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PREFÁCIO

Apraz-me apresentar-vos este prefácio-fantasia, fita de cetim para embalar “Cores de um Livro Branco”. Era uma vez… um mágico da palavra e do sentir, Armando Ramos Pereira, nome recebido no momento festivo do seu baptismo. Reza a história que esta personagem nos veio na directa vertical da esfera do encantamento… lá onde foi fadado, ainda antes de nascer, para deslizar por caminhos de cor, de som, de ritmo, de coreografias ondulantes, de mistério da palavra, de mitologias alucinantes, enfim… da essência perfumada da Vida! Mas (e para que a verdade seja dita por inteiro) foi entendido por quem tão bem o fadou, que havia de vir, também, com um toque de intolerância, senão mesmo de uma certa insolência assumida… pois sendo o mundo o que ele é… estaria assim instrumentado para usar em caso de força maior! Contavam os antigos que o conheciam que, desde a mais tenra idade, tocava tudo o que ouvia na rádio desse tempo, usando um realejo de escasso tamanho… e cantava… e dançava… e encantava quem por ali passava e ouvia… E que lia… que lia e que lia… e que, mal pegou num lápis, começou a escrever POESIA!!! E o tempo foi andando, fluindo e fugindo e, enquanto o tempo passou, ele escrevia e tudo o que escreveu, guardou. Diz-se que só à futura Mulher o mostrou… Que era um tesouro bem escondido em livrinho e folhas soltas guardadas em canto escuro de um armário fechado, com chave cuidadosamente retirada. Também alguém me contou que, um dia, o armário transbordou e… tudo passou para espaço mais adequado… ”Poetandum A Cor do meu Livro Branco”, livro de capa bem desenhada e muita folha de Poesia. Ia então correndo o ano 2010 da nossa era e os setenta outonos deste Poeta. Foram festejos triunfais! E pela vez primeira, seus poemas foram recitados e aplaudidos e envolvidos em acordes e largas melodias de tons e sons, trazidos por mão amiga de cravo e coração. Entusiasmo, Enlevo e Admiração! Passado que foi este episódio, o tempo entrou naquela fase em que se põe a acelerar cada vez mais velozmente… dizem que é da idade… mas não é! Eu, cá pra mim, sei do que se trata, mas também não vou aqui dizer… nestas coisas cada um sabe de si. O certo é que o Poeta entrou em ritmo de aceleração alucinante… e publica agora este segundo livro com 6 volumes de poemas novos! E é obra poética de primeiro plano com a qual nos vamos poder deliciar na leitura de “ Cores de um Livro Branco”. E foi assim que foi acontecendo… regularmente fui recebendo um envelopezinho amarelo outlookado, com poesia que... ora me deslumbrava, ora me surpreendia. E dali tudo saía… e se lia… e da variadíssima temática destaco apenas alguns aspectos que me seduziam: Um EU poético selfiado (auto-retratado) ‘minha condição maior é ser pequeno pequeno de vontade e de saber de vender simulacros de calor alimentar-me de vorazes faz-de-conta’ - (in Estar farto) ‘queria-me um ser a mim próprio igual’ - (in Isto que sou por decisão alheia)


‘se eu fugir só pode ser de mim!!!’ - (in Fugir de mim) ‘eu dava tudo para saber falar do nada!!! eu dava tudo por este estranho medo de me ser dado acesso a poeta erudito!!! eu dava tudo pela glória de ser maldito!!!’ - (in Eu dava tudo) ‘joguei a ficha errada no número certo… sempre o meu jogo foi um desconcerto!...’ - (in Roleta) ‘diz ao mundo que abalei cansado de falar… mas sendo mudo o que era p’ra ser dito, sendo EU!’ – (in Diz-me se o meu dizer traz aflição)

