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Jornal-laboratório da Faculdade de Comunicação da UnB | De 1 a 7 de maio de 2012

42 ano

CAMPUS

edição

378

Viajar por

ESPORTE

T RANS sexua Difícil

lidade

Primeira

WEB

O AVESSO DA ESTATÍSTICA

Invasão no Areal nega bons índices da educação no DF. Um terço das crianças e jovens em idade escolar não estudam

SÉRIE

brasiliense


Opinião A ameaça de greve dos professores de escolas públicas do DF veio em outubro do ano passado e a paralisação ficou marcada para março de 2012. Reestruturação do plano de carreira, aumento do vale-alimentação, plano de saúde e isonomia salarial com outros servidores públicos preenchiam a lista de reivindicações. As propostas de reajuste do GDF foram pequenas aos olhos do Sindicato dos Professores, que se mantém irredutível. A vontade dos educadores é de que, em 2014, o salário de início de carreira seja quase R$ 8 mil (como o dos médicos), enquanto o governo propõe um valor de R$ 5 mil como piso, ante aos cerca de R$ 4 mil que valem agora. O poder deveria investir mais nos profissionais da educação, e estes têm, é claro, todo direito de lutar por meio de greves, passeatas, cercos ao Palácio do Buriti e tudo mais. O problema é que a luta dos profissionais da educação termina em seus próprios umbigos, em seus

por | ANA PAULA LISBOA

próprios salários. Quem faz uma greve por falta de livros, carteiras e papel? Quem briga com atos radicais pelo fim da evasão escolar, por acompanhamento especial para alunos deficientes, por boas merendas? Ninguém vai à guerra (ou entra em greve) pelos alunos ou pelas escolas. Os efeitos de uma paralisação no ensino são vistos em longo prazo e os prejudicados são os estudantes da parte menos abastada do Brasil, que não têm opção de colocar o filho numa escola particular. Dentre tantas falhas da educação pública, o direito de greve – praticamente único instrumento de barganha dos professores para com o governo – virou aberração, e não traz aos mais interessados (quem estuda) vantagem alguma. Está na hora, professores, de brigar pela educação também. Peçam reajustes, mas peçam também por quem convive com vocês na sala de aula. Façam uma greve que valha à pena para vocês e, além disso, para seus alunos e suas escolas.

Ombudsman Na edição 377 do Campus, o grande destaque foi a crônica Um tiro no escuro. Com texto cativante e muito bem construído, a repórter consegue transportar o leitor por alguns momentos para a cena do acontecimento. Já as fotos, tiradas durante o dia, seguem o caminho contrário. Outro ponto positivo do jornal foi Nanotecnologia no combate ao câncer de pele, que enfrentou com razoável sucesso a difícil missão de falar de ciência sem transformar a reportagem em um sonífero. Mas nem tudo são flores no Campus. O sonho de ser astronauta começa com um lide piegas e termina sem mostrar, de fato, qual é o campo de trabalho dos estudantes de Engenharia Aeroespacial. Em Governo no encalço dos orixás, o texto é bom, mas assim como a Mãe Neuza de Souza, o leitor também não entende o porquê dos centros religiosos serem considerados locais de práticas econômicas.

colunista fictício criado para ironizar situações cotidianas A UnB é democrática, um espaço de muitas vozes. Construída por mentes brilhantes, que há pouco se dedicaram a discutir a questão da segurança com a acidez característica dos debates. O que ninguém esperava é que uma ameaça neonazista fosse afugentar os pensadores. Sim, estou falando de alguns intelectuais, que por tanto tempo criticaram a presença da polícia no campus e, de repente, sob a iminência de um massacre, desertaram da ideologia. Bastou uma data marcada e um possível crime de ódio para clamarem pelos federais. Todos precisam de segurança. A UnB não é uma ilha habitada por seres mitológicos imunes à violência. É necessário que existam ameaças desse calibre para admitir fraquezas? O pior não foi a dissolução tão rápida das ideias: ruim mesmo é ter caído nas armadilhas do terror. Não que se deva ignorar as barbaridades espalhafatosas que o aprendiz de terrorista divulga na internet, mas propagá-las gratuitamente é burrice. Difundir o pânico é exatamente o que se esperava desse bando de cordeirinhos treinados. Diante do perigo, a coerência desapareceu. Os corredores amanheceram vazios. Viaturas ocupavam o espaço dos estudantes. Não houve nenhum ataque, mas, naquela sexta-feira 13, a Universidade morreu.

por | PEDRO AUGUSTO CORREA

Após os dois primeiros parágrafos de Anorexia também atinge sexo masculino, me animei com a perspectiva de ler um texto com estilo e capacidade de debater um tema delicado e pouco conhecido. Infelizmente, os repórteres não conseguiram organizar a grande quantidade de informações. Muitos rapazes passam pela reportagem, sem que nenhum deles se torne, verdadeiramente, um personagem. A coluna de opinião talvez seja o grande problema dessa edição. O texto comete muitos deslizes e não chega a lugar algum. Espero que os leitores sejam mais inteligentes que eu, que precisei recorrer ao dicionário para descobrir o significado de “inépcia”. E falar em greve de policiais é, no mínimo, impreciso, já que os militares são proibidos de paralisar as atividades pela Constituição. Por fim, vale apontar que, assim como na primeira edição, ainda não é possível identificar o propósito da coluna Fala, Rovérsio. *Termo sueco que significa “provedor de justiça”, o ombdsman discute a produção dos jornalistas a partir da perspectiva do leitor

