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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS

CENTRO DE LINGUAGEM E COMUNICAÇÃO FACULDADE DE ARTES VISUAIS COM ÊNFASE EM DESIGN

ANA PAULA DE MIRANDA E SOUZA

A ARTE DE OLHAR PARA A CIDADE

CAMPINAS 2010


ANA PAULA DE MIRANDA E SOUZA

A ARTE DE OLHAR PARA A CIDADE

Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado como exigência para obtenção da Graduação em Artes Visuais com ênfase em Design, do Centro de Linguagem e Comunicação da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Prof. Dr. Helder Oliveira

PUC – CAMPINAS 2010


Ficha Catalográfica Elaborada pelo Sistema de Bibliotecas e Informação - SBI - PUC - Campinas m711.6 S729b

Souza, Ana Paula de Miranda e. A arte de olhar para a cidade./Ana Paula de Miranda e Souza.- Campinas: PUC Campinas, 2010. XXp. Monografia (Graduação) – Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Centro de Linguagem e Comunicação, Faculdade de Artes Visuais. 1. Paisagem urbana 2. Paisagens na arte 3. Vida urbana 4. Cidades e vilas – Campinas (SP) - Arquitetura I. Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Centro de Linguagem e Comunicação, Faculdade de Artes Visuais II. Título.

22.ed. CDD – m711.6


Ă€ minha mĂŁe... minha primeira e eterna professora.


A meus irmãos, pelo apoio e compreensão... À Ching e Leandro, pela amizade... Ao Rodolfo, por tudo... A Deus, por todos eles...


“A arquitetura como construir portas, de abrir; ou como construir o aberto; construir, nĂŁo como ilhar e prender, nem construir como fechar secretos; construir portas abertas, em portas; casas exclusivamente portas e teto.

O arquiteto: o que abre para o homem (tudo se sanearia desde casas abertas) portas por-onde, jamais portas-contra; por onde, livres: ar luz razĂŁo certa.


2. Até que, tantos livres o amedrontando, renegou dar a viver no claro e aberto. Onde vãos de abrir, ele foi amurando opacos de fechar; onde vidro, concreto; até refechar o homem: na capela útero, com confortos de matriz, outra vez feto.”

(Melo Neto, 1966)


R E S U M O

O presente trabalho pretende explorar o processo de perda da observação e apreensão da paisagem através da relação arte-arquitetura. Atualmente, o caos urbano, a poluição visual e mesmo a rotina levam a uma perda da paisagem e consequente perda da cidade. Por isso a intenção é evidenciar locais onde o trânsito de pessoas é intenso, embora a permanência delas seja esporádica e o lugar, o cenário passa desapercebido dos transeuntes.

Palavras chave: ARTE, ARQUITETURA, OLHAR, CIDADE, PERDA.


S U M Á R I O

INTRODUÇÃO

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REFERÊNCIAS

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POÉTICA 37

PROBLEMATIZAÇÃO

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CONCLUSÃO

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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INTRODUÇÃO

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Se a “arquitetura é um lugar em que, simplesmente, se desenrola a vida1”, esse desenrolar deve ser a arte. A arte e a arquitetura contemporâneas têm seus fundamentos nas questões espaciais, ambientais e sociais associadas a novas mídias e tecnologias que engendram novos fazeres tanto arquitetônicos, quanto artísticos.

A arquitetura já não é mais centrada no “habitar” seja nesta ou em outra vida e a arte passou a ter conceitos muito mais amplos que meramente comunicar ou expressar algo sacro ou secular. Dessa forma perdeu-se também a percepção da paisagem, a arquitetura verticalizou a cidade e assim foi fechando, reduzindo a visão que o homem tinha de mundo.

Na mesma medida, a sociedade se desenvolveu e diversas novas ferramentas foram criadas para ampliar seus horizontes, porém parece haver uma relação indiretamente proporcional nesse caso, pois os avanços tecnológicos muitas vezes tornam os homens cada vez mais individualistas e cegos. Com ferramentas e softwares em que se é possível conhecer boa parte do mundo, sem nem ao menos sair de casa, a sociedade tende ao ostracismo e isso gera uma arquitetura e uma arte bastante peculiares.

