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LIGA LITERÁRIA


Copyright © 2015 Jaimie Roberts Copyright © 2018 Editora Bezz Título original: Chained Tradução: Samantha Silveira e Gabriela Peres Gomes Revisão Final: Vânia Nunes Capa: Book Cover by Design LTD

Esta é uma obra de ficção. Seu intuito é entreter as pessoas. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência. Esta obra segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa. Todos os direitos reservados. São proibidos o armazenamento e/ou a reprodução de qualquer parte dessa obra, através de quaisquer meios — tangível ou intangível — sem o consentimento escrito da autora. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na lei n°. 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal. Roberts, Jaimie Acorrentado. Jaimie Roberts. Tradução: Samantha Silveira e Gabriela Peres Gomes. 1ª edição – São Paulo – Bezz Editora; 2018. ISBN – 978-85-54288-10-5 1.Romance estrangeiro. 2. Ficção. 3. Erotismo. I. Silveira, Samantha & Gomes, Gabriela Peres II. Título

CONTEÚDO ADULTO Aviso sobre a tradução: algumas expressões e piadas são quase impossíveis de serem traduzidas ipsis litteris para o Português. Portanto, a tradução foi feita para manter a expressão/sentença o mais próximo possível do idioma original.


ÍNDICE CAPÍTULO UM CAPÍTULO TRÊS CAPÍTULO QUATRO CAPÍTULO CINCO CAPÍTULO SEIS CAPÍTULO SETE CAPÍTULO OITO CAPÍTULO NOVE CAPÍTULO DEZ CAPÍTULO ONZE CAPÍTULO DOZE CAPÍTULO CATORZE CAPÍTULO QUINZE CAPÍTULO DEZESSEIS CAPÍTULO DEZESSETE Capítulo Dezoito Capítulo Dezenove Capítulo Vinte Capítulo vinte e um Capítulo vinte e dois Capítulo vinte e três Capítulo vinte e quatro Capítulo vinte e cinco Epílogo Capítulo bônus


PRÓLOGO

Acabaram-se os dias em que minha vida era simples, fácil e sem preocupações. Agora, vivia minha vida fugindo. Por quê? Bem, eu vou chegar a essa parte mais tarde. Por enquanto, gostaria apenas que soubesse como tudo começou. Ver como minha vida tranquila foi de zero a bem mais de cem, num piscar de olhos. Era engraçado como você olhava para trás e lembrava de como via as coisas de forma diferente. Eu tinha vinte anos quando tudo começou. Mudei de Cambridge para Londres, porque queria viver a vida na cidade... Bem, isso é meio que mentira, mas também vou chegar a essa parte depois. Para ser honesta, eu queria ficar livre depois de perder meus pais. Meu pai se matou e, logo depois, minha mãe descobriu que tinha câncer. Ela viveu só mais dois anos até que sucumbiu à doença, então, fiquei por conta própria. Fiquei brava com meu pai porque achei egoísmo da parte dele nos deixar para recolher os pedaços. Estávamos sempre nos mudando, nunca nos fixando em lugar nenhum. Quando criança, isso costumava me deixar frustrada porque acabava de fazer amigos e já tínhamos que mudar de novo. Então, o que eu fazia? Nunca fiz amigos. Eu me tornei uma pessoa fechada, sentindo-me deprimida e solitária com quinze anos. Odiava minha vida. Odiava meus pais por me tornarem desse jeito, e odiava que meu único conforto depois de suas mortes era que nunca teria que me preocupar com dinheiro. Sim, eu tinha dinheiro. Tinha muito dinheiro. Mas como eu poderia comemorar sabendo de onde esse dinheiro veio? Como poderia viver com o conhecimento de que eu nunca teria que me preocupar em pagar minhas contas novamente quando era a mulher mais solitária do mundo? Tudo bem. Isso foi um pouco exagerado, mas era como eu me sentia. Depois que minha mãe morreu, eu me afundei rapidamente. Estava descendo cada vez mais fundo num abismo escuro, que ameaçava me engolir inteira. Fiquei em casa, quase não comia, quase não falava com ninguém. Apenas existia. Isso me traz à próxima parte da minha história. Veja, eu devia ter só


existido e estado deprimida, mas me segurei em algo. Era a faísca de algo dentro de mim que estava ansiosa para sair. Eu tive muito tempo para pensar, então, planejei. Eventualmente, aceitei a ajuda de Titio e ele me ajudou a planejar. Não era meu tio de verdade. Desde bem pequena foi dito para que eu o chamasse dessa forma. Ele me ajudou a passar pelos momentos mais difíceis e, acredite em mim, passei por alguns. Ele era o meu mal necessário. Eu digo mal porque, definitivamente, havia algo sombrio sobre ele. Algo misteriosamente obscuro e, com toda certeza, perigoso. Sabia que ele era um homem muito poderoso por causa do controle que eu via que ele tinha sobre o meu pai. Meu pai estava sempre assustado. Iria ainda mais longe ao dizer que ele estava até um pouco paranoico. Antes de ir dormir a cada noite, ele verificava a casa cinco vezes. Às vezes, eu o observava procurando freneticamente em todos os cantos. Ele nunca soube disso, no entanto. Tanto quanto no que dizia respeito a ele, eu nunca tinha existido. Ele estava muito ocupado ganhando dinheiro, influenciando pessoas, e tentando ao máximo não ser morto... o que foi engraçado, considerando que ele acabou se matando. De qualquer forma, eu deveria voltar para o aqui e agora. Não queria chafurdar mais. Queria fazer algo por mim... e para outras pessoas. Então, o que eu fiz? Com a ajuda de Titio, eu me mudei para Londres, aluguei uma casa de dois quartos, arrumei um emprego de meio período num pub, e no resto do meu tempo livre ajudava a alimentar os moradores de rua no refeitório comunitário local. Eu também gostava de pintar. Se algum dia sentia que ia me afundar naquele buraco que costumava me enterrar, pegava meu pincel e começava a criar. Era para isso que usava meu segundo quarto. Para meu estúdio. Meu santuário. Guardava uma infinidade de pinturas, cada uma delas me dava um propósito. Isso me fez querer viver, querer ver o mundo através de uma nova perspectiva. Era o meu lar dentro do meu lar. O que me traz à parte mais importante da minha história — outra vez. Vou explicar melhor depois, mas, por enquanto, você só precisa saber os detalhes essenciais. Na minha busca em me encontrar e ajudar os outros, conheci um homem, um morador de rua. Um homem de rua, muito misterioso e sombrio. Infelizmente, conheci muitas pessoas desabrigadas, mas esse se destacou, e sabe por quê? Ele nunca falou comigo. Nunca disse uma palavra, nunca reconheceu minha presença. E, francamente, isso irritou pra cacete. Todos eram tão


simpáticos e atenciosos. Apesar do próprio infortúnio de cada um deles, fariam o que fosse para ajudar, mas esse homem? Nada. E isso me deixou ainda mais curiosa para saber mais sobre ele. Na verdade, se fosse totalmente honesta, isso me deixou demasiadamente frustrada. Claro, não termina aí. Acho que sabe onde isso vai dar, mas, por enquanto, eu vou te dizer isso. O homem por quem eu estava tão vislumbrada, o homem que tanto me irritava e me deixava atônita? Seu nome era Kit Chain... E essa era a nossa história.


CAPÍTULO UM

Hilton Hotel, Londres, 2004 — Olivia, está na hora de se arrumar. Titio vai te levar ao parque, lembra? Sorri. Titio sempre cuidava de mim e fazia de tudo para me deixar feliz. — Tudo bem, mamãe. Onde está o meu casaco? Não consigo encontrá-lo. Estava no corredor da nossa cobertura, procurando. Os quartos eram tão grandes, pareciam mais um apartamento do que um quarto de hotel. — Acho que está no meu quarto, Olivia. Vá logo e fique pronta. Entrei no quarto dos meus pais e peguei o casaco na cama. O quarto estava bastante escuro, mas à luz fraca, pude ver uma sombra. Inclinando a cabeça, estreitei meus olhos para tentar ver o que era a sombra. Eu dei alguns passos na direção dela quando ouvi minha mãe gritar: — Olivia, depressa! Virei a cabeça e gritei: — Está bem, mamãe. Estou indo! Olhei para trás uma última vez, mas a sombra tinha sumido. Por um momento, eu pensei que talvez meus pais tivessem um fantasma no quarto, então, agradeci por não dormir ali. Sorri, pensando no passeio com Titio, e vesti o casaco. Virando em direção à porta, parei no mesmo instante. Um homem de cabelo preto curto estava na porta, me encarando. Era um homem que eu nunca tinha visto antes. Deveria ter gritado, mas por algum motivo, perdi a voz. Fiquei apenas olhando, me perguntando o que eu deveria fazer. Enquanto pensava em tudo isso, de repente, ele levou o dedo aos


lábios. — Shh — murmurou e, então, desapareceu da porta. Meus olhos devem ter ficado arregalados. Ainda estava de pé ali, incapaz de me mexer, quando minha mãe entrou no quarto e viu minha expressão. — Olivia, o que foi, filha? Parece que viu um fantasma. Agora era março, então, estávamos na primavera. Eu amava esta época do ano, porque os dias eram mais longos, os céus algumas vezes eram mais claros, e os pássaros sobrevoavam em bando. Tinha uma árvore em frente à janela do meu estúdio, e às vezes acabava observando os pássaros nos galhos, indo e vindo. Eu fechava os olhos e escutava a doce melodia deles por alguns momentos antes de começar a pintar. Aqueles momentos eram meus. E neles, eu me libertava de quaisquer expectativas e responsabilidades. Poderia ser apenas eu. Mas os próximos dias não foram despreocupados. Naquela primeira manhã, segui pelo caminho de sempre até a cafeteria para comprar café para meus amigos moradores de rua. Gostava dessas manhãs. Elas me davam um propósito. Um significado. Gostava muito da companhia e brincadeiras deles de todos os dias. A única pessoa que não dava atenção quando eu chegava era esse homem misterioso. Um homem que eu acabava pensando o tempo todo. Não sabia o motivo por que ele nunca conversou comigo... e, provavelmente, essa era a razão e, mesmo assim, aquilo me frustrava. Havia algo sobre ele que não conseguia entender. O que me fez querer saber ainda mais, e já tinha bastante tempo que queria isso. Depois de pegar os cafés, eu me despedi de Tim, o proprietário, e saí. Enquanto caminhava, sorria porque ser capaz de andar sozinha na rua não era algo normal para mim. Conforme crescia, sempre tinha pessoas tomando conta de mim, garantindo que eu ficasse segura. Na época, havia sempre uma preocupação de que eu pudesse ser sequestrada, considerando que eu era a filha de alguém famoso e altamente importante. Achava que ainda poderia, mas os anos escondida, a mudança de nome, e a nova cor de cabelo tornou possível agora passar despercebida. Eu tive que lutar para conseguir chegar nesse ponto, mas o que me trouxe aqui hoje foi prometer algo que Titio queria de mim.


Precisava da ajuda dele para isso e ele cedeu. Foi-me concedido três meses, mas esse prazo estava quase no fim. Na verdade, acabava em algumas semanas. Eu preciso de mais tempo. Suspirei, seguindo o caminho de sempre pela Barclay Lane, parando na escada que levava ao refeitório comunitário. — Olivia! — gritou Wayne. Eu olhei brevemente na direção do homem misterioso e, como de costume, ele me ignorou por completo. Tentando não deixar que isso me atingisse, me virei para Wayne e sorri. Hoje, tinha uma mulher sentada ao lado dele. Pareceu ter uns cinquenta anos, com o cabelo loiro escuro, olhos castanhos e uma pinta escura na bochecha. Não uma pinta enorme, mas visível. Ela sorriu, e foi quando notei que ela tinha um dente faltando. — Venha conhecer minha namorada, Rachel. Inclinando-se, Wayne pegou o café dele, os demais se juntaram para pegar os seus. — Não sabia que você tinha namorada, Wayne. — Levantei a sobrancelha. — Estava escondendo isso de mim? Wayne me deu um sorriso, mostrando seu dente de ouro. Ele foi um traficante de drogas, até que começou a usar. Aquilo deu início à sua verdadeira derrocada. Tentava ficar longe dessas coisas agora. Acho que morar nas ruas o obrigou, mas de vez em quando ele desaparecia por alguns dias e ninguém sabia onde ele estava. Aqueles dias me assustavam porque sabia que estava usando drogas, e não tinha certeza se o veria outra vez. — Fiquei cansado demais de esperar por você, então, passei a procurar por aí. Espero que não se importe. — Ele piscou para mim e comecei a rir. Rachel apenas revirou os olhos. Coloquei uma mão no peito. — Bem, meu coração está um pouco machucado, mas tenho certeza de que vou superar isso. — Eu me virei para Rachel e estendi a mão para ela. — É um prazer conhecê-la, Rachel. Ela me deu um sorriso.


— Prazer em te conhecer também. De repente, eu me senti um pouco mal. — Eu sinto muito. Se soubesse, eu teria trazido um café para você também. Wayne a puxou para perto e sorriu. — Não se preocupe, Olivia. Ela pode tomar junto comigo. Eu sorri, perguntando a Rachel o que gostaria de beber amanhã. No começo, ela me disse que não queria incomodar, mas finalmente cedeu, dizendo o quanto gostava de chá. Acenei com a cabeça. — Anotado. Estava mesmo pensando em fazer pastéis dinamarqueses na quarta-feira. Não posso fazer amanhã porque vou trabalhar. Só Deus sabe como ficarão, mas vou trazer alguns comigo se ficarem bons. — Traga mesmo assim! — gritou Thomas. — Não os recusaria, não importa como estejam. Comecei a rir. — Tudo bem. — Parei por um momento, voltando minha atenção para o homem misterioso. Ele estava encolhido, tentando se aquecer. Podia ser primavera, mas era só o primeiro dia de março, por isso, ainda estava muito frio. Tinha um casaco cinza comprido e grosso, um gorro de lã azul na cabeça. Usava isso frequentemente, mas não dava para esconder o cabelo todo. Descia até a altura do pescoço, e tinha o tom loiro escuro a castanho claro. Seu rosto também estava coberto pela barba. Muita barba. Tanta que mal dava para ver o rosto que estava por baixo, mas eu conseguia. Quando comecei a ajudar aqui, há quase três meses, ele entrou no refeitório comunitário para comer. Ele me entregou um prato e coloquei um pouco de comida para ele. Ele não olhou para mim, nunca olhava, mas eu vi seus olhos. Eram um contraste de azul e cinza, e tão cativantes, minha obsessão por ele começou naquele momento. Nunca disse obrigado. Nunca disse uma palavra. Tudo o que fez foi pegar o prato e encontrar um assento o mais longe possível de qualquer um. Naquele momento, percebi duas coisas. Primeiro, queria conhecer sua história, e segundo, era um solitário. Ele me lembrava a mim e, por essa


razão, queria saber mais. Virou um desejo depois de um tempo. Acabei até pintando-o algumas vezes porque não conseguia tirar da cabeça a imagem dos olhos dele. Eu ficava frustrada porque ele não me olhava nos olhos desse jeito, então, eu o pintava me fitando repetidamente. Devo ter meia dúzia de pinturas diferentes. — Ele não vai falar com você. Não importa o quanto olhe para ele. Olhei Marcus e o observei tomando um gole de chá. Ele estava olhando para mim com um sorriso que dizia: eu sei por que continua olhando para ele. — Ele não fala com ninguém. Só vem todas as manhãs, toma o café da manhã e, depois, desaparece. Olhei para Thomas, que estava bebericando sua bebida, e suspirei. — Sim, eu sei. Só que seria bom poder dizer oi a ele, ou, pelo menos, saber seu nome. — Ninguém sabe o nome dele. — Marcus coçou os cabelos escuros, olhando para ele. — Ninguém sabe nada sobre ele. Não respondi nada. Simplesmente comecei a subir os degraus. Homem Sombra, uma voz sussurrou na minha mente. Fechando os olhos, estremeci. Quando eu os abri de novo, voltei meu olhar para o homem misterioso uma última vez. Estava sempre tentando passar a imagem de ser velho, mas eu sabia que ele não era. Na verdade, pareceu estar só no final dos trinta anos. Era a barba que dava essa aparência mais velha. Mas seus olhos nunca mentiram. Foram os olhos dele que me fizeram questionar tudo o que eu defendia e, consequentemente, querer saber mais... Muito mais. *** Foi no segundo dia que as coisas começaram a ficar um pouco interessantes, mas só porque algo fora do comum aconteceu. Fiquei conversando um pouco mais do que o de costume e, por causa disso, estava ficando tarde. Na minha pressa, subi correndo as escadas, mas tropecei. Eu sabia que estava caindo, sabia que ia me machucar, e não havia nada que eu pudesse fazer. De repente, minha queda foi impedida quando um braço me segurou, me equilibrando no lugar. Quando olhei para cima, descobri quem era o


meu salvador. Adivinhou. O homem misterioso. Foi a primeira vez que ele realmente olhou para mim. De fato, eu estava tão ocupada o encarando e pensando no quanto parecia que estava olhando em uma das minhas pinturas, que quase não notei a carranca se formando em seu rosto. — Tome cuidado onde pisa. Ele se afastou, deixando-me sem fôlego, espantada e com as pernas completamente bambas. Sim, eu sei que ele foi rude, mas, pela primeira vez, finalmente consegui arrancar uma palavra dele. Quatro, na verdade. Apesar do fato de não o ter visto o resto do dia, não afetou meu humor. Simplesmente não conseguia parar de sorrir. *** O terceiro dia foi normal, mas, desta vez, trouxe os pastéis comigo. Eu usei morangos, o que certamente foi um erro. Titio sempre me dava suplementos de morango quando me via e isso toda vez me atingia diretamente entre as pernas. Como agora, o cheiro de morangos alcançou minhas narinas, fazendo meu estômago rosnar e meus joelhos, instáveis. Só o cheiro deles me fazia querer o Titio, mas não podia pensar nele. Agora não. Era estranho saber que eu tinha duas obsessões na vida que estavam fazendo estragos com meu corpo. Não conseguia entender a atração feroz que sentia por Titio. Não era de um jeito natural. Com o homem misterioso, no entanto, era como um sopro de ar fresco. Era quase como se estivesse completamente no controle. Era um sentimento estranho, considerando que não conhecia nada melhor, mas que eu queria mais disso. Entreguei todos os pastéis, percebendo que sobrou um. Eu o peguei, envolvi num pedaço de papel toalha e coloquei ao lado dele. Ele não disse nada, nem tomou conhecimento da minha presença. Sabendo que não conseguiria nada com ele, subi correndo as escadas. Parei e me virei, e o vi saindo. Sorri, mas não porque estava feliz por ele ter ido embora. Mas porque, apesar do fato de estar tentando se esconder, eu ainda consegui enxergá-lo. Ele estava comendo o pastel. ***


No quarto dia, meus passos estavam um tanto saltitantes. Tinha acabado de distribuir as bebidas quentes quando Thomas gritou a alguns degraus acima. — Alguém se deu bem noite passada. Virei a cabeça com tudo na direção dele e o vi piscar para mim. Thomas tinha a mesma idade que os outros. Todos pareciam estar na casa dos cinquenta anos, e se vestiam com trajes semelhantes... longos casacos, gorros de lã e luvas. Meu sorriso diminuiu um pouco com seu comentário. — O que você quer dizer? Thomas sorriu. — Você está sorrindo de orelha a orelha, querida menina. Isso só pode significar das duas, uma. Está apaixonada, ou fez sexo ontem à noite. Envergonhada, desviei o olhar por um momento, e foi quando vi. O homem misterioso estava olhando diretamente para mim. Eu mal tive tempo de celebrar esse fato porque no minuto em que fiz esse movimento, ele virou a cabeça rapidamente e ficou olhando para a frente outra vez. No entanto, seu corpo estava rígido. Quero dizer, sempre parecia estar com o corpo rígido, mas se fosse possível, estava ainda mais hoje. Isso me fez franzir um pouco o cenho. — Então, qual deles? Sentindo-me confusa, olhei para Thomas. — Como? Thomas revirou os olhos. — Qual dos dois? Apaixonada ou sexo? Eu olhei rapidamente para o homem misterioso antes de balançar a cabeça. — Nenhum deles. Estou me sentindo bem esta manhã, só isso. Thomas suspirou e sacudiu a cabeça. — Isso é papo furado, mas que seja. — Thomas, deixe a garota em paz. — Rachel franziu o cenho para ele.


Eu olhei para ela e gesticulei com a boca: Obrigada. — Deixa disso, querida. Apenas o ignore. Ele só está dizendo isso porque a última vez que dormiu com alguém, Hitler estava invadindo a Polônia. Eu comecei a rir, mas Thomas balançou a cabeça. — Não vou nem me dar ao luxo de responder. De qualquer maneira, você não tem condições de dizer qualquer coisa porque eu sei o que acontece à noite com vocês dois. — Ele apontou para Rachel e Wayne. — Ouvi vocês. Rachel olhou por cima do ombro. Quando voltou seu olhar para nós, revirou os olhos e sorriu para mim. — Ele está apenas com ciúmes — sussurrou ela. — Eu ouvi isso! — Thomas tinha uma carranca no rosto, mas não parecia bravo o bastante para ter êxito. Foi, então, que olhei no relógio. — Merda! — Estava atrasada de novo. Sabia que meu trabalho aqui era voluntário, mas, ainda assim, não gostava de me atrasar. Estava no meu DNA. — Tenho que voar. — E comecei a subir as escadas. — Não corra muito rápido ou pode acabar precisando de alguém para salvá-la novamente. Olhei rapidamente para baixo e vi Thomas apontando para o homem misterioso, e me deu uma piscadela. Balancei a cabeça e subi o resto dos degraus. Quando tudo estava pronto, Tammy, a gerente, destrancou a porta principal. Como de costume, todos entravam enchendo o lugar, pegavam um prato e o entregava para mim. Eu sorria educadamente, enchia os pratos com comida e devolvia, mas estava ansiosa sobre o meu homem misterioso. Ele não comeu aqui nos últimos dois dias e fiquei preocupada com ele. Logo o vi atravessar pelas portas e pegar um prato. Suspirei aliviada e sorri. Sabia que estava doida por ele, mas não podia evitar. Quando ele se aproximou de mim, minha frequência cardíaca aumentou um pouco. Não sabia por que ele tinha esse efeito sobre mim, mas tinha. Acredite em mim, já tinha tentado acalmar meu coração acelerado sempre que sabia que o veria ou estaria perto dele, mas não conseguia. Isso tinha vida própria.


Ele me entregou o prato sem olhar para cima. Eu coloquei um pouco de ovos mexidos, bacon, feijão e duas salsichas no prato. O certo era só uma, mas estava preocupada com ele por ter ficado sem comer. Devolvi o prato para ele. E ele estava começando a se afastar quando notou. Meu coração bateu rápido quando finalmente olhou para mim. — Sempre é uma salsicha. Minha boca ficou seca e comecei a mexer no meu avental. — Eu sei. É só que... você não tem comido, e eu... — E você o quê? Pensou que poderia ter pena de mim e me deu uma salsicha a mais? Muitas pessoas aqui não comem há mais tempo do que eu. O que me torna tão especial? Merda, ele parecia furioso. Realmente o tinha aborrecido e, para dizer a verdade, me senti culpada. Ele estava certo. — Desculpe, eu não... Ele empurrou o prato para mim. — Tira. Eu acenei com a cabeça e, com a mão trêmula, tirei o prato dele. Tirei a salsicha e devolvi o prato. Ele me encarou por um momento. Não podia dizer no que diabos ele estava pensando, e isso me fez tremer. Não porque estava com medo, mas porque estava um pouco nervosa. Não conseguia avaliar a reação dele com relação a mim. Infelizmente, não levou muito tempo. Ele pegou o prato da minha mão, virou e caminhou até a mesa mais distante. Eu estava confusa, nervosa e fiquei desesperada para saber o que estava dentro de sua cabeça. Eu ansiava por saber mais. Eu só não percebi o quanto até o dia seguinte.


CAPÍTULO DOIS


CAPÍTULO DOIS

— Livy, o que eu tinha dito sobre você beber demais? Comecei a rir. — Ah, qual é, Titio. Só mais um pouco. Prometo que vou ficar bem. — Você tem só dezoito anos, Livy, mas bebe mais do que eu. Titio me olhou intensamente. Mesmo estando bêbada, podia ver que era um homem que se devia temer. Eu conhecia seu poder. Também conhecia o poder que ele deteve sobre meu pai... e isso dizia muito. Eu me inclinei sobre ele, tentando pegar a garrafa de sua mão estendida. Ele estava me provocando e não gostei disso. Estava desesperada por mais Jack Daniels. Era meu caminho para o entorpecimento... Um caminho que visitava sempre que podia desde que meus pais morreram. — Por favor, me dê mais. — Eu me inclinei novamente, mas Titio esticou o braço ainda mais longe. Nesse momento, estava praticamente em cima dele e senti o cheiro da sua loção pós-barba sexy. — Eu faço um boquete em você se devolver minha bebida. — Ele riu. Riu de verdade. Odiei isso. — O que achou de tão engraçado, porra? Titio parou de rir, e me olhou com severidade. — Livy, nunca mais levante a merda da voz comigo. Entendeu? Você me pertence. Lembre-se disso. Um dia, você verá. Um dia, quando estiver livre dessas merdas e pronta para mim, eu estarei aqui. Por enquanto, deve aprender a saber seu lugar. Mostre um pouco de respeito, caralho. Minha boca estava seca quando tentei engolir. — De... des... desculpe — gaguejei. Titio olhou minha expressão e a dele se suavizou. Ele se inclinou para frente, roçou os lábios pela minha testa e suspirou. — Você cheira a destilaria, Livy. Tem que parar de choramingar pela casa o dia todo. Precisa focar a mente em alguma coisa e melhorar. Sei que é capaz disso. Sempre foi minha garota favorita. — Inclinou meu queixo para encontrar seu olhar. Ele estava me mostrando seus olhos gentis hoje. Olhos que talvez me amavam um pouco. — O que é que você quer? Fechando os olhos, tentei pensar. Tudo que queria era... nada. Não queria nem pensar, nem sentir mais. Eu só queria o nada. Estava cansada de ver os olhos sem vida do meu pai me encarando. De saco cheio de tudo.


— Quero uma bebida. Titio suspirou, obviamente não satisfeito, e me empurrou para longe dele. — Onde está indo? — perguntei, observando-o caminhar em direção à porta. Ainda com a minha garrafa de Jack Daniels na mão. — Vou para casa, Livy. Comecei a entrar em pânico. — E a minha bebida? Ele bateu a porta atrás dele, me assustando. Não tinha mais nenhum Jack Daniels em casa. Porra! Naquele momento, fiquei furiosa. Pegando um enfeite de vidro, atirei-o na porta e gritei: — Cuzão do caralho! Desabei no chão e chorei por ter ficado sem minha bebida. Ainda conseguia sentir, e precisava de algo para relaxar. Só Jack poderia fazer isso por mim. Jack era meu melhor e único amigo.

Era sexta-feira e uma das noites mais agitadas no bar. Como sempre, cheguei às cinco horas para começar meu turno. E já estava lotado, mas não me preocupei. Na verdade, isso ajudaria minha cabeça a não lembrar de que o homem misterioso não apareceu hoje, o que me irritou um pouco. Não pude deixar de pensar que tinha algo a ver com o que aconteceu ontem. — Olivia, até que enfim, hein. Está bastante movimentado por aqui. Charlie estava servindo uma cerveja, parecendo um bocado estressado pelo tom. Ele era o dono do bar e um paquerador sem limites. O número de cantadas que havia me dado tinha sido fora do comum. Continuava rejeitando as investidas dele, mas isso não o fazia parar. Sorri e dei a volta pelo balcão, seguindo para os fundos onde poderia guardar meu casaco. Hoje à noite eu estava vestindo uma blusa preta decotada e saia lápis bege. Já fazia tempo que não usava saias, mas pensei, com a nova estação chegando, resolvi mudar um pouco. Depois que guardei minha bolsa e casaco, fui direto para o bar. — Certo. Quem é o próximo? Charlie se virou para mim, me olhou de cima a baixo e sorriu. Conhecia aquele sorriso. Eu já o tinha visto muitas vezes. — Gostaria de duas vodcas com tônica e uma cerveja Foster, por


favor. Girei a cabeça na direção da mulher que estava pedindo. — É para já. Depois de entregar as bebidas, Sue e Brent, os outros dois bartenders, foram para o intervalos deles e ficamos sozinhos. Fiquei extremamente ocupada nas primeiras duas horas, portanto, meu intervalo era bem-vindo. Fui para os fundos, Charlie veio atrás. — Porra. Você tinha que usar isso hoje à noite? Fiquei andando por aí com uma ereção permanente o tempo todo. Entreguei dois pedidos trocados porque estava ocupado demais verificando suas pernas. — Ele olhou para minhas pernas de novo antes de lamber os lábios. — Incríveis pra cacete. Balancei a cabeça e entrei no escritório dele para descansar. — Charlie, pare de ser tão rude. Charlie sentou ao meu lado, visivelmente me prendendo no sofá. Olhou dentro dos meus olhos, os castanhos cintilando sob a luz acima de nós. Ele era um homem atraente. Em seus vinte e poucos anos, tinha o cabelo preto curto, olhos castanhos claros e uma covinha no queixo. Na verdade, a primeira vez que Charlie tentou alguma coisa comigo, cutuquei a covinha e disse “covinha aqui é o diabo que sorri”, e tinha feito jus a isso, também. — Por que não transa comigo? Cutuquei seu queixo de novo e balancei a cabeça. — Charlie, não vai acontecer, então, pare de tentar. Só vai acabar frustrado toda vez. Charlie baixou a cabeça e grunhiu. — Você é a mulher mais frustrante que já conheci. — Ele me olhou com um sorriso. — Mas não desisto facilmente. Sabe o quanto eu quero você. Empurrei-o e me levantei. Eu o ouvi grunhir outra vez quando caminhei em direção à cadeira da mesa dele e sentei. — Você quer todas, Charlie, e esse é o problema. Sabe a quantidade de vezes que saí do bar à noite e já estava todo atencioso com outra mulher que tinha acabado de conhecer? Não sou idiota. Sei o que acontece depois que vou embora — bufei. — Lembra daquela vez que encontrei um soutien enfiado no sofá? Sem falar nisso... — Abri a primeira gaveta e um monte de preservativos praticamente pulou para fora. Diferentes formatos, tamanhos, cores, sabores... Do que você imaginar. Charlie sacudiu a cabeça. — Ah, isso. É só um esconderijo onde guardo uma reserva no


caso das máquinas de preservativos dos banheiros ficarem sem. Levantei a sobrancelha. — Sério? Não me lembro de... — Peguei um e li. — “Energia Monstruosa... Liberte a besta” estar em qualquer um dos banheiros. Charlie rapidamente se levantou, tirou o preservativo da minha mão, colocou de volta na gaveta e fechou-a com força. — Estão nos banheiros masculinos. Enrijeci a postura ao levantar. — Sério? — E andei em direção à porta, mas Charlie agarrou meu braço. — Onde você pensa que vai? — Eu dei de ombros. — Ao banheiro dos homens para dar uma olhada. Charlie ergueu a sobrancelha. — Não vou deixá-la entrar no banheiro dos homens, Olivia, então, pode parar. Sorri. — Por que não? — Negou com a cabeça. — Porque uma moça não deveria ver um banheiro masculino por dentro. Meus olhos se arregalaram. — Oh, mas é perfeitamente aceitável que uma moça seja aliciada todas as noites em que vem trabalhar? Charlie soltou meu braço e, de repente, seu rosto ficou bastante preocupado. — Quando você fala desse jeito, soa ruim. Desculpe. — Ele foi até o sofá, sentou-se e pôs a cabeça entre as mãos. Fiquei ali, completamente atônita e triste por Charlie se sentir mal ao me tratar como ele tem feito. Fui até ele, sentei ao seu lado e coloquei meu braço em volta de seus ombros. — Desculpe. Não queria fazer você se sentir mal. Charlie balançou a cabeça, depois, olhou para mim. — Você pode me perdoar? Assenti e apertei seu ombro. — Claro que posso. — Charlie sorriu. — Que tal um beijo para me dizer o quanto? — Seus lábios se curvaram, me dizendo tudo que eu precisava saber. Eu o afastei e me levantei. — Babaca. — Charlie riu.


— Ah, por favor, querida. Realmente sinto muito. — Balancei a cabeça, sorrindo. — E me fez acreditar em você, Charlie. Devia ter vergonha. Ele me olhou de cima a baixo. — Não posso evitar, acho você atraente, Olivia. — Seus olhos vagaram por mim de novo e lambeu os lábios. — Sim... Atraente pra cacete. — Revirei os olhos mais uma vez. — Sim, eu e qualquer outra coisa vestindo saia. Charlie fingiu um suspiro magoado. — Ei, você sabe que isso não é verdade. — Sorriu descaradamente novamente. — Na maioria das vezes, você usa calças... às vezes, leggings. — Ele desviou o olhar por um momento, os olhos ardentes. — Adoro aquelas leggings. — Suspirou levemente e olhou para mim. Balancei a cabeça quando meu telefone começou a tocar. Caminhei até minha bolsa e o peguei. Quando vi quem estava ligando, senti o estômago gelar. Olhei para Charlie. — Desculpe, Charlie. Preciso atender. Charlie sorriu e caminhou em direção à porta. — Sem problemas. Te vejo lá fora quando terminar seu intervalo. Quando ele saiu, eu atendi, imediatamente ouvindo a voz grave do outro lado. — Você conseguiu alguma coisa, Livy? Quando o ouvi dizer meu nome, estremeci e fechei os olhos. Mesmo sem estar presente, sinto arrepios toda vez que pronuncia meu nome. Naquele momento, eu o queria. Suspirei. — Não, nada. Ouvi uma exalação áspera do outro lado. — Tudo bem. Continue procurando e me avise no instante em que descobrir alguma coisa. Fechei os olhos novamente, querendo sentir as mãos dele em mim. — Avisarei — respondi, sedutoramente. — Vejo você em breve, Livy. E desligou. Agindo no piloto automático, enfiei o telefone de volta na bolsa. Estava tremendo e não sabia o porquê. Não era de medo. Era outra coisa. Sempre que estava perto dele ou ouvia sua voz, tinha a mesma reação. Acho que ouvir a promessa na voz dele fazia isso comigo toda vez.


Sacudindo a cabeça, esfreguei as mãos sobre o rosto. Eu me sentia mais cansada do que nunca esta noite. Hoje tinha sido cansativo, mas esta noite estava sendo ainda mais. Tudo o que queria fazer agora era ir para casa e tomar um banho quente e demorado de banheira. Olhando no meu relógio, vi que ainda tinha três horas de trabalho até meu turno acabar. Gemi, e sem saber como, acabei encontrando força para dar um passo atrás de outro. Quando cheguei no bar, Charlie piscou para mim e acenou, silenciosamente perguntando se eu estava bem. Fiz que sim com a cabeça e ele sorriu antes de servir o próximo cliente. Aproximando-me do balcão, notei um sujeito assustador me encarado. — O que posso fazer por você? Ele lambeu os lábios e me olhou de cima a baixo. Era repugnante. Quero dizer, quando Charlie fazia isso, era de um jeito divertido. Nunca senti nojo de Charlie, mas esse cara? Fez todos os cabelos da nuca ficarem de pé. — Depende — ele finalmente disse depois de alguns segundos agonizantes me fitando fixamente. Não pude deixar de rolar os olhos. — De quê? — Provavelmente não o devia ter encorajado, mas as palavras saíram naturalmente. — Do que está no cardápio. — Ele me encarou outra vez, fazendo minha pele arrepiar. Seus olhos praticamente saltavam pelas órbitas, e havia tanto gel nos cabelos escuros e oleosos que fiquei espantada por não estarem escorregando pelas laterais do rosto coberto de espinhas. Suspirei, mas fiz um esforço de falar sobre as muitas bebidas que servimos, mas ele me parou. — Não estava falando de bebidas. — Ah, você quer comida. — Peguei um cardápio e entreguei a ele. — Aqui está o que nós temos. Ele pegou o menu, mas nem sequer o olhou. — Também não estava falando de comida. Estava querendo saber o que tem no seu menu. — Ele olhou nos meus seios e lambeu os lábios de novo. Estava prestes a mandá-lo para aquele lugar quando um homem parecendo estar em seus vinte e poucos anos, se aproximou e sentou-se ao lado dele. — Ei, seu merda, neste estabelecimento você pode pedir comida e bebida. Se estiver procurando por algo que não seja isso, sugiro que vá procurar


uma daquelas mulheres que ficam perambulando nas esquinas escuras. Peça algo para beber, ou caia fora. Fiquei ali, chocada, enquanto o homem assustador cerrava os dentes e me olhava. — Uma cerveja. Meu salvador deu uma cotovelada nele. — Como é que se diz? O homem assustador voltou-se para mim, rangendo os dentes. — Por favor. Queria de verdade que ele não tivesse dito “por favor”, porque o veneno que saiu junto era quase demais para aguentar. Agora, parecia que esse cara queria me dar um soco em vez de fazer sexo comigo. Como não queria mais olhar para ele, peguei sua cerveja, a entreguei e recebi o dinheiro. O homem assustador se afastou, sentou-se no canto e olhou para mim com um semblante carrancudo. Virei para o meu salvador. — Obrigada. Negou com a cabeça. — Não tem o que agradecer. Odeio quando as pessoas pensam que podem falar de qualquer jeito com as demais. Só porque trabalha num bar não significa que está disposta a servir outra coisa além de bebidas. — Ele olhou por cima do ombro e balançou a cabeça antes de encontrar meu olhar. Oferecendo-me a mão, sorriu. — Meu nome é Freddy. Eu o cumprimentei. — Prazer em conhecê-lo, Freddy. O que gostaria de beber? É por minha conta. Freddy negou com a cabeça, mostrando a metade de uma Guinness. — Já estou satisfeito. Obrigado. Sorri. — Ok, mas quando quiser outra, é por minha conta. — Talvez eu cobre essa oferta. — Ele sorriu educadamente e saiu.

***

As três horas restantes passaram tão lentamente que estava começando a sentir como se estivesse trabalhado horas extras. E por duas dessas horas, o homem assustador ficou me encarando, o que só piorou, e Freddy simplesmente desapareceu depois disso. Acho que ele não estava tão


desesperado por outra Guinness, afinal de contas. Quando terminei de limpar alguns copos e o balcão, fui até os fundos para pegar meu casaco. — Quer que eu te acompanhe até em casa? Está muito tarde. Virei e vi Charlie parado na porta. — Não, está tudo bem. É só uma caminhada de dez minutos. — Tem certeza? Não gosto de você andando por aí sozinha tão tarde. Caminhei até Charlie e coloquei uma mão em seu braço. — Vou ficar bem. — Dei um tapinha na bolsa. — Tenho spray de pimenta. Os olhos de Charlie se arregalaram. — Sério? Sua safadinha. Dei de ombros. — É apenas algo que não precisei usar... ainda. Charlie estremeceu um pouco. — Que fique assim. — Ele suspirou novamente. — Tem certeza de que não quer que eu te acompanhe até em casa? Afirmei com a cabeça e passei por ele. — Vou ficar bem. Além disso, não quero usar o spray de pimenta em você quando chegar na minha casa. Provavelmente vou acabar usando a lata inteira. Charlie sacudiu a cabeça. — Rá, rá, muito engraçado. — E, de repente, pareceu se lembrar de algo. — Ah, você pode vir amanhã à noite? Suspirei. A verdade era que eu não queria vir. Agora, provavelmente, era o pior momento para pedir isso. — Será só por duas horas. Sue tem que pegar a mãe no aeroporto e perguntou se poderia tirar algumas horas de folga. Vai ser das seis às oito horas. Isso me fez sentir um pouco melhor. — Tudo bem. Eu posso vir. Charlie sorriu. — Ótimo! Então, vejo você amanhã, Olivia. — Virou para voltar ao bar e, então, parou. — Sonhe comigo esta noite, boneca. — Mandou um beijo e saiu correndo antes que eu tivesse a chance de responder. Sorrindo, balancei a cabeça, peguei o resto das minhas coisas e saí. Estava frio, então, tirei minhas luvas do bolso do casaco e as vesti. Era uma noite gelada, cheia de bêbados e pessoas indo para a noitada enchendo as


ruas. Eu? Estava indo para casa. Só queria uma xícara de chá fumegante, a banheira quente e o aconchego da minha cama. Caminhei até o fim da rua movimentada e virei numa travessa mais tranquila. Odiava passar por ali quando estava assim tão quieto. Os pelos da nuca ficaram em pé, e não via a hora de sair dali até que virei na próxima esquina e entrei numa rua mais movimentada. Senti um ligeiro disparo de adrenalina quando o som de passos atrás de mim fez meu coração quase saltar pela boca. Comecei a andar mais rápido, e quem me seguia também. Queria olhar para trás, mas não me atrevi, apenas continuei. Estava praticamente correndo agora, mas não me importava. Eu só queria escapar. Meus piores medos surgiram quando uma mão cobriu minha boca e um corpo duro pressionou contra o meu. Tentei gritar, mas foi inútil. Ouvi sua respiração áspera enquanto ele me arrastava da rua tranquila para um beco ainda mais calmo. Fechei os olhos com força. Não, não, não, não, repeti várias vezes na cabeça. Por favor, Deus, não. Tentei desesperadamente alcançar minha bolsa para pegar o spray de pimenta, mas não consegui. Deve ter sentido meus movimentos porque agarrou meu braço, torcendo-o atrás das minhas costas. Tentei gritar de novo, mas foi em vão. Estava completamente presa por uma pessoa desconhecida que cheirava a cerveja e cigarros. Quando de repente, me lembrei. O homem assustador. Poderia realmente ser ele me segurando? Poderia ser mesmo ele me arrastando para o beco, prestes a fazer só Deus sabe o quê? Fechei os olhos outra vez, não queria pensar nisso. Não queria pensar no que poderia ou não acontecer. Meu senso de sobrevivência entrou em ação e eu lutei com todas as forças que ainda me restava. — Não se mexa, vagabunda. Senti algo frio e afiado na base do pescoço. Sem mover a cabeça, olhei para baixo e vi que ele tinha uma faca contra minha garganta. Meus olhos se encheram de lágrimas conforme me perguntava se minha vida chegaria a um fim repentinamente neste beco. Pensei tantas vezes em acabar sozinha com ela, mas, agora, me deparei com a possibilidade de que podia não ter escolha. Isso mudou algo dentro de mim. Queria desesperadamente viver e, naquele milissegundo, eu me senti eufórica. Senti tanta felicidade em descobrir que depois de todo esse tempo me perguntando se valia a pena viver, eu sinceramente queria mesmo viver. Eu queria tanto viver que meu peito chegou a doer com a descoberta. — Por favor — murmurei. — Por favor, não me machuque.


Senti sua respiração quente na base do pescoço. — Faça o que eu mandar e não vou precisar te machucar. Agora, vou tirar a mão da sua boca. Se gritar, vou te matar. Entendeu? Acenei com a cabeça e uma única lágrima escorreu pela bochecha. A mão dele lentamente se afastou da minha boca e soltei a respiração de uma vez. Levou a mão para o meu peito e senti um soluço me escapar. — Shh... Nem um som, lembra? Assenti outra vez, mas estava desesperada. — Por favor. E lambeu meu pescoço e murmurou. — Exatamente como pensei que seria o seu gosto. Ele afastou a faca do meu pescoço e estava prestes a me virar quando o senti sendo arrancado de mim de repente. Gritei, quase caindo para trás. Assim que recuperei o equilíbrio, virei para ver quem era meu atacante. Ofeguei, incapaz de esconder o choque. Freddy! Mas o que era ainda mais chocante foi descobrir quem era o meu salvador. De pé na minha frente, com os punhos cerrados e encarando Freddy, estava ninguém menos que o homem misterioso. Fiquei completamente surpresa, mas mal tive tempo de compreender melhor tudo isso porque Freddy, com a faca na mão, avançou. O homem misterioso deu um giro e, com uma mão, agarrou o braço de Freddy e o torceu, a faca escorregou no chão. O homem misterioso ergueu o punho e o socou, deu uma cotovelada no estômago dele, girou de novo e o socou no rosto. Freddy caiu no chão, desmaiado, e eu fiquei ali parada de queixo caído. O homem misterioso olhou para cima e caminhou na minha direção. Segurou em meus ombros e me fez olhar para ele. — Ele te machucou? Balancei, bruscamente, a cabeça com um não. De repente, cada nervo do meu corpo começou a tremer, a realidade da situação me atingindo. — Olivia, olhe para mim. — Olhei e vi a preocupação em seus olhos. — Você está bem? Outro choque me percorreu. Ele sabia meu nome? Quero dizer, os outros, eu tinha certeza de que sabiam, mas nunca pensei que ele tivesse prestado atenção. Sempre achei que ele não ligasse. No entanto, seus olhos estavam me dizendo outra coisa. Afirmei com a cabeça. — Estou... estou bem. — Tive um momento de lucidez. Apontei para Freddy. — Como você...? Quero dizer, onde aprendeu a...? — Isso não importa. O que importa é que você está a salvo. Quer


chamar a polícia? Posso ficar até que eles cheguem, mas não vou poder ficar para falar com eles. Olhei-o por um instante e fiquei surpresa ao encontrar medo naqueles olhos. Do que ele poderia estar com tanto medo assim? Queria justiça pelo que Freddy fez a mim, mas, ao mesmo tempo, não queria chamar a polícia, porque com toda certeza parecia que o homem misterioso estava com medo só de pensar nisso. Não podia arriscar, já tinha ido bem longe. Fiz que não com a cabeça. — Não. Só quero ir para casa. Ele fechou os olhos e suspirou, então, olhou para Freddy ainda deitado no chão. — Tem certeza? Acho que ele não deveria se safar dessa... Coloquei a mão em seu braço. — Por favor. Eu só quero ir para casa. Não parecia muito feliz, mas mesmo assim, concordou com a cabeça. — Vou com você. Eu não discuti, na verdade, queria que ele ficasse comigo. Precisava descobrir mais a respeito dele. Quando passamos por Freddy e seguimos pela rua, olhei para ele. — Qual é o seu nome? Eu te chamo de homem misterioso. Ele me deu um olhar nada abalado antes de responder. — Kit. Eu me senti tão eufórica naquele momento. Durante três meses, fiquei desesperada para saber mais, e agora, eu tinha um nome. Sem pensar, estendi a mão, ligeiramente, trêmula para ele. — É bom finalmente conhecê-lo, Kit. Ele olhou na minha mão. — Você está tremendo. Puxei-a de volta e senti vontade de chorar. — Eu... É só que com tudo o que aconteceu, eu... — De repente, não conseguia pronunciar as palavras. Kit ficou em silêncio, depois suspirou. Nós continuamos caminhando, mas percebi que ele estava desconfortável com alguma coisa. Às vezes, fazia movimentos como se estivesse prestes a me confortar, mas, então, se afastava, e aquele olhar frio e austero reaparecia. Queria muito poder ler mentes. Decidindo quebrar o silêncio, virei a cabeça para ele. — Você me salvou e agradeço de verdade. — Ele balançou a


cabeça, mas não disse nada. — O quê? Ele não respondeu, o que me deixou frustrada. Deu alguns passos inesperadamente, colocou a mão no portão da minha casa e o abriu. — Obrigada. — Passei por ele, então me virei. — Quer entrar? Posso fazer uma bebida quente ou algo para comer. Fez que não com a cabeça e não consegui esconder minha decepção. Em vez de fazer mais comentários, caminhei até a porta, coloquei a chave na fechadura e abri a porta. Daí, me dei conta de uma coisa. — Espere um minuto. Como sabia onde eu... — Quando me virei, vi que ele tinha ido embora. — Morava? — Suspirei, ficando ainda mais decepcionada. Meus ombros cederam, mas entrei e fechei a porta. Cumprindo minha promessa, tomei um banho quente de banheira e uma bebida ainda mais quente, mas foi tudo no piloto automático. Não conseguia tirar essa noite da minha cabeça. Ainda tremia cada vez que fechava os olhos e pensava nas mãos de Freddy em mim. Assim que terminei de me secar e me vestir para dormir, comecei a me ajeitar na cama quando ouvi uma batida na porta. Suspirando, afastei as cobertas e desci as escadas. Espreitei pela janela e franzi a testa quando vi Titio lá fora com outro homem, o que não era incomum. Eu me apressei e abri a porta. Naquele mesmo instante, senti a atração. Sabia que era loucura, mas ele parecia sempre causar esse efeito em mim toda vez que eu estava perto dele. Titio sorriu enquanto cruzava a soleira. Ele não se incomodou em esperar pela minha permissão, bem, na verdade, ele não precisava porque a casa era dele. — Livy. O outro homem ficou do lado de fora, entendi que era minha deixa para fechar a porta. Titio percorreu os olhos pelo meu negligé, um olhar de aprovação cruzando seu rosto. Isso fez todos os meus sentidos ganharem vida. Nunca tinha me sentido atraída por este homem, porém, mais ou menos nos últimos seis meses, cada parte em mim queria seu toque toda vez que estava com ele... mas apenas quando estava com ele. Era um homem atraente, de cabelos pretos e olhos azuis. Olhos que eram suaves quando sorria, mas se não estava sorrindo, era melhor você correr. Ele era alto, atlético e tinha um corpo que eu não podia deixar de admirar sempre que estava comigo. Apesar de ser dezessete anos mais velho do que eu, tinha a aparência daqueles atores de Hollywood que enlouqueciam as


mulheres. Mesmo que eu nunca o tenha visto com nenhuma, nunca duvidei de que tivesse muitas. Ele era tão reservado que, mesmo depois de todos esses anos, eu ainda não sabia seu nome. Quando Titio se aproximou de mim, meu corpo acendeu conforme ele passava um dedo pelo meu braço. — Livy —sussurrou, me fazendo estremecer. Nunca falhou em conseguir essa reação de mim e sempre notei o quanto sorria toda vez que eu reagia a ele dessa maneira. Ele adorava. — Você está bonita. Não vejo a hora de ter você na minha cama, que é onde pertence. — Quando fechou sua boca sobre a minha, eu estava perdida. Como tinha esse domínio sobre mim, não tinha ideia. Naquele momento, os pensamentos de qualquer outra coisa desapareceram. Era só ele e eu, e meu corpo celebrou isso. Ele se afastou, sem fôlego, segurando minha cabeça nas mãos. — Posso protegê-la do Homem Sombra, Livy. Não precisa mais fazer isso. Por que não vem para casa que é onde você pertence? Estremeci de novo ao ouvir aquela palavra. A palavra que ele sabia ter o poder de me desestabilizar. Ela tinha se enraizado na minha cabeça desde os dez anos. Titio sorriu com a minha reação e colocou o dedo no meu lábio. Senti algo úmido neles e deu vontade de lamber. — Lamba os lábios, Livy. — Fiz conforme ele mandou, provando a mistura doce e familiar de morango que eu tinha passado a amar. Como sempre, senti o corpo inteiro ganhar vida quando ele roçou a boca contra a minha de novo. — Você não percebe o quanto eu te quero, Livy? Diga-me o quanto você me quer. Fechei os olhos, deixando o calor dele me envolver. — Eu quero você, Titio. Quero te agradar. Ele segurou meu rosto nas mãos e lambeu seus lábios. — Sabe o que fazer. Deslizei na frente dele e desabotoei o cinto e os botões da calça. Abaixando a calça, vi seu pau saltar e lambi os lábios, ansiosa. Titio gemeu assim que agarrei o pau na mão e lambi a ponta. — Porra, Livy. Estava louco por isso. Fazia duas semanas desde que tinha feito isso por ele. Tudo começou depois que ele me tirou do fundo do poço e me ajudou a melhorar. Fiz isso porque senti gratidão. Fiz porque ele queria. Fiz para fazer meu senhor e mestre feliz. E eu adorava. Adorava engoli-lo inteiro e chupá-lo até a última


gota, e o motivo? Ele me fez amar isso. Ele me fazia ansiar por isso no minuto em que recebia seu comando. Nem uma única vez tentou fazer sexo comigo. Sabia que eu queria esperar até que tudo tivesse acabado. Não tinha dúvidas de que as coisas iriam progredir assim que eu voltasse para casa, mas por enquanto, estava feliz em fazer isso por ele. Lambi por todo o comprimento antes de rodar a língua na ponta. Ele sibilou e senti o som refletir direto em minhas pernas. Por alguma razão, me sentia muito excitada toda vez que ele fazia isso. Às vezes, queria que ele me fodesse, mas nunca tomei a iniciativa de ir tão longe. — Livy, sua boca é gostava pra cacete. Pegue, Livy. Pegue tudo o que tenho. Não hesitei. Eu o levei o mais profundo possível na boca, fazendo-o gemer. Enfiou os dedos pelos meus cabelos e apertou, me guiando. Gostava do controle. Gostava de assumir e me fazer seguir seu ritmo. — Caralho! — rugiu conforme eu chupava o pau cada vez mais rápido. Quanto mais rápido movia a cabeça, mais forte ficava seu aperto. Gemi, saboreando a sensação e senti Titio endurecer. Sabia que estava perto. Eu estava bem sintonizada com ele. Quando aumentei ainda mais o ritmo, senti a ligeira queimadura de sempre entre as pernas, e fui com tudo nele num frenesi. Sempre perdia o controle quando o chupava, mas Titio gostava. A essa altura, eu sabia que se aliviaria a qualquer momento. — Porra, Livy! Você é gostosa demais. Eu vou gozar. Mergulhei a cabeça sobre ele de novo, girando a língua enquanto me movia. Ouvi sua respiração ofegante, cada vez mais perto do orgasmo. O corpo todo dele ficou tenso e o pau inchou dentro da minha boca. Senti a explosão do orgasmo e engoli tudo, como a boa garota que eu era. O calor do seu sêmen deslizava pela minha garganta enquanto lambia tudo. — Puta que pariu, Livy. Quando vai me deixar foder esta sua boceta deliciosa? — A respiração dele começou a se acalmar quando afastei a cabeça. Sabia que ele precisava de um minuto, mas eu tinha ficado excitada. Meu corpo gritava por um orgasmo. Deve ter percebido isso, porque Titio me olhou com um sorriso satisfeito enquanto acariciava meus cabelos. — Você foi muito bem, Livy. Quer que eu te faça se sentir bem agora? Acenei com a cabeça e aceitei sua ajuda para me levantar. Arrumou a calça e fechou o zíper, então, voltou a atenção para mim.


Ele me colocou contra a parede do corredor. Nem uma vez tentou me levar para a cama. Inúmeras vezes, tinha dito o que aconteceria se o fizesse. Estava se restringindo por mim, fazendo com que eu o desejasse mais. Fiquei sem ar quando finalmente me concedeu seu toque. Um pequeno movimento em meu seio e gemi, implorando. — Posso sentir seu cheiro, Livy. Amo demais isso, porra. Você. É. Minha. — rosnou, e fechei os olhos, excitada. Adorava que ele me deixava desse jeito, mas também sabia o quão estranha ficava quando ia embora. Sempre soube o que tínhamos feito, mas nunca me importei. Era quase como se todas as vezes tivessem sido um sonho distante. Era uma sensação bastante estranha de se ter repetidamente. Puxando as alças do negligé, Titio se inclinou e colocou um mamilo na boca. Eu gemi, agarrando seus cabelos e o puxando para perto. — Livy, pare, ou não serei responsável por minhas ações. Eu parei, mesmo que meu corpo gritasse por mais. Ele estava sendo paciente e esperando por mim. O mínimo que podia fazer era isso. Quando sua cabeça se moveu para baixo, beijou meu estômago até estar ajoelhado na minha frente. Lentamente subiu o negligé. Alcançou o topo das coxas e apertou. Eu gemi, inclinando a cabeça para trás. — Sexy. Pra. Caralho. — Ofegou. — Coloque a perna sobre o meu ombro. — Fiz como ele disse e senti sua mão no meu sexo. Ele me acariciou até chegar à entrada. — Livy, você está tão molhada. Não percebe quanto esforço está me custando não te possuir agora? — Ele empurrou dois dedos em mim, aliviando instantaneamente o ardor. Eu estava no céu. Gemi e Titio me olhou. — Gosta disso? — Assenti, sem fôlego. — Você quer que eu te prove? —Sim... — sussurrei, gemendo. Senti a língua dar pequenos toques suaves no meu clitóris e quase gozei. Não sabia o que tinha nele que me deixava tão ávida prontamente, mas sempre que me tocava, eu não tinha qualquer chance. — O mais doce dos sabores — rosnou, e veio com tudo por mais. Deslizou os dedos dentro e fora ao mesmo tempo em que tocava meu clitóris. A língua girava, concentrando-se em todas as partes... exceto no pequeno feixe de nervos em si. Agarrei a cabeça dele nas mãos, desesperada para que desse alguma atenção lá. — Ansiosa demais, não é? — Colocou a língua de volta no clitóris e garantiu me dar o que eu estava querendo. Meu corpo inteiro ficou rígido e senti a escalada de um orgasmo rapidamente fazendo seu caminho para


fora. Agora, estava gemendo alto e ele sabia que eu estava perto. Também estava em sintonia comigo. — Eu vou... — Joguei a cabeça para trás e gritei conforme o orgasmo invadia meu corpo. O fogo dentro de mim, que eu sentia sempre quando ele estava por perto, parecia explodir em chamas e só se acalmou quando o orgasmo passou. Nunca entendi essa sensação. Nunca tinha sentido isso na minha vida. — Porra — rosnou, apertando meus quadris. — Tenho que ir antes de acabar jogando você sobre o ombro e levando-a para casa comigo. Não sabe o quão difícil é isso para mim, Livy. Por favor, não me faça esperar muito tempo. Ele se levantou e lambeu os dedos. — Delicioso pra caralho. Peguei seu rosto nas mãos e sorri para ele. — Voltarei logo para casa. Prometo. É que preciso fazer isso. Titio suspirou, então, me beijou levemente nos lábios. — Estarei esperando. — Ele se virou, abriu a porta e a fechou atrás dele. Simples assim, fiquei sozinha, imaginando que porra é essa que tinha acontecido. Toda vez parecia que tinha sido algum tipo de visão quando ele simplesmente não estava lá. Era quase como se a minha mente estivesse fazendo truques comigo. Ele entrou mesmo aqui e fez aquilo? Será que realmente o chupei no meu corredor? Bem, fiquei aqui parada, ofegante, os lábios ainda formigando por tê-lo dentro da boca, o corpo ainda se acalmando do orgasmo, confirmava tudo. Porém, a coisa toda não parecia real. Enquanto amarrava as alças do negligé, subi os degraus em transe. Estava confusa com o que era realidade e o que não era. Sabia que estava aqui, mas, por alguma razão, minha mente não queria aceitar quando ele foi embora. Eu não o queria agora, mas dez minutos atrás, teria rastejado e implorado para me possuir. Tudo isso me assustou. Deitei na cama e me cobri com os lençóis, ainda em transe. Conforme a cabeça desanuviada, meu pensamento voltou imediatamente a Kit. Pensei sobre tudo o que aconteceu depois que saí do trabalho. Quando fechei os olhos, sentindo o sono chegar, perguntas nadaram em minha cabeça. Onde ele aprendeu a lutar daquele jeito? Quem ele era antes de se tornar morador de rua? Há quanto tempo tem sido morador de rua? Mas duas questões se destacaram das demais. Foi realmente só


mera coincidĂŞncia que Kit aparecesse exatamente na mesma rua e ao mesmo tempo que eu? E a pergunta mais desconcertante e importante de todas: como ele sabia onde eu morava?


CAPÍTULO TRÊS

— Você está bêbada de novo, Livy. Olhei para cima e vi Titio na minha sala. Às vezes, ele simplesmente aparecia sem qualquer aviso e me observava como se estivesse esperando por algo. O que diabos era, eu não sabia e, agora, não estava nem aí. Só queria outra bebida. Ri, como sempre fazia. Adorava rir quando estava bêbada porque quando começava, não conseguia parar. Era muito melhor do que chorar. — Não estou bêbada — Solucei. — Nem comecei ainda. Ele olhou na mesa de café onde estava meu melhor e mais confiável amigo, Jack. — Livy, já bebeu metade da garrafa. Estava com medo de que ele fosse levar minha bebida embora como da última vez. — Por que não vem e se junta a mim, Titio. Prometo que valerá a pena. — Lambi os lábios enquanto meus olhos percorriam seu corpo. Ele ficava bem naquela camisa polo marinho e jeans. Quase sentia vontade de devorá-lo. Porra, estava fodida... no entanto, nunca admitiria isso. Provavelmente precisava beber mais. Inclinando para a frente, peguei a garrafa, e fiquei surpresa quando Titio não se mexeu. Em vez disso, me observou e suspirou. — Quando é que vai começar a perceber o que está fazendo com seu corpo? É um corpo bonito e está acabando com ele. Olhei para ele. — E o que isso te interessa? Não vai me ajudar. Tudo que faz é vir aqui do nada e me vigiar. Titio veio na minha direção, e instintivamente, segurei a garrafa contra o peito. Ele hesitou, sacudiu a cabeça e se sentou ao meu lado. Quando se inclinou para frente, pensei que iria me beijar. Eu teria deixado porque estava muito irritada para me preocupar. Que a dormência comece. Quando se aproximou dos meus lábios, permaneceu ali por um momento. — Você está se destruindo, mas vai me querer em breve, Livy. Muito em breve, estará me implorando para ajudá-la. — Percorreu os olhos sobre o meu rosto. — Marque minhas palavras. Um dia, você chegará ao fundo do poço


e eu estarei lá. Pode demorar um pouco, mas estarei lá. E, então, precisará de mim. Eu te garanto isso. — Titio se afastou e levantou. Quando chegou perto da porta, meu peito doeu ao saber que ficaria sozinha... outra vez. — Bem, acho que está fora de questão uma rapidinha? — Em meu coração, sabia que o que estava dizendo era errado, mas estava me sentindo sozinha e precisava sentir os braços de alguém ao meu redor. Fui criada sem amor. Esta era a única forma que conseguia expressar que não queria ficar sozinha. Pela primeira vez, eu precisava de alguém. Titio parou na porta, mas não se virou. Apenas balançou a cabeça, puxou a maçaneta e saiu. Minhas narinas queimaram de raiva diante de sua óbvia rejeição. — Acho que é a porra de um não, então! — Joguei uma almofada na direção da porta. Estava fazendo isso muito ultimamente, mas não me importei. Estava sozinha de novo e meu único conforto era a garrafa que segurava contra o peito. Segurei a garrafa e desenrosquei a tampa. Não queria mais me sentir sozinha.

Depois de trabalhar as duas horas no bar, estava indo embora para casa. Mesmo sendo bem mais cedo do que na noite anterior, ainda senti medo enquanto andava pelas ruas. Até resolvi ir por um caminho muito mais longo, assim podia evitar aquele lugar. Não vi Kit hoje e, devo admitir, que isso me entristeceu. Durante todo o dia, olhava na porta do refeitório comunitário, torcendo para que passasse por ela. Infelizmente, nunca passou, e fui para casa lamentando. Não tinha certeza do porquê minha obsessão com ele estava aumentando. Acho que a cada pedacinho que ele me dava, eu simplesmente queria mais. Enquanto meditava, percebi outra coisa. Suspeitei de que estava sendo seguida, e quando me virei, vi Kit me observando do outro lado da rua. Tentando não parecer óbvia demais, virei a cabeça e não pude evitar o enorme sorriso que deslizou em meus lábios. Kit estava me seguindo, mas em vez de ficar assustada, eu me sentia segura. Tinha a sensação de que ele estava cuidando de mim. Com uma ideia súbita, entrei numa loja de “Peixes & Fritas” e fiz meu pedido. Paguei, peguei a sacola, e saí. Caminhei os dez minutos que faltavam para chegar na minha casa sem olhar para trás. Queria muito, mas não queria que percebesse que eu sabia que ele estava lá.


Quando cheguei em casa, abri a porta, coloquei a sacola na mesa do corredor e voltei para fora. Kit estava indo embora. — Kit! — Ele se virou e me olhou. De repente, minha boca ficou seca. O que eu diria a ele? Como tocar no assunto? Tinha feito um plano para trazê-lo aqui. Além disso, estava completamente perdida. — Humm... — Remexi as mãos, desesperadamente tentando fazer meu cérebro voltar a funcionar. — Preciso de sua ajuda numa coisa. — Suspirei, me perguntando como consegui aguentar por tanto tempo. Kit inclinou a cabeça, mas não disse nada. Por um momento, achei que iria se afastar, mas me surpreendeu quando chegou perto do portão. Com o cérebro rapidamente se esforçando, eu me virei e caminhei até a porta. Quando me voltei para Kit, ele estava parado no portão. — Precisa de ajuda com o quê? Meu coração bateu furiosamente no peito, me perguntando se conseguiria continuar com isso. Apontei para dentro. — Preciso conversar com você sobre uma coisa, mas estou morrendo de frio aqui fora. Kit suspirou, olhou em volta e, depois, para mim. Era quase como se estivesse numa batalha interna. Queria saber sobre o quê. O tempo parou por um momento enquanto ficava ali, sem dizer nada. Uma parte de mim se perguntava se isso era uma boa ideia. Kit me ajudou a levar as sacolas e me seguiu, mas era óbvio que ele se sentia desconfortável perto de mim. Finalmente, passou pelo portão, e o fechou. — Tudo bem. Meu coração fez uma pequena dança alegre enquanto eu passava pela porta. Ouvi-o fechar a porta antes de me virar. Senti o cheiro da batata frita e tenho certeza de que Kit sentiu, também, porque vi que ficou tenso. — O que você quer? Sua voz saiu muito mais rude do que provavelmente pretendia. Porém, estava determinada a ignorá-lo, porque eu precisava de respostas. Sem dizer uma palavra, peguei a sacola e entrei no hall de entrada. Kit me acompanhou, provavelmente por pura curiosidade mais do que qualquer outra coisa. Tinha uma carranca visível no rosto. Continuei o ignorando quando entrei na cozinha. Com tudo pronto, entrei na sala de estar e vi Kit parado exatamente na mesma posição. Depois que coloquei dois pratos na mesa, ele estava prestes a dizer algo, mas voltei depressa à cozinha para buscar o chá.


Quando voltei, Kit tinha tirado o gorro e estava coçando a cabeça. Parecia outra vez em conflito, e estava de um jeito que eu odiava. Não queria que ele sentisse que não deveria estar aqui. Colocando o chá na mesa, apontei para uma cadeira. — Sente-se. Você vai comer comigo, e não vou aceitar um não como resposta. Kit suspirou, mas, surpreendentemente, não discutiu. Apenas se sentou e observou em silêncio eu servindo todas as comidas em seu prato. — Como não sabia do que você gosta, tomei a liberdade de pedir salsicha com batata frita. Espero que goste. Sentei e coloquei comida no meu prato. Kit não se mexeu, o que me surpreendeu. Pensei que estaria morrendo de fome. Em vez de comer, franziu o cenho. — Por que está fazendo isso? Não queria me explicar, então, pensei que o melhor era responder uma pergunta com outra pergunta. — Por que está me seguindo? Achei que ficaria quieto, mas, mais uma vez, ele me surpreendeu. — Porque quero ter certeza de que você está bem. A resposta dele me espantou. Não pensei que se preocupava. — Por quê? Kit puxou a cadeira um pouco. — Por que está fazendo isso? — Ele apontou a comida. Vi claramente a fome em seus olhos. Esta foi a primeira vez que vi outro tipo de emoção que não raiva. — Porque quero ter certeza de que você está bem. — De repente, senti um sorriso nos lábios com a minha resposta. Pensei que me pediria para explicar melhor, mas não pediu. Em vez disso, pareceu aceitar a resposta e fez a única coisa que tinha me deixado feliz durante todo o dia. Ele pegou uma batata. Nós ficamos, confortavelmente, em silêncio enquanto comíamos. Vez ou outra, Kit resmungava satisfeito conforme mastigava uma batata ou tomava um gole do chá. Quando terminou, fiquei observando-o. Eu tinha tantas perguntas, mas não sabia se ele iria respondê-las. — Qual é o seu sobrenome? — De tudo que eu queria saber, perguntei isso? Tarde demais. Já tinha perguntado. Kit olhou para mim com o cenho franzido. Pareceu estar se debatendo se deveria ou não me dizer.


— Chain. De todas as coisas que tinha intenção de fazer, rir não era uma delas. Mas parece que acabou escapando quando brinquei com o nome dele e a palavra ‘cozinha’ em inglês, kitchen. — Então, seu nome é igual ao da parte mais doméstica da casa? — Cutuquei-o sem pensar e ele me encarou. — Sabe, né? Kit Chain. Suspirou, parecendo sem paciência. Pensei que agora ele ia embora. Com meus nervos um pouco agitados, ainda soltei. — É uma pena não ser Ching seu sobrenome porque poderia dizer que seu nome era Kit Ching! — Por um momento, pensei que tinha enlouquecido. Por que diabos disse isso? Mas Kit fez algo absolutamente incrível. E quando digo incrível, quero dizer incrível. Ele sorriu. Um sorriso daqueles bem rápidos, mas um sorriso mesmo assim. Bem ali, eu poderia ter levantado e comemorado como um torcedor de football comemora um gol. Ridícula, eu sei, mas cada pequeno gesto que Kit me dava, eu me sentia dessa maneira. E o sorriso dele? Meu Deus! Não vou nem começar a falar daquele sorriso. Mesmo por trás de toda a barba, podia dizer que seu sorriso derreteria os corações de cada mulher que o visse num piscar de olhos. Inferno, eu queria saber como o meu ainda estava batendo. Pensei que ia parar no mesmo instante em que me lançou aquele sorriso. Assim que consegui me acalmar e me obrigar a parar de encarar, limpei a garganta. — Quer mais alguma coisa? De repente, Kit se levantou da cadeira. — Eu tenho mesmo que ir. — Mas... Mas... — Estava balbuciando de novo. — Obrigado pela comida e pelo chá. Antes que eu pudesse responder, ele estava saindo apressadamente pela porta. Ouvi a porta fechar, e deixei escapar um suspiro. Fiquei um pouco desapontada por ele ir embora tão de repente, mas, ao mesmo tempo, não consegui impedir o sorriso deslizando no rosto. Kit sorriu para mim. Sorriu de verdade com uma piada que eu fiz. É, sabia que era uma piada fraca, mas ele sorriu! E pelo resto da noite, meu sorriso não se apagou.


CAPÍTULO QUATRO

— Livy, mas que merda? Livy! Senti um cutucão no ombro e gemi. Porra, que dor de cabeça. Senti que estava toda molhada e não sabia o porquê. Onde diabos estava? Mas que merda estava acontecendo? Aquela era mesmo a voz de Titio? Eu não o via há semanas. — Livy, levante-se. Cacete, eu devia ter vindo antes. Livy, acorda! — Ele me cutucou de novo e só então que abri os olhos. A luz do sol entrava pelas janelas, me cegando. Percebi que estava no chão da sala. Mas que porra é essa? Quando me mexi, senti um cheiro de vômito. — Merda... — gemi, sentindo ânsia. — Livy, é melhor levantar ou vou te mandar para uma clínica de reabilitação pelos próximos três meses. Levante essa bunda do chão e já para o chuveiro. Vou te limpar. Com a ajuda de Titio, eu me sentei e olhei para ele. Estava bonito vestindo camisa branca e calças pretas. O que ele devia pensar de mim? E me cutucou de novo. — Livy, levanta. Não vou falar de novo. Com um tapa, afastei a mão dele. — Tá bom, tá bom. Pelo amor de Deus, já estou me levantando. — Ouvi Titio arquejar. Até mesmo eu fiquei um pouco surpresa com minha explosão, mas sinceramente, posso dizer que não estava muito preocupada. — Livy, eu sei que provavelmente não está se sentindo bem, mas não há necessidade de descontar em... — Você não veio aqui! — interrompi. — Por que se importaria agora, caralho? — Gemi de novo quando a cabeça latejou. Titio suspirou.


— Me desculpe, Livy. Estava tão aborrecido com você pelo que fez, mas eu deveria ter vindo. Estou aqui agora... e temos que te dar um banho. Você está fedendo. Ele me ergueu e, praticamente, me carregou até o banheiro. Eu me agarrei nele porque era meu único apoio. A única pessoa que estava me oferecendo conforto. Titio me colocou na banheira e abriu a água. Quando sentiu que estava quente, abriu a torneira do chuveiro. Arfei quando a água bateu no rosto e correu pelo meu corpo vestido e sujo de vômito. Naquele momento, eu me senti patética. Senti-me como a maior fracassada do planeta. Lágrimas sem fim escorreram pelo meu rosto e um soluço sufocante escapou dos meus lábios. Como foi que cheguei a esse ponto? Como fui capaz de permitir que alcançasse o fundo do poço? Essa não era eu. — Ah, Livy, venha aqui. — Ele entrou na banheira comigo. — Mas, e suas roupas... — argumentei. — São só roupas, Livy. Ele me segurou debaixo da água e me deixou soluçar em seu ombro. Enquanto me acalmava, Titio me afastou e acariciou minha bochecha. — O que faremos para que melhore? O que é que você quer? Vou dar a você tudo o que quiser, contanto que fique longe desta maldita porcaria. Está tentando se matar, mas eu nunca vou deixar isso acontecer. Me fale. O que posso fazer? Suspirei, já sabendo a resposta. Eu a tinha constantemente na cabeça. Ele estava nos meus pesadelos e no pensamento assim que acordava. O homem que tirou tudo de mim. Olhei Titio nos olhos e pude ver que esperava pela minha resposta. — Preciso de você, agora — sussurrei. — Preciso da sua ajuda. Não quero mais viver assim. — Ele sorriu e assentiu, dando um pequeno aperto no meu ombro. Obviamente, estava esperando por esse momento. — O que posso fazer para te ajudar? O que é que você quer? Suspirei conforme as lágrimas caíam. — Quero justiça, Titio. Quero encontrar o Homem Sombra que


tentou matar minha família. Quando o encontrar, vou matá-lo.

Na manhã seguinte, acordei toda saltitante. Estava torcendo para que Kit aparecesse hoje. Estava um pouco atordoada com a perspectiva disso e não pude deixar de me repreender por parecer uma adolescente. Quero dizer, já namorei antes, mas nenhum deles me fez sentir assim, entusiasmada e atordoada. Não estávamos namorando, e sabia que isso nunca aconteceria. Mas ainda não conseguia evitar de sentir isso. Pegando minhas coisas, abri a porta e parei. Na soleira dela, encontrei um copo quente de café fresco, e o que parecia ser pastel Dinamarquês. Arfei. Depois de verificar, vi que o café era preto, bem do jeito que eu gostava, e o pastel era de morango. Não era preciso ser um gênio para saber de quem era. Estava me sentindo nas nuvens quando peguei o café e o pastel, e saí. Estava terminando de comer meu doce quando entrei na cafeteria. A essa altura, estava embriagada pelo aroma de morango. Tim olhou para cima com um enorme sorriso radiante. — Ah, estava me perguntando se isso era para você. — Sorri. — Encontrei isso na minha porta, esta manhã. Tim se inclinou levemente, colocando as mãos no balcão. — Bem alto, cabelo loiro escuro comprido e barbudo? — Acenei, sentindo o coração começar a acelerar. — Sim, esse mesmo. Tim sorriu. — Um de seus muitos admiradores. Provavelmente pensou que era o certo retribuir o favor depois de todos os cafés que deve ter comprado para ele. Qual é o dele? Café normal com dois torrões de açúcar? Neguei com a cabeça. — Não. Na verdade, ele não pede café. Tim arregalou os olhos e recostou-se.


— Ah, então é apenas alguém que admira você de longe. E eu suspirei. Mas o pior foi que não era apenas um simples suspiro. Era um daqueles suspiros apaixonados, de quando uma garota pensa num garoto. Bem nesse momento, queria muito que fosse verdade. Minha obsessão por ele estava ficando fora de controle, mas acabei alegando que era porque não o conhecia. Não sabia de muitas coisas sobre ele, mas Kit era um mistério total. Um enigma dentro de um quebra-cabeça. Por fim, recobrei a voz. — Acho que está apenas me retribuindo pela comida que eu dei a ele ontem, é só isso. — E era só isso. Não era porque gostava de mim, ou queria me conhecer. Estava simplesmente sendo gentil. Com certeza foi um gesto muito adorável, mas só uma gentileza mesmo. Tim me olhou com ceticismo. — Hmm... talvez eu pense diferente, mas… Vai querer o de sempre? Concordei com a cabeça. — Sim, por favor. Assim que todas as bebidas quentes ficaram prontas, fui para o refeitório comunitário. O sol brilhava, mas ainda estava um pouco frio. À distância, vi o grupo de sempre, sentado nos degraus. Então, meus batimentos cardíacos aumentaram um pouco quando vi que Kit também estava lá. — Bom dia, pessoal. — Estava mais alegre do que de costume e acho que todos perceberam. Bem, Thomas definitivamente notou. — Ora, bom dia, Olivia. Vai nos contar o nome dele? Olhei brevemente para Kit. Podia sentir que estava ficando nervosa. Precisava muito controlar meus sentimentos. — Nome de quem? Thomas sorriu. — Do cara que está colocando esse sorriso no seu rosto ultimamente. Não me interprete mal. Sempre está com um sorriso no rosto, mas nos últimos tempos? Vamos apenas dizer que você parece mais cheia de vida.


Wayne começou a rir. — Cacete, Thomas. Que merda é essa que acabou de dizer? Em vez de ser o vulgar de sempre, está usando palavras como “cheia de vida”. Que porra é essa? Thomas rosnou na direção de Wayne. — Só estou sendo educado. Eu sei que Olivia fica um pouco desconfortável com meu jeito. Estava só tentando ser um pouco gentil. — Constrangendo ela? — retrucou Rachel. Ela olhou para mim, colocando a mão no meu braço. — Não ligue para eles, Olivia. Estão apenas entediados e você é a única forma de diversão pelas manhãs. — Ela revirou os olhos. Decidindo mudar de assunto, sorri e distribuí as bebidas. — Aqui está. Gostoso e quente. Um por um, eles pegaram as bebidas. Olhei para Kit e o vi parado no mesmo lugar. Queria dizer oi e agradecer pelo café, mas a postura dele emanava aquela vibração de sempre, não se aproxime de mim. Por fim, pensei — que se dane — e caminhei em sua direção. Pelo canto do olho, vi os outros me observando. Acho que todos sabiam que eu era masoquista. Só pensei que agora Kit não seria maldoso comigo. — Kit? — chamei conforme me aproximava. Notei que ele visivelmente se encolheu. — Kit, está tudo bem? Eu só queria agradecer pelo... De repente, ele se levantou dos degraus e me olhou furioso. — Não fale comigo. Não diga o meu nome. Não quero você perto de mim. — E foi embora, e eu senti a punhalada da rejeição atravessar meu peito. Doeu mais do que imaginei, mas como poderia esperar algo diferente? Pensei que estava conseguindo derrubar as barreiras dele ontem à noite, mas ele continua mal-humorado e desagradável como sempre. Observei-o desaparecer na esquina, e fiquei ali parada, tentando não demonstrar que estava chateada da melhor maneira que podia. — Não leve isso para o lado pessoal, querida. Ele é assim com todos. Eu me virei ao ouvir a voz de Rachel e fiz de tudo para sorrir. No


entanto, doeu. Simplesmente não conseguia entender por que ele era tão caloroso num momento, e tão frio no outro. — Eu sei. Continuo tentando, mas ele está determinado a me afastar. — Ri um pouco, tentando ao máximo agir indiferente. Não sabia a quem estava querendo enganar... eles ou eu.


CAPÍTULO CINCO

— Por que você não me leva para sua casa? Titio olhou para cima. Estávamos nos exercitando na academia da sua cobertura. Sabia que ele tinha uma casa enorme porque me lembrei de nadar numa grande piscina no verão, quando eu era criança. Por algum motivo, ele não me levava lá. Assim, acabei ficando em seu quarto de hóspedes. De manhã, Titio me ensinava autodefesa. De tarde, eu lia ou pintava. Titio sabia o quanto eu adorava pintar, concordando que isso ajudava na minha reabilitação. Fazia quase quatro meses que eu não bebia e, embora ainda sentisse vontade de beber, sabia que estava melhor sem bebidas. Titio me observou, sorrindo. — Aquela será a sua casa onde memórias novas e mais agradáveis podem ser criadas. É onde nossas vidas podem começar. Mas, agora, você não precisa de distrações. Nenhuma lembrança do passado assombrando você. — Ele se aproximou de mim com um sorriso. — Além disso, é onde estão todos os meus homens. Não quero você perto deles, enquanto está tão vulnerável. Teria que cuidar de você como um falcão. Ri um pouco tentando recuperar o fôlego. Titio tinha me feito pegar pesado nos exercícios. Mas não ligava. Isso mantinha minha mente focada em outras coisas. — Por que teria que fazer isso? — Sorri inocentemente, e ele deu um passo à frente. Lentamente, passou o dedo pelo meu braço e sorriu quando estremeci com seu toque. — Porque, querida Livy, você era bonita quando mais jovem, mas floresceu na mais linda mulher. Uma que poderia fazer qualquer homem comer na palma da mão. — Ele olhou para baixo, pegou minha mão com a palma virada para cima, e suavemente beliscou no meio dela. — Se te deixasse sozinha por cinco minutos, quem sabe que tipo de problema você se meteria. Balancei a cabeça. — Não entendo. O sorriso de Titio se desfez quando a tristeza tomou conta dele.


— Quantas vezes me pediu para te dar uma bebida, Livy? Quantas vezes tive que ouvir você gritando, tendo pesadelos? Quando acorda, às vezes ensopada de suor, e me promete o mundo se eu te der uma bebida para acabar com a tensão. Não posso te deixar sozinha desse jeito. Só existe uma pessoa em quem confio para ficar com você agora, a Mona. Ela é uma enfermeira qualificada e sabe como ajudá-la. Respirei fundo porque ele estava certo. Odiava o fato de ter feito isso com ele e comigo. Tinha vergonha de admitir que implorei a ele, em várias ocasiões, quando as coisas ficaram muito difíceis. Supliquei e prometi as coisas mais impronunciáveis em troca de uma bebida. Só um gole... Isso era tudo que precisava. Sabia que não era verdade, mas era o que eu pensava. — Mona tem ajudado muito e você também. Agradeço tudo o que fez por mim. Titio ergueu meu queixo e sorriu. — Só quero fazer você feliz. — Pausou por um momento. — Que tal fazer hipnose? Vai ajudar muito com os pesadelos, Livy. Conheço alguém muito bom. Ela também pode ajudar a afastar essa ânsia pela bebida... talvez até mesmo influenciar num sentido mais positivo. O que acha? Franzi o cenho. Não conhecia muito sobre hipnose, mas estava disposta a tentar qualquer coisa. Sabia que Titio estava apenas tentando me ajudar a melhorar. Ele estava me mostrando o quanto se importava. Eventualmente, concordei. — Quero tentar. Titio apertou meus ombros e beijou minha testa. — Bom. Vou organizar isso para esta semana.

Nos quatro dias seguintes, Kit não apareceu. O que me incomodou porque não sabia se era por minha causa ou por outra razão. Mesmo assim, não consegui deixar de me preocupar com ele. Fiquei com medo de que ele pudesse estar ferido ou em perigo. Pensando se estava comendo direito e se estava dormindo bem. Eu sabia que parecia loucura, mas não tinha controle sobre minhas preocupações. Sempre que um deles ficava dias desaparecido desse jeito, eu me preocupava. Era um instinto natural. Eu me importava com todos eles e se


qualquer um se machucasse, eu ficaria triste. Sem muito entusiasmo, comecei minha rotina. Cheguei, entreguei todas as bebidas quentes e fui para dentro. Mais uma vez, Kit não estava lá, mas decidi tentar não pensar demais nisso. Então, trabalhei. Estava no refeitório entregando o último prato quando pelo canto dos olhos pego um movimento e olho na direção da porta. Kit estava parado nela e o pequeno ofegar de surpresa que saiu dos lábios foi inevitável. Ele estava me fitando e, naquele momento, comecei a sentir raiva. Como se atreve a ser rude comigo, desaparecer por dias e me deixar preocupada com ele? Claro, ele não sabia disso, mas tinha sido cruel comigo quando eu estava apenas tentando agradecer a ele. Assim, pensei em estender a mesma cortesia, então, ignorei-o completamente. Vi-o pegar o prato e caminhar na minha direção. Ele me entregou o prato, o tempo todo observando cada movimento que eu fazia. Mas, eu não olhei para ele. Em vez disso, peguei o prato da mão dele, coloquei a quantidade normal de comida e o devolvi. Notei que ele hesitou ligeiramente, mas quando eu não disse nada e nem mesmo olhei para ele, saiu e sentou no seu lugar de sempre, tão longe quanto possível de qualquer outra pessoa. Se ele queria ficar sozinho, que ficasse. Não ia mais desperdiçar minha energia com ele.

***

Nos dois dias seguintes, fiz a mesma coisa. Sabia que estava sendo um pouco infantil, mas Kit tinha feito isso comigo por quase três meses já. Se ele não queria que eu conversasse com ele, eu não conversaria. Era bem depois da meia-noite quando terminei meu turno no bar, peguei o caminho mais longo para casa e, assim, passar só pelas ruas principais. Não tinha visto ou ouvido falar de Freddy de novo, ainda bem. Eu realmente deveria ter prestado queixa na polícia, mas senti que deveria ser leal a Kit. Só Deus sabe por quê, mas senti. Quando cheguei nas ruas mais calmas, meu coração começou a bater mais forte. Odiava que Freddy, ou qual diabos fosse seu verdadeiro nome, tivesse me deixado assim. Tinha andado pelas ruas da Inglaterra desde que era pequena e nunca me senti assustada ou intimidada. Mas suponho que ter gorilas


como guarda-costas ajudava a esse respeito. Sentindo-me mais nervosa do que o de costume, virei e vi Kit do outro lado da rua. Instantaneamente, senti dificuldade para respirar, mas por uma razão diferente desta vez. Não estava mais assustada. Ver Kit me tranquilizava, mas eu ainda estava brava com ele. Decidindo dizer umas verdades a ele, parei, olhei ambos os lados e atravessei a rua. Ele continuou parado, como sempre parecendo tenso, mas não me importei. Ele estava me seguindo! — Por que está aqui? Por que ainda está me seguindo? Ele olhou timidamente para o chão e, depois, me olhou. — Por que tem me ignorado? Eu ri. Não queria, mas simplesmente saiu. — Desculpe. Será que escutei corretamente? Está mesmo me perguntando por que eu estou ignorando você? Mas se não é irônico. Ele endureceu novamente e suspirou. — Escuta, desculpe se acha que estava sendo rude com você, mas era necessário. Bufei. — Necessário? Não foi apenas rude, você desapareceu por dias, me deixando muito preocupada pensando que algo tinha acontecido... Ele ficou rígido outra vez e imediatamente soube o porquê. Não queria deixar isso escapar, mas estava tão brava com ele que acabou escorregando. — Você estava preocupada comigo? — sussurrou. Suspirei e fechei os olhos por um momento antes de olhar para ele. — Sim. — Tinha que ser honesta. Eu me preocupava mesmo com ele. Eu me preocupava com ele todos os dias. — Por quê? Meu Deus, como este homem me irritava. Queria abraçá-lo e sacudi-lo ao mesmo tempo.


