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creta # 02 : o s r i o s d e s p


“O estilo de uma cidade é visível na arquitetura, na roupa das mulheres e na qualidade dos poemas. Mas se para conhecer uma flor bastará cheirá-la, uma cidade, se olhada com atenção, é apenas o indício de um homem: e esse homem é sábio, ladrão ou polícia. Um único homem (mas onde estará ele?) resume as maravilhas da cidade, as suas perversões, o modo como os líquidos circulam na cidade.” [Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, Leya, 2010.]


EDITORIAL por Ana P. Anderson <anapands@gmail.com>

“Tudo é como é porque ficou desse jeito”, disse o biólogo

D’Arcy Thompson

e matemático escocês D’Arcy Thompson (esse de barba na página ao lado), um homem que estudou espirais, dentes, ondas, esqueletos, caracois, asas, folhas, pássaros gregos e evolução. Um dia, voltando de ônibus de um lago que fica entre Goiás e Mato Grosso do Sul, onde nadei com lambaris e mini-aranhas-fosforescentes em águas sulfurosas, peguei no sono e só acordei em São Paulo na beira do Tietê, com o fedor. Foi desagradável mas, ao mesmo tempo, foi um alívio - no lago sulfuroso, apesar da amabilidade dos lambaris, não tinha internet, nem Retrospectiva Irmãos Coen e eu estava com saudades quem vive em SP entende estes sentimentos dúbios. “Quem, sobretudo entre a população pobre, trocaria água e eletricidade pelas várzeas e córregos então existentes na bacia do Tietê?”, pergunta Paulo Henrique Martinez em prefácio ao livro “Tietê o rio que a cidade perdeu”1, e completa: “Eis, de novo, 1 Janes Jorge, São Paulo, Alameda, 2006.

a falsa dicotomia entre desenvolvimento e meio ambiente.” Pelas graças da modernidade - bonde, trem, água encanada, luz acesa, geladeira, DDT, Fusca, metrô, minissaia, delineador, cinema, indústria, comércio, serviço, imprensa, alfabetização, SESC, SUS, milk-shake, guitarra, banda larga, delivery, Android, bike que dobra, hortinha vertical e coxinha2 - foi mesmo necessário sacrificar rios, matas, famílias, bom senso, senso estético...? Como foi que ficou tudo desse jeito? Se ideias e tecnologias para um crescimento urbano menos violento sempre estiveram disponíveis, quem fez as escolhas infelizes? Sob quais CNPJs e com que assinaturas? Quem saiu no lucro reinvestiu onde? Quais são as possíveis soluções daqui pra frente e quem vai pagar por elas? O que temos aqui são perguntas como essas, além de devaneios, manifestos, fantasias, suspiros e vontade de nadar. Boa leitura. 2 Exemplos meramente ilustrativos, não precisamos polemizar sobre sua relevância e/ou real existência, como no caso dos itens “alfabetização” e “banda larga”.


parte 1:

infiltração os rios ontem: memórias, histórias, decretos, bueiros, brocas, decisões, omissões, proporções, eletricidade, quem são esses canadenses?!?

Vistas Aéreas: Carlos Bêla


PERGUNTAS FLUTUANTES / Cleiton Campos

Se você é paulistano e a certa idade foi para o interior onde tenha nadado em um rio, já deve ter se perguntado: “Então isto é um rio?!?” - e na sequência deve ter lamentado: “Que pena que não tem um desses em SP!” Chega de lamúrias, a questão é: “Por que SP perdeu seus rios?” Quer entender como chegamos nesta situação? Tente responder o questionário a seguir:

1.

Por que o prédio da Light (hoje um shopping) é vizinho ao prédio da Prefeitura?

2.

Por que será que a população chamava a Light & Power carinhosamente de “Light & Too Much Power”?

3.

A questão dos rios de São Paulo é a grande tragédia ecológica da humanidade desde a desertificação do Saara? Quantos CNPJs estão envolvidos nesta longa história?

4.

Segundo a Wikipédia: “Os primeiros passos da Light começam em 7 de abril de 1899, em Toronto, no Canadá, onde foi fundada a São Paulo Tramway, Light and Power Company [...]


autorizada, por decreto do presidente Campos Sales (em 1901), a atuar no Brasil. A partir do sucesso da operação paulista, no dia 9 de junho de 1904, os mesmos sócios canadenses criaram a The Rio de Janeiro Tramway, Light and Power.” a) Quanto Campos Sales levou por este decreto? b) Não é irônico que a nascente do Tietê esteja justamente em Salesópolis?

São eles.

6.

Mas quantos cursos d’agua São Paulo tem enterrado?

7.

Quantos são recuperáveis?

8.

Porque as margens dos rios foram concretadas?

9.

c) Afinal, quem são esses canadenses?

Quando poderemos pegar uma canoa no Córrego Gamelinha, em Artur Alvim, e aportar em Buenos Aires?

5.

10.

Mas se a ditadura comprou a Light no fim do contrato de 70 anos... Onde os canadenses colocaram seu capital? Essa a gente responde: especulação imobiliária, já ouviu falar da Brookfield Incorporações?

Se a natureza ama curvas, porque essa paranoia em retificá-la?

11.

Rios de esgoto é a prova de que o cidadão banaliza e se adapta a QUALQUER coisa?


12.

17.

13.

18.

Quem precisa das marginais Tietê e Pinheiros?

E da Rebouças, 23 de Maio, 9 de Julho, Sumaré, Aricanduva e Salim Maluf?

14.

Quando recuperarmos o Pinheiros, poderemos demolir o WTC, Shopping Jardim Sul, o Centro Empresarial Nações Unidas (vulgo CENU) e o Novo Edifício Abril (vulgo NEA)?

15.

Quanto custa a des-berrinização da bacia do Pinheiros?

16.

Por que, meu Deus, inverter um Rio?

Não é muito curioso o fato de que a usina que faz isso se chame “Traição”?

O que temos a aprender com as capivaras das margens do Pinheiros?

19.

Sabia que até os anos 1950 o evento esportivo mais importante da cidade era a “Travessia São Paulo a Nado”?

20.

Por que você acha que há tantos clubes nas margens do Tietê (Corinthians, Portuguesa, Espéria, Tietê, Penha)?

21.

De onde você acha que veio a expressão “futebol de várzea”?


22.

27.

23.

28.

Se quisermos os rios de volta temos que desocupar as várzeas. 1km pra cada lado está bom pra você?