Memória Na primeira quinzena de fevereiro de 1992, a edição especial número 158 do Campus homenageou a Vila Planalto e seus moradores. Na época, com 36 anos de fundação e quatro de tombamento histórico, a vila enfrentava muitos problemas, entre eles o difícil acesso à educação. A comunidade contava com apenas uma escola, recém-promovida de Escola Classe a Centro de Ensino. A novidade era que o colégio passaria a oferecer o ensino fundamental em um novo prédio, com direito a biblioteca e videocassete. No entanto, a nova instituição guardava um velho problema: a evasão.

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Segundo a professora Célia Guimarães, a falta de estímulo, as mudanças de domicílio e a difícil conciliação entre estudo e emprego eram os principais motivos para os alunos abandonarem as salas de aula. Como consequência, não era possível implantar então o 2º grau, pois não havia número suficiente de estudantes que houvesse terminado o 1º. A promessa era de que no ano seguinte (1993) o ensino médio chegaria à região. Vinte anos depois, pouco mudou: a Vila Planalto continua sem a escola prometida. A evasão ainda é problema constante nas comunidades carentes do DF.

Editora-chefe Ana Paula Lisboa Secretária de Redação Laís do Valle Diretora de Arte Ellen Rocha Projeto Gráfico Carolina Pereira, Ellen Rocha, Luisa Bravo, Mariana Capelo, Patrick Cassimiro e Thiago Lima Jornalista José Luiz Silva Professores Sergio de Sá e Solano Nascimento ISSN 2237-1850 Brasília/DF - Campus Darcy Ribeiro Faculdade de Comunicação - ICC Ala Norte CEP 70.910-900 Telefones (61) 3107.6498/6501 E-mail campus@unb.br Gráfica Palavra Comunicação Tiragem 4 mil exemplares

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ACESSE O CAMPUS ONLINE WWW.FAC.UNB.BR/CAMPUSONLINE


Turismo

Agências providenciam passagens, hotéis e passeios para atletas amadores irem a competições reportagem | MAÍRA NUNES diagramação | NATHALE MARTINS edição | FABIANE GUIMARÃES

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Pacotes para

“maraturistas”

CAROLINA PEREIRA

ivina Pereira está prestes a conhecer Machu Picchu, mas a motivação da moradora de Brasília não se restringe aos passeios pelas ruínas Inca: ela também participará da Meia Maratona de Lima, corrida de 21 km que acontece dia 20 de maio na capital peruana e que contará com a presença de até dez mil atletas. Divina trabalha na Receita Federal e é o que vem sendo chamado de “maraturista”, um novo perfil de cliente para as agências de turismo, que já oferecem pacotes para diversas maratonas nacionais e internacionais. Divina está entre os 20 inscritos no pacote turístico Maratona de Lima – Conhecendo Machu Picchu, que espera fechar um grupo de 30 atletas amadores para a viagem. Faz dois anos e meio que a servidora começou a praticar corrida a convite de um amigo. Há um ano se inseriu nas competições quando participou da Meia Maratona do Rio de Janeiro. Depois, já com um grupo de seis amigas formado a partir da corrida, Divina se aventurou pela Meia Maratona de Buenos Aires e da Patagônia, na Argentina. “É uma ótima oportunidade de conhecer lugares que sozinha eu não iria”, relata. A São Silvestre é a meta para o fim deste ano, e para 2013 ela está indecisa entre as meias maratonas de Berlim, Barcelona, Lisboa e do Pateta, na Disney. O casal de corredores de rua Glaucius Miguens e Luciana Brasil optou por participar da Meia Maratona de Paris em 2010. Depois de participarem de maratonas nacionais e internacionais como atletas amadores, Miguens, que também é dono de uma agência de turismo, percebeu a existência de um público promissor nesse segmento e investiu em pacotes turísticos ligados às maratonas. “As corridas são realizadas em locais com potencial turístico”, conta o empresário. A maratona de

Nova York, Buenos Aires, Paris e Honolulu, no Havaí, são apenas alguns exemplos. O diretor comercial de outra empresa do ramo, Moisés Nunes, vivenciou o caminho inverso de Miguens com relação às competições de natação. Há oito anos, a Associação Brasileira Masters de Natação (ABMN) bateu a sua porta e sugeriu a criação de pacotes de viagem direcionados às competições organizadas por eles. A agência criou pacotes e agregou outros serviços turísticos para atletas e acompanhantes. “A proposta é incentivá-los a viajar antes da competição ou permanecer por mais algum tempo para fazer os passeios turísticos pela região -sede do torneio”, explica Nunes.

