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AUTORA MARJORY LINCOLN MINHA NOVA DIARISTA - CONTO

Todos os direitos reservados. Obra devidamente registrada na Biblioteca Nacional. 2017


“E silenciem os que amam, entre lençol e cortina ainda úmidos de sêmen, estes segredos de cama.” Carlos Drummond De Andrade


PRÓLOGO

Lara no momento é diarista, mas se engana quem acha que é a coitadinha "da história". Nada disso. Têm suas dificuldades, seus medos, suas lutas, mas é uma garota que apesar de "pobre", é rica em alegria, auto-estima, força de vontade e bondade. Quando seu pai foi preso acusado por tráfico de drogas, ela e sua mãe presenciaram a própria "ruína" de perto. Precisou trancar a faculdade de gastronomia que tanto amava cursar, precisaram se mudar, sua mãe voltou a trabalhar como empregada doméstica em tempo integral dormindo na casa dos patrões, e Lara, com a sua ajuda, conseguia casas para limpar o suficiente para se manter. Sua mãe, com os melhores contatos da área, por estar tanto tempo nessa "vida de doméstica", era passe de ouro para os melhores "bicos". Não dava para pagar a faculdade que antes o pai bancava de forma particular com seu trabalho de segurança, mas já era alguma coisa, podia cuidar de sua mãe, e sobreviver de forma tranquila. Sua formação ficara pra depois, afinal só restava um semestre para concluí-lo, mas era só questão de tempo, Lara jamais parou de estudar por conta própria, logo ela reconstruiria sua vida, primeiro conseguindo um ótimo advogado para provar que seu pai era inocente, e depois, voltando a estudar para viver do seu sonho que sempre foi cozinhar profissionalmente. Vicente é um engenheiro químico super talentoso que não mede esforços para cuidar de sua filha, Allana, de dez anos. Perdeu sua esposa há alguns anos para o câncer e ainda sofre de saudade, mas todos os dias se veste com seu melhor sorriso e antes de ir para a sua empresa, cumpre maravilhosamente bem seu papel de pai e mãe. Leva uma vida simples, sem muita emoção, de casa pro trabalho, nos finais de semana algum passeio para distrair e divertir Allana, e do trabalho para a casa... até que Tia, a velha mãezona que o ajuda dia sim, e dia não, entra de férias, e "o deixa na mão". Para cobri-la e não deixar seu "filho mais novo" e "netinha do coração", como ela mesma diz, no meio de uma sujeira "como dois porcos", indica a filha de uma amiga que precisa muito do trabalho e que além de tudo tem uma mão ótima para cozinhar. A vida de Vicente permanece seguindo seu curso até que para bruscamente quando chega em casa mais cedo, e presencia uma cena no mínimo incomum e tentadora: uma garota linda e naturalmente sexy, literalmente de quatro no meio de sua sala.


Para um homem que havia prometido a si mesmo jamais pensar em qualquer mulher que não fosse sua amada Nanda, aquilo era o mais próximo, em muito tempo, que havia novamente chegado perto/olhado para uma mulher com "maldade". Ele precisava cuidar de seu coração machucado, resguardar sua filha, e evitar dores de cabeça e mais sofrimento. Vicente já havia sofrido tudo o que ele julgava ser mais do que o suficiente para um homem que sempre plantou o bem durante toda a sua vida. Ele precisava encurtar imediatamente as férias de Tia, ou com certeza ia enlouquecer, e Lara, não imaginava o quão jovem, atraente, e bonito podia ser aquele solteirão, seu mais novo patrão. Havia prometido nunca mais reclamar de ter desistido do telemarketing lá no início ao trancar a faculdade, e aceitado a oferta de sua mãe de aproveitar seus contatos e fazer faxina. Ela nunca teve vergonha de qualquer trabalho duro feito de forma honesta, mas que vivia cansada demais para estudar, ah! Vivia! Só que naquele momento, tudo mudou. Nunca foi tão prazeroso para ela cuidar de uma casa como cuidava daquela. Ela jamais reclamaria de ter um chefe com os olhos mais expressivos que já havia visto... e aquele sorriso incrível? Barba grossa, peito largo no terno impecável... Um engenheiro, paizão, todo coração, educado e gentil, mas fechado para o amor, e uma diarista linda, alegre, batalhadora, e cheia de sonhos com o coração completamente livre e quase implorando para amar. Um conto quente ao mesmo tempo leve, emocionante, e surpreendente.


CAPÍTULO 1

— Oi, Tia. Está tudo bem? — Está, menino. Só liguei para dizer que vou esperar tu chegar. Precisamos conversar... — O que houve? Lana está aí, certo? — Lana está bem. Chegou do colégio, Suzi está aqui tentando fazê-la ir pro banho e cuidar do dever... tudo em ordem. — Então o que há, Tia? — Precisamos conversar sobre minhas férias. Vou passar uns dias em Salvador... conversamos sobre isso. Quero ir viajar logo! — Vai mesmo deixar Lana e eu aqui... — Oxi! Quer ir comigo? — ela ri. — Eu levo vocês comigo! É só tirar umas férias também, nunca fez isso. Allana ia amar minha Bahia, e você também! — Tudo bem. Conversaremos quando eu chegar. Já que vai me esperar, sairei mais cedo. Saio em quinze minutos! — Vem com cuidado. Essas estradas estão cada vez mais perigosas. — Sou cuidadoso. Não se preocupe! — Tá. Até já! Tia diz, desligo o telefone, e bufo. O que eu ia fazer sem Tia? Estava conosco há tanto tempo, claro que precisava de umas férias da minha fuça. — sorrio com o pensamento. — Mas eu infelizmente não sabia cozinhar um miojo. Ia encher Allana de pizza por um mês? Não, claro que não. Recosto-me no apoio da enorme cadeira estofada, pego o porta-retrato de Nanda, e fito seus olhos azuis e brilhantes. Minha mulher era a mulher mais linda que existiu nessa terra. Nanda era surreal. Nem parecia desse mundo. Vai ver foi isso, ela não pertencia a esse mundo sujo. Era um anjo. Balanço a cabeça para afastar o clima triste de perto de mim e não me deixo levar. Em pouco tempo veria Allana, ela logo olharia em meus olhos e notaria minha tristeza. E se tinha algo que eu detestava era ver Allana triste. A partida precoce de Nanda me deixou extremamente cuidadoso, e preocupado com seu bem-estar. Precisei me policiar demais para não trancá-la em uma redoma e até hoje trabalho isso em mim. Nanda faleceu Allana tinha quatro anos, já tinha consciência e sente a falta da mãe, então eu tento supri-la de todas as maneiras possíveis. Minha filha é minha maior riqueza, tudo o que eu tinha de mais precioso. Entro em meu apartamento e encontro minha princesa no tapete com o caderno no colo, Suzi a "babá" disfarçada, — Allana diz que não é mais criança, não precisa de babá. — acompanhando tudo de perto, e o cheirinho da comida de Tia me desejando boas-vindas!


— Oi, pai! — Allana corre ao meu encontro e me dá um abraço apertado. — Oi, princesa! Como foi seu dia? Como vai com esse dever, aí? — Eu já terminei, é matemática, tiro de letra! Meu dia foi bom! E o teu??? — O meu foi muuuuito ruim porque eu não estive com minha princesa, mas agora melhorou cem por cento! — eu brinco e ela ri me mandando parar de mentir. — Como vai, Suzi? Tudo bem por aqui? — me aproximo da jovem cansada que vestia branco de forma padrão devido às regras do condomínio, e ela tenta sorrir. — Graças a Deus, seu Vicente! Está tudo muito bem! Já que o senhor chegou, eu vou indo! Tô super cansada. Dá uma beijoca aqui, Lana!!! — Suzi agarra Allana que agora fingia tentar fugir de seu "abraço de urso", pego o caderno da aluna nota mil em matemática só para "dar uma olhada" e deixo as duas na sala para procurar pela baiana que ia nos abandonar. Suzi também estava conosco há certo tempo. No começo foi muito difícil Allana confiar nela, e se aproximar. Antes dela eu já havia contratado três outras babás. Duas delas começaram a me olhar de uma forma que muito me incomodou e eu dispensei, — e Allana também me ajudou na decisão quando disse não ir "com a fuça de nenhuma delas". — e a outra, não aguentou a primeira semana de teste. Allana fez um inferno tão grande na vida daquela mulher, que ela saiu correndo daqui deixando Allana com Tia e não voltou nem para receber. As outras duas arrumaram forças para aguentar as peripécias de Allana ao gamarem em mim, mas Suzi foi pacientemente conquistando o coração peludinho da pequena, e logo, ganhando minha confiança ao não me olhar com desejo. Era noiva e pelo jeito amava seu parceiro, não me olhava com aqueles olhos: a mulher certa para cuidar de minha filha sem se aproximar demais. Eu definitivamente fugia de qualquer mulher que dava sinais de que gostava do que via. Para minha vida correr bem bastava uma punheta dia sim, dia não, e eu saciava meus desejos fisiológicos, somente porque era algo que eu não podia controlar. Só havia existido "uma" mulher na minha vida, e como ela se foi, acabou. Eu não preciso de ninguém. — E aí, dona desnaturada? Que papo é esse de férias? — deposito um beijo no topo da cabeça velha da minha diarista velha e ela sorri desligando uma das bocas do fogão. — Desnaturado é teu passado, menino! Pare com o drama. Eu volto em um mês. E não vou te deixar sem ajuda. — Quando a senhora vai? — pergunto atacando tua batata frita na mesa da cozinha que já estava praticamente posta. — Eu quero ir amanhã de tarde. Já liguei para uma amiga que me recomendou uma diarista impecável então vou deixar a moça a par de tudo... quando você chegar já terei ido, mas Suzi te passa algum recado, se eu precisar. Acha que consegue se desapegar de mim hoje mesmo??? Ela pergunta erguendo uma sobrancelha e eu concordo já conformado. — Vai me trazer presente, Tia? Allana se empoleira na bancada e também rouba uma batata. Permaneço encarando a linda grisalha terminar de cozinhar e viajo para o dia em que a contratei. Nunca vi velha com a boca mais suja. Me divertia demais, fui com a cara dela logo de cara, Nanda também... se apaixonou por Tia na hora. Tia participou do meu luto do início até agora. Acho que é um dos motivos de cuidar tão bem de nós dois. Claro que me irrita profundamente quando bate na tecla: "você precisa amar de novo, encontrar um amor, Allana precisa de uma figura materna..." Entendo que minha filha merece a melhor vida e as melhores possibilidades, e ter uma mãe para contar é uma delas, mas... não dava pra mim. Fico puto quando Tia força a barra, mas amo demais essa baiana, sei que antes de qualquer coisa, seu sonho é nos ver felizes. Ela só


não sabia que eu nunca seria. — Tu por um momento pensou que não??? É óbvio que vou trazer! Vou encher aquele quarto corde-rosa de fitas do meu senhor do Bonfim, pra te iluminar! Tia aperta as bochechas rosadas de Allana e termina a mesa. Nos faz rapidamente lavar as mãos, e janta conosco antes de ir pra casa. Tia tem três filhos, um marido incrível, e um lar amoroso. Diz ela que janta aqui, e janta lá também. Sei que sempre janta conosco para nos passar a imagem mais próxima de família que ela poderia passar, e por isso amava Tia de todo o meu coração. Era 19:30hrs. Tia rapidamente ajeitou a cozinha como de costume, me falou mais a respeito de seus planos, nos deu um abraço apertado, e foi pra casa prometendo nos telefonar quando partisse. Eu estava preocupado com sua ausência em nossa vida, mas abstraí e tratei de cuidar para a minha pequenina ir pra cama. — Papai... acha que a Tia demora pra voltar da Bahia? Allana questiona enquanto eu separo o seu pijama. — Só um pouquinho, filha. Acho que sim... mas ela merece, não é? Tia merece descansar, merece um tempo com a família, ela cuida demais de nós dois! Mas não se preocupe. Você tem suas atividades, papai vai procurar mais coisas pra gente fazer juntos, e você nem vai sentir. Rapidinho Tia estará de volta! — O que será que ela vai me trazer de presente? — Allana trava ao pensar e eu sorrio jogando o pijama na cama. — Larga de ser interesseira, bicha folgada!!! — exclamo colocando-a nos ombros e ela gargalha ao tentar se defender. Volto pro quarto e enquanto escuto o barulho do chuveiro, pego seu porta-retrato decorado por mini-pérolas pequeninas que mostrava a pequena ainda bebê, Fernanda com o rosto inchado e sorridente, e eu, do seu lado, a encarando. Foi minha sogra quem tirou aquela foto no sofá da sala. Depois do funeral nunca mais a vi, ela nunca procurou por Allana, ainda vive em uma depressão profunda e não posso culpá-la. Nanda nos deixou um buraco que ninguém jamais preencherá. Nem ao menos consigo visitá-la e me condeno. Dona Rute é uma versão mais velha de Nanda. Os mesmos olhos azuis brilhantes, fios dourados ocupando o lugar que deveriam ser de meros fios de cabelos, bochechas altas e rosadas, e lábios finos. Minha sogra é tão linda quanto a filha. Ou era. Creio que a cada ano que passa perde vestígios de sua beleza para a tristeza, e eu também. Eu também não era mais o mesmo. Meus pais e meu irmão mais novo ainda moram nos Estados Unidos. Mudaram-se daqui de São Paulo há muitos anos atrás e eu fiquei ao conhecer Fernanda na faculdade. Ligam de vez em quando, se preocupam, falam com Allana, mas a distância é difícil de lidar. É melhor assim. Cada um vivendo sua vida, e ninguém cuidando da minha e me ordenando a arrumar uma mãe para Allana... sentir saudade era melhor que raiva. Ouço o chuveiro cessar, coloco o porta-retrato no lugar, e sem me dar conta, fito o quadro que Nanda pintou para Allana quando ela ainda estava na barriga. Uma paisagem dos sonhos, uma casinha no meio do verde com rede e tudo, uma paisagem dos sonhos de Nanda. — Mamãe era uma grande artista! Ela entra no quarto e eu afirmo sorrindo. — Era, era sim! Vem deitar...


Puxo a sua colcha de retalhos favorita feita de camisetas de nossas viagens, minhas e de sua mãe, e ela se deita. Pergunta — como sempre. — como sua mãe era, o que ela gostava de fazer, como foi que nos conhecemos, eu repito todas as histórias, e ela rapidamente fica sonolenta. Esse era seu conto de fadas favorito. A história de amor do papai e da mamãe. — Dorme com os anjos, princesa! Eu te amo! — Também te amo, papai! — Allana sussurra, beijo sua testa com carinho, e sigo para meu quarto. Eu precisava de um banho, e cama. Como nos últimos anos meu sono continuava precário, tomo meu banho, me jogo na cama, finalizo meu livro de crônicas, e quando sinto que a hora chegou: desligo o abajur, e me entrego ao cansaço. Em meus sonhos, a mesma tortura já familiar se faz presente: Nanda, em seus últimos momentos de vida, exigindo que eu fosse feliz e que eu voltasse a amar porque eu "merecia ser feliz." — Vicente, Tia no telefone! Flávia, minha auxiliar, bate na porta, entra no escritório, e anuncia pois eu já estava com o telefone no ouvido. Minha empresa presta serviços para empresas pequenas e multinacionais em todo o estado, então aquele telefone não parava no gancho. Eu amava trabalhar, só o trabalho ocupava minha cabeça, e com a ajuda dele e de Allana, foi que eu consegui levantar da cama e voltar a "viver". — Greg... tudo bem... dê um jeito e depois a gente conversa! Me manda tudo por e-mail e eu vou avaliar bem a proposta e mandar pro jurídico. A Tia está no telefone, vai sair de férias e quer falar comigo. Depois te retorno. — continuo falando com Greg o encarregado/colega de faculdade que bloqueava minha linha telefônica. — Certo. Até já. Dê uma olhada aí, te enviei o relatório agora. Ele diz, eu desligo, e ignoro o fato de que sua sala era ao lado da minha. Tinha até me esquecido que estava puto com ele por me ligar ao invés de vir até aqui. — Tia... — atendo. — Oi, menino, eu cheguei! — Que bom! — eu digo e ela ri. — E a tal moça? Chegou? Mostrou tudo pra ela? Qual o nome dela? Quero a ficha completa... — Não precisa de ficha. É de minha confiança, já falei. É a filha de uma grande amiga. Garanto que você e Allana não viverão como porcos por um mês, e a moça é boa da mão! A comida dela é melhor que a minha! Fez faculdade e tudo, se chama Lara. Estou esperando ela chegar. — Cozinha melhor do que você? Então está demitida! — Vai brincando! Tem alguma recomendação especial? Estou aqui com o Júnior. Vou explicar certinho tudo pra ela, e ir pro aeroporto. Vou ligar e pedir pra Suzi apresentar Allana... — Acho que é melhor eu estar aí antes da Allana chegar. Vou conhecê-la e me apresentar. Mas, diga tudo! Daquele jeito que a senhorita sabe... — Fica tranquilo. — Quantos anos ela tem? — Se eu não me engano está na faixa do meu Juninho, vinte e dois... vinte e três... — Tão nova, Tia? Uma menina... fazendo faxina??? Dará conta desse apartamento sozinha? — A mãe dela é a melhor empregada doméstica que conheço! É bem recomendada pela mãe. Está tentando voltar pra faculdade que foi interrompida e não tem medo de trabalho. Já está sendo cobiçada como a mãe, é super dedicada. É muito competente, completa, caprichosa,


responsável e precisa do trabalho, Vince. Acha que eu colocaria qualquer coisa aqui dentro? Você é meu filhinho do coração, não viajaria sem me sentir segura, sem sentir que você e Lana ficariam bem. E além do mais, Magnólia é minha amiga, foi um pedido do coração... — Tudo bem, tudo bem... — ela sempre 'bota o coração no meio' para me amolecer. — só faça o que combinamos. Regras claras. Ficar longe do ateliê da Nanda, não ficar desfilando enquanto eu estiver em casa, se for cozinhar mesmo pago a mais, mas o horário tem que ser padronizado, passo aí depois do serviço, almoço e volto então tem que estar pronto... meus ternos passados com cuidado, e o principal... — Sem aproximação porque você é um chato de galocha? — Tia... — Tudo bem. Me desculpe! Eu entendo. Falarei com ela bonitinho. Acho que ela chegou... — Qualquer coisa liga. No mais: faça uma boa viagem e volte logo pra gente! — Não vai demorar, meu menino. Eu prometo! — Allana já está pensando nos presentes. Não esqueça os presentes da minha princesa!!! — Não vou esquecer! — ela ri. — E nem vou me esquecer do seu! — Se enfiar mais algum Santo Antônio de cabeça pra baixo dentro dessa casa escondido, você vai ver o que eu faço com você! — Eu te amo. — ela não se aguenta e ri. — Só quero seu bem! Nunca fiz nada para te magoar! — Tia vai falando e eu ouço o barulho da campainha ao fundo. — Lara chegou, venha conhecê-la que eu aproveito e te dou um abraço antes de ir! Beijo. Ela termina sua dissertação com pressa e nem me espera dizer nada, desliga bem na minha cara. Volto pro enorme pepino que eu deveria segurar — ignore o sentido sujo da frase. — e me concentro. Eu tinha um contrato de ouro nas mãos e estava louco para assinar, mas não podia agir por impulso. Minha equipe ia assumir parceria com uma empresa de cosméticos famosa. Os nossos serviços consistiam na segurança com relação aos seus processos químicos, e eu ganharia a oportunidade de colocar uma ideia antiga que eu tinha, e assinar embaixo. Era o nome Sales aparecendo na mídia com um produto inovador, além de toda a parte técnica do negócio, e a concretização de um sonho. Aquilo significava realização profissional e grana aos montes. Pretendia até tirar as minhas férias, como Tia, para comemorar se desse certo. Eu e Lana. O dia passa depressa e 12:00hrs chega que eu nem vejo. A fome se faz presente e eu me lembro de que talvez, eu não precisaria comer na rua. Será que a Tia mandou a moça ficar hoje mesmo? Eu não ia esperar pra saber. Se eu tivesse sorte a encontraria como recomendei, com o almoço pronto. Mas também, por hoje, não ia exigir nada. É nova, deve ser inexperiente, eu deveria compreender e ter um pouco de paciência. Era seu primeiro dia, ainda deveria conhecer tudo e se acostumar. E no mais, não deverá ser tão difícil, apenas trinta dias e Tia estaria de volta salvando nossas vidas. Pego só meu celular que eu sabia que não pararia de tocar nem enquanto eu estivesse mastigando, saio da empresa, e só paro ao estacionar em casa. Vinte minutos era meu percurso. Ao abrir a porta o cheiro de comida boa quase me derruba para trás e não era o cheiro da comida de Tia. Eu conhecia muito bem. Tia cozinhava sempre que vinha trabalhar e no dia que não vinha, deixava as porções separadas em potinhos que eu só precisava esquentar na hora em que eu vinha almoçar, e depois para Allana e eu jantarmos. Tudo como a gente gostava, e tudo bem separadinho, porque Allana se recusava a comer algumas coisas. Aquele cheiro era... divino!!! Será que a moça já começaria hoje?


Percorro todo o corredor, mas antes de virar à esquerda para ir até a cozinha como o pica-pau naquele episódio em que ele vai flutuando, um movimento parcialmente tapado pelo sofá me chama atenção. Me aproximo, desço os dois pequenos degraus da sala bem iluminada pela luz da janela e entendo o porquê não pude vê-la por inteira. A garota estava de quatro no piso frio com a bunda empinada para a minha direção tentando pegar alguma coisa embaixo da estante planejada. Que traseiro, misericórdia. Redondinho, pequeno em proporção, mas, bem avantajado... — Oh! Merda! — deixo escapar quase que imediatamente, ela leva um susto, bate a cabeça em uma base saliente da estante, meu reflexo é colocar a mão na boca, e ela ri controlando a respiração e depois, — após notar meu volume modéstia à parte, gigante, começando a dar sinais de animação. — me olha com as bochechas em um tom quase vermelho pela situação constrangedora. Eu não sabia onde enfiar minha cara. — Me desculpe, eu deveria ter batido... — eu falo logo enquanto ela volta a ajeitar a ponta do tapete que estava levantada. Já estava limpando tudo. Ao levantar, meus olhos passeiam pelo seu corpo por vontade própria. Vestia uma bermuda justa até o joelho, uma camiseta, e chinelos. Seu corpo era... era delicioso, atraente demais, sua cintura fina, barriguinha zero, seus seios bem proporcionais... — A culpa não foi do senhor, não! — ela fala e retira os fones de ouvido que estavam escondidos pelos seus cabelos castanhos e levemente bagunçados. — Eu estava distraída com a música. Vou usar somente um a partir de agora e ficar ligada na porta. — ela se explica e se aproxima. — É o senhor Vicente, certo? Prazer, Lara! — ela limpa a mão no jeans e me estende a mão. E só porque fitei seus cabelos compridos, sua boca carnuda, e seus olhos negros por tempo demais ela logo baixou a mão que ficou estendida a esmo. É a garota mais linda que... não. — Isso. Vicente. — eu falo e limpo a garganta. — Tia ainda está por aí? — Não. — ela parece extremamente sem graça e se mexe nervosa olhando ao redor. — Ela... me deixou aqui, estava atrasada para pegar o voo. Me deixou instruções de tudo, me passou o horário do senhor, da menina Allana, já sei direitinho o que é pra fazer!!! — Você cozinhou? Ela disse que você cozinha... — pergunto me afastando (Mais fugindo do que me afastando porque mais um pouco, meu pau ia furar a calça social) pra cozinha e ela corre para poder me alcançar. Ao chegar vejo a mesa caprichosamente montada com um lugar disponível, já com o prato e os talheres a postos. Frango assado, arroz pelo jeito feito no forno de algum jeito, — o cheiro estava de matar. — salada, suco... tudo nos pratos de porcelana que nunca mais usei e Tia nunca usava, — Tia às vezes até me servia no de plástico da Allana. Das princesas... — e até um potinho com flores. — Eu cozinho, sim. Estudava culinária. Eu amo... vou deixar o senhor almoçar e caso tenha tempo pra gente conversar, estarei na sala. Vou terminar por lá. Com licença. Ela sai praticamente correndo e eu imagino que deve ter se lembrado das recomendações da Tia para não ficar falando demais na minha orelha e nem me importunar "porque eu não gostava". Baixo meu olhar para a mesa caprichosa, e me sento meio desconfiado. Me sirvo do arroz de forno e... definitivamente não é o da Tia. Estava maravilhoso. E aquele frango??? Comi praticamente três vezes, e aquela carinha assustada pra mim? Sem graça por ficar com a mão estendida? Meu pau vibra e eu nego com a cabeça. Pego meu celular e baixo a voz ao falar com Tia. — Quero-outra-pessoa!!!


— Oi! O que foi? O que ela fez? Eu saí daí já estava quase tudo pronto, tão caprichado. Ela é tão rápida e eficiente. — Mande outra, Tia... — Ah! Vince, pelo amor de Deus!!! — É muito jovem! Não vai dar conta. — Mas você nem deu oportunidade pra menina! O que ela fez de errado??? — Ela... ela... é como as outras... — Aposto que não! É uma garota de respeito! Você que deve estar de implicância. Não conseguirei mais ninguém a tempo, não daqui. Lara é uma boa menina, Vince. Vai fazer somente o trabalho dela, já conversamos. Se não tiver uma justa causa, finja que ela não está aí, e vá cuidar de tua vida. Em pouco tempo estarei de volta e você se livrará dela. Até lá se comporte e deixe a menina trabalhar, ela precisa desse dinheiro!!! Tia diz, desliga na minha cara novamente e eu bufo. Quando me sinto satisfeito após beliscar mais um pedaço daquele arroz envolto de queijo e mais alguma coisa, escovo meus dentes no banheiro da cozinha para não subir até o meu quarto e sigo meu caminho para a sala. A garota estava de joelhos ajeitando a mesa de centro e eu gosto do cheiro que sinto no lugar. Era caprichosa eu não podia negar. E de joelhos daquele jeito... meu Deus! Eu ia pirar... o que está acontecendo comigo? — A Tia te explicou tudo como vai ser esse mês? — eu pergunto ao me aproximar e ela primeiro afirma de cabeça baixa parecendo entristecida, e depois se recompõe e se levanta para falar comigo. — Explicou, sim. A comida já pronta na hora do almoço, os ternos, os horários... — A comida não é sua obrigação, mas se fizer, como é com Tia, também te pagarei a mais e muito bem. Faço isso porque não sei cozinhar e não levo o menor jeito e, aliás, parabéns, sua comida é realmente maravilhosa! — eu falo e seus olhos brilham de alegria. Segurava um sorriso enorme. — Você virá para o café da manhã? Se sim, e eu te pagarei pelas horas me baseando na tua entrada lá embaixo. No teu caso o certo seria duas vezes por semana, mas realmente preciso que venha dia sim e não, como Tia. Sou a bagunça em pessoa, Allana e eu... — Não vejo a hora de conhecê-la... — ela se empolga e eu me sinto mal, mas as palavras a seguir escapam de minha boca sem que eu possa controlá-las. — Não se aproxime da Allana. — Desculpe, Tia me disse isso. Falei porque amo crianças e...— ela sorri e seu sorriso é... — Tudo bem. Mas falo para o seu bem mesmo. — minto. — Allana é uma criança muito chatinha. Rapidamente te fará "pedir pra sair", e aí com Tia longe, ficaremos em péssimos lençóis. Se você precisa e quer o emprego, faça de tudo para não ficar se encontrando com ela pela casa. — É claro, senhor! — Certo. Tia disse sobre a faxina? Uma vez no mês é necessária uma limpeza mais pesada. Nesse dia eu saio com Allana pra você ficar a vontade. O ateliê — eu aponto para a portinha no canto da sala. — é proibida a entrada. São as coisas de minha esposa, e não gosto que mexa. A tia deve ter passado tudo o que Allana não come. Já tentei mudar isso, mas é impossível, ela realmente não gosta de certos alimentos... — Sim, ela me passou tudo. Farei tudo corretamente, senhor. A garota me corta como se tivesse sem paciência, mas ainda sim se esforça para soar bastante educada. — Certo. Bom... se precisar de qualquer coisa deve ter meu telefone, pago adiantado quando precisar, e se achar que não pode comparecer, por algum motivo, peço que me avise


antecipadamente. O que eu puder fazer por você, farei, é só me pedir. Eu não tenho mão presa com dinheiro, nem com ajuda, mas sou chato com horários porque cuido de Allana de forma regrada. Ela tem hora pra dormir então precisa de suas roupas passadas, pijamas, o uniforme da escola, o quarto organizado quando chegar da escola... tudo que envolva sua rotina, sua comida, e suas coisas, gosto de dedicação. Comigo não tem com o que se preocupar, não preciso de capricho nenhum no almoço, nem nada muito especial, somente cuidado com os meus ternos, e deixar o jantar fácil para que eu só precise esquentar e descansar para acordar cedo no dia seguinte. — Tia me explicou tudo isso, será feito como ela sempre fez. — Tudo bem. Ok. Vou parar por hoje com as ordens senão você não volta amanhã. — tento sorrir, mas acho que não consigo. — Como já disse qualquer coisa, qualquer emergência, me ligue. Acho que você pegará o retorno de Allana da escola. Nessa hora ela provavelmente chegará procurando por alguma besteira pra comer, mas isso é com Suzi, você e ela podem conversar a respeito de tudo. Allana chega e vai direto pra TV... — Não se preocupe com nada, senhor Vicente. Tudo ficará bem aqui! — Tá e pode cortar essa de senhor... você é jovem demais, me sinto velho cada vez que me chama assim e eu não estou tão velho a ponto de merecer esse tratamento. — É respeito. — Corta esse respeito. Pelo menos esse. — Sim, sen... — ela ia começar a falar e quando a olhei 'torto' ela colocou a mão na boca como uma garota levada. Meu Deus. Preciso de um banho frio. Dou-lhe as costas, sigo para o estacionamento e passo o dia no trabalho. Recebo o telefonema mais feliz da minha vida, do Carlos do jurídico dizendo que o contrato está de acordo com os nossos interesses, e eu me sinto o cara mais realizado do mundo. Eu ia realizar aquele pequeno sonho da Nanda e ia me sentir o cara mais feliz do mundo por isso. Eu estava nas nuvens. — Allana!!! — entro animado em casa e encontro a pequena vendo TV e comendo alguma coisa direto do pote no sofá. — Adivinha o que o papai conseguiu??? — O contrato pra fazer o produto da mamãe??? — ela me olha com expectativa. — SIM!!! Eu grito animado, ela pula em meu colo, e me abraça feliz. — Parabéns! Eu sabia que conseguiria! — Suzi se levanta já pegando sua bolsa e sorri feliz por nós dois. — Valeu, Suzi. Obrigado! — O que é isso que você está comendo, hein, garota??? Pergunto quando Allana se solta de mim e volta para o pote e para o desenho animado. — Alguma coisa de morango que a nova diarista cozinhou!!! — Está comendo besteira antes do jantar? — ela arregala os olhos e depois dá de ombros. Como se dissesse, "tô, ué." — Você a conheceu??? — Eu entrei na cozinha ela estava lá, tentou correr de mim, ficou nervosa, mas eu fui atrás dela. Falou mal de mim, é pai? A menina estava com medo de olhar na minha cara!!! — Claro que não! Não falei nada. O que ela te disse? — Nada. Só ficou pedindo desculpas por eu tê-la visto e disse que já ia embora. Gostei dela não... muito chata... mas eu gostei disso aqui! — Allana levanta o pote e eu suspiro. — Ela recebeu recomendações da Tia de não se aproximar demais da Allana, e se assustou quando Allana entrou correndo na cozinha. Allana nunca entra aqui, eu que levo seu café-da-


tarde pra sala. — Suzi me segue quando eu me direciono pra cozinha. — O que achou dela? — Limpa, rápida, prática, não fala demais, trabalha em silêncio... eu gostei. Só achei mal encarada. A Tia disse de onde ela veio? Me parece muito simples, muito humilde... — Tia disse que é filha de uma amiga. Que é confiável. Eu respondo e me aproximo da bancada. Havia duas marmitas uma com meu nome, outra com o nome de Allana, um pote pequeno escrito "para a lancheira", que após abrir descubro que é um sanduíche natural, e coberto por um guardanapo, algo que me parecia ser uma torta de morango com um aspecto que implorava para ser devorado, ainda estava quentinho. A cozinha estava impecável, a casa inteira exalava cheiro de limpeza, e o andar de cima do mesmo jeito. O quarto de Allana estava limpo, com um pijama dobrado cuidadosamente na beirada, e no meu também. Tudo limpo, organizado, e um roupão esperando por mim, na beirada da minha cama. Pareciam os serviços de quarto dos hotéis em que já estive. Jantamos, comemos a sobremesa, — a torta era a torta mais maravilhosa que eu já tinha provado. Allana comeu rindo, toda feliz. — coloquei a pequena pra dormir, me deitei, e de manhã fui acordado na hora certa com um cheirinho bom de café. Me visto após escovar os dentes, e sigo para o caminho de sempre: quarto da princesa adormecida. — Filha! — eu chamo apenas uma vez e ela me olha confusa e curiosa. — Que horas são? — Seis! Precisa tomar banho, tomar café e esperar a Suzi lá embaixo! Levanta! — ela obedece, me abraça e quando vai pro banheiro eu desço pra cozinha. — Bom... — já ia falando, mas "dou de cara com ninguém". A mesa inteira estava posta, mesa farta e bonita, mas nem sinal de Lara. Fui até a sala, os quartos, quartinho da Tia, por impulso entrei no ateliê... e nada. Lara não estava em lugar nenhum. — Caraca! Que mesa bonita, hein pai! — Allana exclama e se senta após descer. — Mas pelo jeito foi feito por mágica, a garota não está em lugar nenhum. — Vai ver está no quarto da Tia esperando a gente sair. Allana diz, mas eu nego com a cabeça. Ela não estava no quartinho da Tia, eu fui olhar, mas aquela de "esperar a gente sair para aparecer", me parecia muito certo. Ela estava fazendo exatamente o que eu mandei, se mantendo afastada. Graças a Deus.


CAPÍTULO 2

— Ei, menina linda! Tá uma girafona!!! — Tia a amiga de minha mãe e ex-colega de trabalho me recebe com um abraço de urso na porta do apartamento. Aquele seria meu mais novo local de trabalho por alguns dias. Eu só iria cobrir suas férias por indicação de dona Magnólia, minha mãezoca! — Me conheceu pequena por acaso??? — eu brinco e ela confirma. — Sim!!! Não acredita? Trabalhei com Mag tu era uma catarrenta desse tamanho aqui, ó. É muito bom te ver tão grande, tão saudável, uma cavalona! Tenho tanta saudade da tua mãe... — ela me puxa para caminhar ao seu lado. — Como vai seu pai, hein??? Tua mãe me contou da tragédia. — Ele está contando com um defensor público no momento... pelo jeito não sairá tão cedo de lá, Tia! Mas eu tenho muita esperança de que logo ele sairá dessa. Tenho mesmo! Meu pai é inocente!!! Eu falo e ela me olha com pesar. — É sim! É e a justiça será feita, se apegue em Deus! — ela me abraça e adentro junto com ela em uma sala luxuosa. O apartamento era um dos mais bonitos em que estive. — Olha que casão... acha que dá conta? Vou te mostrar tudo. É grande, hein... — Eu darei sim. Não importa o quão grande seja, eu darei. — assobio e ela ri. — Já tenho alguns dias sem casa nenhuma, e preciso demais! — Pois então vamos lá... ah! Deixa eu te apresentar... — ela exclama e grita bem alto: “OH JÚNIORRR, VENHA CÁ, MEU FILHO!” — sorrio para seu sotaque lindo. — e um garoto lindo, a cara dela, aparentemente com a minha idade, chega mastigando alguma coisa da direção em que eu achava ser a cozinha. Misericórdia de menino bonito, sorriso branquíssimo, olhos grandes... — Esse aqui é meu filho, filho essa aqui é Lara, a filha da tia Mag. Vocês se viram muito pouco e eram tão ‘pedacinho de gente’, que nem devem se lembrar. Às vezes eu e Mag não tínhamos aonde deixar vocês, sabe o que a gente fazia? Nós duas colocávamos vocês dentro dos quartos, enchíamos de brinquedos, ligávamos as babás eletrônicas e lá vocês ficavam, que nem dois reizinhos nos quartos das crianças dos patrões! — ela ri e Júnior sorri me encarando parecendo dizer: “Liga não, minha mãe é doida”. — Nós duas nos divertíamos!!! — Prazer! — eu o cumprimento e ele faz o mesmo. — Prazer, Júnior! Espero que tenha uma boa sorte no teu “novo emprego”. — ele diz, agradeço, e ele volta pra cozinha com o olhar amoroso de sua mãe. — Lindo, hein!? Meu bebê!? Está fazendo faculdade também!!! — A senhora caprichou, Tia! Seu filho é realmente um gatão! — eu falo e ela pisca dizendo estar solteiro.


Tia me mostra todos os cômodos e como tudo deve ser limpo, menos um lugar da casa que é chamado por ateliê. Disse que era “entrada terminantemente proibida”, então eu jamais entraria. Estava fugindo de problemas, e se tinha uma coisa que eu aprendi com mãezoca, era ficar bem ligada nos problemas em que trabalhar em casa de granfino podia trazer. Se for proibido, Lara passa longe. Me falou a respeito dos horários, café, janta, hábitos alimentares, máquina de lavar, o cuidado com sua roupa de trabalho, e o principal que ela fez questão colocar ênfase: a distância que eu precisava me manter da família. — Vicente é um menino de ouro, é muito bondoso, mas sofreu demais. — ela fala enquanto me serve café na cozinha. — Perdeu a dona Nanda, a esposa dele, e desde então, nunca mais se relacionou com mulher nenhuma. Foge disso como o diabo foge da cruz... — Já falei pra mainha... — Júnior resmunga enquanto esperava pela mãe. Os dois iriam para Salvador se encontrar com a família, juntos. —... esse patrão dela aí, precisa de ajuda psicológica, e pequena Allana também. — Não fala assim, Júnior... ele só precisa se dar uma chance, eu falo tanto isso pra ele! — ela quase chora e ele revira os olhos. — Ele nunca conseguirá se dar uma chance sem entender o que acontece com ele mesmo. — ele diz olhando pra mim. Eu estava conhecendo meu patrão antes mesmo de vê-lo pessoalmente e eu amava estar preparada. — Lara, ele está há anos sem mulher nenhuma, mainha diz que tem pesadelos horrorosos, chega a gritar de noite, impede a filha de ir nos passeios de viagens da escola por receio, é mega-protetor, coloca a pequena numa redoma. Ele fala da dona Nanda como se ainda fosse casado com ela, como se ele ainda tivesse compromissado com a falecida. Até hoje você vai ver, ainda tem milhares de porta-retratos pela casa, coisas dela, como se ela fosse voltar do trabalho a qualquer momento... ele precisa de ajuda psicológica, mas nunca procurou... — Ela morreu do que mesmo? — Foi de câncer, minha filha! — Tia diz se lamentando. — Câncer de pele, sofreu tanto... meu menino cuidou dela até seu último suspiro. Sempre tão dedicado. Sempre a amou demais!!! — Ele se fechou para dentro de si... — Júnior volta a falar. — mainha disse que as últimas babás ele dispensou. Morre de medo de se envolver. Quase todas eram jovens, bonitas, ele corre de qualquer tipo de relacionamento afetivo. — Isso é. — Tia diz. —Se ele achar que você gostou dele, ele vai te dispensar, então nem olhe muito pra ele, nem dê muita trela! E com a pequena Allana também, tem que saber lidar. É um amorzinho, mas com quem não conhece é mimada demais, gosta de chamar a atenção do pai. Se não for com tua cara, apronta até você fugir. — Meu Deus! — exclamo assustada. — Já estou quase fugindo. — dou uma risada sem graça e ela quase pede perdão. — Faz isso não, senão nunca vou tirar essas férias. Você é esperta, tira de letra. — O medo dele é se envolver, a pequena se apegar, e perder de novo, de forma trágica para a morte. Uma pessoa que passa pelo trauma que esse homem passou, não esquece fácil. Do jeito que está lidando com o luto depois de tanto tempo, nota-se que sempre foi um homem frágil. Dificilmente ele se envolverá com alguém de novo. O medo de passar por aquilo de novo e sofrer novamente, e principalmente ver a Allana sofrer, vai persegui-lo eternamente! A não ser, é claro, que procure ajuda, que aceite ajuda!


— Você parece o conhecer muito bem, Júnior... — eu digo e ele nega. — Faço psicologia. — ele sorri. — Meu sonho de TCC é ter uma conversa por pelo menos cinco minutos com esse homem! — Ehhh, menino, só fala bobagem!!! — Tia fica brava e eu dou risada. — Eu imagino o quão incrível seria pra você! Poder entendê-lo. Eu também daria minha vida por cinco minutos com Françoise, um chefe francês renomadíssimo!!! — eu afirmo e Júnior ri. — O que não seríamos capazes de fazer pela profissão que tanto amamos!?!? — É, mas meu menino não é nenhum rato de laboratório, não! — Mãe, tu mima esse cara mais do que a mim! — Júnior demonstra ciúmes e nós duas rimos. Rapidamente ela reforça todos os seus conselhos, enquanto eu já vou colocando a mão na massa, — Tia fala muuuuitooo. — repete muita coisa, me mostra onde está todo o material de limpeza e se despede de mim deixando seu telefone e me desejando sorte. Júnior também, me pede o telefone pra gente conversar mais vezes, e me abraça sorridente. Tia o criou muito bem, simpático, gentil, seria um ótimo amigo. Troco minha roupa, pois estava de vestido, e começo a organização no andar de cima, o apartamento era enorme. “Casa de engenheiro”? Quando dá 11:00hrs eu corro com a comida. Não dava tempo de fazer muita coisa fresquinha, pois Tia faaaaala, então liguei meu botão da inovação e criatividade na cozinha: “Botão Seja Esperta”, e corri. O arroz que Tia havia feito no dia anterior foi parar em uma travessa com queijo mussarela, presunto, peito de peru, requeijão, e queijo ralado por cima. O frango que ela já tinha deixado para descongelar, eu coloquei para assar coberto com tempero no fogo máximo. Fiz uma salada com rodelas de tomates, folhas, ricota, torradas, e suco. Um pouco antes da 12:30hrs eu tirei tudo do forno e com sorte divina estava de lamber os beiços. Até caprichei na arrumação da mesa, eu queria impressionar!!! Pouco tempo depois ele apareceu me pegando de quatro e ficando duro bem na minha frente. Pauzão enorme, sim era enorme. A calça estava bem apertada, ele tem até coxas grossas... deu pra ver muito bem, bem definido, pacote roliço, grosso mesmo... deve ter aquele cabeção vermelho, cheio de veias saltadas... Ah! Um homão daquele, aquele volumão... deu até água na boca. Que homem, meu Deus. QUERO. Me baseando nos porta-retratos era de tirar o fôlego, sua mulher também, linda, uma pena sua partida precoce... — câncer é uma doença que devia ser extinta do universo. — mas pessoalmente... era muito mais bonito. Peito largo, alto, se não fazia academia, era genética. Bumbum delícia na calça social, boca vermelha, aquela barba que faz a gente querer que tenha velcro pra se colar nela e ficar atééé... e o cheiro? O cheiro daquele homem era coisa de outro mundo!!! Mandão, fechado, não deu um sorriso enquanto esteve aqui... realmente Júnior tinha razão, o deus moreno tinha sérios problemas, ele era definitivamente um desperdício. Só de olhar para ele dava vontade de colocá-lo no colo e ninar até sua dor desaparecer, mas... lembre-se Lara,nada de se aproximar!!! Era proibido, então Lara passava longe. Mas que a vontade surgiu... ah! Surgiu... que homem maravilhoso! Claro que a animação passou rapidinho ao ouvir seu telefonema para a Tia. Ele queria se vir livre de mim como com as outras garotas, mas uma pequena porcentagem da animação voltou quando imaginei qual seria o motivo, pois eu fui impecável e rápida nos meus afazeres: Vicente me queria


longe porque gostou do que viu, e ser admirada por um homem daqueles, era... Deus... era inexplicável. Organizo e completo meus afazeres do dia com um tempinho de sobra. Ainda faltava preparar o jantar dos dois, então enquanto separava tudo, coloquei uma torta para assar, a sobremesa. Rápida e prática de se fazer, eu fazia sempre em casa, receita fácil. Também fiz um lanchinho natural para a princesa levar para a escola, pois Tia disse que ele dava dinheiro para ela lanchar lá, e lanche de cantina, não sei na escola dela, mas nas escolas em que eu estudei, eram horríveis. Aliás, será que ela podia levar lancheira??? Eu não sabia nem se ela tinha idade pra isso, dez anos ainda levava? Por via das dúvidas, fiz. Aquela menina era seu xodó então agradá-la me daria pontos. — Entra garota!!! Anda!!! — ouço o que eu achava que seria a tal da Suzi falando e olho ao redor para poder me perguntar para onde eu iria correr e me esconder da garota. De tanto que falaram eu já estava com medo da pequena. — Merda! Tua lesma! Ouço a mulher falar de forma grosseira, e estranho. Desligo o fogo do forno rapidamente, pois já estava no ponto, e tenho a brilhante ideia de me enfiar na lavanderia. Assim que me viro, posso ouvir sua voz. — Quem é você? A garotinha era a coisa mais linda do mundo. Loirinha como a mãe, bochechuda, mas tinha as sobrancelhas grossas como pai, e até franzia igual. Ela era linda demais! Muuuuito linda! — Oi, senhorita! Eu estou no lugar da Tia. Fique à vontade, tenho uma coisinha pra fazer na lavanderia. — me apoio no joelho para falar com ela, fico encantada, me lembro das recomendações, então fico nervosa, me afasto em direção à porta, e aviso. — O forno está quente, não coloque a mão! — Não precisa fugir. — ela se aproxima e eu sorrio. — Você pode continuar o que estava fazendo. Ela garante e eu confirmo, mas fico desconfiada. — Tudo bem. — sorrio, me dirijo para a pia pra poder lavar a pequena bagunça que fiz com a torta, e a mulher adentra a cozinha. — Ô peste! Está fazendo... — ela começa e trava sem graça ao me ver. Nesse momento a pequena se transforma e se aproxima de mim. — O que é isso? Eu quero!!! — ela diz apontando para o pote que usei para mexer os morangos frescos, toma-o da minha mão, pega uma colher, e começa a raspar. Nem parecia a garota doce que há alguns segundos atrás tentava se aproximar. — Não é dos melhores, mas dá pra comer!!! A pequena diz com grosseria, dá a volta na mesa para sair da cozinha, e sai sobe o olhar pesado da babá que vestia branco. — Não ligue para a menina. É insuportável! Mimada! — ela diz com raiva e eu fico puta da vida. A mulher é paga para cuidar da menina, devia amá-la. Se não é capaz, devia ao menos respeitála!!! — Tudo bem, não tem problema! Prazer, Lara! — eu falo e ela segura em minha mão estendida. — Mas não fale dela assim na minha frente!!! — Diz isso porque não a conhece! — ela responde erguendo uma sobrancelha.


A mulher tinha uma cara de nojo, cabelo como o meu liso e negro, só que o dela era curto, e seu nariz empinado. — Vai precisar de sorte para lidar com ela!!! — Por que você cuida dela? — pergunto. — Bom pagamento! — ela garante olhando para a porta por onde a menina saiu. — Já sei como lidar, comigo não apronta!!! Toma cuidado com as suas coisas, ela inventa cada uma... — Obrigada pelo toque. — VACA! Confirmo com a cabeça, decido não comprar uma briga logo agora, e volto a arrumar tudo rapidamente. — Mora onde? — Barueri! E você? — Itapevi! — Pertinho. — eu só digo de forma educada e ela simula um sorriso. Algo naquela mulher não me desceu. — Você vai ficar até a Tia voltar? Quanto tempo? — Um mês! — Ah! — ela exclama e me mede da cabeça aos pés. — Bom trabalho, aí! — Obrigada. — resmungo, cubro o bolo fingindo estar entretida e quando ela sai, volto a respirar. Espero não ter problemas com ela, espero mesmo!!! — E aí? Como foi, filha? Chego em casa e não quero saber de nada, dou um beijo estalado em minha mãe, me jogo no sofá e descanso. — O lugar mais confuso em que eu já estive. — volto a me sentar no sofá e a encaro tricotar. Hoje estava em casa por algum milagre. Normalmente só estava de final de semana, e hoje era quinta. — Mãe, o apartamento é gigante, o trabalho pesado, o cara é cheio de ‘não me toques’ e traumas por causa da mulher que faleceu, não consegue dar um sorriso, e pior: eu acho que a babá da filha dele é uma escrota com a garota quando ninguém está vendo! — Então você está no lugar certo. — ela diz e eu engasgo. — Bebeu, doida? — Lara! — ela ergue a sobrancelha. — Só uma pergunta, uma não, algumas: quanto custa a liberdade do teu pai? Teu curso? Teu futuro??? E principalmente: eu não criei uma covarde! — Acabei de chegar lá, não posso sair me intrometendo nos assuntos deles! Sou a empregadinha favelada. Não posso nem me aproximar, estou proibida! Pra ser bem sincera com a senhora, nem sei se volto amanhã! Aquilo ali é roubada! — Como ele é? — ela continua dando voltas com a agulha e me olha brevemente erguendo a sobrancelha. Fugiu do assunto, não queria me ver desistir, e provavelmente andou papeando com Tia. — Lindo. — eu falo e não posso deixar de sorrir. — O cara mais lindo que já vi na minha vida. Daquele jeito que eu gosto, barbudo, boa pinta... — Desde quando gosta de homens “boa pinta”? A vida inteira só pegou vagabundo! — Para! Eu estava curtindo a minha vida!!! — ela ri e eu só não jogo a almofada nela porque se ela se machucasse com aquela agulha, ia me dar trabalho. Sorrio.