Como vamos limpar o Tietê se nem Guarulhos tem seu esgoto tratado?

24.

Porque a Sabesp tem ações na bolsa (e por consequência, visa o lucro)?

25.

O quão estúpida lhe parece a ideia de juntar todos os dejetos da metrópole para, só depois, tratar toda bosta junta?

26.

SE eu tratasse em casa o meu próprio esgoto, poderia deixar de pagar esse serviço à Sabesp?

Em qual rio seus parentes aprenderam a nadar? Lembre-se: Isso foi há 50 anos, não é tanto tempo assim...

Será que um dia os peixes voltarão?

29.

E um anel hidroviário? Parece absurdo?

30.

A mais importante de todas: agora que a gente sabe que o Plano de Avenidas do Prestes Maia deu errado, porque não aplicar o plano de Saturnino de Britto hoje mesmo?


O TIETÊ DO MEU AVÔ / Tayla Nicoletti


RIOS URBANOS / Ciro Miguel


PALÍNDROMOS / Estevão Azevedo

palíndromo do pinheiros Morram, é o Rio d’Oiro, é marrom, ‘ɯoɹɹɐɯ é ‘oɹıo’p oıɹ o é ‘ɯɐɹɹoɯ


palíndromo do tietê Siso: lucre, but oil. Opa, se temo ler “ama-me Tietê”? Lá o tolete, dedo, pé, só a nata. Não se pode detê-lo. Toalete, item amarelo. Mete sapólio, tuberculosis. ˙sısolnɔɹǝqnʇ ‘oılódɐs ǝʇǝɯ ˙olǝɹɐɯɐ ɯǝʇı ‘ǝʇǝlɐoʇ ˙olêʇǝp ǝpod ǝs oãu ˙ɐʇɐu ɐ ós ‘éd ‘opǝp ‘ǝʇǝloʇ o ál ¿”êʇǝıʇ ǝɯ-ɐɯɐ“ ɹǝl oɯǝʇ ǝs ‘ɐdo ˙lıo ʇnq ‘ǝɹɔnl :osıs


[na pรกgina ao lado, foto e legenda por Alessandro Muzi]


“Em um quintal da Aclimação está enterrada a ossada de um rio.”


SARACURA / Tatiane Vesch

eu não sabia nada dos rios

o córrego saracura

nem que eles estavam

nasce perto do maksoud plaza

nem onde

vem descendo

e menos

entubado

que aqui de cima,

chega aqui

do décimo primeiro andar,

debaixo da minha casa

moro em cima de um.

crê?


ah, e o Itororó está debaixo da vinte e três de maio.


MARGENS DO SARACURA / Jo達o Maia


[...] [+ INFOS SOBRE O SARACURA ]

“Um desses territórios populares, com uma população marcadamente afrobrasileira, era a baixada do córrego do Saracura, por sinal nome de um pássaro que vive à beira de cursos d’água. Afluente do Anhangabaú, o Saracura tinha suas nascentes nas escarpas do espigão que abrigava a Avenida Paulista, onde viviam os novosricos da cidade. Em 9 de outubro de 1907, no jornal Correio Paulistano, uma reportagem que revela

todo o preconceito da época definia o lugar como “um pedaço da África” onde as “relíquias da pobre raça impelida pela civilização cosmopolita que invadiu a cidade, ao depois de 88, foi dar ali naquela furna”. E descrevia a ocupação: ‘uma linha de casebres borda as margens do riacho. O vale é fundo e estreito. Poças d’água esverdeada marcam os lugares donde saiu a argila transformada em palacetes e residências de luxo. Cabras soltas na


estrada, pretinhos semi-nus fazendo gaiolas, chibarros de longa barba ao pé dos velhos de carapinha embanquecida e lábio grosso de que pende o cachimbo, dão àquele recanto uns ares do Congo. (…) As casas são pequenas; as portas baixas. Há pinturas enfumaçadas pelas paredes esburacadas. A mobília, caixa velhas e tóros de pau, sobre ser pobre, é sórdida. E ali vão morrendo aos poucos - sacrificados pela própria liberdade que não souberam gozar […] os que vieram nos navios negreiros,

que plantaram o café, que cevaram este solo de suor e lágrimas, acumulados ali, como o rebotalho da cidade, no fundo lôbrego de um vale. ’” [JORGE, Janes “Tietê, o rio que a cidade perdeu. São Paulo 1890-1940” São Paulo: Alameda, 2006, p.49]

*OBS.: a escola de samba Vai-Vai nasceu na região do Saracura.


RIOS DE Sテグ PAULO / Joテ」o Maia & Tatiane Vesch


ONDE ELES ESTテグ? / Tatiane Vesch


A ÁGUA / Oscar E. Quiroga

A água é a memória cósmica, nela estão registradas todas as cenas, todos os sentimentos, pensamentos, atitudes. A água é a memória viva de que nossa humanidade é capaz do pior e do melhor.


LES MIASMES / Gustavo Guimar達es

[Brigitte Bardot no rio Pinheiros]


KAYORIVER / Vermes do Limbo

“kayoriver é uma homenagem dos Vermes do Limbo ao Rio Kayowa que está ecanado e enterrado no bairro de Perdizes, a música foi composta numa edícula úmida construída sobre o mesmo.” [Guilherme Pacola]


acesse http:// revista creta.com/ rios & ouรงa kayoriver. mp3


[...]

[grifos nossos]


O livro “Tietê, o rio que a cidade perdeu - São Paulo, 1890 - 1940”, de Janes Jorge [São Paulo: Alameda, 2006] pode ser encontrado na seção Circulante da Biblioteca Mário de Andrade no número 981.61 / J82t Leia alguns fragmentos sobre “um dos momentos mais dramáticos da formação de São Paulo”: [...] [PRIMÓRDIOS] “rios, córregos e nascentes, em meio a colinas e várzeas, campos e florestas, conferiram às terras paulistanas um aspecto verdadeiramente encantador. Mais ainda, propiciaram a formação de um ambiente bastante favorável ao estabelecimento de agrupamentos humanos, na medida em que o relevo, a flora, a fauna e a água

em abundância ofereciam inúmeras possibilidades de subsistência e, a partir da chegada dos europeus em meados do século 16, de alguma exploração econômica mercantil.” [p. 37] [...] [NÚMEROS] “a expansão dos cafezais no interior paulista impôs a São Paulo novos destinos. A cidade, já então sede política e ponto de articulação do território paulista, integrou-se ao complexo agroexportador cafeeiro como um centro financeiro, mercantil e ferroviário, o que desencadeou um processo acelerado de crescimento demográfico e expansão de sua área urbana. Para se ter uma ideia da intensidade do fenômeno, basta acompanhar alguns números: a cidade, que em 1872 possuía 31