REDE DE CONTATOS Atletas amadores costumam formar grupos de treino, muitas vezes criados por assessorias esportivas, outras formados por colegas de trabalho ou pela academia onde praticam a modalidade. Quando surge o interesse por uma competição, uns avisam aos outros para incentivar a inscrição no evento esportivo, além de entrar em contato com agências de turismo para analisar propostas. A gerente de informática Cristina Mota é atleta amadora de natação há 16 anos e, depois de ter participado de vários mundiais do esporte, conhece bem esses roteiros turísticos. “Antigamente era tudo por nossa conta”, relata. Segundo ela, dois a três meses antes da competição os atletas amadores já buscavam promoção de passagem e de hotel. Hoje isso ainda acontece, mas já não é necessário tanto empenho e preocupação com a organização das viagens. “Alguns meses antes da competição, a empresa avisa e divulga através do site a competição que será realizada e os pacotes que serão ofertados.” O responsável pelo grupo de corrida Evolua, Éder Vilanova, intercala os treinamentos com duas competições por mês. Éder está sempre de olho nas maratonas que aparecem para indicar a seus atletas. Segundo ele, aqueles que mais viajam no grupo participam em média de duas competições nacionais e uma internacional por semestre. Vilanova afirma que algumas viagens são fechadas em pacotes com agências especializadas, outras não. Ele acredita que é mais difícil de o grupo optar pelo pacote quando as viagens são nacionais: “Há uma oferta maior de voos e promoções com passagens mais baratas. Em geral, o grupo opta pela liberdade de cada um ir no dia que puder e ficar onde preferir, pois em Divina Pereira organiza em um caderno as viagens que já realizou para competir. Nele, ela também planeja as próximas: “Estou com pacote fechado para a Maratona de Lima e passeio em Machu Picchu” muitos casos há familiares na

CAROLINA PEREIRA

Glaucius Miguens é dono de agência de turismo e corredor de rua. Após viajar para Paris e participar da Meia Maratona, passou a oferecer roteiros que incluam corrida

cidade onde ocorrem as competições”. Para a atleta amadora Divina Pereira, que irá correr a Maratona de Lima, as vantagens dos pacotes turísticos estão no preço, nas melhores condições de pagamento e na segurança de não precisar se preocupar em providenciar hotel, inscrição ou roteiro de viagem. Daniela Rocco, professora do Centro de Excelência de Turismo da Universidade de Brasília, explica que a hipersegmentação e a prestação de serviços personalizados apresentam-se como uma tendência dentro do turismo. “Certamente, os públicos específicos irão procurar as agências especializadas na área de interesse”, afirma. “A especialização é muito importante, assim como a personalização dos produtos e serviços, somados a uma proposta de valor diferenciado.” Os pacotes direcionados aos atletas e acompanhantes dos eventos caracterizam um novo nicho dentro do segmento esportivo. Os serviços oferecidos incluem as inscrições nas provas, opção de hotéis próximos ao local de largada ou chegada, barracas de apoio durante a competição e a promoção de integração entre os participantes do grupo formado para a viagem, além do roteiro turístico pela região de destino.

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Educação

Dentro da inv

CAROLINA PEREIRA

Enquanto o DF tem alto índice de crianças e adolescentes em idade escolar matriculados, em comunidade no Areal, um terço desses jovens não estudam reportagem | MARINA DUTRA E ISABELLA TONHÁ diagramação | ELLEN ROCHA edição | FABIANE GUIMARÃES

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Isaque (esquerda) tem 7 anos e, embora esteja matriculado, só foi para a escola dois meses depois do início das aulas. O amigo Daniel (direita) já tem quase 5 anos e ainda não estuda

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á quatro meses, a família de Oscar Aurora (66) vive em uma invasão localizada atrás do Albergue Conviver, no Areal. Logo que chegaram, os meninos mais novos choravam para que a mãe, a piauiense Antônia Félix (40), os colocasse na escola. Mesmo sem parte dos documentos, Antônia fez a matrícula de Ana Rosa (11), Vanderlei (9) e Darlan (7), e o marido acorda cedo para levar os três, de bicicleta, ao colégio. O mesmo não ocorre com os filhos mais velhos do casal, Júnior (17), Carolaine (15) e Caroline (13). Júnior já tem um filho e parou de estudar quando a namorada, Raquel, engravidou. “As meninas mais velhas não estudam porque os documentos delas ficaram no Goiás e não dá pra ir lá buscar”, conta Antônia. Nos 14 barracos de lona e papelão da invasão, habitada por catadores de recicláveis, vivem 32 crianças e adolescentes em idade escolar, dos quatro aos 17 anos. Levantamento feito pelo Campus mostra que apenas 21 vão à escola, o que equivale a um índice de 34% de jovens não matriculados. De acordo com o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010, a média do índice no Distrito Federal é de 6,8%. Raquel (15), nora de Antônia, parou de estudar aos 12 anos porque, quando veio para o DF não trouxe, de Santa Catarina, a documentação de transferência escolar necessária para fazer a matrícula no 5º ano. Raquel está grávida do segundo filho e conta que, apesar das dificuldades, quer continuar os estudos: “Eu vejo quase todo mundo indo para a escola e me dá vontade de estudar também”. A irmã caçula, Rafaela (12), cursa o 3º ano. Embora a menina esteja quase quatro anos atrasada em relação à sua idade, a vontade de estudar é enorme. Maria de Jesus Ferreira, diretora do Centro de Atendimento Integrado da Criança (Caic) Professor Walter José de Moura – onde estudam os filhos de moradores da invasão – , conta que Rafaela foi chorando à escola no início do ano por não ter os documentos para fazer sua matrícula. Jesus, como prefere ser chamada, ficou encantada com a determinação da aluna e deu um “jeitinho” para matriculá-la. Como outras escolas, o Caic resga-