A crescente onda de condomínios, vilas ou simplesmente ruas que são fechadas pelos moradores e controladas a partir de guaritas, torna 1

Peixoto, Nelson Brissac. “Paisagens Urbanas”. 2ª ed. pag 270 19


Lygia Pape Divisor, Performance. S達o Paulo, 1968 20


evidente a questão social da segurança pública a qual a arquitetura vai se adequando. Em contrapartida se pensarmos em trabalhos como de Lygia Pape, “Divisor”, vemos que a ação humana é fundamental, não isoladamente, mas sim no coletivo. É interessante notar que o trabalho só toma algum significado quando todos juntos, o fazem acontecer.

Numa tribo do norte da África do Sul, as pessoas se cumprimentam com a seguinte expressão: “Sawu bona” (eu te vejo – literalmente), ao que o outro responde: “Sikhona” (eu existo). Portanto é essa relação (lacaniana) que um só passa a existir se houver o outro para vê-lo, por isso a intenção máxima deste trabalho é levantar questões concernentes ao processo de cegueira coletiva ou da negação à visão, ao apreciar da paisagem urbana, já que a cidade somente vai existir ou fazer sentido quando alguém vê-la. Assim é também com a arte.

O presente trabalho busca evidenciar as questões do olhar, do ver e ser visto por outrem, de ser visto para então passar a existir e fazer sentido na sociedade. A arte e a arquitetura se mesclam, pois os elementos fundamentais que dão sustentação a toda a edificação, em geral estão escondidos e passam despercebidos de nossos olhos dado ao caos visual do entorno ou mesmo a rotina de olhar muitas vezes a mesma configuração de elementos.

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Dessa forma, a obra se estabelece como ponte para o que é visível, porém não visto. Como a própria Lygia Pape, já mencionada anteriormente falava: “para ver algo, basta este existir, tudo esta aí, pronto para ser revelado”.Criar evidências e revelações através das linhas que formam a imagem, já que apesar das constantes alterações na paisagem alguns elementos permanecem inalterados e inertes. Em geral são elementos que compõem um conjunto harmônico, que dão sustentabilidade à edificação onde acontece a vida.

As linhas rígidas sobre o fundo escuro remetem diretamente ao layout do software Auto CAD, da Autodesk, ferramenta comumente usada por engenheiros e arquitetos para elaboração de seus projetos. O fundo escuro também conota a ferocidade e dureza da urbanidade, parafraseando-se Brissac, a paisagem não se descortina mais aos olhos. O fundo vem de encontro a essa inacessibilidade visual.

Portanto, tomando por ponto de partida as cidades de São Paulo e Campinas, metrópoles nacional e regional – respectivamente, o trabalho pretende instigar a ver e conhecer a paisagem urbana seja a skyline dessa metrópole, ou o conjunto estrutural de um prédio; seja macro ou micro. Tudo é objeto de contemplação e em tudo podemos ver a nós mesmos.

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Ana Paula de Miranda e Souza Skyline, Fotografia Digital. Campinas, 2009 23


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REFERÊNCIAS

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Paulo Climachauska Projeto Moderno, Bienal. Nanquim e acrĂ­lica sobre tela, 250 x 200 mm. SĂŁo Paulo, 2007 26


O primeiro artista a quem tomo por referência é Paulo Climachauska, historiador e artista plástico, que, através de operações matemáticas de subtração alinhadas, reconstrói e reconfigura imagens a partir da exclusão visual, deixando apenas o contorno dos elementos representados. Sua obra em exposição na Pinacoteca do Estado de São Paulo, “Projeto Moderno, Bienal” de 2007, é de suma importância para meu trabalho, pois a partir dela considerei com maior veemência a possibilidade de trabalhar a imagem apenas com linhas rígidas.

Assim como a obra literária do artista Wassily Kandinsky que teorizou elementos fundamentais artísticos. Seu livro “Ponto e linha sobre o plano” é a explanação literal de sua obra plástica, publicado em 1926, o livro traz inúmeros aspectos formais para a ciência artística. Diz: “hoje o homem é dominado pelo mundo exterior, e o interior morreu para ele. [...] é óbvio que todo o fenômeno do mundo exterior ou do mundo interior pode encontrar sua expressão linear – uma espécie de transposição”.