[...] [grifos nossos] mil habitantes, passou a contar 239 mil em 1900. No ano de 1920, quando São Paulo já se consolidara como pólo industrial, eram 579 mil os moradores da capital paulista, número que em 1940 atingiria a marca de 1.326.261 pessoas. População essa constituída em sua maioria por imigrantes, mas também por brasileiros que sonhavam uma vida melhor em meio a uma realidade plena de carência e exploração.” [p. 46] [...] [CRESCIMENTO] “Se tal processo de urbanização elitista, especulativo e acelerado, por si só já acarretaria mudanças significativas na maneira como os moradores de São Paulo viam e utilizavam seus rios e várzeas, cabe lembrar que ele se inseria em um contexto de intensificação das relações capitalistas na sociedade brasileira

e de forte penetração de capitais internacionais, ao qual somava-se a assimilação das inovações tecnológicas e científicas decorrentes da chamada Segunda Revolução Industrial, dentre outras, a eletricidade, que teria um papel crucial na transformação dos rios e várzeas de São Paulo.” [p. 47] [...] [SEGREGAÇÃO] “em linhas gerais, a partir de fins do século 19, buscou-se fazer do centro da cidade uma área especializada no comércio e serviços, da qual se procurava suprimir as moradias populares, especialmente os cortiços. Bairros residenciais exclusivos foram criados na zona oeste da cidade e no espigão central, sendo destinados às classes de alto poder aquisitivo. Aos trabalhadores pobres e suas famílias, fosse imigrantes recém-chegados


ou nacionais, sobravam os cortiços, ou então se dirigir para as bordas da cidade, para as ladeiras e baixadas, nesse caso, em geral, as terras baixas enxutas contíguas aos rios e córregos, mas de qualquer modo sujeitas a terríveis problemas de drenagem, o que as aproximava das várzeas alagadiças, em direção as quais a ocupação avançava. Formavam-se assim, bairros “sem plano de conjunto; frutos da especulação imobiliária de terrenos ‘em lotes e a prestações’ - o maior veio de ouro que se descobriu nesta São Paulo de Piratininga do século 20’, cuja marca era a precariedade.” [...] [RETIFICAÇÃO DO TIETÊ] “Os projetos de retificação do Tietê sucediam-se. […] As propostas de Saturnino de Brito implicavam que o poder público tomasse parte na administração

do Tietê a montante de Parnaíba, de forma a coordenar os diversos interesses que existiam em torno do rio e o uso múltiplo de suas águas. Propugnava, além das obras de retificação, a ampliação da calha do rio, barragens, reservatórios de cabeceiras e aterros. Previa a construção de avenidas laterais e pontes e recomendava que a prefeitura elaborasse um plano geral de arruamentos e trabalhasse de forma cooperativa com o governo estadual. Propunha a preservação de trechos de várzea, reguladores naturais da vazão do rio e o replantio de mata ciliar a montante da cidade. Dois grandes lagos na altura da Ponte Grande ajudariam a regularizar as águas do Tietê e seriam utilizados recreativamente pela população, ao mesmo tempo que sua abertura forneceria material para os aterros. Haveria ainda áreas verdes ao longo do


[...] Tietê, como na confluência com o Pinheiros, o qual, utilizado pela população na estiagem, teria a função de acolher as águas dos rios na época das chuvas. Por fim, cabe notar que Saturnino ressaltava a necessida de se discriminar o patrimônio público e particular, pois somente com a notícia dos melhoramentos projetados e a valorização imboliária que provocariam, “já se deslocavam as cercas”, sendo “preciso agir antes que as cousas se compliquem mais e a Municipalidade tenha notavelmente diminuído o seu patrimônio”. O projeto, na forma de relatório, foi concluído em outubro de 1925 e, no ano seguinte, publicado, o que demonstrava interesse em dar publicidade às propostas e aos estudos minuciosos. No mesmo ano de 1926 assumiria um novo prefeito, José Pires do Rio, que dissolveu a Comissão de Melhoramentos

do Tietê, para recriála no ano seguinte, mas agora sem Saturnino de Brito. O novo chefe da comissão, João Cintra, reformulou o projeto de seu predecessor, que ficou reduzido à retificação, à construção das avenidas laterais e pontes e à liberação das várzeas para serem ocupadas. Desaparecia a proposta de intervenção holística defendida por Saturnino e a perspectiva do uso múltiplo do rio. Assim o próprio combate às enchentes ficava em segundo plano.” [pp 63-64] [...] [A LIGHT; AS “ELITES NATIVAS”; O CINEMA!] “O abastecimento de água não foi capaz de interferir beneficamente no futuro do Tietê. Na verdade este foi definido cada vez mais pela hidroeletrecidade, mais precisamente pela São Paulo Tramway Light and Power Company Limited,


que deteve o monopólio do setor por quase oitenta anos. A empresa, um conglomerado canadenseanglo-americano, foi criada em Ontário, Canadá, e autorizada a funcionar no Brasil por um decreto do presidente Campos Sales em 17 de junho de 1899. Era comandada no Canadá por William Mackenzie, que tinha como sócio maior o engenheiro elétrico norteamericano Fred Pearson. Na verdade, o grupo de capitalistas que dominavam a Light, seus fundadores e principais acionistas, lideravam empreendimentos em diferentes partes do mundo. […] A partir da Europa e da América do Norte grandes empresas capazes de mobilizar recursos técnicos e financeiros transformavam novas fontes de energia descobertas no final do século 19 em mercadorias lucrativas, capazes de serem produzidas e distribuídas em larga escala. A atuação da

Light, no Brasil, assim, fazia parte de um contexto maior. […] Regiões frágeis do ponto de vista militar e incorporadas ao mercado mundial como exportadoras de produtos primários tornaram-se rapidamente os principais destinos dessas aventuras empresariais, pois ofereciam altas taxas de lucros e moeda forte, resultado das exportações. Afinal, as elites nativas eram suscetíveis às pressões dos países centrais e dos grandes grupos financeiros, quando não seus aliados e sócios, e a economia exportadora demandava investimentos em ferrovias, portos e telégrafos. As cidades que cresciam, por sua vez, precisavam ser dotadas de infra-estrutura urbana. É pouco provável que os moradores da paulicéia imaginassem que a simples autorização concedida à Light para construir uma hidroelétrica na Cachoeira do Inferno, no rio Tietê, altura de Parnaíba, como


