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O PREÇO DE CADA UM Sabrina nº129 Copyright: Charlotte Lamb Título original: "Love is a Frenzy" Publicado originalmente em 1979 Digitalização/ Revisão: m_nolasco73

Resumo: Nem o cenário deslumbrante daquela ilha das Bahamas faria Rachel esquecer Mark, um homem que não sabia amar! Quando Mark Hammond descobriu que seu filho Nick estava apaixonado por uma cantora de boate, não pensou duas vezes: certo de que se tratava de ama vagabunda interessada na fortuna da família, ofereceu-lhe dinheiro para sumir da vida do rapaz. Rachel recusou - Nick era apenas um amigo -, e Mark ficou desconcertado. Para ele, todas as pessoas tinham um preço. Aumentou então a oferta, tentou seduzi-la, ameaçou matá-la... Apaixonada por Mark, aquele homem cínico que ela devia odiar, Rachel resolveu fugir para as Bahamas. Lá ela talvez esquecesse que o dinheiro de Mark jamais pagaria seu verdadeiro preço: o amor

Este livro faz parte de um projeto sem fins lucrativos. Sua distribuição é livre e sua comercialização estritamente proibida.


CAPÍTULO I Ela o reconheceu de cara. "Um perfeito bastardo", fora assim que Nicky chamara o pai, e a descrição caíalhe como uma luva. Sem ao menos ter falado com ele, Rachel podia prever o que sairia daqueles lábios arrogantes e sensuais, dos olhos azuis que a examinavam insolentemente de cima a baixo, na última mesa à direita. Os refletores acenderam-se, envolvendo-a, e a boate encheu-se de suaves nuvens de fumaça. Ela cruzou as pernas longas e bronzeadas e algumas pessoas assobiaram. Assim que se inclinou sobre o piano, seu olhar distraído encontrou o de Derry, que piscou para ela, dando-lhe força. - Vamos lá, menina! Derry começou a tocar os acordes de introdução, e ela piscou significativamente para ele, fazendo-o olhar para a direção que ela lhe mostrava, ou seja, para o homem que ocupava a última mesa do lado direito. Derry e ela se entendiam por um código, fruto da convivência de muitos anos, por isso ele dirigiu o olhar para onde ela lhe indicara. Seu rosto permaneceu impassível e, ao se voltar para ela, demonstrava certa irritação. A canção, que Derry compusera para ela, era uma mistura de humor e malícia. A letra era inteligente e a música quente e doce. Derry era talentoso, sem dúvida, mas recusava-se a levar qualquer coisa a sério, o que o atrapalhava bastante. Apesar de conquistar todas as pessoas com seu sorriso e talento, seu modo de vida acabava por afastá-lo de todos, pois tudo o que fazia e dizia se tornava falso e artificial. No entanto, Rachel aceitava esse jeito de ser e eram muito amigos. Na mesa mais próxima ao palco encontrava-se Nicky, rosto embevecido apoiado nas duas mãos, o olhar de adoração pregado em Rachel. Quando ela terminou de cantar, os aplausos irromperam e ela sorriu para ele timidamente. Seus olhos azuis brilharam. Esperou que Derry se levantasse do piano e, de mãos dadas, eles se inclinaram agradecendo aos aplausos, retirando-se enquanto as luzes baixavam. Um comediante entrou, dando tapinhas no traseiro de Rachel. - Muito bem, garota! - Boa sorte, Rob - disse ela de volta, seguindo Derry pelo estreito corredor que os levava ao camarim. A porta se fechou e Derry virou-se para ela. - Você perdeu o seu precioso tempo! Eu avisei! Aposto que há sempre um guarda-costas acompanhando esse garoto a todos os lugares que ele vai. Com todo aquele dinheiro você pode estar certa de que não dá um passo sem que seu pai não saiba. - Fique quieto, Derry - disse ela, sentando-se à frente do espelho e começando a remover a maquilagem. Derry observava seus movimentos impacientemente. - Meu bem, ele vale milhões! E está louco por você. Senta-se à sua frente, noite após noite, devorando-a com os olhos! Você tem de ser muito boba para deixar esse peixão escapar. Rachel retirou os cílios postiços. - Derry, o garoto não tem nem dezoito anos. Seja sensato. Ele é adorável, mas sou sete anos mais velha. Seus olhos verdes brilhavam. - Pobre Nicky! Está vidrado em mim e isso é gratificante! Mas não passa de um adolescente vivendo um sonho. - E você é um sonho. Derry estava irritado, como aliás estivera nos últimos tempos, desde que Nicky pusera os pés no clube. No fundo, ele sabia muito bem quais as possibilidades que o garoto podia oferecer a Rachel. Olhava para ela como se quisesse estrangulá-la. - Você gosta do garoto, eu percebo quando sorri para ele. O moleque se casaria amanhã se você desse o sinal verde! - Claro que gosto dele. - Rachel suspirou, começando a se sentir cansada. - Já lhe disse, ele é adorável, mas é tudo. Não tenho a menor intenção de me casar com ele. - Ela se levantou. - Quero me trocar, Derry. Fora! Derry comprimiu os lábios. - Sua burrinha! Queria poder enfiar um pouco de bom senso na sua cabeça. Depois que ele saiu, Rachel tirou o vestido e ficou de combinação enquanto o pendurava no armário. Um ruído a fez virar a cabeça. Viu então um homem cujos ombros pareciam ocupar a porta toda. Olhou fascinada para ele, que a observava. Usava um terno muito bem cortado e um cravo branco na lapela. Suas feições eram fortes, o rosto anguloso, a pele morena e a boca sensual. Não havia nenhum sinal de fraqueza naquele homem. - Importa-se em sair enquanto me visto? - perguntou ela. Ele sorriu e um frio percorreu-lhe a espinha quando ele entrou e fechou a porta às suas costas. Consciente do fato de que aqueles olhos insolentes se concentravam em seu corpo seminu, ela se enrolou furiosa no primeiro pano a seu alcance. - Eu lhe disse para sair! Ele sorriu novamente. - Meu filho tem mais bom gosto do que eu imaginava. Sua voz era profunda e agradável, apesar de sua observação grosseira.


- Estou me trocando. A ninguém é permitida a entrada no camarim. Ele se recostou na porta e deslizou a mão para dentro do paletó, tirando dali um charuto. Acendeu-o e logo a fumaça aromática espalhou-se pelo camarim. - Continue - insistiu ele. - Tenho certeza de que está acostumada a tirar a roupa na frente de companhias masculinas. Rachel sentiu o rosto queimar. Seus olhos verdes brilhavam de ódio. - Sr. Hammond, não sei o que seu filho lhe disse... - Meu filho não me disse nada. - Ele riu e seus olhos se encheram de malícia. - Tenho certeza de que você o instruiu direitinho para que não abrisse a boca sobre o caso de vocês. - Jamais fiz isso! - Não? - Mark Hammond lançou-lhe um olhar desafiador. - Não! - Ora, vamos, srta. Austen, você é uma mulher esperta! Sabia muito bem que, assim que eu soubesse com quem Nicky estava se envolvendo, eu o trancaria num quarto e jogaria a chave fora. - Você fala como se ele fosse uma criança! - desabafou Rachel, tremendo de raiva. - Precoce. - Novamente os olhos azuis brilhavam de malícia, examinando-a da cabeça aos pés. - E uma criança precoce que adora o prazer. Você gostou de iniciar meu filho na vida sexual? Ele é um garoto bonito. Um pouco fechado para a idade, talvez. Deve ter se divertido revelando-lhe os segredos do sexo... Rachel nunca sentira tanto ódio em sua vida. Fitou aquele estranho de cabelos negros com um profundo nojo e disse: - Está completamente enganado, sr. Hammond. Nicky não me vê dessa maneira! Ele... - Não me diga que ainda não? - Seu tom de escárnio irritava-a cada vez mais. - Estava esperando para subir o preço? A pulseira de diamantes não foi o bastante? Pobre Nicky! Que desapontamento para ele! - Ele se virou e abriu a porta. Por sobre o ombro, dirigiu-lhe um sorriso gelado: - Até logo, srta. Austen. Ela atirou contra a porta um pote de creme que se espatifou e espirrou pelas paredes e pelo chão. Grossas lágrimas desceram-lhe dos olhos, lágrimas de ódio e impotência. Sentou e olhou-se no espelho, observando o brilho de seus cabelos dourados, seu rosto e sua boca bem desenhada. Por um segundo quase desejou ter encorajado Nicky Hammond. Bobagem! pensou. Ela jamais sentira nada a não ser afeto e compaixão pelo rapaz. Apesar de toda a fortuna que um dia herdaria, Nicky era um caso de dar pena: o filho único de um multimilionário, mas talvez a mais carente das pessoas que ela até então conhecera. Ele viera pela primeira vez à boate há um mês atrás, acompanhado de um bando de rapazes e moças ruidosos. Eles celebravam o aniversário de uma garota de cabelos louros e encaracolados. Ela bebera um pouco demais e quando Rachel começou a cantar, ela continuou a falar muito alto e dar gargalhadas. Não era uma situação desconhecida para Rachel, que continuou cantando calmamente, apesar de se sentir irritada com o comportamento da garota. Ela não notara Nicky Hammond na mesa, porém mais tarde ele veio ao camarim para pedir desculpas. Derry estava lá tomando cerveja e ela se surpreendeu com a maneira simpática com que ele recebeu o garoto. Normalmente ele teria sido agressivo, sobretudo levando-se em conta a idade de Nicky. Em vez disso, foi muito cordial, deixando-os a sós logo depois. Os cabelos escuros de Nicky eram compridos, bastante encaracolados, e seus olhos azuis e brilhantes fixavam-na atentamente. Um dia se tornaria um homem alto e esguio, mas agora não passava de um meninão desajeitado, de movimentos bruscos e desgraciosos. Seu rosto afogueado e a voz rouca demonstravam claramente que ele a achara atraente, e Rachel não ficou imune à sua admiração. Embora já estivesse acostumada a isso, ela se surpreendeu com sua sinceridade inocente. - O pianista... é seu marido? - perguntou ele, um pouco envergonhado. - Meu primo - respondeu Rachel, sorrindo. - Fomos criados juntos. Fiquei órfã aos oito anos e os pais de Derry me criaram. Derry é mais um irmão do que um primo. - Você gosta dele? - Muito. E você, Nicky? Tem irmãos ou irmãs? Por um momento uma sombra passou por aquele rosto quase infantil. - Não. Sou filho único. - Seus pais vivem em Londres? - Meu pai está nos Estados Unidos agora. - Ele enrubesceu. - Minha mãe faleceu. Rachel sentiu um certo afeto pelo garoto, achando gostoso conversar com ele. - Seu pai é um homem de negócios? - perguntou casualmente. Ele assentiu rapidamente, logo mudando de assunto. - Há quanto tempo você canta? - Desde os dezesseis anos - respondeu ela e, já imaginando sua próxima pergunta, resolveu respondê-la antecipadamente. - Tenho vinte cinco agora - acrescentou. - E você, Nicky, quantos anos tem?


Ele hesitou por alguns segundos, com dificuldade para mentir, e naquele exato momento Rachel começou a sentir uma estranha pena dele. - Vinte. Rachel sentiu que poderia tê-lo beijado. - Agora me diga a verdade. Ou eu adivinho? Dezoito? Por um momento seu olhar se enfureceu, mas logo deu lugar à timidez. - Quase dezoito - respondeu embaraçado. - Você parece mais velho - assegurou-lhe Rachel, procurando reconfortá-lo, pois percebeu como era fácil magoar aquele garoto tão vulnerável. Ele se erguera, olhando para os próprios pés. - Quer jantar comigo? Hesitante, ela procurou um jeito de negar sem magoá-lo, mas ao notar-lhe as feições tensas, propôs: - Por que não vem almoçar com Derry e eu? Sou uma boa cozinheira e lhe farei minha especialidade: um cozido. - Seus olhos o encorajavam. - É barato, fácil de fazer e delicioso. - Muito obrigado - respondeu Nicky. Ele se retirou e logo depois voltou correndo, quase tropeçando. - Quando? Onde você mora? - Amanhã - disse ela. - Derry e eu dividimos um apartamento em Kensington. - Deu-lhe o endereço. - Meiodia, combinado? Não venha mais cedo porque levantamos tarde. Mais tarde, contando para Derry o que acontecera, ela esperava que ele lhe desse alguma bronca, mas estranhamente ele pareceu muito satisfeito. - Cozido? Imagine! Por que você não lhe serve uma refeição de verdade, Rachel? Uma grande cozinheira não deveria se esconder sob um cozido. Rachel franziu a testa e perguntou: - Você não sabe quem ele é, sabe? - Mas você não sabe? - Nicky não-sei-o-quê, não guardei o sobrenome. - Hammond - disse Derry, olhando-a atentamente. Observando seu rosto indiferente, ele se impacientara. Filho de Mark Hammond, o magnata do óleo, herdeiro de bilhões. Por Deus, Rachel, nunca ouviu falar da Hammond Corporation? Ela se sentou bruscamente, empalidecendo. - Nicky é filho desse Hammond? - Ela nunca imaginaria que um jovem milionário viesse ao Harém, uma boate de Londres igual a tantas outras. Uma vaga lembrança aflorou-lhe à mente. - Mas esse Hammond não é o dono do Harém? - Ele é o dono do hotel inteiro. - Derry riu. - Mas é tão rico que, vai ver, nem se lembra disso! Ela levou as mãos ao rosto. - E eu convidei seu filho para um cozido? Derry, por que não me avisou? Derry tinha trinta anos. Era esperto, inteligente, mas com poucos escrúpulos. - Pensei que você soubesse! Pai e filho aparecem nos jornais sempre, especialmente o pai, claro. Sim, ela se lembrava vagamente de Mark Hammond, que tinha a fama de playboy internacional. Conseguia se lembrar de suas feições rígidas e de seu olhar arrogante. Rachel estava apreensiva. - Ele não virá! Devia estar brincando. Ele não vai aparecer. - Quer apostar? - perguntou Derry, cínico. - Espero que não venha. - Ele adorou você! Não tirava os olhos! Tal pai, tal filho, lembre-se. Você poderia faturar um bocado de dinheiro nessa! Rachel dirigiu-lhe um olhar fulminante, vermelha de raiva. - Você me conhece muito bem, Derry. Não fale assim! - Esta é uma oportunidade em um milhão, querida, e eu não quero que você a jogue fora! - Uma irritação profunda transparecia em seu rosto. - Esse garoto é um mundo de dinheiro, e você poderá se aproveitar bastante da situação se souber jogar as cartas certas. - Às vezes tenho vontade de esbofetear você! - Ela estava chocada com Derry. Ele a ergueu pelos ombros e a colocou diante do espelho. - Observe bem - disse ríspido. - Você é sexy, Rachel. Até mesmo de jeans, veja! Precisa aprender a tirar vantagem disso. Você está esperando o quê? O verdadeiro amor? Pelo espelho seus olhos verdes se encontraram com os dele. - É isso mesmo. Exatamente isso - respondeu ela. Derry suspirou, soltou-a e saiu sem dizer nada. Rachel nunca o levava muito a sério, mas ele a machucara com seu cinismo.