Uma transposição que vai além das artes plásticas e alcança correspondência também na literatura como a obra do poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto que foi primordial para a reflexão quanto às relações homem-cidade, arte-cidade. Sua afinidade com a arte e a arquitetura modernas lhe confere a objetividade e a coesão características do movimento modernista, pois para ele a arte é construção 27


e não intuição. Cabral considera que “a poesia, é uma construção, como uma casa. Isso eu aprendi com Le Corbusier. A poesia é uma composição. Quando digo composição, quero dizer uma coisa construída, planejada – de fora para dentro.” (Melo Neto, 1994).

Recentemente, em uma palestra, o filósofo Nelson Brissac Peixoto declarou: “o olhar se dá de dentro”, ou seja, o olhar é algo construído em nossa mente diferente do olhar retiniano, em que nossa mente capta não só os elementos visíveis, mas o contexto sociocultural, as questões ambientais envolvidas, as sensações que a paisagem ou o lugar lhe remetem. A apreciação de uma paisagem passa por filtros inconscientes que definirão a vista como agradável ou desagradável, bonita ou feia, considerações até simplistas levando-se em conta o fato de a paisagem urbana ser tão carregada de elementos e significados.

O arquiteto Mies Van der Rohe também faz parte do rol de referenciais artísticos. Modernista, concebeu e difundiu o termo “Less is More”, “Menos é Mais” com sua linguagem arquitetônica simples e clara. Sempre levando em consideração o entorno, sua arquitetura retilínea depura as formas e as funções e conjuga a paisagem com o interior através de imensos panos de vidro2·. Sem adornos, seus projetos eram objetivos, seguia a tendência construtivista russa de construções eficientes aliadas 2 A expressão “panos de vidro” vem da construção civil, um pano corresponde à distância entre dois pilares a ser preenchida, usualmente com alvenaria (tijolos), mas no caso de Mies van der Rohe, ele vencia esses vãos com vidro. 28


à tecnologia da construção moderna. Seu projeto para o Pavilhão Alemão de Barcelona (1929), retratado abaixo, resumia todo o movimento construtivista e modernista. Bruno Zevi3 o descreve: “Painéis de travertino e mármore, lâminas de vidro, superfícies de água, planos horizontais e verticais que quebram a imobilidade dos espaços fechados, rompem os volumes e orientam o olhar para vistas exteriores.”

Mies van der Rohe Pavilhão Alemão. Barcelona, 1929

Em geral, a arquitetura moderna era pensada para dialogar com o entorno, mesmo considerando cânones tão rigorosos a forma rígida e ortogonal era contrária à sinuosidade natural do campo. A cidade moderna nasce e se desenvolve a partir da industrialização; a paisagem deveria ser projetada a partir dos conceitos racionalistas da perspectiva. 3

Retirado do site http://pavilhaodebarcelona.blogspot.com/ 29


Eixos retilíneos que servirão de linha do horizonte, ou de ponto de fuga para uma visão ampla da cidade moderna.

Lucio Costa Plano piloto de Brasilia, detalhe: Congresso Nacional. Rio de Janeiro, 1957

A paisagem urbana moderna foi fundada nos conceitos da perspectiva renascentista. Por isso para minha pesquisa a artista plástica Regina Silveira é fundamental, pois ela entra com as questões da metodologia conceitual e projetual do trabalho, seus “desenhos projeto”, coonforme ela mesma define, nascem de sua estreita relação com a arquitetura.

O foco é a materialidade da linguagem, a representação exata daquilo que é observável no mundo; através dos códigos renascentistas de perspectiva Regina Silveira leva ao extremo a representação visual do mundo real, ampliando no espaço expositivo o objeto e distorcendo-o com ângulos e perspectivas arrojadas. 30


Regina Silveira Desaparências. Instalação com vinil adesivo. São Paulo, 2007 31


A análise de Jane Jacobs sobre a cidade moderna, emergente nos Estados Unidos desde a década de 30, é contundente. Suas considerações levam a julgar a proposta modernista, uma anti-cidade, pois não respeita a dinâmica da urbanidade. Ela avalia que a visão da cidade deve se dar a partir do olhar do pedestre, uma visão de baixo para cima levando em conta as interações socioeconômico e culturais do meio. Uma visão mais politizada para a cidade.

