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“O QUE SIG N I F I CA HAB I T A R? ” ANA NEUTE

orientador: Guilherme Mendes da Rocha


AGRADECIMENTOS Rafael Chvaicer Fernanda Zerbini Guilherme Mendes da Rocha Rubens Esp铆rito Santo Lucas Rehnman Vict贸ria Barbosa Sergio Chvaicer Alberto e Monica Neute


ÍNDICE


I INTRODUÇÃO

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II JUSTAPOSIÇÕES

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III CONSTRUÇÃO

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IV INTERAÇÕES

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V CONSIDERAÇÕES FINAIS

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VI REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFIA

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OBRAS SEMINAIS

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VII APÊNDICE


Bet Giorgis. Lalibela, Eti贸pia.

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I INTRODUÇÃO

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“Existe um efeito recíproco entre as pessoas e as coisas. E é com isto que me identifico como arquiteto. E é isto a minha paixão.” Peter Zumthor Nesse TFG, me utilizarei de conceitos que extravasam o perímetro da arquitetura, mas esta não é uma postura arrogante. Não pretendo questionar as técnicas construtivas, nem afirmar a obsolescência delas, mas desejo evidenciar outras qualidades que parecem nos escapar. A utilização desses conceitos acontece somente na medida em que me é necessário e sincero, como recurso para refletir sobre arquitetura. Quero pensar sobre a consciência da intenção por trás do construir. Este trabalho é a construção do meu abrigo como arquiteto.

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Stonehenge, Inglaterra.

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Sobre o que me move a fazer este trabalho Este trabalho é uma tentativa de respoder a mim mesma porque escolhi fazer arquitetura. Me perguntar o que é arquitura, o que é morar, e porque o homem tem necessidade de construir. Quero pensar o que é arquitetura para além das paredes e o teto. Pensar sobre a casa, seu espírito. O que é a casa em relação ao homem. Todos moramos. Seja numa casa feita por um arquiteto ou não, todos temos uma casa. Mesmo uma pessoa que mora na rua cria uma casa psicológica. Esta, talvez, por referências no espaço da rua, por objetos, por memórias. Lugares e coisas com as quais ela se identifica, se reconhece ali. Talvez se reconhecer ali seja reconhecer que se está vivendo. Está vivo, portanto habitando. O trabalho surge de uma necessidade de enxergar o sentido de habitar. Ver arquitetura nos gestos, e pensar: “este é um ato arquitetônico!”. Coisas que estão além do objeto físico, mas estão sem dúvida inseridas na esfera do habitar1. E o mais fascinante: poder ver os gestos nas coisas. Os atos arquitetônicos manifestados em obras de arquitetura. Como os Aranda (pág.20) que não moram em casas de paredes e teto mas têm a necessidade de se situar materialmente no espaço com desenhos circulares no chão.

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Penso habitar, baseada na minha leitura do texto “Construir, habitar, pensar” do filósofo alemão

Martin Heidegger, como a finalidade da arquitetura. Nessa conferência, Heidegger diz: “Parece que só se pode habitar o que se constrói. Este, o construir, tem aquele, o habitar, como meta. Mas nem todas as construções são habitações. Uma ponte, um hangar, um estádio, uma usina elétrica são construções e não habitações; A estação ferroviária a auto-estrada, a represa, o mercado são construções e não habitações. Essas várias construções estão, porém, no âmbito de nosso habitar, um âmbito que ultrapassa essas construções sem limitar-se a uma habitação. (…) Habitar seria, em todo caso, o fim que se impõe a todo construir. (…)Construir é propriamente habitar. ”

