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CONTRATO DE CASAMENTO A.C. NUNES


Direitos autorias do texto original. Š 2016 A.C.NUNES Todos os direitos reservados.


A todos aqueles que gastaram um pouquinho do seu tempo para ler este livro, Mas em especial, à Carolina, pela inspiração. .


Índice PRÓLOGO 01 TRAÇANDO O DESTINO 02 A HERANÇA 03 INVESTIDAS DO ACASO 04 A PROPOSTA 05 CONTRATO DE CASAMENTO 06 VISITA INESPERADA 07 CONSTRANGIDOS 08 INTERESSES 09 A RUIVA 10 O JANTAR 11 CONFUSÃO 12 NOVA CASA 13 O DIA 14 LUA DE MEL 15 LUA DE FEL 16 NÃO É O QUE PARECE 17 UM BOM AMIGO 18 DESEJOS AFLORADOS 19 FÚRIA E CIÚMES


20 PORQUE A AMA 21 DORES DO PASSADO 22 PEDIDO DE DESCULPAS 23 RECONCILIAÇÃO 24 CHANTAGEM 25 TRIÂGULO 26 CONSUMADO 27 PAIXÃO CONFUSA 28 PROVOCAÇÕES 29 CIÚME DESCONTROLADO 30 DECISÃO ERRADA 31 DIVÓRCIO 32 OLHO POR OLHO 33 AMOR E ÓDIO 34 IRRESISTÍVEL AMOR 35 SENHORA MÜLLER 36 ENTRE AMIGOS 37 PROMETIDA 38 AMOR ENCARNADO 39 DENTE POR DENTE 40 O ENVELOPE


41 AMOR DESCONTROLADO 42 DOR E ADEUS 43 ÚLTIMA ESPERANÇA 44 O AMOR PREVALECE EPÍLOGO CONTRATO DE CASAMENTO CAPÍTULOS Bônus BÔNUS I MIGUEL E PALOMA – PARTE I BÔNUS I MIGUEL E PALOMA – PARTE II BÔNUS I MIGUEL E PALOMA – FINAL BÔNUS II MELISSA – PARTE I BÔNUS II MELISSA – FINAL CONTRATO DE CASAMENTO 2 PLAYLIST CONTRATO DE CASAMENTO

PRÓLOGO ophia entrou no escritório de Daniel e se deparou com uma cena que a fez derrubar os papéis que trazia em mãos. Instantaneamente sentiu as lágrimas acumularem em seus olhos e um aperto no peito massacrou seu coração. Tinha sido uma tola. Jamais deveria ter aberto seu coração com Daniel, nunca deveria ter dito que cultivava um sentimento por ele, que sentia algo nunca sentido antes, porque agora ele estava ali, agarrado com outra, pouco se importando com seus sentimentos, com o amor que ela poderia dar a ele, mas que Daniel não sabia – ou não podia – retribuir.

S

Ela sabia que, por mais que fossem casados, Müller não tinha obrigação nenhuma de corresponder a qualquer sentimento que viesse a sentir por ele. Mas custaria muito, pelo menos, respeitar e ser mais discreto para não a magoar? — Eu te odeio, Daniel — gritou ainda dentro do escritório dele, fazendo o empresário se


sobressaltar e direcionar seu olhar a ela. Daniel Müller estava visivelmente surpreso com Sophia parada em sua frente. Desvencilhou-se da bela morena sentada em seu colo – trajando apenas sutiã e sua saia social erguida até a altura da barriga. — Sophia… — mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, a loura já saía disparada, com as mãos no rosto e aos prantos. Ele vestiu sua camisa social e saiu do escritório às pressas, ainda abotoando o traje. A alcançou no meio do caminho e segurou seu braço com força. — Vamos conversar — pediu, e a induziu a olhar para ele. Mas a loura nada respondeu. Soltou-se brutalmente de suas mãos masculinas e desferiu um tapa no rosto preenchido pela barba. — Não me procure nunca mais, Daniel Müller. Entendeu? Nunca mais! — Proferiu pausadamente. Ela disparou novamente pelos corredores da Swiss Chocolate e Daniel ainda tentou agarrála, mas fora em vão. Droga! Praguejou-se mentalmente, frustrado e advertindo-se interiormente por sua estupidez. Voltou furioso consigo mesmo para sua sala, dispensou a morena que ainda estava seminua, ajeitou seu terno e saiu apressado, mais uma vez, deixando todos os presentes confusos e com os olhares curiosos sobre o que havia acontecido há tão pouquíssimo tempo. Irritado, seguiu até o estacionamento da empresa. Seu motorista viu quando ele se aproximava a passos rápidos, e pôs-se a ir em sua direção, pronto a atender alguma necessidade do patrão. Mas antes que o chofer pudesse chegar até ele, Daniel levantou a mão direita, sinalizando que não precisaria de seus serviços. Abriu a porta com um puxão abrupto, entrou sentando-se pesadamente no banco, como se descarregasse toda sua raiva, e bateu a porta fortemente, descontando ali mesmo toda sua aflição. Girou a ignição e saiu rapidamente com o carro, deixando seu funcionário totalmente surpreso. Daniel sabia exatamente para onde seguir. Depois que Sophia o vira quase transando com outra mulher em seu próprio escritório, não tinha dúvidas: ela estaria na casa deles, preparando as malas para ir embora e ainda insistiria em querer o divórcio. Não posso permitir isso. Eu a amo, porra! Como eu a amo. De um modo distorcido, ele a amava. Chegou em casa, mal estacionara o carro e já estava correndo para dentro. Entrou e subiu as escadas desesperadamente. Preciso me explicar. Abriu a porta do quarto deles e lá estava ela, como previsto, arrumando suas coisas. Quando percebeu sua presença ali, Sophia enxugou as lágrimas tentando não demonstrar estar abalada com o que vira minutos atrás.


Daniel se aproximou cauteloso, sem saber como começar a se explicar. — Sophia… — tencionou uma frase e foi interrompido no mesmo instante. Sua esposa de conveniência se virou bruscamente para ele, os olhos vermelhos e a face em uma expressão de raiva e dor. — Nem perca seu tempo, senhor Müller — seu tom era de desdém. — Não tem que me explicar nada. — Mas eu quero. Só me… — Não, Daniel. Você é um homem livre. Foda com quem você quiser! — Esbravejou sentindose cansada de tudo que tinha acontecido até ali. — Que porra, Sophia! — Daniel quem aumentou a voz dessa vez, a assustando. — Eu estava com raiva! Você pediu o divórcio e depois te vi beijando aquele imbecil do Miguel! O que queria que eu fizesse? Ela respirou fundo antes de responder. — Não irei discutir com você. Só me deixe ir embora. — Você não vai a lugar algum, é minha esposa! — Sua esposa de mentira num casamento de mentira! — Despejou entredentes. — E nosso sexo foi de mentira para você? — Aquilo foi um erro — Sophia voltou-se às malas — Nunca deveria ter acontecido. Quando estiver com a herança em mãos, me ligue e eu assino o divórcio. Daniel a segurou pelo braço novamente, girando-a para ficarem um de frente para o outro. Ela se assustou com a atitude, mas não revidou. Seus corpos ficaram próximos, olharam-se nos olhos com intensidade, suas bocas estavam tão rentes que, apesar da raiva, Sophia desejou tomar a dele para si. E ao mesmo tempo, o hálito fresco da loura subia pelas narinas de Daniel, acalentando seus ânimos. — Não quero que vá, e não é para manter nenhuma aparência. — Sussurrou buscando os olhos verdes esplendorosos, e completou: — É porque eu te amo. Sua declaração deixou Sophia levemente atônita. Por alguns segundos, permaneceu calada, sem saber o que dizer, como reagir diante àquela frase. — E eu sei que me ama também — finalizou ele, olhando para os lábios femininos. — Você não sabe de nada, Daniel. — Retrucou Sophia, quase inaudível. — Não tire conclusões precipitadas. — Não negue, Sophia. Eu vejo isso em seus olhos. Eu senti isso nos seus beijos e na noite em que fizemos amor. Estou sentindo isso agora, e se não me ama, por que se importa se eu estava com outra ou não? Eu sei que me ama, admita.


— Está enganado — insistiu na negativa sentindo seu coração palpitar em uma vontade imensa de tomar aqueles lábios e beijá-los loucamente. Daniel a segurou pelos dois braços com um aperto sensual e a jogou na cama. Começou a desabotoar a camisa, olhando para ela, um sentimento de amor e ódio crescendo dentro dele. Amor pelo sentimento que sentia ali. Queria tê-la, amá-la, fazê-la feliz, dar-lhe prazer. Queria deixar aquele casamento de fachada de lado e fazer dela definitivamente sua esposa. Ódio por ter a visto beijando outro homem, por ter sido um imbecil todo aquele tempo, por não ter se declarado antes a ela. Por tantas e tantas vezes ter cometidos erros atrás de erros. — Então prove… — declarou tirando a camisa e deixando o peito desnudo – num movimento sedutor. — Resista aos meus beijos, ao meu toque e carícias. Resista a mim… e eu te deixo em paz. — Daniel…— sibilou, mas foi calada com um beijo intenso, os dedos longos escorregaram por entre seu queixo e, gradativamente, eles se deitaram na cama. Sophia sequer lutou. Agarrou-o pelos cabelos curtos e o trouxe mais para si, aprofundando a troca de carinho. Sim, ela o amava, o queria a todo o momento, de qualquer forma, de todos os jeitos. Daniel a amava tanto quanto ela, mas só naquele momento teve coragem de dizer. Só após se deparar que poderia perdê-la resolveu expor seus sentimentos. Seus corpos se tocavam e eram uma confusão de sentimentos. Desesperadamente um precisava do outro, e demonstravam isso em seus beijos intensos, em suas respirações ofegantes, na afobação no desejo de um possuir o outro. Sentiam o coração palpitar em anseio de fazer daquele momento o mais eterno possível, queriam parar o tempo para viverem aquele instante o resto da vida. Despiram-se e consumaram o casamento, quebrando outra vez o contrato que haviam firmado.


01 TRAÇANDO O DESTINO

O

quarto de hotel que Sophia acabara de se instalar não era luxuoso nem simples demais, mas aconchegante e confortável o suficiente – além de limpo – para que tomasse um banho relaxante e se espreguiçasse em uma cama macia.

Ela descarregou a mochila com alguns pares de roupa, escolheu o que vestir, foi ao banheiro e ligou o chuveiro. O vapor embaçou os vidros enquanto se despia. Entrou no box e sentiu a água bater em sua pele e escorrer, abaixou a cabeça sentindo o corpo relaxar, esfregou os cabelos e se ensaboou como se estivesse lavando a alma. Com a água batendo em seu corpo, pensava em todas as coisas que haviam acontecido a ela no último mês. Suspirou se lembrando de todos os seus problemas. Problemas, estes, que nem teriam começado se não fossem os vícios em jóquei do seu pai. Sebastian Hornet, empreiteiro famoso, dono de umas das mais renomadas construtoras do país. Mas a ConstruHornet entrara em decadência por causa dos gastos exacerbados, dos desvios de dinheiro, dos inúmeros caixas-dois de Sebastian para realizar suas apostas nos cavalos. À longo prazo, a empresa foi perdendo destaque no meio da construção civil, os clientes migraram para a concorrência, ex-funcionários exigiam seus direitos na justiça, e, quando a família Hornet deu por si, começavam a falir. A solução mais fácil para o patriarca da família foi oferecer a própria filha em casamento, como se ainda vivessem no século XVII, ao segundo nome mais conhecido: Luiz Guimarães de Orleans. O acordo nada mais era que, com o casamento, e com a promessa de tirá-lo da falência, Luiz e Sebastian seriam sócios, o Guimarães obtendo, nada mais nada menos, a bagatela de setenta por cento de toda a empresa. Ainda que a ConstruHornet estivesse falindo, continuava a ser uma das melhores companhias no ramo, e sua valorização no mercado, apesar de tudo, ainda era lucrativa. Além do mais, ponderou Luiz, com os investimentos certos, o renome dos Hornet seria facilmente reerguido – e tão logo ele estaria lucrando. O casamento entre Sophia e Miguel de Orleans garantiria que tudo ficasse em família, afinal. E em caso de divórcio, mais uma parcela das ações da ConstruHornet cairia nas mãos dos Guimarães. No entanto, Sophia nunca concordou com tal decisão. Seu pai não poderia simplesmente oferecê-la em casamento, mesmo a Miguel, um homem a quem conhecia desde sua infância, e que


até chegaram a namorar em algum momento de suas vidas. Mas com persuasão, e um pouco de drama e chantagem, seu pai conseguiu convencê-la e o casamento fora planejado alguns meses depois. Eis que o dia chega e Sophia sente seu coração pesado, sente que não é o correto a se fazer. Diferente dela, Miguel não se opõe à união. Ao contrário. Ele apoia tal loucura, cego de paixão por ela desde que pode se lembrar. Decidida a não dar continuidade ao matrimônio, pensando que encontraria outra maneira de ajudar a sua família e a decadência iminente, ela desiste da união. Miguel é abandonado no altar. E desde que tomara tal atitude, Sophia vivia de um lado a outro, mudando constantemente, vivendo aqui e ali em hotéis, fugindo de um ex-noivo insistente e de um pai furioso. Semanas atrás, até quis voltar para casa, mas soube que Sebastian persistia na união arranjada. Assim sendo, permaneceu vagando pela cidade, dormindo em quarto de hotéis, comendo em fast-food. Sua reserva de dinheiro começava a se esgotar e ela não sabia mais o que fazer. Não queria retornar para a casa e ter que encarar Sebastian Hornet e ser forçada a se casar com Miguel de Orleans. Olhou para cima deixando a água molhá-la o rosto, procurando como solucionar seus problemas. Lembrou-se de como sua atitude em abandonar o noivo fora amplamente divulgada na mídia. Chegou a ver a própria foto estampada em jornais do momento em que saía às pressas da igreja. E não era para menos. O casamento entre ela e Miguel seria o casamento do ano, a junção de duas famílias poderosas que uniriam duas das maiores construtoras do país. Mas Sophia estragou tudo quando quebrou o contrato e desfez o matrimônio. E que culpa, afinal, ela tinha? Fora submetida a um casamento forçado, sem amor – tudo para salvar a família da ruína, esta causada pelo seu próprio pai. Seria muito injusto que pagasse por um erro alheio. Desligou o chuveiro, enrolou-se na toalha e vestiu-se em seguida. Com a toalha envolvida como um turbante em seus cabelos, pegou o jornal e abriu na página dos classificados, passou os olhos rapidamente, mordendo a tampa da caneta que segurava na outra mão. “Preciso de um emprego” era a única frase que ecoava em sua cabeça. Com a família à beira da falência, Sophia não teria mais as regalias que tinha antes de abandonar tudo. E mesmo se tivesse, depois de sua atitude, provavelmente seria deserdada. Ela não queria muito, apenas o suficiente para se manter. Pensava em alugar um quarto ou uma casa pequena, quem sabe até dividir o aluguel com alguém. Circulou duas vagas. Recepcionista e Assistente administrativa: as que mais lhe agradou, tanto pelo ofício quanto pelo salário. Se não desse certo, então aceitaria qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Arrumou seu cabelo com uma escova que lhe ondulou as mechas, desamassou a roupa e saiu pela cidade, em busca das vagas nos classificados.


Sophia passou pelas duas primeiras empresas, mas não obteve sucesso. A primeira, a vaga de recepcionista, já havia sido preenchida horas antes; a segunda, de assistente administrativa, exigia experiência profissional de dois anos comprovado em carteira. E ela não tinha tudo isso. Na verdade, cursara Ciências Contábeis e Administração para ajudar o pai na empresa. Mas não teve chances, já que os negócios iam de mal a pior. Voltou frustrada para o quarto de hotel, começava a ficar sem opções e o desespero aflorava em sua pele. Sem emprego não teria dinheiro, sem dinheiro não teria como se manter, e se não pudesse se sustentar, seria obrigada a se sujeitar a um casamento. Arrancou os saltos e massageou os pés que doíam, enquanto verificava outra sessão de classificados de outro jornal. Topou-se com uma vaga de secretária para uma empresa chamada Swiss Chocolate. A candidatura à vaga deveria ser feita pelo site da empresa. Prontamente puxou o notebook da mochila e o conectou à rede sem fio do quarto. Fez sua pesquisa sobre a empresa, já que tinha a vaga impressão de conhecer a marca de algum lugar. No próprio site da companhia, descobriu ser uma corporação de reputação, com mais de quatrocentas lojas e franquias espalhadas por toda a América Latina, além das fábricas no Brasil, México, Estados Unidos, Espanha e Suíça, esta última sendo sua sede e tendo, também por lá, alguns pontos de lojas e franquias. Segundo a nota que leu, a empresa foi fundada em 1900 na Suíça pela família Müller, chegou ao Brasil há cerca de oitenta anos, e foi com sua sede em terras brasileiras que a marca ganhou status e se expandiu desde à América do Sul até alcançar cidades canadenses. Sophia, então, reconheceu a firma. Já comera algumas trufas Delicious e realmente tinha adorado. Pensou em desistir. Uma empresa tão grande como a Swiss Chocolate, com filiais e franquias espalhadas pelo Brasil e mundo a fora, exigiria uma pessoa mais experiente e capacitada para o cargo. Mas ela tentaria mesmo assim. Quem sabe a sorte não estaria ao seu lado? Ainda no sítio eletrônico, fez um rápido cadastro, preencheu um currículo e enviou. Três dias depois, Sophia recebeu um e-mail informando-a que seu currículo tinha sido selecionado para participar do processo seletivo para o cargo que se candidatara. A etapa ocorreria no dia seguinte, às quatorze horas, no prédio administrativo da empresa. Sophia compareceria com certeza. Tomando a decisão que traçaria seu destino.

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Sophia chegara a empresa muito bem vestida. O tempo em que tinha regalias propiciou a ela comprar roupas novas sempre que precisava, ou queria. Agora, seu terno feminino, antes usado para a empresa ConstruHornet, caía-lhe bem para a entrevista. A loura chegou às 13h30min no edifício endereçado no e-mail que lhe enviaram, e aguardava ansiosamente. Quando o relógio marcou 14h00min, uma jovem moça uniformizada veio até as candidatas, deveria ter umas 30 mulheres ali, e empeçou a lhes explicar como funcionaria o


processo de seleção. Primeiramente todas participariam de uma dinâmica de grupo, o processo seria acompanhado pelo supervisor geral e serviria, para o profissional, conhecer melhor o perfil de cada uma. Depois, ainda naquele dia, cada uma passaria por uma breve entrevista individual. As candidatas aprovadas seguiriam para a segunda etapa: uma pequena prova de conhecimentos gerais, simples, nada muito dificultoso. Coisas como lógica, atualidade e idioma (inglês e espanhol). As que conseguissem passar por esta segunda etapa, então, seriam entrevistadas pelo presidente do grupo, Daniel Müller. Este, por sua vez, selecionaria os três currículos que mais lhe agradou, e auxiliado pelos supervisores da área, decidiria a melhor candidata a ocupar a vaga. A mulher ainda informou que as duas primeiras etapas seriam feitas naquele mesmo dia. Meu Deus, quantas etapas! Não sei se conseguirei! Questionava-se após ouvir a faladeira da mulher. O grupo de mulheres se reuniu em uma sala e fizeram o primeiro processo. O supervisor apresentou o cargo, salário, benefícios e jornada de trabalho. Falou da empresa e da sua história — partes que até Sophia já lera em sua pesquisa no dia anterior. Depois fizeram uma rápida dinâmica e então foram dispensadas. O pequeno grupo aguardou na sala de espera, enquanto as concorrentes realizavam as entrevistas individuais – que não demoravam mais que cinco minutos. Após cumprir a primeira etapa, Sophia esperava ansiosamente o resultado. O supervisor surgiu na porta com uma lista nas mãos e começou, em ordem alfabética, a fazer uma chamada. — E por fim, Sophia Hornet — o homem terminara a listagem. — Todas estas a qual chamei, por favor, aguardem na empresa, as senhoras e senhoritas foram selecionadas para a próxima etapa. Uma das assistentes as acompanhará até um pequeno buffet para que se alimentem. Estejam preparadas para a segunda parte em uma hora — dito isso se retirou, deixando Sophia com o coração enorme de alegria. Após o pequeno coffe break, Sophia conduziu-se para a segunda etapa. Realizou a prova e ficou feliz por ela não ser mesmo muito difícil. Após terminar, foi informada que estava liberada para ir embora e que as candidatas que passassem para a última etapa seriam contatadas em até dois dias. Ela saiu do escritório da Swiss Chocolate com o coração na mão. Havia conseguido passar por uma etapa e rezava para chegar a terceira e passar por esta também. Os dois próximos dias demoraram a chegar e ela constantemente olhava no relógio. A manhã do segundo dia amanheceu e Sophia não recebera nenhum e-mail positivo ou negativo sobre o cargo. A cada minuto, desanimava e perdia as esperanças de ser chamada para a entrevista com Daniel Müller. Mas Sophia ainda tinha até fim do dia para aguardar, ocupou-se, então, em ler sobre a empresa. Às 11h35 recebe um e-mail. Sente uma felicidade imensa quando da notícia de que ela fora uma das candidatas a passar pela segunda etapa da triagem. Daniel receberia as concorrentes para a entrevista a partir das 15h00min do dia seguinte, e Sophia fora convocada a aparecer.


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Daniel Müller encerrou mais uma entrevista. No dia anterior tinha sido informado que dez candidatas à vaga de secretária executiva foram selecionadas para a entrevista pessoal. De olhos claros e indefinidos — dependendo do ângulo, ou era verde ou era azul —, já quase na casa dos trinta anos, o presidente do grupo Swiss Chocolate era um homem sério para sua idade tão jovem. Sua postura ereta ao andar pelos corredores do edifício, os cumprimentos rápidos para os funcionários, seu semblante inexpressivo durante as reuniões e o fato de sorrir tão pouco, denunciavam uma personalidade mais conservadora e discreta. Pelo menos diante aos seus funcionários e acionistas. Na ocasião, trajava um terno sob medida preto, camisa branca e gravata rosa claro. Apertou educadamente a mão da moça e a acompanhou até a porta. Desejou boa sorte e a viu se afastando. A sala da recepção estava vazia. Olhou no relógio. Cinco da tarde. Sua assistente, Anabelle, analisava alguns papéis quando Daniel lhe tirou a atenção. — Encerre os horários para as entrevistas, por favor — e já se virava para voltar à sala quando ela o interrompeu. — Ainda há uma última candidata, senhor Müller. Ele virou-se, encarando-a. Mirou o relógio mais uma vez e bufou. — E onde ela está? — Quis saber — No toilet. Em um minuto estará em sua sala. Daniel acena e volta para dentro, senta-se em sua cadeira giratória de couro, movimentando-a de um lado a outro, com o indicador nos lábios, olhando fixamente para a porta, esperando que a tal candidata entrasse. A porta se abre e dela surge uma loura de cabelos ondulados, muito bem vestida com uma camisa social branca e um jogo de saia e paletó na cor preta, se equilibrando muito bem nos saltos. A maquiagem leve apenas ressalta sua beleza natural sem vulgaridade. Nas mãos, traz somente uma pasta. Anabelle a encaminha até Daniel, mostrando uma cadeira frente a ele. Deixouos a sós enquanto Sophia se sentava e tirava seu currículo da pasta que tinhas em mãos, a entregando a seu entrevistador. Daniel Müller passou os olhos pelo currículo e puxou uma segunda ficha da gaveta, entregue a ele pelo supervisor um dia antes, que continha mais informações de Sophia e seu desempenho nas etapas anteriores. — Sophia Hornet — disse lendo o nome dela no papel. Pegou uma caneta e analisou seu currículo. Ao terminar, levantou os olhos a ela, que permanecera quieta. — Então, senhorita Hornet, seu currículo é muito bom, o supervisor me deu uma visão bem positiva de você, mas vejo que não tem a experiência necessária que estou exigindo para o cargo. Está há quanto tempo trabalhando na área administrativa ou similares?


— Na verdade, eu tenho pouquíssima experiência, já que eu não tive muitas oportunidades. Serei franca, senhor Müller, eu estudei e me preparei para trabalhar na minha própria empresa, mas meus planos não saíram muito bem como planejei. Ele arqueou a sobrancelha. Baixou o olhar. — Pretendia abrir uma empresa, senhorita Hornet? — Seguiu inquirindo, sem desgrudar os olhos do currículo Ele não reconhece meu sobrenome?, pensou ela para si mesma. — Meu pai. Ele é sócio majoritário de uma das mais renomadas construtoras do país. Daniel riu levemente pelo canto da boca. Ergueu o olhar. — Você é filha de Sebastian Hornet, devo supor — ele reconheceu o sobrenome, enfim. Sophia confirmou com um aceno de cabeça. — Desculpe pela intromissão, mas o que faz uma das maiores herdeiras procurar um emprego? Sophia precisava ser cautelosa, ninguém sabia, além dela, dos irmãos, dos pais e de Luiz Guimarães sobre a falência da família. Apesar das especulações da mídia nos meios de comunicação, Sebastian pagou um preço muito alto para manter, pelo menos por um tempo, a falência da ConstruHornet longe dos holofotes da mídia sensacionalista. Por isso, todas as notícias sobre a falência da empresa nada mais eram do que somente especulações. — Fui deserdada. — Mentiu. — Perdão, senhor Müller — ela logo tratou de desviar o assunto —, mas acredito que estamos partindo mais para o lado pessoal da minha vida do que o profissional. Daniel não se importou com a resposta afiada de Sophia. — A senhorita tem razão — tornou a olhar o currículo dela. — Já ouviu falar da nossa empresa, senhorita Hornet? — Claro, senhor Müller. — Confirmou prontamente e prosseguiu: —A Swiss Chocolate é uma das maiores companhias da América, tendo filais e franquias, a maioria no continente Americano, em diversos países. Foi fundada em 1900 pela família Müller na Suíça, e no Brasil está há cerca de 80 anos. Existem vários sócios, mas 60% das ações ainda estão em poder da família fundadora. Os chocolates da empresa já foram considerados várias vezes o melhor do mundo, e em quatro países, inclusive na Suíça, é a segunda marca mais consumida. A Swiss ainda se empenha em projetos e ações que ajudam a erradicar o trabalho escravo nos países africanos por outras companhias de chocolate mundialmente conhecidas. Também podemos considerar os índices… — Sophia teria continuado, mas fora interrompida. — Estou impressionado, senhorita Hornet. Como sabe tanto a respeito da empresa? Daniel se desencostou de sua cadeira, impressionado com a moça a sua frente. Levou as mãos ao queixo e apoiou os cotovelos na mesa.


— Eu fiz uma pesquisa na internet. Existem vários artigos, inclusive estrangeiros. — E por que fez essa pesquisa? — Perguntou e anotou alguma coisa no currículo dela. — Eu considerei interessante conhecer a história de uma empresa grande e famosa, com anos de reconhecimento no mercado nacional e internacional. Caso eu conseguisse o cargo eu pouparia o meu chefe desse trabalho. Daniel terminou sua anotação e ergueu os olhos para a entrevistada. — Sobre o que mais pesquisou da empresa? — De tudo um pouco. Índice de crescimento, produção e lucro anual, busca e demanda, satisfação de cliente… — ela sorri fraco e o olha — A internet é uma arma poderosa. Um pouco da minha pesquisa encontrei no próprio site da empresa. Daniel torna a se recostar a cadeira com o currículo em mãos. O analisa uma última vez e faz mais anotações nos espaços em branco. — Certo. Consta aqui que você fala inglês e espanhol fluentemente. Isso é bom. Como adquiriu fluência? — Sim, senhor Müller. Adquiri fluência através de cursos, ambos foram feitos em escolas particulares renomadas e com professores nativos. Tenho diploma, caso precise. Para ajudar, residi na Inglaterra e nos Estados Unidos, um ano cada, e na Espanha por dois anos. Também sou intermediária em Italiano, mas como não completei o semestre do curso não peguei o diploma. Morei em Roma por 6 meses. Daniel Müller faz mais anotações. — Correto — ele guarda o currículo em uma gaveta e a olha. — O processo de entrevistas está sendo encerrado hoje. Estaremos analisando os currículos entregues, e dentro de uma semana iremos ligar para a candidata mais capacitada. — Ele estica a mão. — Lhe desejo boa sorte, senhorita Hornet. Sophia aperta sua mão, agradece com um sorriso e se retira, mal sabendo que depois dessa entrevista seu destino estaria sendo traçado.


02 A HERANÇA ra final do dia, e Daniel estava em seu escritório analisando os currículos e anotações que fizera das entrevistadas ainda naquela tarde. Realmente todas elas eram candidatas excelentes. Roçando o queixo, os olhos estavam estáticos e concentrados em um dos vários curriculum vitae que precisava analisar. De repente, desviou os olhos para uma gaveta em sua mesa e a encarou por um segundo. Abriu-a, tirando de lá outro currículo.

E

Sophia Hornet. Ele passou os olhos mais uma vez pelo papel, se lembrando da entrevista horas atrás. De fato, Daniel se impressionou com a moça. Tanto que guardou o currículo dela em uma gaveta separada e exclusiva. Ela era uma concorrente forte. Mesmo não tendo um dos requisitos que o cargo exigia – experiência – Sophia se mostrou interessada pelo cargo e empresa quando estudou e pesquisou sobre o local de trabalho a qual estava se candidatando a uma vaga. Além de ser uma Hornet, a garota se mostrou determinada. E Daniel gostava disso. Comprometimento, determinação, garra, interesse. Quando perguntado às outras candidatas sobre se já tinham ouvido falar das Swiss Chocolate, apenas respondiam “sim” ou “sim, é uma grande empresa, adoro os chocolates daqui”, como se elogiar o produto fosse garantir uma vaga de emprego. Mas Sophia fora diferente. Ela não disse apenas “sim”, mas deu, quase que detalhadamente, um resumo sobre a empresa de Daniel. E isso o agradara, de certa forma. Desviou-se de suas divagações e guardou o currículo na gaveta. Voltou sua atenção ao que examinava no momento, quando seu trabalho fora interrompido ao bateram à porta. Ele levantou os olhos e suspirou, olhando o relógio. Já era tarde e não deveria haver mais ninguém na empresa, além dos seguranças e porteiros. — Entre — permitiu, e voltou sua atenção ao papel em mãos. Então surgiu um homem de meia idade, vestido socialmente e carregando uma maleta nas mãos. — Boa noite, Daniel — a figura o saudou, ele levantou os olhos, deixando os papéis de lado. — Doutor Vidal! — Levantou-se e o cumprimentou com um aperto de mão. — Sente-se, por favor — e indicou a cadeira, se sentando em seguida. — O que o traz aqui? — Precisamos conversar, Daniel. Sobre sua herança.


Müller suspirou. — Então, conseguiu encontrar alguma solução para esse problema? — Vasculhei todos os cartórios da cidade e região, não encontrei nada que anule o testamento atual. Daniel se recosta à sua poltrona. — Quanto tempo eu tenho? — Pouco mais de um ano. Então o prazo se expira e se você não cumprir o que o testamento exige, perderá a herança. Já Heitor tem um ano a mais que você. As mãos unidas, formando um triângulo, são levadas aos lábios. — O tempo está se esgotando — cicia afagando o queixo barbado. — E se eu não me casar, quer dizer que perco minha herança? — Sim, Daniel. Está no testamento. Daniel Müller fica pensativo por um momento. Por que raios o pai tinha de pôr essa condição no testamento para que ele recebesse a herança? Simon Müller morreu aos 67 anos de idade devido a um infarto. De valores tradicionais, ele sempre desejou que os filhos dessem continuidade ao trabalho da família, gerando herdeiros que, futuramente, comandariam a empresa. Mas Simon não queria uma família depravada, nem que Daniel e Heitor tivessem filhos bastardos. Ele queria uma família de verdade, em sua concepção de família ideal. Conhecendo os filhos, sabia que o seu sonho de ter descendentes não se realizaria. Daniel era um homem fechado. A vida toda fora assim. Ele não se envolvia amorosamente com mulheres. Durante o tempo em que seu pai viveu, Daniel jamais lhe apresentou uma namorada. Mas isso não significava que o filho não tinha seus envolvimentos. A questão é que Daniel era discreto. Até demais. O filho tinha, sim, suas aventuras sexuais, seus encontros casuais e namoricos de verão, mas sempre com muita discrição. Simon soube uma vez que ele tinha uma namorada, ou que estavam tentando um relacionamento, mas o filho nunca a levou para se conhecerem e o namoro acabou quase um ano depois. Daniel jamais gostou dos holofotes e de chamar a atenção. Por ser de uma das famílias mais conhecidas, ele fazia por onde não manchar a reputação dele e dos Müller. O que era bom para Simon, que não recebia dor de cabeças partidas de Daniel. Já Heitor era totalmente o oposto do irmão. Depravado, rebelde e mulherengo. Gostava de festas e badalação, vivia se metendo em confusão e toda semana estampava as manchetes de jornais e revistas com notícias, na grande maioria das vezes, escandalosas. Há quem diga que o pai morrera de decepção ao ver que o filho mais novo não criava juízo. Analisando a situação que sua família se encontrava, o patriarca Müller via que facilmente sua geração não daria continuidade. Por isso, deixou como condição no testamento que as heranças de seus filhos deveriam ser entregues apenas quando ambos estivessem casados, Daniel num prazo máximo de até 3 anos após sua morte, e Heitor, 4 anos. Simon acreditava fielmente que


essa condição faria com que os filhos tivessem herdeiros. — Você precisa avisar ao Heitor sobre as condições exigidas a ele para receber a herança, imediatamente. — Avisou Vidal, com ar de seriedade. Daniel o olhou, preocupado. No dia da leitura do testamento Heitor não compareceu. Estava em Las Vegas se divertindo com uma dúzia de mulheres diferentes por dia e gastando horrores com o dinheiro da família. O que deixou Daniel Müller ainda mais preocupado é que uma das condições impostas a Heitor não era somente o casamento, mas que ele se casasse com uma determinada mulher: uma prometida. Quando soube da condição, Daniel resolveu não falar nada a Heitor por medo da reação do irmão e que ele fizesse algum tipo de besteira no calor do momento. A única desculpa encontrada foi dizer que o pai pediu que eles recebessem a herança apenas três anos depois de sua morte e, durante esse tempo, os irmãos deveriam trabalhar juntos na empresa e fazer a própria carreira. O que não foi totalmente mentira, já que um dos termos do testamento dizia que Heitor e Daniel poderiam ter acesso a 2% de todo o lucro mundial que correspondesse a parte que lhes cabia, o que, para o tamanho do grupo, lhes renderia muito dinheiro; além, claro, de serem ambos responsáveis pelo gerenciamento e presidência da companhia. — Falarei com ele o mais breve possível. — Por favor, Daniel, não deixe de avisá-lo. É de suma importância que Heitor saiba dessa condição do testamento. Caso esse termo não seja cumprido vocês dois deixam de ser sócios majoritários e passam a ter apenas 0,5% das ações da empresa. E as ações que vocês possuem irão para o segundo maior sócio. — Não se preocupe, o deixarei a par da situação ainda essa semana.

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Era uma tarde de domingo, e tudo que Daniel queria era não ter que falar ao irmão sobre as condições do testamento que o pai deixara. Ele já estava até imaginando a reação de Heitor: primeiro iria surtar com o fato de Daniel ter mentido, depois, surtaria ainda mais com os termos e condições do testamento. A imagem de Heitor casado era uma imagem que ele não conseguia ter. Daniel mal via a si próprio em matrimônio, quanto mais ao irmão – a personificação da libidinagem em pessoa. Serviu-se de um bom uísque para, quem sabe, ajudá-lo a dizer ao irmão: “Ei, cara, case-se e terá a sua herança!”. Daniel não sabia simplesmente por onde começar. Seus devaneios foram interrompidos quando ouviu dos fundos da casa som de música. Som de música alta. Muito alta. Curioso, ele caminhou em direção à música, vinda da piscina, e se deparou com uma cena


que viria tipicamente de Heitor Müller. Uma festa. Daniel olhou em volta, ainda atordoado. Em sua piscina, jaziam algumas mulheres, umas rindo, outras nadando, e algumas poucas deitadas sobre boias, curtindo o sol quente que reinava e lhes bronzeava a pele. Outras tantas andavam de um lado para outro com latas de cerveja na mão, desfilando seus corpos perfeitamente em dia. Müller contou umas quinze ou vinte garotas e cinco rapazes, junto a eles, Heitor, no meio de duas mulheres, alternando beijos na boca entre elas. Ele sentiu o sangue ferver. Pôs-se a andar em direção ao irmão, mas uma loura escultural entrou em sua frente e insolentemente o puxou pela gravata. Daniel sentiu seu rosto sendo colado ao dela, e quando se viu, a boca da mulher – com gosto de cerveja – estava na sua, num beijo frenético. Daniel quis impedir, mas não teve muita opção a não ser retribuir. — Olha só quem resolveu aproveitar a vida! — Debochou Heitor se aproximando com suas companheiras ao ver a cena que se desenrolava. — O discretíssimo Daniel Müller pegando uma das minhas garotas. Acho que é o fim dos tempos, meninas — provoca, e as garotas riem junto com ele. Daniel para o beijo imediatamente e limpa com as costas da mão a saliva da loura que ficou em seus lábios. — Sabe o que será o fim dos tempos, Heitor? — Inquire com uma pitada de irritação após recuperar a postura. — Vendo você se casar para ter acesso a sua herança!

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A reação que Daniel esperava de Heitor fora pior do que ele imaginava. A festa na beira da piscina acabou no mesmo instante e o irmão tivera um surto, como o esperado. “Deve haver outra maneira”, Heitor insistiu em dizer, aos berros. Mas a verdade é que não havia outra saída a não ser o casamento. Daniel ainda poderia escolher com quem se casar, já Heitor… — Você mentiu para mim, Daniel! — Heitor Müller bradava no escritório na mansão deles. — Esse tempo todo e você mentiu para mim! — Heitor, se acalme. — Daniel gesticulou com as mãos, atrás da mesa de cerejeira, tentando abrandar os nervosos do irmão. — Eu estava tentando encontrar outra saída para esse problema. Acha que eu também quero me casar? Heitor riu forçada e cinicamente. — Você pode escolher qualquer vagabunda interesseira, se casar, pegar a sua parte e chutá-la depois. Mas, e eu? Uma prometida? Que porra papai estava na cabeça para pensar


numa merda dessas? — Esbravejou ainda com os nervos aflorados. Daniel suspirou diante às palavras do irmão mais novo. De certa forma, Heitor tinha razão. Onde é que Simon Müller estava com a cabeça quando pensou nesses termos de testamento? Simplesmente lhes tirava à força a oportunidade de escolher uma pessoa para se casarem. Para Daniel nem tanto, mas para Heitor, sim. Ainda assim, onde Daniel encontraria uma mulher e se apaixonaria a ponto de querer se casar em pouco mais de um ano? E havia o fato de que, primeiro, Daniel não pensava em se casar. Nunca. Relacionamentos amorosos não eram com ele. A maioria com quem se relacionou buscavam apenas por seu dinheiro, outras eram ciumentas e possessivas demais, houve casos de amor não correspondido, outro à qual ele saiu magoado e costumava não conversar com ninguém sobre tal. E isso só o aborrecia e o fazia desistir de querer se relacionar de novo. Pensou nas últimas palavras de Heitor. “ Você pode escolher qualquer vagabunda interesseira, se casar, pegar a sua parte e chutá-la depois. ” Talvez não fosse uma má ideia. Ele poderia se casar, e depois que estivesse com a sua fatia da herança, pediria o divórcio. — Daniel, está me ouvindo? — Heitor o trouxe de volta à realidade. Ele pestanejou, deixando seus pensamentos de lado. — Estou. — Então me responde, porra! — Desculpe, eu não entendi o que me perguntou. Heitor bufa. Ele não me ouviu! — O que acontece se não cumprirmos as exigências? — Perdemos nossa herança. Nossas ações passarão a ser do segundo maior sócio. Heitor silenciou-se por alguns minutos. Daniel estranhou sua calma e o observou, apreensivo. Ficou se perguntando o que estaria passando pela cabeça do irmão. — Você é a minha salvação, Daniel! — Exaltou-se, de repente, com a alegria de uma criança em dia de Natal.

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— Você perdeu o juízo, Heitor? — Daniel perguntou cético. ― Não vou mesmo entrar nesse jogo. Esquece!


— Ah, qual é, Daniel?! Não será nenhum sacrifício da sua parte. É simples: você se casa e pega a sua parte; eu não cumpro com os termos do testamento, perco a herança que vão diretamente para você! A minha ideia é genial! — Você é louco, isso sim. Quer dizer que eu terei de me ferrar com essa história de casamento sozinho? Aí eu pego a sua parte, te devolvo e você não fará nada para merecê-la, enquanto eu terei suportado um casamento? Esquece! — Vamos, Daniel, eu faço o que você quiser! Daniel o encarou. Heitor o admirava com a cara de uma criança que insiste por um brinquedo. Ele pensou nos termos do testamento para Heitor e tentou pôr-se no lugar dele: casar com uma mulher totalmente desconhecida, sem amor. Ainda mais Heitor que apenas pensava nas festas e no divertimento. Se aceitasse aquele acordo, Heitor teria de ajudá-lo. Precisaria ser mais responsável com as questões da empresa e tomar a frente do grupo juntamente com ele após, ou até mesmo antes, de receber a herança. Desde a morte do pai, Daniel vinha carregando a empresa nas costas sozinho, apenas com a ajuda dos sócios. Ele queria o comprometimento do irmão também. — Eu aceito, mas com um acordo. — E ele lhe disse todas as suas condições.


03 INVESTIDAS DO ACASO

A

segunda-feira chegou. Daniel e Heitor tinham se entendido. Daniel pôs suas condições à mesa e o irmão aceitou. Seria um preço justo a se pagar.

Mais um dia rotineiro e massacrante se iniciava na empresa, e naquela segunda ele tinha uma reunião com o supervisor responsável para conversarem sobre os currículos para a vaga de secretária. Juntos debateram sobre as três candidatas que Daniel considerou as mais aptas. A presente reunião não decidiria nada, já que a última palavra era de Daniel, mas o CEO do grupo Swiss Chocolate gostava de ouvir outras opiniões para ajudá-lo a decidir o que era melhor para sua companhia. Depois de uma hora, havia uma decisão unânime. Apesar de não ser o protocolo, o próprio Daniel gostaria de notificar a escolhida. Por isso, caminhou até sua sala rapidamente. Ao entrar, tirou o telefone do gancho e discou o telefone da sua futura nova secretária.

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Sophia saía do banho quando ouviu seu celular tocar. Ela tinha chegado há pouco de mais uma manhã rodando a cidade e procurando por empregos, uma garantia caso a resposta na Swiss fosse negativa. Ouviu o celular tocar e correu atender, na esperança de ser chamada para trabalhar em algum lugar no qual tinha deixado seu currículo. — Alô?! — Senhorita Sophia Hornet? É Daniel Müller, da Swiss Chocolate. — O homem na outra linha se anunciou. Naquele momento ela sentiu as pernas tremerem. — Parabéns, a senhorita foi escolhida para ocupar o cargo de secretária. Sophia pestanejou. Eu ouvi direito?, perguntou a si mesma, ainda atordoada com a informação recebida, com o aparelho telefônico colado ao ouvido. Ela simplesmente não sabia como reagir. Não sabia se gritava de alegria, se chorava de felicidade, ou se agradecia infinitamente o homem do outro lado pela oportunidade dada. Se pudesse, faria tudo isso ao mesmo tempo. Hornet ainda mal conseguia acreditar, sequer tinha assimilado a realidade, quando aquela voz masculina ressoou em seus ouvidos, dando continuidade à chamada.


— Compareça amanhã cedo aqui no edifício administrativo, munida de documentos e carteira de trabalho. Seu primeiro dia será apenas em conhecer a empresa e o nosso sistema, à tarde dará início a seu treinamento para ocupar o cargo de secretária executiva. Venha com roupas formais, e não se preocupe com o almoço, nós servimos aqui. Mais uma vez, parabéns, senhorita Hornet. — O-obrigada — Ela gaguejou um pouco antes de dizer. — Eu nem sei como agradecer. — Agradeça com sua competência e profissionalismo. Até amanhã, senhorita Hornet. Sophia sentia o mundo girar. Estava fora de si, radiante em ter conseguido um bom emprego. Mais feliz ainda porque não precisaria recorrer ao pai e se prostrar em humilhação.

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Sophia chegou cedo ao prédio da Swiss Chocolate. Foi muito bem recebida pelo próprio Daniel que lhe cumprimentou com um aperto de mão caloroso, a saudando mais uma vez. Por um pequeno instante ela se deu ao luxo de reparar em seu mais novo chefe. Daniel Müller deveria ter aproximadamente 1,80 metros de altura, corpo malhado sem exageros, olhos claros que, ela percebeu, alternavam entre o azul e o verde, dando-lhe um ar charmoso. Tinha cabelos curtos e volumosos alourados, muito bem penteados e firmados com gel. O maxilar exibia uma barba rala que lhe conferia um ar de virilidade. Daniel, reparou, era um homem extremamente bonito. — É bom revê-la, senhorita Hornet. Parabéns pelo cargo e bem-vinda ao grupo Swiss Chocolate — saudou-a com recepção. — O prazer é meu, senhor Müller, e obrigada pela oportunidade e confiança, — Não me agradeça por isso. — Proferiu com um sorriso amigável, e olhou em seu Rolex. — Eu tenho uma reunião agora, estou meio atrasado, mas Thamires irá fazer um tour com você pela empresa, para que você conheça nossas instalações, os outros funcionários e departamentos, o modo como trabalhamos e como a empresa funciona. Espero que se adapte e fique conosco — dito isso, ele agarrou sua mala de couro e saiu, entrando em um dos elevadores. Thamires pediu a Sophia que ela a acompanhasse, e a nova secretária a seguiu conhecendo o prédio onde seria o seu trabalho. Passou pelo RH, enfermaria, refeitório, comunicação e telemarketing, departamento pessoal, copa, almoxarifado. Conheceu as salas de videoconferência, reuniões, setor jurídico, logística e informática. Já em seu andar, Thamires lhe apresentou a sala da presidência, vice-presidência, a recepção e a sala da secretária executiva do presidente. A sala dela. Sophia estava maravilhada de como era grande. — Você pode dar uns toques mais femininos depois, deixando mais a sua cara. O senhor Müller não se importa. Ele até gosta que o ambiente de trabalho dos funcionários seja


aconchegante. Então aqui é seu lugar, pode fazer o que quiser com ele. Sophia sorriu, mas não teve muito tempo de se deliciar em sua sala, Thamires já a convocava para ir à ala de treinamento, local que, durante os dois primeiros dias, se capacitaria para ser a secretária executiva de Daniel Müller.

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Sophia se adaptara logo ao mundo corrido dos negócios da Swiss Chocolate. Após seu treinamento de dois dias, iniciou o seu ofício de secretária executiva – e realmente gostava de trabalhar na empresa. Tinha vários benefícios, o salário era alto, seus colegas eram simpáticos e atenciosos, Daniel era educado e um bom chefe. Já havia quatro meses que ela estava na empresa e conseguira passar pela experiência de noventa dias, e agora era, definitivamente, a secretária executiva de Müller. Com o bom salário que recebia, conseguiu alugar um apartamento confortável e já não estava mais no vermelho. Já no primeiro mês comprou roupas novas casuais, e para o trabalho utilizou do cartão exclusivo que a empresa cedera – um dos benefícios de ser a secretária sênior. Comprou móveis novos e confortáveis, para, de uma vez por todas, deixar a vida de quarto de hotéis para trás. Sua geladeira e armários estavam recheados e fartos de comida, e ela não comia tão bem como quando vivia de um lado a outro. Ocasionalmente enviava e-mails de computadores públicos ou de lan hause em contas fakes para a família, às vezes, cartas sem o remetente, notificando a seus familiares que estava bem e trabalhando, e que, assim que pudesse, daria um jeito de ajudá-los financeiramente. Mas nada que pudesse entregar sua localização. Não o faria enquanto Sebastian estivesse determinado a dar continuidade na loucura de casá-la com Miguel de Orleans. Sophia, simplesmente, estava feliz, principalmente por não ter mais que depender do dinheiro do pai, nem se submeter a um casamento para poder sobreviver, e até planejava fazer uma economia e mandar-lhes alguma quantia de vez em quando. Acordou cedo para mais um dia de trabalho. Arrumou-se, preparou o café e saiu em seguida. Ao chegar na empresa, acomodou-se em sua sala para começar a trabalhar. Precisava conferir a agenda de Daniel, confirmar encontros e eventos, digitar um relatório da última reunião, reagendar alguns compromissos desmarcados, responder e-mails, atender às chamadas. Estava prestes a seguir até a sala do presidente e lhe entregar sua agenda do dia seguinte, quando o telefone sobre sua mesa tocou: — Swiss Chocolate, Presidência, Sophia falando, em que posso ajudar? — Atendeu de pronto. — Gostaria de falar com senhor Daniel Müller, por favor. — A quem devo anunciar?


— Antônio Vargas — identificou-se a voz. Sophia lhe pediu um instante e apertou o ramal do patrão. — Senhor Müller, Antônio Vargas na linha um. Devo passar a ligação? — Sim, senhorita Hornet, obrigado. Ela o fez e voltou a seu trabalho. Minutos depois, Daniel bateu à sua porta. — Temos um almoço de negócios importante de última hora. Cancele meus próximos compromissos e remarque. Sairemos em uma hora.

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Sentado no banco de couro da sua limusine, Daniel observava a paisagem urbanística passar rapidamente diante os seus olhos. Juntamente a ele, Sophia segurava um tablet nas mãos, ainda atarefada em atualizar a agenda eletrônica do chefe. Só o que ela sabia até ali era que Daniel havia uma reunião de última hora com uma construtora. Pelo que o ouviu ao telefone numa ligação minutos atrás para confirmar o local do encontro, a reunião era com um dos Engenheiros mais bemsucedidos do país. O que Sophia não sabia – tampouco esperava – que o tal engenheiro era Luiz Guimarães de Orleans, pai de seu ex-noivo. Dono da LG Construtora, Luiz fez sua empresa crescer e ser uma das mais renomadas no ramo, famosa por ser pontual em suas entregas, obras de qualidade com material de primeira mão. Também ficou conhecida por ser um dos locais mais satisfatórios em se trabalhar. Luiz tinha funcionários com vinte anos de casa. Müller precisava de uma pequena expansão de sua fábrica na filial brasileira e gostaria de contar com uma construtora competente para tal serviço, já que sua própria empresa tinha renome no mercado nacional e também internacional. E quando a Swiss Chocolate anunciou que estava à procura de uma construtora, contratos e propostas tentadoras caíram-lhe aos pés. Mas Daniel não estava se importando com o preço, e sim com a qualidade do serviço e comprometimento da empresa em entregar as obras no prazo estabelecido em contrato. É claro que negociaria o valor se julgasse necessário, mas o preço realmente era a última coisa que lhe importava. A LG Construtora e ConstruHornet estavam entre as dez mais famosas do país. A empresa de Müller recebera proposta das duas. Analisando os contratos, propostas e depois de algumas reuniões realizadas meses antes, Antônio Vargas, advogado e representante da LG Construtora, entrou em contato naquele dia, aceitando o acordo entre as duas empresas, e Daniel finalmente iria fechar contrato com eles. Daniel e Sophia chegaram ao restaurante onde se encontrariam com Luiz, pontualmente. A hostess procurou seus nomes na lista de reserva e, após confirmar, os encaminharam até a mesa onde Luiz estava.


Sophia desligou o tablet e o guardava na bolsa, assim que finalmente terminou seu trabalho, quando levantou os olhos e divisou Luiz sentado à mesa, rindo e bebendo, acompanhado de mais dois homens. Ela estacou como se tivesse visto um fantasma. Daniel ainda caminhava ao reparar que Sophia não mais o seguia, virou-se e a viu como paralisada, em choque. Voltou-se a sua secretária, levemente preocupado. — Sophia…? Sophia? — Ele a chamou, e vagarosamente Sophia o olhou, branca feito papel. — Você está bem? Está pálida. O que houve? — A mudança brusca da loura o deixou aflito e em alerta. Sophia pestanejou e mirou a mesa de Luiz novamente, de relance. — A reunião é com a LG Construtora? — Por fim conseguiu desfazer o nó em sua garganta e se pronunciou. — Sim, algum problema? No mesmo instante, Sophia entregou a Daniel as coisas que carregava. Ele segurou os objetos, pasmo, confuso e ao mesmo tempo boquiaberto enquanto a ouvia se desculpar: — Me desculpe, mil perdões, senhor Müller, mas eu… eu não posso ficar para a reunião. — E então Sophia desatou a chorar, lágrimas rolavam, e Daniel ficou sem entender e sem reação. Por que ela está chorando?, Ele a encarava confuso e desnorteado por aquela ação. E de repente a mulher correu para fora do restaurante, o deixando ainda mais atônito, mais confuso. Sem demora, Müller foi em seu encalço, deixando as coisas junto à recepção. Alcançou-a no outro lado da rua, segurando-a pelos braços. A virou para que se encarassem; Sophia tinha os olhos inchados. — Senhorita Hornet, pode me explicar que atitude foi essa? E por que está chorando? — Me desculpe, senhor Müller, mas eu não posso ficar nessa reunião. E estou chorando por perder meu emprego, por perder um bom emprego e principalmente por tê-lo decepcionado. Do que é que essa garota está falando? — Senhorita Hornet, você ainda é minha funcionária e não me decepcionou. Só quero entender o porquê de sua atitude. Sophia balançou a cabeça e mais lágrimas rolaram. O destino só poderia estar de brincadeira com ela. Por que a Swiss Chocolate tinha logo que fechar contrato com a LG Construtora? Por que não outra? — É algo que eu não posso lhe dizer, senhor Müller. Eu sinto muito, mas não posso participar dessa reunião. E entenderei quando estiver assinando minha carta de demissão. Ela se preparava para sair, quando Daniel a impediu novamente. — A senhorita não irá a lugar algum, não enquanto me explicar o que está acontecendo. Eu já entendi que tem a ver com o Luiz, mas o quê? Você é uma das melhores secretárias que eu já tive, isso já me provou, e não quero ter que te demitir sem saber o motivo.


Sophia enxugou as lágrimas. Talvez fosse melhor contar à Daniel sua situação, quem sabe ele fosse compreensível e não a demitisse? Se ela nada contasse perderia o emprego e voltaria a vida que estava levando antes, quem sabe até pior. — Eu conto, mas é uma longa história, preciso de tempo e o senhor Guimarães o espera. — Eu preciso da minha secretária na reunião. — Alegou, convicto em não abrir mão de sua presença. — Eu sei — levantou o olhar, um pouco sem jeito. — Vou participar da reunião junto ao senhor, mas pode dizer que somos… — Fez uma pequena pausa e mordeu o lábio inferior antes de completar sua sentença. — Pode dizer que somos noivos? Daniel fitou Sophia sem entender. Pestanejou seguida vezes, estranhando tal pedido. De volta, ela aguardava uma resposta, ansiosa, mordendo fortemente o lábio inferior, sem desviar seus grandes olhos verdes dos olhos azuis-esverdeados, e agora atordoados, de Daniel. Várias perguntas se manifestaram em sua mente, muitos porquês insistentemente se tornavam praticamente agudos em sua cabeça. E suas perguntas só seriam sanadas e respondidas se concordasse com a loucura que Sophia estava propondo naquele momento. — Tudo bem. — Cedeu com um suspiro, sem opções. — Mas depois vai me contar toda essa confusão. — Exigiu em tom autoritário. Sophia apenas acenou e os dois voltaram para dentro. Ao se aproximarem da mesa, enquanto Daniel puxava a cadeira para Sophia, ele pôde perceber a expressão de surpresa em Luiz Guimarães. — Senhor Guimarães… — Daniel sentou-se e esticou as mãos para cumprimentá-lo. Müller notou que Luiz ainda estava boquiaberto com a presença de Sophia, não tirava os olhos dela, e sem coragem de levantar os olhos, Sophia fitava constantemente as próprias mãos. Daniel sentiu a tensão entre os dois. Luiz voltou à Terra, ainda sem se recuperar do golpe e apertou a mão de Daniel. — Jovem Daniel Müller — pronunciou-se alternando o olhar entre ele e Sophia, forçando um sorriso. Müller cumprimentou os outros dois homens que acompanhavam Guimarães, um deles era Antônio Vargas, o outro era seu secretário. Olhou rapidamente para Luiz quando o ouviu cumprimentar Sophia. — Boa tarde, Sophia Hornet. Sophia sorriu fracamente e acenou: — Boa tarde, senhor Luiz. — Vocês se conhecem… — Daniel interveio, mais afirmandodo que perguntando.


— Sim, Daniel — confirmou o engenheiro. — Nos conhecemos, mas há tempos não nos víamos. É bom te rever, Sophia. Ela nada disse, estava apreensiva demais para responder. Ele irá contar ao meu pai. Eles irão me forçar novamente a esse maldito casamento. — É sua secretária, Daniel? — Luiz perguntou sem tirar os olhos de Sophia. — Sim; — respondeu e completou em seguida, cumprindo o “trato” que firmara há minutos com Sophia — é minha secretária e noiva. E o no exato momento que proferiu estas palavras, Guimarães voltou-se à Müller, e Daniel sentiu ser metralhado com os olhos.


04 A PROPOSTA uiz era um homem de cabelos grisalhos, por volta de cinquenta e poucos anos, sendo conservado para a idade que tinha. Trajava um paletó cinza de tweed, apesar do iminente calor que se estenderia pela tarde, e calças jeans claras, lhe conferindo jovialidade.

L

Os olhos brilharam em confusão ao ouvir a resposta categórica de Daniel. E minha noiva — Noivos? — Orleans estava realmente surpreso. — Que impressionante — buscou por Sophia que ainda se negava a encará-lo. — Tome cuidado, jovem Müller, Sophia tem o dom de abandonar o noivo no altar — Advertiu em tom irônico e mirou Daniel com um breve sorriso. E dessa vez foi Müller quem a olhara como se ela fosse de outro mundo. Pegou-se imaginando-a fugindo de uma igreja, dizendo “não” para o noivo. Foi trazido de volta com Luiz alegando que o abandono no casamento tinha sido noticiado. — Estava fora do país na época — justificou-se. — E quem foi que Sophia deixou no altar? — Meu filho. Então um clima pesado entre eles surgiu. Sophia recusava-se a olhar para qualquer um deles, Luiz fixava o olhar nela e Daniel não sabia como agir diante da situação. Compreendeu um dos motivos por qual ela pedira para que fingissem serem noivos, mas ainda haviam perguntas que precisavam ser respondidas. Daniel resolveu quebrar a tensão entre eles, tocando levemente a mão de Sophia. — Eu não sabia disso, mas não acredito que ela fará isso comigo. E encerremos esse assunto aqui, viemos para tratar de negócios. — Proferiu com determinação. Sophia agradeceu mentalmente por Daniel se esquivar do assunto, a deixando mais aliviada. Mesmo incomodada com a presença de Luiz ali, se concentrou no trabalho e anotava tudo o que podia durante a reunião deles. Para auxiliá-la, trouxe um gravador que deixou sobre a mesa, para o caso de deixar passar alguma coisa. O almoço não demorou a terminar, e os negócios foram fechados. Daniel assinara o contrato; as obras na filial seriam iniciadas na semana próxima. Daniel e Sophia entraram na limusine, emudecidos. Ele a olhou e a viu colocando uma mecha


do cabelo louro atrás da orelha enquanto ligava o tablet para fazer algo que não sabia o que era – e talvez nem se importasse. Passou os olhos por ela, a observando. Era a primeira vez em que reparava em Sophia como uma mulher, não somente como sua secretária. A Hornet vestia uma saia preta na altura dos joelhos, um salto scarpin, os cabelos soltos se ondulavam levemente, uma camiseta social branca um pouco apertada delineava seus seios médios e firmes, alguns botões estavam abertos e desenhavam discretamente seu decote. Olhou para frente, tentando não ser provocado por sua beleza. Sophia era inegavelmente bonita e atraente, e Daniel nunca a olhara com malícia. O CEO sabia separar sua vida pessoal da profissional e – às vezes – mantinha um código de ética ditado por ele mesmo: não se envolver com suas funcionárias ou outras mulheres que, de alguma maneira, tinham ligação com a Swiss Chocolate. Fizeram todo percurso até o prédio da empresa em silêncio. Ela manuseando seu tablet, verificando a agenda de Müller outra vez, ainda que não fosse necessário, quem sabe um modo de ter o que fazer e não precisar explicar nada a Daniel durante o trajeto de volta. Ele ao celular, fazendo algumas ligações, tentando esquivar da mente as informações que chegaram ao seu cérebro há pouco. Tome cuidado, jovem Müller, Sophia tem o dom de abandonar o noivo no altar. Quando chegaram, o motorista abriu a porta para os dois, e eles subiram até a Presidência, insistindo em se manterem quietos. — Senhorita Hornet, me acompanhe, por favor — disse Daniel, ao saírem do elevador, antes que Sophia pudesse seguir para sua sala. Ela emitiu um: “Sim, senhor Müller”, guardou suas coisas e seguiu até a sala do Presidente, divisando Daniel sentado atrás da sua mesa de vidro, girando de um lado a outro na cadeira. Sua fisionomia era séria, e as mãos unidas diante os lábios completava seu semblante austero. Daniel a convidou para se sentar. Ela o fez. — Estou esperando, senhorita Hornet, e se ainda quer esse cargo, sua justificativa deve ser bem, mas bem, convincente.

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Sophia respirou fundo. Ela precisava do emprego. Precisava do dinheiro que vinha daquele cargo caso quisesse continuar levando uma vida sem estar fugindo e passando por apertos. Então, iria contar tudo a Daniel, e rezava para que ele fosse compreensível. Sophia Hornet lhe relatou tudo. Contou sobre a falência da família, sobre o pai vir perdendo gradualmente dinheiro da empresa em jogos e apostas em partidas de jóquei. Apostas altas. Os gastos com roupas, festas e viagens desenfreadas da mãe e da irmã nos últimos anos também contribuiu que, aos poucos, a família ficasse praticamente sem dinheiro. Mas o ápice foi quando


Sebastian, tentando recuperar o que havia perdido, fez uma aposta em um cavalo numa dessas partidas de jóquei. Ele cria piamente que sua sorte mudaria, que ganharia a aposta e se recuperaria financeiramente. Mas não foi o que aconteceu. Sebastian perdeu. E para pagar a dívida da aposta vendeu suas ações da ConstruHornet a preços irrisórios. De setenta por cento, agora a família possuía apenas cinco por cento das ações, e o lucro gerado por essa mínima fração eles usavam para pagar as dívidas e sobreviver. O pior de tudo, completou, era que a ConstruHornet, mesmo sob nova direção, não lucrava mais como antes. Sebastian conseguiu afundar a empresa enquanto era Presidente. A Construtora perdeu credibilidade com os bancos, devia muito e tinha obras atrasadas. Havia ações na justiça de antigos funcionários por não pagamentos e outros direitos trabalhistas, gerando ainda mais gastos. A empresa vinha afundando aos poucos, e os 5% que a família Hornet ainda possuía já não era o suficiente para que se mantivessem. — Então, o senhor Guimarães, no intuito de transformar as duas empresas em uma só, propôs ao meu pai que Miguel e eu nos casássemos. Luiz compraria as ações que pertenceram ao meu pai, devolveria a ele, reergueria a construtora usando a influência do seu nome, uniriam as duas empresas em uma só e os dois se tornariam sócios, Orleans, claro, seria o sócio majoritário, dando ao meu pai apenas trinta por cento das ações. Para meu pai, era uma proposta irrecusável, já que a união das duas construtoras as tornaria a maior do país no seguimento. — Sophia contava. — Com o casamento, a empresa continuaria no nome das duas famílias quando eu e Miguel tomássemos a frente dos negócios. Mas era um casamento forçado, por acordo, por contrato. Eu não amava Miguel, até tentei ter algum afeto por ele, mas tudo o que consegui foi só um carinho de amizade. Eu não via a ele mais do que isso: um amigo. Eu sei que deveria ter posto fim a esse noivado muito antes, mas eu tinha esperança que Miguel percebesse as coisas e ele mesmo terminasse comigo. Mas não foi assim que aconteceu. No dia da cerimônia, eu decidi pôr fim a farsa daquela união e o abandonei. Me arrependo, por um lado, de ter feito isso frente de todas as pessoas presentes; por outro lado, não me arrependo por um segundo de ter desmanchado meu noivado, foi um alívio que eu senti quando o abandonei — finalizou com um suspiro. Daniel tinha as mãos unidas e a encarava. Talvez compadecido com a história de Sophia ou surpreso pela ConstruHornet estar em decadência. Por um segundo, ele ficou quieto, pensativo, e Sophia quis muito saber no que pensava. Ela imaginou que seu chefe estaria cogitando acreditar nela ou não, afinal, quase ninguém sabia da falência da construtora de seu pai. Não ainda. — Por que me pediu para que fingisse ser seu noivo? — Questionou, a tirando de seus devaneios. — Eu considerei que talvez meu pai não viesse atrás de mim. Ele e Luiz são amigos e tinham um contrato. A essas alturas meu pai já deve saber que sou secretária executiva da Swiss Chocolate e noiva do presidente do grupo. Tudo o que eu queria era que eles parassem de vir atrás de mim insistindo no meu casamento com Miguel. — Suspirou, sentindo-se exaurida daquela vida. — Não acha que seu pai irá querer conhecer o seu “noivo”? — Fez aspas com os


dedos. — E fará o que quando isso acontecer? Me chamar novamente? Sem contar que se Luiz espalhar isso de sermos noivos, em dois tempos a imprensa estará nos atacando. Percebe a empreitada em que me colocou, senhorita Hornet? Sophia exasperou um suspiro trêmulo. — Não precisa se prender a essa mentira. Se alguém vier perguntar pode dizer a verdade, ou explicar que terminamos, não sei… Não precisa levar isso adiante. — Não acho que seja necessário desmentir nada. — Declarou, e recostou-se a sua poltrona, a expressão facial se suavizando. — Até porque eu quero me casar com você, Sophia. Sophia Hornet arregalou os olhos, surpresa com a declaração súbita de seu chefe. A loura encarou Daniel com a mesma surpresa que ele a encarou quando, horas atrás, sugeriu que se passassem por noivos. Daniel sorriu vendo a feição de surpresa de sua funcionária, e o que tinha em mente não era uma má ideia. Ele precisava de um casamento para conseguir ter acesso a sua herança; ela, de um pretexto para não se casar com Miguel de Orleans e reerguer a família. Sua ideia era perfeita. O único risco que corria era receber um não, mas ponderou ser quase impossível. Sua proposta era irrecusável. Ambos se ajudariam, ambos seriam beneficiados, e ela poderia, por fim, parar de se esconder do pai e do ex-noivo. — Calma, senhorita Hornet, eu posso explicar. Explique-se, pensou, ainda atordoada com o pedido de casamento. — Há mais ou menos dois anos meu pai faleceu. E com isso deixou tudo o que pertencia a ele para mim e para meu irmão Heitor. O caso é que há um testamento e uma das exigências para que eu possa ter acesso a minha parte da herança é que eu me case. Sophia o olhava, prestando atenção em cada palavra que saia de sua boca. Ela acenou brevemente, como se começasse a entender a proposta de casamento repentina por parte de Daniel. — Você disse que sua família e a empresa dos Hornet estão em decadência. Bom, se se casar comigo eu posso reerguer essa empresa, comprar e devolver a sua família as ações que foram suas. Setenta por cento. Muito mais que o velho Luiz estava lhe oferecendo. Ao mesmo tempo que se livrará de uma vez por todas desse Miguel. — Senhor Müller… — ela tentou interver, mas foi interrompida. — Deixe-me terminar de fazer toda a proposta — pediu, meio rígido, acenando com a mão. — Bom, o nosso casamento será apenas de fachada. Para todas as pessoas de fora seremos um casal perfeitamente comum, mas somente nós dois saberemos de nosso comum acordo: não consumaremos o casamento. Sequer vamos nos tocar. Não precisaremos cumprir com nossos papéis conjugais. Nenhum deles. Assim que eu tiver a herança em mãos e você ter tirado sua família da falência, eu dou o divórcio e cada um segue a sua vida, como se nada tivesse


acontecido. Sophia estava inexpressiva. Apesar de achar a proposta de Daniel tentadora, continuava a ser um casamento. — E por que as pessoas devem achar que esse matrimônio é real? — Quis saber — Primeiro, que as exigências são claras. Se por acaso for confirmado um casamento de conveniência, perco minha herança da mesma maneira. Segundo, para não manchar o nome da família Müller. Eu zelo muito pelo meu sobrenome, senhorita Hornet, saiba disso. Não quero nenhum tipo de manchete estampando que me casei apenas por dinheiro. É uma questão de honrar meu sobrenome. E é claro que eu também me preocupo em preservar o seu nome e o da sua família. A última coisa que queremos é que todos saibam da falência de seu pai, não é? — Sophia apenas pôde concordar com um abano breve de cabeça. Então Daniel continuou: — Sem contar que se esse tal de Miguel souber que nosso casamento é uma farsa, ele ainda insistirá com você, estou certo? Sophia murmurou um sim, odiando ter que concordar com aquele fato. Por alguns instantes ficou pensativa. Mesmo que a proposta fosse assustadoramente tentadora, ainda era preciso pensar. Pensar bem antes de tomar qualquer decisão. — Senhor Müller, eu não sei… Tenho que pensar. — Obviamente… — girou sua cadeira de um lado a outro, vagarosamente. — Só preciso que me dê uma resposta definitiva neste sábado. Tudo bem? — Claro. Sábado terá uma resposta, senhor Müller. Sophia se levantou e saiu da sala da Presidência ainda zonza com tal proposta. Uma proposta muito atraente.


05 CONTRATO DE CASAMENTO s dias estavam se passando rápido demais. Mesmo que Sophia tivesse dito a Daniel que lhe daria uma resposta definitiva no sábado, ela já tinha tomado sua decisão. Iria aceitar o pedido de casamento dele. Sendo um casamento de fachada, ela poderia continuar normalmente com sua vida; Miguel a deixaria, por fim, em paz, e ao mesmo tempo ajudaria a família a sair da beira da ruína.

O

Na quinta-feira, ao final do expediente, ela conversou com Daniel, aceitando sua proposta, e ambos ficaram muito satisfeitos. Os dois estavam em sua sala, pois Sophia o havia procurado para aceitar a oferta de casamento. Juntos, repassaram todos os termos para o matrimônio e discutiram alguns pontos. De comum acordo, estabeleceram cláusulas para o contrato. Para que não houvesse nenhum desentendimento, concordaram com os seguintes termos: após o casamento, Sophia teria acesso a cinco por cento das ações de Daniel, um montante suficiente para reerguer parcialmente a família Hornet e quitar algumas dívidas, e após o divórcio ela teria direito a mais cinco por cento; Daniel se comprometeria a comprar as ações da ConstruHornet e devolvê-las a Sebastian, como foi proposto anteriormente, recebendo cinquenta por cento de todo o lucro das ações até ter todo seu investimento devolvido – sem juros ou multa; a união seria por separação de bens; durante o matrimônio nenhum deles precisaria cumprir seu papel conjugal, mas deveriam manter a discrição se tratando de ambos desejarem ter outro parceiro; o casamento deveria durar no mínimo seis meses, prazo este para que Daniel conseguisse acesso à herança, como consta no testamento; e se, por acaso, o contrato fosse cancelado antes do tempo previsto, Sophia perderia todos os direitos que beneficiaria sua família. — Está de acordo com todos os termos do nosso contrato? — Perguntou Daniel. — Perfeitamente — Sophia acenou. — Ótimo, pedirei a meu advogado para que redija, e no sábado eu levo até sua casa para assinarmos, tudo bem? — Sim, senhor Müller. Ele sorriu, achando graça no tratamento de Sophia. — Seremos casados dentro de pouco. As pessoas vão estranhar se me chamar tão formalmente assim. Me chame apenas de Daniel. Ela sorri acanhada. Seria difícil se acostumar com a ideia de chamar o chefe pelo primeiro nome. Mais estranho seria estar casada com ele. Casada por um contrato de casamento.


— Pode me chamar de Sophia em vez de senhorita Hornet. — Sim, sim — riu brevemente. — Bom, precisamos anunciar que estamos “juntos”. Que tal sairmos para jantarmos no sábado, e depois passo em sua casa e assinamos o contrato? — Por mim, está perfeito. — Te pego às sete.

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Daniel ajeitava a gravata, de frente ao espelho em seu quarto, ouvindo Heitor resmungar em seu ouvido. Ele fizera a besteira de contar ao irmão que tinha arrumado uma noiva para se casar e conseguir sua parte da herança, e agora, Heitor não parava de fazer piadinhas sem graças e de, hora ou outra, lembrá-lo do acordo que fizeram. Müller passou uma colônia amadeirada e penteou os cabelos louros, afirmando ao irmão mais uma vez que ele não esqueceria do que haviam combinado. Daniel era um homem de palavras. Conferiu o relógio, viu que já era hora de partir. Ajeitou seu Rolex no punho, pegou as chaves do carro e saiu, deixando o irmão caçula fazendo suas piadas de mal gosto sozinho. Dirigiu até o apartamento de Sophia, conferiu o andar e número do apartamento por um SMS que ela lhe mandou. Subiu as escadas e tocou a campainha. Não demorou muito até que ela atendesse a porta. E, assim que a viu, como em nenhum outro momento desde que se conheceram, Daniel a achou terrivelmente linda e atraente. Ele diria deslumbrante. A loura prendeu os cabelos em um rabo-de-cavalo alto, trajava um vestido preto de gola baixa e, até a altura do peito, feito de renda, depois descia delineando o corpo em dia de Sophia, se abrindo na altura dos joelhos, nos pés trazia uma sapatilha preta delicada. Uma maquiagem leve realçava seus olhos verdes. — Você está linda, senhorita Hornet — elogiou a analisando sem malícia. — Você também está muito elegante, senhor Müller. Juntos, riram de como se trataram, lembrando que haviam combinado de se chamarem pelo primeiro nome. Daniel ofereceu seu braço, e Sophia se enroscou a ele, ainda que receosa. Até aquele momento nunca tinha tido uma aproximação mais pessoal ou íntima com Daniel. Desceram até a garagem do prédio conversando sobre seus respectivos dias. Já dentro do carro, Sophia contou como se sentia em relação àquilo tudo. Confidenciou que tinha anseio pelo que as pessoas falariam, principalmente a sua família. Também confessou que


estava preocupada de como os outros funcionários da empresa reagiriam à notícia de saber que ela e o patrão eram noivos. — Não deve se preocupar com isso agora, Sophia. Vamos dar um passo de cada vez — disse Daniel após ouvi-la atentamente, querendo, de alguma maneira, despreocupá-la. Enquanto Sophia falava, Müller a ouvia com atenção, reparando em como ela tinha uma boa postura. Correu os olhos por seu corpo, e viu que ela se sentava ereta e tinha uma expressão corporal ótima. As mãos não paravam de gesticular, os lábios se moviam em ótima dicção e o tom de sua voz sempre era afável e doce. — O que diremos quando nos perguntarem como nos conhecemos? — O questionou, evidenciando que, por mais que Daniel dissesse que não deveria se afligir, estava aflita — Podemos dizer que nos conhecemos antes de você entrar na empresa e vínhamos mantendo o namoro em sigilo. — Sugeriu. — Bom, aí vão dizer que você me favoreceu com o cargo de secretária sênior — ressaltou, e Daniel não pôde deixar de concordar. — Tem razão. Então, dizemos que nos apaixonamos no próprio ambiente de trabalho e mantivemos a discrição exatamente por isso. Sophia sorri e concorda com um aceno de cabeça no exato momento em que Daniel puxa o freio de mão após estacionar o carro.

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Daniel arrastou uma cadeira para Sophia, ela agradeceu e sentou-se olhando ao redor, encantada com a beleza, requinte, e ao mesmo tempo simplicidade, do lugar. Ele se sentou logo à frente, analisando a carta de vinho, enquanto Sophia corria os olhos pelo menu, indecisa e resinada a escolher um dos pratos. Por fim, optou pela opção “sugestão do chefe”, Daniel pediu o mesmo, solicitando, também, uma boa combinação de vinho para acompanhar o pedido. Enquanto aguardavam a chegada do prato, conversaram um pouco, sentindo os olhares das pessoas que, talvez, reconheceram Daniel. E ele não se incomodou, continuou a conversar com sua “noiva”, sempre exibindo um sorriso no rosto, e hora ou outra tocando sua mão. O garçom trouxe os pedidos aos dois. Conversaram bastante durante o jantar, e, mesmo Daniel sendo seu chefe, Sophia se sentiu muito bem ao seu lado. Ele se mostrou bem-humorado, arrancando gargalhadas dela. Por um momento percebeu como realmente não o conhecia. A imagem que Sophia tinha de Müller era a mesma que a maioria das pessoas do seu convívio profissional tinha. Daniel Müller era um homem reservado, às vezes, de poucas palavras, sério ao extremo, autoritário, mas sem parecer tirânico. Sua postura exalava imponência sempre que despontava no elevador no andar da Presidência, os ternos sob medida que lhe delineavam bem o corpo e lhe atribuíam um charme peculiar.


Sophia já tinha se acostumado com o jeito evasivo de Daniel, se adaptara logo a vê-lo de semblante sisudo, muitas vezes concentrado nos seus deveres. E apesar disso tudo, ela gostava de sua postura, de sua personalidade. Era uma mistura de elegância e austeridade que nele caía perfeitamente. Mas durante a conversa no decorrer do jantar, Sophia conheceu um outro lado de Daniel. O lado que, talvez, só conheçam os mais próximos, os amigos mais íntimos, alguns familiares. Daniel Müller era um homem encantador e, do contrário que parecia, bem-humorado. Viu o sorrir de forma contagiante pela primeira vez em quatro meses, e reparou como seu belo par de olhos azuis-esverdeado brilharam intensamente quando riram juntos de alguma coisa engraçada. De tez branca, o rosto quadrado, cabelos louros escuros bem penteados de lado, lábios finos, leve e naturalmente rosados, e uma barba média que lhe deixava ainda mais elegante, o Daniel a sua frente, naquele momento, não era nem de longe o mesmo homem com quem trabalhara ao longo daqueles meses. E fosse qual fosse sua personalidade, Müller era uma boa pessoa. Um homem bom em todos os aspectos: pessoal e profissional. E era por esse motivo que Sophia não se sentiu intimidada nem na presença do Daniel seu superior nem do Daniel seu “noivo”. Sophia podia ser ela mesma perto dele. — A comida estava maravilhosa — enalteceu após um último gole no vinho. — Eu sei, foi por isso que te trouxe aqui. Para mim é o melhor restaurante da cidade — sorriu, e também terminou seu etílico. — Melhor que a comida, só suas conversas. Não sabia que tinha esse senso de humor todo. Daniel a encarou sorrindo, olhou no relógio, mas não a respondeu. — Está tarde. Vamos? — Convidou já chamando o garçom e pedindo a conta. Sophia esperou que a conta fosse paga para se levantar. Do lado de fora, sentiu um vento gelado bater em sua pele, abraçou seu corpo, estremecendo de frio. Daniel se aproximava quando a viu tentando se aquecer envolvendo o corpo com os próprios braços. Retirou seu paletó e ofereceu a ela. — Não se incomode, Daniel. Estou bem — recusou educadamente. Ele balançou a cabeça em negativa enquanto lhe jogava o paletó por cima dos ombros. Sophia sentiu-se aconchegada com a atitude dele. Além de tudo, era um perfeito cavalheiro. Ela sorriu e agradeceu, olhando em seus olhos. Novamente, após Daniel oferecer seu braço, se enroscou a ele e os dois se encaminharam até o carro.

♦♦♦

Sophia tirou o paletó de Daniel e o pendurou a cadeira, enquanto ele entrava em seu


apartamento observando tudo. Ele apoiou um envelope pardo que trazia – o contrato – na mesa de centro que havia na sala. — Vou preparar um café para nós. — Sophia disse já caminhando para a cozinha estilo americano. — Sinta-se à vontade e sente-se. — Se não se importa eu gostaria de usar seu banheiro — solicitou. — Claro. Final do corredor à direita. Daniel se encaminhou até o lavabo. Dobrou a barra das mangas, ligou a torneira, molhou as mãos e, em formato de concha, encheu-as com água e encharcou o rosto, levando a água até seus cabelos, deixando-os úmidos e bagunçados. Olhou-se no espelho e suspirou. Ainda era difícil digerir todos os últimos acontecimentos. Herança, casamento, noivado, Sophia… Pensava em que ele tinha se metido para poder conseguir ter acesso a sua parte da herança. Me submeter a um casamento, balançou a cabeça, rindo da ironia da coisa. Ele que quase nem tinha tido namoros, e os relacionamentos que tivera jamais avançaram para algo mais sério como o noivado. Agora se via noivo de uma total desconhecida, no sentido de ele nem sequer ter namorado Sophia, por tê-la conhecido e firmado compromisso em circunstâncias totalmente incomuns. Secou o rosto, usou o banheiro, e quando lavava as mãos outra vez, ouviu a campainha ser tocada. Apurou um pouco os ouvidos para saber que se passava na sala de Sophia. Conseguiu identificar o nome Miguel em tom de espanto e surpresa sendo pronunciada das cordas vocais da noiva. Andou cautelosamente pelo corredor até cair na sala do apartamento. Deparou-se com um homem alto, e deduziu ser o tal ex-noivo. O homem reparou em Daniel ali e seu semblante mudou totalmente. Acenou o cumprimentando, e Müller, educadamente, retribuiu o aceno. — Daniel! — Sophia pronunciou se aproximando e, em seguida, o beijou nos lábios.


06 VISITA INESPERADA

S

ophia Hornet passava o café quando alguém tocou a campainha. Secou as mãos no pano próximo a pia e caminhou-se até a porta. Quando a abriu, deu de cara com a última pessoa que gostaria de ver naquele momento.

— Miguel? — O tom saiu surpreso. — Olá, Sophia… — Como… me encontrou? — Meu pai me disse que está noiva de Daniel Müller e que estava trabalhando para ele. Só precisei puxar sua ficha na empresa, usando a desculpa do contrato que a LG firmou com a Swiss Chocolate — Explicou-se, e exibiu um sorrisinho. Olhou para dentro do apartamento de Sophia, por cima dos ombros dela, e disse: — Não vai me convidar para entrar? — Não acho que seja uma boa ideia. Meu noivo está aqui. — Rebateu sentindo-se um pouco alarmada com sua visita inesperada. — Está, é? — Havia um tom de descrença. — E cadê ele? Nesse momento, Daniel surgiu vindo do corredor. Tão logo reparou em sua presença, ela o observou de cima a baixo. Os cabelos sedutoramente molhados e desgrenhados, as mangas da camisa estavam dobradas até a altura dos cotovelos. Sophia sorriu sentindo um alívio ao vê-lo ali. — Daniel! Para a surpresa dela mesma e de Müller, Sophia o beijou nos lábios num instinto de mostrar a Miguel a veracidade de seu noivado. Num primeiro momento, Daniel se sentiu surpreso e confuso, mas não resistiu por muito tempo até retribuir, segurando em sua nuca e intensificando beijo. Ele sentiu a doçura dos lábios dela. O perfume adocicado de baunilha de Sophia subiu por suas narinas, o entorpecendo. O aroma de seus fios alourados e perfumados também invadiu seu nariz, ajudando a intensificar seu êxtase momentâneo pela loura. O instinto masculino falou mais alto, o fazendo se esquecer totalmente que aquele beijo era apenas para aparentar o noivado diante de um alguém. Segurou a fina cintura dela e a trouxe mais para perto. Ambos se


envolveram no beijo e se olvidaram por um breve instante que Miguel estava ali, parado em suas frentes. Sophia separou-se de Daniel e, ainda ofegando e desordenada, mirou o presente, limpando os lábios que, provavelmente, estariam borrados por causa do batom. — Miguel, este é meu noivo Daniel. Daniel, este é meu… ex-noivo Miguel — apresentou um ao outro, controlando a respiração. Os dois trocaram olhares como machos alfas brigando por uma fêmea. Sophia alternava o olhar entre eles, não sabendo exatamente como agir diante da situação. — Creio que saiba da fama que Sophia carrega… — Miguel se pronunciou, tentando provocar seu oponente. — Abandona noivos no altar. — Respondeu, como se adivinhasse — A diferença é que ela me ama, por isso não fará o mesmo comigo — rebateu Daniel, convicto com as palavras que dizia, e quase acreditou na própria mentira. Pegou Sophia pela cintura e a trouxe mais para perto. Por um momento não soube explicar a eletricidade de raiva que percorreu seu corpo. Talvez fosse a provocação do outro, talvez o fato de ter criado um breve desejo por Sophia durante o beijo inesperado, talvez fosse os dois. A certeza era que surgiu um sentimento estranho dentro dele. Definitivamente não gostara de Miguel. Definitivamente queria que o outro acreditasse no seu noivado com Sophia. O homem à sua frente não soube o que responder à réplica. Simplesmente acenou e desviou os olhos para Sophia. — Desejo felicidades, Sophia — pronunciou, e se retirou em seguida. Ela fechou a porta vagarosamente, sentindo um misto de alívio e tensão. Encarou Daniel que tentava tirar o batom grudado em sua boca. Ruborizou por um instante. Lembrou-se do beijo, não sabia o que dizer, mesmo sabendo que Daniel entenderia sua atitude. — Sobre o beijo… — começou. — Foi necessário, sabe…? Ele apareceu aqui de repente e… — Está tudo bem, não se preocupe — cortou-a com uma seriedade rígida, e Sophia sentiu seu tom de voz diferente. A noite toda Daniel tinha sido educado e bem-humorado, e agora a tonalidade de sua voz saíra um tanto quanto ríspida. Sophia balançou a cabeça em sinal de positivo e engoliu em seco. — O café já está pronto. — Vou ter que recusar, Sophia. Eu realmente preciso ir agora — pegou o paletó e vestiu, sua postura mudara total e bruscamente. —Você assina o contrato na segunda-feira em meu escritório. — Se aproximou e beijou sua bochecha. Por um pequeno momento, trocaram olhares, e Daniel desviou sua atenção para os lábios de Sophia.


— Até segunda-feira, senhorita Hornet — disse firme e se retirou, deixando Sophia totalmente confusa e desestabilizada.

♦♦♦

Daniel mal saíra do apartamento de Sophia, quando sacou seu celular do bolso para discar o número de uma velha amiga. Descia os degraus rapidamente. Optou pelas escadas para espairecer os pensamentos. Nunca nenhuma mulher o tinha surpreendido daquela maneira. O beijo de Sophia o fez estremecer e sentir algo que nunca sentira antes. Uma sensação prazerosa que não conseguia explicar. Além disso, ele ficara excitado. Até onde conseguia se lembrar, jamais ficou excitado apenas com um beijo simples. Ele não negaria que Sophia é uma mulher tentadora, mas desde que se conheceram, há pouco mais de quatro meses, Daniel não tivera outro tipo de olhar para ela a não ser profissionalmente. Não teve pensamentos obscenos com sua secretária, nem se imaginou tendo relações sexuais com ela em sua mesa de trabalho. Nada daquilo. Daniel não se sentia atraído por Sophia, no entanto, aquele beijo tinha sido algo tão surpreso e diferente que ele não soube entender por que raios tinha tido uma ereção. E por isso seu comportamento diante dela mudara totalmente. A última coisa que queria era Sophia reparando em seu membro ereto por baixo das calças. E antes que ela percebesse sua excitação, preferiu sair. Mas ainda precisava se aliviar. Então, ligava para Melissa, uma amiga com benefícios. Terminava de descer as escadas e saía do prédio, e nada de Melissa atender à sua chamada. — Atende, Melissa, que droga — murmurou sozinho, caminhando a passos rápidos. — Olha só que interessante — Daniel ouviu uma voz e se virou para encarar Miguel que vinha logo atrás, andando até ele com as mãos no bolso. — Você acabou de sair da casa da sua noiva e já está ligando para outra? Acho que Sophia não vai gostar muito disso… Daniel desligou o telefone e o guardou no bolso. Por mais que ele e Sophia não tivessem nada além de um contrato que ainda nem fora assinado, definitivamente não simpatizou com o ex de sua falsa noiva. — Melissa é minha assistente — mentiu, pronunciando entre os dentes. — Pior ainda. — Objetou sarcástico. — Envolvendo-se com outra funcionária, isso não é muito ético. Com uma já não é, com duas, então… — e sorriu cinicamente. — Desculpe-me, desde quando mesmo eu devo explicação da minha vida a você? — Irritouse — Melissa é minha assistente, preciso que ela confira alguns assuntos pendentes para amanhã, e desci até aqui onde o sinal é melhor. E não me importa se você acredita ou não. — Não precisa ser muito gênio para perceber que tudo o que me disse é mentira. — Contestou prontamente. — Primeiro porque você desceu do apartamento da sua noiva logo após


eu sair. Está com uma ereção — e aponta para as calças de Daniel, o fazendo olhar para baixo — e ligando para uma mulher. É meio óbvio que você e Sophia trocaram alguns beijos que te deixaram assim; por algum motivo, e acredito que seja eu, discutiram, e ela te deixou nessa situação, e como você precisa se aliviar… sua saída é contatar a “assistente” — fez aspas com os dedos. — E segundo é: quem em sã consciência tem assuntos pendentes para resolver no domingo? Daniel pensou em abrir a boca para responder, quando Sophia apareceu o chamando. Miguel se virou, tão surpreso quanto ele por sua presença. — Conseguiu falar com a Melissa? Se não, eu lembrei que meu tablet está aqui em casa e posso verificar qual o horário do seu almoço de negócios na segunda-feira. E se estiver procurando aquele contrato da transportadora, você deixou dentro da minha gaveta de meias — sorriu largamente. — Não precisa mais ficar nervoso por causa dele — e balançou um envelope pardo nas mãos. Daniel Müller não se importou em como Sophia apareceu ali, o salvando de ter que arrumar outro pretexto. Sentiu-se aliviado ao ver a cara de Miguel. — Ainda não, querida. — Entrou no jogo dela. — Ela não atende ao telefone — olhou para o envelope e o reconheceu: o contrato deles. Exibiu um breve sorriso atenuado, percebendo que o havia esquecido no apartamento da Hornet. — Eu realmente estava preocupado com esse contrato. Sophia fitou Miguel por um breve instante: — Então vamos subir, verificamos esses assuntos que estão em pendência e depois… terminamos o que tínhamos começado — insinuou com certa malícia. Daniel caminhou até Sophia, a pegou pela cintura e tocou seus lábios novamente, dessa vez mais breve que o último. — Você sempre preparada para tudo. — Sussurrou em seus lábios, e não pôde deixar de, verdadeiramente, contemplar a íris esverdeada e encantadora. — Vamos logo resolver isso para rolarmos naquela cama. Abraçou seu tronco e saíram caminhando juntos, deixando Miguel se queimando de ciúmes.

♦♦♦

Sophia ainda estava desestruturada com a mudança repentina de comportamento de Daniel. Viu-o saindo às pressas e ficou ainda mais confusa, se perguntando o que havia acontecido para ele agir daquela maneira. Talvez ter o beijado não tivesse sido uma boa ideia, e Daniel ficara incomodado com o ocorrido. Quem sabe fosse aquilo. Lembrou-se de, na segunda-feira, pedir desculpas. Voltou-se para dentro e se serviu de um pouco de café, caminhou até a sala e ligou a TV, sentou-se no sofá e reparou no envelope pardo sobre sua mesa de centro. O contrato, pensou. Por


um momento achou melhor deixá-lo ali, ligar para Daniel mais tarde e avisar que estava com ela, antes que sentisse falta, e na segunda levaria para o escritório. Mas se corresse até Daniel e devolvesse o contrato poderia se desculpar pelo beijo e ao mesmo tempo prevenir que aquele contrato, por acaso, se perdesse e fosse parar em mãos erradas. Não que aquilo fosse realmente uma probabilidade grande, mas com a sorte que vinha tendo, era mesmo capaz de o documento sumir em sua posse. Por isso, resolveu não arriscar. Pegou o envelope e saiu do apartamento, tomando o elevador. Ao chegar ao térreo do prédio, viu Daniel ao telefone andando rapidamente. Pensou em chamá-lo, quando Miguel surgiu falando alto, ela estacou, escondendo-se atrás de uma coluna de mármore com um anjo esculpido, e passou a ouvir a conversa dos dois. Num momento propício para Daniel, Sophia apareceu, salvando-o de ter que arrumar outra desculpa para livrar-se de Miguel. Agora, novamente, ela o recebia em seu apartamento, oferecendo café. — Vou aceitar — disse Daniel entrando e se sentando no sofá. — Aquele Miguel é sempre irritante assim? Sophia se dirigiu até a cozinha, pôs um pouco da bebida na caneca e voltou entregando o café; sentou-se no outro sofá. — Só quando quer. Ele está com ciúmes, Daniel, — pegou a caneca deixada sobre a mesa antes de descer procurar por seu noivo — por isso até agindo assim — e bebeu um gole. Fez uma careta ao sentir o café frio. — Achei que tivesse dito que o relacionamento de vocês era sem amor. — De princípio, era. Mas como nos conhecemos desde a adolescência, e até chegamos a namorar em algum momento, acredito que esse sentimento sempre existiu. Mas eu nunca correspondi a nada e Miguel sabia disso. Eu nunca senti nada além de um carinho enorme de amigos. Daniel bebeu seu café a olhando. — Entendo. Quero agradecer por ter aparecido lá, num momento tão… exato. Como foi quê…? — Fez uma pausa na sua fala, a encarando. — Ouviu nossa conversa, suponho. A loura ruborizou ligeiramente e desviou o olhar. — Sim. — Eu não sei o quanto você ouviu da conversa, nem o que está pensando sobre mim, mas… — Não se preocupe se está se referindo a sua ereção. Você é homem, eu entendo. Daniel sentiu sua cara queimar. Ele tinha ficado ereto por uma mulher por qual não se interessava e que mantinha um relacionamento estritamente profissional. O que teria a dizer sobre aquilo?


— Não quero que pense que fiquei excitado por você… Com o nosso beijo… Não que você não excite um homem… eu só estou dizendo… — Quanto mais tentava se explicar, mais confuso e nervoso ficava. Daniel sempre fora bons com as palavras, mas aquela situação o deixou desconcertado. — Daniel, não precisa se explicar — Sophia reforçou aos risos. — Eu já entendi, não se aflija com isso. Ele se sentiu um pouco mais aliviado. Mas só um pouco. Terminou seu café e o levou até a pia. Sophia caminhou até a janela da sala, olhando para fora. Divisou o carro de Miguel, e bufou. — O que foi? — Daniel percebeu sua irritação. — Miguel está parado aí em frente — ela o olhou. — Acha que ele desconfia do nosso noivado? Daniel cerrou os punhos. Miguel começava a ser uma inconveniência em sua vida. — Sinceramente, eu não sei. Ou ele está desconfiando ou é um ex-noivo possessivo. Em todo caso, se importa se passar a noite aqui? Pelo menos até ele ir embora. Sophia pestaneou, surpresa com o pedido. Onde iria acomodar o noivo-chefe? Havia apenas dois quartos, sendo um dela. O sofá seria desconfortável, e eles dormirem na mesma cama seria extremamente… estranho. — Claro. Pode ficar com meu quarto. Me acomodo aqui no sofá — Sophia já se retirava para trocar a roupa de cama quando sentiu Daniel segurando seus braços, a fazendo virar e olhar em seus olhos. — De maneira nenhuma permitirei ou aceitarei isso. Fique com o quarto e eu com o sofá. Sophia Hornet não pôde conter um riso de satisfação diante à educação e zelo de Daniel. — Vou te arrumar cobertores e travesseiros — passou por ele indo até seu quarto. Daniel a seguiu com os olhos e quando se deu conta, fixava-se com certa insistência nas nádegas dela. Balançou a cabeça, se repreendendo mentalmente por sua atitude. Lembrou-se do beijo e fechou os olhos. Quase foi capaz de sentir os lábios de Sophia nos dele, seu cheiro adocicado de baunilha penetrando suas narinas. — Você está bem? — Sophia o fez se sobressaltar. A moça surgira, de repente, em sua frente. Carregava dois cobertores e dois travesseiros. Daniel conteve uma risada ao vê-la desajeitadamente escondida atrás daquilo tudo. Apressou-se em ajudá-la, afirmando que estava bem, só um pouco cansado. Ela arrumou o sofá maior, esticando as cobertas e posicionando os travesseiros. — Espero que esteja confortável. Acho que irei comprar um sofá-cama, se essas visitas forem constantes — brincou. Daniel riu, mas não respondeu.


— Sinta-se em casa — Sophia deixou o controle da TV na mesa de centro. — Pode assistir à TV ou atacar a geladeira de madrugada, se sentir fome. — Proferiu bem-humorada. — Obrigado, Sophia — agradeceu afrouxando a gravata. — Pode ir se deitar, eu me viro aqui. Sophia acenou e saiu. Entrou em seu quarto e se recostou à porta pensando na noite que tivera. Mais precisamente no beijo que trocou com seu chefe. Aquilo tinha sido uma burrice. Culpouse por não ter se desculpado. Em algumas horas haviam tido mais contato íntimo, e menos profissional, do que em todos aqueles quatro meses trabalhando juntos. Despiu-se jogando seu vestido sobre a poltrona que havia ali, entrou no banheiro e tomou um banho quente. Vestiu um pijama e se enrolou no roupão. Voltou à sala com o intuito de falar com Daniel sobre o beijo, saber se ele se incomodou com o fato e pedir desculpas. Mas ao chegar, o viu deitado, os olhos fechados, descoberto e a televisão ligada e não quis incomodá-lo. Voltou para seu quarto em silêncio, deitou-se imaginando como seria quando estivessem casados. Pegou no sono lembrando-se, novamente, do primeiro beijo deles.

♦♦♦

Sophia acordou durante a madrugada, encharcada de suor. Antes de se deitar, esqueceu-se de ligar o ventilador, como fazia de costume. Ultimamente vinha fazendo tanto calor que ela dormia apenas com um vira-lençol e nada mais. Pensou em Daniel na sala, se ele também não estaria se sentindo no inferno com aquelas cobertas. Levantou-se trajando o baby doll rosa de cetim, calçou os chinelos e caminhou até a cozinha. Na sala, viu Daniel estirado no sofá, apenas de calça sociais e sem camisa. Correu os olhos por seu peito até a altura do cós da calça. A peça estava desabotoada e o cinto, solto. Talvez tenha sido o jeito que ele encontrou para se sentir mais confortável ao dormir. Terminou seu trajeto até a cozinha, abriu a geladeira e pegou uma jarra de água gelada, dispôs uma quantidade generosa e bebeu, sentindo a água saciar e refrescar ao mesmo tempo. Quando estava prestes a guardar o copo no lugar, sua mão escorregou e o objeto caiu, espatifando-se no chão. — Porcaria… — resmungou, curvando as costas para juntar a bagunça. Pegou os cacos maiores e jogou-os no lixo. Com auxílio de vassoura e pá juntou o restante dos pedacinhos de vidro que sobraram esparramados pelo chão. Atravessou a sala desejando apenas seguir para seu quarto, entrar no banheiro e tomar uma chuveirada para refrescar o calor e tirar o cheiro de transpiração que se impregnou em sua pele. No meio do caminho, então, reparou em Daniel dormindo. Ele era sereno e seu sono, profundo. Seus olhos passaram pelo peito nu e, dessa vez, ficaram fixos nos músculos masculinos. Daniel era um homem vaidoso que não cuidava apenas da saúde, mas também da parte estética. Seu tronco era forte e definido sem muitos exageros, os músculos eram mais rígidos e alongados, diferentemente dos homens de porte e músculos espessos .


Ainda o observando, foi quando, subitamente, algo chamou sua atenção. Uma pequena elevação por baixo da calça dele. Levou a mão até os lábios, abafando sua vontade de rir. Ele está… excitado? E ficou imaginando o que ele estaria sonhando para deixá-lo ereto. Talvez alguma coelhinha da revista Playboy…? Balançou a cabeça, se lembrando que aquele tipo de ereção poderia ser algo totalmente natural aos homens, e não significava, exatamente, excitação. As poucas vezes que dormiu com Miguel pôde presenciar esse tipo de normalidade masculina. Ainda tentando conter seu riso, caminhou até o banheiro de seu quarto, despiu-se e ligou o chuveiro. Entrou em baixo d'água, que estava quente demais. Mudou a temperatura, esquecendose antes de desligar o chuveiro, queimando-o com a mudança brusca de temperatura. — Tá de brincadeira comigo… — bufou Sophia, sentindo a água demasiadamente fria bater em sua pele. Enrolou-se na toalha e cautelosamente foi para o banheiro ao fim do corredor. Colocou a temperatura da água para “morna”, ligou o chuveiro, desenrolou a toalha e entrou, molhando os cabelos. Deixou a água escorrendo em seu corpo. Parecia que tinha se esquecido do mundo de baixo do chuveiro, quando o abrir de porta do banheiro a trouxe de volta à realidade. Por um milésimo de segundo ela divisou Daniel, sem camisa, de calças abertas a olhando tão espantado quanto ela. — Meu Deus, Daniel! — Exclamou puxando a toalha e cobrindo o corpo, ao mesmo instante que Daniel virava-se de costas para ela.


07 CONSTRANGIDOS noite estava sendo difícil para Daniel. Trocara sua cama macia por um sofá desconfortável. Simplesmente não conseguia dormir. Só o que pôde foi tirar cochilos que duravam de quinze a vinte minutos, acordava e demorava muito para conseguir pregar os olhos novamente. A mistura de calor e desconforto o deixou de olhos abertos praticamente a noite toda. Para se refrescar, tirou a camisa social, que o fazia transpirar, o cheiro forte de suor em baixo das axilas começava a incomodá-lo. Desfivelou o cinto e abriu o botão de suas calças, ajeitou-se no sofá numa tentativa fracassada de tentar torná-lo um pouco mais confortável. Bufou. Levantou-se e caminhou até a janela. O carro do inconveniente Miguel não estava mais lá. Pensou em ir embora e ligar para Sophia no dia seguinte e lhe explicar sua atitude. Mas ela tinha sido tão prestativa que hesitou na sua decisão. Olhou no relógio que marcava duas da manhã. Falta pouco, pensou consigo mesmo tentando confortar-se com a ideia de que logo poderia ir para a casa e dormir em sua deliciosa cama.

A

Voltou a se deitar no sofá e fechou os olhos. Um tempo depois, pela primeira vez na noite, o sono se apossava dele, que até já tinha se acostumado com o desconforto. De repente um barulho o despertou com um sobressalto. Daniel abriu os olhos, os correndo pelo apartamento pouco iluminado. Viu Sophia de costas e curvada, juntando algo no chão. Ela trajava apenas um baby doll rosa de cetim, o short era curto, e ele pôde, na posição em que ela estava, divisar partes de suas nádegas. Quase que instantaneamente sentiu seu membro se enrijecer. Que porra está acontecendo comigo,? perguntou a si mesmo, sentindo sua ereção. Daniel era um homem controlado. Para se excitar precisava mais do que uma mulher seminua na sua frente. Acompanhado, carícias, beijos quentes e palavras obscenas facilmente o deixariam enrijecido; sozinho, era preciso alguns pensamentos eróticos e um filme pornô para ajudá-lo. Mas tivera apenas a visão de Sophia naqueles trajes e nenhum pensamento impuro tomou posse de sua cabeça. Daniel jamais negaria que Sophia é atraente e sensual, mas por que raios, pela segunda vez, estava rígido por ela, sem mais nem menos? Sem provocações, sem pensamentos lascivos, sem erotismo? Fingiu dormir quando a loura se virou para jogar os cacos no lixo e atravessar a sala na intenção de retornar aos seus aposentos. Ele sentiu quando Sophia se aproximou e, de repente, ficou a observá-lo. Durante aqueles segundos de olhos fechados, sendo examinado pelos olhos verdes, algumas coisas passaram por sua cabeça. Não eram apenas imaginação, mas se tornavam quase como um desejo. Imaginou Sophia se aproximando e tocando seu membro por cima da calça. Depois, se sentava em seu colo, esfregando as partes íntimas uma na outra, beijando seu pescoço, mordiscando o lóbulo de sua orelha com lascividade. Aquilo só o deixava mais excitado e ao


mesmo tempo frustrado. Müller não sabia por que estava tendo aquele tipo de pensamento. Tentou se lembrar de quando fora a sua última relação sexual. Uns quinze dias?, deduzia, enquanto fingia dormir. É isso! Estou necessitado e meu corpo está respondendo à primeira mulher que vê pela frente! Notou quando Sophia se afastou, adentrando em seu quarto. Suspirou aliviado por Sophia ter deixado a sala tão logo. Será que ela reparou? Tocou seu pênis que chegava a doer de tão rígido. Por alguns minutos, ficou o acariciando, como se aquilo fosse resolver alguma coisa. Daniel precisava se descarregar ou de um banho frio. Descartou totalmente a possibilidade de se masturbar na sala da casa de sua secretária, então preferiu o banho gelado. Além de refrescá-lo do calor, limpá-lo do suor, o banho o faria esquecer de sua excitação. Ou talvez ele optasse por um banho morno enquanto se satisfazia no chuveiro. Levantou determinado a tomar uma ducha gelada. Seguiu para o banheiro até o final do corredor, o mesmo que usara antes da visita desagradável de Miguel de Orleans. Distraído pela excitação ou pelo calor, não ouviu o som do chuveiro ligado, indicando que alguém utilizava o toilet. Abriu a porta para se surpreender ao ver Sophia nua, tomando banho. No milésimo de segundo que se teve, seus olhos correram pelo corpo dela. Os cabelos molhados, os seios medianos firmes, a barriga lisa, sua intimidade parcialmente depilada. Daniel se virou rapidamente, sentindo a cara queimar como fogo, enquanto ela exclamava, espantada: — Meu Deus, Daniel! — Me desculpe, Sophia — repetiu várias vezes, ainda de costas. De vergonha, seu rosto ardia feito brasa. — Não sabia que você estava aqui. Daniel se via em uma situação totalmente constrangedora. Além de estar excitado, entrou no banheiro de Sophia, a surpreendendo nua sob a água do chuveiro. O universo vinha conspirando contra ele naquela noite. Voltou para a sala não sabendo onde colocar a cara. Se pudesse, faria um buraco para enfiá-la. Sentou-se no sofá com seu coração palpitante. Percebeu que a situação vivida fez seu “amiguinho” murchar. Mais eficiente que um banho gelado! — Daniel — ouviu a voz suave de Sophia, e ergueu os olhos para vê-la parada em sua frente. Os cabelos louros ainda estavam molhados e embaraçados, vestia um roupão e segurava a parte frontal o mantendo fechado com tanta força como se temesse que o traje abrisse e revelasse coisas que não deveriam. Ele a observou rapidamente, antes de dizer: — Oi… olha, me desculpa… eu só queria me aliviar… — tentou se explicar, mas se embaraçou nas próprias palavras. Merda, o que é que eu estou dizendo?, se deu conta das coisas que saiam de sua boca. — … no sentindo que eu precisava urinar e… eu não sabia que estava usando o banheiro


— suspirou não sabendo mais o que dizer. Sophia pôs-se ao lado de Daniel. Ele ainda estava sem camisa e com as calças abertas. Quis rir do nervosismo dele, mas não era propício. Ela poderia imaginar como seu chefe estaria se sentindo. Ela própria se sentia envergonhada com o episódio. — Não se desculpe. Eu que esqueci de trancar a porta. Está tudo bem. Não, não está. Eu te vi nua! Sorriu fraco acenando, tentando não pensar na cena que vira há minutos. Daniel agradeceu mentalmente pela imagem que vira, seguido da situação, tê-lo desanimado em vez de alimentar sua imaginação. Esta que, por vez, não sabia explicar por que estava tão fértil na presença de sua secretária-noiva. — Que situação… — emitiu um riso nervoso misturado à vergonha, desviando o olhar para baixo. Sophia sorriu e tocou levemente sua perna, repuxando a mão quase que no mesmo instante. Isso fez Daniel mirá-la. — Como… dormiu? — Não dormi — respondeu de pronto — O sofá… sabe?, não estou acostumado. — Parecia confortável há pouco — observou e sorriu fraco ao se lembrar de Daniel estirado no sofá Müller a encarou e pensou no momento em que sentiu ser analisado por Sophia. — Só tirei uns cochilos. — Justificou — Acordei mais do que dormi. Sophia segurou sua mão e o levantou, virou-o de costas e deu um leve empurrão, como se estivesse o incentivando a andar. — Durma no meu quarto. Você precisa descansar. Daniel rodou o corpo, ficando frente a frente. — Está tudo bem, eu me acostumo com o sofá. — Não, senhor, senhor Müller. Eu já dormi várias vezes nesse sofá vendo televisão, eu é quem estou acostumada. Insisto que vá descansar na minha cama. Daniel sorriu fraco diante da insistência de Sophia. Deixaria seu cavalheirismo de lado e aceitaria. Suas costas estavam doloridas por causa do desaconchego que era o sofá, e ele precisava dormir um pouco, o que não conseguira muito naquela noite. Agradeceu a gentiliza de Sophia e seguiu para o quarto dela. Entrou observando a delicadeza do lugar, a simplicidade do cômodo, que ao mesmo tempo exalava um ar de aconchego. Observou ao redor e viu uma peça de roupa de Sophia em cima de uma poltrona: o belo vestido preto que ela utilizara no jantar dos dois. Aproximou-se vagarosamente, tomando a


peça nas mãos. A encarou por um breve instante antes de, inconscientemente, conduzi-la até seu nariz e inspirar fundo o perfume grudado no vestido. Partes do jantar passaram rapidamente por sua cabeça como um filme rápido. Dando por si, deixou a peça cair, passou a mão pelos cabelos suspirando, tirou a calça ficando apenas com sua cueca boxer e foi se deitar. Na cama, esticou o corpo. Virou-se debruço, e de repente o cheiro feminino dela, impregnado nos lençóis e fronhas, subiu por suas narinas. Daniel apertou os olhos, sentindo aquele cheiro que há tão pouco o vinha deixado extasiado. Pegou-se pensando nela ali, a seu lado, e ele inspirando o aroma diretamente de seu pescoço. Quando percebeu o que tomava conta de seus pensamentos, balançou a cabeça tentando afastar tudo aquilo. Virou de costas encarando o teto. O cheiro doce do shampoo de Sophia continuava em sua memória olfativa. Droga!, praguejou, Talvez fosse melhor eu ter ficado no sofá!

♦♦♦

Sophia viu Daniel seguir para o quarto dela, e antes de se deitar e ligar a TV, foi até sua lavanderia e pegou outro pijama no cesto de roupas limpas. Ainda estava sem jeito perto dele depois de tudo o que aconteceu. Parecia que as coisas estavam sucedendo de forma a acarretar naquela situação constrangedora: a presença de Miguel ter obrigado Müller a ficar em seu apartamento, o ventilador desligado que a fez querer um banho, o chuveiro queimado que a obrigou a ir para o outro, a porta que deixou destrancada. Todas essas sequências de fatos pareciam estar em harmonia, conspirando contra os dois. Se ajeitou no sofá, tomando cuidado para que mais nenhuma ação sua causasse qualquer outra cena desconcertante diante de Daniel Müller. Colocou em um filme que já havia começado. Prendeu sua atenção ao que se passava na televisão. Numa das cenas do longa-metragem, duas pessoas se beijam, e instantaneamente vem à sua cabeça o beijo trocado com Daniel. Lembrou-se de como os lábios finos dele acompanharam bem o ritmo dos dela, das mãos fortes, porém delicadas, de Daniel a segurando pela cintura e a trazendo mais para perto de seu corpo. Por um instante, sentiu que ele a desejava, e se surpreendeu o desejando. Recordou-se de como Müller tinha um perfume amadeirado inebriante. Imagens dele foram passando por sua memória, correndo na frente dos seus olhos: quando ele saíra do banheiro com os cabelos desgrenhados e molhados, depois como se beijaram rapidamente no térreo do condomínio. Não demorou para Sophia se recordar de vê-lo deitado ali, em seu sofá, sem camisa e ereto. Riu pensando na situação que presenciara. Ao dar por si, estava com um risinho bobo nos lábios e pensando naqueles olhos de cor indecifrável. Pestanejou, sacudindo a cabeça em seguida, querendo tirar os pensamentos que ela não sabia explicar por que estava tendo. Ajeitou o travesseiro e recostou a cabeça nele, para no mesmo momento o perfume amadeirado de Daniel apossar de seu nariz, trazendo todos os momentos daquele dia de volta à sua memória. Suspirou e levantou-se, andou até a cozinha e tomou água. Por que estava pensando tanto em seu superior? Daniel era bonito e educado, sempre fora desde que ela o conheceu, mas nunca


pensara em seu chefe daquela maneira como vinha acontecendo desde o beijo, há pouquíssimo tempo. Voltou-se para sala, e divisou a camisa social dele jogada ao chão. Pegou a peça e, sem perceber, a levava até o nariz, aspirando aquele mesmo cheiro amadeirado dos travesseiros, este, dessa vez, misturado ao cheiro de transpiração. Que cheiro másculo! Jogou a camisa longe ao notar o que havia pensado. Desligou a TV, trocou o travesseiro por uma almofada e deitou-se, tentando, em vão, dormir.

♦♦♦

Daniel despertou aos poucos, sentindo o cheiro de café invadir o quarto. Virou-se na cama e encarou o cômodo onde estava. A cama box tinha lençóis brancos e macios, os travesseiros eram fofos e o edredom, aconchegante. Alguns raios solares penetravam a cortina fina da janela, iluminando o quarto parcialmente e indicando o alvorecer do dia. Lembrou-se, então, que dormira na casa de Sophia. Bocejou, sentando-se na cama, e se levantou segundos depois; entrou no banheiro, lavando o rosto e molhando os cabelos. Procurou por sua camisa, mas não encontrou, recordou-se de tê-la deixado na sala. Buscou por sua calça, mas também não achou. Divisou sobre a poltrona um roupão, que não estava ali antes, o vestiu e caminhou até a sala do apartamento, e a cada passo o aroma de café sendo passado tomava conta da casa. Ao chegar viu tudo em perfeita ordem: as cobertas dobradas e os travesseiros, organizados. Um cheiro de limpeza subia no ar. Sophia estava do outro lado, de costas, arrumando a mesa farta de comida: leite, suco, pães, bolo, manteiga, torradas, geleia e fruta. Sophia não conseguiu dormir. Os acontecimentos passados com seu chefe, Daniel Müller, a deixara um pouco atordoada e até mesmo envergonhada. Ele a surpreendendo no banheiro foi uma situação que jamais imaginou que poderia acontecer. Além do mais, ela vinha pensando nele com mais frequência do que deveria. Se é que era certo pensar em seu chefe no modo como vinha fazendo. Ela se perguntava por que ele não saía de sua cabeça. E tudo começou com o beijo deles. Ou teria sido antes? Para ela não importava. Tentou dormir, mas o cheiro forte do perfume amadeirado de seu chefe não a deixou, e o rosto bonito de Daniel tomava conta de seus pensamentos. Quando olhou no relógio, eram quase cinco da manhã, e se assustou de como o tempo tinha passado tão rápido e nem percebera. Então, o que fez foi levantar e arrumar a sala. Depois caminhou até seu quarto onde Daniel dormia. Tomou cuidado para não esbarrar em nada e acordá-lo. Antes de levar a calça social dele para a máquina e lavar juntamente com as outras peças, deixou um roupão na poltrona. Pensou que ele poderia acordar no meio da madrugada, ou logo ao amanhecer, e querer se vestir. Preveniu para que não tivesse seu chefe andando pela casa apenas de cueca. Após a roupa bater na máquina, Sophia levou para a lavanderia do condomínio e colocou as peças na secadora. Voltou para seu apartamento, passou as peças e as dobrou, deixando


sobre a bancada em sua área de serviço. Feito tudo isso, olhou no relógio, que marcava sete e meia da manhã. Foi quando decidiu preparar um desjejum para eles. Bateu a massa de um bolo e, enquanto assava no forno, correu até a padaria e comprou pão. Ajeitou a mesa com as coisas que tinha no armário. Certificou-se que estava tudo arrumado, voltou para seu quarto e o viu ainda dormir. Dessa vez, ele estava debruço, os lençóis desajeitados, e ela pôde divisar suas nádegas cobertas pela cueca boxer preta. O observou por um instante, quando deu por si correu até seu guarda-roupa, pegou algumas peças, foi para o banheiro ao final do corredor, certificou-se que a porta estava trancada e tomou um banho decente. Foi impossível não se lembrar da cena de Daniel entrando em seu banheiro, a deixando totalmente assustada e surpresa. Talvez, enquanto fosse viva e morasse naquele apartamento, se lembraria desse episódio constrangedor. Assim que se trocou, retornou para a cozinha para fazer o café, e quando terminava de pôr a mesa, ela o ouviu chegar. — Bom dia — a voz rouca reverberou pelo apartamento, e, somente agora, notara em como o tom era sexy. Diferentemente da noite anterior, que se encontrava apenas com o roupão e o baby doll, Sophia vestia uma calça jeans desbotada e uma camisa regata branca, delineando bem o corpo e ressaltando seus seios firmes. Os cabelos estavam bem penteados e presos em um rabo de cavalo. Ela sorriu ao vê-lo. — Bom dia, Daniel. Espero que esteja com fome, fiz um café da manhã especial. — Eu adoraria, Sophia, mas… — olhou para o próprio corpo — As minhas roupas, não as encontrei. — Ah, mas que cabeça minha, me desculpe — foi até a lavanderia, próximo à cozinha, e voltou com o terno de Daniel muito bem dobrado. — Eu pus na máquina para lavar e depois levei até a secadora na lavanderia do condomínio. Ia colocar para você lá no quarto antes de acordar, mas tive um imprevisto aqui na cozinha e acabei me esquecendo. — Explicou, recordando-se do ocorrido que a atrasou. — Você lavou minhas roupas? — Inquiriu, surpreso, pegando as peças da mão dela. — Sim, espero que não tenha feito mal. Imaginei que gostaria de vestir algo limpo hoje de manhã. Daniel sorriu e agradeceu, sentindo o cheiro de amaciante vindo das roupas. — Vá se vestir, quando voltar estará tudo pronto — virou-se para a pia e terminou de passar o café na garrafa térmica. — Não quero ser abusado, mas posso tomar um banho? — Pediu balbuciando — À noite fez muito calor; transpirei demais.


— Claro, fique à vontade — Sophia respondeu ainda de costas. — Mas utilize o banheiro no final do corredor, o do meu quarto queimou ontem à noite. — Se virou fechando a tampa da garrafa e a pondo sobre a mesa. — Foi por isso que tive que tomar banho lá e… — Daniel não a deixou terminar sua frase, já prevendo que ambos se lembrariam da cena embaraçosa que vivenciaram, e interrompeu: — Ah, tudo bem. Obrigado. — Desconcertado, bruscamente fez seu caminho até o fim do corredor. Era impossível para Daniel entrar naquele banheiro e não vir à mente a imagem de Sophia nua e espantada. Tentou não pensar naquilo, porém, em vão. A todo instante, se recordava do corpo branco e magro, dos seios firmes, os cabelos molhados e embaraçados que, ainda assim, a deixava linda, e de certa forma sensual. Tirou o roupão e colocou o terno sobre a bancada da pia. Ligou o chuveiro e entrou, deixando a água escorrer. Ficou imóvel, permitindo apenas sentir a água quente bater em sua pele, o fazendo ter uma sensação prazerosa e relaxante. Nada como um banho quente. De cabeça baixa e olhos fechados, as lembranças do dia anterior invadiam-no a todo o momento: o jantar, o beijo deles, Sophia na cozinha, depois, ela nua naquele mesmo banheiro, debaixo daquele mesmo chuveiro. Novamente, Daniel pegou-se excitado ao pensar em Sophia, e praguejou-se por isso. Abriu os olhos para encarar seu membro ereto e uma vontade imensa de que a loura estivesse ali com ele, a água batendo em seus corpos enquanto consumavam o pecado carnal. — No que porra estou pensando? — Indagou a si mesmo ao perceber o que se passava em sua mente. Mas a vontade estava o corroendo. Era a terceira vez em menos de 24 horas que ficava excitado e não se satisfazia. Olhou para seu pênis enrijecido, depois para a porta. Está trancada, encarou a entrada do banheiro por um breve instante. Foda-se!, deu de ombros, pouco se importando. Encostou-se à parede do box, jogou a cabeça para trás e cerrou os olhos. Estimulou-se pensando eroticamente em sua secretária. Imaginou Sophia com o rosto encostado na parede, seus corpos unidos e moldados um ao outro, o ato do sexo sendo lentamente realizado com água batendo quente em suas partes, e os sons do ambiente abafando seus gemidos prazerosos. Aumentou a velocidade dos movimentos e fertilizou sua imaginação: agora, Sophia estava sobre sua mesa no escritório. De repente, sentiu um jato de esperma, grunhiu baixo sentindo um alívio misturado ao prazer. Respirou fundo e olhou para a própria mão que ainda segurava seu membro. Que porcaria foi essa?, indagou ao cair da realidade: se masturbara pensado em sua secretária.


08 INTERESSES

E

les não sabiam como agir perto um do outro. O episódio do banheiro parecia estar a todo momento entre os dois. Sophia se mostrava mais confortável diante do chefe, mas Daniel estava inquieto, e só ele sabia o porquê.

A verdade era que o incidente com Sophia Hornet já havia se apagado totalmente de sua mente para dar lugar a outro momento mais atormentante ainda: o fato de ter se masturbado com sua secretária nos pensamentos. E mesmo que ela não soubesse desse ocorrido, era difícil, e ao mesmo tempo vergonhoso, encará-la sem se lembrar de sua vergonhosa atitude. Por que justo ela? Por que não qualquer outra mulher? Eram coisas que Daniel Müller não conseguia entender. Os dois estavam à mesa tomando o desjejum. Trocaram poucas palavras desde que Daniel voltara do banho, falaram apenas do contrato que precisavam assinar, de algumas reuniões do dia seguinte na empresa, e Daniel elogiou brevemente o café que Sophia preparara. Depois disso, o silêncio se fez presente entre eles. — Já sabe para quando vamos marcar a data da cerimônia? — Sophia quebrou o silêncio, e o encarava enquanto passava manteiga no pão. Após bebericar seu café preto e limpar os lábios com um guardanapo de pano, ele respondeu: — O mais breve possível. — E completou: — Aliás, quero que marque um jantar com seus pais. Esse casamento precisa ser real, e para parecer isso, precisamos oficializar o noivado. — Claro. Que dia é mais viável para você? — Quarta à noite está ótimo para mim, e para você? Ela pensou por um pequeno instante. — Sim, para mim também está ótimo. Algum lugar em especial para realizarmos esse jantar? — Aqui mesmo no seu apartamento está perfeito. Amanhã assino um cheque em branco para as despesas do jantar — terminou seu café, pondo a xícara sobre o pires. Sophia concordou com um aceno de cabeça, e acabando seu café, levantou-se tirando a mesa. Daniel se ofereceu para ajudá-la com a louça, mas ela agradeceu e recusou, afirmando que limparia bagunça sozinha sem problema algum.


Daniel teria insistido em ajudá-la se não fosse seu celular tocando estridentemente. Sacandoo do bolso do paletó, divisou a tela piscando um nome conhecido.

Chamando Melissa Telles

Daniel se afastou um pouco para atender à chamada, indo para o corredor do apartamento. — Oi, Melissa — atendeu sem tirar os olhos de Sophia, de costas para ele e lavando a louça. — Dani, querido. Me ligou ontem à noite? Estava na balada com as amigas, estou chegando em casa agora. A noite foi maravilhosa. Então, o que queria? Daniel revirou os olhos, entediado. Ele não precisava saber o que raios a ruiva estava fazendo para não ter atendido à sua chamada. Ele não se importava nem um pouco. — É… eu liguei, sim, mas já consegui me resolver aqui, não se preocupe. Não, eu ainda preciso me aliviar decentemente, mas não quero você, eu quero S… O quê? Sacudiu a cabeça bem forte tentando esquecer o que estava pensando. Nem se deu conta que Melissa continuava a tagarelar do outro lado da linha. Só voltou à realidade quando ela lhe chamou pelo nome completo: — Daniel Müller, ainda está aí? — Ah, sim, desculpe, o que disse? — Eu disse que você só me liga quando quer me ver. — E você está certa, eu queria te ver ontem à noite. — Não quer mais? — Perguntou com uma malícia na voz. — Ainda estou disponível, bebê. Daniel mirou Sophia novamente. Lembrou-se de si mesmo no chuveiro se masturbando e pensando nela. Ele precisava de sexo de verdade, e esteve quase que confinado com uma mulher bonita e sensual. Aquilo que estava sentindo era normal, certo? Já tinha uns quinze dias desde sua última relação sexual e seu corpo respondia à sua necessidade, desejando Sophia. Se eu me aliviar, essa vontade e desejo louco pela minha secretária vai passar!, concluiu, e se esqueceu, de novo, de Melissa na linha. — Daniel! — Ela gritou o fazendo tomar um susto. — Sim, eu ainda quero te ver. Estarei em sua casa dentro de uma hora.


