Assim que ele tiver qualquer notícia entrará em contato. Voltei meus olhos para as três mulheres que nos observavam curiosas e preocupadas. Fui em direção a elas para dizer o que estava acontecendo. Gabriel, Luís e Miguel também me acompanharam. — Está tudo bem, Gô? Você parece preocupado — minha irmã indagou quando nos


aproximamos. — Alice está desaparecida desde o final da tarde e ninguém sabe dela — respondi com o coração em mil pedaços. — Meu Deus! — mamãe disse surpresa levando a mão à boca. Meu primo e meus amigos explicaram a elas tudo o que tinha acontecido. Deixando-as ainda mais preocupadas. Elas adoram a minha Diabinha. — Ingrid... — chamei minha irmã sem jeito. — Eu entendo perfeitamente, Gô. Não precisa me olhar assim — falou me abraçando. — Jamais o forçaria a viajar comigo sabendo que a mulher que você ama está desaparecida. Eu gostaria de ficar, mas não posso mais adiar o meu tratamento. — Eu sei — a abracei ainda mais forte, beijando seu rosto. — Eu amo você, pirralha. — Eu também te amo — retrucou — Manda notícias da Alice, por favor. — Pode deixar. Fui até minha mãe e a abracei me despedindo. Ela chorou baixinho em meu peito pela Alice. Disse que rezaria por ela. — Acho que agora sabemos o que eu vinha sentindo — falei quando me aproximei da minha avó. — Sim, meu querido. E eu sinto tanto por tudo isso. — Eu estou apavorado. Não quero nem pensar se algo... — Shiii... Não pronuncie nada negativo. As palavras têm poder — Vovó Elza tocou meus lábios com os dedos interrompendo-me. — Temos que pensar que ela logo irá aparecer sã e salva. Beijei seu rosto. E pedi que cuidasse da minha mãe e Ingrid. — Miguel, você fica com seu primo — Vovó Elza proferiu. — Ele pode precisar de apoio. Eu tenho certeza que Gabriel e Luís estarão por perto para ajudá-lo. Mas eu quero que você fique com ele. Logo que Alice aparecer você pega um voo. — Mas vovó, eu preciso ir. Como vocês irão resolver as coisas sem eu estar por perto? Tenho que estar lá — Miguel questionou. — Seu amigo Dylan, com certeza, fará isso com muito prazer. Dylan Wright era médico oncologista muito amigo de Miguel. Eles trabalhavam juntos desde que meu primo se mudou para EUA. Dylan já tinha vindo ao Brasil duas vezes, era apaixonado pela fazenda e nutria um carinho especial por vovó. Até de vovó, ele também a chamava. Era um cara muito legal e engraçado. Certamente faria questão de cuidar das três, enquanto Miguel e eu estivéssemos longe. — Ligue para ele e explique tudo o que está acontecendo — vovó pediu e Miguel concordou.


— Vocês precisam reaver suas bagagens — mamãe lembrou. A última coisa que me preocupava nesse momento eram as minhas bagagens. — Leve-as com vocês. Qualquer coisa uso as roupas do Igor — Miguel avisou. — Agora vão, está na hora. Depois eu vejo como ficarão nossas passagens. Aguardamos enquanto as mulheres seguiam e passavam pelo portão de embarque. Depois fomos para o estacionamento do aeroporto até o carro de Gabriel. — Todos estão reunidos na casa da mãe de Alice esperando por notícias — Luís comunicou assim que nos acomodamos dentro do carro. — Quer ir para lá? Acenei confirmando. Gabriel ligou o carro e imediatamente saiu do estacionamento. O silêncio dentro do carro era completo. No entanto, minha cabeça não parava de martelar pensando onde Alice estaria. E se estaria bem.

O apartamento de dona Laura estava lotado de pessoas. Danilo, Sarah, Levi, Lilian com sua filha, alguns amigos de Alice que conheci durante nossa relação e muitos vizinhos. Todos se disponibilizando a ajudar de alguma maneira. Assim que entrei na sala meus olhos foram direto para Levi. Ele estava sozinho em um canto totalmente abatido, sustentando o celular nas mãos. Caminhei até ele cumprimentando algumas pessoas silenciosamente por onde passava. — Alguma notícia? — perguntei encarando-o. Ele balançou a cabeça negando. — Onde está dona Laura? — inquiri procurando por ela. — Lilian deu um calmante a ela, para ver se dormia um pouco. Ela estava muito agitada. Ficamos os dois em silêncio por alguns minutos, lado a lado, na esperança que minha Diabinha surgisse pela porta com aquele sorriso lindo. — Você desistiu de viajar com sua irmã por causa da minha irmã? — Levi perguntou. — Não podia viajar sabendo que Alice está desaparecida. — Isso implica dizer que não posso te expulsar aos socos daqui? Porque minha vontade é quebrar sua cara por fazer minha irmã sofrer. — Eu sei que mereço — rebati com sinceridade. — Você pode não acreditar, mas eu sei o quanto eu fui um imbecil. E não há um só dia em que não me arrependa. E respondendo sua pergunta. Não. Nem morto você conseguiria me tirar daqui. Não conversamos mais nada. Apenas ficamos próximo um do outro esperando e rezando que surgisse pelo menos uma pista que indicasse onde Alice poderia estar. As horas se passavam... E


nada. Por volta de 1h30 da madrugada Maria Sandra entrou na sala causando um terremoto. — O que está acontecendo? — perguntou assustada. Na certa não fazia ideia do ocorrido. — Cadê a minha mãe? Maria Sandra passeou os olhos por todos que estavam na sala, procurando por dona Laura, até seus olhos encontrarem com os meus. — Dona Laura está no quarto. Ela precisou tomar um calmante — Sarah informou. — Mas... ela está bem? — indagou temerosa. O que me surpreendeu bastante. — Sua irmã está desaparecida. Ninguém a viu, falou ou soube notícias dela desde o final da tarde — Sarah continuou. Maria Sandra voltou a me olhar e depois observou a todos. — Ela pode estar com o Valentim — disse normalmente. Perdi totalmente a paciência e marchei pisando fundo até Maria Sandra. Agarrei seu braço forçando que me olhasse fixamente. — Eu não admito que difame a sua irmã. Não se preocupar ou não gostar da Alice é um direito seu. Mas não fique aqui a ofendendo. Porque eu juro Maria Sandra, eu não respondo por mim — esbravejei apertando seu braço com força. — Me larga, seu imbecil — gritou e eu a soltei. — Eu citei o Valentim porque ele poderia querer se vingar pelo que aconteceu semana passada — esclareceu alisando o braço onde eu tinha apertado. Senti meu corpo ferver só em pensar naquele filho da puta tocando minha mulher novamente. No mesmo instante reparei Danilo se levantar e sair em disparada porta afora. Sabia que ele estava indo até a casa do Valentim conferir o que Maria Sandra acabara de dizer. Levi e eu tentamos seguilo, porém fomos barrados por Luís, Gabriel e Miguel. Eles sabiam que se por acaso Alice estivesse na casa de Valentim contra sua vontade, seu irmão e eu o mataríamos. Depois de várias discussões Gabriel se prontificou a seguir Danilo prometendo nos informar assim que estivesse lá. Depois de meia hora, Gabriel e Danilo retornaram e garantiram que Alice não estava lá, assim como o desgraçado tinha também ficado preocupado com o seu desaparecimento. — Igor? — a voz de dona Laura soou atrás de mim. Virei me deparando com uma mulher com o rosto completamente inchado de tanto chorar. Eu nunca a tinha visto naquele estado. Mas eu a compreendia. Por dentro estava igual à dona Laura. Sentia-me como uma bomba relógio, pronta para detonar. — Você não viajou? — perguntou. — Eu não poderia.


Dona Laura se jogou em meus braços abraçando-me com força. — Eu quero a minha menina aqui comigo, Igor — soluçou chorando novamente. — Ache a minha Alice, por favor. Não suporto a ideia de pensar em perdê-la. Não resisti e a abracei. Dividindo a angústia e desespero silenciosamente. — Obrigado por não ter viajado. Eu sei o quanto a Ingrid é importante para você — dona Laura pronunciou. — Alice também é muito importante para mim — afirmei. — Eu tenho certeza disso — forçou um sorriso. — Espero que sua família não tenha ficado chateada por você não ter ido com eles. — Nunca, dona Laura. Pelo contrário. Se pudessem estariam aqui conosco. A prova disso é que a vovó Elza insistiu que o Miguel ficasse também. — Miguel? — interrogou espantada. — Sim. Eu mesmo — Miguel proferiu sério juntando-se a nós. — Sinto muito por tudo, La... Dona Laura. — Ob... Obrigada por ficar — ela disse, e em seguida pediu licença caminhando em direção à cozinha. Observei a forma que meu primo a olhava enquanto se afastava. Como um estralo em minha memória, arregalei os olhos e o encarei firmemente. Miguel já sabia o que se passava em minha cabeça. — Sim. Era com ela que estava me encontrando — murmurou baixinho, para que ninguém escutasse nossa conversa. — Ela é minha sogra — resmunguei. — E não deixa de ser linda e atraente. — Depois iremos ter uma conversa séria, Miguel Salazar — avisei. Ele deu de ombros saindo de perto de mim, sentando do outro lado da sala próximo de Maria Sandra que graças a Deus se mantinha calada. Já passava das três horas da madrugada. Algumas pessoas tinham ido embora, mas prometendo voltar assim que o dia clareasse. Na sala estavam apenas os amigos e familiares. Nada de notícias tinham surgido até o momento. O primo de Luís estava tentando conseguir o contato com o gerente do banco onde Alice tinha ido, para tentar ver a gravação das câmeras. Uma batida soou na porta deixando todos em alerta. Danilo abriu e o porteiro do condomínio surgiu. — Boa noite — o senhor disse envergonhado. — Dona Maria Sandra, deixaram esse envelope jogado próximo ao portão de entrada.


— Quem deixou? — ela perguntou indo buscar. — Não sei, senhora. Acho que jogaram quando o síndico me chamou para ajudar em um vazamento, mas está endereçado à senhora. — Obrigada. O porteiro se despediu à medida que Maria Sandra retornava para onde estava sentada, abrindo um envelope pardo e puxando um pedaço de papel. — Meu Deus! Não. Não. Não — gritou em desespero tirando o que parecia ser fotografias de dentro do envelope. — Por favor! Não. — O que foi Maria Sandra? — Lilian perguntou assustada. Ela virou olhando para a tia que se aproximava. — Pegaram a Alice. Mataram a minha irmã, tia — disse quase inaudível, mas eu tinha escutado perfeitamente. — Eu juro que eu não queria que isso acontecesse. Em um pulo Levi e eu já estávamos em cima de Maria Sandra pegando tudo que estava em suas mãos. — NÃO! — um rugido soou de dentro de mim sem acreditar naquilo que via. Fotos de Alice amarrada em uma cadeira toda ensanguentada, machucada... E desacordada. Não, Deus! O mundo começou a girar. Aquilo não podia estar acontecendo. Só podia ser um pesadelo. — Tem um bilhete — Sarah disse chorando. — Está em francês. Levi, que até o momento, estava tão paralisado quanto eu ao ver aquelas fotos. Pegou o bilhete e leu. — O que diz, Levi? — alguém perguntou, mas não virei para ver quem foi. Primeiro, sua irmãzinha, a próxima, sua linda mamãe e por fim você, doce Maria Sandra. Até breve. Levi leu o bilhete em voz alta deixando todos ainda mais exaltados. — O que você fez, Maria Sandra? — dona Laura esbravejou saindo do choque em que se encontrava ao ver as fotografias. Avançou para cima da filha estapeando-a sem parar. — Por que Sandrinha? Por que você tem que ser tão maldosa? Dona Laura gritava enquanto continuava a bater em Maria Sandra que implorava chorando por desculpas e dizendo que não sabia de nada daquilo. — Laura! Se acalme — Miguel a puxou, apartando a surra que Maria Sandra levava. Eu fiquei estático, sem reação alguma. E assim continuei. — Eu quero a minha filha, Miguel — dona Laura o abraçou chorando copiosamente. — Ela


não pode morrer. — Mãe... — Maria Sandra sussurrou. — Não fale comigo — dona Laura berrou — Eu não quero olhar para sua cara tão cedo. — Vem, Maria Sandra— Lilian a pegou pela mão levando-a pelo corredor até o seu quarto. — Não fique com raiva de sua mãe. Entenda que ela está nervosa com tudo. — Eu juro, tia. Eu não tive culpa. Luís recolheu as fotos e ligou para o primo contando o que tinha acontecido. Aquilo já não era um caso de desaparecimento, e sim, sequestro, ou algo ainda pior. A polícia precisava agir, logo! Sabia que precisaria do depoimento de Maria Sandra para descobrir quem era o filho da puta que tinha levado Alice. Tomara que ela pudesse colaborar e ajudar a chegar ao maldito. Senhor, eu te imploro. Proteja a Alice. Não a leve agora. Ela ainda tem tanto para viver. Ela não merece morrer dessa forma. Ela tem que morrer quentinha e velhinha em sua cama. Ao lado das pessoas que a amam. Sentando no chão encostado na parede comecei a rezar desesperado a Deus que protegesse Alice. Lágrimas espalharam pelo meu rosto. Levi vendo minha dor foi até a mim. Ajudou-me a levantar abraçando-me fortemente. Seus olhos também estavam inchados e amedrontados como o meu. — Não podemos fraquejar, Igor — murmurou. — Eu estou com muito medo, mas eu quero Alice de volta e sei que você a quer também. Então, temos que ser fortes por ela. — Seremos — repeti firme, buscando forças e esperança para encontrá-la antes que fosse tarde demais.

Já tinha amanhecido quando Átila, primo do Luís, ligou avisando que a polícia havia encontrado o carro de Alice em uma estrada de terra a 20 km da sua casa, junto com seus pertences. Informou que a polícia faria uma busca pelo local. Miguel, Gabriel, Luís, Levi e eu nos dividimos em dois carros e uma moto e seguimos para o local na tentativa de ajudar nas buscas. Chegando lá, seu carro estava parado sem minha Diabinha por perto. Começamos a procurar por Alice ou qualquer vestígio que pudesse levar até ela. Gabriel e Luís em um carro, Miguel e eu em outro e Levi em sua moto. A princípio a polícia não aceitou nossa ajuda, mas o primo de Luís os convenceu. Ele havia percebido que nada barraria Levi e eu de procurá-la. Apenas nos alertaram para que caso achássemos algo suspeito, avisássemos a polícia e esperássemos sem agir. Nesse caso eu não prometi, fiquei calado. Só Deus sabia o que eu faria se colocasse minhas mãos no maldito que a sequestrou e a machucou. Procuramos por todos os lugares possíveis por horas, e nada. Nenhum de nós e nem a polícia


teve sorte. Um desespero tentava me dominar, mas eu não podia fraquejar enquanto não olhasse minha mulher mais uma vez. Na última ligação que troquei com Levi em busca de notícias sobre sua busca, ele me informou que acabara de falar com seu pai. Ely Schneider estava nesse momento dentro de um avião vindo para o Brasil. E Levi estava receoso quanto à sua reação. Ele tinha apenas contado ao pai que sua irmã estava desaparecida, omitindo as fotos de Alice machucada e amarrada em uma cadeira. — É melhor voltarmos para casa de Laura — Miguel disse. — Eu não posso parar de procurar por ela. É minha mulher, porra! — Eu sei cara, mas já percorremos tudo pelas redondezas e nada — Miguel tentou me tranquilizar. — Além disso, Átila nos informará de qualquer novidade. Ele conseguiu falar com o gerente do banco. O cara está com a família em um rancho, mas autorizou que outra pessoa cedesse as fitas para a polícia. Olhei para o relógio que Alice tinha me dado. Eram quase 11h da manhã e como sempre... Nada. — Você precisa comer alguma coisa — Miguel proferiu enquanto dirigia. — Não tenho fome. — Falei rapidamente com o Dylan. Ele me informou que elas chegaram bem e que não nos preocupássemos que ele resolveria tudo que precisasse. Agradeci mentalmente. Menos uma preocupação. Meu celular começou a vibrar na minha mão. Olhei rapidamente achando que era Levi ou Gabriel e Luís trazendo novidades. Era um número desconhecido que ligava. Mesmo assim atendi, pois poderia ser Átila. — Alô? — falei receoso. — Igor? — Quem é? — indaguei reconhecendo aquela voz masculina. — É Benício — respondeu. Benício era um neurocirurgião, muito amigo do Leo. Ele não trabalhava na Clínica, porém vez ou outra nos encontrávamos em reuniões de amigos ou no hospital em que realizava os partos das minhas pacientes. — Fala, Benício. Não reconheci seu número — se não me engano, eu tinha seu número em meus contatos, mas não era esse. — Não vou perguntar como está. Leonardo me contou o que aconteceu com sua namorada — provavelmente Lilian tinha comentado com Isa sobre o desaparecimento de Alice. — As coisas não andam boas — rebati sincero.


— Acabei de falar com um amigo neurologista que trocamos plantão no Hospital Universitário na Conceição. E hoje pela manhã o hospital recebeu uma mulher desacordada, muito machucada e sem identificação — pronunciou calmamente. — Ela foi encontrada, jogada próxima a uma ribanceira, por algumas crianças que jogava bola por perto. — Você acha que poderia ser Alice, Benício? — instiguei cheio de expectativa. — Não sei, Igor, estou a caminho do hospital — informou. — Vi sua namorada duas ou três vezes quando estive na Clínica. Se for ela, te avisarei de imediato. — Eu estou a caminho, Benício. Assim que chegar lá procuro por você. Agradeci pela informação e apoio e encerrei a ligação. — Precisamos ir ao HU Conceição — falei para Miguel explicando sobre a mulher sem identificação e desmaiada que chegou ao Hospital. — Mas isso fica do outro lado da cidade. É impossível que essa mulher seja Alice! — Já pensou que esse ou esses bandidos filhos da puta podem ter abandonado o carro de Alice e a levaram para um destino contrário? — Você quem manda — Miguel deu a volta saindo da estrada de terra onde estávamos seguindo ao nosso novo destino. — Eu só preciso ter certeza de quem é a mulher — esclareci. Fui rezando silenciosamente todo o trajeto. Pedindo a Deus que fosse a Alice, e implorando para que seu estado não fosse muito grave, pois nas fotos ela estava muito machucada. O que levaria em média uma hora, Miguel levou quarenta minutos. Saltei do carro correndo até a recepção ao mesmo tempo em que discava o número que Benício havia me ligado. — Igor — ele atendeu no segundo toque. — Estou aqui na recepção do hospital — disse temeroso. O medo do que veria a seguir começava a querer sair de dentro de mim. Não saberia como reagiria se não fosse a Diabinha e, se fosse como seria? — Estou indo encontrar com você. Aguardei andando nervoso de um lado para o outro. Miguel sempre atento e observando tudo. Parecia mais um segurança. Benício surgiu por entre as portas vai e vem, vindo até mim. Cumprimentei-o e apresentei-o a Miguel, informando que também era médico. — Você a viu Benício? É Alice? — interroguei aflito. — Sim, Igor. É sua namorada. Tenho certeza — afirmou. Um pequeno alívio passou por entre meu corpo relaxando um pouco. Meu amor tinha aparecido. Eu sabia onde ela estava.


— Qual é o seu estado? — É difícil o que vou lhe dizer, mas Alice foi muito espancada. E, acredito que a jogaram naquele matagal com a intenção de deixá-la para morrer. Fechei os olhos cerrando os pulsos. Eu não conseguia sequer pensar em tudo que ela passou sem desejar ardentemente socar o maldito. — Ela tem algumas lesões por todo o corpo. Três costelas foram quebradas e... — E o que Benício? Me tira essa angústia pelo amor de Deus — implorei. — Ela sofreu uma pancada forte na cabeça, o que provocou um traumatismo craniano — senti quando Miguel colocou uma mão em meu ombro. Nós sabíamos o que poderia ocorrer nesses casos. — Com a pressão intracraniana alta. Tivemos que induzi-la ao coma para diminuir as atividades cerebrais e controlar a pressão. — Ela corre risco de morte, Benício? — perguntei exaltado com tudo que ele vinha me contando. A ideia de que Alice ainda corria risco de morte me deixava muito mais apavorado. — Só posso dizer que nesse momento ela está sendo bem tratada. Eu sabia que um coma induzido poderia durar dias, como semanas e meses. Isso dependeria muito. Conforme o inchaço fosse diminuindo os médicos que estão cuidando dela iriam diminuir a medicação e esperar por sua reação. — Eu posso vê-la? — ele não seria louco de me dizer não. — Claro. — Ligue para dona Laura e Levi. E conte que a encontramos — pedi a meu primo. Segui Benício temeroso de como a encontraria. Saber que tinha sido espancada era muito doloroso, mas quando a visse machucada, não fazia ideia de como reagiria. Contudo, poderia parecer egoísmo, mas estava feliz e doido para estar ao lado da Diabinha, de onde eu nunca mais pretendia sair. Dos criminosos? Levi e eu depois nos encarregaríamos das informações. Agora seria apenas Alice. Ela sempre viria em primeiro lugar. Meus pensamentos se perderam quando Benício abriu a porta do quarto em que ela se encontrava. Eu a vi.


Capítulo 32 Esperando seu despertar

Igor Encontrar Alice deitada em uma cama de hospital, toda machucada, tinha sido um dos momentos mais difíceis da minha vida. Um lado do seu rosto ferido e arroxeado, como se o agressor a tivesse socado sem dó nem piedade. A cada parte do seu corpo que encontrava um arranhão, minha mente assassina desejava trucidar o filho da puta que provocara aquilo. Por Alice, eu seria capaz de matar e não me arrependeria. Era doloroso demais vê-la ali, na minha frente, tão indefesa. Minhas pernas bambearam ao me aproximar dela, tocar e sentir sua pele quente novamente. Benício comentou que a encontraram jogada próxima a uma ribanceira como um bicho morto. Descartado. Não consigo sequer imaginar quanto tempo ela ficou ao léu, esperando para viver ou morrer. — Igor, essa é a enfermeira Iris. Ela vai estar nessa ala, de plantão. O que precisar é só chamála. Ela saberá onde me encontrar — Benício falou, tirando-me dos meus devaneios. Forcei desviar meus olhos de Alice para olhá-lo. — O meu plantão começou há trinta minutos. Tenho outros pacientes para atender, mas pode contar comigo para o que precisar. — Você acha que ela terá alguma sequela? — questionei atônito. — Não posso te responder isso agora — eu sabia que não, mas não conseguia agir com a razão, raciocinar como profissional era impossível nesse momento. — Ela está sendo monitorada. Logo que os exames começarem a mostrar que Alice está reagindo bem, começaremos a diminuir a medicação da sedação. Voltei meus olhos para minha Diabinha. Segurei sua mão, acariciando na esperança que despertasse com o meu toque e eu fosse tomado por aqueles olhos azuis que desde o primeiro momento que vi me enfeitiçaram. — A mãe e o irmão da Alice devem estar chegando a qualquer momento — lembrei que Miguel tinha ficado na recepção do hospital para avisar que a Alice tinha sido encontrada. — Certamente eles vão querer estar aqui. — Lembre-se que aqui é uma UTI e não um quarto de hospital em horário de visita — Benício


me alertou. — O fluxo de pessoas tem que ser o mínimo. — Eu sei — respondi. Mas eu não estava pronto para deixá-la, mesmo que por alguns minutos. — Vamos fazer o seguinte. Tem uma sala de espera nessa ala. Irei falar com a administração do hospital para que deixe que a família de Alice aguarde lá — ele sugeriu. — Igor, isso é o máximo que posso fazer, além da atenção que darei a sua namorada. Mas lembre-se, aqui é um hospital público e universitário. Não posso... — Eu sei, Benício — não o deixei terminar de falar. — Eu não tenho como agradecer o que está fazendo por ela. Muito obrigado. Benício tocou meu ombro em sinal de agradecimento e saiu do quarto. Depois veria com a dona Laura e Levi a possibilidade de transferir Alice para o hospital conveniado com a Clínica. Benício também trabalha lá, estaríamos mais próximos, e ela poderia ter uma melhor assistência. — Estarei aqui fora. Caso precise de algo é só chamar — a enfermeira falou gentilmente segundos depois que Benício saiu. — Obrigado. — Eu sugiro que converse com ela — disse a enfermeira. — Apesar de que alguns médicos não acreditam que pacientes possam sentir e ouvir o que acontece ao seu redor quando estão em coma. Porém, eu não vejo dessa forma. Tem quinze anos que trabalho nessa ala e já presenciei casos inesquecíveis e emocionantes de pacientes que se lembraram de conversas dos seus familiares. O apoio da família e amigos será essencial para a sua recuperação. Eu também já tinha visto casos semelhantes. Sorri para a enfermeira e mais uma vez agradeci pela gentileza. Ela saiu do quarto deixando Alice e eu sozinhos. Peguei uma cadeira que estava ao lado e coloquei próxima à cama, sentando-me em seguida. Acariciei os cabelos de Alice, descendo carinhosamente pelo seu rosto. Com a minha outra mão toquei a sua e entrelacei nossos dedos, alisando com o polegar carinhosamente. Lágrimas derramaram pelo meu rosto quando não senti nenhum estímulo do seu corpo ao meu toque. — Oi, meu amor... — pronunciei com a voz trêmula —... Vai ficar tudo bem agora. Me perdoe por não te proteger, eu sou um estúpido idiota. Mas não irei sair do seu lado, mesmo que você não me aceite mais, estarei aqui quando abrir seus olhos. Levei nossas mãos entrelaçadas até minha boca, beijando a sua suavemente e fazendo com que acariciasse meu rosto. — Benício é um excelente neurologista. Ele quem estará cuidando de você, te vigiando. Tenho certeza que muito em breve você estará de volta. Mas por agora precisa descansar e se recuperar para que ele possa te trazer de volta pra mim — comentei. — Senti tanto a sua falta. Quase que enlouqueço quando soube do seu sequestro. Mas não quero te fazer lembrar-se disso. Quero que pense só em coisas boas. Pense em nossos momentos juntos. O quanto éramos felizes. Sinto falta de te ter em meus braços, do teu cheiro, do seu sorriso, do gosto dos seus lábios... Volta logo, meu amor!


