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Vai surgir um outro tipo de amor Ana Paula Lisboa Quando era criança minha mãe carregava, na bolsa, sacolas do supermercado Nova Olinda para o caso de eu ou minha irmã precisarmos vomitar no ônibus. Uma das duas sempre vomitava. Às vezes as duas. Às vezes só eu, que sempre fui a mais enjoada. Ler dentro de veículos em movimento me dá enjoo até hoje, mas com a Avenida Brasil parada, ultimamente tenho dado pra ler. Livro vermelho de luxuria, A casa dos budas ditosos. Agora na van, de bancos de couro reluzentes, eu como o livro, viciada. Poucos lugares vazios e sento na fileira do meio. O trocador da van tem uns treze anos. A página é a 139, lendo interessadíssima e excitadíssima a personagem descrever suas férias em Porto Seguro, em que viveu umas das melhores experiências da vida de sacanagem: “A redução é a seguinte, sabe o que é a vida? É foder. A vida é foder.” Volto do livro ouvindo gritos, ouço um nome que vai ser repetido várias vezes durante a viagem: William. - William, escuta o que eu vou dizer... Era uma mulher, aos berros no telefone, com o William. - Você me ligou ontem às duas da tarde, você me chamou... Ela sentada ao lado do motorista, de costas pra mim. O primeiro desejo foi não dar atenção, não é a primeira vez que encontro um louco na van do 696. Queria voltar para a história... “Nos transformamos num novelo e, no fim, Fernando entrou em rebordosa e ficou numa paudurisia inaudita, comeu nós duas e gozou na boca dela. Isso se repetiu até as férias dela acabarem e, no fim, ela nos disse misteriosamente que era casada e, por mais que tentássemos, nunca mais a vimos, mas eu não a esqueço como a mulher que eu mais gostaria de ter tido sempre ao pé, para a gente se comer.” Mas aí ouvi: - William, você tá fodendo com meu coração, William! Você tá fodendo com meu coração... Não pude continuar a ler. Ela agora era o meu livro. - Não? Você disse: Alice, vai ter um churrasco na Casa do Marinheiro e eu quero que você vá. Hoje me montei toda, me travesti de Beyoncé. Eu fui de coração aberto pra você. Aí você entra no seu carro, vê o seu DVD quebrado e diz que fui eu? Vai tomar no teu cu William, vai se foder! Todas as pessoas começaram a prestar muita atenção. Primeiro disfarçando, olhando pela janela e pensando “não tenho nada a ver com isso”, mas depois rindo e comentando uns com os outros.


- É isso mermo que eu tô falando, vai se fuder, vai tomar no teu cu. Para quê que eu ia quebrar o seu DVD? Foi a Sabrina que disse isso, não foi? Aquela filha da puta, ela não quer ver a nossa felicidade, William... Olhei para o cenário e pensei num filme: seis da tarde, Avenida Brasil parada, sexta-feira. Dentro da van toca música de uma rádio gospel e o motorista aumenta o som, para que as pessoas se liguem menos na conversa. Mas não adianta. - Você tá aí no bem bom, com a sua mulherzinha do lado e eu tô aqui, dentro de uma van, toda fodida. Uma porrada de mulher que você bota no teu carro e a culpa é de quem? É minha! Por que a culpa é sempre minha, William? Comecei a sentir pena da Alice e o pior de tudo é que eu não conseguia ver o rosto dela. Gosto de olhar nos olhos das pessoas, até das desconhecidas, especialmente em momentos de ódio extremo ou de gozo absoluto. Tem gente que não gosta, mas eu não viro os olhos naquelas horas, eu prefiro olhar bem fundo. - Tinha um monte de marinheiro lá, dando em cima de mim, contando historinha engraçada, eu não fiquei com ninguém, por quê? Porque eu queria o William. Você é policial, tira as minhas digitais, vê se tem as minhas digitais no seu DVD! Pensei então que ela podia ser que nem eu, viciada em séries como CSI e Law and Order, que ela também morria de tesão nos policiais negros americanos tipo o Jessé L. Martin e o Gary Dourdan. De repente Alice passa a falar baixinho e a gente tem que esticar os ouvidos, ninguém quer perder um detalhe. - William, eu nunca pedi pra você deixar sua mulher. Você não pode me deixar sozinha, você vai me deixar na pior? Depois de tudo que eu fiz? Depois de tudo que eu enfrentei? Não, você não vai. Nem que eu tenha que te matar! Aí comecei a sentir pena do William e a pensar que talvez ele nem seja assim tão filho da puta como a Alice acha. Talvez ele tenha se encantado com ela, talvez ele sinta saudade quando eles não podem se comer, talvez ele até tenha sentido vontade de beijá-la na boca na frente de todo mundo na festa, mas não pôde. A ligação termina. Alice desce em frente à favela do Jacarezinho. Negra, linda, de cabelos longos, vestidinho preto bem curto, salto alto, corpão. Não teve um que não olhou pela janela, não teve um que não sentiu falta do seu vozeirão o resto do caminho. Não teve um dia desde então que eu não tenha vontade de encontrar a Alice de novo e perguntar pelo William.

Vai surgir um outro tipo de amor - Ana Paula Lisboa