Moro em uma casa simples no subúrbio, — com a velha caduca, a mãezoca. — falta um toque básico de reboco nas paredes de dentro e de fora, mas de resto, vivo bem demais. Barzinho com os amigos da faculdade apesar de não vê-los desde que ingressei nesse mundo de doméstica e não tive mais tempo para sair, somente estudar e trabalhar, churrasco na laje só eu e mãezoca quando sobra um troco para usar a antiga churrasqueira elétrica, e altos papos com as várias amigas de trabalho, no meio do trabalho, que eu arrumo por aí, pois faço amizade facilmente. Eu sou feliz, muito feliz obrigada, mas ficaria muito mais se conseguisse tirar meu pai da prisão, e retomasse os meus estudos que tanto amo. Eu literalmente vivia um “sonho de princesa” dentro da sala de aula, daquela cozinha industrial chamada sonho, e estar dentro de uma biblioteca ou na cozinha simples de mãezoca pilotando o fogão, me garantia deliciosos orgasmos múltiplos. Ver alguém comendo minha comida com gosto me dava tanto prazer... E eu queria tanto vê-lo comer minha comida. — Não, mais é sério! Que vadia... eu vou ligar pra Tia... – eu já começo pegando o celular e ela bufa. — Não seja burra. Se Tia não disse nada, Tia não sabe. Não faça a fofoqueira intrometida. Ela é só uma menina, você viu o que ela está passando, então a partir de hoje, se ela continuar sofrendo na mão daquela mulher será por culpa tua, mas não faça ‘leva e trás’, não conte com ninguém, e não force a menina a falar. Faça ele descobrir como ela é com a filha dele e você se livra da culpa. Agora a menina é responsabilidade tua! — O cara vai pirar geral quando descobrir!!! Dá uma dó só de pensar... a pequenininha é tudo pra ele. A representação do amor que ele sentia pela mulher... — E agora que você chegou, a filha dele vai parar de sofrer. Você é a benção deles! — dona Magnólia diz como quem fala do tempo e se levanta. — Sei que teve um dia cheio e amanhã acordará cedo, mas eu estava te esperando. Esquenta a comida pra mãezoca! — ela pede fazendo charme e eu bufo dando risada. — Aliás, o que está fazendo aqui hoje? Hoje é quinta-feira. Sigo para a cozinha que consistia em dar um passo pro lado, e a vejo dar de ombros. — Só me dando um descanso... — Sei quando mente. Pensa que não? O que houve? — pergunto, pois sentia que tinha “algo ali.” — Nada garota... amanhã você vai pra lá ou tem outro condomínio? — ela só resmunga, pergunta e entra para o quarto. Era padrão eu cuidar da comida e levar o prato até lá. Sorte que eu amo demais cozinhar, senão, coitada... — brincadeira. Sorrio. — Hoje eu cheguei lá tarde. Combinei com a Tia de fazer o café e além do jantar, deixar algumas coisas organizadas. — Isso é mais que uma diarista, é uma profissional-luxo do lar, hein!!! — ela grita. — Ele não sabe fazer nada sozinho, nem cozinhar, e vai pagar bem. — é um bebezão bem grande, charmoso, e que precisava de cuidados, bom, agora precisava de mim... — Esse mês será o mês da galinha de ouro pra mim. — Graças a Deus, filha! Quem sabe ele não gosta do seu serviço e te contrate só para cozinhar quando a Tia voltar??? Vou orar por isso... Mãezoca diz amorosa e eu sorrio feliz. Seria um sonho ver aquele galã todos os dias. — Bom dia! — o porteiro faz um ‘jóia’ pra mim, e eu repito seu gesto. Amava a combinação de


velhinho (+) simpático. Sempre tenho sorte com os porteiros das casas que limpava. — Bom dia... João? — eu brinco e ele ri. — Todos os porteiros que conhece é João? — Sim!!! — dou risada. — Mas eu me chamo Cristóvão. — Não fica muito longe, vai!!! — eu zombo e ele leva na esportiva. O hall frio me faz arrepiar, mas ignoro. — Estou enchendo o saco. Sou Lara! Vai me ver muito por aqui... — Espero que sim! Não vejo diaristas tão bonitas assim fazem tanto tempo... — Ah! É??? — dou mais risadas e penso se devo perguntar mais a respeito da ‘família de dois’, afinal, os porteiros “sempre sabem de tudo”, mas como não conhecia ‘aquele’ muito bem, decidi adiar. — Pois me deixe ir trabalhar porque apesar de ser linda, minha conta bancária está negativa!!! — Bom trabalho, Lara! — Um ótimo dia de trabalho pra nós dois, seu Cristóvão! — o porteiro simpático sorri pra mim, devolvo o sorriso e subo. Abro a porta de serviço, entro pela lavanderia do enorme apartamento, e me dirijo para a cozinha. O AP do senhor ‘não me toque’ ficava no décimo andar de um prédio com onze andares, em um condomínio de classe média alta. Pouco tempo depois eu já tinha montado a mesa do café lindamente. Sim, ignorei a recomendação de não caprichar em nada. Eu gostava de dar meu toque a tudo, gostava de caprichar... por que parar se aquilo não o ofendia? Pelo jeito o incomodava, mas eu não podia evitar. Se ele não me contratasse de forma fixa nunca, por mais que não assumisse, ia gostar do meu trabalho e me indicar para os amigos. Ouço barulho nas escadas e travo. A ordem era não se fazer presente, ser uma invisível. Mas eu queria tanto me aproximar... sempre me fiz tão próxima de todos os meus patrões provisórios, todo mundo sempre gostava de mim, e aquele rabugento parecia precisar tanto de companhia... Ouço seus passos na sala, corro para a lavanderia, e saio pro corredor do lado de fora. Eu sabia que ele ia tomar café, se arrumar pro trabalho, descer com Allana, deixar a menina com a ‘senhora grosseria’ lá em baixo e ir trabalhar. Não precisava de mim, o café estava posto à mesa. Mas e se ele achar que você está fugindo do trabalho? Penso. Verdade. Entro novamente na lavanderia e retiro toda a roupa seca do pequeno varal. Eu não precisava me fazer presente, mas ele poderia saber que eu estava ali, trabalhando, pronta para o que ele precisasse. Era o certo. Eu só não queria irritá-lo a ponto de me mandar embora. — Onde esteve? — ele entra na lavanderia assim que termino de dobrar as roupas e deixá-las no ponto para serem passadas. Fala de um jeito mandão e eu me derreto toda. — Dei um pulo lá em baixo para falar com seu Cristóvão. Vi que ele estava ocupado e subi. Queria saber algumas coisas sobre o condomínio, horários, conhecer o lugar. Está tudo em ordem com o café, certo? — meu Deus será que falei muito? — Está, mas não é necessário sair correndo desse jeito. Não se aproximar não quer dizer “desapareça quando eu chegar”. — Eu não fiz isso, não senhor. Só não quero incomodar ou ser indiscreta... — Certo. — ele resmunga e sai. Oxi. Por que não decide? Posso me aproximar ou não??? Mr. grosseirão. Lindo.


— Ela está na lavanderia? — coloco o ouvido na porta e ouço Allana. — Está sim. Está cuidando das roupas. — Acho que... acho que devia mandar ela embora. Ela é estranha. — É. E aí a gente faz o que sem a Tia? — Oras... a tia Suzi sabe fazer tudo. — Não fale bobagem. Suzi é babá. — Eu não preciso de babá. — Tome seu café, filha. Me afasto da porta e bufo. Eu nem precisava fazer esforço pra evitar. Eu ia ser dispensada a qualquer momento. E porque a garota defendia a vaca grosseira??? Quando noto o silêncio profundo, entro na cozinha e começo a organizar tudo e tirar a mesa. Começar o almoço cedo me daria um tempo tranquilo e eu não precisaria fazer tudo correndo. — Amanhã você não vem, não é!? Ele entra de repente na cozinha e eu agradeço por estar somente com um fone. O que foi? Já enjoou da minha cara??? — Não. Mas não se preocupe, vou deixar tudo fácil pro senhor. Eu digo e ele me olha fixamente por tempo demais. Pelo menos eu achei uma eternidade. Deus... — Ela... ela não pode levar lancheira... mas guardou o lanche natural na geladeira, pra comer quando voltar da escola. Obrigado pelo cuidado. — Vicente diz de repente e eu confirmo. — De nada, que isso...! Ele assente, sai, e eu me sinto mal com o clima pesado. — Não. — Vicente diz quando eu tento sair correndo assim que ele senta-se à mesa para almoçar, naquele mesmo dia, mais tarde. — Sente-se aí e me fale sobre você. Sobre sua vida... Ele manda. Sim. Ele não me faz um convite, ele mandou eu me sentar e começar a falar. E por isso quase me sento na hora. Só demoro um pouco para fazer charme. — Já almoçou? Sirva-se. — ele me estimula. — Não, obrigada. E não gosto muito de falar de mim. — eu falo, ele entrelaça as mãos enquanto mastiga, e eu permaneço o encarando. Pela primeira vez eu o via comer minha comida e minha nossa, sua cara estava carrancuda. Deus, por favor, não te peço mais nada por um ano, dê esse homem de presente pra mim!!! — Mora com quem? — ele pergunta mesmo assim. — Com minha mãe. — Ela é doméstica também, não é!? — É, sim. — Em qual cidade? — Barueri. — Por que está trabalhando com isso? É tão nova... — Preciso trabalhar. Preciso de dinheiro para ajudar em casa e é fácil pra minha mãe, me indicar. Ganho mais que em telemarketing que foi onde eu fui parar quando tranquei a gastronomia. — Por que trancou? — Porque eu precisei, tive problemas. — eu digo o que posso e ele me encara. Como eu ia falar que tinha um pai presidiário? Com um pai presidiário eu seria além de tudo, uma possível criminosa,


e péssima companhia para sua filha, sem contar que nunca acreditaria que meu pai era inocente: “todo criminoso diz ser inocente”. Todo mundo tem preconceito com isso, eu sei. E enquanto penso nisso, seus olhos negros me transmitem um calor de outro mundo, e eu volto pra Terra... Vicente parecia se perguntar no que eu estava pensando. — Que problemas? Se abra. — O senhor vai se abrir também? — eu deixo escapar, ele me encara com seu olhar frio, desiste de terminar de comer e se levanta. — Desculpe, eu... eu... — Eu não gosto desse tipo de invasão. — Então porque quis me invadir? — solto e ele afirma com a cabeça alguma coisa só para ele mesmo. Podia me invadir de vários jeitos, mas não, quer começar pelo pior. — Preciso confiar em quem eu coloco dentro da minha casa. A minha vida não te diz respeito, mas a sua, me diz muito. — “Confiar em quem eu coloco dentro de casa”. — resmungo irônica. — Certo. A mão de pegar a bolsa e sair da casa daquele chato vibra, mas eu paro para respirar. — Me desculpe. Eu fui invasivo enquanto não gosto que as pessoas sejam comigo. Faz muito tempo que eu não via alguém chegar depois da Tia e da Suzi. Eu não levo jeito mais... para essas interações... — ele me encara como quem se desculpa. — Consigo ser grosseiro até com as duas de vez em quando... — ele diz e para pra pensar. —... eu não te pergunto mais nada, você não me pergunta mais nada, e acabamos com esse clima ruim. O que acha? — Acho ótimo! Principalmente se eu puder... — Não abuse. — ele resmunga porque sabe que eu ia pedir para “ser amiga” de Allana, me aproximar, e por isso rosna mal humorado, me deixa falando, e eu sorrio com cara de tacho. Pelo menos eu achava que ele sabia. Bonitão. Até suas feições de “homem chato” são de arrepiar. Eu queria saber mais sobre aquele homem, saber mais sobre sua vida, sobre seus gostos... uma pena... A tarde chegou e com isso meu extremo nervosismo. Meu dia inteiro foi ok, mas quanto mais o tempo passava, mais eu queria vê-lo de novo. Só vê-lo. Óbvio que eu nunca estaria aqui quando ele chegasse, eu deveria partir quase que automaticamente assim que Allana chegasse, mas que me dava uma vontade... Ah! Dava... —... E então? Deixou tudo feito pra mim e o pro meu pai? — Allana, óbvio, entra na cozinha e eu sorrio antes de me virar pra ela. — Deixei, senhorita. Tudo maravilhosamente bem feito! — eu falo e ela ergue uma sobrancelha me olhando torto. Caminha devagar e me encara com “desprezo”. — O que é isso??? — ela aponta pro pote sujo de chocolate que não lavei propositalmente só porque já saquei que ela curtia raspar, e eu seguro o riso. — Ganache de chocolate! — eu falo, ela perde a pose por um momento e balança seus fios dourados e compridos. — O que é? Outra torta? Não sabe fazer outra coisa? — Sei fazer um milhão de coisas se a senhorita quer saber, mas só para deixar claro... fiz um bolo! Repleto de morango mergulhado no chocolate, no meio do bolo e por cima!!! — eu falo fazendo uma cena teatral com as mãos para representar o excesso de chocolate e ela faz uma carinha de fome que dá vontade de morder. — E deixei isso aqui pra você... — empurro a tigela de


vagarinho. —... e isso aqui também... — me estico e pego no armário os morangos que separei. Ela só estica o pescoço para ver o que tem dentro, arregala os olhos, estende a mão para pegar, mas afasto bem na hora e ela bufa. Tia havia dito que sua fruta favorita era morango, então eu ia socar morango nela todinha até meu último dia aqui! — Uma pergunta em troca de Chocolate com morango! — Oxi... — ela fala como a Tia. — Pergunte! — Como a sua babá te trata quando ninguém está olhando? — ignoro o conselho de minha mãe completamente e pergunto logo, não ia aguentar. — Tá achando que ela me maltrata, é? — ela coloca as mãozinhas na cintura e se inclina. — Ela é uma grosseirona, mas sei lidar. Se ela me maltratasse, eu ia chutar ela daqui, igual vou fazer com você se não me der essa tigela. — ela sussurra, eu dou a tigela pra ela, e dou muita risada quando ela sai comendo e me olhando torto. Se não mentiu só para se proteger, ela era bem uma espertinha, isso sim. — Boa, garota! — resmungo rindo mais e me troco para ir embora. Amanhã eu teria o dia livre, mas não sabia o que fazer da minha vida. Deveria arrumar um jeito de ganhar uma grana. Mais dinheiro significava chegar mais perto de contratar um bom advogado. Meu pai precisava voltar pra casa, aquilo não era justo, uma pessoa inocente como ele não deveria passar por isso... Saio do apartamento pensando em tudo, tentando não me deixar abater, porém perdida em pensamentos e chamo elevador que ii subia, e quando as portas se abrem, dou de cara com ele. Vicente. Mr. ‘não me toque, não se aproxime. ’ Ele me mede fitando cada pedacinho do vestido curto de flores amarelas que coloquei para partir, e parece prender a respiração. Eu modéstia à parte tinha um corpo bonito e não ficava baixíssima perto dele, dava para encará-lo sem torcer demais o pescoço. Nos meus vinte e dois aninhos cabia um metro e sessenta e seis, seios medianos, bumbum pequeno, porém bem redondinho, e cintura fina. Não sei se eu podia encher a boca para qualificá-lo como ‘corpão’, mas que ele gostava demais do que via, gostava. — Boa noite! — eu falo, entro no elevador, e mesmo permanecendo fitando seus olhos que ardiam pecaminosos permaneci com o braço pra fora. — Não vai sair? Eu pergunto, ele engasga, me responde um ‘boa noite’ no seu típico jeito ‘sou um gostoso bem grosseiro mesmo e foda-se’, e sai atordoado. Mas boba era eu em pensar que estava lá no topo da parada enquanto só ele pirou ao me desejar, – sim, no fundo ele me desejou, eu sei que sim... pelo menos tinha esperanças... — coitada... assim que permiti que as portas se fechassem, me apoiei na parede fria da lateral do elevador, e só então voltei a respirar com a mão no peito. Minha calcinha parecia um riacho bravo e eu estava tão atordoada quanto ele. Só depois que saí é que eu notei que o que pirou ainda mais a situação, foi permanecer naquele elevador com seu perfume impregnado no ar, pois, ao me jogar no vento frio do pedaço aberto do estacionamento, caminho pelo qual eu precisava percorrer, é que minha tontura se amenizou. Eu estava completamente doida por aquele homem. — O que foi, menina? Que cara é essa? — minha mãe pergunta assim que eu entro em casa ainda perdida em pensamentos. Mais perdida ainda. Pensamentos esses, ultra-sexuais. — Que bicho te


mordeu? — Eu digo que bicho me mordeu se a senhora responder o que faz em casa!!! — já digo logo e ela fecha seu semblante. — A dona “Naja” me mandou embora... — ela confessa quase se desculpando e meu mundo desaba. — Sinto muito, filha! — Por que ela fez isso??? — Vai se mudar para o exterior... — Nem cogitou levar a senhora junto? Já foi te dispensando? — Ela perguntou, não é, se eu queria...!? Fez uma proposta maravilhosa... — E a senhora disse ‘não’ pelo papai. — Por ele, por você, por nós! — Entendi. — eu confirmo sorrindo e a abraço. — Logo a senhora consegue outra casa... — Já consegui. — ela ri entristecida. — Salário menor, e nunca mais vou ver minha Ana, mas... vai ser bom pra ela, vai estudar em um bom colégio, vai ter uma vida boa lá fora... Minha mãe fala da filha de dona Nayara, chora como um bebê, e sofre enchendo meu vestido de muco. Sorrio e zombo da cara dela até ela parar de chorar por dar tanta risada. Eu precisava de minha mãe bem, pois só assim para eu ficar bem também!


CAPÍTULO 3

Refaço meu semblante ou pelo menos tento, e encontro como sempre, Allana grudada na TV na companhia de Suzi. — Oi, pai! — Allana exclama feliz e o cheiro de seu hálito de chocolate acerta minha face em cheio. — Boa noite, bebê do pai. Tudo bem? — abraço meu anjinho, Suzi se retira, e eu me jogo no sofá. Eu estava extremamente cansado, chateado comigo mesmo, e pelo jeito, carente. — Eu tô. E você? — Como sempre melhor agora! — encaro uma super-heroína do desenho animado que passava na TV, mas o que vejo em minha frente é um par de coxas bronzeadas e bem torneadas que pareciam implorar para levar alguns apertões, umas chupadas e... — PAI! — Allana grita. — Tô falando!!! — Foi mal, linda! O que foi? — A Lara... fez bolo de chocolate cheio de morangos!!! — Allana volta a ficar empolgada e eu nego. — Filha... — eu começo e ela me doa sua total atenção. Já ia comunicar que ia mandar essa diaba embora, mas peso as consequências de minha decisão em todos os sentidos. Eu estava ficando maluco, mas a garota precisava do trabalho. — Acho que vou mandar a Suzi te levar direto pro meu trabalho depois que ela te buscar da escola. Tu acha que consegue ficar com o papai até dar o horário do papai vir pra casa? — Eu vou poder conhecer a empresa inteira??? — Vai. — sorrio. — Com algum funcionário cuidando de ti... mas vai. — Então tudo bem! — ela sorri satisfeita, e só porque me pediu com beiçinho, ganha mais alguns minutos de TV na sala. Subo tomar um banho, entro no quarto, e presencio mais um de seus feitos na organização. O quarto permanecia um brinco apesar da forma como deixei de manhã. Eu era um caos e ela toda ‘organização’. Fico duro ao me lembrar do vestidinho e aperto o passo em direção á ducha fria, mas não adiantou nada. Permaneci duro. Lara. A diarista do demônio. Passei o dia inteiro bem, mas só de vê-la... era isso. Eu precisava parar de me encontrar com ela. Espalmo a mão direita no azulejo úmido e frio do Box, seguro meu pau com firmeza, e aquelas coxas mais aquele decote provocante surgem em minha cabeça como uma maldição, um pesadelo. — Não. Não... — paro de me tocar, toco as costas no azulejo, respiro fundo, fecho os olhos, e meu


pau vibra só de pensar em vê-la de novo. Não consigo segurar, volto a me tocar, bato uma com uma puta raiva, e gozo com aqueles olhinhos fitando-me em minha imaginação. Eu era um maldito pervertido. A garota era minha diarista, minha funcionária, eu não podia ter feito isso. O que eu fiz? Bati uma pensando nela, no corpo dela, na vontade que eu tô dela... foi isso o que fiz. Infelizmente o sorriso de Nanda parece perder o brilho no porta-retrato ao lado da cama, e eu lamento demais. — Eu sou um merda, amor. Um merda. Me perdoa. — resmungo, lamento como nunca antes em toda a minha vida, e apago sem colocar Allana na cama. Acordo de manhã com sua colcha favorita em cima de mim porque me deitei em cima do meu lençol e ela não quis me acordar. Sinto falta do cheirinho de café mas ignoro o fato. Por que eu estava sentindo falta??? — Perdoou o papai por não te colocar pra dormir? Eu estava exausto... — pergunto para a pequena que tomava café ao meu lado na mesa. Lara havia deixado tudo no jeito. Tudo fácil. Quase tudo, menos minha paz de espírito. — É claro que sim! Eu vi que você estava um trapo!!! — ela ri. — O que faremos hoje? — O que você quiser! — Humm... — ela para pra pensar. — Tem um circo lá no centro, acabou de chegar. Distribuíram uns papeis na escola. Todos os meus amigos já foram. — Tem animais??? Não curto esses lances de... — Não, pai! Agora é proibido por lei! — Olha que espertinha... quem te disse isso? — A professora! João Lucas perguntou se a gente ia ver os leões de perto, aí a professora disse que não ia ter animal nenhum, que animal de circo sofre muito, e é proibido. Que se tivesse, a escola jamais apoiaria! — Ah! Legal! Então eu te levo! E aí, quando a gente chegar, jantamos o que a diarista preparou, e eu peço uma sobremesa gostosa no aplicativo, do jeito que você gosta! — Não gostou do bolo da Lara? — ela pergunta, pois acho que notou que eu não toquei no bolo. A garota era uma bela de uma feiticeira com suas comidas e sobremesas... a feiticeira mais gostosa que já vi... — Não sou muito de bolo. — Você ama bolo, pai. — ela ri. — Deveria experimentar. A sobra que ela separou pra mim me custou uma pergunta. Ela é muito da folgada, deveria demiti-la. Muuuuuito abusada!!! — Como assim? — Ela disse que tinha guardado a raspa pra mim, mas que só... — Allana resmunga enquanto mastiga. —... só ia me dar se eu respondesse. Muito folgada, a casa é minha! A comida é minha... — Que pergunta ela te fez, Allana? — questiono e já me sinto puto. Mandei a garota ficar longe, o que ela queria??? — Ela perguntou como a Suzi me trata quando não tem ninguém olhando. — Por que ela perguntaria algo desse tipo? — Não sei, ué. — Allana faz uma cara suspeita e eu fico ainda mais nervoso. — Vou perguntar só mais uma vez. Por que ela te perguntaria sobre como a Suzi te trata quando


ninguém está olhando??? Dá onde ela tirou essa ideia? Por que ela insinuaria que a Suzi te maltrata? Por que ela teria essa dúvida sendo que acabou de chegar??? — Acho que ela ouviu a Suzi gritando comigo. — ela fala e eu a encaro possesso. — Ela sempre grita, pai. Eu também grito. — Ela... ela grita com você? O que ela grita? O que ela disse que a diarista ouviu? — Por que eu vim na frente e demorei pra passar pela porta, pra irritar a Suzi, aí a Suzi gritou. — ela diz com jeitinho tentando se explicar e me acalmar. — E por que você nunca me contou??? Por que a Lara não me contou isso??? — Porque eu disse que estava tudo bem, que eu sei lidar com a Suzi. Que ela não me maltrata, se me maltratasse eu ia demitir ela, como eu ia fazer com ela também senão me desse o pote pra eu raspar... — Allana confessa cada vez mais baixinho, se afundando em culpa e já pressentindo minha ira. — Vai pro teu quarto. — Está decepcionado? — ela pergunta beirando o choro e eu nego. Ai que ódio!!! — Não. Não estou não. Vem cá. Mas estou um pouco triste. — tento me manter calmo só para não magoá-la. — Pensei que éramos um time, melhores amigos... sou seu pai! Devia me contar que a Suzi grita com você! Devia me contar tudo! — Ela não sabe falar uma palavra sem gritar, já me acostumei, papai!!! — Ela... — eu respiro fundo. — ela te maltrata de outro jeito? Te bate? Te aperta? Empurra??? Ela já te machucou alguma vez? — Não. Assim não. Só grita quando eu faço bobagem. — Tem certeza, Allana??? Não minta pra mim, não me esconda mais nada! — Tenho papai. Não estou mentindo. — Está bem. Mas já saiba: vou mandar Suzi embora e não quero choro, nem birra, nem nada do tipo. — eu falo e torço mentalmente para a pequena não me contrariar ou pela primeira vez na vida eu ia dar umas chineladas nela. Mas principalmente estava torcendo com todo o meu coração para não vê-la sofrendo pela possível ausência de Suzi ou eu ia verdadeiramente pirar. Allana sofrendo era a morte pra mim. — Mas aí quem vai cuidar de mim??? — Não é você que diz que não precisa de babá? — Mas ficarei sozinha? — Eu jamais te deixarei sozinha. — Mas você trabalha. — Eu darei um jeito, Allana. Só não admito ninguém gritando contigo, ninguém, eu nunca gritei! Não importa quem seja!!! Suzi será demitida, e será melhor assim, portanto não discuta comigo, e não fique triste! — Está bem! — ela diz concordando, mas apesar de estar feliz acho estranho demais o fato de não se entristecer, o que me faz pensar em até que ponto Allana me contava as coisas. Mais de um ano com Suzi e ela não soltou uma lágrima ao saber que a mesma ia vazar de nossas vidas... aquilo era por demais estranho. — Alô. — ela atende o celular com sua vozinha de menina. Eu mordo o lábio por um momento, e me arrepio inteiro. Que desejo era aquele?


— Boa noite, Lara. Pode falar um minuto? — Claro, seu Vicente. Aconteceu alguma coisa? — Sim! Como só irei te ver segunda, resolvi ligar, até me perdoe se eu atra... — Diga de uma vez pelo amor de Deus. — ela me atravessa e fico puto, mas engulo. — O que foi que você presenciou aqui em casa, com Suzi e Allana? Quero a verdade. — Bom, senh... Vicente... eu ouvi a mulher entrando e mandando a pequena ir logo, chamando-a de lesma, lerda... sei lá. Achei muito agressivo da parte dela, eu pedi para que ela não mais falasse com ela assim, mas após questionar Allana, eu me senti tranquila. Allana perguntou se eu estava pensando que a Suzi a tratava mal. Me senti uma boba, pois ela disse que sabia muito bem lidar com ela, e que se ela quisesse, mandava a Suzi embora. Achei a pequena muito esperta, muito decidida. Certeza de que se a Suzi a maltratasse, ela faria questão do senhor, de você, desculpe, saber. Se bem que mesmo o assunto não sendo da minha conta, como minha mãe mesma disse, já que eu presenciei, é responsabilidade minha. Gritar com uma criança, ainda mais não sendo a mãe dela, ou o pai dela, é inadmissível. Eu não gostei do que eu ouvi e imagino que o senhor, em saber, menos ainda. — E ainda sim, não ia me dizer... — Allana é grandinha, entende as coisas, disse que “estava tudo bem”, e no mais, eu a defendi, deixei claro para a babá de que eu não gostei daquilo, que aquilo nunca mais deveria se repetir, e então nem ouvi mais gritos. E também fica difícil pra mim, não é!? Me posicionar!? Sou nova, acabei de chegar, e a ordem era de não me envolver e me manter afastada. Como eu poderia chegar na sua casa “tirando o emprego da funcionária antiga”? Me intrometendo? Se Allana realmente estivesse sendo maltratada, o senhor perceberia, de alguma forma ela ia dizer ou dar sinais... — Para mim, gritar com minha filha já é maltrato o suficiente! — Eu concordo, entendo... mas pelo jeito os gritos da Suzi em nada afetam Allana, ela grita, Allana grita mais alto ainda. Me perdoe por essa situação, eu lamento muito. Eu prometo ficar de olho nela. — Ela diz com uma vozinha que me deixa doido... — Não será necessário. — Então eu não sei mais o que te dizer e nem como ajudar. Só lamentar o ocorrido ainda mais. — Vou demiti-la. Não será necessário porque vou demiti-la. — Meu Deus... — Não chame por Deus, não. Allana nem está triste com minha decisão. Sabe-se lá DEUS o que ela passava. Sabe-se lá DEUS se ela realmente me contou tudo... não derramou uma lágrima, concordou com minha decisão. — Graças a Deus ela não vai sofrer. Está tudo bem. — Não. Não está tudo bem. — eu lamento profundamente. — Senhor, desculpe... me desculpe... Vicente, se me permitir posso ir até aí, amanhã para conversamos a respeito, ou não, não sei, mas agora eu tenho um trabalho e preciso mesmo desligar. Espero que fique tudo bem por aí! — Trabalho? — como assim? Era 18:15hrs de um sábado. — Que trabalho, uma hora dessas? Você já trabalha aqui!!! Por que isso? — questiono assustado e ouço alguém chamá-la na linha. — Eu preciso ir. Conversamos depois. Me desculpe pelo transtorno. Me desculpe... até logo. Ela desliga e eu fico de cara. A garota não tinha um dia de descanso? Também trabalhava em


outros lugares nos finais de semana? Por que? Será que seu aperto financeiro era tão grande??? — Vamos, pai? — Allana desce as escadas e me chama. — Estava falando com a Suzi? — Não. Era do trabalho. Com a Suzi falarei pessoalmente. Eu falo, pego as chaves do carro e desço com a pequena. Eu já tinha mandado uma SMS para a Suzi. Ela já estava ciente de que na segunda-feira nem deveria pegar a Allana, e já marquei uma hora com ela no escritório. Eu mesmo nunca levantei a voz para minha filha, não seria ela quem faria isso. Eu nunca imaginei esse tipo de coisa, Allana nunca me contou... é minha filha, a única coisa boa que me restou dessa vida, ninguém no universo ia maltratá-la. Eu não deixaria. Estaciono na frente do terreno privado e lotado do tal circo e Lana desse do carro pulando, toda empolgada. Pego em sua mão, afundo meu tênis na terra seca do lugar, e afundo os dois pés ao tentar pará-la assim que ela visualiza uma vendedora de algodão doce. — Eu quero, quero, quero... — ela corre, bufo tirando a carteira do bolso, e sorrio envergonhado quando Allana estapeia o quadril da moça que vestia uma saia de plástico rodada, legging colorida, e sandálias altas rosa-neon. — Desculpe-me. — já falo assim que me aproximo e ela se assusta e se abaixa para falar com quem a “agrediu”, e eu me assusto logo em seguida. Aquele era o trabalho dela? Lara estava de rosto pintado como uma palhacinha e minha inocência se foi... para sempre... para nunca mais voltar. Minha inocência pulou do décimo primeiro andar e morreu. Uma palhacinha com aquela saia armada, santo Deus. — Lara??? — Allana solta e eu engasgo. — O que faz aqui? — eu pergunto e ela sorri. — Estou vendendo algodão doce. — ela sorri lindamente, parece se divertir com minha confusão, e se abaixa se apoiando nos próprios joelhos para dar atenção à Allana. — Uma pergunta em troca de um algodão doce!!! Allana fica possessa, cruza os braços, e faz bico. — Mas de novo isso de pergunta? Meu pai vai pagar, não preciso responder nada! Deixe de ser abusada! — Uma pergunta, ou nada. — ela ignora a birra de Allana e eu passo a encarar a pequena. — OK. Pergunte. — ela diz após revirar os olhos. — Meu bolo estava incrível ou não? — Se eu disser que não, vai dizer que não vou poder comprar um algodão! — Seja sincera e eu te dou um algodão. — Estava, estava, estava, agora me dá! — Allana resmunga baixo impaciente e eu viro o rosto para rir. Ela faria qualquer coisa por um doce e jamais mentiria, ela realmente amou o bolo, nunca conseguiria dizer que estava horrível. — É teu! Um presente! — Lara se diverte, sorri pra ela, estende um algodão, e Allana pega e se afasta para abrir a embalagem e comer “em paz”. — É esse o seu trabalho? É circense? — pergunto tentando não demonstrar desespero ao querer saber mais sobre ela. O que ela estava fazendo ali? — É só um bico, seu Vicente! Eu ouvi dizer que os donos estavam entregando panfletos, que precisavam de jovens, então procurei saber e vim.


— Não descansa nunca? — Claro que sim! Estou há alguns dias sem nenhuma casa pra limpar, a sua surgiu de repente. Estou descansada, não se preocupe. Segunda-feira estarei lá! Ela fala como se minha preocupação fosse dela trabalhar demais e dar mancada comigo. Não!!! Eu não estava entendendo o que ela fazia ali... era jovem demais pra fazer faxina, era jovem demais pra trabalhar desse jeito... devia estar estudando e em um fim de semana como aquele devia... devia... estar passeando, curtindo a juventude, um namorado... Lara devia estar beijando na boca. — ou fazendo amor em um sábado à noite como aquele???? Fazendo amor contigo na bancada da cozinha, o ambiente favorito dela... — Merda. — Tudo bem. — tudo bem merda nenhuma, vamos embora agora, porra! — Conversamos depois! Bom trabalho! — Obrigada! Boa noite! — Boa noite! — eu respondo balanço a cabeça e “puxo” Allana para andar mais depressa. Ignoro os olhares que ela recebia de alguns marmanjos que passavam, mesmo estando legging embaixo da saia rodada e trato logo de comprar os ingressos para Allana parar de pular, ver logo a tal da “atração” maravilhosa e ir pra casa. Ao colocar a resmungona sonolenta no banco de trás, boto o carro para ‘andar’ e encontro a criatura caminhando atrás de um grupinho de jovens maquiados, mas aparentemente afastada e excluída. — Entra! — eu falo após abaixar o vidro, buzinar e parar ao seu lado. Ela olha pro lado, primeiro com curiosidade e depois de cerrar os olhos e ver que era eu, dá a volta no carro e entra sem discutir. — Eu não moro muito longe, obrigada! — ela resmunga me fitando e eu só balanço a cabeça. Não diga nada, não me deixe doido... Eu resmungo em pensamento, evito olhar para as suas pernas, — só tem vestido? Tem nenhuma calça, não garota? — e suas mãos entrelaçadas, e por causa do silêncio, encaro o retrovisor e vejo Allana desmaiada. — Eu sinto muito pelo o que houve com a babá... — ela começa. — Deveria ter me ligado imediatamente. — Deveria entender a minha situação. — ela rebate “numa boa” e eu confirmo. — Allana me deixou muito segura dizendo que sabia como lidar com ela. Já convivi com muitas crianças, sei quando uma criança sofre. Allana está bem. — Aparentemente. — O que vai fazer? Vai mesmo demiti-la? — Vou. Só para evitar abrir um processo contra agressão. — E com quem ela ficará? — Darei um jeito. — só resmungo. Paro onde ela indicou que seria sua casa, me inclino para olhar e me sinto “triste”. Sua casa era de tijolos sem argamassa, e de muro muito baixo. Extremamente simples. Nenhuma segurança. — É aqui que você mora? — É. Simples não é!? — ela me encara sorrindo enquanto eu fitava a casa perdido em pensamentos. Uma coisa que eu não tinha notado por sempre ficar perdido naquele corpo que


incitava o pecado era que Lara estava sempre sorrindo, sempre de bem com a vida. Sempre. Às vezes até notava que segurava o sorriso perto de mim, e evitava demonstrar a alegria contagiante que sentia, só para não “me irritar” ou “abusar da sorte”. — Quer entrar pra ver por dentro? Minha mãe amaria conhecer você. Ela pergunta se divertindo e eu não posso deixar de fitar sua boca. Seus lábios grossos ainda tinham vestígios do batom vermelho de palhaço, mas sua face estava limpa ao contrário de minutos atrás. — Eu acho que definitivamente encontrou seu emprego certo. — digo debochado e ela sorri de novo. Palhaça. — De diarista? Cuidar da suas coisas, seus ternos, seu jantar... cuidar de você??? Acho que posso concordar com isso. — Não me fode. — Não me afaste. — ela responde baixinho na lata, fico tonto, e destravo a porta do carro já deixando o ‘convite’ claro para que ela aceitasse, e sumisse da minha frente. — Está entregue. — Completamente. — ela resmunga rindo, eu tiro meu olhar perdido da rua escura à minha frente, e os deposito sobre ela com outros aspectos: pânico. Ela é louca? Eu falei ‘entregue em casa’!!! Sim, ela é louca! E eu também estava louco, precisava demiti-la imediatamente! — O que você tem??? Te mandei três e-mails, tô cheio de novidades, nunca chega atrasado. Está chegando agora? — Greg me aborda assim que piso em minha sala. — Sim, tive que levar Allana na escola, e bom, esse será meu novo horário. Sé é que não vou passar a trabalhar de casa. E pra começar nunca ouvi essa ‘do dono da empresa ter horário’. — Bom, você sempre foi regrado com tudo isso. — Pois é, mas não sou mais. Estou sem babá. Vou levar e buscar Allana, e ela vai fazer parte do quadro de funcionários agora. Ficará comigo aqui até dar a hora de ir pra casa. — Tadinha!!! Tá doido? O que houve? — O que houve é que eu estou pirando. É isso o que houve. Vou dispensar a babá, a diarista, vou me foder, mas voltarei a ter paz. — Mulheres querendo se aproximar, claro... — ele ri se sentando no meu sofá. — Diga logo... quais as novidades? — A mais legal é que recebemos uma proposta para comemorar o fechamento do contrato na sede da empresa!!! — Nem começamos a criação, a produção... comemorar o quê? — Bom, também achei estranho, mas pelo o que vi, eles fazem isso com todos os associados, clientes, e tudo o mais! É protocolo deles. Você vai assinar o contrato simbolicamente lá. Será maravilhoso para nós. Vamos colocar a empresa nas mídias, na boca do povo, e curtir uma temporada em Paris! Merecemos comemorar. Quer dizer, você merece!!! Fico empolgado e concordo ao me sentar. — Sim, comemorar é bem-vindo. Estou muito feliz por termos conseguido! Vê lá tudo o que é necessário e me passe isso... — Por e-mail, sim! — Greg de novo ri, mas ri sozinho. Eu estava cansado demais e ele querendo graça. Eu era um homem ocupado e agora perdido.


Nem dormi essa noite, só pensando naquele sorriso levado, aquele bumbum arrebitado na saia circense, seu perfume que impregnou meu carro... me vi levantando sua perna naquele vestido dela... enfiando a cabeça pra dentro de suas coxas e sugando sua boceta que eu já sabia que devia estar molhadíssima, tão quanto meu pau estava duro por ela. Pego o porta-retrato de Nanda e engulo o choro. Ouço o barulho de suas risadas, sua mania de me acordar com beijinhos de madrugada só pra fazer amor, sua voz rouca me dizendo ‘bom dia’ de manhã... eu me sentia um traidor, filho da puta!!! Nanda não merecia isso, sua memória não merecia isso. Prometi amá-la para sempre, prometi que seria a única mulher da minha vida, a única que eu desejaria. — Vicente... Suzi chegou! Flávia anuncia, eu me desperto de meus devaneios, olho no relógio e constato o quão curiosa ela estava. Eram nove da manhã. — Bom dia, Vicente. — ela diz, aponto para a cadeira, e ela se senta nervosa. — Gostaria de saber que direto acha que têm de gritar com minha filha! — eu falo e ela faz uma cara péssima. — O que aquela mulherzinha disse??? — Mulherzinha??? — Sim, a empregadinha!!! — Eu não sei, o que a Lara tem a ver com isso? — Eu gritei com a Allana por que ela estava fazendo pirraça na porta, com os braços abertos, eu estava com sacolas, apenas levantei a voz e a empregadinha já veio me questionar como se fosse a dona do mundo!!! — É Lara o nome dela. E não importa quem falou, quem não falou, quem questionou, ou não... quero saber que direito te dei de gritar com minha filha! — Me desculpe, não devia ter gritado. — ela diz com sacrifício. — Não devia mesmo. Você está dispensada. Pode ir à agência e lá vão acertar tudo contigo. — Por causa de um grito? Allana precisa de disciplina, precisa de pulso firme. Vai deixar a menina onde? Com quem? Com a empregadinha, quer dizer, Lara??? — Eu não tinha pensado nisso. Me parece uma ótima ideia, pelo menos gritar com a minha filha, ela não irá. Há tanto tempo cuidando da Allana para eu descobrir isso só agora e uma completa desconhecida que eu nem sei o nome completo a defende de você! O que é? Maltratava Allana por quê? Batia nela? — Eu nunca a machuquei, nunca fiz mal a ela e você sabe. — Eu não sei de nada. — eu garanto a encarando e ela parece querer chorar. — Só sei que você não tem direito de gritar com os filhos dos outros e nunca mais gritará com Allana, e ai de você se eu descobrir que você a agredia! — volto minha atenção para o computador e continuo. — Você já pode ir. — Não vai me confirmar se foi ela? — ela pergunta de novo e eu volto a fitá-la. — Quem me contou foi Allana. Vai fazer o quê? — Nada. Posso me despedir dela? — Não. Nunca mais chegue perto de minha filha! Eu falo, ela concorda, se retira e eu ligo no condomínio. Proibi sua entrada lá, pois estava sentindo


que ela em breve procuraria por Lara. Vai tentar descontar sua frustração na garota. Canso de bater a caneta na mesa, pego o telefone e ligo em seu celular. Ligo três vezes e três vezes da caixa-postal. Merda! Ligo em casa e nada dela atender... mas que porra! Não noto quando volto a pensar nela e me lembro do café-da-manhã. Novamente deixou a mesa pronta e se enfiou na lavanderia, só saiu quando eu saí com Allana. Mas, dessa vez, agradeci. Foi bom não tê-la visto, sem vê-la fica mais fácil. — Vai almoçar? Tô te esperando porque eu vou quando você voltar! — Flávia questiona porque nota que eu demoro e ela não queria deixar os telefones sem ninguém para atender. Eu concordo. — Aproveita que está aqui e me faça um favor. Liga aqui pra mim... — peço porque se dessa vez ela atendesse seria melhor, eu não queria assunto. Digo tudo o que preciso, Flávia entende, e por recomendação coloca no viva-voz. A criatura atende depois de três toques. — Ai... — ela parece afobada. — Alô! — Lara? — Isso. — É a Flávia aqui da empresa. — Oooi! — Então, o Vicente pediu para avisar pra ficar de olho na porta e tomar cuidado porque a Suzi está chateada por ter sido mandada embora... — Eu já me encontrei com ela aqui embaixo... eu pedi para um amigo que vende alguns produtos passar aqui pra eu fazer umas comprinhas do que estou precisando e ela me encontrou lá embaixo. — Flávia me encara e eu fico nervoso. — O que ela te falou? — Flávia pergunta e ao me encarar eu apoio. Eu queria saber tanto quanto ela. — Bobagem! Nada de mais, posso lidar com ela. Sabe que horas ele estará aqui, Flávia? O almoço já está pronto e normalmente nesse horário ele já está quase terminando... — Ele está em um almoço com alguns clientes, pediu pra te avisar também. Se lembrou agora pouco que estava agendado, então você pode almoçar e cuidar de tudo. — Flávia diz e ela faz silêncio. Parece sentir o meu desprezo. — Bom... eu acho que é um engano, acho que ele não me deixaria fazer tudo se não fosse comer aqui... isso não me parece algo que ele faça, apesar de ser bem ocupado. Por via das dúvidas vou deixar o almoço na mesa e dar uma saída para que ele... para que ele possa comer com mais tranquilidade, sem minha presença. Eu sei que ele não gosta de comer na rua. Vou deixar aqui e qualquer recado que ele passe, você pode me ligar! — Certo. — Obrigada, Flávia. Tenha um bom dia de trabalho! — Pra você também, Lara! — Flávia sorri entristecida para o telefone e depois me encara. — Ai! Tadinha... — Para. — Ela cozinhou pra ti, Vince... — Flávia me chama da forma como chamava quando ainda tinha Nanda aqui como sua melhor amiga, e eu a encaro. — Vicente. Vai almoçar. — Não. Não quero... — Ela cozinhou, ela... — Ela é paga pra isso.


— Mas foi indelicado, ela sacou. Ficou chateada. — Ela... — eu desvio meu olhar para o computador de novo. — ela se interessa por mim. Não dá. — Então demita a garota de uma vez. Afaste ela de você. — Não dá, também. Ela precisa do dinheiro, é um “pedido do coração” da Tia. Trabalha bem, é dedicada, caprichosa. Ela merece demais o trabalho, precisa demais... eu não sei. Eu tô muito confuso. Quero mais do que tudo me livrar, mas Tia vai ficar muito chateada. — Tudo bem. — Flávia me ajuda ao encerrar o assunto. — Ela disse que vai sair pra você se sentir mais a vontade. Devia ir comer, não vou te esperar muito não, estou com fome. Ela fala, sai, e eu fico ouvindo aquela vozinha dela, entristecida por minha causa, até eu levantar da mesa e ir comer. Ela fez manha de propósito, sabia que eu estava ouvindo. Vai ver tinha colocado até um vaso maior de flores na mesa, e usado toda a porcelana da casa mesmo sem autorização... sorrio com o pensamento e me condeno. Chego no AP, encontro a mesa linda montada, e seu familiar barulhinho como um ratinho na lavanderia. Sorrio de novo e vou até lá. Quando abro a porta a vejo encostada na maquina de lavar, com seu semblante triste demais e se abraçando como se estivesse com frio. — Vem pra cá. Vem fazer suas coisas! — Pensei que fosse almoçar com seus clientes. — O que queria??? Você me provoca! Aquelas coisas que disse no sábado, no carro... não quero mais que se repitam. Tomou uma liberdade que eu não te dei. Não quero aquilo. Tia deve ter dito no tanto de babá que mandei embora, mas você eu não posso. É boa pessoa, trabalha bem, precisa, e é querida pra Tia... mas me ajude. Não se aproxime de mim, não quero que fique do jeito que está agora, chateada, por isso não se aproxime de mim. — eu desabafo e ela concorda no ato. Lara é uma morena linda. Linda demais mesmo e vivia me deixando louco em todos os sentidos. — Ok. Aquilo não vai mais se repetir. Eu prometo. — ela diz tristinha, me sinto mais aliviado e quase não vejo quando ela volta a sorrir porque eu estava maluco para sair daquela lavanderia escura com ela. — Mas tenho um pedido... Ela diz miando como um gato, eu a encaro curioso, e ela se aproxima ajeitando minha gravata. — Um pedido e eu finjo que o senhor não existe de verdade, e é só fruto de minha imaginação!!! Literalmente... — tiro sua mão da minha gravata e ela me olha com uma carinha de dar dó. Essa garota vai me matar. — Que pedido é esse? — Me contrate pra cuidar da Allana. — Seu desespero por dinheiro é tão grande assim? — Não me julgue sem me conhecer! Querer cuidar dela não significa desespero. Ela é linda, quero cuidar dela! — Eu pago o dobro do seu salário só para você se esquecer da minha filha de uma vez por todas!!! — Prefiro cuidar dela de graça. — ela responde fitando minha boca, eu não sei o que sentir com aquele carinho todo dela por Allana, ando até que ela volte novamente à tocar o bumbum na maquina e a cerco com as duas mãos. Minha atitude a faz ficar extremamente excitada, e assustada. Eu queria foder aquela garota ali mesmo. Eu queria demais sentar a vara nela até ela miar pedindo arrego. Eu queria chupar sua boceta até vê-la tremer com um orgasmo monstro.


Cheirosa. Perfume bom... hálito levemente refrescante, olhar marcado cheio de desejo por mim... — Você vai acabar me deixando doido. — Eu já estou... — ela diz como se dissesse: “eu já estou o que custa você ficar também...?” — Se eu não fosse quem sou hoje, e se eu não tivesse passado por tudo o que já passei em minha vida... — eu falo olhando fixamente em seus olhos, eu precisava fazer com que ela entendesse. —... eu te corresponderia. — eu digo e ela bem de vagar toca minha barba com as pontas dos dedos receosa, como se quisesse fazer aquilo há bastante tempo, com medo de eu sair correndo. — Te botava em cima dessa maquina com essas coxas arreganhadas, e minha nossa... só Deus sabe o que eu faria contigo!!! Mas não posso. Meu tesão é grande, minha vontade de sentir seu gosto, o gosto dessa boceta que eu já sei que está salivando por mim, seu cheiro no meu corpo... são desejos grandes, fortes, mais não são maiores que a dor que eu sinto ao pensar nisso. Se você sentisse um por cento da dor que eu sinto após te desejar e o tamanho da minha culpa e do meu pesar, você nunca mais voltaria aqui. Você nunca mais me faria sofrer. — eu falo já sentindo aquela dor e seus olhos se enchem de lágrimas. — Eu vou almoçar e... está de castigo! — Como é? — ela fica surpresa, levanto a chave da porta e ela ri. Meu Deus, ela ri. — Fala sério. Vai me trancar? Eu tenho a chave! — Mas eu sei que você tem honra. Sabe que eu quero que permaneça aqui presa, então ficará. Só vai sair quando eu partir. — E você está sendo cruel, e sabe disso. Veio me tirar daqui pra me deixar de novo. — ela diz, eu a encaro e vejo que novamente está com os olhos marejados, entristecida e se abraçando. — Confessa que está fazendo essa carinha triste de propósito só pra me foder, ficar morrendo de dó de você, e não te prender aqui. — eu peço e ela nega parecendo péssima. — Só um pouco... talvez sim. — ela confessa dando de ombros e eu nego. Sim, Lara queria me foder. — Para com isso, por favor. Não faça isso. — Parar com o quê? — De tentar me seduzir. — Está dando certo? — ela segura um sorriso, mas fica sem graça quando vê que eu não vou corresponder seu atual bom-humor — Só pare. Pare com isso. — Tudo bem. — Prometa! — Eu prometo. Já parei. — ela garante, vejo seriedade, e saber que falava sério me deixa aliviado, porém com um sentimento estranho e difícil de decifrar dentro de mim! — Então estamos conversados, Lara. Que esse assunto nunca mais precise ser repetido.


CAPÍTULO 4

Tudo bem. Já chega. Eu sou uma garota linda, do bem, esforçada, gentil, e principalmente nunca precisei fazer isso. Eu nunca precisei. Esse homem não me cercou aqui dentro, quase me atacando pra dizer que não me quer, que a dor é maior que o “tesão”. Quase me engoliu, morreu de vontade de me pegar de jeito... ficou duro por mim, maluco, várias vezes desde que cheguei, pra depois dar meia-volta e pedir pra ficar longe. Ok. Eu não farei nada que ele não queira, mas eu vou provocar até ele querer. É o maluco do “não me toque Lara, não se aproxime, Lara, não faça isso, Lara, Prometa, Lara...” Tá. Eu me afasto, mas que vai implorar por mim! Ah! Vai! Vai implorar pra fazer amor comigo e eu vou dizer um sim enorme porque estou fodidamente apaixonada por esse gostoso!!! Sorrio com o pensamento e saio do castigo decidida. Tinha uma louça me esperando, eu não ia ficar ali como uma pessoa que deveria ter vergonha de aparecer. Ele que se morda inteiro, se não vai me demitir, vai ter que me engolir! Seus olhos para mim enquanto mastigava minha comida, são de curiosidade. Ignoro começo a lavar a louça, e por estar na lateral da bancada da cozinha, — não sei PORQUÊ não comia na sala de jantar... — podia muito bem ficar olhando pra minha bunda. E eu sentia seu olhar quente na minha bunda, mulher sempre sente. Enquanto lavava com cuidado as porcelanas, o imaginava me abraçando ali, pelas costas, me tocando, beijando meu pescoço... mas logo me livro daquele pensamento e me concentro. — Não entendeu quando eu disse que era pra me esperar sair? Ele questiona bravo, com a voz baixa, eu odeio seu modo de falar comigo, e quando o encaro, vejo que secava minha bunda enquanto tomava seu suco. Como imaginei. — Aposto que a Tia não fica trancada como um cachorro sarnento enquanto você está almoçando, ninguém merece isso, eu muito menos. Vou fazer meu trabalho, prometi me comportar, mas não vou mais me trancar. Não se apegue em Tia, ela não vai ficar chateada, vai respeitar sua decisão como patrão, então se quer se vir livre de mim me demita, mas se não for fazer isso, me deixe trabalhar. Eu falo olhando em seus olhos, mas como era de mim, não falo com grosseria. “Falo numa boa”. Pronto. Fui tão sincera, tão transparente, que ele nem discutiu. Me “ignorou” completamente, terminou seu almoço em silêncio, e foi embora.


Há poucos minutos havia sido tão sentimental comigo. Sim, ele demonstrou seus sentimentos, falou de como se sentia, e apesar do desfecho, gostei daquilo. Mas depois, foi completamente frio, distante, e indiferente. O que me fez pensar seriamente em esquecer aquilo. O que não era pra ser, não era. Um homem daquele jamais olharia pra mim, e ainda sim, o que olhou, é completamente ‘perturbado’ psicologicamente falando. Júnior tinha razão, Vicente era um homem doente que precisava de ajuda e além de tudo se recusava a ser ajudado, se recusava a se aproximar e a deixar que se aproximassem dele. Júnior... é isso, Júnior poderia me ajudar a entendê-lo. A pelo menos entendê-lo. — Oi. — eu falo pro telefone assim que ele atende. — Oi, Lara! Que legal que você ligou, está tudo bem??? — Está sim e vocês? Como está Salvador? — Está maravilhoso. Se não estivesse trabalhando te convidaria para dar um pulo aqui. — Poxa eu ia amar. Ia mesmo!!! — dou risada. — Escuta... eu estou trabalhando agora, mas, será que mais tarde você teria um tempo pra conversar comigo? — É claro que sim! Seria uma honra! Aconteceu alguma coisa? — Não exatamente. Eu só acho que você tinha razão sobre... — me viro distraída e dou de cara com ele me encarando e segurando seu celular. Pelo jeito esqueceu na mesa e voltou pra buscar. —... aquelas coisas que me disse a respeito de nossas profissões. Junior... preciso desligar agora, falo contigo mais tarde, então...!? — Com certeza, Lara! É só me ligar, ficarei esperando! — Certo. Um beijo! — Beijão! Júnior se despede, desligo o celular, e continuo o encarando. — O senhor precisa de alguma coisa? — questiono, e ele nega com a cabeça. — Tenha um bom dia de trabalho. — ele fala segurando uma raivinha, eu desejo o mesmo e ele sai numa “calma” que me desespera. Será que ficou puto por me ver no celular na hora em que eu deveria estar trabalhando ou plantei uma sementinha do ciúme nele? Eu não sabia. Só o que eu sabia é que ninguém iria me dizer a real daquilo. Maaas... eu não precisei de muito tempo para entender certas coisas, pois, assim que saiu eu não o vi mais. Ele demorou pra chegar e eu nem sei por onde estaria Allana. Vai ver a pegou na escola e foi direto pro trabalho com a pequena. Eu fui embora e ele ainda estava fora.