Por favor, por favor! Fiquei mais alguns minutos conversando com Alice. Pronunciando apenas coisas boas. Não queria dizer nada negativo para atrapalhar sua recuperação. Benício retornou ao quarto avisando que dona Laura e Levi estavam na sala de espera e queriam ver Alice. Ele havia aconselhado que entrassem um de cada vez para não atrapalhar na sua recuperação. Forçadamente soltei sua mão e deixei o quarto. A primeira pessoa que vi assim que cruzei a porta da sala de espera foi dona Laura abraçada a Miguel que a consolava. Caminhei até eles desanimado. — Igor! — dona Laura proferiu saindo dos braços do meu primo e vindo me abraçar. — Como minha menina está? — Ela está bem — respondi a abraçando. — Eu quero vê-la. — Claro que irá. — O médico disse que precisou induzir o coma, sedá-la, devido a um traumatismo craniano — Levi proferiu chegando ao meu lado. Expliquei tudo que havia acontecido com Alice. A maneira como foi encontrada, seu estado. Enfim, tudo. Queria que todos estivessem preparados quando a visse. Pedi que evitassem se exaltar perto dela, por mais difícil que fosse. Nesse momento Alice precisava de descanso e tranquilidade. Dona Laura foi a primeira a entrar. Miguel, Levi e eu sentamos em silêncio no sofá grande próximo a um janelão. Alguns segundos depois Danilo, Sarah e Gabriel chegaram. Levi automaticamente levantou para recebê-los. — Ingrid ligou há poucos instantes — Miguel disse quebrando o silêncio. — Contei que Alice foi encontrada e que agora era só esperar sua recuperação. — Obrigado por sempre estar ao meu lado — agradeci a meu primo. Miguel apenas balançou a cabeça aceitando meus agradecimentos. — Falei também com vovó Elza — ele continuou — Ela pediu que eu ficasse mais uns dias aqui de olho em você. Está preocupada que você faça alguma besteira. — Ela está preocupada que eu vá atrás do desgraçado que sequestrou e espancou a minha mulher você quer dizer — afirmei. — É. Mais ou menos isso. — O que você faria, Miguel? — questionei encarando-o. — Se fosse a sua mulher que estivesse deitada em coma por causa de uma surra de um filho da puta. Você não pensaria em nada? — Eu também quero a cabeça do cara que fez isso com Alice — argumentou — Mas não


podemos agir descontroladamente. Pelo que ouvi a Maria Sandra falar esse cara é poderoso e muito perigoso. — Por enquanto não quero pensar nisso — menti para mudar de assunto. — A recuperação da Alice está em primeiro lugar. — Está certo — concordou — Mas por ora não irei tirar os olhos de cima de você... E do Levi também — finalizou olhando para Levi que nos observava atentamente. Dona Laura saiu do quarto para que Levi pudesse ver a irmã antes de ir pegar o pai no aeroporto, que chegaria em poucas horas. Miguel levantou rapidamente indo acalentá-la. — Ela está tão machucada, Miguel — ele abraçou consolando-a enquanto ela dizia o estado que Alice se encontrava. — Não sei você, mas para mim, ali não é apenas uma amizade — Gabriel se juntou a mim analisando a forma como Miguel tratava a mãe de Alice. — Deu agora para bisbilhotar as pessoas? — questionei meu amigo. — Não. Mas conheço seu primo e sua preferência por mulheres mais velhas — lembrou. — Mas não é isso que vim falar com você. Luís ligou. — O primo dele conseguiu as imagens do banco? — indaguei curioso. — Sim. A equipe dele já está analisando as imagens e logo teremos alguma novidade — afirmou — No entanto, a polícia precisa do depoimento da Maria Sandra. Já que parece que a causa do sequestro da Alice foi por vingança a ela. A última coisa que eu precisava nesse momento era ter que falar com a Maria Sandra. Se eu pudesse nunca mais a veria. Por culpa do seu egoísmo e maldade Alice quase foi morta. — Gabriel, tudo que eu quero agora é não falar com a irmã da Alice — proferi sério. — Dona Laura já está angustiada demais também. Por favor, liga para Lilian e peça que resolva isso. É a sobrinha dela. — Tudo bem, mano — concordou. — Vou ligar para ela agora. Gabriel pegou seu celular e saiu andando até o corredor buscando o número de Lilian. Saí da sala de espera e caminhei até uma pequena recepção onde estava a enfermeira Íris e uma atendente. — Posso ajudar, Dr. Igor? — Iris perguntou assim que me viu. — Não, obrigado — respondi pegando um copo descartável e colocando um pouco de café que tinha em cima do balcão da recepção. O café estava forte e sem açúcar. Vi quando Levi saiu do quarto. Seus olhos estavam marejados. Fui de encontro a ele. — O miserável que fez aquilo com minha irmã vai pagar muito caro — esbravejou cerrando os


punhos. — Pode ter certeza que sim — garanti. — O voo do meu pai chega em trinta minutos. Preciso ir buscá-lo — avisou tentando ficar calmo — Qualquer novidade é só me ligar. Concordei e Levi seguiu pelo corredor, saindo. Voltei meus olhos para a sala de espera e avistei dona Laura sentada ao lado de Miguel, Danilo e Sarah. Todos entretidos em seus pensamentos. Não vi Gabriel por perto, na certa ainda estava ao celular conversando com Lilian. Eu poderia ter chamado um dos amigos da Alice para vê-la. Danilo e Sarah estavam tão ansiosos e preocupados quanto qualquer outra pessoa que a amasse, porém meu lado egoísta falou mais alto. Eu precisava ficar um pouco mais perto de Alice. De sentir seu cheiro me dominando. Joguei o copo descartável de café no lixo e entrei em seu quarto. Alice permanecia lá, quietinha. Seu rosto parecia relaxado como se estivesse dormindo tranquilamente. — Oi, Diabinha. Estou de volta. Danilo e Sarah estão aqui também. E estão loucos para te ver. Mas furei a fila de visita e entrei sorrateiramente sem eles verem — sorri imaginando sua carinha escutando minhas palavras. — Precisava te ver mais um pouco, meu amor. Não vejo a hora de ver seus olhinhos brilhando. Enquanto isso não acontece, quero que saiba que estarei ao seu lado. Mesmo que não esteja aqui com você, no quarto. Estarei lá fora esperando o momento de revê-la. Afaguei seu rosto desejando tocar seus lábios com os meus, no entanto o aparelho respiratório me impedia de beijá-la. — Fica boa logo, meu amor. Volta para mim. Para esse seu Devasso solitário — roguei pela milésima vez. Pediria todas as horas se fosse necessário. — Volta, Diabinha. Eu preciso de você... Eu te amo demais.

Os dias foram passando e graças a Deus, Alice vinha mostrando excelentes resultados. Com ajuda de uma ambulância UTI, no dia seguinte, após ser encontrada, ela foi transferida para um hospital particular, o mesmo onde eu trabalhava fazendo os partos das minhas pacientes. O que me deixou muito mais tranquilo, pois além do Benício, que estava sendo atencioso com a sua situação haveria outros médicos que eu conhecia para observá-la melhor. No quinto dia de sua sedação, Benício autorizou a retirada dos aparelhos respiratórios. O que era uma excelente notícia. A área do traumatismo estava evoluindo bem, a pressão intracraniana estava normalizando a cada dia, e a medicação sedativa estava sendo diminuída aos poucos, e muito em breve, poderíamos ter a Alice acordando desse pesadelo. Praticamente passei a morar dentro do hospital. Miguel e dona Laura me forçavam a ir para casa e dormir um pouco. Mas não conseguia pensar na possibilidade de deixá-la, sequer ficar longe, mesmo que por algumas horas. Queria estar por dentro de tudo. Então revezávamos o tempo junto de Alice. Cada um de nós queria um tempo sozinho com ela. Quando não estava ao seu lado, ficava na


sala de espera ou no consultório de algum médico conhecido que não estava atendendo. O pai de Alice, Ely Schneider, também era outro que não arredava os pés do hospital. Ainda não tínhamos conversado tranquilamente. Ele era fechado e me analisava da mesma forma que o Levi fazia logo que comecei a namorar sua irmã. As poucas vezes que trocávamos algumas palavras eram quando Benício trazia notícia da condição de Alice ou sobre o tal francês miserável que a sequestrou. — Falei com a Ingrid hoje pela manhã, Diabinha. — disse para Alice enquanto massageava seus pés. As horas que estava com ela, buscava sempre conversar, deixá-la a par de tudo. Procurava agir naturalmente. — E apesar de estar reclamando de dores na perna quando anda ou movimenta, os médicos estão esperançosos. Continuei falando alternando as massagens de um pé para outro. Ela amava quando eu fazia massagens, principalmente quando chegava exausta de um dia de trabalho. — O tratamento de radioterapia a princípio será de quatro semanas com doses diárias, após isso ela passará por novos exames e se os resultados forem positivos já marcarão a data da cirurgia — contei animado. Estava feliz pela minha irmã. E muito otimista com o seu tratamento. — Posso entrar? — Benício pediu. — Claro! — Desculpe atrapalhar sua conversa, mas preciso examinar minha paciente. — Fique a vontade, doutor — sorri. Fiquei quieto apenas olhando Benício examiná-la. — Mais tarde ela precisará se submeter a uma radiografia. Para reavaliarmos as costelas — explicou e eu assenti. — Também faremos uma nova tomografia. Ela está respondendo muito bem. Nos últimos exames que fiz o inchaço vem diminuindo gradativamente. Ela já vem respondendo bem a alguns estímulos. — Isso que dizer que você vai diminuir ainda mais a sedação? — perguntei entusiasmado. Era o que eu mais queria ver, Alice acordada. Ouvir sua voz. Seu sorriso doce. — Mesmo que seus estímulos estejam respondendo bem, ela precisará ficar em observação. Temos que ser cautelosos. E claro, ver como ela reage quando já não estiver sedada. O que deve acontecer logo. — Sim. Sim — concordei — Todos ficarão muito felizes. Muito obrigado, Benício, por tudo. — A presença da família e amigos demonstrando o amor e carinho por ela tem sido essenciais para a sua recuperação. Você está sendo essencial. — Eu só a quero bem e segura — proferi. — Claro que você quer. Sempre queremos o melhor para a pessoa que amamos — declarou


gentilmente. — Bem, eu vou indo. Se precisar de mim sabe onde me encontrar. Depois que Benício saiu do quarto, pedi à enfermeira que chamasse os pais de Alice para contar as novidades. Não demorou muito para eles e Levi surgirem no quarto, exaltados. — Aconteceu algo, Igor? — dona Laura entrou perguntando assustada. — Sim — pronunciei sorridente — Alice está respondendo muito bem ao tratamento. E o doutor Benício irá diminuir a medicação. — Isso que dizer que... — dona Laura indagou emocionada. —... Que minha menina pode acordar a qualquer momento? — Sim. É o que a gente espera. — Ai, meu Deus! Obrigada — vibrou. — Está vendo, Ely? Nossa menina... — Sim, Laura — o pai da Alice pronunciou alegremente com um sotaque forte francês. — Logo ela estará em casa. Beijei os lábios de Alice e saí do quarto deixando-a com os pais e o irmão e fui dar as boas novas ao Miguel que certamente estaria na salinha de espera ou na lanchonete do hospital tomando café. — Sabia que estaria aqui na lanchonete e com uma xícara de café na mão — falei me sentando ao seu lado. — Café é estimulo para mim — anunciou desanimado. — Está sendo difícil encarar o francês? — questionei me referindo ao senhor Ely, pai da Alice. — Cada vez que chego perto da Laura o sinto me fuzilar só com um olhar. — Como vocês estão? Digo, você e a minha sogra? — Não precisa ficar repetindo que Laura é sua sogra — resmungou — Eu não pretendo magoála. — Miguel, somos quase irmãos. Eu te conheço desde as fraldas. E sei como você costuma descartar uma mulher — afirmei. — Você pode não acreditar, primo. Mas eu quero algo mais com a Laura, mas ela acha que não dará certo por causa da nossa diferença de idade — disse sem ânimo. — Que bobagem! — bradei. — A diferença não é tão grande assim. — Ela acha que 15 anos podem atrapalhar. Pensa que logo eu vou querer filhos e ela não poderá me dar — continuou falando e eu deixei — Se um dia eu quiser ter filhos, podemos adotar. Não me importo se tenha meu sangue ou não. Mas ela é cabeça dura, vive arrumando desculpas. Fala que as filhas não entenderiam.


Tenho certeza que Alice não se importaria sabendo que a mãe estaria feliz, mas não disse nada ao Miguel. — Igor? — a voz de Levi soou atrás de mim. — Precisamos conversar. Miguel me olhou sério, ele já sabia do que se tratava o assunto e era totalmente contra. — Dona Laura está a sua procura, Miguel. Ela quer ir em casa buscar algumas coisas. Meu primo assentiu com a cabeça levantando-se e saindo da lanchonete. — Danilo está com Alice, antes que você pergunte — Levi sabia que eu odiava deixar a Diabinha sozinha. — Preciso falar rápido. Meu pai quer ir em casa tomar um banho e comer algo. Preciso aproveitar essa oportunidade de tirá-lo desse hospital. — Isso é bom. — Você também deveria ir à sua casa e descansar um pouco, se alimentar direito, fazer a barba — sugeriu. — Não saio desse hospital enquanto sua irmã não acordar — disse categórico. — Então tente dormir um pouco antes que fique doente. — Você disse que queria conversar — mudei de assunto. Levi olhou ao redor e quando percebeu que ninguém ouviria nossa conversa e falou: — A busca pelo tal Jérôme Benoit pela França não para. Mas o desgraçado é muito esperto. Levi conhecia algumas pessoas barra pesada em Paris e que também não gostavam muito do tal Jérôme Benoit, o nome que Maria Sandra deu no seu testemunho. Eles estavam seguindo todos os passos do miserável, mas cada vez que chegávamos perto de pegá-lo, o infeliz escorregava entre os nossos dedos. A polícia também seguia com as investigações, mas como se tratava de um caso internacional, não tínhamos muito acesso às informações. As imagens das câmeras de segurança do banco mostraram nitidamente o momento em que um homem bem vestido saía do banco traseiro do carro de Alice e entrava novamente no banco do motorista saindo em seguida do estacionamento com ela junto. Infelizmente dois dias após o testemunho de Maria Sandra, o cara das filmagens foi encontrado morto junto de outro desconhecido em uma casa abandonada próximo ao local onde Alice foi encontrada pelas crianças. Ambos foram mortos à queima roupa. Na investigação da polícia, descobriram que os dois homens assassinados eram bolivianos com várias passagens pela polícia de seu país, e acreditavam que eles haviam sido contratados pelo francês para executarem o sequestro de Alice, e foram mortos em seguida como queima de arquivo. — Você acha que o filho da puta está escondido? — indaguei. — Não sei. Só sei que cada vez mais, descubro que ele tem uma legião de inimigos querendo seu pescoço tanto quanto nós.


— Quero esse cara morto, Levi. Não suporto a ideia de que Alice ou qualquer um próximo a Maria Sandra possa estar correndo perigo por causa de uma vingança. — Maria Sandra foi demais dessa vez — esbravejou. Da última vez que Lilian esteve no hospital visitando Alice, ela nos contou que Maria Sandra só chorava, arrependida. Até o próprio Luís ficou sensibilizado quando a levou para testemunhar. Espero que ela realmente esteja arrependida do que sua ganância provocou, mas mesmo assim a queria longe de Alice. Levi se retirou da lanchonete indo embora acompanhar seu pai para casa. O Senhor Ely queria voltar ainda de madrugada para ficar com a filha. Pedi um sanduíche e um suco, para dar um tempo enquanto Danilo ficava um pouco com a Alice. Daqui a pouco Sarah também passaria por aqui para ver sua amiga. E eu teria que esperar antes de ficar sozinho com meu amor.

Já passava da 22h quando pude realmente ficar sozinho com Alice. A cobri para que não sentisse frio, penteei seus cabelos enquanto contava minhas aventuras quando criança. Por fim, me acomodei em uma poltrona ao seu lado e entrelacei nossas mãos como sempre fazia, beijei seus lábios ternamente deitando minha cabeça próxima à dela. Não demorou muito para que eu adormecesse. Um sono leve e tranquilo perto da mulher que eu amava. Acordei com uma leve batida na porta. Olhei para Alice que estava tranquila em seu sono. — Desculpe, Dr. Igor. Mas preciso trocar o soro da paciente — uma enfermeira anunciou. — Tudo bem — falei me ajustando na poltrona. No relógio de parede mostrava 00h30, ou seja, fazia oito dias que Alice se mantinha sedada e estável. Eu contava os dias depois da meia noite desde que a encontramos. Estranhei que dona Laura ainda não tivesse retornado. Peguei o celular, mas antes de discar seu número havia uma mensagem do Miguel avisando que tinha conseguido fazer com que dona Laura descansasse e que demoraria um pouco a voltar para o hospital. Pedindo também que eu dormisse. Nós últimos dias dormia em média três a quatro horas por dia. E sempre acordava assustado ou esperançoso por novidades. — Pronto, doutor — a enfermeira falou se afastando da cama. — Se precisar de algo, estarei lá fora. Esperei que a enfermeira saísse para me aproximar de Alice novamente. — Sua mãe não virá passar a noite com você — comecei a falar. — Ela precisa descansar, mas logo ela volta, meu amor.


Acariciei seu rosto carinhosamente. — Perdi o sono e você? — indaguei sorrindo. — Já sei o que poderemos fazer para passar o tempo. Peguei meu celular e procurei por uma música que descrevia tudo que eu vinha sentindo em relação às últimas semanas. Apertei o play e baixei o volume para que ficasse um som ambiente. A voz de Justin Timberlake ecoou em acústico de voz e piano. Novamente encostei minha cabeça próxima a dela, fazendo meus lábios roçarem em seu ouvido delicadamente. Quando o refrão da música chegou cantei baixinho para que Alice sentisse o que eu queria transmitir... Por favor, me dê outra chance Para escrever-lhe uma outra canção Esqueça aquelas coisas que eu fiz Porque eu te darei meu coração Se você me deixar começar tudo de novo Garotinha, você é tudo que eu tenho Não me deixe aqui novamente Porque eu te darei minha vida (sim eu darei) Se você me deixar tentar te amar ((Another Song) All Over Again – Justin Timberlake) — Eu te amo, Alice — sussurrei no final da música. — Acorda logo pra mim, meu amor. Um tossido de leve atrapalhou meu momento com Alice. Olhei para a porta e o pai de Alice estava parado nos olhando sério. — Posso ficar um pouco com a minha filha? — indagou firme se aproximando. Afastei-me de Alice forçadamente. Desliguei a música seguinte que começava, colocando meu celular no bolso. Queria poder dizer “não”. Mas era o pai dela, e eu sabia o quanto ele era importante para ela. — Estarei na sala de espera se precisar de mim — passei por ele desanimado. — Até que você canta bem para um médico — ele proferiu sentando na poltrona onde eu estava antes. — O senhor me ouviu cantar? — perguntei surpreso. — Claro que ouvi. O Levi também ouviu. Mas não quisemos atrapalhar. Levi saiu antes que


tivesse uma crise de riso — o sorriso debochado surgiu em seus lábios. — Agora vá, me deixe a sós com a minha garotinha. Saí do quarto furioso pelo deboche do senhor Ely. Vi Levi conversando com uma das enfermeiras, mas evitei cruzar com ele nesse momento. — O consultório do doutor Benício está sem ninguém — a recepcionista comunicou, adivinhando minha vontade de ficar sozinho. Benício tinha autorizado que eu utilizasse seu consultório para descanso quando não estivesse trabalhando. Lá tinha um sofá confortável e certamente ninguém me atrapalharia. E o melhor, era a sala mais perto do quarto de Alice. — Qualquer novidade, pode me chamar?— pedi. — Sim, senhor. — Obrigado — agradeci a moça, caminhando para o consultório. Fechei a porta, mas não tranquei. Deitei-me no sofá fechando os olhos e me perdendo em momentos com Alice, adormecendo rapidamente outra vez. — Igor. Igor, acorda! — despertei assustado com Levi me chamando. — Que horas são? — São 4h15. Eu havia dormido mais de três horas, mas parecia que só tinha passado 10 minutos. Sentia meu corpo pesado. — Aconteceu alguma coisa? — perguntei exasperado sentando-me rapidamente. — Sim, aconteceu — Levi abriu um sorriso enorme. — Alice acordou.


Capítulo 33 Um sonho real

Alice Minha cabeça doía, sentia-me zonza e muito desorientada. Com dificuldades tentei movimentar minhas mãos e pernas, mas parecia que tinha algo sobre meu corpo impedindo-me, como se eu não tivesse mais controle sobre eles. Forcei-me a abrir os olhos, a princípio um pânico tomou conta de mim quando não consegui enxergar nada. Tudo estava escuro. Respirei profundamente, tentando me acalmar, e aos poucos meus olhos foram se acostumando ao ambiente. Parecia ser noite e eu estava em um quarto de hospital. À minha frente vi uma pequena luz no chão que parecia ser da fresta da porta, o que me ajudou a distinguir as coisas. Conseguindo mexer meu pescoço, vi que de um lado da cama tinha um suporte que sustentava uma bolsa de soro fisiológico que estava quase finalizando. Provavelmente, muito em breve, alguma enfermeira apareceria para trocá-lo. Devagar, mexi novamente meu pescoço para o outro lado. Havia uma poltrona muito próxima de mim, e uma pessoa estava adormecida, com a cabeça encostada na cama. Um homem. Pressionei minha vista para reconhecê-lo. E... Era papai. Meu pai. Eu reconheceria aqueles cabelos grisalhos mesmo se estivesse perdida na Times Square, em Nova Iorque. Eu tinha sonhado com ele. Na verdade eu tinha sonhado com tantas pessoas. Não conseguia lembrar onde e como era o sonho, mas reconhecia algumas vozes e outras eu nunca tinha ouvido. Porém sentia-me confortada e protegida. Calmamente, obriguei meu cérebro a movimentar a minha mão esquerda. Com muita dificuldade, aproximei de seus cabelos e acariciei. Papai amava quando eu fazia cafuné bagunçando seu penteado. Ao primeiro toque seus olhos azuis se abriram assustados encarando-me. — Alice! — pronunciou meu nome com sua voz grossa e intimidadora, ao mesmo tempo amorosa. Eu amava a forma como meu nome saía de sua boca, o sotaque francês bem acentuado, assim como o do meu irmão, Levi. — Pa...Papai — minha voz saiu grogue, quase irreconhecível.


Papai pegou minha mão e levou aos seus lábios beijando com ternura. — Como se sente? — perguntou ansioso. — Eu... Estou com sede. Muita sede — eu também estava com dores fortes na cabeça, mas não disse nada. — Calma! Vou pedir à enfermeira que chame um médico — disse se levantando no mesmo instante e andando até à porta. Antes que eu pudesse pronunciar que não me deixasse sozinha, papai retornava ao seu lugar e segurava novamente minhas mãos. — Avisei a enfermeira. Ela vai chamar o médico plantonista — anunciou nervoso. Sorri para ele, pela forma como tentava não demonstrar que estava ansioso. Papai é um homem sério que nunca perdia o controle, mas bastava um dos filhos estar com dificuldades que ele movia céus e terras para resolver. Ele sempre disse que Levi e eu somos os seus “calcanhar de Aquiles”. O seu ponto fraco. — Estou bem, Ely Schneider — sorri tentando tranquilizá-lo. — Ange... Eu tive tanto medo — confessou com seus olhos marejados. Ele ama me chamar de anjo em francês. — Achei que tínhamos perdido você. Que nunca mais veria a minha menininha. Suas palavras me fizeram recordar do terror de estar com Jérôme Benoit, que até então, havia esquecido. Um tremor passou por todo o meu corpo e lágrimas pularam dos meus olhos ao recordar daquele homem com um olhar de fúria misturado com prazer. A palavra vengeance gritou em meu cérebro. Ele não parava de dizer que era vingança, provavelmente por algo que minha irmã tinha feito ou ele achava que tinha. Os meus momentos de pavor. O terror de morrer sem me despedir das pessoas que eu amava. Papai percebendo que o medo me dominava, acalentou-me cuidadosamente em seus braços, sussurrando palavras de conforto. — Shh... Shh... Está tudo bem. Você está segura. Eu não vou deixar que nada de mal te aconteça. — Eu quero a minha mãe. Onde ela está, papai? — supliquei como uma criança amedrontada necessitando do colo da sua mãe. — Eu vou ligar para a Laura. Ela foi em casa pegar algumas coisas — pronunciou carinhosamente. — Ela esteve ao seu lado o tempo todo, Ange. Não saiu um minuto de perto de você nesses últimos dias. Últimos dias? Como assim, últimos dias? — Quan... Quanto tempo eu estou no hospital? Antes que papai pudesse responder. Uma enfermeira entrou no quarto. Era uma senhora de meia


idade com um sorriso gentil no rosto. — Bem vinda, Alice. Sou a enfermeira Ruth. Estou aqui para o que precisar — ela disse sorridente. — O doutor Benício não se encontra no hospital, mas já avisamos que você acordou e ele estará aqui logo que o dia amanhecer. Mas, o doutor Paulo está vindo examiná-la por hora. Como se sente? — Minha cabeça dói e estou com muita sede — falei. — Há quanto tempo estou aqui? — repeti a pergunta. — Calma, Alice. Aos poucos explicaremos tudo — Papai me tranquilizou. — Alice! — a voz do Levi soou ansiosa ofegante. Ele entrou no quarto abruptamente. — Levi - sorri para meu irmão que caminhou até a cama e beijou meu rosto. — Senti sua falta — ele disse. — Onde você estava, Levi? — papai esbravejou em francês para meu irmão. — Aposto que estava em algum depósito de limpeza pegando alguma funcionária do hospital. Sorri com as reclamações de papai. Pela camisa amassada e os lábios vermelhos e inchados do meu irmão, Ely Schneider tinha acertado em cheio. — Preciso que ligue para Laura e avise que Alice acordou — papai pediu. — Vou fazer isso agora — Levi proferiu pegando seu celular e saindo do quarto. — Ah! Levi? — papai o chamou. — avisa ao Romeu que sua Julieta acordou. Levi concordou e piscou maliciosamente para mim antes de sair do quarto me deixando confusa. Do que eles estavam falando? Infelizmente, ainda não era o momento de esclarecer todas as minhas dúvidas, pois antes mesmo de perguntar a papai, um senhor de cabelos brancos e óculos entrou no quarto. Doutor Paulo me examinou minuciosamente. Foi muito gentil e paciente comigo, respondendo atenciosamente a todas as minhas dúvidas. Eu precisei ser sedada devido a um traumatismo craniano. Foram oito dias inconsciente desde que Jérôme Benoit tinha me espancado e jogado meu corpo como se fosse um lixo descartável, para morrer agonizando no meio do mato. Graças a Deus eu fui encontrada e estava me recuperando bem. — Alice, você está ótima. E, aparentemente, não tem nenhuma sequela, mas ainda é muito cedo para sabermos. Você ficará ainda por um tempo em observação — o médico disse. Ele autorizou que eu chupasse algumas pedrinhas de gelo para aliviar a minha sede e tomasse pequenos goles de água. Passou um analgésico para aliviar a dor de cabeça. Ele disse que logo me sentiria sonolenta, explicando que era normal. E tudo que eu precisava era de repouso.


