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POCKET PARKS Um novo sistema de espaços públicos para a cidade de São Carlos 1

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Trabalho Final de Graduação de Arquitetura e Urbanismo_parte 1 Universidade Estadual Paulista - UNESP - Bauru Junho, 2018 Orientadora: Profa Kelly Cristina Magalhães Aluna: Ana Luiza Costa e Silva

Agradeço à todos aqueles que direta ou indiretamente fizeram parte dessa jornada. Agradeço: à minha orientadora por ter abraçado esta caminhada junto comigo, por todas as referências, pela calma e paciência com a situação que eu vivenciei; à minha família, por me possibilitar chegar até aqui, sem nunca desistir do meu potencial; aos meus amigos, aos antigos e aos que conquistei na faculdade, por dividir alegrias, medos, angústias e conselhos durante esse período; ao Marco, por ter caminhado ao meu lado. Dedico este trabalho à minha mãe e aos meus avós, que nunca mediram esforços para me verem feliz e são a base dos meus princípios.


SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO

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2. PSICOGEOGRAFIA

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2.1 O ser humano e o espaço a sua volta

3. O SER HUMANO E A NATUREZA

3.1 Bem estar psicológico e capacidade de restauração 3.2 Bem estar físico

4. A NATUREZA E A CIDADE

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4.1 Sistema de pequenos espaços públicos verdes ou Pocket Parks 4.2 Qualidade dos espaços públicos 4.3 Estudos de caso

5. A CIDADE DE SÃO CARLOS

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5.1 Áreas verdes e espaços públicos de lazer 5.2 Arborização urbana 5.3 Imóveis de interesse histórico e cultural 5.4 Equipamentos de interesse 5.5 Topografia e Hidrografia 5.6 Fluxos de pedestres 5.7 Vazios urbanos

6. LEITURA DE PROJETOS

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7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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RESUMO A psicogeografia é uma área da neurologia que estuda como o ser humano é influenciado e reage ao entorno, e tem chamado a atenção de arquitetos, urbanistas e designers nos últimos anos, como uma nova ferramenta de transformação da cidade através da criação de espaços de interesse, que criam identidade e que nos fazem sentir bem. Tendo em vista que a qualidade de vida do ser humano está intimamente ligada à qualidade do ambiente, a chave para se construir um entorno melhor está na observação das relações entre nossas experiências e os lugares que as contém. Cidades mais adensadas e compactas, tem sido apontadas como o modelo urbano mais sustentável de organização do espaço. Como consequência do processo de adensamento das cidades, a disponibilidade de áreas para serem destinadas a grandes espaços verdes é reduzida, com consequente necessidade de olhar para facetas menores dos espaços livres e espaços verdes, distribuídos pela cidade. Forman (1995) estipula que além de levar em consideração os elementos formadores de uma paisagem, é importante considerar a forma como estes elementos estão arranjados e distribuídos no tecido urbano. O arranjo do território em estrutura de mosaico é apontado como o arranjo espacial ótimo para a integridade ecológica e também social. Os mosaicos são formados por três estruturas fundamentais: as manchas, corredores e matrizes. A partir desta base teórica, a cidade de São

Carlos - SP foi escolhida como objeto de estudo (matriz), tendo como foco a região central. A análise dos mapas aponta alguns pontos chaves para a elaboração do projeto: a cobertura arbórea do passeio público no centro é escassa e se apresenta de forma isolada e dispersa; existe uma proximidade entre as áreas verdes públicas, no entanto não existe uma conexão entre elas, e existe uma expressiva quantidade de lotes vazios ou subutilizados, que não estão cumprindo a função social da propriedade, como estabelecido no Estatuto das Cidades. O projeto propõe a utilização de parte desses lotes para a criação de novos espaços públicos do tipo lote de vizinhança (manchas), de forma a complementar o sistema de áreas livres da cidade, além de promover um processo de conexão (corredores) entre os espaços existentes e os novos, para que os mesmos possam ser entendidos como um sistema e não como elementos isolados.Como consequência, este sistema de pequenos espaços públicos interconectados é capaz de transformar estes lotes em lugares significativos, proporcionar um caminhar mais agradável pela cidade, suprir as necessidades humanas por espaços públicos de qualidade, e fazer do centro um lugar de permanência e socialização e não apenas de passagem. Palavras chave: Pocket parks, arranjo de mosaico, vazios urbanos, sistema.


1. INTRODUÇÃO Este trabalho se estrutura através de um questionamento inicial: como as pessoas se sentem ao caminhar pela cidade? Esta indagação principal apresenta uma reflexão à respeito da cidade do ponto de vista de uma moradora da região central, objeto foco da análise, e que hoje volta a olhar para este território com o intuito de analisá-lo sob diferentes aspectos, a fim de propor intervenções que o transforme de maneira positiva.

O segundo capítulo traz um panorama a respeito das novas formas de ordenamento do território ao explorar-se a relação das cidades compactas com as novas facetas dos espaços públicos e espaços verdes. Diante desse novo olhar sobre o território urbano apresenta-se o conceito de pocket parks, ou sistema de pequenos espaços públicos verdes, além de ponderar-se sobre os critérios que qualificam estes espaços.

A região central da cidade de São Carlos - SP foi escolhida como objeto de estudo principalmente pela familiaridade com o lugar e pela presença de algumas características marcantes. Dentre estas características se destaca o fato de ser a região mais consolidada em termos de infraestrutura devido à sua ocupação mais antiga, além disso, configura-se como o polo central de atração da maioria das viagens dentro da cidade, o que faz com que suas ruas estejam sempre movimentadas por um grande fluxo de pessoas.

No terceiro capítulo são apresentados dados e mapas a respeito do local de projeto. Desta forma, a área central da cidade foi analisada sobre diferentes aspectos, sua localização, suas áreas verdes e espaços públicos de lazer, a arborização urbana, os imóveis de interesse histórico e cultural que se encontram nessa região, os equipamentos públicos de interesse, sua topografia e hidrografia, o fluxo de pedestres e seus vazios urbanos.

A pesquisa estrutura-se em quatro grandes temas que buscam explorar as informações que servem como base teórica para a fundamentação do projeto. O primeiro capítulo aborda sobre o que é a psicogeografia e como essa ciência estuda as relações que o ser humano estabelece com o espaço a sua volta. Além disso, são apresentados estudos a respeito da influência que os espaços verdes possuem no bem estar físico e psicológico do ser humano.

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Já no quarto capítulo são apresentadas as leituras de projetos, os quais foram escolhidos para dar subsídio ao projeto final. O primeiro projeto escolhido abriga diversos pontos que caracterizam um bom espaço público de acordo com os princípios apresentados na revisão bibliográfica; O segundo mostra como através do bom design é possível proporcionar um espaço verde que abrigue também as necessidades humanas, sendo capaz de gerar uma sensação de amplitude do lugar; Já o terceiro projeto se destaca pela

capacidade de ressignificar uma série de terrenos abandonados transformando-os em espaços públicos de qualidade através de soluções simples. O primeiro passo para a determinação do local de intervenção do projeto foi o cruzamento dos dados dos diversos mapas apresentados. A partir deste processo foi possível visualizar espacialmente as áreas mais propensas à receber a intervenção. Desta forma, o projeto se estrutura partindo da escala macro e chegando até a micro, de um plano de massas ao detalhamento dos pocket parks. 2. PSICOGEOGRAFIA O termo psicogeografia foi definido pelos situacionistas como o estudo da influência e dos efeitos que o ambiente geográfico é capaz de operar nas emoções e comportamentos do ser humano. A técnica ou prática da deriva era o exercício prático da psicogeografia, para investigar os efeitos do ambiente urbano no estado psíquico e emocional daqueles que a praticam. Consistia em partir de um determinado local e lançar-se a deriva, ou seja, sem rumo ou rota definida, de forma que o próprio meio urbano os guiasse ao acaso traçando um caminho. O método consistia em observar e analisar os motivos que levam a pessoa a definir determinado caminho, perceber por que a


ção ativa por parte dos cidadãos e, portanto, de uma revolução da vida cotidiana. Desta forma, o foco do movimento passou a ser a crítica ao monopólio urbano por parte dos urbanistas e planejadores, pois não existiu exatamente um modelo de cidade situacionista, e sim através de procedimentos e práticas, uma forma situacionista de viver e experimentar a cidade. Assim, os cidadãos passariam a ser transformadores, construtores e principalmente “vivenciadores” do espaço urbano, ao invés de meros espectadores de uma cidade pré-formulada.

mente induz sensações agradáveis ou desagradáveis quando se percorria certos lugares. “A psicogeografia seria então uma geografia afetiva, subjetiva, que buscava cartografar as diferentes ambiências psíquicas provocadas basicamente pelas deambulações urbanas que eram as derivas situacionistas” (JACQUES, 2003).

O Situacionismo foi um movimento vanguardista que surgiu nas décadas de 1950 e 1960 e teve como principal teórico o francês Guy Debord. As questões levantadas pelo movimento eram publicadas na revista Potlatch, onde tratavam, sobretudo da crítica à arquitetura e urbanismo funcionalistas modernos, manifestação típica da época entre os movimentos de contracultura. Os arquitetos do movimento moderno “acreditavam que a arquitetura e o urbanismo poderiam mudar a sociedade, já os situacionistas acreditavam que a sociedade é que deveria mudar a arquitetura e o urbanismo”. (JACQUES, 2003). De acordo com Jacques (2003), ao contrário dos arquitetos modernos, os situacionistas queriam provocar a revolução e no caso o ambiente urbano seria usado para induzir a participação e fazer os indivíduos pensarem e reagirem diante do espaço percebido, uma revolução da vida cotidiana contra a alienação e passividade da sociedade.