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Abordagem e método de trabalho O trabalho tem um aspecto prático e teórico (Práxis: atividade teóricoprática em que a teoria se modifica constantemente com a experiência prática e vice-versa.). E consiste numa pesquisa estética sobre o morar. A maneira como consegui me aproximar disso foi, num primeiro momento, uma pesquisa de construções estranhas para mim. Que de alguma maneira me remetem à uma arquitetura primitiva. E através do pensamento de filósofos como Heiddeger, Bachelard e Peter Zumthor. Num segundo momento, através da experiência de construir eu mesma alguma coisa. No capítulo “Justaposições” apresento parte do levantamento que abarca imagens de cabanas de povos nômades, construções subterrâneas, ninhos de pássaros, cascos de tartaruga, “cabanas” feitas por crianças etc. Em algumas justaposições reconheço situações onde acontecem manifestações físicas de uma necessidade metafísica. Nas páginas 22 e 23, imagens que mostram o mesmo ato, uma foto de Le Corbusier e outra de uma mulher pintando um mural em sua casa. Acredito que isto mostra o homem impreganando a construção de homem, uma forma de proteção. No capítulo “Construção” apresento um relato da minha experiência de construção de um objeto. Um abrigo onde a arquitetura não tem uma função de abrigar das intempéries, porém serve como instrumento para pensar sobre o significado de habitar. Este trabalho pode me constituir um lugar. Uma possibilidade para fazer alguma coisa, estar no mundo. Isso se mistura com uma concepção do que é arquitetura, e isso é o que se tornou este tfg para mim. Assim, entendo este trabalho por um abrigo.

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A palavra casa

A pergunta “o que significa habitar?” é o nome do trabalho. Isso deve me fornecer alguma pista. Talvez possamos entender o nome por a casa da coisa que ele nomeia. Nome como parte de uma construção humana que abriga as coisas. Entretanto, creio que não há o que seja conhecido ou desconhecido pelo homem que esteja fora dele1. Podemos dizer então que (o nome) essa construção que abriga as coisas, na verdade, abriga o homem ao fazê-lo. Acredito que a casa que o homem constrói para as coisas provém de sua necessidade de dar sentido à elas. Assim, a casa que o homem constrói para as coisas é a casa que constrói para si. Os objetos, as paredes, só são casa na medida em que se dá este sentido para eles. Nos acostumamos a chamar de casa o lugar onde dormimos, ou o edifício que nos envolve em teto e paredes, este não pode ser o único entendimento. Preciso pensar na amplidão de seu significado para construir uma boa casa. Quando um caminhoneiro está na estrada ele está em casa, de maneira semelhante a quando ele está na construção de tijolos e telhas que chama “casa”. Esta, fica talvez numa cidade só e tem paredes, mulher, filhos, cozinha, porta. Não é a mulher e os filhos ou as paredes e o telhado que fazem deste lugar uma casa. Tudo isso pode mudar e o caminhoneiro pode chamar de casa um edifício totalmente distinto, mesmo sem a presença de sua família. Como já chama de casa a estrada. Como Vilanova Artigas já dizia: “A casa não termina na soleira da porta.” 1Peter Zumthor diz na conferência “Atmosferas” : “ me vem a cabeça esta famosa frase inglesa que remete a Platão: ‘The beuty is in the eye of the beholder’, é dizer: as coisas estão dentro de mim.”

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Existem, com certeza, múltiplas casas na vida de uma só pessoa. É indubitável, também, que mudamos de casa de quando em quando. Por vezes saímos de uma casa e partimos para outra, dizemos: estou me mudando. Por vezes as casas são abandonadas, destruídas, reformadas , etc. Imagine que alguém está de mudança. Quando você muda de casa, deve estar construindo uma casa. Esta, espelha aquela que já se habita em si mesmo. A procura/construção de uma nova casa se faz necessária porque não podemos antes disso saber como vamos morar. Por isso vai se construindo na medida em que se procura, estabelecendo uma nova casa. Mesmo que não coloque tijolos, está construindo uma casa com as suas escolhas. Usa toda sua capacidade como homem. Usa todo o seu ser para isso. Uma nova casa sempre tem as antigas contidas nela. Vivendo, habitando, sempre estamos construindo a nossa casa. Reproduzimos o abrigo que é o corpo para o nosso ser num abrigo para o nosso corpo. O primeiro abrigo é o ventre materno. Sempre há uma reminiscência destes abrigos primordiais e dos abrigos antigos na construção de nossas casas. Pode-se dizer que construímos, de certa maneira, uma casa continua. O homem constrói uma casa continua durante sua permanência sobre a terra. A casa de nossos ancestrais, sua vida, seu habitar, sua permanência sob o céu e sobre a terra, está contida na nossa casa. Será que podemos pensar a casa física como invólucro, que o homem dá início à sua vida de casa ao morar? Creio que não. Se as construções são a maneira como o homem habita, então mesmo a casa sem morador é habitada. Assim como um vaso exposto num museu: seu uso comum desapareceu, mas ele ainda é um vaso. Ou podemos pensar nas casas famosas como “A casa da cascata” de Frank Lloyd Wright, hoje ninguém mais mora lá. Ela ainda é uma casa. Mesmo uma casa abandonada ou um vaso quebrado. Talvez elas só estejam vivas porque são o abrigo de uma coisa a qual o homem deu determinado significado de vaso e de casa.