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fora

ta dados de alunos que já passaram pela rede pública do DF. Rafaela é boa aluna, quase não falta e sonha ser modelo quando crescer. Falta de perfil não é um problema para a menina alta, magra, muito bonita e de traços delicados. Segundo a subsecretária de Educação Básica do Distrito Federal, Sandra Zita Tiné, tanto o caso de Rafaela quanto o de Raquel, que estudou fora do DF, precisam ser resolvidos. Sandra afirma que existe uma série de estratégias planejadas pela Secretaria de Educação para que os documentos de transferência possam ser entregues em um prazo após a efetuação da matrícula. “A orientação é que a escola receba todos. Se a criança ou o adolescente não conseguir voltar à cidade onde estudou pela última vez, a secretaria tem obrigação de regularizar a situação escolar do aluno. O importante é que ele não deixe de estudar.” Falhas na comunicação entre secretaria e escolas da rede pública fazem de Raquel e outros adolescentes da invasão vítimas de um processo controverso. Sandra diz que o aluno nessa situação, quando não é aceito por alguma escola, deve procurar a regional de ensino para que essa possa orientá-lo na busca de outro colégio. “Se a criança ou o jovem está na faixa etária prevista pela lei, deve estar estudando.” Apesar do que diz a lei, em uma quarta-feira pela manhã várias crianças brincavam na rua em frente à invasão com dois carrinhos de pedalar em que elas não cabiam mais, um vermelho e o outro azul. Empurrando o carrinho azul, Renan (6) disse que não estava na escola porque tinha furado o dedo em um prego. Os irmãos Thiago (5) e Bruno (8) também participavam da corrida, mesmo estando em horário de aula. As irmãs dos garotos Mariana (13) e Elizabeth (10) estavam na es-


CAROLINA PEREIRA

nvasão, CAROLINA PEREIRA

a da escola tudantes – 57,1% dos alunos da invasão estão em uma série que não corresponde ao aprendizado ideal para sua idade. Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) de 2011, a média de distorção é de 11% no Distrito Federal. Porém, é possível prever que o contingente de alunos atrasados da invasão cresça nos próximos anos, pois todos os alunos que estão na idade adequada cursam o 1º ou o 2º ano e ainda não estão alfabetizados. A subsecretária de Educação básica explica que existe atendimento especializado para a adequação de idade-série, que busca, no tempo médio de dois anos, a correção da defasagem por meio de educação integral, reforço escolar, reposição de conteúdo e aceleração As crianças da invasão, localizada na QS 09, Rua 100 do Areal, brincam ao da aprendizagem. redor de muito lixo, mato, animais de rua e, até mesmo, fezes humanas Rosângela (11) é um exemplo dessa defasagem. A menina estuda em uma turma de correção de fluxo e ainda não está completamente alfaos colegas. “Muitas vezes, quando a falta de higiene inbetizada. “Esta é a terceira vez que ela vem à aula, já tem comoda muito, os professores criam um vínculo com o 20 faltas”, conta a professora Isa de Oliveira. A menina, aluno, convencendo-o a tomar um banho aqui na escola”, que se distanciava dos colegas nos primeiros dias em que conta Jesus. Raquel (15) parou de estudar aos 12. Mesmo com um filho foi à escola, tinha levado um brinquedo e interagiu com Na invasão, não há banheiro nem lugar propício para e grávida de outro, ainda tem vontade de voltar à escola as crianças na hora do intervalo. “Ela não queria vir à banho, as crianças se limpam quando é possível. Os barescola, tem vergonha de ser diferente dos outros meninos racos são precários, e as crianças passam a maior parte do cola. As meninas cursam respectivamente o 4º e 3º ano e, e acaba se auto-discriminando”, explica Isa. Os irmãos, tempo brincando entre restos de material reciclável, lixo embora tenham uma boa frequência, são mais velhas do Isaque (7) e Bobvaldo (9) também não estão alfabetizae fezes nos arredores do terreno. que os outros colegas de sala. A irmã mais velha, Paloma, dos e se ausentaram nos dois primeiros meses de aula. O convívio com os adultos da invasão acaba influentem 14 anos e não estuda mais. Quando a equipe de re“Vamos fazendo o possível com os meninos”, conta a ciando a educação das crianças. A invasão é ponto de tráportagem do Campus estava indo embora, um dos meniprofessora Rita de Cássia. “Eles praticamente não vêm à fico de drogas e, de acordo com a Polícia Militar, brigas nos gritou: “Traz um caderno para mim, tia! Eu só tenho aula e são dispersos, só vão aprender quando quiserem.” e roubos são frequentes no local. “Tenho medo, direto caderno velho. E minha mochila tá velhinha também”. tem briga com faca e a polícia aparece por aqui”, conta FORÇA DE VONTADE Rafaela. Professora de uma das turmas do Caic, Eunice DIFICULDADES Embora a diretora e as professoras do Caic garantam Helena de Queiroz explica que muitas crianças que viO Caic tem 30 alunos que moram na invasão. A dique não há preconceito das outras crianças em relação vem ali têm hábitos diferentes: “Elas brigam mais, falam retora Maria de Jesus explica o quanto é difícil trabalhar às da invasão do Areal, estes alunos sentem vergonha de muito palavrão.” com esses estudantes: “Os pais não se comprometem contar para os colegas onde moram, e os pais também Falta de uniforme e material escolar não preocupam com a educação dos filhos e a maioria dos jovens não preferem esconder. Na lista de informações sobre os aluas professoras. Sempre se dá um jeito de conseguir meios termina o ano escolar. Eles param de vir às aulas e não nos do colégio, apenas duas crianças têm a invasão como para os meninos estudarem. Elas doam uniformes, matepedem documento de transferência, ou seja, endereço. O que incomoda e cria dificuldade de interarial de higiene pessoal e chegam até a “adotar” os alunos. perdem o ano letivo”. A taxa de evasão se ção é o descuido com a higiene. A pele suja e descuidada “Quer ver como ele está indo bem?”, pergunta a profesreflete na distorção idade-série dos esé marcante em todos, e o mau cheiro acaba incomodando sora de Francisco, chamando o menino de 12 anos para declamar um poema que ele havia decorado treinando a leitura em casa. Francisco é filho de Maria Ivonete, mas ganhou, neste ano, o título de filho da professora LourCrianças e jovens de Distrito Federal (2010): 93,2% dismar Cardoso, que a cada ano adota um aluno em sala 4 a 17 anos na escola Invasão no Areal (2012): 65,6% de aula. Os colegas do 5º ano não implicam. Lourdismar presenteia o garoto com caderno, lápis e dedicação dobrada, e conta que a frequência de Francisco, que no ano Taxa de distorção Distrito Federal (2010): 11% Fontes: Pesquisa feita pelo Campus, passado quase não ia à escola, tem melhorado. “Ele tem idade-série Invasão no Areal (2012): 57,1% dados do Censo 2010 e do INEP bom raciocínio e boa comunicação. Até o final do ano vou fazer dele um dos melhores alunos da turma.”