“Deriva” The Naked City, por Guy Debod. Fonte: http://www.vitruvius.com.br A deriva seria uma apropriação do espaço urbano pelo pedestre através da ação do andar sem rumo. A psicogeografia estudava o ambiente urbano, sobretudo os espaços públicos, através das derivas, e tentava mapear os diversos comportamentos afetivos diante dessa ação, basicamente do caminhar na cidade (JACQUES, 2003).

A principio, os situacionistas pretendiam construir cidades, um ambiente propício para o despertar de um espírito de descobertas, no entanto perceberam que construir novas cidades não seria a solução aliada aos seus próprios princípios já que eram contra um modelo de cidade pré-definida. Para eles, a construção da cidade dependeria de uma apropriação e participa-

Em síntese, de acordo com a lógica situacionista, o papel do arquiteto não deveria ser o de construtor de formas isoladas, e sim de ambiências completas. A crítica voltava-se para a maneira monótona e principalmente formal que a arquitetura era construída, negligenciando um fator crítico importante: o da afetividade. Para os situacionistas, além de que se preocupar com a ergonomia, medidas ideais e distâncias funcionais, o arquiteto deveria se preocupar em como tudo isso afetaria o comportamento das pessoas e com a reação afetiva dos lugares, ou seja, tornar significativo cada espaço da cidade (DIAS, 2007). Para Jacques (2003), as ideias dos situacionistas podem ser vistas ainda hoje como um convite à reflexão e ao debate, sendo um manifesto contra a espetacularização das cidades e uma convocação à participação efetiva da população nas decisões urbanas.

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2.1 O SER HUMANO E O ESPAÇO A SUA VOLTA O livro de Ellard (2016) intitulado “Psicogeografia: A influência dos Lugares na Mente e no Coração” aborda a respeito de como o ser humano é influenciado e reage ao seu entorno, de forma que esse conhecimento possa ser usado como uma nova ferramenta por arquitetos, urbanistas e todos os agentes de transformação da cidade para propor espaços de interesse com os quais criamos uma identidade, e que nos façam sentir bem. Todos experimentamos diariamente o espaço construído seja em nossos lares ou andando pela cidade, e todos temos ao menos uma vaga sensação de que o modo como nosso entorno foi desenhado influencia em nossas ações e pensamentos, pois muitas vezes buscamos um contexto concreto exatamente por que gostaríamos de experimentar essas influências, como numa igreja ou num parque de diversões. (ELLARD, 2016). “Apesar disso, ainda que todos nós notamos e reagimos ao desenho de um edifício em um nível emocional e ainda que tais sentimentos influenciem no que fazemos quando estamos ali, com grande frequência não temos nem tempo nem disposição pra dissecar nossas respostas cotidianas aos lugares com a intenção de dar-lhes sentido” (ELLARD, 2016).

De acordo com Ellard (2016), estudos científicos revelaram que a exposição humana à cenas de grandeza 10

De acordo com Ellard (2016), estudos científicos revelaram que a exposição humana à cenas de grandeza como fenômenos naturais de grande magnitude, por exemplo os desfiladeiros do Gran Canion ou grandes construções humanas como uma catedral podem exercer uma grande influência em como percebemos o passar do tempo, como tratamos o próximo e até mesmo na concepção que temos de nós mesmos. Além disso, tais espaços além de influenciar em como nos sentimos, são capazes de influenciar em nossas atitudes e em nosso comportamento pois em contato com um ambiente de tamanha magnitude, nos predispomos a nos tornarmos mais obedientes e a aceitar uma força superior mais poderosa. Para demonstrar a questão da percepção humana em relação ao tempo e ao espaço, Ellard (2016) utiliza um exemplo de que quando uma pessoa passeia por uma rua ampla em uma zona residencial com uma monótona extensão de casas todas idênticas, tem-se a impressão de que o tempo passa com lentidão, e que uma sensação de tédio nos invade. Já quando acontece o contrário, ou seja, um passeio por uma rua agitada da cidade, cheia de lojas coloridas, com um delicioso cheiro de comida e cheia de pessoas, pode nos deixar de bom humor. Atualmente os princípios das ciências humanas como sociologia, psicologia, ciência cognitiva e neurociência estão cada vez mais envolvidos no campo do plane

jamento urbano. Nossas reações ao espaço que noscerca podem ser notadas através de nossos corpos, nossa postura, nossas expressões faciais, nossos padrões de movimento de olhos, movimentos de cabeça, nossas glândulas sudoríparas e inclusive a forma como utilizamos nossos celulares e atualmente há uma gama cada vez maior de dispositivos capazes de medir tais estímulos em nossa atividade cerebral. Essas tecnologias permitem àqueles que as estudam entender como a paisagem urbana dá forma aos nossos sentimentos, e como uma vantagem disso, saber como moldar nossa conduta. Ellard (216) afirma que as teorias científicas seguiram durante anos a tendência de afirmar que aquilo que nos diferenciava de outros animais era a supremacia do nosso neurocortex, a parte mais externa do cérebro que abriga as funções racionais (responsável pela percepção, pensamento, razão e tomada de decisões) em detrimento do nosso “cérebro reptiliano”, encontrado na parte mais interna do cérebro, que abriga nossos desejos e instintos animais (território dos sentimentos, impulsos e emoções). Afirmava-se que estas duas áreas da mente humana se opunham e que havia uma clara distinção entre o eu racional e o eu emocional. No entanto, evidências da neurociência moderna e da psicologia mostram uma relação diferente entre nossos cérebros emocional e racional. Destaca-se neste no campo de pesquisas em neurociência os estudos


3. O SER HUMANO E A NATUREZA de Antonio Damasio, um neurocientista português que trabalha no estudo do cérebro e das emoções humanas. Ellard (2016) comenta sobre de um dos estudos de Damasio a respeito de pessoas que sofreram lesões focais em zonas do lóbulo frontal, considerado até então o degrau mais alto do pensamento racional, tem demonstrado que tais lesões produzem déficits na tomada de decisões e no comportamento adaptativo precisamente por que cerceiam vínculos importantes entre nosso eu emocional e cognitivo. “O que acontece é que esses “sentimentos viscerais” que usamos em ocasiões para guiar nossa tomada de decisões e que no geral costumam ser mais assertivos que errôneos, na realidade surgem de nossos cérebros emocionais mais profundos e constituem rotas importantes para alcançar metas e realizar planos sensatos” (ELLARD, 2016).

Damásio associa a consciência à noção de tomada de decisões, até pouco tempo tomadas como ações desassociadas e acrescenta que a tomada de uma decisão ou o curso de uma ação referente a um problema pessoal em que a pessoa está inserida em um meio social depende de dois fatores: o primeiro é um amplo conhecimento em generalidades e o segundo são estratégias de raciocínio que atuem sobre esteconhecimento. O que Damásio quer dizer com isso é que as

decisões morais tem um papel decisivo na definição do ser humano, não é possível reduzir os processos de tomada de decisão à uma racionalidade pura, sem levar em consideração as emoções e o contexto sociocultural. (OLIVEIRA, 2013) Em resumo, os novos estudos em neurociência apontam que as emoções desempenham um papel fundamental como guia do comportamento humano, e que o conhecimento desse fator influencia diretamente na psicogeografia e na neuroeconomia, já que os lugares influenciam em nossos sentimentos e os sentimentos influenciam em nossas tomadas de decisão e comportamento. Para Ellard (2016) a chave para construir edifícios e entornos melhores em todas as escalas está na observação das intrínsecas relações entre nossas experiências vividas e os lugares que as contém.

Esquema de distribuição das partes do cérebro. Fonte: http://physioquantum.com/cerebro-voce-nem-imagina-como-ele-funciona/

Nos últimos anos, diversas pesquisas tem voltado atenção ao estudo do potencial restaurador que a natureza exerce sobre nossas energias vitais e por que isso ocorre quando nos encontramos num ambiente natural. As pesquisas que se desenvolveram neste ramo apontam algumas tendências históricas e neurológicas capazes de explicar tal fenômeno. O geógrafo americano Jay Appleton realizou estudos a respeito da preferência humana por certas paisagens naturais. Appleton realizou estudos de seleção de habitat com aves, lagartos e outros tipos de animais os quais demonstraram que o elemento crucial da seleção de habitat por parte de um animal era a capacidade de "ver sem ser visto", devido às vantagens que isso representava quanto ao aumento de sua capacidade de sobrevivência. Como Appleton defendia a continuidade evolutiva entre os animais e seres humanos, este principio de preferência por determinadas paisagens naturais foi reformulado sob os princípios de "perspectiva e refúgio". Este postulado aponta que apesar de vivermos em meio a um ambiente urbano, os seres humanos seguem possuindo certos ecos de seus impulsos naturais ao eleger suas preferências por uma determinada paisagem, como uma resposta a uma série de riscos e vantagens que esses lugares podem fornecer, apesar de hoje em dia essas características serem irrelevantes a nossa vida cotidiana. (ELLARD, 2016)

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O postulado de Appleton a respeito da perspectiva e refúgio teve grande importância para experimentos que se sucederam e "confirmaram a importância dessa dimensão espacial na determinação de onde gostamos de olhar e estar". Mesmo em situações cotidianas é possível apreender os princípios formulados por Appleton: quando olhamos em qualquer espaço público como as grandes praças antigas da Europa, as pessoas costumam se sentar e relaxar nas bordas do espaço, não no centro. Assim como observa-se em um restaurante ou bar, as mesas e cadeiras situadas no perímetro do espaço são sempre ocupadas primeiro que as centrais. Essas situações mostram que as pessoas demonstram uma forte preferência por locais que oferecem mais possibilidades de "ver sem ser visto", que sejam refúgios que permitam uma ampla perspectiva sobre o lugar (ELLARD, 2016). 3.1 BEM ESTAR PSICOLÓGICO E CAPACIDADE DE RESTAURAÇÃO Dentre a gama de investigações científicas que oferece hoje relatos a respeito do valor reparador da natureza em nossos corpos e mentes, um dos primeiros estudos a contribuir com o tema foi o de Roger Ulrich, a respeito da influência da natureza na velocidade de recuperação de pacientes hospitalares que haviam passado por cirurgia na vesícula. Suas descobertas constataram que os pacientes que podiam ver a na