Não demorou dois minutos após doutor Paulo deixar o quarto e a enfermeira Ruth trocar o soro, para sentir meus olhos querendo fechar. Forcei-me a abri-los. Não queria dormir, queria ver minha mãe. Saber como ela reagiu diante de toda essa tragédia. — Se acomode, Alice. E tente dormir — papai pediu retirando o copo de gelo das minhas mãos. — Eu já dormi demais. Eu não quero dormir mais — rebati trocando as palavras devido à sonolência. Antes que eu pudesse tomar de volta o copo de gelo das mãos do meu pai. Escutei o barulho da porta se abrir e uma sombra avançar até a cama. Tentei levantar a cabeça para ver quem era, porém o sono me dominou e a única lembrança que tive antes de tudo escurecer, foi um par de olhos esverdeados cheios de esperanças e proteção. Sorri internamente confortada por eles.

Um pequeno burburinho de pessoas conversando despertou-me. Parecia vir do lado de fora de quarto. Diferente da outra vez que acordei, o quarto estava bastante claro. Reparei que tinha uma janela no canto e as persianas estavam levantadas. Mexi um pouco e logo senti um toque cálido em meu braço. — Ali, meu amor — mamãe proferiu alegre e ao mesmo tempo docemente. — Mamãe! — falei emocionada, quando pude ver a mulher que eu admirava e amava mais que tudo. — Estou aqui, meu amor — secou minhas lágrimas que ousaram cair. Eu me sentia sensível e mamãe também estava muito emocionada. — Graças a Deus você está bem. Eu nunca mais quero sentir esse pânico de te perder. Nunca mais. Choramos juntas e nos abraçamos, sentindo o carinho e o cheiro da outra. Era como se eu estivesse nascendo de novo e minha mãe tivesse me colocando em seus braços pela primeira vez. Não sei quanto tempo permanecemos dessa maneira, mas foi um dos momentos mais mágicos da minha vida. Logo em seguida a enfermeira Ruth entrou trazendo uma bandeja com um prato de sopa de legumes, suco de laranja e um copinho de gelo. Perguntei quando eu poderia tomar banho e remover o cateter. Sentia-me bem e louca para sair da cama. A dor de cabeça ainda persistia, mas não incomodava tanto. — O doutor Benício logo virá examiná-la, mas acredito que o cateter será removido em breve — a enfermeira disse de maneira profissional, mas carinhosa. — Você teve muita sorte, Alice. As fraturas das costelas não causaram nenhuma lesão a uma veia, artéria ou órgão que precisasse passar por um procedimento cirúrgico.


— Graças a Deus! — escutei mamãe sussurrar. — A sua última radiografia mostrou excelentes resultados — completou a enfermeira. Devagar me alimentei com a ajuda da minha mãe. Não que eu não pudesse comer sozinha. Mas mamãe queria me mimar e eu necessitava ser mimada por ela, para me sentir realizada e ter certeza que não era penas um sonho. — Que horas são, mamãe? — perguntei curiosa. — São 14h40 — ela disse desviando o olhar para a parede, onde constatei que tinha um relógio. Uma batida ressoou na porta, sendo aberta logo em seguida. Um moreno alto de olhos desenhados e puxados de cor castanho entrou no quarto. Vestia um jaleco branco por cima de uma calça jeans e uma camisa polo azul claro. Era surpreendentemente charmoso. Tive a sensação de que já o tinha visto em algum lugar. — Olá, Alice, sou o doutor Benício. Seu neurologista — proferiu encantadoramente. — Oi — respondi envergonhada. Sua voz era doce e envolvente. — Como se sente? Respondi a todas as suas perguntas e esperei que me examinasse. — Eu gostaria de tomar um banho, doutor Benício — pedi. — Tudo bem... Mas será de cadeira de rodas e com ajuda de uma enfermeira — Alertou. — Minha mãe pode me ajudar — avisei, não queria uma pessoa desconhecida me dando banho. — Não, Alice. Sua mãe pode acompanhar, mas por enquanto precisará de uma ajuda profissional — proferiu categórico. Balancei a cabeça concordando, mas internamente xinguei-o. — Tem várias pessoas lá fora querendo vê-la, então nada de exageros. Tudo bem? — Sim, senhor. — Bem, eu já vou indo. Logo mais virei buscá-la para fazer uma ressonância, para ter a certeza de que está tudo bem. — Ok. Obrigada, doutor Benício. Ele se despediu deixando o quarto. Papai e Levi entraram, mas logo foram expulsos do quarto, pela enfermeira Ruth que trazia uma cadeira de rodas para me ajudar no banho. Chorei compulsivamente quando fiquei completamente nua e vi o meu estado. Havia hematomas por quase todo o meu corpo. Alguns já amarelados, mas outros ainda vivos, roxos, como


sangue prensado como dizia tia Lilian. Meu rosto estava muito inchado. Havia um corte pequeno com um ponto no supercílio, e meu olho direito estava avermelhado. O soco que aquele filho da puta havia me dado tinha feito um estrago. Ruth foi paciente e gentil ao me ajudar no banho. Mamãe ficou por perto nos observando e atenta a qualquer necessidade que eu precisasse. Por fim, vesti uma camisola que mamãe havia trazido de casa. Era dela, mas era longa e confortável para ficar no hospital. — Penteie devagar os cabelos dela — Ruth instruiu à minha mãe, quando ela insistiu para secar e pentear meus cabelos assim que saímos do banheiro. — Volto logo para ajudá-la a deitar na cama. Está confortável na cadeira de rodas? Confirmei e a enfermeira deixou o quarto. — Ela até que é legal — mamãe falou, enquanto secava meus cabelos com uma toalha. — Sim. Ela é bem atenciosa. A porta do quarto se abriu novamente e um aglomerado de pessoas entrou me pegando de surpresa. — Oi, lindinha. Que saudades de você. — Oi, Ali. Estou tão feliz de vê-la acordada e bem. Olhei espantada para mamãe, Levi e papai que também retornaram para o quarto. — Quem são eles, mamãe? — perguntei séria. — Ali, não os reconhece? São seus melhores amigos, Danilo e Sarah — mamãe falou preocupada desviando o olhar para meu pai. — Lindinha, somos nós. Seus amigos. Lembra? — Sim, Alice. Sou eu, Sarinha e o Dan, nossa moça no corpo de um homem gostoso. Os dois se ajoelharam em minha frente, ambos com os olhos marejados e assustados. — Por favor! Diz que se lembra. O silêncio pairou no quarto, pois meus pais e meu irmão também estavam preocupados por uma possível amnésia. Olhei para dois abaixados em minha frente por alguns segundos. Observando o desespero deles enquanto esperava uma resposta. De repente abri um sorriso e meus olhos se encheram de lágrimas. — É claro que me lembro de vocês. Eu nunca que poderia esquecer — pronunciei puxando-os em um abraço. — Você fingiu isso? — Danilo perguntou atordoado.


Balancei a cabeça confirmando. — Meu Deus, Alice! Como você faz um negócio desses? — Sarah esbravejou deixando as lágrimas caírem do seu rosto. — Eu acho que ganhei mil rugas nesses dias tudo por sua causa. Eu beijei a minha amiga e depois o meu amigo. Feliz e agradecida por tê-los ao meu lado. — Eu amo vocês. Desculpe pela a brincadeira — expressei com sinceridade. — Nós te perdoamos... Dessa vez — Dan abriu um sorriso e eu o ajudei secar as lágrimas de Sarah. — Já ia pedir que seu pai fosse atrás do doutor Benício — mamãe disse relaxada. — Desculpe, eu não queria assustá-los — pedi com pesar, olhando para todos no quarto. Começamos a conversar animadamente. Todos falando ao mesmo tempo. Porém o mundo ao meu redor parou no instante que o avistei na porta do quarto, me olhando cauteloso. Esperando que eu dissesse algo para se aproximar. Ele, o homem que esteve presente em meus sonhos dizendo o quanto me queria de volta, que precisava de mim, cuidando de mim, tocando meu corpo, cantando suavemente e, principalmente dizendo que me amava. Ele, o homem que me fez querer voltar. O meu Devasso. O homem que eu amava. — Igor... — sussurrei seu nome tão baixo que ninguém por perto escutou, mas ele sabia que era seu nome que saía da minha boca. Lentamente, mas visivelmente ansioso Igor se aproximou. Senti seu cheiro me dominar. Inalei aquele cheiro viril que só o meu Devasso possuía. Ele se abaixou ficando com olhos rentes aos meus. Olhos que diziam tudo. O medo e alegria que ele sentiu na última semana. Sua mão tocou meu joelho e mesmo por cima do tecido fino da camisola senti minha pele formigar. De saudade e luxúria. Eu o amava desesperadamente. — Oi — falei nervosa. — Oi — ele respondeu seguro como sempre se mostrou ser. — Senti sua falta. Enrubesci e baixei a cabeça mordiscando meu lábio inferior. Não queria que ele me visse assim. Machucada. Igor delicadamente levantou meu queixo passando seu polegar pelos meus lábios desfazendo a minha mordida. — Você é linda — pronunciou encantado. — Hora de voltar para a cama, mocinha — a enfermeira Ruth retornou ao quarto quebrando todo aquele momento entre Igor e eu. Olhei para os lados e percebi que tinha uma plateia nos observando. — Eu a coloco na cama, Ruth — Igor falou sem perder a compostura por sermos flagrados em nossa bolha de amor.


— Doutor Igor, a paciente precisa de cuidados e... — Eu sei como colocar uma paciente no estado de Alice na cama — ele proferiu sério sem deixar a enfermeira terminar. — Está bem. Eu não me responsabilizo — ela resmungou. — Ok — ele retrucou. Cuidadosamente, Igor me pegou em seus braços, me carregando até a cama onde me colocou. Foi apenas um minuto em seus braços, mas o suficiente para me sentir em casa, em segurança. As próximas horas todos começaram a conversar comigo. Perguntando-me como tudo aconteceu. Levi falou que a polícia precisava do meu depoimento e que tentaria ver com o delegado a possibilidade de vir aqui no hospital. Igor não dizia nada, apenas escutava tudo calado. Nossas mãos sempre entrelaçadas. Escutei todos falarem e contar as novidades. Surpreendi-me quando vi Miguel entrar no quarto. Ele me cumprimentou com um beijo na testa e me perguntou como estava. Subitamente lembrei-me de Ingrid. Do seu tratamento nos Estados Unidos. — Você devia estar com sua irmã nos EUA — acusei olhando para Igor. — Eu não podia ir com você desaparecida — respondeu, me olhando firme. Ele estava abatido, cansado. Sua barba estava grande e seus olhos mostravam que não dormia bem há dias. — Como a Ingrid está? — indaguei receosa. — Está bem. Respondendo muito bem ao tratamento — abriu aquele meio sorriso que eu tanto amava. — Você precisa descansar — avisei. — Estou bem. Sem ligar para sua resposta chamei Miguel e perguntei se o seu primo estava se alimentando direito. Miguel olhou para Igor receoso confirmando o que eu já esperava. — Quero que vá para casa. Durma um pouco e coma algo saudável — exigi. — Eu quero ficar aqui com você — disse carrancudo. — Se não fizer isso eu não permitirei a sua entrada nesse quarto — rebati firme. Ele ficou me olhando lutando internamente contra o meu pedido. — Em duas horas eu volto — beijou meus lábios cedendo, caminhando até a porta. — Eu quero que você descanse — pedi, enquanto ele saía do quarto.


— Até logo — virou piscando um olho. Percebi Miguel falar algo no ouvido da minha mãe fazendo-a sorrir. Ele despediu-se de todos e saiu seguindo o primo. Olhei para o meu pai que estava amuado com a atitude do Miguel. Procurei Levi que sorriu timidamente constatando que tinha algo que eu não sabia. Ainda.

— Que dizer que vocês voltaram? Igor e você? — Sarah perguntou logo depois que voltei da ressonância. Doutor Benício estava feliz com o resultado. E disse que se continuasse assim em poucos dias estaria liberada para ir para casa. — Por que a pergunta? — estávamos a sós no quarto. — Ali, é visível até para um cego o quanto vocês se amam. — Eu achei que você estava chateada com a forma que ele me tratou — acusei. — Sim. Ele foi um imbecil por agir daquela maneira com você, mas também vi como ficou desesperado com o seu sumiço. Todos nós estávamos desesperados, mas ele parecia perdido — comentou. — Além do mais, ele não saiu desse hospital um minuto sequer. Quando não estava aqui com você, estava pelos corredores, esperando a oportunidade de ficar perto de você novamente. Saber que Igor esteve ao meu lado esse tempo todo, fez meu coração inflar de felicidade. Não sei como explicar, mas eu o sentia perto de mim. Onde quer que meu consciente estivesse, quando estava sedada. Eu sentia a presença de todos que eu amava, porém com Igor era mais forte. Carnal. — Eu ainda não sei, Sah — proferi sincera. — Eu o amo desesperadamente. Mas... Estou tão confusa. Tanta coisa aconteceu de uma vez só. Eu preciso pensar, analisar tudo que eu quero. — Eu não te julgarei se decidir ficar longe do Igor — minha amiga apertou minha mão. — Só aconselho que pense bem. — Obrigada — agradeci. Se eu decidisse seguir em frente com Igor teria que ser sem medos ou dúvidas. E por enquanto, eu não estava completamente segura. — Sarah... E a Sandrinha? — eu tinha prometido a mim mesma que esqueceria minha irmã, porém depois de tudo eu queria saber como ela estava. — Ela está na casa da sua tia Lilian. — Minha mãe a expulsou de casa? — indaguei chocada. Mamãe nunca faria isso, por mais decepcionada que estivesse. — Não. Dona Laura não a expulsou — explicou. — Mas depois das fotos... — Levi falou das


fotos mais cedo. Do pânico que todos ficaram pensando que eu estivesse morta. —... Sua mãe ficou muito brava com ela. E desde então não consegue encará-la. Então, Maria Sandra achou melhor ir para casa da sua tia. Imagino o quanto mamãe deve estar sofrendo por nós duas. Por ter suas filhas em situações opostas, porém por um só motivo. Ganância. Ganância da minha irmã por querer mais, muito mais. Escutei a porta sendo aberta. Igor entrou me buscando diretamente com um olhar. — Oi — ele disse abrindo um sorriso encantador. Ele tinha trocado de roupa e feito a barba. Estava de calça jeans escura e uma camisa de manga longa e gola V na cor vinho. — Bem, agora que você chegou, eu posso ir — Sarah levantou da poltrona e beijou meu rosto em despedida. — Amanhã eu volto. — Tchau — despedi. Ela passou por Igor e beijou seu rosto também. — Você comeu? — perguntei assim que ficamos sozinhos. — Sim. — Dormiu? — Uma hora cronometrada. Igor se aproximou de mim. Entrelaçou nossas mãos, beijando os nós dos meus dedos. — Posso ficar essa noite com você? — pediu depois de alguns minutos me analisando. — Eu achei que você sempre ficava aqui. — Verdade. Mas nunca passei a noite toda. Seus pais revezavam. Então... — deu de ombros tristemente abaixando a cabeça e acariciando meu braço. Levantei seu queixo para me olhar. Passei minha mão pelo seu rosto delicadamente. Ele fechou os olhos sentindo meu toque. — Ah, Diabinha! Eu pensei que nunca mais sentiria essa sensação novamente — pronunciou com olhos fechados. Eu queria juntar nossas bocas, sentir seu gosto e dizer que tudo ficaria bem. Que esqueceríamos tudo o que passou e começaríamos novamente, a partir daqui. Mas eu simplesmente não poderia passar uma borracha em tudo que aconteceu entre nós. Eu precisava da certeza de que ele confiava em mim. E, principalmente, eu precisava confiar 100% nele, de novo. Só assim seguiríamos adiante.


Capítulo 34 Escolhas e recomeço

Alice Um mês depois — Bom dia, meu amor! — mamãe disse assim que apareci na entrada da cozinha. — Bom dia — respondi, beijando sua cabeça enquanto tomava seu café da manhã. Recebi alta há duas semanas, porém precisava de repouso e cuidados em casa, então, por insistência dos meus pais voltei para o apartamento da minha mãe. E para o meu antigo quarto. Algo que gerou enormes conflitos. Levi queria que eu voltasse para o seu apartamento e o Igor, que foi mais criativo, sugeriu que todos nós fôssemos para a fazenda da sua avó. — Sente-se e tome seu café — ela pediu. — Preciso ir à escola, mas não irei demorar. — Mãe, não precisa se incomodar. Estou bem. Além do mais a escola deve estar de pernas pro ar sem você lá durante todo esse tempo. Mamãe tinha tirado uma licença para ficar comigo durante toda a minha recuperação, um dos motivos que me fizeram concordar em voltar para cá. Papai e Levi tentaram a convencer de trabalhar meio período na escola. No entanto, foi em vão. Ela não aceitou e não saiu de perto de mim um minuto sequer. — Rebeca me acordou logo cedo, implorando que fosse hoje à escola. Estão loucos com os novos alunos — explicou. — Então! Por que não fica hoje por lá? — sugeri. — Eles precisam de você. — Eu te conheço muito bem, Alice Marie Ventura Schneider — resmungou. — Esqueceu que é minha filha? Aposto que assim que eu sair por aquela porta você fará alguma arte. — Prometo que ficarei quietinha, deitada em minha cama com o note em cima de mim, colocando minhas séries favoritas em dia — falei jurando, beijando os meus dedos indicadores cruzados. Ela me avaliou por alguns segundos, brigando internamente se acreditava ou não em mim.


— Não sei, Ali. Não quero te deixar sozinha. — Mãe, quando foi que eu fiquei sozinha nessa casa desde que saí do hospital? —questionei. — Quando não é a senhora ou o papai, tem o Levi, Danilo, Sarah, tia Lilian e o Igor. É impossível me sentir sozinha. — Isso é verdade — graças a Deus ela concordou. — Aposto que seu pai vai aparecer daqui a pouco... Ou o Igor. Eu sabia que papai não apareceria tão cedo pela manhã. Levi o tinha levado para conhecer algumas cidadezinhas aqui perto, na tentativa de abrir outra confeitaria. E é claro, que não disse nada para dona Laura. — A senhora não está com sono ou cansada? — indaguei. — Não. Por quê? — Não sei... — dei de ombros, pegando uma caneca e colocando café e leite. — Talvez por ficar até altas horas da noite conversando com seu namorado pelo Skype. — Eu não fiquei até tarde da noite — rebateu nervosa. — E também não tenho namorado. — Ah, Desculpa! Ele é seu amigo colorido. Ou como o Dan fala: um peguete — pronunciei tentando soar mais séria possível, porém foi inevitável e abri um sorriso malicioso. Eu amava ver mamãe enrubescida por causa de seu novo relacionamento. Ela ficava ainda mais linda. — Alice! Olhe o respeito, menina. Eu sou sua mãe — esbravejou. — Mãe, que bobagem. A senhora é uma mulher linda e sedutora — adverti. — Maria Sandra e eu não somos mais crianças. Está na hora de pensar um pouco mais na senhora. Você gosta do Miguel e pelo o que eu entendi ele quer algo sério. Na verdade, a princípio, fiquei surpresa quando o Igor me falou sobre a relação do seu primo com a minha mãe. Achei que era brincadeira do Igor, no entanto, passei a observar os dois quando estavam próximos. Era muito fofa a sintonia deles, mas ao mesmo tempo sentia-me receosa de mamãe se machucar. Dois dias depois que saí do hospital, Miguel veio se despedir, ele estava partindo para os EUA para cuidar da Ingrid e dar assistência a sua avó e tia. Aproveitei um momento em que ficamos a sós e o encurralei na parede. Miguel me garantiu que queria uma relação séria com mamãe. E que por mais que ela estivesse dificultando, não iria desistir dela. O que achei muito romântico. — Eu não sei, Ali... É complicado. — O que é complicado, mãe? — inquiri, passando um pouco de geleia de morango em uma torrada. — Você gosta do Miguel e ele de você. Não vejo mal algum. — Não me sinto confortável de falar do Miguel com as minhas filhas — declarou. — Ele é praticamente seu cunhado. Já pensou quando você e Igor tiverem um bebê? A confusão que será na cabeça dessa criança sem saber se me chama de titia ou vovó, ou vice-versa com o Miguel.


O quê? Como diabos surgiram um bebê e Igor nessa conversa? — Mãe! Que viagem é essa? — eu não sei se questionei por causa do filho que ela imaginou de repente ou da estupidez da sua análise em que o bebê se confundiria em como chamaria a ela e Miguel. — É melhor eu terminar de me arrumar. Não quero chegar muito tarde à escola — mamãe levantou-se da mesa saindo da cozinha e indo para seu quarto. Fiquei tomando meu café e me peguei pensando em bebê e Igor. Ainda nem tínhamos resolvidos nossa relação, quem dirá pensar em filhos. Claro que ele tem sido maravilhoso, atencioso e muito, muito carinhoso nas últimas semanas. O namorado perfeito. Porém desde que tudo aconteceu, não paramos para conversar. Eu tenho muitas dúvidas e receios sobre nossa reconciliação. Me julguem! Eu não ligo. É o meu coração, porra! Eu estou morrendo de medo de me entregar por inteira a ele novamente. Não suportaria outra decepção. Eu o amo tanto. Tem horas que o desejo me consome. Quero que me toque. Sinto saudades de estar abraçada ao seu corpo, de senti-lo me preenchendo. Mas mesmo se pedisse que fizesse amor comigo, Igor não o faria. Nunca vi uma pessoa tão controlada e decidida na minha recuperação. Chegava me dar raiva dos seus cuidados em excesso. Ás vezes tinha vontade de ficar totalmente nua na sua frente para testar até onde vai todo esse autocontrole. — Estou indo, Ali — mamãe surgiu na porta. — Me ligue para qualquer coisa que precisar. Isso é uma ordem. — Sim, senhora, dona Laura — confirmei acompanhando-a até a sala. Despedimo-nos com abraços e beijos. — Mamãe, pense bem sobre seu relacionamento com Miguel — pedi enquanto ela abria a porta para sair. — A senhora merece ser feliz. — Só se me prometer pensar sobre você e o Igor — rebateu. — Estou pensando — afirmei. — Será mesmo? — indagou franzindo o cenho. — Então, o Igor sabe que você vai para a França com seu pai depois de amanhã? Melhor, sabe que está fugindo para a França? Eu não estou fugindo. Estou querendo pensar melhor sobre o que eu quero! — Eu... Eu vou fa... Falar com ele — gaguejei, mas queria ter sido mal criada e dito que ela também era uma fujona. Fugiu do meu pai quando soube que estava grávida, fugiu do Otávio, meu padrasto, e agora estava procurando uma desculpa para fugir do Miguel. — Seria bom — expressou. — É melhor eu ir. Tranquei a porta e voltei para a cozinha pensando no que a minha mãe tinha dito. Ela estava certa, precisava falar para o Igor sobre a possibilidade de ir para a França com o meu pai, mas não seria uma fuga. Seria apenas para ficar longe de tudo e pensar com clareza.


Limpei a mesa do café da manhã e lavei a louça suja. Na certa levaria uma bronca por isso, mas me sentia ótima. Minha cabeça já não doía e latejava. As fraturas das costelas já não me causavam tanto inchaço ou incômodo para respirar. Os últimos exames apresentaram resultados excelentes. A única coisa que me incomodava eram as pequenas manchas amareladas pelo corpo, devido aos hematomas. Quando cruzei o corredor que dava para os quartos, o medo tomou conta do meu corpo ao perceber uma sombra parada na porta da sala. Depois do sequestro fiquei com receio, ou trauma, sei lá, de pessoas paradas em silêncio nas minhas costas. Não disse a ninguém, mas tenho pesadelos sobre aquele dia fatídico quase sempre. Virei-me devagar rezando que fosse alguém conhecido. E era minha irmã, Maria Sandra. — Oi — ela pronunciou cautelosa ainda parada na porta. Essa também era sua casa. Claro que Maria Sandra teria uma cópia da chave. Eu também tinha. — Oi — respondi também cautelosa, porém a avaliando. Ela estava diferente, mais magra. Muito magra. Tinha cortado os cabelos e deixado na altura dos ombros. E estava sem maquiagem, o que me surpreendeu bastante. Sandrinha amava um rímel e gloss labial. — Mamãe não está em casa, ela precisou ir à escola — avisei. — Eu a vi passando pelo portão do condomínio no seu carro, mas creio que ela não me viu — explicou. Eu não sabia o que dizer. Não poderia impedi-la de entrar. — Você parece ótima — disse. — Já estive pior — respondi, tentando soar simpática, mas não consegui. Minha decepção e mágoa com a minha irmã caçula estavam estampadas em meu rosto. Ficamos olhando uma para outra durante alguns segundos. Como se estivéssemos examinando uma à outra. Algo estava diferente nela, eu não sabia o que era, no entanto, ela era minha irmã, Maria Sandra, aquela que não merecia minha confiança. — Fique à vontade. Eu vou tomar banho. Mamãe falou que não demoraria. Não sei se mamãe e Maria Sandra chegaram a conversar depois de tudo, eu não perguntava e também ninguém me dizia nada relacionado à minha irmã. A única coisa que sabia era que todas as vezes que tia Lilian vinha nos visitar, as duas se trancavam no seu quarto e ficavam horas por lá, ou quando me levantava de madrugada para ir ao banheiro, avistava mamãe chorando baixinho agarrada ao porta-retratos de Sandrinha. — Ali — ela me chamou quando virei de volta para o corredor. — Sim?