Um diálogo com um TU misterioso, por vezes sensual, jamais a descoberto e nunca desvendado…! Interpelante a existência desta segunda personagem, insistente e persistentemente invocada… alter-ego seria? ser difuso? serás tu, este TU… leitor atento? ‘eu te farei à imagem e semelhança … e em ti encrustarei fórmulas de não ter de perder-me se de mim depois te separares ou eu de ti’ – (in … À imagem e semelhança) ‘perdoa! eu esqueci de me esquecer de ti! … … havia de ser uma vez mais de ti’ – (in Esqueci-me de me esquecer de ti) ‘como era lindo o vestido que não tinhas por debaixo do vestido que vestias!! … um pouco mais que o decote que se abria… um pouco mais que os seios que enrijavam… um pouco mais que as coxas que roçavam uma na outra, na volúpia que era andar… Como era lindo o vestido de não despir no que era já a tua pele nua!...’ – (in Roupa de trazer por casa) ‘não sei bem se sabes o que é saudade… … não sei bem se já sentiste aquilo que se cala … tão pouco sei se a saudade sabe de nós … ou nos faz penitentes de pecado estranho…’ – (in Não sei bem se sabes o que é saudade)

E porque pode ter acontecido que, de algum modo, se tenha sentido inserido na linha de descendência direta dos maiores sonetistas … também foi por aí… e lá vinham os SONETOS!…


Trinta e nove ao todo no primeiro volume desta compilação! Deu-lhes forma direitinha, catorze versos arrumados, rima escolhida e bem certinha, pastoras e seus amados, travos de amor, amargura e dor, estilos em figuras poetizados… Uma multiplicidade de referências a DEUSES, MITOS e aos MAIORES VULTOS das nossas memórias colectivas, entrelaçadas em todas as temáticas, levam-nos por Olimpos, Hades, paisagens de busca do Graal e cavalgadas de Valquírias, contam-nos de Ovídio, falam línguas de Babel, pintam-nos Miguéis Ângelos, enternecem-nos com Columbinas e Arlequins, baptizam-nos em Ganges e Jordões, perdem-nos em labirintos de Centauros e Teseus, catequisam-nos em Mitologias e Bíblias, cantam-nos poesias de Dantes… … e tantas e tão inúmeras são estas intrusões de tantos universos neste livro, que se torna impossível aqui registar muitas mais. É, é isso … este Poeta tem mesmo, como é costume dizer-se, uma cultura larga, longa, profunda e acabada . ‘quando eu for velho hei-de trazer de volta o Minotauro … e ganhar de Teseu a minha própria fama … e do próprio Olimpo ser poupado!!! … Cristão e fera e gladiador num partilhar arenas com o Imperador!’ – (in Quando eu for velho) ‘Hey! Errante usurpador do meu Centauro! Pega meu cavalo E vai por Minos’ – (in Labirintos) ‘sei do saber de um mito e do lugar do sacrifício…do cordeiro…do altar … sei do mítico lugar do medo!’ – (in Sei do saber de um mito)

O deslumbramento da descoberta inocente é tema recorrente e apaziguador ‘se deleita nos campos com o alecrim brinca com ele de mil molhos … … a conquista do mundo nos olhos de uma criança e o abarcar do universo numa palavra… Mãe… o bater das asas da andorinha que sabe os beirais das casas onde dormia … a mão dada de pares apaixonados o olhar nos olhos… sem beijar…’ – (in Ternura)

Afonso… era um gato!?... não, não era nada um gato. Afonso foi…como é que eu hei-de explicar? Ah, já sei! Afonso foi um dos Amores d’Alma… só que tinha a forma de um gato, mas isso não tinha realmente importância naquele contexto. No fim, ficou velhinho e foi tratado com muita delicadeza e todo o carinho. São-lhe dedicados 16 poemas no primeiro volume e isto mesmo ao lado dos sonetos. Por isso se pode bem ver o lugar que o Afonso ocupou na vida deste nosso Poeta…