IGUAL

DADE

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Transexualidade

Dificuldades da minoria na minoria LAURA VERIDIANA

Mulheres que desejam mudar de sexo sofrem ainda mais que homens na mesma situação. Falta informação e o tratamento é experimental reportagem | PALOMA SUERTEGARAY diagramação | PAULINA DANIEL edição | ISABELA MAIA

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ristiam* tem cabelo curto e escuro, veste moletom cinza, calça folgada e tênis. Se perguntado sobre quando descobriu que era transexual, ele responde que “soube desde sempre”. Não muito tempo atrás, o estudante de jornalismo de uma universidade privada de Brasília, de 18 anos, respondia por um nome feminino e tinha uma vida diferente. Hoje, deseja realizar a operação de mudança de sexo o quanto antes. Cristiam tem uma jornada árdua pela frente. Ele faz parte de uma minoria dentro de outra minoria. De cada quatro pessoas que querem mudar de sexo, três são homens e uma é mulher, segundo dados do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Federal de Goiás. No Brasil, todas as cirurgias de mudança de sexo podem ser financiadas pelo Sistema Único de Saúde. No entanto, somente hospitais universitários são autorizados a efetuar a transformação do sexo feminino para o masculino, pois o procedimento cirúrgico ainda tem caráter experimental. Há apenas quatro instituições habilitadas e a espera pode durar anos. Além disso, a cirurgia apresenta grandes riscos. As operações para remover mamas, útero e ovários têm eficácia conhecida, mas a de transgenitalização ainda precisa ser aperfeiçoada, segundo explica o médico Marcelo Soares, que realiza as operações no HC. Há duas opções possíveis. A metoidioplastia consiste no tratamento hormonal para aumentar o tamanho do clitóris, que resulta em um pênis de quatro a cinco centímetros. Já a faloplastia é a implantação de uma prótese feita com outros músculos do corpo. “Pode haver várias complicações. A uretra corre risco de ser danificada e existe também a preocupação com a funcionalidade do pênis”, explica. ESPAÇO DE APOIO Cristiam sempre se sentiu homem, mas levou um tempo para ter consciência de que era transexual. Ele começou a pesquisar na internet e foi assim que ficou sabendo de um grupo de terapia que se reúne quinzenalmente no Hospital Universitário de Brasília (HUB). Funciona informalmente e é composto por homens e mulheres transexuais. “Eles trabalham conflitos existentes na família, na escola ou no trabalho; vivenciam mudanças físicas e hormonais”, detalha a psicóloga responsável, Sandra Studart. O grupo serve também para completar os dois anos de acompanhamento psicológico exigidos para realizar a cirurgia de transgenitalização. Sandra colabora indicando endocrinologistas, ajuda com a burocracia para a mudança de nome e, inclusive, encaminha os pacientes para a lista de espera da cirurgia no HC.