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tureza através das janelas dos quartos, se recuperavam mais rapidamente que aqueles que viam apenas ambientes construídos. Pesquisas que se sucederam a esta demonstraram que contemplar a natureza é capaz de gerar uma série de efeitos positivos sobre o ser humano: diminui a agitação, o ritmo cardíaco se estabiliza e se desencadeiam padrões mais relaxados de atividade cerebral. (ELLARD, 2016) Os estudos dos psicólogos Stephen e Rachel Kaplan constataram que quando estamos imersos em uma paisagem natural, nosso aparato cognitivo funciona de forma diferente. Notou-se através de medições dos movimentos oculares das pessoas que ao contemplar a natureza, tendemos a movimentar nossos olhos de forma diferente do que quando vemos paisagens urbanas. Nossos olhos se movem mais rápido de um lugar a outro, nossa atenção varia mais rapidamente, sem nos concentrarmos em detalhes, os quais caracterizam uma paisagem urbana. Os Kaplan explicam em sua “teoria do restauro da atenção” que isso acontece por que nosso entorno urbano cotidiano exige que empreguemos uma atenção dirigida, que nos obriga a concentrar em tarefas cotidianas. Como tais tarefas demandam um esforço muito grande de nossa atenção e concentração, com o tempo isso drena nossos recursos cognitivos. Quando nos desprendemos dessas circunstancias cotidianas e vamos a um ambiente que nos permita o contato com

a natureza, não precisamos mais dedicar uma atenção dirigida e sim uma atenção involuntária e sem esforço, guiada pelo fascínio ao observar o ambiente. Essa sensação de fascínio é capaz de relaxar nosso sistema nervoso e aumentar nossa capacidade de concentração para seguir realizando tarefas cotidianas. (KAPLAN, 1989) Francine Kuo e William Sullivan realizaram experimentos em bairros que continham quantidades distintas de vegetação e constataram que as pessoas que vivem em um entorno mais verde tendem a se sentir mais felizes e seguras e este fator se justifica através de outros trabalhos que demonstraram que vizinhanças mais verdes costumam registrar um menor índice de crimes e delinquência. Este é mais um exemplo de que o entorno é capaz de influenciar em nosso humor e emoções e nossas emoções em nossos comportamentos e tomadas de decisão. (ELLARD, 2016) 3.2 BEM ESTAR FÍSICO O Ministério da Saúde estabelece que a prática de atividade física faz bem para a mente e o corpo. Este tipo de prática promove benefícios além de manter ou perder peso, já que são capazes de reduzir o risco de hipertensão, doenças cardíacas, acidente vascular cerebral, diabetes, câncer de mama e de cólon, depressão e quedas em geral. A atividade física também é


4. A NATUREZA E A CIDADE responsável por fortalecer ossos e músculos, além de reduzir a ansiedade e estimular o convívio social. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), um a cada dois adultos não pratica o nível de atividade física diário recomendado (150 minutos semanais ou 20 minutos diários). A prática de atividade física necessita de espaços apropriados, assim, os parques urbanos, jardins públicos e praças representam a primeira linha de infraestruturas utilizadas para essas práticas (SOUSA, 2007). Os parques urbanos abrigam esta função de desenvolvimento desportivo por que são capazes de integrar dentro da cidade o lazer, a cultura e o esporte de uma forma livre e subjetiva. Atualmente a sociedade encara a atividade física de forma diferente, já que esta deixa de estar subordinada apenas ao esporte tradicional, bem como às instalações. Cada vez mais o esporte se identifica com a natureza e com espaços ao ar livre (BENTO, 1995). De acordo com Cunha (1997) apud Sousa (2007) os espaços livres permitem ao cidadão orientar sua prática desportiva de acordo com sua preferência e sem custos inerentes. No entanto, um fator que pode se tornar um filtro para a utilização destes espaços é a questão do deslocamento até estes locais. Autores como Lima et al. (2013) e Hidelbrand et al. (2001) constataram que existe uma relação inversamente proporcional entre a distância de deslocamento e o

número de visitas para prática de atividades físicas. Hidelbrand et al. (2001) destaca ainda que a distância e a quantidade de instalações de lazer podem afetar o padrão de prática de atividade física e de exercícios entre os cidadãos. O autor sugere que diminuir as distâncias e aumentar o número de instalações de lazer incentivaria um comportamento ativo das pessoas. COHEN et al. (2014) realizaram um estudo a respeito do potencial de promover atividades físicas que os pocket parks possuem. Essa modalidade de parque possui dimensões reduzidas, porém se estes espaços estiverem distribuídos por vários lugares eles acabam servindo como catalisadores para atividades físicas. Os autores afirmam que estes pequenos parques atraem uma grande quantidade de pessoas simplesmente por estarem próximos à zona residencial. Atividades físicas de maior intensidade no geral requerem espaços maiores para sua prática, no entanto, práticas do tipo leve ou moderada podem ser realizadas em espaços menores. O estudo apresenta a importância de espaços livres de diferentes escalas para a prática de atividades físicas, sendo que os autores reforçam que para este tipo de prática não é necessário que estes espaços apresentem alguma infraestrutura específica, já que uma série de programas de exercícios não dependem de equipamentos como zumba, ioga, exercícios aeróbicos, etc.

A partir da década de 1960 as principais cidades brasileiras passaram por um processo de aumento da densidade demográfica devido ao êxodo rural dentre outros fatores, provocado pela mecanização da agricultura e pela substituição das atividades agrícolas pelas pastagens. A migração de um grande fluxo de pessoas em direção às cidades associado à falta de infraestrutura das cidades na época e ao planejamento ineficaz fez com que as cidades crescessem de forma desordenada, essa situação por sua vez acarretou em problemas de degradação do meio ambiente e consequentemente interferências na qualidade de vida das pessoas (CAMARGO; AMORIM, 2005). De acordo com Lombardo (1985), o descontrole no processo de ocupação do solo urbano dificulta a implantação de infraestrutura, produz altos custos de urbanização e gera problemas ambientais de caráter térmico, acústico, visual, de circulação, entre outros, tudo isso contribui para a consolidação de um ambiente desagradável para o convívio humano. Segundo Amorim (1993) e Oliveira (1983) a qualidade de vida do ser humano está intimamente ligada à qualidade do ambiente pois vida e meio ambiente são inseparáveis. A Organização Mundial da Saúde estabelece como “saúde”, um estado de completo bem estar físico, mental e social e não só a ausência de uma doença ou enfermidade (WHO, 1948). Diversos autores tem demonstrado os efeitos da exposição diá

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Através da análise de paisagens e regiões Forman concluiu que toda terra consiste em habitats fragmentados organizados em um arranjo de mosaico e que essa estrutura padrão de mosaico independe da escala, pois Amorim (1993) afirma que para estabelecer a relação pode ser encontrada na escala da paisagem, na escala entre qualidade de vida e qualidade do ambiente é ne- regional e continental. Forman identifica essa estrutura cessário realizar uma análise ambiental, que por sua de mosaico como o arranjo espacial ótimo para a intevez leva em consideração diversos elementos como a presença de vegetação, a densidade populacional, o uso e ocupação do solo, clima, etc. Richard Forman em seu livro “Land Mosaics” afirma que além de levar em consideração estes elementos formadores de uma paisagem, é importante considerar a forma como estes elementos estão arranjados e distribuídos no tecido urbano. Para Forman, o arranjo espacial de uma paisagem é importante não apenas para a biodiversidade e para a sustentabilidade do meio ambiente mas também igualmente para contemplar as necessidades humanas. (THWAITES, HELLEUR e SIMKINS, 2005) ria a fatores estressantes do meio urbano (superlotação, barulho, tráfego, etc.) nas pessoas como um fator que pode contribuir para o aumento de comportamentos agressivos e antissociais.

“(...) nós presumimos que para qualquer paisagem, ou maior parte da paisagem, existe um arranjo espacial ótimo de ecossistemas e uso de terras para maximizar a integridade ecológica. O mesmo é verdadeiro para arquivar as necessidades básicas humanas e para criar um ambiente sustentável. Então, o maior desafio é descobrir o arranjo.” (Forman, 1995, p.522 apud Thwaites, Helleur e Simkins, 2005)

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gridade ecológica e também social a qual é formada por três estruturas fundamentais chamadas manchas, corredores e matrizes. As “manchas” podem ser definidas como áreas relativamente homogêneas e não lineares que se diferenciam de seu entorno; os “corredores” são faixas/tiras de determinados tipos que se diferenciam de seu entorno dos dois lados; já as “matrizes” são os