— Sei que você não acredita, mas eu jamais quis que essa tragédia acontecesse com você. Eu sinto muito. Eu jamais me perdoaria se tivesse acontecido o pior com você ou com a mamãe por minha culpa. Voltei a olhá-la abobada. Ou era fingimento da parte dela, ou ela ainda não era um caso perdido. Contudo não criei expectativa. — Engraçado você dizer isso, Maria Sandra. Será que você se preocupava tanto assim com a nossa segurança ou com a sua quando se misturava com aqueles agiotas sem escrúpulos? — inquiri me lembrando das inúmeras vezes que fui desesperada pagar suas dívidas, com medo que algum mal acontecesse a ela. — Eu tinha você e a mamãe para me proteger. Eu... Eu achava que nada aconteceria conosco. — Não, Maria Sandra. Não tente burlar minha inteligência. Você fazia empréstimos altíssimos com pessoas perigosas e sequer pensou nas consequências. Você não passa de uma mulher fútil e mimada. Que não enxerga o seu próprio umbigo e acha que o mundo gira ao seu redor. Não venha agora me dizer que sente muito pelo que me aconteceu. Não foi você quem esteve lá. Não foi você quem foi espancada até perder a consciência e jogada como um bicho no mato para morrer. Ninguém merece o que eu passei, Maria Sandra. Nem mesmo um animal. Respirei fundo buscando fôlego. Maria Sandra estava cabisbaixa quando terminei de falar. — Essa casa também é sua. Você tem livre acesso a ela, só peço que finja que eu não existo, pois eu farei o mesmo — completei saindo de perto dela. Caminhei até meu quarto. Peguei uma toalha limpa, uma peça de lingerie e um camisão. Depois fui para o banheiro. Antes que eu pudesse fechar a porta Maria Sandra se colocou entre ela, impedindo. — Eu sou egoísta? — gritou com o rosto banhado de lágrimas. — Você me abandonou quando voltou de Paris com um pai e um irmão novo. Toda metida e exibida. Só dava atenção a eles ou aqueles seus amigos idiotas. O quê? Ela surtou? — Eu te idolatrava, Ali. Eu achava que era a pessoa mais abençoada por ter você. Eu fazia de tudo para que sentisse orgulho de mim. Porque eu te amava mais do que a mamãe. E o que aconteceu? Você me jogou de escanteio, me traiu. Seu corpo tremia e havia rancor em seus olhos. Eu estava completamente paralisada, em choque, sem ação com tudo que tinha acabado de escutar. — Eu nunca te abandonei — proferi vagarosamente. — Você sempre foi a minha menina. Logo que conheci meu pai e meu irmão, eu fiz de tudo para que Maria Sandra lidasse bem com a minha nova situação. Queria que ela fizesse parte também. Tanto foi que Levi e papai queriam cuidar dela como irmã e filha caçula, para que não se sentisse excluída e, principalmente, porque ambos sabiam que eu a amava demais.


Senti uma necessidade louca de tomá-la em meus braços e dizer que tudo voltaria a ser como antes, porém a sensatez também veio rapidamente. Nunca, jamais, seria como antes. Mesmo se quiséssemos, a minha garotinha já não existia mais naquela mulher em minha frente. Ela tinha se transformado em uma mulher egoísta. — Eu sempre a protegi, mesmo quando eu não queria enxergar as suas atitudes — bradei nervosa. — Sempre me dando dores de cabeça com seus empréstimos malditos. — Foi a única forma que encontrei de chamar sua atenção — confessou. — E eu teria continuado se não tivesse sido tão suja colocando o Igor contra mim e tentando levá-lo para a cama — me chame de estúpida, mas se Sandrinha tivesse sido inteligente me levaria em suas mãos. Porque sempre a veria como minha garotinha. — Assim que os vi juntos no aeroporto, eu soube que você o amava. Eu fiquei desesperada, porque ele seria mais um para te tirar de mim. Achei que se provasse que ele não prestava. Você terminaria com ele. Fechei os olhos respirando fundo. Não adiantava remoer com o passado. Nada que disséssemos, mudaria os fatos. E realmente eu estava cansada de tudo. — Olha, daqui a dois dias eu não vou estar mais aqui — disse abrindo os olhos novamente. — Você e a mamãe podem tentar se acertarem. Ela te ama, Sandrinha, e sei o quanto está sofrendo. — Eu vou embora, Ali. Me afastar de todos — declarou. — Eu só vim pegar algumas coisas minhas. — Embora? Como embora? Para onde você vai? E a mamãe? — bradei várias perguntas, sobressaltada. — Eu ainda não sei para onde eu vou. Talvez alguma cidade tranquila do interior — proferiu. — Eu não quero ficar aqui. Será melhor para todas nós. — Não faz isso, Sandrinha. Pensa na mamãe — implorei. — Ela vai ficar desesperada sem saber onde você está e se está bem. — E você vai ficar preocupada comigo também? Não respondi sua pergunta, apenas a observei me olhando, aguardando ansiosa por minha resposta. Mesmo não confiando mais nela. Era minha irmã e, no fundo, apesar de todas as mágoas e decepções, eu a amava. Só não seria mais a mesma com ela. — Eu estou grávida —anunciou de repente quando eu não disse nada. — O quê... Quê? Meus olhos voaram direito para sua barriga plana. Pensei imediatamente se o maldito francês que me sequestrou sabia da gravidez e se tomaria o bebê para criá-lo e torná-lo uma pessoa sem escrúpulos como ele.


— O pai não é Jérôme. Graças a Deus — respondeu adivinhando meu pensamento. — Estou com seis semanas. Fui a um obstetra ontem. — Está tudo bem com você e o bebê? — eu não conseguia tirar os olhos de sua barriga. — O pai vai te apoiar? — Ele não sabe. E eu prefiro assim — afirmou enxugando as lágrimas e abrindo um pequeno sorriso. — Engraçado, você é a primeira pessoa que conto. Nem a tia Lilian sabe. Eu forcei um sorriso pela situação, mas mais preocupada com o futuro daquele inocente em sua barriga. Como ela iria criá-lo sozinha? Mamãe ficaria louca quando soubesse. E o pai? Será que ele não merecia saber? Meu pai fala magoado do quanto perdeu de estar comigo, por não saber da minha existência. — Eu conheço o pai? — interroguei curiosa. Ela acariciou seu ventre ternamente. Confesso que a cena me espantou. Não esperava uma atitude carinhosa da Sandrinha. — O pai é o homem que amei desde o primeiro instante que o vi — relatou tristemente. — Só que ele nunca me quis para ser exclusivamente dele. Só para aventura, mas eu o amava tanto que aquelas migalhas que recebia foram o suficiente para mim, por um tempo. Até o dia em que ele invadiu seu quarto e a agarrou a força. Puta merda! Ela estava falando do Valentim. — Por... Por que não me disse que gostava dele? Eu nunca teria ficado com ele se soubesse que o amava — indaguei estarrecida. — Você estava tão hipnotizada por ele na época. Além do mais, por um tempo você foi uma das várias que ele dormia. Dentre elas, eu — revelou dando de ombros ao confessar que me traía. Por incrível que pareça essa revelação não me deixou com raiva, mas triste por ela. — Ele só te quis mesmo quando você o dispensou. Parecia que eu tinha perdido a voz. Eu não conseguia processar nada. Falar nada. — Mas o Valentim pode te apoiar — expressei esperançosa. — É do Valentim que estamos falando, Ali. — Eu sei, às vezes existem homens que não nascem para ser bom marido ou namorado, mas são pais excelentes e atenciosos. O Valentim pode ser assim — insisti, ele poderia ser um cafajeste, mas era um bom amigo e sócio para o Danilo. — Talvez — disse para si mesma. Eu não queria que ela fugisse como a nossa mãe fez. O bebê e Valentim mereciam saber da existência um do outro. Eu falo por experiência. — Bem, eu vou pegar minhas coisas. É melhor você tomar seu banho — Sandrinha finalizou


caminhando até o seu quarto. Fiquei parada na porta do banheiro durante vários minutos esperando minha irmã sair do seu quarto. Meia hora depois Sandrinha saiu puxando uma mala média de rodinhas pelo corredor e outra de mão. Segui-a até a sala. Vi quando pegou um porta-retratos que continha uma foto de nós três, tirada no Natal passado, e colocá-lo em sua bolsa de mão. — Eu amo essa foto — disse, de costas para mim. — Se cuida, Ali — dirigiu-se até a porta abrindo-a. — Você ao menos vai se despedir da mamãe? — questionei. — Ela vai ficar desesperada sem saber onde você está. Não faz isso com ela, por favor. — Depois ligo para ela quando me fixar em algum lugar — virou para mim e sorriu. — Adeus, Ali. Ela foi embora, e algo dentro de mim dizia que iria demorar a rever minha irmã novamente. Talvez nunca mais a visse. Eu fiquei estatelada no meio da sala pensando na mamãe, na Sandrinha. Se ela ficaria bem sozinha com um bebê pelo mundo, sem alguém da família para ajudá-la. Como um filme, todos os nossos momentos juntas passaram pela minha cabeça. Os bons e os ruins. De repente, me vi encolhida, deitada no sofá, chorando compulsivamente como uma criança abandonada. Era um choro que trazia uma mistura de dor e alívio, principalmente, lamento por Maria Sandra. Por ela ter feito inúmeras escolhas erradas em sua vida. Eu deveria ir atrás dela, impedir que fosse embora. Que esperasse mamãe voltar para tentarmos encontrar uma solução. Peguei meu celular e liguei para o Igor. Eu precisava dele aqui e agora, para me sentir bem e segura.

Depois que Igor chegou, contei entre choros e muitos soluços o que tinha acontecido. Ele ficou todo o tempo ao meu lado cuidando de mim. Ligou para tia Lilian e pediu que contasse para mamãe. Eu não tinha a mínima condição de fazer isso. Não suportaria dar essas notícias a ela. De certa maneira me sentia culpada. Além do mais, tia Lilian e mamãe eram mais que irmãs, eram amigas. Ela saberia como cuidar da mamãe melhor do que todos nós. Quando mamãe chegou em casa, parecia inconsolável. Ela se trancou no quarto ficou lá durante várias horas. Não abria a porta para ninguém. Papai e Levi insistiram em ficar para dormir, mas não deixei. Sabia que Levi madrugava por causa da confeitaria e papai também gostava de acompanhá-lo. Já era tarde quando me despedi de papai e Levi. Igor sentou na poltrona que tinha na sala e me colocou em seu colo, aninhando-me em seus braços. Adormeci logo em seguida. Era tão reconfortante estar com ele assim. Acordei ainda de madrugada com vontade de fazer xixi, estava deitada em minha cama. Na certa, Igor tinha me carregado até lá. Mas para a minha surpresa, Igor estava deitado ao meu lado apenas de cueca boxer. Tentei levantar, porém fui impedida pelo seu braço que descansava em meu quadril, enquanto seu rosto estava aninhando em meu pescoço. Queria


acariciar seu corpo, mas resisti e levantei rapidamente, se começasse não pararia, e a natureza me chamava nesse minuto. — Você está horrível, Alice Schneider — falei para mim mesma através do espelho, enquanto lavava as mãos. Saí do banheiro, reparando que a porta do quarto de mamãe estava entreaberta. Caminhei vagarosamente até lá. Queria ter a certeza de que ela estava bem. Mamãe abriu a porta de repente, me assustando. — Ali! — pronunciou assustada também. Ela estava visivelmente arrasada. Os olhos não negavam que tinha chorado por horas. Olhamos uma para outra sem dizer nada, mas ao mesmo tempo dizendo tudo. A vida toda tínhamos sido nós três juntas, e agora, uma parte de nós havia partido. E só Deus sabia quando teríamos notícias. Sem hesitar nos abraçamos intensamente. Dividindo os nossos sofrimentos e nos reconfortando, o que o destino havia reservado para nossa família. Abraçadas deitamos em sua cama, o único barulho que escutávamos era o dos nossos corações batendo. Foi com esse pequeno barulho que adormecemos juntas.

Acordei e não encontrei mamãe na cama. Decidi levantar e fazer minha higiene matinal. Quando saí do banheiro parei no corredor quando ouvi a voz do Igor vindo da cozinha. Eu o tinha deixado dormindo sozinho no meu quarto, quando levantei de madrugada e encontrei mamãe. Ele não merecia isso, mas naquele momento, mamãe e eu precisávamos uma da outra. Tinha certeza que Igor entenderia. Dirigi-me para cozinha, encontrando-o encostado no balcão do armário, descalço e sem camisa. Vestia apenas uma calça jeans clara. Ele não tinha me visto porque estava de costas para mim. Não disse nada quando percebi que mantinha o celular no ouvido. Parecia atento ao que a pessoa do outro lado da linha falava. — O importante é que a Ingrid esteja respondendo bem a radioterapia — proferiu. Provavelmente era o Miguel que falava. — Eu vou remarcar minha passagem. Eu só preciso de mais alguns dias antes de viajar. Não posso ir depois do que aconteceu ontem. Não! Eu não permitiria que Igor se privasse de estar com sua família, principalmente com sua irmã, por minha causa. Eu estava praticamente recuperada. A partida da Maria Sandra tinha me abalado, mas não era motivo para ele não viajar. Ele tinha que ir. Ingrid precisava dele muito mais do que eu. Escutei quando ele se despediu do primo, desligando o aparelho e guardando no bolso de trás da calça. — Bom dia — falei serena, disfarçando que tinha acabado de escutar parte de sua conversa


com o seu primo. — Bom dia, minha Diabinha — saudou-me com um sorriso perfeito. Veio até mim e beijou meus lábios. — Preparei tapioca para você. Sente-se enquanto preparo seu suco de laranja. — Você viu a minha mãe? — indaguei puxando uma cadeira e sentando-me. — Lilian apareceu aqui logo cedo e carregou sua mãe — avisou pegando as laranjas e cortando-as. — Pensei em irmos para a fazenda e passarmos o dia. Podíamos chamar seu pai para ir conosco. Dormiríamos lá e voltaríamos amanhã antes de Sr. Ely ir embora. O que acha? — Não vai dar. Tenho que arrumar minhas malas — proferi. Sendo direta. Igor instantaneamente parou o que estava fazendo e olhou para mim. — Do que você está falando? — mesmo longe de mim, sentia seu corpo tenso. — Eu decidi ir amanhã com papai para a França — baixei a cabeça, pois não tinha coragem de encará-lo. — E quando ia me contar? — mesmo sem olhá-lo, seus olhos estavam fixos em mim. — Quando decidiu isso? Agora! — Papai me convidou — respondi ainda sem levantar a cabeça, olhando para meu prato. — Porra, Alice! Eu merecia saber disso — esbravejou largando as laranjas. — Como você faz esse tipo de plano e não me diz nada? E ainda fala assim? — Eu ia falar pra você ontem, mas a Sandrinha apareceu. — Ontem? Você não decidiu isso ontem — afirmou. — E quanto a nós? Achei que... Ele parou de falar. Levantei cabeça e olhei-o firme. — Esse tempo será bom para mim. Para nós. Serão apenas algumas semanas. — Bom? Eu não quero ficar longe de você. Eu não quero tempo — ele se aproximou e me puxou para seus braços, encostando-me no tampo da mesa. — Isso tudo é para me castigar por ter sido um imbecil? Você não acha que já sofremos o suficiente? — Igor, eu tenho tantas dúvidas — disse, tremendo quando ele começou a distribuir beijos pelo meu pescoço. — Fale para mim! Ajude-me a te provar que você pode confiar em mim novamente — sussurrou, me mordiscando e beijando alternadamente. — Para, Igor! Eu não consigo raciocinar com você em cima de mim — empurrei-o — Por favor, entenda. — Entender? O que você quer que eu entenda, porra? Que a mulher que eu amo não me quer?


Eu nunca vou entender, Alice — resmungou irritado. Pegando meu rosto, desesperado por uma resposta, que diria que permaneceríamos juntos. Mas não disse. Agora Igor precisava cuidar e ficar com a sua irmã, e não comigo. — É melhor você ir embora — falei baixinho. — Mais tarde podemos conversar com mais tranquilidade. — É isso que você quer? Que eu vá embora? Confirmei com a cabeça, no entanto, meu coração gritava não. Sem esperar, Igor me agarrou, beijando-me furiosamente, forçando sua língua em minha boca, para que eu o chupasse e ele pudesse mostrar que eu ainda o queria. Levantou-me, colocando-me sentada em cima da mesa, se encaixando entre minhas pernas. Eu sabia que se não o afastasse logo, ele me tomaria em cima da mesa. — Igor, por fav... — mas as minhas palavras morreram, assim como minha resistência quando ele invadiu uma de suas mãos por baixo do meu camisão, pegando com força um dos meus seios e apertando, enquanto com a outra abria o botão de sua calça descendo o zíper e puxando seu pau extremamente duro para fora. — Deite — exigiu sério. Levantou meu camisão dedilhando sedutoramente seus dedos pelo bico do meu seio, me fazendo gemer quando o beliscou com mais força. Eu o queria tanto, por tanto tempo que já não me importava com nada que acontecesse. Desci da mesa da minha cozinha, ainda com sua mão me acariciando e deitei cuidadosamente sobre o tampo. Sem falar mais nada, Igor se abaixou beijando e chupando meus seios, meu corpo todo tremia com suas carícias. Eu já estava molhada e pronta para ele e o queria dentro de mim. Me esfregava em seu pau, massageando minha boceta por cima da calcinha, ele estava tão duro e necessitado quanto eu. Ele desceu pela lateral do meu corpo, beijando a bochecha do meu bumbum, onde ele deu uma mordida forte marcando minha pele, enquanto ele retirava minha calcinha, jogando-a no chão. Igor se posicionou entre minhas pernas, visualizando meus seios e passando suas mãos por eles, descendo por todo o meu corpo e subindo pela parte interna da minha coxa até chegar ao meu núcleo excitado, onde friccionou seu polegar. — Igor! Eu ainda não posso fazer sexo duro — alertei ao mesmo tempo em que gemia, sentindo que ele não seria gentil. Eu amava sexo forte e duro, mas as fraturas das costelas ainda eram recentes. Como se não tivesse escutado o que tinha acabado de falar, Igor me penetrou de uma vez. Gritei pela dor e também pelo prazer que senti, meu corpo ficou tenso ao seu redor, relaxando em seguida, reconhecendo seu corpo. O encaixe perfeito do seu membro dentro de mim. Ele saiu e entrou novamente, acostumando meu corpo ao seu grande e duro. Deitou com cuidado sobre meu corpo, gemendo em meu ouvido enquanto estocava com força, levando um seio na boca, chupando, marcando-me, reafirmando o quanto nos completávamos. Eu segurava seu cabelo


com força trazendo mais ainda seu corpo para junto do meu, não permitindo que se afastasse de mim, rebolava meu quadril em seu pau, acompanhando seus movimentos desesperados. — O que estamos fazendo é amor, independente de ser duro e forte ou devagar e gentil — murmurou pegando meu outro seio e mordiscando. — Você e eu nunca fizemos sexo. Sempre fizemos amor, Alice. Porque nos amamos. Eu te amo, porra! Gemíamos de desejo e prazer a cada estocada. Não demorou muito e chegamos ao mesmo tempo no clímax. Ele me enchendo do seu gozo, enquanto eu marcava seu ombro com meus dentes e arranhava suas costas. Ficamos por alguns minutos na mesma posição, em silêncio, recuperando o fôlego. Igor saiu de dentro de mim lentamente, fazendo com que gemesse com saudade e prazer. Levantou-me, deixandome sentada ainda em cima da mesa. Saiu da cozinha, voltando minutos depois, completamente vestido. — Preciso ir a Clínica — pronunciou sério. — Se ainda quiser me ver sabe onde me encontrar. Caso não... Boa viagem — ele virou indo embora, sem esperar por alguma palavra minha.

Não tive notícias do Igor durante todo o resto do dia. Danilo e Sarah apareceram no final da tarde trazendo pizza e iscas de frango empanado. Assistimos a um filme e conversamos bastante, porém em nenhum momento falamos do Igor ou da viagem. Depois Levi e papai apareceram trazendo croissants. Ficamos todos na sala jogando conversa fora. Levi estava empolgado com o local que achou para abrir mais uma confeitaria. Eu só o escutava feliz e orgulhosa pelo meu irmão. Estava agarrada ao meu celular na esperança de que o Igor pudesse ligar avisando que estaria a caminho. No entanto, às 22h não havia ainda sinal dele. Deixei todos na sala e fui para meu quarto. Precisava começar a fazer minha mala e principalmente, ficar sozinha. Fiquei uns vinte minutos parada olhando para a mala, sem ação. Perdida em meus pensamentos e dúvidas. Mas dúvida de quê? Eu tinha certeza que Igor me amava. Ele provou a cada segundo que esteve ao meu lado. Até antes de tudo dar errado entre nós. Dona Elza também havia me garantido, e eu acreditava nela. Escutei uma batida na porta, que foi aberta logo em seguida. — Posso entrar? — papai falou com sua voz rouca em um bom francês. — Claro que sim, papa. Ele se aproximou de mim e olhou para a pilha de roupas em cima da minha cama. — Isso não é hora de arrumar seu guarda-roupa, Ange — sorriu pegando algumas mudas de roupas e dobrando. — Eu estou fazendo as malas. Esqueceu que vou amanhã com você para Paris? — forcei um


sorriso ao notar que soou estranho as minhas palavras. — Ah! Paris — retrucou debochado. — Papa. Eu... — Alice, sente-se aqui comigo — papai interrompeu-me abrindo espaço da bagunça da cama para sentarmos. Sentei ao seu lado e encostei minha cabeça em seu ombro. — É isso mesmo que você quer? Ir para Paris? — indagou, passando o braço por cima do meu ombro. — Porque seus olhos e ações mostram outra coisa. — Você não quer que eu vá? — Claro que eu quero, Ange — ele pegou minha mão e a beijou. — Seria maravilhoso ficarmos juntos por um tempo. Sinto muito sua falta, mas acima de tudo eu quero meus filhos felizes. E não será na França que isso irá acontecer com você... Não agora. — Eu não quero o senhor sozinho — choraminguei. Sempre fui mimada pelos meus melhores amigos e familiares. Contudo, depois do sequestro sentia a necessidade de mais, como uma forma de proteção. — Me escuta, Alice — ele pegou meu rosto para que eu o olhasse. — Eu amo você demais. E me dói vê-la fazendo escolhas que só te farão sofrer ainda mais. Meus olhos se encheram de lágrimas porque no fundo eu sabia que papai e Igor estavam certos. O medo de sofrer que me cegava. — Eu amei sua mãe loucamente. Mas a magoei demais. De uma maneira que não tinha como voltar atrás, porque envolvia outras pessoas — ele se referia a Levi e sua mãe. —Eu fiquei com muita raiva de Laura quando descobri que tínhamos uma filha. Mas não a culpei, porque eu não fui sincero com ela também — acariciou meu rosto gentilmente. — Perdi de vê-la nascer e crescer. Perdi momentos únicos de sua vida. Ele sempre se culparia por não ter me visto crescer. — Só que você e o Igor têm conserto. Podem ser felizes. Não dispense o amor da sua vida por medo de sofrer. Lute por ele. Seja aquela menina decidida e corajosa que eu amei no instante que entrou em minha confeitaria há mais de dez anos. Fique aqui. E depois vocês dois vão me visitar. — Papa, eu amo tanto o Igor. Eu o quero tanto — declarei emocionada, sabendo que precisava encontrar Igor o mais rápido possível. Dizer a ele que tudo ficaria bem entre nós. Passar uma borracha no passado e fazer um novo recomeço. — Ligue para ele e o chame para conversar — papai pediu pegando meu celular da mesinha de cabeceira e me entregado. — Não vou ligar para ele — sorri maliciosamente por pensar em algo. — Tive uma ideia...


Papa, posso ficar sozinha? Preciso trocar de roupa. Meu pai levantou-se, mas antes de sair, eu o chamei. — E a minha passagem? Temos que cancelar. Será que tem reembolso? — detestaria que papai perdesse dinheiro por minha causa. — Não se preocupe, Ange — piscou para mim zombeteiro. — Eu não comprei sua passagem. O quê? Papai saiu do quarto gargalhando ao ver minha cara de surpresa. Ele sempre soube que eu não iria com ele para Paris. Corri para o meu guarda-roupa procurando entre as caixas empilhadas a arma perfeita para reconquistar o meu homem de uma vez por todas. Igor Salazar! Prepare-se que a sua Diabinha vai te marcar como dela. Definitivamente.