— Com quem estava falando? Te liguei tanto...— minha mãe questiona no telefone após conseguir atendê-la. Estava há horas no telefone com o Júnior. — O Júnior... filho da Tia. — falo sorrindo, foi tão bom conversar com ele. — Ah! Vocês se adoravam quando pequenos... — Tia disse que vocês duas nos enfiavam nos quartos das casas dos outros quando não tinham onde nos deixar! — Ah, filha, foi bem isso. Nossa situação era tão complicada... mas a gente se divertia muito e vocês também! Já chegou em casa? Como foi hoje? — Cheguei, mãe! Foi como sempre tem sido, difícil! Nem te contei que ele ficou ‘de cara’ ao me ver lá na frente do circo... eu cheguei e a senhora já tinha dormido. Me deixou aqui na porta de casa


e quase surtou... — Choque de realidade. Está te conhecendo... — É. E hoje quase fui estrangulada quando saí do condomínio para pegar produtos de limpeza com Betinho, lembra dele? O vendedor ambulante! — Por que estrangulada? — Ele mandou a babá embora! A Allana contou que ela gritava com ela! — Não acredito! Você tem alguma coisa a ver com isso??? — Tenho. Eu perguntei pra ela como a vadia a tratava quando ninguém estava olhando, pronto, falei. — Lara!!! — Ah! Mãe! Não me arrependo, não! Ela mereceu o chute! Onde já se viu, maltratar os filhos dos outros? Uma babá, ainda por cima!!! — É, mas você foi burra! E se ela te enche de pancada? Você não a conhece, chegou lá e tirou o emprego dela, e se ela te pega na rua? Se é uma doida varrida, Lara??? Devia ter feito o que eu mandei, mostrado pra ele sem “se envolver”. Agora arrumou pra cabeça! O que ela te disse? — Tentou me humilhar me chamando de empregadinha, coitada. Como se eu tivesse vergonha de minha posição atual. É uma desvairada, sei lidar! Sei me defender, e além de tudo, acho que tenho até um protetor... — falo e dou risada. — Como assim? — Vicente! Ele me ligou só para me mandar tomar cuidado com ela, mandou uma funcionária ligar lá para saber se eu estava bem. Eu tinha descido na rua, cheguei e ouvi o telefone, quando desliguei e fui ver, ele tinha me ligado umas “cem” vezes. Todo preocupado comigo, mãe, a senhora precisava ver!!! — Lara... — ela diz toda desanimada e eu já sei do que se trata. — Eu sei, tá legal!? Está tudo bem, só achei bonitinho. Ele nunca olhará pra mim, nunca vai me ver com “outros olhos”. Principalmente ELE que ainda é louco pela mulher que já faleceu. Tô ciente, mãe! Não estou iludida. Hoje mesmo ele deixou claro que não pode me corresponder e eu entendi. Não se preocupe comigo, não! — Deixou claro como??? — Falou, mãe! Falou que se fosse em outro momento da vida dele, que se não tivesse passado por tudo o que passou e tudo o mais, provavelmente me corresponderia, mas que é impossível. — Bom. Que bom que ele disse... assim você realmente não da bobeira. Esquece essa história, foca em servi-lo bem, trabalhar bem como sempre trabalhou, se possível ser uma boa amiga, quem sabe!? Se ele te contratar fixamente, pode ajudar teu pai e voltar pra culinária. Dona Naja tinha me prometido um advogado, mas como foi viajar, “esqueceu” da promessa. Eu já tenho um bom dinheiro guardado, logo conseguiremos tirar seu pai de lá! — Amém, mãezoca! Agora me conta, como é teu patrão novo? — Jovem, desorganizado, só que mais fácil de lidar que uma família inteira! — Que bom! Eu vou desligar porque estou muito cansada. Amanhã passarei o dia no circo! Conversei com o amigo que tinha me indicado e ele conseguiu mais um dia de bico, mas como o circo não vai abrir, o trabalho é limpeza mesmo, limpeza pesada! Pelo menos não ficarei o dia todo em casa à toa. É um dinheirinho curto, mas já é alguma coisa! — Eu tenho tanto orgulho de você, Lara... se você soubesse...


— Mérito teu! — É meu nada, é todo teu, você que é assim. — Cresci vendo uma mulher incrível nunca parar de lutar para me dar o melhor e um pai herói, trabalhador e amoroso. Fui moldada pelos melhores! Te amo, mãe! Durma bem! — Te amo, filha! Bom trabalho amanhã! Beijo! — Beijo! Eu me despeço, desligo, tomo um banho e me jogo na cama. Apago de puro cansaço físico e mental. Pensei que não conseguiria dormir por causa das ameaças da vadia — disse que “mais dia ou menos dias, me encontrava por aí...” — ou porque jamais conseguiria esquecer as últimas palavras picantes do Mrs. ‘não me toque’, mas não. Apaguei que nem vi. Meu dia seguinte foi todo no automático. Levantei as dez, fui pro circo, limpei uns trinta camarins daqueles “sobre rodas”, estilo trailers, conheci acrobatas gatíssimos e sarados, mulheres temáticas, — barbadas inclusive, brincadeira. — ginastas, palhaços que me conquistaram... e descobri que só consegui o emprego para limpar o lugar graças ao meu amigo que me indicou, porque realmente não era necessário. Todo mundo ali estava acostumado a limpar “seu próprio rabo”, e o dono do circo apenas me aceitou para dizer ‘sim’ para nosso amigo em comum, e de quebra dar uma folga para os seus atores. Fui pra casa às 17:00hrs com os meus suados sessenta reais, jantei, tomei banho, caí na cama, e então, dessa vez, não tive tanta sorte. Pensei nele até dormir, quase enlouqueci. Seus olhos, sua boca carnuda, sorriso perfeito, barba por fazer de propósito, barriguinha chapada, costas musculosas, bumbum grande. Típico ‘Homão da porra’! Sim, com aquele ‘H’. — Bom dia! — o bonitão entra na cozinha no dia seguinte, me cumprimenta de uma forma “seca”, e se senta enquanto eu ainda passava o café. — Como consegue fazer seu café chegar até o andar de cima? — ele diz e sinto que quer apenas puxar assunto para tentar dar um jeito no nosso clima pesado. — Eu não faço ideia. — sorrio apenas. Não conseguia “guardar rancor” ou ficar de mimimi por muito tempo. Acreditava na ideia de que as coisas eram como eram. Eu achava que enquanto estivesse ali, eu desejaria aquele homem e aquilo não precisava parar ou atrapalhar a minha vida de alguma forma. Se por um milagre divino aquele homem estivesse destinado a mim, assim seria. Um brinde ao papo cabeça que tive com Júnior. — O da Tia não sobe, não? Eu questiono e ele esboça um sorriso fraco. — Não. Mas não diga isso pra ela. — Não vou dizer. — resmungo e controlo meu sorriso de imensa alegria. Eu estava com medo dele interpretar minha simpatia como uma provocação e aquilo era um saco. Eu já havia tentado, havia deixado claro que queria, — e eu o queria tanto naquele carro... — e muito claro, então se não deu certo, eu ia deixar fluir. Entendo que deveria lutar pelo o que eu queria, mas Vicente também deixou ‘bem claro’ que minha atitude era dolorosa. Com outro poderia não ser, mas com ele, era complicado. E também, o papo com Júnior — será que estou “falando” no Júnior demais? — abrira meus olhos para diversas possibilidades dessa minha tentativa de aproximação. O futuro psicólogo me aconselhou a


simplesmente: deixar nas mãos do destino, pois, como ele já dissera antes, Vicente precisava de ajuda, muita ajuda, antes de pensar em se abrir para a minha aproximação. Júnior até disse que apostaria que ele nunca conseguiria, não sem ajuda, e eu fiquei mal, mas não pude deixar de concordar. Eu também acreditava naquilo. Sem se dar uma chance, Vicente nunca se relacionaria com uma mulher novamente. — Hoje não irei almoçar aqui. Já estou te avisando agora, assim você não coloca a mesa à toa, tudo bem!? — ele diz e eu ignoro a dor absurda com a ajuda de um sorriso. — Vou participar em breve de um coquetel para comemorar a assinatura de um contrato, e é necessário um encontro antes disso, então, vou almoçar fora para resolver os detalhes e as burocracias. — ele diz e me parece tentar deixar claro que não era porque queria me evitar, o que diminuiu um pouco a dor. — Então, eu posso ir após terminar aqui? Só vou deixar o jantar no jeito e tenho uns dois ternos seus para passar e vou sair, porque não tem muito que fazer hoje. — eu falo e ele me olha de uma forma diferente. — Compromisso na rua...? — Ahn... — eu penso, até que tinha. No final de semana eu ia visitar meu pai. — preciso sim, resolver algumas coisas. — Procurar mais algum trabalho para ocupar o dia? Ele questiona de novo e eu me pergunto o porquê de tanta curiosidade. — Não. Na verdade são só umas compras... — pra levar pro meu pai na prisão, mas isso eu não vou te dizer. — e quem sabe descansar um pouco, dar uma volta e aproveitar o dia!? — sorrio de forma simpática colocando o bule na mesa e seu silêncio repentino me deixa encucada, mas não digo mais nada, apenas continuo focada em minha atividade como se ‘ela’ dependesse de minha total atenção. — Ah! Legal! Todo mundo merece descansar, principalmente você. Agora sem querer abusar, e espero não te chatear ao dizer isso, mas eu tive alguns problemas com aqueles últimos dois ternos que você lavou... eu fui trabalhar e... — ele dá de ombros sem graça e eu fico espantada. O que eu fiz de errado com os ternos? — bom, eu fiz alguma coisa e estava cheio de pelinhos. E tem alguns no armário com um cheiro estranho que me fez espirrar o dia todo. Quando eu subir, deixarei separado pra você dar uma olhada. Pode lavá-los novamente, por favor? — Claro, eu farei isso. Me desculpe, eu não notei nada de errado. Sempre fui tão cuidadosa. Tia me recomendou que tomasse cuidado absoluto! — Não, não é tua culpa. Foi descuido meu nos dois casos mesmo! Mas, na sexta você resolve isso, eu posso aguardar, repetir um terno ou outro... — Claro que não!!! Vou resolver hoje mesmo. — eu deixo claro e ele parece aliviado. Aliviado até demais. — Certo. Cuide disso hoje, então, por favor. — Bom dia, Lara! — Allana entra na cozinha já uniformizada e também me cumprimenta de uma forma nada calorosa. Respondo educadamente, e passo a organizar a bancada em silêncio. — Eu queria suco de laranja... — ela resmunga de forma dramática de repente. O suco que eu havia feito era de abacaxi natural. Tinha café, leite, chocolate, o potinho de chás e água quente, suco de abacaxi, o pozinho de morango que ela adorava misturar no leite, iogurte... mas ela “queria” suco de laranja. — Coma o que tem na mesa, filha... para de graça. — Vicente diz logo.


— Eu faço em um minuto! — Ela tem muitas opções aqui. — ele responde bravo. — Mas não tem problema, eu faço. A máquina daqui é tão rápida!!! — Vai me custar outra pergunta, por acaso??? Allana é extremamente grosseira e Vicente a encara espumando. — Vai, sim. A pergunta é: por que está tão chateada comigo? — pergunto sorrindo e ela me olha com raiva. — Não é da sua conta! — a pequena praticamente cospe suas palavras em mim, eu ignoro, Vicente começa a chamar sua atenção, e uma bola enorme sobe em minha garganta. Ele permanece tentando entender a filha, sirvo o suco pra ela, ela apenas dá uma ‘bicada’, e continua resmungando algo com o pai, mas não sei o que é! Nessa hora eu viajei. Perdi-me em pensamentos me perguntando se o dinheiro que eu receberia por todas aquelas semanas estavam valendo à pena... será que valia? Pensa no seu pai. Uma voz soa em minha cabeça, mas de repente eu estava tão chateada que nem isso conseguiu me deixar positiva. Olho ao redor para conferir se tudo estava de acordo e me encaminho para a lavanderia. Minha bolsa estava lá. — LARA! — Vicente apenas levanta a voz e entendo que estava tentando falar comigo, mas meus pensamentos me deixaram surda. Ele me mede curioso e eu tento sorrir. — Oi! Desculpe... — paro no meio do caminho. — Allana te pediu desculpas por ter sido grosseira. — Tudo bem. — eu sorrio para ela sem me importar que a pequena preferia dar atenção ao seu copo decorado com corações vermelhos do que pra mim que a desculpava sinceramente. — Eu entendo, está tudo bem! Eu garanto olhando em seus olhos preocupados, sigo para a lavanderia, tiro o caderninho de anotações da bolsa, e começo a fazer as contas. Eu tinha três mil reais na conta, me baseando no que combinei com Tia, com o fato de ir trabalhar dia sim dia não, — dias a mais do que nas outras casas em que eu estive. — os horários a mais devido aos cafés-da-manhã, forno e fogão... eu receberia quase o triplo do que normalmente receberia em uma casa com os dias padronizados de uma diarista. Em outras casas seria o básico: duas vezes na semana e apenas faxina. É, não dava para pegar minha bolsa e desaparecer, era uma grana que eu não conseguiria com facilidade ao procurar outro emprego ou outra casa pra limpar, mas o que eu estava fazendo? Acho que eu estava desistindo... sim, eu queria ir embora. Por que eu queria ir embora? — Deixei tudo lá! — Vicente entra na lavanderia minutos depois e me pega sentada na máquina de lavar com o caderninho e a caneta na mão. Eu ainda estava fazendo as contas e procurando uma solução. Ainda estava desistindo sem tentar entender o porquê. — Já vou ver agora mesmo! — eu guardo tudo em minha bolsa, e saio correndo deixando-o lá porque aquele lugar, com ele ali, me fazia lembrar a última vez em que nós estivemos juntos ali. Só de pensar em seu corpo próximo ao meu, minha intimidade piscava. Entro em seu quarto, vejo os ternos jogados na cama, e analiso todos eles. Nada. Não tinha nada. Estavam como eu havia deixado: Impecáveis. Não tinha pelinhos, nem cheiro forte, nada. Me viro


para ver se o pegava ainda na porta para questioná-lo a respeito, e lá está ele. Me encarando. Como ele conseguia andar sem ser notado? — Você quer nos deixar. — ele diz. — O que? — Você-quer-nos-deixar. — Eu não sei do que está falando. — Mexi na sua bolsa. — ele diz isso como se fosse apenas: nada. — Pensei que talvez estivesse escrevendo algo sobre mim, se queixando de algo... ou sei lá... você colocou lá o valor total do seu pagamento por esses “trinta dias” e desenhou casinhas dividindo o valor. Provavelmente o número de casas que precisará limpar para equivaler com o que eu te daria. Estava claro isso. O valor em cada casinha, a soma total. Sou engenheiro, ótimo em exatas e não sou idiota. — Não tinha direito de mexer nas minhas coisas! — Você quer nos deixar... quer ir embora! Acho que estou quase perdoado por descobrir isso e ter a chance de me programar devido a sua ausência. — ele diz isso parecendo sentir dor e eu... eu beiro o colapso nervoso de tanto desejo acumulado dentro de mim. — Se sua partida não for hoje, faça seu trabalho direito, e lave os meus ternos corretamente! — ELES ESTÃO ÓTIMOS!!! — NÃO ESTÃO NÃO!!! Você está olhando errado! Olha direito! Sinta direito! — ele primeiro grita nervoso como eu estava, mas depois se recompõe. Anda de um lado pro outro respirando fundo e com um pesar imenso. Me encarava contrariado e parecia segurar um inferno dentro de si. — Confessa. — eu me aproximo dele e ele me fita com medo como se eu fosse uma cobra peçonhenta. — Confessa que está pirando como eu! Confessa que me encheu de trabalho pra eu não “ir aproveitar meu dia de folga sozinha”. Confessa que esse “tesão” está começando a ficar maior que a dor, e essa revolta é medo de me perder!!! — Eu vou confessar uma coisa só: Não vai nos deixar. Você vai cumprir com o combinado e só vai embora quando a Tia chegar. É isso. Tenha um bom dia de trabalho e dessa vez tente não exagerar no amaciante!!! — ele rosna decidido e eu não aguento, dou risada. — Eles estão impecáveis, seu... seu... insuportável! — Falou a senhora das casinhas que não sabe conta de dividir! — ele tenta não rir, mas dessa vez não consegue. — Gostou do meu desenho, Mrs. ‘não me toque’... Aposto que gostou e está aí todo cheio de pose tentando zombar de mim! — Vai por mim, ainda bem que seu lance é cozinhar, se dependesse do desenho artístico pra viver, estaria passando fome. E se dependesse de matemática ainda... meu Deus... Ele fala, ficamos rindo um para o outro até cansarmos, e ele logo respira fundo parecendo voltar ao normal e aquilo me entristece. Vicente descontraído era ainda mais gostoso. — O que a Suzi te disse? — ele pergunta após perder o sorriso e retomar seu autocontrole. — Não se preocupe comigo. — eu abraço os ternos em excesso e me aproximo. — Não precisa esquentar a cabeça e ficar com medo. Posso cuidar de mim, ela não vai me machucar. Eu falo, saio e penso. Muito provavelmente você vai, ela não. Coloco os ternos na bancada pequena da lavanderia e não os lavo. Eu já tinha entendido o que


ele queria com aquilo, eu não ia refazer todo o meu trabalho. Estava nas nuvens por causa seu pequeno ataque desesperado com medo de me perder, e só aquilo, só sua atitude me tirou a vontade de sair correndo dali. Meu desespero passou ao ouvir “sua confissão” de que não ia me deixar partir, e aquilo me preocupou, mas também me deixou muito feliz. Feliz. Está aí algo que não fiquei por muito tempo. Depois do acontecido eu fiquei os próximos dias e a semana seguinte inteirinha sem “vê-lo”. Ele descia para tomar café com Allana, eu já não estava muito falante desde o último tratamento dela, quis me afastar, então, todos os cafés eram silenciosos, tristes — para mim, pelo menos. — e não mais existia almoço, ele não vinha mais pra casa e me evitava... clima pesadíssimo! Clima que não combinava em nada comigo. Mas tudo continuou daquela forma até... hoje. Allana desceu para tomar café sozinha, eu obviamente estranhei, mas como sempre me mantive em silêncio. — Bom dia! Que suco você quer hoje? — Manga! — ela diz desconfiada e eu confirmo sorrindo. — Pode levar um desse de laranja pro meu pai? Laranja tem vitamina C, não é? — É tem sim! Mas seu pai não vai descer??? — Ele passou muito mal ontem. Disse que é porque o tempo virou! — Virou mesmo. Fez até frio! Como ele está? — Acho que está gripado. Pegamos uma garoa saindo da empresa. Acho que também estou gripada... — ela diz como uma boa espertinha. Vestia o uniforme do colégio, mas queria ficar em casa. — Estou com febre como o papai. Põe a mão! Ela me faz colocar a mão, eu noto que não tinha febre nenhuma e sorrio. — Bom... você está queimando em febre!!! Acho que deveria voltar pra cama pra ver desenho até a hora do almoço!!! — Ah! Eu também acho isso!!! — ela fala me olhando torto, e não sorri. Eita pequenina tão difícil quanto o pai. — Então vamos lá colocar um pijama e se deitar. — eu a faço levantar da cadeira. — Vai indo que eu vou fazer teu suco, teu lachinho, e vou te levar lá! Eu falo, ela só balança a cabeça e sai correndo. Meu coração parece inchar só de olhar pra ela e eu não entendo!!! Arrumo tudo e deixo a pequenina como prometi, tomando café e vendo desenho animado na cama. Ligo pra escola, aviso sobre sua ausência, e sigo segurando alguns vidros de anti-térmico e anti-inflamatório em direção ao quarto dele. Você não deveria fazer isso... Você não deveria fazer isso... Penso, ignoro o pensamento, e entro no quarto escuro. Acendo as luzes mais fracas do ambiente, — casa de gente chique é uma frescura. — me aproximo da cama, ele se mexe ao notar a minha invasão e se vira para ver quem é. — Eu só vim trazer remédios. — já falo logo. — Vou deixar aqui... uma gota para cada quilo! — Obrigado, mas... preciso levar Allana pra aula, não tenho tempo. — Ela está na cama vendo desenho e tomando café! Também está um pouquinho febril, mas vai melhorar, já liguei pra escola e avisei. — Merda! Foi por minha causa, pegamos uma garoa... eu sabia que ela ficaria doente.


— Deite. Ela está muito bem, se quiser eu peço para ela vir aqui pra você ver, mas descanse. Vou fazer um chá pra você e também trazer seu café-da-manhã aqui! — Não é necessário... — É. Você precisa melhorar pra poder trabalhar e cuidar dela. — Você não é enfermeira. — Você não é de ferro. — eu falo, ele faz sua famosa cara “não me fode, garota!” e eu me canso. — Certo. Não quer ajuda, não vai ter ajuda. Vou deixar aqui o remédio e estarei na cozinha. Se quiser, desça para tomar café, se não quiser, fique aí de barriga vazia e cada vez mais doente... — Está bem. Eu aceito... aceito a ajuda. — ele engasga quando eu alcanço a porta como se dar o braço a torcer fosse um sacrifício. E eu achava que para ele era. Dou seu remédio, busco a bandeja com seu café, ligo a TV pra ele assistir mesmo sem me mandar fazer isso e saio com seu olhar abismado pra cima de mim. Ele estava embasbacado com minha ousadia e como ele já havia dito, uma intimidade que ele mesmo não tinha me oferecido. Vicente e Allana nunca tiveram ninguém por eles. Allana mal se lembrava da mãe, e obviamente Vicente não tinha aquele tipo de cuidado desde que a tal da Nanda se foi. O deixei com seu café-da-manhã na cama, vendo TV na maior tranquilidade e ‘vida boa’ e ele ainda conseguia arrumar tempo de me achar uma completa doida por isso. Sorrio. Eu entendia o que significava para ele uma mulher em seu quarto/vida depois de tanto tempo. Eu entendia sua situação, e por isso, abstraí. — LARA!!! — Allana grita por mim assim que me ouve passar pela tua porta. — Tira? Já terminei! — ela pede, eu retiro a bandeja e ela agradece. — Meu pai acordou? — Sim. Está tomando café na cama, também. Por que você não vai ver desenho com ele? Ficar bem juntinho??? — Eu vou!!! — ela se anima, sai correndo de pantufa de coelho, e eu fico com vontade de apertála. Passo meu dia todo entretida nos meus afazeres, ofereço mais uma dose do remédio do chato perto das cinco horas, e após me arrumar para ir pra casa, posso ouvir o céu começando a desabar. Chovia demais e o tempo estava tão feio que já parecia noite. O céu já estava escurecido pelas nuvens pesadas. — Onde vai? — ele desce as escadas enrolado em uma manta de retalhos estampados e se coloca ao meu lado, primeiro me fitando da cabeça aos pés, e em seguida encarando o tempo feio lá fora. — Já deu minha hora. Vou pra casa. — Arrume um dos quartos lá em cima e repouse aqui. Não posso te levar e deixar Allana sozinha e não vai pegar transporte público nessa aguaceira. Já basta nós dois doentes... — Posso pedir um táxi. Se ele parar aqui na porta eu nem me molho. — eu falo, pois era óbvio, mas rapidamente ele resmunga. — Fique aqui. — ele diz com firmeza na voz, dá uma última olhada lá fora e com toda calma que não combinava nem um pouco com sua pessoa, se aproxima da porta do ateliê, destranca, e entra fechando a porta atrás de si. Engulo a agonia de vê-lo querer matar a saudade da esposa, respiro fundo, e vou embora. Sua atitude doeu mais do que gostaria. “ONDE VOCÊ ESTÁ?”


Recebo o SMS em letras gritantes assim que desativo o modo avião. Se eu o atendesse poderia mudar de ideia e dormir com aquele homem no quarto ao lado seria torturante. “Estou em casa, cheguei bem. Amanhã bem cedo eu vou até aí pra ver como vocês estão. Boa noite!” Escrevo, aperto enviar, e ele imediatamente me liga. Penso se atendo ou não, tenho bom senso, e escolho por ir dormir. Quando chego de manhã no apartamento encontro os dois na cama de casal. — Ei... — eu chamo a pequenina e ela acorda no ato. — você não vai pra escola? Vai tomar um banho! Falo baixinho, ela encara o pai que ainda dormia e levanta. — Quer que eu faça uma trança? — eu digo quando a vejo tentando trançar suas madeixas compridas. Ela apenas balança a cabeça, eu faço uma trança embutida que pelo jeito ela ama, e sorrio sozinha. Ela vai chamar pelo pai, desço para colocar a mesa do café, e ignoro sua carranca pra mim quando ele desce com a filha. — Deveria ter seguido meu conselho ontem, eu pretendia conversar com você a respeito do seu pedido. — ele diz isso, não me aguento de alegria, mas não demonstro. — Pedido? — Não faça essa cara de paisagem, sabe do que eu estou falando e está que não se aguenta de tanta alegria. Cuidará de Allana, não vou mais deixá-la na empresa. Já vi que não vai funcionar uma criança até tarde na rua. Mas já sabe, se gritar como a outra: Rua! E cuidará somente até Tia voltar, cuidarei de tudo nesse meio tempo pra passar a trabalhar de casa, ou contratar outra babá, sei lá, vou decidir ainda. — E ela concordou??? — eu pergunto encarando a pequena faminta e ela dá de ombros. Ainda não queria me dar liberdade. — Vai trançar meu cabelo, — ela demonstra ter se amarrado na trança e eu sorrio. — me pegar na escola, me levar, e cuidar daqui de casa, tudo ao mesmo tempo, não sei o porquê está tão feliz! — Estou feliz porque gosto de você! Eu falo, ela fica tímida e ficam os dois me encarando como se eu tivesse falado alguma asneira. Depois disso o silêncio se propaga pelo ambiente, Allana após terminar pega sua mochila, sai na frente, e Mrs. Amargura levanta devagar, me encarando ainda, com a mesma cara de bobo de antes, parecendo pensar. — Não fique toda alegrinha. Seu trabalho vai duplicar. Terá que vir todos os dias! — É um bom motivo pra ficar alegrinha!!! — Ir pra lá todos os dias estava deixando-a cansada e estressada. — ele finge que não me ouviu. — Fica no meu sofá sem fazer nada o tempo todo. Aliás, você notou, já que em um desses dias ela descontou suas frustrações em você, e partiu seu coraçãozinho! Quase desistiu e quis ir embora. — ele diz com ironia, mas lamentava por aquele episódio no café tanto quanto eu. — Ia sentir minha falta se eu fosse? — Não, desculpe. — ele fala na lata e eu não acredito. — Vai levá-la e buscá-la com um taxista de minha confiança e me ligar se qualquer coisa acontecer. E sabe de tudo: nada de doces antes


do jantar, chegou, tomou banho, se tiver dever, vai fazer imediatamente, enfim, vou levá-la agora, mas você busca. Te mando o endereço por SMS. Se vir que não dará conta de tudo, me avise... e a próxima vez que ignorar uma ordem minha, te mando embora! — Não pode me dizer o que devo fazer, se devo ir ou devo ficar. Eu não precisava dormir aqui. Isso ultrapassa seus direitos como patrão. — Quer ser a babá ou não? — ele ergue a sobrancelha. — Quero. — Foi o que pensei. Portanto vamos reaver esse lance de “meus direitos como patrão”. — ele resmunga vitorioso e vai embora me deixando ali puta da vida, e feliz da vida, na mesma medida.


CAPÍTULO 5

Chego às dez da noite já extremamente cansado. Trabalhei demais. Não sabia se tinha feito certo em deixar Allana com Lara, mas, aquela garota gostava tanto da minha filha e apesar de Allana não facilitar, ela permanecia tão carinhosa com ela... nem Suzi era assim, nunca foi... Lara gostava da minha filha, era difícil assumir isso, mas gostava tanto de mim também que não tive outra alternativa e meu Deus... seu semblante de felicidade ao saber que cuidaria dela acabou comigo, desabou o muro que ergui ao redor de Allana. Lara era uma garota incrível e merecia o melhor. Seu único defeito era me deixar louco, mas, com isso, eu estava sabendo lidar nos últimos dias. Não vinha almoçar, e agia de forma fria no café. Ela precisava ser somente profissional, ela precisava tirar aquela ideia estúpida da cabeça, — ideia chamada “nós dois juntos”. — e não precisava sofrer. Eu nunca poderei correspondê-la, eu nunca poderei tocá-la, jamais trairei a memória de Nanda, sou incapaz de trair minha mulher e sim... eu estava pirado. Aquela ladainha: “ela se foi, ela te amava, ela desejaria te ver feliz de novo...” eu já ouvi demais, de todos ao meu redor e de minha própria consciência, acredite, eu tinha consciência daquilo, não era um maluco tapado. Eu simplesmente não conseguia esquecer o profundo amor que sentia por minha esposa. Nossos votos no casamento lindo, nossas juras de amor , nossa vida... eu vivi com aquela mulher um amor de outro mundo, eu... eu sofri sua perda. Fernanda foi arrancada de mim pelo destino de uma forma extremamente cruel. Era uma mulher linda, bondosa, generosa, e uma feridinha em baixo do braço cheio de sardas acabou com nossa vida. Um melanoma maldito que se espalhou para o coração, coração mais bondoso que existia e que abrigava a mim. Eu conhecia aquele corpo como ninguém, mas vi aquela ferida tarde demais. Se eu tivesse visto antes, teria arrasto-a para o hospital. Não sabia dizer se Nanda viu tarde demais ou se simplesmente não quis dizer nada devido ao fato de câncer de pele ser comum em sua família de origem alemã. Suspeitava de que sabia de sua sorte e resolveu partir em casa, ou ter ficado com medo de simplesmente: saber. Eu não sabia. Em uma época da minha vida eu me perguntava se realmente conhecia minha mulher, mas parei. Nanda era meu verdadeiro amor, era não, é, e não mais importava como foi ou como deixou de ser, meu coração ainda pertencia a ela. Entro em casa e não encontro ninguém na sala, Lara não estava na cozinha, e pelo silêncio Allana já dormia. Ao entrar em seu quarto vejo a cena mais fodida do mundo. Allana já dormia e Lara estava apagada sentada no banquinho cor-de-rosa de minha filha, e com a cabeça no colchão, dormiu enquanto rabiscava em sua agenda. Pirei quando vi seus desenhos com as contas para analisar o quanto teria que trabalhar para recuperar o dinheiro que eu daria


a ela. Pirei e quase surtei após entender o que eu estava sentindo, por isso me afastei ainda mais dela. Aquele sentimento estranho por ela estava me matando. “Na verdade são só umas compras... e quem sabe descansar um pouco, dar uma volta e aproveitar o dia!?” Foi o que ela disse, mas porra nenhuma! Ia era procurar outro lugar pra trabalhar e nos abandonar, outro patrão para botar o olho em cima daquele corpo!!! Allana era chatinha, por influência minha também criou um muro ao redor de si e tinha receio da aproximação da Lara, tinha medo de carinho, e eu sabia que tinha medo de gostar dela. Magoou Lara por estar estressada comigo, não queria mais ficar na empresa aguentando minhas proibições. Descontou em Lara e devido a isso ela quase nos deixou. Só de imaginar aquela pequena cozinhando pra outro, cuidando de outro, se apaixonando por outro... eu pirei. Inventei que tinha problemas com as roupas, deixei cuidar da minha princesa... tudo para se ocupar, se comprometer comigo, e não me deixar. Eu sofria com a possibilidade e me condenava por isso, me crucificava. Não sou tapado, não posso me entregar, mas já tinha notado que seu esforço por me conquistar estava me deixando maluco. Lara era decidida, confiante, e sabia o que queria. Entrou na minha vida sem pedir licença e armou um inferno. Agora eu só precisava dar um jeito de me manter afastado e em contrapartida não afastá-la de mim. Sim, eu estava confuso, estava e aceitava. Minha confusão era compreensível. Eu era um homem com uma cicatriz impossível de ser curada, mas Lara me fazia esquecer-se de sua presença e às vezes até da dor que ela me causava. Meu remédio e meu pecado na mesma medida. Sem contar também o telefonema pro filho da Tia. Estavam amiguinhos... que ódio que eu senti quando liguei pra Tia do escritório e ela me confirmou. Por pouco não a mandei colocar uma coleira no moleque. Abusado! Estava pensando que era quem? Eu podia estar machucado, traumatizado, com problemas, com “tristeza crônica”, e não queria me envolver com Lara, mas eu sabia do que ela sentia POR MIM. Independente de qualquer coisa, Lara era minha, só minha, e eu não ia dividi-la com ninguém, muito menos com um guri nas fraldas metido a psicólogo que vivia dizendo que queria me “estudar”. Em dois tempos me livrava dele. Paspalho, fanfarrão!!! — Ei... — eu toco em seu ombro levemente e ela desperta sorrindo. Ela só sorria. Estava de cabelos soltos e dali eu podia sentir seu cheiro. Tesão na hora. — Oi! Nossa. Que horas são? — Dez e pouquinho... — Caraca! Apaguei aqui... — ela fala baixinho e sorri fitando a princesa. — Ela é um turbilhão. Acabou comigo. — Já quer arrego? — Jamais. Quero cuidar dela pra sempre! Ela “me fode” como sempre e sai do quarto na ponta dos pés. Obviamente vestia um vestido rendado acima das coxas e estava descalça. Vestido curto+cabelos soltos+descalça... caralho!!! — Ocorreu tudo bem por aqui? Pergunto e a sigo pacientemente até a cozinha. Custava parar e falar olhando pra mim, com mais educação??? — Sim. — ela sorri com uma carinha de sono, enche um bule de água e coloca no fogo. — Chegamos, fomos diretos para a sala, fiz começar o dever sem gritar... — ela diz com ironia levantando um dedo como se dissesse “só pra constar”, e soa completamente realizada. Sua


alegria me contagiava, era um sacrifício não me deixar levar pela sua energia. —... jantou, tomou banho, brincamos de banco imobiliário, tentou de todas as maneiras me tratar mal, se cansou, e então se divertiu, e foi dormir. — Acha que dará conta? As roupas, a casa, ela...? — Darei!!! — ela garante. — Só não se empolgue, tá? Tia chegando e tudo muda. Tu não é babá, logo voltará pra sua rotina e pra faculdade. — ela deixa seu sorriso sumir e eu me sinto um lixo. — Será uma grande chefe de cozinha, trabalhará em um grande restaurante, com os melhores... vai atuar na profissão que tanto ama, tu não é diarista, não é uma babá... — Eu sei... tudo bem. — ela diz desanimada, mas ainda sim, sorri. — Qual é a tua área? Onde você quer atuar? — eu questiono quando se faz silêncio e ela começa a arrumar o bule pro café que estava fazendo. — Bom, eu sei cozinhar de tudo e culinária brasileira domino por natureza, cozinho desde pequena, é realmente uma paixão. Mas eu sou completamente doida pela gastronomia francesa. — França... — resmungo sem querer. — É. — ela ri. — Francesa, França... — Não, é que... o evento de comemoração que eu te falei que vou participar é na França. Minha empresa vai começar a produzir o sistema de segurança de alguns produtos cosméticos e eu consegui, com essa marca, lançar um projeto próprio que eu tinha em mente já tem alguns anos, então... — eu dou de ombros. — A sede da empresa fica lá, então será lá o evento! — eu falo e ela fica demais interessada no assunto. Deu para notar que era realmente seu sonho. Seus olhos até brilharam ao falar do nisso. — Já pensou em fazer sua especialização lá? — Meu Deus, claro que já! — ela exclama. — Mas como não tenho muita vontade... — ela esfrega o polegar no indicador para representar o dinheiro. —... passei a pesquisar sobre os cursos da área aqui mesmo... no Brasil. — Legal, mas nada melhor que aprender sobre a comida francesa na França, não é!? — É, pois é. — ela faz uma carinha triste e eu mordo o interior do meu lábio inferior para suportar seu beicinho. — Mas no futuro irei com certeza. Entregaria uma carta minha para um chefe de lá??? Até já tenho escrita... — ela me pergunta juntando as mãos e implorando para ouvir um ‘sim’ de mim. — Eu deixo você mesma entregar, tem passaporte? — eu questiono e até tento, mas não consigo deixar de sorrir ao ver sua carinha. — Mentira! — Eu até omito algumas coisas, mas mentir... — eu nego com a cabeça. — Pode me ajudar com Allana e depois que acabar o evento a gente... Eu ia falar que poderíamos procurar por um curso, mas sou impedido de continuar minha linha raciocínio quando seu corpo se choca contra o meu. Seu abraço de pura gratidão faz seu decote saltar e eu sei disso porque posso vê-los espremidos em meu peito. Sei também que uma boa parte do seu bumbum deveria estar ao ar livre porque após correr e se atirar contra mim, ela permaneceu com seus pés fazendo ponta de bailarina e com isso sua respiração foi toda direcionada para meu pescoço. Seu cheiro era de alguma fruta cítrica, chocolate, hidrante, e xampu floral, um dos motivos pelos quais fizeram rapidamente meu pau crescer. Fecho meus olhos, o tesão ultrapassa a dor, prendo a respiração e toco um ponto acima de seu


bumbum, bem aonde faz aquela ondinha que me deixa louco, para corresponder ao seu abraço. — Obrigada. Muito obrigada! — ela fala baixinho no meu ouvido e se mexe um pouco tentando claramente posicionar a boceta de um jeito melhor só para me matar. Safada!!! Quando conseguiu ficou discretamente se estimulando e “se aproveitando de mim” para sentir prazer e me seduzir. — Ainda dá tempo de voltar atrás. Se não me soltar e se afastar, vou retirar o convite. — eu falo enquanto sinto que se concentrava em se esfregar devagarzinho e inalar o meu cheiro, ao mesmo tempo. Ali havia acabado o “momento gratidão”. Assim que sentiu alguma coisa com meu abraço, ficou pirada como eu estava. — Eu não consigo me afastar. Não consigo... — Faça um esforço. — Vicente... — ela geme de novo. E eu não aguento. Toco em sua cintura, inalo seu perfume por uma última vez, e a afasto até sua virilha descolar da minha. A vontade que eu tinha era pega-la em meu colo, colocar sua calcinha pro lado, e me enterrar com força nela. E só paro de pensar nisso quando ela enfim para de procurar por meu cheiro, afasta o rosto do meu pescoço, e me olha nos olhos. Estava triste. Eu sempre a deixava triste... seus olhos como sempre estavam marejados e seus lábios avermelhados faziam um bico. No fim de todo o diálogo que tínhamos, ela sempre ficava daquele jeito, sempre entristecida. — Desculpa. — ela sussurra e eu nego. — Pelo o que? Não fez nada demais, sabemos que o problema sou eu! — eu me explico me lamentando demais e chega a sua vez de negar algo para si. — Não. Realmente não fiz nada demais. Estou me desculpando pelo o que farei agora. Me desculpa, mesmo... Ela fala se achegando, desce a alça esquerda do vestido lentamente e me olhando nos olhos, depois a da direita, e eu descubro o que sempre suspeitei. Seu corpo literalmente era um pecado. — Ah! Que se foda! Eu resmungo, pego a filha da puta no colo, ela se enrosca em mim pelas pernas fazendo seu vestido vagabundo subir praticamente até a cintura, e ataca a minha boca ao mesmo tempo em que eu ataco a dela. Fome. Eu tinha muita fome dela. Seu beijo é desesperado, sua boca é doce, sua língua macia, e ao sugá-la com vontade, me lembro que eu tinha várias outras áreas para explorar antes de afastá-la novamente por me arrepender. Abandono sua boca, coloco-a na mesa, e parecendo já suspeitar do que eu queria, a garota se apoia nos cotovelos sem ordem nenhuma e arreganha as pernas me fazendo o convite olhando bem nos meus olhos. Sua calcinha era tão minúscula que quase não tapava sua intimidade carnuda. — Vem. — ela diz bem baixinho, coloca sua calcinha pro lado para me mostrar a aparência deliciosa do banquete e eu mato minha fome. Filha da puta! Chupo cada dobrinha, passo a pontinha da língua, escuto a água começar a ferver no fogo, enfio toda minha língua na entrada por onde meu pau logo entraria, beijo, pego toda a área de lábios aveludados com a boca cheia, meto dois dedos, abro até seu botãozinho saltar, estico, chupo, puxo, meto os dois dedos de novo, ela deixa a cabeça cair para trás, geme alto, grita, eu a faço chupar meus dois dedos lambuzados, e a filha da puta chupa fazendo charminho pra mim. Não sabia se revirava os olhos, fazia um vai-e-vem com a língua em meu dedo — só para me mostrar como


faria com meu pau. — ou me olhava nos olhos, mas não deixava de miar como uma puta safada. — Caralho! Arreganho ainda mais suas pernas colocando-as para cima, olho em seus olhos, e com a língua, maltrato seu clitóris até ele cantar esguichando bem em minha face. Automaticamente meto a boca enquanto ela grita e bebo tudinho fazendo-a pirar sacudindo o quadril em minha direção. Quando ela desaba com a cintura na mesa e praticamente desfalece, sorrio fazendo carinho em sua boceta suculenta até ela se recompor. Ela era tão macia, tão deliciosa... apesar de seu corpo naturalmente exalar pecado, seu gosto era dos deuses e eu fiquei espantado em desejar que logo me “autorizasse” a continuar de onde parei. Quando ela sorri encarando o teto, arreganho suas pernas e deposito um beijo rápido bem ali, em seu pontinho que ainda pulsava por minha culpa. Tiro o terno, abro os primeiros botões da camisa, ajudo-a descer da mesa quando ela tenta se levantar e me sento na cadeira quando ela ajeita sua calcinha e seu vestido voltando a cuidar do café como se nada tivesse acontecido. — Toma aqui, meu café cheiroso que você tanto ama! — ela diz com certa timidez se sentando em meu colo, me entrega uma xícara e eu consigo sorrir com sua ousadia. — Você não existe, senhorita Lara. — Eu existo, sim. — ela fala com sua boca encostada na minha e eu sinto o cheiro de café. — Você está cheirando a mim. Ela resmunga com bom humor enquanto esfrega o nariz em minha boca. — Cheiro bom, gosto bom. Você é mais gostosa que os pratos que cozinha. — Então estou perdoada pela ousadia? — Depende. — Do quê? — Se me perdoar pela minha... — Certeza que vou... — ela diz sorrindo, toma um gole do café, e larga a xícara na mesa para me assistir. Abro meu cinto, coloco meu pau pra fora, ignoro quando ela arregala os olhos fitando o tamanho, agarro sua cintura fina com um braço e com o outro posiciono meu pau no ponto certo. Baixo sua cintura até o fim e ela desce arfando. — Vicente... — ela liberta meu nome descontrolada. — Quietinha... não fala nada. — eu imploro e ela me beija. Faço ela se sentar com força uma vez, duas, três, e ela se apoia nas duas pontas ornamentadas da cadeira. Deixo sair um gemido de dentro da garganta quando ela rebola, e eu seguro em sua cintura para olhar. Que rebolado maldito era aquele??? De repente ela gira, encosta suas costas no meu peito, volta a puxar o vestido pra baixo e enquanto volta a rebolar eu aperto seus seios empinados. — Você vai acabar com a minha vida. — eu resmungo com raiva e ela... ela ri, é claro. Desconto minha raiva fodendo sua boceta, vejo a espertinha se estimular ao mesmo tempo em que pulava, e alguns minutos depois ela geme alto. — Vira. Eu mando assim que ela escora a testa na mesa, já mole.


Ela me obedece, vira de frente pra mim, e eu faço o que quero. Meto forte olhando em seus olhos. Lara mordia o lábio, gemia alto, revirava os olhos, e assim que sinto a quentura chegar, paro um pouco, chupo seu seio direito, e travo quando ela não se controla e volta a esfregar sua virilha na minha com meu pau inteiro enterrado dentro de si. Aquelas putas profissionais que são mais atrizes perdiam feio pra ela. Ela segura em meu queixo, geme olhando pra mim, rebola em uma velocidade incrivelmente rápida, e a fricção mais o barulhinho que faziam, me faz pirar. — Vou gozar! Para... — eu imploro e ela até parece tentar, mas sua cintura não mais responde. O que ela fazia era gostoso demais, era delicioso e eu não aguentei. Rosnei alto, mordi seu lábio, apertei seu corpo contra o meu e em um rompante, estoquei fundo, com extrema força fazendo-a se sentar e levantando a minha própria cintura fazendo sua boceta estralar alto em contato com minha virilha. Na terceira pentada, gozo, mordisco seu queixo ela geme me deixando molhado com seu próprio gozo, e na quarta, para me livrar daquela porra toda, literalmente, ela se gruda em mim, e fica miando no meu ouvido. — Você-é-maravailhosa! — eu resmungo e ela sorri preguiçosa enroscada em meu cangote. — Eu sei. — E convencida... — Eu sei. — ela ri. — Você não jantou... está com fome? Seu jantar está pronto, é só esquentar! — ela diz depois de alguns minutos comigo em silêncio. — Cuida de mim quando estou doente, cuida de minhas coisas, minha filha, minha casa, me dá de comer, tem uma boceta sensacional, e trepa deliciosamente. Acho que você caiu do céu. — eu resmungo e ela ri de novo. — Acho então que deveria me valorizar. — Eu te valorizo! Você é incrível! — beijo sua testa que era o lugar que estava mais próximo de minha boca e tiro a preguiça de cima de mim. — Mas estou sem fome, estou bem cansado, vou tomar um banho e cair na cama. Você não tem noção de quantos anos fiquei sem ‘isso’. Bater uma punheta é uma coisa, agora comer uma dessas de verdade, mesmo, — aperto sua intimidade com força, e sem pedir permissão, para mostrar pro universo que aquilo me pertencia. — é muito cansativo. Rimos juntos do que falei e a abraço apertado, após um beijo bem gostoso. — Eu já vou... boa noite, gostosa. — eu falo, me afasto para subir e seu olhar curioso me chama a atenção. — O que foi? — Nada. — ela esboça um sorriso. — Só achei que... —... que o quê? — Não vai me levar pro banho? Nem me convidar pra dormir contigo? — Lara... — Acabamos de transar. O que tem de mais nisso? Vai ser desse jeito? Amanhã não vai nem se lembrar do meu nome? — Não fale bobagem. Claro que “vou me lembrar do teu nome”. Só não meta os pés pelas mãos. Tô tentando não pensar no que acabou de acontecer, estou tentando não pensar muito, porque sei que vou pirar... fizemos uma loucura, eu fiz uma loucura. — eu falo e seu semblante é péssimo. Merda. — Por favor, não confunda o que tivemos com uma lua-de-mel. Não fiz e não vou te fazer promessas! Tenta entender meu lado, tenta entender minha situação. Você acabou de chegar, mas


sabe o que eu passo, sabe do meu caos interior, sabe do meu passado, e sabe do que eu sinto. Eu te desejo, deixei isso claro, você sabe disso, mas não posso e não vou te prometer nada além do que já acabou de acontecer. Posso ser tachado de louco por todos os meus “amigos” e todas as pessoas que convivem comigo por causa da minha situação, mas o que eu vivo, e o que eu sofro, é muito fácil de entender: morta ou não, ainda sou completamente apaixonado pela minha esposa. Tive uma história com ela e não a esqueci, não superei. — Tudo bem. — ela tem agora seu semblante mais suavizado, mas ainda sim, sofria, eu via. — Forcei a barra, confundi as coisas. Cometemos um erro, e como prometi antes, vou reforçar agora, pois eu respeito seus sentimentos, vou esquecer o que acabou de acontecer, não vou tocar no assunto, e não vou ficar no seu pé. — Lara. Não precisa ser assim, não fique chateada comigo, por favor. — eu falo quando ela me oferece as costas. — Eu estou chateada é comigo mesma! — ela me abraça e me dá um selinho. Faço questão de não afastá-la. Havia acabado de descobrir que ver Lara chateada com qualquer coisa, por qualquer motivo, também era o fim pra mim. — Fui uma boba. — Estive com ela naquela cama mais tempo do que... — Não precisa falar nada. — Eu quero falar. Quero me explicar. — eu garanto e ela se solta de mim. — Estive com Nanda naquela cama mais tempo do que posso assumir, nos conhecemos jovens demais. Vivemos lá, ela adoeceu lá, morreu lá... — E como você consegue ficar desse jeito, remoendo desse jeito??? Como consegue dormir lá??? — Já ouvi essa pergunta umas mil vezes, pequena. E a resposta é a seguinte: me livrar das coisas dela, de tudo o que ainda tem nessa casa que ela amava... não vai arrancá-la do meu coração. Mudar de casa ou me livrar das coisas dela não vai me fazer esquecê-la de maneira nenhuma. Eu poupo meu tempo não pensando nisso porque eu sei que não vai adiantar. Nanda está mais entranhada em mim do que viva aqui dentro dessa casa, no meio dessas coisas. O problema, Lara, é comigo, é dentro de mim. O problema é a porra do buraco que ela deixou em mim quando se foi! Eu confesso e ela sofre. — Acha que um dia vai superar? Vai estar pronto para amar alguém? — Não. Sinceramente não. — respondo imediatamente e ela definitivamente se convence. — Mas... você é especial. Você é... Lara, eu estou machucado ainda e você... —... “uma espécie de remédio”!? Jura que vai soltar essa? — Você não me cura em nada. Você me faz esquecer-se da dor enquanto está por perto. — Distração. — Benção!!! — eu digo e ela sorri pensando em alguma coisa. — Minha mãe usou essa palavra para me descrever. A vida é engraçada. — ela se aproxima e toca em minha barba com as pontas dos dedos. Eu sei que ela tem um tesão imenso na minha barba. — E nesse mesmo dia ela também me disse algo muito importante: “eu não tenho uma filha covarde!” — ela sorri. — Vou dormir. De portas e pernas abertas, te esperando. Boa noite! Ela diz, sai, e eu fico parado feito um bocó fitando o nada na cozinha. Subo pro quarto, tomo um banho, deito em minha cama fria e só penso na bobagem que fiz. Não consigo me arrepender, lamento muito por isso, e quando desisto, me levanto e vou atrás da filha


da puta. Encontrei a diaba no último quarto de hóspedes aparentemente dormindo como havia dito. Me enfiei embaixo das cobertas, tirei os seus cabelos do pescoço, depositei beijinhos leves e ela só “acordou” quando invadi sua calcinha com a mão para acarinhá-la. — Você nem demorou muito... — ela sussurra. — Eu te quero muito, não entendeu isso ainda? — Eu quero promessas... — Eu quero foder essa boceta lisinha, aqui, mais um pouco. Par ou ímpar? — Par! — ela diz animada, eu acendo um abajur, subo em cima dela, e meto forte até altas horas. E preciso dizer que quem pediu arrego fui eu. Estava revirando os olhos de sono e cansaço quando ela pegou um fogo no rabo que não sei da onde veio, me chupou até ficar duro, esfregou a boceta na minha boca, “até estar no ponto”, e depois cavalgou gemendo e gritando com sua vozinha fina. Eu só sorria sem que ela pudesse notar porque naquele momento até o abajur eu apaguei, eu realmente pretendia dormir, mas a criatura estava endiabrada. — Ei, pequena. Hora de acordar e me alimentar! — balanço a preguiça suavemente e ela geme. — Lara... — O que foi...? — Não vai fazer meu café, não? Tá cansada? — Que birosca de... café!? — ela tenta se levantar, dá um pulo quando se lembra que ainda não estava com a vida ganha e precisava trabalhar, e eu dou risada. — Meu Deus! O café! Que horas são??? Ela desce da cama ‘correndo’ e se veste com pressa. — Quase sete. — Tô atrasada! Me desculpe! Onde já se viu!? Estou exausta... — Ei! — eu chamo quando ela já havia passado pela porta. — Você está atrasada, mas ainda consegue colocar uma roupa decente, — ela estava com uma camisolinha de tirar o fôlego, mas que ia deixar a Allana ligeiramente confusa. — lavar esse rosto, e escovar os dentes. — eu digo, ela resmunga algo, corre pro banheiro, e eu sigo para acordar a outra pequena. Fazia muito tempo que eu não acordava tão bem disposto! — No fim não me respondeu se tem passaporte. — eu resmungo enquanto Lara fazia suco de laranja para Allana. Lara havia até trançado seu cabelo de novo. Allana estava começando a confiar nela. — Eu tenho. — Tem como? — Tenho, tendo. — ela sorri. — Difícil de acreditar? — Não. Mas... — Eu havia tirado quando surgiu um passeio para Portugal na faculdade, meu pai ainda... estava comigo. Ele sempre ganhou bem, não me deixava me matar de trabalhar e bancava a escola... — Sinto muito. — ela nunca me disse que ele havia falecido, fiquei péssimo ao ver seu sorriso forçado. — Tudo bem. Chegou o prazo pra tirar, meus amigos e eu fomos juntos, e acho que três dias ou


quatro dias depois, precisei trancar. Mas foi realmente necessário, logo, logo, eu volto! Lamento não ter conhecido o país e nem a gastronomia de lá, mas um dia pretendo conhecer o que eu puder. — Vai sim! Vai conhecer a comida do mundo todo! — eu garanto e ela sorri entristecida. Entrega o suco para Allana, ignora meu olhar que percorre seu corpo inteiro discretamente, e quando Allana sai na frente, eu a agarro enquanto lavava a xícara que usei. — Eu já volto. — sussurro em seu ouvido e ela procura por mim se esfregando. — Não tem noção do quanto quis esse abraço, quantas vezes desejei esse abraço, assim! — E você não tem noção do quanto eu tentei não desejar te abraçar, mas você é a porra de uma bruxa do mal que me enfeitiçou e agora eu estou fodido e mal pago. E também atrasado. Vamos! — eu beijo seu pescoço, ela novamente sai correndo, e é impedida por Allana que prendia os braços na porta para ninguém passar. Sua atitude fez eu me lembrar do que Suzi falava a respeito de limites, Allana não tinha nenhum. — Oh! Meu Deus! Estamos impedidos de passar pela última ponte... — Lara finge forçar seu braço e faz uma cena teatral ao invés de perder a paciência. —... acho que vamos morrer aqui, oh! Vicente! Era nossa última chance! O que será de nós??? O que será de mim??? — Lara diz “choramingando”, “passa muito mal” ao constatar nosso final trágico, e se debruça no braço de esticado de Allana. Seguro um riso alto porque sou desses e espero seu teatro acabar. Allana olha pro lado, obviamente também segura um riso só para não dar abertura a ela, e desiste da brincadeira que na verdade era para nos irritar. — Ah! Não pira, não! — Allana resmunga e sai sorrindo na frente. Lara dá risada e eu nego me sentindo o cara mais completo como há muito tempo eu não me sentia. Até chegar ao trabalho e dar de cara com o retrato ‘chateado’ de Nanda. Aquele sorriso dela não estava mais lá. Como eu poderia ser feliz se a felicidade dela acabou? Como eu poderia pertencer à outra mulher se Nanda esmagou meu coração quando partiu? Por que eu não conseguia esquecê-la? Eu queria esquecer Nanda? — Oi! — Greg entra sem bater e fita o porta-retrato em minha mão. — Não sabe bater? — Eu bati. — ele diz e me encara como se eu estivesse perturbado. E eu estava mesmo. — Como estão as coisas? — Bem. Ótimas na verdade. Menos aqui dentro. — Quer conversar? — Não. Só quero trabalhar! Minha cabeça está um caos. — Por que? — ele pergunta, eu o encaro, e ele ri. — Fala sério! Me conta, desabafa, eu juro que ajuda! — Transei com uma mulher. — eu confesso sem pensar e ele assente. — Natural. — Natural pra quem? Sou casado. — Você ERA casado. — Eu me sinto casado. — Vai ver é porque ainda usa essa aliança! — ele ergue a sobrancelha e se senta em minha frente. — Engraçado que ela nunca pareceu notar... — penso nisso e acho estranho.