— Porque eu me importo, Kit. Não consigo evitar, mas me importo. É simplesmente quem eu sou. Está enraizado em mim, acho. Por um momento, nós olhamos um para o outro, e, então, o som de um rádio me assustou. — Senhorita, esse homem está incomodando você? Virei e vi um policial vindo em nossa direção. Ele se aproximou, parando entre Kit e eu. Ficou um pouco de lado, assim seria capaz de ver nós dois claramente. Quando o policial olhou para mim, vi Kit enrijecer de novo. Seus olhos estavam arregalados como se estivesse com medo. Odiava ver isso. Voltando rapidamente a atenção para o policial, neguei com a cabeça. — Não, de forma alguma. Somos bons amigos, na verdade. Acabei de sair do trabalho, e John gentilmente ofereceu para me acompanhar até em casa. Ele gosta de ter certeza de que chegarei em segurança. Nunca se sabe quem está à espreita durante a noite. — Sorri docemente para ele, esperando que o policial visse que eu estava bem. Ele ficou me olhando. E me perguntava se estava tentando ver se havia algum sinal de estresse. Mal sabia que meu único estresse era que estava tentando me livrar dele, não porque tinha medo de Kit. Por fim, o policial sorriu e assentiu com a cabeça. — Está certo, tenha uma boa noite. — Olhou para Kit mais uma vez e, relutantemente, afastou-se. — Obrigada, policial. — Acenei gentilmente a ele e esperei estar bem longe para comentar. — Essa foi por pouco. Kit deu um passo na minha direção. — Você me chamou de John. Por quê? — Dei de ombros. — Para te proteger. Parecia a coisa certa a fazer. — Eu não queria entrar no mérito de ter notado o medo em seus olhos ao ver o policial. Obviamente, estava escondendo alguma coisa. Saber disso deveria ter me deixado com medo, mas algo me dizia para não ficar. — Por que está sendo tão legal comigo?


Joguei minhas mãos no ar. — Eu não sei. Por que você é extremamente grosseiro comigo? — Deixei escapar um suspiro, então, estremeci diante da minha explosão. Não precisava ter me preocupado porque, pela segunda vez em poucas noites, Kit sorriu. E meu coração se acendeu de tanta alegria, não consegui me segurar e sorri para ele. — Me desculpe, Olivia. Quase fechei os olhos. Tinha ouvido meu nome milhares de vezes durante todos os meus anos de vida, mas nunca ouvi meu nome dito de tal forma a ponto de deixar meus joelhos bambos. Nesse momento, precisava dele perto de mim. Não queria que nos separássemos aqui. Queria ficar com ele, mesmo que só por mais alguns minutos. Formei um plano. — Quero te desculpar, Kit, mas só com uma condição. As sobrancelhas de Kit franziram tanto que meu sorriso saiu por conta própria. — Qual? — Você vem para casa comigo e me acompanha no jantar Não é divertido comer sozinha. Seria bom ter companhia. — Mordi o lábio, esperando pela rejeição. Não tinha certeza do porquê que forcei a situação. Acho que não conseguia evitar quando ele se abria mesmo que um pouquinho comigo. Era simplesmente natural querer mais. E, por fim, Kit respirou fundo. — Tudo bem. Quase respondi: simples assim? Entretanto, segurei a língua. Esse homem era um poço de contradições. Então, acenei com um sorriso e comecei a caminhar. Kit caminhou ao meu lado, mas manteve um pouco de distância entre nós. Não tinha certeza se isso era deliberado, mas perguntaria. Quando chegamos à minha porta, a destranquei e deixei aberta para Kit entrar. Como estava mais quente dentro de casa, tirei o casaco logo que entrei, e acenei para que Kit se sentasse.


— Sei que é tarde, mas gosta de sopa? Tenho de frango ou tomate. Kit sentou-se e olhou para mim. — Qualquer uma é boa. Obrigado. Dei um leve sorriso e fui à cozinha. — Tire o casaco, Kit! — Gritei por cima do ombro. — Fique à vontade. Nos próximos minutos, fiquei ocupada preparando a sopa, colocando duas tigelas e um pão em uma bandeja. Quando saí, quase deixei cair a bandeja. Ver como ele estava realmente deixou minhas mãos tão trêmulas que precisei correr até a mesa para colocar a bandeja. Kit tinha tirado o casaco. Por baixo usava um suéter azul marinho, com o zíper aberto na gola. O suéter era um pouco largo, mas não tão largo para impedir de notar sua estrutura. Os ombros eram largos e os braços pareciam bastante musculosos. Através da parte aberta do suéter, notei que não tinha pelos. Tinha tanto no rosto, mas pelo que pude ver, nada no peito. Sem o gorro de lã e o casaco, Kit parecia modelo de capa de revista — menos aquela cabeleira toda e jeans surrados, é claro. Por um instante, não pude encará-lo. Senti vergonha por ter sido pega no flagra o encarando, e ainda mais envergonhada pela minha reação a ele. Como diabos vou explicar meu comportamento? — Olivia, você está bem? Rapidamente fiz que sim com a cabeça. — Humm, sim. É só que... Foi a bandeja. Estava um pouco pesada, só isso. — Meu Deus, que desculpa mais esfarrapada. E virei, o que provavelmente foi a pior coisa que fiz. Kit estava bem atrás de mim, mais perto do que jamais esteve. Por um momento, fiquei sem fôlego enquanto fitava seus olhos preocupados. Como poderiam parecer ameaçadores depois que eu vi o que estava realmente por trás deles? Ele era simplesmente bonito. Mas logo Kit quebrou o feitiço quando cobriu a boca e espirrou. — Saúde. — disse instantaneamente. Kit assentiu com a cabeça.


— Obrigado. Fiz um gesto para a cadeira. — Por favor, sente-se. Bom apetite. Kit virou e tive a visão de como ele era por trás. A calça jeans pendia frouxamente em seus quadris, exibindo suas costas. E, ah, que costas. Nunca soube que bumbum como aquele existisse. Devia ser ilegal. A vontade que tive de estender a mão e apertá-lo foi tão avassaladora, que me deixou estarrecida. Era isso que se sentia quando estava com desejo? Nunca senti nada assim antes... com exceção de por Titio, e não sabia que diabos era isso. Perdi a virgindade aos dezoito anos porque achei que precisava acabar logo com isso. Sabia que parecia estupidez, mas estava péssima naquela época. Bebia muito e pensava em como era patética, e que ninguém iria me querer. Tinha tentado, muitas vezes, ficar com Titio e ele me recusou em todas elas. Então, acabei decidindo me esforçar, sair e ver se realmente conseguia encontrar alguém. Apostei comigo mesma, e infelizmente, ganhei. Não demorou muito para encontrar alguém que estava disposto a dormir comigo. Seu nome era Pete. Ele era apenas dois anos mais velho do que eu, e trabalhava na área industrial local. Depois de algumas bebidas, pedi o que queria, e ele pareceu que tinha acabado de sofrer o maior choque da sua vida. Ele quis ir para minha casa, mas não queria que ele soubesse onde eu morava, então, falei para irmos à casa dele. Comprou preservativos no caminho, me levou para seu apartamento e fizemos sexo bastante desconfortável. Não gostei. Doeu e senti vergonha quando sangrei um pouco. Foi quando, então, Pete descobriu que eu era virgem, levando o segundo maior choque da noite. Disse que realmente gostou e queria me ver novamente. Respondi com um “é claro”, mas nunca o vi de novo. Apenas fui para casa e chafurdei um pouco mais. Um mês depois, as coisas mudaram para mim. Estremeci um segundo, lembrando do dia em que Titio descobriu.

— Livy, me diz que não é verdade! — Ele abriu a porta com tanta violência, que até eu pulei de susto. Parecia tão enfurecido e eu odiava vê-lo


desse jeito. — O quê? — perguntei, com o medo refletido em meus olhos. — Me diz que você não dormiu com algum filho da mãe que trabalha num canteiro de obras. Arfei quando percebi que ele sabia de tudo. — Como você... — Então é verdade? Com pressa de responder, disse algo que lamentei na mesma hora. — Bem, você não quis ficar comigo. Tive que procurar alguém em outro lugar. Seu rosto ficou vermelho e meus olhos se arregalaram quando ele rugiu e socou a parede. Depois, voltou a atenção para mim. Nunca fiquei mais aterrorizada como agora. Ele veio para cima de mim, agarrou meu cabelo e me puxou para perto dele. Gritei, fechando os olhos, esperando e rezando para que ele não me batesse. — Olhe para mim, Livy. — Meus olhos permaneceram fechados. — Eu não vou pedir de novo, porra. — Abri os olhos e me deparei com ele me encarando, furiosamente. — Você vai aprender. Um maldito dia, você vai aprender. Mas aqui está a lição um, Livy. Você. É. Minha. Ninguém toca em você, ninguém mais fode você. Ninguém mais vai nem mesmo se atrever a tentar. Entendido? Até se alguém respirar na sua direção, vou matálo. Entendeu? — Assenti, sentindo as lágrimas se formarem. Ele, imediatamente, se acalmou e afrouxou o aperto em meu cabelo. — Um dia, quando estiver livre das suas merdas, vai me compensar. Eu nunca vou esquecer disso. — Ele me soltou e irrompeu na direção da porta. — Vou cuidar da porra daquele filho da mãe agora. — E foi embora, e não o vi outra vez até naquela manhã fatídica, quando estava deitada no meu próprio vômito.

Balançando a cabeça, trouxe meus pensamentos para o presente.


— Vai se sentar? Eu olhei para cima e vi Kit fazendo sinal para minha cadeira. Estava tão ocupada sonhando com sua bunda que não percebi. Quanto mais eu ia acabar revelando a este homem? Fui rapidamente até a cadeira, sentei e sorri. — Me desculpe. Estou um pouco atordoada esta noite. Acho que estou cansada. Kit fez um gesto para a porta e começou a se levantar. —Talvez eu devesse ir. — Não! — Gritei tão alto que os olhos de Kit arregalaram. — Quero dizer, eu quero que fique. É meu convidado e estamos com fome. Por favor. Sente-se. — Fiz um gesto para sua cadeira e ele se sentou novamente. Observei quando pegou a colher e começou a comer. Pegando o pão, parti um pedaço e entreguei a ele. Kit sorriu, estendeu a mão e o pegou, inadvertidamente, roçando seus dedos contra os meus. Nossos sorrisos desapareceram. O meu, por causa da descarga elétrica que me atravessou, e o dele... Bem, não sabia o porquê. Talvez porque não gostou de termos nos tocado. Nunca sabia quando se tratava dele. — Obrigado. — Pegou o pão da minha mão e demos início àquele silêncio confortável. Eu queria conversar. Tinha tantas perguntas dando voltas na cabeça, mas nunca sabia o que dizer. — Posso te perguntar uma coisa? — Ele me olhou. — Bem, na verdade é um pedido. Kit franziu o cenho, mas assentiu. Como sempre, um homem de poucas palavras. — Pode, por favor, não desaparecer desse jeito outra vez? Não quero ter que me preocupar se você está bem. — Nervosa, fiquei mexendo no meu guardanapo. Os olhos de Kit desceram para a minha mão, depois, de volta para cima. Lentamente, acenou com a cabeça. Dei um sorriso a ele. — Obrigada. — O silêncio retomou. — Quantos anos tem, Kit? — perguntei finalmente.


Ele parou a colher no meio do caminho à boca. Ficou um pouco tenso, depois relaxou. — Trinta e dois. Fiquei espantada. Ele parecia um pouco mais velho. Mesmo assim, ainda era doze anos mais velho do que eu, e com tanto cabelo e barba, pensei que tinha quase quarenta anos. — Quando vai fazer trinta e três? Ficou tenso de novo e olhou para mim. — Por que está fazendo tantas perguntas? Ele me deu um olhar e imediatamente pensei que estava desconfiado de mim. Mal sabia ele, porque eu estava curiosa, evidentemente. — Kit, só fiz duas perguntas. Quero apenas te conhecer melhor, acho. — Por quê? — Suspirei. — Não sei. — Revirei os olhos e suspirei novamente. Desta vez, quis ser honesta. — Eu gosto de você. — Desviei os olhos, sentindo que estava começando a ficar constrangida. Não estava acostumada a esse tipo de situação. Nunca tinha gostado assim de alguém antes, e não tinha certeza se era certo me expor dessa forma. E se eu fosse rejeitada? Acabaria comigo. Era a última coisa que eu queria que acontecesse, mas não pude evitar. Kit me instigava. Querendo mudar de assunto, olhei para ele. — Você pergunta um monte de “por que”. Por um segundo ele ficou lá, apenas me encarando. E, então, pela terceira vez em questão de dias, Kit sorriu. Retribuí o sorriso e observei-o voltar a comer. Quando tive certeza de que tinha comido bastante, voltei a atenção para minha sopa. — Quinze de janeiro. Olhei para cima. — O quê? Kit soprou a colher com sopa e a levou à boca.


— Meu aniversário... É dia quinze de janeiro. — Colocou a colher de volta na tigela e partiu um pedaço de pão. — Quantos anos você tem? — A pergunta dele me deixou um pouco surpresa. Foi bastante inesperado. — Vinte — Os olhos de Kit se arregalaram ligeiramente. — Tem alguma coisa errada? Passou um instante me olhando nos olhos, depois balançou a cabeça. — Quando vai fazer vinte e um? — Dezessete de julho. — Não ia hesitar com suas perguntas. Se ele queria saber, responderia. No entanto, a próxima pergunta me chocou. — Por que está sozinha? Olhei para cima, encontrando seus olhos penetrantes. — Como? — Você tem só vinte anos, e está sempre sozinha. Nunca te vejo com amigos ou família. Vive aqui, sozinha. Não deveria estar aproveitando a vida? Frequentando bares, conhecendo pessoas? — E você, não? — respondi, sarcasticamente. Senti que fui um pouco impulsiva, mas ele tinha tocado num ponto fraco. Ficou um tempo me encarando, e acabou permanecendo em silêncio. Por fim, voltou a comer. — Você não tem fotografia. Parecia que eu fazia todas as perguntas, mas Kit era quem fazia todas as observações. Só que não estava gostando da direção que estavam indo. — O que você quer dizer? — Ele apontou para a sala. — Você não tem uma única fotografia sua ou de qualquer outra pessoa. Minha postura se endireitou. — E daí? — É que é um pouco estranho. Todas as casas têm fotografias, memórias.


Senti meu coração acelerar. A dor no peito era quase insuportável. — Bem, talvez não tenha tido nenhuma lembrança para exibir em minhas paredes. Por acaso já pensou nisso? — Kit me olhou com a expressão chateada. — Desculpe. Eu não quis me intrometer. E espirrou de novo. — Saúde. — Obrigado. Eu o vi fungar. — Está ficando resfriado? — Estendi a mão para tocar sua testa, mas ele se esquivou. Recuei ligeiramente e ele viu pela minha expressão que fiquei chateada. — Sinto muito. Tenho que ir. — Levantou com tudo da cadeira. — Obrigado pela sopa. — E rapidamente agarrou seu casaco e saiu porta afora. Fiquei completamente perplexa. Num minuto; ele estava com raiva; no próximo, compassivo; no outro, ficou frio e fugiu. Não conseguia entendê-lo. Com um suspiro, recolhi a louça e fui para a cozinha. Lavei tudo, guardei e fui me preparar para dormir. Eram quase duas da manhã, mas só por volta das quatro que consegui pegar no sono. Estava ocupada demais revirando na cama a noite toda que nem escutei o alarme despertar.


CAPÍTULO SEIS

Passaram-se dois dias e não tinha visto Kit. Ele concordou que não ficaria dias sem aparecer, então, fiquei brava com ele outra vez. Porém, quando a raiva abrandou, a preocupação tomou conta. Kit não parecia ser do tipo que não cumpria com a palavra, por isso, fiquei angustiada durante o domingo inteiro e hoje. Fui trabalhar ontem à noite e hoje, e agora estava indo para casa. Segui pelo caminho mais longo, decepcionada quando olhava para trás e nem uma vez vi Kit. Estava começando a ficar realmente preocupada. Quando cheguei em casa, tinha acabado de colocar o casaco no gancho e começado a ferver a chaleira quando ouvi uma batida na porta. Senti os cabelos da nuca arrepiarem pensando que poderia ser Titio fazendo outra visita. Fazia alguns dias desde que o vi pela última vez e duvidava que deixaria passar muito mais tempo sem me ver de novo. Quando olhei para fora, porém, não vi nada. Franzindo o cenho, coloquei o trinco na porta e cuidadosamente a abri. O que vi acabou comigo. Fechando rapidamente a porta para soltar a corrente, abri a porta e me ajoelhei. Kit estava encolhido no canto, tremendo e com os braços apertados ao seu redor. Parecia que mal se aguentava de pé. — Kit! — Gritei, começando a entrar em pânico. Coloquei a mão em sua testa. Ele estava queimando de febre. — Kit, consegue levantar? Você precisa entrar — murmurou algo que soou como um ‘sinto muito’, mas eu estava muito ocupada tentando levantá-lo. Com alguns puxões, consegui erguê-lo ao mesmo tempo em que ele oscilava um pouco. — Vamos, Kit. Precisamos baixar sua temperatura. Fechando a porta, e com dificuldade, subi com ele as escadas e o levei para o banheiro, sentando-o no vaso, abri a água da banheira. Precisava deixar o banho morno, mas não quente. Isso baixaria a temperatura rapidamente. Enquanto a banheira enchia, voltei para Kit e comecei a tirar-lhe o casaco. Quando o olhei, ele estava me encarando como se estivesse paralisado. Depois que tirei o casaco, senti seu dedo roçar meu rosto, afastando um fio de cabelo. Naquele momento, tudo parou. Mal podia respirar. Foi um dos toques mais singelos, mas aqueceu tanto meu coração que praticamente o senti


pegar fogo. Agora, estava em chamas por dentro. Olhando para cima, encontrei seus olhos. Aqueles olhos azulacinzentados que pareciam tão perdidos e com medo. Do que ele tinha medo? De quem ele poderia ter medo? Certamente não de mim. Pelo tamanho de Kit, ele poderia me esmagar se quisesse. Eu simplesmente não conseguia entendê-lo. — Não sabia mais para onde ir. Quase não conseguia ouvi-lo, mas senti meus olhos lacrimejarem um pouco com sua confissão. Queria muito saber mais, mas ele precisava ficar bem primeiro. Precisava que ele melhorasse. Tentei tirar seu suéter, mas ele me parou. — Kit, saiba que sempre tem um lugar aqui. Por favor. Deixe-me ajudá-lo. Ele olhou para mim um instante, depois, acenou ligeiramente com a cabeça. Entendi isso como sua permissão, então, tirei o suéter. Recuperando o fôlego, encarei seu peito. Tão tonificado, tão definido, tão musculoso. Mas o que mais me impressionou foram as tatuagens. Tinha várias. Algumas eram decifráveis, outras, não. Ele tinha alguns símbolos japoneses em torno de ambos os braços. Seu peito tinha dois pássaros com as asas abertas, segurando um grande coração, brilhando como se fosse o sol. Abaixo, mais símbolos japoneses. Tinha certeza de que significavam algo, mas não acho que me contaria se eu perguntasse. A mais confusa para mim era uma no braço. Tinha um crânio com duas chaves cruzando de um lado ao outro. No crânio estava tatuado o número vinte e quatro. Tinha tantas perguntas, mas sabia que nunca conseguiria as respostas. Não se eu o pressionasse. Aposto que devia estar desesperado já que admitiu que não conseguiu se virar sozinho e veio até aqui. Quando tirei as botas e as meias, tudo o que faltava eram as calças. Levantei e mordi o lábio. — Umm... — Será que ajudo a tirá-la? Não sabia o que fazer. Kit ainda estava sentado, tremendo. Às vezes, parecia que por um instante ele simplesmente desligava de tudo. Fiquei preocupada que estivesse começando a delirar. — Kit, precisamos tirar suas calças. — Ele não se mexeu ou respondeu, me aproximei da banheira e fechei a torneira. Voltei para Kit e puxei


seu braço. Por fim, consegui levantá-lo e, lentamente, comecei a abrir os botões. Kit de repente me abraçou. Achei que sentiria um cheiro forte por ele viver nas ruas, mas tudo que meu nariz inalou foi um cheiro sexy, almiscarado. Não sabia o que era, mas isso atingiu minhas narinas, e em mais outro lugar. Outro que não deveria ter sido atingido. Tentando ignorar minha excitação, continuei tirando suas calças. Elas caíram no chão, mas tive medo de olhar. E se ele não estivesse usando cueca? Porém, não podia ficar ali o dia todo... não importa o quão bom era sentir os braços de Kit ao meu redor. Posso estar excitada, mas ainda dava para sentir como estava febril. Era como ter uma fornalha pressionada contra mim. Sabendo que eu não poderia adiar por mais tempo, olhei para baixo e soltei um suspiro de alívio quando vi que usava uma boxer. — Kit. — Eu o cutuquei de leve, mas ele não se mexeu. — Kit. — Cutuquei novamente e sua cabeça deslizou para o meu pescoço. Senti sua respiração quente contra a pele e meus joelhos quase viraram geleia. — Olivia — sussurrou contra meu pescoço. Gemi. Não consegui evitar. Este homem. Este... homem rebelde, temperamental e frustrante, estava me reduzindo a uma confusão avassaladora. Tudo o que fez foi dizer meu nome, mas era o suficiente para fazer meus olhos revirarem em êxtase. Voltando em si, eu o cutuquei novamente. — Kit. Escuta, temos que te colocar na banheira, mas ainda está de cueca. — Muito frio. — Tremeu contra mim e tentou me puxar para mais perto. Andei com ele em direção à banheira. — Eu sei, Kit, mas tenho que baixar sua temperatura. Consegui colocá-lo ao lado da banheira e ele me apertou mais. — Não me faça fazer isso. Não vou fazer isso. Por favor. Merda, ele está delirando. Precisava dele na água, depressa.


— Kit, ninguém está forçando você a fazer nada. Por favor. Tenho que te colocar na água. Ele envolveu os braços um pouco mais apertados ao meu redor, puxando-me em seu peito sólido. — Olivia, não deixe que eles me peguem. Tirei seus braços de mim. Foi difícil, considerando que tinha me envolvido bem forte, mas consegui. Acho que estava fraco demais para resistir. Coloquei as mãos em seu rosto e olhei em seus olhos vidrados. Seu rosto estava pegando fogo, e os olhos, um pouco desfocados. — Kit, não vou deixar que nada aconteça com você, ok? Quero cuidar de você. Por favor, me deixe tomar conta de você. — Dei um sorriso gentil e ele acenou com a cabeça. — Tem que tirar isto... — Apontei para a cueca e ele seguiu meu dedo. — E entrar na banheira. — Mostrei a banheira, e ele seguiu meu dedo de novo. Teria sido muito engraçado se não fosse o fato de eu estar morrendo de preocupação com ele. Kit concordou com a cabeça e tirou a cueca, revelando sua bunda perfeita. Meu Deus. Eu tinha morrido e ido para o céu. Mal tive tempo de absorver isso quando começou a virar para entrar na água. Fechei os olhos e coloquei os braços ao redor dele para que não caísse. Não importa o quanto queria olhar, não podia. Kit estava doente. Em circunstâncias normais, duvidava que sequer teria me deixado tirar seu suéter, quanto mais vê-lo nu. Ele aceitou minha ajuda, mas estremeceu quando sentiu a água no corpo. Provavelmente estava bem mais fria do que ele gostaria, mas era importante para baixar a febre. — Tão fr... fria. Balancei a cabeça. — Eu sei, Kit. Eu sei, mas vai te ajudar a melhorar. Se a temperatura ficar muito alta, vou precisar chamar um médico. Ele agarrou meus braços e me olhou, medo refletido neles. — Nada de médico. Por favor. Nada de médico. Acariciei seus braços.


— Tudo bem, Kit. Está bem. Nada de médico, mas sua temperatura precisa baixar e este é o único jeito. Ele assentiu outra vez, relutantemente sentando na banheira. Quando tive a certeza de que estava bem acomodado, andei até o armário do banheiro. — Não me deixe. Sua voz era quase um gemido e isso apertou meu coração. Eu me abaixei e peguei uma esponja limpa. Virei e mostrei a ele. — Não vou te deixar, Kit. Só fui pegar uma esponja para limpar você. Ele, visivelmente, relaxou e me aproximei dele, me perguntando como realmente seria capaz disso sem que minhas mãos vagassem por ele. Mas eu tinha que fazer isso. Tinha que conseguir baixar a temperatura para que ele voltasse ao normal. Ajoelhei ao lado da banheira e mergulhei a esponja. Peguei o sabonete porque pensei que ele também poderia gostar de um banho. Esfreguei o sabonete na esponja e a espremi sobre as costas do Kit. Vendo gotas de sabão cair em sua pele, comecei a esfregá-lo levemente. Mergulhei a esponja na água algumas vezes e lavei suas costas, Kit ficando em silêncio o tempo todo. Não perguntei se estava bom o que fazia, porque pelo pouco que o conheço, sabia que ele diria se não gostou de alguma coisa. Esfregando mais sabão na esponja, levantei seu braço e gentilmente passei por baixo. Kit se encolheu e quando olhei para cima, percebi que era porque tinha feito cócegas nele. — Desculpe. Kit deu um pequeno sorriso, e entendi isso como uma deixa para continuar. Assim que cheguei na parte da frente, foi totalmente sem jeito. Seu peito era magnífico. Eu não queria arrastar a esponja sobre ele, queria usar a língua. Apesar da vontade, mergulhei a esponja de novo e comecei a passar o sabonete em seu peito. Kit estava rígido, e também notei que suas mãos estavam segurando os lados da banheira com tanta força que pensei que fosse parti-la ao meio. — Está tudo bem? — Rangeu os dentes com tanta força que acabei me afastando um pouco. — Sinto muito. Estou te deixando desconfortável. —


Ele olhou para mim e, pela primeira vez nesta noite, vi seus olhos um pouco mais focados. Isso era bom porque significava que a febre estava diminuindo. O lado ruim disso era que estava mais consciente do que estava acontecendo. Não querendo acabar numa situação embaraçosa, ou deixá-lo com vergonha, mais ainda, coloquei a esponja e o sabão ao lado da banheira e me levantei. — Estou lá fora se precisar de mim. As toalhas estão naquele armário. — Apontei o armário, sequei as mãos e saí rapidamente. Quando fechei a porta, recostei nela e fechei os olhos. Não conseguia tirar o corpo dele da cabeça. Mas precisava. Não poderia lidar com isso agora. Kit ainda estava doente e tinha que ajudá-lo. Suspirando, eu me afastei da porta e fui procurar algo para ele vestir. Não tinha muitas roupas masculinas, mas havia algumas roupas velhas do meu pai. Felizmente, ainda guardava um conjunto novo de pijama que até estava embrulhado. Na verdade, estava querendo levar as roupas num bazar beneficente, mas nunca consegui fazer isso. Colocando-o na minha cama, bati na porta do banheiro. — Kit, tenho um conjunto de pijama na minha cama. Pode vesti-lo quando acabar. Vou fazer uma bebida quente para você. Não ouvi nada, mas não esperava. Já estava ficando bastante acostumada com seu silêncio. Desci as escadas e coloquei a chaleira no fogo. Peguei duas canecas, alguns biscoitos e quatro torradas. Quando tudo ficou pronto, peguei a bandeja e voltei para cima. Quando entrei no quarto, o pijama não estava mais lá, mas também não vi Kit. Estava prestes a chamá-lo quando apareceu vestindo só a calça, e eu quase deixei cair a bandeja. Ele parecia ter saído de um sonho erótico... se é que eu já tive um. Kit olhou para mim, depois para a bandeja. — Trouxe comida e bebida. Tem que comer para que a febre abaixe mais rápido. Ele assentiu com a cabeça. — Você fez curso de primeiros socorros ou algo assim?


Eu ri. — Não, mas minha babá cuidava muito bem de mim quando ficava doente. Era como uma especialista nessas coisas. Girei na direção da cama. — Por favor. Sente-se. Pode dormir aqui até melhorar. Os olhos de Kit se arregalaram. — Onde você vai dormir? Meu coração bateu forte no peito. — Vou dar um jeito. Por enquanto, eu só quero que você melhore. Kit começou a dizer algo, mas levantei a mão. — Não. Só senta e come. Fiz chá e trouxe torrada. Relutantemente, Kit sentou na beira da cama e caminhei até ele. Ele se encolheu quando estendi a mão. Olhei para ele. — Eu só quero verificar e ter certeza de que a febre baixou. Ele me encarou por um tempo, depois assentiu. Coloquei a mão em sua testa. — Ainda está muito quente, mas não tão quente como estava. Trouxe paracetamol para a febre. — Indiquei a bandeja e afastei a mão dele. Kit ainda estava me fitando e só então percebi que estava aconchegada entre as pernas dele, de um jeito bastante íntimo. — Quero que você coma. — Tirei uma mecha de cabelo do seu rosto e comecei a me afastar quando Kit pegou minha mão. Eu o olhei. — Por que está sendo tão boa comigo? Não estava perguntando com aquela voz áspera e ameaçadora de sempre. Parecia que estava genuinamente curioso. — Eu te disse... É porque me preocupo com você. — Ficamos em silêncio alguns instantes e Kit ficou me olhando fixamente. Era quase como se ele fosse um daqueles detectores de mentira e estava me testando. Era óbvio que ele tinha um grande problema com confiança.


Quando finalmente viu o que precisava, soltou a minha mão e começou a comer a torrada e beber o chá. Ele até tomou os comprimidos, o que achei um pouco estranho, considerando que ele estava tão cauteloso comigo. Depois que terminou de comer, levei os pratos para a cozinha e limpei tudo. Era quase duas da manhã quando subi. Entrei no quarto e encontrei Kit dormindo. Sorri, cobrindo-o com as cobertas, e apaguei a luz. Entrei no banheiro para pegar suas roupas e desci para lavá-las. Quando olhei os bolsos da calça jeans antes de colocar na máquina, tirei uma nota de cinco libras e alguns trocados de um bolso, e uma pequena chave de outro. Olhei atentamente a chave e vi o número vinte e quatro escrito nela. O mesmo número tatuado no ombro dele. Fiquei ali um pouco, me perguntando se isso significava alguma coisa, o que diabos será que aquilo abria. Parecia o tipo que abria um armário. Balançando a cabeça, coloquei todas as coisas de Kit em cima da máquina de lavar roupa e suas roupas dentro. Depois de voltar para cima, entrei no meu quarto. Não queria ficar muito longe, então, peguei um pouco de água da torneira, deitei debaixo das cobertas e me ajeitei o mais longe possível, ficando bem na beira da cama. Não pensei que fosse dormir, mas assim que fechei os olhos, apaguei.


CAPÍTULO SETE

— Marquei algumas sessões de hipnoterapia em duas semanas para você. Dra. Reynolds está de férias agora, então, vai ter que esperar até lá. — Ele parecia um pouco chateado por isso. Sorri, tentando animá-lo um pouco. — Está tudo bem, Titio. Tenho certeza de que posso aguentar duas semanas. Estou indo bem, não acha? Ele olhou para cima e viu meu sorriso ansioso e se acalmou. Ele caminhou resoluto na minha direção e passou o braço ao meu redor. Em resposta, envolvi os braços em sua cintura e inalei seu cheiro, fechando os olhos. Titio se afastou de repente, me deixando querendo mais. Ele sorriu quando me viu fazer beicinho e colocou o dedo no meu lábio. — Lamba os lábios, Livy. Você vai gostar do sabor. Fiz como ele instruiu e provei um líquido de morango. Meus olhos se arregalaram, surpresos, e uma súbita excitação me percorreu pelas veias. — Uau. O que é isso? Titio deu um leve sorriso. — Gosta? — Acenei com a cabeça, lambendo os lábios de novo. — É só um suplemento vitamínico. Ajudará a aumentar sua força. — Enquanto ele olhava meus lábios, minha excitação acendeu com tudo. Senti a calcinha ficar ensopada de desejo e tive que apertar as pernas para que não ficasse tão óbvio. Titio deve ter percebido meu desconforto conforme seus olhos percorreram meu corpo. — Você está bem, Livy? — Parecia que estava se divertindo, o que só deixou meu desejo por ele mais forte. Eu deveria ter ficado irritadíssima, mas, por algum motivo, cada coisa que ele fazia, por menos que fosse, me excitava. — Eu... eu não sei. — Eu o queria. Por que o desejava com tanta


vontade que pensei que fosse explodir? Inclinando-se para a frente, Titio beijou minha bochecha antes de colocar os lábios na minha orelha. — Um dia nosso tempo chegará.

— Não me obrigue a fazer isso! Acordei com um solavanco, e vi Kit se debatendo na cama. Toquei seu ombro e o cutuquei. Provavelmente deveria ter me preocupado de levar um soco dele, mas parecia tão assustado que minha necessidade de o ajudar superou qualquer senso comum. — Kit... Kit! Acorde! De repente, Kit sentou com tudo, subiu em cima de mim e me prendeu na cama. Os olhos estavam arregalados de medo e seu rosto estava ameaçador. — Não vou fazer isso, caralho! Meu coração começou a bater forte no peito. Estava com medo, sim, mas o que me aterrorizou ainda mais foi aquele olhar assustado nos olhos dele. — Kit, por favor. Sou eu. Olivia! Seus olhos começaram a se concentrar, e ele afrouxou seu aperto. — Olivia? Respirar estava ficando difícil. — Sim. Você não está correndo perigo, Kit. Não vou te machucar. Ele me olhou e viu que eu estava presa à cama. Arfando, me soltou. — Machuquei você? Olivia, sinto muito. — Desviou o olhar, assustado, sentando na beira da cama. Eu me sentei e coloquei a mão em seu ombro. Ele estremeceu um pouco, depois relaxou. — Está tudo bem. Você não me machucou. Kit sacudiu a cabeça.


— É melhor eu ir embora. E começou a se levantar da cama, mas eu o agarrei. — Não! — Ele parou e virou para me olhar. — Kit, você está doente. Precisa de alguém para cuidar de você. — Não preciso de ninguém para cuidar de mim. Cuidei de mim a vida toda. — Ele ainda não me encarou, mas suas palavras tinham o tom severo. — Então, por que veio aqui? Por que me seguiu até aqui e bateu na porta? — Ele ficou um instante em silêncio e aproveitei isso como uma oportunidade de me aproximar dele. Sem pensar, eu o abracei, envolvi os braços ao redor dele tentando transmitir o conforto que ele precisava, mas que nunca pediu. Podia dizer que ele era solitário, assim como eu. Eu era apenas uma alma solitária me conectando com outra. Pensar assim soava triste, mas a parte solitária dentro de mim não ligava. Kit ficou rígido. Ele ficou parado com as mãos fortemente apertadas. Era quase como se sentisse dor com meu toque. — Kit — sussurrei. — Você não me machucou. Nunca poderia me machucar. — Não sabia como tinha certeza disso, mas era verdade. Algo estalou nele mas não sabia ao certo o que foi, no entanto, suas mãos começaram a relaxar. Hesitou ligeiramente, depois se virou. Comecei a soltá-lo para dar um pouco de espaço a ele, mas Kit olhou os meus braços e me agarrou. Envolveu os seus em torno da minha cintura e, assim, estava perdida em seu abraço. Joguei meus braços ao redor dele e o segurei tão forte quanto ele me segurava. Fui incapaz de deter a necessidade esmagadora de roçar o nariz no vão do pescoço dele e senti o sabonete em sua pele. Por alguma razão, o sabonete cheirava melhor nele do que em mim. Quando inalei, um fogo me acendeu internamente. Naquele momento, eu o queria mais do que jamais quis outra pessoa em minha vida. Queria que ele me confortasse. Queria seu carinho. Eu o queria. — Sinto muito, Olivia. Dava para perceber que ele estava sofrendo. Podia sentir que achava que tinha me machucado. — Você não tem que se desculpar. Estou aqui com você, Kit. — Senti a força do seu abraço e, por alguma razão, uma lágrima desceu pelo meu


rosto, pousando em seu ombro. Não sabia por que estava chorando. Acho que tinha passado muito tempo desde que me senti confortada por outra pessoa. De alguma forma, eu me senti livre, até mesmo, desejada. E foi esse sentimento que despertou algo dentro de mim. O que diabos tenho feito nestes últimos meses? Por que, na minha busca por vingança, não vi o que estava bem na minha frente o tempo todo? Sentindo minhas lágrimas, Kit se afastou. — Por que está chorando? Machuquei você? Eu machuquei você, não foi? Balancei a cabeça e ri. — Não, não! Já disse que você nunca poderia me machucar. É só que... Não sei como explicar. — Suspirei, me perguntando como poderia explicar isso a ele. — É que faz tanto tempo que não sou abraçada. Olhei para baixo, envergonhada. Pensei que Kit riria de mim, mas ele me surpreendeu levantando meu queixo com o dedo. — Me abraçar te deixa triste? Sorri. — Chorei só porque estou feliz que você me abraçou. Só porque me senti bem. Por alguns segundos, Kit olhou para baixo e se mexeu, um pouco depois olhou para mim. Parecia incomodado com alguma coisa. — É bom quando eu te abraço? Meu Deus! Ele era como uma criança. Uma criança adorável, assustada, intimidante, forte e aterrorizada. Por que diabos ele acha que eu pensaria a respeito do nosso abraço de outra forma? — Sim — Dei uma risadinha. — Sim. Kit ficou quieto, e senti os efeitos do susto começarem a desaparecer. De repente, estava exausta. Olhando por cima do ombro no relógio, vi que só uma hora se passara desde que eu tinha ido me deitar. — Acho melhor dormirmos um pouco. Você deve estar cansado. —


Kit não disse nada. Apenas me observou entrar debaixo das coberturas. — Você não vem? Continuou sentado. — Você estava nesta cama comigo? Eu ri. — Sim. Quis ficar por perto caso precisasse de mim. Kit, você não está bem e não sabemos se vai ter febre de novo. Kit olhou para o chão, depois para a cama. — Talvez seja melhor eu dormir no chão. Sentei de novo e fiz que não com a cabeça. — Ah, não, não, mocinho. Você vai ficar aqui até melhorar. Não dava para enxergar muito no escuro, mas era o suficiente para perceber que Kit, repentinamente, estava sorrindo de novo. Caramba, poderia me acostumar com isso. — Mocinho? Eu ri novamente. — Sim, mocinho. Deite e durma. Precisa descansar. Quanto mais descansar, mais rápido melhorará. Kit hesitou mais uma vez, mas, então, o motivo daquela hesitação acabou perdendo a batalha. Subiu a cama, levantou as cobertas, cobriu-se e se aconchegou. Deitou de frente para mim, e ficamos assim por um momento, apenas nos olhando. Era difícil para mim, considerando minha atração, que só aumentava, por ele. Estava tão cansada, mas quanto mais eu o olhava, mais eu queria sentir seus lábios nos meus. Eu me virei de costas para ele, mas tinha plena consciência de que isso pode ter parecido como uma rejeição. Assim, sem pestanejar, eu cheguei para trás até conseguir sentir o peito de Kit contra mim. Estiquei meu braço atrás para pegar o dele e o passei ao meu redor. Imaginei que ele iria ficar todo tenso, mas, em vez disso, ele não me impediu. Segurei sua mão e apertei forte com a minha, aconchegando-me no travesseiro com o maior sorriso no rosto. Nós estávamos de conchinha... Bem, com a parte de cima pelo menos. Pela postura de Kit, ele não queria se aproximar mais do que isso, o que, provavelmente,


estava bom tambĂŠm. NĂŁo acho que seria capaz de dormir se sentisse sua virilha contra a minha bunda.


CAPÍTULO OITO

— Está nervosa? — Segurando minha mão, Titio me tirou do meu devaneio. Ele ficou comigo desde o dia em que me encontrou no chão, desmaiada em cima do vômito, uma garrafa de Jack do lado. Não é uma fase de orgulho para mim, devo admitir. Percebi que minha perna estava balançando e imediatamente parei. — Honestamente, um pouco. Nunca fui hipnotizada antes, então, não sei o que esperar. Titio acariciou suavemente minha mão e sorriu para mim. Deu um sorriso gentil e terno. Gostava de Titio, mas eu sabia que havia algo sombrio sobre ele. Era isso que me mantinha afastada e me dizia para fugir. Independentemente do quanto estava me ajudando. Minha intuição falava para eu ter cuidado. — Você está em boas mãos. Conheço a Dra. Reynolds há muitos anos. Ela é muito boa no que faz. Vai te ajudar com os pesadelos. — Ele pausou, acariciando minha bochecha. — Não suporto te ouvir gritar durante a noite. Você se agita e me implora para te dar bebida. Aceite a ajuda que lhe foi dada, Livy. É o único jeito de ter certeza de que vai melhorar. Pensei que estava morta quando te encontrei naquela manhã, há quatro meses. Por favor, não me faça passar por isso de novo. Você é muito importante para mim. Se quer prosseguir com o que discutimos, precisa se fortalecer. Sorri, acenando com a cabeça. — Você tem razão, Titio. Aprecio de verdade tudo o que está fazendo por mim. Não quero te decepcionar. Titio sorriu e estava prestes a dizer algo quando a Dra. Reynolds apareceu na porta com um sorriso iluminado no rosto. — Já pode entrar, Olivia. — Ela virou para Titio com um estranho sorriso e me conduziu até seu consultório.


Fui acordada por um som bastante desagradável. Gemi e desliguei o alarme, e só então, percebi que Kit estava me segurando bem apertado. Um braço envolto à minha cintura, a perna jogada sobre a minha de forma protetora. Tive que sorrir. Nunca tinha experimentado algo assim. Conseguia entender por que os casais ficavam juntos e se casavam, já que era assim o tempo todo. Era muito melhor do que acordar sozinha. Kit se mexeu, e senti algo duro me cutucando a bunda. Isso com certeza fez eu me mexer. Se ficasse ali, definitivamente faria algo que podia ou não me arrepender, e não queria assustar Kit de jeito nenhum. Não agora. Minha vontade de vê-lo melhor superava qualquer outra coisa. Tentei me mover, mas Kit me segurou firme. Quando ele afrouxou um pouco o aperto, ri baixinho. Muito suavemente, deslizei para fora da cama e fui ao banheiro. Tomei um banho rápido, desci para comer algo e antes de sair, escrevi um recado.

Kit, Estou indo para o refeitório comunitário. Volto assim que puder. Por favor... e estou sendo sincera... sinta-se em casa. Se você sentir fome, tem muita comida na geladeira. Precisa se fortalecer. Suas roupas estão na secadora. Coloquei suas coisas em cima da máquina de lavar roupa. Na mesa de cabeceira, tem dois comprimidos e um copo d’água. Tome isso se sentir que está com febre. Por favor, não vá embora. Beijos, Olivia

Deixei a nota no meu travesseiro, assim, seria capaz de ver na hora em que acordasse, peguei minhas coisas e saí. Hoje estava bastante iluminado e até mais quente. Às vezes, parecia que a primavera na Inglaterra era melhor do que o verão. Com toda certeza, não ia reclamar. Fiz o caminho de sempre em direção à cafeteria. — Ah, minha cliente favorita chegou. — Tim piscou para mim com um sorriso malicioso. Ele tinha o dobro da minha idade, cabelos ruivos e usava óculos. Era casado, mas isso não o impedia de flertar casualmente de vez em


quando. No entanto, sabia que era inofensivo. — Bom dia, Tim — Sorri. — O de sempre? Assenti com a cabeça. — Sim, por favor. Tim foi direto ao trabalho, preparando todas as bebidas. — De qualquer jeito, deveria deixar seus pedidos prontos neste horário. Você é como um relógio todas as manhãs. Nunca tira folga? Levantei a sobrancelha. — E, você, tira? Tim riu. — Touché, minha querida. — Ele deu um pequeno suspiro. — Minha esposa diz que eu trabalho muito duro e que precisamos de férias. Franzi a testa. — Então, por que não a leva para algum lugar? Tim olhou em volta, tocou o nariz e se inclinou sobre o balcão. — Não conta pra ninguém — sussurrou —, mas estou pensando em levá-la para Seychelles, neste verão. Ofeguei, sorrindo. — Sério? — Assentiu. — Isso é fantástico. Ela vai te amar por isso. Tim me deu uma piscadinha. — É isso que estou planejando. Estamos completando vinte anos de casado em junho e queria fazer algo especial para ela. Pensei que ir para uma ilha, beber coquetéis e nadar num mar quente, iria de alguma forma conquistá-la. — Parece maravilhoso. Estou com muito ciúmes, Tim. Ele colocou todas as bebidas numa embalagem para viagem. — Como minha esposa continua dizendo, todo mundo precisa de uma folga. Tenho certeza de que você poderia tirar uma também.


Dei de ombros. — É, bem... Suponho que todo mundo precisa de um propósito. Tim sorriu. — Isso é, mas às vezes, tomar coquetel numa praia com um sol gostoso sobre o rosto devia ser o seu propósito também. Choraminguei e entreguei o dinheiro. — Não me tente, Tim. — Peguei as bebidas e acenei. — Fique com o troco. Vejo você amanhã. Tim sorriu para mim. — Será um prazer! — gritou enquanto eu saía pela porta e dava de cara com o peito de alguém. Sabia quem era antes mesmo de olhar para cima. Minha frequência cardíaca aumentou ligeiramente ao pensar em Kit dormindo em minha casa. Se Titio o encontrasse ali, ele o mataria. — Livy. — sussurrou. Todos os nervos do meu corpo acordaram. Ele era como uma droga assim que dizia meu nome. Era tão hipnótico que, inevitavelmente, acabava estremecendo sob seu olhar. Titio sorriu. — Está linda esta manhã. Para onde está indo? Ao refeitório comunitário? — Assenti e ele fez um gesto para o seu Range Rover preto com janelas escuras. — Por favor, entre. Sabia que não era um pedido. Enquanto me aproximava, Titio fez um gesto para que um homem pegasse minhas bebidas. Ele não hesitou e as tirou da minha mão. Abriu a porta para mim e, de bom grado, entrei no banco de trás. Titio entrou comigo, sorrindo quando viu minha saia subir acima dos joelhos, expondo a coxa. — Sabe o quanto é difícil para mim ficar longe de você? Sorri, mas eu queria sair de lá. Tinha essa extrema necessidade de fugir, mas, também, a extrema necessidade de estar com ele. Era a mistura mais estranha de emoções que já senti. A necessidade de fugir, juntamente com a necessidade de sentir o toque dele parecia se transformar num maldito


emaranhando doentio. Sabia que sempre fui mentalmente instável, mas isso era como uma confirmação para mim. — Já descobriu alguma coisa? Neguei com a cabeça. — Mas estou no caminho certo agora. Sempre tem rostos novos chegando; algo está prestes a aparecer. Estou construindo um bom relacionamento com algumas pessoas de lá. Ele olhou a minha roupa novamente. — Não estou particularmente feliz com você usando esse tipo de roupa por aí. — Ele olhou minhas pernas mais uma vez, depois, de volta para mim. — É só quando eu me sento... como pode ver. — Sorri amavelmente para ele, sentindo minhas narinas se alargarem quando ele me tocou. Todo o meu corpo sempre acendia ao sentir a carícia dele. Titio sorriu. — Você é sempre tão receptiva ao meu toque. Amo isso pra cacete. — Quando não me mexi, ele se aproximou de mim e minha respiração parou. — Livy, você me pediu três meses. Já se passaram três meses. Fechando os olhos, apreciei a sensação de suas mãos deslizando pela coxa. Por instinto, fechei as pernas, torcendo que escondesse a excitação. Mas já sabia que era inútil. — Eu... eu sei. Só preciso de um pouco mais de... — Tempo? — Ele perguntou, sussurrando em meu ouvido. — Sim... — gaguejei, fechando os olhos de novo ao sentir a mão acariciando meu sexo através da calcinha. — Molhada pra caralho todas às vezes. Abri os olhos quando minha cabeça se debatia com pensamentos sobre Kit. Que diabos estou fazendo? — Tenho que ir — disse sem fôlego. Titio afastou a mão e a remexeu com alguma coisa, mas não consegui ver o que era. Ele virou para mim e levantou o dedo nos meus


lábios. Senti o líquido e instintivamente lambi os lábios. Fechei os olhos, amando o gosto de morango na língua. — O que é isso? Titio arrastou um dedo pelo lábio e desceu em direção ao meu peito. Arqueei as costas, e na hora fiquei completamente excitada. — Já disse, Livy. É apenas uma pequena mistura doce de vitaminas. Algo para ajudar você a ficar mais forte. — Eu me sentia realmente mais forte. Sentia-me viva e pulsando com necessidade. — Diga-me o que você quer, Livy. — Sua respiração quente atingiu meu pescoço, fazendo-me gemer. — Eu quero que me toque. — Senti a mão dele deslizar sobre meu peito, apertando o mamilo ereto entre os dedos. Silvei de prazer. Queria mais. — Quer que eu te alivie, Livy? Você quer gozar? — Assenti, sentindo que poderia acabar explodindo se não gozasse. Ele se inclinou e mordiscou o lóbulo da minha orelha. — Sabe o que fazer. Estremeci, animada, sabendo o que ele queria. O que sempre quis. Faria isso com ele porque era meu senhor e mestre, e sabia que ele não me daria prazer até que eu o satisfizesse. Titio nem sequer esperou por mim para despi-lo. Desabotoou as calças e libertou o pau excitado. Parecia descontrolado, como se não tivesse sido usado há algum tempo. Titio observou que eu o olhava e lambia os lábios. — Vê o quanto eu quero você? Está vendo o que é que você faz comigo? Fiquei a maldita manhã inteira sonhando com isto. Puxando minha cabeça, ele gentilmente me guiou até o pau à minha espera. Meu mestre precisava se satisfazer, e eu teria a certeza de que ele seria bem cuidado.

***

Segui para o refeitório entorpecida. Lembrar do que aconteceu me deixou confusa, porém, parecia um sonho. Estou sonhando? Os lábios inchados


e a estranha sensação calorosa dentro de mim depois do orgasmo que tive me disse o contrário. Titio queria que eu fosse para casa, e eu sabia que sua paciência acabaria em breve. Não me deixe esperando por muito tempo, foram suas palavras de despedida ao sair do carro. Quando cheguei na frente do refeitório, percebi que algo não estava certo. Todo mundo parecia muito cabisbaixo esta manhã. Depois que me aproximei de Wayne e Rachel, franzi o cenho. — Oi, como estão? Wayne olhou para mim e me deu um pequeno sorriso. — Oi, garota. Como você tá? Olhei a Wayne, depois, Rachel. Ela estava curvada e Wayne tinha um braço protetor em volta dela. — O que aconteceu? Wayne respirou fundo e jogou o braço no ar. — A porra de um marginal achou que podia bater na minha garota. Fiz uma careta e olhei para Rachel. Quando vi que ela não estava se mexendo, coloquei as bebidas quentes no degrau e me ajoelhei na frente dela. — Rachel, pode olhar para mim? — Suavemente coloquei a mão no seu braço e dei um aperto bem sutil. Ela olhou para cima e o que vi era horrível. Arquejei mesmo sem querer. Ambos os olhos estavam inchados, um deles estava tão inchado que parecia praticamente impossível abri-lo. Ela tinha dois cortes nos lábios e um na bochecha. Não tinha sido só espancada. Ela tinha sido usada como um saco de pancadas. — Meu Deus, Rachel. Nós temos que te levar ao hospital. — Eu me levantei, mas ela agarrou meu braço. — Não, você não pode fazer isso. Puta merda, como isso era frustrante. Primeiro Kit e agora Rachel! Será que existia alguém que não tinha medo dos hospitais ou da polícia? — Mas seu rosto, Rachel. Está todo inchado. Alguém precisa examinar.


— Ela não vai. Olhei para cima e vi Thomas sacudindo a cabeça. Estava pensando em tantas coisas ao mesmo tempo que não conseguia pensar direito. Ela precisava de ajuda, mas obviamente não ia aceitar ajuda das autoridades. Foi então que pensei numa coisa. Ajoelhando-me de novo, olhei para Rachel. — Pelo menos pode entrar para que eu possa cuidar de você? — Ofereci a mão e me surpreendi quando ela a segurou. Wayne imediatamente se levantou e eu olhei para ele. — Não vou ficar aqui fora. Quero ficar com ela. Olhei a Rachel e ela assentiu. Soltei um suspiro. — Tudo bem, mas tem que ficar quieto. Não pode ficar andando por aí. Wayne ergueu os dois dedos e fez uma cruz sobre o coração. — Eu juro. Subimos as escadas e entramos numa porta ao lado do refeitório comunitário. Como de costume, Tammy estava lá. Quando ela me viu, sabia que estava prestes a me atacar, mas, então, viu Rachel. — Meu Deus! Caramba, o que aconteceu? Wayne suspirou profundamente. — Ela ganhou vinte libras de alguém que estava passando na rua, e um maldito idiota bateu nela e roubou o dinheiro. Tammy me deu uma olhada, mas eu não queria perder mais tempo. — Preciso ligar para o Bob. — Quem é Bob? — perguntou Wayne. Eu me virei para ele. — Ele é um Clínico Geral aposentado. Às vezes, ele ajuda quando temos uma situação adversa. — Não mencionei que cobra por seus serviços. Mas este seria por minha conta.


Tammy me deu aquele olhar de novo, então, eu me virei para Wayne e Rachel. — Escuta, podem se sentar um pouco. Daqui a pouco vou ficar com vocês. — Wayne assentiu e, cuidadosamente, conduziu Rachel. Então, me virei para Tammy. — Você não acha que ele fez isso, não é? Ela me deu um olhar que dizia que ele era, inquestionavelmente, culpado. O que estava acontecendo com as pessoas e as questões de confiança? — Sério, Tammy? Wayne? De jeito nenhum. Eu o conheço há três meses. Nunca faria isso. Não faria mal a uma mosca. — Mas você quer ligar para o Bob? Suspirei porque sabia o que Tammy estava pensando. De vez em quando, ela era uma garota legal, mas às vezes, realmente me perguntava como acabou se tornando voluntária. Ela estava preocupada com o pequeno orçamento que tínhamos. — Sim, vou chamar Bob, mas não precisa se preocupar. Vou pagar por isso. Tammy riu. — Você quer pagar? Não gostei do tom dela. — Sim, quero. Rachel está com dor e precisa de ajuda. Como vou ignorar isso? — Eu, provavelmente, estava soando mais rancorosa do que pretendia, mas era difícil quando alguém estava obviamente sendo indiferente e teimosa. Ela não respondeu, então, entendi que era a minha deixa. — Vou ligar para o Bob. Usarei meu telefone. — Assim, eu me virei e fui ao escritório procurar pelo número dele. Quando o encontrei, digitei no telefone e chamei Rachel e Wayne. Disquei o número e tocou algumas vezes. — Alô? — Oi, Bob. É Olivia, do refeitório. Estou ligando porque preciso


que dê uma olhada em alguém para mim. — Tudo bem, não estou ocupado agora. Chego em quinze minutos. Sorri. — Ótimo. Então, até logo. — Olivia? — Sim? — Qual é a situação? Suspirei e olhei para Rachel. — Estou com uma moça aqui chamada Rachel. Ela foi severamente espancada. Não quer ir ao hospital, então, pensei em ligar para você. Fiquei preocupada porque um dos olhos dela está super inchado. Eu o ouço soltar um suspiro. — Bem ruim, hein? — E ficou alguns instantes em silêncio. — Vou levar minhas coisas e chegarei o mais rápido possível. Respirei aliviada. — Obrigada. Desliguei o telefone e olhei para Rachel e Wayne. — Ele deve chegar em cerca de quinze minutos. Não se preocupem. Não vai contar a ninguém. Parte dos serviços dele envolve não avisar às autoridades. Tanto Wayne quanto Rachel respiraram mais tranquilos. Sorri, então, saí da cadeira. — Vou buscar algo para vocês comerem. Depois de pegar um pouco de comida, voltei ao escritório. Tammy me viu. — Deixou eles sozinhos lá dentro? Quase revirei os olhos. — Fiquei ausente menos de dois minutos. Acho que ficaram bem. Tinha que trazer algo para comerem antes do médico chegar.


Não esperei para ouvir sua resposta, fui direto para o escritório e coloquei os pratos e talheres na frente deles. Wayne lambeu os lábios. — Tem o cheiro muito bom, Olivia. Obrigado. — Ele me deu um enorme sorriso radiante. Coloquei a mão no ombro de Rachel e ela olhou timidamente para mim. Dei um sorriso terno e gentilmente apertei seu braço. Vi lágrimas se acumulando em seu olho bom e precisei desviar o olhar antes que começasse a chorar. Então, sentei e li o jornal enquanto comiam, olhando a hora a cada dois minutos. Bob chegou quando Wayne e Rachel acabaram de comer. — Bob — disse, sorrindo, quando entrou pela porta. — É bom ver você. — Fui até ele, dei um beijo em sua bochecha e me virei para Rachel. — Esta é Rachel. Como pode ver, um dos olhos dela foi bastante machucado. Bob olhou para ela. — É, posso ver. Apontei para a porta. — Tenho que ir para o refeitório e começar a trabalhar, mas me procure quando terminar, Bob. Ele assentiu com um sorriso. — Pode deixar. Dei um aperto no ombro da Rachel e acenei a Wayne antes de sair. Entrei no refeitório para pegar os recipientes, levando-os à área de servir. Tony me ajudou porque Tammy não apareceu, pelo que agradeci. Quando estava abastecendo a última bandeja, Tammy apareceu com um sorriso falso no rosto. — Eles ainda estão lá? Assenti. — Sim, Bob está com eles. Pedi para ele me procurar quando acabar.


Ela acenou com a cabeça, passou pelas portas da frente, depois desapareceu em direção ao escritório. Provavelmente queria ter certeza de que saíssem e não mexessem em nada. Eu não me importei. Pelo menos podia continuar com meu trabalho. Thomas apareceu antes, com a expressão preocupada. — Rachel está bem? Confirmei com a cabeça. — Tenho certeza de que está. Tem um médico examinando ela. Deve sair logo de lá. Apontou os pratos. — Devemos preparar um a mais para ela? Com a cabeça, fiz que não. — Não precisa, Thomas. Ela e Wayne já comeram. Ele me entregou seu prato e balançou a cabeça. — Que coisa terrível, Olivia. Como um morador de rua pode fazer isso com o outro? Isso é errado demais. A gente deveria se unir, não roubar um do outro. Dei um sorriso afetuoso a Thomas. — Eu sei. Acho que existem pessoas más por aí. Sabe disso, né? — Lembrei de Freddy e quase estremeci. — Sei. Gostaria de não saber, mas sei. — Depois que coloquei tudo na bandeja devolvi seu prato, ele sorriu e me agradeceu antes de se afastar. Depois de mais ou menos vinte minutos, Wayne apareceu com Rachel e sorriram para mim. Ambos se aproximaram e me abraçaram. — O que ele disse? Peguei o próximo prato e coloquei um pouco de comida antes de devolvê-lo. — Ele disse que provavelmente fraturei a mandíbula e que deveria tirar um raio-X para ter certeza de que não desloquei. Respondi que não estava latejando, nem nada. Então, disse que estava tudo bem e para tomar ibuprofeno.


Assim que ela terminou de contar, Tammy e Bob saíram do escritório. Ela viu que eu estava bastante ocupada e se ofereceu para ficar no meu lugar. Não tinha certeza se ela estava sendo gentil, ou se estava ajudando só para que eu pudesse acertar a conta com Bob. Tinha a impressão de que era o último. Agradecendo, voltei a atenção para Rachel. Coloquei a mão no bolso e tirei vinte libras. — Toma, fica com isso. — Rachel sacudiu a cabeça e tentou devolver o dinheiro. — Não. Você já fez muito. Eu me virei para Wayne. — Ela tem dinheiro para comprar o remédio para a dor? — Ele negou com a cabeça, então, me virei para Rachel. — Pegue. Não aceitarei um não como resposta. Rachel suspirou e fez cara de infeliz. Relutantemente, pegou o dinheiro e me deu outro abraço. — Muito obrigada, Olivia. Você é uma garota muito gentil. — Dava para ver seu olho bom lacrimejar ao mesmo tempo em que beliscou suavemente meu queixo. — Para com isso, Rachel. Só quero que melhore. Os dois assentiram e, depois de Wayne apertar minha mão, foram embora. Eu vi Thomas sair rapidamente a seguir. Estava claramente ansioso para confirmar que ela estava bem. Eu me virei para Bob. — Acho que agora temos que acertar seu pagamento. — Sorri educadamente e andei em direção ao escritório. — Vem comigo. Entrei e peguei minha bolsa. Tirei a carteira e puxei duas notas de cinquenta libras. Eu as estendi a Bob, mas ele ficou apenas olhando para elas. — São cem, não? Ou a taxa subiu? Bob sacudiu a cabeça. — Não... mas por que está pegando dinheiro da sua bolsa?


Suspirei. — Disse à Tammy que hoje seria por minha conta, assim, ela não precisava usar o dinheiro dos trocados que tem no orçamento. Bob ficou indignado. — Mas é para isso que ele serve. Assenti. — Eu sei. É que... Eu só queria fazer a coisa certa. — Meus ombros cederam e Bob olhou para mim. Depois de um minuto, ele suspirou e caminhou em direção à porta. — Não posso aceitar seu dinheiro, Olivia. Não vou cobrar dessa vez. — Mas... Mas... — Mas já era tarde demais. Ele saiu antes que eu pudesse argumentar. Sentindo-me péssima, guardei o dinheiro na bolsa e fui procurar Tammy. Fiquei mais uma hora, ajudando com a limpeza. Quando terminei, já era quase meio-dia. Estava um tanto animada, pensando que ao chegar em casa veria Kit, mas quis comprar algumas coisas antes. Dei um pequeno passeio pela rua principal e comprei dois pares de jeans, duas blusas e algumas meias. Não sabia ao certo o tamanho que Kit vestia, tive que tentar adivinhar e torcer para que servisse. A calça dele parecia ser número quarenta e quatro, então, escolhi esse tamanho. Quando cheguei na rua da minha casa, estava praticamente saltando em direção à minha porta. Estava ficando com fome, comprei dois sanduíches no caminho de casa. Quando entrei, gritei ao pé da escada: — Kit, cheguei! — Sorri, amando saber que estava conversando com alguém em casa. Normalmente, o silêncio me recebia. Ele não respondeu. Fiquei um pouco preocupada, mas também pensei que ele pudesse estar dormindo. Entrei na área de serviço e achei as coisas de Kit no mesmo lugar.


Sem pensar, peguei a chave dele, fui até a gaveta e coloquei uma chave reserva da porta da frente, no seu chaveiro. De alguma forma, isso parecia o certo a se fazer. Colocando a chave de volta no lugar, tirei meu casaco, coloquei a bolsa no chão e subi as escadas com as roupas novas de Kit e os sanduíches. Quando entrei, encontrei Kit debaixo das cobertas, tremendo. Ele parecia tão ruim quanto na noite passada. Rapidamente colocando tudo de lado, corri até ele e coloquei a mão em sua testa. Estava fresco e suado. Olhei na mesinha de cabeceira e vi que os comprimidos haviam sido tomados. — Muito... Muito frio. Segurei a mão dele, que estava apertando os lençóis e levantei para ir do outro lado. Tirei minhas roupas e fiquei só de soutien e calcinha, entrei debaixo das coberturas, e cheguei bem perto dele. Passei o braço ao redor dele, e ele se aproximou de costas para mim, procurando meu calor. — Está tudo bem, Kit. Estou aqui, agora. Vou manter você aquecido. O calafrio continuou por um tempo, e quando passou, percebi que ele tinha adormecido. Deveria ter me levantado para comer alguma coisa, mas senti meus olhos se fecharem ligeiramente. A sensação do corpo quente de Kit pressionado contra mim, junto com sua calma respiração, me deu sono. Antes de perceber, estava sonhando com os anjos.

***

— Sei o que você quer. Seu marido não sabe o jeito que você gosta, mas eu sei. Acordei com um sobressalto e vi Kit pairando sobre mim. Seus olhos estavam abertos e desfocados de novo. — Kit, o que foi? — Eu sei o que quer e vou te dar. Estreitei os olhos e sacudi a cabeça. — Do que está falando...


Antes que conseguisse terminar, ele rasgou a calcinha e abaixou a cabeça. — Kit, o que está... — Ele abriu minhas pernas e passou a língua no clitóris. — Oh, Deus! — Eu realmente vi estrelas por trás dos olhos. Cacete, mas o que ele estava fazendo? A língua dele dançava sobre o clitóris, me levando ao entorpecimento. Tudo o que estava fazendo me deixou com a respiração ofegante, a cabeça zonza e meu corpo tinha espasmos com cada lambida. Porém, isso não era certo. Através do meu êxtase, a clareza tentou se infiltrar. Kit não sabia o que estava fazendo. Ele estava delirando de novo. — Kit... Kit... — Eu mal conseguia falar, mal podia fazer as palavras saírem, conforme sua língua girava mais e mais duro em torno do meu clitóris. Agarrei os lençóis. — Oh, Deus, Kit! — Fechei os olhos quando uma sensação que nunca tinha sentido, rastejou dos quadris para os seios. Eu não sabia o que era, mas estava crescendo e crescendo, praticamente me cegando. — Kit, não deveria estar fazendo isso. Você está delirando! — Ele sacudiu a língua novamente e arqueei as costas. — Oh, não! — Não sabia o que estava acontecendo, mas todo meu corpo ficou tenso. Kit apenas continuou seu ataque, até mesmo acelerou o ritmo. Ele sabia algo que eu não sabia? Certamente não estava consciente do que estava fazendo. Todos os pensamentos desapareceram quando Kit varreu a língua do começo do clitóris até o topo. Girou a língua ao redor dele e foi tudo o que precisou para me levar ao limite. De repente, gritei seu nome, meu corpo convulsionando debaixo dele. Agarrei os lençóis enquanto sentia a onda deste orgasmo magnífico atravessar pelo corpo. Foi tão intenso que não me preocupei por gritar e fazer as paredes tremerem. Kit parou, e eu fiquei absolutamente sem fôlego e confusa. Não sabia que diabos tinha acabado de acontecer. — Oh, Deus... Oh, Deus... Oh, Deus... — Não conseguia parar de dizer isso, repetidamente. Estava bêbada por alguma porcaria poderosa.


Quando consegui me acalmar um pouco, pude perceber que algo muito estranho estava acontecendo, olhei para baixo e vi Kit olhando para mim com os olhos arregalados. — Eu te machuquei. Eu te forcei. Sacudi a cabeça e tentei me levantar. — Kit, está tudo bem. — Tentei colocar a mão em seu ombro para acalmá-lo, mas ele se afastou de mim. — Porcaria nenhuma está bem, Olivia. Pare de tentar me tornar algo que não sou. Eu uso as pessoas. Machuco as pessoas, caralho. Meu Deus. Como posso explicar a ele que o que acabou de fazer foi a melhor experiência da minha vida sem que parecesse sórdido? E comecei a me sentir culpada. — Me desculpe. Deveria ter te impedido. Mas não consegui. Eu... — Não tinha uma explicação apropriada. — Eu te forcei. Balancei a cabeça. — Isso não é verdade. Kit deslizou para fora da cama e abaixou para pegar a calcinha rasgada. — Eu te forcei. Isso estava indo de mal a pior. — Kit, por favor. Você não está bem. Precisa descansar. Kit sacudiu violentamente a cabeça. — Preciso ir embora. Tenho que ir antes que eu te machuque outra vez. Ele desceu as escadas tão depressa que mal tive tempo de registrar que estava saindo. Levantando da cama, agarrei meu jeans, os vesti e corri atrás dele. Quando terminei de descer as escadas, Kit já estava colocando suas coisas nos bolsos da calça jeans. Estava tão ocupado me encarando que nem


sequer percebeu a chave extra. Estendi a mão para ele. — Kit, por favor. Está tudo bem. Você não me machucou. Estou bem. Por favor, vamos lá para cima. Ele balançou a cabeça e se apressou para a porta. Ele a abriu e parou. Podia ver a dificuldade com que respirava pelos ombros subindo e descendo. Sem se virar, ele sussurrou: — Me desculpe, Olivia. Antes que eu tivesse a chance de responder, ele saiu e fechou a porta.


CAPÍTULO NOVE

— Como estão indo suas sessões com a Dra. Reynolds? Sorri para Titio. — Estão indo bem, obrigada. Acho que estão me ajudando de verdade. — Não tinha certeza do que ela estava fazendo exatamente, mas por dias não tive pesadelos e estava agradecida por isso. A única coisa que achei estranha era a maneira como me sentia em relação ao Titio. Sempre me senti atraída por ele de um jeito único, mas comecei a vê-lo de forma diferente ultimamente. Era quase como se fosse o positivo para o meu negativo. Sempre que estava por perto, eu era atraída por ele. — Isso é fantástico, Livy. Estremeci. De repente, cada parte em mim ganhou vida só de ouvi-lo dizendo meu nome. Quando viu minha reação, sorriu e se aproximou. Colocou o braço ao meu redor, o que me permitiu inalar seu aroma. Gemi. Não sabia o porquê, mas o cheiro somado ao toque, era esmagador. — Livy... — sussurrou. Gemi de novo. O que tinha de errado comigo? Seu dedo tocou meus lábios e senti uma pequena gota. Lambi sem que Titio precisasse me pedir. Ele deu um sorriso enorme. — Boa garota. Suavemente percorreu os dedos pelo meu pescoço, fazendo-me tremer. Não tinha certeza do que estava acontecendo com meu corpo, mas ele ganhou vida. Estava mais vivo do que nunca. — Titio... — sussurrei, com a respiração ofegante. Seu olhar intenso me deixou louca de desejo, e ele pôde perceber o efeito que me causava. Devia estar escrito no meu rosto. — É tão bonita. Um dia, você será a minha rainha. Quando estiver preparada, vou te dar o mundo. No entanto, existem alguns negócios


inacabados para resolver antes. Fui um homem paciente, Livy, mas é hora de você me recompensar pela minha paciência. — Confusa, olhei para ele, mas minha confusão se misturou com o desejo. Naquele momento, tudo o que importava era quando e onde ele iria me tocar. — Lembra do que você fez com aquele Pete maldito filho da mãe? — Suspirei, lembrando do dia em que me mostrou o quão monstruoso poderia ser. A parte dele da qual eu tinha medo. Quando viu minha reação, ele sorriu. — Você me deve por isso, Livy. Sei que quer tempo. Sei que quer continuar com sua pequena missão, mas preciso de algo que só você pode fazer por mim. Você não quer me agradar? Senti suas palavras direto entre as pernas, o que me fez gemer novamente. — Sim. — Suspirei, incapaz de esconder o que sentia por ele. Meu senhor e mestre. Agarrando minha mão, Titio a levou em direção à sua dureza. Silvou quando o agarrei, fechando os olhos quando comecei a esfregálo. Eu queria fazer isso. Queria agradá-lo. Afinal, ele fez muito por mim. Eu devia a ele. Acima de tudo, queria isso. Queria porque meu corpo estava reagindo a cada toque dele. — Me diga, Livy. Me diga que não chupou um pau ainda? — Sua respiração estava áspera contra meu rosto enquanto eu balançava a cabeça. — Não — sussurrei. Titio sorriu. — Bom. Pelo menos isso ficou reservado só para mim. Quero você de joelhos, Livy. Quero que me leve na boca e engula meu gozo. Então, e só então, vou te dar prazer. Você quer que eu te satisfaça, Livy? Balancei a cabeça. — Sim... Sim — gaguejei, mal conseguindo proferir uma palavra. Ele estava acariciando meus braços de um jeito que me fez pegar fogo. Queria que ele fosse mais longe. Queria que acabasse com a dor entre


minhas pernas. Titio agarrou meu queixo e me olhou nos olhos. — Vou ensinar tudo o que precisa saber. Não precisará ter medo comigo, Livy. — Agarrando minha mão, ele me induziu em direção ao zíper. Apertou suavemente meu seio e passou o polegar através do mamilo enrijecido. Gemi alto e fui recompensada com um sorriso enorme. Enquanto guiava minha mão nas calças, puxei o pau excitado e me maravilhei com o comprimento. Com a mão enrolada ao redor dele, eu o acariciei, fazendo com que Titio chiasse entre os dentes. — Porra, querida. Você sabe como fazer seu homem se sentir bem. — Ele gentilmente empurrou meu ombro, então, me ajoelhei. Ajoelhada, olhei para seu tamanho impressionante e percebi o quanto estava irritado. Inchado, doendo para ser tocado. Queria tocá-lo. Queria colocá-lo na boca. Nunca tinha feito isso antes, mas meu corpo gritou para colocá-lo na boca. Enquanto acariciava as bolas, Titio gemeu e gentilmente colocou os dedos debaixo do meu queixo, inclinando minha cabeça, olhei nos olhos dele. — Sabe o que fazer — sussurrou, enquanto eu o levava à boca.

Passaram-se dois dias sem sinal de Kit. Eu me preocupava com ele, e porque me preocupava, fiquei brava. Ele disse que não iria desaparecer assim de novo, mas desapareceu. Uma parte de mim queria esquecer isso e seguir com a vida, mas outra parte queria saber se ele estava bem, queria gritar com ele até a garganta doer. E a ironia disso foi que minha garganta estava realmente doendo. Quatro dias depois, acordei sentindo como se tivesse apanhado sem parar. A garganta estava seca e o corpo enfraquecido. Mesmo assim me levantei. Fiz todas as coisas de sempre, pegando as bebidas quentes e indo para o refeitório comunitário. Deveria trabalhar esta noite, mas não sabia se conseguiria. Quando cheguei nos degraus, espirrei. — Saúde.


Olhei e vi Rachel sentada com Wayne. Ela parecia muito melhor. Seu rosto ainda estava inchado, mas estava diminuindo. Pelo menos agora conseguia enxergar com aquele olho. — Obrigada — Oscilei um pouco e Wayne rapidamente se levantou para ajudar a me firmar. — Ei. Calma aí, garota. Rachel levantou e colocou a mão na minha testa. — Wayne, ela está com febre. — Ela pegou as bebidas e as colocou nos degraus. — Vou levá-la para casa. Neguei com a cabeça. — Estou bem. Só preciso de paracetamol e ficarei bem. Rachel pegou meu braço. — Ah, não, garota. Você precisa de cama e descansar por alguns dias. Está com gripe ou algo assim. Apontei para o refeitório comunitário. — Não posso. Preciso ter certeza de que todos sejam alimentados. Rachel me puxou. — Todos serão alimentados. Agora, venha. — Ela olhou para Thomas. — Thomas, diga à Tammy que Olivia não está bem e que está voltando para casa. Thomas levantou e sorriu. — Farei isso. Melhoras, Olivia. — Ele saiu marchando e eu olhei para Rachel. — Isso é bobagem. Rachel sacudiu a cabeça. — Não é bobagem. Precisa melhorar. Agora, vamos. Relutantemente, fui embora, Wayne de um lado e Rachel do outro.


— Obrigada — disse a ambos. Rachel deu de ombros. — Não precisa me agradecer, querida. Nós nos preocupamos com você. — Sorri. — Você deveria ter tido filhos. Ela ficou triste por um momento. — Eu tive. Uma filha. Hoje teria sua idade. De certa maneira, você me lembra ela. — O que aconteceu com ela? Balançou a cabeça e suspirou. — As drogas foram o que aconteceu. Tinha só dezenove anos quando morreu. Ela era a única família que eu tinha. Uma parte de mim morreu naquele dia. Eu me encolhi, pensando no dia horrível em que Titio me encontrou deitada no meu vômito. Poderia facilmente ter sufocado e morrido naquela noite. Tive a sorte de ter uma segunda chance, mas a vida da filha de Rachel foi tirada dela, para nunca mais voltar. Coloquei a mão em seu braço. — Sinto muito por isso, Rachel. Ela deu de ombros. — É o que é, e não posso fazer aquele dia voltar e apagá-lo. Deus sabe, eu adoraria, mas não posso. Caminhamos em silêncio pelo resto do caminho. Quando chegamos à minha porta, virei e agradeci. — Não tem nada que agradecer. Apenas entre, tome um banho e coma um pouco antes de dormir. Por favor, cuide-se, Olivia. Por todos nós. Quando vi a sinceridade em seus olhos, quase chorei. Acenei com a cabeça. — Irei. Obrigada. Eles sorriram e se afastaram.


Assim que entrei em casa, fiz o que Rachel mandou. Tomei banho de banheira, aqueci um pouco de sopa e tomei dois comprimidos. Depois de tudo feito, liguei para Charlie e disse que não seria capaz de ir hoje à noite. Ele pareceu decepcionado, mas me desejou melhoras e disse para avisá-lo assim que estivesse melhor. Depois de desligar, fui direto para a cama.

***

Estava tremendo e não conseguia me aquecer. Queria dormir, mas quando consegui, as imagens do meu pai colocando a arma na cabeça, perseguiram meus sonhos. Daí, tentei ficar acordada. O tempo todo em que fiquei deitada, tremendo, tudo o que eu pude pensar era em Kit. Não conseguia entender o que ele quis dizer quando falou algo sobre meu marido não me dar o que eu precisava. Aquilo estava passando pela minha cabeça há dias, mas muito mais agora que meu cérebro parecia ter focado somente nisso. Assim, podia dormir e ter pesadelos, ou ficar acordada e ter pensamentos terríveis. De qualquer forma, estava ferrada. Quando pensei que não poderia piorar, comecei a ver Kit aconchegado atrás de mim, tentando me manter aquecida. Mas não importava o quão confortável me sentisse, ainda estava com raiva dele por ter ido embora e sumido por dias. — Você me deixou. Eu te pedi para não ir, mas você me deixou. Senti a barba na base do pescoço. Engraçado como até era capaz de sentir isso no meu devaneio. — Eu sei. Me desculpa. Estava com medo de te machucar, e não quero fazer isso. Suspirei e fechei os olhos. De repente, me senti mais aquecida. — Você me machuca quando vai embora. Senti-o me apertar mais forte. — Estou aqui agora e não vou a lugar nenhum. Estou aqui para ter certeza de que melhore. Ficou comigo quando eu precisei de você. Agora é hora de retribuir o favor. Meus olhos começaram a ficar mais pesados.


— Tem roupas novas na sacola para você. Certifique-se de que o Homem Sombra não entre na casa.

***

Não sei por quanto tempo dormi, mas quando acordei, o sol tinha nascido. Eu me mexi, gemendo ao perceber o quanto meu corpo doía. Era como se mil unhas estivessem cavando na pele. A garganta estava seca e dolorida, e meu corpo estava fraco. Lembrando do meu delírio sobre Kit, virei-me para ver se ele estava na cama comigo. Não havia nenhum sinal dele e tudo estava quieto. Gemi de novo. Era apenas um delírio. Apesar de doente, fiquei muito desapontada. Pensar nele cuidando de mim era algo que eu adoraria que se tornasse realidade. Talvez meu subconsciente estivesse sendo muito cruel comigo. Não conseguia ficar acordada e não conseguia dormir. Tudo parecia me perseguir. Deitei por um tempo. Querendo saber que horas eram, mas estava com medo de me mexer. Estava com muita sede, e quanto mais pensava em água, mais a garganta parecia estar em chamas. Resolvendo me levantar, inclinei a cabeça para ver a hora. Passava das nove horas. — Merda! — Levantei com tudo e, imediatamente, me arrependi. Gemi, olhei para cima e vi alguém secando o cabelo com uma das minhas toalhas. Gritei e a pessoa tirou a toalha do rosto. Kit correu para a cama e colocou as mãos nos meus ombros. — Olivia, está tudo bem. Sou eu. Ele estava se inclinando sobre mim, uma expressão preocupada no rosto. Sem pensar, levantei a mão até seu rosto, sentindo os pelos macios no queixo. Kit permaneceu imóvel, observando e me encarando. Apesar de estar doente, seu olhar nunca deixava de segurar minha atenção. Notei que seu cabelo estava um pouco despenteado do banho, e agora que estava úmido, a cor dele fazia seus olhos azul acinzentados brilharem ainda mais. Estava tão sobrecarregada que engoli com dificuldade pela dor na garganta.


Afastando a mão, apertei a garganta, estremecendo. Kit saiu da cama e pegou um copo d’água. — Tome. Me certifiquei de que tivesse água quando acordasse. Pensei que sua garganta estaria doendo. Dei um sorriso tímido e bebi a água. Isso aliviou o ardor, mas cada vez que engolia era como sentir uma faca sendo cravada garganta abaixo. — Obrigada — murmurei, olhando a hora. — Deveria estar no refeitório comunitário há séculos. Senti a cama afundar e me virei, vendo Kit se sentar ao meu lado, segurando alguma coisa. Estendi a palma da mão e ele colocou dois comprimidos nela. — Tome isso e eu vou fazer algo para você comer. Você não vai a lugar algum. Precisa descansar. Ele levantou da cama e estava prestes a sair pela porta quando sussurrei: — Você veio até aqui na noite passada. Kit parou, mas não se virou. — Você não estava no refeitório ontem. Perguntei a eles o porquê e me disseram que estava doente. Eu tinha de vir e cuidar de você, mas não sabia como. Pouco depois, senti algo diferente no bolso. Vi uma chave a mais e decidi ver se ela se encaixava na sua porta de entrada. Não queria acordá-la, caso estivesse dormindo, mas fiquei preocupado com você sozinha se estivesse doente. Fiquei pasma. Quando não respondi, ele se virou. — Perguntou a alguém sobre mim? — Estava maravilhada. Kit nunca conversava com ninguém. Ele assentiu. — Fiquei lá. Você sempre está lá.

preocupado

quando

vi

que

não

estava

— Você repara em mim? — Eu me senti tímida de repente, mas precisava saber. — Sempre reparei em você, Olivia.


Por alguns instantes, ficamos nos encarando. Simplesmente não conseguia entendê-lo. — Então, por que sempre me ignorou? Por que nunca conversou comigo? Kit estremeceu levemente e rangeu os dentes. Suspirou, então, seu rosto relaxou um pouco. — É complicado. Não posso dizer. Esse homem era uma frustração sem fim para mim. Queria que ele me contasse as coisas. Queria saber quem ele era, mas sabia que não cederia facilmente. Queria pressionar, mas também podia dizer que havia dor sob seus olhos insensíveis. Não queria ser a responsável em piorar isso. Assim, apenas olhei para ele e vi que estava usando uma calça jeans que eu tinha comprado. — Ficou bem em você — observei. Notei que ficou muito bem, mas não ia revelar essa informação. Ele olhou para baixo, remexendo com a mão a toalha. — Humm... obrigado. Não deveria ter gastado com isso, mas obrigado. — Ele virou para sair, depois parou e virou-se com uma careta. — Olivia, quem é o Homem Sombra? Cada parte em mim endureceu, imaginando como ele podia saber. — Não sei o que você quer dizer. Kit coçou a cabeça. — Na noite passada, você disse para eu não deixar o Homem Sombra entrar na casa. Eu me xinguei por ter deixado isso escapar. Deve ter sido porque estava delirando. — Na casa em que cresci, tinha muitas sombras. Quando era criança, eu costumava pensar que o Homem Sombra iria me pegar. — Ri, mas não achei que era engraçado. Parte do que eu disse era verdade, mas o Homem Sombra não estava na minha imaginação. Ele era real. Ele era muito, muito real. Ele me analisou por um momento, depois sorriu.


— Faz sentido. Ele saiu antes que eu pudesse dizer algo mais; me deitei, a cabeça latejando. O que quer que fosse, doía demais. Ouvi Kit na cozinha. Era estranho ouvir ruídos em casa sem que fossem feitos por mim. Não pude deixar de sorrir. Esse pensamento me deixou feliz. Estava ainda mais feliz por saber que era Kit fazendo aquele barulho. Gostava dele e queria ficar com ele. Toda vez que ele mostrava algo de si, eu queria ver mais. Já estava começando a pensar como poderia fazer com que ele ficasse por mais tempo do que provavelmente ele imaginava. Sem dúvida, ele iria querer ir embora no mesmo instante em que soubesse que eu estava melhor. Com esse pensamento ainda na cabeça, Kit voltou com uma bandeja cheia de comida e chá. — Como normalmente gosta do seu chá? — perguntei. Kit franziu o cenho para mim por alguns momentos antes de colocar a comida na cama. — Leite e dois cubos de açúcar — Abri um enorme sorriso. — Por que está sorrindo? — Porque adivinhei exatamente como você gostava. — Olhei a torrada e vi que ele colocou um monte de geleia e manteiga de lado. — Obrigada por isso. Você não tem que se dar a esse trabalho todo para cuidar de mim, mas agradeço. Kit sorriu, e sabia que ele estava me oferecendo o que podia. Adorava seus sorrisos. Eles me deixavam toda alegre e entusiasmada por dentro. Mas, queria descobrir mais. Precisava de mais. — Do que você gosta, Kit? Qual é o seu filme ou livro favorito? — Sabia que tinha que contornar as perguntas diretas, mas isso seria um começo. Passei manteiga na torrada e tomei um gole do chá enquanto esperava. Kit se mexeu um pouco na cama. — Não vejo filme há muito tempo, mas costumava ler muitos livros. Gosto de James Patterson, Dean Koontz, David Baldacci... Parecem ser meus favoritos. Meus olhos se arregalaram.