Capítulo 35 Diabinha x Devasso

Igor Depois que saí da casa de Alice, enfiei a cara no trabalho. Eu estava com muita raiva por saber de última hora que ela havia decidido viajar para França com seu pai, sem ao menos me falar. Compreendo que precisávamos conversar e esclarecer de uma vez por todas nossa relação e eu estava esperando essa conversa pacientemente, porque neste momento sua recuperação era primordial. Queria provar para Alice, que ela poderia voltar a confiar em mim, porém não aguentei quando ela disse que precisava de um tempo. Porra! Eu errei, e feio, mas ela não via que eu estava arrependido? Que o medo e a dor que senti ao perdê-la me deixou vazio e sem sentido? Eu faria de tudo para fazê-la feliz ao meu lado e sem arrependimentos. Depois que a deixei sozinha, passei o dia todo me controlando para não ir procurá-la. Estava mal pela forma como a deixei, pior, estava preocupado com a ideia de tê-la machucado pela maneira insana que a tomei em meus braços, mas a saudade era tamanha que não consegui me controlar e muito menos ela. Estávamos esfomeados. Tinha sido tão maravilhoso e perfeito. Seu corpo me recebeu calorosamente, provando que pertencíamos um ao outro. Se pudesse teria aproveitado mais, era tão bom estar dentro dela, escutando seus gemidos, enquanto gozava de tanto prazer. Porém, busquei forças e fui embora, não queria fazer daquele momento uma despedida. Eu não suportaria. Mesmo querendo estar ao seu lado todo o tempo, cuidando e ajudando durante toda sua recuperação, a pedido de Alice voltei a atender, pelo menos, um período na Clínica. Eu tinha pacientes em gestação avançada que precisavam da minha atenção e assistência também. Então dei preferência a elas, e o horário que sobrava atendia normalmente consultas rotineiras. Em um mês, meu dia-a-dia estava entre ficar com Alice, Clínica e salas de cirurgias, fazendo o que eu mais amava, trazendo crianças ao mundo. — Mas uma rodada de água de coco para encerrarmos a noite? — Luís sugeriu tirando-me do devaneio. Depois da Clínica em vez de ir para casa de dona Laura ficar com Alice, como sempre fazia, decidi sair com meus amigos e resisti ao desejo de ir vê-la. Não desistiria dela, mas manteria minha palavra. Alice tinha que decidir sozinha o que realmente queria para nós dois.


Meus amigos e eu estávamos em um barzinho de frente para o mar nos “embebedando” com água de coco. Tudo que eu menos precisava era de álcool nesse momento. Precisava estar sóbrio o suficiente para dar o próximo passo na minha vida. Só ainda não tinha ideia como faria quando Alice fosse embora com o pai para Paris. A única certeza é que iria até o fim do mundo, se preciso, para prová-la que a amava e a faria sorrir todos os dias. — Por mim tudo bem — respondi desanimado ao meu amigo Luís. — Eu preciso ir. Sarah ligou — Gabriel falou sentando à mesa após atender uma ligação. — Danilo está levando-a para o meu apartamento. Não quero deixar minha princesa esperando muito. Com certeza Danilo e Sarah estavam saindo da casa de Alice. Eles todos os dias a visitavam. Eram amigos inseparáveis, e eu os admirava demais por cuidarem da minha Diabinha. — Só mais essa rodada e iremos embora — Luís repetiu, pedindo três cocos a garçonete quando Gabriel concordou. —Também não quero deixar Gabriela esperando por mim. Ela larga seu plantão daqui a pouco e vou pegá-la no hospital. Todos sabiam que Luís namorava a doutora Gabriela há mais de dois anos, mas só agora ele tinha passado a falar abertamente de sua relação. Ele sempre foi reservado, até mesmo para Gabriel e eu, seus melhores amigos. O importante era ver o meu amigo feliz, e Gabriela era uma sortuda por tê-lo ao seu lado. — Você vai para casa da Alice quando sair daqui? — Luís perguntou receoso. Eu tinha contando para os dois o que tinha acontecido. E o quanto estava chateado por isso. — Não. Vou para casa – respondi sucinto. Nesse momento, sentia inveja dos meus amigos. Queria que a minha namorada também estivesse me esperando como as deles. No entanto, eu nem sabia se ainda éramos namorados. Na verdade, não sabia de mais nada. A única certeza que tinha era de que Alice tinha o poder total sobre mim. — É melhor mesmo — Gabriel confirmou. — Descanse um pouco. Amanhã é um novo dia. E quem sabe você a convence a ficar. Eu não queria que ela fosse embora, queria-a aqui comigo. E não fugindo de mim. Eu não a culpava por tomar essa decisão, mas não deixava de me sentir magoado. Despedi-me de Luís e Gabriel no estacionamento do barzinho e entrei em meu carro, mas não antes de combinarmos de jogar uma partida de futevôlei no final da tarde do dia seguinte. Saí do estacionamento pegando a avenida principal que levaria direto ao meu apartamento. Assim que chegasse em casa marcaria meu voo para o EUA, naquele momento essa era a melhor decisão. Daria o tempo que Alice precisasse para voltar pra mim. E, também estava na hora de ficar um pouco com a Ingrid e minha família. Cheguei ao prédio onde morava em menos de quinze minutos. Estranhei por não ver o porteiro na portaria. A sorte era que sempre andava com o controle remoto do portão da garagem, mas, mesmo assim, precisava falar com ele e saber se tinha correspondências minhas, já que desde o


sequestro de Alice, mal vinha em casa. Como não avistei o senhor Geraldo, desisti de esperá-lo. Do meu apartamento interfonaria à portaria e perguntaria. Aguardei o elevador chegar, e assim que entrei senti um aroma delicioso e totalmente familiar atingir minhas narinas. Esse cheiro era inconfundível, cheiro da minha diaba enfeitiçadora. Automaticamente levei meu braço ao nariz e inalei sentindo o aroma de Alice que ainda estava impregnado em minha pele desde cedo. Novamente a lembrança do que tínhamos feito pela manhã voltou em cheio em meus pensamentos. A vontade era tanta de estar com ela que mesmo que fizesse horas que estivemos juntos, sua fragrância estava marcada em mim tão fortemente que me deixava louco e alucinado. O seu cheiro era tão marcante que parecia que Alice estava ali, comigo, naquele momento. Era muita tortura. Desci do elevador em meu andar já cogitando a possibilidade de ligar para Alice e provocá-la até que desistisse dessa ideia estúpida de viagem. Um sorriso malicioso passou por entre meus lábios ao lembrar a primeira vez que a incitei por telefone. Abri a porta do meu apartamento ainda sorrindo por imaginá-la com aquele rosto de anjo enrubescido quando parei bruscamente, totalmente paralisado, ao ver a cena mais perfeita em minha sala. Meu Deus! Eu estava tendo alucinações das brabas. Estava ficando louco de jogar pedra. Pisquei os olhos várias vezes para ter certeza que não era imaginação ou loucura por culpa do amor. Mas não era. Era um sonho, e muito, muito real. Uma fantasia que qualquer homem faria loucuras para realizar. Alice estava no sofá, sentada sobre suas pernas, vestida com uma fantasia sexy de... Diabinha. Com direito a chifres, um marcante batom vermelho, salto alto e... Merda! A descarada empinava o bumbum exibindo o rabinho de diabinha, enquanto mordia levemente a ponta de um pequeno tridente. Porra! Eu morri e fui para o paraíso. Ainda não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo. Meu pau ficou duro instantaneamente. Continuei simplesmente estático admirando aquela cena, não conseguia pronunciar uma palavra, apenas a olhava abobado. Tinha medo de que a qualquer momento eu despertasse confirmando que tudo não passava de um sonho, por isso, forçadamente, desviei os olhos viajando pela sala até chegar ao meu sofá e comprovar que Alice ainda estava lá. Por toda sala havia velas aromatizadas, duas taças e uma garrafa de vinho na mesinha de centro junto com uma tábua de frios. E ela, Santo Deus! Não era sonho mesmo. Alice estava deslumbrante com aquela lingerie vermelha metalizada que ligava duas cintas liga entre o sutiã e a calcinha. Linda e muito sexy. Com muito custo consegui fechar a porta quando uma música ambiente subitamente soou por todo o apartamento. — Não sabia que você gostava do Bon Jovi –decidi falar, mas foi em vão, novamente fui pego sendo hipnotizado por aqueles olhos azuis quando voltei a olhá-la. — Cresci ouvindo a banda — proferiu como se nada estivesse acontecendo a nossa volta, mas soava sexy, e pior, ela continuava mordiscando aquele tridente me provocando. — Mamãe e tia Lilian são completamente apaixonadas pela banda, principalmente pelo vocalista. Minha vontade era de ir até ela e tomá-la em meus braços desesperadamente. Tirar todo aquele batom vermelho de sua boca, mas estava curioso esperando por sua próxima ação.


— A música se chama In these arms — disse simplesmente. — Ela é especial? — indaguei curioso pela a escolha dessa música. — Agora é — disse simplesmente. — O que faz aqui, Alice? — perguntei ao lembrar que no dia seguinte ela partiria para Paris com seu pai. Ela estava perfeita, mas a última coisa que eu precisava era ter esse tipo de cena como despedida para me atormentar de uma vez por toda. — Estava com saudades desse sofá — pronunciou alisando o estofado. O qual fizemos amor pela primeira vez quando a trouxe aqui, em meu apartamento, e fomos flagrados pela minha mãe e irmã. — Grandes recordações esse sofá tem — soei calmamente, mas por dentro a ansiedade me consumia. — Inesquecível — completou, mordendo seu lábio inferior. — Passou a chave na porta? Não disse nada, apenas mexi na maçaneta só para garantir que realmente havia trancando a porta. Quando confirmei, lentamente Alice levantou-se do sofá e veio até mim. Deslumbrante naquela fantasia feita para ela. Eu continuava ali parado, totalmente a sua mercê. Amanhã quando ela fosse embora para Paris eu sofreria todas as consequências. Porque uma coisa era certa, eu não resistiria a ela essa noite. Ela me dominaria por completo. — Você sabe que me tem comendo em sua mão, não é? — declarei tentando controlar meu desejo de agarrá-la. — Sei sim... Mas primeiro eu quero tirar essa camisa — declarou, tocando sua mão quente delicadamente em meu peito. Alice desabotoou cada botão da minha camisa sem tirar os olhos dos meus. Minha vontade era atacar aquela boca e chupar aqueles lábios até deixá-los completamente inchados. — Eu amo seu peitoral — disse, jogando minha camisa no chão e acariciando meu peito. —Eu quero beijar cada parte do seu corpo, Devasso. — Ali! — gemi quando seus lábios tocaram minha pele quente de desejo por ela. — Diabinha! Eu sou e sempre serei a sua Diabinha — afirmou entre os beijos e mordidas em meu peito. Percebendo minha reação, com suas unhas arranhou minhas costas. Não resistindo mais a vontade de toca-la, agarrei-a desesperadamente. — O que você quer, Alice? Já não basta me deixar, ainda quer me atormentar com mais essa lembrança — esbravejei mordendo-a. — Você sabe o quanto me deixa louco? Se está aqui sabe que vou tomar tudo de você essa noite. Tudo. Trouxe-a para mais perto do meu corpo envolvendo minha mão em seu cabelo, afastando suas pernas com a minha e friccionando seu clitóris com minha coxa, eu tomaria tudo que ela me oferecesse e daria tudo de mim a ela, não deixaria espaço para dúvidas de que éramos um só.


— Sim, eu sei — confirmou, esfregando sua boceta em minha perna e gemendo enquanto beijava atrás da sua orelha. — Me toma completamente. Eu sou sua, Igor. Toda sua... Eu quero que você me tome. — Ah, Diabinha! Eu sei que amanhã irei me arrepender dessa despedida, mas valerá a pena... Muito a pena, cada lembrança. Levantei-a em meus braços, entrelaçando suas pernas em minha cintura agarrando seu bumbum e apertando com força. Carreguei-a de volta para o sofá onde a sentei ficando em pé de frente para ela. Tirei meus sapatos ao mesmo tempo em que retirava o cinto e desabotoava a calça jeans. Alice me olhava com aqueles olhos sedutores, brincando com os dedos em sua calcinha, roçando o dedo médio em seu clitóris, mas nunca acariciando por muito tempo, tentando-me. Ela sabia o quanto eu gostava que se tocasse pra mim, isso deixava meu pau a ponto de explodir de tesão. — Você é perfeita, Diabinha. Você me deixa louco quando se toca dessa maneira, como se fosse uma menina inocente. Mas é safada. Muito safada — sussurrei. — Me deixe te ajudar — ela pediu sentando mais na ponta do sofá abaixando minha calça até que fiquei apenas de cueca. — Quero seu pau em minha boca. Quero que ele toque no fundo da minha garganta — completou me olhando nos olhos enquanto massageava meu membro ao mesmo tempo em que descia a cueca e enfiava a ponta do meu pau em sua boca. —Não faz isso... — murmurei, sentindo sua boquinha gulosa engolindo meu membro. Envolvi minha mão em seu cabelo, não para controlar seus movimentos, mas sim para oferecer o conforto e carinho que esse ato trazia para ambos. Olhei para baixo e gemi ainda mais com a cena que vi, ela chupava engolindo todo o meu membro rígido tirando da boca e passando a língua pelas veias inchadas, enquanto continuava a me masturbar. Afastou mais suas pernas, tocando-se do jeito mais sensual que uma mulher poderia se tocar. Seus dedos massageavam novamente seu clitóris por cima da calcinha. — Porra! Você vai me matar! — Você é tão gostoso, Devasso — ela gemeu. Agarrei ainda mais firme seu cabelo em minha mão forçando-a engolir todo meu pau até bater em sua garganta. Ela fechou os olhos, dando gemidinhos, necessitada de receber prazer. — Olhe para mim, Diabinha. Chupa meu pau olhando pra mim. Para o seu homem — forcei que o engolisse mais. Seus olhos lacrimejaram com a pressão da cabeça do meu membro em sua garganta. O prazer de tê-la ali, me tomando todo, quase me fez gozar. Soltei-a devagarzinho deixando-a explorar todo meu membro como bem entendesse, chupando-o como se estivesse com um picolé em sua boca, dando também assistência aos meus testículos. —Agora para, Diabinha. Ou eu vou gozar nessa boquinha gulosa — avisei, mas ela continuou. — Porra! Eu não vou aguentar — gritei, tirando-a na última hora, forçando-a a levantar-se. Beijei sua boca completamente borrada pelo resto de batom, abraçando-a, levando minha mão


até o fecho do seu sutiã para desabotoá-lo, livrando seus seios. —Você quer me castigar? É Isso? — acusei, soltando seus lábios com raiva e ânsia por tê-la aqui hoje e, principalmente, por saber que amanhã me deixaria. — Igor! — gemeu, apertando meus ombros. — Eu não vou suportar ficar longe de você. Eu quero tudo de você. Não só por essa noite — declarei beijando seu pescoço descendo pelo seu colo até chegar a seus seios, pegando o bico endurecido e chupando fortemente. — O que mais você precisa saber para ter a certeza que eu te amo? Porque eu te amo demais, Diabinha. Não vá amanhã para França, por favor. Fica comigo. Me dá essa chance de te provar que posso e vou te fazer feliz. — Eu... Eu... Vou ficar — gaguejou entre os gemidos. Automaticamente parei o que estava fazendo, buscando seus olhos com os meus. — Repete — exigi, sem acreditar em suas palavras. — Eu não vou mais para Paris — pronunciou acariciando meu rosto, dando aquele sorriso que eu tanto amo. — Eu estou aqui atrás da minha felicidade. E você, Igor Salazar, é ela. Ensandecido com suas palavras, peguei Alice em meus braços beijando-a, jurando fazê-la feliz. Com sua ajuda desci sua calcinha deixando-a completamente nua. Deitei no sofá e puxei-a para cima de mim, queria prová-la e oferecer todo prazer que poderia a ela. — Senta aqui, meu amor. Quero provar você, até você gozar em minha boca — Alice ajoelhou em cima de mim, em uma posição que me deixava uma vista privilegiada de sua boceta. A trouxe para mais perto do meu rosto, segurando seu bumbum para colocá-la na posição certa. Toquei suas coxas com pequenos beijos, mordidas e chupões. Marcando cada parte como minha. Alice gemia cada vez mais alto, enquanto sua boceta se contraía, com a expectativa dos meus carinhos. — Igor, por favor! — ela tentava abaixar sua boceta até o meu rosto, mas a impedia, ainda não era o momento — Dois podem jogar esse jogo! Eu não estava esperando que Alice engolisse meu pau, para me fazer obedecê-la, mas ela sabia meu ponto fraco. Uivei, quando Alice subiu e desceu sua mão com força por todo meu membro, ao mesmo tempo em que a levava em minha boca. — Ali... — chupei seu clitóris, passando a língua por seus lábios inchados e necessitados. Apertei sua bunda para trazê-la para mais perto do meu rosto, buscando ainda mais do seu sabor. Nesse momento, eu era um homem necessitado. Eu não conseguia parar. Mordia, chupava, beijava e lambia toda a região do seu sexo. Com uma das mãos entreabri mais os lábios de sua boceta introduzindo minha língua profundamente. Alice começou a rebolar em meu rosto, gemendo desesperada. Acariciando meu membro e arranhando a lateral do meu corpo, sendo selvagem. Marcando meu corpo com suas unhas. Eu amava esse lado dela.


— Ah... Igor... Meu amor — ela começou a se contrair tremendo em meus braços, era o sinal de que estava perto do seu clímax. — Goza para mim, minha Diabinha! — murmurei em sua boceta, enquanto afundava um dedo dentro dela, massageando seu ponto G que a levaria ao orgasmo. — IGOR! — gritou libertando-se. A tomei com gula e necessidade, matando a saudade que existia entre nós. Não conseguia mais esperar, eu precisava estar dentro dela. Agora! Levantei com Alice em meus braços ainda tremendo pós-orgasmo, e a coloquei de joelhos apoiada no encosto do sofá, me posicionei atrás dela, separando suas pernas com a minha. Nesse momento esqueci-me do mundo, a única coisa que sabia era precisava estar dentro dela. Peguei meu pau em minha mão e coloquei a ponta em sua entrada, empurrei o quadril para penetrá-la só um pouco. Alice gemeu baixinho, empurrando seu corpo para encontrar o meu. — Oh! Alice... — aprofundei mais a penetração deitando em suas costas, afastando seu cabelo e beijando seu pescoço. — Eu preciso de mais, Devasso! — pedia, enquanto eu me movia devagar, saindo e entrando no seu corpo, beijando suas costas e massageando seus seios. — Eu estou ótima! Você não vai me quebrar. — Seu pedido é uma ordem, Diabinha. — comecei a me mover um pouco mais rápido, testando se ela sentiria algum desconforto. Eu sabia o que nossos corpos precisavam, estavam em chamas, contudo tínhamos que ter cuidado. Eu não podia esquecer que ela estava em recuperação. O bemestar de Alice sempre viria em primeiro lugar. Aumentei gradativamente a velocidade das estocadas quando percebia que ela não emitia nenhum protesto de dor. Beijei seu pescoço, enquanto descia uma das mãos para seu sexo, massageando seu ponto de prazer. Alice gemia e mexia seu quadril para encontrar com o meu. Eu estava em êxtase puro, aquilo não era só sexo selvagem. Nós estávamos fazendo amor, era uma conexão fora do comum, que só duas almas apaixonadas poderiam ter. — Alice eu preciso que você goze, agora! — pedi, sabendo que não aguentaria por muito tempo. - Sim! Sim... Meu Devasso! — gritou em meus braços, seu corpo tremendo. Puxei seu rosto para o meu e beijei sua boca, tomando seu corpo e sua alma, à medida que a preenchia do meu gozo. Tornei a pegar Alice em meus braços deitando-a no sofá comigo. Encostei-a em meu peito, passando a mão por todo o seu corpo, sussurrando em seu ouvido o quanto a amava até adormecermos exaustos.

O relógio marcava quatro horas da manhã. Estávamos deitados no chão sobre o tapete,


descansando nus, enroscados um no outro, parcialmente saciados. Fizemos amor durante toda a noite, parando apenas para repor as energias, tomando uma taça de vinho e comendo alguns salames e queijos. Alice repousava sua cabeça em meu ombro, o rosto enfiado entre a curva do meu pescoço. — Seu pai já sabe que você não irá com ele? — perguntei, acariciando suas costas. —Uhrrum — falou preguiçosa. — Ele não virá aqui me matar? — Uhum — negou balançando a cabeça. — Perdeu a voz? Senti seu sorriso se abrir em meu pescoço. — Uhrrum — confirmou, aconchegando ainda mais em meu corpo. — Eu não vi seu carro lá fora quando cheguei — comentei — Danilo me deixou aqui — disse dengosa. — E como você entrou? — indaguei curioso. Alice não tinha cópia da chave do meu apartamento. — Ah! - senti mais uma vez seu sorriso se abrir em meu pescoço. — Seduzi o seu porteiro. E então ele me deu a cópia da chave que você tinha deixado com ele quando achou que ia para os Estados Unidos. — Seduziu o senhor Geraldo? — perguntei incrédulo. Nunca ninguém conseguiu suborná-lo. Lembro até de uma vez que impediu a entrada da minha mãe, quando estava viajando. Mesmo ela mostrando que tinha as chaves, não teve acordo. Eu tive que ligar para ele avisando que ela podia entrar. — Aposto que não foi fácil corrompê-lo. — Pelo contrário. Foi até muito fácil. Eu disse a ele que tinha um presente surpresa para você. E ele me entregou a chave — levantou a cabeça olhando pra mim. - Nem precisei usar o plano B. — E qual era o plano B? — Bem... — mordeu o lábio inferior maliciosamente. — Eu mostraria qual era o presente surpresa... — Que é claro que estava dentro da sua bolsa — afirmei. Ela meneou a cabeça negando, segurando o riso quando arregalei os olhos. — Eu vim de casa apenas com a fantasia e um sobretudo por cima — declarou cinicamente. — Na minha bolsa tem somente algumas mudas de roupas.


— Se você tivesse mostrado sua fantasia ao senhor Geraldo, em poucos minutos eu poderia estar sendo preso por matar meu porteiro, sua devassa deliciosa. Só eu posso ver esse corpo nessa fantasia — puxei seu rosto beijando seus lábios. — Você merece umas palmadas nessa bundinha gostosa. — Oba! Adoro palmadas — ela subiu em cima de mim, esfregando sua boceta em meu pau. — Amo quando se torna possessivo no sexo. — Você gosta de sexo duro é, Diabinha? — questionei, mas isso eu já sabia. Virei-a subindo de costas contra o chão. Subi em cima dela, com o joelho forcei para que abrisse suas pernas, encaixando-me entre elas, penetrando-a com força. Alice gemeu cravando novamente suas unhas em minhas costas ao mesmo tempo em que entrelaçava suas pernas em minha cintura dando acesso para estocar com precisão. Fizemos amor rápido e duro, mas tão perfeito quanto das outras vezes. Como sempre seria. Porque éramos completos um para o outro. — Gostou da surpresa? — indagou quando chegamos juntos ao ápice do prazer. — Bastante. Melhor impossível. Um sonho realizado — afirmei saindo de dentro dela e deitando ao seu lado. — Onde você conseguiu a fantasia? — Eu já tinha — virou de lado entrelaçando nossas pernas. — Eu comprei junto com o seu relógio. Olhei para o relógio em meu braço lembrando-me da frase gravada nele. — Para sempre minha? — perguntei mais como uma afirmação. — Sim. Para sempre sua — confirmou com um sorriso doce, pronunciando a frase que tinha gravado no relógio que me deu. — Eu te amo, meu Devasso. Ouvi-la novamente dizer que me amava foi como uma reafirmação que teria outra chance de fazer valer a pena. E eu faria. Com certeza — Não teve palmadas — resmungou manhosa, referindo ao nosso último sexo. — Hoje você extrapolou todos os seus limites, mocinha... E eu com muita fome de você, acabei deixando. — Mas eu estou ótima — bocejou tentando manter os olhos abertos. — Eu sei que está. Agora durma, amanhã tem mais. Garanto que terá palmadas — finalizei, aninhando-a em meus braços. Puxei o cobertor de cima do sofá, havia pegado quando fui rapidamente ao meu quarto buscar lubrificante para usarmos em uma de nossas performances.

06 semanas depois... - Alô?- atendi o ramal da recepção completamente exausto, mas bastante ansioso. Era final de tarde, estava exausto depois de um dia repleto de trabalho. Fazia três dias que


Alice e eu havíamos retornado dos EUA. Com muito sacrifício a convenci a viajar comigo. Depois que sua irmã, Maria Sandra, sumiu no mundo, dona Laura andava depressiva. O que deixava minha Diabinha preocupada e sem querer deixar a mãe sozinha. No entanto, Lilian garantiu a sobrinha que cuidaria da irmã enquanto estivéssemos fora. Além do mais, cinco dias depois que estávamos nos EUA, Miguel, repentinamente, decidiu voltar ao Brasil para fazer companhia a Laura até retornarmos. — Doutor Igor, desculpe incomodá-lo, mas apareceu uma consulta de emergência. — Pamela, minha assistente me avisou receosa. Ela sabia o quanto estava cansado. — O senhor pode atendê-la? — A doutora Sheila não está mais na Clínica? — indaguei. Nunca recusei consultas de última hora, mas talvez essa fosse a primeira que recusaria se houvesse outra médica para atender. Hoje era um dia muito especial. Levi estava preparando um jantar em família de boas vindas para Alice e eu. Aproveitaria a oportunidade e pediria Alice em casamento. Ela não fazia ideia e, confesso, que estava louco para ver sua reação. Desde que nos reconciliamos decidi que não prolongaria mais o desejo de oficializar o nosso amor. Porém, estava sendo paciente para não assustá-la. Há dias vinha pensando em encontrar uma maneira de pedi-la em casamento. Esse jantar apareceu na hora exata. Faria tudo conforme o figurino, primeiro noivado, depois casamento. Por isso precisaria recusar essa consulta. Ainda tinha que passar na joalheria para pegar nossas alianças que havia deixado ontem para gravar nossos nomes e ainda buscaria vovó Elza na fazenda. Ela tinha voltado dos EUA conosco. E nada melhor que vovó Elza para representar minha família nesse momento. — A paciente insiste em ser atendida pelo senhor — Pamela explicou. Merda! Eu teria que atender. Eu fiz o juramento de Hipócrates e, mesmo que negasse, mais tarde ficaria com a consciência pesada. — Tudo bem, Pamela. Vou atendê-la — aceitei sem prolongar. — Por favor, ligue para a fazenda e avise a minha avó que vou me atrasar. Também avise Alice. Ela deve estar terminando de atender seu último paciente. Alice havia retornado ontem a trabalhar na Clínica. Estava empolgada e muito feliz em poder assumir novamente a coordenação da Ala de fisioterapia e ortopedia, principalmente porque muito dos seus pacientes e colegas de trabalho vibraram com o seu retorno. E, é claro, eu também. — Sim, senhor... Posso mandar a paciente entrar? — Claro. Também me envie a ficha dela, por favor — pedi. Desliguei a chamada pegando meu jaleco, o vestindo novamente. Antes mesmo de me sentar, escutei uma suave batida na porta, sendo aberta em seguida. — Boa ta... Alice? — indaguei preocupado. Deve ter acontecido algo, pois ela nunca me atrapalharia sabendo que estava com pacientes. — Oi, doutor Igor — pronunciou sorrindo. Tranquilizando-me um pouco. — Acho que não deu tempo da Pamela te avisar, mas apareceu uma cliente de última hora e...