— Ou o inconsciente dela ignorou de propósito. Nanda não é uma ameaça para essa mulher, Nanda se foi! Ele diz e uma raiva cresce dentro de mim. — Cale a boca! — Já calei. Me conta como foi. — Não. Não quero falar sobre isso. Só queria entender o porquê não consigo superar. — Vocês estavam no auge do relacionamento, com um bebê e uma casa linda. É um cara sensível, romântico demais, Nanda dizia isso. Você estava super apaixonado, ela também, é natural que você fique como ficou: naquela época. Acho que você pensa que não tem direito de ser feliz porque a vida da Nanda foi interrompida, Vicente, só que você não sabe que a fez feliz demais, enquanto esteve com ela. Nanda foi feliz, ela foi muito feliz, e aceitou sua partida, ela entendeu!!! — Mas eu fiquei, eu não entendi, Allana não entendeu! Ela acabou com minha vida ao me deixar, ela... — eu desabafo e sinto a dor voltar. —... Nanda era tudo o que eu tinha, era a minha felicidade, era meu amor! Era minha família. — Melhor jeito de você agradecê-la por tudo o que ela te deu, é simplesmente não jogando sua vida fora. — Não estou jogando minha vida fora! — Está! Está jogando fora não vivendo o máximo! Deixou Allana todos os esses anos sem uma figura materna e... — Sai. — ele fala de Allana e eu já não encontro mais motivos para continuar aquele papo. — Você precisa de ajuda! — E você, em breve, de um novo emprego! — eu resmungo, ele fica puto, e sai batendo a porta. Ninguém vai me “mostrar” como eu devo cuidar da minha filha! Ninguém. Allana é feliz comigo, minha filha é muito feliz só tendo a mim! Eu afirmo com garantia, muita exatidão, mas alguma coisa dentro de mim muda. Muda e me deixa péssimo por isso pego meu blazer e dirijo pra escola. — Pai!!! — ela corre pra mim no parquinho vazio. Fiquei cinco minutos esperando por ela após avisar a direção de que queria conversar com minha filha e de que era importante sim, a ponto de interromper a sua aula. — O que faz aqui? Você está bem? Ela me abraça e eu me sinto leve. — Agora estou muito bem! — Você sempre está bem quando me vê! — ela ri. — É a mais pura verdade que eu digo brincando! — Por que está chorando??? — ela nota e eu nego. — Senta aqui! — a faço se sentar no gira-gira do parquinho e me sento ao seu lado. — Eu tenho uma dúvida. — Qual? — Você se sente feliz? Só com o papai na tua vida? Eu pergunto e ela me tormenta ao parar pra pensar. — Mas eu não tenho só você! Tenho a Tia e a Lara! — Se sente feliz assim? — Sim! Muitão! — Não sente falta de nada?


— Só de passear com os meus amigos da escola! — Estou falando de família, filha! — Eu já tenho família! — Allana... — eu respiro tentando não pirar. — não sente vontade de ter uma “mãe”? — Eu já tenho! Ela faleceu, mas está viva dentro de mim. Não é assim? — ela fala o que sempre repeti e eu sinto vontade de desistir do papo. — É, é assim mesmo! — eu a agarro e ela logo se afasta rindo e me mandando parar de fazer aquilo bem ali. — Agora, como foi esses dias com a Lara? Gosta dela? Como ela trata você? — Ela é legal! Faz tranças em mim, brinca comigo de banco imobiliário, me ajuda com o dever... às vezes tenta me agradar demais, mas eu sei que é só pra eu gostar dela! — Como assim? — Ah! Ela me dá doces antes do jantar, quando eu peço, a Suzi nunca deixava... me dá o pote pra eu raspar, me leva na sorveteria na volta da escola, essas coisas legais de babás legais... igual quando mentiu dizendo que eu tinha febre pra eu ficar com você vendo desenho na cama! — Ela mentiu? Você não estava com febre? — Eu disse que estava, aí ela foi olhar e disse que eu estava mesmo, e me levou café na cama, depois me mandou ficar com você vendo desenho. Foi legal, não foi? — Foi. — eu sorrio. — Quantas vezes ela deixou você faltar à aula? — Só aquela vez. Depois me disse que não era pra abusar do seu coração bom, porque menina esperta não falta à aula! — Entendi. E ela não grita contigo? — Não. Por que quer saber disso? — Porque fiquei traumatizado, não é!? Fiquei me perguntando por quanto tempo você ouviu os gritos de Suzi na sua cabeça, e o que mais ela te fez!!! — Eu disse a verdade! Ela só gritava! Não me batia, mas falava coisas feias e gritava! — Então por que você a defendeu? Naquele café da manhã que pediu pra mandar a Lara embora e deixar a Suzi lá, cuidando até da nossa refeição??? — Porque a Suzi disse que se eu não ajudasse ela mandar Lara embora, a Lara ia tomar o lugar dela, ia tomar você de mim e toda a sua atenção, e ia me bater. Porque a Suzi disse que a Lara era daquelas diaristas que bate em menina bocuda!!! — Entendi. Tudo bem. — A Lara ia deixar a gente porque eu tratei ela mal, não é!? — Não. Não ia não. Ela nunca faria isso e eu nunca ia deixar! — Você também gosta dela? — É uma boa garota, e te trata bem, então eu gosto! Só que você entende que... quando a Tia chegar, ela vai pra casa, não é? — eu toco no assunto e ela fica péssima. Fica triste e concorda. — Foi o que combinamos. A Lara é muito nova, filha, pra trabalhar do jeito que trabalha, e cuidar de uma casa daquelas... — Mas ela é muito boa!!! Termina mais rápido que a Tia! — Termina mais rápido porque é mais nova e a Tia tá uma velhoca! — ela sorri fraco. — Tia está em nossa casa desde quando você era um bebê. Lara é uma princesa, tem que voltar pra faculdade que ela ama fazer e teve que parar, conhecer o mundo e sua gastronomia, se


apaixonar, e viver uma vida incrível. Não tem que ficar eternamente cuidando de criança ou limpando as casas dos outros, ou como ela está agora, vivendo a procura de algum trabalho até quando é dia de descansar. Lara tem que ser feliz e como a gente gosta muito dela, nós vamos deixar! O papai vai ajudar de alguma forma, e você não vai ficar triste com sua partida. Combinado??? — eu proponho e ela só me encara pensando naquilo. Faz a mesma carinha, idêntica a que a Lara fez quando eu falei a respeito de Tia chegar. — Combinado, filha? — eu pergunto de novo e ela só balança a cabeça deixando claro que só concordava porque era o que eu queria ouvir. A entrego na porta da sala de aula e quando me abaixo para me despedir, ela resmunga entristecida. — Quando a Tia volta? — Nem tenho certeza, dentro de uma semana ou um pouquinho mais. Por que, filha? — Esse é o tempo que a gente tem com a Lara. Vou fazer alguma coisa pra ela desistir do sonho dela e aceitar ser diarista e minha companheira pra sempre. — ela fala e eu dou risada. — Isso é um tantão egoísta, amor! — Tudo bem. — ela dá de ombros. — Ela gosta mais de mim do que de cozinhar! Eu sei, ela mesma que disse! Vai aceitar ficar com a gente. — Ela disse isso? Que gosta mais de você do que de cozinhar? — Disse. Quando eu perguntei o que ela gosta mais! Eu tô em primeiro lugar nas coisas que ela gosta na escala “pessoas” junto com o pai e a mãe dela e depois vem você, e depois vem cozinhar, um homem francês que não sei dizer o nome, e depois vem... — ela para pra pensar. — soverte de frutas vermelhas com bolo de chocolate tudo junto! Meu Deus. — Acho que a Lara gosta de muita coisa!!! — Você está em segundo! — É. Estou sim, agora vai! Vai estudar e a gente se vê em casa! Eu digo, me despeço, saio da escola direto para a sorveteria mais próxima, e ao chegar em casa a encontro cozinhando de shorts larguinho, blusa de alcinha sem sutiã, e fico completamente perturbado. — Trouxe um presente! — eu falo e ela se vira pra mim. Lara sorri e larga o pano de prato fitando a embalagem. — Seu último colocado, mas que estava ao meu alcance no momento. — Sorvete de frutas vermelhas. Allana danadinha!!! — ela ri se divertindo. — Sim, e o bolo você pode fazer hoje. Comeremos após o jantar para eu tentar entender como e porquê essa combinação tosca e ao mesmo tempo tão simplória te conquistou. Mas para início de conversa, quem é esse maldito francês que conseguiu o quarto lugar??? — eu questiono e ela me abraça. — É um chefe! — Ia me fazer levar uma carta de amor pro condenado, filha da puta? — Talvez... — ela dá de ombros fazendo charme e eu fico bravo com isso. — Não vai procurar por esse cara porra nenhuma quando chegar lá, ouviu bem??? — Ele é minha passagem para o luxuoso mundo em que eu quero entrar, apenas isso. Meu coração já está ocupado e não tem mais espaço pra ninguém. — Não fala assim, pelo amor de Deus, acaba comigo!


Coloco-a sentada na mesa e ela se diverte. — Retiro o que eu disse. Muito provavelmente... — ela pula da mesa e segue pra sala rebolando. Obviamente vou seguindo... —... quando chegarmos á França, vou procurar pelo meu ídolo e confessar minha admiração e minha paixão platônica!!! Ela resmunga, engatinha pelo sofá de quatro, e depois se deita de bruços, praticamente oferecendo o traseiro pra mim. Por pouco não me seguro para tirar uma foto. Lara é minha total ruína. — Retire o que disse!!! — De novo, Vicente? Vou retirar, do retirar...!? Já retirei antes, agora está decidido. — Está me magoando falando essas coisas! — falo desafivelando o cinto e ela sorri ao espiar o que eu fazia. Já queria minha vara... — E fico puto quando alguém leva o que eu falo na brincadeira. Acho que por causa de meu tom de voz, ela se virou para me encarar e nem notou que sua boceta ficou exposta por causa do shorts largo e da perna esquerda levemente levantada. Deu água na boca e uma vontade louca de cair de cara... — Você atende a porta com esses shorts? Vai lá embaixo com ele??? — Não. Só coloquei pra servir teu almoço! Te servir bem!!! Ela fala fazendo charme e eu jogo o cinto longe. Queria dar umas belas açoitadas, mas não aguentei. Virei a filha da puta de bruços como estava antes, tirei meu pau pra fora, e soquei sem só, com força mesmo. — Retire, porra!!! — Eu retiro, só existe você... sabe disso! — Eu não estou brincando!!! — Eu sei que não! Só quero você! Eu juro!!! — ela confirma, mas minha raiva e meu ciúme bobo não me abandonam. Estoco do jeito que estava mesmo, “puxando” seus cabelos e rosnando em seu ouvido. Virei um animal e foi tudo por culpa dela. — Deixa eu te ver! — ela sussurra no meio das estocas que poluíam o silêncio da sala tranquila e me faz parar quando eu já estava prestes a gozar. Ela se vira, sorri pra mim, não correspondo e levanto suas pernas. Desse jeito seus gemidos aumentaram e logo assim, pude entender que sentia mais prazer e que meu prazer me deixava mais insano na hora de fodê-la que minha própria raiva. Era ainda melhor vê-la louca por mim do que “chateada” ou me provocando ciúmes. Lara gemendo pra mim era vida, era tudo!!! E pensando nesse turbilhão de sentimentos enquanto metia fundo, não notei quando parei. Parecia maluco, “não consegui meter e pensar ao mesmo tempo”. — Meu Deus... — eu lamento, puxo seu corpo pequeno pra mim e me sento no sofá ao mesmo tempo em que ela se senta ainda encaixada, e sorri feliz. — Acho que tô pirando... — eu confesso baixinho, e sem poder me conter beijo sua boca e sinto algumas peças se completando dentro de mim... — Rebola pra mim daquele jeito que me deixa louco! Daquele jeito que só você faz! — eu falo ainda mais baixo, pois não conseguia ouvir aquilo de mim mesmo, não conseguia confessar que ela foi a única que me deixou naquele estado tendo quase que me segurar pra não gozar na primeira rebolada. Eu estava literalmente fodido com aquela garota, louco por ela, e apesar de ser difícil de assumir, eu não era idiota, eu sabia que estava em suas mãos. Peço, volto a beijá-la apaixonadamente, e depois que seu rebolado acelera demonstrando estar


quase lá, cravo minhas mãos em suas coxas bem torneadas, enfio minha língua em sua boca só para sentir sua chupada indecente, e gozo demais dentro dela, gemendo alto e satisfeito. — Tá sentindo esse cheiro? — Deixa queimar, só fica aqui! Fica aqui que já, já, estarei pronto pra outra, e não quero mais sair de dentro de você! — Quero promessas, Vince... — Eu prometo, princesa! Prometo!


CAPÍTULO 6

Ele parecia um sonho. Sua blusa de manga comprida azul-marinho deixava seus músculos em evidência e a calça de moletom cinza só aumentava o charme. Cabelo molhado, feições suaves, a felicidade no olhar e sorriso emoldurado pela barba grossa só porque estava ganhando de Allana e eu no banco imobiliário, e estava mais rico. — Lara!!! Vai! É sua vez! — Allana chama minha atenção e Vicente me encara com um semblante sério. Olhava em meus olhos e parecia se perguntar o porquê eu estava dando tanta brecha na frente de Allana. Assim que eu jogo os dados e passo minha vez, Allana joga a sua e ele me encara de novo. Eu não conseguia mais parar de olhar pra ele. Lembrava-me de nossa noite, nossos momentos quentes após a primeira vez na cozinha e não sabia dizer se ele também pensava nisso naquele exato momento. Achava que não, pelo menos não mais do que eu. — Vou pegar a tão esperada sobremesa! Me esperem!!! Eu falo minutos depois e corro pegar o bolo e o sorvete da geladeira. Minha sobremesa “simplória” favorita. — Não consegue se controlar perto de mim, não? — ele chega e me agarra como sempre. Seu cheiro refrescante de “casa” e ‘homem gostoso’ enchem minhas narinas e me deixam tonta. — Não. Amo te ver sorrir, te ver feliz! — Estou por tua culpa! — ele diz e eu me viro para olhar em seus olhos. — Tia já saiu de Salvador, não é!? — Já, mas por que a carinha triste? — Quando ela chega? — Pelas minhas contas já chegou. — Acha que ela vem hoje? — Hoje é sábado. Acredito que vai descansar! Não faça essa carinha, esse bico me mata! — Pensei que ia me contratar pra sempre. Não gostou do meu trabalho? Da minha comida? — eu pergunto e ele sorri. — Eu amo tudo o que você faz, mas você precisa voltar pra faculdade, tua rotina de antes. A senhorita não pode tomar o emprego da tia!!! — ele aperta minha bochecha e logo suspira quando nota que eu perdi o bom humor. — Eu ainda não posso voltar pra faculdade, posso cuidar dela! — Pode, mas não vai. Já conversei com ela. Vamos para a França na segunda-feira, vai se encontrar com seu amor platônico, fará seu curso, e voltaremos para o Brasil. Eu voltarei pro meu trabalho, Allana para sua rotina com alguma babá confiável, e a mocinha linda aqui, — ele volta


a me abraçar. — pra faculdade de gastronomia. — Não me quer mais. — Eu te quero e muito. E por te querer tão bem, não te quero limpando minha casa, lavando minhas roupas, ou nada parecido! Quero o melhor pra você, e eu vou te dar o melhor. Vicente diz já perdendo o sorriso, eu desisto, começo a servir as sobremesas nos potinhos, e levo o da Allana na sala, com seu olhar entristecido me seguindo. Ele tinha razão, era o combinado e eu precisava seguir com minha vida, mas eu não queria ir embora nunca mais. Tinha acabado de conquistar Allana, tinha acabado de “conquistá-lo”, eu queria mais tempo, precisava de mais tempo. Como eu poderia me afastar??? — Aqui tua nova sobremesa favorita!!! — falo pra pequenina e ela sorri. — Não é minha sobremesa favorita, não! — Não é ainda, mas vai ser! — eu garanto, ela dá a primeira colherada e solta um “hmmm” que enche meu coração. — Sim, é minha sobremesa favorita! — ela muda de ideia e me faz sorrir. — Eu disse. Resmungo, Vicente volta a se juntar a nós carregando seu potinho de sobremesa e me fita com os olhinhos tristonhos. Não suportava me ver chateada. — Experimenta, pai! Você vai amar. Allana pede, ele sorri, experimenta se concentrando, e depois me encara sorrindo lindamente. — Você tem razão. É muito bom, nunca nem imaginei! — ele diz sorrindo pra mim e meu coração se derrete. — Eu tenho um monte de sobremesas malucas com combinações doidas, que você nunca imaginou, ia se surpreender!!! — É SÓ ME DEIXAR FICAR E EU TE MOSTRO TODAS ELAS. Penso. — Eu tenho uma um ‘pouco doida’ com aquelas balas que gelam, gelo, leite-moça... — ele diz como se falasse realmente de sobremesas, e depois gargalha quando me vê apertar uma coxa na outra. — Certo, vamos ao jogo! Não pense que só porque está ganhando, pode ficar aí de sorrisinhos pra mim. — Eu posso tudo, eu estou rico! — ele diz jogando os dados e Allana finge ficar brava. — Acho que quem perder deveria pagar um cinema, hoje. O que acha disso, filha??? — Eu não tenho dinheiro, você é meu pai, tem que pagar pra mim e pra Lara! — Não, não. Quem perder paga. — Você não está rico? O natural é VOCÊ pagar! — ela fala e eu zombo da cara dele. Ele ameaça querer me bater por estar rindo e a campainha toca me salvando. Saio correndo para atender e tenho a surpresa: era Tia que pelo jeito, havia vindo direto do aeroporto. — Tia!!! — exclamo e ela me abraça. — Ai, que saudade que eu senti! Cadê todo mundo? Estão aqui? Tia passa por mim, entra na sala, e Allana que já tinha seu semblante de choro, em um rompante, sobe pro quarto correndo. — Tudo isso é alegria em me ver??? — Tia brinca enquanto abraça seu patrão e eu decido por não dizer nada. — Eu vou lá ver o que há. — eu digo e subo atrás dela com Vicente me fitando entristecido novamente.


Entro no quarto e a encontro de bruços com a cabeça embaixo do travesseiro. — Ei, pequenina! O que foi? — eu pergunto baixinho e ela me encara, estava chorando. — Você vai embora? — Eu vou, mas não precisa ser hoje. Ainda temos o dia de hoje. — Não quero só hoje. — Eu sei, amor. Eu também não queria só hoje. — Então por que você vai? — Porque eu preciso estudar, trabalhar na minha área... — Mas você nem tem dinheiro que eu sei. — ela diz e eu sorrio. — Mas eu tenho força de vontade, vou trabalhar e conseguir. — Papai já falou que você não vai ficar trabalhando, ele não vai deixar. Disse que princesa não trabalha igual você até na hora que deveria descansar. O que vai ficar fazendo, então??? — Seu pai não manda em nada, Allana. Por isso não vou embora hoje, e nem me submeter ao que ele quer. Vou vir te ver sempre que eu quiser, e sempre que você me ligar! — Assim eu não quero. Vai embora! — ela choraminga mimada que só ela, e eu saio porque já conhecia a pecinha. — Como ela está? — Vicente questiona na cozinha e Júnior entra logo atrás. Tia parecia fazer um café para os dois e ele tinha um semblante tão triste quanto o da filha. — Ei!!! — Júnior me abraça e eu vejo Vicente forçar o maxilar e fechar a cara para o abraço. — Como vai??? — Vou bem, e você? Onde estava? — Estava esperando mainha na recepção, notei que ela ia demorar e resolvi te ver pra bater um papo rápido! — Eu perguntei como ela está! — Vicente rosna baixo querendo minha atenção e eu seguro o sorriso para não irritá-lo. — Ela está choramingando, claro. — Mas, oxe, por quê? — Porque a sua chegada significa a minha partida. — eu sorrio e ela lamenta. — Meu Deus, e por que não ficará com a gente??? — Tia pergunta, mas encara Vicente. — Ele odiou minha comida, Tia. Sem contar que enchi os ternos dele de pelinhos, e exagerei no amaciante várias vezes. — eu brinco e ele fica puto. — Duvido que você fez isso!!! Que bobagem!!! — Tia fica “de cara” e Vicente revira os olhos. — Tenho certeza que a Lara foi uma diarista/cozinheira/babá perfeita! — Júnior diz sorrindo pra mim e eu concordo em silêncio. — Ela é perfeita em tudo o que coloca a mão. O problema é que ela precisa ser perfeita nos estudos. — Vicente diz com um tom de voz grosseiro. — Lara não ficará conosco — ele encara a Tia como se estivesse comunicando a ela o porquê de sua decisão. — porque vai voltar pra faculdade. Não vai passar mais nenhum minuto sequer limpando tudo isso aqui, ou cuidando da Allana. — Ai, meu menino bondoso!!! — Tia o abraça emocionada. — Eu sabia que você ia ajudar essa menina. Ele está certo, filha! — ela me encara. — Vicente está fazendo o certo. — ela diz pra mim sorrindo, Júnior fecha a cara com ciúmes da melação, e Vicente, ao ver seu desapontamento, coloca


um sorrisinho de Monalisa e se sente muito melhor. — Você tem que ir atrás do seu sonho e voltar para os estudos. — Tia fala comigo de novo, mas depois coloca a mão na cintura e encara seu patrão bondoso. — Mas já que está sendo tão generoso, podia aproveitar e arrumar um bom advogado pra menina, não é??? Tadinha, ajuda o pai dela, Vince!!! Tia diz, Júnior me encara preocupado, e eu me sinto perdida sem saber o que dizer. Merda. — Advogado? — Vicente questiona, Tia me encara arrependida ao notar o que fez, e eu lamento. — Sim, meu pai está preso, mas isso era um assunto meu. Por isso não contei. — Se era um assunto teu, por que os dois sabem? — Talvez seja porque minha mãe e a Tia são amigas! — Esse tipo de coisa você conta “na entrevista”. — Para não ser aceita por ser filha de presidiário??? — É de você mesma que está partindo o preconceito. Não de mim! — É. Pela cara que você fez agora, deu pra notar. — Acho que foi cara de decepção por saber que você não confia em mim, e agiu de forma irresponsável ao entrar em minha casa! — Ah! Vocês não vão brigar por causa disso, não é!? — Tia se desespera e eu nego. — Eu não. — eu afirmo e saio. — Vai fazer o quê? — Vicente entra atrás de mim no quarto. Naquele momento, pra mim, ir embora era a melhor opção. — Cumprir com o combinado. Vou embora. — Vai porra nenhuma! Vai ficar aqui e me contar que merda é essa!!! — Me obrigue! — eu falo e quando penso que vai “voar no meu pescoço”, Vicente chega perto, com cuidado tira a blusa que eu pretendia guardar, da minha mão, e eu travo porque tua presença mais seu toque em mim, me deixam desequilibrada. — Princesa, me perdoe pelo modo que falei lá embaixo, contigo. Me explica essa história, por favor!? Me conta tudo e me deixa te ajudar. Você precisa de um advogado e eu tenho uns dez na empresa, praticamente “coçando” e esperando um problema aparecer para poderem enfim, trabalhar. Me deixa te ajudar, por favor! — ele pede com carinho segurando em meus ombros e falando baixinho no meu ouvido. Só por causa disso conto tudo, ele me escuta calado, e depois suspira. — Custava me contar logo??? — Tive medo, tem como entender? — fico indignada. — Para aquele pirralho tu contou, não é!? — Pare de implicar com o garoto. Ele tem menos da metade da tua idade, é inofensivo, é só um amigo, Vicente! — Ele ser novinho me coloca à frente??? Gosta de homens mais velhos? Me acha um tiozinho??? — Ah! Não pira. — Só estou tentando te fazer sorrir. — ele beija minha boca e me faz relaxar. Quando sinto nossos corpos se aquecerem, ele me faz sentar em seu colo, e dá pequenos tapinhas já pedindo em silêncio para que eu rebolasse pra ele. — Você está tão gostosa. Depois do cinema tem? — ele pergunta e me faz rir ao concordar. COM CERTEZA VAI TER. — Vou ver como está a outra princesa chorona! Já pode parar de rebolar assim ou nunca mais saio daqui. — Não pode me afastar dela! — falo de uma vez e ele sorri.


— Eu nunca disse isso. Nunca disse que ia afastar uma da outra. Deixei claro pra ela que você não é uma babá, não é uma diarista, e, portanto não ia mais “nos servir” dessa forma. Seu tempo será ocupado com os estudos, com sua educação. Isso não quer dizer que te proíbo de vê-la. — ele fala e sai. Sigo pra cozinha e Tia pausa seu papo com Júnior. — Se entenderam? — Contei tudo. — Ele ficou chateado? — Não, só decepcionado. Foi conversar com a Allana. — Ele está louquinho por você e odiou o abraço que eu te dei! — Júnior diz em voz baixa e eu nego me controlando. — Vocês...!? — Tia fica espantada e eu sorrio negando. — Graças a Deus! Graças a Deus, deu certo! — Deu certo o quê? — pergunto e ela nega. — Você tem um bocão, mãe! Júnior zomba, eu pergunto sobre o que falavam, os dois desconversam, e eu esqueço. Estava cansada daquilo, preocupada com Allana, com meu futuro de desempregada, com meu quase relacionamento com Vicente... tudo. Tia nos serviu seu café, se despediu dizendo que só havia passado para matar a saudade, que segunda-feira estava de volta, Vicente foi levá-la até a porta, e quando voltou me encontrou do mesmo jeito, sentada e pensando. — Allana não vai sair do quarto? — Não. — ele responde e me faz sentar em seu colo. — Está putaça! — Eu vou lá. — Não. Deixa-a digerir. Fica aqui comigo. — Acho que eu devo ir pra casa... — Nunca! Mas não vai mesmo! — Vou de qualquer jeito. Melhor ir de uma vez, sem que ela veja e sofra mais. Quando notar que estarei sempre aqui, vai entender que não a abandonei. — Você não vai! — eu o encaro e ele para pra pensar. — Vai conosco no cinema, vamos nos divertir, vai dormir aqui coladinha comigo, e na segunda vamos viajar. Esse é o plano. — E depois? — Depois que voltarmos, vamos ver o problema com teu pai. Enquanto estivermos lá eu já vou mandar um advogado entrar em contato com tua mãe para dar início nesse processo e dispensar o advogado público, e depois vamos ver o início de tuas aulas. — Não vai bancar minha faculdade. — Não vou te pagar pelos dias que em que esteve aqui! — ele diz na cara de pau e eu o encaro tentando entender. — Você não vai me pagar por todo esse mês de trabalho??? Todo aquele dinheiro??? — Não! — ele segura um riso alto e eu de verdade: fico puta. — Fiz planos com essa grana, não pode fazer isso! — Posso e vou. Você queria aquele dinheiro para tirar seu pai de lá. Eu vou tirar seu pai de lá


gastando mais do que eu te daria. Eu prometi te dar tudo. Vou te levar para conhecer a França, fazer seu curso, e pagar tua faculdade. — Você está pirando. — me levanto de seu colo e ele se irrita. — Acha que farei isso de graça? Nós não estamos “juntos” como você queria??? Te quero bem. Não vou deixar você se matar de trabalhar, você não tem “juízo”. Pode transar comigo em cima de uma mesa a cada cinco minutos, mas não pode aceitar minha ajuda? Vai fazer a louca feminista, donzela imponderada que fica ofendida com “ajuda de macho”??? Ele resmunga de uma forma tão engraçada que eu preciso segurar a risada. — Não estou doente ou deficiente. Posso trabalhar e não é vergonha nenhuma pra mim. E “estamos juntos” a ponto de você me bancar, mas ficar aqui, não dá!? Quer me bancar e se meter nas minhas coisas, mas não quer ficar comigo. — Preciso estar presente na tua vida de algum de jeito, e você está toda fodida. Essa é real. Mesmo juntos, acho que ainda é cedo para tornar isso tão sério. Você não quer, mas você precisa de mim assim como preciso de você. — Eu não preciso de você, eu quero você. — Estamos falando de seis meses de faculdade que não é nada pra mim e é tudo pra você. Tu aceitou tão bem ir viajar, por que está fazendo isso? — Estamos juntos, você me quer bem, quer me ajudar!? Me peça pra ficar! Me peça pra ficar e eu aceito tua ajuda! — eu falo e ele revira os olhos. — Ah! Qual é!? Pode me comer em cima de uma mesa a cada cinco minutos, mas não pode me deixar dormir aqui todos os dias durante todos os dias de nossas vidas? — sou irônica e eu sinto que cada minuto que passava, mais bravo ele ficava. — Vai fazer o quê se eu mantiver os meus planos do jeito que eu estou falando, de te ajudar...!? — Vou embora. — Então serão dois extremos, ou eu aceito seu pedido de casamento, ou trato esse assunto como o profissional que contratou a diarista, de forma justa, sem misturar as coisas!? — Agora é você quem está sendo extremista!!! — Qual vai ser? Posso ou não te ajudar? — Não quero que pague minhas contas, Vicente. Não precisa fazer isso porque estamos juntos. — E você ia pra França comigo, como? De charrete enquanto eu iria de primeira classe com Allana, filha da puta??? — eu evito rir daquilo e ele nota. — Certo. Você tem razão. Você tem razão, eu estou confundindo as coisas e me intrometendo demais na sua vida. Não tenho razão nenhuma para querer seu bem-estar ou te desejar uma vida melhor como eu posso oferecer. Eu poderia dizer que retiro todas as propostas que te fiz, mas eu não sou assim e não farei isso só para você se sentir a mulher poderosa que é, que eu sei que é. Eu não sei se você quer se provar algo, ou tem orgulho demais, mas eu concordo, sua atitude é bonitinha. Vou deixar um cartão com tua mãe, um cartão do advogado. Se ELA quiser essa minha ajuda, estarei disponível, se não quiser, problema é dela. — ele diz isso e crava uma faca em meu coração. — Vou depositar nada mais nada menos do que o combinado pelo seu trabalho aqui durante esses dias, e estou formalmente retirando o convite que fiz a você para viajar. Mesmo porque, sei que no momento não tem condições de chegar lá, nem com o dinheiro que vai receber de mim. E então, não mais vou me intrometer em suas “contas”, vou deixar você viver a sua vida como você pode. — Está sendo um escroto.


— Por que eu não estou tentando te mimar e cuidar de você? Pagar as suas contas? Há certos eventos em que meu dinheiro é bem vindo e outros, não. Agir assim tem um peso, não é!? Viu como soa diferente? Viu como sou melhor quando tento te ajudar??? — Você não quer me ajudar, quer só me tornar sua propriedade. — É, eu quero mesmo, porra!!! — Vocês estão brigando? — Allana entra na cozinha e eu dou um passo em sua direção, mas rapidamente Vicente me afasta. — Por que vocês estão brigando??? — Não estamos brigando não, filha. Só estou aqui com a Lara, acertando as contas dela. Que é isso o que um patrão faz com uma simples funcionária. — Exatamente. — eu digo. — Paga pelo trabalho dela de forma justa, nada mais, nada menos. Eu resmungo querendo o esganar e após respirar fundo me aproximo da pequena. — Está “menos brava” comigo? — Você vai ficar ou não? — ela pergunta ainda magoada e meu coração se partem em dois. — Você disse que prefere a mim do que cozinhar. — Eu prefiro mesmo. Certeza que sim. Só que hoje eu estou com problemas. Algumas coisas mudaram e eu tenho que ir pra casa resolver, você me entende? — eu pergunto e ela nega. — Mas vai, você um dia vai. Eu te amo, sabia? Te amo muito. E por isso eu nunca vou deixar você, você vai ter que me aturar por muito tempo! — Você é uma mentirosa. Allana resmunga extremamente irritada e acaba comigo triturando meu coração. Ela cospe suas palavras em minha cara e me deixa na cozinha de joelhos, me sentindo a pior pessoa do mundo. Junto o pouco de amor próprio que tenho, me levanto, e saio sem nem voltar a encará-lo. Eu nem sabia onde foi que a discussão começou e nem o porquê. Tinha consciência de que o que eu estava fazendo com ele era cruel, sei que o chantageei, eu precisei quase implorar para ele me pedir pra ficar, o problema nem era as mensalidades da faculdade: eu simplesmente errei quando entreguei meu coração pra ele. Errei quando me deixei levar. \Eu queria mais. Queria. Agora só o que eu queria era ir embora dali. Subo pro quarto, arrumo minhas coisas, peço um táxi e quando desço o encontro de pé, andando de um lado pro outro. — Fica. — ele diz assim que eu alcanço a porta. — Não me deixa. Ele pede e eu o encaro. Seus olhos estavam vermelhos e seus ombros demonstravam fracasso. Fico assustada com sua atitude, mas abstraio. — Só preciso de um tempo. Da minha casa, da minha cama, minhas coisas... eu volto. — Você é minha. Só minha! — Mas você ainda não é meu!


CAPÍTULO 7

— Ela foi embora??? — Allana desce assim que Lara bate a porta e eu confirmo. — Foi. Foi sim. Mas ela vai mudar de ideia, vai voltar. — Por que vocês estavam brigando??? — Não estávamos... — já ia repetir a mentira, mas ela ergue a sobrancelha. — Lara quer algo que no momento não posso dar, Allana! Tu já é grandinha, pode entender que adultos se desentendem. — O que ela quer? Dê pra ela, assim ela volta! — Não é assim que funciona. Ela tem que entender que comigo é aos poucos... tem que entender que eu sempre serei incompleto pra ela. Saio desabafando como se ela pudesse entender daquilo e ela me abraça no sofá. — Você quer que ela more com a gente ou não? — Morar não dá, filha. Lara tem a vida dela, a casa dela. — Mas e se ela for morar com o Júnior? — Allana pergunta isso encarando a TV desligada. — Que papo doido é esse? Ela te mandou dizer isso? — Não. Mas ela fala muito dele. A Lara não tem namorado, não é!? E se ela começar a namorar e esquecer nós dois??? — Vai se arrumar. Nós vamos sair! Eu falo de uma vez e ela comemora. O que me faz pensar se não disse aquilo de propósito. Apostava que sim, mas funcionou. Lara saiu daqui muito triste comigo. Já fez amizadinha com o pivete, com certeza ia ficar de papinho com ele e eu não ia deixar. (...) Estaciono em sua casa, entro sem convite pelo quintal simples, bato na porta e pelo jeito quem atende é sua mãe. — Oi! Pois não!? — ela diz assustada e encara Allana ao meu lado. — Dona Magnólia, certo!? — ela confirma. — Sou Vicente, o “patrão” de sua filha. Ela está? Eu digo, ela relaxa, e depois sorri pra mim. — Lara ainda não chegou, achei que estava com vocês! Entrem... — ela nos puxa pra dentro e depois agarra Allana que corresponde amigavelmente, não sei o porquê. — Sentem-se. Fiquem à vontade! Eu vou fazer um café e pegar uns bolinhos que acabaram de sair do forno. — A senhora cozinha tão bem quanto tua filha???


— Não. — ela ri. — Lara é uma profissional, nem tem como comparar. Mas não é nada mal. Dona Magnólia pisca simpática, se agita em seu vestido com estampas de girassóis, e parece radiante por me ver ali. — Dona, Magnólia... — eu só digo porque simplesmente a sua cozinha e sua sala de estar, ficavam no mesmo ambiente. Uma casa extremamente simples, limpa, organizada, mas com o acabamento precário. — eu queria... — Pode ser só Mag! — ela sorri. Parecia a cria, só sorria. — Certo, dona Mag... — eu tento sorrir de volta, mas não sei se consigo. —... eu vim porque combinei com tua filha da gente pegar um cinema. Nós tivemos uma pequena discussão porque eu queria muito ajudá-la... — ela me escuta, confirma com a cabeça sorrindo, me oferece uma xícara, um suco para Allana, e coloca os bolinhos na mesinha de centro. — então, já que ela praticamente recusou, prometi que conversaria com a senhora a respeito. Eu soube do seu marido. — Oh! Santo Deus. Lara contou? — Não. Me escondeu até onde pôde. Tia quem soltou sem querer, sem saber que eu não sabia. Me pediu um advogado. — Essa Tiana bocuda! — ela exclama baixinho, Allana ri, e ela se desculpa. — Não se preocupe. Lara vai me ajudar com o dinheiro que ganhará do senhor pela limpeza na casa, e a gente sempre se vira. — Dona Mag, Lara nunca conseguirá ajudar em nada, ou quase nada com aquele dinheiro. Pela situação do flagrante com seu marido, a senhora precisa de um excelente advogado, e aquele dinheiro não paga um excelente. Entendo e acredito que seu marido é inocente, mas a situação dele, pelo pouco que conheço da área, é muito complicada. Tenho advogados à minha disposição e vocês precisam demais. Aceite meus advogados e receba seu marido em casa, como a senhora e sua filha, tanto querem e precisam! — Olha, — ela sorri. — já que o senhor insiste. — ela brinca, se levanta, em seu reflexo faço o mesmo e ela me agarra choramingando como a filha, toda emocionada. Seu cheiro é de limpeza, e lar de amor. — Muito obrigada!!! Que Deus abençoe o senhor e a sua pequenina! E a bocuda da Tia também! — Receber sua filha em casa foi ideia dela. Tia é só coração!!! É sim, uma bocuda, — dou risada. — mas fez por bem. Lara jamais me pediria ajuda. — Lara não é orgulhosa assim. Se não contou foi por medo de ser não ser empregada por você. Minha filha é uma moça muito trabalheira e responsável!!! — Eu sei. Sei bem disso. — E gosta muito do senhor. E da pequenina aqui também. — ela bagunça os cabelos de Allana. — Ela disse que ama mais a gente do que cozinhar! — Allana diz de novo e dona Mag sorri. — É claro que sim! Ama sim! — Será que ela demora? Onde será que ela está??? — Deve estar com Júnior... ou com as amigas da faculdade. Faz tanto tempo que ela não sai. — Viu! Eu disse! — Allana me olha torto e eu fecho a cara pra ela. — Vou ligar pra ela. — pego o celular e só ouço chamar. — Ela está bem brava comigo. Será que a senhora faria isso por mim? Pode ligar pra ver se ela te atende? — Por que vocês brigaram??? — ela pergunta colocando óculos de grau e mexendo no celular. — Porque a Lara quer mais do que ele pode dar. — Allana solta e eu fico puto. — Papai ainda


não sabe, mas também gosta dela. Tem até ciúmes do Júnior!!! Ela diz, dona Mag sorri sem graça, e eu nego sem saber aonde enfiar a cara. E principalmente me perguntava até aonde Lara e eu fomos discretos com Allana em casa. — Alô, filha!? — ela logo diz pro telefone e eu fico puto. A diaba não queria mesmo me atender. — Onde você está? Está a caminho? Por que está demorando? Não, é porque você tem visita, filha. É uma amiga da faculdade, mas disse que não vai dizer o nome porque é surpresa. Vem logo! Ah! Ok! Tudo bem! Beijo. — ela desliga. — Ela passou naquela padaria Rainha, aquela grandona, e agora está vindo a pé, mas a rua é aqui atrás. Foi fazer umas comprinhas de sorvete e doces. Quando é assim, é porque está mesmo chateada. Dona Mag diz sorrindo e eu me sinto péssimo. — Olha, aqui está o cartão... — tiro da carteira. — ligue pra ele na segunda bem cedo, o nome dele é João Gardenno. Vai te atender muito bem e dar entrada em tudo. — Obrigada mais uma vez! — Não me agradeça. É um prazer ajudar. Se tiver mais alguma coisa que eu possa fazer pela senhora... — Aproveita, tia! Ele se gaba por ter ganhado de mim e da Lara no banco imobiliário. Está rico. Pode pedir. — Allana resmunga zombando de mim e dona Mag ri de novo. — Já disse que hoje você está impossível? Não queria a Lara de volta? Como a mãe dela vai deixar a filha conviver com a gente se ela pensar que você “não bate bem”? — Ah! Não pira, não. — ela diz gargalhando e não sei da onde tirou essa de “não pira, não”. Vinha da escola cada semana com uma tirada diferente. Quando penso em “dar uns cascudos” na pequenina sem limites, a minha outra pequenina entra pela porta de latão e trava ao me ver. Trava e depois sorri. — O que faz aqui? — Onde esteve? — pergunto sem gritar só porque sua mãe estava presente. — Perguntei primeiro. — ela solta as sacolas na pequena pia da cozinha, se aproxima sorrindo, e coloca as mãos na cintura. — Vamos ficar aqui a noite toda... — Fui à padaria, oras. Minha mãe não disse? — Tinha algum Júnior nessa padaria? — Allana pergunta e ela ri. — Usou essa contra ele, pequena monstrinha??? — Só falei a verdade. Que você poderia ficar com ele e esquecer nós dois. Você gosta tanto dele... — Eu jamais vou me esquecer de vocês dois. — ela se ajoelha e agarra a “pequena monstrinha”. — Jamais. Te disse isso tantas vezes. Custa acreditar? — ela enche Allana de beijinhos, se levanta, e me deixa morrendo de vergonha quando agarra meu pescoço. — Já sentiu saudades? Ela pergunta fitando minha boca e eu fico morrendo de medo da diaba me beijar na frente das duas, mas estava muito aliviado por ver que não estava mais chateada comigo. E principalmente estava sozinha e não com o paspalho do amiguinho juvenil. — Não. Apenas combinamos o cinema e você nos deu um bolo. — Assuma. — Não vou assumir nada, vá se arrumar. — Assuma, ou não vou a lugar nenhum contigo. Assuma que sentiu saudade de mim após sair da


sua casa por três minutos. — Foi mais de quarenta, garota. — Assuma!!! — Senti-vá-se-arrumar! — eu falo, ela me agarra, Allana pula comemorando e a mãe dela ri feliz. — Você é um belo de um bobão! — ela sorri toda engraçadinha e eu sinto meu rosto esquentar. — Vai... — Allana, quer ajudar a tia a ver o que a Lara trouxe de gostoso da padaria??? — de repente a mãe dela diz e Allana suspira. — Pra que? Pra deixar eles sozinhos? Sei que eles vão se beijar, eu já vi! — Já viu??? — Lara e eu perguntamos ao mesmo tempo e Allana apenas bufa negando e revirando os olhos. — Vamos, tia Mag! Vamos ver o que a Lara trouxe... — ela pega na mão de dona Mag, e Lara rapidamente me puxa para entrar em seu quarto que pelo o que vi, era coletivo. Dormia em uma cama de solteiro ao lado da cama de casal da mãe. — Nunca mais me deixe daquele jeito. Nunca mais, entendeu!!! — a imprenso na parede do quarto e ela arfa. — Não pode fazer aquilo comigo, não pode deixar Allana, ela também ama você. Entrou na nossa vida, ela é só uma criança, não pode fazer isso. — falo baixo e ela sorri. — Qual é tua verdadeira preocupação, hein??? Júnior??? — ela sussurra sorrindo. — Você é minha, esse corpo é meu, essa boceta é minha e você sabe disso. Pare de me provocar com ele. Onde esteve? Por que demorou? Estava com ele? — Não. Já disse que não. — Vai se afastar dele! — Veio aqui pra me dar mais ordens? — Você vai se afastar dele! Diga! — Eu vou. Vou me afastar dele! — ela sussurra, morde o lábio inferior quando meus olhos percorrem cada milímetro de seu decote, e depois ri da minha cara. Só depois de ouvir aquilo é que me acalmei. — Sentiu mesmo minha falta, não é!? — ela pergunta baixinho. — Senti. Muita mesmo. Não me deixe mais daquele jeito. Nunca mais. — Prometo que não vou deixar se você parar de falar coisas sem pensar. E ficar tentando pagar minhas contas. — Por que demorou tanto? — Só passei na padaria para me encher de chocolate. Achei que ia me afundar na deprê, mas te vi aqui, “atrás” de mim, e tudo passou. Te quero muito. Muito mesmo. Fui uma boba! Só queria que me pedisse pra ficar. Forcei a barra. — Eu sei. Eu entendo você. Mas acho que você vai precisar ter um pouco de paciência comigo. Não pode pirar assim. Te fiz promessas, não fiz!? — Fez. — Pois, então. Estou tentando. Eu ‘estava’ um homem morto, você me trouxe literalmente à vida. Agora eu preciso ir com calma, eu preciso... — Tudo bem. Não vamos mais falar disso. Me desculpa, te pressionei... — ela me enche de beijinhos e eu me acalmo ainda mais. — Me perdoe por ter sido tão grosso com você. Sei que exagerei querendo cuidar da tua vida.


— Só um pouquinho assim. — ela mostra com os dedos. — Mas eu acho que pensei em uma solução para tudo isso. — Qual. — Eu aceito tua ajuda. — ela ri. — Aceito tua ajuda e não resmungo mais. Não dou um pio. Eu sou tua. Mas... — Sempre tem um ‘mas’ pra estragar tudo. — Eu quero continuar trabalhando enquanto estudo. Procuro algo de segunda á sexta, não me matarei de trabalhar, tu só vai me ajudar ao invés de pagar as minhas contas sozinho, e aí eu terei o final de semana pra você e para a Allana. Não caso com você, — ela ri. — mas, durmo lá de sábado até domingo. — Tenho que pensar no que fazer. Já não consigo mais pensar em dormir um dia sequer longe de ti, mas isso me assusta. Não te quero lá, mas também não te quero aqui. Preciso dar um jeito em minha vida, pois não posso mais soltar você. — Eu não vou te pedir mais nada, vou deixar tudo no seu tempo e terei paciência. O que você decidir, assino embaixo. Mas, vou te dizer pela última vez, só pra você gravar. — ela diz, me beija enfiando a língua em minha boca, e depois sussurra em meu ouvido. — Eu te quero muito, te desejo muito, e sei que será assim pra sempre. Terei paciência e vou esperar, mas quero que saiba que eu quero o ‘pra sempre’ contigo. Quero você e Allana em minha vida pra sempre. Mesmo que eu não seja ‘uma mãe’ que ela nunca teve e mesmo que eu nunca consiga ser tua mulher, ser tua esposa, que eu tenha vocês dois na minha vida eternamente!!! — Não sei em qual ‘cargo’, se de diarista, babá, cozinheira, namorada, esposa, ou ‘uma mãe que ela nunca teve’, não sei qual cargo, não sei como será, mas eu também te prometo o ‘para sempre’. Jamais vou deixar você sair da minha vida de novo. — Eu saí por cinco minutos!!! — ela ri. — Foi mais de quarenta, porra! Quer me matar??? — Só se for de tanto me... — ela sussurra, mas Allana entra no quarto correndo e dona Mag, logo depois. Lara me solta ao ver o quão sem graça fiquei, e então, corre atrás da pequenina que já ia mexer nas suas coisas. Havia um criado-mudo separando as camas, e uma do lado direito da cama de casal, quase invadindo o espaço do pequeno guarda-roupa bege. — O que é isso??? — Allana corre, se joga em sua cama e abre um amontoado do que parecia uma bolinha grossa feita de milhares de pedaços de tecidos. — “Isso” é minha boneca. Durmo com ela desde pequena. — Lara se senta ao seu lado e eu fico parado olhando para as duas. — Isso me parece mais uma bola de pano. — Allana resmunga desconfiada, e Lara ri. — Tem certeza? — Lara questiona misteriosa, abre um botão de pressão que só notei pelo barulho, e a boneca parece se “inflar” sozinha, se montando e ganhando forma. Como era de pano, só estava enroladinha como uma bola. — Essa é Maria Rosa. A boneca tinha pedaços de tecido amarelo como cabelos em um penteado de marias-chiquinhas, vestidinho decorado com o que parecia ter sido um dia, uma toalha de mesa florida, e sapatinhos vermelhos. Tudo em tecido. — É linda, não é!? — ela questiona Allana, Allana passa a mão na boneca e dá de ombros.


— É legalzinha. — ela nos faz rir. Amou a boneca. — Você é bem difícil, hein!? Diz logo que amou a boneca!!! — Só achei legal. — ela resmunga. — Ela não é legal, é beeeem legal. E foi a mãezoca que fez pra mim quando eu era um bebê. Ela protege meu sono e me impede de ter pesadelos. Lara diz sorrindo e Allana encara dona Mag. — Ainda consegue fazer uma igual??? — ela pergunta e Lara sorri. — A mãezoca não tem mais a máquina dela... é difícil fazer na mão. Mas... como eu já estou bem grandinha, e não preciso mais dela, eu poderia vendêla. — Você realmente não tem nenhum limite. Sou uma criança, deveria me dar de presente. Não disse que me ama??? — seguro o riso. — Vai querer a Maria Rosa ou não? — Lara pergunta e Allana me olha torto. — Pai, tem dinheiro aí? — Tenho, mas você não perguntou por quanto ela quer. Tenho que ver se tenho dinheiro trocado. — digo já esperando pela pérola que a diaba vai soltar. Ela sempre aprontava com Allana. Aposto um rim que seu pagamento é uma pergunta. — Quanto é??? — Maria Rosa custa uma pergunta! — Lara diz e Allana bufa. — De novo? Você não cansa nunca??? — Eu sou ou não a melhor babá que já passou pela sua vida? — Quer que eu diga o quer ouvir ou... — A verdade. — Suzi era melhor. — Allana diz séria, Lara fica triste no ato e eu não sei se choro ou dou risada. Allana não sabia brincar. — Pronto, agora me dá a boneca. Allana estende a mão, Lara entrega a boneca como combinado, e após o que me pareceu uma eternidade, Allana ri, e a abraça. — PRIMEIRO DE ABRIL!!! Te peguei!!! Espero que agora você esteja traumatizada e nunca mais lance essa de “custa uma pergunta”, porque não suporto mais isso. E sim, você foi a melhor, babá/cozinheira/diarista que já passou pela nossa casa. E agora é minha madrasta. — Allana sorri pra ela. — E eu também te amo! Só não vou dizer isso de novo. Allana sussurra a última parte, e sai remontando a boneca como se não tivesse acontecido nada. — É. — dona Mag resmunga rindo. — Ela é realmente terrível. — ela diz pra filha e sai. — Quase enfartou, não é? — zombo. — Jamais voltarei a comprá-la com perguntas!!! Quase tive um troço. — ela diz rindo, mas ainda respirava com dificuldade. — Ouviu quando ela disse que te ama? — Ouvi. — ela sorri chorando. — Mais um motivo para jamais nos deixar, não importa o que aconteça. — eu a abraço. — Jamais pode nos abandonar. — Por que você repete tanto isso? — ela me olha nos olhos e eu não sei o que dizer. — Não vou te deixar, já disse isso! — Só tenho medo.