Nicky chegou ao meio-dia em ponto. Rachel abriu-lhe a porta. Ela usava uma calça branca e uma camiseta também branca. Estendeu-lhe desajeitadamente um buquê de rosas, e ela se viu sorrindo para ele, embora poucos minutos antes pensasse em mandá-lo embora. Derry foi o mais amável possível, oferecendo drinques a toda hora, mas Nicky não despregava os olhos de Rachel o tempo todo, observando-a transitar entre a sala e a cozinha. O cozido fora um sucesso, e ele o comera com prazer. Derry os fitava com ar cúmplice, o que irritou bastante Rachel. Sentiu-se aliviada quando ele se desculpou e saiu, e pelo olhar de Nicky percebeu que ele também queria ficar a sós com ela. Ouviram discos e conversaram muito, apesar de Nicky não comentar nada sobre a sua família. Rachel ficou sabendo então que ele vivia com sua avó em Londres e que fazia um curso de Economia. - Eu sempre largo a escola quando não agüento mais. Olly nunca briga comigo. - Olly? - Sim, minha avó. Olívia, mas todo mundo a conhece por Olly. Ela é pequena, mas muito ativa. Meu pai a chama de Amendoim: diz que ela é muito salgada... - Seu pai parece ter um humor ferino - disse Rachel, que o observava curiosa. O rosto do garoto se anuviou. - Ele é um perfeito bastardo. Rachel sentiu que lhe faltava o ar. Jamais ouvira alguém se referir ao próprio pai daquela maneira. Ia censurá-lo, mas ao ver tamanha sinceridade em seus olhos, mudou de idéia. Estava já bastante envolvida com Nicky, não podia mais negar. Passou a vê-Io ora como uma criança sensível ora como se tivesse já seus trinta anos, especialmente quando fazia observações irônicas e oportunas. O mesmo acontecia com suas feições. Naquela tarde eles foram ao parque e se divertiram muito alimentando os patos e brincando no escorregador. Depois, ela o pôs num táxi, despediu-se dele e voltou para o apartamento. - Mudou de idéia? - Derry ergueu cinicamente a sobrancelha, provocando-a. - Não. Derry, estou lhe avisando, deixe o garoto em paz. Ele é muito legal e não quero que você fique arquitetando planos. Se você sair da linha, eu saio de sua vida também. Ele a olhou, surpreso, pois Rachel jamais dissera isso antes. Só uma semana depois Nicky confessou-lhe sua identidade. Ela o ouviu calmamente e disse: - Eu já sabia, Nicky. Derry o reconheceu desde a primeira noite. - É por isso que me tratam tão bem? É por isso que me deixam vir sempre à sua casa? Aquelas palavras soavam aflitas, e Rachei sofria ao notar o quanto ele fora machucado com aquilo. - Você deve acreditar no que quiser. Somos totalmente responsáveis por aquilo que fazemos, Nicky. Não há tranca na porta, você pode sair quando quiser. Nicky a fitou com olhos febris e ela logo percebeu o que ele ia lhe dizer. - Nicky, não. Mas já era tarde. Tinha a frase pronta desde o dia em que a vira pela primeira vez. - Eu amo você. Rachel se sentiu emocionalmente confusa, criticando-se por ter deixado as coisas chegarem àquele ponto. Mas não podia ignorar aquela droga de sentimento de proteção que sentira em relação a ele desde o começo. Talvez o mais sensato naquele momento fosse dizer-lhe adeus, mas ela não conseguiu. - Oh, Nicky! - disse ela, segurando-lhe as mãos com força. - Sou sete anos mais velha e pouco nos conhecemos. Fico orgulhosa de saber que você gosta de mim, mas não daria certo. - Gostar de você? - ele dissera aquilo com raiva surpreendentemente adulta. - Rachel, eu amo você! Seus olhos se encontraram e ela viu fogo em seu olhar ansioso. - Nicky, você me dá duas opções. Ou nos despedimos aqui e agora, ou você me promete não me falar mais assim. Nicky, um pouco incrédulo, percebeu que ela falava a verdade. - É difícil - confessou em voz baixa. - Mas eu tentarei. A gravidade com que ele disse aquilo a fez sorrir novamente. Ele voltava a ser uma criança, e ela gostava de tê-Io a seu lado. Havia algo em Nicky que lhe agradava muito. - Farei dezoito anos daqui a dois meses, Rachel. Podemos nos casar, porque eu ganharei muito dinheiro então. Se você se casar comigo, não precisaria mais cantar em boate. Eu lhe daria tudo o que você quisesse. - Tudo, Nicky? Você poderia me dar o sol, a lua, as estrelas? Eu posso comprar minhas próprias botas de inverno para andar nesta chuva de Londres. Ela o repreendeu gentilmente, não querendo que ele se magoasse, e ele pareceu ter entendido. - O dinheiro não significa tanto assim para você, não é? - Significa o suficiente para comer, comprar roupas, tirar férias algumas vezes, cuidar do meu apartamento. Posso ter tudo o que quero trabalhando. Deixo as festas e badalações para quem pensa que a vida é vazia sem isso. O mesmo para peles e diamantes. - Andou lendo sobre meu pai?


Seus olhos espelhavam uma mistura de sentimentos. Ela viu ódio, desgosto, e talvez amor. Rachel ouviu atentamente o que ele tinha a dizer, e Nicky desabafou. Mark Hammond, ela descobriu, tinha trinta e nove anos. - Ele largou a escola quando herdou uma fábrica de seu pai, aos dezesseis anos. Casou-se aos dezoito anos, com a filha de um milionário. Casou-se por dinheiro. Nasci quando ele tinha vinte e um anos, e pouco me lembro dele quando pequeno; ele vivia em Londres, eu morava com minha mãe em Nova York. De vez em quando ele voava para lá, mas o casamento deles logo acabou. Minha mãe morreu quando eu tinha oito anos, de pneumonia. Meus avós tentaram ficar comigo, mas ele veio me buscar e me mandou para a escola. Rachel começou a sentir ódio em sua voz. - E você não gostava da escola? - Detestava. Sendo americano, era motivo de chacota e risos. - E as férias? - Com Olly. - Seus olhos brilharam. - Olly! Ela é maravilhosa e eu me consolava um pouco com ela nas férias. - E seu pai? - Rachel arriscou, pois sabia que seu rosto se anuviava quando ele ouvia o nome do pai. - É o homem mais rude que já conheci. Uma vez vi um bangue-bangue, era ainda pequeno, e no filme aparecia uma cascavel horrível, prestes a dar um bote. Ela me fez pensar em meu pai. Rachel percebia que Nicky usava aquela imagem como uma válvula de escape para externar seus sentimentos. Ela não conseguia decifrar o olhar do garoto. Não lhe perguntou mais nada, nem fez nenhum comentário. Depois desse dia ele não apareceu por algum tempo, e ela suspeitou que ele ficara envergonhado por ter lhe confiado tantos problemas, mas de repente ele surgiu novamente, fazendo com que Derry a olhasse triunfalmente mais uma vez. Rachel suspirou. Nicky já era um problema e Derry tornava as coisas piores. Ele costumava aparecer quase diariamente, às vezes à noite no clube, porém mais freqüentemente no apartamento, à tarde. Nicky parecia feliz em ajudá-Ia com as compras, discutindo com ela o preço dos alimentos, carregando a sacola na feira e ajudando-a na cozinha. Seu interesse pela simples rotina do dia-a-dia mostrava quanto a presença da mãe lhe fizera falta. Ele adorava cozinhar, escolher temperos, pesar ingredientes, e sempre se oferecia para lavar louça e limpar as janelas. Foi um choque para Rachel quando, em seu vigésimo quinto aniversário, ele lhe entregou uma caixa forrada de couro azul-marinho. Derry inclinou-se com avidez para vê-Ia abrir o estojo. Os olhos de Rachel brilharam de raiva quando viu o bracelete de diamantes. - Não, Nicky - disse ela, furiosa. - Como é que você pensou que eu iria aceitar um presente tão caro como esse? - Mas é o seu aniversário - respondeu ele, com a voz um pouco trêmula. - Queria lhe dar algo especial! - Não posso aceitar um presente desse tipo - prosseguiu Rachel, inabalável. - Se você tivesse me comprado um par de luvas ou um livro, eu teria aceitado de bom grado. - Ela fechou o estojo e devolveu-o a Nicky, determinada. - Sinto-me insultada por você pensar que eu aceitaria essa jóia! Isto acontecera há três dias e agora a família, provavelmente surpreendida com o dinheiro que ele gastara, tinha resolvido investigar. Ou talvez o próprio joalheiro tivesse telefonado para sua avó, falando-lhe da compra. Nicky realmente recebia uma mesada generosa, mas aqueles diamantes deveriam representar uma quantia respeitável até mesmo para os Hammond. Mark Hammond devia ter sido avisado nos Estados Unidos e voltado o mais rápido possível. Nicky não sabia que ele estava voando para Londres, pois teria lhe dito alguma coisa. Possivelmente algum guarda-costa tivesse seguido o garoto até a boate, e Mark Hammond viera ver que tipo de mulher provocava em Nicky o desejo de gastar tanto dinheiro. Ele devia fazer uma péssima idéia de mulheres a quem rapazes ofereciam pulseiras de diamantes, pensou Rachel, arrasada. Finalmente se vestiu e saiu do camarim. Encontrou Derry encostado na parede do corredor. - Eu vi Mark Hammond saindo do camarim. Ele lhe ofereceu dinheiro para deixar o garoto ou a ameaçou com a Máfia? - Nenhum dos dois. - Não? Que outra oferta ele lhe fez, então? Rachel sentiu o sangue subir. - Derry, chega! O sr. Hammond não aprova a minha amizade com seu filho, e me disse isso de maneira bem clara. - É, parece que ele não gostou. Vi a cara de Nicky quando saiu com o pai. Parecia estar indo para a forca! Sim, Rachel podia imaginar quantas crueldades aquele homem poderia fazer com o pobre rapaz. Sentiu uma grande pena de Nicky, mas ao mesmo tempo ficou aliviada por não ter mais nenhuma responsabilidade sobre ele. Sem dúvida Mark Hammond o levaria para os Estados Unidos. Ela desejaria ter-lhe dito umas boas


verdades! Tudo o que Nicky precisava era de um pouco de tempo e atenção de seu pai, mas ela duvidava que ele os tivesse algum dia.

CAPÍTULO II Rachel dormia quando a campainha soou. Bocejando, enrolou-se em seu robe e abriu a porta. Ao avistar Nicky, piscou, confusa. - Olá... que horas são? - Oito - respondeu ele, e ela bocejou, incrédula. - E que é que você está fazendo a essa hora aqui, posso saber? - Tenho de conversar com você. Posso entrar? Rachel hesitou, mas depois deixou-o entrar. Ele foi até a sala e não se sentou. Ficou ali parado, os braços mais compridos que o suéter e a expressão tensa. - O que há, Nicky? Ele puxou uma mecha dos cabelos negros para trás. - Papai foi procurá-la ontem, não foi? - Sim - admitiu. - E o que ele lhe disse? - A voz de Nicky estava atormentada, rouca. - Se ele insultou você, Rachel, desculpe-me! Eu queria matá-lo! Ele parecia não ter dormido a noite toda, sua fisionomia estava cansada, os olhos vermelhos. - O que você esteve fazendo a noite toda? Brigou com seu pai? - Ele é um bastardo! - Nicky não conseguia olhar para ela. - Café? - perguntou Rachel, dirigindo-se para a cozinha. Ele a seguiu. - Obrigado. Ela se movia graciosamente pela pequena cozinha, notando que os olhos azuis de Nicky a seguiam atentamente. Embora ele escondesse, ela percebeu as novas emoções que poderia estar despertando na cabeça do garoto, e imaginou, com certa amargura, o tipo de idéias que o pai lhe enfiara na cabeça. Nicky era uma presa fácil para qualquer pessoa, pois era muito impressionável, e sua relação de amor e ódio com o pai tornava-o ainda mais vulnerável. - Por que você não lhe disse que não havia nada entre nós? - perguntou-lhe subitamente, sem encará-la. Ela pegou o creme de leite da geladeira e se voltou para ele. - Ele me deixou louca! Houve um momento de silêncio. Nicky começou a morder o lábio inferior. - Ele me disse que... eu não havia lhe oferecido o bastante. Todo mundo tem o seu preço e eu subestimei o seu. Ele disse que eu deveria ter lhe perguntado quanto queria em vez de lhe dar a pulseira. - Você me conhece melhor que ele, Nicky - respondeu calmamente. - Conheço? - Ele lhe dirigiu um olhar incerto. Rachel respirou profundamente antes de falar. - Se você não sabe, é melhor que se vá agora. Nicky enrubesceu. - Desculpe-me, Rachel! É que ele me pareceu tão convicto. - Sei disso! Ele só vê as coisas à sua maneira! Mas eu o considerava melhor, Nicky. Não pensei que você mudasse de idéia tão facilmente. Deve começar a ter certeza de suas idéias, a confiar em si mesmo. Se você deixar as outras pessoas darem opiniões por você, está perdido. Ele a observou servindo o café, depois o açúcar e o creme, do jeito que ele gostava. Ela bebia o seu sem nada, atenta à sua dieta. Desajeitadamente, ele procurou transmitir o que sentia. - Mas eu não mudei de idéia, Rachel. Ainda amo você. Rachel pôs a xícara sobre a mesa e lhe dirigiu um olhar quente, alegre. - Um mês inteiro e você ainda não mudou de idéia! Que fidelidade, Nicky! - Notou que o magoara. - Nicky, será que temos de começar tudo de novo? Amigos, tudo bem, mas nada além disso. - Eu fugi! - confessou-lhe, como se quisesse chocá-la. Ela o olhou, preocupada. - Como assim? - Esperei amanhecer e depois desci pela calha. Escalei montanhas na Escócia no ano passado e vi que ainda sou bom nisso! Desci ágil como um macaco. - Por que não saiu pela porta da frente?