— Sério? Eu amo esses autores. Ultimamente, minha escolha tem sido o romance, como “Cinquenta Tons de Cinza”, “O Caso Blackstone”, esse tipo de gênero. — Parei abruptamente e corei ao perceber o quão safada ele deve pensar que eu sou. — Quero dizer... Não é só isso que eu... É que eu gosto do romance por trás disso. Não gosto desse tipo de coisa. Não sou do tipo de garota que curte um quarto vermelho da dor. Kit ficou me olhando, conforme eu esfregava as bochechas vermelhas e continuava a balbuciar. — Ah, Deus. O que você deve estar pensando de mim? Abaixei a cabeça, sentindo-me envergonhada. Isso parecia acontecer muito quando Kit estava por perto. Quando ele não disse nada, mordi o lábio e ergui o olhar para ver sua reação. Ele estava sorrindo de novo. — Está rindo de mim? — Ele começou a dar risadas. Gargalhar, na verdade. Naquela hora, queria pular da cama e saltitar pela casa. Era o som mais bonito que já havia ouvido. Sorri para ele e apertei seu braço. Ele riu mais ainda. — Não é engraçado! — Era difícil tentar parecer brava quando estava rindo junto com ele. — Você tem uma risada tão incrível. — Sorri, mas se desfez no minuto em que Kit parou de rir e olhou para mim. — Desculpe. Não queria te deixar desconfortável. Desviei o olhar e mordi a torrada. Depois de comer uma fatia, peguei o chá. — O chá que fez ficou muito bom. — Kit sorriu e deu uma mordida na sua torrada. — Quanto tempo vai ficar aqui, Kit? Ele pegou a xícara e bebeu um pouco antes de me olhar. — Até você melhorar. Sorri para ele, mas havia certa tristeza. Não queria que ele fosse embora depois que eu melhorasse. — Pode ficar o tempo que quiser. — Kit me olhou ferozmente. — Não sou um caso de caridade. Minha postura endireitou. — Eu sei que não é. — Suspirei. — Escuta, Kit, é tão absurdo


pensar que eu gosto de ter você aqui? — Por quê? Suspirei mais uma vez. — Não sei o porquê. Kit desviou o olhar por um momento, um olhar magoado no rosto. — Não deveria me querer aqui. Agora foi minha vez de franzir a testa. — Por que não? — Kit levantou e pegou a bandeja. — Porque não sou um homem bom. — Ele olhou para a bandeja e, depois, para mim. — Já terminou? Assenti com a cabeça e observei enquanto ele caminhava em direção à porta. Antes que pudesse atravessar por ela, eu sussurrei: — Não acredito em você. — Kit ficou ligeiramente rígido antes de sair. Não sabia como o convenceria disso, mas, com certeza, eu tentaria.


CAPÍTULO DEZ

Estava andando pela minha antiga casa em Cambridge, procurando por meu pai. Faria quinze anos em alguns dias e queria sair com alguns amigos. Como a gente mudava muito, geralmente não fazia amigos. Tinha esperanças do que poderíamos sair por aí e eu pudesse conhecê-los melhor. Estava tão feliz porque conseguimos ficar nesta casa mais tempo do que nossa média de seis meses de permanência. Estava ansiosa para ver meus novos amigos e doida para perguntar ao meu pai se eu poderia ir. Querendo saber onde ele estava, comecei a procurar em todos os lugares. — Pai? Pai, onde você está? Entrei na cozinha enorme, mas não o vi lá. Então, entrei na sala de estar, mas tudo estava silencioso. — Pai, por favor, me diga onde está? Preciso te perguntar uma coisa. O silêncio me encontrou novamente, foi quando resolvi procurar no andar de cima. Estava prestes a subir quando ouvi um estrondo vindo de seu escritório. Em pânico, corri atrás dele, preocupada se havia caído e se machucado gravemente. O estrondo me disse que algo estava errado. Corri pelos corredores, em direção ao seu escritório. — Pai, você está b... — Abri a porta e vi meu pai no chão, uma arma numa mão e o telefone na outra. A cabeça sangrava e seus olhos sem vida olhavam para mim. — Papai!

Acordei gritando e coberta de suor. Comecei a entrar em pânico porque não sabia onde estava. Comecei a me debater quando um par de braços me segurou apertado. Gemi e gritei, tentando me livrar de quem quer que fosse. — Olivia, está tudo bem. Sou eu. Kit. Por favor, pare de se debater. Você está a salvo.


Instantaneamente relaxei e solucei enquanto Kit me abraçava por trás. Ele estava me segurando como se sua vida dependesse disso. Eu me mexi e ele me soltou. Virando-me para encará-lo, eu me aconcheguei no peito dele e deixei sair tudo. Kit começou a acariciar meus cabelos. — Está tudo bem. Foi apenas um sonho ruim. Como poderia contar a ele que era completamente o oposto? Não foi um sonho ruim. Era a minha realidade, nua e crua. Algo que vivi dia após dia. Algo que me assombrava a cada minuto do dia ou da noite. Pensando nisso, no entanto, já havia algum tempo desde que não tinha esse sonho. Fiquei confusa do porquê, de repente, estava sonhando com isso novamente. — Foi apenas um sonho ruim... não foi? — Quando não respondi, Kit afastou o rosto para conseguir me olhar melhor. — Olivia, o que aconteceu com seu pai? — Ele sentiu que endureci. — Olivia, converse comigo. Balancei a cabeça. — Não é nada. Foi apenas um sonho ruim. Kit suspirou e me abraçou de novo. — Não acredito em você, mas quando quiser conversar comigo, saiba que estou aqui. Assenti e comecei a tremer. Kit me segurou ainda mais apertado enquanto todos os meus ossos gritavam de dor. Odiava ficar doente desse jeito. Na verdade, não me lembrava de ter ficado tão doente assim antes. Quando os arrepios diminuíram, meus olhos começaram a se fechar de novo. Será possível que precisava dormir mais?

***

Kit e eu estávamos abraçados na minha cama. Sua mão se moveu pelas minhas costas, como se estivesse me acariciando. Pressionou a mão na pequena curva acima do meu quadril e me puxou para ele. Gemeu, sentindo o quanto estava duro. Sua mão se moveu mais abaixo e agarrou minha coxa enquanto eu empurrava os quadris contra ele. Joguei a perna sobre ele e o trouxe para mais perto de mim.


— Mais — choraminguei. — Por favor, Kit. Mais. Senti-o me beijar acima dos seios e por meu pescoço. — Meu Deus, Kit! — Puxei-o, desesperada para que ele libertasse o calor intenso que aumentava dentro de mim. — Quero te sentir. Preciso de você. Ouvi um grunhido da garganta dele e estremeci inteira. Tudo nele me deixava hipersensível. Eu me empurrei mais intensamente contra a virilha e gemi, de tão bom que era. Estava tentando senti-lo de qualquer maneira que fosse possível, mas minhas mãos estavam presas. Por que não conseguia mover as mãos? Eu me contorci um pouco mais, tentando me soltar. De repente, minha mão apareceu, e tentei tocar em Kit, mas ele agarrou meu pulso. — Olivia!

Acordei para me deparar comigo enrolada em Kit. Ele segurava meu pulso e estava olhando para mim, em pânico. Minha perna, como no sonho, estava envolvida bem apertada em torno dele. Meu Deus, o que foi que eu fiz? Meus olhos se arregalaram quando percebi a seriedade da situação. Estava sonhando, mas parecia que eu estava tentando encenar meu sonho. Queria morrer. — Sinto muito, Kit. O que eu fiz? — Ele me soltou, e eu, imediatamente, cobri o rosto. — Ai, Deus. Talvez seja melhor não me contar. Senti Kit deslizar da cama e, por um instante, pensei que ele iria embora. — Kit, espere! Me desculpe. Não queria... — Talvez seria melhor se eu dormisse no outro quarto. Fiz uma careta. No outro quarto? O outro quarto é onde fica meu estúdio... Ai, merda. — Não! Você não pode entrar lá! Mas era tarde demais. Ele já tinha saído do quarto e eu fui correndo atrás dele. Quando entrei no corredor, vi a porta do estúdio aberta, mas não


consegui enxergar Kit. Bati a mão na testa e gemi. — Oh, não. Timidamente, segui até lá, notando o quanto meu corpo ainda doía, mas não tanto quanto antes. Quando cheguei ao limiar da porta, Kit estava parado no meio do quarto, olhando ao redor, absorvendo tudo, as minhas pinturas de paisagens, pinturas realistas... Então, seus olhos pararam numa em particular que se destacava de todas as outras. Algumas eram dele, mas esta era a maior. Era uma pintura ampliada do seu rosto, o cabelo loiro escuro enfiado atrás das orelhas. Dei atenção especial aos pelos faciais, certificando-me de que a barba curta estivesse tão acentuada quanto possível. Até pintei a pequena cicatriz na bochecha esquerda que tinha notado uma vez. Sempre fui fascinada por essa cicatriz, imaginando qual seu verdadeiro tamanho. Era difícil dizer com a barba. No entanto, foram nos olhos que me esforcei mais. Bem naquele momento, aqueles olhos azuis acinzentados estavam me encarando, tentando alcançar minha alma. Aqueles olhos prenunciavam esperança, promessas, tristeza e desespero. Eles eram os olhos mais amedrontadores que já tinha visto. Fiquei em silêncio. Não sabia o que pensaria de mim, desenhá-lo assim sem o seu conhecimento. Apertei a camiseta que agora vestia, a que nem lembrava de ter colocado. Kit virou-se. Os olhos dele estavam arregalados de susto. Na hora entrei em pânico, pensando que ele iria fugir e me deixar novamente. Porém, o que fez foi acenar. — Você fez isso? — Olhou para a pintura, depois, para mim. Eu me encolhi ligeiramente e mordi o lábio. Era como se todo o meu corpo quisesse se implodir e desaparecer. Reuni coragem, olhei para ele e assenti com a cabeça. Baixei o olhar de novo porque não queria ver o olhar de dor, raiva, decepção, ou qualquer outro de desgosto que ele queria me dar. Não seria capaz de aguentar. Pelo canto dos olhos, vi que Kit, de repente, começou a andar e estava indo na direção da porta. Dei um passo de lado e me apoiei contra a parede, sabendo que passaria por mim a qualquer momento e atravessaria porta afora. E fora da minha vida. Queria soluçar, gritar, mas sabia que não adiantaria de nada. Ele me odiava e, francamente, não o culpava. Agora, ele sabia que era minha obsessão.


Conforme se aproximou, fechei os olhos porque não queria ver aquele olhar quando passasse por mim. Mas ele não passou, e arrisquei a dar uma olhada. Ele estava parado na minha frente, e segurou firme na parte de trás da minha cabeça me puxando para ele. Sua boca pressionou contra a minha, e eu joguei os braços ao redor do seu pescoço. Nossos lábios se juntaram no beijo mais fascinante que já tinha experimentado. Era excitante. Era quente. Sobretudo, era mortal. Mortal para o meu corpo, que queria mais. Mortal para o meu coração, que queria deixá-lo entrar. Mortal para a alma, que Kit estava, lentamente, atraindo para ele. Precisando de mais, empurrei a língua, buscando pela entrada. No início, Kit hesitou, depois, abriu a boca e nossas línguas finalmente se encontraram. Gemeu, segurou firme com uma mão atrás da minha cabeça enquanto a outra subia pelas costas. Ele me puxou firmemente contra ele. Sentindo que precisava sentir mais dele, deslizei as mãos, subindoas sob a camiseta e gentilmente raspei as unhas dos ombros até os quadris, antes de apertá-lo contra mim. Kit rosnou de novo e meu corpo inteiro estremeceu. Mantendo sua boca firmemente pressionada contra a minha, a respiração de Kit tornou-se mais áspera e suas ações mais desesperadas enquanto me levantava contra a parede. Enrolei as pernas ao redor de sua cintura e senti o quanto estava duro quando se esfregou em mim intensamente, gemendo ao mesmo tempo. De repente, bateu o punho contra a parede, me assustando. — Não sei como fazer isso. Não sei como fazer isso certo com você. Coloquei uma mão em sua bochecha e gentilmente acariciei seus cabelos delicados. — Está fazendo certo comigo. Kit suspirou e colocou a cabeça no meu ombro. — Você não entende. Nunca fiz isso antes. Se eu pensei que meu coração não poderia aguentar mais, estava errada. Ele bateu descontroladamente no meu peito com sua admissão. — Nunca fez sexo? Ele suspirou contra meu ombro. — Sim, já fiz, mas não assim. — o senti balançar a cabeça antes de


olhar para cima e encontrar meus olhos. — Não desse jeito. Não sabia o que ele queria dizer. Meu desejo por esse homem era descontrolado, todos os pensamentos eram tumultuados. — Não entendo. Suspirou de novo e encostou a testa contra a minha. — Nós não podemos fazer isso. Não posso fazer isso com você. Essas eram as últimas palavras que queria ouvir. Estava desesperada por ele. Ele não era capaz de perceber o quanto eu queria isso através daquele beijo? Apertei a parte de trás do pescoço dele. — Kit, por favor. Eu quero isso. Quero você. Ele soltou minhas pernas e as deslizei até sentir os pés tocarem o chão. E fiquei devastada. Estava tão perto de sentir algo natural, algo real, só para ser arrancado de mim. Sentindo os olhos se encherem de lágrimas, encostei a testa contra seu peito. — Me desculpe — ele ofereceu, mas isso não impediu que eu tivesse a sensação de ter o coração sendo arrancado do peito. Não cessou a rejeição esmagadora depois de saber o quão bom era ficar com ele deste jeito. Nunca senti nada igual aos seus beijos e toque. Eu queria mais. — Kit, quem você era antes? O que fazia...? Quero dizer, era um...? — Não consegui pronunciar a palavra. — Na outra manhã, quando você estava doente, disse que poderia me agradar e que meu marido, não. Costumava dormir com mulheres por dinheiro? Senti Kit enrijecer ao mesmo tempo em que nossa respiração começava a acalmar um pouco. Seu silêncio era tão profundo que se podia até ouvir um prego cair. Pensei que ele não fosse responder, talvez até mesmo me afastar. Mas, então, suspirou. — Não, eu não fiz isso, mas poderia muito bem ter sido assim. Balancei a cabeça e olhei nos olhos dele.


— Não entendi. Com as mãos, Kit segurou minha cabeça. — Você não tem que entender. — Ele suspirou profundamente. — Minha vida antes era baseada em decepção, crueldade e mentiras. Às vezes, sinto que não posso te tocar porque estou muito contaminado, indigno e danificado. Você é tão imaculada e inocente que tocá-la com minhas mãos imundas só vai te sujar com o que está dentro de mim. Não posso fazer isso com você. Sabendo o quanto ele estava errado, coloquei as mãos em seus braços. Eu era contaminada. Eu era danificada. Apesar de saber o quanto isso tudo era errado, eu o queria. — Quero que me toque, Kit. Não acredito que possa ser ruim, danificado ou indigno de mim. Quando olho para você, vejo um homem que está desesperado pelo toque de alguém, desesperado pelo contato, desesperado por alguém que o ame. Quero que me toque, sentindo que é certo, que é puro entre nós. Quero que apenas pense em mim e em você. Em ninguém mais. Só em nós. Não pense no seu passado ou no que costumava ser. Isso não tem importância agora. O que importa é como supera isso. O que importa é o homem que você é hoje. Eu quero esse homem. Kit respirou profundamente, gentilmente me beijando nos lábios. Ele apertou os olhos fechados e balançou a cabeça. — Não sei como ser esse homem. Acariciei sua barba. — Me deixe mostrar a você. Deixe eu te mostrar o homem que pode ser. Kit permaneceu em silêncio por um momento, apenas me abraçando com força. Não havia nada de sexual nisso. Nada dizendo que havia segundas intenções. Ele só queria me abraçar. E, nesse momento, eu queria abraçá-lo também. Jamais me cansaria de ser abraçada por Kit. Seu conforto era sem igual. Então, aninhei a cabeça em seu pescoço, dando a ele total abertura. Estava aceitando sua oferta de carinho, inquestionavelmente, e independente do desejo que sentia por ele, essa conexão era maior. Algo especial, verdadeiro. Quando ele me abraçava, era como se nada pudesse me machucar. Nada poderia acontecer comigo. Nada poderia me destruir. Estava a


salvo e me sentia amada. Pela primeira vez na minha vida, eu me senti amada de verdade. Relutantemente, Kit se afastou. — Vamos, vou levá-la para cama. Precisa descansar. Deu risada. — A única coisa que fiz até agora foi descansar. Aliás, estou faminta. Kit estendeu a mão para mim e eu a peguei. — Bem, vou fazer algo para você comer. Mas, primeiro, vou ter certeza de que vá para a cama. Ainda não está tão bem. Apertei sua mão e deixei-o me levar. — Sabe, poderia me acostumar com isso. — Mordi o lábio, preocupada que talvez tenha ido longe demais. Kit apenas sorriu. — Todo mundo precisa de alguém que cuide deles de vez em quando. Levantei a sobrancelha. — Sou simplesmente todo mundo agora? — Estava só brincando, mas Kit me olhou sério. — Você nunca foi apenas um alguém. Ele me puxou para o quarto e me levou até a cama. Depois que me sentei, ele afastou um pouco as cobertas, pegou minhas pernas e as ajeitou. Quando me deitei, me cobriu e sorriu. — O que gostaria de comer? Estava tentada a dizer você, mas ele estava sendo tão gentil comigo que não poderia estragar o momento sendo atrevida. — Humm, não sei. Me surpreenda. — Não tinha certeza se Kit era um bom cozinheiro, então, pensei que seria melhor deixar por conta dele. Kit olhou para mim um momento. — Tudo bem. — Ele saiu e fiquei deitada, soltando um grande


suspiro de alívio. Quase uma hora se passou e estava praticamente saindo da cama para descobrir onde ele estava. Os cheiros que surgiram estavam tão tentadores que foi muito difícil ignorar. Sentindo água na boca, me sentei na beira da cama e comecei a levantar quando fui interrompida abruptamente por sua voz. — Onde você pensa que vai? Mordi o lábio, tentando esconder o sorriso, virei o rosto de lado. Quando ele viu minha reação, seus lábios também se curvaram. Era tão difícil não encarar, mas também era difícil não notar a bandeja com duas tigelas com o que parecia ser frango ensopado. E ao lado delas, tinha algumas fatias de pão e talheres. O cheiro me atingiu. — Isso tem um cheiro tão bom. Kit ergueu a sobrancelha. — Volte para a cama. Apertei as coxas, doendo de desejo. — Mmmm, pode dizer isso de novo? Kit me olhou severamente. — Olivia... Acenei com as mãos e voltei para a cama. — Tudo bem, tudo bem. Vou me comportar. Desculpa. Depois que ajeitou as tigelas fumegantes, olhei para ele. — Você sabe cozinhar? Kit sentou-se na cama e me entregou uma tigela. — É tão difícil assim de acreditar? Neguei com a cabeça. — Não. É só que... Não conheço muito sobre você. Kit desviou o olhar.


— E acho que é melhor continuar assim. — Não acho que quero isso. — Ele me entregou uma colher e nossas mãos se tocaram. Por um momento, ficamos imóveis, e esqueci completamente que estava faminta. Limpando a garganta, Kit fez um gesto para minha tigela. — Coma. Assenti, me sentindo um pouco triste. Eu queria e precisava que ele me contasse tudo a respeito dele. Queria muito entender o que tinha por trás desse homem que me fascinou por tanto tempo. Porém, fiquei quieta, coloquei a colher na tigela e estava prestes a tomar um pouco do meu ensopado quando ele falou de novo. — Amanhã deverá estar se sentindo muito melhor. Fiquei completamente desolada. Isso significava que ele iria me deixar? — Não quero que você vá embora. — As palavras saíram antes que meu cérebro raciocinasse. Nunca sabia até onde poderia ir em se tratando desse homem. Por um momento, Kit olhou para mim, franzindo a testa. — Não moro aqui. Suponho que esta era a resposta que acaba com tudo. Kit não morava aqui, então, isso só podia ser algo temporário. Mas não gostei daquilo. Queria ficar com ele mais do que tudo. Suspirando, sabia que isso não poderia durar. Quanto mais tempo Kit permanecesse comigo, maiores seriam as chances de Titio encontrá-lo aqui. Isso, por si só, seria um desastre.


CAPÍTULO ONZE

Caminhava de novo pelos corredores vazios da minha antiga casa. Olhava em todos os cantos, procurando meu pai por todas as frestas. Estava preocupada com ele ultimamente. Ele andava distante, irritado... mais do que o normal. Meu pai nunca foi um homem carinhoso. Definitivamente era pai, mas um paizinho? Bem, essa era outra história. Com toda certeza, ele comprava tudo para mim, e eu nunca quis nada. Nem me preocupava com isso. Eu queria o amor dele. Ansiava sentir seu abraço. Era uma garota desesperada, decidida a fazer com que seu pai a notasse. E era por isso que estava procurando por ele. Tinha feito alguns amigos e precisava da permissão dele para sair no meu aniversário. Fiz algumas provas importantes na escola e acabei de descobrir que tirei nota máxima em todas. Tinha esperanças de que ele me olharia e daria um sorriso, me abraçaria dizendo o quão orgulhoso estava. Era isso o que sempre quis dele. Assim, passei de cômodo em cômodo, chamando meu pai, arrumando minhas roupas enquanto o procurava. Queria parecer perfeita para ele. Queria que ele visse a mulher que eu estava me tornando. Estava verificando na cozinha pela segunda vez, quando ouvi um forte estrondo da direção do escritório dele. Gritando, corri até no escritório e abri a porta, me assustei quando ela bateu contra a parede. Deitado no chão ao lado da escrivaninha, de olhos bem abertos, estava meu pai. Com um fio de sangue escorrendo da têmpora direita. Joguei a mão sobre a boca, e quando fui gritar, vi algo pelo canto dos meus olhos me alertando que tinha alguém no escritório. Quando me virei, Kit estava ali com uma arma na mão, apontada para meu pai. Ele olhou para mim, mirou a arma na minha cabeça e colocou um dedo na frente da boca. — Shh — sussurrou, sorriu e puxou o gatilho.

Acordei gritando, coberta de suor, me debatendo e soluçando incontrolavelmente. Estava tão assustada, muito aterrorizada e irritada com a injustiça e noção do que o meu pai fez a si próprio. Sobretudo, fiquei espantada


pela mudança repentina no sonho e Kit ter aparecido. Como se tivesse sido invocado, Kit apareceu ao lado da cama e envolveu os braços ao meu redor. Ele dormiu no sofá ontem à noite, dizendo que era melhor. Fiquei deitada por horas, me perguntando como podia ter chegado tão perto, mas ainda estava tão longe. No entanto, agora mesmo, o sonho sobrecarregava minha mente. Estava muito irritada, tão chateada com o mundo que o ataquei. — Você o matou! Você o matou! — Sabia que não era verdade, mas não pude evitar que as palavras saltassem da boca, tão violentamente contra ele. Kit me apertou com força, e sussurrou no meu ouvido: — Estou com você, Olivia. Estou com você. Eu imediatamente amoleci e agarrei seus braços. E fiquei ali, soluçando. Este sonho sempre me assombrou, nunca me deixando esquecer. Para mim, o sonho era realidade. Tirando a parte de Kit estar lá, eu realmente entrava no escritório e encontrava meu pai morto no chão, com uma arma na mão e o telefone na outra. Nossos registros telefônicos foram verificados, mas quem estava do outro lado da linha foi cuidadoso. Suspirei, frustrada por ter consciência de que provavelmente nunca saberia. Tinha apenas quatorze anos na época. Estava me tornando uma jovem e lembrei de me sentir feliz ao imaginar que meu pai poderia realmente me dizer o quanto estava bonita e de como estava orgulhoso por eu ter ido bem nas provas. Infelizmente, nunca consegui descobrir. Acabei me acalmando e Kit afrouxou um pouco o abraço. — Olivia, o que aconteceu com seu pai? Quem o matou? Fiquei tensa em seus braços e imediatamente me afastei. — Não importa. Foi há muito tempo. Kit suspirou. — Não se ainda tem pesadelos sobre isso. Quem era ele? Sentei mais perto da beira da cama, notando uma luz fraca que atravessava a janela. Era muito cedo. Verifiquei o relógio e era pouco depois das cinco. Suspirei.


— Não quero falar sobre isso. Kit passou os dedos pelo cabelo, frustrado. — Porque não converso com você sobre mim, não vai conversar comigo sobre você. É assim que vai ser? Meu coração bateu mais rápido conforme comecei a sentir raiva. — Você não quer conversar comigo sobre seu passado, tudo bem, mas talvez eu me sinta da mesma maneira a respeito do meu. Existem algumas coisas que você simplesmente quer deixar para trás porque cada vez que toca no assunto, vai lembrá-lo da dor que passou. Não sei dizer se esse também é o seu motivo, porém, aí está você, insistindo. — Suspirei, exausta de novo. Não sabia o porquê de estar tão cansada o tempo todo. Seja qual fosse o vírus, ele me derrubou. Kit e eu ficamos em silêncio, nossa respiração ainda áspera, mas acalmando. Sob a luz, podia dizer que ele estava sem blusa. Conseguia até ver as linhas delicadas das tatuagens em seu corpo perfeito. Não podia culpá-lo de maneira alguma. Quanto mais eu via sobre ele, mais minha obsessão aumentava. — Desculpa, Olivia. Não tinha certeza se ele estava se desculpando pelo meu pesadelo, ou pedindo desculpas por ficar tão distante e não deixar eu me aproximar. Balancei a cabeça. — Está tudo bem. Estou bastante cansada. Talvez devêssemos tentar descansar mais um pouco. Eu gostaria de levantar hoje num horário decente. Kit hesitou, mas quando me viu entrar debaixo das cobertas, ele se levantou. Não se deitou comigo e não esperei por isso. Não importa o quanto queria seu conforto, não pediria por ele. Agora meu orgulho estava interferindo.

***

Quando acordei mais tarde, o sol brilhava através das janelas e minha cabeça latejava. Gemi e me virei para olhar a hora, vendo que passava das dez. — Merda! — Girei tão rápido que caí da cama.


Ouvi passos fortes subir as escadas enquanto Kit gritava meu nome. Quando ele entrou, me encontrou no chão e rapidamente me pegou. Ele penetrou minha alma com seus olhos azuis acinzentados antes de me colocar na cama. — Obrigada — agradeci, sentindo vergonha. Esfreguei as têmporas quando senti a cabeça latejar. — Machucou a cabeça? — Kit colocou uma mão no meu ombro e olhei para cima. Foi então que percebi que ele estava usando uma camisa rosa claro que comprei. Achei que ficaria bem nele e ficou. Bem até demais. Afastando os olhos do peito dele, eu o olhei. — Não, só estou com dor de cabeça. Faz quanto tempo que está acordado? Kit deu de ombros. — Umas três horas, mais ou menos. Franzi o cenho. — Por que não me acordou? Queria ir ao refeitório comunitário esta manhã. Kit suspirou. — Olivia, obviamente ainda não está bem. Você dormiu praticamente, sem parar, pelos últimos três dias. Não acha que seu corpo está tentando lhe dizer algo? Ah, estava me dizendo algo, com certeza. Estava me dizendo do quanto gostaria que Kit me lambesse inteira como da última vez. Dizendo para inspecionar a pele dele com a língua. Dizendo que eu queria ser tocada, apertada, possuída, acariciada por esse homem diante de mim. Suponho que não se poderia ter tudo o que queria. Malditos hormônios. Resmunguei algo incompreensível, e me levantei da cama. Kit me seguiu, como se tivesse medo de que eu fosse quebrar. Quando me aproximei dos últimos degraus, senti cheiro de bacon. — Que cheiro bom. O que está cozinhando? Kit sorriu. Seus sorrisos eram tão bonitos.


— Omelete de bacon. Meu estômago roncou. Sabia que estaria bom porque a sopa na noite passada foi a melhor que já havia provado. Não sabia onde ele tinha adquirido suas habilidades culinárias, mas certamente não ia reclamar. Quando ia dizer algo, meu telefone tocou. — Com licença. — Acenei com a cabeça para Kit, indo para o telefone. — Alô? — Aguardei, um pouco nervosa pensando em quem poderia ser. — Olivia, é Charlie. Como está? Melhorou? Respirando aliviada, sorri. — Estou melhor, obrigada. Charlie suspirou. — Isso é ótimo porque, para ser sincero, preciso de você. Sue tem que levar a mãe no aeroporto esta noite e preciso de alguém para cobri-la. Deve ser só por umas três horas. Acha que seria capaz de vir? Ele parecia desesperado e não queria decepcioná-lo. — Claro, posso ir sim. Que horas quer que eu vá? Pelo canto do olho, percebi que Kit me deu uma rápida olhada com o cenho franzido. — Poderia vir às sete? Ela deve voltar às dez para terminar o turno. Sorri. — Combinado. Vejo você às sete. — Obrigado, linda. Ansioso para te ver. Desliguei o telefone e me deparei com um rosto sombrio me encarando. — Por que está me olhando assim? Kit suspirou. — Dificilmente será capaz de trabalhar quando ainda não está se sentindo bem.


Passei por ele e entrei na cozinha para fazer um pouco de chá. — Bem, dificilmente serei capaz de dizer não quando ele precisa muito de mim. É só por três horas. Tenho certeza de que consigo aguentar. Enchi a chaleira e coloquei no fogo, peguei duas canecas e dois sachês de chá. Passando pelo fogão para pegar leite na geladeira, o cheiro da omelete de bacon me atingiu. — Deus, como cheira bem. — Então, vai trabalhar até às dez? Eu me virei. — Mais ou menos. Até quando a Sue voltar do aeroporto. Kit assentiu. — Então, vou buscá-la às dez e meia. Ri e balancei a cabeça. — Kit, não preciso... — Fique no bar que vou buscá-la às dez e meia. Assim, posso te acompanhar pelo caminho mais rápido. O outro demora muito. Sorri por ele me lembrar que estava me seguindo. — Você se preocupa mesmo com a minha segurança, não? Kit cruzou os braços sobre o peito. Notei como a camisa levantou ligeiramente, revelando o quão bem o jeans se encaixou nos quadris. Estava começando a achar que olhar para ele era ruim para a minha saúde. Percebendo que eu estava o encarando, Kit virou-se e começou a mexer a omelete. — É que não gosto de saber que anda sozinha pelas ruas tão tarde da noite. Fiquei ali, observando suas costas enquanto permanecia quieto. Ele pegou a omelete e virou. A omelete chiou na panela. Naquele instante, eu o queria mais do que nunca. Minhas pernas moveram-se por conta própria. Antes de perceber, meus braços estavam ao redor dele por trás. Coloquei a cabeça em suas costas e respirei seu cheiro doce de


sabonete. Obviamente, tomou banho esta manhã. Kit ficou rígido, relaxando imediatamente quando sentiu os braços o envolverem na cintura. Ele ficou parado por um instante, depois, afastou meus braços para que ele pudesse se virar. Rodeou os braços ao meu redor e ficamos assim por um momento. Nunca senti nada tão bom quanto os seus abraços. Por fim, Kit beijou o topo da minha cabeça e se afastou. — Sente-se. Vou terminar de preparar o café da manhã. Sorri, percebendo que ele também estava sorrindo. — Tem certeza? — Assentiu, então, fiz exatamente o que me pediu. Foi o melhor café da manhã que já provei.

***

Eram seis horas e comecei a me preparar para o trabalho. Precisava admitir. Não estava boa para ficar andando para lá e para cá nas próximas três horas, mas jamais revelaria essa pequena informação a Kit. Realmente duvidava que ele me deixaria sair de casa se eu contasse. Sem me apressar, tomei banho e lavei o cabelo, depois escovei os dentes, sequei o cabelo e fui procurar uma roupa adequada. Senti que precisava de um incentivo hoje porque me senti muito mal nos últimos dias. Foi um pouco demorado para encontrar, mas, finalmente, achei uma saia lápis bege que chegava na altura do joelho e blusa branca. Algo simples, mas elegante. Estava terminando de colocar os brincos quando ouvi uma batida na porta. Virei e vi Kit parado ali, olhando para mim. Não consegui parar de sorrir. Kit limpou a garganta e desviou os olhos. — Humm... Está pronta? Pensei em ir com você até lá. Acenei com a cabeça e caminhei até ele, colocando a mão em seu peito. Kit inalou bruscamente quando fiquei na ponta dos pés e dei um beijo suave nos lábios dele. Seu peito ressoou um pouco, mas não importava o quanto eu quisesse pular e envolver as pernas ao redor dele, isso era tudo o que ia oferecer... por enquanto. Então, contra todo no meu ser, sorri, agradeci e saí pela porta. Foi a


coisa mais difícil que já tinha feito, mas ele deixou as coisas bem difíceis para mim, pensei que não havia nada de errado em retribuir isso. No fim da escada, peguei meu casaco e bolsa, colocando-os ao redor dos ombros. Kit fez o mesmo com seu casaco. Pensei que a noite passada fosse a última dele aqui, mas não queria questionar agora. Perguntaria a ele mais tarde quando me acompanhasse de volta para casa, mas estava determinada a não dar tanta importância a isso. Sorri. — Vamos. Passei pela porta com Kit me seguindo. Ele fechou a porta e sorriu. — Me promete uma coisa sobre hoje à noite. Olhei para ele enquanto caminhávamos pela rua. — O quê? Kit timidamente olhou para mim. — Que não se sobrecarregue. Não quero que trabalhe demais e acabe doente de novo. Sorri, pensando no quão protetor ele era. — Tudo bem. Acho que posso prometer isso. Enlacei o braço no dele e ficamos assim até chegar às portas do bar. — Quer entrar comigo? Posso te dar uma bebida. Kit franziu o cenho para as portas, e sacudiu a cabeça. — Não, mas obrigado. Vejo você depois das dez. — Ele se inclinou, me beijou na bochecha e afastou-se. Dei um sorriso e observei enquanto ele se afastava. Quando me virei, percebi que Charlie me encarava de dentro do bar. Ele levantou a sobrancelha, obviamente, querendo saber sobre quem era meu homem misterioso. Suspirei, entrei e fui até os fundos do bar. Enquanto pendurava o casaco, senti uma mão acariciar meu pescoço. — Ei, linda. Vejo que outra vez se vestiu para arrasar. — Eu me


virei com um sorriso. — E quem é o cara que colocou esse sorriso no seu rosto? Não pode ter sido aquele homem que vi beijando sua bochecha. Ele deve ser seu pai ou algo assim. Bati na mão dele. — Pare de ser grosseiro, Charlie. Ele não tem idade para ser meu pai. Ele parece mais velho por causa de toda aquela barba e muitos cabelos. Charlie riu. — Barba e muitos cabelos, hein? Se soubesse que era tudo o que precisava para beijar sua bochecha assim, teria deixado crescer a barba semanas atrás. — Sorriu, brincando e não pude deixar de sorrir. — De qualquer forma, quem é ele? Dei de ombros. — Ele é apenas um cara que conheci há um tempo. Os olhos de Charlie se arregalaram. — Há um tempo? Por que só estou vendo ele agora? — Porque acabamos de começar a nos conhecer melhor. Ele cuidou de mim enquanto eu estava doente. Charlie deu um ligeiro passo para trás. — O quê? Ele ficou com você? Na sua casa? — Dei risada. — Sim. — Então, dormiu com ele? Arrastei os pés, nervosa. — Não, não é bem assim. Bem, ainda não. Ele tem sido carinhoso, gentil e agradável comigo. Não está tentando transar comigo, como algumas pessoas. — Olhei e ele se encolheu, recuando. — Ai. Já entendi, Olivia. — Ele sorriu um pouco e se aproximou para pegar uma mecha do meu cabelo. — Não posso evitar se é tão atraente e me fazer querer pegá-la em meus braços e mantê-la lá para sempre. Fiquei observando sua reação por um momento. Não sabia se estava tirando sarro de mim ou não. Por fim, acabei rindo.


— O quê? — perguntou, franzindo a testa. — Boa tentativa — eu disse, empurrando-o da minha frente para conseguir entrar na área do bar. — Você quase me enganou. Virei e coloquei a mão no balcão. Tinha movimento, mas não estava lotado. Ao que parece todos tinham sido atendidos... por enquanto. — Do que está falando? Olhei para a expressão confusa de Charlie. — De você, Charlie. Está sempre flertando comigo e sendo sugestivo. Nem uma vez você disse algo tão amável como acabou de falar. Charlie deu de ombros e saiu. — Não tenho culpa de que a garota dos meus sonhos nunca me enxerga. Fiquei ali, querendo saber qual era a jogada dele agora. Quando não se virou para me dar uma piscadinha ou rir, fiquei ainda mais espantada. Um cliente se aproximou dele no balcão e pediu uma bebida. Estava tão concentrada o observando que nem percebi uma pessoa no bar, chamando meu nome até ouvir uma batida com os nós dos dedos. Virei-me e vi um dos nossos clientes, Ben, e sorri. — Desculpa, Ben. Estava pensando com meus botões. O que vai querer?

***

Duas horas passaram-se, mas pareceram dez. Meus pés estavam me matando, e praticamente podia sentir a febre voltando. Estava completamente exausta e agradeci aos céus quando o bar ficou um pouco mais tranquilo e seria capaz de descansar. Estava inclinada sobre o bar, com a cabeça em minhas mãos, quando senti mãos esfregando meus ombros. Sabia que era Charlie, e que estava apenas tentando me ajudar, e como era bom e exatamente o que senti que precisava agora. — Está tão tensa, Olivia. Precisa aprender a relaxar um pouco.


Soltei um leve gemido quando ele apertou um ponto que enviou arrepios pela coluna. — Porra, Olivia. Você está me matando. Virei e o encarei. — Nunca sabe quando parar? E eu, aqui, achando que você estava sendo legal. Charlie fingiu um olhar magoado. — Estava sim. Só que você gemeu e... — Ele pareceu um pouco inquieto. — Isso me afeta. — Ele viu que eu não tive nenhuma reação e seus olhos se arregalaram. — O quê? Sou apenas um homem, Olivia. Não posso evitar que acho você a coisa mais sexy que existe. Sorri. — Sim, eu e quem mais? — De repente, o lugar deu um pequeno giro e fiquei um pouco tonta. Charlie imediatamente me segurou. — Ei. Você está bem? — Assenti, mas não pareceu satisfeito. Ele olhou pelo bar. — Ben, pode me cobrir por dez minutos? Neguei com a cabeça. — Estou bem. Parece que ainda não me livrei desse vírus. Charlie não disse nada, e ouvi Ben gritar que sim. Ele deu a volta e entrou no bar. — Olivia, você está bem? Está pálida. Assenti com um sorriso. — Estou bem. Estou me recuperando ainda. Charlie gesticulou para os fundos. — Vou levá-la ao meu escritório e pegar uma bebida quente para ela. Voltarei o mais rápido possível. Ben sorriu. — Sem problemas. Tomarei conta daqui por quanto tempo for preciso.


Charlie deu um tapinha nas costas dele. — Obrigado, cara. Depois te pago uma bebida. O sorriso de Ben era gigante. — Aí sim, hein! — Ele bateu palmas, parecendo todo entusiasmado para trabalhar. Algumas pessoas fariam, praticamente, qualquer coisa por uma bebida. Sabia disso muito bem. E era parte da razão pela qual escolhi trabalhar aqui. Tinha a sensação de que seria bom colocar a tentação bem na minha frente e não querer isso o tempo todo. Parecia estranho, mas ajudava... com exceção de quando as pessoas pediam Jack Daniels, é claro. Charlie, literalmente me carregou para o escritório e me colocou no sofá. — Volto logo. Vai ficar bem? Assenti, sorrindo. — Sim. E obrigada, Charlie. Charlie também sorriu. — Qualquer coisa por você, Olivia. Sabe disso. Ele saiu e eu me deitei no sofá, querendo saber que diabos deu nele. Tinha sido tão insinuante às vezes e, em outros momentos, o que saía de sua boca era quase pornográfico. O que mudou? Fiquei deitada, pensando nisso por um tempo. A única coisa em que poderia pensar era na reação dele ao ver Kit hoje à noite. Charlie nunca tinha me visto com um homem, então, não sabia se a mudança repentina no temperamento era em relação a isso ou a outra coisa. Parecia muita coincidência, no entanto. Ainda estava pensando nisso quando Charlie voltou com uma xícara de chá quente. — Poderia ter conseguido algo mais forte, mas nunca vi você beber. Eu me sentei, reparando que já me sentia muito melhor. — Uma xícara de chá está bem. Obrigada. Faz tempo que não tomo coisas mais fortes. Charlie sentou-se na beira do sofá e me entregou o copo. — Existe alguma razão para isso? Sempre me pede para pegar o


pedido quando alguém pede Jack. Fiquei tensa e soprei o chá quente antes de tomar um gole. Era exatamente o que eu precisava. — Acho que nunca lidei muito bem com a bebida. Em parte, era verdade, mas o outro motivo foi quando descobri sobre o câncer da minha mãe. Ver meu pai morto no chão foi bastante ruim, mas acho que fiquei entorpecida por um tempo. Quando minha mãe me disse que tinha cancer, algo desencadeou. Parecia que, desde então, se houvesse algo de que não gostava, eu bebia. E continuei a fazer isso. Charlie colocou a mão na minha testa, e sentiu minha temperatura. — Você está um pouco fria, mas suas bochechas estão corando. Agora com um lindo tom de vermelho. Tomei outro gole. — Eu me sinto muito melhor. — Segurei seu braço e apertei. — Obrigada por cuidar de mim. Charlie sorriu e a pequena covinha que me deixava envergonhada surgiu. Sempre fui atraído por ele, só não gostava do seu desfile de mulheres. Isso logo me fez perder o interesse. — De nada. — Suspirou e desviou o olhar um instante. — Realmente me sinto um pouco culpado agora. Olhei com o cenho franzido. — Por quê? — Porque pedi para vir esta noite quando, obviamente, ainda não está se sentindo bem. Sorri e apertei seu braço. — Não seja bobo. Estou bem. Só acho que senti um pouco de falta de ar. Estou sentindo mais do que bem agora que pude descansar um pouco. — Parece que ele estava se debatendo internamente. Mordia o lábio e fechava o punho. — Você está bem? Charlie virou-se para mim e assentiu com um sorriso reconfortante. — Sim, estou bem. É que amanhã... — E parou.


— O que foi? Suspirou. — Amanhã, tem uma festa de despedida de solteira reservada até meia-noite. Estava pensando que ficará bastante movimentado até lá. Na hora, soube o que estava acontecendo. — Você precisa que eu venha. Charlie sacudiu a cabeça. — Me sinto como um completo babaca porque é claro que ainda está tentando sarar dessa coisa. Acariciei seu braço. — Charlie, tudo bem. Eu posso vir. — Tem certeza? Posso pedir para Sue... — Charlie, está tudo bem. Além disso, Sue deve vir só meio período. Comigo doente nos últimos dias, ela provavelmente está trabalhando sem parar. Charlie olhou para mim por um momento. — Bem, só se tiver certeza... Sorri. — Tenho certeza. — Fiz um movimento para me levantar e Charlie estendeu a mão para mim. Peguei e ele me levantou com facilidade. — Certeza de que está bem para voltar? Assenti. — Tenho, desde que sempre consiga uma xícara de chá. — Dei uma piscadinha e ele sorriu. — Devo acrescentar um biscoito de chocolate a isso? Meu rosto se transformou no que só posso descrever como celestial. — Ah, Charlie. Agora você está me mimando. Charlie riu e saímos, eu em direção ao bar e Charlie, à cozinha. Quando me aproximei, vi Ben atendendo uma pessoa.


— Obrigada, Ben. Você foi ótimo. Ben pegou o dinheiro do cara e segurou meu cotovelo. — Está se sentindo melhor? Concordei com a cabeça. — Sim, muito melhor agora que estou tomando uma xícara de chá. — E não se esqueça do biscoito de chocolate. — A mão de Charlie apareceu por cima do meu ombro. Peguei o biscoito e virei para ele. — Obrigada. — Sorri. — Você tem um partidão aqui. — Ben piscou para mim e quase revirei os olhos. Charlie sendo gentil era algo completamente novo para mim. Eu me virei para Charlie e, na certa, ele estava radiante. — O que gostaria de beber, Ben? — Charlie piscou para mim, o que me fez rir. Sacudi a cabeça e voltei ao trabalho, sentindo-me muito melhor agora que descansei e tomei chá. Na verdade, depois disso, o tempo passou muito mais rápido do que imaginei. Foi só depois que Sue chegou que percebi a hora, dez horas tinha passado faz tempo. Ela sorriu para mim, com a respiração ofegante. A coitada deve ter corrido até aqui, praticamente. — Obrigada, Olivia. Balancei a cabeça com um sorriso. — Não tem nada a agradecer. Fez muito por mim nos últimos dias. Vi que ela foi para os fundos e a segui. — Como está se sentindo agora? — Gritou enquanto tirava o casaco e guardava a bolsa. — Agora estou bem, obrigada. Ainda me sentindo um pouco indisposta, mas muito melhor do que antes. — Foi, então, que me lembrei do que ela havia ido fazer. — Deu tudo certo ao levar sua mãe ao aeroporto? Ela assentiu e nós voltamos ao bar.


— Sim. Ela está voltando para a Espanha. Devo ir visitá-la em breve. Preciso muito de uma semana de folga, apenas relaxar na piscina e ler. Suspirei, pensando no quanto isso parecia o céu. — Uau, não sei por que ainda não está lá. Nós rimos e Charlie apareceu. — Está tudo bem, Sue? Deu tudo certo ao embarcar sua mãe? Ela assentiu. — Sim. Obrigada, Charlie. Ainda vai precisar de mim amanhã? Charlie olhou para mim e balancei a cabeça. Ele sorriu para ela. — Não. Acho que Olivia e eu daremos conta. Descanse um pouco amanhã. Concordou com a cabeça. — Bem, é melhor eu começar a trabalhar. — Nós observamos enquanto Sue caminhava em direção a uma mulher no bar. Charlie suspirou e olhou para mim. — Suponho que seu trabalho acabou. Até amanhã, é claro. — Nós rimos. — Tem certeza de que está bem? — Estendeu a mão e gentilmente afastou uma mecha do meu cabelo castanho. Sorriu carinhosamente para mim e eu retribui o sorriso, mas, então, o som da porta do bar abrindo e fechando me deixou em alerta máximo. Charlie e eu olhamos naquela direção e vimos Kit parado, e nunca o vi com um olhar bravo daquele jeito. Quero dizer, já tinha visto esse tipo de olhar repetidas vezes nele, mas não assim. Ele encarava Charlie furiosamente. Quase me encolhi diante do comportamento dele. Mordi o lábio e me virei para Charlie. — Humm... é melhor eu ir embora. Obrigada por tudo que fez hoje. Charlie continuou olhando Kit, então, virou para mim, sorrindo. — Não foi nada, coração. — Percebi que Charlie havia enfatizado a palavra coração um pouco demais. E disse alto o bastante para que praticamente todo o bar ouvisse.


Fui até os fundos do bar e peguei minhas coisas, Charlie me ajudou com o casaco. Quando saímos de trás do balcão, ele me beijou na bochecha, provavelmente para a felicidade de Kit, e sorriu amavelmente. — Estou ansioso para te ver amanhã, Olivia. Obrigado pela noite. Quase revirei os olhos. A disputa idiota entre os olhos irritados de Kit e as observações nada sutis de Charlie teriam sido engraçadas se os dois não estivessem tão sérios. Quando caminhei em direção a Kit, notei que ele não tirou os olhos de Charlie momento algum. Só quando me aproximei dele que seus olhos finalmente caíram em mim. — Oi, Kit. Está tudo bem? — Já sabia a resposta, mas precisava que ele me dissesse. Parece que o homem de poucas palavras ainda estava por ali. Os lábios de Kit se estreitaram numa linha ao assentir e pegou meu braço para sair. Abotoei o casaco e começamos a andar. — Como passou a noite, Kit? — Quem é aquele homem? Fiquei surpresa com a pergunta repentina. — Quer dizer, o cara que estava comigo atrás do balcão? — Kit quase rosnou, mas assentiu com o mesmo olhar severo no rosto. — Aquele é o Charlie. Ele é meu chefe. Kit de repente virou-se para mim. — Tem certeza de que ele é só o seu chefe? Olhei para ele com os olhos arregalados. — Sim — Suspirei. — Por que está tão bravo? Ele soltou um pequeno grunhido e olhou ao redor, menos para mim. — Não sei. E foi a última conversa que tivemos até a minha porta. Quando cheguei, abri o portão, depois, coloquei a chave na fechadura e abri a porta. Eu me virei, para convidar Kit a entrar, mas tudo que encontrei foi nada no passeio e a rua mais escura mais adiante. Acho que isso respondeu à minha pergunta. Ele estava puto de raiva. Mas por quê? O que foi que eu fiz para deixá-lo tão


aborrecido? Resmunguei, mas entrei e fechei a porta. Fiquei um pouco magoada pelo jeito que ele, simplesmente, me desprezou esta noite. Também me preocupava com ele, onde iria ficar. Agora que ficou comigo algumas noites, o queria aqui. Sua presença era de alguma forma reconfortante. Ouvir outros barulhos além dos meus pela casa, me dava tanta tranquilidade, não queria que isso acabasse. Suspirando, terminei de tirar o casaco e guardei a bolsa quando a campainha tocou. Depressa, praticamente pulei na porta, pensando que Kit tinha voltado para se desculpar comigo. Entusiasmada, abri a porta sem olhar. Não era Kit. Era Freddy. Gritando, tentei bater a porta na cara dele, mas ele a agarrou e empurrou para frente. — Vagabunda! — rosnou ele. Tentei correr de volta para a sala, mas ele pegou meu cabelo e me puxou de volta. Gritei de dor, mas acotovelei-o com tanta força que o deixei sem ar. Ele se curvou, e caiu de joelhos. Estava desesperada para alcançar o aparador que estava a pouco mais de dois metros de distância. Tentei correr até lá, mas ele agarrou meu tornozelo e eu caí no chão, e me machuquei com o tombo. Rolei e vi que Freddy levantou-se do chão. — Pensou que não me veria mais, hein? Eu vi você com a porra do seu namorado e sabia que em algum momento ele teria que te deixar sozinha. Devo dizer que fiquei surpreso quando ele saiu abruptamente daquele jeito. Tiveram uma briguinha de namorados? Esfreguei o braço dolorido e olhei para ele. — O que você quer comigo? Freddy, ou qualquer que seja a droga do nome dele, ergueu a sobrancelha. — Eu quero você. Quero essa bunda perfeita que tem desfilado pelo bar nos últimos três meses. Cacete, nunca me enxergou até que eu me tornei seu salvador naquela noite. Que irônico isso, não? Fui me arrastando na direção da gaveta, e Freddy lentamente


caminhava até mim. Lambeu os lábios maliciosamente, de forma sugestiva, enquanto aqueles olhos de aço vagavam sobre meu corpo. Nesse momento, estava com a meia-calça rasgada que tinha se embolado nas coxas, e o braço e as pernas estavam doloridos pela queda. — Onde está indo, querida? Não pode escapar de mim agora. Não tem a porra do namorado para te salvar desta vez. É só você e eu. Rapidamente me levantei e tentei correr o resto do espaço até o aparador. Freddy agarrou meu pulso e me girou. Com rapidez dei uma joelhada na virilha dele. — Filha da puta! — gemeu. Tentei correr de novo, mas ele me agarrou, me virou e deu um tapa no meu rosto. Ardeu pra cacete e com meu vacilo, ele me jogou com tudo no sofá. Senti seu corpo duro pressionado contra mim, então, sua respiração quente no ouvido enquanto apertava meu seio. — Faça isso comigo outra vez, e vou te matar com as minhas próprias mãos. Entendeu? Soltei um grito sufocado e tentei desesperadamente alcançar um vaso que estava na mesa de centro. Sentir Freddy me apalpar acabou me deixando com vontade de vomitar. A bile subiu na garganta, mas rapidamente tentei engolir e me concentrei em sair debaixo dele. Lentamente, consegui estender a mão até a mesa. Freddy, que agora estava ocupado demais tentando subir minha saia, não pareceu perceber. Precisava agir agora antes que fosse muito tarde. Com uma última investida, eu me lancei de lado com toda a força que tinha, conseguindo pegar o vaso. Quase comemorei minha pequena vitória, mas Freddy foi rápido. Tentou agarrar meu braço, mas consegui me afastar dele e bati na parte de trás da sua cabeça com toda a força que pude reunir, e imediatamente soltei o vaso. Tudo ficou silencioso. Freddy ficou mole em cima de mim. No começo, não consegui tirá-lo de cima. Precisei de alguns empurrões e, por fim, saí de baixo dele. Assim que me levantei, cambaleei até o aparador. Estava confusa e não sabia identificar se o que sentia era por estar doente ou pelo que acabara de acontecer. Sacudindo a cabeça, alcancei à gaveta e a abri. Peguei minha 9mm,


Smith & Wesson, e apontei para o corpo mole de Freddy. Tinha só uma bala. Uma bala nesta arma reservada para apenas uma pessoa. Não queria usá-la nele, mas usaria se precisasse. Pensei no que fazer. Não queria envolver a polícia, mas também não queria envolver outra pessoa. Por fim, minha cabeça não aceitou nada do que pensou. Peguei o telefone e disquei o número dele. Sabia que era errado porque meu corpo sempre me traía quando ele estava por perto. Mas tinha que fazer isso. Precisava da ajuda dele e sabia que me ajudaria. — Olivia. Não pensei que me ligaria tão cedo. Conseguiu alguma coisa agora? Já pode voltar para casa? — Estou com problemas. — Só precisava dizer essas três palavras. — Chego aí em trinta minutos. Ele desligou e fiquei sentada do outro lado da sala, mirando a arma em Freddy. Não arrisquei desviar o olhar, por precaução caso tentasse me atacar de novo. A cada minuto que passava minha respiração se acalmava, mas toda vez que imaginei Freddy se mexendo, meu coração acelerava de novo. Vinte e oito agonizantes minutos depois, ouvi uma batida na minha porta. Orei, pedindo que fosse ele e não Kit. Era tudo o que eu precisava. Quando fui até a porta desta vez, espreitei pela janela antes. Era o Titio. — Livy — ronronou quando abri a porta. Meu corpo imediatamente reagiu à sua voz, um arrepio atravessou meu corpo. Ele sorriu. Sabia que só tinha de pronunciar meu nome e eu era dele. De pé atrás dele havia um exército de seis homens. Todos pareciam fortes, mas Titio era definitivamente quem se destacava. Com seus trinta e tantos anos, parecia muito mais jovem. Toda vez que o via, tinha a aparência refinada e estava muito bem vestido. Vestia um longo casaco marrom ligeiramente aberto, revelando o terno cinza e a gravata azul-marinho. Ele se ajeitou, mostrando os enormes anéis que usava nos dedos. Cada parte dele exalava liderança. Sua presença enaltecia isso. Titio olhou minha arma, depois em mim. — Deve ser sério, se está com isso nas mãos. — Ele me deu um sorriso. Sabia muito bem para que ela seria usada.


Tentei sorrir, mas depois do que aconteceu, não estava com humor para isso. — Entre. — Fiz um gesto para todos e, um por um, passaram por mim e entraram na sala. Titio apontou para Freddy ainda deitado de bruços no sofá. — É este o problema? — Assenti. Com apenas um movimento sutil dos dedos, sinalizou para os homens. Eles se reuniram em volta de Freddy e o pegaram. Com um puxão, o carregaram para fora. Sem dúvida alguma, seria a última vez que o veria. Quando tudo estava silencioso de novo, Titio virou-se para mim. — Você está bem? Respirei, aliviada. Soltei a arma e me virei para ele. — Agora estou bem. Com certeza estava me seguindo e pensou que poderia tomar o que queria sem pedir. Titio se endireitou, e para mim parecia bastante sério. — Ele machucou você? Neguei com a cabeça. — Consegui lidar com ele. Olhou ao redor da sala e viu o vaso no chão. — Estou vendo. Eu te ensinei bem. — Sorriu para mim. Retribuí seu sorriso. — Ensinou sim. — Fiz um gesto para a cozinha. — Gostaria de uma bebida? Ele sacudiu a cabeça. — Não, não. Já estou indo embora. Precisa de mais alguma coisa? Fiz que não com a cabeça, me sentindo confusa. — Não, mas obrigada. — Estava bastante claro que tinha pressa de ir. Talvez interrompi alguma coisa, ou talvez só queria lidar com o meu pequeno problema.


Titio suspirou. — Não tem nenhuma informação para mim, tem? Mordi o lábio e balancei a cabeça. — Não passei muito bem. Pareceu que ficou um pouco preocupado. — Qual foi o problema? Dei de ombros. — Apenas um vírus, acho, mas fiquei de cama por alguns dias. Já estou melhor agora, e retomo a procura amanhã cedo. Tenho certeza de que conseguirei algo em breve para você. — Mostrei o melhor sorriso que pude dar e Titio me recompensou com um. Seus sorrisos eram lindos se você estava o recebendo de bom grado. Era com outro tipo de sorriso que precisava se preocupar. Se Titio sorrisse para você de um jeito estranho, era melhor começar a correr. — Que bom. — Ele se aproximou de mim e me abraçou. — Cuidese, Livy. Lembre-se, tudo o que está fazendo... É por você. Sabe disso, não sabe? Foi por essa razão que se afundou antes. Precisava de propósito, e agora que tem um, é uma mulher diferente. — Ele se afastou e segurou meu queixo. — Na verdade, está se transformando na mais bonita das mulheres. É difícil ter que esperar, Livy, e já esperei muito tempo. Posso te dar mais uma semana, então, você vai voltar para casa. Minha paciência tem limite. O jeito que ele disse isso, enviou um arrepio pela minha espinha. Titio sempre foi bom para mim, mas confiar nele era uma história completamente diferente. Não sabia quando seus comentários tinham ou não a insinuação de ameaça. Era difícil dizer não a ele, no entanto. Por alguma razão, sempre que ele estava perto de mim, eu queria me aproximar ainda mais. Meu corpo gritava por ele. — Sim, Titio. É claro. — Assenti, praticamente me curvando à sua frente. Ele gostava de mulher forte, mas também gostava delas submissas quando se tratava dele. Sempre o obedecia, porque só de pensar em desobedecêlo ficava aterrorizada. Por outro lado, ele cuidou muito bem de mim. Foi ele quem me ajudou a sair daquele estado péssimo em que me encontrava. Quem me ajudou a ficar saudável, me alimentou, deu roupas novas e, por fim, me ensinou a lutar. Ele era como minha força nos momentos mais difíceis, uma força


diabólica. Na verdade, poderia dizer que a minha alma pertencia a ele, facilmente. Havia dito isso inúmeras vezes. Ele era como o próprio diabo e eu era dele... e deixou isso bastante claro para mim. Titio sorriu carinhosamente, me puxou e depositou um suave beijo na minha testa. Permaneceu ali por um momento, inalando, depois, roçou um dedo embaixo do meu queixo. Estremeci. Não foi proposital. Isso sempre acontecia quando ele estava perto. — Bom — Suspirou. — Vou esperar seu contato. Mas, não demore muito. Assenti, me perguntando como iria fazer agora, droga. Não podia adiar por mais tempo. — Sim, Titio. E obrigada por me ajudar esta noite. Titio sorriu maliciosamente, fazendo meu coração vibrar. Arrastou o dedo ao longo da parte de trás do meu braço, até o cotovelo. — Quando tudo isso acabar, poderá me mostrar como está agradecida de verdade. Chegou a hora, Livy. Chegou a hora de, finalmente, torná-la minha. Ele vagou o olhar pelo meu corpo antes de encontrar meus olhos. Cada parte em mim ficou rígida ao seu toque. Lutei contra a vontade de tremer, e o recompensei com um dos meus sorrisos mais brilhantes. — Isso seria ótimo. Obrigada. Titio cantarolou um pouco, como se só de saber disso o deixava excitado. Tão logo saiu de seu transe e caminhou em direção à porta. — Te vejo em breve. Fechou a porta com um baque tão forte, que me assustou. Com isso veio o enorme alívio do efeito que ele exercia sobre mim. Assim que ele saiu, deixei de sentir aquela atração toda. Era muito estranho, e jamais consegui entender o porquê dessa necessidade de estar com ele sempre que estava por perto. Estava tentando lutar contra isso desde o começo, mas ficava cada vez mais forte. Alguns momentos depois, percebi que estava sozinha. Sempre gostei de ficar assim, mas desde que Kit entrou na minha vida, detestava isso. Ansiava por seus braços ao meu redor, precisando daquele grande conforto


que ele sabia como dar. Estava obcecada em como a mera presença dele parecia me acalmar. Ele era o gelo, e eu o fogo... o sol contra a chuva. Ele trouxe estabilidade e paz ao meu coração machucado. Algo que nunca tinham feito antes. Mas ele foi embora, e eu orei e torci para que não fosse demorar muito para vê-lo de novo. Dizem que alguns desejos se tornam realidade. Só não esperava que o meu se tornasse realidade do jeito que aconteceu.


CAPÍTULO DOZE

Charlotte e eu entramos em minha casa aos risinhos. Havíamos acabado de completar treze anos de idade e estávamos começando a gostar de garotos. Havíamos passado por um garoto no caminho e ele era maravilhoso... e esse era o motivo dos risinhos. — Olivia, venha até o meu escritório, por favor. Olhei para o meu pai e todos os risinhos imediatamente cessaram. Remexi os dedos das mãos e lancei um olhar tímido para Charlotte. Ela sorriu para mim, mas pude notar que sabia que algo estava errado. Voltei a olhar para o meu pai e assenti. — Já vou, pai. Entrei no escritório. Titio estava lá e eu abri um sorriso radiante para ele. Era o único para quem eu sorria daquele jeito. Ele sempre pareceu bondoso comigo. Na verdade, era a única pessoa envolvida com o meu pai que era assim. Quando meu pai fechou a porta, olhei para ele. — O que eu te disse sobre trazer essa gentalha para casa? Baixei o olhar e fiquei entrelaçando os dedos. Estremeci quando o ouvi dizendo “gentalha”. Ele nunca gostou que eu me associasse a crianças que não tivessem uma posição de poder. — Ela é minha amiga. Quis trazê-la para casa. — Ela não é bem-vinda aqui — declarou meu pai severamente, fazendo meu coração acelerar no peito. — Por que você não convida a Victoria? Victoria era uma garota com quase a mesma idade que eu. E era filha do homem que poderia vir a ser o próximo Primeiro Ministro. Mas eu não gostava muito dela, porque ela sempre agia como se sentisse superior às outras pessoas. — Não me dou bem com ela, pai.


Ele soltou um suspiro pesado. — Mas vai ter que começar. Quem quer que seja... — Ele fez um gesto amplo com a mão —, essa garota, ela não é bem-vinda aqui. Do nada, minha raiva aumentou. — Mas eu gosto dela. Quero que ela fique aqui. Ela é minha amiga. Quando ele viu a ira em meus olhos, aproximou-se e agarrou meu punho. — Escute aqui, sua vadiazinha. Eu dito as regras nesta casa, não uma criancinha ranhosa. Livre-se dela. Você não pode se misturar com pessoas como aquela garota! — Já chega! — Titio ficou de pé e encarou meu pai. Diante do olhar de Titio, meu pai afrouxou seu aperto imediatamente. Afastei-me, sentindo a dor irradiando de meu pulso. Meu pai estava o segurando com muito mais força do que deveria. — Livy, talvez seja melhor você avisar à sua amiga que você já tem compromisso hoje. — Titio sorria para mim com ternura, então, devolvi o sorriso. Apesar da tristeza que estava sentindo, assenti. — Vou lá falar com ela.

Acordei na manhã seguinte com o alarme ecoando em meus ouvidos. O meu corpo inteiro doía e eu me sentia exausta por conta do sono agitado. Não conseguia dormir bem sem Kit ao meu lado, e tive um pesadelo atrás do outro sobre meu pai. Sempre sonhava com ele. Algumas noites eram piores do que outras, mas, sempre que eu estava preocupada com alguma coisa, os pesadelos pareciam acontecer com mais frequência. Desliguei o alarme, balancei a cabeça e me levantei. O dia parecia estar nublado, o que só agravava o meu mau humor. Torci para que um bom banho e uma visita ao refeitório comunitário ajudassem. Estava com saudade dos meus garotos e muito preocupada com Rachel depois da surra que ela levou. Era todo o incentivo de que eu precisava para ir me trocar. Já de banho tomado e vestida, segui minha rotina habitual. Como de


costume, Tim estava na cafeteria quando cheguei. Ele arfou ao erguer o olhar e me avistar e abriu um sorriso radiante. — Senti sua falta, Olivia. Eu estava realmente preocupado com você. Ele fez sinal para que um outro rapaz viesse assumir sua posição e nós fomos até o final do balcão. — Não foi nada. Só peguei um vírus e fiquei de cama por uns dias. Tim franziu o cenho. — Sinto muito por ouvir isso. Você deveria ter me ligado. Eu teria feito um dos rapazes levar café para você. Sorri e pensei em como isso era gentil da parte dele. — Você é muito atencioso, Tim, mas eu jamais ia querer dar trabalho. Ele arfou novamente. — Dar trabalho? — Ele se inclinou por sobre o balcão e sussurrou: — Como é que minha cliente preferida poderia dar trabalho? Arqueei as sobrancelhas. — Aposto que você diz isso para todos os seus clientes. Tim se endireitou e deu risada. — Talvez... Mas nenhum deles é tão lindo quanto você. Então, o que você vai querer? O de sempre? — Eu assenti. — É pra já! Assim que o meu pedido ficou pronto, entreguei o dinheiro a Tim e o agradeci antes de caminhar em direção à saída. Estava me sentindo um pouco mais feliz agora que estava de volta à minha rotina habitual. Quando passei por uma fase depressiva, descobri que seguir uma rotina era algo muito importante para mim. Ter uma rotina significava que eu tinha um propósito. E, desse modo, eu não ficaria chafurdando em autopiedade. Quando virei a esquina em direção aos degraus, estiquei o pescoço para ver se eu avistava todos em seus lugares habituais. Vi Thomas logo de cara e Marcus sentado bem ao lado dele. Kit não estava no lugar que costumava ficar, mas, depois da noite de ontem, eu meio que imaginei que ele não estaria ali. Mas


o que mais me surpreendeu foi perceber que Wayne e Rachel não estavam em lugar nenhum. Thomas me viu e começou a caminhar em minha direção. O olhar estampado em seu rosto me dizia que tinha alguma coisa errada. — O que aconteceu, Thomas? Ele esfregou o rosto com a mão. Estava com a aparência de quem passou a noite toda em claro. — A merda atingiu a porra do ventilador na noite passada. Meu corpo se retesou imediatamente. — Como assim? Thomas fez sinal para que eu fosse me sentar ao lado deles, então, eu fui. Entreguei-lhes as bebidas e esperei que Thomas continuasse. — Wayne tem procurado por aquele babaca que bateu na Rachel. Ele é um filho da puta determinado, tenho que admitir. Bom, resumindo, ele deu sorte ontem à noite. Wayne quase matou o cara de tanta pancada e ele está em coma agora. Arfei, quase derramando o café no colo. — O que aconteceu depois disso? Quer dizer, onde estão os dois? Thomas tomou um gole da sua bebida, daí, Marcus interveio: — Wayne ainda estava espancando o cara quando a polícia apareceu. Olhei para ele. — Então, ele está preso? Marcus assentiu. — Sendo acusado de agressão grave e, possivelmente, tentativa de homicídio. Afastei o olhar. — Merda. Thomas bufou.


— Merda mesmo. — Onde está a Rachel? Marcus deu de ombros. — Ninguém sabe. Achamos que talvez ela possa estar na delegacia com ele, mas não temos notícias dela desde ontem. Isso me deixou um pouco preocupada. Esperava que eles estivessem certos em relação à Rachel. Ela já tinha passado por coisas demais. Coloquei meu café no degrau e peguei um papel e uma caneta em minha bolsa. Comecei a escrever. — Por favor, se vocês tiverem qualquer notícia, podem me ligar nesse número aqui? — Peguei uma nota de cinco libras e a estendi para Tim. Ele olhou para o dinheiro e, depois, para mim. — Não preciso disso. Posso ligar para você. Segurei a mão dele e coloquei tanto o dinheiro quanto o papel ali. — Por favor — implorei. Ele olhou diretamente nos meus olhos por um momento e meneou a cabeça. — Ah, puta que pariu. Eu nunca conseguiria resistir a uma mulher implorando desse jeito. Dei uma risadinha, mas ela durou pouco. — Só prometa que vai me ligar se descobrir alguma coisa. O seu sorriso desvaneceu e ele apertou a minha mão. — Prometo. Abri um sorriso e fiquei de pé. — Obrigada. — Olhei em direção às portas do refeitório comunitário. — Bom, é melhor eu entrar logo. Você conhece alguém que pode querer essas bebidas que sobraram? Thomas sorriu. — Tenho certeza de que vamos encontrar alguém. Valeu, Olivia.


Como sempre. Assenti e segui meu rumo escada acima para começar o meu dia. Tammy estava lá, sorrindo. Eu nunca conseguia saber se o sorriso dela era genuíno ou não. — Bom dia, Olivia. Como você está? Espero que esteja se sentindo melhor. Assenti, sorrindo, pendurei meu casaco e guardei minha bolsa. — Estou bem agora, obrigada. Não sei ao certo o que era, mas me fez ficar de cama por alguns dias. Tammy me observou atentamente por um instante. — Hmm... Bem, estou feliz por você estar de volta. Os últimos dias têm sido bem agitados. Com isso, ela saiu do cômodo. É, não tinha como saber se aquilo tinha sido genuíno ou não. **** Eu estava no bar há três horas e estava extremamente atarefada. Essas garotas da despedida de solteira definitivamente sabiam como exibir a mercadoria. Exibiram-se para Charlie tantas vezes que ele quase chegou a babar. Agora, ele estava atrás do balcão, sorrindo de orelha a orelha. Se eu ganhasse uma libra para cada vez que revirei os olhos esta noite, estaria rica. — Uhuuu! Charlie, meu querido, mais uma rodada para nós, por favor. Mostre-nos do que você é capaz! A garota que gritou isso tinha mais ou menos a mesma idade que Charlie, uns vinte e poucos anos. Era bonita e tinha peitões enormes, os quais Charlie estava comendo com os olhos durante a noite toda. Ah, céus. Lá vai mais uma revirada de olhos. Fui em direção a Charlie, que sorria enquanto preparava os drinques. — Anda, Charlie. Mostre a elas do que você é capaz. — Arqueei a sobrancelha e ele se aproximou para sussurrar no meu ouvido: — Me ajude — A voz saiu suplicante. Dei tapinhas em suas costas.


— Ah, acho que você consegue se virar sozinho. Ele arregalou os olhos. — É sério, Olivia. Vou ser devorado vivo se você não me ajudar. Comecei a rir. — Charlie Charmoso, o que vou fazer com você? Você sabe que é tudo culpa sua, né? Ele se virou para Megan, outra bartender de meio-período que ele chamara para trabalhar esta noite. Charlie pensou que conseguiria dar conta de tudo só com nós dois, mas havia admitido sua derrota uma hora atrás. — Você vai me ajudar, não vai, Megan? Uma voz estridente ressoou do grupo de garotas. — Eeeei, Charlie! Venha até aqui para nós apalparmos seus músculos — a dona da voz era extravagante e devia estar na casa dos quarenta anos, mas estava vestida como uma garota de vinte. — Isso, Charlie. Que outros músculos você tem aí para apalparmos, hein? — Isso veio da garota gordinha sentada ao lado da mulher extravagante. Uma onda de risinhos ecoou pelo grupo e Charlie estremeceu. Senti pena dele. Se fosse um grupo de caras fazendo o mesmo comigo, a história seria diferente. Pousei minha mão em seu braço e ele parou o que estava fazendo para olhar para mim. Enlacei o seu pescoço com a outra mão e o puxei para um beijo. Não era meu intuito agir de forma tão impulsiva. Só parecia a melhor maneira de ajudá-lo. Ouvi uma mistura de aplausos e resmungos vindos do grupo de mulheres. A princípio Charlie ficou sem reação, mas logo puxou-me para perto de si e tentou enfiar a língua na minha boca. Eu só estava tentando ser uma boa amiga e ajudá-lo, mas obviamente Charlie tinha outras coisas em mente. Não podia empurrá-lo porque estragaria o disfarce. Em vez disso, levei a mão à orelha dele, afastada dos olhares das mulheres, e a belisquei. Ele se afastou e olhou para mim, uma mistura de choque e desejo estampado em seus olhos. Lancei um olhar sério para ele e, então, me virei para as mulheres, sorrindo. — Sou a única que pode apalpar... os músculos dele. Sinto muito,


garotas. Elas resmungaram, mas pareceram deixar Charlie em paz depois disso. — Acho que Charlie está em estado de choque. Virei-me para Megan e vi que ela estava sorrindo. Olhei por sobre o ombro dela e avistei Charlie coçando a cabeça e olhando para mim. — Isso é algo inédito. Megan deu uma risadinha e olhou para Charlie. — Pobrezinho! Não sabe nem como agir agora. Peguei alguns copos sujos e os coloquei na máquina de lavar louça. — Tenho certeza de que logo ele descobre como deve agir. Ele sempre descobre. Talvez ele consiga se dar bem com a peituda ali — Fiz um gesto para indicar a garota que Charlie encarara boquiaberto a noite toda. Bem, o gesto foi mais para indicar os dois melões em seu decote. Megan assentiu e deu risada. — Se ele conseguir, ela é uma vadia de primeira. É ela quem vai se casar amanhã. Meus olhos se arregalaram. — Uau! Ela está dando mole para Charlie a noite toda. Megan assentiu. — Pois é. É péssimo, não é? Por que se casar se você vai agir dessa forma? Fico imaginando o que o noivo dela pensaria disso. Dei de ombros. — Bem, nunca se sabe. Pode ser que eles tenham um relacionamento aberto. Não faz nenhum sentido para mim, mas eu tento não julgar. Charlie se aproximou e franziu o cenho para Megan. — Hmm, Megan? Você pode cuidar das coisas por um minutinho? Megan arregalou os olhos e fez uma careta.


— Ahn... Claro. Charlie virou-se para mim e fez um gesto para indicar o fundo do bar. — Podemos conversar rapidinho? Ah, merda. Será que eu estava encrencada por tê-lo beijado daquela maneira? Ele era meu chefe, afinal de contas. Não deveria ter ultrapassado o limite, mas considerava Charlie um amigo antes de qualquer coisa. Mas, mesmo assim, fiquei me xingando mentalmente. Não foi nada profissional de minha parte. Assenti, sentindo-me estranha, e dei de ombros quando passei por Megan e segui em direção à parte dos fundos do bar. Charlie caminhou pelo corredor em direção ao seu escritório e parou para abrir a porta e me deixar passar primeiro. Assim que entramos, ele fechou a porta atrás de si. — Puta merda, Olivia. O que foi aquilo? Ergui as mãos e fiz um gesto para apaziguá-lo. — Sinto muito, Charlie. Eu estava tentando te ajudar. Não foi minha intenção ultrapassar os limites e... Não tive como terminar a explicação porque ele deu um passo para frente e me puxou para um beijo. Muito chocada para falar qualquer coisa, fiquei imóvel por um momento enquanto ele tentava enfiar a língua na minha boca mais uma vez. Foi todo o estímulo que precisei para empurrá-lo. — Charlie, pare com isso. Você não sabe o que está fazendo. Charlie meneou a cabeça, sem fôlego. — Ah, sei sim. Quero fazer isso desde a primeira vez que te vi, quando você veio até o bar pedindo um emprego. Eu quero você, Olivia. Quero muito. Será que você não percebe? Neguei com a cabeça e tentei afastá-lo de mim, mas ele me segurou com força. Charlie estava prestes a me beijar de novo, mas algo o fez se afastar subitamente. Levou um segundo para eu processar tudo, mas ver Kit tentar estrangular Charlie foi suficiente para me fazer agir.


— Kit! Pare com isso! Ele olhou para mim. — Ele estava te agarrando à força, mesmo depois de você ter falado para ele parar. Corri em direção a ele e coloquei minha mão em seu ombro. — Pare, por favor. Ele não sabia o que estava fazendo. Eu o ajudei a se livrar das garotas lá no balcão do bar e as coisas saíram do controle. Kit soltou Charlie, que se abaixou e segurou o pescoço enquanto tossia. Corri em direção a ele e o ajudei a se sentar no sofá. As narinas de Kit se inflaram. — O que você quer dizer com “as coisas saíram do controle”? Depois de me certificar de que Charlie estava bem, voltei para perto de Kit. — Aquelas garotas estavam se jogando em cima dele a noite toda, então, as enganei para parecer que Charlie e eu estávamos juntos. A mandíbula de Kit se cerrou e ele lançou um olhar para Charlie e, então, para mim. — O que você fez? Ergui as mãos em um gesto de exasperação. — E isso importa? Kit rangeu os dentes. — O que você fez? — Olivia, quem é esse cara? — Charlie se levantou, mas Kit foi em sua direção, impedindo-o. Charlie não era nada pequeno, mas não era nada comparado a Kit. Ele era praticamente um gigante perto de Charlie. — Não é da sua conta, porra. Arfei. Nunca tinha ouvido Kit falar daquele jeito com ninguém. — Você não está entendendo, amigão. Olivia é da minha conta. Ela trabalha aqui.


Kit deu um passo à frente. — Você é chefe dela e não o namorado. Você ultrapassou muito a porra dos limites. Levei a mão ao braço de Kit para impedi-lo de atacar Charlie. — Eu sei! — gritou Charlie. — Só fiz o que fiz porque a quero. Fiquei parada entre os dois. — Charlie, isso nunca vai acontecer. Não sou o tipo de garota que dorme com qualquer um. Não me envolvo em relacionamentos assim. Charlie lançou um olhar tímido para mim. — Sei disso. Não consigo me segurar perto de você. Kit grunhiu atrás de mim. — Isso não te dá o direito de tentar beijá-la à força. — Ele estava fervilhando de raiva. Dei-me conta de que as coisas poderiam sair do controle se eu não resolvesse a situação depressa. Engoli em seco e me virei para ele. — Kit, fique calmo. Acho que é melhor irmos embora. Eu estava fazendo isso pelo bem de Charlie. Não queria que ele se machucasse. Virei-me para Charlie e lancei um olhar suplicante a ele. Depois de me encarar por um momento, ele assentiu. — Tudo bem, podem ir. Sinto muito, Olivia. Não foi minha intenção fazer aquilo. Kit deu um passo à frente, então, coloquei minha mão em seu peito. — Não. — Encarei-o para que ele visse que eu estava falando sério. Ele bufou, mas pegou minha mão e me guiou até a porta. Peguei minhas coisas, despedindo-me de Megan às pressas. Ela parecia completamente desnorteada, assim como, para a minha surpresa, todas as garotas da mesa. Fiz uma nota mental para enviar uma mensagem para Charlie mais tarde, saí do bar e vesti meu casaco. Assim que eu estava pronta, Kit pegou


minha mão e me guiou em direção à minha casa. — Kit, acalme-se. Não é nada do que você está pensando. Kit grunhiu um pouco, o que me fez ficar calada. Ele estava muito nervoso e qualquer coisa que eu dissesse só serviria para jogar mais lenha na fogueira. Chegamos até a minha casa e, como sempre, Kit abriu o portão para mim. Coloquei a chave na fechadura e abri a porta, imaginando que Kit já tinha ido embora. Fiquei surpresa quando me virei e vi que ele estava entrando atrás de mim. Fechou a porta atrás de si e caminhou em minha direção. Enlaçou a minha cintura e me puxou para perto dele. O beijo foi agressivo, confiante e muito, muito sexy. Ele enfiou a língua na minha boca e eu a aceitei de bom grado. O peito de Kit estremeceu um pouco enquanto tentava tirar meu casaco. Deixei me levar porque estava enfeitiçada por ele. Cada parte do meu corpo o queria e ansiava por seu toque. Eu estava desesperada para sentir o corpo dele contra o meu. Desesperada para sentir cada toque dele. Desesperada para senti-lo bem fundo dentro de mim. Kit pressionou-me contra a parede e plantou outro beijo confiante em minha boca. Nossa respiração estava ofegante e nossos corpos zumbiam em uma doce antecipação. Kit se afastou, plantando beijos e mordidas suaves no meu pescoço. A princípio, eu estava envolvida demais no momento, mas quando ele tentou levantar minha saia, a clareza me atingiu com força. — Kit, pare. Acho que ele não ouviu, porque continuou deslizando a mão pela minha coxa, tentando chegar ao meio das minhas pernas. — Kit! Pare! Dei um tapa forte em seu rosto e ele se afastou abruptamente até a extremidade oposta do saguão de entrada. Seus olhos estavam arregalados e a respiração, ofegante. Ficamos nos encarando. Balancei a cabeça, meus olhos cheios de lágrimas. De repente, estar afastada dele, mesmo que por alguns poucos metros, doía muito. — Assim não — sussurrei. — Assim não. Eu o queria. Céus, como eu queria. Mas não dessa forma. Não


porque ele ficou com ciúmes e queria me reivindicar para ele. Queria que nosso relacionamento começasse de um jeito melhor. Eu o deixaria me agarrar contra a parede de bom grado. Eu o deixaria me agarrar do modo que quisesse, mas não dessa forma. Não porque ele estava frustrado e nervoso. Kit arregalou os olhos quando viu a expressão em meu rosto. Eu não sabia ao certo o que ele ia fazer em seguida, mas não fiquei surpresa quando, com um olhar de pura tristeza, ele se virou e saiu pela porta. Assim que ouvi o portão se fechando, afundei-me no chão e chorei. Eu estava me apaixonando por Kit. Não sabia nada sobre ele, mas era assombrada por sua imagem. Dia e noite, ele dominava meus pensamentos e invadia meus sonhos. Depois de ficar alguns minutos sentada no chão, estava prestes a me levantar quando ouvi um toque no meu celular. Peguei-o na minha bolsa e vi que era uma mensagem de Charlie.

Está tudo bem? Sinto muito pelo que aconteceu hoje.

Suspirei, pensando em como eu sentia muito. A responsável por nos meter naquela encrenca toda fui eu. Pressionei RESPONDER.

Está tudo bem, Charlie. A gente se fala em breve. Bj.

Suspirei de novo, pensando que era de se esperar que as coisas seguissem por esse caminho. Sempre soube que Charlie queria uma amizade colorida, mas isso jamais iria acontecer. Sei que dormi com aquele cara daquela vez, mas foi só para perder minha virgindade. Só Deus sabe por que eu estava tão desesperada para perdê-la com uma pessoa qualquer. Acho que minha cabeça não estava funcionando direito naquela época. Se eu pudesse voltar atrás e mudar isso, certamente o faria. Mas parte de mim queria sentir uma conexão. Qualquer conexão que fosse. Não me importava se alguém tivesse usado o meu corpo só para atingir um orgasmo. Eu só queria sentir qualquer coisa que não fosse a dor de ver os olhos sem vida de meu pai me encarando continuamente. Queria sentir-me entorpecida. Queria uma fuga. Charlie não respondeu à minha mensagem, então, fiquei de pé e fui


me preparar para dormir. Eu tinha que acordar cedo para ir ao refeitĂłrio comunitĂĄrio. Mas nĂŁo importava o quanto eu tentasse, nada poderia me preparar para o que estava prestes a acontecer.


CAPÍTULO TREZE

Depois de mais uma noite mal dormida e de ir buscar minhas cinco bebidas de sempre, fui até o refeitório comunitário sentindo-me mais apreensiva do que nunca. Sabia que Wayne não estaria lá, mas rezei para que Rachel estivesse. Eu estava ansiosa para descobrir se ela estava bem e se precisava de alguma ajuda. Não sabia ao certo como poderia ajudá-la, mas eu certamente tentaria. Ela já tinha passado por muita coisa com toda essa história da morte da filha e o fato de ela ser uma moradora de rua por sei lá qual motivo. Ela definitivamente não merecia ter sido espancada e passado por toda a situação que veio depois disso. Enquanto eu seguia meu caminho, meu celular emitiu um alerta de mensagem. Abri, imaginando que seria de Charlie, mas era de Titio.

Ainda estou esperando, Livy. Me liga quando puder. Precisamos planejar seu retorno ao lar.

Merda! Eu sabia que isso ia acontecer, mas esperava que tivesse mais tempo. Mordi o lábio, pensando se deveria ou não responder, mas com a consciência de que seria melhor para o meu corpo traiçoeiro que eu não respondesse, porque eu sempre acabava me decepcionando. Então, apesar do meu melhor julgamento, guardei o celular e continuei seguindo meu caminho. Quando cheguei aos degraus, vi que apenas Marcus estava lá. Céus, isso estava ficando cada vez pior. Onde estavam os outros? — Marcus, o que está acontecendo? Ele olhou para mim com uma expressão confusa. — Não faço ideia. Não sei onde estão os outros. Mordi o lábio e entreguei a ele a bebida de sempre, chá com três colheradas de açúcar.