Sistema de mosaicos territoriais de Forman (1995). Fonte: http://davidbuckleyborden.com/the-forman-watercolor-diagrams/


planos de fundo ou tipo de uso da terra. Desta forma, os mosaicos de territórios são padrões formados por manchas, corredores e matrizes. (THWAITES, HELLEUR e SIMKINS, 2005) O trabalho de Thwaites, Helleur e Simkins (2005) apresenta um panorama a respeito de como a teoria de Forman também repercute na organização do espaço urbano e que as evidências de pesquisas recentes indicam que certos arranjos espaciais por si só podem influenciar e contribuir para o bem estar social e psicológico do ser humano, assim como a forma e o conteúdo dos espaços específicos que compõe o arranjo. Diversos pesquisadores e organizações tem se dedicado ao papel de analisar a situação em que se encontram as cidades e sua organização, de modo a encontrar um arranjo urbano que seja mais sustentável. Neste sentido, cidades mais adensadas, compactas, centralizadas e com um uso misto do espaço tem sido apontadas como o modelo urbano de organização do espaço mais sustentável (Urban Task Force, 1999). O adensamento urbano quando pensado e estruturado de forma equilibrada potencializa os investimentos realizados em infraestrutura, facilita a gestão da infraestrutura de drenagem urbana e dos recursos hídricos, por evitar a incorporação de novas áreas impermeáveis ao tecido urbano, sobrecarregando o sistema de drenagem. Nucci (2001) afirma no entanto que uma

intensificação do uso do solo pode ser justificado contanto que haja qualidade ambiental e por isso é importante atentar-se à oferta de cobertura vegetal e a oferta de espaços de uso público, livres de edificação e com vegetação. Como uma consequência do processo de adensamento das cidades, a disponibilidade de grandes áreas para serem destinadas a grandes espaços verdes passa a ser um recurso reduzido (PESCHARDT et all., 2012). Desta forma novas abordagens a respeito da promoção e distribuição dos espaços públicos apontam a necessidade de olhar para facetas menores dos espaços públicos e espaços verdes, distribuídos pela cidade. No entanto, para que o espaço público não se torne uma paisagem fragmentada e desassociada da rede de equipamentos públicos e para alcançar-se uma integração urbana, é necessário que o mesmo seja pensado não como uma unidade isolada, seja uma rua, um parque ou uma praça, mas como partes de uma paisagem urbana inteira, cada um com a sua função específica, como o arranjo de mosaico de Forman. (THWAITES, HELLEUR e SIMKINS, 2005) Esta ideia de uma rede de pequenos espaços públicos de restauração integrados ao meio urbano foi estudada pelo arquiteto paisagista Robert Zion em 1963. Numa época em que os arquitetos e planejadores focavam a atenção apenas em grandes parques e praças cívicas, Zion acreditava que não era necessário

que um parque urbano fosse grande para que oferecesse qualidade ou mesmo para que servisse ao propósito de restauração psicológica. O mesmo afirmava que Nova York estaria melhor servida com milhares de pequenos parques, e em 1993 propôs ao cidadãos de Nova York que construíssem um pocket park a cada quarteirão do centro da cidade, para criar uma matriz de parques. Em 1968 foi inaugurado o Paley Park, projetado por Zion, que acreditava que este seria um de uma centena de outros pequenos parques, de forma que eles se tornassem “não amenidades, mas necessidades da vida cotidiana”. Apesar disso, o Paley Park acabou sendo o único pocket park criado por Zion e até hoje é extremamente frequentado em Nova York. (THWAITES, HELLEUR e SIMKINS, 2005) “Espaços públicos devem ser concebidos como um cômodo externo dentro de um bairro, um lugar para relaxar e aproveitar a experiência urbana.” Acredita-se que esta configuração urbana mais integrada de pequenos espaços públicos linkados entre si e amarrados à cidade contribui significativamente para tornar as cidades mais habitáveis. (Urban Task Force, 1999, p. 57 apud Thwaites, Helleur e Simkins, 2005).

Para Thwaites, Helleur e Simkins (2005), a primeira mudança na forma de prover e gerenciar espaços

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públicos deve ser mudar a ênfase dada às características e propriedades de cada espaço individualmente e passar a abordá-los como parte de uma rede interconectada. Neste sentido os autores chamam a atenção para o potencial das ruas como elementos conectores dos diversos pequenos espaços públicos, além de exerceram elas próprias o papel de componentes desse sistema de parques dentro dessa nova concepção de um arranjo interligado. Os autores afirmam que a experimentação desse tipo de arranjo é psicologicamente benéfico para a população urbana na medida que implica em um design mais fluido, importante para gerar uma sensação de continuidade e de localização.

cido urbano onde servem a população da imediações locais. Estes pequenos parques apesar de sua escala podem conciliar diferentes funções como áreas de lazer para crianças, espaços para relaxar e socializar, locais para realizar uma refeição, etc. Sua inserção em meio ao tecido urbano faz com que estes espaços sirvam diretamente como um refúgio da agitada vida urbana, principalmente na região central das cidades (SEYMOUR, 1969).

O conceito dos pocket parks estabelece a noção de um novo modelo de espaço livre, compacto e implantado em lotes urbanos inutilizados, subutilizados, em terrenos baldios ou em sobras de terrenos. Este modelo surgiu há mais de quarenta anos em Nova Iorque, quando Thomas Hoving decidiu implantar áreas livres compactas na cidade. Muitos destes parques surgem como resultado da ação da comunidade, de entidades privadas ou de fundações filantrópicas que reclamam

Portanto, conclui-se que em termos de promoção de espaços agradáveis e de restauração, assim como pensar nas qualidades individuais dos espaços públicos como lugares que as pessoas procuram especificamente para relaxar, é necessário começar a levar em consideração também como as pessoas enxergam e experimentam a continuidade e conexão entre eles. 4.1 SISTEMA DE PEQUENOS ESPAÇOS PÚBLICOS VERDES OU POCKET PARKS Pocket parks são espaços livres urbanos em pequena escala. Geralmente ocupam o tamanho de um ou alguns lotes residenciais e estão distribuídos pelo te

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O adensamento urbano pode ser alcançado de diferentes formas. Fonte: Urban Task Force (1999)


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Fonte: www.pps.org/places/paley-park


o uso destes espaços para benefício local da população. Normalmente este tipo de parque é instalado em lotes conformados por edifícios preexistentes, porém seu acesso deve estar visível ao pedestre, de forma que este possa adentrar intuitivamente o espaço. A função ecológica dos pocket parks são limitadas, tendo em vista a sua inserção em áreas adensadas do tecido urbano e seu uso intenso pelas pessoas, no entanto estes espaços são capazes de aumentar a quantidade de espaços permeáveis pela cidade, contribuindo para a drenagem urbana, além de regular o microclima local. Além disso, quando articulados a outros sistemas de áreas verdes da cidade, estes locais podem servir como abrigo ou caminho para pequenos animais, principalmente pássaros. “Para que tais parques contribuam efetivamente para a vida na cidade, eles devem ser prontamente disponíveis. Além disso, eles não devem ser vistos como meras amenidades. Eles se tornaram necessidades, e necessidades devem, por definição, estar sempre perto, à mão, serem facilmente acessados. A sua presença deve ser sentida em todos os lugares em toda a área - no caminho para o trabalho, no caminho para casa, no horário do almoço, etc. Para que tal sistema de parques obtenha sucesso, deve haver tanto promiximidade quanto abundância - um parque deste gênero a cada quarteirão” (New Parks for New York Exhibit, 1963).

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Se preveem que haja nestes espaços elementos vegetais e árvores para gerar áreas sombreadas, diferentes pisos como áreas secas, áreas vegetadas e áreas molhadas, além de dispor de um conjunto de mobiliários como bancos, mesas, cadeiras, que permita ao usuário diversas funções. Este novo modelo de espaço público é capaz de ser replicado em qualquer área da cidade e suas características poderão ser adaptadas de acordo com cada lote. 4.2 A QUALIDADE DOS ESPAÇOS PÚBLICOS Nos últimos anos, o futuro das cidades tem sido discutido por órgãos públicos, arquitetos, urbanistas, designers e cidadãos de forma a refletir sobre os rumos que a arquitetura e urbanismo deverão tomar diante dos problemas urbanos e sociais, para que através de uma elaboração estratégica seja possível melhorar a qualidade dos espaços públicos urbanos e consequentemente a vida de seus usuários. Alguns movimentos vem surgindo espontaneamente na tentativa de através de ações simples, promover a ocupação do espaço urbano, como a implantação de parklets ou o fechamento de algumas avenidas e impedimento da circulação de veículos temporariamente para manifestações culturais. Este tipo de ação, promovidas por coletivos e alguns órgãos públicos e privados, tem apontado uma resposta da população com

relação às necessidades imediatas que as cidades brasileiras tem de espaços públicos. No estilo de vida que o homem adotou na atualidade, a globalização propiciou o surgimento de ferramentas eletrônicas essenciais mas ao mesmo tempo gerou um afastamento físico entre as pessoas e entre as mesmas e a cidade. Os espaços públicos nesse sentido são importantes meios de aproximação dos cidadãos à rua e à cidade. O livro New City Life (2006) escrito pelos urbanistas dinamarqueses Jan Gehl, Lars Gemzoe e Sia Karnaes apresenta um panorama da história da vida urbana, porém reúne principalmente questões a respeito da qualidade dos espaços públicos. Os autores resumiram em 12 princípios os pontos que permitem classificar um lugar como bom espaço público ou não, e servem como parâmetros aos arquitetos, urbanistas e designers para a criação de novos espaços públicos. 4.3 ESTUDOS DE CASO Nordh et all. (2009) realizaram um estudo a respeito da capacidade de restauração psicológica de alguns pocket parks de países escandinavos, a pesquisa foi realizada através de questionários e fotos dos 72 parques analisados. O objetivo do estudo era principalmente analisar quais componentes físicos dos parques estavam ligados à certas variáveis psicológicas, que por sua vez contribuíam para nossa capacidade


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Fonte:www.archdaily.com.br/br/01-115308/12-criterios-para-determinar-u-bo-espaco-publico