- Ele tinha me trancado! - Parecia humilhado, e Rachel tinha de concordar com ele. Ele estava perto dos dezoito anos e Mark Hammond o tratava como se tivesse seis! Claro, ser herdeiro de uma fortuna como a dele aumentava as preocupações de pai, mas aquilo era ridículo. - Por que ele fez isso? - Porque eu disse que queria me casar com você - murmurou de cabeça baixa. Rachel abafou uma risada, mordendo os lábios para que sua voz soasse severa. - Nicky! Você sabe que isso não vai acontecer. Sou apenas uma fase pela qual você está passando. Agora você não acredita, mas depois vai me agradecer por isso. - Eu ficaria grato a você agora se fizesse amor comigo. - Nicky! Ele andou até a pia e ficou de costas para ela, batendo uma mão contra a outra. - Ele gozou de mim! Ele riu. Disse que eu não tinha a menor chance com você. Mark Hammond havia humilhado o filho, constatou Rachel, profundamente irritada. - O que você vai fazer agora? - perguntou ela. - Posso ficar aqui? - ele então lhe pediu. Ela teve vontade de rir, mas em vez disso olhou para ele seriamente. - Onde você acha que ele vai procurá-lo, de cara? Nicky olhou à sua volta e disse: - Não vou voltar. Ele é um nojento! Prefiro ficar na rua. Rachel voltou a sentir pena dele. - Você precisa dormir - disse ela. - Pode ficar no meu quarto agora, não vou mais dormir. Derry só se levantará à tarde. - Ela o levou até sua cama e o fez deitar-se. Depois, pegou algumas peças do guarda-roupa e saiu silenciosamente. Tomou um banho rápido e revigorante e estava prestes a se vestir quando a campainha tocou novamente. Amarrou o robe às pressas e não ficou surpresa ao deparar com o rosto duro de Mark Hammond. Sem nenhuma palavra ela se afastou para que ele entrasse. Não seria surpresa se estivesse acompanhado da polícia, mas felizmente estava só. Ele a seguiu até a cozinha e apontou para o bule de café. Rachel olhou para ele significativamente. - O senhor quer um café? Está quente. - Obrigado. - Ele se apoiou na parede. Seus ombros pareciam mais largos com aquela jaqueta de couro preta. Por baixo ele usava um suéter branco de gola olímpica. - Ele está aqui, não é? Rachel servia-lhe o café. - Creme? Açúcar? - Nada. Ele está aqui? - insistiu. Rachel concordou com a cabeça. - Onde? - Dormindo. Os olhos dele se estreitaram. - Na sua cama, claro. - Claro - respondeu, irritada. Ele colocou a xícara no pires e enfiou as mãos nos bolsos da calça preta. Para um homem de sua idade, era extraordinariamente bem conservado. - Desde quando ele está aqui? A noite toda? Rachel deu uma olhada para o mostrador do relógio da parede. - Meia hora, precisamente. Suas sobrancelhas negras se arquearam. - Só isso? - Só isso. Ele parecia exausto, não havia dormido a noite toda. Eu o mandei para a cama, pois não estava em condições de conversar. - Você sabe que ele pretende se casar com você? - É o que ele diz. Ele então olhou fixamente para Rachel e disse: - Está bem, srta. Austen. Quanto? Rachel bebia o café com uma vontade imensa de lhe atirar a xícara no rosto. Assim que conseguiu se controlar, respondeu: - Acho que não compreendi. Ele riu, mostrando os dentes brancos. - Ora, vamos! - Não compreendo.


- Quanto quer para sair da vida de meu filho? - insistiu seco. - O que o faz pensar que eu faria isso? Seus olhos azuis deslizaram lentamente pelo corpo dela, não deixando escapar nada, detendo-se sobre o decote de seu robe que deixava meio à mostra seus seios. - Uma mulher inteligente com um marido adolescente? Não dá para acreditar. Quanto você quer? Ela sacudiu a cabeça, sem saber o que responder. - Dez mil libras - propôs ele. Rachel riu. Ele deu um passo, com a raiva estampada no rosto. - Mulheres como você deveriam ser chicoteadas. Sou muito ocupado para ficar pechinchando com você, srta. Austen. Vinte mil e nem um tostão a mais. - Nem um tostão a menos do que cem mil libras - disse ela, ciente do resultado que aquelas palavras provocariam nele. Mark ficou sem respirar por um instante, olhando-a fixamente. Rachel viu a raiva crescer em seu olhar e de tal modo que deu um passo atrás. - Você tem razão em estar assustada, srta. Austen, pois no estado em que me encontro seria capaz de voar no seu pescocinho e apertá-lo! - Fique onde está! - gritou Rachel, furiosa. Ele se recompôs e respirou profundamente. - Muito bem, mocinha. Trinta mil. - Quando Nicky é herdeiro de milhões? Acha que sou boba, sr. Hammond? - Acho, mocinha. Só alguém muito tolo tentaria me chantagear dessa maneira. Posso arrasá-la. Ainda nem comecei. Tentei agir da melhor forma, mas você não quer cooperar. Sei que Nicky me custará dinheiro de vez em quando, em virtude de sua posição, e por experiência sei também que as mulheres sempre têm um preço. Mas já que você quer ser teimosa, serei obrigado a usar de outros meios. Ele saiu da cozinha e ela o seguiu, mas quando fez menção de entrar em seu quarto, ela o deteve, passando à sua frente e encarando-o. - Você não vai acordar o garoto agora que ele começou a dormir. Já lhe perturbou bastante o sono, sr. Hammond. Deixe-o em paz! O tom imperioso o deteve. Nesse momento a porta do quarto de Derry se abriu e ele apareceu. Mark Hammond olhou-o um pouco surpreso, sobrancelhas erguidas, e Derry procurou dar-lhe um sorriso amigável. - Meu primo Derry - apresentou-o Rachel, relutante. Derry saiu do quarto e, vindo até eles, estendeu a mão. Mark Hammond ignorou-a com desprezo. - Primo? - perguntou ele com um tom desagradável na voz. - Ele mora aqui com você? - Rachel é mais que uma prima para mim - disse Derry e sorriu. - É mesmo? E desde quando moram juntos? - Desde os oito anos de idade - respondeu Rachel. - Sei. - Mark Hammond olhou cinicamente para ela. - E Nicky engoliu essa sem hesitação? Ela foi até a porta, abriu-a e disse: - Saia! Ele parou à sua frente, segurou-a pelo queixo e ergueu sua cabeça, como se examinasse um objeto que fosse comprar. - Eu voltarei. Rachel bateu a porta às suas costas e Derry assobiou. - O que é que há? Onde está o garoto? - No quarto, dormindo. Derry parecia se divertir. - Ele está no seu quarto? E você disse isso para o papai? O que ele disse? - Ora, cale-se, Derry! Estou cheia disso tudo. Ela foi ao banheiro se trocar, e quando saiu Derry já tinha voltado para seu quarto e provavelmente estava dormindo de novo. Quando, mais tarde, voltou das compras, Derry assobiava na cozinha, fazendo torradas. Ele lhe piscou. - O garoto ainda dorme. Dei uma olhada nele. Parece um bebê! - Consciência limpa. Você deveria tentar ser assim também. - Puxa, mas eu mereço essa bronca? - Merece. Derry, já lhe avisei: fique fora disso ou eu vou embora. Derry ergueu as mãos e saiu da cozinha, sorrindo. Ela viu que o rumo das coisas o agradava; a verdade é que Nicky estava lá, dormindo no apartamento, em sua cama, e isso o reconfortava bastante. Quando Nicky saiu do quarto parecia bem mais disposto e bonito. Rachel apressou-se a fritar-lhe ovos com bacon. Derry saíra. Nicky bocejou sobre a comida.


- Estou morrendo de fome! Obrigado por ter me deixado dormir. - Você ainda está em fase de crescimento, e só Deus sabe até onde vai parar! Você é o incrível Hulk, por acaso? - Sou verde? - Pelo menos estava, quando apareceu aqui esta manhã. - Talvez então eu seja. Ela lhe servia café e o observava comer. Devorou tudo em pouco tempo. Seu apetite era respeitável! Assim que Nicky terminou, ela resolveu falar. - Seu pai esteve aqui. Ele soltou o garfo e a faca e olhou para ela. - O que ele disse? - Um bocado de coisas - disse ela. - Prefiro não entrar em detalhes. Acho que você deveria voltar para casa, sabe. Não dá para ficar aqui. - Porque não? - Olhou para ela e Rachel se assustou ao notar, pela primeira vez, que ele era muito parecido com o pai. Sentiu um certo mal-estar ao pensar em Mark Hammond. - Legalmente, você está sob os cuidados de seu pai. Você teria de voltar, mesmo que não quisesse. Seu pai tem todos os direitos sobre você, é claro, e você tem de continuar seus estudos e se preparar para o mundo em que vai viver. Ele segurou-lhe a mão delicadamente e a beijou com tal paixão que ela se assustou. - Já sou adulto, Rachel. - Por favor, Nicky. O tom grave de sua voz convenceu-o, e ele soltou sua mão. Rachel levantou-se, decidida. - Vou chamar um táxi pelo telefone. - Não precisa, vou andando. - Nicky levantou-se também e olhou para o céu. - O dia está lindo e preciso de um exercício. Ela o acompanhou até a porta. Nicky olhou-a fixamente, depois segurou seu rosto entre as mãos, beijou-a docemente e perguntou: - Rachel, a idade importa tanto assim? - Você sabe que sim, Nicky. Imagine o que os outros não falariam de mim! Uma corruptora de menores! Se fosse o oposto, seria diferente. Vivemos num mundo machista! São os homens que ditam as regras, as mulheres apenas as observam. Se você tivesse vinte e cinco e eu dezessete não haveria problemas. Está entendendo o que quero dizer? Nicky fitou-a demoradamente. - Você não me acha aborrecido? - Aborrecido? - Meu pai disse que uma mulher de sua idade devia achar um garoto de dezessete muito aborrecido. - Está na hora de você parar de acreditar em tudo o que seu pai diz. Volte a estudar Economia e trabalhe, Nicky. Assim você mostrará a ele do que é capaz. No momento você não faz outra coisa senão se divertir. É por isso que ele não o leva a sério. Ele a escutava atentamente, pesando cada palavra. - Vou tentar. Vou tentar por você, Rachel. Juro! - Ele a beijou rapidamente nos lábios e desceu as escadas correndo. Rachel fechou a porta sorrindo. Nicky era um garoto que precisava ser orientado e seu pai não tinha o menor tato para fazê-lo. Mark Hammond estava na boate naquela noite. Derry e Rachel trocaram um olhar significativo ao perceberem sua presença na mesma mesa do dia anterior, o rosto enevoado pela fumaça do charuto. Rachel não olhou mais para aquela direção. Nicky não estava na mesa à sua frente e ela concluiu que devia estar trancado outra vez. O público estava muito caloroso naquela noite, ouvindo-a com atenção e aplaudindo com entusiasmo. Mas Rachel não se iludia com a própria voz. Era macia e levemente rouca, mas sabia que nunca seria uma grande cantora. Mesmo assim, tinha um certo charme, e Derry a acompanhava com o maior profissionalismo e técnica. Mal fechou a porta do camarim e se sentou para tirar a maquilagem, a porta se abriu novamente e seus olhos se encontraram com os de Mark Hammond. - O que quer, sr. Hammond? - Ainda temos um negócio a tratar. Rachel começou atirar a maquilagem, ignorando-lhe o olhar. - Estive conversando com meu filho. - É mesmo? - disse Rachel e, ao notar que ele erguia uma sobrancelha, acrescentou: - O senhor deveria ter conversado mais freqüentemente com seu filho, muito tempo atrás.


- Sou um homem ocupado, srta. Austen. Nicky teve os melhores cuidados, pode estar certa. - Não acredito. Ele a olhou indignado. - O quê? - Nicky teve os cuidados mais caros, talvez, mas nunca os melhores. Sua avó obviamente o ama muito, como ele também a ama, mas ele passou muito tempo isolado em escolas. Para um garoto com tanto dinheiro ele me parece um bocado carente. Ele comprimiu os lábios com força e respondeu com desprezo: - Não vim aqui para discutir a educação de meu filho, srta. Austen. Vamos discutir negócios? - Tudo bem, já que é só isso que sabe discutir, sr. Hammond - observou RacheI bruscamente. - Rápido e fácil, está bem? Cem mil, você disse? - Ele tirou um talão de cheques do bolso, o rosto transfigurado. Ele começou a escrever, de cabeça baixa, enquanto ela o fitava com ódio. Estava profundamente enraivecida quando ele se levantou e lhe entregou o cheque. Sem dizer uma palavra sequer, sem mesmo olha-lo, ela rasgou o cheque em pedacinhos. Ouviu então a respiração forte de Mark Hammond. - O preço dobrou a noite passada - disse ela, encarando-o. Mark parecia que ia explodir de ódio. Então não se conteve e, pegando-a pelos ombros, puxou-a contra seu corpo e disse: - Sua miserável! Rachel mal teve tempo para se dar conta do que estava acontecendo. Sentia seu corpo contra o dela, seus dedos fortes machucando-a, puxando sua cabeça para trás. Seus olhos azuis brilhavam intensamente quando a olhou e, de repente, seus lábios esmagaram os dela com violência. A força dele a deixou paralisada e por um momento não conseguiu pensar em nada. Logo que percebeu o que acontecia, empurrou-o com força. Tentou falar, mas ele voltou a beijá-la, agora com fúria redobrada. Contorcendo-se, ela procurava, em vão, se desvencilhar dele de qualquer maneira. Aquela mão forte que a segurava pelas costas começou a deslizar lentamente por seu corpo. Ela o sentiu apertando suas coxas contra as dela e, naquele momento, se deu conta de que Mark Hammond estava tão perturbado quanto ela. Sua excitação era visível! Ele continuava a acariciar seu corpo, desta vez seus cabelos fartos e sedosos. Finalmente Rachel conseguiu se soltar, e ele a fitou com os olhos semicerrados. Liberta, ela o empurrou com toda a força. Afastou-se dele e levantou uma cadeira, como se fosse uma domadora e ele uma fera. - Fique onde está, sr. Hammond. - Não tenho intenção de persuadi-la, srta. Austen - disse ele com sarcasmo. - Pode esquecer as duzentas mil libras. Você teve sua chance e a jogou fora. Rachel abaixou lentamente o braço, sentando-se novamente em frente ao espelho e apoiando o rosto entre as mãos. - Eu não quero sua porcaria de dinheiro. Saia e não volte mais. Ele se sentou calmamente. - Quer jantar comigo, srta. Austen? Rachel estava confusa quando levantou a cabeça e fitou-o pelo espelho. - Por quê? - Acho que está na hora de termos uma conversa franca sobre meu filho - murmurou Mark Hammond comum sorriso. - Acho que está na hora de o senhor ter uma conversa com seu filho - retrucou Rachel. - Alguma vez já se sentou para trocar idéias com seu filho? Mark fitava-a atentamente. - Qual é o seu interesse real sobre Nicky? Ela olhou para ele meio envergonhada e, com um sorriso, respondeu: - Talvez eu tenha uma forte tendência maternal por ele. - Maternal? - Mark Hammond ergueu as sobrancelhas e dirigiu-lhe um sorriso divertido. - Nicky sabe disso? -Se lhe contar, eu mato o senhor! - exclamou Rachel. - Nunca encontrei alguém assim tão carente como Nicky em toda a minha vida! Ele precisa desesperadamente de alguém que lhe dê, e ao mesmo tempo lhe inspire confiança. Mark Hammond ficou tenso. - Ele está louco por você. E não a vê desse jeito, não tente me convencer disso. Rachel sorriu suavemente. - Pobre Nicky! Tudo o que ele quer é uma alma gêmea! - E você quer um filho? Que relação estranha! - comentou ele com ironia.