— Eu sei — falou não me deixando terminar de explicar. — Ah, então me espera na administração. Assim que terminar a consulta vou te buscar — sugeri indo até ela, beijando seus lábios castamente. A qualquer momento minha nova paciente poderia bater na porta. — Eu não posso ficar com a titia Lilian agora — explicou passando por mim sentando-se em uma cadeira. — Aconteceu alguma coisa? — perguntei preocupado, pensando se era algo com dona Laura. — Eu posso explicar a minha paciente que houve um imprevisto e cancelo a consulta. — Não! Eu não aceito cancelar a minha consulta — ela bradou tentando ficar séria, mas sentia um certo nervosismo sobre ela. — O que... disse? — perguntei sem entender. — Isso mesmo que você ouviu — afirmou sorrindo. — Estou aqui como paciente e não como sua namorada. Fiquei parado, meio em choque sem entender nada. Alice percebendo meu espanto sorriu docemente pegando minha mão e apertando-a para me confortar. — Estamos perdendo tempo, doutor Igor — avisou piscando o olho. Retribuí o sorriso ainda sem entender. Provavelmente era alguma brincadeira. Levantei dando a volta até o outro lado da mesa, sentando em minha poltrona de frente para ela. Certamente Alice tinha combinado com Pamela para brincar comigo. Então, decidi entrar na brincadeira. — Bem, senhorita... Vamos olhar a sua ficha — disse, abrindo meu notebook fingindo procurar por sua ficha, mas que surpreendente, minha assistente enviara para mim. — Seu nome é Alice Marie Ventura Schneider. Tem 27 anos. É muito deliciosa e ama seu namorado loucamente. — Não tem isso aí — disse movendo-se para frente para olhar a tela do notebook, no entanto, a impedi. — Claro que tem — garanti zombeteiro. — Sabia que o meu namorado é muito ciumento? — comentou irônica. — Tenho certeza que sim — toquei sua mão que estava em cima da mesa e acariciei. — Mas ele não tem que se preocupar, eu cuido muito bem das minhas pacientes — mordi o lábio maliciosamente. — Está me paquerando, doutor Igor? — questionou fingindo estar irritada, mas seus olhos brilhavam de entusiasmo. — E se eu estiver? Alice debruçou-se ainda mais sobre a mesa, pegando a gola do meu jaleco, puxando-me até ficarmos frente a frente.


— Eu espero que essa paquera seja apenas comigo — resmungou ciumenta. — Só com você, Diabinha — assegurei, beijando seus lábios. — Antes de começarmos a brincar de examinar seu corpo. Preciso fazer algumas perguntas antes — proferi sério, mas devorando todo seu corpo maliciosamente com o olhar. — Tudo bem — acomodou-se novamente na cadeira. — Desistiu da sua antiga ginecologista? — indaguei. Sua médica era uma excelente profissional. — Não — assegurou. — Ela está viajando e só poderá me atender semana que vem. — Tudo bem — concordei. — Como é sua primeira consulta comigo preciso fazer algumas perguntas antes de examiná-la. Ela assentiu cruzando os braços. — Mantém relação sexual regularmente? Alice enrubesceu ficando ainda mais linda. — Mais do que o normal. — Cara sortudo esse seu namorado — sorri ironicamente. — Também acho. — Utiliza algum meio contraceptivo? — eu sabia que ela usava. Eu mesmo havia prescrito um excelente anticoncepcional injetável. — Eh... - senti sua voz tremular. —... Eu tomava, mas... com o sequestro e tudo mais... Ela não continuou. De braços cruzados, Alice levantou andando até o meio do consultório ficando de costas para mim. Meu corpo automaticamente enrijeceu em alerta. Aquilo poderia ser realmente uma consulta. Levantei, caminhando até ela, virando-a de frente para mim. — Desde que nos reconciliamos você não tomou a injeção? — interroguei serenamente. — Eu estava esperando chegar a data correta para tomar, mas daí minha menstruação não veio e... imaginei que poderia ser devido aos antibióticos e anti-inflamatórios que vinha tomando, porém não veio novamente. E eu sempre fui regular. Aparentemente, Alice estava receosa de como eu reagiria caso estivesse grávida. — Tudo bem, amor — tentei tranquilizá-la. — Irei te examinar para termos certeza. Minha cabeça estava a mil por hora com essa nova notícia. Estava evitando pensar muito na possibilidade de ser pai. Mas confesso que meu maior medo agora era de quando examiná-la não encontrasse nenhuma evidência que confirmasse uma gravidez. — Você se sente bem? Teve algum enjoo? Eu não vi você se alimentar direito hoje, Alice — comecei a falar sem parar. Estava tentando manter meu lado profissional, mas estava sendo difícil.


— Igor! Igor! — Alice gritou, enquanto eu divagava sem parar. — Me escuta! Parei instantaneamente com o seu pedido. — Eu já fiz o exame de sangue. Deu positivo. Eu estou grávida. Fiquei estático assustado e... emocionado com a notícia. Eu convivo com mulheres grávidas e trago crianças ao mundo todos os dias, mas saber que aquela mulher, ali na minha frente, carregava em seu ventre um pedaço de mim. Do nosso amor. Era uma sensação inigualável. Eu poderia viver mil anos, mas nunca esqueceria esse momento. — Diz alguma coisa, por favor — ela rogou nervosa. Abracei-a enrolando uma de minhas mãos em seu cabelo. Procurei sua boca beijando-a desesperado. — Eu quero acompanhar todos os passos do pré-natal, isso não será discutido... E você será a mulher mais linda do mundo grávida — pronunciei beijando todo seu rosto. — Você não está com raiva? — inquiriu ainda apreensiva. — Por que eu ficaria? — Não sei. Talvez porque nunca conversamos sobre filhos — abaixou a cabeça. - Eu só não quero que pense que fiz de propósito. — Ei! — segurei seu rosto com as duas mãos forçando-a a olhar novamente para mim. — Em nenhum momento passou pela minha cabeça que você engravidaria de propósito. Tudo bem que não foi planejado, mas aconteceu. Ele será muito amado por nós dois e por nossa família. E o mais importante é que nos amamos. Deus está nos presenteando. Emocionada, seus olhos encheram-se de lágrimas, formando um sorriso acolhedor em seu rosto. — Ele? Quem te garante que será um menino? - proferiu debochada. — Pode ser uma Devassinha! — Minha filha será freira! — a provoquei soando sério. — Nenhum safado tocará nela. — Ah, tá. Até parece — caçoou. — Para de falar essas coisas da minha bonequinha — Deus! Eu pagaria todos os meus pecados quando um moleque cheio de hormônios batesse na porta da minha casa atrás da minha filhinha. Precisava mudar de assunto. — Venha, quero te examinar e saber como estão os meus amores — Peguei sua mão beijando-a, enquanto guiava-a até a maca.

— Amanhã cedo, você fará todos os exames laboratoriais necessários — pronunciei. Estávamos a caminho de sua casa. — Mas já pode começar tomar as vitaminas que te entreguei no


consultório. Quero você e o nosso bebê saudáveis. — Tudo bem — disse olhando triste para janela. — O que foi, Alice? — indaguei preocupado pegando sua mão. — Queria ter escutado os batimentos cardíacos do bebê — resmungou baixinho. — Eu sei, meu amor — levei sua mão aos meus lábios beijando. — Mas você está entrando na sexta semana de gravidez. Prometo que na metade da sétima semana faremos uma ultrassonografia e poderemos visualizar nosso bebê e escutar os batimentos cardíacos. Confie em mim. — Eu confio — voltou a olhar pra mim sorrindo. Quando paramos em um sinal vermelho. Acariciei seu rosto descendo até chegar a seu ventre ainda plano. Não via a hora de ver Alice barriguda, com o nosso bebê mexendo sem parar. — Vai querer contar a novidade hoje para a nossa família? Ou prefere esperar passar os três primeiros meses? — questionei. Queria que todos soubessem o quanto antes que fomos abençoados, porém a decisão seria exclusivamente de Alice. — Apesar de que vovó Elza vai saber assim que olhar para você. — Eu acho que ela já sabe — declarou sorrindo lindamente. — Não me pergunte como, mas ela desde a viagem ficou pedindo que eu me alimentasse direito, que não fizesse estripulia. Na época, achei que fosse por causa da minha recuperação, mas pensando melhor, acho que ela se referia ao bebê. Eu não duvidaria. Minha avó era sensitiva ao extremo. Ela conseguia descrever a personalidade de uma pessoa apenas em olhá-la uma única vez. Ninguém conseguia enganá-la. — Vai me esperar trocar de roupa para irmos juntos para casa do Levi? — Perguntou quando passávamos pelo portão de entrada do condomínio em que morava com a mãe. Como diria a ela que não? Eu não tinha pensando em uma desculpa. Precisava pegar as alianças e ir à fazenda. Contudo estava receoso agora em pedir sua mão em casamento. Do jeito que é teimosa, ela poderia achar que eu a estava pedindo em casamento por causa do bebê. — Tem algum problema você ir com a sua mãe no seu carro? — Perguntei me arrependendo no mesmo instante que vi seu olhar de decepção. — Tudo bem — respondeu chateada abrindo a porta do carro, logo que parei em frente ao seu prédio. — Seria uma surpresa, mas não quero te ver assim – peguei sua mão, impedindo-a que saísse do carro. — Estou indo pegar a vovó Elza na fazenda. Quero alguém da minha família esta noite no jantar quando te pedir em casamento — confessei de uma vez. — E não pense que é por causa do nosso bebê. Já iria fazer isso. Tenho até as alianças como prova. Só preciso passar na joalheira. Deixei-as ontem para gravar nossos nomes nelas. Alice me encarou boquiaberta. — Diz alguma coisa, Diabinha — pedi receoso.


— Espero que não tenha desistido — falou segundos depois sorrindo. Isso quer dizer que ela diria sim? — O quê? Não! Cla... Claro que não desisti. — Então, se apresse — beijou-me. — Não quero que se atrase. Estaremos te esperando no apartamento do meu irmão - acariciou sua barriga docemente. - Ah! E muito cuidado na estrada. O quê? Eu achei que queimaria meus neurônios para convencê-la a se casar comigo e, ela aceitou assim, tão facilmente. Mulheres! Vai entender... Esperei que ela entrasse antes de dar a partida no carro. De repente, um sorriso bobo surgiu em meus lábios. Eu seria pai. Teria uma família. Uma esposa que amaria e me faria feliz. Algo que nunca tinha passado pela minha cabeça há poucos meses. Os rostos do meu pai e meu avô sugiram em meus pensamentos, enquanto saía. — Papai... Vovô Dante... Eu queria muito que vocês estivessem aqui para compartilhar essa felicidade comigo — soei em voz alta.


Capítulo 36 Família Salazar

Igor — Vó, aguarda só mais um pouquinho enquanto tiro sua cadeira de rodas do porta-malas. — Pedi quando paramos em frente ao prédio em que o Levi morava. Vovó Elza passou todo o caminho da fazenda até aqui reclamando que estávamos atrasados. Ela odiava fazer as pessoas esperarem. Devido ao trânsito demorei mais do que esperado. Foi um sacrifício convencê-la que além do congestionamento tive que atender uma consulta de emergência surgida de última hora. Paciente essa, diga-se de passagem, que me deu a melhor notícia que eu poderia receber. Que eu seria pai. Notícia a qual nem o mau humor de dona Elza fez com que eu desanimasse. — Não precisa, Igor — avisou. — Eu não vou usar a cadeira de rodas. — Tem certeza? — indaguei receoso. Eram poucas as vezes que vovó Elza deixava de usar a cadeira de rodas. — Tenho sim. Além do mais esse prédio enorme deve ter pelo menos uma daquelas caixas claustrofóbicas igual ao apartamento da sua mãe — referiu-se aos elevadores olhando para o prédio em nossa frente. — Tem sim, vovó — confirmei segurando o riso para não irritá-la. — Então, vamos logo de uma vez. Ajudei-a descer do carro. Fechei a porta do passageiro, travando e ativando o alarme com o controle. Esperei que vovó Elza encaixasse seu braço ao meu para apoiar-se melhor. Caminhamos devagar até a entrada do prédio e em seguida até chegarmos ao elevador. Apertei o número do andar que Levi morava. — Espero que todos compreendam o nosso atraso — disse emburrada. Zica queixou-se mais cedo que vovó Elza andava mal-humorada, resmungado de tudo. Expliquei que era devido à mudança de fuso-horário e que não ligasse, logo essa irritação passaria. Ingrid e mamãe tinham me alertado sobre essa mudança de humor de vovó. Elas disseram que quando chegaram ao EUA, vovó Elza também ficou resmungona por alguns dias.


— Não se preocupe. Todos entenderão — afirmei. — Além do mais hoje é dia de alegria. Ninguém está preocupado com atrasos. — Eu queria tanto que seu pai e seu avô estivessem aqui. Eles teriam tanto orgulho de você, meu filho. Assim como eu tenho — falou emocionada. — Eu também queria, vó — concordei. Eu tinha falado para vovó Elza sobre o pedido de casamento. Acredito que essa foi a razão para que ela não desistisse de vir. — Cuide muito bem da Alice, meu filho. Ela é um tesouro e te fará muito feliz. — Pode ter certeza que farei de tudo para fazê-la feliz. Vovó Elza apertou meu braço em sinal de conforto. O elevador parou no andar indicado. Saímos virando à esquerda para onde ficava o apartamento do Levi. Antes mesmo de apertar a campainha, a porta foi aberta repentinamente. — Vi vocês chegando pela câmera — Levi disse nos recebendo educadamente. — Sejam bem vindos! Desde o sequestro de Alice minha relação com o Levi vinha melhorando gradativamente. Ele já não ficava tão irritado comigo. Uma vez tivemos uma longa conversa e ele compreendeu que eu realmente amava sua irmã. — Desculpe-nos o atraso — Vovó proferiu gentilmente, enquanto Levi a cumprimentava com um abraço e um beijo. — Não se preocupe, dona Elza. Minha irmã avisou que vocês atrasariam — Levi explicou. — Ela mesma chegou há poucos minutos. — Onde estão todos? — questionei, estranhando não ver nenhuma circulação pela sala de estar do Levi. Principalmente não vendo a minha futura esposa. — Estão todos lá fora, na parte externa — respondeu. — Está uma noite linda e a lua está perfeita para deixarmos de apreciá-la. Levi colocou o braço de vovó Elza ao seu e guiou-a tranquilamente até onde todos estavam. Fui seguindo os dois observando o apartamento do meu cunhado. Era espaçoso e muito confortável. Antes mesmo de chegarmos à parte externa onde se encontravam todos, Alice surgiu radiante em um vestido azul de renda que realçava seus olhos. Eu parei estático admirando aquela mulher que eu amava tanto, idealizando que agora começaríamos a nossa própria família. Esperei que cumprimentasse vovó Elza primeiro, antes de vir falar comigo. Alice abriu um imenso sorriso, beijando carinhosamente a testa da minha avó quando ela sussurrou algo em seu ouvido. Em seguida, Alice olhou para mim. Ela estava linda, iluminada. Quando Levi continuou acompanhando vovó Elza, eu fui de encontro à mulher que eu amava.


— Você está linda, mamãe — murmurei baixinho mordiscando sua orelha. — Você está gostoso, papai — respondeu com um sorriso malicioso acariciando meu peitoral. — A noite de hoje promete — a puxei, encaixando seu corpo ao meu. Beijei seus lábios, sentido o gosto delicioso de sua boca. — Ah, seu Devasso! Calminha. Temos plateia por perto — Alice gemeu, soltando meus lábios quando esfreguei minha excitação em seu quadril. — O que minha avó disse que a fez sorrir? — mudei de assunto, tentando controlar o tesão que ela me provocara só por estar perto de mim. — Ela sabe... — pronunciou empolgada. —... Do bebê. Disse que eu ficaria linda barriguda. Isso era verdade. Alice ficaria ainda mais linda com o nosso bebê em seu ventre. — Será que vai demorar muito para aparecer? — indagou, colocando sua mão em seu ventre. — Não vejo a hora de senti-lo mexer. — Eu também, meu amor — juntei minha mão à sua, curtindo nosso momento. — Vem, tenho uma surpresa — ela disse, entrelaçando nossas mãos e me puxando para onde nossos amigos e familiares estavam. Fui rindo pela forma como ela estava empolgada, parecia uma criança que tinha acabado de ganhar um presente e queria mostrar para todos. Chegamos à área externa do apartamento do Levi. Era uma sacada enorme e decorada. A primeira pessoa que avistei foi Sarah conversando com uma morena alta de olhos claros que nunca tinha visto. — SURPRESA! — a voz da minha irmã ecoou por todo ambiente. Virei o rosto para o lado aturdido. Minha mãe, Ingrid e Miguel estavam ali sorrindo para mim. — Como... Como vocês chegaram aqui? — inquiri, abraçando-os. — Eu falei com você tarde da noite de ontem, Pestinha. E não me disse nada! — Queríamos te fazer uma surpresa — Ingrid falou beijando meu rosto. — E o exame? — interroguei curioso. Ingrid tinha acabado as sessões de radioterapia, mas faltava fazer o exame para saber se o tumor havia diminuído para passar pela cirurgia de remoção. — Fiz ontem. Agora é esperar o resultado para saber minha sentença. — Eu odeio quando você fala assim — esbravejei. — Desculpa, Gô — pediu manhosa me desarmando totalmente. Ela parecia mais animada. Nos dias em que fiquei com ela no EUA, Ingrid sempre se sentia cansada e fadigada a cada radioterapia. Também tinha perdido peso, mas vê-la aqui, sorridente, só


completava ainda mais minha felicidade. — Não pude conter as duas quando falei que você pediria Alice em casamento hoje — meu primo falou baixinho. Ele tinha retornado ao EUA semana passada. — Tia Elena e Ingrid insistiram em vir. — Pegamos um voo ainda de madrugada — mamãe falou. — Tivemos sorte. Pois todos os outros voos estavam lotados. Abracei cada um da minha família, pronunciando o quanto os amava e estava feliz por dividir minha felicidade com eles. — E como vai essa vida de ponte aérea? — perguntei ao meu primo. Ele praticamente estava se dividindo em dois para cuidar da Ingrid e estar com a Laura. — Sua sogra está se fazendo de difícil, mas você me conhece — sorriu convencido. — Quanto maior o desafio, melhor o resultado no final. Eu só torcia que Miguel fosse tão feliz quanto eu estava. Ele merecia. Ficamos todos conversando e rindo, provando os petiscos deliciosos do Levi. Todos que Alice e eu amávamos estavam aqui conosco. Claro que faltaram pessoas muito importantes para nós, como o pai da Alice, o senhor Ely, e meus melhores amigos, Luís e Gabriel que não puderam estar aqui hoje. — Nossa, Levi! Acho que aumentei uns dois quilos — a morena que não conhecia falou. — E ainda terá o jantar. Estou perdida! — Mais tarde ajudo você a voltar à forma em segundos — Levi cochichou malicioso beijando seu rosto. Só as pessoas mais próximas escutaram e entenderam que tipo de atividades eles teriam mais tarde. Senti os dedos de Alice enrijecerem em minhas mãos. Virei para olhá-la, automaticamente ela encarava sua amiga, Sarah, que saía da área externa, aparentemente chateada por algo, enquanto Danilo a seguia discretamente. — Está tudo bem? — perguntei, beijando sua mão. — Sim, eu acho — rebateu receosa. — Preciso ir ao banheiro — forçou um sorriso, mas eu sabia que Alice estava preocupada com a amiga. — Só não demora. Preciso fazer um pedido de casamento e a noiva tem que estar aqui para dizer sim. — Como você tem tanta certeza que ela dirá sim? — Porque eu sou irresistível — pronunciei debochado. — Convencido! — exclamou. — Eu também te amo — beijei seus lábios impedindo que dissesse algo.


— Eu volto logo — Alice levantou-se, entrando no apartamento do irmão rapidamente. Olhei em volta observando todos. Minha mãe, vovó Elza, Laura e Ingrid conversavam sobre como seria daqui por diante o tratamento da minha irmã. Ela estava esperançosa e cheia de novidades para me contar. — Igor, você pode vir aqui na cozinha comigo? — Levi pediu. — Miguel, venha também. Meu primo e eu nos entreolhamos enquanto seguíamos Levi até a cozinha em silêncio. — Algum problema com o jantar, Levi? — Miguel indagou. Levi olhou para todos os lados para ter certeza de que estávamos apenas nós três. — Eu recebi há poucos instantes uma chamada de Paris — meu corpo enrijeceu. Pois certamente se tratava do crápula que sequestrou e espancou Alice. — O que seus contatos falaram? — uivei, já vendo vermelho. — Na verdade, eles apenas me confirmaram. Deram-me a certeza — Levi explicou. — Certeza de quê? — meu primo perguntou. — Como sabemos, o filho da puta do Jérôme Benoit estava escondido. Não éramos apenas nós que desejávamos sua cabeça. Ele tinha vários inimigos. Ontem à noite ele foi encontrado escondido com sua família em uma ilha no sul da Espanha — Levi se aproximou mais de mim e do Miguel. — Houve uma chacina. Mataram o Benoit e toda sua família. Cortaram a cabeça dele e acredito que nesse momento está sendo entregue de bandeja para a máfia russa. Meu coração ficou aliviado pela notícia. Só em pensar que Alice ou qualquer um de sua família não corria mais perigo, tirava um grande peso de dentro de mim. Nunca desejei a morte de ninguém, mas esse francês teve o que mereceu. Sentia pela sua família, seus filhos inocentes que não tinham culpa e pagaram com sangue pelos erros do pai. Quisera eu ter posto minhas mãos nesse francês filho da puta, contudo não precisei sujar minhas mãos. — Você recebeu um telefonema ontem e só agora me fala isso? — reclamei com Levi. — Ontem eram suspeitas. Hoje tive a confirmação que realmente Jèrôme Benoit foi assassinado. Não queria criar expectativa. Miguel, analítico como sempre, fez algumas perguntas que pra mim não mais interessavam. O importante era que aquele desgraçado teve o final merecido. — Por enquanto, não comentem nada com Alice — sugeri. — Ela está muito feliz e não quero que essa notícia estrague sua felicidade. Quando Alice soubesse, com certeza ficaria abalada por relembrar o que tinha passado nas mãos daquele francês. Pior, sentiria por inocentes terem morrido. — Aos poucos vou dizendo a ela — completei.