♦♦♦

Antes de deixar o apartamento de Sophia, Daniel pegou a assinatura dela e também assinou o contrato de casamento firmado. Agradeceu pela estadia e pelo café, beijou sua bochecha e saiu. Preferiu não tocar no incidente da noite anterior pedindo desculpas. Simplesmente achou desnecessário tocar em tal assunto. Chegou na casa de Melissa no horário combinado. A ruiva o recebeu com um beijo na boca totalmente fogoso, o encaminhando para seu quarto, enquanto tirava seu paletó e desabotoava sua camisa. Daniel retribuía, mas não na mesma intensidade. Algo dentro dele estava diferente. Ele e Melissa se encontravam discretamente há um ano e ele sempre gostara do sexo deles. Mas naquele momento, por algum motivo, não sentia tanto anseio em consumar o ato sexual como antes. Pensou ser, talvez, pelo fato de ter se masturbado. Mas seria realmente aquilo? Nunca, nenhuma punheta seria comparável há uma mulher como Melissa. Então, o que poderia ser? Sophia! Arregalou os olhos quando este nome lhe passou pela cabeça. Encarou Melissa que movimentava sua boca na dele. Daniel precisava de uma vez por todas tirar aquela loura, linda e sensual da cabeça. Girou o corpo, empurrou levemente Melissa a fazendo cair na cama logo atrás. Deitou por cima dela a beijando com volúpia. Seu corpo respondeu ao estímulo do beijo, e ele roçou sua ereção nas partes íntimas femininas. Depositou beijos e chupões intensos pelo pescoço de sua companheira, descendo até seu colo. Arrancou-lhe a roupa e a viu nua. Nesse momento apagou Sophia de sua mente e dedicou-se totalmente à mulher ali, à sua frente. E nada mais.

♦♦♦

Sophia respirou fundo encarando seu telefone celular. Era a primeira vez em quatro meses que ela entraria em contato direto com a família. Ela já imaginava sua mãe chorando ao telefone e perguntando se estava bem, se estaria passando fome ou morando na rua. Dona Eva Hornet era a mulher mais exagerada do mundo que Sophia conhecia. Já seu pai, Sebastian Hornet, iria gritar, exigindo saber onde a filha se encontrava, e então, desembestaria a falar do contrato com os Guimarães de Orleans, ordenando seu retorno à casa para firmar união com Miguel. Talvez ele até já soubesse do noivado dela com Daniel, por meio de Luiz. Já seu irmão, Eduardo, super protetor como era, faria as mesmas perguntas da mãe e seria até mais dramático e exagerado que ela, ganhando, assim, o prêmio de pessoa mais exagerada que Sophia conhecia. Isabela, a irmã mais nova, pouco se importaria como ela estaria. O que ela gostaria mesmo de saber é se Sophia teve alguma aventura, como caminhar quilômetros e pedir


carona a desconhecidos, acampar a cada noite em um lugar, sobreviver com comida enlatada e racionar alimento. Para Isabela, a irmã não tinha apenas fugido de casa, mas fora viver um apocalipse zumbi. Sophia riu pelo canto da boca, pensando na maluquice que era Isabela. Aos 19 anos, vivia com a cabeça em um mundo imaginário, onde ela mesma gostaria de sair sem rumo e se aventurar. Mas Eva e Sebastian nunca permitiriam aquilo à filha que tanto mimavam. E eles estavam certos. Isabela não sobreviveria um dia sequer longe dos Hornet. Pelo menos pensava assim. Tomou coragem e discou o número de sua antiga casa. Alguns toques depois, uma voz feminina e conhecida atendeu. Era sua mãe. Sophia esperava ouvir a voz da governanta, mas ponderou que seu pai teria a dispensado pelo fato de não poder mais bancar os empregados. — Oi… mãe — ela disse, finalmente, após ouvir três “alôs” do outro lado da linha. Como o esperado, houve um silêncio breve. Eva Hornet processava a informação que chegava, se perguntando se aquela era mesmo a voz de sua filha Sophia, ou se seria uma peça de sua cabeça causada pela saudade e a preocupação com ela, que eram grandes. — Sophia, — sua voz saiu emocionada e quase em pranto — é você mesmo, meu bebê? — Sim, dona Eva, é sua filha do meio, Sophia Hornet. Ela ouviu um “Oh, meu Deus, eu estava tão preocupada”, seguido de lágrimas e soluços. Sophia esperou até que a mãe lhe desse o sermão por qual se preparara, e depois pronunciou: — Estou bem, mãe, não se preocupe. Estou ligando por que eu… — pensou em como dizer aquilo. Seria uma notícia e tanto para Eva Hornet — eu vou me casar e meu noivo quer oficializar um noivado com meus pais em um jantar — disse de uma só vez, sem parar para tomar fôlego. Houve outro silêncio, dessa vez um pouco mais longo que o anterior. Sophia conseguia apenas ouvir a respiração de sua mãe, que, provavelmente, raciocinava sobre a notícia informada. — Casamento? Sophia, que história é essa? E pelo jeito, Luiz Guimarães não fora correndo contar a família dela, ou Sebastian é quem não comentou nada com sua mãe, porque era sempre assim: Eva era sempre a última a saber de qualquer acontecimento na família. Foi assim com as apostas de jóquei, foi assim com a falência e foi assim com o casamento arranjado entre ela e Miguel. Por que seria diferente naquele momento? Sophia contou tudo, desde quando conheceu Daniel até aquele instante. Claro que teve de inventar uma coisa ou outra, como ter se apaixonado pelo seu chefe e se envolvido com ele, além de omitir o fato de o casamento ser apenas um meio para que ambos se beneficiassem. Após ouvir a história quase verdadeira da filha, Eva ficou feliz e confortável ao mesmo tempo. Sophia sabia que sua mãe nunca aprovou a união forçada dela e de Miguel, e agora, sabendo que sua amada filha amava um homem e se casaria por amor, tendo um lugar digno para morar e sem precisar ficar pulando de um lado a outro, Eva estava mais aliviada. Parabenizou-a pelo casamento e disse estar muito feliz. — E o papai, onde está? — Sophia quis saber, depois de muito enrolar para perguntar dele,


criando coragem. — Ah, querida, foi ver se conseguia um dinheiro emprestado para pagarmos o aluguel e não sermos despejados. Sophia sentiu um aperto no coração. Ela tinha sido uma maldita egoísta. Fugiu de casa e não se importou em saber como todos eles estavam. Tinha ciência de que a família perdera a casa para a hipoteca e todos os bens foram bloqueados por falta de pagamento de muitas dívidas. Depois, grande parte de suas posses foram leiloadas e a família sobrevivia com pouco, se comparado ao status que tinham antes da falência. Ela sabia, ainda, que Eduardo e Isabela estavam fazendo o possível para ajudar a família. O irmão mais velho trabalhava como contador, ele nunca se interessou pela empresa dos Hornet e também nunca foi de acordo em ser sustentado pelos pais. Eduardo sempre gostou de ser independente, mesmo que não fosse cem por cento. E isso os ajudava um pouco. Isabela trancou a faculdade e começou a trabalhar como assistente administrativa, e também ajudava nas despesas como podia. Sebastian perdera crédito, Eva a vida toda foi mulher de ficar dentro de casa cuidando dos filhos e recebendo todo o tipo de regalias. Então, os únicos que, verdadeiramente, estavam se sacrificando para não deixar os Hornet morrerem de fome eram Eduardo e Isabela. E Sophia se sentiu culpada por isso tudo. Se ela tivesse simplesmente sacrificado sua felicidade para ajudá-los, eles jamais estariam passando por aquelas dificuldades. — Me sinto tão culpada por isso — murmurou. — Oh, querida, não se sinta. Seu pai quem nos faliu, não você. E aquele casamento com o Miguel… eu compreendo que pensou na sua felicidade — Mas não na de vocês — suspirou e passou a mão pelos cabelos presos, parecendo se sentir culpada. — Sophia, meu anjo, isso está sendo uma lição para todos nós. Estamos aprendendo a dar mais valor nas coisas. Eu e Isabela, principalmente. Gastávamos horrores sem pensar, agora que ela está trabalhando duro, está econômica e sabe o quanto é difícil ganhar dinheiro para sair abrindo a mão por aí. — Eu sei mãe, mas… — teria terminado de protestar se não tivesse ouvido uma voz masculina gritar do outro lado da linha. Era Sebastian Hornet. “Eva, cheguei… Quem é ao telefone? Se for o corretor diga que já consegui o dinheiro e que é para ele parar de ficar como urubu em cima da carne podre. Amanhã já levarei o dinheiro para a imobiliária. Gente ambiciosa. Tudo gira em torno dessas malditas notas. Papéis que chamam de dinheiro” Sophia estremeceu ao ouvir aquela voz forte. Sebastian Hornet era um homem rígido. Respeito e medo andavam de mãos dadas quando o assunto era ele. — Não, Sebastian. É Sophia. Quase que no mesmo instante, o telefone foi arrancado das mãos de Eva para dar lugar a


uma voz forte, marcante e autoritária: — Sophia Hornet, você está muito, mas muito, encrencada, mesmo!

♦♦♦

Oi, pai, tudo bem com o senhor? Comigo está ótimo também, obrigada por perguntar como fiz para sobreviver esses últimos meses sem o dinheiro do senhor, obrigada por perguntar se estou bem ou mal, doente ou saudável. Muito obrigada. Sophia pensou, mal acreditando que depois de cinco meses fora, o pai a recebera daquela forma. — Oi, pai. Eu estou bem, obrigada — bufou, e ouviu uma advertência: — Olha como fala com seu pai, mocinha. Onde você está? Se está ligando é porque precisa de alguma coisa. Se arrependeu da bobagem que fez e quer voltar atrás? Vou ligar imediatamente para o Luiz e informar que… — Pai, não! — Sophia quase gritou. E depois eram os outros que só pensavam nos “papéis que chamam de dinheiro”. Hipócrita, pensou. — Eu não me arrependi de nada. Estou ligando para avisar que vou me casar e quero que vocês conheçam meu noivo em um jantar — avisou sem rodeios, esperando que ele já soubesse. E quando Sebastian exprimiu um “como é?” em tom de confusão, ela se perguntou por que Luiz não contou nada aos Hornet sobre seu casamento com Daniel. Como fizera com a mãe, Sophia explicou tudo desde o começo para o pai, e acrescentou, para que ele concordasse e abençoasse a união deles: — Falei com Daniel sobre a situação de vocês e ele está disposto a ajudá-los. Não precisa mais se preocupar com a parte financeira. Sophia esperava que pelo menos Sebastian se importasse um pouco com os Guimarães de Orleans, mas não foi isso que aconteceu. O pai se mostrara mais interesseiro que qualquer outra pessoa. E teve essa conclusão quando ele proferiu as palavras: — Quando é o jantar?


09 A RUIVA

D

aniel amanheceu em uma segunda-feira com Heitor a lhe atormentar a cabeça. O maleducado do irmão invadiu seu quarto aos berros, rindo e fazendo piada do fato de ele ter saído no sábado à noite e só ter retornado à casa na madrugada de domingo para

segunda. Logo cedo Daniel teve de ouvir piadas como: “você e sua noivinha aproveitaram bem o final de semana”, “esse casamento não é de fachada nem aqui e nem em lugar nenhum” e “você está se amarrando nessa garota”. Ele imediatamente se apressou em explicar o ocorrido para o irmão, antes que ele viesse com mais gozação. Falou do inconveniente com Miguel e depois que esteve com Melissa o domingo todo. Daniel queria apenas algumas horas de sexo e nada mais, porém, a garota insistiu que ele ficasse. Então, os dois assistiram a alguns filmes juntos, almoçaram, e depois de uma rodada de sexo à tarde, dormiram. Quando Daniel acordou, passava das sete da noite, quis ir embora, mas Melissa tinha preparado o jantar e não quis recusar a gentileza. Após o jantar, mais filme e alguns amassos no sofá, e quando Daniel deu por si estava sendo arrastado para uma choperia, onde teve que aturar o falatório das amigas dela. Ao fim da noite, a deixou em casa, e mesmo com ela insistindo para que ele ficasse, Daniel seguiu para sua casa. — Você, hein, com essa sua cara de santo pega todo mundo. Já pegou sua secretária, essa com quem vai se casar? Daniel ouvia as bobagens do irmão. Estava frente ao espelho ajeitando a gravata. — Ela é minha secretária, Heitor Müller. Meu relacionamento com ela é somente profissional. — E daí? — O irmão deu de ombros. — Tem muito chefe que come a secretária. Então, já ou não? Sou seu irmão, pode me contar. — Não, Heitor — respondeu já sem paciência. — No máximo um beijo na boca por causa do idiota do ex dela. — Estão no caminho certo — soltou uma gargalhada. — Mas já pensou em fodê-la? Como ela é? É gostosa pelo menos? Daniel o encarou olhando do espelho. Aquela conversa ia longe demais. — Heitor, eu preciso trabalhar — disse virando-se e pegando sua maleta, desviando do assunto — e você também, se quer a sua herança. Se essa semana não começar a cumprir com


nosso combinado vou deixar que perca a sua parte. — Isso não é justo, Daniel! — Protestou. — Isso é mais do que justo, Heitor. Ah, e antes que eu me esqueça… — Müller já estava na porta — Quarta-feira é meu jantar de noivado. Esteja presente. Daniel não esperou por uma resposta e saiu.

♦♦♦

Sophia e Daniel se encontraram numa esquina um quarteirão antes do edifício da Swiss e chegaram juntos na empresa. Depois de cumprirem com alguns compromissos, reuniram os funcionários e declararam o noivado. Müller acrescentou que não gostaria de ouvir nenhum tipo de comentário maldoso a respeito de Sophia. — Em breve ela será uma Müller — disse ele. — Terão de tratá-la como tratam a mim. Não quero ouvir vocês cochichando pelos cantos da empresa qualquer coisa maldosa sobre Sophia. Após sua declaração, saiu junto a Sophia, segurando em sua mão. Ele se sentiu aliviado ao perceber que já não tinha mais pensamentos eróticos com sua secretária, e deduziu que toda a loucura que passava em sua cabeça era nada mais que seu corpo respondendo à sua necessidade. Como tinha se satisfeito com Melissa, tudo voltara ao normal e ele olhava para Sophia como a profissional que ela sempre foi. Entraram na sala da presidência e Daniel sentou-se em sua poltrona de couro, Sophia à sua frente conferindo a agenda de seu chefe. — Qual o próximo compromisso? — Uma videoconferência com o representante da nossa filial no Canadá. — A que horas será? — Dentro de uma hora. — Ótimo. Já conversou com sua família sobre o jantar? — Sim, e eles virão — sorriu e tornou a olhar para seu tablet. Daniel puxou a gaveta e tirou seu talão de cheques. Assinou deixando em branco o espaço para o valor. Esticou a ela, chamando sua atenção: — Compre o que precisar para o jantar. Já sabe o que preparar? — Ainda não. Mas pensei em contratar um Buffet. Não sou muito boa pilotando o fogão — brincou, e Daniel riu brevemente. — Faça como achar melhor, senhorita Hornet. — Voltou sua atenção ao computador. — Se


não tiver mais nenhum assunto pendente, pode se retirar. Acatando a ordem dada, Sophia está prestes a sair, quando a porta se abre e dela surge uma mulher ruiva, 1,60 metros, vestida com uma minissaia e decote extravagante, mostrando os peitos fartos. Atrás, Anabelle entrou, como se tivesse tentado impedir que a invasora entrasse. — Daniel, querido — passou por Sophia, a ignorando totalmente. — Senhor, Müller, eu tentei impedi-la de entrar, mas… — A assistente tentou uma justificativa, mas foi interrompida pela ruiva descarada: — E impedir por que, florzinha? Imparcial, Daniel saiu de trás da sua mesa e caminhou até Melissa. — Tudo bem, Anabelle, pode se retirar. — Virou-se para Sophia. — Se eu precisar, eu te chamo, senhorita Hornet. Sophia ausentou-se da presidência sentindo um pequeno incomodo em deixar o noivo com a ruiva atirada. — Melissa, acho que já deixei claro que não gosto quando me procura na empresa. Eu tenho uma imagem a zelar. — Adverte Daniel, e avalia suas vestimentas assim que são deixados a sós. Sem aviso prévio, Melissa avança sobre ele e o beija. Ainda que surpreso, e mesmo relutante, aos poucos vai correspondendo à investida da mulher, enquanto é empurrado até sua cadeira de couro e forçado a se sentar. Melissa cai por cima de seu colo sem desgrudar suas bocas, e suas mãos passeiam pelos fios masculinos alourados. De repente, ela para e o olha, inclinando levemente a cabeça. — Não entendo, Daniel. — Não entende o quê? Ainda em seu colo, se vira para o computador na mesa de Müller, abre o navegador e faz uma busca pelo Google. Clica sobre um link que é direcionado à uma página de notícias. Ao abrir o site, Daniel vê sua própria foto com Sophia, e uma pequena matéria logo abaixo. A ruiva se volta a ele, abraçando sua nuca: — Se está comprometido, por que saiu comigo? E por que me beijou agora? Daniel suspira. E lhe explica tudo. Conhecia Melissa Telles já há algum tempo e sabia que poderia confiar nela. Porém, como não havia consentimento de Sophia em cortar a segunda parte da história, ocultou sobre a falência dos Hornet, mas alegou que Sophia fora deserdada e por isso também precisava de dinheiro para sobreviver. — Então quer dizer que tecnicamente ainda é um homem livre? — Sim, mas, por favor, Melissa, isso deve ficar entre nós, OK?


A ruiva enrola os dedos na gravata azul paetê sedutoramente. — Isso vai ser excitante. — A voz sai maliciosa. — Isso o quê? — Daniel a questiona, confuso. — Teoricamente eu serei sua amante. — Abre um sorriso safado, puxa-o pela gravata grudando seus lábios. — E eu quero foder com você aqui, com sua noivinha por perto.

♦♦♦

Bateram à porta no exato momento em que Daniel terminava de desamassar seu terno. Melissa retocava seu batom que fora borrado por causa dos beijos intensos que trocaram. Ajeitou sua minissaia e o decote e prendeu os cabelos, que também foram soltos. Daniel permitiu a entrada de quem batia à porta, e sem demora Sophia surgiu, discretamente avaliando o casal à sua frente. Daniel ajeitava a gravata enquanto Melissa exibia um sorriso cínico. A ruiva pescou sua bolsa-a-tira-colo. — Até mais, Dani. — Despediu-se e saiu do mesmo modo que entrou: ignorando Sophia. — O que foi, senhorita Hornet? — Parecia irritado, talvez nervoso. — Seu irmão Heitor, está aí. — Há muito tempo? — Quinze minutos. — Por que não me avisou antes? — Sabia que estava ocupado. — A voz saiu firme, e a indireta fora completamente compreendida. Daniel a encara, um pouco envergonhado. Ele costumava ser reservado, e transar no próprio escritório tinha passado longe disso. Sem contar que tinha sido uma falta de respeito sem tamanho não só com Sophia, mas com todos os funcionários do prédio. Além de tudo, todos tinham ciência de que ele era noivo de sua secretária. A apresentou há pouco como sua companheira e sem demora já estava se agarrando com outra mulher. Isso renderia uma boa fofoca e matéria de paparazzi. Corrigiu-se mentalmente, jurando não mais repetir aquele ato imprudente. — Peça-o para entrar, por favor. Emudecida, e talvez incomodada, Sophia acena e sai. Segundos depois, Heitor entra como um furacão, anunciando aos quatros ventos: — Vai me dizer que esse tempo todo aqui dentro estava fodendo com aquela ruiva gostosa? Daniel Müller sente sua cara queimar. Heitor desconhecia a palavra discrição.


♦♦♦

Como o combinado, Heitor fora até a empresa. Não que ele quisesse realmente trabalhar, mas era melhor o trabalho do que se submeter a um casamento ou perder a herança. Depois de gozar de Daniel sobre o irmão transar no escritório, já que esse tipo de ato não partiria de Daniel Müller, Heitor conheceu um pouco mais a empresa e o trabalho que realizaria ali. Ele, o segundo Müller com mais ações, tomaria o lugar de vice-presidente, desocupado há dois anos por conta da sua falta de comprometimento com a empresa. Falta essa que só fora resolvida diante um acordo e interesses pessoais. Após acertarem e ambos participarem da videoconferência de Daniel com o Canadá, os irmãos Müller foram almoçar juntos. Heitor começaria na semana seguinte, tendo tempo assim para organizar sua nova sala da vice-presidência, contratar uma secretária e se preparar psicologicamente para enfrentar o trabalho. Daniel voltou para a empresa e cumpriu com o restante de seus compromissos. O relógio já marcava quase dezoito horas quando bateram em sua porta e Sophia apareceu, um longo casado preto cobria por inteiro o vestido azul que trajava. — Ainda precisará de mim, senhor Müller? — Ainda não havia se acostumado a chamá-lo pelo primeiro nome. — Não, Sophia, obrigado. Já está indo embora? Hornet apenas acena em positivo. — Espere um segundo, te dou uma carona. — Não precisa se incomodar. — Você é minha noiva, o que as pessoas vão pensar sobre isso? — Ele se levanta, veste o paletó e desliga o computador. —Vamos, te deixo em casa. Daniel segura na mão de Sophia. Ela sente o calor de seus dedos subindo por sua mão, sua pele macia tocando a sua faz uma eletricidade diferente percorrer seu corpo. Os dedos grandes de Daniel envolvem os pequenos e finos de Sophia. Antes de olhar para seus olhos azuisesverdeados, Sophia mira suas mãos entrelaçadas e aperta a de Daniel levemente, enquanto caminham até a saída da empresa. Então, de repente, Sophia imagina Daniel e a tal ruiva juntos, em seu escritório. E uma vontade de gritar com ele, por ser um cretino idiota, é contida em seu âmago.


10 O JANTAR

N

ão demorou a chegar a quarta-feira, o dia marcado para reunirem os Hornet em um jantar que anunciaria o casamento de Sophia e Daniel.

Müller dispensou Sophia do dia de trabalho para que ela organizasse o jantar de noivado que aconteceria logo mais. Sophia preferiu contratar um buffet para a ocasião, e enquanto os funcionários faziam o trabalho de preparar os pratos para o jantar, saiu às ruas da cidade para comprar algo mais apresentável, quem sabe passar no cabeleireiro e também fazer as unhas. Pegou-se querendo não surpreender à família, mas a Daniel. Queria estar bonita para ele, para que ele corresse seus olhos nela assim como fez com a ruiva em seu escritório. Sim, ela reparou no olhar ele à garota de cabelos acobreados, e sentiu-se incomodada. Pestanejou rapidamente encarando uma vitrine. O que é que eu estou pensando? Afastou seus pensamentos e entrou na loja para escolher um traje para aquela noite. Depois de comprar uma vestimenta para a recepção, Sophia foi até a floricultura e encomendou algumas flores para enfeitar a sala. Seguiu para o cabeleireiro, e enquanto as pontas de suas madeixas eram cortadas, a manicure lhe fez as unhas. Ao final da tarde, Sophia retornou ao seu apartamento, onde já estava tudo organizado. Faltavam apenas algumas horas para o jantar, quando ela resolveu ligar para Daniel. Não sabia por que exatamente ligava para ele, mas surpreendeu-se ao desejar ouvir sua voz forte. — Oi, Sophia. — Já está vindo para cá? — Vou para minha casa tomar um banho primeiro. Seus pais já chegaram? — Ainda não. Não vai se atrasar, não é? Ele ri um pouco do outro lado da linha. — Não, não irei me atrasar. Até porque estou no horário. Ainda tenho umas duas horas. — Eu sei, mas gostaria que você estivesse aqui para recebê-los comigo. Há um silêncio repentino por parte de Daniel. Sua quietude incomoda Sophia, que acredita ter feito ou falado alguma bobagem. Ela o chama uma vez, mas não obtém resposta. O chama


novamente. — Estou aqui — ele responde, parecendo ter voltado de um mundo distante. — Você me ouviu? — Sim. Estarei aí para receber seus pais junto com você. Ela sorri fracamente. Há uma pequena curiosidade em saber por que Daniel ficou mudo tão de repente pairando no ar. — Te espero. — Ela desliga, e morde os lábios encarando o pacote de roupa que comprou. Então, decide se arrumar.

♦♦♦

Daniel saiu da empresa mais cedo. Primeiro porque precisava ir para casa e tomar um banho antes de ir até o apartamento de Sophia para o jantar de noivado. Segundo, porque um noivado sem alianças, não era um noivado. Ele não era muito bom para escolher joias, muito menos uma aliança de casamento, por isso, passou na primeira loja que encontrou. Entrou e solicitou à atendente que lhe mostrasse as opções que tinha. Enquanto a funcionária da relojoaria lhe explicava os modelos que estavam postos à sua frente, o celular toca, e reconhecendo o número de Sophia na tela, pede um minuto à prestativa funcionária para atender à chamada, se afastando alguns metros: — Oi, Sophia. — Já está vindo para cá? — Vou para minha casa tomar um banho primeiro. Seus pais já chegaram? — Responde, e aproveita o instante para olhar a loja ao seu redor. — Ainda não. Não vai se atrasar, não é? Subitamente, Daniel olhou no relógio, assustado e acreditando que já estava atrasado. Ao ver que tinha tempo de sobra, ele riu um pouco. Sophia provavelmente estava nervosa para o jantar. — Não, não irei me atrasar. Até porque estou no horário. Ainda tenho umas duas horas. — Eu sei, mas gostaria que você estivesse aqui para recebê-los comigo. Nesse momento, seus olhos pararam em um determinado local da loja, numa bela joia brilhante do outro lado do estabelecimento, reluzindo majestosamente atrás da vitrine. Disperso, caminha até ela para vê-la melhor. A joia é um colar de prata, nada muito suntuoso, a peça central


se molda em uma pequena esfera que brilha intensamente por conta do metal nobre. Apesar da simplicidade, o adorno atrai a atenção de Müller, e ele, por alguma razão, achou que ficaria lindo em Sophia. Cogitou comprá-lo para dar-lhe de presente. Divagou por um momento, quando a ouviu chamar seu nome duas vezes. — Estou aqui — Você me ouviu? — Sim. Estarei aí para receber seus pais junto com você. — Te espero — ela responde e desliga. Daniel guarda o celular e se vira para a funcionária. — Vou querer este colar — solicita sem nem mesmo pensar duas vezes.

♦♦♦

Depois que comprou as alianças e o colar, Daniel seguiu direto para sua casa, tomou um banho e arrumou-se. Para a ocasião, vestiu uma camisa branca e gravata azul marinho listrado em branco. Pôs um colete preto, e por cima jogou o paletó. Alinhou a calça do conjunto e vestiu um sapato também preto. Arrumou os cabelos louros, espatifando-os um pouco e fixando-os com gel. Passou uma colônia e ajeitou o paletó no corpo, olhando-se no espelho. Agarrou as alianças e o colar que comprou e saiu pelo corredor em direção ao quarto de Heitor. Ao se aproximar da porta, ouviu gemidos. Estreitou os olhos e se aproximou mais, quando ouviu uma voz feminina: “Oh, Heitor, eu vou gozar”. Daniel rolou os olhos. Não se importava se o irmão estava ou não acompanhado, iria bater à porta do mesmo jeito. E assim o fez. — Heitor — chamou-o dando uma leve batida na porta. — Que porra você quer, Daniel? Não vê que estou ocupado? — O irmão grita de dentro do quarto, entre gemidos. — É, eu sei que está ocupado. Só quero te lembrar do seu compromisso comigo dentro de pouco. Vou te passar o endereço de Sophia por SMS. Compareça! — Exigiu e virou-se, não esperando Heitor responder. Daniel dirigiu até o apartamento de Sophia. Não sabia se estava ansioso, nervoso ou qualquer coisa do gênero. Ele iria oficializar um noivado de mentira, e aquilo parecia ser pior do que se estivesse, de fato, se casando. Ao chegar, tocou a campainha e esperou ser atendido. Quando Sophia abriu a porta, ele praguejou-se mentalmente: ela estava deslumbrante, e seu corpo respondeu à beleza diante de seus olhos.


Os olhos de Daniel passearam rapidamente por Sophia, e, interiormente, sentiu-se estremecer por sua beleza. Ela estava linda. Trajava um vestido salmão sem alças, que batia acima dos joelhos, com um charmoso cinto a lhe prender a cintura, uma jaqueta de couro preta, meia-calça e sapato de salto estilo boneca, ambos pretos. Os cabelos foram presos pela metade, formando um elegante topete no alto de sua cabeça; alguns fios rebeldes estavam soltos, o que a deixava sexy. A maquiagem era leve e ressaltava seus olhos verdes. Ao vê-lo, Sophia abriu um pequeno sorriso e se aproximou para lhe cumprimentar com um beijo no rosto. Seu perfume adocicado de baunilha o extasiou, e ele retribuiu o cumprimento, tentando afastar seus pensamentos impuros da cabeça. — Está deslumbrante, senhorita Hornet — elogia a analisando rapidamente. Sophia sorri e também o avalia. — Digo o mesmo, senhor Müller. Adorei o colete. — Bom humor exala de sua voz, e os dois riem brevemente antes de, finalmente, Sophia convidá-lo para entrar. — A que horas seus pais chegam? — Dentro de uma meia hora. Sente-se — ela indica o sofá. Os dois se sentam um ao lado do outro. Daniel se sente incomodado com a gravata e tenta ajeitá-la, resmungando entre sussurros. Sophia repara em sua dificuldade e presta ajuda, para a surpresa de Daniel. — Espera, eu te ajudo. Seus pequenos e delicados dedos se movimentam com graça, roçando vez ou outra em seu peito, enquanto a Hornet segue refazendo e ajeitando o nó da mini forca, como Daniel gosta de apelidar o apetrecho. Ele permite que seus olhos se fixem na loura, a observando com atenção, depois, os corre para seus graciosos dedos ao sentir o toque macio em sua pele. Ao terminar, eles se olham por um momento, e sem perceberem um sorri para o outro. Tão próximo dela, Daniel repara como seus olhos verdes são grandes e brilhantes, e em contraste com sua pele branca e o cabelo amarelo chamam a atenção de qualquer um. Sua boca naturalmente rosada e seu porte pequeno, perto de 1,63 metros, deixam-na atraente a quem quer que seja. — Obrigado — agradece quebrando o momento. — Não é nada. Há um pequeno momento de silêncio entre os dois. Sophia olha para o chão e estrala os dedos, não sabendo como agir ou que lhe dizer. Ela consegue sentir o perfume masculino e forte de Daniel impregnado no ar, o que a faz sorrir brevemente, recordando-se de outros momentos e ocasiões que ele havia usado a mesma colônia. Daniel retira o celular do bolso e desliza a tela, mesmo que não abra aplicativo algum, ele simplesmente vai passando a tela, ocupando sua cabeça, também não sabendo como agir


enquanto espera pela família de Sophia. Sem esperar, Sophia o puxa pelos punhos e o encaminha pelo apartamento para lhe mostrar como tudo estava ajeitado para o noivado. Um modo de ter o que fazer até seus pais chegarem. Mostrou-lhe a mesa elegantemente posta, os arranjos de flores espalhados pela sala, o cheiro da comida pairando no ar, as músicas que ela selecionou para a ocasião e que tocavam ao fundo em um volume agradável. — Está perfeito, Sophia — Daniel elogia, voltando ao sofá. Sentando-se a seu lado, ela concorda com um maneio de cabeça. Só espera que os pais achem o mesmo. — E sua mãe? — Ela pergunta de repente. Durante aqueles quatro meses em que conhecia Müller sabia muito pouco sobre ele, apenas que os pais já haviam falecido. — Ela morreu quando eu tinha 15 anos. — Responde e desvia o olhar, como se quisesse mudar de assunto. — Eu não sei quase nada sobre você. Quer conversar sobre isso? Seria estranho se alguém me perguntasse algo sobre sua família e eu não soubesse responder. Ele acena e concorda. Daniel conta um pouco sobre sua família e de como eles chegaram ao Brasil. A Swiss Chocolate havia começado nos fundos do quintal dos bisavôs de Daniel, no final do século 19. O chocolate bem-feito pelas mãos de seus antepassados fizera sucesso entre a comunidade em que eles moravam, no norte da Suíça. A empresa pouco a pouco foi se expandindo, até que em 1936, já de renome na Suíça, o avô de Daniel conseguiu expandir os negócios além das fronteiras de seu país de origem, fazendo a marca chegar em terras brasileiras. Tradicionalmente, Simon também tomou a frente dos negócios da família, dando continuidade ao trabalho iniciado. Em 1975, após uma crise na filial brasileira, e já à frente da empresa, Simon vem ao Brasil para resolver pessoalmente a questão. Algumas semanas depois, visitando a fábrica, ele se depara com uma das funcionárias pelo corredor. De cabelos alourados e olhos claros, Simon se apaixona pela supervisora de produção, Laura Ortega. Os dois se envolvem, e um ano depois se casam. Em 1985, em uma viagem de férias, e já grávida de Daniel, Laura entra em trabalho de parto e seu primogênito nasce na Suíça. — Então você é suíço? — Questiona Sophia após ouvir um pouco da história. — Tenho nacionalidade dupla, na verdade. Mas vivo no Brasil desde que tinha um ano e meio de idade. Heitor nasceu aqui, mas por causa do nosso pai, também tem as duas nacionalidades. — E como sua mãe morreu? — Segue perguntando, a curiosidade sendo maior que ela


própria. E ao sentir a delicadeza do assunto, se remexe no sofá, incomodada e arrependida em fazer uma pergunta tão íntima e delicada. Daniel esfrega os joelhos antes de responder. — Ela vinha tendo muitos problemas de saúde, mas o ápice se deu quando descobriu um câncer de mama. Já estava avançado e as sessões de quimioterapia somente a enfraqueciam. Ela parou com os tratamentos porque não havia mais que nada a se fazer por ela — sua voz é meio embargada. — Dois meses depois que ela parou com o tratamento, faleceu. — Sinto muito — Sophia diz compadecida. — Tudo bem. São coisas da vida. — Sua voz é baixa. Por um pequeno momento, Sophia arrependeu-se em ter feito uma pergunta tão íntima e delicada ao chefe. Sentiu que era um assunto, mesmo de longa data, que feria Daniel. Afinal, era a morte da mãe – que ele perdeu aos 15 anos de idade. Também lhe faltava o pai, Simon. Perguntou-se se Heitor era sua única família. — Então, é apenas você e seu irmão? — Sim. Quero dizer, temos alguns primos e parentes distantes, mas meu laço familiar mais forte é com ele — sorri fraco e outra vez esfrega os joelhos. Sophia repara em suas mãos constantemente alisando os joelhos e deduz ser sinal de nervosismo. Só não soube explicar se era pelo assunto abordado ou por causa dos pais dela poderem chegar a qualquer momento. Quem sabe pelos dois motivos. Inconscientemente, levou suas mãos até as dele e as tocou, o que fez Daniel olhá-la e parar no mesmo momento com seu tique nervoso. Eles se olharam, mas Sophia não retesou suas mãos, nem ele se esquivou de seu toque. — Vai ficar tudo bem. — Disse baixo ainda lhe afagando as mãos sobre os joelhos. — Seja lá por que esteja nervoso — oferece um sorriso caloroso e só então percebe sua mão na dele. Cessa o toque bruscamente e desvia os olhos. Ela não nota, mas ele sorri pelo canto dos lábios, e interiormente sente-se mais tranquilo. Daniel pensa em algo para lhe dizer, mas a campainha toca, salvando-o. Sophia levanta rapidamente e se vira para ele: — Como estou? — A loura parece nervosa. Daniel a avalia novamente. Ele diria que linda era pouco, que não encontraria adjetivos suficientes para descrevê-la, para lhe dizer como estava. — Linda… — diz finalmente, e em retribuição recebe um sorriso fraco. Daniel se levanta e se põe a seu lado, alinhando o terno. Suas mãos quase se tocam enquanto caminham até a porta. Sophia abre a porta para divisar sua família do outro lado. Eva é a primeira a saltar em seu


pescoço para abraçá-la fortemente. Daniel acompanha a cena um pouco atordoado e desconfortável. Enquanto Eva mata a saudade da filha, ele desvia seus olhos para os demais no lado de fora: Sebastian, Eduardo e Isabela, e os cumprimenta com um aceno de cabeça breve. O pai dela passa por esposa e filha e vem em seu encontro, lhe estendendo a mão. — Daniel Müller, prazer em conhecê-lo. Sou Sebastian Hornet, pai de Sophia. Daniel retribui o aperto de mão caloroso e sorri. — Senhor Hornet, o prazer é todo meu. — Ah, por favor, sem formalidades, me chame de Sebastian. Daniel acena e não sabe qual o próximo passo a dar. Mas Sophia o livra deste peso quando ela o chama e lhe apresenta sua mãe. — Encantado, senhora Hornet — ele diz segurando sua mão e a beijando com respeito. — Agora já sei por que Sophia é tão linda. Vem de sangue — elogia alternando o olhar entre Eva e Sebastian. De fato, os pais de Sophia são de uma beleza de chamar a atenção. Sebastian é um homem de quase cinquenta anos, mas conservado. Seus olhos são de um azul intenso e profundo, que chamam a atenção mesmo vistos de longe, cabelos curtos e negros, queixo quadrado e sem barba, alto e magro, e, de certa forma, elegante. Já Eva, é uma mulher graciosa, de cabelos alourados e em corte Chanel, olhos castanhos claros e o rosto triangular. Seu sorriso é acolhedor, e mesmo aos 47 anos, conservava-se jovem, não tendo sobrepeso ou sinais de envelhecimento. Sophia e Eva poderiam facilmente ser confundidas como irmãs. — Espero receber esse mesmo elogio — uma segunda voz masculina soa atrás dele, Daniel se vira para encarar os olhos verdes-claros de Eduardo, que tem um sorriso amigável e irônico nos lábios. Antes que Daniel possa responder alguma coisa, Sophia corre até o irmão para abraçá-lo. — Senti saudades, pirralha — Eduardo pronuncia, apertando-a forte contra seu peito, após bagunçar seus cabelos. — Eu também, Dudu — murmura ainda envolvida no abraço de Eduardo. Afastando-se um pouco, ela o analisa de cima a baixo. Nota que, em alguns meses, o irmão mudara um pouco o visual que costumava usar antes de sair de casa. Levemente confusa, arqueia uma sobrancelha, e o interroga: — Está deixando o cabelo crescer? As madeixas de Eduardo são de um tom louro escuro, e quando compridos se formam cachos. Seus fios estavam em um volume médio e seus caracóis já eram bem notáveis. — Cecília gosta — ele dá de ombros e beija-a na bochecha. — Quem é Cecília? — Alguém com quem estou saindo. — Diz logo que está dormindo com ela — a voz de Isabela se faz presente e todos


arregalam os olhos. Assim como os irmãos, Isabela tem os cabelos amarelos, mas não escuros como os de Eduardo, mas claro como os de Sophia. Seus olhos são parecidos com os de Sebastian, mas numa tonalidade menos intensa. Eduardo e Sophia a advertem em uníssono, e segundos depois estão rindo, menos Daniel, que ainda está desconfortável com a presença de todos. Sophia corre abraçar a irmã caçula, esta que, prontamente, começa lhe questionar sobre tudo e não para de falar por um minuto. — Isabela, calma. — Sophia interfere. — Vamos respirar e me deixe apresentá-los. — Com um pequeno sorriso, se vira para Daniel, que ficara quieto desde que falou com Sebastian, e faz as devidas apresentações. — Daniel, meus irmãos Eduardo e Isabela, Dudu e Isa, meu noivo Daniel. Seu noivo cumprimenta a irmã mais nova com um abraço e um beijo no rosto, e não contém um pequeno riso quando ela diz: “Soph do céu, onde achou esse homem lindo? E além de tudo dono de uma fábrica de chocolates! Encontrou o caminho para o Éden Celestial?”. Isabela não dá atenção às advertências dos pais sobre seu comentário, e ri. Daniel e Eduardo trocam aperto de mãos e “Muito prazer”. Finalmente, Sophia encara o pai, ainda cabisbaixa. Respira fundo e mesmo hesitante o abraça. — Senti sua falta — ela ouve a voz forte masculina soar ao pé do seu ouvido. E de alguma forma, Sophia acreditou em suas palavras. Havia sinceridade nelas. — Eu também — apenas diz, e cessa o abraço. Olha para todos e suspira. — Vamos entrar. — Convida, e todos entram e se acomodam no sofá. Eva e Sebastian sentam um próximo ao outro, com Isabela logo ao lado. No outro sofá, Eduardo e Daniel, o que não sobra espaço para Sophia, que se prontifica em buscar uma cadeira, mas Daniel a interrompe, levantando-se e dando lugar a ela. Sophia agradece e se acomoda, tendo Daniel sentando-se no braço do sofá, logo a seu lado. Ele curva um pouco o corpo e joga os braços a sua volta. Por uns vinte minutos, os presentes conversam entre si, Sophia conta como fora sua vida nos últimos meses e um pouco de como se “envolveu” com Daniel. Após ouvir inúmeras reclamações do irmão e da mãe por ela, praticamente, ter sumido por cinco meses e quase não ter dado notícias, o assunto logo é deixado de lado para abordarem outro, Daniel e Sebastian falam um pouco sobre negócios, mas não tocam no assunto sobre a falência da ConstruHornet, até aquele momento. — Sophia me disse que estão passando por dificuldades financeiras.


Sebastian acena brevemente e entrelaça as mãos. — Sim. Graças a Eduardo e Isabela não estamos passando fome. — Profere com sinceridade e olha para os filhos, que estão sorrindo fracamente. — Eu fiz o que pude para nos salvar, mas tudo em vão. — Arranjou até um casamento para Sophia — Isabela interfere. — Devo dizer que nem eu, mamãe e Eduardo sabíamos que ela se casaria pelo dinheiro? — Adiciona. A tensão na sala se faz presente e Daniel se remexe no sofá. Ficou imaginando o que eles pensariam se soubessem que a filha e irmã deles continuaria a se casar pelo dinheiro, ainda pensando em salvar a família, mas com a única diferença que não precisaria cumprir seu papel de esposa. — Não queria preocupar vocês — se defende Sebastian, tentando manter a voz calma. — Só ficamos sabendo da falência quando Sophia largou Miguel no altar. — Isabela continua como se o assunto não incomodasse a ninguém. — Mas não passaríamos por nada disso se não fossem as apostas… — Já chega, Isa — Sophia pede, e a irmã dá de ombros, calando-se em seguida. Sebastian pensa em rebater e justificar, de algum modo, as apostas em cavalos que levara a família à beira da ruína. Mas o olhar que sua filha do meio lhe lançou, soube no exato momento que não deveria falar sobre nada daquilo. Afinal, era seu jantar de noivado. Resolveu calar-se por respeito à Sophia e Daniel. Não queria estragar a noite com assuntos desagradáveis. Por fim, Sophia os convida para jantarem e todos se sentam à mesa posta fartamente. Enquanto vão se servindo, a conversa continua fluindo e, dessa vez, Daniel troca mais palavras com Eva Hornet e ouve dela desejos de felicidade para o casamento. Ele conta um pouco sobre sua família e do falecimento dos pais quando Eduardo lhe questiona sobre eles, por não estarem presentes. — Sophia? — Isabela a chama, e a irmã lhe dá total atenção — Você está grávida? — Dispara de repente. Simultaneamente Eduardo espirra todo o vinho de sua boca, Daniel se engasga com um pedaço de peixe, Eva deixa os talheres cair sobre a mesa e Sebastian encara filha e genro com a colher no meio do caminho. Sophia arregala os olhos diante da pergunta indiscreta da irmã e ajuda Daniel a se desengasgar sorvendo água em seu copo e batendo em suas costas levemente. Após perguntar se ele estava bem e receber uma resposta positiva, volta sua atenção à irmã: — Não, Isabela! De onde tirou essa maluquice? — Nada, é que se conhecem há tão pouco e já vão se casar, assim, do dia para noite. Normalmente isso acontece quando a mulher está grávida. Ainda mais que você sabe como papai é totalmente conservador e tradicional. — Eu posso garantir que ela não está grávida… — Daniel se recupera e limpa os lábios


molhados. Sebastian ainda os encara, talvez aturdido com a notícia de que a filha esteja grávida, e por isso prestes a se casar. De fato, ele é um homem de costumes tradicionais e conservado, Eva tinha sido sua primeira mulher, em todos os aspectos, e ele a respeitava ao máximo. Seu único defeito era mesmo o vício em jogos e nunca lhe agradou a imoralidade sexual, nem mesmo com Eduardo. Claro que Sebastian sabia que nenhum de seus filhos tinham se reservado para seus companheiros, e isso não o incomodava, desde que não tivesse conhecimentos das aventuras sexuais deles. Porém, se, realmente, Sophia estivesse grávida, e mesmo que Daniel assumisse ela e o filho, para o Hornet seria inaceitável e, talvez, a convivência com o genro e com a filha se tornaria pesada. — Seria legal se estivesse… — Isabela dá de ombros e volta a comer. — Mas eu não estou — assegura Sophia e olha para o pai, tentando convencê-lo de que ela não engravidou fora do casamento. — Nos amamos e por isso vamos nos casar — e acaricia a mão de Daniel, procurando que ele confirme o que acabara de dizer. — Não se preocupem, senhor e senhora Hornet. Sou um homem de palavras e honrado, garanto que a filha de vocês não está grávida. O único motivo por qual estamos nos casando é o amor. Sebastian apenas acena, ainda com a cara enrugada. Como que para salvá-los da tensão do momento, a campainha soa e, ainda atordoada, Sophia se levanta e atende a porta. — Cunhada! — Heitor grita e a abraça, o que a deixa ainda mais sem jeito. Ela retribui o abraço vagarosamente enquanto vê Daniel se aproximar, após pedir licença para se levantar da mesa. — Está atrasado, Heitor. — Adverte o irmão. — E você sabe muito bem por quê. — Sorri maliciosamente, e Daniel revira os olhos. Sophia pigarreia e segura no braço do cunhado o levando até a mesa. — Gente, esse é Heitor, irmão do Daniel. Heitor, esse são meus pais Eva e Sebastian e meus irmãos Isabela e Eduardo — novamente faz as apresentações, e enquanto Heitor cumprimenta a todos, põe um segundo lugar à mesa, frente a sua irmã e ao lado de Daniel. Sophia percebe quando Heitor e Isabela trocam olhares. Ela mira Daniel, que também parece ter percebido. — Por favor, não se meta com ela — Daniel cochicha em seu ouvido disfarçadamente. Heitor não a deixa de olhar, e Isabela, agora, olha para o próprio prato de comida. — Você sabe muito bem como eu gosto de me meter na vida das mulheres — sussurra de volta ainda com seus olhos azuis cravados na caçula dos Hornet. Daniel suspira e resolve não dizer mais nada. Não por enquanto. O lugar e a ocasião não são propícios. Mas pararia Heitor antes mesmo que ele começasse com seus jogos de sedução. A


última coisa que gostaria era que a irmã de Sophia se envolvesse com seu irmão, mulherengo e cretino, pois já previa que Isabela sairia magoada com Heitor, e, sabendo dos valores tradicionais e conservadores de Sebastian, conflitos entre eles e a família dos Hornet era iminente, coisa que Daniel não queria que acontecesse. O jantar continuou e a conversa entre eles fluiu naturalmente. De primeira, Daniel se simpatizou muito com Eva, que era graciosa, calma e compreensiva. Isabela continuava a tagarelar bobagens que vez ou outra os faziam rir. Eduardo era mais quieto e reservado e sua conversa era mais com Sophia. Mas Daniel não deixou de notar seu olhar possessivo em cima de Heitor. Com certeza, ele também notara a indiscrição de ambos. Rezava que Sebastian não tivesse percebido. — Vão querer sobremesa? — Sophia pergunta após o jantar, e todos confirmam. Está prestes a se levantar para buscar os doces, quando sua campainha toca novamente. Sem entender, busca por Daniel, esperando que ele dissesse que chamou outra pessoa, mas seu olhar denuncia estar tão confuso quanto ela. A porta é aberta apara que ela possa encarar um jovem de olhos verdes, cabelos louro escuro, quase castanho, barba rala e porte atlético. Ele está sorrindo de lado e corre seus olhos por ela. — Você está linda, Soph. No mesmo instante, Sophia empurra o recém-chegado para fora, indo junto, e, o encostando contra a parede, sussurra: — O que está fazendo aqui, Miguel?


11 CONFUSÃO iguel sorri, e parece não se importar com o modo como foi tratado pela ex-noiva. A verdade é que ele gostara da madeira que foi recebido. Sentiu as pequenas mãos femininas tocando seu peito e o empurrando contra a parede, o cheiro de seu hálito lhe invadiu o nariz – o que era algo bom para ele – e seu tradicional perfume adocicado de baunilha impregnado em sua pele exalava pelo ar.

M

Orleans olha diretamente para os grandes olhos verdes, tem um pequeno riso cínico nos lábios, enquanto sente o toque macio de Sophia, que parece não perceber suas mãos contra o peito largo masculino. — Isso são modos de me receber? — Responde finalmente, e leva suas mãos até as dela, as tocando. Ao sentir o toque de Miguel, por fim, Sophia se dá conta que o prensa contra a parede e que suas mãos repousam no tórax dele. Ela se afasta um pouco, passando a palma pelos cabelos. Respira fundo antes de soltar um suspiro exasperado. — Não vou perguntar de novo. O que está fazendo aqui? Miguel ajeita a gola da camisa e se desencosta de onde foi prensado. — Fiquei sabendo do seu jantar de noivado. Devo acrescentar que estou muito chateado por não ter sido convidado? — Como ficou sabendo? — Pergunta com uma pitada de raiva, ignorando-o. — Seu pai foi falar com o meu e acabou comentando. — Então, o senhor Luiz foi correndo lhe contar — deduz com desdém. — Meu pai não me disse nada. Eu quem ouvi a conversa por trás da porta. — Miguel se explica e abre um sorriso malicioso —Então, vai ou não me convidar para entrar? Sophia inspira fundo outra vez. Faz um exercício mental buscando pela paciência. Se seu apartamento não tivesse tão cheio de gente, ela o teria expulsado. Desde que Miguel soube onde estava morando, vinha sendo inconveniente demais. Já era a segunda vez que a procurava, e ela sentia que se não desse um basta logo nisso Miguel não pararia de procurá-la. E Sophia não queria mais se esconder ou fugir. A cidade, mesmo sendo a maior da América do Sul, não seria grande o suficiente para Guimarães, e, de todas as maneiras, ele a encontraria. Abria a boca para lhe falar, quando ouviu um timbre familiar soar pelo corredor e Daniel


surgir em seguida. — Sophia, por que está… — de súbito ele para e encara Miguel. A expressão de Daniel se fecha no mesmo instante e seus olhos vão de Miguel para sua noiva, que tem o semblante tenso. Somente com o olhar, quase exige uma explicação para a presença desagradável de seu ex. Novamente ex e “atual” se encaram, e é Daniel quem se pronuncia primeiro: — Por que está aqui? — Tenta controlar sua voz, e pensa por que é que está se esforçando para não transparecer sua raiva. Questiona-se ainda mais por que diabos está com raiva de Miguel. Ele não tem motivo nenhum para cultivar tal sentimento, somente que o ex-noivo de Sophia é um total inconveniente. — Ah, só vim desejar os parabéns ao casal de pombinhos. — E sorri torto. Daniel agarra Sophia pela cintura e a puxa para si. Ela fica totalmente surpresa e seu corpo dá um leve salto com o susto de ter seu dorso colidido com o de Müller. As mãos dele envolvem sua cintura, mas a atenção ainda continua em Miguel. — Agradecemos o seu desejo. Agora, pode ir embora — diz com os dentes cerrados. Miguel não se abala à intimidação do outro e continua a encará-lo. — Achei que vocês fossem mais educados com as visitas que recebem. — Resmunga com um falso desapontamento. —Tudo bem, Miguel. Entre! — Sophia cede, abruptamente, e ele abre um largo sorriso de satisfação. Em contrapartida, recebe um olhar furioso de Daniel, que entra novamente pisando firme e deixando os dois sozinhos no lado de fora. Sophia bufa e o metralha com seus olhos verdes, vira-se bruscamente e também entra. Ao passar pela porta, pela terceira vez, respira fundo tentando controlar sua raiva. Guimarães infernizaria sua vida até quando? Os olhos de todos se estalam quando divisam Miguel entrar logo atrás. — Olá… — cumprimenta tão naturalmente como se sua presença fosse esperada. Os presentes estão surpresos com a visita repentina dele, e Sophia sente todos aqueles pares de olhos em cima dela, quase que exigindo uma explicação de sua parte. — Miguel está um pouco… Muito atrasado. — Sua voz treme enquanto fala. Se vira para ele e tenta por um sorriso no rosto. — Mas fico feliz que tenha vindo e esteja superando o acontecido. — Dizem que o tempo é o remédio para tudo, não é? — E exibe um riso convencido nos lábios.


Sophia se segura para não se irritar e força outro sorriso, querendo disfarçar seu desagrado em tê-lo ali. Acomoda-o na mesa, arrumando outra cadeira. Enquanto isso, Miguel cumprimenta os familiares dela e ignora todas as vezes que Daniel exaspera impaciente, e quando ele cochicha algo com seu irmão, mais para irritar do que por educação, Miguel se apresenta a Heitor, que parece também não simpatizar com ele. O que não lhe importa muito. — O jantar já foi servido. — Sophia o informa. — Tudo bem se comer somente a sobremesa? — Claro — ele assente enquanto Sophia se retira para buscar a sobremesa, juntamente com Eva que se prontifica a ajudá-la. — Aliás, me desculpem pelo atraso, estava em um canteiro de obras que estou acompanhando. A arquiteta solicitou uma reunião fora de hora. Tem um rosto bonito, mas fala demais — comenta tentando se enturmar. De volta à mesa, e após pôr travessas, taças e talheres, Sophia repara em Daniel, que está com um semblante enrugado. Sua mão tenta alcançar a dele para acalmá-lo, mas ele se esquiva bruscamente e toma um pouco da sua água, sem encará-la. Culpa-se por ter permitido que Miguel ficasse. De início era para mostrar a ele como o seu noivado ia de vento em popa, talvez fingir algumas carícias com Daniel e fazer ciúmes, elogiando seu noivo, ou mentir dizendo coisas que ele já fez a ela; e Miguel, não. Ponderou que, se seu ex percebesse que era inútil continuar a procurá-la, pararia de atormentar sua vida. Mas, pelo jeito, seu plano surtiu efeito contrário, e Daniel havia ficado irritado. O porquê ela não sabia. Seria compreensível se fossem noivos de verdade, mas não eram. Tentou pôr-se no lugar dele imaginando se também ficaria irritada caso a tal Melissa aparecesse ali. Enquanto divaga por seus pensamentos, todos ao redor da mesa vão se servindo, e Miguel interage com seus familiares. Ela só volta à realidade quando Eduardo joga o caroço de alguma coisa nela e emiti um psiu. Sophia encontra os olhos claros aturdidos. — Que ele faz aqui? — Sussurra para a irmã mais nova Sophia vira as palmas para cima e levanta os ombros. Vê o irmão suspirar e balançar a cabeça negativamente. — Como está indo a empresa, Miguel? — Sebastian puxa assunto. — Estão ótimos, senhor Hornet. Inclusive acabamos de iniciar uma obra na empresa do querido Daniel Müller — responde amigavelmente e encara Müller, que continua com a expressão fechada. Os dois se olham, mas Daniel continua sem dizer nada. Novamente Sophia tenta se aproximar, e outra vez ele se desvia. Segue comendo sua sobremesa, uma deliciosa salada de frutas, e em silêncio. Todos percebem que ele não está confortável com a presença de Miguel. — Isso é ótimo — Sebastian continua. — Acredito que para uma obra numa empresa tão


importante como a do Daniel, seja seu próprio pai o engenheiro responsável. Se eu bem conheço aquele velho Guimarães. — Na verdade, eu que fiquei responsável pela obra da Swiss. — Alega orgulhosamente, e no mesmo instante sente os olhares de Sophia e Daniel sobre ele. Os de Daniel queimam de raiva, mesmo que ele não saiba explicar por que, e os de Sophia, de surpresa. Se Miguel era o engenheiro responsável pelas obras da Swiss, isso significaria que ele estaria mais tempo por perto. — É uma grande responsabilidade. — Sebastian apenas diz. — Então, para quando é que vocês marcaram a data do casamento? — Eva desvia o assunto. — Ainda não marcamos. Iremos ao cartório amanhã, não é, querido? — Pela terceira vez ela tenta acariciar a mão dele, mas Daniel continua a recusar seu toque. — Sim. Marcaremos para o mais breve possível — sua voz é meio seca. — Já estou até imaginando como a cerimônia será magnífica — Isabela se pronuncia, sonhando acordada, e Eduardo lhe cutuca as costelas rindo em seguida. Eles têm uma breve discussão bem-humorada até Sophia se interpor. — Será uma cerimônia simples. Nada muito extravagante. — Aah, Soph! — Ela lamenta — Achei que seria melhor que o seu casamento com o Mi… — Isabela se cala abruptamente quando percebe o que ia falando. Sophia pigarreia e olha Miguel, que está com seus olhos baixos, talvez lembrando do momento que foi abandonado no altar, na frente de metade da cidade. — Enfim, você planejou um casamento que você queria adiar, por que não pode planejar um que vai se casar com o homem da sua vida? — A caçula Hornet continua, e dá de ombros. Uma pequena tensão cresce na sala e Miguel se remexe no seu lugar. Daniel tem um singelo sorriso nos lábios, talvez satisfeito pela tensão nos punhos do ex dela. Ele não entende o porquê dessa rivalidade com Miguel. Na verdade, deveria estar sentindo pena do pobre coitado. Daniel não imagina, e nem quer imaginar, como deve ser a sensação de ser abandonado no altar. Mas por algum motivo ele se sente vitorioso em apenas ver o desconforto de Guimarães ante as palavras de Isabela. — Mas eu quero uma cerimônia simples, Isa — reforça Sophia. Ela não queria dizer na frente de Miguel que planejara seu majestoso casamento com ele apenas por ter um pretexto para adiar a data o quanto fosse possível. Já seu casamento de conveniência com Müller seria simples porque não queria dar gastos desnecessários com um casamento que não duraria um ano. E também porque o casamento dos sonhos dela seria com o homem por quem realmente estivesse apaixonada. — Tudo bem. O casamento é seu, faça como quiser. — Isabela diz levantando as mãos em sinal de rendição.


Sophia suspira, e o silêncio se faz presente outra vez. Subitamente ela sente o calor de uma mão tocando as suas. Olha Daniel que tem um pequeno sorriso nos lábios; sorri de volta sem se esquivar de seu toque. É então que ele quebra o silêncio, levantando-se e retirando do bolso interno do paletó uma caixinha. — Senhor Hornet, — profere olhando para Sebastian — me concede a mão de sua filha? Sebastian acena com um largo sorriso, e enquanto Daniel tira as alianças, todos acompanham o momento. Ele segura as delicadas mãos de Sophia e coloca a aliança em seu anelar direito. Surpreendida pelo fato de Daniel ter se importado com as alianças, ela toma a dele em mãos para deslizá-la pelo seu anelar. Sorriem um para o outro e Sophia coloca uma mecha de cabelo atrás da orelha. Nenhum dos dois sabe o que fazer, e mesmo que relutantes, se beijam brevemente, encenando o noivado. Daniel sente os lábios finos dela nos seus, um calor percorre seu corpo. Os presentes aplaudem, Miguel com menos animação que os demais, e eles cessam o beijo. Sophia está levemente corada e Daniel não sabe como agir. — Vamos fazer um brinde aos noivos — Heitor diz com um sorriso irônico nos lábios, se servindo de vinho e levantando a taça. — Heitor, tem champanhe, seu idiota — Daniel rebate, e todos gargalham. Sophia busca as taças e eles fazem o brinde. — Ao casal do ano. — Miguel exprime levantando sua taça. — E ao Daniel, para que ele não seja abandonado. E diante disso, todos ficam calados.

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Daniel não se importou com seus modos. Nem com a família de Sophia presente ali. Ele estava dominado pela raiva e por isso não pensou direito. Quando se deu conta, suas mãos já agarravam o colarinho de Miguel e iam de encontro à face dele. O impacto de seu punho fechado no rosto do atrevido Miguel o fez cair sobre a mesa, e todos se assustaram. A mesa desliza pelo piso com o impacto do corpo atlético de Orleans e ele desaba no chão, batendo fortemente as costas. Daniel avançava outra vez contra seu oponente, mas este já havia se levantado, e obstruiu o golpe que acertaria seu nariz. Torceu o punho de Daniel e acertou um soco contra seu olho, que ficou roxo quase que no mesmo instante. Sebastian segurou Miguel enquanto Heitor impediu o irmão de continuar com as agressões. Mas Daniel estava possesso e se desvencilhou facilmente, empurrando quem o segurava. Com os cotovelos, e cego pela fúria, Miguel acertou Sebastian e foi de encontro a Müller, que também


vinha até ele. Isabela, Sophia e Eva só faziam gritar, pedindo para que os dois parassem com a briga. Mas em vão. Segundos depois, Daniel apertava o pescoço de Miguel, este que revidou com uma joelhada na sua boca do estômago e deu um forte empurrão que o jogou sobre um armário de portas de vidro com algumas bebidas. O móvel veio ao chão e as garrafas se espatifaram. Vidros esvoaçaram para todos os lados e o piso foi manchado com os etílicos. Apressadamente, Eduardo e Heitor correram para dominar Miguel, cada um segurando em um braço, mesmo com ele a esbravejar “me soltem”. Daniel viu seu inimigo preso e incapaz, levantou-se tomado pela ira e somente se enxergava socando Miguel. Avançava decididamente, quando sentiu mãos tentando segurá-lo. Sem se dar conta, desvencilhou-se com um forte soco, dado com os cotovelos, contra quem o detinha. O golpe acertou o pequeno queixo de Sophia, que cortou a língua quando seus dentes a colidiram. Caiu sentada no meio da confusão enquanto ainda via Daniel furiosamente ir em direção a Miguel para agredi-lo. Ele parecia dominado e não ouvia nem a Heitor nem a Eduardo dizendo-lhe para ter calma. Subitamente, Daniel sentiu uma mão forte agarrar a gola de sua camisa e empurrá-lo fortemente contra a parede. Suas costas colidiram contra o cimento e ele teve quase certeza que seu pulmão sairia pela boca. Encarou os olhos azuis e furiosos de Sebastian. Voltou a si quando o ouviu gritar estridentemente: — Você machucou minha filha, seu grande filho da puta!

♦♦♦

— Acho melhor você ir embora — Eduardo disse a Miguel enquanto sua mãe ajudava Sophia a se levantar, perguntando se ela estava bem. A confusão que acontecera ali em sua sala a deixou com a cabeça rodando. Heitor e Eduardo seguravam Miguel, que ainda tinha sua íris verde cheia de raiva. Sebastian prensava Daniel contra a parede, e havia cacos de vidro e bagunça jogados por todos os cantos. — Pai, foi um acidente… — Sophia tenta amenizar a situação de Daniel, sentindo sua língua arder pelo corte. — Ele jamais faria isso em sã consciência. Sebastian ouve a filha e solta Daniel abruptamente, o encarando com uma expressão nada amigável. Para o Hornet não importa se foi ou não por querer. Ele machucou sua filha e era o suficiente para ficar nervoso. Sem esperar por um segundo, vira-se para Miguel: — Vá embora, Miguel, já causou muita confusão! — Exige com sua voz dura.


Guimarães olha para a mulher que um dia foi sua noiva, e que agora tem Daniel por perto pedindo desculpas pelo que fez. Respira fundo, alinha o blazer e sai em seguida pisando firme. — Sophia, me desculpe. Eu não queria te machucar. Esse Miguel me tirou do sério! — Ele pede tocando seu queixo e levantando-o para analisar. — Está tudo bem, Daniel. Sei que foi sem querer. — Tem certeza? Precisa de um pronto atendimento? Eu levo você. — Não há necessidade, Daniel, já disse. Eu estou bem. Müller acena e suspira, ainda sentindo a adrenalina correr por suas veias. Todos na sala continuam atordoados com a briga deles. — Por favor, me desculpem por esse meu comportamento. Normalmente eu sou calmo. Não sei o que aconteceu comigo. Eu realmente não queria causar essa confusão. — Faz uma tentativa de se redimir. A família de Sophia apenas acena brevemente, e Sebastian é o único que mudou sua expressão de atordoado para furioso. Mesmo que soubesse que o que aconteceu foi um acidente, ainda estava nervoso com o ocorrido. Sentiu as mãos de Eva a afagar seus ombros, e aos poucos foi se acalmando. — Tem certeza de que está bem? — Sebastian pergunta à filha. Ela confirma novamente e diz apenas que cortou a língua. Daniel continua sem jeito por tê-la machucado, ainda que tenha sido sem querer. Praguejou-se mentalmente por isso. E tudo por culpa do imbecil do Miguel! Já com todos os ânimos mais calmos, a imagem de ele avançando sobre o Guimarães reprisa em sua mente, e Daniel quase pode sentir a ira se concentrar em seus punhos. Raiva essa que não entende por que está sentindo. Inspira e expira fundo para manter a calma. — Pelo jeito, o jantar acabou. — Heitor diz. — Acho que é minha deixa para ir embora. — É melhor nós irmos também — Eduardo olha para os pais, que assentem com um maneio de cabeça. — Você vem, Daniel? — Heitor pergunta. — Não. Quero ficar para limpar a bagunça que causei. — Não precisa se preocupar, Daniel. Pode ir, se quiser. — Eu quero ficar. — Afirma convicto. Eles se despedem, e Daniel se desculpa mais uma dúzia de vezes antes de os Hornet e seu irmão irem embora de vez. Daniel se volta para Sophia, que já está agachada juntando os cacos da louça quebrada. Ele se aproxima a passos cautelosos e se ajoelha em sua frente, segurando os pulsos delicados dela. Seus olhares se encontram e os olhos verdes dela estão marejados.


— Você está chorando… — murmura ao notar os olhos úmidos. Ela funga e limpa rapidamente as lágrimas teimosas que descem, balançando a cabeça. Subitamente, ela sente as mãos de Daniel levantá-la e encaminhá-la até o sofá. Eles se sentam, mas Sophia está com o olhar cabisbaixo, negando-se a mirar Müller. — Me desculpe, Sophia. Eu juro que não queria ter te machucado. — Ele toca o queixo dela e levanta seu olhar. Os olhos estão vermelhos, e ele pode perceber que Sophia está se segurando. Abruptamente, ela despenca em pranto e se abraça a Daniel, que, hesitante, a envolve e afaga seus cabelos, tentando acalmá-la. A cena de vê-la chorando aperta seu coração; e ele não sabe que reação ter. — A culpa não é sua. — Declara em seus ombros, ainda lacrimejando. — Eu não deveria ter permitido que Miguel ficasse. Sou uma idiota. Eu estraguei tudo, como sempre faço — lamenta-se, e molha o paletó de Daniel com suas lágrimas. Ele a afasta e segura seu pequeno rosto, enxugando as suas lágrimas com os polegares. — Não diga isso. A culpa é dele que tem tentado de tudo para nos provocar — sussurra para acalmá-la. Nem percebe quando a traz novamente para seus ombros e acaricia suas madeixas, ao passo que sente o coração dela voltando a bater em seu ritmo normal. A sensação que percorre pelo corpo de ambos é quase inexplicável. Sophia sente os grandes, fortes e calorosos braços de Daniel a contorná-la. Suas mãos acarinhando seus cabelos e seu corpo tão próximo ao do dela, a faz sentir-se segura. Daniel era como um refúgio, um porto-seguro, uma muralha que a protegeria de todo e qualquer mal. Para Daniel, vê-la frágil daquela maneira, entre seus braços, agarrado ao seu corpo, despertava nele um sentimento de proteção. Não queria que mais ninguém fizesse mal a ela. Ao mesmo tempo em que ter a pele de macia feminina resvalando pela sua o deixava em êxtase e confuso. Por que se importava tanto com o fato de Miguel provocá-los? Deveria apenas ter ignorado os comentários fúteis do Guimarães. Mas algo dentro do seu âmago gritou alto e a vontade de agredir o inconveniente Miguel o dominou, e ele acabou agindo sem pensar. — Não está mesmo chateado comigo? — Sophia o despertou de seus pensamentos. Ela continuava com a cabeça repousada em seus ombros, e suas mãos ainda afagavam os cabelos dela. A voz de Sophia parecia mais calma. Daniel teve quase certeza de que ela não chorava mais. — Claro que não. Eu não teria porquê ficar chateado contigo. — Garante, e ela se afasta, encarando-o nos olhos com um pequeno sorriso. Daniel leva outra vez seus polegares até ao rosto de Sophia e limpa as últimas lágrimas que caíram. Definitivamente, não gostara de vê-la chorando.


— E você me perdoa por ter te machucado? — Sussurra escorregando seus dedos até os lábios que se incharam um pouco. Os olhos de Sophia desviam-se para o polegar de Daniel recostando em sua boca. Não consegue dizer nada e apenas acena. Inconscientemente, suas pequenas mãos alcançam um olho roxo dele e o toca levemente. Devido à dor, ele se esquiva. — Dói? — Um pouco — confessa. — Tenho kit de primeiros socorros. — Não se preocupe com isso, não é nada. — Desculpe, senhor Müller, mas você não tem opção. Vou tratar isso aí — decreta e se levanta, mas é trazida de volta quando as mãos dele a puxam para o sofá outra vez. — Antes de ir buscar o kit, quero te dar algo. Sophia o encara sem entender. Se remexe no sofá, desconfortável. Vê quando Daniel tira uma pequena caixa em formato de retângulo de dentro do bolso interno do paletó. Os olhos dela brilham diante à prata pura de um colar simples, mas totalmente elegante. — Da… Daniel — ela gagueja e o olha, desnorteada. Ele tem um sorriso divertido nos lábios quando se levanta e a puxa pelos punhos, fazendo-a se levantar também. Vira-a de costas para ele e afasta os cabelos louros, jogando-os para frente. Coloca a joia no pescoço branco e delicado de Sophia, e os dois se olham através de seus reflexos no vidro da janela ali perto. — É tão linda… — Daniel murmura, contemplando-a. Sophia desenha um breve sorriso; leva as mãos até a singela e majestosa joia. — Tem razão. É linda — confirma segurando o objeto. Daniel sorri pequeno e segura-a em sua cintura. Seus olhares continuam a se cruzarem através do vidro. — Eu me referi a você.


12 NOVA CASA

O

s olhos verdes de Sophia reluziram brilhantes no reflexo do vidro da janela logo a sua frente. A voz de Daniel, meio sussurrada, meio rouca, chega até seus ouvidos, e as palavras dele se repetem constantemente em sua cabeça.

Eu me referi a você. Eles continuam a se olharem através de seus reflexos. A mão macia dele toca sua cintura, mas ela parece não perceber. Sophia limpa a garganta e desvia seus olhos dos dele. — Vou buscar o kit de primeiros socorros — sussurra e sai sem olhar para trás. Daniel inspira fundo e se senta no sofá, observando a bagunça que causara no apartamento dela. Garrafas vazias e estilhaçadas pelo chão, o líquido dos etílicos manchando o piso e o tapete no centro do cômodo, a estante de portas de vidros que caíra com o impacto de seu corpo contra o móvel, a louça do jantar jogada por baixo da mesa e esparramada entre a sala e a cozinha. Bagunça total. E tudo por uma imbecilidade sem significado nenhum, mas que foi o suficiente para tirá-lo do sério. Pensou outra vez em por que raios se importou tanto com a provocação de Miguel. Não sabia ao certo se ele agira dessa forma por Sophia, já que Guimarães estava a importunando, ou por ele mesmo, já que também estava sendo importunado. De toda e qualquer forma não deveria ter agido tão violentamente, nem sequer se importado. Mas se importou, e agora o resultado se espalhava pelo apartamento de Sophia. Sem contar seu olho roxo e o machucado que causou nela. Idiota, pensou. Sophia se aproximou sem que ele percebesse, e já retirava algodão e soro fisiológico. Embebedou o algodão no líquido. — Posso? — Perguntou com a mão no meio do caminho. Daniel assente, e ela termina o percurso dando leves batidas no ferimento. — É só para limpar, para que não infeccione ou algo do tipo — explica enquanto continua a limpá-lo. Daniel está atento a suas mãos, e quase que sem perceber seus olhos se desviam para os lábios dela, que agora estão um pouco inchados por conta da cotovelada que recebeu. — Eduardo vivia chegando em casa com o olho roxo. Minha mãe sempre colocava um pedaço de bife para amenizar. — Ao ouvi-la, ele a olha com um sorriso pequeno. Definitivamente, não queria ter um pedaço de carne na sua cara — Não sei se funciona realmente, mas se quiser


tentar… — Não precisa, de verdade. Só quero saber o que acontecerá com isso — outra vez ele leva seu polegar até o lábio inferior machucado. — Eu te machuquei e estou tão… Me sinto culpado. Sophia abre um pequeno sorriso. Ela sabe que Daniel não teria coragem de agredi-la intencionalmente. De repente, a imagem de ele golpeando Miguel vem a sua mente, misturada à irritação e raiva que sentiu quando o ex dela apareceu ali, no seu apartamento, o modo como ele ficou aborrecido, até mesmo com ela, por ter aceitado que o seu ex-noivo entrasse e ficasse. Queria entender o que levou Müller a brigar com Miguel por causa dela. Talvez ele fosse cavalheiro o suficiente para defendê-la dos insultos do outro, ou talvez Daniel estivesse irritado porque, de fato, não tinha simpatizado com ele. — Está tudo bem. Já disse para não preocupar — assegura olhando fixamente para o polegar em sua boca. — Mas eu me preocupo… — sussurra de volta. Sophia engole em seco e o coração dispara. — O que deu em você para brigar com Miguel daquela maneira? — Pergunta finalmente, no intuito de sanar sua dúvida. Daniel repuxa sua mão e desvia os olhos, as lembranças voltando a todo momento. — Ele me irritou, apenas isso. Desde que o conheci, ele vem te insultando. Só achei que você não deveria ouvir as bobagens que sai por aquela boca. — Explica-se, mas a verdade é que, talvez, parte do motivo seja realmente por isso, mas somente essa desculpa não seria suficiente para tirá-lo a paciência e agredir outra pessoa. Sophia apenas acena e leva as mãos à joia que ganhou há tão pouco do homem à sua frente. — Você gostou? — Daniel questiona, observando-a. — Oh, sim. Muito. Não deveria ter se incomodado. — Não foi incomodo nenhum. — Obrigada, outra vez — suas mãos continuam a afagar o objeto — Não precisava. — Eu sei — ele diz maneando a cabeça. — Mas quando bati os olhos nesse colar eu não comprei na intenção de que você precisava dele, mas o colar quem precisava de você. Tenho certeza que em pescoço nenhum ficaria tão belo quanto no seu. Sophia se engasga com a própria saliva e se remexe. Sente as mãos suarem um pouco, a respiração fica irregular e o coração acelerar. Naquele dia, Daniel vinha a elogiando mais do que o costume. — Obrigada — sibila um pouco. É a única palavra que consegue encontrar.


Seus grandes olhos verdes se levantam para encontrar os de Daniel, azuis-esverdeados. Ela se esquiva do olhar penetrante dele, e dessa vez mira os lábios finos e naturalmente rosados. A barba rala e dourada contorna o rosto quadrado, o tórax é largo, e a imagem dele sem camisa a atinge com uma bala. Então, os acontecimentos do final de semana vêm à sua memória: o beijo que trocaram na porta, ele dormindo sem camisa naquela mesma sala, naquele mesmo sofá, ela sendo surpreendida no banho. Tudo passa rapidamente diante de seus olhos, enquanto se inclina para encontrar a boca dele e sentir outro beijo tentador. Ambos mal percebem que um está indo de encontro ao outro, e mesmo quando novamente seus olhares se cruzam, continuam a se atraírem. Suas bocas estão a um centímetro de se tocarem, e Daniel até pode sentir a respiração irregular de Sophia contra seu rosto. De repente, o som estridente de um celular tocando quebra o momento e desvia a atenção deles. Sophia se afasta, sentindo o coração pulsar e seu rosto enrubescer. O celular que toca, Daniel demora a entender, mas é o dele. Retira do bolso, olha para o ecrã.

Chamando Melissa Telles

Bufa e revira os olhos. Ignora a ligação, desligando o celular. Ele gosta do sexo com Melissa, mas agora sua atenção estava em outra pessoa. Sophia. — Não vai atender? Pode ser importante. — Enuncia com o tom de voz baixo. — Não é importante. — Afirma, e ela só faz acenar — Sophia, — ele a chama, os olhos verdes se chocam com os dele — vem para minha casa. Sophia estala os olhos, surpresa com a oferta de Daniel. Tudo bem que provavelmente eles teriam de morar na mesma casa quando se casassem, mas ainda eram apenas “noivos”. — Não me julgue mal, — se explica com um sorriso simpático — mas não quero que durma no meio dessa bagunça, e amanhã mesmo pedirei a uma agência que venha realizar a limpeza. — Daniel, por favor, eu mesma posso limpar. Não se preocupe com isso. Daniel a fita com um olhar sério, o que a deixa incomodada. Seu olhar duro e ao mesmo tempo sensual faz com que se sinta desconfortável. Por que ele ficou chateado com a minha recusa? — Desculpe, senhorita Hornet, — sua voz sai ríspida — mas você não tem opção — ele se levanta e a puxa pela mão. — Você vem comigo. — Decreta, e sorri em seguida.


E Sophia se sente mais aliviada.

♦♦♦

— Esse quarto está bom para você? É temporário, eu garanto. Tenho outros maiores, mas mandarei reformar antes que se instale. — Daniel disse, enquanto Sophia entrava no quarto gigantesco. Com certeza os dois tinham concepções diferentes sobre grande e pequeno. O espaço que se abre a sua frente é absolutamente maior que todo o seu apartamento. Como Daniel pode dizer que existe outros maiores? Ela se vira para ele, seus olhos brilhando. — É enorme! — Exclama — Para mim está ótimo, não preciso de outro. — Isso é um quarto de hóspede, e você não é uma hóspede. Então, mesmo que negue, mandarei reformar o quarto maior, e não discutimos mais sobre isso. Sophia exaspera uma lufada com bom humor e cruza os braços, imitando uma criança mimada, o que faz Daniel gargalhar. Uma risada gostosa e irresistível que a faz se render e a obriga a acompanhá-lo. — Se você insiste, eu aceito o outro quarto. Daniel assente e adentra o espaço, colocando uma pequena mala, que Sophia trouxe de sua casa, sobre a cama. — Sinta-se em casa, e se precisar de qualquer coisa pode me avisar. Meu quarto é o último à direita. — Informa, e Sophia o agradece em seguida. Daniel a deixa sozinha, e Sophia decide tomar um banho. Tranca a porta do quarto, temendo que aconteça como em seu apartamento. Corrige-se mentalmente quando pensa que não seria tão mal assim. Entra no banheiro e quase cai para trás ao ver como é grande. Ela sempre tivera uma vida luxuosa e boa, mas aquilo ali ultrapassava qualquer coisa que já tinha tido na vida. Havia uma jacuzzi, e Sophia calculou que caberia umas três dela mesma calmamente; ao lado, um grande box com uma ducha esplêndida escorria a água esquentada a gás. Uma pia de mármore, com a bancada também feita da mesma pedra, se estende por uns dois metros, acompanhando a parede; um espelho enorme fixado à parede reflete a sua imagem embasbacada. Abriu a porta do armário embaixo da pia: escova de dentes ainda embaladas, sabonetes em líquido e barras, xampu, condicionador, hidratantes e loções. Abriu uma segunda, se deparou com sais de banho e inúmeros produtos que ela não sabia para quer servia, mas deduziu que seriam para preparar um banho na jacuzzi. Encheu a banheira enquanto tirava a roupa e prendia os cabelos. Depois jogou um daqueles produtos na água, que logo encheu de espuma. Entrou e deitou-se, relaxando o corpo. Esfregou o


corpo, sentiu seu lábio arder um pouco. Momentaneamente, lembrou-se do toque de Daniel contra sua boca. Cerrou os olhos quase podendo sentir novamente sua pele macia. Balança a cabeça fortemente e volta a relaxar na água quente. Fecha os olhos e deixa que as espumas e o cheiro doce de algum produto que ela colocou ali penetrem seus poros e limpe sua pele. — Sophia…? — Ela ouve a voz de Daniel e abre os olhos para divisá-lo parado a sua frente dentro apenas de uma cueca box preta. No mesmo instante, se sobressalta com a presença inesperada dele; olha em direção a porta do banheiro. O que aconteceu com a porta trancada do quarto? Como se ele lesse seus pensamentos, Daniel roda no indicador uma cópia da chave, com um sorriso malicioso no canto dos lábios. Ele é o dono da casa, claro que tem uma cópia de todas as chaves. Ela engole em seco e afunda ainda mais seu corpo na água. Daniel continua parado a sua frente, e ela não pode deixar de observar seu corpo seminu. Os olhos dele estão brilhando enquanto correm pelo seu corpo. Sophia estremece e tenta dizer alguma coisa. — O quê… o que aconteceu? — Gagueja. Daniel continua a comê-la com os olhos e em silêncio. Subitamente, Müller tira a boxer preta e, mesmo que ela tente desviar, simplesmente observa seu membro. Sophia está engasgada e sente vontade de levantar e empurrá-lo, dar um tapa em sua cara e dizer-lhe que é um atrevido e sem-vergonha. Mas simplesmente não consegue. O desejo de continuar observando-o é maior. Enquanto luta com seu interior para obrigar-se a ir embora e romper o contrato com seu noivo de conveniência, ele entra em sua jacuzzi e se senta na ponta extrema. Que diabos ele está fazendo?, pergunta a si mesma ainda em choque com a atitude de Daniel. Sophia o encara cada vez mais pasma. Os olhos dele estão fechados e seu semblante é sereno. Daniel relaxa na banheira, e sequer se importa com a presença dela. Sem esperar, ele a fita sensualmente, e sua íris azul-esverdeada queima em um fogo de volúpia. — Não se importa se eu ficar aqui, não é? — Murmura, e sua voz sai rouca e sensual. Boquiaberta, Sophia não sabe o que responder. — Acho que posso dar um jeito nesse seu ferimento — ele continua dizendo com a voz cheia de paixão.


Encurva seu corpo nu contra o dela, e Sophia se assusta, mas não se esquiva. O polegar dele toca o canto de seus lábios, onde está um pouco inchado, os dois sem encaram em uma explosão intensa, os lábios estão próximos um do outro, os olhos, também, e assim, tão perto dele, Sophia é capaz de notar em como os olhos masculinos são completamente sedutores. Daniel exibe um sorrisinho sedutor nos lábios finos e rosados, ainda a acariciando com o toque de seu polegar. E, sem que ela note, vai se aproximando da boca suculenta ao passo que ele também diminui o pequeno espaço que separa suas bocas. De repente, estão se beijando intensamente. Os lábios machucados doem, mas não o suficiente para que possa pará-la. Ao contrário, envolve suas pernas no quadril largo dele e afunda seus pequenos dedos entre os fios alourados de Daniel. Subitamente, Sophia dá um sobressalto na banheira e acorda. Sozinha. A água já está fria contra a sua pele enrugada causado pelo tempo extremo dentro d’água. Passa a mão pelo rosto tentando entender o sonho louco que tivera. Levanta-se e enrola a toalha no corpo. Não acredito que sonhei com ele!, repreende-se secando as pernas. Abre uma terceira porta no armário e encontra um roupão, que logo é envolvido em seu dorso. Suas mãos tremem enquanto revira a mala em busca de uma roupa confortável para dormir. Encontra um pijama e se veste, deitando em seguida. A cama é macia e os edredons são confortáveis e quentes. O sonho atordoante com Daniel não sai de sua cabeça, e Sophia não consegue dormir. Seu estômago resmungando também ajuda para que não pregue os olhos. Levanta-se com cautela e destranca a porta. Quando cai no corredor, o silêncio domina-o de ponta a ponta. Há umas duas luminárias acesas que iluminam fracamente a extensão que se faz. Ela o atravessa vagarosamente; logo à frente, vê que há um lindo relógio de pêndulo no meio do caminho, marcando quase uma da manhã. Desce as escadas devagar, observando os detalhes da decoração e arquitetura. Pergunta-se onde é a cozinha no meio daquela imensidão de “casa”. Mesmo que esteja um pouco envergonhada por estar zanzando pela mansão dos Müller, e sinta que esteja invadindo a privacidade dele e do irmão, sua fome fala mais alto e mesmo assim decide atacar a geladeira. Até porque Daniel disse que ela poderia se sentir em casa. Então o faria. Ponderou voltar e chamá-lo, mas àquelas horas ele já deveria estar dormindo. Continuou seu trajeto até chegar à sala. Assim que a transpôs, logo viu uma luz que vinha de algum cômodo próximo ali. Foi-se achegando mais até que encontrou a cozinha. E junto com ela, Daniel só de bermuda sentado em uma cadeira, beijando ferozmente a ruiva do outro dia.


♦♦♦

Daniel deixou Sophia acomodada em um dos quartos de hóspedes e seguiu para o seu. Trancou-se lá dentro e recostou-se à porta, pensando no dia turbulento que tivera. O olho roxo ainda doía um pouco, e isso o incomodava. A única coisa que o aliviava era saber que Miguel não saíra ileso da confusão. Afrouxou a gravata, tirou o restante do terno. Seguiu para o banheiro, desejando apenas um banho quente. Depois, talvez fizesse um chá fervendo, lesse mais um pouco de O Símbolo Perdido e dormiria em seguida. A água batendo em sua pele relaxou-o, mas fez arder o ferimento no olho. Desgraçado!, praguejou contra Miguel mentalmente. Terminou seu banho e se enrolou no roupão. Já com o corpo seco, selecionou uma bermuda e camisa regata branca e se vestiu. Pegou seu celular para conferir a hora, e então se lembrou que o havia desligado por causa de Melissa. Tornou a ligá-lo, e assim que a rede da operadora voltou, recebeu uma enxurrada de mensagens dela. Passou os olhos por algumas, lendo rapidamente.

Por que não me atendeu?

Desligou por quê? Está com a noivinha?

Podemos nos ver?

Mas foi a última mensagem que o fez coçar a cabeça.

Estarei indo até sua casa. Mesmo que seja tarde.

Olhou a hora que a mensagem foi enviada. 00H01. Buscou pela hora atual. 00H32. Revirou os olhos, deduziu que a ruiva já estaria chegando. Livrar-se-ia dela assim que ela aparecesse.


Descia as escadas quando a campainha tocou. Do outro lado, lá estava a mulher. Seus cabelos acobreados reluziam e agitavam conforme a brisa da noite batia neles. Como de costume, trajava uma saia na altura da metade das coxas e um top de comprimento até um pouco abaixo dos seios, a bota de couro e montaria subia até seus joelhos. Para completar o look, um longo casaco preto, que também a protegia do frio. — Oi, Dani querido — cumprimentou-o com as mãos na cintura. — O que foi que aconteceu aí? — Aponta para seu olho roxo. Seus olhos correm para dentro da casa, em busca de algo. Ou alguém. — Oi, Melissa. Não acha que está um pouco tarde pra visitas? — Responde, ignorando-a. Melissa o encara e entra, passando por ele. Daniel sente os seios fartos esbarrar no músculo dos seus braços, ele se vira para ela, que continua de costas e passando os olhos pelo cômodo. — E desde quando se importa com horários, amor? Lembro-me com clareza que já chegou a me procurar muito mais tarde que isso. E eu nunca questionei. — Se volta para ele e sorri maliciosamente. Daniel ergue as sobrancelhas rapidamente diante a afirmativa dela. E sequer podia contestar contra aquilo. — O que você quer? — Dispara tentando manter a calma. E por que estou irritado com ela?, questiona-se, sem entender o motivo. Melissa ergue uma sobrancelha. — Não está óbvio, querido? — Sussurra e se aproxima mais, quase deixando suas bocas coladas. Daniel suspira. Ele não estava mesmo com ânimo para a ruiva exibida. — Talvez eu possa cuidar disso aqui para você — murmura sedutoramente, levando suas mãos até o machucado, mas é obstruída quando Daniel segura seu punho, impedindo o toque. — Estou bem. Já cuidei disso — declara secamente e a solta. Melissa suspira; endireita o corpo. — Pois bem, vamos ou não subir para o seu quarto? Eu tenho outros dotes que você conhece muito bem. As mãos dela repousam em seu peito em movimentos de sobe e desce. Daniel simplesmente não sabe como recusá-la. Já esteve tantas vezes com Melissa Telles que tem medo de parecer desinteressado caso a negue. Suspira e cede: — Tudo bem. Eu só vou preparar um chá, e já subimos, pode ser? Ela concorda e o segue até a cozinha. Daniel enche uma caneca com água e mergulha um sachê de mate, leva-a até o micro-ondas


e programa um minuto e meio. Está de costas, esperando o tempo acabar, quando sente Melissa abraçá-lo por trás, passando as mãos macias por seu tórax. — Melis… — gira o torso para protestar e impedi-la, mas é calado com um beijo fogoso por parte dela. Antes que possa reagir, os dedos dela agarram a barra de sua camisa e a puxa, tirando o tecido que cobre seu dorso. Daniel ainda está desnorteado, mas retribui quando seu corpo responde ao estímulo dado pela mulher. Melissa, então, o empurra, puxa uma cadeira e força-o a se sentar, caindo em cima de seu colo sem desgrudar sua boca da dele. Os quadris da rubra são movimentados para frente e para trás, friccionando a intimidade feminina na de Daniel, aumentando, assim, o incentivo em seu corpo. Daniel, subitamente, para de retribuir, e ela repara em como seus olhos estão estalados. Melissa separa seus lábios e o fita, aturdida. Daniel olha para um ponto fixo, e ela segue seu olhar. Na entrada da cozinha, Sophia está parada, olhando para os dois. — Oi, flor — Melissa diz naturalmente. — Deixa eu adivinhar: você é a noiva de mentira do Daniel? — Melissa, por favor — Daniel sussurra na intenção de censurá-la. — Essa é a Sophia, Sophia essa é… — Eu sei. Ela já esteve no seu escritório. — A loura interrompe mais rígida do que gostaria. A ruiva arqueia uma sobrancelha e lança um olhar que Sophia não consegue decifrar. Só o que a Hornet pensa é de como a garota exibida sabe sobre seu casamento de conveniência com Müller. Pondera que, talvez, Daniel tenha contado a ela, já que, pelo jeito, são íntimos. — Hum… Prazer. Então, Dani, vamos subir? — Convida-o, já o puxando pela mão. — Espera — solta-se da ruiva e mira Sophia — Precisa de alguma coisa? Ela balança a cabeça em negativo e foge dos olhos claros. — Só vou tomar uma água e voltar para o meu quarto. — Mente e caminha até a geladeira. — Se precisar de alguma coisa… — Daniel começa, mas é cortado antes que possa terminar. — Eu não vou interromper vocês. — Sua voz sai alta. — Se precisar de alguma coisa, eu me viro — fecha a porta da geladeira segurando a jarra de água. Müller acena brevemente, olha para Melissa, que o aguarda. Daniel se levanta, seus olhos não deixam de correr para Sophia encostada a pia e pondo água no copo. Recorda-se de como ficou irritado pela presença de Miguel, e reflete se ela não está sentindo o mesmo incomodo por Melissa. Não…, por qual motivo ela ficaria incomodada com a presença da ruiva? Pelo mesmo motivo


que você ficou com Miguel!, sua consciência acusa. — Melissa, acho melhor você ir embora. —Como? — A ruiva está incrédula com a repentina mudança de decisão de Daniel. — Ir embora! — Ele bufa. — Sabe, sair da minha casa e voltar para a sua? — Achei que tínhamos algo programado para fazermos lá em cima! — Protesta irritada. Daniel volta a olhar Sophia, que agora os encara sem compreender a cena que vê. — Está me deixando por causa dela? — Melissa aponta o dedo, seu tom sai com desdém — Por favor, Daniel! — Ela é minha noiva! — Defende-se. — De mentira! — Acrescenta. — Ainda é minha noiva, e eu tenho que ter pelo menos o bom senso de respeitá-la em sua presença! Melissa leva as mãos até os quadris, pasma com a declaração dele. Sophia continua a olhá-los, desnorteada com a consideração de Daniel. Ele não precisava agir dessa maneira por sua causa, foi combinado que cada um seguiria com sua vida, poderiam se relacionar com outras pessoas, desde que discretamente. E Daniel sabia disso. Ele não deixaria de viver por conta de um casamento de fachada, nem faria voto de castidade por seis meses até ver-se separado de Sophia, mas ponderou que o mínimo a se fazer era respeitá-la e ser discreto. Transaria com Melissa outro dia, quando Sophia não soubesse que estavam juntos. Isso é discrição!, reforça mentalmente a si mesmo. — E desde quando você se importa com isso? Vamos subir lá para cima e transar loucamente para essa garota ouvir os meus gemidos e perceber que ninguém te sacia como eu! E que ela jamais será o tipo de mulher que você gosta! — Melissa grita, visivelmente descontrolada por ser enxotada da mansão Müller. O sangue de Daniel ferve, e isso quase o faz perder a cabeça. Subitamente, agarra os braços da ruiva e a força a andar. — Saia da minha casa agora! — Exige cerrando os dentes enquanto abre a porta e a joga para o lado de fora. Melissa está boquiaberta; Sophia, desnorteada. A mulher expulsa tenta dizer alguma coisa, mas a porta é batida em sua cara. — Daniel Müller! — Grita do lado de fora. — Isso não vai ficar assim!


♦♦♦

Sophia está sem jeito diante de Daniel. Ele continua sem camisa – está parado na sua frente pedindo desculpas pelo modo como Melissa a tratou. — Está tudo bem. Não me importei com nada do que ela disse. Daniel assente brevemente. — Eu juro que isso não irá mais se repetir. Prometo mais discrição da próxima vez. Próxima vez?, ela suspira incomodada com isso, mas prefere manter seu incômodo para si, e apenas concorda. Apesar do momento desagradável, se sente um pouco feliz por Daniel tê-la defendido. Não uma, mas duas vezes. Primeiro com Miguel; e agora com Melissa. Quando ela surgiu na cozinha, e flagrou os dois em um fogoso beijo, quase sentiu ter a mesma sensação que Daniel teve ao presenciar Orleans na porta de seu apartamento. Seus olhos queimaram frente a imagem que se desenrolava, e engoliu a vontade de gritar ali mesmo. O que ainda a deixava confusa. Como Daniel deveria ter ignorando a presença de Guimarães e não ter dado importância as provocações dele, ela também deveria ignorar a cena que testemunhou. Talvez a diferença estivesse nesse ponto. Daniel estava prestes a dormir com Melissa, já ela apenas recebia os cortejos de Miguel. Mentalmente tentou afastar seus questionamentos da cabeça e voltou à realidade com Daniel a perguntar-lhe: — Está com fome? Ainda que tivesse descido para procurar alguma coisa para comer, a cena presenciada, mais o pequeno escândalo da ruiva, tiraram-lhe a fome. Por isso, respondeu: — Não. Eu só desci mesmo para tomar uma água — levanta o copo já vazio e o põe dentro da pia — Vou me deitar. Boa noite, Daniel — deseja passando por ele. Sophia chega ao quarto e se enfia por baixo das cobertas macias e quentes. A luz fraca do abajur é apagada, ela gira o corpo tentando dormir. A fome já não existe mais, perguntando a si mesma por que perdera o apetite com o episódio que presenciou. Um resumo do seu dia louco passa por sua cabeça em uma retrospectiva momentânea: imagens da briga entre Guimarães e Müller, de ela recebendo o colar de Daniel e do seu polegar contra o lábio machucado; depois, a forma como ele se irritou com sua amiga de benefícios pelo modo como foi indiscreta e da forma como ele a expulsou sem sequer pensar. Um pequeno sorriso é posto em seu rosto, e Sophia adormece sentindo-se feliz por Daniel têla defendido.


13 O DIA Um mês depois

aniel ajeitava a gravata, enquanto o alfaiate conferia suas medidas. Sentiu uma alfinetada e resmungou, recebendo um pedido de desculpas por parte do homem. Alinhou o colete no corpo e pôs o paletó. O terno cinza que mandara fazer para seu “casamento” delineava bem seus contornos, lhe dando uma aparência mais imponente e sexy. Ajeitou os cabelos pela milésima vez e dispensou o alfaiate. Olhou no relógio. Em uma hora estaria casado. Em seis meses, divorciado.

D

Suspirou, saiu do quarto descendo as escadas. Lá embaixo, alguns poucos funcionários de uma empresa corriam contra o tempo para organizar o jardim que receberia os convidados para o almoço que seria servido. Como combinado, o casamento seria simples: poucos convidados, decoração singela, casamento em uma capela ali perto e nada mais. Era desnecessário tanta gastança para a nada. Enquanto atravessava o extenso jardim em direção ao seu carro, foi impossível não se indagar se Sophia estaria tão nervosa quanto ele. Dispersou-se de seus devaneios quando seu motorista, já com a porta do passageiro aberta, desejou-lhe felicidades. Agradeceu pensando em beber alguma coisa forte para acalmar os nervos, mas não podia. Por que diabos estou nervoso? É um casamento de mentira, e na lua de mel provavelmente estarei assistindo a um filme no meu quarto, sozinho, enquanto Sophia estará dormindo! Impaciente, deixa um suspiro exasperado escapar, e olhando pela janela, observa a paisagem durante o percurso. Tempos depois, a limusine para diante à capela, adornada com simplicidade. Ele desce e marcha para dentro, encontrando alguns convidados, inclusive a família de Sophia. Conversa por um tempo com eles quando vê Heitor chegar. Pede licença e se retira, indo de encontro ao irmão. — Está atrasado — o repreende. — Eu não sou o noivo — rebate cinicamente com um sorrisinho de deboche. — Mas é testemunha.


Heitor revira os olhos. — E onde é que está a irmã gostosinha? — Sussurra olhando em torno. Daniel dá-lhe um murro nos ombros e Heitor gargalha. — Qual é! Ela é testemunha junto comigo. — E é bom que não passe disso. Já disse que não deve se envolver com a irmã de Sophia. — E por que não? Desde quando você controla com quem quero meter ou deixar de meter? Daniel bufa enquanto Heitor está aos risos. — Não se preocupa. Não sou papa-feto. — Olha, deixa de defecar pela boca, e vá se preparar, já estão nos chamando. — Decreta e lhe dá as costas, indo se posicionar no altar. Algum tempo se passa, e as portas singelas se abrem, revelando uma Sophia vestida de noiva, enroscada aos braços de Sebastian. Daniel repara que, mesmo simples, ela está linda. O vestido branco não tem calda e é feito de corte reto, mas, por ser justo, marca as curvas corporais de sua futura esposa por contrato. Os cabelos louros estão soltos e ondulados, presos pelo véu levantado, a maquiagem, como de costume, é leve, mas realça os olhos verdes fascinantes. Enquanto ela caminha até ele, Daniel se lembra de como fora seu último mês. Um quarto decente foi reformado para Sophia, e durante as últimas semanas, ela foi se mudando aos poucos para sua mansão. Deu graças por nem Miguel e nem Melissa terem aparecido mais para atazanar a vida deles. Sophia passou os últimos dias planejando o casamento de mentira, mas que deveria parecer de verdade. Ela até insistiu que somente assinassem os papéis e nada mais. Porém, Daniel recusou, reforçando que a união deveria parecer verdadeira. O bom disso tudo, pensa ele, é que se tonaram grandes amigos. Ocasionalmente, saíram mais algumas vezes ao cinema e a restaurantes, e a intimidade entre os dois foi afunilada. Em suas conversas casuais, a loura sempre arrancava dele suas melhores gargalhadas, assim como Daniel conseguia fazê-la rir delirantemente. Pouco a pouco, foram descobrindo gostos em comuns, como apreciar um bom vinho, séries e filmes de suspense, terror e comédia romântica, o hábito da leitura, ainda que ele preferisse ler autores e gêneros diferente dos dela. Até onde a conhecia, descobrira poucos pontos em que se divergiam. Enquanto Sophia prefere músicas mais atuais, Daniel tem uma preferência singular para clássicos. Ela é mais aberta, sorridente, enquanto, na maioria do tempo, Daniel é mais reservado e limita suas expressões à breves sorrisos. Mas, nas raras vezes em que Müller se permite deixar seu lado sério e modesto de lado, ela sabe que seu sorriso é completamente contagiante e encantador. Com um pouco mais de cinco meses que se conheciam, Daniel cativava um sentimento profundo de amizade por Sophia. Não gostava quando a via aborrecida com alguma coisa, ou de vê-la triste, o que não era muito raro, já que Sophia, ao se tornarem mais próximos, sempre foi de esbanjar alegria. Mas como todo mundo tem problema, e para ela o maior era seu pai Sebastian e


a família à beira da falência, a Hornet sofria por causa disso. Compadecido, ele adiantou o valor correspondente a cinco por cento das suas ações – a quantia estabelecida em contrato – para a família dela, mesmo com uma insistente recusa de Sophia, que insistia em esperar até estarem casados, assim cumprindo o acordo do contrato deles. Acontece que Daniel é ainda mais teimoso, e entregou parte do dinheiro diretamente a Sebastian, que agradeceu infinitamente. Além do investimento que fez na ConstruHornet, ter devolvido as ações que anteriormente pertencia ao patriarca da famílai, fechando o acordo de receber metade de todo o lucro até ter seu capital de giro reembolsado. Se por um lado a relação de amizade que eles tinham era boa, por outro, era estranho. No último mês, vez ou outra, eles tinham que trocar carícias em público, pois eram um “casal”. E isso o deixava, de certa forma, incomodado. Gostaria de saber se Sophia sentia-se do mesmo jeito. A verdade, talvez, era que sentir aqueles lábios, as mãos a afagar as suas, ou os carinhos que bagunçavam suas madeixas bem arrumadas, faziam percorrer por seu corpo uma estranha sensação que até então não soubera explicar. Talvez seja apenas desconforto, deduziu a si mesmo. Mas pressentia que esse motivo não saciava a sua dúvida. Volta ao mundo real quando Sophia já está mais perto dele e Sebastian a entrega, sorrindo largamente. Ele segura em sua mão, fria e suada, e a encaminha para o restante do altar da pequena capela. A cerimônia começa, e uns quarenta minutos depois são declarados marido e mulher. As alianças são trocadas; e o livro do cartório civil, assinado. Só então, eles se beijam. A mesma eletricidade inexplicável percorre pela corrente sanguínea de ambos. A vontade que Daniel sente é de não parar o beijo; e Sophia deseja o mesmo. Mas o beijo é interrompido ao som dos aplausos dos convidados. Sorriem um para o outro desconsertadamente. Ela se enrosca ao braço dele e caminham em direção à saída da igreja. Lá fora, uma limusine os aguardam. Entram no carro e se sentam no banco de trás. Sophia não deixa de sorrir quando vê as palavras “recém-casados” escrito com batom no vidro traseiro do automóvel, que os guia de volta à mansão. Uma pequena confraternização é realizada entre os presentes, e algumas horas depois a nova casa de Sophia está vazia e silenciosa, enquanto alguns funcionários recolhem a sujeira do quintal. Sophia está estirada no sofá, ainda com seu vestido, quase caindo de sono, mesmo que ainda seja sete da noite. Daniel surge da cozinha trazendo duas taças de vinho cheias. Está sem o paletó, e as mangas estão voltadas até a altura da metade de seus largos bíceps. Ela sorri brevemente ao vêlo.


— Quero fazer um brinde de verdade agora — ele diz sentando-se ao seu lado, esticando uma taça ela, e Sophia percebe que Daniel já está um pouco alterado pelo álcool. Sabe-se lá quanto de vinho já tomou hoje, pensa sorrindo internamente. Sophia junta a sobrancelhas e toma a taça em mãos. — Brinde de verdade a quê? — Questiona olhando o etílico. — Ao nosso contrato, claro — sorri torto e embriagado. — Claro — murmura, levanta sua taça e os dois brindam. Daniel toma o liquido em apenas um gole, enquanto Sophia aprecia mais devagar a bebida. Quando levanta os olhos, vê Daniel a olhá-la, e sente seu rosto corar. Termina seu vinho e deixa a taça sobre a mesa de centro. — Acho que vou subir e tomar um banho. Estou cansada. — Diz, e ele acena em positivo. Ela está prestes a se levantar, mas mão de Daniel repousa sobre seu tórax, a impedindo de continuar sua ação. — Espere… — Balbucia, e cambaleante, se levanta para pegá-la no colo. — Daniel! — Exclama quando se sente segurada pelos braços fortes. Müller ri e põe-se a andar, mesmo que ligeiramente trôpego. — Eu quero fazer isso, por favor, deixa! — Pede com a voz manhosa, caminhando até as escadas. — Daniel, você está bêbado, pode me derrubar. — Sophia diz baixinho. — Eu não estou bêbado! — Protesta, mas logo reconsidera: — Talvez um pouquinho — assume, e Sophia emite uma breve risada. Inconscientemente, ela encosta sua cabeça ao peito dele, enquanto é carregada escada acima. A sensação que passa pelo corpo de Sophia é quase sem explicação. Os braços de Müller são fortes e, mesmo alcoolizado, mantém sua firmeza, conseguindo terminar os degraus. Daniel atravessa o corredor em direção ao quarto dela, e ao chegar, com um pouco de dificuldade, tenta abrir a porta. Usa como auxílio os pés para dar um pequeno empurrão na porta, após, desajeitadamente, abaixar o trinco. — Me deixe descer para ficar mais fácil — Sophia sugere e faz menção de sair de seu colo. Daniel a aperta contra seu tronco, a impedindo. — Não vai a lugar algum. Sou homem o suficiente para te carregar e abrir essa porcaria de porta — resmunga, e dá outro pontapé na porta, que se abre; mas com a força que bate contra a parede, volta e se fecha outra vez.


— Está bem, Daniel Sou homem o suficiente para te carregar e abrir essa porcaria de porta Müller — Zomba da tentativa fracassada e desastrada dele. E, contagiosamente, Daniel ri. Outro chute contra a porta e ela finalmente se abre, o que o pega de surpresa. Seu corpo cambaleia para frente, enquanto os dois riem. A cama ali próxima ameniza a queda de seus corpos caindo sobre o colchão. Sophia sente o impacto do dorso largo e masculino sobre o seu, e mal repara de que está deitada sob Daniel, pois os dois riem feito bobos. — Ai, ai — a loura suspira, e sem esperar Daniel deita sua cabeça sobre o tórax dela. Ela prende a respiração e não sabe o que fazer. — Daniel… — chama-o Mas ele apenas resmunga. Bêbado demais para me escutar! — Daniel! Eu quero tomar um banho — cochicha e tenta tirar a cabeça dele de cima do seu peito, mas ele reluta e se acomoda ainda mais para perto. Bêbado e teimoso! Outra tentativa, mas Müller só faz resmungar. — Daniel, pelo menos se ajeite na cama — murmura em seu ouvido e dessa vez é atendida. Ainda sonolento, Daniel se endireita na cama e, com o ajuda dos pés, arranca os sapatos. Sophia vê uma pequena brecha para sair de seu aperto e se levantar, então o faz. Entra no banheiro e toma um banho rápido. Veste uma roupa confortável e volta para o quarto. E lá está Daniel: num sono profundo, sereno e entorpecido. Em alguns meses, é a segunda vez que o vê dormir. Procura por edredons e joga sobre ele. Senta-se a seu lado, e tira da gaveta do seu criado mudo O Símbolo Perdido, que Daniel tanto recomendou e gentilmente lhe emprestou. Lê algumas páginas, e até pensa em deixá-lo ali e ir para outro quarto descansar. Mas ele está bêbado, Sophia!, pensa ainda indecisa, se lembrando das vezes que Eduardo bebeu além do limite e passou mal. Se isso acontecesse a Daniel, queria estar por perto para acudi-lo. Decidida, ela continua sua leitura. Após três ou quatro páginas, não percebe, mas cai no sono. O livro é derrubado de seu colo quando se ajeita e, sem perceber, deita sobre o tórax do seu esposo. E os dois dormem juntos até o amanhecer.


14 LUA DE MEL ono apoderava-se de Daniel, mas um cheiro extasiante e adocicado de baunilha invadia suas narinas, fazendo-o despertar aos poucos. Ele conseguia sentir-se suado, e os trajes que usava grudar em seu corpo, dando-lhe uma sensação de desconforto. Ao mesmo tempo, sentia o calor humano e uma respiração quente batendo contra seu rosto, e inconscientemente, perguntou-se qual seria a origem daquilo.

S

Abrindo os olhos vagarosamente, quando os primeiros raios de sol bateram em seu rosto, adentrando pela janela de vidro com as cortinas abertas, seu corpo dá um salto leve ao se deparar com um corpo feminino ao seu lado. Sophia? Atônito, olha ao redor, se certificando de que não dormira em seu quarto. Lembrou-se vagamente do dia anterior e de como tinha abusado do álcool. Instantaneamente, uma aterrorizante possibilidade passou pela sua cabeça, e com um puxão repentino descobriu seus corpos. Um alívio percorreu suas veias ao constatar que estavam vestidos, ele ainda com o terno do casamento. Já mais calmo, deita-se de costas e respira fundo, encarando o teto, se perguntando como foi parar ali, no quarto dela, na cama dela, com Sophia dormindo feito um anjo do seu lado. Sua mente é um borrão, a cabeça lateja por causa de uma ressaca. Ainda assim, força-se a lembrar das coisas que aconteceram e que o levaram a situação presente. “Quero fazer um brinde de verdade agora” Sua própria voz ecoa no fundo de sua mente, e a imagem de Sophia sorrindo e bebendo uma taça de vinho vagarosamente atinge suas lembranças. Sem perceber, sorri pelo canto da boca, e seus olhos se desviam um instante para ela, que continua embalada no sono sereno. “Daniel!”, agora o timbre doce e soprano de Sophia rebobina por sua memória auditiva; ele se lembra de pegá-la no colo, enquanto ela lhe dizia para deixá-la no chão, pois estava bêbado e poderia derrubá-la. Outro sorriso se põe em seus lábios ao recordar-se de subir as escadas segurando-a em seus braços. A imagem de Sophia recostando-se a seu peito passa diante de seus olhos, mas ele não sabe se é sua imaginação fertilizada pelo álcool ou se de fato aconteceu.


Sem dar atenção a isso, continua forçando sua memória ao momento exato de ter chegado ali. “Não vai a lugar algum. Sou homem o suficiente para te carregar e abrir essa porcaria de porta” Vestígios de ele batendo o pé contra a porta de seu quarto ainda a segurando em seus braços retorna a sua memória – e uma gargalhada alta escapa ao se lembrar de Sophia caçoando dele. Rindo sozinho com suas lembranças, Sophia se remexe na cama, e ele se cala instantaneamente. Olha-a novamente e ajeita seu corpo para contemplá-la. É a primeira vez que a vê dormir, e mesmo com seus cabelos louros embaraçados e os lábios secos, Sophia continua linda. Sorri pelo canto da boca, sua mão alcança alguns fios que caem pelo seu rosto para tirá-los, jogando-os para o lado. Observando-a enquanto dorme, quase pode sentir seu corpo colidindo contra o dela quando, cambaleante e ainda a carregando, cai sobre a cama macia. A imagem dos lábios finos e dos grandes olhos verdes de Sophia tão próximos dele, e seu corpo comprimindo o dela, o atingem feito um raio quando suas lembranças se tornam mais nítidas, e, daí para frente, ele não precisa de esforço algum para entender como foi parar ali. Sua memória olfativa o leva ao momento que o cheiro natural de Sophia, junto com seu perfume tradicional de baunilha, subiu por suas narinas e ele sentiu um misto de êxtase e conforto. A sensação boa que percorreu seu corpo somado ao álcool que o dominava o fez pousar sua cabeça sobre o tórax de Sophia. Mesmo bêbado no momento, agora Daniel se amaldiçoa por ter desejado que as mãos pequenas dela bagunçassem seus cabelos, e ansiou sentir os finos lábios pressionando contra o topo de sua cabeça. Mas Sophia se esquivou enquanto ele se ajeitava na cama e se rendia ao sono, cansado e bêbado. Suspira pesadamente e se levanta, deixando-a sozinha.

♦♦♦

Sophia acorda e se depara com sua cama vazia. Ela se lembra perfeitamente que Daniel dormiu ali, e ao ver o lugar vazio sente uma pequena decepção por ele ter ido embora, sabe-se lá quando. Encara o lugar onde ele esteve na noite passada por um instante, antes de se levantar perguntando a si mesma por que raios dormiu na mesma cama que Müller. Após um banho rápido, ela desce as escadas sentindo seu estômago roncar. Ao chegar à sala de jantar, se depara com um Daniel dentro de um terno preto, sentado no topo da mesa, seus cabelos estão úmidos, e ele fala ao telefone celular, fazendo movimentos circulares com o indicador


na borda da sua xícara com chá. — … não, eu quero que remarque todos os meus compromissos dessa semana para a próxima. — Um pequeno silêncio, e sentindo a presença dela, Daniel levanta os olhos em sua direção, oferecendo-lhe um pequeno sorriso, enquanto Sophia se senta à mesa, posta com um café da manhã farto. — Tudo bem, esse pode deixar para o próximo mês, entendo que o senhor Vasconcelos é um homem ocupado. — Daniel a observa rapidamente se servindo com suco, e quando seus olhares se cruzam, ele se desvia e volta a fazer círculos na borda da xícara. — Sim, Anabelle, obrigado, e até semana que vem. — Encerra a ligação e a olha com um breve sorriso. — Bom dia. — Bom dia — responde após beber seu suco de maracujá — Não vai trabalhar essa semana? — Questiona após ouvir sua conversa. Beberica um pouco de seu chá antes de responder. — Não vamos. Sua declaração a deixa um pouco confusa. — Não… vamos? — Arqueia uma sobrancelha pousando seu copo de suco na mesa. — Não. — Reforça. — Programei uma viagem de “lua de mel ” para nós — sorri fazendo aspas com os dedos. Sophia está desconcertada e não sabe o que dizer. Remexe-se em seu assento e continua a preparar um pão integral. — Hm… isso realmente é necessário? — Sim. — Daniel responde prontamente — Primeiro, pois que casamento seria o nosso sem uma lua de mel? E segundo, eu preciso de uns dias de folga. Ela gesticula em afirmativo mastigando um pedaço da fatia de pão. — E para onde vamos? — Comprei passagens para um cruzeiro de Santos a Salvador. — Ah! — É tudo que consegue dizer. — Parece incrível… — soa com pouca animação. — Anime-se, Sophia. — ele a incentiva com um sorriso divertido nos lábios. — Tenho certeza que vai adorar a viagem de quatro dias. Sophia sorri brevemente e relaxa. A verdade é que, por mais que já esteja acostumada com a farsa do noivado, e agora casamento, ainda se sente um pouco receosa com a presença constante de Daniel, desde o incidente do banheiro em seu apartamento, e depois com o sonho meio erótico que teve com ele. Ela não pode negar que Daniel é um homem extremamente atraente. Sua pele é levemente bronzeada naturalmente pelo sol, a barba que envolve seu rosto é bem aparada – a cada semana varia entre cheia e rala – e sempre muito bem-feita, as sobrancelhas são grossas e seus cabelos alourados sempre estão bem penteados de lado e para trás, em alguns raros momentos, espetados, deixando-o sexy, mas sem tirar a postura de homem


sério e presidente de uma renomada empresa. Os músculos abaixo de sua pele são visíveis mesmo dentro dos seus ternos elegantes e de marca. E Sophia já reparou como saltam quando Daniel está aflito ou tenso. O que a deixa atônita e confusa é por que tem toda essa admiração por ele. Já viveu o suficiente para conhecer homens tão bonitos quanto Daniel. Miguel é um exemplo vivo: de porte atlético, também tem seus músculos espalhados pelo corpo, os olhos verdes fazem contraste à pele branca e aos cabelos quase castanhos, o rosto é triangular, raramente exibe barba, mesmo que rala, e as sobrancelhas são finas e bem-feitas. Então, por que todo esse carisma por Daniel? Por que esse medo de estar perto dele e sentir a corrente de energia que percorre de ponta a ponta o seu corpo? Uma corrente que começou a eletrizá-la há pouco tempo, pois nunca se sentira dessa maneira na presença de Daniel quando somente mantinham uma relação profissional. — Sophia? — A voz dele a puxa de volta à realidade, e só então percebe que está a encarar seu rosto bonito. Müller está sorrindo de uma forma divertida. Sophia está de volta à realidade, mas não consegue formar uma palavra ou uma frase coerente para lhe dizer. — Admirando minha beleza? — Brinca zombeteiro e gargalha em seguida, a fazendo engasgar com um pedaço de pão que mastigava. — Não… — ela consegue se recompor. — Só estou distraída. — Bom, então faça o favor de retornar ao planeta Terra, pois vamos ainda hoje para Santos. Nosso navio parte às 14 horas. — Daniel diz com bom humor terminando seu chá. — Como? — Exprime olhando no relógio. 7H30min. da manhã. — Esteja pronta às onze horas, senhora Müller — exclama com um sorriso humorado nos lábios, e a deixa sozinha outra vez.

♦♦♦

O navio a sua frente é de um tamanho estonteante. Os pequenos quadrados das janelas dos quartos são inúmeros, e Sophia acha impossível contá-los. Daniel se aproxima e põe-se a seu lado, apoiando as malas, que traz por baixo dos braços, no chão. Ele olha para Sophia que está observando o navio atracado. Seus olhos correm rapidamente pelo corpo dela. Sua esposa traja uma saia longa azul marinho, que agita conforme o vento a atinge, e uma camisa branca regata, delineando bem seu tronco. Os cabelos estão soltos, ela tenta afastá-los de seu rosto por conta das rajadas de brisa forte batendo forte, e seus olhos estão


cobertos por um Ray-Ban de lente dégradé. — Vai ficar só olhando? — Murmura ao pé de seu ouvido, e ela se sobressalta. — Que susto, Daniel! — Exclama enquanto ele ri de forma contagiante. — Como é grande esse navio. — Observa, e olha para ele que tem seus olhos grudados ao majestoso transatlântico parado a sua frente. Daniel está casual com sua bermuda branca, tênis e camisa polo. Também usa um Ray-Ban modelo aviador. — Sim, é grande. Vamos entrar? Enquanto caminham, Sophia passa seus olhos por todo o navio, e fica maravilhada de como cada canto do lugar é esplêndido. — É sua primeira vez em um Cruzeiro? — Daniel a tira de seus devaneios, e quando ela percebe estão caminhando por um longo corredor cheio de portas para todos os lados. A loura confirma com um balançar de cabeça. Daniel passa um cartão magnético na entrada da porta, que se abre segundos depois, revelando um luxuoso quarto. Sophia quase se engasga com a imensidão que é o cômodo e sente sua garganta ainda mais sufocada quando Daniel entra e apoia suas malas sobre a cama box de tamanho extraordinário. — É uma suíte presidencial. Digno para uma casal recém-casado, não acha? — Sorri pequeno encarando a expressão embasbacada de Sophia. — Você está bem? — Pergunta aproximando-se a passos cautelosos. —S-sim. — Sophia deixa de divisar o ambiente para encontrar o olhar de Daniel. — Vamos dormir no mesmo quarto? — Indaga totalmente confusa, já quase sentindo suas pernas tremerem diante da possibilidade. — Sim, Sophia — responde firme, arqueando uma sobrancelha. — O que pensariam quando eu reservasse dois quartos para um casal em lua de mel? Ela engole em seco e termina de entrar no local. — Eu sei, Daniel, mas não poderia, pelo menos, ter arrumado uma desculpa para que a gente ficasse em quarto diferentes? Ele suspira pesadamente, parece irritado. — Se não quer a minha presença, eu arrumo outro quarto para mim — a impaciência é explícita em sua voz, e ele já está prestes a sair quando Sophia o segura pelos punhos. Seus olhares se encontram por um segundo, e as pequenas mãos dela contornando seu punho envia uma energia diferente que percorre todo seu corpo, numa sensação prazerosa. Ela se esquiva rapidamente. — Desculpe, não era isso que eu quis dizer. Gosto da sua companhia, mas é que… eu


preciso de privacidade. — Se explica com a voz baixa. — E você também… — adiciona. — Mas tudo bem, acho que podemos ficar no mesmo quarto. Não quero que no segundo dia de “casamento” já tenham motivos para publicar uma matéria sobre nós em uma revista qualquer de fofoca — suspira passando por ele. Daniel respira fundo praguejando-se por ter sido rude. Volta-se a ela, caminhando com as mãos dentro do bolso. — O sofá é grande e parece ser confortável. Pode ficar com a cama. — Nem pensar, senhor Müller. — O contraria com um tom sério, enquanto desfaz as malas e pendura suas roupas no cabide. — Vamos nos revezar e dividir a cama. Daniel revira os olhos e se senta sobre o colchão, a observando. — Não. Você fica com a cama e eu com o sofá. Ponto final. — Decreta e cruza os braços. Sophia ergue a sobrancelha e joga uma de suas camisas na cara de Daniel, que gargalha — Não ouse me desafiar, Daniel Müller — sua voz é carregada de sarcasmo. — O que fará, Sophia Hornet? — Inquire sorrindo largamente. Subitamente, ela se aproxima e o empurra contra a cama, montando sobre os quadris de Daniel, que cai de costas no colchão macio, aos risos delirantes. Suas mãos encostam sobre o peito forte dele enquanto riem por um segundo. As risadas cessam, mas os dois não percebem que se encaram seriamente, atrelados demais um ao outro. Daniel tem sua atenção presa aos lábios de Sophia, seus olhos descem até sua camisa que, com o dorso encurvado, permite que os pequenos seios dela estejam um pouco mais à mostra que o normal. A imagem de Sophia nua no banheiro o atinge, e ele quase se lembra com nitidez de como são seus seios despidos. Sophia observa como o tronco de Daniel é largo e a pele é macia. Os olhos dele estão enigmáticos e um brilho intenso escapa de sua íris. Inconscientemente, o indicador toca o bíceps forte, e se mantém concentrada em como são torneados, de como saltam mesmo sem esforço algum. Daniel acompanha o delicado dedo a deslizar pelo seu bicípite, e o simples toque o deixa ereto. O pequeno corpo sobre o dele, a visão que tem dos seios médios, somado ao perfume que exala dos cabelos louros e do pescoço sedoso, fazem com que o espaço de sua cueca seja curto demais para acomodar seu membro pulsante. Müller cerra os olhos, tentando segurar sua vontade e ao mesmo tempo rezando para que ela não sinta o volume em sua bermuda. De repente, Sophia recobra a sanidade e sai de seu colo. Ela ainda está sem jeito enquanto Daniel se senta na cama e olha fixamente para baixo, em uma respiração curta. Sophia pensa em abrir a boca para dizer alguma coisa, mas ele já se levantou e alcançou a porta, deixando-a, pela terceira vez, sozinha.


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Daniel seguiu a passos rápidos até o bar mais perto que havia dentro do navio. Estava demasiadamente excitado a ponto de quase enlouquecer. Passando a mão pelos cabelos, pediu uma tequila e virou garganta a baixo, bateu o copo sobre a mesa e solicitou outra dose. Bufou, impaciente, sentindo a necessidade da carne. Ponderou que ter decidido fazer essa viagem foi uma péssima ideia. Sophia era uma mulher atraente, que o deixava excitado com algumas poucas atitudes, enquanto tantas outras era preciso muito mais que um simples contato de peles. Engoliu a bebida e tentou relaxar. Pegou alguns folhetos sobre o balcão do bar, viu que, na primeira noite, haveria uma festa à fantasia. Decidiu ir e esquecer Sophia e o poder que ela vinha exercendo sobre seu corpo.

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Daniel havia sumido, e Sophia não fazia a mínima ideia de onde ele poderia estar. Por um breve instante, ficou preocupada, por causa do modo atônito que Müller saiu do quarto. Não sabia explicar exatamente o porquê de sua atitude, mas deduziu que foi pelo fato de ter montado em seus quadris, como se fossem íntimos a esse ponto. Idiota, culpou-se em frente ao espelho, enquanto ajeitava os cabelos. Pensou em pedir desculpas a Daniel assim que o visse. Estou constantemente pedindo desculpas!, suspira pegando sua bolsa-à-tira-colo e saindo do quarto para andar pelo navio. O lugar é imensamente grande, e Sophia não sabe por onde começar, então apenas anda. Passa pelo cassino, mas jogos de azar a fazem lembrar das apostas que levaram sua família à ruína, então, logo se desvia e continua passeando. Entra em algumas lojas, em uma delas há um cartaz na vitrine anunciando uma festa à fantasia ainda naquela noite. Pensa em ir, mas lembra-se que está sozinha. Quase. Não fosse Daniel. Mas convidá-lo para irem a uma festa seria estranho. Ou não? Sorrindo para si mesma, decide ir, mesmo que seja só.