- Não quero nada! - Rachel lançou-lhe um olhar furioso. - O senhor é a pessoa mais irritante que já conheci! Cada palavra sua me faz arrepiar os cabelos. Desde que entrou pela primeira vez aqui não fez outra coisa senão tirar conclusões erradas sobre mim. - Então me dê as certas - propôs-lhe. - Você pode fazer isso durante o jantar. Reservei uma mesa. Vá se arrumar, por favor. Quando voltou, Mark Hammond examinou-a detidamente da cabeça aos pés. Seu olhar parecia despi-la e sua satisfação era evidente demais. Ele era bem mais alto que o filho, e em seus cabelos negros podiam-se ver alguns poucos reflexos prateados. Usava um terno muito bem talhado. Abriu a porta de seu carro e ajudou Rachel a entrar. Rachel sentiu o cheiro de couro do estofamento. Mark olhou para ela obliquamente e dirigiu-lhe um breve sorriso. - Já lhe disse que está linda nesse vestido? - Não, e não é preciso. Tenho certeza de que suas armas sexuais são potentes, sr. Hammond, mas não vale a pena apontá-las para mim. Não tenho a menor intenção de me casar com seu filho, nem de me tornar sua amante. Portanto, pode ficar sossegado. - Mesmo assim está linda - insistiu, soltando o breque de mão. O carro começou a deslizar suavemente e Rachel se recostou no encosto macio, disposta a desfrutar de todo aquele luxo. Ela tinha o horrível pressentimento de que se lamentaria disso no dia seguinte, mas naquele momento seu coração batia muito apressado. Estava consciente da presença de Mark Hammond a seu lado, de seu corpo rígido e musculoso. Perturbava-lhe admitir isso, mas desde que o vira pela primeira vez se sentira atraída por ele. Ele podia irritá-la e enfurecê-la, mas era um homem sensual e excitante.

CAPÍTULO III Ele a levou para um pequeno restaurante, que Rachel só conhecia de nome. Era um lugar bastante caro, fora do alcance de seu bolso. Assim que entraram, Rachel deu-se conta do luxo da decoração e da clientela refinada. Sentiu-se nervosa. Dirigiu-se para a mesa que lhes fora reservada de cabeça erguida, recusando-se a revelar nos olhos verdes qualquer constrangimento. Isso não a impediu de notar a elegância das mulheres, com suas jóias e os rostos bonitos. Sentado à sua frente, do outro lado da mesa, Mark Hammond olhou compreensivo para ela. - Você é muito bonita, srta. Austen. A afirmação surpreendeu-a, mas ele logo pegou o cardápio e começou a lê-lo, dando-lhe a impressão que havia esquecido do que dissera. Fizeram o pedido e, enquanto tomavam o aperitivo, Rachel brincava nervosamente com os talheres. - Então vamos conversar sobre meu filho - propôs Mark abruptamente. Ela ergueu a cabeça. A luz acentuava os reflexos dourados de seus cabelos loiros. Rachel parecia constrangida. - Nicky é uma estranha mistura de homem e criança - disse ela seriamente. - Negligenciou-o por muito tempo, sr. Hammond. Machucou-o. Se ele se sensibilizou com o meu afeto é porque o senhor nunca lhe deu carinho. - Tenho certeza de que correspondeu às necessidades dele, srta. Austen. Há cinco anos tem sido fácil para mim chegar a ele e conversar, mas agora descobri que Nicky está crescido e que ele quer é uma mulher, não um pai. - Está errado! - Rachel inclinou-se para enfatizar o que dizia. Mark olhou então fixamente para o seu decote. Ao percebê-lo, ela voltou a recostar-se, apertando as mãos. - Vai me levar a sério, sr. Hammond? - Gostaria, srta. Austen. - Por Deus! Será que só vê as coisas do seu jeito? - Você parece familiarizada com isso. - Claro, sei tudo sobre homens como você, sem dúvida. Em relação a mim comportam-se como perfeitos idiotas! Estou cansada de enfrentar homens que julgam que uma cantora de boate é presa fácil. Eles nunca parecem compreender. Dizer-lhes para que se mantenham à distância não funciona, e a única coisa que os faz parar é um soco na cara. E está seriamente ameaçado de um, sr. Hammond! Ele sorriu alegremente. Parecia relaxado. Inclinando-se para a frente, pegou-lhe uma das mãos. - E essa mão delicada é capaz de dar socos? Não acredito. - É melhor acreditar! Ele soltou sua mão e ela encostou-se novamente no espaldar da cadeira. Mark Hammond não despregava os olhos dela.


- Suponho que a sua retaguarda seja o seu... primo, que mora com você. - Derry e eu sempre moramos juntos. Nunca houve nada entre nós. - Nicky tem ciúmes dele. - Mark Hammond observava-a enquanto falava, e ela se surpreendeu com aquilo. - Ciúmes? Ele nunca demonstrou! - Não? E se ele demonstrasse, o que teria feito? O primo Derry seria expulso de casa até que Nicky se casasse com você? - Não tenho a menor intenção de me casar com ele, já lhe disse! - Disse isso a Nicky? - Já! Muitas vezes! - E, ainda assim, ele pensa que há uma possibilidade? Não deve ter sido muito convincente, srta. Austen. Ele sorriu com malícia ferina nos olhos. - Quem sabe você não quis ser convincente. O primeiro prato chegara e Rachel manteve a cabeça baixa, ignorando-o, pois se sentia fervendo por dentro e era capaz de pegar o prato e atirar-lhe na cara. - Não tocou em seu vinho - observou Mark Hammond. - Quer manter a cabeça fria, srta. Austen? Desafiadoramente ela ergueu a taça e engoliu metade do conteúdo, consciente de seu olhar provocativo. - Como se encontrou com Nicky? - perguntou ele, ignorando a salada à sua frente. Ela ergueu a cabeça. - Ele veio ao Harém com alguns amigos - explicou-lhe Rachel e, em breves palavras, contou-lhe o que sucedera. - Nicky foi ao camarim para se desculpar. - E quando foi que você percebeu o tipo de peixe que havia fisgado? Rachel dirigiu-lhe um olhar frio. - Meu primo o reconheceu logo. - Sua voz soou irônica. - Suponho que deva estar satisfeito por saber disso. - Srta. Austen, você é uma mulher muito esperta. Conseguiu enganar Nicky com maestria, mas infelizmente não vai consumar o seu plano. Ela empurrou seu prato, pronta para se levantar. - Realmente não temos nada a nos dizer, sr. Hammond. Boa noite. - Ia se levantar, mas ele a impediu. - Sente-se! Surpreendida pela rudeza com que ele falara ela afundou na cadeira, atordoada. Ele então a soltou. - Café? - perguntou-lhe, como se nada tivesse acontecido. Tomando o café, Rachel ainda tentou fazê-lo ver o problema da maneira como ela o via. - Nicky é um rapaz só e infeliz - disse ela seriamente, fixando o rosto rígido que a contemplava. - Ele precisa de afeto. O melhor a fazer é levá-lo como senhor para os Estados Unidos quando voltar. Leve-o até sua firma. Dê-lhe um trabalho. Converse com ele. Tente vê-Io como ele é. O que ele precisa é de atenção. Ele quer um pai que mostre que se importa com ele, e não um estranho que apenas lhe dá ordens. Mark Hammond não respondeu. Sua expressão era indecifrável. Franziu então o cenho e chamou o garçom. Depois de pagar a conta, saíram. Ele andava apressadamente, forçando-a a quase correr para manter-se a seu lado. Ao chegarem ao carro, ele abriu-lhe a porta e depois entrou, sem no entanto ligar o motor. - Você está sugerindo seriamente que eu o leve para a América? Rachel quase suspirou de alívio. - Seriamente. Ele segurou seu queixo, de modo a observar bem seu rosto. - Está apaixonada por ele? Rachel enrubesceu. - Não seja absurdo! - Você parece se preocupar muito com ele. - Eu me preocupo, claro - respondeu ela. - Nicky provoca em mim um instinto protetor. Ele é um garoto tão sensível, tão vulnerável. - E não é feio, tampouco. - Sua voz soou cruel. Desvencilhando-se da mão dele, tentou se recompor. - Quando for um homem será devastador. A isso se seguiu um profundo silêncio, e quando ela ergueu os olhos achou estranha sua expressão. Ele ligou o motor e o carro começou a se movimentar. Quando pararam em frente ao seu apartamento, Rachel mordeu nervosamente o lábio inferior. - Obrigada pelo jantar. - Dando uma rápida olhada ao relógio do painel, ela se assustou. - Como é tarde! Boa noite, sr. Hammond. - Não vai me convidar para entrar e tomar café? O seu... primo não deixa? - É muito tarde. - Nicky fica até tarde? - Não. Ele nunca vem para cá após o show. - Mark não acreditou no que ela disse. - Sabe o que eu e Nicky fazemos nas tardes que ele passa comigo?


Ele sorriu cinicamente. - Pois está errado! Ele me ajuda no trabalho de casa, vai às compras comigo, ajuda-me na cozinha, descascando batatas! O que falta em sua vida é uma mãe, sr. Hammond. - Meu Deus, não espera que eu engula essa, não é? - Ele continuava sorrindo. - O garoto quer ir para a cama com você e não descascar batatas. - Seus olhos percorreram seu corpo de alto a baixo. - A única coisa que ele quer descascar são suas roupas. Ela o esbofeteou ao ouvir aquilo. Sua cabeça foi para trás com o impacto do choque, mas imediatamente ele a agarrou pelos ombros, sacudindo-a. Ela ficou parada por um instante, e quando acordou estava em seus braços, sendo beijada. Seus sentidos lhe imploravam que se entregasse àquela paixão, mas a razão era mais forte! Estava tensa e logo se viu empurrando-o para trás. Finalmente ele a soltou, mas continuou a examiná-la com a mesma expressão indecifrável. Sem dizer palavra, Rachel saiu do carro, batendo a porta com toda a força. Antes de chegar a seu apartamento, ouviu o carro distanciando-se rapidamente. Derry estava à sua espera, curioso para saber do acontecido. - E então? - Então o quê? - Você sabe do que estou falando, Rachel. O que Hammond lhe ofereceu? Ela sentiu arder sua boca onde ele a havia beijado, e queria poder gritar. - Cem mil libras - respondeu amargamente. - Cem mil libras! - repetiu, assombrado. - Rasguei o cheque! - disse ela, dirigindo-se para o banheiro. - Você fez o quê? Rachel, você está louca? - Sua voz tremia um pouco. - Cem mil? Nós poderíamos... - Nós? - Ela virou-se para ele bruscamente, e tamanha era a raiva estampada em seu rosto que ele deu um passo atrás. - Nós não poderíamos nada. Já lhe disse várias vezes, Derry, e esta é a última vez que eu lhe aviso. Não quero o dinheiro de Nicky Hammond e estou cheia dessa sua atitude mercenária. Na verdade, acho que está na hora de nos separarmos, Derry. Vamos ser realistas! Nossa infância acabou e o que tínhamos em comum quando crianças já era. Derry colocou as mãos no bolso, de olhos baixos. Fitou-a e um sorriso de aceitação aflorou em seus lábios. - Você é uma garota estranha, Rachel. - O velho charme estava de volta a seu rosto. - Estranha, mas legal. Você tem razão. Eu me mudo assim que encontrar um outro lugar. - Obrigada - agradeceu, um pouco envergonhada pelo desabafo, apesar de se sentir aliviada por eles se separarem. Quando ela começara a trabalhar, morarem juntos era a coisa mais lógica a fazer. Ele a orientava e protegia, e fora uma excelente companhia. Como seus sobrenomes fossem iguais, as pessoas sempre pensavam que eram irmãos, atitude que ela encorajava, pois primos sempre soara perigoso. No entanto, eles sempre viveram como irmãos, e Derry sentia um afeto fraternal por ela. - O que Mark Hammond fez quando você rasgou o cheque? - perguntou Derry, curioso. - Nada. Eu lhe disse que o preço dobrara. - Por que você lhe disse isso? - Ele me deixa irritada! É o sujeito mais cínico e sem caráter que já encontrei. Interpreta tudo à sua maneira. - O que ele acha de você? Rachel sentiu o rosto pegar fogo e, sem responder, entrou no banheiro, fechando a porta. Sim, ela também já se fizera a mesma pergunta. Por que quando ele a beijou, sentiu-se excitada? Ele fora bruto, mas havia algo mais também. Rachel não chegara aos vinte e cinco sem conhecer um homem. Aos dezoito estivera desesperadamente apaixonada por um saxofonista de Glasgow, mas terminara tudo com ele ao descobrir, horrorizada, que ele era casado e tinha filhos. Aquela experiência a marcara bastante, e agora ela não se aventurava a qualquer relacionamento sem estar certa do que fazia. Além disso, sua profissão a ensinara a se defender dos homens. E fora fácil, já que até então não voltara a se apaixonar por ninguém. Desde que vira Mark Hammond pela primeira vez, no entanto, compreendera o perigo que ele representava. Era um homem atraente e, pelo que Nicky lhe dissera, tratava as mulheres com a mesma frieza com que resolvia seus negócios. Rachel se revoltara com seu cinismo e recusava-se a ser um simples brinquedo em suas mãos. Entretanto, não podia negar que se sentia profundamente atraída por ele. Entrou debaixo do chuveiro e procurou relaxar. Tomou então uma decisão: evitar Mark Hammond como uma praga. Três dias mais tarde a campainha tocou. Era Nicky, com os olhos brilhando de excitação. Derry estava se mudando para um apartamento por perto e, com um suspiro, Rachel deixou-o entrar. Ela não o vira mais e julgava que ele tivesse ido para os Estados Unidos com o pai. Mark Hammond parecera impressionado com sua idéia, mas não a aprovara, decerto.