[...]

constava no contrato de iluminação pública da capital, em 1899, fosse se tornar a ponta de lança para que a empresa se apropriasse completamente dos recursos hídricos de São Paulo algumas décadas depois. Pelo contrário, a perspectiva da construção de uma grande usina, substituindo a pequena usina elétrica movida a vapor da Companhia Água e Luz de São Paulo foi motivo de satisfação para grande parte dos habitantes da capital paulista, que acreditavam ver sua cidade na era da eletricidade abundante, com tudo de maravilhoso que ela prometia, bem como a luz e os bondes elétricos que substituiriam a iluminação a gás e os bondes puxados por burros, estes mantidos pela Companhia Viação Paulista. E ainda havia o cinema. O monopólio foi a pedra angular da atuação da Light em São Paulo; a empresa, através

de manobras jurídicas, políticas e financeiras, rapidamente afastou seus concorrentes brasileiros, a Companhia de Água e Luz e a Viação Paulista. A britânica São Paulo Gás e Co. resistiu durante algum tempo, e disputou o mercado de iluminação pública, mas acabou sendo incorporada pelo grupo Light. Do ponto de vista técnico e organizacional a empresa era eficaz e uma verdadeira máquina de fazer lucros e dividendos. Assim, rapidamente percebeu que poderia operar no mercado de terras, aproveitando seu enorme poder de intervenção no espaço urbano para especular ou valorizar propriedades de aliados locais. De fato, para que pudesse operar sem restrições, a empresa mantinha relações próximas com a elite política e social, que procurava incorporar aos seus negócios, com o que se precavia também de


sentimentos nacionalistas. Em 1907, um relatório da Light enviado à sede em Toronto informava com satisfação que Albuquerque Lins, recém-eleito presidente do Estado, ‘é um homem bem conhecido da companhia e acreditase que a atitude do novo governo será a de manter as justas e agradáveis relações existentes durante a administração passada’ - a de Jorge Tibiriçá. […] A empresa mantinha jornal de circulação diária para se contrapor aos seus numeros críticos, e chegava mesmo a atuar eleitoralmente.” [pp. 72-75] [...] [AINDA SOBRE A LIGHT] “Já na década de 1920 o sistema hidroelétrico montado pela Light não era capaz de garantir o fornecimento pleno de eletricidade em São Paulo, o que ameaçava a expansão industrial

paulista. Apesar disso, a empresa tomava todas as medidas para impedir a quebra de seu monopólio, valendo-se de seus recursos financeiros e de influências, conseguindo leis e contratos privilegiados. Assim, a Light, sistematicamente, procurou se apoderar dos acidentes capazes de abrigar grandes projetos hidroelétricos públicos ou privados em uma vasta zona ao redor de São Paulo. Mesmo grandes capitalistas nacionais como a Companhia Brasileira de Energia Elétrica, de propriedade de Eduardo Guinle e Candido Gaffré, nada menos que os proprietários da Companhia Docas de Santos, e que tentavam penetrar no mercado paulistano, foram incapazes de vencer o monopólio da empresa. […] O monopólio privado ajudava a criar situações como as de 1924 e 1925. Nesses anos, uma forte estiagem atingiu São Paulo e o abastecimento


[...]

entrou em crise: os bondes elétricos não conseguiam subir as ladeiras, anúncios luminosos foram proibidos nas lojas, moradores temeram ficar no escuro e industriais de irem à falência devido às máquinas paradas. […] A Light aproveitou a situação de crise e diante dos reclamos generalizados da população de São Paulo, impôs ao poder público o controle de toda a bacia do Alto Tietê. Cabe notar que o presidente do Estado entre 1924 e 1927 era Carlos de Campos, um ex-advogado da empresa e genro de um dos nativos que deu suporte à entrada do grupo no mercado brasileiro. […] Assim, em 1925, a Light apresentou uma proposta grandiosa ao governo estadual, o projeto Serra, que consistiu na formação de um reservatório ainda maior que o de Guarapiranga, através do represamento do rio Grande, o outro grande

formador do Pinheiros. […] Contudo, ardilosamente, a Light alterou seu projeto inicial, o que trouxe consequências desastrosas para São Paulo e cidades próximas. Primeiro, conseguiu uma concessão do governo estadual para retificar o rio Pinheiros em troca do direito de propriedade sobre as várzeas inundáveis saneadas, que foram posteriormente vendidas. As várzeas do Pinheiros foram definidas, por esse contrato de concessão, como as áreas atingidas pelas águas do rio com base na maior cheia registrada. Por isso mesmo, em 1929, a Light provocou a maior enchente da história da cidade, ao abrir as comportas de Guarapiranga quando os rios paulistanos já estavam altíssimos em virtude de vários dias de chuva intensa. As águas do Pinheiros e do Tietê avançaram sobre terrenos onde ninguém


jamais imaginaria que isso pudesse ocorrer. Outra modificação fundamental no projeto Serra foi que as águas do Tietê foram incorporadas ao complexo hidroelétrico de Cubatão com a reversão do curso do Pinheiros retificado, através das usinas elevatórias da Traição, construída na altura do Butantã, e a da Pedreira, na represa do rio Grande. O Tietê, represado em Parnaíba, passaria a ser afluente do Pinheiros e as águas de ambos, assim como as da represa de Guarapiranga, iriam para a represa do rio Grande. Correndo ao contrário, os maiores rios da cidade, Tietê e Pinheiros, tornaram-se tributários do pequenino rio das Pedras e passaram a acionar as turbinas em Cubatão. Dessa modo, a Light, em um só lance se apropriou das várzeas do Pinheiros, conseguiu aumentar a produção de eletricidade com menos

investimentos em obras e impediu que as águas do Tietê seguissem em direção a hidroelétrica de seus competidores - que, diante disso, abandonaram seu projeto, vendendo suas instalações para a própria Light.” [pp. 78-81] [...] [POLVO] “Monopolizando grande parte dos serviços públicos em São Paulo, atuando em diferentes negócios, com influência na imprensa e próxima ao poder, entende-se porque a Light era conhecida popularmente como o “polvo canadense”, já que seus tentáculos penetravam por toda a cidade e arredores. E quando o polvo estende seus tentáculos por sobre outra criatura viva, geralmente, é porque ela é sua presa.” [p.84]


[...]