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As luzes piscam e o som da batida da música eletrônica soa alto acima de sua cabeça. Daniel caminha entre as pessoas com um coquetel nas mãos, sentindo-se totalmente patético no meio daquelas tantas pessoas. É um homem de 29 anos, presidente de uma grande empresa, fantasiado de bombeiro em uma festa de adolescentes. Okay… Há até mesmo algumas pessoas


mais velhas que ele, mas pela maturidade que exala de Müller, ele deveria estar em uma peça teatral ou ópera, em vez de uma festa idiota regada a álcool e corpos esfregando nele o tempo todo. Do outro lado da pista, uma morena fantasiada de enfermeira sorri maliciosamente, e ao percebê-la, Daniel tira a aliança, guardando-a no bolso da bermuda, sempre indo de encontro à mulher que continua a olhá-lo e a morder os lábios. Discrição, Daniel, reforça mentalmente. Mesmo casado, há um contrato de que ele pode continuar tocando a sua vida. Então é isso que irá fazer. Tinha ficado excitado mais cedo e ainda precisava saciar sua necessidade sexual. Com um pouco de sorte, seria com a morena atirada. — É o bombeiro mais gostoso que já vi — a mulher murmura em uma voz sensual quando, finalmente, estão próximos. — Christina, muito prazer…? — Estica a mão e ergue a sobrancelha, solicitando seu nome. — Daniel — sorri de lado e aperta a mão sedosa de Christina. — Eu me sinto um pouco doente, acha que poderia cuidar de mim? — Ele agarra o corpo da morena e pressiona contra o dele, sussurrando em seu ouvido. Sua língua desce rapidamente pelo pescoço dela, eriçando os pelos de Christina. As mãos femininas alcançam o meio de suas pernas e faz uma leve pressão. Ele retorce o corpo e se pragueja por se sentir incomodado com o gesto, em vez de excitação. Se fosse Sophia, provavelmente já estaria ereto só de olhá-la dentro de uma fantasia de enfermeira. Para tirá-lo de seu devaneio, Christina o beija e ele arregala os olhos, surpreso com a atitude. Por mais que esteja relutante, retribui, tudo no intuito de tirar a “esposa” da mente. Suas mãos seguram a mulher pela cintura e os dois se beijam com mais intensidade, enquanto as luzes continuam a piscar e a música a tocar alto acima deles. — Ei, acho que preciso apagar o seu fogo — Daniel separa suas bocas e a encara com um sorriso. — Adoraria que apagasse o meu fogo com sua mangueira — ela cicia sedutoramente e lhe morde o lóbulo de sua orelha. Müller sente dor em vez de prazer. Que porra há comigo?, pragueja-se. — Vamos tomar alguma coisa antes? — Convida e não espera por uma resposta, apenas a arrasta até um balcão e pede duas doses de uísques. Eles bebem o etílico trocando olhares; Daniel pensa seriamente em dispensá-la, afinal, Christina não despertara nada nele. Nem tesão. Seus olhos correm pela boate enquanto a voz da mulher ressoa por cima da música elevada, falando alguma coisa que ele não está nem um pouco interessado em saber. Sua atual acompanhante diz algo sobre ir ao banheiro e que volta logo. Desinteressado, Daniel apenas acena com as mãos, e continua a observar em volta. De repente, seus olhos param na entrada do local. Uma exuberante mulher entra no lugar.


Seus cabelos louros estão soltos, sendo segurados apenas por dois chifres de Diaba, a maquiagem é um pouco pesada, mas que não deixa de evidenciar seus grandes olhos verdes, o body de couro e vermelho marca cada curva dela, o traje não tem alças, e os seios são sustentados pelo bojo que aperta e faz com que eles saltem, aumentando naturalmente o volume. As pernas compridas e as coxas finas são tampadas apenas por uma meia-calça fina, também vermelha, e ela está mais alta por conta de um salto escarlate. Sophia! Os olhos de Daniel se arregalam diante a imagem que vê, e ele quase se afoga com o drink que toma. Sophia entra na boate olhando para todos os lados e chama a atenção de quem nota sua presença. E não é para menos. Como uma maldição, a imagem da Diaba faz seu pênis ganhar vida. Enquanto a morena não conseguiu animá-lo com beijos e provocações, a loura que entra na discoteca o fez somente com sua fantasia de diabinha, fertilizando a imaginação de Daniel – e de todos os homens presentes. Um deles, fantasiado de Capitão Jack Sparrow, se aproxima e espera por Sophia no sopé da escada. Daniel observa a cena sentindo uma sensação estranha circular todo seu âmago. A mesma sensação que sentiu quando viu Miguel na porta do apartamento dela, um mês antes, no jantar de noivado deles. Müller está ciente de que Sophia irá dispensá-lo, mas seu queixo cai quando ela sorri largamente para o homem e segura em sua mão. Irracionalmente, Daniel se levanta e caminha em direção a Sophia e ao Capítão Jack Sparrow a passos decididos, sentindo tanta raiva que pensou ser capaz de deixar um buraco no chão a cada passada. Seu sangue ferve, e seus olhos queimam ainda mais quando o fantasiado contorna o quadril de Sophia e juntos adentram em direção à pista de dança. Quando dá por si, ele já os alcançou e está empurrando o homem para longe de Sophia, gritando mais alto que a música: — Não toca na minha mulher, seu cretino!


15 LUA DE FEL ophia saiu da loja de fantasias animada para o baile que seria dentro de pouco, previsto para iniciar às vinte horas. Andou mais um pouco pelo navio, e até passou em um barzinho para tomar um drink. Logo ao seu lado, sentou-se uma morena bronzeada, a qual, sem demora, passaram a conversar. Sophia estava sozinha e precisava de distração, por isso, não se importou muito em dar atenção à mulher bem-humorada que não parava de falar, mas que tinha um papo agradável.

S

Para seu primeiro pedido, optou apenas por uma dose de caipirinha, e durante os próximos minutos conversando com sua nova companhia, decidiu ingerir somente uma soda com limão. A conversa fluiu naturalmente, e quando deu por si, estava sendo arrastada de volta à loja de fantasias e aconselhada – ou quase obrigada – a levar a roupa de diabinha. De primeira, Sophia sentiu-se receosa, achou que a vestimenta era extravagante demais, que isso poderia chamar mais a atenção do que ela realmente gostaria de receber. Mas a insistência da mulher a convenceu e ela acabou trocando e pagando a diferença. Quando o ponteiro do relógio marcou sete e meia, Sophia despediu-se da mulher, combinando de se encontrarem na boate, e seguiu para seu quarto. Chegou e não viu Daniel, suspirou querendo saber onde ele estaria. Aproximou-se mais da cama para deixar as sacolas e encontrou um pequeno papel autoadesivo amarelo rabiscado com a letra dele.

Irei me divertir. Faça o mesmo. Daniel

Deixou o bilhete no mesmo lugar e correu para o banheiro, deixando a água quente relaxar e limpar seu corpo. Olhando-se no espelho, subiu a meia-calça vermelha e provocante pelas pernas e vestiu o body de couro, que ficou justo em seu corpo, salientado as curvas. Rodou o corpo 360 graus, observando como seus seios médios foram aumentados pelo modo como a roupa os apertou, sustentados pelo bojo do traje sem alça. Sorriu para si mesma enquanto secava os cabelos e fazia uma escova para ondular as pontas. Resolveu maquiar-se um pouco mais forte que o de costume, e pintou os olhos de forma a ressaltar sua íris esverdeada. Ajeitou o arco com os chifres nos cabelos e esborrifou um pouco de perfume. Encarou-se um segundo no espelho e sentiu-se feliz. Realmente estava bonita


Saiu do quarto sentindo os olhares de todos sobre ela, mas, estranhamente, isso não a incomodou, pelo contrário: achou-se linda e poderosa. À medida que se aproximava da discoteca, mais o som da batida de música era nítido a seus ouvidos. Parou à porta da boate e respirou fundo, sentindo logo atrás os mesmos olhares de quando saiu do quarto. Suspirou pesadamente, até pensou em voltar, tirar a fantasia ridícula, trancar-se, pegar o livro que trouxe e ler. Então, lembrou-se do recado de Daniel:

Irei me divertir. Faça o mesmo. Por isso, seguiria seu conselho. Estufou o peito inspirando fundo outra vez e adentrou o local pouco iluminado. Da ponta da escada, pôde ver as pessoas lá embaixo dentro de suas fantasias. Umas bebiam e dançavam, outras se beijavam e riam com seus companheiros ou amigos, em grupos e em círculo. Reparou em uma grande bola espelhada no teto, girando, reluzindo luzes azuis, vermelhas e amarelas por todo o lugar de altas paredes pretas. Em um canto qualquer, havia um DJ controlando a luz e a música, e logo a seu lado uma segunda pessoa que, vez ou outra, acionava um dispositivo para emanar uma camada de fumaça de forte cheiro adocicado. Assim que despontou na entrada na boate, novamente, sentiu a atenção de todos, mas não se importou. Pôs-se a descer os degraus com cautela, já que seu salto escarlate era maior que o habitual. Observava tudo e todos atentamente, buscando pela morena com quem conversara e que fora a mentora por ela estar dentro daqueles trajes. Qual era mesmo o nome da mulher? Christina? Sim, deveria ser isso. Seus olhos percorriam o local quando um homem vestido de Jack Sparrow parou ao sopé da escada com um sorriso encantador. O que a admirou mais foi a incrível semelhança com o ator Johnny Depp: um sósia perfeito. De longe, poderia jurar que era o próprio. — Senhorita, — ele esticou as mãos a ela quando, finalmente, venceu o lance de degraus — concede-me a sua doce companhia? — Até mesmo o timbre de sua voz se assemelhava a do ator. Abriu um sorriso largo diante a educação do homem e segurou sua mão. — Estou lisonjeado… — Exprimiu um sorriso magnífico com a aceitação de Sophia ao seu convite. — Se me permite… — e a abraçou pela cintura. Sophia sentiu-se levemente relutante, mas logo deixou seu desconforto de lado. — Meu nome é Erick, e o seu? Está prestes a responder quando, subitamente, algo acontece. Daniel surge sabe-se lá de onde, com sua íris azul-esverdeada queimando de raiva. Sem esperar, violentamente empurra Erick, que, surpreso, se desequilibra e cai, enquanto ele esbraveja: — Não toca na minha mulher, seu cretino! Os olhos de Sophia se dilatam diante à violência de Müller. Erick continua no chão e é


ajudado por outras pessoas. A confusão causada por Daniel faz com que a música pare de tocar e todos olhem para o trio em um silêncio tenso, quebrado apenas pelos cochichos alheios. — Daniel! — Sophia exclama o advertindo e corre até Erick, que já se recompôs — Você está bem? — Ela pergunta, mas antes que possa obter uma resposta, a mão de Müller a segura pelo braço e a arrasta para um canto qualquer da boate. Vendo que a briga não teria continuidade, o som volta a tocar e as pessoas, a dançarem. Sophia caminha com dificuldade enquanto Daniel aperta seu braço, atravessando-os pelo mar de pessoas que mexem os corpos conforme o ritmo da música. Os saltos não a ajudam; ela precisa se esforçar para não desabar feito uma pata. Irritada com tal atitude, se desvencilha da pegada de Daniel e para no meio do caminho, cruzando os braços. — Pode me dizer o que foi isso? — Exige, e Daniel permanece de costas, estacado no meio do caminho. Por alguns segundos, Müller não tem reação alguma, até que, bruscamente, ele se vira, seu semblante está fechado e o maxilar, apertado. Ela quase pode sentir faíscas escaparem dos olhos masculinos, os músculos estão tensos e são visíveis pelo modo como saltam da camisa regata vermelha que ele traja. — Pode me dizer que vestes são essas? — Rebate com a voz firme e autoritária, ignorando o questionamento inicial de Sophia. Os olhos dela se estalam, uma expressão incrédula é posta em seu rosto. — É uma fantasia, Daniel! — Protesta com a voz alterada. Müller só poderia estar ficando maluco. Primeiro, empurra Erick, que nos primeiros minutos fora agradável e educado, depois fica incomodado com o modo como estava vestida. Ponderou se ele já não estaria bêbado, ainda que isso não justificasse sua atitude agressiva. — Eu sei, mas não poderia ter comprado algo menos chamativo? Uma roupa de freira, por exemplo!? Sophia cerrou os olhos e inspirou fundo, exercitando sua paciência. Não deixaria que Daniel, não sendo nada dela – além de chefe – atrapalhasse sua noite com atitudes machistas, ou dissesse como deveria se vestir. Decidida a ignorá-lo, ela simplesmente saiu caminhando pelo lado oposto ao dele, ouvindo-o chamar por seu nome em suas costas. Sem lhe dar atenção, continuou passando pelas pessoas e abrindo caminho. Sentia suas pernas tremerem de raiva. Seu corpo todo tremia de ódio. Imbecil!, pensou ao chegar ao bar da boate. O barman logo veio atendê-la e ela pediu uma cerveja. Precisava de alguma coisa para ajudá-la a manter sua paciência. — Sophia? — Ouve uma voz feminina ao seu lado e vira o pescoço para divisar Christina, abre um pequeno sorriso bebendo sua cerveja direto do gargalo. — Você está incrível, mulher! — Exclama toda animada e a abraça.


— É, acho que estou — sorri pequeno e se ajeita no banco alto. — Não parece muita animada. — Christina observa e inclina a cabeça, enquanto Sophia dá de ombros. — Acho que você precisa de uma companhia masculina — sugere com um sorriso malicioso nos lábios. Rindo, Sophia nega com o indicador, e Christina insiste entrelaçando os dedos, como se estivesse implorando. — Eu estou ótima sozinha — Sophia argumenta, mas a verdade é que queria mesmo estar com alguém. Olhou ao redor em busca de Erick. Ele parecia ser um cara legal. — Não está, não. Vou te arrumar uma companhia. — Decreta, e antes que ela saia, Sophia a segura pelo braço. — Olha, eu não preciso de cúpido, está bem? — Disse tentando não parecer mal-educada, e os ombros de Christina caem em frustração. — Tudo bem, se você não quer, eu quero. Conheci um bombeiro delicioso — comenta molhando os lábios com a língua. — E onde é que está ele? — Sophia pergunta aos risos. — Sumiu! — Responde ligeiramente irritada. — Fui ao banheiro, e quando voltei, ele não estava mais aqui. Mas irei procurá-lo. Daqueles olhos claros e rosto perfeito eu não me esqueço — fala lambendo os lábios outra vez, e Sophia gargalha. Elas se despedem, Sophia continua sentada com sua cerveja, olhando ao redor e acompanhando a música mentalmente. Os nervos já estão mais calmos, e ela pondera em procurar Erick e se desculpar pela atitude Neandertal de Daniel. Rola os olhos só de pensar na imbecilidade dele. … não poderia ter comprado algo menos chamativo? Uma roupa de freira, por exemplo!? As palavras machistas ecoam em sua cabeça mais alto que a música tocando por todos os lados. Daniel não poderia ser mais estúpido. E ela que sempre o achou cavalheiro e educado se mostrou um perfeito machista e homem das cavernas. Idiota! A raiva subia novamente pela sua espinha, e Sophia precisou beber outro gole da cerveja para não permitir que o ódio a dominasse. De repente, Christina está retornando. Ela beija e puxa um homem pela camisa regata vermelha, ao mesmo tempo em que caminha de costas, e ele a segura pela sua cintura, a direcionando para que não esbarre em algo ou alguém. Seus olhos se dilatam ao reconhecê-lo. Daniel? O casal fogoso se aproxima do balcão; Christina está descabelada devido à troca intensa


de beijos. Rapidamente Sophia se vira para frente e abaixa a cabeça, pensando em sair de fininho dali, mas a mulher a interrompe: — Sophia, esse aqui é o bombeiro gostoso que te falei. — A amiga fala, e ela levanta os olhos. Quando seus olhares se chocam, a expressão de Daniel é de surpresa, e eles apenas se encaram. — Daniel, essa é minha colega Sophia. Nos conhecemos hoje — Christina enuncia, empolgada. — Sophia, esse é Daniel, meu bombeiro delicioso. — Gargalha passando a mão em torno da cintura dele. Sophia pigarreia, e está prestes a dizer que já conhece a Daniel, quando ele estica a mão em sua direção. Ela fita sua mão esticada, confusa, e depois volta a olhá-lo para ouvi-lo dizer: — Prazer, Sophia.

♦♦♦

Daniel olhou aquela bunda bonita passar por entre a multidão e sentiu a raiva crescer dentro dele. Homens olhavam para Sophia enquanto ela atravessa a aglomeração de pessoas, e isso o deixou possesso. Ele gritou seu nome, mas Sophia não lhe deu atenção e continuou seu percurso até sumir no meio de toda aquela gente. Inspirou fundo emaranhando os dedos pelos fios alourados. Preciso me acalmar!, pensou andando até o WC mais próximo. O fogo ainda queimava em seu peito e continuava excitado. Entrou no banheiro, bateu a porta atrás de si e caminhou rapidamente até a pia, abriu a torneira e lavou o rosto com água fria. Mirou-se no espelho. Seu rosto estava vermelho por causa da temperatura instantânea que subiu pelo seu corpo ao ver outro homem com Sophia. Suspirou pesado tentando entender sua possessão repentina por ela. Ele não deveria se importar, mas não só se importou, como agiu feito um macho marcando território. Puxou os cabelos com força para expelir a raiva dentro dele. Agora, ele não sabia o que era maior: raiva por vê-la tão linda e ser cobiçada por outro, ou raiva de si mesmo por ter sido um maldito estúpido, ou ainda por não saber entender todo o poder sobre seu corpo e mente que sua esposa de conveniência vinha exercendo. Preencheu os pulmões com ar, lavou o rosto outra vez e se secou com algumas toalhas de papel. Lembrou-se de Christina, e decidiu voltar para ela, se divertir e extravasar esse sentimento de macho alfa e troglodita que surgira repentinamente. Saiu do banheiro; passou por entre as pessoas. Foi caminhando no intuito de voltar ao bar do outro lado da pista de dança, onde esteve inicialmente, ponderando que a morena continuaria


a sua espera. Subitamente, ele sente alguém apertando sua bunda, e se vira, assustado, para encarar os olhos cor de âmbar de Christina. — Finalmente achei você, bombeiro gostoso. — Diz maliciosamente colando os dois corpos. — Achei que já estava pulando para outra corporação — sussurra em seu ouvido. — Fui ao banheiro… — se explica, enquanto segura sua fina cintura. Daniel sente sua ereção ainda por causa da diaba, e um desejo imenso de se satisfazer quase o controla. Os dois se beijam, o gosto de uísque ainda está na boca da morena, as mãos habilidosas seguram sua regata e ela o puxa, caminhando de costas, passando desajeitadamente pela multidão. — Vamos para o seu quarto — Daniel convida com sua boca colada a dela. Ele não estava excitado por Christina, mas precisava urgentemente se aliviar. Christina dá um largo sorriso e continua a puxá-lo. — Antes vou te apresentar a uma amiga. Ela está sozinha e quero que se anime. Talvez, se ver que estou me divertindo, decida procurar um bombeiro. Daniel revira os olhos, mas concorda. A fogosa morena continua a puxá-lo até o balcão onde estavam. Enquanto se beijam e atravessam os corpos das pessoas dançando sob as luzes psicodélicas e música alta e eletrônica, eles se aproximam do bar, e ele, pelo canto do olho, vê uma loura conhecida, vestida de diabinha. Sophia? Antes que possa terminar de processar a informação, Christina para o beijo e o arrasta até a suposta amiga, proferindo: — Sophia, esse aqui é o bombeiro gostoso que te falei. Sophia está cabisbaixa, e Daniel sente seu coração saltar pela boca. Merda! Grande merda!, amaldiçoa-se. A loura levanta seus olhos para fitá-lo com uma expressão que é um misto de surpresa e raiva. Sua pulsação acelera e o sentimento que o invade é uma confusão que ele não consegue descrever . Talvez medo que ela faça um escândalo, ou temor que ela não olhe nunca mais em sua cara. Mas por que porras estou incomodado com isso?, pergunta a si mesmo enquanto Christina continua a tagarelar. — Daniel, essa é minha colega Sophia. Nos conhecemos hoje — a morena fala toda empolgada. — Sophia, esse é Daniel, meu bombeiro delicioso. — E solta uma gargalhada, passando a mão em torno de sua cintura e o apertando contra seu corpo moreno e sensual.


Ele encara Sophia, que está prestes a abrir a boca e provavelmente confirmar que já se conhecem, que são casados e que estão em “lua de mel ”, tudo, quem sabe, no intuito de desmascará-lo ou se vingar por ele ter agido como um perfeito machista. Então, Müller a impede. Não poderia permitir que ela fizesse isso. Naturalmente, estica sua mão a ela. Sophia está pasma enquanto olha para sua palma estendida, e depois, para ele. — Prazer, Sophia — a saúda como se tivessem acabado de se conhecerem. E ela fica ali, parada, sem saber o que fazer. Daniel engole em seco. Pondera que não foi uma decisão inteligente fingir não a conhecer. Sophia poderia surtar ali mesmo, se quisesse. Vagarosamente, ela estende suas pequenas mãos e trocam o cumprimento. — Prazer. Daniel! — Cumprimenta-o entre dentes e com desdém. Eles cessam o aperto de mão e Daniel força um sorriso tenso — Ele não é mesmo lindo, Sophia? — Christina alterna o olhar entre eles, parecendo perceber a tensão que os ronda. Sophia apenas confirma com a cabeça; bebe outro gole de sua cerveja. Daniel limpa a garganta e desvia os olhos para outros cantos do ambiente. — Eu disse que era lindo! — Christina continua matracando, e Sophia está com sua paciência por um fio. — Mas este é meu. Não acha que deveria arrumar um para você? — Insinua maliciosamente, e Daniel volta seu olhar a Sophia, abrupto, visivelmente incomodado com tal sugestão. Sophia abre um sorriso diabólico para combinar com sua fantasia. Levanta-se determinada, passa a mão pelo corpo e ajeita os “chifres”. Bebe o último gole da cerveja e bate a garrafa no balcão. — Tem razão! — Profere, e sente os olhos claros dele queimar sobre ela. — Pode ficar com seu bombeiro. — Mira Daniel que está de maxilar tensionado. — Irei procurar meu Jack Sparrow — decreta e sai rebolando.

♦♦♦

Idiota! Cretino! Maldito! Mil vezes idiota!

Sophia pragueja contra Daniel enquanto caminha para fora da boate. Foi um erro ter vindo a festa. Foi um erro ter vindo ao cruzeiro. Foi um erro ter aceitado esse casamento! Os saltos escarlates batem contra o piso de mármore, e ela caminha sozinha por um corredor solitário, os passos fazendo eco pelo lugar.


Ela sente o sangue fervilhando dentro dela, as mãos tremem de raiva e os olhos queimam a ponto de juntarem lágrimas. Sophia havia se enganado com Daniel. Ele era um idiota sem tamanho. Por todos aqueles meses de convivência com ele acreditou que Müller fosse diferente, mas logo revelou um lado que ela não conhecia: arrogante, estúpido, cafajeste e brutamonte. Julgou-o por sua postura elegante e educada, no entanto, não passava de uma carcaça bonita. Caminhava a passos rápidos apenas querendo chegar até seu quarto, tirar aquela roupa estúpida e dormir. Se é que conseguiria. A imagem de Daniel beijando outra boca e se agarrando à morena bronzeada fez seu sangue ir para a cabeça. Quase teve vontade de pular na jugular de Christina e arrancá-la dele. Depois, caparia Daniel e o faria engolir os próprios testículos. Idiota!, gritou mentalmente. Quer dizer que ela não poderia ter uma companhia, enquanto ele podia se esfregar com qualquer uma? Era um maldito machista, imbecil e Neandertal! Parou para tomar fôlego. Os nós de seus dedos estavam brancos e os pés ardiam. Sentouse à borda de um chafariz e enfiou o rosto entre as mãos, controlando o choro raivoso preso dentro de sua alma. — Ei! — Ela ouviu uma voz e ergueu a cabeça. Sorriu pequeno ao ver Erick parado a sua frente, ainda vestido de Jack Sparrow. Ele se agachou para ficar à sua altura e tocou um joelho no chão. Olhou dentro daqueles olhos negros penetrantes, o perfume cítrico dele impregnou em suas narinas. — Você se sente bem? — Perguntou prestativo. — Sim… — respondeu com a voz falha. — Tem certeza? Ela confirma apenas com um maneio de cabeça e deixa seu olhar perdido. Erick se senta a seu lado e eles se olham. — É por causa daquele cara, não é? Sophia suspira, trêmula. — Ele te machucou? — Pergunta a Erick, se lembrando do empurrão. — Não. Ele só me pegou de surpresa. — Me desculpe por isso. — Não se preocupe. Ex possessivo? — É um pouco mais complicado que isso — Sophia ri nervosamente, e ele a acompanha baixinho. — Não quero falar sobre isso. Daniel é um idiota. — Claro. — Erick assente, e ficam um minuto em silêncio, ambos olhando para frente.


— Você é muito parecido com o Johnny — Sophia quebra a quietude. — Noventa por cento é produção — confessa, e ela lhe abre um pequeno sorriso. — Sou um grande admirador dele, então trabalho como sósia imitando alguns grandes personagens que interpretou, como Willy Wonka, Edward, Mãos de Tesoura, Chapeleiro, mas meu preferido é o Jack Sparrow. Capitão Jack Sparrow — Corrige-se prontamente, gesticulando como faria o personagem. Sophia ri brevemente, encantada. — Você ganha a vida como sósia dele? — Sophia pergunta, admirada, e Erick confirma com um aceno. — É um trabalho bonito — elogia, e ele a agradece com um sorriso caloroso. Então, a loura percebe que ele é um bom homem. Talvez seja um idiota e homens da caverna como Daniel e tantos outros, mas só pelo fato de não a ter cantado ou a assediado, principalmente por conta de sua chamativa roupa, isso a fez cativá-lo. — Você aceitaria tomar alguma coisa comigo? — Erick profere a tirando de seus devaneios. Se Daniel pode se divertir, por que eu não? — Claro. Mas não quero voltar para a boate. — Sophia não queria encontrar Daniel com a morena nem que ele a visse com Erick. Só que desejava era se divertir e não se envolver em outra confusão. — Certo. Antes eu poderia saber o seu nome? — Solicita e abre outro daquele sorriso encantador. Sophia ri por seu descuido idiota e estica a mão. — Sophia Hornet. Ele retribui o cumprimento, sentindo a maciez da pele feminina. — Erick Gouveia.

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Sophia e Erick caminharam juntos até o bar do outro lado do navio. Uma caminhada de dez minutos que pareceram dois, por conta da conversa deles. Erick era um homem extremamente simpático, inteligente e bem-humorado. Pelo caminho, ele foi lhe contando mais sobre seu trabalho como sósia, e até fez imitações perfeitas do protagonista da franquia de Piratas do Caribe. Sua atuação era impecável. Erick não era apenas parecido, mas os gestos, o timbre de voz, as atrapalhadas e os movimentos corporais eram idênticos ao épico personagem de Johnny Depp. Chegaram à um barzinho quase vazio e chamaram a atenção dos poucos presentes. Capitão Jack Sparrow com uma Diaba: era cômico até para eles.


Educadamente, Erick puxou uma cadeira para ela, se pondo ao seu lado, querendo saber o que ela gostaria de beber. Sophia optou por uma água tônica, e Erick solicitou bourbon. — Estou mesmo envergonhada pelo modo como o Daniel te tratou — lamenta outra vez acompanhando a borda da lata com o indicador. Seus olhos estão baixos e nega-se a olhar para o homem a seu lado. Erick sorve um gole da bebida quando a escuta. — Não se preocupe com isso, eu já disse. Estou mais que acostumado a lidar com situações assim, acredite. — Tenta acalmá-la após limpar os lábios com o guardanapo. Sophia ergue seus grandes olhos verdes para ele, que tem um pequeno sorriso no rosto. Erick realmente parece ser um cara legal. — Achei que o veria nervoso outra vez — cicia quase envergonhada. — Ele parece calmo, mas quando se irrita explode feito uma bomba atômica. — Ele já te agrediu alguma vez? — Erick pergunta com um tom realmente preocupado. — Oh, não. Acho que Daniel não é violento a esse ponto. Quero dizer, houve uma vez que me deu uma cotovelada, mas ele estava brigando com outro cara, e eu fui tentar impedi-lo. Daniel estava tão possesso que nem percebeu que era eu a segurá-lo. — Compreendo… — Erick apenas diz com seus olhos pretos presos a ela. Sophia toma um gole da sua tônica antes de continuar: — Quando ele te empurrou lá na boate, eu vi a mesma raiva saltar dos olhos dele como quando brigou com Miguel. Não sabe como eu te agradeci mentalmente por não ter revidado. — Sophia o olha e sorri sinceramente. — Eu não gosto de confusão — Erick responde terminando sua bebida. — Mas eu não pensaria duas vezes se ele partisse para cima de mim ou te machucasse. Sophia desvia os olhos rapidamente e sorve o último gole da sua bebida. — Agradeço a sua preocupação. — Nada que eu não faria por qualquer senhorita — profere, e sem perceber ela sorri. — Bom, acho que vou te deixar no seu quarto e depois voltar para a festa, ou dormir, ainda não sei. — Diz com bom humor, e sorri largamente. — Se você quiser, claro. Sophia acena. Está exausta física e mentalmente depois de tudo. Ainda era relativamente cedo, mas ela queria tirar o body de couro que começava a incomodá-la e se enfiar por baixo das cobertas macias e dormir. Aproveitaria mais o dia assim que amanhecesse. Juntos, caminham até seu quarto, não muito distante dali. Erick a acompanhou com a mesma conversa agradável de sempre, sem olhares indiscretos, sem cantadas baratas, sem assédio sexual.


Ele é realmente um cara legal. — Suíte presidencial? — Erick questiona quando já estão parados frente à porta. Sophia exibe um sorriso acanhado. — Longa história… — Apenas diz e levanta os olhos. — Claro. — Ele anui sem insistir. — Se por acaso quiser conversar, este é meu quarto — retira uma caneta do seu bolso e segura em sua palma, anotando as coordenadas de seu aposento. Sophia sorri enquanto sente a ponta da caneta roçar sua pele. — Que diabos é isso? — A voz de Daniel forte e ríspida ressoa pelo corredor. Ambos se sobressaltam, e Sophia encara um Daniel Müller vermelho de raiva. Seus cabelos estão bagunçados e sua cara marcada com batom. Sophia revira os olhos e sente as pernas tremerem de raiva. — Eu já não disse para ficar longe da minha mulher, capitão? — Grita se aproximando como uma fera. Erick não recua, mas dá um passo à frente, pronto para enfrentar o oponente. Sophia se põe entre os dois, impedindo a briga. — Daniel, vá embora — Pede, e ele a olha com um olhar furioso. — Esse é o nosso quarto! — Rebate entre dentes. — Então entre e fique quieto lá dentro! — Ela fala mais alto, enquanto Erick acompanha a cena. — Não me diga o que fazer! — Brada visivelmente alterado. — Relaxa aí, meu chapa. Mantenha a calma. Não grite com ela — Erick interfere sem se alterar, e em resposta recebe um olhar intenso de Daniel. Ele tenta avançar, mas Sophia o impede, quase sentindo que seus saltos cederiam logo, logo. — Daniel, por favor! — Sophia suplica o olhando. — Eu não quero confusão! Mas Müller é teimoso feito uma porta e não sai do lugar. Continua a fuzilar Erick com sua íris antes clara, agora vermelha pelo fogo da fúria. Sophia suspira pesadamente e se vira para Erick. — Desculpe, mas eu não quero dor de cabeça. Pode se retirar, por favor? Gouveia emite um olhar preocupado e mira Daniel que continua com seu semblante fechado e mais parece um homem das cavernas do que uma pessoa civilizada. — Eu ficarei bem… — Sophia assegura, e ele se retira, passando por Daniel. Os dois homens trocam olhares intensos; Sophia reza para que um não avançasse no outro.


— Daniel, que diabos está dando em você? — Exige levantando a voz uma oitava, assim que Erick desaparece de vez. Müller nada responde. Se vira para ela e seus olhos agora não emitem mais raiva. É um olhar intenso, mas ela não consegue decifrá-lo Subitamente, Daniel a segura pelo braço fino e a arrasta para dentro. Ela tenta se soltar, mas sua pegada é firme. — Daniel! — Queixa-se quando já estão dentro da suíte. Müller bate à porta atrás de si, respira fundo, movendo os lábios, proferindo alguma coisa que Sophia não entende. — Vai me dizer que bicho te mordeu ou não? — Exige outra vez, e os olhos dele se erguem em sua direção. O mesmo brilho intenso que Sophia não sabe explicar emite de sua íris azul-esverdeada. E ele continua em silêncio. Sem esperar, o espaço entre eles é diminuído, Daniel avança sobre Sophia. Suas mãos a seguram pelos braços, empurrando-a até a parede mais próxima. Sophia arregala os olhos sentindo suas costas baterem contra a divisória do quarto. Antes que possa questionar a atitude agressiva de Daniel, ele prensa seu corpo contra o dela. E então a beija.


16 NÃO É O QUE PARECE aniel sentiu suas costas colidirem contra a madeira da porta do quarto de Christina. A morena fogosa o beijava com intensidade, enquanto ele tentava passar o cartão magnético para abri-la. Quando finalmente consegue, Müller é empurrado para dentro, e a porta é fechada com um chute.

D

Guiado até uma cama box média e macia, arrumada com lençóis e travesseiros branquíssimos, as mãos apetitosas da mulher o fizeram sentar para que ela caísse sobre seu colo, seus lábios ainda sendo tomados um pelo o outro. A barba machuca sua pele sensível, mas não o suficiente para que ela desista de sugar-lhe todo o ar de sua boca. Os dedos longos de Christina se emaranharam nos fios alourados, bagunçando-os, ao mesmo tempo em que as mãos masculinas subiam por dentro de sua camisa, alisando-a nas costas. Ela separa suas bocas e tece beijos pelo pescoço de seu companheiro, os dedos escorregam até a camisa regata e vermelha que ele veste, segura pela barra e a puxa, se livrando da peça. Sentada no colo de Daniel, a morena observa extasiada a extensão do peitoral másculo. Um tórax robusto e liso, uma barriga definida, os ombros musculosos e largos, e da pele dos bíceps é visível a elevação de seus músculos, mesmo que ele não esteja fazendo esforço algum para saltá-los. Cheia de tesão, ela o induz a deitar para traçar um caminho sensual e molhado com a língua por todo o dorso despido. Enquanto a morena beija seu corpo com um fogo ardente, Müller está tentando se concentrar no momento e parar de pensar em certa loura de olhos verdes fantasiada de Diaba. Daniel não a viu mais desde que ela insinuou procurar pelo homem fantasiado de capitão Jack Sparrow. A ira que se concentrou em seu punho quando tais palavras foram proferidas queimou de uma forma como ele nunca sentiu em toda sua vida. Perguntou-se por que estava se importando tanto com Sophia a esse ponto, e o pior de tudo: mais de uma vez. E ainda que soubesse que agia feito um idiota ao proibi-la de sair com outra pessoa, enquanto ele se esfregava com a morena ali, nada era suficientemente explicável para fazê-lo entender os motivos que o levaram a ficar incomodado com outro homem a cortejar sua esposa de mentira. — Daniel? — Christina o tirou de seus devaneios, e então, se encontrou com os olhos âmbar. — Você me ouviu? — Questiona e deposita um beijo perto do cós de sua bermuda. — Desculpe, eu não entendi. — Mente, ocultando o fato de estar pensando em outra mulher, pois não faz a mínima ideia do que é que ela possa ter lhe dito. — Você tem camisinha?


Daniel está totalmente desinteressado, mesmo que esteja com tanto tesão que chega a doer. Frustrado, não compreende por que não se anima com Christina, e tudo no que pensa é em sair dali, procurar por Sophia e se desculpar. Novamente, vagueia por seus pensamentos e se desatenta da mulher sobre ele, beijando seu corpo. — Daniel! — O chama outra vez com a voz mais firme. — Não… eu não tenho. A morena suspira e gira o corpo, deitando a seu lado, mas ainda acariciando o peito nu com os dedos finos. — Tem uma farmácia não muito longe daqui — Profere e fica sobre os cotovelos, fitando o rosto bonito a sua frente. — Vou buscar um pacote e já venho — declara, e está prestes a se levantar quando Daniel a impede. — Eu vou — se oferece já vestindo a camisa regata. Os lábios femininos se curvam em um sorriso malicioso, enquanto o contempla pôr a peça e escorregá-la pelo tronco definido. Ele já está alcançando a porta, mas Christina o agarra pelas costas e o vira para si. Antes que possa protestar, Daniel recebe um beijo intenso, e quando suas bocas se separam, sua excitante companheira diz em um sussurro sensual: — Não demore… Sem responder nada, Daniel gira os calcanhares e sai, na intenção de não voltar. Andando rapidamente de volta para sua suíte, Daniel Müller sente a cabeça latejar e o corpo tremer de raiva. Raiva dele mesmo. Primeiro, por ter agido como um brutamonte por causa de Sophia. Segundo, por ter mentindo descaradamente para Christina. Sim, ele tinha camisinha na carteira e escondeu o fato para que ela desistisse do sexo e ele pudesse ir embora sem que a morena percebesse seu desinteresse, porque seus pensamentos estavam em encontrar Sophia, esclarecer as coisas e lhe pedir desculpas. Sua tática de mentir não funcionou como gostaria, já que a mulher se ofereceu para buscar um pacote de preservativos. Aproveitou, então, dessa oportunidade, e se prontificou a ir até a farmácia, arrumando, assim, um pretexto para sair e não retornar. No caminho, passou frente a um bar e pediu uísque com gelo para acalmar-se. Bebeu duas doses, virando-as de uma só vez, e voltou a caminhar de volta para a suíte. Já no corredor que levava a seu quarto, se deparou com Sophia, ainda fantasiada, toda sorridente junto ao homem que empurrara mais cedo. O outro escrevia algo na palma de sua mão e só de imaginar que trocavam números de telefones, isso fez com que o sentimento de macho alfa e troglodita surgisse dentro de seu âmago. Sem perceber, já não controlava mais suas atitudes. Caminhou mais rápido, dando passadas firmes e determinadas, bradando: — Que diabos é isso? — O casal presente se sobressalta com a chegada inesperada dele.


— Eu já não disse para ficar longe da minha mulher, capitão? — Rugiu feito fera, e nem se deu conta da possessividade em sua voz. Continuou caminhando em direção a eles, quando o fantasiado deu um passo adiante, pronto a bater de frente com Daniel. A atitude do outro age como um combustível para a ira de Müller, que continua avançando, decidido a iniciar uma briga. Mas Sophia se põe entre os dois, tentando evitar a confusão iminente. — Daniel, vá embora — exige, e ele lhe fuzila com os olhos. Não iria embora nem que o arrastassem! Jamais deixaria Sophia sozinha com o capitão de meia-tigela. — Esse é o nosso quarto! — Urra — Então entre e fique quieto lá dentro — a voz dela soa mais alto, e isso o deixa ainda mais furioso. Estava para nascer a mulher que mandaria nele. — Não me diga o que fazer! — Protesta já completamente dominado pela cólera. — Relaxa aí, meu chapa! — A voz do homem ressoa em sua cabeça — Mantenha a calma. Não grite com ela. Calma era a última coisa que ele precisava no momento. Ver outro homem defendê-la fez seu sangue fervilhar. Já estava pronto a avançar outra vez contra o capitão, mas a loura impediu, como da primeira vez: — Daniel, por favor! — Seu tom é uma súplica. — Eu não quero confusão! Então ele que vá embora!, pensa consigo mesmo, enquanto fuzila o adversário com seus olhos flamejando de raiva. Müller não cederia e não sairia dali por nada no mundo. Parecendo perceber sua teimosia, Sophia se vira para Erick e pede educadamente que vá embora. A forma educada com que ela solicita a saída do capitão o irrita ainda mais. Comigo é estúpida!, protesta interiormente e sua consciência o acusa no mesmo instante. Porque você foi estúpido com ela! Os olhares dos dois se cruzam e Daniel quase pode sentir que seu adversário é tão teimoso quanto ele e que não cederia tão fácil em atender ao pedido de Sophia. — Eu ficarei bem — a loura pronuncia, e ele parece mais aliviado. O homem passa por Daniel e os dois se encaram, ambos de semblante enrugado, e Müller jura a si mesmo que qualquer mínima provocação não pensaria duas vezes em partir para cima para quebrar-lhe o nariz. Mas Gouveia simplesmente vai embora, e, logo em seguida, ouve a voz de Sophia: — Daniel, que diabos está dando em você? — Ela levanta a voz, visivelmente irritada. Seus olhos se encontram com a íris verde sedutora, e um sentimento totalmente estranho bate em seu peito que nem ele próprio consegue explicar. Uma mistura de raiva, ciúme, admiração e excitação. Seus olhos esquadrinham o corpo de Sophia. O body de couro justo, os seios médios que


saltam por causa do bojo apertado, as pernas compridas e sedutoras bem equilibradas no salto escarlate, os cabelos louros e soltos… o conjunto destas coisas o deixa extasiado por ela, assim como foi quando a viu entrar na boate. O modo como Sophia o tratou não o fez sentir ira, mas tesão. A vontade que sente é de agarrá-la e calá-la com um beijo. Sem respondê-la, segura firme em seu braço e a leva para dentro da suíte, e mesmo que Sophia relute em entrar, sua força é maior. — Daniel! — Protesta enquanto a porta se fecha com um tremendo baque. A cólera elétrica que percorre seu corpo quase o faz estremecer. A excitação misturada à ira – que sentiu ao ver Sophia com outro homem – é de um sabor inexplicável, e Daniel precisa respirar fundo e praguejar-se baixinho para tentar controlar-se. Preciso me acalmar, move os lábios em um sussurro inaudível. De personalidade calma, Müller sempre fora pacífico e nunca havia se sentido tão incomodado daquela maneira como era com Sophia. A influência que a Hornet exercia sobre seu corpo e mente era algo que o assustava; o jeito como ele se transformava completamente por causa dela quase findava sua sanidade. Preciso me acalmar, repetiu interiormente, mas seu coração continuava a bater irregularmente. — Vai me dizer que bicho te mordeu ou não? O timbre soprano e feminino chega até seus ouvidos, e qualquer concentração que tente fazer para se manter civilizado vai embora. Levanta os olhos para encarar uma Sophia de semblante irritado, mas que a deixa ainda mais linda e sexy a seu ver. Numa decisão impensada, como um homem primitivo que quer segurar a mulher pelos cabelos e arrastá-la até a caverna, Daniel avança sobre Sophia e segura-a pelos braços macios. Ao tocar sua pele uma corrente de emoções corre por seu corpo e tudo o que quer é saciar seu desejo dela, que há pouco vinha sentindo, mas o suficiente para extasia-lo. Prensa seu corpo contra o de Sophia parede mais próxima, e sem avisar, Daniel a beija. Sophia sente a boca de Daniel na sua. Não é a primeira vez que se beijam, mas neste momento é totalmente diferente. Anteriormente, havia o consentimento de ambos, e tudo no intuito de demonstrar a veracidade do noivado que os dois vinham sustentando. Agora, porém, o beijo é forçado, e ela não se sente bem com a situação. A barba bem aparada dele machuca sua pele e a deixa marcada, os lábios de Müller, aromatizados com uísque, a fez considerar se ele não estaria dominado pelo álcool, o que explica um pouco a agressividade e a atitude atrevida de beijá-la. Levada pela raiva de seu atrevimento, Sophia o empurra, cessando o beijo de súbito, e ainda furiosa, instantaneamente ergue a mão direita para bater forte contra a face de Daniel. Um segundo depois, horrorizada com a própria atitude, leva as mãos à boca, arrependida. Daniel sente o bofetão e apalpa o lugar do tapa, que ainda arde. Encara Sophia com seu sobrolho enrugado, mas não sente raiva pela agressão; na verdade, a dor o faz voltar à realidade, e sem demora, percebe o que acabara de fazer. Sua expressão se suaviza, Sophia está parada a sua frente, assustada, tanto pela bofetada quanto pela atitude dele de beijá-la à força.


— Daniel… — ela começa na intenção de exigir uma explicação plausível para tudo o que ele tem feito nas últimas horas. — Me desculpe…— Interrompe-a prontamente, a expressão atônita, realmente assustado com seu ato. — Eu não sei o que deu em mim — sussurra passando a mão pelo rosto. Sophia inspira e expira seguidas vezes. — Pois eu não acredito! — Exclama, e dessa vez é ela quem está com raiva. — Você pode sair se esfregando com qualquer uma e eu não posso sequer conversar com alguém?! O que você acha que eu sou? Sua propriedade?! — Irracionalmente, Sophia avança e o empurra pelo tórax. — Você é um idiota, Daniel! — Tenta outra vez a mesma investida, mas Müller a segura pelos punhos, impedindo a agressão. — Eu estava protegendo você, ok? — Ele grita, depois a solta abruptamente. Uma gargalhada ressoa pela suíte. — Me protegendo? Eu não tenho cinco anos! — A loira objeta, a voz sempre um tom a cima por causa dos nervosos alvoroçados. — Mas parece que tem! — Rebate, também alterado. — Como pode dar confiança a um homem que nem conhece? E se ele tentasse alguma coisa contra você? Será que não tem juízo, Sophia?! A essas alturas da discussão, os ânimos estão à flor da pele, e um grita mais alto que o outro: — Eu sei me cuidar, Daniel Müller! Não preciso de você como meu guarda-costas! — Tudo bem, Sophia! Mas o que foi combinado? Que seríamos discretos! Olha só para você, — Daniel aponta e a avalia de cima em baixo — está vestida de forma vulgar, de forma a alimentar a imaginação perversa de muitos por aí! Eu só te protegi daquele capitão de meia-tigela! — Discrição?! — Sophia grita o mais alto que consegue e sente a garganta arranhar. — Você estava se agarrando com a Christina em público! Isso é discrição para você, Daniel? Seu hipócrita machista! — Novamente ela investe um empurrão, e Müller se desequilibra um pouco. — Nunca mais cole essa sua boca nojenta na minha, entendeu?! Sophia dá-lhe as costas e sai batendo fortemente a porta, que se fecha com um estrondoso barulho.

♦♦♦

Sophia Hornet sente as lágrimas se acumularem em seus olhos. O corpo treme de raiva enquanto caminha rapidamente. Passa frente a um bar, toma o elevador e desce dois andares. Mesmo com o calor da emoção de ter discutido com Daniel, a brisa marítima fria lhe castiga a pele branca. Sente-se totalmente deslocada ao sair do elevador e caminhar por um salão com sofás macios aconchegando algumas pessoas presentes – elas olham para Sophia de soslaio, o que a


incomoda bastante. No fervor do momento, sequer pensou em trocar de roupa e colocar algo mais apresentável. Secou as lágrimas e não se importou com os olhares em sua direção. Mirou a palma da mão rabiscada e conferiu as coordenadas, adentrou um pequeno corredor e subiu um lance de escadas. A segunda extensão estreita a sua frente era mais comprida, e ela procurou pelo quarto 25-A. Caminhou olhando atentamente para o número nas portas, e quando encontrou o que procurava, não pensou duas vezes em bater. Segundos depois, um homem abre a porta. Estranhamente ela não o reconhece e dá um passo atrás, receosa. — Sophia? — Erick pronuncia surpreso e assustado. Reconhecendo a voz de Gouveia, ela se aproxima com o olhar cabisbaixo. — Desculpe, eu não te reconheci. — Sussurra enxugando as lágrimas. Sem as pesadas maquiagens e todo o aparato da fantasia de capitão Jack Sparrow, Sophia achou que estivesse batido na porta errada. Erick trajava uma regata branca, deixando seus tímidos músculos à mostra, e cuecas estilo samba-canção xadrez azul. Os cabelos médios e escuros estavam um pouco bagunçados e batiam na altura de seu pescoço. — O que aconteceu? — Inquire com um tom de voz realmente preocupado. Ele a analisa por um segundo e se pergunta por que ela ainda estaria vestida com a fantasia. — É o Daniel. Longa história… — Ela funga e respira fundo. — Desculpe. Eu não deveria ter vindo… estou tão nervosa que nem sei o que deu em mim em vir aqui. — Já está virando para se retirar quando sente mãos a segurarem delicadamente pelo pulso. — Venha cá — ele murmura a levando para dentro de seu quarto. Sem questionar, Sophia o acompanha, sentindo-se completamente acolhida.

♦♦♦

Daniel abriu o frigobar para revirá-lo à procura de algo forte que pudesse tomar. A cólera que queima dentro de seu peito é incomparável. Mas, agora, a raiva não é por causa de saber que existe outro homem interessado em Sophia, ou por não conseguir estar com outra mulher porque não para de pensar na loura, em como ela estava terrivelmente mais linda e atraente na fantasia. A raiva que sente é por tê-la beijado, por ter se comportado como um homem primitivo e por ter dirigido tão duras palavras a Sophia. A ira é ainda maior por não entender por que está a agir dessa maneira. Olha só para você, está vestida de forma vulgar.


Sua própria voz constantemente ressoa em sua consciência, o acusando e o atormentando a ponto de fazê-lo se arrepender, pois Sophia não estava vulgar. Estava sexy. Porém, no calor do momento, acabou dizendo mais do que deveria. Ele não queria magoá-la, mas sabia que o tinha feito. Idiota. Imbecil!, xingou-se enquanto abria uma garrafa de vodca e colocava uma boa dose no copo. Virou o etílico garganta a baixo, sentindo o peito inflar pela bebida forte. Transpôs o quarto, foi até o banheiro, despiu-se e deixou a água morna escorrer por sua pele para limpá-la, abaixou a cabeça e permitiu que a calma tomasse posse de seu ser. Ele nunca sentira tanta raiva e possessividade como neste dia. Respirou fundo e molhou os cabelos. Terminou o banho quinze minutos depois, e já se sentia mais tranquilo. Desejou fortemente que, ao sair do banheiro, Sophia já estivesse voltado. Daniel queria de todo modo se desculpar com ela. Por tudo. Mesmo que interiormente não soubesse por que diabos vinha tendo essas atitudes por causa dela. Secando o corpo, ponderou ser tudo por culpa do álcool. Conhecia Sophia há alguns meses, e cultivava um sentimento de amizade profundo por ela. Como Daniel protegeria uma irmã, caso tivesse uma, de qualquer coisa que a fizesse magoar, ele agia da mesma forma com Sophia. Sóbrio ou bêbado, não gostaria de ver alguém fazendo mal a ela. No entanto, por causa das doses exageradas de etílico ingeridas, o excesso e a agressividade extrapolaram por seus poros – e ele agiu como um idiota machista. Só pode ser isso, deduziu escorregando a camisa pelo corpo. Vestiu uma calça de moletom e saiu para o quarto. Vazio. Olhou no relógio, e já tinha quase uma hora que Sophia saíra irritada. Uma real preocupação o atingiu e ele se culpou por ter feito tudo o que fez. Tirou o pijama que acabara de colocar e vestiu outra roupa. Saiu da suíte presidencial a procura dela, deixando para trás um bilhete colado ao frigobar:

Saí para te procurar. Caso volte, e eu não esteja, por favor, me espere. Daniel

Müller andou por mais de uma hora e não a encontrou. Durante sua procura por Sophia, ligou inúmeras vezes em seu celular, mas após incontáveis toques, era direcionado a caixa postal. A cada ligação, deixava uma mensagem de voz. Também perguntou para algumas pessoas sobre ela, contudo ninguém tinha visto uma mulher loura e fantasiada de diaba. Pensando se ela não teria voltado para a boate, caminhou a passos rápidos para lá, procurou por entre a multidão e não encontrou nada. Frustrado e preocupado, retornou para a suíte, esperançoso que ela já estivesse regressado e com os ânimos mais calmos. Durante o caminho, na esperança de revê-la, ensaiou um


pedido de desculpas e uma explicação para seus atos, mesmo que ele próprio duvidasse que dizer que estava preocupado com sua segurança e integridade fosse convencê-la. Isso não convence nem a mim mesmo! Ensaiou, ainda, explicar que sua agressividade e todo o exagero, machismo e brutalidade estavam relacionadas ao alto consumo de álcool. Abriu a porta da suíte deles abruptamente, numa esperança afobada de que Sophia já estivesse por ali. Mas Sophia não estava. Soltou um suspiro exasperado. O bilhete que deixou antes de sair continuava no mesmo lugar. Intocável. Descolou o papel do frigobar e o amassou nos punhos, descarregando o misto de raiva e preocupação sentidas naquele momento. Eu não tenho cinco anos! A voz dela ecoa em sua mente, e Daniel tenta manter a calma dizendo a si mesmo que Sophia sabe se cuidar e que não há com que se preocupar. Buscou pelas horas. Mais de meianoite. Sentou-se na cama e ligou a TV. Ela irá voltar, pensava, e eu estarei acordado, esperando. Impacientemente, foi trocando os canais e a cada segundo alternava o olhar entre o relógio, a porta e o celular numa espera angustiante. O ponteiro parecia não se mover, Müller sentia que ia ter um ataque se Sophia não passasse por aquela porta ou retornasse as suas ligações. Ajeitou-se na cama e deixou em uma programação de documentários. Eu não tenho cinco anos!, lembrou-se outra vez que Sophia era adulta e poderia se cuidar sozinha. Ela sabe se cuidar, Daniel, disse a si mesmo tentando não ter uma úlcera nervosa de preocupação. Ela irá volta. O navio é seguro. Ela está bem. Enumerou motivos para não se preocupar e diminuir a aflição em seu peito. Não se preocupe, pensou e, sem perceber, adormeceu.

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Daniel acordou com um sobressalto e se viu sentado desajeitadamente na cama. Suas costas doíam pela posição desconfortável que dormira. Olhou ao redor, procurando por Sophia, mas não havia sinais dela e nem de que voltara a noite anterior. O relógio apontava quase oito da manhã, e agora ele estava mais do que preocupado. Conferiu seu celular, não havia ligações ou mensagens dela. Tentou novamente; desta vez a chamada foi direto para a caixa postal.


Levantou-se rapidamente e correu até o banheiro, jogou uma água na cara para despertar, e saiu às pressas, já pensando em ir até a cabine do capitão e pedir que anunciassem o nome dela para todos os cantos do navio. Só assim a encontraria. Capitão. Seus pensamentos foram iluminados quando a simples palavra passou por sua cabeça. Decidido, desviou seu percurso. Primeiro descobriria a identidade do capitão Jack Sparrow, depois iria atrás dele onde fosse e lhe perguntaria de Sophia. Talvez ele soubesse de alguma coisa, ou talvez pudesse ajudá-lo a procurar pela esposa de conveniência. Voltou à boate onde esteve e, com uma rápida busca, descobriu que o tal homem atendia ao nome de Erick Gouveia. Com a informação em mãos, correu o mais rápido que pôde até a recepção do navio. Uma prestativa mulher lhe atendeu: — Erick Gouveia. Quero saber qual o aposento dele. — Pediu Daniel, e esperou por um minuto enquanto a funcionária digitava as informações passadas no computador. — Ala da classe média. 25-A — a mulher lhe informou, e antes que terminasse de passar as informações pedidas, Müller já estava distante, disparando à procura de Erick. Levou cinco minutos até chegar à ala referida. Suas panturrilhas ardiam pela caminhada rápida. Respirou fundo frente ao quarto 25-A. Bateu à porta. Ninguém. O nervosismo começava a corroê-lo. Bateu outra vez, mas sua impaciência o fez virar nos calcanhares, pronto e determinado a ir até a cabine e pedir que anunciassem por Sophia Hornet Müller. Súbito, a porta se abriu. Erick o encara com uma expressão confusa, como se não esperasse ver Daniel parado a sua frente. Daniel avalia o homem a poucos metros de distância. Tem uma toalha presa à cintura e está sem camisa, os cabelos negros e médios estão molhados, revelando que o homem saíra do banho há pouco. Por um segundo duvida que aquele seja a mesma pessoa da noite passada. Ele está sem a fantasia, idiota… — Finalmente — Daniel diz, voltando alguns passos. — O que faz aqui? — Erick o questiona, ainda aturdido com a presença repentina dele. Mesmo não sendo convidado e visivelmente aflito, Daniel passa por Gouveia, adentrando seu quarto. — É a Sophia. Ela não apareceu desde que… — subitamente, para de falar. Fica mudo de repente ao presenciar a cena que vê. Um nó em sua garganta se forma ao se deparar com Sophia deitada sobre a cama do quarto, vestida com uma camisa masculina. Com uma camisa de Erick!


Ela dorme serenamente, e os cabelos louros estão bagunçados, as pernas estão dobradas e ela envolve o próprio dorso com os braços. Um lençol branco desajeitadamente lhe cobre do joelho para baixo. Daniel volta seu olhar a Gouveia e o avalia outra vez. Ele está seminu – e Sophia dorme em sua cama trajando apenas uma de suas camisas. A realidade cai sobre suas costas de forma pesada. E Erick só confirma suas suspeitas: — Pode ficar despreocupado. Sophia passou a noite aqui.


17 UM BOM AMIGO ophia entrou vagarosamente no quarto de Erick. Era um espaço amplo, mas ainda menor que a suíte que dividia com Daniel. Envolveu-se nos próprios braços a fim de aquecer a pele, e rapidamente Erick caminhou até os fundos do cômodo, cerrando a porta da varanda ao notar que o vento gelado incomodava sua visitante. Pegou uma calça de algodão sobre a poltrona e subiu pelas pernas. Tirou algumas peças de roupas espalhadas pela cama, esticou o lençol.

S

— Sente-se aqui — ofereceu, e ela não recusou o convite. Sentou-se sobre o colchão confortável, logo sentiu a presença de Erick a seu lado. Sophia mantém o olhar para baixo, e vez ou outra, seca uma lágrima aqui e ali que insiste em escorrer dos seus olhos. Ele tenta uma aproximação tocando-lhe nas mãos. Sophia permite o gesto. Aliviado, Erick entrelaça seus dedos, acariciando a pele delicada. Sentindo o toque brando, Sophia levanta o olhar para sorrir timidamente. — Desculpe ter vindo assim. — Lamenta tornando a olhar para baixo. Vê suas mãos serem afagadas pelas de Erick e não evita um pequeno sorriso. Ele mal a conhecia, mas estava sendo gentil, cordial e amigo. Era difícil encontrar uma pessoa com todas essas qualidades sem uma intenção por trás. Por um momento, pensou nas palavras de Daniel e afirmou a si mesma que ele estava errado em relação a Erick. Gouveia era um homem bom, e disso tinha certeza. — Não precisa se desculpar. O que aconteceu lá? — Questiona inclinando um pouco sua cabeça na intenção de encontrar os olhos verdes. Sophia respira fundo e levanta o olhar. Erick tem os olhos negros em contraste com sua pele levemente morena, a barba bem cuidada e aparada em estilo bilbo contorna seu rosto o deixando atraente e seu cabelo médio e bagunçado na altura do pescoço lhe dá um ar de bad boy. — Discutimos. Por sua causa. — Sorri fracamente e se desencontra dos olhos dele. — Por minha causa? — Inquire surpreso. — Sim. Daniel é um idiota, acha que tenho cinco anos. Erick apenas acena brevemente e continua a observá-la. Ele espera por uma explicação mais cristalina, já que está confuso com toda a situação entre isso que ela tem com Daniel.


— Eu queria entender essa coisa entre vocês dois — profere, e os olhos entristecidos se encontram com os seus. Segundo Sophia, Daniel e ela não eram ex-namorados, além de, também, não afirmar manter ou não um relacionamento com Müller, ao passo que Daniel, nas duas vezes que se encontraram, foi bem claro ao dizer minha mulher. Se ele não era um ex possessivo que a perseguia e não a deixava em paz, então o que diabos eles eram? Para até dormirem no mesmo quarto? Mesmo com todas essas perguntas martelando sua cabeça e o deixando curioso, não a pressionaria a contar alguma coisa. Se fosse da vontade dela, assim seria. Caso contrário, não insistiria. Sophia abre um singelo sorriso diante à paciência e ao respeito a sua liberdade de não ter, até aquele instante, comentado nada sobre sua condição com Müller. Erick vem sendo uma pessoa extraordinária com ela. Foi um cavalheiro o tempo em que estiveram conversando, e agora a recebia em seu quarto. Ela ainda não lhe contara sobre seu casamento de conveniência, e mesmo assim Erick não fazia nenhuma exigência ou explicação. — Bom, — começa, decidida a esclarecer a confusão — eu e Daniel somos casados. A expressão de Erick é de total surpresa, e, em vez de esclarecer, a afirmação de Sophia o deixa mais confuso. Os olhos negros e belos se estreitam ligeiramente, os dedos ossudos e longos, entrelaçados aos delicados e femininos, suavemente param com as carícias. — É um casamento de conveniência, não se preocupe — Explica-se, para acalmá-lo. Eles continuam a conversarem, e Sophia lhe conta toda a história. Fala sobre a falência da empresa de sua família, o casamento arranjado com Miguel para salvá-los da ruína, sua atitude de desistir da união, de ter que fugir de casa para não ser obrigada a se casar sem amor. Confidencia como conheceu Daniel, como e por que surgiu a ideia de se unirem em matrimônio — Como havia a necessidade de o casamento parecer real, resolvemos fazer essa viagem de “lua de mel ” — fez aspas com os dedos. — Só o que eu não consigo entender é por que Daniel agiu feito um idiota. Erick a observa com um semblante neutro. Ouviu a história de Sophia atentamente, querendo entender a situação toda e, de alguma forma, ajudá-la, se fosse preciso. — Ele parecia um homem enciumado — observa Gouveia após alguns segundos em silêncio. — E por que ele teria ciúmes? Erick movimenta os ombros. — Não sei, talvez ele goste de você. Não justifica, claro, que ele te trate com imbecilidade, mas explica um pouco das suas atitudes… Por um segundo, Sophia fica sem reação diante a dedução de seu colega, apenas analisando as poucas palavras proferidas pelo amigo. Lembrou-se do modo como reagiu à provocação de Miguel no dia do jantar de noivado e à presença de Erick, na boate e na porta da suíte deles, pouco tempo atrás:


Não toca na minha mulher, seu cretino! Eu já não disse para ficar longe da minha mulher, capitão? Sophia balançou a cabeça para afastar os pensamentos. Deveria haver outra explicação para as atitudes de Müller. — Ainda acho que é por causa do álcool. — Insistiu em sua teoria. — Ele também veio com um discurso de que estava me protegendo e blá, blá, blá… — deixa um suspiro escapar junto com um breve sorriso, e Erick retribui com um suspiro. — Se você acha que é isso, então, não vou te contrariar. O que pensa em fazer? Sophia reflete por um segundo, sem saber o que exatamente fazer, soltando o ar preso em seus pulmões. A ideia, a princípio, era dar um tempo para que os dois se acalmassem, principalmente Daniel, para só depois retornar à suíte. Mas pensou consigo mesma que se o fato de ter procurado por Erick não o deixaria ainda mais irritado quando voltasse e fosse questionada sobre onde esteve. — Na verdade, eu não sei. — Admite com um breve murmúrio. — Acho que não é uma boa ideia voltar para lá hoje. — Tem razão. — Concorda com um maneio de cabeça. — Se você quiser, pode ficar aqui essa noite. Sophia se remexe na cama, surpresa com tal convite. Ela o procurou por que queria desabafar com alguém, e como a amizade de Gouveia era a única que tinha feito naquele imenso navio até então e por ele ter demonstrando ser uma boa pessoa pelo tempo em que tiveram juntos, decidiu que alguns minutos de conversa com ele poderiam apaziguar e baixar a poeira de estresse e confusão que Daniel levantou com suas atitudes extremamente inexplicáveis e machistas. Como planejou ao sair eufórica da suíte presidencial, procuraria por Gouveia para conversarem e, assim que se sentisse mais calma, voltaria ao seu quarto rezando para que Daniel não estivesse por lá, ou que já estivesse dormindo, de preferência no sofá, pois com suas atitudes imbecis não seria mais justo se revezar para deixá-lo confortável. Mas a oferta de Erick a pegou de surpresa, e mesmo que Sophia quisesse recusar, sentiu-se atraída em aceitar. Temendo que Daniel fizesse um escândalo maior quando regressasse, ponderou concordar em ficar. Porém, assim como ficou incomodada com o fato de ela e Müller terem de dormir no mesmo quarto, a ideia de ter que dormir na mesma cama com Gouveia não era cogitável, por mais que fossem amigos – e apenas recentemente amigos. Olhou ao redor rapidamente e só viu uma poltrona. Dormir nela seria desconfortável, e jamais permitiria que Erick dormisse desajeitadamente nela. — Obrigada, Erick — agradeceu sinceramente —, mas eu irei recusar. Não quero te incomodar. — E quem disse que você me incomoda? — Indaga de bom humor — Insisto para que fique. — Mas, e você? Onde… onde dormirá? Não pensa que dormiremos na… mesma cama, não


é? — Pergunta e se sente patética no mesmo instante. Desejou ter ficado calada. Erick ri e se levanta, caminhando até um pequeno guarda-roupa embutido. — Não, claro que não. — Esclarece ao abrir o guarda-roupa para pescar uma camisa. — Tenho um amigo que faz parte da tripulação e ele trabalha como segurança durante a noite toda. Pensei em dormir no quarto dele e você pode ficar com esse. — Se vira segurando a peça de roupa e volta até Sophia com um sorriso divertido nos lábios. — Tem certeza que não irei incomodar? — Se disser mais uma vez que você incomoda, me sentirei ofendido. — Declara sorrindo e joga a peça para ela. — Tome um banho e tire a fantasia. Pode usar minha camisa para dormir. Sophia segura a camisa nas mãos e exibi um sorriso acanhado. Ela nunca esperava encontrar alguém tão bom como Erick.

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Finalmente, o body que começava a incomodar Sophia foi arrancado. Um alívio delicioso trespassou todo seu corpo no momento em que se livrou da vestimenta e a jogou num canto qualquer do banheiro do aposento de Erick Gouveia. Ligou o chuveiro, prendeu os cabelos em um coque alto e tomou um banho rápido. A temperatura agradável da água relaxou seu corpo e mente, e ela já não se preocupava mais com Daniel nem com que ele pensaria, ou como ficaria, assim que tivesse conhecimento que passara a noite no quarto do capitão. Escorregou a camisa que recebera pelo tronco esguio e esbelto e vestiu um roupão encontrado nas gavetas. Saiu para o quarto; Erick estava ao telefone, pedindo, pelo breve acompanhamento da conversa, emprestado o quarto do tal amigo segurança. Ela o observou rapidamente, reparando na mudança de suas vestimentas. Agora, trajava um jeans skinning e camisa polo de mangas compridas. Ele encerrou a chamada e mirou Sophia com uma pequena risota. — Bom, vou deixar você descansar. Já falei com meu colega e ele concordou que eu fique em seu quarto. Sophia segura o roupão impedindo que se abra. — Eu agradeço a sua gentileza, Erick. De verdade. Não queria dar todo esse trabalho a você. — Sophia, por favor, não é trabalho algum. Faço isso com todo prazer. — Sorri sinceramente para fazê-la se sentir mais confortável com sua oferta. Aliviada por saber que Erick é franco, a loura anuí com um balanço de cabeça. Antes de deixá-la sozinha, Erick se despede com um beijo puro no rosto branco e delicado. Sophia tira o roupão e deita na cama, puxando o lençol para cobrir seu corpo. Olhando para


cima, os olhos verdes e inquietos mirando o forro, seus pensamentos a levam para todos os últimos acontecimentos desde que chegou ao navio. Divagando, ela pega no sono ouvindo a voz de Erick: …talvez ele goste de você.

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Erick acordou às sete da manhã com o amigo fazendo um barulho estrondoso ao bater de porta. Sobressaltado, meteu a cabeça no beliche de cima e soltou um resmungo, enquanto o amigo ria de seu desastre. Após vestir-se e trocar meia dúzia de palavras com o colega, caminhou de volta para sua suíte. No percurso, preocupado com que Sophia vestiria, pois lembrara-se que tudo o que ela tinha era apenas uma fantasia de diaba, passou em uma loja feminina e comprou-lhe algumas peças de roupa. Ao chegar, Sophia ainda dormia feito um anjo. Os cabelos louros estavam soltos e bagunçados, caídos sobre sua face; sorriu para si mesmo observando a moça. Ela realmente não merecia ser tratada da forma que Müller a tratou, sabe-se lá por quê. Nem ela nem mulher alguma. Cauteloso, deixou as sacolas da loja em cima da cama e foi até o banheiro. Num determinado momento do seu banho, teve sensação de ouvir batidas à porta. Desligou o chuveiro, aguçou os ouvidos na certeza de não ser um delírio de sua mente, e já e se enrolava na toalha quando ouviu outro lance de batidas. Ao abrir a porta, viu Daniel de costas, de partida. Este, ao notar que foi tardiamente atendido, se virou novamente, e os dois se encararam, ambos surpresos. — Finalmente — Daniel pronuncia, exasperado, retornando alguns passos. — O que faz aqui? — Erick o questiona, ainda desnorteado pela presença repentina. Pensa em Sophia na sua cama e prevê uma confusão. Sem esperar, Daniel passa por ele, entrando em seu quarto, totalmente aflito. — É a Sophia. Ela não apareceu desde que… — o homem de repente para de falar; Erick acompanha seu olhar. Ele a viu. Viu Sophia dormindo em sua cama, e Erick já se prepara para enfrentar a ira de Müller. O olhar de Daniel corre até ele, e Gouveia quase pode imaginar a besteira em que está passando por aquela cabeça. Tentando não alimentar mais sua conclusão precipitada, declara: — Pode ficar despreocupado. Ela passou a noite aqui. Pode ficar despreocupado. Ela passou a noite aqui. Daniel pestaneja, quase não conseguindo acreditar nos próprios ouvidos. A ideia de que Sophia esteve com Erick a noite toda bate nele e cria uma sensação confusa. Ele não sabe se sente raiva, agonia ou decepção. Pela primeira vez, Daniel não tem reação alguma. Apenas encara Erick com uma expressão neutra, e alterna o olhar entre o homem à sua


frente e Sophia deitada sobre a cama. Gouveia está em silêncio, estranhando a postura de seu visitante, pois esperava uma briga iniciada pelo próprio Daniel, mas ele simplesmente permanece, por alguns breves segundos, indiferente. Súbito, como se a ficha dele caísse, Daniel agarra Erick pelo pescoço e o encosta contra a parede ali próxima. — Passou a noite com ela? — Esbraveja apertando-lhe a jugular. — Não seja idiota, Daniel! — Erick rebate o empurrando e se livrando do aperto em seu pescoço — Eu disse que ela passou a noite aqui, e não comigo! Daniel parece confuso e olha para Sophia outra vez. A Hornet não dá sinais de que ouvira seus gritos segundos atrás e perdura em seu sono sereno. Müller afaga rosto, aliviado em saber que ela estava bem, e mais tranquilo ainda por eles não terem tido nada. E se tivessem tido?, pergunta a si mesmo, Você não tem nada a ver com isso! O fato de se sentir incomodado em presenciar Sophia com outro homem, ainda que fosse apenas uma dedução, estava lhe tirando a lucidez. Por que me importo tanto? — Olha, Daniel — Erick diz, interrompendo seu questionamento interior —, eu sei que vocês não têm nada. Sophia me falou sobre o casamento de mentira que estão sustentando. Mas, quer um conselho? O jeito como está a tratando: nem se fossem casados de verdade teria esse direito. Você está a magoando. Você está a magoando. Estas simples palavras o atingem como um soco forte. Ele não tinha noção de como aquilo era verdade. O modo como tinha gritado com ela, as palavras que proferiu, suas atitudes machistas. Toda vez que pensava em se desculpar, tinha um ataque de fúria e fazia com que Sophia se magoasse ainda mais. — Como ela chegou aqui? — Murmura — Bem abalada. Chorando. Sophia nem quis voltar para o quarto de vocês com medo da sua reação. Então, eu ofereci que ela ficasse aqui e fui dormir em um quarto que consegui emprestado. Daniel suspira pesadamente, não acreditando que fizera Sophia chorar. Logo ele que se preocupou tanto e não queria que ninguém a ferisse, ele mesmo a decepcionou. Sua preocupação, pelo jeito, extrapolara todos os limites. Pressiona as têmporas; mira Sophia novamente, que continua a dormir. Como eu posso me arrepender e fazer tudo de novo? — Quando Sophia acordar, pode pedir para que me procure? Quero conversar com ela. Com mais calma. Erick acena, e Daniel passa por ele, saindo. Gouveia fita Sophia. Fica feliz que ela continue dormindo e não tenha presenciado a


conversa entre ele e Müller. A última coisa que gostaria era de vê-la nervosa por causa de Daniel.

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Sophia acordou vagarosamente, um bocado enjoada. Espreguiçou o corpo, sentiu cheiro de frutas frescas e de brisa marítima. O vento entrava pela porta da varanda; ela se virou para ver Erick encostado ao parapeito, observando o mar lá fora. Olhou ao redor, reparou em algumas peças de roupa sobre a poltrona e uma bandeja de café da manhã logo ao lado da cama. Sentou-se coçando os olhos, se lembrando que passara a noite no quarto de Erick, depois da confusão com Daniel. — Bom dia — ouviu a voz de Gouveia e levantou os olhos com um sorriso sonolento. — Como dormiu? — Bom dia; dormi bem. E você? — Puxa o lençol para cobrir parte do corpo dentro da camisa social masculina emprestada. — Bem… — apenas diz e se senta na beirada da cama. — Daniel esteve aqui. — Pronuncia, e Sophia prende a respiração. O medo de que Müller tenha feito alguma bobagem quase a domina. — O que ele queria? — Estava procurando por você. — E o que você disse? — Não foi preciso. Ele te viu. Ela pestaneja, temendo o pior. — Que reação teve? — Ele ficou nervoso, só para variar. Mas depois saiu daqui bem abalado. Pediu para que você o procure para conversarem. Sophia suspira. Recentemente vinha duvidando se Daniel saberia conversar. O que ele chamava de “conversa” eram gritos, ofensas e atitudes machistas. — Pois ele que espere. Não volto para lá tão cedo. — Declara mesmo não tendo a mínima ideia de onde é que vai passar parte do dia longe de seu quarto. Com um pequeno sorriso, Erick se levanta e pega a bandeja de café da manhã — farta com frutas, cereal, suco e leite — e põe sobre a cama, próximo a ela. — Reponha as energias. Depois, se quiser, podemos sair um pouco. Sophia pega um morango e dá uma leve mordida.


— Eu não sei como irei sair desse quarto sem roupa. — Ah, isso não é problema — Erick diz com um largo sorriso. — Passei em uma loja e comprei algumas coisas para você. — Erick! — O adverte totalmente supressa. — Não deveria ter feito isso. Ele gargalha e pega uma uva. — E por que não? Prefere sair por aí só vestindo uma camisa masculina? — Obviamente que não — termina de comer o morango. — Mas não deveria ter se incomodado. Eu já estou começando a abusar. Gouveia rola os olhos de bom humor. — Eu já disse que faço com todo prazer. — Em todo caso, quero devolver o dinheiro. — Não precisa. — Precisa, sim, senhor — joga uma uva nele e os dois gargalham. — Tudo bem. Dessa vez eu deixo você tomar uma decisão. Sophia revira os olhos, rindo, e beberica um pouco do seu leite. Os dois continuam conversando, Erick lhe fala um pouco mais sobre sua vida. Então, ela descobre que ele vive em São Paulo, mas os pais estão no Rio de Janeiro. Está fazendo sua viagem no Cruzeiro para participar de um evento de cosplay em Salvador, por isso aproveitou a viagem agradável para divulgar seu trabalho entre os turistas do navio. Por conta da profissão, como já foi constato que gosta de se aventurar por cidades turísticas e ganhar a vida quase como um nômade para difundir a arte que ele chama de trabalho, quase não tem namorada. — E por que elas não te acompanham? — Inquire Sophia terminando de fazer seu desjejum. — Muitas têm uma vida fixa, família, estudos, trabalho — desenha um sorriso fraco. — E sustentar um namoro à distância, acredite, é difícil. — Imagino. — Sophia suspira e desvia o olhar, afastando a bandeja de madeira. — Vou sair para que possa se trocar. — Erick diz de repente, e sai no mesmo instante. Tomando em mãos a roupa que, zelosamente, Erick comprou, não pode deixar de sorrir com a preocupação do amigo. Tirou a camisa social e vestiu a camiseta vermelha que veio no pacote. Subiu pelas pernas uma calça preta de legin e calçou um par de tênis, que Erick também adquirira. Amarrou os cabelos sem penteá-los e caminhou até o banheiro, fez um bocejo com água e pasta de dente, já que estava sem escovas, e lavou o rosto. Quando saiu para o quarto, este continuava vazio, e ela chamou por Erick, que logo surgiu segundos depois, com um sorriso amigável no rosto.


— Eu quero te agradecer por tudo que fez por mim, Erick. Eu nunca esperava encontrar um amigo, assim, como você. — Sophia agradece mais uma vez e se aproxima para abraçá-lo em sinal de gratidão. Gouveia retribui o abraço sentindo o calor do corpo dela ao seu, o simples gesto enchendo seu coração de uma emoção boa e genuína, uma espécie de paz interior por ter sua amizade. — Pode contar comigo sempre e quando precisar. — Profere encerrando o abraço. Sophia se sente acolhida por Erick. Definitivamente, Daniel estava errado em seu julgamento. Erick Gouveia é um homem bom, humilde e amigo, que a tratou com respeito e ofereceu uma amizade pura, sem segundas intenções por trás; e ela o admirava por isso. — Para onde vai agora? — Questiona ele. — Ainda não sei. Só sei que não quero ter que encarar Daniel tão já. Erick busca pelas horas em seu relógio de punho. São quase dez da manhã. — Poderíamos andar um pouco. O navio tem bastante atrações, e depois poderíamos almoçar juntos, o que acha? Animada diante o convite dele, Sophia aceita. Os dois caminham para fora do quarto e vagueiam pelo navio sem destino certo. Andam e conversam descontraidamente, e Erick só prova cada vez mais que é um homem direito e um ótimo amigo. Por um pequeno momento, ela divaga o observando: repara em como suas bochechas tem pequenas covinhas quando ele sorri, e de como seus olhos negros emitem um brilho espontâneo de felicidade; mas o que ela mais gosta em Erick é sua interpretação do icônico Capitão Jack Sparrow. É tudo tão sincronizado e harmônico que Erick seria um dublê perfeito. O bom humor dele exala de suas veias, e quando ela percebe, está sorrindo por qualquer gesto fútil que ele faça. Após andarem por um tempo, resolvem ir até uma pequena cabine de fotos. Alegremente, batem vários retratos juntos, sorrindo, fazendo caretas, gargalhando, e a preferida de ambos é Sophia como “vítima” do Capitão. Mesmo sem os pesados aparatos, os movimentos corporais de Erick são inconfundíveis. — Já estou com fome, vamos almoçar? — Gouveia pergunta após se recuperar de um ataque de risos, saindo da cabine. Sophia ainda está sem ar e envolve a barriga com os braços, tentando recuperar a postura por ter rido muito. — Vamos. Estou faminta. Os dois seguem, então, até o restaurante mais próximo. Enquanto esperam que seus pedidos cheguem, continuam a conversar e sempre têm assunto a ser abordado. Falam de filmes a livros, de suas bandas favoritas a notícias da atualidade. A conversa entre os dois amigos é tão agradável que mal reparam em como as horas correm rapidamente, e que há pelo menos vinte minutos que terminaram a refeição. A taça de vinho de


ambos continua pela metade, mas parece que nenhum dos dois se lembra de tomar o etílico, por conta da conversa que flui. Mais quinze minutos se passam, como se voltasse à realidade, Erick pede a conta e, acompanhado da companhia agradável de Sophia, voltam para seu quarto. — Obrigada pela manhã maravilhosa, por ter me recebido em seu quarto e por tudo que fez por mim. Eu não tenho palavras para te agradecer, Erick — Sophia agradece de frente para a suíte de Gouveia. — Eu já disse que não precisa me agradecer. Eu adorei o tempo em que passamos juntos. Você é uma mulher incrível, então, eu é quem tenho que dizer “obrigado” — retruca amigavelmente, e os dois riem. Um pequeno silêncio se faz quando ambos cessam as risadas. Erick olha para o corredor atrás de Sophia, e ela encara o chão de assoalho do navio. Em um breve momento de insensatez, quando seus olhares se cruzam, de repente, as lembranças da noite anterior e da manhã que tiveram juntos vem à sua mente, e ela se sente agradecida por tudo que Erick fez a seu favor: a conversa aprazível sem assédio, o jeito como a acolheu em seu quarto e abriu mão de dormir na própria cama para que tivesse onde ficar, o almoço e o papo que fluiu sem tensão, o modo como a defendeu de Daniel e de como estava disposto a enfrentá-lo, de como ofereceu sua amizade sem ser calculista e seu zelo de lhe ter comprado roupas novas. Ela se perguntou se haveriam mais “Ericks” no mundo. E se não houvessem, pensou que seria ótimo para a humanidade mais pessoas como ele. Sentindo que devia um ato de agradecimento, que deveria retribuir por toda a gentileza e cordialidade de Gouveia, Sophia se aproxima suavemente e o beija nos lábios. Surpreso, Erick arregala os olhos, e o perfume dos cabelos dela sobem por seu nariz, o deixando extasiado. Os lábios finos de Sophia são macios – e ele pode quase dizer que são doces. Vagarosamente, separa a boca para lhe dar mais espaço, e o beijo simples se torna um beijo de língua. Delicadamente, Erick a alcança pela nuca e a traz para mais perto, à medida em que Sophia também o segura pela cerviz. Segundos depois, o beijo é interrompido pela loura. Olha para baixo com um tênue sorriso; suas testas quase se encontram. — Isso foi… — Erick começa, mas ela o impede de continuar. — Por favor, não diga nada — sussurra sem levantar o olhar. Tem um sorriso tímido curvado nos lábios e pode sentir que ele acena com a cabeça. — Então, a gente se vê outra hora… — Gouveia pronuncia não sabendo que reação ter após o beijo inesperado. Sophia anui com um maneio de cabeça e, logo após, Erick entra em seu quarto, fechando a porta vagarosamente. Ela respira fundo e levanta a cabeça, vira o corpo pronta para caminhar pelo corredor e


voltar para sua suíte. Então, estaca. Ao final do corredor, Daniel está parado. Ele tem um semblante neutro e a encara por longos segundos. Sophia sente seu coração acelerar e teme que Müller faça alguma bobagem, que comece uma briga com Erick. Mas tudo que recebe é um sorriso fraco e entristecido, seguido de um gesto de cabeça. Então, ele se vira e sai, deixando-a sozinha. E levemente atordoada.


18 DESEJOS AFLORADOS üller não soube como reagir quando viu Sophia beijando Erick Gouveia. O sentimento que bateu em seu peito era totalmente estranho, um quê de inexplicável, uma sensação insólita e indecifrável. Se havia explicação para o sentimento inédito, ele poderia apenas dizer que era como se estivesse a perdendo.

M

Lembrou-se da suíte e da mesa posta à varanda com frutos do mar, que ele comprou no restaurante, acompanhado de um bom vinho para agradá-la, pois sabia de sua preferência pela bebida. Achou-se um completo patético por ter preparado uma pequena surpresa. Horas antes, ao descobrir que Sophia dormira na cabine de Erick, e de ter ouvido boas verdades, queria realmente se desculpar. Só não sabia como. Regressou a seus aposentos pensando em – quem sabe – comprar um buquê de flores ou, ainda, uma joia em sinal de arrependimento. No mesmo instante, negou a si mesmo. Não queria que Sophia pensasse que estaria comprando seu perdão. Somente desejava poder sentar e conversar com ela calmamente, se desculpar por sua atitude troglodita, por tê-la feito chorar e pela briga que culminou em ela ter de procurar por outro lugar para ficar. Por isso, pediu que servissem o almoço na suíte, ajeitou tudo na mesa da varanda, frente à vista magnífica para o mar. Também comprou um buquê de rosas vermelhas e escreveu um cartão. Ansiosamente, aguardou seu retorno, mas não aconteceu. Deduzindo que Erick não havia dado o recado, voltou até a cabine 25-A; no momento em que se aproximava, a cena que viu deixou suas pernas tremulantes. Subitamente, travou no mesmo lugar, quase não acreditando no episódio que se desenrolava. Perguntou a si mesmo se o sentimento que pulsava em seu interior era idêntico ao que Sophia sentira ao flagrá-lo com Melissa e, posteriormente, com Christina. Será que ela, pelo menos, sentiu alguma coisa? Foi trazido de volta à realidade quando Sophia notou sua presença ao final do corredor, assustada. Seus lindos e grandes olhos verdes estalaram diante dele. Diferentemente das outras vezes, Daniel não faria escândalo. Já havia feito muito. Deixaria que Sophia seguisse sua vida, que se divertisse e se envolvesse com quem quisesse. Emudecido, sorriu fracamente, abanou a cabeça, virou os calcanhares e caminhou querendo apenas voltar para seu quarto e jogar toda a comida no lixo. Cruzou o navio a passos rápidos,


tentando manter sua lucidez em seu devido lugar, e não permitir se sucumbir à sentimentos e sensações incompreensíveis. Subitamente, ouviu passadas ligeiras vindo logo atrás. — Daniel — Sophia ofegava quando o alcançou —, espere, por favor. Ele continuou a andar, mas diminuiu a velocidade. — Vamos conversar — pediu acompanhando o ritmo dos passos dele. — Se quer me explicar sobre a cena que vi, não perca tempo, senhorita Hornet. Não me deve nenhum tipo de explicação. É uma mulher livre. — Declarou quase que friamente; virou em um corredor à esquerda. Sophia já constatou diferentes tonalidades na voz de Daniel quando ele pronuncia “Senhorita Hornet”. Nos primeiros meses em que se conheceram era estritamente profissional, em outros dados momentos era tenuamente irônico, mas, agora, sua tonalidade é de quem está irritado, nervoso ou incomodado com alguma coisa. E ela odeia ter seu sobrenome pronunciado daquela forma – naquela tonalidade. — Daniel, não seja dramático — segurou-o pelo braço e o forçou a parar. — Podemos, pelo menos uma vez, resolvermos nossas diferenças como dois adultos? Müller respira fundo e olha para um canto qualquer do ponto onde se encontra, enquanto faz um exercício mental para não agir de novo feito um idiota. A última coisa que quer é fazê-la mal. — Eu já disse que está tudo bem, Sophia — fala com a voz atenuada. — Não tem que se preocupar em me dar satisfação de nada — profere e passa por ela outra vez, dando continuidade ao seu trajeto. Aborrecida, Sophia o acompanha, irritada com a indiferença dele. Ela ainda não aprendeu a lidar com o Daniel Müller alterado, e nem o Daniel Müller estranhamente calmo, mas visivelmente incomodado. A atitude repentina de seu esposo de conveniência denunciou evidentemente seu desconforto para com o beijo que ela e Erick trocaram, mas por quê? Era o que Sophia gostaria de descobrir. — Eu não quero dar satisfação de nada para você, Daniel. — Eles entram no elevador, se apertando por causa de mais três ou quatro pessoas que estão presentes. Lado a lado, Daniel sente a pele dela tocar seu braço; a mesma corrente inexplicável o percorre e eriça seus pelos. O poder que Sophia tem sobre seu corpo e psicológico é de tirar-lhe a sanidade, nunca sentiu isso por mulher alguma. Tenta não transparecer a aflição que se faz em seu íntimo em senti-la tão perto, mas tê-la tão longe. — Então não se explique. Simples. — É tudo o que diz, olhando para a tela próxima à porta, indicando os andares onde estão. Sophia suspira. Desistiria de conversar com ele. Se Daniel estava agindo de forma fria e indiferente, não insistiria no assunto.


As portas se abriram para que as pessoas saíssem. Ambos ficaram sozinhos, ali, em silêncio, esperando que o elevador os levasse para um andar acima. Quando chegaram, Daniel foi o primeiro a sair e adentrar o corredor que os conduziria até a suíte presidencial. Sophia foi logo atrás pensando no aborrecimento que estava sendo a viagem. Desde que chegaram quase não tiveram um momento em que não estivessem brigando, discutindo ou um ofendendo o outro. Isso porque nem somos marido e mulher. Isso porque estamos apenas há um dia aqui! Daniel abriu a porta e, sem olhar para trás, se apressou em direção à varanda. Estranhando, Sophia espiou ao redor: havia um buquê com lindas rosas vermelhas descansando dentro de um vaso com água; sobre a mesa, talheres, pratos, taças, uma garrafa de vinho e uma bandeja tampada, estes que Daniel recolhia rapidamente. — O quê… o que você fez aqui? — Trepidou nas próprias palavras, confusa. Interiormente, esperava não ouvir uma resposta em que ele lhe diria que esperava por uma companhia. Aquilo seria demais para ela. Daniel se aproximou do vaso, pegou as flores e jogou em um cesto de lixo, juntamente com a comida da bandeja, deixando-a mais confusa. — Eu fiz para nós. Pedi para que o seu pretendente lá te avisasse que eu queria conversar com você. Quis preparar um momento agradável para nós dois, já que não tivemos nenhum desde que chegamos aqui — junta a louça limpa e deixa sobre uma bancada ali perto. — Pelo visto, ele não deu o recado — se vira para ela e suspira. Sem esperar por uma resposta, agarra a garrafa de vinho e a guarda no frigobar. — Ele deu o recado — Sophia responde ainda atordoada. Não esperava que Müller tivesse preparado um momento a dois para eles. — Entendo que era mais interessante a companhia dele. — Declara sentando-se na cama e ligando a TV. O sangue dela fervilha. Daniel se comportava como uma criança birrenta. Ela nunca conseguia entender suas atitudes. Uma hora gritava e a ofendia; outra hora agia indiferentemente, e quando ela achava que sua bipolaridade não podia ser maior, ele parece provocá-la. — Eu não sabia que tinha preparado isso tudo — aumenta um pouco o tom de voz e cerra os dentes, argumentando. — Talvez se tivesse vindo como eu pedi… — Daniel não a olha e muda os canais impacientemente. Revirando os olhos, ela lhe arranca o controle das mãos. Em protesto, Daniel tenta segurar, mas Sophia tira de seu alcance e deixa escapar um pequeno sorriso sapeca dos lábios. — Sophia, me dê esse controle. — Exige, mas é paciente. — Não. Estou falando com você e essa coisa está tirando sua atenção de mim. Daniel Müller bufa e se levanta em um salto, pondo-se frente a frente a ela.


— Não me obrigue a tirar essa porcaria da sua mão à força. — Converse comigo e eu te dou essa porcaria — rebate encarando seus olhos. — O que você quer conversar? — Bruscamente abaixa o tom de voz em um sussurro, enquanto fita os finos lábios femininos. De repente, a lembrança de ele a prensando contra a parede e experimentando de seu beijo retorna à sua mente como um clarão. Quase pode sentir o gosto doce de sua boca outra vez, e todas as vezes que eles se beijaram parece bombardear a sua memória. — Sobre você. Sobre seu comportamento. — Diz baixinho, a voz balbuciante, seu coração levemente acelerado. Sophia já percebeu que Daniel encara seus lábios. Sente-se um pouco incomodada com o fato, e reza para que ele não haja como na noite anterior. Se fosse prensada contra a parede para ser beijada, talvez não resistisse e, em vez de um tapa, ela retribuiria o beijando na mesma intensidade. Mentalmente, afastou seus pensamentos absurdos, enquanto ele continuava com seus olhos grudados aos seus lábios. — Eu sou um idiota. Deveria saber disso. — Pronuncia e sua voz rouca quase a faz perder a firmeza das pernas. — Eu sei que é um idiota — murmura, e agora ela também olha para os lábios dele. O coração continua acelerado e essa aproximação está aumentando gradativamente seus batimentos. — Quero saber por que agiu feito um marido ciumento sendo que não somos nada. Ciúmes? Daniel pestanejou, recobrando a consciência. Perdeu-se nos lábios de Sophia que se moviam com graça a cada palavra dita. Sua voz tão afável e angelical só ajudou para que ele entrasse em um torpor momentâneo. “Quero saber por que agiu feito um marido ciumento sendo que não somos nada. ” Eu agi feito um marido ciumento?, perguntou a si mesmo, e se afastou dela, dando-lhe as costas; os dedos encontraram-se com os fios alourados bem penteados, em sinal de total nervosismo. Sophia continuou o encarando, esperando por uma resposta. — Eu já disse — a frieza em sua voz retornou —, estava preocupado com sua integridade e segurança. Só temi que esse tal de Erick te fizesse alguma coisa. Mas já me provou que é uma boa pessoa, então… não tenho mais porquê interferir na sua vida. —Explicou-se ainda de costas. Mesmo que ele não pudesse ver, Sophia acenou positivamente. Talvez Daniel estivesse falando a verdade, talvez ele realmente se preocupava com ela e fez tudo o que fez na intenção de protegê-la. Ponderou, ainda, que o consumo de álcool ativou o lado super protetor e troglodita dele, justificando o motivo por ter sido um idiota. Mas, e o beijo?


Aos poucos, Daniel virou-se para ela, recuperando a postura. — Agora que já conversamos, me devolva o controle — pediu esticando a mão. Sophia sorri travessa e balança o controle. — Vai ter que vir pegar. — E se distanciou dele, caminhando até o outro lado da cama, deixando-a entre eles. — Sophia, eu não estou de brincadeira. Me devolve isso! — Disse firme, mas não contendo um riso no canto dos lábios. — Já disse que tem que vir pegar, senhor Müller — declarou outra vez, e, de súbito, Daniel subiu pela cama, atravessando-a e chegando até o outro lado. Assustada com a reação repentina, Sophia se desvencilhou dos longos dedos que tocaram sua camisa e correu até os fundos da suíte, contornando a cama e chegando onde Daniel esteve. Vendo que Müller já estava em seu encalço, pulou na cama e saiu no outro lado. Num ciclo vicioso, ficaram nisso por alguns segundos. Daniel ria e exigia o controle de volta, enquanto Sophia se atentava a seus movimentos, balançando o objeto no ar, provocando e dizendo que ele teria de pegar. Corriam por cima da cama, como duas crianças brincando de pega-pega. Sophia cortou caminho por cima da king size outra vez, e Daniel veio logo atrás. Percebendo que ela contornava a cama para dar início a outro ciclo de fuga e perseguição, Daniel retornou o caminho indo a seu encontro. Desatenta, Sophia só percebeu a investida quando foi segurada pelo braço e encostada contra o guarda-roupa embutido, tendo Daniel arrancando o controle de suas mãos. Gargalharam como nunca antes. As risadas acabam e os dois se olham intensamente. Daniel é novamente tentado a mirar os lábios finos e rosados de Sophia. Mal percebe que ela está encostada ao guarda-roupa, sendo pressionada pelo seu corpo largo. Sophia não se move. Os batimentos cardíacos, já acelerados pela pequena corrida segundos antes, aumentam de forma exponencial ao perceber que Müller se aproxima de seus lábios e ela não tem para onde recuar. Tem a sensação de que suas pernas não sustentam o peso do próprio corpo quando Daniel está próximo o bastante para que ela sinta seu perfume cítrico subir pelas narinas e irritá-las. Poderia simplesmente se desvencilhar ou pedir que ele parasse, se distanciasse, mas não consegue organizar as palavras que pipocam em sua cabeça. Müller continua a se aproximar, e, quando Sophia acredita que terá suas bocas unidas, ele se desvia do caminho e resvala a ponta do nariz em seu pescoço. No mesmo instante, a loura sente suas bases bambas. O modo sensual com que ele encosta a ponta do nariz em sua pele e, vagarosamente, a acaricia com movimentos curtos de para cima e para baixo, inspirando fundo o cheiro natural de sua pele, mexe com seu âmago… um embrulho


no estômago, uma tremedeira por dentro, as mãos suadas e o coração descompassado… — Santo Deus… — Daniel sussurra perto de seu ouvido, e Sophia sente que pode perder a firmeza das próprias pernas. — Seu cheiro, seu toque, sua pele… Tudo em você, senhorita Hornet, é inebriante. De repente, ela sente os lábios dele contra a curva de seu pescoço. Um arrepio percorre toda sua espinha. Lentamente, Daniel traça beijos molhados do lóbulo da sua orelha até chegar à clavícula, de forma sensual e tentadora, seus lábios se escorregando pela sua pele e a queimando de prazer. — Daniel! — Um gemido escapa do fundo de sua garganta ao sentir a ereção em sua coxa. Müller está entorpecido demais para qualquer outra reação. Continua a distribuir beijos na área de pele sensível, sua mão a segura levemente pelos cabelos dourados, induzindo-a a dar-lhe mais acesso ao pescoço. Delicadamente, ele continua a deslizar carícias com a boca em sua tez macia e sedosa. As pernas de Sophia estão tremulantes, e seu corpo traiçoeiro responde ao estímulo provocante da língua de Müller. — Você gosta, senhorita Hornet? — Cicia sedutoramente, mordiscando a ponta de sua orelha. — Gosta do modo como beijo seu pescoço? — Sua voz máscula ressoa excitante ao pé de seu ouvido, e ela sente suas bases estremecerem. O jeito como Daniel pronuncia senhorita Hornet a deixa ainda mais extasiada. Seus pelos estão eriçados, e a respiração, irregular. Nunca alguém despertara tanta paixão nela como Daniel estava fazendo naquele instante. — Não me respondeu, senhorita Hornet — insistiu ele, desviando os beijos do pescoço para o rosto, alcançando o canto de sua boca para deixa um ligeiro estalo úmido. Sophia apenas acena freneticamente e cerra os olhos, os apertando forte, sentindo cada músculo do seu corpo desejando por mais. Por muito mais. Estava excitada por Daniel Müller.

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A pele dela é de um toque sedoso e tentador, algo simples, mas tão… extasiante. Daniel nunca sentiu um toque tão aveludado e suave em sua vida. Inspirar fundo o cheiro natural de Sophia direto de seu pescoço o deixou enrijecido na mesma hora. Ele não entendia como ela conseguia ser tentadora e recatada ao mesmo tempo. Sophia jamais fez esforço algum para despertar nele o fogo ardente do desejo. Bastava um riso ou que seus olhos verdes brilhassem mais que o comum ou que vestisse uma roupa um pouco mais chamativa para Müller se sentir totalmente atraído. O pequeno corpo dela encontrava-se com sua pele, o contato direto causou-lhe dentro de seu peito explosões de hormônios de testosterona, assim como nela também, pois ele notou os


mamilos femininos já endurecidos tocando seu tórax. Traçou beijos molhados por todo seu pescoço, mas a vontade que tinha era de enfiar seus dedos entre as madeixas amarelas e trazê-la para um beijo voraz. — Responda com palavras, senhorita Hornet — ofegou a milímetros de sua boca. — Gosta do modo como eu te beijo? —Daniel a observou. Sophia tinha os olhos fechados, e sua expressão extasiada só revelava o quão ela também sentia prazer com o momento. Seus lábios se moveram em um inaudível “sim”. — Seja mais firme, senhorita Hornet, eu não te ouço. — E nisso, ele a agarrou pela cintura e colou mais seus corpos. O atrito entre os dois gerou uma faísca mútua de prazer, e ambos gemeram baixo. — Sim, senhor Müller — ela respondeu mais alto e entre gemidos. E sua submissão o deixou ainda mais excitado. Fixou os olhos nos lábios entre abertos dela. Iria tomá-los para si, e, dessa vez, sentia que seria correspondido. Os olhos verdes dela encontraram-se com os seus, intenso, pecaminoso… ela se desencostou da parede e se inclinou em sua direção, fitando sensualmente os lábios de Daniel, ao passo que ele também se aproximava mais para eliminar o espaço entre suas bocas. Seus lábios se encontraram superficialmente, ambos aspirando com ligeira sofreguidão o ar do outro; suas respirações estavam ofegantes e seus corações, descompassados. Era quase tangível o desejo que se espalhava pela atmosfera em concretizarem o beijo, de tomarem suas bocas, de verdadeiramente experimentarem um do outro… De repente, alguém bate à porta, os assustando e quebrando o momento ardente. Daniel se afasta em um sobressalto, enquanto Sophia tenta recompor a postura. Uma mulher baixa de cabelos curtos e negros, com um uniforme de camareira, carregando balde e utensílios de limpeza, adentra o local após Daniel permitir secamente sua entrada. — Boa tarde, senhor. Serviço de quarto. Deseja para agora ou mais tarde? — A mulher baixa pergunta. Ainda sentindo seus batimentos acelerados, ele encara a pequena mulher à sua frente. Daniel não sabe se a ama ou se a odeia pelo fato de tê-lo interrompido. — Pode ser agora — responde. Olha para Sophia que está ajeitando os cabelos. Sem dizer nada, simplesmente sai, deixando-a para trás.

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— Não precisa sair, senhora — a camareira diz selecionando alguns itens para a limpeza. Sophia mal a ouve. Está assustada demais com tudo o que aconteceu no último minuto. Quase


não consegue acreditar na insensatez que estava prestes a cometer. Cortou o cômodo e deixou que a funcionária falasse sozinha, entrou no banheiro e se recostou à porta, deslizando até o chão. Uniu as mãos em forma de concha e tampou o rosto, totalmente abismada. O calor do momento ainda subia por seu corpo, suas partes continuavam excitadas, e seu pescoço ainda tinha pelos eriçado por causa dos beijos sensuais que Daniel distribuiu. Tentando recuperar um pouco de sua sanidade, levantou-se e despiu-se. Encheu a jacuzzi e mergulhou o corpo dentro dela, fechou os olhos e mentalizou transparecer seus pensamentos. Inspirou e expirou diversas vezes para acalmar seu coração acelerado. Deus, onde estava com a cabeça? Mesmo que quisesse esquecer, era impossível. O toque de Daniel, sua voz rouca ao pé do seu ouvido, seus lábios na carne do seu pescoço. Tudo nele era tentador e provocante; Daniel era quente, sensual e excitante. Só agora ela entendia por que as mulheres se fascinavam tanto por ele. Ela própria estava fascinada pelo Müller. Mais do que isso. Excitada. Não aguentando a necessidade de seu corpo, Sophia mentalizou os momentos antes de serem interrompidos. Quase pôde sentir a ereção dele nas suas coxas. Imaginou-o ali, com ela, beijando-a, a água batendo em seus corpos nus enquanto ele a penetrava vagarosamente e suas unhas livremente arranhavam-no nas costas largas. Um pequeno gemido angustiante escapou de sua garganta quando o prazer lhe atingiu e ela se desmanchou em desejo, enquanto um sentimento totalmente novo preenchia sua alma.

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Daniel virou a quarta dose de uísque goela abaixo, mas nada parecia murchar seu amiguinho. De todas as vezes que se sentiu excitado por Sophia, a última era de longe a maior delas. O modo como Sophia estava inclinada a se render e a se entregar para ele o ensandeceu. O anseio que tinha de possuir aquele corpo de pele branca e macia o deixava à beira da loucura. Sua sanidade chegou ao fim no momento em que percebeu que Sophia estava tão atraída quanto ele. Seus corpos se encaixavam perfeitamente, suas bocas imploravam uma pela outra… uma conexão e química que girou em torno deles que Daniel não foi capaz de entender, muito menos de explicar. Ele só conseguiu sentir. Pediu outra dose de uísque. A quinta. Precisava esquecer. Precisava ainda mais se lembrar constantemente que havia um contrato dizendo que eles não deveriam consumar o casamento. E Daniel esteve a um pequeno passo de fazer a bobagem. Se bem que, se o sentimento que surgira era mútuo, se ambos se desejavam, perguntou-se, que problema teria em terem apenas uma noite? E se experimentassem um ao outro e depois voltassem às suas vidas normais?


Balançou a cabeça freneticamente, seguido de um pequeno murro e puxão de cabelo. Pare de pensar besteira, Daniel Müller! — Olhe só! Quem é vivo sempre aparece! — Uma voz feminina o tirou de seus devaneios confusos. Virou o pescoço para divisar Christina ao seu lado; saltou do banco, assustado. — Calma, bombeiro gostoso. Eu não mordo — e exibiu um sorriso descarado. Christina sorria descaradamente. Sentou-se ao lado de Daniel e cruzou as pernas despidas. Usava um vestido curto de decote extravagante, os cabelos negros estavam presos em um rabode-cavalo, e nos lábios um forte batom vermelho chamativo. — Oi… Christina. — Daniel pigarreou antes de conseguir cumprimentá-la. Sem dizer nada, ela arrastou seu banco para mais perto do dele, deixando seus corpos bem próximos. O sorriso escancarado continuava em seu rosto; ela o avaliou de cima a baixo. — Posso saber por que não voltou ontem? Não sabe como me deixou na mão — exigiu uma explicação. Sua voz soou natural e sexy ao mesmo tempo. — Tive um imprevisto. — Mentiu e virou um gole curto do etílico — Me desculpe. A morena levou uma mão até o peito de Daniel e, com a ponta do indicador, o acariciou de forma sedutora. Desceu o toque por seu tórax, chegando até a altura do umbigo; mordeu os lábios antes de continuar e chegar até o cós de sua calça. Müller acompanhou a cena completamente desconcertado. Christina era linda e encantadora, mas ele não se sentia atraído por ela. Queria ter se esquivado, mas não quis parecer desinteressado. — Entendo — finalmente se pronunciou. Enganchou o dedo levemente por dentro do cós e puxou. Sorrindo, olhou para ele e seus olhos cor de âmbar estavam intensos — Livre hoje à noite? —Sussurrou. Não! — Sim — e forçou um sorriso. Droga. Christina se levantou com um largo sorriso estampado no rosto de traços marcantes. Aproximou sua boca na de Müller e depositou um beijo curto antes de finalizar com um sussurro tentador: — Você conhece o caminho do meu quarto. Te espero às sete. Quero aproveitar cada segundo dessa noite. Sem que ele pudesse protestar, a morena o deixou sozinho, desaparecendo por entre as pessoas.


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Daniel passou o resto da tarde na jogatina. Foi o único modo que encontrou para tirar da cabeça o acontecimento com Sophia. Mas, enquanto a bolinha da roleta russa girava até parar em um número, as lembranças dela invadiam sua mente. Mesmo que ele tentasse se concentrar no caça-níqueis e torcesse para que desse um resultado de três imagens iguais, seus pensamentos vagueavam, e quando se dava conta, a voz dela gemendo seu nome o atingia. Então, se enfiou no pôquer. Precisava se concentrar. Precisava saber blefar. Pôs toda sua concentração no jogo de cartas, e ali ficou por um bom tempo. Perdendo e ganhando. Ter passado um tempo no cassino também era um ato inconsciente de ficar longe de Sophia. Ele ainda não sabia como iria encará-la depois de terem trocado carícias calientes. Olhou no relógio, já se passavam da cinco da tarde. Terminou sua última partida de pôquer, perdendo uma irrelevante quantia, deixou a mesa de jogo e resolveu voltar para a suíte. Desejou profundamente que ela não estivesse por lá. Definitivamente, não queria conversar sobre o ocorrido. E ele sabia muito bem que Sophia exigiria uma explicação. Chegaria, tomaria um banho e, quem sabe, se encontraria com Christina. Ao abrir a porta da suíte se deparou com Sophia na varanda. Os cabelos amarelos estavam presos em um coque frouxo, trajava um vestido branco de alças finas que batia dois dedos acima de seus joelhos; a brisa marítima sacudia a cortina da porta de acesso até a varanda, dificultando-lhe um pouco a visão do que ela estaria fazendo lá. Se aproximou cautelosamente. Sophia virou-se, súbito, e deu um leve salto ao vê-lo ali. — Me assustou — murmurou ela de olhos baixos, recuperando o ar que se escasseou dos seus pulmões. — Desculpe. Não era a intenção. — Adentrou a varanda e observou o entorno. A pequena mesa redonda estava delicadamente posta, o vinho que ele guardara no frigobar jazia no centro, acompanhado de duas taças. — O que é isso? — Inquiriu um pouco atônito. — Só quis recompensar. Você foi atencioso em ter preparado alguma coisa para o almoço, mas como eu estraguei tudo porque não apareci, resolvi fazer isso para o jantar. Pedi frutos do mar de novo. Já deve estar chegando. Daniel não pôde deixar de sorrir brevemente. Teve a sensação de que ela não queria tocar no assunto do ocorrido mais cedo, e a agradeceu mentalmente por isso. Sentiu-se aliviadíssimo. — Deveria ter me dito. Teria trazido flores.


Ela o olhou sorrindo de forma tímida, sentindo o rosto corar levemente, e seus olhos brilharam diante Daniel. O verde de sua íris reluzia intensamente e ele sentiu um misto de sensações boas: alegria, paz e felicidade. Vê-la bem, o fazia bem. — Irei me arrumar enquanto isso — declarou Müller se retirando em seguida. Buscou por terno e tomou banho. Dentro do banheiro, ajeitava a gravata com a mesma dificuldade de sempre. Penteou os cabelos e os fixou com gel; usou uma colônia, arrumou gola e punhos da camisa branca… Ao sair para o quarto, Sophia acabava de fechar a porta e trazia em mãos uma bandeja. Apressou-se em ajudá-la. — Obrigada — agradeceu sorrindo e entregando a bandeja para ele. Os dois seguiram até a varanda, Daniel terminou de pôr a mesa enquanto Sophia selecionava Patience 1 no Ipod para conectar ao som e deixar o ambiente mais agradável. Educadamente, Daniel puxou uma cadeira a ela. Serviu-os com vinho e depois com o prato principal. Ele sentou-se na outra ponta, de frente para Sophia. Admirou sua beleza por um momento. Ponderou que era normal essa atração repentina que vinha sentindo. De fato, Sophia é de uma beleza exuberante. — Espero que não tenha se importado com isso — seu pronunciamento o faz pestanejar e voltar à realidade. — Não. Claro que não. Foi atencioso da sua parte e eu a agradeço por isso — ajeitou o guardanapo de pano sobre colo. — Você foi atencioso primeiro. Sinto muito ter estragado tudo. — Não se preocupe, Sophia. O que passou, passou. Vamos esquecer isso, tudo bem? — Disse calmo, e Sophia acenou com um sorriso curto. — Tirando todas as desavenças, o que está achando da viagem? — Quis saber com um largo sorriso, agitando sua taça de vinho antes do primeiro gole. Sophia sorveu rapidamente seu vinho para só então responder. Abria a boca para falar quando alguém bateu à porta. Outra vez?, pensou Daniel mirando em direção à porta. — Pode deixar, eu vejo quem é — Sophia proferiu. Abriu a porta para encarar uma morena bronzeada usando roupas provocantes. Arregalou os olhos ao ver Christina. A mulher do outro lado parecia tão surpresa quanto Sophia. A morena a avaliou de cima a baixo, e depois conferiu o número do quarto, num intuito de saber se não tinha se enganado. — Sophia? — Arqueou uma sobrancelha. — O-oi, Christina — gaguejou.


Que diabos ela faz aqui?, quis saber Sophia, mentalmente, ao mesmo tempo em que a outra mulher se fazia a mesma pergunta. — Sophia, quem é? — Daniel gritou da varanda, e sem esperar por uma resposta, se levantou, caminhando ao seu encontro. Parou no meio do quarto quando viu Christina na porta. Praguejou-a infinitamente. Como se a mulher ali percebesse a situação, alternou o olhar entre os dois, furiosa. — Esse foi o imprevisto que teve ontem à noite, Daniel Müller? — Bradou entre os dentes. Puta merda!


19 FÚRIA E CIÚMES hristina ajeitou os seios fartos dentro do decote e retirou o excesso do batom vermelho. Olhou ao redor de seu quarto, e ficou satisfeita por tudo estar preparado para seu encontro com Daniel: algumas velas aromatizadas e pétalas de rosa espelhadas sobre a cama faziam contraste com o branco do lençol, luzes baixas conferindo ao local um ar romântico e ao mesmo tempo erótico, e, ao fundo, uma música sensual em volume prazeroso.

C

Buscou as horas, e já eram um pouco mais de seis da tarde. Não querendo arriscar em ser deixada sozinha outra vez pelo homem exuberante, resolveu sair e buscá-lo ela mesma. Não sabendo onde era o aposento de Müller, voltou até o bar onde o encontrou mais cedo, e com um incentivo de cem reais convenceu o barman a descobrir a informação que necessitava. Quinze minutos depois, já tinha o número do quarto e seu nome completo anotado em um pedaço de papel. Seguiu marchando até lá, já imaginando a noite maravilhosa que teriam. Queria estar com ele a noite toda para compensar a passada, em que Daniel a deixou plantada e esperando. Ao chegar à porta do quarto dele, percebeu que era uma suíte presidencial Tem dinheiro o danado!, pensou consigo mesma, abrindo um sorriso felino e malicioso. Ajeitou os cabelos e conferiu a maquiagem rapidamente pela tela do celular, arrumou os seios fartos outra vez e bateu à porta. Segundos se passaram até que fosse atendida. Christina já se preparava para agarrar Daniel pela nuca e beijá-lo, manchando seu rosto com o vermelho do batom, mas a pessoa a sua frente era a última que ela imaginava ver ali. Pensou ter se enganado de quarto e deu passo atrás para conferir o número. Está certo! — Sophia? — Indagou surpresa e, ao mesmo tempo, confusa, arqueando uma sobrancelha. A moça a sua frente parecia tão atônita quanto ela; Sophia gaguejou: — O-oi, Christina. Antes que Christina pudesse questioná-la sobre o que Sophia estaria fazendo ali, ouviu uma voz forte e conhecida. — Sophia, quem é? Daniel!, reconheceu prontamente.


Seu sangue ferveu nas veias quando Müller surgiu de algum lugar do quarto e estacou no meio do caminho, notando sua presença. Christina não demorou a entender o que estava se passando e alternou o olhar entre os dois, sempre os avaliando. Ele bem arrumado e de terno; ela lindamente dentro de um vestido branco. — Esse foi o imprevisto que teve ontem à noite, Daniel Müller? — Disse entre dentes, deduzindo que ele a deixara esperando para estar com a Hornet. Daniel quase se engasgou com a própria saliva. Por um breve momento não soube o que fazer. Apenas fitou-a, ainda atordoado por sua chegada repentina. Abruptamente, a morena adentrou o quarto, passando por Sophia, marchando furiosamente até Daniel, queria xingar os dois ao mesmo tempo, acreditando que Sophia havia fisgado Müller e que foi deixada esperando para ele estar com a loura. — Me responda, seu cachorro! — Esbravejou. — Não acredito, Daniel, que me trocou por esta loura sem sal! Instantaneamente, uma cólera visceral incontrolável subiu pela espinha de Sophia. A vontade que sentiu foi de agarrar Christina pelos cabelos e expulsá-la do quarto deles por conta de sua invasão, do seu palavreado, das suas ofensas e pré-julgamentos. Mas a cena que se desenrolava travou suas pernas, e ela não teve reação alguma. Poderia simplesmente enaltecer que Daniel era seu marido, e por isso, ela não tinha direito algum sobre ele. Ainda assim, era idiota demais para tomar qualquer atitude. Pensou também em Daniel. Por algum motivo ele fingiu não a conhecer na presença de Christina na noite passada, então, a verdade deveria partir dele. — Christina, não é o que está pensando — enunciou Daniel tentando acalmar a fera. — Vamos ali fora e eu te explicarei tudo. — Para fora o caralho! — Ela gritou ainda mais, fazendo os presentes se sobressaltarem. A morena olhou mais ao redor e divisou a mesa arrumada no lado de fora. Caminhou a passos firmes até a varanda; fitou com determinada fixação raivosa o jantar deles. Levantou os olhos até Hornet e Müller, furiosa. Ah, que bonitinho! Um jantar romântico! Sophia estava congelada no mesmo lugar e Daniel a encarava sem entender. — Vocês iam jantar? — Inquiriu em tom irônico. Não esperou por uma resposta: — Não vão mais! — Declarou, e virou a mesa. Pratos, garrafa, talheres e taças vieram ao chão e se partiram, derramando vinho e comida por todo o assoalho da varanda do navio. Cético com a atitude da morena, Daniel pôs-se a caminhar apressadamente, querendo impedir mais alguma ação desiquilibrada dela. Mas não foi preciso, Christina já retornava, e, antes que ele pudesse dizer alguma coisa, foi direto para Sophia lhe apontando o dedo. — Roubou o meu homem, sua vadia?!


Sophia nada disse. Estava paralisada demais com tudo que acontecia em sua frente. Por mais que sua vontade fosse de revidar, ela simplesmente não conseguia. — Christina, já chega! — Daniel a advertiu com o tom firme, irritadíssimo com a morena, que passara dos limites difamando Sophia. Que destruísse todo o quarto, mas não permitiria ofensas contra sua esposa. Mas Christina não lhe deu atenção. — Eu te apresentei o Daniel para que arrumasse um para você! — Continuou gritando e apontando o indicador para a Hornet. — Não para que o tirasse de mim. Sophia procurou por Daniel, que se aproximava delas, quase implorando por ajuda somente com seus olhos verdes. Ela não sabia o que fazer diante a situação e estava assustada com a reação de Christina. Daniel abria a boca para falar com a mulher, e até levava uma mão para segurá-la pelo braço e tirá-la de seu quarto, quando o inesperado aconteceu: Christina desferiu um tapa em Sophia. — Sua vadia! — Trovejou irritada. Sophia levou a mão até a face atingida, que ardia. Voltou seus olhos aterrorizados para Christina, abismada com a agressão física e verbal que partiu dela. Por um milésimo de segundo, Daniel ficou boquiaberto e assustado. Voltou à realidade quando Sophia devolveu o tapa. As duas se agarraram uma ao cabelo da outra e ele precisou ser rápido para interferir. Puxou Christina pelos braços e a arrastou para fora do quarto, batendo a porta fortemente. Christina proclamava inúmeras injúrias e ofensas contra Daniel, enquanto era arrastada pelo corredor, se distanciando cada vez mais da suíte de luxo. Mas ele estava absorto demais. Imerso em raiva e cólera. Quando a morena agrediu Sophia, por um pequeno instante ficou atônito, mas um milésimo de segundo depois sua ficha caiu e uma ira fervilhou em seu sangue. Ver a loura sendo agredida e ofendida por Christina o fez sentir um ódio mortal. Quase ficou cego de raiva e precisou realizar um exercício mental para se lembrar constantemente que se tratava de uma mulher, e se perdesse a razão, ele quem estaria errado. Então, a segurou pelo braço e a tirou de seu quarto. Estava decidido a dar um basta e se livrar de Christina o mais rápido possível. — Me solte, seu filho da puta! — Gritou estridentemente, tirando Daniel de seu devaneio. Ele a soltou abruptamente. No mesmo instante a morena ia virando a mão em seu rosto, mas ele obstruiu a investida segurando firme em seu punho e o apertando com força, descarregando ali mesmo sua fúria; o maxilar tensionado. — Está me machucando — protestou de dentes cerrados. — Estúpido! Outra vez ele a soltou abruptamente.


— Vai, volta lá para sua lourinha — insultou. — Cafajeste! — Christina… — Daniel tentou dizer, mas a morena era implacável. — Me deixou louca de desejo por você e foi foder com aquela magricela sem graça?! — Seguiu dizendo com seu tom de voz alterado. — Não sabe o que perdeu, meu bem — e sacudiu os seios — Sou muito mais fogosa que aquela sem sal nem açúcar. — Já chega! — Daniel gritou fora de controle; sua voz ecoou pelo corredor. Christina se assustou e deu um salto, ficando calada no mesmo instante. — Em primeiro lugar — advertiu-a com o indicador levantado, e sua voz saiu estoica —, nunca mais, me ouça bem, nunca mais agrida Sophia, seja com ofensas ou agressões. Eu não permitirei, Christina, mais nenhuma afronta sua a ela. E da próxima vez que a agredir fisicamente… eu não respondo pelos meus atos. — Está ameaçando me bater? — Ela estufou o peito e o confrontou. — Entenda como quiser! — Desdenhou. — Em segundo lugar — continuou —, Sophia é minha esposa! Foi então que o semblante de Christina mudou radicalmente. Sophia é minha esposa! Daniel resolveu abrir parte do jogo com a morena. Um modo de se ver livre de uma vez por todas dela, e ao mesmo tempo acalmá-la. A única coisa que não diria era sobre a farsa do seu casamento. Do contrário, sustentaria a mentira o quanto fosse possível. Enquanto encarava a expressão embasbaca de Christina, divagou pensando em Sophia. Queria voltar para sua suíte e saber como ela estava e, pela centésima vez, pedir desculpas. Só então percebeu que ainda não havia se desculpado com ela nenhuma das vezes que pretendeu fazer isso. Imbecil! Um arrependimento instantâneo socou seu peito. Se ele soubesse que Christina era tão possessiva a esse ponto, jamais teria sequer cogitado se envolver com ela. Enfiou a mão no bolso e tirou a aliança que carregava consigo e a sacudiu na cara da morena. — Vê? É uma aliança — e a colocou no anelar. Com um suspiro exasperado, Daniel mira Christina e espera por uma reação, uma resposta, mas ela está chocada com sua declaração. O que é totalmente compreensível. — Vocês são casados? — Finalmente pergunta sentindo-se completamente confusa. — Sim — Daniel afirma e cruza os braços. Christina pestaneja, ainda tonta com a última informação.


— E estava a traindo na frente dela? E comigo? — Inquire incrédula, lembrando-se do baile a fantasias onde Daniel foi apresentado a própria esposa. Müller pigarreia um pouco antes de responder. Enrubescendo levemente. Esqueceu-se desse pequeno maldito detalhe: que ele havia fingido não conhecer Sophia. — Às vezes, eu sou um idiota — gagueja desviando os olhos. — Havíamos brigado por causa de um ex dela, e eu… Estava de cabeça quente, com raiva… Acabei agindo sem pensar, e quando fomos apresentados um para outro eu fiquei com medo de que ela fizesse um escândalo, que vocês brigassem… Essas coisas. Por isso fingi não a conhecer. — mente, e reza mentalmente para que Christina acredite. A mulher à sua frente se mantém calada o avaliando. Ponderou que Sophia era imbecil o suficiente para perdoar uma cachorrada como a que Daniel havia feito; e que ele era um tremendo canalha por ter tido esse tipo de atitude. — Por isso não voltou aquele dia — mais afirma do que pergunta. Daniel permite que outro suspiro suave escape, tornando a encarar a morena nos olhos. — Eu estava arrependido, Christina, mas não queria parecer desinteressado. Por isso menti sobre a camisinha e fui embora — continua com a mentira, que era quase uma verdade. — E ela foi idiota o bastante para te perdoar — outra afirmativa. E outra ofensa. Os olhos azuis-esverdeados a fuzilaram. — Desculpe — levantou as mãos —, mas outra no lugar dela não teria feito o mesmo. — Comenta dando de ombros. — Mas ela não é qualquer outra — Daniel rebate já com imensa vontade de dispensá-la e voltar para Sophia. Christina suspira em derrota. Sabia que deveria deixá-los em paz, já que eram casados. Mesmo que estivesse muito interessada em Daniel. — Existe alguma chance entre eu e você? — Insinuou maliciosamente não se importando com mais nada. — Nem que seja uma única vez? Daniel rolou os olhos. Nem dizendo que estava casado essa mulher o esqueceria? — Não. — Decretou firmemente. — E, por favor, Christina, não me procure mais. — Dito isso, virou nos calcanhares e se afastou, pensando somente na loura.