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Um edifício vazio não está morto, isso porque a finalidade de toda construção é o habitar do homem. Mesmo o pior dos edifícios da arquitetura é habitado porque é uma construção. Habitar não significa que a arquitetura é boa, ou má. Penso habitar como a finalidade da arquitetura. Um arquiteto pode construir uma casa se ele morar nela, mesmo na sua idéia, no projeto. O marceneiro tem que ser madeira para fazer seu trabalho, ele habita a madeira, a madeira é a casa do marceneiro. Assim, penso que a casa é a casa do arquiteto. São os habitantes das casas que às constroem. A casa que o arquiteto constrói existe por si, mas a casa habitada por outrem é outra. A casa construída(habitada) pelo arquiteto tem vida e é impregnada de uma aura de “casa”. A maneira como um morador virá a habitar esta construção se relaciona intrinsecamente à maneira como a casa foi construída pelo arquiteto. Entretanto, este morador com certeza construirá uma nova casa enquanto habitar este lugar. Sobre a casa construída pelo arquiteto: gosto de pensar no controle descontrolado ou descontrole controlado. Porque somente nesse equilíbrio - no embate com a realidade, essa compreensão de uma incompletude desejável – acredito que o arquiteto se envolve com o espaço da vida que aí vai acontecer. É uma questão de deixar o espaço aberto para o inesperado, o incontrolado. Só assim, no que está velado, pode haver uma desejada abertura para o sagrado. A minha intenção como arquiteto, para além de desenhar um abrigo físico, é antes, habitar o mundo.

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II JUSTAPOSIÇÕES

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Este capítulo contém um inventário de imagens com as quais cerco minha pergunta. O dispus de maneira que o leitor possa estabelecer suas próprias associações.

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Os Aranda, tribo aborígene da região central da Austrália, não constroem casas. Dormem ao relento, e, para espantar os mosquitos e se aquecer, acendem uma fogueira.

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Os caramujos t锚m sua casa acoplada no pr贸prio corpo.

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Le Corbusier pintando um mural na casa que construiu para Eileen Gray, “villa E1027�, em Roquebrune-Cap-Martin, 1938.

22


Em Burkina Faso, Gana, as mulheres Gurunsi desenham padr천es nas fachadas das casas.

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Construção de uma casa Marsh Arab, nas terras do Tigre-Eufrates.

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Homens fazendo o revestimento da casa, amassam bolinhos de barro com a m達o deixando suas marcas na fachada.

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Devido Ă s enchentes, aranhas procuraram locais mais altos como abrigo. PaquistĂŁo, 2011.

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Ciganos, Romenia.

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Construção de cabana feita com folhas por Pigmeus Efé, Congo.

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Pรกssaros fazem seus ninhos com materiais encontrados no seu meio ambiente.

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Cushicle, Archgram, 1966.

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Cabanas dos n么mades Fulani, Nig茅ria.

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É conhecido o costume das crianças construirem cabanas para si.

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Em 1950 Le Corbusier constr贸i para si uma cabana em Roquebrune-Cap-Martin, na Fran莽a.

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Cabana aborĂ­gene, AustrĂĄlia.

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Cabana Bororo, Camar천es.

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III CONSTRUÇÃO

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Por que construí um abrigo(físico)? Porque tinha a necessidade de construir. Fazer algo com minhas próprias mãos. Precisava vivenciar arquitetura de uma maneira como ainda não havia feito. Precisei experimentar de maneira física, sentir com as minhas mãos o peso dos materiais. Sua densidade, seu cheiro, seu brilho . Era o único modo de fazer este trabalho com integridade, pois “o mapa não é o território”1, o mapa tem suas virtudes mas tem também limites. Para poder me aproximar do que é arquitetura, precisei construir uma casa para a minha pergunta: “qual o significado de habitar?”. Essa casa para a pergunta é o carrinho. O processo de construção do objeto não é o procedimento usual dos profissionais de arquitetura. Não conseguiria fazer este abrigo desenhando um projeto, pensando através do desenho, porque a forma do trabalho (que não é somente a forma do objeto construído) resultou de um pensamento que se deu através da experiência. Justamente porque desejava evitar o mapa (isto é, uma idéia pré-concebida), a construção se deu através da experiência imediata2. Queria estar o mais próximo possível de um embate físico com a realidade.