[trechos de “Tietê, o rio que a cidade perdeu - São Paulo


o, 1890-1940”, Janes Jorge, São Paulo: Alameda, 2006]


[Enquanto isso, na terra natal da Light...]

Mariana Castelli vive em Ontario, Canadรก [onde a Light foi fundada, em 1904] e enviou algumas imagens das รกguas de lรก:


SOCORRO / Bruno Dicolla


parte 2:

correnteza calçadas, lágrimas, metais, despejo, tequila, enchente, sai da frente.

Vistas Aéreas: Carlos Bêla


CALĂ&#x2021;ADAS / Ronaldo Miranda


DESPEJO / Rafa Feitosa

saudade, mágoa, arrependimento, choro, vergonha, defeito, erro, engano, sofrimento, passado que não conseguiu ser enterrado, suor, inveja desejo que não podia ter sido desejado, perda, fracasso, preguiça, doença, não-vida, desprezo, desilusão. caixas e mais caixas abarrotadas de tudo o que não é mais digno de lugar na memória. caixas e mais caixas abarrotadas e lacradas com fitas de esquecimento. lá se vão as caixas... certas de que afundarão com o tempo. que fiquem longe dos olhos que fiquem junto à tudo que for podridão. leva rio, leva.


CHICO BACON / Caco Galhardo


VERLAINIANA, OPUS FLUVIAL / Alexandra Monteiro

I chove agora com efeitos especiais e diluvianos. na cama, com os telhados a gemer, e o comando da televisão por perto repetimos - como quem tem medo do escuro somos mortais e isso é que é para sempre.


II estar a meio do dia e não ter noção das horas é uma vitória sobre o cosmos. chove e, portanto, eu deveria estar a padecer de melancolia. tenho mesmo todos os apetrechos que me habilitam ao mais perfeito verlainianismo, mas faltam clepsidras assegurando-me que a cada fôlego sucede um outro, e que isso é o tempo que passa. é, talvez, o último dia para pagar a usura do ócio, ver perfeitamente claro por entre a névoa e os estrangeiros. estou à espera do regresso: serei outra vez ulisses, pisarei todas as ítacas sem saber de qual parti.


III De la musique avant toute chose Verlaine chove precipitadamente uma chuva cheia de pressa e de pressura a fazer fissura neste ver達o de verdade e de chuva.


IV aquieta-me leve breve suave a chuva que tamborila pelos vidros enquanto tenho sono, enquanto tenho eu a mais para mim somente. assim é. sinto tudo ao longe. parece que me acenam de um outro cais talvez oblíquo onde chove também mas como no cinema dos anos cinquenta. estou quase triste da musa que não sou e assim plangente, assim pungente a chuva arruina-me aos poucos os olhos.


C贸rrego Verde / Mathias Fingermann

Algumas imagens e lembran莽as, algumas antigas e a maioria recente do C贸rrego Verde [Rio Verde], pequeno rio canalizado na Vila Madalena que, a cada chuva forte, resolve sair de seus canos para mostrar a sua beleza natural.


saiba do meu rio / Guilherme Coube


Hipopótamos / Rodrigo Bravo Lembram-se dos gregos? Aquele povo interessante que gostava de pensar em várias coisas que hoje copiamos e colamos no mar azul das memórias esquecidas? Muito se disse e muito se fez em nome dos gregos: escrevemos teses e dissertações, usamos para se dar bem com as garotas, justificamos a necessidade de se olhar no espelho toda hora, inventamos o amor, etc. Eu posso passar o ano inteiro listando as coisas lindas que fizemos com eles, mas infelizmente o número de coisas horríveis vem aumentando. Na maioria das vezes, avacalhar com os helenos se resume a duas práticas nada louváveis: ser a Alemanha ou o FMI e negar empréstimos (bando de ingratos), ou dizer frases dos coitados fora de contexto, numa viagem louca de falsos argumentos ab auctoritatis (vigamestra da nossa academia).

Sim, o segundo é mil vezes pior que o primeiro. Horroroso é ouvir sofistas usando a boca de caras gente-fina como o Sócrates para proferir seus impropérios. Eles dizem “conhece-te a ti mesmo” como se fosse o jeito chique de dizer “vá cuidar da sua vida mermão”. Citam Hesíodo (outro cara legal, trabalhador que só ele) na frase “sim, e bem primeiro nasceu Caos” para dizer que a vida hoje é uma bagunça espiritual homérica (ou hesiódica, talvez). Pasmem, meus senhores, que já vi usarem Protágoras e seu famoso “o homem é a medida de todas as coisas” para justificar que não temos que dar a mínima para os animais, plantas e afins, pois nós somos a bagaça mais importante do planeta. Nada ganhou, entretanto, de um célebre professor que disse “espertinho esse Platão, dizendo que o rei


bom tinha que ser um rei filósofo. Óbvio que ele queria puxar sardinha pro grupelho dele”. A sala do curso de direito orgasmava sob o efeito da proeza retórica do sábio orador. Eu era uma pessoa muito raivosa, quando ouvia essas coisas eu sentia vontade de me matar. “Como podem fazer isso com os gregos! Quanta injustiça!” bradava eu mordiscando meu γιρο (uma delícia) no centro de SP. Tão triste fiquei que abandonei essa vida e fui gregar profissionalmente, embora hoje eu seja professor de inglês (a coisa tá realmente preta para nossos amigos de nomes complexos, vide Equécrates e Cleômbrotes). Em greganças que empreendi pelos dias afora, depareime com coisas incríveis como a etimologia, ciência linda. Através dela descobri, por exemplo,

que tudo que começa com hipo quer dizer menos ou menor. Imaginem minha alegria ao descobrir que hipoglicemia podia ser grego para açucarzinho, ou doce menor, e ainda que hipocampo era o nome verdadeiro do campinho onde jogava bola com meus amigos quando era criança. Todos os meus sonhos foram demolidos quando meus professores riram das minhas “pertinentes” considerações. A juvenil faísca de descoberta que me acendia as faces de orgulho se esvaía num piscar de olhos. Eis que descobri que num outro mundo, regido por outras leis muito mais interessantes, a normatividade da etimologia não podia me afetar. Eu podia fazer o que bem quisesse com os sufixos e prefixos: dava pra tomar café com hipoglicemia e bater uma pelada no hipocampo sem


medo de ser feliz. Foi quando percebi que hoje, em SP, (não) nadamos nos hipopótamos da cidade. Claro! O Tietê é um pótamo que já foi muito bonito antes, mas hoje não passa de um hipopótamo sujo, um misohipopótamo pra ser mais exato.