♦♦♦

Quando Daniel abriu a porta de sua suíte deparou-se com o aposento vazio. Voltara rapidamente ao encontro de Sophia para saber como ela estava, se desculpar e dizer que se ela


quisesse, assim que o navio atracasse no Rio de Janeiro, retornariam para casa e acabariam com aquela lua de mel, que estava se tornando um tormento na vida de ambos. — Sophia? — Chamou-a. — Estou no banheiro — respondeu, e ele se sentiu mais aliviado por saber que ela continuava no quarto deles. — Eu… eu já saio — proferiu, e Daniel sentiu uma diferença em sua voz. Ela está chorando?, perguntou a si mesmo quando ouviu uma fungada. Passou a mão pelo rosto. Odiava vê-la chorando ou aborrecida. Ainda mais quando ele mesmo causava suas decepções e lágrimas. E outra vez, por sua culpa, Sophia se entristecia. Idiota! — Você está bem? — Se aproximou da porta e a questionou; pôs a mão na maçaneta e a abaixou, não esperando pela resposta da loura. A porta se abriu suavemente, ele divisou Sophia dentro de um roupão, com os cabelos presos e bagunçados, frente ao espelho com um algodão nas mãos. Foi ao encontro dela a passos rápidos, ao notar um corte na pele branca de seu rosto pelo reflexo do espelho. — Ela te machucou — afirmou aflito. — Meu Deus, Sophia, me deixe ver isso — pediu, e a virou para si. — Foi só um arranhão. Acho que a unha dela me cortou. Não é nada. — Murmurou de cabeça baixa. — Como não é nada? — Indagou levantado o queixo delicado e avaliando seu rosto, procurando por outro hematoma. Deparou-se com uma marca vermelha, já quase sumindo, dos dedos de Christina na face branca de Sophia. Horrorizou-se. Engoliu em seco por saber que, mais uma vez, Sophia saia ferida por sua culpa. Até quando irá fazer bobagens, Daniel?, acusou sua consciência. — Por favor, me desculpe — implorou, e a trouxe para um abraço. Envolveu-a em seus braços afagando os cabelos áureos, sentindo seu peito comprimir quando Sophia aspirou pesadamente contra a curva de seu pescoço. — Me perdoe, Sophia. Eu juro que nunca mais isso irá acontecer. — Pediu com a voz rasgada. Era terrível vê-la no estado em que se encontrava. Habituado a presenciar Sophia sempre sorrindo, vê-la aborrecida era uma tormenta. Só então percebeu como ela era frágil e sensível, uma boneca de porcelana fácil de se quebrar. Apertou-a em seu abraço querendo protegê-la de todo o mal, mas ao mesmo tempo sabia que parte desse mal partira dele próprio. Sabia que se quisesse dar essa proteção que ela tanto merecia, deveria se afastar, pedir o divórcio, arrumar outro jeito de ter sua herança e deixar que Sophia fosse feliz e estivesse longe


de aborrecimentos. No entanto, por algum motivo, não queria estar longe dela, por mais que soubesse que uma hora ou outra se divorciariam. Cerrou os olhos tentando afastar seus pensamentos. Comprimiu mais seu corpo contra o dela, sentindo uma necessidade de envolvê-la. Se havia uma decisão a ser tomada para que Sophia não chorasse mais por suas imbecilidades não era pedir o divórcio, mas começar uma nova fase. Ser diferente. Ser um novo Daniel; na verdade, ser o antigo Daniel, aquele cordial e gentil, passivo e controlado que a vida toda foi; ser aquele de antes de se deparar com outro homem cortejando sua esposa de interesses. Um sentimento negativo que, mesmo não o compreendendo plenamente, começava a controlá-lo. E faria isso por ela, para que não presenciasse mais a cena angustiante como esta. Cessou o abraço e a encarou nos olhos. Segurou seu rosto com as duas mãos e secou uma lágrima que caía. — Escute… — sussurrou — enquanto estivermos mantendo esse casamento, mesmo que de aparência, eu não me envolverei com ninguém. Eu pedi discrição, e eu mesmo estou burlando esta condição. Sou um idiota, mas, por favor, eu preciso que me perdoe. — Pediu em tom de súplica. — Se quiser eu posso até ajoelhar…— disse, e já fazia menção de se abaixar quando Sophia o impediu. Ela não pôde segurar uma pequena risada influenciada pelo seu exagero teatral. — Não quero que pare sua vida por minha causa. Você é um homem livre, Daniel — declarou. — Não. — Contrariou-a. — Eu sou um homem casado. E com você. Manterei minha palavra agora até o fim. Não quero mais que o aconteceu hoje aqui se repita. Sophia acenou brevemente. Sem esperar, Daniel já a abraçava outra vez. O perfume dele invadiu suas narinas, uma sensação boa percorreu seu corpo. Era bom ser acolhida pelos braços fortes de Müller, deitar a cabeça em seu peito, sentir os dedos dele acariciando suas madeixas, o queixo apoiado sobre o alto de sua cabeça. Era uma sensação acolhedora que nunca sentira com ninguém. Envolvida no momento, ela também o abraçou. Ambos ficaram um tempo atados um ao outro, em silêncio. Sophia não admitiria jamais, mas gostara da atitude dele de fazer um voto de castidade. E até achou justo. Por mais que Daniel fosse discreto, uma hora ou outra cairia na boca do povo, ou da mídia, suas escapadas. A última coisa que queria era sair com fama de traída conformada, ou interesseira, que perdoava as traições pensando na soma de dinheiro que ele tinha no banco. Também pensou em Sebastian e Eduardo. Se isso chegasse aos ouvidos do pai e do irmão, seria confusão na certa. — Você ainda não disse se me perdoa ou não — Daniel sussurrou a fazendo retornar ao mundo real. O murmuro em seu ouvido trouxe-lhe lembranças de há pouco. Os beijos molhados que ele teceu em seu pescoço, a ereção dele em sua coxa, o modo sensual como Daniel proferiu senhorita Hornet, e como ela ficara excitada com este fato. Quase sentiu as pernas bambearem quando, vagarosamente, ele encostou sua face na dela e alisou-a com a barba.


— Está tudo bem — pigarreou. — “Está tudo bem” não é “Eu te perdoo”, senhorita Hornet. — Murmurou, ainda fazendo o movimento carinhoso de seu rosto contra o dela. Aquela mesma corrente elétrica subiu por sua espinha, o vão de suas pernas respondeu ao estímulo das palavras de Daniel. Ele a chamava de senhorita Hornet e isso lhe tirava a sanidade, às vezes de excitação, às vezes de raiva. Engoliu em seco sentindo o coração descompassado. A tremedeira interior também voltou quando as mãos firmes dele seguraram sua cintura. — Eu te perdoo, senhor Müller. — Sussurrou. Daniel se afastou somente o suficiente para olhar dentro dos olhos de Sophia. Um segundo depois sua atenção estava naqueles lábios que há pouco tempo vinham lhe enlouquecendo, mas que parecia fazer séculos a vontade de sugá-los, beijá-los com intensidade e desejo. Não somente beijá-la para aparentar alguma coisa, mas para sentir o misto de sensações e sentimentos prazerosos que sempre sentiu, desde o primeiro beijo deles, mas que, pouco a pouco, vinham aumentando. Eu te perdoo, senhor Müller. A voz macia dela em submissão fez seu amigo ganhar vida. Mais uma vez, e agora ele já perdera as contas, se via excitado por Sophia. Pensando apenas em tomar aquela boca na sua, Daniel inclinou a cabeça para o lado ao passo que ia se aproximando dos lábios suculentos. Fechou os olhos para melhor sentir o beijo que estava por vir. A ponta de seu nariz tocou a pele sedosa da loura. Isso o ensandeceu. Nunca sentira um toque tão macio, uma pele tão delicada… Era incrível como a cada vez que suas peles entravam em contato, a mesma sensação inexplicável, o mesmo êxtase o atingia; a cada vez parecia mais intenso, mais confuso, mais incompreensível… — Daniel… — ela sussurrou de repente, fazendo-o parar e olhá-la. Sophia tinha os lábios entre abertos e os olhos fechados, a respiração dificultosa. — Por favor… Não. — Pediu balbuciando. Daniel pestanejou, a encarou por um segundo, seu coração batendo forte e rápido. De excitação, de frustração. Sem dizer mais nada, passou por ela e fechou a porta. Sophia recostou-se à parede e deslizou, com a mãos no rosto, até o chão. Apesar de tudo, não queria ter recusado o beijo.


20 PORQUE A AMA

S

ophia esperou que seus batimentos cardíacos voltassem ao normal.

Mesmo que desejasse sentir os lábios de Müller contra os seus, recusou o beijo. Seus sentimentos estavam alvoroçados ,e ela não entendia o turbilhão de emoções que sentia quando na presença de Daniel. Estava ciente de que se permitisse o beijo não conseguiria parar e eles avançariam para além do que podiam. Respirou fundo e se levantou encostando-se à bancada da pia, ainda zonza com os últimos acontecimentos e com a confusão que estava sua cabeça. Encheu a mão em forma de concha com água e jogou no rosto, tentando recobrar a postura e baixar a temperatura que se alastrou pelo seu corpo. Ajeitou os cabelos bagunçados e suspirou pesadamente frente ao espelho antes de tomar coragem e sair do banheiro. Daniel estava na varanda, agachado e juntando um pouco da bagunça causada por Christina. Cautelosamente, ela se aproximou, continuava sem jeito com o ocorrido no banheiro. — Precisa de ajuda? — Ofereceu, e Daniel voltou seu olhar para ela. — Não, não preciso. Já chamei o serviço de quarto — alegou jogando alguns pedaços de cacos de vidro ao lixo. Sophia quedou-se calada, apenas anuindo com um movimento de cabeça. — Já cuidou desse arranhão? — Daniel inquiriu e chegou mais perto, enquanto arregaçava as mangas do paletó até a altura dos cotovelos. Levava sua mão até o hematoma na face dela, mas Sophia se esquivou com um passo para trás. Desconcertado, ele abaixou a mão vagarosamente. — Eu já disse que não é nada. — Afirmou negando-se a olhar para ele. Daniel revirou os olhos, impaciente. Segurou-a pelos punhos e a arrastou até a cama, fazendo-a se sentar. — Fique aí — pronunciou e voltou até o banheiro. Sophia ficou esperando durante alguns segundos. Daniel retornou com um algodão umedecido e um pequeno curativo branco e se sentou ao lado dela. Eles se olharam por um breve momento. Com cautela, Müller tocou o ferimento; o pequeno machucado ardeu um pouco e isso fez Sophia se esquivar com um sobressalto.


— Álcool é ótimo para esterilizar — comentou Daniel dando leves batidinhas. — Você é exagerado — rebateu Sophia. — É só um machucado idiota. Daniel terminou a limpeza e mirou o pedaço de algodão com pequenos resquícios de sangue. Tirou o adesivo do curativo e colocou sobre o hematoma de Sophia. — Mas é melhor prevenir a remediar — replicou terminando de posicionar o curativo. — Pronto. Assim está bem melhor — e sorriu pequeno. Sophia desviou seus olhos, olhando para baixo. Não sabia como agir diante dele, à medida que Daniel parecia indiferente às situações que passaram há pouco. Pensou em dizer alguma coisa, mas, o quê? Definitivamente não queria conversar sobre os dois momentos quentes que aconteceram entre eles. Porém, receou que, se tudo não fosse esclarecido, essas coisas continuariam acontecendo. — Daniel… — Chamou-o. Ele continuava a seu lado e seus olhares se cruzaram. — Aquilo, há pouco, por favor, que não se repita mais. Daniel a fitou, um pouco atônito, sem entender exatamente ao que ela se referia. Havia acontecido muita coisa dentro de pouco tempo, e quando ela disse “aquilo, há pouco…” poderia ser qualquer acontecimento nos últimos quinze minutos. — O beijo… — Sophia sussurrou apenas, e Müller compreendeu. Daniel anuiu em positivo: — Claro. — Foi tudo o que disse antes de se levantar. Ela acenou com um suspiro. Esperava pelo menos por uma explicação ou um pedido de desculpas por parte dele. Daniel estava agindo como se nada tivesse acontecido e isso a deixava irritada consigo mesmo: enquanto se sentia envergonhada, Müller agia naturalmente. Qual o problema comigo?, pensou, divagando. — Ainda está com fome? — Ele perguntou de repente. — Sim, mas não se preocupe eu… — Se arrume. Vamos sair para jantar — Daniel pronunciou, interrompendo-a. — Daniel…— tentou protestar, mas ele levantou o indicador em advertência. — Não demore, eu odeio esperar. — Respondeu ríspido e se virou, saindo do quarto.

♦♦♦

Daniel fez um exercício mental para manter o controle. Há muito vinha perdendo as rédeas da situação quando o assunto era Sophia. Sentir a pele


macia do rosto dela contra o seu fez subir um arrepio por sua espinha. Seu corpo clamava por um beijo recíproco dela, mas lhe foi negado quando suas bocas estavam a centímetros uma da outra. Teve, ainda, de controlar seus nervos e anseios para agir de forma natural, não queria que Sophia soubesse de como ele estava vulnerável, sujeito aos seus desejos inexplicáveis que, de uma hora para outra, sem justificativa, começavam a se aflorar. Agir indiferente foi o modo que encontrou para se proteger e fugir de qualquer explicação que, por ventura, ela viesse a exigir, pois ele não poderia explicar o porquê desejava tanto beijála. Não podia, porque nem ele mesmo entendia. A única razão lógica que encontrava era que estava se sentindo atraído por Sophia Hornet, como já havia se sentido com tantas outras. E quando ela pediu que não acontecesse mais o que houve entre eles, quase foi capaz de negar; quase disse a Sophia que sua vontade era de agarrá-la pela nuca e beijá-la intensamente, experimentar novamente do gosto de sua boca, sem encenações, sem a obrigação de ter de provar a veracidade de um casamento de conveniência. Queria tomar aqueles lábios porque os desejava. Por simples, puro e enlouquecedor desejo de beijá-la. Mas sabia que não era necessário expressar nada, não era preciso proferir palavra alguma, pois tinha ciência de que Sophia percebera sua ereção em suas coxas mais cedo, antes de a camareira, surgida das profundezas do inferno, interrompê-los. Recostou-se à porta fechada da suíte, atônito, o coração descompassado, passando a mão pelo rosto, aguardando que Sophia se aprontasse. Eles teriam um maldito momento juntos e em paz nem que fosse a última coisa que Daniel fizesse na vida! Tempos depois, buscou pelas horas, constatando que já havia dez minutos que esperava por Sophia. De fato, odiava esperar, mas seu nervosismo maior naquele momento nem era tanto pela espera, mas em ficar na presença dela, de mirar dentro daqueles olhos verdes e se sentir terrivelmente hipnotizado, de inalar o perfume adocicado e feminino que dissipava pelo ar e que, facilmente, o deixaria inebriado. Poderia simplesmente evitá-la, no entanto queria provar a si mesmo que era possível se controlar, que era possível ignorar e conter o deslumbramento repentino que vinha sentido por ela, e ao mesmo tempo respeitar a vontade de Hornet, provando, também a ela, que poderia se manter por perto sem perder o controle das coisas. Porém, Daniel tinha certa convicção que, ou não seria capaz de atender ao pedido dela, e uma hora ou outra seria franco, contando-lhe que sentia uma atração quase irresistível, ou perderia a sanidade. Impaciente, bateu à porta do quarto, e sem esperar por uma permissão, adentrou no recinto. Encontrou Sophia de pijama, deitada e vendo TV. Que diabos…? — Sophia! — Exclamou. Ela o espiou indiferentemente e depois voltou sua atenção ao programa de culinária. — Diga. — Respondeu sem tirar a atenção da TV. — Acho que fui bem claro quando disse que íamos jantar! — Disse autoritário.


— Sim, foi. Claríssimo — Retorquiu ainda o ignorando. Daniel a encarou, cético. — Então por que diabos ainda não está pronta? — Levantou o tom de voz. — Porque eu não quero sair para jantar — rebateu mantendo a calma na voz. — Eu não disse que tinha opção de escolha. Sophia o encarou nesse instante, enrugando o semblante, visivelmente irritada. — E desde quando você manda em mim? E desde quando você acha que pode me impor alguma coisa? — Indagou saltando da cama, alterando o tom de sua voz. — Que porra, Sophia! — Daniel protestou com um grito. —Eu só queria sair para jantar, compensar toda essa porcaria que preparou para nós e que foi destruído pela louca da Christina. Eu só queria um momento de paz, já que não tivemos desde que chegamos! — O seu problema, Daniel — confrontou-o com insolência —, é que você não convidou, você não pediu. Você praticamente mandou! E você… Não manda… Em mim! — Esbravejou pausadamente, batendo com o indicador no peito dele. Daniel nada respondeu. Estava entorpecido por ela. Vê-la irritada, batendo aquele fino dedo contra seu peito o fez divagar e mirar seus lábios, ao mesmo tempo que a raiva subia por sua espinha. Raiva por ela enfrentá-lo daquela maneira. Que audácia. Sophia continuou batendo o indicador em seu tórax, enquanto o xingava com palavras que entravam pelo seu ouvido direito e saiam pelo esquerdo. De repente, Daniel a segurou pelos punhos, impedindo que ela continuasse, a calando no mesmo instante, e os olhos verdes encantadores se arregalaram. — Cale a boca… — murmurou entre os dentes, o que fez Sophia se sentir ainda mais irada. — Venha me calar! — Rebateu aos gritos. De súbito, Daniel a puxa, fazendo seus tórax se baterem e suas bocas ficarem a milímetros de se encontrarem em um beijo voraz. Por um milésimo de segundo, os pares de olhos se encontram numa explosão intensa e apaixonada, os hormônios os bombardeando, os corações entalados em suas gargantas, os desejos aflorados. Simultaneamente, Daniel e Sophia se atraem, sendo impossível saber quem deu iniciativa. Então, loucamente, se beijam. E o tão desejado beijo recíproco acontece. Daniel enfia seus dedos pelas madeixas louras de Sophia e a traz mais para perto do seu corpo, enquanto os braços dela envolvem-no pela nuca, tornando o beijo cada vez mais ardente e enérgico. Para a surpresa de Müller, Sophia gira o corpo e o joga na cama, sentando-se em seu colo e, em seguida, deitando-se sobre ele. Daniel abre a boca para dizer alguma coisa, mas é calado com um beijo ainda mais voraz e sôfrego. Seu corpo responde prontamente.


Ensandecido pela troca de carícias, ele vira o dorso e a deixa por baixo, descendo a língua pelo queixo de Sophia, passando para o pescoço e logo desviando os lábios até chegar à clavícula, e a partir daí, subir traçando beijos quentes e úmidos até o lóbulo de sua orelha. Daniel vai distribuindo beijo por toda a pele do pescoço de Sophia, o que a faz arquear as costas, suspirar e arquejar de prazer. As mãos de Sophia fazem caminho pelas costas masculinas, sentindo a textura macia da pele dele; o ato é extrema e completamente bom para os dois. — Daniel… — ela geme, e, como da primeira vez, isso o deixa louco — O contrato… — Balbucia. Ele continua a prensar seu corpo contra o dela, a tecer beijos molhados pela sua pele do cangote. — Eu rasgo aquele maldito contrato, mas, por favor, não me negue. Eu não aguento mais. — Murmura em súplica. Em reposta, Sophia o traz para outro beijo. O paletó de Daniel é arrancado, os dedos finos abrem os botões da camisa branca. Sophia escorrega a peça pelos braços de Müller e a arremessa para o outro lado do quarto. Respondendo ao estímulo, Daniel também se livra da vestimenta que cobre o dorso da loura. Fica extasiado ao ver os redondos e médios seios dentro do bojo do sutiã. Tão perfeitos, divaga ao contemplá-los, e os beija com lascívia, fazendo escapar um gemido das cordas vocais de Sophia. — Daniel Müller! — Uma voz firme e feminina o chama. E de repente, ele se vê parado frente a Sophia, que tem uma expressão nada amigável. — Você me ouviu? — Questiona-o irritada. Pestaneja enquanto se acostuma à verdadeira realidade. Eu sonhei acordado? Endireita o corpo, recuperando sua postura, e pigarreia antes de responder. — É claro que eu ouvi. — Rebate mal-educado. — Não sou surdo. Mas a verdade é que Daniel não se lembra de nada depois que Sophia o confrontou batendo o indicador em seu peito alegando não ser mandada por ele. Sophia cruza os braços, mantendo seu semblante fechado, esperando que Daniel diga qualquer coisa. — Não quer jantar? Ótimo! Fique com fome — profere e sai batendo a porta. Sophia encara a porta fechada, totalmente atônita. Que raios foi isso?


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Daniel, outra vez, caminhou a passos rápidos pelo corredor. O sangue borbulhava em suas veias e o coração batia em ritmo descompassado. Precisava urgentemente de uma dose de uísque. Ou qualquer outra bebida forte. Tinha a necessidade de acalmar os próprios nervos, e, ultimamente, vinha encontrando esse conforto apenas no álcool. Sophia estava tirando sua lucidez. Nunca em sua vida uma mulher o tirou tanto do controle como a loura de grandes olhos verdes vinha fazendo. Müller já vivera o suficiente para saber que a experiência com Sophia Hornet era exclusiva e única. Normalmente, era um homem cordial, educado e cavalheiro. Nunca se sentiu possessivo em relação a alguém, tendo ou não um relacionamento sério. Mas com a Hornet tudo era diferente. Não tinham mais do que um contrato assinado e uma convivência profissional, mas ele já não sabia mais quantas vezes saiu fora de si e agiu feito um troglodita em tão pouco tempo. Um troglodita que ele não era. Atitudes que nunca teve. Era certo que Sophia vinha mexendo com seus nervos e fazendo-o a ser uma pessoa totalmente diferente, quase irreconhecível até para ele mesmo: gritar, descontrolar-se, ser possessivo. Junto, também, vinham outras emoções, e apesar de positivas, eram tão confusas quanto as negativas; aquelas que, também, Daniel não vivenciou com ninguém da forma tão intensa e avassaladora como estava sendo com sua “noiva”: um sentimento de proteção, querer estar ao lado dela, beijá-la, não gostar de vê-la chorar ou sofrer. Sentou-se no banco giratório do bar refinado com brutalidade. O barman, que secava alguns copos ali, se assustou com a chegada de seu novo cliente, visivelmente alterado. Sem que precisasse perguntar nada, Daniel se prontificou: — Uma dose de uísque com gelo. Se tiver alguma coisa mais forte, pode mandar também! — Fez seu pedido acreditando que no etílico poderia acabar com suas indagações confusas. Mesmo receoso, o barman atendeu seu freguês; mal havia terminado de servir a dose quando Daniel agarrou o copo e virou o líquido garganta abaixo, sentindo a bebida descer queimando. Bateu o copo na mesa, os cubos de gelo tilintaram no vidro, e ele pediu outra dose. Não se importou com um homem que se sentou a seu lado. Pelo canto do olho, Daniel percebeu que o recém-chegado o observava. Não deu atenção a este fato e continuou degustando do seu “calmante”, desta vez, mais lentamente. — Me deixe adivinhar… — proferiu a voz, e Müller a reconheceu de pronto. — Você e Sophia discutiram outra vez? Daniel revirou os olhos bebericando seu etílico. Virou o pescoço e forçou um sorriso amigável para Erick, mas falhou miseravelmente. — Isso não é do seu interesse. Ou é? — Rebateu com uma bufada exasperada, desviou-se de Gouveia e continuou a beber. Erick riu pelo canto da boca, nada incomodado com o destrato de Daniel. Ajeitou-se no


banco e também solicitou uma bebida, mas não alcoólica, preferindo optar por uma água tônica. Girou o banco, voltando-se para Daniel, que aproveitou para pedir outra dose de uísque. — Eu sei que não é do meu interesse, mas eu estimo a Sophia, e pelo que pude ver, você sempre fica alterado quando discutem. A impaciência de Müller é visível. — Eu sei com o que é que você se preocupa — responde irônico. — Acha que me engana, Erick? Se comportou como um nobre para ganhar um beijo dela, para ganhar carisma e confiança de Sophia. Pode enganar a ela, mas não a mim. — Retruca com arrogância, o fuzilando com os olhos. Só de se lembrar da cena, isso faz seu coração saltar descontrolado, e ele sente uma imensa vontade de pular na jugular do homem à sua frente. Novamente, Erick ri pelo canto da boca, achando graça no infeliz comentário de Müller. — Como sabe do beijo que trocamos? — Pergunta sem se sentir abalado. — Isso não importa, mas aposto que gostou. E muito. — Daniel volta a olhar para o fundo do bar e bebe um gole da sua nova dose. — Não vou dizer que foi ruim — comenta Erick casualmente, abrindo a lata de tônica que foi servida —, mas não significou nada para mim. Ao dizer isto, Daniel se volta a Erick, estreitando os olhos em curiosidade. — O que quer dizer? — Inquire se sentindo um pouco confuso. — Em primeiro lugar, — inicia Erick — não deveria julgar o meu caráter sem me conhecer. Se eu fui cordial e nobre, como diz, com Sophia é porque isso faz parte da minha personalidade. Não sou calculista, não fui educado com ela tendo segundas intenções. Talvez se diz isso é porque está habituado a ter esse tipo de atitude. — Erick o provoca; isso faz Daniel se irritar. Müller está prestes a rebater, a dizer que também não é calculista, que nunca precisou fingir ser o que não é para ganhar uma mulher, porque são elas que sempre fazem de tudo para conquistá-lo. Seu discurso imbecil e machista é interrompido antes mesmo que ele possa abrir a boca, pois Erick continua dizendo: — Em segundo lugar, o beijo dela não significou nada para mim. Sophia, se ainda quiser, pode continuar a ter a minha amizade. Foi assim que sempre olhei para ela: como uma amiga. É difícil para Daniel acreditar no discurso de Erick. Como ele pode dizer que um beijo da loura, que é extremamente linda e sedutora, não significou nada? Por um breve momento, acredita que Erick seja gay. Para ele é a única explicação plausível. — Você é gay? — Daniel pergunta para fazer Gouveia gargalhar. — Por que é tão difícil acreditar, Daniel? — Por que Sophia é uma mulher exuberante. — Responde. — De fato, ela é. — concorda Gouveia. Toma um gole da sua tônica e limpa os lábios antes


de continuar. — Mas fomos criados em um mundo onde se um homem não se sente atraído por uma mulher ele é gay. Eu não concordo com isso. O beijo de Sophia foi bom, já disse que não negarei isso, nem serei hipócrita em dizer que se Sophia quisesse avançar um passo eu a negaria… — Você que não se atreva! — Interrompe Daniel, e mal percebe que aperta o copo de uísque fortemente. Erick ri de novo, balançando a cabeça em negação, e Daniel tenta encontrar a graça em suas palavras. — Ela é mulher, eu sou um homem heterossexual. Se Sophia quiser, não há nada que nos impeça — comenta naturalmente, fazendo a ira de Daniel crescer. — Enfim, a questão é que eu não quero que se preocupe com o fato do beijo que eu e Sophia trocamos. Acredite, não irei atrás dela por causa disso. — Erick bebe mais um gole de sua bebida olhando para Müller. — E por que eu haveria de me preocupar com isso? — Desdenha tentando demonstrar que o beijo dos dois não o incomodou. — A quem você quer enganar, Daniel? Está nítido na sua cara que sente ciúmes de Sophia. Daniel pestaneja. Eu com ciúmes de Sophia? — Não… — balbucia um pouco espantado. — Definitivamente eu não sinto ciúmes dela. — Sim, sente. Eu vi o modo como se comportou por ela estar comigo. — Já expliquei isso a ela, mas irei repetir para você: eu só estava me preocupando com o bem-estar dela, com a segurança e integridade de Sophia. Nada mais. — Então, não tem nenhum problema em eu passar uma noite com Sophia? — Erick provoca novamente, e segura um riso. Quase que no mesmo instante Daniel já está apertando o pescoço de Erick. — Não ouse tocar nela, me entendeu? — Viu só? — Profere Gouveia, meio rindo e meio sufocado pelo aperto. — Está com ciúmes. Daniel solta a jugular de Erick e volta para seu banco, passando a mão pelos cabelos. — E sabe por que sente ciúmes da Sophia? — Indaga Gouveia a Müller. Daniel o encara inexpressivo, sem responder nada, esperando pela conclusão da sentença de Erick. — Porque a ama. E essa afirmação o deixa completamente assustado.


21 DORES DO PASSADO

T

otalmente embasbacado é o que melhor define Daniel Müller neste momento. Encara Erick como se ele tivesse chifres de unicórnio. Atônito e abalado com a afirmação convicta de Gouveia.

Daniel já havia amado uma vez. Poderia afirmar, com toda a certeza do mundo, que o sentimento que cultivava por Sophia não era, nem de longe, amor. — Não! — Nega rindo de nervoso — Não seja estúpido, Erick. Eu… eu não a amo. Está maluco! Bate o copo na mesa e se levanta, pronto para sair e deixar Gouveia falando suas asneiras sozinho. Eu, apaixonado por Sophia! Como se Müller tivesse contado uma piada, Erick solta uma alta e sonora risada, que o deixa ainda mais incomodado. — Pode negar o quanto quiser, Daniel, mas uma hora irá perceber por si próprio que a ama. Revirando os olhos, Daniel paga por sua conta deixando uma gorjeta para o barman. Olha Erick mais uma vez, este que tem um sorriso convencido nos lábios enquanto bebe sua tônica. Encarando-o, pensa por um segundo em suas palavras: E sabe por que sente ciúmes dela? Porque a ama. Mentalmente nega outra vez essa afirmação. Passa por Erick e volta a caminhar pelo corredor, só querendo chegar em sua suíte, tomar um banho quente e, quem sabe, degustar um bom vinho na varanda sentindo a brisa marítima batendo em seus cabelos. O vinho!, lembra-se com desagrado de Christina virando a mesa em que a garrafa repousava. Era uma boa safra!, queixa-se. Andando lentamente com as mãos no bolso, de repente, sua mente se torna uma vazio e três palavras martelam em sua cabeça. Porque a ama. Daniel para no meio do corredor e afaga o rosto com as duas mãos. Lembra-se de sua última experiência amorosa e não tem boas recordações. Por este motivo, sempre sentiu receio em


se envolver outra vez. Escondeu parte da sua dor no sexo casual que mantinha, até um dia não sentir mais nada. Então, seus encontros sem compromisso se tornaram um modo para não se deparar mais com o amor e sofrer outra vez. Volta a caminhar com lentidão, vagueando em suas memórias, e as lembranças que ele gostaria de nunca mais reviver vem à sua mente. Já fazia sete anos desde que tudo aconteceu. Daniel tinha vinte e dois anos e estava no último ano da faculdade. Por quase seis meses manteve uma paixão não correspondida pela bibliotecária da Universidade; uma negra de olhos cor de âmbar espetaculares, dez anos mais velha que ele. Casada e com uma filha. Mas tudo mudou com a chegada de Clarisse. Daniel nunca sentira nada parecido em sua vida. Nem mesmo pela bibliotecária. A morena tinha longos cabelos compridos e negros, olhos pretos e um corpo escultural. Müller pôde quase dizer que sentiu amor à primeira vista. Clarisse era mais nova quatro anos, e enquanto ele cursava o penúltimo semestre do seu curso, ela estava no primeiro. Certa vez, Clarisse estava alterada e discutindo com o dono da papelaria dentro da Universidade, protestando contra o alto preço que ficou sua apostila. Os ânimos estavam bem animados e uma pequena roda já se fazia. Daniel ainda não a conhecia, e ao ver a confusão, foi se aproximando, curioso por saber o que se desenrolava. Abriu caminho no meio da gente parada frente a sala das xerox. Viu uma jovem de costas, sacudindo alguns papéis no ar, gritando, enquanto o dono revirava os olhos e apontava constantemente para uma tabela atrás de si, que continha o preço das impressões e cópias xerocadas. — O que está acontecendo? — Daniel inquiriu, e os olhos negros de Clarisse topou com o seus. Ele se apaixonou no momento em que a viu. — Esse senhor está abusando. Me cobrou o olho da cara por algumas folhas de xerox. — Protestou — Isso é um roubo! — Roubo? — O outro gargalhou — Você não viu o preço, garota? Está aqui para quem quiser ver. Daniel não tirava a atenção da morena a sua frente. Antes que ela pudesse protestar contra o argumento do homem, Daniel a interrompeu: — Quanto é? — Perguntou olhando intensamente para Clarisse. — 15 Reais. — Respondeu o homem. Daniel retirou a carteira do bolso e sacou a quantia.


— Problema resolvido? — Alternou o olhar para os dois. Clarisse passou por ele, furiosa, sem nem mesmo agradecer, e sumiu pelos corredores da Universidade. Um dia depois, Daniel estava na biblioteca quando Clarisse surgiu. Ele ficou a observando e seu coração palpitou ao notar que ela caminhava em sua direção. — Posso falar com você? Ele apenas anuiu. Clarisse puxou uma cadeira e se sentou, ficando frente a frente com ele. Primeiro se desculpou por ter sido mal-educada e grossa, admitiu que deveria ter agradecido a gentiliza, mas depois o advertiu. Ela tinha o dinheiro, no entanto achou um abuso o preço da xerox. Daniel concordou, mudo, balançando a cabeça. Estava congelado demais para dizer alguma coisa. Depois, só então, ela o agradeceu, e retirando o dinheiro do bolso, quis pagá-lo, mas Daniel recusou. — Eu insisto que pegue. — Não. Tudo bem, não precisa. Fiz com todo prazer. — Daniel disse, e ela sorriu, amolecendo seu coração. — Sou Clarisse Corrêa. — Se apresentou. — Daniel Müller. — Eles apertaram as mãos e daí para frente mantiveram contato. Clarisse e Daniel se encontravam todos os dias entre os intervalos das aulas. Conversavam sobre tudo, e Clarisse se mostrava uma garota inteligente, atraindo a atenção de Müller cada vez mais. Pela segunda vez ele se via cultivando um amor platônico. O primeiro foi pela funcionária da biblioteca, e agora por Clarisse, o que era muito mais forte. Por três meses inteiros guardou seu sentimento para si, conformando-se com conversas instantâneas, ligações rápidas e os breves momentos no intervalo das aulas. Mas ele pensava na morena de olhos negros com constância. Pegou-se escrevendo o nome dela dentro de um coração enquanto divagava numa aula tediosa. Rabiscou o desenho rapidamente, temendo que caísse em mãos erradas. Sentia-se como um garoto de dezesseis anos apaixonado pela professora. Patético. Num dos encontros após a segunda aula, Clarisse havia se esquecido de uma apostila sobre a mesa. Prestativo, Daniel levou-a até ela. No percurso até a sala do primeiro semestre, sentiu curiosidade por saber em que matéria ela estava e folheou o livreto. Numa das folhas, rabiscado à margem, deparou-se com duas palavras dentro de um coração que o fez estremecer. Daniel Müller. Sorriu interiormente, quase não acreditando que Clarisse nutria algo por ele. Sabendo disso, Daniel teria a chance de ser correspondido e não acontecer como quando foi com a bibliotecária. Chegou até a sala e chamou por ela.


— Esqueceu sua apostila. — Que cabeça minha — ela tomou nas mãos e sorriu acanhada. — Obrigada. — Por nada. Tem um minuto? Ela levantou seus olhos para ele. Aqueles olhos bem redondos e pretos brilhavam de uma forma que deixava Daniel cada vez mais apaixonado. Clarisse acenou. — Quer ser minha namorada? — Foi direto e franco, confiante de que ela também era apaixonada por ele. — Gosto de você desde o primeiro dia em que te vi. Clarisse no mesmo instante ficou sem palavras, surpresa com o pedido súbito, e ainda o assimilando. Já Daniel ficou apreensivo diante a quietude dela. Temeu que ela dissesse não, e outra vez não fosse correspondido. — Claro — Clarisse gagueja um pouco antes de responder. Isso faz Daniel se irradiar. Sem nem pensar, ele a segura pelo rosto com as duas mãos e a beija serenamente. E suas bocas coladas só o faz se sentir mais enamorado. Os dois namoraram por oito semanas, e Daniel já estava convicto de que a amava, mais do que ele poderia imaginar. Mas a decepção amorosa era iminente. Daniel tinha faltado à faculdade para fazer uma surpresa à Clarisse. Comprou alianças prateadas para firmarem compromisso. Deixou tudo combinado em um restaurante e foi buscá-la na Universidade. Não a encontrando, perguntou por ela para alguns colegas e foi informado de que Clarisse tinha ido à antiga cantina. Daniel marchou até lá e, quando foi se aproximando do pátio já deserto, se deparou com sua namorada beijando outra pessoa. Seu coração palpitou. — Clarisse? — Indagou, e ela se virou para ele, arregalando os olhos. Logo atrás a silhueta de um jovem se revelou. — Heitor? Clarisse ia abrindo a boca para se explicar, mas Daniel não precisava de mais nada. Virou nos calcanhares e saiu pisando firme, sentindo a dor da primeira decepção amorosa. — Daniel, por favor, espere! — Clarisse vinha a passos rápidos. Mesmo lutando contra a própria vontade, Daniel parou e se voltou para ela. — Me deixa te explicar. — Pede ofegante. Müller não queria ouvi-la, mas precisava. Precisava saber por que Clarisse e Heitor haviam feito aquilo com ele. Por isso, apenas acenou. E ela lhe contou tudo, desde o princípio. Ela conhecera Heitor muito antes de conhecer Daniel. Envolveu-se com ele, mas fora descartada assim que tiveram sua primeira relação sexual. Mas Clarisse estava perdidamente apaixonada por Heitor. Clarisse admitiu que, quando ele se apresentou, viu em Daniel a


oportunidade de uma reaproximação de Heitor, talvez por intermédio de seu próprio irmão, e por isso se cercou de Daniel e afunilou amizade. Mas quando ele a pediu em namoro, pensou que poderia ser um jeito de atrair Heitor, enciumá-lo e, quem sabe, conquistá-lo. — Eu não entendo… — proferiu Daniel com a voz rasgada. — Eu vi o meu nome dentro de um coração na sua apostila. Clarisse suspirou e explicou que a apostila não era dela. Uma aula antes do intervalo havia feito uma atividade em dupla, e ao juntar seu material, trocou a apostila, pegando, na verdade, a de sua parceira, que era a real apaixonada por Daniel. — Só percebi o erro quando vi o coração com Daniel Müller, depois de já ter me entregado. Daniel pestanejou, se acostumando a verdade. Ele acreditou que Clarisse o amava, mas a verdade era que ela apenas queria fazer ciúmes em Heitor – em seu irmão. — Heitor não tem culpa de nada — ela continuou. — Eu o chamei para conversarmos. Percebi que não estava fazendo efeito ficar com você. Eu disse que você havia me traído e que estava muito mal. Ele me negou, Daniel, mesmo mentindo, ele se recusou a me beijar, a ficar comigo. Mas, aí, eu roubei um beijo dele e você chegou bem na hora. Sinto muito — Clarisse explicou e se afastou vagarosamente, deixando-o com um rasgo no peito. — Daniel? — A voz de Sophia ecoou em sua cabeça e ele voltou à realidade. Enquanto divagava por lembranças dolorosas, mal percebeu que já havia chegado a sua suíte, entrado, e que estava parado no meio do quarto, olhando o nada como um débil mental. Mirou Sophia, enrolada nos lençóis, o encarando com uma expressão confusa. Mas ele nada respondeu, ainda atordoado com memórias de um passado distante. — Daniel, você está bem? — Indaga preocupada e já se levanta, indo em sua direção. — Estou… — diz finalmente, e limpa a garganta. Sophia estaca no meio do caminho e o avalia, estranhando sua atual atitude. Daniel, de fato, tinha mudanças bruscas de comportamento que a deixavam confusa. Sem dizer nada, Daniel entra no banheiro, fecha a porta e a tranca, se recostando à madeira com o coração palpitante. Passa a mão pelo rosto se praguejando por trazer à suas memórias coisas que ele já deveria ter apagado de sua mente. Daniel sabe que não sente mais nada por Clarisse, não a vê desde que ele se formou e está mais que ciente que seu amor pela garota de cabelos e olhos negros já morreu há muito. A aflição que sente está, na realidade, em se apaixonar outra vez. Não quer passar pelo que passou, não quer sentir o rasgo no peito. Müller levou anos para levantar um muro em torno de si e impedir que tal sentimento o invadisse outra vez. Foi preciso muitos “dane-se” e doses de uísque para construir a muralha em volta do seu coração e não se permitir amar mais.


Desde Clarisse, Müller nunca mais ponderou ter tal sentimento por alguém. E estava muito bem tendo seus encontros sem compromisso, até Sophia aparecer e revirar sua vida, colocá-la de pernas para o ar, e mais ainda quando o audacioso Erick afirmou que Daniel poderia estar apaixonado por ela. A loura de olhos verdes vinha mexendo com seus nervos, cada um deles, de uma forma tão diferente que Daniel não conseguia explicar. Comparando a sua experiência com Clarisse, ele tem certeza que o que sente não é amor. Talvez uma obsessão, um desejo novo ou quem sabe apenas uma atração sexual… Com as mãos ao rosto, desliza até sentar-se no porcelanato frio, totalmente atordoado. Nada parece satisfazer seus questionamentos, responder às suas perguntas; nenhuma possibilidade sobre o que sente por Sophia parece lhe convencer; absolutamente nada sana sua principal dúvida: o que realmente sente por ela? A única resposta mais atrativa para Daniel é concordar com Gouveia. Amor. Mas ele nega a si mesmo. Não pode amar a Sophia, não pode nutrir sentimentos por ela. O que sente não pode ser amor. É intenso e tentador demais; é avassalador e insensato demais para ser amor. Ele já amou e nunca sentiu um terço do que vive com a Hornet. Uma batida leve na porta interrompe seus devaneios e indagações. — Daniel, o que está acontecendo? Está passando mal? — Já disse que estou bem! — Grita de volta, e continua sentado ao chão. — Só preciso de um tempo sozinho — suspira pesadamente sempre afagando o rosto. — Fale comigo, Daniel. — Sophia insiste. — Mas que merda, Sophia! — Esbraveja. — Eu quero ficar sozinho! É pedir muito? Um silêncio se instaura prontamente. Por alguns segundos a quietude toma conta da suíte. Daniel sabe que Sophia continua atrás da porta, quase pode ouvir a respiração dela. Mas não faz nada. Não quer olhar aqueles olhos, aqueles lábios que vinham o fazendo sonhar acordado; nem ver a pele branca sem poder sentir o toque macio dela, nem quer ouvir a voz afável para não se sentir tentado. Só deseja ficar sozinho e longe de Sophia. Não posso amá-la!, reforça a si mesmo. Não é amor!, repete interiormente, já pensando que ele não saberá como lidar com tal sentimento caso esteja, de fato, apaixonado. Não, Daniel. É só uma paixão passageira. Como todas as outras foram! — Você é um idiota! — Sophia diz do outro lado da porta, o fazendo sobressaltar. — O que eu fiz a você para me tratar assim? — Indaga, e Daniel tem certeza que os olhos dela estão cheios de lágrimas. Levanta-se num pulo e abre a porta. Sophia está parada, vincando a testa, os braços cruzados. E, como previsto, os olhos cheios de lágrimas.


— Porque você me tira do sério! — Cerra os dentes. — Eu só perguntei se estava tudo bem! — Rebate com uma pitada de decepção. — E que foi que eu disse, Sophia? Que estava tudo bem e só queria ficar sozinho! — Desculpe, senhor Müller, se eu me preocupei com você! — Responde irônica alterando a voz. — Eu não pedi para se preocupar comigo! — Cospe as palavras. Sophia põe-se calada. Pisca freneticamente tentando manter suas lágrimas dentro dos olhos e não chorar na frente de Daniel. Inspira fundo e expira lentamente, vira-se devagar e seleciona algumas peças de roupa. Entra no banheiro batendo a porta fortemente. Daniel acompanha a cena. Só então percebe que mais uma vez falou o que não devia. Era esse o poder descomunal que Sophia Hornet tinha sobre ele: sempre fora controlado e passivo, mas na presença da loura perdia a paciência facilmente e as palavras se desenrolavam da sua boca sem permissão, para logo estar falando coisas que a magoariam. Revira os olhos, praguejando a si mesmo por ter sido estúpido, e se aproxima do banheiro. — Sophia. — Ele chama, mas não obtém resposta. Está prestes a chamá-la outra vez, mas a porta se abre e ele dá de cara com a loura vestindo uma regata estampada em onça, cuja alça é de pedraria branca, e uma calça preta em couro, que abraça perfeitamente sua cintura. Ela passa por ele, senta-se na cama e veste uma sapatilha preta. — Não me ignore. — Protesta trincando os dentes. — Não queria ficar sozinho? Estou atendo ao seu pedido, senhor Müller — há arrogância em sua voz enquanto ela pinta os lábios com um batom vinho — Olhe, me desculpa, tudo bem? Eu tenho dito coisas sem pensar. Sophia para de passar a maquiagem nos lábios e o encara. — Pois é, Daniel. Você não pode sair por aí ofendendo as pessoas e depois simplesmente pedir desculpas. — Rebate irritada. — O que quer que eu faça se você me tira do sério e me deixa louco? — Daniel já está de novo com a voz alterada — Eu te deixo louco, Daniel? — O tratamento a gritos retorna. — Uma hora você é todo carinhoso, se preocupa e pede desculpas, mas um segundo depois está gritando, me tratando mal e sendo estúpido. E sou eu que te deixo louco? Daniel prende a respiração e a encara, atingido por suas palavras. Não conseguia compreender a sua recente oscilação de humor. — Sophia…


— Não, Daniel — ela o interrompe. — Estou farta de “me desculpe”. Assim que o navio aportar no Rio Janeiro, voltarei para casa. — Diz convicta e passa por ele, que tenta dizer alguma coisa, mas Sophia já alcançou porta à fora. Irado, ele agarra um vaso e joga na parede, trovejando: — Porra!

♦♦♦

Sophia Hornet inspirou e expirou diversas vezes no intuito de controlar seus nervos. Enquanto caminha, pergunta a si mesma por que seu relacionamento com Daniel mudou tão bruscamente desde que chegaram ao cruzeiro, e porque, também, está cada vez mais difícil lidar com Daniel. Ela não entende os motivos que o levaram a chegar a situação presente. A cada cinco minutos, eles estão discutindo, um gritando com o outro, e no minuto seguinte estão bem, para após um segundo tornarem a brigar. A loura atravessa o navio andando sem rumo. Desde que chegou ainda não conseguira aproveitar de verdade a viagem, e talvez nem o fizesse. Estava mais que decidida em ir embora quando o navio parasse porto do Rio de Janeiro. Daniel que termine sua viagem sozinho! Não é o que ele quer? Idiota!, pragueja mentalmente, frente a uma vitrine de roupas. Resolveu, então, que aproveitaria suas últimas horas e trataria de conhecer as outras atrações que o cruzeiro oferecia. Caminhou pelo navio, se distanciando cada vez mais da ala de sua suíte, adentrando corredores, descendo lances de escada e parando, hora ou outra, para observar o movimento das pessoas: casais que andavam de mãos dadas, crianças que corriam segurando balões de nitrogênio de vários personagens, grupos de amigos conversando. Continuou seu percurso até chegar a um salão, onde uma banda de jazz tocava. Parou para ouvir o grupo harmônico e de ritmo contagiante. Por um breve segundo se lembrou de Erick e desejou estar em sua companhia. Gouveia era um bom amigo e sempre a animava de alguma forma. Estar ali, sozinha, era incômodo demais. O local era cheio de pessoas, mas ela se sentia só. Na mesma hora, se lembrou do beijo em Erick, e se questionou de como ele estaria com a situação: estaria sentindo o mesmo que ela? Indiferença? Aborrecida, quis voltar para a suíte. Arrumaria fones de ouvido para ouvir suas músicas e ignorar o imbecil do Daniel, caso ele viesse com mais pedidos de desculpas. Realmente, Sophia estava farta. Müller a tratava mal e depois pedia perdão. Isso a deixava magoada demasiadamente. Voltando à suíte, pensou que no dia seguinte, assim que amanhecesse, poderia aproveitar melhor. Quem sabe algumas aulas de zumba, ou umas horas na piscina. Planejou um reforçado café da manhã, talvez com Erick, conversando na varanda e observando a vista marítima. Quando chegou ao seu aposento, o encontrou vazio, mas tudo jazia em ordem. Deparou-se


então, em cima da cama de lençóis brancos, com um ramalhete de rosas vermelhas. Mesmo que estivesse se remoendo de ódio e mágoa, não pôde segurar um breve sorriso no canto dos lábios. Aproximou-se a passos cautelosos e tomou o buquê em mãos, inalando profundamente o cheiro das flores; divisou um cartão amarelo, abriu e leu a mensagem na conhecida caligrafia de Daniel:

Por favor, me encontre às 23 horas no restaurante na ala norte do navio, para um pedido de desculpa formal e digno. Daniel Müller.

Por alguns segundos ficou olhando o pequeno bilhete. Acreditou que encontraria o pedido de desculpas rabiscado naquele bilhete, mas encontrou uma mensagem totalmente inesperada. Riu para si mesma, imaginando como Daniel era imprevisível e um completo idiota. E se ela não voltasse para a suíte? E se passasse a noite fora como da última vez? Revirou os olhos de bom humor, pensando na falta de raciocínio de Müller. A última vez!, divagou. Na última ocasião, Daniel havia preparado um jantar a dois, também pedira que ela o procurasse e como não o fez, estragou toda a surpresa. Pegou-se imaginando o que Daniel estaria aprontando desta vez. Balbuciou na decisão. Do que adiantaria ir até ele, receber um lindo pedido de desculpas, para então depois Daniel tornar a ter as mesmas atitudes? Segurando as flores, sentia-se totalmente indecisa. Olhou no relógio e já passava das dez. Respirou fundo e decidiu ir até o referido lugar, mas deixaria bem claro a Daniel que não aceitaria mais seus pedidos de desculpas se ele continuasse com suas atitudes de homem das cavernas. Deixou o ramalhete em um vaso com água. Retocou apenas a maquiagem e saiu, indo ao encontro dele.

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Quando chegou ao restaurante Petit Buoni, na ala norte do navio, Sophia achou que havia se enganado ou que tudo não passara de uma brincadeira de muito mal gosto de Daniel. O local estava totalmente vazio, e ela teve a impressão de que o restaurante não se encontrava aberto. As mesas bem arrumadas tinham pequenas velas acesas, iluminando fracamente o recinto, mas nenhuma delas havia clientes ocupando-as. Uma música suave e em italiano pairava no ar, e apenas um homem vestido de terno e gravata borboleta esperava nos fundos, parado ao balcão do caixa do restaurante.


Ao notar sua presença, o homem se pôs a caminhar. — Senhora Müller? — Indagou ele para confirmar sua identidade. Por um breve momento, Sophia pensou em corrigi-lo, mas se lembrou que, querendo ou não, era a senhora Müller. — Sim — respondeu com a voz falha e confusa. — Queira me acompanhar, por favor — pronunciou o maitre e se virou, adentrando o recinto. Sem entender nada, Sophia o seguiu, já sentindo seu coração palpitante. O funcionário chegou até ao interior do restaurante, e neste, assim como a frente, todas as mesas estavam vazias, e apenas uma delas estava posta, como se apenas um casal fosse jantar ali, bem centralizado no grande salão. O maitre puxou a cadeira e movimentou a mão, solicitando que ela se sentasse. — O senhor Daniel já virá a seu encontro — proferiu o homem, e antes que ela pudesse pensar e perguntar o que estava acontecendo, ele saiu, deixando-a sozinha. Totalmente atônita, Sophia observou ao seu redor. Suas mãos agora suavam frio e seu coração batia mais descompassado. Confusão e curiosidade acompanhavam seu ritmo cardíaco. — Sophia? — Uma voz conhecida a chamou, e ela correu os olhos até a entrada do lugar. Divisou um Daniel bem-vestido. Terno e gravata bem alinhados em seu corpo, os cabelos penteados perfeitamente como ele costumava fazer: um topete jogado de lado e fixado com gel; sua barba alourada mantinha-se bem aparada, o perfume forte dele impregnou no ar, e ela sentiu seu cheiro, mesmo que estivessem a uns quatros metros de distância. Müller segurava outro buquê de flores e exibia um tímido sorriso. Em contraste à fraca luz do lugar, seus olhos claros eram nítidos. Qualquer raiva ou mágoa que Sophia pudesse sentir se esvaiu quando o viu. Ela estava encantada.


22 PEDIDO DE DESCULPAS aniel afagou o rosto com as próprias mãos querendo acalmar os ritmos alterados de seu coração. Olhou para a bagunça causada num momento de euforia e praguejou-se por, mais uma vez, ter perdido o controle da situação. Deixando qualquer preocupação de lado, andou até o banheiro e ligou a ducha fria. Enquanto a água gelada castigava sua pele e fazia baixar o calor que subiu por seu corpo, pensava em por que Sophia conseguia irritá-lo tão facilmente. Mulher nenhuma nunca teve tanto poder sobre seus nervos. Pega-se perguntando por quantas vezes se sentiu confuso em relação à loura num curtíssimo espaço de tempo – desde que presenciara os cotejos de Erick a ela tais sentimentos se afloraram – e concluí que já até perdera as contas.

D

Após o banho rápido, e já novamente em seu quarto, se depara com a bagunça. A voz de Sophia, antes afável e doce, e agora aos berros, vem à sua mente, e ele pode quase se lembrar com clareza da discussão há tão pouco tempo. “O que quer que eu faça se você me tira do sério e me deixa louco? ” “Eu te deixo louco, Daniel? Uma hora você é todo carinhoso, se preocupa e pede desculpas, mas um segundo depois está gritando, me tratando mal e sendo estúpido. E sou eu que te deixo louco? ” O arrependimento, então, o acerta como um soco forte no peito. Pensa em como Sophia tem toda razão. Daniel sabe que nunca oscilou tanto no humor como vinha sendo. Vestiu-se rapidamente pensando em procurá-la e lhe pedir desculpas, pela milésima vez. O que há de errado comigo?, questiona enquanto sobe a calça pelas pernas. Mas, de súbito, a voz dela outra vez invade seus pensamentos. “Estou farta de 'me desculpe'” Suspirando, ele pensa que não será qualquer me perdoe que fará Sophia mudar de ideia. Não adiantará tentar abraçá-la e afagar seus cabelos, ou ajoelhar-se e suplicar seu perdão. Sabe que terá que fazer por merecer, mostrar que está de fato arrependido e disposto a mudar. Com uma ideia na cabeça, Daniel termina de se trocar rapidamente, pega papel e caneta, rabisca algo num papel, enfia-o no bolso e sai da sua suíte, caminhando em direção ao restaurante


italiano que ele viu em um folder qualquer. No caminho, pede um serviço de quarto para limpar, de novo, a bagunça; aproveitando, solicita um buquê de rosas vermelhas com um cartão em branco. Também manda um SMS a Eduardo que, para sua sorte, responde logo, o que o deixa aliviado. Sem a informação que ele precisa, seu plano não poderia ser executado com a perfeição que gostaria. Chegando ao restaurante, Daniel conversa com o gerente e diz que quer fechá-lo para um jantar romântico e reservado, comprometendo-se a pagar pela quantia que eles receberiam se estivessem abertos. Com uma gorjeta a mais e generosa, Daniel também pede algo especial ao gerente, entregando o papel e dando algumas instruções. O homem logo sai para atendê-lo. Os clientes são notificados que o estabelecimento será fechado às vinte e duas horas e trinta minutos, que seria dentro de trinta minutos, para a recepção de um casal especial. Enquanto os funcionários organizam o lugar, Daniel volta a passos rápidos para seu quarto, e ao chegar já o encontra limpo com as flores solicitadas dentro de um vaso com água. Ele toma o cartão em mãos e escreve a mensagem. A princípio pensa em lhe pedir desculpas, mas pondera que será melhor o fazer olhando dentro daqueles olhos verdes. Aproveita o cartão para deixar o recado do jantar:

Por favor, me encontre às 23 horas no restaurante na ala norte do navio, para um pedido de desculpa formal e digno. Daniel Müller. Deixou cartão e flores sobre a cama e se trocou, vestindo um terno para ocasiões especiais, ajeitou os cabelos e esborrifou o perfume. Retornou ao restaurante e chegou lá quinze minutos antes do combinado, os funcionários correndo contra o tempo para organizar o salão e a frente do local. — Conseguiu o que te pedi? — Perguntou ao gerente. — Sim, senhor Müller. Tudo estará pronto ao final do jantar. — Anuiu o homem, e lhe entregou um segundo buquê, que era parte da exigência. — Ótimo. — Daniel disse, tirou a carteira do bolso e arrancou mais notas para entrega-las ao homem. — Receba como uma gratificação. O gerente agradeceu e se retirou. Müller se posicionou em um local discreto próximo ao restaurante, onde teria uma visão de quando ela chegasse, e aguardou até a chegada de Sophia, sentindo suas mãos que seguravam outro buquê de flores suarem. Não demorou muito, e Daniel a viu se aproximando cautelosa do local.


Ele admirou sua beleza. Sophia estava do mesmo jeito quando saiu da suíte, mas de alguma forma ele a achou encantadora: as calças pretas de couro até acima de seu umbigo contornando perfeitamente seu tronco; a blusa de estampa de onça e alça de pedraria branca por dentro do cós da calça, marcando sua cintura; os cabelos soltos e caídos sobre os braços despidos e seus seios redondos e firmes fazendo contraste ao seu corpo fino. Perfeita., divagou, contemplando-a. Segundos depois, Sophia estava acompanhando o maitre até o salão, onde os dois jantariam com privacidade. Respirou fundo e alinhou o terno; tomou coragem e caminhou ao encontro dela. Parou na entrada do recinto, onde uma mesa bem centralizada estava posta com um candelabro à luz de velas. Ao fundo, uma música em italiano ressoava deixando o ambiente ainda mais agradável, enquanto Sophia estava distraída. — Sophia? — Ele a chamou, e seus olhares se encontraram. Daniel tinha no rosto um pequeno sorriso tímido. A beleza de Sophia a sua frente o deixou desestruturado. Há muito tempo ele não sentia esse sentimento esquisito martelando seu peito: um misto de vergonha e nervosismo. Mais nervosismo do que qualquer outra coisa. Temeu por um momento, enquanto Sophia o avaliava, que ela saísse gritando, lhe desse um tapa e dissesse que o odeia. Mas seus temores desapareceram quando recebeu um sorriso magnífico que quase estremeceu suas pernas. Daniel tornou a caminhar em sua direção, sentindo o coração palpitante. Sophia levantou-se e foi a seu encontro sorrindo e levemente corada. Aquilo mexeu com seu interior. — Oi… — murmurou sentindo seu corpo tremer. — Obrigado por ter vindo. — Você é um idiota, Daniel — ela dispara. — E se eu não volto para o quarto? Ele abaixa os olhos e solta uma pequena risada; torna a olhá-la. — Bom, então eu teria que te procurar em cada metro quadrado deste navio. Sophia sorri largamente sem saber o que dizer, mas satisfeita com a suposta dedicação dele em realizar aquele jantar. Ela olha para as flores e depois para Daniel, que, como se tivesse se lembrado de que segurava o ramalhete, estica os braços para entregá-lo. Sophia abraça o buquê e inspira o cheiro das flores. — Obrigada — agradece e o olha. Daniel oferece seu braço e Sophia se enrosca a ele, mesmo que um pouco hesitante. Os dois caminham de volta à mesa, e Sophia apoia as flores em uma cadeira desocupada. Logo, o garçom surge trazendo o jantar, que Daniel escolheu especialmente para a ocasião, além do vinho de ótima qualidade. Após serem servidos, o funcionário se retira, deixando-os a sós.


— Daniel… — Sophia começa, mas ele a interrompe. — Eu sei que eu sou um imbecil. Você sabe que eu quero me desculpar, mas não pedirei já. Mostrarei que estou arrependido, e se você julgar que mereço ser perdoado, então você me diz. — Mas essa é a questão, Daniel. Não me importa que esteja arrependido, mas se fará tudo de novo. Não adianta se arrepender e continuar cometendo o mesmo erro — rebate, mas sua voz é calma. — Você tem razão. E eu confesso, Sophia, eu não sei por que estou agindo dessa maneira. Eu nunca fui assim, e você sabe. Convive comigo na empresa há cinco meses, sabe disso. — Eu convivo com o Daniel Müller meu chefe, não meu marido. Eu não te conheço, Daniel… infelizmente. — Comenta com um suspiro, e fixa os olhos em seu prato. — Eu prometo tentar me controlar. — Ele murmura. — Só preciso de outra chance. — Faça por merecer — exige, e Daniel apenas acena. — Vamos comer? — Inquire, e ela anui. Por alguns minutos, eles comem em silêncio. Daniel pensando em como sua personalidade mudou na presença de Sophia; um homem descontrolado, troglodita e quem sabe até ciumento. Pensa nas palavras de Erick e em suas lembranças dolorosas com Clarisse. O medo que sente em amar e não ser retribuído o faz dar um passo atrás com Sophia e nesse relacionamento que estão sustentando; Gouveia até pode estar certo sobre seus sentimentos por ela, mas ele teme que Sophia não sinta o mesmo, ou que, de uma forma ou de outra, saia machucado. — Cadê os outros clientes? — A voz de Sophia invade seus tímpanos, e ele encontra com seus sedutores e brilhantes olhos. — Eu pedi para fechar o restaurante só para nós dois. — Responde e sente seu rosto corar levemente. — Daniel, isso é loucura! — Sophia exclama totalmente surpresa pelo que ele fez. — Nada que você não mereça. As bochechas de Sophia avermelharam-se prontamente. Daniel era o único que conseguia tirá-la do sério e depois fazê-la se sentir como se fosse especial e exclusiva. Nos momentos com Müller, seu rosto queimava de raiva ou de vergonha, porque era esse o poder que ele tinha sobre seus nervos. Ela se pergunta por que Daniel tem oscilado tanto em sua personalidade. De certo modo, ele tem razão quando disse que ela o conhece. Sophia sabe que Müller é sempre muito calmo, paciente, educado, um pouco sisudo, às vezes, e evasivo a maior parte do tempo, conservado, e, recentemente, descobriu ser de um humor contagiante. Mas como ela mesma rebateu, isso é o Daniel Müller seu chefe; como companheiro ela não sabe dizer, pois nunca se envolvera com ele a esse ponto. Pegou-se perguntando se com Melissa ele tem toda essa obsessão de chamar de minha mulher, ou de agir feito um idiota, ser carinhoso num instante e no outro gritar e ser estúpido.


Porém, o próprio afirmou não ser assim, e se nem ele era capaz de explicar suas próprias ações, ela seria a última a entender por que Daniel tem agido com atitudes que não correspondem com sua personalidade. — O que achou da comida? — Ele pergunta a fazendo recobrar os sentidos. — É maravilhosa. O vinho é melhor ainda. — Elogia desenhando um sorriso casto. — Você gosta de vinho, não é? — Muito. É um costume que puxei do meu pai. — Quando voltarmos para casa, pode ir até a adega e escolher um que você quiser. Meu pai também era apaixonado e por isso ele tem safras antigas de todas as partes do mundo. Os melhores são os da França, sem dúvida. — Ah… Daniel, não precisa. — Sophia nega se sentindo um pouco encabulada. — Não aceito “não” como resposta. — Daniel sorri limpando os lábios — Se você insiste… Daniel e Sophia trocam sorrisos sinceros, e Müller não consegue explicar a sensação boa que percorre seu corpo. Esse momento em paz que estão vivendo, a conversa civilizada, o sorriso de Sophia… tudo isso mexe com seu interior e ele deseja outros encontros assim. É muito melhor que estar brigando, um gritando com ou outro e se ofendendo. Assim como ele já tivera uma decepção amorosa, Daniel tem a curiosidade em saber se Sophia também vivera algum relacionamento que a machucou. Só de pensar que ela possa ter sofrido por amor, sente que gostaria de quebrar a cara do desgraçado. — Além do Miguel, já teve algum outro namorado? — Questiona em tom casual. Sophia está tomando um pouco do seu vinho e limpa os lábios antes de responder. — Sim. Alguns. Por quê? — Gostou de algum deles? Sophia ergue a sobrancelha não entendendo o interrogatório repentino de Daniel. Ainda assim, resolve responder à pergunta sem questionar. Diz que sim, que havia um rapaz de quem ela gostou quando tinha dezenove ou vinte anos. Enquanto conta, Daniel a ouve com atenção, olhando vez ou outra para seus lábios que se movem com perfeição. Renato e Sophia se conheceram em um barzinho num dia em que ela saiu para comemorar a formatura de alguns amigos. A atração um pelo outro foi mútua, logo trocaram telefones e duas semanas depois estavam namorando. Mas com o tempo, o relacionamento foi se desgastando, eles discutiam demais e quase não se viam por conta do último semestre de Sophia, que estava trabalhando em estágios, escrevendo o cansativo trabalho de conclusão de curso e se preparando para as provas finais. Numa noite qualquer um mês antes de sua formatura, Renato mandou uma


mensagem terminando o namoro de mais de um ano. — É isso? — Daniel pergunta quase não acreditando, e Sophia gargalha. — É, Daniel… Minha vida não é uma novela. O que você esperava? Que eu e ele fôssemos super apaixonados e que iríamos enfrentar Deus e o mundo para vivermos nosso amor? — Responde de bom humor. — Na verdade, eu esperava isso sim. Mas você o amava? — Indaga. — Amar, amar, não. Eu achava que era amor, mas acabou tão rápido como começou. E quando o amor acaba é porque nunca existiu. Daniel a encara diante as suas últimas palavras e fica pensativo. E quando o amor acaba é porque nunca existiu. Por um rápido momento, pensa nessa afirmação. Nunca tinha visto o amor deste ângulo. Para ele o amor durava o tempo que era preciso. Alguns duravam meses; outros, anos; e os raros, a vida inteira. Mas Sophia o fez repensar. Perguntou-se se de fato havia amado Clarisse, se tudo não passara apenas de uma paixão, uma coisa de momento, mesmo que o que tenha sentido seja maior que qualquer amor de verão que vivera. — E você? — Ela o traz de volta. — Já amou ou gostou de alguém? — Não — nega descaradamente. Além de Heitor, ninguém mais sabia sobre Clarisse, e isso continuaria assim. — Eu nunca fui muito de compromisso sério. — E por que não? — Questiona curiosa. — Eu vi muita gente sofrer por amor, não sei, talvez eu tenha receio de acontecer o mesmo. — Se explica, e reza para ser convincente. — E não sente medo de em algum momento se apaixonar? — Sophia sorri sapeca e bebe seu vinho. — Você se envolve com tantas mulheres que uma hora poderá ser surpreendido. — A diferença é que eu sei separar as coisas, Sophia. Além do mais, nunca passa de uma noite. — E daí? — Dá de ombros — Acha que o amor liga para essas coisas? Já pensou um dia dormir com uma mulher e no outro acordar apaixonado por ela? — Sophia diz e gargalha. Daniel se sente um pouco incômodo com a dedução louca de Sophia. Isso jamais aconteceria. Se bem que, ele pensa, se apaixonou por Clarisse no momento em que olhou aqueles olhos negros. E por Sophia ele se sentia confuso desde o dia em que eles se beijaram no apartamento dela, por causa de Miguel, e que, estranhamente, vinha sendo reforçado desde cortejos de Erick. Não é uma teoria tão louca assim. — Se um dia isso acontecer — pronuncia —, renuncio a este sentimento. Eu não nasci para amar alguém.


O sorriso de Sophia murcha um pouco. — É uma pena. Eu já queria ter com quem compartilhar a vida, ter momentos assim, como esse — sussurra e abaixa os olhos. — Casar de verdade, ter filhos… Sabe, essas coisas rotineiras e cotidianas? Coisas bobas e simples? — Ela o olha, e Daniel a encara de volta de semblante levemente fechado, sentindo suas palavras o atingirem. O desejo de Sophia era tão genuíno, tão humilde, mas para ela parecia ser a coisa mais importante do mundo. — Sei… — murmura com a voz enroscada e pigarreia para limpar a garganta. — É isso… — Conclui com um sorriso fraco. — Eu não tenho medo de amar. Eu tenho medo de não ser feliz. — E você acha que a felicidade se resume em estar com alguém? — Daniel indaga — Depende, Daniel. Se eu estiver apaixonada por alguém, talvez eu só me sinta completa ao lado desse alguém, mas isso não significa que eu não possa ser feliz sozinha. O que eu quis dizer é que eu não renunciaria a um amor por medo de sofrer, para depois passar o resto da vida pensando em como teria sido a minha vida se tivesse investido em um relacionamento amoroso. Outra vez Sophia o faz refletir. Daniel sorri pensando em como ela é uma mulher extremamente cativante, enquanto ele é um imbecil ordinário que tem a tratado mal. — Talvez tenha razão — concorda e olha para seu prato já vazio. — A comida estava boa. — Menciona para desviar do assunto. — Sim, eu adorei o jantar, Daniel. Obrigada. — Ainda quer ir embora quando aportamos no Rio? — Questiona com preocupação. — Sim, Daniel — ela confirma. — Essa lua de fel está me deixando com os nervos à flor da pele. — Se justifica e bebe mais do seu vinho. Daniel apenas acena. Se essa era a vontade dela, respeitaria sem questioná-la, nem insistiria que terminassem a viagem. — Okay. Se importa se voltarmos juntos? Ela o olha surpresa. — E a viagem? Achei que queria uns dias de férias. — É… mas não fará sentindo você voltar para casa e eu ficar aqui. O que irão pensar? Sophia fica muda. Sente-se mal com a colocação de Daniel. Tudo se resumia a aparência daquele casamento e com que as pessoas iriam pensar. Ele parecia não se importar com mais nada além de não ter sua vida e nome expostos em jornais e revistas. — Faça como quiser. — Pronuncia ríspida e termina seu vinho. — Se me der licença, estou cansada e quero ir dormir. — Diz já se levantando.


Daniel também se levanta prontamente, interrompendo-a. — Espere. Tem mais uma coisa. — O que é? — Ela cruza os braços, impaciente. Sem dizer nada, Daniel caminha até o outro lado do restaurante e conversa com o homem que a encaminhou até ali; Sophia acompanha a conversa deles sem entender o que está acontecendo, e vê o homem acenar positivamente. O garçom se afasta e Daniel volta com um pequeno sorriso. — O que está acontecendo? — Pergunta atônita. Ele estica sua mão a ela. — Venha e descubra — sussurrou, e sua voz rouca estremeceu suas bases. Sophia segurou na mão dele e caminharam até a saída. Durante o percurso, a música nas caixas de som em sotaque italiano muda. A loura reconhece as primeiras notas e seu coração acelera rapidamente. Ela olha para Daniel, que sorri pelo canto dos lábios, e seus olhares se cruzam. — Mandei um torpedo para o Eduardo. Ele me disse que gosta de Don't Cry 2. Eles param à entrada do salão, Sophia está olhando para Daniel, totalmente sem reação, mas ao mesmo tempo feliz. Flores, jantar romântico, sua música preferida tocando para ela. Seu coração pulsa diante ao zelo e à atenção de Daniel, mesmo que ele tenha feito isso tudo na intenção de ser perdoado. Sophia não consegue sentir mágoa ou raiva, apenas admiração e felicidade por ele ter proporcionado a ela esta noite mágica. — Olhe para frente — Daniel sussurra. Quando ela pensa que as surpresas poderiam ter acabado é surpreendida ainda mais. Seus lábios são separados e as mãos levadas até eles, sentindo seu corpo todo tremer diante a imagem que vê. O espaço aberto à sua frente está todo adornado com flores e balões de nitrogênio em forma de coração, presos por toda a parte escrito me perdoe. Alguns balões alinhados trazem, ainda, uma rosa e um envelope. — Daniel… — gagueja sentindo a garganta seca. — Se aproxime — ele sussurra em seu ouvido. Tremendo, enquanto a música continua a ser tocada, ela dá um passo e adentra o local. Se aproxima do primeiro balão e retira o envelope branco, abre e retira um pequeno papel impresso.

Sophia, eu sei que tem motivos de sobra para simplesmente ir embora e nunca mais olhar na minha cara. Sei que posso escrever essa mensagem sem que você tenha a chance de lê-la porque eu fui tão estúpido que nada que eu faça poderá convencê-la a vir até aqui esta noite. Mas se estiver


lendo isto, então, olhe para trás e veja meu sorriso.

Sophia busca por Daniel, e encantadoramente ele sorri; ela devolve o sorriso e volta a ler a mensagem.

Esse sorriso, Sophia, é de alegria por saber que, apesar das minhas idiotices, você veio até mim; veio e me ouviu, me fez companhia, aturou este meu humor que tem oscilado em sua presença.

A mensagem acaba e ao rodapé, se lê:

Continua no próximo balão…

Sorrindo, ela anda até o segundo balão, tira o envelope amarrado à cordinha e continua lendo a mensagem:

Também sei que não mereço seu perdão. Tenho sido o que nunca fui, agido com atitudes que nunca foram da minha personalidade. Por quê? Sinceramente, nem eu mesmo sei explicar. Só sei que você tem esse poder sobre mim.

Ela fixa seu olhar na última frase. Nunca imaginou que teria alguma influência sobre Daniel. Estava ciente de que ele tinha um poder sobre ela. Constatou isso no dia em que a beijou no pescoço e a deixou excitada. Mas nunca imaginara que, de alguma forma, Daniel sentia o mesmo em relação a ela. Pelo menos, não mais que uma atração…

Em sua presença, Sophia, eu deixo de ser eu. Talvez porque eu te cative muito, porque quero que nada nem ninguém te cause algum mal, ou porque realmente eu sou um idiota. Mas, acima de qualquer coisa, saiba que eu odeio quando seus olhos se enchem de lágrimas por minha causa, quando eu ajo feito um troglodita e te ofendo, quando te machuco com palavras ou quando eu te magoo com minhas atitudes imbecis. Continua no próximo balão…

As mãos dela tremem, mas ela segue até o terceiro balão, abre o envelope e continua lendo a mensagem.


Sei que você está certa quando diz que eu me desculpo, mas continuo a bater na mesma tecla. Eu tenho perdido tanto o controle que isso assusta até a mim mesmo, porque eu nunca fui assim. Mas desde que você entrou na minha vida, desde que nós dois nos submetemos à essas condições que estamos vivendo, eu venho me descontrolando. Ao mesmo tempo eu quero te proteger de tudo e de todos que possam te fazer mal. Pensei em te proteger até de mim mesmo, acredite. Eu fiz uma promessa mais cedo, Sophia. A de honrar este casamento, mesmo sob essas condições malucas que firmamos. E eu irei cumpri-la. Custe o que custar. Eu não permitirei que seu nome e sua honra sejam manchados por conta de erros que tenho cometido, por conta da minha falta de discrição, porque eu sei que tudo isso de alguma forma te atinge e você fica aborrecida. E eu odeio te ver triste. Continua no próximo balão…

A essas alturas os olhos dela já estão pranteados de emoção. As palavras de Müller parecem ser tão sinceras, tão profundas, que Sophia não pode conter seus sentimentos. Faz o mesmo procedimento de antes e lê a continuação da mensagem.

Por isso mesmo, eu te peço perdão. Perdão por ser um idiota, por não te tratar esses dias como você merece, por você presenciar coisas que não deveria, por eu te machucar com palavras, por ser um hipócrita, por querer te privar de ser livre. Eu te peço perdão por todas as minhas bobagens, te peço perdão até mesmo por erros que eu cometi e não tenha percebido, mas que te magoaram. Perdão por esta viagem estar lhe dando mais dor de cabeça do que um momento de lazer, de alegria. Se você não quiser, tudo bem, Sophia. Depois de tantos erros, de tantos “me desculpe” vazios, depois de tantos xingamentos e discussões, sei que é difícil perdoar. Você estará no seu direito e eu respeitarei isso. Mas apenas saiba que eu estou arrependido não só pela nossa última briga, mas por todas as minhas atitudes descabidas. Se me perdoar, eu prometo que farei por onde honrar seu perdão. Serei mais atencioso, mais cuidadoso nas minhas palavras, nas minhas ações, no meu tom de voz. Eu darei o tratamento digno que sempre mereceu da minha parte, e que sempre teve antes dessa viagem. Porque o arrependimento, Sophia, não está apenas em se sentir culpado em ter errado, mas também está em não querer mais continuar no mesmo erro. E eu não quero mais que uma lágrima sequer caia dos seus olhos por minha culpa. Continua no próximo balão…

Sophia se encaminha até o último balão, as mãos ainda mais tremulantes, sentindo a maquiagem borrada. Abre o último envelope para ler o restante da mensagem:


Sophia, essa mensagem pode significar muito como pode significar nada para você, mas para mim, saiba que em cada palavra eu nunca fui tão sincero em toda a minha vida. Nenhuma mulher passou por mim e me deixou tão desestruturado a ponto de abrir meu coração e escrever uma mensagem praticamente implorando por perdão. Eu sei que errei. Sei que você merece conviver com uma pessoa melhor, que merece um casamento de verdade, uma pessoa de verdade na sua vida, e eu, sinceramente, espero que encontre tudo o que merece quando tudo isso entre nós acabar. Mas por hora, Sophia, eu preciso que me perdoe. Ou eu não dormirei por todas as noites, ou eu não conseguirei encará-la sabendo que está magoada comigo. Eu simplesmente não conseguirei carregar esse peso sobre meus ombros. Eu estou arrependido e espero conquistar seu perdão. São essas as mais sinceras palavras que pude escrever. Daniel Müller.

Sophia sente como se seu coração fosse parar. As palavras de Daniel não poderiam ter sidas mais tocantes para ela. Eram cheias de simplicidade, mas conseguiram tocá-la de uma forma que não imaginava ser possível. Respirando fundo, se virou vagarosamente para ele, não encontrando palavras suficientes para lhe dizer alguma coisa. De seus olhos continuam a descer tímidas lágrimas, borrando a maquiagem bem-feita. Levanta seus grandes olhos verdes para Daniel, que continua parado no mesmo lugar. Ela começa a se aproximar aos poucos, enquanto tenta organizar uma frase coerente em sua cabeça para dizer a Müller. — Sophia, você é a mulher mais especial que surgiu na minha vida — Daniel começa a falar de repente, e ela estaca no mesmo lugar. Don't Cry continua a tocar repetidamente nas caixas de som, e ela não percebe algumas pessoas segurando pequenas velas se aproximando ao redor do restaurante. Meu Deus!, ela pensa, Ainda não acabou? — Eu não queria só te pedir desculpas escrevendo uma mensagem. Isso seria covarde demais da minha parte — ele diz com a voz trêmula andando até ela em passos cautelosos. Daniel também está nervoso. Seu coração bate acelerado. Nunca pediu desculpas a uma mulher em público; nunca escreveu uma mensagem tão sincera pedindo por perdão; nunca sentiu essa emoção esquisita dentro do peito. — Eu quero que saiba que eu realmente estou arrependido por tudo. Por estar sendo o mal que te aflige, por ser o causador de suas lágrimas desde que chegamos aqui, por me comportar como um perfeito idiota. Não sabe como meu coração se partiu quando vi você chorando hoje; não sabe como eu me senti patético quando gritei com você; não sabe como o arrependimento bateu na minha cara quando eu caí na realidade e percebi as besteiras que fiz com você.


Ele para um segundo para tomar fôlego. Ao longe pode ver os olhos de Sophia ainda mais cheios de lágrimas, mas dessa vez ele tem certeza que ela chora de emoção e não de tristeza. — Por isso, eu queria te pedir perdão. Queria que me desculpasse não só pelos meus erros, mas por ter sido essa pessoa terrível para você. — Daniel pigarreia nas suas frases, o nervosismo o consome. — Então, Sophia, em sinal do meu arrependimento aceite essa singela homenagem — ele finalmente se chega a ela e toca seus ombros para virá-la. Sophia arregala os olhos diante as pessoas a sua frente. Deve haver umas vinte e cinco ou trinta pessoas ao redor do restaurante segurando pequenas velas acesas. Junto a elas, um trio de dois homens e uma mulher, munidos de violão. A música cessa nas caixinhas de som do restaurante. Um ruivo começa a tocar o instrumento e seu companheiro logo o acompanha. A mulher do trio começa a cantar a mesma música que tocara segundos atrás, numa voz extremamente afinada.

Talk to me softly There's something in your eyes Don't hang your head in sorrow And, please, don't cry

Conforme a mulher vai cantando, as pessoas ao redor acompanham a música, gradualmente.

I know you feel inside I've been there before Something is changing inside you And don't you know

No refrão o coro dos presentes se eleva, Sophia não se contém e cai em prantos de emoção.

Don't you cry tonight I still love you, baby Don't you cry tonight Don't you cry tonight There's a heaven above you, baby


And don't you cry tonight

Ela sente as mãos de Daniel repousarem sobre seus ombros enquanto assiste à apresentação à sua frente. Com olhos cheios de lágrimas, se volta para Daniel, que tem um sorriso curto nos lábios. Ela o abraça fortemente e ele retribui sentindo o calor do momento acalentar seu coração. Neste abraço, Müller sabe que foi perdoado e fará de tudo para ser uma pessoa diferente com Sophia, para ser o Daniel que ele sempre foi com as pessoas, para não a ver mais aborrecida com ele. Sophia cessa o abraço. As pessoas ainda entoam a música em um ritmo harmônico e afinado. Ela não sabe como Daniel planejara tudo isso. Nem lhe importaria saber. Sente uma alegria tão imensa dentro do peito; seu coração salta em ritmo acelerado. Ambos se olham intensamente e Sophia não pode evitar de se atentar aos lábios de Daniel. Toda a atenção dele durante o jantar, todo o zelo e cuidado que teve de preparar a homenagem, suas palavras na mensagem, suas palavras verbais… tudo vem à tona a sua mente. Lembrando de cada segundo daquele momento desde que chegou ali, Sophia envolve-se no pescoço de Daniel e o beija. Surpreso, o coração de Müller sobe à garganta. Mas ao sentir aqueles lábios finos e doces de Sophia, ao notar que o beijo recíproco que ele tanto desejou acontece, ao perceber que ela o beija porque que quer, e não para aparentar alguma coisa, ele deixa se envolver no momento, agarra a loura pela cintura e permite que ela tome sua boca. Ambos se perdem no beijo intenso que trocam e se esquecem das pessoas em volta, que, ao verem a reconciliação, batem palmas e soltam assovios eufóricos. Mas Sophia e Daniel estão entretidos demais um ao outro para perceberem qualquer coisa.


23 RECONCILIAÇÃO

or um instante, quando Sophia sentiu o beijo fervoroso de Daniel, ela desejou que o tempo parasse indeterminadamente. Os lábios dele tomando-a com fervor e intensidade, mas ao mesmo tempo suave e com delicadeza, despertou em seu âmago um sentimento confuso e novo, exclusivo, que ainda não havia experimentado. E ainda que a nova sensação fosse incompreensível, era boa demais para desejar findá-la. Por isso, quis que o tempo parasse naquele momento para sentir mais e melhor o beijo que trocavam.

P

De todas as vezes que se beijaram para encenar o noivado, essa, sem sombra de dúvidas, fora a melhor de todas, principalmente porque não se beijavam apenas no intuito de mostrar a veracidade do casamento, mas porque realmente queriam aquele beijo. Seus lábios dançavam perfeitamente com os dele, enquanto o perfume forte e tradicional masculino subia por seu nariz. Logo, a mão de Daniel a segurou pela cintura e a outra a emaranhou pôr entre os fios louros, levando-a mais para perto dele, retribuindo o beijo em uma intensidade que nunca sentira antes. Um se perdeu no outro, vivenciando o momento único e mútuo que os envolvia. Mal notaram os aplausos fortes e os assovios eufóricos das pessoas ao redor deles, nem de alguns curiosos que pararam o que faziam para acompanhar a cena do que acreditavam ser um casal apaixonado se reconciliando. Nenhum dos dois ligaram para tal fato. Queriam apenas se sentirem; parar o tempo para eternizar o momento. Daniel estava extasiado. Seu coração pulsava em ritmos alterados, e um misto de sensações bateu em seu peito. Desejo, paixão, uma vontade imensa de segurá-la pelos braços e levá-la para sua suíte, envolvê-la em um abraço, afagar seus cabelos, beijar-lhe a testa, ouvir sua voz. Sentimentos confusos pipocavam em sua mente, fazendo o coração acelerar cada vez mais, principalmente quando, enquanto a beijava, pensou que queria fazer amor com ela; não apenas sexo casual, não somente para satisfazer um desejo carnal, mas para saciar a própria vontade da alma, da paixão que queimava como fogo em seu peito. A tentação de tê-la em seus braços e, ainda mais, o pensamento absurdo de que estava sentindo algo por ela, que ia além de tesão, o trouxe de volta ao mundo real, e só então as palmas e assovios dos presentes que os rodeavam entrou pelos seus tímpanos, e ele se deu conta da realidade doce que estava a acontecer.


Delicadamente, e aos protestos de seu coração e desejos, separou-se da boca dela, encostou suas testas, apertou forte os olhos fechados e arquejou, permitindo que seus batimentos cardíacos voltassem ao normal. Sophia também caiu por si quando o beijo foi cessado. Percebeu o que havia feito e não soube como reagir. Sua face corou ao ouvir as pessoas comemorando por ela e por seu marido de mentira. Engoliu em seco e mirou Daniel, que colava suas testas e tinha a respiração curta. — Daniel… Foi calada com o indicador dele em seus lábios. Daniel abriu os olhos e encarou aqueles olhos verdes fascinantes. — Shhh… — murmurou ainda com o dedo aos lábios dela. — Não diga nada. Sophia acenou brevemente ainda sentindo a testa dele contra a sua. O perfume masculino impregnava no ar, e ela quis sentir outro beijo de Daniel. Seu coração batia descompassado enquanto as palmas cessavam gradualmente. Meio corada, se virou vagarosamente para frente, sem saber como encarar todos aqueles olhares sobre eles. Sorriu timidamente, e sem demora, os braços de Müller estavam contornando sua cintura. Olhou para ele, que mirava as pessoas com um pequeno sorriso no canto dos lábios. Seus olhares se chocaram, e Sophia teve a necessidade de se desviar da íris azul-esverdeada. Um ou outro dos presentes vieram até eles e os cumprimentaram com abraços fortes e apertos de mão, desejando felicidades, contentes pela reconciliação; outros, ainda, fizeram discursos de como a homenagem à Sophia tinha sido linda e emocionante, de como ela era uma mulher de sorte por ter um esposo como Daniel. Após ambos agradecerem pelo apoio das pessoas que ajudaram para que a homenagem pudesse ser feita, eles voltaram para a suíte. Saíram do restaurante de mãos dadas e, mesmo após terem se afastado da vista de todos, continuaram com seus dedos entrelaçados. Sophia caminhava olhando para baixo, vez ou outra mirava a grande mão de Daniel envolvendo a sua. Reparou de como as veias das costas saltavam, nos pelos louros espalhados – quase imperceptíveis de longe – de como elas eram brancas e ao mesmo tempo másculas; seguiu olhando para os braços fortes e elegantes dentro da manga do paletó, este que apertava de forma discreta o músculo do bíceps. Continuou seguindo o contorno do tronco de Daniel, até admirar a largura de seus ombros. Müller transmitia um ar forte e viril, mas ao mesmo tempo elegância e charme. De repente, ele se vira, encontrando o seu olhar. Mas ela não se esquiva. Continua a observar a beleza dele: as sobrancelhas grossas, os cabelos volumosos bem ajeitados de lado, formando um topete; os olhos claros que, com toda a certeza, chamam a atenção; o rosto meio triangular contornado por uma barba bem aparada e o tórax… Ah, o tórax… Largo… Bonito… Sem perceber, ela estava suspirando enquanto o admirava. — Sophia? — A chamou.


Ela pestanejou. Só então reparou de que olhava para ele como uma adolescente do ensino médio apaixonada pelo professor bonito. Desviou-se rapidamente dos intensos olhos de Daniel. Müller pensou em perguntar se estava tudo bem, mas sabia que, provavelmente, Sophia estava envergonhada pelo beijo. E que beijo, divagou, pensando no momento que se desenrolou há tão pouco tempo. Questionou-se no porquê da atitude da loura. A ideia de que Sophia pudesse sentir alguma coisa por ele, assim como vinha sentindo por ela, o encheu com uma emoção diferente. Talvez… esperança? Olhou para Sophia. Pensou nas palavras de Erick. Lembrou-se de Clarisse, de suas paixões não correspondidas, de seus amores de verão, da vontade que sentia em tomar aqueles lábios para si, de emaranhar seus corpos nus em uma cama, de tê-la mais do que por um breve momento. Quis saber como ela se sentia em relação a ele. Se ela me beijou, então…, ponderava esperançosamente. Mentalmente negou tudo a si mesmo. Um beijo era só um beijo, não significava nada demais; pessoas se beijavam o tempo todo, amando ou não. Era preciso parar de criar falsas expectativas. Mal percebera, mas já haviam chegado à suíte e Sophia abria a porta. Ela adentrou o recinto na frente, e ele ainda caminhava para dentro quando os olhos grandes e verdes dela se viraram para ele. — Eu preciso me explicar — pronunciou com um sussurro. Ele parou no meio do caminho colocando a mão por dentro do bolso da calça. — Não precisa, Sophia. — Respondeu complacente. Por um segundo, que pareceu a eternidade, ela ficou calada. — Não quero que pense coisas erradas. — E por que eu pensaria? — Questionou-a tentando não perguntar seus motivos. — Foi só um beijo. Só um beijo, Sophia pensou. Não para ela. Tinha sido mais do que um simples beijo. Seu coração pulou de uma forma diferente, suas emoções a bombardearam com uma mistura de sentimentos que nunca havia experimentado. Tinha toda a certeza que não fora só um beijo; pelo menos não para ela. — É. — concordou a contragosto — Foi só um beijo, não é? — Murmurou na esperança de que ele admitisse que seus batimentos cardíacos foram acelerados mais do que o normal, assim como os dela. Müller apenas acenou e tornou a caminhar. O desejo de que Daniel a empurrasse contra uma parede e enchesse seu pescoço de beijos molhados cresceu dentro de Sophia. Cerrou os olhos e se segurou, enquanto ele passou por ela e foi até o banheiro.


Sentou-se na cama macia e levou as mãos ao rosto. Só queria entender o turbilhão de emoções em relação a Daniel que vinham a acertando. Deitou-se encarando o teto. Fechou os olhos respirando com tranquilidade. Fitou outra vez o forro de madeira do quarto quando uma hipótese passou por sua mente. Estou apaixonada!

♦♦♦

Daniel molhou as mãos e as passou pelo rosto. Precisava organizar seus pensamentos, mas não conseguiria nada enquanto estivesse com a temperatura do corpo elevada por causa de Sophia Hornet. Não quero que pense coisas erradas, ela havia dito. Então, tudo o que ele pensara a respeito do beijo estava realmente errado? Por que mesmo que eu me preocupo com isso?, balançou a cabeça e afastou os pensamentos. Arregaçou as mangas até a altura dos cotovelos, lavou outra vez o rosto e saiu para quarto. Encontrou Sophia já debaixo dos lençóis trajando um pijama branco de algodão. — Se importa se eu dormir aqui na cama essa noite? — Perguntou a ele. — Claro que não — ele respondeu tirando o paletó. — Fique à vontade — e sorriu desabotoando a camisa. Sophia nada disse. Apenas ficou a observá-lo, enquanto Daniel escorregava as mangas pelo braço para se livrar da peça. Ele pegou um dos edredons e se ajeitou no sofá, deixando o peito nu à mostra. Por baixo da coberta desfivelou seu cinto e abriu um botão da calça, e com um pouco de dificuldade a tirou, ficando apenas de cueca. Remexeu-se um pouco mais e se acomodou, inspirou fundo e olhou para cima. — Quer vir se deitar aqui? — Ouviu a voz de Sophia, e desviou seu olhar para ela, enrugando a testa. — Aí parece tão desconfortável — ciciou. — Aqui está ótimo. Não se preocupe. — Rebateu com um sorriso sincero. — Além do mais, eu não permitiria que você ficasse aqui enquanto eu dormiria confortável. — Na verdade, — o corrigiu, e antes mesmo de completar sua sentença, sentiu as bochechas rubras — eu estava sugerindo que dormisse aqui… comigo. Daniel separou os lábios, surpreso; e Sophia desviou os olhos para baixo, levemente corada. Ela ponderou que não haveria problema algum. Ou haveria? Já tinham dormido uma vez na mesma cama, lembrou-se, e havia sido no dia do casamento deles. Então, não teria problema algum, certo? Além do mais, a cama era grande o suficiente para que dormissem sem nenhum constrangimento. — Dormir… com você? — Indagou Daniel ainda atordoado com o convite repentino.


Pensou não ser uma boa ideia. Recorda-se com clareza da última vez que estiveram na mesma cama. O perfume de baunilha dos cabelos dela invadindo seu olfato e o fazendo desejar estar mais próximo a ela, sua atitude embriagada de se acomodar sobre seu tórax e de se sentir estranhamente confortável. O problema maior estava em, talvez, sentir-se ainda mais atraído por ela, ser tentado pela beleza e pelo cheiro natural de Sophia, e a última coisa que ele gostaria era ter de dormir com uma ereção ao seu lado. Além de tudo, ele estava só de cueca. — Não sei, Sophia. — Disse confuso. — Não quero incomodar. Ela sorriu brevemente, achando graça em alguma coisa que Daniel não soube dizer o que era. De repente ela entrelaçou os dedos, como se suplicasse, e apenas o olhou com o mesmo sorriso de antes. Daniel não conseguiu segurar uma risada ao ver a expressão infantil que ela fizera. Mesmo que meio receoso, levanta-se enrolando o edredom à sua cintura e caminha até a cama, acomodando-se junto a ela. Sophia já está deitada de lado e os dois apenas se olham em silêncio por alguns segundos. — Eu seria muito má se deixasse você dormir naquele sofá depois de tudo que fez essa noite… — Sophia quebra o silêncio. Daniel sorri pequeno. — Já disse que não foi nada. — Pode ser nada para você — responde serena —, mas foi a coisa mais bonita que alguém fez por mim. — Sério? — Sussurra ele. — Nem o inútil do Miguel? — Questiona, e ela gargalha pela forma como ele se pronunciou. Uma risada que mexe com os batimentos de Daniel. Ele divaga nas pequenas rugas que se formam em torno da face dela enquanto ri, repara em como os dentes perfeitamente alinhados estão visíveis, os lábios levemente grossos e rosados de forma natural se curvam sedutoramente, os grandes olhos verdes brilham e seu nariz fino e proeminente que lhe transmite um ar de delicadeza e fragilidade. Cada detalhe de Sophia parece tentador e apaixonante para Daniel, e isso o encanta de uma maneira que ele próprio não consegue entender, tampouco explicar. Apenas sentir. — Ele fez algumas coisas — torna a dizer após parar de rir —, mas nada comparável ao que você fez. — Umedece os lábios e tem a necessidade de fugir do olhar de Daniel. Outro pequeno silêncio se instala entre eles, e mesmo com Sophia não o encarando de volta, Müller não cansa de admirá-la. — Obrigada mais uma vez. Eu realmente não esperava por tudo isso — sussurra tornando a olhá-lo.


Daniel somente gesticula, e novamente estão se olhando intensamente. Sophia pensa em perguntar sobre as coisas que escreveu na mensagem, tem a curiosidade de saber o que é isso que ele sente que não consegue explicar. Muitas das palavras que Müller escreveu vem à sua lembrança e ela não contém um pequeno sorriso enquanto o encara. Só sei que você tem esse poder sobre mim. Mesmo querendo saber, permanece calada. Não se sentiu no direito de lhe fazer tal pergunta, e se Daniel quisesse falar sobre o assunto, o ouviria com toda a atenção; caso contrário, não invadiria sua privacidade. — Boa noite, Sophia — Daniel ciciou bem baixinho, e antes que ela pudesse responder, recebeu um beijo casto e singelo na testa. Uma sensação boa percorreu seu corpo. — Boa noite, Daniel — sussurrou de volta, enquanto ele lhe dava as costas. Ambos sorriram com o gesto, mas nenhum dos dois viu o sorriso do outro.

♦♦♦

O dia amanheceu, e Daniel sentiu-se levemente enjoado com o vai e vem na sua suíte do navio. O cheiro de brisa marítima invadia todo o quarto e uma forte claridade atingia seu rosto, incomodando seus olhos. Rolou na cama, pondo-se debruço, e cobriu a cabeça com o lençol. — Daniel, levante… — Sophia disse de algum lugar, mas ele apenas resmungou. — Vamos aproveitar a viagem, o dia está lindo. — Comentou, e sua voz estava mais próxima. Outro grunhido. Ela revirou os olhos e o chacoalhou com delicadeza. — Daniel…? — Sussurrou. — Estou acordado — reclamou com a voz sonolenta. — Que horas são? — Sete da manhã. Daniel virou o pescoço e a encarou. Sophia segurou uma risada. Ele tinha a cara marcada, os cabelos bagunçados e um rosto visível de quem acabara de acordar. Ainda assim, não deixava de ser lindo. — Sete da manhã? Sophia, estou de férias. Não me acorde às sete da manhã! — Protestou, e virou o rosto outra vez, tentando dormir. — Daniel, estamos em um cruzeiro maravilhoso e o dia está radiante. Levante-se logo — decretou. — Estou com fome e eles só servem o café até às nove, então se apresse. — Dito isso saiu de seu lado e caminhou até a varanda.


Rosnando alguma coisa sobre odiar acordar cedo, Daniel se levantou e se arrastou até o banheiro, lavou o rosto com água fria para despertar o sono e molhou os cabelos, voltou ao quarto e vestiu-se com bermuda, camisa polo manga curta e calçou os tênis. — Pronto — ralhou outra vez enquanto arrumava os cabelos. Sophia surgiu da varanda e ao reparar nela quase sentiu o queixo cair. Ela trajava um short de algodão que batia até a altura de suas coxas finas, um croper vermelho e por cima uma peça rendada e frouxa que caia sobre seus braços, expondo os ombros. — O que foi? — Indagou ao perceber os olhos dele a observando atentamente. Daniel pestanejou. — Nada. É que você está… linda. Sophia sorri e se enrubesce levemente. — Obrigada — murmura. — Vamos? Estou com fome. Juntos, então, eles caminham até o restaurante e fazem o desjejum. Durante todo o tempo, conversam sobre vários assuntos, e Sophia sente que Daniel é outra vez o que sempre fora: gentil, educado e que, vez ou outra, lhe arranca gargalhadas Quando terminaram o café, o dia já estava escaldante. Sophia arrastou Daniel até a beira da piscina para participarem das aulas e exercícios físicos que o programa oferecia. Ele foi a contragosto e resmungando; Sophia riu de sua cara carrancuda. O mau humor de Daniel por ter que participar de uma aula aeróbica logo se foi assim que Sophia revelou estar apenas de biquíni branco por baixo da roupa. Mentalmente verificou se não estaria babando enquanto a loura tirava o short e as peças de cima. Suas pernas eram compridas e brancas e, de certa forma, delicadas, o abdômen magro, os seios médios e redondos bem acomodados no sutiã. Divagou por um momento enquanto ela prendia as longas madeixas amarelas em um coque frouxo. Só foi trazido de volta à realidade com Sophia a lhe segurar a mão e puxá-lo mais para perto do personal trainer que iniciava a aula. Por uma hora inteira, Daniel fez os exercícios e movimentos que o professor os instruía. De começo, achou-se totalmente patético, mas depois foi se adaptando e até admitiu estar se divertindo com os movimentos, acompanhando o ritmo da batida de música eletrônica. O dia foi decorrendo, e os dois participaram de várias atividades. Nadaram na piscina após a aula, depois almoçaram e andaram sem destino; por quase meia hora ficaram encostados ao parapeito em uma parte qualquer do navio observando o mar, as ondas, o sol que reinava no horizonte; sentiram os ventos marítimos soprar contra suas peles, e quando Sophia estremeceu um pouco de frio, Daniel envolveu seu tronco em um abraço apertado. O gesto não aqueceu somente sua pele, mas seu coração. Sentir os braços de Müller


contornar seu corpo fez que a mesma sensação boa que vinha percorrendo sua espinha se fizesse presente. Avançando a tarde, compareceram a uma apresentação de música clássica, e dessa vez foi a loura quem acompanhou Daniel a contragosto. Sophia não pôde negar quando ele viu os anúncios espalhados e pediu a ela que o fizesse companhia. Sophia sabia que Daniel tinha um gosto peculiar por música; já havia o presenciado na sala com uma taça de vinho na mão ouvindo Mozart, ou, não muito raro, músicas italianas clássicas. E ela achava graça nesse fato: um jovem de 29 anos com a postura, maturidade e gostos de um homem mais velho (tirando, claro, as vezes que agiu como um idiota e cafajeste). Uma peculiaridade que o deixava ainda mais atraente. Riu baixinho para si mesma enquanto se arrumava para ir ao concerto, pensando em como seria Daniel indo a um show de rock ou em uma balada só com músicas eletrônicas, e mais hipoteticamente ainda, em uma festa country. Com certeza ele se sentiria muito deslocado e excluído. Müller a esperava no quarto e estava elegantemente lindo dentro de um smoking. Seus cabelos tinham mais gel do que o costume, e ela fez uma pequena careta ao ver como ele ajeitara suas madeixas no estilo “vaca lambeu”. A careta deu lugar à risada; Müller revirou os olhos de bom humor. — Você também está linda — comentou ignorando o fato de estar sendo ridicularizado por sua própria esposa. Sophia vestia um longo vestido nude de alças, uma echarpe vinho cobrindo os ombros, os cabelos soltos caindo em ondas; na boca, um batom também vinho delineava suas curvas, as pálpebras exibiam uma sombra em dégradé e uma linha fina de delineador foi passada na parte interna de seus olhos, realçando o verde de sua íris; ela estava, ainda, um pouco mais alta que o costume, devido ao salto dos pés. Mas o que lhe fez pôr um sorriso largo no rosto foi ter visto a prata do colar de noivado que deu a ela reluzir em seu pescoço. No iniciar da noite, eles atracaram no Rio de Janeiro. Daniel resmungava dizendo que Sophia quase dormira durante a apresentação estupenda da orquestra; ela negou rindo, e ele não se conteve. Desembarcaram do navio e resolveram caminhar pela areia fofa da praia, não se importando de estarem vestidos com roupas de gala. Daniel sentiu como era bom estar na companhia de Sophia, mesmo que caminhassem calados – ela descalço, carregando os saltos nas mãos. Somente sua presença enchia-lhe o peito de alegria. Viu como era bom viver em paz, ter uma convivência harmoniosa e pacífica com sua esposa de conveniência. Daniel resolveu pedir lagosta em um restaurante ali perto, sentaram-se na areia e saborearam a comida. Continuaram a conversar, rir e um a satirizar o outro. Sem perceber já haviam terminado de comer e agora estavam lado a lado, deitados sobre a areia observando as estrelas. — Ainda quer voltar para casa a partir daqui? — Daniel sussurrou, e, ao ser virar, ela o viu de lado, a olhando.


— Não… — Respondeu com um cochicho, e ele sorriu. — Está tudo perfeito. Obrigada. Daniel segurou a pequena e macia mão de Sophia e depositou um beijo. A mesma eletricidade de sempre subiu por sua espinha. — Quem agradece sou eu. Fiz tanta merda e você continua aqui… No mesmo instante, Sophia encosta seu indicador nos lábios dele, o impedindo de continuar. — Não vamos mais falar disso. — Ciciou, e Daniel apenas concordou com um maneio de cabeça. Minutos depois, voltaram para o navio que levantaria âncora dentro de pouco e continuaria com sua rota. Chegaram ao quarto, Daniel esperou Sophia tomar seu banho para só então ir se limpar e tirar a areia que se espalhou por todo seu corpo. Vestiu-se apenas com uma calça de algodão, e quando saiu para o quarto, ela já estava deitada. Antes que pudesse se acomodar no sofá, novamente foi convidado a ficar na cama. Sentia-se, ainda, um pouco receoso, mas lembrou-se que a noite passada tinha tudo corrido muito bem. Qual o problema, então? Aceitando o convite, deitou-se ao lado de Sophia, que logo cobriu seus corpos com o edredom. Daniel jogou os braços para fora e ela divisou a largura de seus bíceps. — Boa noite, Sophia — desejou e, como na noite anterior, a beijou na testa, dando-lhe as costas logo em seguida. E Sophia ficou ali, esquadrinhando cada centímetro daquela parte do corpo dele. Percebeu como havia várias pintas marronzinhas espalhadas por todos os lados, os ombros despidos pareciam ainda mais largos e fortes. — Boa noite, Daniel — sussurrou, fechou os olhos e sentiu o cheiro natural dele subir por suas narinas.


24 CHANTAGEM

—B

om dia, senhor e senhora Müller — cumprimentou Anabelle, levantando-se assim que os viu surgirem de mãos dadas no andar da presidência.

Dez dias já haviam se transcorrido desde o casamento de Sophia e Daniel. O restante da viagem até Salvador, e depois de volta à Santos, fora pacífica e bem aproveitada por ambos. Daniel continuou a ser gentil e educado e não mais agira como um brutamonte, mesmo quando, em uma das últimas noites, Erick e Sophia saíram para jantar. Ela não queria perder contanto com o colega que fizera, por isso trocaram telefones, e-mails, endereços físicos e dividiram as fotos que haviam tirado na cabine para guardarem de recordação. Num jantar acompanhado de Daniel, se encontraram com Christina, que se desculpou pelo ocorrido dias antes na suíte deles. Sophia aceitou as desculpas, e elas não se viram mais depois desta ocasião. Todas as noites dormiam na mesma cama, e Müller depositava um beijo na testa de Sophia antes de se virar e cair no sono. Atitude esta que era boa para ambos. Retornaram para casa no final de semana, e agora, numa segunda-feira, reiniciavam sua rotina novamente, desta vez como marido e mulher. — Bom dia, Anabelle — responderam em uníssono — Como foi de viagem? — Ótimo. — Pronunciou Daniel. — Perfeito — proferiu Sophia. Eles se olharam e sorriram. — Fico feliz pelos dois. — Isso é bom, Anabelle — disse Daniel retornando a postura profissional —, mas temos muito trabalho. A manhã correu como o vento. Daniel participou de duas reuniões, depois visitou rapidamente as obras na fábrica e deu graças por não se encontrar com Miguel de Orleans, somente com o velho Luiz. No almoço, foi para casa, juntamente com Sophia. Já passava de uma da tarde quando ele chegou na empresa sozinho. Sophia ficara no


centro comercial para resolver alguns assuntos pendentes, e ele preferiu continuar seu trajeto sozinho até a empresa. A recepção estava vazia. Entrou na sua sala e se deparou com alguém sentado à cadeira de couro. Mesmo que a pessoa estivesse de costas, balançando-a vagarosamente de um lado a outro, ele notou os fios vermelhos. — Melissa… — suspirou em desagrado pela presença da ruiva. Ela se virou, então, para encará-lo com um sorriso de lado. — Daniel, meu querido… — disse se levantando e caminhando em sua direção. Müller não deixou de notar na saia curta e justa, na bota de cano e salto alto e nos seios fartos que saltavam por baixo de uma regata que deixava seu umbigo despido. — O que faz aqui? — Perguntou soltando sua maleta na poltrona ali perto. — Vim fazer uma visita. — Se aproximou e enrolou seus dedos na gravata dele. Daniel se esquivou e passou por ela, levando os dedos até os fios alourados. — O que você quer? — Encostou-se à sua mesa. — Estava com saudades. — Insinuou-se e voltou-se a ele com sensualidade. Agarrou-o pela nuca e bagunçou seus cabelos enquanto tocava seu peito com o indicador, suas bocas estando próximas. — Melissa, eu não posso. — E por que não? Da última vez foi excitante. — Provocou e tentou beijar-lhe o canto dos lábios, mas Daniel se desviou. — Porque eu sou um homem casado — respondeu como se fosse o óbvio. Havia feito uma promessa e iria cumpri-la. Ela se afastou e o fitou, incrédula. — É um casamento de mentira, se lembra? — Ainda assim, Melissa, as pessoas acreditam que estamos casados, preciso manter essa aparência. A última coisa que eu quero é o meu ou o nome de Sophia estampados em revista de fofocas. A ruiva suspirou e se afastou um pouco, levando as mãos aos quadris. — Você é o rei da discrição. — Disse meio irritada. — Podemos nos encontrar às escondidas. Daniel vincou as sobrancelhas. Ele nunca negara sexo com a ruiva, mas desde a última vez que se viram, pouco mais de um mês, quando ela esteve em sua casa, vinha perdendo o interesse.


Müller já não tinha mais paciência para os joguinhos de sedução de Melissa. — Eu disse não. Agora, por favor, se retire. — Enunciou andando até a porta e a abrindo. Mas a mulher continuou parada no mesmo lugar. — Está transando com a Sophia? — Indagou de repente, e Daniel fechou a porta rapidamente, um pouco assustado. — Não! Eu não estou transando com ela. — É o que parece. Está negando sexo! — Protestou. — Não estou negando, estou honrando meu casamento. — Rebateu entre dentes. — Daniel, quando foi a última vez que transou? Você está casado há uma semana, mas estão sustentando esse noivado há um mês, a menos que esteja se aliviando com ela, ou com outra, não vejo explicação para não querer dormir comigo. Eu já disse: podemos ser discretos. Você não irá traí-la, é um casamento de fachada, por favor! Daniel suspirou e passou a mão pelo rosto. Lembrou-se da promessa que havia feito, mas ao mesmo tempo já até perdera a noção da última vez que havia se deitado com uma mulher. Está ciente que fizera quase como um voto de castidade, porém, pondera se ele for discreto o bastante para que ninguém, principalmente Sophia, saiba das suas escapadas, se pode “manter” sua palavra. — Você não pode ir em casa — pronuncia após alguns segundos. — Venha até o meu apartamento. — Sorriu maliciosamente e passou por ele. Daniel fechou a porta logo em seguida. Bufou impaciente sem saber o que fazer.

♦♦♦

Era por volta de 22 horas quando o interfone tocou e Melissa foi correndo atender. — Deixei-o entrar — disse ao porteiro ao anunciar a chegada de Müller. Minutos depois ela abriu a porta para divisar Daniel, meio apreensivo e, como sempre, sisudo. — Você veio. — Pronunciou dando espaço para ele entrar. Daniel entrou cauteloso sentindo sua consciência levemente pesada. Havia ligado para Sophia e dito que ficaria até mais tarde na empresa e depois iria à casa de um amigo assistir à uma partida de jogo de futebol, já que ele havia insistido muito que Daniel comparecesse; Sophia não pareceu desconfiar de nada e apenas concordou.


Enquanto fazia o percurso sozinho até ali, travou uma luta com sua consciência. Tinha feito uma promessa e caminhava na direção de quebrá-la. Mas seu desejo carnal falara mais alto, e ele sentiu que Melissa tinha razão. Estava há dias sem fazer sexo e se sentiu um idiota patético sendo controlado pela vontade do seu corpo. Disse a si mesmo que seria discreto, faria o que tinha que fazer com Melissa e depois voltaria para casa. Nada de dar motivos para esses urubus jornalistas e colunistas de revista de fofocas, Daniel.!, reforçou a si mesmo. — Vim, mas não ficarei. Assim que terminarmos, eu vou embora. — Tirou o paletó e o jogou sobre o sofá. Melissa pareceu não se importar com a frieza de seu companheiro. Avançou sobre ele e o beijou, arrastando-o paro o quarto. Daniel a beijava mesmo com sua consciência gritando a acusálo. Porra! A ruiva o sentou na cama e se despiu, de frente a ele, mostrando o corpo sensual e desnudo. Daniel passeava os olhos pelo corpo sexy de Melissa, mas só se sentiu excitado ao imaginar Sophia nua na sua frente.

♦♦♦

Como o prometido, depois do sexo com Melissa, Daniel voltou para a casa, por volta de onze ou onze e meia. Cautelosamente abriu a porta do quarto dela e conferiu: Sophia dormia feito anjo. Foi para o seu aposento e se deitou, girou de todos os lados, mas sentiu falta de ela deitada junto a ele, de desejar-lhe boa noite e beijar-lhe na testa. Suspirou e demorou a pegar no sono. O outro dia amanheceu, e junto com Sophia, Daniel seguiu para a empresa. No percurso, a loura lhe questionou sobre o futebol e ele alegou que desistiu de assistir à partida, pois estava cansado e desinteressado. Ela nada mais disse, e continuou a parecer que não desconfiava de nada. — Temos uma reunião com o Miguel em uma hora — Sophia disse enquanto subiam no elevador. Daniel resmungou só de ouvir o nome de Guimarães. As portas do elevador se abriram e eles caminharam para dentro do andar da presidência. — Prepare a sala para a reunião, por favor — pediu. — Preciso fazer algumas ligações antes. Te encontro logo. Sophia acenou e se retirou em seguida. Ao abrir a porta de sua sala, novamente, Daniel encontrou uma pessoa sentada na sua cadeira, de costas.


Os mesmos fios vermelhos eram visíveis no alto da cabeça de Melissa. Anabelle e sua eficiência! Mas ele realmente poderia culpá-la? A mulher ali era persuasiva, saberia facilmente convencer sua assistente a deixá-la entrar e esperar por ele em sua sala, principalmente, porque não era segredo para ninguém que os dois eram amigos, ainda que não soubessem dos benefícios que ambos mantinham na amizade, além de que, ele se recordou, ela tinha passa-livre na empresa. Recorda-se de que, uma vez, disse à Anabelle não ser necessário uma permissão especial para sua entrada, a não ser que ele estivesse ocupado. Reforçou mentalmente que deveria tomar providências em relação a isso e lhe cortar os privilégios do passa-livre à sua sala. — O que você quer dessa vez, Melissa? — Reclamou fechando a porta; andou alguns passos e parou no meio do caminho, esperando que a ruiva se virasse. Girando a cadeira para encontrar os olhos de Müller, Telles tinha um sorriso de escárnio no rosto, e Daniel, pela primeira vez, previu que boa coisa a sua presença não trazia. — Se lembra que há pouco mais de um mês você me enxotou da sua casa por causa da sua esposa de mentira? — Proferiu com um ligeiro tom malévolo. Daniel quedou-se calado. Apenas a encarou com o semblante enrugado. A ruiva segurou o monitor do computador sobre a mesa de vidro e virou a tela para Daniel. Os olhos claros se estalaram e ele deu um passo atrás ao ver um vídeo sendo exibido em volume mudo: a imagem íntima dele e de Melissa na noite anterior, transando. — E eu disse que não ia ficar barato.

♦♦♦

Daniel Müller sentiu que seu coração saltaria pela boca. Não conseguia desgrudar seus olhos da tela do computador, que rodava repetidamente sua relação íntima com a ruiva. Um misto de tensão, terror e surpresa fizeram sua respiração ofegar. Alternou olhar entre a imagem de vídeo e Melissa, totalmente estupefato. Só então, segundos depois, assimilando o que via a sua frente, percebeu que caíra numa emboscada. Pestanejou várias vezes, ainda atônito em ver o próprio rosto em uma relação sexual. Apesar de seus pensamentos estarem embaralhados, uma coisa era nítida a ele: a mulher pediria alguma coisa em troca da não divulgação do vídeo. Melissa debruçava-se sobre a mesa o fitando com um sorriso escancarado e diabólico, satisfeita em ter uma arma para se vingar do destrato que recebeu dias antes. Porém, astuta como era, usaria a prova para chantageá-lo sempre que quisesse. Num ato instintivo, Daniel avançou sobre o computador e arrancou o pen drive conectado à entrada USB, jogou-o no chão e pisou com força sobre o pequeno objeto, destruído em segundos.


Melissa Telles acompanhou a cena gargalhando. Levantou-se e contornou a mesa, pondo-se frente a frente a Daniel: — Acha que eu não tenho uma cópia? Duas? Talvez três? Como você é ingênuo… — proferiu irônica. Uma raiva descomunal concentrou-se nos punhos de Müller. A sorte de Melissa era ser mulher, pois se não fosse, ele com certeza já teria achatado aquele nariz arrebitado! Assim, precisou respirar fundo e fazer um exercício mental para constantemente se lembrar que estava lidando com uma mulher. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, lá estava a voz dela, que agora acreditava ser incrivelmente irritante. — Com que legenda eu posto esse vídeo na rede? — Inquiriu, e ele arregalou os olhos. Postar na rede? Daniel já imaginava que Melissa usaria o vídeo contra ele; pensou que ela mostraria à Sophia, e assim a loura saberia que havia quebrado sua promessa; ou mandaria uma cópia para algum colunista de revista de fofoca; ou, na pior das hipóteses, enviaria aos Hornet, e conhecendo a personalidade tradicional de Sebastian, previa um desentendimento com a família de sua esposa. Mas postar na rede de internet era mais insano do que podia pensar. Até porque Melissa também estava no vídeo. Ela seria realmente capaz de se expor dessa maneira somente para se vingar dele? Tudo indicava que sim. — “Daniel Müller em relação extraconjugal”? — Continuou ela. — Ou… “Herdeiro Müller tem fetiches em gravar suas relações extraconjugais”? — O semblante dele se fechou ainda mais. Percebeu então como Melissa era esperta. A ruiva poderia simplesmente alegar que ele quem fez as gravações. Se ela quisesse, além de destruir sua imagem com o vídeo íntimo, ainda conseguiria difamá-lo e até mesmo levá-lo a um processo, caso tivesse provas suficientes para acusá-lo deste crime. Amedrontado, não duvidou de que a ruiva tivesse pensado em tudo, que já tivesse as provas para incriminá-lo e sujar seu nome, sua honra e desmoralizá-lo diante a sociedade. Mas, principalmente, diante de Sophia. — Mas a minha preferida é: “Casado por conveniência, Müller tem relações extraconjugais e adora gravá-las. ” O coração de Daniel veio à garganta e voltou. O corpo já transpirava por dentro do terno, e ele sentiu uma gota de suor frio escorrer por sua testa. Com tal descrição, Melissa conseguiria expor dois fatos que ele vinha mantendo em segredo e uma terceira “verdade” totalmente falsa. Ele nunca gravara suas relações sexuais, mas com a arma que Melissa tinha em mãos, dificilmente conseguiria provar o contrário. — Faça isso e eu te coloco atrás das grades! — Finalmente conseguiu dizer, entre dentes, suas primeiras palavras após ver o vídeo.


Rindo sarcasticamente, Melissa inclinou a cabeça de lado, e Daniel sentiu que o que disse não fez efeito a ela. — Eu já fiz upload do vídeo, querido — pronunciou, e as pernas de Müller bambearam. — E foi daqui — apontou o dedo para a máquina —, deste computador. Com o seu endereço IP! Basta um clique em “postar” para que ele caia na rede. E junto a sua máscara! — Desgraçada! — Murmurou ao perceber que Melissa estava sendo esperta mais do que o suficiente. A ruiva sorriu outra vez, sempre satisfeita com seu plano. Achegou-se mais perto de Müller e, como de costume, segurou sua gravata, sussurrando melosamente enquanto enrolava os dedos nela: — Mas eu posso ser boazinha e desistir de postá-lo na internet. Basta fazer uma única coisinha que eu quero. Daniel não ficou surpreso. Na verdade, já esperava por essa chantagem; só restava saber que coisinha era essa que Melissa exigiria em troca de não divulgar o vídeo para Deus e o mundo. Mentalmente rezou para que fosse algo capaz de cumprir. — Que chantagem você pretende fazer com essa porcaria? — Indagou irritado e a afastou, andando até o meio do escritório. Se antes ele achava sensual o modo como ela enrolava os dedos em sua gravata, agora, somente em ouvir seu nome, o deixava irritado e com vontade de vomitar. A mulher fechou o semblante num falso desapontamento. — Eu não chamaria de chantagem, mas de acordo. — Diga logo o que quer! — Okay — ela concordou jogando os cabelos acobreados para trás e ajeitando os seios fartos. — Quero o cargo de secretária executiva… — Exibiu um largo sorriso e completou: — Do presidente. Quero o cargo de secretária executiva… Do presidente. As palavras dela entraram com nitidez nos ouvidos de Daniel, mas ainda assim, ele imaginou ter escutado coisas. Ele jamais trocaria Sophia por Melissa. Por três motivos: primeiro, Sophia era mais capacitada, tinha um currículo invejável e já havia adquirido experiência trabalhando na Swiss; em contrapartida, Melissa não havia nem concluído o terceiro semestre em Secretariado e sempre vivera à custo do dinheiro dos pais (que vivem em Miami) depositado para ela todo mês. A ruiva não sabia o que era trabalhar. Segundo, ele simplesmente não suportaria tê-la como sua secretária, já até imaginava o quanto seria assediado e provocado, e, pior ainda, poderia continuar a ser chantageado com o maldito vídeo; já referente à Sophia, como ele iria lhe explicar que ela não seria mais sua secretária? Que cargo Daniel arrumaria para não a desamparar? E em terceiro lugar, como qualquer cargo na empresa, Melissa precisaria passar por todas as etapas


por qual Sophia passou, e só então seria contratada. E Daniel não poderia burlar essa lei com favoritismo. — O quê…? — Daniel pronunciou totalmente confuso. — Você me entendeu, querido… — respondeu a ruiva sempre exibindo um sorriso de satisfação nos lábios. — Eu não posso dar esse cargo a você. Primeiro porque eu já tenho uma secretária, que é a Sophia; e em segundo porque tem todo um procedimento a ser seguido antes que você seja contratada e… Melissa revirou os olhos diante o discurso, que julgou ser entediante, e o interrompeu: — Daniel, você é o dono desta empresa. Pode contratar a quem quiser, na hora que quiser! — Argumentou já levantando a voz. — Melissa, o que você acha que é isso? Uma brincadeira de casinha? Somos uma empresa grande, de renome e importância no mercado; desculpe, mas eu não posso contratar uma incompetente! A mulher levou as mãos aos quadris, fechando a expressão. — Então prefere ter o vídeo em que tem relação íntima comigo divulgado na rede? Assim seja — pronunciou e contornou a mesa, já pronta a sentar-se na cadeira e postar o vídeo que poderia acabar com a imagem de Daniel, mas ela foi interrompida quando ele a segurou pelo braço fortemente. A ruiva tentou se desvencilhar, mas a pegada dele era forte. Fazendo um pouco mais de força, Müller a tirou de perto do computador e arrastou até o sofá em seu escritório, jogando-o sobre ele e a fazendo-a cair desajeitadamente. — Não deveria me tratar assim, seu idiota! Eu… — Gritou. Teria continuado com as injúrias se Daniel não tivesse avançado sobre ela e lhe tampado a boca com as mãos. — Vamos entrar em um acordo — ciciou entre dentes —, mas sem escândalos. Escutou? — A ruiva sacudiu a cabeça em sinal de positivo; vagarosamente ele se afastou. — Escolha outo cargo. O de secretária executiva, não! Não posso tirar a Sophia dele. — Esses são os meus termos, Daniel. — Rebateu inflexível. Ele bufou, impaciente. Precisava contornar a situação e convencer Melissa a aceitar outro cargo. Pensou por um segundo antes de dizer: — Heitor é o vice-presidente e também precisará de uma secretária. Converso com ele, e… — mas não pôde continuar porque ela o impediu mais uma vez. — Não, Daniel! Eu quero ser a sua secretária executiva… s-u-a! — Mas, Melissa…


— Nem “mais” nem menos, Daniel. Olha… quer saber, acho que você prefere ter seu vídeo divulgado, e quem sabe também uma coluna na Ti-Ti-Ti falando que Sophia se casou para salvar a família da falência e você para ter acesso a sua herança — cuspiu o que sabia. Daniel piscou repetidas vezes se perguntando como a ruiva tivera acesso à informação sobre a ConstruHornet. — Como sabe disso? — Indagou pausadamente. Até onde podia se lembrar não comentara nada sobre a falência da família de Sophia, falou, apenas, que ela tinha sido deserdada. Nada mais que isso. — A única coisa que importa é que a fonte é segura. — Responde. — Já disse: o cargo de secretária e eu não publico esse vídeo. Müller pensou por um minuto. Ele estava entre a cruz e a espada e num impasse que o deixava aflito, principalmente porque nada lhe garantia que Melissa, mesmo sendo contratada como sua secretária, não divulgaria o tal vídeo. — E o que me garante que não irá me chantagear de novo? Mesmo que eu te dê essa vaga? A ruiva sorri pelo canto da boca e se levanta do sofá, ajeitando, outra vez, os fartos seios. — Te darei todas as cópias que eu tenho. Além deste aí, que já destruiu, são mais três. Se me der a vaga agora, cancelo o upload no canal de vídeos. Ele a encarou. Aquela garantia não lhe valia de nada. Respirou fundo, sentindo-se já derrotado. Melissa estava determinada a querer o cargo que era de sua esposa. Esvaziando a mente por um minuto, pensou em uma segunda opção para solucionar os seus problemas, mas será que realmente haveria? Talvez oferecer uma boa quantia em dinheiro a ela pelo resto de sua vida? Talvez invadir sua casa e procurar pelas cópias e destruí-las? Talvez pagar na mesma moeda? Mas a única solução que encontrava naquele momento era dar a ela o cargo de secretária e confiar na sua palavra. — E então? — A ruiva indagou o arrancando de seus devaneios. — O que vai ser? Vencido pela insistência e pela chantagem, Daniel não via outra saída. Mas ele tinha seus próprios métodos de não a deixar por muito tempo no emprego. E usufruiria deles ao máximo para livrar-se da ruiva diabólica. —Tudo bem. — Enfim cedeu — O cargo é seu!