— Obrigado, docinho. Sentei-me ao lado dele. Na minha pressa para chegar aqui, percebi que ainda faltavam mais de dez minutos até o meu turno começar. — Você parece tão preocupada — observou ele. Olhei para Marcus que também estava com uma expressão preocupada no rosto. — Mas eu estou preocupada. Preocupada com todos vocês. Marcus pousou a mão sobre a minha. — Mas não precisa ficar. Alguns de nós preferem as coisas como estão. Franzi o cenho. — Como assim? Marcus deu risada. — Eu era advogado — Arregalei os olhos. — Quem diria, né? — Ele bebericou o chá. — Eu era um monstro sedento por poder, Olivia. Todo mundo me odiava. Eu mesmo me odiava. Acumulei vários inimigos porque minha luta para chegar ao topo me consumiu. Eu era casado, prestes a ser pai, e era burro e estúpido o suficiente para pensar que minha mulher, Beth, era feliz. Ela fazia tudo por mim, mesmo que eu nunca estivesse em casa. Eu a amava, mas a deixava de lado a maior parte do tempo porque estava sempre ocupado com o trabalho. Mesmo quando estava em casa, eu me isolava no escritório durante a noite e me afundava nos casos em que estava trabalhando. Eu defendia pessoas horríveis. Pessoas horríveis que eu sabia que eram culpadas, mas as defendia mesmo assim. Eu agia como um babaca porque só os babacas chegam ao topo. Eu estava tão perto de virar sócio no escritório, tão perto que quase conseguia sentir. Mas o problema é que ser um babaca só te leva até certo ponto. Antes que você se dê conta, tudo é tirado de você. Pousei minha mão no braço dele, tentando confortá-lo de alguma maneira. Ele obviamente estava sofrendo ao me contar isso. — O que aconteceu? Marcus suspirou. — Aconteceu que perdi Beth e o bebê. A placenta dela descolou e


ela teve uma hemorragia tão forte que desmaiou. Quando cheguei em casa naquela noite, fui direto para o meu escritório. Minha mulher estava morta no chão da cozinha, mas eu estava mais preocupado com o meu trabalho. — Ele meneou a cabeça em frustração. — Saí do escritório lá pelas duas da madrugada e fui para a cama. Só então que percebi que ela não estava lá e fui procurá-la. E, aí, eu a encontrei, deitada no chão em meio a uma poça de sangue. Uma lágrima escorreu pelo rosto de Marcus quando ele se virou para olhar para mim. — Ela estava desesperada para ter um filho. Tão desesperada que agi para me certificar de que ela engravidasse. Havia um novo remédio que poderia ajudar mulheres estéreis a engravidar. Tive que arriscar e funcionou. É só que... Agora fico imaginando se não foi esse remédio que a matou. — Ele soltou o ar pela boca. — Bem, é isso que eu fico repetindo para mim mesmo. Assim, eu não fico pensando que a morte dela foi exclusivamente culpa minha. Ele suspirou e fungou. — De qualquer forma, isso serviu como um despertar. Nada mais importava para mim depois disso. Passava o tempo todo em casa e praticamente enchi a cara até estar à beira da morte. Não tinha mais amigos ou parentes porque todos haviam se afastado pelo modo que eu os tratava. E quem poderia culpá-los? Eu era a porra de um monstro — declarou ele, meneando a cabeça. Depois de respirar fundo, ele continuou: — Por fim, perdi tudo que tinha. Meu emprego, minha casa. Por três anos, vivi com o dinheiro que eu tinha guardado, afundando-me na bebida. Quando perdi minha casa, pensei que seria o fim da minha vida, mas acabou que foi o que trouxe um novo sentido a ela. Sorri ao perceber que ele também estava sorrindo. — Sério? O rosto de Marcus se iluminou. — Fiquei perambulando pelas ruas por um tempo, pensando em como eu colocaria um fim à minha vida. Depois de algumas semanas, conheci Thomas. Ele me mostrou onde costumava ficar, sempre rodeado de amigos. Fui aceito no domínio deles de braços abertos. Sem perguntas, sem julgamentos. Aquele dia me fez abrir os olhos e eu voltei a ter esperança. Percebi que havia muito mais na vida do que dinheiro e poder. — Ele olhou para mim, fitando-me


com seus olhos castanhos. — Amigos, família, amor... Essas coisas são mais importantes do que tudo. É uma pena que demorei tanto a me dar conta disso. Inclinei-me sobre o braço de Marcus e apoiei a cabeça no ombro dele. — Você nunca vai ficar sozinho, Marcus. Sempre terá a nós. Ele plantou um beijo no topo da minha cabeça e abriu um sorriso. — Sei disso. Não sei o que eu faria se não fosse por vocês. Lembrei-me de quando Titio me encontrou meses atrás. Conseguia entender Marcus porque eu já estive exatamente naquela posição. Naquela posição em que você percebe que chegou ao fundo do poço. Mas, com ajuda, consegui melhorar. — Sabe, com seu talento, você poderia fazer algo para ajudar os outros. Advocacia pro bono e tal. Ele sorriu e deu tapinhas em minha mão. — Eu sei, já pensei nisso. Mas, no momento, não estou pronto. Acho que ter amigos ao meu redor é todo o conforto de que preciso por agora. Não quero voltar àquela vida, Olivia. Jurei que nunca faria isso. Acariciei o braço dele. — E tenho certeza de que você nunca vai voltar. Você passou por muita coisa para permitir que aquilo acontecesse de novo. Olhei para o meu relógio e percebi que estava atrasada. — Merda, sempre faço isso! Marcus deu risada. — Sinto muito, querida. Foi tudo culpa minha. Levantei-me, apressada. — Você também vem? Marcus assentiu, sorrindo. — Eu não perderia por nada.

***


O dia foi lento, quase como se ninguém quisesse comer. Como se, de repente, comer tivesse se tornado algo desnecessário. Não ajudou em nada o fato de que todas as pessoas com quem eu me importava, tirando Marcus, não estivessem aqui. Meio que imaginei que Kit não apareceria porque provavelmente ainda estava de mau humor por causa de ontem à noite. Mas como eu poderia saber? Eu não sabia nada sobre esse cara frustrante. Sabia algumas coisas básicas, mas não era o suficiente. Mas, por algum motivo, eu sabia que podia confiar nele. Não sabia ao certo por quê, apenas sabia que podia. Apesar do que aconteceu na noite passada, eu sabia que ele nunca teria me pressionado. Eu só queria saber o que se passava na cabeça dele. Queria saber o que ele sentia. As emoções dele pareciam estar à flor da pele na noite passada, mas ele só as deixou transparecer em suas ações. Era estranho. Geralmente, as pessoas afirmam que palavras não são suficientes, mas eu bem que queria ouvir algumas palavras agora. Palavras eram minhas melhores amigas no momento. Adoraria ouvir algumas vindas de Kit. Se ao menos ele se abrisse para mim. Não sei por quanto tempo fiquei em transe, parada ali perto da comida, mas recobrei os sentidos quando meu celular tocou. Limpei as mãos no avental e tirei o telefone do bolso. Era um número local, mas não o reconheci. — Alô? — Olivia! Meu coração disparou. — Thomas? Thomas, é você? Onde você está? — Ouvi um arrastar de cadeira e vi Marcus correndo na minha direção, uma expressão preocupada no rosto. — Estou na Church Street, na esquina da Wilkins. Acho que encontrei a Rachel. Olhei para Marcus. — Tudo bem, Thomas. Espere aí. Já estou indo. Desliguei o telefone e Marcus estava parado na minha frente, esperando para que eu dissesse alguma coisa. — Thomas está na Church Street, na esquina da Wilkins. Você sabe


onde é? Marcus assentiu. — Fica a uns dois quilômetros daqui. Tirei o avental e o pendurei no gancho que ficava no corredor. Marcus me seguiu o tempo todo. — Você vem comigo? Ele abriu um meio-sorriso. — Não preciso nem responder. Assenti e chamei Tammy. Ela surgiu, parecendo mal-humorada, e encarou Marcus. — Preciso ir embora. Você consegue lidar com as coisas sozinha? Não está muito movimentado, de qualquer forma. Tammy soltou um suspiro exasperado. — Consigo, né. Nem me dei ao trabalho de responder. Peguei minhas coisas e saí às pressas com Marcus. — Ela é um doce, não é? — brincou Marcus. Meneei a cabeça, sorrindo. — Nem comece. Segui Marcus porque ele sabia exatamente onde estava indo. Eu ainda não conhecia todos os bairros. Conhecia os principais, mas, de resto, ainda ficava meio perdida. Demorou uns vinte e cinco minutos para chegarmos lá, mas assim que dobramos a esquina da Wilkins Street, avistamos Thomas. — Merda, Olivia. Sinto muito. Corri até ele, levantando as mãos para tentar acalmá-lo. — O que houve, Thomas? O que foi? Ele mordiscou a unha, afobado. — Eu ainda não sabia quando liguei para você.


Franzi o cenho. — Não sabia o quê? — Fiquei sabendo onde Rachel poderia estar e, no caminho, encontrei essa cabine telefônica — Ele apontou para a cabine telefônica na esquina. — Então, quando você falou que estava vindo, fui até ali procurar Rachel — Ele apontou para um depósito a alguns metros de distância. — Você a encontrou? De repente, Thomas parecia prestes a vomitar. Ele assentiu e sussurrou: — Encontrei. Saí caminhando em direção ao depósito, determinada a chegar até Rachel e ver se estava tudo bem com ela. — Olivia! — gritou Thomas atrás de mim. — Olivia, é melhor você não ir até lá. Não dei ouvidos e segui apressada em direção ao depósito. Se Rachel estivesse precisando de mim, eu estaria lá para ajudá-la. — Olivia! Por favor! Continuei correndo até chegar à entrada do depósito. Tudo estava no mais absoluto silêncio. Nenhum som preenchia o ar. Entrei, um calafrio percorrendo meu corpo. Algo me dizia que havia algo errado ali, mas minha necessidade de ver Rachel era maior que meu temor. Adentrei ainda mais e vi duas garotas em um colchão. Estavam parcamente vestidas e parecia que não tomavam banho há semanas. As duas estavam visivelmente drogadas, os olhos vidrados e sem foco. Olhei para a esquerda e vi um homem negro, na casa dos quarenta anos, sentado e sorrindo. Quando me viu, disse: — E aí, gracinha? Quer foder? — Ele riu de novo e lambeu os lábios, mas eu o ignorei e segui em frente. Segui por um corredor e me deparei com duas pessoas transando. Um homem em cima de uma garota jovem. Ela parecia não ter nem dezessete anos, mas estava visivelmente drogada. O homem estava gemendo e grunhindo, mas a garota estava sem expressão. Ela parecia nem se dar conta de que eu


estava parada ali. Os olhos dela se reviraram e o homem continuou o que estava fazendo. Segui em frente. Queria ir embora, mas também queria me certificar de que Rachel estava bem. Avistei uma escada e estava prestes a subir por ela quando senti uma mão segurando meu braço. Arfando, virei-me e vi Thomas e Marcus parados ali, ambos sem fôlego. Thomas olhou em direção às escadas. — Você não deveria subir ali. O homem que estava transando com a garota soltou um gemido alto, e, depois, tudo ficou em silêncio. Parecia que eu estava na porra de um pesadelo. Thomas olhou naquela direção, parecendo enojado. — Esse lugar não é para você. Desvencilhei meu braço da mão dele. — Também não é lugar para você, Thomas, mas você continua aqui. — Ele suspirou e eu subi as escadas com os dois ao meu encalço. — Olivia, você realmente não devia subir aí. Por favor. Subi as escadas correndo antes que eles pudessem me impedir e adentrei outro cômodo enorme. Vi um casal dormindo em um canto, e algumas pessoas fumando algo que provavelmente era ilegal. Agulhas e camisinhas usadas estavam jogadas por todo lado. O cômodo fedia, mas resisti ao ímpeto de vomitar. Dei alguns passos à frente e avistei Rachel. Estava deitada de bruços em um colchão velho e sujo, uma agulha espetada no braço. Os olhos estavam arregalados e a pele, pálida. Comecei a correr em direção a ela, mas Thomas me impediu. — Rachel! — gritei, mas ela não se mexeu. — Rachel! — gritei novamente, tentando me aproximar dela, mas Thomas e Marcus me seguravam. — Me larguem! Preciso ajudá-la! Rachel! Tentei me soltar dos dois, mas eles não permitiram. — Ela precisa de ajuda. Me soltem! Por que vocês não me soltam?


A minha respiração estava entrecortada e meus olhos se encheram de lágrimas quando percebi que ela não estava se movendo e, provavelmente, já estava imóvel há algum tempo. Thomas me puxou para perto dele. — Olivia, ela está morta. Sinto muito, mas ela está morta. Afundei-me nos braços dele e gritei. Meu corpo todo começou a tremer enquanto soluços intensos escapavam de meus lábios. Observei os olhos sem vida da mulher que havia perdido a filha exatamente dessa maneira. Era difícil de assimilar. Difícil vê-la desse jeito. Quando observei aqueles olhos sem vida, iguais aos do meu pai, virei-me e agarrei-me à jaqueta de Thomas. Eu soluçava enquanto ele afagava meu cabelo. — Está tudo bem, Olivia. Estou aqui. Sinto muito. Eu não deveria ter deixado você vir até aqui. Ele me abraçou até que meus soluços diminuíssem. Atrás de mim, Marcus pousou uma mão em meu ombro e eu me virei para abraçá-lo. Sabia que Marcus tinha passado por muita coisa e imaginei que tanto ele quanto eu precisávamos de um abraço naquele momento. — Sinto muito, docinho. Você não deveria ter visto isso. Funguei e olhei para ele. — Por que ela fez isso? A filha dela fez a mesma coisa. Por que, Marcus? Por quê? Ele meneou a cabeça, parecendo abatido. — Eu não sei. Em circunstâncias graves como essas, acho que as pessoas fazem coisas que normalmente não fariam. Ela obviamente estava muito mal para ter feito o que fez. Suspirei, resignada por entender o que ele estava querendo dizer. Eu também fiz coisas idiotas quando estava desesperada e depressiva. Parecia irracional agora, mas, naquela época, parecia a coisa certa a se fazer para pôr um fim ao meu desespero. — Nós precisamos chamar a polícia. Virei-me para Thomas e assenti. — Você tem razão. Não apenas por Rachel, mas também por causa


daquelas pobres garotas lá embaixo. Elas são apenas crianças. Thomas assentiu. — Eu sei. É uma pena. Funguei novamente e peguei meu celular. Fiz a ligação e fiquei esperando do lado de fora até a polícia chegar. Não queria ficar naquele depósito por mais nem um segundo sequer. Quando a polícia apareceu, o corpo de Rachel foi levado e um policial se aproximou de mim. — Você é Olivia? A pessoa que ligou? Assenti e ele me deu um sorriso tranquilizador. — Só preciso perguntar algumas coisas. Como você conheceu Rachel Williams? Expliquei a ele que eu trabalhava no refeitório comunitário e que ela não aparecia há alguns dias. Contei a ele que Thomas ligou para mim quando descobriu uma pista sobre a localização de Rachel. — Ela deixou um bilhete para você. Olhei para os olhos azuis escuros do policial. — Deixou? O policial levou a mão ao bolso, pegou um saco plástico de pôr evidências e o entregou para mim. Com a mão trêmula, peguei o saco plástico.

Olivia, Por favor, não fique triste por minha causa. Estou com ela agora. Bj R

Solucei quando devolvi o bilhete para o policial. — Sinto muito, moça. Eu imagino que isso deve ser muito difícil


para você. Vocês eram muito próximas? Neguei com a cabeça. — Não muito. Eu só a conhecia há algumas semanas. Acho que o que acontece é que eu trabalho com pessoas que passam por tanta dor e sofrimento que uma conexão se forma instantaneamente. Não sei se faz sentido, mas sinto que é isso que acontece. O policial assentiu com um sorriso reconfortante. — Eu entendo — Ele parou por um momento. — Você sabe o que ela quis dizer com “Estou com ela agora”? Assenti. — A filha dela morreu do mesmo jeito. — Meneei a cabeça. — Que desperdício. O policial assentiu. — Concordo com você. Esse trabalho não é nada fácil às vezes. Então, eu me lembrei das adolescentes. — E as garotas que estavam lá dentro? Elas pareciam tão jovens. O policial suspirou. — Sim. Elas são fugitivas. A mais nova tem quinze anos e está sumida há duas semanas. Tenho certeza de que logo ela estará reunida com os pais. É uma pena ela estar tão drogada a ponto de nem saber o que está acontecendo. Ele balançou a cabeça, parecendo desanimado, e olhou para mim. — Bom, de qualquer forma, obrigado por ter ligado, Olivia. Meu nome é Gareth. A gente se vê por aí. Ele deu uma piscadela e se afastou. — Mais um de seus admiradores? Sobressaltei-me e vi Marcus atrás de mim, sorrindo. — Ah, não seja bobo — ralhei com ele, mas, então, Gareth olhou para trás, sorriu e acenou enquanto entrava no carro. Marcus arqueou uma sobrancelha.


— É sério isso? Virei-me para ele. — Você e Thomas vão ficar bem? Olhei por sobre o ombro dele e vi Thomas conversando com uma policial. Ela disse alguma coisa, ele deu risada e piscou para ela. Virei-me para Marcus, que estava balançando a cabeça. — Ah, eu acho que o Thomas vai ficar muito bem. — Ele ficou sério. — E você? Suspirei. — Vou sentir saudade de Rachel. Não a conhecia tão bem assim, mas sei que ela tinha uma alma boa. Só lamento não ter tido mais tempo antes que ela se fosse. Marcus pousou a mão sobre o meu ombro. — Tudo acontece por um motivo, Olivia.


CAPÍTULO CATORZE

Eu estava deitada na cama, chorando baixinho, quando senti o colchão afundar. Dois braços me envolveram e abraçaram-me com força. Deslizei pelo colchão para pressionar meu corpo contra o dele. Eu precisava ficar o mais perto possível. Antes de voltar para casa, meus nervos estavam à flor da pele. Fiquei com uma vontade incontrolável de entrar em uma loja de conveniência e comprar uma garrafa de Jack Daniels. O desejo me consumiu de tal forma que quase considerei ligar para Titio. Eu sabia que se fizesse isso, não dormiria na minha cama esta noite. Dormiria na casa, onde ele queria que eu estivesse. Fechei os olhos e fiquei deitada ali, sentindo o cheiro dele. Depois de alguns minutos de silêncio, decidi perguntar: — Você ficou sabendo? Senti seu hálito quente contra minha orelha. — Fiquei. — Seus braços me envolveram ainda mais. — Eu sinto muito, Olivia. Eu não sabia se ele sentia muito pelo que aconteceu na noite passada, por Rachel ou pelas duas coisas. Virei-me para olhar para ele. — Eu sinto muito. Pude ver a tristeza e o sofrimento estampados em seus olhos e não consegui evitar a lágrima que escorreu pelo meu rosto. Levei a mão em direção ao rosto dele para acariciar a barba e assenti com a cabeça. — Tudo bem, Kit. Está tudo bem. Ficamos daquele jeito por um momento, apenas olhando um para o outro enquanto eu acariciava a bochecha dele. Dava para notar que ele estava desesperado para falar comigo. Sobre o que, eu não sabia. Mas havia medo em seus olhos. Eu queria tirar esse medo dele. Deslizei a cabeça pelo travesseiro e rocei meus lábios contra os dele. Kit inspirou e prendeu a respiração enquanto eu plantava outro beijo


suave em seus lábios. Afastei-me e olhei fixamente em seus olhos. Não sabia ao certo o que eu estava procurando, mas precisava saber que ele estava bem. Que nós estávamos bem. — Eu não sei como lidar com meus sentimentos quando estou com você. Você me assusta. Meus olhos se arregalaram diante da confissão dele. — Eu te assusto? Ele assentiu, fechando os olhos. — Eu sabia que estava agindo como um babaca ontem, mas não consegui evitar. Nunca tive que lidar com isso antes. Eu nunca me importei com ninguém antes de você. Quando eu vi o que ele estava fazendo com você, agi por impulso. Mas quando você me mandou parar... — Ele cerrou os olhos. — Olivia, algo estalou dentro de mim. Eu me senti como aquele Freddy do beco. — Eu estremeci. — Eu sinto muito. Percorri o rosto dele com os dedos. — Não precisa se desculpar. Você não é como o Freddy. Você jamais faria o que ele fez. Você nunca agiria sem meu consentimento. Eu sei disso. Sempre soube disso. Kit suspirou. — Você não deveria querer me conhecer melhor, Olivia. Você deveria me afastar. Por favor. Peça para que eu vá embora da sua casa, porque eu acho que não consigo fazer isso sozinho. Neguei com a cabeça. — Não. Ele pressionou a testa contra a minha. — Por favor. — Não posso. Eu não quero perder você, Kit. Eu amo você. Vi suas narinas se inflarem e pensei que ele ficaria bravo com a minha confissão. Eu não sei por que disse aquelas palavras que, muito provavelmente, iriam afastá-lo de mim. Elas simplesmente escaparam. Mas a parte mais esquisita é que pareceu tão certo. Eu nunca havia dito aquilo para ninguém, então, pensei que a primeira vez seria dolorosa. Mas, com Kit, tudo


parecia simples. Pensei que ele se levantaria e iria embora, mas fiquei surpresa quando ele se aproximou e pressionou os lábios contra os meus. Como não me afastei, Kit me deu outro beijo, mas esse foi mais intenso e apressado. Logo, nossas línguas estavam entrelaçadas em uma dança erótica e lenta, nossa respiração ficando cada vez mais ofegante. Senti meu corpo zumbindo de desejo e deslizei os dedos pelos seus longos fios de cabelo e os agarrei com força. Gemi, incapaz de esconder meu desejo por ele. Kit se afastou de repente, deixando-me grunhindo de desgosto. — Quero agir da maneira certa com você. Gemi novamente, sentindo seu membro duro pressionado contra minha barriga. — Kit, por favor. Você está agindo da maneira certa. Por favor, não pare. Ele deslizou a mão por baixo do meu pijama e apalpou meu seio. Gemi mais uma vez e arqueei as costas. — Quero ser capaz de te dar prazer. Eu estava praticamente derretida e ele estava preocupado em ser capaz de me dar prazer? Será que meus gemidos não eram suficientes? — Não pare. Continue, Kit. Preciso de você. Ele pressionou o corpo contra o meu, fazendo-me arfar, e plantou beijos demorados no meu pescoço e no meu peito. — Faz dez anos, Olivia. Não tenho certeza se consigo... Coloquei meu dedo em frente aos seus lábios para interrompê-lo. Em parte, porque eu estava chocada, mas também porque ele ousou pensar que eu não o queria. — Shh, Kit. Por favor. Você sabe o que fazer, vai acontecer naturalmente. Ele me encarou, ofegante. Parecia estar incomodado com alguma coisa. Por fim, confessou:


— Acho que não vou conseguir durar muito tempo. Ah. Como é que fui tão idiota? O coitado do Kit estava tentando me dizer que se sentia inadequado e eu ficava interrompendo. Mal sabia ele que não precisava se preocupar com nada. Ele conseguia fazer todo o meu corpo estremecer com apenas um toque. Segurei o rosto dele entre minhas mãos e abri um sorriso. — Você realmente acha que eu me importo com isso? Kit, isso não é sobre quanto tempo você consegue durar enquanto nós transamos. É sobre como eu me sinto quando você me toca. É sobre a conexão que nós dois temos. Será que você não consegue ver como eu quero isso? Será que não consegue ver como eu quero você? Se você me abandonasse agora, o meu mundo iria por água abaixo. Se existe alguma coisa sobre a qual eu tenho certeza em minha vida, essa coisa é você. Sem dizer mais nada, Kit se apossou de minha boca. Desabotoou meu pijama lentamente e o abriu. Meu peito ficou exposto, deixando meu mamilo intumescido à mostra. Kit se inclinou e o abocanhou. Gemi de novo e enfiei a mão em seus cabelos. Esse homem, esse homem inseguro, não fazia ideia de como meu desejo crescia com apenas um toque dele. O fogo dentro de mim estava aumentando. Eu sabia que apenas um toque lá embaixo seria o suficiente para me fazer gozar mais rápido do que ele. — Kit, por favor. — Eu estava implorando agora, mas nem sabia o porquê. Só queria que ele continuasse. Que não parasse. Que me tomasse para ele. Kit tirou minha camisa e, depois, minha calça. Eu estava completamente nua, mas Kit ainda estava de jeans e com uma camiseta cor-derosa. Por um momento, ficou parado me encarando. Seus olhos percorreram meu corpo como se quisessem me assimilar por completo. Quando os olhos repousaram sobre meus braços, hesitei um pouco. Com os olhos semicerrados, Kit pegou meu braço e analisou as pequenas cicatrizes. — Quem fez isso com você? — Virei a cabeça, envergonhada, mas Kit segurou meu rosto. — Olivia, quem fez isso com você? — Fui eu. — Minha voz saiu quase como um sussurro. Não queria admitir minha fraqueza para ele. Não queria que ele me julgasse e me achasse


patética e fraca. Eu era uma pessoa diferente agora. — Por quê? — Fiquei surpresa ao notar a gentileza em sua voz. Ele não estava exigindo uma resposta. Estava apenas perguntando. — Porque eu conseguia lidar melhor com a dor física do que com a emocional. — Kit estremeceu diante de minhas palavras, então, acariciei suas bochechas com suavidade. — Kit, quem fez isso foi uma pessoa da qual eu me envergonho. Não é a pessoa que sou hoje. Sou uma pessoa diferente agora. Kit suspirou, mas não em exasperação. Foi quase como se estivesse sofrendo por descobrir essa parte do meu passado. Um passado que eu sonhava em esquecer. Um passado que eu desejava que não tivesse me sido imposto. — Você não deveria ter precisado passar por isso, Olivia. Queria muito poder tornar as coisas melhores. Arfei. — Você ainda não entendeu? Você torna as coisas melhores, Kit. Só de estar com você, eu já me sinto melhor. Pressionei meus lábios contra os dele e me virei para subir no colo dele. Tirei a sua camiseta e tentei desabotoar a calça jeans. — Olivia... — começou ele, interrompendo-me. — Eu não tenho camisinha. Nunca precisei de uma. Abri um sorriso. — Eu tomo anticoncepcional. Também nunca precisei deles. Eu só transei com uma pessoa, uma vez, e nós usamos camisinha. Seu olhar se fixou no meu rosto. — Você não quer usar camisinha? Como eu conseguiria explicar a ele o quanto eu queria ter uma conexão com ele? O quanto eu desejava ficar o mais perto dele possível? Sem nada entre nós. — Eu nunca soube o que era ser amada antes. Você faz com que eu me sinta amada a cada toque, Kit. Eu quero senti-lo o máximo que puder. Isso faz sentido? A não ser que você esteja querendo me dizer alguma coisa. Ele meneou a cabeça.


— Eu nunca fiz sem camisinha. Sempre usei. Fiquei chocada de como essa informação conseguiu fazer meu estômago se contorcer. Nunca havia sentido ciúmes antes. Então, essa é a sensação? É uma droga! Tentando deixar o passado dele para lá, peguei sua mão e a levei até o meu seio. — Posso ir comprar camisinha se você quiser — Abri um sorriso descarado e ele retribuiu. Nunca vou me cansar do sorriso dele. Aqueles sorrisos sempre deixavam o meu coração mais leve. — Acho que eu não ia aguentar ver você de roupa novamente. Uma onda de calor foi direto para o meio das minhas pernas. Não tinha me dado conta de como algumas poucas palavras eram capazes de me fazer estremecer. — Você está bem? Você está tremendo. Sorri, pensando em como era fofo ele ser tão obtuso em relação ao efeito que causava em mim. — Você me faz tremer, Kit. Você me faz estremecer de desejo e vontade. Estou tremendo porque se eu não senti-lo logo, sinto que vou explodir — Dei uma risada e Kit me envolveu em seus braços. Logo, nossos corpos estavam pressionados. Eu podia sentir como ele estava duro e minha risada imediatamente cessou. — Kit, preciso de você — suspirei, mordendo os lábios dele. Kit grunhiu, virando-me de costas e enfiando a língua na minha boca. Gemi novamente, em um desespero lascivo por ele. Nunca havia sentido tanto desejo antes. Kit se despiu com rapidez, tirando a calça jeans e a jogando no chão do quarto, juntamente com sua cueca. Fiquei deitada de costas, maravilhada diante da beleza dele. A sua pele era macia e perfeita, os músculos flexionados enquanto ele se posicionava em cima de mim. As tatuagens se destacavam, combinando com sua força crua e pura. Ele não era musculoso demais. Era exatamente como eu imaginava meu homem ideal. Tudo em relação a ele era perfeito.


Arfei enquanto meus olhos percorriam o seu abdômen. Kit ficou preocupado. — O que foi? Engoli em seco, imaginando como é que eu ia conseguir lidar com isso. Não conseguia parar de olhar para aquilo. Sem pensar duas vezes, apontei. — É... É tão grande. Kit deu risada. Eu teria me deleitado com esse som, mas a visão daquela arma de prazer em massa voltada diretamente para mim era assustadora. Engoli em seco novamente, ficando com a garganta seca. — Não sei se eu consigo... Ai, céus. Kit de moveu adiante, pairando sobre mim. Ergui os olhos para encontrar o olhar dele. Ele estava tão lindo. Seus olhos deixavam transparecer milhares de emoções. Eu conseguia enxergar a dor. Conseguia enxergar a felicidade. Conseguia enxergar a dúvida. Mas, principalmente, eu conseguia enxergar o desejo. Ele queria que isso acontecesse tanto quanto eu. Então, simples assim, esqueci-me da sua máquina de prazer em massa e me concentrei em seus olhos. — Eu prometo que serei gentil. Sério. Se você quiser que eu pare, é só falar, tá bom? Não posso agir de outra maneira, Olivia. Já faz tanto tempo. Engoli em seco, afastando o nervoso, e assenti. — Tudo bem. Kit me beijou novamente e se deitou ao meu lado. E, dessa forma, me derreti e parei de me importar com o tamanho do seu membro. Só queria-o dentro de mim. Ele interrompeu o beijo e eu queria sua boca de volta à minha, mas, então, ele começou a chupar os meus mamilos e todos os meus pensamentos se focaram nisso. A sua boca e sua língua contra o meu corpo causavam uma sensação tão boa. Toda vez que ele acertava o lugar, eu não conseguia evitar que minhas costas se arqueassem e que minhas mãos fossem de encontro ao cabelo dele. Com a boca ainda em meu seio, a mão de Kit percorreu meu corpo até chegar à minha buceta. Ele deslizou o dedo por entre meus grandes lábios e eu me sobressaltei com a onda de prazer.


— Desculpe. Eu te machuquei? Eu mal conseguia respirar, a sensação era tão boa. — Não — respondi, sem fôlego. — Por favor, não pare. Kit sorriu e deslizou o dedo mais para baixo, enfiando-o dentro de mim. Arqueei as costas, gemendo. — Ai, meu Deus! Kit! — gritei quando ele retirou o dedo e começou a estimular o meu clitóris. Sua boca estava sobre meu mamilo novamente e ele se alternava entre enfiar o dedo e circulá-lo no meu clitóris encharcado. Aquela sensação familiar estava aumentando a cada segundo. Meu corpo estava retesado e rígido com a iminência do orgasmo. — Kit! — gritei novamente, sabendo que eu estava prestes a gozar. Kit acelerou o ritmo e gemeu enquanto deslizava a língua sobre o meu mamilo. Chegou a hora. Gritei o nome dele, agarrando os seus cabelos com uma mão e o lençol com a outra. Meu corpo estremeceu e minha respiração saiu entrecortada. Meus mamilos estavam duros e sensíveis enquanto Kit deslizava a língua vagarosamente sobre um deles. Ele permitiu que eu acalmasse minha respiração acelerada e me encarou com uma expressão de puro amor. Era isso que parecia para mim. Era assim que ele sempre fazia com que eu me sentisse. — Você é tão linda. Uau. Sempre que eu pensava que ele não poderia dizer algo melhor, ele ia lá e provava que eu estava errada. Quanto mais ele se abria para mim, mais eu me apaixonava por ele. Kit içou o corpo para cima e eu senti algo molhado contra minha coxa. Pensei que ele já tinha gozado, mas ele me olhou, sorrindo. — É fluido pré-ejaculatório. Olhei para ele, confusa. — O quê? Ele sorriu.


— Você nunca ouviu falar disso? Enrubesci, envergonhada. Eu não sabia nada sobre sexo, a não ser o que nos ensinavam na escola e o que aprendi naquela minha primeira vez atrapalhada. Havia aquelas vezes com Titio, que mais pareciam sonhos, em que eu via um líquido saindo de seu pau, mas eu não sabia o que era aquilo. — Por favor, não fique envergonhada, Olivia. Sua inocência é bem sexy. Arregalei os olhos. — Sexy? Como é que minha inexperiência pode ser sexy? Kit franziu o cenho. — Será que devo te fazer a mesma pergunta? Fechei os olhos, sentindo-me uma idiota. — Foi mal, Kit. Não foi o que eu quis dizer. É só que... Eu só sei o que aprendi com aquela minha primeira vez, e nem foi algo tão memorável assim. Tudo de que me lembro é um monte de dor e grunhidos. Kit fez careta. — Ele te machucou? Neguei com a cabeça. — Não de propósito. Eu era virgem, mas acho que ele não se tocou até que a transa tivesse acabado e ele visse o sangue. Afastei o olhar, envergonhada, mas Kit segurou o meu rosto com a mão e me fez olhar para ele. — Não é assim que sexo deve ser. Quando é feito da maneira certa, você deve aproveitar a experiência. É sobre prazer, amor e a diversão de fazer uma pessoa se sentir bem. Nunca deveria ser sobre dor. Olhei em seus olhos, procurando algo ali, mas não consegui encontrar nada. — Sexo era algo prazeroso para você? — Engoli em seco, perguntando-me por que fiz aquela pergunta. É óbvio que era prazeroso para ele. Naquele momento, senti-me uma idiota, mas Kit suspirou e negou com a cabeça.


— Não, não era. Sexo era prazeroso para mim, mas não no sentido que você perguntou. Era sempre muito agressivo, muito grosseiro. Sexo para mim era sempre sobre extravasar. Nunca era sobre amor. Nunca sobre a conexão entre duas pessoas. Era sempre rude e enérgico, e eu sempre ficava me sentindo vazio no final. Fiquei triste por ele e, tenho que admitir, fiquei me sentindo inadequada de novo. Quem era rude e enérgico daquele jeito? Por um lado, aquilo me excitava; por outro, eu sabia que não queria um relacionamento como aquele. — Não quero que você se sinta assim comigo. Minha vulnerabilidade devia estar visível, porque Kit me beijou com suavidade. — Eu já sei que não vai ser assim com você, Olivia. — Ele acariciou o meu rosto. — Quando fizermos isso, não vai ser apenas sexo. Eu quero fazer amor com você. Engoli o nó na minha garganta e abri um sorriso. Eu estava pronta para ele. Eu queria isso tanto quanto ele. — Eu também quero fazer amor com você. Ele se abaixou para me beijar e posicionou seu corpo contra o meu. Quando seu pau estava pressionado contra minha virilha, Kit olhou para mim. Eu assenti e senti quando ele deslizou seu membro para dentro de mim. Eu gemi e ele parou. — Está tudo bem? Não estou te machucando, estou? Neguei com a cabeça. — Não, Kit. Por favor, continue. Kit sorriu e deslizou seu membro um pouco mais fundo. Ele era tão grande. Parecia que estava abrindo caminho dentro de mim... de um jeito bom. Acho que o fato de eu estar tão molhada ajudou. Estava tornando a sua jornada para dentro de mim mais fácil. — Olivia, isso é tão bom. Vi o olhar de prazer estampado em seu rosto quando ele olhou para mim. Aquilo fez meu desejo aumentar ainda mais.


— Mais, Kit. Quero mais. Por favor. Ele não hesitou. Kit deslizou seu membro completamente para dentro de mim e, então, parou. Ficou daquele jeito por um momento, pressionando sua testa contra a minha. Nossa respiração estava ofegante. — Preciso de um tempo — declarou Kit, fechando os olhos. A respiração estava ofegante e eu conseguia sentir seu hálito quente no meu rosto. Vi quando ele engoliu em seco e meu desejo aumentou diante daquele gesto. Será que estar dentro de mim o deixava daquele jeito? Eu esperava que sim. Mal tive tempo de pensar nisso direito quando vi uma lágrima escorrendo pelo seu rosto. — Kit, o que houve? Eu fiz alguma coisa errada? Ele negou com a cabeça e abriu os olhos. — Jamais, Olivia. Você jamais fará algo errado. É só que eu sinto que, com você, eu posso voltar a ser alguém. Dei um sorriso e acariciei o rosto dele. — Kit, você é alguém. Entendeu? Sempre foi alguém. Kit olhou para mim e assentiu. Então, deu uma arremetida leve e eu não consegui evitar que um gemido escapasse dos meus lábios. — Você está bem? Assenti. — Meu Deus. Se estou bem? Não quero que você pare. Ele abriu um sorriso, mas quando deu outra arremetida, o sorriso desapareceu. Ele fechou os olhos e grunhiu. A expressão estampada em seu rosto foi o suficiente para fazer o meu corpo se aproximar de outro orgasmo. Eu não conseguia me cansar desse homem. A princípio, suas arremetidas eram lentas, mas, então, ele aumentou o ritmo. Sem que nos déssemos conta, já estávamos gemendo e ofegando. Senti-lo dentro de mim era extraordinário. Era como se ele tivesse sido feito só para mim. A cada arremetida, uma sensação se agigantava dentro de mim, diferente de tudo que eu já havia sentido. Estava em êxtase e não queria


que aquilo parasse. — Sinto muito, Olivia. Vou gozar em breve. As palavras dele, juntamente com sua respiração ofegante e seu corpo pressionado contra o meu, foram o suficiente para me fazer derreter. Arranhei as costas dele e gritei o seu nome. Kit grunhiu e começou a dar arremetidas mais rápidas. Antes que eu me desse conta, ele estava deitado sobre mim e nós estávamos tentando acalmar nossa respiração ofegante. — Isso foi... Isso foi... — Eu estava sem palavras. Parecia que não era mais capaz de falar. Kit olhou para mim, sorrindo. — Eu sei. — Ele fixou seu olhar no meu rosto por um momento. — Você é uma mulher incrível, Olivia Brown. Arfei quando ele disse meu nome completo. Bom, quase completo. — Você sabe meu nome completo? Ele abriu um sorriso. — Vi uma vez em uma correspondência que chegou para você. Assenti. — Provavelmente era uma conta. É o que eu costumo receber — Dei risada. — Então, quer dizer que você estava me espionando, Kit Chain? Ele franziu o cenho. — Não estava espionando. Só queria saber mais sobre você. Queria saber por que você parece tão assustada às vezes. Queria saber por que você tem pesadelos sobre seu pai. Queria saber o que te causou tanta dor a ponto de você se automutilar. Não gosto de vê-la sofrer. Quando você sofre, eu sofro também. Sorri e senti as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. — Vou contar a você, Kit. Prometo. Mas não agora. Podemos apenas aproveitar o momento? O aqui e agora? Isso é tudo que importa para mim. Não o que aconteceu comigo no passado. Isso aqui, isso que está acontecendo agora, é o que me faz feliz. Kit olhou dentro dos meus olhos por um instante e assentiu. — Eu quero fazê-la feliz.


Dei risada diante do absurdo do que ele havia falado. — Mas você já faz. Pela primeira vez na minha vida, sinto que posso ser feliz. O meu lado egoísta precisa disso e, se você estiver sendo honesto consigo mesmo, acho que você também precisa. Acariciei o rosto dele e percorri o lábio com o meu dedo. Kit abriu um sorriso. — Preciso sim. Percorri o rosto dele com os olhos e acariciei sua barba. — Como é o homem embaixo desta máscara, Kit? Quais histórias ele pode contar? Kit suspirou. — Nenhuma da qual eu sinta orgulho. Eu gostaria de poder contar a você, mas tenho medo de te perder. Neguei com a cabeça. — Nada que você diga vai fazer com que eu me afaste. Lembre-se disso, Kit. Por favor. — pedi, implorando com meus olhos. — Todos nós temos um passado obscuro. Eu jamais seria capaz de julgá-lo depois de tudo que você sabe sobre mim. Ele negou com a cabeça e uma expressão de dor tomou conta de seu rosto. — Você não sabe o que eu fiz. Suspirei. — Não, mas tenho uma ideia do que possa ter sido. E, ainda assim, cá estamos, você deitado em cima de mim. O que, aliás, é uma delícia. Kit sorriu e deu uma arremetida suave. — Uma delícia, é? Senti seu membro se agigantar dentro de mim e arfei. Kit arqueou a sobrancelha. — Você está de...? — perguntei e ele assentiu. — Rápido assim? Ele assentiu novamente.


— Olivia, já faz tempo demais. Eu tenho muito tempo perdido a recuperar. Espero que você não se importe. Abri um sorriso diante do olhar malicioso estampado em seus olhos. — Eu não me importo. Ele deu outra arremetida, fazendo-me suspirar. Não, eu não me importava. Não me importava nem um pouquinho.


CAPÍTULO QUINZE

— Livy, você tem mesmo que continuar envergonhando seus pais desta maneira? Estremeci. Odiava quando minha mãe usava o apelido que Titio usava para me chamar. Ela começou a usá-lo depois de ouvi-lo me chamar daquela maneira. Ela sempre sorria e me tratava gentilmente quando Titio estava por perto. Às vezes eu pensava que ela gostava dele. Mas eu ficava feliz sempre que ele a ignorava. Em vez de dar atenção a ela, ele se focava em mim. Minha mãe parecia não gostar muito disso, o que fazia com que eu gostasse ainda mais. — Endireite-se! Sua postura é uma desgraça. Não te criamos para ser desleixada assim. Você deve se portar como uma dama. Um dia, um bom homem vai se interessar por você e não quero que você aja dessa maneira. Suspirei, extravasando meu descontentamento. De vez em quando, minha mãe era tão ruim quanto meu pai. Tudo com o que eles se importavam era como a família pareceria aos olhos do público. Como agora mesmo. Estávamos em outro evento beneficente, cercados por uma quantidade desnecessária de guarda-costas. Eu não entendia qual era o sentido daquilo. Eu tinha catorze anos e sabia que corríamos certo grau de perigo por causa de quem éramos, mas isso aqui? Isso estava ultrapassando os limites. Eu tinha a sensação de que meus pais adoravam isso, porque atraía mais atenção para eles e os faziam parecer mais importantes. Neste momento, meu pai estava conversando com pessoas muito importantes, cercados por três guarda-costas. A paranoia dele estava saindo do controle. Eu, por exemplo, não me importava com nada disso. Às vezes, tudo que eu queria era sair correndo e nunca olhar para trás. — Livy, se você não se endireitar, vou falar para o seu pai que você não está se comportando como deveria. Entendeu? — ameaçou ela entredentes, sabendo que sua ameaça funcionaria. Fiz o que ela pediu, endireitando-me, usando um vestido à la Alice no País das Maravilhas. Eu odiava vestir aquilo, mas não tinha direito de opinar no meu próprio guarda-roupa. Ou eu usava o que eles queriam, ou era punida.


— Sorria — grunhiu ela quando o vice-presidente veio em nossa direção. Então, eu abri um sorriso idiota, um sorriso forçado. Não queria estar aqui. Tudo o que minha mãe queria era atenção e eu, francamente, não dava a mínima. — Vice-presidente Thorpe, que bom vê-lo novamente. Thorpe abriu um sorriso e aproximou-se para cumprimentá-la com um beijo no rosto. — E é ótimo vê-la também. — Ele olhou para mim. — E esta é Olivia. Como ela está crescida. Já é praticamente uma mulher. Enrubesci, sorrindo com doçura enquanto ele me dava um beijo no rosto. Eu queria vomitar. Odiava toda essa merda narcisista. Quando Lorde Manderville apareceu, eu já estava cansada e queria descansar. Conseguia ver Titio do outro lado do salão e, vez ou outra, ele olhava para mim e sorria. — Olivia, que bom vê-la novamente. Você está simplesmente maravilhosa. — Lorde Manderville me lançou um olhar lascivo. Fiquei instantaneamente desconfortável. A risada de minha mãe encheu o ar. — Lorde Manderville, assim ela vai ficar convencida. Ele sorriu para minha mãe. — Ela puxou a você, Beatrice. Então é natural que ela seja linda. Ela tem seus adoráveis cabelos louros e os olhos azuis. É de tirar o fôlego. Ele percorreu meu corpo com os olhos, fazendo-me estremecer. Fiquei chocada, tentando entender como minha mãe parecia não se importar com Lorde Manderville falando sobre mim e me olhando daquela maneira. Ele fez minha pele se arrepiar. Ela viu que eu estava horrorizada, mas, em vez de mandá-lo àquele lugar, apenas ficou me encarando. — Você é tão galanteador. — Ela deu tapinhas no ombro de Manderville e ele beijou-lhe a mão. Quando ele foi fazer o mesmo comigo, estremeci, mas cumpri meu papel de boa filha. Ele plantou um beijo mais demorado do que deveria na minha


mão. Quando ergueu o olhar, seus olhos me diziam tudo que eu precisava saber. Meu corpo todo se retesou diante do seu olhar libidinoso. Eu queria sair daquele lugar. De repente, o cômodo parecia ficar cada vez menor e eu comecei a suar frio. Finalmente, ele soltou minha mão. Mas, ao passar por mim, deu um tapa em minha bunda. Sobressaltei-me e arregalei os olhos. É sério que ele realmente...? Mal tive tempo para registar o ocorrido quando vi Titio atravessando o cômodo como um homem possuído. Ele se aproximou de Manderville, sussurrou algo em seu ouvido e o levou para fora do cômodo. Os dois sumiram por uns dez minutos. Quando Titio voltou, ele sorriu e deu uma piscadela para mim. Ele se aproximou de nós e minha mãe caminhou em sua direção. — Ah, olha só quem está aqui, Olivia. É Titio. É tão bom ver você. Titio sorriu, mal olhando para minha mãe antes de fixar os olhos nos meus. — Está tudo bem? — Ele perguntou para nós duas, mas eu sabia que a pergunta era direcionada a mim. — Estamos bem — respondeu minha mãe. — Não é mesmo, Livy? Estremeci novamente e Titio notou minha reação. Parecia sempre notar tudo que eu fazia. — Estou bem. Obrigada, Titio — Abri um sorriso doce para ele. Desta vez, meu sorriso era genuíno.

Na manhã seguinte, deixei Kit dormindo enquanto eu me aprontava. Eu realmente queria ficar com ele e sentir seus braços ao meu redor, mas o dever me chamava. Meu corpo estava sensível e doía em lugares que eu nem sabia que existiam. Era uma sensação boa e aquilo me fazia sorrir. Ficamos na cama por dezesseis horas, só levantando para pegar algo para comer. Kit estava insaciável. Fizemos amor umas cinco vezes e, a cada vez, a confiança de Kit crescia. Só foi ficando cada vez melhor.


Encarei seu corpo adormecido e fiquei maravilhada diante de tamanha beleza. Sei que ele havia dito que foi um cara ruim no passado, mas eu não conseguia enxergar uma gota de maldade nele. Sua respiração estava suave e o rosto era angelical. Eu poderia ter ficado o observando por horas. Ignorando a dor no meio das minhas pernas e o ímpeto de voltar para debaixo das cobertas, segui até as escadas. Peguei todas as minhas coisas e saí para a rua, percebendo como o clima estava mudando. Estava bem mais quente hoje. Assim que cheguei à cafeteria, já estava arrependida por ter trazido um casaco. No percurso de dez minutos, cheguei até a suar. Estava prestes a entrar quando ouvi o barulho de mensagem do meu celular. Peguei-o dentro da bolsa.

Livy, me liga. Isso não é um pedido.

Eu havia ignorado a mensagem dele ontem e agora ele estava irritado. Eu sabia que teria que respondê-lo em algum momento, mas queria seguir a minha rotina. Tim sorriu quando entrei. — Olivia, sempre fico feliz quando você chega — Abri um sorriso radiante. — Vai querer o de sempre? — Meu sorriso desvaneceu e Tim franziu o cenho enquanto se aproximava de mim. — O que aconteceu? Contei a ele sobre o que havia acontecido ontem. Sobre a morte de Rachel e a prisão de Wayne. — Sinto muito por ouvir isso, Olivia. Assenti, sem querer dizer nada para evitar o choro. Tim percebeu minha angústia e preparou três bebidas em vez das cinco que eu costumava pedir. Assim que tudo estava pronto, ele me entregou as bebidas e eu estendi o dinheiro para ele. Mas ele recusou. — Não se preocupe. Essas são por minha conta. Acho que você, Thomas e Marcus vão precisar delas. Olhei para Tim e abri um sorriso, meus olhos marejados. Balbuciei um agradecimento e saí apressada da cafeteria.


Como não queria ficar com muito calor, caminhei vagorosamente pela rua. Assim que me aproximei dos degraus do refeitório comunitário, vi que Thomas e Marcus estavam sentados nos seus lugares de sempre. Um alívio repentino tomou conta de mim no instante em que vi seus rostos sorridentes. Acho que eu não teria aguentado se eles não estivessem aqui. Com um sorriso bobo estampado no rosto, caminhei em direção a eles e entreguei-lhes as bebidas. Os dois agradeceram, mas Thomas ficou me encarando por um momento. — Ah, sim... Ela definitivamente deu umazinha ontem à noite. — Fiquei vermelha como um pimentão, o que confirmou a suposição dele. — Deu, não deu? Com quem? Aposto que era um cara gato. Conheço você, só podia ser um cara gato. Arfei. — O que você quer dizer com isso? Marcus interrompeu. — Acho que ele quis dizer que, já que você é tão bonita, é de se esperar que você arrume alguém tão bonito quanto você. É o que você merece. Franzi o cenho. — Nem tudo se resume à beleza exterior, Marcus. Thomas bufou. — Tente se convencer disso, docinho. — Ele deu uma piscadela para mim, deixando claro que só estava tirando uma com a minha cara. Abri um sorriso. — Você é demais, Thomas. — Você nunca vai ficar entediada comigo, querida. Então, você vai nos contar sobre ele ou não? Neguei com a cabeça. — Não. Não tenho nada para contar. Tanto Thomas quanto Marcus sentaram-se eretos. — Ah, não, não, não. Nada disso, Olivia. Você não vai escapar tão fácil assim. Nós dois sabemos que você molhou o biscoito ontem à noite —


declarou Thomas, sorrindo para Marcus. — Molhou o biscoito? Thomas, mas que diabos... Senti a mão de Marcus pousando no meu braço. — Deixa ele para lá. Só responda uma coisa. Esse cara te faz feliz? Sorri. Não consegui evitar. — Ah, faz sim. Ele me faz feliz — Tentei morder o lábio para esconder o sorriso, mas não adiantou. — Bom, então é só isso que importa — concluiu Marcus, sorrindo. Voltei a pensar em Rachel e em tudo que aconteceu ontem. — Como vocês estão depois do que aconteceu? Thomas meneou a cabeça, inclinando-se contra os degraus. — Nada bem. Ficamos sabendo que o cara que o Wayne atacou morreu na noite passada. Arfei. — Não! Thomas assentiu. — Temo que sim, Olivia. Wayne está afundado na merda agora, mas é isso que acontece quando você acha que está acima da lei. Estremeci de leve. — É, acho que sim. Thomas suspirou. — Bom, pelo menos eu me sinto melhor por você estar aqui. Você sempre ilumina as minhas manhãs — Ele ergueu o copo de café e fez um brinde. Dei risada. — É bom saber que eu posso iluminar a manhã de alguém. Thomas se aproximou.


— Oh, eu tenho certeza de que você iluminou a manhã daquele felizardo. Ele deve estar se deliciando com o seu cheiro agora mesmo. Arfei novamente. — Thomas! Ele deu risada, curvando-se e segurando a própria barriga. — Não dê ouvidos a ele, Olivia. Ele leva uma vida tão sem graça que precisa se divertir à custa da vida alheia. Thomas assentiu e bebericou o café. — É isso mesmo. Apontei para o topo da escada. — Vou entrando. Vejo vocês lá dentro? Os dois sorriram. — Não perderíamos por nada — declarou Marcus. Sorri e não consegui deixar de notar que subi as escadas saltitando. Apesar do que havia acontecido ontem, as coisas não terminaram de maneira tão ruim assim. Kit estava me curando a cada toque. E, céus, como isso era viciante. Entrei e segui em direção ao escritório. Tony estava lá e me cumprimentou com um sorriso largo. Tammy apareceu de repente, parecendo chateada. — Você está bem? Ela negou com a cabeça. — Não muito. Acho que alguém está roubando dinheiro do escritório. Arfei. — Não! Por que você acha isso? Ela se aproximou de mim. — Bom, vez ou outra, algumas notas de vinte desaparecem. Pode ser que seja só para comprar suprimentos, mas não tem nenhum recibo nem nada


do tipo. Você não pegou dinheiro aqui para comprar alguma coisa e se esqueceu de anotar, né? Neguei com a cabeça. — Não, nunca peguei dinheiro ali. — Não mesmo. Esse era exatamente o motivo de eu não gostar nem de chegar perto daquele dinheiro. Se eles examinassem a caixa em busca de impressões digitais, a minha certamente não estaria lá. Eu garanti que isso não acontecesse. Tammy suspirou. — Tudo bem. Mas, se você vir alguma coisa, venha me contar, por favor. Enquanto isso, acho que não é inteligente trazer qualquer pessoa aqui para o escritório. Assenti. — Tudo bem. Sem problemas. Ela saiu e eu suspirei. Não sabia ao certo o quanto Tammy confiava em mim, mas situações como esta podiam piorar rapidamente. Fui até a cozinha e peguei um avental. Tony ficou me encarando por um momento. — Você está diferente. Cortou o cabelo ou algo do tipo? — Neguei com a cabeça e ele franziu o cenho. — Hummm... Com certeza tem algo diferente. Ele seguiu o caminho dele, ainda com o cenho franzido, e eu fiquei ali, um pouco desorientada. Será que eu era tão transparente assim? Pelo jeito, era. Não tive tempo para me preocupar com isso porque estava na hora de botar a mão na massa. Fiquei atarefada por mais de uma hora, garantindo que todos haviam recebido sua porção. Quando terminei, fiquei parada ali por um momento, sonhando acordada com Kit. Foi só quando ouvi um arrastar de cadeiras repentino que saí do meu transe. De repente, gritos ecoaram da extremidade oposta do cômodo. Olhei naquela direção e vi alguém dar um soco em Thomas. Arfei, então, vi Thomas se lançar sobre o outro cara. Marcus segurou os braços de Thomas enquanto outro cara fazia o mesmo com o agressor. Agindo por puro instinto, corri em direção a eles.


— Que diabos está acontecendo aqui? Thomas olhou para o cara, que estava ofegante. — Ele é um puta de um babaca. Os dois fizeram menção de se atracarem novamente, mas foram contidos. Percebi que sangue escorria da bochecha de Thomas. Apontei para o cara que estava fuzilando Thomas com os olhos. — Você aí! Não sei que diabos está acontecendo aqui, mas é melhor você se acalmar. Sente-se, coma seu café da manhã e não dê mais nenhum pio. Se você fizer qualquer coisinha errada, vai embora daqui e não será mais bem-vindo. Estamos entendidos? Ele grunhiu, mas fez que sim com a cabeça. Olhei para Thomas e apontei o dedo para ele. — E você, traga o seu prato e venha comigo. Marcus, você pode se juntar a nós se quiser. Os dois assentiram e fizeram o que eu disse. Marchei em direção ao escritório, não dando a mínima para o que Tammy havia dito sobre não levar ninguém lá. Não era minha culpa se era lá que ficava o kit de primeiros socorros. Quando cheguei à porta, suspirei aliviada por ver que Tammy não estava lá. Caminhei em direção à mesa e abri a gaveta para pegar o kit. — Marcus, sente-se naquela cadeira. Thomas, venha até aqui para eu ver como você está. Marcus sorriu e lançou um olhar divertido para Thomas. — Sim, senhora. Thomas se aproximou e se sentou na ponta da mesa. Analisando de perto, vi que ele estava com um corte bem feio. Ele sorriu. — Cara, isso é sexy pra caramba. Você estava ferina como um tigre lá fora, Olivia. Olhei para ele. — Não é hora para brincadeiras, Thomas. Será que você pode me


contar o que aconteceu lá? — Encharquei uma gaze em antisséptico e limpei o ferimento. Ele estremeceu um pouco, mas abriu um sorriso. — Sinto muito por aquilo, Olivia. É só que... Aquele babaca falou algo sobre Rachel, mas foi ele quem me bateu primeiro. Você viu. Eu só queria ter tido a chance de revidar o soco. Babaca do caralho — Suspirei e olhei para ele. — Foi mal. Pessoas como ele me deixam tão irritado. Eles não sabem nada sobre o que aconteceu e ficam falando merda. Isso me deixa tão puto. Espalhei um pouco mais de antisséptico em cima do corte. — Sei que é difícil, mas você tem que ignorar pessoas assim. Não vale a pena se meter em encrenca por causa disso. Você é melhor que ele, Thomas. Lembre-se disso. Continuei limpando o ferimento. Quando cheguei à conclusão de que já tinha feito tudo que estava ao meu alcance, olhei para Thomas e abri um sorriso. — Pronto. Acho que você vai ficar bem. Thomas pegou a minha mão. — Obrigado, docinho. Você é demais, sabia? Você vai ser uma ótima esposa um dia. Espero que o cara que te deixou toda sorridente esta manhã se dê conta disso. É bom vê-la sorrindo assim. Você está sempre tão triste. Meus olhos se arregalaram. — Você acha isso? Ele assentiu. — Você pode até sorrir o tempo todo para nós, Olivia, mas um sorriso não significa que você está feliz. Você merece ostentar um sorriso todas as manhãs. Só espero que aquele cara faça você sorrir assim. — Ele suspirou. — Se não fizer, posso dar uns socos nele. Dei risada. Não por causa do que ele havia dito, mas sim diante da ideia de que pouquíssimas pessoas seriam capazes de bater em Kit. Depois do que presenciei naquele beco, eu sabia que havia muito mais nele do que saltava aos olhos. — Isso é muito gentil da sua parte, Thomas. Acho que você nunca vai precisar fazer isso, mas vou manter isso em mente para o caso de ele fazer algo errado. Que tal?


Abri um sorriso brincalhão. — Estou de acordo — declarou ele, dando uma piscadela. Estávamos prestes a voltar para o refeitório quando Tammy apareceu. — O que está acontecendo aqui? Ah, merda. — Houve um desentendimento no refeitório e Thomas se machucou. Eu estava cuidando do ferimento. Já terminamos. Marcus pegou a deixa e ficou de pé rapidamente, e não tinha como culpá-lo. O olhar que Tammy lançou a eles me fez querer esganar aquele pescocinho frágil dela. Para falar a verdade, eu faria isso mesmo se não tivesse que continuar a trabalhar aqui. — Sim — balbuciou ela. — Bem, o refeitório está vazio agora. Está na hora de começar a limpeza. Assenti. — Tudo bem. Marcus pegou o seu prato vazio e Thomas fez o mesmo. Nós três saímos do cômodo, deixando Tammy sozinha. Tenho certeza de que ela correu para conferir se o dinheiro ainda estava lá. Observei Thomas enquanto ele comia o resto da refeição. — Você quer que eu pegue uma comida fresquinha para você? Essa aí já deve estar fria. Thomas sorriu, a boca cheia de ovo. — Para mim está ótimo, Olivia. Eu fico grato por poder comer, independentemente da temperatura da refeição. Senti uma pontada de dor diante disso. Mais uma vez, senti-me privilegiada por poder bancar o luxo de comprar comida regularmente. Assim que terminou, Thomas me entregou o prato. — Obrigado, Olivia... Por tudo. Pousei minha mão em seu braço.


— Não precisa agradecer. Pode contar comigo para o que precisar. Você tem o meu número — Abri um sorriso para os dois. — Vejo você amanhã? — perguntou Marcus. Sorri. — Pode apostar que sim. Observei enquanto os dois se afastavam e fui em direção às mesas, limpando uma por uma. Assim que tudo estava limpo, dirigi-me até o escritório para pegar minhas coisas. Tammy estava analisando a caixa de dinheiro e, pela expressão em seu rosto, não estava nada feliz. Suspirei. — Você deixou aqueles dois sozinhos aqui em algum momento? Neguei com a cabeça. — Não. Eu fiquei com eles o tempo todo. Eu teria visto se algum deles tivesse mexido em alguma coisa. Tammy suspirou, frustrada. — Parece que está faltando dinheiro de novo. Vou ter que analisar o livro-caixa para ver se encontro alguma coisa. Peguei meu casaco, estendendo-o sobre meu braço e deslizei a alça da bolsa para o meu ombro. — Pode analisar o quanto quiser, Tammy, mas Thomas e Marcus não chegaram nem perto do dinheiro. Eu teria visto. Ela franziu o cenho e olhou para mim. — Você não pode estar presente o tempo inteiro para saber tudo o que acontece. Meneei a cabeça. — Sei disso, Tammy. E você também não. Meu tom era sarcástico, mas ela nem pareceu notar. Ela ergueu o olhar e viu que eu estava pronta para ir embora. — Você já vai? — Eu assenti. — E a limpeza?


Bati o pé no chão. — Já terminei. Tony e eu limpamos tudo enquanto você estava sentada aqui, contando dinheiro. — Dito isso, virei-me e saí do cômodo, deixando uma Tammy perplexa para trás. — Até amanhã — despedi-me com um aceno. Eu precisava ir para outro lugar agora... E eu mal podia esperar. Saí pela porta com tanta pressa que quase tropecei. Assim que me recompus, desci as escadas e caminhei apressadamente até a minha casa. Eu estava tão feliz naquele momento, o que era muito estranho. Nunca pensei que ficaria feliz de ir para casa. Só esperava que Kit estivesse lá, esperando por mim. Cheguei até o portão e o abri com tanta força que ele bateu contra a parede. Sobressaltei-me e exclamei: — Ops! Fechei o portão e estava prestes a enfiar a chave na fechadura quando a porta se abriu, revelando um Kit sem camisa. Exibia um sorriso radiante e estava de braços abertos. Corri em sua direção e me joguei contra ele, envolvendo sua cintura com minhas pernas. — Céus, como eu senti sua falta — declarei, meu hálito indo de encontro à curva de seu pescoço enquanto ele fechava a porta. — Também senti sua falta. Mal via a hora de você chegar. Eu preparei um almoço para você. Imaginei que estaria faminta. Eu estava morrendo de fome, mas meu desejo por ele era maior. — Eu estou faminta. — Afastei-me para poder olhá-lo nos olhos e, depois, encarei seus lábios. — Tão, tão faminta. Aproximei-me dele e clamei sua boca. Kit gemeu, reacendendo o fogo que ardeu em mim nesta manhã. Nós havíamos feito amor apenas algumas horas antes, mas eu já estava pronta para mais. Kit me pressionou contra a parede e me beijou com agressividade. Eu amava seu lado gentil, mas também amava esse lado dele. Fazia com que eu sentisse que ele estava tão desesperado por mim quanto eu estava por ele. Não precisava de muito. Mordisquei seus lábios e ele grunhiu, colocando-me de volta ao chão. Ele se afastou, seu hálito quente contra o meu rosto. — Eu te quero tanto, mas agora não. Você precisa comer


primeiro. Arqueei a sobrancelha. — O quanto você me quer? — Eu sabia que estava provocando, mas uma parte de mim realmente queria saber. Kit envolveu minha cintura com as mãos em um gesto possessivo. — Eu te quis desde o primeiro momento em que te vi. Você não vai se lembrar, porque não percebeu. Você estava tão ocupada olhando para o pedaço de papel em suas mãos e para o refeitório comunitário que não conseguia prestar atenção em mais nada ao seu redor. Todos eles olharam, apontaram e disseram coisas sobre você. Pude ouvir o que eles estavam dizendo e quis socálos por isso. Eu senti algo que nunca havia sentido antes. Era estranho e me fez querer ficar longe de você. Mas eu não consegui. Eu sempre te seguia até sua casa para me certificar de que você chegaria bem. Resolvi que proteger você era a minha missão. Abri um sorriso e senti meus olhos ficando marejados. Eu me lembrava daquele dia. Tinha acabado de me mudar para Londres e tinha conversado sobre o refeitório comunitário com Tammy no dia anterior. Anotei o endereço em um papel e estava me certificando de que eu estava no lugar certo. Ele tinha razão. Não prestei atenção nele naquele momento, mas, definitivamente, prestei atenção quando ele entrou pelas portas do refeitório naquele dia. — Eu não notei você, não mesmo. Estava ocupada tentando ver se eu estava no lugar certo. Mas eu notei você mais tarde. Notei você todos os dias. Eu realmente queria conversar com você, mas nunca olhava para mim. Kit suspirou e meneou a cabeça. — Eu não podia, independentemente do quanto eu quisesse. Olhei no fundo de seus olhos tristes. — Você vai me dizer o porquê? Ele suspirou e se afastou de mim, evitando meu olhar. — Vamos comer. Eu fiz risoto. Meus olhos se arregalaram.


— Risoto? Você é um cara de múltiplos talentos. Sei disso por causa da noite passada — declarei, dando uma piscadela. — E também por causa da manhã. Fomos em direção à cozinha e o aroma me atingiu com tudo. Fez o meu estômago roncar. — Sinto muito por isso. Você deve estar cansada. Talvez deva descansar um pouco depois de comer. Abri um sorriso tímido enquanto ele servia a comida para nós. Ele franziu um pouco o cenho. — O que foi? Você parece triste. Meneei a cabeça. — Ah, não é nada. É só que rolou uma briga hoje. Kit empertigou-se. — Uma briga com quem? Alguém machucou você? Neguei com a cabeça e sentei-me à mesa. — Não, não. Thomas brigou com um outro cara. Eu separei os dois e cuidei do machucado de Thomas. Tudo ficou bem depois disso. Kit colocou os pratos cheios de risoto em cima da mesa e se sentou. — Tem certeza? Ele tinha percebido que havia mais na história, então, contei a ele sobre Tammy e o dinheiro. — Nunca gostei daquela mulher. Existe alguma coisa errada nela. Tenho a observado há algum tempo e sei que ela está tramando algo. Arqueei a sobrancelha. — Ah, é? Você também está perseguindo Tammy? — perguntei, brincando. Ele deu risada. — Estou, mas não pelas mesmas razões que persegui você. Dei uma garfada no risoto e minha boca clamou por mais. Estava


delicioso. — Uau, Kit. Isso está ótimo. Do que é? Frango? — Ele assentiu. — Está muito bom. — Dei mais uma garfada e ele sorriu. Engolindo, virei-me para ele. — Então, por que você me perseguia, Kit? Você pode me contar pelo menos isso? Kit ficou parado, a boca cheia de comida, e sorriu. — Acho que não consigo ficar longe de você. — Mas por quê? Ele afastou o olhar por um momento. — Eu não sei. Algo em você me chamou atenção. Eu não gostei disso, então tentei ignorar o sentimento. Mas não adiantou. O fato de você ficar tentando se aproximar de mim não ajudou. Tentei afastá-la, mas você não permitiu. Pousei minha mão sobre a dele. — Por que você estava tentando me afastar de você? Ele colocou o garfo na mesa e suspirou. — Acho que você pode imaginar que algo ruim aconteceu comigo antes de eu virar morador de rua. Eu não concordei com uma coisa e me recusei a fazer o que me pediram para fazer. Eu sabia que estava correndo perigo por causa disso, então, fugi. A única maneira de escapar era me esconder. — Ele suspirou e olhou para mim. — Eu não devia estar te contando isso. Eu nem deveria estar aqui com você. Se eu ficar, as chances de colocá-la em perigo aumentam a cada dia. É por isso que eu tentava te afastar de mim. É por isso que eu pedia para você se esquecer de mim. Ficar comigo não é bom para você, Olivia. Você deveria me mandar embora. Me mandar ir embora da sua casa e nunca mais voltar. Pousei meu garfo na mesa e peguei sua mão. Ele olhou para mim e pude ver o sofrimento em seus olhos. — Acho que você sabe que eu não posso fazer isso. Acho que não percebeu o quanto eu preciso de você. Ele franziu a testa.


— Por que você precisa de mim tanto assim? O que eu tenho a oferecer? — Ele fez um gesto para mostrar seu corpo. — Olhe para mim. Eu não tenho nada. O único motivo para eu estar comendo com você agora é porque eu cozinhei a comida que você comprou, na casa que você banca. Como é possível que você precise de mim? Eu não sou nada. Dei um apertãozinho em sua mão e respondi mais severamente do que eu pretendia: — É aí que você se engana. Você me dá tudo, Kit. Será que você não entende que não tem nada a ver com dinheiro, a comida ou a casa em que eu moro? Nada disso importa para mim. Eu era infeliz, Kit. Eu me mutilava porque não queria sentir o vazio tomar conta de mim e me engolir por inteiro. Tornei-me uma prisioneira em meu próprio lar e só conseguia encontrar algum conforto no fundo de uma garrafa de Jack Daniels. Todo dia, eu pensava em maneiras de acabar com meu sofrimento. De acabar com meus pesadelos. Eu não queria mais viver daquela maneira. Eu queria que tudo acabasse. — Baixei o olhar quando senti as lágrimas se formando. Nunca havia falado sobre isso com ninguém. Eu não queria que ninguém soubesse sobre meu sofrimento. Titio sabia, mas ele não conhecia meus verdadeiros sentimentos. Eu jamais conseguiria conversar com ele da maneira que converso com Kit. Com Kit, eu podia abrir meu coração, confiando que ele cuidaria dos cacos que caíssem. — Eu tinha tudo e, ao mesmo tempo, não tinha nada. Sim, eu consegui me livrar de tudo aquilo e me tornei uma pessoa melhor, mas eu não era feliz... até encontrar você. Quando estou com você, sinto coisas que nunca senti antes. Quanto estou com você, sinto que finalmente posso viver. Pela primeira vez, sinto que minha vida tem um propósito. E você é o responsável por isso, Kit. Não o dinheiro ou a casa. Você. Soltei um suspiro e continuei: — Mais ou menos um ano atrás, eu estava passando por maus bocados. Eu não tinha ninguém a quem correr. Meus pais estavam mortos e todos os meus parentes e amigos se afastaram de mim. A única coisa que ainda fazia sentido para mim era a pintura. Os olhos de Kit me encaravam sem expressão e eu pensei que ele não ia falar nada. Parecia estar absorto em pensamentos, mas então, virou-se para mim. — É por isso que você tem tantos quadros lá em cima? — Eu


assenti. — Eles a deixam feliz quando você se sente mal? — Assenti novamente e senti uma lágrima escorrendo pelo meu rosto. Funguei um pouco e Kit limpou a lágrima que escorria. Ergui o olhar e vi o sorriso mais lindo de todos. — Você me faz feliz, Olivia. Só fico feliz quando estou com você. Sorri e dei uma risadinha. — E, ainda assim, você fica tentando me afastar. Não posso impedir que você vá embora, mas acho que você sabe como eu ficaria depois disso. Estar com você parece tão certo. Eu sempre quero mais de você. Não me pergunte por quê. Caramba, sabe quando uma mulher fica louca por um cara e as pessoas se perguntam qual é a razão de tudo aquilo? Com você, não existem razões. Apenas é o que é. Kit pareceu confuso. — Então, você me quer mesmo sabendo que eu não tenho nada a oferecer? Levantei-me e sentei-me no colo dele. Ele envolveu minha cintura com os braços e eu envolvi seu pescoço com os meus. — Eu quero você porque você pode me dar tudo que eu sempre quis. Todo o resto é irrelevante. Ele me deu um beijo suave e pressionou a testa contra a minha. — Eu não me sinto como o homem que deveria ser. O homem que você merece. Dei risada, pensando em como aquilo era hilário. Kit era um homem em cada pedacinho do corpo. Abri um sorriso bobo para ele. — Kit, acho que você me mostrou como você é homem ontem à noite... e hoje de manhã. Rindo, ele afrouxou o aperto na minha cintura. — Não foi isso que eu quis dizer e você sabe muito bem. Suspirei. — Eu sei. O que eu posso fazer para convencê-lo de que você, do jeitinho que é, é exatamente o homem que eu quero? Nunca quis diamantes,


vestidos ou as estrelas do céu. Nada disso importa. O que importa é como você me faz sentir. Você precisa entender que você é um homem, simplesmente porque você faz com que eu me sinta uma mulher. Uma mulher... — Beijo. — Vigorosa... — Beijo. — Apaixonada... — Beijo. — E desejável. Pressionei a boca contra a dele, intensificando o beijo que eu sabia que ele queria. A cada segundo, eu conseguia sentir o membro de Kit crescendo por baixo da calça jeans. Ele queria sair dali, e eu, definitivamente, queria libertá-lo. Montada nele, deslizei a mão em direção à sua virilha e agarrei seu pau. Apalpei-o, fazendo Kit gemer. Com um movimento rápido, abri o zíper da calça e arfei quando vi seu membro. Naquele momento, fiquei feliz por estar de saia. Acho que eu não conseguiria esperar nem mais um minuto. Para a surpresa de Kit, eu me levantei, tirei a calcinha e me encaixei no seu colo. Os olhos dele se arregalaram e ele gemeu. — Você não precisa de mais um tempinho? Minha respiração estava ofegante contra sua boca, meu desejo ardendo cada vez mais. — Eu só preciso de você. Você não tem ideia do quanto eu desejo o seu toque. — Vagarosamente, rebolei no colo dele, gemendo. — O quanto eu desejo você. — Pressionei minha boca contra a dele. — O quanto eu desejo senti-lo dentro de mim. Meus movimentos foram ficando cada vez mais acelerados. A cada rebolada que eu dava, Kit segurava meus quadris com força, gemendo contra minha boca. Ele enfiou uma mão por baixo da minha blusa e segurou meu peito. Estimulou meu mamilo com o dedo e eu arqueei as costas, desejando e ansiando por mais. — Olivia, você é tudo para mim. Gemi, sentindo o êxtase se aproximando. — Mais... Eu precisava dessa conexão. Precisava saber que ele sentia o mesmo que eu.


— Você é tão gostosa — sussurrou ele em meu ouvido. — Gostosa pra caralho. Gemi novamente, rebolando sem parar no colo dele. — Mais... — sussurrei, sem fôlego. — Quando não estou ao seu lado, desejo estar. Quando estou com você, desejo tocá-la. Eu conseguia ouvir sua respiração ficando ofegante e isso intensificava meu desejo. — Mais... — implorei. Minha voz saía cada vez mais sufocada. — Olivia, o que você está fazendo... Eu não consigo... Argh! Ele segurou meu quadril com força e me guiou para cima e para baixo. Sua selvageria fez meu desejo se intensificar. Eu estava quase gozando. Quanto mais ele me pressionava contra seu pau, mais perto de atingir o orgasmo eu ficava. Ele gritou meu nome e eu atingi o clímax com tanta intensidade que quase vi estrelas. — Kit! Meu Deus do céu! A sensação do orgasmo continuou e eu não sabia como conseguiria me mexer. Kit teria que assumir o controle. Eu estava exausta. Kit segurou meu quadril com mais força e rugiu quando atingiu o clímax. Pude sentir quando ele gozou dentro de mim e foi o sentimento mais glorioso do mundo. Nem em um milhão de anos eu poderia imaginar que seria assim. Agora eu sabia por que todo mundo falava sobre isso e por que desejavam tanto que isso acontecesse. Desabei no colo dele. A respiração de Kit estava ofegante contra meu pescoço e envolvi meus braços ao redor do pescoço dele. Ainda dentro de mim, ele me puxou para mais perto de si. — Olivia, quando você me envolve nos seus braços desta maneira, sinto que nada no mundo será capaz de me machucar. Senti sua respiração e percebi que ele estava se sentindo vulnerável. — Kit, você tirou as palavras de minha boca. É tão bom ficar com


você, e eu não estou me referindo apenas ao sexo. O sexo é maravilhoso, mas o que temos é igualmente especial para mim. Kit soltou uma risadinha, então, eu me afastei para poder olhar para ele. — Qual é a graça? Ele apontou para os nossos pratos. — Eu estava tentando me certificar de que você comeria alguma coisa, mas falhei miseravelmente. Abri um sorriso. — Bom, a culpa é toda sua. A sua comida é uma delícia, mas o cozinheiro também é. Acho que o meu desejo por você supera as minhas necessidades básicas. Ele olhou para mim com os olhos semicerrados. Inclinou-se e acariciou meu pescoço com a ponta do nariz, fazendo-me estremecer. — Coma tudo direitinho e eu cuidarei mais das suas outras necessidades. Dei risada. — Por que você não ameaça tirar meus brinquedos também? — Você está insinuando que eu te trato como criança? — Nããão — respondi, sarcasticamente. Kit grunhiu. — Coma, Olivia. Por favor. Eu não consigo me controlar em relação a você. Assenti, pensando que era melhor eu me comportar. Levantei-me do colo dele e estremeci quando senti seu membro deslizando para fora de mim. Podia jurar que ele estava duro de novo. Quando olhei para baixo, arfei. Estava mesmo duro. Kit deu de ombros. — Eu te falei, não falei? O seu sorriso levantou tanto o meu astral que me dei conta de


uma coisa. Eu estava feliz. E não era uma felicidade qualquer. Eu estava eufórica. Não fazia ideia de como as coisas ficariam entre Kit e eu, já que eu nunca havia pensado que podíamos nos envolver desta maneira. Mas agora que tínhamos nos envolvido, as coisas haviam mudado drasticamente. Eu estava tão feliz que o pânico dentro de mim era palpável. Queria pegar aquela felicidade e me agarrar a ela. Eu tinha muita coisa para processar e muita coisa para fazer. Sabia que precisava agir em breve. O tempo estava acabando para nós dois. Eu só esperava que eu pudesse nos manter vivos.


CAPÍTULO DEZESSEIS

— Por que a janela está aberta, Olivia? Minha atenção se desviou do livro que eu estava lendo na biblioteca da nossa casa. Gostava de vir aqui porque me sentia em paz. Podia ficar sentada aqui, lendo por horas a fio, perdendo-me nas páginas de um livro. Era a minha fuga... até agora. Não tive tempo de responder antes de ele marchar em minha direção, olhar pela janela e fechá-la. Virou-se para mim com um olhar severo. — Quantas vezes eu já te disse para não abrir as janelas nesta casa? Você quer que o Homem Sombra entre? Meus olhos se arregalaram diante da menção do monstro que assombrava a minha infância. Pelos últimos cinco anos, fiquei com medo de que o Homem Sombra viesse para me pegar novamente. Ele fora enviado para nos matar. Meus pais me contaram depois que fui interrogada diversas vezes acerca de sua aparência. — Não faça isso de novo! — exclamou ele e marchou para fora do cômodo. Toda a minha calmaria se foi diante da menção do monstro. Agora, tudo que eu podia fazer era estremecer de medo. Meu corpo tremia, impelindome em direção à porta. De repente, eu não queria mais estar aqui. Quando saí em direção ao corredor, ouvi sussurros vindos da sala de estar. — Charles, pensei que a função desse remédio era te fazer bem. Na verdade, parece que ele só está piorando a situação. Vi minha mãe levando a mão em direção à testa dele. Ele não parecia nada bem. Para falar a verdade, meu pai parecia não ter controle sobre nada naquele momento. Os olhos estavam arregalados de medo e uma gotícula de suor se formava em sua sobrancelha. Nunca havia visto meu pai suar. Nos últimos tempos, meu pai foi ficando cada vez mais paranoico.


Todas as noites, ele checava todos os cômodos da casa e as fechaduras de todas as portas cinco vezes antes de ir dormir. Estava virando um ritual. Mas eu sabia que havia algo de errado acontecendo com ele. Ele sempre fora mal-humorado e distante, mas isso só se agravara recentemente. — Não é o remédio, Beatrice. É por causa de Olivia, que fica deixando janelas e portas abertas. Falo para ela não fazer isso, mas ela não me escuta. Nós deveríamos tê-la mandado para o colégio interno. Meus olhos ficaram marejados diante da confissão de meu pai. Bem lá no fundo, sempre soube que ele se sentia daquela maneira em relação a mim. Mas sempre esperei que, um dia, eu faria alguma coisa para fazê-lo se orgulhar de mim. Estava estudando muito para as provas, torcendo para que minhas notas melhorassem e ele sentisse orgulho de mim. Ao menos uma vez. Minha mãe suspirou. — Eu sei, Charles. Mas você sabe que Bartholomew não vai deixar isso acontecer. Ele é obcecado em mantê-la aqui conosco. Meu pai levantou-se em um sobressalto e caminhou pelo cômodo. — Não estou nem aí. Assim que ela tiver idade suficiente, quero que ela saia de casa. Até onde sei, Bartholomew vai ficar feliz em abrigá-la.

Na manhã seguinte, fui despertada do meu sono por um barulho, mas não era meu despertador. Parecia água escorrendo. No meu estado de torpor, pensei que estava em um barco. Poderia jurar que estava ouvindo gaivotas. Finalmente acordada, olhei meu relógio e vi que ainda tinha uns quinze minutos antes do meu despertador tocar. Desativei-o e virei-me para ver se Kit ainda estava deitado ao meu lado na cama. Vazia. Nada além de lençóis gelados. Fiquei pensando onde ele poderia estar e o som de água escorrendo finalmente me deu a resposta. A porta do banheiro se abriu e Kit apareceu, esfregando uma toalha sobre o rosto. Tudo que vi foi seu olhar penetrante. Sorri, pensando em como ele era lindo. Não estava usando nada além das calças de pijama, que estavam largas ao redor do quadril. Não consegui evitar que meu olhar recaísse sobre seu físico bem definido. Fiquei encarando, fascinada, enquanto seus músculos se flexionavam por causa do movimento que ele fazia para enxugar o rosto. Estava hipnotizada.


Espreguicei-me com aquele sorriso bobo ainda estampado no rosto e observei enquanto ele deslizava a toalha para o pescoço. Meu sorriso desapareceu, dando espaço à uma expressão de espanto. Uma onda de dor se espalhou pelo meu corpo e senti que não conseguia respirar. Kit viu minha expressão de pânico e se aproximou rapidamente, o olhar agitado. — Olivia? Olivia, o que foi? O que aconteceu? Meneei a cabeça, determinada a não revelar o que me torturava. — Está tudo bem... Estou bem. Tive um pesadelo. Só isso. Kit pareceu preocupado. — Mas você estava sorrindo. Quando baixei a toalha, sua expressão mudou instantaneamente. Fico tão feio assim de barba feita? Abri um sorriso e virei-me para ele, tentando acalmar meu pânico. Ele era lindo. Tão lindo. Com a barba feita, agora, eu finalmente conseguia enxergar o homem pelo qual estive obcecada há tanto tempo. Com a mão trêmula, acariciei sua pele macia. O cabelo ainda estava comprido, mas não havia resquícios de barba em seu rosto. Sua mandíbula era bem definida, conferindo um ar ainda mais masculino a ele. Conseguia ver o fino traço da cicatriz que percorria o seu rosto. Tudo em relação a ele exalava masculinidade e tudo em relação a mim exalava desejo por ele. Não conseguia evitar. Apesar do meu choque inicial de vê-lo sem barba, não conseguia evitar o amor que sentia por ele. Aquele pensamento deixou isso claro para mim. — Sinto muito. Só fiquei um pouco chocada. Os olhos de Kit se arregalaram. — Um pouco chocada? Parecia que você tinha visto um fantasma. Eu tinha. Meneei a cabeça e abri um sorriso. — Não. Foi só eu agindo como a maluca que sou. Desculpe. Kit apertou minha mão. — Você não é maluca. Nunca mais diga isso.


Olhei no fundo dos seus olhos novamente, perguntando-me o que fiz para vir parar aqui. — Você parece tão jovem. Ele franziu o cenho. — Você não gostou? Neguei com a cabeça. — Não, gostei sim. Eu amei. Você está sexy, mas vai ficar ainda mais quando ficar com a barba por fazer. Kit arqueou uma sobrancelha. — Então você gosta de barba por fazer, é? — Sorri, sentindo meu rosto corar. Virei-me, mas Kit segurou meu rosto. — Não tenha vergonha de expressar seus sentimentos, Olivia. Eu só fiz isso porque pensei que você ia me preferir assim, em vez daquela barba de velho. Neguei com a cabeça. — Você não parecia um velho. Você era perfeito do jeito que era, mas não estou dizendo que também não está perfeito agora. Eu gostei. Na verdade, eu amei. Ele assentiu e se inclinou para me beijar, mas eu virei o rosto. — Não antes de eu escovar os dentes. Kit deu risada, mas ignorou meu pedido. — Eu não ligo. Ele me deu um beijo suave, fazendo-me estremecer. — Eu preciso mesmo me arrumar. Kit assentiu e levantou-se da cama. — Vá tomar um banho e eu vou preparar o café da manhã. Com o choque e a euforia ainda percorrendo minhas veias, levanteime e fui me arrumar. Depois de tomar banho e me vestir, desci as escadas e senti o aroma de torradas sendo feitas. Kit me viu e abriu um sorriso cálido. Era incrível ver como um simples sorriso dele iluminava todo o seu rosto agora que não havia barba para


encobri-lo. — Sente-se enquanto eu pego algumas torradas para você. Fiz o que ele pediu. Kit voltou e colocou dois pratos na mesa, bem como uma travessa cheia de torradas. — Uau, são muitas torradas. Ele sorriu. — Pensei que nós dois precisaríamos de uma dose extra de energia depois de ontem. Dei risada e ouvi o toque de mensagem do meu celular apitando. Entrei em pânico, pensando que deveria ser Titio. Franzindo o cenho, levantei-me e peguei o celular que estava do outro lado da mesa.

Oi, linda. Espero que tudo esteja bem com você depois daquela noite. Eu meio que estava esperando que você pudesse vir trabalhar amanhã à noite. Às 18h. Preciso de você. Bj Suspirei, mordendo o lábio inferior. — Aconteceu alguma coisa? — quis saber Kit. Olhei para ele, sabendo que isso causaria problemas. — Mais ou menos. Charlie quer que eu vá trabalhar amanhã à noite. A postura de Kit mudou de repente, algo que eu já sabia que ia acontecer. Também sabia que voltar ao trabalho era inevitável. Não havia motivo para adiar isso. — Não gosto que você trabalhe com ele — declarou Kit, os lábios franzidos em uma linha. Aquilo me fez estremecer. — Eu sei disso, Kit. Mas eu não tenho escolha. Ele é meu chefe e não quero deixá-lo na mão. Ele sempre foi cheio de gracinhas. Merda. Péssima escolha de palavras. Kit empertigou-se.


— Cheio de gracinhas? Quer dizer que ele sempre te tratou daquela maneira? Praticamente te obrigar a ficar com ele é ser cheio de gracinhas? Neguei com a cabeça. — Não, não foi isso que eu quis dizer. Ele nunca tinha chegado tão longe assim. Kit bufou. — Mas ele tinha tentado te agarrar antes? Olivia, você não pode trabalhar com alguém assim. Não gosto nada disso. Suspirei, sabendo que ele estava certo, mas frustrada por estar cedendo ao seu ciúme. Não gostei nada disso, mas também não gostaria se a situação fosse o contrário. Acho que eu ficaria maluca se outra mulher estivesse dando em cima de Kit. — Eu sei disso. Eu entendo. Vou procurar outro emprego, mas preciso continuar trabalhando lá até ele achar outra pessoa para ocupar o meu lugar — Kit começou a discutir, mas ergui a mão. — Chega, Kit. Não posso simplesmente abandoná-lo. Não importa o que ele tenha feito, ele sempre vai estar disposto a me ajudar. Kit fez um som de rugido, mas não disse nada. Na verdade, o resto do café da manhã se passou no mais completo silêncio. Quando estava na hora de ir, dei-lhe um beijo de despedida e caminhei em direção à porta, sentindo-me vazia por dentro. Não gostava de deixá-lo dessa maneira, com as coisas tão tensas entre nós. Como sempre, segui minha rotina habitual e meu coração afundou quando cheguei aos degraus. Não havia sinal de Thomas e Marcus hoje. Olhei em volta. Será que eles estavam por ali e eu só não tinha visto? Quando não consegui encontrá-los, subi as escadas, colocando as duas bebidas em cima da mesa. Quando Tony entrou, abri um sorriso. — Oi. Tenho um café ou um chá sobrando se você quiser. Ele sorriu, pegando o café. — Obrigado, Olivia. — Não precisa agradecer — respondi, sorrindo. Tony piscou para mim e seguiu em direção à cozinha. Fui até o escritório e coloquei minha bolsa e


o casaco no chão. Saí pela porta e dei de cara com Tammy. — Ah, foi mal — desculpei-me. — Tudo bem — respondeu ela, sem ao menos olhar para mim. Meneei a cabeça e segui em direção à cozinha. Eu não estava me sentindo nada bem. As coisas estavam dando errado desde o momento em que acordei. Já conseguia sentir que estava caindo dentro de um buraco negro. Com a tensão que estava rolando entre Kit e eu, com o fato de Thomas e Marcus não estarem aqui e o comportamento de Tammy, eu estava me sentindo depressiva pra caramba. Sabia que precisava me livrar desse sentimento. Era esse o motivo de eu estar aqui em primeiro lugar. Precisava seguir em frente. Não havia outra maneira. Então, me recompus e segui adiante, preparando as bandejas para o refeitório. Quando tudo estava pronto, Tammy abriu a porta da frente e a multidão entrou. Abri o melhor sorriso que consegui, tentando mostrar a todos que eu estava feliz. Enchi prato atrás de prato, fazendo disso o meu propósito. Cinco minutos depois, vi que Jack, um cara que sempre vinha aqui, parecia estar escondendo uma garrafa em um saco de papel pardo. Parando-o no meio do caminho, estendi a mão. — Jack, você não pode entrar com isso aqui. Você conhece as regras. Nada de álcool. Jack franziu um pouco o cenho. — Por favor, não tire meu xará de mim. Prometo que não vou beber aqui dentro. Prendi a respiração, tentando controlar o ímpeto de tirar a sacola das mãos dele. Minhas narinas se inflaram. Apesar de saber que era impossível sentir o cheiro da bebida, de alguma forma, eu conseguia. Invadiu todos os meus sentidos, aumentando ainda mais a minha vontade de tirar a garrafa dele. Tentando acalmar minha respiração, fiz um sinal com a mão para que ele entregasse a bebida para mim. — Prometo que vou devolver depois que você tiver comido. Mas se quiser muito ficar com ela agora, você e sua amiguinha vão ter que ir embora. Entendeu?