Brissac em seu livro “Paisagens Urbanas” cita o fotógrafo esloveno Evgen Bavcar que no documentário “A janela da Alma” disse: “[...] atualmente vivemos em um mundo que perdeu a visão. A televisão nos propõe imagens. Imagens prontas, e não sabemos mais vê-las, não vemos mais nada [...] porque perdemos o olhar interior, perdemos o distanciamento. Em outras palavras vivemos em uma espécie de cegueira generalizada.”

Bavcar é fotógrafo e cego, ele considera a falta de percepção da paisagem um problema geral, pelo fato da tecnologia nos proporcionar imagens emblemáticas que representam, mas não significam a paisagem. Como o imperador Kublai Khan perguntando a Marco Polo se, quando ele conhecer todos os signos, todos os emblemas das cidades sob seu domínio, ele finalmente possuiria seu império, ao que o mercador responde que não “nesse dia, Vossa Alteza será um emblema entre os 32


emblemas.” (Calvino, Ítalo – “Cidades Invisíveis”). Calvino fala do conhecimento dos locais, não só saber da existência deles, mas um conhecimento real, palpável. Assim como Brissac, sobre Bavcar revela que “a cegueira descobre a palpabilidade das coisas, constitui um olhar tátil”. Ver além da forma retiniana, perceber e absorver as coisas, os lugares, a paisagem.

Evgen Bavcar

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P O É T I C A

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Ana Paula de Miranda e Souza

Iracemรกpolis. Fotografia 100 x 150 mm. Iracemรกpolis - SP, 1994 38


Sempre morei em cidade pequena, por isso grandes centros urbanos me fascinavam. Cursei Técnico em Edificações e depois, naturalmente, fui para a Arquitetura e Urbanismo de forma que, durante muito tempo, minha principal linguagem era o desenho técnico, arquitetônico e geométrico. A maioria dos projetos e exercícios dessa época indicava uma forte tendência às escolas modernista e minimalista que foram – e ainda são – as maiores influências conceituais principalmente quanto à função, estrutura, estética e entorno.

Ana Paula de Miranda e Souza

Projeto de Mocape. São Paulo, 2001

Dessa forma os elementos essenciais na minha produção são a cidade como paisagem, a arquitetura como tipologia urbana e alguns elementos arquitetônicos e estruturais. Imagens que evidenciam o olhar do pedestre, as constantes alterações na paisagem, ângulos e perspectivas onde o foco é sempre um desses elementos; a figura humana quase não aparece, por vezes nem é necessária e, dependendo do ângulo, seria até improvável.

Ana Paula de Miranda e Souza

Exemplos. Fotografia digital. Campinas e São Paulo, 2000 - 2010

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Sendo assim, recomecei um exercício que era bastante comum em Arquitetura que consistia em tirar fotos da cidade, depois com um papel vegetal, manteiga ou acetato fino sobreposto, desenhar a imagem fotografada. O objetivo do exercício era aguçar a percepção do entorno, da cidade como um todo.

Ana Paula de Miranda e Souza

Estudo. Papel manteiga 210 x 80 mm. Campinas, 2010.

Os primeiros testes realizados foram com o papel manteiga com imagens de Campinas e São Paulo. Logo após, observando e pesquisando sobre o processo de cianotipia, recordei do processo de revelação fotográfica que nada mais é que uma gravura com luz. Concluí que com a vazão certa de luz poderia imprimir meus desenhos da cidade. Portanto empreguei duas técnicas, num primeiro momento utilizei um negativo queimado e com o auxílio de uma ponta seca, risquei o desenho, raspando o sal de prata. Dessa forma onde foi riscado passaria a luz e sensibilizaria o papel fotográfico. Num segundo momento a proposta foi desenhar sobre um papel manteiga e colocá-lo sobre o papel fotográfico. O traço, embora fino, seria o bloqueador para que a luz pudesse imprimir o desenho. Apesar de ter gostado da técnica, ainda não estava satisfeita, por isso procurei outras formas de fazer essa reapresentação da imagem. Voltei-me para os recursos virtuais que possuía, o software Photoshop da Adobe se mostrou uma ferramenta interessante principalmente através do filtro “Estilizar”, com o qual consegui imagens bastantes “agradáveis”. Esse filtro evidencia arestas e deixa o fundo 40


escuro, Ă s vezes com nuances, mas a ĂŞnfase estava no objeto delineado sobre um plano profundo. A ideia do desenho de linha, tĂ­pico da arquitetura, havia se perdido em parte, pois havia se reduzido a tratamento de imagem.