1

“O mapa não é o território e o nome não é a coisa que ele designa”. Esta frase do linguista Alfred

Korzibsky, para o epistemólogo Gregory Bateson, é o início de toda boa epistemologia. 2

O mapa (as convenções da arquitetura que possibilitam a eficiência das construções

contemporâneas) foi extraído de um embate com a realidade, tentativa e erro. Quero deixar claro que a minha iniciativa de proceder desta maneira na construção deste objeto móvel não é um ataque ao mapa, mas possivelmente investiga o que o uso corrente do mapa pode deixar de lado.

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O objeto e suas transformações A construção do objeto começa com a descontrução de uma antiga maca. A primeira função é ser um armário que pode ser transportado para diversos lugares. Por isso, os pés fixos da maca foram substituídos por grandes pneus de borracha apoiados em um eixo. Boa parte da estrutura original da maca foi retirada para que ficasse mais leve. Foram anexadas hastes para manejar o que agora virou um carrinho. Começo abrigando no carrinho a pesquisa de imagens e livros acerca de arquitetura vernacular que vinha desenvolvendo nos meses anteriores. O carrinho pode transformar um lugar criando interaçãoes das pessoas com as imagens que ele abriga e com o próprio objeto, que é o carrinho. A idéia é tornar o trabalho público, apostando na interação de mim e do objeto com as pessoas e espaços como meio de pesquisa. Em um segundo momento, começo a explorar mais o carrinho como objeto escultórico, carregando nele peças e materiais que podem ser montados e acoplados ao corpo principal do objeto. Assim pude testar o objeto em relação aos espaços e pessoas de diferentes maneiras. Nas páginas à seguir mostro imagens da evolução deste processo.

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DESMONTO SERRO TECIDO COSTURA BOLSO FOTOS CAMADA DESAPARECE INCORPORA COSTURA AMARRA COR ACOLHE COR É ABRAÇO CHEIO ESPALHADO PLANOS VARETAS ESPRIGUIÇA SÍNTESE AMARRA TRANSPORTO TIRO DE DENTRO CONVERSA AMARRA APERFEIÇOA

DESMONTAR Tirei toda a estrutura da antiga maca para aproveitar o armário e transformar no carrinho. CORTAR Serrei o carrinho ao meio para ter mais agilidade no seu transporte. TECIDOS Costurava abrigos para as fotos, como bolsos. Fazia sobreposições de panos. Abrigava as imagens e assim elas iam desaparecendo e se incorporando ao trabalho de outra forma. CHEIO Sobreposição de tecidos que foram se espalhando pelo chão. VAZIO Tirei todos os panos e deixei somente a estrutra. PLANOS Com placas o carrinho começou a aumentar e se desdobrar em planos. Espreguiçar. SÍNTESE Primeira vez que me organizei para sair com o carrinho. Separei tudo o que queria levar, coloquei em caixas e amarrei. Com a prática, fui conquistando agilidade neste processo. TRANSPORTAR Meu meio de transporte para longas distâncias é o carro. Abaixo os bancos, posiciono o carrinho dentro, e o amarro com elásticos na estrutura do carro.

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CONSTRUO BRAÇO QUE É PÉ TESTO PREGO MARTELO FURADEIRA PARAFUSO PRECÁRIO COMEÇO CAIXAS GAVETAS FAÇO FUROS POSSIBILIDADE ABERTA FURO APOIA SEGURA VARETA

ESTRUTURA Precisei construir um braço para empurrar o carrinho. Tinha um partido em mente: fazer do braço ao mesmo tempo apoio para sustentar o carrinho na horizontal. Trabalhei durante um dia inteiro e consegui construir os braços, que ficaram precários. Usei dessa maneira porque queria testar, mas refiz o braço três vezes ao longo do processo. POSIÇÃO Quando o carrinho fica na horizontal, ele muda. A maneira como eu vejo e o uso se renova. FUROS Fiz muitos furos no objeto por permitirem possibilidades em aberto. O furo é um apoio, possibilita amarrações, conectar varetas etc. LIXAR Lixei a superfície de madeira do carrinho. Vi o que estava escondido por baixo da camada preta, carregada de vivência, que envolvia o objeto. Descobri uma outra, fresca e ainda intocada.