20 Fonte:www.archdaily.com.br/br/01-115308/12-criterios-para-determinar-u-bo-espaco-publico


de restauração, sendo os componentes físicos analisados: piso, grama, vegetação rasteira, plantas com flores, arbustos, árvores, água e tamanho do parque. Já as variáveis psicológicas ligadas à possibilidade de restauração analisadas foram a capacidade de “estar longe”, fascínio, possibilidade de restauração e preferência. Os resultados do estudo indicaram que a capacidade de restauração dos parques não dependem apenas do tamanho, claramente os resultados mostram que quanto maior o parque, mais provável é que o indivíduo experimente a sensação de restauração. Apesar disso, a pesquisa apontou que alguns dos menores parques tiveram algumas das melhores classificações quanto a possibilidade de restauração, o que indica que esse fator é também uma questão de design e dos componentes usados para criar o parque. Parques considerados pequenos mas que continham apenas um dos elementos físicos analisados (piso, grama, vegetação rasteira, plantas com flores, arbustos, árvores, água) receberam uma nota quase tão alta quanto um parque considerado médio em tamanho que também possuía apenas um componente físico considerado. Estes resultados enfatizam a importância do design principalmente em cidades que passam por um processo de adensamento. Além disso, os autores afirmam que o design pode também auxiliar as pessoas a experimentar o parque como se ele tivesse

uma área maior do que a que possui. Quanto a relação dos elementos físicos dos parques com as variáveis psicológicas (com foco nas variáveis de capacidade de “estar longe” e fascínio), as análises estatísticas apontaram que o fascínio (maneira como nossa atenção é capturada por elementos presentes na paisagem e processo de exploração) é fortemente influenciado pelos elementos água e tamanho do parque, já a capacidade de “estar longe” (definida como uma distância psicológica das demandas e da rotina diária em que a pessoa utiliza apenas sua atenção dirigida; KAPLAN 1989) é majoritariamente influenciado pelos elementos grama, arbustos, árvores e tamanho. A capacidade de “estar longe” relacionada a elementos como árvores e arbustos se justifica pela capacidade destes elementos de oferecer um recinto, já que a vegetação funciona como paredes ao redor do parque e isso potencializa nossa experiência de se desconectar do entorno urbano que nos exige uma atenção dirigida. O trabalho de Peschardt et all. (2012) teve como foco analisar como alguns pocket parks da cidade de Copenhague eram utilizados pelos cidadãos. Os resultados mostraram que a maior parcela dos visitantes utiliza os parques para socializar e a segunda maior parcela para descansar e se recompor mentalmente. Aqueles visitantes que utilizavam o parque para so-

cializar no geral estavam acompanhados e ficavam no parque de 30 minutos a 2 horas e aqueles que o utilizavam para descansar e se recompor geralmente estavam sozinhos e gastavam um tempo menor no parque, de 15 a 30 minutos aproximadamente. Também foi apontado que as pessoas mais velhas (50-65 anos) são as que mais utilizam os parques com o intuito de descansar e se recompor, enquanto os mais jovens (15-29 anos) os utilizavam majoritariamente para socializar. Os autores também comentam que a razão de uso dos parques pode estar associada ao contexto no qual elas os utilizam pois a maioria das pessoas que utiliza os parques para descansar e se recompor estavam vindo de um lugar “A” e indo para casa ou em trajeto (indo de “A” para “B”) o que sugere que pessoas que estiveram no centro da cidade ou estão se movimentando pelo centro necessitam de um pequeno descanso e por essa razão passam algum tempo nos parques que estão inseridos no meio urbano. A maioria dos entrevistados declarou ter percorrido uma distância consideravelmente grande para acessar o parque, além de a maioria também ter declarado residir longe dos parques. Estes resultados apontam para a necessidade de tais espaços públicos em cidades que estão passando por um processo de adensamento para que as pessoas possam suprir suas necessidades diárias de interação social e restituição pessoal.

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5. A CIDADE DE SÃO CARLOS São Carlos é um município brasileiro localizado no interior do estado de São Paulo, na região Centro-Leste, distante 232 quilômetros da capital paulista. De acordo com o último senso do IBGE (2010), a cidade possuía 221.950 habitantes, no entanto, de acordo com a estimativa do IBGE realizada em 2017, a cidade já conta com 246.088 habitantes. A cidade se destaca como um importante centro regional industrial, sendo sua economia baseada em atividades industriais e na agropecuária. São Carlos é uma das cidades que pertenceu ao ciclo do café paulista do século XIX e que se industrializou principalmente a partir dos anos 1940. Hoje a cidade conta com algumas unidades de produção de empresas multinacionais como a Volkswagen, Faber-Castell, Eletrolux, Tecumseh, LATAM, etc. Além disso, destaca-se como um dos mais importantes centros públicos de ensino superior, responsável pelo desenvolvimento de pesquisa científica conta com dois campi da Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), o Instituto Federal de São Paulo (IFSP), a FATEC, além de uma instituição de ensino particular, o Centro Universitário Central Paulista (UNICEP). A forte presença de diversos centros de formação acadêmica contribui para uma intensa movimentação de uma população flutuantes de mais de vinte e nove mil graduandos e pós graduandos vindos de outras cidades e estados. O município faz fronteira com as cidades de Ibaté, Araraquara, Américo Brasiliense, Rincão, Luiz Antônio, Descalvado, Analândia, Ribeirão Bonito, Brotas e Itirapina, sendo acessado principalmente pela rodovia Washington Luís. (LIMA, 2008)

Fonte: Adaptado do IBGE

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5.1 ÁREAS VERDES E ESPAÇOS PÚBLICOS DE LAZER poderia ser desenvolvida trabalhando-se com um projeto de arborização viária que oriente tais conexões (FAUSTINO et al., 2016).

De acordo com Oliveira (1996) a cidade de São Carlos apresenta com relação aos tipos de áreas verdes, uma predominância em termos de ocorrência das áreas verdes de acompanhamento viário não arborizadas (apenas com vegetação herbácea), estas áreas representam 21,6% do número total de áreas verdes públicas da cidade, no entanto esse total soma uma área baixa, apenas 0,28 ha. As áreas verdes de uso coletivo, ou seja, aquelas que efetivamente são acessíveis à população e possuem valor ecológico e social tem baixa frequência, sendo apenas 6,8% do total as quais somam uma área média de 0,65 ha.

Através do mapa é possível perceber que a maioria dos espaços que compõem o sistema de recreio (praças com benfeitorias) da região central pertencem à categoria campo de vizinhança (4.000 a 20.000 m²), os quais possuem um raio de abrangência de 800 m (FONTES, 2003). No geral, os sistemas de recreio presentes nessa região abrangem a maior parte da área no que diz respeito ao raio de abrangência estabelecido por Fontes (2003). As praças encontram-se em boa condição de manutenção, no entanto a maioria possui apenas os equipamentos básicos: alguns bancos, postes e arborização. Apenas as praças identificadas pelos números 4 e 14 possuem playgrounds e as praças 10 e 13 possuem quadras esportivas.

Apesar de algumas das praças mais importantes (Santa Cruz, Paulino Botelho, Voluntários, etc.) estarem localizadas na região central da cidade, a alta densidade populacional (frequentemente acima de 6.000 hab/km²) e o fluxo diário de pessoas nessa região confere à essas áreas um Índice de Áreas Verdes inferior a 4m²/ hab. Ao analisar o potencial dos espaços verdes para a conectividade, levando em consideração todo o conjunto de diferentes tipos de espaços verdes, verifica-se que 50% deles estão a menos de 20 m do próximo espaço, 75% estão a menos de 90 m, e quase a totalidade encontra-se a menos de 210 m entre si. Estas informações revelam um potencial que pode ser explorado para aumentar a conexão dos espaços em direção a formação de um efetivo sistema de áreas livres, a qual

LEGENDA

Distância até a área de recreio mais próxima (metros)

Sistema de Recreio

Até 100

Perímetro Urbano

100 a 200

Parcelamentos do Solo

200 a 400

Sistema Viário

Nota-se através do mapa a grande quantidade de áreas públicas verdes sem benfeitorias, estas áreas estão inclusas no plano diretor da cidade como parte do sistema de praças, no entanto não existe acesso nem nenhum tipo de equipamento nestes locais que possa servir à população.

400 a 800 800 a 1000

Mapa representando a distância em metros até o espaço verde mais próximo. Fonte: Faustino et al. (2016)

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5.2 ARBORIZAÇÃO URBANA Viana (2016) realizou um levantamento de dados quantitativos da cobertura arbórea de São Carlos em termos de porcentagem, distribuição e configuração a partir da divisão da cidade em setores, para possibilitar uma análise mais detalhada. A cobertura arbórea calculada para toda a área urbana de São Carlos em termos de porcentagem foi de 26,27%, este perímetro analisado inclui áreas públicas, privadas, plantações de eucalipto e pinus em distritos industriais, remanescentes de mata nativa, além dos campi da USP e da UFSCar.

Silva Filho et al. (2005) apud Viana (2016), para complementar as informações sobre a arborização, onde:

A autora aponta que apesar deste valor geral (26,27%) ser razoável, a observação da cobertura arbórea por setor indica uma distribuição desequilibrada dentro do perímetro urbano. As maiores porcentagens de cobertura arbórea foram as dos setores 1 (79,55%) e 2 (31,31%), correspondentes aos campi da UFSCar e da USP respectivamente, além dos setores 36 (51,17%) e 24 (18,96%) que correspondem à áreas industriais com plantio de eucalipto, o que justifica estes valores. Viana (2016) afirma que se estes quatro setores fossem retirados da contagem e mantidos apenas os demais setores efetivamente urbanizados, a porcentagem de cobertura arbórea da cidade cairia para 11,59 %, o que ilustra a distribuição desigual deste fator.

Em que: PAV = Proporção de Espaço Livre Arborizado em relação ao Espaço Livre Herbáceo (ELH), caracterizando o Espaço Livre Vegetado, que é a soma de toda a cobertura vegetal. Quanto mais próximo de 1 for este índice, menor a quantidade de áreas livres com cobertura herbácea disponíveis.

Nas áreas mais centrais (setores 25, 27 e 28), de ocupação anterior a 1940, percebe-se que as porcentagens de cobertura arbórea foram inferiores a 10%.