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Melissa saiu do prédio da Swiss Chocolate com ares de vitória. Havia conseguido o que


queria. Como secretária de Daniel, estaria mais perto dele e, assim, poderia fisgá-lo para si e garantir que quando se divorciasse de Sophia, já estivessem envolvidos o suficiente a ponto de, finalmente, ser assumida. Coisa que ela sonhara desde que começaram a sair casualmente, pouco mais de um ano antes. Do outro lado da rua, estava o jovem que a ajudou com a chantagem. Indireta e inconscientemente. O belo rapaz de olhos verdes-claros e cabelos médios cacheados tinha sido só mais um peão no seu jogo de xadrez para conseguir a informação que precisava. Logo o descartaria, mas por hora se divertiria com ele. Ao alcançá-lo, foi recebida com um beijo intenso e tendo suas nádegas apertadas. Sorriu entre os beijos e enrolou seus dedos nos caracóis dele. — Oi, ruiva — disse o jovem cessando o beijo —, e aí, conseguiu o emprego? Antes de responder, ela se enroscou nos braços dele e passaram a caminhar. — Sim, e em um ótimo cargo. — Pronunciou orgulhosa. — Qual? — Inquiriu sorrindo. — Secretária executiva do Daniel. No mesmo instante, ele parou de andar. Olhou para Melissa, confuso. — Espera… Esse cargo é da Sophia. Por que ele faria isso com ela? — Daniel disse que está pensando em promovê-la a um cargo melhor. — Mentiu. — Relaxa, Eduardo, não estou roubando o cargo da sua irmã. Eduardo Hornet acenou brevemente, mesmo se sentindo um pouco atônito com a notícia. Vendo que ele continuava desconfiado, Melissa também alegou que, como esposa de Daniel, sua irmã não precisaria mais trabalhar. — Tem razão. — Concordou e sorriu. — Livre amanhã à noite? Para comemorarmos? — Para você, sempre, bebê — respondeu beijando-lhe os lábios. Eduardo sorriu, mal sabendo que dentro de pouco seria descartado.

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Melissa chegou ao seu apartamento, mas não deixou Eduardo subir. Justificou que estava cansada e queria se preparar para o dia seguinte, pois começaria como secretária de Daniel. Mesmo que meio a contragosto, o rapaz atendeu a seu pedido e foi embora. Sentindo-se mais que vitoriosa, a ruiva se serviu de uma generosa taça de vinho e saboreou


o etílico pensando em como tiraria Eduardo da jogada. Logo quando Daniel a expulsou da mansão Müller dias antes, ela sentira seu sangue ferver. A loura estava recebendo mais atenção dele do que realmente merecia e Telles estava sendo jogada de lado. Pensando em se livrar de uma vez de Sophia, primeiramente precisava saber mais sobre a Hornet e sua suposta deserção. O que ela fez de tão ruim que foi deserdada?, divagava. Decidida a descobrir o que havia por trás daquele rostinho bonito e olhos verdes, Melissa começou sua investigação. Dois dias depois sabia que ela tinha um irmão. Eduardo Hornet. Oh… e ele era um pedaço de mal caminho. Cabelos médios e encaracolados, olhos verdes, cavanhaque bem aparado e traços perfeitos, além de um corpo largo e bem cuidado. Seria fácil seduzi-lo e, de forma desapercebida, tirar dele a informação que queria sobre Sophia. Ela conseguiu um encontro com ele, e três semanas depois já estavam se encontrando casualmente. No último encontro, uma semana antes de fazer o vídeo íntimo de Daniel com ela, Eduardo e Melissa recuperavam o fôlego após uma rodada de sexo. Ela deitou em cima do braço dele e beijou o peito branco. — Você sempre maravilhoso — ofegou e enrolou seus dedos nos caracóis. — Aquela Cecília foi uma idiota por não ter lhe dado valor. Ele sorriu e beijou-a no alto da cabeça. — Isso eu preciso concordar. — Brincou, e riram juntos. — Estou precisando trabalhar. Acha que seu pai pode me arrumar alguma coisa na ConstruHornet? — Perguntou para puxar o assunto e, quem sabe, chegar aonde queria. Eduardo pigarreou um pouco e se ajeitou na cama, tirando a ruiva de seus braços. — Ah… eu acho que não, Melissa. — E por que não? — Indagou e se sentou, puxando os lençóis para cobrir os seios. — Já temos funcionários suficientes — mentiu balbuciando nas palavras. A ruiva o encarou por um segundo. Sabia que tinha alguma coisa ali. Por isso, continuou o instigando. — Você também foi deserdado? — Como? — Exclamou confuso — O que quer dizer com “você também foi deserdado”? — Bom, a Sophia foi deserdada, certo? — Não, — negou de pronto — ela não foi deserdada. De onde tirou isso? Confusa, Melissa pisca várias vezes. Ela tem certeza que foi isso que Daniel disse sobre Sophia. Lembra-se com nitidez das palavras de Müller: de que a loura aceitou o casamento de


conveniência deles porque tinha sido deserdada e precisava de dinheiro. — Foi o que eu ouvi falar por aí. — Buscou por uma desculpa rápida. — Quem disse isso mentiu descaradamente. — E então? Eduardo, tem alguma coisa que eu não sei? Ele desvia os olhos e pigarreia de novo. — Confie em mim. Me conte o que é. Eduardo a olha outra vez. — Promete manter segredo? Melissa cruza os dedos e os beija, fazendo alusão à jura. Com um suspiro Eduardo Hornet conta tudo a ela, desde o princípio, sem saber que, assim, estaria a ajudando a, futuramente, destruir a própria irmã.


25 TRIÂGULO

C

aminhando rapidamente até a sala de reunião para prepará-la, Sophia ouvia os próprios saltos fazendo barulho contra o piso de mármore, já se preparando psicologicamente para encarar Miguel.

Lembra-se da última vez que o viu: no dia de seu noivado, que, por acaso, ele apareceu sem ser convidado e, ainda por cima, arrumou uma confusão com Daniel. Antes de chegar à sala que aconteceria o encontro com Guimarães, parou na copa e tomou um café preto, trocando meia dúzia de palavras com a funcionária que se encontrava lá. Tornou a fazer seu trajeto. Chegou a seu destino e, ao abrir a porta da sala, se deparou com Miguel. Assustada com sua presença inesperada, deu um sobressalto. — Que susto, Miguel! — Protestou recuperando ar para os pulmões. Ele sorriu de lado. Estava sentado na ponta extrema da extensa mesa de vidro. Trajava jeans tingido, camisa polo e um blazer azul marinho; seu rosto, como de costume, sem barba, e os cabelos bem penteados para trás, dando destaque aos seus olhos verdes. — Não sou nenhuma assombração — comentou rodando um lápis na mesa. — Parado aí, parece — responde Sophia entrando e fechando a porta. — Nossa reunião é dentro de quarenta minutos. — Eu sei. Mas gosto de chegar antes. Sophia revira os olhos e apoia as coisas que traz consigo sobre a ponta extrema da mesa, oposta à de Miguel. — Não, não gosta. Lembro-me muito bem que você era sempre o último a chegar na LG Construtora. — Eram bons tempos… — murmura sem deixar de rodopiar o lápis. — Então, como foi a viagem de lua de mel? — Indaga e se levanta caminhando vagarosamente até ela. — Não é do seu interesse — rebate separando o material da reunião. — Você já foi mais educada — diz, e quando ela percebe Miguel já está do seu lado. Ela o olha e dá um passo atrás, mantendo certa distância.


— Calma, Sophia, eu não mordo. — Mas gosta de provocar. Logo o Daniel chega e eu não quero confusão. — Argumenta. — Não irei arrumar confusão com ninguém. Prometo. Ela apenas acena e continua a preparar o material para a reunião que terão dentro de pouco. Sophia sente que Miguel continua a seu lado, a observando, e isso a incomoda. Apenas reza para que quando Daniel entre pela porta não tenha um ataque como fez no navio. Mentaliza a si mesma que ele cumprirá com sua palavra de tentar se controlar. — Precisa de ajuda? — Ouve a voz de Miguel, e no mesmo instante a mão dele toca a sua. Rapidamente, Sophia se desvia do toque e dá um passo atrás, mas ele a impede, segurandoa pelos punhos e a puxando para si. Seus peitos se colidem e Sophia está assustada demais para ter qualquer reação. — Miguel, me solte… — gagueja. — Eu ainda te amo, Sophia. — Sussurra se aproximando dos lábios dela. — Então, por favor, me deixe em paz. — Suplica inclinando a cabeça para trás, tirando sua boca do alcance dele. Mas Miguel é impassível. Continua a forçá-la para si, enquanto, agora, ela luta contra suas garras. — Não é possível que tenha esquecido nossos bons momentos. — Murmura tentando beijá-la. — Miguel, para! — Sophia consegue se impor e o empurra, se afastando. Porém, Guimarães é mais rápido. No mesmo segundo em que Sophia lhe dá as costas, ele a agarra outra vez e a beija à força. Sophia reluta, contorcendo o corpo, usando de todas as suas forças para se desagarrar a ele, mas os braços de Miguel são mais fortes e ela não consegue se desvencilhar. Súbito, a porta se abre e os dois se viram para encarar Daniel.

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Daniel sente seu sangue borbulhar de raiva. A cabeça chega a doer e tem quase certeza de que seus olhos saltam para fora de sua órbita ocular, tamanha fúria percorre seu corpo. A vontade que sente é de avançar sobre Miguel, agarrá-lo pelo colarinho, jogá-lo sobre a mesa de vidro e encher o rosto bonito de socos até deformá-lo e ninguém o reconhecer. Ele luta contra seu eu troglodita, se concentra em não fazer besteira para não magoar Sophia, e assim não quebrar uma das promessas que fez.


Você já quebrou uma, sua consciência acusa, não quebre outra! — Daniel… — Sophia pigarreia na intenção de se explicar. — Precisamos conversar, Sophia — ele diz ríspido sem tirar os olhos de Miguel. — Te espero no corredor. — Olha para ela e sai em seguida. Do outro lado, Müller faz um exercício mental para se manter calmo. Inspira e expira seguidas vezes para acalmar seu coração acelerado. Ele viu Miguel beijando Sophia e isso o enfureceu. Não só porque o canalha beijara sua “esposa”, mas porque nitidamente era um beijo roubado. Percebeu o modo como Sophia lutava contra os braços fortes dele. Com certeza, em outras circunstâncias, teria dado uma lição no atrevido. Outra daquela sensação o invade e seus sentimentos o confundem ainda mais. Foi retirado de suas divagações quando Sophia fechou a porta e o chamou. Ele se virou de pronto, ainda tentando controlar a cólera dentro dele. — Daniel, não é o que está pensando. — Eu sei. Eu vi como você relutava. Ele te roubou um beijo, não é? Ela apenas disse sim com um maneio de cabeça. — Esse imbecil pede para apanhar — grunhe fechando os punhos. Sophia se aproxima segurando em suas mãos. Sentindo o contato brando, Daniel a olha e depois divisa seus dedos entrelaçados. No mesmo instante, ele se sente um pouco mais calmo. — Não faça nada, por favor. — Pede serenamente. — Não fazer nada? Se eu não fizer nada ele continuará te atormentando. — Rebate com a voz calma — Eu sei, Daniel, mas deixe que eu me resolvo com ele. — Não, Sophia! Vou conversar com Miguel. Prometo não fazer bobagem, ok? — Indaga, e ela acena sorrindo. — O que queria falar comigo? Daniel se afasta um pouco, pensando em como responder. Leva as mãos até o rosto e o afaga com um suspiro. Sophia repara em sua tensão e dá um passo à frente perguntando sobre o que está acontecendo. Ele pigarreia antes de dizer: — Sabe a Melissa? Melissa Telles…? — Sim. A ruiva. O que tem ela? — Há um tempo Melissa… me fez um favor, e eu devo isto a ela, entende? — Diz, e Sophia acena em positivo. Então, ele continua: — Agora, ela está me cobrando e eu preciso pagar essa


minha dívida. — Onde quer chegar, Daniel? Ele umedece os lábios e desvia o olhar, ainda sem saber como dar tal notícia. — Ela quer a todo custo o cargo de secretária executiva… do presidente. — Profere e a olha, tensionando o maxilar. Sophia pestaneja várias vezes, assimilando o que acabara de ouvir. — E eu dei a ela… — termina para deixá-la ainda mais atônita. — Mas, Daniel… esse cargo é meu… — murmura. — Eu sei, Sophia… — enuncia e se aproxima segurando o rosto dela com as duas mãos. Daniel olha para dentro daqueles olhos verdes que estão atordoados. Consegue ver a si próprio dentro da íris esverdeada. Imagens da noite anterior de ele com Melissa invadem sua mente e socam seu peito em um arrependimento angustiante. Sophia não merecia. Sou mesmo um idiota. — Mas se eu não fizer isso — continua ele —, Melissa vai me infernizar o resto da vida. Olha, eu prometo que não será por muito tempo, tudo bem? — Por quanto tempo? — Cicia gostando do toque dele sobre sua pele do rosto. — Três meses, no máximo. Só o tempo suficiente da experiência, depois eu a despeço alegando que ela não supriu minhas expectativas. Se Melissa cumprisse com sua promessa de entregar a ele as cópias de vídeo que tinha, assim que as destruísse e tivesse certeza de que não haveria mais nenhuma cópia, então, a despediria e faria questão de deixar bem claro aos seguranças que não permitissem sua entrada em qualquer propriedade da Swiss Chocolate dentro ou fora do Brasil. Mas, primeiramente, era preciso calma. No dia seguinte Daniel conversaria com Melissa, mesmo que previsse que, esperta como era, não entregaria todas as cópias de uma vez. Sendo assim, caso isso acontecesse, Daniel tomaria as próprias providências para possuir todas as cópias e destruí-las, podendo, dessa maneira, demiti-la antes do prazo de três meses. — Está bem, mas, e eu, como fico? Não posso parar de trabalhar, Daniel! — Protesta calma e olha as grandes mãos que ainda seguram seu rosto. E ela deseja que esse toque não se desfaça. — Não sei, posso falar com Heitor. O que acha? — Acho que não, Daniel. Com certeza seu irmão irá preferir uma ameba cheia de peito e bunda. — Alega, e ele gargalha. — É, provavelmente… — concorda rindo. — Que tal, então… Assessora de imprensa? Assim pode ficar perto de mim — sugere, e novamente os dois estão se olhando.


— Eu não sou formada em Relações Públicas — argumenta com um sussurro desviando seus olhos para os lábios dele. — Você aprende rápido — ele murmura de volta também olhando para os lábios de Sophia. De repente ele vê Miguel surgir no fundo do corredor. Alterna o olhar entre ele e Sophia. A imagem de ele beijando-a o invade e Daniel faz um esforço tremendo para segurar suas pernas e impedi-las de irem até o desgraçado para arroxear seu olho verde. — Pode me dar um beijo? — Sussurra deixando suas bocas centímetros uma da outra. — O quê? — Exclama confusa. — Só um beijo… — murmura, e antes que ela lhe dê uma resposta, Daniel cola seus lábios delicadamente. Levada pelo momento, e mesmo sem entender o pedido repentino por parte de Müller, ela separa sua boca permitindo que a língua dele a invada em um beijo que estremece suas bases. A mão dele contorna sua cintura, como sempre faz, e a traz mais para perto, a outra emaranha nos fios acima de sua nuca e a acaricia ali, deixando-a totalmente extasiada. Enquanto a beija, Daniel olha para Miguel, que tem a expressão fechada, o maxilar cerrado e um vinco entre as sobrancelhas. Ignora sua presença, fecha os olhos e a beija com mais intensidade, mostrando a Guimarães que, se seu plano cliché era fazê-lo pensar bobagens, falhou. Miguel torna a entrar na sala de reunião, e mesmo que Daniel tenha percebido sua ausência, continua a beijar Sophia.

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Daniel e Sophia entraram de mãos dadas na sala de reunião. Miguel se encontrava parado frente à janela de vidro que ia do chão ao teto, olhando o movimento de carros muitos metros abaixo dele, com as mãos postas dentro da calça jeans justa. Após cessar o beijo em Sophia, Müller explicou a ela o motivo repentino de ele ter a beijado. Compreensiva, ela exibiu um sorriso pequeno, mas, interiormente, e sem saber por que, sentiu uma pontada de decepção. Já na sala, antes que pudessem dizer qualquer coisa, Guimarães se virou para os dois, notando suas presenças. Daniel fez um esforço para não avançar sobre ele e lhe apertar a jugular, por ter sido atrevido em roubar um beijo de Sophia. Ao vê-los, e como se nada tivesse acontecido minutos atrás, Miguel pôs no rosto um sorriso amigável – mas ao mesmo tempo irônico, e nenhum deles devolveu. — Daniel! — Saudou. — Como é bom revê-lo.


Ignorando a presença inoportuna de Miguel e seu falso cumprimento, Müller caminhou em silêncio até sua cadeira, na cabeceira da extensa mesa de vidro. Sentou-se à cadeira de couro controlando seus nervos, lembrando-se de não extrapolar e fazer besteira. Inspira fundo enquanto Sophia o acompanha e se põe ao seu lado direito. — Vamos logo ao que interessa, Miguel — disse Daniel com desagrado, apoiando os cotovelos sobre a mesa e o queixo sobre as mãos unidas em triângulo. Rapidamente, pensou na loucura que estava sendo seu dia, que mal começara – por sinal. Primeiro, Melissa e sua maldita chantagem com o vídeo; segundo, Miguel e sua presença insuportável. Será um longo dia!, divagou. Guimarães ajeitou a gola do blazer e se sentou três cadeiras longe de Sophia, mas constantemente olhando para ela, que continuava a mexer em uma papelada e mantinha-se calada desde que entrou. Sorriu pelo canto da boca a observando, sem se importar com sua indiscrição ou com a presença do esposo da ex que ainda amava. — Sophia não é o foco da nossa reunião — proferiu Daniel irritado, percebendo os olhares de Miguel sobre sua esposa. — Tem razão — concordou ele pegando sua maleta de couro marrom sobre a mesa e a abrindo. Retirou alguns papéis que possuíam cópias e entregou uma de cada a Daniel. A reunião foi iniciada; durante quase que o tempo todo Sophia quedou-se calada, anotando o que considerava importante sobre o que Daniel e Miguel conversavam. As poucas vezes que se pronunciou fora para pautar o encontro e direcioná-los para o novo tema a ser discutido. Mesmo sob o aviso de Daniel aos olhares indiscretos à Sophia, ainda assim, Miguel continuou a, vez ou outra, a mirá-la e sorrir pelo canto da boca, e isso estava irritando Müller de uma forma quase incontrolável. Num dado momento, Daniel se imaginou segurando-o pelo colarinho e o jogando sobre a mesa de vidro. Foi despertado com Sophia o chamando. — Sobre o material de construção, a logística está um pouco atrasada com a entrega, mas vamos dobrar o número de funcionários para compensar esse contratempo — disse Miguel. Müller não via a hora de a reunião acabar, pelo simples fato que já não conseguia controlar os próprios nervos, e sentia que de uma hora para outra iria explodir e agredir o cretino a sua frente. Continuaram conversando e acertando sobre prazo de entrega, analisaram, mais uma vez, a planta do projeto da construção e até uma imagem em 3D que Miguel imprimiu de como ficaria quando a obra fosse finalizada. Depois de uma hora reprimindo o eu troglodita que Daniel carregava dentro de si, o contendo para que não tivesse voz e o dominasse de vez, a reunião por fim acabou e, mesmo sem vontade alguma, Müller se despediu de Miguel com um aperto de mão, mas com um pouco mais de força do que o habitual.


Já Guimarães, em momento algum se importou com a irritação do outro. Pelo contrário, estava se divertindo. Cessou o cumprimento e mirou Sophia, que quase não se pronunciou durante a reunião. Sorriu outra vez e se aproximou dando-lhe um beijo no rosto. — A gente se vê por aí, Soph. — sussurrou ao pé do ouvido dela, virou nos calcanhares e saiu primeiro, deixando Daniel vermelho de raiva.

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— Miguel! — Müller gritou no corredor, andando a passos rápidos atrás dele. O outro virou-se na direção que a voz o chamava e aguardou, sorrindo ironicamente pelo canto dos lábios, já imaginando o que Daniel queria com ele. Daniel dava passadas decididas e firmes, ainda tentando reprimir sua vontade de agir com violência. Saiu da sala de reunião – onde há pouco esteve – prometendo a Sophia que teria uma conversa civilizada com Miguel. Pelo menos vou tentar. — Temos que conversar — pronunciou com voz dura. Miguel acenou brevemente. Müller o alcançou. Abriu a primeira porta que viu no corredor. Tinha apenas alguns estagiários de Publicidade e Propaganda trabalhando nos computadores, pediu a eles que se retirassem e foi atendido de pronto. — Deixei passar alguma coisa na reunião? — Indagou Guimarães, nitidamente visível de que estava dando um de desentendido. — Só vou avisar mais uma vez, Miguel: — pronunciou Müller entre dentes —, não quero que se aproxime da Sophia, da minha esposa. Esposa! Fui bem claro? Miguel permaneceu calado, estreitou os olhos para Daniel e exibiu outra risota sarcástica. — Claro… — disse por fim, mas Daniel sentiu que seu aviso não valeu de nada. — Não irei mais atormentar a Sophia. A sua esposa. — Estou falando sério, Miguel! — Advertiu-o, mais alto, percebendo que Guimarães debochava. — Aquele beijo que você a forçou a dar, sabe que poderíamos te denunciar por assédio, não sabe? — Ameaçou. — É meu primeiro e último aviso: fique longe da Sophia! Não pense que vai atrapalhar nosso casamento, porque você não vai! — Daniel não soube explicar exatamente por que dissera essa última frase com tanta convicção, mas sentiu a necessidade de dizê-la, levemente incomodado com a ideia de uma separação – por mais que ela fosse iminente. — Só vou dizer uma coisa a você, Daniel — Miguel igualou sua voz à de Daniel, dando um passo à frente. Seus rostos ficaram próximos um do outro a ponto de sentirem o ar quente de suas respirações —, eu não vou precisar mover um dedo para atrapalhar esse casamento. Quem irá afundá-lo será você mesmo. E advinha que estará lá para consolar a Sophia? — E entortou o


canto da boca em um sorriso satisfeito. Daniel engoliu em seco. A raiva continuava a queimar dentro do seu peito, eletrizando seu corpo de ponta a ponta. Ele sequer podia imaginar Miguel consolando Sophia. Controlou a ira que vinha subindo pela sua garganta. Engoliu a bílis que desceu queimando em raiva. Miguel estava errado, pois não conhecia um terço da história, do envolvimento dele com Sophia. Pensou em como Guimarães estava sendo patético ao imaginar que eles estavam lutando pelo amor de Sophia. Dentro de seis meses você pode consolá-la, imbecil. — Espere sentado — respondeu enfim. — Sophia nunca vai precisar do seu consolo. Miguel emitiu uma risada nervosa e desviou os olhos, mirando para baixo, para logo em seguida encarar Daniel nos olhos. — Não só irei consolá-la, como serei eu a limpar a merda que você fará, Daniel — proferiu como se previsse o futuro. Müller juntou a sobrancelhas, não entendo de que diabos Miguel estava falando. — É só questão de tempo até Sophia ser minha de novo. — Emendou, e sem esperar por uma resposta saiu, deixando-o sozinho.

♦♦♦

Daniel entrou em seu escritório e bateu a porta fortemente atrás de si. E lá estava de volta, dominando todo seu corpo, o troglodita que surgira dentro dele desde que Sophia entrou em sua vida. Pegou o primeiro objeto que viu pela frente – um peso de papel esculpido em forma de anjo – e jogou contra a parede, visivelmente nervoso. Sophia abriu a porta e entrou, atônita com a reação de Müller. Viu-o de costas, afagando a nuca enquanto andava até sua cadeira giratória de couro e se sentava com brutalidade. Ela ficou preocupada ao vê-lo chegar depois da conversa com Miguel, e percebeu que estava demasiadamente fora de si, pois passou por ela e a ignorou quando perguntado sobre o que foi conversado com Guimarães. Segui-o no intuito de saber o que estava acontecendo. — Daniel, se acalme… — emitiu um sussurro, se sentindo assustada. — Não me peça para ter calma! — Trovejou. — Estou tendo um dia de merda! E isso porque são onze e meia da manhã! A loura ficou calada. Esperou que o chefe se acalmasse, permanecendo em sua sala. Queria saber o que o deixara tão irritado, e se a irritação estava relacionada a Miguel. Provavelmente, sim, pensou, sentando-se em uma das cadeiras de frente para a mesa de Müller.


— O Miguel te irritou, não é? Daniel bufou. Inspirou fundo fazendo a calma voltar. — Sim. — O que ele te disse? — Não quero falar sobre isso. Sophia apenas acenou, respeitando a vontade de Daniel. — Não é apenas isso, mas tem toda essa história da Melissa — sacudiu a mão no ar enquanto falava, já se acalmando. — Se não a quer aqui, por que a contratou? — Inquiriu Sophia. — Eu já disse: devo um favor. Mas eu te juro que dentro de três meses essa mulher não põe mais os pés dentro da minha empresa! — Proferiu Daniel com determinação e uma pitada de raiva. Sophia estranhou tal comportamento, visto que eles pareciam se darem muito bem. Percebeu, naquele momento, que o buraco era mais fundo e que Daniel não devia somente um mero favor, mas que havia algo muito mais relevante em jogo. — Quando ela começa? — Afastou os pensamentos e continuou sua conversa. — Amanhã mesmo. Me desculpe, Sophia… — suspirou derrotado. — Se puder já ir desocupando a sua sala… — e a olhou com uma pequena ruga entre as sobrancelhas grossas, nitidamente incomodado com tal pedido. — Tudo bem — anuiu ela. — Tem ideia de onde eu ficarei até que isso tudo volte ao normal? Pela primeira vez Daniel sorriu. Sabia onde exatamente Sophia ficaria. Olhou em volta, depois voltou-se a ela, os olhos brilhando. — Aqui… comigo.


26 CONSUMADO Dois meses depois.

inal de dezembro havia chegado. Dois meses já tinham se transcorrido, e Daniel não via a hora de ter que demitir Melissa de uma vez por todas. Como o previsto, ela não entregara todas as cópias do vídeo de uma só vez, alegando que se fizesse isso saberia que seria demitida.

F

— … e eu não terei mais como chantageá-lo — dissera a ele no segundo dia como secretária executiva, para seu enfurecimento. Mas Daniel aguardou pacientemente, até porque a ruiva não fizera mais nenhuma chantagem, nem mesmo insinuações sobre o vídeo. A primeira cópia foi entregue um mês depois que a contratou; a segunda, no começo daquele mês; e a terceira ela tinha prometido entregar ao fim de janeiro. Como ele também já havia ponderado, Melissa vinha o assediando. Às vezes, aparecia com roupas chamativas demais; saias curtas e justas que ela fazia questão de usar e de se agachar na frente dele, se insinuando; decotes exagerados mostrando os seios fartos e quase os esfregando em sua cara quando estavam próximos; esbarrões de propósito para lhe tocar as partes íntimas. E mesmo que ele lhe advertisse sobre suas vestimentas extravagantes, a ruiva não lhe dava ouvidos, e, ocasionalmente, se vestia com roupas chamativas. E ele sequer poderia exigir alguma coisa, ou ameaçá-la de demissão. Por causa do maldito vídeo e de suas malditas chantagens, Daniel estava de mãos atadas. Por isso, os últimos dois meses estavam sendo o inferno. Mas também estavam sendo o céu. Sophia, como combinado, se responsabilizou em ficar como sua Assessora de Imprensa; com seu empenho e dedicação, ela estava se saindo muito bem. A vida empresarial de Daniel melhorou consideravelmente desde que Sophia assumiu o cargo, além do que, muitas vezes, ela mesma consertava erros causados pela incompetência de Melissa. Müller lhe arrumou um lugar em sua sala, disponibilizou uma pequena mesa com computador, telefone e acesso à internet, permitindo, dessa maneira, que ela ficasse próximo a ele. Fora da empresa, eles continuavam tendo uma boa convivência. Daniel não fizera mais


nenhuma besteira (como sair com Melissa e permitir ser gravado) que pudesse se arrepender; refez, mentalmente, a promessa de honrar seu casamento e há dois meses a única mulher que tinha, além de Sophia, era sua mão direita. Às vezes, a esquerda. Vez ou outra, se imaginava com a loura, nus, numa cama macia e de lençóis brancos, emaranhando seus corpos suados. O que o deixava ainda mais confuso, sem saber explicar o porquê a desejava tanto assim, de uma forma como nunca se sentiu atraído por ninguém. Também não agiu como um troglodita, se controlava sempre o máximo que podia quando o mesmo sentimento queimava dentro do seu peito por causa de um homem a cortejando. Aprendeu a conviver com isso, afinal, ela é uma mulher bonita. Miguel continuava a atormentá-los, e até pensou que Orleans e Melissa fariam uma boa dupla de antagonistas de novela mexicana. Porém, pelo menos na última semana, não tiveram mais notícias de Guimarães. Continuavam a se beijarem quando tinham a necessidade de encenar o casamento, mas, mesmo sendo um beijo “forçado”, ambos se perdiam um nos lábios do outro, e só paravam quando um deles percebia que se envolvia mais do que deveria. Por vontade própria, durante aqueles últimos meses, não trocaram mais carícias, mesmo que Sophia desejasse, lá no fundo de seu íntimo, que em um dos beijos técnicos, Daniel escorregasse sua língua até seu pescoço e o molhasse com carinhos sensuais. A boa convivência afunilou a amizade do casal, deixando-os mais íntimos e aumentando em ambos o carinho mútuo que sentiam um pelo outro. Mas continuavam a dormirem em quartos separados. Até o natal. Daniel convidou a família de Sophia para passarem a ceia e o dia de Natal junto deles. Todos compareceram, e após a queima de fogos e festança do dia 24 para o dia 25, foram se deitar. Sophia entrou receosa no quarto de Daniel. Poucas vezes esteve ali, e sempre fora para acordá-lo, pois havia perdido a hora. Trazia nas mãos uma muda de roupa para quando acordasse e um pijama para dormir. Eles se trocaram e deitaram um ao lado do outro. Era pouco mais de três da manhã, mas nenhum dos dois tinha vontade de dormir. Ambos miravam para cima, fitando o teto do quarto dele, sentindo seus ombros se tocarem. O silêncio se fazia presente, mas seus corações tamborilando dentro do peito de forma descompassada era ouvido a metros de distância. Estavam nervosos. Daniel deitou de lado, fitando a beleza tão próxima. Sorriu observando Sophia, de cada traço genético e natural dela, dos cabelos aos braços finos, das pequenas ruguinhas entre suas sobrancelhas –quando ela se voltou a ele e enrugou o sobrolho ao vê-lo a observando – ao cheiro natural que vinha da curva do seu pescoço. — Isso é estranho… — ela sussurrou. — O quê…? — Murmurou de volta, ainda correndo seus olhos pelo tronco dela, atento aos seios redondos e sem sutiã dentro de uma camisa de alças.


— Estarmos na mesma cama. — Não é a primeira vez. — Afirma baixinho. — Eu sei… — ela sorri e também se deita de lado. Ambos permanecem em silêncio, apenas um olhando para o outro, sem nenhum tipo de constrangimento. E ficam assim: quietos e se olhando dentro dos olhos, até caírem no sono. Após o natal, Daniel resolveu viajar para o Rio de Janeiro e passar a virada do ano-novo na casa de praia exclusiva que tinha em Angra dos Reis. Em confraternização, convidou alguns amigos da empresa e funcionários, e para seu desagrado, Melissa Telles, pois, ao saber da viagem até a cidade, se auto convidou, e Daniel nem pode contestar, sempre sendo chantageado. Mas jurou a si mesmo que se manteria o mais longe possível da ruiva. A casa de praia em Angra dos Reis era grande e também possuía mais duas dependências no fundo, onde foi acomodado a meia dúzia de pessoas que o acompanharam. Na casa principal ficaria apenas ele, Sophia e Heitor. Na noite do dia 31, Sophia e Daniel saíram para jantar e depois assistir à queima de fogos, enquanto Heitor e os outros convidados decidiram ir para uma boate. Ela trajava apenas um vestido branco de alças, que marcava perfeitamente cada curva de seu corpo, e uma sandália nos pés. Ele, com seu habitual terno e gravata, a calça e paletó justos ao seu corpo, ressaltando os músculos dos braços. Sentaram-se na areia da praia, no meio de outras pessoas. Sophia recostou-se ao ombro dele e assistiram à queima de fogos; depois se abraçaram fortemente com desejos de um bom ano-novo, de prosperidade, amor, paz e felicidade. O ponteiro marcava duas da manhã quando decidiram voltar para a casa. Caminharam por meia hora na areia da praia privativa. Sophia carregava as sandálias nas mãos, sentindo a areia fofa acariciar seus pés, enquanto Daniel contava uma piada qualquer de advogado. Eles riram, e inconscientemente Sophia recostou-se a ele, gargalhando de forma contagiante. Pararam de caminhar e deitaram para observar o céu estrelado. — Não pulamos sete ondinhas — disse Sophia a Daniel com seus olhos grudados ao firmamento. — Não acredito nessas bobagens — rebateu com um sussurro. — Vamos fazer isso. — Decretou já se levantando, deixando Daniel desorientado. Abria a boca para perguntar alguma coisa quando ela a puxou pelo punho, forçando-o a se levantar. — Venha, ande logo! Rindo, ele a acompanhou e, de mãos dadas, pularam as sete ondinhas, meio desajeitados por conta da brisa que os desequilibraram. Gargalharam da quarta até a sétima onda.


Por fim, já exausto, Daniel a convidou para entrarem em casa. — Quero dar um mergulho no mar antes de entrarmos — pediu Sophia. Ele a olhou confuso. — Sophia, é tarde. Deixe para amanhã. — Hoje já é amanhã, querido — ela proferiu de bom humor. — É só um mergulho. — antes que ele pudesse protestar, Sophia tirou o vestido, decidida a dar o mergulho noturno, ficando apenas com suas roupas de baixo. Daniel engoliu em seco olhando para ela, o corpo curvilíneo o tirando do eixo. A imagem de três meses antes, quando ele, num piscar de olhos, a viu nua, vem à sua mente. — Não demore. É perigoso — avisou, tentando desviar sua atenção do pecado. Ela revirou os olhos. — Pare de ser chato, Daniel. Você vem? — O convida, mas ele nega com a cabeça. Ela então vira as costas e caminha para dentro da água. Daniel sorri pelo canto da boca ao vê-la ser atingida por uma onda e do sobressalto que dá ao sentir a água gelada contra sua pele. Sophia vai avançando para dentro do mar e mergulha. Ele levanta os olhos fitando as estrelas. Tira o paletó e afrouxa a gravata, descalça os sapatos sociais querendo se sentir mais confortável – ou ponderando entrar na água com Sophia. Olha outra vez para o mar, e ela surge de seu mergulho, passando a mão para tirar os cabelos grudados ao rosto. Outro sorriso. — Vem, Daniel! A água está ótima — Sophia grita. — A água está gelada! — Frisa aos risos. — Pare de ser frouxo! — Responde de volta. A água bate na altura de seus seios. — Está com medo de uma aguinha gelada? — Ok… — dá-se por vencido e termina de se despir até estar somente de cueca; o terno fica na areia. — Verá quem é o frouxo, senhorita Hornet. Caminha a passos lentos, sentindo a areia fofa tocar seus pés; ele vê Sophia dando outro mergulho. Chega à beira da praia, uma onda enfraquecida atinge-lhe e ele sente a água fria. Olha para baixo vendo as quebras do mar chegar até sua pele. Levanta os olhos. Não vê Sophia. — Sophia!? — Chama por ela. Nada. Engole em seco e espera por alguns segundos. Ela não volta do seu mergulho.


— Sophia!? — Grita de novo já sentindo sua garganta estrangulada. De repente, ela surge. Sophia emerge de seu mergulho, mas, sem esperar, voltar a afundar, levantando as mãos, que logo são engolidas pela água. — Socor… — seu pedido é afogado. Porra! O desespero toma conta dele quando percebe que ela se afoga. Desesperado, Daniel corre para dentro do mar a passos afobados contra a água que rebate e espirra em sua pele. Quando o mar já está à altura do seu peito, ele mergulha e nada em direção a ela, que continua a surgir e afundar seguidas vezes, sendo, gradualmente, levada pelas ondas. Daniel bate os braços contra a água de forma determinada, o frio repentino castigando a pele, o desespero apertando seu peito. A essas alturas, já não se ouve mais os gritos por socorro de Sophia, e quando, finalmente, a alcança, ela já está sendo engolida pelo mar, afundando de forma lenta e cinematográfica; inconsciente. Ele a agarra. Sente falta de ar. Frio. Exaustão. A moça pesa. Daniel a segura pela cintura e joga um dos braços delicados sobre seus ombros. Ofegante, faz um esforço tremendo para arrastá-la até a margem. A água atrapalha sua visão, o peso dela o cansa, mas ele está decidido. Sua mente em branco só funciona por instinto. Salvá-la. As pernas queimam, os braços doem e o coração trabalha tão rápido que Daniel tem medo de sofrer um infarto fulminante, permitindo, assim, que a natureza os leve. Determinando, ele se concentra na missão e, mesmo exausto, nada até a margem da praia. Os segundos parecem eternos. Ele segura Sophia pelo colo e sai do mar correndo, sentindo as panturrilhas em um ardor quase insuportável. O coração palpita ao pô-la sobre a areia, logo depois de se desvencilhar das ondas do mar. Sophia continua desacordada. — Socorro…! — Daniel grita sentindo o peito ser massacrado, mais por instinto do que por qualquer outra coisa. No desespero do momento, esqueceu-se de que estavam em sua praia privativa. Por isso não houve resposta. Somente o vento assoprando em suas peles. Os olhos juntam lágrimas. Respirando com dificuldade, ele deita sobre a loura para iniciar uma respiração boca a boca, e a massageia no peito contando até dez. — Vamos, Sophia, reaja… — murmura arquejando, e sem demora faz outra série de respiração boca a boca.


As lágrimas escorrem dos seus olhos, mas ele não percebe. — Sophia, vamos! — Grita ainda massageando o peito, fazendo a contagem. Súbito, o corpo desfalecido enverga para frente e Sophia solta uma esguichada de água, tossindo em seguida. Um alívio instantâneo toma conta de Daniel, no entanto ele continua assustado. Desesperadamente, afaga o rosto, o coração batendo a mil por hora, permitindo que o pranto da angústia o acometa. Sophia tosse, deixando escapar pela boca o restante de água; seus batimentos cardíacos pulsam desordenados. Ela olha para os lados e vê Daniel – molhado e com um olhar amedrontador. Sem sequer pestanejar, se agarra ao pescoço dele em um abraço apertado e desesperado; apavorada, soluça aos prantos com lágrimas a sair de seus olhos feito tempestade torrencial. Müller a aperta contra seu corpo, tentando acalmá-la. — Está tudo bem… eu estou aqui. Você está bem… — murmura ofegante, afagando os cabelos emaranhados. — Eu estou aqui, Sophia, estou aqui… — Meu Deus… — a voz sai trépida, angustiada, por cima do seu choro compulsivo e aterrorizado, ainda abraçada a ele — eu achei que fosse morrer. Daniel, eu achei que fosse morrer! — Eu não iria permitir. Nunca. — Ele engole em seco e fecha os olhos tentando acalmar o próprio coração, assustado demais com a ideia de perdê-la. — Se eu tivesse que morrer tentando te salvar, eu morreria. As palavras doces e suaves de Daniel entram pelos seus ouvidos a acalentando e lhe dando uma sensação de conforto, de embalo e de calmaria. O medo em seu coração se vai quase que no mesmo instante e completamente. Sophia cessa o abraço e o encara nos olhos, seu peito sobe e desce, ainda numa respiração afobada. Seus olhos correm para o corpo a sua frente: os cabelos desgrenhados que pingam e escorrem gotas pelo rosto bonito, o peito largo e definido, meio avermelhado por conta do impacto abrupto com a água, as pernas e coxas torneadas emaranhadas com as dela, os braços e os bíceps que contornam seu dorso, os mesmos que a salvaram. Vagarosamente, já recuperada do susto, ela estica as mãos trêmulas e toca a pele dos bíceps de Daniel, roçando as pontas dos dedos nos músculos aparentes, quase que em transe, contemplando o toque, os músculos… Respondendo ao estímulo, Müller desvia seus olhos para os delicados dedos que o tocam. A mesma sensação que muitas vezes sentia quando a pele dela estava contra a sua sobe por cada centímetro do seu corpo. Ele mira Sophia atentamente, esquadrinhando todo seu corpo: os cabelos bagunçados e encharcados, da pele branca úmida, das pernas compridas e das coxas finas, dos braços frágeis e da boca entreaberta de forma sensual e tentadora. Sophia Hornet fecha os olhos, já com seu coração batendo normalmente. Continua a, inconscientemente, roçar os dedos nos bíceps de Müller, descendo, gradualmente, para os braços. O


toque a deixa em êxtase. Seu coração volta a acelerar, mas desta vez, a emoção que lhe atinge é totalmente diferente, e já até a experimentara algumas vezes na presença de Daniel. Um turbilhão de sensações confusas e que se colidem entre si; uma corrente elétrica que a percorre de ponta a ponta. Ela não sabe o que é isso. E tem medo de descobrir o que seja. Sophia levanta as pálpebras para divisar Daniel a olhando. O vento assopra em suas peles; o som das ondas quebrando é quase ensurdecedor. Como dois imãs se atraindo simultaneamente, eles vão um de encontro ao outro, colando suas bocas em um beijo desesperador e intenso. O momento que os envolve é único para ambos, e seus lábios se movimentam de forma harmônica, encaixando-se perfeitamente um ao outro. Sophia e Daniel não se importam com mais nada. Daniel joga seu corpo sobre o de Sophia e a deita na areia, ficando entre suas pernas. Sophia leva as duas mãos até suas costas e as acarinha, lembrando-se das pequenas pintinhas marrons espalhada por toda ela. As mãos femininas sobem e descem enquanto Daniel sente seu corpo todo reagir ao momento, e por nenhum segundo pensa em parar, mesmo com seu consciente gritando pelo contrato, o alertando. Mas ele pouco se importa. Precisa disso. Precisa desse momento. Assim, desvia sua boca da dela para enfiar-se na curva de seu pescoço; o cheiro natural que o atinge tira sua sanidade, deixando-o totalmente excitado. Seu coração palpita em ritmos descontrolados e o corpo quase entra em convulsão com tamanha necessidade e emoções que vem junto com tudo o que está desenrolando. Beija-a ali, no pedaço de pele sensível. Estimulada, Sophia responde com um gemido e envolve o quadril dele com suas pernas, escorrega as mãos até a nuca e repuxa carinhosamente os cabelos curtos e alourados. — Sophia… — Daniel grunhe de prazer sentindo a parte intima feminina conta sua ereção — Não diga nada. Só continue… — ela sussurra em seu ouvido e mordisca o lóbulo de sua orelha. Daniel não precisa ouvir mais nada. Ele a beija na boca enquanto sua mão trabalha para tirar a peça de baixo – e que logo é tirada para algum canto – e Müller não se preocupa em olhar para a genitália despida. O beijo dela, as mãos que afagam com ferocidade sua nuca e costas, o deixam envolvido, em transe, sem sentido algum. Sophia espalma até a cintura dele para abaixar a boxer preta que usa. Afobado, Daniel a ajuda, e torna a se deitar sobre o corpo de Sophia, pois o seu protesta altamente, necessitando cada vez mais da boca, dos beijos, do toque, da pele dela…


— Daniel… — suspira de prazer; suas bocas rentes uma à outra. Seu gemido o ensandece. Mesmo que ela tenha apenas dito seu nome, ele consegue sentir o que realmente Sophia quis dizer. Encaixa-se melhor e, sem nem pensar, a penetra. Ambos gemem em uníssono. Daniel pestaneja e se enfia outra vez contra a curva do pescoço da loura; uma nova sensação preenche toda a sua alma. Ele fica dentro dela, por um instante, respirando com dificuldade e assimilando a realidade. Tem medo que acorde e tudo não passe de um sonho, como aconteceu algumas vezes. — Continue… — o sussurro dela chega aos seus ouvidos. Vagarosamente, Daniel se movimenta para frente e para trás, deixando um suspiro esganiçado baixo na pele de seu pescoço. Sophia o abraça forte e também grunhe de prazer bem perto de seu ouvido, o deixando cada vez mais inebriado. Então, eles se amam, tendo como únicas testemunhas o firmamento estrelado e o mar. A natureza se torna cúmplice do novo sentimento que invade cada um deles. Sophia e Daniel rolam na areia, se beijam, se tocam, gemem um para o outro; sem temor ou constrangimento; sem arrependimento, sem contrato de casamento, sem acordos. Seus corpos molhados – mistura de água e suor – são uma confusão única de sentimentos. Ele a deseja. Ela o deseja. Mais do que qualquer outra coisa que já tenham ansiado um dia. O orgasmo atinge Sophia, que se desmancha em um prazer nunca sentindo em sua vida. Ela flexiona as pernas em torno dos quadris de Müller quando da sua boca escapa um murmúrio alto e prazeroso. Quase que no mesmo instante, ao sentir a satisfação de Sophia, Daniel também deixa o orgasmo lhe invadir. O corpo instantaneamente relaxa quando se satisfaz; das cordas vocais um grunhido de prazer é emitido e ele a aperta contra seu corpo. Após o sexo, eles respiram com dificuldade, Daniel ainda por cima dela; ainda dentro dela. Seu rosto está, outra vez, contra a curva do pescoço de Sophia. Por muitos minutos continuam assim, agarrados um ao outro, recuperando o ar para os pulmões, assimilando a realidade. Daniel gira o corpo e deita ao lado de Sophia. Eles olham o céu. Não se encaram. As ondas quebram no mar. O vento sopra frio, castigando suas peles. Sem dizer nada, Daniel se levanta, veste a cueca preta, a calça e a camisa. Sophia continua deitada, encarando as estrelas acima dela. Só sai de seu torpor com Daniel a tocar-lhe o braço, esticando sua vestimenta íntima. Muda, ela sobe a peça, tampando a intimidade; neutra, senta-se na areia e encara o mar. De repente, Daniel joga o paletó sobre seus braços.


— Está frio… — ele sussurra. — Vista-se e vamos entrar. Sophia apenas acena e escorrega os braços pelas mangas do blazer. Está prestes a se levantar quando Daniel a iça para seu colo em seus braços fortes. Então, ele caminha para dentro com Sophia em seus braços.


27 PAIXÃO CONFUSA Daniel

vento gélido noturno atravessando minha roupa e batendo contra minha pele estava me ajudando a baixar a temperatura que subia por cada centímetro do meu corpo trêmulo de nervosismo. Principalmente agora, enquanto Sophia está nos meus braços sendo carregada para dentro de casa, depois que consumamos nosso casamento rolando na areia da praia.

O

E, por mais que eu já tenha aceito ser tudo a mais pura realidade, continuava a ser difícil acreditar em tudo o que aconteceu. Sim, foi insano da nossa parte consumarmos nosso casamento. Uma insanidade deliciosa. Levando-a para dentro, tendo-a recostada ao meu peito, imagens de ela se afogando passam diante dos meus olhos, fazendo meu corpo vibrar de temor. E eu desejo nunca mais sentir essa aflição que senti. O desespero que me consumiu ao vê-la em perigo é uma sensação por qual jamais quero passar outra vez. E eu não sei o que seria da minha vida se eu tivesse a perdido. Entrei com Sophia em casa e subi as escadas, continuávamos emudecidos, sem nada dizer, num silêncio tenso, mas ao mesmo tempo acolhedor. A última coisa que lhe disse foi para convidá-la para entrarmos. Desde então, não nos falamos mais. Eu simplesmente não sabia o que lhe dizer… ou como agir. Era uma sensação espantosa para mim. Faltavam-me palavras para me expressar, não conseguia formar nada coerente em minha mente… Estava confuso. Sophia, agarrada em mim, e sua pele molhada e delicada se resvalando sobre a minha, estava me propiciando um sentimento genuíno, exclusivo… Algo que não havia sentido antes. Apesar da incompreensão de tal sentimento, e do incômodo de não o compreender vir se formando em meu peito, a emoção que me atingia era demasiadamente boa. Sem nunca a tirar de meus braços, subi vagarosamente as escadas em direção ao seu quarto, e, ao chegarmos, a levei direto para o banheiro, pois sabia que, provavelmente, ela iria querer um banho para tirar a areia de seu corpo e cabelo, além de se aquecer do frio. — Tome um banho — digo com um murmúrio a descendo do meu colo e abrindo o registro.


A água aquecida cai e o barulho parece quase ensurdecedor diante ao silêncio instaurado entre nós. Sophia apenas acena e se encaminha até o box, deixando a água molhar seus cabelos e limpá-los. Por um pequeno instante, fico a observá-la e tudo que já houve entre nós vem de encontro às minhas lembranças. Mas, de todos nossos momentos, o de há pouco é o que não sai da minha cabeça. Cerro os olhos me lembrando da loucura doce que fizemos. Preciso admitir que de todas as vezes que a desejei e a imaginei comigo nada é comparável a como foi realmente estar com ela. O pequeno corpo sob o meu, suas mãos afagando minhas costas, o modo como Sophia suspirou meu nome e a forma intensa com que fizemos amor… Sua boca doce e macia, sua língua me invadindo, um desejo desesperado de nunca me separar daqueles beijos… Tudo isso me invadiu como uma onda forte no momento em que nos tornamos apenas um. Foi a melhor sensação que eu senti na vida. E por mais que tenha sido o melhor sexo que já fiz com alguém, eu estava arrependido. — Daniel…? — Sua voz me trouxe de volta à realidade. Olhei-a, Sophia continuava de sutiã e calcinha, a água do chuveiro caindo sobre seu corpo. — Você está bem? Pestanejei, assimilando tudo ao meu redor. — Sim… Eu só me distraí. — Pigarreio antes de dizer. Sophia sorri fracamente e, sem mais nada dizer, pega uma esponja, passando pelo corpo. Aquele corpo que como nenhum outro me fez ter o melhor orgasmo de todos. Engoli em seco e me virava para sair e deixá-la mais à vontade, mas minhas pernas traiçoeiras pararam no meio do caminho, e minhas mãos, ainda que contra a minha vontade, despiram meu corpo, deixando-me apenas com a boxer preta molhada. Quando percebi, já estava debaixo do chuveiro com Sophia, sentindo seu tórax no meu, seus grandes olhos verdes voltados para cima, olhando direta e intensamente para mim, enquanto a água escorria por seu rosto de traços perfeitos e angelicais. Delicadamente, tomei a esponja de suas mãos, a virei de costas para mim e esfreguei suas costas com cuidado. Esquadrinhei cada centímetro de suas costas graciosas e brancas, permanecendo em um silêncio constrangedor. Queria saber o que ela sentia em relação ao que fizemos, queria saber o que havia significado para ela, porque, para mim, eu ainda não sabia exatamente qual o significado da nossa insanidade, nem o que pensar sobre essa situação. Levei meus lábios até seu ombro esquerdo e deixei um beijo ali, sentindo o toque macio de sua pele contra meus lábios. O cheiro natural de seu corpo invade minhas narinas, me inebria e me vejo desejoso por ela… Outra vez… Tão forte quanto a primeira… Mais forte que a primeira. Sem esperar, Sophia joga a cabeça para trás e se recosta ao meu peito. Sem hesitar, beijo a curva de seu pescoço, e daí para frente não consigo mais frear minhas ações. Minhas mãos contornam sua cintura em um abraço, e minha boca continua a distribuir beijos em seu cangote molhado. De repente, as mãos dela alcançam as minhas e me faz repousá-las


sobre seus seios médios. Seu pequeno gesto me tira do eixo, e quando dou por mim estou colocando-a contra a parede, beijando loucamente seu pescoço e descendo pelas suas costas enquanto delicadamente apalpo seus seios. Esfrego minha excitação entre suas nádegas, e cada vez que ela suspira prazerosamente me tira um pouco a lucidez. Os dedos habilidosos de Sophia sofregamente arrancam a calcinha, se livrando da peça e me dando total acesso e visão às suas nádegas brancas, lindas e perfeitas. Ela se vira para mim. Seus olhos verdes brilham de uma forma como nunca vi, e assim como fora minutos atrás na praia, não consigo pensar em nada além de querer fazê-la minha; minha razão não funciona corretamente e eu não tenho poder suficiente sobre mim para parar. Mesmo se eu quisesse. Sophia segura minha cintura e me beija intensamente enquanto abaixa minha boxer. Cristo Deus! Ajudo-a e termino de me despir. Uma ansiedade enorme percorre meu corpo, e um segundo depois estou pondo-a de costas para mim, empinando seu bumbum e a penetrando. A mesma sensação me invade. Diria que é até melhor. A água escorrendo contra nossas partes, os movimentos vagarosos de vai e vem que faço contra ela, os gemidos prazerosos que escapam de nossos lábios, minhas mãos que envolvem seus seios, minha boca que a chupa na curva do pescoço… essa sequência parece estar em harmonia, cada detalhe deste momento não me passa despercebido e minha vontade é nunca parar. Então, não muito tempo depois, estou tendo o segundo melhor orgasmo da minha vida. Enquanto a água cai em nossos corpos conectados e envolvidos em um abraço forte, meu ritmo cardíaco volta ao normal, assim como posso sentir a respiração curta de Sophia que ela tenta, também, controlar. Depositando outro beijo em seu ombro, me afasto e me enrolo na toalha. Olho para ela; Sophia está com a testa contra a parede, a água do chuveiro continua a descer sobre seu corpo. Com um suspiro, viro nos calcanhares e a deixo só.

♦♦♦

Encaro-me frente ao espelho já com uma roupa limpa e seca. Olho em direção ao quarto dela que fica de frente para o meu: a porta está fechada; o local, em silêncio. Respiro fundo e passo a mão pelo rosto; ainda não sei como ou que dizer a ela sobre a nossa segunda dose de loucura. Nem sobre a primeira. Ainda assim, inspiro ar para os pulmões e tento tomar um pouco de coragem para caminhar até lá. Dou uma leve batida na porta e, sem muita demora, ela permite minha entrada. Sophia está sentada na cama vestindo um baby doll de cetim vermelho – os seios soltos dentro da peça de finas alças – e as pernas à mostra, deixando bem visível sua coxa branca e


pequena. — Oi… — sussurro entrando cautelosamente. Ela não responde, apenas sorri pequeno. Sua falta de resposta me deixa um pouco receoso. Sinto medo de que ela não queira mais falar comigo por conta do que aconteceu. Das duas vezes que aconteceram. Mas seu breve sorriso ao meu ver me diz que Sophia não me evitará. Por isso continuo me aproximando até sentar-me ao seu lado. Por alguns segundos, sequer me movo, fico somente olhando para minhas mãos, tentando formar uma frase adequada para este momento e organizar minha mente para que eu não gagueje enquanto tento lhe dizer alguma coisa. — Precisamos conversar, não acha? — Sophia se pronuncia por fim. Desvio meu olhar para ela. — Precisamos… — concordo, mesmo que minha vontade seja de sair fugindo dali. Outra vez o silêncio se faz presente entre nós e estamos a olhar um para outro, esperando, talvez, que alguém comece. — Podemos deixar isso para amanhã? — Ela sussurra. Mesmo que eu não quisesse adiar mais aquilo, eu acabei cedendo, precisando mesmo de mais tempo para assimilar e entender o que foi que fizemos. Aceno em positivo e estou me levantando para seguir até meu quarto quando sinto as pequenas mãos dela a me segurar pelo punho. Miro dentro daqueles olhos verdes e grandes brilhando, e por mais que ela não tenha dito palavra alguma eu entendi que estava pedindo para que eu ficasse. Receoso, me deitei ao seu lado fitando o teto do quarto. Meu coração já começava a acelerar apenas em sentir o cheiro de baunilha vindo dos cabelos úmidos alourados, misturado ao cheiro do sabonete de lavanda que usara no banho; e isso já estava me deixando insano. Sem que eu espere, Sophia se apoia em meu peito, me beija rapidamente no rosto e fica de costas para mim, puxando o lençol para cobrir seu corpo. Ponho um pequeno sorriso no rosto, atingido por sua singela atitude. Fito-a do meu lado. Apago o abajur e me ajeito na cama. Necessitando daquele corpo do meu lado mais próximo de mim, viro-me em sua direção e a abraço. O calor do corpo dela me aquece, e eu durmo agarrado à Sophia desejando que esse momento nunca acabe.

♦♦♦

O sol alto da manhã entra pela janela acima da cama, penetra as finas cortinas e bate contra meu rosto, me fazendo despertar aos poucos. Ainda atordoado pelo sono, tento me localizar. Ao abrir os olhos, eu a vejo: está de frente para mim, o lençol que cobriu seu corpo na madrugada passada desajeitadamente cobre parte das suas pernas, enquanto a outra ponta toca o chão; os


cabelos alourados estão bagunçados e caem sobre seu rosto branco e delicado como porcelana. Ela dorme serena, por longos segundos fico a admirá-la. Eu reparo em como seus cílios são alongados, me atento aos lábios levemente secos naquela manhã, de como seu peito sobe e desce calmamente enquanto dorme feito um anjo, e ronrona baixinho –quase imperceptível. Meus olhos correm por seu corpo, e a todo instante me lembro da nossa deliciosa insanidade. Quase posso sentir o corpo de Sophia junto ao meu, das suas mãos acarinhando minhas costas como se ela conhecesse cada centímetro dessa minha parte. Cerro os olhos forçando minha memória a parar de reprisar os beijos dela em mim, das minhas mãos envolvendo seus seios, da água batendo em nossas partes e tornando o sexo ainda mais prazeroso. Abro os olhos e a encaro outra vez. Continua dormindo. E um desejo desesperador de tê-la outra vez quase me controla: quero sentir seus lábios macios contra os meus, suas palmas que percorrem todo meu corpo em carícias que só me deixam cada vez mais extasiado e louco por ela; quero poder abraçá-la de novo após o sexo e adormecer sentindo o perfume de seus cabelos subindo pelo meu nariz. Engulo em seco ao perceber que é a primeira vez que me sinto assim por uma mulher. Isso me assusta e me confunde. Meus relacionamentos nunca passaram de sexo casual, eu nunca ansiei tanto por uma mulher como está sendo com Sophia, porque com ela eu não desejo somente sexo, eu não a quero somente pelo prazer, mas a vontade que martela em meu peito é de estar junto dela, de compartilhar momentos felizes, de estar em sua companhia, conversar, rir, apreciar um bom vinho, abraçá-la enquanto dorme, beijar seus ombros despidos debaixo do chuveiro enquanto fazemos amor, ou deixar um beijo de “boa noite” em sua testa… Eu jamais achei que pudesse ter essa emoção dentro de mim, jamais imaginei que um dia me pegaria tão atraído assim por uma pessoa, nunca me passou pela cabeça que sentiria esse sentimento arrebatador por alguém. E então, as palavras de Sophia de meses atrás fazem sentido neste momento: “Já pensou um dia dormir com uma mulher, e no outro acordar apaixonado por ela?” Ironicamente, agora, aqui, enquanto a observo dormir, é assim que me vejo por Sophia: apaixonado. Fico assustado com minha própria conclusão. Eu não posso estar apaixonado por Sophia Hornet: minha secretária, minha esposa de conveniência. Não posso amar outra vez! Maldito coração, você já sabe que sairá partido, por que diabos insiste em se apaixonar? “Se um dia isso acontecer, renuncio a este sentimento. Eu não nasci para amar”. Não posso permitir que esse sentimento tome conta de mim outra vez, principalmente, se não for mútuo. Não sei se Sophia sente o mesmo, e eu temo ouvir uma resposta. Se for positiva, temo não saber corresponder ou não ser correspondido na mesma intensidade, também tenho medo que de alguma forma sejamos incompatíveis, e no final eu tenha meu coração partido; se for negativo, temo que mais uma vez sofra por um amor não correspondido. Sendo assim, irei agir como se Sophia não estremecesse minhas bases, como se nosso sexo não passasse disso: sexo. Levanto-me do seu lado e a deixo dormindo e vou para meu quarto. Preciso de uma ducha


fria para organizar meus pensamentos. Eu não posso sofrer por amor de novo!

♦♦♦

— Daniel? — Estou me trocando quando ouço Heitor me chamar e bater na porta. — Pode entrar — digo subindo o jeans pelas pernas. Ele entra e me encara. O encaro de volta afivelando meu cinto. — O que foi? — Exclamo confuso. — É impressão minha ou vi você saindo do quarto da Sophia? — Pergunta, caminha até a cama e se senta, exibindo um sorriso debochado. Pego minha camisa e respondo ao mesmo tempo em que fecho os botões: — Sim. Eu dormi lá. — Suspiro e me viro para ele, que continua com sua expressão zombeteira. Por um breve instante ficamos em silêncio. Espero que Heitor diga alguma coisa, mas meu irmão apenas comprime os lábios em um sorriso sátiro. Então, percebo que ele já deduziu o que houve. — OK. Nós transamos — pronuncio e me viro para o espelho, ajeitando a gola da camisa. Um audível e eufórico “Ah, Deu Deus” escapa da boca dele; um segundo depois Heitor já está do meu lado e, como de costume, fazendo suas piadinhas de mau gosto. — Vocês transaram? — Quase grita. — Sim, Heitor. E você não disse alto o suficiente para que todos escutem! — Eu não acredito — diz todo agitado. Esse imbecil está se comportando como se eu tivesse perdido a virgindade com a Jessica Alba. — Heitor, por favor! — Protesto irritado. Já estou começando a perder a paciência com essa sua atitude descabida. Mas de nada adianta. Meu irmão continua a tagarelar em minha cabeça, rindo e zombando do fato de eu e Sophia termos consumado o casamento. Tento me concentrar no penteado em meu cabelo em vez de dar atenção às idiotices que saem da boca dele. Ainda assim, é impossível não ouvir as bobagens que diz, coisas como: você está se amarrando nela; a transa foi boa pelo menos?; estou achando que vocês consumaram esse casamento há muito tempo.


Reviro os olhos, impaciente, a cada absurdo que ele diz. — Olha, Heitor, por que você não vai cuidar da sua vida? — Passo por ele já com meus nervos à flor da pele. Como se não bastasse eu estar arrependido de ter dormido com Sophia, de ter ponderado estar apaixonado por ela, ainda tenho que ouvir essas imbecilidades do meu irmão. É muito para mim. Deixo-o falando e rindo com as paredes e sigo até a cozinha, pensando apenas em fazer um café forte e quem sabe comer alguma coisa. E, somente agora, percebo que estou totalmente sem noção das horas. Busco por um relógio no meio do caminho e me assusto ao ver que já passam das onze da manhã. Quando chego à entrada do cômodo, me deparo com Sophia. Ela está de costas para mim, usa um short curto, sandálias e uma camisa branca folgada; encostada à beira da pia, de repente se vira segurando uma jarra de suco nas mãos. Assim que me vê, sorri fracamente e caminha até a geladeira, guardando o que havia retirado de lá. Engulo em seco; e outra vez não sei como me comportar em sua presença. Forço minha língua para dizer alguma coisa, e tudo que sai é apenas um: — Bom dia. — Pigarreio antes de continuar — Feliz… Feliz Ano-novo — desejo meio sem jeito. — Bom dia… e feliz ano-novo — responde com um sorriso breve pegando um sanduíche e o suco que se serviu, anda até a mesa e se senta, tomando seu desjejum. Por um segundo, acredito que ela está evasiva ou fria comigo, e acredito que até tenha motivos para isso. Nós transamos por duas vezes e depois a deixei dormindo. Tudo bem que eu só saí de seu lado há pouco, mas ela não sabe disso, certo? Demoro para perceber que estou parado à porta, a observando. — Acho que temos que conversar — pronuncio, mesmo sem ter a mínima ideia do que dizer a ela. Sophia me olha e acena brevemente, sem falar nada. Ela está esperando que eu comece? Droga! Esperava que ela começasse, já que antes de dormirmos foi ela quem deu essa ideia de conversar. Minha cabeça é uma bagunça de palavras, e preciso de um instante para organizar meus pensamentos e formar uma frase coerente. A primeira coisa que descarto é dizer que nossa transa foi um erro, ou que estou arrependido. Isso só irá piorar minha situação com ela. Até porque eu não considero nosso sexo um erro. Ela é uma mulher livre, eu sou um homem livre; o que fizemos não prejudicou ninguém e nenhum de nós dois. Então, nosso sexo não foi um erro e eu não irei dizer como forma de me justificar. E por mais que eu esteja arrependido, na melhor das intenções, se eu disser isso a ela sei que irei me expressar mal e tudo se tornará mais complicado e embaraçoso do que já está.


Enquanto faço meu caminho até a mesa para me sentar a seu lado, procuro ensaiar algo para lhe dizer. Mas eu simplesmente não sei por onde começar. Seria tão mais fácil se não tivéssemos que ter essa conversa. Seria mais fácil se simplesmente continuássemos com nossas vidas, como se nada tivesse acontecido, sem que eu me sinta arrependido ou na obrigação de ter essa maldita conversa Sento-me a sua frente, Sophia continua a me encarar, esperando que eu diga qualquer coisa. Vamos, Daniel! Abra essa boca! — É… sobre ontem… eu queria dizer que… bem… eu… —gaguejo sem saber exatamente o que, ou como, dizer. Minhas mãos estão suando e meu coração já começa a palpitar. — Você toma anticoncepcional? — Disparo de repente, e me arrependo no mesmo instante. Eu não quero parecer insensível a essa situação mostrando que estou apenas preocupado em não a engravidar. E tenho a impressão de que passo exatamente isso para Sophia. Merda! — Não. Até porque não tenho uma vida sexual ativa. — Responde indiferente e continua comendo seu sanduíche — Mas não se preocupe, vou à farmácia e compro uma pílula. Apenas aceno e continuo a observá-la comendo. Ela está agindo naturalmente, como se o fato não a incomodasse, enquanto estou me corroendo por dentro. O problema é comigo, então? Inspiro fundo. Se vou ter essa conversa com Sophia preciso agir naturalmente também. Nada de me sentir um adolescente perdendo a virgindade com a mãe do melhor amigo. — Como você está com isso tudo? — Inquiro, e seus olhos verdes encontram os meus. — Sabe, depois de ontem? — Estou bem — responde baixo, e vejo que suas bochechas coram um pouco. Acredito que ela sente sua cara queimar, por isso abaixa os olhos. — Eu gostei — falo em um sussurro. Não sei se é a melhor coisa a ser dita, mas com certeza é melhor que perguntar se ela toma anticoncepcional. Sophia olha para mim, seu rosto ainda mais vermelho. Toda aquela indiferença de segundos atrás já se esvaiu, e me sinto aliviado por ela sentir alguma coisa sobre o acontecimento passado. Não sou o único incomodado com essa situação. — Eu também — ela sussurra de volta, desviando, de novo, seus olhos. — Eu não deixei você sozinha… — tenho a necessidade de me explicar. — Acordei cedo precisando de um banho, então… — Está tudo bem. Não se preocupe com isso. — Certo. — É tudo que consigo dizer. E outra vez o silêncio. Sophia termina de comer e lava rapidamente sua louça. Quando termina, se recosta à pia,


olhando para mim. — Como ficamos com o contrato? — Me pergunta cabisbaixa. — Do mesmo jeito. — Mas nós consumamos o casamento…— Responde com um cicio e me olha com seus olhos baixos. — Eu sei, Sophia, mas as circunstâncias são outras. Não tem que pensar nisso, tudo bem? Quando nos divorciarmos o que eu te prometi no contrato será cumprido. Ela anui com um aceno de cabeça. — Como foi para você? — Sophia me pergunta de repente. Pestanejo, tentando encontrar a palavra certa para lhe falar. Tenho medo de dizer que foi como uma outra transa qualquer e isso a magoe porque para ela não foi como uma outra transa qualquer, ao mesmo tempo que me sinto receoso em dizer que eu gostei, que quero mais, que desejo seu corpo no meu, que quero beijá-la, abraçá-la e dormir do seu lado, porque sinto medo que isso soe patético e para ela não tenha tido significado algum. Santo Deus, por que essa dúvida terrível? Eu continuo em silêncio, sem nada responder, pois ainda procuro um modo de responder isso. Vendo minha quietude, é ela quem se prontifica: — Para mim foi diferente. — Olho-a, e Sophia parece nervosa. Sua respiração está curta e o rosto outra vez levemente corado. — Diferente? — Indago confuso. — Diferente como? Súbito, seus olhos verdes estão cheios de lágrimas. Assustado, me levanto e vou em sua direção, me aproximo o quanto ela permite. E ela permite que eu a abrace. Questiono a mim mesmo o que aconteceu para Sophia estar com os olhos pranteados. — Eu sei que não deveria me envolver… Mas eu me envolvi, Daniel. — Sophia suspira ainda chorando. Engulo minha bílis. Do que é que ela está falando? — Seja mais clara, Sophia. — Peço, e nosso abraço é cessado. Pequenas lágrimas escorrem pelo seu rosto e seus olhos verdes encaram-me aturdidos. — Eu não sei… — sussurra. — Só sei que sinto alguma coisa por você — confessa, e se vira de costas para mim, baixando sua cabeça. Suas palavras me atingem de uma forma como nenhuma outra vez que ouvi coisas semelhantes. Encaro suas costas sem saber como agir. Imagino-me virando-a para mim, colando sua boca na minha e confessando que também sinto alguma coisa por ela, que talvez eu esteja apaixonado, que talvez eu a ame como nunca amei ninguém. Mesmo que meu coração esteja


implorando por isto, por mais que meus sentimentos explodam dentro do peito, eu me contenho, deixando que minha razão se sobreponha às minhas emoções. Não devo agir levado por desejos aflorados e incompreensíveis. Eu nem sei se o que sinto por Sophia é realmente amor. Quem sabe não passa apenas de caprichos do meu corpo. — Sophia, eu… — empeço, mas quando ela se vira para mim com seus grandes olhos brilhando eu me calo. Sua íris esverdeada brilha como ontem à noite na praia. Brilha como ontem à noite sob o chuveiro. Meu coração se acelera. Meu corpo responde quando percebo que ela me olha com olhos de desejo, com olhos de quem me deseja. Esforço-me ao máximo para não avançar e beijá-la com volúpia e levá-la para meu quarto. Preciso agir racionalmente, e não por impulso do meu coração. — Eu não sei o que dizer sobre isso — digo por fim, quase balbuciando. “Se um dia isso acontecer, renuncio a este sentimento. Eu não nasci para amar”, reforço mentalmente. Sophia me encara, tenho a impressão de que está aborrecida ou decepcionada, talvez esperasse mais de mim. Sou um maldito idiota que sempre estraga tudo. Por que fui lhe dizer isso? Eu tento não me magoar e acabo magoando a ela. Imbecil! — Você não sente o mesmo, não é? — Questiona com um cochicho. — Eu não deveria ter dito isso… — Exclama, e tenta passar por mim, mas a impeço tocando seu ombro. Não quero que Sophia se vá assim, chateada comigo; não quero que se sinta decepcionada por eu não poder retribuir a esse sentimento. — Espera… — Sophia ergue o olhar, nossos olhares se encontram com mais intensidade. Sou tentado a desviar minha atenção para seus lábios entreabertos: quero tanto tomá-los para mim, beijar-lhe com ternura e depois com desejo; anseio emaranhar meus dedos em seus fios e trazê-la mais para perto. Mas para isso eu preciso abrir o jogo com ela, preciso me declarar. Talvez eu o faça. Depois que sentir o gosto da sua boca na minha. Sem pensar, puxo-a para um beijo e ela me beija de volta segurando em minha nuca, nossas bocas perfeitamente encaixadas num beijo sôfrego, cheio de necessidade. Quando percebo, estou segurando sua cintura e a impulsionando para meu colo, suas pernas me contornam, e eu giro o corpo para apoiá-la sobre a bancada de mármore negro da pia. Inclino meu corpo para ter um melhor acesso sobre sua boca e seu tronco. Súbito, uma voz feminina – e conhecida – ecoa vindo da sala, seguido de um bater de portas se fechando, nos interrompendo assim. — Daniel!? — O timbre de Melissa me faz praguejá-la mentalmente. — Heitor!? Vocês estão em casa? Rapidamente me afasto de Sophia; ela desce da pia, ajeitando os cabelos e a camisa em seu corpo. Inspiro ar para os pulmões recuperando minha postura segundos antes de a ruiva surgir na


cozinha e nos encarar com um semblante espantado. — Oi, Daniel querido. — Cumprimenta, e desvia seus olhos para Sophia. — Oi, Sophia. — O que você quer, Melissa? — Me intrometo antes que Sophia a responda. — Só avisar que vamos fazer um churrasco na praia com a galera. Queria chamar você e o Heitor. — Ela diz deixando bem claro que não convidaria minha esposa. Elas se encaram por um segundo, Melissa desvia seus olhos para mim, sorrindo naturalmente. — OK. — Digo apenas. — Você vem, não é? — Inquire meio dengosa. Olho para Sophia que está neutra à provocação e a conversa que se desenrola, parecendo não se importar com a indiferença de Melissa em relação à sua pessoa. — Claro… — assinto, ainda que contra a minha própria vontade, e a ruiva sorri largamente. — Irei me arrumar e logo estarei lá. Para minha surpresa, Melissa anda até mim e deixa um beijo no canto da minha boca. Antes que eu possa me esquivar, ela já se distanciou e atravessou a cozinha, alcançando a saída da casa. Afago o rosto com as mãos e torno a olhar para Sophia, que permanece calada; seus olhos, agora, estão mais opacos. — Preciso ir… — é só o que consigo dizer. Sophia acena brevemente e fica cabisbaixa. Hesito por um segundo, mas acabo saindo dali e a deixando para trás.


28 PROVOCAÇÕES Sophia

ncaro Daniel enquanto ele se distancia, me deixando sozinha aqui. Pestanejo seguidas vezes na intenção de não deixar que as lágrimas caiam. Recuso-me a acreditar que ele está fazendo isso, que está indo e me deixando aqui como se nada tivesse acontecido entre a gente, como se não tivéssemos feito amor duas vezes, como se há pouco não tivéssemos nos beijado e quase ido para cama outra vez.

E

E tudo para atender a um pedido dessa ruiva metida? Inspiro fundo intentando ser forte. Já fui fraca demais me deixando levar por esse sentimento idiota que sinto por ele. Meu Deus, nem sei onde estava com a cabeça quando resolvi dizer-lhe que sentia alguma coisa, que me envolvi com ele mais do que deveria. A falsa esperança de que Daniel sentisse o mesmo me fez tomar coragem e abrir o jogo. Mas pelo jeito fui uma patética. Patética em ponderar que nosso sexo significou alguma coisa para ele, patética em ter dormido pensando em tudo que já vivemos, de me lembrar das vezes que ele ficou alterado por conta de Miguel ou de Erick, de ficar reprisando na minha mente o que ouvi meses atrás: “…talvez ele goste de você.”, de ficar me recordando constantemente de como Daniel me salvou daquele afogamento, de me sentir esperançosa quando ele decidiu ficar ao meu lado e ainda me cingiu em seus braços quentes e fortes. Vendo que para ele nossa noite de ontem não significou nada, me sinto uma idiota. É o Daniel Müller, penso, não ama, não se apaixona e só tem encontros casuais. Sou apenas mais uma em sua lista. Subo para meu quarto querendo esquecer tudo o que aconteceu nas últimas oito horas. Apesar do melhor sexo da minha vida, este é o pior primeiro de janeiro que vivi. Nunca me senti assim, tão mal por conta de um homem. Daniel vem mexendo com meus nervos e sentimentos há muito tempo, o que sempre me deixou confusa e insegura. Mas depois de ontem, eu tive a certeza de que cultivava um sentimento intenso por ele. O que me machuca é não ser mútuo. Chegando em meu quarto, eu me deito e abraço o travesseiro pensando em como será difícil


e doloroso manter esse casamento de fachada. Ele agora sabe que estou apaixonada, sabe do que sinto. E eu já nem sei como irei encará-lo. Deveria ter mantido isso para mim, ter guardo esse sentimento dentro do meu peito em vez de ter me exposto ao ridículo daquela maneira. Penso que o pior de tudo nessa situação toda é que aquela inconveniente da Melissa deixou bem claro que não estava me convidando para esse tal churrasco, e o que foi que Daniel fez? Ele foi até lá! Ele poderia ter a contrariado, ter dito que se fosse, eu deveria ir junto. Mas não. Ele simplesmente me deixou para trás. São dois idiotas que se merecem. E muito. Mas ele que pense que irei ficar aqui me lamentando, enquanto está se diverte com sua ruivinha. Decidida, levanto-me e troco de roupa. Ponho um biquíni e envolvo na cintura uma canga azul, coloco um chapéu de praia, pego alguns itens que preciso, incluindo o protetor solar, enfio tudo dentro da bolsa de praia e saio. A última coisa que farei é ficar lamentando por causa de Daniel. — Onde vai toda bonitinha assim? — Estou atravessando a sala quando ouço Heitor, que surge da cozinha. — Sair um pouco. É ano-novo e o dia está lindo. — Respondo parando minha caminhada. — Por que quer saber? Vai relatar ao Daniel? — Questiono, e minha voz sai mais ríspida do que eu previa. — Eu não sou bode expiatório dele. — Rebate de bom humor e sorri. Ele se aproxima com as mãos dentro de seu short. O cabelo escuro está de lado e bagunçado, os olhos azuis e intensos chamam a atenção e dão destaque ao seu rosto liso e quadrado. — Não vai ao churrasco da Melissa? — Pergunto com um pouco de desdém. Heitor se serve de uísque que está na prateleira ali perto, balança o copo em movimentos circulares, e após um gole rápido me dá uma resposta: — Eu não. Aquela mulher é insuportável. Dá em cima de tudo o que anda. — Ele diz, e eu rio. — Ela já te assediou também? — Não. Graças a Deus. Ela sabe que se fizer isso, além de tomar um fora daqueles, perde o Daniel. Suspiro e desvio os olhos para um canto qualquer. O Daniel não é dela para que ela “o perca”. Mas não seria nada ruim se essa ruiva sem graça fizesse alguma besteira a ponto de Daniel não querer mais olhar naquela cara nojenta e esnobe que ela tem. — E por que você não foi? — Heitor questiona. — Não fui convidada. — Digo apenas, de forma natural.


Ele me olha com uma das sobrancelhas levemente arqueada. O copo de uísque que levava aos lábios está parado no meio do caminho. Vagarosamente, ele baixa o copo, ainda me encarando de semblante enrugado. — Não foi convidada? — Indaga cético — Não. — Mas, o Daniel… — … ele foi sozinho. — Suspiro, e envolvo meu corpo com meus próprios braços. — Que tipo de imbecil meu irmão é? Gargalho um pouco antes de me despedir dele e continuar com meu objetivo de sair dali e ir para a praia, enquanto Heitor emite um “se cuida” e “feliz ano-novo” nas minhas costas. Quando chego do lado de fora, vejo a imensidão azul do mar, o céu anil e límpido, o sol quente reinando acima de mim. Por um pequeno momento, fico apenas observando a paisagem e o contraste entre verde-água do mar com o do firmamento e a areia da praia. Uma paisagem ainda mais deslumbrante de dia. Corro meus olhos por toda a extensão e paro no exato local onde tivemos nossa primeira vez. Meu coração se aperta levemente; e decido que não é uma boa ideia ficar aqui. Por isso, pego um dos carros e saio dirigindo pela cidade. Dirijo por pelo menos dez quilômetros, até encontrar uma praia relativamente vazia. Não tem muita gente e o lugar é tão agradável quanto a praia privativa da casa de Daniel. Estendo a toalha sobre a areia, passo meu protetor solar e me deito, deixando os raios bronzearem minha pele. Conecto os fones em meu Ipod e seleciono algumas músicas, que de preferência não me façam lembrar dele. E Don't Cry está incluída nesta lista, e se antes ela era a primeira que eu escolheria, hoje nem cogito essa possibilidade. Espero que Daniel não estrague minha música preferida pelo resto da eternidade. As músicas vão tocando enquanto eu observo as poucas pessoas presentes: um casal enamorando, crianças brincando com um frisbee e com um cachorro, este que late e corre atrás do objeto; outras crianças fazem castelinhos na areia, alguns surfistas dançando nas ondas, um grupo jogando vôlei. — Isso é alguma brincadeira do destino? — Uma voz masculina pronuncia e eu encontro os olhos negros e brilhantes de Erick. Sorrio largamente e dou um pulo para abraçá-lo. — Oh, meu Deus, Erick — exclamo animada, atada a ele. Ele ri e retribui o abraço, me apertando e me tirando um pouco do chão. O vento bate e leva meu chapéu, mas não me importo com isso. — É bom te rever, loura. Feliz Ano-Novo — e recebo um beijo bochecha. — Feliz Ano-Novo — desejo ainda abraçada a ele. — O que está fazendo aqui? — Inquiro, cesso o abraço e Erick me segura nas mãos. Abro um sorriso o observando de cima a baixo. Erick


está de bermuda, descalço e camisa regata bem folgada, deixando parte de seu tórax visível; os cabelos estão presos em um coque desajeitado e estão levemente úmidos. — Eu te disse que meus pais são do Rio de Janeiro, se lembra? Eles costumam vir aqui em Angra. Vim de São Paulo para passar as festas de fim de ano com eles. — Se explica. — Está sozinha? — Sim… Quero dizer — corrijo-me —, mais ou menos. Daniel está em um churrasco em algum lugar. — Digo e sorrio fraco. — E você? — Estou com meus pais. Quer conhecê-los? — Adoraria. Então, ele me segura pelas mãos, sem nem mesmo me deixar pegar minha bolsa e as coisas que trouxe. Protesto, e ele gargalha, alegando que os pais estão em um quiosque a poucos metros dali e que eu não precisava me preocupar. — Não seja precipitado — resmungo, me solto rapidamente e volto pegando minha bolsa. Ele espera pacientemente, e quando retorno torna a segurar minha mão, me puxando em direção ao quiosque. No breve percurso que fazemos, ele me conta algumas novidades, algumas muito boas, como a de participar de uma competição de cosplay, o que dará maior visibilidade em seu trabalho. Chegamos ao local onde está sua família e sou muito bem recebida, com beijos e abraços, desejos de felicidade e ano próspero. A mãe de Erick, uma senhora de um metro e cinquenta e quatro, rechonchuda por conta do sobrepeso, é uma mulher totalmente simpática. Na casa do cinquenta e tantos anos, usa um maiô preto, sandálias e os cabelos grisalhos e encaracolados estão presos, e ela se chama Yara. Assim que somos apresentadas, Yara me arrasta até uma mesa e me serve de camarão e oferece cerveja. Erick gargalha e pede para a mãe ter calma, pois ainda preciso ser apresentada aos outros. O pai dele é um homem muito bonito. Alto, na faixa de 1,80, cabelos bem aparados e escuros, olhos castanhos claros e porte atlético, e acredito que ele tenha sido um ex atleta ou algo do gênero. Chama-se Nelson e é tão simpático quanto sua esposa. Diz-me que é para eu me sentir como se fosse da família. Erick me apresenta à irmã, Heloísa, que deve ter uns dezessete anos, a qual me lembra muito a minha, Isabela, pois começa a tagarelar e perguntar se somos namorados. — Não, Helô. É só uma amiga. Sophia é casada — ele explica Feito as apresentações, junto-me a eles na mesa posta com um almoço leve. Quase… pois há cerveja e caipirinha. A presença de toda a família Gouveia é muito agradável. Dona Yara é extrovertida e alegre, que faz piada de tudo e ri de qualquer coisa; Nelson é um pouco mais reservado, ainda assim mantém-se ativo na conversa. Eles me contam histórias da família, de como se conheceram, das peraltices que Erick aprontou na infância e de como o apoiam no trabalho que ele escolheu seguir.


É uma família muito bonita e unida. A conversa com Erick e com sua família me faz esquecer Daniel por toda a tarde, o que me alivia muito. Erick conta como nos conhecemos e logo eu lhes falo um pouco sobre minha vida e minha família. Mesmo receando entrar no mar, por conta da minha recente experiência, Erick consegue me convencer, e me arrasta até lá, depois que descansamos do almoço. Ele se mantém por perto o tempo todo e isso me dá uma sensação de segurança, assim, consigo aproveitar os mergulhos que dou. A tarde vai avançando e todos nós jogamos vôlei de praia entre um aperitivo e outro e goles de cerveja ou cachaça. Erick não ingere nada de álcool, toma apenas água de coco e refrigerante, além de muita água mineral para se manter hidratado. A companhia desta família é tão agradável que mal percebo que já anoiteceu. Nelson está trazendo alguns pedaços de lenha para acender uma fogueira e assar alguns peixes, mas me sinto totalmente cansada. — Já está tarde, acho que vou para casa. — É cedo, meu anjo. Fique mais — Yara pede. — Eu agradeço muito, mas… — olho para Erick — meu esposo já deve estar me esperando. Anuindo, Yara me abraça forte e me faz inúmeros convites para voltar ao Rio e ir até sua casa para tomarmos um café da tarde juntas. Agradeço sorrindo largamente e confirmando que tirarei um tempo para isto. — Eu levo você. — Erick se prontifica. — Não há necessidade. Estou há quinze quilômetros daqui, Erick. — Como se tivesse opção. Eu volto de ônibus depois. — Ele pega minha bolsa e tira minhas chaves do carro. Rio e me despeço dos demais. Outra vez ele segura na minha mão e caminhamos até meu carro, estacionado não muito longe dali. — Eu sempre incomodando você, não é? — Agora estou enroscada aos braços dele, como se fôssemos um casal. Erick me empurra amigavelmente com os ombros. — Você não incomoda. E você ingeriu álcool. — Mas não estou bêbada. — Ressalto. — Eu sei. Mas bebeu o suficiente para estar acima do permitido. E se uma blitz com bafômetro te parasse, hein? Já era, bonitinha.


Rolo os olhos de bom humor. E ele tem razão. Por mais que a tarde de hoje tenha sido agradável demais na presença de Erick e de sua família, enquanto ele dirige me levando de volta casa, não consigo evitar em não pensar se Daniel também se divertiu. E pior: se ele se divertiu com Melissa. Balanço a cabeça na intenção de afastar meus pensamentos. Daniel não merece minha preocupação ou minha atenção. — Onde é? — A voz de Erick me tira de meus devaneios. Percebo que ele já saiu da avenida principal. Dou as instruções de como chegar e seguimos para lá. Fazemos o percurso quase que em silêncio, exceto às vezes que ele me questionou sobre o que eu tinha achado da família dele. — São pessoas incríveis — digo-lhe sinceramente. — Eu adorei conhecê-los. Erick sorri largamente, desviando rapidamente sua atenção da estrada. — Tenho certeza que eles também te adoraram. Mas, e o Daniel? — Inquire de súbito. Abaixo os olhos, evitando o contato visual. Consigo ouvir um suspiro pesado vindo dele. — Ele continua fazendo bobagem? — Indaga. — Não quero falar dele, tudo bem? Erick assente com um aceno de cabeça e continua dirigindo. Mais uma vez, durante o percurso, tento não pensar em Daniel, em como ou onde ele está. Meu dia foi perfeito demais para ser estragado me afligindo por sua causa. A paisagem noturna vai passando rapidamente; o trânsito está tranquilo. Mais alguns minutos até que eu diviso, ao longe, a casa dos Müller com algumas luzes internas e externas acesas. — É aquela — aponto com o indicador. À medida em que nos aproximamos, posso ouvir o som de várias vozes conversando e música soando alta. Erick gira o volante e logo estaciona. — Precisa que eu te acompanhe até lá dentro? — Não é necessário, Erick — respondo soltando o cinto de segurança. — Tem certeza? Sabe, por conta do Daniel? — Está tudo bem, não se preocupe, ele nem deve estar em casa. — Parece que está. Tem música. — Deve ser o Heitor, irmão do Daniel. É bem típico dele essas festas. — Rebato e lhe dou um meio sorriso.


Erick acena e me dá um beijo no rosto. Enquanto junto minhas coisas no banco de trás, ele sai e contorna o carro, abrindo a porta para mim; agradeço e pulo para fora. — Ficará na cidade até quando? — Me pergunta. — Ainda não sei. Depende do quanto Daniel ainda irá querer ficar aqui. — Entendo. Mantenha contato enquanto estiver na cidade. Estou até o final de semana. Concordo e lhe dou um abraço, agradecendo, mais uma vez, por sua amizade, companhia e por ter me proporcionado uma tarde maravilhosa. Enquanto ele retribui, reparo que um carro se aproxima com os faróis altos. Demoro para perceber que é um dos veículos de Daniel, só dando por mim quando o automóvel é estacionado à margem da estrada. Dele, desce Daniel do banco do motorista; e do passageiro, a ruiva sem graça, Melissa. Ela está de saia curtíssima e descalça, cabelos presos e a única coisa que sustenta seus seios fartos é o bojo de um sutiã vermelho. Daniel está sem camisa e de bermuda, com um tênis branco nos pés; os cabelos parecem úmidos e ele nos encara com uma expressão de surpresa enquanto segura três fardos de cerveja nas mãos, que puxou do banco traseiro segundos antes. — Parece que sua esposinha foi à caça — provoca Melissa olhando para Erick dos pés à cabeça. — E fisgou um dos bons. — Sophia? Hã… Onde esteve o dia todo? Tentei te ligar, mas deixou o celular em casa. Tentou me ligar? Idiota! — Estava com o Erick — pronuncio e me agarro aos braços dele. Daniel corre seus olhos até Gouveia. — Oi, Daniel — ele o cumprimenta. — Estou trazendo a Sophia de volta para casa. Parece que sempre que ela some da sua vista está comigo. Mas não se preocupe. Sophia está sã e salva. Daniel está com seu semblante enrugado enquanto encara meu amigo. Olho para Melissa que tem um sorriso cínico nos lábios. Ainda arranco esse rasgo que ela chama de boca do rosto dela. — Posso saber como se encontraram? — Daniel pergunta. — Nos encontramos por acaso — Erick responde por mim. — Passamos o dia com a minha família e agora estou entregando-a. — Ótimo… — Daniel profere. — Agradeço a preocupação, mas daqui para frente eu cuido da minha esposa. Agora eu sou esposa dele? Ordinário! Erick olha para mim levantando suas sobrancelhas rapidamente. Antes que ele abra a boca para se despedir de mim, eu o interrompo:


— Fique mais um pouco, Erick. — Olho para Daniel, para as cervejas em suas mãos e depois para Melissa, para só então voltar-me a ele. — Pelo jeito a festa ainda não acabou. Sem esperar por uma resposta dele, seguro em sua mão e o arrasto para dentro.

♦♦♦

— Sophia, não acho que seja uma boa ideia. — Erick me diz, enquanto o arrasto para dentro de casa, atravessando o quintal iluminado, mas eu não lhe dou atenção. Quando chegamos à área de lazer, a música alta incomoda meus ouvidos e eu mal posso ouvir o que Erick me diz. Heitor está xavecando uma garota que ele arrumou por aí, beijando a curva de seu pescoço, e ao notar minha presença, me olha com uma expressão espantada e, depois de dizer algo à sua acompanhante, deixa sua lata de cerveja sobre a mesa e caminha até mim. Rapidamente observo o lugar. Alguns amigos do Daniel que vieram conosco e que trabalham na empresa estão sentados às cadeiras de praia na beira da piscina, trajando calções ou sungas, conversando e rindo entre si, comendo aperitivos ou beliscando pedaços de carne que sai da churrasqueira – que conta com um profissional ao qual acredito que foi contrato, pois ele não faz parte da galera. Há, também, mais umas oito pessoas que eu não faço a mínima ideia de quem sejam, mas em sua maioria (cinco ou seis) são mulheres vestindo biquínis, saias ou shorts jeans muito curtos. — Oi, Sophia. — Heitor me cumprimenta de soslaio e encara Erick, logo torna a olhar para mim, como se exigisse uma explicação para a presença de um desconhecido. — Heitor, esse é meu amigo Erick. Erick, esse é irmão do Daniel, Heitor — faço as apresentações, e educadamente Gouveia estica sua palma para apertar a de Heitor enquanto diz “prazer”. Meu “cunhado” o ignora, e pedindo um minuto, pega-me pelo braço e me afasta dois metros, cochichando: — Que porra é essa, Sophia? Solto-me de suas mãos e dou um passo atrás. — É um amigo. Nos conhecemos no Cruzeiro que fiz com seu irmão. Por acaso nos reencontramos aqui, em Angra. — Explico e adiciono: — Se você e Daniel podem trazer visitinhas e ter convidados, por que eu não? — Rebato e passo por ele, voltando até Erick. Meu amigo continua sem jeito, e sem me importar com mais nada, o seguro pelo braço outra vez e o apresento aos presentes que eu conheço. Enquanto ele cumprimenta as pessoas, vejo Daniel surgir com cara de poucos amigos, carregando os fardos de cerveja, Melissa vindo logo atrás, trazendo dois sacos de carvão. Ele deixa os fardos sobre o freezer, desvia os olhos de mim para a ruiva e diz alguma coisa a ela que eu não entendo, por causa da música alta que ecoa por


todos os cantos e também por conta da distância em que nos encontramos. Ela fecha a cara e acena, pegando as cervejas e pondo para resfriar. Daniel, então, vem ao meu encontro. — Sophia, tem certeza que isso é uma boa ideia? — Erick murmura ao pé do meu ouvido e me faz sobressaltar. — Tenho. — Me viro e miro dentro de seus olhos negros e sorrio largo. — Vamos nos divertir. — Decreto e o seguro pelas mãos, nos levando até a churrasqueira. Olho para trás. Daniel, que caminhava até mim, parou no meio do caminho e exibiu um esgar ainda maior. Sorrio satisfeita e segura de mim mesma. Não irei permitir que ele me magoe mais, que suas atitudes idiotas me deixem de baixo astral. É tempo de erguer a cabeça e mostrar a ele que, apesar do que tenho sentido, isso será a última coisa que irá me abalar. Por isso decido aproveitar essa festa com Erick. Nos sirvo com carne da churrasqueira e com arroz, vinagrete e salada, que jaziam distribuídos em uma mesa ali perto. Sentamo-nos em uma das mesas à beira da piscina, indiferentes às coisas ao nosso redor, e começamos a conversar, Erick, ainda nos primeiros minutos, receoso por sua presença. Mas vou o tranquilizando conforme o tempo passa, e minutos depois ele já está mais solto. Conto a ele sobre os acontecimentos da minha vida nos últimos meses, menos a noite de ontem e a estupidez do Daniel de ter me deixado sozinha para sair com Melissa. Permanecemos um longe do outro, e realmente não sei se alguém notou nosso distanciamento, já que, para os de fora, somos casados. De vez em quando, ainda que contra minha razão, eu o procurava. Melissa estava o tempo todo ao seu lado, e, discretamente, longe dos olhares dos outros, ela o tocava nas mãos, ou o acarinhava nas costas, ou tocava-lhe nas coxas. Numa dessas vezes, Daniel estava num canto, trocando o CD do tocador, quando Melissa se aproximou furtivamente e o acariciou nas costas, abraçando-o por trás em seguida. A ruiva lhe falou alguma coisa no ouvido e olhou sugestivamente para dentro de casa. Daniel prontamente se esquivou, então nossos olhares se encontraram e ele percebeu que eu presenciara a ceninha dos dois. Deixou Melissa para trás e se afastou, mas não sei se porque realmente se incomodou com a aproximação atrevida dela ou porque eu havia reparado em suas investidas. Dali a pouco, estávamos todos reunidos em uma roda, conversando e rindo, bebendo mais álcool e revezando entre cerveja, caipirinha, uísque, vodca… Erick já está bem mais enturmado, e em um dos momentos nos conta um pouco sobre seu trabalho como sósia do Johnny Depp. Até mesmo Heitor já havia simpatizado com meu amigo. O único que continuava a não gostar da presença dele era Daniel. Mas eu pouco me importei com este fato. Também não gosto dessa ruiva esnobe, e nem por isso estou de cara feia. — Erick, por que não faz uma performance dele como capitão Jack Sparrow? — Instigo, e todos concordam eufóricos, menos Daniel, como sempre. — Estou sem meus aparatos — diz encontrando uma desculpa. — Não tem problema. Nós vamos mentalizar ele aqui. Vai, Erick, faz! — Imploro, e ele cede com uma risada. Erick se levanta e fica no meio da roda e começa sua apresentação. A cada dia que passa,


meu amigo está cada vez melhor. Seus movimentos corporais, as atrapalhadas que tiram risadas de todos nós, as caras e bocas, o timbre de voz que lembra muito a do personagem e até algumas falas retiradas de algum filme da franquia que eu não me lembro mais qual é. Os presentes riem, aplaudem e uns mais alterados pelas bebidas exageradas até tentam atuar com Erick, o que nos rende ainda mais gargalhadas. A noite continua avançando, e quando damos por nós já passam de uma da manhã. Um resto de carne queima sobre a churrasqueira, a música já não está tão alta e o CD que roda no tocador já repetiu inúmeras vezes. As pessoas vão se retirando aos poucos, um ou outro cambaleando de bêbado, as garotas carregando seus sapatos nas mãos e uma ou duas sendo escoradas pelos demais. Os nossos colegas de trabalho voltam para a dependência da casa, alegando exaustão, e Heitor se oferece para levar sua conquista para casa. Então, restamos apenas Erick, Melissa, Daniel e eu. A mais embriagada é a ruiva esnobe, que, a todo custo, tenta roubar um beijo de Daniel, já que agora não há mais ninguém de quem esconder suas provocações a ele. Ele, por sua vez, retrai o corpo sempre que a rubra se aproxima beijando o canto de sua boca, a empurrando com delicadeza para longe de seus lábios. A vontade que sobe em mim é de arrancá-la de cima dele, defender o que é meu. Mas aí me lembro que ele não é meu. Acontece que Daniel é de todo mundo. E eu não teria porquê defender alguém que não se importa com meus sentimentos, que não pode retribuir o que sinto por ele. Reprimo minha vontade e torno a beber o resto da cerveja que está em minha mão. — Dan, por que não vamos lá no seu quarto? — Melissa profere com a voz mole e se senta no colo dele. A cólera me invade. Desvio os olhos dos dois e olho minhas mãos. Erick as segura e nossos olhares se cruzam. Ele tem um pequeno sorriso nos lábios como quem quer transmitir paz e tranquilidade para mim. Reforço mentalmente que não irei me deixar abalar por conta do Daniel. — Você está bem? — Ele sussurra, e eu apenas aceno em positivo. Torno a olhar em direção ao casalzinho do ano. Melissa está afagando os ombros largos e despidos de Daniel. — Não, Melissa. — Daniel nega e olha para mim. Sua expressão fechada é quase indecifrável. Não sei se ele está com raiva por causa de Erick sentado comigo segurando minha mão ou por causa dessa ruiva sem graça insistindo em seduzi-lo ou se, de alguma forma, esteja arrependido de ter me deixado para trás para estar com outra pessoa depois de eu ter sido sincera e ter me aberto, ter falado dos meus sentimentos. Mas, neste momento, nada mais me importa. Ele permite que essa Melissa Telles se aproxime, permite sua presença inconveniente, permite suas provocações direcionadas a mim. Ele é tão podre quanto ela!


— Mas, Dan, posso fazer aquilo que você gosta — Melissa continua insistindo, e agora desce o indicador pelo peito dele, embriagada e sensualmente. Se inclina, então, e mordisca o lóbulo de sua orelha. — Sabe que só eu sei te dar o melhor orgasmo, não sabe? — Ela sequer tem a vergonha de lhe dizer isso em privado. Erick puxa meu queixo me fazendo olhar para ele. Pelo jeito como me encara, meu amigo já deve ter percebido que essa ceninha quase pornográfica está mexendo comigo e me deixando abalada. — Vamos sair daqui? — Me convida, mas nego. Serei forte diante do Daniel. Quero ver até onde isso vai chegar. Preciso saber até que ponto ele é capaz de ir para atender e ceder aos caprichos e pedidos da ruiva. — Melissa, não estou a fim… — suspira, e outra vez se esquiva das provocações sexuais dela. — Vamos ver se não está a fim… — ela resmunga, agarra nos cabelos dele o trazendo para um beijo que, a princípio, não é retribuído. Daniel tenta afastá-la, tenta impedir o beijo, mas um segundo depois, está retribuindo. O que acaba comigo. O que destrói e parte meu coração em incontáveis pedaços. Engulo em seco e olho para Erick. No mesmo instante me recordo do beijo que trocamos no Cruzeiro em frente ao quarto em que estava ficando. Não posso deixar de sorrir com esta lembrança. Foi uma atitude impensada e de momento. — Acho que agora é bom sairmos daqui — ouço a voz dele que me tira de minhas divagações. Como meses atrás, dominada pela insensatez, olho uma última vez para Daniel que continua com sua boca na de Melissa, e com uma atitude infantil, olho para Erick e o beijo de repente, querendo, dessa maneira, provocar alguma reação em Daniel. Quem sabe ciúmes. Erick arregala seus olhos e me afasta, confuso e ao mesmo tempo assustado. Tenho ciência que ele sabe das minhas intenções com esse beijo e no mesmo instante me arrependo. Eu não deveria ter feito isso. Posso magoá-lo com essa atitude de querer fazer ciúmes no Daniel e nem me dei conta disso. — Desculpe, eu… —Shh…! — Ele me cala tocando seu indicador em meus lábios. Estou prestes a lhe dizer algo quando sou arrastada até sua boca em um beijo intenso. Antes de me envolver por completa com o beijo de Erick, miro rapidamente para Daniel. Ele já não beija mais Melissa, mas ela continua em seu colo, deitada em seu ombro. Sua face contorcida me mostra que ele está incomodado. Por isso fecho os olhos, agarro na nuca de Erick e o beijo ainda mais, ignorando a presença de Daniel. Súbito, Erick para o beijo e tem um sorriso divertido nos lábios. Antes de qualquer reação minha, ele se levanta e segura meu punho dizendo:


— Vamos para o seu quarto. Eu sequer tenho tempo de protestar e meu interior grita. Eu não queria que chegasse a esse ponto. Busco por Daniel outra vez. Seus olhos azuis-esverdeados estão arregalados. Melissa, em seu colo, olha para trás, em nossa direção, com uma expressão assustada e de surpresa. Ainda desnorteada com a ação repentina de Erick, sou levada a me levantar, já que ele me puxa pelo punho. Resolvo segui-lo para não o contrariar na frente de Daniel e ao mesmo tempo mostrar a ele que também posso ter encontros com outra pessoa, mesmo que eu saiba que nada irá acontecer entre mim e Gouveia, o que farei questão de deixar claro assim que chegarmos ao meu quarto. — Erick, olha… — Empeço quando ele fecha a porta do meu quarto. — Você precisava ver a sua cara. — Pronuncia rindo. — Eu me segurei muito para não rir na frente daquele idiota. Pestanejo sem entender do que é que ele está falando. — Como é? — Gaguejo. Ele vem até mim e segura minha mão, me fazendo sentar na cama ao lado dele. — Eu entendi que queria fazer, ou tentar fazer, um ciúme naquele imbecil, mas você não estava sendo muito convincente, então, eu só entrei no seu joguinho — me explica, e volta a rir. Sinto minha cara enrubescer. A verdade é que Erick foi tão convincente que conseguiu enganar até a mim. Não me contenho com sua risada e me junto a ele. — Você ficou assustada. Foi…muito hilário — fala ainda às gargalhadas. — Queria enganar ao Daniel ou a mim? — Inquiro rindo junto com Erick. Ele tem sido uma boa pessoa. Penso que ele está tranquilo demais em relação a isso tudo. Talvez outra pessoa em seu lugar se sentisse ofendido com um beijo que seria para enciumar outro homem. Mas a realidade é que Erick está levando de forma natural. Por um instante, pergunto-me se ele não está aproveitando da situação para isso, ao mesmo tempo que nego essa possibilidade a mim mesma. Conheço Erick o suficiente para saber que ele é um cara legal, certo? — Eu não queria te usar daquela maneira — paro de rir e digo séria. Por mais que ele tenha demonstrado que não se incomodou com o ocorrido, ainda assim prefiro deixar tudo em pratos limpos. — Nem sei por que deu essa loucura em mim. Erick me olha com um sorriso divertido nos lábios. Novamente segura em minha mão, me olhando dentro dos olhos. — Não tem porquê se preocupar com isso. Na verdade, eu até gostei. Minha cara queima ainda mais. Preciso parar com isso. Mesmo que eu esteja um pouco envergonhada com o momento, confesso a mim mesma que também apreciei o beijo dele. — Você gosta dele, não é? — Me questiona de súbito.


Pigarreio limpando a garganta e desvio o olhar, me ajeitando na cama. Erick continua olhando para mim e segurando minha mão, esperando por uma resposta que, provavelmente, ele já sabe que é sim. Vagarosamente, balanço a cabeça em afirmativo, já sentindo minhas lágrimas nos olhos. — Mas não é mútuo. — Completo com a voz meio engasgada. — Como sabe? — Eu disse a ele. Disse que sentia alguma coisa, e sabe o que Daniel fez? Me deixou sozinha para sair com aquela ruiva exibida. — Tento evitar minhas lágrimas, mas uma teimosa escapa de meus olhos. No mesmo instante sinto o polegar de Erick enxugando-a antes de ela chegar ao final do meu rosto. — Não deixarei que você fique tristinha por conta desse idiota que não reconhece a mulher maravilhosa que tem dentro de casa. — Proclama com um sussurro; e de repente começa a me fazer cócegas. Sinto seus dedos embrenhando em minhas costelas e me rendendo uma convulsão de risadas. Deito-me na cama e ele cai por cima, ainda me fazendo rir. Subitamente, a porta se abre com um abrupto, e diviso um Daniel soltando fogo pelas ventas entrar a passos decididos. Melissa vem logo atrás e tenta segurá-lo, mas com um movimento brusco ele se solta da ruiva. Não há tempo para reação de Erick. Em segundos, Daniel já o segurou pela camisa e o puxou de cima de mim, o jogando longe e esbravejando como um lunático: — Sai de cima da minha mulher!


29 CIÚME DESCONTROLADO aniel sentiu seus olhos queimarem de raiva. Ele sequer podia imaginar Sophia sendo tocada por outro homem. Sabe que teve que se segurar muito para não fazer bobagem quando a viu beijando Erick. Um alívio momentâneo o fez suspirar assim que Gouveia se afastou, mas segundos depois a tomou em outro beijo muito mais provocante.

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Cego, ele nem se dava conta de Melissa em seu colo, bêbada e pousando a cabeça sobre seu ombro despido. Tudo o que enxergava era apenas o casal à sua frente, e remoía dentro de si a vontade de se levantar, agarrar Sophia pelo braço e arrastá-la para longe de Erick. Por um instante, só não o fez porque sabia, mais do que ninguém, que ela era uma mulher livre, mesmo sendo casados, mesmo que para os de fora eles fossem marido e mulher. E também porque Daniel não queria se exaltar, não queria demonstrar que seu peito queimava de ciúmes, pois se fizesse isso era preciso assumir seus sentimentos, mas o medo de se magoar de novo o dominava. Milagrosamente, se segurou e cumpriu parte de sua promessa de não agir com violência. Mas deixou seu juramento de lado quando Erick levou Sophia até o quarto dela. Por cinco minutos, mesmo com a ruiva tentando animá-lo e seduzi-lo, nada mais lhe saía da cabeça a não ser imaginar os dois juntos. Fez um esforço tremendo para impedir suas pernas de se levantarem e o levarem em direção a eles. Esforço inútil. Quando deu por si, já empurrava Melissa para longe e caminhava a passos decididos até o quarto de Sophia. Mentalizou que era preciso manter a calma caso seus olhos vissem coisas que não desejavam. Mas sua cólera e ciúmes se sobrepunham à sua razão ou senso de tranquilidade. Ao abrir a porta e divisar Erick sobre Sophia, cego e irracional demais, não percebeu que não acontecia nada entre os dois. Não viu que Sophia ria de forma contagiante e que Erick apenas fazia cócegas nela. Tudo que se passava na frente de seus olhos era dois corpos nus se amando. Enfurecido e dominado pelo ciúme, agarrou Erick pelo colarinho da camisa e o puxou com brutalidade, tirando-o de cima de Sophia, aos berros que arranharam sua garganta: — Sai de cima da minha mulher! Erick caiu desajeitadamente no chão, batendo as costas fortemente. Assustada, Sophia deu um salto da cama querendo impedir que Daniel continuasse avançando sobre seu amigo, pedindo para que ele parasse. Mas Müller nada via ou ouvia, sendo controlado pela raiva. Desvencilhou-se da loura e empurrou Melissa, que se pôs em seu caminho. Segurou Gouveia outra vez pelo colarinho e o levantou. Antes de qualquer protesto deste, Daniel desferiu um soco em seu olho


direito, o levando novamente ao chão. — Daniel, pare, por favor! — Sophia gritou, sua voz já embargada pela cena que desenrolava, tentando segurar seu braço para que ele não continuasse com as agressões ao amigo. Mas sua atitude foi vã. No segundo seguinte, Daniel já estava em cima de Erick, distribuindo mais dois murros. O terceiro foi impedido pelo próprio Erick, já sangrando pelo nariz e pela órbita do olho esquerdo. Obstruiu o golpe que acertaria sua face e, sem demora, devolveu as agressões, acertando Müller três vezes no nariz. Com uma dor descomunal, Daniel perdeu os sentidos por um segundo, mas tempo suficiente para que seu adversário revidasse e invertesse a situação. Agora, era Daniel quem estava por baixo, recebendo socos de graça que desfigurariam seu rosto bonito. Melissa, ainda bêbada e cambaleando, montou sobre as costas de Erick, intentando tirá-lo de cima de seu amante. Sophia também o puxava pelo braço, as lágrimas rolando, e suplicou: — Erick, não, por favor, não o machuque! Não o machuque! Porém, nada do que as duas mulheres presentes fizessem ou dissessem parecia ser capaz de parar qualquer um dos homens que se digladiavam. Erick segurou Daniel pelo pescoço e o forçou a se levantar. Müller sentiu-se estrangulado pelo aperto das mãos de Gouveia, e em seguida, suas costas nuas serem colididas contra a parede. A dor no nariz deu lugar às costas, sentindo que vomitaria os pulmões caso recebesse outra colisão como aquela. Erick estava pronto para desferir um golpe na sua boca do estômago, mas Daniel agiu rápido e o golpeou nas costelas. Erick retraiu o corpo, sentindo a pressão da investida. Müller aproveitou o momento de indefesa, segurou-o pela nuca e o atingiu com uma joelhada no queixo. Seu oponente caiu zonzo, sentindo a língua cortada e a boca encher de sangue. Melissa e Sophia continuavam gritando e ainda tentando impedir que os homens se matassem. Daniel cerrou os punhos na intenção de encontrar a face de Erick, mas, mesmo atordoado pelo golpe, seu inimigo agiu mais rápido e se desviou girando o corpo de lado. A mão fechada de Müller acertou o assoalho do cômodo. O golpe o desequilibrou e ele caiu, batendo o tórax contra o chão. No mesmo instante, sentiu um chute massacrar sua costela direita. — Erick, para. Por favor. Para! — Sophia quis outra vez impedi-lo, mas seu colega chegara a seu limite e perdera a cabeça. Investiu um segundo chute nos ossos de Daniel, e nada o parava, nem mesmo as unhadas que a ruiva deu em seu braço. — Ela é sua mulher, Daniel? — Gritou virando-o. Daniel Müller tinha a cara inchada e sangrando, os olhos e bochechas arroxeados pelos golpes. Respirava com dificuldade e parecia estar à beira da inconsciência. — Então a trate como tal. Não apenas como e quando lhe convém. — Montou sobre seu adversário e distribuiu mais socos. Sophia o puxava pelos ombros, tentando, a todo custo, cessar a


briga. — Erick! Você irá matá-lo! De repente, um dos colegas da empresa, que estavam junto a eles horas atrás, após ouvir a gritaria, surgiu pela porta. — Lucas! — Sophia gritou aos prantos. — Faça alguma coisa, pelo amor de Deus! Sem demora, Lucas agarrou Erick, abraçando sua cintura e o tirou do alcance de seu chefe. — Para com isso, brother. — Dizia Lucas fazendo esforço para segurar Erick que ainda se debatia. Melissa correu para acudir Daniel, praticamente sem os sentidos. Com um pouco de dificuldade para levantar o tronco quase desfalecido de Müller, o sentou e avaliou, horrorizada, seus ferimentos. — Você quase o matou! — Esbravejou já se sentindo mais sóbria. Então Erick para de relutar contra as mãos que o seguram, dando-se conta da realidade. Mirou Daniel nos braços de Melissa. A cor de seu rosto era uma mistura de vermelho e roxo, os olhos inchados, o nariz pingando sangue e a cabeça pendia, como se o pescoço não sustentasse o próprio peso. Pestanejou, percebendo que como nenhuma outra vez em sua vida a ira o tomou tanto como naquele momento. Buscou por Sophia que já estava segurando um telefone e pedindo por uma ambulância. Seus cabelos áureos jaziam bagunçados, o rosto vermelho e molhado de pranto. — Ah, meu Deus… — Sussurrou caindo em si. Andou rapidamente até ela, agora, sentindo as dores de sua luta com Müller. Ela levantou os grandes olhos verdes em sua direção. O globo ocular avermelhado pelas lágrimas de desespero que se acumularam. Olhou, outra vez, para seu adversário nocauteado e voltou-se para Sophia, sem saber exatamente como agir ou o que lhe dizer. — Sophia, eu não quis… eu não quis machucá-lo. — Gaguejou. Jamais tinha se envolvido em uma situação como aquela e nem imaginava que possuía tanta força para fazer o estrago que fez em Daniel. A loura não o respondeu. Apenas engoliu em seco e pestanejou querendo segurar seu pranto. Estava cansada de chorar. Principalmente por Daniel, a quem não merecia sequer uma mísera lágrima. Aproximou-se cautelosa dele e o abraçou, chorando em seus ombros. Sentia-se culpada. Mais uma vez.

♦♦♦


Sophia e Erick observaram a ambulância seguir para o hospital levando Daniel. Melissa foi de acompanhante, já que eles não podiam seguir viajem, pois precisavam esclarecer o caso à polícia, que não demorou a encostar na porta da casa dos Müller. Após prestar os devidos esclarecimentos – e Sophia ter dado seu testemunho – eles seguiram para a delegacia fazer um boletim de ocorrência contra Daniel. Antes de partirem, o delegado afirmou que Erick ainda não seria autuado, e que assim que o agredido, e Melissa, segunda testemunha, tivesse condições de prestar seu depoimento sobre o caso, eles o colheriam, e só depois de ouvirem os dois lados é que as devidas providências seriam tomadas. No caminho para o Pronto Atendimento, Sophia ligou para o irmão de Daniel falando sobre a briga que se desenrolara na casa deles, avisando sobre as consequências acarretadas com o desentendimento entre Müller e Gouveia. Agora, eles aguardavam a chegada de Heitor sentados no sofá da sala de espera. Erick batia os pés constantemente e Sophia roía as próprias unhas. Do outro lado, encostada à uma coluna, Melissa Telles também esperava. Heitor entrou como um furacão no Hospital. Quando viu Erick sentado ao lado de Sophia, sequer se lembrou que precisava fazer silêncio e foi logo gritando: — Erick, eu vou acabar com a sua raça! Ambos se levantaram ao mesmo tempo, a loura se pondo na frente do amigo, que já havia recebido os primeiros socorros e estava com o rosto preenchido por curativos. — Já chega de briga por hoje, Heitor — se pronunciou e olhou para a recepcionista que vinha na direção deles logo atrás, provavelmente para dar um sermão em Heitor sobre ele entrar gritando. Ela maneou a cabeça e a mulher estacou no lugar avaliando rapidamente o homem de costas a ela. Com um suspiro, desistiu, percebendo que a loura controlaria a situação, e voltou para seu lugar. — Erick estava se defendendo. E fale baixo porque estamos em um hospital. Heitor encarou Erick, mantendo a ira apenas em seus punhos. — Como ele está? — Quis saber. — Bem. Chegou inconsciente, mas já recebeu os primeiros socorros, e vai passar a noite em observação. — Quero entrar para vê-lo. — Exigiu, e já estava passando por eles quando foi impedido. — Não pode. Ele está dormindo por conta dos sedativos. Deixe isso para depois, Heitor. Com um suspiro, ele cedeu e mirou outra vez Erick. — Não pense que isso vai ficar assim. Vou dar parte em você na polícia. — Não há necessidade — respondeu Erick sem se abalar. — Já conversamos com a polícia. E eu aleguei autodefesa. — Que eu saiba, você estava ponto de mata-lo! — Gritou novamente, e dessa vez a


recepcionista o advertiu em alto e bom som. Heitor se desculpou e respirou fundo, acalmando o coração. — Antes ele do que eu. — Retorquiu sem remorso. — Mas nenhum de nós dois sairemos impunes. Não se preocupe. — Posso saber por que brigaram? — Praticamente exigiu. — Porque seu irmão é um idiota que pode ficar se esfregando com qualquer uma, enquanto eu tenho que fazer voto de castidade! — Sophia interviu ríspida. — Agora, já que você chegou, eu posso ir embora. — O quê? Vai deixar meu irmão aqui sozinho? Você é esposa dele! — Só no papel, Heitor. Só no papel. Seu irmão não merece minha preocupação. E ele não vai estar sozinho. Melissa o fará companhia, como sempre faz, não é, querida? — Rebateu e mirou a ruiva que continuava no seu lugar, imóvel. Se agarrou aos braços de Erick. — Vamos para casa, Erick. Estou cansada. Sem dizer mais nada, e nem esperar por uma resposta dele, Sophia o arrastou para fora do hospital. Mesmo que sua vontade fosse de ficar e depois saber como Daniel estava, resistiu a seus impulsos. Ele só encontrara o que havia procurado. Por um momento, durante o percurso até o Pronto Atendimento, se sentiu culpada por todo o ocorrido: se não tivesse insistido que Erick ficasse, se não tivesse tentado provocá-lo, se não tivesse deixado que Gouveia insinuasse que teriam algo mais. Mas não demorou a se advertir Nada daquilo teria acontecido se Daniel não fosse um idiota, se Daniel cumprisse sua palavra, se Daniel fosse mais atencioso e menos imbecil. — Vou te deixar em casa e depois pegou um táxi e vou para a minha. — Erick pronunciou abrindo a porta do carro de Daniel que usou para chegarem até ali. — Tudo bem. Não queria te dar todo esse trabalho. — Imagina, Sophia. O maior culpado sou eu. Não deveria ter dado corda para o Daniel. Ela suspirou e entrou no carro puxando o cinto. Vagueou em seus pensamentos se perguntando por que e como sua vida havia chegado naquele ponto. A maior parte do tempo nos últimos meses ela estava nervosa, triste ou chorando por conta dos feitos de Daniel. que por um prazo curto, haviam vivido bem e sem discussões, parecia que Müller sabia agir de modo a compensar todos seus dias de paz e transformar um único dia o mais infernal de todos. — Tem uma coisa que eu não entendo — Erick a tirou de seus devaneios, e ele já dirigia de volta para casa. — Por que ainda mantém esse casamento, mesmo que de fachada, se esse cretino só te faz mal? Com um suspiro, ela concordou mentalmente com seu amigo. Já devia ter dado basta à farsa dessa união, ter se demitido da empresa, e deveria estar vivendo em paz e sozinha. Já havia trabalhado o suficiente para juntar um dinheiro extra e poderia muito bem viver por meses sem


passar necessidade. Mas havia a maldita herança que Daniel ainda não havia recebido. No final, Sophia sempre pensava mais nele do que em si própria. E isso começava a incomodá-la. — Tem razão. — Respondeu observando a paisagem noturna de madrugada. — Preciso parar de pensar em como ele vai receber a herança caso me divorcie dele, ou de como poderei ajudar minha família se quebrar o acordo do contrato — suspirou derrotada e buscou pelos olhos de Erick. — Assim que ele sair do hospital, vou pedir o divórcio. Já estou no meu limite. Gouveia tirou a mão do volante por um segundo para segurar a dela. Olharam-se nos olhos e ele exibia um pequeno sorriso. — Se eu puder te ajudar em alguma coisa… — Obrigada. — Agradeceu, cessou o toque e voltou a olhar para a noite lá fora. Terminaram o percurso em silêncio. Erick estacionou o carro na garagem e desligou a ignição. Por dez segundos inteiros ficaram mudos, um não querendo encarar o outro. Sophia pensando que já era hora de dar um basta em tudo que vinha acontecendo. Erick tinha razão. Daniel só a fazia mal desde que aceitou as condições desse casamento de conveniência. Os momentos de paz eram cada vez mais raros e isso a estava desgastando mental e fisicamente. No seu interior ela sabia que seria uma decisão difícil se afastar de Müller, por conta do sentimento que vinha cultivando. Mas era um sentimento que a destruía. E que a destruiria junto dele ou não. Estava decidida a exigir o divórcio e acabar de uma vez por todas com o mal que vinha a afligindo e lhe fazendo passar por situações estressantes. Sufocaria seu sentimento por Daniel, daria uma oportunidade a si mesma, recomeçaria e seria feliz. — Me desculpe outra vez. — Erick sussurrou a tirando de suas dispersões. — Jamais imaginei que aconteceria isso. — Tudo bem. Você só estava se defendendo. Se não tivesse feito isso, provavelmente seria você naquele hospital. E você não tem culpa de nada, Erick. Entendo que a raiva te subiu à cabeça. Ele nada respondeu. Somente desceu do carro, pronto a ir embora. Sophia desceu em seguida e foi a seu encontro lhe dando um abraço confortável. Olhou para seu rosto. Ele levara alguns pontos na órbita esquerda, as bochechas levemente arroxeadas, o canto da boca cortado, e ele, às vezes, falava com um pouco de dificuldade por conta da língua cortada. — Vai ficar tudo bem. — Assegurou ao notar a ligeira preocupação nos olhos verdes. — Posse te ligar amanhã? Para saber como está tudo? Ela acenou em positivo. Despediram-se com um abraço forte. Erick seguiu seu caminho e Sophia adentrou a casa. Com cautela foi até seu quarto, onde tudo começara. Olhou ao redor e viu os respingos de sangue que poderiam ser de qualquer um dos dois. Virou nos calcanhares. A última coisa que queria era dormir naquele quarto sabendo que as lembranças ruins a atormentariam. Mesmo com sua consciência gritando não, ela entrou no de Daniel. Tudo estava arrumado, como ele costumava deixar. No criado mudo estava o celular dele. Aproximou-se e o tomou em mãos. Surpreendeu-se


ao ver que o protetor de tela era uma foto que haviam tirado numa cidade turística no interior, quando viajaram a negócios, algumas semanas antes: ele jogava o braço em volta de seus ombros e estampava um sorriso largo. Os olhos claros davam destaque em contraste ao queixo barbado. Deslizou o bloqueio de tela e, sentando-se na cama, começou a conferir suas coisas pessoais. As ligações recebidas e perdidas eram de maioria da ruiva. De um jeito estranho sentiu-se feliz por não haver nenhuma ligação dele para ela nas últimas três semanas. Pelo menos, não de seu telefone móvel. Passou para as mensagens, as que ele enviara para a ruiva era sempre a respondendo. Leu algumas conversas, percebendo que Daniel há muito não se interessava por Melissa.

Saudades do nosso sexo.

Ela havia mandado. Sophia rolou a tela para ver a resposta. Para seu alívio Daniel não respondeu. Continuou lendo, sem ao menos se importar por invadir a privacidade de Müller.

É isso Daniel? Não vai me responder? Estou ocupado. Agora não, Mel. Depois te respondo.

A próxima mensagem é de dois dias depois.

Dan, meu amor, vamos sair hoje à noite?

Tenho trabalho. Outra hora.

Mais três dias até uma nova conversa.

Daniel, livre hoje à noite? Hm… não Melissa. Estarei ocupado.

Terminou de ler as mensagens. Muitas não tinham sido respondidas, para o enfurecimento de Telles, que deixava claro seu desapontamento nas mensagens.


Perguntou-se, então, por que diabos Daniel continuava a suportar a ruiva, se já não havia mais tanto interesse nela. Há um tempo Melissa… me fez um favor, e eu devo isto a ela, entende? Agora, ela está me cobrando e eu preciso pagar essa minha dívida. Desconfiou se havia mesmo uma dívida com Melissa ou se tudo não passava de alguma chantagem. Pois era o que começava a fazer sentido. Afastando os pensamentos, continuou a bisbilhotar as mensagens de Daniel, se deparando, sem demora, com algumas dele para ela naquele dia, antes de toda a confusão, mais ou menos no horário em que ela estava com Erick. Mas como havia deixado o celular em casa, não viu nenhuma delas.

Sophia, se arrume, vou te buscar para vir para cá no churrasco. Pode ser?

Meia hora se passa até ele lhe mandar outro texto:

Sophia, me responde. Ou pelo menos atenda o celular. Sei que está chateada e sei que sou um imbecil. Mas atenda a porra desse celular. Me desculpe. Só atenda minhas ligações, por favor. Estou indo aí te buscar.