LIXO CAMADA CHEGA ESCONDIDA FRESCA INTOCADA

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IV INTERAÇÕES

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Viajo com o carrinho para diferentes lugares e experimento a transformação daquele espaço através da presença do objeto. Como ele ocupa, o que é gerado em volta, são coisas que não consigo prever, mas observar no momento de sua existencia. As experiências me suscitam mais reflexões do que respostas. As especulações mais interessantes surgem de revelações sutis. Essas epifanias vêm no lugar do impensado. À favor do mistério, intuição, investigação, intuspecção. A tarefa impossível de pensar sobre a essência das coisas pede o salto, o risco. “Na realidade a sucessão de obras é pra trazer inteligível o que eu sou, eu passo a me conhecer através do que eu faço. Porque na realidade eu não sei o que eu sou porque se é invenção eu não posso saber, se eu já soubesse o que seriam essas coisas, elas não seriam invenção, elas, a existência delas é que possibilita a concreção da invenção.” Hélio Oiticica Oitica estava construindo sua obra plástica, porém acredito não haver diferença entre ele e um arquiteto. Outros procedimentos, mas objetivos essencialmente comuns. A minha obra social como arquiteto começa com a construção de mim mesma. Como Oiticica diz que constrói sua obra para entender quem ele é. Constrói para si. Egoísmo que é ao mesmo tempo a sua mais importante contribuição para os outros. A seguir apresento as imagens de interações do carrinho com outras pessoas e espaços, seguidas por relatos de algumas das visistas.

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“BANCA DE REFLEXÃO”

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“ORATÓRIO MONSTRO”

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“O QUE É ISSO?”

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“PRAIA”

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“BANCA DE QUALIFICAÇÃO”

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“BANCA FINAL”

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Relatos

27. 09.2011 “ORATÓRIO MONSTRO” Festa de criança. Rua Bela Cintra, no jardim do prédio, SP. Estou há uma hora entre o vai-e-vem de crianças curiosas pelo carrinho. Alguns chegam para dar uma olhada rápida e outros querem mexer nele. Deixo espalhados ao redor materiais como fitas adesivas, tecidos, caixas. Paro um pouco para descansar e me afasto. Quando percebo, uma menina está juntando um tecido e uma vareta que viu espalhados pela grama. Outras crianças se aproximam, e finalmente eu também. Ela se demorou durante uma hora construindo. Experimentando, juntando precariamente as coisas com fitas. Pegava outros objetos que encontrava pela festa e transformava aquele carrinho - que ela não se preocupou muito em saber o que era - aos poucos, em boneco. Depois de alguns dias percebo que não tinha convidado a garota a construir, nem a se aproximar. Ela que tomou a iniciativa. O carrinho, aquela imagem estranha, a convidou. Talvez porque ele tem a imagem de algo inacabado.

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05. 10.2011 “PRAIA” Praia de Pernambuco, Guarujá Eu estava construindo um espaço com varetas e fios. Uma garota de dois anos de idade se aproximou naturalmente, parecia que ela nem percebia que estava vindo em nossa direção. Depois se afastou à chamado de seus pais. Mas o fez andando de costas pra eles, olhando para mim. Nisso, ela esbarrou em uns gravetos que estavam jogados na areia. Com eles, imitou o movimento que eu fazia para esticar as varetas e os fios do carrinho. Era uma garota muito pequena, manifestando algo inato.

11. 10.2011 “O QUE É ISSO?” SESC Pompéia, São Paulo Chego ao deck do Sesc Pompéia com o carrinho. Adolescentes de uma excursão escolar se aproximam e me perguntam: o que é isso? Eu não respondo. Pergunto o que eles vêem. Peço para serem sinceros, toscos. “O que você acha?” Quase todos resistem à pergunta, falam somente o que vêem em sua superfície. Mas, entre os vários jovens, um deles diz algo que me chamou a atenção: é uma casa. Não sei como ele chegou a esta idéia, porque fica tímido entre os outros garotos e não quer mais participar.