— Não tenha. Nada vai acontecer. Ficaremos bem. Vou tomar um banho! — ela diz sorridente. Eu sigo para a sala, vejo Allana encantada com a boneca, dona Mag pelo jeito começando a preparar seu jantar, e... o celular de Lara piscando no braço do sofá. No modo silencioso. “Júnior” estava escrito. Seguro o ciúme até onde posso, mas ele dura até a quarta ligação, na quinta levo o celular sem fazer alarde, entro no banheiro após bater, e mostro a tela pra ela. — Está te ligando pela quinta vez. — Então ele deve estar com problemas. Ele ou Tia. Atenda! — ela diz com compreensão e eu ATENDO MESMO. — Alô. — É o celular da Lara? — É o Vicente falando, Júnior. Tudo bem por aí? — tento ficar calmo. — Está sim, só queria falar com a Lara, ela está bem? — Ela está ótima. Está no banho, vamos sair daqui a pouco então nem pode te atender. Só atendi porque você é muito insistente. — Somos somente amigos, cara. Relaxa, Vicente! — Eu acho melhor VOCÊ relaxar. Relaxe aí e desgrude um pouco. Não vou pedir de novo. — É claro. Só diga a ela que eu liguei, por favor. Nos falamos sempre, me preocupo com ela, e somos SOMENTE amigos. Não existe maldade nenhuma, nunca existiu. — Vou pensar se eu aviso. De qualquer forma, insisto que diminua as investidas e repito: eu não vou te pedir de novo. — eu digo e desligo. — Não precisava disso. — ela fala logo. — Eu sei que não. Agi por impulso. Ele me irrita. Esse garoto não me desce. Pra que tanta ligação? Realmente achei que tinha alguém morto, lá, que Deus me livre, mas porra!!! Não faça a louca, sabe que na primeira oportunidade ele te ataca. Sou homem, sei do que tô falando. Homem sempre sabe! — Ciumento!!! — ela ri. — Só fico tranquila porque sei que ele te conhece e não vai se afastar de mim por isso. — fico puto e ela ri enquanto lavava os cabelos. — Olha aqui. Foi só eu virar uma diarista que meus amigos de verdade desapareceram. Durante esse tempo todo você e Allana foram minhas únicas companhias. Só tenho vocês, amigo mesmo só ele. Júnior não dá em cima de mim, não me desrespeita, e não gosta de mim como você pensa. Não tente empacar isso. Gosto de falar com ele de vez em quando! — Tudo bem. Então quando falar de novo diga que eu... eu... — eu tento e ela ri da minha dificuldade. —... eu peço desculpas pela grosseria, que exagerei porque estava nervoso com tantas ligações, que basta ele ligar uma vez e quando você puder, você retorna, de preferência longe de mim, e que você é minha! — Falarei. — ela ri. — É bom falar. — resmungo e me viro para sair do cubículo. — Fanfarrão, pirralho abusado! Saio, ouço ela rir de novo, e fico ainda mais puto. — Eita que o cinema “foi tão bom” que ela dormiu no meio do filme. — Lara sussurra, coloco Allana na cama agarrada com sua nova boneca que a protetora de seus pesadelos e ainda tinha o cheirinho da pequena “número dois”.


— Ela estava exausta. — Estava sim. E você? — ela me agarra ainda no quarto de Allana e eu a levo pra fora. — Está cansado??? — São onze da noite de um sábado turbulento, incrível e cheio de emoções. Acha mesmo que eu estou cansado??? — Bom, definitivamente eu acho. — Eu estou cansado sim, para muitas coisas, menos pra você. Vou tomar um banho, e te encontro na sala com algo bem gostoso pra gente beliscar e com o melhor vinho que tiver. Tem pique para cozinhar pra mim ainda hoje? — Sempre!!! Pra você, sempre! Beijo sua boca chupando forte, aperto todo seu corpo no meu, corro pro banho quando noto que estava prestes a despi-la no corredor, e quando chego na sala sinto um cheiro maravilhoso. — Você falou só em ‘beliscar com algum vinho’, então peguei o tinto mais antigo e para combinar perfeitamente, uma tábua de frios e filés grelhados e bem cortadinhos. Tudo na porcelana que eu provavelmente não deveria usar. — ela diz após pular em meu colo. A mesa de centro virou mesa de um banquete romântico demais. — Minha barriga está roncando, deve estar maravilhoso. Agora eu quero que você vá colocar uma roupa mais confortável. Vá tirar essa bendita calça jeans pra gente comer. Fiquei até impressionado por não ter colocado vestido. — eu falo e ela ri. — Hoje fez frio. — Vai lá. Se não tiver nada na bolsa, uma camiseta minha já servirá. — eu peço e ela obedece; coloco uma música baixinha, baixo a intensidade das luzes do espaço, coloco o presente que comprei enquanto ela levava Allana no banheiro após a gente lanchar, no espaço vazio da mesa, e espero ansioso. Quando retorna descendo as escadas como se estivesse em câmera lenta, eu fico duro no ato. Vestia um vestidinho creio eu que de seda, na cor vinho. Suas alças eram finas, e uma tombava para o lado em rebeldia, deixando seu colo em evidência. Sua pele morena brilhava. Pela demora tomou um banho rápido para descer, e tive certeza quando ela parou em minha frente e eu inalei “sem querer” o cheiro de seu hidrante. Ela estava deliciosamente gostosa e sabia disso. — Você está linda! — eu digo e ela gosta do que ouve. Pego em suas mãos com carinho e me lembro do primeiro dia em que a vi aqui, de quatro... — Me lembro da cor do esmalte que estava usando quando nos vimos. — eu digo e ela fica sem graça. — Qual era? — Era transparente. Transparente com as pontas brancas. — Francesinha... — Deve ser. — sorrio fitando suas lindas garras na cor vermelha. Garras essas que faziam um estrago em minhas costas, e eu só sentia quando a adrenalina baixava. — Qual o plano pra essa noite? — ela pergunta passando os braços em volta do meu pescoço. — Não fiz muitos planos. Por agora tenho algo pra te dar. Um presente. Pego a embalagem, colo em suas mãos e ela abre o estojo felpudo com expectativa. Uma correntinha simples com um pingente de diamante a fez travar. Uma joia delicada para outra joia delicada. — É linda!!!


— E olha bem... esse aqui sou eu — faço ela virar e coloco o colar em seu pescoço. — pendurando uma coleira cara no teu pescoço. — resmungo e ela ri. — Poderia ter calado a boquinha só pra permanecer com a impressão de gato romântico que eu estava desenhando aqui na minha cabeça, não é!? Mas tinha que estragar tudo... — ela ri de novo. — Garanto que serei daqui pra frente, mas essa oportunidade eu não podia perder. — rimos juntos. — Estou te prendendo a mim, e tu vai ter que aceitar isso. — É uma espécie de compromisso, então? — Sim, cachorra! Quer dizer que você é minha! — sussurro em sua boca e ela permanece rindo. — Quer dizer que nesse corpo ninguém toca. — eu falo, ela beija minha boca ‘já querendo’, e eu me afasto. — Vamos comer, deixa eu te servir porque agora estou romântico. — Nunca. — ela diz de repente e eu não entendo. — Isso é comigo. Lara diz, passa por mim, sorrio jogando as almofadas do sofá no tapete, e me sento tranquilamente enquanto ela prepara um prato pequeno — de quatro pra me matar do coração. — e nos serve de vinho. — O que sente por mim? — ela pergunta de repente sorrindo. Ao invés de responder fico apenas fitando sua boca delicadamente entornar um gole lento do vinho. Todos os seus movimentos pareciam ensaiados para me seduzir. — Tesão, carinho, gratidão... sinto uma vontade de te pegar no colo, te proteger, te foder até pedir arrego, uns tapas quando me irrita... — bebo um gole do vinho e reflito. — sinto vontade de rasgar esse vestido, e todos os outros, até você sentir vontade de usar só comigo, só pra mim... eu sinto muita coisa por você. — eu falo e ela sorri. — Já eu... — Você me ama. — eu poupo seu trabalho. — Eu não ia dizer isso. — Não ia, mas é a verdade. Você me ama e quer uma vida comigo. Quer meu sobrenome, quer a minha filha, uma conta conjunta, e uma coleira de ouro no dedo anelar esquerdo. — eu solto e ela sobe em meu colo. — E isso é ruim? — Não. Isso é magnífico. Está tudo em seu alcance. Basta tentar mais, não desistir e principalmente: ter paciência. Sabe o que fazer se quiser ser minha mulher!!! — Me submeter a tudo o que você quiser...!? — Tornar Fernanda apenas uma lembrança boa. — eu falo e ela fica surpresa. Não esperava ouvir aquilo de mim. — Acho que não sei se serei capaz disso. — Por que? — Talvez você ache que não, mas ainda tem uma barreira aí. Continua intacta. Forte. Ela significa muito e eu cheguei agora, nunca vai esquecê-la, não sou boba, sei que isso nunca vai acontecer. — Te fiz promessas. — Promessas que não cumprirá. — Vamos mudar de assunto. — eu digo antes da gente discutir e ela sorri concordando. — Quer falar sobre o quê? — ela pergunta, a faço sentar no espaço entre minhas pernas, e tenho livre acesso ao seu pescoço para depositar beijos, sussurrar, e fazer o que eu quiser.


— Sobre a vida. Me fale de sua vida! — Não tenho muito que dizer, você já sabe quase tudo sobre mim. — Quantos namorados já teve? — pergunto inalando o perfume de seus cabelos. — Bastante. — ela ri e eu fico pasmo. — Sempre fui “moça namoradeira”... mas nunca tive sorte. Minha mãe vive dizendo isso, sempre me interessava por aqueles que andavam fora da linha do bom senso... — Será que foi por isso que se interessou por outro “problema”? — sorrio. — Provavelmente. Mas já estou acostumada. Serão todos assim, daqui pra frente, e aceitei isso. É o meu destino, sempre foi. — Daqui pra frente? — Sei que você não será o último. — ela afirma me olhando nos olhos e eu vejo que falava sério. — Que história é essa??? — Não vamos durar mais tempo do que eu gostaria. Eu sei que não. — Cale a boca! — Confesse. — Tem razão. Se continuar falando essas coisas, provavelmente não vamos durar mesmo. — Me mostra o ateliê dela. — ela diz após dois minutos me encarando enquanto eu segurava minha chateação para mim. — Quer provas? Provas de que gosto de você, que te desejo? É isso? — Não. Esqueça o que pedi. — Não tem nada lá que seja importante você ver, Lara. Só algumas telas, tintas, pincéis, e materiais de reciclagem. — Então por que me negar isso? — Porque essa noite planejei inteirinha pra te curtir, pra ficar com você e só pensar em você. Em mais ninguém. Tenho um script pronto, e em nenhum dos tópicos envolve a ação de reviver o meu passado sombrio ou te chatear. Só planejei amor pra nós dois hoje. Só coisas boas!!! — digo baixinho e avanço com a mão na parte interna de sua coxa, na cara de pau. — Me ajuda. Não vamos brigar, não. Não quero falar sobre nada que não seja sobre você, sobre como você é gostosa, sobre o quanto piro quando te toco... — digo isso quando toco sua intimidade ainda por cima da calcinha com o polegar. — Você fala essas bobagens porque não tem noção do quão bem me faz. Do quão importante já é pra mim. — Quero ver mesmo assim. — ela geme com a voz desregulada enquanto a estimulava, sem ainda tocá-la totalmente. — Então faremos como você faz com Allana. — eu bufo estressado e encho a minha taça de vinho. — Você vai acabar com o que restou da minha sanidade, mas eu vou te levar junto. — eu falo e ela sorri animada em expectativa. — Como faremos? — Primeiro: assim que sair de lá de dentro, vai encerrar esse assunto de uma vez por todas. Vai esquecer e nunca mais me fazer reviver, principalmente em horas impróprias como essa. Mas, tenho a minha condição para permitir: Se me fizer gozar, em menos de quatro minutos, sem me tocar. Sem me estimular com as mãos ou com qualquer parte do corpo. Mas se não conseguir, não vou deixar, vai aceitar, e me deixar fazer o que eu quiser contigo e além disso, não mais tocará no assunto. — Não pode nem ser daquele jeito que você gosta? — ela sobe em meu colo e começa a rebolar


ignorando meu zíper fechado. Amou quando viu que eu já estava duro. — N-não. Assim, não. Para. — eu suspiro e ela sorri. — Mas eu só não posso esfregar a minha boceta, e nem a mão. De resto posso tocar em qualquer parte do seu corpo... — Sim, pode, mas sem me estimular, nunca vai me fazer gozar. Sei me controlar. — E o que acontece se você implorar por mim? O que acontece se você implorar e eu cair na tua? — Não farei isso. — Mas e se fizer? — Isso quer dizer que eu perco e você ganha. Não posso gozar muito menos voltar atrás. — Certo. Deita. — ela manda de uma vez, se levanta, e quando eu me ajeito, fica de quatro e vem de ré como se fôssemos fazer um delicioso meia-nove. Meu pau pulsa forte ao olhar para aquele bumbum aberto na lingerie fio-dental. Controle-se, Vicente. Controle-se. Penso. Fecho os olhos, e quando os abro, vejo sua intimidade próxima da minha boca. Umedeço os lábios, mas a diaba não senta. Começa a alisar minhas coxas e só permanece exibindo o traseiro pra mim. Meu pau pede socorro. De novo ela levanta e com o bumbum empinado, tira a calcinha, se vira, e de joelhos, sem soltar o peso em mim, se estimula me olhando nos olhos. — Vince... — ela sorri gemendo. — Vem cá, princesa. — canso de vê-la sentir prazer sozinha e puxo seu quadril. Chupar a boceta que me pertencia estava dentro das regras. Chupo forte, passo a língua no ponto e na velocidade certa, e quando ela rebola daquele jeito, na mesma hora, sinto a quentura. Foi rápido, eu ia perder, e ia gozar sem que ela colocasse a mão em mim. Seu rebolado, seus gemidos de puta safada, e sua boceta molhada na minha boca, me tiraram a razão e fizeram eu me esquecer daquela aposta ridícula. Eu fodia a filha da puta com a língua e nunca antes me senti tão libertino. Eu ia gozar “a esmo”. Porra. Não ia mesmo. — Senta! — ordeno e minha voz sai abafada, mas sei que ela ouviu. Apenas me ignorou e continuou rebolando, pois estava quase lá. Descontrolada. — Senta!!! — agarro forte suas duas coxas para afastá-la, ela arruma forças de algum lugar, levanta meus dois braços pra cima para continuar rebolando em mim e claro, ganhar a aposta, e eu fico puto aquilo. — MANDEI SENTAR, PORRA!!! — grito quando consigo me levantar, deito em cima dela, e a invado com vontade, de uma vez. Eu tinha um fogo indescritível dentro de mim e notei que ela também quando gemeu e facilmente me deu passagem. Ali havia caído por terra qualquer brincadeirinha. Eu queria possuí-la, pois era meu direito, era meu corpo, era a minha garota. — Mandei sentar. Quando eu mandar, obedeça. Obedeça!!! — rosno e ela choraminga. — Desculpa, não me controlei, não consigo me controlar contigo. — ele geme fogosa. — Não para!!! Isso!!! Ah, Vince! — Gosta disso, não é!? Vadia! — exclamo puto sem saber bem o porquê, acerto um tapa forte em


sua bunda, e enfio minha língua em sua boca. — Ah!!!! — ela geme em tom agudo e minha vontade é de dar na sua cara. A força com que estocava, me presenteava com a imagem de seus seios pulando loucamente e eu não sei bem o que senti a seguir. Eu não era só tesão puro, eu era... eu era dela totalmente. Completamente. Sei que parece loucura, mas vê-la ali, para mim, me recebendo duramente... pela primeira vez me fez ver Lara como uma garota vulnerável, se é que isso fazia sentido. Eu precisava protegê-la, proteger aquele corpo, e garantir que só eu tivesse acesso, só eu entrasse ali. Porque mesmo entregue, mesmo arreganhada, mesmo tão safada, mesmo gostando muito da coisa, e gemendo loucamente por mim, Lara era minha e podia facilmente se esquecer daquilo. Acabar deixando-se ser seduzida se eu não tomasse conta e cuidasse direito. — Que delícia de foda! Soca tudo, gostoso... ah! Vince, vou gozar! — Não sem mim. — rosno, foco somente no meu vai-e-vem gostoso, e quando a quentura chega, deixo sair. Gozo fácil dentro da MINHA bocetinha rosada, e meto com força até sentir que não restou gota nenhuma. As últimas estocadas são sempre selvagens e ela ama. Lara era o mais puro pecado. — Porra. Olha o que você faz comigo. Você me deixa maluco. Me deixa completamente maluco. — Você me bateu. — ela sussurra olhando em meus olhos e tentando controlar a respiração. — Tá falando sério? — Tô. Está doendo minha bunda. — ela faz manha e eu sorrio. — Perdão, vida. Devia ter falado na hora. Não me controlei. Não faço mais, prometo! — Faz sim. Faz sim porque gostei. — ela geme no meu ouvido. — Nunca em toda minha vida senti tanto prazer. Você é uma delícia. Meu macho gostoso! Quero mais, quero parar só de manhã, vai me foder até cansar... — ela diz com uma cara de safada, aperto sua intimidade como gosto, mas logo vejo seu sorriso desaparecer. — Mas, por agora, vou cobrar minha dívida. Ela diz, escapa dos meus braços, engatinha de bunda arrebitada para me provocar, e meu pau lateja ao ver sua boceta toda vermelhinha e com meu líquido vazando. Diaba!!! — Ah! Não. Agora não. Pode cobrar isso depois. Vamos ficar juntos, aqui, o ateliê não sairá do lugar! — Mas... — ela faz bico e logo para quando se assusta com minha carranca. — Fica aqui comigo. Deixa pra fazer isso quando eu não tiver, eu te dou a chave. Só fique aqui comigo. — eu peço e ela volta para meus braços. — Como você consegue não pensar apenas em nós, depois do que houve? Eu só quero olhar pra você, só pensar em você. — Desculpa. Eu só estou curiosa. — Vai ver que não vai encontrar nada de fabuloso. Vem cá... já quero mais de ti!!! — Quero mais promessas. — ela sussurra e eu sorrio. — O que você quer mais, menina??? Te darei tudo e qualquer coisa. Já disse que te darei o mundo. — Quero que se livre disso. — ela diz apontando para a minha aliança. — Você quer muita coisa... — Se livre disso. Por mim... — ela implora tocando o anel em meu dedo, eu tiro me sentindo péssimo, e depois me olha com uma carinha de depravada. — Viu? Não doeu nada. — Você é minha ruína.


— Tinha dito benção... o que mudou? — Não deixa de ter um pouco dos dois. Você me salvou. — eu sussurro e ela me dá um cheiro, toda manhosa. — Acabou com a minha vida, e com meu equilíbrio, quando ficou de quatro em minha sala. Entrou em minha casa tomando conta da minha vida, das minhas coisas, se intrometendo em tudo, salvando minha filha das garras daquela vadia. Parece o plano perfeito pra me seduzir. — Não foi nenhum plano. — Eu sei. — eu digo invadindo sua boceta com a mão. — Não foi um plano, foi feitiçaria. — mexo os dedos em um vai-e-vem bem devagarinho, suas pernas se abrem automaticamente, e eu entro em combustão quando ela pede com todas as letras para invadi-la sem dó e foi assim até de manhã. Era 8:30hrs da manhã quando me levantei e após uma ida ao banheiro, fitei hipnotizado, a diaba deitada de lado, com a perna esquerda apoiada em um aglomerado de lençol, e a intimidade aveludada marcada pela calcinha que usava ontem a noite, exposta... tesão... Inspiro seu cheiro como um cachorro, meu aroma favorito era o dela. Faço um carinho com o dedo, depois com a língua, e me sinto ainda mais possessivo quando ela desperta sorrindo, mas se mantém calada e passiva quando nota que eu a fodia deliciosamente, de ladinho. Como parar de querer comer essa garota??? — As duas bonecas já arrumaram tudo? — pergunto ao tomar café. Allana permanecia com seu sono de domingo e Lara descascava laranjas, escorada na pia, para chupar e me provocar. — A Lara já fez a minha, mas só colocou roupa que eu não uso. — Separe o que quiser usar e a gente troca. Está insatisfeita porque só coloquei calça e blusa. Está frio lá. Não conseguirá usar shorts a não ser para dormir. — Lara diz e Allana dá de ombros. — Posso levar pelo menos meu tênis florido??? — Pode. Se estiver muito frio, pode usar com meia-calça. Ela dá a autorização, Allana corre separar o tênis com obediência, e abstraio agoniado. Sua aproximação me deixava assustado. Feliz, mas confuso. — Vou dar uma saída. Volto logo. — limpo a boca e me levanto. — Fica de olho nela pra mim? — Claro. — ela resmunga calmamente enquanto sugava sua laranja. Escoro a lombar na mesa de repente perdendo a pressa, tento olhar para a parede, mas não dou conta. Fico olhando ela sugar a laranja parecendo se delíciar e se divertindo com minha atenção. — Vou lá ver o que mais ela vai enfiar na mala e arrumar tudo. E já, já vou com ela até minha casa para arrumar as minhas coisas. Preciso ver se eu tenho roupa, só tenho vestidos. Vou e volto de táxi. — ela diz jogando fora sua bagunça, limpando a pia, passa por mim no espaço apertado entre a mesa onde eu estava escorado e o armário, e esfrega o bumbum em meu volume de propósito. — Ah! A chave... — ela diz já na porta da cozinha. — Chave? — Do ateliê. — Lara... — Você prometeu. Quero a chave. — Você anda querendo muito e tudo de uma vez. — eu resmungo, coloco a chave no armário, ela pega, e me beija de olhos abertos, me fitando. — E espero que saiba que eu vi que colocou a aliança de volta. — ela sussurra baixo. Eu nem me


toquei que coloquei de volta antes de subir pro quarto. — Eu não sou sua amante, então vou esperar você se sentir pronto para ficar sem ela. Retirei no calor do momento, realizei um sonho quando ficamos juntos e eu não senti o gelo dela em minhas costas. Era só você, suas mãos só me aqueceram. — Me perdoa. — Eu vou pensar... te dou o dia de hoje, mas passará rápido. — ela brinca e eu não gosto nada, nada... — Não vou falar nada pra você. — resmungo, pego minhas chaves e saio. Fico bravo com sua brincadeira, mas levo muito a sério. Eu sabia o que ela queria, e sabia que não ia durar por muito tempo. Paciência sei que Lara nunca teve, já quis tudo de mim logo de cara, mas eu precisava entender o que eu estava sentindo, precisava destravar algo em mim que eu sabia que ainda estava lá dentro. Eu estava louco por ela, mas... ainda existia a Fernanda ali. Pego o telefone antes de começar a dirigir e o mané atende depois de quatro toques. — Eu não fiz nada, estou quietinho olhando para a TV na minha casa, largado no sofá, e longe do celular sem... — Cale a boca pelo amor de Deus. Preciso falar com você e tem que ser pessoalmente. Tua mãe está em casa? — Foi dar uma volta com meu pai na feira. Não quero confusão, cara! Eu não tenho nada, absolutamente nada com a Lara. — Não tem mesmo. Não tem e nunca terá. É muito bom que saiba disso. Mas o assunto dessa vez, sou eu. Tenho uma proposta. — Proposta? — Vamos falar sobre seu TCC. Estou a caminho. — Tá de brincadeira!!! — Eu não gosto de brincadeira. Não tenho senso de humor. — Certo. Meu Deus. Ok. Te espero aqui!!! — ele fica animado e eu reviro os olhos. — Pra começar, retire esse sorrisinho da cara. Digo a Júnior quando entro em sua casa e ele me recebe com aquela animação irritante. — Bom, fique a vontade. — ele resmunga sem graça apontando pro sofá. — Como eu disse, estou disposto a ser seu rato de laboratório. Eu te ajudo com seu TCC e você dá um jeito na minha cabeça. — Começamos errado. Sou incapaz de dar um jeito na tua cabeça. Não encontrará psicólogo capaz. Só você pode melhorar. — Então por que deveria contratar um psicólogo se eu mesmo posso resolver? — Bom... — ele ergue uma sobrancelha. — Você está conseguindo sozinho? É isso o que vou fazer: te mostrar o leque de caminhos que você pode percorrer. Te acender uma luz. O resto é contigo. — Na tradução livre, me enlouquecer ainda mais e teoricamente ganhar dinheiro com meus problemas. — Vou te aconselhar psicologicamente, Vicente. Apenas isso. Quero ser psicólogo não o “cara dos milagres”. — ele diz, reviro os olhos de novo e ele sorri. — Vamos conversar. Tudo bem? A gente bate um papo, e pronto. — Essa conversa tem que ser particular. Não vai falar nada pra Lara. Não vai dividir com ela


nada do que eu disser. — É anti-ético fazer isso. Mas vou gravar pra levar pra faculdade. Precisarei fazer isso. Meu professor vai ouvir nossas conversas para me avaliar! — Tudo bem. — Certo. — ele resmunga parecendo perdido, liga um gravador antiquado no meio do que parecia ser seu material de estudo na mesinha de centro da sala bem organizada de Tia e se senta munido de uma caneta e um caderno. — Que tal começar dizendo sobre o porquê me procurou? Eu deveria começar te ouvindo sobre o que você achasse mais urgente, sobre o que você quisesse, mas, estou realmente curioso. — ele diz, eu me sento no sofá e ele aguarda pacientemente eu começar a falar. — Lara está ganhando um espaço perigoso na minha vida. Vim porque fiquei com medo ao ver o quanto Allana confia nela. Já tem um tempo que as duas criaram laços, vínculos, entende? Mas acho que hoje notei o quão sério está. — eu paro pra respirar. — Allana é uma garota muito desobediente, sempre foi, mas Lara está colocando-a na linha. Para ser mais claro, Lara está educando minha filha. Allana teve uma crise quando Tia voltou, não quer que Lara se afaste, está apegada... tenho medo disso. Lara chegou e imediatamente quis fazer parte da família e conseguiu, tanto que não consigo mais me imaginar sem ela. E isso me preocupa. Eu confesso, ele para pra escrever alguma coisa e começa a falar depois de alguns segundos após ter certeza que eu já não diria mais nada. — Lara então, faz bem a você!? Ela faz bem a tua filha... — confirmo e ele entende. — Por que isso te preocupa? — Você podia me dizer. Sou um homem solteiro com uma filha que precisa de uma mãe... não entendo o porquê isso me preocupa. — Allana precisa de uma mãe? O que o faz pensar isso? — ele pergunta e escreve. — Acho que todo mundo precisa. Ela é uma menina. Tem assuntos que deveria ter com uma mãe, precisa de carinho de mãe, eu não sei. — Ela alguma vez te mostrou essa necessidade, mesmo que falando indiretamente? — Não. Acho que não. — Já te questionou talvez, entristecida!? Já falou da mãe com pesar? — Não. Sempre pergunta sobre coisas a respeito dela, mas nunca foi com tristeza. — E mesmo assim você sente a necessidade de uma figura materna pra ela!? — Não sei. — Como você é com sua mãe? Seu relacionamento com ela? — Eu amo minha mãe, ela apenas mora fora. Sinto falta, claro, mas temos um relacionamento saudável. Eu não sinto falta dela, não tenho nada a ver com esse sentimento. Acho que... acho que me sinto culpado. — Pelo o quê? — Por não ter conseguido dar á Allana uma figura materna. Não sei se somente meu amor é o suficiente. — Bom, Lara faz bem a vocês dois e você, me baseando no que disse, acha que Lara pode fazer bem esse “papel”. O que você acha que impede o fato em si, de acontecer realmente? — Eu não sei. — O que você acha que sente por ela?


— Não sei o que é, só sei que é forte. Só tenho um sentimento que posso dizer com clareza e certeza. Posse. — eu digo e ele quase desmancha a fuça de profissional. — Não sei se a amo, se estou apaixonado, mas sei que independente de qualquer coisa, ela me pertence. Lara é minha. — Por que acha que tem Lara sobe seu domínio? — Por que ela me ama. Seus sentimentos são claros. — E acha que amor é o tipo de sentimento que prende a pessoa a você? — Sim, acho. — Então está me dizendo que Lara é sua só porque te ama? — Estou. — Quanto tempo acha que seu amor pode durar? Acha que ela vai te amar pra sempre? — ele diz parecendo chateado. — Sua pergunta não me parece apropriada. — eu digo e ele solta a caneta e o papel. — Lara não é um objeto. Nenhuma mulher é. — Lara é minha. — Lara é livre. Principalmente por não ter nenhum compromisso com você, só pra começar. — Lara é minha. Pode não demonstrar isso pra você, mas quando está comigo, deixa claro. E ela gosta de ser minha. — Ela gosta de ser sua, de pertencer a alguém, ou simplesmente gosta de você? — Um pouco de tudo, eu acho. — Você fala disso com muita certeza. — ele diz e eu concordo prontamente. — Então por que acha que ainda não a pediu em namoro? Por que ainda usa sua aliança de casado? — Me conhece muito bem, sabe sobre meus motivos. — Saber e entender são coisas completamente diferentes. Não estou aqui pra dizer o que acho, preciso entender seus motivos para te aconselhar psicologicamente. Qual seu real estado civil? — Sou viúvo. — Por que ainda usa sua aliança de casamento? — Porque ainda penso em minha esposa. Ainda me sinto casado. — E não acha que esse fato é um indicio de que você é um homem “compromissado” e Lara uma mulher livre? Sem amarras? — Lara é minha. — repito simplesmente e sorrio quando ele fica possesso e sente a necessidade de respirar fundo. — Realmente acredita no contrário? — Sei dos sentimentos da minha amiga, quero saber dos seus. — Então concorda quando digo que ela me pertence. — Acredito que provisoriamente, Lara “se sente” sua companheira, sim... — ele concorda. — Provisoriamente? — eu pergunto tentando não demonstrar irritação e ele desliga o gravador. — Eu não posso te ajudar e vou dizer o porquê: Não posso te ajudar, Vicente, porque estou emocionalmente envolvido em seus problemas. Como minha mãe diz, você é quase um “irmão mais velho”, o filho mais velho dela, o favorito. E Lara é minha amiga. Odeio a forma como fala dela. — Você a deseja. — Não. Nunca desejei. — Deseja sim, eu sei que sim. E também acha que eu não a mereço. — Com isso eu concordo. Lara merece mais. — Eu dou tudo a ela!


— Tudo o quê? — Tudo de mim. — Então por que ainda usa essa aliança? — Essa aliança é só um objeto!!! — Então por que não guarda? Por que ainda a usa? — Porque ainda amo minha esposa. — Então não dá tudo de você a Lara. Você dá metade. Metade de você permanece na vida que vivia quando Fernanda era viva. — Eu dou tudo de mim quando estamos juntos. É o que importa. — Importa pra quem? Lara leva isso “numa boa”? — Você não entende. Nunca vai entender. Ama a minha mulher e a deseja, por isso me julga!!! — Eu não amo sua mulher, na verdade nunca a conheci. — Sabe que é a da Lara que eu tô falando! — Lara não é tua. Não ainda. — Onde fica o ponto da conversa onde você me ajuda a entender o porquê que ela “ainda não é minha”??? — Você mesmo já disse. Você ama outra. Uma mulher morta, mas ama. — Você será um péssimo psicólogo. — eu digo me levantando pra ir embora. — E você vai perder a Lara por não conseguir enterrar o passado. E sabe em qual ombro ela vai chorar, não é? — E é só isso que vai dar a ela. Só o ombro. — Será? — Não me provoque. Você não pode comigo. É de mim que a Lara gosta e você sabe bem disso. — Eu sei, mas até quando? Mulher nenhuma suporta o que ela vem suportando por você. Ela cuida da vida que você vivia com a outra, e não só da sua. Ela passa as roupas que Fernanda comprou, lava as louças que Fernanda amava, limpa os móveis que Fernanda escolheu... — Ela não trabalha mais pra mim. — Mas todo dia tem que olhar para aquelas coisas, para o que elas significam, como por exemplo, essa aliança no seu dedo. — Lara sabe da importância que tem pra mim. — Lara sabe o quão pouco significa pra você. — Isso é mentira! — Então será fácil tirar essa aliança e se desfazer do passado antes que ela desista de sofrer por sua causa. Antes que ela acabe com o próprio futuro por cuidar de você enquanto Nanda é quem ocupa seus pensamentos quando ela vira pro lado e dorme. — Você não sabe de nada, moleque! — É comigo que ela desabafa quando fica triste com você! Eu sei de tudo o que ela sente. — ele resmunga e eu decido ir embora pra não socar sua boca. — Aproveite enquanto ela ainda pensa que você a amará um dia. — Você está usando de psicologia reversa ou só me odeia? — Psicologia reversa. Não tenho nada contra você. — ele enfim sorri. — Eu gosto muito dela, muito mesmo. — fico mal. Parecia que o fôlego me escapava. — Eu sei. O que você precisa entender é que Nanda não tomará parte nisso. Nanda foi um


sentimento bom pra você que você não precisa matar. Você precisa entender que Nanda permanecerá importante mesmo ao amar outra mulher. Você tem medo. Não precisa se livrar de um sentimento para ter outro. Você pode continuar com esse sentimento bom pela mulher que fez de você o homem mais feliz do mundo e ainda sim, pertencer a outra. Uma outra mulher que fará de você, também, o homem mais feliz que poderia ser. Provavelmente mais do que antes, posso apostar. E seja lá onde Fernanda estiver, pelo pouco que ouvi falar, ela também será a mulher mais feliz do mundo por ver o homem que tanto amou e sua filha, sendo tão bem cuidados e amados por um anjo como a Lara. — Você será um péssimo psicólogo. Já não disse? — E você um solteirão rabugento rodeado de gatos. — Vai pensando! — eu digo, ele ri, e eu saio pensativo. Quando me sento na direção, respiro fundo, e dou risada. Nunca vi “psicólogo” mais inútil. Jogo a aliança no porta-luvas, dirijo pra casa e quando entro encontro o rádio alto de Allana que aparentemente estava no quarto, e a porta do ateliê entreaberta. Entro de vagar e me sinto péssimo ao vê-la sentada no sofá branco, o único móvel sem respingo de tinta que havia ali dentro. Ao seu lado, no sofá, estava uma casinha de bonecas em MDF ainda não finalizada que Nanda pretendia montar antes de ganhar Allana. A casinha também serviria de objeto decorativo. Sem contar as suas pinturas que permaneciam nos suportes, algumas não terminadas, outra que ficaram “para secar”... tintas, pincéis, decoração em artesanato. Tudo o que ela amava. Lara estava péssima, mas ao notar minha presença, esboçou um sorriso fraco. — E então!? — me sento ao seu lado. — Valeu ter entrado aqui? — Valeu. Posso ver com quem estou competindo... ela era muito talentosa, uma artista brilhante. — Era sim. — puxo a tristonha pro meu colo. — Deu pra entender o porquê ainda a ama tanto. — É!? —abaixo uma alça de seu vestido forrado e ela me olha nos olhos. — Onde esteve? — Você não iria acreditar se eu te contasse... — sorrio enquanto toco sua intimidade sem pedir permissão. — Vamos pro quarto. O que está fazendo? — Tentando te fazer feliz. — Aqui? — É só um ateliê, Lara. É só um cômodo da casa. — Até algumas semanas era uma área restrita. — Até algumas semanas você significava bem pouco. — Significo o que, agora? — Tudo. — Então vai trepar comigo no lugar favorito dela? — Vou amar você onde um dia, a amei. Nesse mesmo sofá. No meio dessas tintas. Vou amar Nanda pra sempre, mas agora tenho você. Primeiro vou te amar aqui, e depois me livrar dessa casa. Não vou desrespeitá-la, nem desonrar sua memória. Nanda me amava então vai amar me ver feliz depois de tanto tempo jogando minha vida fora, sem viver nada. A não ser que você não queira. — Um milagre aconteceu.


— Sim. Meu medo de te perder ultrapassou todos os outros sentimentos. Você nunca vai me deixar, eu não vou permitir. — Onde você foi, Vicente? — Fui me consultar com o péssimo-futuro-psicólogo, Júnior. — ela ri. — Ele é péssimo??? — Muito. — falo ainda estimulando o ponto mágico de sua boceta e molhando cada vez mais o meu polegar. — Então por que você está sem aliança e querendo se desfazer do passado, logo na primeira sessão??? Ele me parece um ótimo psicólogo. Ela diz e a frase “se desfazer do passado” me chama atenção. — Falou com ele? — Falei. — Vou ter que te que manter em cárcere privado e sem comunicação, pra se afastar desse cara? — Já disse pra não se preocupar com ele... — Você está conseguindo o que tanto quer. Ocupar exclusivamente, minha mente e meu coração. Você é minha. Se não se afastar dele, paro por aqui. Eu deixo você e não estou blefando. Não gosto da forma como ele fala insinuando que é mais importante do que eu na sua vida. Ele o melhor amigo, o ombro que você corre quando eu te faço sofrer, e eu apenas o cara que está te iludindo. Quero que esqueça que esse cara existe. Tirei minha aliança, vou te amar aqui, me mudar, oficializar esse relacionamento fodido, mas quero que faça novos amigos o quanto antes, ou eu deixarei você. — eu falo me sentindo péssimo por pedir aquilo, e ela confirma com a cabeça só pra me ver feliz. — Tudo bem. — Não adianta dizer só pra eu esquecer o assunto. Se eu souber que voltou a se confidenciar sobre nós com ele, levarei como uma traição. — Não vou mais fazer isso. Prometo! — Ótimo, agora sem gritar! Tá molhadinha, te deixei pronta, mas não é nessa boceta que eu vou socar com força. Você vai se tocar enquanto eu vou meter bem forte nesse traseiro. Quero mais de você, quero muito mais, quero o tudo. E se você quer mais de mim, vai ter que me dar mais do que o equivalente e eu vou cobrar caro! Vira!!!


CAPÍTULO 8

— Já deu esse traseiro para alguém? — N-não. — tento falar, mas só sai um resquício fino do que deveria ser a minha voz. — E essa boceta aqui? — Vicente estapeia minha intimidade como o ogro que era sempre que estávamos juntos. — Já deu ou fui o primeiro? — Já dei. Na época da escola. Mas... não foi como deveria ter sido. Só foi especial com você. — Mentirosa maldita! — dou risada. — Farei um carinho aqui. Assim será mais fácil para entrar aqui atrás. — ainda de ladinho no sofá, e com a perna direita levantada, Vince força minha entrada ainda virgem, e estimula meu grelinho com a ponta dos dois dedos do meio em uma velocidade impressionante. — Só relaxe senão vai doer! Relaxe. — Como eu vou relaxar com esses dedos? Vou gozar com você assim... — Goza, oras. Mas não força aqui, você está com medo e por isso está mais apertado do que deveria. Eu estou sentindo. Relaxe... Vince chupa meu pescoço, continua estimulando meu ponto ‘G’ como se tocasse uma música animada no violão, e eu vejo estrelas quando ele enfia a cabecinha em meu bumbum pequeno e apertado demais para o tamanho de sua vara. — Ah! Vince, pare um pouco. — Se eu parar, vai doer mais pra retomar. Para de choramingar, geme pra mim, eu terei cuidado. — ele diz e força mais um pouco. — Ah!!! — ele suspira ao me sentir apertadinha e lágrimas brotam dos meus olhos ao sentir a dor dos infernos. Mas isso não dura muito. Um prazer imensurável toma conta do pé de minha barriga quando ele enfia mais um pouco. Desculpe-me usar um exemplo tão chafurdo e nada romântico, mas... sabe quando estamos apertados para ir ao banheiro e quando vai, sente aquele prazer ao ponto de suspirar? Era isso somado ao triplo o que eu passei a sentir. — Olha como é deliciosa. Que traseiro!!! — ele sussurra em meu ouvido, segura minha perna direita, e eu passo a me tocar sozinha só porque ele parou. — Fala pra mim, de quem é esse traseiro! De quem é essa boceta suculenta??? — São seus. Meu corpo é todo seu, sabe disso. Ah! Por favor, Vince! Não pare! Mete com mais força!!! Eu imploro miando e chorando, ele me coloca sentada em seu colo, e me faz pular de pernas arreganhadas, gemendo pra mim como um animal, me fazendo mais promessas, e sussurrando palavras sujas que nunca tinha dito antes. Vicente estava mais do que devasso. (...)


— Por que essa carinha? Tem medo? Ele questiona assim seguimos para primeira classe do avião que pousaria em Charles Gaulle, Paris. — Não. — minto. — Só me pergunto o que faremos durante onze horas, presos nesse trambolho. O que tem pra fazer? — pergunto e ele sorri maliciosamente. — Tem jogos, revistas, DVDs, rádio, internet, papel e caneta, livros... — ele fala, e quando vê que Allana cantarolava com seus fones de ouvidos e desmontava Maria Rosa extremamente entretida, passa a falar no meu ouvido. —... cortinas que separam nossas cabines e assentos que viram camas... acha que vim de primeira classe por capricho? Nem pensar. Vim de primeira classe porque esses bancos aqui suportam qualquer tranco e eu vou foder e chupar essa minha bocetinha daqui até Paris! Ele diz sussurrando bem baixinho e eu nego com a cabeça. — Você não cansa? É mesmo insaciável! — Já quer férias de mim? — ele faz um bico proposital e eu dou risada. — Quando é que aqui fica de noite??? — zombo e ele gargalha. — O que quis dizer quando falou a respeito de sua primeira vez na escola? — ele questiona e eu olho pra frente. — Foi um lance sem sentimento, robotizado... só pela curiosidade. Acho que fiz, mais porque todas as minhas amigas estavam fazendo. — E depois disso com mais ninguém? — Não quero falar sobre isso. Nem deveríamos estar falando disso aqui. Allana está ouvindo tudo. Só está disfarçando. — eu sorrio. — Ela vive no nosso pé. Não vemos por estar sempre... entretidos demais. Sua filha tem um interesse grande em você arrumar uma mulher, e gosta de mim. Eu falo, ele passa a encarar a filha, Allana sorri levemente encarando o celular, mas não nos encara de volta. — Pestinha! — ele exclama rindo. — Agora me diz você. O que realmente vai fazer nesse evento? Comemorar que contrato? Que projeto é? Eu falo e me assusto com o tranco que o avião dá. Nunca havia andado de avião e estava horrorizada!!! Nesse momento alguém diz algo como “as portas em automático”, ouço o tranco, e aperto forte o braço do sofá luxuoso. Estávamos em um espaço quase reservado com quatro poltronas, duas de frente pra outra, e uma mesa um tanto quanto alta no centro. Era incrível. — Está nervosa, princesa? — ele pergunta sorrindo ao fitar as minhas mãos. — Claro que não. Eu estou bem. — Você pode pegar em minha mão, se quiser. — Não. Eu estou bem. — eu falo, tento sorrir, e sinto seu olhar questionador em mim. — Não está bem. Está nervosa e com medo. Nem ao menos está tentando me agarrar, seu nervosismo está te deixando distante de mim. Ele fala com a voz apagadinha e ainda baixinho. Olho em seus olhos e depois ao redor, e avaliando minhas pernas cruzadas opostas a ele, entendo que ele tem razão. — Você está mudando. Antigamente me mataria por chegar tão perto de você. — Meu problema era a receptividade de minha filha. Agora Allana já sabe e nos apoiou, portanto pode chegar mais perto e pegar em minha mão. Vicente diz com a mão esquerda aberta e eu correspondo. Sorrio, ele entrelaça nossos dedos e


Allana resmunga um “Amém, Jesus”, ainda encarando o celular. O que nos faz rir. Rapidamente o avião começa a andar até certo ponto na pista, gira algumas vezes, e ainda lentamente, começa a “andar” em linha reta. A aeromoça nos manda afivelar os cintos, eu sinto meu coração bater mais forte, e Allana larga o telefone para me encarar dando risada. — É agora!!! — ela exclama e Vicente ri. — Pare, filha. — ele diz, puxa meu pescoço para olhar para ele, e sorri pra mim. — Se acalma, é muito seguro. — Não consigo respirar!!! — consigo dizer e sinto seu olhar apaixonado. — Consegue sim. Vem cá. — ele diz, me beija levemente nos lábios e eu me afasto quando sinto o avião perdendo o chão. — Isso não deveria estar acontecendo. Um trem pesado desses não deveria estar voando! Mas que coisa mais absurda!!! — eu digo choramingando e me acalmo quando ele me puxa pra si. Estava se acabando de tanto rir de mim. Ele e a bobona. — Para de rir!!! — Você é muito fofa! Não me aguento! Fofa e boba! — É eu sei que sou boba, mesmo. — falo fingindo estar emburrada e ele nega. — Vou morder esse bico. Desmancha isso! — Não. — Lara!!! — Morde! Morde e vai ver o que eu faço! — eu falo quando ele pega meu rosto com a mão. — Não duvide de mim. — ele sorri e eu fico a ponto de implorar pela mordida. Sorrio fitando sua boca e só acordo do transe quando a aeromoça autoriza a retirada do cinto. Nem consegui sentir mais medo. Vicente me deixou relaxada. — Senhor Vicente. Serviremos o jantar assim que o decidir a hora. Aqui estão os cardápios. Fiquem à vontade. — A aeromoça diz ao se aproximar e ele os entrega para mim e Allana. Simplesmente tinha de tudo. — Vamos ver se agradará a grande chefe de cozinha... — Futura-grande-chefe de cozinha! No momento, como até cachorro quente! Tô faminta. — Peça o que quiser, fique à vontade. — Vou lavar as mãos... onde fica o banheiro??? — Normalmente eles trazem panos úmidos, se preferir... — ele diz e eu seguro um riso alto. — Panos úmidos... tá! — ele ri. — Quero água de verdade!!! — No fim daquele corredorzinho, ali. — ele aponta. — Quer ajuda? Te levo lá. — Não, obrigada. — eu falo e ele faz um bico como eu fiz. Safado!!! Sigo pelo corredor, entro na portinha com placa indicativa, e me espanto com o tamanho. Lavo o rosto, me encaro no espelho, e me sinto feliz. Eu estava conseguindo conquistar aquele homem e agora precisava cumprir com o prometido e ficar sem pedir nada a Deus por um ano. E ainda ia conhecer com ele o país mais romântico do mundo. França. Eu estava nas nuvens. Continuo me fitando na frente do espelho que pegava do teto ao chão e gosto do que vejo. Vestia calça jeans, blusa regata justa, cinto, e os cabelos que ele adorava puxar: soltos. Finjo não me assustar quando o gostoso abre a porta e entra em silêncio. Sorrio ao vê-lo trancando a porta e nego com a cabeça.


— Estava aqui pensando... — resmungo ainda ajeitando as mexas onduladas do meu cabelo comprido e encosto meu bumbum em sua virilha quando ele me abraça. — Paris é tão romântica... — É. Muito romântica! O que tem isso? — Quero uma noite romântica. Vinho,velas, um jantar... — Já planejei tudo! — vejo seu reflexo sorrindo no espelho e me viro. — Planejou uma noite romântica pra gente? — Sim. — E Allana? — Meu amigo está nesse mesmo voo. Vai com a gente. Ele trabalha comigo, conhece Allana desde que nasceu e cuidará dela pra gente curtir a nossa última noite na cidade. — Quem é? Onde ele está? Nem me apresentou. — Quero você longe dos olhos dele. — Vergonha de mim? — Cuidado somente. Greg é um safado. Vai querer tirar você de mim, que eu sei. E vai ser muito fácil você fazer uma breve comparação quando vê-lo, e como já disse antes: não vou perder você. Nunca mais vou deixar você. — ele se explica e meu coração bate descompassado. — Duvido que eu tenha olhos para outro homem seja ele quem for. Duvido que ele seja mais gato e mais gostoso que você. — eu falo e ele ri. — Certeza que sou muito mais bonito e tudo o mais. — sorrimos juntos. — Só que ele ganha de mim em qualidades que não tem nada a ver com a aparência. — Tipo o quê? — Greg é um homem leve. Equilibrado. Ele é divertido, livre, e principalmente, não tem problema nenhum, a não ser a dificuldade de parar com uma mulher só, o que você rapidamente resolveria. Ele seria o parceiro ideal pra qualquer mulher e foi por isso que o coloquei em outra cabine, bem longe da nossa. — ele diz, me dá um selinho, e eu tento pescar se aquela insegurança era real. — Tá falando sério? Mesmo? Fez isso por insegurança? Não faz sentido. — Temos dois lugares vagos. O que mais seria? — Talvez não saiba como apresentar uma diarista para um amigo tão sofisticado. — eu falo e ele ri. — Greg é tudo, menos sofisticado. E eu não tenho vergonha de ti. Lá que eu vou poder te manter á metros quadrados de distância dele, posso te apresentar e fugir da aproximação, o que aqui eu não conseguiria. — Você é muito doido!!! — Por ter medo de perder você para um solteirão melhor que eu? — ele me senta na pia gigante e aperta minha intimidade ainda por cima da calça jeans. — Por se achar pouco! Eu não sou nada, não sou ninguém e você é tão bobo. Sou eu quem deveria ter esse medo de te ver perto de tantas mulheres bonitas. — Você é tudo. É linda, inteligente, amorosa, maravilhosa, talentosa... você é tudo o que eu preciso! — ele fala, beijo sua boca, e suspiro. — E o melhor, é muito gostosa e fode como ninguém. Como arriscar perder tudo isso??? Vai, abre essas pernas! Deixa eu te foder aqui. — Tira. — eu peço enquanto chupo sua língua, e ele obedece arreando minha calça até os calcanhares. Nem tiro as botas de canos curtos para não perder tempo. Logo ele mete a língua, me chupa todinha, e depois me fode de quatro, apoiada na pia. — Mais devagar. Vão ouvir a gente!!!