- Estamos preparando uma festa - disse Nicky. - Para mim! Mark... - Ele se interrompeu e olhou para ela. Meu pai me pediu para que o chamasse de Mark, Rachel. Disse que sou bastante crescido para isso. Ele quer que eu volte para os Estados Unidos com ele e, como já vou estar lá no meu aniversário, ele sugeriu que desse uma festa de despedida para meus amigos. Ele parecia muito feliz e Rachei sorriu. - Isso é ótimo! Nicky a encarou e ela percebeu que ele queria lhe dizer algo mais. - Você virá, não é, Rachel? Ela respirou fundo e respondeu: - Eu? Não, não posso, Nicky. - Mas você é a única pessoa que eu realmente faço questão que vá! Rachel mordeu os lábios ao ver seu rosto anuviado, ao perceber que a alegria quase infantil desaparecera de seu rosto. Nicky sentiu como se ela o tivesse agredido. - Você tem que ir! - insistiu. - Mark quer que você vá! Ele me disse para convidá-la. - Ao ver que RacheI não parecia acreditar, apressou-se a convencê-la. - Ele quer lhe agradecer por ter sido tão boa comigo. Rachel forçou-se a não demonstrar o que sentia. Sabia muito bem que ele a queria lá para que se defrontasse com os amigos de Nicky, gente de outra classe social, para que Nicky percebesse o abismo que havia entre eles. Os colegas de Nicky deviam ser todos garotos e meninas, despreocupados e acostumados à boa vida. Ela se sentiria deslocada, e isso a afastaria de Nicky. Mesmo assim, Mark Hammond aceitara sua sugestão e partiria logo com Nicky para os Estados Unidos. Se ele queria amenizar o choque que Nicky teria por sentir falta dela, aquele parecia ser o caminho menos doloroso. Sim, ela aceitaria o convite para que ele deixasse de se iludir sobre ela. - Bem, se faz tanta questão assim, Nicky, eu irei. O rosto do garoto se iluminou. - Fantástico, Rachel! - Ele olhou à sua volta. - Claro, Derry está convidado também. - Sua voz denunciava relutância e ela sentiu dó dele. Mark Hammond devia ter-lhe sugerido que convidasse Derry também, talvez para que Nicky pudesse observar melhor o comportamento dos dois durante a festa e assim se desse conta de que o relacionamento deles não era tão fraternal como ele pensava. - Eu lhe direi - respondeu Rachel. - E você? Está se dando melhor com seu pai? - Ele é ótimo depois que você o conhece melhor - respondeu Nicky. - Levou-me a uma sauna ontem. Foi incrível! Depois fomos às corridas. Mark só joga por prazer, se começa a perder, pára na mesma hora. Ela podia ouvir a voz de Mark atrás de cada frase que ele pronunciava, e sorriu. - Então vai para os Estados Unidos? Deve ser maravilhoso. - Mark quer que eu comece a trabalhar logo. Argumentou que você não aprende nada nesses cursos de Economia. Disse que o melhor a fazer é lidar logo com os negócios. - Nicky olhou para ela, orgulhoso. - Ele também compreendeu perfeitamente o fato de eu me chatear na escola e garantiu que isso não ia acontecer quando eu estivesse trabalhando de verdade. Trabalhar é como mulher: agente não deve ficar rodeando, deve ir direto... - Ele se interrompeu e ficou vermelho. - Esqueci o resto. Rachel sabia perfeitamente a origem do mal-disfarçado cinismo em suas palavras. Pobre Nicky! Mark Hammond transmitira-lhe sua própria visão do sexo feminino! Nicky saiu logo, dizendo que Mark o levaria para fazer compras. - Vamos comprar roupas para mim! Mark usa roupas bonitas, não acha? Especialmente quando não está trabalhando. Cada frase que ele dissesse conteria o nome do pai, e Rachel sentiu certo receio de que todo o afeto que Nicky lhe dedicava tivesse se transferido para Mark Hammond. O importante, porém, era que ele cuidasse bem do garoto, sem machucá-lo. Quando falou a Derry da festa seus olhos brilharam. - Papai Hammond nos convidou também? - Franziu o cenho. - Estranho. Eu juraria que... - ele se interrompeu e Rachel continuou sua frase. - Que ele preferiria morrer a nos receber em sua casa, não é? Também acho isso, mas tenho uma teoria a respeito. Rapidamente ela lhe explicou o que pensara sobre o assunto, sobre a visão que ele queria dar a Nicky das diferenças de seus mundos, mas Derry não parecia muito convencido. - De qualquer forma, fomos convidados, e é uma ótima chance para ficarmos sabendo sobre essa vida que conhecemos apenas pelos jornais. Rachel olhou para ele com firmeza. - Não espere demais, Derry. É apenas uma festa, e tenho certeza de que Mark Hammond terá convidado apenas adolescentes. Vamos nos sentir como peixes fora d'água! - Gatinhas ricas gostam de homens mais velhos - disse Derry, entusiasmado.


- Derry! Por favor, não vá aprontar! - Eu? Imagine! No fundo Rachel preferia que ele não tivesse sido convidado, pois o que menos queria na casa de Mark Hammond era ter problemas. Quando ela e Derry chegaram, a festa já estava no auge. Haviam trabalhado muito e Rachel estava cansada depois de cantar uma hora a mais, além do normal, pois um dos comediantes não comparecera. Rachel usava um vestido de seda branco, decotado, que realçava suas formas esguias, os cabelos soltos emoldurando-lhe o rosto bonito. Derry estava bem menos formal, com um blazer azul-marinho, mas nem por isso deixava de parecer charmoso e elegante. Mark Hammond recebeu-os gentilmente, oferecendo-lhes drinques. Ele estava totalmente informal, de camisa negra e jeans, uma corrente de prata sobre o peito moreno. Rachel corou assim que o viu, olhando para sua própria roupa com a desagradável sensação de que estava muito formal para a festa. Ao observar os convidados, no entanto, notou com alívio que cada um se vestia de um jeito. Os jeans se misturavam com sedas e cetins. - Nicky está por aí - disse-lhe Mark, ao perceber seus olhos percorrendo a sala. Derry já se dirigia para aquela moça de cabelos louros que provocara o aparecimento de Nicky no camarim meses atrás. A garota deu uma gargalhada quando Derry lhe disse algo ao ouvido, e Rachel franziu o cenho. - Isso a aborrece? Ela se virou, não entendendo o que Mark Hammond queria dizer. - O que me aborrece? - Ver seu primo flertando com outras garotas? - Seus olhos azuis brilharam ao vê-Ia corar. - Quando elas são adolescentes, sim - Rachel respondeu, franca. - Ele é bastante perigoso, sabe? - Mesmo? - Sua voz soou irônica e ele acompanhou o movimento dos olhos de Rachel, observando Derry dançando com a garota. - Que inferno de barulho! - Ele pegou o braço dela. - Vamos para um lugar mais calmo? Você não quer ficar ouvindo isso, quer? Ela se desvencilhou dele e sentiu-se nervosa com aquele simples toque. - Gosto muito de rock - respondeu. - Neste caso, vamos dançar - propôs ele, tirando-lhe o copo da mão. Rachel ia dizer não quando Nicky surgiu, muito excitado e corado, vestindo um terno branco e uma camisa azul-clara aberta ao peito, como a de seu pai. - Rachel! - O excitamento fez com que ele a suspendesse pela cintura e a beijasse. - Vamos dançar! Sem olhar para Mark Hammond ela deixou que Nicky a conduzisse para o centro do salão. Os outros abriram roda para que ela demonstrasse a sua graça na dança, seu corpo esguio e bem-feito movendo-se sensualmente ao som da música jovem, seus movimentos perfeitos e graciosos. Ela dançara com Nicky na boate várias vezes, e os dois combinavam admiravelmente, dançando um ao redor do outro e sorrindo. Nicky, mais alto, movia-se à sua volta, sem conseguir despregar os olhos dela. Algum tempo depois Rachel se sentia exausta. - Estou muito velha para isso! Qual é o segredo de toda essa energia? Não me diga, eu adivinho. Coca-cola e pasta de amendoim! - Ela sabia que essa era sua comida favorita e ambos riram. Mark Hammond os observava de longe, apoiado à parede. Rachel evitava olhar para aquela direção. Agora ele se aproximava. - Eu cuido de Rachel agora, Nicky. Loren parece querer dançar com você. Nicky hesitou, sem saber se ficava com Rachel ou se voltava a dançar. Olhou para a garota que seu pai indicara e ela lhe fez um sim para que se aproximasse. Era uma menina extremamente bonita e parecia simpática. Tinha os cabelos lisos e negros que lhe caíam graciosamente pelos ombros. - Sim, vá dançar, Nicky - disse Rachel. - Eu vejo você depois. - Quando eu estiver recuperada! Ele riu e caminhou em direção à garota, que usava um vestido azul da cor de seus olhos. Os dois começaram a dançar, e Rachel observou-os sorrindo por alguns instantes. De repente encontrou o olhar atento de Mark Hammond. - Combinam bastante, não acha? - perguntou ele com ironia. - Têm a mesma idade e ela me parece muito simpática - respondeu Rachel e caminhou até uma das cadeiras à volta do salão, onde pretendia se sentar, mas Mark Hammond seguiu-a e levou-a para fora da sala. O barulho cessou quando ele cerrou as portas duplas. Rachel deu um suspiro de alívio, pois sabia que a qualquer momento sentiria dor de cabeça se continuasse lá dentro. - Por aqui - disse Mark, conduzindo-a pelo corredor até uma sala menor e acendendo a luz. - É meu escritório - explicou ele. Foi até um pequeno bar e perguntou-lhe:


- Quer um uísque? - Detesto uísque - respondeu ela, sem se preocupar em não ser polida. Começava a se irritar com Mark. - Isso faz bem - disse ele, depositando um copo em sua mão. - Você parece precisar de um. Ele segurou em seu braço e gentilmente conduziu-a até um sofá de couro preto. Recostou-se no estofado macio e ele sentou-se a seu lado, seu braço por trás da cabeça de Rachel. Ele então levou o copo até os lábios dela. - Beba o uísque! - ordenou. Rachel lançou-lhe um olhar irritado. - Já lhe disse que não gosto. De repente ela se sentiu tolhida por seu braço forte, o copo mais junto de seus lábios. - Beba. Para sua irritação ela se descobriu bebendo o uísque obedientemente. Depois de um momento ele depositou o copo no chão. Tentou se levantar, mas ele a segurou pelos pulsos. - Sr. Hammond! Está me irritando! Mark sorriu. - Tenho de lhe dizer o que está fazendo comigo também, srta. Austen? Rachel sentiu-se tensa. - Vamos voltar para a festa agora, por favor? - A festa é aqui - respondeu ele, dando um sorriso provocador. Começou então a acariciar-lhe os braços e depois os seios arfantes sob a seda branca. Rachel sentiu que ele a despia com o olhar. Estava acostumada a ser admirada por homens, mas não daquele jeito. Mal conseguia respirar, e isso a irritava ainda mais. Olhou para ele desafiadoramente e tentou mudar de assunto. - Fico feliz em ver que está empenhado em se aproximar de Nicky. Já se nota a diferença nele. - Esqueça Nicky. - Continuava a fitá-la intensamente. Segurou-a então pelos ombros e puxou-a contra seu corpo. Inclinou-se para Rachel, que o olhava, desprotegida. Finalmente beijou-lhe os lábios entreabertos de ansiedade. No momento em que se tocaram, nada mais parecia existir. Abraçou-a com força. Todo o corpo de Rachel vibrava! Então ele a deitou no sofá e voltou a acariciar-lhe o corpo, beijando-a no pescoço e revolvendo seus cabelos fartos e dourados. Seus lábios desceram pelos ombros dela com uma intimidade até então desconhecida. Ela jamais deixara um homem ir tão longe! As sensações que ele lhe despertava eram incríveis! Quando sua boca tocou-lhe os seios, Rachel agarrou-lhe os cabelos na ânsia de lhe mostrar o que sentia naquele momento. Mark ergueu-lhe a cabeça e ela abriu os olhos com certa relutância. Seus dedos tocaram-lhe o rosto afogueado e então ele confessou: - Você é uma mulher atraente e sensual. Você sabe disso, não sabe, Rachel? Ela dirigiu-lhe um olhar confuso e assustado, meio anestesiada, e assim ficou por alguns instantes, o corpo tremendo. - Você parece embriagada - disse ele bem-humorado. - Eu me sinto como se estivesse - confessou-lhe num sussurro, assustando-se com a própria voz. - Sinto-me lisonjeado. Você teve o mesmo efeito sobre mim. - Não acredito. - Você é fantástica, minha querida, e não posso acreditar que eu seja o primeiro homem a lhe dizer isso. Mark era de fato o primeiro homem, desde seus dezoito anos, que lhe despertava semelhantes sensações, mas jamais lhe diria isso. Voltou a olhar para ele e percebeu que havia um abismo enorme entre ambos. Já sentira o que ele era capaz de despertar em seu coração, e não queria sofrer. Precisava se proteger daquele homem. Antes que Mark percebesse ela se levantou, mas ele a segurou pelo pulso. - Onde vai? - Voltar à festa. - Não, não vai, srta. Austen - disse ele, levantando-se também. - Não sou homem de ficar cortejando mulheres antes de desfrutá-las. Não tenho tempo a perder com esses joguinhos. Subitamente Rachel sentiu frio. Até seus lábios pareciam sem cor. Aquelas palavras haviam sido tão insultantes que ela ergueu a mão, pronta para esbofeteá-lo mais uma vez. Mark a deteve com força e perguntou: - Que diabos pensa que está fazendo? - Não estou à venda, sr. Hammond - respondeu, furiosa. - Vai me largar ou não vai? - gritou. Ele a fitou por um instante com um olhar penetrante, depois a soltou. Rachel saiu dali arrasada. Não poderia voltar para a festa daquele jeito. Atravessou o saguão correndo e foi embora para casa.


CAPÍTULO IV Rachel deveria saber que Mark Hammond não era um homem de desistir tão facilmente de uma presa; uma vez interessado em alguém, insistia até o fim. Ele estava em sua mesa habitual no Harém na noite seguinte, fumando seu inevitável charuto e com os olhos fixos nela. Surpreendeu-a o fato de Nicky acompanhá-lo. Derry olhou-a inquisitivamente e Rachel sacudiu os ombros. Antes ele tinha perguntado sobre sua saída repentina da festa na noite anterior. - Nicky ficou arrasado! - disse ele, atento à reação da prima. - Desconfiou que Mark a tivesse destratado! Rachel não moveu um músculo do rosto. E, com expressão indecifrável, respondeu: - Tive dor de cabeça. - Sei. - O tom de Derry era de troça, mas ele não insistiu mais no assunto. Quando ela terminou de cantar, Nicky veio até o palco pedir-lhe para que se juntasse a ele e o pai. Hesitante, acompanhou-a até a mesa, passando pelos casais que agora dançavam ao som de um rock. Mark cumprimentou-a com um irônico aceno de cabeça. - Srta. Austen, cantou maravilhosamente bem esta noite. Sua voz, ligeiramente rouca, é extremamente agradável. - Obrigada - respondeu Rachel, fria. Sentando-se à cadeira que Nicky lhe oferecia, sorriu para ele. Obrigada, Nicky. - O que vai beber? - perguntou o rapaz. - Martini. Nicky olhou à sua volta, procurando um garçom. A boate estava lotada naquela noite e era difícil encontrar algum disponível. - Vou ter de ir buscar os drinques. Uísque, Mark? O pai acenou com a cabeça e Rachel sentiu o sangue gelar. Pobre Nicky! Com que orgulho pronunciava o primeiro nome do pai! Sentiu-se fraca e impotente. Nicky transferira o afeto que sentia por ela para aquele homem rude e implacável, e tudo o que ela desejava era que ele não machucasse o filho. A natureza sensível e carinhosa de Nicky poderia se arruinar se ele tomasse cada palavra e gesto do pai como dogma. Era jovem demais para tentar imitar a segurança e o cinismo do pai. Quando Nicky se afastou, Mark pousou os olhos sobre ela. - Tenho uma proposta para você - disse ele. Rachel sentiu seu coração bater mais depressa. - Já lhe dei minha resposta ontem! Por favor, não me faça propostas novamente. - Ainda não sabe o que quero lhe dizer. - Ele lhe dirigiu um olhar frio. - A avó de Nicky quer conhecê-la. Ela se surpreendeu. - Ela sabe de mim? - Quem você acha que telegrafou para mim? -disse ele. Rachel franziu o cenho. - E como ela descobriu? - O joalheiro telefonou para ela, claro, e imediatamente pus um detetive atrás de meu filho. Tão logo cheguei, já sabia tudo sobre você. - E tirou suas próprias conclusões! - Minha querida, o que você queria? Quando um garoto dessa idade dá presentes tão generosos para uma cantora de boate, tudo fica óbvio demais... - Claro, principalmente para um homem como você. - Ela não disfarçava a raiva que sentia, e seus olhos brilhavam de ódio. - Na verdade, Olly foi quem se interessou mais. Ela estava convencida de que uma caçadora de dotes enfeitiçara Nicky, e que seria impossível tirá-lo de suas garras. Ela queria que eu viesse buscar Nicky e o levasse imediatamente para Nova York. - Sensato para uma avó. E por que não fez isso imediatamente? - Jamais ajo sem antes me inteirar do que está acontecendo. Eu queria saber exatamente por que tipo de mulher Nicky estava apaixonado. Afinal de contas, ele é jovem e isso poderia acontecer novamente em Nova York. Eu queria saber como Nicky se comportava em relação às mulheres. Rachel lamentou não ter considerado a frieza de Mark Hammond antes de se envolver com ele. - Então quis testar o seu gosto? - provocou. - Exatamente. - Mark ergueu uma das sobrancelhas. - Eu queria saber das fraquezas de Nicky. Se ele tivesse se apaixonado por uma mulher vulgar, que tivesse uma máquina de calcular no lugar do coração, eu