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V CONSIDERAÇÕES FINAIS

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Transcrevo aqui duas anotações de um caderno pessoal: 1 “A racionalização onde não quero mais o mistério. Explico todas as coisas. Não assumo que o mistério está presente, permeando tudo. Estou sempre tentando ter o controle das situações. Nada pode me escapar. Tudo que vejo vai direto para o meu consciente, para emitir um julgamento, classificar uma coisa no meu mapa.” Um processo importante pelo qual passei ao realizar este trabalho foi compreender que minha obra não deveria ser informativa, remeter a algo que está fora dela, mas ser dentro do meu método a própria coisa. Em outras palavras, não queria me ater ao mapa, protegido por regras, mas me arriscar ao desconhecido do território, que acredito ser a única maneira de investigar a questão. 2 “Estou ganhando a capacidade de deixar que isso vá se conectando com a minha vida, e aos poucos vá fazendo algum sentido para a mim.” Habitar tem a ver com isso: Quando se incorpora uma coisa desconhecida. Isso requer um tempo, uma “demora” junto à coisa. Como quando você vai morar em uma nova casa, já está habitando de alguma maneira este lugar. Só depois de algum tempo, que pode variar entre meses e anos, que você sente que realmente ali é a sua casa, há uma mudança de intensidade radical e irrevogável. Pude investigar com este trabalho qual é o meu lugar, ou a minha casa no campo da Arquitetura. O carrinho é a construção da minha casa. Porém, não faz sentido algum construir uma casa física se ao mesmo tempo não estou construindo uma imaterial. Porque a casa física pode apodrecer, ser destruída, mas minha casa imaterial é o que me mantém viva. Talvez a construção da casa imaterial seja o que chamamos de formação.

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VI REFERÊNCIAS:

BIBLIOGRAFIA

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ÁBALOS, Iñaki. - A boa-vida: uma visita guiada às casas da modernidade. 1ª edição. Barcelona: GG, 2001. AUPING, Michael.- Tadao Ando. Conversas com Michael Auping. Barcelona: GG, 2003. BACHELARD, Gaston - A poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1998. BACHELARD, Gaston - A epistemologia. Lisboa: Edições 70, 1971. CHEVALIER,Jean e GHEERBRANT, Alain. - Dicionário de símbolos. 17ª edição. São Paulo: José Olympio, 2003. GUATARRI, Félix. - Caosmose: um novo paradigma estético. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992. HARRIES, Karsten - A Função ética da arquitetura , in, NESBITT, Kate - Uma nova agenda para a arquitetura. São Paulo: Cosac Naif, 2ª edição, 2010. HEIDEGGER, Martin. - Construir, habitar, pensar [ Bauen, Wohnen, Denken]. Conferência em Darmastat, 1951. KRUSE, Max.- Das Hausbuch. Alemanha: Phaidon, 2001. MAY, John. - Casa hechas a mano. Editora Blume, 2001. RYKWERK, Joseph - A casa de adão no paraíso: a ideia da cabana primitiva na história da arquitetura. 1ª edição. São Paulo: Perspectiva, 2009. ZUMTHOR, Peter - Pensar a arquitetura. 2ª edição. Barcelona: GG, 2009. ZUMTHOR, Peter - Atmosferas. 1ª edição. Barcelona: GG, 2009.

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OBRAS SEMINAIS

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ARQUITETURA Peter Zumthor capela Bruder-Klaus. Mecernich, Alemanha, 2007. Peter Zumthor e Louise Bourgeois “Memorial in Memory of the Victims of the Witchcraft Trials in Steilneset”, Noruega, 2010. Archigram “Cushicle”,1964 Renzo Piano livro: “A responsabilidade do arquiteto”, 2009. Tadao Ando livro: “Conversas com Michael Auping”, 2003. ARTE Hélio Oiticica. Penetráveis e Parangolés. 1960. Krzystof Wodiczko “Homeless Vehicle”, 1972. Arthur Bispo do Rosário Robert Rauschenberg Jessica Stockholder Lina Bo Bardi “Vaca Mecânica”, 1988. FILOSOFIA Martin Heidegger. “Construir, habitar, pensar [ Bauen, Wohnen, Denken]”. 1951. Gaston Bachelard. “A poética do Espaço”,1957. “A epistemologia”, 1971. Peter Zumthor “Pensar a arquitetura”, 2009.

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"O que significa habitar?"