— Me viram entrar. Isso é mais comum do que você imagina. Não vão nos perturbar, não nesse banheiro! Sabem que eu entrei aqui para te comer. — Não acredito! — Fica calada. Só quero te ouvir se for para gemer bem alto pra esse avião inteiro ouvir como você fica quando eu te pego assim! Espera. — ele resmunga, arranca as minhas botas e minha calça, me pega no colo e fica de pé. — Rebole pra eu gozar nessa boceta gulosa!!! — ele ordena, contraio de excitação, ele sente o aperto e mete fundo me olhando nos olhos. Gemo alto, rebolo, e ele senta no vaso fechado. — Está sempre gozando dentro, faz questão de socar tudo... — gemo enquanto rebolo pra ele. Vicente estava com a cabeça jogada pra trás, quando eu rebolava daquele jeito ele perdia o rumo. —... nunca perguntou se eu tomo remédio. Eu digo, ele me encara estarrecido, parece pensar naquilo pela primeira vez e torço para que não surte e me tire de cima, eu estava quase lá. — Você toma, certo!? — Não. — nego com a cabeça. — Nunca precisei, eu era solteira, não tinha uma vida sexual tão ativa como agora. — Não está se cuidando comigo? — ele questiona e eu balanço a cabeça, digo a verdade. Não estava mesmo, ué. Nem pensei naquilo, assim como ele também nem pensou. — Chegando lá, vamos comprar pra você. Por agora, aquela do “dia seguinte” vai servir, e depois compramos a que se toma regularmente, e vou operar. Não quero mais filhos! Ele diz e com isso me joga um balde de água fria na cabeça. Não me entendam mal. Minha intenção nunca foi engravidar tão nova, não me liguei nos remédios por pura falta de responsabilidade. O problema era que Vicente acabou de planejar algo que me envolvia, sem mim. Não perguntou se ter filhos era meu plano ou não, e entendo que seus problemas ajudavam na decisão que tomou de jamais ter outro vínculo com outra mulher, mas mesmo assim... — O que foi? Por que parou??? — Nada. — É isso? Vai me pedir isso também? Exigir, na verdade...!? — Não quero filhos agora. Ainda quero estudar, trabalhar muito, e ter meu negócio. Um filho agora me atrapalharia demais... — Pois então. — Você não disse sobre o agora. Sobre a situação prematura. Disse “vou OPERAR, NÃO QUERO MAIS TER FILHOS”! — Lara... — Esse tipo de plano você conta “na entrevista”. — eu falo e ele lamenta demais. — Você tem razão quando diz que só por não ter tantos problemas assim, qualquer homem pode vencer você. Você tem muitos problemas, Vicente. — Você estava ciente disso quando deu pra mim pela primeira vez, e já me quis pra você!!! — Mas eu não estava ciente de que não seria capaz de mudar muita coisa. Ser mãe é um sonho pro futuro, mas ainda é um sonho. — Terá Allana para suprir essa necessidade. — Allana é tua filha com Fernanda. Nunca me verá como mãe. Se eu tiver sorte ela vai me chamar de madrasta depois de alguns anos de convivência, como ela já disse que eu sou. Somente a


madrasta dela. Eu vou voltar pro meu lugar. Vamos parar por aqui pra gente não se magoar! — Não faz isso comigo. — ele implora com os olhos cheios de lágrimas. — Me deixaria porque não quero mais ter filhos!? — Não. Vou te deixar porque sei que se um dia ceder, será só pra não me ver magoada, e não porque quer uma família comigo. Eu enxerguei a verdade em você, eu sei que você descarta totalmente essa possibilidade, e o pior é que eu entendo seus motivos. É difícil pra você, pensar nisso de novo, o trauma. Eu só acho que você se equivocou tomando conta sozinho, de uma decisão que deveria ser nossa. Mas também entendo o porquê fez isso, o porquê decidiu isso sozinho e só deixou para mim, a tarefa de se medicar. — Você vai acabar me deixando maluco... — ele diz, levanta ajeitando a própria roupa, e passa por mim. — Você vai me enlouquecer. Mais do que eu já estou. Só não vale reclamar depois! — ele de repente me olha e afaga meu rosto como se fizesse carinho. — Não vale fugir das consequências correndo pra casa. Ele fala me olhando nos olhos, parece demais lamentar e sai na frente. — Vocês brigaram de novo? — Allana questiona assim que eu me sento na poltrona. Não digo nada, era melhor ficar calada! Passo o resto do tempo fitando as nuvens já escurecidas pela noite do céu brasileiro e suspiro. Suas palavras não me saíam da cabeça. Eu com certeza não deveria ficar puta porque sabia que era ‘daquilo pra pior’, mas... não podia deixar de me sentir frustrada. Eu, Lara, estava apaixonada por um cara que jamais me daria uma família, pelo menos não do modo clássico. Ele jamais me daria um filho. Sim, eu estava pensando a longo prazo, imaginando, fantasiando, claro que sim. Afinal, eu nunca desejei ninguém como desejei Vicente. Meti os pés pelas mãos de novo e estraguei tudo. Esse é seu problema, você está querendo demais, exigindo demais!!! Ta aí, eu ia parar de esperar muito. Eu não ia esperar mais nada. — Peça o que vai comer! — ele resmunga puxando assunto e eu nego. — Eu comi antes de sair de casa, estou bem. — Antes de ir pro banheiro, se dizia faminta. — Passou. — O que? O que passou? — ele pergunta chateado e eu o encaro. — A fome. — Só a fome? — ele pergunta de novo, faz uma carinha de cachorro abandonado, eu volto a fitar a janela, e só volto minha atenção quando ele pede o meu jantar por conta própria e eu me vejo na obrigação de comer. Na verdade eu estava faminta. Perdi a fome por causa da discussão, mas após sentir o cheirinho da massa ao molho branco, quase desmaiei. — Não me castigue assim. Fica comigo. Não me dê as costas. — Vicente se achega na poltrona que já havia virado cama. Passou todo o tempo me encarando e choramingando. Para colocar um pijama, tranquei a porta do banheiro e só pude vê-lo girar a maçaneta e depois desistir sem colocar a porta abaixo. Mas minha mágoa já tinha passado naquela altura. Passou quando ele tentou segurar em minha mão quando o avião sofreu uma turbulência e mesmo assustada recuei. “— Amor... — ele sussurrou e meu coração se despedaçou. —... não faz assim.”


Pronto, passou. Ele me chamou de amor, o que eu ia fazer!? Gostava demais daquele deus da beleza, personificação do sexo selvagem e da luxúria. Óbvio que fiquei balançada com seu carinho. Apenas continuei de cara fechada por orgulho. — Não estou te dando as costas, só quero dormir. — resmungo e ele entra embaixo do edredom que eu estava usando para me proteger do intenso ar-condicionado. O avião inteiro era um gelo. — Vamos fazer as pazes... não me deixa, não. — Ainda estou brava. Espera até amanhã. — Eu sei o que fazer para aliviar essa braveza toda. Vem cá. — Sai, Vince!!! — resmungo sorrindo quando ele me aperta e me faz girar para me encoxar. — Me obrigue! — ele diz baixinho no meu ouvido, morde o lóbulo de minha orelha com extrema sensualidade, e com a mão que antes pressionava levemente minha barriga, agora me invadia de um jeito gostoso demais. Me levou a loucura. — Você é minha. De qualquer jeito, você é minha. Pra sempre!!! Ele diz baixinho, tira meus shorts e minha calcinha, e de ladinho, após levantar minha perna direita, me come bem na manha para Allana não notar. Nem barulho fazia, seu saco não me dava palmadas e a situação era ainda mais inflamável por esse mesmo motivo. Trepar mordendo a fronha. Era isso o que a gente fazia. Nós dois, juntos, era uma delícia. — Prometeu ter paciência comigo... — ele fala passando a língua no meu pescoço. — Por que não tem paciência comigo??? — ele questiona, sobe em cima de mim, e levanta as minhas pernas pro alto. Um viva às cortinas que nos separavam de Allana. Adrenalina. — Decidi que vou parar de te exigir as coisas e não vou esperar nada de você pra não criar expectativas! É sério. Agora daremos certo! Não te pedirei mais nada. Eu falo e ele que me estocava rebolando e tocando sua boca na minha, trava por um momento. — Para. — Só estou dizendo... — Para! — ele altera a voz, desconta a raiva nas estocadas, e eu não me contenho, reviro os olhos vendo estrelas. — O barulho... — sussurro quando as palmadas se fazem presente. — Ela está dormindo, sei pela respiração pesada que posso ouvir daqui. Cale a boca. Não fale mais nada!!! — ele sai de dentro de mim, me trata como uma boneca de pano, me gira para um 69, e me faz sentar em sua boca. — Toda vez que falar merda agora, vou encher sua boca para mantê-la ocupada! Chupe e beba tudo! (...) A cidade de Paris era a coisa mais bonita que já vi na vida. Eu sei que foi porque nunca cheguei a sair do país e conhecer outros lugares, “o lado de fora” do aeroporto também era uma selva de pedra. Mas o ar, o clima frio, as árvores que pareciam colocadas por ali propositalmente, o clima de romance até de dia... era linda! Obviamente para meu próprio bem esqueci o tema “vou operar” e apenas curti tudo e perdi meu tempo fotografando o que eu podia. O sinal do celular estava zero. Vicente disse que no hotel alguns chips locais já nos esperavam e eu poderia ligar para minha mãe para dizer que cheguei bem. Mãezoca pirou quando soube que eu


enfim conheceria meu ídolo, o chefe de cozinha mais renomado do mundo, e principalmente, viajaria com Vicente. Ela o adorou. Achou um pouco “possessivo demais”, mas me apoiou instantaneamente. Notou que os meus sentimentos eram correspondidos. Ela viu que Vince também gostava de mim. Assim que chegamos apenas tomamos um banho, e já nos aprontamos para aproveitar o dia. Nove horas da manhã e já estávamos em Paris. Por hoje conheceríamos alguns pontos turísticos, almoçaríamos fora, faríamos as compras que Allana fazia questão, e só. No dia seguinte era o evento. — Onde quer ir primeiro? Vicente entra no quarto gigantesco e lindo da suíte que alugou. O hotel, obviamente, era coisa de outro mundo. Nem disfarçou o fato de que dormiríamos no mesmo quarto para Allana. — Pode ser a torre Eiffel. — sorrio enquanto ainda dobrava e organizava minhas malas. — Veja o que Allana quer. — Ela disse a mesma coisa! — Que bom. — eu falo, ele se achega, e eu já me ascendo. — Quer dar uma relaxada comigo, antes de sair? — No que isso consiste? — Uma trepada bem sacana aqui e agora. — ele diz e eu me lembro dos remédios. — Precisamos passar na farmácia. Deixa eu tomar o remédio primeiro. — eu falo, e ele ri. — Agora você passou a se preocupar??? — Sim. Passei. — eu digo simplesmente e ele me vira para me olhar nos olhos. — Eu não acredito que você consegue visualizar a cena em que você tem um filho comigo!!! — ele sorri. — Você é muito doida! Você é maluca! — Por que é tão bizarro assim??? — Sou um poço de complicação, amor. Sou problemático e cheio de complexos. Não sou bobo, sei bem que o mais seguro seria você me dar um pé na bunda e procurar um cara que não te deixasse sempre com dor de cabeça, que não te desse mais trabalho do que uma pré-adolescente. Mas não. — ele ri de novo. — Você me visualiza “pai dos seus filhos”. Sou amaldiçoado. Não sinto que nasci pra ser inteiramente feliz, Lara. Fiz algo de muito grave pra Deus. Sinto com todas as minhas forças que se um dia isso acontecer, vou te perder de vez. — Acha que morrerei, Vince? Acha que vai me perder também??? — Eu sinto que algo de muito ruim vai acontecer, algo de muito grave. Eu sempre fui um homem romântico, sempre fui sonhador demais como um bom pisciano fodido. — ele sorri olhando pra minha boca. — Desejei mais do que qualquer outra coisa, ter filhos, uma família enorme, uma esposa, uma casa linda, cachorros... quando consegui veio a vida e, SURPRESA, perdi tudo. Dormi feliz e acordei destruído no dia seguinte, banhado no sangue da hemorragia que ela teve, uma complicação, o final de tudo. Me perdoe por dizer isso, mas não acho que um dia serei tão feliz como eu gostaria. Eu acho que não é pra ser. Deus por algum motivo, me virou as costas. Pode dizer que é coisa da minha cabeça, e é, eu sei. Só que a gente atraí, e por ter tanta certeza disso, sei que será assim. Ele diz, penso naquilo, penso muito, penso mais um pouco, respiro fundo e suspiro. — Essa é a hora em que você coloca pra fora e eu caio de boca. Eu digo e ele ri.


— É o momento em que você fala alguma merdinha? — É. — eu falo e ele sorri se divertindo. Me aperta em seu abraço, inclina o rosto pra mim, sorri me analisando, e primeiro me beija de olhos abertos. Suas mãos agarram minha cintura, caminha até minhas pernas baterem na borda da cama e me faz deitar enquanto suga e brinca serelepe com minha língua. — Vamos, criatura meticulosa. — ele para de me beijar de repente, diz e eu concordo prontamente. — Quando a gente chegar, conversaremos. — Sobre o quê? — Sobre nós. — ele fala, sorri zombeteiro, e sai na frente. Passou o passeio inteiro me encarando na cara dura. Não tirava os olhos de mim nem para olhar ao redor e eu estava encantada com tudo. Torre Eiffel, Arco do Triunfo... parecia que nada era mais interessante do que me analisar. Até que o inesperado aconteceu. — Vicente!!! Um homem loiro e ‘boa pinta’ nos aborda em uma loja de artigos decorativos que Allana queria entrar. Ficou encantada com uma bailarina toda feita em gesso que puxou o pai, pai esse que me puxou para não ficar do lado de fora livre, leve e solta. Como se a qualquer momento eu fosse desaparecer. — Greg. — ele parece tenso. — Oi, e aí!? Um assente para o outro e o gostoso ciumento suspira em silêncio quando seu amigo coloca os olhos em mim. — Oi! Tudo certo? — ele sorri e o clima pesa. — Lara, prazer! — Prazer é todo meu, Lara. Pode me chamar de Greg. Você é mesmo realmente linda!!! — ele diz de forma educada e eu sorrio. — Obrigada. Gentileza sua! — Ah! Mas não é mesmo! — ele coloca ênfase e encara sorridente o amigo emburrado. — Vicente me fala muito bem de você. Fico muito feliz por conhecê-la. Por tê-lo tirado da cama, colocado uma emoção à sua vida. — “Emoção à sua vida”. Sim! — zombo. — Eu realmente balancei a sua vida de um jeito que ele jamais imaginou!!! — rimos juntos. — Eu acho que você estava ocupado, não é mesmo!? — Vicente resmunga nos interrompendo enciumado e Greg ri. — Não, na verdade eu só...— Greg aponta pra trás, mas Vince entra em seu espaço pessoal. — Estava, você estava... — eles se encaram, Greg permanece rindo, e logo me encara compreensível. — Bom, foi um prazer, Lara. Até mais! — Até, Greg! — eu digo, seguro um riso com a careta que o loiro ‘boa pinta’ faz e só eu posso ver, e logo tento fechar a cara para não irritar o bobão, mas não consigo. Ele se achega com a mão na cintura, e rosna pra mim fazendo minha calcinha ficar encharcada. — Desmancha esse sorrisinho maldito, filha da puta! — Continuo querendo só você! — me achego, grudo em seu pescoço e vejo seu maxilar se contraindo. — Continua sendo meu maravilhoso problema, meu tudo, o homem que mais desejei na vida. O cara que vai encher nossa casa de filhos... — não resisto e nessa parte sussurro em seu


ouvido. — uma casa, um cachorro, uma enteada amada, uma cozinha planejadíssima e linda, e filhos, milhares deles! Falo como se falasse do tempo, e dessa vez não esboço sequer um sorriso. Ele precisava entender que com ele eu ia sempre querer mais e mais. Ataco sua boca, ele se abre pra mim e não me importo se estão olhando, ou se dar beijões excitantes em lojas daquele jeito, era sinal de falta de educação em Paris. Eu não queria saber de nada, eu só o queria. — Minha morena pidona... — ele resmunga com sua boca colada na minha e fala bobagens gostosas de escutar — ele tinha esperanças de que não tivesse brasileiro nenhum ao redor. — até Allana vir repleta de sacolas. — Vamos ver sua roupa para amanhã? É black tie e creio que não trouxe nada de acordo, certo!? Nem para a Allana! Ele fala, Allana pula dando ênfase à sua animação por compras, coisa que eu não sabia, e eu concordo. Entramos em algumas lojas, claro que ele me fez desfilar com o máximo de vestidos longos e sexys que podia, e assim que Allana passou a receber uma atenção da atendente animada com a consumidora mirim, ele invadiu minha cabine. — Quieta! Ele só avisa, aperta o pau no meu bumbum, tapa minha boca com a mão esquerda e com a direita agita meu ponto ‘G’ de forma extremamente urgente com as pontas de seus dois dedos do meio. Me tocava e agora era um clássico. Rápido, muito rápido... o que seria dos vibradores se todos os homens tivessem aquele talento com os dedos como ele tinha? Ligeiro. Eu fico de pernas bambas. Ele me puxa e se senta no banco da pequena cabine comigo em seu colo. Arreganho as pernas. Solto o peso. Deixo a cabeça tombar pra trás. Inconscientemente toco com a língua a sua mão que me calava como se sua invasão não fosse consentida. E piro. Minhas unhas cumpridas ameaçam rasgar sua calça, pois as enfio em suas coxas enquanto deixava minha boceta exposta pra ele fazer o que quisesse. E ele faz. Entra, brinca, circula com a mão cheia, vibra, estapeia, estapeia, estapeia, enfia os dedos e com os dedos chacoalha lá dentro como se preparasse as claras para um omelete. Os grandes lábios ele arreganha, chupa todo o meu pescoço, e com o dedo do meio, aquele que provavelmente usaria para mandar alguém ir se foder: ele me fode. Acha o pontinho, diz que sou sua putinha, e vibra me fazendo querer gritar. Sua mão em minha boca abafa o som que colocaria a loja abaixo, não para nunca, e exclama: — Goza, minha putinha safada, goza! Goza pro teu macho aqui! Goza pra eu chupar essa boceta meladinha! Não é isso o que quer? Dar essa xota só pra mim, toda noite, com contrato e tudo!? É assim que vai ser, mas para isso tem que saber obedecer, putinha exclusiva tem que saber agradar. Mandei, obedeça. Goza, minha vadia!!! Ele manda, e como se eu pudesse controlar, obedeço. Esguicho longe molhando o carpete requintado, ele aperta minha boca e de tão alto que “gritei” ainda se destaca um barulho fino na loja silenciosa. Ele continua batendo até eu parar de me desmanchar em gozo, e quando fico mole, levo outro tapa de presente. Tapa e língua. Sujou, apanhou, limpou. — Experimenta esse aqui pra mim. — ele diz após levantar, aponta um vestido preto sem decote nenhum, e sai como se nada tivesse acontecido.


Eu ia acabar o enlouquecendo, Vicente ia me matar de tanto me foder.


CAPÍTULO 9

— As senhoritas estão satisfeitas? — pergunto para as duas crianças que corriam pelas calçadas parisienses, animadas e brincalhonas. Allana só gastava, e enquanto a mesma entortava o pescoço para as lojas de artigos, a sua “madrasta” favorita só fazia o mesmo para cada restaurante e petiserrie’s locais que encontrávamos. Fotografava, falava sobre o que eram suas especializações, comida que só encontraríamos ali, curiosidades locais, dicas... uma verdadeira Guia. Todo o conhecimento que tinha vinha de pesquisas de internet e eu me sentia o homem mais realizado e orgulhoso do mundo por estar proporcionando a ela, aquela oportunidade. Realizando seu sonho de conhecer os lugares que nunca imaginara estar. Lara precisava daquela oportunidade e merecia. Era muito inteligente. “Apresento a vocês, o Le Cordê! — disse uma hora, brincando de forma teatral como sempre. — Aqui vocês encontrarão os pães mais desejados de Paris inteira... sabe como eles fazem as massas???...” Eu só sorria, eu ficava bobo com a pequena. Minha gostosa... — Precisamos almoçar... — eu continuo. — Podemos ir agora, ou precisamos passar em mais algum lugar??? — Espera pai! Não estou com fome... — Allana já reclama. — Eu preparei uma surpresa pra Lara. Precisamos ir a um local especial, filha! — falo em seu ouvido quando Lara surta em frente a um restaurante aparentemente luxuoso. — Ah! Então está bem! — ela sorri. Realmente amava a “madrasta”. — Que foi, meu amor!? Que lugar especial é esse? Agarro a doidinha na calçada. Estava estática. — Francoise of Mercy Fanny! — ela fala e encara a placa em bronze no alto da fachada do restaurante. — Françoise deve estar aqui dentro agora mesmo!!! Ele é chefe aqui, chefe e dono! — Pois é aqui mesmo que vamos almoçar. — eu falo em seu ouvido e ela surta. Agradeço por ter achado o local primeiro que eu. Eu sabia que o endereço era por ali, mas não sabia se encontraria sozinho sem precisar dizer o nome e estragar tudo. — Tá maluco? Olha pra mim. Jamais vou entrar aí. — Você está divina. Está linda. — É! — Allana me ajuda. — Está linda, ele vai te amar. Vamos entrar.


Allana diz e corre pra dentro do restaurante fazendo com que sua protetora vá atrás. Lara era sempre cuidadosa com Allana. Quando eu relaxava, era ela quem pegava em seu pé. “Não corra!”, “Allana, não mexa aí!”, “Cuidado, você vai cair!”, era ela quem falava o tempo todo. Eu amava ver seus cuidados, amava o jeito que cuidava da minha princesinha. Entro atrás, sou recepcionado por um funcionário que pelo jeito não falava inglês, e assim que Allana vem comportada e rindo com Lara fingindo estar brava, eu aproveito a grana alta que gastei durante anos em sua educação. — Ele não fala inglês. — faço cara de tacho pras duas e Allana ri. — São todos franceses aqui. — Lara diz sem graça e eu dou risada. O funcionário estava ainda mais sem graça do que eu... Atééé, Allana agir. Ela diz algo em Francês e Lara fica estática e como eu: muito orgulhosa. Perco alguns segundos olhando ao redor e descubro que de luxuoso o lugar só tinha a fachada, por dentro, o restaurante era praticamente uma casa francesa de estilo colonial e aparentemente pequena. Era lindo, muito lindo e aconchegante. O luxo estava nos seus detalhes vintages. O cara parece entender tudo o que a princesa diz, assente pra ela sorrindo e demonstra estar “maravilhado” por ver a pequena falar tão fluentemente enquanto os dois adultos: nada. — Diga a ele que sou o cliente Vicente. Do Brasil! — eu peço e no que ela diz, eu só entendo o meu nome e a palavra ‘Brasilê’. Ele me encara entendendo, volta a falar com ela, em seguida encara Lara com seus olhos amendoados e parece concordar com algo novamente. O recepcionista vestia terno, gravata, e sobre o paletó, um crachá de bronze imitando a logo da fachada de lá de fora. Nem parei para ler seu nome. — Ele disse que está tudo certo! — ela me encara sorridente, Lara me encara surpresa e bemhumorada, e eu sorrio sozinho. Fomos encaminhados até uma mesa no canto extremo direito do ambiente, cuja mesa estava praticamente encostada no vidro e nos oferecia uma visão bacana do lado de fora da rua. Era uma sala de jantar onde as paredes eram de vidros, — da metade pra cima. — mas lá de fora ninguém nos via, eu pelo menos, não vi nada quando ainda estávamos na calçada. O lugar era tipo “café francês”, onde você iria para tomar café antes do trabalho. Também achei um lugar ideal para um jantar romântico, muito legal, mas fui no clássico e reservei o famoso restaurante da Torre Eiffel antecipadamente, porque sou desses. Greg ia ser babá, e eu ia mimar minha gostosa no melhor e mais caro restaurante da cidade. — O que você aprontou??? Diz que não combinou desse homem vir nos receber agora? Eu achei que poderia me preparar, que seria antes de voltarmos. Eu estou horrível. Ele é um ícone pra mim. Eu deveria saber o que dizer, eu escrevi frases em francês no papel. Vou parecer uma retardada!!! — Lara sussurra assim que o recepcionista do restaurante volta para seu posto e uma “garçonete” anota nossos pedidos. Foi Lara quem nos indicou nossos pratos com o que ela queria experimentar. — Diz que não fez isso! — Poxa. — falo baixo fingindo estar chateado. — Achei que estaria ansiosa. Quis fazer uma surpresa, linda! Vai ficar brava comigo por querer te agradar? — Não!!! — ela mia. — Mas... meu Deus, eu vou ter um treco!!! — Mas que animação é essa? É só um cozinheiro. — Ele É O cozinheiro, Vicente! — ela me corrige e Allana ri. — Mas tudo bem... — ela me beija a


face. — Estou feliz por isso. Obrigada!!! Muito, muito, muito obrigada! Ela sorri, fala baixinho, ganha um beijo recatado, e eu começo a rir quando o prato chega. O que ela pediu era nada mais nada menos que um bolinho enorme mergulhado em um caldo que parecia sopa. — Sério??? — Experimenta antes de entortar a cara. — ela ri e suspira ao experimentar. — Meu professor fez uma réplica na faculdade. Óbvio que nem se compara... — ela diz após mastigar, tira fotos do prato, e eu vejo Allana olhando torto pra sopa. Eu não sabia nem reproduzir o nome do prato e no todo, não era ruim. Era um bolinho de legumes com sopa, e eu achei que serviu muito bem para me aquecer do vento frio que fazia lá fora. Disse Lara que era a especialidade dele. Já o imaginava um velho gaga e sem dentes, porque pra fazer um prato feio daquele... mas que amargo engano!!! O filha da puta com nome de mulher era jovem, devia ter a minha idade, e já abriu um sorrisão maldito pra minha mulher assim que se aproximou de nossa mesa (como combinado por e-mail com sua secretária). Já deixo claro aqui, ele não era simpático, ele foi muito bem pago para receber Lara como uma rainha; vir até a mesa, e fazê-la se sentir especial, realizar seu sonho!!! Paguei para ver a MINHA mulher feliz! — Vamos embora! — resmungo decepcionado, mas a diaba nem me dá ouvidos. Allana ri notando meu ciúme e Lara se levanta assim que ele entra em nosso campo de visão com um assistente, pelo jeito trazendo consigo uma sobremesa que não pedimos. Deveria ser um “presente da casa”. Abusado!!! Ele se aproxima, nos encara sorridente, fala alguma coisa, encara Allana quando só ela responde e eu me levanto por educação para cumprimentá-lo. — Ele disse que é um prazer nos receber aqui! — Allana fala, ele balança a cabeça como se entendesse português e eu me seguro para não revirar os olhos. — Diga que é um sonho que eu estou realizando! Diga, diga! — Lara implora, Allana ri, obedece, e o cozinheiro nega com a cabeça, todo cheio de uma falsa humildade. — Seoja muto bien vindos! — ele tenta e eu ergo uma sobrancelha. Patético. — Diga que eu sou fã do seu trabalho e que meu sonho é cozinhar para ele! Ele vai amar minha comida! — Lara sim, pede com verdadeira humildade, Allana ri, mas obedece de novo e o cozinheiro de uma figa concorda — com a cabeça. — no ato. Seus olhos esverdeados chegavam a brilhar para ela. — Vai porra nenhuma! Tá maluca? — resmungo sorrindo para disfarçar e ela ri. — Pare, Vince! — ela implora me dando tapinhas no braço sem tirar os olhos do condenado, e o palhaço ri da minha cara brevemente. — Ele disse que como foi marcado, tirou o dia para te receber, se você quiser, essa é hora. Ele disse que a cozinha dele está aberta pra você agora mesmo. — Allana fala me encarando sorridente. — Claro que está aberta. Eu combinei isso com a secretária dele. O problema é que eu achei que você teria “um dia incrível com um velho gordo que mais come do que cozinha”! — eu falo e Lara ri desanimada. — Diz que não posso. Que só de vê-lo pessoalmente já é incrível. — ela fala tristonha, o cozinheiro encara Allana esperando por respostas, Allana me encara triste, e eu bufo.


— Diz que ela adoraria. Que será uma honra pra ela. — eu falo, Allana sorri animada, a pequena me encara chorosa e emocionada e eu ganho um beijinho antes dele roubá-la de mim com extrema liberdade. Liberdade que eu não dei. Todo cheio de sorrisinho e as mãozonas em suas costas como se indicasse para ela, o lugar para onde deveriam ir... filho da puta! — Fica tranquilo, pai. Eu apresentei você como o marido dela. Ele sabe que a Lara é comprometida. — ela sorri empolgada com a sobremesa aparentemente feita de chocolate que o assistente do condenado francês deixou e saiu. — Eu disse marido porque não me lembro como diz namorado em francês! — Muito atirado. Abusado!!! — falo com raiva. Por que tanta admiração pelo cara? Devia ter pesquisado a foto, assim arrumava uma desculpa. Não. Penso. Arrumava não. Era o sonho dela, eu ia dar meu jeito para aquele encontro acontecer só para vê-la feliz, mas que eu estava puto, eu estava. — Eu achei ele simpático. — É bosta. Simpático bosta! — eu falo e ela ri de novo. — Foi simpático porque... Penso na besteira que ia falar para uma criança e mudo de ideia. Jamais falaria pra Allana que o que ele já queria era vê-la nua. Aquele bananão estava era desejando o que me pertencia. — Você é mais bonito que ele, papi! Se acalma! — Você tá falando isso porque é minha filha, que eu sei! — ela nega rapidamente. — Quer me ver bem. — Eu não minto pra você. Você sabe. — ela diz enquanto mastiga. — E isso aí, está bom ou está igual a sopa? — Tá maravilhoso. — ela fala e parece pensar após me ver desanimado. O mané era o bonzão das sobremesas, também??? — Pai! Não fica assim! É o sonho dela, Lara gosta de você! É só um ídolo. É igual eu com Michael Jackson!!! Amo, mas não me casaria com ele! — Só porque ele morreu, não é mesmo, sua espertinha!? — Claro que não!!! — ela gargalha. — Eu sou uma criança, ele é um velho. É nojento! — Eu sei. Tô brincando. Tô nervoso aqui. Já estão demorando demais. — Eles acabaram de entrar. Ela vai cozinhar ainda... Ela diz, volta a comer sua sobremesa “deliciosa” e eu respiro fundo me sentindo mais do que enciumado. O que é que eles estariam fazendo??? Será que...? Não. Lara gosta de mim, não se interessaria por outros assim... aquela empolgação, felicidade, olhos brilhando... era de... era de admiração profissional. Era sim. Ela me ama. Jamais me deixaria desse jeito. Jamais se apaixonaria tão assim... tão... rapidamente... como foi comigo. Não. Não. Pare de ser babaca, Vicente, a garota é só fã do cara. Mas o cara é o chefe que ela adora, galã de novela que a adorou assim que botou seus olhos famintos naquele corpo, naquele cabelo, olhos expressivos, boca carnuda, rosada. Lara é uma mulher linda que chama atenção por onde passa e com o palhaço não foi diferente. Ele... ele a desejou, ficou animado por uma garota tão nova o admirar. Admirar seu trabalho, CEO fundadora do fã clube dele. Jovem, gata, gostosa, inteligente, talentosa, e que cozinharia só pra ele... — Vamos embora! — eu falo. Estava me sentindo sufocado ali. — Mas e a Lara? Ela nem deve ter aproveitado nada!!! — Allana levanta mastigando porque eu já havia me levantado. — Ela está realizando o sonho dela, ficará bem, não vou atrapalhar. Se eu ficar mais um minuto


aqui vou tirá-la de lá de dentro pelos cabelos, e eu sei que ela está feliz, que é uma chance profissional, um sonho. Vou embora para não estragar tudo! Vou pirar aqui! — Ela vai ficar brava com a gente, pai! — Não vai, não. Ela vai ficar brava se eu der um escândalo e socar aquele abusado até ele parar no hospital por querer tomá-la de mim, isso sim! — Pai, você tá pirando!!! — ela fala e eu paro na frente do recepcionista. — Diga a ele para entregar isso para ela... — eu tiro dinheiro da carteira e um cartão de visitas do nosso hotel. — diga que eu decidi ir porque estava muito cansado, e que aguardarei seu retorno ao hotel. Que ela fique e aproveite sem pressa. — eu peço, Allana pergunta se eu tenho certeza, e eu confirmo. Era melhor assim, eu já estava enlouquecendo. Eu não ia ser babaca ao ponto de mandar chamá-la, a pequena estava tão feliz... ela estava tão feliz por causa dele!!! Merda. Tudo bem se... se acontecer alguma coisa, afinal, ele devia ser como Greg, como qualquer outro homem, ideal pra ela. Sem problemas, sem amarras, sem neuras, sem ex-mulheres-mortas-bem vivas... Lara merecia o melhor que a vida poderia oferecer. Lara merecia uma vida de rainha. Merecia ganhar o mundo e a França, país que ela tanto admirava, poderia ser o primeiro!!! Caminho com Allana que segurava em minha mão e permanecia preocupada comigo — por algum motivo. — pela calçada do restaurante. Quando passo por uma venda de bebidas, entro e compro um maço de cigarros. Beber com ela ali, eu não iria. Havia parado de fumar fazia quase três anos, mas... se tinha um momento para voltar, era aquele. Só um, eu só precisava de um. Precisava relaxar. Assim que chegamos ao hotel, Allana corre para fuçar em suas compras e eu me enfio no quarto, saio pra varanda e encontro um cinzeiro que repousava preguiçoso na mesinha ao lado da poltrona cor de vinho. A vista do hotel também foi planejada. A Torre Eiffel presenciava uma crise de depressão fodida naquele momento, e eu não liguei. Acendo um cigarro, odeio o gosto, mas trago e relaxo. Deposito o cigarro no espaço próprio do objeto limpo que parecia uma peça preciosa, entro no quarto, me sirvo de uma dose de conhaque nacional e volto para a poltrona confortável. Eram quatro horas da tarde quando ela retornou. Eu já estava me perguntando se o que ela queria era que eu a buscasse pelos cabelos realmente. — E então? — ela entra no quarto e me encontra sentado nos pés da cama. — Tem alguma explicação pra você ter me deixado lá sozinha, ou... — Eu estava cansado. — Sério? — ela me olhava como se eu tivesse fazendo pirraça por algum motivo que ela desconhecia. — Era isso ou eu ia acabar com aquele filho da puta, O que era melhor??? — Você parar de agir como um adolescente!? — Falou a adulta da relação. Realizou seu sonho??? Fez o quê até anoitecer com aquele cara naquela cozinha??? Posso saber ou perguntar a respeito significa agir como um adolescente??? — Você bebeu. — ela se aproxima de mim e me mede da cabeça aos pés. — e fumou... — E você ficou alegrinha demais com aquele maldito! Qual atitude tu achas que é mais letal, a minha ou a sua? Eu sinceramente acho que é a sua!


— Ciúmes? Isso tudo é por ciúmes??? — É. É sim. E aí? — eu falo simplesmente e ela sorri. — Para de ser bobo. Já disse que ‘meu lance’ é você! — ela sorri e seu sorriso me irrita. Estava radiante por ter tido uma tarde inteira com o desgraçado. — “Ai, diga que é uma honra...” — tento imitar sua voz de forma esganiçada, mas falho e ela ri. —... “que meu sonho era conhecê-lo. Meu ídolo, meu amor, meu cozinheiro favorito. Meu sonho é cozinhar pra ele... Ah!” — controlo a frustração e tento não gritar. — Me poupe, Lara! Tô puto, e pare de rir. Nunca vi admirar uma sopa daquela, que merda era aquela? Horrível! E caro, ainda por cima, caro e ruim! — eu falo, não consigo respirar, e ela segura uma gargalhada fora do comum, mas pra mim, nada daquilo era engraçado. Meu corpo doía por inteiro, meus ossos congelavam, e eu estava péssimo. Péssimo! — Desculpa! — eu peço me sentindo tonto e ela perde o sorriso. — Saí para te deixar em paz com ele, eu já estava pirando, eu estava sufocando. Eu ainda estou sufocando!!! Eu... eu estou muito feliz por você, com certeza ele amou te conhecer, amou sua comida, amou você inteira! Eu só não suporto nem pensar em perder você... e ver aquilo, aquele merda te olhando daquele jeito... Eu resmungo e ela invade meu espaço pessoal. — Vicente... — Ele ficou doido em você! Greg também! Dois malditos. São dois malditos desejando o que é meu! Nunca te vi tão feliz, nunca te vi tão animada como ficou só de chegar na calçada do local que o cara trabalha. — Eu só o admiro. Só quero chegar perto um dia, do que ele é hoje. A única coisa que temos em comum é a gastronomia. Ele é um artista. Só isso. Sou uma fã e se não fosse por você, muito provavelmente jamais chegaria perto dele. Eu já tenho meu homem, já tenho você e aqui não cabe mais ninguém... ele até poderia ser o Brad Pitt! — ela sorri lindamente. — Eu tenho você. Eu te amo e só quero você!!! — ela diz baixinho, se enrosca em mim e trinta por cento da minha dor vai embora. Só trinta. — Seus olhos nunca brilharam daquele jeito pra mim. — resmungo. — Não exagera, pare de falar bobagem. Já brilharam muito mais, ainda mais no primeiro dia que te vi, só você que se esforça para não acreditar nisso. Se não consegue ver o brilho dos meus olhos sempre que olho pra você, está olhando pra mim errado. — ela sorri. — Olha aqui direito! — Vai ter que repetir isso todo dia, eternamente, pra eu poder esquecer esse episódio pesadelo!!! — Se você soubesse o quanto eu sonho com a possibilidade de poder ter a eternidade contigo... jamais que você ia se sentir inseguro com qualquer homem da terra. Eu quero amar você mais do que quero qualquer coisa. Ela diz sorrindo, seca minhas lágrimas de raiva e revolta que surgiram de repente. — Desculpa! Eu sou um idiota! Desculpa ter te deixado lá. Não sei como consegui te deixar lá, mas eu estava pirando. Ele te olhou com desejo, aquele merendeiro!!! Eu vi, juro que vi! — Se olhou, olhou à toa, pois não notei, só estava louca pra entrar na cozinha dele, ver como ele trabalha, sugar suas dicas e conselhos de culinários, seus macetes, seus segredos. Só isso. Entrei lá pensando no quão sortuda eu era. Estou realizada por tê-lo conhecido e aprendi muito!!! — O que você fez lá? Sobre o que conversaram? Você demorou. — cruzo os braços me sentando novamente e ela se empoleira em meu colo. — Fiz um risoto bem brasileiro pra ele, ainda vesti um avental oficial da cozinha, ele me deu de


presente. — ela dá pulinhos em meu colo e minha cabeça dá voltas por um momento. Sim, eu era um pervertido. — Ele amou meu tempero, Vince, achou que eu ficaria perdida naquela cozinha gigante! Ficou pasmo comigo!!! Conversamos por um aplicativo de tradução e eu fiquei encantada com tudo. Ele amou tanto minha comida! — ela sorri radiante. — Pela cara que o sou chefe, os chefes de partie e os cozinheiros fizeram, eu acho que impressionei. Rapidamente rasparam o prato!!! — É claro que sim. — inspiro o cheiro de seu pescoço e noto que seu perfume se misturou com o de gordura. — Você é talentosíssima. É maravilhosa, e eles viram isso. — Ele também me convidou para passar alguns meses aqui. Disse que no momento não estava oferecendo nenhum curso como eu gostaria porque ele já não faz mais isso, — ela ergue a sobrancelha para indicar o quão metido ele era e tinha direito de ser. — mas me indicou algumas escolas incríveis, e me ofereceu um estágio ao lado dele. — ela fala sorrindo. — Sério!? — não consigo resistir e fico feliz apesar da notícia “horrível”. — Caramba! Parabéns, amor, é uma notícia maravilhosa. Você merece! Você... — tento sorrir. — Eu sabia que ele ia ver seu enorme potencial, aposto e ganho que você cozinha melhor que ele e todo mundo percebeu. Você é demais, você fará um sucesso enorme aqui. A faculdade você continua assim que... — Eu disse não, Vince. — ela me interrompe e eu não entendo. — O quê? Por que??? — Eu não consigo mais pensar no MEU futuro, MINHA carreira... você tem a empresa no Brasil. Vou terminar a faculdade e voltarei pra cá para cursar gastronomia francesa nas férias. Assim que você e Allana puderem me acompanhar. — Enlouqueceu??? — Não. — Não pode abrir mão de uma oportunidade dessas por mim! Eu nem sequer mereço. Você precisa pensar em você! — Eu não abri mão. Eu adiei por um tempo curto pra eu poder conquistar tudo isso com vocês dois do meu lado. É você quem eu quero, e posso esperar até as férias. Paris pra mim, não vai ter graça nenhuma sem vocês. Nada na minha vida, nada, emprego, faculdade, o restaurante que quero ter, nenhum plano terá sentido se vocês não estiverem comigo! — Você é doida!!! — Você me deixou doida. Allana me deixou doida. Quero uma família!!! — ela choraminga me olhando nos olhos. — Por enquanto eu só quero cozinhar para meu homem e pra pequenininha que eu mais amo no mundo todo. E ainda tenho uma bela desculpa, se eu ficasse Allana sofreria. Não posso deixá-la, e não posso ficar sem você. Eu amo você! — ela choraminga e eu nego alguma coisa. — Maldita!!! — pego a filha da puta no colo e a abraço forte. Eu não sabia nem o que pensar, mas era claro o sentimento de alívio que senti, e fiquei péssimo por isso. — Não sabe o medo que tive de não te ter aqui de volta. Demorou tanto, pensei em tanta merda! Tenho muito medo, amor! — Você é um bobo! Jamais te deixarei. — ela fala e o calor da sua voz entra em contato com a pele do meu pescoço. — Prometa, então! Prometa que nunca vai me abandonar. Prometa que nunca nos deixará. Nem se encontrar um cara mil vezes melhor do que eu! Eu praticamente imploro, ela me encara sorrindo, e quando ia prometer, Allana bate na porta


interrompendo. Aquilo parte meu coração em mil pedaços. Mau presságio. — Prometa! — pego em sua mão, ela me encara sorrindo, e Allana a puxa pela outra mão para mostrar alguma coisa. — Espera, pai. Eu já devolvo nossa chefe de cozinha!!! Ela sai me encarando preocupada, lamento quando elas fecham a porta, então acendo um cigarro e me sirvo de mais um drinque. Por algum motivo eu sentia o medo vazar pelos meus poros. Simplesmente porque dentro de mim tinha medo em excesso. — Prometo! — ela fala em meu ouvido assim que volta e me encontra na poltrona. Ela tira o cigarro de minha mão, senta em meu colo, tira a blusa e depois a camisa, e logo após, lentamente, o sutiã. Ela não parecia sentir frio algum. Aperto o bico de seus seios com seus olhos colados nos meus, e vejo o tempo passar devagar. Fizemos amor banhados pela lua, pela vista da Torre, e o dia amanheceu lindíssimo por isso.

(...) A cada gemido, gesto, piscar de olhos, sorrisos, e risadas daquela mulher, eu me sentia em transe. Eu não precisava me consultar com nenhum psicólogo, ou psiquiatra... eu tinha ciência de que estava fodidamente apaixonado por aquela diaba. — E então? Ela pergunta assim que sai do quarto com o vestido preto — o mais comportado, porque não sou besta. — da loja. Ele tapava totalmente os seios que eu adorava chupar e descia com rendas comportadas até seus pés. Tinha uma gola alta no pescoço, totalmente sem mangas, e todo rendado. Era lindo, mas em nada escondia seu corpo escultural, quem olhasse notaria o quanto Lara era gostosa. Gostosa e minha. — Está gostosamente linda! — eu deixo escapar, Allana finge vomitar, dou risada agarrando a safada que me encarava com fúria e ignoro sua cara de brava por falar besteiras perto de Allana. Distribuo beijos por toda sua face maquiada e suspiro. Tentei de todas as maneiras não pensar no tema filho. Lara estava passando dos limites. Jamais que eu pensaria nisso novamente, e por Deus ela esqueceu. Ou pelo menos deixou passar. Era ótimo estar com ela, era uma delícia trepar até cansar, Lara era incrível, engraçada, perspicaz... cada minuto que eu passava ao seu lado, mais encantado e gamado eu ficava. Queria guardar a filha da puta num potinho. Protegê-la, cuidá-la, e não soltá-la nunca mais e era estranho pensar nisso, mas, eu não estava mais com medo. Não temia me entregar. Porém, naquela altura, ali, só uma coisa me incomodava desde que perguntou detalhes sobre o projeto enquanto ainda estávamos no avião: Qual seria sua reação ao saber que meu produto era em homenagem à Nanda??? Não. Ela não podia pirar. Fernanda não poderia virar um assunto TABU. Lara tinha que entender que eu fui casado, que eu perdi Fernanda prematuramente, e que ela sempre estaria presente em minha vida, mesmo que eu não a amasse mais. Estava claro aquilo tudo pra mim, mas mesmo assim, eu estava com medo. — Como será isso, hein? Será um festão, pai?


Allana pergunta já no táxi executivo. Estava uma princesa com seu vestido rosa-bebê. — Só um jantar especial na recepção de um hotel. — Acho que vai ser bem chato! — ela diz na lata e Lara sorri fitando a janela. — Eu também acho. Acho que eu só vou precisar conhecer algumas pessoas, assinar uns papéis, e aí poderemos aproveitar a cidade, dar uma volta e vir descansar. — Mamãe deve estar muito feliz hoje, não é, pai!? Allana resmunga, eu engulo em seco, concordo sorrindo e Lara parece acordar de seus pensamentos. Estava em silêncio durante longos minutos. — Por que, princesa? — ela questiona Allana e eu fito a janela. — Ué, o projeto que foi patrocinado é o creme da mamãe. Papai fez em homenagem a ela. Tem brilho do jeito que ela gostava! Quando ficar pronto papai vai te dar um kit. Eu já senti o cheiro que vai ser... de pêssegos e outras frutas. Será maravilhoso!!! Allana dá detalhes, encara a cidade lá fora sem entender nada do que acabou de fazer e eu encaro uma Lara confusa. Confusa, chateada, triste, e depois sorridente ao me encarar. Sorriso de Monalisa, lindo mas, forçado. Me fodi. — Vicente!? — uma mulher de vestido azul-céu e cabelos dourados e presos em um coque diferente se aproxima. Nunca a vi mais gorda. Eu prestava atenção em toda a decoração até que ela me tirou a atenção na base da força. — Como foi de viagem? Eloise Praga! Ela diz, me oferece as mãos e eu ligo o nome a pessoa. Devo ter trocado uns mil e-mails com aquela mulher. Eloise Praga era CEO fundadora da empresa Praga & co. que tinha aceitado levar meu projeto à diante. — A viagem foi incrível. Prazer em conhecê-la pessoalmente. — eu digo e ela sorri. — Essa pequena aqui, é minha filha, Allana... — eu digo, ela a cumprimenta de forma educada, mas Allana não corresponde seu sorriso e não diz nada quando Eloise afirma que não via a hora de conhecê-la. — E essa é Lara, minha mulher!!! Eu as apresento, Eloise cumprimenta Lara com a mesma educação, e Lara sorri. — O prazer é meu! — Lara garante depois dela. — A senhorita é muito linda! — Linda é você! — Eloise responde. — Bom, fiquem à vontade, teremos um jantar muito íntimo em minutos, e no fim não esqueça que separamos kits incríveis com os melhores produtos para todas as mulheres, viu!? — ela sorri para Lara. — Já me encontrei com Greg e expliquei os detalhes. Comemoramos cada conquista aqui na França, e apenas tiraremos uma foto sua assinando o nosso contrato. Deveríamos ter feito na sede, mas tivemos problemas. Nossa empresa fica na mesma quadra do hotel. Sabemos que os produtos da linha dermatológica ‘Nanda’ será um sucesso!!! Se você soubesse como foi nossa apresentação com os doutores e com o marketing... Já podemos ver grandes números, uma grande aceitação do público. Seu apelo aos cuidados com o tipo de pele dela, a conscientização do uso filtro solar, o lado aflorado de realçar a beleza ao invés de escondê-los... seu projeto inteiro é completo, Vicente. Falaremos mais disso durante o jantar, todos amaram! Será uma honra para a Praga realizar o seu sonho em homenagem à Nanda, e principalmente levar todos os seus produtos para o mundo a fora!!! Logo, logo te apresentarei minha mãe, ela está louca pra te ver! — Eu agradeço a confiança, Eloise! Serei para sempre, grato. Eu falo, nos despedidos e Allana pula. — Viu! Eu falei que todo mundo ia amar! — Allana me abraça e Lara parece perdida.


— Vou procurar um banheiro. — Amor, não faz assim. — eu peço baixinho e ela nega. — Quero fazer xixi. É só isso. — ela fala simplesmente e foge da minha vista. — Lara está chateada? — Allana saca. — Está. Está e eu já pressinto o pior! Essa noite será a mais longa da minha vida. — resmungo. — E aí, posso me aproximar? — ouço a voz de Greg e suspiro. — Como vai ser isso, hein? — Vamos jantar, conversar sobre negócios, tirar algumas fotos e só. — Greg no seu terno feito sobe medida, diz, e se ajoelha para falar com Allana. — E a princesa aqui? Preparada para ter uma noite livre do papai com o tio Greg? — Lara está brava, esqueça seus planos!!! — Allana diz simplesmente. — Que papo é esse? — ele se levanta. — Já chegamos aqui e encontramos Eloise. Eu não pensei que a gente falaria do meu projeto em si, achei só que íamos ser apresentados. Não sabia que teria “bate-papo revelação”. Eu trouxe Lara para “notar o quanto ainda penso em minha esposa...” isso não vai acabar bem! Você devia ter me avisado, me dado um toque! — Eu nem sabia que seria assim, também não achei que seu projeto seria tão explorado. Não pensei que os motivos da criação dos produtos haviam chamado tanta atenção. Achei que a gente ia chegar, beber uns drinques, tirar umas fotos, comer e sair fora!!! — ele diz rindo. — Pois Eloise ficou bem “mexida” com o câncer da Nanda!!! — falo baixo e ele parece ter se lembrado de alguma coisa. — É a mãe dela, parça. A mãe dela teve e se recuperou... deveria ter te dito o porquê ela tanto se identificou, simplesmente esqueci, não dei bola. Por isso ela amou o teu projeto e virou fã! — Merda. E tu tá íntimo já, hein!? Sabendo das intimidades da mulher... — Eu já comi, rapaz!!! — ele fala baixo para Allana não ouvir. — Comi e comi gostoso. Nos encontramos depois que a gente chegou e eu sentei a vara. — ele fala e ri. — Fui até a mansão dela! Mas relaxa, isso não vai atrapalhar nossos negócios. Vamos levar os produtos da Nanda para o mundo todo!!! — Eu já consegui notar que “levar os produtos da Nanda para o mundo”, será o meu fim com a Lara... — Ela não pode falar nada, esse projeto já existia antes de você conhecê-la e ela me parece uma garota muito evoluída, vai entender. — Greg fala e fica tenso olhando ao redor. — Ela é gata, hein. Aliás, nós nem conseguimos bater um papo, tu me quer longe da garota, mas... parabéns! Tu é um maldito sortudo! A garota é linda! Agora vou embora antes que ela chegue e você surte comigo! Até mais... vou procurar minha loira fogosa! Ele diz, esmurra meu ombro em tom amigável, e eu franzo o cenho sem entender. — Oi. — eu digo assim que ela volta. Parecia super desanimada, e só assentiu pegando na mão de Allana e não na minha. Os minutos que se passaram foram tensos. Lara parecia não ligar para a recepção luxuosa do hotel com comes e bebes que ela poderia estar interessadíssima nas receitas dos combinados que eram servidos. Parecia que a França já não estava mais assim, tão legal. — Ei... — eu me aproximo assim que nos sentamos na gigante e extensa mesa de jantar. Sentei-me no meio para ficar perto das duas. —... quer ir embora? Se quiser, eu dou uma desculpa, te levo


pro hotel!!! Eu falo baixinho em seu ouvido e ela nega sorrindo. — Não. Eu estou bem. Só estou com um pouco de dor de cabeça. Vamos embora quando isso acabar. — Lembra do que me prometeu? — Se concentre no que é importante agora, Vince. — Você é importante. — Tem certeza? — ela me encara e eu não sei explicar o que sinto. — Não faça isso. — pego em sua mão e ela vê quando eu seguro com força. Preferia olhar para minha mão na sua do que em meus olhos. — Só por essa noite. Só mais essa noite. Eu imploro baixinho para que ela suportasse mais essa, ela não diz nada, e quando levanto meus olhos dou de cara com um Greg preocupado. Jauper Praga, pai e sócio de Eloise se levanta, começa a falar e a apresentar todos os empresários da mesa, nos apresenta um a um com aparente felicidade e satisfação; alguns gringos franceses também sócios aqui na França, têm a sua palavra, e logo o senhor de idade que vendia saúde dá a “autorização” para os garçons nos servirem. Nesse momento milhares deles adentram a sala marmorizada e climatizada, e depositam na mesa bandejas gigantes. O cheirinho bom de comida invade o recinto e Allana se remexe nervosa. — Ainda bem. — ela sussurra. — Estava faminta, pai! Ela diz, sorri, e eu seguro um riso alto. Pelo jeito eu não era fã da culinária francesa, mas também estava faminto. — E você? Está com fome também? — falo e ela sorri negando. — Não estava, mas com esse cheirinho aqui... — O que é aquilo, naquela travessa??? — aponto puxando assunto e me aproveitando de seu atual estado de humor. Ela sorri. — É coq au vin. Pra você entender: frango ao vinho! Antigamente eram feitos aqui somente com frango de idade avançada, velhos sabe!? Aí, o vinho servia para amolecer a carne que com o passar dos anos, ficavam duras demais. Hoje não tem mais isso, hoje é feito com frango caipira ou comum. Experimenta! É um dos pratos que chegam mais próximos ao que estamos acostumados. É bem temperadinho!!! Ela fala lindamente empolgada, e eu mordo o lábio inferior porque não posso agarrá-la ali. Ficava linda falando do que mais amava, culinária. O desejo que toma posse do meu corpo é desmedido e eu não entendo, só aceito. — Me sirva! — eu sussurro e ela para de fitar prato por prato na mesa. Parecia querer ter certeza de que conhecia tudo. — Temos garçons aqui, vão nos servir. Aliás, tem um atrás de você querendo que você o olhe nos olhos. — Eu quero você! — eu falo, ela parece piscar lentamente enquanto fita minha boca e depois disso muda sua atenção para o garçom que atendia Allana. — Isso não! Allana! Isso não! Não come esse não, tem foie gras nesse prato... — ela fala algo como fruagá. — Allana! Ela pede baixinho e eu passo a fitar o que a pequena pedia. Allana continua seu pedido e o rapaz a serve, o que imediatamente deixa Lara chateada. — O que é isso? Qual o problema? — eu pergunto e ela cochicha.