PAC = ELA/(ELA + EC) Em que: PAC = Proporção de Espaço Livre Arborizado; ELA = Espaço Livre Arborizado e EC = Espaço Construído. O PAC pode variar de 0 a 1, sendo que quanto mais próximo de 1 for o índice, maior a indicação de que o espaço arborizado está mais valorizado em relação ao espaço construído. PAV = ELA/(ELA + ELH)

Porcentagem de cobertura arbórea por setor da área urbana de São Carlos. Fonte: Viana (2016)

Autores como Ning et al. (2008), Queiroz (2011) e Silva Filho et al. (2005) apud Viana (2016) também verificaram valores baixos de cobertura arbórea na região central das cidades analisadas e afirmam que este padrão está presente em várias cidades do mundo. A autora utiliza ainda os índices PAC e PAV, definidos por

A análise destes índices por setores reforça o fato de a arborização urbana de São Carlos estar distribuída de forma desigual, de modo que os benefícios proporcionados por esta acabam não sendo desfrutados igualmente pela população. Alguns dos índices mais baixos foram encontrados nos setores centrais (25 a 29), sendo que especialmente nos setores 25,27 e 28, os baixos valores do PAC (0,18 a 0,19) e os valores moderados do PAV (0,61 a 0,72) refletem o fato de a área estar densamente ocupada e com pouca disponibilidade de áreas permeáveis (VIANA, 2016).

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O eixo da Avenida São Carlos se destaca pela acentuada falta de vegetação arbórea, com exceção apenas para os trechos de praças localizados ao longo deste eixo. Apesar de nesta área central existirem casas com quintais arborizados, a falta da arborização no passeio público torna o caminhar pelo centro um percurso desagradável.

Tendo em vista que esta é uma área extremamente consolidada e com um fluxo diário de pessoas devido à oferta de serviços, as estratégias para aumento da cobertura arbórea poderão ser voltadas para o uso das calçadas, assim como explorar os lotes ociosos disponíveis ou ainda o espaço dos numerosos estacionamentos da região.

Com relação às configurações da cobertura arbórea de acordo com os critérios estabelecidos por Jim 1989) apud Viana (2016), a tipologia predominante foi a Isolada (63%) com maioria do subtipo Disperso (32,2%). O segundo tipo mais frequente foi o Conectado (21,08%) do subtipo Continuo (14,9%) por conta dos campi da UFSCar e da USP 2. De forma geral a arborização das áreas efetivamente urbanizadas da cidade é isolada e com pouca conectividade entre as manchas de vegetação. Na região central (principalmente setores 25 e 27) é possível notar um padrão de manchas de vegetação concentradas dentro das quadras, que correspondem em grande parte à quintais (comuns em construções mais antigas) e áreas particulares. Apesar de estas áreas particulares não poderem ser aproveitadas pelas pelo público, elas possuem importante função ecológica e sua retirada acarretaria perdas significativas para os valores de cobertura arbórea que já são baixos (VIANA, 2016).

Proporção de áreas construídas (PAC) por setor da área urbana de São Carlos. Fonte: Viana (2016)

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Proporção de áreas vegetadas por setor da área urbana de São Carlos. Fonte: Viana (2016)


Ausência de vegetação na Rua Visconde de Inhaúma Fonte: Arquivo pessoal

Ausência de vegetação na Avenida São Carlos Fonte: Arquivo pessoal

Ausência de vegetação na Avenida Dr. Carlos Botelho Fonte: Arquivo pessoal

Ausência de vegetação na Rua José Bonifácio Fonte: Arquivo pessoal

Configurações de distribuição da vegetação Fonte: Jim (1989)

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5.3 IMÓVEIS DE INTERESSE HISTÓRICO E CULTURAL São Carlos possui aproximadamente 200 imóveis de interesse histórico catalogados pela Fundação Pró-Memória que merecem ser preservados e compõem um instrumento de estímulo ao desenvolvimento turístico da cidade (Fundação Pró-Memória, 2016). A função de avaliar os imóveis que preservam a memória da cidade fica a cargo de uma comissão de técnicos da Fundação Pró-Memória e da Secretaria Municipal de Habitação e Desenvolvimento Sustentável. A cidade reúne principalmente na região central, devido à sua ocupação mais antiga, uma série de imóveis históricos de diferentes estilos arquitetônicos. A Lei Municipal no 13.864 de 2006 estabeleceu a delimitação da Poligonal de Interesse Histórico de São Carlos, além da Poligonal Limitante de Gabarito, área em que o gabarito máximo deverá ser de 9 metros. Os imóveis que estão inseridos dentro da Poligonal de Interesse Histórico foram classificados em quatro grupos: Bens em processo de tombamento pelo CONDEPHAAT (órgão estadual), Bens tombados pelos CONDEPHAAT, Bens tombados pela Fundação Pró-Memória (órgão municipal) e Imóveis protegidos pela municipalidade. O mapa destaca os principais imóveis bens tombados, os bens em processo de tombamento e aqueles protegidos pela municipalidade. Estes imóveis constituem importante fonte da história da cidade além de proporcionarem vistas interessantes para quem caminha pelo centro.

Escola Estadual Álvaro Guião Fonte:saocarlosurgente.com/realizada-cerimonia-em-comemoracao-aos-100-anos-do-predio-da-escola-estadual-dr-alvaro-guiao/

Palacete Conde do Pinhal, antiga residência urbana do Conde do Pinhal. Atual sede da Secretaria de Educação da Prefeitura Municipal. Fonte: www.parqscar.ufscar.br/bens-imoveis-tombados

Edifício Euclides da Cunha, antigo Fórum e Cadeia pública. Atual Câmara Municipal de São Carlos - SP Fonte:www.saocarlos.sp.gov.br/index.php/turismo-pontos-turisticos/115446-atrativos-historico-culturais.html

CDCC - Centro de Divulgação Científica e Cultural. Localiza-se no prédio da antiga Sociedade Dante Alighieri, fundada em 1902 pelos imigrantes italianos Fonte: http://wikimapia.org/1193930/pt/CDCC-USP

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5.4 EQUIPAMENTOS PÚBLICOS DE INTERESSE Grande parte dos equipamentos públicos de interesse da cidade se encontram localizados na região central, o que torna o local um polo diário de atração de pessoas. O mapa indica os principais equipamentos públicos da região central, classificados em equipamentos culturais, escolas, atendimento de saúde, igrejas, órgãos públicos prestadores de serviços, equipamentos de esporte, programa de atividade física, e outros dois destaques, o Mercado Municipal e a Rodoviária. É possível perceber através do mapa a concentração de equipamentos de interesse principalmente a sul do eixo da Avenida São Carlos e suas adjacências, ali estão localizados dentre outros a Escola Álvaro Guião, a sede da Prefeitura de São Carlos, a sede da Câmara Municipal, a catedral, o CDCC da USP (Centro de Divulgação Científica e Cultural), o Mercado Municipal, o Senac e a UPA (Unidade de Pronto Atendimento). A região a noroeste destaca-se pela presença do Campus da USP, do Terminal Rodoviário e da Santa Casa, esta região se destaca por movimentar um grande fluxo de pessoas. Por último, a região a leste no mapa, que compreende principalmente os bairros Vila Nery e Vila Faria se destacam pela grande quantidade de escolas públicas e de ensino técnico, além da presença do Campo do Rui, um centro municipal para promoção de atividade física e da Unidade Básica de Saúde da Vila Nery.

Terminal Rodoviário de São Carlos - SP Fonte:g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao

Catedral de São Carlos - SP Fonte:www.sitecatolico.org/2016

Mercado Municipal de São Carlos - SP Fonte: http://mapio.net/pic/p-73540395/

Sede do SENAC de São Carlos - SP Fonte: www.saocarlosagora.com.br

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A

B B

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5.5 TOPOGRAFIA E HIDROGRAFIA A maior parcela do núcleo urbano de São Carlos está localizado sobre o Planalto São Carlos, que possui altitudes médias de 800 a 1.000 metros. A região central é cercada pela presença dos córregos do Gregório, do Monjolinho e do Tijuco, hoje canalizados e comprometidos pelo sistema de vias marginais, as quais não distam mais de cinco metros do leito (OLIVEIRA, 1996). É possível observar através do mapa hipsométrico e dos cortes que o eixo da Avenida São Carlos e suas paralelas, ou seja, as vias no sentido Norte-Sul possuem maior variação topográfica devido ao fato de estarem implantadas perpendicularmente ao divisor de água dos córregos do Gregório e do Tijuco. As vias no sentido Leste-Oeste possuem uma variação topográfica menos acentuada, que caracteriza-se por um declive no sentido Leste em direção a Oeste, devido a presença da cuesta basáltica a Leste (nascente dos córregos do Gregório e do Tijuco) e do córrego do Monjolinho a Oeste. Principalmente a partir dos anos 70 ocorreu um conflito entre a expansão urbana e as áreas de proteção permanente à beira dos córregos, desta forma, as APPs foram invadidas para a implantação das vias marginais. Hoje, a massiva impermeabilização do solo da região central, a escassa arborização urbana, os poucos sistemas de áreas verdes e a falta ou insuficiência das áreas de proteção permanente na beira dos córregos contribuem para que as águas pluviais

escoem rapidamente em direção aos córregos e vias marginais causando frequentes inundações em alguns trechos, o que compromete o sistema viário e o comércio. De acordo com Oliveira (1996) as tentativas de solucionar as inundações e deslizamentos são guiadas por obras de engenharia, pela canalização utilizando blocos de pedra ou tubulações de concreto, no entanto, estas ações nem sempre são eficientes e sob a perspectiva ambiental são inadequadas. Topografia acentuada no eixo da Av. São Carlos Fonte: http://mapio.net/pic/p-73540395/

Corte AA - Avenida São Carlos

Corte BB - Avenida Doutor Carlos Botelho

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5.6 FLUXO DE PEDESTRES A região central de São Carlos caracteriza-se pela presença de um eixo linear formado pela Avenida São Carlos e suas ruas paralelas, que se configuram como principal polo de atração de viagens. Como centros secundários, destacam-se as regiões representadas pela USP, Santa Casa (Hospital) e a Vila Prado. O traçado viário do centro reflete o modelo de ocupação mais antigo da cidade, com uma malha quadriculada de quadras de aproximadamente 90 x 90 metros. Essa quadricula é interceptada por três avenidas marginais (Avenida Francisco Pereira Lopes, Avenida Trabalhador São Carlense e Avenida Comendador Alfredo Mafei) na altura dos córregos do Gregório e do Tijuco.