As mensagens então acabam e ela devolve o aparelho no criado mudo. Levanta-se e caminha até o chuveiro, tendo seu corpo clamando por uma ducha morna para relaxar a tensão e limpar sua pele do dia difícil e cansativo que tinha tido. Por mais que tenha se divertido com Erick, mesmo ali no churrasco, vendo Daniel ser assediado pela ruiva, apesar de tudo isso, tinha se divertido. Mas sempre que acreditava que tudo acabaria bem, Daniel tinha o dom de estragar um dia inteiro de paz e felicidade em apenas cinco minutos. Lavou o rosto e o cabelo tentando não se preocupar com a saúde dele, se ele estaria bem ou com dores. Por mais que tente é inevitável. Sophia se lembra perfeitamente do estado de Daniel quando entrou na ambulância: rosto vermelho de sangue e roxo pelas lesões; um dos olhos estava tão inchado que se ele tivesse acordado não conseguiria abri-lo; a boca estava quase que toda cortada e também grossa pelo inchaço. Chacoalhou a cabeça querendo desfazer as imagens de seu pensamento. E apesar do estado em que Daniel foi levado ao pronto atendimento, Sophia não conseguia culpar ou sentir ódio de Erick. Tinha ciência que ele apenas se defendera, e que, no alvoroço do momento, extrapolou seus limites. Talvez se não tivesse revidado seria ele a estar numa cama de hospital, levando em consideração o modo brutal que Daniel o agrediu.


Enrolou-se na toalha e saiu para o quarto, seus olhos pesando de sono. Mas com sua mente trabalhando a todo vapor nos últimos acontecimentos, pensou ser impossível dormir. Secou o corpo rapidamente, vestiu uma calça de moletom que Daniel tinha em uma das suas gavetas e escorregou pelo corpo uma camisa regata branca, também dele. Deitou-se e apagou a luz. Deixou de lado qualquer preocupação com Müller e adormeceu. Mas, bem lá no fundo, sentiase calma porque Daniel, apesar dos ferimentos, estava bem. Sabia que se tivesse acontecido algo de pior a ele não suportaria sua dor.

♦♦♦

Sophia despertou assustada com a porta do quarto se fechando com um abrupto. Sentou-se na cama de pronto, ainda atordoada com seu despertar repentino. Viu Heitor parado no meio do caminho com um olhar espantado. Não demorou para ele ignorar sua presença e dar continuidade a seu trajeto, andando até o guarda-roupa do irmão e selecionando algumas peças, enquanto se pronunciava: — Não quis te acordar. Não sabia que estava dormindo aqui. Sophia limpou a garganta e puxou o lençol sobre o corpo antes de responder: — Tudo bem. Está vindo do hospital? — Perguntou olhando suas costas. Heitor virou-se segurando uma quantia de roupas e as repousando sobre a cama. Abriu outra porta do guardaroupa e tirou uma mochila: — Sim. Passei a noite lá. — Retorquiu e enfiou de qualquer maneira as peças dentro da bolsa. Sophia pensou em perguntar se Daniel havia acordado e qual era seu estado, mas pensou consigo mesma que mostraria aos Müller, principalmente ao seu “esposo”, que as atitudes de Daniel tinham chegado ao limite e ela já não se importava mais com ele, nem que iria ficar se preocupando ou afligindo por sua causa. Por isso, levantou-se e buscou pelas próprias roupas da noite anterior, observando Heitor colocar peças íntimas do irmão dentro da mochila. Travou sua língua para não questionar se Daniel já havia recebido alta. — Você irá visitá-lo? — Ele perguntou jogando a mochila sobre o ombro direito. — Não. — Respondeu apenas, juntando suas peças de roupa. — Daniel já acordou. — Comentou. — O inchaço no rosto diminuiu bastante por causa dos sedativos. O médico disse que ele poderá ir para casa amanhã cedo. Ele precisa completar 24 horas em observação para terem certeza que não haverá nenhuma sequela. — Que bom para ele… — rebateu tentando manter-se neutra e indiferente. Heitor apenas acenou e saiu em silêncio, percebendo que, talvez, fosse inútil tentar convencê-


la a ir ao hospital. Forçando-se a não se arrepender de ter negado em ir até Daniel e fazer-lhe uma visita, caminhou para seu quarto e trocou de roupa. Em seguida, deu-se o trabalho de limpar um pouco da bagunça espalhada pelo cômodo, retirando os resquícios de sangue no chão. Estava juntando os materiais de limpeza que usou, quando reparou em alguém parado à porta. Levantou os olhos e se deparou com Erick, com um sorriso pequeno e tristonho nos lábios. No rosto, ainda havia as marcas das agressões que recebeu na madrugada daquele dia, mas que ainda assim não lhe tirava sua beleza exótica e peculiar. — Precisa de ajuda? — Ele se pronunciou finalmente. — Não, eu já terminei, obrigada. Como está se sentindo? — Quis saber. Deixou o que segurava e caminhou até Erick, querendo avaliar os cortes no rosto. — Parece que levei uma surra. — Brincou e riu em seguida. Sophia revirou os olhos de bom humor e lhe tapeou amigavelmente no ombro. — Isso significa que está dolorido? — Sim. Um pouco, mas não se preocupe. — Tranquilizou-a e sussurrou em seguida com uma pontada de sarcasmo: — Vou sobreviver. Sophia sorriu largamente, contagiada pelo humor de Erick diante às circunstâncias e situação que presenciavam. — Vim saber como está tudo por aqui. Já soube do Daniel? — Proferiu entrando de vez no quarto e se acomodando na cama. A loura suspirou e o seguiu, sentando-se na outra ponta, ao seu lado. — Heitor disse que ele acordou e está bem. Mas não quis ir para vê-lo. — Por que não? — Inquiriu. — Porque sei que irei me aborrecer. E estou cansada de aborrecimentos, Erick. — Queixouse e deixou escapar um suspiro agoniado. — E vai mesmo pedir o divórcio? — Sim — afirmou confiante. — Esse casamento já deu o que tinha que dar e tem me tirado a sanidade aos poucos. Assim que ele voltar para casa, iremos conversar a respeito disso. — Mesmo que goste dele? — Erick instigou outra vez. Sophia o encarou, sem entender. Há poucas horas quis saber porque ela não dava um basta no matrimônio que só lhe trazia decepções e dores de cabeça. Agora, parece ter mudado de ideia e insinua que ela continue a insistir e a investir nesse relacionamento que acabou antes mesmo de começar. — Sim, Erick, mesmo que eu goste dele. Daniel não gosta de mim. Manter essa fachada só


vai me machucar ainda mais. Em todos os aspectos. — Reforçou, lembrando-se que feriria seu coração vendo Daniel com outras mulheres, que feriria seu psicológico se brigas e confusões continuassem acontecendo cada vez que ele tivesse um surto de ciúmes. E pensou que, uma hora ou outra, intencional ou não, seria ferida fisicamente. Como já tinha sido uma vez. — Como quiser… — Ciciou. — Está com fome? — Emendou de pronto. — Podemos sair e almoçar. Almoçar? Questionou-se mentalmente. Havia perdido a total noção das horas. Buscou pelo relógio e viu que já se passavam das treze horas. Percebendo, então, que era tarde, como se sua fome tivesse sido desmascarada, sentiu seu estômago no fundo, dando-se conta que precisava comer. — Oh, claro. Vou pôr algo mais adequado. — Fez menção de se levantar, mas Erick segurou seu punho e em segundos já haviam saído do quarto com ele lhe dizendo: — Está linda assim. Rindo, ela o seguiu sem protestar.

♦♦♦

Erick e Sophia tiveram um almoço agradável, apesar de noventa por cento do assunto abordado ter sido sobre os socos que ele e Daniel trocaram. Ela quis saber como os familiares de Gouveia reagiram ao vê-lo chegar em casa tarde da noite e com marcas de golpes, evidenciando, assim, sua briga com Müller – e qual foi a explicação e motivos que ele lhes contou. Erick a tranquilizou sobre isso, dizendo que contara parte da verdade, depois que sua mãe lhe passou um longo sermão; seu pai não interveio em nada e apenas o aconselhou a não se envolver mais em nada do tipo. Já Heloísa, sua irmã, o abraçou e o beijou radiante de alegria, alegando que o irmão era herói e corajoso, o que lhe rendeu inúmeras advertências por parte de Yara e Nelson. Sophia não deixou de rir nessa parte. Provavelmente Isabela agiria da mesma maneira. Ao final, eles retornaram para a casa dos Müller. Erick estacionou o próprio carro em frente à residência; mirou para Sophia, que se livrava do cinto de segurança. — Acha uma boa ideia eu ir até o hospital para vê-lo? — Erick questionou, e no mesmo instante ela o olhou, espantada. — Pelo amor de Deus, Erick… Não! — Respondeu levemente alarmada. — Irei com bandeira branca, Sophia. — Respondeu após uma risada nervosa. — Você pode ir em missão de paz, mas Daniel pode não querer trégua. Ele suspirou e permaneceu calado, concordando com um aceno de cabeça. — Quero aproveitar e me despedir — pronunciou. — Ele receberá alta amanhã cedo. Assim que ele estiver aqui, peço o divórcio, tomo um ônibus e volto para casa. — Disse e baixou seus


olhos, exalando tristeza. — Mas não quero perder contato com você. — E voltou seu olhar a Erick. — Quando se instalar em um novo endereço, me avise e eu te faço uma visita. — Ele disse sorrindo. — E podemos nos falarmos por e-mail, mensagens instantâneas… — acrescentou. Sorrindo, ela lhe beijou a bochecha, agradecendo por sua amizade. Despediram-se, Sophia desceu do carro e fez seu caminho, olhando para trás algumas vezes, até não mais ver o carro de Erick. Ao entrar em casa, deparou-se com Heitor, novamente. Desta vez, ele estava sentado no sofá, uma lata de cerveja na mão. Ao vê-la, sorriu e voltou sua atenção à TV ligada. — Já voltou? — Questionou surpresa, se acomodando no outro sofá. — Sim. Só fui deixar as roupas para ele. Vim descansar um pouco antes de voltar para lá. Daniel já está um pouco melhor, não precisa mais de um acompanhante o tempo todo. — Entendo. — Ciciou — Aposto que Melissa até criou raízes naquela recepção. — Comentou, e Heitor gargalhou. — A verdade, é que não. Ela foi embora ontem logo depois de você. Não a vi desde então. Sophia sentiu por Daniel ter tido apenas o irmão ao lado dele. Percebeu o quanto a ruiva era uma calculista e interessada apenas em provocá-la. Sua atitude somente demostrou o que ela nunca deixaria de ser para Daniel: uma amante. Uma pessoa para as horas boas, porque se a vida dele estivesse dependendo de Melissa com certeza estaria morto. Quase que no mesmo instante, se corrigiu por penar por seu esposo de conveniência. Daniel estava colhendo os frutos que plantou. Se ele escolheu Melissa a ela, então, nada mais justo que ser deixado de escanteio em uma situação que a ruiva poderia ter demonstrado que estaria a seu lado quando e como precisasse. Pois era o que Sophia teria oferecido a ele, se Müller pudesse corresponder aos seus sentimentos. Ou que, pelo menos, tivesse dado uma chance para ela. Para eles. — Ele perguntou de você. — Heitor a tirou de seus pensamentos. — E o que disse? — Que você não quer vê-lo nem pintado de ouro e diamantes e pelado. — Ele riu um pouco, mas ela permaneceu neutra, não achando graça no que dissera. — E o que ele disse? — Indagou ligeiramente curiosa. — Nada. Fechou a cara e ficou calado. Sophia suspirou sem nada responder e desviou os olhos, ponderando ou não se deveria ir fazer uma visita. Seu coração ansiava por muito em vê-lo, em sentar ao seu lado, afagar seus cabelos, cuidar de seus ferimentos. Fazer coisas que Melissa não fez. Mas sua razão gritava alto para que ela permanecesse quieta em seu lugar, que deixasse ele sozinho, que demonstrasse que não se importa, para que Daniel sinta a dor da indiferença. Sua razão a advertia, ainda, de que era preciso cuidado para não magoar seu coração. E se ela chegasse lá e Melissa estivesse com


ele? E se eles começassem uma discussão por conta do ocorrido que o levara até o pronto atendimento? Balançou a cabeça, querendo esvoaçar os pensamentos. Já havia dito para si milhares de vezes que não pensasse ou se preocupasse com Daniel, mas parecia impossível. — Acho mesmo que deveria ir até o hospital. Nem que seja para chamá-lo de imbecil e mandar ele se foder. — Heitor Müller a tirou outra vez de seus devaneios. Ele não riu com as próprias palavras, mas ela, sim, mesmo que brevemente. — Quando é o próximo horário de visitas? — Rendeu-se. Parcialmente. Iria até o hospital, saberia do estado dele, entraria no quarto, trocaria duas palavras desejando melhoras e voltaria para casa. Nada mais que isso. Iria evitar qualquer discussão ou alongar as conversas. Nem sentar ao lado dele e cuidar de seus hematomas. — Às oito, mas você é a esposa dele. Pode entrar quando quiser. Ela olhou no relógio. Quatro da tarde. — Você vem comigo? — Perguntou a Heitor. — Prefiro ir no horário de visitas. — Claro. — Afirmou com um sorriso largo. — Só se me prometer que dará outra surra naquele idiota. Ela gargalhou alto. Mas no seu interior sabia que essa vontade não lhe faltava.

♦♦♦

— Ele já foi embora, senhor Müller — a recepcionista do hospital informou a Heitor, ajeitando seus óculos no rosto, que refletiam a tela do computador à sua frente. Sophia e Heitor se entreolharam, confusos. — Tem certeza que estamos falando do mesmo paciente? — Ele questionou à funcionária, uma senhora de cabelos médios e castanhos. — Daniel Ortega Müller? Tem certeza que ele não foi transferido de quarto? A mulher digita as informações outra vez em seu computador. Segundos que para Sophia parecem infinitos. Ela chegara ali na esperança de se entender com ele, de entrarem em um acordo e se divorciarem sem ressentimentos e amarguras, por pior que tenha sido o mal que ele lhe causou. Mas a mulher do outro lado do balcão afirma categoricamente que Daniel já foi embora, e ela se pergunta porque ele não avisou a ninguém. — Isso mesmo, senhor Heitor. — A recepcionista tornou a confirmar a ausência de Daniel. — Há uma observação na ficha de alta dele. Parece que o senhor Daniel assinou um termo de responsabilidade, por esse motivo foi liberado do hospital.


Com um suspiro derrotado, Heitor agradece as informações recebidas e volta até o carro, Sophia acompanhando suas passadas longas e exasperadas o quanto podia. — Talvez ele já esteja em casa. Sabe que seu irmão é impaciente. — Sophia enunciou enquanto entravam no carro. — Assim espero. Mas não custava nada a ele ter nos avisado. — Resmunga e está prestes a dar a partida e seguir de volta para casa quando seu celular emite uma notificação de mensagem. Rapidamente toma em mãos e por um segundo fixa seus olhos na tela, exibindo um esgar de confusão. — O que foi? — A loura inquire, curiosa. Sem dizer nada, Heitor lhe entrega o telefone e ela lê a mensagem recebida.

Heitor, sei que foi ao hospital para passar a noite comigo. Só estou avisando para que não surte ou se preocupe. Estou saindo do RJ, mas ainda sem destino. Preciso de uns dias sozinho. Até mais. Daniel

Sophia devolveu o celular a ele e ajeitou-se no banco, puxando o cinto, emudecida. Não se preocupe, Daniel, pensou, dentro de pouco você terá todo o tempo do mundo para ficar sozinho. Como você merece.


30 DECISÃO ERRADA

uando Daniel despertou, o que aconteceu gradativamente, sentiu-se dolorido. Seu lado esquerdo do corpo ardia, e o mínimo movimento lhe causava uma onda de desconforto e dor que nunca sentiu em sua vida. Com mais dificuldade que o habitual, abriu os olhos, a claridade súbita o cegou por um instante. Estranhamente, reparou que seu olho direito estava um pouco inchado, tendo de forçar sua memória a rebobinar os últimos dias para entender o que diabos se passava com ele. Estreitando os olhos, e sentindo uma terrível dor por todo seu corpo ao fazer este simples ato, conseguiu se localizar e compreender o que havia com ele.

Q

Lembranças vieram às suas memórias, e recorda-se nitidamente de sua briga com Erick por conta de Sophia. Socos, chutes e murros ainda continuavam vívidos em sua mente, mas a última coisa que se lembra é de ter errado um golpe em Erick, e logo viu-se recebendo chutes nas costelas, estas que, com as recordações arderam em incômodo, e Daniel soltou um rosnado de protesto. “Ela é sua mulher, Daniel?”, a voz de Gouveia gritou dentro da sua cabeça, “Então a trate como tal. Não apenas como e quando lhe convém!”. Após isso, não tem mais nenhuma lembrança, apenas uma lacuna extensa e obscura de inconsciência e esquecimento. Tentando não se irritar com o fato de ter se envolvido em uma briga – e mais: ter perdido – força seus braços a erguerem o próprio dorso para se ajeitar na cama e sentar. O simples movimento lhe causa um tremendo sofrimento nos ossos doloridos, e Daniel precisa de um segundo para recuperar o ar e esperar que a dor aliviasse. Suspirando pesadamente, querendo ignorar o incômodo em suas costelas, ele olha ao redor, reconhecendo estar em um hospital. Sem nenhuma demora, a porta se abre e Heitor surge com um copo de isopor nas mãos. Ao ver o irmão acordado, Heitor sorri e levanta o copo: — Chocolate quente? — E sorri brevemente pelo canto dos lábios, terminando de adentrar no recinto. — Que bom que acordou, Bela Adormecida. — Profere irônico se sentando em uma cadeira ao lado de Daniel. — Como se sente? — Dolorido… — apenas diz de cara fechada. — Hm… — Heitor murmura dando um gole rápido em sua bebida. — Posso conseguir uns analgésicos, se você quiser.


— Que dia é hoje? — Daniel inquire de repente, sentindo-se levemente deslocado da realidade, ignorando a ironia do irmão. Heitor levanta uma das sobrancelhas, exibindo confusão em seus olhos azuis profundos. Dá de ombros e cruza as pernas, casualmente. — 5 de março. — Responde calmo. Daniel arregala os olhos, pestanejando em seguida, totalmente atordoado. Até onde conseguia se lembrar, a confusão com Erick ocorreu em janeiro. Ele ainda está assimilando a realidade, quando, um segundo depois, Heitor começa a gargalhar, e subitamente seu sangue ferve pela brincadeira de mau gosto. — Oh, meu Deus. A sua cara de susto… — Heitor, seu imbecil! — Daniel esbraveja e seu corpo protesta dando-lhe uma sensação dolorosa; ele grunhe antes de continuar. — Filho de uma mãe, eu achei… eu achei… eu achei que tinha ficado em coma! Inútil desgraçado! O irmão revira os olhos ainda rindo, levanta-se e recompõe sua postura. — Um pouco de humor não vai te matar, Daniel. — Declara com um sorriso encurvado de canto. Daniel respira fundo para dizer que não viu graça nenhuma na brincadeira, e somente o ar preenchendo seus pulmões lhe causa outra dor intensa. Ele resmunga e exibe um esgar, enquanto ouve seu irmão lhe perguntar se se sentia bem. Brevemente, acenou em positivo e forçou sua respiração a desacelerar, já que até respirar parecia enviar sinais dolorosos ao seu corpo ferido. — É dois de janeiro — Heitor diz de repente andando até o fim do quarto e jogando seu copo de isopor no lixo. — Você está aqui apenas há algumas horas. Aquele Erick fez estrago, hein?! — Pronuncia com certa malícia. — Ele se aproveitou de uma distração minha. — Daniel se defende. — Sei… — diz o irmão segurando um riso e voltando a se sentar à cadeira perto da cama. — Deixe-me adivinhar uma coisa: vocês brigaram por causa de Sophia? Com a testa franzida, Daniel desvia o olhar, como se, de algum jeito, pudesse fugir da pergunta óbvia feita a ele. Não lhe agrada a ideia de ter que se explicar sobre por que se irritou com o fato de imaginar Sophia e Erick juntos. Isso incluiria abrir seus sentimentos, dizer que talvez estivesse mais envolvido do que deveria com a loura, que, ao que tudo indicava, seu coração teimoso havia se apaixonado. Conhecendo Heitor, se Daniel resolvesse ser sincero e confessar que em seu peito queimava o ciúme de imaginar Sophia nos braços de um homem que não fossem os dele, além de soar extremamente patético, o irmão teria motivos para lhe zombar pelo resto de seus dias. Fechando os olhos e respirando fundo, mas com certa cautela para que a maldita dor não o incomodasse outra vez, Daniel imagina uma resposta rápida ao irmão, querendo, de qualquer maneira, fugir de ter que justificar o real motivo que fizera sua ira subir pela cabeça e levá-lo a


brigar com Gouveia. — Eles iam transar — diz de repente com a voz carregada, e se tencionava não demonstrar que estava com ciúmes dessa probabilidade, o tom de seu timbre o entregou, fazendo-o falhar miseravelmente na sua intenção. Percebendo sua gafe, ele tenta consertar o que foi dito: — Quero dizer… bem, Sophia é importante para mim, e aquele Erick não parece ser um cara legal — responde, e Heitor ergue uma sobrancelha, duvidoso. — Então você é um empata-foda, agora? — Heitor o questionou. Daniel franziu a testa outra vez, incomodado com tal pergunta. Por que o irmão simplesmente esquecia o assunto e ia buscar alguns malditos analgésicos? — Não, eu não sou. Só me preocupo com o bem-estar da Sophia. — Rebate, mas a ruga entre suas sobrancelhas continua visível. — Daniel, acha que eu nasci ontem? — O irmão indaga, e seu semblante se fecha mais. — Está na cara que você está marcando território. — Ele exibe um sorriso sarcástico e malicioso no canto dos lábios e rola os olhos rapidamente — Melhor dizer, você já marcou o seu território no outro dia, agora só está defendendo o que é seu. — A começar, — Daniel diz entredentes —, Sophia não é um poste para que eu marque território. Em segundo lugar, eu estava defendendo a integridade dela, o que é bem diferente do que está pensando. — Daniel proclama com a voz firme, e por um segundo esquece da dor nas costelas. Mas no instante seguinte, elas voltam com uma intensidade maior. Daniel solta um grunhido abafado de dor e se remexe na cama, tentando se acomodar em uma posição que não frature ainda mais suas costelas, mas o movimento, ao invés de confortá-lo, gera, na verdade, desconforto, e outra vez resmunga pelo incômodo. Heitor dá um passo a frente, querendo prestar ajuda, mas o irmão impede com um movimento rápido de mão, abanando-a no ar. Revirando os olhos diante o orgulho de Daniel, Heitor estaca no lugar e o observa se acomodar sozinho. Após alguns segundos, Heitor finalmente responde: — Deveria engolir seu orgulho ferido e assumir logo que gosta da Sophia. — Eu não tenho que assumir nada. — Sussurra desviando os olhos. — E não quero mais falar sobre isso. Heitor está pronto para insistir no assunto, mesmo a contragosto do irmão, quando uma enfermeira irrompeu pela porta. De cabelos negros e escorridos e pele morena, a mulher sorri largamente ao ver seu paciente acordado. Cumprimenta-o calorosamente enquanto verifica a bolsa de soro e o ajusta em seguida. Após receber queixas de Daniel sobre suas dores pelo corpo, a enfermeira não demora a sair para buscar os remédios que aliviaram seu sofrimento físico. Sozinho outra vez com o irmão, Müller tenta não encontrar seus olhos, sabendo que Heitor continuaria insistindo que ele assumisse seus sentimentos por Sophia. Divagando por um segundo, de repente, ele se questiona se a loura estaria do lado de fora,


aflita e preocupada com seu estado de saúde; se, a qualquer momento, ela entraria por aquela porta a passos afobados e sentaria ao seu lado, apertando seu pescoço em um abraço, descarregando sua agonia e dizendo-lhe que havia se preocupado demasiadamente. — Ela está aqui? — Pergunta subitamente. Heitor dá um leve sobressalto da porta, pois também havia se distraído em seus pensamentos, e a voz do irmão ecoando em sua cabeça e quebrando abruptamente o silêncio o assustou. — Não. Ela foi embora assim que eu cheguei aqui ontem à noite. Franzindo a testa, Daniel sente a decepção passear pelo seu corpo. Fugiu dos olhos do irmão novamente e arriscou perguntar: — Ela está aborrecida? — Aborrecida é apelido — Heitor afirmou, e Daniel decidiu manter-se calado, mas sem tirar o vinco entre suas sobrancelhas. Era visível que todas as suas expectativas em relação à Sophia tinham sido frustradas. Ela não viria vê-lo. Ela não ficara para saber como ele estava, nem entraria pela porta e apertaria seu pescoço em um abraço sufocante, enquanto dizia com a voz embargada que havia se afligido. Lembrando-se do ocorrido, pensou que seria mais fácil Sophia vir até ele para lhe dizer como era um imbecil, que o odiava, e no lugar de um abraço confortante receberia uma bofetada. Suspirando, tentou afastar os pensamentos e esquecer da briga com Erick, das razões que desencadearam a confusão, dos seus sentimentos confusos pela loira, do seu desapontamento por ela não ter se importado com ele. Abaixou os olhos e respirou fundo, querendo apenas não fazer nenhum movimento que o machucasse mais. — Tem que parar de agir como um idiota. — A voz de Heitor puxou sua atenção, e seus olhos se encontraram. — A Sophia já está no seu limite, Daniel — seu tom era sem emoção, mas ao mesmo tempo quase como uma advertência. Daniel pensou em alguma coisa para responder, queria, de alguma forma, justificar sua atitude violenta sem precisar dizer que havia sentido ciúmes. Pensou que era mais uma de suas promessas quebradas. Sentiu-se extremamente arrependido ao lembrar-se de que jurou não agir com violência, que se controlaria e não agiria como um maldito machista. Mas não foi o que aconteceu. Seu ciúme falou mais alto, a cólera passou por cima da sua razão, da sua memória, da sua vontade de não dar atenção aos cortejos a Sophia; e ele, outra vez, passou por cima de um juramento. Quando estava prestes a dizer algo, a enfermeira entrou, trazendo quase meia dúzia de comprimidos e água em um copo de plástico. Daniel tomou todos os remédios, rezando para que fizessem efeito logo, já que sua dor muscular começava a irritá-lo e estavam se tornando quase insuportáveis. — Quando terei alta? — Questiona à enfermeira antes de ela sair.


— Amanhã. Ficará em observação hoje, e ao amanhecer poderá ir embora, se tudo estiver bem. Daniel apenas acena, concordando, mas resmunga interiormente. Odeia hospitais. Odeia ter que ficar numa cama de hospital. Porém, no mesmo instante, um pequeno alívio percorre seu corpo. Teria mais um tempo para organizar sua cabeça antes de rever Sophia. Mesmo que ele não tivesse a mínima de ideia do que falar a ela, descartaria qualquer possibilidade de abrir seus sentimentos. Heitor permanece com ele por mais algum tempo após a enfermeira sair, o fazendo companhia enquanto Daniel toma seu café da manhã. E por mais que ele tenha torcido o nariz para a refeição a sua frente – um copo de leite, uma fatia de pão e um pedaço pequeno de queijo branco – Daniel se alimenta, já que seu estômago está apertado e gritando por comida. E mesmo enquanto come, as dores nos ossos de sua costela, em uma parte acima do seu olho direito e, só agora percebe, o antebraço esquerdo, continuam a atormentá-lo a cada mastigada ou bebericada. — Acho que precisará de algumas coisas para quando sair amanhã, não é? — Heitor questiona o observando da cadeira onde está sentado. — A menos que você queira que eu saia com essa fina camisola azul, sim, irei precisar — rebate afastando a bandeja quase vazia de seu alcance. Heitor não dá atenção ao seu mau humor e continua dizendo, casualmente: — Vou buscar algumas coisas. Preferência de roupa? — Pergunta se levantando. Daniel apenas abana a cabeça em negação. Os dois se despedem e Daniel fica sozinho, sendo atordoado pelos seus pensamentos, que o invadem repentinamente. Acomoda-se melhor na cama e agradece mentalmente por suas dores terem diminuído graças aos remédios. Deitado, olhando para cima (com um pouco de dificuldade por conta do ligeiro inchaço), é inevitável para ele não reprisar os instantes do seu desentendimento com Erick. Recorda-se de como sua raiva dominou cada centímetro de seu corpo, e de como, sem pensar avançou sobre o amigo de Sophia. Angustiado, ele passa a mão pelo rosto, pensando que desta vez nada do que faça, nem que ele se arraste até ela, nada do que fizer, será o suficiente para conseguir o perdão da loura. Ele até já pode imaginar os grandes olhos verdes brilhando por conta das lágrimas, enquanto lhe diz com a voz carregada que o odeia, que ele é um imbecil e que a pior coisa que poderia ter acontecido em sua vida era o envolvimento dos dois. Suspirando, e sem ter ideia do que irá fazer quando tiver de encará-la, ele simplesmente tenta afastar qualquer pensamento e aflição sobre este momento. Impedido de fazer qualquer coisa para se distrair, é impossível, de qualquer maneira, não se preocupar em relação à Sophia. Se por um lado conseguiu, por fim, afastar da cabeça a aflição de quando a rever, por outro, seus pensamentos são preenchidos por lembranças recentes e amáveis, momentos que fizeram seu coração disparar. De olhos fechados, Daniel quase pode dizer ser capaz de sentir as mãos de Sophia afagando suas costas, enquanto ele se perdia no corpo dela, na sensação de ter seus corpos grudados, tornando-os apenas um; lembra-se com nitidez dos macios lábios de Sophia


contra os seus, da pele delicada. À tona, batendo forte em seu peito, a sensação de desespero ao vê-la se afogando, de como temeu por sua vida; seu corpo que tremia em agonia ao socorrê-la das águas do mar, rezando interiormente para não a perder. A respiração boca a boca. A vida dela que retornara. Os finos dedos roçando seu bíceps. Suas bocas se atraindo simultaneamente. A voz feminina ressoando em seu ouvido para que ele apenas continuasse. O prazer do orgasmo nunca vivido antes lhe atingindo. E é assim: com doces recordações invadindo sua mente que Daniel pega no sono sem perceber.

♦♦♦

Daniel é acordado com um movimento indelicado. Assustado, ele dá um sobressalto, e seu corpo machucado responde com uma onda de dor. — É hora do almoço. Acorde — uma mulher vestida com jaleco, e de cabelos grisalhos, adentra o recinto e apoia a bandeja sobre a mesa auxiliar. De cara com poucos amigos e visivelmente mal-humorada, a mulher deixa a comida mais acessível a Daniel e sai pisando firme, deixando-o totalmente desnorteado. Ainda sonolento e com um pouco de dificuldade, Müller se ajeita na cama e começa a comer uma canja aguada e sem sal. Após algumas colheradas, ele afasta a comida. Prefere ter seu estômago protestando de fome a ter que engolir o restante do preparo horrível e insosso. De repente, ele pensa em Sophia, se recorda de algumas vezes que, desastrosamente, ela tentou cozinhar: uma macarronada pastosa, um arroz papa, um feijão queimado, uma carne salgada, um ovo grudado… Ele riu sozinho com as lembranças, mas, como para alfinetá-lo, sua felicidade momentânea fora interrompida por sua costela dolorida. Ignorando a dor, ele não se importou em reprisar um domingo em que Sophia tentou cozinhar, sem muito êxito. Ela estava linda dentro de um vestido florido e de um avental vermelho abraçando seu corpo em perfeição. Sophia misturava os ingredientes na panela, enquanto segurava na outra mão o livro de receita que acompanhava. Daniel entrou na cozinha, sentindo cheiro de queimado. — Sophia, o que está fazendo? — Daniel diz de repente, e ela se assusta, fazendo-a queimar o dedo. Gargalhando com seu desastre, Daniel se aproxima e verifica o indicador avermelhado. — Eu sou um desastre para isso. Que tipo de esposa eu sou se nem ao menos sei cozinhar? — Resmunga desligando o fogo e observando o risoto queimado. — Esposa não é sinônimo de cozinheira. — Ele afirma sorrindo. — Vamos pedir uma pizza. — Decreta a puxando pelos punhos, e Sophia ri de um jeito que só ela faz para contagiá-lo.


A porta bate e Daniel volta à realidade. Heitor entra com uma mochila pendurada ao ombro. Esperançosamente, Daniel olha para trás de Heitor, esperando Sophia surgir pela porta. Mas não aconteceu. O irmão veio sozinho, outra vez… e ele engoliu o nó que fez em sua garganta. — Trouxe jeans, camiseta e cueca. — Heitor pronuncia, o que o faz procurar por seus olhos. — Isso deve ser o suficiente para voltar para casa — dá de ombros e joga a mochila sobre a cadeira. Heitor não demora a perceber a testa franzida do irmão e questiona: — O que há? Daniel se remexe na cama e limpa a garganta, procurando um jeito de perguntar de Sophia sem parecer que precisa da presença dela desesperadamente. — Sophia veio com você? — Não, Daniel… — o irmão responde com um suspiro derrotado. — Ela está bem chateada. Nem se importou quando eu disse que você acordou e estava bem. O vinco entre suas sobrancelhas se tornou maior, e, em silêncio, ele baixou o olhar. Esforça-se a não pensar em como os olhos dela devem estar brilhando em tristeza e frustração – por causa do que fez – e nem se, outra vez, ela chorou porque ele não foi cuidadoso o suficiente para não permitir que as lágrimas rolassem pelo seu rosto. A possibilidade de que Sophia esteja irritada com ele o assusta. O arrependimento soca seu peito, mas dessa vez Daniel não irá pedir perdão, pois não conseguia perdoar a si mesmo. — Dê um tempo a ela — Heitor profere. — E pare de fazer bobagens — reforça e sorri pelo canto da boca. Daniel continua mudo e apenas acena, pensando que talvez Heitor tenha razão. O irmão lhe faz companhia por mais alguns minutos, tagarelando sem parar sobre a garota com que esteve no dia anterior e de como ela era espetacular. Não lhe dando muito atenção, Daniel teve a impressão de que Heitor o acusou de ter estragado seu encontro, já que, no meio do sexo, Sophia ligou dizendo que ele estava no hospital inconsciente; mas Daniel está absorto demais para dizer com certeza se fora isso que ouviu. Pensa em Sophia quase que o tempo todo, imaginando se ela está com Erick ou sozinha, se está triste com sua vergonhosa atitude ou se, como Heitor havia dito, não estaria se importando. Instantaneamente, tenta afastar qualquer absurdo dos seus pensamentos. Por que deveria se importar tanto com a atenção (ou a falta dela) de Sophia para com ele? Forçando sua mente a esvoaçar suas aflições, Daniel volta a mirar Heitor‚ que continua falando sem parar: —… sabe como foi difícil deixar aquele par de seios para trás? Daniel pestaneja por um segundo, recompondo-se e pensando em uma resposta rápida para dar ao irmão, mas sem que Heitor perceba que ele divagou e não tem a mínima ideia de qual o rumo daquela conversa.


— Sinto muito. — É tudo que consegue dizer. — Tá, tudo bem. Mas tem que deixar de lado esse ofício de empata-foda. Primeiro, a Sophia; depois, eu. Quanto mesmo está ganhando para isso? — Enuncia bem-humorado e gargalha em seguida, sentindo os olhos claros de Daniel o fuzilando. — Deixa de dizer besteiras, Heitor. — Resmunga, o que faz seu irmão rir ainda mais. Impaciente, Daniel está quase o mandando calar-se, quando a porta se abre, e a mesma enfermeira de mais cedo entra, alegando que, se Heitor quiser, pode ir para casa descansar algumas horas, pois sua presença de companhia a Daniel será mais necessária durante o período noturno. Os dois se despedem‚ e dessa vez eles se abraçam. O ato, mesmo que amoroso, causa uma sensação de desconforto em Daniel, menos intenso, graças aos medicamentos, mas ainda assim um incômodo que o deixa levemente irritado. A tarde vai se arrastando, deixando-o cada vez mais entediado e com seus nervos à flor da pele. As horas passam vagarosamente e os minutos parecem que se transformaram em horas. Durante o tempo que ficou sozinho, Müller em nenhum segundo deixou de pensar em Sophia. Tudo o que ele anseia, apesar do medo aterrorizante que sente, é encontrá-la e conversar com ela – por mais que não tenha a mínima ideia do que irá lhe dizer. Pedir desculpas é um item totalmente descartado. Ele já sabe que nada do que faça ou diga fará a loura perdoá-lo. Abrir seus sentimentos também está fora de questão, justificar sua atitude dizendo que estava bêbado poderia magoá-la, já que Sophia admitiu estar envolvida sentimentalmente por ele. De repente, ao pensar sobre isso, ele se lembra das palavras dela na manhã após a primeira vez deles. Só sei que sinto alguma coisa por você. Nitidamente, Daniel se recorda de seus olhos verdes cheio de lágrimas. E isso aperta seu peito. Mais do que ninguém, Müller sabe como é amar e não ser correspondido, já vivenciou isso por duas vezes, e talvez saiba como Sophia deva estar se sentindo com a situação de ter exposto seus sentimentos e de ter tido como resposta apenas Daniel deixando-a para trás para ir ao churrasco idiota com Melissa. Engolindo em seco, ele decide que é hora de ser franco com Sophia. Está decido a dizer-lhe por que agiu feito um idiota e quis espancar Erick: porque estava com ciúmes, porque cultiva um sentimento por ela, mesmo que ainda não possa defini-lo como sendo amor. Mas também irá explicar por que renuncia a este sentimento e por que não pode retribuí-lo: porque sente medo, porque já sofreu uma vez e a última coisa que deseja é ter seu coração partido novamente. E deseja profundamente que, após suas palavras, Sophia segure seu rosto com as duas mãos e beije seus lábios de forma intensa e profunda, sussurrando que ele é um tolo, que ela jamais o feriria como Clarisse o fez, que o ama e que está disposta a tentar. E ele, apaixonadamente, retribuiria seu beijo, confiaria em suas palavras e se renderia à loura. Divagando em seus pensamentos, Daniel sequer percebe que as horas, que até então se arrastavam de forma lenta e dolorosa, já avançaram e faz duas horas que Heitor saiu. É então que, inesperadamente, alguém adentra seu recinto. Ao ouvir a porta ranger, por um


milésimo de segundo se enche de esperança que seja Sophia. Mas a pessoa a sua frente é a última que imaginava ver. — Veio se vangloriar da sua vitória, Erick? — Cospe as palavras, sentindo seu corpo convulsionar de raiva.

♦♦♦

Por mais que Sophia tenha pedido para que ele não fosse até o hospital para falar com Daniel, Erick deu-lhe pouca atenção e, teimosamente, desviou o percurso de sua casa para o pronto atendimento onde Müller estava. Chegando lá, foi alertado de que estavam fora do horário de visitas, por isso sua entrada não seria permitida. Com um pouco de insistência, e alegando que precisaria de apenas cinco minutos, conseguiu a permissão para entrar no leito onde Daniel se encontrava. Esqueceu-se dos bons modos e entrou sem bater. No mesmo instante, pôde sentir os olhos de Daniel queimando de raiva, e já imagina como ele será hostil com sua presença. Sua previsão é confirmada quando ele se pronuncia: — Veio se vangloriar da sua vitória, Erick? Ignorando o comentário inicial, Gouveia entra no recinto e encosta a porta. Esconde as mãos dentro do bolso de sua calça e caminha lentamente mais para perto de Daniel. — Não. — Responde por fim. — Até porque não me orgulho do que aconteceu. Daniel demora a perceber, mas o rosto do homem a sua frente está preenchido por curativos e é uma mistura confusa de diferentes tons de roxo. Por mais que a situação em que se encontra, comparada a de Erick, seja pior, interiormente, e sem demostrar, sente-se satisfeito por seu oponente não ter saído ileso. Afastando sua satisfação imbecil da mente, volta sua atenção à presença do homem: — Então veio para quê? — Questiona com sua voz ainda ríspida. — Conversarmos. — Responde casualmente. — Quer fazer as pazes para não ser mal visto pela Sophia? — Inquire levemente irônico — Que hipocrisia mais bonitinha… — Na verdade, eu e Sophia estamos muito bem. — Rebate sorrindo pelo canto da boca. — Aliás, acabo de vir de um almoço com ela. Com a testa franzida, Daniel sente um incômodo, porém, desta vez, não é em sua costela, mas em seu peito. Imaginar que Sophia não fora visitá-lo porque estava na companhia de Erick, e de, provavelmente, ter desabafado em seus ombros toda a angústia que ele a fez passar nas últimas horas (e quem sabe, meses), fez seu peito se comprimir, e uma onda de ciúmes, misturada à decepção, o invadiu. Esforçou-se descomunalmente para não demonstrar isso em seu semblante ou


em suas palavras. Já havia feito o suficiente. Engolindo o nó em sua garganta, pronunciou: — Então você quer conversar sobre o quê? Calmamente, Erick se aproxima e se senta na poltrona. Rapidamente ele o observa e repara no inchaço acima do seu olho direito e nas contusões arroxeadas espalhadas pelo rosto. — Sobre a Sophia. — Diz por fim. — O que tem ela? — Pergunta quase impaciente. Erick suspira e se ajeita antes de continuar. — Ela gosta de você, Daniel. — Mas ia transar com você! — Responde ríspido. — Não, não ia. Ela só queria te fazer ciúmes. Porque, seu idiota, você estava se esfregando com outra mulher na frente dela! Daniel tenta dizer alguma coisa, mas não há nada para ser dito. Erick tinha a maldita da razão. Então, ele cai por si. Daniel não queria ferir os sentimentos da loura, mas temia que Melissa, bêbada como estava, abrisse a boca e dissesse coisas que não deveria caso fosse rejeitada por ele. O maldito vídeo estava acabando com sua maldita vida e lhe tirando a maldita paz. Fechou os olhos e respirou fundo, mentalizando que dentro de pouco ele se veria longe das chantagens da maldita ruiva. — E eu já percebi que gosta dela… Há muito tempo. — Erick continua dizendo, o que o faz voltar à realidade. Daniel continua em silêncio, não pensa em rebater esse argumento, pois sabe que nenhuma outra justificativa sustentaria os porquês de suas ações. — É por isso que eu não entendo por que age assim com ela. Se vocês se gostam, que se assumam logo, pois eu sei que Sophia gostaria de te assumir. E de ser assumida. — Finaliza enfatizando suas últimas palavras. Daniel segue emudecido. Não sabe o que dizer. Talvez dizer que é um imbecil que tem medo de se relacionar amorosamente por conta de experiências ruins no passado. — Eu não gosto dela. — Responde por fim, balbuciando nas palavras. — Eu só estava bêbado demais para racionalizar. Com um suspiro derrotado e inconformado, Erick apenas acena e se levanta, percebendo ser impossível tentar convencer Daniel a assumir seus sentimentos e, consequentemente, a relação dos dois. Ele chegara ali na missão de cúpido. Era impossível não reparar na mistura de tristeza e amor em torno dos grandes olhos verdes da loura, e ele, mais do que ninguém, gostaria de vê-la bem e feliz. Mas com Daniel dificultando tudo, sendo orgulhoso e cabeça-dura, não havia nada que ele pudesse fazer a não ser incentivar Sophia a se separar dele; somente assim poderia ver sua amiga estampando sorrisos outra vez. — Tudo bem, então. Só saiba que Sophia está cansada das suas atitudes. Todas elas. E está


no seu limite. — Pronuncia andando até a porta; se vira, deixando parte do corpo para fora, e antes de sair, completa: — E ela pedirá o divórcio.

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E ela pedirá o divórcio. As palavras de Erick ecoam em sua mente, o deixando levemente aterrorizado. Por mais que soubesse que uma hora ou outra o divórcio viria, por alguma razão desconhecida, naquele momento, ele não estava preparado para se ver separado de Sophia. Seu coração pulou no peito ao imaginar que não viveriam mais na mesma casa, que seria cada vez mais raro se deparar com o sorriso contagiante ou olhos brilhando. Em nenhum minuto pensou em sua herança. Daniel nem estava se importando para este fato, mas, na realidade, lembrou-se de que tudo o que viveram ali – bem ou mal – seria jogado aos ventos, e ele a perderia. Talvez para sempre. Apertou a campainha incansavelmente. Precisava espairecer a cabeça, organizar sua mente e acalmar seu coração, mas se continuasse preso dentro daquelas paredes enlouqueceria. Sem nenhuma demora, uma enfermeira surgiu levemente alarmada pela campainha irritante vindo do leito de seu paciente. — Sente-se bem, senhor Müller? — Inquiriu a passos rápidos em sua direção. — Sim. Preciso ir embora. — E já tirava o intravenoso de suas veias. — O senhor ainda não recebeu alta. — A mulher o advertiu tentando impedir que ele tirasse o soro. — Não me importa. Eu quero sair daqui! A enfermeira fez mais algumas tentativas fracassadas de convencê-lo a ficar, e numerou razões por quais ele não deveria ir antes de ser liberado por um profissional. Mas Daniel pouco se importou. Em segundos, agarrou a mochila que Heitor trouxera e entrou no banheiro, saindo de lá vestido e andando a passos lentos, por causa da dor insuportável em suas costelas. — Senhor Müller… — a funcionária do hospital tentou novamente, desta vez na companhia do médico de plantão, este que também quis convencê-lo a ficar e esperar pelo outro dia para que pudesse ir embora. — Não. Eu tenho que ir. — Teimou pela vigésima vez. Diante a insistência de seu paciente, o médico cedeu e o obrigou a assinar um termo de responsabilidade. Já no lado de fora, Daniel sentiu a brisa gelada contra sua pele. Caminhou com cuidado até a praia, soltando, vez ou outra, resmungos e injúrias por conta dos ossos doloridos o incomodando. Pensou que o efeito dos analgésicos estava passando, e que precisava urgentemente conseguir


outros. A caminhada durou uma hora – cheia de paradas para respirar e recuperar a postura. . Enquanto fazia o percurso até seu destino, Daniel pensou ainda mais Sophia: do momento em que a conheceu à fatídica briga por causa dela. A confusão em seu interior o bombardeava, um impasse de falar dos seus sentimentos para não a perder, para que ela, de alguma forma, desistisse de pedir o divórcio, se Erick estivesse mesmo certo. Uma vez na praia, ele se sentou na areia, abraçando os joelhos e deixando que o vento soprasse seus cabelos, rezando para que a brisa levasse todas suas angústias e dores. Principalmente sua dor no coração. Refletindo sobre as palavras de Erick, lembrando-se de cada bobagem que havia cometido nos últimos tempos, recordando-se das vezes em que viu Sophia chorando por sua causa, Daniel percebe como miseravelmente falhou na sua promessa. Era um maldito imbecil que não merecia nada além do desprezo de Sophia. As horas transcorreram, e todo tempo apenas ficou sentado na areia, divagando em cada momento que viveu com sua esposa de conveniência – dos bons aos ruins; ainda que os ruins tenham sido mais que os bons. Sorriu suavemente ao se lembrar da noite deles, se amando na areia da praia; ele, sentindo um prazer inédito, ouvindo seu nome ser gemido ao pé do seu ouvido; ela, agarrando em suas costas, acarinhando sua pele e retribuindo os beijos de forma tentadora. “Se vocês se gostam, que se assumam logo, pois eu sei que Sophia gostaria de te assumir. E de ser assumida”. Com um suspiro trêmulo, Daniel reflete seriamente sobre os conselhos de Erick. Mas pensa que, desta vez, Sophia sequer olharia em sua cara. Sim, ele pondera em falar sobre seus sentimentos confusos e distorcidos, se desculpar sobre suas atitudes descabidas, por tê-la magoada tantas e tantas vezes, por ter quebrado promessas. Pondera em dizer “eu quero tentar de verdade”, mas o medo que ela lhe recuse, que diga não, que bata em seu peito e grite que o odeia, controla seus impulsos. Afagando o rosto desesperadamente, cai em si e percebe que foi tolo por todo aquele tempo. Se antes ele não queria se abrir por medo de rejeição, agora, por mais que se declare, há uma chance enorme que seja, de fato, rejeitado. Enchendo os pulmões de ar, esvazia a mente e sente uma pequena esperança de que, se tudo entrar nos eixos, se Sophia tiver um tempo para que pense e reconsidere o pedido de divórcio, ele pode ter uma chance de sentarem e conversarem com calma. Porém, se ambos se encontrarem com os ânimos fervendo, o pedido de separação é iminente e sua esperança vai por água abaixo. Por isso, toma a decisão mais precitada e impensada da sua vida: levanta-se e tira a areia impregnada em sua roupa. Olha para o céu já escuro pela noite. Sequer percebeu o anoitecer, perdido nos próprios pensamentos. Ainda com dificuldade, caminha até encontrar um táxi. Chegando em casa, agradece mentalmente por nem Sophia nem Heitor estarem presentes, e ao olhar no relógio se lembra de que provavelmente foram ao Hospital. Ela talvez não. Talvez esteja com Erick…


Engole fortemente seu ciúme e faz seu caminho até o quarto. Assim que abre a porta, se depara com sua cama desarrumada‚ e se aproxima com cautela, sentando-se no local onde o lençol está bagunçado. Toma o travesseiro em mãos e o abraça contra seu rosto, inspirando fundo o cheiro incomparável do shampoo de baunilha que Sophia usa. Ela esteve aqui, pensa, vagueando em sua mente, tentando não pensar se ela dormiu agarrada ao seu travesseiro o imaginando ao seu lado. Com um suspiro pesado, Daniel deixa seus pensamentos de lado e se levanta, buscando por algumas peças de roupa. Toma o celular em mãos e sorri pequeno ao ver a foto de proteção de tela. Ele vinha usando aquela imagem há quinze dias. Lembrou-se de uma noite que sentiu falta de Sophia ao seu lado e de lhe beijar a testa desejando boa noite, pegou o celular e começou a vasculhar suas fotos e sorriu largamente ao se deparar com aquela. Haviam tirado em uma viagem a negócios, Sophia relutou muito para tirar a foto, o que o fez gargalhar. Jogando os braços por seus ombros e a prendendo contra seu corpo, conseguiu, por fim, o retrato com a loura, que, timidamente, cedeu e apenas sorriu pequeno, mas de forma encantadora. Afastou as lembranças da cabeça, mandou uma mensagem ao irmão e guardou o celular no bolso. Agarrou sua bolsa e desceu as escadas. Olhou uma última vez para trás, suspirando em indecisão. Reforçou mentalmente que ambos precisavam de espaço, precisavam pensar e pôr a cabeça no lugar. Mesmo com seu coração pulando e o arrependimento de ter que deixá-la para trás batendo forte em seu peito, ele entra em seu carro e parte para longe dali, totalmente sem destino.


31 DIVÓRCIO Duas semanas depois.

S

ophia levantou cedo e se arrastou até a cozinha, querendo apenas um café forte para despertar o sono que vinha a dominando há quase quinze dias.

Desde que Daniel partira. Desde que ele resolvera que queria um tempo sozinho. Ele havia dado duas ou três ligações dizendo que estava bem e que logo retornaria. Mas Daniel havia falado apenas com Heitor pelo celular pessoal. — Sophia está aqui, quer falar com ela? — Heitor perguntou em uma das suas raras ligações. O olhar entristecido de sua íris azul, acompanhado de um sorriso breve no rosto que ele lhe lançou, a fez perceber que a resposta de Daniel tinha sido não. Ele não queria falar com ela. E por mais que dissesse a si mesma para não se afligir por causa de Daniel, seu coração teimoso fazia tudo ao contrário. Sophia havia se preocupado, todos os malditos dias, a cada hora, a cada minuto se preocupou. Ignorando sua aflição naquela nova manhã sem a presença de Daniel, Sophia fez seu café na cafeteira, e assim que esteve pronto, colocou uma generosa dose na caneca. Pensando em subir para seu quarto e saborear a cafeína antes de seguir, sozinha, para a empresa, virou-se e se deparou com os olhos de cores indecisas – alternadas entre o azul e o verde – que tanto conhecia. Daniel estava parado na entrada da cozinha. Um olhar confuso, e talvez tímido, estampado em seu rosto – agora já quase cem por cento recuperado: havia apenas uma pequena mancha amarelada no lado de uma das suas bochechas. O cabelo estava bem arrumado, jogado de lado e formando um topete volumoso, como ele gostava de usar. Vestia uma camisa de gola azul, que destacava ainda mais seus belos olhos claros, e jeans tingido apertando seus quadris e delineando as pernas compridas. Encostado ao batente da porta e de braços cruzados, assim que seus olhares se encontraram, ele sorriu brevemente, talvez um pouco sem jeito diante dela. — Daniel… — Sophia murmurou surpresa e ao mesmo tempo aliviada em vê-lo depois de


tanto tempo. Müller pôs se a andar em sua direção, desejando abraçá-la e ter a conversa que tanto ansiou. Havia ficado longe de Sophia Hornet o suficiente para pôr sua cabeça no lugar e assumir que era hora de se declarar, de falar dos seus sentimentos e implorar, mais uma vez, por perdão. De pedir por mais uma chance, mais uma oportunidade. Mas Sophia, numa crise de ansiedade, diminuiu o espaço entre ele e correu até seus braços. Ela o abraçou forte, e enquanto Daniel tinha seu corpo junto ao dela, com os pequenos braços rodeando sua nuca, ele suavizou a tensão que o percorria. Temeu que ao chegar fosse recebido com ódio e desprezo. Mas Sophia o abraçou forte. Correu até ele. — Oh, meu Deus, Daniel. Eu fiquei tão aflita… — ela choramingou ainda agarrada em seu corpo. Retribuindo o abraço tão caloroso, Daniel lhe afagou os cabelos amarelos. — Eu estou aqui. Estou bem… Súbito, Sophia cessa o abraço e o encara nos olhos. O sorriso que Daniel tinha no rosto é retirado ao notar que a expressão aliviada de Sophia se foi, pois seus olhos, agora, chispam de raiva. Então, ele sente um estalo forte esquentar seu rosto, a ouvido pronunciar com raiva: — Nunca mais desapareça assim, seu idiota! Daniel olhou para Sophia com um semblante de surpresa. Levou a mão até o lado do rosto atingindo, ainda o sentindo arder. Atordoado, tentou entender a súbita mudança da loura. Quando chegou em casa, imaginou todas as reações possíveis por parte de Sophia: desprezo – por ele ter se ausentado por duas semanas; alegria – por revê-lo depois de tanto tempo; indiferença – porque ainda estava aborrecida com o acontecimento do Ano-Novo; raiva – por ele ter brigado com Erick e ela não ter podido lhe dizer as coisas entaladas em sua garganta. Mas Daniel não imaginou nunca uma reação bipolar. Primeiro, um abraço reconfortante que o fez perceber que ela sentira sua falta e que, de verdade, se preocupou. Depois, seus olhos brilharam de raiva como se Sophia o odiasse desde sempre, seguido de uma bofetada que temeu receber desde que estava no hospital, em Angra dos Reis. — Eu não desapareci! — Protestou enfim. — Vocês não ficaram sem notícias minhas. Eu só precisava de uns dias, Sophia. Sophia respirou fundo, tentando controlar o sangue borbulhando em suas veias. Ela ainda estava cansada por Daniel, mesmo longe, dominar seus pensamentos em preocupação. Sentia raiva por ter adiado sua conversa com ele, porque ele precisou de um “tempo sozinho”. Por todos aqueles dias transcorridos, perguntou-se por que diabos Müller precisava ficar sozinho. Deveria ser ela a pedir um tempo, exaurida em tanta confusão e briga.


Preenchendo os pulmões com ar, deu um passo atrás, afastando-se de Daniel, antes de proferir o mais calmo que conseguiu, mas sua voz ainda saiu rasgada de raiva: — Precisava de uns dias para curar o estrago que Erick fez no seu rosto? Porque estava envergonhado de que eu visse como você levou uma surra? Foi por isso que precisou de uns dias para ficar sozinho, Daniel? Daniel separou os lábios, atônito com a atitude de Sophia. De fato, ele não esperava ser recebido dessa maneira. Sua esperança quando resolveu dar um tempo era que Sophia também se acalmasse. Mas, pelo visto, sua decisão surtiu efeito contrário, e a loura parecia mais nervosa do que nunca. Por um segundo, concordou com ela. Müller via sentindo uma pontada de medo em revê-la com o rosto preenchido por lesões e curativos. Seu senso de macho-com-orgulho-ferido gritou dentro dele, fazendo-o sentir uma pitada de vergonha em ter perdido uma briga; vergonha por não parecer forte o suficiente na frente de uma mulher. Daniel, você não é um macho alfa tentando dominar e impor-se ao seu inimigo, mentalizou de repente, tentando voltar sua atenção à loura que continuava em sua frente, agora, de braços cruzados e uma sobrancelha levemente arqueada, esperando por uma resposta. Forçou sua mente a levá-lo para o real motivo de ter se ausentado por duas semanas e disse, franzindo o cenho: — Não. Eu queria dar um tempo para nós dois. — Dar um tempo para nós? — Sophia proferiu, a voz ainda carregada. Respirando fundo, e decidido que era hora de ser franco, Daniel passou por ela, indo até a cafeteira e dispondo uma dose de café na xícara. Antes de começar a abrir seu coração, precisava de cafeína para organizar seus pensamentos bagunçados e procurar pela frase – ou palavra – correta para iniciar a tão temida conversa. Mas como ele iria falar de seus sentimentos sem soar patético? Virou-se para Sophia, levando um gole à boca, pensando em como começar a dizer. Tive ciúmes. Gosto de você, por isso quis matar o Erick. Você quer o divórcio e isso me aterroriza. Sophia continuava a encará-lo, estranhando seu silêncio repentino, e esperando pacientemente uma resposta. — Erick me disse que você ia me pedir o divórcio. — Quebrou o silêncio, por fim, com um sussurro inicial. Tomou outro fôlego, e continuou, tentando soar naturalmente: — Mas eu não quero me divorciar, Sophia. Eu achei que… se adiasse esse momento, você se acalmaria e reconsideraria esse pedido. Por isso “sumi” — fez aspas com os dedos, desajeitadamente por ainda segurar sua xícara com café — por esses dias. Só queria dar um tempo para nós. Sophia piscou várias vezes, concebendo aos poucos o que lhe foi dito. Estava momentaneamente surpresa por Erick, teimosamente, ter procurado Daniel. Sua curiosidade quase a


força a desviar o assunto e perguntar sobre o que os dois conversaram. No entanto, mantendo o foco, ela endireita o corpo, fitando Daniel nos olhos, convicta do porquê ele não querer o divórcio, e diz: —Você sempre pensando na sua maldita herança, não é? Quando vai deixar de ser egoísta, Daniel? Daniel enrugou o sobrolho ainda mais. De onde Sophia havia tirado aquela conclusão precitada (e maluca) de que ele não queria a separação por estar pensando em sua herança? Em nenhum momento considerou isto. O motivo por não querer o divórcio é porque não via sua vida sem Sophia, não conseguia enxergar um futuro sem Sophia nele. — Eu não me importo com minha herança! — Rebateu pousando a xícara sobre a bancada com um pouco de brutalidade. — Se eu não quero o divórcio é porque eu gosto de você! — Falou de repente, tão alto e firme que surpreendeu até a si mesmo. — Engraçado isso, Daniel! — Sophia agora estava gritando, seus grandes olhos verdes saltando em raiva. A declaração de Daniel não a abalou nada. — Engraçado você me dizer isso somente agora, quando se depara que eu quero o divórcio e você pode perder a sua maldita herança! Por que não me disse antes? Por que não me disse quando eu me abri pra você? Por que só agora, Daniel? — Sophia se cercou dele com rapidez, e quando deu por si, batia em seu peito com o indicador, falando: — Então, senhor Müller, guarde seus falsos sentimentos pra você. Mentiroso hipócrita! — Despejou cheia de ódio. Daniel mal teve tempo de retorquir as palavras da loura. Ainda formulava uma resposta, quando Sophia deu-lhe as costas e saiu de sua vista, pisando firme, a cólera exalando em seus movimentos corporais. Por alguns segundos, Daniel ficou apenas sozinho, reorganizando sua cabeça confusa, perguntando a si mesmo se tudo o que ouvira de Sophia de fato ela havia dito. Definitivamente, não era isso que esperava ouvir de seus lábios, não era essa a reação que imaginava que ela teria. Ela duvidou de mim?, perguntou-se interiormente, ainda abobalhado. Por mais que continuasse confuso e atordoado com a reação de Sophia, segundos depois, pôs-se a caminhar atrás dela, seguindo-a. Viu quando ela terminava de subir as escadas e dobrava a esquina do corredor no piso superior. Correu até ela, pulando dois degraus de cada vez. Quando a alcançou, Sophia entrava em seu quarto e batia a porta com força. Ele sequer pensou. Abriu-a outra vez, também com rispidez, e adentrou o cômodo, sentindo uma necessidade imensa de esclarecer as coisas. Mas a cena seguinte o deixou emudecido. Sophia pegava uma mochila e colocava algumas peças de roupa dentro. Perplexo, Daniel acompanha a cena com o cenho franzido, assimilando o que raios Sophia estaria fazendo. Enfim, disse: — Que está fazendo? — Arrumando uma muda de roupa. — Responde sem se alterar e sem encará-lo. — Assim


que tiver um lugar fixo, volto e busco o restante. Estava esperando que você voltasse para que eu pudesse partir. Daniel pestaneja, cada vez mais atônito. — Está…indo embora? — A possibilidade o aterrorizou. Finalmente, Sophia vira-se para ele. Seus olhos verdes brilhando em uma mistura de determinação e raiva. — Sim. Eu disse que queria o divórcio. E ainda quero. E também estou me demitindo da Swiss. — declarou, jogou a mochila sobre os ombros e passou por um Daniel apavorado. Ela já descia as escadas quando Müller a alcançou. — Você não pode ir embora. Sophia, por favor! — Proclamou com a voz alarmada. — Não só posso, como já estou indo. Em breve meu advogado entrará em contato com você, senhor Müller. — respondeu sem voltar-se a ele, com certo desdém, chegando até a saída da mansão. Daniel estacou no meio do caminho, seus olhos se negando a acreditarem no que viam, seus ouvidos se negando a crerem no que ouviam, seu coração pulsando tão rápido que ele sentia que a qualquer momento poderia saltar rasgando seu peito. Num ato impensado, diante de um momento de tensão e apavorante para ele, no intuito de, alguma forma, impedir que Sophia fosse embora, declarou alto: — Você está quebrando o contrato! Se sair por essa porta, senhorita Hornet, vai perder tudo o que firmamos naquele maldito papel. E você sabe muito bem que sua família ainda não se recuperou cem por cento financeiramente! Seu pai ainda me deve as ações da ConstruHornet que foi investido com o meu dinheiro! — Sua voz saiu tão carregada que Daniel assustou-se consigo mesmo. Sophia, que já estava do lado de fora, parou, baixando a cabeça para o chão, mas ainda de costas a ele. Sentiu suas lágrimas se acumularem nos olhos. Pensou em como aquele casamento nunca deixaria de ser um matrimônio de interesses, em como Daniel nunca nutriria nada por ela, pois estaria ocupado demais pensando em como não perder sua parte da herança. Lentamente, e secando algumas lágrimas que rolaram pelo seu rosto, girou o corpo, seu rosto rasgado de raiva e tristeza, decepção e rancor. Já estava farta daquela vida que tanto a afligia. — Eu já desisti de um casamento que ajudaria minha família. O que te faz acreditar que não desistirei desse? — Enunciou convicta. — Não se preocupe, Daniel. Eu darei meu jeito de ajudá-los, darei meu jeito de pagar o que você investiu na construtora. Mas não irei me submeter a você, a esse casamento que tem me tirado a paz, simplesmente para não deixá-los na falência. Passar bem. — Decretou e saiu caminhando. E por mais que Daniel gritasse seu nome, ela não lhe deu atenção, entrou em seu carro e sumiu no horizonte.

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Sophia dirigiu até um hotel bem longe da casa de Daniel. Precisava, mais do que nunca, de distância dele. Enquanto dirigia, sentia suas lágrimas rolarem pelo rosto, a dor de ter que deixar tudo para trás apertando seu peito. Engolindo em seco, e pensando que dessa forma seria melhor, fungou e limpou as lágrimas. Talvez, agora, ela pudesse entender a frustração de Miguel de amar e não ser correspondido. Balançou a cabeça. O que sentia não era amor. Só um sentimento confuso e passageiro que logo a deixaria, e então não mais sofreria por Daniel. Puxou o freio de mão quando estacionou o carro e encostou a cabeça no volante, fazendo seu coração bater normalmente, controlando sua respiração curta. Por um segundo, pensou em como ajudaria sua família sem o dinheiro do acordo firmado com Müller – a construtora ainda não havia reconquistado completamente seu espaço, os lucros continuavam baixos, o pouco que fazia, metade era de Daniel e a outra mantinha a família de Sophia. O casamento havia sido por separação de bens, então o divórcio não lhe traria benefício nenhum que pudesse ajudá-la com a questão financeira de seus pais. Quebrar o contrato e pedir a separação era condenar ainda mais a família Hornet. No entanto, mais uma vez havia passado por cima de sua família para não pôr em risco a própria felicidade. Outra vez tinha sido uma maldita egoísta. Levantou os olhos para o hotel que se erguia a sua frente, fitando-o neutra. Não voltaria atrás na sua decisão, não se submeteria a Daniel e ao casamento para ajudar seus pais e irmãos; daria um jeito, arrumaria outro emprego, cortaria gastos, economizaria, utilizaria, até, quem sabe, das economias que vinha guardando desde que começara a trabalhar na Swiss. Convicta em sua decisão, puxou a mochila e saiu do carro, jogando-a sobre os ombros. Respirou fundo outra vez, mas agora pensando em ligar para os pais e pedir permissão para voltar para casa. Afastando qualquer preocupação precipitada, fez sua reserva no hotel, pescou as chaves e subiu para seu quarto querendo deitar-se e analisar sua vida e sua situação, buscar por alguma solução para resolver seu problema atual. Talvez, olharia os classificados e naquele dia mesmo já sairia atrás de outro emprego. Jogou-se na cama assim que entrou no recinto. O cansaço mental, não somente naquele momento, mas uma bola de neve que vinha se formando há muito, fez juntar lágrimas em seus olhos. Sophia repreendeu-se mentalmente. Estava cansada de chorar. Mas as gotas eram inevitáveis, e contrariando todos seus planos, soluçou até adormecer.

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Daniel estava paralisado. Seus olhos atônitos fixavam-se na saída de sua casa, onde, há segundos, Sophia saiu, deixando-o para trás. Pela primeira vez desde muito tempo, seus olhos lacrimejaram, e a realidade de nunca mais vê-la o deixou em estado de choque. Seu coração veio à boca, sentiu suas pernas tremerem, e quando deu por si, uma lágrima tímida escorreu quando ele


piscou. Ainda não conseguia entender tal reação de Sophia. Ele ansiou tanto para que quando retornasse, eles pudessem ter uma conversa civilizada, que agora, sozinho na imensidão de sua casa, não consegue assimilar toda a nova realidade. Rebobinando sua mente, as vozes de Erick e Heitor ecoaram em sua cabeça como um sussurro atormentador: ela já está no seu limite. Lembrara, então, das inúmeras vezes que foi um imbecil e um idiota. Com um suspiro trêmulo, aceitou que dessa vez não haveria mais volta, e que seus sentimentos, mesmo expostos, não valeriam nada para Sophia. Mesmo aceitando que Sophia partira, Daniel continuou parado na entrada da casa, esperando, esperançosamente, que ela voltasse, desejando profundamente de que, por algum motivo, Sophia tivesse se arrependido e retornasse. Já até a imaginava descendo do carro, correndo ao seu encontro, o abraço que ele lhe daria e que a tiraria do chão e a giraria no ar, um beijo intenso e apaixonante que trocariam. Mas os segundos foram passando; os desejos destas coisas não se realizaram. Súbito, seu celular toca, ressoando estridentemente em seus pensamentos e fazendo-o voltar ao mundo real. Ainda atordoado, sacou o celular do bolso, para no instante seguinte uma vã esperança de que fosse Sophia ligando o enchesse. Suspirou em frustração ao ver que o número que piscava em seu ecrã não era da loura. — Oi, Rodrigo. — atendeu após recuperar sua postura. — Oi, Daniel. — disse a voz do outro lado. — Aquele trabalho que você me passou há mais ou menos um mês e meio — continuou o homem, pescando assim a atenção de Müller —, estou com um relatório detalhado e completo, além das imagens das câmeras de vídeo. Se você quiser, te entrego ainda hoje. Daniel apertou a ponte do nariz, todas as suas aflições do momento sendo substituídas por um alívio. Limpou a garganta antes de dizer: — Não, ainda não. Melissa não me entregou a última cópia do vídeo. Sei que não importa mais, mas quanto mais evidências e provas, melhor pra mim. — Você é o chefe aqui, Daniel. Assim que quiser esses documentos, eu te entrego. — Ok, Rodrigo, agradeço sua ajuda. Eu entro em contato para marcarmos o local da entrega. As paredes daquela empresa têm olhos, ouvidos e vida própria! — Declarou sério, e o homem gargalhou do outro lado uma única vez. Teria continuado se não fosse o silêncio intimidador de Daniel. — Como você quiser, Daniel. — Disse enfim, recompondo-se. — Eu te ligo em breve — Dito isso, desligou. Daniel segurou firme o telefone em mãos, um pequeno sorriso estampado nos lábios. As coisas boas começavam a caminhar para o lado dele, e dentro de pouco se veria livre da ruiva diabólica. No mesmo instante, lembrou-se de Sophia. Pensou que justo agora, onde as malditas


chantagens logo acabariam, não poderia permitir que a Hornet se fosse. Daniel precisava de mais uma chance. Precisava se esclarecer, dizer que não se importa com sua herança, que seus sentimentos são reais. Buscou em sua mente possíveis lugares onde ela poderia estar, mas não encontrou nada. Ponderou que, talvez, Sophia tivesse ido para longe, para, realmente, não ser encontrada. Tentou algumas chamadas em seu celular, porém, após incansáveis toques, era direcionado para a caixa postal. Frustrado e sem opção, Daniel não sabia mais o que fazer para encontrá-la. Afagou o rosto, desesperado. Não posso perdê-la. Então, como uma luz no fim do túnel, algo lhe veio à mente. Minutos depois, já estava dirigindo ao encontro de Sophia.

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Sophia despertou aos poucos, seu corpo protestando de cansaço tanto físico quanto mental, mesmo após algumas horas de sono. Espreguiçou-se na cama, sentindo o sol entrar pela janela e aquecer seu rosto. Sentou-se e coçou os olhos, sem ideia de quanto tempo havia dormido. De repente, deu um sobressalto na cama, assustada com a presença repentina de uma pessoa que ela não esperava ver. Daniel estava sentado em uma poltrona, a expressão serena, os lábios curvados em um sorriso singelo. Passou as últimas duas horas sentado ali, observando-a dormir, aguardando com paciência seu despertar, para que ele pudesse se explicar, pedir a ela que voltasse para casa, afirmar ser verdadeiro seus sentimentos. Recuperando-se do susto, Sophia endireitou o corpo. — O que está fazendo aqui? — Cuspiu. O sorriso de Müller se esvaiu. Ela continuava irredutível. — Quero conversar. — Respondeu suavemente. — Como me encontrou? — Ignorou-o. — Por que permitiram sua entrada aqui? Daniel suspirou. — Rastreei a placa do seu carro. — Disse quase que em sussurro. — E aleguei ser seu esposo, Sophia… Apresentei meus documentos… — Vá embora. — Pediu levantando-se e caminhando até a porta. Abriu-a e aguardou a saída de Daniel. Mas ele permaneceu no mesmo lugar, o semblante ligeiramente enrugado, sua face torcida


mostrando a tristeza que sentia pelo tratamento que recebia, pela indiferença que partia de Sophia. — Não enquanto eu não disser o que vir dizer. Depois disso, eu até posso ir embora. — decretou, levantou-se da poltrona e caminhou em direção a ela. Olharam-se nos olhos, Daniel esquadrinhando cada pedaço dos grandes olhos verdes dela, sentindo a respiração quente de Sophia bater contra seu rosto. Delicadamente, segurou-a pelo punho, fechou a porta e calmamente direcionou-a até a cama, onde se sentaram frente a frente. Em nenhum momento Sophia protestou, o que foi um alívio para Daniel. — Daniel… — ela murmurou com um suspiro, querendo dar um basta naquilo. Estava cansada e nada a faria mudar de ideia. Mas foi calada com ele pressionando levemente seus lábios nos dela. Surpresa, ela arregalou os olhos e não se moveu. Daniel se afastou depois de deixar um pequeno estalo em sua boca. — Volta pra casa… — pediu sussurrando. — Não. — Rebateu se afastando, mas mantendo-se sentada na cama. Tristemente, Daniel acenou e, sem que ela esperasse, segurou-a pelas mãos, acarinhando as costas em movimentos circulares com o polegar. Sophia não se esquivou – o gesto era demasiadamente bom. — Em momento algum pensei na minha herança. — Proferiu. — Não quero me separar de você porque eu… Eu sinto algo, Sophia. — ciciou e levantou seus olhos a ela. — E quero descobrir isso com você. — Como quer que eu acredite? — Inquiriu serena. — Depois de tudo, Daniel? Suas bobagens que só me magoaram, ter se aberto só quando soube que eu pediria o divórcio? Ter me deixado pra ficar com aquela ruiva sem graça? — O polegar dele contra a pele das costas da mão de Sophia continua, enquanto, após um suspiro baixo, ele diz de cabeça baixada: — Estava confuso, Sophia… e com medo. É um sentimento diferente pra mim, entende? — Novamente levanta os olhos para a loura, que continua a encará-lo com um semblante neutro. — Não percebe que a maioria das minhas bobagens foi motivada por ciúmes? Ciúmes de você? Ela agora tem os olhos lacrimejantes. O toque em sua mão continua, mas Sophia se esquiva como se a tivesse queimado. — Eu não sei, Daniel. Você… me magoou muito. — Me desculpe… por favor, me desculpe. — Müller tenta alcançar a mão dela, mas Sophia se esquiva outra vez. — Juro que dessa vez será diferente. — Daniel, está decidido: eu quero o divórcio. — Proclamou convicta, limpando rapidamente as lágrimas que desceriam. Ele suspira em derrota, sem saber o que fazer. Talvez resolveria ajoelhar-se e implorar ainda


mais. Daniel a encara. Sophia está com o rosto virado para o outro lado, sua face expressa em dor. Novamente, ele percebe que enquanto tentava não se magoar, magoava a ela. Pondera que se tivesse admitido antes que nutria sentimentos por ela, muitas mágoas e rancores teriam sido evitados. — Tudo bem, Sophia. Mas quero que continue na empresa. — Falou calmo. Ele não poderia forçá-la a nada, mas também não se humilharia. Faria pouco a pouco por merecer sua confiança de volta. E começaria dando o espaço que ela precisava. — Não, Daniel, não posso. — Negou, encontrando-se com os olhos dele. — Por favor, Sophia. Vou tirar a Melissa do cargo de secretária executiva e pôr você de volta, que nem mesmo deveria ter saído dele. Não quero que quebre o contrato, sei que a sua família ainda está se recuperando e quero poder ajudá-los… Sei os planos que vocês fizeram com o dinheiro desse casamento de conveniência. — Quero ajudá-los, sim, Daniel, mas quero fazer isso com o meu dinheiro! Não com o seu. Quero devolver cada centavo que você investiu — Retorquiu ríspida, se recordando das palavras arrogantes dele horas atrás. — Tudo bem, Sophia, como quiser, mas, por favor, me deixe reparar um pouco das coisas que te fiz. Continue na empresa, lá poderá trabalhar para ajudar sua família e… Eu posso até pedir para o RH descontar uma porcentagem do sue salário, se você quiser, mesmo que não seja necessário… — Eu já disse que quero te devolver cada centavo! — Interviu com a voz elevada. Daniel apenas concordou com um breve aceno de cabeça. — Será nos seus termos, Sophia, só, por favor, continue na empresa… Se você quiser, eu te coloco em um cargo longe da presidência… — fez uma pausa e enrugou o cenho, baixando os olhos em seguida. — Se o problema for eu. — murmurou. Sophia desviou os olhos outra vez, as lágrimas, agora, já não tão presentes. Seu coração estava partido com tudo aquilo. Um impasse entre acreditar e perdoá-lo, acreditar e não perdoálo, não acreditar e não perdoá-lo. Mesmo que Daniel tenha se declarado, ainda era difícil aceitálo outra vez. E se ele for do tipo ciumento e as confusões nunca pararem? E se ele for possessivo e agressivo? E se ele estiver mentindo somente para segurá-la até completarem os seis meses de casado e depois a descartaria? Eram tantas possibilidades e inseguranças que a loura não sabia o que fazer. Fechou os olhos, deixando o silêncio envolvê-la. Uma pequena lágrima escorreu, a dúvida lhe martelando. Seria conveniente continuar na empresa, tendo de vê-lo todos os dias, talvez com outras mulheres, para poder ajudar sua família sem se submeter ao casamento? Ela suportaria a dor da convivência com Daniel? De tê-lo tão perto, mas tão longe? Valeria a pena todo o sofrimento por qual passaria para suprir as finanças de seus familiares? Sophia apertou os olhos ainda mais. Meu Deus, tantas dúvidas. Mas, e se ela pedisse um cargo na fábrica ou nos setores longe da Presidência, como Daniel sugeriu? Poderia facilmente tocar a sua vida sem a convivência diária com Müller?


Daniel a fitava, pacientemente esperando uma resposta. Não a pressionaria a nada, deixaria que ela decidisse. Mas rezava para que aceitasse sua proposta. Com ela por perto, mesmo que estivesse relativamente longe, poderia reconquistar sua confiança. Sophia estava pronta para dar uma resposta positiva a Daniel e aceitar sua proposta, quando o telefone dele tocando a impediu. Ela suspirou, virando a cabeça para o lado e cruzando os braços. Daniel sacou o celular do bolso, vendo o nome piscando na tela.

Chamando Melissa Telles.

Revirou os olhos, impaciente. Nos últimos quinze dias, perdera as contas de quantas ligações da ruiva havia ignorado – e em um de seus telefonemas a Heitor, pediu que a avisasse que ele estava fora e por isso não atenderia às chamadas dela, nem de ninguém. Mas a mulher era insistente e lhe ligou todos os dias. Pedindo um minuto, levantou-se e foi até o corredor, encostando a porta atrás de si: — O que você quer, Melissa? — Inquiriu olhando por cima dos ombros, certificando-se de que Sophia não ouvira o nome mulher ser pronunciado. Sabia que aquilo provavelmente a deixaria mais irritada. — Finalmente atendeu esse celular, Daniel! — Protestou com a voz alterada. — Heitor não te avisou que não atenderia chamadas de ninguém? — Avisou, claro. Mas mesmo assim. Sabe que eu odeio ser ignorada. — Olha, por que não diz logo por que me ligou? — Pediu apertando os olhos e mantendo sua calma. — Apareceu um pepino na empresa. Preciso de você aqui. — Não pode resolver isso sozinha? — Se eu pudesse, já teria resolvido. — E Heitor? — Não chegou ainda. E não atende o celular. Sentindo-se extremamente irritado, ele concorda com um rosnar, alegando que não demoraria a chegar. Guarda o celular no bolso do paletó, respira fundo e volta para o quarto, divisando Sophia sentada na cama, de pernas cruzadas. — Precisam de mim na empresa. — Diz caminhando até ela da forma mais natural que encontra. — Pense bem na minha oferta, Sophia. Por favor. E me espere, eu volto para


conversarmos. Ela nada diz, apenas acena com seu rosto ainda virado. Suspirando, Daniel dá um passo para sair, mas, subitamente, suas pernas o arrastam de volta. Ele segura Sophia pelo rosto com as duas mãos e a beija profunda e calmamente. O coração de Sophia pula de alegria, mas seu consciente grita pare. Não se importando se irá se magoar ainda mais com Müller, ela leva suas mãos até o rosto dele e retribui, fechando os olhos para melhor sentir o doce dos lábios dele. Segundos depois ele para, encostando suas testas. — Me espere. — sussurra, e quando Sophia abre os olhos ele já se foi.

♦♦♦

Daniel chegou à empresa e assim que pisou no andar da Presidência, divisou Melissa junto à Anabelle discutindo sobre alguma coisa. Rapidamente, ele avaliou suas vestes e agradeceu por ela estar decente dentro de calça social que se abria nas barras e uma camisa branca de gola com babado, mas com dois botões soltos, deixando à mostra o decote de seus seios fartos. Ele limpou a garganta, o que chamou atenção das duas. Melissa sorriu largamente e caminhou em sua direção, o cumprimentando com júbilo: — Daniel! Que saudades. — ela o abraçou, mas ele permaneceu imóvel. — É bom revê-lo, senhor Müller — Anabelle disse ajeitando seus óculos no rosto e corando com a cena da ruiva agarrada a ele. Ele lhe deu um meio sorriso e afastou Melissa. — Me disse que tem um problema. Qual é? — Foi direto ao assunto. — Venha, irei te mostrar. — Telles segurou-o pelo punho e o arrastou até seu escritório. Assim que ele fechou a porta, e virou-se para saber qual era o problema urgente que Melissa não conseguia resolver, foi atacado pela ruiva que se atirou em seus braços e lhe roubou um beijo. Daniel se assustou com o ato e desvencilhou-se da mulher, limpando a boca. — O que é isso, Melissa? — Eu disse que estava com saudades, Dan.…— Disse dengosa dando passos em sua direção. — Melissa, por favor, aqui não! — Então onde, Daniel? Quando? — Ela aumentou a voz. — Estou cansada desse joguinho de gato e rato. No começo estava me excitando, mas agora está me deixando farta!


Daniel afrouxou a gravata, sentindo o suor escorrer por suas costas e testa. Lembrou-se da ligação de Rodrigo. Respirou fundo mentalizando que em pouco isso tudo acabaria. — Qual é o problema? — Perguntou novamente desviando o assunto. — Você! — a mulher gritou apontando o dedo para ele. — Você é o problema, Daniel. Que não responde minhas mensagens, não atende minhas ligações e não quer mais saber do nosso sexo! — Dá para falar baixo? — Ciciou entredentes. Melissa o fitou de semblante enrugado, a insatisfação visível em seu rosto. Daniel inspirou de novo, tentando manter a calma e não despejar seus planos tão bem elaborados antes da hora. — O que você quer que eu faça? — Sexo comigo! — Rebateu firme. — Melissa, por enquanto, não vai ser possível. Eu não quero que as pessoas desconfiem ou… — ele não pôde continuar, pois Melissa o interrompeu. — Talvez você queira que eu poste aquele vídeo. Não se esqueça de que ainda tenho uma cópia. Daniel cerrou os punhos, descarregando sua raiva. Mas, felizmente, ela chegou ao ponto onde queria. Havia sido combinado que a ruiva lhe entregaria a última cópia no final de Janeiro, e ainda tinha mais quinze dias até tê-lo em mãos. Mas se ele conseguisse, o teria ainda naquela noite. — Vamos fazer assim: eu saio com você, se me der essa cópia hoje. Melissa pensou por um segundo, quem sabe, analisando suas opções. Com um sorriso escancarado, e não temendo nada, proferiu: — Combinado!

♦♦♦

O dia avançou lentamente e tudo que Sophia fez foi ficar em seu quarto, alternando seu olhar para o relógio, a porta, o celular e a televisão. Sua espera angustiante pela vinda de Daniel quase estava lhe dando uma úlcera nervosa. Não houve um minuto daquele dia em que ela não pensara em suas palavras, recordando-se a todo instante do momento em que ele abriu, mesmo que pouco, seu coração. Eu não me importo com minha herança! Se eu não quero o divórcio é porque eu gosto de você! Estava confuso, Sophia. E com medo. É um sentimento diferente pra mim, entende? Não percebe que a maioria das minhas bobagens foi motivada por ciúmes? Ciúmes de você?


Seguido do beijo que Daniel lhe deu, suas palavras pareciam soar tão sinceras que por um segundo ela pegou-se imaginando ceder a Daniel, a desistir do divórcio, a continuar com seu casamento. Por mais que ele não tenha lhe assegurado nenhum relacionamento mais profundo e íntimo, Sophia ponderou que era isso que de fato ele estava pensando, mas por força maior, ainda não teve a oportunidade de falar-lhe. Balançou a cabeça, tentando afastar seus pensamentos. Conversaria com ele sobre isso quando retornasse. Mas era quase seis da tarde e Daniel não havia ligado, nem chegado. Ele prometeu voltar, mas não disse o horário, seu consciente acusou, tranquilizando-a e a apavorando ao mesmo tempo. Daniel simplesmente poderia nem ao menos aparecer. Sophia desceu até o restaurante do hotel e jantou – um modo que encontrou para que as horas corressem e Daniel aparecesse a qualquer momento. Terminou sua refeição, voltou para o quarto, tomou um banho e pôs uma roupa mais apresentável. Pegou-se frente ao espelho analisando a si mesma, pensando se Daniel iria gostar do vestido rodado. Repreendeu-se outra vez, pôs calça jeans e regata e ligou a TV. Olhou no relógio. Oito da noite. A preocupação bateu. Até aquele momento ficara apenas aflita com a demora, mas se acalmava pensando que ele estava resolvendo algum problema da empresa, e assim que seu expediente acabasse Daniel viria a seu encontro. Mas, à quase oito da noite, seu horário de trabalho havia se encerrado há muito e ele já deveria ter aparecido. Preocupada, e também ansiosa, pegou seu celular e discou o número de Müller. Alguns toques; ninguém atendeu. Tentou outra vez, e no segundo toque sua chamada foi atendida. — Celular do Daniel. — A conhecida voz irritante de Melissa soou através da linha. Sophia sentiu seu corpo estremecer. Porém, lembrando-se de que a ruiva era sua secretária, o ato de ter atendido seu telefonema era normal, principalmente se estivessem juntos em alguma reunião ou trabalho. Tentando manter o controle e não deixar se levar por sua mente paranoica e ciumenta, perguntou: — Onde está o Daniel? — Está no banho. Você não sabe, mas ele transpira muito durante o sexo. Sophia sentiu seu coração parar. O sentimento de mais uma vez ser deixada para trás por conta da ruiva a invadiu, fazendo seus olhos instantaneamente juntarem lágrimas. Tinha sido uma tola por acreditar em Daniel, em suas palavras vazias, nos seus sentimentos falsos. É claro que ele continuava pensando em sua maldita herança! — Quer deixar recado? — Melissa a puxou de volta. Engolindo em seco, Sophia respirou fundo e fechou os olhos, deixando, novamente, suas lágrimas escorrerem pelo rosto. Rogou a si mesma que seria a última vez que choraria pelo cretino do Daniel Müller.


— Sim. Diga a ele que quero o divórcio! — Disse irritadamente e desligou o telefone, o apertando contra seu peito. Deitou-se na cama outra vez, permitindo que as lágrimas viessem. Culpou-se por continuar sendo o fantoche de Daniel, por se deixar levar por palavras em vez das demonstrações, por permitir que seus sentimentos a guiassem em vez de sua razão. Pensou na proposta dele. Negaria, com toda certeza. Jamais iria suportar trabalhar com Daniel, ainda mais sabendo que ele apenas brincara com suas emoções, que se aproveitou dos seus sentimentos por ele para continuarem casados e não perder sua herança. Como sempre um cretino egoísta!, praguejou pressionando o travesseiro contra o corpo. Totalmente desesperada, e com uma ideia absurda na cabeça, tomou o celular em mãos e discou outro número de quem ela tanta fugira. Sem demora, foi atendida: — Miguel… — proferiu em soluços. — Preciso da sua ajuda.

♦♦♦

Sophia estava com as mãos no rosto, tentando controlar seu coração descompassado. Enquanto isso, Miguel acariciava sua face, pondo – vez ou outra – mechas do cabelo amarelo que caíam sobre o rosto dela. Assim que Sophia lhe telefonou, ele não pensou duas vezes e veio ao seu encontro, aflito com a forma que recebera a ligação. A voz de Sophia era perceptível de que estava chorando, desesperada. Chegou ali e se deparou com ela deitada sobre a cama, encharcando o travesseiro. Aproximou-se com passos rápidos, tomou-a em seu colo e afagou seus cabelos até vê-la se acalmar por completo. Não perguntou nada. Apenas deixou que Sophia despejasse suas dores e angústias. Aguardou que ela dissesse o motivo de sua tristeza e por tê-lo chamado, mas lá no fundo, sabia o que levara Sophia a procurá-lo e a estar no estado que encontrava: Daniel. Agora, ela estava bem mais calma de quando ele chegou, e Miguel continuava esperando algum tipo de explicação. — Quer falar sobre isso agora? — Sussurrou, seus dedos ainda dedilhando a face branca e delicada dela. — Vou me divorciar do Daniel. — Disse por fim, tirando as mãos do rosto. Os olhos avermelhados encararam Miguel, este com sua expressão complacente. — Mas não vou levar nada porque nos casamos por separação de bens, então… — suspirou. — E eu quero devolver o dinheiro que ele emprestou ao meu pai para que se recuperassem… Queria saber se você poderia me conseguir algum trabalho na LG Construtora ou em qualquer outro lugar… talvez me indicar pra alguém ou…


— Sophia… — Miguel a interrompeu sereno. — Sabe que não precisa trabalhar. — e colocou outra mecha atrás de sua orelha, a encarando dentro dos olhos com um sorriso encantador no canto dos lábios. — Case-se comigo. — sussurrou aproximando-se — Eu te ajudo no que for, sabe disso. — proferiu não dando a mínima para os motivos que os levaram à separação prematura. Sophia prendeu a respiração e se afastou um pouco, percebendo que Miguel vinha ao encontro de seus lábios. Ajeitou-se na cama e desviou os olhos. — Não, Miguel. Eu não amo você. — Mas me dê uma chance, Sophia. Eu sei que não me esforcei o suficiente quando estávamos juntos, mas desta vez… —Pare, Miguel — ela pediu cerrando os olhos. Mais do que ninguém, Sophia sabia que Orleans havia movido céus e terras para despertar nela a paixão que, agora, sentia por Daniel. Mas seus sentimentos jamais foram revelados para ele. E encontrando-se nessa situação, perdidamente apaixonada por Müller, agora, mais do que nunca, não se casaria com Miguel. Não era justo; não era correto com Guimarães. Miguel emudeceu, acenando. — Eu amo o Daniel. Não quero me casar com você amando outro homem. Não é justo com seus sentimentos. — Eu não me importo com isso. — Declarou. — Posso conquistar seu amor, eu sei disso. Só preciso de uma chance e de paciência. Com um suspiro trêmulo, Sophia enxugou mais uma vez suas lágrimas. Pensou em como Miguel não dava valor a si mesmo: aceitar que sua companheira esteja amando outro homem é no mínimo falta de amor próprio. Mas se ele não se importava, ela, sim. — Só preciso de uma chance. Não precisamos nos casar já. Vamos passo a passo, Sophia, aos poucos. Vamos fazer à sua maneira. Só… me dê a essa oportunidade. Ela virou-se para Miguel, encarando o verde de sua íris. Sorriu pequeno lembrando-se de que se conheciam desde sempre. Eram colegas no ensino fundamental e ele sempre a ajudava nas questões de matemática, depois, no ensino médio, com física e química. Pensou em como ele sempre fora inteligente, por isso a Engenharia se tornou sua paixão. Tentou encontrar em sua mente o momento em que ele começara a nutrir sentimentos por ela, mas não se recordou de um momento específico em que desconfiou de tal fato. Nítido, é seu pai, não há muito tempo, anunciando que ela se casaria com Miguel para salvar a família da falência e de como Miguel sequer protestou contra isso. Divagando, ela não percebe que ele se aproxima e toca seus lábios com o dele. Surpresa, Sophia arregala os olhos, mas não se move, não tem reação nenhuma. Na verdade, os lábios quentes de Miguel contra o seus, despertam nela algo que há muito ansiava e não sentia: a sensação de ser amada.


Pensando nisso, inclina-se e se rende ao charmoso Miguel, se aproximando e segurando em sua nuca, colando mais suas bocas e correspondendo ao beijo sereno. Súbito, Miguel para e olha em direção à porta, que se abriu há alguns segundos, mas só percebeu agora. Sophia segue seu olhar e vê Daniel na porta, seu semblante enrugado, denunciando a decepção diante a cena que vê. — Não se preocupem… — profere com a voz arrastada. — Não parem por minha causa.


32 OLHO POR OLHO

mpacientemente, Müller aguardou o retorno da ruiva com a última cópia do vídeo; queria acabar logo com tudo aquilo para voltar ao hotel onde Sophia estava e então poderem conversar. Mas era necessário ter paciência e resolver um contratempo de cada vez. Descartaria, primeiro, Melissa e suas chantagens. Tentou não se decepcionar que ainda teria de cumprir a sua parte no acordo – a de ter um encontro com ela. Seu corpo, só de imaginar eles dois juntos, estremeceu em ânsia. Se antes Daniel gostava do sexo casual, dos encontros às escuras e da intimidade que tinha com Melissa, agora já estava a ponto de explodir somente em ouvir sua voz.

I

Durante sua espera, pensou em inúmeras desculpas de não cumprir com sua palavra depois que o vídeo estivesse com ele. Definitivamente, não iria dormir com Melissa. No entanto, sabia que fugir e dar pretexto à ruiva só a deixaria mais furiosa, e sentiu um pequeno receio do escândalo que a maléfica mulher poderia fazer – por mais que tivesse documentos que a intimidariam por um bom tempo. Porém, Daniel sabia que era preciso ter certa cautela com mulheres como ela. Nunca descartou a possibilidade de Melissa Telles ser tão louca e desvairada a ponto de não se importar com sua própria imagem. Respirou fundo, controlando os ritmos acelerados do seu coração. Se ele ia dispensá-la, fosse da forma que fosse, então que fosse digno. De qualquer maneira não teria com ela sexo casual, não mais. Primeiro porque seria quebrar sua palavra com Sophia. Segundo, porque ele não mais sentia prazer e excitação com a ruiva. Sorriu de lado, maquinando algo na mente. Foi trazido de volta assim que ela surgiu pela porta. Agora, Melissa e Daniel estavam na sala da Presidência, por volta de dezenove e trinta. — Está aqui, querido. — Melissa disse esticando a Daniel um pen drive. Sem hesitar por um segundo, ele tomou o pequeno objeto em mãos, guardando-o no bolso interno de seu paletó. — Você me garante que não existe mais nenhuma cópia, não é? — Inquiriu desconfiado. Melissa revirou os olhos. — Claro que garanto. Daniel movimentou a cabeça em positivo, mesmo sabendo que aquela garantia não lhe valia


de nada. Mas resolveu não se preocupar, pois tinha seus próprios métodos de garantia, que em breve lhe seria entregue. — Sua vez de cumprir a sua parte do acordo. — Melissa pronunciou contornando a mesa e indo até ele, e como de costume, segurando-o pela gravata e enrolando seus dedos nela. Daniel tentou se esquivar, mas a mulher colou mais seus corpos. Intimidado, permaneceu imóvel, observando-a a sua frente – esta que, por sua vez, deu um passo atrás, sorrindo maliciosamente e mordendo com intensidade o lábio inferior. Com sensualidade, a ruiva abriu vagarosamente os botões de um longo casaco que a cobria. — Vou te dar aquele prazer que você tanto gosta… — sussurrou revelando os trajes que vestia por baixo: uma saia de couro muito curta e justa, deixando à mostra suas coxas brancas e grossas. Um cropped branco com bojo que ressaltava e delineava de forma perfeita os seios fartos e livres; dos pés subia o cano de uma bota salto agulha até os joelhos; os cabelos caíam sobre seus ombros, ondulados com algum modelador. O rosto exibia uma maquiagem forte e marcante, trazendo nos lábios um batom roxo fortíssimo. Daniel pestanejou um pouco atordoado. Estava prestes a dizer-lhe alguma coisa quando ela avançou sobre ele e o beijou, empurrando-o contra a mesa. Alguns objetos vieram ao chão com o impacto dos dois corpos. Müller retribuiu, mas logo a afastou, ofegando: — Vamos com calma. — Não! Estou faminta de você! — A ruiva protestou e intentou outro beijo, mas foi impedida por Daniel, que gentilmente a afastou. — Não aqui. — Não há ninguém na empresa. Podemos transar na sua mesa. Quem sabe um joguinho de chefe autoritário e secretária submissa? — Insinuou escorregando sua mão pelo peito dele. Daniel sorriu de lado antes de responder: — Acho que tenho uma ideia melhor. Ainda tem aqueles brinquedinhos na sua casa? Ao ouvi-lo, Melissa sorriu largamente, instantaneamente o corpo tremeu e se encheu de prazer. Acenou em positivo, imaginando que teria uma noite inesquecível de sexo. De fato, sua noite seria inesquecível… E mal esperava pelo que lhe aguardava. ♦♦♦ Melissa insistiu que eles tivessem o encontro em seu apartamento, mas Daniel não quis; alegou que um motel – longe o suficiente da cidade – era mais reservado. Ainda havia toda a história de manter a aparência de seu casamento. À contragosto, ela topou e passaram em sua casa somente para pegar os objetos eróticos que Daniel, incrivelmente, sugeriu. De dentro do carro, Telles esticou suas chaves para que ele pudesse entrar em seu apartamento e pegar o que desejava.


Enquanto aguardava, o celular dele tocou, a fazendo sobressaltar. Buscou pelo aparelho, que repousava sobre o banco do motorista. A tela piscava, Melissa esticou o pescoço só o suficiente para ver quem ligava para ele.

Sophia Chamando

Revirou os olhos ao reconhecer o nome, e principalmente, porque Daniel havia colocado uma foto de contato. Sabia que no dela não havia foto alguma. Deixou que o celular tocasse incansavelmente. No entanto, uma segunda tentativa foi realizada e o toque estridente reverberou pelo carro. Melissa olhou pelo retrovisor para se certificar que Daniel não regressava, maliciosamente pensando em algo. Sorriu satisfatoriamente e tomou o celular em mãos, atendendo a chamada. — Celular do Daniel. Um rápido silêncio se fez e Melissa sabia que a outra não esperava que ela atendesse ao telefone de seu “esposo”. — Onde está o Daniel? — a loura disse enfim, tentando ignorar tal fato. — No banho. Você não sabe, mas ele transpira muito durante o sexo. — Provoco, pois há tempos vinha percebendo que Sophia estava apaixonada por Daniel e por isso teria de tirá-la da jogada se quisesse fisgar o bonitão sem concorrência. Outro silêncio se instalou e ela sorriu, esticando o pescoço na altura do retrovisor e conferindo a maquiagem. Passou o indicador na borda da boca, retirando um pequeno excesso do batom. Vendo a quietude no outro lado da linha, e deduzindo que Sophia fora atingida pela mentira, continuou: — Quer deixar recado? — Sim. Diga a ele que quero o divórcio! Antes que a ruiva pudesse dizer alguma coisa, a ligação foi encerrada, e ela não evitou em exibir um largo e longo sorriso. — Ops! Daniel abriu a porta do carro de repente. Ela ainda segurava seu celular nas mãos, e rapidamente devolveu para seu lugar inicial. Ele pôs uma pequena caixa na parte traseira do carro enquanto dizia: — Deu de mexer no meu celular agora? — Estava verificando as horas, querido. — Mentiu, e ele apenas acenou, entrando e


passando o cinto. — Então, podemos ir? — ele perguntou. — O mais rápido possível, por favor. — Murmurou acariciando a coxa dele, escorregando até a virilha. Antes que pudesse tocá-lo nas genitálias, Daniel tirou sua mão do alcance. — Não seja precipitada. Melissa se recostou ao banco, bufando feito uma criança mimada, numa irritação teatral. Daniel revirou os olhos e girou a ignição, sorrindo interiormente, pensando em como ele estava prestes a invocar um demônio quando fizesse com Melissa o que planejava.

♦♦♦

— Melissa, vá com calma! — Daniel pediu virando a cabeça para todos os lados que podia, enquanto a mulher o empurrava para dentro da suíte de motel e avançava sobre sua boca. Ela o empurrou, cerrando a porta atrás de si. Fitou seu companheiro – seus olhos tão assustados que parecia uma presa encurralada. A ruiva mordeu o lábio inferior, abrindo, novamente o casaco. — Já disse que estou com fome de você… — sussurrou sensual, deixando o comprido casaco cair sobre seus pés. Daniel pigarreou, abraçando ao corpo a caixinha com objetos eróticos. Inspirou e expirou, tentando pôr sua cabeça no lugar e cumprir o que havia prometido a si mesmo. Deixou a caixinha na cama e se levantou indo na direção da ruiva. Próximo o bastante, a agarrou pela cintura, trazendo seu corpo para junto dele. Eles se colidiram e Melissa sentiu a eletricidade do prazer passear por seu corpo. Enroscou-se a ele, envolvendo os braços em sua nuca. Moveu-se para beijá-lo, mas Daniel impediu, tocando o indicador em sua boca. — Você queria fazer um jogo… — murmurou com a voz um pouco rouca — Chefe controlador e autoritário e secretária tímida e submissa. — Pousou o polegar nos lábios dela, fitando-os. — Hm… isso me deixou excitado. — Do que você precisa, senhor Müller? — A ruiva começara a entrar no jogo de sedução e baixou os olhos numa timidez ensaiada. — Fodê-la! — Ele respondeu, girando o corpo dela e a jogando na cama. Melissa gargalhou e sorriu, constantemente mordendo o lábio inferior. Observou o homem a sua frente andar até ela e sentar-se na cama, próximo à caixinha. Ele a abriu e tirou um pênis de borracha. Sem nenhum receio, segurou o objeto e o avaliou rapidamente. Voltou seus olhos para Melissa, e ela olhava para ele fixamente – as mãos na intimidade, os olhos revirando de prazer. — Tire a roupa. — Ordenou.


Obedientemente, a ruiva se levantou, pôs-se de frente a Daniel e começou a se despir, vagarosamente, quase sensual. — Você é a putinha que gosta de ser fodida? — Indagou a olhando tirar a roupa. Como um combustível para o prazer, Melissa grunhiu, sentindo-se excitada com as palavras sujas. Murmurou em positivo, balançando o corpo de um lado a outro numa dança erótica. Virou-se de costas e curvou-se para baixar a saia de couro, moveu os quadris acreditando no interesse de Daniel. Voltou-se a ele, jogando a saia em suas mãos. Ele agarrou a peça ainda no ar e a deixou de lado, sorrindo de canto. Melissa continuou, tirando o cropped – os seios fartos apareceram. — Vou adorar te fazer uma espanhola e um boquete ao mesmo tempo. — Ela disse juntando os seios. Mordeu os lábios e fechou os olhos, excitada cada vez mais. — Cale a boca. — Daniel rebateu. — Sua voz me irrita. Não vai falar nada até que eu permita. Submissa, Melissa baixou a cabeça e terminou de se despir. Receosa, levantou os olhos baixos para Daniel – ainda sentado e a analisando. Lentamente ele se levanta, aproximando-se. Seus olhos se encontram e ela está ansiosa pelo sexo que virá. Sensualmente, Daniel leva sua boca até os ouvidos dela e murmura: — Fique de quatro para mim. — Oh, meu Deus, Daniel… — Ela gemeu de prazer e logo foi estapeada. — Mandei você calar essa boca! Agora, fique de quatro. — Disse rígido. A mulher passou por ele, atendendo ao seu pedido. Daniel segurou o pênis de plástico o avaliando pela segunda vez. Mirou Melissa de joelhos, andou vagarosamente até ela. Próximo o suficiente, encostou o objeto em sua lombar, escorregando até sua entrada. — Primeiro, vou te foder com isso. — Sussurrou encaixando o brinquedo nas partes íntimas feminina. — Você não será fodida de verdade enquanto não se lambuzar com esse seu brinquedinho, entendeu? — Advertiu, e a mulher apenas acenou freneticamente, ansiosa para se saciar do desejo sexual. — Me responda com palavras, sua vadia! — Esbravejou, segurando-a pelos cabelos vermelhos e os puxando para trás. Melissa se excitou ainda mais. — Sim, eu entendi, senhor Müller. Daniel sorriu e soltou-a de seu aperto, tornando a encaixar o pênis de plástico em sua entrada. Vagarosamente introduziu o objeto e Melissa gemeu, contorcendo e movendo os quadris de encontro à penetração. Daniel aumentou o ritmo gradualmente, a fazendo arquejar de prazer cada vez mais, seus gritos desesperados de excitação sendo abafados apenas pelas paredes isoladas. — Está vendo isso? — Daniel ciciou em seu ouvido, apontando para um espelho do outro lado quarto refletindo a imagem deles. — Está se vendo ser fodida por um pênis de mentira, hein,


putinha? As obscenidades a fizeram grunhir alto, sentindo o prazer a atingindo e a consumindo. — Olhe pra você! — Exigiu puxando-lhe os cabelos e a forçando olhar para o espelho. — É só mais uma puta que vou comer e depois dispensar. — Sussurrou para ela. — Mas você gosta, não é? O desprezo te excita! — Desfez seu aperto com brutalidade — Continue se olhando, Melissa, Veja como você é uma piranha fodida. — Oh, Daniel, assim eu gozo! — choramingou de prazer e outra vez foi punida com um tapa. O prazer estava quase a atingindo quando, bruscamente, Daniel tirou o pênis de dentro dela. A mulher protestou em frustração com um gemido agoniado. — Vire-se. — A voz autoritária ecoou em sua mente e ela se virou, os olhos baixos. — Sinta seu próprio gosto. — Ordenou, e ela prontamente atendeu, lambendo e chupando o apetrecho com prazer e sensualidade, ao mesmo tempo em que estimulava seu ponto sensível. Abruptamente, Daniel a empurrou e Melissa caiu deitada na cama. Andou até a caixinha outra vez, tirando de lá de dentro um par de algemas. Balançou o objeto no ar; a ruiva jogou a cabeça para trás, gemendo, prevendo o próximo jogo de prazer. — Encoste-se ali. — Daniel mandou, indicando a cabeceira da cama. Ela se arrastou até o local, deitando-se. Daniel se aproximou e a agarrou, passando as algemas nos seus dois punhos, e a prendendo na cabeceira. Guardou as chaves no bolso do paletó, e tomou o pênis de plástico outra vez. — Abra as pernas. Ela obedeceu. Daniel encostou o objeto em seu umbigo e desceu, friccionando em seu clitóris ao encontrá-lo. Melissa rosnou de prazer, jogando a cabeça para trás. Ele continuou descendo, parando em sua entrada. — Por favor, Daniel! — Implorou. Müller a ignorou e, ainda descendo o brinquedo, parou em seu ânus. — Quero que você seja fodida de todas as maneiras. — Enunciou suavemente rouco. — Me foda como você quiser. — Disse ensandecida de prazer. Sorrindo, Daniel a penetrou com o pênis de plástico na vagina, murmurando: — Vamos lubrificar isso primeiro. Melissa contorcia o corpo, as cordas vocais já quase falhando, os gemidos não sendo o suficiente para extrapolar todo seu prazer. Sem que esperasse, ele retirou de sua vagina e encaixou na entrada de seu orifício, forçando-o para dentro com cuidado. Os sons de tesão se intensificaram, e dessa vez, ignorando qualquer ordem de quedar-se calada, a ruiva gemeu alto,


proferiu obscenidades e palavras sujas que alimentaram sua excitação. — Céus! Estou quase lá… — gritou, e Daniel retirou de uma vez, parando com a penetração. — Dani… — Protestou arfando. Mas Daniel deu-lhe pouca atenção. Novamente, foi até a caixinha e tirou uma venda preta. Regressou até Melissa e a olhou, sorrindo pelo canto dos lábios. — Vamos deixar isso mais interessante. — ciciou e se aproximou para vendá-la. — Está acabando comigo, Daniel! — Choramingou. — Será compensador no final, querida. — sussurrou terminando de colocar as vendas. Outro gemido alto escapou quando Daniel tornou a penetrá-la e, dessa vez, revezando entre ânus e vagina. As palavras sujas continuaram vindo, o corpo feminino já entrava em convulsão quando o prazer a atingiu, e Melissa amoleceu o corpo com o orgasmo sentido. — Quero ser fodida de verdade, senhor Müller. Eu mereço — pediu arfando de prazer, ainda vendada, algemada e com um pênis introduzido em seu canal do ânus. — Você terá, sim, o que merece, Melissa. — Falou baixinho juntando com cuidado as roupas dela espalhadas pela suíte. — O que está fazendo, Dan? — Ofegante, quis saber. — Tirando a roupa. Irei te comer agora. Quero que você cale essa boca. Só chame meu nome quando eu ordenar, entendeu? — Respondeu andando para trás cautelosamente. Ela sorriu e gemeu ao mesmo tempo. Ele baixou o trinco tentando não fazer muito barulho, e disse: — Vou te foder como nunca ninguém te fodeu antes. Melissa grunhiu de prazer, contorcendo o corpo, a expectativa do sexo crescendo. Daniel cerrou a porta, já no lado de fora. Sorriu largamente, tentando manter sua risada para si. Desceu rapidamente até a recepção. Tirou as chaves das algemas do bolso e entregou ao funcionário: — Você vai precisar disso dentro de pouco. O funcionário o olhou confuso, mas não teve tempo de questionar o cliente. Daniel já havia partido. Andando a passos rápidos até seu carro, no caminho, jogou a roupa de Melissa numa lata de lixo. Gargalhou quando imaginou o quão constrangedor seria para ela quando a fossem ajudar. Estava com vendas, algemada, totalmente nua e com um pênis de plástico no ânus… Sorriu satisfeito, mesmo sabendo que havia brincado com o próprio demônio.


33 AMOR E ÓDIO

ntes que Sophia pudesse processar a presença inesperada de Daniel, ele já tinha virado as costas e saído para o corredor. Ela buscou os olhos de Miguel, que estava inexpressivo, e sentiu-se em um empasse. Voltou seu olhar para a porta, e não sabia se devia ir ou não atrás de Daniel. Instantaneamente se lembrou da voz aguda de Melissa noutro lado da linha telefônica e seu corpo estremeceu em cólera só de imaginar que ele veio até ela depois de estar com a ruiva. Decidiu então, mais do que nunca, que era hora de dar um basta em tudo – e não passaria daquela noite.

A

Pediu um minuto ao ex-noivo e se retirou, saindo em disparada ao encontro de Daniel. Quando finalmente conseguiu alcançá-lo, ele já estava dois andares para baixo. — Daniel! — chamou-o e sua voz ecoou pelo corredor. Ele a olhou por cima dos ombros, mas não fez menção de parar. Sophia apertou o passo, e assim que esteve perto o suficiente, o tocou no ombro. — Espere! Müller se virou abruptamente, a expressão fechada. Quando seus olhos se encontraram, ele sentiu a necessidade de se desviar, cessando o contato visual. Estava irritado demasiadamente. Se continuasse olhando para aqueles grandes olhos verdes sedutores, poderia ceder sem que ela dissesse uma única palavra. Respirou fundo querendo manter a calma. Não queria perder a cabeça, não queria mais discutir, não queria mais magoá-la… Suavizou sua expressão e expirou vagarosamente. — Não quero ouvir nenhuma explicação. — Disse simplesmente. — Eu não vim para me explicar. — Rebateu. — Só reafirmar que quero o divórcio. Daniel afagou o rosto e suspirou. Depois do que havia presenciado, depois de ver Sophia beijando Miguel, para ele nada mais importava. Tinha se praguejado mentalmente por não ter dado atenção à sua razão, por ter escutado seus sentimentos, por mais uma vez ter agido precipitadamente e aberto seu coração. Porque mesmo tendo exposto o que sentia em relação à loura, ela preferiu não acreditar em suas palavras. Sentiu-se patético por se declarar, pois agora, outra vez, via-se em uma situação de sentimentos não correspondidos, e o medo de que sofresse por isso o fez dar um passo atrás. Se Sophia queria o divórcio, então lhe daria, prevenindo que suas emoções por ela não fossem ainda mais ampliadas.


— Eu darei. E estará livre pra ficar com o Miguel! — respondeu entre os dentes, e virou-se para continuar seu trajeto de sair dali. Sophia andou a seu lado, os passos dela exalando a raiva que emanava de seu corpo. Com que direito Daniel tinha de sentir ira ou ciúmes pelo beijo com Guimarães? Tinha feito coisas mais íntimas com Melissa e nem por isso ela lhe jogara na cara. Não até então. Tocou o ombro dele e, com um pouco mais de brutalidade, o fez virar-se em sua direção. — Pelo menos ele não é mentiroso! Não declara falsos sentimentos. — Os meus sentimentos por você são reais! — Daniel respondeu prontamente com a voz um pouco mais dura, e sem perceber apontava o indicador para Sophia. — Eu disse que viria, e só o que eu pedi foi para que me esperasse para conversarmos com calma. Mas, claro, você preferiu chamar o Miguel pra te consolar! — Você não voltou, Daniel! — Sophia agora gritava com lágrimas nos olhos, somente de se lembrar de que passara o dia todo esperando por ele. — Esperei por você o dia todo, a tarde toda! Você não apareceu, sequer deu uma ligação! Daniel suspirou, desviando os olhos e se lembrando do porquê não pôde voltar antes. Lembrou-se de Melissa e de como ela estava sempre o atrapalhando, sempre se pondo entre ele e Sophia. Acalmou-se interiormente. No dia seguinte suas dores de cabeça acabariam, mas no mesmo instante pensou que já não mais fazia diferença. Provavelmente no dia seguinte, Sophia já teria ido embora e somente retornaria quando os papéis do divórcio estivessem prontos. — Eu estive ocupado, Sophia. — justificou-se enfim. — Eu imagino — a voz dela continuava carregada. — Estava ocupado demais transando com a Melissa! — A cólera a dominou e, sem que ele esperasse, lhe deu um soco no peito. Daniel deu um passo atrás, assustado, e segurou os punhos dela, que estavam prontos a dar outra investida. — O quê? — Perguntou enrugando o cenho, confuso. — Eu não transei com a Melissa! — Proferiu em tom incrédulo. Sophia cerrou os dentes e apertou os olhos, uma tristeza imensa apertando seu coração. Questionava a si mesma como ele poderia ser tão hipócrita a ponto de negar que fizera sexo com a ruiva. Uma lágrima teimosa escapou, e ao perceber, abriu os olhos e a secou rapidamente. — Não precisa esconder isso para não me magoar. Eu liguei no seu celular e ela atendeu. Me disse que você estava no banho porque “transpira demais no sexo” — disse com desdém e uma pitada de raiva. Daniel exprimiu um baixíssimo “droga” ao se lembrar do único momento que deixou seu celular perto de Melissa, e de que a flagrou ele em mãos – justificando que estava conferindo as horas. Melissa, aliás, àquelas alturas, estaria vermelha de raiva feito o diabo, e, com toda certeza, estaria o caçando pelos quatros cantos da cidade no intuito de matá-lo. Um pequeno riso escapa de seus lábios ao se recordar do “encontro deles”. — Não ria, Daniel! — Sophia o advertiu.


Ele voltou à realidade, e recompondo sua postura, disse: — Eu estava com Melissa, mas não transando. Ela atendeu meu telefone quando eu não estava e aproveitou para te provocar. Não percebe, Sophia? — Se explica, e ela o encara por um segundo. — Ela está o tempo todo nos provocando. Suspirando, pensa que talvez ele tenha razão. Talvez ele esteja falando a verdade e a ruiva tenha a provocado. Mas isso não mudava o fato de ele tê-la feito esperar por tanto tempo. Poderia, pelo menos, ter dado uma ligação para avisar. Mas não. Respirou fundo, intentando se manter firme no pedido de divórcio e não deixar se levar apenas pelas palavras de Müller. Porque suas palavras diziam uma coisa, mas suas ações, outras. — Não importa mais, Daniel. — Enunciou já mais calma. — Eu quero o divórcio. Daniel apenas acenou, baixando os olhos. — Também vai se demitir? — Sussurrou. — Sim. Amanhã levo os papéis da minha demissão para você. Daniel ergueu seu olhar até ela: os olhos verdes emitindo um brilho opaco, entristecido. Sentiu suas pupilas arderem pelo acúmulo de algumas lágrimas, mas esforçou-se ao máximo para não permitir demonstrar sua emoção na frente dela. Já tinha feito muito se declarando como um adolescente idiota – seria ainda mais patético chorar diante Sophia. Ele apenas acenou. Deu um passo a frente, hesitante. Olhou para trás, por cima dos ombros. Queria poder retornar, segurá-la pela cintura e beijar-lhe. Resistiu aos seus impulsos. Não se submeteria aos seus sentimentos – não outra vez. Respirou fundo e antes de sair, falou baixinho: — Adeus, senhorita Hornet. — então se foi.

♦♦♦

Sophia retornou para seu quarto a passos demorados. Envolvia o corpo com os próprios braços e sentia seus olhos lacrimejados. Por algum motivo esperava que Daniel reafirmasse seus sentimentos, que tentasse se explicar, que insistisse em conversarem. Mas ele não o fez. Aceitou assinar o divórcio e fora tão frio como nunca antes. Sua frieza só a fez pensar que ou seus sentimentos eram falsos, pois tudo que ele visava era não perder sua parte da herança, ou o que sentia não era tão forte ao ponto de lutar e persistir por ela. Fungou entrando no quarto. Miguel continuava a esperá-la, pacientemente. Ela sorriu amarelo ao vê-lo e se aproximou cautelosamente, sentando-se ao seu lado. No mesmo momento, Miguel segurou-lhe pelas mãos e ofereceu um sorriso amigável. O toque dele em sua pele trouxe-lhe recordações próximas: o polegar de Daniel delicada e deliciosamente fazendo círculos contra sua pele. Fechou os olhos, mentalizando que era preciso seguir em frente e esquecêlo. É só um sentimento bobo que logo, logo passará.


— Vocês conversaram? — Miguel perguntou, e ela abriu os olhos para encarar a íris verde. — Sim. Felizmente entramos em um acordo e ele me dará o divórcio. — Respondeu cabisbaixa. Os suaves dedos de Miguel a tocaram no queixo, levantando o olhar dela para ele. — Não sei o que aconteceu entre vocês pra terem decidido se divorciarem assim, tão prematuramente — ele proferiu com a voz baixa, descendo seus dedos graciosos pelo rosto de Sophia, o acarinhando com delicadeza. — Eu vejo que você o ama, Sophia, mas ele… — Miguel faz uma pausa pequena e suspira — ele não demonstra o mesmo. Pedir o divórcio foi o melhor a se fazer. Sophia acena, sentindo-se derrotada. Daniel jamais sentiria o mesmo que ela sente por ele. Ele jamais poderia corresponder aos seus sentimentos porque o máximo que se aproximaria de ter desejos eram os sexuais. — Mas, eu, Sophia — Miguel continuou e a despertou do devaneio —, eu te amo… Sophia se remexeu na cama, e no mesmo instante se esquivou das carícias no rosto. Pigarreou, desencontrando-se do olhar intenso dele. Ela demorou a perceber, mas agora vê que não fora uma boa ideia chamá-lo ali. — Miguel, já falamos sobre isso. — Proferiu cansada. — Só me dê uma chance, Sophia. — Não, Miguel, por favor, não insista nisso. — Falou firme e se levantou, saindo do alcance de Guimarães, e, assim como fez com Daniel, caminhou até a porta e a abriu, pedindo que ele se retirasse. Miguel a encarou por um segundo, um pouco desnorteado. Ela pediu outra vez que ele saísse, dizendo que estava cansada e precisava dormir. Assentindo e suspirando em frustração, Miguel cedeu. Levantou-se e caminhou em sua direção. Quando estava bem perto dela, fitou-lhe os lábios e subiu até seus olhos. Sophia sentiu-se levemente encurralada e pensou em delimitar um espaço, empurrando-lhe delicadamente, mas ao mesmo tempo refletiu que o espaço tinha sido quebrado minutos atrás quando eles se beijaram. Prendeu a respiração, apenas torcendo que Miguel não a forçasse a nada. — Se precisar de mim, pode me ligar. — Sussurrou ele, e Sophia pôde sentir o cheiro de seu hálito cheirando a menta. — Obrigada, Miguel… — agradeceu, e tirou seu corpo para fora, dando espaço para ele passar e sair. Assim que Miguel se foi, Sophia deitou-se na cama, agarrou seu travesseiro e pensou no dia que teve: em cada palavra dita dos três lados – dela, de Miguel e de Daniel. Ela queria poder acreditar nos sentimentos de Müller, em suas palavras que soaram tão sinceras. Mas suas atitudes, principalmente sua frieza anterior, a fez concordar com Miguel. Com lágrimas nos olhos e um buraco no peito, sonolenta, lembrou-se das palavras do ex-noivo:


Eu vejo que você o ama, Sophia, mas ele… Ele não demonstra o mesmo. Com um grunhido agonizado, Sophia apertou seu corpo ainda mais contra o travesseiro, querendo, de alguma maneira, amenizar seu coração partido. Então adormeceu pensando o quanto Daniel era um idiota por abusar de seus sentimentos.

♦♦♦

Daniel deu um soco no volante como se pudesse descarregar sua raiva. Respirou fundo querendo não perder as rédeas da situação – estava dirigindo e a última coisa que queria era causar um acidente. Olhou pelo retrovisor, mirando o hotel onde deixara Sophia para trás a mercê de seu ex-noivo. Não pôde evitar o ciúme lhe atingindo e queimando seu peito de forma intensa. Seus olhos chispavam somente em imaginar o que eles poderiam fazer sozinhos naquele quarto de hotel. Voltou sua atenção à estrada, desviando da cabeça qualquer pensamento insano, qualquer preocupação sem fundamento. Sophia era uma mulher livre e se tornaria oficialmente livre quando eles assinassem o divórcio. Por um segundo, arrependeu-se em não ter insistido um pouco mais em tentar convencê-la a não pedir a separação, a dar uma chance a eles para que pudessem recomeçar. Suspirou balançando a cabeça. Ela preferiu aquele imbecil!, pensou com raiva e apertou fortemente o volante. Foi desviado de suas divagações quando seu celular tocou. Olhou para a tela do celular e sorriu de canto, satisfeito. O nome de Melissa piscava, e, dessa vez, ele fez questão de atender, colocando no viva-voz. — Oi, Melissa. — Disse naturalmente. — Eu vou te matar, Daniel! — Ela gritou do outro lado, totalmente sem controle. — O que você fez hoje, seu desgraçado, não se faz com uma mulher como eu! Daniel apertou os lábios, segurando uma gargalhada. Era de um sabor incomparável ver Melissa irritada, sem controle, depois do que lhe tinha feito. — Não sei do que está falando. — respondeu exibindo um sorriso largo e sarcástico. — Você sabe do que eu sou capaz, não é Daniel? Acha que isso vai ficar assim? — Você não deveria me ameaçar, Melissa. As suas chantagens acabaram porque a última cópia daquele maldito vídeo está comigo, então… suas ameaças não me assustam mais. Houve um longo silêncio entre os dois. Daniel conseguia ouvir a respiração arquejada de ódio de Melissa atravessando a linha de telefone. Estava mais do que satisfeito em ter lhe dado uma lição. Pensou que, depois daquela noite, Melissa o odiaria pelo resto da eternidade. Mentalizou que deveria dobrar a atenção, pois, como ela mesma havia dito, não deveria ter brincado com uma mulher como ela: vingativa e paranoica. A qualquer momento, Daniel sabia, Melissa daria o bote e o prejudicaria de alguma forma.


— Eu posso foder com você e com a sua vidinha sem aquele vídeo, querido. E o dia em que eu me vingar, vai se arrepender de ter nascido, Daniel Müller! — Ele não teve tempo de responder, pois a ruiva desligou a chamada. Daniel encarou o celular, seu sexto sentindo gritando que ele nunca deveria ter feito aquilo.

♦♦♦

Daniel acordou e fitou o teto de seu quarto. Olhou para a porta, imaginando o corredor através dela, imaginando a porta do aposento de Sophia, sabendo que ela não estaria lá, dormindo. Nem que ela acordaria, desceria as escadas e se juntaria a ele no café da manhã. Também não estaria mais na empresa, o auxiliando como sua assistente de relações públicas. A única notícia boa naquela manhã, pensou, era que finalmente demitiria Melissa. Se é que ela vai aparecer, sua consciência acusou. Após a noite anterior, sabia que provavelmente ela nem iria mais trabalhar. Temeu, por um segundo, que quando chegasse à sua sala, tudo estivesse revirado, e Melissa estivesse fazendo um escândalo. Afastando os pensamentos, levantou-se e tomou um banho rápido. Já estava descendo as escadas para seguir para o trabalho, ignorando a mesa de café da manhã posta, onde Heitor estava sentado. — Ei, aonde vai? — Inquiriu ele ao ver que Daniel saía furtivo. Daniel estacou no lugar e, de forma vagarosa, voltou-se ao irmão. — Trabalhar. Heitor olhou no relógio. Ainda era cedo demais. — Está um pouco adiantado, não acha? — Preciso resolver umas coisas antes. — Respondeu, o que não era totalmente mentira. Agora que estava com a última cópia do vídeo, poderia ligar para Rodrigo e se encontrarem. — Olha… eu fico muito feliz em saber que você passou duas semanas fora e quando voltou sequer me procurou. — Heitor proferiu com um falso desapontamento ecoando de sua voz. Daniel revirou os olhos, entediado. Eles tinham se reencontrado na empresa no dia anterior, assim que ele deixou Sophia no hotel para se encontrar com Melissa, acreditando que ela tinha algum problema real que não conseguia lidar. Eles passaram boa parte da tarde juntos; Daniel até lhe contou rapidamente a decisão de Sophia em pedir o divórcio e de que ele tinha ido procurá-la para convencê-la do contrário. Omitiu, obviamente, o fato de ter se aberto. Assim que o expediente acabou, Heitor fora embora e ele ficou na empresa aguardando o


retorno de Melissa com o vídeo. Os dois tiveram o “encontro” que deixou a ruiva possessa, e assim que se viu livre, correu até o hotel onde Sophia estava. Depois do frustrante flagra de vê-la beijando Miguel (fato que ainda o deixava irado), voltou para casa e foi direto para seu quarto, não vendo mais o irmão. — Não faça drama. — Retorquiu. — Sophia vai voltar pra casa? — Perguntou de repente. Daniel exasperou. — Não. Ela quer o divórcio, então… Que assim seja. — Não acredito que vai desistir assim dela. — falou casualmente passando requeijão em um pedaço de torrada. Daniel nada respondeu. Ele não estava desistindo, só não lutaria uma batalha que sabia que ia perder. Sophia estava irredutível e, provavelmente, Miguel a consolaria. Não evitou em pensar que meses atrás Miguel havia lhe dito que não faria nada para afundar o casamento deles, que seria ele a consolar Sophia quando isso acontecesse. Enrugando a testa, perguntou-se se Guimarães não tinha colaborado para aquela decisão, se não tinha, de alguma forma, planejado que a situação chegasse onde chegou. Sacudiu a cabeça, esvoaçando as ideias absurdas. Era uma infeliz coincidência. — Quando um não quer, dois não brigam. — alegou simplesmente. — Se me dá licença, tenho coisas a resolver. Daniel não esperou por uma resposta, deu-lhe as costas e saiu. Já no carro, entrou em contato com Rodrigo e marcaram de se encontrarem num café uns cinco quilômetros de onde estava. Girou a ignição e, antes de partir, olhou para sua casa. Esperançosamente, quis que Sophia estivesse lá, dormindo serena.