— É uma comida feita de modo muito agressivo com patos e gansos, mas tudo bem, deixe-a experimentar... — Você não é minha mãe!!! Para de mandar em mim!!! Eu como o que eu quiser!!! — Allana diz baixinho, mas totalmente agressiva e para provocar, coloca uma colher do patê cor de rosa na boca, e Lara só a analisa extremamente entristecida. Nesse momento um garçom toca meu ombro, eu aponto para o prato que Lara indicou, e espero ele sair. — Nós conversaremos quando chegarmos ao hotel. Teremos uma conversa bem séria. — Eu quero comer isso! Ela não vai ficar mandando no que eu vou comer, nunca fez isso, não é agora que vai fazer! — Se ela falou, é pro teu bem, Allana. — Ela quer é me deixar com fome!!! — Ela disse que esse prato é... — eu começo, mas Allana começa a chorar. — Pare de chorar, agora! Pare com o choro! Eu peço, pois sua postura já estava começando a chamar atenção. Lara em silêncio estava assim permaneceu. Um clima horrível. Assim que eu pretendia me desculpar em seu nome, Jauper fala alguma coisa e tira a atenção de todos. Comemos em silêncio, logo após nos foi entregue o cardápio de sobremesas, e Lara permaneceu em silêncio fechada para si enquanto tudo ao redor acontecia. Nem sequer pediu uma sobremesa para ela. Estava mexida com o que ouviu de Allana e assim ficou. — Vicente, esta é minha mãe... — uma Eloise sorridente me apresenta uma senhora extremamente elegante e grisalha. Supus imediatamente ser esposa de Jauper. Uma empresa grande administrada em família, assim era comigo após conhecer Nanda na faculdade. — Clarisse! Contei para ela sobre os seus produtos e ela ficou extremamente “grata á você”. Disse que com certeza será uma cliente! — Que isso... — cumprimento a senhora com educação e ela fala em Francês. Eloise permaneceu nos servindo de intérprete pelos próximos cinco minutos. Os temas do nosso breve assunto foram câncer de pele, Nanda, sua experiência com o câncer de pele, e o meu luto. Lara permaneceu ilegível o tempo todo, Allana ainda emburrada porque já esperava meu esporro em casa, e parecia não saber se encarava uma Lara triste ou um pai puto da vida, e eu permaneci pisando em ovos. Á todo momento a história de Nanda se fazia presente nas rodas de conversas, mesmo eu apresentando Lara como “minha atual”, e o climão não ia embora nunca. Eu não sabia mais o que fazer. — Vamos á nossa foto? Lá na sede da empresa temos um enorme mural com todas as fotos de nossos clientes mais importantes, viu!? — Jauper se aproxima e eu tenho a impressão de que babava meu ovo por algum motivo. Eu não estava entendendo mais nada. Não sabia que meu produto era assim, tão promissor para a Praga & co. Não estava entendendo nada!!! — E em falar na sede, vocês estão convidados para conhecer e quero logo planejar com Greg a noite de lançamento aqui na França, o país líder em vendas de cosméticos e perfumarias do mundo!!! — Será incrível, senhor Jauper! — eu resmungo tentando sorrir e ele me puxa me deixando cada vez mais distante de Allana e Lara no canto mais reservado do ambiente repleto de janelas ovais. O lugar era lindo. Era.


A sua equipe tinha montado uma espécie de mesa de escritório em um canto exclusivo e apesar de parecer, eu não era o único cliente ali que acabava de fechar um negócio. Tinha mais uns três caras e duas mulheres que posavam para as milhares de fotos que ‘fazíamos’ com Eloise e sua família. Enquanto eu esperava em uma roda próxima, podia ver Lara se sentando em um sofá agora quase vazio, e Allana se sentando ao seu lado e falando alguma coisa. Lara apenas olhava pra frente e parecia nada responder. Olhando dali parecia “de saco cheio”. Magoada era apelido, Lara parecia péssima. Tiro as fotos, assino o contrato simbólico para inflar o ego da família, e rapidamente saio à francesa, literalmente. — Vamos... — digo para as duas e Greg me aborda com o que eu imaginei ser um dos clientes que também estava ali para o evento. O vi de relance, parecia ser muito simpático. — Vince, este é Cristiano... quis que eu te apresentasse... também é brasileiro, lá de São Paulo. — eu cumprimento o rapaz sorridente e ele logo vira uma matraca. — Eu soube da história do seu produto e me emocionei. Sua esposa deve estar imensamente emocionada aonde quer que esteja. — É. Deve estar sim. — respiro fundo. — Eu estou muito feliz pela oportunidade. Vai me desculpar, Cristiano... mas eu estava saindo à francesa. — ele ri entendendo. — Ainda gostaríamos de conhecer a cidade, então... — Claro, claro... é um prazer te conhecer! Gostaria muito de conversar com você no Brasil a respeito do que minha empresa de publicidade pode fazer pelos produtos “Nanda” lá em São Paulo. Eu estou realmente interessado em uma parceria!!! — O prazer foi meu! Fale com Greg e poderemos marcar uma reunião, é claro que me interessa demais! Obrigado pelas palavras! — falo com pressa, e lhe ofereço as costas. Greg já estava alugando Lara, finjo que não vejo, aviso que já podemos ir, e ao receber meu olhar endurecido ele me cumprimenta e se afasta. Vou com as duas até o táxi, aguento o silêncio triste o caminho todo, me sinto exausto, e assim que chego, consigo constatar a gravidade de toda a situação quando Lara sobe as escadas arruinando meu plano recém elaborado de conversar com as duas juntas, e eu entendo. Entendo e me sento pesadamente no sofá ao lado da pequena emburrada. — Não tem que brigar comigo, tem que brigar com ela que quer mandar em mim! — Allana já fala logo e me olha de rabo de olho, chorosa. — Você, mesmo “certa” quando disse que ela não é sua mãe e não deveria mandar em você... a magoou. — eu falo e ela me encara chateada. Seu queixo tremia anunciando o inicio do choro alto, e eu lamento. — Lara já estava magoada porque... bom, eu acho, filha, que eu cometi um grave erro não abrindo pra ela que estávamos ali por causa do produto da mamãe, entendeu!? Não pensei em contar a ela. Isso quer dizer que ela ficou a noite inteira escutando sobre a mamãe. Não que falar da sua mãe seja um problema, mas é que você sabe que ela gosta muito de mim, certo!? — E você gosta dela, ela sabe disso. — Não. Ela não sabe disso. — eu falo a real e Allana parece não entender nadinha, então prossigo. — Eu acho que a Lara vê que eu demonstro gostar dela, mas ela não sente. O que ela sente é que será impossível amá-la um dia porque o seu pai “jamais vai esquecer a sua mãe”, e


hoje as coisas ficaram um pouco... um pouco complicadas. No resumo eu gosto dela, mas acabei de provar que sua mãe será inesquecível em nossas vidas, e bom... você ajudou que ela chegasse nessa percepção quando disse em voz alta que ela não era a sua mãe. Não era e deu a entender que “nunca seria”. Sua mãe está enraizada aqui... — eu desenho um círculo com o dedo indicando nós dois. —... e ela não vai sair, nunca vai sair. Lara nos ama e desejava ter em nós, uma família, mas ela notou que será impossível porque “você já tem uma mãe” e eu “já tenho uma mulher”... é assim que funciona. Conseguiu entender??? Eu pergunto e ela chora. Chora porque enfim entendeu o que aconteceu. — Não é culpa sua. Não é culpa sua!!! Nem sua e nem minha. Essa é a vida, é assim que as coisas são, e o que eu sempre, em toda a minha vida temi, vai acontecer. Olha pra mim... — eu a faço levantar do meu colo e vê-la chorar destrói meu coração, mas fico firme. — Lara está muito, muito magoada, e provavelmente quer ir pra casa. Eu sempre evitei arrumar outra companheira simplesmente para não te ver sofrer, só que aconteceu, agora já era. Só que... eu acho que você está bem grandinha agora, tem que entender que a vida é mesmo uma constante incerteza e nós temos problemas o tempo todo. Primeiro eu preciso te dizer que uma das coisas que fizeram eu me apaixonar pela Lara, foi pelo modo como ela trata você. Ela te ama e te trata muito bem, como uma princesa, ela faz tudo o que eu não faço e até te mima ao contrário de mim. Só que ela sabe que você não teve a mamãe aqui, eu acho que às vezes ela sente que precisa te proteger como uma mãe faria, e como você só tem a mim, ela agarrou esse papel. — sorrio. — E ela ama esse papel, então nada do que ela diz é pro teu mal, nada. Ela disse que aquele patê que você acabou comendo, é elaborado de uma forma muito grosseira, ela só queria proteger você, e não “ser a sua mãe”, ou “mandar em você pra te deixar passar fome”, então... antes de tudo, eu quero que quando ela ficar mais calma, você peça desculpas por magoá-la não importa o que aconteça. Não importa como a gente termine. Peça desculpas por ter sido tão grosseira, está bem? — eu questiono e ela concorda. — Ela vai nos deixar por causa do que eu falei? — Por causa do que você falou, não... não necessariamente. Ela vai nos deixar porque... acho que porque ela sabe que merece mais. Eu sou complicado, filha. Você é terrível. — sorrio negando. — Lara é forte, mas está cansada. — Cansada de nós dois??? — Cansada da luta que a gente significa, eu acho que soaria melhor. Então, eu vou te pedir isso, primeiro, amanhã, quando ela estiver mais calma, peça desculpas, e não faça escândalo quando ela for pra casa, não a magoe mais e não torne tudo mais difícil. É um pedido como a Tia faz, de todo o coração. Ok? — eu questiono e ela concorda extremamente chateada. Beijo o topo de sua cabeça, e a deixo ali. Me levanto e preparo o psicológico para o papo que eu e a outra pequena teríamos. Lara ia me deixar, eu sabia, e já estava morto por dentro de novo, só por ter certeza daquilo. Eu voltaria a ser um homem morto em vida. Caminho como se estivesse chegando à porta do inferno. Até sorrio com o pensamento. Quando entro no quarto vejo sua silhueta marcada pelas luzes da cidade que se misturavam com a luz forte e amarelada que a Torre Eiffel reluzia. Seus olhos estavam brilhando demais e então pude notar que havia chorado após chegar. Isso porque eu me aproximei e pude ver as bolsas abaixo dos olhos. Durante o dia todo passeamos, namoramos por Paris, e mimamos juntos uma Allana mais serelepe do que nunca. Tivemos um dia incrível e uma noite extremamente triste.


— Me perdoe por hoje!? Eu lamento muito. Eu falo de uma vez e sinto vontade de abraçá-la daquele jeitinho que ela gosta, por trás, mas me seguro. Estava claro que eu não deveria chegar tão perto. Não com ela tão chateada. — Sabe do que eu estava me lembrando agora!? — Não. — Do momento em que a gente se viu. — rimos juntos. — Minha testa ficou doendo por horas. — ela ri e eu engulo o choro. — Vi que ficou excitado por ter me visto de quatro, vi que me desejou, e amei aquilo, amei a possibilidade de ser desejada por um homem tão... — ela para pra pensar e me olha sorrindo. —... viril, bonito, boa pinta, gostoso, forte... me senti nas nuvens sendo desejada por você. Primeira vez que um homem conseguiu ter um domínio tão grande sobre mim... — Por que me parece tão saudosa? — eu questiono fitando a torre, passo a olhar em seus olhos, e claro, ela desvia os dela. — Não me deixa, amor. — eu abaixo o tom de voz por algum motivo. — Eu não sabia que essa história toda seria tão exposta a você e te atingiria tanto. Eu pensei que só assinaria uns papeis, planejei tudo isso há muito tempo, só consegui essa empresa agora, jamais poderia desistir disso. Se eu soubesse que seria assim, não tinha te levado até lá, marcaria algo legal pra você e Allana fazerem, te manteria afastada. Mesmo porque, como eu disse, anular esse contrato não é algo que está em meu alcance agora. — Eu entendo seu lado. Eu só lamento que essa sua nova conquista não seja algo que eu possa celebrar com você. Não é um projeto que signifique algo novo, um novo passo pra sua empresa, um divisor de águas pra sua história, ou uma nova fase na sua vida. É só mais do mesmo, é Fernanda cada vez mais presente. Hoje eu estive do lado do homem que estava lá para homenagear a esposa. Senti sua mulher viva ali, mais viva do que eu... logo esses seus produtos, que são bem legais aliás, correrão o mundo. Fico pensando que vou vê-los nos outdoors, talvez na TV, quem sabe!? — ela sorri. — E tem mais, Allana é pequena, eu entendo, mas tem razão quando diz que eu não sou a mãe dela. Quanto maior ficar, mais essa frase se tornará constante, e cada vez mais machucada ficarei por ouvir, e tudo bem também. Já te falei isso, eu estou ciente de que ela jamais me verá como uma mãe e ainda tem mais essa novidade de que você não quer mais filhos. Eu entendo sua posição, entendo os sentimentos dela, e quero que você entenda o que eu estou falando. Já te disse que eu sabia que não duraríamos muito tempo juntos, e esse momento chegou. Jamais deveria ter esperanças de ter um relacionamento sério com você. — ela fala “relacionamento sério” como se significasse algo grande. — Eu quero mais e nesse momento, nesse momento, você não pode me oferecer, e eu... — ela me encara e confessa. —... eu sabia! Eu sabia disso. — Querer manter esse projeto não significa que não sinto nada por ti, muito menos que eu ainda a ame, ou que eu jamais estarei pronto, nada disso. — Eu sei. Você gosta muito de mim, sim. Só que você não entende muito bem o que sente e o quão grande é esse sentimento. Um dia talvez, vá entender. Eu só não posso esperar. Na verdade eu... eu não quero mais. Não quero mais esperar. — O que está dizendo? — eu não sei se ouvi direito então me aproximei só para que ela pudesse repetir o que disse e eu entendesse enfim. — Não quero mais tentar. Não quero mais esperar pra te ter completamente. Já não te quero mais, eu quero respirar, descansar. Estou cansada. Ficar tentando constantemente te ter por inteiro, é extremamente cansativo. Já vi que as coisas contigo não serão como eu sonhei, então, sei a hora


de parar, de recuar. — Será que você está se ouvindo??? — Eu estou sendo franca, sincera contigo. Estou acabando agora pra não ficar pior. — Está me dispensando. — Eu fui dispensada hoje. — É SÓ A PORRA DE ALGUNS PRODUTOS! — É ela viva, cada vez mais viva. — enquanto eu grito ela simplesmente fala. — O que quer que eu faça? Quer que eu quebre esse contrato e me foda inteiro? Quer a minha vida, sua demônia??? — eu questiono me sentindo tonto e ela ri do que eu falei. A filha da puta ri. — Não gosto quando me chama assim. — Tô mentindo??? — sem saber o que fazer eu passo a andar pra lá e pra cá. Eu sabia que ela me deixaria, mas estar ali vivendo aquilo, era... era desesperador. — Entrou na minha vida e acabou com tudo. Você destruiu a minha vida. Eu tinha o controle da minha própria vida e você acabou com tudo aparecendo na minha casa e ficando de quatro para me foder! Você é uma filha da puta! Cretina! — eu falo, coloco a mão na boca indignado e ela segura outro riso. — Eu estava errado, estava com medo de perder você por estar tão feliz, me sentia um amaldiçoado, sentia que ia perder minha segunda mulher seja ela quem fosse, mas não, é você quem vai me perder, você vai acabar me matando de infarto. Eu vou morrer!!! — Você é por demais dramático!!! — Eu te amo, maldita!!! — eu deixo escapar e isso a faz ficar sem argumento. Bingo. — Agora calou a boca, não é!? Não aguenta um drama? Faço drama por medo, medo de te perder, medo desse véu encantado que você tem nos olhos cair, e você enfim notar que eu não sou merda nenhuma!!! Eu só sou alguma coisa porque VOCÊ vê algo mágico em mim. Não sei como conseguiu gostar de mim, eu não tenho nada, só tenho uma filha, que por sinal também tem o dom de fazer você sofrer. Eu não significo nada pra ninguém!!! Pela primeira vez em muito tempo alguém me enxergou e foi você. — Espera aí, um minuto... — Não vou repetir, tirando a parte que eu te ofendo, não vou repetir. Só falarei novamente se mudar de ideia. — Não vou mudar de ideia com relação a nada do que eu disse. — ela diz insegura e eu perco a paciência. — Quem vai te fazer sentir o que eu faço quando a gente fica junto? — pergunto imprensando suas costas na parede. — Quem? Quem vai apagar esse fogo que você tem aí, o tempo todo??? Quem poderia fazer você feliz? — É aí que está o problema... — Lara, não... —... você não está me fazendo feliz. — ela consegue dizer isso me olhando nos olhos e chega a minha vez de não ter argumento nenhum por isso me afasto. Sinto uma dor aguda no peito e tenho medo. Medo do fim, e medo de realmente enfartar, afinal, a dor que eu sentia era absurda. — Entendi. — Eu sinto muito, Vince. — ela diz e eu só concordo com a cabeça, a voz não saía. Eu não a faço feliz, era a verdade, o que eu deveria dizer!?!? — Deixei as coisas chegarem longe demais, e é


tudo culpa minha. Ela fala, eu me viro, seguro na grade de segurança e fecho os olhos sentindo o vento frio atingir meu rosto com ignorância. Aquilo era melhor que a dor, se eu pudesse sentiria somente o frio. Nem escuto quando ela sai, e nem se foi pra cama. Permaneço naquela posição até a hora que o horizonte começa a clarear e nem sei como eu consegui. Tentei o tempo todo só pensar no vento frio que me atingia e só foquei naquilo. Funcionou. Nem vi o tempo passar. Mais uma perda. Aquela foi mais uma perda em minha vida. Uma pra morte, e outra pra vida. — Pai? — ouço a voz de Allana bem distante e só passo a ouvi-la completamente quando suas mãos puxam a barra do meu terno. — Vem tomar café... já está na mesa. — A... Lara!? Onde ela está? — Ela arrumou a mesa quando trouxeram as bandejas, mas saiu. Disse que ia se despedir da cidade, pedir um café na rua e caminhar um pouco. Mandou dizer pra não se preocupar que logo ela estaria aqui pra gente ir embora e o celular está ligado. Ela fala, eu concordo e deposito um beijo no topo de sua cabeça amarelada. — Pediu desculpas como eu sugeri? — Pedi. Ela disse que estava tudo bem. — ela diz miando e eu concordo. — Mas eu acho que ela não desculpou de verdade. Deixei ela muito triste. — Não foi você não. Fui eu quem a deixou. — eu entro no quarto e sinto um vazio ao ver que a cama arrumada. Eu precisava dela para ser feliz, será que só eu notava aquilo??? — Ela vai embora pra sempre? Mesmo??? — Vai. Acho que sim. Por isso nós vamos tentar ficar bem e deixá-la descansar. Lara está cansada. Eu falo sem olhar para a pequena e vou direto pro banho. Havia uma ponta de esperança de ela pensar melhor e mudar de ideia e por isso continuo “seguindo”. Achava que metade de mim a queria de volta, e metade de mim queria que ela permanecesse com sua decisão para enfim ser feliz. Eu a amava, sim amava, e por amá-la tanto eu queria ver de novo aquela Lara do início. Sorridente, peralta, sempre alegre... ela merecia isso. Merecia a felicidade e está aí algo que eu não conseguia oferecer a ela: felicidade. Mas eu queria tanto fazê-la feliz, tanto... Pelo visto eu continuava uma bagunça. — Já arrumou suas coisas? — eu pergunto a Allana na mesa do café e ela concorda com a cabeça. — A Lara arrumou antes de ir pra rua. Ela diz desanimada. — Posso ir pro sofá? Não quero comer nada. Quero deitar. — Tá com sono? — eu pergunto e ela só balança a cabeça. Olho no relógio e vejo que são oito da manhã. Nem entendi o porquê acordou tão cedo mesmo sabendo que “não tinha aula”. — Você dormiu bem??? Como se sentiu essa noite? — Tive pesadelo, mas depois passou. — Lara dormiu contigo na cama? — Não. Ela ficou no sofá da sala com a TV ligava até de manhã. Acho que ela não quis dormir comigo porque está de mal de mim. — Se você dormiu bem, como viu isso??? — questiono, ela levanta da mesa, eu a sigo com minha


xícara na mão e a vejo se jogar no sofá de tênis e tudo. Estava levemente rosada. Me aproximo, toco em sua testa, e constato “o pior”. Estava febril. — Merda!!! — resmungo me sentindo culpado, ligo para a recepção, deixo a porta aberta e aguardo a entrega de um antitérmico com a pequena no colo. Óbvio que era febre psicológica. Eu não devia envolvê-la tanto em meus problemas, sempre quis evitar tudo isso. — O que foi? — Lara chega minutos depois que eu desligo o telefone e estranha ao ver a pequena no meu colo, toda emboladinha. — Está febril, já pedi um remédio. Está chegando. Eu falo e seu semblante fica preocupado. Ela parece pensar se chega perto, se afasta, ou a pega no colo como eu penso que faria normalmente, e decide se baseando na decisão que tomou: ela sobe pro quarto para sofrer sozinha. O problema é que sua distância não dura muito. Allana acorda na hora em que o funcionário chega e eu abro sua boca para pingar o remédio. Lara que nos espiava da escada, escuta quando a princesa febril chama por ela fazendo birra como se fosse um bebê. E funciona. Lara se senta do meu lado dizendo estar ali, Allana pula pro seu colo me botando pra escanteio, e volta a ser “a bebê doentinha” nos braços de sua “madrasta” favorita. Rapidamente ela amolece o coração de Lara, e é mimada até dar a hora de ir embora. Imediatamente arrancou outro perdão da pequena chateada que ganhou um sorriso enorme. Aquilo parecia tão certo quanto muito errado. Allana e eu precisávamos de Lara para ser felizes.


CAPÍTULO 10

“ — Foi isso o que aconteceu!!! Parece bobeira pra você? Isso parece bobeira, mãe??? — questiono ao seu lado no sofá e ela bufa. — Três horas inteiras ouvindo “Nanda deve estar tão feliz...”, “sua esposa deve te amar ainda mais por isso...”, “Que sorte sua mulher teve”, “Que pena que seu casamento acabou assim, apostaria que seriam daqueles casais que duram uma vida toda...”, “o amor que você sente por essa mulher é tão inspirador...”— bufo. — O tempo todo isso, fui invisível. Parecia que as pessoas ignoravam quando ele dizia “... e ESSA É A MINHA MULHER”, em alto e bom som. Se bem que também ninguém tem culpa. Ele estava lá por um projeto de vida que leva o nome dela, é óbvio que ela seria o assunto. Conseguiam ver claramente o amor dele por ela. Ele jamais vai esquecê-la... — me sinto doente e apoio a cabeça nas mãos. — ele jamais vai esquecer aquela mulher, mãe, e ele nem está tentando. — Eu acho que você precisa ter mais paciência, Lara. A situação dele é muito complicada. Se coloque no lugar dele. Se Deus me livre acontecesse com vocês, quando é que você se recuperaria??? Você tá querendo demais de uma hora pra outra!!! — Eu sei, mãe. Tá? Eu sei. Mas não é só isso, não é só esse câncer no meio da gente. Tem Allana. Falou claramente que eu não era a mãe dela!!! — E você não é. Por que quer ser a mãe dela? Deveria aceitar o papel de madrasta. — O papel onde eu devo ignorá-la em quaisquer circunstâncias porque não sou a mãe dela??? Deixar a garota comer estomago dilatado de ganso que nasceu apenas para ser abatido sem nunca ter saído da jaula porque não sou a mãe dela??? Correr no meio da rua quando o pai dela atende o celular porque não sou a mãe dela? Eu queria uma família com aquele homem. Eu os amo! Ela não TEM QUE me ver como mãe, mas achar que qualquer coisa que eu disser é porque quero tomar o lugar da falecida, é demais pra mim, e eu sei que ela sempre vai falar isso pra mim, sempre vai jogar em minha cara que eu não sou nada dela. Eu não queria tomar o lugar dessa mulher, eu queria mais é que ela não existisse. — fico puta e suspiro. — Eu vou dar uma volta, vou ver o Júnior. Preciso gritar de frustração e ele como meu amigo vai ter que aguentar. Aqui eu não vou fazer isso. — E a menina? Como ela está? Será que já melhorou? — Melhorou rapidinho. Quando eu saí de lá, a febre tinha passado. Agora ela vai viver com febre, em Paris antes de virmos embora, ela também ficou. Grudou em mim o voo todo. Agora ela ficará sempre, né!? Olha que demais, não sou a mãe, mas passei mais tempo com ela do que aquela mulher. Allana nasceu e ela morreu. Cuido quando tem febre, foi a mim que procurou quando estava assim. É a minha falta que ela sente agora!!! Até pouco tempo eu cuidava dos deveres, roupas, cama, levava e buscava na escola, levava pra comprar sorvete... se eu não sou “a mãe”, quem é? Ela?...”


Repasso a conversa na cabeça com minha mãe enquanto finjo me alimentar no pátio da faculdade. Tive a conversa com ela assim que cheguei em casa, e o que mais me chamava a atenção era a raiva que eu sentia durante a conversa. Sim, eu estava com raiva. Vivi um turbilhão de sentimentos desde aquele dia, até hoje e estou falando de três semanas. Tirando a novidade boa de que o processo do meu pai estava sendo bem analisado pelo advogado do Vicente, de resto, TUDO estava ruindo. Primeiro veio a raiva, o rancor, o sentimento de fracasso, e depois veio a saudade, a ausência de apetite, os pesadelos e depois a insônia. Eu estava acabada. Estava acabada porque não mais o via. Saímos do hotel assim que sua febre diminuiu e permanecemos em silêncio e em uma enorme distância. Sentia seu olhar gelado o tempo todo sobre mim, mas assim como eu, Vicente pareceu notar que era melhor não dizer nada. Fez questão de me levar até em casa, travou no portão, me puxou pela cintura, me deu um abraço forte, e me virou as costas. Senti com tudo de mim que aquele seria o último abraço e podia apostar que ele também. Por isso foi longo, forte, cheio de significados, mas silencioso. Nos primeiros dias em que Allana “decidiu ficar doente e chamar por mim”, eu ia até lá. Ele me recebia, me olhava cuidar dela chorando em silêncio feito um bebê manhoso, e depois tentava se aproximar, nessa hora eu fugia. Depois de um tempo, notei que havia desistido, essa era a hora em que eu apertava a campainha e a encontrava somente com Tia na sala, mesmo sabendo que ele estava em casa. Devia se trancar na galeria, ou no próprio quarto, quarto que dividia com ela, e a raiva tomava conta dessa parte. Vicente passou a me evitar como no início. Não, ele não mudou de casa, ele não mudou sua vida por mim, ele não fez nada além de promessas vazias e quando viu que aquilo não era o suficiente, me ligou. “ — Desculpe se eu te atrapalho. Você está bem? — Estou e você? — Estou como estava antes de te conhecer, se é que você quer sinceridade. — Sinceridade é sempre bom! — Pois então. Liguei pra te dizer que conversei, de novo, com Allana. Expliquei novamente que tudo entre a gente acabou e que você não virá mais... sei que não parece justo com nenhuma das duas, mas... eu acho que vai ser melhor assim. Allana ainda quer nos ver juntos, e “ficará doente” até conseguir, enfim... acho melhor a gente dar um jeito de ela ir se acostumando com o fim. — É impressão minha, ou, porque eu disse que não te quero mais, está me proibindo de vê-la. — É só até ela entender que nós dois não teremos mais nada. — Até ela entender, ou até você entender? — Tanto faz. Não posso mais entrar aqui e sentir seu cheiro, ver a comida que cozinhou pra ela, a ouvir falar de você e de como você a ama, ver seus cuidados que não mais se estendem a mim. Não posso mais ficar perto de você sem poder te tocar, sem poder te amar. Eu estou quebrado. Estou destruído, mas acho que tenho uma chance de me recuperar. Aceitar a dor que eu já estava acostumado antes de você chegar. Aquela dor familiar já é suportável, já a que eu estou sentindo nesse momento... me fez te ligar agora para te dizer: por favor, não venha mais aqui. Nunca mais se aproxime de nós dois, não enquanto sua presença fria ainda acabar comigo. Eu te amo e você sabe disso, sei que sabe disso, mas sem você e sem ter você pra mim de novo, na minha cama, eu prefiro o nada. Prefiro tua ausência...”


Eu podia ouvi-lo naquele instante, podia sentir com todas as minhas forças que ele me falava tudo aquilo de olhos fechados, assim como eu o escutava. Sua dor era tão palpável quanto a minha, e eu não podia fazer nada, Vicente deixava claro que pouco ia fazer para mudar a minha percepção de quem mudaria com relação à esposa falecida. Mas eu o queria tanto, queria tanto aquele homem de volta... tanto... — Oi. — Leonardo se senta em minha mesa sem eu deixar, mas sorrio mesmo assim. Meu professor dedicado demais. — Oi, professor. E aí!? — Como você está, Lara??? — Eu estou bem... e você? — Estou bem, obrigado! — ele sorri brevemente. — Sei que você acabou de retomar as aulas, mas ouvi sempre muito bem de você e analisando suas fichas, vi que suas notas sempre foram excelentes... — ele fala e eu concordo. — Só que isso aqui... — ele me mostra a primeira prova teórica que precisei fazer para “comprovar meus conhecimentos”. Prova obrigatória para quem destranca a faculdade de gastronomia. —... não me parece uma nota excelente. Você nunca chegou tão perto disso. Você está mesmo bem? Analiso a nota 4,05 — que normalmente eu tiraria 10,0. — e me sinto enjoada. — Não. — falo enfim confessando e ele ignora as lágrimas que me cegam. — Eu não estou bem, não. — Pois fique. Está bem? Fique bem e conte comigo para o que precisar, inclusive se quiser conversar. Vou preparar ainda hoje uma nova prova pra você e quero que você refaça. Analisando os seus dados na instituição, isso aqui mancharia sua reputação que a meu ver, é a melhor de todo o curso. Você não merece carregar essa nota no histórico. Vou refazer essa prova, te entregar, e você vai me devolver preenchida com o máximo de si. — Por que está me ajudando? — Não sei. — ele fala simplesmente e eu pela primeira vez fito seus olhos azuis com curiosidade. Até o azul profundo virar um mar negro e lamacento como os DELE. — Eu vou com tua cara. E realmente acho que você tem um potencial enorme. Fará de novo essa prova e vai se preparar para as massas na semana que vem. — Vou arrasar! Pode deixar. Obrigada por isso. — “Não pode deixar a massa desandar”. — ele me faz rir com nosso bordão e se levanta. — Não estou falando de um miojo, estou falando de uma macarronada com todos os ingredientes feitos na hora e autoral! — Será o espaguete mais maravilhoso que vocês vão experimentar na vida!!! — Eu não duvido disso! — o jovem professor grita porque já estava longe e eu suspiro. Precisava me concentrar ou além de sair daquela deprê com o coração partido, eu ia acabar arruinando a oportunidade de me formar com notas boas. Eu estava mal porque precisava dos dois para ficar bem. — Oi, Tia. Sou eu. Tudo bem por aí??? — eu ligo pro fixo e ela atende. — Oi, filha! Tudo do jeito que você imagina. — Cadê a Allana? — Bom, ela está pra sair da aula... o Vicente busca a pequena na escola e vem com ela pra casa. Termina o trabalho na sala com ela ou no quarto. QUANDO ele vai trabalhar.


— Ele não está indo trabalhar? — Mais fica em casa do que vai. Está péssimo de novo. Não almoça, não toma café, só fica sentado na mesa olhando a Allana. Outra que também não “está lá àquelas coisas”. Você faz muita falta... — Vão acabar se acostumando. É o que ele queria... se acostumar com minha ausência. — Não sei não, viu. Tô com tanta dó... mas e você? Como você está? — Estou bem. — minto. — Só com saudade. Está bem difícil, mas... espero me acostumar também. — Eu queria tanto ver vocês dois juntos. Ele estava tão feliz!!! Você também. Meu menino... agora está sofrendo tanto, parece que voltou a ficar de luto. Por que não vem aqui? Por que vocês não se entendem, meu Deus!? — Seja sincera comigo, Tia. A senhora realmente acha que um dia ele vai esquecer a Nanda? — É claro que não!!! Como poderia??? — ela diz e eu quase dou risada concordando. — Foi a mulher que ele perdeu de uma forma horrível, filha. Precoce. Nanda era uma mulher incrível, os dois se amavam demais! Ela faleceu, o deixou com a pequena ainda de colo, teve a família dos sonhos dele, destruída. Ele não poderia esquecê-la nem se quisesse. Ele só tem lembranças boas dela. Só que ela se foi, e ele te ama muito. Ele não precisa fingir que a Nanda nunca existiu para poder ficar contigo. Vocês duas não podem competir, vocês têm que ser “amigas”. Agora você cuida da família que ela teve que deixar. Nanda agora está em um lugar muito bom e também te ama. Te ama porque você ama a família que era dela nessa vida. — Ela se foi, Tia. Parece que nem a senhora quer aceitar isso. — Oh! Minha filha, a Nanda nunca deixou de zelar pelos dois. Agora ela cuida de vocês três. Não tenha ranço dela. Nanda era um anjo como você. Era muito boa e não pediu para que essa tragédia acontecesse, não tenha mágoas de sua memória. Vince sempre se lembrará dela com muito amor e carinho, mas agora ama você e sofre por você! — Ele precisa escolher uma das duas! — Ah! Mais eu vou te dar uns cascudos, viu! Como consegue ser tão teimosa, meu Deus??? Eita, ele está vindo. Vou falar que você me ligou e contou que está de namorico novo. Vou juntar vocês dois, estão os dois estão sofrendo. Vejo pela sua voz o quanto está abatida. Vou fazer ele ir atrás de você pra te dar uns tapas pra parar de ser teimosa!!! — Nem pense em fazer isso, ouviu bem??? Tia? Tia??? Resmungo no telefone, mas noto que acabei falando sozinha. Merda. O que ela vai falar? E se ele vir aqui??? E se ele não vir??? Merda!!! Volto do almoço completamente perturbada e assim permaneço por horas. Tia era doida. Muito doida! Eu estava tão nervosa; mas também não durou muito. Foquei nas atividades curriculares e me neguei a pensar em qualquer coisa que não fosse na história da gastronomia japonesa e suas modificações aqui no Brasil. Teoria, teoria, teoria... e deu certo quando peguei a minha cópia do brieffing sobre a aula prática de massas da semana que vem. Eu precisava cozinhar algo autoral e não sabia dizer se o que ia me foder era na hora de fazer a massa em si e não virar uma gosma, — as minhas massas artesanais não eram o meu forte. — ou se era as instruções extensas que eu deveria seguir, porque não era simplesmente cozinhar, eu tinha regras e tempo cronometrado na hora do exame. Afinal, eu nunca cozinharia na santa paz em uma cozinha industrial ou em um restaurante renomado. Eu sempre ia estar sobe pressão, e nunca


poderia errar. Errar significava perder cliente, e perder cliente era perder dinheiro e fracassar na carreira. — Lara!!! — ouço Leonardo me gritar e por pouco não me pega na saída. — Aqui está. É claro que eu não preciso pedir que não diga a ninguém sobre a essa... — Poxa! É claro que não! Não vou dizer nada. — falo baixo. — Muito obrigada pela oportunidade, não vou te decepcionar! — Sei que não. Faça, me traga amanhã, e se quiser umas dicas sobre a semana que vem, me traga sua receita que eu vou analisar pra você e então... posso te dizer a porcentagem do seu sucesso, e do seu fracasso. — rimos juntos. — O quanto antes você me trouxer, melhor. Que assim você tem tempo de modificar alguma coisa, mas não vou facilitar. Se eu entortar a boca assim... — ele demonstra e eu dou risada. — é porque não é legal, e então você descarta, mas não vou dizer mais nada... — Tudo bem! Agora... se não for abusar, já abusando. Será que nessa semana eu conseguiria a cozinha emprestada??? Na minha casa, é um tanto quanto complicado testar. Muito pequena e... — Eu vou ver o que posso fazer por você, vou ver como está a agenda das turmas. Vou tentar arrumar uma brecha. Mas SÓ se você me trouxer um exame decente. Feito? — Feito. — ele me cumprimenta e eu me sinto grata. — Valeu! Valeu mesmo. — me afasto de seu abraço e ele sorri. — Até amanhã, professor. — Até amanhã, Lara! — ele sorri, dou um tchauzinho com a mão e vejo a criatura sombria descer do carro que foi estacionado na frente do portão de maneira apressada. — Quem é esse cara? — ele logo questiona invadindo meu espaço pessoal e seu cheiro me deixa maluca. Eu sabia que estava com saudade, mas não sabia que era tanta. Meu Deus!!! — Quem é esse cara??? Ele pergunta de novo e eu sorrio. — Meu novo namorado. — eu olho para trás e vejo que Leonardo, ao se assustar com aquela abordagem de ogro dele, parou no meio do caminho e só ficou nos olhando, curioso. Pelo jeito temia pela minha segurança. O gostoso vestia um suéter fino azul-marinho, calças escuras e fúria como charme. Ciúme. Claramente havia saído do sofá para vir me buscar. Viu Leonardo perto de mim e “constatou” que Tia não estava de brincadeirinha. “Eu realmente já tinha outro”. — Continua tendo prazer em me foder, não é??? — Sim! Muito! — me penduro em seu pescoço. — O que faz aqui? Deu saudade de mim??? — me sinto triste e não demonstro. Queria que ele “me visse” bem, por cima. Então eu ia provocar ao invés de desprezá-lo só para magoá-lo ou chorar implorando para voltar pra mim. Naquele momento me sentia feliz, então aproveitei. Estar em seus braços era o que eu sempre quis. — Entra no carro! — Em troca do quê? — Em troca de eu não esmurrar o nerd filho da puta e sair do país só para não ter que olhar pra essa sua cara debochada. ENTRA! Ele fala, entra no carro, eu dou risada morta de saudade, entro no lado do passageiro, e vejo quando ele lança um olhar maligno para meu professor. No dia seguinte eu teria que me explicar ou Leonardo poderia pensar demais e acabar “entendendo” o porquê eu estava mal na faculdade.


— Onde está me levando? — Você vai ver quando chegar! — ele parece misterioso demais e permanecia puto por ver Leonardo perto de mim. — Eu quero ir pra minha casa. Não quero ir pra lugar nenhum com você. — me faço de doida e ele bufa. — Tá. E entrou no carro por quê? — Pra você não dar vexame na rua, feito um ignorante grosseirão!!! — Foda-se. Você fala demais. — E você... fala de menos! Faz de menos!!! — eu me irrito. — Por que veio aqui? Por que não me deixa em paz? Não mandou eu me afastar e ficar longe de vocês? Por que você veio??? Não acha que... — Me responde uma coisa com sinceridade... — ele me interrompe enquanto ainda dirigia, entra no que parece um condomínio particular, e para em frente a uma das casas, nem olhei muito ao redor, eu só queria ouvir sua pergunta. — Se eu tivesse te ligado e avisado que viria te buscar pra gente conversar, você me receberia? — O-o quê? — gaguejo. — Que pergunta é essa!? Claro que não... — penso. — Sim... — ele sorri feito um bocó. — Sim! — Foi o que eu pensei. — ele diz tocando minhas coxas e me acarinhando. — e se não tivesse com esse vestidinho aí, se por um milagre tivesse colocado uma calça jeans para ir pra faculdade... mudaria após minha ligação? Colocaria um de seus vestidinhos minúsculos para me ver? — Não sei aonde quer chegar... — eu respondo e ele chega onde queria quando alcança minha calcinha. Eu respiro fundo, penso nos prós e contras, ele passa a fitar sua própria mão, e eu involuntariamente abro as pernas. — Sabe. Sabe sim. — Vicente coloca minha calcinha pro lado e minha mão esquerda pula para o apoio do banco, como se me segurar fosse manter a “minha dignidade”. — Quem é aquele desgraçado??? — Meu professor. — gemo quando ele começa a fazer os movimentos que eu já sabia de cor. — Me traiu com ele? — balanço a cabeça, e ele se inclina em minha direção enquanto ainda se divertia com minha bocetinha que já piscava. — Deu a boceta pra ele??? Trepou com o cara? — Não. Que pergunta boba! — Boba!? Por que o abraço? Por que o agarramento na frente da faculdade??? — Foi sem maldade! Eu só o agradeci... só agradeci por algo que fez por minhas notas. — eu digo, ele avança contra mim, puxa os cabelos de minha nuca, mas não para com os dedos. Sentia que faltava pouquíssimo para gozar no seu estofado de couro. — Sem maldade??? O que ele fez por suas notas??? — Me deixou fazer outra prova. — Tá brincando com a minha cara? Virou uma menininha inocente??? — N-não! — Por que acha então, que ganhou essa mordomia??? — Por que ele quer me comer, óbvio! — eu falo e ele me encara. Nesse momento ele para de me tocar e parece mais do que furioso, como nunca antes. — Claro que não foi porque sabe que sou uma aluna que valha a pena. Ele me deu outra chance porque viu que eu estava mal, triste, e


queria uma chance de me foder. — eu entro no seu jogo e tiro a calcinha pra ficar mais fácil. — Assim como Francoise, assim como Greg... Júnior... minha beleza e meu corpo chamam atenção, é óbvio que todos eles me desejam, nós dois sabemos disso. Agora a questão é... — me viro de lado, apoio as costas na porta e abro as pernas pra ele ver. —... qual deles chegará primeiro após saber que estou solteira de novo!?!? — Não me provoca. — ele avisa e eu fico com medo ao ver sua respiração ficar descompassada. Vicente chega a rosnar. — Só estou sendo franca. Você deixou tudo isso aqui a troco de quê!? Os três estão livres, eu estou livre. Que o melhor: Vença! — Para. — Quer entrar na fila? — toco sua barba grossa com os dedos dos pés. — Me mostre seu melhor. Vou experimentar um por um e... — CALE A BOCA! — ele manda puxando novamente os fios de minha nuca e ao sentir o inferno que carregava dentro de si, eu obedeço na hora. — Cale-a-boca! — ele tenta manter o controle, mas quase não consegue. — Jamais fará isso, primeiro porque me pertence, segundo que é a mim que você ama, e depois sabe que como eu faço nenhum deles fará. Olha como eu te deixo!!! — ele mostra a palma da mão encharcada. — Acha que algum homem nessa vida será capaz de amar você do jeito que eu amo? Você sabe que não! E quer saber mais??? Quer mais sinceridade? Nenhum deles aguentariam você por muito tempo como EU aguento!!! Tu é chata, bocuda, pidona, e mimada. Nenhum deles aguentariam uma semana contigo. — seguro uma risada, e me faço de magoada. — Ficar cedendo aos seus caprichos não é pra qualquer homem, não, mas eu sou esse homem. Um é um franguinho que mal saiu das fraldas, o outro é literalmente sem sal e se foder do jeito que cozinha, te conhecendo como eu conheço: te faz fugir da França á pé!!! E o outro... — ele ri zombando. — o outro é um brocha que não vai dar conta desse fogo todo que você tem no rabo. Não aguentaria uma inteira. Jamais treparia contigo durante um dia inteiro como EU faço, como foi comigo, desde que você abriu essas pernas pra mim naquela mesa. Não queira me deixar enciumado com nenhum dos três. Eu posso ser o problemático, mas eu dou conta de foder essa boceta insaciável e principalmente, ao contrário do que disse, eu dou conta de te fazer feliz. Se não fosse assim, não estaria tão péssima como eu estou; posso apostar que nem comendo ou dormindo direito você está. Tá sentindo minha falta, sofrendo com a distância, e subindo pelas paredes de tanta saudade do teu homem. Então sim, EU sou o único macho que você vai ter na vida daqui por diante, EU sim continuarei te fazendo feliz, e EU sou o homem que vai continuar te fazendo promessas, sendo um escroto sempre que precisar, e errando de vez em quando porque apesar de não parecer, eu não sou tão perfeito assim, mas vou melhorar cada dia mais. Teremos uma vida inteira pela frente para eu te provar que nenhum filho da puta na face dessa terra será mais completo do que eu, e te amará mais do que eu. E principalmente teremos uma vida inteira pela frente para eu te provar, a cada dia, incansavelmente, que não existe mulher nenhuma aqui dentro, a não ser você. Que eu jamais senti o que eu estou sentindo agora! Então cale a boca, nunca mais repita essa merda que não foi nem um pouco engraçada e abra essas malditas pernas!


EPÍLOGO

Alguns dias atrás. — Preciso falar contigo! Estou com problemas! — entro em seu quarto após ser recebido por seu pai na sala. Tia estava em casa com Allana. O pirralho estava entretido montando uma espécie de maquete em palito de sorvete, com óculos de grau, e mordiscando um dos palitos despreocupadamente. —... eu não sei o que posso fazer para ela acreditar em mim. Ela acha que eu ainda amo a Nanda!!! Como ela pode pensar isso!? É um projeto, não é uma declaração de amor. Era... — eu penso. — não é mais. Agora que eu... a tinha em minha vida, não é mais. Eu não sabia que aquele evento seria tão desastroso, eu não sabia que ela ficaria tão sentida. Estou me sentindo um merda. — eu termino de falar, me sento em sua cama que parecia um chiqueiro de tão bagunçada e noto que de tão concentrado em seu trabalho manual, o moleque nem esboça uma reação. — Dê a Lara o que ela quer. — ele diz encaixando uma última peça que deveria ser de um catavento. Conseguiu fazer girar e tudo. — Você não entendeu. Ela me deixou. Ela te conta tudo, mas isso não contou??? Ela estava lá em casa, todos esses dias. Tive que ligar pra ela e mandá-la nunca mais pisar lá. Eu não estou aguentando, vou pirar sem ela na minha vida e a Allana não vai melhorar sem ela. Está com febre psicológica desde quando voltamos de Paris. Aquele nojento do chefe que ela ama fez uma proposta a ela, te contou? Ela negou por mim, por nós. E eu estraguei tudo, ela nega, mas abriu mão de algo grande por mim e por Allana, mas eu desgracei tudo! Allana disse pra ela que ela não era a sua mãe e a criatura já até tinha dito que queria filhos, e claro, eu estraguei um clima maravilhoso dizendo que jamais teria filhos novamente, antes disso. Eu sou um merda, mas eu a amo. Eu só estrago tudo, mas não consigo viver sem ela. Quero viver com ela estragando tudo, quero Lara na minha vida de qualquer jeito! — desabafo e ele testa o movimento de uma das janelinhas do que eu achava que seria um casarão. — Dê a ela, o que ela quer. — ele resmunga de novo. — Está de brincadeira comigo? Está zoando com minha cara? — eu questiono e ele me olha de esguelha brevemente. Logo volta a testar mais uma janelinha. — Não. Não estou. Você veio até aqui com certeza querendo um conselho e eu te dei o melhor de todos. Dê a Lara o que ela quer. — Ela não quer nada, a Lara não quer me ver nem pintado de ouro. Nós terminamos. Acabou e estamos sofrendo. Allana está sofrendo. Eu a afastei da minha filha, ela nunca vai me perdoar, de mim só vai querer distância. Está me ouvindo? Será que tem como parar de brincar de casinha e


pelo menos olhar para mim enquanto falo? Pelo menos fingir que está interessado??? Eu questiono, e ele me encara parecendo lidar com uma criança de três anos e eu acho que com razão. — Tá legal. Bota pra fora! — ele puxa uma cadeira, se senta na minha frente e aguarda pacientemente. É nesse momento que quase não tenho o que dizer. Era melhor ter ficado desabafando “sozinho”. — Se alguma coisa acontecer com ela... — eu tento respirar para não chorar na frente do mané. —... eu nunca vou me perdoar. Se um dia ela se machucar, sou capaz de fazer uma loucura. — Tá. Vamos seguir pela parte prática e lógica: Lara tem uma saúde de ferro e não tem câncer em seu histórico familiar. Você precisa entender que a Lara e a Nanda são duas mulheres completamente diferentes e graças a Deus, normalmente, um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. E mais: estando com ela, você pode protegê-la, incluindo zelando por sua saúde se é isso o que te preocupa. O que aconteceu com Nanda foi uma obra lamentável do destino e não vai acontecer com a Lara. Lara não vai morrer assim que você se casar com ela, você não vai perder outra família. Seu relacionamento com ela só vai ruir se você continuar agindo feito um babaca. — Eu a amo. Estou agindo feito um babaca porque a amo demais. Tenho medo do desconhecido, tenho medo do que reserva o nosso futuro. Eu só a faço sofrer. Ela merece mais. Eu a amo, mas sei que ela merece mais. — Isso eu posso concordar com você. — ele ri. — Mas quem manda no coração? Dê a ela o que ela quer, antes que alguém ofereça primeiro. Está perdendo tempo demais a deixando solteira. — ele diz, e eu me levanto já querendo sumir. — Ela não me quer mais. — eu só resmungo ao invés de abrir a porta. — Fui até a faculdade para vê-la de longe. Ela parece bem de novo... feliz. Ela não me quer. — Ela quer. Quer você, Allana, uma casa, cachorros, e vários bebês. E isso é pouco perto do que você pode oferecer. — Andou falando com ela de novo? Ela continua desabafando contigo??? — Não. Isso é óbvio. — ele dá de ombros. — Está estampado na cara dela. — ele levanta da cadeira e se aproxima de mim. Parecia apressado em me ver longe, estava doido pra voltar para a sua atividade. — Que porcaria é essa? É pra faculdade??? — aponto com a cabeça. — Não. Só gosto de fazer pra relaxar. Eu sabia que ficaria estressado demais quando você chegasse. — Cuidado. Não vai mais nos ver quando eu ficar bem. — E só por isso eu espero nunca mais ver vocês dois. — ele sorri e eu nego com a cabeça. Assim como Tia, aquele garoto era todinho descompensado na hora de falar as coisas que a gente precisava ouvir. Doido, doido... — Dê a Lara o que ela quer, não pense, não pare, não meça os pesos e as medidas. Só dê e você voltará a ser feliz. Não tem segredo. Saia daquela casa, deixe para outra pessoa cuidar do produto em homenagem à Nanda, passe a responsabilidade para alguém, coloque uma aliança em seu dedo, converse com a Allana sobre o que a Lara significa, e deixe-a notar que é única. Só quem pode acabar com esse relacionamento de vocês é seu medo, mesmo porque Lara sempre esteve entregue. Você que só ficou depois. Quer saber o que fazer para resolver todo o seu caos interior? Dê a Lara o que ela tanto quer!


Atualmente. — Você demorou. Vivi um inferno. — Lara resmunga miando feito uma puta das bem safadas. Nos jogamos no banco de trás e o carro parecia querer andar sozinho de tanto que balançava. — Estava ocupado organizando minha vida pra voltar pra você. — No que consiste essa organização? — Pra começar, marquei uma consulta com o professor do pirralho, vou vê-lo frequentemente. — paro de falar por um momento quando ela rebola. — Porra! Para, me deixa falar isso porque essa você vai querer ouvir! — eu digo e ela ri dando apenas pulinhos. O barulho me deixa maluco e quase me faz pirar. — Coloquei meu apartamento à venda... — O-o quê? — ela questiona surpresa e começa a se esfregar ao invés de pular. —... passei as burocracias do meu produto pro Greg porque quando vi a multa que eu ia pagar por cancelar, vi que poderia levar você e Allana para vender balas nos faróis, ou pedir esmolas... — dou risada. — e comprei uma casa pra nós três! — Não brinca com isso. Não tem a menor graça. — ela fica chateada achando que é brincadeira. Eu sorrio sentindo meu pau pulsar de tesão por causa de sua carinha, me inclino, abocanho seu seio direito, e resmungo ao apontar pela janela. — Lá. — eu falo e ela vira o pescoço. — Estamos na frente dela. Essa é sua casa. Sua e da minha outra princesa. — falo e sorrio quando a sinto travar mesmo sem olhar nos seus olhos por estar ocupado demais mamando gostoso em seu seio redondinho. — Está de brincadeira??? — Não. — eu tiro a boca puxando o seu bico vermelhinho levemente e também encaro o casarão branco por um momento. — Vamos formar nossa família aqui. Por isso te trouxe aqui. Sei que eu deveria ter vindo contigo para escolher, mas eu queria fazer surpresa. Aliás, o condomínio ainda está praticamente vazio, então, se de dia quiser dar uma olhada, podemos mudar a compra sem muitos problemas, você decide. Tudo por você! — Eu não acredito!!! — ela pula de alegria, e parece esquecer que minha vara ainda estava enterrada nela. — É um sonho!!! — Lara me beija e eu concordo. — É sim, um sonho. Estar contigo é um sonho. — O que você fez...— ela sussurra gemendo... — Não agradeça, será uma honra passar essa boceta pro meu nome. — mordo seu lábio inferior. — Só minha. — resmungo e ela mia. — Vince... — O que? — De que tamanho é a cozinha??? — não aguento e dou risada. — Tu ta pensando na cozinha, demônia??? — Sim!!! — ela ri gemendo ainda mais, toda fogosa. — Me diz. — É bem grande. Foi o primeiro quesito na hora que eu comecei a procurar. Uma cozinha grande significa minha mulher feliz, e minha mulher feliz, significa: eu sendo muito mimado. — Ah! — ela deixa escapar por entre os lábios. — Vou pagar cada momento... eu prometo! — Então paga! Pague nesse momento!!! — eu ordeno. Ela concorda com um sorriso de canto de boca, passa a rebolar, e eu perco o rumo como sempre.