queria estar preparado para quando isso acontecesse novamente. Sei que os homens se repetem, eles gostam de um certo tipo de mulher. Tinha de saber por que Nicky a achava tão irresistível. Antes que Rachel pudesse responder, Nicky reapareceu com os copos na mão. Ela olhou para ele carinhosamente. Era jovem e tão belo! Percebeu então que Mark Hammond a observava com olhos críticos. Sua expressão era indecifrável! O que ele estaria pensando? Nicky colocou os copos sobre a mesa e suspirou triunfantemente. Ele riu e lhe dirigiu um olhar longo e carinhoso, intensamente correspondido por ela. - Bem seco, como você gosta - disse ele, sorrindo. - Obrigada, Nicky. - Ela tomou um gole e exclamou: - Fantástico! Nicky sentou-se a seu lado, apoiando o rosto entre as mãos. - Mark já lhe fez o convite? Você virá conosco? - Ainda não convidei - disse Mark. Seu rosto permanecia impassível. - Por que você não o faz, Nicky? Nicky não hesitou. - Decidimos ir para Ambreys por uma semana antes de eu ir para os Estados Unidos, Rachel. Você vem também? - Ao ver a recusa nos seus olhos, ele insistiu: - Por favor! Olly quer conhecê-la e vamos nos divertir muito, não é, Mark? Nicky já falara a Rachel sobre Ambreys, a fabulosa casa de campo que seu pai possuía, mas raramente visitava. Nicky lhe descrevera as paredes de pedra, falara dos pássaros, do cavalo que ele possuía e parecia adorar, dos estábulos e dos belos jardins. Na época ela achara que era um crime ter tantas coisas bonitas e não aproveitá-las devidamente, ficara chocada ao saber que Mark ia muito pouco para lá. - Nicky quer visitar Ambreys antes de ir para a América - explicou Mark. - Obrigada por me convidarem - respondeu Rachel, olhando para Nicky. - Mas tenho um contrato com o Harém e não posso quebrá-lo. - Eu resolvo isso. - A voz de Mark era convincente e Rachel se enfureceu ao pensar que ele achava que podia resolver tudo com dinheiro. Dirigiu-lhe um olhar frio. - Desculpem, mas não posso. - Ela se levantou e subitamente Mark segurou-a pelo pulso. Ela quis se desvencilhar, mas seus dedos pareciam garras de ferro. - Cuidarei para que tenha uma semana de férias - disse ele, ignorando a raiva estampada nos olhos de Rachel. - Partimos amanhã. O Harém pode ter uma cantora ou cantor convidado enquanto você está fora. - Eles não vão gostar disso! - Mas eu sou dono desta droga aqui, não se esqueça. Ela o olhou como se quisesse estrangulá-lo, e ficou mais furiosa ainda ao notar que ele se divertia. - Por favor, venha, Rachel. Quero mostrar Ambreys para você! Tenho certeza de que vai adorar. Passaremos uma semana maravilhosa, tenho certeza - argumentou Nicky, implorando com os olhos. Rachel sentiu-se tentada, em parte por poder estar com Nicky antes de ele partir, naquele lugar maravilhoso que ela só conhecia de nome, em parte pelo profundo desejo de passar uma semana com Mark Hammond. Estava perfeitamente consciente do perigo que ele representava, mas sentia sua determinação se enfraquecer. Olhou para seu rosto moreno e enigmático por alguns instantes, depois fitou Nicky longamente, que estava tenso e cheio de expectativa. Rachel sorriu e disse: - Está bem, Nicky, eu vou. Ele deu um grito de alegria, pulando radiante na cadeira. Ela se levantou. Seu vestido moldava-lhe com perfeição o corpo e uma abertura lateral deixava entrever sua pele clara. - Tenho de me trocar. - Eu levo você para casa - disse Mark Hammond, levantando-se também. Nicky parecia muito feliz com o fato de o pai aceitar agora seu relacionamento com Rachel. Ela os olhou, um ao lado do outro, e de repente sentiu um frio na espinha; era como se aqueles dois homens estivessem predestinados em sua vida, com uma participação cuja profundidade ainda desconhecia. Entrou em seu camarim tremendo, o rosto entre as mãos. Sentia-se febril, mas não estava doente. Por que fora tão tola a ponto de aceitar aquele convite? Seus instintos a alertavam contra, mas ela concordara. Não queria se envolver ainda mais com os Hammond, mas parecia estar cada vez mais presa a eles. Recompondo-se, colocou a camiseta e o jeans com que viera ao Harém, e depois o casaco de couro marrom. Dirigiu-se até o salão. Encontrou-se com o gerente no corredor, e ele a informou que Derry já tinha ido embora. - O sr. Hammond me falou sobre a sua semana de férias. Por mim está tudo bem. - Ele parecia curioso. - Obrigada. - Rachel admirou-se da rapidez com que Mark Hammond resolvera o caso. Ele estava do lado de fora esperando-a e Nicky dentro do carro, o rosto colado no vidro.


Mark segurou-a pelo braço e fez com que ela se sentasse a seu lado no banco da frente. Nicky protestou. Mark olhou-o obliquamente, um leve sorriso estampado no rosto. Ele estava marcando pontos a seu favor, pensou Rachel. Nicky teria de perceber a diferença de idade entre eles. - Onde está indo, Mark? Vamos levar Rachel! - protestou Nicky. - Já passou da hora de você dormir - disse-lhe Mark, imperturbável. - Vou deixar você primeiro. Nicky ficou vermelho. Rachel olhava à sua frente para as ruas quase vazias àquela hora. Quando pararam, Nicky beijou Rachel no rosto carinhosamente, surpreendendo-a. - Até logo, Rachel. - Ele saiu do carro e galgou as escadas de sua casa. Sem uma palavra, Mark ligou o carro novamente, e silenciosamente dirigiu-se para o apartamento de Rachel. Ao chegarem lá ele se virou para ela, seu braço segurando-a por trás dos ombros, de modo que ela não pudesse sair. - Esta não é a primeira vez que vejo Nicky beijá-la. Até onde você o deixa ir exatamente? Rachel enrubesceu. - E o que queria que eu fizesse? Que o esbofeteasse? - Você fez isso comigo, não foi? - Seus olhos a provocavam. - Nicky é vulnerável, você não. Seria preciso um trator para derrubá-lo. Ele sorriu com tanto charme que Rachel sentiu que lhe faltava o ar. - Você é bastante irônica quando quer, não é? Ela desviou o olhar. - Preciso entrar. - Por que fugiu de mim na festa? - perguntou Mark, olhando fixamente para ela. - Não gosto de jogos com sexo - respondeu friamente. Ele tocou seu rosto gentilmente. - Muito bem, Rachel, peço-lhe desculpas pelo meu modo de falar. - Quer dizer que você me insulta grosseiramente e eu tenho que me resignar com suas desculpas, é isso? Ela empurrou a mão dele de seu rosto quente. - O senhor tem o poder de me irritar! - Meus métodos nem sempre são os melhores - admitiu Mark. - Quando está com raiva, seus olhos parecem de vidro verde. Pensei que talvez estivesse apaixonada por Nicky. - Por favor! - Estava com tanta raiva que poderia esbofeteá-lo de novo. - Ele é um garoto! Sou sete anos mais velha! - Mas você se preocupa um bocado com ele. - Alguém tem que se preocupar! - Mas por que você? Ela o fitou, os olhos brilhantes. - Porque ele se preocupa comigo também, e isso para mim é o bastante. Não posso simplesmente virar-lhe as costas. - Percebi. - Sei muito bem que percebeu. - Ela se sentia cansada. Todas essas sensações eram muito fortes para ela. Ainda tenho frescas na memória as lembranças de minha adolescência, quando também me sentia só e abandonada. - Mas você tinha seu primo adorável, certo? - brincou Mark. - Pensei que morasse com ele desde que tinha oito anos. O que aconteceu com seus pais? - Morreram. Ele então se encostou na porta do carro. - Fale-me sobre isso. - Não há nada para falar - Rachel preparava-se para sair quando ele a deteve. - Quero conversar com você. Rachel virou-se para ele, os cabelos desordenados sobre o rosto. - Por favor! Tenho que ir agora. - Percebi que seu primo se mudou. Por quê? - Os olhos de Mark estavam muito próximos dos dela. Rachel experimentou então uma sensação de embriaguez. A fragrância de sua loção, o corpo másculo debruçado sobre o seu a faziam estremecer. - Discutimos - respondeu laconicamente, incapaz de dizer mais nada. - Sobre Nicky? - Muito esperto, sr. Hammond - respondeu, zangada. Ele sorriu e Rachel sentiu seu coração parar por um momento. Estava irritada consigo mesma. As batidas agora soavam surdamente, parecendo tambores em seus ouvidos. - Seu primo é um oportunista. Não é digno de confiança. Joga, bebe, mete-se com mulheres. - Também sei de sua vida! - Mesmo? - Ele parecia se divertir. - E o que sabe de minha vida? - O que leio nos jornais! E isso basta - disse Rachel, baixando os olhos.


- Se você acredita no que dizem os jornais é muito ingênua, srta. Austen. Eles preferem uma mentira glamourosa à verdade, por mais sólida que seja. Ela olhou para ele desafiadoramente. - Então são mentiras todas as histórias sobre você? Sobre mulheres, festas, badalações? Quer que eu acredite nisso? Ele começou a rir, e ela se enfureceu ainda mais. - Ora, seu nojento! - exclamou, abrindo a porta do carro e dirigindo-se para seu edifício. Antes que se desse conta do que estava acontecendo, Mark Hammond estava postado entre ela e a porta de entrada. - Quer sair do meu caminho? - Não me lembro de tê-la forçado a ficar em meus braços - disse ele à queima-roupa. - O que quero dizer é que qualquer que seja meu comportamento, srta. Austen, não é diferente do seu. Você pensa que eu vivo em badalações, no meio de mil mulheres, não é? Não seria, portanto, plausível eu achá-la acessível por me deixar beijá-la na festa de Nicky? - Não. - Seus olhos verdes brilharam ao luar. Ele ficou quieto por alguns instantes, fitando-a. - Srta. Austen, o que quero propor é o seguinte: vamos começar tudo de novo e esquecermos os nossos últimos encontros? Começo a acreditar que estava enganado sobre você. Aceita a possibilidade de também estar errada a meu respeito? Ela afastou uma mecha de cabelo da testa. - Isso não importa, importa? Não temos muito a nos dizer. - Talvez não. Mas enquanto fosse uma convidada de minha casa seria preferível que estivéssemos pelo menos em condições de conversar. Nicky apreciaria ainda mais essa semana. Rachel ficou pensativa. Não conseguia confiar naquele homem, mas o que fazer? - Bem, por que não? - suspirou, resignada. - Assinamos um tratado de paz, srta. Austen? - Está bem - concordou Rachel. - Ótimo! Venho buscá-la amanhã às nove, Rachel. Rachel surpreendeu-se ao ser chamada pelo primeiro nome, enquanto tentava livrar-se dele. - Combinado. - O braço de Mark ainda barrava a porta. Olhou então para ele interrogativamente. - Boa noite, Rachel. Não tirou o braço, esperando que ela erguesse os olhos até ele. - Meu nome é Mark. - Todo mundo sabe disso! - disse Rachel. - Principalmente as mulheres. - E você faz parte delas! Percebeu que ele não se moveria se ela não se rendesse. - Boa noite, Mark. Ele retirou o braço e ela entrou em casa apressadamente. Ligou para Derry antes de dormir, mas surpreendentemente ele não brincou com ela, nem lhe fez perguntas. Parecia preocupado com seus próprios problemas. - Boa viagem, então - disse ele. Depois de desligar, Rachel ficou pensando o que é que ele poderia estar aprontando. No entanto, ela jamais saberia, pois Derry era um bom ator quando queria. Na manhã seguinte ela se levantou cedo para arrumar a mala, e quando Mark Hammond veio buscá-la, já estava pronta. Usava um conjunto de calça e casaco que combinava com seus cabelos dourados. Mark fitou-a da cabeça aos pés. - Muito charmosa! - exclamou, enquanto tirava a mala de sua mão e a colocava no carro. Rachel sentou-se a seu lado. Nicky estava no banco traseiro com os olhos congestionados. - Foi dormir tarde? - perguntou-lhe Rachel. O rapaz enrubesceu, concordando com um gesto de cabeça. Mark dirigiu-lhe um olhar rápido e Rachel concluiu que Nicky não conseguira dormir por estar muito excitado. Durante a viagem pararam para um café. Mark ordenou a Nicky que fosse comprá-lo enquanto eles o esperavam na mesa. Ele saiu um pouco contrafeito, olhando significativamente para Rachel. Mark fazia tudo aquilo de propósito, pensou Rachel, embora sua expressão fosse indecifrável. Era uma manhã azul de maio e o ar estava muito leve. - Seus pais morreram num acidente? - perguntou-lhe tão subitamente que ela se assustou. - Sim - respondeu. - Deve ter sido um choque terrível para uma criança de oito anos - observou Mark. - Não foi tão difícil. Os pais de Derry foram maravilhosos comigo, e criança esquece logo as tragédias.