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Homens e mulheres transexuais frequentam o grupo de terapia do Hospital Universitário de Brasília (HUB) à procura de suporte e acolhimento

Participam do grupo 30 homens e apenas 10 mulheres que querem mudar de sexo. “Para mim foi muito importante. Eu estava perdido e conviver com pessoas em diferentes fases da transformação me ajudou demais”, relata Cristiam. No começo, ele achava que seria estranho conviver com a maioria de homens que desejam a mudança de sexo, mas depois se acostumou. No entanto, ainda acha que o ideal seria poder receber atendimento separadamente. Danilo*, transexual de 23 anos e integrante do grupo, concorda. “Ainda que o básico seja parecido, há questões físicas que são muito diferentes e que você não pode tratar em conjunto”, comenta. Danilo destaca, por exemplo, que os hormônios tomados para mudar de sexo deixam os homens mais sensíveis e fazem as mulheres ficarem fechadas e agressivas. Isto pode dificultar as sessões de terapia. “Nessas circunstâncias, é mais difícil se abrir e contar sobre mudanças que seu corpo está passando”, acrescenta. Cristiam acha que também há particularidades no perfil dos diferentes integrantes. “A gente se expõe menos. Nós preferimos esquecer o processo de transformação e apenas ser reconhecidos como homens”, afirma. Estes motivos fazem com que alguns desses participantes desistam das reuniões. Para diminuir esse problema, Sandra apoia que recebam atendimento separado. “Criaremos neste mês um grupo só para mulheres que querem virar homens, atendendo uma reivindicação que existe desde 2011”, garante.

autoconhecer e se assumir trans. “Com o conhecimento necessário, conseguiriam se identificar e correr atrás do resto”, argumenta. Para Cristiam, a sociedade ainda tem preconceito com o grupo e isso aumenta a preferência pelo sigilo. “As pessoas acham que o transexual é alguém gay que quer chamar a atenção. Na verdade, ele quer ser reconhecido como homem e viver a própria vida”, afirma. Tatiana também destaca a existência de discriminação: “Há uma dimensão sexista na questão que condena o fato de que uma mulher queira virar homem. Numa sociedade machista, a ideia de uma mulher com pênis é inconcebível”. Danilo não vê a hora de fazer a operação e injeta hormônios masculinos há dois meses. “Eu tenho um pouco de medo, mas a vontade é muito maior”, diz. Cristiam também se preocupa. “Tenho certo receio com a cirurgia, mas quero fazer de qualquer jeito”, afirma. “Tudo vai mudar, especialmente a aceitação do meu próprio corpo.”

*Nomes fictícios

QUESTÕES DE GÊNERO Especialistas defendem que a menor expressividade de mulheres que desejam mudar de sexo deve-se, na verdade, ao fato de serem mais discretas. Psicóloga e pesquisadora do assunto, Tatiana Lionço pontua a precariedade da cirurgia de transgenitalização como um das razões pelas quais há tantas que permanecem anônimas. “As mulheres que começam a tomar hormônios conseguem se passar por homens e deixam de se interessar tanto na operação”, acrescenta. Danilo acredita que a falta de informação disponível sobre o assunto impede que essas mulheres possam se

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Para a psicóloga Tatiana Lionço, o menor registro de mulheres que querem mudar de sexo deve-se à cirurgia precária e ao preconceito


Internet

reportagem | LAÍSA QUEIROZ diagramação | PAULINA DANIEL edição | ISABELA MAIA

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CAROLINA PEREIRA

Brasília estreia no circuito das webséries RebobinaR entra na onda das novas produções audiovisuais independentes, que têm fácil acesso, liberdade temática, e escassez de recursos (www.youtube.com/SerieRebobinaR) às quintas-feiras. “Para manter a audiência, temos que ter uma dependência entre os capítulos”, afirma Carvalho. Ele acredita que a internet possibilita um grande alcance de público (em uma semana, o primeiro capítulo teve quase 400 acessos), mas reconhece que é mais fácil atrair os jovens. RebobinaR segue uma tendência. Em 2011, a produção de webséries no Brasil deu um salto e algumas viraram sucesso, com mais de 300 mil acessos. Para o diretor cinematográfico de webséries Guto Aeraphe, o fenômeno se deve à oportunidade de divulgação, crescimento do número de internautas no país e barateamento e melhoramento dos equipamentos de filmagem. As séries online abordam temas variados. Entre as mais assistidas estão 3% e Lado Nix, de ficção, O demônio não sabe brincar, de terror, e #E_VC?, que aborda o mundo adolescente. O dentista carioca Luis Ares, de 38 anos, viu todas e comenta que o formato é muito interessante. “Você escolhe o horário que quer ver.” Outra que fez muito sucesso foi a websérie mineira de época, Herois, que alcançou, em uma semana, 150 mil visualizações. A série conta a história de três pracinhas que lutaram na Segunda Guerra. Aeraphe, diretor da ���� websérie, conseguiu recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), mas conta que o auxílio ainda está longe de ser ideal. O conteúdo era grande para realizar um curta, e o dinheiro era pouco para fazer um longa. Aeraphe resolveu tentar uma websérie. Porém, conseguiu apoio apenas para filmar. “Como a plataforma seria a internet, o Ministério da Cultura não financiava a divulgação”, afirma. A equipe de RebobinaR é independente e não tem patrocínio, mas também busca angariar recursos através de inscrições em editais públicos. Apesar de muitas vezes regular o conteúdo, o financiamento é algo que os produtores de audiovisual almejam. “É muito difícil produzir de forma independente, pois faltam apoiadores para a divulgação, material de filmagem e locações”, lamenta