‘tenho para troca a dor do meu Afonso nos seus cento e tal anos de existência já se arrasta demais… feita paciência o ter de ir de um a outro lado, meio insonso.’ − (in Afonso e Matilde ) ‘tenho-te no display do meu computador a tua imagem aporta-me amor!...’ − (in Screen-play Afonso) ‘menino aos meus pés deitado’ – (in Afonso, o meu Menino que foi)

A Galeria das RAÍZES e MEMÓRIAS é reveladora da idade madura e do tempo que a soube dourar e emoldurar , …nem desventuras, nem decepções, desalentos ou desenganos… ‘é dessa saudade que te falo … de como ficava o dia cheio … aquele cheiro da hortelã que depois se mastigava e se cheirava … ou do apito do comboio lá distante a reinventar horizontes no horizonte a galgar monte após monte num esforço arrastado e sibilante … ou do brônzeo toar de sinos concertados dos estragos que o cão fazia no jardim pequeno traço de um campo de alecrim cortado aos molhos’ – (in É dessa saudade que te falo) ‘deixa-os lá brincar!! … - preciso mesmo é calçar as botas mesmo rotas!!! Ah! e não esquecer ser um mestre no miar!!!’ – (in Brincar)

Severo , crítico e até sarcástico… é seu modo de OLHAR as DESVENTURAS deste mundo… ‘mas se não fordes bem-aventurados… não será por não serdes pobres de espírito … nem por não estardes tristes ou aflitos … nem por desprezardes a Terra de tão mansos serdes!’ – (in As bem-aventuranças) ‘venha a falinha mansa p’ra meu sossego e a pedra lá dentro remoa fundo - nesse arrastar doente do teu mundo jamais há-de faltar a dor e o medo!’ – (in A falinha mansa) ‘ah!...mas eu não tenho culpa não sou eu a tradição!!! … tirar a vida , p’ra que nunca falte o sangue! e é nobre a causa: é a tradição’ – (in A Tradição)


O TEMPO… que passa e dói! E quem lhe pode valer? Pobre Poeta… mesmo conjugados todos os tempos de todos os verbos de todas as gramáticas… de toda a Vida deste mundo… nada a fazer… o tempo é implacável, vai veloz a ver da morte! Confrontado com a fluidez e fugacidade da Vida, revela-se Poeta metafísico de grande profundidade filosófica! ‘mas nasceu tão tão a tempo de ter tempo de nascer q’inda bem não era tempo de ser tempo de morrer!’ – (in O Tempo não teve Tempo) ‘um dia…hei-de arranjar tempo de juntar os tempos todos do meu tempo catar, herói a herói, todas as coragens e mutilar o tempo de todas as esperas!!! eu hei-de atirar o tempo às feras!!!’ – (in Eu hei-de atirar o tempo às feras)

A PALAVRA E A POESIA Arruma-se nesta compilação toda a POESIA escrita nos últimos cinco anos…! Utilizo as suas PALAVRAS … que retratam, exactamente, como ele mesmo vê a sua POESIA!!! ‘eu queria entender porque às vezes me parece que toda a palavra foi escrita para mim´ − (in Eu queria entender) ‘como é envergonhada, a minha Poesia! (ou…pelo contrário, depravada?!) é que me traz a traineira e o pescador − mas deixa por lá o cheiro a maresia!... ... é qualquer coisa assim como um refrescar de alma… como um suco que se derramasse sobre mim mas nunca me molhasse… como um jogo que apenas comigo se jogasse … não se queria utensílio, mas ferramenta que guiasse o sol do nascer ao fim do dia’ – (in A Poesia e a História)

Nem rios de tinta, mil metáforas, astuciosos artifícios de som e sentido, sequências de poderosa invenção verbal… seriam suficientes para dizer como aprecio os poemas e como agradeço a honra de me terem sido confiados, quase diariamente, ao longo dos últimos cinco anos e o convite de colaboração para este texto.

Regina Antunes Sena


Prefacio