— Tudo bem — Levi e Miguel concordaram. — Agora, me ajudem a servir o jantar. Temos um pedido de casamento a ser feito — Levi completou. Olhei para Levi surpreso. Além do Miguel e minha família, só Alice sabia do pedido, e só por que tive que contar para não achar que estava pedindo-a em casamento apenas por causa do bebê. — O quê? — Levi indagou tirando um enorme refratário que cheirava divinamente do forno. — Minha irmãzinha me contou. Esqueceu que sem meu pai aqui é a mim que você terá que pedir a mão dela? — Você sabe que não quero só a mão dela — falei zombeteiro. — Olha, só porque estamos nos dando bem não significa que quero saber das suas intimidades com minha irmã. Ainda posso quebrar a sua cara. Miguel gargalhou olhando de mim para Levi. Tinha conquistado enfim, a confiança do meu futuro cunhado. E pra mim isso era o mais importante. — Ela falou mais alguma coisa? — questionei curioso, Alice também poderia ter falado sobre a gravidez. — Tem mais alguma coisa para ser dita? —retrucou. — No momento, não — respondi confirmando que Alice não tinha falado nada. O jantar foi como esperado, todos falando ao mesmo tempo. Rimos e zoamos. Parecia que nada de ruim tinha acontecido há poucos meses. Até dona Laura estava um pouquinho mais animada. Ela ainda sentia falta, é claro, da Maria Sandra e estava preocupada com ela sozinha, grávida e sem apoio. Porém, Danilo havia comentado que Maria Sandra ligara para Valentim contando da gravidez. Pelo que entendi, o filho da puta se sensibilizou com a notícia de que seria pai e apoiaria a irmã de Alice. Ele era o único que sabia do paradeiro dela. Quem sabe com tempo, Maria Sandra tomaria juízo e voltaria para ficar próxima da sua mãe. Lentamente levantei da mesa. Bati com um talher na taça de champanhe, chamando atenção de todos. — Bem, primeiro quero agradecer ao Levi por preparar esse delicioso jantar. Por estar reunido com as pessoas mais importantes para mim e Alice. Hoje é um dia muito especial — encarei Alice que me olhava lindamente. — Há algumas semanas venho querendo encontrar uma forma de fazer isso e esse jantar foi a maneira perfeita para... Enfiei minha mão no bolso da calça, retirando uma pequena caixinha preta aveludada. Virei para Alice me ajoelhando, deixando nossos olhares rentes um ao outro. Nesse momento escutei suspiros e comoções, mas não tirei o olhar daqueles olhos que sempre me enfeitiçariam. — Alice Marie Ventura Schneider, eu poderia descrever de várias maneiras o quanto você é importante e especial para mim. O quanto eu te amo — abri a caixinha exibindo um par de alianças de ouro, cravejado com pequenas pedrinhas de diamantes e apenas uma pedrinha azul de ágata em formato de coração. — Mas a única coisa que te peço é que seja o complemento que falta em minha


vida para me tornar um homem realizado. Casa comigo? Seus olhos brilharam contendo a emoção. Toquei sua mão que estava fria e suada. Alice levou uma das mãos até o meu rosto, acariciando com delicadeza. — Eu quero completar a sua vida. Só assim a minha também estará completa — ela beijou meus lábios castamente, voltando a me olhar. — Eu aceito me casar com você, Igor Salazar. Não resisti de tanta emoção e a puxei para os meus braços, devorando sua boca. Dividindo e afirmando mais uma vez o nosso amor. Palmas e gritos dos nossos amigos e familiares celebravam esse momento único em nossas vidas. Brindando com champanhe que Levi tinha reservado especialmente para esse momento. Peguei a aliança menor colocando em seu dedo na mão direita beijando e confirmando que estávamos noivos. Alice pegou a outra aliança e fez o mesmo com a minha mão. Em seguida, fomos invadidos por abraços e cumprimentos dos nossos amigos. Cada um dizia como deveria ser o nosso casamento. Para mim, o local não importava desde que nos tornássemos um só diante de Deus. — Para quando é o casamento? — Sarah perguntou. — Eu quero uma festança. Poderia ser um casamento à fantasia. — Ingrid proferiu entusiasmada. — Seria uma inovação! Todas as mulheres formaram um círculo diante de Alice. Minha Diabinha não sabia para quem olhava. — Ainda bem que o homem só precisa se vestir de pinguim e ficar diante do altar — Miguel se aproximou enchendo minha taça com mais champanhe. — Acho que a Alice vai ficar louca com a mulherada palpitando — Danilo se juntou a nós. — Eu só acho que faltou uma coisa nesse pedido — Levi falou com seu sotaque carregado, completando o quarteto de homens que olhava a mulherada divagando sem parar. Se não soubesse o que era, pensaríamos que estavam em guerra. — Faltou pedir a minha permissão. — Levi, posso casar com sua irmã? — pronunciei tentando não sorrir. — Eu permito que se case com minha irmã. — Se não permitisse, eu casaria assim mesmo — abracei-o, enquanto resmungava. Danilo e Miguel riam da cena, brindando entre si esse momento. — Com licença, mas preciso salvar a minha noiva. Fui até Alice e a socorri da mulherada ensandecida que falava em vestido de noiva, cartório, igreja. Tudo ao mesmo tempo. — Deixem a minha noiva assimilar tudo — gritei fazendo todos se calarem. — Alice decidirá


como será tudo. — Como você pensa, Alice em seu casamento? Podemos te ajudar — insistiu Ingrid. E eu a olhei de cara feia. — Eu não sei. Eu ainda não pensei — Alice falou. — Gô, terá de se converter ao judaísmo? Levi e seu pai são judeus né? — a pestinha da minha irmã não calava a matraca. — O quê? Não. Não. Não... Eu não sou judia. Só Levi e meu pai que são. — Amor, será quando e como você quiser — beijei sua testa, afirmando que o importante era estarmos juntos. — Bem, eu ainda não sei a data. Mas sei aonde eu quero casar — ela buscou meus olhos. — Sabe? — indaguei. — Ahram — Alice confirmou. — Se dona Elza permitir, gostaria que fosse na capela da fazenda. — Oh, Alice! Claro que eu permito — Vovó Elza abriu um enorme sorriso orgulhosa pela escolha. — Amanhã mesmo mandarei pintar toda a capela. — Não precisa. Ela está perfeita como está — Alice pediu. — Faço questão. Não se preocupe. Ficará pronta e ainda mais linda até a data do casamento. — Já temos a igreja e provavelmente a recepção será na fazenda também. Agora só falta pensarmos em uma data — Dona Laura falou animada. — Poderia ser daqui a seis ou sete meses. É o tempo que podemos montar o seu enxoval, contratar buffet, cerimonialista... — Eu quero um casamento simples — Alice interrompeu as divagações da mãe. Eu me mantinha calado, apenas observando-a. — Nada cheio de frescura ou disso ou daquilo. Quero algo simples com um bolo de casamento e um jantar. Só. — Será como você quiser — afirmei orgulhoso dela. — E também não quero para daqui a seis ou sete meses — continuou falando firme, mas docemente. Só assim para matar a curiosidade de todos. — Eu quero aproveitar meu casamento e minha noite de núpcias. E até lá minha barriga estará enorme e estarei muito redonda para aproveitar o meu “Sim” ao homem da minha vida. Um silêncio tomou conta de toda sala de jantar da casa do Levi. Todos olhando estupefatos para Alice e eu. — Você está grávida? — minha mãe foi a primeira a falar. — Sim, mãe — entrelacei Alice em meus braços pousando uma mão sobre seu ventre. — A senhora será vovó.


De repente, uma explosão de alegria e vibrações eclodiu ao nosso redor. Todos vieram nos felicitar. — Eu vou ser titia — Ingrid gritou em felicidade. — Eu serei a titia mais babona. Eu irei ensinar tudo a minha sobrinha. — Não vou deixar minha filha nas surras garras, Pestinha — disse fingindo seriedade. Ela deu a língua para mim. Dona Laura abraçou a filha. Ambas emocionadas. — Estou tão feliz por você meu amor — Laura disse secando as lágrimas de alegria que insistiam em cair. — Você engravidou a minha irmã? — Levi surgiu em frente. — Sim, titio — afirmei colocando o braço em seu ombro. — Vou precisar da sua ajuda para espantar os gaviões, caso seja uma princesa. — Pode contar comigo — Levi tocou sua taça na minha. — Nenhum safado tocará na garotinha do titio. O restante da noite passou sem percebermos. Saímos da casa do Levi já passava das três horas manhã. Até vovó Elza que costuma dormir cedo não se incomodou. Alice e eu chegamos ao meu apartamento exaustos. Mas isso não nos impediu de fazermos amor embaixo do chuveiro. Nossa primeira vez como noivos e futuros papais. Foi lento. Saboreei todo seu corpo, chupando sua boceta até fazê-la gozar. Depois a sequei, vestindo-a com uma das minhas camisas, enquanto eu ficava apenas de cueca boxer. Deitamos de conchinha apoiando minha mão sobre seu ventre. De agora em diante, Alice passaria a dormir todas as noites comigo. E a cada noite eu dormiria sentindo seu ventre crescer com o nosso bebê. Eu não precisava de mais nada, porque eu era o homem mais sortudo e feliz do mundo.

Alice 06 meses depois Eram seis horas da manhã de sábado. Daqui a pouco partiríamos para a fazenda para passarmos o final de semana. Haveria um almoço especial, pois era aniversário de Zica. E como era considerada uma pessoa da família, iríamos comemorar todos juntos. Desliguei o alarme, tinha colocado o despertador para tocar às seis e meia. Estava tudo pronto para irmos, só precisaríamos trocar de roupas e passar na casa de mamãe e pegá-la. Contudo desde os cinco meses de gestação, eu tinha meu próprio despertador. O meu bebê, que todos os dias, sempre no mesmo horário me despertava mexendo sem parar. Igor já sabia a hora exata que nosso filho mexeria. Isso mesmo, seriamos pais de um garotão. Mesmo ainda em meu ventre nosso bebê sabia e sentia a presença do pai e não parava de mexer até que o Igor colocasse a mão e sussurrasse


algumas palavras para acalmá-lo. Agora, ele estava impaciente. Saí do quarto para deixar Igor dormir mais um pouco. Ele estava exausto, uma de suas pacientes tinha dado à luz no início da madrugada, fazendo com que chegasse muito tarde. — Calma, meu amor. Daqui a pouco iremos acordar o papai — acariciei meu ventre arredondado sentindo meu bebê reclamando pela falta do pai. — Deixa seu papai dormir só mais um pouquinho. Não via a hora de olhar seu rostinho. Estava com sete meses e meio. Praticamente meu prénatal quem vinha fazendo era o Igor, mas, mesmo assim, íamos a minha médica mensalmente para me examinar e ficar por dentro do meu estado, ou levar os resultados dos exames que Igor mesmo fazia. Na realidade, minha médica estava sendo uma segunda opção. Igor queria ele mesmo realizar parto trazendo ao mundo nosso bebê, no entanto, ele também era muito precavido. Insistindo assim que minha médica estivesse presente caso ele não contivesse a emoção. Conhecendo o meu homem como conhecia, ele ficaria sim emocionado, mas duvidaria que desistisse de trazer nosso garotão ao mundo através de suas mãos. Hoje, Igor levaria o ecógrafo portátil para a fazenda para que todos pudessem ver e ouvir o nosso bebê. Por mim, só saberia o sexo do bebê quando o segurasse em minhas mãos no seu nascimento. Para mim, seria um momento único entre duas pessoas que já se amavam. Porém, isso seria impossível tendo como pai do bebê um médico ginecologista e obstetra que queria participar de tudo. — Acordei sem vocês na cama — Igor apareceu com o rosto amassado do travesseiro e os cabelos bagunçados. Automaticamente, como se pressentisse a presença do pai nosso bebê se agitou ao ouvir a voz do pai. — Calma aí, garotão! O papai chegou — Igor proferiu alisando minha barriga, beijando-me em seguida. — Foi por isso que saí do quarto. Você precisava dormir um pouco mais antes de pegarmos a estrada — falei quando senti minha barriga praticamente se contorcer. Parecia que o bebê pulava entusiasmado por saber que o pai estava perto. — Não quero que saia de perto de mim — sentou-se no sofá, puxando-me para seu colo. — Acordei justamente porque vocês não estavam na cama. — Desculpa — pedi dengosa, aninhando ainda mais em seu corpo. Era tão bom estar assim em seus braços. — Não precisa pedir desculpa — beijou-me na boca, sugando meus lábios. Senti seu pau enrijecer e rebolei para provocá-lo. Tínhamos um tempinho antes de irmos para fazenda, daria tempo de dar uma rapidinha no velho sofá de guerra. Porém, nosso garotão, chutou muito forte exigindo atenção. Ficamos quietinhos durante uns quinze minutos. Igor acariciava e falava sobre o que faria


comigo à noite em nosso quarto na fazenda. Como um passe de mágica, o bebê ficou quietinho. Tomamos banho e trocamos de roupa. Comi uma fruta junto com um iogurte. Chegaríamos antes das nove da manhã na fazenda e certamente haveria aquela mesa posta cheia de delícias para o café da manhã. Por enquanto, seria apenas um engana estômago. — Segunda-feira logo cedo os montadores virão montar o quarto bebê — avisei ao Igor. Estávamos a caminho da casa da minha mãe. O trânsito estava tranquilo e logo chegaríamos. — Eu terei uma reunião com a Isa pela manhã. Você pode ficar e recebê-los? Caso não, terei que cancelar, e só Deus sabe quando conseguirei marcar outro horário. Já era a terceira vez que marcava com os montadores. Todas às vezes acontecia algum imprevisto que precisava ser cancelado. — Posso sim. Segunda-feira, só terei pacientes a partir do meio dia. Vou deixar você na Clínica e volto para casa para esperar os montadores — beijou-me mais uma vez meus lábios. Nessa etapa final da minha gestação, Igor evitava ao máximo que eu ficasse sozinha, principalmente, sair sozinha. Igor estacionou em frente ao prédio em que mamãe morava. Descemos e caminhamos de mãos dadas até seu apartamento. A porta da frente estava entreaberta. — Mamãe? — chamei entrando. — Estou aqui. No quarto — ela surgiu segundos depois alvoroçada. — Miguel acabou de ligar. Ele pediu que eu levasse um documento, mas não estou lembrando onde o guardei. Prometo não demorar. Ela veio até nós, beijando-nos e acariciando minha barriga. — Essas malas são para colocar no carro, Laura? — Igor perguntou. — Sim. E o bebê conforto também — mamãe afirmou. — Você pode colocar no banco de trás, por favor? — Claro que sim — Igor pegou as duas malas e o bebê conforto. — Espero vocês lá fora — abriu um sorriso saindo do apartamento com as mãos carregadas. Segui pelo corredor até o quarto de mamãe que procurava avidamente o tal documento que o Miguel pediu. — Elisa, está dormindo? — perguntei baixinho. — Está deitada em seu bercinho. Acabou de mamar — mamãe respondeu. Voltei pelo corredor entrando no quarto onde um dia tinha sido da minha irmã, Sandrinha. Avistei o berço e caminhei até minha sobrinha. Elisa estava acordada quietinha olhando admirada o móbile girando sem parar. Como se sentisse a presença de alguém, Elisa desviou o olhar encarandome.


— Oi, meu amor. A titia veio pegar você para um passeio até a fazenda — falei acariciando seu rostinho. — Hum! Estou sentindo um cheirinho nada agradável — sussurrei baixinho fazendo careta. Elisa pegou meu dedo apertando forte prestando atenção no que eu falava. Ela era muito esperta. Tirei-a do berço colocando confortavelmente no trocador, tirei sua roupinha conversando com ela para que não chorasse. Elisa odiava trocar de fraldas. — Eita! Meu amorzinho fez um estrago aqui — pronunciei de maneira engraçada. — Está fedorento. Elisa era uma bênção que nasceu prematuramente de uma tragédia. Ela era filha da minha irmã Sandrinha com o Valentim. Há três meses um acidente de carro tirou a vida deles. Eles vinham de uma viagem quando um caminhão desgovernado colidiu com o carro. Valentim teve morte cerebral, já Maria Sandra ainda chegou viva ao hospital, porém em estado grave devido a uma hemorragia interna. Nunca conseguirei esquecer esse fatídico dia. Era domingo, amanheci com um pressentimento ruim, uma angústia que me apertava o peito desde o momento que despertei. Comentei com Igor, e ele todo preocupado achou melhor que desmarcasse meu compromisso com Sarah, mas não concordei. Ele ficou inquieto toda a manhã perguntando se eu estava bem a cada cinco minutos. Desde meu sequestro quando ele mesmo pressentiu algo ruim, então passou a ser mais supersticioso. Tinha combinado com a minha amiga de almoçarmos juntas no shopping e depois escolhermos um presente para o Danilo, o aniversário dele seria na quarta-feira e queríamos surpreendê-lo com algo especial. Durante todo o passeio tentei esquecer a aflição que martelava meu peito, mas quanto mais o tempo passava mais angustiada ficava. Até o momento em que um toque de um número desconhecido em meu celular confirmou o mau presságio, minha irmã tinha sofrido um acidente e estava correndo risco de morte. Com a notícia o pânico me dominou, deixando Sarah desesperada ao ver o meu próprio desespero. Só consegui me acalmar quando minha amiga lembrou-me do meu filho e o quanto isso poderia fazer mal a nós dois. Com as mãos trêmulas liguei para Igor e contei o que tinha acontecido, pedindo que fosse para o hospital para o qual levaram minha irmã. Eu o queria lá comigo. Pensei em ligar para mamãe, mas não tive coragem, não saberia como dizer a ela. Eu primeiro precisava saber como estava a minha irmãzinha antes de tudo. Cheguei ao hospital trinta minutos depois que falei com Igor. Saí apressada do estacionamento com Sarah vindo logo atrás. Segui direto para a recepção interpelando a primeira recepcionista que avistei. — Por favor! Minha irmã... Ela sofreu um acidente... Maria Sandra Ventura é o nome dela — supliquei em lágrimas a moça.


— Calma, senhora, eu vou verificar — a recepcionista disse ansiosa devido ao meu estado. — Ali, acalme-se. Pense no seu bebê! — Sarah aproximou visivelmente preocupada comigo. — Alice! — Igor chamou, surgindo pela recepção. Imediatamente, avancei para os seus braços sem esperar pela resposta da recepcionista. — Como se sente? — perguntou me observando atentamente. — Igor, minha irmã... — chorei mais. —... Eu preciso saber como ela está. — Meu amor, me escuta — Igor pediu. — Eu acabei de falar com o médico que atendeu a sua irmã. — Falou? Como... Como ela... ela...—parei subitamente, secando as lágrimas que já turvavam a minha visão, porém quando visualizei em seus olhos a resposta mesmo antes de ser pronunciada em seus lábios descontrolei-me completamente. — Meu Deus! Não, por favor, não... Sandrinha tinha errado muito, e eu, principalmente, tinha sido vítima da sua ambição e egoísmo. Ela tinha me magoado tanto, que achei que nossa relação talvez nunca voltasse a ser como era antes. Mas agora nada importava mais. — Meu amor, Maria Sandra chegou ao hospital com hemorragia interna — Igor disse acariciando-me. — Os médicos não estão conseguindo controlar a hemorragia. — Minha irmã, Igor? O bebê? — Eles estão tentando, Alice... mas... é melhor estarmos preparados. Após horas intermináveis de espera, tempo que mais pareceu um ano de angústia, o médico trouxe a notícia. Ele e sua equipe fizeram de tudo para controlar a hemorragia em Sandrinha, porém não conseguiram, agora era apenas questão de tempo. Um milagre. Fizeram uma cesariana na tentativa de salvar o bebê. Tantas coisas passaram na minha mente. Tantas lembranças e promessas a serem cumpridas se tudo ficassem bem. Enfim, não tinha como mais protelar, pedi ao Miguel que comunicasse a minha mãe, eu não tinha a mínima condição. Estava esgotada de todas as formas possíveis, sem forças. Como dizer a uma mãe que sua filha estava morrendo? — Eu posso ver a minha irmã, doutor? — Sim, é claro — o senhor respondeu gentilmente. Mas lembre-se, ela está muito fraca, perdeu muito sangue. O mínimo de esforço possível. — Sim, senhor. Muito obrigada. Aguardei alguns minutos enquanto transferiam Maria Sandra da sala de cirurgia para a UTI. Por precaução, o médico autorizou apenas a minha entrada, e já que a nossa mãe ainda não tinha chegado. Segui a enfermeira pelo um corredor longo e frio. Ela docemente indicou onde Sandrinha estava e lembrou-me de que ela precisava descansar.


Avistei minha irmã assim que entrei a Unidade, deitada em uma cama de hospital. Aproximei-me observando-a. Estava de olhos fechados e seu rosto não tinha cor, totalmente pálida. Tinha cortado o cabelo, deixando um pouco acima dos ombros. Continuava linda como sempre achei a minha menininha. Segurei sua mão, sentindo o quanto estava fria, pensei em pedir um cobertor, mas desisti no momento que olhos da minha irmã se abriram, encontrando com os meus. Eu sabia que tinha poucos minutos com ela, poucos segundos para dizer que tudo tinha ficado para trás. — Ali... — sussurrou emocionada. — Shh... Não fale, você precisa descansar. — Meu... bebê é uma menina — forçou um sorriso. — Eu ainda não vi, mas tenho certeza que é tão linda quanto você — acariciei seu rosto. — Ali... Cuida dela, por...por favor. — Você vai cuidar dela. Você vai vê-la crescer — falei secando suas lágrimas que derramava e segurando as minhas. — Não vou... Eu preciso que você cuide dela, assim como cuidou de mim... Promete? — Sandrinha... — Por favor, promete — insistiu. — Eu sei que... a mamãe irá querer ficar com ela, mas esteja lá pela a minha Elisa também. — Elisa? — Sim — sorriu. — Você promete? — Sim. Sempre estarei ao lado da Elisa. Eu prometo — beijei sua testa. — Cuida da mamãe também. — Sempre — confirmei soluçando. — Agora descanse. — Não... Eu preciso te pedir perdão... E dizer que... Eu estava tentando ser uma pessoa melhor para orgulhar você e a mamãe. — Você sempre será a minha menininha. Aquela que sempre amei... Eu já te perdoei. E já tinha perdoado, mesmo que dissesse a mim mesma que não. Eu sempre a perdoaria. — Eu estou com medo, Ali — chorou. Sem aguentar mais chorei junto com ela, porque eu a queria segura sabendo que era amada. — Não, meu amor! Não tenha medo. Me diga o que você quer que eu faça? Eu faço. — Que fique comigo até o fim.


— Eu vou ficar com você. Eu amo você, Sandrinha! Eu sempre vou amar, e sua filha vai saber o quanto você a amou também. E fiquei ao seu lado até seu último suspiro. Repetindo a todo instante, o quanto a mamãe e eu a amávamos. E quanto os nossos filhos a amariam também. Sei que Maria Sandra foi em paz e feliz. Elisa nasceu prematura de seis meses e meio. Era uma guerreira lutando para viver. Há um mês a nossa pequena recebeu alta do hospital e estava aqui em casa, conosco. Foram dias difíceis para mamãe e eu. A morte de Sandrinha nos pegou de surpresa. Ela estava bem, morando e trabalhando em uma escola no interior. Ligava uma vez por mês para mamãe. E ao que parecia Sandrinha e Valentim estavam se dando uma chance. Mamãe tinha esperança que aos poucos Sandrinha se aproximaria novamente. Devido à morte da minha irmã, minha lua de mel foi adiada. Sim, Igor e eu, havíamos nos casado em uma celebração simples, porém cheia de emoções na capela da fazenda, com todos nossos familiares e amigos presentes. A recepção foi além do que esperávamos. Além do jantar dona Elza preparou uma festança, convidando todos os moradores da vila. A festa de casamento foi tão animada que durou até raiar o dia. Igor nos presenteou com uma semana em Mendonza, no sul da Argentina, em um vinhedo de um amigo. No entanto, com toda essa tragédia ocorrendo poucos dias após o meu casamento, decidimos adiar. Eu precisava estar ao lado da minha mãe, apoiando-a. — Pronto! A minha pequena agora está linda e muito cheirosa para viajar — agitei seus pezinhos beijando-os. Ela tinha a mesma cor de olhos da Maria Sandra. Coloquei-a em meus braços, saindo do quarto, caminhando até onde estava minha mãe. — Nada do documento? — indaguei surgindo na porta do seu quarto. — Achei. Estava só arrumando a bagunça que causei — mamãe respondeu virando pra mim. — Alice! Você não pode pegar peso. — A Elisa não pesa quase nada — apesar da minha sobrinha estar com três meses, ela aparentava um bebê recém-nascido e não pesava mais do que quatro quilos. — Ela é tão quietinha. Diferente de você e de sua irmã que não paravam de chorar — mamãe falou se aproximando. — Como a senhora está? — perguntei. Ela não admitia, mas sabia que Elisa e Miguel estavam sendo sua tábua de sustentação. O apoio do primo do Igor tinha sido inigualável. Ele não havia deixado mamãe sozinha desde a morte da minha irmã. Ontem foi uma exceção deixá-las. Ele precisou ficar na fazenda para ajudar dona Elza. — Estou caminhando — respondeu buscando meu olhar, emocionada. — A dor da morte da sua irmã nunca irá passar. Mas eu preciso estar aqui para as outras pessoas que amo... Você, Elisa, meu neto...


— Miguel... — completei fazendo desviar seu olhar dos meus. Eu sabia que ela amava o Miguel, no entanto, ainda não estava pronta para confessar. — Ainda não decidiu o nome do meu neto? — mudou de assunto. — Estamos decidindo — declarei. Todos os nomes que Igor e eu havíamos procurado, eu achava que não combinavam com o nosso bebê. Todos viviam questionando a minha demora em escolher, porém, eu tinha certeza que o nome ideal surgiria no momento certo. Escutei a buzina do carro do Igor. — Acho que o titio Igor está impaciente — disse brincando com Elisa. — Vá colocando Elisa no bebê conforto. Eu só vou fechar as janelas e trancar a porta — mamãe pediu. Saí do apartamento com minha sobrinha em meus braços. Eu faria de tudo para que ela não sentisse falta dos seus pais. Eu a amaria e protegeria como fiz com sua mãe. Elisa sempre seria a melhor lembrança que Maria Sandra nos deixara. E era essa lembrança que guardaria da minha irmã. Tudo de ruim que tinha acontecido entre nós foi esquecido no momento em que avistei a minha sobrinha.

Todos estavam eufóricos reunidos na sala de estar da fazenda após o almoço. Miguel e Igor tentavam conectar o ecógrafo à TV de LED de dona Elza para que todos pudessem ver o bebê através da ultrassonografia em 4D. Igor tinha vendido seu antigo aparelho portátil e investido em outro mais moderno. Com esse podíamos ver com perfeição o rostinho do nosso bebê. — Ih! Isso está muito enrolado — Danilo zombou de Miguel e Igor. — Vamos! Eu quero ver meu sobrinho. — Me lembrem de nunca contratar vocês como técnicos de TV — meu irmão, Levi, entrou na onda da zoeira. Com o incentivo de Ingrid, que estava com a perna imobilizada, mesmo depois de dois meses que ocorrera a cirurgia, retirando o tumor. Todos em um só refrão começaram a bater palmas gritando em uníssono para Miguel e Igor: Uh! Fora. Uh! Fora. Até a aniversariante, Zica, entrou na brincadeira. Um misto de risos se espalhava por todos nós. Eram momentos de descontração. Depois de vários minutos os dois conseguiram instalar o bendito aparelho. — Somos demais — Igor disse batendo sua mão com a de Miguel. — Salazar de verdade nunca desiste! — piscou para mim todo sorridente. — Ai, meu Deus! Começou o ego Salazariano. — Ingrid gritou, levando as mãos ao rosto,


fingindo estar com vergonha. — Eu quero ver o totoso da titia. Agilize, aí! Todos se acomodaram próximos a TV. Igor me ajudou a deitar em uma poltrona reclinável para eu também pudesse ver perfeitamente nosso bebê. Ele pegou um banquinho, sentando-se ao meu lado. Levantou minha blusa, fazendo com que minha barriga arredondada ficasse à mostra. Baixou um pouquinho minha calça, colocando papel toalha por cima. — Está pronta? — Indagou, beijando castamente meus lábios. Afirmei com a cabeça, empolgada. Veria o rostinho do meu bebê perfeitamente. Igor derramou gel por cima da minha barriga, trazendo uma sensação gostosa. Com o transdutor começou a espalhar o gel. Nosso bebê de imediato chutou, resmungando por tê-lo acordado. De repente, o garotão do papai e da mamãe surgiu na TV, nitidamente emburrado, levando a mãozinha ao rosto. — Owwn... Olha meu netinho — minha sogra proferiu encantada. — Ele está birrento. Todos começaram a elogiar o bebê ao mesmo tempo. Igor e eu apenas apreciávamos aquele momento. Como se não houvesse ninguém por perto. Apenas nós três. — Eu quero conferir a piroquinha do meu sobrinho — Ingrid pediu. — Ele é um Salazar. Meu garotão tem um mastro — Igor caçoou da irmã. — Então, com certeza é um mastrão. Porque ele também é um Schneider — Levi entrou na brincadeira da egolatria. Busquei por minha mãe que sustentava a babá eletrônica em suas mãos, admirando seu netinho pela TV. Ela me olhou totalmente comovida, sussurrando "eu te amo" pra mim. — O que achou do seu bisneto, vovó? — Igor perguntou, observando que sua avó não tirava os olhos da tela. Procurei por dona Elza, percebendo o quanto ela estava estática. Seus olhos marejados de lágrimas. Ela pegou um lenço do bolso do seu vestido secando as lágrimas dos seus olhos. — Meu bisneto é perfeito — pronunciou quase inaudível. — Ele me fez voltar a 58 anos atrás. Quando segurei seu pai em meus braços pela primeira vez, Igor. Meu bisneto é idêntico ao meu Alberto. Esse narizinho não nega sua descendência. Igor se comoveu com as palavras da avó, fixando o olhar no rosto do nosso bebê na TV, certamente buscando a semelhança que dona Elza acabara de dizer. — Alice, você está olhando o rostinho do seu bebê. Será que agora consegue pensar em um nome para ele? — minha amiga Sarah, questionou. — Eu acho que ele tem cara de Thomas — Ingrid proferiu, fazendo com que cada um que estava na sala sugerisse um nome apenas por olhar o rostinho perfeito do meu garoto.