♦♦♦

— Está tudo aqui? — Daniel perguntou a Rodrigo verificando uma pasta cheia de papéis. O homem a sua frente, de quarenta e poucos anos e cabelos castanhos claros bem penteados, bebeu um gole de seu chá enquanto murmurava uma afirmativa. Engoliu o líquido quente e disse: — Como você me pediu. E aqui — ele sacou do bolso um pen drive e arrastou em direção a Daniel —, os vídeos dos últimos dias. Um por um. Isso é só uma cópia pra você guardar, porque do seu computador mesmo é possível acessá-los. Daniel assentiu, sem desgrudar os olhos dos documentos que folheava rapidamente.


— E você me garante que isso é suficiente pra me precaver daquela maluca? — Fechou a pasta e buscou pelos olhos de seu colega. — Dá um processo fodido nas costas dela. Vai por mim, Daniel. Müller sorriu satisfeito e agradeceu pelos serviços de Rodrigo, dando-lhe um aperto de mão caloroso. Assinou um cheque para pagar os honorários do homem e seguiu para a empresa. Não via a hora de se livrar de Melissa de uma vez por todas. Dirigindo, verificou as horas no celular e a imagem de sua proteção de tela o fez suspirar. Pensou em ligar para Sophia e pedir que tivessem mais uma conversa, já que até mesmo ele estava com os ânimos mais calmo e arrependido em ter concordado com o divórcio sem ter a conversa que planejara na noite anterior. Negou a si mesmo. Se era isso que ela queria, então que assim fosse. Raiva percorreu seu corpo só de imaginar que depois que ela assinasse o divórcio correria para os braços de Miguel. Suspirou, tentando esquecer. Talvez, uma bela morena e um sexo casual selvagem ajudassem. Cerrou os punhos e bateu contra o próprio crânio. Pare de pensar asneiras! Durante a manhã, Daniel manteve sua cabeça ocupada o tempo todo. Duas semanas fora da empresa acumularam serviços que ele levaria dias para pôr em ordem. Como o previsto, Melissa não apareceu, nem telefonou, não deu notícias de que continuava viva – fato que fez Daniel ser cauteloso, temendo que, de uma hora para outra, ela aparecesse surtando, louca como era, quebrando tudo e fazendo alguma coisa para prejudicar sua imagem. Ele também ficou ansioso por Sophia. Ela lhe garantiu que traria os papéis da demissão. Desviando a atenção de seu atual trabalho, pegou-se pensando em pedir outra chance a Sophia, a dialogarem com calma. Estava disposto a deixar de lado o beijo que ela trocou com Miguel, afirmando a sua consciência que talvez ela estivesse fora de si quando o chamou, quando o beijou. Talvez tenha sido um ato impensado, uma coisa de momento – como ele várias vezes, por impulso, fez bobagens. Mas ainda estava com raiva, ainda sentia por ela não ter acreditado em seus sentimentos. Sentimentos confusos e, talvez, distorcidos, mas sinceros e reais. Jogou a caneta na mesa, bufando. Desde o início tinha sido uma má ideia falar do que sentia, porque sabia como aquilo acabaria. Porém, foi teimoso e deixou ser guiado pelas emoções. E outra vez se via na mesma situação: seus sentimentos expostos e não correspondidos. — Senhor Müller? — Anabelle bateu à porta levemente e o tirou de suas divagações. — A senhorita Gianne, representante da MK, está aí fora. — Ela tem hora marcada? — Perguntou confuso. Não se recordava de nenhuma reunião naquela manhã. — Sim, senhor Müller. Há quase um mês que essa reunião está marcada. Suspirou pensando como Melissa era uma incompetente. Ela não tinha o notificado sobre essa reunião, nem colocou em sua agenda. Para sua sorte, Anabelle era mais eficiente e sempre mantinha uma cópia.


— Mande-a entrar, por favor. Segundos depois, uma mulher morena e alta surgiu. Ela tinha os cabelos negros e escorridos presos em um coque. O corpo era perfeitamente magro e bem delineado, a saia levantava-se até acima de seu umbigo, e sua cintura estava marcada pela blusa branca por dentro do cós da parte de baixo. Os saltos pretos eram altos, a deixando ainda mais alta do que aparentava ser naturalmente. O rosto estava maquiado – as pálpebras com uma sombra preta e os cílios longamente curvados; nos lábios um forte batom vermelho e as maçãs do rosto brilhavam por conta do blush. Gianne era um espetáculo de mulher. Daniel levantou-se, sorrindo amigavelmente, avaliando a exuberante mulher a sua frente. — Senhorita Gianne… — ele esticou a mão quando ela estava próxima o suficiente —, muito prazer, sou Daniel Müller. — O prazer é meu, Daniel. — A mulher disse sem formalidades. —Vamos tratar de negócios? — sua voz soava firme e confiante. Daniel acenou com um sorriso, o perfume forte da mulher subindo pelas suas narinas. Durante os primeiros minutos de conversa, ele mal conseguia se atentar. A voz sensual – e ao mesmo tempo natural de Gianne – o perfume forte, o corpo divino e os seios que eram bem marcados pela blusa. Não havia nenhum desejo sexual, mas era impossível não reparar em rara e exótica beleza. — Está me ouvindo, Daniel? — A mulher chamou, e só então percebeu que lhe observava os lábios avermelhados. Ele gaguejou, desconcertado, antes de conseguir dizer: — Ah, sim, só me distraí um segundo. A morena levantou a sobrancelha, duvidosa. Sorriu com malícia e levou o indicador até a boca. — Se distraiu com isto? — Indagou sexy. Daniel pestanejou, atordoado. Afrouxou um pouco a gravata, atormentado por uma pequena claustrofobia. Sentiu que o lugar estava ficando pequeno. — Não… é… eu… — Vamos lá, Daniel — disse Gianne se levantando e contornando a mesa. Parou em sua frente, Daniel levantou os olhos para encará-la. Sem que esperasse, ela o agarrou pela gravata e puxou, seus rostos quase se colando. Então sussurrou: — Admita. Ele sentiu sua respiração pesar, o cheiro forte da colônia irritando seu nariz. De repente, se lembrou de Sophia beijando Miguel, das suas dúvidas em relação ao que sentia, do seu pedido de divórcio mesmo ele tendo afirmado que o que sentia era real. Decepção e raiva passearam por seu corpo, e apenas querendo esquecer a loura dos olhos verdes, de sua paixão idiota por ela, segurou Gianne pela nuca e a beijou.


No mesmo instante a mulher sentou-se em seu colo, erguendo a saia até a altura da barriga, beijando-o com ferocidade. Agarrou-o pelos cabelos durante o beijo, Daniel desviou suas bocas para puxar a camisa dela, arrebentando os botões que se espalharam para os lados. Observou os seios morenos, enquanto ela se livrava da peça. Selvagem, Gianne ajudou-o a tirar o terno e em seguida a camisa social. Divisou o peito largo e tornou a beijá-lo. Daniel retribuiu escorregando suas mãos pelas costas da morena. — Eu te odeio, Daniel! — Ouviu-se um gritar de repente, e ele se sobressaltou, correndo seus olhos até a entrada do escritório. Viu Sophia com os olhos cheios de lágrimas, alguns papéis caídos ao chão. Não pensou duas vezes. Se desvencilhou de Gianne e andou até Sophia, balbuciando: — Sophia…— mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, a loura já saía disparada, com as mãos no rosto e aos prantos. Ele vestiu sua camisa social e saiu do escritório às pressas, ainda abotoando o traje. A alcançou no meio do caminho e segurou seu braço com força. — Vamos conversar — pediu e a induziu a olhar para ele. Mas ela nada respondeu. Soltouse brutalmente de suas mãos e desferiu um tapa em seu rosto. — Não me procure nunca mais, Daniel Müller. Entendeu? Nunca mais! — Proferiu pausadamente. Ele a viu correr pelos corredores e sumir. Sentiu seu coração descompassado, a culpa por ter, mais uma vez, feito bobagem martelando seu peito. Voltou rapidamente para sua sala e sem cerimônias dispensou a morena. Pela primeira vez, Daniel sentia que se não fizesse alguma coisa, perderia Sophia definitivamente. Naquele momento, enquanto andava a passos decididos até a garagem para buscar seu carro e ir ao encontro de Sophia, pensou que seus sentimentos não eram confusos, não eram distorcidos. Seus sentimentos eram o mais puro e genuíno amor.


34 IRRESISTÍVEL AMOR ophia entrou no carro e bateu a porta fortemente, as lágrimas rolando pelo seu rosto. Encostou a cabeça no volante por apenas dois segundos, tentando acalmar seu coração, antes de dar a partida e tomar a decisão de fazer suas malas e ir embora da casa de Müller definitivamente. Nem se daria ao luxo de esperar pelos papéis do divórcio, pois sentia que se passasse mais um segundo na presença de Daniel, seu psicológico não aguentaria e ela desmoronaria a qualquer momento. Voltaria para a casa de seus pais, agora um pouco mais estabilizados, e os ajudaria na parte financeira com as economias que tinha; manteria o matrimônio com Daniel até o tempo necessário para que ele resgatasse sua herança, para assim também não quebrar o contrato firmado e não prejudicar a família, e então depois exigiria o divórcio. Mas por hora precisava urgentemente se afastar dele.

S

Girou a ignição e seguiu a rota para a casa onde, até então, morou: o lugar onde todas as suas decepções e angústias se iniciaram. Se antes de ir para o hotel estava decidida a se separar dele, agora, após presenciar mais uma de suas canalhices e falta de consideração, Sophia estava convicta que o melhor era, sim, o divórcio – a separação. Secou as lágrimas que deixavam sua visão embaçada, recompôs sua postura e controlou seus ritmos cardíacos e seu corpo que tremia de nervosismo. Não choraria mais, não sofreria mais, nem se importaria com Daniel – ele nunca fora merecedor de uma lágrima sequer, tampouco um sorriso. A única coisa que ele merecia era a solidão, mas duvidou se ficar sozinho o faria a repensar na vida, a se arrepender e aprender com seus erros. Talvez Daniel nunca aprendesse, afinal. Ao chegar, estacionou o carro de qualquer maneira e subiu os degraus correndo. Queria somente pegar suas coisas e sair dali o mais rápido possível: sem explicações, sem satisfações a ninguém; desejava, apenas, ir embora em paz sem ter que se explicar, somente sumir sem deixar notícias. Não queria ser encontrada. Pegou duas malas e começou a colocar suas peças dentro, de qualquer maneira, não se importando em ter o mínimo de cuidado para não as amassar, ou tirar, uma ou outra, do cabide. Soltou um suspiro agoniado quando ouviu um carro estacionando; imaginou que seria Daniel. Apressou-se em terminar, abarrotando suas vestes. Mal tivera tempo para qualquer outra atitude. Daniel surgiu, de repente, ofegando, como se tivesse corrido. Ela ainda estava de costas e mentalizou acabar o que fazia, virar-se e passar por ele como se não estivesse ali. — Sophia… — tencionou uma frase e foi interrompido no mesmo instante. Sua esposa de conveniência se virou bruscamente para ele, os olhos vermelhos e a face em uma expressão de


raiva e dor. — Nem perca seu tempo, senhor Müller — seu tom era de desdém. — Não tem que me explicar nada. — Mas eu quero. Só me… — Não, Daniel. Você é um homem livre. Foda com quem você quiser! — Esbravejou sentindose cansada de tudo que tinha acontecido até ali. — Que porra, Sophia! — Daniel quem aumentou a voz dessa vez, a assustando. — Eu estava com raiva! Você pediu o divórcio e depois te vi beijando aquele imbecil do Miguel! O que queria que eu fizesse? Ela respirou fundo antes de responder. — Não irei discutir com você. Só me deixe ir embora. — Você não vai a lugar algum, é minha esposa! — Sua esposa de mentira num casamento de mentira! — Despejou entredentes. — E nosso sexo? Foi de mentira para você? — Aquilo foi um erro — Sophia voltou-se às malas. — Nunca deveria ter acontecido. Quando estiver com a herança em mãos, me ligue e eu assino o divórcio. Daniel a segurou pelo braço novamente, girando-a para ficarem um de frente para o outro. Ela se assustou com a atitude, mas não revidou. Seus corpos ficaram próximos, olharam-se nos olhos com intensidade, suas bocas estavam tão rentes que, apesar da raiva, Sophia desejou tomar a dele para si. E, ao mesmo tempo, o hálito fresco da loura subia pelas narinas de Daniel, acalentando seus ânimos. — Não quero que vá, e não é para manter nenhuma aparência. — Sussurrou buscando os olhos verdes esplendorosos, e completou: — É porque eu te amo. Sua declaração deixou Sophia levemente atônita. Por alguns segundos, permaneceu calada, sem saber o que dizer, como reagir diante àquela frase. Perguntou-se interiormente se não era uma mais uma de suas inúmeras palavras vazias, se não era apenas mais um modo de fazê-la acreditar, a ficar, seja lá por quais motivos ele não quisesse que ela partisse. Por um segundo quis acreditar nele. A maneira como seus lábios se moveram para pronunciar o “eu te amo” e a forma intensa que essas três palavras foram ditas, de uma forma totalmente tão diferente de quando ele disse apenas que tinha sentimentos por ela; de como dedos dele contornavam seus braços sem machucá-la, enviando sinais ao seu corpo de que Daniel não queria realmente que ela dissesse adeus. Outra vez, viu-se balbuciando em sua presença – e ela se odiava por isso. Por que simplesmente não poderia ser mais firme com ele? Por que Müller tinha que ter todo esse controle sobre seu corpo e mente? Por que ele conseguia fazê-la oscilar em suas decisões? — E eu sei que me ama também — finalizou ele, olhando para os lábios femininos.


— Você não sabe de nada, Daniel. — Retrucou Sophia, quase inaudível. — Não tire conclusões precipitadas. — Não negue, Sophia. Eu vejo isso em seus olhos. Eu senti isso nos seus beijos e na noite em que fizemos amor. Estou sentindo isso agora, e se não me ama, por que se importa se eu estava com outra ou não? Eu sei que me ama, admita. — Está enganado — insistiu na negativa, e sentiu seu coração palpitar em uma vontade imensa de tomar aqueles lábios e beijá-los loucamente. Porém, manteve-se firme. Suas palavras vazias não a atingiriam mais, estava farta de acreditar em suas promessas, em suas palavras, para no segundo seguinte Daniel decepcioná-la. Não lhe daria o gosto de deixá-lo saber sobre seus sentimentos – mesmo que ela não tivesse certeza de que era amor – não permitiria, outra vez, que Daniel soubesse que em seu peito havia algo intenso e tentador – uma emoção diferente nunca vivida antes por ela – pois ele não se importava. Declarar-se para ser magoada, no final das contas, era tudo que ela menos desejava naquele momento. Daniel, então, a segurou pelos dois braços com um aperto sensual e a jogou na cama. Começou a desabotoar a camisa, olhando para ela, um sentimento de amor e ódio crescendo dentro dele. Amor pelo sentimento que sentia ali. Queria tê-la, amá-la, fazê-la feliz, dar-lhe prazer. Queria deixar aquele casamento de fachada de lado e fazer dela definitivamente sua esposa. Ódio por ter a visto beijando outro homem, por ter sido um imbecil todo aquele tempo, por não ter se declarado antes a ela. Por tantas e tantas vezes ter cometidos erros atrás de erros. — Então prove… — declarou tirando a camisa e deixando o peito desnudo, num movimento sedutor. — Resista aos meus beijos, ao meu toque e carícias. Resista a mim… e eu te deixo em paz. — Daniel…— sibilou, mas foi calada com um beijo intenso, os dedos longos escorregaram por entre seu queixo e, gradativamente, eles se deitaram na cama. Sophia sequer lutou. Agarrou-o pelos cabelos curtos e o trouxe mais para si, aprofundando a troca de carinho. Sim, ela o amava, o queria a todo o momento, de qualquer forma, de todos os jeitos. Esqueceu-se de todas as vezes que ele feriu seu coração e cedeu aos caprichos do seu corpo, da sua alma. Rendeu-se a Daniel, ao sentimento que ele estava lhe oferecendo, e em sua mente não passou mais nada, nem ódio, rancor, tristeza e decepções, apenas os mais belos, sinceros e puros sentimentos. Não lhe passou mais nada a não ser apenas retribuir o que estava sendo oferecido: fosse o que fosse. Daniel a amava tanto quanto ela, mas que só naquele momento teve coragem de dizer. Só após se deparar que poderia perdê-la resolveu expor seus sentimentos, somente depois de tantos desencontros, indecisões, discussões e desentendimentos; após inúmeras vezes ter negado seus sentimentos, querendo fugir – como se fosse possível – do amor que cultivava por Sophia; o medo de se magoar o impedindo sempre; demorou a perceber que enquanto fugia e não assumia suas emoções, no intuito de não sofrer, era aí que sofria. Sofreu ao vê-la chorar por suas atitudes, sofreu ao vê-la beijando outro homem, sofreu ao se deparar que ela duvidava do seu amor. Mas não sofreria mais – nenhum dos dois – pois estava mais do que decidido a assumi-la e assumir o amor que nasceu dentro de seu peito, que agora transbordava pela sua boca diretamente para a dela, em um beijo que não deixaria dúvidas de que a amava.


Verdadeiramente a amava. Seus corpos se tocavam e eram uma confusão de sentimentos. Desesperadamente um precisava do outro e demonstravam isso em seus beijos intensos, em suas respirações ofegantes, na afobação no desejo de um possuir o outro. Sentiam o coração palpitar em anseio de fazer daquele momento o mais eterno possível, queriam parar o tempo para viverem aquele instante o resto da vida. Livraram-se das roupas, os únicos, neste momento, que impediam a felicidade mútua. Quase não separaram suas bocas, ambos desejando apenas matar a ansiedade, recuperar todo tempo perdido, aproveitar cada instante – tudo ao mesmo tempo. Suas almas foram preenchidas de uma alegria imensurável quando, por fim, puderam sentir um ao outro. Nada era comparável ao momento, o sexo como sendo a primeira vez – como se fosse, até mesmo, melhor que a primeira vez, um misto de sensações e sentimentos únicos que não podiam ser explicados. Sophia relaxou o corpo ao sentir o homem que a amava a amando de volta, em ritmos vagarosos e prazerosos. Ele grunhia de prazer na curva de seu pescoço, apertava-a contra seu corpo e beijava seus lábios, hora com delicadeza, hora como uma fera insaciável; mas ambas as vezes com um fogo ardente da paixão. Daniel nunca esteve tão extasiado em toda a sua vida. O amor que ardia dentro de seu peito, ele sabia agora, era maior do que qualquer outra coisa que um dia sentiu. O sexo com Sophia, percebeu então, não era somente sexo, era mais que isso: era amor, paixão, era genuíno e sincero. Seu corpo era um turbilhão de sentimentos confusos e exclusivos, despertados pela paixão por Sophia. Beijando seus lábios e a amando lenta e calmamente, sentiu que somente ela era capaz de despertar tais sensações, assim como tinha certeza que apenas ele sabia amá-la daquela forma, de descobrir os segredos de seu corpo e oferecer um prazer inigualável. — Eu te amo. — Sussurrou então, uma necessidade imensa de fazê-la sentir que era amada de verdade, que suas palavras nunca foram vazias. — Oh, meu Deus, Sophia, eu te amo. — Murmurou e enfiou-se em seu pescoço, inalando fundo o cheiro natural, misturado ao perfume adocicado dela. Em resposta, ela agarrou seus cabelos, sentindo-se cada vez mais feliz pelo momento. Arranhou-o nas costas, trazendo mais o corpo dele para o seu, ciente que não havia pecado entre eles, nem algum tipo de proibição ou restrição. A única regra era se amarem, se sentirem e se descobrirem a cada momento, cada instante novo que crescesse entre eles. — Por favor, Sophia. — Daniel murmurou em súplica, encontrando seus olhos. A íris azulesverdeada brilhava intensamente – o caos da paixão explícito. — Não me deixe, não quero te perder. Eu te amo. Porra! Eu te amo — uivou, e ela não teve tempo de dizer-lhe nada, pois sua boca estava sendo invadida por um beijo cheio de excitação e intensidade. — Não me deixe, não me deixe. — Repetiu sussurrando várias vezes. Com lágrimas nos olhos, sentindo que era impossível controlar a paixão, a atração um pelo outro, acariciou-o na face, cerrando os olhos e deixando-se levar pela sensação do prazer, do amor que faziam.


— Não vou te deixar. — Sussurrou de volta, e sem demora foi preenchida por beijos em toda sua face, dos olhos ao queixo, depois, os beijos molhados marcaram seus ombros, seu pescoço, seu colo. Os dois corpos rolaram pela cama, aproveitando cada segundo um do outro, descobrindo novas formas de prazer e de se amarem, assumindo o amor mútuo, transformando-os em apenas um coração, pulsando sensações e emoções diferentes e únicas, mas igualmente inesquecíveis e inexplicáveis; a necessidade quase eufórica de um corpo sentir o outro, de se procurarem, de se descobrirem, de se tocarem, de um ser o outro. Quando o prazer os atingiu, Daniel teve certeza que não se via sem Sophia em sua vida: ele não queria outro futuro a não ser estar com ela, não queria outra pessoa a não ser ela, não queria amar a mais ninguém que não fosse a mulher espetacular que tinha ao seu lado. Deitou sobre os ombros dela, ofegando. Apertou o pequeno corpo feminino ao dele, como se pudesse senti-lo ainda mais, como se fosse possível fazê-la entrar em sua pele, em seus poros. Levantou os olhos, fitando a expressão serena de sua esposa. Sorriu e beijou-lhe os lábios, o que a fez abrir os olhos e encará-lo. Sophia sorriu de volta, levando sua palma até a face dele, acarinhando-o delicadamente. Olharam-se nos olhos por alguns segundos. Tiveram a certeza que, de um sentimento confuso e distorcido, nasceu um amor totalmente celestial.

♦♦♦

Daniel beijou os cabelos de Sophia quando ele rolou de cima dela e se deitou de costas, a trazendo para seu peito. Uma felicidade imensa tomava conta de sua alma naquele instante. Pestanejou seguidas vezes para certificar-se que não era um sonho, que Sophia nua ao seu lado não era uma alucinação, que o fato de terem se reconciliado e feito amor não era um distúrbio da sua mente. Ele olhou para o lado. Os cabelos louros – agora emaranhados e misturados ao suor de seus corpos – estavam espalhados sobre seu peito despido, e ela, deliciosamente aninhada em seus braços. Sorriu para si mesmo, observando cada detalhe de sua amada esposa: o rosto delicado e branco, as pálpebras fechadas e sua respiração ainda irregular pelo sexo que tinham feito. Puxou um lençol e cobriu-a, vendo que vagarosamente Sophia caía no sono. Sophia ronronou e se ajeitou mais sobre o peito de Daniel, abrindo os olhos para encontrar um azul-esverdeado brilhando intensamente. — Você costuma fazer observação pós-sexo? — Inquiriu sorrindo, percebendo que ele a contemplava com adoração. Daniel sorriu e beijou-a profundamente nos lábios. — Não. Mas você foi a primeira que despertou isso em mim. Porque você é incomparável a qualquer mulher. — Sussurrou passando os dedos pelo rosto delicado.


Sophia sorriu largamente, a frase proferida fazendo bem aos seus ouvidos. Para ela não havia mais nenhuma dúvida dos sentimentos de Daniel. Sabia que era amor, sabia que era real, sincero. E sabia que o amava. Descobriu isso envolvendo-se nos braços dele, o ouvindo gemer diversas vezes que ele a amava, dos beijos cândidos e suaves que Daniel deu em sua boca enquanto vagarosamente faziam amor, das suas declarações que não queria perdê-la. Pela primeira vez, sentiu que Müller estava sendo verdadeiro, e assim já não havia mais nenhuma dúvida, de nenhum lado. Eles se amavam. — Dani… — murmurou, e ele respondeu com um ronronar. — Diz de novo? — Pediu, e encontrou com seus olhos. Ele franziu a testa levemente, e reparando na confusão nos olhos claros, ela esclareceu: — Que me ama… Daniel abriu um singelo sorriso, e a acariciando no rosto trouxe sua boca mais para próximo da dele, beijando-a serenamente. — Eu te amo… — sussurrou em sua boca. — Como nunca amei ninguém, Sophia. Eu te amo. Extasiada pelo momento, Sophia se pôs nos cotovelos, logo estava sobre Daniel, encarando seus olhos. Deitou-se em cima de seu peito, mordiscando o queixo barbado. Müller grunhiu de prazer, o singelo ato fazendo percorrer por seu corpo uma eletricidade diferente. Porque com Sophia toda vez parecia a primeira. — Eu te amo, Daniel Müller. — Cochichou olhando dentro de seus olhos. Ele sorriu pelo canto dos lábios. Um sorriso fraco, mas cheio de emoção. Os olhos arderam com as lágrimas que ele não teve vergonha de esconder. Abraçou o corpo de sua esposa e a apertou contra si, deixando um beijo em sua testa. — Dan, está chorando? — Perguntou serena e compadecida. — É de felicidade, Sophia… — sussurrou em um suspiro. — Saber que o que eu sinto é recíproco. Sophia quedou-se calada, apenas fitando o homem a sua frente. Percebeu em sua voz e na expressão de sua face que ele, talvez, já tenha tido alguma decepção, já tenha saído quebrado de algum relacionamento, e por isso demorou tanto a se declarar, assumir seu amor – por isso sentiu-se tão inseguro e quis negar seus sentimentos. Ainda quieta, beijou abaixo de seus olhos, sentindo o salgado da lágrima dele, mas a secando ao mesmo tempo. Passou para o outro lado e fez o mesmo, descendo beijos pelo seu rosto até a boca. Fixou o olhar nas curvas de seus lábios, de como eram finos, perfeitos e deliciosos. Tomou-os para si, afagando o pedaço de pele áspera por conta da barba. Sem demora, sentiu os braços que a rodeavam a apertando contra o corpo dele e uma mão masculina subindo pelas suas costas. Ela separou seus lábios para encontrar a pele do pescoço, beijando-o sensualmente ali, deslizando para o peitoral, sentindo o gosto salgado do suor. Beijou a mama esquerda e olhou para Daniel: ele estava de olhos fechados, tranquilo, seu pomo de Adão subiu e desceu quando ele engoliu em seco. Seus olhares se cruzaram então, e ela pôde ver o misto de desejo e amor que exalavam deles.


Em um segundo, Daniel a agarrou e rodopiou o corpo, deixando-a por baixo, encaixando-se entre suas pernas. O beijo intenso calou o gemido que sairia de sua garganta ao sentir a penetração. Uma nova sensação preencheu suas almas. Um amor diferente – o sexo como se fosse a primeira vez, suas emoções turbilhonando, se chocando e bombardeado seus corações. Mas Daniel e Sophia sabiam que todos seus sentimentos se encaixavam perfeitamente, eram harmônicos e únicos; exclusivos. Um sentimento de amor que apenas eles vivenciavam. Uma conexão inigualável, um amor incomparável. Tiveram certeza disso quando, em meio ao amor que faziam, aos seus corpos suados e grudados pela intensa paixão, murmuraram um para o outro em uníssono: — Eu te amo.


35 SENHORA MÜLLER

—V

ocê é um idiota, sabia? — Sophia ciciou fazendo círculos com o indicador no peito masculino, aninhada em braços de Daniel.

Ainda estavam nus e já haviam descansado da segunda dose de sexo no final daquela manhã. Sem olhá-la, ele sorriu pelo canto, achando graça no comentário de sua esposa. — Por que diz isso? — Murmurou beijando seus cabelos. Sophia continuou com seus movimentos circulares contra a pele sedosa, observando em detalhes cada centímetro de seu largo tórax. — Há algumas horas estava se agarrando com outra mulher. — proferiu, e por mais que tivesse feito esforço para não demonstrar decepção, foi inevitável. Daniel suspirou, concordando mentalmente com Sophia. Sim, ele era um idiota, e se praguejou por sempre agir movido por seus impulsos. Virou-se para Sophia, segurando o queixo dela e trazendo seu olhar de encontro ao seu. A íris verde havia perdido o brilho, ele pôde sentir a pontada de tristeza que isso causou em Sophia. Beijou-a nos lábios com delicadeza, acariciando seu rosto. — Me desculpe. Estava agindo pela raiva. Eu te vi com o Miguel e isso me deixou enciumado. Tudo isso é tão novo para mim, Sophia… Só não estava sabendo como lidar com a situação. — Explicou-se de forma suave. Sophia o fitou, ainda sem expressão. Um segundo depois arqueou uma sobrancelha, desconfiada. Afastou-se um pouco dos braços de Daniel, mesmo com seu coração gritando e querendo arrastá-la de volta ao aconchegante abraço. — Quer dizer que se por acaso brigarmos o seu jeito de descontar a raiva será se agarrando com uma mulher qualquer? — Questionou, e sua voz saiu mais rígida do que havia previsto. Daniel enrugou o cenho, momentaneamente assustado com tal pergunta que acreditou ser descabida e, principalmente, pela mudança tão brusca de humor da loura. Revirou os olhos e a puxou de volta para encaixá-la entre seus braços: — Claro que não, Sophia. — Respondeu e buscou seu olhar. — Eu fazia isso porque estava


confuso, mas agora tenho certeza. — Certeza de quê? — Que você é a mulher da minha vida… — Ela sorriu com sua declaração; pensou em avançar sobre ele e beijá-lo, mas Daniel continuou, para sua surpresa: — Que eu te amo, que não quero viver sem você, que não existe um futuro sem você nele, que eu não saberia viver sem você, que eu… — Daniel! — Exclamou rindo e o beijou em seguida, calando-o. — Eu já entendi. Ele sorriu largamente, a segurou pelo rosto sentindo a delicadeza da pele dela contra a sua – pele esta que o deixava inebriado. Rindo, Sophia desvencilhou-se de Daniel e se enrolou no lençol, dizendo que precisava de um banho. Daniel ofereceu companhia, lembrando-se de como era esplêndido fazer amor debaixo do chuveiro. Sophia corou um pouco com a recordação, pensando que à época eles ainda não tinham se assumido. Tentou manter afastado o pensamento de que após a primeira ‒ e segunda ‒ vez deles, Daniel a deixou para trás. Inspirou fundo, querendo esquecer o passado e viver o presente: o ali e o agora. Provocante, caminhou até o chuveiro e alegou que queria tomar seu banho em paz, mas sabia que seu corpo e alma cederiam ao primeiro toque de Daniel, caso ele aparecesse. Para sua surpresa, Sophia conseguiu banhar-se sem que Müller fosse até ela, querendo uma terceira dose de sexo. Envolvida em uma toalha macia, saiu para o quarto e o encontrou cochilando. Observouo, admirada pelo homem a sua frente: nu e dormindo. Os cabelos estavam bagunçados, a barba bem-feita ‒ com um aspecto meio oleoso, talvez por conta do suor ‒ contornava a face bonita, dando a ele certo ar de masculinidade, o abdômen musculoso subia e descia em uma respiração lenta e regular, serena; as pernas eram torneadas e definidas, compridas e preenchida por pelos claros; os braços estavam esticados para cima, as mãos entrelaçadas apoiando a cabeça; dos bíceps, saltavam os músculos tímidos e longos. Sorriu pequeno e buscou pelas roupas tentando não fazer muito barulho, pois não queria acordá-lo. Subiu o jeans pelas pernas e escorregou uma camisa confortável, prendeu os cabelos e mirou Daniel outra vez: continuava dormindo. Engatinhou-se até ele, mordendo delicadamente seu queixo. Daniel resmungou sonolento e abriu os olhos, deparando-se com a íris verde intensa brilhando em sua frente. Esboçou um sorriso preguiçoso. — Estou com fome — Sophia sussurrou. Daniel coçou os olhos, acenando. — Vou tomar um banho rápido e descemos comer alguma coisa. — Hm… tudo bem. Mas tome seu banho sossegado, não tenho pressa. Ele se levantou sorrindo, e após um beijo nela, seguiu para o banheiro. Quando saiu, envolto em um roupão branco, viu os lençóis esticados, e sobre a cama jazia uma bandeja com duas taças de vinho, ravióli acompanhando e fondue de chocolate. Sophia


estava na janela, olhando para fora, e não notou sua presença. — Ravióli e fondue? — Perguntou de repente, e ela se virou com um sorriso encantador. — O fondue é sobremesa, claro. — É uma combinação meio… estranha, não acha? — E o que importa, Daniel? O importante é comermos. — Declarou, o segurou pela mão, puxando-o para a cama. Ele a seguiu gargalhado, e se sentaram, um ao lado do outro, de pernas cruzadas. Ele não se importou em se vestir; continuou com o roupão, enquanto levava um pedaço de ravióli até a boca de Sophia. Ela abocanhou a massa sorrindo e fez o mesmo com ele. Mas quando Daniel estava prestes a morder, ela tirou de seu alcance e enfiou na boca rapidamente, apertando os lábios e segurando sua risada. Daniel a fuzilou com seus olhos e depois gargalhou. Um sorriso contagiante que despertou em Sophia uma emoção totalmente diferente. Inevitavelmente ela também gargalhou, ainda mais quando Daniel começou a lhe fazer cócegas. Logo se viu deitada sob ele, debatendo-se para escapar dos dedos longos que, sem demora, pararam, e antes que ela pudesse perceber, estavam se beijando. — Somos marido e mulher de verdade, agora? — Sussurrou, e Daniel buscou pelos seus olhos. — Marido e mulher, namorados, amantes, amigos… seremos o que você quiser. — Disse mordiscando seu lábio inferior. — Então vamos comer, meu namorido amigante — O quê? — ele perguntou rindo, os dentes brancos e perfeitos aparecendo. — Namorido: namorado e marido. Amigante: amigo e amante. — Sophia explicou, e ele riu ainda mais. Saiu de cima dela e a pôs em suas costas, fazendo-a recostar-se sobre seu peito – seus braços contornaram o pequeno dorso dela, e com as mãos pegou as taças de vinho, entregando-lhe uma. Os dois conversaram descontraidamente durante a refeição. Sophia sempre encostada ao peito dele, envolvida nos braços fortes de Daniel, apreciando o vinho, a comida saborosa, o calor do corpo do homem que amava ao dela, do momento simples entre eles, mas maravilhoso ao mesmo tempo. Daniel fora quem mais falou, e, para a surpresa dele mesmo, resolveu abrir-se e contar por que tantas vezes negou seus sentimentos. Sophia o ouvia com atenção, beijando-o nos lábios sempre que via uma oportunidade. Por fim, acabou entendendo os motivos de ele ser tão idiota e imbecil por todo aquele tempo. Ela, de forma alguma, poderia entendê-lo por completo, pois nunca amou e não foi correspondida, porém, baseando-se nas vezes em que acreditou que Daniel não a amava de volta, imaginava como era tal sentimento. O ravióli havia acabado, então partiram para o fondue de chocolate, Daniel lambuzando Sophia no nariz com seu indicador, a fazendo gargalhar e dar início à uma brincadeira: ela o sujou nas bochechas, ele devolveu passando chocolate em sua testa, ela revidou sujando-o abaixo dos olhos. Rindo, ele passou o indicador nos lábios finos de Sophia, uma camada fina de chocolate


contornando-os. Daniel olhou fixamente para a dupla tentação a sua frente e a trouxe para outro beijo, mordiscando, chupando sua boca, tirando todo o resquício do doce. Em resposta, e delicadamente, Sophia beijou (e chupou) todo o rosto de Daniel, tirando o chocolate e deixando um rastro melado; a sensação o fez rir. Sophia buscou por um morango, o mergulhou no chocolate e mordeu um pedaço, levando à boca dele a outra metade. — Me dê isso aqui. — Daniel pediu pegando o garfo das mãos dela. Fincou outro morango e o encharcou com o chocolate. Levou-o próximo à boca, mordeu um lado e inclinou-se em direção a Sophia, que abocanhou o outro lado sendo oferecido a ela. Suas bocas se tocaram e, ainda que ela estivesse mastigando, Daniel a beijou. — Você não cansa de me beijar? — Sophia protestou sorrindo. — Não… — respondeu distribuindo outros tantos, e a fazendo sorrir ainda mais. O restante da manhã e o início da tarde avançaram sem que Daniel e Sophia percebessem, de tão entretidos que estavam um no outro. Assistiram a um filme na televisão, agarrados um ao outro, Sophia, vez ou outra, tendo de advertir Daniel, pois ele não se atentava ao filme, se distraindo em enrolar os dedos nos cabelos louros, ou acarinhar a pele do rosto macio, ou a traçar um caminho dos seus ombros até os joelhos com o indicador, o que a fazia, inevitavelmente, se desconcentrar e a perder cenas cruciais durante o filme. Após o filme, trocaram beijos e carícias, conversaram e riram. Daniel se sentindo cada vez mais maravilhado e apaixonado pela mulher ao seu lado. Enquanto ela falava alguma coisa sobre um livro qualquer que havia lido, ele estava perdido admirando o modo como seus lábios se moviam com graça, dos olhos verdes intensos que brilhavam quando ela sorria, de como, inconscientemente, Sophia o acarinhava no peito com a ponta do indicador, ao mesmo tempo em que tagarelava algum assunto. Ele tinha a mulher mais perfeita e incrível que um homem poderia ter. Pensou em como esteve a ponto de perdê-la, e de como a ideia era aterrorizante, ainda mais naquele momento, onde, finalmente, haviam assumido um ao outro, e Daniel não via mais uma vida sem Sophia junto. — Você chegou a ler esse livro? — Ela indagou passando a mão pela pele preenchida de barba. Daniel pestanejou, percebendo que entrara em um torpor momentâneo. Acenou positivamente, mesmo não tendo a mínima ideia do que ela lhe falara. Ela continuou falando e, dessa vez, ele se atentou à suas palavras. Falaram de livros, viagens, culinária e música, e Daniel estava sempre a interrompendo para beijá-la. Sophia amava cada singela demonstração de carinho: de beijos serenos a carinhos em sua pele que a arrepiavam. Houve um momento em que ela perguntou a Daniel se ele não voltaria naquele dia para trabalhar. Prontamente recebeu uma resposta negativa e categórica. Daniel alegou que queria aproveitar cada segundo ao lado de sua esposa para compensar o tempo. Sophia abriu um sorriso grande, extremamente feliz pela declaração de Müller. Foi inevitável não pensar em como aquele era um Daniel diferente. O primeiro, quando o conheceu meses atrás na entrevista de


emprego, era um chefe educado e um bom líder, um homem profissional e dedicado ao trabalho, que sabia lidar com as mais diversas situações e controlá-las de um jeito surpreendente. O segundo, era um Daniel Müller ciumento e possessivo, que a deixava confusa e feria seu coração, tirando sua paciência pouco a pouco. O terceiro, e este era o homem que ela amava, era romântico, carinhoso, atencioso e tranquilo, de finos lábios doces, olhos claros pacíficos e encantadores. Ficaram em silêncio, deitados e abraçados. Minutos depois, estavam dormindo e, mesmo inconscientemente, Daniel sentiu a sensação boa que era ter aquele corpo perto do seu, que, pela primeira vez, era o de sua esposa de verdade.

♦♦♦

O som estrepitoso do celular de Daniel tocando o fez saltar da cama, acordando, também, Sophia. Atordoado, procurou pelo aparelho e o encontrou dentro do bolso da calça, ainda espalhada no chão. Sacou o telefone, reconhecendo o número da empresa. Coçou os olhos antes de atender, ainda sonolento: — Oi, Anabelle. — Senhor Müller, a senhorita Telles está aqui me dizendo que quer falar urgentemente com o senhor. Instantaneamente, Daniel mirou Sophia, querendo saber se ela havia escutado sua assistente no outro lado da linha. E pelo suspiro que ela deu, seguido da ruga entre suas sobrancelhas, o fez entender que sim: ela sabia que era Melissa. Pigarreou um pouco e disse: — O que ela quer? — Não me disse, senhor Müller, mas ela está muito irritada. Daniel suspirou, prevendo o porquê da irritação de Telles. Olhou para Sophia outra vez. Ela havia se levantado de seu lado e estava visivelmente incomodada. Era como se previsse que Daniel sairia para atender à ruiva. Engoliu em seco. Não queria ter que sair assim, depois de terem se reconciliado, e estarem, finalmente, bem e em paz – depois de terem passado um dia agradável juntos. Mas era preciso dar um basta em Melissa de uma vez por todas. O xeque-mate que tiraria ela da sua vida para sempre. — Está bem, Anabelle. Diga a senhorita Telles que não demoro a chegar. — Disse e encerrou a chamada. Buscou por Sophia outra vez; ela continuava com a expressão fechada. Em silêncio, se aproximou de Sophia, com a cautela na dianteira – ele sabia que a ligação a deixara chateada. — Sophia…


— Tudo bem, Daniel. — Interrompeu-o cruzando os braços e exasperando. — Já estou acostumada com essa preferência. Ele suspirou, mas sorriu em seguida, vendo o ciúme misturado à raiva emanar de Sophia. — Você fica ainda mais linda com raiva… — Sussurrou roçando a ponta de seu nariz no pescoço dela. — Daniel, pare com isso! — Advertiu, e o empurrou delicadamente. — Eu só estou indo porque vou demiti-la. Se não fosse por isso, eu nem iria. — Explicou-se e a trouxe para um abraço, deixando um beijo em seus cabelos. Sophia encontrou os olhos dele, um pouco confusa com sua declaração. — Vai mandá-la embora? Por quê? Ele deu de ombros: — Eu disse que o cargo de secretária executiva ia ser seu outra vez. E Melissa é uma incompetente. — Finalizou, e Sophia riu um pouco, elevando-se nas pontas dos pés para beijá-lo. Ele retribuiu, e após cessar, disse: — Enquanto vou à Swiss resolver isso, faça o favor de levar suas coisas pro meu quarto. — Proferiu, e Sophia acenou brevemente. Quando Daniel passou por ela para ir se trocar, recebeu uma palmada nas nádegas. Olhou para trás, estupefato, mas riu no segundo seguinte, vendo-a morder os lábios e sorrir ao mesmo tempo. — Sua tarada! — Exclamou e eles gargalharam ainda mais. Daniel teve certeza, quando viu a alegria exalando dos grandes olhos verdes, que sua vida agora estava completa e sua felicidade era plena. Então, percebeu que não poderia ser tão feliz sem ela. Sophia era, sem sombras de dúvidas, a mulher da sua vida.

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Melissa se levantou no momento em que Daniel surgiu na presidência. Era por volta de quatro e meia da tarde, ela já estava demasiadamente nervosa pela espera – somada à humilhação que sofreu na noite anterior. Ele vinha calmamente em sua direção, no seu habitual terno de grife, um azul marinho que destacava seus olhos, e trazia uma pasta nas mãos. — Achei que fosse abandonar o seu trabalho, senhorita Telles. — Enunciou, e percebeu a irritação que saltavam dos olhos dela. — Seu filho de uma… — Ei! — Disse mais alto levantando o indicador e mirando rapidamente Anabelle. — Não


vamos fazer um escândalo por conta de um desentendimento, não é? Venha até minha sala pra conversarmos — passou pela ruiva, sem esperar pela resposta, abriu a porta do seu escritório e esperou que ela entrasse. Com cada parte do seu corpo tremendo de raiva, Melissa entrou e Daniel a seguiu, encostando a porta. — Eu não preciso nem dizer que você vai se foder na minha mão, não é? — Inquiriu cheia de ódio. — Você não deveria ter me feito passar por aquela humilhação, seu desgraçado! Calmamente, Daniel terminou de entrar em sua sala, caminhou até sua mesa e se sentou, apoiando os cotovelos sobre a pasta que acabara de repousar sobre a mesa. Uniu as duas mãos e encarou Melissa soltando fogo pelas ventas: — Você começou essa guerra quando resolveu me chantagear. — Respondeu tranquilamente. — E você acha que isso vai ficar assim? — Suas chantagens não me assustam mais. — Como você é idiota, Daniel! Acredita mesmo que eu não tenho uma cópia reserva do vídeo? — Ela gargalhou ironicamente. — Amanhã mesmo esse vídeo estará na rede. Daniel a fitou, nada abalado por sua ameaça. Pacientemente tomou a pastas em mãos e a abriu, folheando calmamente os documentos ali dentro, enquanto dizia: — A cópia a qual se refere, é a que você tem no seu e-mail? — Perguntou e levantou os olhos para encarar uma Melissa de expressão embasbacada. Daniel sorriu ao ver a confusão nos olhos da ruiva. — Quero dizer… tinha. Devo acrescentar que estou chateado por ter mentido para mim? Melissa pestanejou, ainda atônita, querendo saber como diabos Daniel sabia da cópia que ela mesma mandou em seu e-mail, salvando-o como uma garantia. — Como sabe desse vídeo? E o que quis dizer com “tinha”? Sorrindo diabolicamente, Müller explicou que há pouco mais de um mês o computador dela fora invadido por um hacker profissional, contratado por ele para conseguir tirar o maior número de informações possíveis. Disse que quando Melissa abriu um e-mail sobre promoções de sapato, estava abrindo, na verdade, um vírus que se instalou no computador dela de forma eficaz. Toda vez que havia uma atividade, com acesso à internet ou não, de uma simples acessada em redes sociais a jogar Paciência, exatamente tudo que Melissa fazia em seu computador, era captado pelo vírus e as informações enviadas ao computador do hacker – Rodrigo, este que, antes de apagar o vírus do computador dela, excluiu o vídeo salvo em seu e-mail. Daniel balançou as folhas no ar, uma risota sarcástica exprimida nos lábios: — Aqui está tudo que você fez nos últimos 40 dias. Às vezes que você acessou a internet, quando fez as cópias do vídeo do seu computador para o pen drive que iria me entregar, suas conversas instantâneas, algumas delas com amigas tão íntimas que você contou sobre o vídeo e as


chantagens; seus bate-papos pela web can. A sua vida virtual do último mês está em minhas mãos. — Sorriu satisfeito e completou: — Aliás, acho que o Eduardo não vai gostar de saber que a namoradinha dele gosta, na verdade, do chefe. Melissa ouvira tudo com uma raiva descomunal subindo pelo seu corpo. — Isso foi invasão de privacidade! — Ela bradou furiosa. — Vou te processar, Daniel, prepare-se. — Com que provas, querida? — Perguntou sem se abalar. — O vírus foi removido na manhã de ontem… e o interessante nisso tudo é que ele é muito discreto. Faz o serviço sem deixar rastros. Você nunca irá conseguir provar nada. — rebateu e levantou-se para prosseguir: — Mas eu, sim. Eu tenho provas suficientes, caso, de alguma forma, esse vídeo caia na rede… — ele riu nervosamente — eu nunca sei o que esperar de você, só por via das dúvidas, se você tiver uma cópia daquele vídeo, acho bom pensar uma centena de vezes antes de vazá-lo na internet. Essas provas, mais as câmeras dessa sala, que gravaram todas as vezes que você me entregou as cópias, com confissões em alto e bom som, tudo isso, Melissa, prova que você é a autora do crime, e não eu. — Sorriu pelo canto dos lábios, encarando a ira em pessoa na sua frente. Daniel sabia que ela jamais esperava por uma reviravolta tão repentina. A ruiva o encarava de volta, sem palavras diante de todas as evidências contra ela. Podia simplesmente fazer um escândalo ali, manchar a imagem que ele tanto zelava gritando aos quatro ventos que Daniel era um infiel com a esposa. Mas segurou seu instinto. Ela faria Daniel pagar pela humilhação que sofreu à altura. — Aguarde, Daniel… — declarou com a voz carregada. — Chegará o dia em que você vai pagar por essa humilhação, e eu vou ter o prazer de te ver na sarjeta! — Despejou e virou nos calcanhares, deixando-o para trás. Daniel estremeceu, atingido pelas palavras. Por algum motivo desconhecido, ele temeu a ameaça da ruiva.

♦♦♦

Müller quis ir embora. Já sentia saudades de Sophia e queria estar com ela debaixo dos lençóis, quem sabe fazendo amor. Mas se contentaria se apenas estivesse deitado ao lado dela, observando-a falar, ou dormirem abraçados, o que era extremamente aconchegante. Somente a presença de Sophia seria o suficiente para amenizar sua saudade. Porém, ao se deparar com tanto serviço acumulado ‒ consequência de ter ficado duas semanas fora ‒ resolveu ficar na empresa e trabalhar um pouco para colocar o serviço em dia. Teve o cuidado em se lembrar de ligar para Sophia e avisá-la que retornaria para casa por volta de nove da noite. Ela insistiu em vir até a empresa e fazer-lhe companhia, mas Daniel não permitiu, pedindo que ela ficasse em casa e descansasse e que, de preferência, esperasse por ele, dizendo já estar sentindo sua falta. Analisava alguns papéis, já se passando das oito da noite, quando sua porta foi aberta de repente, e ele levantou os olhos para divisar um Heitor de expressão assustada. Daniel enrugou o


sobrolho, estranhando a presença repentina do irmão, e se perguntando o que ele ainda fazia na empresa àquelas horas. Heitor não era do tipo que fazia horas extras. — Ei…— Heitor exclamou um pouco surpreso com Daniel ali. — Não pensei que estivesse aqui. Achei que havia esquecido a luz do escritório acesa, e por isso vim apagar. — Justificou-se. Daniel acenou brevemente, mas tinha certeza que a presença do irmão não era somente para verificar as luzes do prédio. Estava pensando em perguntar o motivo de ele estar na empresa naquele horário, quando uma voz feminina ressoou, fazendo-o entender perfeitamente o porquê. — Heitor, você vai demorar? Daniel encarou o irmão, este que desviou os olhos e coçou a nuca, meio desconcertado. — Veio pra transar na sua sala? — Perguntou com uma pitada de incredulidade. Heitor deu de ombros, dizendo: — Qual é, Daniel? Ela tem esse fetiche. — Essa empresa não é um motel, Heitor. — o advertiu. — Sem falso moralismo, por favor, irmão. Você mesmo já transou aqui na sua sala, diversas vezes. Posso te lembrar de que em uma delas foi em horário de trabalho? — OK. Faça o que quiser. — Disse prontamente juntando os papéis e se levantando. — Mas não irei ficar como plateia. — Declarou; Heitor riu brevemente. Revirando os olhos, passou pelo irmão, pronto para ir embora. Foi interrompido assim que chegou à porta, com Heitor perguntando: — É impressão minha ou vi Sophia se mudando para o seu quarto? Daniel sorriu, virando-se para o irmão. Ainda não tinha tido uma oportunidade de contar a novidade a ele. Com as palavras de Heitor, sentiu-se ainda mais ansioso por chegar em casa. Finalmente ele e Sophia dormiriam no mesmo quarto, na mesma cama, como um casal de verdade. — A gente se entendeu… — disse apenas, e no mesmo instante viu o irmão esboçar um sorriso zombeteiro. Rolou os olhos, já esperando pelo deboche que Heitor faria, mas ele somente proferiu: — Eu sabia que você gostava dela. — Eu não gosto dela, Heitor — rebateu de imediato. — Eu a amo. — Espero que essa sua melação não seja contagiosa. — Veio o deboche que Daniel tanto temeu, enfim. Ele bufou impaciente e irritado pela zombaria. Jamais poderia falar com Heitor sobre seus sentimentos por Sophia sem soar patético e sem ser satirizado por isso. Ignorando o comentário do irmão, virou nos calcanhares, querendo somente ir para casa e reencontrar Sophia, mas foi impedido novamente:


— Ei, Daniel… — ele voltou-se ao irmão. — De verdade, estou feliz por vocês. Müller sorriu calorosamente. Sabia que Heitor estava sendo sincero.

♦♦♦

Daniel chegou em casa e subiu as escadas pulando dois degraus de cada vez. A ansiedade de rever Sophia, de beijá-la e ter seu corpo perto do dele, era maior do que qualquer outra coisa. Mesmo que seu consciente dissesse que ele estava parecendo um adolescente de 16 anos apaixonado, agindo como se eles não se vissem há anos e quisesse passar com ela todo o tempo possível, ele deu pouca atenção para isso. Se tivesse de parecer um besta apaixonado para demonstrar todo seu amor e aproveitar cada segundo ao lado de Sophia, então que assim fosse. Só com o que ele se importava era declarar todos os dias seu amor por ela, demonstrar seus sentimentos através de suas palavras e ações ‒ nem que isso soasse patético. Inspirou fundo, recuperando ar para os pulmões, quando parou frente a porta do seu quarto. Lembrou-se das palavras de Heitor, de que ele tinha a presenciado mudando suas coisas para o seu quarto. Abaixou o trinco da porta, e quando a abriu, divisou Sophia sentada na cama, de pernas cruzadas. Ela trajava uma calça de algodão, regata branca que marcava seus seios firmes sem sutiã, os cabelos estavam presos em um coque frouxo e ela olhava fixamente para a televisão. Desviou seu olhar ao perceber a presença dele e sorriu intensamente. — Oi, meu amor — ele disse cerrando a porta. Sophia abriu um sorriso ainda mais largo, e sem que ele esperasse, ela correu até seus braços, pulando em seu colo e o beijando apaixonadamente. Contagiado, Daniel a segurou em suas pernas, que imediatamente o contornaram pela cintura, e caminhou mais para dentro do quarto, sentindo o beijo que tanto o deixava em êxtase. — Senti sua falta — ele murmurou em sua boca e subiu o olhar para encontrar os olhos verdes fascinantes. As mãos de Sophia sem demora encontraram seus cabelos e começaram a alisá-los, acariciando-os. Sophia abriu outro sorriso, um mais contagiante que o outro. — Senti sua falta, marido. Daniel sentou-se na cama, com ela ainda em seu colo, o olhar fixo em cada detalhe do rosto angelical, suas mãos descendo vagarosamente pelas costas dela, esquadrinhando delicadamente cada centímetro da pele sedosa de Sophia. Ela o tocou na face, afagando-a amavelmente, olhando para ele dentro de seus olhos. — Já trouxe tudo pra cá? — Sussurrou sentindo as carícias em seu rosto. Seu corpo no mesmo instante respondeu ao pequeno gesto, porém extremamente bom, mas ele segurou seu


impulso de beijá-la ferozmente, rasgar sua camisa e amá-la de todas as formas que pudesse encontrar. Sophia respondeu com um aceno de cabeça, inclinando-se para deitar-se nos ombros largos, não deixando as carícias de lado – de alguma maneira. As mãos correram para as costas e num segundo, Daniel sentiu a temperatura quente das palmas dela contra suas costas. — Você está bem? — Quis saber, preocupado com a quietude dela. — Sim. — Sophia ciciou. — Só gosto de estar assim: bem perto de você, sentindo o calor do seu corpo subindo pelo meu. É tão bom, Dan. Ele sorriu com essas palavras e afagou os cabelos louros na altura da nuca, concordando com ela, também com um sussurro. Sophia trouxe seu olhar até ele, desencostando-se de seus ombros. Colou suas bocas em um beijo simples, mas as mãos dele que subiram por suas costas por dentro da blusa a fez sentir um arrepio bom na coluna; separou ligeiramente os lábios, permitindo que a língua de Daniel a invadisse mais, num beijo totalmente fogoso. Sophia o agarrou pelos cabelos, querendo trazer sua boca ainda mais para perto, numa necessidade quase eufórica. Daniel se levantou, as pernas dela o cingindo no mesmo instante, suas bocas ainda grudadas e a intensidade do beijo aumentando gradativamente, fazendo os corações saltarem em ansiedade pelo prazer do sexo. Loucamente, Daniel a encostou contra a parede da porta, seus beijos, agora, desciam pela pele do pescoço dela, a fazendo gemer baixinho de prazer, enquanto suas mãos desesperadamente repuxavam os fios alourados, um modo, talvez, de descarregar o prazer que eletrizava seu corpo. Müller imediatamente tirou a regata que cobria o tronco feminino, divisando, extasiado, os seios redondos e perfeitos. No mesmo instante, Sophia o ajudou com o paletó, livrando-se da vestimenta. Enquanto suas bocas se devoravam, ela abria desesperadamente os botões da camisa branca, que logo foi atirada ao chão. Daniel pôde sentir o tórax dela ao seu, o calor de um corpo no outro, o deixando ainda mais vidrado por sua esposa. Pressionou-a contra a parede, a excitação aumentando de forma exponencial. — Daniel… — Sophia grunhiu de prazer, mas ele continuou a tecer beijos molhados do pé do seu ouvido ao seu colo despido — quero fazer amor na banheira. — Pediu, e ele finalmente voltou-se a ela, um pequeno sorriso estampado. Sophia corou levemente com tal pedido, mas continuou a encará-lo – ele sorria maravilhosamente. — Seu pedido é uma ordem, senhorita Hornet. — Murmurou, e no segundo seguinte ele já caminhava até o banheiro, suas bocas não se separando nunca, como se os dois não quisessem perder um segundo sequer. Assim que chegaram ao banheiro, Daniel a encarou levemente espantado. A banheira jazia cheia e com espumas, um aroma inebriante de lavanda espalhando-se por cada canto, algumas pétalas de rosas espalhavam-se pelo chão de mármore preto e às margens da banheira, e até algumas pétalas haviam caído na água, misturando-se à espuma; ao lado, duas taças e em um


balde com gelo repousava a garrafa de champagne; ao fundo, de forma suave, Stay ressoava, deixando o ambiente agradável e romântico.

3

Awake

♫ I am the blank page before you I am the fine idea you crave I live and breathe under the moon And when you cross that bridge I’ll come find you Stay awake with me You know I can’t just let you be Stay awake with me Take your hand and come and find me ♪

— Você preparou isso? — Ele perguntou sorrindo e olhando dentro dos olhos verdes que o encantavam tanto. — Sim… — Sophia respondeu beijando-o no queixo e subindo para sua boca. — Não ria, mas eu já nos imaginei em uma banheira. — Confessou, e sentiu seu rosto enrubescer. Por mais que ela tivesse pedido, Daniel soltou uma rápida risada, lembrando-se de que ele, também, já havia tido sonhos e pensamentos dos dois juntos, fazendo amor. Talvez, até onde se lembre, não em uma banheira, mas era inegável que ele já tivesse tido pensamentos sensuais ‒ até mesmo eróticos ‒ com Sophia, e ficou feliz que essas coisas não passaram somente pela sua cabeça. — Está lindo, amor. — Disse, e tornou a beijá-la.

♫ I don’t have a skin like you do To keep it all in like you do I don’t have a soul like you The only one I have Is the one I stole from you ♪

Segundos depois, já estavam dentro d'água, seus corpos conectados e suas bocas unidas não se separavam nem para soltar os gemidos de prazer de ambos. As mãos de Sophia arranhavam, acariciavam, deslizavam pelas costas de Müller ‒ sim, ela tinha uma paixão única por esta parte dele ‒ sempre se recordando das manchinhas marrons que ela achava um charme à parte de Daniel. E os gestos de suas mãos despertavam nele um prazer incrível, que para descarregá-lo, Daniel via a necessidade de penetrá-la com mais intensidade. O casal ia de sexo calmo e vagaroso a algo mais intenso e carnal, mas, ainda assim, a emoção era genuína e sincera entre eles.


Ao final, estavam abraçados, recuperando o fôlego. — Eu te amo. — Declarou-se encontrando o olhar extasiante dela. — Eu te amo muito, Sophia. Ela sorriu e o beijou delicadamente nos lábios, subindo sua mão pela face até chegar aos cabelos de Daniel. — Eu te amo muito, Daniel. Deixando um beijo nos lábios dela, se recostou na ponta extrema oposta à Sophia, puxandoa pela mão e a trazendo para si, deixando-a de costas para ele. Seus braços a envolveram em um abraço reconfortante e sua boca estalou no topo de sua cabeça, a fazendo sorrir singelamente. O ato era tão pequeno, mas ao mesmo tempo uma demonstração que significava muito para Sophia

♫ Stay awake with me You know I can’t just let you be Stay awake with me Take your hand and come and find me Stay awake with me You know I can’t just let you be Stay awake with me Take your hand and come and find me ♪

— Para que esse champanhe? — Para brindarmos. — ela respondeu brincando com a espuma, confortavelmente aninhada nos braços dele. — A que, exatamente? — Não sei. Mas achei que seria romântico depois de fazermos amor. — Explicou, e Daniel riu rapidamente, apertando-a ainda mais contra seu corpo. — Vamos pensar em alguma coisa. — Alegou e a beijou no alto de sua cabeça outra vez. — Como foi com a Melissa? — Sophia questionou de repente. Surpreso com tal pergunta, Daniel pigarreou e se remexeu levemente em seu lugar, não sabendo o que ‒ ou como ‒ dizer a ela. Por um segundo ponderou contar-lhe sobre o vídeo e as chantagens, mas teve receio que Sophia ficasse chateada e isso os levassem a uma discussão, justo agora que, finalmente, haviam se entendido e se rendido ao amor que sentiam um pelo outro. Súbito, uma cena aterrorizante passou na frente de seus olhos: Sophia descobrindo sobre o vídeo e o abandonando para sempre. A simples ideia de perdê-la o apavorou, fazendo-o recuar em lhe contar a verdade.


— Ela não ficou muito feliz em ser demitida. — disse apenas. — Melissa fez escândalo? — Seguiu indagando, brincando, dessa vez, com as mãos dele que a rodeavam. — Não, mas… Mas ela me xingou bastante. — Mentiu. — Que favor foi esse que fez a ela? Daniel pigarreou outra vez. Continuar omitindo a verdade estava se tornando uma tarefa cada vez mais difícil. — Esqueça isso, Sophia… — esquivou-se do assunto. — Não quero mais falar sobre a Melissa. — E por que não? — Agora ela se desencostou dele para fitá-lo dentro dos olhos. — Porque não. Para que falarmos dela? Que sempre fez de tudo pra nos atormentar? — Às vezes eu tenho a impressão de que me esconde alguma coisa — disse de súbito. — Do que está falando, Sophia? — Indagou com um suspiro. Não estava acreditando que teriam uma discussão por causa de Melissa, justo naquele momento, onde acreditava estar tudo em harmonia. — Daniel, você deu um cargo a ela, mesmo que Melissa não fosse competente para assumilo, o tempo todo você parecia um fantoche nas mãos dela, sempre atendendo aos seus caprichos, e muitas vezes você permitiu as provocações dela… — suspirou. — Então parece que você sente medo que Melissa faça algo ou… Sei lá, Daniel, eu tenho essa impressão de que mente para mim. — Eu não minto pra você — disse categoricamente, por mais que por dentro estivesse em nervosismo. Não poderia permitir que ela soubesse do vídeo, mesmo que na época os dois ainda não tivessem se assumido. — Se eu fiz tudo que fiz, Sophia, foi porque sou um idiota que estava confuso e querendo, de qualquer jeito, fugir do que eu sinto por você. Exasperando, Sophia se levantou, puxando uma toalha e a enrolando em seu corpo. Daniel a acompanhou, um pouco confuso com sua atitude. — Sophia… — exasperou um suspiro. — Não, Daniel… Você e essa sua preferência pela Melissa. Me procure quando estiver disposto a conversar sobre isso. Ela estava prestes a sair quando Daniel se levantou e segurou seu punho, a trazendo para outro beijo enlouquecedor. Sophia tentou relutar, mas os lábios dele eram demasiadamente tentadores para que conseguisse recuar, mesmo que estivesse chateada com ele. Súbito, Müller cessou o beijo e a acariciou no rosto. — Sophia, você é a mulher da minha vida. — começou, e ele levantou o seu olhar para ela. Sophia pôde ver, então, um brilho diferente nos olhos de seu amado. — Eu nunca senti nada igual. Não sabe como eu contei os segundos para que eu pudesse voltar para casa e te ver, estar junto com você, sentir seu corpo no meu, beijar sua boca. Você não precisava ter feito nada disso aqui,


pois eu me contentaria em apenas deitar do seu lado e dormir abraçado a você. Sophia, eu me contentaria só em ouvir a sua voz, de observar como sorri lindamente — nisso ele tocou os lábios dela, o que a fez sorrir à maneira que era apaixonante para ele. — A Melissa sempre foi um estorvo nas nossas vidas. E veja, ela nem está presente e já estamos discutindo por isso. Quero deixar essa mulher no meu passado, ela foi só mais uma, eu sei, e quero deixar isso para trás. Porque você, Sophia, daqui para frente, será a única na minha vida. Vai ser a minha constante, e eu não terei olhos, pensamentos e nem desejos para mais ninguém. Serão todos para você, meu amor. Sophia sentiu as lágrimas picarem seus olhos, a emoção com qual Daniel proferiu cada palavra a fez perceber que ele estava certo. Deveria deixar a ruiva para trás, fosse o que fosse que havia ocorrido entre eles. Daniel estava ali, em sua frente, se declarando mais uma vez; tinham feito amor, era a ela que ele havia escolhido, era para ela que ele se abriu, falou dos seus sentimentos, das suas decepções; foi com ela que ele partilhou experiências e histórias de vida naquela manhã, e era entre eles que havia um amor forte, uma paixão quente e um sentimento recíproco e exclusivo. Melissa jamais teria tudo o que Sophia estava recebendo de Daniel. — Me desculpe. — Segurou o rosto dele com as duas mãos e distribuiu vários beijos enquanto murmurava — Me desculpe, me desculpe, me desculpe… Eu sou uma tola, eu… — teria continuado se Daniel não a tivesse beijado profundamente, ao mesmo tempo em que as mãos dele a despiam novamente, trazendo-a de volta para a água. Tornaram-se a sentarem abraçados, Sophia recostando ao peito dele. Daniel tomou, então, a taça e a champanhe nas mãos, servindo-os. — Já sei a que brindar. — Disse, e entregou uma taça a ela. — A que? — A nós, — Enunciou, e Sophia voltou-se a ele — ao nosso amor, ao recomeço que será as nossas vidas daqui para a frente. Quero esquecer todo sofrimento, confusão e lágrimas que houve entre nós, quero recomeçar para que, a partir de hoje, só haja alegria, sorrisos, momentos felizes e promessas cumpridas. — ela sorriu largamente, Daniel levantou sua taça, também sorrindo, e eles brindaram a essas promessas. Sophia mal havia dado seu primeiro gole no etílico – Daniel já avançava sobre ela novamente para beijá-la. — Daniel! — protestou rindo, procurando uma superfície para deixar sua taça, enquanto correspondia ao beijo dele. — Você é irresistível, senhorita Hornet, não me culpe. — Murmurou desviando os beijos para a clavícula dela. Sophia o estapeou no ombro amigavelmente, o fazendo rir, e disse: — Nada de senhorita Hornet. Agora sou a senhora Müller. Ao ouvi-la, Daniel procurou por seus olhos, um sorriso estampado no rosto que ainda assim não era capaz de mostrar a felicidade que batia em seu peito ao escutar aquelas palavras. Apertou-a fortemente em um abraço, murmurando: — Sim, a minha senhora Müller. Para sempre.


36 ENTRE AMIGOS

ophia afastou o telefone do ouvido, assustada com a gargalhada altamente estridente de Erick no outro lado da linha. Inevitavelmente, ela também gargalhou, contagiada pela risada do amigo. Daniel, sentado ao seu lado e ouvindo a conversa, franziu a testa, levemente enciumado pela intimidade entre os dois. Rolou os olhos, achando graça na estupidez daquele momento. Há alguns poucos dias, Sophia vinha insistindo que eles viajassem até o Rio de Janeiro, pois ela queria muito fazer a tão prometida visita à Yara, mãe de Erick, além de, claro, contar a novidade ao colega sobre sua relação com Daniel.

S

De primeira, Müller sentiu-se receoso devido à sua briga com Gouveia – desde todo o ocorrido com Erick, eles não haviam mais se falado e Daniel não sabia exatamente como estaria o convívio dos dois. Se é que existia um convívio entre eles. Tudo que existia eram apenas algumas rápidas conversas ‒ não tão amigáveis ou civilizadas ‒ e um número grande de confusões e desentendimentos. E por mais que o vínculo dos dois tivesse sido um tanto quanto turbulento, e apesar da última vez que se viram terem trocado socos e pontapés, Daniel não sentia aversão por Erick, mas também nenhum tipo de simpatia. Simplesmente era neutro em relação a isso. Porém, seu receio era com Gouveia, que poderia odiá-lo. Mas, naquele momento, com a ligação que Sophia fizera a ele, havia se esvaído qualquer indício de ódio, mágoa ou rancor. — Finalmente aquele idiota se declarou? — Ouviu-se a voz de Erick, cheia de ironia, seguida da risada que sobressaltou a loura. — Não o chame assim, Erick — Sophia o advertiu bem-humorada, encontrando-se com os olhos de Müller e afagando sua coxa em seguida. — Ele na verdade é um imbecil. — E sorriu largamente, recebendo de seu esposo um olhar desaprovador e inconformado. Sophia o beijou rapidamente nos lábios, sorrindo, e sem demora Daniel sorria também, nada atingido pelos adjetivos que recebia. — É claro que vocês podem vir! Serão bem-vindos na minha casa! — Erick exclamou alegremente. Por sorte ou acaso, Gouveia saiu de São Paulo para passar uns dias na casa dos pais. Espera… — pediu, foi possível ouvi-lo falando com alguém. — É a Sophia querendo saber se pode vir nos visitar. Ela e o marido. — Sem demora nenhuma Sophia reconheceu a voz de Yara, toda empolgada dizendo que ficaria feliz com a visita deles. — Acho que você a ouviu, — Erick voltou-se a Sophia — ela já está dizendo que vai escolher o que preparar para comermos. — E riu mais uma vez, fazendo Sophia o acompanhar.


Eles, então, acertaram o encontro para o dia seguinte, e após encerrar a ligação, Daniel percebeu a empolgação de sua esposa brilhar nos olhos verdes. Sorriu fraco, um pouco enciumado pela intimidade que os dois amigos tinham, principalmente por ter se lembrado das vezes que os viu se beijando. Tentou jogar seus pensamentos para bem longe, mas a ruga entre suas grossas sobrancelhas o denunciou – e num segundo Sophia pulou em seu colo, afagando-o no rosto e no cabelo. Perguntou o que estava acontecendo para Daniel estar de cara fechada, e ele admitiu seu ciúme tolo. Sorrindo, Sophia concordou que era de fato um ciúme tolo. Beijou-o serenamente nos lábios, escorregando suas mãos pelas costas dele, afirmando que seu ciúme não era necessário, pois ela o amava; Erick era apenas um amigo – e sempre continuaria sendo. A declaração o deixou esplendidamente feliz e satisfeito, e todo seu incômodo havia passado. Ainda mais quando os beijos de sua querida esposa se tornaram mais intensos, as mãos deslizaram por ele com mais ferocidade e pequenos e quase inaudíveis grunhidos escapavam de sua boca. Não muito tempo depois eles estavam nus, amando um ao outro de forma profunda, descobrindo novos prazeres cada vez que suas bocas se colavam e seus corpos os grudavam pelo suor advindo da paixão. Ainda naquele dia, à noite, após se recuperarem do sexo, arrumaram suas malas, e no dia seguinte, antes mesmo do astro sol surgir na linha do horizonte, senhor e senhora Müller já estavam na estrada, rumo ao Rio de Janeiro. Ao chegarem, na metade da manhã, foram recebidos com fortes e calorosos abraços de Yara, amigáveis apertos de mão de Nelson e grande euforia e entusiasmo de Heloísa. — E Erick? — Sophia quis saber, sentindo falta do amigo. — Foi ao mercado logo cedo. Ele não demora a chegar. Mas, venham, entrem. — Yara disse, já os puxando para dentro de casa. Daniel sentiu-se levemente deslocado, principalmente ao ver como Sophia interagia facilmente com os demais membros da família Gouveia, mesmo sabendo que essa facilidade se dava porque eles tinham se conhecido anteriormente, por acaso, no ano-novo. Adentrou a casa, logo atrás de Sophia, que era arrastada na frente por Yara, que não parava de falar. Ela os direcionou para a cozinha estilo americana, toda azulejada e de inox, bem espaçosa e aconchegante, arejada e muito bem decorada. Heloísa surgiu logo atrás, puxando assunto, e Daniel se sobressaltou – assustado com a chegada repentina. — Por que você não estava com Sophia no dia em que a conhecemos? — A garota instigou pegando uma maça na fruteira e dando uma generosa mordida. Daniel buscou por Sophia, que, agora, alternava o olhar entre ele e Yara, o fazendo compreender que ouvira a pergunta súbita da menina. Ele quase implorou por ajuda somente com seus olhos, Sophia levantou os ombros, como se dissesse que não poderia fazer nada, pois dava atenção à Yara. Ele pigarreou e coçou a nuca, procurando por uma resposta rápida: — Eu exagerei na bebida no dia anterior e fiquei com uma ressaca terrível. — Mentiu, e olhou Sophia outra vez. Ela sorriu e voltou-se para Yara, que a essas alturas já se atentava à


conversa de Daniel e Heloísa. — E ela te deixou sozinho? — Continuou perguntando. — Eu insisti que ela saísse. — Respondeu de pronto. — Ou ela iria fazer minha cabeça estourar com tanto sermão que me dava sobre eu ter bebido. — Explicou, e eles riram. Daniel relaxou o corpo quando a garota não lhe fez mais perguntas. Yara os acomodou ao redor da mesa, já posta com um farto café da manhã ‒ bolo, pães, sucos, frutas, queijos ‒ enquanto relembrava momentos engraçados daquele primeiro de janeiro. A mulher se juntou à mesa com Heloísa e Sophia, não deixando de falar por um segundo, sempre tendo assunto para tudo. Daniel até tentava interagir, mas normalmente eram assuntos onde se sentia totalmente excluído, por isso, acabou apenas acompanhando a conversa. Segurou nas mãos de Sophia por debaixo da mesa, acariciando-as em movimentos circulares, e ela abriu um sorriso curto, adorando o carinho em sua pele. Nelson não tardou a chegar e puxou conversa com Daniel, este que se sentiu muito mais à vontade. O pai de Erick era um homem de voz calma e serena, conversa agradável, e Daniel se identificou com os assuntos abordados. Yara quis servir o café, mas Sophia insistiu para que esperassem por Erick. Continuaram conversando, e sem se darem conta estavam todos interagindo e rindo uns para os outros. — Então a minha visita ilustre chegou. — Uma voz entrou na cozinha e todos se viraram para Erick. Sophia rapidamente foi ao seu encontro, o abraçando calorosamente, enquanto ele soltava suas sacolas em algum canto. Daniel se levantou, encarando, talvez um pouco incomodado, sua mulher abraçando outro homem. Tentou sorrir quando, ainda abraçado a Sophia, Erick o olhou. Mais naturalmente, Erick sorriu para Müller, cessando o abraço na amiga e a avaliando de cima em baixo. — Você está ótima! Feliz… Radiante… — Elogiou, e mirou Daniel. — Tem feito um bom trabalho, Müller — disse sorrindo largamente, e Daniel não deixou de esboçar um sorriso natural. Olhou para Sophia que veio até ele e o abraçou pela cintura, beijando-o na bochecha, dizendo: — Mais do que você imagina. Erick se aproximou, esticando as mãos para Daniel, seus olhos brilhando de forma humilde, parecendo esquecer-se de toda a rivalidade e desentendimentos entre eles. Müller olhou para a mão estendida, engoliu sua bílis. Como já dito, não havia aversão, mas também não havia simpatia. Ainda assim, gentilmente esticou a mão para apertar a de Erick. Sem esperar, ele o puxou para um abraço e Daniel soltou uma pequena risada, ouvindo-o dizer somente para ele, e o estapeando amigavelmente nas costas. — Fico feliz que tenham se entendido: Naquele momento, Daniel sabia que já não havia mais nenhum tipo de rivalidade entre os dois ‒ talvez nunca tenha existido, afinal.


Sentaram-se outra vez em torno da mesa e tomaram o delicioso café, descontraidamente. Falaram de futebol à política, de religião à ciência, reclamaram da economia do país, do mau governo e seus administradores, falaram de música e Sophia quis exaltar o gosto singular de Daniel por músicas clássicas. Ninguém ficava de fora das conversas, e todos riam, a amizade se estreitando entre todos eles. De repente, Yara perguntou sobre a família de Müller e ele lhes contou um pouco sobre a perda dos seus pais, a administração da empresa e como a única família que tinha era Sophia e seu irmão Heitor. Sentindo o pesar em suas palavras, Sophia o abraçou e o beijou serenamente nos lábios, como se quisesse, de alguma maneira, aliviá-lo de sua dor. Rapidamente contornaram o assunto e não perceberam que já haviam se fartado, mas continuavam em torno da mesa, conversando. Minutos depois, levantaram-se e Sophia se prontificou a ajudar Yara com a louça suja. Por mais que ela tenha dito que não era necessário, a loura persistiu, e, por fim, a simpática senhora aceitou. — Tem algo que eu possa fazer, senhora Yara? — Daniel inquiriu, querendo, também, ajudar de alguma maneira. — Está tudo bem, meu filho. Vá lá fora conhecer o quintal, o dia está lindo e o Van Halen adora brincar. — Alegou já lavando a louça. Daniel olhou para Erick, confuso. Pegou-se perguntando se iria encontrar Sammy Hagar no quintal dos Gouveia. Erick o convidou, então, para irem até o fundo da casa: de passagem, um lugar bem caseiro e confortável. Havia alguns coqueiros – e em seus troncos redes amarradas a eles – uma piscina, uma área coberta com churrasqueira, pia, uma extensa mesa de madeira e uma pequena televisão presa à parede. Logo à frente, o quintal se estendia com um belo e bem cuidado gramado, adornado com pequenos enfeites de jardins. Ao fundo, podia-se ver um canil. — Van Halen! — Erick gritou, fazendo seu convidado sobressaltar — Vem, garoto. Num segundo, um belíssimo Labrador surgiu correndo, os pelos claros, a correntinha da coleira balançando e fazendo barulho. O cão pulou sobre Erick, que riu e bagunçou a pelugem canina. — Daniel, este é Van Halen. — Gouveia disse descontraído, e Müller mirou o cachorro, atordoado, perguntando-se por que diabos o cão levava o nome de uma das maiores bandas de rock do mundo. Daniel podia não ser um amante do gênero, mas conhecia alguns grandes nomes e, até mesmo, apreciava uma ou outra música. Deixando de lado tal questionamento, chamou pelo cachorro e passou a brincar com o feliz animal, dócil e muito divertido. Daniel ficou encantado com o extremamente amável cãozinho, até ponderou em ter um em casa. Talvez Sophia gostasse da ideia, e eles poderiam ter um para alegrar um pouco mais seus dias estressantes e pesados na empresa. Para desviar-lhe a atenção, logo Yara, Sophia, Nelson e Heloísa surgiram – a irmã de Erick correndo para brincar com seu amigo canino.


— Estamos querendo dar uma volta na praia. — Sophia disse. — Vamos, amor? — Pediu o abraçando pela cintura e pousando a cabeça em seu peito, e sentiu, sem demora, as mãos dele amaciando seus fios louros. — Claro, meu bem. — Podemos levar o Van Halen, não é, mãe? — Heloísa perguntou agitada, e Yara acenou alegremente. Depois de prepararem algumas coisas para levarem, e de se vestirem mais adequadamente, seguiram para a praia, apenas quinhentos metros dali. Sophia trajando um biquíni azul, na cintura uma canga na mesma cor, os cabelos soltos sendo segurados apenas pelo chapéu; Daniel ‒ de bermuda e regata justa branca ‒ segurava delicadamente sua mão desde que saíram da casa, às vezes a abraçava contornando seu dorso, o que a fazia sorrir plenamente. Yara e Nelson caminhavam lado a lado, bem próximos, enquanto conversavam sobre diversas coisas; Heloísa ia à frente, quase sendo arrastada por Van Halen, rendendo inúmeras gargalhadas nos demais. A família Gouveia, juntamente com Sophia e Daniel, logo chegou à praia. Heloísa, que quase era arrastada por Van Halen, imediatamente correu para brincar com o cão, jogando-lhe o frisbee no ar. O bicho correu atrás do objeto, dando um salto espetacular para abocanhá-lo. Voltou correndo, as orelhas balançando, e o processo foi repetido. O pequeno grupo de amigos se acomodou num quiosque ali perto, solicitando bebidas. Daniel quis recusar, mas Erick e Yara insistiram para que ele pedisse, pelo menos, uma cerveja. Vencido, acabou aceitando. Juntaram-se em volta de uma mesa; Sophia pediu uma água de coco, Erick acompanhou Müller na cerveja, Yara e Nelson optaram por caipirinhas. Pediram, também, petiscos e espetinhos de carne, e continuaram a conversarem, sempre rindo e interagindo. Daniel sentia-se cada vez mais confortável na presença de todos, principalmente com Erick. O homem era, de fato, uma boa pessoa. Ele é que tinha sido um idiota por todo tempo. O dia foi avançando, e abordaram sempre bons assuntos – preenchidos de seriedade ou gargalhadas. Almoçaram por ali mesmo, Daniel arcando com as despesas e sendo advertido incansavelmente por tal atitude; ele riu e se prontificou a deixar a conta para o jantar ou o almoço do dia seguinte. Após o descanso, Heloísa desafiou o casal a uma partida de vôlei na areia. Prontamente, Daniel negou… Oh!, ele era péssimo em qualquer tipo de esporte. Rindo, Sophia o instigou a participarem, Erick ajudando-a a convencê-lo. Por fim, ele cedeu, e segundos depois estavam os quatros sob o sol escaldante, numa partida desastrosamente ruim com Yara e Nelson na torcida, Van Halen correndo pela praia, e que às vezes, passava no meio do jogo, os atrapalhando de alguma maneira, rendendo risos, discussões amigáveis, perdas e vitórias. Apesar da partida nada profissional, o evento proporcionou-lhes boas e contagiantes risadas. As primeiras partidas foram Heloísa e Erick contra Sophia e Daniel, e estes sempre que faziam um ponto comemoravam com abraços e beijos, Müller até a tirava do chão e a rodopiava no ar. Helô gritava estridentemente toda vez que sua dupla adversária não defendia uma jogada – e todos riam de sua empolgação, principalmente quando, em um desses momentos, ela saltou no pescoço do irmão, e, surpreso, Erick se desequilibrou, caindo contra a areia, com ela por cima. As


gargalhadas ressoaram e duraram por muitos minutos. Daniel e Sophia mais perderam do que ganharam, porém, o jogo tinha sido divertido. Os homens, por conta do calor, tiraram suas camisas e, acompanhados pelas garotas, mergulharam rapidamente no mar antes de iniciarem uma nova partida. — Que tal Erick e Sophia contra Daniel e eu, nesse set? — Heloísa sugeriu. — Por mim tudo bem — Erick deu de ombros e olhou para o casal. Daniel acenou concordando e não demonstrando nenhum tipo de oposição a isso. Trocaram os parceiros e iniciaram a nova partida. O novo set fora mais equilibrado, já que Erick e Heloísa eram mais familiarizados com o esporte, ajudando, dessa forma, seus respectivos parceiros. As comemorações entre Gouveia e Sophia eram toques de mãos e abraços calorosos, mesclados a risadas. De início, Daniel sentiu-se levemente incomodado, mas logo suavizou quando viu que não havia maldade entre os dois – mesmo depois de eles terem se beijado no passado. Daniel e Heloísa comemoravam suas pontuações apenas com toque em ambas as mãos, mas, vez ou outra, e enlouquecidamente, Heloísa o abraçava também, e ele ria da hiperatividade e ingenuidade da moça. Heloísa e Daniel ganharam dessa vez, e já mais acostumado com a personalidade de sua companheira, não se importou em montá-la em suas costas e correr alguns metros, uivando em comemoração, arrancando mais risadas de todos os presentes. — Vocês deveriam apostar alguma coisa — Nelson gritou do outro lado, a cerveja nas mãos já pela metade. — Que graça tem em só ganhar? — Instigou. — Meu pai tem razão! — Concordou Erick se recuperando de um ataque de risos. — Vamos apostar o quê? Uma rodada de cerveja? — Quem perder paga um rodízio de churrasco hoje à noite para todos nós…! — Daniel enunciou — Na melhor churrascaria da cidade. — E completou. — Se eu perder, meu pai é o responsável por mim. — Heloísa disse, e todos riram quando Nelson resmungou por ter sugerido a aposta. — Eu aceito se for: meninas contra meninos. — Sophia interviu, e Erick e Daniel se entreolharam, sorrindo um para o outro, satisfeitos com a proposta, ambos acreditando que seria moleza vencer. A nova partida foi mais acirrada, visto que havia uma aposta alta em jogo. Houve muitas defesas incríveis, bloqueios inacreditáveis e passes extraordinários, principalmente por se tratar de amadores. Um jogo muito bem jogado, dois empates e um terceiro set para decidir quem seria o vencedor. Quando, já no último set, as duplas estavam 24 a 24 e quem fizesse decidiria o jogo, a disputa se tornou mais implacável e emocionante. Sophia e Heloísa recebiam todo o apoio de Yara enquanto Nelson apoiava Daniel e Erick – ainda que se sua filha perdesse, ele quem teria de arcar com as despesas da aposta. E mesmo que Erick e Daniel tenham se esforçado, corrido pela areia para não deixar a bola cair no chão, terem feito defesas esplêndidas e literalmente terem suado para vencerem, Sophia e Heloísa ganharam por um saque na rede.


— Nós deixamos vocês vencerem! — Daniel disse quando Sophia se aproximou e o zombou por sua perda. — Dani, aceite que dói menos. — Rebateu rindo e o beijou nos lábios. O restante do dia também fora muito agradável, continuaram conversando, bebendo, beliscando uma coisa aqui ou ali, nadaram e Daniel até carregou Sophia no colo para dentro do mar. Com as ondas os atingindo na altura da cintura, ele a beijou serenamente, afagando seu rosto molhado. — O mar quis levar você de mim… — Sussurrou com suas bocas bem próximas. — Acho que teria enlouquecido se naquele dia você… Ela tocou-lhe com o indicador, o impedindo de continuar. — Pense pelo lado bom — ela murmurou e ele sorriu, beijando-a, lembrando-se que o “lado bom” era a primeira vez deles. Após um dia agradável na praia com os amigos, voltaram para a casa dos Gouveia, tomaram um banho gelado e saíram para a churrascaria, dividindo-se em dois carros. Assim como o dia, a noite também foi muito divertida. Daniel e Erick dividiram a conta na churrascaria. Durante todo aquele momento de descontração, Daniel, publicamente, demonstrou todo seu afeto pela esposa, beijando-a sempre que podia, segurando sua mão sobre a mesa, a abraçando vez ou outra, e mesmo que Sophia o advertisse de vez em quando, ele respondia dizendo que não queria esconder de ninguém o quanto a amava. Pensou, ainda, como era bom falar do que sentia por ela sem ter uma pessoa dando de “Heitor”. Todos, na verdade, achavam lindo o amor e companheirismo entre os dois. Por volta de dez da noite, retornaram, mas Daniel quis passar em um mercado antes. Comprou algumas garrafas de cerveja, vinho, algumas velas e comida congelada. Voltou para o carro, guardou as compras no porta-malas e partiu com Sophia para a casa de Erick. Quando chegaram, Yara e Nelson já haviam ido se deitar, exaustos pelo dia mágico; Heloísa estava no quarto, navegando na internet. Erick estava na sala, assistindo uma partida de basquete gravada. — Comprei algumas coisas, pode me ajudar a tirar do carro? — Daniel pediu, e Erick acenou, levantando-se para ajudá-lo. Uma vez na garagem, Daniel abriu o porta-malas e tirou algumas poucas sacolas; Erick o olhou, confuso. Ele pescou uma e esticou a Gouveia: — Consegue entrar sem Sophia ver? Estou pensando em fazer algo — disse, e Erick sorriu, entendendo qual era a sua real ajuda. — Entrarei pelos fundos e deixo no armário. Quando precisar pode ficar à vontade para pegar. — Respondeu todo sorridente, e Daniel lhe entregou as cervejas, pedindo para deixá-las na geladeira. — Para que cerveja? — Perguntou Erick. Müller rolou os olhos.


— Eu precisava comprar alguma coisa para esconder o restante. — Retorquiu como se fosse muito óbvio. Erick riu e retirou-se em seguida para cumprir sua missão. Daniel voltou para dentro de casa, encontrando-se com Sophia ainda na sala, sentada no sofá com a cabeça jogada para trás. Aproximou-se e pôs-se ao seu lado, abraçando-a. — Está cansada, amor? — Sussurrou no ouvido dela e mordiscou seu lóbulo da orelha. Ela grunhiu baixinho e se ajeitou nos braços de seu esposo. — Sim, muito. Vamos dormir? — Não antes de ele tomar uma cerveja comigo. — Proferiu Erick surgindo da cozinha e trazendo duas garrafas de cerveja nas mãos. — Para comemorarmos, já que agora somos amigos. Sophia sorriu preguiçosamente e beijou rapidamente Daniel. — Estou feliz por não haver rancor entre vocês. Tomem suas cervejas e tenham papos de machos, mas eu irei dormir. — Eu não demoro, amor. — Daniel garantiu antes de ela ir para os fundos, em direção ao quarto de hóspede preparado carinhosamente por Yara um dia antes. Müller e Gouveia sentaram-se no sofá, lado a lado, tomando suas cervejas e assistindo ao segundo quarto do jogo de basquete. Conversaram sobre a partida e as posições dos jogadores, tabela do campeonato, estatísticas. Daniel quase não entendia, mas o pouco que compreendia abordava o assunto facilmente. Rapidamente, também falaram do casamento de Müller com Sophia, Daniel o contando como havia sido os dias depois que eles brigaram, de como, finalmente, compreendera que não poderia fugir do que estava sentindo, que pensara muito sobre tudo que o próprio Erick lhe disse, nas coisas ditas, também, por seu irmão Heitor. Erick desejou felicidades e voltou a afirmar que estava muito feliz pelos dois, e até se desculpou pelo desentendimento que culminou na internação de Daniel em Angra dos Reis. — Não se preocupe mais com isso. — Daniel apenas disse. O jogo acabou, e suas cerveja também. Olhou para o relógio e viu que era tarde e que, provavelmente, Sophia já estava dormindo. Despediu-se de Erick e saiu, mas não para o quarto, junto com sua esposa. Era hora de fazer o que tinha em mente.

♦♦♦

— Sophia… — Ele ciciou agachado no meio da escuridão — Amor, acorde… — e a chacoalhou delicadamente. Sophia resmungou e virou na cama, sonolenta. Mas Daniel continuou insistindo, até que ela se deu por vencida.


— O que foi, Dan? — Vem… — disse apenas a puxando pelo punho. Desnorteada, ela se levantou, perguntando o que estava acontecendo. Daniel somente respondeu que queria lhe mostrar algo. — Dani, estou só com uma camisa sua. — Protestou ainda zonza pelo sono. Deu-se conta e buscou pelas horas. Quase duas da manhã. — Sem problema. — Ele tirou seu paletó e jogou sobre os ombros dela. Antes que Sophia pudesse dizer qualquer coisa, ele a içou em seus baços e saiu de casa, no meio da noite. A lua cheia, as estrelas no céu límpido brilhando acima deles. Por mais que ela perguntasse o que ele estava fazendo, Müller dizia apenas para ela ter calma. Estavam a uns cem metros da praia quando Daniel a desceu no chão e retirou uma venda do bolso. Sophia ficou ainda mais confusa enquanto era vendada seus olhos. Seu coração palpitou, e ela imaginou que Daniel havia preparado alguma surpresa. Sorriu largamente tentando adivinhar o que ele teria preparado. Soltou um pequeno grito ao ser pega outra vez pelos braços fortes, e Daniel se pôs a caminhar. Por fim, chegaram à areia da praia, onde estiveram na tarde anterior. Müller a sentou na areia e pediu um minuto. O coração de Sophia batia a mil por hora enquanto esperava por ele. Por fim, Daniel retornou e tirou suas vendas. Instantaneamente, Sophia sentiu seus olhos juntarem lágrimas diante a imagem em seu entorno, levou à mão a boca, abafando um grunhido de emoção. Voltou-se para Daniel, ele sorria lindamente – a luz do luar iluminava seu rosto barbado e bonito, dando-lhe um aspecto angelical e estranhamente sensual. Ele aproximou sua boca do pescoço dela, depositando um pequeno beijo. — Diga alguma coisa. — Murmurou percebendo a quietude de Sophia. — Daniel… É… é perfeito. — Disse com a voz embargada. — Meu Deus, Daniel, você… — Shh — ciciou, e a calou com um beijo apaixonado. Sorrindo, ela voltou-se para frente, não se cansado de olhar o desenho na areia. Um enorme coração escrito “Eu te amo, Sophia”, algumas velas estavam espalhadas em torno do desenho e logo ao lado uma toalha balançava com a brisa, presa apenas por taças e uma garrafa de vinho, além de dois pratos com frutos do mar. — Você gostou? — Ele perguntou sensualmente, roçando a ponta de seu nariz em sua pele. — Eu… eu amei — gaguejou ainda emocionada. — Daniel, eu te amo tanto. — Proferiu e tascou um beijo cheio de amor. Ele sorriu sentindo seu coração saltar em alegria. Cada parte do seu corpo clamando por mais daquele beijo, por mais de Sophia. Controlando-se, ele cessou o beijo e os serviu com vinho e os frutos do mar. Sophia sentou-se entre as pernas dele, encostando-se ao peito largo, bebendo vagarosamente (e extremamente feliz) o seu vinho, saboreando não só da iguaria, mas das ondas quebrando na praia, da lua cheia absoluta no céu, das estrelas piscando no firmamento, das velas que iluminavam o desenho com seu nome dentro em uma declaração de amor ‒simples e majestosa ao mesmo tempo. Não poderia,


nunca em sua vida, duvidar dos sentimentos de Daniel. Ele vinha sendo maravilhoso desde que se declarara, estava sendo o homem dos sonhos de qualquer mulher, e consertando, dessa forma, todos os seus erros do passado. Pensou em como Daniel estava se dedicando para mostrar seu amor por ela todos os dias, e ela ainda não havia feito muita coisa para provar que, também, o amava. Mas decidiu que isso mudaria – Sophia faria alguma coisa por ele. Sentiu um estalar em seus cabelos, depois a temperatura quente dos lábios dele descendo pelo seu pescoço, não demorou a sentir as mãos fortes sobre seu ombro, abaixando a vestimenta para despi-lo e logo sentir um beijo molhado. Ela cerrou os olhos, mordendo os lábios, totalmente atraída e extasiada pela boca de seu marido contra sua carne. — Você é minha vida, Sophia. — Disse ele baixinho ao sopé do seu ouvido. — Fica comigo para sempre? Ela virou a cabeça para ele, fitando-lhe sua expressão serena: os lábios entreabertos, os olhos fechados. Beijou-o delicadamente, as lágrimas ardendo seus olhos novamente: o pedido de Daniel, uma quase súplica, a comovendo. Sim, ficaria com ele por toda a eternidade, não iria, jamais, se afastar daquele homem esplêndido, lindo, romântico, que ela tanto a amava e que era amada de volta na mesma intensidade. Virou todo seu corpo, inclinou-o a se deitar e deitou-se sobre ele, aprofundando o beijo, suas gotas escorrendo dela para a pele dele. O amor que sentiam era tão pleno, absoluto e verdadeiro, que mal cabiam em seus peitos, e ele se manifestava além de seus sentimentos abstratos ou de emoções individuais. O amor se transformava em lágrimas de emoção e felicidade, em beijos serenos e tresloucados que eram sentidos por ambos, em sorrisos que os deixavam ainda mais apaixonados e envolvidos um pelo outro, em abraços que deixavam suas peles bradando por mais, em palavras e declarações espontâneas que sempre os emocionavam. Fizeram amor na praia outra vez. Seus corpos cada vez mais conectados, mais cientes um do outro, mais íntimos. O firmamento, as estrelas e a majestosa lua testemunharam o amor verdadeiro sendo consumado, emanando de suas almas para o mundo.

♦♦♦

A brisa era fria, mas seus corpos ainda estavam aquecidos pelo amor. Sophia deliciosamente encaixada nos braços de Daniel, observando a lua, recuperando o fôlego. O paletó dele cobria seus braços despidos, a protegendo do vento gélido. — Minha vida está tão perfeita… — Ela murmurou. Daniel sorriu e beijou o alto de sua cabeça. — A minha também. Desde que você entrou nela. Sophia debruçou-se, encarando-o nos olhos. Divisou, em seguida, o peito largo e definido,


traçando um caminho pelas suas mamas. Enroscou-se às pernas dele e desceu seu indicador até o cós da cueca preta, que há pouco foi vestida. — Obrigada por tudo, Daniel. Está tudo tão perfeito… Eu não quero mais nada da minha vida. Ele abriu um pequeno sorriso, descendo delicadamente a mão pelo rosto dela. — Só falta uma coisa para completar a nossa felicidade. — Disse de repente. — O que é? — Quero um filho com você, Sophia. Ela prendeu o ar por um instante, momentaneamente chocada com tal declaração. Pestanejou tentando assimilar o assunto repentino que Daniel quis abordar. — Claro. — Sorriu pequeno. — Daqui uns anos, talvez. — Não, — ele disse prontamente — quero um filho ainda para esse ano. — Daniel… — Sophia suspirou, e ele a encarou um pouco entristecido. Pôde sentir em seu tom de voz que ela não compartilhava do mesmo desejo que ele. — Acho que não é um bom momento. — Como não, Sophia? — Rebateu serenamente — Nos amamos, somos casados. Eu quero ter uma família com você. — Eu sei, meu amor — replicou calmamente e beijou-o na altura de seu tórax. — Mas está tudo tão recente, eu quero aproveitar você um pouquinho mais, entende? — Disse dengosa e deixou outro beijo em seu peito. Levantou o olhar para Daniel encantadoramente – e ele não evitou em sorrir. — No ritmo em que estamos transando, precisamos nos cuidar. — Alegou com a voz um pouco mais baixa. Sophia percebeu logo o tom abatido em sua voz e praguejou-se por ter sido tão insensível. Mas ao mesmo tempo, sentiu-se ainda mais feliz em saber que Daniel tinha esse anseio em seu interior. — Vamos esperar mais alguns meses? Para esse ano eu não prometo nada, mas quem sabe para o ano que vem? — Proferiu, e um sorriso radiante se pôs nos lábios dele. Daniel a segurou pelo rosto e a beijou profundamente, sabendo que estaria totalmente completo no dia em que fosse pai.

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O final de semana com a família Gouveia fora o mais divertido de todos, tanto para Daniel


quanto para Sophia. No domingo, haviam feito um churrasco na beira da piscina, e com a situação, Daniel e Erick não evitaram uma troca de olhares, recordando-se do último churrasco na beira da piscina – que fora um desastre. Acabaram por gargalhando com a lembrança, despertando em Heloísa e seus pais a curiosidade, porém, para a sorte deles, ninguém resolveu querer saber o motivo de nada. Eles se despediram no entardecer do domingo, Yara e Nelson convidando-os a voltarem mais vezes. Erick deu um abraço apertado em Sophia e um beijo no rosto. Voltou a dizer-lhe que estava feliz por ela e Daniel e que gostaria de ser o padrinho caso eles renovassem os votos. A loura riu e prometeu que o chamaria, sim, na renovação dos votos. Daniel também abraçou Erick, agradecendo a todos pela receptividade e por todos os momentos divertidos e extraordinários que haviam passado naquele fim de semana radiante. Heloísa tagarelou sem parar que sentiria saudade do casal, os fazendo, inevitavelmente, rir. Rumaram de volta para casa e chegaram ainda naquela noite. No dia seguinte, após uma roda de sexo matinal, foram para a empresa, Sophia já há algumas semanas novamente como secretária executiva de Daniel. Surgiram no andar da presidência, rindo das lembranças do fim de semana, Daniel a abraçando pela cintura e Sophia apoiando sua cabeça sobre o peito dele, enquanto caminhavam para dentro do andar. — Foi simplesmente maravilhoso… — Sophia disse quando viu Anabelle se aproximando e os cumprimentando com um “bom dia”. — Há uma senhorita que gostaria de conversar com o senhor. — Anabelle disse de pronto se direcionando para Daniel. — Ela não tem horário e está insistindo muito para vê-lo, senhor Müller. E também não quis se identificar. Daniel enrugou o cenho, estranhando a situação. Perguntou-se quem seria e por um segundo temeu ser alguma tramoia de Melissa. Só de pensar, seu coração se acelerou, e ele precisou de um momento para se recompor. — Onde ela está? — Quis saber. — Na sala de reuniões. — Anabelle informou. Daniel agradeceu a informação e, juntamente com Sophia, seguiu para a sala de reunião, imaginando todos os números possíveis de pessoas que poderia ser. Abriu a porta e logo se deparou com ela. Por um segundo, pensou estar vendo coisas. Ela estava sentada na ponta da mesa. Os cabelos pretos e levemente ondulados caíam sobre seus ombros. Ao vê-lo, a mulher sorriu largamente e se levantou, indo ao seu encontro. — Daniel… quanto tempo. — Exclamou se aproximando. Ainda atordoado com a presença inesperada de sua visita, Daniel conseguiu se encontrar novamente e voltar à realidade. Os olhos dela pareciam estar ainda mais negros e brilhantes.


Recuperando-se do choque, ele piscou várias vezes quando ela o abraçou, mas logo se afastou, encontrando-se com seus olhos. Daniel pigarreou um momento antes de conseguir dizer, mesmo que ainda assustado: — Oi… Clarisse.


37 PROMETIDA

D

aniel sentiu seu coração palpitar levemente. A presença inesperada de Clarisse tirou seus pés do chão. Há muito ele não a via, mas os olhos negros marcantes eram inconfundíveis, mesmo depois de tantos anos.

Desconcertado, ele sorriu, ainda atordoado pelo reencontro súbito com sua ex-paixão. Engoliu em seco diante dela, o sorriso caloroso e perfeito curvado nos lábios finos em contraste com a pele branca. A presença de Clarisse momentaneamente o fez se esquecer de Sophia, logo ao seu lado, agarrada a seus braços. — Que surpresa… — Enunciou ainda chocado, quase sem ar. Franziu o cenho levemente, perguntando-se que raios ela estaria fazendo ali. Só esperava que Clarisse não fosse a típica ex que, arrependia, retornava anos depois disposta a reconquistar seu amor. Daniel estava numa fase muito boa de sua vida com Sophia para que surgisse algo para atrapalhar esse relacionamento que, finalmente, caminhava bem. — Você está mudado — observou sorrindo amigavelmente. — Está mais bonito; esses anos todos te fizeram bem. Daniel abriu um sorriso acanhado, sendo difícil digerir a presença da morena. Sophia pigarreou, o trazendo de volta à realidade e o fazendo se lembrar da sua presença. Ela acompanhara a cena, curiosa em saber por que a postura de Daniel mudou tanto ao ver a tal Clarisse. Lembrou-se dos dias anteriores, quando ele se abriu e contou-lhe sobre sua decepção amorosa. Seu sexto sentido, de alguma forma, gritava dentro dela e a alertava que a morena ali presente era a antiga paixão dele. Assim que pigarreou, Clarisse a mirou, sorrindo naturalmente, e logo ouviu Daniel dizer: — Ah, Clarisse, essa é Sophia, minha esposa. Sophia, essa é Clarisse — ele fez uma pequena pausa, buscando a palavra certa para dizer. —, é uma ex-namorada da época de faculdade. — Muito prazer, sou Clarisse Corrêa. — Cumprimentou-a, e esticou a mão, sorrindo de forma simpática. Sophia devolveu-lhe o sorriso, bem menos intenso, e mirou a mão voltada a ela. Por algum estranho motivo, seu sexto sentido estava certo sobre a mulher à sua frente: era ela a ex de Daniel, que o magoou no passado. Apertou-a na mão, estranhamente não sentindo que a presença de Clarisse fosse alguma ameaça para o casamento com Daniel.


— Sophia Hornet. — Disse, e emendou em seguida… — Sophia Hornet Müller. — Quem diria… — a morena proferiu descontraidamente. — Daniel Müller casado. Ele riu brevemente, nervoso e desconcertado. Ter atual e ex no mesmo ambiente, uma frente à outra, era, no mínimo, uma saia justa. — Sophia conseguiu me laçar. — Respondeu a trazendo mais para perto. O momento era um tanto quanto constrangedor, mas Daniel foi logo tratando em contornar a situação, querendo saber o que trazia Clarisse ali, principalmente depois de tantos anos: — Anabelle disse que queria falar comigo. — Ah, sim, se importa se for em particular? — Inquiriu, e olhou para Sophia, seu sorriso simpático ainda esboçado nos lábios naturalmente cor de pêssego. Daniel buscou pela esposa antes de responder, já descartando qualquer possibilidade de ficar sozinho com Clarisse, imaginando que Sophia se incomodaria com tal fato. — Eu não tenho nada para esconder da Sophia, então, o que tiver de dizer, diga na frente dela — declarou tentando não parecer estúpido. — Bom, eu não estou pedindo para esconder nada dela. Depois que conversarmos poderá contar tudo o que quiser à sua esposa, mas no momento, o assunto que irei tratar com você, eu prefiro mesmo que seja em particular. Daniel suspirou; sua boca já ia se abrindo para negar o pedido de Clarisse quando Sophia interveio: — Tudo bem, Dani. Tenho mesmo algumas coisas a resolver. Fiquem à vontade. — Proferiu, e o beijou rapidamente nos lábios. — Te vejo depois. — Daniel sussurrou a acompanhando até a porta. Beijou-lhe outra vez nos lábios e a viu sumir pelos corredores. Inspirou fundo desejando acalmar o sangue que fervilhava dentro dele. Exasperou e voltou-se vagarosamente para Clarisse. Ele se deparou com o mesmo sorriso encantador de sete anos atrás, os olhos negros exalavam mais maturidade e experiência, os cabelos escuros caiam-lhe soltos de forma ondulada e sua voz continuava tão afável e serena como no passado. Caminhando para dentro em silêncio, chegou até a mesa de vidro extensa e sentou-se na cadeira na extremidade. Apoiou os cotovelos na superfície e entrelaçou as mãos enquanto a via se aproximar e a puxar a primeira cadeira ao lado esquerdo dele. — Então, o que te fez aparecer assim, depois de tantos anos? Clarisse sorriu e inspirou fundo. — Eu precisava desabafar e de uma ajuda ao mesmo tempo. Acredito que você seja a pessoa ideal para isso.


Daniel franziu o cenho, pouco entendendo onde ela queria chegar. Então Clarisse começou a lhe contar por que aparecera de forma tão súbita.

♦♦♦

Sophia caminhou de volta para a sala da Presidência, enumerando os afazeres que precisava realizar. Tentava manter sua cabeça no trabalho, nos compromissos de Daniel que tinha de conferir, nas ligações que precisava realizar e na agenda que tinha de organizar, e não desviar sua atenção pensando no que seu esposo estaria conversando com uma ex-namorada, a qual, muito provavelmente, fora a que o magoou no passado. Afastou suas indagações da cabeça e continuou seu trajeto, passos rápidos e cabisbaixa. Distraída, só voltou à realidade quando esbarrou em alguém. Voltou-se para cima, atônita, encontrando o sorriso galanteador e a íris verde brilhando de Miguel. Prendeu a respiração por um segundo – a última vez que o tinha visto fora dias atrás, quando esteve em sua presença no quarto de hotel. — Miguel… — pôde dizer, por fim, ainda surpresa com sua chegada. — Oi. — A cumprimentou com um sorriso caloroso. Desviou seus olhos dela para o corredor ali atrás, esperando ver Daniel, mas não o viu. — O que faz aqui? — Sophia inquiriu. Miguel sacudiu algumas folhas no ar. — Relatório mensal das obras na fábrica. — Explicou-se, e logo emendou: — Vocês se entenderam? Sophia pestanejou, suspirando em seguida. Naquele momento arrependeu-se por sua atitude precipitada no passado de tê-lo chamado para conversarem e depois de tê-lo beijado. Teve vontade de repuxar seus cabelos como forma de castigo. — Sim. — Murmurou. — Foi uma briga idiota, e eu exagerei com o negócio do divórcio. Desculpe-me por ter te envolvido nisso. Miguel apenas acenou, lembrando-se de que depois daquele dia ainda voltara para o hotel na esperança de reencontrá-la e convencê-la a ir embora com ele. Mas quando não a encontrou, e nos dias seguintes não teve nenhuma notícia dela, acreditou que haviam se reconciliado. — Ele aceitou numa boa o beijo? — Perguntou, e um pequeno sorriso malicioso curvado nos lábios manifestou-se. — Sim — gaguejou. — Miguel, olha… eu preciso trabalhar. — Contornou rapidamente o assunto. — Pois eu também. Daniel está ocupado?


— Está. Espere-o na recepção. Mas você não tem hora marcada, tem? Miguel sacudiu ombros, a mesma risota maliciosa e sarcástica esboçada. Sophia revirou os olhos e, desajeitadamente, buscou pela agenda de Müller dentro da sua bolsa. Sem que ela percebesse, Miguel se aproximou furtivamente, ficando demasiadamente próximo. Sophia só se deu conta quando havia encontrado a agenda e levantara os olhos, topando com o rosto bonito de Miguel quase colado ao dela. Deu um passo atrás, assustada, mas ele a segurou pelos punhos, sussurrando: — Calma, Sophia, não irei te fazer nada… a menos que queira. — Sorriu maliciosamente, e ela pôde sentir o ar quente da respiração e o hálito refrescante dele contra seu rosto. No mesmo instante o coração saltou dentro do peito, temendo que ele tentasse roubar outro beijo. — Então, por favor, se afaste, Miguel. Por que ainda insiste nisso? — Perguntou, já cansada de tanta insistência dele para com ela. Ele franziu o cenho levemente, desviando, em seguida, os olhos para os lábios belos de Sophia. Engoliu em seco e voltou-se a encarar a íris esverdeada. — Eu ainda sou louco por você. — Murmurou. — Não percebe? — Mas eu não te amo! Nunca te amei! — Declarou o empurrando e se livrando das mãos fortes. — E se me ama tanto assim como diz, deixe-me ser feliz, não tente atrapalhar meu casamento. Miguel deu um passo atrás, assentindo. — Eu não estou atrapalhando seu casamento, Sophia. Mas eu sei, de alguma forma, que quem irá afundar essa relação é o próprio Daniel. E quando isso acontecer, eu serei seu único ombro amigo. Sophia o encarou por um segundo. Imaginou se ele não estaria tramando alguma coisa contra seu casamento com Müller, mesmo sabendo que Miguel não era do tipo que bolava planos mirabolantes para prejudicar alguém. Até porque, ela estava ciente de que ele sabia disso, se Miguel, de alguma forma, atrapalhasse sua relação com Daniel, ela jamais olharia em sua cara novamente. Também pensou em suas palavras, afirmando que Daniel quem acabaria com aquele casamento; pegou-se pensando que se ele cometesse mais de suas bobagens, era, sim, uma possibilidade de acontecer. No mesmo instante se lembrou do modo como ele quis se esquivar do assunto sobre Melissa e do favor que fez a ela e sentiu uma pontada de desconfiança, de algum modo tinha a impressão de que Daniel mentiu. Sem contar a presença da tal Clarisse Corrêa e sua insistência que eles conversassem a sós. Tentou afastar da mente qualquer preocupação em relação a isso. Daniel já havia provado seu amor por ela. — Ouça, Miguel, — disse enfim — você é um homem bonito, é romântico, carinhoso… — ela viu um sorriso nele começar a aparecer —, eu tenho certeza que existem mulheres que fariam fila para ficarem com você. Então, por favor, me esqueça. Não queira migalhas, pois você merece, sim, algo bom e real — decretou, e estava passando por ele quando foi impedida, a mão masculina a segurando com delicadeza pelo braço. Seus olhares se chocaram, e ela não fez menção de tentar se soltar do aperto.


— Só guarde bem o que eu te disse, Sophia. Cedo ou tarde, isso vai acontecer. — Sussurrou, e antes que ela tivesse tempo de protestar, ele soltou-a e saiu caminhando de volta para a recepção.

♦♦♦

Cinco anos antes daquele dia. Simon Müller ainda estava vivo e com a ideia absurda de fazer um testamento exigindo o casamento dos filhos como condição para que eles recebessem suas respectivas heranças. Conversava sobre isso com seu amigo ‒ e tabelião ‒Everaldo Corrêa, também seu confidente. Explicava-lhe o que gostaria que fosse incluído em seu testamento quando Clarisse ‒ uma jovem de pele branca, olhos e cabelos negros, por volta de 20 anos ‒surgiu na sala, adentrando o recinto com uma mochila pendurada aos ombros. Ao ver Simon, o pai do garoto por qual cultivava uma paixão desde que tiveram sua primeira noite juntos, abriu um largo e encantador sorriso. Aproximou-se alegremente, beijando-o no rosto. Depois, cumprimentou o pai e percebeu uma folha apoiada sobre suas pernas, e quis saber o que se sucedia. — Simon está fazendo o testamento dos bens. — Everaldo explicou. — A condição para esses filhos cabeças-duras que ele tem é um casamento. Um tanto quanto antiquado e arcaico, devo admitir… — proferiu e mirou Simon que revirou os olhos e riu em seguida. — É a única maneira que encontrei para tornar aqueles garotos homens de verdade. — Justificou-se com seu forte sotaque suíço. — Se Laura estivesse viva, concordaria comigo. Clarisse dispersou-se no assunto, uma ideia totalmente absurda ‒ mas incrivelmente boa ‒ pipocando sua cabeça. Ela nunca esquecera Heitor, jamais foi capaz de apagar da sua mente os olhos azuis intensos, os cabelos castanhos claros penteados de lado e o sorriso maroto que ele punha nos lábios sempre que estava tramando alguma coisa. As vozes de seu pai e Simon ressoavam em sua cabeça de forma longínqua, tão perdida que estava nos próprios pensamentos e na ideia que surgiu diante dos seus olhos. De repente, desembestou a falar, dizendo que conhecia Heitor o suficiente e sabia que ele poderia se casar apenas para conseguir a herança e depois se divorciaria, o que levaria os planos de Simon Müller por água abaixo. Everaldo a advertiu por se intrometer no assunto, mas Simon espalmou, permitindo que a menina continuasse dizendo, e ele deu-lhe toda a atenção. — Mas se ele tiver uma prometida, uma mulher que esteja disposta a se casar com ele e ser uma esposa exemplar, então, ele não teria para onde fugir — divagou ela, animada. Simon não deixou de rir da empolgação da garota: — E onde é que eu arrumaria uma mulher assim, como você descreveu? Clarisse se aproximou, e segurando firme as mãos envelhecidas do senhor de olhos cinzentos, sorriu de forma angelical. — Senhor Simon, eu amo seu filho. Há um tempo tivemos um envolvimento e eu me apaixonei


— disse baixinho. — Mas Heitor não é de se apegar, e sequer me deu uma chance para mostrar que ele poderia me amar como eu o amo. — Simon agora a encarava com uma expressão que era uma mistura de seriedade, surpresa e curiosidade pela declaração súbita da moça. Buscou pelos olhos de Everaldo e este estava tão pasmo quanto seu amigo. — Eu posso ser a prometida de Heitor.

♦♦♦

Daniel estava pasmo. Teve de se levantar da cadeira e andar de um lado a outro para assimilar a história que acabara de ouvir. Afagou o rosto, totalmente atônito, e virou-se para Clarisse, que se mantinha no mesmo lugar. Pestanejou e olhou para ela, quase não conseguindo acreditar. — Você é a prometida do Heitor? — Indagou quase apavorado. Com um suspiro, Clarisse saiu de seu lugar e virou-se para encontrar os olhos aturdidos de Daniel. — Sim, Daniel. — Confirmou. — Eu sei que parece loucura, mas… — Não, não parece! — Falou em voz alta. — É loucura! Até onde você foi capaz de ir por causa do meu irmão, Clarisse? Ela suspirou novamente, ajeitando as madeixas negras onduladas. — Eu era uma tola apaixonada por ele, Daniel. Sabia disso, não é? Eu agi por impulso, porque estava cega de amor pelo seu irmão! Daniel a fitou, ainda sendo difícil digerir a informação que chegava ao seu cérebro. Pensou em como Heitor teria um surto quando soubesse que sua prometida havia aparecido para firmarem o casamento – e mais: sua prometida era Clarisse, uma louca com que ele se envolveu no passado e quase que o perseguiu por algum tempo. Praguejou mentalmente seu falecido pai por ele ter concordado com tal loucura ‒ assim como Everaldo Corrêa. Segundo Clarisse, prontamente eles lhe haviam negado essa proposta, Simon acreditando que era um delírio de adolescente apaixonada ‒ e de fato era ‒ mas Clarisse conseguiu convencê-lo, de alguma forma, a entrar em seu delirante plano. Por que não foi mais firme, pai?, bufou pensando. Esvoaçou seus pensamentos. Definitivamente Clarisse e Heitor não se casariam, já estava decido há muito tempo. A herança que correspondia ao irmão seria entregue a Daniel ‒ por conta do descumprimento do testamento ‒ e assim que estivesse com o dinheiro em mãos, devolveria. Não havia necessidade desse casamento insano. Olhou para cima, como se pudesse divisar seu velho pai em algum lugar do cosmo, e perguntou por que ele tinha de fazer aquela outra surpresa. É claro que Daniel não se surpreenderia se o testamento tivesse sido mais claro e objetivo em relação a essa prometida em


vez das simples palavras: “Heitor terá de se casar com uma prometida, que será revelada no tempo certo”. E pela presença de Clarisse ali em sua frente, aquele dia era “o tempo certo”. — Acredito que você veio para querer firmar esse casamento? Clarisse exasperou, retornando até a mesa e se sentando. Daniel voltou também, sentando-se, agora, uma cadeira ao lado dela. — Eu queria poder cancelar essa loucura que fiz. Daniel, eu conheci um homem maravilhoso nesses anos e eu o amo de verdade, mas esse casamento arranjado é um obstáculo entre mim e Leonardo. — Então simplesmente o desfaça! — Não é tão simples, Daniel — rebateu. — Você sabe o que acontece se descumprirmos esse acordo? — Sei. Heitor perde a herança, que vai direto para o sócio majoritário com mais ações, ou seja: eu. Já conversei com ele sobre isso, Clarisse. Irei devolver a parte dele e todo mundo sai feliz. Clarisse sorriu, achando graça na ingenuidade de dois homens adultos como Daniel e Heitor. — Não é bem assim. — Respondeu. — Há duas partes envolvidas nisso, Daniel. Para garantir que eu realmente me casasse com Heitor, meu pai e o seu firmaram um contrato. Se eu descumprir isso, meu pai pode perder o cartório que ele tem. — Justificou, e suspirou em seguida. Daniel soltou um suspiro que estava preso, incrédulo com a situação naquele momento. Tentou não pensar na reação de Heitor quando soubesse do tal casamento, mas era quase impossível. — Olha, eu vim te procurar porque eu não tive mesmo outra saída e eu também não quero esse casamento, mas eu não posso deixar que meu pai perca o que ele lutou tanto para ter. Por isso, gostaria de saber se você pode intermediar por mim e falar com Heitor, explicar o que houve e propor um casamento de conveniência com ele. Só o tempo de ele recuperar sua herança e eu cumprir com o contrato entre o seu e o meu pai. Depois disso, eu assino o divórcio. Müller logo se viu em uma saia justa e a encarou como se seu pedido fosse algo muito extremo. Por que diabos ele tinha que ter essa missão ‒ quase suicida ‒ de contar ao irmão sobre ele ter de se casar? — Por que você mesma não diz a ele? —Questionou-a. Ela quem armara a confusão, era ela, então, quem deveria arcar com as consequências e enfrentar Heitor. — Daniel, você é irmão dele. Tenho certeza que ele te ouvirá melhor. Se eu o procurar para dizer as coisas que acabei de te dizer, ele vai me dar as costas e sumir do mapa. Estou te implorando para intervir por mim — proferiu em tom de súplica. Inspirou fundo e levantou-se, caminhando até uma pequena mesa auxiliar com uma garrafa de café. Precisava de cafeína para pôr sua cabeça em ordem. — Até quando vocês têm que se casar?


— Temos no máximo um ano. Ele apertou a ponte do nariz antes de se servir de uma pequena dose da bebida. Avaliou suas opções, e por fim voltou-se à Clarisse, virando o café amargo de uma vez. — Me dê um tempo. Verei o que posso fazer. Talvez eu consiga cancelar esse casamento de alguma maneira sem que sua família saia prejudicada. Clarisse acenou, mesmo sabendo que não havia mais nenhum tipo de opção. A única coisa que precisava ser feita era aceitar aquela maluquice e contar de uma vez para Heitor. Pensou que como o casamento seria apenas de conveniência, Heitor aceitaria mais facilmente. Mas acabou concordando em dar um tempo a Daniel. — Quanto tempo? — Quis saber. Daniel olhou no calendário. Primeira quinzena de fevereiro. — Até final de maio. Se eu não encontrar nenhuma solução, eu conto a ele. Enquanto isso, não comente com ninguém, por favor. — Está bem. — Ela também se levantou e se aproximou dele, entregando um cartão de visitas que retirou do bolso. — Qualquer coisa, me ligue. Müller segurou o pequeno cartão e encarou as informações contidas nele.

Clarisse Corrêa Assessoria Administrativa e Contábil.

Não pode evitar em sorrir ao se lembrar da época de faculdade, e até ficou feliz por saber que ela ainda havia se especializado em Contabilidade. Ergueu os olhos para Clarisse quando a ouviu dizer sobre não deixar de entrar em contato. Ele acenou rapidamente e, a acompanhando até a porta, se despediu. Clarisse sumiu de sua vista, lentamente ele cerrou a porta e se recostou à madeira. As últimas informações inesperadas continuavam vivas e acesas em sua mente. Acalmou seu coração, reavaliando a situação. Teria de encontrar uma solução para o casamento maluco de Heitor e Clarisse, ou o irmão teria um surto, por mais que a moça tivesse dito que também não gostaria de se casar e que o faria apenas para cumprir com o combinado. Não deixou de pensar na ironia do momento: Heitor, assim como ele, se casando somente para ter sua herança. Pegou-se rindo brevemente imaginando se o irmão também se apaixonaria por Clarisse. Balançou a cabeça, não querendo desviar a atenção do seu foco principal. Precisava resolver o problema do irmão.


38 AMOR ENCARNADO ês de maio. Primeiros dias. Daniel acordou lentamente e rolou na cama, ainda sonolento, e observou extasiado a beleza de Sophia a seu lado. O corpo ainda estava despido do sexo na noite anterior, coberto apenas pelo tecido do lençol. Por alguns segundos, como de costume desde que, finalmente, se assumiram, ficou apenas a olhando – um sorriso pequeno nos lábios: os cabelos louros caíam-lhe sobre a face, emaranhados, mas que, ainda assim, não lhe tirava a beleza esplêndida e natural. Retirou os fios espalhados pelo rosto e depositou um beijo sereno em sua testa. Levantou-se com cuidado para não a despertar, pois ainda era mais cedo do que de praxe. Dirigiu-se até o banheiro e lavou o corpo rapidamente, limpando o suor que impregnou em sua pele; sorriu para si mesmo pensando que aquele suor era a prova do amor que existia entre os dois. Um amor intenso, avassalador, sereno e real.