- Às vezes elas se lembram tão profundamente delas que precisam de psiquiatras - argumentou ele. Rachel percebeu que Mark se referia a Nicky, e seus olhares se encontraram. Novamente seu coração disparou. Deus, o que estava acontecendo com ela? - Nicky admirava e respeitava muito a mãe - prosseguiu e Rachel sentiu-se aliviada por Mark não perceber sua agitação. - Eu era quase um estranho para ele. Não esperava a morte de minha mulher e quando ela morreu fui buscá-lo, mas tive de brigar com meus sogros para conseguir ficar com ele. Nicky preferia ficar na América com seus avós, eu sei, mas eu era seu pai. - Por que não o deixou lá? Viaja tanto que não faria diferença. A boca de Mark se contraiu. - Por razões sentimentais. Achava que Nicky necessitava de carinho feminino constante, e minha mãe seria a pessoa ideal para ele, como você vai constatar. Minha sogra era um pouco desequilibrada e egoísta, e eu não queria que Nicky passasse sua infância com ela. Aquilo soava bastante razoável e Rachel começou a meditar. Ouvira a versão do pai agora, e os fatos coincidiam, apesar da interpretação dele e do filho serem bastante diferentes. Nicky chegou com os cafés. Ele comprara alguns salgadinhos também, que Rachel aceitou com um sorriso. Mark olhou para o filho. - Comam sem fazer muito barulho, está bem? Estou com dor de cabeça. - Muito uísque, Mark? Mark fez como se estivesse dando um soco em Nicky, pois ele mastigava ruidosamente. - Não dá para comer isso em silêncio - disse Rachel. - Isso mesmo - acrescentou Nicky, enfiando um punhado na boca. Mark terminou seu café e levantou-se. - Encontro-os no carro - disse ele, como se os dois fossem crianças. Quando ele se afastou, Nicky olhou para ela e perguntou: - O que você acha de Mark? - Você quer que eu o arrase ou o elogie? - Brincou, mexendo nos cabelos negros de Nicky. - Ora, Rachel, não brinque! Ele... gosta de você. Rachel fitou-o, consciente das emoções que ele procurava esconder debaixo daquela expressão calma. Havia ciúmes, insegurança em seu olhar e também admiração. Estava dividido entre o afeto por Rachel e seu pai, agora visto com outros olhos, desde que se propusera a mudar a imagem que até há pouco o garoto fazia dele. - Você se parece com seu pai - disse ela. O rosto de Nicky se iluminou. - Acha mesmo? - Um espelho mostraria isso melhor do que eu. - Rachel estava séria. Mark Hammond se arriscara com ela, chamando-a de leviana, como ele realmente acreditava que ela fosse. Se Rachel fosse inescrupulosa, teria ido soluçar no ombro de Nicky, contando-lhe todas as coisas horríveis de que o pai a acusara, e Nicky teria se virado contra Mark na mesma hora. Mark tivera suas razões, mas parecia estar arrependido agora que a conhecia melhor, pensou aliviada. Voltaram para o carro de mãos dadas e, ao se aproximarem, Rachel notou o olhar de Mark Hammond fixo nos dois. Rapidamente soltou a mão de Nick, corando, enquanto Mark se inclinava para abrir a porta do carro. - É mais confortável atrás, Rachel - disse Nicky dirigindo-lhe um sorriso, mas mesmo assim Mark fez com que ela se sentasse a seu lado. Nicky, contrafeito, sentou-se de novo no banco de trás. Ele ligou o carro e logo alcançaram a estrada. Naquele momento Rachel teve consciência de que Mark Hammond a convidara para sua casa de campo com um objetivo definido. Ele tentara descreditá-la diante de Nick de outras maneiras, mas não conseguira. Agora tentaria fazê-lo ver que Rachel era velha demais para ele. Mark queria separá-la de Nicky a ferro e a fogo, e para isso iria usar todas as armas de que dispusesse.

CAPÍTULO V Chegaram a Ambreys ao pôr-do-sol. O céu por detrás do telhado gótico parecia um mar de sangue, o que reforçava ainda mais a imponência do casarão. Era um lugar cercado de jardins bem-cuidados, até demais para o gosto de Rachel. Era uma construção do século dezoito, de estilo predominantemente barroco. - Mas é gigantesca! - exclamou Rachel e Mark virou-se para ela, divertido. - E eu a mantenho! - Como? - Estou falando que eu mantenho essa casa. Um elefante branco que quase nunca visito. Já prometi a mim mesmo vendê-la várias vezes, mas nunca vendo.


Nicky então protestou: - Não, Mark, você não pode vendê-la. - Não? Rachel observava a casa. - Sei o que quer dizer. Mas quem a compraria? É tão grande. - E feia - retrucou Mark. Nicky parecia inquieto e ela lhe dirigiu um olhar reconfortador. - Feia, jamais! - Negou ela com voz firme. - Estranha até, mas nunca feia. Mark estacionou o carro em frente aos degraus que conduziam aos arcos do pórtico. Olhando para cima, ele sorriu. - Olhe lá! Olly está ansiosa para conhecê-la. Rachel seguiu seu olhar e avistou uma figura pequena inclinada na balaustrada de pedra. Com o sol se pondo atrás da casa, e a iluminação parca das lanternas penduradas de cada lado da porta polida, Rachel só conseguia distinguir o perfil pequeno como o de uma criança. Olly estava imóvel e observava o carro atentamente. Mark deu a volta e abriu a porta. Rachel desceu relutantemente. Nesse momento Olly começou a descer as escadas, tão rápido que parecia estar voando. Rachel esperava nervosa pelo encontro. Nicky se colocara de um lado dela e Mark do outro, com uma mão levemente pousada em seu ombro, como se esperassem um veredito. Olly parou subitamente e fitou-a. - Rachel. - Ao ouvi-la pronunciar seu nome, Rachel sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Olly então se aproximou deles, estendendo-lhes as mãos. Abraçou calorosamente Rachel, ainda surpresa com a simpática acolhida. Velha ou criança? No crepúsculo ela conseguia distinguir várias mechas prateadas caindo desordenadamente por sua testa franzina e ao mesmo tempo altiva. Pequena, frágil e elegante ao mesmo tempo, trajava um vestido azul-marinho, de golas e punhos rendados. Era uma figura adorável. Fitou Rachel nos olhos rapidamente, como se quisesse lê-los. Olly sempre achou que os olhos são as melhores testemunhas de uma pessoa, pois nunca mentem. Seus olhos eram tão iguais aos de Mark que Rachel prendeu a respiração. - Vamos ficar aqui parados a noite inteira ou vamos entrar? - O tom de Mark traduzia certa irritação, e Rachel assustou-se com a torrente de palavras que se seguiu àquele silêncio. - Robbins virá guardar o carro. Robbins, está aí? Ah! O carro, Robbins, e traga as malas, está bem? Venham todos vocês, vamos entrar. Devem estar cansados. Esperei-os muito tempo! Pensei que tivessem saído cedinho de Londres! Por onde andaram? Fez boa viagem, Rachel? Nicky, está com fome? Almoçaram? Pararam para almoçar, ou o carro quebrou? Muito trânsito? Rachel estava sem ar só de ouvi-la falar. As palavras saíam de sua boca sem parar, e enquanto falava Olly movia-se com a mesma rapidez, subindo a escada sem dificuldade e o menor sinal de cansaço. Mark interrompeu-a, a voz levemente indulgente. - Almoçamos no caminho, sim. É por isso que chegamos tarde. Nicky entusiasmou-se com algumas canoas em um lago em frente ao restaurante e insistiu para que Rachel o acompanhasse até uma ilha. Como não amarraram bem a canoa, ela deslizou e eles tiveram que esperar que o homem voltasse para pegá-los. Seu tom escondia a raiva que ele tinha sentido, Rachel bem o sabia. Quando eles finalmente conseguiram juntar-se a Mark, no restaurante, depois de quase uma hora, ele estava possesso. Rachel suspeitava que Nicky tinha feito aquilo de propósito, para mostrar ao pai do que era capaz. Mas se dera mal. Mark ficou tão bravo que fuzilara Nicky com o olhar. Rachel sabia que a raiva era dirigida também a ela. Mark pensava que ela queria segurar Nicky. A batalha silenciosa entre eles era desnecessária, mas ele não acreditaria se ela lhe dissesse isso. Mark no início a desprezara, tratando-a como uma caçadora de dotes. Agora parecia temê-la. O afeto que Nicky nutria por ela era o mesmo e isso o deixava preocupado. Estava tão certo de poder chutá-la da vida do filho que tentara suborná-la, seduzi-la, ameaçá-la, amedrontá-la, desmoralizá-la, enfim, perante Nicky, mas todos os seus esforços foram em vão. Entretanto, continuava empenhado em lutar contra o perigo que ela representava para seu filho. De certa forma, era lisonjeiro saber que ele a temia. Ele tinha percebido que não poderia dispensá-la com um simples levantar de ombros, como tentara. Ela já lhe dissera mais de uma vez que não pretendia se casar com Nicky, e ele não acreditara. Notara seu carinho pelo garoto e entendera-o à sua moda. O maior problema, pensou Rachel, era que aquela atitude irada fazia com que Nicky redobrasse o carinho que sentia por ela. O rapaz percebeu que seu pai queria competir e começou a se afastar dele. Mark teria sido mais inteligente se a tivesse ignorado, levando o filho diretamente para os Estados Unidos. O tempo se encarregaria do resto. Mas não, ele tentava jogar Rachel contra Nicky, mas o resultado estava sendo o contrário do que ele esperava.


Rachel seguiu-os até o grande hall, ao mesmo tempo surpresa e divertida com o que via à sua volta: cabeças de animais empalhadas, brasões, bandeiras desbotadas pendendo do teto, lâmpadas antigas, etc. Tudo parecia tão irreal que Rachel sorriu. Percebeu então que Olly olhava para ela. A velha senhora sorriu, com um brilho nos olhos azuis. - Querida, Nicky falou-me tanto de você! Rachel pensou no que Nicky lhe teria falado sobre ela e sorriu de volta. - Ele também me falou muito da senhora. - Todos me chamam de Olly. Espero que você me chame assim também, porque quero chamá-la de Rachel. É um nome adorável, e cai muito bem em você. - Obrigada - respondeu Rachel docemente. Olly dirigiu-lhe um olhar observador e logo virou-se para o filho, derramando outra sucessão de frases rápidas. Rachel não prestou mais atenção ao que ela dizia e dirigiu-se para uma lareira enorme, distraindo-se com o fogo. Depois de algum tempo, começou a sentir calor. Que desperdício de energia para tão pouca gente! Tanto dinheiro gasto para tão pouco tempo durante o ano! Irritava-a pensar naquilo. Nicky juntou-se a ela e disse: - Desculpe-me pela canoa, Rachel. - Esqueça. - Mark está furioso. Fui um idiota. - Bem... - Rachel riu e Nicky também. Um pouco relutante, tocou-lhe o rosto de leve. - Você não é rancorosa, Rachel. Logo esquece das besteiras que digo e faço. Ela se virou e encontrou o olhar frio de Mark. Olly dirigiu-se a ela. - É melhor que vá conhecer seu quarto, Rachel. Preskitt a conduzirá até lá. Onde está ela? Ora essa, aquela boba sumiu de novo! Ei, quem soltou os cães? Eu os tinha prendido na sala de estar! Os cães pulavam à sua volta, fazendo-lhe festa. Todos pareciam muito amigáveis. - Meus cachorros escoceses! Tenho três agora. Comprei dois porque eles precisam de companhia, acho judiação ver um cão sem companheiro. Ficam tristes e deixam de ser brincalhões. Bess teve quatro filhinhos, dei os outros três. Só sobrou Joey... - Devia ter dado Joey também - disse Mark secamente. - É pior que os dois pais juntos. As marcas de seus dentes estão por toda parte. Olly abaixou-se para colocar o cãozinho no colo. - Não resisti a Joey. É tão fofinho! - Fofinho, isso aí? - retrucou Mark. - Você não acha, Rachel? Rachel riu. - Tenho de admitir que sim. - Eu levo Rachel até seu quarto - disse Mark. Nicky ia protestar, mas Olly o deteve. - Por favor, querido, deixe-os, está bem? Senão seu pai vai ficar nervoso. Rachel seguiu Mark pela escadaria que levava até o segundo andar. O quarto, muito confortável e com vista para o jardim, era bem mobiliado e elegante. Mark apoiou-se na porta fechada e ficou observando Rachel. Por fim ela teve de encará-lo, e os dois se olharam desafiadoramente. - O que você pretende, Rachel? Ela arregalou os olhos. - Não estou entendendo. - Entende perfeitamente. Com uma mão você empurra Nicky, mas com a outra você o afaga. Qual é o seu plano em relação a ele? - Não tenho plano nenhum. - Ora, vamos, Rachel! Ela se encostou na cabeceira da cama de madeira trabalhada, o rosto imperturbável. - Você mesmo inventa os planos que imagina que eu faça. Já lhe disse várias vezes, estou cheia de bater na mesma tecla. - Está apaixonada por ele? - Já lhe disse que isso é um absurdo. - Já me disse isso. E a ele, já disse? - Já! - Mas ele não acredita! E, francamente, nem eu. Você diz uma coisa, mas faz outra. Pensa que eu não notei o modo como você o deixa tocá-la? - Aproximou-se dela. Rachel corou.


- Você faz tudo soar tão horrível! A maldade está em você, não em mim. Nunca deixei que Nicky fizesse amor comigo, se é isso que quer dizer. - Seu coração voltou a bater descompassado e sua vista se anuviou ao tentar encará-lo. - Uma mulher pode dizer não com convicção. - Você se recusa a entender. Não posso magoá-lo! - Por que não? - Mark deu mais alguns passos. Estavam cara a cara. A expressão dele era hostil. Rachel desviou o rosto, incapaz de encará-lo. - Não consigo machucar as pessoas. Ele segurou então o rosto dela com as mãos, apertando-o com força. - Eu gostaria de machucá-la, Rachel. É algo que cada vez mais quero fazer. Ela respirava com dificuldade, pois tinha a sensação de estar se afogando. - Largue-me, Mark. - Ponha mais convicção no que diz, mocinha - disse ele, curvando-se para alcançar os lábios trêmulos. Ela permaneceu quieta, a mão nos ombros dele, incapaz de empurrá-lo. Na verdade, lutava consigo mesma para não passar os braços em volta de seu pescoço moreno. Seus lábios tocaram os dela e Rachel começou a tremer, assustada com as próprias emoções. Ele a apertou contra si, e conforme seus corpos se estreitavam ela sentia um calor indescritível subir-lhe à cabeça. - Não - sussurrou ela, mas na verdade falava consigo mesma, temendo ser arrastada por aquele turbilhão de desejo. Mark olhou para ela com arrogância. - Seja convincente comigo também, Rachel. Ou você quer que eu lhe faça uma outra proposta? - Compre outra mulher para você, sr. Hammond. Esta aqui não está à venda. - E por acaso mencionei dinheiro? - Ele segurava a sua nuca debaixo dos cabelos e pressionava-a. - O que quer, Rachel? Tem de ser alguma coisa. Diga-me o que é. Basta me explicar o que quer. De repente, Rachel ouviu também as batidas do coração dele. - Eu quero você, Rachel - sussurrou Mark. Afundou o rosto em seus cabelos macios e beijou-lhe o rosto com raiva. O contato de seu corpo com o dela a impedia de reagir. Rachel começou então a tremer quando ele se inclinou para beijá-la novamente. Sentiu que se entregava de corpo e alma às suas carícias. Meu Deus, o que estou fazendo?, pensou. Que tipo de respeito Mark poderá ter por mim depois disso? Não lhe dissera uma palavra de carinho! Aqueles beijos eram apenas fruto de uma atração sexual mútua, nada mais. Ao se dar conta disso, Rachel empurrou-o e conseguiu escapar de seus braços. Mark lançou-lhe um olhar gelado, enfiando as mãos nos bolsos. - Uma nova variação? Seu jogo é estranho, Rachel. - Não quero nada do que possa me oferecer. - Pensou em todas as possibilidades? Não sou apenas rico, Rachel. Sou poderoso também. Poderia transformá-la numa cantora de sucesso! Ela sacudiu a cabeça. - Não estou interessada. - Droga, o que pretende então? - perguntou ele com raiva. - Nada que você possa me dar. - É Nicky? - Se você pensa assim... - Rachel queria que ele saísse do quarto. Sua presença a incomodava. - Mas ele tem apenas dezessete anos! Então você mentiu antes? Não pode se casar com ele! - Não pretendo me casar com ele. Mark fitou-a, em silêncio, por alguns instantes, a expressão como de hábito indecifrável. - Ele é seu amante? - Claro que não! - Rachel estava possessa. - Ele é um garoto charmoso e isso é tudo. - Mas então o que quer dele? - Pensa como uma máquina, sr. Hammond, um computador, não como um homem. Raciocina sempre em termos de lucros e perdas, e quando surge algo que não está na programação, fica no ar. Bem, desta vez não há lucro a considerar. Não falamos a mesma língua, e não quero continuar a discutir esse assunto com o senhor. Mark tirou uma das mãos do bolso e segurou seu queixo. - Se realmente não está atrás de Nicky, deixe-me fazer amor com você. - Mark a fitou e ela sentiu o sangue gelar. - Dizem que sou um bom amante - acrescentou friamente. - Tenho certeza de que não vai se queixar. Ela observou aquele rosto duro e sentiu que já estava a meio caminho de se apaixonar por ele. Não levaria muito tempo e ela estaria irremediavelmente apaixonada. - Deve fazer amor muito bem, sr. Hammond. Admito que me impressionei bastante com sua tática. Mas devo lhe dizer que o senhor não me agrada o suficiente para que eu possa concordar. O rosto dele se endureceu, seus olhos brilhavam de raiva. - Ora, sua... - Interrompeu-se e puxou-a violentamente contra seu corpo.