A filosofia é uma ciência, e precisa ser provada e demonstrada para que possa ser válida. Agora me digam como provaremos essa história de se banhar, se quando ousamos entrar nos nossos pótamos corremos o risco de carimbar o passaporte para o Hades!

Algo deve ser feito a respeito disso! Temos que ser hipopotamófilos! Temos que transformar os nossos lindos rios tupi-guaranis em hiperpótamos bem sadios e felizes (ou, como diriam os gregos, “caroumenos e não mais-ou-menos”), senão acaba-se toda a nossa razão de fazer filosofia nesse mundo. Como assim? Não vê a ligação? Eu explico, Heráclito disse uma vez que “não se banha no mesmo rio duas vezes”. Essa bela citação fez muita gente naquela época pensar bastante, e sem ela não teríamos Platão, Aristóteles, Hesíodo e toda turma.

Proponho fazer placas e piquetes defendendo que a filosofia está por um fio na delicada questão dos rios, ou, podemos fazer a coisa feia que tanto denunciei por uma boa causa: vamos distorcer a bela citação do Heráclito e dizer que um filósofo grego antigo nos apoia. Em Sampa, por razões mais do que esculápias, homem nenhum se banha no mesmo rio duas vezes. Se der certo, nem o rio e nem o homem serão mais os mesmos. Viva o panta rei!


parte 3:

margem as margens são 3.

Vistas Aéreas: Carlos Bêla


[Frames do filme â&#x20AC;&#x153;A Margemâ&#x20AC;?, 1967, Ozualdo Candeias]


A Margem 1967 Ozualdo Candeias [Personagens amam, brigam, riem, caem e morrem Ă s margens do TietĂŞ.]


rio que tem no centro / Carlos Issa


na entrada do TietĂŞ / Marcos Alonso


na entrada do Tietê, não dá pra nadar mas dá pra andar de skate.


Birruguinha / Bia Bittencourt


Living in Between / Bruna Canepa & Ciro Miguel


parte 4:

foz criar parques lineares; nadar, pescar, navegar ou derreter? manifesto capivara; banho de rio; quebrar a rua e cuidar em volta; viver entre rios; o anel hidroviário! a metrópole fluvial! a Ingrid!

Vistas Aéreas: Carlos Bêla


O Parque Linear do Rio Verde Revivendo os rios paulistanos / Baixo Ribeiro

O Rio Verde, hoje canalizado, nasce de alguns braços, um próximo à estação do Metrô e entra na Vila Madalena, percorrendo um trajeto sinuoso que passa pelos dois Becos do Graffiti . No verão, época das chuvas, o rio transborda, causando grandes preocupações à população local, além de ocorrências fatais por causa da violência dessas enchentes.
 A criação de um parque ao longo do Rio, na Vila Madalena, objetiva resolver o problema das enchentes e preservar o caráter cultural pelo qual o bairro se tornou famoso.
 Seguindo as tendências de cidades como Nova Iorque , Amsterdam, Londres, entre outros centros bem urbanizados,

o espaço público está voltando a ser ocupado pela população, onde cada vez mais, os carros estão dando lugar aos pedestres e bicicletas. Em Seoul e em outras cidades, muitas iniciativas têm trazido os rios de volta à convivência com as pessoas, mesmo que tenham sido esquecidos canalizados e ficado em baixo da terra por décadas. 
Em São Paulo, vivemos uma disfunção de ordem gigantesca. Sendo uma localidade onde os rios são intermitentes, ou seja, aparecem caudalosos no verão e quase somem no inverno, seria razoável termos cuidado das margens em torno deles, para que no momento de cheia, eles tivessem as várzeas para acomodarem seu volume de


água.
 Ao invés disso, optamos por “esquecer” o fato de que os rios surgem grandes no verão e deixamos as margens dos rios paulistanos serem totalmente ocupadas, inclusive as do Pinheiros e Tietê. Não satisfeitos, canalizamos todos e colocamos ruas e avenidas em cima deles. A 9 de Julho, 23 de Maio, Bandeirantes, Juscelino Kubitcheck, Roberto Marinho são todas avenidas que ignoram a existência dos rios embaixo delas...
 O fato é que os rios reaparecem todos os anos e “criam” as fatídicas enchentes que tanto estrago fazem a TODOS na cidade. A economia perde uma fortuna, pessoas perdem suas casas e

carros, além, claro, das vidas que são levadas.
 Se existe solução, certamente passa pelo reconhecimento de que fizemos uma bela “cagada” urbanística, iniciada com o prefeito Prestes Maia nos anos 40. (O projeto urbanístico correto para São Paulo tinha sido proposto por Saturnino de Brito na mesma época, mas optamos pelo plano de Maia, que contemplava uma cidade futurista cheia de carros e arranha-céus). Chegamos onde ele havia planejado, mas perdemos muita coisa no caminho, infelizmente.


Campanha / Piseagrama

Campanha lanรงada em 4 capitais: BH, SP, Recife e Fortaleza.


http://piseagrama.org


Intervenção / Casa da Lapa

Essas fotos foram impressas em papel fotográfico e colocadas entre 2 barras de gelo e penduradas sobre o rio do galpão do SESC Pompeia, durante a Virada Cultural. No fim do processo só sobraram as fotos nos meios das cordas.


Itoror贸 / Casa da Lapa


Saracura / Casa da Lapa


TietĂŞ / Casa da Lapa


Manifesto Capivara / Casa da Lapa

Em 2009, numa roda de conversas em Piracicaba, com café e paçoca, vem a noticia de que todas as manhãs mais de 300 capivaras invadem o estacionamento do shopping da cidade. Elas, descendentes direta dos grandes roedores do banhado, são resistentes à resistência. E vêm apontando em várias margens de rios, muitos desacreditados de vida. Marginais na cidade que outrora fora várzea. As capivaras estão ressurgindo nos grandes centros, gritando pelo direito de rios e

de vida. Nas grandes civilizações, os rios foram sempre consagrados como seres divinos. Eles supriam de vida aqueles que viviam as suas margens, muito diferente do que ocorre em nossa urbanização. Nossos rios, que já somaram perto de 9.000 km de margens só na cidade de São Paulo, estão fadados ao papel de coletores de esgotos – ou simplesmente ocultados para servirem de avenidas para carros. Achamos difícil discutir qualidade de vida numa cidade onde os rios estão


escondidos. Onde só são lembrados em épocas de chuvaradas. Onde galerias subterrâneas explodem em busca da passagem do seu curso original. Uma cidade que somente privilegia automóveis ante a vida e as pessoas. Queremos que as capivaras sejam símbolo de uma nova ocupação urbana, onde possamos ter canais à mostra no meio da Av. Nove de Julho, da Av. Pacaembu, da Av. Sumaré, nos bairros. Águas que corram límpidas e sejam cortejadas pela população em suas margens.