Ana Paula de Miranda e Souza

Diversos. Fotografia Digital. Campinas, 2010.

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Portanto como queria recuperar a questão do desenho, e fazê-lo sobre a fotografia, resolvi testar o software Auto CAD e o aplicativo virtual da AutoDesk o Project Butterfly ou AutoCAD WS, ainda mais por ser uma ferramenta voltada para o desenho técnico.

Então o que era desenho a partir de fotografia, passou a ser tratamento da imagem e finalmente se tornou projeto de imagem. Dessa forma a correlação com a Arquitetura se fazia mais forte uma vez que, como anuncia Brissac (2003) “(a arquitetura da cidade) integra desenho, projeto e construção, engloba os objetos, as imagens e a própria cidade”.

Ana Paula de Miranda e Souza

Project Butterfly. Fotografia Digital. Campinas, 2010.

O resultado foi mais do que satisfatório, a partir de uma única fotografia, podia reconstruir as imagens gerando outras, sugerindo até outras configurações ou interpretações sobre o objeto. A linha permite uma simplificação da figura e com isso o objeto fotografado não concorre com o fundo ou o entorno, o foco, a ênfase está nele. No caso de imagens da paisagem urbana, a simplificação visual desta permite certa permeabilidade já que o skyline fica mais evidente e podem-se distinguir os prédios em seus planos.

Essa simplificação ocorre pela escolha do objeto a ser representado, várias linhas secundárias são omitidas, a forma delineada se junta à perspectiva e ao fundo, sempre escuro, dando a maior noção de profundidade. Em geral é uma cor de linha para cada 42


Ana Paula de Miranda e Souza

Sequencia de trabalho - Project Butterfly. Fotografia Digital. Campinas, 2010. imagem, a decisão é sempre pelo tom que mais contrastar com a foto como um todo.

Executando os desenhos das fotografias através do Auto CAD precisava exportá-las como imagem, contudo a resolução acabava ficando baixa e isso empobrecia o trabalho. A solução foi optar por outro software vetorial, desta vez foi o Ilustrator da Adobe, escolhido principalmente pela flexibilidade de execução sem perder a essência de projeto.

Ana Paula de Miranda e Souza

Sequencia de trabalho - Illustrator. Fotografia Digital. Campinas, 2010.

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Definidos os meios, ainda era preciso determinar quais imagens seriam expostas, além do tamanho e a forma de apresentação. Três imagens foram escolhidas, todas representam elementos estruturais e podem tomar outros sentidos quando expressos da forma já descrita. Alguns testes de impressão foram realizados e o melhor resultado obtido foi com a revelação digital em papel fosco.

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Ana Paula de Miranda e Souza

Série Pilares. Fotografia Digital. Campinas, 2010.

Como o processo de revelação digital pré-define algumas dimensões, optei dentre os possíveis, pelo 600 x 400 mm, por ser um tamanho, relativamente, de fácil transporte e acondicionamento. Para a moldura a escolha foi por uma das mais simples, em preto e com vidro transparente. O vidro com o fundo preto transforma a obra num espelho onde se vê o desenho, mas também a si próprio, dialogando com as questões de olhar e ser visto no espaço da cidade.