Puxo seu corpo “pra baixo” enquanto ela rebola, me agarro em seu corpo sentindo a onda de prazer que me consumia, rosno. Ela trepava deliciosamente. Quando aviso que vou gozar ela para, me faz deitar e senta em minha boca para ganhar mais tempo. Sua boceta parecia veludo. Sua pele delicada e seu gosto me deixavam insano. Eu não sabia dizer o que ela tinha, tudo nela parecia criado para me enlouquecer, cada detalhe. Sentia como se a qualquer hora eu fosse morrer de tanto amor e tesão por aquela garota. Eu só pensava na possibilidade de tê-la sentando em minha boca e de quatro pra mim todos os dias. — Ah! Nossa!!! — ela exclama se esfregando desenfreadamente e eu preciso lutar contra seu próprio desejo só para manter a língua no ponto certo de sua bocetinha melada. Mais um pouco, se eu não a contenho, a garota goza em minha face toda. Grudo as mãos em sua cintura, abocanho sua boceta inteira, só permaneço mexendo a língua daquele jeito que ela ama, e enfim goza berrando e gemendo. Minha vadia! Rapidamente eu me sento, ela pula em meu colo imediatamente, e sem cerimônia começa a cavalgar feito uma louca, olhando em meus olhos. Ela nada fala. Investe contra mim com força como se já ter gozado não tivesse apagado seu fogo, e enquanto eu mordo o lábio ela sorri. — Quando tiver quase lá, me avisa! — E-eu, eu tô quase lá, amor... — aviso na hora, ela sorri, e para. — Filha da p...— tento falar, mas seu beijo me cala. Chupa minha língua e permanece de olhos abertos assim como eu. Volta a pular gemendo e eu agarro sua nuca. Enlouqueço ao fitar a cena em que sua xota me engole, e ela sente os espasmos no pé da minha barriga. Ela para de novo e sorri. — Sinto gosto de boceta aqui! Sei que adora mamar nela. Adora meu gosto e ama vê-la salivar por você, por isso vive fazendo carinho em todo momento. É doidinho por essa boceta aqui! — ela acarinha meus lábios com a sua língua, e ri. Volta a cavalgar, geme agudo, rebola um pouco, agarra os meus cabelos, e se eu não a tivesse fodendo, podia jurar que estava sofrendo. Uma cara de puta safada que me deixa doido. E ela para. Queria me levar até o fim. Prolongar a foda, ganhar rola até amanhecer, e claro, me levar ao inferno, ruína total. — Podemos? — ela questiona antes de voltar a pular e enquanto fala, percorre um caminho perigoso usando a língua, do meu maxilar até o ombro. — Podemos. — eu falo e com o polegar, faço um carinho estilo vai-e-vem no seu pontinho mágico e inchado. — Só que se você parar de novo, vai se arrepender. — Se me ameaçar de novo, eu não rebolo nessa vara nunca mais. — ela diz em tom de zombaria. — O que você disse??? — faço-a olhar pra mim. — Nada. Me desculpe... — ela sorri. Era mais esperta do que parecia. — Ah, bom! Pensei que tinha escutado alguma coisa totalmente indevida. Mas acho que você disse que ia começar a rebolar pra mim agora, e que ia sentar nessa vara aqui, sempre que eu quisesse... — resmungo fazendo carinho em sua face com uma vontade enorme de estapeá-la até de manhã. — Foi exatamente o que eu disse. — ela faz charminho e eu concordo com a cabeça. — Então vai, vadia! Rebola pro teu homem. Só quero ouvir você gemer, rebolando bem gostoso, minha putinha safada! — eu falo, abro mais suas coxas para assistir a cena, me encosto no apoio


pra relaxar, e deixo o ar sair de meus pulmões. Rosno e ela não liga, sua atenção estava na tentativa de rebolar e me ver pirar sem gozar primeiro. — Isso, gostosa. Esfrega essa delícia em mim! — apoio os cotovelos no banco e não a toco mais. Eu só queria gozar vendo sua cintura se remexendo por minha causa. — Não para... isso... Ela se apoia nos meus joelhos e se inclina a ponto de eu ver sua boceta todinha engolindo meu pau todo. A melhor cena do mundo. — Ah! Amor!!! — Goza, piranha! Sei que já não aguenta mais, essa bocetinha gulosa é rápida! Goza no meu pau, mas goza e continua, se parar já sabe. Eu falo e ela passa a pular. — Rebola, porra! — Não... — ela mia. — Quero junto! — ela faz um bico e eu grudo nela. — Rebola. Agora! — Ah! Vince!!! Ela obedece, eu a abraço, toco minha testa na sua e a fricção acelerada nos leva até lá. Ao contrário do que pensava, gozamos juntos e grudados um ao outro. Um tesão. — Eu te amo! — ela diz sorrindo com meu pau já desacordado dentro de si. — Eu te amo também, minha gostosa! Te amo muito. Muito mesmo! — Você me faz muito feliz. Nunca mais acredite se eu disser o contrário. Nunca fui tão feliz antes! — Se repetir aquilo, prometo te castigar da pior forma! — eu brinco e ela ri. — Me deixar sem sexo, não vale! — Comprei uma casa onde a cozinha tem trancas! — Nem brinca com isso! Aliás... — ela sorri lindamente. — Posso ver agora??? — Aposto que trepou comigo pensando na cozinha. — Claro que não!!! — ela afirma e depois ri. — Talvez só um pouco... — Ah! Filha da puta! — finjo ficar magoado e ganho vários beijinhos. — Eu te amo, minha linda! Te amo muito! Vou repetir até você acreditar! Eu afirmo e ela me faz juras de amor até criar vontade de sair de cima de mim para ir ver a bendita cozinha. Nos vestimos rapidamente, atravessamos o caminho de pedras que protegia o gramado de nossos pés, e eu abro a enorme porta de madeira branca. Dava pra sentir o cheiro de “coisa nova” dali. Acendo a luz na lateral e uma imensa possível sala se mostra para a pequena empolgada. O piso era de madeira caramelo, e uma escada imensa que começava extensa e afinava na parte de cima, tomava conta do espaço, mas não parecia diminuir seu tamanho. A sala era grande e a escada construída sobe medida com um corrimão dourado, deixava tudo luxuoso, mesmo sem móveis no momento. — Meu Deus! Que lindo, amor... — ela resmunga feliz e segue caminhando de vagar para o corredor a sua frente parecendo sentir que a cozinha ficava ali. — Ah! Meu Deus!!! — ela exclama quando entra no cômodo imenso. O clássico: bancada gigante e os móveis planejados. Uma geladeira branca e bem moderna já ocupava seu lugar e se misturava com os armários ao redor, e o fogão também parecia fazer parte da bancada negra, não se sabia onde terminava e onde acabava, a não ser que você


acendesse o fogo que parecia apenas uma luz circular, ou se já estivesse acostumado com ela. Ainda bem que o cômodo ‘era dela’, porque eu ali eu ficaria mais perdido do que na minha antiga cozinha mais intimista. — É maravilhoso!!! — ela choraminga olhando tudo. — É tua. Vai cozinhar pra nós... eu e Allana temos muita sorte.— resmungo no seu cangote. — Eu é que tenho! Vou cozinhar todo dia, comidas maravilhosas pra vocês!!! — E eu serei o homem mais feliz da face da terra tendo esse corpo como sobremesa! — ela sorri chorando. — Vou comer bem demais e virar um porco de tão imenso! — E se eu engordar também??? — Enquanto eu puder te levantar, por mim, tá tranquilo. — ela ri. — Vamos subir, depois você namora essa cozinha. Tem outro cômodo importante que eu quero te mostrar. — falo e invado sua calcinha sem cerimônia. Se fosse pra morrer de tanto amor, que seja com ela de quatro pra mim. — Aposto e ganho que é um quarto. — Ganhou. — Sabia. — ela ri. — Mas dispenso o convite. Não quero conhecer nenhum quarto agora. — ela encosta a boca gulosa no meu ouvido. — Gosto de cozinhas e quero estrear essa bancada linda! Ela sussurra, pula na bancada de costas, arreganha as pernas e faz como em nossa primeira vez. — Vem. — ela dá tapinhas em sua própria intimidade como uma depravada, e claro, eu obedeço. (...) — Bom, eu sei que no fundo todos vocês sabem o porquê programei esse jantar em nossa casa... — eu falo para todos e Allana engraçadinha me interrompe. — Foi pra mostrar a casa nova pra Tia e pra tia Mag, pai! — ela sorri. — Não só pra isso, sua fuxiqueira. — eu falo e todos riem. Dona Mag, Tia, Greg, Allana, e Júnior, me olhavam curiosos na nossa nova sala. Só a filha da puta com seu vestido curto e saltos altos que quase me mataram do coração, já sabia do bendito pronunciamento. — Dona Mag, — eu a encaro. — Gostaria que seu marido estivesse aqui nesse momento, mas como já falei com ele pelo telefone e sei que logo em breve ele sairá, estou tranquilo. Esse jantar é um jantar de noivado, e por agora gostaria de sua benção para me casar com sua filha. — eu peço e a senhora no vestido mais azul que já vi na vida chora me dizendo ‘sim’. — Quero que vocês dois sejam muito felizes! Claro que dou minha benção, você é um amor! Torci muito por vocês. — ela me abraça, e depois de ganhar cumprimentos de todos, agarro a criatura mais linda do universo. — Com esse anel... — eu digo e ela ri. —... quero deixar claro que você será minha eternamente. — Tão romântico... — Júnior zomba e todos dão risadas. — Mas eu realmente não sou e ela me ama assim mesmo. — resmungo fingindo estar bravo e todos riem novamente. — Claro que é brincadeira! — esclareço. — Só quero deixar claro que eu vou tentar com tudo de mim, te fazer a mulher mais feliz do mundo, e mesmo todo errado do jeito que a gente sabe, eu te amo, e você continuará sendo a única que ocupará meus pensamentos, dia e noite, por toda a eternidade. Vou pedir agora porque...— eu os encaro. —... acreditem ou não, á ela, eu ainda não pedi. — dou risada. — Será que a senhorita mais linda do universo se casaria comigo? — pergunto com um joelho no chão.


— Sim! É claro que sim! — ela ri chorando e depois de colocar o anel que comprei em seu devido lugar, ela me abraça. — Demorou pra caramba, fala sério! Não podia ter pedido antes!? — Meu Deus, filha!!! — dona Mag finge estar envergonhada e arranca mais risos de todos. — Eu sabia que desde o primeiro dia ela queria ouvir isso, sogra, mas eu me fiz de difícil. — Fez mesmo. Eu é que não consegui ser difícil! — Claro que não. Você me amou assim que me viu!!! — Assim como você. — ela diz séria. Tão séria que parecia brava. — Inclusive o peguei na cozinha naquele mesmo dia, ligando pra Tia. “Pelo amor de Deus, Tia, quero outra diarista!!! Me mande outra imediatamente!!!”— ela imita minha voz direitinho. — Todo enlouquecido por mim! — ela ri. — Tem coisas, COMO ESSAS, que você não diz em um jantar de noivado, cujo noivo é tímido. — eu falo e todos dão risadas zombando de mim. — Quero que todo mundo saiba a verdade. Apesar de não parecer, você também se apaixonou por mim. — Me apaixonei, sim! — todos suspiram, Júnior suspira fingindo debochar. — Você é apaixonante. — Lindo! — ela me beija brevemente. — Vamos comer então, minha gente!? — Só tenho mais uma coisa pra falar. — eu falo e o silêncio curioso volta a reinar. — Gostaria de convidar você, Júnior, para ser nosso padrinho. — falo e TODOS ficam surpresos. Esse detalhe, nem ela imaginava. — Você realmente me ama! — ele ri feliz. — Nossa, obrigada!!! — Greg se pronuncia e eu dou risada. — Você também será, Greg, mas com você eu ia falar depois, então pode ficar tranquilo e sem ciúme bobo. — eu falo, ele zomba dizendo saber que “não era muito importante mesmo”, e eu volto a olhar pro pirralho feliz. — Não, eu não te amo, sou apenas possessivo. Quero esfregar na sua cara que quem vai se casar com ela sou eu, e não você! — Lara, está vendo o que te espera, não é!? — ele brinca. — Ainda pode voltar atrás, ainda estou ansiosamente te esperando. — ele brinca, finjo que não escutei aquilo e retribuo seu abraço. — Eu aceito, sim. Obrigado pelo convite. Sei que sou importante pra você como você é pra mim. Não precisa assumir, eu sei que sou. — Tia. — eu digo e vejo a velha rir já esperando minha “pérola”. — Como conseguiu criar esse menino tão mal? A senhora parece que se esforçou para ele crescer desse jeito, fez um belo trabalho nele. Totalmente competente em fazer errado. — Parem com as farpas, os dois. — Lara diz tentando parar de rir. — Que vocês se amam, todo mundo sabe. Já, já sou eu que ficarei possessiva! Vamos comer! Ela me puxa pela mão para me afastar do pirralho marrento e todo mundo ri. Eu a faço parar por um momento e deixo Tia conduzindo todos para a sala de jantar. Só precisava de um momento. — Eu já disse o quanto está gostosa??? — pergunto enquanto vejo minha mão direita tentando se livrar de tanto tule como se tivesse vida própria. — Você disse umas três vezes. O que está fazendo? — ela ri. Como estava de costas para o corredor, ninguém via. Me aproximo, beijo sua boca, e alcanço com os dois dedos, o meu objetivo. — Te fazendo um carinho... — eu falo, passo a mover meus dedos com rapidez e ela fica vermelha. — Vince...


— Diz que eu posso, amor... por favor... — Pode!!! Quero muito! — ela sussurra de olhos fechados e sigo para o corredor da cozinha que estava apagado naquele momento. Eu a imprenso na parede, com a mão direita envolvo sua cintura para não deixá-la cair de pernas bambas, e com os dedos da mão esquerda, “bato uma” pra ela, só para relaxar. — Boceta gostosa, como posso me controlar? Agora é minha noiva, eu mereço um presente de noivado, hoje, não é? — Sim! — ela geme e eu acelero. — Ah! Vince, isso!!! Mordo o lábio mantendo o controle, sinto seu pontinho endurecer delicioso, e quando ela cobre a boca com a mão para não gritar, eu entendo, me ajoelho, coloco sua perna direta em meu ombro e a adoro. Sim, era uma verdadeira adoração. Como negar??? Eu literalmente a adorava. Ela força minha cabeça, balança o quadril em minha boca, e eu mamo tudinho. — Pronto, princesa. — eu falo e ela ri quase constrangida. Tinha nem vergonha na cara. — Vamos! Pego em sua mão e com ela adentro a cozinha turbulenta. — Lara, seu batom está borrado! — Allana logo diz e eu dou risada. — Foi o beijão de comemoração que ela ganhou!!! — eu afirmo e ao me sentar com a safada, beijo sua boca “todo romântico”, já a criatura nem conseguia falar. — Que esse grude se prolongue por anos!!! — Tia nos deseja e eu com certeza confirmo fazendo a gostosa rir sem graça enquanto acarinhava sua coxa sem ninguém notar. — Sim! Nosso grude vai ter que durar! Não aceito menos. — eu falo e ela me olha com amor, mas podia jurar que me difamava em pensamento e eu amei aquilo. Lara com a ajuda de Tia cozinhou um banquete para comemorar nosso noivado de última hora e apresentar a casa nova para todos. Ela, Allana e eu estávamos nas nuvens. Allana ficou feliz com o quarto maior e novo, Lara com sua cozinha e laboratório para a faculdade que em alguns meses terminaria, e eu... eu fiquei feliz por ver minhas duas princesas felizes. Aquilo me bastava. — Agora só o que eu quero saber é... — Tia resmunga na mesa. — Quem é que vai limpar essa casa toda??? — ela resmunga ajudando Lara a nos servir. — Adivinha!!! — eu falo e ela finge ficar brava. — Eu devia era ter TE educado melhor!!! — Júnior praticamente me mostra a língua. — Onde já se viu não pensar em mim, estou velha, menino! — A senhora pode contratar ajuda. — dou risada. — Como sou seu filho mais amado e com razão... — encaro um estudante de psicologia puto. Com isso ele não gostava de brincar. Odiava esse “apego” que eu tinha com sua mãe. —... apenas fiz questão de não te mandar embora. — Ah! Bom!!! — Tia resmunga de boca cheia após se servir. — Oh, mãe. A senhora não vai corrigir o que ele disse, não? — Júnior ‘observa’ e todo mundo ri. — Ele tá brincando, filho. Pare com essa ciumeira. — Tá, mas a senhora ainda não negou que o ama mais. — Aceita. — eu resmungo e ele fecha a cara pra mim. — Eu te amo filho! Muito mais que tudo e todos no mundo!!! — Tia diz quando vê que o pirralho perdeu o bom humor. Mas ele logo sorri pra mim e eu fecho a cara pra Tia. — Você já é um velhote. O amor que você precisa, agora Lara vai te dar! Mas eu te amo também, sabe disso.


— Não tem problema, agora eu tenho uma sogra linda que vai suprir essa minha carência depois dessa sua declaração polêmica. Eu falo, chega a vez da Tia fingir estar brava, dona Mag afirma já me amar, o que faz Tia dizer que a amizade acabou, e ficamos ali, falando de amor, curtindo um ao outro, e papeando, até Greg levar dona Mag pra casa, após eu reforçar a ele meu pedido para ser padrinho, — outro que ficou com ciúmes do “meu amor por Júnior”. — e Júnior com Tia, após, claro, mais algumas trocas de farpas leves. Jamais repetirei isso para alguém, mas aprendi a gostar do pirralho. Era um bom menino e me ajudou muito. Aliás, também fiquei feliz em ver Lara e ele conversando antes de partirem. Os dois conversavam no canto da sala após a sobremesa enquanto Tia me alugava, e eu não senti vontade de matá-lo. Eu sabia que Lara me amava, agora mais do que nunca, e nem o beijo e o abraço de cumprimento que Greg deu nela, também não me fizeram querer mandá-lo embora da minha empresa. Estava confiante em seu amor por mim, Lara me passava confiança, e eu tinha certeza que só tinha a melhorar, principalmente depois das sessões que marquei. Eu ia me cuidar para poder cuidar de minha família e me sentia realizado. Aquela era a noite mais feliz da minha vida e eu acho que todos puderam notar. Fecho a porta enfim, e vejo a princesa servindo duas taças de vinho. Seu vestido rosa era curto, com a saia um pouco armada e com um pequeno amontoado de tecido de bailarina que vazava pra fora, achava ser tule. Uma cópia adulta do vestido rosa que Allana comprou. Saíram para comprar juntas e eu fiquei feliz ao chegar em casa e ver a alegria das duas. Ao falar com Allana sobre o acontecimento em Paris e sobre o quanto magoou Lara, ela pareceu sincera ao afirmar que jamais repetiria aquilo por entender do que Lara falava sobre a comida, que pesquisou na internet, e por notar o quanto aquilo machucava Lara. Ela amava demais sua ‘boadrasta’ e prometeu nunca mais repetir aquilo, que estava louca para ver a gente se casando, e “felizes para sempre”. Então, as duas, obviamente, permaneceram coladas, e também fiquei muito feliz ao notar que Lara “esqueceu” daquilo, e claro, já voltou a mimar a pequena se livrando da tristeza. Lara querendo ou não, seria a mãe que Allana nunca teve e eu agradeci a Deus pela oportunidade porque no fundo, eu acho que sempre soube que Allana, apesar de ser muito amada por mim, também precisava de uma figura feminina em sua vida. — Um vinho!? — ela me estende a taça e aceito. — Você me parece bem cansadinha... Allana subiu? — Subiu. — ela sorri. — E eu tô mesmo... acho que vou deitar por aqui mesmo. Vou nem subir essas escadas! — Sei. — ela sorri. — Deixa eu ver se a pequena já dormiu. Já volto. Eu subo para fazer o ritual de sempre e encontro a loirinha de bruços na cama. Tiro suas sapatilhas e ela ‘meio que acorda’. Eu sorrio. — Pai. — ela resmunga enquanto eu a ajudo tirar o vestido de princesa. — Hum? — Será que a mamãe está brava com a gente? — ela questiona e eu travo por um momento. — Por que ela estaria? — Não sei. Por você se casar com a Lara? E a Lara virar minha nova mãe!? — Ninguém está tomando o lugar dela. Ela se foi. Acho que se ela realmente nos ama como ela sempre disse em vida, vai amar a Lara também. Vai amá-la por ver o quanto ela nos faz feliz. O


quanto cuida tão bem da gente. — eu falo e ela parece entender. — Lara te faz feliz, não faz!? Ela é um amor com você... — É. E ela me perdoou por ter magoado ela! — Pois é. E ela também me perdoou por tê-la magoado. Agora nós seremos uma família, Lara vai cuidar de nós dois, e nós dois vamos cuidar dela. Ficaremos juntos, e agora é pra sempre! — Você promete não brigar mais com ela??? — Olha, ela é bem difícil, e o papai é um ogro. — eu dou risada. — Eu creio que nós vamos brigar um pouco todo dia, talvez não, não sei... mas eu prometo uma coisa: Jamais vou deixá-la partir de novo, nem que eu precise fazer algo magnífico todos os dias para ter o seu perdão. Pra sempre! — eu digo, sorrimos um para o outro, e ela pula na cama já de pijama. — Agora durma bem, nós dois estaremos aqui quando você acordar, a sua família! — Eu te amo, pai! — Eu te amo muito mais! — ganho um sorriso lindo, beijo sua testa, e apago o abajur. Saio do quarto e encontro a boneca na porta com os olhos extremamente brilhantes. — Eu ouvi. — ela sussurra. — Eu notei. — eu a pego no colo, ela me envolve com suas pernas, e eu encosto suas costas na parede do corredor escuro. Eu só podia vê-la chorar por causa da pequena claridade da luz da sala, lá de baixo. — Você me ama... — Ainda duvidava? — Só um tiquinho, quase nada. Pensei por um momento que... — Cale a boca. Não fale nada, não. Eu te amo e é isso o que importa, e agora que viu, perdeu o direito de dizer qualquer bobagem parecida com o que “você pensou”. Sou louco por você como nunca fui antes por mulher alguma. Só quero saber de você. Pra mim, nesse momento, só existe você. Não estou dizendo que Nanda não existiu, mas estou dizendo que minha vida com ela, que aliás, foi maravilhosa e me deu esse presente que está dormindo aqui do lado, acabou e eu aceitei. Já foi, está no passado. Agora minha vida é contigo, você vai me dar uma nova família e eu vou viver para você, vou viver para as duas garotas que mais amo no mundo. Confie em mim como eu confio em você, já falei que só existe você em meu coração e meu amor por você é incomparável! Acredite em mim! — Isso quer dizer que está disposto a aumentar a família se isso for me fazer feliz? — ela diz e eu dou risada. — Eu não acredito mais que vou te perder a qualquer momento, então sim. Isso seria muito injusto comigo e eu confio no teu amor por mim. Quero e serei o pai de seus filhos. Mesmo assim gostaria que você terminasse a faculdade, montasse seu negócio, e principalmente me desse mais alguns meses com esse corpo só pra mim, mas quando vier será bem-vindo e muito amado! Farei qualquer coisa para ver você feliz, e te ver feliz me faz feliz. Teremos alguns pirralhos pra quebrar as coisas da Allana e deixá-la mais enciumada, lotar a casa de fralda suja, um ou dois cachorros que se chamarão Bethoveen, e seja lá o que você me peça daqui cinco minutos. Sim para tudo o que fará nossa família feliz e completa. Eu discurso, ela chora de soluçar, mas se controla quando eu termino. — Caramba! — ela mia tentando brincar e aliviar o climão. — Tá romântico hoje... — É, piranha!? — ela ri negando, “eu me tranformo” só para provocá-la, e com uma mão, acaricio


minha bocetinha que no momento estava sequinha. — Já chega de melação, não é!? É cansativo ser meloso. Vamos foder que é o melhor que a gente faz. É socando minha vara nessa boceta carnuda que eu mostro ainda melhor o quanto te amo, sabe disso. — Eu sei. — ela sorri e eu sinto com o dedo, sua xota salivando. Aquele é o momento que meu pau levanta no ato. Levo-a pro quarto, jogo ela na cama, arreganho suas pernas e inspiro. — Cheirosa! Fica de quatro pra eu fazer o serviço completo. — eu peço, ela obedece, levanto seu vestido, e coloco sua calcinha pro lado. Dou um tapa forte em sua bunda e ela grita. Passo a língua de norte a sul e não duro muito. Em pouco tempo tô metendo do jeito que gosto e ela merece e de tão depravada até tapa na cara pediu. E claro, realizei meu sonho. Tive sorte, eu era noivo da mulher mais completa que já conheci. Uma verdadeira puta na cama, e quem olha não diz. Forno, fogão, e boceta cheirosa e gulosa no fim do dia. O que eu poderia querer mais? Virava a princesinha de cabeça pra baixo e agradecia ao fato de que Allana escolheu o quarto mais distante. O que tinha dengosa, tinha de escandalosa. Só gemia e gritava. No fim eu não dormi, eu caí e apaguei! Mas lá no fundo, bem no fundo, pude ouvir palavras doces antes de me entregar ao cansaço. Lara dizia me amar muito, que me faria muito feliz, e que nunca em toda sua vida foi tão realizada. Podia apostar que apaguei sorrindo. — Acorda, benzinho! — sou desperto com a safada me acariciando, rindo e beijando meu pescoço. Só pelo frescor de sua pele, e seu hidratante corporal, sei que já levantou e tomou banho. Provavelmente já era a hora de eu levantar pra ir trabalhar e levar Allana pra escola. — Já levantou??? — eu resmungo e a puxo pra mim. — Já, se você abrir os olhos, vai ver. — ela brinca, eu abro meus olhos, e vejo sua face limpa a poucos metros de meu rosto. Meu Deus, parecia um sonho!!! O que eu sentia por aquela garota parecia aumentar a cada dia. O brilho que entrava pela janela cujas cortinas ela abriu, aquele ‘filtro’ natural, só a deixava mais bela. Vestia um shorts de pano levinho, uma regata branca, zero maquiagem, e mais nada. Lara não precisava de nada. — Eu te amo. Você é a garota mais linda do mundo! Eu resmungo, beijo sua boca quando ela sorri feliz, me entrego totalmente ao momento enquanto suas mãos alisam minhas costas, e eu jogo o edredom por cima de nossos corpos que se mantinham atracados e em um só compasso. Amá-la todos os dias de manhã também era um sonho. — Hoje tem visita, lá no presídio. — ela diz na mesa linda do café que montou pra gente. Parecia café de novela, ela tinha o dom de fazer refeições simples virarem um evento lindo. — Minha mãe já foi semana passada, e eu vou agora! — E a Tia? Vem hoje? Alguém tem que estar aqui para receber os móveis. Fizemos uma compra básica rapidamente, mas os móveis principais, e os itens de decoração que ela e Allana compraram juntas, estavam pra chegar. — Eu ligarei pra ela, darei um jeito. — Com que roupa vai vestida? — Vou de calça jeans. — ela ri. — Legal. — finjo indiferença e ela ri ainda mais. Queria o quê? Entrar em um presídio com os vestidinhos curtos que gostava? Achava que não era


boa ideia... — Vamos, filha. — eu me levanto ao terminar, Allana corre dar um beijo em Lara, e como sempre sai correndo na frente. — Eu já vou. Vai fazer o que durante o dia? Quando voltar de lá? — Usar essa cozinha enorme para treinar. Mas acho que chegarei um pouco tarde. — eu a agarro e ela geme um pouco com o apertão. — Tarde por quê? — belisco segurando sua intimidade por cima do shorts. Eu adorava tocá-la. Era quase uma mania e eu só não parava porque ela nunca reclamava. Ao invés de me mandar parar, gemia me querendo. — Você sabe que o lugar é distante. Tentarei ser rápida, prometo. Preciso voltar logo pra estudar e na sexta fazer uma massa decente. — Tá. Bom dia, linda! — ela sorri. — Bom dia, lindo! — É legal esse lance. Parecemos uma daquelas famílias de comercial de margarina. — eu resmungo saindo e ela concorda. — Certeza que para os telespectadores parece. Mal sabem eles como o “papai” trata a “mamãe” da família quando as câmeras não estão ligadas. — Eu sou um verdadeiro príncipe. — Não é não!!! — Calada, cachorra! — É disso que estou falando. — ela ri. — Te amo! — eu grito porque já estava na porta e ela também responde gritando. Allana me esperava correndo no enorme gramado que havia ganhado para brincar. Mesmo “grandinha” me fez prometer fazer uma casa grande de bonecas para ela entrar, e a piscina que ainda não tínhamos. Graças a Deus seus desejos ainda eram infantis. Amém. Eu a levo na escola e vou pro trabalho mais motivado do que nunca. Seu perfume e seu gosto ficaram nos meus lábios. — Foi muito bom te ver feliz! Mesmo! Fiquei radiante!!! Sempre sonhei em te ver seguindo, Vince! — Greg resmunga no meu sofá enquanto eu trabalho. Bom, na verdade parei de trabalhar assim que ele entrou com sua barba por fazer. — É a doida que me deixa assim. — risadas altas. — Eu a amo. Estou radiante por causa dela. — E o casório? Quando vai ser? — Eu não sei. Nos mudamos recentemente, falta algumas coisas... só de ter levado suas coisas para a casa nova já a acalmou, então eu acho que terei tempo para planejar algum lugar legal e algumas burocracias com mais calma, então não sei... só sei que não posso enrolar muito! — eu falo e ele ri. — Ela te pegou no laço, né!? — Quase a força. Foi ousada demais e acho que foi isso o que me conquistou nela. Lara sabia o que queria desde o início, lutou por mim, e me conquistou. Admiro isso nela. O problema fui eu que estava problemático. Quer dizer, ainda estou, mas vou melhorar. — ele sorri compreensível. — E você? Trepando com a Eloise, ainda??? — questiono e ele ri negando. — Bom, ela ficou lá e eu aqui. Pra continuar eu precisaria voltar pra lá. — Vai voltar porra nenhuma, tem que ter uma boceta “tão boa quanto” aqui em São Paulo, ou que


ela venha! Você precisa e vai trabalhar! — Eu sei. De qualquer forma, agora que o produto da Nanda está comigo, vou vê-la mais vezes e teremos que nos encontrar periodicamente. Esses produtos me levarão à França gratuitamente e lá está me esperando, a melhor xota que já chupei na vida. Eu não poderia estar mais feliz. — ele ri e eu tento, mas não consigo evitar, dou risada junto. Estava constantemente de bom humor. — Mas em falar nisso, como a Lara reagiu ao saber que você não podia encerrar esse contrato? — Ela ficou mal, eu vi. Mas aceitou quando viu que apesar disso, eu mudaria todo o restante da minha vida, sabe!? Ela é pidona, sabe que se eu falir vai ficar complicado a nossa situação. Quero dar uma vida de rainha para as duas, e a grana de multa ia nos quebrar, jamais faria isso. Se fosse ficar revoltada, ia ficar revoltada e noiva. Além do mais, ter me afastado do projeto também a ajudou a aceitar. Ela só não aceita me ver tão envolvido, supostamente tão entregue ao passado. Agora que vamos nos casar, entendeu que eu realmente estou apaixonando. Eu a coloquei na linha me mudando de casa imediatamente e também deixando para trás todas as coisas dela. Ela achou que eu ia querer ficar com algum quadro, algum retrato dela... — E o que você fez com aquelas coisas??? Nanda desenhou quadros incríveis. — As artes que ela fazia eu doei para uma instituição e alguns dos retratos pedi para Allana escolher, guardar pra ela. Allana tem direito, eu não preciso. Me lembrarei de Nanda com carinho e já disse isso á Lara, mas agora meu futuro é o que importa. — Meu Deus!!! — ele bate palmas lentamente. — Eu estou vivo para ver isso... — ele ri. — Mas e você, Greg!? Esqueceu a minha ex-mulher??? — pergunto rindo e ele perde a graça. Todos os nossos amigos, — a metade faz parte da equipe técnica da empresa. — sabia que ele a amava. O lance era que Greg sempre foi leal a mim, e nunca se mostrou um empecilho, uma pedra em nosso sapato. Desde a faculdade, aceitou que foi por mim que Nanda se apaixonou, e ficou na dele amando-a platonicamente sem nunca abrir aquilo pra ninguém. A gente só sabia pelo olhar dele pra ela. Aliás, pensando nisso nesse momento, acho engraçado o fato de que eu jamais tive tanto ciúmes dela, nunca fui com ela como sou com Lara e, além disso, Greg era muito amigo de Nanda, e mesmo sabendo de seus sentimentos, confiava no amor dela e na fidelidade dele, jamais fui possessivo. Só com Lara foi assim por milhares de motivos, ou melhor, milhares de “problemas” que eu apresento. — Você é um sem noção. — ele fala chateado e se levanta para ir pra sua sala, acreditava eu. — Me desculpe se perguntar te magoou, juro que não foi minha intenção, Greg. Acho que agora que superei, tive vontade de ouvir você. Saber sobre tudo o que sentiu, tudo o que passou... tô falando dos seus sentimentos!!! Nunca conversamos e você sempre pareceu tão bem, ou pelo menos se recuperou primeiro que eu, primeiro que nossos amigos... — Você não sabe nada sobre o que eu sentia por ela. Nem sabe como foi pra mim... — ele fala e eu posso ver algo que nunca vi. Greg tinha seus olhos avermelhados e parecia sofrer. Sempre me aconselhou após sua morte, mas agora... com aquela pergunta... algo se libertou de dentro dele. — É, eu não sei de nada, ou pelo menos não sabia. Até agora. — eu falo e ele vai embora. Greg pelo jeito chegou a amar Nanda tanto quanto eu ou provavelmente mais! Eu me apaixonei novamente e ele permanecia se entregando para uma mulher diferente a cada dia. Deus... Greg “procurava por ela” em todos os lugares.


— Vince, Lara está aqui! — Flávia bate, entra em minha sala e anuncia a filha da puta algumas horas depois. Era cinco e meia e ela estava na rua, desde manhã!? — Manda ela entrar!!! — eu digo logo e me levanto. — Ei, princesa! — eu beijo sua boca e a aperto todinha. Nem sabia que estava cheio de saudade. Estava muito feliz em vê-la. — E então!? Como foi lá??? — pergunto. Em pouco tempo João Gardenno, meu advogado, conseguiria soltar seu pai. Fez um trabalho incrível e eu fiquei feliz por saber que minha sogrinha e minha princesa, estariam mais felizes do que nunca. — Foi muito bom vê-lo tão feliz. Ele disse que assim que sair, quer te encontrar, e vai ser grato a ti profundamente, pelo resto da vida. O doutor está muito confiante. — ela diz amuadinha ao me abraçar. — Que bom, amor, mas você não me parece tão feliz... — Aquele lugar, apesar de tudo, me faz mal. Eu sempre saio de lá mal, mas hoje... o cheiro, as pessoas, meu pai não merece passar por aquilo, Vince. Armaram pra ele! — ela chora de partir o coração e eu a pego nos braços como um bebê. Sento-me no sofá com ela, e a criatura esconde o rosto em meu pescoço. — Pois foi a última vez que você foi até lá. Não vou mais te deixar ir. Agora é só aguardar ele sair, doutor Gardenno me garantiu que ele sai em poucos dias, quero que aguente. Eu não quero ver você desse jeito! — Tudo bem. Eu vou esperar. Agora eu preciso ir pra casa, ainda tenho uma receita pra testar, mas estou tão cansada! Só passei pra te ver. — Descansa hoje, você parece muito abatida. Você vai se dar bem na sexta-feira, eu te garanto isso. Você falou com a Tia? — Eu falei, ela está lá e já me ligou pra dizer que atendeu os entregadores. — Pois então, descansa um pouquinho. Vou pedir pra ela cozinhar algo rapidinho pra gente jantar e cair na cama. Não vou te deixar fazer nada... — E a Allana? — Já, já vou buscá-la. Você vai comigo e vamos juntos pra casa! — Você é um lindo! — ela sorri e beija brevemente. — Preciso fazer xixi! Onde tem banheiro aqui? — ela se levanta, mas me assusto quando volta a sentar e praticamente cai no meu colo de novo. — Ai! — Que foi isso??? — Tudo girou! Tá tudo girando! — ela diz com a mão na testa e meu desespero me cega. — Merda!!! O que você comeu? O que fez de diferente hoje??? — faço-a se sentar em meu lado e corro pegar as chaves do carro. — Nada. Fica calmo. É só uma tontura. — Vamos ver um médico. — Ah! Não pira... — Vamos ver um médico. Agora. — eu tento não gritar, mas mesmo me controlando, ela faz um bico e uma cara brava. — Não vou enfrentar um hospital pra nada. Foi só uma tontura!!! — ela quase grita de repente mais irritada do que eu e não entendo nada.


— Uma tontura pode significar muitas coisas!!! — Claro, concordo. Mas estou mais perto de uma gravidez do que de um câncer, então se controla e não me faça ir embora!!! — ela diz e eu não sei o que dizer. Eu travo totalmente e fico mudo. Completamente mudo. — Não vai dizer nada? — ela pergunta, mas a minha voz não sai. — Certo... Ela resmunga chateada, pega a sua bolsa e bate a porta. O que eu fiz? Ela chega aqui, diz que está grávida, e... e eu sou o problema??? Eu nem falei nada! Acho que foi esse o problema, eu não disse nada. Aquilo foi uma confirmação??? — Você fez algum teste? — pego a fujona na porta do elevador e ela não me olha nos olhos. — Não, mas eu sei que estou. Só estava com medo de te dizer e você ter uma reação como essa. Queria esperar minha faculdade, meus planos, e se não rolasse era melhor ainda que eu sei, então se quiser, ignore a informação. Eu deixei escapar porque estou nervosa, são os hormônios. Ela diz, o elevador se abre pra ela totalmente vazio, e eu noto que nunca em nossa pequena vida juntos a vi tão chateada, então claro que seu semblante me destruiu. Por isso coloco a mão antes da porta fechar, a encaro e travo o elevador quando as portas se fecham e ele começa a descer. Ok. Lara estava grávida, ou pensava que estava, pois não fez teste nenhum. Se realmente estivesse, íamos nos virar juntos. Minha responsabilidade, minha mulher, meu amor... — Certo, então... serei papai de novo. — eu resmungo fechando o cerco com os braços e ela mia. — Provavelmente. — Pensei que desde a França, havia começado a se cuidar... — Não. Não tomei remédio nenhum. — De propósito? — Talvez... — ela zomba como sempre arranhando toda a base do meu pau por cima da calça. —... Talvez eu queira ter um laço eterno com você... ser mais importante do que já sou, acelerar o casamento... — Ou está tão assustada quanto eu, porque sabia que era melhor esperar e agora está nervosa com a minha reação e com o futuro. — eu falo, ela perde a pose de “vadia dona de si” que adorava representar na maioria das vezes, e lágrimas grossas caem de seus olhos. — Me desculpa, Vince! — Bom... — eu respiro fundo e abro o botão do seu jeans. —... talvez eu goste da ideia e esteja feliz por ter um símbolo vivo de meu recomeço contigo. Um filho lindo com os olhos tão negros e lindos quanto os da mamãe. Talvez eu me sinta mais seguro por saber que ficaremos ainda mais unidos por causa dele... muito provavelmente vou poder falar pro pirralho que eu serei pai de um filho seu e não ele. — ela ri chorando. — E bom, acho que ficarei muito feliz por ter um ótimo pretexto pra comprar o São Bernardo que eu sempre quis só para sentir que a nossa família está ainda mais completa... vou ser seu homem, seu marido, e pai dos seus filhos como eu já disse que seria. E mesmo assustado com a novidade, eu juro que não poderia estar tão feliz. Eu juro que nunca nessa minha vida me senti tão completo e realizado. — Você jura? — Eu provo. Provo pra você que de você eu quero e aceito tudo. — eu falo, ela morde o lábio, arranco sua calça jeans em segundos e a faço colocar as pernas ao redor do meu pescoço. Sua boceta ficou na região da minha boca, pronta pra mim. Lara com as mãos e costas


espalmadas no espelho, ficara alta como uma rainha em seu trono e eu ali, pronto para lhe servir. Eu aceitei ser o pai de seus filhos e se veio naquela hora, era pra ser e seria a criança mais amada do mundo. Aceitei suas manias, seu jeitão pidona, safada, cretina, um tanto quanto ninfomaníaca, birrenta, mimada, e por aí vai. Eu a amava e queria o tudo. Queria o 80. — Só temos um desafio, agora. — eu resmungo assim que ela goza na minha língua gritando e gemendo como uma puta, e imediatamente a faço rebitar o traseiro delicioso para meu pau entrar com força. Comer sua bundinha apertada e apalpar sua boceta ao mesmo tempo, era minha perdição. — O-o q...? Ah!!! — ela tentar perguntar, mas eu entro lhe desestabilizando. Já estava adaptado para mim e para meu volume. Nem doía mais. Óbvio, afinal, eu tratava de dar um talento naquele traseiro todo dia um pouquinho. Agora ao invés de chorar lamentando, às vezes eu saía do banho para me deitar e ela já me esperava de bumbum pra cima ordenando que eu “mandasse ver”. —...o que vai ser um desafio, Vince? — Contar para dona Allana que ela vai ter um irmãozinho para dividir tudo o que tem!!! — acompanho sua risada alta e volto a meter forte. Era mais um dos muitos desafios que estávamos dispostos a enfrentar para ficarmos bem, e eu sabia que assim como eu, Lara tinha certeza de que juntos daríamos conta. Aquela “diarista” seria minha para sempre, e eu fazia questão garantir isso, agora mais do que nunca. Faria isso com todas as minhas forças.


NOTA DO AUTOR

Oi! Tudo bom? Gostaria de dizer que te deixei um mimo na sequência do e-book! É a degustação de Espero Você Voltar! Um romance militar lindo que tem um tem um tenente dos sonhos! Você vai amar! Gostou de A minha nova diarista? Que tal resenhar para ajudar uma linda autora nacional??? Brincadeira, mas, é sério! Seu feedback me ajudaria muito! Ah! E fale comigo pelas redes sociais, vou amar receber um cadinho seu! Um beijão da Mah!

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TENENTE MAX

– Como foi o voo, tenente? Jon me faz a pergunta de praxe ao me encontrar na saída do pátio do hangar. Ele é sargento recém-formado na EEAR e trabalha na parte administrativa. Jon é quem me entrega os recados quando minha família liga, quando recebo correspondências ou tenho burocracias para resolver. – Foi muito bom, Jon. Hella ligou? E essa é a minha resposta de praxe. Jon e eu somos amigos, mesmo que ele tenha apenas seus 18 anos, e nos conhecemos o suficiente para que ele saiba que a única coisa que me faria feliz seria uma resposta positiva para essa pergunta. Ele me olha com tristeza e reponde: – Não, senhor. Não ligou, eu sinto muito. Afirmo para Jon com a cabeça e continuo meu caminho. – Tenente, não sei se o senhor já assinou os documentos com alguém da ADM, mas é necessário dar andamento no processo do A-29. O senhor viaja para BANT depois de amanhã. Jon falava da Esquadrilha da Fumaça. Esta será minha primeira vez no evento e, antes de participar, todo piloto precisa assinar o termo de responsabilidade da aeronave. Uma burocracia muito importante e obrigatória. Por esse motivo, em vez de ir descansar, preciso resolver isso e preparar tudo para viajar para base aérea de Natal, em Parnamirim, no RN. Lá eu me reuniria com o EDA, Esquadrão de Demonstração Aérea, que conta com dez pilotos e dois mecânicos para treinamento no simulador de um Super Tucano (A-29). Um passo meu correspondia a três passos de Jon, mas ele me seguia com passadas rápidas. Eu já havia me esquecido desse compromisso e não era obrigação de Jon vir me lembrar, ele só estava aqui porque éramos amigos. – Obrigado, amigo. Vamos lá… farei isso agora. – Muito bem, senhor. Jon sorria tentando me acompanhar. Eu parei de raciocinar quando ele disse que Hella não havia ligado. Assinei a papelada, Jon enviou para a BANT, me deu o documento de autorização e legalidade dos oficiais. – Obrigado, Jon. – Tudo bem, senhor. Tudo aqui é muito formal. Ele poderia dizer: ‘de nada, Max’, mas Jon me respeita demais para ser informal. Às vezes, ele até mesmo ultrapassa o limite da formalidade, mas gosto da forma como ele me trata e respeito isso. Despeço-me dele e me dirijo para casa, um condomínio que abriga apenas oficiais da aeronáutica, aqui em Pirassununga. A entrada é típica de condomínios. O soldado Santos me vê e nem preciso parar e me


identificar, ele logo abre a cancela. A casa é um sobrado grande demais para um homem morar sozinho e o conforto é significativo. Apesar de nunca parar por aqui, quando chego me sinto em casa. É tudo muito simples: minha decoração são os livros da FAB, fotos da Hella e do Tay e aviões de caça, nada mais do que isso. O que me mata é saber que Hella e meu filho estão a apenas duas horas e meia de distância de mim, é só eu pegar meu carro. Mas é difícil… eu sei que sou um covarde. Estou exausto, preciso resolver um milhão de coisas e falar com Hella é sempre muito difícil para mim. Nina vive me ligando e me informando sobre como eles estão, sobre o que Tay aprendeu, sobre as notas de Hella na USP… ela me conta tudo e eu fico morrendo de orgulho. Hella é e sempre vai ser a mulher da minha vida. É a mulher mais forte, mais inteligente e amorosa que já conheci. Talvez ela nunca compreenda o que a FAB significa para mim e talvez Tay nunca me perdoe por isso… mas não posso evitar. É minha profissão e, graças a esta, daqui a uns quatro meses a faculdade do meu pequeno já estará toda paga. Sei que bens materiais não são o suficiente, mas sei que, assim que possível, vou retomar meu casamento com minha mulher e trazer ela e meu filho para morar comigo. Peguei meu telefone e coloquei no contato dela. Eram 19:00 horas, a essa altura ela estaria no campus. Apertei o telefone verde e, logo depois, o vermelho. – Covarde! Digo em voz alta para o universo escutar. Eu sou uma vergonha… piloto de olhos vendados um C-95A ou um C-97, mas não tenho coragem de apertar um botão verde e falar com ela. Tento novamente com uma coragem que não é minha e, dessa vez, eu consigo. No primeiro toque ela atende. – Alô? – Estava com o celular na mão? – Ah, oi. Estava. – ela parece me reconhecer. – Entendo. – Esse número é seu? – ela me pergunta. – Sim. É. – O que você quer? – Faz tempo que não ligo, quero saber de vocês. Como está meu filho? – Está bem, graças a Deus. E você? – Estou bem. Vocês precisam de algo? – pergunto. – Não, Max. Estamos bem. – Tudo bem. Decidi comprar esse celular. Agora você pode me ligar direto que eu te atendo ou retorno. Está no campus? – Estou, sim. – Quando chegar, coloque Tay em videochamada. Quero vê-lo. – Tudo bem. – Você… além de estudar, está fazendo o quê? – Nada. Saio com Tay, levo ele na casa dos seus pais. Viajamos de vez em quando… como sempre. Já te falei isso.


– Uhum. – fico inseguro e faço silêncio. Meu consciente faz milhares de perguntas que não sei responder. – Que foi, Max? O que quer perguntar? – Hella me conhece melhor do que ninguém. – Está com alguém? – Não. Ainda não. Tem novidades aí? O que anda fazendo? – por que ela sempre muda de assunto? – Apoiando a Marinha Mercante. Esse ano vou pilotar na Esquadrilha, você pode levar o Tay para ver? – Levo, claro! Ele vai amar. – ela se anima. – Quero te ver lá também! – Eu irei, Max. – Eu te amo, Hella. Você sabe disso, não é? Não pode se esquecer, vou voltar para vocês. Silêncio do outro lado da linha. – Eu preciso desligar, o intervalo já… o intervalo já acabou… eu… preciso ir, Max. Ela desliga sem que eu consiga me despedir e isso aperta meu coração. Aquela famosa bile na garganta também chega, ajudando a me lembrar do porquê eu nunca ligo. Faz alguns anos que ela não diz me amar de volta… Hella vai acabar me matando, me matando de tanto amá-la. Faço um lanche rápido para não dormir de barriga vazia, mas tomo uma ducha demorada e relaxante. Ao sair do banheiro, escuto a música irritante da chamada de vídeo tocar. É Hella, minha felicidade volta ao saber que vou ver meu filho hoje. – Oi, tenente. – Oi, linda. – Pronto para ver seu filho? – ela pergunta. – Ele aceitou? – Sim, ele aceitou. – Hella sorri para câmera, aquele sorriso que eu amo, o mais bonito do mundo. Ela leva o telefone até o quarto, onde Tay está sentado na cama, arrumando a mochila da escola. – Filho, seu pai quer te ver… pega aqui. – ela entrega o telefone a ele, que pega o aparelho meio torto, de um jeito que só consigo ver a sua boca. – Arruma o telefone filho, só vejo sua boca… Ele olha direito para câmera. – Oi, soldado. – Oi. – Tay me responde. – O que está fazendo? – Arrumando a mochila para aula de amanhã. – Como você está? – Estou bem, obrigado. – O que você está estudando na escola? – As matérias normais. – Filho, responde direito… – escuto a voz de Hella chamando sua atenção. – Estudo as matérias do colégio. E francês, inglês, informática, música, essas coisas… – Tay coça


o lábio superior e olha para mãe que está na frente dele, longe da câmera. – Entendi. Na próxima semana sua mãe vai te levar para me ver pilotar aqueles aviões que soltam fumaça… você quer ir? – Ah… quero. – Tay continua falando cabisbaixo. – Ela disse que você gosta de aviões também… – Sim, eu gosto. – Quer me ajudar a pilotar um? – Tay olha feliz para câmera, com um sorriso enorme, me fazendo mais feliz ainda. Então olha para Hella e depois volta a me olhar. – Eu posso? – Claro que pode. Se você quiser, te ensino a pilotar… é muito fácil. – Tia Nina disse que é difícil. – ele diz. – Mas seu pai é muito inteligente, vai te ensinar e você vai aprender muito rápido. – Quando? Amanhã? – Não, na semana que vem… vai passar rápido, você vai ver. – Eu não vejo a hora! Vou contar para todos os meus amigos que pilotei um Tucano com meu pai. Eu não tinha palavras para descrever aquele momento. Ele havia me chamado de pai e não de Max. Meu sorriso não cabia no rosto, sem contar o fato dele saber o nome da aeronave. Meu orgulho por ele transborda. – Se despeça, filho, e me dê o telefone. Vai escovar os dentes para dormir. – Tchau. – Tchau, filho. Papai ama você. Hella pega o telefone e tem no rosto o mesmo sorriso que eu. – Viu só? Podemos fazer isso Max. – É. Podemos. – Eu acho que você vai acabar tirando meu filho de mim. Ele vai acabar sendo piloto e vai me abandonar também… – Hella sorri para mim, se sentando no que parece ser o sofá da sala de estar. – Eu nunca abandonei você, você sabe disso. Você é o amor da minha vida. Você e Tay são as razões da minha vida. Eu amo vocês! Aliás… quer ver uma coisa? Hella balança a cabeça sem graça e eu viro a câmera do aplicativo mostrando os quadros da sala, as nossas fotografias. Vou para o meu quarto e mostro todos os outros retratos: um desenho que Tay fez em uma moldura na parede, uma foto dela sozinha, outra de nós dois nos beijando, de Tay recém-nascido, e, no meu criado-mudo e do outro lado da cama, alguns livros e algumas das cartas que trocamos quando jovens. Ao terminar de mostrar tudo, nossos sorrisos se coincidem e os olhos dela parecem notar pela primeira vez que estou sem camisa. Seu olhar para no meu peito e ela olha para baixo mordendo o lábio inferior, que é o que ela faz quando está tímida. Nessa hora, quando eu pretendia dizer de novo que a amava, escuto a campainha tocar. – É Nina? Deixa eu falar com ela. – Não é a Nina. Preciso ir, falamos sobre Pirassununga depois… tchau, tenente! – Tchau, Hella. – ela sorri para mim de maneira terna e desliga. Desligo a transmissão e a dor volta. Quem era na porta? Hella recebe visitas tarde da noite?


Profile for Ana Paula Oliveira

A Minha Nova Diarista - Marjory Santos  

Lara no momento é diarista, mas se engana quem acha que é a coitadinha "da história". Nada disso. Têm suas dificuldades, seus medos, suas lu...

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