Jack balbuciou alguma coisa, entregando-me a garrafa a contragosto. Tammy apareceu naquele instante. — Tammy, você pode assumir as coisas por um minutinho? Preciso levar isso lá para os fundos. Ela olhou para mim e, então, para o saco de papel, e franziu o cenho. Assentiu, aproximando-se para tomar o meu lugar. Saí andando sem dizer mais nada e segui em direção ao escritório. Estava segurando a garrafa com tanta força que só percebi que minhas mãos estavam vermelhas quando comecei a sentir dor. Recostando minha testa contra a parede do escritório, fechei os olhos e respirei fundo. Eu não sentia uma vontade tão grande assim há meses. Tudo bem que eu trabalhava em um pub, mas sempre me mantive longe das garrafas de Jack Daniels. Charlie sabia que eu não gostava de chegar perto daquelas garrafas e nunca havia me questionado. Lembrei-me de uma ocasião, três anos atrás, quando minha bebida havia acabado. Eu não queria sair de casa, mas a minha necessidade de encher a cara para me sentir entorpecida era maior. Assim que voltei para casa e tranquei a porta, abri a garrafa e tomei um gole. Engoli em seco, sentindo a queimação descendo pela minha garganta. Lembrei daquela sensação como se fosse ontem. Sem pensar duas vezes, tirei a garrafa do saco de papel e notei que ela estava pela metade. Só uma cheiradinha. É só disso que preciso. Fechei os olhos por um instante e me vi abrindo a tampa e o aroma me atingiu com tudo. A bebida me chamava como um farol. O seu clamor enchia o cômodo. Beba-me! Beba-me! Mordi o lábio, travando uma guerra na minha cabeça. Uma parte de mim gritava para que eu largasse a garrafa; outra parte dizia para eu ir em frente... implorava para eu seguir em frente... desafiava-me a seguir em frente. Ergui a garrafa, abrindo a boca. De repente, senti uma mão segurando meu braço. Com meu coração acelerado, ergui a cabeça e vi Kit olhando para mim com a expressão mais preocupada que eu já vira em seu rosto. Seu olhar implorava-me para que eu fizesse a escolha certa.


— Sinto muito — desculpou-se ele. Essas duas palavras romperam o meu torpor e me trouxeram de volta à realidade. Encarei Kit e arregalei os olhos antes de voltar o olhar à garrafa. Percebi que ela estava aberta e que a tampa estava em minha outra mão. Rapidamente fechei a tampa e devolvi a garrafa ao saco de papel pardo, colocando-a sobre a mesa. — Ai, meu Deus. O que eu estou fazendo? — Comecei a tremer violentamente, imaginando como eu vim parar nessa situação. Minha mente pareceu sair de seu torpor. Estou no refeitório comunitário. Estou no trabalho. No que diabos eu estava pensando? Senti os braços de Kit me envolvendo e me afundei no seu abraço. — Shh, está tudo bem, Olivia. Eu estou aqui. Sempre vou estar aqui por você. Meu coração estava batendo tão forte no meu peito que até doía. — Eu não tive intenção de... Eu não ia... O que eu estava dizendo? Eu tinha toda a intenção de beber aquela garrafa. Não havia sentido em negar isso. — Foi culpa minha. Sinto muito. Meneei a cabeça que estava recostada sobre seu peito. — Não ouse inventar desculpas para o meu comportamento, Kit. Isso foi tudo culpa minha. De mais ninguém. Eu costumava culpar a todos por minhas ações, mas agora eu vejo que era apenas uma desculpa débil para a ruína que eu mesma causava. Isso foi culpa minha. Tudo sempre foi culpa minha. Ele se afastou e pegou meu rosto com as mãos. Minha respiração se acalmou imediatamente. — Eu não estava bravo com você. Estava bravo com Charlie. Bravo porque ele te fez sentir desconfortável de voltar ao trabalho. Eu jamais ficaria bravo com você. Abri um sorriso, sentindo-me um pouco mais calma. — Eu sei disso. E eu também sinto muito. Por favor, não pense que vou me comportar desta maneira sempre que tivermos uma briga — Apontei para a garrafa e estremeci. — Preciso sair daqui.


Kit assentiu, pegou minha mão e me guiou para fora do escritório. Tammy estava vindo em nossa direção quando saímos pela porta. Ela lançou um olhar severo para Kit e, então, viu que estávamos de mãos dadas. — Vim procurar você. Você me disse que só ia levar um minutinho. Enrubesci. — Sim, sinto muito. Eu estava me sentindo meio tonta. Tammy franziu o cenho. — Você está melhor agora? — Assenti e ela olhou para Kit. — O que ele está fazendo aqui? Fiquei um pouco afobada, sem saber o que responder. O que ele estava fazendo aqui? Por sorte, ele respondeu por mim. — Fiquei sabendo que rolou uma briga ontem no refeitório. Eu queria me certificar de que Olivia estava em segurança. Não vou incomodar ninguém. Prometo. Eu só quero ficar sentado no refeitório e garantir que ninguém faça algo estúpido. Meu coração se aqueceu diante disso. Se eu não tinha certeza se amava este homem antes, agora eu tinha. Tammy bufou, despertando-me do meu torpor. — Eu não sabia que estávamos contratando guarda-costas — Ela revirou os olhos como se estivesse enojada e continuou andando. — É melhor eu voltar para o refeitório. Você realmente veio até aqui por causa daquilo? — Ele assentiu e senti um ímpeto tão grande de beijá-lo que o puxei para mim ali mesmo. Ficamos ali nos beijando por alguns segundos até que, com relutância, afastei-me dele. Eu estava sem fôlego. — Obrigada — Sorri, plantando um beijo suave em sua boca. — Realmente preciso voltar para o refeitório. Tenho certeza de que a fila estará quilométrica. E estava mesmo. No instante em que voltei, as pessoas estavam todas enfileiradas, imaginando que diabos tinha acontecido. Normalmente havia duas pessoas ali o tempo todo, mas uma delas saiu nas últimas semanas e mais ninguém se voluntariou para tomar o seu lugar.


Kit sorriu e seguiu em direção ao canto do cômodo, encostou-se contra a parede e ficou ali, só observando. Estava longe o suficiente para não ficar no caminho, mas perto o suficiente de mim. Continuei servindo por mais uma hora. Quando tudo havia terminado, suspirei e virei-me para Kit. — Obrigada por ficar aqui... mesmo que não precisasse. Ele sorriu. — Faço qualquer coisa por você, Olivia. Acho que você já sabe disso a essa altura do campeonato. Abracei a tranquilidade que Kit me proporcionava. Depois de tudo que aconteceu hoje, eu ainda não estava cem por cento bem, mas já era um começo. Assim que devolvi a garrafa para Jack e todos foram embora, vireime para Kit. — Acho que está seguro agora. Ele assentiu e me puxou para um abraço. — Preciso resolver umas coisas, mas encontro você na sua casa mais tarde? Assenti, imaginando que coisas ele tinha para resolver. Não perguntei, mesmo estando desesperada para saber. Ele se inclinou e me deu um beijo, gemendo quando se afastou. — É melhor eu ir. Vejo você mais tarde — Ele piscou para mim e foi embora. Enfeitiçada, devo ter ficado parada ali, boquiaberta, por uns bons cinco minutos. Kit sendo Kit já era uma coisa maravilhosa, Kit sorrindo também. Mas Kit piscando? Oh, meu Deus. Acho que morri e fui para o paraíso. Quando minhas pernas estavam firmes o suficiente para eu conseguir andar, comecei a limpar as coisas. Quando ergui o olhar, Tony estava ali, sorrindo de um jeito engraçado. — O que foi? Ele piscou.


— Eu vi você. Enrubesci. — Viu o quê? Tony sorriu. — Você dando o maior beijão naquele cara. Quem é ele? Mordi os lábios e sorri. — O nome dele é Kit. Tony deu risada. — Por que seus olhos ficam tão sonhadores quando você diz o nome dele? Você está caidinha por ele, né? Não podia negar isso. — Talvez só um pouquinho — brinquei. Ele deu risada e nós seguimos fazendo nossas obrigações. Eu estava, por alguma razão, ansiosa para ir embora. Provavelmente porque sabia que Kit podia estar na minha casa esperando por mim. Eu mal podia esperar para correr para os braços dele. Assim que terminei tudo, caminhei apressadamente até a minha casa. Quando entrei pela porta, estava tudo no mais absoluto silêncio. Franzindo o cenho, coloquei minha bolsa no chão e pendurei o casaco no gancho. — Kit? — chamei, procurando-o no saguão de entrada. Kit apareceu no topo da escada. — Estou aqui em cima, linda. Ergui o olhar e fiquei sem fôlego. Com Kit, essa reação acontecia com frequência. Ele estava sem camisa novamente, usando apenas a calça de pijama. Não precisei adivinhar que tipo de tarde ele havia planejado para nós. Ele fez sinal para eu subir as escadas, estendendo a mão para mim assim que cheguei ao último degrau. — Tenho uma surpresa para você. Arfei, sorrindo.


— O que é? Ele sorriu. — Feche os olhos. Fiz o que ele pediu e ele me guiou pelo corredor. Parou e abriu uma porta. Guiou-me para dentro do cômodo e estava difícil resistir ao ímpeto de abrir meus olhos. — Nada de espiar. Fechei os olhos com mais força. — Foi mal. Ele me guiou para dentro do quarto e ouvi quando fechou a porta. Senti sua presença atrás de mim e ele pousou as mãos nos meus braços. — Agora já pode abrir. Abri os olhos e dei de cara com o meu cavalete, uma tela em branco pronta para ser pintada. Atrás, estava a mesinha na qual eu guardava minhas aquarelas. Em cima dela, havia uma caixa envolta em uma fita vermelha. — Você gostou? Acho que meu coração parou de bater. Virei-me para olhar para ele, dando um sorrisão e envolvendo-o em um abraço. — Eu amei! Mas como? Por quê? Ele apontou para a caixa. — Abra primeiro. Fiz o que ele pediu, desfazendo o laço que envolvia o presente. Abri a caixa e vi tintas, pincéis, lápis e um bloco de desenho. Em cima de tudo isso, havia um bilhete. Peguei-o para ler o que estava escrito.

Faça o que te deixa feliz. Bj. Arfei, levando a mão à boca, os olhos cheios de lágrimas. Olhei para Kit e vi o sorriso mais adorável do mundo. — Você me contou que pintar fazia com que você se sentisse melhor quando estava para baixo. Imaginei que, depois do que aconteceu hoje, você


precisaria de coisas que te fazem feliz. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. — Ah, Kit. É lindo. Como posso agradecê-lo por isso tudo? Ele me puxou para mais perto de si e plantou um beijo em minha testa. — Você pode começar a me agradecer fazendo o que te deixa feliz. Faça uma pintura minha. Meus olhos se arregalaram. — Sério? Você deixaria que eu fizesse uma pintura sua? Kit deu risada. — É claro. Dê o seu pior. Dei um cutucão nele. — Ei! Ele riu novamente e o som era como um coral de anjos. — Tudo bem. Eu quis dizer “dê o seu melhor”. Sorri e guardei o bilhete na caixa. Não sabia o que ele havia feito para conseguir pagar por tudo isso. Aquele kit de pintura parecia bem caro. Mas eu não quis perguntar. Seria grosseiro. Em vez disso, fui em direção a um dos banquinhos e o coloquei atrás do cavalete. Pedi para Kit se sentar ali e fui me sentar em meu próprio banquinho. Demorei um pouco tentando encontrar os pincéis e as tintas certas, despejando diferentes tons de dourado, cor-de-rosa, cinza e azul. Assim que encontrei o que queria, sentei-me ali por um momento e observei Kit. Não era difícil admirá-lo por inteiro. Quase todo o seu cabelo estava penteado para trás, mas uma mecha pendia sobre a bochecha. Era sexy. O fato de seu cabelo não ser perfeito combinava com sua energia bruta. O cinza de seus olhos estava mais evidente que o azul hoje, conferindo-lhe um ar mais suave. Os lábios estavam cheios e proeminentes. Faziam uma curva sexy na parte superior, o suficiente para deixar qualquer mulher maluquinha. Quando baixei o olhar, Kit se mexeu e seus músculos se flexionaram. Uma onda de calor se espalhou pelo meu corpo. Só um movimento


dele era o suficiente para acender meu fogo. A visão de sua pele impecável, marcada por tatuagens, fez meu desejo por ele emergir novamente. Mas eu sabia que tinha de fazer isso. Kit sabia que eu tinha de fazer isso, que eu precisava disso. Respirei fundo e encontrei o meu lugar. Amava estar naquele lugar. Podia ser feliz e livre ali. Ninguém poderia me machucar no meu lugar. Sem perceber, já estava deslizando o pincel sobre a tela, pronta para retratar cada detalhe de Kit. E, ah, quantos detalhes. Não sabia ao certo quanto tempo levei, mas assim que senti que já tinha feito tudo que podia, reclinei-me e analisei a pintura. — Você já terminou? Olhei para Kit e assenti, sorrindo. — Terminei. Quer ver? Sem dizer mais nada, Kit ficou de pé e se aproximou de mim. Esta pintura estava diferente de todas as outras. O cabelo estava idêntico e um sorriso radiante escapava de seus lábios. Os olhos exibiam um ar gentil e convidativo, não duro e ameaçador. A aparência de perda e mágoa não estava lá, sendo substituída por uma sensação de paz e tranquilidade. Ele estava simplesmente lindo. — Eu sempre fico impressionado com o seu talento. Como você consegue capturar o visual ideal? Dei de ombros e senti quando ele acariciou a minha nuca com a ponta do dedo. Estremeci e soltei um gemido, virando-me para olhar para ele. Kit deslizou a mão pela extensão do meu pescoço, levando-a em direção ao meu peito. Quanto mais perto do meu peito ele chegava, mais ofegante ficava a minha respiração. De repente, ele se afastou. Uma sensação de perda tomou conta de mim. — Vire-se — ordenou ele e eu obedeci sem hesitar. Fiquei de pé e observei enquanto ele diminuía a distância entre nós. Depois, começou a desabotoar a minha blusa devagarinho... Tão devagar que me deu agonia.


Seus olhos se prenderam aos meus e assim ficamos, sem afastar o olhar. Consegui sentir a umidade se formando na minha calcinha enquanto eu tentava conter minha respiração ofegante. Kit se afastou de mim e foi só então que me dei conta de que estava nua. Ele tinha conseguido me despir sem que eu notasse. Observei-o pegar um dos meus pincéis e o molhar na tinta dourada. Aproximou-se de mim e o deslizou com delicadeza ao redor do meu mamilo. Gemi diante do toque frio, mas também por causa da sensação erótica do pincel contra minha pele. Meus mamilos reagiram instantaneamente, o que colocou um sorriso nos lábios de Kit. Como é que alguém poderia se cansar dos sorrisos dele? Com delicadeza e suavidade, ele pintou a aréola do meu outro mamilo. Dizer que eu estava excitada seria eufemismo. Esse era um novo lado da pintura que eu definitivamente queria explorar. Querendo participar, fui em direção ao material de pintura e mergulhei a ponta dos dedos na tinta. Esfreguei os dedos enquanto me aproximava de Kit. Pousei minha mão em seu peitoral e a deslizei até o abdômen. Kit silvou e me lançou um olhar semicerrado. Percebi que ele decidiu deixar o pincel de lado ao se dar conta de que minha ideia era muito melhor. Ele foi em direção à tinta azul, mergulhou sua mão ali e a pousou sobre meu peito. Depois, deu um passou para trás. Julgando pelo volume em sua calça de pijama, ele estava muito excitado. Kit deslizou as mãos sobre meus seios e eu fechei os olhos e gemi, libertando a sensação que ele causava em mim. A tinta estava fria, mas, combinada ao seu toque, fez minha pulsação acelerar. Nós pegamos mais tinta e botamos a mão na massa, pintando a maior quantidade de pele possível. Dava para saber quais pedacinhos eu havia tocado, pois eles estavam marcados com tinta. Curiosamente, a parte do seu corpo com mais tinta era o meio do abdômen, bem onde as costelas se encontravam. Eu me dei conta de que aquela deveria ser minha parte preferida no corpo dele... tirando aquela outra parte óbvia, é claro. — Você tem noção de como está linda? Ergui o olhar para encontrar o seu. Com suavidade, ele me puxou


para si, posicionando-me para que ambos pudéssemos ver nossos reflexos no espelho que ficava no canto do cômodo. Tinta azul e dourada se espalhava por cima dos meus seios, barriga e quadril. Definitivamente as partes que Kit mais gostava em mim. Uma de suas mãos segurava o meu braço e a outra tracejava um caminho que ia em direção à curva de minha cintura. — Maravilhosa — sussurrou ele. Estremeci com o seu toque, desesperada para que ele explorasse mais. Levei minha mão ao seu pescoço, percorrendo seu cabelo com os dedos. Kit me recompensou plantando beijinhos na minha nuca. Fechei os olhos e senti sua dureza pressionada contra meu traseiro. Eu o queria tanto. Senti-lo tão perto estava tomando conta de todo o meu ser. — Esqueci uma parte — sussurrou ele, afastando-se de mim. A sensação de perda que senti quando seu corpo se afastou do meu me atingiu com força total. — Kit, o que você está fazendo? Virei-me e vi que ele estava molhando as mãos na tinta azul. Aproximou-se de mim, envolveu-me em seus braços e... tum. Meus olhos se arregalaram quando senti as mãos dele em minhas nádegas. Kit sorriu. — Não podia deixá-las de fora. Eu nunca me perdoaria. Dei risada e olhei para o meu reflexo no espelho, vendo a marca de suas mãos na minha bunda. — Tem certeza de que já pintou tudo o que queria? — perguntei e olhei para ele, arqueando uma sobrancelha. Ele me puxou para mais perto de si, pressionando seu membro contra minha barriga. — Na verdade, não. Tem uma outra parte importante, mas ela não pode ser marcada com tinta. Só pode ser marcada por mim. Mordi o lábio e abri um sorriso atrevido. — Ah, é? Você vai me marcar, então? E como é que você vai fazer isso?


Kit baixou a cabeça para se aproximar da minha boca. — Vou te mostrar. Ele chegou mais perto, pressionando os lábios contra os meus. Abri a boca em um gesto convidativo. Fiquei na ponta dos pés e envolvi seu cabelo com os dedos. Ele me envolveu com mais força, puxando-me para ainda mais perto de si. Soltou um rugido quando enlacei sua cintura com as minhas pernas, diminuindo ainda mais a distância entre nós. Mas ainda não era perto o suficiente. Eu sempre queria mais. Sempre desejava mais. Virando-me de costas, ele pegou um dos banquinhos e nos guiou até o espelho. — Coloque as mãos no banco. Inclinei-me e apoiei as mãos no banquinho. Kit percorreu meu corpo com os olhos com uma expressão faminta. — Você mudou desde a primeira vez que fizemos amor. Você está insaciável agora — observei, abrindo um sorriso atrevido para Kit. Ele devolveu o sorriso. — Você tem razão. Com a pessoa certa, as coisas acontecem naturalmente — Ele tracejou uma linha na extensão da minha coluna, fazendome estremecer. — Está com frio? — Com você, nunca — respondi, sem fôlego. Kit afastou meu cabelo para um lado e se posicionou atrás de mim. Senti sua ereção pressionando minha bunda e não consegui evitar o ímpeto de me pressionar contra ele. Kit sibilou. — Você é muito impaciente. — Acho que as coisas acontecem naturalmente quando estou com você. Suas mãos deslizaram pelos meus braços até atingirem os meus seios. Ele beliscou o meu mamilo e eu gemi, pressionando-me contra ele mais uma vez.


— Olivia, você precisa parar com isso. Eu não consigo me controlar tanto assim — determinou ele, mordiscando minha orelha e gemendo. — Kit, você está mesmo falando sobre autocontrole para mim? A sua risada fez cócegas na minha orelha, enchendo-me de desejo. Senti seu hálito quente na minha orelha. — O que você quer que eu faça com você? — Me toque. Fechei os olhos e esperei o toque dele sobre minha pele. Logo senti suas mãos percorrendo meu corpo até chegar à minha virilha. Ele deslizou os dedos por ali, chegando ao meu clitóris. Gemi novamente. — Kit... Por favor... Ele começou a estimular meu clitóris de forma tão delicada e gentil que fiquei frustrada e excitada ao mesmo tempo. — Kit... — O que você quer que eu faça com você? Gemi mais uma vez, as pernas trêmulas enquanto ele continuava a me estimular. — Quero que você faça amor comigo, Kit. Quero senti-lo dentro de mim. Por favor. Senti a respiração ofegante de Kit na minha orelha. Ele tirou a mão que acariciava o meu seio e a levou até o seu pau, guiando-o na direção certa. Fiquei rígida, esperando por aquela sensação de quando ele deslizava para dentro de mim. Aquela primeira arremetida gloriosa. Pouquinho a pouquinho, ele deslizou entrando em mim. Eu o amava por ser tão delicado. Ele já parecia estar em sintonia com o meu corpo. — Esse é o lugar em que eu sempre quis estar — Ele fez movimentos suaves de vai e vem e continuou estimulando meu clitóris. — Ai, meu Deus, Kit. Você é sempre bem-vindo aqui. Ele deu risada e, então, aumentou o ritmo. Levou uma das mãos à minha cabeça e a virou em direção ao espelho.


— Olhe para nós, Olivia. Veja como nós nos encaixamos. É como se tivéssemos sido feitos um para o outro. Maravilhada, observei nosso reflexo no espelho. Eu me vi inclinada sobre o banquinho e Kit parado atrás de mim. Aquela imagem ficou marcada na minha mente. Deste ângulo, eu conseguia observar enquanto ele fazia movimentos de vai e vem, seus músculos se flexionando enquanto ele estimulava meu clitóris. O bíceps crescia quando ele mexia os dedos. Eu conseguia ver sua bunda se contraindo a cada arremetida que ele dava, indo com cada vez mais força e mais fundo. Observar tudo isso fez a sensação de orgasmo aumentar dentro de mim. Fechei os olhos por um instante e senti que estava perto de atingir o clímax. Perdi o equilíbrio em meio ao meu êxtase, mas Kit me segurou com firmeza. — Kit, eu vou... — E aconteceu. Gritei o nome dele, sentindo meu corpo pulsar ao redor do pau dele. Assim que eu me acalmei, Kit se afastou de mim, virou-me de frente e me pegou no colo como se eu não pesasse nada. Envolvi a cintura dele com as pernas e ele se inclinou para me colocar deitada no chão. Agindo por instinto, agitei a mão no ar para evitar a minha queda. Minha mão foi de encontro à mesa e todo o material de pintura caiu sobre nós. Kit foi o mais atingido, mas agora nós dois estávamos cobertos de água e tinta. — Desculpe — pedi enquanto ele me deitava no chão. Kit deslizou para dentro de mim com uma estocada e gemeu. — Nunca. Peça. Desculpa. Ele continuava dando arremetidas, minhas pernas ainda enlaçadas à sua cintura. Ele estava tão absorto no momento que acho que nem se importaria se o teto caísse sobre nós. Sua respiração estava ofegante e as arremetidas estavam cada vez mais rápidas. Isso foi o suficiente para fazer outro orgasmo percorrer o meu corpo. Nunca pensei que isso fosse possível, mas obviamente era com Kit. Gritei, enfiando as unhas nos braços dele. Kit rugiu e deu uma estocada final, esvaziando-se no meu interior. Ele desabou em cima de mim e assim ficamos por um tempo. Nossa respiração estava ofegante e nós permanecemos enlaçados um ao outro.


Depois de um tempo, senti uma brisa suave contra minha pele, causando-me calafrios. — Definitivamente foi o frio desta vez — Kit ergueu a cabeça para olhar me para. Olhei ao nosso redor e dei risada. — Parece que fizemos uma bagunça e tanto por aqui, Sr. Chain. Duvido que pintar continue tendo o mesmo significado para mim depois disso. Kit sorriu. — Se isso significa que você vai pensar em mim e sorrir, então, eu definitivamente fiz a coisa certa. Ergui a mão e a levei até a sua bochecha. — Você sempre faz a coisa certa. Estar aqui comigo faz com que tudo pareça certo. Ele se inclinou e me plantou um beijo suave. A onda de frio me atingiu novamente, fazendo-me estremecer. — Vou preparar um banho quentinho para você — Kit deslizou para fora de mim e o sentimento de perda me fez estremecer. O frio me atingiu em cheio quando ele se afastou. Kit ficou de pé e estendeu a mão, puxando-me para um abraço. Ele me envolveu em um abraço protetor. — Quero mantê-la aquecida, mas isso não vai acontecer se você continuar assim — Ele olhou em direção à porta e deu um beijo no topo da minha cabeça. — Já volto. Observei enquanto um Kit nu e muito sexy saía do cômodo. Pude ouvir o som de água escorrendo e, então, me virei para ver a bagunça que havíamos feito. Não consegui evitar o espanto. Este cômodo estava sempre tão arrumado, quase nada ficava fora do lugar. Agora, os dois banquinhos estavam revirados, água e tinta delimitavam a área em que Kit e eu nos deitamos e os meus pincéis estavam espalhados por todo lugar. Um deles estava perto da porta, que era bem longe de onde estivemos. Kit voltou, trazendo um esfregão. Estendi a mão para pegá-lo, mas


Kit negou com a cabeça. — Não se preocupe. Eu vou limpar tudo. Agora vá se aquecer no banho. Vou me juntar a você em breve. — Eu não me importo em limpar, Kit. Fui eu que fiz essa bagunça toda. Ele abriu um sorriso atrevido. — E eu amei cada segundo. Agora vá para o chuveiro. Vou terminar rapidinho. Assenti e sorri, percorrendo meus dedos pelo seu braço de maneira sedutora quando passei por ele. — Não demore — sussurrei e saí pela porta. Ele sorriu, meneou a cabeça e começou a limpar o cômodo. Não sabia ao certo o motivo, mas vê-lo ali completamente nu enquanto esfregava o chão era uma das coisas mais sexies que eu já tinha visto. Tive que parar na soleira da porta por um instante para admirá-lo. — Olivia, vá para o banho agora — Sua fala me pegou desprevenida e eu me sobressaltei. Ele não olhou para mim, simplesmente continuou esfregando o chão de maneira sedutora. — Ah, desculpe — Mordi os lábios para impedir que o riso escapasse e fui em direção ao banheiro. Chegando lá, vi que ele tinha colocado sais de banho na banheira. Eu conseguiria me acostumar a isso. Como é que pude pensar que Kit era qualquer coisa além de um amorzinho? Uma onda de dor se espalhou pelo meu corpo quando pensei sobre o meu passado e sobre tudo que acontecera desde então. Meses atrás, eu me meti nisso tudo com uma perspectiva diferente. Agora, estava me envolvendo cada vez mais na situação e não sabia o que fazer em seguida. Com isso em mente, desliguei a torneira e entrei na banheira. Soltei um gemido e estremeci quando o calor da água entrou em contato com minha pele fria. Acomodei-me na banheira e pensei no que faria em seguida. A semana estava quase chegando ao fim e eu sabia que Titio viria atrás de mim. Estava ciente de que, pela primeira vez na vida, não fiz o que ele queria quando ignorei suas mensagens. Foi uma coisa idiota de se fazer, mas eu queria que meu


tempo com Kit durasse um pouquinho mais. Pela primeira vez na vida, eu me sentia feliz. E queria me agarrar a essa sensação pelo máximo de tempo que pudesse. — Um centavo pelos seus pensamentos? Olhei para a porta e avistei Kit parado ali, os braços cruzados sobre o peito. Ele parecia preocupado. Dei de ombros. — Não é nada de mais. Só estava pensando em como minha vida mudou desde... Você sabe. — Brinquei com as bolhas na superfície da água, torcendo para que eu não me entregasse. De soslaio, vi Kit se aproximando da banheira. Observei quando ele se posicionou diante de mim e me olhou fixamente. — O que você está escondendo de mim? Meus olhos se arregalaram um pouco, mas me recompus. — A mesma quantidade de coisas que você está escondendo de mim. Kit estremeceu um pouco e desviou o olhar, afundado em pensamentos. Uma ruga se formou em sua testa, como se ele estivesse lutando para decidir alguma coisa. Voltou a me olhar. — Naquela vez em que eu estava doente e... — Ele afastou o olhar novamente, como se estivesse envergonhado. Peguei a sua mão na minha e o fiz me encarar. — Continue — estimulei. Eu sabia exatamente do que ele estava falando. Ele cerrou os dentes antes de continuar: — De vez em quando, pediam para que eu usasse minha... aparência, acho que se pode dizer assim, para enganar mulheres poderosas. Aquilo me deixou em choque. De todas as coisas que passaram pela minha mente, aquela era a menos provável. — O que você quer dizer com isso, Kit? Você transava com essas


mulheres para chantageá-las depois? Ele fechou os olhos. Pude notar que aquilo o deixou envergonhado. — Não, eu não transava com elas. Não podia. Transar com alguém era algo muito íntimo. Eu só podia ir até certo ponto, longe o suficiente para que tirassem fotos e as usassem para mudar certas... decisões a favor deles. Peguei sua mão. — A favor deles... a favor das pessoas para as quais você trabalhava? — perguntei e ele assentiu. — Eles te obrigaram a fazer outras coisas também? — Ele assentiu novamente. — Imagino que você não vai me contar o quê — Suspirei e reclinei-me contra a extremidade da banheira. Kit olhou para mim. — Eu queria muito poder contar tudo a você, Olivia. Mas já estou falando demais. Não quero colocá-la em perigo. Eu me importo muito com você para fazer isso. Engoli o nó de dor que se formou em minha garganta quando ouvi a palavra “importo” em vez de “amor”. Eu sabia que ainda estávamos no início de nosso relacionamento e que eu não sabia muito sobre Kit, mas doía saber que ele ainda não sentia amor por mim. — Você disse que discordou deles em relação a alguma coisa e foi por esse motivo que quis sair. Você pode me contar o que aconteceu? Ele meneou a cabeça. — Fui enviado para cumprir uma missão. A princípio, fiz o que pediram, mas então, algo me fez voltar atrás. Franzi o cenho. — O quê? Kit suspirou. — Uma garotinha. Meus olhos se arregalaram. — Sério? Como assim? Ele ficou me encarando por um momento.


— Digamos que ela não deveria fazer parte do plano. Quando descobri que ela fazia, tudo mudou para mim. Na verdade, eu devo muito àquela garotinha. Ela me fez enxergar o monstro que havia dentro de mim. A pessoa que eu estava me tornando. Foi então que eu soube que tinha que escapar. Ficar ali e seguir em frente com aquilo teria me levado para um caminho mais sombrio. Fiquei parada ali por um momento, apenas olhando para ele. Sabia que ele não me diria tudo, mas já era um começo. Kit me olhou com um olhar cheio de expectativa. Agora que ele havia me revelado algo, pude notar que também queria algumas respostas vindas de mim. Imaginei que era uma troca justa. Mas, por algum motivo, minha boca permaneceu bem fechada. Eu não conseguia dizer uma palavra sequer. Foi só quando Kit suspirou e fez menção de sair da banheira que eu recuperei a fala. — Meu pai se matou. Kit interrompeu o movimento abruptamente, voltando para dentro da banheira. Virei-me para o lado, sentindo meus olhos ardendo em lágrimas. As memórias eram sombrias demais e me assombravam como se tudo aquilo tivesse acontecido ontem. Com delicadeza, Kit ergueu meu rosto para que eu pudesse olhar para ele. Abriu um sorriso doce, então, continuei a falar: — Eu tinha quase quinze anos e estava vasculhando a casa à procura dele. Não conseguia encontrá-lo em lugar nenhum e foi quando ouvi um estrondo. Corri em direção ao escritório dele, abri a porta e o vi estirado no chão. Ele atirou na própria cabeça. Nunca vou me esquecer dos seus olhos sem vida me encarando. Isso me assombra todos os dias. Kit me envolveu em um abraço e me puxou para perto de si. — Sinto muito, Olivia. Muito mesmo. Chorei em seu ombro e ele ficou ali, confortando-me em um abraço. Quando finalmente me acalmei, ele afastou uma mecha de cabelo do meu rosto. — O que aconteceu com a sua mãe? Suspirei. — Ela morreu de câncer um tempinho depois. Mas, quando isso aconteceu, eu já estava perdida. Foi por isso que tive que me afastar e começar


uma vida nova. — E você escolheu Londres para fazer isso. Dei uma risadinha. — É um lugar tão bom quanto qualquer outro — menti. Afastando-me de si, Kit abriu um sorriso. — Vou te falar uma coisa. Depois desse banho, vou sair para comprar linguiça e batata frita para nós. Que tal? Assenti. — Perfeito. Minha bolsa está em cima da mesa. Tem uma nota de vinte lá dentro. Ele meneou a cabeça, mas não disse nada.

***

Depois do banho, Kit e eu nos vestimos. Ele disse que eu não precisava, mas eu quis ficar pronta para quando ele saísse de casa. Como eu já imaginava, vasculhei minha bolsa quando ele saiu e vi que a nota de vinte libras ainda estava lá. Peguei meu casaco e saí correndo da casa. Caminhei em direção ao local que vendia batata frita e avistei Kit à minha frente. Mantive-me afastada para que ele não me visse e o segui até o final da rua. Ele virou à direita, que era onde deveria virar se realmente estivesse indo onde disse que iria. Continuei o seguindo e ele dobrou mais duas esquinas. Olhou para trás algumas vezes e eu me abaixei para que ele não me visse. Eu estava me sentindo idiota e fiquei brava comigo mesma por estar duvidando dele. Ele realmente só estava indo comprar batata frita para nós dois. Naquele momento, fiz menção de voltar, sentindo-me culpada por não ter confiado nele. Mas, então, de soslaio, vi Kit passando reto em frente ao local que vendia batata frita. Meus olhos se arregalaram e eu continuei o seguindo, acelerando o passo dessa vez. Estava na hora do rush, então, havia muitas pessoas ao meu


redor e eu as usei como esconderijo. Kit continuou seguindo em frente e virou à esquerda em uma avenida. Segui o mais distante que consegui, observando quando ele entrou em um centro comercial. Evitando que ele me visse, atravessei a rua e entrei em uma cafeteria. Pedi um café e me sentei, espiando e esperando. Depois de cinco minutos, Kit apareceu e olhou em volta. Abaixeime um pouco e fiquei sentada ali, escondida. Um homem com cerca de cinquenta anos se aproximou de Kit e entregou um pequeno envelope para ele. Kit assentiu, entregou dinheiro ao homem e saiu andando. A princípio, fiquei sentada ali. Daí, me dei conta de que Kit estava voltando para casa, então, levantei-me em um sobressalto. Saí correndo da cafeteria, mas segui por um caminho diferente para não dar de cara com Kit. Era um pouco mais demorado, mas torci para que eu chegasse em casa primeiro, levando em consideração que Kit ainda teria que parar para comprar o nosso jantar. Dez minutos depois, cheguei à minha rua. Caminhei até a porta e tentei recuperar o fôlego enquanto colocava a chave na fechadura. Entrei às pressas e fechei a porta, varrendo o cômodo com os olhos. Era impossível que Kit tivesse chegado primeiro, mas, quando se tratava dele, eu realmente não tinha como saber. Tantos segredos. Tantas perguntas. O que ele estava fazendo? Quem era aquele homem? E, mais importante que isso, o que havia naquele envelope que valia a quantidade de dinheiro que Kit pagou ao homem? E também: como ele conseguiu tanto dinheiro se era morador de rua? Todas essas perguntas me deixaram perplexa. Ele morava nas ruas, mas ainda assim tinha dinheiro para comprar um kit de pintura caro, batata frita e... informações. Pensando logicamente, cheguei à conclusão de que ele devia agir dessa maneira para se esconder das pessoas que estavam atrás dele. Aquelas contra as quais ele se rebelou. Minha mente estava tomada por perguntas. Tomada por possíveis respostas. Tomada pelo pensamento de que eu precisava agir depressa. As coisas estavam ficando perigosas agora. Só queria que Kit se abrisse e me dissesse as


palavras que eu tanto queria ouvir. Ele me deu um gostinho, mas eu precisava de mais. Essa necessidade estava crescendo a cada dia. Tirei o casaco e o pendurei no gancho. Fui até a cozinha, levei a chaleira ao fogo e peguei alguns pratos no armário. Eu tinha de fingir que estive em casa durante todo o tempo em que ele se ausentou. Estava terminando de colocar as xícaras de chá na mesa quando Kit apareceu, sorrindo de orelha a orelha. Devolvi o sorriso e ele entrou na cozinha, carregando sacolas de comida nas mãos. — Desculpe a demora. Pensei que seria mais rápido. Está na hora das pessoas saírem do trabalho, a fila estava longa. Abri um sorriso doce, sabendo que ele estava mentindo. — Não tem problema. Você já chegou. Obrigada por ir comprar isso. Eu estou morrendo de fome. Kit veio em minha direção e plantou um beijo suave em minha testa. Ele se afastou, com o cenho franzido, e pousou a mão na minha cabeça. — Você não está ficando doente de novo, está? Parece meio quente. Dei uma risada nervosa e me afastei dele. — Não. Acho que é culpa sua, Kit. Você sempre me deixa em um estado febril. Ele sorriu para mim, mas pude ver a dúvida estampada em seu rosto. Estava suspeitando de algo. Com um homem como Kit, acho que não dá para se safar de tudo. Eu estava tentando, mas acho que ele não acreditou em mim. Sentamos em um silêncio confortável, quebrando-o ocasionalmente para comentar como as batatas estavam boas. Não conseguia evitar que meu olhar se recaísse sobre o casaco que ele estava usando. Eu tinha certeza de que o envelope estava em um dos bolsos, e isso me deixava frustrada pra caramba. — Você está bem? Sobressaltei-me diante da sua voz. — Eu? — perguntei com a voz aguda. — Estou ótima. Estava só pensando em toda a diversão que tivemos no meu estúdio hoje. Dei uma piscadela e ele sorriu em resposta.


— Eu acho que gostaria de levá-la para cama depois disso. Não consegui evitar. Uma onda de calor se originou no meio das minhas pernas e fiquei excitada só de pensar nisso. — Pelo jeito que você está me olhando, acho que você concorda comigo. Assenti. — Concordo sim. Sem dúvidas. Kit amassou seu saco de batatas vazio e o colocou dentro da sacola plástica. Quando percebeu que eu também havia terminado, fez o mesmo com o meu. — Então, o que você está esperando? Ele se levantou e veio até mim, estendendo-me a mão. Aceitei e fiquei de pé. — Que tal se eu lavar a louça e subir logo em seguida? Ele abriu um sorriso e se inclinou para me dar um beijo. — Não demore. Dei um risinho nervoso. — Não vou demorar. Quando Kit subiu as escadas, olhei para o casaco dele que ficou ali. Eu precisava lavar a louça primeiro, mas talvez pudesse dar uma espiada depois que terminasse o serviço. Voltei para a cozinha e arrumei tudo o mais rápido que podia. Então, voltei à sala de estar. O casaco estava esparramado no sofa. Eu o peguei e enfiei a mão em um dos bolsos. Senti o envelope e estava prestes a pegá-lo, mas uma voz me fez hesitar. — Olivia, você vem ou não? Do alto da escada, vi que ele estava me observando de cenho franzido. Engoli em seco e abri um sorriso corajoso, como minha mãe costumava chamar. Pigarreei. — Já vou. Só ia pendurar o seu casaco.


Discretamente, tirei a mão do bolso do casaco e fui em direção ao cabideiro. Pendurei-o ao lado do meu, tomada pela frustração de não saber o que tinha naquele bolso. Aquilo provavelmente me incomodaria a noite inteira. Olhei na direção de Kit. — Pronto. Agora eu já posso subir. Ele sorriu e estendeu a mão para mim. Lancei um último olhar ao casaco e subi a escada. Peguei a mão de Kit e ele me puxou para um beijo longo e magnífico. Acho que descobrir o que tem naquele envelope vai ter que esperar.


CAPÍTULO DEZESSETE

Eu estava percorrendo minha antiga casa à procura de meu pai. Conseguia ouvir rugidos ao meu redor. Fui de porta em porta, mas não encontrei nada. Nada além dos barulhos amedrontadores dos cachorros. As cortinas se agitaram com o vento no canto da sala de estar. Estava escuro lá fora e tudo que eu podia enxergar era a escuridão. Quando me aproximei da cozinha, um movimento no canto dos olhos me alertou que alguém — ou algo — estava no cômodo. Olhei para trás e vi um lobo maior que um dogue alemão. Ele mostrava os dentes e rosnava para mim. Os olhos eram pretos e sangue escorria de suas presas. Arfei e andei de costas em direção à porta. Outros dois lobos apareceram para ladear o primeiro. Soltei um grito. Virei-me, girei a maçaneta da porta e entrei correndo com os lobos ao meu encalço. Passei por outra porta e berrei, chamando o meu pai. Ouvi um estrondo e corri em direção ao escritório dele. Talvez meu pai pudesse me salvar daqueles monstros. Aproximei-me da porta do escritório e estava prestes a girar a maçaneta quando senti uma mão segurando a minha. Olhei para trás com os olhos arregalados de medo. Kit estava parado ali com os dedos em frente à boca. — Você não pode entrar aí, Olivia. Não deve entrar aí — Ele me puxou para si e nós subimos as escadas correndo, os lobos correndo logo atrás. Assim que chegamos ao topo da escada, fomos em direção ao banheiro. Kit fechou a porta e a trancou. Ficamos abraçados ali em meio à escuridão. Minha respiração estava entrecortada e meu corpo todo tremia. Kit me abraçou com mais força e o som dos lobos arranhando a porta me aterrorizou. — Shh, está tudo bem, Olivia. Estou com você agora. Ninguém mais pode te machucar.


Acordei sobressaltada, tentando acalmar minha respiração. Senti braços me envolvendo quando sentei-me na cama. — Outro pesadelo? Assenti, minha cabeça repousada em seu ombro. — Sim, mas esse foi diferente. Você apareceu para me salvar. Havia dúvida em minha voz. — Mas parece que você ficou surpresa com isso. Neguei com a cabeça, torcendo para que eu não o tivesse magoado. — Não, não é isso. É só que... Geralmente eu tenho o mesmo pesadelo sobre meu pai. Mas desta vez foi diferente porque você me impediu de entrar por aquela porta. Você me salvou de encontrar meu pai morto em seu escritório — esclareci, deixando a parte dos lobos de fora. Kit suspirou. — Se eu tivesse uma máquina do tempo, eu voltaria e faria isso. Eu faria tudo para salvá-la dessa dor. Recostei-me nele e abri um sorriso. — Eu sei que você faria isso, Kit. Aconcheguei-me a ele, sentindo o sorriso se formar em meus lábios. Fechei os olhos por um momento e, quando os abri, olhei para o relógio. — Merda! — Levantei-me da cama e corri em direção ao banheiro. — Eu esqueci de programar o despertador ontem à noite. Abri o chuveiro e prendi o cabelo em um coque. Kit apareceu logo depois, completamente vestido. — Foi mal. A culpa foi minha. Acho que te deixei muito cansada. Ignorando o gracejo dele, apontei para as suas roupas. — Faz quanto tempo que você acordou? Por que você não me acordou? Ele sorriu. — Eu tentei, mas você murmurou algo sobre não querer ir à escola hoje e continuou dormindo. Pensei que você precisava descansar. O refeitório


comunitário consegue sobreviver um dia sem a sua ajuda. Entrei no chuveiro e fechei a cortina. — Você não entende, Kit. As pessoas estão contando comigo lá. Eu não quero desapontar ninguém. — Duvido muito que alguém ficaria desapontado, mas a escolha é sua. Só vou me certificar de que você fique segura caso decida ir. Revirei os olhos e abri a cortina para dar um fora nele, mas, ao fazer isso, vi que ele já não estava mais lá. Bufei de irritação e tomei um banho rápido. Quando terminei de me arrumar, desci as escadas e quase trombei com Kit, que estendia uma torrada para mim. — Você não pode sair sem comer alguma coisa. Minha vontade era fazer uma saudação, mas abri um sorriso doce e dei-lhe um beijo em vez disso. — Obrigada — agradeci e lembrei-me do que ele havia dito lá em cima. — Mas não tem necessidade de você ser meu guarda-costas, Kit. Tenho trabalhado lá há meses e nunca me meti em nenhum problema. Ele pareceu um pouco desapontado. — Eu sei disso. Só não gosto de pensar que pode acontecer alguma coisa e eu não vou estar lá para prevenir. Mordi os lábios, perguntando-me se devia trazer isso à tona ou não. — Eu tenho que trabalhar hoje à noite e não quero que você fique lá comigo, observando cada passo que eu dou. Kit fez careta e rangeu os dentes. — Eu ficaria observando uma outra pessoa. Acredite, eu não estou nada feliz por você ter que voltar lá. Pousei minha mão sobre seu peitoral definido. — Eu sei disso. Vou conversar com ele hoje. Prometo. Ele assentiu, puxando-me para um beijo. Quando nos afastamos, Kit grunhiu.


— Você tem mesmo que ir hoje? Dei um tapinha nele. — Sim, homem insaciável. Eu tenho. Logo me arrependi de dizer isso.

***

Thomas e Marcus não deram as caras de novo. Kit falou para eu não me preocupar com isso, que eles provavelmente só estavam tendo dificuldade de lidar com a morte de Rachel e com a prisão de Wayne. Mas eu não conseguia evitar a preocupação que sentia. Eu nunca parava de me preocupar. Olhei para Kit, que estava sentado em um canto, observando-me. Ele sorriu e eu fiz o mesmo, abrindo um sorriso tímido para ele. Havia alguma coisa errada comigo, mas eu não sabia o quê. Provavelmente era por saber que Kit estava tramando alguma coisa. Ele parecia o mesmo, mas havia algo nele hoje que me fazia duvidar disso. Desejei muito saber o que era, porque aquilo estava me assustando muito. Um pouco mais tarde, as coisas pioraram ainda mais. Eu estava limpando as coisas e Kit estava me ajudando a recolher as louças sujas quando Tammy entrou de supetão, fazendo-me pular de susto. — É ele ali — declarou ela, apontando para Kit. Havia dois policiais atrás dela. Deixei os pratos de lado, sequei as mãos no avental e fiquei parada em frente a Kit, que parecia chocado e assustado. Lancei um olhar para Tammy. — Que diabos está acontecendo aqui? Tammy agitou o dedo freneticamente. — É ele. Ele tem roubado o dinheiro no escritório. Eu o vi roubando esta manhã. Dei risada. — Não seja idiota. Ele ficou aqui me ajudando a manhã toda. — Mas eu vi! — Os olhos dela estavam arregalados e agitados. Tive


uma intuição de que havia algo de errado. Os policiais se aproximaram, mas eu bloqueei o caminho deles. — O que vocês acham que estão fazendo? Um deles me lançou um olhar repleto de frustração. — Nós temos que prender este homem e interrogá-lo sobre o roubo. Neguei com a cabeça. — Não aconteceu roubo nenhum, senhores. A Tammy está muito enganada. Ela negou com a cabeça. — Não estou, não. O dinheiro vem sumindo de lá há semanas. Continuei firme. — Tudo bem, mas sumiu dinheiro mesmo quando Kit não estava aqui. Como é que você explica isso? Tammy começou a gaguejar. Eu sabia que ela estava mentindo, mas também notei que Kit estava com muito medo de ir para a cadeia. Eu não podia deixar aquilo acontecer. — Ele roubou! Eu sei que roubou! — guinchou ela. O policial tentou passar por mim novamente e foi então que eu perdi a cabeça. — Fui eu. O cômodo ficou no mais absoluto silêncio. Até mesmo o rosto de Tammy ficou pálido. O policial se aproximou de mim. — O que foi que você disse, mocinha? Senti a mão de Kit nas minhas costas, mas ignorei seu pedido silencioso. — Fui eu. Eu roubei o dinheiro. Tenho roubado há semanas. Se você analisar as impressões digitais, vai ver que fui eu. Kit não teve nada a ver com isso. Ele só tem me ajudado aqui porque estamos com poucos ajudantes. Ele é inocente. Se você precisa prender alguém, que esse alguém seja eu. Eu sou a culpada.


O cômodo voltou ao estado de silêncio absoluto enquanto o policial alternava o olhar entre Kit e eu. Algo estava me dizendo que ele sabia que eu estava mentindo, mas uma confissão era uma confissão. — Você sabe que perjúrio é crime, né, mocinha? Assenti, com consciência de que eu poderia me meter em uma encrenca danada. Mas não me importava com isso. Só queria que Kit ficasse a salvo. — Eu sei disso. Eu vou com você. Só preciso pegar minhas coisas antes — Virei-me e vi que Kit olhava para mim com uma expressão amedrontada. Lancei um olhar para ele, implorando para que ele não dissesse nada. — Vejo você mais tarde — sussurrei. Afastei-me, querendo evitar o olhar dele. Pude notar que ele estava desesperado para dizer alguma coisa, mas eu já tinha ido longe demais. Ele tinha que ficar quieto se quisesse se manter a salvo. Nós dois sabíamos que eu era inocente, mas se me meter em problemas fosse garantir que Kit ficaria fora disso, eu tinha que ir em frente e fingir que tinha mesmo roubado seja lá qual fosse a quantia de dinheiro que Tammy estava me acusando. Lancei um olhar rápido para Tammy antes de sair do cômodo acompanhada dos dois policiais. Ela parecia chocada e afobada ao mesmo tempo. Acho que ela acreditava que eu não era culpada. Mas, então, quem é que roubou o dinheiro? Peguei as minhas coisas e saí, guiada por um dos policiais que segurava o meu braço. — Eu não pretendo fugir, sabe. Eu vou de livre e espontânea vontade. Ele me virou para que eu pudesse encará-lo. — Nós precisamos algemá-la, senhorita. É para a sua segurança e para a nossa também. Franzi o cenho. — Mas por quê? Eu confessei e estou indo com vocês por vontade própria. O policial puxou meus braços para trás e me algemou. — Eu sei disso, mas é o procedimento padrão.


Suspirei. — Isso é ridículo. Ele não respondeu, apenas me guiou em direção ao carro que estava estacionado ali em frente. Dizer que foi vergonhoso é eufemismo. Todo mundo olhava para mim e pude ver que estavam cochichando. Mas eu não faria nada para amenizar a situação. Eu estava fazendo isso por Kit, então, não ligava para o que os outros estavam pensando. O policial me fez entrar no carro e nós seguimos para a delegacia. Quando chegamos lá, meus pulsos estavam doloridos por causa da algema que os prendiam. — Ei, você tinha que apertar tanto assim? Não estou acostumada a usar isso — O motorista olhou para mim pelo retrovisor e abriu um sorrisinho. Franzi o cenho. — Por que você está sorrindo? O policial sentado no banco de passageiro virou-se para mim e sorriu. — Não se preocupe. Vamos tirar as algemas quando estivermos lá dentro. Fui levada para uma salinha e um homem anotou todas as minhas informações em um computador. — Srtª Caudwell-Brown. Por que o seu nome me soa tão familiar? O cara atrás do computador franziu o cenho e ficou me encarando por trás dos seus óculos. Quando voltou a olhar para a tela do computador, seus olhos se arregalaram. — Seu pai era um homem de muito prestígio, Srtª Caudwell. Por que você resolveu roubar dinheiro? O policial que havia me alertado sobre perjúrio soltou um suspiro longo. Entendi a mensagem. — Eu sou Srtª Brown agora. Mudei de nome alguns meses atrás. O cara atrás do balcão me lançou aquele olhar. Você sabe, aquele olhar de empatia que te faz estremecer por dentro. Eu não queria a empatia dele. Não queria a empatia de ninguém. O policial atrás de mim pigarreou.


— Acho melhor levarmos a Srtª Brown para a sala de interrogatório. Pediram para que eu esvaziasse os meus bolsos. Depois, guiaramme por um corredor. No meio do caminho, demos de cara com Gareth, o policial que Marcus disse que estava flertando comigo no dia em que achamos Rachel. Ele franziu o cenho quando me viu. — Olivia? O que você está fazendo aqui? Eu estava prestes a responder, mas outro policial me interrompeu. — Você a conhece, Gareth? Ainda de cenho franzido, ele se virou para o policial. — Conheço. Foi ela quem ligou para falar sobre o depósito. Sobre aquela moça que morreu — Ele viu que estremeci e fez uma careta. — Sinto muito. O policial, ficando cada vez mais frustrado, suspirou. — Ela está sendo acusada de roubo. Gareth meneou a cabeça e olhou para mim. — Roubo? Com certeza houve algum engano. — Ela confessou. Baixei a cabeça, envergonhada, e fui guiada pelo corredor. Não queria ver os olhares acusadores. Quando chegamos à sala de interrogatório, o policial pediu para que eu me sentasse. Assim que entrei, Gareth deu um tapinha no ombro do outro policial e olhou para mim. — Policial Michaels, posso conversar com você por um minutinho? Michaels assentiu e se virou para mim. — Eu já volto. Assenti e me sentei, esperando que ele voltasse. Não sabia ao certo que perguntas ele tinha para mim. Eu já tinha confessado o roubo. O que mais ele queria? Ele voltou e se sentou. — Srtª Brown...


— Por favor, me chame de Olivia. Odeio ser chamada de senhorita. Ele abriu um sorriso e assentiu. — Olivia, fui informado que uma certa quantia de dinheiro foi roubada ontem. Foi você? Assenti. — Quanto você pegou? Merda. Desviei o olhar e remexi os dedos da mão, um sinal claro de nervosismo. — Hmm... Acho que vinte libras. Não consigo lembrar direito. Não costumo ficar contando. Michaels me encarou por um momento, analisando todos os meus movimentos. — Por que será que eu acho que você está mentindo? Dei risada. — Sabe, isso é muito engraçado. Se eu estivesse negando tudo, você estaria me interrogando e tentando me fazer confessar. Estou confessando abertamente, mas mesmo assim você não está satisfeito. Ele se inclinou um pouco, o cabelo comprido caindo sobre os olhos. Ele afastou a mecha intrusa. — Algo me diz que você não está dizendo a verdade. Você está tentando proteger alguém? Você está protegendo o cara do refeitório comunitário? Por que você faria isso? Fiquei brava... e assustada. — Eu não estou protegendo ninguém. Eu roubei, você me pegou e agora pode me acusar. Por favor, só ande logo com isso e pare de perder o nosso tempo. Tenho certeza de que você tem peixes maiores para pescar. Michaels soltou um suspiro longo e meneou a cabeça. — Muito bem — Ficou de pé e caminhou em direção à porta. — Vou atrás da papelada, então, posso pegar seu depoimento e acusá-la formalmente. Ele saiu da sala e, mais uma vez, fiquei sozinha. Odiava o silêncio.


Odiava não ter nada além de quatro paredes como companhia. Fazia com que eu me sentisse em pânico e um pouco claustrofóbica. Não gostava de estar aqui, mas fiz isso pelo bem de Kit. Sabia que não era ele quem estava roubando aquele dinheiro. Aquilo me fez pensar na caixa postal que ele tinha e no dinheiro que provavelmente estava guardado lá. Como ele conseguiu aquele dinheiro? Fiquei sentada absorta em pensamentos por tanto tempo que por um instante cheguei a me perguntar se ele não era mesmo um ladrão. Meneei a cabeça e afastei aquela ideia. Era impossível ele ter roubado aquele dinheiro, porque o dinheiro sumiu em algumas ocasiões em que ele nem estava presente. Fiquei me sentindo culpada por sequer pensar que ele poderia ter feito aquilo. Não sei ao certo quanto tempo fiquei sentada ali, mas pareceram séculos. Fiquei remexendo os dedos e olhei para o meu relógio. Foi quando me dei conta de que estava sentada ali há pelo menos meia hora! Por que estava demorando tanto assim? Será que demorava meia hora para ir atrás da papelada? Fiquei sentada ali por mais dez minutos até que a porta se abriu e Michaels e Gareth entraram. Os dois me lançaram olhares inexpressivos e se sentaram. — Peço desculpas por ter demorado tanto, Olivia. Uma situação surgiu e tivemos que lidar com ela. Suspirei. — Tudo bem. Você vai me acusar agora? Gareth negou com a cabeça com um sorriso contraditório nos lábios. — Não, você não vai ser acusada. Franzi o cenho e inclinei-me para frente. — Mas eu já falei. Eu... Michaels ergueu a mão. — Não diga mais nada, Olivia. Você já nos contou mentiras demais. Nós sabemos quem realmente roubou o dinheiro e essa pessoa está sendo presa neste exato momento.


Senti um nó no estômago. — Mas não foi ele. — Ele? — perguntou Gareth, arqueando a sobrancelha. Engoli em seco. — O homem que vocês foram prender hoje mais cedo. Ele não faria isso. Eu sei que não. Michaels olhou para a papelada sobre a mesa e, depois, para mim. — Você conhece um Thomas Wilkes? Engoli em seco novamente. — Conheço. Ele sempre vai no refeitório comunitário. Não o vejo há algumas semanas, então, não pode ter sido ele. Michaels sorriu. — Ele e um tal de... — Ele olhou para a papelada novamente — Marcus Drummond fizeram uma denúncia. E isso ocasionou na prisão de Tammy Foster — Ele franziu o cenho enquanto uma onda de choque percorreu meu corpo. — Você sabia que ela era a culpada? Neguei com a cabeça. — Como vocês sabem que foi ela? Michaels deu risada. — Houve algumas provas, mas isso é irrelevante. O que eu realmente quero saber é por que você cometeu perjúrio daquela maneira. Quem você estava tentando proteger? Remexi os dedos. Apesar de tudo, eu estava com problemas. Menti para a polícia sobre um crime que não cometi. Ah, que ironia! — Eu sabia que não tinha sido Kit. Michaels empertigou-se. — Aquele cara de cabelo comprido que estava com você na cozinha? — Assenti. — Mas por que você não deixou que a gente o trouxesse, o interrogasse e todo o resto? Chegaríamos à mesma conclusão. E isso teria evitado um monte de problemas para você.


Suspirei, sentindo-me um lixo. Eu estava me esforçando tanto para proteger Kit, mas parece que acabei piorando as coisas. — Kit é muito sensível em relação às pessoas. Demorou muito tempo para que eu conseguisse fazê-lo conversar comigo, quanto mais ajudar-me na cozinha. Se você perguntar a qualquer um, vão dizer a mesma coisa. Eu só estava tentando protegê-lo porque sabia que ele era inocente. Ele ficaria muito assustado se vocês o prendessem. Parte do que eu disse era verdade, ainda que um pouco distorcida. Gareth apenas sorriu, mas Michaels cerrou os dentes e meneou a cabeça. — Isso foi muito nobre de sua parte, Olivia. Mas você tem noção da confusão que se meteu? Assenti e baixei a cabeça. — Eu sei disso. Sinto muito por ter dado tanto trabalho, mas não estou arrependida. Eu me importo com as pessoas que conheço e faria qualquer coisa para garantir que elas fiquem sãs e salvas. — Nós jamais machucaríamos ele. Ergui o olhar e vi Gareth olhando para mim com uma expressão preocupada. — Eu sei disso e vocês também, mas Kit não. Eu só estava tentando fazer o que julgava certo por ele. Mesmo que isso não seja certo sob os olhos da lei. Michaels suspirou e olhou para Gareth. Uma conversa silenciosa pareceu ocorrer entre eles. Depois, eles se viraram para mim. Eu só queria ir embora. — Vocês podem me acusar agora? Não quero ser grosseira, mas estou preocupada com meus amigos. Michaels olhou para Gareth novamente e pigarreou. — Não vamos acusá-la de nada, Olivia. Você está livre para ir embora. Ele ficou de pé, mas eu continuei sentada, olhando para eles boquiaberta.


— Mas pensei que você tivesse dito... — Eu sei. Mas vamos deixar você ir embora com apenas um aviso de advertência. Não quero vê-la aqui de novo, Olivia — Michaels sorriu e pousou a mão na maçaneta. — Acho que seus amigos têm muita sorte, Srtª Brown. Cuide-se. Ele deu uma piscadela e saiu pela porta, deixando-me completamente perplexa. Gareth continuou sentado ali, sorrindo. — Você é uma mulher e tanto, Olivia. Você fez uma coisa muito boba e imprudente, que não pode ser ignorada. Mas ainda assim não consigo evitar de me sentir enamorado por você. Alan estava certo. Seus amigos têm muita sorte por terem você. Enrubesci um pouco e desviei o olhar. — Obrigada — Arrastei a cadeira e fiquei de pé. — Acho que é melhor eu ir andando. Posso ir buscar minhas coisas? Gareth assentiu, sorrindo. — Claro. Vou acompanhar você. Passei por ele e senti suas mãos nas minhas costas. Seguimos pelo corredor em direção ao cara que me fichou. — Ah, então, nos encontramos novamente. Eu sabia que você não tinha feito aquilo. Você vem de uma família muito honrada, Srtª Brown. Tenho certeza de que você teve seus motivos para fazer o que fez, mas não foi muito inteligente de sua parte. Ele colocou as minhas coisas, que estavam guardadas dentro de um saco plástico, em cima do balcão. — Obrigada. Ele colocou um formulário em cima do balcão e apontou para o final da página. — Pode assinar aqui, por favor? Assinei e peguei minhas coisas. — Obrigada.


— Vou levá-la até a saída. Senti as mãos de Gareth nas minhas costas novamente enquanto ele me guiava em direção à porta de saída. As pessoas ficaram nos encarando durante todo o trajeto. Foi bem desagradável. — Não é todo dia que uma moça tão adorável como você passa por aqui. Sei que não é bom ser encarada, mas eles não fazem por mal. Dei risada. — Duvido muito disso. Chegamos à porta e ele a abriu para mim. — Ah, duvida, é? — Eu assenti. — Também teria dúvidas se eu te chamasse para sair? Talvez não fique com tantas dúvidas assim. Enrubesci novamente e desviei o olhar, envergonhada. — Eu, ahm... — Vamos lá — pediu Gareth. — Prometo que sou um cavalheiro. Só um drinque, depois a gente vê o que acontece. Neguei com a cabeça. — Sinto muito, mas eu não posso. Fico lisonjeada por você ter me convidado, mas eu estou meio que... envolvida com alguém. E eu estava mesmo. Eu estava muito envolvida com Kit. Pude ver a expressão de decepção estampada em seu rosto antes que ele respondesse: — É claro que está. Uma garota linda como você não pode estar solteira — Ele abriu um sorriso largo. — Bom, se esse cara de sorte mudar de ideia, você sabe onde me encontrar. Ele estendeu a mão e eu a peguei, sorrindo. — Obrigada, Gareth. Vou me lembrar de você caso ele mude de ideia, mas acho que ele não vai. Ele deu uma piscadela. — Esse é o esperado. Cuide-se, Olivia. — Você também.


Eu sorri e ele fechou a porta. Fiquei ali, parada nos degraus em frente à delegacia. Uma parte de mim não sabia o que fazer agora. Será que eu deveria ir atrás de Kit ou de Thomas primeiro? Eu precisava saber que diabos estava acontecendo, mas também precisava informar a Kit que eu estava bem. Ele provavelmente estava morto de preocupação. Olhei para o relógio e me dei conta de que faltavam três horas para o meu turno no bar. Céus, isso não poderia ter acontecido em um momento pior. Querendo chegar em casa o mais rápido possível, comecei a caminhar apressadamente. Estava torcendo para que Kit estivesse esperando por mim lá, então, eu poderia reconfortá-lo dizendo que estava tudo bem. Ou pelo menos tão bem quanto possível. Foi um choque descobrir sobre o crime de Tammy, mas não conseguia entender como Thomas e Marcus estavam envolvidos nisso. Onde eles estiveram nos últimos dois dias? Caminhei o mais rápido que consegui, parando apenas quando avistei Thomas e Marcus esperando por mim na esquina da minha casa. — Como é que vocês sabiam que eu... — Nós sabíamos que você estava na delegacia e que viria para casa quando saísse — explicou Thomas. — Olivia, por que você protegeu aquela vadia? Neguei com a cabeça. — Eu não estava protegendo Tammy. Ela acusou Kit de roubar o dinheiro. Eu estava protegendo a ele. Thomas franziu o cenho. — Quem é Kit? Mordi o lábio. — O cara que nunca conversa com ninguém. Você sabe de quem estou falando. Thomas afastou o olhar por um momento, então, seu rosto se suavizou com um sorriso. — Ah, acho que já sei o que está acontecendo — Ele arqueou a sobrancelha para mim.


Marcus arfou. — Calma aí. Ele não é a razão para você estar toda alegrinha de manhã, é? Comecei a corar e Thomas deu risada. — Ela é tão transparente. Dei um tapinha em Thomas e sorri. — Calem a boca vocês dois. Não devo explicações a ninguém. Marcus lançou um olhar sério para Thomas. — Ela não deve mesmo. Deixe-a em paz. Thomas deu risada. — Foi mal. Eu vou me comportar. Só estou contente em vê-la feliz assim. Franzi o cenho. — Eu sempre estou feliz. Quando é que você me viu infeliz? Thomas pousou a mão no meu ombro. — Ah, minha querida, o que vou fazer com você? Você pode usar a máscara que for, mas eu consigo ver através dela. Você sempre sorri com sinceridade para nós, mas esses sorrisos nunca expressam o que você sente de verdade. Eu conseguia ver que você não estava feliz de verdade. Agora, no entanto, eu consigo ver a felicidade verdadeira por trás dos seus sorrisos. Se ele é o responsável por isso, que bom para ele. Eu só acho que ele é um pouco velho demais para você. Só isso. Neguei com a cabeça. — Ele não é não. É só toda aquela barba que o deixava com aparência de mais velho. Mas agora ele a raspou. Thomas ficou perplexo. — Raspou? Acho que vocês estão mudando um ao outro para melhor, hein? Sorri, mas não quis dar prosseguimento ao assunto. Queria saber o que tinha acontecido hoje.


— Então, o que aconteceu? Eu estava na delegacia, jurando que eles iam me acusar, mas eles entraram pela porta e disseram que eu estava livre para ir embora. Thomas e Marcus se aproximaram um do outro. Parecia até que eles iam me contar sobre uma operação secreta e não queriam que mais ninguém ouvisse. — Bom — começou Thomas —, alguns dias atrás, nós pegamos Tammy no flagra. Marcus tinha deixado o chapéu no escritório e nós fomos até lá buscá-lo. Ela não viu a gente, mas nós a vimos. De qualquer forma, nós nos perguntamos o que deveríamos fazer e decidimos entrar em contato com um cara que conheço. Apesar de ser morador de rua, ele sempre anda com um celular — Ele revirou os olhos. — De qualquer forma, dei uns trocados para ele e peguei o celular emprestado no dia seguinte para tentar flagrar Tammy novamente. E, como eu já imaginava, peguei-a em ação. Ela costumava roubar enquanto você distribuía as refeições. Ele meneou a cabeça, parecendo desanimado. — No dia seguinte, nós a flagramos novamente. Mas, dessa vez, nós a confrontamos. Ela ficou maluca e nos expulsou do escritório, dizendo que não éramos mais bem-vindos e blá-blá-blá. Ela pensou que seria a nossa palavra contra a dela. Quem é que acreditaria em dois moradores de rua e não na voluntária do refeitório comunitário? Nós sabíamos que, em algum momento, ela tentaria jogar a culpa em outra pessoa. Então, nós ficamos em dúvida sobre delatá-la para a polícia ou ameaçá-la. Nós tínhamos decidido ameaçá-la nesta tarde, mas descobrimos que você havia sido presa. Foi quando soubemos que estava na hora de contar à polícia. Processei tudo que ele havia me dito e não consegui evitar o sorriso. — Vocês dois deveriam virar detetives. Seriam ótimos. Encontraram Rachel, depois, pegaram Tammy no flagra. Eu não sei como vocês conseguem. Thomas levou à mão ao nariz e o tocou algumas vezes. — Sabedoria das ruas, garota. É só isso. Mas você está certa. Marcus e eu formaríamos uma bela dupla — Ele piscou para mim e eu abri um sorriso. — Obrigada por me salvarem hoje. Marcus abanou o ar com a mão.


— Não precisa agradecer, criança. Você faria o mesmo por nós. — Sem hesitar. Ele sorriu. — Viu só? Eu sabia. Olhei para o final da rua, ansiosa para ir para casa. — Ei, vocês querem ir até a minha casa para comer alguma coisa? Tenho bastante comida caso vocês estejam com fome. Marcus deu tapinhas suaves no meu ombro. — Não, estamos bem. Já encontramos outro lugar para comer. Não é a mesma coisa que ser servido por você, mas é o suficiente para nos deixar satisfeitos pelo resto do dia. É isso que importa. Pode ir para casa. Tenho certeza de que você tem muitas coisas para fazer — Ele abriu um sorriso travesso. — A gente se vê amanhã? Dei de ombros. — Não tenho certeza de como serão as coisas agora que eu quase fui presa e que Tammy foi acusada. Mas eu vou aparecer lá amanhã para ver o que vai acontecer. Thomas assentiu e se aproximou para dar um beijo em meu rosto. — Tudo bem, Olivia. Então, trate de tomar cuidado. Sorri, pegando a sua mão na minha e dando-lhe um apertãozinho. — Você também. Marcus também me deu um beijo no rosto. Observei enquanto eles seguiam pela rua e dobravam a esquina. Mal sabia eu que jamais os veria no refeitório comunitário novamente.


CAPÍTULO DEZOITO

Eu praticamente corri até chegar em casa. Suspeitava de que Kit estaria lá, esperando por mim. Não havia nenhum outro lugar no qual ele poderia ter ido. Tinha acabado de enfiar a chave na fechadura quando a porta se abriu. Kit apareceu ali, maravilhosamente lindo. Havia tomado banho e trocado de roupa. O cabelo, ainda molhado, estava preso atrás da orelha. A barba estava crescendo aos poucos. Acho que dizer a ele que eu gostava de sua barba fez com que ele decidisse deixá-la crescer. Nesse momento, ele estava sexy à beça. Especialmente vestindo uma das camisetas azuis que comprei para ele. Ao me ver parada ali, ele deu um passo à frente e me puxou para um abraço. — Jesus, Olivia. Por que você fez aquilo? Por que você levou a culpa? Ele me pegou no colo e me carregou para dentro de casa, fechando a porta com um dos pés. Quando já estávamos lá dentro, ele me botou no chão e envolveu meu rosto com as mãos, esperando para ver o que eu responderia. — Eu não poderia deixar que eles o levassem, Kit. Eu sei que você está fugindo de pessoas perigosas e eu não poderia arriscar que elas encontrassem você. Eu precisava fazer tudo que estivesse ao meu alcance para protegê-lo. Kit meneou a cabeça. — Você não deveria ter feito aquilo, Olivia. Eu entendo por que você fez o que fez, mas você não deveria ter se metido em tantos problemas por minha causa. Peguei a sua mão na minha e olhei no fundo de seus olhos. — Kit, será que você ainda não percebeu o quanto significa para mim? Será que você não entende que eu faria qualquer coisa para me certificar de que você vai ficar bem? Você nunca vai ser um problema para mim.


A respiração de Kit ficou ofegante. — Eu estava quase morrendo de preocupação. O que aconteceu com você? Abri um sorriso e contei a ele tudo que se passou na delegacia e o que Thomas e Marcus fizeram por mim. — Eles realmente se importam com você, não é? Não me surpreende o fato de todos amarem você... — Ele parou por um momento e fixou seus olhos nos meus. — Eu também amo você. Arfei diante das suas palavras, mas não perdi tempo e o puxei para um beijo. Era tudo que eu sempre quis ouvir. Saber que alguém me amava de verdade me enchia de esperança e desejos por um futuro. Minha mente se agitava diante de tantas possibilidades. O que eu ia fazer a seguir se tornou claro em minha mente, mas eu precisava de mais dois dias para planejar tudo. Charlie era um de meus problemas, mas essa era a parte fácil. A conversa que eu pretendia ter com Kit teria que acontecer logo, e eu pretendia que fosse esta noite. Eu precisava contar tudo a ele. Precisava botar todas as cartas à mesa e rezar para que ele não me abandonasse. Independentemente do que aconteceu no passado, nós dois estávamos destinados a ficar juntos. E eu não podia perder isso agora. Nossos beijos se tornaram mais apressados. Kit tirou o meu casaco e me levou até o andar de cima. Nós fizemos amor e, como sempre, foi mágico. Depois, ficamos abraçados na cama. Eu sabia que precisava me levantar, mas queria aproveitar o abraço por mais alguns minutos. — Preciso me arrumar — sussurrei. Senti Kit estremecer. — Não é possível que você vá trabalhar depois de tudo que aconteceu hoje. Suspirei. — Eu preciso ir, Kit. Eu não quero deixar ninguém na mão. Ele me abraçou com mais força, plantando um beijo na minha testa. — Sei disso. Você é boa demais às vezes, Olivia. E é assim que as pessoas se aproveitam de você.


Ergui a cabeça e abri um sorriso atrevido para ele. — Você se aproveitou de mim meia hora atrás. Aliás, você continuou se aproveitando de mim até agora há pouco. Kit sorriu. — Verdade, mas acho que isso não vai machucá-la a longo prazo. Na verdade, acho que gritar meu nome de tanto prazer resume o quanto eu me aproveitei de você. Dei um cutucão nas costelas dele e ele estremeceu. — Ai... Por que você fez isso? Eu amava esse lado brincalhão dele. Poderia ficar deitada aqui por horas, apenas aproveitando esses momentos. — Além de estar se aproveitando de mim, fez com que eu nunca mais veja o ato de pintar com os mesmos olhos. Kit deu risada, seu peitoral chacoalhando. Eu amava aquele som. — Vou parecer muito convencido se disser que me orgulho daquilo? Sorri. — Não, nem um pouquinho — respondi com sarcasmo. Nós dois caímos na risada e, depois, ficamos nos encarando em silêncio. Eu amava essas conversas silenciosas. — Sabe, eu sempre amei pintar. Mas agora, sempre que eu pensar em pintura, vou me lembrar do quanto eu te amo. Kit suspirou e me puxou para um abraço. — Não sei o que vamos fazer agora, Olivia. Só sei que não consigo seguir em frente se não tiver você comigo. Saber que posso colocá-la em perigo me enche de medo, mas não consigo me afastar de você. Senti uma onda de culpa percorrendo meu corpo novamente. Mordi o lábio, sabendo que eu precisava dizer alguma coisa. — Kit, nós precisamos conversar esta noite. Há muitas coisas que eu preciso dizer, mas você vai ter que esperar até eu voltar para casa. Quero contar tudo a você, mas não pode ser agora.


Ele suspirou e sorriu para mim. — Tudo bem. Faça o que você tem que fazer e eu vou buscá-la no fim do seu turno. Plantei um beijo suave nos lábios dele, sentindo-me arrebatada por minhas emoções. Kit era meu protetor, meu cavaleiro de armadura reluzente, meu herói. Eu não sabia se algum dia ele conseguiria entender o quanto significava para mim tê-lo em minha vida. Senti meu desejo despertar novamente e coloquei a mão no pau dele. Fiquei surpresa ao descobrir que ele já estava duro. Kit gemeu quando percorri meus dedos por sua virilha e o acariciei em um ponto sensível localizado entre os testículos e a bunda. Kit sibilou. — Olivia, continue fazendo isso e você vai ver só se eu te deixo sair dessa cama. Fui para cima dele e dei-lhe um beijo. — Eu quero você, mas temos que ser rápidos. Será que você consegue dar uma rapidinha? Kit me enlaçou e nos girou, deixando-me de costas para o colchão. Soltei um gritinho. — Ah, querida, você ainda não viu nada. Comecei a rir, mas logo meus risinhos se transformaram em gritos de prazer quando ele me fez gozar depois de apenas cinco minutos. Nunca soube o que era prazer quando era mais nova, mas, agora, eu estava aprendendo o quanto ele podia ser viciante. Kit estava me mostrando tudo aquilo que sempre sonhei. Eu só torcia para que ele ainda me quisesse depois que eu contasse toda a verdade a ele.

*** Depois que terminamos o que estivemos fazendo, tive que correr para me arrumar. Quando estava com Kit, parecia que eu perdia a noção do


tempo. Não era algo difícil, já que ficar com ele fazia o tempo voar. Assim que estava vestida e pronta para ir, Kit abriu a porta e fez sinal para que eu fosse na frente. Eu sabia que ele iria comigo. Mesmo que estivesse escurecendo mais tarde, ele queria se certificar de que eu chegaria lá a salvo. Meu protetor até o fim. Quando chegamos no bar, a postura de Kit se enrijeceu. Eu entendia o motivo. Se fosse o contrário, eu odiaria ter de deixá-lo com uma mulher que parecia não conseguir parar de agarrá-lo. Aquilo me mataria por dentro. Mas eu sabia que tinha que vir, porque eu precisava conversar com Charlie sobre o que aconteceu naquela noite para que pudéssemos deixar aquilo para trás e seguir em frente. Eu odiava ter que pedir demissão, mas talvez eu não tivesse escolha depois de hoje. As coisas estavam esquentando, então, agora era hora de agir. Quando olhei para o interior do bar, vi Charlie nos encarando. Ele abriu um sorrisinho sarcástico para Kit, só para irritá-lo. Apesar de ter pedido desculpa para mim, ele ainda estava agindo com uma criança. Sim, nós dois realmente precisávamos ter uma conversinha. Olhei para Kit e estremeci diante da expressão ameaçadora em seu rosto. — Kit — chamei. — Kit, olhe para mim — Ele fez o que pedi. — Sei que ele está agindo como um babaca, mas não deixe que ele perceba que está te afetando. Você já ganhou. Eu estou com você, lembra? Não com ele. É com você que eu vou voltar para casa mais tarde, não com ele. Lembre-se disso. Eu te amo e nada pode ficar entre nós agora. O olhar assassino de Kit desapareceu quando ele se inclinou para frente e me deu um beijão de tirar o fôlego. Quando nós nos afastamos, eu estava sem ar e ávida por mais. — Bom — comecei, tentando recuperar o fôlego. — Se Charlie ainda não tinha entendido que eu estou com você, agora ele entende. Kit sorriu, puxando-me para si e grunhiu quando me deu outro beijo. Depois, olhou por cima do meu ombro, abriu um sorriso e acenou para Charlie. Eu não sabia se lhe dava um beijo ou um tapa. — É — disse eu quando ele começou a ir embora. — Agora você está sendo tão criança quanto Charlie.


Kit virou-se para mim e abriu um sorriso. — Mas valeu tanto a pena ver aquele arzinho presunçoso dele sumir. Eu sei que é infantil, Olivia, mas acho que amar você me deixa meio bobo. Dito isso, ele se virou e seguiu seu caminho, deixando-me tão sem ar quanto fiquei depois que ele se declarou pela primeira vez. Senti um ímpeto de me jogar em seus braços e pedir para ele me levar para casa. Em vez disso, suspirei e caminhei em direção ao pub. Charlie estava todo sorridente, mas eu podia ver que não havia felicidade por trás daquele sorriso. — Olivia, que bom que você voltou. Eu vi que vocês me colocaram no meu lugar. Suspirei diante do comentário sarcástico e apontei para o cômodo atrás de mim. — Precisamos conversar. Sue estava lá, então, eu sabia que ela podia tomar conta das coisas. Ela olhou para nós dois com uma expressão confusa e deu de ombros quando devolvemos o olhar. — Não se preocupem comigo, consigo dar conta de tudo por um tempinho. Ela abriu um sorriso doce, e essa foi a deixa de Charlie me seguir até os fundos. Já estava na hora de eu acabar logo com isso. Pendurei meu casaco no gancho e coloquei minha bolsa no chão e entrei no escritório de Charlie. Quando ouvi a porta se fechar, virei-me e dei de cara com ele. Ele ficou parado ali, agigantando-se sobre mim com um brilho malicioso no olhar. Bufei. — Algumas coisas nunca mudam. Ele arregalou os olhos e sorriu. — Não é minha culpa se você se virou e trombou comigo, é? Revirei os olhos e estendi um dedo em direção ao peito dele.


— Eu sei muito bem o que você tem em mente, Charlie. Então, pare já com isso. Ele percebeu o quanto eu estava irritada e suspirou. — Foi mal, Olivia. Eu não consigo me comportar com decência no que diz respeito a você. Tenho tentado fazer você me notar desde que começou a trabalhar aqui. Aquele homem apareceu na sua vida cinco minutos atrás e você já está dando uns amassos nele na porta do meu bar. Então, você vai me desculpar se isso me deixa magoado. Sentei-me no sofá. — Charlie, você agiu de maneira totalmente errada. Toda vez que eu chegava aqui, você agia como um predador prestes a atacar sua presa. Quando vi você aqui com outras mulheres, eu soube que não queria ser mais uma de suas conquistas sexuais. Não sou esse tipo de garota. Charlie veio em minha direção e se sentou. — Eu sei que você não é. Por que você acha que eu te quis tanto? Eu sabia que você era diferente daquelas mulheres. Sabia que você era especial. Eu nunca teria me aproveitado disso. Suspirei e olhei para ele, percebendo a expressão triste em seu rosto. — E você só me diz isso agora? Seus olhos se encheram de esperança. — Teria feito diferença se eu tivesse dito algo antes? Você está querendo dizer que agora já é tarde demais? Eu não sabia o que eu estava dizendo. Acho que se Charlie e eu tivéssemos nos dado bem logo de cara, então, quem sabe o que teria acontecido? Mas eu sabia que ele sempre estaria disposto a me ajudar. Não queria fazer com que Charlie se sentisse rejeitado novamente, então, eu menti. — Talvez... Eu não sei. Mas isso não importa mais. Agora estou com Kit e quero continuar com ele. Eu sempre gostei de você e me importo com você, Charlie... — Mas isso é tudo — completou ele por mim. Assenti e ele suspirou. — Não posso dizer que não estou decepcionado. Vê-la aqui e saber que você nunca será minha é difícil.


Vi a tristeza em seus olhos e soube que eu tinha que dizer alguma coisa. Era a oportunidade perfeita. — Eu sei, Charlie. E é por isso que não posso mais trabalhar aqui. Charlie se afastou, os olhos arregalados. — Mas por quê? Olivia, você é uma das minhas melhores funcionárias. — Você só acha isso porque tem um olhar enviesado em relação a mim, Charlie. Não porque realmente sou uma boa funcionária. Existem várias mulheres capazes de servir uma cerveja, e aposto que a maioria delas consegue fazer isso melhor do que eu. Você sabe como eu me comporto perto de bebidas alcoólicas. Eu nem chego perto. Charlie passou os dedos pelo cabelo. Ele não parecia nada contente. — Você não pode fazer isso, Olivia. Eu posso me comportar melhor. Desculpe, tá? Eu não quero perder você. Suas palavras me atingiram como um soco no estômago. Nunca tinha visto Charlie agindo desta maneira antes. Ele era sempre tão feliz, despreocupado e galanteador. No momento, ele parecia um homem que tinha acabado de perder o seu melhor amigo. Inclinei-me para frente e pousei a mão no braço dele. — Eu preciso ir, Charlie. Não estou fazendo isso por causa do que aconteceu entre nós. Charlie ergueu o olhar. — É por causa dele, não é? Ele não quer que você continue trabalhando aqui — Quando não respondi nada, ele soltou uma risada sarcástica. — Eu sabia. Só para você saber, eu provavelmente iria querer o mesmo se a situação fosse inversa. Na verdade, eu sei que eu agiria da mesma maneira. Não posso culpá-lo, apesar de querer encher a cara dele de porrada. Arfei. — Charlie, não diga isso! Ele deu risada. — Foi mal. Eu só estava sendo honesto. Eu deveria ter sido


honesto desde o começo. Eu queria que você estivesse dando um amasso em mim e não nele. Mas acho que a vida é assim... Uma merda do caralho. Ele meneou a cabeça e sorriu. — Sinto muito, Charlie — Dei um apertãozinho no braço dele. Ele olhou para mim. — O que você vai fazer? Suspirei. — Não sei. Acho que vou viver um dia após o outro. É tudo que posso fazer. Ele assentiu, abriu um sorriso leve e pegou a minha mão. — Vou sentir a sua falta. Devolvi o sorriso. — Eu também vou sentir a sua. Ele arregalou os olhos. — Mas você vai trabalhar esta noite, né? Você não pretende ir embora agora, certo? Neguei com a cabeça e dei risada. — Vou trabalhar esta noite, mas estava torcendo para não precisar voltar depois disso. Já está na hora de eu seguir em frente. Ele assentiu e abriu um de seus sorrisos atrevidos característicos. — Então, sem chance de a gente dar uns amassos antes de você ir embora, né? Dei um tapinha no braço dele e ele caiu na gargalhada. — Charlie! Ele riu ainda mais. — Desculpe. Pensei que valia a pena tentar. Diabos, se eu conseguisse convencê-la a transar comigo por pena, eu faria isso. Ele deu uma piscadela, ganhando mais um tapinha no braço.