Sejamos marginais de rios que são os primeiros endereços na nossa ocupação urbana. Através de intervenções artísticas diretas, focamos um olhar às margens, muitas ocultas em nosso cotidiano. Saber que elas existem e que podemos usar estes rios de uma outra maneira, com respeito à vida. Um rio é um espaço público, de troca, de fartura, de convívio, de educação e de cidadania. Sejamos capivaras e vamos revolver as margens que estão aos nossos passos.


Banho de Rio / Tatiane Vesch


Cheong Gye / Tatiane Vesch

tem um cara em Seul que fez algo muito bonito por um rio. mandou quebrar toda a rua que tinha em cima dele, cuidou em volta, fez uns parques e tratou o cheong gye muito bem.


o plano dele ĂŠ muito simples: encanar os carros e desencanar os rios.


Entrevista: Caio Ferraz - diretor do vídeo “Entre Rios”

“Entre Rios” conta de modo rápido a história de São Paulo e como essa está totalmente ligada com seus rios. Muitas vezes eles passam desapercebidos e só se mostram quando chove e a cidade para. Alguns foram escondidos de nossa vista e outros vemos só de passagem, mas quando o trânsito para nas marginais podemos apreciar seu fedor. É triste mas a cidade está viva e ainda pode mudar! O vídeo foi realizado em 2009 como trabalho de conclusão de Caio Silva Ferraz, Luana de Abreu e Joana Scarpelini no curso em Bacharelado em Audiovisual no SENAC-SP, e contou com a colaboração de várias pessoas.

assista ao vídeo “Entre Rios” em: http://vimeo.com/14770270


1.

É ingenuidade querer nadar e pescar em SP? CAIO FERRAZ: Querer nadar e pescar nos rios da cidade de São Paulo hoje em dia é ingenuidade porque de um modo ou de outro é muito fácil de se pegar alguma doença. Porém acredito ser necessário essa projeção, é importante pensar que uma nova cidade é possível. E isso só se tornará real se muita gente sonhar com isso.

2.

Você acha que será possível, um dia, voltar a nadar e pescar em SP? CF: O primeiro passo para melhorarmos nossa relação com nossos rios é despolui-los. Enquanto os rios e os córregos forem vistos como esgoto ninguém vai querer e nem mesmo pensar em nadar nos rios. Para isso acontecer

será necessário que uma grande e/ou importante parte da sociedade esteja interessada nessas mudanças e muita vontade política, talvez aí se encontre alguma ingenuidade. São diversos os fatores que tornam isso difícil. Seria necessário um plano integrado entre todas as prefeituras da Grande São Paulo com o objetivo de sanear 100% das áreas e tratar todo o esgoto coletado. Hoje em dia se coleta em média 60% do esgoto e se trata 50% do coletado na cidade de São Paulo, mas os números em outros municípios são totalmente diferentes, melhores ou piores. A meu ver toda micro-bacia deveria ter uma estação de tratamento de esgoto. Não acredito que será possível se nadar no Tiête e no Pinheiros porque são rios grandes, mas gostaria que uma pessoa que caísse nestes rios não tivesse um risco tão grande de infecção, e qualquer um


pudesse pescar um peixe e comer com seus amigos e familiares. Se os rios fossem limpos os peixes voltariam e aí talvez fosse possível criar novos lagos como do Ibirapuera ou da Aclimação que tivesse área de banho, pedalinhos e etc.

3.

Durante a produção do “Entre Rios”, quais imagens, fatos ou informações mais te impressionaram? CF: Algumas imagens me impressionaram, principalmente aquelas que mostravam as várzeas do Pinheiros e Tietê antes da canalização e durante. Estas eram áreas gigantes e os rios davam grandes voltas. É impressionante pois não parece ser São Paulo. Outra coisa muito interessante é a evolução dos desenhos de Prestes Maia do livro do Plano de Avenidas de 29 para o Melhoramentos de

São Paulo de 45. O tipo do traço muda muito, antes os traçados eram mais pitorescos, mais coloridos, nos anos 40, já com influência do Modernismo na arquitetura os croquis mudam totalmente, viram mais retos e preto e branco. Prestes Maia era um grande desenhista, professor de desenho na Politécnica de SP. Outra foto que gosto muito é a do vale do Itororó, que no vídeo tem uma comparação com a vista atual. Esta foto foi tirada pelo antropólogo Levi-Strauss quando ele veio a São Paulo montar os cursos de humanas da USP. Acho interessante o fato de ser um estrangeiro quem tirou aquela foto. Um brasileiro daquela época não acharia aquela paisagem digna de ser fotografada.

4.

No que você está trabalhando atualmente?


Estou começando a desenvolver um documentário sobre a questão da terra em São Paulo. Um documentário que discutirá o modelo de construção que está se desenvolvendo em São Paulo. Espero terminá-lo até o meio de 2013.


s茫o paulo, metr贸pole fluvial; hidroanel metropolitano de sp:


que ideias s達o essas?