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P R O B L E M AT I Z A Ç Ã O

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Paulo Climachauska

Veja Bem. Instalação Predial. São Paulo, 2010. 48


O ponto de partida deste trabalho é o olhar para a cidade. As constantes alterações e obstruções da paisagem à vida cotidiana e o próprio caos urbano nos levam à perda do olhar. As imagens buscam ressignificar uma paisagem banalizada pela rotina, pela repetição de elementos e, nesse caso, a própria função do objeto representado, já que elementos arquitetônico-estruturais não são necessariamente belos (muitas vezes, nem são bem acabados) e em geral, raramente são objetos de contemplação e fruição. Em “História da arte como história da cidade”, Giulio Carlo Argan (1992) inicia suas considerações sobre a cidade ideal com a frase de Lewis Mumford: “a cidade favorece a arte, é a própria arte” essa afirmação faz jus ao discurso de Lefebvre (1991) de que filósofos trazem a “vida urbana para a linguagem e o conceito”. A relação entre arte/cidade é intrínseca, pois a arte caminha junto com a urbanidade de forma que seus artistas contam sua história, costumes e personagens. A maneira como os artistas confrontam ou assimilam políticas socioculturais, as conurbações1 urbanas que denotam as questões dos limites físicos das cidades; quais as paisagens possíveis? O que é visto, percebido nesses grandes centros? Nelson Brissac Peixoto em seu livro “Paisagens Urbanas” expõe suas considerações sobre a urbanidade, as relações possíveis entre a arte e a cidade, os fatores que levam a não percepção e a outras formas de perceber a cidade. Para ele, a arte contemporânea compartilha da mesma legibilidade das questões espaciais, já que o artista vai chamar atenção a esses pontos, assim como a Bienal de Rua ou Street Biennale de Paulo Climachauska, projeto que chegou a São Paulo este ano e visa à interação efetiva da arte com a cidade. As obras transcendem a condição estética, chegando à condição urbana, espacial. Brissac (2004) considera primeiro a perda do lugar, do habitat humano, onde não há mais uma relação direta entre construir e morar, permanecer num local e até mesmo a estabilidade do lugar é algo efêmero. Num segundo momento, existe a perda do olhar, já que a paisagem é temporária, tudo é muito explícito e a visualidade tem sido levada a extremos esgotantes, perdeu-se a capacidade de descrever a cidade, ou seja, de observála e absorvê-la a ponto de poder descrevê-la pela memória. 1 O termo “conurbação” é uma “aglomeração formada por uma cidade e suas cidades-satélites”. Retirado do site: http://www.dicio.com.br/conurbacao/ 49


“Quando tudo se tornou visível demais, a literatura e a pintura perderam a paisagem.” Brissac (2005). Dessa forma, Ítalo Calvino propõe um contraponto com o livro “Cidades Invisíveis” em que ele expõe as narrativas de Marco Polo ao imperador Kublai Khan. Marco Polo faz o possível para que através de suas narrativas o grande imperador conheça seu vasto império, para tanto ele utiliza a mímica, exibe objetos que possuem diversos significados: “O imperador é aquele que é estrangeiro para cada um de seus súditos e somente, por meio de olhos e ouvidos estrangeiros, o império podia manifestar a sua existência para Kublai... mas fosse evidente ou obscuro, tudo o que Marco mostrava tinha o poder dos emblemas, que uma vez vistos não podem ser esquecidos ou confundidos... Marco Polo só podia se exprimir extraindo objetos de suas malas... os objetos podiam significar coisas diferentes... mas o que Kublai considerava valioso em todos os fatos e notícias referidos por seu inarticulado informante era o espaço que restava em torno deles, um vazio não preenchido por palavras. As descrições das cidades visitadas por Marco Polo tinham esse dom: era possível percorrê-las com o pensamento, era possível se perder, parar para tomar ar fresco ou ir embora rapidamente. O estrangeiro aprendera a falar a língua do imperador, ou o imperador a entender a língua do estrangeiro. Enquanto o vocabulário das coisas renovava-se com o mostruário das mercadorias, o repertório dos comentários mudos tendia a se fechar e se estabelecer2.”(Calvino, 1990)

Segundo Brissac, Ítalo Calvino confere “à literatura a tarefa de retirar peso das coisas, das cidades, da linguagem”. A maneira como ele descreve as cidades por onde Marco Polo passava, atribui-lhes certa leveza tal como os projetos modernistas, com suas linhas (sejam curvas ou retas) e escalas monumentais. Rainer Maria Rilke tem uma frase bastante contundente a esse respeito: “Como suportar, como salvar o visível, senão fazendo dele a linguagem da ausência, do invisível?” Na arquitetura de Oscar Niemeyer, isso fica muito mais claro, pois a materialidade dos elementos já é por si só significativa, contudo se considerarmos a forma e o entorno, perceberemos a leveza, por causa da harmonia do objeto com o todo. 2 50

Trecho extraído do livro “Cidades Invisíveis”, pág. 25, 41 e 42.