— Você não acha que a gente deveria voltar para lá? A coitada da Sue deve estar se perguntando onde estamos. Charlie assentiu e ficou de pé. — Claro. Pegue a minha mão, Srtª Brown. Eu vou guiá-la. Sorri e peguei a mão dele. Nós voltamos para o salão principal. Eu estava me sentindo um pouco triste por ir embora, mas também feliz com a possibilidade de seguir em frente. Com nada em nosso caminho, Kit e eu podíamos nos perder nos braços um do outro. Bom, em um mundo ideal, eu adoraria que isso acontecesse. Se ia de fato acontecer, já era outra história. Na verdade, pensar em perder-me nos braços dele parecia perfeito neste momento. Eu estava sorrindo de orelha a orelha... até avistar a pessoa que estive evitando por dias. — Olivia! — Ele estava sorrindo, mas o meu sorriso desapareceu. Na verdade, meu coração afundou no peito e o sangue começou a jorrar por minhas veias tão descontroladamente que eu até conseguia ouvir. — Titio? — Aquele é o seu tio? — perguntou Charlie e eu me sobressaltei, esquecendo-me que ele estava parado bem ao meu lado. Titio virou-se para Charlie e o encarou. — Sim, eu sou. Agora, se você não se importa, preciso conversar com ela. O olhar que ele lançava a Charlie já dizia tudo. Não se atreva a mexer comigo. Era o tipo de olhar que faria até Kit estremecer. Você nunca enfrentava esse homem. Todos aqueles que cruzaram o seu caminho sabiam disso. Charlie deu um apertãozinho em meu braço e eu olhei para ele e assenti. — Está tudo bem, Charlie. Pode deixar comigo. Imagino que meu tio deve estar querendo um drinque. Ele deu um tapa no balcão do bar, fazendo-me pular de susto. — Isso! Isso seria perfeito. Que tal um Jack Daniels com gelo? Sibilei, dando-me conta do que ele estava fazendo. Pude ouvir sua


mensagem em alto e bom som. Ele não estava nada feliz por eu não ter respondido suas mensagens. E, quando ele não estava feliz, as coisas ficavam sérias... bem rápido. — Eu preparo para você — ofereceu Charlie, sorrindo. Ele sabia que eu não queria fazer aquilo. Titio levou a mão ao ar. — Não, obrigado. Quero que Olivia prepare o drinque — Ele abriu um sorriso doce, mas que estava carregado com seu ódio por Charlie. Eu sabia que Charlie queria que Titio desse o fora do pub imediatamente, mas Titio o mataria e clamaria o bar para ele caso Charlie fizesse isso. Antes que Charlie tivesse a chance de responder, levei minha mão ao braço dele. — Está tudo bem, Charlie. Pode deixar comigo — Abri um sorriso para que ele visse que eu estava calma, apesar do meu coração estar acelerado no peito. Ele não pareceu feliz, mas assentiu. Virei-me para Titio, que encarava minha mão pousada sobre o braço de Charlie. Tirei-a dali com um movimento rápido. Titio abriu um sorriso doce e olhou para mim. — Jack Daniels, Olivia. Por favor. Não quer beber comigo? Neguei com a cabeça, sentindo o tremor em minhas mãos. — Não, Titio. Obrigada. Estou trabalhando, então, não posso. Virei-me e caminhei em direção à garrafa de Jack Daniels. Assim que a vi, aquela queimação familiar invadiu a minha garganta. Titio sabia o mal que estava me causando, mas queria passar uma mensagem. E a mensagem era que ele estava muito, muito infeliz com o que eu tinha feito. Estava me fazendo sofrer por tê-lo ignorado. Peguei um copo com a mão trêmula e a garrafa com a outra. Charlie viu o que estava acontecendo e se aproximou. — Puta que pariu, Olivia. Por que ele está fazendo isso a você? Devo mandá-lo à merda? — sussurrou ele. Neguei a cabeça freneticamente.


— Não, por favor. Não faça isso. Você não tem ideia do tipo de homem que ele é. Por favor, não faça nada. — Estão falando de mim? — perguntou a voz aveludada de trás do balcão. Virei-me com um sorriso estampado no rosto e coloquei o copo e a garrafa em cima do balcão. — Não, Charlie só estava se certificando de que eu estava bem. Ele é um chefe preocupado, só isso. Titio sorriu, como se isso o divertisse. — Hummm... Ele não está tentando te levar para cama, né, Olivia? Fechei os olhos, desejando que ele desaparecesse. Mas, ao mesmo tempo, desejava que ele continuasse ali. Aquela atração familiar que ele exercia sobre mim estava se intensificando. Peguei alguns cubos de gelo e os coloquei no copo. Depois, abri a tampa da garrafa. Titio ficou observando enquanto servi o copo e o empurrei em sua direção, trêmula e prendendo a respiração durante todo o tempo. — Respire, Olivia — Ele piscou e deu um gole. — Humm... Tão bom. Eu consigo entender por que você era viciada nisso. Fechei a garrafa e a guardei no bar. Titio apontou para a garrafa. — Tem certeza de que não quer se juntar a mim? Eu me lembro de como você costumava ficar fogosa quando bebia. Eu não aceitei a sua oferta naquela época, mas meio que me arrependo disso agora. Senti a bile subir até a minha garganta. Eu sabia que costumava ficar embriagada e dar em cima dele às vezes. Ele era tão gentil comigo naquela época e eu estava tão solitária. Eu só queria me sentir amada, apesar de saber que ele não me amava. Acho que eu só queria sentir qualquer coisa que não fosse o abismo em que eu me encontrava dia após dia. — Eu era uma pessoa diferente naquela época. Titio arqueou a sobrancelha. — Era mesmo. Você está muito mais atraente agora. Não gosto de ficar com mulheres inconscientes. Elas não são o suficiente para mim. Prefiro


que elas saibam exatamente o que está acontecendo. Eu estava segurando a extremidade do balcão com tanta força que os nós dos meus dedos estavam ficando brancos. — Isso é só uma visita rápida ou você queria me ver por algum motivo? — Meu tom provavelmente não soou nem um pouco convidativo. Mas, neste exato momento, só queria que ele fosse embora antes que o ímpeto de me aproximar dele se tornasse forte demais. — Livy, eu vim até aqui para ver você e é assim que você me agradece? Acho que pode fazer melhor que isso. Venha até aqui e me mostre como você sentiu a minha falta. Fechei os olhos e senti o jeito que ele me chamava me envolver. Eu não era Olivia agora. Era Livy. A Livy dele. Meu corpo se retesou. Cada pedacinho meu queria fugir dele e, ao mesmo tempo, correr para os seus braços. Isso era algo muito estranho de explicar. Abri um sorriso e saí detrás do balcão. Quando me aproximei dele, meu corpo se retesou, ansiando pelo toque dele. Titio puxou-me para si e me envolveu em um abraço. A única coisa que eu podia fazer era dar um beijo em sua bochecha, sorrindo com tanta doçura quanto era possível. Ele tinha um cheiro tão bom e a minha necessidade de ficar em seus braços era gigantesca. Titio deu um tapa na minha bunda e meus olhos se arregalaram. — Assim está melhor. Eu não quero ter que pedir da próxima vez — Ele me lançou um olhar de aviso. — É claro que não, Titio. Me desculpe. Olhei para Charlie e vi que ele estava nos encarando. Pude notar que ele não estava nada contente. Dava para cortar a tensão no ar com uma faca. Como se não pudesse ficar pior, Titio plantou um beijo suave nos meus lábios. Foi apenas um selinho, mas foi o suficiente para que eu sentisse o gosto e o aroma de Jack Daniels em sua boca. Todo o meu corpo se retesou. O desejo por mais atingiu-me em cheio. Não era por causa do beijo. Esse não era o tipo de desejo que o Titio estava querendo. A expressão em meu rosto deve ter deixado isso claro, porque Titio abriu um sorriso satisfeito.


— Assim mesmo, Livy. Que tal mais um drinque? Eu ainda conseguia sentir o aroma em seu hálito e aquilo estava me deixando com água na boca. Lambi os lábios e Titio soltou um gemido. Ele se aproximou da minha orelha e sussurrou: — Isso a gente resolve mais tarde. As palavras carregadas de promessa invadiram a minha mente enquanto eu cambaleava para trás do balcão. Sabia que não podia ficar sozinha com ele porque eu não conseguiria resistir e ele sabia disso. Todos que o conheciam sabiam disso. E a parte mais problemática e nojenta? Eu sabia que não ia querer resistir. Titio ficou observando o efeito que causava em mim com uma expressão faminta no olhar. Ele realmente me afetava muito e aquilo me assustava muito. Eu não entendia de onde vinha esse poder que ele exercia sobre mim, mas queria entender. Titio engoliu o resto da sua bebida e eu prendi a respiração enquanto servia outra dose. — Você estava sumida ultimamente, Olivia. Aconteceu alguma coisa? Agora ele estava pronto para negócios. A hora da brincadeira tinha chegado ao fim. Neguei com a cabeça. — Não. Eu estava muito ocupada, só isso. — Você conseguiu encontrar o que estávamos procurando? Neguei com a cabeça novamente e Titio ficou me encarando por tempo demais, o que me deixou desconfortável. Seus gélidos olhos azuis estavam fixos em mim. Algumas pessoas queriam se esconder do seu olhar gelado, mas tudo que eu queria fazer era me afundar nele. — Eu estou tentando entender por que você está demorando tanto. Tem certeza de que ainda não encontrou nada? Engoli em seco e neguei com a cabeça.


— Tenho. Não encontrei nada. Titio ficou de pé e enfiou a mão no bolso. — Você vai entrar em contato comigo assim que tiver algo. Você só tem mais alguns dias — Assenti e ele sorriu, colocando uma nota de vinte libras sobre o balcão. — Fique com o troco — Ele começou a se virar para ir embora, mas olhou para mim uma última vez. — Tudo bem, pode terminar a minha bebida por mim. Não estou mais com sede — Ele deu uma piscadela e se virou para ir embora. No instante em que ele saiu e fechou a porta, cada pedacinho do meu corpo virou geleia. Respirei fundo e tentei assumir o controle do meu corpo. O poder que ele tinha sobre mim se dissipou no momento em que ele foi embora. O alívio que senti por isso era gigantesco. Olhei para o copo em cima do balcão e senti que eu não tinha nenhum controle sobre mim mesma. Cada fibra do meu ser me dizia para pegar o copo e entorná-lo. Sofri uma falha de circuito e meu corpo precisava se recuperar. Sem pensar duas vezes, lambi os lábios e estendi a mão para pegar o copo, mas alguém a segurou. Olhei para cima e vi o rosto sorridente de Charlie. — Está tudo bem. Eu faço isso. Assenti, sentindo meus olhos ficarem marejados. Sempre imaginei que tinha controle sobre mim até situações como esta aparecerem para me testar. Eu ainda estava tão enfeitiçada por aquela bebida como eu estava meses atrás. Fazia oito meses desde que eu tomara minha última gota de álcool, mas a vontade de tomar alguma coisa ainda era tão forte quanto antes. E Jack Daniels era a minha ruína. Era sempre a primeira bebida em minha lista, mas eu tomaria qualquer coisa caso não a tivesse em mãos. Charlie pegou o copo rapidamente, despejando o líquido dentro da pia. Quando colocou o copo na máquina de lavar louça, soltei um suspiro de alívio. Ele olhou para mim com uma expressão preocupada no rosto. — Olivia, quem é aquele cara? Nenhum tio agiria daquele jeito com a sobrinha. Para ser honesto, ele me deu arrepios. Abri um sorriso meigo para ele.


— Ele não é meu tio de verdade. É só alguém que me ajudou anos atrás. Ele se aproximou. — E ele é o tipo de cara que não ajuda alguém sem pedir algo em troca? Assenti e suspirei. — Pode-se dizer que sim. — Porra, Olivia. Em que tipo de merda você se meteu? Meneei a cabeça. — Acredite em mim, você não quer saber. É melhor que ninguém saiba. Charlie suspirou. — Eu não gosto nada disso, Olivia. Não gosto de você conhecer pessoas como ele. Kit não é como ele, é? Estremeci diante daquelas palavras, mas neguei com a cabeça. — Não. Kit não tem nada a ver com Titio. — Por que você se refere a ele assim se ele não é seu tio de verdade? Dei de ombros. — Eu nunca soube o nome dele. Ele sempre preferiu que eu o chamasse de Titio. Charlie bufou. — Pervertido. Dei um tapinha nele. — Não diga isso, Charlie. Não era assim. Ele arregalou os olhos. — Não era o que parecia. Ele estava visivelmente te agarrando e você não impediu. Olhei fixamente para ele.


— Titio não é o tipo de homem para o qual se possa dizer não. Charlie suspirou novamente. — Eu não gosto nada disso, Olivia. Ergui as mãos ao ar. — Deixe isso para lá, Charlie. Eu sei o que estou fazendo. Não se preocupe comigo. Ele deu um tapa no balcão. — Eu não consigo evitar. Ele me lançou um último olhar antes de seguir o seu caminho. Sobressaltei-me quando escutei a porta de seu escritório se fechar. Sue se aproximou com uma expressão preocupada. — Está tudo bem? Assenti. — Tudo ótimo, Sue. Charlie e eu só nos desentendemos um pouco. Ela começou a enxugar alguns copos com a toalha que tinha em mãos. — As coisas estão tensas por aqui ultimamente. Vocês dois estão bem? Assenti. — Estamos sim, mas eu preciso te contar uma coisa. Seus olhos se arregalaram, ávidos para que eu continuasse a falar. — O que foi? — Esta é a minha última noite trabalhando aqui. Nada dura para sempre e acho que chegou a hora de ir embora. Ela mordeu o lábio. — Sinto muito por ouvir isso, Olivia. Você está feliz com a sua decisão? Abri um sorriso e pensei em Kit.


— Estou. Não me entenda mal, vou sentir falta disto aqui. Mas já está na hora de eu seguir em frente. Sue sorriu e pousou a mão no meu braço. — Então, eu estou feliz por você. Vamos sentir a sua falta, mas te desejo toda a sorte do mundo. — Obrigada — respondi, sorrindo. Eu ia mesmo precisar de toda a sorte que pudesse encontrar.

***

Três horas se passaram sem o menor sinal de Charlie. Ele estava amuado e eu sabia o motivo. Eu, por outro lado, tinha outras coisas com as quais me preocupar. As coisas estavam tranquilas no bar, então, minha mente estava à mil. Eu queria ir embora para casa. Para casa com Kit. Para casa para o seu abraço. Para casa para a eternidade... Se ele ainda me quisesse até lá. Eu sabia que precisava contar tudo a ele. Eu tinha uma sensação no estômago de que ele não iria me querer depois que eu revelasse quem eu era de verdade. Não sabia se ele julgaria que o nosso relacionamento era digno o suficiente. Depois de atender um cliente, senti uma dor de cabeça se aproximar. Eu não as tinha com muita frequência, mas esta estava chegando com tudo. Esfreguei as têmporas, tentando aliviar a dor, mas não adiantou de nada. — Você pode ir embora — Ergui o olhar e vi Charlie parado junto à porta. Ele deu de ombros. — Pode ir mesmo. O bar está quase sem movimento e eu acho que você precisa lidar com algumas coisas. Ele abriu um pequeno sorriso. Eu sabia que ele não estava feliz com isso, mas tinha aceitado a minha decisão de ir embora. Ele enfiou a mão no bolso e pegou um pouco de dinheiro. — Aqui. Esse é o seu pagamento pela noite de hoje. Considere isso como um bônus para todas as vezes em que você me ajudou. Peguei a sua mão na minha. — Eu não posso aceitar... Ele esticou a mão para mim.


— Pegue. Não é muita coisa, Olivia. Você não estava sendo paga o suficiente para recusar. Aceite, agradeça e me dê um abraço — Ele abriu um sorriso verdadeiro dessa vez e é claro que não pude negar. Aproximei-me dele, peguei o dinheiro e o envolvi em um abraço. — Obrigada por tudo, Charlie. E me desculpe por tudo que aconteceu. Charlie me puxou mais para si. — Não precisa se desculpar, Olivia. Vou sentir sua falta. Só me prometa uma coisa. Abri um sorriso e senti quando ele me abraçou mais apertado. — O quê? — Prometa que você vai se cuidar. Não é cuidar de outra pessoa, nem do cachorro ou gato do vizinho. É para cuidar de você mesma. Você precisa se cuidar agora. Senti uma lágrima escorrer pelo meu rosto e assenti, minha cabeça recostada em seu ombro. — Pode deixar — respondi, fungando um pouco. — Ei. Esta camiseta é novinha em folha. Dei risada e me afastei. — Charlie, você nunca muda. Ele sorriu e acariciou a minha bochecha. — Você tem certeza de que vai ficar bem? Assenti. — Eu espero que sim, Charlie. Espero mesmo. Ninguém sabe o que futuro nos reserva, não é? Peguei a sua mão e ele plantou um beijo na minha. — Diga a ele para não te machucar ou vai ter que se ver comigo. Também diga que vou te roubar para mim caso ele te machuque — Ele sorriu novamente e eu não pude evitar o riso. — Pode deixar. Eu vou dizer a ele.


— Você já está indo, Olivia? Olhei por cima do ombro de Charlie e vi Sue. Assenti. — Já. Vou sentir a sua falta, Sue — Caminhei até ela e a puxei para um abraço. — Você vai cuidar dele para mim, não vai? Ela deu risada e se afastou. — É claro que vou. Vou mantê-lo longe de problemas. Espero que você seja feliz. Assenti e abri um sorriso. — Obrigada. Um silêncio constrangedor se fez presente, então, usei isso como minha deixa para ir embora. — Bem, então é melhor eu ir. Suspirei e fui pegar as minhas coisas. Charlie me ajudou a vestir o meu casaco e, quando eu me virei para agradecê-lo, ele me beijou. Foi um beijo muito suave e breve. — Cuide-se, Olivia. Outra lágrima escorreu pelo meu rosto. — Você também, Charlie. Ele me soltou e nós ficamos de mãos dadas até eu seguir em frente. Nossos dedos entrelaçados se separaram e, antes que me desse conta, eu estava do lado de fora, caminhando para casa. Sabia que Kit ficaria bravo comigo por eu ir embora sozinha, enfiei a mão no bolso e peguei meu celular. Liguei para o telefone de casa e ele atendeu depois de alguns toques. — Kit, sou eu. Estou indo para casa — Não consegui evitar o sorrisão que surgiu em meus lábios. — Não se mexa. Estou indo buscar você. Revirei os olhos. — Não seja bobo. Eu consigo andar. Só vou demorar uns dez minutos.


— Olivia — disse ele com um tom sério. — Fique aí. Eu estou indo te buscar. — Tudo bem — sorri. — Vou ficar esperando. — Ótimo. Escutei o telefone ficar mudo e encerrei a ligação. Fiquei parada ali por alguns segundos, perguntando-me por que diabos eu estava esperando. Quanto mais rápido eu caminhasse em direção à minha casa, mais rápido encontraria Kit na rua. Comecei a descer a rua principal. Não demorou muito até que eu chegasse à rua na qual fui atacada meses atrás. Parecia que séculos haviam se passado, mas estremeci só de lembrar. Decidi ignorar o alerta em minha cabeça e segui em frente. Freddy se fora, eu não precisava mais preocupar-me com ele. Quando estava na metade do quarteirão, escutei o som de pneus derrapando atrás de mim. Antes que eu pudesse reagir, um homem saiu do carro, cobriu minha cabeça com alguma coisa e me levou, chutando e gritando, para o bagageiro da van. Eu me debati tanto que devo ter atingido as costelas do cara com muita força, pois ouvi quando ele xingou. — Porra! Estava esperando o golpe inevitável, mas escutei outra voz. — Nem pense nisso, Craig. O chefe vai decepar as suas mãos se você encostar nela. Fechei os olhos, sabendo quem estava por trás disso tudo. Fiquei com vontade de me xingar. Por que eu tive que ir trabalhar hoje? Por que não dei ouvidos ao Kit e fiquei em casa com ele? Eu poderia estar nos braços dele agora mesmo contando tudo que ele precisava saber. Merda! Eu nunca mais o veria. Sabia que Titio não permitiria. Eu viraria sua prisioneira, e ele faria o que quisesse comigo enquanto eu deixava, com um sorriso no rosto. Mesmo que eu não quisesse nem um pouco. Qual era o meu problema? Não, não, não, não... Não posso deixar que isso aconteça. Por favor, não posso fazer isso.


Eu conseguia sentir a escuridão tomar conta de mim, as trevas alimentando a minha angústia. Pensei que eu quisesse tudo isso, mas, depois de conhecer Kit, eu me dei conta de como estava errada. Eu não podia mais fazer isso. Eu não queria mais fazer isso. Queria uma vida nova. Queria sair da escuridão e ir em direção à luz que Kit me proporcionava. Queria aninhar-me em seus braços e ouvi-lo dizer que tudo ia ficar bem. Que eu era dele e que estava em segurança. Mas eu sabia que isso não aconteceria agora. Para proteger Kit, eu tinha que fingir que havia falhado. Tinha que mentir para Titio e pedir para que ele me perdoasse por falhar. Tinha que fazer o que fosse preciso para manter Kit a salvo. O homem que eu amava. O homem que era tudo para mim agora. Depois de me debater por um tempo, decidi ceder. Não havia nada que eu pudesse fazer. Ouvi a risada de outro homem. — Então é por isso que o chefe a quer tanto. O homem que me segurava também riu. — Dá para ver o motivo. Tenho uma visão linda de onde estou. Se eu puxasse a blusa dela um pouco para baixo, poderia ver o belo corpinho que Deus lhe deu. Dei uma cotovelada nele e ouvi quando ele arfou. O outro cara apenas riu. — Acho que você mereceu, parceiro. Suspirei. — Sabe, eu consigo escutar tudo que vocês dizem. Não precisa de muito para saber quem são vocês dois... Com ou sem máscara. Qual é o sentido de terem colocado isso em mim? Tudo ficou em silêncio, até que um deles decidiu falar. — O chefe não quer que você saiba aonde estamos te levando. Dei risada.


— Ah, é? Vai ser surpresa? Será que estão me levando para um hotel cinco estrelas onde eu serei mimada até não querer mais? Os dois caras riram e um deles disse: — E você tem senso de humor. Interessante. — A única coisa que eu tenho agora é uma dor de cabeça, então, eu apreciaria se vocês ficassem quietos. Senti o peito do homem que me segurava estremecer. — Nossa, parece que tem alguém de TPM aqui. Revirei os olhos. — Nossa, parece que tem alguém com cecê aqui. O outro homem caiu na gargalhada e eu senti o cara que me segurava erguer o braço. Não consegui evitar o riso. Ele estava cheirando a axila para conferir se estava fedendo mesmo. — Haha, não acredito que você acabou de cheirar o seu sovaco, Craig. Ouvi Craig grunhir. — Cale a porra da boca, Ian. — Ei, só porque você não conseguiu aquela bucetinha na boate ontem à noite, não significa que pode descontar em mim. Não é minha culpa se você é um idiota. — Não me encha a porra do saco, Ian. Você sabe muito bem que consigo comer a bucetinha que eu quiser. Ontem à noite eu dei azar. Você sabe que a gente não pode fazer isso, então, qual é o sentido? Ian deu risada. — É, as mulheres são louquinhas por você, né, Craig? É por isso que a mulher estava correndo tão rápido em cima do salto que mais parecia uma barata tonta. Não consegui evitar o riso. O cara me segurando me deu um cutucão. — Ei, isso não tem graça, porra. Ela devia ser lésbica.


Agora eu estava rindo mais ainda. — Ah, por favor. Essa é sempre a desculpa que os caras usam quando não conseguem o que querem. Eu não sou lésbica e posso te afirmar que não dormiria com você. — Você só diz isso porque ainda não me viu. Abri um sorriso. — Bom, então deixe-me ver você e aí eu decido. Craig ficou em silêncio por um momento. — Boa tentativa, Olivia, mas você sabe que eu não posso fazer isso. Só posso dizer que você ia mudar de ideia se me visse. Revirei os olhos. — Sua modéstia é tão atraente. Ian começou a rir e Craig grunhiu. — Cale a porra da boca. Quem te perguntou? Lembre-se, você foi capturada. E acho que você sabe muito bem por quem. Sugiro que você mantenha essa linda boquinha fechada até que a gente diga que você pode falar alguma coisa. Suspirei, mas não respondi nada, apesar de querer continuar falando para distrair a minha mente do que aconteceria em seguida. Eu tinha uma ideia do que seria e, se eu estivesse certa, não ia ser nada legal. Para manter minha mente ocupada, comecei a pensar em Kit. Ele devia estar morrendo de preocupação a essa altura, perguntando-se onde eu poderia estar. Sei que ele iria até o bar para perguntar por mim. Isso provavelmente também faria com que Charlie ficasse preocupado. Merda! Isso era tudo que eu precisava agora. Kit era um morador de rua porque queria se esconder do mundo, mas isso o faria se expor. Eu realmente queria ser resgatada por Kit para que depois pudéssemos caminhar juntos em direção ao pôr do sol. Mas isso não ia acontecer agora. Nunca tive chance de contar tudo a ele, e, agora, nunca mais teria. Abri o meu coração para o homem com o qual eu havia sonhado a vida inteira. O homem que costumava me assombrar dia e noite. Ele era uma sombra constante que eu sempre perseguia, e eu nunca mais o veria de novo.


Provavelmente foi melhor assim. Pelo menos agora ele estaria a salvo. Eu certamente não o denunciaria. Talvez no começo teria feito isso, mas não mais. Quinze minutos se passaram até que senti a van sendo estacionada. Uma porta se abriu e Craig se posicionou atrás de mim. — Muito bem, princesa. Hora de conhecer seu príncipe encantado. Eu sei que ele está ansioso para ver você. Bufei. — Ele não precisava mandar dois valentões atrás de mim, né? Ele poderia ter pedido com educação. Craig deu risada. — Acho que isso não faz muito o estilo dele. Suspirei. — É, acho que não. Alguém me tirou da van e me jogou por sobre o ombro. — Eu posso andar, sabe? A pessoa que estava me carregando deu um tapinha em minha bunda. — É melhor assim. Era a voz de Ian. — Você não precisa tomar essas liberdades comigo — Bufei e ouvi sua risadinha. Ian subiu uma escada e eu senti o ar gelado ficar para trás, provavelmente entramos em algum edifício. Ele subiu mais degraus e passou por uma porta. Depois, gentilmente me colocou sobre algo macio e tirou a máscara da minha cabeça. A luz forte incomodou meus olhos e eu pisquei algumas vezes. Quando me acostumei à claridade, ergui o olhar e vi Ian. Para a minha surpresa, ele era bem bonito. Tinha cabelos castanhos curtos e encaracolados e olhos azuis e gentis. Olhos que não combinavam com um capanga de Titio. Mas ele tinha a composição corporal


certa. Todos os capangas de Titio tinham que ser assim. Ian era muito alto e coberto de músculos, motivo pelo qual não estava ofegante por ter me carregado até aqui. — Quer uma bebida? Assenti. — Se não for pedir muito, queria algum remédio para dor de cabeça também. Ele abriu um sorriso e caminhou em direção à porta. — Eu já volto. Ele saiu do cômodo e eu fiquei sozinha. Observei o local. Eu estava em um quarto com veludo vermelho nas paredes, cortinas brancas luxuosas e uma cama de dossel grande o suficiente para acomodar quatro pessoas. Não havia dúvidas de onde eu estava. Só não sabia o que esperar quando Titio aparecesse. Estremeci só de pensar nisso. Depois de alguns minutos, Ian voltou ao quarto, segurando um copo em uma das mãos e dois comprimidos na outra. — Aqui está — Ele os entregou para mim. — Isso deve ajudar com a dor de cabeça. Assenti, sorrindo, e bebi a água. Enfiei os dois comprimidos na boca e os engoli. — Obrigada. Ian sorriu. — Não precisa agradecer. Precisa de mais alguma coisa? Bufei. — Dormir, uma massagem nos pés, um banho, uma leitura agradável... Ele deu risada. — Bom, posso conseguir alguma leitura agradável. E o banheiro é logo ali, caso você queira tomar banho. Quanto às outras coisas, acho que não posso fazer nada. Você precisa cair no sono sozinha e sobre a massagem nos


pés... Acho que o chefe não ia gostar muito se eu te deixasse tão confortável assim. Tenho ordens para não encostar em você. Arqueei as sobrancelhas. — E mesmo assim você me deu um tapa na bunda. Ian desviou o olhar, envergonhado. Levou a mão à nuca e suspirou. — É, foi mal. Eu não devia ter feito aquilo. Dei risada. — Tudo bem. Não vou contar a ele. Prometo. A postura de Ian relaxou imediatamente. — Vou ficar muito feliz se você não contar. — Então, há quanto tempo você trabalha aqui, Ian? Ele suspirou e veio se sentar ao meu lado na cama. — Não faz muito tempo. Fiquei em treinamento por umas seis semanas. Tanto eu quanto Craig entramos para a mesma equipe. Massageei meu pescoço e soltei um gemido. — Acho que Craig precisa de modos. Ian deu risada. — É, obrigado por dizer isso. Mas ele é inofensivo. Ele ladra, mas não morde. Suspirei, fechando os olhos por um momento. — Por que eu estou aqui, Ian? Fui trazida de volta tão rapidamente. Não faz sentido. A postura de Ian se enrijeceu um pouco. — Eu não sei, Olivia. Só sei que você era prioridade, que nós deveríamos te trazer até aqui e que não podemos encostar em você. Essas foram as ordens que nos foram dadas. É claro. No mundo de Titio, quanto menos você soubesse, melhor. Desta forma, você podia fazer as coisas acontecerem mesmo sem ter


conhecimento do que estava fazendo. Conhecimento trazia emoções. Emoções que homens como Ian não podiam sentir. Suspirei. — Entendi. Quando Ian estava prestes a responder, a porta se abriu e Titio entrou. Prendi a respiração e Ian levantou-se da cama com um salto. As narinas de Titio se inflaram. — Que porra você acha que está fazendo na minha cama? Por acaso eu falei que você podia chegar perto de Olivia? Ian não sabia para onde olhar. — Titio, por favor. Ele só estava sendo gentil. Ele seguiu as suas instruções direitinho. Mas ainda não entendi o que estou fazendo aqui. Eu ainda tinha mais alguns dias. Será que você não podia ter esperado mais dois dias? Os olhos flamejantes de Titio me perfuraram antes de se virarem para Ian. — O que você tem aí? Ian enfiou a mão no bolso e pegou meu celular. Eu nem tinha me dado conta de que ele havia o tirado de mim. — Ela estava com isso no bolso e a bolsa dela está lá embaixo. Não havia mais nada além disso. Titio olhou para o meu celular e seus olhos se arregalaram. Ele olhou para mim, os olhos inexpressivos. — Quem é ele? Franzi o cenho. — O quê? Não entendi. — A pessoa com quem você tem fodido. Quem é ele? Meu coração acelerou no peito. Como é que ele sabia? Ele não podia saber. Se ele tivesse visto Kit, já teria se dado conta de que eu estava mentindo para ele durante todo esse tempo. — Não entendi. Eu não estou saindo com ninguém, Titio.


Titio se aproximou com o celular em mãos e o virou para me mostrar. O visor mostrava a ligação que eu fizera para casa. — Então, por que você ligou para a sua própria casa quando saiu do bar? Você não estava ligando para você mesma, para quem estava ligando, porra? Fechei os olhos e tentei recompor a compostura. Quando os abri, Titio estava me olhando com uma expressão desapontada nos olhos. Ele fez um gesto para Ian. — Você já pode ir — ordenou com um rosnado. Ian me lançou um olhar cheio de desculpas, mas fez o que lhe fora ordenado. Assim que Ian fechou a porta atrás de si, Titio ficou parado olhando para mim. — Você vai me contar quem é ele? Ele é a razão pela qual você não fez porra nenhuma nos últimos três meses? Você está ocupada demais trepando com ele para se lembrar do motivo de estar lá em primeiro lugar? — Ele se aproximou e, com um gesto, jogou tudo que havia em cima da cômoda no chão. — Quem é ele, caralho? Sobressaltei-me diante da sua indagação trovejante. — Não tem ninguém, tá? Eu estava ajudando uma amiga do refeitório comunitário. Ela não tinha mais onde ficar. Ele chegou ainda mais perto de mim. — Uma amiga, é? E por que você precisaria ligar para ela para avisar que estava indo para casa? Ninguém faz isso a não ser que tenha alguém esperando por você. Alguém com quem você esteja trepando. Minha mente ficou à mil em busca de uma explicação. Uma em que ele acreditasse. — Eu só a estava ajudando. A casa dela precisou ser dedetizada por causa de uma praga. Ela tem namorado, então, pensei que ele poderia estar lá na minha casa com ela. Eu só estava tentando avisá-la que eu chegaria mais cedo, só para o caso de eles estarem... — Mordi o lábio inferior. — Você sabe. Titio se empertigou e ficou me olhando por um momento. Então, desviou o olhar para o meu telefone.


— Hmmm... Será que ela vai confirmar a sua história? Devo ligar para ela? Levantei-me em um pulo e corri em direção ao Titio. — Não, não tem necessidade alguma disso — Fiquei nas pontas dos pés e plantei um beijo suave na boca dele. Levei minha mão ao rosto dele e o acariciei. — Não incomode a minha amiga. Ela já deve estar dormindo. Você não precisa se preocupar com ela. Só estou um pouco chocada. Por que você se deu a todo esse trabalho esta noite? Por que simplesmente não me pediu para vir com você? Eu precisava mudar de assunto rápido. O fato de eu estar tão perto dele parecia distrai-lo. Titio abriu um sorriso e eu soube que ele estava na minha mão. — Eu não podia arriscar, Olivia. Eu precisava me certificar de que você ainda estava do nosso lado. Meus olhos se arregalaram. — Lado? Eu não tinha me dado conta de que havia lados. Nós dois tínhamos uma situação comum com a qual precisávamos lidar. Ainda não fui bem-sucedida, mas tenho certeza de que se você me der mais um tempinho... — Eu já te dei tempo o suficiente, Olivia. Você falhou. Ponto final. Agora estava na hora de você voltar para casa. — Mas... Titio pegou o meu queixo e deslizou os dedos pela minha mandíbula com delicadeza. — Sou um homem paciente, Olivia. Você disse que precisava de tempo. Eu dei. Você me prometeu que voltaria para mim quando tudo estivesse acabado. Quando eu a vi naquele bar, eu soube que você não estava mais perto de encontrar o que estamos procurando do que estava quatro meses atrás. Você já teve o seu tempo. Agora é a minha vez. Eu queria que ele recobrasse a razão. Precisava que ele me desse um pouco mais de tempo. Eu só precisava de tempo o suficiente para explicar toda a situação para Kit, para que ele pudesse fugir. Se íamos ou não ficar juntos, era uma outra história. Mas, pelo menos, ele estaria a salvo. — Você se lembra do Homem Sombra que costumava visitá-la


durante a noite, Livy? Estremeci enquanto ele me prendia em um abraço. Aquela simples frase me fez viajar para o meu tempo de garotinha. — O Homem Sombra te amedrontava. Ele tentou matar todos vocês. Lembra-se disso, Livy? Um soluço percorreu meu corpo. Muito tempo havia se passado desde que eu ouvira sobre o Homem Sombra. Muito tempo desde que fui condicionada a temê-lo, odiá-lo, abominá-lo. Ele era o homem que, sem perceber, resgatou-me do abismo em que eu me encontrava. Por causa dele, eu quis lutar, quis seguir em frente. Ele me fez querer viver novamente para que eu pudesse me vingar dele pelo que havia feito. O homem que tentara matar a mim e aos meus pais. O homem cujos olhos nunca saíram da minha mente. — Shh, está tudo bem, Livy. Eu estou aqui agora. Você nunca mais precisa ter medo. Eu sempre estive aqui para protegê-la. Sempre estive aqui para guiá-la pelo seu caminho. O Homem Sombra não pode te machucar quando eu estiver por perto. Eu tentei te dizer isso naquela época, mas também estou dizendo agora. Agarrei-me ao Titio como se ele fosse minha própria vida. Queria acreditar que ele podia me proteger do monstro que me assombrava desde que eu era criança. — Eu não quero mais que o Homem Sombra fique na minha cabeça. E era verdade. Eu odiava o fato de ele aparecer na minha mente de vez em quando como um lembrete constante. Sempre fazendo-me acreditar que ele estava em algum lugar, pronto para me pegar de novo. Pronto para se espreitar sobre mim a qualquer momento. Titio acariciou o meu cabelo, tentando me confortar. — Deixe isso para lá, Livy. Você nunca mais precisa sentir medo. Você é minha agora. Sempre foi. Está na hora de trancar a porta do seu passado e me deixar entrar. Neguei com a cabeça. — Eu não sei como fazer isso. Titio afastou-me dele e olhou fixamente para os meus olhos


marejados. — Eu vou te mostrar — Ele se aproximou e me deu um beijo tão gentil que fiquei perdida. Um misto de emoções entorpeceu a minha mente. Eu sentia que estava a salvo e em perigo ao mesmo tempo. Alguma coisa não estava certa, mas Titio me dizia que estava. Eu tinha que acreditar nele porque ele me guiou por tantos anos. Foi ele quem me resgatou quando eu estava no fundo do poço, mostrando-me que valia a pena viver. Ele me livrou do meu vício com o álcool, trouxe-me materiais de pintura, cuidou de mim como um pai. Eu sempre soube que ele queria mais do que isso, mas a minha sede por vingança cresceu e ele permitiu que eu tivesse aquele tempo para cumprir meus desejos. A única coisa que ele pediu em troca foi que eu voltasse para casa quando minha missão chegasse ao fim. Mas não havia chegado ao fim. Desvencilhei-me do seu abraço e tentei me afastar. — Mas eu não posso. Agora não. Ainda não terminei o que eu tinha de fazer. Afastei-me dele e deitei-me na cama, sentindo-me um fracasso total. Senti o colchão se mexer e logo o corpo de Titio estava pressionado contra o meu. Ouvi a tampa de uma garrafa sendo aberta e minhas narinas se inflaram diante do aroma. Era como sentir o cheiro de comida depois de semanas sem comer nada. Sem pensar duas vezes, virei-me e vi Titio sorrindo para mim. Deu um gole na garrafa que tinha em mãos e se inclinou para perto de mim. Ele me beijou, enfiando a sua língua em minha boca. Senti as gotículas ardentes de Jack Daniels deslizarem para a minha garganta. Gemi, querendo mais. Fazia tanto tempo desde a última vez que bebi aquilo e meu corpo ardia querendo mais. Titio estava me oferecendo aquilo que eu desejara por tanto tempo. Essa era a recompensa que ele tinha para mim e, nossa, meu corpo precisava de mais. Correspondi ao beijo, tentando degustar mais da bebida, implorando para que ele me desse aquilo que eu tanto queria. — Você quer mais? — sussurrou ele. Assenti vigorosamente, puxando a gola da camisa dele e implorando com os olhos.


— Então, me toque, Livy. Me toque onde você sabe que eu quero que toque. Fiquei deitada ali, uma guerra sendo travada em minha mente. Eu queria sentir o álcool percorrendo minhas veias. Queria sentir os lábios de Titio contra os meus. A atração que ele exercia sobre mim se fez presente, mas também havia alguma coisa no fundo da minha mente que me dizia para não fazer aquilo. Titio acariciou a minha bochecha e tudo veio à tona. Kit. Meu precioso Kit estava em algum lugar esperando por mim. Estava em algum lugar, provavelmente morrendo de preocupação. E aqui estava eu, deitada na cama com outro homem. Não posso fazer isso. Não quero fazer isso. Quero sim. Meneei a cabeça e olhei no fundo dos olhos de Titio. — Eu não... Eu não posso fazer isso. Mas eu queria fazer. Eu queria que ele me tocasse. Conseguia sentir o desejo queimando dentro de mim. Titio afastou uma mecha de cabelo do meu rosto. — Pode sim, Livy. Você se lembra de quem costumava te proteger daquele monstro... do Homem Sombra? Você se lembra de quem costumava te dizer à noite que tudo ficaria bem? Eu já te desapontei alguma vez, Livy? Eu já te machuquei? As visões invadiram a minha mente mais uma vez. Visões sombrias do homem que eu passei a odiar. Eu queria a escuridão novamente. Eu desejava me sentir entorpecida. — Mais — ordenei, sem fôlego. — Você sabe o que tem que fazer. Fechei os olhos e deslizei a mão até o seu membro duro. Envolvio com a mão e fiz movimentos de vai e vem por cima das calças dele, mas não


gostei de como aquilo me fazia sentir. Eu não gostava de saber que eu queria mais. Titio gemeu de prazer. — Livy, isso é tão bom. Hora da sua recompensa. Ele tomou outro gole da bebida e a despejou na minha boca, gota a gota. Eu estava praticamente lambendo cada gotinha dele. Titio abriu minha blusa, deixando meu soutien de renda à mostra. Ele despejou um pouco de Jack Daniels no meu peito e começou a lamber. Eu conseguia sentir o aroma em mim. Eu queria me banhar naquilo, alimentar-me daquilo. Queria me afundar naquilo. — Olivia, posso deixá-la em segurança novamente. Fechei os olhos e sorri. Segurança. Eu queria me sentir em segurança. Eu amava segurança. Titio podia me deixar em segurança. Gemi quando senti sua mão afastando meu soutien e sua boca percorrendo o meu mamilo. Por alguma razão, senti meu corpo arder novamente. Eu não deveria estar me deleitando com isso, mas estava. Eu queria mais. Gemi de novo, amando e odiando cada segundo disso. Minha cabeça odiava, mas meu corpo implorava por mais. Na verdade, meu corpo começou a arder de desejo. — Livy, você precisa estar pronta. Pronta? Pronta para o quê? Eu não conseguia entender o que ele estava querendo dizer. Minha mente o queria longe de mim, mas meu corpo gritava por mais. Eu não conseguia entender. Seu toque em minha pele fazia com que eu estremecesse de desejo. Queria-o dentro de mim, mas minha mente dizia que não. Minha mente queria Kit. Meu coração queria Kit. Mas, neste momento, meu corpo queria outras coisas. Qual era o meu problema? Eu não conseguia entender nada do que estava acontecendo. Não era o tipo de garota que sentia desejo por outro homem quando meu coração já tinha sido tomado por outra pessoa. Parecia que meu coração e minha mente estavam separados do meu corpo. Neste momento, essa sensação estava tomando conta de cada parte do meu ser. — Livy, preciso te comer. Esperei por isso por tempo demais.


Ele me deu um beijo e acariciou o meu seio. Estava sendo tão cuidadoso e aquilo fez meu corpo implorar por mais. Gemi mais uma vez e Titio começou a se despir. Seus olhos estavam semicerrados e sensuais. Ele nunca havia me olhado daquele jeito e meu corpo reagiu. Eu não queria reagir daquela maneira, mas eu estava sendo traída pelo meu próprio corpo. Em um movimento rápido, ele tirou o meu soutien, minha calça jeans e a minha calcinha. Fechei os olhos e imagens de Kit inundaram a minha mente. Eu não queria isso. Eu precisava parar com isso. — Não tenho certeza se estou pronta — declarei, sem fôlego e definitivamente pronta. Meu corpo clamava tanto por aquilo que chegava a doer. Ele me despiu completamente, então, não havia nada entre nós. Titio pegou seu pau latejante e piscou para mim. Ele não se importava mais com o que eu queria. — Titio... Ele me calou com uma lambida no clitóris. Minha mente se entorpeceu e o desejo tomou conta de mim. Meu corpo tremia e estremecia conforme ele deslizava a língua por mim. Era como uma dança e meu corpo queria que ele a conduzisse. Repetidamente, ele enfiava a língua dentro de mim e, depois, a deslizava sobre o meu clitóris. Eu podia sentir o meu corpo se enrijecendo com o orgasmo prestes a eclodir. Eu não queria isso, mas queria. — Meu Deus! — gritei enquanto aquela sensação crescia mais e mais. Eu ia gozar a qualquer momento e seria glorioso. Quando eu estava prestes a atingir o clímax, ele parou. — Nossa, Livy, você é uma tigresa. Vou te dar o que você quer agora, tá? Quero senti-la gozando no meu pau. Quero-a se contorcendo embaixo de mim. Quero ouvi-la gritando de prazer. Ele estava se aproximando de mim, mas minha mente me ordenou para colocar um fim àquilo. — Camisinha! — gritei. Eu sabia que não tinha como parar agora, mas também sabia que não queria que ele gozasse dentro de mim.


Titio olhou para mim. — Por quê? Minha mente buscou uma explicação. — Eu... Eu não estou tomando anticoncepcional — menti, e gemi quando o desejo para tê-lo dentro de mim se apossou do meu corpo. Titio deu um sorrisinho. — Ótimo. Ele entrou em mim com uma arremetida rápida e eu fiquei sem ar. Queria entender o que estava acontecendo, mas meu corpo assumiu o controle novamente. Estava me dizendo para sentir tudo que ele estava fazendo comigo. Queria senti-lo. Meu corpo queria que ele me fodesse com força, sem parar até que eu não estivesse mais aguentando. — Porra! — exclamou ele. — Você é tão apertadinha, Livy. Você quer mais? Minha mente dizia não, mas minha cabeça assentiu. Naquele momento, eu queria aquilo mais do que tudo. Ele não perdeu tempo e deu outra arremetida, fazendo-me gritar. — Mais forte! — pedi, incapaz de entender o que estava acontecendo comigo. Eu não me importava. A cada arremetida, eu ficava mais perto de gozar. Atingi o maior orgasmo que já tive até então. Foi intenso e a sensação aumentava a cada movimento dele. — Meu Deus! — exclamei. — Isso aí. Solte-se. Porra, você é tão gostosa. Ele deu uma arremetida tão forte que o clímax percorreu meu corpo de maneira dolorosa. Meu corpo se retesou enquanto espasmos me percorriam. Eu conseguia sentir o sangue sendo bombeado em minhas veias e meus pelos se arrepiando em cada pedacinho de mim. Meu corpo celebrava o meu orgasmo interminável. Gritei quando a intensidade daquela sensação se apoderou de mim. Titio deu uma arremetida atrás de outra e sua respiração ficou ofegante.


— Porra, Livy! O corpo dele se retesou e senti quando ele gozou dentro de mim. Ele gozou dentro de mim! Oh, céus! O que foi que eu fiz? Que tipo de pessoa eu me tornei? Certamente eu não quis nada disso. Certamente eu não tinha tanto desejo por este homem quanto eu tinha por Kit. Eu só estava condicionada por Titio desde a primeira vez que ele me acolheu debaixo de suas asas. Era natural que eu reagisse a ele de determinada maneira, mas não desse jeito. Não com essa intensidade. Seu corpo pendia sobre o meu e sua respiração estava ofegante. Minha mente buscou respostas que eu não conseguia encontrar. O que poderia ter feito que meu corpo tomasse todo o controle assim? Certamente não era por causa do meu desejo por Jack Daniels. Aquilo me atingiu em cheio. O comprimido que Ian havia me dado. Pensei que fosse para dor de cabeça, mas será que poderia ser outra coisa? — O que você me deu? Senti o corpo de Titio se retesar e soube que estava certa. Fechei os olhos e senti as lágrimas vindo. Mas eu não podia chorar. Titio não gostava de fraqueza. Eu não podia deixar que ele visse a minha fraqueza. — Você gozou dentro de mim. Ele ergueu a cabeça e olhou para mim. Sorrindo, afastou uma mecha de cabelo do meu rosto. — Livy, estou prestes a fazer 39 anos. Não vou ficar mais jovem. Além disso, você foi prometida a mim desde que era uma criancinha. É natural que você seja a mãe do meu filho ou filha. Meus olhos se arregalaram e meu corpo se enrijeceu. — Do que você está falando? Ele abriu um sorriso malicioso. — Ah, Livy. Você não sabe nada sobre o seu pai, não é mesmo? Ele estava com problemas e precisava de minha ajuda. Em troca, ele me prometeu a única pessoa que tinha sangue puro. Você é uma Caudwell no fim das contas. Ele sabia que você seria um partidão quando ficasse mais velha.


Todos os homens que a conhecessem iriam desejá-la. Ele também sabia que eu tinha uma fraqueza por você. Eu já te amava desde que você era uma garotinha, Livy. Ele tracejou o meu rosto com um dedo, olhando para mim com uma expressão de adoração. De repente, senti-me enjoada. Como ele pôde? Sempre pensei que meu pai era um homem bom, mas eu estava enganada. Sei que ele nunca me abraçou nem demonstrou nenhum tipo de afeto, mas eu imaginava que era porque ele estava sempre muito ocupado. Imaginava que ele me amasse de verdade, mesmo não conseguindo expressar seus sentimentos. Afinal de contas, ele era um lorde. Tinha parentesco com a nobreza e era um homem de alta posição social. — Como ele pôde fazer isso com a única filha que tinha? — Não odeie seu pai, Livy. Ele fez o que fez para mantê-la a salvo. Você não percebe isso agora? Ele também sabia que você nunca passaria necessidade comigo. Qualquer coisa que você queira, Livy, eu vou te dar. Tudo que eu peço em troca é que você se case comigo e seja a mãe dos meus filhos. Alguém que possa dar seguimento à linhagem. É natural que eu fosse o escolhido. Você sabe como sou poderoso, Livy. Você sabe disso desde que era apenas uma criança. Neguei com a cabeça, incapaz de assimilar tudo que ele havia dito. Titio percebeu a minha ansiedade e acariciou o meu rosto. — Shh, Livy. Sei que é muito para assimilar. Vou te dar um tempinho para pensar em tudo. Você sabia que esse dia ia chegar. Você me prometeu que esse dia ia chegar. Prometi mesmo. A parte doentia que havia em mim aceitara as suas investidas porque eu preferiria sentir qualquer coisa que não fosse o vazio em que eu me encontrava. Ele deslizou para fora de mim e eu estremeci. — Não tenho certeza se você já está pronta para parar. O que você ingeriu é bem poderoso. Senti-me enjoada de novo. — O que é?


Titio abriu um sorriso. — É tipo um Viagra, mas que também é ótimo para dores de cabeça. Eu só estava te fazendo um favor. Eu sabia que você estaria nervosa, então, só estava tentando te deixar mais relaxada. Drogas não fariam bem para uma viciada, pensei que Viagra poderia funcionar. Agora, agradeça-me e vá tomar um banho. Tenho alguns negócios para resolver. — Obrigada. As palavras saíram naturalmente. De novo, isso era Titio afirmando sua autoridade sobre mim. Levantei-me, conforme ordenado, e ele ficou me observando com um sorriso nos lábios enquanto eu me dirigia até o banheiro. — Eu sabia que seu corpo seria lindo, Livy. Lindo a ponto de ser idolatrado. Eu sei como fazer você se sentir bem, gatinha, e prometo que vou fazer isso. Dei o meu melhor sorriso e abri a porta do banheiro. Antes de entrar, virei-me e o observei vestindo as roupas. — Qual é o seu nome? Não posso continuar a chamá-lo de Titio agora. Seria meio doentio depois do que acabamos de fazer. Titio deu risada e vestiu a camisa. Ele tinha um corpo incrível. Era definido e esculpido de tal maneira que o faria um bom modelo para pintura. Mas havia apenas uma pessoa a qual eu queria pintar, e eu nunca o veria novamente. — Pode me chamar de Zac. Aquilo me pegou de surpresa. — Zac? Eu não tinha certeza se aquele era mesmo o seu nome, mas era melhor do que Titio. Ele deu uma risadinha. — É o meu nome. Você pode me chamar assim agora que você é minha. Ele se aproximou de mim com um olhar ardente. Percorreu o meu corpo nu com os olhos e meus mamilos se enrijeceram. O comprimido que ele


havia me dado era poderoso. Apenas um olhar e eu já o queria de novo. Eu odiava isso. Eu amava isso. Zac obviamente percebeu o que estava acontecendo, seu sorriso deixava isso bem claro. — Vá tomar um banho. Vou voltar assim que eu puder. Ele estendeu a mão e acariciou o meu mamilo. Gemi, pendendo a cabeça para trás. — Tão sexy. Eu te comeria agora mesmo se não fosse por essa porcaria que tenho que resolver. Com uma expressão de dor no rosto, ele se virou e caminhou em direção à porta. — Vá tomar um banho, Livy. Vai ajudá-la a relaxar um pouquinho. Ele fechou a porta atrás de si, deixando-me desesperada por mais. Minha mente estava aliviada por ele ter ido embora, mas o meu corpo o queria de volta. Eu só torcia para que o efeito daquele medicamento passasse logo, pois meu coração não ia aguentar por muito tempo. Eu amava Kit. Eu queria Kit. Com a cabeça pendendo de vergonha, entrei no banheiro exuberante. Era totalmente luxuoso. Eu conhecia Titio... Zac... qualquer que fosse o nome dele. Eu sabia que ele manteria a sua promessa. Só não era o que eu queria. Abri a torneira e deixei a banheira encher de água, despejando um pouco de sais de banho na superfície. Sentei-me na borda da banheira, pensando em como é que minha vida ficou desse jeito. Encarei as bolhas se formando e aumentando à medida em que a banheira se enchia. Fiquei com vontade de chorar. Eu queria poder sentir a perda da sensação de que havia alguma coisa real em minha vida. Isso não era real. Nada ao meu redor era real. Kit era a única coisa real que eu tinha, mas eu o havia perdido. Só me fora permitido um vislumbre de uma vida pela qual valia a pena lutar, mas aquilo fora tomado de mim mais uma vez. Fiquei parada por mais um tempo, não sentindo nada além do


vazio. Uma parte de mim ainda ardia em desejo. Mas agora eu só estava permitindo que a sensação de vazio tomasse conta de mim. Sentir-me entorpecida era melhor do que sentir a dor que eventualmente apareceria. Passei a vida toda aprisionada. Que diferença faria se eu fosse aprisionada novamente? Assim que a banheira se encheu o suficiente, enfiei o pé na água e estremeci diante do calor. Deslizei suavemente para dentro da banheira. Tudo voltou à tona. Meu corpo estava ardendo, desejando que qualquer pessoa aparecesse para apagar o meu fogo. Sem pensar duas vezes, fechei os olhos e levei a mão à virilha, sentindo o clitóris entumecido entre os meus dedos. Gemi enquanto o acariciava com delicadeza, e prendi o meu mamilo com a outra mão, sentindo-o enrijecer com o meu toque. Todo o meu corpo estremeceu. Qualquer que seja o medicamento que Zac me deu, era o suficiente para intensificar a sensação de cada toque em minha pele. Gemi mais uma vez enquanto estimulava meu clitóris com movimentos rápidos. Abri os olhos e gritei ao avistar um homem parado ali, encarando-me com um grande sorriso nos lábios. — Por favor, não pare por minha causa. Eu estou apreciando o show. O único problema é que as bolhas estão atrapalhando a minha visão. Cerrei a mandíbula. Reconheci a voz no momento em que ele abriu a boca. — Craig. Ele arqueou a sobrancelha e eu me dei conta de como ele era bonito. Tinha cabelos negros e curtos, olhos castanhos claros e uma covinha no queixo. A barba estava por fazer e os músculos ficavam marcados por baixo da sua camiseta que dizia Inspetor de Corpo Feminino. Aquilo quase me fez revirar os olhos. — Sabe, eu poderia te dar uma ajudinha — Ele apontou para a banheira para enfatizar o que havia dito. Suspirei. — Você poderia se meter em uma encrenca das grandes. O seu chefe sabe que você está aqui me comendo com os olhos? Craig deu uma risadinha.


— Gosto de viver perigosamente. Um pouco de perigo nunca fez mal a ninguém. Bufei. — É claro que você gosta. — Craig, que porra é essa? Você não sabe que o chefe está lá embaixo? — Ian apareceu atrás de Craig e olhou para mim. Seus olhos se arregalaram quando ele me viu na banheira. Craig riu. — Eu vim até o quarto para entregar algumas roupas a ela e ouvi alguns sons vindos do banheiro. Tive que vir investigar... Só para me certificar de que ela não estava machucada ou algo assim. Ian olhou para mim com uma expressão preocupada. — Você está machucada? Craig deu risada. — Não. Acho que ela está muitíssimo bem. Na verdade, acho que o chefe precisa voltar e dar o que a mulher dele está querendo. Se ele não quiser fazer isso, eu faço. Ele lambeu os lábios e Ian deu um tapa no braço dele. — Dê o fora daqui, porra. Se ele descobrir que você estava aqui, vai acabar com a sua raça. Ian cerrou os punhos e este movimento foi o suficiente para fazer o meu desejo despertar novamente. Os dois estavam saindo do banheiro quando eu gritei: — Ian! Espere aí! — Ele hesitou e virou-se em minha direção. — Você pode pegar uma toalha para mim? Eu queria sair do banho. Estava me dando conta que a calidez da água só estava me deixando com mais vontade de transar em vez de me deixar mais relaxada. Eu queria que isso acabasse. Ian foi em direção a um armário e pegou uma toalha para mim. Fiquei de pé e ele me entregou a toalha, sem olhar para mim. Não consegui evitar de sorrir. Ele definitivamente não era nem um pouco como Craig.


Peguei a toalha e a enrolei no meu corpo. Fui sair da banheira e escorreguei. Ian me pegou e me manteve firme em seus braços. Nossos olhares se fixaram por um momento enquanto ele me ajudava a sair da banheira. — Obrigada — agradeci, sem fôlego. Eu estava virando uma prostituta devassa. Ian engoliu em seco. — De nada. Dei um apertãozinho no braço dele, percebendo como era musculoso. Apertei novamente porque eu não consegui me controlar. — Olivia, você precisa parar com isso. Eu sei que você não está conseguindo evitar de agir dessa forma. Você ficaria a fim até mesmo do Freddy Krueger se ele entrasse aqui nesse momento. É só que... Se você continuar fazendo isso, nós dois podemos nos meter em uma encrenca das grandes. Bom, eu estaria encrencado, pelo menos. Ele abriu um sorriso para mim e meu cérebro queria muito pedir desculpas, mas meu corpo pensava diferente. — Dói — admiti. — Eu não consigo pensar em mais nada além do que o meu corpo está pedindo. Ian suspirou e se afastou de mim. — Eu sei disso. Eu entendo. É por causa da droga que ele te deu. Franzi os lábios. — Você quis dizer a droga que você me deu. Eu sei que não eram comprimidos para dor de cabeça. Ian fez careta. — Eu só fiquei sabendo depois. Foi Craig quem me entregou aquilo. Suspirei e desviei o olhar. — É claro que foi. Ian deslizou a mão pelos cabelos. — Não posso te ajudar. Sinto muito. O chefe agiu mal por te deixar aqui dessa maneira. Você ainda deve ficar assim por mais umas duas


horas antes que os efeitos da droga comecem a se dissipar. Meus olhos se arregalaram. — Duas horas? Duas horas sentindo que vou explodir se eu não transar? Ian mordeu o lábio e me lançou um olhar tímido. — Isso mesmo. Foi mal. Fiz careta quando outra onda de desejo percorreu o meu corpo. Minhas entranhas se reviraram, desesperadas para sentir o toque de alguém. Fechei os olhos e me lembrei do orgasmo mais intenso que eu já tivera, apenas trinta minutos atrás. Imediatamente senti uma gota escorrendo pela minha perna, e eu soube que não era a água do banho. Era uma gota que tinha saído de mim, fruto do meu desejo. Isso nunca tinha acontecido comigo antes. Abri os olhos para olhar para Ian. Ele deve ter visto a expressão em meu rosto, porque seus olhos se arregalaram. Ele saiu do banheiro e levou a mão às costas, pegando um walkie-talkie. — Diga para o chefe que ele precisa subir o mais rápido que puder. Temos uma situação de emergência aqui em cima. Ele tirou o dedo do botão e outra voz saiu do aparelho. — Entendido. Quanto mais Ian parecia afobado, mais o meu desejo se intensificava. O único pensamento em minha mente era o de como eu o queria dentro de mim. Não importava que eu não soubesse nada sobre ele além do nome. Nada mais importava, apenas o desejo que se apossava do meu corpo. Um som ecoou pelo cômodo e, se eu não tivesse sentido minha garganta tremer, eu teria jurado que não havia sido eu. Era um som animalesco. Nada a ver comigo. Ian engoliu em seco e se afastou ainda mais de mim. Caminhei em direção a ele, lambendo os lábios. Eu não me importava com mais nada nesse momento, só com o desejo que queimava no meio das minhas pernas. — Eu vou lá buscá-lo. Prometo — Com a voz cheia de medo e relutância, Ian saiu rapidamente, fechando a porta atrás de si. Fiquei parada esperando. Não sei por quanto tempo. Talvez dois


minutos. Talvez cinco. Mas pareceu uma eternidade. Foi quando ele adentrou o quarto. Meu lorde, meu mestre. Meu corpo reagiu instantaneamente ao seu olhar faminto e eu arranquei a toalha do meu corpo. Zac veio em minha direção, puxou-me para si e me encostou contra a parede. — Desculpe-me por tê-la deixado aqui, gatinha. Eu não queria vê-la sofrer assim. Você quer que eu faça com que você se sinta melhor? Choraminguei e assenti. Eu precisava que ele fizesse alguma coisa comigo. Qualquer coisa. — Eu não devia tê-la deixado sozinha. Sinto muito, gatinha. Prometo que você vai se sentir melhor agora. Choraminguei novamente enquanto ele tracejava minha nuca com seus beijos e levava a mão ao meu seio. — Por favor — implorei. Eu não sentia mais nada além dele. Tudo deixou de existir e só o seu toque permaneceu. Senti Zac tirar o cinto e abrir o zíper da calça. Depois, deslizou seu membro para dentro de mim e eu gritei. Pressionou seus lábios contra os meus enquanto dava uma arremetida atrás da outra. — Você é tão gostosa, gatinha. Está tão molhadinha por mim. A sensação de orgasmo me dominou imediatamente. Isso nunca tinha acontecido com tanta rapidez assim antes. — Zac — gritei, incapaz de segurar o clímax que me atingia. — Porra... Eu amo quando você grita o meu nome. Ele me levou até a cama e ficou em cima de mim. Continuou enfiando o seu membro em mim o mais fundo que conseguia e, então, fez algo que eu não estava esperando. Deu um tapa no meu clitóris. Não precisei de mais nada. Gozei e gritei sem parar enquanto a sensação de orgasmo se alastrava pelo meu corpo. Zac gemeu e continuou com suas arremetidas, e aquilo só serviu para intensificar o meu orgasmo. Eu estava


com tanto fogo que a sensação continuou a percorrer o meu corpo. — Você tem noção de como é gostoso sentir a sua bucetinha gozando no meu pau? Porra, está difícil me controlar em relação a você. Por que você me fez esperar tanto assim, Livy? Você sempre soube que as coisas deveriam acontecer desta maneira. Ele gritou e continuou com as suas arremetidas, agora mais rápidas e mais profundas. Meu corpo estremecia a cada movimento dele. Não demorou muito para que outro orgasmo surgisse e me fizesse gritar tão alto que pensei que o teto fosse cair. — Tão. Linda. Porra — sussurrou ele e seu corpo se retesou de repente. — Livy! — gritou ele enquanto gozava. Ele desabou em cima de mim, nossos corpos agitados e cobertos de suor. Minha mente estava entorpecida novamente, tentando me fazer esquecer daqueles olhos perfeitos, cabelos perfeitos e carícias perfeitas. — Prometo que não vou te abandonar até isso acabar, tá, gatinha? Assenti, sabendo que suas palavras gentis fariam com que eu me sentisse mais atraída por ele. Zac estava fazendo com que eu me afundasse nele novamente. Ele sabia muito bem o que estava fazendo comigo. E o problema nisso tudo? Estava funcionando.


CAPÍTULO DEZENOVE

Pelo menos três horas se passaram até que o efeito da droga começasse a se dissipar. No final, a única coisa que eu conseguia sentir era o suor em minhas pálpebras. Estava tão cansada. Mas não me importava com isso. Preferia me sentir exausta do que sentir a dor emocional que viria me encontrar mais tarde. Envolvendo-me em seus braços, Zac caiu no sono imediatamente. Acho que ele estava mais exausto do que eu, mas a culpa era toda dele. Eu queria ficar brava com ele. Queria sentir ódio dele, mas a necessidade de dormir era mais forte, então, não tive escolha a não ser ceder a ela.

***

Bocejando, acordei quando vi a luz brilhando contra meus olhos. Cada pedacinho do meu corpo estava dolorido e eu não sabia o porquê. Minha mente estava confusa e eu estava tão confortável que não queria me mexer. Ouvi um som no quarto e algo tocando o meu braço. Abri um sorriso, sentindo-me mais leve do que o ar. — Kit, venha para cama. Eu não quero acordar — Peguei a mão dele e o puxei para mim, maravilhada com a sensação do seu corpo contra o meu. Sem pensar duas vezes, levei a mão dele ao meu seio, mas ele resistiu. A realidade me atingiu em cheio. Eu não estava em casa. Fui capturada na noite anterior e... Ai, meu Deus! Não! Levantei-me em um salto e vi Ian me encarando com uma expressão selvagem. — Quem é Kit? Ah, merda. Não. Por que a minha fraqueza resolveu dar as caras logo quando Kit estava em perigo?


Kit. Meu Kit. A pessoa de quem me tiraram. A pessoa a quem eu traí repetidas vezes na noite anterior. Sem pensar, meus olhos se encheram de lágrimas. Antes que me desse conta, eu estava encolhida em posição fetal. Ian, chocado, começou a olhar ao redor do quarto, sem saber o que fazer. — Olivia, acalme-se. Por favor, fique calma. Não consegui evitar. Assim que as comportas se abriram, não consegui mais controlar. — O que aconteceu ontem à noite? Que porra era aquela, Ian? Não era nenhum Viagra do qual eu já ouvi falar. Eu não estava no controle. Ian suspirou e tentou me confortar com um tapinha no ombro. — Olha só, se isso vai fazer com que você se sinta melhor, saiba que você não teria conseguido se controlar ontem. Lágrimas escorreram pelo meu rosto e eu olhei para ele com o cenho franzido. — Como assim? Ian desviou o olhar por um momento. — Você não pode contar isso a ninguém, tá? — Assenti vigorosamente. — Alguns anos atrás, uma base secreta em um lugar remoto de Wiltshire foi invadida. Descobriram que eles estavam testando um novo remédio em mulheres desavisadas. Era um remédio capaz de aumentar não apenas a libido das mulheres, mas também a sua fertilidade. Podia ser utilizada por mulheres estéreis — Ele olhou para mim por um momento antes de continuar. — A não ser que você tenha usado camisinha ou esteja tomando anticoncepcional, eu diria que você tem grandes chances de estar grávida. Na verdade, eu tenho certeza que está. Merda, não. Isso não pode estar acontecendo. — Isso é doentio, Ian. Por que eles fariam isso com as mulheres? Ele meneou a cabeça. — Eu não sei dizer. A única coisa que sei é que é uma droga superpotente e, caso seja usada da maneira certa, pode fazer com que a mulher seja a melhor parceira sexual que um homem poderia desejar.


Franzi o cenho, as lágrimas ainda escorrendo pelo meu rosto. — Mas isso é estupro, Ian. Ele fez careta. — Bem... É e não é. A mulher quer transar e, se for utilizada com a pessoa certa, pode ser uma experiência muito prazerosa. Ela provavelmente diria que teria sido o melhor sexo da vida dela. Baixei a cabeça, envergonhada. Realmente foi o melhor sexo que eu já fiz na vida, mas isso só fazia com que eu me sentisse a pior pessoa do mundo. Eu havia me entregado para Kit, mas o traí da pior maneira possível. — Se você estiver se sentindo culpada, não se sinta. Era impossível que você conseguisse se controlar na noite passada. Se você ficasse sem transar, teria sentido uma dor tremenda. Estremeci. — Que tipo de droga é essa? Parece... — De outro planeta? — Ele bufou. — Nem queira saber. Ian olhou para mim por um momento, então, saiu da cama e foi me buscar um lenço. — Aqui. Enxugue os olhos, arrume-se e desça para comer alguma coisa. Você dormiu praticamente o dia inteiro e o chefe quer que a gente cuide de você. Peguei o lenço e fiquei encarando Ian. — Eu não entendo o que está acontecendo. Quando estou com ele, sinto uma atração inexplicável. Quando não estou com ele, é como se o feitiço desaparecesse. Não consigo explicar. Ian mordeu o lábio. — Você já foi hipnotizada? Olhei para ele, meus olhos arregalados. — Fui. Vários meses atrás, Titio me ajudou a voltar aos trilhos. Ele disse que a hipnose ajudaria com os meus pesadelos. Ian estremeceu um pouco, mas não disse nada.


— Ian, o que você está escondendo de mim? Ele meneou a cabeça. — Eu não posso te contar, Olivia. Se eu falar mais alguma coisa, provavelmente vou estar assinando a minha sentença de morte. Eu já te contei coisas que você nem deveria saber. Empertiguei-me e segurei o lençol contra o meu peito. — Então, por que você me contou? Ele franziu o cenho. — Não sei. Acho que me senti mal por você. Eu me senti mal por tê-la capturado — Ele pausou por um momento. — Quem é Kit? Ele é um problema? Neguei a cabeça com violência. — Não. Por favor, nunca mais mencione o nome dele. Ele olhou para mim com uma expressão preocupada no rosto. — Você sabe que se o chefe descobrir isso provavelmente vai eliminar o problema, não sabe? Na verdade, ele vai eliminar o problema. Você não faz ideia do que ele fez com aquele tal de Freddy quando ele ousou encostar um dedo em você — Eu estremeci. — Mas ele mereceu, Olivia. Se você não tivesse lutado contra ele daquela maneira, acho que nós dois sabemos o que teria acontecido. Assenti. — Eu sei. Ele se levantou da cama, mas eu o segurei pelo braço. — Ian, ele não vai me drogar de novo, vai? Uma sensação de ardência percorreu o meu corpo diante do pensamento de todos os orgasmos que tive na noite passada. Ian ficou me observando por um momento. — Não sei ao certo quanta droga ele te deu, mas até mesmo um pouquinho dela pode causar efeitos duradouros. — Efeitos duradouros? Como assim?


Ele enfiou as mãos nos bolsos e mordeu o lábio. — Pode ser que você se sinta excitada por alguns dias. Não vai ser com a mesma intensidade que ontem, mas se for acariciada do jeito certo ou até cantada do jeito certo, pode ser que fique pronta para ação. Não estou dizendo que você não vai estar no controle. A dor vai ser tolerável, mas, ainda assim, vai doer quando o desejo tomar conta do seu corpo. Soquei o colchão. — Ótimo. Maravilhoso mesmo. Faça-me um favor, Ian, e mantenha todo mundo longe de mim. Ele deu uma risadinha. — Acho que você não vai ter um problema com isso. Franzi o cenho. — Por quê? — Digamos que, depois do que aconteceu ontem à noite, você provavelmente vai perceber que apenas as carícias do chefe a satisfazem. É uma droga potente o suficiente para que você foque apenas em uma pessoa. É claro que se ele não estiver por perto e a dor estiver forte demais, você vai procurar o melhor substituto disponível. É bem parecido com o instinto de acasalamento dos animais. Levei as mãos à cabeça. — Ai, meu Deus, Ian. O que ele fez comigo? Ergui o olhar e vi o conflito estampado em seu rosto. — Sinto muito, Olivia. Acho que ele só estava se certificando de que nenhum outro homem ficaria entre vocês. Pensei em Kit novamente e a pontada de dor me atingiu com força total. Quase me fez desejar que Zac estivesse aqui para pôr um fim a ela. — Porra! Ian deu risada. — Você está xingando bastante esta manhã. Dei uma risada sarcástica.


— E quer saber a ironia disso tudo, Ian? — Ele assentiu. — Eu nunca xingo. Sempre fui uma pessoa tão calma. Acho que o seu chefe está me influenciando bastante no fim das contas. Ian olhou para a porta. Pude notar que estava ansioso para sair do quarto. Acho que não era permitido que ele ficasse comigo aqui por tanto tempo assim. — Está tudo bem. Você pode ir. Não queria que ele se metesse em encrenca. Ele abriu um sorriso cheio de gratidão. — Obrigado. Deixei algumas roupas e roupas íntimas para você. Quando estiver pronta, desça e vamos pedir para o cozinheiro preparar algo para você. Assenti com um sorriso triste e observei enquanto ele saía pela porta. Eu estava fodida. Fodida pra caralho. Fui criada para agir como uma dama, mas depois de ouvir aquelas coisas sobre o meu pai na noite passada, a minha vontade era de mostrar o dedo do meio e gritar vai se foder. Joguei a cabeça no travesseiro e gemi. Meus olhos se encheram de lágrimas novamente e eu permiti que o choro viesse. Precisava chorar para superar o que tinha acontecido. Não podia deixar que Zac visse a minha dor, ou ele iria me fazer perguntas. Quando eu não desse as respostas que ele queria, ele faria de tudo para descobrir o motivo da minha tristeza. Para o bem de Kit, eu esperava que ele se esquecesse de mim e voltasse a se esconder. Ele precisava sair de Londres e começar de novo em outro lugar. A segurança dele era a minha prioridade. E lá estava a ironia novamente. Eu tinha começado de novo por um motivo diferente meses atrás. Pensei que o que eu enxergava nos olhos de Kit era outra coisa, mas, então, me dei conta de que ele escondia a dor por trás daquela dureza. Uma dor que eu queria trazer à luz. Quando olhei no fundo dos seus olhos naquele dia no refeitório comunitário, eu soube que estava olhando para mim. Era uma analogia estranha, mas era a única maneira que encontrei para explicar. Lembrei-me do momento que tivemos no meu estúdio de pintura. Aquele momento em que eu soube, indubitavelmente, o quanto eu o amava.


Pude sentir o quanto ele se importava comigo e soube que não tinha mais como voltar atrás. Eu deveria ter contado tudo a ele naquele momento, e, então, nós estaríamos a quilômetros de distância agora. É claro, talvez ele tivesse decidido que nunca mais queria falar comigo, o que só teria me trazido de volta onde estou. Minha vida foi planejada desde o momento em que tive idade o suficiente para ser notada pelos homens. Droga, provavelmente fui prometida a Zac no dia em que nasci. Tudo isso fazia minha cabeça doer. Era informação demais, mas eu provavelmente não sabia nem da metade. Quem era Zac? Sempre pensei que ele estava lá fora para mudar o mundo e torná-lo um lugar melhor. Sempre o enxerguei como um herói, mas, depois da noite passada, eu não tinha mais tanta certeza disso. Agora, eu o enxergava como um ser manipulador. Alguém que usava a minha fraqueza para me atrair para si. Eu era atraída por Zac como uma mariposa era pela luz. E parecia que eu não tinha controle nenhum sobre isso. Meus olhos se arregalaram de repente quando pensei no que Ian havia me contado. Eu precisava ir lá embaixo e tomar um anticoncepcional. Eu não ficaria grávida de Zac de jeito nenhum. Eu me recusava. Olhei o relógio e vi que já tinha passado das 13h. — Merda! Joguei as cobertas longe e corri em direção ao banheiro para tomar um banho rápido. Quando já estava seca, fui em direção ao armário para pegar as roupas que Ian havia deixado lá. Todas eram extremamente luxuosas e provavelmente custavam mais do que o salário anual da maioria da população. Vesti uma calcinha branca com babados e um soutien combinando. Preciso admitir. A sensação contra a minha pele era deliciosa. Quando olhei meu reflexo no espelho, o ímpeto de me masturbar tomou conta de mim. Meneei a cabeça para afastar aquele pensamento. Conseguia sentir a ardência familiar da noite passada se aproximar, mas eu estava determinada a vencê-la. Se eu a ignorasse, ela iria embora. Pelo menos estava menos intensa do que na noite anterior. Agora era uma sensação diferente. Analisei as roupas e escolhi uma minissaia amarela e uma blusa branca. Quando terminei de me vestir, desci a escadaria gigantesca até chegar ao primeiro andar. Não pude evitar de notar a quantidade de homens ali, alguns deles armados.


Todos olharam para mim, mas nenhum disse nada ou fez gesto algum. Olhavam para mim como se eu fosse um brinquedo novo e fascinante. Caminhei pela extensão do corredor e observei o candelabro caríssimo no teto. Garotas ficariam louquinhas por alguém como Zac. Sua riqueza provavelmente excitaria as mulheres, mas esta era sempre a última coisa na qual eu pensava. O dinheiro podia comprar muitas coisas, mas amor verdadeiro não era uma delas. Caminhei em meio às pinturas penduradas nas paredes. Até avistei uma pintura minha pendurada no fim da escada. Era uma campina que eu havia pintado quando ainda estava em Cambridge. Zac queria que eu fizesse um autorretrato, mas eu não quis. Em vez disso, ele aceitou que eu pintasse a campina que eu gostava de ir de vez em quando. Às vezes, apenas sentava-me lá e não pensava em nada. Deixava que minha mente vagasse livre e sorria diante da sensação de torpor que aquilo me proporcionava. — Você está pronta, Olivia? — Sobressaltei-me quando vi Ian parado à porta da cozinha com um sorriso no rosto. — Desculpe, eu não queria te assustar. Meneei a cabeça. — Não tem problema — Reduzi minha voz a um sussurro. — Ian, onde está minha bolsa? Eu preciso dela por... questões femininas. Achei melhor dizer isso porque homens costumam ficar esquisitos quando falamos coisas desse tipo. Como era de se esperar, os olhos de Ian se arregalaram e ele saiu andando. — É claro — Ele pigarreou. — Vou pegar para você. Olhei para o meu relógio e soltei um palavrão quando percebi que já havia se passado três horas desde a hora que eu deveria ter tomado o comprimido. Sempre levava o anticoncepcional na minha bolsa porque sempre me esquecia de tomá-lo de manhã. Era bem comum que eu só fosse me lembrar de tomá-lo no meio do meu turno no refeitório comunitário. Senti um apertão no peito quando pensei em todos que costumavam ir lá. Perguntei-me como Thomas e Marcus estavam. Nesse momento, eu daria qualquer coisa para vê-los. — Aqui. Eu tinha guardado em um lugar seguro.


Assenti e abri um sorriso. — Obrigada. Você pode me dizer onde é o banheiro? — Claro — Ele se aproximou de mim e apontou para uma porta debaixo da escada. — Tem um banheiro ali. Agradeci com um aceno e entrei no banheiro. Antes de fechar a porta, Ian me interrompeu. Meu coração acelerou no peito e pensei que ele havia descoberto as minhas reais intenções. Em vez disso, ele sorriu. — O que você quer comer? Posso pedir para o cozinheiro ir preparando enquanto você... faz o que tem que fazer. Meu estômago roncou. — Humm, se não for muito incômodo, acho que eu adoraria ovos mexidos e torrada. Ian revirou os olhos. — Tem uns cinquenta homens nesta casa. Tem ovos o suficiente aqui, pode acreditar. Ele riu da própria piada e eu ri de volta. — Bom, vou te dar um pouco de privacidade. Assenti. — Obrigada. Foi só depois que fechei a porta que me dei conta de como eu era idiota. Ian havia me dito que eu já devia estar grávida a essa altura, então, ele ter me entregado a bolsa só podia significar uma coisa. Abri a bolsa e vasculhei tudo que havia dentro. Minha mão hesitou quando senti os comprimidos. Suspirei, aliviada. Acho que Ian era meu aliado. Eu não tinha dúvidas de que ele vasculhara a minha bolsa e vira os comprimidos. Mas, por alguma razão, decidiu mantê-los ali. Seja qual tenha sido o motivo dele, eu estava agradecida por ele não os ter jogado fora. Era o único controle que eu tinha sobre Zac. Engoli a pílula, dei descarga e escondi o restante dos comprimidos no fundo da bolsa. Assim que terminei, abri a porta e dei de cara com uma


mulher. Ambas pulamos de susto, mas ela abriu um sorriso de quem sabia das coisas. — Imagino que você seja a Olivia. Assenti. Ela ficou me olhando por um momento, o que me deu tempo para observá-la. Era bem bonita e tinha cabelos dourados e olhos azuis. Era um pouco mais alta do que eu, mas só porque estava usando sapatos com o salto mais alto que eu já tinha visto. Suas pernas eram bem torneadas e ela era deslumbrante. — E quem é você? Eu estava ficando um pouco irritada com o jeito que ela me analisava. Estava demorando muito para o meu gosto. — Ah, foi mal — desculpou-se ela e deu risada, estendendo a mão para mim. — Meu nome é Maria. Demos um aperto de mão. — Prazer em conhecê-la, Maria. Sorri e passei por ela, mas notei que ela tinha voltado a me analisar. — Prazer em conhecê-la também, Olivia. Tenha um bom dia. Entrei na cozinha, perplexa com aquele encontro. — Por que você está com essa cara? Sentei-me ao lado de Ian diante do maior balcão que eu já havia visto. Dava para abrir uma cafeteria nesta cozinha. — Dei de cara com uma mulher — Fiz um gesto apontando para trás de mim. — Ah, você encontrou a Maria? Ele estava com um sorriso espertinho nos lábios. — Quem é ela? Ele ficou em silêncio por um momento. — Digamos que ela vem aqui de vez em quando para... ajudar os agentes. O olhar dele estava iluminado.


— Ajudar como? Ele se inclinou para frente e sussurrou: — É melhor que você não saiba. Pelo olhar dele, já saquei tudo. — Certo — respondi, desviando o olhar. — Melhor que eu não saiba mesmo. Com que frequência ela vem? Não queria dar de cara com ela nas horas erradas. — Ela não vem com frequência. Geralmente são os agentes que vão ao encontro dela. Ela costuma vir quando os caras não podem sair da casa. Arqueei a sobrancelha. — Ah — De repente me vi perguntando: — Ela costuma ajudar o Zac? Ian sorriu e cutucou o meu cotovelo. — Por quê? Está com ciúmes? — Não! — respondi rapidamente, mas não consegui evitar de sentir uma certa aflição. Qual era o meu problema? — Bom, se isso vai te deixar mais tranquila, ele não chega perto dela. — Mas você chega? As bochechas de Ian ficaram vermelhas. Eu estava começando a gostar cada vez mais dele. — Nós meio que não temos outra escolha, a não ser que a gente queira praticar o celibato. Devo ter lançado um olhar muito confuso a ele, porque ele logo sorriu e emendou: — Tirando a nossa família, não podemos ter nenhum tipo de relacionamento, se é que você me entende. Franzi o cenho. — Sério? Nenhum relacionamento? Nem sexual?


Ele negou com a cabeça. — Nós somos designados a certas pessoas para que possamos nos aliviar. Tem que ser com alguém em quem a agência confie. Maria é uma dessas pessoas. — Então, existem outras? Ele assentiu. — Existem, mas Maria é a única que pode vir à casa de tempos em tempos. Ela pode escolher os homens que quiser e ficar com eles. De tempos em tempos, os homens mudam para que ninguém fique muito apegado. Bufei. — Nossa, isso parece insano. Ian deu risada. — Pode-se dizer que sim, mas também serve para testar nossa lealdade à agência. Um homem surgiu carregando um prato cheio de ovos mexidos e torradas. Outro homem apareceu carregando uma bandeja com chá e café. Ian pegou meu cotovelo e fez sinal para que eu fosse me sentar à mesa. Quando me sentei, o cozinheiro deu um passo à frente. — Obrigada — agradeci quando o homem colocou a comida em cima da mesa. Ele abriu um sorriso doce. — De nada, Srtª Caudwell. Cerrei a mandíbula, mas não disse nada. Em vez disso, comecei a comer. Estava absurdamente faminta. — Está gostando? — perguntou Ian com um sorriso radiante. Eu já tinha comido uma das torradas e estava pronta para a segunda. — Hmmmm — Foi tudo que consegui responder, o que fez Ian dar risada. Depois que a minha barriga já estava cheia, percebi que havia vários outros homens no cômodo com a gente. Dois deles estavam armados. Tomei o restante do meu chá e comi minha última porção de comida


antes de pousar o garfo e a faca sobre o prato. — Isso é realmente necessário? — questionei, fazendo um gesto para indicar todos os homens ao meu redor. Ian estava prestes a responder quando uma voz o interrompeu: — É para a sua própria segurança, Livy. Olhei para trás e avistei Zac entrando na cozinha. Estava vestindo calças pretas e uma camisa branca. Não usava gravata e dois botões da camisa estavam abertos. Lambi os lábios involuntariamente, todos os meus pensamentos desaparecendo da minha mente. Meu lorde e mestre estava aqui e todo o meu corpo reagiu à sua presença. Como uma chama, a ardência no meio das minhas pernas se intensificou quando vi a expressão chamejante em seus gélidos olhos azuis. Era como assistir à uma dança com fogo. Completa e totalmente hipnotizante. Sem pensar duas vezes, fiquei de pé e passei a mão pelo tampo da mesa, derrubando o prato e o fazendo espatifar no chão. Depois, sentei-me em cima da mesa com as pernas bem abertas. Zac ficou parado, os olhos famintos. Fez um gesto em direção aos homens e disse: — Saiam. E, sem hesitar, todos eles saíram do cômodo. — Parece que minha gatinha ainda não está satisfeita. Coloquei uma perna na cadeira e puxei minha saia para cima, deixando a calcinha rendada à mostra. Fui tomada por uma onda de calor e umidade. Eu já estava encharcada com meus próprios fluidos. — Eu te odeio — declarei, mas meu corpo o queria. Estava enfurecido esperando pelo toque dele. Se ele não me tocasse logo, acho que eu explodiria. Zac sorriu e se aproximou. Com um puxão, ele arrancou a blusa de mim, deixando o soutien rendado à mostra. — Perfeito — grunhiu ele.


— Quero perfurar seus olhos com ferro em brasa. Os olhos de Zac se arregalaram. — Você está dolorida por causa do incidente com o Viagra ontem à noite? Sinto muito, gatinha. Eu só queria me certificar de que você estava relaxada. Ele se aproximou ainda mais e parou bem perto de mim, entre as minhas pernas. Percorreu a minha coxa com o dedo. Não consegui evitar o calafrio. — Não era Viagra e você sabe muito bem disso. Impossível que aquilo tenha sido Viagra. Minha respiração ficou ofegante quando ele puxou a minha saia para cima. Gemi e Zac sorriu. — Foi para o seu bem, gatinha. Você seria minha de qualquer forma. Só queria que você estivesse um pouco mais disposta. Eu meio que imaginava que seria um pouco mais difícil se você não tivesse tomado aquilo. Eu só estava tentando facilitar as coisas para você. Eu deveria estar brava com ele. Na verdade, eu deveria tê-lo enchido de porrada. Mas a única coisa que eu queria, mesmo que não houvesse sentido algum, era que ele me comesse com força. Meu Deus. O que estava acontecendo comigo? De repente, eu havia me tornado essa mulher enlouquecida que xingava e queria transar a todo instante. Eu não era assim. Não podia ser. Zac pressionou os lábios contra os meus e apagou todos os outros pensamentos em minha mente. Ele me beijou por tempo o suficiente para que meu desejo se intensificasse. — Por favor — implorei. Ele sorriu. — Assim está melhor. Ele me beijou novamente, fazendo-me gemer. Eu estava agindo como um animal enfurecido, puxando sua camisa, determinada a despi-lo e sentir a pele dele contra a minha. Eu precisava senti-lo por inteiro.