Divisão das viagens pelos modos de transporte Fonte: Plano de Mobilidade Urbana de São Carlos

O Plano de Mobilidade Urbana de São Carlos identificou que 29% das pessoas se deslocam a pé, 26% usam o automóvel como motorista e 11% usam o automóvel como passageiro, 19% usam o ônibus, 11% outros meios e 3% utilizam a bicicleta. Percebe-se que há uma quantidade considerável de pessoas que se deslocam a pé (29%), sendo esta quantidade maior que as pessoas que utilizam o ônibus (19%) e não muito distante da quantidade que se desloca de carro (37%). Tendo como foco o deslocamento a pé, o mapa apresenta os principais fluxos de viagens a pé sobreposto ao mapa do sistema viário da cidade. Pode -se notar que o maior fluxo de viagens a pé concentra-se no eixo compreendido pela Avenida São Carlos, Rua Episcopal e suas paralelas sentido Norte-Sul. Os fluxos no sentido Leste-Oeste concentram-se a Norte, próximos à região da USP, nas Ruas Tiradentes, 28 de Setembro e Avenida Doutor Carlos Botelho e a Sul, próximo ao centro do comércio, na Avenida Comendador Alfredo Mafei, Rua Conde do Pinhal, 13 de Maio e Jesuíno de Arruda. Outro fluxo que se destaca pelos deslocamentos a pé origina-se na Rua Miguel Petroni, contorna o Campus da USP e percorre a Rua Visconde de Inhaúma, até encontrar com a Avenida Comendador Alfredo Mafei (Marginal). A Santa Casa é um polo diário de atração

de pessoas e destaca-se pelo acesso através da Avenida Doutor Carlos Botelho e Rua Serafim Viêira de Almeida.

Rua Episcopal, São Carlos - SP Fonte: mapio.net/pic/p-73540395/

Rua Visconde de Inhaúma, São Carlos - SP Fonte: Arquivo pessoal

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5.7 VAZIOS URBANOS De acordo com Galvão (2013) e Arruda (2016), classificam-se como vazios urbanos as áreas ociosas ou subutilizadas (ocupação menor que 25% de sua área), localizadas no interior do perímetro urbano, independente de possuir ou não infraestrutura e serviços públicos. Os vazios urbanos não cumprem a função social da cidade e da propriedade, e a existência destas áreas principalmente em zonas da cidade dotadas de infraestrutura não atendem aos princípios da Lei (BARBOSA et al., 2016). De forma a orientar a expansão e o desenvolvimento das cidades, o Estatuto da Cidade (Lei Federal no 10.251 de 2001) estipulou instrumentos para a ordenação do território, os quais são regulamentados pelos Planos Diretores. O Plano Diretor tem a função de diagnosticar e delimitar áreas urbanas onde serão necessárias intervenções do poder público para que as propriedades urbanas cumpram sua função social. Portanto, dentre as tarefas do Plano Diretor está a identificação dos tipos de vazios urbanos a fim de aplicar os instrumentos pertinentes para sua correta ocupação. De acordo com dados de 2002 da Secretaria Municipal de Habitação e Desenvolvimento Urbano de São Carlos a cidade possuía 20% do total da área urbana passível de ocupação desocupada, sendo 790 hectares em glebas e 550 hectares em lotes com infraestrutura (um hectare possui o tamanho aproximado de um quarteirão).

O mapa produzido indica apenas os vazios urbanos (áreas vazias ou subutilizadas), classificados em três tipos: vazios urbanos parcelados, vazios urbanos não parcelados e lotes utilizados como estacionamento da área analisada. O Plano Diretor de São Carlos utilizou a Lei de Zoneamento e uso do solo para definir os instrumentos do Estatuto da Cidade que serão aplicados em seu território.

Zoneamento urbano de São Carlos - SP Fonte: Barbosa et al., (2016)

O perímetro urbano é dividido nas seguintes zonas: Zona 1 - Ocupação Induzida, Zona 2 - Ocupação Condicionada, Zona 3 - Recuperação e Ocupação Controlada e Zona 5 - Proteção e Ocupação Restrita. A área de diagnóstico do mapa está compreendida quase inteiramente na Zona 1, apenas uma pequena área a leste está localizada na Zona 2. A Zona 1 compreende a área central da cidade, com as melhores condições de infraestrutura. De acordo com o Plano Diretor de São Carlos de 2005 a zona caracteriza-se por possuir áreas de uso misto com predominância de comércio e serviços na área central, concentração de população de média e alta renda, com predominância de população idosa no centro, concentração de imóveis de interesse histórico e cultural, além de grande concentração de imóveis não edificados, não utilizados e subutilizados. Através do mapa é possível notar uma grande quantidade de vazios urbanos parcelados (lotes) na região central, além da presença de diversos lotes utilizados como estacionamentos. Nota-se também uma concentração de lotes vazios na região do Parque Santa Mônica, devido ao fato de ser um loteamento recente. Quanto aos vazios urbanos não parcelados, foram destacadas cinco grandes glebas dentro desta área de urbanização consolidada, cercadas por toda infraestrutura (BARBOSA et al., 2016). Com relação ao pequeno pedaço do mapa que compreende a Zona 2,

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foram identificadas concentrações de vazios urbanos parcelados nos bairros Vila Faria, Jardim Cardinali e Portal do Sol. O Plano Diretor de São Carlos estabelece o uso dos seguintes instrumentos para regulamentação do solo da Zona 1 e Zona 2: O próprio Plano Diretor de São Carlos estabelece como diretrizes a serem aplicadas à Zona 1, dentre outras: promover a ocupação de glebas e lotes vazios e de imóveis vagos e subutilizados, promover o controle da

permeabilidade do solo, destinar áreas que já possuam infraestrutura para uso de habitação popular, garantir a diversidade de usos e preservar a diversidade social. Dentre os instrumentos que devem ser aplicados à Zona 1, destaca-se o Uso, Edificação e Parcelamento Compulsórios. O poder municipal tem como dever exigir através deste instrumento que o proprietário que tenha imóvel vazio ou subutilizado (com ocupação inferior

Instrumentos do Estatuto das Cidades previstos para Zona 1 e 2. Fonte: Adaptado do Plano Diretor de São Carlos, 2005.

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ao coeficiente) realize a edificação, o uso, ou no caso de glebas, o parcelamento. Após a identificação destes imóveis, o proprietário será notificado pela prefeitura e terá o prazo de um ano para apresentar um projeto de utilização para enquadrar-se ao plano diretor. Caso após este tempo o proprietário não edifique ou utilize o imóvel, este estará sujeito à aplicação do IPTU progressivo no tempo e após 5 anos à desapropriação com pagamento em títulos da dívida pública. Este instrumento visa fazer cumprir a função social da propriedade urbana em regiões com infraestrutura consolidada, evitando assim a degradação e o abandono de propriedades e lotes, a especulação imobiliária, o encarecimento da terra e a expansão urbana em direção às áreas vulneráveis (ESTATUTO DA CIDADE, 2005). Outro instrumento previsto para Zona 1 e para determinados eixos da Zona 2 é a Outorga Onerosa do Direito de Construir. Este refere-se à uma concessão que o Município pode emitir para que o proprietário de um terreno edifique acima do limite estabelecido pelo Coeficiente de Aproveitamento Básico da zona, mediante a uma compensação financeira a ser prestada pelo dono do imóvel. O Coeficiente de Aproveitamento Básico é um índice que indica o quanto pode ser construído no lote sem que a edificação implique uma sobrecarga de infraestrutura para o poder público. Assim, no caso de São Carlos, para a Zona 1, o CAB esti-


pulado é igual a 2, portanto, o proprietário que desejar construir acima deste coeficiente, até o máximo estabelecido pelo Coeficiente de Aproveitamento Máximo (igual a 3,5), deve “comprar” do município este direito a construir uma área maior.

agradável ao pedestre, além de contribuir para o aumento do índice de áreas verdes e da cobertura arbórea e contribuir positivamente com o sistema de

drenagem de águas pluviais. As fotos identificam alguns dos terrenos vazios ou subutilizados pontuados no mapa, localizados na Zona 1.

Terreno na Rua Major José Inácio Fonte: Arquivo pessoal

Estacionamento na Rua Visconde de Inhaúma Fonte: Arquivo pessoal

Estacionamento na Rua Marechal Deodoro da Fonseca Fonte: Arquivo pessoal

Terreno na Rua Major José Inácio Fonte: Barbosa et al., (2016)

A outorga é destinada à áreas onde se deseja adensar o uso do solo, para que a infraestrutura já consolidada seja melhor aproveitada. O valor pago pelos construtores para construírem acima do permitido no caso da região central de São Carlos poderia ser convertido em benefícios para o bairro, como a construção e manutenção de praças e espaços de lazer para a população, melhorias na arborização pública, no sistema de água, esgoto e iluminação pública. Faz-se necessário que os instrumentos do Estatuto da Cidade previstos no Plano Diretor sejam aplicados, principalmente aos lotes ociosos e subutilizados da Zona 1, considerando sua infraestrutura e valor do solo, de forma consolidar uma cidade compacta e evitar a expansão da ocupação em direção à regiões inadequadas. A disponibilidade de áreas vazias no centro da cidade abriga dentre outros usos, o potencial de serem ocupadas por jardins públicos e áreas de lazer e de recreação para a população. O uso de parte destes terrenos para a implementação de um sistema de pequenos espaços públicos espalhados pela região poderia complementar o sistema de parques e praças da cidade, proporcionar um caminhar e um descanso

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42 Fonte: www.zoom.arq.br/pracinha-oscar


6. LEITURA DE PROJETOS

ANÁLISE:

6.1 PRACINHA OSCAR FREIRE

A pracinha da Oscar Freire se destaca como um terreno privado que proporciona a possibilidade de uso público. O local se destaca por abrigar diversos pontos que caracterizam um bom espaço público, como proteção contra o tráfego, boa iluminação, arborização, espaços de permanência, mobiliário de qualidade que permite usos diversos (sentar, comer, socializar), além de boa visibilidade e boa inserção urbana. Suas cores, pisos e grafites proporcionam ao usuário vistas interessantes e atrativas e o espaço é acessível devido à rampa que conecta o terreno com a rua. O lugar atrai uma grande quantidade de pessoas que circulam pela região diariamente oferecendo oportunidade para descanso e socialização dos pedestres.