Oscar Niemeyer

Auditório - Ibirapuera. São Paulo.

Contudo essa arquitetura escultórica, monumental, só é válida com um entorno visualmente límpido, ou seja, sem interferências visuais que possam concorrer com a edificação. Esse modelo de cidade moderna foi amplamente discutido e criticado pela jornalista e escritora Jane Jacobs. Em seu livro “Morte e vida das grandes cidades”, ela expõe as implicações de uma cidade essencialmente “Corbusiana3”, cujos aspectos fundamentais de sua obra estão na relação da vitalidade versus urbanidade, na qual arquitetos e urbanistas renomados repensam a cidade para revitalizá-la, contudo acabam por matá-la aos poucos, pois tiram o movimento, a dinâmica natural que mantém viva a cidade. Jane Jacobs fala da questão de segurança nas ruas, quadras menores, uma cidade pensada para o pedestre, em que todos devam ver a todos. Ela define que uma rua para ser segura precisa ter “olhos que vigiam” continuamente. A metrópole e o modo de vida urbano são fundamentalmente processos dinâmicos que se correlacionam com a sociedade numa relação simbiótica. A questão de ver e ser visto na cidade é de suma importância para a autora, assim como a necessidade de usos combinados, prédios antigos e conservados juntamente com edificações novas – para uma diversidade cultural e uma grande e eficaz mobilidade de pedestres (principalmente) em vários momentos do dia. Contudo nem isso chega a ser 3

Ou seja, fundamentada nas considerações modernistas de Le Corbusier. 51


uma verdade absoluta. Há coisas que simplesmente não funcionam, ou estão no local errado. O prédio do Copan, um dos cartões postais da cidade de São Paulo, projetado por Oscar Niemeyer e concebido para ser um Flat Hotel, tornou-se praticamente uma cidade vertical, já que abriga milhares de famílias e fica enterrado entre outros prédios. Uma das imagens que apresento é a vista de um pilar do Viaduto Costa e Silva – o Minhocão, em São Paulo. Nele é possível observar a degradação da rua, uma vez que o viaduto foi “imposto” por entre os prédios. O nível da rua é segregado, apesar do movimento, a região tornou-se antro de moradores de rua.

Ana Paula de Miranda e Souza

Copan e Minhocão. São Paulo. 2001/02

A escala torna-se fundamental para a visibilidade, percepção e compreensão do lugar. Atualmente, nas grandes metrópoles perdeu-se a noção do vazio, do espaço intermediário, como uma espécie de horror vacui (medo do vazio) generalizado, a paisagem foi se fechando e a linha do horizonte se tornou cada vez mais curta. Já que a linha do horizonte da cidade não está mais disponível para nós, acabamos por desenvolver novas formas e meios de apreender essa paisagem. As novas mídias e tecnologias nos permitem interagir com o espaço sem necessariamente ocupá-lo, ou alterá-lo. Através da fotografia e demais avanços tecnológicos, foi possível visitar lugares diversos, inimagináveis através de imagens ultrarreais em 3D ou 360° por onde pode-se conhecer o lugar. Porém não passam de imagens que são uma representação do lugar, não há mais a vivência do lugar. A reprodutibilidade técnica trouxe esse advento, 52


já que a análise em um objeto estático é relativamente mais fácil que em um dinâmico.

Como Bavcar dissera, recebemos todas as imagens prontas, por isso não há mais um perscrutar nem da paisagem, nem do lugar; tamanha é a facilidade, até mesmo pelo fato da imobilidade das formas apresentadas. Numa fotografia de um ambiente como uma rua, perde-se a noção espacial e sensorial da mesma. Não se tem o som dos carros e pessoas falando e andando, nem o cheiro do lugar, nem a escala, a altura das edificações em contraposição a altura do observador.