Igor congelou a imagem, retirando o transdutor de minha barriga. Era perceptível que o aparelho irritava o nosso bebê. Alisei minha barriga olhando encantada para o rostinho do bebê na TV, quando Igor retirou com papel toalha todo o excesso do gel. — É assim mesmo, meu amor — mamãe surgiu ao meu lado. — Você se apaixonará mais e mais, todas as vezes que olhar para esse rostinho. É um amor sem limites. Você será capaz de dar sua vida pela dele. O tempo vai passar e esse amor só crescerá. — ela beijou minha testa, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. — Por exemplo, eu te amo muito mais agora do que há cinco minutos. — Ai, mamãe! Eu já o amo tanto — murmurei. — Eu sei, meu amor — ela concordou. — Bem vinda à era mamãe. — Ele é perfeito e saudável, Diabinha — Igor acariciou minha barriga. Fixei os olhos no homem que eu amava. O homem que me tomou para ser dele de todas as formas possíveis. E, agora, nós dois dividiríamos o mesmo sentimento, intenso e protetor, por outra pessoa. Era com ele, o meu Devasso, que eu queria dividir minhas alegrias e tristezas. Poderia ser clichê ou não, mas Igor Salazar, com certeza, era o meu para sempre. — Eu quero que o nosso filho se chame Alberto Dante — pronunciei de repente, observando a emoção tomar conta do seu rosto. — Nada mais justo o nosso garoto carregar consigo os nomes dos dois homens que você se espelhou. Eu quero que ele se espelhe em você. No pai que ele já tanto ama. Igor não disse uma palavra quando finalizei. Ele apenas me olhava como se estivesse hipnotizado. Assustando-me um pouco até. — Por favor, diga alguma coisa — roguei nervosa, devido ao seu silêncio excessivo. — Ah, Diabinha! Eu sou um filho da puta sortudo — abraçou-me, puxando-me para seu colo. — Eu nunca irei me arrepender de ter me apaixonado por você.


Epílogo

Igor 08 anos depois — Ahhh... Eu não aguento mais, amor... — Alice gritou gemendo, enquanto estocava sem parar meu pau dentro dela. — Eu vou gozar... Estávamos na cachoeira. Alice vestia apenas a parte de cima do biquíni. Estava deitado sobre ela, de barriga para baixo em cima de uma pedra lisa, os cabelos loiros molhados e bagunçados cobrindo seu rosto, ela gemia enlouquecida, com minha mão friccionando seu clitóris ao mesmo tempo em que meu pau deslizava por trás dela. — Não vai gozar não! — declarei, retirando meu pau de dentro dela e enfiando novamente bem devagarinho. — Você só vai gozar quando eu quiser. Não mandei deixar minhas bolas roxas ontem durante todo percurso até aqui na fazenda. Havia se tornado uma tradição vir sozinhos na cachoeira sempre que visitávamos a fazenda. Era o nosso refúgio sagrado. Um momento exclusivamente nosso. Claro que, às vezes, toda a família se reunia próxima à cachoeira para um dia tranquilo de lazer, mas Alice e eu tínhamos nosso cantinho. Um lugar mais abaixo da quebra d’água, mais reservado e de difícil acesso para os curiosos. — Você queria que nosso filho visse a mãe dele masturbando o pai? — resmungou murmurando, quando deslizei chupões do seu pescoço até o ombro. —Não dava para ele ver — proferi, ainda chupando seu ombro, mas para segurar o riso. No fundo eu sabia que Alice estava certa. Nosso garoto, Alberto, era esperto e estava naquela fase de querer saber tudo. Era muito observador e atento às conversas. Alice e eu já não conseguíamos entretê-los facilmente. Parecia um mini homenzinho. Vovó Elza dizia que ele era a encarnação do meu pai, tanto na fisionomia como na maneira de agir. — Você adora me deixar cheio de tesão, Diabinha — uivei fechando os olhos, quando afundei mais meu membro. Eu também estava chegando ao meu limite. — Agora chegou a minha vez de deixá-la sem gozar. Quero ver você mal humorada o restante do dia — menti, pois jamais deixaria de satisfazê-la.


Voltei a acelerar as estocadas, a água chacoalhava fazendo um pequeno barulho junto ao movimento dos nossos corpos. Era incrível como depois de tantos anos juntos eu sempre queria mais de Alice, o meu amor por ela só crescia a cada momento, a cada descoberta que vivenciávamos. Ela era perfeita pra mim. — Igor, seu Devasso, filho da... — parou de xingar, quando belisquei levemente seu clitóris. Seu corpo dava pequenos tremores, ela estava muito próxima de gozar. E isso me deixava louco, ver a maneira como regia próximo a sua libertação. — Amor... Eu preciso gozar, por favor — choramingou mordendo meu antebraço. Sem resistir mais a tanta excitação, a virei rapidamente, afundando novamente dentro do seu corpo. Alice puxou meu rosto para o dela tomando meus lábios desesperadamente. Nossos corpos encaixando-se perfeitamente como duas peças de um quebra cabeça. Os sussurros e gemidos declamando como uma poesia por nossas bocas. Éramos dois corpos em um só, chegando ao ápice do prazer, consolidando mais uma vez que pertencíamos um ao outro.

Voltamos às pressas para o casarão. Era final de uma tarde de sábado e estávamos quase em cima da hora para os compromissos a seguir. Sempre que possível passávamos um final de semana na fazenda, com toda a família reunida. Mas esse seria especial. Minha avó estava completando cem anos. E todos da família, sem exceção, estavam aqui presentes para celebrar esse momento. Meus tios, tio Bento, pai do Miguel e tia Simone, irmã mais nova do meu pai, chegaram há três dias. Minha tia-avó, Bel, irmã mais nova de vovó Elza, e sua filha mais nova e uma neta da mesma idade da Ingrid apareceram de surpresa na noite passada. Quando enviamos o convite para elas não tínhamos a certeza se compareceriam, pois tia Bel andava muito fraquinha. Mas ela fez questão de vir prestigiar a irmã que tanto amava. Além da minha mãe, Ingrid, Levi e nossos melhores amigos que sempre estavam presentes, a maior surpresa foi meu sogro, Ely, ter vindo especialmente de Paris para comemorar o centenário da matriarca da família Salazar. Os dois durante todos esses anos haviam se tornado amigos. E sempre que Ely vinha ao Brasil fazia questão de vir à fazenda visitar minha avó. Miguel, Laura e Elisa, haviam chegado hoje depois do almoço. Eles tiveram que buscar Elisa na casa dos avôs paternos, os pais do Valentim. Uma vez por mês ela os visitava. Mesmo compreendendo que era muito importante essa relação de Elisa com a família paterna, Miguel morria de ciúmes, porém disfarçava muito bem. Ele tinha assumido Elisa como um pai, um grande pai digase de passagem, a menina era completamente encantada por ele. E meu primo, virou um pai e marido babão. Mas eu o entendia perfeitamente. Hoje minha vida se resumia na minha família. — Estamos muito atrasados, Igor. A cerimônia vai começar em vinte minutos — Alice falou, quando estacionei o carro. — Acho que todos já foram para a capela. — Nem todo mundo, Diabinha... — disse, segurando o riso e apontando para a entrada do casarão. —... Prevejo encrenca mais a frente.


— Aí meu Deus! O que será dessa vez? — pronunciou exasperada quando viu duas cabecinhas de cabelos loiros se atracando. — Acho que o Alberto precisa ser resgatado urgentemente. A pestinha número dois ataca novamente — respondi soltando uma gargalhada. — Não tem graça, Igor Salazar —protestou me olhando de cara feia. — A pestinha número dois é sua filha também. — E eu a amo desesperadamente. Morreria por aquela pirralha — afirmei tentando soar sério. Porque era verdade, meus filhos e minha mulher eram minha fortaleza. — Mas sei muito bem o que é ter uma irmã caçula pentelha. Pior! Sinto na pele até hoje... Pobre Alberto! Está seguindo o legado do pai. — Igor! — repreendeu-me brava. Alice abriu a porta do carro e desceu não sem antes me dar aquele olhar ameaçador, daqueles que dizem: fale mais alguma merda sobre meus filhos que você irá dormir no chão da cozinha! Entendendo o recado, em silêncio, desci também do carro dando a volta indo ao seu encontro. Alice era altamente protetora com os nossos filhos. O tipo de mãe leoa que devorava um, apenas se olhassem de cara feia para seus filhotes. De mãos dadas, caminhamos em direção ao casarão. À medida que nos aproximávamos da varanda o som da discussão aumentava. Olhei mais uma vez para Alice esperando sua reação. Ela levantou meu braço, buscando o relógio, o qual ela tinha me dado há muitos anos atrás, verificando a hora. Estava preocupada em chegar atrasada para o início da celebração do aniversário de vovó Elza, que começaria primeiro com uma missa na pequena capela da fazenda. Depois haveria uma grande festa no salão com todos os familiares, trabalhadores e suas famílias e pessoas que admiravam minha avó. Seria uma festança que varreria a noite inteira. Ao nos depararmos com a cena da nossa pequena agarrada ao pescoço do nosso garotão, apertei fortemente a mão de Alice tentando me controlar para não rir. Seria cômico se não fosse trágico, ver o olhar enfurecido do Alberto para sua irmãzinha caçula, ao ponto de desmaterializá-la se possuísse tal poder. Confesso que às vezes era difícil manter a seriedade na frente deles. As crianças eram muito criativas nas suas travessuras e eu tinha que dar exemplo, e ensiná-los o certo e o errado. E, é claro, que não poderia deixar a Diabinha sempre ficar com o “prêmio” de mamãe chata. Dividíamos essa tarefa na hora de chamá-los a atenção. — Você está me sufocando, pirralha estúpida — Alberto esbravejou puxando os braços da irmã de cima dele. — Então fique quieto para que eu possa colocar sua gravata — retrucou a minha pestinha número dois, bem séria, tentando dar o nó na gravata do irmão, sem sucesso. Até o momento, ambos não tinham notado a nossa presença. — Par ou ímpar? — indaguei baixinho no ouvido de Alice para ver quem resolveria a situação.


Sem dizer nada, Alice revirou os olhos e caminhou até as crianças. — Alberto! Sofia! — chamou-os a atenção. — O que está acontecendo aqui? — Mamãe! — os dois disseram em uníssono ficando estáticos. Instantaneamente Sofia soltou Alberto olhando para Alice e eu. Era incrível a semelhança de mãe e filha. Minha pequena possuía os mesmos olhos azuis enfeitiçadores e o mesmo sorriso. Aquele sorriso conseguia sempre o que queria de mim. Sofia podia ser às vezes muito irritante com seu irmão, mas era uma menina com um coração enorme. Com apenas cinco anos era uma criança sorridente e alegre, ao mesmo tempo, se comportava como uma pessoa adulta, séria e responsável. Muito independente para sua idade. Minha mãe sempre dizia que minha princesinha possuía uma alma velha. Quando Alice foi sequestrada e pensei tê-la perdido para sempre eu chorei compulsivamente. Era o um choro de perda, de algo sendo arrancado forçadamente de mim. Talvez medo de nunca mais senti-la em meus braços e a culpa por ter sido o completo idiota, acabaram me deixando em pânico. Nem quando meu pai morreu chorei da mesma maneira. Eu precisava ser forte para cuidar da minha mãe e irmã, e mesmo com o coração despedaçados fui forte por elas. No entanto, conheci o outro lado do choro. O choro de alegria e emoção. O choro de total redenção. O choro de que eu era pai. Eu nunca esquecerei o momento que coloquei meus filhos nos braços pela primeira vez. Naquele instante, um elo sagrado entre pai e filhos se formou. Eu descobri o amor incondicional. Alberto e Sofia nasceram de parto normal. A pedido de Alice, foi a sua obstetra quem conduziu os partos, enquanto permaneci ao lado dela a todo o momento, a tranquilizando e dizendo o quanto estava sendo maravilhosa. Porém das duas vezes que Alice entrou em trabalho de parto, e no minuto em que ouvi a médica sorrir para nós dois e dizer: o bebê está “coroando”, não resisti e eu mesmo os trouxe ao mundo. O mais engraçado é que esse era meu trabalho, sempre fui o primeiro a segurar os bebês e cortar os cordões umbilicais, mas a sensação de fazer o mesmo com os meus filhos foi única. Chorei juntos com eles, agradecendo a Deus a dádiva de me tornar um homem de família. — Mamãe, manda essa garota largar do meu pé — Alberto reclamou. — Mas, mamãe! Eu só quero colocar a gravata nele. A bisa comprou para Berto usar hoje — retrucou com aquela carinha de anjo que seria inocentada em um tribunal de júri apenas por olhá-la. — A bisa vai ficar triste. De uma coisa Alice e eu tínhamos certeza, de todas as brigas entre as crianças, 80% Sofia quem provocava. Conhecíamos muito bem as nossas crias. Éramos macacos velhos em relação a eles. Os dois ainda enrolavam os avós, principalmente, com o meu sogro. Ely era completamente apaixonado pelos netos. O perfeito avô babão. Depois que as crianças nasceram, intensificou suas vindas ao Brasil. Com ele, Alberto e Sofia conseguiam tudo o que queriam. O que levava minha Diabinha à loucura. — Eu preciso mesmo usar essa gravata, mamãe? — Alberto perguntou receoso. Vovó Elza jamais ficaria triste se ele não estivesse usando a gravata, no entanto só de imaginar que sua bisa ficaria magoada, meu garoto já se sentia culpado.


— Você não gostou da gravata? — Alice questionou. — Eu gostei. Só que... — ele baixou a cabeça antes de continuar a falar. — Se não se sente à vontade com ela, não precisa usar, meu amor — Alice concluiu docemente. — O Berto não que usar a gravata porque a Elisa disse que ele ia parecer com um nerdo — minha pequena declarou. — Não é por isso, sua mentirosa estúpida! — Alberto Dante! Não gosto que fale assim com a sua irmã — adverti-o. — Claro que foi! A Elisa estava falando do primo dela de doze anos e foi quando o Berto apareceu de graveta e ela sorriu dizendo que ele parecia um nerdo. E que o tal primo nunca usaria. — É nerd e não nerdo — Alberto rosnou com o rosto enrubescido. — Eu disse nerd, seu bobão — Sofia retrucou mostrando a língua para o irmão, mas em seguida desviou o olhar para mim desconfiada, abrindo um sorriso doce. Eles sabiam que eu odiava quando um xingava o outro. Eu os apelidava, mas só a Diabinha que ouvia. Nunca chamaria minha princesa de pestinha na frente dela. — Papai, o que é um ner... — Nerd? — eu disse quando vi que ela ficou confusa em como pronunciar. — Isso! O que é um nerd, papai? — inquiriu curiosa. Como eu explicaria de maneira que minha pequena entendesse? Se dissesse que era uma pessoa intelectual, Sofia perguntaria o que era intelectual. — Bem, é uma pessoa muito inteligente. Que adora estudar — expliquei. — Hum! — ficou pensativa por alguns segundos, na certa faria uma pergunta inusitada. — Nerd é a mesma coisa que devasso? Não mesmo! — Por que você acha isso? — A mamãe o chama de devasso. E o senhor é o homem mais inteligente do mundo todo. Fiquei sorrindo abobado depois do elogio da Sofia. Uma das melhores coisas que descobri ao me tornar pai, além do amor incondicional pelos filhos, é que eles nos veem como heróis. Exemplos a serem seguidos. E Alberto e Sofia sempre procuravam nos imitar. De todas as formas. Seja na maneira de se vestir ou de se expressar. As crianças viviam dizendo que quando crescessem seriam médico e fisioterapeuta, e que iriam abrir uma Clínica que chamaria Schneider Salazar. Era maravilhoso partilhar esses momentos com eles.


— Bem... Não é a mesma coisa. Ser nerd é bom, mas ser devasso é muito melhor — no mesmo instante olhei para a Diabinha e dei uma piscadela debochada. — Eu quero ser um devasso então, papai — Alberto expressou. — Eu também quero ser uma devassa... muito devassa — Sofia falou eufórica. — Parou! Parou! — levantei as mãos pedindo que ficassem em silêncio. — O Berto pode ser um devasso. Na hora certa o papai vai te ensinar todos os truques — sorri para o meu garoto. — No entanto, você Sofia, não pode. Porque é a princesinha do papai. — Igor! — Alice repreendeu-me. Ela odiava quando fazia isso. Mas o que eu podia fazer? É a minha garotinha, eu iria protegê-la ao máximo dos abutres. — Crianças, vamos deixar essa conversa para depois. Hoje é o aniversário da bisa, e a mamãe e o papai precisam se trocar. — Posso ir com vocês? — Alberto indagou. — O quê, meu amor? — Alice indagou. — A vovó Laura e Elisa estão se trocando. E eu fiquei esperando-as porque o tio Miguel foi na frente com a bisa. — Berto e Elisa brigaram, mamãe — Sofia debochou. — Sofia... — repreendi —Desculpe, papai — minha garotinha fez biquinho. Olhei para o meu garoto que aguardava uma resposta nossa. Estava na cara que ele estava chateado, e com certeza por causa da prima. Não era de hoje, eu já tinha notado que Alberto nutria sentimentos por Elisa. Algo inocente, puro. Mas que às vezes o deixava aborrecido, principalmente na escola. Nossa sobrinha era linda, herdou a beleza da mãe, mas o coração doce e gentil de Laura. Alberto e Elisa estudavam juntos, na mesma sala, e por a prima chamar a atenção de alguns colegas da escola, Alberto muitas vezes não se sentia confortável, chegando até a brigar com dois colegas de classe. Alice dizia que era apenas instinto protetor, que faria o mesmo pela irmã. E eu não duvidava. Meu filhos sempre discutiam, contudo se importavam e cuidavam um do outro. Eu via neles o mesmo amor que Ingrid e eu tínhamos. — Vamos fazer o seguinte... — a Diabinha sugeriu. — Eu vou procurar vovó Laura e Elisa e pedir que esperem por nós. Para irmos todos juntos. Enquanto isso, a Sofia vai ajudar a mamãe a se trocar e Alberto vai ajudar o papai. Que tal? Achei perfeito! Alice sabia que Alberto precisava conversar e em alguns momentos ele e eu nos entendíamos. —Oba! — vibrou Sofia. — Eu posso maquiar a senhora, mamãe? — Hum! —Alice sorriu. A última vítima de ser maquiada por Sofia foi a Ingrid. E, digamos que não era um tipo de maquiagem para se usar em um evento como o aniversário da vovó Elza. — Eu deixo você me ajudar.


— A tia Ingrid ama minhas maquiagens. Ela disse que é uma arte. — Sofia proferiu — Mas eu entendo que estamos atrasados. A bisa pode ficar triste. Minha irmã era minha doce pestinha irritante, mas com os sobrinhos era a tia mais boba do mundo. Fazia tudo por eles. — Isso meu docinho — Alice concordou. — Vamos? Tchau, homens da minha vida. Seremos breves. As minhas duas diabinhas soltaram beijos, enquanto entravam seguindo para o quarto. Olhei para o meu garoto que examinava a gravata em sua mão. — Você não é obrigado a usar a gravata, filho — repeti o mesmo que Alice falou. — A bisa não vai ficar chateada. — Eu sei... Na verdade, eu quero usar — declarou sério. — Mas a Elisa não precisava dizer aquilo. Ela não pensou na bisa? — Alberto, uma coisa que com o tempo você acaba se acostumando — abaixei-me para que o olhasse nos olhos. — Independente de idade, mulheres são complicadas e irritantes, mas nós homens somos loucos por elas. Alberto me observava atentamente. — Por isso vou te dar um conselho — peguei a gravata de sua mão. Era cinza do modelo borboleta. Lembrei que em uma ocasião há muitos anos atrás, vovô Dante usou uma da mesma tonalidade. — Mesmo você não concordando com elas, sempre procure agradá-las. Garanto que terá menos dor de cabeça, entendeu? — Não — pronunciou confuso. — Mas se o senhor diz, eu vou tentar. — Já é um bom começo — sorri para o meu garoto. — Agora venha, preciso me trocar. Se não aparecermos na capela sua bisa irá nos esfolar. Alberto gargalhou concordando. Ele já sabia como era dona Elza Salazar. Como Alice estava se trocando no nosso quarto. Alberto e eu fomos para o quarto da vovó Elza. Enquanto tomava banho, pedi ao meu garoto que fosse buscar meu terno com Alice. Ele já estava separado e pendurado em um cabide. — Sua mãe já esta pronta? — perguntei, assim que ele entrou no quarto. — Acho que sim — deu de ombros. Alberto não entendia como uma mulher demorava tanto para se arrumar. — Vovó Laura e Elisa estão lá também. — Você e sua prima estão brigados? — sondei naturalmente. — Não sei — confessou. — Acho que ela está magoada porque na quarta-feira o professor de inglês colocou um filme e eu me sentei ao lado da Mariana. Desde lá ela mal fala comigo e quando fala só diz bobagem.


Agora entendi. Elisa estava também enciumada e estava provocando o Alberto. Garota esperta! Durante o tempo em que vesti o terno, ficamos conversando amenidades. Ele me falou das aulas de judô e que estava pensando em voltar a fazer natação. E o que eu achava. Alberto sempre me pedia opinião em algo. No final, ele parecia mais relaxado e o episódio da gravata com a prima ficou para trás. — Sabe colocar a gravata sozinho? Ou quer que eu vá chamar a mamãe? — inquiriu pegando uma gravata azul que Alice tinha separado para combinar com o seu vestido. — Sei sim. Mas não vou usar essa gravata — falei abrindo um baú que vovó Elza guardava algumas roupas e acessórios do meu avô. O que eu queria estava logo em cima embalado em um saquinho de seda. Alberto me olhava curioso sem entender o que estava fazendo, até o momento que retirei o conteúdo do saquinho e vi o rosto do meu garoto iluminar. — Eu acho que vovó Elza vai amar nossas roupas — sorri para meu filho que já colocava a sua gravata ao redor do pescoço esperando que eu fosse dar o nó. Arrumei nossas gravatas e quando estávamos prontos fomos buscar as mulheres para irmos comemorar o centenário da pessoa que deu início ao legado da família Salazar. Assim que Alice nos viu seu sorriso se abriu instantaneamente. Ela sussurrou um obrigada para mim por fazer nosso filho sorrir novamente. — Olha, mamãe! Papai e eu estamos vestidos do mesmo jeito — Alberto disse empolgado. Laura, Elisa e Sofia bateram palmas quando Alberto e eu fingimos desfilar. Alice veio até nós, primeiro deu um beijo no nosso filho e disse o quanto estava lindo, depois me abraçou, beijando meu pescoço. — Eu amo você, Igor Salazar — murmurou. — Está perfeita nesse vestido. Não vejo a hora de ver o que tem por baixo dele — falei baixinho admirando-a. — Ah! Seu Devasso — retrucou maliciosamente. Olhei para as crianças e vi que Laura os guiava em direção à varanda. — Mais tarde, eu vou querer você apenas com essa gravata. Ela combina perfeitamente com a minha lingerie. — Ah! Diabinha! Como eu amo você.

Fim


“Eu não sabia o que era o amor, apenas conhecia o prazer. E quando uma certa Diabinha cruzou o meu caminho, mudando o meu destino e me levando para um inferno regado de prazer, fiquei perdido por sentimentos que eram desconhecidos para mim. Porém por culpa da minha insegurança, eu a perdi. Mas não vou desistir de tê-la novamente ao meu lado. Só a sua presença mandará para longe o inverno sem fim que invadiu o meu peito quando você se foi. Por ela vale a pena lutar até contra um mar em fúria, porque foi com ela que descobri que o amor não é um sentimento banal, ao contrário, é um sentimento que aquece seu coração e enriquece a alma. Eu não poderia viver sem seus belos olhos azuis, me olhando apaixonadamente quando ela chega ao auge da paixão nos meus braços, Não suportaria acordar sem sua pele, suave e macia como seda, do meu lado. Isso seria minha ruína. Agora que ela voltou para mim, não a deixarei escapar por entre meus dedos novamente. Provarei todos os dias que sou merecedor do seu amor, pois a amarei até a última batida do meu coração.” (Poema de Melody Olivatti)


Sobre a autora Natural da Paraíba, Manu Torres, desde criança, já tinha o interesse pela leitura. Aos 17 anos, essa paixão consolidou-se ao ler obras literárias, como as de Sidney Sheldon e Jane Austen. Atualmente, aos 36 anos, é uma leitora compulsiva e cinéfila de carteirinha. Paixões estas que inspiraram, também, sua filha. Juntas, partilham tudo que se relaciona com o mundo dos livros e filmes. Escrever surgiu de uma necessidade de ajudar uma amiga e, o que era para ser uma brincadeira, tornou-se um desafio, resultando em seu primeiro livro, Me Descobrindo Mulher. Contatos Email | Instagram | Facebook da Autora | Página no Facebook Gostou do livro? Compartilhe seu comentário nas redes sociais e na Amazon, indicando-o para novos leitores. Obrigada!