A ideia principal da Pracinha Oscar Freire era criar uma praça temporária, para ativar o espaço enquanto ele não dá lugar a um empreendimento futuro. Tratando-se de um terreno privado que abriga uma praça de uso público, para desfrute e convívio de qualquer cidadão, a iniciativa demonstra uma inovação em relação à criação de espaços de uso público na cidade e tem sido chamada de “o primeiro pocket park” de São Paulo, seguindo o modelo dos parques surgidos em Nova Iorque. Com programação variada, a pracinha recebe food trucks, shows, oficinas, etc e também disponibiliza rede wifi gratuita para os usuários. Desenvolvido pelo Zoom, em parceria com o Instituto Mobilidade Verde e iniciativa da Reud, o projeto da pracinha conta com um deck de madeira ao longo da rampa que dá acesso ao estacionamento no fundo da praça, adaptando o desnível existente entre a Rua Oscar Freire e o fundo do lote através de patamares e formando degraus, que também acabam sendo utilizados como bancos. A pracinha também abriga um bicicletário, para incentivo do uso do modal na cidade e uma parede lousa fazendo com que o usuário seja um participante da praça, complementada por uma parede verde, que traz vida e aconchego ao local. A pintura no piso sugere uma faixa de pedestre, sugerindo aos veículos o cuidado ao compartilhar o local com os pedestres.

Descrição do Projeto: www.zoom.arq.br Fonte: www.zoom.arq.br/pracinha-oscar

Fonte: www.zoom.arq.br/pracinha-oscar

Fonte: www.zoom.arq.br/pracinha-oscar

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44 Fonte: tclf.org/landscapes/john-f-collins-park


6.2 POCKET PARK JOHN F. COLLINS O pocket park John F. Collins está localizado na Rua Chestnut, na região central da cidade da Filadélfia , no estado da Pensilvânia. Nos anos 70 o parque foi proposto pela filantropa Dorothy Haas e sua construção foi financiada pela Fundação William Penn. Seu projeto é de criação de John Collins e foi inaugurado em junho de 1979. Hoje o parque é mantido pela Center City District Foundation. O espaço é um terreno estreito e retangular que possui aproximadamente 400 m² e está situado entre dois edifícios preexistentes do centro da cidade. Previsto para fazer referência à rica paisagem nativa da região e aos povos indígenas, o parque possui paredes cobertas de era e foi construído com materiais e plantas locais e mobiliado com moveis de madeira. O parque é sombreado por uma diversidade de árvores nativas e em seu centro há uma fonte do tipo cascata construída de concreto, que faz referência aos totens dos índios nativos americanos. O piso de blocos de concreto cinza utilizado no parque se diferencia do piso do restante do bairro que é constituído por pavimento de blocos vermelhos.

O mobiliário também se destaca pelo uso de bancos fixos e cadeiras e mesas móveis, possibilitando que o usuário interaja com o espaço. O uso da água através das cascatas e de um pequeno espelho d’água proporciona um espaço de contemplação, relaxamento e restauração para os usuários, além de ajudar a regular a temperatura local. Descrição do projeto: centercityphila.org/parks/john-f-collins-park

ANÁLISE: O pocket park John F. Collins se destaca pela elegância de seu design apesar de sua pequena dimensão. O local conta com diversos canteiros com vegetação herbácea além de muitas árvores de grande porte, o que possibilita o sombreamento quase total da área.

Fonte das imagens:tclf.org/landscapes/john-f-collins-park

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46 Fonte: uncubemagazine.com/blog/9318763


6.3 OS PLAYGROUNDS DE ALDO VAN EYCK 1947, Bertelmanplein. O arquiteto Aldo van Eyck (1918-1999) constrói seu primeiro playground em Amsterdã. Nas três décadas seguintes (até 1978), mais de 700 playgrounds foram erguidos, 90 dos quais sobreviveram e chegaram ao século 21 com seu desenho original. Van Eyck concebeu esses espaços temporários como medida emergencial. A cidade encontrava-se em grande parte destruída, com alto déficit habitacional e de equipamentos de uso coletivo e serviços; o Novo Plano para Amsterdã apoiava-se no ideal da separação funcional, segundo a qual habitação, trabalho, circulação e recreação deveriam ser funcionalmente separados. Terrenos não utilizados entre os blocos residenciais – blocos esses criados segundo os princípios do modernismo funcionalista da arquitetura e do urbanismo sob a pressão imposta pela falta de habitação no período pós-guerra deveriam ser reprogramados em playgrounds por meio de operações de fácil execução. Crítico do plano funcionalista, van Eyck argumentou em nome de uma arquitetura posta à disposição da atividade humana e que promovesse uma interação social. Desenhou com esse objetivo um glossário simples para definir cada parte presente nos playgrounds: uma caixa de areia circunscrita por uma borda de concreto, blocos arredondados, uma estrutura de

barras curvas, árvores e bancos. Ainda assim, a estandardização não pretendia repetir a monotonia dos blocos funcionalistas modernos. Os elementos básicos são recombinados em conjuntos diversos dependendo dos arredores. Isto faz com que os playgrounds sejam recriados em cada nova locação como um suporte à espera de um uso, uma interação - play. O ambiente

se torna o elemento mais importante, transformando espaços abertos em “lugares” conectados à especificidade de cada ponto. Os playgrounds não eram apenas objetos a serem escalados, mas um lugar de encontros, para perceber o próprio cotidiano de forma nova, repropor a relação com a vizinhança, a partir de uma natureza intersticial comum.

Playground Dijkstraat, de Aldo van Eyck, em Amsterdam. Fonte: www.thepolisblog.org/2012/06/ethic-of-care-in-urban-interventions.html

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ANÁLISE: Van Eyck pensava na cidade ideal como um labirinto de pequenos territórios íntimos ou, mais poeticamente, como uma constelação casual de estrelas. Um playground em cada esquina era apenas um primeiro passo para a ‘cidade lúdica’. O uso de terrenos baldios revela uma operação tática, que tira vantagem do potencial oferecido por situações de mudança em momentos de reconstrução urbana. Esses playgrounds ocuparam terrenos que estavam vazios e em mau estado de conservação. Descrição do projeto: www.vitruvius.com.br/revistas

Somatraplantsoen, Amsterdam 1965,1966 Fonte: waterlooarchitecture.com/bridge/blog/2015/09/17/ case-study-van-eycks-playgrounds/

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O sistema de playgrounds de Aldo van Eyck foi escolhido como referência devido à maneira simples que o arquiteto consegue reprogramar uma série de terrenos, imprimindo a eles um significado de “lugar”. Van Eyck foi capaz de enxergar o potencial dessa rede de terrenos num momento em que a cidade passava por uma reconstrução urbana. Apesar de van Eyck ter estabelecido um catálogo de elementos para serem aplicados aos playgrounds, a composição final do local dependia das condições e características de cada terreno, o que permitiu a ele experimentar e recombinar

essa série de elementos de forma a gerar ambiências diferentes. A simplicidade e a estandardização dos elementos criados: caixas de areia, brinquedos em estruturas metálicas e bancos permitiu a criação de uma identidade que pôde ser espalhada pela cidade. É interessante a forma como van Eyck enxerga os playgrounds não apenas como um local de brincadeira, e sim uma nova forma de enxergar a cidade e seus espaços em potencial, uma nova forma de se relacionar com o entorno através de locais de encontro e apropriação do espaço.

Jacop Thijsseplein, Amsterdam 1949,1950 Fonte: waterlooarchitecture.com/bridge/blog/2015/09/17/ case-study-van-eycks-playgrounds/

Dijkstraat, Amsterdam 1954 Fonte: waterlooarchitecture.com/bridge/blog/2015/09/17/ case-study-van-eycks-playgrounds/


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7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS EEROLA, Toni T. A psicogeografia no ensino de geociências no espaço construído: experiências nos shoppings centers da Grande Florianópolis. Geosul, v.19, n.37, 2004. Acessado em 20 Mar 2018 <https:// periodicos.ufsc.br/index.php/geosul/article/viewFile/13563/12434> JACQUES, Paola Berenstein. Breve Histórico da Internacional Situacionista - IS. Arquitextos Vitruvius, Abril 2003. Acessado em 21 Mar 2018 <http://chroniquedupieton.blogs.com/chronique_du_pieton/files/vitruvius%20%7C%20arquitextos%20035.05.pdf > DEBORD, G. 1955. Introdução à uma crítica de geografia urbana. Tradutor desconhecido. Acessado em 21 Mar 2018 < http://imagomundi.com.br/cultura/ geografia_urbana.pdf. > O original no Les Levres Neues 6. DIAS, Juliana Michaello M. “O grande jogo do povir”: a Internacional Situacionista e a Ideia do Jogo Urbano. Estudos e Pesquisas em Psicologia, UERJ, RJ, v. 7, n. 2, p. 210-222, ago. 2007 ELLARD, Colin. Psicogeografia: La Influencia de Los Lugares en La Mente y en el Corazón. Editora Ariel, Mar 2016, 308 p., Barcelona. Tradução de Gemma Deza Guil. OLIVEIRA, Nythamar de. Damásio, Neurociência e

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https://www.archdaily.com.br/br/01-115308/12-criterios-para-determinar-um-bom-espaco-publico

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TFG 2018_parte 1  

Trabalho Final de Graduação de Arquitetura e Urbanismo

TFG 2018_parte 1  

Trabalho Final de Graduação de Arquitetura e Urbanismo

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