LAURA VERIDIANA

o ensolarado Parque da Cidade, num sábado de abril pela manhã, acontece a gravação de mais um capítulo de RebobinaR. Lançada no último dia 12, a série online é produzida por jovens de Brasília, cidade já conhecida por produzir filmes, sejam curtas ou longa-metragens. A série semanal marca a estreia da capital neste novo circuito que já é sucesso entre os internautas brasileiros, principalmente na era dos smartphones - os capítulos de webséries duram de seis a dez minutos. A equipe de produção é composta, em sua maioria, por universitários e integrantes da companhia de teatro Dois Tempos. Eles tiveram a ideia de sair um pouco dos palcos e tentar uma produção audiovisual. “Pensamos em fazer um curta, mas as ideias foram evoluindo e resolvemos fazer algo que durasse mais”, relata o idealizador do projeto e também ator de RebobinaR, Hugo Carvalho, de 22 anos. A série, que tem até trilha sonora original produzida pelo músico Fábio Gesteira, conta de forma não-linear (por isso o nome) a história de três amigos, mais a namorada de um deles, com personalidades muito distintas, que estão prestes a ter a amizade abalada. Rafael Antonangelo, estudante de Direito de 24 anos, é o publicitário Vitor na série. Acostumado a atuar em teatro, conta que na websérie o trabalho é mais dinâmico e as cenas são mais curtas, além de não ter o contato do espectador. “Na websérie o público assiste a um produto, e no teatro, a um processo.” O ator vê RebobinaR como um trabalho desenvolvido por amigos. “Cada um com suas qualidades, doando seu tempo e energia pra fazer dar certo”, diz. “Todos se preocupam com o resultado e não apenas em realizar seu papel”. O grupo grava as cenas internas na casa de Antonangelo e de Pedro Caroca (ator que interpreta Henrique, o amigo “certinho”) e as externas em vários pontos da cidade, para colocá-las em seu canal do YouTube

O câmera Michael Melo filma com sua Canon 7D o terceiro capítulo no Parque da Cidade. Os atores Rafael Antonangelo, Hugo Carvalho e Julie Wetzel interpretam um grupo de amigos que , a cada conversa, relembram acontecimentos passados

Canal do YouTube da websérie RebobinaR, onde é possível assistir aos capítulos, que vão para a rede toda quinta-feira

Carvalho. Apesar das dificuldades, o formato é, para Aeraphe, uma oportunidade para quem trabalha com audiovisual não depender de emissoras e estúdios. VIABILIDADE O pesquisador de narrativas transmidiáticas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Glauco Madeira de Toledo acredita que as webséries estão em franca expansão, mas ainda enfrentam dificuldades no Brasil. Há aquelas feitas com crowdfunding, que é um financiamento coletivo feito por pessoas sem relação direta com a obra. Há aquelas usadas como expansão de um universo televisivo, que em geral são transmídia — usam vários canais de forma complementar —, como foi o caso da série Lost. Outras webséries são a divulgação de um trabalho, com a intenção de que ele migre para a TV. E há ainda as que pretendem criar um novo mercado e manter as séries online, sem financiamento do público. “Esse último grupo ainda não tem um modelo de negócios bem definido”, salienta Toledo. Aeraphe defende o último grupo e concorda com o pesquisador. Diz que no momento é impensável cobrar pelos vídeos, mas é possível apostar na publicidade dos produtos agregados, que estão presentes no vídeo, mas sobre os quais ninguém fala. “O produto não pode ser superior ao conteúdo, tem que pegar carona”, explica. Outra solução que o diretor considera é a inserção de propagandas antes de o vídeo começar. Dependendo da temática do seriado, é possível pensar em soluções mais criativas. Dia 26 estreou a nova websérie de Aeraphe, Apocalipze. Trata-se de uma ficção científica envolvendo ataques bioterroristas no Brasil. Além da série, o diretor e a equipe criaram uma história em quadrinhos, com acontecimentos anteriores à série, e um jogo, com os desdobramentos. A primeira fase do jogo será grátis. Depois, o usuário terá que pagar para continuar. “É o diálogo entre os meios e mais uma forma de conseguir fundos”, justifica.