Zac afastou-se e tirou o meu soutien. Grunhiu quando viu meus peitos e se abaixou para chupar o meu mamilo. Minha mão deslizou por seu cabelo freneticamente. Eu estava errada em pensar que a ardência não podia ficar pior. — Zac, eu preciso de você. Preciso de você dentro de mim. Por favor. Eu estava sem fôlego e sem controle algum sobre minhas ações. Meu corpo estava no controle, completa e totalmente desesperado para atingir o clímax. — Porra. Eu nunca consigo me controlar perto de você. Ele lambeu e chupou o meu mamilo enquanto tentava tirar a calça. Inclinei-me e puxei o cinto dele, o que o fez cair no riso. — Minha gatinha me quer tanto. Não vou desapontá-la Ele me beijou de novo e acariciou o meu mamilo com o dedo. Pensei que eu ia explodir a qualquer momento. — Por favor — implorei. Estava ficando doloroso. Pensei que eu estaria melhor depois de ontem à noite, mas ficava excitada só de estar no mesmo cômodo que ele. Zac me ignorou e continuou a me beijar e a acariciar o meu mamilo. Estava começando a parecer que eu conseguiria gozar só com os toques dele, mas eu sabia que não seria o suficiente. — Zac, está doendo. Ele parou o que estava fazendo e envolveu o meu rosto com as mãos. — Sinto muito, gatinha. Vou fazer com que você se sinta melhor, tá? Assenti, sabendo o que ele estava fazendo, mas sem dar a mínima. Estava tentando fazer com que eu ficasse tão desesperada por ele para que eu o visse como um herói. Neste momento, eu já estava mais do que desesperada e suas palavras gentis só faziam com que a atração que ele exercia sobre mim aumentasse. Ele tirou minha calcinha com um movimento rápido. Olhou para a minha virilha enquanto tirava as próprias calças.


— Porra, gatinha. Você está molhadinha por minha causa. Ele apalpou o seu membro duro e o gesto me fez quase babar de desejo. Puxei-o para perto de mim porque só olhar para ele já fazia a ardência aumentar. Zac deu uma risadinha, mas não perdeu tempo. Posicionou o membro contra a minha umidade e eu agarrei os seus ombros, esperando por aquela sensação de euforia tomar conta de mim. Enfiei as unhas nos braços deles, esperando a onda de poder que eu sabia que viria a qualquer segundo. Podia sentir meu interior se inchando e eu sabia que Zac era o único capaz de resolver aquilo. Senti-lo tão perto de mim fez a ardência ir às alturas. Não conseguia enxergar direito e não conseguia pensar em mais nada além de que precisava dele dentro de mim. Estava prestes a implorar novamente quando Zac deslizou para dentro de mim em uma arremetida rápida. Foi o suficiente. Senti todo o meu corpo se contrair e estremecer diante de um orgasmo maravilhoso. Não era tão intenso quanto o da noite anterior, mas ainda assim era mais intenso do que os que eu já tivera antes. — Meu Deus! — gritei, arranhando os braços dele e pressionando a minha boca contra a dele. — Porra, Livy. Desculpe por tê-la deixado sozinha de novo. Pensei que você já estaria melhor à essa altura — Ele deu uma arremetida forte e eu gemi. — Porra, você é tão gostosa, gatinha. Eu estava em outro mundo, deliciando-me com a calidez do meu orgasmo. A sensação dele dentro de mim só fez com que os espasmos aumentassem. A ardência e o prazer se alastravam a cada arremetida que ele dava. Envolvi a cintura dele com as minhas pernas e Zac tracejou uma linha que ia do meu pescoço até o meu quadril. Gemi de novo. Apenas aquele toque foi o suficiente para fazer o desejo aumentar mais uma vez. — Eu sei que você ainda tem mais um orgasmo para mim, Livy. Goze para mim, gatinha. Eu não vou conseguir me segurar por muito tempo.


E, então, os seus movimentos ficaram mais rápidos e vigorosos. A mesa estava rangendo a cada arremetida, mas eu não me importava com mais nada além do orgasmo que estava por vir. — Livy! — gritou Zac e foi tudo que precisei. Fui à loucura novamente e soltei um grito tão alto que deve ter ecoado por toda a casa. Contraí-me embaixo dele mais uma vez e seu ritmo ficou mais acelerado. — Porra! — gritou ele, arqueando as costas enquanto gozava. Todo o seu corpo ficou rígido por um momento e eu o senti pulsando dentro de mim. Mais uma vez, a culpa veio à tona. Mas era uma culpa pequena já que Zac estava perto de mim. Eu odiava o fato de precisar dele. Ele sabia que eu me viciava com facilidade e estava se aproveitando disso. Eu estava viciada em Zac agora. Ele sabia disso. Eu sabia disso. Não havia como voltar atrás. Essa era a minha vida agora. — Você está sendo tão gentil comigo — sussurrei. A respiração ofegante de Zac se interrompeu por um momento antes que ele começassse a se retirar de mim. — Livy, eu sempre fui gentil com você. Neguei com a cabeça. — Não desse jeito. Ele deu uma risada. — É porque você não era propriamente minha naquela época. Agora que você se entregou cem por cento a mim, não há como voltar atrás. Eu vou te dar tudo que você quiser, Livy. A única coisa que peço em troca é a sua lealdade. Dei risada. — E um filho. Zac não notou o sarcasmo em minha voz. Se notou, resolveu ignorálo. Ele deu risada. — Se continuarmos nesse ritmo, não vou ter problema nenhum em te engravidar. Eu sabia que ele sabia mais do que estava revelando, mas de jeito


nenhum eu revelaria que eu também sabia. Ele saiu totalmente de mim e eu estremeci. — Você está bem? Isso te ajudou? Assenti. — Ajudou. Obrigada. Ele vestiu as calças e abotoou a camisa. Pegou minha calcinha e a cheirou. — Porra, esse é o melhor cheiro do mundo — Ele a colocou no bolso e eu olhei para ele, chocada. — Que foi? — Você não vai ficar com a minha calcinha, né? Ele assentiu. — Claro que vou. Vesti o soutien e a camiseta. Zac fez um gesto para ir embora. — Aonde você vai? Ele suspirou, mas se virou para mim com um sorriso no rosto. — Vou fazer algumas ligações. Eu sugiro que você vá para o seu quarto e espere por mim. Duvido muito que você já esteja satisfeita. Vasculhei o seu rosto por sinais de irritação. — E isso te irrita? Ele se aproximou e pegou o meu queixo com a mão. — Gatinha, se você acha que isso me irrita, obviamente não me conhece. Dito isso, ele se afastou, sorrindo. — Eu não te conheço mesmo — sussurrei. Zac parou e pensei que eu o havia deixado bravo. Uma nova sensação tomou conta de mim. Era como se medo e desejo se tornassem uma coisa só. Céus, será que isso nunca vai parar? Sem virar-se para mim, ele declarou:


— Você já sabe tudo que precisa saber sobre mim, Livy. Agora, vá para o seu quarto. Vou para lá assim que puder. Ele saiu pela porta da cozinha. Assim que o perdi de vista, uma sensação de perda tomou conta de mim. Por que eu o queria tanto assim? Eu o odiava, mas não conseguia ficar longe dele. Com certeza, ele não queria que eu ficasse assim. Com certeza nenhum homem gostaria de uma mulher carente. Isso não fazia nenhum sentido para mim. Decidi pensar em outra coisa e olhei em volta. Vi a bagunça que fiz no chão e me abaixei para recolhê-la. — Deixe isso aí. Alguém virá limpar. Ergui o olhar e vi Ian. Minhas bochechas coraram. Tentei fechar minha blusa o máximo possível para esconder o decote. — Eu que fiz essa bagunça, eu que deveria arrumá-la. Abaixei-me para começar a limpeza, mas Ian segurou a minha mão. Olhei para cima e o vi com um sorriso no rosto. — Não precisa fazer isso, Livy. Temos pessoas aqui encarregadas disso. Limpar é o trabalho delas. Não o seu. Senti minha ira aumentar. Não podia nem ao menos recolher os cacos do prato que estavam espalhados pelo chão. Essa bagunça era minha culpa, já que eu não conseguia controlar os meus hormônios. Senti as lágrimas se formando novamente, mas estava determinada a não chorar. Nesta manhã, chorei e lamentei-me por ter perdido Kit, por ter pedido um relacionamento de verdade. Agora, eu tinha que ser forte. Tinha que aceitar que esse era o meu destino e seguir em frente. Agora Zac era o meu destino. Senti os pelos da nuca se arrepiarem quando pensei em Zac e decidi agir. Não disse mais nada a Ian, simplesmente passei por ele e saí porta afora. Quando me aproximei da escada, avistei Maria conversando com um homem do lado de fora. A mão dela acariciava o braço dele como se o estivesse confortando. Subi um degrau e ela olhou para mim com um sorriso de quem sabe das coisas. Seus olhos se recaíram na minha blusa desabotoada e o sorriso ficou


mais largo e ela piscou para mim. Eu não queria mais ficar aqui embaixo. A solidão do meu quarto parecia uma ideia fantástica no momento. Eu estava acostumada a querer me afastar do mundo e fiquei surpresa ao ver a rapidez que essa vontade surgiu. Quando estava quase no topo da escada, ouvi sussurros: — Você ouviu o grito dela? Porra. Eu quase gozei só de ouvir. Ela parecia uma gata selvagem. Fechei os olhos, sabendo de quem eles estavam falando. Eu realmente não queria seguir adiante. Podia simplesmente voltar atrás e passear pela casa. Olhei para o meu corpo e vi que isso não seria possível. Eu precisava trocar de roupa. Suspirei e subi os últimos degraus. Escutei outro homem comentando: — Craig disse que ela tem os peitos mais maravilhosos que ele já... Apareci no campo de visão dele antes que ele pudesse terminar a frase. Havia três deles ali, todos com sorrisos no rosto. Sorrisos que rapidamente sumiram assim que me avistaram. Um deles pigarreou e me cumprimentou com um aceno de cabeça. — Senhorita. Devolvi o gesto e virei-me em direção ao meu quarto. Ouvi os três aos risinhos e sussurros enquanto eu abria a porta do quarto e a fechava atrás de mim. Eu não queria estar aqui. Queria estar o mais longe possível. Pensei rápido e resolvi vasculhar o guarda-roupa. Encontrei um biquíni e lembrei-me de que havia uma piscina em que nadei uma vez quando era criança. Aquele dia foi incrível. Era uma das minhas memórias mais queridas. Decidi que precisava espairecer e tirei a roupa e vesti o biquíni vermelho. Deixava muito do meu corpo à mostra, mas eu não ligava. Estava puta com todo mundo, puta com a minha vida e, principalmente, puta com Zac por me fazer desejá-lo tanto assim. Peguei uma toalha e saí para o corredor. Os três homens ainda estavam lá e fecharam a boca assim que me viram. Na verdade, arregalaram tanto os olhos que eles quase saíram de órbita.


Ignorei os três e desci as escadas, com cem pares de olhos observando cada passo que eu dava. Pude notar a hesitação deles. Pude ver que eles não sabiam se deviam ou não me interromper. Obviamente não haviam recebido ordens sobre como lidar com essa situação. Aposto que Zac nunca pensou que eu o desafiaria. Estava prestes a sair em direção à luz do sol quando o maior homem que eu já vira bloqueou o meu caminho. — Você não pode ir lá fora, senhorita. Então, eles receberam algumas ordens sobre como lidar comigo. — Por que não? — O chefe quer que você fique dentro de casa. Levei a mão ao quadril. — E o nome do seu chefe é...? — Fiz um sinal com a mão para que ele completasse a minha frase, mas ele ficou em silêncio. Comecei a rir. — Você não sabe, não é? Você não faz ideia. — Dei um passo para o lado para desviar dele, mas ele bloqueou minha passagem novamente. — Eu quero nadar um pouco. Ele negou com a cabeça. — Não posso deixá-la sair. Bufei e fiquei pensando no que poderia fazer em seguida. De repente, tive uma ideia genial. — Se você não me deixar sair, vou contar ao seu chefe que você pegou no meu peito. Ele baixou o olhar para os meus peitos e o ergueu novamente. — Eu não fiz isso. Peguei uma das mãos dele e a levei até o meu peito. Comecei a gritar por Zac e ele usou a mão livre para cobrir a minha boca. — Por favor, não faça isso. Abri um sorriso, mas notei que ele ainda estava com a mão em meu peito. Olhei para ele, que pareceu não se dar conta do que estava fazendo... até que baixei o olhar para o meu peito.


Ele se tocou e tirou a mão dali, e eu aproveitei a oportunidade para passar por ele. — Obrigada — cantarolei e fui em direção à piscina. O dia estava lindo. Eu estava me perguntando se estaria calor o suficiente para entrar na água, mas a ideia de sentir a água gélida contra mim era boa. Precisava disso depois de deixar meus hormônios correrem soltos. Na verdade, quanto mais fria estivesse a água, melhor seria. Joguei a toalha na espreguiçadeira e mergulhei na piscina. Prendi a respiração e, quando voltei à superfície, respirei fundo, deixando o frio me envolver. Precisava nadar para que o meu corpo se acostumasse à temperatura. Comecei a nadar peito, e depois mudei para crawl. Fiz vinte repetições de cada modalidade antes de parar e sentir a água ficando mais quente ao meu redor. Quando fiquei satisfeita com a temperatura, deitei-me e fiquei boiando. Senti os raios de sol contra a minha pele e o único som que podia ouvir era o canto dos pássaros. Fiquei em paz. Uma paz que eu sabia que não duraria muito. — Quem deixou você vir aqui fora, porra? Parem de olhar para ela. Virem-se, seus idiotas! Tive que morder o lábio para conter o riso. Sabia que rir de Zac não era uma boa ideia, mas não consegui evitar. — Isso não tem graça, Livy. Você devia estar no seu quarto. Você me desobedeceu. Olhei para o meu lorde e mestre. Ele estava bravo, mas, em vez de temê-lo, eu estava sentindo algo diferente. Nadei até a escadinha e subi por ela. Zac grunhiu quando me viu diante dele. Meus mamilos se enrijeceram imediatamente, do jeitinho que ele gostava. Por um momento, ele ficou apenas parado ali, olhando para mim, mas teve uma onda de clareza e correu para pegar a minha toalha. Olhei em volta e vi três homens de costas para mim. Não consegui evitar o riso. Notei o olhar ameaçador de Zac. Ele estava bravo. Era um olhar que costumava fazer meu corpo estremecer de medo, mas agora meu corpo tinha outras ideias.


Sem dizer nada, Zac envolveu a toalha em meu corpo e me pegou no colo, jogando-me por sobre o ombro. Gritei enquanto ele caminhava rapidamente em direção à casa. Observei, horrorizada, que todos os homens estavam sorrindo enquanto passávamos por eles. Zac subiu as escadas com rapidez e abriu a porta do quarto com um empurrão. Colocou-me no chão com delicadeza e deu alguns passos para trás. — Eu ia ficar o dia todo com você, Livy, mas depois desse showzinho que você deu, pode ficar aqui sozinha. Não vou chegar perto de você até amanhã de manhã. Esse é o seu castigo, Livy. E a culpa é sua. Comecei a reclamar, mas ele já tinha saído e trancado a porta antes mesmo que eu pudesse abrir a boca. Afundei-me na cama e soltei um suspiro. Eu era uma prisioneira agora. Eu o desejava intensamente e ele sabia disso. Estava me fazendo pagar da única maneira que ele sabia como. Levando o meu vício para longe de mim.


CAPÍTULO VINTE

Fiquei deitada na cama, morrendo de tédio. Finalmente caí no sono. Quando acordei, minha boca estava seca e minha barriga clamava por comida. Não tinha nada ali para me fazer companhia. Nenhuma TV. Nenhum pedaço de papel para rabiscar. Nenhum livro para ler. Meu único salvador era um radiozinho que encontrara debaixo de algumas roupas no armário. Estava escutando-o pela última hora. Escutando música atrás de música. A que eu estava escutando agora se encaixava perfeitamente à minha situação atual. Era a You Ruin Me, da banda Veronicas. Zac havia me arruinado. Enquanto estivesse na minha vida, eu sabia que ele me arruinaria. Fiquei deitada ali, olhando para o teto e deixando a letra da música envolver minha mente. Quando a canção terminou, fiquei pensando qual música combinaria com o meu relacionamento com Kit. Era engraçado pensar em como Kit havia se tornado uma memória distante. Fui capturada ontem, mas parecia que meses haviam se passado. Não era normal. Eu sabia disso. Eu estava apaixonada por Kit. Eu estou apaixonada por Kit. Quando penso nisso agora, a dor lancinante não me arrebata para o seu tormento infindável. É quase como se minha mente soubesse disso, mas meu coração não sofria da mesma forma que sofrera ontem. Eu devia sentir algo, qualquer coisa, mas não sentia nada. Era como se eu estivesse entorpecida novamente, mas não havia álcool em meu sistema desta vez. Na verdade, eu nem estava com vontade de álcool. Eu tinha substituído um vício por outro. E lá estava eu, tão patética quanto uma pessoa pode ser, esperando e desejando o seu mestre. Sabia que era loucura, mas decidi ignorar a voz da razão. Era como se tivesse um interruptor dentro de mim e Zac o havia apertado. Eu odiava isso. Eu amava isso. Não sei ao certo por quanto tempo fiquei deitada ali até que ouvi o


barulho da maçaneta. A porta se abriu e eu fiquei de pé em um salto, ansiosa para vê-lo. Fiquei desapontada quando vi que era apenas Ian. Eu gostava de Ian, mas meu corpo queria Zac. Só Zac. Esse era o nível do meu desespero. — Trouxe comida para você. Ele sorriu timidamente para mim e se aproximou carregando uma bandeja com macarrão e queijo. Também havia uma taça de algo borbulhante na bandeja. Sem perder tempo, aproximei-me, peguei a taça e a bebi de um só gole. Estava morrendo de sede. Quando olhei para Ian, ele parecia triste. — Quando foi a última vez que você bebeu ou comeu alguma coisa? Fiquei olhando para ele. Até parece que ele não sabia... — Foi no café da manhã com você. Você sabe disso. Ian soltou um palavrão, pegou a taça e saiu pela porta. — Eu vou pegar mais para você. Já volto. Depois que Ian saiu, comecei a comer o macarrão. Estava tão delicioso quanto os ovos mexidos nesta manhã. O cozinheiro, quem quer que fosse ele, era muito talentoso. Sabia a quantidade exata de tempero para colocar nos ovos e a quantidade exata de queijo para colocar no macarrão. Já estava na sétima garfada quando Ian voltou com a bebida. Ele a entregou para mim e eu assenti, agradecida. Estava muito ocupada mastigando para dizer alguma coisa. Quando engoli a próxima garfada, já estava satisfeita e pronta para falar. — Onde ele está? Ian me lançou um olhar estranho. — Você não devia se importar com isso. Beberiquei a minha bebida. — Eu acho que você sabe que ele tomou as medidas necessárias


para que eu me importasse com ele. Foi você quem me trouxe até aqui, Ian. Esqueceu? Ele estremeceu, mas não disse nada. Em vez disso, ficou com uma expressão confusa no rosto. Quase como se estivesse prestes a falar algo, mas achava melhor não dizer. — Eu não tinha me dado conta de quem você era até a noite passada. Dei de ombros. — E isso importa? Ele suspirou. — Acho que não, mas não faz com que eu me sinta melhor. Duvido muito que seu pai gostaria disso se ele estivesse vivo. Dei uma risada sarcástica. — Ah, sim. Meu papai querido. Aquele que me prometeu ao seu chefe. Tenho certeza de que ele estaria muito bravo com essa situação. Ian estava com uma expressão de dor nos olhos. Eu tinha visto aquela expressão antes. Era uma expressão de pena. — Não me olhe desse jeito. Eu não preciso da sua pena. Não preciso da pena de ninguém. Ele negou com a cabeça. — Não estou olhando para você de jeito nenhum. Só estou desapontado por você. Triste por você. Você não deveria ter nascido em uma família como essa. Dei outra risada. — Acho que tirei a sorte grande por ter nascido uma Caudwell, hein? Ser parte dessa família é uma grande honra. Estranho como as pessoas nunca enxergam o que se esconde abaixo da superfície. Ian meneou a cabeça e eu o fiquei observando por um momento. — E os seus pais, Ian? Você vem de uma família sem amor? Ian se recostou no dossel da cama.


— Não, nada disso. Acho que eu tive uma criação bem normal, para falar a verdade. Eu não tenho do que reclamar. — Você se importa de me dizer quantos anos tem? Ele parecia muito jovem, mas talvez fosse só impressão. — Eu tenho 27 anos. Dei uma última garfada no macarrão e devolvi o prato à bandeja. — Imagino que você foi das Forças Especiais? Ele assentiu. — Isso mesmo. Fiquei um tempo no Iraque. Vi umas paradas pesadas. Acho que você vai descobrir que a maioria dos caras aqui fez parte das Forças Especiais em algum momento. Suspirei. — Sim, menos um. — Você o conheceu? Assenti. — Ele tentou bombardear a mim e a minha família. Os olhos de Ian se arregalaram. — Puta merda. Eu acho que li algo sobre isso no jornal. Você teve que se esconder por causa de um soldado desonesto. Ajeitei-me na cama e dei de ombros. — Isso já ficou no passado, Ian. E torço para que continue lá. Ele ficou um pouco pálido. — É claro que sim. Não te culpo por isso. Assim que disse isso, a música Disturbia, da Rihanna, começou a tocar no rádio. Olhei para Ian e ele devolveu o olhar, e nós dois caímos na gargalhada. Eu estava definitivamente ficando maluca. Assim que nos acalmamos, Ian me lançou um olhar sério. — Você vai ficar bem?


Abri um sorriso. — Não, mas eu supero. Estou acostumada a fazer isso. Fiz isso durante toda a minha vida. Ian ficou de pé e pegou a minha bandeja. — Ninguém deveria se acostumar com isso. Recostei a cabeça na cabeceira da cama e fiquei encarando o teto. — Que escolha eu tenho? Ian não respondeu e eu não esperava que respondesse. Em vez disso, recolheu todas as coisas e saiu porta afora. Não escutei o barulho da fechadura sendo trancada, mas acho que ele sabia que eu não sairia. Eu estava condicionada a ficar ali. As horas pareceram voar e a sensação de torpor apareceu. Quando o tédio tomou conta de mim, caí no sono rapidamente. Eu estava sozinha no escuro, minha mente em um poço de escuridão. Gostava dali. Eu não precisava pensar nem sentir. O sono era meu amigo. O sono me distraia. Eu não tinha certeza de que horas eram, mas senti o colchão afundar e uma mão percorrer o meu braço. Ele beijou o meu ombro e pude sentir seu hálito quente contra minha pele. — Sinto muito, Livy. Será que um dia você poderá me perdoar? Ele virou meu corpo para que eu ficasse de frente para ele. Abri um sorriso e senti um frio na barriga diante da visão dele pairando sobre mim. Não havia nada para perdoar. Ele havia tomado providências para que não houvesse. — Não consigo ficar bravo com você por muito tempo. Saber que você estava aqui em cima sozinha me deixou arrasado. Eu surtei. Você é como uma droga para mim, Livy. E eu sempre quero mais. Ele se aproximou e plantou um beijo suave em meus lábios. O desejo travou uma batalha dentro de mim, querendo se libertar. Zac apalpou minha pele por cima do robe e percebeu que meus mamilos estavam enrijecidos. Beliscou um deles e eu me contorci, querendo mais. Eu precisava de mais. — Você quer fazer amor comigo, Livy? Você quer que eu te faça


gritar? Assenti. É claro que eu queria. Ele estava apertando aquele interruptor novamente e sabia muito bem disso. Zac pairou sobre mim, plantando beijos suaves no meu pescoço. Abriu o meu robe e levou a mão até as minhas partes. — Minha — grunhiu ele, deslizando o dedo vagarosamente sobre o meu clitóris. — Diga que me ama, Livy, e eu vou te dar o que você deseja. Eu estava ofegante agora, o orgasmo se aproximando. Obviamente ainda havia um pouco de droga correndo em minhas veias e aquilo não me deixaria em paz. Ele parou de acariciar o meu clitóris e eu grunhi, descontente. Ele afastou o robe e deixou meus seios à mostra. Abocanhou um dos meus mamilos e beliscou o outro. Gemi novamente, desejando que ele voltasse a estimular meu clitóris. Eu precisava dele dentro de mim. — Livy, preciso ouvir você dizer aquelas palavrinhas. Eu quero fazer amor com a minha mulher, mas não posso se você não disser aquilo. Diga o que eu quero ouvir. Cerrei os olhos com força, uma batalha sendo travada em minha mente. É claro que meu corpo sairia vitorioso. Era sempre assim quando Zac estava por perto. — Eu te amo — declarei, sem fôlego, mas não consegui evitar a lágrima que escorria pelo meu rosto. Sentia-me entorpecida, então, por que estava chorando? Eu não devia chorar porque não sentia coisa alguma, apenas o desejo desesperador de ter Zac dentro de mim. E, simples assim, ele me beijou. E, simples assim, ele me recompensou por ser uma boa menina. Eu era uma boa menina. Sempre fui. Zac se certificou disso.


CAPÍTULO VINTE E UM

Alguns dias depois, acordei com Zac me comendo por trás. Estava começando a pensar que ele também tinha ingerido aquela droga, já que parecia mais insaciável do que eu. Fiquei satisfeita por ele estar atrás de mim, já que eu me sentia mais entorpecida do que nunca. É claro que gozei. Gozei como a boa menina que eu era, mas a ligação emocional não estava lá. Eu estava me tornando a esposa perfeita, curvando-me diante da vontade dele. Permitindo que ele fizesse o que quisesse comigo. E eu amava isso porque ele fazia com que eu amasse. Ele me fez desejar isso o tempo todo. Quando o segundo orgasmo percorreu meu corpo, Zac arqueou a coluna e também atingiu o clímax. Depois de arfar algumas vezes, deslizou para fora de mim e me puxou para um abraço. Acariciando minha barriga, ele suspirou. — Mal posso esperar para ver sua barriga crescendo. Meus olhos se arregalaram e eu me virei para olhar para o relógio na mesinha de cabeceira. Ainda era dez e pouquinho, então, eu estava bem. — Eu estou te atrasando para algum compromisso? — Virei-me para olhar Zac e ele apontou para o relógio. — Você estava olhando a hora. Tem planos para ir em algum lugar? Neguei com a cabeça. — Não. Eu só estava me perguntando que horas eram — Suspirei. — Zac, eu preciso sair desta cama. Eu estou ficando maluca. Será que eu não posso ir à sua academia ou dar um mergulho novamente? Só para sair dessas quatro paredes. Sinto muito por tê-lo desobedecido naquele dia, mas agora eu estou pedindo. Por favor. Ele me abraçou com mais força e deu risada. — Não consigo negar nada a você. Tudo bem. Você pode dar um mergulho, mas na piscina interna e não na lá de fora. Você vai congelar. Se não quiser nadar, pode ir à academia. Só me avise antes para que eu fale para os


caras saírem de lá e te deixarem em paz. Não posso deixar que eles fiquem te devorando com os olhos enquanto você se exercita. Revirei os olhos. — Não, é claro que não. Ele me puxou e me virou para si. — Eu preciso resolver algumas coisas hoje, mas, quando eu voltar, podemos conversar sobre fazer uma viagenzinha. Passar o feriado em algum lugar que faz calor. O que você acha? Abri um sorriso doce. — Acho maravilhoso. Ele deu um beijinho na ponta do meu nariz, saiu debaixo das cobertas e foi até o banheiro. — Pense aonde quer ir e me conte quando eu voltar para casa. Ouvi quando ele ligou o chuveiro. Fiquei deitada na cama, esperando-o sair do banho. Quando saiu do banheiro, estava totalmente nu e, é claro, que tive que admirá-lo. Eu também estava muito ligada a isso. Observei enquanto ele se vestia. Quando terminou, aproximou-se de mim e beijou a minha testa. — Seja uma boa menina hoje. Eu vou voltar assim que puder — Fiz biquinho e ele deu risada. —Você é boa demais para mim, Livy. Preciso admitir. Você está no comando da casa hoje. Talvez eu possa pedir a alguns caras te levarem às compras. Que tal? Meus olhos brilharam. Eu não me importava com as compras, mas sair de casa? Sim, eu queria muito. — Sim, por favor. Ele riu novamente. — Eu nunca consigo negar nada para essa carinha. Vá à loucura, gaste o quanto quiser. Mas certifique-se de comprar algumas lingeries. Acho que você sabe do que eu gosto. Assenti e fiquei observando enquanto ele saía porta afora. Fiquei imaginando se eu conseguiria fingir que estava doente hoje quando saísse da


casa. Seria a oportunidade perfeita. Eu só tinha mais uma pílula anticoncepcional. Era a última. Eu não sabia ao certo como explicaria o fato de menstruar depois de tanto sexo. De acordo com Ian, era para eu estar grávida. Ele estava me ajudando ultimamente. Sabia o que eu estava fazendo e fingia não saber. Hoje, eu não tinha escolha a não ser contar a ele que as pílulas haviam acabado. Precisava da ajuda dele, mas não sabia se ele me ajudaria ou não. Precisava arriscar e tinha que me certificar de que ele estivesse junto quando eu fosse às compras. Levantei-me da cama e fui ao banheiro para tomar um banho e trocar de roupa. Queria vestir algo casual hoje, mas as roupas que Zac havia comprado para mim não eram nada casuais. Era como se eu fosse sua boneca Barbie, pronta para ser vestida quando ele quisesse. Meu subconsciente sabia que isso era doentio, mas eu não conseguia evitar de me sentir atraída por ele. Eu era uma marionete e era Zac quem puxava minhas cordas. Por fim, vesti uma saia lápis azul-marinho, blusa branca e saltos altos. Zac tinha fetiche em sapatos de salto. Tive que usá-los várias vezes enquanto ele me comia. É... Essa era a minha vida agora. Como fazia todas as manhãs, desci as escadas e pedi para Ian pegar a minha bolsa. Ele sempre a pegava e me deixava sozinha para que eu pudesse tomar a pílula com privacidade. Dei descarga como sempre fazia, saí do banheiro e dei de cara com Ian. Entreguei a bolsa a ele. — Obrigada. — De nada — Ele sorriu. — Parece que o chefe quer que a gente leve você às compras? Assenti e abri um sorriso. — Isso mesmo. Você também vai? Por favor, diga que sim. — Posso ir se você quiser. Aproximei-me dele e sussurrei: — Eu preciso da sua ajuda. Ele fechou os olhos e mordeu os lábios. Parecia indeciso


novamente. — Ajuda com o quê? Apontei discretamente para a minha bolsa. — Aquela coisa que eu pego na minha bolsa todo dia... Bem, acabou. Acho que ele entendeu o que eu quis dizer porque seus olhos se arregalaram. — Merda — bufou ele e começou a andar de um lado para o outro. — Será que eu posso me fazer de doente hoje? Fingir que não estou me sentindo bem para você me levar ao médico? Ninguém precisa saber o que eu realmente vou fazer lá. Ele parou de olhar de um lado para o outro e olhou para mim. — Isso talvez funcione, mas alguém vai ter que ligar para o chefe e contar o que está acontecendo. Ele sempre quer saber tudo que acontece com você. Temos que relatar até se você fez um xixi a mais no dia. Ele é, tipo, obcecado pra caralho. Aquilo não deveria ter me pegado de surpresa, mas, por algum motivo, fiquei chocada. Eu sempre presumi que ele quisesse controlar todas as coisas e pessoas. — Ele me clamou para si quando eu era uma garotinha. Acho que agora é natural que ele aja dessa maneira. Eu estava mesmo defendendo ele? Ian fechou os olhos novamente. — Porra — Ele olhou para frente por um momento antes de se virar para mim. — Preciso esconder essa bolsa. Espere uns minutinhos. Eu preciso pensar. Assenti e me dei conta de que Ian realmente era um aliado. Ele desapareceu e eu fui até a cozinha para comer alguma coisa. Essa era a minha rotina agora. Seguia uma para deixar o meu mestre feliz. Ele estava sempre fazendo de tudo para se certificar de que eu estava sendo bem alimentada, bem tratada e que eu estivesse em forma. Quando entrei na cozinha, nem fiquei surpresa quando vi que um dos cozinheiros havia colocado um pote de ácido


fólico ao lado de um copo d’água. — O chefe quer que você comece a tomar isso. Vai te fazer bem. Eu sabia exatamente qual era a função daquilo, mas abri o pote obedientemente e engoli o comprimido. O cozinheiro ficou me observando durante todo o tempo. Provavelmente tinha ordens para se certificar de que eu havia tomado. Aquilo me fez pensar em como ele estava determinado que eu tivesse um filho dele. Eu não fazia ideia de por que aquilo era tão importante. Talvez fosse só mais uma forma dele demonstrar seu controle sobre mim. Na verdade, ele parece ter experimentando o seu melhor orgasmo uma vez em que eu ousei dizer não e ele conseguiu fazer com que eu me curvasse à sua vontade. No fim das contas, eu nunca conseguia dizer não a Zac. Eu era uma boa menina. Boas meninas fazem o que lhes é ordenado. — O que você quer comer? O cozinheiro ficou parado ali, olhando para mim. Sem emoção alguma. Sem coisa alguma. — Você pode me preparar uma omelete, por favor? Ele assentiu e voltou para o fogão. Fiquei parada ali como deveria ficar, sendo observada por alguns macacos grandes demais. — Bom dia — cumprimentou Ian, vindo em minha direção. Ele abriu um sorriso radiante e assentiu para o homem parado atrás de mim. Ele se mexeu quando Ian se sentou perto de mim. Assim que o homem se afastou, o sorriso de Ian se dissipou e ele se virou para mim. — Quando estivermos fazendo compras, dê umas voltas e depois diga que quer dar uma olhada na Shaney’s. É uma loja de lingerie localizada na rua em que vamos. Bem do lado da loja tem um consultório particular. Se eu conseguir convencer Zac a deixar que você vá lá, será melhor para você. Caso contrário, ele vai querer que a gente te leve para o Dr. Barry. Você não vai poder pedir pílulas anticoncepcionais para ele. Assenti. — Obrigada. Estou muito grata por você estar me ajudando. Você não precisa fazer isso por mim, por isso estou realmente agradecida.


Ian se mexeu na cadeira. — Bom, apesar de trabalhar para ele, eu não necessariamente concordo com a maneira que ele a trata. Sorri, imaginando se podia me abrir com ele. Eu tinha problemas em confiar nos outros. Nunca conseguia confiar em alguém completamente. No fim das contas, eles sempre me deixavam na mão. Mas eu estava tentada a me abrir com Ian. Acho que preciso ter um pouco de fé nele. Aproximei-me dele. — Ian — Puxei a camiseta dele para chamar a sua atenção. Ele olhou para mim. — Eu tenho um barco chamado A Princesinha ancorado no píer de Southampton — Não consegui evitar de revirar os olhos. — Foi um presente de meu pai para o meu aniversário de 16 anos. Eu não sabia sobre a existência dele até que o advogado de meu pai me contou que ele havia o deixado para mim. Acho que meu pai queria que eu fugisse de casa e navegasse pelo mundo quando fiz 16 anos — Ian franziu o cenho e eu meneei a cabeça. — Enfim, nunca contei sobre isso a ninguém e prometi que só o usaria em caso de emergência. O encarregado pelo barco é o James. Ele mora na loja de estaleiro no porto. Ian pareceu confuso. — Por que você está me contando isso? Suspirei. — Se algum dia eu decidir escapar, é para lá que eu vou. Quero que você saiba disso para que você possa despistar o Zac por mim. Você acha que poderia fazer isso? Estou confiando isso a você, Ian. Eu nunca contei a mais ninguém. Ian olhou para mim por um momento, observando meu rosto. Por fim, ele assentiu. — Pode deixar comigo. Quando o cozinheiro se aproximou carregando a omelete, toda a conversa sobre médicos e fugas chegou ao fim. Era perigoso falar sobre essas coisas com Ian tão abertamente, mas eu precisava saber que podia contar com alguém. Quando Zac não estava comigo, minha mente parecia ficar mais clara. Eu ainda o desejava e o aguardava ansiosamente todos os dias, mas a sensação não era tão poderosa quando ele não estava no mesmo cômodo que eu.


Comi tudinho como era esperado que eu fizesse e vi um grupo de homens se formando no corredor. — Parece até que eles vão escoltar a filha do presidente. Revirei os olhos para Ian e ele abriu um sorriso para mim. — É uma precaução necessária. Poder sempre significa perigo, e o chefe é bem poderoso. Observei enquanto o homem armado dizia algo pelo walkie-talkie. Pouco depois, duas Range Rovers com as janelas cobertas por insufilme estacionaram em frente à casa. Fui guiada até um dos carros por Ian. Tudo foi feito com o maior profissionalismo. Quase me senti como a filha do presidente. Espiei pela janela e vi os portões se abrindo. Também havia homens armados vigiando a entrada. Esse lugar estava parecendo a cidade de Fort Knox. Eu não fazia ideia de como conseguiria escapar, mas, se um dia tivesse chance, escaparia. O trajeto levou cerca de trinta minutos até finalmente chegarmos a um estacionamento na rua principal. Assim que estacionamos, disseram-me para ficar dentro do carro até que todos tivessem assumido a sua posição. Isso era ridículo. Não estávamos nem um pouco anônimos. Chamávamos tão pouca atenção quanto um T-Rex andando pelas ruas de Londres. — Você está pronta? — Ian puxou a minha blusa e eu assenti. Apesar de achar que isso era loucura, preferiria passar por isso todos os dias em vez de ficar presa no meu quarto. — Aonde vamos primeiro? — perguntou-me ele quando saímos do carro. Precisei pensar por um instante. Eu não gostava muito de ir às compras, mas sabia que o verão estava chegando e algumas sandálias e regatas seriam bem-vindas. — Que tal a loja Drummonds? Eles vendem todo tipo de coisa lá. Ian não pareceu muito impressionado. — Acho que o chefe não vai gostar muito se você fizer compras lá. Franzi o cenho. — Por que não?


Ele olhou para mim com uma expressão exasperada no rosto. — Você já viu as roupas no seu armário? Suspirei. — Merda. Sabe, existem pessoas que matariam por uma simples calça jeans ou um casaco para mantê-las aquecidas no inverno. É tudo que elas querem. Por que eu preciso usar roupas que custam o equivalente a cem pares de calças ou casacos que poderiam ir para pessoas que realmente precisam disso? Ian olhou para mim com um olhar chocado. — Uau, você realmente não estava trabalhando no refeitório comunitário só como disfarce. Neguei com a cabeça. — Não mesmo. Era a minha intenção no início, mas depois, passei a ter um interesse genuíno em ajudar aquelas pessoas. Eu não sou insensível, Ian. Ele deve ter visto que eu estava sendo sincera, porque abriu um sorriso caloroso e estendeu o braço para mim. — Venha. Vamos para a Drummonds. Eu quase dei pulinhos e bati palmas. Caminhamos em direção à saída do estacionamento. Os outros caras ficaram nos observando. Achei que meus olhos iam doer de tanto que os revirei. — Isso não vai te meter em encrenca? — perguntei e olhei para o meu braço entrelaçado ao dele. Ian negou a cabeça, enojado. — Eu não dou a mínima. Soltei um risinho e logo ele se juntou a mim. Estávamos agindo como duas crianças rebeldes prestes a fazer algo errado sem que nossos pais soubessem. Nunca tinha me divertido tanto assim. Estava começando a gostar cada vez mais de Ian. Ele era quase como família para mim. A família que eu nunca tive de verdade. No momento em que pensei nisso, desentrelacei meu braço do dele. Apesar de querer ficar perto de Ian, sabia que seria melhor assim. Quando ele franziu o cenho, abri um sorriso doce.


— Não quero que você se meta em encrenca por minha causa. Uma parte disso era verdade, mas a outra parte — a parte que estava enchendo meu coração de dor — dizia para que eu não me apegasse muito. Tudo era sempre tirado de mim e, logo, logo, Ian também seria. Ele olhou para mim com uma expressão intrigada, mas eu abri o meu melhor sorriso e nós seguimos em frente. Eu precisava tentar ficar alegre. Coloque um sorriso no rosto e siga em frente. Era o que minha mãe costumava dizer a mim quando eu era pequena e ela não me deixava ir brincar com meus amigos. Livy, sempre a criança feliz e sorridente, vinda de uma família amorosa. Como alguém poderia estar mais enganado em relação a isso? Entramos na Drummonds e eu peguei três pares de sandálias, quatro regatas de cores diferentes, duas calças Capri e uma linda saia de babados corde-rosa que eu precisava comprar. Quando terminei de escolher, dirigimo-nos até o balcão e Craig apareceu de repente com um cartão de crédito em mãos. — Tudo ficou cento e vinte libras — informou a pessoa no caixa. Craig deu risada. — O chefe vai pensar que você comprou só um soutien com essa quantia. Por que você não aproveitou mais? Dei de ombros. — Não sou esse tipo de garota, Craig. Nunca fui. Eu não queria explicar nada a ele. Ele riu ainda mais. — Porra. Não é de se surpreender que o chefe queira ter você como um bichinho de estimação. Ian viu a expressão em meu rosto e deu um soco no braço de Craig. — Cuidado com o que diz, Craig. Vi a expressão nos olhos de Ian e até eu recuei um pouco. Os olhos de Craig se arregalaram. — Foi mal, cara. Não sabia que você estava comendo ela — Ele


olhou para mim de cima a baixo, demorando-se em certas partes do meu corpo. — Eu sei muito bem que eu estaria comendo se ela tivesse me dado chance. Merda. Sei que eu estaria comendo mesmo que ela não tivesse me dado chance. Ele lambeu os lábios e Ian se jogou para cima dele. Consegui separar os dois antes que fosse tarde demais. Eu não podia voltar para casa tão rápido assim. — Ian, por favor — implorei com um sussurro. — Aqui não. Ele não vale a pena. A postura rígida de Ian se relaxou, mas ele ainda parecia prestes a matar Craig. A pobre moça atrás do caixa deu o seu melhor para agilizar o pagamento. Não podia culpá-la. Eu também faria isso caso avistasse dois homens enormes prestes a sair no soco bem em frente ao caixa. Ela estendeu a nota fiscal com um sorriso e Craig a pegou, com um sorriso de babaca estampado no rosto. — Aonde vamos agora? — perguntou Ian, apontando para a porta. — Shaney’s — respondi com um sorriso sabichão. Queria ficar fora por mais tempo, mas acho que o nível de testosterona dos caras estava ficando muito elevado. Além disso, eu estava desesperada para conseguir mais anticoncepcional. — Isso aí, porra! — exclamou Craig quando saímos da loja. Alguns dos outros caras deram risinhos nervosos para ele, mas Ian apenas franziu as sobrancelhas. — Ian, você está se entregando. Controle-se — sussurrei. — Eu não consigo evitar, Olivia. Ele está agindo como um babaca ultimamente. Dei um tapinha discreto na mão dele. — Tente. Nós seis caminhamos em direção à Shaney’s. Avistei o consultório do qual Ian falara e meu coração acelerou no peito. Quando entramos na loja, os caras ficaram boquiabertos. Era incrível ver como algumas lingeries rendadas eram o suficiente para afetá-los daquela maneira.


— Você vai experimentar algumas para gente, Olivia? — perguntou Craig e deu uma piscadela para mim. Mostrei o dedo do meio para ele. — Vou tomar isso como um não. Aproximei-me de alguns soutiens e calcinhas, escolhendo alguns do meu tamanho. Avistei uma calcinha rendada que sabia que Zac ia gostar. Ele pediu para eu escolher algo que ele fosse gostar e, como a boa menina que sou, era isso que eu ia fazer. Vi um corpete de seda branco com estampa florida. Era sexy e elegante ao mesmo tempo. Gostei da peça porque não parecia extravagante demais. Até tinha babados na ponta para cobrir as minhas partes íntimas. Por alguma razão, Zac gostava quando eu vestia branco, então, peguei o corpete. Assim que fiz isso, comecei a cambalear. Ian me segurou. — Você está bem? Assenti. — Só estou com um pouco de tontura e enjoo. — Você quer ir se sentar um pouco? — perguntou um dos caras. Eles estavam todos ao meu redor agora, agitados como galinhas. — Não, estou bem. Vamos pagar essas coisas. Craig pegou os itens em minhas mãos e os colocou sobre o balcão. — Porra. Seus peitos são grandes assim mesmo? Ele colocou um soutien sobre a cabeça, fingindo que estava fazendo uma transmissão de rádio. — November, Tango, Romeo... Aproxime-se. Câmbio. Desligo. Ian arrancou o soutien da cabeça de Craig, que começou a rir. — Anime-se, camarada. Enquanto a atendente de caixa registrava os itens, cambaleei o suficiente para que Craig notasse. Ele me segurou. — Que porra está acontecendo? — Não estou me sentindo muito bem — gemi para enfatizar o que havia dito.


Ian olhou para Craig. — Temos que levá-la ao médico. Craig franziu o cenho. — Bom, vamos terminar aqui e aí podemos levá-la no Dr. Barry. Gemi mais uma vez e me joguei nos braços de Ian. — Não vai dar tempo de chegar até o consultório do Dr. Barry. Tem um consultório aqui do lado. Vamos levá-la lá. — Mas o chefe... — Você quer explicar ao chefe que Olivia pode estar com algo muito grave e que você demorou tanto tempo para levá-la ao médico que colocou a vida dela em risco? Senti os braços de Ian me envolverem em um gesto de apoio. — Vou ligar para o chefe. Tudo ficou em silêncio e eu aninhei a cabeça no peito de Ian. Ele se inclinou e me pegou no colo com delicadeza. — Temos um problema — Ouvi Craig dizer. — Com Olivia. Ela desmaiou. Estava reclamando que estava passando mal — Ele permaneceu quieto por um instante, ouvindo atentamente. — Sim, eu sei, mas tem um consultório aqui do lado. Ela parecia estar sofrendo muito — Mais um instante de silêncio. — Entendi. Ele deve ter encerrado a ligação, porque ouvi quando ele disse a Ian: — Ele disse para a levarmos no consultório ao lado, mas para ficarmos com ela o tempo todo. Senti Ian se movendo. — Você acerta as contas aqui e eu vou levar Olivia para a clínica. Vá a nosso encontro depois que terminar aqui. Ian saiu da loja com rapidez. — Até agora, tudo bem — sussurrou ele. Ergui a cabeça um pouquinho e abri um sorriso. Ele tinha um rosto tão gentil que era impossível não sorrir.


Ian entrou no consultório correndo como um profissional e gritou por um médico. Eu estava com os olhos fechados novamente, mas ouvi uma voz feminina dizendo: — Mas esta é uma clínica da saúde feminina. — Sei disso — grunhiu Ian em resposta. — Mas ela precisa ser atendida imediatamente. Dinheiro não é problema. Vamos pagar o triplo. Ela precisa ser atendida agora mesmo. A voz da mulher estava afobada e vacilante. — Tudo bem, senhor. Vou falar com a Dra. Kemp. Ela deve ter saído do cômodo, porque Ian sussurrou para mim: — Hora do show, Olivia. Abri um sorriso, mas tentei esconder o rosto de quem quer que pudesse estar nos observando. Alguns segundos depois, a mulher voltou. — Pode entrar. Senti que Ian me deitou em uma cama. — O que aconteceu? — quis saber uma mulher. Abri os olhos e vi que estávamos sozinhos no cômodo. Quando Ian me viu, assentiu e saiu, fechando a porta atrás de si. Virei-me para a médica. — Eu não tenho muito tempo, mas preciso de anticoncepcional urgentemente — Olhei para a porta e, então, de volta para ela. — Por favor. Você precisa dizer que eu desmaiei por causa de hipoglicemia ou algo do tipo, mas eu realmente preciso de pílulas anticoncepcionais. Ela olhou para mim com o rosto chocado. — Querida, se você estiver com problemas, talvez seja melhor eu chamar a polícia. Neguei a cabeça vigorosamente. — Não, você não pode fazer isso. Se ligar para a polícia, nós duas estaremos em perigo. Por favor, me ajude.


Agarrei a sua camisa e lancei-lhe um olhar suplicante. De repente, ouvi alguém gritando. Soltei a camisa dela e pendi a cabeça para o lado. — Ele ordenou que ficássemos com ela o tempo todo! — rugiu Craig, abrindo a porta de supetão. Dra. Kemp virou-se para ele. — Com licença, o senhor não pode entrar aqui. Ele a ignorou, entrou pela porta e jogou um maço de dinheiro na mesa da médica. — Examine-a logo. Aqui está o dinheiro, então, ande logo. Não temos tempo para isso. Aliás, vou ficar aqui. Não posso sair do lado dela. É para a segurança dela. Não é verdade, Olivia? Ele me lançou um olhar fixo e a Dra. Kemp se virou para me encarar. Olhei para ela e abri um sorriso. — É verdade sim. Esses homens todos são meus guarda-costas. Ela olhou para mim, medo estampado nos olhos, mas pigarreou e começou a agir como uma médica deveria agir. Mediu a minha pressão e a minha temperatura e examinou meus olhos, orelhas e todo o resto. — Você pode me dizer o que estava sentindo? Abri um sorriso doce. — Eu estava com tontura e enjoo. — Tudo bem. Eu gostaria de fazer um exame de urina — Ela foi até a mesa e pegou um pote dentro da gaveta. Depois discou um número no telefone. — Barbara, você pode vir aqui rapidinho? Preciso que você leve a senhorita... — Ela se virou para mim e eu estava prestes a responder quando Craig falou por mim: — Srtª Jones. Ela meneou a cabeça, mas continuou a falar no telefone: — Srtª Jones para coletar uma amostra de urina no banheiro. Ela desligou o telefone e alguém bateu à porta, provavelmente Barbara. Ela abriu um sorriso doce e me levou para fora, Craig nos seguindo de perto.


Quando cheguei à porta do banheiro, virei-me para ele. — Você definitivamente não vai entrar comigo. Ele fez biquinho. — Eu poderia deixar as coisas mais interessantes. Dei uma cotovelada no estômago dele e abri um sorriso quando o vi se encolher de dor. Entrei no banheiro e fechei a porta atrás de mim. Depois que terminei, saí e tentei esconder o pote o máximo que consegui. Quando voltei ao consultório, Dra. Kemp apontou discretamente para uma lista que ela havia feito. Vi que era uma lista de pílulas anticoncepcionais. Avistei a que eu costumava tomar logo de cara. Por sorte, era o quinto nome da lista. — Sabe, eu estudei Biologia quando estava no colégio. Mas eu não fui muito bem nas provas finais e fiquei com nota cinco. Dra. Kemp viu que eu estava olhando para a lista e sorriu. — Eu precisava ir bem nessa matéria, como você pode notar. Observei quando ela pegou um teste de gravidez e colocou algumas gotas da minha urina nele. Meus olhos se arregalaram e eu rezei e torci para que o resultado não desse positivo. Eu ainda era nova demais. Quando ela terminou, pegou o teste e o analisou. Olhou para o teste antes de virar para mim e dizer: — Deu negativo. Ela sorriu. — O que deu negativo? — quis saber Craig. Meu coração quase saiu da boca enquanto esperei que ela respondesse. — Todos os exames que pedi. Srtª Jones está com hipoglicemia. Acho que talvez esteja com anemia. Vou prescrever um remédio para ela. Suspirei de alívio e observei enquanto ela pegava o receituário e anotava alguma coisa. Ela o entregou para mim e vi que ela prescrevera seis meses da minha pílula anticoncepcional. — Muito obrigada, Dra. Kemp. Ela abriu um sorriso.


— De nada, Srtª Jones. Cuide-se. Coma muitas frutas e legumes e hidrate-se bastante. Ela sorriu ao dizer isso, mas pude notar que estava preocupada comigo. — Onde posso comprar esse remédio? — perguntei, apontando para a receita em minhas mãos. — Quando sair da clínica, vire à esquerda e caminhe um pouco. Tem uma farmácia lá e eles podem ajudá-la com isso. Assenti e sorri. — Muito obrigada. Saí do consultório e vi que todos os capangas estavam sentados na recepção. Também havia duas mulheres ali e elas não pareciam nem um pouco confortáveis. Eles tinham a maior cara de bad boys, não era de se espantar que elas se sentissem desconfortáveis. Ian se levantou imediatamente e deu um apertãozinho no meu braço. — Você está bem? — Estou. Tenho que tomar um remédio para hipoglicemia e anemia. Ele assentiu e todos nós saímos da clínica e fomos em direção à farmácia. Entreguei a receita para o farmacêutico, rezando para que ele não dissesse nada. Para o meu alívio, ele apenas sorriu e foi buscar o remédio. Esperamos por alguns minutos, meu coração disparado no peito. Quando ele voltou, peguei as caixas rapidamente para que os homens não conseguissem ver o que era. Duvidava muito que eles reconhecessem o remédio, mas não quis arriscar. Craig pagou a conta, sem esperar o troco ou a nota fiscal. Em vez disso, agarrou o meu braço e me guiou para o lado de fora. — O chefe quer que você volte para casa imediatamente. Assenti e um misto de medo, assombro e entusiasmo percorreu minha espinha. Voltamos para o carro e eu fiz de tudo para esconder o remédio em minha bolsa. Sentia-me aliviada e também sentia que havia recuperado um pouco de controle. Sabia que não era muito, mas pelo menos já era alguma coisa.


Pelo menos eu podia controlar quando eu engravidaria. Eu era muito nova e sabia que não queria que Zac fosse o pai de meus filhos. Craig e outro cara guardaram as compras no porta-malas e entraram no carro. Não demorou muito para que estivéssemos de volta à estrada principal a caminho de casa. Todos ficamos em silêncio durante todo o trajeto. Pude notar que havia tensão no ar, mas não sabia dizer o porquê. Não sabia se deveria ficar assustada ou não pelo fato de algo ter acontecido. Zac provavelmente não gostou nada disso. Assim que saímos do carro, Ian pegou a minha bolsa e abriu um sorriso reconfortante para mim. Eu sabia que ele cuidaria dela por mim. De repente, um guarda veio marchando em minha direção. — O chefe quer que você espere por ele lá em cima. Ele disse que chegará dentro de dez minutos. Assenti para o guarda e fui para o meu quarto. Ian me seguiu, carregando as sacolas de compras. Assim que chegamos ao quarto, ele entrou atrás de mim e colocou as compras no chão. — Você está bem? Sentei-me na cama e cruzei as pernas. — Eu estava com medo, mas agora já estou mais calma. Eu não sabia se ia dar certo ou não. Ian meneou a cabeça. — Tudo culpa do maldito Craig e sua cabeça-dura. Dei uma risadinha. — Ele estava apenas seguindo ordens como um bom soldado. Bati continência para demonstrar como achava toda aquela situação ridícula. Ian começou a rir. — Você é tão engraçada. Faz com que eu me lembre da minha irmã. Ela era espirituosa, assim como você. Escutei a mensagem oculta.


— Era? Uma onda de dor assolou o seu rosto. — Ela morreu cinco anos atrás. Ela teria a sua idade agora. Vi os olhos dele ficarem marejados e meu coração afundou no peito. — Sinto tanto, Ian. O que aconteceu? Seu rosto se endureceu. — Ela foi assassinada pelo namorado abusivo. Bom, namorado entre aspas. Ela tinha apenas 15 anos, quase 16. Ele tinha 19 e dizia que tinha se apaixonado por ela à primeira vista — Ele bufou e afastou o olhar. — Ele não reagiu muito bem quando ela decidiu terminar o relacionamento. E não reagiu nada bem quando ela começou a namorar com um cara da idade dela. Eu estava fora da cidade, no exército. Caso contrário, teria me metido e feito alguma coisa. Olhei no fundo dos olhos dele e vi que eles estavam cheios de arrependimento e remorso. — Você acha que a culpa é sua, não acha? Ele ficou em silêncio por um momento e pendeu a cabeça para baixo. Assentiu de leve e eu fiquei de pé e aproximei-me dele. Puxei-o para um abraço e ele correspondeu. Era incrível como um simples abraço podia mudar o seu dia... especialmente se você estava abraçando a pessoa certa. — Não tinha como você saber, Ian. Você não teve culpa. Você estava lutando na guerra. Ninguém em sã consciência o culparia pelo que aconteceu. — Eu sei disso — A voz dele saiu abafada, sua cabeça aninhada em meu ombro. Ele se afastou e prendeu uma mecha de cabelo atrás da minha orelha. Seu sorriso aqueceu meu coração. — Talvez eu tenha recebido uma segunda chance. Arfei, imaginando se ele estava tentando me dizer alguma coisa. Será que estava planejando me ajudar a fugir? Eu não sabia, mas enchi-me de esperança ao pensar naquela possibilidade. Durou apenas um momento, mas foi o suficiente. Quando me acalmei, dei-me conta de que eu jamais escaparia desse


lugar, a não ser que um milagre acontecesse. Estava condenada a passar o resto da minha vida como uma escrava. Ian suspirou, afastando-me do meu devaneio. — Escute, é melhor eu ir lá para baixo. Era para eu deixar as compras e sair. Acho que o chefe não vai ficar muito contente se me encontrar aqui de novo. Assenti e abri um sorriso. — Obrigada por hoje. Apesar de tudo que aconteceu, foi bem melhor do que passar o dia inteiro presa aqui. Continuei sorrindo, mas Ian não sorriu de volta. Ele sofria por me ver presa assim. Eu conseguia perceber isso agora. Desejei poder fazer alguma coisa para aliviar o seu sofrimento. Ele deu um leve aceno de cabeça e saiu porta afora. Eu não sabia o que aconteceria comigo de agora em diante, mas pelo menos era bom saber que eu tinha um amigo de verdade aqui dentro. Alguém que me respeitava e não tentava me transformar em algo que eu não era. Eu queria ser livre. Quando estava matutando sobre isso, um Zac distraído entrou pela porta. E, simples assim, toda a minha atenção se voltou a ele. Cada movimento dele causava a minha ruína. — Livy, minha gatinha. Eu estava tão preocupado com você. Levantei-me da cama e ele olhou no fundo dos meus olhos e segurou meu rosto com as mãos. Ficou me olhando por um momento e então me beijou com ternura. — O que a médica disse? Dei de ombros, como se não fosse nada demais. — Só hipoglicemia e anemia. Devo ficar bem em alguns dias. Ele apontou para a cama. — Aqui. Deite-se um pouco. Vou mimá-la muito hoje. Vamos ficar juntinhos hoje, gatinha. Só eu e você. Senti um frio na barriga diante dessa ideia e abri um sorriso largo.


— Sério? Quando ele viu minha reação, seu olhar irradiou felicidade de um modo que eu nunca havia visto antes. — Sim, é sério — Ele olhou para as sacolas de compras e voltou a olhar para mim. — Então, o que você comprou? Imaginei que era melhor não mostrar as roupas que eu tinha comprado, então, fui direto para a sacola de lingeries. Peguei as peças e abri um sorriso radiante quando vi a reação dele diante do corpete. — Minha gata sabe do que o homem dela gosta. Quero que você vista isso em uma ocasião especial. Por ora, vista esses aqui. Ele pegou a calcinha e o soutien rendados que eu sabia que ele ia gostar, colocando-os ao meu lado. Foi ao banheiro por um segundo e voltou logo em seguida. Achei estranho, mas não pensei muito nisso. Ele pareceu um pouco confuso, mas sua expressão mudou quando ele pareceu se lembrar de alguma coisa. — Eu já volto. Preciso verificar um negócio lá embaixo. Coloque a lingerie para que eu tenha uma ótima surpresa quando voltar. Ele se aproximou da cama e acariciou meu rosto antes de sair do quarto. Sem me importar com mais nada, despi minhas roupas e vesti a lingerie. Ficou perfeito. Eu sabia que Zac era fissurado por minhas curvas e esse conjunto as deixavam em evidência. Fiquei sentada na beira da cama esperando por ele. Cinco minutos se tornaram dez. Quando pensei que ele não ia mais voltar, ele entrou pela porta a passos largos. Pensei que ele ia me bater, mas apenas agarrou o meu braço e me levou até o banheiro. — Zac, o que está acontecendo? Ele rosnou, soltou o meu braço e abriu a tampa da privada. Então, abriu o punho cerrado e soltou milhares de pequenos comprimidos na água do vaso sanitário. A princípio, não me dei conta do que era, mas, então, percebi. — Não! — gritei, correndo em direção à privada. Zac puxou a descarga e eu fiquei sentada no chão gelado, sofrendo


por ter perdido minhas pílulas. Todo o esforço de hoje fora inútil. Todo o tempo e energia que gastei para conseguir aquilo foram por água baixo. — Uma coisa, Livy. Eu só te peço uma coisa e você age por trás das minhas costas. Por quê? Ergui o olhar e avistei seu rosto irado, dando-me conta de como tudo parecia certo. Aqui estava eu, de lingerie aos pés do meu mestre... como eu sempre quis. — Eu não quero engravidar. Ainda não. Eu sou nova demais. O rosto de Zac ficou vermelho. — Você é mais velha do que minha mãe era quando eu nasci. Não venha com essa desculpinha esfarrapada para cima de mim, Livy. Eu falei a você que íamos ter um filho e você fez de tudo para prevenir isso. Você agiu pelas minhas costas, Livy. Não posso mais confiar em você. Ele se aproximou de mim e eu me encolhi, pronta para receber o golpe. Em vez disso, ele agarrou o meu queixo, fazendo-me gritar. — Você. É. Minha. Nunca se esqueça disso, Livy. Você é minha desde o dia em que nasceu, porra. Nunca mais me desobedeça. Ele soltou o meu rosto e me deixou jogada no chão do banheiro. Ouvi a porta se fechar com um baque e pulei de susto. Tudo o que me restava era deitar em posição fetal e deixar a escuridão tomar conta de mim. E eu a recebi de bom grado.


CAPÍTULO VINTE E DOIS

Não sei ao certo por quantos dias fui mantida como uma prisioneira em meu próprio quarto. Fiquei menstruada certa manhã e suspirei de alívio, mas ela chegou ao fim e eu continuei sozinha. A única companhia que eu tinha era a dos guardas que me traziam comida. Todo dia, eu rezava que Ian aparecesse, mas ele nunca vinha. Sentia-me aprisionada, mais aprisionada do que nunca. Rezei por Ian. Rezei para que ele não tivesse sido pego por minha causa. Não valia a pena se meter em encrenca por minha causa. Não valia a pena fazer nada por mim. Eu era um nada. Eu entendi isso anos atrás quando perdi a tudo e a todos. Entendia isso agora quando a única luz em minha vida era a esperança de que meu mestre me perdoaria e viria me encontrar. Mas ele não fez isso. Os dias se tornaram uma semana. Uma semana quase se tornou duas antes que eu ouvisse minha porta sendo aberta. Estava torcendo para que fosse Zac ou Ian, mas fiquei desapontada quando vi que era Craig. Ficou parado junto à porta com um sorriso largo no rosto. — O chefe tem uma surpresinha para você. Ele quer que você vista aquela roupa que você comprou para uma ocasião especial. Ele disse que isso será hoje à noite. Também disse para você se cobrir com isso aqui — Ele jogou uma camisola branca de seda em minha direção, o sorriso ainda estampado no rosto. — É uma pena. Eu gostaria muito de ver a roupa especial. Ele agarrou a virilha, deu risada e saiu porta afora. — Babaca! Não tive tempo para pensar na atitude dele porque estava animada demais para finalmente sair deste maldito quarto. Não sabia o que Zac planejara para mim, mas o fato de ele ter pedido para que eu usasse o corpete só podia significar uma coisa. Ele tinha me perdoado. Não perdi tempo e comecei a me arrumar. Despi-me e vesti o corpete. Pensei em usar cinta-liga, mas achei melhor deixar do jeito que estava. Tinha me depilado todinha hoje, então, eu estava pronta. Fui até o banheiro, penteei o cabelo e passei um pouco de brilho


labial. Quando senti que estava pronta, olhei meu reflexo no espelho. Tinha certeza de que Zac ia gostar do resultado. Vesti a camisola de seda e abri a maçaneta da porta. Saí e vi que Craig estava me esperando do lado de fora. Ele me olhou de cima a baixo com um sorriso no rosto e deu um passo à frente. — Siga-me, princesa. Fiz o que ele pediu, ignorando a cutucada verbal que ele me dera. No fim das contas, eu sabia que ele não mordia, só ladrava. Descemos os degraus e fiquei surpresa quando ele me guiou por uma porta atrás da escada. Eu nunca a tinha visto, mas, também, nunca tinha reparado no que havia ali. Descemos uma escadaria escura e os pelos de minha nuca se arrepiaram. Hesitei um pouco. — Está tudo bem, princesa. Não precisa ter medo de escuro. Ele sorriu e estendeu a mão para mim. Aceitei-a, relutante. Olhei ao meu redor para ver se encontrava Ian, mas ele não estava em lugar nenhum. Fiquei muito assustada. Estava começando a me perguntar se isso não era uma emboscada. Talvez Craig mordesse sim e estava me levando para o seu esconderijo secreto. Comecei a me perguntar se devia virar as costas e correr escada acima, mas algo me impediu. — Livy, não precisa ter medo. Venha até aqui. Tenho algo para mostrar a você. Meu mestre estava me chamando e o som reconfortava todo o meu ser. Fiquei em estado de alerta e tudo que eu queria era caminhar em direção àquela voz. Quando cheguei ao último degrau, avistei Zac parado do lado de fora de uma porta. Ele abriu um sorriso doce e estendeu a mão para mim. — Linda, Livy. Você está maravilhosa. Peguei a mão dele e ele me puxou em direção à porta. Ele a abriu e eu vi uma cama, mas isso era tudo. Só havia uma cama ali, uma iluminação parca e uma grande janela ou tela na parede. Não dava para distinguir com aquela luz fraca. Ouvi a porta se fechar atrás de mim, então, virei-me. Zac estava parado ali, com um sorriso radiante nos lábios. Ele se aproximou e deslizou o


dedo pela extensão do meu braço. — Senti falta de tocar você, Livy. É sempre tão bom. Ele afastou o meu cabelo da nuca e começou a me beijar suavemente. Com muita delicadeza, desatou o nó da minha camisola e a afastou dos meus ombros. Ela caiu no chão e ele ficou parado atrás de mim, deslizando as mãos pelos meus braços. — Linda — sussurrou ele em meu ouvido. Deu um passo e ficou de frente para mim. Seus olhos brilhavam e não pude evitar de sorrir. — Agora, a sua surpresa. Mordi os lábios, perguntando-me o que poderia ser. — O que é? Zac aproximou-se da grande janela e ficou parado ali, como se estivesse em uma cerimônia. Eu estava ansiosa para descobrir o que era, mas nada poderia ter me preparado para o que aconteceria em seguida. Ele apertou um interruptor e uma luz forte se acendeu. Arfei e quase caí ajoelhada no chão. Em vez disso, cometi o maior erro de todos. Corri até a janela e esmurrei o vidro com os punhos. — Kit! Naquele momento, algo mudou dentro de mim. O que eu estava fazendo? O que eu tinha feito? Por que eu estava aqui, permitindo que outro homem me tocasse? Por que eu estive amando cada minuto daquilo? Como eu pude fazer isso com Kit? Com a gente? Um soluço se formou em minha garganta, ameaçando vir à tona. Não, por favor. Não o Kit. Não o meu Kit. Em meio às lágrimas que escorriam dos meus olhos, ergui o olhar e enxerguei a angústia naqueles olhos azuis-acinzentados dele. Eu amava aqueles olhos. Eu amava aquele homem. Oh, céus! Como eu pude traí-lo daquela maneira? Como vim parar aqui, olhando para o homem no qual eu nunca mais poderia tocar? Vê-lo daquela maneira me destruiu por dentro. Ele estava


acorrentado pelos pulsos, preso à uma cruz. Parecia machucado e hematomas cobriam seu corpo, como se ele já estivesse ali há tempos. — Kit? A voz de Zac despertou-me do meu torpor, alertando-me para a gravidade da situação. Eu estava parada ali, vestindo uma roupa que Zac escolhera. Ele estivera me acariciando em um cômodo e Kit podia assistir a tudo. Dizer que eu estava mortificada era um eufemismo. — Você o conhece como Kit agora? Pensei que ele fosse o Homem Sombra. Mas eu sempre o conheci como Agente Christopher Chainey, número vinte e quatro. Aquele que tentou explodir você e seus pais — A voz dele se elevou quando pronunciou a última parte. — Olivia! — gritou Kit com os olhos marejados. — Não acredite nele. Eu não estava lá para armar a bomba. Quando você me viu, eu estava prestes a desarmar a bomba. Fui até lá para salvá-los. Por favor, Olivia. Acredite em mim. Ele puxou as correntes e soltou um berro gutural. Cerrei os olhos, sem saber em quem acreditar. Meu coração dizia que Kit jamais me trairia. Algo me dizia que ele estava dizendo a verdade. Zac deu um passo à frente e olhou para mim. — Não tinha nenhuma amiga na sua casa, não é mesmo, Livy? Era ele o tempo todo. Você estava trepando com ele, não estava? O rosto dele estava lívido de raiva e ele estapeou o meu rosto com um golpe rápido. Caí no chão e comecei a chorar, sabendo que estava condenada pelo resto de minha vida. Ouvi Kit gritar quando atingi o chão. — Vou te matar, Zachary Bartholomew! Zac retomou a compostura e lançou um olhar enojado para Kit. Estava prestes a dizer alguma coisa quando a porta do quarto de Kit se abriu. Todos observamos quando Maria adentrou o quarto, usando um vestido vermelho agarrado ao corpo e sapatos de salto alto da mesma cor. O cabelo caía em uma cascata de cachos, quase escondendo as enormes argolas douradas que usava nas orelhas. O lábio, tingido por um batom vermelho vivo, exibia um sorriso largo.


— Christopher — cantarolou ela. Aproximou-se de Kit e acariciou o peito dele. — Já faz tanto tempo. Kit se encolheu quando ela o tocou. Ergui o olhar e vi Zac sorrindo para Maria. Então, virou-se para mim. — Seu Homem Sombra e Maria são velhos conhecidos, se é que você me entende. — Ele se virou para Maria. — Não é verdade? Ela assentiu e Kit se debateu, ainda preso às correntes. Ela acariciou o corpo dele com as mãos e ronronou: — Isso mesmo. Eu e Kit costumávamos nos divertir muito. Ele saía para trabalhar e, quando voltava, me comia com tanta força que eu ficava sem andar por uma semana. Ele era uma fera na cama, mas acho que você já sabe disso. Estremeci diante do comentário dela e senti o ciúme tomar conta de mim. Ela não tinha direito de falar dele daquela maneira. Não era daquele jeito comigo. Comigo era especial. Era verdadeiro. Mas como eu podia sentir ciúmes depois de tudo que eu fizera? Não tinha direito de clamá-lo para mim quando estive dormindo com outro homem durante todo esse tempo. Minha mente estava à mil em busca de uma explicação, mas não encontrei nenhuma. A lógica me dizia que Kit era único, mas eu estive me comportando como a pior namorada do mundo. E por quê? Não conseguia entender por que eu tinha me comportado daquela maneira. Zac pareceu tão descontente com o comentário de Maria quanto eu, mas ela se aproximou de Kit e o beijou. Ele não correspondeu, mas isso não a impediu de tentar enfiar a língua na boca dele. Ela interrompeu o beijo e deu risada. Pude ver a marca de batom que ela deixou na boca dele. Quis desviar o olhar, quis mesmo, mas não consegui. Ela começou a acariciar a virilha dele, mas tudo que Kit fez foi rugir e debater-se contra as correntes. — Pare! — implorei, dando-me conta do erro que cometera. Maria parou e sorriu em minha direção antes de olhar para Zac. Ele


deu um aceno com a cabeça e eu entrei em pânico. Assim que conseguiu a permissão de Zac, Maria olhou para Kit e sussurrou algo em sua orelha. Observei quando os olhos dele se arregalaram e ele começou a se debater contra as correntes. — Não, Maria. Não! — gritou ele. Ela o ignorou e abriu o zíper da calça dele, abaixando-a até o joelho. Kit continuou xingando e a amaldiçoando, mas ela apenas o ignorou. Desviei o olhar quando ela levou à mão ao membro flácido de Kit. Um segundo depois, Zac agarrou-me pelos ombros. — Olhe para ele, Livy. Olhe. Ele me chacoalhou até que eu abrisse os olhos. A visão acabou comigo. Maria estava chupando o pau de Kit e a postura dele estava rígida. Dava para notar que ele estava se esforçando para não se deixar afetar por aquilo, mas Maria continuou insistindo e o inevitável aconteceu. Quando ela se afastou, vi como o membro de Kit estava duro. Ela sorriu para mim enquanto acariciava as bolas de Kit e lambia o pau dele. — Parece que ele está gostando bastante — sussurrou Zac em meu ouvido. — Faça isso parar, Zac. Por favor. Maria olhou para Zac, sorriu e continuou chupando o pau de Kit. Fiquei com vontade de vomitar. Cheguei a sentir a bile subir à boca quando Kit gemeu e fechou os olhos. Ele não queria gostar do que estava acontecendo, mas gostava. Tudo que pude fazer foi ficar parada ali e repetir a mim mesma que ele não queria aquilo. Mas quanto mais pensava naquilo, mais enojada ficava. Kit debateu-se contra as correntes mais uma vez e proferiu alguns palavrões. Fechei os olhos com força. Aquilo era demais. Tudo era demais. Senti que estava no meio do inferno. Estava no inferno e fui condenada a passar a eternidade ao lado de Zac. — Acho que ele está quase lá — sussurrou Zac. Abri os olhos e vi que Kit estava olhando para mim. Ele parecia


perdido. Pude ver a tensão em seu rosto enquanto Maria acelerava o ritmo. Ele não queria gozar, mas era inevitável. Soltei um soluço, levando a mão ao peito e estremecendo incontrolavelmente. — Pare, por favor! — gritei. — Por favor! Mas Maria não estava ouvindo. Quando abri a boca para gritar novamente, Kit gemeu e suas correntes rangeram, colidindo umas às outras. Logo depois, o corpo dele se enrijeceu e sua cabeça pendeu à frente. Pude perceber que ele estava envergonhado, mas como eu podia culpá-lo pelo que acontecera? Ele foi obrigado a fazer aquilo. Por culpa minha. Por fim, Maria foi reduzindo o ritmo até parar por completo. Afastou-se dele e lambeu os lábios. — Ainda tem o mesmo gostinho de antes. Ela lambeu os dedos, subiu a calça de Kit e se virou para Zac. — Muito bem, Maria. Obrigado. Ela assentiu, sorrindo, e piscou para mim enquanto se dirigia à porta. — Sua vadia! — gritei e esmurrei a janela de vidro, desesperada para acabar com a raça dela. — Sua vadia de merda! De repente, Zac me agarrou e eu olhei para ele. — Como você pôde fazer isso? Como pôde? Tentei socá-lo, mas ele agarrou meus braços. Ficou parado ali, segurando-me. Sua respiração ficou ofegante à medida em que sua raiva aumentava. — Você não aprendeu nada com isso, não é, Livy? — Ele apontou para Kit. — Aquele homem tentou assassinar você e seus pais. Você queria se vingar e eu a ajudei, mas é assim que você me agradece, porra? Trepando com ele? Solucei, sabendo que eu não me safaria dessa. — Sinto muito! — gritei em meio a soluços, mas eu não sentia. Não sentia muito por ter ido atrás dele. Não sentia muito por tê-lo encontrado. Não


sentia muito por ter me apaixonado por ele. Meu Homem Sombra. Meu Kit. — Trevor! — gritou Zac, fazendo-me pular de susto. Um homem apareceu com uma seringa em mãos. Vi o líquido dourado no interior da seringa e soube que era destinado a mim. Não podia ser para mais ninguém. Chacoalhei a cabeça. — Não, por favor. Por favor, Zac. Não faça isso. Eu prometo que vou me comportar. Por favor. Deixe Kit ir embora e eu farei tudo que você quiser. Eu juro. Zac sorriu. — Ah, minha doce Livy. Depois do showzinho que você vai dar na frente dele, acho que ele nunca mais vai querer olhar na sua cara. Vi o brilho nos olhos dele. Naquele momento, soube exatamente qual era a sua intenção. Gritei, debati-me e chutei, mas logo havia dois homens prendendo-me contra a cama. Zac pairou sobre mim com a seringa em mãos. Escutei quando Kit gritou, condenado a me assistir desmoronar sem que ele pudesse fazer nada para me ajudar. Queria ir salvá-lo, da mesma forma que ele me salvara semanas atrás. Senti a picada no braço e a ardência do líquido sendo inserido em minha veia. Gritei mais uma vez, querendo que isso chegasse ao fim, mas ciente de que ainda estava apenas no começo. No instante em que ele retirou a agulha de meu braço, todos saíram do quarto abruptamente e trancaram a porta. Fiquei deitada ali por um momento, encarando o teto, até que ouvi a voz dele. A voz do homem que eu amava de verdade. — Eu sinto tanto, Olivia. Ele disse isso tão baixinho que mal pude ouvir. Deslizei pela lateral da cama e aproximei-me da janela, levando a mão ao vidro. As lágrimas escorreram pelo meu rosto enquanto eu lamentava a perda do meu amor, meu parceiro, meu melhor amigo.


— Ele injetou uma... — Xanai. Olhei para ele. — Você conhece? Ele assentiu. — Foi descoberta em uma base secreta em Wiltshire alguns anos atrás. Assenti. Foi exatamente isso que Ian me contara. — Então, você entende o que está prestes a acontecer? Ele estremeceu, mas fez que sim com a cabeça. — Eu sinto muito, Olivia. Tentei te encontrar, mas eles me pegaram quando fui ver a Dra. Kemp. Meus olhos se arregalaram. — A Dra. Kemp? Ele assentiu. — Depois que você desapareceu, coloquei algumas pessoas para seguirem seu rastro. Eu sabia que alguém tinha te capturado e tinha uma intuição sobre quem tinha feito isso. Arfei. — Você sabia quem eu era? Ele meneou a cabeça e abriu um sorrisinho. — A princípio não, mas os seus pesadelos e todo o seu mistério me fizeram querer descobrir mais sobre você. Pedi para alguém investigar e eles conseguiram descobrir quem você é. Juro para você que eu não estava planejando assassiná-los naquela noite. Quando você me viu, eu estava desarmando a bomba. Eu realmente a armei, mas, então, eu a vi. Eu soube que não poderia machucar uma pessoa inocente. Naquele momento, decidi que não queria mais viver aquela vida. Você mudou tudo para mim, Olivia. Você mudou o homem que eu era, e você mudou o homem que sou hoje. Eu devo a minha vida a você.


Neguei com a cabeça, deixando um soluço escapar. — Não, Kit. Você não me deve nada. Não sou digna de você. Não sou digna de ninguém. Pendi a cabeça para baixo, sentindo a culpa aumentando. — Olivia, outras pessoas tomaram as rédeas da sua vida durante muito tempo. Ninguém nunca permitiu que você fosse a pessoa maravilhosa que eu sei que você é. Consegui sentir. A ardência. Foi apenas uma pontada, mas eu sabia que era um começo. Agora aquilo ia ficar cada vez pior. — Não sou uma pessoa maravilhosa, Kit. Você não tem ideia do que eu fiz. Enxuguei a lágrima que escorria pelo meu rosto e encarei o homem que eu amava. Eu o queria tanto naquele momento que a ardência passou a queimar com intensidade ainda maior. Tive que desviar o olhar para manter a sanidade. — Eu sei, Olivia. Eu sei. Mas eu também sei que nada disso foi culpa sua. Por favor, pare de dizer isso para si mesma. Em vez disso, saiba que nada no mundo será capaz de mudar o que sinto por você. Nada, Olivia. Eu juro. Por favor, acredite nisso. Eu sabia que Kit estava querendo dizer algo importante, mas a ardência estava tomando conta de mim com uma força surpreendente. Berrei, agarrando as laterais do meu corpo. — Olivia, independentemente do que você faça, não olhe para mim. Tudo bem, querida? Feche os olhos bem fechadinhos e vire de costas. Fiz o que ele pediu e voltei à cama. A dor aumentava a cada respiração. Ansiava por um alívio. O mesmo alívio que eu implorei que Zac me desse todos aqueles dias atrás. O mesmo alívio que ele me deu repetidamente. Lembrei-me da sensação de euforia que aquele alívio causava e a dor percorreu o meu corpo mais uma vez. Gritei e fiquei em posição fetal e a dor da ardência me atingiu novamente. Conseguia ouvir as correntes de Kit rangendo contra o chão. Ele estava sofrendo junto comigo. A vontade de olhar para ele era grande demais, então abri os olhos e aproximei-me da janela. Levei as mãos ao


vidro e olhei no fundo dos olhos dele. Eu queria Kit. Eu precisava dele. Soquei o vidro e o arranhei, desesperada para chegar a Kit. Conseguia enxergar o desespero e a dor estampados nos olhos dele. — Kit! — gritei, choramingando e soluçando de dor. Estava piorando e tudo que eu podia fazer era afundar-me no chão, tomada pela agonia. Não ousei me tocar, porque sabia que isso só pioraria as coisas. Então, fiquei ali, chorando em posição fetal, desesperada para que alguém aparecesse para afastar minha dor. Não sei ao certo por quanto tempo permaneci ali, mas a dor e a ardência se mesclaram em um sentimento só. Parecia que eu estava presa dentro de uma fornalha. Meu corpo desejava e pedia algo que queria, mas sabia que não podia ter. Em uma explosão intensa, todo o meu corpo gritou em agonia e eu arfei, sem ar. — Meu Deus, Olivia. Não consigo fazer isso. Não consigo vê-la desse jeito. Com um rugido alto, Kit chamou o nome de Zac. Gritei novamente quando a porta se abriu. Fechei os olhos. Kit pediu para que eu ficasse de olhos fechados, então eu obedeci. Não me atrevi a olhar para cima. Não me atrevi a olhar para o homem que me fizera passar por isso. O homem que podia me curar. O homem que podia fazer tudo ficar bem. — Ajude-a — pediu ele, baixinho. Abri os olhos e vi que Zac estava parado à porta, alternando-se entre olhar para Kit e para mim. Cada parte do meu corpo me dizia para me mover, para me jogar contra ele, mas a dor estava forte demais. — Não — murmurei. Só Deus sabe como consegui dizer alguma coisa. — O que você quer dizer com isso, Chainey? Ouvi Kit se debatendo contra as correntes. — Você sabe o que eu quis dizer, porra. Ajude-a, Zachary. Nós dois sabemos que ela vai morrer se você não fizer isso. Zac abriu um sorriso para ele.


— E ainda assim você demorou todo esse tempo. — Você sabe que porra está fazendo, Zac. Ajude-a. Por favor. Zac abriu um sorriso malicioso e eu sabia que ele estava se sentindo absolutamente poderoso. Ele assentiu para Kit e se virou para encarar a minha figura trêmula estirada no chão. Eu estava negando violentamente com a cabeça, sabendo o que aconteceria em seguida. Minha mente travava uma batalha com meu corpo. Meu corpo desejava isso, mas uma parte de mim sabia que isso acabaria comigo. Uma parte de mim sabia que também acabaria com Kit. Ajoelhando-se, Zac me pegou no colo e me levou até a cama. — Vou melhorar as coisas, Livy. Tá bom? Gritei novamente e ele me tirou da posição fetal em que eu me encontrava. Acariciou meu rosto dolorido, no exato local em que me atingira, e sussurrou palavras reconfortantes. Antes que eu tivesse chance de recobrar os pensamentos, ele deslizou para dentro de mim. Rápido assim, gritei e soltei meu alívio agonizante e berrei quando a dor e a ardência tomaram conta. Quanto mais arremetidas ele dava, mais tolerável a dor se tornava. O prazer veio à tona e começou a se intensificar. Pouco depois eu já estava gozando e Zac dava uma arremetida atrás de outra. — Você. É. Minha. A cada grito que eu dava, Kit berrava também, a dor emocional tomando conta de mim. Eu estava gritando de agonia e de alegria enquanto ondas de alívio percorriam meu corpo. Quando gozei pela quarta vez, comecei a chorar feito um bebê. O que Kit pensaria de mim agora? Que tipo de pessoa ele pensava que eu era? Queria olhar para ele. Uma parte de mim queria ver a dor em seu rosto para que eu pudesse sofrer com ele, mas eu era uma covarde. Não olhei para ele porque sabia que aquilo acabaria comigo. — Porra, você é tão gostosa. Minha bucetinha deliciosa. Você vai me fazer gozar tão gostoso, Livy. Você vai me fazer gozar tão, tão gostoso. Ele aumentou o ritmo e não demorou muito para arquear as costas e derramar seu próprio alívio dentro de mim. Zac desabou em cima de mim, a respiração ofegante. Meu corpo estava radiante porque Zac tinha atingido o clímax, mas meu coração estava


partido. Eu estava despedaçada. Se não fosse pelas endorfinas percorrendo meu corpo, estaria me sentindo no fundo do poço. Zac estava determinado a tornarme propriedade dele e tinha conseguido. Ele mostrou a Kit e a mim o poder que tinha ao roubar de nós dois a única coisa que nos mantinha juntos. A única coisa que tornava o nosso laço o mais forte que eu já tivera em minha vida. Nós pertencíamos um ao outro porque o universo quis assim. Ele nos escolheu, e agora nossa escolha tinha sido arrancada de nós. Diante desse pensamento, comecei a chorar. Não queria que Zac visse o que tinha feito comigo, mas o que mais eu poderia fazer depois que ele tirou tudo que eu amava de mim? — Shh, está tudo bem, gatinha. Não chore. Desculpe por ter batido em você. Prometo que nunca mais vou fazer isso, gatinha. Somos só eu e você de agora em diante. Zac ergueu o corpo, mas ainda permaneceu em cima de mim. Só se içou o suficiente para que eu pudesse vê-lo. O suficiente para que eu visse a dor imensurável que eu causara em Kit. Conseguia vê-lo do outro lado da janela. A respiração estava ofegante e a cabeça pendia para baixo. Conseguia ver o canto da boca sujo de vômito. Os pulsos estavam cobertos de sangue pela luta que ele travara contra as correntes. Eu fiz isso com ele. Um soluço escapou dos meus lábios quando uma onda de ira invadiu o meu corpo. Meu corpo todo reagiu e eu comecei a socar, arranhar e morder o homem que havia roubado a minha alma. O homem que havia me roubado tudo. Zac tentou me conter, mas eu estava muito consumida pela raiva para ser detida. Todos os anos em que escondi o meu medo, a minha agonia e o meu coração se esvaíram do meu corpo na forma de ódio puro contra o homem que nunca me deixaria ir. Eu sabia disso agora. Eu era dele e ele certificou-se disso esta noite. Ele se certificou de dizer a todos que se atreveram a chegar perto de mim que ninguém jamais conseguiria me tirar dele. — Livy, pare com isso! — gritou ele, finalmente conseguindo segurar meus punhos e me conter. Olhei para ele com um olhar carregado de ódio. Fiquei feliz quando notei que o tinha feito sangrar. O rosto estava marcado por arranhões.