A percepção é diferente, mas a verdadeira vantagem de se ter imagens estáticas é a possibilidade de se deter a atenção aos detalhes. Dessa forma apesar da poluição visual estar contida na imagem, podemos escolher, descobrir os detalhes que ao vivo seriam muito difíceis perceber. Por isso meu ponto de vista quanto o olhar para a cidade é que os grandes centros hoje geram um enfado no olhar, tamanha é a confusão de planos sobrepostos.

Ana Paula de Miranda e Souza Composição 1. São Paulo. 2001

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O conceito de paisagem surge na noção de perspectiva do Renascimento4. Desde então tudo o que fazemos é acrescentar planos e elementos a essa perspectiva, minha proposta é isolar alguns elementos, para uma apreciação mais clara. Um pilar sozinho pode não ser uma imagem interessante e ao vivo é menos ainda, contudo no conjunto com outros pilares, faz uma composição agradável. E se retirarmos elementos conflitantes, como carros estacionados e mesmo as cores das paredes, se deixarmos somente o contorno, esta será uma imagem muito mais fácil de leitura que a primeira.

A ideia da cidade continua embutida na imagem, através da composição da imagem com um fundo escuro que lhe atribui profundidade, reiterando a noção de perspectiva. Segundo Kandinsky (1926), “A composição é a subordinação interiormente conforme à finalidade: 1) dos elementos isolados; 2) da construção, para o fim pictural concreto.” Essa foi, portanto a concepção da proposta; a composição de linhas torna a paisagem mais acessível à visão e o enfoque é para elementos ou ângulos pouco explorados ou vistos.

Ana Paula de Miranda e Souza Chão. Campinas, 2010

4 Esse tema da paisagem atual e do seu surgimento foi bastante difundido na palestra ministrada por Nelson Brissac Peixoto, na Galeria Penteado em Campinas. Evento que aconteceu no dia 18/10/2010. 54


Ana Paula de Miranda e Souza Paisagem 1. Campinas, 2010

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CONCLUSテグ

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A cidade é um organismo dinâmico, que ao longo da história vem se expandindo em todas as direções. Os crescentes avanços tecnológicos e a conurbação urbana em torno de grandes centros torna cada vez mais evidente o processo de perda do olhar e do significado da paisagem. A paisagem urbana embora complexa é repensada aqui através da exploração de imagens e lugares. Em geral, lugares de trânsito são raramente apreciados e percebidos. A pesquisa voltou-se para as questões espaciais da cidade, arquitetura e artes e o processo plástico levou a um produto que interage tanto com a linguagem técnica, quanto com a artística. A problemática era trazer de volta o olhar para o entorno, focar o cenário, por isso a escolha de imagens nas quais há muito trânsito e pouca permanência de pessoas. A questão do olhar se mostra através da ressignificação do lugar apresentado, já que, à primeira vista, não se identifica o lugar, podendo gerar diversas interpretações e significados, o importante é ver e também ser visto. O vidro transparente sobre o fundo escuro reflete o espectador que se vê a partir de um produto artístico. A interação se dá a partir do momento que ao olhar o trabalho, ele pode se ver nele. Somos produto e produtores do espaço que nos cerca. Dessa forma somos remetidos a planos se estão ao nosso redor e dentro de nós.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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ARGAN, GIULIO CARLO. História da Arte como História da Cidade. 5.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005. BLASER, WENER. Mies van der Rohe. São Paulo: Martins Fontes, 1994 CALVINO, ÍTALO. Cidades Invisíveis. 12.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. PEIXOTO, NELSON BRISSAC. Paisagens Urbanas. 3.ed. rev. e ampl. São Paulo: Senac São Paulo, 2004. JACOBS, JANE. Morte e Vida das Grandes Cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2000. KANDINSKY, WASSILY. Ponto e Linha sobre Plano. 5.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005. LEFEBVRE, HENRY. O Direito à Cidade. 2.ed. São Paulo: Centauro, 1991.

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acesso em 26 out. 2010.

João Jardim e Walter Carvalho. A Janela da Alma. Documentário, 2000/2001.

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trabalho de conclusão de curso

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