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perfil: LÍNGOA

PORTUGUEZA reportagem | MARIANA CAPELO diagramação | NATHALE MARTINS edição | ISABELA MAIA

A cidadã mais antiga do Brasil uando Latím, o Grande, invadíu a Península Ibérica na Segunda Guerra Púnica, ele conquistóu todalas as língoas e dialéctos que encontróu no camínho. Assím nasceu o primogénito da linhagem portugueza, fruito de um romance entre o Latím e a língoa da Região da Lusitânia.* Desde então, a família criou raízes, suxos e prexos na bèira do Atlántico, tendo resistido às invasões môura e germânica - sem, porém, deixar de incorporár alguns costúmes bárbaros à rotina do clã. A família cresceu e, quando o estádo medieval exigíu que as famílias lingüísticas contigüas se tornássem língoas comúns nacionais, a família Portuguez cortòu o cordão umbilicál com o Latím e passòu de romanço** a língoa independente. A família Portuguez foi archaíca até o séc. XV, archaíca média do XV ao XVI, modérna da segunda metáde do XVI ao nal do XVII e é contemporànea dèsde o nál do séc. XVIII. Aínda no séc. XV, párte da família Portuguez veio a passeyo ao Novo Mundo. Os vérbos e vogáes que embarcarão em Lisboa chegarão ao Brasil e não sairão máis. A Língoa Portugueza não se intimidou com a vizinhánça hispanohablante, menos aínda com as òutras língoas que conhecèu. Convivéu com o Tupi, o Cariri, o Tupinambá, o Jê, o Bantu e òutras. Dessas, só teve pròblemas com o Tupi, que seduzíu as missões Jesuíticas e fez com que os pádres das Companhías o preferíssem à Língoa Portugueza. “Todos os missionários devião aprender a língoa da terra onde exercião seu ministério”, tenta explicar Drummond. “Esta régra foi seguída pelos pádres ao chegárem ao Brasil, pois vericarão que, para bòa execução da fàina cathechética era indispensável saber a língua dos índios”. Tupi sobrepojóu a Língoa Portugueza até o séc. XVIII, quando ella voltou ao poder. Agóra, a Língoa Portugueza é contemporànea, mas vive uma crize: empregáda na Europa, na Cósta Africana e na América, ella está exhaústa e não se acostuma às viagens, constàntes. Na tentativa de amenisár o problema, tentóu até um novo acòrdo orthográphico - o primeiro é de 1931. O esfòrço não fez muito succésso, a Família não se adaptou completamente à mudànça. Monteiro Lobato atiça: “Assím como o portuguez saiu do latím, pela corrupção popular da língua, o brasileiro está saindo do portuguez.” Apesar da resistència ao acòrdo, elle podería ser a opportunidade de realizar um grande dezejo da Língoa Portugueza: a primazia de segunda língoa dos bilíngues. Convencida pela 5ª posição no ranking de língoas mais faladas, ella costuma gabar-se do seu corpo litterário invejável. Fernando Pessoa, amígo da família, adverte que

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apparència não é bastànte: “Para assegurár sua permanència no futuro, a língoa tem que ter algo mais do que uma grande litteratura(...). A primeira condição é (...) a sua diusão cultural; a segunda, a facilidade com que poderá ser aprendída, e a terceira condição é a de que a língoa deverá ser a mais exível possível.” AMORES PLURÁES Não forão poucos os poetas que se apaixonarão pela Língoa Portugueza. Aliás, são incontáveis seus amantes. Appesár de compléxa, seus predicativos são mayores do que qualquer ambíguidade ou duplo sentido. Fernando Pessoa nunca escondéu que “Minha pátria é a Língoa Portugueza” e conjuga uma sentença àquelles que não a valorizam: “Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma”. Podem ter sido suas parassínteses, suas orações subordinadas adjectivas ou até suas unidades adverbiáes que não são conjunções subordinativas: não se sabe o porquê do amor pela Língoa Portugueza. Misteriòsa, ella nunca revelóu còmo plantar o pronome relativo no coração dos poetas. Olavo Bilac sofréu na sua mão: “Língoa Portugueza, última flor do lácio, inculta e bella, és, a um tempo, esplendor e sepultura”. Mas não deixáva de declarár: “Amo-te assim, desconhecída e obscura. Amo-te, ó rude e doloròso idioma”. Já Mário Quintana não sofreu tanto, e conta dos seus encontros com a Língoa Portugueza: “Escrevo diànte da janela aberta. Minha caneta é còr das venezeanas: verde!” A língoa Portugueza é uma amante versátil: aguentóu a idealização do parnasianismo, se fez de donzélla no romantismo e revelóu sua cára no realismo. Fora a plasticidade no constructivismo e a antrophofagia no modernísmo. Ella sempre foi - e pretende continuár sendo - uma companheira para todos os estílos.

*Uma das regiões que Roma implantou na Península Ibérica. **Nome dos múltiplos e variadíssimos falares regionais em que se diferenciou o latim em toda România durante a 1ª parte da Idade Média. O texto desta página foi adaptado graficamente ao Português usado no Brasil em 1813 de acordo com Dicionário da Língua Portugueza, do autor Antônio Vieira de Moraes, 2ª edição, 1813. A adaptação foi feita com a professora Enilde Faulstich do Departamento de Letras da UnB. Texto em português arcaico médio

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Campus - edição 378, maio/2012