— Eu te odeio! Me largue! — gritei repetidas vezes, torcendo para que alguém escutasse o meu apelo. Torcendo para que alguém pudesse vir me resgatar deste monstro que me mantivera presa por tanto tempo. Ele sempre esteve por perto, à espreita, esperando o momento certo para atacar. — Ele me pediu para ajudar você, Livy. Foi ele quem me deu permissão. Minhas lágrimas caíram copiosamente e eu meneei a cabeça com violência. Ele estava tentando envenenar a minha mente mais uma vez. Tentando me fazer odiar o único homem que eu podia amar. — Olivia, eu sinto muito — Escutei o grito de Kit. Seu tom de voz acabou comigo. Acabou com qualquer pedacinho de mim que ainda resistisse. Eu estava arruinada. — Já terminou, gatinha? Aposto que não. Logo, logo vai querer mais. Já consegue sentir a ardência? Consegue senti-la crescendo dentro de você agorinha mesmo, pronta para explodir a não ser que eu te coma? Fechei os olhos e tentei lutar contra aquela sensação. Tentei ignorar o desejo crescente. Mas eu não conseguia. Aquilo só ficaria cada vez mais forte. Era só uma questão de tempo até que a dor me consumisse a ponto de eu ter que me entregar a ele mais uma vez. Zac sabia disso e estava usando esse fato em seu benefício. Estava brincando comigo como se eu fosse uma marionete. Eu queria odiá-lo. A cada toque, o desejo ardia, mas eu queria odiálo. Minha mente gritava não, mas meu corpo gritava sim. Ele estava me tocando nos lugares em que sabia que eu não conseguiria resistir. Estava se certificando de que fosse gostoso e estava se certificando de que eu extravasasse esse prazer em voz alta. Quando Zac ouviu meu grito de dor, deslizou o membro para dentro de mim. O desejo se soltou dentro do meu corpo e percorreu a minha espinha. Mais uma vez, eu era dele. Mais uma vez, minha dignidade foi roubada. E, mais uma vez, qualquer traço de felicidade que ainda podia existir em mim desapareceu.


CAPÍTULO VINTE E TRÊS

Não sabia ao certo quantas horas se passaram, mas quando a ardência finalmente sumiu e Zac me deixou em paz, eu estava me sentindo mais exausta e quebrada do que já me sentira em toda a minha vida. Enquanto Zac vestia a roupa, encolhi-me em posição fetal e fiquei encarando as paredes, desejando que elas me engolissem por inteiro. — Acho que ele entendeu o recado — declarou ele e deu um risinho na direção de Kit. — O único recado que você deu é o de que você é um doentio do caralho. Veja o que você fez com ela. Veja o estado em que ela se encontra. Você me disse que a amava. Isso não é amor, porra. Você a estuprou. Zac correu em direção à janela e a esmurrou com o punho. — Eu não a estuprei. Ela me implorou. Ela tem implorado com certa frequência. — Só porque você a obriga a fazer isso! — A voz de Kit estava tão carregada de raiva que eu segurei o lençol com força. — Ela pode me odiar agora, mas vai voltar a me amar em breve. Ela está grávida de mim neste momento. Do meu filho. Ela sempre vai ser parte de mim porque está carregando uma parte minha no próprio útero. Ela nunca vai poder escapar disso. Conseguia sentir os olhos dele perfurando o meu corpo e deixei as lágrimas escorrerem livremente. Tinha me esquecido de que estava grávida. Era isso que ele queria desde o começo e agora tinha conseguido. O último prego no meu caixão. — Eu vou te matar, Zachary. Eu juro que vou. Não me importa quanto tempo vai demorar, mas eu vou te pegar e vou arrancar os seus olhos fora, porra. A risada maligna de Zac fez todo o meu corpo se retesar. — Não vou me importar com essa ameaça, Chainey. Quer saber por


quê? Porque, depois de amanhã, você será um homem morto e Livy será minha noiva. Vou permitir que vocês se despeçam. Vou fazer esse favor a vocês. Ele saiu do quarto e nos deixou no mais completo silêncio. O único som audível era o de meus soluços baixinhos enquanto meu mundo era transformado em ruínas. — Olivia — sussurrou ele e comecei a soluçar mais alto. — Olivia, eu vou te prometer uma coisa. Eu vou matá-lo. Com cada fibra que me resta, eu vou arrancar as entranhas dele e fazê-lo sangrar até morrer. Nunca mais vou deixar que ele a machuque. Fechei os olhos e permiti que as lágrimas caíssem, perdendo-me nas promessas dele. Queria que elas fossem verdadeiras. Queria que meu cavaleiro da armadura reluzente montasse em seu cavalo, desembainhasse a espada e me resgatasse. Mas isso nunca ia acontecer. Enquanto Zac continuasse vivo, eu seria dele. Não tinha como Kit vencer esse exército sozinho. Na manhã seguinte, Kit estaria morto e eu estaria entorpecida. Eu estava determinada a passar a vida inteira neste estado, porque aquilo era melhor do que sentir qualquer outra coisa. Eu permitiria que Zac me controlasse e me drogasse e me hipnotizasse. Qualquer coisa para que eu não sentisse que vivia no mundo real. Na manhã seguinte, eu receberia isso de bom grado. Eu receberia tudo de bom grado. ***

Não sei ao certo por quanto tempo me deixaram sozinha ali, apenas com os meus soluços e os de Kit enchendo o ar. Mas, quando a porta finalmente se abriu, eu já estava no fundo do meu poço da escuridão. Ainda estava na mesma posição em que Zac me deixara e ele sorriu diante disso. Era um sorriso terno, reservado apenas para mim. E eu soube que jamais conseguiria escapar. Conseguia enxergar isso agora. Conseguia entender por que ele me salvara meses atrás. Ele estava me fazendo entender que eu não poderia viver sem ele. Estava lentamente encontrando o caminho até a minha alma para que finalmente pudesse arrancá-la de mim. Foi por isso que ele me deixou ir atrás de vingança. Foi por isso que ele quis que eu encontrasse o homem que sempre pensei ser o responsável pela morte de meus pais. Ele estava tentando me mostrar que estava do meu lado. Estava tentando me fazer enxergar que ele era meu cavaleiro da


armadura reluzente, meu herói que faria tudo que estivesse em seu poder para me proporcionar tudo de que eu precisasse. Porque, no fim das contas, eu precisaria dele. Depois de tudo, eu me agarraria a Zac como se ele fosse minha própria vida. Nunca mais poderia querer ou desejar nada, apenas o que Zac estivesse disposto a me dar. Ele planejara isso por anos e, agora, finalmente tinha conseguido. Eu era dele. Sentando-se na beirada da cama, Zac afastou uma mecha de cabelo do meu rosto com delicadeza. — Você parece cansada, gatinha. Vou te levar para cama para você descansar um pouco. Você não precisa se preocupar com nada. Quando ele se abaixou para me pegar no colo, ouvi Kit gritar meu nome. Cada parte de mim pareceu ruir quando uma onda de pânico me consumiu com mais força do que nunca. — Espere! — Ergui as mãos para impedir que Zac me pegasse. — Espere, por favor. Preciso dizer uma coisa. Engoli em seco, minha mente se clareando. Eu tinha que tentar resgatar Kit. Fui eu quem o meti nesta encrenca. Agora eu tinha que resgatá-lo. Zac pegou minha mão e se sentou ao meu lado na cama. — O que foi, Livy? Tive que atuar da melhor forma possível para tentar salvar o homem que eu amava. Não conseguiria viver comigo mesma sabendo que eu fora a responsável por colocar a arma na mão de Zac e que permiti que ele puxasse o gatilho. Tinha que fazer alguma coisa, qualquer coisa para impedir a morte de Kit. Abri o meu melhor sorriso e acariciei o rosto de Zac. Ele sorriu e fechou os olhos para receber o meu carinho. Ouvi Kit grunhir e, por um momento, quase vacilei. — Eu sou sua agora, Zac. Sempre fui. Eu irei com você de bom grado porque meu coração é seu. Mas quero que você me conceda apenas um desejo e, então, eu serei sua por completo. Eu prometo. Se você fizer isso por mim, vou te amar incondicionalmente. Zac abriu os olhos e ficou me encarando por um momento. Pude


enxergar a esperança em seus olhos, mas a minha se esvaíra. — O que você quer, Livy? Qualquer coisa. Eu vou te dar qualquer coisa se você se entregar a mim por completo. Qual é o seu desejo? Virei-me para Kit e olhei para seus olhos desalmados pela última vez. Precisava levar a memória daqueles olhos comigo. Aqueles olhos que me prometiam esperança, felicidade e uma vida repleta de possibilidades. Conseguia enxergar a dor, enxergar a luz que se esvaíra daqueles olhos. Mas também enxerguei uma centelha de esperança. Ainda havia uma centelha das promessas por vir. — Desejo que você poupe a vida de Kit. Zac apertou a minha mão com raiva. — Mas você tem sentimentos por ele. Consigo ver isso. Não posso permitir que ninguém se meta entre nós. Puta que pariu, Livy, ele tentou te matar. Pensei que você queria justiça, não queria? Assenti. — Eu quero... Queria. Mas a única coisa que eu quero agora é você. Por favor, não deixe que Kit se meta entre nós. — Olivia, o que você está dizendo? Não dê ouvidos a ele. Não deixe que ele envenene sua mente. Zac gritou: — Cale a porra da boca, Chainey. Levei a mão ao braço dele para impedi-lo de fazer alguma besteira. — Zac, eu sou sua. Você ganhou. Por favor, deixe isso para lá. Deixe Kit ir embora e eu serei sua para sempre. Eu prometo. Ouvi as correntes de Kit rangendo enquanto ele se debatia contra elas. — Não faça isso, Olivia. Não faça. Respirei fundo e tentei me manter inteira. Precisava que Zac visse que as palavras de Kit não me afetavam. — Diga a ele — pediu Zac e apontou em direção a Kit. — Levantese, olhe no fundo dos olhos dele e diga. Quero ouvir você dizer para ele, Livy.


Levantei-me da cama e cambaleei um pouco ao caminhar até a janela. O efeito da droga estava passando e a exaustão tomava conta de mim. Alcancei a janela e olhei para os olhos dele novamente, perdendo-me neles mais uma vez. Só mais uma vez. — Kit, nunca quis você de verdade. Você sempre foi apenas um joguinho para mim. Eu estava tentando te encontrar e consegui. Eu ganhei e você perdeu. Vi o choque e o horror estampados em seus olhos e lutei para seguir em frente. Sabia que Zac estava me observando agora, atento a tudo que eu dizia e fazia. — Quando Zac te libertar, quero que você saia da minha vida de vez. Nunca mais quero ver você. Vou poupar a sua vida, porque esse é o tipo de pessoa que sou, mas nunca confunda o que tivemos com amor. Eu já te disse. Pintura é a única coisa que eu já amei. Lembra? Eu te contei isso um tempo atrás. Pintar é a única coisa que eu já amei. Seus olhos se arregalaram e eu torci para que ele tivesse captado a mensagem. A mensagem que eu passara a ele semanas atrás quando estávamos deitados em minha cama, logo depois de ele ter se declarado a mim. Sabe, eu sempre amei pintar. Mas agora, sempre que eu pensar em pintura, vou me lembrar do quanto eu te amo. Depois que disse tudo que precisava, absorvi o olhar dele uma última vez. O olhar que enchia o meu coração de alegria e causava frio na minha barriga. Respirei fundo, ciente de que não conseguia mais continuar. Precisava dar o fora dali antes que começasse a gritar. Por fim, virei-me para Zac. — Viu? Não foi tão difícil assim, foi? — Tentei soar indiferente, mas eu estava caindo aos pedaços. Zac me observou por um momento e, então, virou-se para Kit. Sorriu e voltou a sua atenção para mim. — Seu desejo é uma ordem, gatinha. Vou poupar a vida dele e você será minha para sempre.


Assenti e deixei que ele pegasse a minha mão. Colocou a camisola de volta em meu corpo e plantou um beijo suave em meu rosto. Deixei que ele me guiasse para fora do quarto e não ousei olhar para trás. Mas eu conseguia ouvi-lo. Conseguia ouvir seus gritos quando fui levada embora para nunca mais vê-lo. Ele precisava entender que eu não era uma pessoa ruim. Transformei uma situação terrível em uma coisa boa. Pelo menos, agora ele poderia viver sabendo que eu sempre o amara. Só torcia que ele aceitasse o caminho que eu tinha escolhido e seguisse em frente. Eu nunca mais seria feliz, mas Kit ainda poderia ser. Era o que eu esperava, pelo menos. A porta se fechou atrás de mim, assim como o meu futuro. Minha vida, repleta de amor e devoção, tinha fechado as suas portas e, agora, eu estava sozinha. O vazio era a minha vida agora.


CAPÍTULO VINTE E QUATRO

Fui levada para o meu quarto, onde descobri que já eram quatro da madrugada. Não era de se espantar que eu estivesse tão cansada. Quatorze horas haviam se passado desde que Craig viera me buscar. Zac estava cuidando de mim agora. Cada toque e cada carinho era dado com tanta devoção que era difícil de acreditar no que ele tinha acabado de fazer comigo no porão. O que ele tinha feito com nós dois. Ele preparou um banho para mim e me banhou. Permaneci o tempo todo em silêncio, apenas encarando o vazio. Eu estava entorpecida de novo. Permiti que aquela sensação tomasse conta de mim mais uma vez, para que eu não precisasse sentir mais nada. Sentir era uma merda. Nunca mais sentiria coisa alguma. Quando Zac ficou satisfeito, tirou-me da banheira, secou-me e vestiu-me com uma camisola de seda. Fiquei parada, como a bonequinha perfeita que eu era. — Você parece tão cansada. Você está cansada, gatinha? Ou é a ardência que ainda está aí? Posso fazer com que você se sinta melhor de novo. Neguei com a cabeça, querendo que ele ficasse o mais longe possível de mim. A atração que eu sentia por ele ainda estava ali, mas havia sido entorpecida depois do que tinha acontecido. Era quase como se o que acontecera estivesse virando um sonho distante. Seria bom acordar e descobrir que todo o mal se fora. Que o pesadelo tinha chegado ao fim. Mas não tinha. Tinha acabado de começar. Zac pressionou os lábios contra os meus e me deitou na cama. Cobriu-me com as cobertas e deitou-se ao meu lado. Puxou-me para si e ficamos deitados de conchinha. Seu membro estava duro... mais uma vez. Pensei que meu corpo não aguentaria mais. — Nossa, Livy. Não consigo ter o suficiente de você. Vou te deixar em paz porque sei que você precisa descansar, mas quero que você saiba que eu quero você o tempo todo. Você nunca vai precisar se preocupar com isso. Nunca


vou desejar mais ninguém. Ele beijou a minha cabeça e se aconchegou a mim. Permiti que ele fizesse isso porque prometi isso a ele. Prometi a ele o mundo e agora ele estava celebrando a sua vitória. Ele batalhou para ganhar o prêmio e conseguiu... E eu estava perdida.

***

Sonhei com disparos de arma. Muitos e muitos disparos. Também ouvi gritos. Estava ecoando em meus ouvidos e em minha mente. Então, ouvi uma grande explosão e acordei. Toda a extensão da casa pareceu tremer e a poeira do telhado caiu como uma tempestade de areia. — Livy, vá para o banheiro e tranque-se lá. Agora! Zac levantou-se da cama de imediato e pegou uma arma na mesinha de cabeceira. Correu até a porta e encostou o ouvido contra ela antes de olhar para o meu rosto perplexo. — Ande logo! Saí da cama e corri em direção ao banheiro bem quando outra grande explosão aconteceu no andar de baixo. Ouvi homens gritando e armas sendo disparadas enquanto eu trancava a porta atrás de mim. Não conseguia entender o que estava acontecendo. Ian tinha me alertado sobre os perigos e fiquei me perguntando se havia homens lá fora — homens piores do que Zac — tentando assassiná-lo. Aquilo me encheu de medo. Sabia que Zac era mau, mas ele era um demônio familiar. Não sabia que diabos eu poderia encontrar lá fora. Uma parte de mim comemorou o fato de que havia alguém lá fora à procura do meu mestre, querendo tirá-lo daqui. Outra parte de mim tinha medo do que poderia acontecer. A quem eu pertenceria? Será que esses homens me usariam do mesmo modo que Zac? Ou será que fariam algo pior? Minha mente ficou à mil e, pela primeira vez desde o dia anterior, senti uma centelha de esperança. Minha sobrevivência estava em primeiro lugar. Ao contrário de ontem, eu não queria mais morrer. Queria viver.


Corri até a janela e a abri. Pude ver homens correndo por toda a parte. Alguns estavam mortos e estirados no chão. Detritos se espalhavam por todo o pátio. Observei os arredores para ver se tinha algo em que eu pudesse me agarrar, mas não encontrei nada. — Olivia! Olhei em direção àquela voz e avistei Ian, vestido para combate. Tinha armas e granadas presas ao cinto. Abriu um sorriso e piscou para mim. — Estou indo buscar você! Quase comemorei. Quase dei pulinhos e bati palmas como uma maluca. Ian não estava ferido ou morto ou desaparecido. Estava vivinho da silva e vindo ao meu resgate. Meu coração acelerou no peito ao saber que existia alguém que se importava comigo. Alguém que estava disposto a arriscar a própria vida para me salvar. Devolvi o sorriso para ele, sem conseguir parar de pensar no que poderia ter acontecido com Kit. Quase perguntei a Ian, mas sabia que Zac ainda devia estar no quarto. Independentemente de onde Kit estivesse, esperava que estivesse a salvo. Esperava que estivesse se curando. Esperava que conseguisse seguir em frente sem mim. Ele não podia ficar comigo agora. Eu sabia disso. Ao implorar a ajuda de Zac, ele havia selado o nosso destino. Eu entendia por que ele fizera o que fez, mas nada mudaria o fato de que ele tinha feito aquilo. Meu coração estava acelerado no peito e ouvi um disparo. Ian se jogou no chão para assumir a posição de combate. Disparou a arma algumas vezes e correu para frente. Não havia dúvidas de que ele era experiente nisso. Todos os seus movimentos eram feitos com precisão militar. Ele atirou mais algumas vezes, entrou na casa e eu o perdi de vista. Afastei-me da janela e comecei a andar de um lado para o outro. Meu coração estava disparado, ansioso sem saber o que poderia acontecer em seguida. Eu sabia que Ian não devia estar trabalhando sozinho. Não com tanta munição e explosivos assim. Ele deve ter conseguido a ajuda de alguém. Independentemente de quem fosse, eu os receberia de bom grado. Faria isso porque sabia que era Ian quem estava por trás de tudo.


Continuei a caminhar de um lado para o outro pelo que pareceram horas e não apenas alguns minutos. Ouvi mais explosões, mais gritos e então... Nada. O quarto ficou no mais absoluto silêncio e meu coração começou a bater mais acelerado. O que eu faço agora? Eu não conseguia pensar direito. Não sabia o que estava esperando por mim atrás daquela porta. Aproximei-me da porta e ergui a mão para alcançar a maçaneta. E, então, ouvi. Bang! Bang, bang! Por um momento, tudo ficou em um silêncio mortal. Ouvi um grunhido vindo do quarto. Depois uma batida e uma voz... uma voz que me fez parar. Uma voz que pensei que só ouviria nos meus sonhos. — Onde ela está? — gritou ele. Ouvi um soco e me dei conta de que fui eu que me tranquei aqui dentro. Eu podia sair. Levei as minhas mãos trêmulas até a fechadura. — Kit! — gritei. Quando ele não respondeu, fiquei ainda mais desesperada para sair dali. Consegui destrancar a porta e a abri, sorrindo de orelha a orelha. Mas o meu sorriso se desvaneceu diante daquela visão. Kit estava parado ali, o rosto e as mãos cobertos de sangue. Os olhos estavam arregalados e o medo tomou conta de mim. Atrás de Kit, segurando uma arma contra a cabeça dele, estava Zac. O rosto estava machucado e o nariz, coberto de sangue, mas os olhos só expressavam uma coisa. Maldade... Maldade pura. — Tentei ser bonzinho com tudo isso, porra. — Ele empurrou Kit e eu estremeci. — Eu poupei a vida dele porque te amo, e é assim que você me agradece? Você me prometeu, Livy. Você me prometeu, porra.


Ergui as mãos, tentando acalmá-lo. Zac parecia estar prestes a disparar o gatilho. — Eu sei disso e ainda mantenho a minha promessa. Ele fez um gesto em minha direção. — Então, que porra é essa, hein? Você deveria estar gritando o meu nome, não o dele. Não o nome do homem que tentou te matar quando você era uma criança. — Não dê ouvidos a ele — a voz de Kit me fez sobressaltar. — Olivia, por que você acha que ele quis te levar para o parque naquele dia? — Meus olhos se arregalaram quando me dei conta do que ele estava querendo dizer. — Por que você acha que ele quis te tirar daquele quarto de hotel? Zac deu um empurrão nele. — Cale a boca, porra. Foi você quem plantou aquela bomba, não eu. Kit o ignorou. — Olivia, preste atenção em mim. Seu pai estava conduzindo negócios perigosos com o Oriente Médio. Negócios que poderiam fazê-lo ganhar milhões, mas que devastariam o país. Meneei a cabeça, confusa. — Como assim? — Não dê ouvidos a ele, gatinha. Seu pai morreu porque estava sempre tentando fugir dele. — Ele deu outro empurrão em Kit. — Ele me nomeou seu padrinho para que eu pudesse cuidar de você caso acontecesse alguma coisa. Eu estava lá para te proteger, Livy. Eu sempre te amei. As lágrimas começaram a se formar nos meus olhos e eu olhei para Kit. — Seu pai estava ajudando o Oriente Médio a bolar uma nova moeda para o petróleo. Uma que eles pudessem controlar sozinhos. Uma em que eles pudessem estipular os próprios preços. Os EUA e o Reino Unido ficaram sabendo disso e resolveram agir. Hussein e Gaddafi não foram depostos por causa das revoltas nos próprios países. Foram depostos por causa do novo acordo petrolífero. Um que os faria ganhar milhões. Um que prejudicaria as potências mundiais como o Reino Unido e os EUA. A agência não podia permitir que isso acontecesse.


Ele fez uma pausa e continuou: — Fui enviado para armar a bomba e pensei que era por causa do acordo. Agora sei que eu estava errado. Franzi o cenho. — Como assim? — Não diga mais nada, porra. Juro que vou estourar os seus miolos. O rosto de Zac estava lívido de fúria. — Eu não faria isso se fosse você — disse Ian à porta, com a arma apontada para a cabeça de Zac. Zac olhou na direção de Ian e fez careta. — Que porra você está fazendo aqui? Pensei que você estivesse morto. Ian deu risada. — Seu truquezinho de me despedir para poder me matar depois não funcionou. Eu estava pronto e acabei com a raça do cara quando ele veio me pegar. — Ele olhou para mim. — Sinto muito por ter demorado tanto. Quis falar alguma coisa, mas ainda estava em choque. Ele se virou para Zac. — Agora, sugiro que você abaixe essa arma antes que alguém saia machucado. Os olhos de Zac estavam transbordando ódio. Dava para notar que ele estava tentando pensar em como deveria agir. — Mesmo que você me mate, há homens lá embaixo só esperando para atirar em você — avisou Ian e sorriu e piscou para mim. Recobrando a razão, Zac baixou a arma e Kit correu em minha direção. Ele me puxou para um abraço e eu senti o seu cheiro, deixando que a felicidade por tê-lo tão perto tomasse conta de mim. Mas Zac, vendo tudo isso acontecer, virou-se e correu para pegar a arma de Ian. Corri para a arma jogada no chão e a peguei, atirando para cima. — Pare!


Zac levou as mãos ao ar e virou-se para mim com um sorriso no rosto. — O que você está fazendo, gatinha? Então, tudo ficou claro. A minha mente explodiu e tudo fez sentido. — A bomba não foi armada por causa do que meu pai estava fazendo, não é mesmo? Você armou tudo porque queria que meus pais saíssem de seu caminho. Não foi por causa dos negócios de meu pai. Foi por minha causa. Foi por minha causa esse tempo todo. Quando Kit não negou, soube que eu estava certa. Zac apenas abriu um sorriso calmo e tenro. — Livy, gatinha, eu nunca machucaria os seus pais. Fui eu quem tomou conta deles. Fui eu quem protegeu a todos vocês. Kit grunhiu. — Só porque você sabia que seria pego se não fizesse isso. Você não podia permitir que sua afilhada escapasse de você, não é? As narinas de Zac se inflaram. — Eles a tratavam como se fosse um cachorro. Eu precisava tirá-los do meu caminho para que pudesse cuidar dela direito. Dei risada. Não sei ao certo por que, mas aquilo soou engraçado vindo justamente dele. — E você me tratou de maneira muito diferente, não é? Você até me deixou lá por tempo suficiente para que eu ficasse tão podre a ponto de parecer que foi você quem me resgatou. Você queria que eu chegasse ao fundo do poço, não queria, Zac? Queria que eu me embebedasse até quase morrer para que você aparecesse em seu cavalo branco e fosse meu herói. Ele apontou o dedo para mim. — Eu estive lá por você quando ninguém mais esteve. Eu a tirei do seu inferno particular e te dei o mundo. Lembra daquele pervertido do Manderville? Lembra-se do que ele fez? Quem você acha que mantinha os lobos afastados de você, hein? Minha mente se anuviou com a lembrança dos lobos me perseguindo. Como Zac sabia disso? Como ele conseguiu entrar dentro da minha


cabeça? Zac viu minha hesitação e abriu um sorriso reconfortante. — Livy, gatinha... — Fechei os olhos por um momento e estremeci, o que deixou Zac feliz da vida. Ele deu um passo à frente. — Eu amo você, Livy. Sempre amei. Eu a amo desde que você era uma criancinha. Era um tipo diferente de amor naquela época, mas agora... Agora eu daria tudo para que você fosse a minha princesa. Sempre foi você, gatinha. Nunca foi mais ninguém. O meu único interesse era fazê-la feliz. Titubeei um pouco, mas Kit pousou a mão em meu ombro. Quando olhei para os olhos dele, todos os pensamentos sobre Zac se dissiparam e minha mente ficou clara. Segurei a arma com mais força e olhei para Zac. — Feliz? Você acha que isso — Fiz um gesto apontando o quarto — me faz feliz? Você honestamente acha que eu poderia amá-lo se você me tratasse como uma escrava? Aquilo não era amor, Zac. Nada do que você fez por mim no passado foi por amor. Foi só pelo controle. Você só queria me controlar. E conseguiu por um tempo. — Dei um risinho sarcástico. — Na noite passada, você se certificou de que tivesse conseguido. Você se certificou de mostrar para a única pessoa que me amava de verdade que era você quem estava no controle. Que era você quem me tinha de verdade. Mais ninguém. Só você. — Você é minha! — gritou ele. Abri um sorriso e apontei a arma para o rosto dele. — Não sou mais. Puxei o gatilho. Assisti enquanto Zac caia no chão, os olhos ainda cobertos de choque. Ele estava morto e eu, finalmente, estava livre. Simples assim, eu era livre. Simples assim, o interruptor se apagou e a atração que ele exercia sobre mim foi embora. Ele se fora da minha vida para sempre. Eu finalmente poderia viver. E essa foi a última coisa que pensei antes que minha visão se escurecesse.


CAPÍTULO VINTE E CINCO

Recobrei a consciência e vi que estava em um carro grande. Estava aninhada nos braços de alguém e, quando respirei fundo, sorri. Kit. — Bom dia, raio de sol. Pensei que você nunca acordaria. Ergui o olhar e avistei o reflexo de Ian sorrindo para mim pelo retrovisor. — Onde estamos? Espreguicei-me e bocejei, sentindo meus músculos protestarem. — Estamos a caminho de Southampton. — Ian piscou para mim. — Uma vez, alguém me disse que lá tinha um barco chamado A Princesinha. Pensei que poderíamos nos esconder lá por um tempinho. Acho que causamos uma bagunça danada naquela casa. E, então, tudo voltou à tona. Zac, o que ele tinha feito na noite anterior e o que eu tinha feito esta manhã. Eu matei uma pessoa. Segurei a arma e puxei o gatilho sem sentir nenhum remorso ou arrependimento. A grandeza do que eu fizera me atingiu em cheio. — Acho que vou vomitar. Ian pisou nos freios e estacionou o carro. Kit me ajudou a sair e eu vomitei no instante em que pisei na estrada. Minhas entranhas se reviraram enquanto eu pensava sobre o que aconteceu no dia anterior e em como eu conseguiria superar tudo isso. — Você está bem, Olivia? Estendi a mão para procurar a de Kit. Ele a pegou e me puxou para si. — Médico. Eu preciso de um médico. Limpei a boca e vi o pânico estampado no rosto de Kit. — O que foi, Olivia? Você está sentindo alguma coisa? Onde dói?


Neguei com a cabeça. — Preciso de anticoncepcional. Da pílula do dia seguinte. — Vi o entendimento tomar conta dos olhos de Kit e virei-me para Ian. — Preciso disso, Ian. Não quero ter nenhum resquício dele dentro de mim. Quero me livrar de toda a maldade. Quero que ele vá embora de vez. Ian assentiu e voltou ao carro. Kit envolveu-me com os braços e me carregou até o carro. — Estou com você, Olivia. Estarei com você a cada passo do caminho. Ele me abraçou com força e Ian deu partida no carro. Por um instante, permiti me perder naquela sensação. Por apenas um instante, permiti sentir a felicidade novamente.

***

Dirigimos até a clínica mais próxima. Tendo em vista o que eu precisava, fui tratada como uma paciente de emergência. Fui examinada e, depois de uma hora de espera, finalmente me deram o remédio. Informaram-me que talvez eu me sentisse enjoada pelos próximos dias, mas que era algo completamente normal. Preferia sentir-me enjoada e livrar-me daquilo do que a alternativa. A outra boa notícia é que consegui mais seis meses de anticoncepcional. Eles regularizavam a minha menstruação, que foi o motivo pelo qual comecei a tomá-los em primeiro lugar. Disseram-me para esperar uma semana para ter relações ou usar camisinhas caso transasse. Duvidei muito de que isso seria um problema. Neste momento, sexo era a última coisa em minha mente. Depois que terminamos, voltamos à estrada. Alguém havia me vestido quando eu ainda estava inconsciente na casa e também empacotaram algumas coisas para mim. Ian e Kit também estavam com seus pertences. Depois de ser forçado a se esconder algumas semanas atrás, Kit tinha esvaziado a sua caixa postal. — O que aconteceu com Craig? Não sei ao certo por que ele veio à minha mente. Ian olhou para mim através do revisor.


— Ele seguiu seu próprio caminho. Arfei. — Quer dizer que ele estava do seu lado? Ian assentiu e deu risada. — Sim, eu te falei que ele não mordia. Comecei a gaguejar. — Mas... Mas... E aquele lance na clínica? Ele estava observando cada movimento meu. Ian riu novamente. — Você realmente acha que ele não sabia o que estava acontecendo? Ele estava interpretando o papel dele. Vendo como você parece chocada com isso, ele deve ter interpretado muitíssimo bem. Bufei. — Ele era tipo um hormônio ambulante. — Senti a postura de Kit se endurecer ao meu lado. Virei-me para ele. — Sinto muito — sussurrei. E sentia mesmo. Sentia muito por tudo e Kit sabia disso porque abriu um sorriso e me puxou para ele. — Você nunca precisa se desculpar para mim, Olivia. Observei Kit e Ian trocarem um sorriso e um entendimento se passou entre eles. — Vocês se conhecem? Kit me deu um apertãozinho. — Nós somos primos, para falar a verdade. Arfei. — Primos? Ian deu risada. — É, quem diria? A mãe de Kit é irmã da minha mãe. Kit me contou sobre a agência quando eu estava nas Forças Especiais. Fiquei intrigado e fui dar uma olhada. Quando Kit desapareceu, eu soube que precisava investigar


mais a fundo. Por fim, consegui entrar depois de alguns anos. Queria entrar para a agência e queria encontrar Kit antes que a agência o encontrasse. Eu sabia que ele estava encrencado e queria ajudá-lo. Quando você foi levada até a casa e disse o nome de Kit enquanto dormia, eu soube que precisava intervir e ajudar. Só queria poder ter sabido antes. O chefe tinha ordenado que um homem vigiasse a sua casa. — Ele viu minha expressão surpresa. — Imagino que você não soubesse, né? — Neguei com a cabeça. — Por sorte era Craig. Mas eu queria que tivesse sido eu. Craig disse algo sobre o homem que saía e entrava na sua casa, mas pedi para ele ficar quieto. Sabia que vocês dois se meteriam em encrenca se fossem pegos. Queria ter sabido antes que era o Kit. Eu poderia ter impedido que tudo isso acontecesse. Poderia ter te avisado. Ele lançou um olhar de desculpas a Kit pelo espelho retrovisor. É claro. Agora tudo fazia sentido. O motivo de estar tão disposto a me ajudar. Ele estava lá para me proteger desde o início. Estremeci ao pensar que Zac já sabia sobre Kit. Eu deveria ter sabido que ele teria contratado pessoas para me vigiar. Fui estúpida por não ter me dado conta de que estava sendo seguida. Suspirei e pensei em tudo que tinha acontecido desde então. Aquilo me fez pensar em como tudo chegou ao fim hoje. Virei-me para Kit. — O que aconteceu depois que eu saí do porão? Senti as lágrimas se formando por causa do meu constrangimento, mas Kit pousou a mão no meu rosto em um gesto reconfortante. — Ian me resgatou. Apesar da promessa de Bartholomew de poupar a minha vida, a intenção dele era me matar. Ele não queria que nada ficasse entre vocês dois. Apesar de você ter dito que não me amava, ele ainda queria se certificar de que eu nunca mais daria as caras. Peguei a mão dele. — Então, Zac teria te matado de qualquer jeito? — Kit assentiu. — Que filho da puta! — Fiquei tão brava que senti que seria capaz de matar Zac outra vez. Mas pensei em outra coisa. — Você sabe que eu não estava falando sério quando disse tudo aquilo, né? Kit sorriu,


— Sei sim. Nunca vou me esquecer do dia em que você me disse que, sempre que pensasse em pintura, pensaria em como você me ama. Eu captei a sua mensagem. Naquele momento, eu soube que tinha que lutar. Quando Ian apareceu, ele me contou que Zac havia dado ordens para que me matassem. Ele conseguiu me tirar da casa às escondidas e me levou até uma fazenda abandonada a alguns quilômetros de distância. Lá eu encontrei Craig e alguns outros caras. Bolamos um plano para resgatar você no raiar do dia. Eu não ia deixá-la para trás de jeito nenhum. Ele enfiou o rosto em meu cabelo e eu suspirei. — Obrigada — suspirei e entrelacei os dedos aos dele. Kit plantou um beijo em minha cabeça. Senti-me feliz naquele momento e permiti que a euforia tomasse conta de mim porque sabia que ela não ia durar muito. Por enquanto, estávamos na estrada, rumo ao desconhecido. E em breve estaríamos em alto-mar, rumo ao desconhecido. Uma parte de mim mal podia esperar por isso, mas a outra parte queria se esconder em um cantinho como um carneirinho assustado. Eu tinha muito medo do desconhecido. Com Zac, eu conhecia o meu futuro. Ele já tinha planejado o meu destino. Quão irônico isso era? Chegamos em Southampton uma hora depois. Assim que estacionamos, pegamos as nossas coisas e fomos direto ao porto. Kit e Ian me seguiram porque nenhum dos dois tinham ideia de aonde deveriam ir em seguida. Segui em direção à loja de James e fiquei feliz por avistá-lo no balcão. Abri a porta e a sineta anunciou a minha entrada. Quando ele me viu, abriu um sorriso, mas logo ficou sério. — Olivia, é tão bom ver você. Mas eu estava torcendo para que você nunca viesse. Sem ofensa. Dei risada. — Não me ofendi. — Vi que ele olhou para Kit e Ian e franziu o cenho. — Oh, sinto muito. Estes são Kit e Ian. Kit e Ian, este é o James. Eles trocaram apertos de mão e James voltou a atenção a mim. — Imagino que você esteja aqui para sair em alto-mar. — Assenti. — Então imagino que você vai precisar das suas coisas? — Assenti novamente.


— Estão lá atrás. Ele apontou para trás e saiu. — Quem é ele? — sussurrou Ian. — É meu tio. Meu tio de verdade, da família da minha mãe. A única pessoa legal da minha família inteira. E a única pessoa na qual eu confiava para manter as minhas coisas a salvo. Não era difícil confiar nele depois que ele foi praticamente deserdado por minha mãe, que o acusou de usá-los por dinheiro e status. O único problema de James era que ele era bonzinho demais... E minha mãe não sabia lidar com coisas boas. James voltou com a minha grande mala preta e a colocou em cima do balcão. — Está tudo aqui, do jeitinho que você deixou. Assenti. — Obrigada por ter tomado conta disso por mim. — James sorriu. — Não precisa agradecer. — Ele olhou para Kit e Ian antes de voltar a atenção a mim. Parecia tanto com a minha mãe e, infelizmente, eu também parecia. Nós dois tínhamos os cabelos louros e os olhos azuis característicos. Bem, eu tinha, até que tingi os cabelos de castanho-avermelhado. — Então, para onde vocês vão agora? Dei de ombros. — Não sei. Talvez Chipre, Croácia, Cabo Verde, Costa do Marfim... Algum lugar que comece com C. Olhei para Kit. Ir para algum lugar que começasse com a primeira letra do nome dele parecia uma boa escolha. Ele era, no fim das contas, o meu herói. James deu risada e saiu detrás do balcão para me abraçar. — Bem, onde quer que você vá, cuide-se direitinho. Entendeu? Assenti, a cabeça recostada no ombro dele, e senti meus olhos se encherem de lágrimas. — Vou dar notícias. Ele se afastou e enxugou minhas lágrimas. — Fique em segurança. — Ele abriu um sorriso doce e então olhou para Kit e Ian. — Por favor, tomem conta dela por mim. — Ah, pode deixar — prometeram eles em uníssono. O pequeno sinal de desconforto no rosto de Kit não passou desapercebido. James pigarreou.


— Bem, Olivia... Comporte-se. Ele olhou para Kit e Ian, como se estivesse tentando passar uma mensagem. Ele não podia estar mais errado. Assenti, beijei-lhe a bochecha e peguei a mala. Kit a pegou de mim, sorriu e enlaçou a minha cintura com o braço. — Você está bem? — Neguei com a cabeça. — Não, mas vou ficar. — Olhei para Kit por um momento e senti a culpa surgir por tudo que o fizera passar. — Você está bem? Acho que ele conseguiu entender o que quis dizer, porque seu corpo estremeceu. — Vou ficar bem, Olivia. Com você ao meu lado, vou ficar mais do que bem. Ele abriu um sorriso adorável, mas não consegui evitar de me sentir uma merda por tudo que fiz. Se não fosse pela minha sede de vingança, Kit nunca teria sido violentado por aquela bruxa do caralho. Era como se eu o tivesse acorrentado eu mesma e gritado: ele é todinho seu! Seguimos em direção ao píer e ao meu barco. Mas, antes que chegássemos até ele, avistei alguém familiar. Arfei e levei a mão à boca. — Marcus! O que você está fazendo aqui? Kit me deu um cutucão. — Ele queria ver você. Virei-me para Kit, chocada, voltei a olhar para Marcus. Exibia um sorriso de orelha a orelha quando se aproximou para me abraçar. — Como você está, Olivia? Fiquei sabendo que você passou por maus bocados nos últimos dias. Sinto muito por isso. Queria ter sabido antes. Thomas tentou ligar para você, mas foi Ian quem atendeu. Olhei para Ian e franzi o cenho. Ele abriu um sorrisinho. — Zac queria que suas ligações fossem monitoradas. Também queria que descobrissem quem estava na sua casa. Foi assim que encontramos Kit. Foi assim que todos nós nos juntamos para bolar um plano para salvar você. — Ele lançou um olhar para o primo. — Infelizmente, Kit ficou impaciente tentando descobrir o que tinha acontecido com você aquele dia na clínica e foi capturado. Estremeci, mas assenti e voltei minha atenção para Marcus. Ele sorriu e pousou a mão no meu braço. — Eu sempre soube que tinha algo em você, mas não juntei as peças até que você desapareceu e eu encontrei Kit. Olhei para Kit, surpresa. — Não entendi.


Marcus pegou a minha mão. — Você foi drogada com Xanai. — Meus olhos se encheram de lágrimas e ele estremeceu. — Eu sinto muito, Olivia. Eu não tinha percebido. Aquela droga da qual eu te falei, a droga que minha esposa tomou, era Xanai. Eu sabia sobre ela e sabia que era errado, mas nunca fiz nada em relação a isso. Eu te contei que costumava trabalhar para pessoas horríveis e agora você sabe que também sou uma. — Ele baixou o olhar por um momento antes de olhar para mim. — Eu queria te ver antes que você fosse embora. Precisava explicar algo a você. Seu pai estava sendo manipulado, assim como você foi. Eu sabia sobre Zac Bartholomew porque eu costumava lidar com os homens dele. Como eu era um advogado, descobri algumas coisas. Confiavam-me informações porque sabiam o quanto eu queria virar sócio do escritório. Eles sabiam que eu faria qualquer coisa para conseguir aquilo. Ele soltou um suspiro antes de continuar: — Tinha uma outra droga experimental. Uma que causava medo e paranoia. Era chamada de “droga suicida” porque, eventualmente, faria com que a pessoa se suicidasse. Acredito que foi isso que matou o seu pai. Pisquei rápido, incapaz de assimilar tudo. Por anos, fiquei me perguntando por que meu pai havia tirado a própria vida. Agora eu já sabia a resposta. Arfei, lembrando-me de que, pouco tempo antes dele morrer, minha mãe dissera que os comprimidos só estavam piorando a condição dele. Deve ter sido isso. — Então, na verdade Zac é o culpado pela morte de meu pai? Marcus assentiu. — Ele também deve ter sido culpado pela morte de sua mãe. Franzi o cenho. — Mas ela morreu de câncer. Marcus meneou a cabeça e deu uma risadinha sarcástica. — Você ficaria surpresa com a quantidade de drogas que existem por aí. Há coisas tão cabeludas que a deixariam perplexa, Olivia. Quando ele viu meu cenho franzido, aproximou-se e acariciou meu braço. — Sinto muito por você ter que ficar sabendo disso agora, mas você sabe por que eu precisava falar com você. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto e eu assenti, sorrindo. — É claro. Fico feliz por você ter me contado isso. Fico feliz por você ter vindo até aqui só para me contar. — Franzi o cenho. — Como é que você veio até aqui? — Marcus deu risada. — Quando tudo aquilo aconteceu e eu conversei com Kit, pedi


para que ele mantivesse contato. Também fui visitar a minha irmã depois de anos. Nós não conversávamos desde a morte de Beth. Foi muito difícil reunir a coragem para ir até a porta dela e apertar a campainha. Mas eu consegui e fico muito feliz por isso. Desculpei-me a ela pela primeira vez na vida e ela me recebeu de braços abertos. Estou morando com ela desde então. Bem, eu e Thomas. Ele sorriu e fez um gesto para um poste. Thomas se materializou do nada. Arfei novamente. — Thomas, você estava escondido aí atrás esse tempo todo? Ele deu risada. — Gosto de causar surpresa. Dei um risinho. — Bem, você definitivamente me surpreendeu. Ele se aproximou e me deu um abração. Assim que nos afastamos, Marcus suspirou. — Bom, acho que está na hora de vocês três irem embora. Funguei um pouquinho, os olhos cheios de lágrimas. Thomas estremeceu. — Não ouse chorar, Olivia. Não aguento ver uma mulher chorando. Dei risada em meio às lágrimas. — Foi mal, Thomas. Ele viu a expressão em meu rosto e também começou a chorar. — Ah, vem aqui. — Ele me puxou para outro abraço. — Cuide-se, Olivia. Assenti, aos prantos, e afastei-me para dar um abraço em Marcus. — Agora você precisa pensar em você, Olivia. Sua hora chegou. Assenti e Marcus sorriu. Thomas deu um cutucão em Marcus. — É melhor a gente ir. — Ele olhou para mim. — A irmã dele faz um cheesecake maravilhoso. — Ele piscou. — Mas não é tão bom quanto seu pastel dinamarquês. — Ele lambeu os lábios e eu dei risada. — Cuidem-se vocês também, tá? Talvez vocês possam começar aquela agência de investigação da qual estávamos falando. Marcus deu risada. — Bom, nunca se sabe. Pode ser até que eu faça aquela outra coisa que você sugeriu e oriente pessoas que precisam de ajuda legal, mas que não tem dinheiro para bancar isso. Você me inspirou. Eu já fiz tantas coisas ruins em minha vida. Está na hora de fazer algo bom. Assenti. — Bom, cuidem-se. Vou sentir saudade.


Os dois assentiram e disseram: — Nós também vamos. Todos rimos, mas não havia tempo para risadas. Estava na hora de irmos embora. Com um aceno, eles se foram. Fiquei parada ali, completamente afobada e desnorteada. Finalmente obtive algumas respostas. Minha cabeça ainda estava fervilhando de perguntas, mas ao menos descobri o tipo de maldade com a qual Zac se cercou. Parecia que eu não tinha sido a sua única marionete. Meus pais também foram. Kit me puxou para si. — Você está bem? Assenti. — Estou. — Olhei adiante e avistei meu barco. — Vamos lá. Seguimos em direção ao barco e, quando Ian o viu, soltou um assobio. — Uau, você era realmente rica, hein, Olivia? Dei de ombros. — Nunca gostei de me gabar sobre isso. Subimos a bordo do iate de quarenta metros e seguimos diretamente para a sala de estar. Estava do jeitinho que eu me lembrava. Novinha em folha. Mal tinha sido usada. Só ficou ali por todos esses anos. Fiquei feliz por finalmente poder usufruir daquilo tudo. Ian se pôs a trabalhar e tirou a camiseta. Foi então que notei a tatuagem dele. Era idêntica à de Kit, mas exibia o número 83. — Todos vocês têm a mesma tatuagem? — Apontei para a de Ian. Kit assentiu. — Sim, era um sinal de que pertencíamos à agência. Não tínhamos nomes. Nós só éramos conhecidos por um número. Assenti e olhei para Ian. Ele parecia tão à vontade neste barco. Quando ele me viu encarando, olhou para mim. — O que foi? — perguntou, fingindo inocência. — Meu pai tinha um barco quando eu era criança. Costumávamos sair para pescar o tempo todo. Estar em um barco é como estar em casa. — Ele olhou ao redor. — Bem, nunca estive em um barco deste tamanho, mas consigo nos levar aonde quisermos ir. Ele abriu um sorriso radiante. — E aonde nós vamos? — quis saber Kit. Nós três nos entreolhamos e sorrimos. — Algum lugar que comece com a letra C — todos dissemos ao mesmo tempo. Mas eu sabia que a felicidade não duraria muito. Em algum momento, tudo que acontecera me alcançaria. Eu não sabia quando, mas sabia que aconteceria. Naquele momento, eu ainda estava em choque. Ainda estava seguindo em frente


como se estivesse normal. Um mau sinal para mim. Ian seguiu com os seus afazeres e eu fiquei feliz. Se ele quisesse ficar no controle das coisas, eu permitiria de bom grado. Não sabia nada sobre barcos. Acho que teria que aprender. — O que tem naquela mala? Coloquei-a na mesa e virei-me para Kit. — Eu gostava de planejar as coisas, só para o caso de algo acontecer. Eu meio que sonhei que, um dia, eu escaparia disso tudo. Não sabia que seria desta maneira, mas acho que foi um jeito tão bom quanto qualquer outro. — Suspirei. — Enfim, eu empacotei algumas coisas essenciais, como roupas, itens de higiene e... Abri o zíper da mala e peguei uma quantia enorme de dinheiro. Quinhentos mil, para ser exata. — Tem mais de onde veio isso aqui, mas acho que isso será o suficiente pelos próximos dois ou três anos. James sempre manteve o barco bem equipado. Quando algo estava prestes a vencer, ele pegava para ele e depois repunha. Acho que vamos ficar bem por alguns dias. Kit olhou para o dinheiro e depois para mim. Pude notar que estava lutando para dizer alguma coisa. O que dizer para a garota que você presenciara transando várias vezes com outro cara? Era uma conversa que eu não queria ter no momento. Kit hesitou, mas então decidiu falar. —Olivia, eu... — Eu vou checar a despensa antes de sairmos. Fique à vontade, sinta-se em casa. Saí apressadamente. Não podia lidar com aquela conversa naquele momento. Sentia-me enjoada sempre que pensava no que tinha acontecido. Apesar das circunstâncias, aquilo não diminuía o fato de que eu o traíra da pior forma possível. Eu sabia que ele ficaria enjoado só de pensar em encostar em mim. Sei que eu estaria caso a situação fosse inversa. Fui até um dos quartos que usávamos como despensa. Havia outros três, suficientes para todos nós. Observei tudo que havia ali. Analisei a lista com os itens e vi quanto tempo aquilo iria durar. Tirei uma caixa do caminho e algo caiu. Ajoelhei-me para pegar. Era um pincel. Fiquei parada ali, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. A lembrança do momento que Kit e eu compartilhamos no estúdio de pintura invadiu a minha mente. Senti um toque delicado em meu ombro e virei-me. Kit estava ali, olhando para mim. Era um homem de poucas palavras, mas seus olhos diziam tudo. Estava preocupado. Quando os soluços começaram, Kit me puxou para si e me abraçou. Ouvi o barco dando partida e zarpando, mas aquilo só serviu para


abafar o meu choro. Kit me pegou no colo e me levou para um dos quartos. Aninhou-me em seus braços e permitiu que eu chorasse por horas a fio. Chorei por tanto tempo e com tanta intensidade que, eventualmente, minhas pálpebras se fecharam e eu caí no sono.

CAPÍTULO VINTE E SEIS

Faz cinco semanas desde que atracamos em Anguilla. A princípio, havíamos navegado em direção a Cannes, mas decidi deixar os lugares que começavam com C para depois e me concentrar nos que começavam com A primeiro. Também queria me afastar o máximo possível de casa. Anguilla parecia um bom lugar para começar. O fato de eu ter dinheiro guardado naquela ilha também ajudou. Tínhamos acabado de terminar de jantar no nosso primeiro dia na ilha e estávamos apenas relaxando. Apesar de meu episódio de choro nos braços de Kit, eu ainda permanecia afastada dele. Não era porque eu não o queria por perto. Pelo contrário. Eu odiava afastá-lo dessa maneira e odiava saber que aquilo devia magoá-lo. Mas eu não conseguia evitar. Ian estava sendo a minha rocha. Ficávamos de bobeira e brincando um com o outro. Eu amava tê-lo conosco. Às vezes, minha fera silenciosa ficava sentada em um canto, na dele. Nunca dizia nada. Nunca expressava o que estava sentindo. Apenas me deixava quieta e, às vezes, eu o amava por isso. E, em outras vezes, o fato de ele não dizer nada me frustrava. — Por quanto tempo você quer ficar aqui, princesinha? Era assim que Ian me chamava agora. Dei risada, afastei o olhar de Ian e observei os arredores. Era um belo final de tarde e as luzes brilhavam ao meu redor. Podíamos ouvir as risadas de pessoas que dançavam e se divertiam na praia. — Eu não sei. Talvez algum tempinho. Gosto daqui. Ian arqueou a sobrancelha. — Então, nada de lições de barco por um tempo? Ri novamente, lembrando-me de alguns dias atrás quando eu quase


fiz o barco afundar. Acho que quase matei Ian do coração. Tudo que ele gritou foi: Meu Deus, mulher. Quão difícil pode ser guiar a porra de um barco?! — É, sem lições por uns dias. Ian suspirou, aliviado. — Graças aos céus. Dei um tapa no braço dele. — Ei! Ouvi um arrastar de cadeiras e percebi que Kit tinha saído de fininho em direção às escadas. Naquele momento, perdi a vontade de brincar. Ian olhou para onde Kit tinha ido e, depois, para mim. — Acho que vocês precisam conversar. Fiz careta. — Eu sei. É só que... É tão difícil depois de tudo que aconteceu. Ian assentiu e esticou o braço para pegar a minha mão. — Eu sei disso. Eu entendo que você esteja machucada, mas ele também está. Por favor, vá e acabe com o sofrimento dele. Eu sei que ele te ama. Isso está estampado na cara dele. Suspirei e fechei os olhos. — Eu sei. Ian levantou-se da cadeira. — Vou lá descobrir qual é a dessa barulheira toda lá na praia. Provavelmente vou tomar alguns drinques. Nunca se sabe. Pode ser que eu encontre a garota dos meus sonhos aqui nesta ilha. — Ele deu uma piscadela e se aproximou de mim. — Vá conversar com ele. Eu vou estar de volta amanhã de manhã. Acho que vocês dois precisam de um tempinho a sós. Ele deu um tapinha em minha mão, saiu do barco e foi em direção ao píer. Fiquei sentada ali por um momento, mas não conseguia pensar em nada a dizer. Sabia que precisávamos conversar, mas a dor era insuportável às vezes. O que eu poderia dizer a ele? Respirei fundo e fui em direção a Kit. Ele estava sentado no sofá,


encarando a escuridão. — Oi — cumprimentei e sentei-me ao lado dele. Ele olhou para mim, sorriu e virou a cabeça para o outro lado. — Kit, o que está acontecendo? Converse comigo. Vi as narinas dele se inflarem e os olhos se encherem de lágrimas. — Você parece tão feliz com ele. Eu queria ser capaz de fazê-la sorrir daquela maneira. Toda vez que você olha para mim, tudo que vejo é a dor estampada em seus olhos. Peguei a sua mão e quase engasguei quando vi uma lágrima escorrendo pelo seu rosto. — É porque você vê quem eu sou de verdade. Ele negou com a cabeça. — Não, não é isso. É quase como se você estivesse me afastando de propósito. Entrei em pânico e comecei a balbuciar: — Eu não estou entendendo o que você quer dizer com isso. Kit cerrou a mandíbula e outra lágrima escorreu pelo seu rosto. Odiava vê-lo desta maneira. Odiava vê-lo sofrer. — Você não me deixa chegar perto de você. Quando estamos deitados na cama, tenho medo de encostar em você. Você fica o mais longe de mim possível, mesmo que a gente esteja junto todas as horas de todos os dias. Desviei o olhar, sentindo-me completamente envergonhada. — Eu estou tentando. Nós dois sabíamos que isso não era verdade. — Parece que você não precisa tentar quando está com Ian. Você fica relaxada quando está com ele. Mas, quando está comigo, você fica toda tensa. É quase como se não suportasse a minha presença. Eu estava me esforçando tanto para não desmoronar. — As coisas são diferentes com Ian. Ele virou-se para mim em um gesto rápido e fixou o olhar no meu.


— Diferentes como, Olivia? Será que pode me explicar? — Porque ele não estava lá! — exclamei, abafando um soluço. — Ele não viu o que aconteceu comigo naquela noite. Você viu. Ele não teve que assistir a mulher que amava fazendo sexo várias e várias vezes, mesmo que ela estivesse odiando cada minuto daquilo. Você assistiu. Ele não teve que presenciar os meus soluços quando meu coração se partiu ao meio por causa do que eu tinha feito com você. Abafei um soluço novamente e tentei recuperar o fôlego. Kit estava aos prantos agora, nós dois finalmente havíamos liberado a nossa angústia. — Quando eu olho para você, Kit, vejo um homem que me ama, mesmo sabendo que ele deve estar enojado só de pensar em mim. Não é possível que você não sinta nojo de mim, Kit. Como é que você consegue suportar ficar no mesmo cômodo que eu depois de tudo que aconteceu? Ele agarrou os meus pulsos e olhou no fundo dos meus olhos. — Não foi culpa sua. Ele te obrigou, Olivia. Ele te obrigou a assistir o que aconteceu comigo e depois te obrigou a fazer o que fez. Kit afastou o olhar, envergonhado, mas ele não tinha culpa. A culpa disso tudo era minha. Foi a minha sede de vingança que nos meteu nessa enrascada. Não foi ele. Fui eu. Quando vi a dor em seu rosto, fechei os olhos e meneei a cabeça. — Como é que você consegue me tocar, Kit? Como é que você consegue suportar olhar para minha cara? Ele me chacoalhou. — Olivia, olhe para mim. Olhe. Para. Mim! — Abri os olhos e vi o desespero em seus olhos. — Você foi feita prisioneira naquela casa. Você foi drogada, forçada a fazer coisas inimagináveis e moldada para ser a escrava dele. Nada disso foi culpa sua. A culpa é toda dele. Foi tudo culpa dele. Eu não vou permitir que você assuma a culpa disso de jeito nenhum. — Tentei afastar o olhar, mas ele me chacoalhou. — Olivia, você foi vítima disso tudo. Ele olhou no fundo dos meus olhos, pedindo para que eu entendesse o que ele dissera. Desejando que eu compreendesse. — Quando olho para você, tudo que vejo é a mulher pela qual eu me apaixonei. Aquela que está sofrendo uma dor terrível. Aquela que está me


afastando, impedindo que eu a ajude a superar essa dor. Você faz ideia de como as últimas cinco semanas têm sido difíceis? Sabendo que você está sofrendo e não sendo capaz de reconfortá-la? Eu estou desesperado para chegar perto de você, Olivia. Desesperado para envolvê-la em meus braços todas as noites e convencê-la de que você está em segurança. Desesperado para afastar todo o seu sofrimento. E eu quero fazer tudo isso porque eu te amo, Olivia. Eu te amo tanto que dói. Por favor, não me afaste assim quando mais precisamos um do outro. Ninguém, ninguém mesmo, será capaz de mudar o que eu sinto por você. As lágrimas continuaram vindo enquanto eu absorvia o que ele havia me dito. Sabia que ele estava tentando me dizer que, apesar de tudo, eu ainda era a mulher que ele amava. Ainda era a mulher com a qual ele queria ficar. — Eu fico péssima toda vez que penso nisso, Kit. Isso fica revirando a minha mente até começar a doer. Eu nunca vou me esquecer de olhar para você e ver como estava arrasado. Nunca vou me esquecer dos seus gritos quando ele estava em cima de mim. Não consigo afastar os sons e as imagens da minha cabeça. Eu quero, mas não consigo. E eu não consigo entender como você ainda é capaz de me querer depois que ele me estragou... depois que ele me arruinou. Olhei para o chão, mas Kit me chacoalhou mais uma vez. Ele estava determinado a não me perder. Determinado a não permitir que eu me afundasse na escuridão. Estava me mantendo presa ao seu olhar porque sabia que ele era meu raio de luz em meio à escuridão. Minhas esperanças, meus sonhos e meus desejos estavam guardados naqueles lindos olhos. — Olivia, você não faz ideia de como eu estava perdido até encontrar você. Quando eu a vi no hotel aquele dia, alguma coisa em mim mudou. Eu tinha perdido a minha vontade própria e era controlado pela agência, agindo como um robô para cometer os atos mais terríveis. Ver a sua inocência me mudou naquele dia. Quando olhei nos seus olhos, pude ver o meu reflexo. Eu não estava feliz. Havia me tornado um escravo da agência e queria acabar com aquilo. Eu não me importava se você estaria ou não lá quando a bomba explodisse... Eu simplesmente não podia fazer aquilo. Ele fez uma pausa e continuou: — Então, quando eu te vi aquele dia no refeitório comunitário, deime conta de como eu estava solitário. De como eu queria ser feliz com alguém. Você me mudou quando era uma criança, e me mudou novamente quando se


tornou uma mulher. Como é que eu poderia perder isso? Como eu seria capaz de olhar para você com qualquer outro sentimento que não devoção? Eu preciso de você como preciso de ar. Por favor, Olivia. Por favor, não me afaste. Por favor, deixe-me amá-la e tentar tornar as coisas mais fáceis. Por favor, deixe que eu me aproxime e dê o meu melhor. Você traz o meu melhor à tona. Com você, eu sempre sinto que sou o melhor homem que posso ser. Olhei para ele e tudo que pude enxergar foi a sinceridade em seu rosto. Naquele momento, eu o amei mais do que nunca. Não consegui mais segurar, porque, apesar da minha cabeça me dizer como eu era patética, Kit estava curando meu coração. Ele estava tentando me curar e eu queria ser curada. Eu não queria que a escuridão se apossasse de mim. Eu queria viver porque isso significava que eu poderia passar a vida toda ao lado desse homem lindo. O homem que eu não merecia, mas que estava se oferecendo a mim por inteiro. Era impossível dizer não. Eu jamais diria não. Quando eu me inclinei para frente, Kit olhou para os meus lábios. Não se moveu, apenas deixou que eu desse o primeiro passo. Rocei os lábios contra os deles e senti o seu hálito quente. Aquilo me fez querer mais. Beijei-o mais uma vez. Desta vez, o beijo foi mais longo e uma dança lenta começou entre nós. Naquele ponto, minha respiração estava mais acelerada. Eu estava pegando fogo por este homem que se entregara a mim incondicionalmente, sem medo e sem hesitação. Eu sabia que, no momento em que ficássemos juntos de novo, não teria mais como voltar atrás. Ele me fazia querer lutar contra a escuridão. Fazia-me ter vislumbres do futuro. Um futuro tão brilhante que meu coração quase explodiu no peito. O nosso beijo ficou mais intenso e Kit se afastou. Senti a sensação de perda que sua boca deixou na minha. Ele envolveu meu rosto com as mãos e enxugou a última lágrima que escorria em minha bochecha. — Para sempre? Olhei para o rosto deste homem. O homem que me cativou desde que eu tinha dez anos de idade. O homem que me deixava ser quem eu era. O homem que me deixava ser livre. Abri um sorriso e inclinei-me para a frente.


— Para sempre — sussurrei.


EPÍLOGO

Isso me traz de volta ao início da história. Muita coisa aconteceu desde então, mas imagino que você ainda está se perguntando algumas coisas. Imagino que você ainda está querendo saber o que realmente aconteceu, quem eu era de verdade e como a agência era administrada. Bom, deixe-me começar do princípio. Eu era um membro da realeza. Quem diria, não é? Meu pai era um descendente direto de uma certa rainha que viveu centenas de anos atrás. Não vou dizer quem, mas acho que você consegue imaginar. Para resumir, o trono da Noruega foi oferecido ao meu pai, mas ele recusou para ingressar na carreira política em seu próprio país. O local onde ele nasceu e que tanto amava. Mas isso não impediu que os meus pais se aproveitassem da herança sempre que podiam. Quando nasci, fui apenas uma inconveniência para eles. Eles não me queriam. Eles queriam alguém que pudesse dar seguimento à linhagem. Era para eu ter nascido homem, mas, Ei... Imprevistoss acontecem. Agora, eu finalmente sei que Zac teve algo a ver com a morte de meu pai. Sei que ele tirou a própria vida, mas não preciso pensar muito para descobrir quem foi responsável por colocar a arma na cabeça dele. Afinal das contas, Zac era um mestre de manipulação. Ele provavelmente ficava repetindo a meu pai que, quem quer que estivesse tentando matá-lo, estava chegando cada vez mais perto. Eu não sei se foi isso mesmo e, na verdade, nem devia me importar. Eu amava o meu pai, mas que tipo de pai promete a mão da filha a um monstro? Tudo que eu sempre quis foi ser amada por ele. Mas acho que isso era muito a se pedir. E isso me leva a Zac. Acho que ele simplesmente me queria porque eu era uma princesa... Ou podia ser uma, pelo menos. Ele queria o meu legado. Além disso, o fato de ser capaz de controlar cada movimento que eu dava, fazia com que ele se sentisse o cara mais poderoso do mundo. E ele foi mesmo... por um tempinho. Ele era o líder da agência. Um esquadrão de soldados do exército treinados para seguir ordens ou morrer. Era basicamente isso. Kit não era diferente. A única diferença é que, quando tinha 19 anos, Kit foi capturado por Zac enquanto se defendia de seis assaltantes. Zac ficou tão impressionado que acolheu Kit em suas asas e o treinou para ser um agente. Kit era tão jovem e impressionável. Que tipo de cara de 19 anos recusaria uma oportunidade dessas? Agentes secretos, operações secretas... Tudo isso. Deixei-me reformular as coisas. Sabe quando alguma pessoa muito


importante morre de forma misteriosa e começam a surgir teorias da conspiração alegando que, na verdade, aquela pessoa foi assassinada? Bom, essas teorias geralmente eram verdadeiras e provavelmente era a agência que estava por trás disso tudo. Eles governavam todas as pessoas que governam você. Eles eram as pessoas responsáveis por controlar as marionetes, mas mantinham-se na sombra, sempre observando. Todo o meu mundo consistia em mentiras e segredos. Pessoas cheias da grana que tinham uma grande quantidade de poder em mãos. A agência não era nada diferente. A diferença é que eles controlavam o mundo. Eles se certificavam de que tudo andasse nos conformes e que o povo continuasse alheio ao que acontecia de fato. Ninguém podia acabar com eles. Não tenho dúvidas de que logo Zac será substituído para que o mundo possa continuar girando. E quanto a mim? Estou mais feliz do que nunca. Tenho Kit ao meu lado todos os dias e o nosso amor só aumenta. Já faz dois anos desde que zarpamos em alto mar. Estou em processo de cura e me sinto melhor do que nunca. Ainda tenho alguns momentos ruins, quando penso no meu passado e na minha história com Zac, mas isso está melhorando a cada dia que passa. Com um homem tão maravilhoso ao meu lado, como poderia não melhorar? Acabamos de sair da Austrália e estamos zarpando em direção a Deus sabe onde. Tivemos que nos despedir de Ian. No fim, ele não encontrou a mulher dos sonhos em Anguilla, mas a encontrou na Austrália. Ficamos o máximo que pudemos antes de o inverno chegar, mas, como sempre, nunca podíamos ficar no mesmo lugar por muito tempo. Ficaríamos bem desde que estivéssemos sempre em movimento. Vou sentir muita saudade de Ian, mas fico feliz por ele ter encontrado o seu final feliz. Quatro meses atrás, ele veio até nós e confessou: — Encontrei uma passarinha. Ela me curtiu. E foi isso. Quando chegou a hora de irmos embora, Ian teve que tomar uma decisão. Vamos manter contato, mas ele está onde quer estar e Kit está feliz pelo primo. No começo, Kit estava com ciúmes de como eu e Ian nos dávamos bem, mas depois viu que era apenas amizade. Ian é primo de sangue de Kit, mas eu sempre vou considerá-lo como parte da minha família. Abri um sorriso. Não demora muito até que Kit me envolva em seus braços e fiquemos observando o horizonte. Ele acaricia minha barriga inchada e sinto um friozinho ali. Não preciso de muito.


O que me traz à outra parte importante de nossa vida. Como você já deve ter imaginado, Kit e eu vamos ter um filho. Tenho que admitir que, a princípio, fiquei chateada porque não queria que nosso filho ou filha tivesse uma vida como a minha, sempre fugindo de um lugar para o outro, sem nunca fincar raízes em lugar nenhum. Mas Kit afastou esse pensamento. — Esse bebê será mais amado do que qualquer coisa no mundo. E isso foi o suficiente para afastar o meu medo. Ele ou ela receberá todo o amor do mundo porque Kit e eu vamos nos certificar disso. Estamos determinados a amar tanto este bebê que ele nunca se sentirá solitário como eu me sentia quando era criança. É a única coisa que me conforta. — Então, para onde vamos agora? — pergunta Kit, beijando meu pescoço e abrindo aquele sorriso lindo que ele tem. Ergo o olhar para ver seu rosto adorável e faço carinho nas mãos que envolvem a minha barriga. Penso na vida crescendo dentro de mim e só consigo pensar em uma resposta. Neste momento, é a única resposta possível. — Que tal algum lugar que comece com B?


CAPÍTULO BÔNUS

Agente Christopher Chainey (número vinte e quatro)

Três anos... Eu estava fazendo isso há três anos. Já tinha matado pessoas, armado para pessoas e chantageado mulheres depois de ter lambido suas bucetinhas até que elas gritassem de prazer. Fiquei tão excitado com algumas que poderia tê-las comido naquele momento, mas sabia que sempre estava sendo observado. Além disso, eu sabia que sempre podia procurar Maria depois. Ela sempre estava lá quando eu precisava. Às vezes eu a fodia com tanta força que pensava que a tinha machucado, mas seus gritos de prazer me diziam o contrário. Ela era uma boa foda, mas, também, a única que eu conhecia. Perdi a virgindade com ela quando tudo isso começou. Eu só tinha dezenove anos. Nunca tinha encostado em uma mulher antes porque eu era muito na minha. A agência resolveu isso. Agora, eu era um lutador. Agora, eu era um assassino. Segui em direção ao quarto do hotel. Tinha uma bomba em mãos e minhas ordens diziam para armá-la no quarto dos Caudwell. A única coisa que me disseram foi que Charles Caudwell estava fazendo negócios com o Oriente Médio. Negócios que ele não deveria estar fazendo. Ele tinha que ser assassinado de tal forma que parecesse um atentado terrorista. Plantar uma bomba parecia o melhor meio de conseguir isso. Entrei no quarto e fui em direção ao guarda-roupa. Fui informado de que o fundo do guarda-roupa tinha sido preparado para que eu enfiasse a bomba ali. Tudo que eu precisava fazer era tirar o tampo e colocar a bomba embaixo. Comecei a trabalhar em retirar o pedaço de madeira e, claro, ele saiu. Tirei-o dali e armei a bomba para que explodisse em quarenta e cinco minutos. Estava colocando o tampo de volta quando ouvi a porta do quarto se abrir e vozes ressoarem do corredor. Merda! Corri até a porta e me escondi atrás dela. Vi os Caudwell passarem reto e suspirei, mas, então, vi outra pessoa. Naquele instante, não consegui me mexer.


Era uma garotinha com longos cabelos louros e os olhos azuis mais cativantes que eu já tinha visto. Consegui enxergar o sofrimento naquele olhar. Era quase como se eu estivesse olhando para mim mesmo. — Pare de andar assim. Quantas vezes eu já disse para você agir como uma dama? Você é uma Caudwell. Aja como uma. Vi o olhar triste em seu rosto e meus olhos se arregalaram. Ela não devia estar aqui. Ela não era parte do acordo. Eu concordara em matar adultos e até já tinha feito isso, mas eu me recusava a assassinar crianças. Não podia matála. Eu não ia viver com a morte dela pesando a minha consciência. Esperei até que ela passasse e corri de volta para desarmar a bomba. Eu sabia o que tinha que fazer. Ergui o tampo de madeira e digitei o código de acesso para desarmá-la. Eu sabia que, no minuto em que fizesse isso, estaria assinando minha sentença de morte. Mas não me importei. Já estava nessa vida há três anos e já era o suficiente para mim. Só precisei ver a tristeza estampada no rosto daquela garotinha para me dar conta do monstro que eu havia me tornado. Perguntei-me como ela me olharia se soubesse o que eu estivera prestes a fazer. Não conseguia suportar. Estava prestes a colocar o tampo de volta quando ouvi a voz da garotinha. — Tá bom, mamãe. Onde está o meu casaco? Não consigo encontrá-lo. Merda! Ela seguia pelo corredor e aproximava-se do quarto cada vez mais. — Acho que está no meu quarto, Olivia. Vá até lá pegá-lo. Porra! Eu sabia que ela ia me encontrar. A única coisa que eu podia fazer era me esconder no guarda-roupa e torcer para que ela não me visse. Entrei rápido, mas não consegui me esconder completamente. Meu coração estava acelerado no peito, ciente de que ela poderia me ver e chamar os pais. Eu bem que merecia. Tinha uma arma na cintura, mas não queria usá-la. Eu não ia matar ninguém. Já tinha tomado essa decisão, mas, se chegasse a esse ponto, eu teria que usar a arma para assustá-los e conseguir escapar. A garotinha aproximou-se, saltitando. Ela parecia mais feliz agora do que estava quando a vi pela primeira vez. Avistou o casaco na cama e foi


pegá-lo. Quando começou a se virar para ir embora, ela notou alguma coisa. Seu olhar quase recaiu sobre mim. Meu coração começou a bater cada vez mais rápido. Eu sabia que seria pego e teria que assustar essa garotinha. Eu realmente não queria fazer isso, mas faria se fosse necessário. Ela pendeu a cabeça para o lado, como se estivesse tentando identificar o que havia ali. Deu alguns passos à frente e eu soube que ela tinha me visto. — Olivia, venha logo! Ela se sobressaltou diante da voz e aquela foi minha deixa para sair o mais rápido possível. Ela virou a cabeça em direção à porta e gritou: — Tá bom, mamãe. Já estou indo. Foi neste momento que corri até a porta como um raio. Vi quando ela virou a cabeça para olhar para o guarda-roupa, mas eu já não estava mais lá. Tentei passar pela porta da forma mais rápida e silenciosa possível. Estava prestes a sair quando a garotinha olhou para mim. Seus olhos se arregalaram e pensei que ela ia gritar. A única coisa que consegui fazer foi levar os dedos à boca. — Shh — pedi. Ela não disse nada, apenas continuou me encarando. Quando me dei conta de que ela não ia gritar, agradeci aos céus pela minha sorte e saí às pressas. Quando saí do hotel, entrei na minha Range Rover preta e fui embora daquele lugar. Naquele momento, eles já deviam saber que eu estive no quarto e, nos próximos minutos, provavelmente encontrariam a bomba. Assim que o chefe descobrisse que eu a desarmara, ordenaria que eu fosse morto. Eu tinha que abandonar o carro e pegar o máximo de coisas que conseguisse. Minha única chance de sobreviver era viver às escondidas. Minha vida como agente tinha chegado ao fim. Mas, de qualquer forma, eu não a queria mais. Estava cansado dessa vida. Aquela garotinha foi o meu raio de luz em meio à escuridão. Estava tão grato a ela por ter entrado naquele quarto e me feito enxergar o tipo de homem que eu havia me tornado. Depois de sair de Londres, abandonei o carro, peguei os meus pertences e segui pela estrada rumo ao desconhecido. Por sorte, eu sempre fazia


planos para caso acontecesse alguma coisa. Sempre levava minhas coisas comigo se a merda atingisse o ventilador e eu tivesse que fugir. Bom, a merda tinha acabo de atingir o ventilador. Mas tudo que senti foi o alívio de finalmente estar livre. Pela primeira vez na vida, eu me senti livre. Respirei fundo e toda a ansiedade que me acompanhara nos últimos três anos se esvaiu. Eu sabia que esse sentimento não ia durar. Sabia que viveria o resto da vida olhando por sobre o ombro, com medo de estar sendo seguido e tendo que mudar de lugar constantemente. Sabia que Zac procuraria por mim. Sabia o que aconteceria quando ele me encontrasse. Eu jamais conseguiria escapar daquilo. Eu já era um homem morto.


AGRADECIMENTOS

Essa história foi um pouco difícil, mas fico feliz por tê-la começado. Queria capturar o elemento da luz contra escuridão e espero ter conseguido manter a história interessante até o fim. Foi um processo um pouco complexo, para dizer o mínimo. Algumas cenas foram difíceis de escrever (acho que você consegue imaginar quais) e os personagens eram muito únicos à sua própria maneira. Zac deu um trabalhão. Vai ser interessante saber quais são as suas opiniões sobre o personagem. Sem dúvida, há muito a se discutir sobre ele. Não posso agradecer à minha família o suficiente. Eles são tão pacientes e me apoiam tanto. É surreal. Às vezes fico ali digitando, ou apenas sentada e sonhando com os meus personagens. Não sei como vocês me aguentam. Eu amo muito todos vocês e agradeço aos céus por tê-los em minha vida. Gostaria de agradecer minhas garotas maravilhosas, Sabine Willems e Sally-Ann Hall por terem lido o primeiro rascunho. Vocês duas me deram um feedback maravilhoso e eu amo muito vocês duas! Também gostaria de agradecer minhas leitoras beta, Amy Evans e Lynn Blockley. Eu procuro por leitores beta no Goodreads, de preferência alguém que ainda não tenha escutado falar de mim. As duas leram o rascunho original e me forneceram um feedback cheio de sugestões incríveis. Amy me enviou uma foto de um coração, metade vermelho e metade preto. As duas metades estavam amarradas à uma fita que as mantinham presas juntas. Amy estava tentando me mostrar uma imagem de como eu deveria relacionar a escuridão e a luz. A imagem me ajudou imensamente e eu queria agradecê-la por isso, Amy. Espero que isso tenha se tornado uma história sólida e boa. Tenho certeza de que quem a ler, vai me contar se gostou ou não. Também quero agradecer Our Bookstars, Devilishly Dirty Book Blog, Loving The Books, M&D’s Have You Read Your Book Blog, Pimp & Whore Your Book/Blog/Page/Group/Author/Writer/Street Team Here e What To Read After Fifty Shades of Grey por me estimularem sempre que possível. Sei que ainda existem outros e sinto muito se não os mencionei. Todos vocês fizeram um excelente trabalho e, como sempre, eu tiro o chapéu para vocês. Também quero agradecer à Summer Clark e Joe Rossi da Summer’s Book Blog. Tivemos conversas ótimas e estou muito orgulhosa por poder chamá-


los de amigos. Muito obrigada por todo o seu apoio. Foi um prazer conhecer vocês dois. Como sempre, quero agradecer Line Norgaard Fallesen e Serena Kett por sempre estarem presentes e escutarem os meus devaneios. Geralmente é sobre prosecco, sapatos e homens fictícios, então, eu não ficaria surpresa se vocês pensassem que eu sou maluca. Mas, na verdade, acho que as coisas que eu escrevo já fazem com que vocês pensem isso! Quero agradecer Kellie Dennis da Book Cover By Design por criar a capa mais fantástica de todas para Acorrentado. As mensagens que recebi em relação à capa são surreais. Então, obrigada pelo trabalho incrível, Kellie! A capa está maravilhosa! Como sempre, meus agradecimentos à minha editora, Kim Young. Além de ser uma editora fantástica, ela também é uma pessoa fantástica. Ela tem muita paciência comigo e sou muito grata por isso. Ela edita qualquer coisa, podem acreditar em mim. Ela provavelmente vai editar até isso aqui! Por último, eu queria agradecer a você, leitor, por me dar a oportunidade de mergulhar no meu próprio mundo de faz-de-conta. Sou extremamente grata por isso. Muito obrigada a todos vocês. Espero que eu possa continuar a escrever histórias e que vocês continuem a aproveitá-las. Cuidem-se e boa leitura! Beijos, Jaimie


Conheça outras OBRAS da autora, lançadas pela editora Bezz

DEPRAVADO

A maioria dos contos de fadas termina com um “felizes para sempre”. Este não é um conto de fadas. Ele não é um príncipe encantado que vai levá-la em direção ao pôr do sol. Esta é uma história sobre traição, luxúria, desejo e, em última análise, vingança... E a vingança só pode conduzir a uma coisa. Tyler Ele era um estranho, meu visitante, a sombra no canto do quarto. Ele me perseguia, me observava, sabia tudo sobre mim. Mas tudo que eu podia fazer era sentar e esperar. Esperei que ele me visitasse, noite após noite. Ele estava se tornando o meu vício, meu desejo, minha obsessão. Ele conhecia cada centímetro do meu corpo, mas eu não sabia nada sobre ele. Ele se autodenomina Lótus e, tão maluco quanto possa parecer, acho que estou me apaixonando. Dean Eu queria pegá-la, possuí-la, dominá-la e arruiná-la. Eu queria violentá-la, agradá-la e consumi-la até que eu não pudesse sugar mais nada dela. Ela vai querer que eu a beije. Que a segure durante toda a noite para que tenha uma conexão comigo. Eu gostaria de fazer isso, quando ela me procurasse na escuridão. Ser aquele que satisfaz sua maior fantasia. Um estranho que foge para o quarto dela. Alguém que lhe dá o máximo de prazer, mas, também, busca o seu maior sofrimento. A dor que ela nunca teve que suportar. A dor que irá corroê-la até que não haverá mais nada. Ela era a minha inimiga, eu era o seu lótus. E a vingança é uma merda.


REDENÇÃO

Como alguém pode ser capaz de superar uma traição tão devastadora, uma que chega a dilacerar os ossos e se enraizar bem lá no fundo? Não há como perdoar uma mágoa assim... Ou há? Desde que Tyler tinha seis anos de idade, ela se apaixonou pelo menino atrevido de oito anos, de cabelo negro espetado, olhos azuis cativantes e uniforme amarrotado. Desde o momento em que ele bateu em um colega por tê-la machucado, Tyler soube que não tinha volta. Eles estavam destinados a ficar juntos... Sempre. E então tudo mudou. O palco foi montado como uma tragédia Shakesperiana, e o mundo que Tyler e Dean conheciam se extinguiu. Mas seria mesmo? Tyler Agora meu nome era Jessica. Forjei minha própria morte, mudei minha identidade e percorri milhares de quilômetros só para escapar do único homem que não consegui expulsar do meu coração. Tinha um filho de quatro anos, que adorava mais do que tudo no mundo. Em uma noite horrível, a vida que construí desapareceu num piscar de olhos. Deixei pessoas para trás. Pessoas com quem me importava. Pessoas que jamais esqueceria. Pessoas que amava. Mas será que eu tinha mesmo seguido em frente? Ninguém me disse que deixar para trás aquele que eu amava desde os seis anos seria fácil. Vivia minha vida dia após dia. Até conheci um homem e sosseguei. Qualquer mulher desejaria um cara como Evan. Então por que eu não conseguia amá-lo do jeito que ele me amava? Por que não conseguia superar o garoto de cabelos escuros e olhos azuis que me consumia todas as noites? Podia tê-lo deixado, mas ele nunca me deixou realmente. Eu nunca conseguiria amar outro homem. Dean se certificou disso no dia em que entrou na minha vida. Agora, eu era apenas metade de uma mulher; magoada e ferida pelo único homem que pensei que sempre amaria e em quem confiaria. Como esquecer algo assim? Mas era o que precisava fazer. Era o que tentava todos os dias. Estava sobrevivendo, lidando com tudo para não desabar. Mas um novo desastre aconteceu. E foi exatamente nesse dia... Que tudo mudou.


Dean Você não pode se esconder para sempre, Tyler. Eu sempre irei persegui-la, sempre irei buscá-la, sem jamais desistir. Se há uma certeza em sua vida, que seja essa. Você escapou por entre meus dedos, não apenas uma vez, mas duas. Levou meu coração quando me abandonou naquele dia. Nenhuma quantidade de álcool, mulheres ou treinos conseguiram bloqueá-la da minha mente. Você não pode estar morta. Eu não permitiria que estivesse. Você está em algum lugar. Tenho que parabenizá-la por ter me enganado por tanto tempo. Você sempre foi uma garota esperta. Como não me apaixonaria por você? Você escapou de mim desta vez, mas vou encontrá-la, Tyler. É uma promessa. E quando esse dia chegar... Finalmente vou te tornar MINHA.


SOBRE A AUTORA

Jaimie Roberts nasceu em Londres, mas mudou-se para Gibraltar em 2001. É casada, tem dois filhos e usa o seu tempo livre para escrever. Em junho de 2013, Jaimie publicou seu primeiro livro, Take a Breath, e a segunda publicação ocorreu em novembro do mesmo ano. A partir das avaliações que recebeu, Jaimie aproveitou para ler e aprender a se tornar uma escritora melhor. Ela se diverte muito escrevendo e ainda mais lendo os feedbacks que recebe dos leitores. Caso você queira enviar uma mensagem para Jaimie, pode fazer isso por meio do Facebook da autora: www.facebook.com/AuthorJaimieRoberts


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Compre agora e leia A emoção da fuga A Srta. Annie Andrews está finalmente livre para se casar com o homem que ama. Com sua irmã superprotetora fora do país em lua de mel, nada pode impedir sua fuga para Gretna Green - nada, a menos que ela seja sequestrada pelo cavalheiro errado. A doçura da rendição Quando Jordan Holloway, o Conde de Ashbourne, prometeu cuidar da cunhada de seu melhor amigo, ele não imaginava que ela pudesse ser tão difícil. Mas quando ele a sequestra para sua casa de campo na tentativa de evitar uma nova fuga, ele descobre que a beleza sedutora sabe como lutar. Para piorar a situação, ele está preso no papel de honrado protetor... quando o que ele realmente quer é ele próprio fugir com ela. Compre agora e leia


Louco por você Bezerra, Elizabeth 9788568695715 465 páginas

Compre agora e leia Farto de mulheres temperamentais e voluntariosas, Liam deseja mulheres mais maduras. Alguém que apreciasse um bom jantar, tivesse uma conversa agradável, que retribuísse o carinho e acolhimento de sua família e gostasse de crianças, principalmente de suas endiabradas sobrinhas gêmeas. Alguém em que a carreira fosse importante, mas não mais do que as pessoas que amava. Que achasse graça de suas piadas, mas que o fizesse rir também. Existiria alguém assim? Para ele soava improvável. Até conhecer Julienne e se dar conta de que ela era tudo isso. Ela carregava o frescor da juventude e inocência, mas também representava tudo o que ele pensava querer evitar no momento. No entanto, driblar a atração que ela exerce sobre ele não é fácil.... principalmente quando Julienne é tão irresistível e parece completá-lo de todas as formas. Liam tinha descoberto tarde demais o amor ou ainda haveria tempo de provar o quanto era louco por ela? Compre agora e leia


Table of Contents CAPÍTULO UM CAPÍTULO TRÊS CAPÍTULO QUATRO CAPÍTULO CINCO CAPÍTULO SEIS CAPÍTULO SETE CAPÍTULO OITO CAPÍTULO NOVE CAPÍTULO DEZ CAPÍTULO ONZE CAPÍTULO DOZE CAPÍTULO CATORZE CAPÍTULO QUINZE CAPÍTULO DEZESSEIS CAPÍTULO DEZESSETE Capítulo Dezoito Capítulo Dezenove Capítulo Vinte Capítulo vinte e um Capítulo vinte e dois Capítulo vinte e três Capítulo vinte e quatro Capítulo vinte e cinco Epílogo Capítulo bônus

Profile for Ana Paula Oliveira

Acorrentado - Jaimie Roberts  

Depois da perda devastadora de seus pais e de ter enfrentado uma depressão, Olivia Brown decidiu recomeçar a viver num novo lugar. Por isso,...

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