M

Enrolou uma toalha na cintura e agarrou outra, e, enquanto voltava para o quarto, secou os cabelos alourados. Sorriu ao ver que Sophia continuava em um sono tranquilo e profundo. Ele adorava vê-la dormir, observar e atentar-se à tranquilidade de seu descanso, do ronronar baixinho, das curvas perfeitas ‒ e muitas vezes nuas ‒ sob os lençóis. Secou o corpo e mirou-se no espelho. Vestiu-se em seu costumeiro terno lembrando-se do fim de semana que ele e Sophia fizeram a seus pais. Tinha sido um domingo agradável entre as duas famílias, inclusive Heitor havia comparecido com eles e trocou olhares intensos ‒ e discretos ‒ com Isabela, mas que não fugiram aos olhos de Daniel, e este sem demora o advertiu. De nenhuma maneira queria que Heitor se envolvesse com a irmã de Sophia. Olhou mais uma vez para Sophia, através do espelho, e decidiu deixá-la dormir mais um pouco. Nos últimos dias estavam trabalhando bastante, às vezes até tarde da noite, comparecendo à jantares e reuniões; mas ele sabia que parte desse cansaço não era devido apenas ao trabalho. O casal também saía para se divertir, namorar, ter um momento só deles. Descendo até a cozinha, recorda-se vividamente de uma dessas noites que ele precisou ficar até um pouco mais tarde na empresa. Sophia insistiu que o fizesse companhia, mas ele não quis e pediu para que ela fosse para a casa e descansasse. Sophia atendeu ao seu pedido, mas dali a poucas horas retornou novamente, trazendo, desastrosamente, comida japonesa nas mãos. Daniel correu para ajudá-la, enquanto sua esposa ria de seu desastre e tirava da bolsa uma toalha de mesa e esticava sobre o chão, dizendo que eles deveriam apreciar a vista dali de cima e ter uma refeição gostosa. Sentaram-se de frente para a grande janela de vidro na sala da Presidência e se deliciaram com as iguarias japonesas. Trocaram carícias e beijos serenos sob a luz do luar, e Sophia tocou a singela joia de prata que havia recebido na noite de seu noivado, deixando Daniel extremamente feliz em saber que ela não o tirava do pescoço. Desse dia em diante, sempre que Daniel precisava


ficar até mais tarde na empresa, Sophia o fazia companhia, esticavam uma toalha em frente à janela e ficavam por um tempo juntos, dando a eles o pequeno luxo de observar o céu estrelado e a cidade iluminada. Uma vez na cozinha, Daniel preparou um café forte, e enquanto a cafeteira processava a bebida, ele encarou a parede ali próxima, um calendário marcando dia 8 de maio. Suspirou pensando que no dia 31 precisava contar a Heitor sobre seu casamento com Clarisse. Naqueles meses, ele havia conversado com seu advogado, lido o testamento outras vezes, falado com Clarisse e com o advogado dela, mas não havia nenhuma solução para resolver o impasse. Heitor teria, sim, de se casar com Clarisse. Müller até havia sugerido uma quantia relevante que cobriria as perdas da família Corrêa, mas a moça alegou que não havia somente o valor material em jogo, mas também o sentimental. Seu pai primava por demasiado o seu tão querido Cartório. Sem opção, Daniel não viu outra saída a não ser contar a Heitor. Ligou para Clarisse e combinaram de os dois jogarem essa bomba para o irmão, tendo de se encontrarem no último dia do mês. Precisou esconder, ainda, as informações de Sophia, com medo que, sem querer, ela contasse a Heitor sobre esse casamento. Para isso, no dia da visita inesperada de Clarisse, Daniel apenas explicou que ela estava atrás de um emprego como assessora administrativa. Sophia concordou mesmo desconfiada. Dispôs o café na caneca e bebeu uma dose generosa. Depois arrumou uma bandeja farta e deliciosa de café da manhã com frutas, suco, leite e cereal e voltou para o quarto, onde Sophia continuava dormindo. Deixou a bandeja em um lugar qualquer e engatinhou-se até sua esposa, deitando ao seu lado e tocando-a na face. Ela resmungou baixinho e se remexeu, fazendo-o sorrir. Se ajeitou mais perto dela, traçou beijos na linha da sua mandíbula, inalando fundo o cheio natural que exalava do pescoço delicado. Sophia ronronou, e sem demora sentiu a mão macia de Daniel acariciando sua barriga e se arrastando até o colo. Abriu um sorriso sonolento e estapeou a mão abusada; em seguida ouviu-se um gargalhar, e Sophia levantou as pálpebras para encarar um Daniel sorrindo de ponta a ponta, os dentes perfeitamente alinhados e brancos sendo exibidos. — Bom dia, dorminhoca. — Desejou e a beijou nos lábios delicadamente. — Bom dia — respondeu jogando seus braços ao redor da nuca dele e correspondendo o beijo. Afastou-se um pouco, o avaliando. Enrugou o cenho, confusa. — Já está de terno? Ele riu, e a segurou pelo queixo, beijando-a outra vez. — Levantei mais cedo. Trouxe nosso café. Os olhos de Sophia brilharam diante ao homem esplêndido. Ela nunca esperou tanto de Daniel. Ele era carinhoso, e se permitisse ficariam o dia todo juntos, deitados, abraçados um ao outro, trocando carícias e beijos, rindo de piadas e histórias de infância e adolescência que ele lhe contava. Ela permaneceu em silêncio, apenas sorrindo encantada e feliz com a vida que vinha tendo. Desde que ela e Daniel firmaram o casamento, os últimos três meses têm sido os melhores. Em dias frios Daniel acendia a lareira da sala e eles levavam uma porção de edredons e travesseiros para o sofá, se escondiam debaixo da coberta, Daniel a envolvia em um abraço aconchegante e caloroso, enquanto esperavam algum filme ou programa, que eles logo perderiam o interesse, começar. Às vezes, eles caiam em sono profundo e dormiam no sofá, confortáveis um nos braços do


outro. Segurou uma pequena risada ao se lembrar de em uma noite estarem namorando no sofá, Daniel sem camisa, cinto desfivelado e zíper aberto; ela, de sutiã sob ele, recebendo beijos candentes, e Daniel tentava abrir o zíper do short dela. Heitor surgiu de repente, os surpreendendo. Ele ficou paralisado um segundo enquanto Daniel tentava, com o próprio corpo, esconder a quase nudeza de Sophia, que tapava o rosto vermelho com as duas mãos. Heitor gargalhou, para enfurecer o irmão, e se retirou, alegando que os deixaria em paz. — Só tome cuidado para não manchar o sofá, Daniel. — Disse rindo antes de sumir para fora de casa. Mesmo que ainda desconcertados com o flagra, voltaram a namorar, e minutos depois já estavam suados pelo calor da paixão consumada. Sophia voltou à realidade quando Daniel sentou-se do seu lado, apoiando a bandeja com o desjejum. Divagara tanto que nem percebera que ele se levantou. Sorriu pequeno e pescou uma uva, a levando até a boca dele. Ele abriu um sorriso de canto e abocanhou a fruta, segurando Sophia pela nuca e a beijando em seguida, fazendo-a gargalhar. Após o desjejum, que fora, como sempre, muito divertido, cheio de risadas, beijos, carinhos e conversas, seguiram para a Swiss. Trabalharam arduamente o dia todo, mas eles sempre encontravam brechas para uma troca de beijos ou apalpões no corpo. Ao fim do expediente, Sophia surgiu na sala da Presidência. Jogou o longo casaco sobre o corpo coberto pelo vestido vermelho, enquanto fechava a porta. Daniel, concentrado no computador, levantou seus olhos, encontrando-se com os de Sophia. Abriu um pequeno – e cansado – sorriso. Ela se aproximou vagarosamente e contornou a mesa. Daniel arrastou a cadeira e Sophia se sentou em seu colo, envolvendo os braços na nuca de seu esposo. — Vamos para casa? — Inquiriu deixando um beijo rápido em seus lábios. As mãos masculinas alisaram-na nas costas e um suspiro exasperado escapou dele. — Tenho que terminar de ler esse relatório e depois tenho um contrato para digitar. Me desculpe, amor, mas hoje vou ficar um pouco mais — explicou e beijou-a no queixo. — Você precisa de ajuda? — Se prontificou. — Não, quero que vá para casa e me espere. Deixe o ravióli e o fondue prontos. — Disse, e ela sorriu lembrando-se da lambança que sempre faziam com o fondue. — Mas se eu te ajudar, você termina mais rápido. — Sussurrou brincando com a gravata dele. — Quero que esteja descansada e disposta para mim hoje. — Rebateu escorrendo as mãos até o colo dela, roçando a ponta do indicador na entrada entre seus seios. Virou seus olhos brilhantes para Sophia, que mordia o lábio inferior. — Como quiser, senhor Müller. — Concordou, e se levantou após beijar-lhe na boca. — Mas não demore muito. — Advertiu andando até a porta. — Sabe que eu morro de saudade de você. Daniel riu, mesmo que estivesse com seu coração apertado em ter de vê-la ir.


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O telefone em sua mesa tocou, e Daniel se assustou com a quebra repentina do silêncio. Desviou os olhos do computador para o relógio de pulso que marcava nove da noite. Coçou a nuca e suspirou, imaginando que fosse Sophia quem ligava, pedindo para que ele voltasse para casa. Mirou o computador: a tela brilhava esbranquiçada e exibia apenas ¼ do contrato que ele estava digitando. O telefone seguia tocando e Daniel apressou-se em atender. Para sua surpresa, não era Sophia quem ligava, mas o vigia noturno que ficava na portaria, dizendo que havia uma pessoa que gostaria de falar com ele. Daniel enrugou o cenho, querendo saber quem diabos seria àquelas horas da noite. Mesmo contra a própria vontade, e depois de muita insistência do vigia, Daniel seguiu até o térreo somente para ficar enfurecido. Não havia ninguém, mas o funcionário alegava categoricamente que um homem esperava por ele e que ficara ali até há pouco. Müller aguardou mais cinco minutos, homem nenhum apareceu. Bufando, voltou para seu trabalho. Assim que abriu a porta de sua sala, a cena que viu fez suas pernas bambearem. As luzes estavam apagadas e o local era iluminado apenas por algumas velas espalhadas, perto da janela de vidro havia uma toalha de mesa com fondue, ravióli e vinho. Mas o que o deixou de pernas bambas foi a imagem de Sophia. Ela estava sentada em sua mesa, a perna esquerda dobrada e a outra, esticada; trajava um espartilho de couro que faziam seus seios saltarem de forma natural; nos pés um salto preto e vazado. O rosto estava marcado por uma maquiagem forte e sexy, os cabelos desgrenhadamente sedutores. Daniel pestanejou, enfeitiçado pela cena diante dele. Vagarosamente Sophia saiu da mesa e caminhou sensualmente até ele, o segurando pela gravata quando próximo o bastante. — Ow! — Ele sussurrou enfim, observando as curvas esculturais de Sophia. — Meu Deus, Sophia, quer me matar? Ela sorriu, virou-se ainda o segurando pela gravata, e o encaminhou até a mesa, encostando-o nela. — Você está muito tenso, Dani — murmurou com a voz sexy e tocou-lhe os ombros, escorregando o paletó. — Vou relaxá-lo. — Proferiu e o mordeu no lábio inferior; o gesto o fez grunhir de prazer. Sem pressa alguma, Sophia desabotoou a camisa branca quase transparente e observou o peito largo e musculoso. Beijou-o acima da mama, traçando um caminho em círculos com a língua. Daniel jogou a cabeça para trás, controlando os próprios instintos e anseios. Rosnou de frustração quando ela se afastou de sua pele; ergueu os olhos, a vendo caminhar até o fondue e trazê-lo até a mesa. Esperou, curioso, pelo o que ela faria. Sophia esparramou um pouco de chocolate sobre o peito e abdômen de Müller e ele gemeu só de imaginar o próximo passo. Sophia agachou-se, mirando com lascívia e desejo para o dorso pecaminoso de Daniel e subiu passando a língua por todo o caminho de chocolate.


— Sophia… — gemeu de prazer, e ela sorriu. — Você gosta, senhor Müller? — Perguntou, a voz sempre sedutora. Chegou-se até os lábios dele e o beijou, repuxando a parte inferior com ferocidade. Ele engoliu em seco, seus hormônios acelerados. — Eu adoro, senhorita Hornet. — Sussurrou buscando os olhos dela. Sophia pegou uma uva e mergulhou no chocolate, depois, esparramou mais um pouco sobre o corpo de Daniel. Pôs a uva na boca, agachou-se outra vez e subiu sugando o rastro do chocolate até a boca dele; Müller sugou a uva que estava na boca de Sophia e a beijou intensamente, suas mãos correndo por cada centímetro do corpo tentador, sentindo-se extremamente excitado. A loura repetiu o processo mais algumas vezes, Daniel cada vez mais extasiado, excitado e delirante de amor. Enlouquecidamente, ele a agarrou e a deitou sobre a mesa, beijando-a com o amor sincero que sentia, mas também com o prazer carnal que ardia em cada poro de sua pele. Espalhou um pouco do chocolate por entre os seios, e sem demora os chupou cheio de prazer. As pernas dela o contornaram e ele a pressionava com sua excitação. Num segundo, livrou-se do espartilho e desfivelou a calça. O mesmo prazer imensurável os atingiu com a penetração e seus gemidos foram abafados pelas suas bocas coladas uma a outra. Fizeram amor ali, sobre aquela mesa, diversas vezes, cada uma melhor que a outra, cada vez uma de um jeito diferente – uma experiência única e excitante. Daniel atingiu seu ápice mais de uma vez, de uma forma que nenhuma outra mulher foi capaz, nem a mais depravada com já tinha estado. Ao final, Sophia já estava enrolada no sobretudo que trouxera, e ele vestia a camisa sem abotoar, os dois sentados sobre a toalha de mesa, saboreando o vinho, o ravióli e o resto do fondue. — Daniel. — Ela o chamou recostando-se ao ombro dele. As mãos de Daniel acarinharam as madeixas louras após um beijo em sua cabeça. — Oi, meu amor… — Me promete que não deixará nada atrapalhar nosso casamento? — Perguntou, e buscou pelos olhos dele. Daniel franziu o cenho, confuso com tal questionamento. Mal sabia ele, mas Sophia vinha pensando (mais do que deveria) nas palavras de Miguel, ligando-as às inúmeras bobagens que Daniel já havia cometido e posto em risco a convivência deles e à curiosidade que tinha em saber que favor havia feito a Melissa no passado. Por mais que os últimos três meses tenham sido pacíficos ‒ Melissa havia sumido e Miguel vinha se comportando ‒ algo dentro dela dizia que mais decepções estariam por vir. E Sophia rezava todos os dias desejando estar errada. — Eu prometo. — Disse beijando-a nos lábios. — Você não me esconde nada, não é, Daniel? Ele engoliu em seco, perguntando-se se ela desconfiava de alguma coisa. Lembrou-se do


vídeo comprometedor com Melissa, não havia mais nenhuma cópia ‒ até onde ele sabia ‒ e a ruiva nunca mais aparecera, nem mesmo para cumprir a promessa de vingança pela humilhação que sofreu. Acalmou o coração, não queria ter que esconder nada de Sophia, não queria ter nenhum tipo de segredo com ela, mas descartou qualquer possibilidade de lhe falar a verdade naquele momento. Não queria estragar o momento bom que estavam passando juntos, por isso resolveu que conversaria com ela no dia seguinte. Somente torcia para que Sophia não ficasse irritada pelo fato de ele ter dormido com Melissa ‒ e descumprido a promessa que fez no cruzeiro de não se envolver com ninguém ‒ pois não suportaria seu desprezo. Depois se recordou do real motivo da aparição de Clarisse e disse a si mesmo que também contaria tudo a sua esposa. — Não, Sophia. Eu não te escondo nada. Pare com essas paranoias. — Pediu, e a trouxe para seu peito, acariciando a linha de seu braço com ternura. Permaneceram calados por longos segundos, sentindo um ao outro, dispersos em seus próprios pensamentos: Sophia ainda com algo lhe dizendo que mais uma vez choraria por Daniel; Daniel reforçando mentalmente que era preciso contar a verdade antes que ela viesse à tona e, de alguma forma, prejudicasse sua relação com Sophia. Minutos depois, haviam deixado seus questionamentos de lado e se amavam sobre o sofá do escritório.

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Sophia acordou na manhã seguinte totalmente indisposta. Não soube dizer se era pelo cansaço da noite passada, já que ela e Daniel aproveitaram muito bem (obrigado) cada minuto, ou se era algum mal-estar, algo que ela comeu, ou uma virose… — Vou ficar em casa hoje. — Falou baixinho, enfurnando-se mais debaixo do edredom, enquanto via-o se arrumar para mais um dia de trabalho. — Não me sinto muito bem. Daniel a encarou através do espelho, preocupado. — Quer que eu te faça companhia? — Prontificou-se, e foi em sua direção. — Não precisa, Dan. Deve ser canseira por causa de ontem — alegou, e sorriu o vendo sorrir também. Ele se curvou e a beijou nos lábios, escorregando sua palma pela pele do rosto dela. — Vou pedir para que te tragam uma sopa no almoço e alguns remédios, caso precise. Descanse bem, nem pense em ir à empresa me fazer companhia. Eu ligo para saber como está. — Sophia apenas assentiu manhosamente e fechou os olhos, querendo dormir mais um pouco. Estava quase caindo no sono outra vez quando sentiu o estalo dos lábios quentes de Daniel contra os seus. Esboçou um pequeno sorriso e dormiu o resto da manhã. Acordou com seu estômago embrulhando e precisou correr para o banheiro, deslizou os joelhos pelo piso até alcançar o vaso sanitário e soltar toda a refeição da noite passada. Limpou os lábios com as costas da mão, o


gosto azedo na boca. Escovou os dentes ainda com seu estômago embrulhado, somando-se a um mal-estar inexplicável: uma mistura de vertigem e sonolência. Arrastou-se de volta para o quarto e pensou em ligar para Daniel, pedir que ele lhe viesse fazer companhia, sentir os braços dele em volta de si, a aconchegando e a confortando ao mesmo tempo. Sentou-se na cama querendo fazer a tontura passar. Mirou em direção à parede. O calendário ali marcava nove de maio. Franziu o cenho e procurou por uma pequena agenda na gaveta de seu criado mudo. Folheou rapidamente até encontrar o que queria. Tapou a boca, vendo, desnorteada, o pequeno calendário menstrual que tinha o costume de marcar para ter melhor controle. Vestiu-se rapidamente, entrou no carro e foi até a farmácia mais próxima. Comprou um pequeno pacote e retornou o mais rápido que pôde – seu coração acelerando e as lágrimas já acumuladas nos olhos. Chegou e subiu a escada pulando dois degraus de cada vez, ignorando até mesmo Heitor que estava por ali e a cumprimentou. Fechou a porta do quarto e foi direto para o banheiro, abrindo, freneticamente, o embrulho. Seguiu as instruções na embalagem e fez o exame. Segundos depois, com as mãos tremulantes, segurava o teste de gravidez. Olhava fixamente para o resultado, paralisada, emocionada, atônita. Os olhos lacrimejavam, o coração ricocheteava no peito em ritmos descompassados. Assimilou a realidade e deixou uma lágrima escorrer. Olhou novamente para o pequeno objeto. Uma carinha sorria para ela. E quatro palavras que fizeram seus hormônios explodirem em seu âmago.

Cinco semanas de gravidez.


39 DENTE POR DENTE exame de farmácia foi guardado no fundo de uma gaveta, num lugar que provavelmente Daniel não encontraria. Sophia sentou-se na cama, ainda assimilando os últimos acontecimentos. Estava eufórica, nervosa e feliz. Levou a mão até seu abdômen, e sorriu pensando que ali dentro dela crescia um pequeno ser, um fruto do amor entre ela e Daniel.

O

Sorriu ainda mais, largamente, ao imaginar o quão enérgico e entusiasmado Daniel ficaria ao saber da notícia. Principalmente porque há alguns meses ele havia desejado esse filho. Estava demasiadamente nervosa para contar a novidade e ver o brilho intenso dos olhos claros se intensificarem, de presenciar o sorriso contagiante que ele abriria e de ver a alegria espontânea que exalaria assim que soubesse que seria pai. Respirou fundo controlando sua ansiedade. Iria contar, mas no momento certo. Buscou pelo calendário na parede, e sabia que o dia propício para contar que eles teriam um filho seria exatamente dali a uma semana. No dia dezesseis de maio, data em que Müller completaria 30 anos. Seria o presente perfeito. Para tanto, ela queria que fosse uma surpresa digna, e já começava a planejar uma festa surpresa, convidando seus familiares e os amigos mais próximos. Correu para o banheiro e tomou um banho longo e quente, não conseguia parar de alisar sua barriga, sempre imaginando se seu bebê seria menino ou menina, e mentalmente já selecionava alguns nomes. Riu ao pensar que talvez ela e Daniel não concordassem com um ou outro nome. Talvez fosse preciso fazer um acordo: menino ele escolhe, menina ela escolhe; ou vice-versa. Enrolou-se numa toalha, e uma vez no quarto estava mais disposta e procurava alegremente por uma roupa que realçasse sua felicidade. Vestiu uma regata de um amarelo alegre e um jeans desbotado. Por longos segundo ficou observando-se no espelho, muito ansiosa pelo avanço da gestação e pelo crescimento de seu bebê, fazendo sua barriga arredondar-se. Diferentemente de muitas, não estava se preocupando com a parte estética. Não se importaria se engordasse uns quilos, ou que com o passar dos meses ficasse um pouco inchada. Seu filho, agora, era a maior alegria que poderia sentir, o amava mais a cada segundo que se passava desde que descobrira sua gravidez. Era um amor totalmente diferente do que ela pudesse conhecer; amava uma pequena vida, a qual ela ainda sequer vira o rosto, sequer sabia o sexo, nem nome ainda tinha, mas seu amor pelo pequeno grãozinho aumentava exponencialmente. Estava radiante com sua gravidez. Não conseguia tirar o sorriso do rosto, não conseguia parar de alisar sua barriga. Desceu até a cozinha, querendo se alimentar, porque agora mais do que nunca precisava se manter saudável. Sorriu para si mesma, satisfeita, ao perceber que seu mal-estar havia passado. Não soube dizer se foi mascarado pela felicidade que a tomou ao se


ver grávida ou se fora por ter vomitado. Fez um desjejum enriquecido. Daniel, às vezes, levava um café muito calórico ou pobre em vitaminas e proteínas, o que nunca fora um problema para ela, mas com a chegada do bebê, Sophia precisava cuidar da saúde dele também, para que nascesse uma criança forte e saudável. Enquanto mastigava a fatia de um pão integral, não evitou em pensar em como seria a feição do seu pequenino. Com certeza teria os olhos claros, já que ela e Daniel tinham, e ela torcia para que tivesse o formato dos de Daniel, ou ainda, que tivesse o nariz proeminente do pai. Mas que jamais tivesse a personalidade de, às vezes, ser um idiota. Sophia riu ao pensar nisso. Ao final, seguiu para uma clínica e fez o exame de BetaHCG. Queria ter certeza de que estava mesmo grávida, já que um exame de farmácia não era tão preciso e confiável o suficiente para ela. O resultado do BetaHCG colocaria dentro de um envelope e entregaria a Daniel em seu aniversário, juntamente com a imagem do primeiro ultrassom do bebê. E Sophia se apressaria em marcar uma ultra vaginal com seu ginecologista para tal. No caminho de volta, seu celular toca, vê o nome de Daniel brilhando na tela. Abriu um largo sorriso ao se lembrar de que ele prometeu ligar. Atendeu, acionando o viva-voz. — Oi, querido. — Espero que esteja melhor. — Sim, estou, Daniel. Acho que foi o vinho — mente, e volta sua atenção para a estrada. — Então não vai beber mais, senhora Müller. Ela riu um pouco, achando graça no exagero dele. Logicamente que não poderia mais abusar do álcool por conta do bebê, mas caso não estivesse grávida Daniel estaria exagerando. — Meu Deus, que cuidado extremo — proferiu de bom humor. — Não se preocupe, senhor Müller, passarei um tempo mesmo sem beber. — Acho bom. Precisa de alguma coisa? Remédios, comida… de mim? — E ele sorriu pelo canto dos lábios. — De você, sempre. — Quer que eu vá te fazer companhia? — Não precisa, Dani. Sei que tem uma reunião importante ainda hoje. Te vejo à noite. — Tudo bem, mas se precisar de qualquer coisa pode me ligar. Ficarei alerta com o celular. Ela sorriu feliz com tamanho zelo de Daniel. Concordou, dizendo que se precisasse, ele seria o primeiro com quem entraria em contato. Encerrou a ligação e fez seu trajeto até sua casa. Assim que chegou, durante o restante do dia esperou ansiosamente por Daniel. Teve medo que sua ansiedade extrapolasse os limites e ele percebesse. Não queria de forma alguma permitir que Daniel soubesse da gravidez antes do planejado. Quando o horário que Daniel chegaria em casa foi se aproximando, Sophia tomou outro banho, passou uma colônia no corpo e escovou os


cabelos; ela costumava esperá-lo com vinho, ravióli e fondue quando queria agradá-lo, fazer amor devagarinho sob os lençóis, ou simplesmente ficar na sacada envolvida em seus braços observando o céu estrelado. Poucas vezes houve motivos especiais, mas naquele dia havia uma causa mais que especial, e ela queria comemorar, mesmo que Müller não fizesse ideia do que se passaria. Deixou o ravióli, uma taça de suco de uva para ela e uma de vinho para ele e o fondue na mesa redonda na sacada, alinhou o lençol da cama e jogou algumas pétalas de rosa, preparou a banheira com um banho espumoso pensando que queria fazer amor em cada canto daquele quarto, lembrando-se da sensação esplêndida que era o sexo com a água morna sobre seus corpos. Ligou rádio em um volume agradável, selecionando Everything I Own 4, na versão de Rod Stewart, para tocar. Sorri, olhando tudo em volta. Abaixa as luzes e se deita sobre a cama, vestindo uma camisola branca. ♫You sheltered me from harm Kept me warm, kept me warm You gave my life to me Set me free, set me free The finest years I ever knew were all the years I had with you I would give anything I own, Give up me life, my heart, my home. I would give everything i own Just to have you back again♪ Sem muita demora, a porta se abre e Daniel surge. Ele franze o cenho e esquadrinha o local a sua volta. Vê Sophia deitada na cama, as pernas brancas despidas e os seios soltos dentro de uma camisola. Sorri singelamente, e fecha a porta devagar, já imaginando que teriam uma noite de sexo. Não deixa de rir ao se lembrar da noite anterior. Ela com o espartilho, o sexo sobre a mesa, no sofá, o ravióli, o vinho, o chocolate. — Você demorou. — Sophia diz, e ele olha no relógio no mesmo instante. — Na verdade, cheguei quinze minutos antes do costume — disse entrando e tirando o paletó, com um sorriso malicioso nos lábios. — Você está bem? — Melhor impossível. — Declarou com um sussurro e se levantou, indo de encontro a ele. Perto o bastante, o envolveu pela nuca e deixou um beijo sereno e ao mesmo tempo profundo nos lábios de Daniel. Suas mãos escorregaram pelas costas largas, e sem demora ela sentiu as mãos grandes a segurando pela cintura forçando seu corpo a ir de encontro com o dele. — Pelo jeito está melhor, mesmo — ciciou separando suas bocas, e olhou ao redor. Engoliu sua bílis. A cama jazia perfeitamente arrumada e com algumas pétalas; na sacada, uma mesa posta com o costumeiro ravióli e fondue. Ele sabia, mais do que ninguém, que essa pequena combinação era o sinal de que Sophia e ele teriam uma noite intensa de sexo e amor.


Tentou desviar dos pensamentos o fato de ele querer conversar sobre o vídeo. Parecia que cada vez que ponderava contar-lhe sobre isso, havia um momento demasiadamente bom, e ele se via de mãos atadas, não querendo estragar tudo com o assunto que, provavelmente, a deixaria irritada. Mas durante todo aquele dia foi atormentado por sua consciência. Algo o obrigava a ser franco com Sophia, a abrir-se e falar-lhe de seu deslize, do seu vídeo comprometedor com Melissa. E ele estava decidido que assim que chegasse em casa teriam essa conversa. No entanto, ao se deparar com o pequeno ambiente romântico, outra vez quis dar um passo atrás e adiar a verdade. Sua consciência o acusou novamente, o obrigando a não deixar nada para outra hora. — Sim, muito melhor. — Sophia sussurrou traçando a ponta do indicador sobre o peito dele. — Eu quero tanto fazer amor com você, Daniel — e o mordeu de leve no queixo. — Não sabe como estou feliz. Daniel exibiu um sorriso fraco, meio desconcertado. Como queria ter que adiar aquela maldita conversa! Não querendo fugir mais, a afastou delicadamente. Sabia que, se continuasse recebendo carícias, não resistiria, perderia o foco, deixaria a verdade para trás e cederia ao desejo de tomá-la. — Sophia, amor, precisamos conversar. Ela o olhou confusa. Pôde sentir na voz dele um tom diferente, um pouco nervoso e preocupante, quem sabe. Suspirou e espiou ao redor, todo o ambiente arrumado para que eles pudessem comemorar a gravidez ‒mesmo que somente ela soubesse ‒ e não queria deixar que nada estragasse aquilo. Deu um passo atrás e cruzou os braços, olhando fixamente para ele, dizendo: — Espero que não sejam chateações. Daniel engoliu em seco, desviando os olhos. — Provavelmente é, sim, uma chateação. — Suspirou, não sabendo como seria a reação de Sophia sobre o vídeo. — Então não me diga, Daniel. — Pediu se aproximando outra vez e o segurando pela gravata. — Estou num momento tão feliz, preparei tudo isso para nossa noite de sexo, não sabe como contei cada segundo para te ver. Não quero que estrague me chateando com algum assunto. Deixe para amanhã, por favor. — Sussurrou o olhando de baixo para cima, as mãos agarradas à gravata desceram sensualmente por seu tórax. Daniel se viu em um beco sem saída. Queria poder contar à Sophia sobre o vídeo e não adiar mais um dia sequer, mas ao mesmo tempo queria atender àquele pedido, e também aproveitar o que fora preparado para os dois com tanto amor. Deixou um suspiro exasperado escapar, cedendo, por fim, aos desejos de sua esposa. Mas reforçou a ela que teriam aquela conversa no dia seguinte, sem falta.


♫You taught me how to love What its of, what its of You never said too much But still you showed the way And i knew from watching you Nobody else could ever know The part of me that can't let go♪ Manhosamente Sophia acenou em positivo e beijou-o no pescoço, deslizando as mãos sedutoras pelo peito até encontrar o primeiro botão da camisa. Empeçou a desabotoá-la sem deixar os lábios dele, beijando-o com serenidade. Ele correspondeu ao beijo tranquilo na mesma intensidade, enquanto suas palmas encontraram a pele da coxa dela e as acariciaram. — Não vamos comer primeiro? — Daniel sussurrou assim que sentiu a compressão dos lábios contra seu peito nu. — Não. Quero fazer amor antes. — Sophia respondeu suavemente, e o girou, empurrando-o para se sentar na cama. Sentou-se no colo dele, lembrou-se mentalmente que deveriam ir devagar, ou a penetração poderia machucar o bebê: — Vamos fazer bem devagarzinho, tudo bem? — Ela pediu, e Daniel assentiu, os olhos fechados e a expressão serena. Sophia despertava nele tanto amor e prazer que os gestos mais simples quase o tiravam do eixo: ouvir sua voz sussurrando e sentir as mãos femininas brandas passeando pelo seu corpo era uma sensação extasiante. Fizeram amor gostoso, lentamente, como Sophia pedira, e mesmo que o sexo tenha sido calmo, não os poupou do suor que conectava seus corpos ainda mais. Agora, Sophia vestia a camisa de Daniel e estava sentada entre as pernas dele, que tinha o peito despido e as pernas cobertas pela calça desfivelada. O preparo na varanda foi trazido para dentro e posto sobre a cama. Daniel franziu o cenho ao ver o suco de uva. Ela gargalhou, e disse que estava somente atendendo ao pedido dele em não tomar mais nada de álcool. — Bom, eu estava brincando. — Alegou. — Não quero que abuse, mas também não precisa se privar. Sei que você gosta. — Eu prefiro dar um tempo, Dan. — Ele respeitou sua vontade, acenando. Passou chocolate no nariz dela e eles riram. Como de costume, a brincadeira e lambança se iniciaram, e no final ‒ após o ravióli, o fondue, o vinho e suco de uva ‒ acabaram dentro da banheira, lavaram seus corpos do suor e do chocolate, e aproveitaram para se amarem mais uma vez, pois o sexo, para nenhum dos dois, era cansativo. Jaziam na cama, sob os lençóis. Sophia já estava cochilando sobre os braços de Daniel. Ele continuava acordado, observando o teto acima de si, o coração estava calmo, mas a mente trabalhava sem parar, sua consciência forçando-o a de qualquer maneira a falar com ela sobre o vídeo e as chantagens – um pressentimento ruim de que se ele não lhe contasse logo, uma série ruim de acontecimentos se desencadearia.


Voltou-se a Sophia e sorriu ao vê-la dormir, afinal, lhe agradava ver a serenidade daquele sono. Pensou em como, muito provavelmente, toda aquela tranquilidade daria lugar à irritação. Imaginou todas as reações possíveis que ela teria. Todas, negativas. Tentou dizer a si mesmo que Sophia seria compreensível e sequer se importaria com o fato. Afastou qualquer preocupação da cabeça e decidiu dormir. No dia seguinte falaria com ela, sem falta.

♦♦♦

— Tudo bem se eu for para a empresa um pouco mais tarde? — Sophia perguntou ainda deitada, o olhando se arrumar. Daniel já estava em pé, dentro do seu terno de grife cinza metálico, justo em seu corpo, que o deixava extremamente sexy. Ela sorriu preguiçosamente admirada com a beleza exuberante diante dos seus olhos. — Ainda estou com sono. Daniel terminou de ajeitar sua gravata e esboçou um pequeno sorriso, fitando-a. Sentou-se na cama, ao lado dela, e a trouxe para seu colo, acariciando os cabelos louros e macios. — Claro, meu amor. Acha normal essa indisposição? — Perguntou preocupado, e beijou-lhe a cabeça, os dedos ainda se emaranhando nos fios alourados. Daniel sabia que Sophia era agitada, levantava-se pela manhã junto com ele, às vezes até mesmo antes. A dificuldade em acordar cedo era de mérito dele e não de sua esposa. Estranhou e se preocupou com a falta de disposição de sua amada nos últimos dias. Temeu que ela pudesse estar doente. Sophia se ajeitou para mais perto dele, confortável com as carícias. Deduziu que a sonolência era algo comum durante a gravidez, mas deveria tomar cuidado em suas palavras para não o preocupar mais ou revelar sua gestação antes do planejado. Sacudiu a cabeça em positivo, dizendo: — Estou bem, Daniel. É só preguiça, mesmo. — Tudo bem — anuiu. — Mas se isso não passar, eu vou te arrastar para o médico. — Decretou, e ela riu ligeiramente, levantando seus olhos para ele. — Como quiser, marido. — Proferiu, e se ergueu para beijar-lhe delicadamente nos lábios. Minutos depois, Daniel já tinha partido e ela voltou a dormir mais algumas horas. Quando despertou, por volta de onze da manhã, sentiu se estômago protestar de fome. Levantou-se e envolveu o corpo em um roupão, descendo até a cozinha para comer alguma coisa. Entrava no local quando se deparou com uma mulher vestindo uma camisa masculina – de costas e tentando alcançar alguma coisa no armário alto. Enrubesceu levemente. Heitor sempre fora indiscreto, mas ela nunca havia presenciado suas conquistas andando seminua pela casa. Não pôde deixar de sentir um leve ciúme ao imaginar Daniel encontrando a garota ali, naqueles trajes. Mas, de repente, afastou seus pensamentos e estreitou os olhos, as curvas daquele corpo sendo, de alguma maneira, familiar para ela. A garota, então, se virou segurando um pote de achocolatado. Sophia arregalou os olhos ao


reconhecê-la, e Isabela se assustou com a presença da irmã. ― Isabela? — Sophia disse confusa. A irmã estava assustada, e pestanejou seguidas vezes. Começou a gaguejar, sem saber o que dizer ou como agir. Pretendia abrir a boca e cumprimentar Sophia, quando se ouviu a voz de Heitor, que sem demora apareceu na cozinha. — Isa, eu estava pensando… — mas parou subitamente assim que viu sua cunhada no cômodo. Paralisou-se um segundo, atônito. Não era exatamente um segredo que ele e Isabela vinham se encontrando há algum tempo, mas Heitor também não queria que Sophia ‒ ou Daniel ‒ soubesse de suas escapadas com Isabela Hornet daquela maneira. — Sophia? — Conseguiu dizer enfim, ainda aturdido. — Achei que estava na empresa. — Você está transando com minha irmã? — Ignorou-o totalmente. A voz saiu uma oitava acima, como se ela não aprovasse aquela atitude. Isabela interveio, pondo-se entre a irmã e Heitor. — Sou adulta, Sophia — disse rígida. — Com quem eu saio ou deixo de sair é problema meu. Sophia separou os lábios, surpresa pela reação da irmã e por tamanha agressividade e audácia em lhe dirigir a palavra daquela maneira. Inspirou fundo, aceitando de que Isabela estava certa. Apesar de a irmã ser desajuizada em alguns aspectos, sabia que ela também era responsável e esperta o suficiente para não se deixar magoar por algum homem. Suspirou e anuiu com um aceno de cabeça. Voltou-se a Heitor, que permanecia em silêncio. — Quebre o coração da minha irmã, e eu faço questão de fazê-lo engolir os próprios testículos. — Proferiu e esboçou um sorriso irônico. Heitor não se intimidou, mas riu, enquanto a via se afastar. Sophia voltou para o quarto, atordoada em saber que Heitor e Isabela vinham se encontrando. Até tinha se esquecido de que precisava comer alguma coisa. Mas de nenhuma maneira voltaria para a cozinha, principalmente sabendo que os dois estariam lá embaixo. Resolveu que passaria em uma padaria e comeria alguma, coisa enquanto fazia algumas ligações para a festa surpresa de Daniel. Vestiu-se rapidamente e saiu de casa, pensando, alegremente, como Daniel ficaria feliz com sua festa surpresa – e mais: com a notícia de que seria pai.

♦♦♦


Os dias foram passando, e Daniel ainda não havia conseguido falar com Sophia sobre o maldito vídeo. Sempre alguma coisa o atrapalhava e ele não tinha uma oportunidade para conversar calmamente com ela. Naquele dia em que ela fora mais tarde para a empresa, ele teve uma reunião de última hora com seu advogado e precisou voltar mais tarde para casa. Foram questões sobre sua herança e os papéis que ele precisava assinar para recebê-la, visto que já estava casado há seis meses. Quando chegou em casa, por volta de dez e meia, Sophia já dormia, e ele não quis incomodá-la. No dia seguinte, estava mais do que decidido a falar com sua esposa, que, pelo jeito, havia se esquecido de que ele queria contar-lhe alguma coisa. Assim que saiu do banho, lá estava ela, toda arrumada para se amarem, exuberante dentro de uma camisa de dormir extremamente curta. Engoliu em seco, mas não estava em seus planos deixar se levar pelas curvas sensuais. Se Sophia tivesse de ir dormir chateada, então, que assim fosse, mas não passaria daquela noite. Porém, assim que ela o beijou e escorregou suas mãos macias por seu tronco, Daniel não raciocinou mais. Envolveu-se no momento e fizeram amor. Quando recuperavam o fôlego, sua consciência o acusou, forçando-o, mais uma vez, a se abrir com ela e contar-lhe a verdade. — Sophia, acho que precisamos daquela conversa, se lembra? Há dias quero falar com você sobre isso. — Pronunciou-se, e ela se virou para encará-lo, lembrando-se, somente naquele momento, de que seu marido havia comentando alguma coisa uns dias atrás. Anuiu e se ajeitou na cama para melhor vê-lo, e pediu para ele começar. Daniel respirou fundo, não sabia exatamente como começar e ele ainda estava aterrorizado com a ideia de que ela ficasse demasiadamente brava. — Você deve saber que sou um idiota. — Começou, a voz levemente tremulante. — E, às vezes, eu sou movido pelos meus impulsos. — Daniel a olhou, e Sophia tinha o semblante enrugado. — Eu te contei uma mentira. — Disse enfim, e ela se afastou de seus braços. — Mentiu para mim, Daniel? — Cuspiu as palavras. — Olha, de verdade… espero que não seja nada sobre a Melissa e o favor que fez a ela. — Advertiu, irritada. Há muito tempo Sophia desconfiava que não havia favor nenhum, e que aquilo ia além de seu conhecimento. Logicamente, ela ponderou diversas vezes ser uma paranoia da sua cabeça, principalmente porque a ruiva vivia querendo atrapalhá-los e provocá-la. Por muito tempo esqueceu-se desse fato, e desde o dia que se entenderam não quis mais tocar no assunto, confiando em Daniel. Mas naquele momento, assim que ele lhe disse que contara uma mentira, alguma coisa dentro dela, inexplicavelmente, a fez supor ser sobre Melissa. O que, obviamente, assustou a Daniel. A mentira era exatamente sobre a ruiva. Uma centena de reações negativas passou em frente aos seus olhos, e a pior delas era Sophia se levantando e indo embora, o deixando completamente sozinho. Engoliu em seco, temendo contar a verdade. Deu um passo atrás em sua decisão. O vídeo não existia mais, Melissa nunca mais aparecera, não havia motivos para se preocupar, certo? Balbuciando em sua decisão, ponderou ser melhor não contar nada a ela, afinal, não havia perigo algum de Sophia tomar conhecimento do ocorrido e das chantagens. Acalmou o coração e contou outra mentira ‒ disfarçada de verdade ‒ falando sobre Clarisse, de quem ela realmente


era e do seu real motivo de ter aparecido na empresa e procurá-lo. — Heitor ainda não sabe, por isso, por favor, Sophia, não diga nada. Eu e Clarisse vamos contar a ele na próxima semana. Sophia relaxou assim que o ouviu. Beijou-o e disse que ele não precisava se preocupar, mas que deveria ter confiado nela para lhe confidenciar aquilo. Daniel se desculpou e prometeu não lhe esconder mais nada. Sua consciência o acusou rigidamente, mas ele dormiu sem peso algum – e os dias seguintes correram sem a preocupação de que lhe devia contar a verdade. Mas sua decisão de omitir a verdade custaria caro . ♦♦♦

Todos estavam demasiadamente quietos, submersos no escuro, esperando que Daniel chegasse para a festa surpresa. Ali, estava toda a família de Sophia, a família Gouveia ‒ que ela fez questão de convidar ‒ Heitor, o velho Luiz Guimarães, convidado por seu pai Sebastian, acompanhando de Miguel, que foi cordial, educado e comportado pelo tempo todo, além de alguns colegas mais íntimos da empresa. Sophia preparou a sala da mansão para a recepção e segurava nervosamente o envelope contendo o exame de gravidez positivo e o primeiro ultrassom do bebê ‒ feito dois dias antes. Havia um burburinho dos presentes, e Sophia torceu para que Daniel não resolvesse ficar na empresa até tarde, como na noite anterior. Naquela manhã, Daniel não estava disposto a ir trabalhar, já que era seu aniversário, mas Sophia já previra essa decisão, e por isso encarregou Heitor de distrai-lo durante o período vespertino, para que ela pudesse organizar a festividade. A primeira parte do dia eles tinham feito amor algumas vezes, e depois foram almoçar em algum restaurante caro na cidade. Quando a tarde chegou, Heitor arrastou Daniel ‒ mesmo a contragosto ‒ para um barzinho. — Você tem todo o tempo do mundo para ficar com a sua esposa. Saia com seu irmão, que você quase não conversa desde que se casou, só por algumas horas nesse aniversário ‒ foi o modo que Heitor encontrou para convencê-lo. Apesar de estar longe de Sophia, Daniel conseguiu se divertir, riu bastante das bobagens de Heitor e bebeu algumas cervejas. Era quase seis da tarde, quando ligaram no seu telefone ‒ só não sabia que era apenas mais uma estratégia para atrasá-lo e, consequentemente, fazê-lo chegar em casa assim que tudo estivesse em ordem. Despediu-se de Heitor e seguiu para a empresa, visivelmente incomodado por não ter sossego nem no dia do seu aniversário. Agora, Sophia estava apreensiva e desejava que ele logo chegasse. Não demorou muito para todos ouvirem o motor do carro estacionando na garagem. O burburinho acabou no mesmo instante e o silêncio reinou absoluto.


Passos se aproximaram, a porta se abriu. — Sophia? — A voz de Daniel ecoou, e ele acendeu as luzes. — Surpresa! — Todos gritaram em uníssono e eufóricos, fazendo Daniel se sobressaltar. — Ah, meu Deus…— murmurou ao ver todas aquelas pessoas em sua casa, a sala adornada com balões e letreiros de feliz aniversário, uma mesa com um bolo, num canto qualquer os presentes dos convidados e um grande telão com projetor que ele não tinha a mínima ideia para que servia. Ele sorriu desconsertado e atônito quando Sophia se aproximou e o abraçou pela nuca, beijandolhe intensamente. — Feliz aniversário, meu amor. Naquele instante, Daniel soube que todo o tempo em que esteve fora de casa era porque havia um propósito. Não deixou de se sentir feliz, e mirou para baixo, olhando dentro dos olhos de Sophia, extremamente alegre em saber que ela teve o zelo de preparar aquela comemoração. Ele retribuiu o beijo, uma felicidade inexplicável acertando seu peito. — Obrigado, Sophia, sabe que não precisava ter feito nada disso. — É claro que precisava. — Rebateu sorrindo, e logo eles viram os demais se aproximando. Daniel foi cumprimentado por todos com abraços e apertos de mãos calorosos, desejos de prosperidade, muitos anos de vida, alguns, mais religiosos, o encheram de bênçãos. Daniel agradeceu calorosamente a cada um que veio até ele, estava realmente muito feliz com a presença de pessoas que considerava muito. Não se importou nem com a presença inoportuna de Miguel de Orleans, apesar de, num primeiro momento, ter se incomodado com isso. Logo, afastou qualquer preocupação da cabeça, e resolveu aproveitar a festa. Deduziu que Miguel não seria um problema perto de todas aquelas pessoas. — Seu presente está aqui. — Sophia disse balançando o envelope. — Mas só vai abrir quando cortamos o bolo. Daniel olhou o pequeno envelope e riu, imaginando que tipo de presente caberia dentro dele. Aproveitou, então, para fazer uma piada com o fato: — Deixe-me adivinhar. É um vale-sexo? — Daniel! — Sophia o advertiu, e todos riram, inclusive ele. — Engraçadinho… Mas não, não é um vale-sexo. Você e todos os demais só saberão quando cortarmos o bolo. — Decretou, e guardou o envelope. Comeram os petiscos, todos conversando e rindo, uns mais espalhados, outros mais enturmados, alguns em pequenas rodinhas –cervejas nas mãos e muita risada. Daniel mantinha-se quase que o tempo todo perto de Sophia, e estava aproveitando a preparação da festa. Ele conversou com os familiares de sua esposa, Eva Hornet sempre muito graciosa, Sebastian com conversas interessantes e seu jeito sistemático, Eduardo rindo e fazendo piada como o jovem de vinte e sete anos que era. Por um segundo, sentiu falta de Isabela e Heitor, lançando um olhar a Sophia. Ela saiu, e sem demora os dois sumidos surgiram, Isabela limpando freneticamente os


lábios. Daniel mirou o irmão, uma expressão que desaprovava sua atitude. Heitor deu de ombros e exibiu um sorriso debochado. Logo, estão conversando com Erick e sua família. Yara, como de costume, muito alegre e introvertida. Heloísa está empolgada e não para de falar, assim como não para de lançar, discretamente, alguns olhares ao irmão de Sophia: dez anos mais velho, mas de um sorriso encantador, cabelos encaracolados charmosos e olhos verdes fascinantes. Daniel trocou rápidas, e não tão educadas, palavras com Miguel, mas foi mais cordial com Luiz, que era um homem de extrema simpatia e elegância. A noite foi avançando, e veio os parabéns, com euforia e assovios. Cortaram o bolo e, para variar, Daniel e Sophia lambuzaram um ao outro com a brincadeira. Após comerem, começaram a abrir os presentes. Gravatas, charutos, uísques, uma caneca com o nome dele, CDs de música italiana, ingressos para ópera. Por fim, ele via Sophia segurando o envelope que continha o misterioso presente. Sophia estava demasiadamente nervosa. As mãos tremulavam em ansiedade. Todos rodeavam o casal, também curiosos em saber o que continha dentro do envelope. — Mas antes… — ela disse, e todos protestaram, fazendo-a a rir. — Quero que veja isso. — E apontou para a tela de projeção. Caminhou até lá e ligou, inserindo um pen drive no USB. Algumas fotos deles foram passando, a música de fundo, Don't Cry, tocando suavemente. Daniel atentou-se às fotografias que iam passando. Eram momentos em que eles estavam rindo, se abraçando, se beijando. Ao final, uma rápida mensagem, singela, mas para ele muito bonita.

Quando duas pessoas se amam intensamente, o amor extrapola os limites e se manifesta batendo em outro coração.

Feliz aniversário, Daniel.

Ele sorriu, nitidamente não havia percebido a profundidade daquela mensagem e do que Sophia quis passar para ele: que o amor que sentiam um pelo outro agora se manifestaria na pequenina vida que crescia dentro de seu ventre. Ela esticou o envelope para ele, sorrindo e já com lágrimas nos olhos. Daniel estava prestes a pegar quando fora interrompido pela porta se abrindo, e por uma voz que ressoou: — Que lindo! Uma pena eu ter que estragar esse momento…— Melissa proferiu entrando na sala. Todos a encararam confusos, e alguns cochichos espalharam-se pelo ar. Daniel engoliu em seco, a presença da ruiva, depois de tanto tempo, o deixando aterrorizado e em alerta.


Sophia olhou para ele, atônita com a chegada súbita da ruiva. — Vai embora, Melissa. — Daniel proferiu com voz assustada. Sabia que a presença dela boa coisa não trazia. — E perder o melhor da festa? Não mesmo, honey. — Melissa, você disse que não queria vir. — Eduardo falou, surgindo no meio da multidão. — Que história é essa agora? Daniel e Sophia voltaram, simultaneamente, seus olhares para Eduardo, surpresos por saber que ele estava envolvido ‒ sabe-se lá de que maneira ‒ com a ruiva. — Mudei de ideia, Eduardo. Aliás, trouxe um presente para o aniversariante. — Sorriu descaradamente, e passou por todos caminhando até o projetor. Tirou o pen drive de Sophia e o jogou ao ar sem cerimônia, inserindo o dela. De início, a ideia era apenas entregar o objeto à Sophia, mas aproveitaria o fato a seu favor e utilizaria do projetor ali. Todos acompanharam a ruiva, confusos; Daniel principalmente, perguntando-se que diabos ela estaria fazendo. — Sophia, querida… — a ruiva disse virando-se para frente — Sabe…? A história mais clichê do mundo é aquela em que o marido diz que irá ficar até mais tarde na empresa, mas na verdade está transando com outra mulher. Sophia engoliu em seco e olhou para Daniel, seu coração já saltando pela boca. Houve muitas noites em que ele disse estar na empresa e que ela não pôde estar com ele, como na noite passada. Seu peito se comprimiu só de imaginar que Daniel poderia estar a enganando. Mas seria possível? Ele já havia demonstrado tantas vezes seu amor por ela. Seria possível que ele a traía? Daniel olhava fixamente para Melissa, os batimentos cardíacos já pulavam acelerados, imaginando o pior. Ele estava ciente de que Melissa aprontaria alguma coisa para prejudicá-lo e para se vingar da humilhação de alguns meses atrás. Sentiu Sophia o olhando e voltou-se a ela, balançando a cabeça negativamente. Nada do que Melissa dizia ou dissesse era verdade. — E como eu sei que muitas esposas só acreditam vendo, eu trouxe a prova. — Selecionou o arquivo de vídeo, fazendo-o rodar instantaneamente. Daniel leva as mãos aos cabelos e sente que seu coração irá saltar pela boca quando o maldito – e destemido – vídeo dele com Melissa é exibido em alto e bom som. Neste momento ele está aterrorizado e sua consciência grita: “Eu te avisei”. As pessoas presentes estão todas espantadas ao ver Daniel, que acreditavam ser um homem que amava sua esposa, em uma relação íntima com outra mulher. Ele engole em seco, totalmente desesperado, e se volta para Sophia. Ela está paralisada, a mão tampando a boca, os olhos lacrimejando e a expressão rasgada. — Sophia, não é o que está pensando. — Ele diz com a voz trêmula, e torce para que não seja tarde demais em lhe contar a verdade. — Me escuta… — mas de repente ela se vira, acertando-o na face com um tapa estalado.


Então ela começa a chorar copiosamente e avança sobre ele, o esmurrando no peito, gritando, completamente fora de si, descontrolada: — Canalha! Como pôde fazer isso comigo, Daniel?! — Sophia, me escuta… — ele pede, tentando segurá-la, mas a loura está demasiadamente dominada pela raiva e continua a agredi-lo. Apressadamente Miguel se pontifica e a segura pela cintura, tirando-a do alcance de Daniel, pedindo repetidamente que para ela se acalmar. Mas a loura esperneia, grita, chora e proclama injúrias contra ele. Os demais presentes ainda estão chocados com a revelação, e observam, catatônicos, o desenrolar da confusão, enquanto Melissa exibe um sorriso de satisfação, mas logo percebe o olhar intenso e rasgado de Eduardo ‒ o qual ela vinha mantendo alguns encontros. Endireita a postura e desvia seus olhos, evitando o contato visual. Para sua sorte, ele simplesmente puxa o pen drive, fazendo o vídeo parar, e sai do seu campo de visão. Daniel está desesperado enquanto tenta se explicar. Os olhos não param de escorrer lágrimas e ele se culpa, tardiamente, por todas as suas mentiras, por não ter contado antes sobre o vídeo, pois agora, Melissa criou uma verdade com ele – Sophia, e todos os outros, acreditava que ele tenha sido infiel. — Sophia… — Gaguejou, tentando, outra vez, esclarecer as coisas. — Cale a boca! Cale a boca! Eu te odeio, Daniel! Eu te odeio! Eu te odeio. — Os gritos arranham sua garganta, e ela não para de se contorcer nos braços que a seguram. — Sophia, se acalma! — Miguel diz usando toda sua força para acalmá-la e virá-la para si. Ela se depara com os olhos de Guimarães, o coração está acelerado, o peito dói em angústia, o corpo todo treme em tristeza. Se lembra do bebê que carrega em seu ventre e reforça que ela pode perdê-lo se não se controlar. — Miguel, me leve daqui, por favor… — implora com a voz trêmula em um suspiro. — Por favor, me tire desse inferno! Miguel acena freneticamente e joga seus braços sobre os ombros dela, a direcionando, sem demora, para a saída. Eva vem de encontro à filha e também a abraça, deixando-a entre ela e Miguel. Desesperadamente, Daniel se opõe, pronunciando seguidos “não”. Ele vê Sophia ser levada por Miguel, e vai atrás, os passos rápidos e afobados, em seu peito pressionando o temor de perdê-la para sempre. — Sophia, por favor, eu preciso de um minuto. Me escuta por um minuto! — Suplicou em pranto. As lágrimas dela caem ainda mais, Sophia se abriga nos braços de Orleans, aumentando as passadas pelo pátio, no trajeto que a levaria para o carro de Miguel. Daniel se aproxima, ele não tem nenhum outro tipo de reação a não ser a súplica. Ele a toca nos ombros, e ela se esquiva como se fosse brasa quente. Miguel se vira abruptamente, mas a loura continua seu caminho, acompanhada da mãe.


— Você já fez demais, Daniel. Deixe-a em paz! — Profere, e volta a caminhar. Ele abre a porta do carro para Sophia e Eva. Daniel aperta os olhos, as lágrimas do desespero o consumindo. Põe-se a andar de novo, não poderia permitir que o desgraçado do Miguel a levasse embora. O carro já está partindo, e ele resolve correr. Bate as mãos freneticamente contra o vidro, os lábios movendo-se em: “Por favor, me escuta”, repetidamente. O carro arranca, e Daniel corre alguns metros atrás dele, gritando por Sophia. Para, quando sente a exaustão e vê que é inútil tentar impedir que ela se vá. Catatônico, volta vagarosamente para dentro de casa, esquecendo-se totalmente das outras pessoas; dos familiares de Sophia, dos amigos, do próprio irmão. Está submerso demais no seu desespero para pensar em alguma coisa. Surge na sala, e encara os que estão ali presentes, todos o encarando de volta. Então ele vê Melissa com um sorriso diabólico no rosto. Uma raiva descomunal sobe por sua espinha —Vadia… — murmura. — Vadia! — Grita, e caminha até ela a passos determinados, a cólera o cegando. Está irracional demais, controlado pela ira, pronto a fazer uma loucura. Pensa em tudo o que a ruiva já fizera para prejudicá-lo, mas ela passou de todos os limites fazendo Sophia acreditar em uma traição. — Sua vadia desgraçada, eu vou te matar. Para evitar uma tragédia maior, Heitor segurou o irmão, prevendo a besteira que cometeria caso não fosse impedido. Mas Daniel continuou gritando, querendo, de qualquer maneira, apertar o pescoço da ruiva diabólica. — Daniel, se acalma, cara! Pelo amor de Deus, é uma mulher! — É o demônio em forma de gente! — Ele bradou, e continuou querendo avançar sobre a ruiva, esta que se mantinha inabalável com a ira de Müller. A confusão estabelecida fez com que algumas pessoas fossem embora, uma delas fora a família de Erick, que ele aconselhou que o esperassem no carro. Gouveia permaneceu na sala, acompanhando o desenrolar da situação. Daniel continuava sem controle, Heitor fazendo uma força extrema para segurar o irmão. De repente, Eduardo surgiu de algum lugar e o acalmou com um murro no rosto. Desnorteado, Daniel caiu no chão, e Eduardo avançou sobre ele, o golpeando mais. O caos se instalou. Gritos ecoaram por toda a casa. Eduardo esmurrava Daniel, furioso, não somente pela irmã, mas por si próprio. Saber que a garota com quem estava saindo ‒ e que já cultivava alguma coisa ‒dormia com Müller, o enfureceu. Mas Daniel não revidava, apenas tentava se proteger. Sebastian puxou Eduardo, o tirando de cima do genro, enquanto Heitor ajudava o irmão a se levantar, este que já sangrava pelo nariz golpeado. — Acho bom você nunca mais procurar pela Sophia na sua vida. Ou eu vou sujar minhas mãos com o seu sangue. — Eduardo ameaçou, e passou por ele, indo embora.


Sebastian abraçou Isabela, visivelmente decepcionado, a convidando para irem embora também. Mas não faria escândalo, não era necessário. Daniel não valia a pena. Também passou por ele, o encarando com a expressão fechada. Daniel pensou em alguma coisa para dizer, mas sabia que nada do que dissesse faria diferença para Sebastian Hornet. Por isso, simplesmente baixou os olhos, fungando. — Faço das palavras do Eduardo as minhas. — Disse, e também logo se foi. Daniel pestanejou, o peito se comprimindo numa dor insuportável, o seu maior pesadelo se tornando realidade. Fechou os olhos e deixou as lágrimas escorrerem. Estava perdendo o sentido da vida. — Ah, Heitor, Daniel também mentiu para você. — Escutou-se a voz de Melissa, e ele levantou os olhos para encarar o mesmo sorriso diabólico de sempre. Heitor fitou o irmão, atordoado. Daniel desviou os olhos, ofegando. Precisou admitir que a vingança da ruiva era diabolicamente boa. — Sabe a sua prometida? — Ela continuou, e Daniel murmurou um “cale a boca” – que ela não deu atenção — Pois bem, ela apareceu para vocês firmarem o casamento. Daniel murmurou outra vez. Não era assim que as coisas deveriam ser. Ele nem se importava em saber como Melissa tomou conhecimento de todas aquelas informações. Heitor voltou-se para Daniel, o cenho enrugado, enquanto Melissa continuava dizendo: — E pelo jeito você não tem saída, precisa se casar. E o mais interessante é que a sua prometida é a Clarisse; você a conhece, não é? Logicamente, ela te atormentou por anos. E o Daniel sabia desde o princípio. — Finalizou com uma meia mentira. Heitor não tirava os olhos do irmão, a testa franzida. Todavia, Daniel continuava cabisbaixo, perguntando-se a que ponto as coisas tinham chegado. — É verdade, Daniel? — Quis saber, e sua voz saiu ríspida. — Eu ia te contar, Heitor… — murmurejou. — Quando? — Ele gritou — Quando estivesse me levando para o altar? — Heitor, eu… — Não! Guarde o que tem a dizer para você! — Enunciou, e encarou o irmão pela última vez antes de sair e deixá-lo para trás. Daniel levou a mão ao rosto, seu coração estava rasgado. Deixou as lágrimas o inundarem até soluçar. Nem se deu conta de que Erick e Melissa continuavam ali, presentes. Gouveia veio até ele, passos lentos. Müller ergueu os olhos, notando, então, o homem ali. Permaneceu mudo. A única pessoa com quem queria se explicar era com Sophia. — Dessa vez você pisou feio na bola, Daniel. — Ciciou. — Eu não esperava isso de você — bateu em seus ombros amigavelmente e também se retirou.


Daniel suspirou tremulante. Observou o local a sua volta, lembrando-se de que até há pouco era o melhor dia de sua vida. Radicalmente, o melhor dia se transformou no inferno e no pior momento que poderia ter vivido. — Eu disse que chegaria o dia em que eu te veria na sarjeta. — Melissa pronunciou. Buscou seus olhos, a expressão rasgada, e ele não se importava com mais nada. Se antes queria apertar a garganta dela e matá-la, e mesmo que agora não existisse ninguém para impedi-lo, simplesmente não tinha forças para nada. — E olha só para você: do jeitinho que eu imaginei. — Murmurou maleficamente. — Sophia nunca mais vai olhar na sua cara. — Saia daqui…— disse com um fiapo de voz que lhe restava. A ruiva inclinou a cabeça, fazendo biquinho. — Não quer saber como eu tinha outra cópia do vídeo? Ou de como eu sabia sobre a Clarisse, ou como eu sabia que você e Sophia estavam apaixonados? — Não… Vai embora e me deixe sozinho. — Tremulou um suspiro. Ela soltou um sorriso sonoro. — Você já está sozinho, Daniel. — Enunciou calmamente. Daniel ergueu os olhos, encarando-a, enquanto a ouvia continuar dizendo: — Olhe para você: sem esposa, sem irmão, sem amigos. So-zi-nho. É assim que merece ficar. Adeus, Daniel Müller — sussurrou, e vagarosamente saiu e fechou a porta atrás de si. Daniel a acompanhou com os olhos, sendo atormentado pelas palavras da ruiva. Você já está sozinho, Daniel. Olhou ao redor. Silêncio. Solidão. Foi invadido por seu pranto compulsivo outra vez. Dor, culpa, arrependimento. Caiu de joelhos no meio da sala chorando copiosa e desesperadamente. O que mais temia na vida acabara de acontecer. Ele estava sozinho.


40 O ENVELOPE agarosamente, Miguel encostou a porta do antigo quarto de Sophia, e se virou para vêla deitada na cama, os olhos vermelhos em lágrimas. Depois da confusão que aconteceu na casa de Daniel, ela pediu que fosse levada para a casa dos pais. Assim que chegaram, Eva se prontificou a preparar um calmante natural, enquanto Miguel a acomodava no quarto e tentava acalmá-la. Com as mãos trêmulas, Sophia tomou o chá de camomila, mas deixou pela metade. Lembrou-se do bebê, e tinha dúvidas se a erva era ou não abortiva, mas preferiu não arriscar. Sua mãe continuou com ela por mais alguns minutos, Miguel no canto extremo do quarto, os braços cruzados, observando Sophia no colo da mãe, como uma criança que precisa de carinhos.

V

Durante todo o percurso, e desde que chegaram ali, Sophia não abriu a boca para nada, permanecendo muda e catatônica. E, de uma maneira ou de outra, aquilo o preocupava. Aproximou-se com passos cautelosos e se sentou na cama, mirando-a com compaixão. Miguel sabia, sabe-se lá como, talvez intuição ou sexto sentido, que Daniel afundaria aquele casamento, e ele seria o único que Sophia confiaria para se reconfortar e se consolar. E como um presságio, ali estava Miguel, ansioso em poder pegá-la no colo, afagar seus cabelos e lhe dizer que tudo acabaria bem. Além disso, queria poder oferecer seu amor para ela, ser o porto seguro que Sophia precisaria naquele momento, ser aquele a qual ela poderia confiar e desabafar. Sabia que não era certo, mas se aproveitaria do momento delicado para oferecer seu amor, que continuava vivo dentro do seu peito – aproveitaria a oportunidade para dizer a Sophia que poderia ajudá-la a superar Daniel, que seria capaz de sanar suas dores, pois estava ciente de que ela jamais perdoaria aquela terrível traição. Ainda assim, teria paciência, e não a pressionaria a nada, sequer a faria perceber das suas intenções. Com um suspiro, tocou-lhe nos fios amarelos e os afagou delicadamente, esperando qualquer reação dela. Sophia sentiu os dedos longos de Miguel contra seus cabelos, apertou mais os braços em torno do próprio corpo, como se fosse possível, de alguma maneira, fechar o buraco enorme que se abriu em seu coração. Estava tão dispersa e chocada com os últimos acontecimentos que não protestou a aproximação de Miguel, nem mesmo quando ele a trouxe para seu colo, deitando sua cabeça sobre as pernas masculinas e depositando um beijo em seus cabelos. Não o advertiu sobre suas mãos acarinhando as suas melenas ou deslizando pelas costas em um gesto carinhoso e de conforto. Mas eu sei, de alguma forma, que quem irá afundar essa relação é o próprio Daniel. E quando isso acontecer, eu serei seu único ombro amigo.


A voz de Guimarães ressoava a todo instante em sua mente, enquanto ela permanecia muda, digerindo e tentando entender tudo o que aconteceu. Ela tinha confiado tanto em Daniel, no seu amor esplêndido e genuíno que tanto ofereceu, nas demonstrações de carinho… Sophia teria posto suas mãos no fogo por ele, para no final descobrir que todas as juras de amor de Müller eram falsas e vazias. Como todas as suas palavras eram. Como sempre foram. Apertou os olhos, deixando-se ser tomada por suas lágrimas. Daniel a tinha envolvido somente para segurar aquele casamento de conveniência, tudo, pensava ela, no intuito de garantir sua herança. Sua maldita herança. E tola fora ela, que acreditou, que se entregou, que confiou… E agora Sophia se via, outra vez, como seu instinto havia gritado, sofrendo por conta de Daniel. Sentiu uma pressão quase insuportável em saber que seria difícil esquecê-lo, principalmente por conta do filho deles que carregava. Se fosse um menino de olhos azuis-esverdeado como os do pai, de nariz proeminente e cabelos alourados, Sophia tinha a impressão que conviveria com a dor da decepção amorosa pelo resto dos seus dias. Mesmo que fosse uma menina e que não tivesse características nenhuma do pai, saberia que o sangue Müller correria nas veias dela, e, inevitavelmente, se recordaria do amor intenso e avassalador que sentiu por Daniel. Divagando em todos os seus pensamentos e questionamentos, não evitou em ponderar que Daniel teria direitos de ver a criança, de passar finais de semana, e isso, com toda a certeza, incluiria em eles dois terem de se verem por causa do bebê. Inevitavelmente, querendo ou não, Daniel estaria ligado à sua vida para sempre. Mais lágrimas vieram quando Sophia imaginou que não suportaria a dor em vê-lo, talvez, com outras mulheres, talvez com a própria Melissa. Balançou a cabeça. Não queria manter contato, não queria ter que o ver, se pudesse ir embora para algum lugar bem longe para que nunca mais ele tivesse notícias suas, e, desse jeito, nunca souber de sua gravidez, o faria sem pensar. Mas eu sei, de alguma forma, que quem irá afundar essa relação é o próprio Daniel. Outra vez a voz de Miguel a invadiu, e ela pôde ver como ele estava coberto de razão. Daniel afundara o casamento, a relação deles, com sua covarde traição, com suas mentiras e com suas palavras falsas e vazias. E quando isso acontecer, eu serei seu único ombro amigo. Ela não pôde deixar de perceber a ironia que tinham aquelas palavras naquele momento. Miguel era, de fato, seu único ombro amigo. Ele não estava se importando em ter de consolar a mulher que amava chorando por outro homem. Isso fazia dele, nos olhos de Sophia, um verdadeiro amigo. Pensou em como Orleans deveria amá-la plenamente para aceitar tal situação. Talvez outro homem em seu lugar, jamais teria feito o que ele fez. — Vai ficar tudo bem, Sophia… — Miguel disse com um sussurro, e ela acenou freneticamente, sentindo as carícias dele contra seus cabelos. — Eu estou aqui, como te prometi. Estou aqui, Sophia. Ela levantou seus olhos avermelhados e lacrimejantes para Miguel. Ninguém, além dela, sabia da gravidez. E não queria que ninguém soubesse para não contarem a Daniel. Ele não merecia saber, não merecia ter a felicidade da paternidade. Se é que ele realmente tinha


desejado aquele filho. Depois de tantas promessas e palavras ocas, Sophia já não tinha tanta convicção em relação aos desejos paternais de Daniel. Quiçá fosse mais uma das suas inúmeras formas de enganá-la e envolvê-la. Inspirou fundo. Estava mais do que decidida a não contar a ele, mas precisava se manter afastada, longe, para que não houvesse desconfianças. Perguntou-se se poderia contar com Miguel para encobertá-la, de alguma maneira. Sabia que os Guimarães de Orleans tinham uma casa no interior do Estado, não muito longe dali. Seria um ótimo lugar para passar uns dias distante de tudo e de todos, depois regressaria quando sua barriga já estivesse um pouco mais saliente, e alegaria estar grávida de algum cara qualquer que ela se envolveu. Era uma ideia absurda – ela sabia. Mas era sua única alternativa. Por isso, usufruiria dessa ideia o máximo que pudesse. — Estou grávida dele. — Disse de repente, e Miguel a encarou, espantado. — Naquele envelope estava o exame que confirmava, e eu ia entregar a ele. — Confessou e baixou os olhos, ouvindo apenas a respiração de Orleans que se acelerou um pouco. — Não quero que ele saiba, Miguel. Em hipótese alguma, eu não quero. Eu quero me afastar do Daniel, esquecer toda essa dor que me causou. Mas se ele continuar constante na minha vida por causa do bebê, eu sei que não conseguirei. — Enunciou, e ele apenas acenou, ainda confuso com a notícia e a decisão repentina dela. — Você pode me ajudar? — Como? — Questionou atônito, e Sophia contou-lhe o que tinha em mente. Miguel concordou em ajudá-la, maquinando algo em sua cabeça. Sophia voltou a deitar-se sobre o colo de Miguel, as lágrimas estavam secas, e ela já não sentia mais vontade de chorar, apesar da tristeza e a decepção estarem avançando cada vez mais sobre seu coração. Estava ciente de que seu pranto havia cessado apenas momentaneamente. Não demoraria até ela se ver chorando outra vez. Reforçou a si mesma que seria forte. Envolveu os braços ao redor de seu abdômen, pensando, agora, apenas continuar com sua vida, criar seu filho, mesmo sozinha, e ele seria para ela, todos os dias, sua maior alegria. Sentindo as carícias de Miguel, seguido do conforto do silêncio e do cansaço mental, Sophia adormeceu em suas pernas dobradas e nem percebeu que Sebastian, Eduardo e Isabela foram ao seu encontro para ampará-la.

♦♦♦

Daniel só conseguiu dormir depois de, pelo menos, uma garrafa e meia de uísque. A dor que comprimiu seu coração na noite anterior não era comparável a nada. Ele bebeu por ver Sophia indo embora, bebeu por ela ter acreditado em uma traição falsa, bebeu por não ter podido se explicar e contar a verdade, mas bebeu por, principalmente, não ter feito o certo desde o início. Ter falado a Sophia sobre o vídeo, ter feito uma denúncia contra Melissa, por ter quebrado sua promessa de não se envolver mais com mulher alguma desde Christina. Bebeu por ser um idiota que sempre fazia as coisas da forma errada, bebeu por estar sozinho.


Depois de muito chorar e se culpar por tudo o que acontecera, Daniel finalmente conseguiu adormecer, a garrafa de Jack Daniel's pela metade ainda aninhada sob os braços dele. Debruçado no sofá da sala, toda a comemoração da noite anterior continuava espalhada pelo cômodo. O sol entrava pelas janelas de vidro sem cortinas e o aquecia nas costas cobertas pelo paletó engomado, mas também o incomodava. Despertando aos poucos, Daniel já podia sentir os efeitos de ter tomado tanto álcool: tontura e uma forte dor na cerviz. Mas sua dor física não era, nem de longe, maior que a dor que trazia no peito. Finalmente acordou, o sol batendo em seu rosto e importunando seus olhos. Virou-se no sofá, a garrafa caiu no chão, mas não se quebrou. Apertou forte as têmporas, sentindo a ressaca lhe atormentar. Sentou-se no sofá desejando que tudo não passasse de um pesadelo ruim, pedindo a Deus que sem demora Sophia descesse as escadas, lhe beijasse nos lábios e dissesse que o ama. Depois o advertiria por ter bebido muito na sua comemoração de aniversário a ponto de cair bêbado e sonolento no sofá. Ergueu os olhos para a escada: ninguém. A realidade apertou seu coração e fez seus olhos prantearem. Daniel olhou ao redor, cada detalhe da decoração de seu aniversário surpresa, delicada e dedicadamente preparado por Sophia, agora nada mais eram que lembranças dolorosas e ruins. Aceitou a realidade e limpou suas lágrimas. Talvez ainda houvesse uma chance de falar com Sophia, de explicar-lhe o ocorrido. Poderia, até mesmo, mostrar o dossiê que montou contra Melissa para provar sua inocência. Levantou-se e cambaleou um pouco, ainda zonzo pela bebedeira. Deu alguns passos vagarosos e dificultosos, seu corpo massacrado e protestando de exaustão. De repente, algo lhe chamou a atenção. Ali, num canto qualquer, tímido e caído no chão, estava o envelope que Sophia teria entregado para ele, não fosse o furacão Melissa ter atrapalhado tudo com seu plano demoníaco. Talvez o envelope tenha caído de suas mãos quando, incontrolavelmente, ela o agrediu. Sorriu pequeno e de canto, curioso em saber qual era, afinal, o presente de Sophia para ele – que caberia num simples envelope. Tomou-o em mãos e olhou frente e verso, tentando imaginar o que poderia ser. Caminhou até a cozinha e o deixou sobre o balcão de mármore. Primeiro iria tomar uma aspirina para a dor na cabeça, depois prepararia um café forte que o faria recobrar totalmente sua sanidade e o despertaria do sono causado tanto pelo cansaço quanto pelo álcool. Tomou a aspirina e fez o café. Sentou-se no banquinho alto, sorveu uma dose generosa da cafeína. Suspirou. Pegou o envelope e o avaliou. Por algum motivo tinha a impressão de que aquele presente o emocionaria e o quebraria ao mesmo tempo. Tomou outro gole do café. Repousou a caneca no mármore e fungou. Rasgou a lateral do envelope e estava prestes a retirar o papel que havia lá dentro, quando Heitor surgiu na cozinha, carregando um jornal nas mãos, e proferiu pouco amigável: — Bom dia, astro do pornô!


Daniel levantou os olhos para a ele e, ainda segurando o envelope, enrugou o cenho, estranhando aquela declaração. — O quê? — Indagou confuso. Heitor foi até a cafeteira e dispôs um pouco na xícara. Voltou-se para o irmão bebendo o líquido quente. Andou até perto de Daniel e jogou o jornal sobre o balcão de mármore, dizendo: — Isso… Daniel mirou para baixo, deparando-se com uma manchete que o teria feito cair para trás.

Vaza vídeo íntimo de Daniel Müller com amante

Ele separa os lábios, totalmente atônito. Pestaneja, ainda assimilando o que seus olhos estão vendo. — Já tem mais de mais de cem mil visualizações numa rede social aí, e a matéria diz que o vídeo foi parar em um site pornô de famosos. Tudo isso em… o quê? Quinze horas? Pelo menos é uma bela jogada de marketing para a empresa. — Heitor comentou, dando de ombros, mas Daniel não ouviu uma palavra sequer da piada sem graça e de mau gosto do irmão. Levantou-se bruscamente, o envelope caindo ao chão, e saiu pisando firme. Sentia que cada centímetro do seu corpo tremia de cólera. Melissa havia passado de todos os limites, e, pelo jeito, não se importou em se expor junto, nem das provas que ele possuía para incriminá-la. Melissa seria tão sangue-frio e indiferente a esse ponto? Pelo jeito, sim. Importou-se apenas em calçar um sapato antes de pescar as chaves do carro e sair de casa, indo em direção ao apartamento da ruiva. Durante o percurso teve de fazer um exercício mental para se controlar, lembrando-se constantemente de que Melissa era, infelizmente, uma mulher, e se ele tomasse qualquer atitude precipitada e impensada, quem sairia como acusado seria ele. Estacionou o carro na garagem do prédio e empurrou o porteiro assim que este pediu sua identificação para anunciá-lo à senhorita Telles. Tomou o elevador, seus nervos todos alvoroçados. Melissa estava sendo mais do que um estorvo em sua vida. Ela era o demônio em pessoa, e estava fazendo dos seus dias um verdadeiro inferno. Ela conseguiu fazer Sophia acreditar que o vídeo era de uma real traição, depois o jogou na internet para, ele tinha certeza, manchar a imagem que Daniel zelou por todos aqueles anos. A ruiva sabia de como Müller honrava o seu sobrenome. As portas do elevador se abriram e ele veio para fora, andando pelo corredor a passos rápidos e decididos, sua ira exalando em cada passada. Parou em frente à porta do apartamento dela. Não teve modos para bater e tentou abri-la, mas estava trancada. Daniel inspirou fundo e deu um passo atrás. Com toda a sua raiva acumulada, descarregou tudo em um forte pontapé na porta, que foi aberta com um baque. Melissa, sentada no sofá com a televisão ligada, se sobressaltou. Não teve tempo de reação, pois Daniel já havia avançado sobre ela e a erguido, segurando-a pelos braços:


— Que diabos você estava pensando quando postou essa droga de vídeo? — Bradou quase salivando. A ruiva tentou se soltar das garras dele, mas Daniel era firme em sua pegada, e, vez ou outra, precisava dar-lhe um chacoalho para mantê-la presa. — Eu disse que você ia me pagar pela humilhação que me fez passar, Daniel! — Rebateu ainda se contorcendo. — Você é louca, Melissa? Eu tenho todas as provas contra você! Posso te confinar numa cadeia por, pelo menos, um ano! — Me processe, Daniel! — Ela gritou de volta. — Eu tenho tanto a perder quanto você tem a ganhar! Nada do que você faça vai trazê-la de volta! — Declarou, e nisso ele a soltou, sabendo que Melissa se referia à Sophia. Daniel estava arquejando de raiva. Mas referente àquilo, Melissa estava errada. Ele ia provar a Sophia que não houve traição alguma, que tudo não passou de uma armação demoníaca da ruiva para se vingar. Ele tinha os papéis que comprovavam que o vídeo fora feito muito antes de eles se assumirem definitivamente como marido e mulher. Sophia, Müller estava convicto, o perdoaria. Era só uma questão de tempo. — É o que você pensa. — Enunciou com a voz firme. — Eu irei te processar por esse vídeo, você irá pagar pelo seu crime e ainda terei o prazer de esfregar na sua cara minha felicidade com a Sophia. Melissa gargalhou, uma risada demasiadamente sombria e assustadora, com uma pitada de sarcasmo. — Pode fazer o que quiser, Daniel. O que importa é que a sua imagem, a qual você primava tanto, foi manchada e nunca mais será a mesma. Nesse exato momento, já deve haver inúmeras cópias que serão salvas em celulares de terceiros, e todos irão olhar para aquele vídeo e ver um homem infiel. Por mais que odiasse, ele precisava concordar com a ruiva. Daniel não queria nem pensar nos contratos que perderia com aquele escândalo, dos olhares de seus funcionários sobre ele, e de como, em algum dia do futuro, alguém abordaria esse maldito assunto. Inspirou fundo. Ele moveria céus e terras para provar sua inocência, para ver Melissa pagar por todos os seus pecados e, principalmente, para reconquistar a mulher da sua vida. — Você foi tão ingênuo… — Ela sussurrou o trazendo de volta para o mundo real. — Acreditou que estava sendo mais esperto do que eu, e seu erro foi vasculhar apenas meu computador. Você se preocupou tanto com as cópias que se esqueceu do original. Que, por acaso, eu deixei na câmera que gravou o nosso sexo. — Isso só prova como você é uma vadia neurótica! — Murmurou entredentes, segurando a cólera em seu punho. — Tudo teria sido tão diferente se não tivesse me desprezado por conta daquela magricela sem graça!


A face de Daniel se contorceu, e quando deu por si já estava a segurando pelo braço outra vez e cuspindo as palavras: — Não fale assim dela! Você nem deveria se comparar à Sophia. Ela nunca precisou prejudicar ninguém para conseguir a minha atenção, o meu amor. — A soltou abruptamente. — Ela me cativou, enquanto você só quis ver a minha desgraça. Eu tenho nojo de você, Melissa Telles. — Declarou com desdém, e no mesmo instante virou nos calcanhares para ir embora. Daniel não esperou por uma resposta, nem quis saber de que forma Melissa tivera as demais informações sobre sua vida com Sophia e o casamento do seu irmão, mas ponderou que parte teria vindo diretamente de Eduardo. Ele não daria atenção para aquilo naquele momento. Daniel tinha coisas mais importantes para serem resolvidas. Como procurar por Sophia e se esclarecer.

♦♦♦

—… o envelope da Sophia… Eu o deixei sobre o balcão. Tenho certeza — disse Daniel para Heitor, mas o irmão não se importou e continuou com seus olhos grudados à televisão. Tudo que Müller queria, depois da sua visita à Melissa, era chegar em casa, terminar de abrir o envelope e saber o que diabos havia lá dentro. No caminho, teve de fugir de alguns fotógrafos e jornalistas que cercaram seu carro, enquanto telefonava para seu advogado e providenciava os trâmites para que os vídeos fossem tirados do ar e o processo contra Melissa fosse aberto. Mas quando foi até a cozinha, o envelope já não estava mais lá, e ele procurou por cada canto do cômodo, e, mesmo tendo certeza de que havia deixado sobre o mármore, olhou na sala e em seu quarto. Agora, perguntava para o irmão, que lhe dava pouca atenção. — Heitor, estou falando com você! — Protestou. — Eu já disse que não sei, Daniel, de porra nenhuma de envelope. — Rebateu irritado. — Por que está me tratando assim? — Indagou exasperando. — Talvez porque você tenha mentido para mim. — Heitor, olha… vamos conversar… — Quer saber, Daniel, — proferiu se levantando — tenho outras coisas para fazer. Boa sorte com seu envelope. — Enunciou, e saiu balançando a cabeça. Daniel suspirou, perguntando-se quais outras pessoas virariam as costas para ele. Sentiu, novamente, as lágrimas em seus olhos. Sua única família era o irmão e Sophia, mas naquele momento não tinha nenhum dos dois. Afastou suas frustrações e continuou buscando pelo envelope,


mas não o encontrou. Vencido, se jogou no sofá, suspirado. Dali a pouco, entrou sua diarista, que deveria estar de folga. — Dora? Achei que estava de folga. — O senhor Heitor me telefonou para vir fazer uma limpeza — disse meio cabisbaixa e sem jeito. Talvez ela já soubesse de todos os acontecimentos. Daniel apenas acenou, afagando o rosto. Súbito, algo lhe ocorreu e ele chamou a mulher de volta, que ia em direção aos quartos. — Você por acaso viu um envelope na cozinha? — Oh, sim, vi. Os olhos dele brilharam. — E onde está? — Perguntou esperançoso. — Eu o joguei no lixo, senhor Daniel. Como estava no chão e já sujo com marca de pés, acreditei que não era importante. — A mulher gaguejou. — Que droga! — Resmungou e se levantou rapidamente, indo para a cozinha. A diarista veio logo atrás, dizendo: — Sinto muito, senhor Daniel, mas eu já retirei o lixo da casa. Acabei de vir da rua e o caminhão do lixeiro já passou. Daniel lufou, parando no meio do caminho. Sua intenção era revirar o lixo até encontrá-lo. Mas ao ouvir as palavras da mulher, soube que sua busca seria vã. Engoliu em seco e suspirou. Talvez nunca soubesse que raios havia naquele envelope.


41 AMOR DESCONTROLADO

Dois meses depois.

ophia segurou o papel pardo firme em suas mãos, enquanto Miguel puxava o cinto e girava a ignição. Por fim, estava segurando os papéis do divórcio e se veria livre de qualquer compromisso com Daniel. Como o planejado com Miguel, dois dias depois de toda a confusão na sala de Müller, ela se mudou para o interior do Estado, na casa dos Guimarães, por onde viveu aqueles últimos dois meses. A Hornet ainda estava com a ideia maluca de privar Daniel da paternidade e, de cinquenta dias para cá, já tinha uma boa desculpa para dar a todos. O filho que esperava era do seu noivo… Miguel.

S

Suspirou exasperadamente, encostando a cabeça no vidro e pensando em como ele esteve presente durante todos os dias daqueles dois meses. Miguel havia secado suas lágrimas, afagado seus cabelos e a consolado bastante, reforçando sempre que a amava, que jamais faria o que Daniel fizera, que somente ele poderia lhe oferecer um amor verdadeiro. De início, Sophia não quis aceitar, mas Miguel conseguiu convencê-la. Disse que assumiria o filho dela como sendo seu, assim ela poderia dizer a todos quem era o pai do seu bebê sem que as pessoas desconfiassem que o pai biológico fosse, na realidade, Daniel Müller. Logicamente ela teria de esconder algumas semanas, e quando a criança nascesse diria que fora um nascimento prematuro. No decorrer daqueles dois meses, soube por intermédio de sua família que Daniel a havia procurado algumas vezes, na casa de seus pais, na de Miguel, e que ele tentou, inúmeras vezes, ligar em seu antigo número – deixado na casa dos pais e trocado por outro. Por muitas vezes, ela quis desistir de tudo e ir de encontro a ele, ouvir o que ele lhe tinha a dizer, saber o porquê, depois de provar claramente que nada sentia por ela, insistia em procurá-la. Mas suprimiu qualquer desejo insano e continuou tocando sua vida, precisando reafirmar, muitas vezes, que Miguel era o homem certo para si. Sempre fora, talvez. Ela quem foi imprudente o suficiente ao abandoná-lo no altar pouco mais de um ano antes. Se tivesse se casado com ele, muitas dores de cabeça teriam sido evitadas. Miguel a tocou nas mãos, interrompendo seus devaneios e a fazendo olhar para ele com um sorriso curto. — Está nervosa?


— Não. — Ela respondeu com um sussurro. — Eu esperei muito por esse dia desde que dei entrada na documentação do divórcio. Tudo que eu mais quero é me ver livre dele para nos casarmos. Miguel sorriu, apesar de ter notado a tristeza em sua voz. Fizeram a viagem de volta para a cidade em silêncio, Sophia sempre alisando sua barriga gestacional de treze semanas. Na sua última consulta havia conseguido visualizar o sexo do bebê – era um lindo e forte menino. Meu Gabriel!, pensou sorrindo. Não deixou de pensar que Gabriel, querendo ou não, lembrava a Daniel, ainda assim, era um nome belo que ela escolheu a dedo num site de nomes para bebê. No dia, uma lágrima escorreu quando se pegou perguntando se Müller teria aprovado o nome. De repente, Miguel estacionou o carro em frente à casa de seus pais, e ela mal percebera. — Você irá entrar antes? — Ele questionou. — Não. Quero levar esses papéis logo para o Daniel e acabar de uma vez com isso. — Enunciou, e Miguel apenas concordou. — Companhia? — Ofereceu-se. — Prefiro ir sozinha. — Alegou. Eles se despediram com um beijo, e Sophia seguiu, extremamente nervosa, para a casa de Daniel. Este que ela não via há dois meses. Quem atendeu a porta foi Heitor, que ficou visivelmente surpreso pela presença de Sophia. Ela sorriu timidamente e o abraçou. Heitor retribuiu, um pouco aturdido. — Você sumiu, garota — brincou, e ela riu baixinho. — Eu precisava de um tempo. — Explicou-se. — Seu irmão está? Vim trazer o divórcio para que ele assine. Heitor sorriu fracamente e olhou para o envelope pardo nas mãos brancas. Ele, mais do que ninguém, sabia qual era a situação do irmão naqueles últimos meses, apesar de ainda não estarem se falando direito por conta de seu casamento com Clarisse e porque, principalmente, Daniel quase não parava em casa. — Eu realmente não sei. A última vez que o vi foi no sábado à noite. Ele estava saindo, e eu não o vejo desde então. Sophia refreou sua vontade de perguntar se estava tudo bem. Engoliu suas palavras e pôs outras na boca: — Se importa se entrarmos para ver se ele está aí? Eu também quero pegar alguns pertences meus. Heitor anuiu. Ofereceu água ou café e Sophia aceitou apenas uma água. Enquanto iam até a cozinha, Heitor lhe contou como estavam suas vidas desde tudo. Falou que Daniel quase não aparecia na empresa, que amanhecia dormindo no sofá, abraçado a uma garrafa de Jack


Daniel's. Às vezes, ele sumia por dois, três, quatro dias, e sempre que dava sinal de vida estava caído na porta de casa, completamente bêbado. Confidenciou de já tê-lo ouvido chorando de madrugada, e que em muitas manhãs Daniel acordou – bêbado – abraçado às fotografias ou peças de roupas que ela deixara para trás. — Não é porque ele é meu irmão, Sophia, Daniel também mentiu para mim — Heitor disse entregando a água a ela —, mas é visível que ele está mal com essa… separação. Quando eu o vejo, ele está abatido, tristonho. Daniel nem cuida mais daquela barba asquerosa. Sophia prendeu a respiração e sorveu sua água lentamente, pensando nas palavras de Heitor. Ela também havia passado por dias difíceis, principalmente quando queria chorar e precisava fazer isso com o máximo de silêncio possível para que Miguel não percebesse. Mas os relatos de Heitor iam além de qualquer coisa que poderia imaginar. Na verdade, sequer imaginou que ele pudesse estar sofrendo. Fora ele quem enganou e mentiu. Balançou a cabeça levemente e terminou sua água. — Ele está colhendo o que plantou — disse enfim. Heitor acenou uma vez, quedando-se calado. — Vamos até seu antigo quarto para você pegar as suas coisas. — A convidou, e os dois subiram juntos e em silêncio. Assim que dobraram a esquina, Sophia pode comprovar por si mesma o que Heitor há tão pouco lhe contou. Daniel tinha acabado de sair do seu quarto. Sua postura e expressão eram péssimas: usava uma camisa branca social toda amassada, a gravata estava frouxa e desajeitada, a calça preta exibia um cinto pendurado, e as barras eram arrastadas pelo chão, a barba malcuidada preenchia seu rosto; os cabelos, mais volumosos que o normal, estavam desgrenhados, os olhos, fundos com marcas de olheiras. Ele virava uma dose de uísque direto do gargalo, quando Sophia o viu pela primeira vez desde então. Por um segundo seu coração se apertou ao ver a situação dele. Ele está colhendo o que plantou, reforçou. Sem demora, Daniel percebeu a presença dos dois, e num segundo sua face se transformou totalmente. Por dois meses ele se perguntou onde Sophia estava, chorou, sofreu e se culpou. O uísque foi a única coisa que conseguia amenizar, momentaneamente, sua dor. Instantaneamente, mesmo parcialmente bêbado, ao vê-la ali na sua frente, mais linda do que nunca, sentiu a esperança queimar seu peito. Ele pestanejou, as lágrimas já se acumulando em seus olhos. — Sophia… — sussurrou emocionado. — Meu amor, você voltou. — Disse com sua voz embargada, e deu um passo à frente. — É… eu voltei, Daniel. Vim trazer o divórcio. — Declarou, e ele parou subitamente.


— Vou deixá-los a sós — Heitor murmurou e saiu em seguida, os deixando sozinho. Sophia e Daniel se encararam por alguns segundos, ele ainda digerindo a informação que chegou aos seus ouvidos. Engoliu em seco, sentindo seu coração pulsar acelerado. Ela tentava se manter firme diante dele, reprimindo sua vontade de ir ao seu encontro, abraçá-lo pela nuca e beijá-lo serenamente nos lábios, matando, assim, toda a sua saudade e sua aflição. Queria poder lhe contar sobre Gabriel, queria que nada daquilo em suas vidas tivesse acontecido, e que eles estivessem em paz e bem. Mas precisou constantemente reforçar que Daniel a magoara muito, não somente uma vez, mas várias. E sua traição tinha sido a gota d'água. — Divórcio? — Ele perguntou balbuciando. — Sim… — Sophia, você nem me deu a chance de te explicar sobre o vídeo… — Porque não havia o que ser explicado. — Replicou. Daniel piscou, fazendo algumas lágrimas presas escorrerem por seu rosto. — Sophia, aquele vídeo… —Não importa mais, Daniel. — Ela o interrompeu. — Estou noiva do Miguel. — Informou, e Daniel sentiu como se tivessem jogado o mundo em suas costas. Moveu os lábios sem fazer som algum, repetindo a palavra “noiva” para si mesmo. Seu coração nunca esteve tão apertado dentro do peito, e teve a impressão de terem lhe tirado o chão sob seus pés. — Me esqueceu tão rápido assim? — Questionou entredentes, enciumado. — Não sei por que se incomoda. Nunca me amou de verdade. — Como diz isso, Sophia? — Indaga com a voz falha, o peito em uma dor insuportável. — Tantas vezes eu demonstrei meu amor por você. Não foi suficiente? — Você me enganou, Daniel! — Sophia ergueu a voz — Mentiu, trapaceou. Traiu! Todas as suas demonstrações eram falsas. Você só queria me envolver, me segurar até ter a sua herança. Pronto: você já a tem. Não precisa mais fingir. Nesse instante o sangue de Müller ferve dentro de suas veias. Ele comprime os lábios, descarregando sua raiva e segurando suas lágrimas ao mesmo tempo. Mas a insanidade fala mais alto que sua razão, e ele não se controla. A garrafa de uísque em suas mãos é arremessada contra uma parede adjacente. Sophia se sobressalta com o vidro que se espatifa e com o líquido que espirra para todo o canto, juntamente com o berro de Daniel! — Porra, Sophia! Olha para mim! Estou bêbado numa manhã de segunda-feira, eu não tiro essa roupa desde sábado à noite e cheiro a álcool, cigarro e suor. Meus olhos estão vermelhos e inchados de tanto chorar e de não conseguir dormir. Eu não como direito, eu não durmo direito e às vezes eu nem sei como volto para casa de tanto que afogo minhas mágoas. Você não sabe como toda essa merda tem sido o inferno para mim, então não venha me dizer que estou fingindo!


Por um segundo Sophia fica paralisada com a reação dele, enquanto Daniel respira em arquejos, recuperando sua postura. — Tem razão, você está bêbado! — Profere com a voz firme e deixa o papel pardo com o divórcio sobre um móvel ali perto. — Assine essa droga de divórcio quando estiver sóbrio e depois me procure. Estarei na casa dos meus pais. — Proclamou e virou-se para sair. Irracional demais, Daniel correu até ela e a segurou pelo braço, obrigando-a a olhar para ele. Sophia, que já havia descido um degrau, tentou se desvencilhar, mas Müller a prendia firmemente. — Me dê só um minuto. — Daniel suplicou. — Eu preciso de um maldito um minuto para me explicar pra você. Por favor, Sophia. — Me solta, Daniel! — Pediu remexendo-se e querendo se livrar do aperto dele. — Eu não tenho nada o que te escutar. Só irá mentir mais. Estou farta de mentiras! Daniel a apertou mais e tentou trazê-la para um beijo, seus lábios e seu corpo implorando ansiosamente para senti-la outra vez. A loura continuava a se rebater, a aproximação deles, agora, permitindo que ela sentisse o cheiro forte de uísque e cigarro mentolado. — Eu te amo. — Murmurou, e no segundo seguinte explodiu, gritando: — Não acredito que irá se casar com aquele imbecil do Miguel. — Me solta, Daniel! Por favor, só me deixe ir embora! — Não! — Gritou, alucinado. — Você é minha, entendeu? Minha! — Me solta! — Bradou ela, fazendo força — Eu te odeio, Daniel! Te odeio! — Dito isso, conseguiu se livrar das mãos de Müller, mas ao custo do desequilíbrio. Com o impulso que fizera para se soltar, impulsionou o corpo para trás, pisou em falso num degrau e seu corpo foi jogado escada abaixo. Milésimos de segundos antes, Daniel tentou segurá-la, mas não houve tempo. Ele assistiu, aterrorizado, Sophia rolar escada abaixo até parar, sangrando pelo nariz e inconsciente, no pé da escada. — Não, não, não, não, não! — Exclamou desesperado, desceu os degraus rapidamente, as lágrimas se acumulando, o coração descompassado, e mais uma vez a culpa. — Sophia… Sophia, por favor, Sophia! — Ajoelhou-se perto dela. De repente, Heitor surgiu afobado pelos gritos que escutara da cozinha. Estacou no meio do caminho. Viu Sophia desmaiada e sangrando, no final da escada. Viu Daniel desesperado perto do seu corpo. Ele piscou atordoado, até, finalmente, conseguir dizer: — Que merda você fez agora, Daniel?


42 DOR E ADEUS

H

eitor tentava acalmar Daniel, que andava de um lado para o outro na recepção do hospital, enquanto aguardavam que alguém viesse lhes informar sobre Sophia.

No alvoroço do momento, Müller sequer se importou em trocar de roupa, e se encontrava ainda com sua camisa branca engomada, a gravata ainda mais frouxa e desajeitada, e a calça preta, amassada. Estava com os nervos à flor da pele, que lhe causou, minutos antes, uma crise de culpa. Daniel ficara extremamente nervoso e chorou feito uma criança assustada, alegando diversas vezes que a queda de Sophia tinha sido um acidente, e sua intenção nunca foi de machucá-la. Heitor teve que ter muita paciência para conseguir controlar o irmão e sua crise de culpa. Ainda assim, Daniel continuava apreensivo por não saber do estado de saúde dela. Afagou o rosto, pensando em como, mais uma vez, algo de ruim havia acontecido por sua culpa. Tudo que queria era somente poder ter a chance de se explicar, de contar toda a verdade sobre o vídeo, e assim, quem sabe, fazê-la desistir do seu noivado com Miguel. Mas, para variar, as coisas saíram do seu controle, e Sophia estava mal por sua causa. Olhou no relógio pela milésima vez, a ansiedade quase corroendo seu interior. Não se perdoaria se algo grave acontecesse a ela. — Daniel, se acalma, cara. — Não me peça para ter calma! — Ergueu a voz. — Se alguma coisa acontecer a ela, eu… Eu não sei… eu não… — arquejou respirando com dificuldade. Sequer conseguia pensar no pior para ela. Sentiu as lágrimas dentro dos olhos, a culpa a todo instante martelando seu coração. Heitor se aproximou e segurou o irmão pelos braços, o puxando para um abraço, sussurrando para acalentá-lo. — Vai ficar tudo bem, Daniel. Müller suspirou e se afastou do abraço, acenando e controlando sua respiração. Heitor tinha razão. Era preciso manter a calma, pois seu nervosismo não o levaria a lugar algum. Respirou fundo, tendo em mente que suas maiores bobagens foram cometidas quando estava nervoso. E naquele momento não queria causar mais dano nenhum. Heitor apertou o ombro dele, amigavelmente, e lhe ofereceu um sorriso curto e sincero. Encarou os olhos tristonhos do irmão e quis esquecer qualquer mágoa existente. Sabia que, talvez,


Daniel tenha feito todas suas bobagens nas melhores das intenções. Suspirou e se arrependeu por ter o ignorado por todos aqueles dias. Pensou em abrir a boca para se desculpar, mas de repente Miguel e Eduardo surgiram a passos afobados. Assim que avistou Daniel, Guimarães foi em sua direção a passos decididos – a expressão pouco amigável. Hornet veio logo atrás, a mesma determinação de Miguel exalando de suas passadas. ― O que foi que você fez a ela, Daniel? — Acusou Miguel em alto tom. Müller deu um passo atrás, acuado. Naquele momento, não conseguia raciocinar nem revidar a nada. Com a acusação dirigida a ele, sentiu outra vez a culpa lhe invadir, e tudo que conseguiu foi somente balbuciar nas palavras, amedrontado, e com as lágrimas surgindo em seus olhos: — Foi um acidente… Eu não quis machucá-la. Eu juro, Miguel, eu juro. Eu não quis machucála… Eduardo abriu caminho e, sem pestanejar, apontou o indicador para Daniel, bradando: — Se alguma coisa acontecer a minha irmã… — Cale a boca, Eduardo — interferiu Heitor, defendendo Daniel. — Meu irmão acabou de ter uma crise de culpa por causa desse acidente, então guarde suas ameaças para você! Houve um segundo de tensão na sala entre os quatro homens ali presentes. Miguel controlava sua vontade de arrastar Daniel para fora do hospital e exigir uma explicação para o ocorrido, já que ainda não sabia exatamente o que havia acontecido. Todas as informações que tinha eram as que Heitor repassara a ele em uma ligação, dizendo apenas que Sophia havia caído da escada da casa deles. Querendo não preocupar Eva e Sebastian, comunicou somente a Eduardo, e saíram furtivos da casa dos Hornet. Queriam, primeiramente, saber do estado de Sophia antes de alarmar qualquer coisa. Ele pensava, ainda, no bebê, torcendo pelo melhor do pequeno Gabriel. Eduardo também se controlava, mas o que realmente queria era poder cumprir sua ameaça anterior. Daniel, outra vez, havia ferido sua irmã, dessa vez ainda pior, já que tinha sido fisicamente. Heitor mantinha-se neutro e preparado para defender o irmão mais velho, este que estava absorto demais para qualquer reação de defesa, ainda que mecânica. — Como ela está? — Miguel quebrou o silêncio e a tensão. — Ainda não sabemos. — Daniel choramingou, continuava catatônico. — Ninguém nos deu notícias dela. Miguel acenou e afastou-se alguns passos com Eduardo, passando as mãos pelos cabelos curtos, visivelmente preocupado. Dali a alguns minutos, um médico apareceu na recepção, convocando os familiares de Sophia. Daniel e Miguel foram os primeiros a irem de encontro ao homem. — Vocês são o que de senhorita Sophia? — Quis saber o médico. — Marido.


— Noivo. Os dois responderam em uníssono, fazendo o doutor olhar para eles com esquivança. Müller e Guimarães se entreolharam, Miguel soltando uma lufada exasperada. — Ex-marido, Daniel. — Lembrou-o. — Ainda não assinei o divórcio. Continuo sendo marido dela! — Rebateu. — Pelo amor de Deus! — Protestou. — Vocês estão separados há dois meses. — Tudo bem, senhores, eu já compreendi — o médico interveio no momento em que Daniel iria responder. Sendo cortado, simplesmente preferiu contornar o assunto e perguntar do estado de Sophia. — Ela está bem. Teve uma concussão, mas está fora de risco. Porém, ficará em observação por vinte e quatro horas. — Explicou o médico, e Daniel sentiu-se extremamente aliviado. Somente em saber que nada demais acontecera a Sophia isso lhe deixou com a alma leve. Pensava em perguntar se poderia entrar para vê-la, quando Miguel o interrompeu, questionando: — E o bebê? Müller olhou para ele no mesmo instante, atônito e desnorteado com seu questionamento. — Que bebê? — Indagou, confuso. O médico expressou um semblante preocupado e suspirou antes de dizer: — Infelizmente, com a queda, ela sofreu um aborto. Daniel pestanejou, totalmente aturdido, sem saber do que é que eles estavam falando. Miguel afagou o rosto e murmurou um “Meu Deus”, enquanto Müller tentava entender do que estavam falando. — Que bebê, Miguel?! — Insistiu na pergunta, completamente apavorado. — Ela estava grávida, Daniel! — Orleans respondeu de pronto e o encarou, completando: — E o filho era seu. Momentaneamente, Daniel sentiu uma grande pressão no peito e teve a impressão de se deslocar do tempo e do espaço. Seu coração palpitou e seus ombros caíram, sua expressão totalmente abatida e assustada com a nova informação. Pestanejou, a voz de Heitor soava longínqua em sua consciência, dizendo-lhe algo. Daniel sentiu suas pernas bambas e cambaleou, precisando ser amparado pelo irmão e pelo doutor. Ainda absorto, foi direcionado para o sofá, as vozes ao seu redor o questionando se estava tudo bem. Mas Daniel permanecia mudo, chocado e totalmente perdido em sua culpa. Mecanicamente balançou seu corpo para frente e para trás, então desatou a chorar quando supôs que o envelope de meses atrás era o exame que confirmava a gravidez dela. Chorou enquanto se recordava que havia desejado aquele filho, e chorou por, principalmente, Sophia ter


perdido o bebê por sua culpa. Gritou desesperado, as mãos repuxando os cabelos numa atitude instintiva, irracional e primitiva de compensar sua dor psicológica. Heitor e o médico correram para acalmá-lo, enquanto pediam por uma enfermeira com uma dose de calmante. Se Daniel acreditou que seu sofrimento não poderia aumentar mais, ele estava enganado. Além de ter que carregar a responsabilidade pelo fim do seu casamento, agora havia o fardo de levar em seus ombros a morte do seu próprio filho. Aquilo dilacerou seu coração, e tudo o que desejou – no momento em que Heitor, Miguel e Eduardo o seguraram para que fosse medicado – era poder voltar no tempo e ter feito a coisa certa: nunca se permitir entrar na vida de Sophia. Se pudesse mudar as suas escolhas, por amor a ela, jamais teria surgido em sua vida. Subitamente, sentiu seus batimentos desacelerando e suas lágrimas, agora, se resumiam a suspiros tremulantes. O calmante, que fora injetado sem que tivesse conhecimento, começava a fazer efeito em seu organismo. Assim que voltou à realidade, encarou os pares de olhos sobre ele, todos aturdidos. Ainda estava catatônico com a notícia do aborto de Sophia, mas o calmante cortou o efeito de sua reação desesperada. — Me desculpem, eu… — gaguejou sem saber como terminar de dizer. — Está tudo bem, senhor Müller. — Anuiu o médico, complacente. — Posso entrar para vê-la? — Ciciou cabisbaixo. — O horário de visitas é dentro de duas horas. — Informou. Ele apenas acenou. O doutor ficou na presença deles por mais alguns segundos, explicando o quadro clínico de Sophia, alegando que por conta do aborto e da concussão, ela ficaria de observação, até terem certeza de que estava tudo bem. Após afirmar que se precisassem de algo mais ele estaria à disposição, retirou-se, deixandoos sozinhos. Eduardo e Miguel se afastaram para ligarem para Eva e Sebastian, enquanto Heitor permaneceu junto ao irmão, que ainda estava emudecido pelo choque da notícia. — Daniel, vá para casa, tome um banho, uma dose de glicose, descanse um pouco, depois você volta para vê-la. — Heitor murmurou, compadecido pela situação de Daniel. Nunca imaginou ver o irmão tão desesperado como vira há segundos. Por um momento sentiu-se um completo idiota por não ter estado ao lado dele naquelas últimas semanas, por tê-lo ignorado em vez de apoiá-lo. — Não… — Ele negou balançando a cabeça, vagarosamente — E se ela fizer como fiz em Angra dos Reis? — Questionou temeroso, e encarou os olhos do irmão. — E se ela for embora e eu nunca mais tiver notícias dela? Eu não posso permitir que ela se vá sem falar com ela antes, Heitor. — Choramingou. — Ficarei aqui por você, irmão — anunciou e sorriu complacente. — Se a Sophia se levantar para ir ao banheiro, eu saberei e você será o primeiro a ser informado — assegurou, e Daniel deu-lhe um sorriso breve e entristecido. — Vá para casa e troque essa roupa. Se você quer vê-la,


esteja, no mínimo, apresentável. Daniel anuiu e se levantou, afagando o próprio rosto. Saiu até a rua vagarosamente, seu coração, agora, quebrado em incontáveis pedaços que jamais poderiam ser remendados outra vez. Entrou em um táxi e foi para casa. Enquanto a paisagem urbanística passava diante dos seus olhos, ele não pôde evitar seus pensamentos que rasgariam ainda mais seu peito. Mentalmente reviveu os seus dias com Sophia, do primeiro beijo na porta do apartamento dela por conta de Miguel à consumação daquele casamento, no meio da areia, na noite escura e de brisa agradável, lembrou-se dos desentendimentos, das promessas nunca cumpridas, das novas que foram feitas ao longo dos meses em que os dois se entenderam, do desejo de ter uma família com Sophia e de ser pai, dos sorrisos dela, das mãos que afagavam suas costas durante o sexo. Recordou-se de como nunca foi tão feliz como tinha sido com Sophia. Recordou-se dos erros e das mentiras que desencadearam todas as situações que o levaram até aquele banco de táxi numa manhã de segunda-feira. O pedido de divórcio… o novo noivado dela… o bebê que ela perdeu. As lágrimas rolaram pelo seu rosto sem que ele percebesse. O táxi estacionou frente sua casa, e o motorista precisou chamá-lo um par de vezes até que Daniel voltasse à realidade. Pagou sua corrida e entrou em casa a passos vagarosos. Aquele lugar nunca mais seria o mesmo. Se antes era preenchido pela alegria contagiante de Sophia, agora nada mais era que um local triste e depressivo. Subiu as escadas tentando não se recordar da cena de ela rolando e ele totalmente em desespero. Chegou ao final e olhou ao redor. O papel pardo repousava intocável sobre o cômodo. Apertou os olhos e mais lágrimas vieram. Se tivesse apenas assinado a droga daqueles papéis, Sophia estaria bem, o bebê continuaria crescendo saudável dentro de seu útero. Provavelmente continuaria sem ter conhecimento que o filho era seu. E por mais que Daniel pensasse ser uma injustiça privá-lo da paternidade, ainda assim, preferia passar o resto da vida sem saber que tivera um filho com a mulher da sua vida a ter que carregar a responsabilidade pela perda desse mesmo filho. Inspirou fundo e tomou a decisão que deveria ter tido desde sempre. Agarrou o envelope pardo e tirou o documento. Pescou uma caneta e assinou o divórcio. Uma lágrima escapou de seus olhos e molhou os papéis no instante em que sua assinatura estava completa.

♦♦♦

Daniel entrou na recepção do hospital já mais sóbrio. A mistura de banho frio, café forte e amargo e uma dose grande de glicose cortaram o efeito do álcool em seu organismo. Sua aparência também era outra – e melhor. Os cabelos volumosos foram cortados, e seu habitual penteado jogado de lado deu lugar à confusão de fios desgrenhados que eram suas madeixas até horas atrás; a barba malcuidada passou por uma navalha bem afiada, e seu aspecto agora lhe conferia um ar mais sério e ao mesmo tempo charmoso – como era de costume; as olheiras foram escondidas sob o pó compacto, o dorso esguio acolhia jeans, camisa polo e blazer azul marinho. Mas todos esses aspectos não eram suficientes para esconder a tristeza denunciada em


seus olhos – possível de ser notada a quilômetros de distância. Assim que pisou na entrada, todos ali presentes — Sebastian, Eva, Eduardo, Isabela e Heitor — olharam para ele, a família de Sophia, como era de se esperar, com os olhares de desaprovação. Estacou na porta, ainda sem saber como lidar com todos aqueles olhos sobre ele, o acusando, o culpando, o julgando. Respirou fundo e olhou para o envelope pardo nas mãos. Levantou a cabeça e caminhou mais para dentro, até alcançar o irmão. As visitas ao quarto de Sophia já haviam sido liberadas e, segundo Heitor, Miguel entrara para vê-la. O silêncio e a tensão se fizeram gritantes enquanto aguardavam o retorno de Miguel. — Não foi o suficiente enganar a minha irmã a traindo com uma vagabunda ruiva qualquer, você tinha mesmo que matar o bebê que ela estava esperando, não é, Daniel? — Isabela irrompeu o silêncio, sua voz saindo ríspida, grosseira e irada. Todos olharam para ela, surpresos, e até Sebastian murmurou uma advertência. Daniel piscou, perguntando-se se era realmente necessário lembrá-lo que a culpa daquilo tudo era sua. Tinha ciência, mais do que ninguém, e já havia se arrependido e se culpado. A última coisa que precisava era de gente apontando em sua cara toda a sua terrível culpa. Suspirou e desviou os olhos, querendo não dar continuidade àquilo. — Deveria tomar cuidado com as suas palavras, Isabela. — Heitor advertiu entredentes. — Foi um acidente, e Daniel já se culpou demais para ter você ou qualquer outra pessoa o acusando. — Se culpe mesmo! — Ela rebateu, e ignorou a segunda advertência do pai. — Você tem que passar pelo que a Soph passou por causa da sua traição! — A começar, Isabela — Daniel proferiu firme, não aguentando mais todas aquelas acusações de traição —, não houve traição alguma. Se naquele dia somente um de vocês tivessem me dado a chance de dizer que o vídeo foi gravado muito antes do meu casamento com Sophia, talvez não estaríamos hoje aqui. — Que desculpa esfarrapada! — Ela resmungou. — Não importa mais. — Proferiu ele. — A única pessoa para quem eu devo satisfações é para Sophia. Acreditem se quiserem na minha versão dos fatos. Eu não preciso da aprovação de vocês. — É o que você… — Chega, Isabela! — Sebastian foi mais rígido, e a filha o obedeceu, calando-se. Ela mirou Heitor e os dois se encararam por alguns segundos, um percebendo a raiva do outro, cada um protegendo e defendendo seus respectivos irmãos. Outra vez o silêncio se instalou, mas segundos depois, Miguel surgiu, vindo do quarto dela. — Pode entrar o próximo. — Disse, e sem balbuciar Daniel deu um passo à frente, pouco se importando se as outras pessoas haviam chegado primeiro.


— Você, não, Daniel — Miguel o impediu, pondo-se em seu caminho. — Já causou males demais a ela. — Eu acho bom você sair do meu caminho — murmurou. — Eu vou entrar para vê-la e ninguém nessa sala irá me impedir. — Você não tem direito nenhu… — Deixe-o, Miguel — Sebastian proferiu, e Daniel olhou por cima do ombro, aliviado em saber que pelo menos alguém não iria se interpor. Voltou-se a Miguel e se encararam por alguns segundos antes de Guimarães dar um passo ao lado. — Quarto 10. — Disse apenas, e Müller passou por ele. Caminhando até o aposento de Sophia, ele tentou manter suas emoções controladas, suas lágrimas, dentro dos olhos, e seu coração, batendo em ritmos normais. Mas foi praticamente impossível. As emoções estavam alvoraçadas dentro dele e fizeram suas mãos suarem, seu coração parecia entalado na garganta e suas lágrimas já começavam a juntar. Preencheu o pulmão com ar e abriu a porta vagarosamente. Assim que seus olhos se depararam com ela, houve um frio em sua barriga e seu coração saltou ainda mais. Sophia estava abatida, mais branca que o comum, os lábios levemente secos e rachados, os cabelos ‒ presos em um rabo de cavalo baixo ‒estavam um pouco bagunçados. Ao fundo, uma pequena estação de rádio estava sintonizada, tocando uma música qualquer em volume agradável. Ao vê-lo, Sophia prendeu o ar, como se sua simples presença trouxesse mais males e ele pudesse machucá-la ainda mais. — Por favor, vai embora, Daniel… — suplicou com a voz embargada. Ele hesitou um passo para frente e olhou a porta atrás de si, sentindo o peso daquela súplica sobre seus ombros. Havia feito tanto mal a sua mulher a ponto de ela não querer nem a sua presença. Pestanejou e engoliu sua bílis, tremendo por dentro. — Eu vou… — a voz saiu trêmula — eu só preciso de cinco minutos. Depois eu juro que saio por essa porta e você nunca mais me verá. Sophia suspirou secando algumas lágrimas e desviou o olhar, enquanto Daniel avançava a passos lentos e se sentava de frente para ela. Daniel a fitou por um segundo, notando as expressões faciais: o rosto contorcido em dor. Talvez ele pudesse imaginar como Sophia estaria se sentindo, da dor que se abria em seu coração, do vazio que se expandia pelo seu peito. — Por que não me contou da gravidez? — Murmurejou, e ela trouxe seus olhos verdes para os dele. Controlou seu pranto antes de responder: — Porque você não merecia saber. — Como não, Sophia? — Indagou baixinho e sereno. — Eu desejei um filho tanto quanto você. Ela deixou escapar um sorriso sonoro e angustiado. Cruzou os braços.


— Quando você desejou? Enquanto transava com a Melissa? Vagarosamente ele balançou a cabeça, sentindo que seu coração não aguentaria mais tantas acusações, tanta falta de chances de se explicar. — Eu nunca traí você, Sophia — sua voz era um misto de lamento e serenidade. — Aquele vídeo foi feito muito antes de nos assumirmos. — Conseguiu enfim, e tardiamente, dizer a verdade. ― Melissa apenas distorceu os fatos… Sophia o encarou, um pouco espantada. E ele continuou dizendo: — Eu tentei me explicar, mas você não me deu chance. Sophia sentia sua respiração irregular, uma forte dor no peito. Não sabia dizer o que era exatamente, mas era quase insuportável, e talvez fosse uma repreensão por ela não ter o ouvido antes, por ter –ela percebera somente naquele momento – acreditado justamente em Melissa, que desde que a conheceu vinha querendo prejudicá-los de alguma maneira. Veio à sua memória, então, o tal favor de Daniel para a ruiva, e Sophia deduziu que não havia favor nenhum, mas sim, chantagem, mesmo que ela não entendesse como e por que Müller seria chantageado se o vídeo tinha sido feito antes de se envolverem. Foi impossível não se lembrar das vezes em que Daniel quis conversar com ela sobre um assunto sério, que, provavelmente, seria sobre o vídeo, e de como ela foi bem específica ao dizer que não queria que o assunto se tratasse Melissa, e que isso, com certeza, o fez recuar em contar a verdade. Soltou um suspiro trêmulo, analisando toda a situação de outro ângulo. Pestanejou, e suas lágrimas escorreram pelo seu rosto. Tinha ciência, somente naquele momento, que a culpa também era dela. — Por que ela fez isso conosco? — Indagou com a voz falha, se referindo a Melissa e ao vídeo que exibiu para todos. Daniel cerrou os olhos por um momento, lembrando-se dos eventos que desencadearam aquilo tudo. Permaneceu em silêncio alguns segundos, não sabendo por onde começar. Havia tanta coisa que precisava ser dita entre eles… — Por favor, Daniel — Sophia suplicou, e no mesmo instante ele a olhou —, eu quero a verdade. Olha só aonde suas mentiras nos trouxeram. Daniel acenou, concordando com ela. Sophia tinha razão. Se ele não tivesse contado tantas mentiras, por mais que houvesse boas intenções por trás, aquela situação não estaria acontecendo, e eles, provavelmente, estariam em casa, curtindo juntos a gravidez. Tomou coragem e inspirou fundo antes de contar tudo desde o começo: de ter quebrado a promessa que fez no navio, de ter dormido com Melissa no dia em que voltaram da lua de mel, de ter sido chantageado com o vídeo que ela fizera da relação deles – e que por isso, deu o cargo de secretária para a ruiva e era tão facilmente manipulado por ela ‒ de ter contratado um hacker que juntou provas suficientes para incriminá-la caso Melissa jogasse o vídeo na rede de internet, e que, após ter todas as provas que queria, vingou-se de Melissa a fazendo passar por uma humilhação.


Terminou de contar toda a verdade, coisa que deveria ter feito desde o começo, e baixou os olhos para o envelope pardo, sua expressão completamente entristecida. Murmurou em seguida: — Primeiro eu fiquei com medo que sentisse raiva de mim por ter quebrado minha promessa, principalmente, se o seu nome fosse envolvido num escândalo. Depois, quando já estávamos juntos, eu senti medo de te perder. Eu fiz o errado achando que estava fazendo o certo, porque eu não queria te perder. — Finalizou e levantou os olhos para ela, que ouvira a história toda com atenção. Ficaram em silêncio por alguns segundos, Sophia ainda digerindo todas as informações que chegaram até ela. — Eu sinto muito. — Daniel ciciou. — Eu sinto muito, mesmo. Me perdoe, por favor. — Daniel, todas as vezes que você fez bobagem, todas as vezes que você mentiu, tudo isso atingiu somente a mim. Magoou somente a mim. Mas dessa vez, Daniel, você machucou alguém que não tinha culpa de nada. Um serzinho totalmente inocente. A sua imprudência custou a vida do meu filho! — Ela proferiu em tom acusador. Ele sentiu o peso daquela acusação cair sobre os seus ombros e não ia contestar. Sophia estava coberta de razão. A culpa era dele, somente dele, e de mais ninguém. Primeiro por ter escondido tantas vezes a verdade, e depois por não a ter deixado ir, por querer mostrar-lhe a verdade da forma mais brusca e estúpida que encontrou. Ele tinha feito uma promessa – a de mover céus e terras para provar sua inocência – que também fora quebrada por ele mesmo assim que se deparou que não a encontraria. Daniel se tornou um maldito bêbado que vivia caído na porta de casa, afogando suas mágoas numa garrafa de uísque e lamentando suas perdas. Ele não moveu céus nem terras. Simplesmente quebrou outra promessa e definhou na sua própria solidão. Então, naquela manhã, quando a viu depois de dois meses, sentiu que sua esperança era como uma fênix renascendo das próprias cinzas. Mas toda sua esperança foi vã quando se deparou que ela continuava a insistir em não lhe dar ouvidos. Ensandecido, quis forçar a verdade, e todos os seus atos imprudentes o levaram até ali. — Agora eu sei que devia ter dado a chance de se explicar — Sophia continuou —, mas tente, Daniel, só tente se pôr no meu lugar. Você, com esse seu eu troglodita, teria me dado a oportunidade que tanto exigiu? — Indagou, e nesse exato momento She Knows Me5começou a tocar na rádio sintonizada.

♫ Winds will come and winds will go And the seasons always change But the light that shimmers in her eyes Stays the same ♪

Ele a encarou, refletindo sua pergunta. Desviou os olhos e nem quis imaginar o tamanho da besteira que teria feito caso os papéis fossem invertidos. A resposta era não. Provavelmente ele


também não a escutaria. Sophia nada disse, permanecendo muda. O silêncio dele era a resposta mais positiva que poderia receber.

♫ Yeah, the sun will shine and the moon will glow And the world will always turn There's a constant fire inside of her That always burns ♪

— Não se preocupe. — Ele disse olhando para ela. — Eu não serei mais esse mal que te aflige. — E arrastou o envelope para ela, se levantando em seguida. — O divórcio…Eu já assinei. É uma mulher livre agora. — Proferiu.

♫ She knows me Every corner of my soul She knows me The way I come, the way I go She told me There's nothin' I can show That she don't know about me♪

Daniel baixou o olhar para se encontrar com os olhos verdes de Sophia, brilhantes por causa de algumas lágrimas. — Poderá se casar com o Miguel e ser feliz. Ter a vida que eu não pude te dar. — Declarou baixinho, e ela apertou os olhos, deixando as gotas escorrerem.

♫ Round and round and round we go Neither here or neither there All I know, without her in my life I'd be nowhere


Well, feelings come and feelings go But some things never change Like the light that shimmers in her eyes It stays the same ♪

Com um suspiro, Daniel inclinou-se e depositou um beijo na testa de Sophia, um singelo e cortante símbolo de adeus. Afastou-se lentamente dela, não querendo ter que se separar, querendo poder envolvê-la, beijá-la e amá-la da forma ardente que sempre a amou – da forma como ela sempre mereceu.

♫ Oh, she knows me When I'm wrong or when I'm right She knows me In the middle of the night She holds me And I don't say a word Cuz words could never save me ♪

She's got a permanent hold on my heart And I'm learning to live with the loneliness When we're apart ♪

Já estava chegando na porta, quando se ouviu a voz dela, numa pequena frase que partiu ainda mais seu coração dilacerado: — Era um menino… Daniel permaneceu de costas, seus olhos pranteados já não suportando acomodar tantas gotas. Apertou as pálpebras para escorrer as lágrimas. — Que nome teria escolhido? — Ela perguntou.


Ele suspirou. Por que ela ainda o torturava daquela maneira?

♫Every little way She knows me When there's nothin' left to say She holds me And time just flies away Cuz bein' with her is so easy♫

— Não sei. — Respondeu sem se virar. — Talvez… Gabriel. Sophia abafou seu choro e não disse nada, apenas encarou-o nas costas. Sem olhar para trás, Daniel se foi.

♫ Oh, she knows me Better than I know myself ♪

♦♦♦

Sophia o viu sair, e todo o desejo que se concentrou em seu coração foi levantar-se dali e sair correndo para os braços dele. Daniel era o homem da sua vida, a qual ela amava com tod