[Sobre o Grupo Metrópole Fluvial]

Uma cidade desenhada pelas águas dos canais e lagos dos rios; um mapeamento de nossos córregos ocultos; a criação do Hidroanel Metropolitano de São Paulo, "uma rede de vias navegáveis composta pelos rios Tietê e Pinheiros, represas Billings e Taiaçupeba, além de um canal artificial ligando essas represas, totalizando 170km de hidrovias urbanas" - estes são alguns dos projetos do Grupo Metrópole Fluvial, ligado à FAU - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. "Viabilizar o Hidroanel não significa apenas

promover a navegação, mas se trata também da possibilidade de retomar a importância da visibilidade dos rios urbanos, da sua capacidade de estruturar espaços, valorizálos e edificar uma cidade que promova a qualidade de vida dos seus habitantes. Deve-se retomar a função dos rios como elementos da identidade de São Paulo.” […] “No urbanismo lento, o ritmo do homem é imperante. O espaço é construído segundo a escala humana, baseada em referências do corpo e nas suas


potencialidades. Os trajetos e lugares se constituem segundo uma lógica de atividades cotidianas, permitindo que elas se concretizem de maneira fluida, fácil e agradável.” […] “Reestruturar São Paulo pautandose nos parâmetros do urbanismo lento e das ruas vivas significa retomar o papel original da cidade: espaço de reunião de pessoas com capacidades e talentos diversos que se complementam e constroem um habitat mais rico em conjunto. Uma cidade que não

promove esse tipo de atividade, que permite o usufruto da multiplicidade inerente numa sociedade, gera o isolamento dos indivíduos. Perdese a possibilidade de trocas de ideias e conhecimentos, mantendo-se apenas as trocas mercantilistas, de bens e serviços." [trechos do texto de apresentação do Grupo Metrópole Fluvial] Saiba mais sobre o grupo e seus projetos em: http://metropolefluvial. fau.usp.br / http://metropolefluvial. wordpress.com


[Alexandre Delijaicov no programa Provocações - TV Cultura]

Alexandre Delijaicov é um dos coordenadores do Grupo Metrópole Fluvial e foi entrevistado por André Abujamra para a TV Cultura em 17/04/12. A seguir, alguns trechos do programa: Antônio Abujamra: “Tem razão quem diz que você é um pouco louco?”

Alexandre Delijaicov: “Deve ter razão porque quem diz isso deve estar abduzido ou hipnotizado por esse urbanismo rodoviarista e mercantilista condicionado por uma sociedade de consumo inconsequente, fruto do capital. Provavelmente essa pessoa


que diz que eu sou louco é uma pessoa resignada a esse tipo de estrutura servil que nos condena há 5 séculos de escravidão.”

para todos, não promove a convivência e a confiância.”

[...]

"Existiam só no município de São Paulo 4 mil km de rios e córregos, que se transformaram em avenidas e ruas. Se multiplicarmos por 2 margens, nós tínhamos 8 mil km de costa, 8 mil km de potencial praia

“O modelo arquitetônico em voga na cidade de São Paulo é muito perverso porque não é desenhado

[...]


fluvial urbana que perdemos por conta do traçado de avenidas de fundo de vale, não só as marginais Pinheiros e Tietê mas a Avenida Anhaia Melo que soterra o córrego da Móoca, a avenida Salim Farah Maluf que soterra o córrego Tatuapé, que dá nome ao Tatuapé…" [...] “A ideia da recuperação do transporte fluvial urbano na metrópole de São Paulo, que existiu até 1930 e infelizmente sucumbiu por conta de uma visão rodoviarista do Prestes Maia - o engenheiro Prestes Maia, depois prefeito, que implantou o plano de avenidas mas até 1930 existia navegação fluvial em São Paulo, durante 500 anos existia navegação em SP nós estamos propondo.” [...] Antônio Abujamra: “Quantos

adeptos a sua metrópole fluvial já tem entre os arquitetos?” Alexandre Delijaicov: “Na FAU-USP onde dou aula de projetos felizmente nós constituímos já um grupo de pesquisa, posso dizer até consolidados, da graduação e da pós e arquitetos recém-formados. Uma felicidade porque na verdade esse projeto tem uma dimensão coletiva muito grande. Está na história da fundação da FAU-USP que tem mais de 60 anos, pra falar a verdade, tá na história da fundação da Escola Politécnica da USP, esse projeto da metrópole fluvial estava latente com os primeiros engenheiros hidráulicos que deveriam receber títulos de arquiteto pela FAU-USP, que é o famoso engenheiro Saturnino de Brito, que projetou os canais de Santos, por exemplo.”


veja a entrevista completa em: http://tvcultura.cmais.com. br/provocacoes/programa562-com-o-arquitetoalexandre-delijaicov-17-042012-bloco-1 [se preferir, acesse o link em http://creta.com/rios]


rio_ingrid / Ingrid

“ela tem 4 anos, ela veio aqui em casa e eu pedi pra ela desenhar um rio pra Creta, é esse.” [Tati Vesch]


REVISTA CRETA # 02: RIOS DE SP: JANEIRO/2013

COLABORADORES [consulte sites dos colaboradores em revistacreta.com/sobre]

ALESSANDRO MUZI arquiteto, ilustrador, escritor ALEXANDRA MONTEIRO escritora, míope por convicção BAIXO RIBEIRO co-fundador da Choque Cultural BIA BITTENCOURT artista, cozinheira BRUNA CANEPA artista, construtora BRUNO DICOLLA artista, crítico de spams CACO GALHARDO cartunista, dramaturgo CAIO FERRAZ cineasta CARLOS BÊLA artista CARLOS ISSA objeto amarelo CASA DA LAPA convergência e irradiação artística CIRO MIGUEL arquiteto, fotógrafo CLEITON CAMPOS jornalista, jardineiro ESTEVÃO AZEVEDO escritor GUSTAVO GUIMARÃES diretor, música, tv, vídeo GUILHERME COUBE escritor INAÊ BATISTONI historiadora INGRID criança JOÃO MAIA saci pererê MARCOS ALONSO fotógrafo MARIANA CASTELLI crítica literária, tradutora


MATHIAS FINGERMANN boas fotos, bicicleta OSCAR E. QUIROGA astrólogo PISEAGRAMA publicação sobre Espaços Públicos RAFA FEITOSA artes visuais e poesia RODRIGO BRAVO escritor, tradutor, professor RONALDO MIRANDA fotos, vídeos e filosofia TATIANE VESCH desenho, texto, maquiagem, mito TAYLA NICOLETTI desenho, animação, filme VERMES DO LIMBO excelente banda + citações dos trabalhos de: GRUPO METRÓPOLE FLUVIAL FAU-USP GONÇALO M. TAVARES escritor português HERÁCLITO filósofo pré-socrático JANES JORGE professor, historiador OZUALDO CANDEIAS cineasta brasileiro EXPEDIENTE edição e diagramação: Ana Pands AGRADECIMENTOS a todos os colaboradores pelas obras enviadas, a Elomar, Akira, Max e Mari Castelli pela companhia, ao Kiko por apresentar o Candeias.


tchau, tchibum.

creta_rios  

revista creta # 02: os rios de sp

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