- Não, obrigada - disse ela, empurrando-o com força. - Uma vez já foi o bastante. Estava tão zangado que Rachel ficou assustada. - Você está me provocando, Rachel. Se persistir, sou capaz de enforcá-la com minhas próprias mãos! - Disso não duvido! - retrucou, irônica. - Violência deve ser o seu forte e não o amor. Isto está mais do que claro para mim. Seus olhos azuis a fuzilavam. Era visível sua luta para se controlar, pois estava possesso. - Não consigo seduzi-Ia, comprá-la, ameaçá-la. Está me forçando a considerar métodos menos civilizados, srta. Austen. Rachel encarou-o e disse: - Sua figura é patética, sr. Hammond. Está tão acostumado a fazer as coisas à sua maneira que, quando não consegue, comporta-se como uma criança. A provocação atingiu-o profundamente. Não disse mais nada e saiu batendo a porta. Quando Rachel desceu, mais tarde, encontrou todos no salão. Uma criada olhou-a, curiosa, enquanto Olly conversava alegremente, sem notar sua presença. O salão era magnificamente decorado. Ambreys não era uma casa, era uma demonstração do poder do dinheiro. Olly logo a viu e sorriu-lhe calorosamente. - Você chegou, querida. Nicky, pegue um drinque para Rachel. O que vai tomar, Rachel? Que vestido charmoso, está encantadora, não acha, Mark? - Encantadora. - Seu tom era obviamente irônico e Olly franziu o cenho. Nicky apressou-se em lhe entregar um Martini, visivelmente chateado. Ele se virou e fitou o pai. Mark esticou-se na cadeira e devolveu-lhe o olhar. Aquele foi o começo de uma noite que parecia interminável para Rachel. Mark tinha a intenção de insultá-la claramente. Cada palavra, cada gesto seu demonstrava seu ódio por Rachel. Provocou raiva em seu filho e deixou Olly aflita com essa atitude. Esse comportamento assustou Rachel. Ele se mostrara mais bem-educado anteriormente, mas agora parecia uma fera enjaulada. Assim agindo, punha a perder todo um trabalho de aproximação com Nicky que ele mesmo se propusera. Ficou aliviada quando pôde escapar para seu quarto. A atitude de Mark a havia desapontado; julgava que ele fosse mais esperto. Quando a porta se abriu ela se assustou, mas logo se acalmou: era Olly. Ela olhou para Rachel como se a analisasse. - Posso entrar, querida? - Por favor. - Rachel levantou-se, imaginando o porquê daquela visita inesperada. Mas logo concluiu que ouviria mais uma proposta para que saísse da vida de Nicky. Olly sentou-se e disse: - Sente-se aqui ao meu lado, Rachel. Ela obedeceu e as duas se olharam. - O que há de errado com Mark? - indagou Olly. Rachel sorriu. - Por que a senhora está me perguntando isso? Olly riu, cúmplice. - Sou apenas mãe dele. Nunca consigo a verdade da boca dele. - Pelo que Nicky me contou, ele a admira e respeita muito. - Quem, Nicky? - Ambos - respondeu Rachel. O rosto enrugado e suave parecia tranqüilo e amigo. - Vamos, querida. O que aconteceu entre você e meu filho? Ele mudou entre a hora de sua chegada e a que você desceu para o jantar. Rachel molhou os lábios nervosamente. - Nós... discutimos. - Serei franca com você. - Olly segurou suas mãos carinhosamente, fitando-a bem nos olhos. - Acho que posso ser bastante franca. Confio nos seus olhos, eles são límpidos e diretos. Se eu ofendê-la, espero que me diga. - Seus olhos pareciam penetrar Rachel no seu íntimo. - Quando ouvi falar de você pela primeira vez, chamei Mark imediatamente, e ambos chegamos à conclusão de que deveríamos eliminá-la. Rachel ergueu as sobrancelhas e Olly riu. - Claro, não do modo que você está pensando! Eu pensava que você era uma mercenária que tinha conseguido agarrar Nicky, e Mark foi vê-Ia para comprá-la, fosse qual fosse o preço. - Olly lançou-lhe um olhar malicioso. - Tive de fazer o mesmo com ele quando era jovem. - Mesmo? - Rachel arregalou os olhos, divertida. - Claro! Mark bancou o bobo uma ou duas vezes, e tive de livrá-lo de suas namoradas. Ele é atraente e teve muitos casos.


- Mas pensei que ele tivesse se casado jovem. - O casamento não acaba com essas coisas, Deus! Além do mais, ele se casou por conveniência. Não gostava de sua mulher, nem ela dele, e é por isso que raramente se encontravam depois que Nicky nasceu. Sua esposa ficou ressentida e passou esse sentimento para Nicky. - Nicky de fato guardava ressentimento do pai - concordou Rachel. - Mark é um homem estranho - observou Olly. - Foi um rapaz complicado e também muito precoce. Com dezoito anos já tomava conta de todos os seus negócios, o que não era fácil. Sentiu o gosto do poder muito cedo, e isso corrompeu sua inteligência. As mulheres, constantemente à sua volta, também contribuíram para isso. Ele é bruto e arrogante. - Seu rosto estampava uma certa melancolia. - Gosto muito dele, mas queria gostar um pouco menos. - Olly riu com suas próprias palavras. - Desejaria não sofrer tanto ao vê-Io tão diferente, tão duro. É por isso que quero Nicky junto de mim. Falhei com Mark, por isso não quero falhar com meu neto também. - Não falhou - assegurou-lhe RacheI reconfortadoramente. - Nicky é um rapaz adorável. Será um homem maravilhoso. Olly apertou suas mãos. - E se ele for para os Estados Unidos com o pai? Que efeito terá sobre o garoto? Justamente agora que está ficando adulto. A influência de Mark será muito negativa para ele. Nicky admira o pai, absorve tudo o que ele faz e diz, com extrema rapidez, e vai aprender a enxergar tudo através dos olhos do pai, o que não é bom. Mark vê tudo à sua moda, e sempre com pessimismo. Não me ocorreu que ele pudesse vir buscar o filho, pois sempre viveram longe um do outro. Na presença dele, algumas vezes Nicky já se comporta de maneira errada. Entende o que quero dizer, querida? - Está absolutamente certa - desabafou Rachel, ao vê-Ia traduzir seus próprios pensamentos tão bem. - Então você concorda? - Olly inclinou-se e beijou-a no rosto. - Estava certa ao vir falar com você. Estou tão feliz! Querida, a solução está em suas mãos. - Minhas mãos? - repetiu Rachel, assustada. Olly concordou com a cabeça. - Mark só vai levar Nicky para a América porque ele quer o filho longe de você. Se você sumisse, Nicky ficaria comigo. Rachel respirou profundamente. - Entendo. Quer que eu desapareça? - Completamente - concordou Olly, gentil. - Nicky vai procurá-la, claro, e é preciso que não a encontre. Rachel não sabia o que dizer. - Mas tenho meu emprego, meus amigos... - Não será por tanto tempo assim, e tenho um emprego ótimo para você. Um amigo meu tem um clube nas Bahamas, e sei que gostaria de uma cantora como você. Seria bem paga, claro. Não vai perder nada, posso lhe assegurar. Rachel pensou por um momento, baixando os olhos. - Eu irei. Olly fechou os olhos, tremendo. - Obrigada, querida. Agora, você não deve dizer nem uma palavra a eles sobre nossa conversa, certo? - Prometo. Olly sorriu. - Você é muito bonita. Não é à toa que Mark se preocupou com você. - Mark? O que a faz pensar assim? - O que você acha? - perguntou Olly, curiosa. - Ele me odeia. - Desde a primeira vez que ele se encontrou com você sentiu-se atraído, eu notei. Conheço-o bem para estar enganada. Você conseguiu deixá-lo louco de raiva. Apesar disso, toda vez que ele a mencionava eu percebia que ele estava atraído por você. Hoje à noite, ao vê-los, pude constatar isso. Não sei o que ele fez com você, mas conheço Mark o suficiente para dizer que você mexe um bocado com ele. Não consegue despregar os olhos de você! Nunca vi isso! Rachel corou abruptamente, seus olhos brilharam. - Mas sabe o que ele quer de mim? Sabe mesmo? - Não sou criança, Rachel. Ele quer que você se torne sua amante, é isso? - Olly percebeu o seu embaraço. - Já adivinhava. Quando Mark quer alguma coisa e não a consegue, ele fica assim violento. Não estou certa ao adivinhar que você negou? Ele não está acostumado e acho bom que isso lhe aconteça. Diga-me, Nicky já lhe pediu que se casasse com ele? - Várias vezes. - E obteve a mesma resposta que você deu a seu pai? - Claro! - Rachel olhou-a com impaciência. - Sra. Hammond, gosto muito dele, mas é apenas um garoto.


- E Mark? Rachel desviou o olhar. - Ele é detestável. - Foi difícil? - perguntou Olly repentinamente. - O quê? - Rachel não entendeu. - Dizer não quando na verdade queria dizer sim? Você quis dizer sim, não foi? - Desesperadamente - confessou Rachel, com o rosto entre as mãos. Olly abraçou-a e beijou-lhe a testa. - Minha querida, você é tão óbvia quanto Mark. Quando os vi juntos, percebi tudo. - Ela se levantou, bocejando. - Agora aproveite sua estada, Rachel! Cuidarei dos detalhes de seu novo emprego. Rachel dirigiu-lhe um sorriso triste. - Que poder tem o dinheiro! Coisas importantes são decididas num estalar de dedos! - Gostaria de poder ajudá-Ia mais, mas sei que recusaria, não? O sorriso de Rachel foi uma resposta clara.

CAPÍTULO VI Quando Rachel desceu para o café, na manhã seguinte, encontrou Mark sentado à mesa lendo o jornal, o que lhe tapava o rosto. Ela se serviu de tomates e ovos mexidos. Estava passando manteiga na torrada quando ouviu sua voz. - Desculpe-me - disse ele. - O que disse? Ele baixou o jornal, mostrando finalmente o rosto. - Você ouviu o que eu disse. - Não ouvi, não - retrucou ela, voltando a comer. O bacon estava sequinho e salgado, do jeito que ela gostava. - Quer que eu me ajoelhe? - Ele parecia ressentido por ter de pedir desculpas. Ela começou a pensar se Olly o forçara a isso. Seus olhos verdes brilharam. - Por favor. Após um breve silêncio, ele riu. Rachel ergueu os olhos para ele, o rosto relaxado, um sorriso nos lábios. - Ora, sua... Rapidamente ele se levantou, deixando o jornal cair e aproximando-se dela. Ajoelhou-se e juntou as mãos, o olhar suplicante. - Mea culpa! - Você merece um beijo no rosto. Ele alcançou uma de suas mãos e encostou o rosto delicadamente nela. - O que posso dizer? Nunca encontrei ninguém como você em toda a minha vida, Rachel. Não sei como lidar com você. Fico inteiramente perdido na sua presença. - Sua voz tornou-se repentinamente séria. - Não posso comprá-la, seduzi-la... Que vou fazer com você? - Matar-me, pelo jeito. - Bom, eu só estava testando você. Na verdade, não ia matá-la. - Não? -brincou, erguendo as sobrancelhas. - Você pertence a um mundo que eu jamais conheci, Rachel. Cheguei a uma conclusão sobre você. Quer saber qual é? - Terei de ouvi-la mais cedo ou mais tarde, por que não agora? - Rachel observava suas feições, fascinada. Quando estava de bom humor ele era charmoso demais. Seu sorriso à deixava maluca. - Você é uma pessoa desprendida, não é? Está aí uma coisa que eu demorei a aceitar. Pensava que, se insistisse, acabaria por descobrir algum interesse secreto... Fiquei pensando em você a noite toda, e de repente a resposta veio como um raio. - Ele a fitou solenemente. - Você não quer absolutamente nada. Rachel riu. - Parabéns! Finalmente a lógica venceu. Seu programador merece congratulações. Mark enrubesceu. - Mas como é que eu ia saber? Toda a minha vida fui cercado por pessoas que queriam arrancar alguma coisa de mim. Como podia adivinhar que justamente você era uma exceção?


- Posso voltar ao meu café agora? - perguntou Rachel calmamente. Mark pegou o jornal e voltou a seu lugar, abrindo-o com certa impaciência. Ela notou que ele se julgava muito generoso por haver lhe concedido desculpas e que se irritara por ela não reagir à altura de sua expectativa. - Bom dia! - cumprimentou-os Nicky. - Bom dia, Nicky - Rachel devolveu-lhe o sorriso. - Parece que dormiu bem. - Como um urso. - Ele beijou-lhe a testa levemente e sentou-se à mesa. Mark não tirava os olhos do jornal. Hoje vou levá-la para um longo passeio - disse Nicky. Nesse exato momento Mark abaixou o jornal. - Bom dia. Nicky fitou-o friamente. - Bom dia, papai. Ele o chamou assim de propósito e Rachel notou que ele ainda não tinha se conformado com o tratamento do pai na noite anterior. Mark levantou-se e saiu. - Desculpe-me pelo jeito que meu pai a tratou, Rachel. - Seu olhar era infeliz. - Ele está se comportando de uma maneira muito estranha. - Ele já pediu desculpas - apressou-se Rachel a responder. - Não quero que discuta com ele por minha causa, Nicky. Nicky não parecia convencido. - Ele pediu desculpas? - Não fique tão surpreendido! - Ela riu. - Sim, ele pediu desculpas, e veementemente! - Puxa, quem diria! Ele mal a conhece, Rachel. Saíram para passear. O sol estava alto e Rachel sentia os pés cansados de tanto andar. Nicky, porém, parecia disposto a continuar passeando com ela por todos os quartos e salas e pelos jardins, cada um diferente do outro. Os jardins eram separados uns dos outros ou por muros ou por cercas e trepadeiras. Um era chamado de Jardim Azul, pois suas flores eram todas dos mais variados matizes de azul. Mais adiante havia o jardim das ervas. Depois, outro com palmeiras e plantas exóticas, de clima mais quente. Sim, pensou ela, Ambreys era uma demonstração de luxo e dinheiro. Sentou-se exausta em uma pedra, massageando a barriga da perna dolorida. - Nicky, estou exausta! Tenho de descansar um pouco. Ele se sentou ao seu lado, esticando o corpo magro. - Mas você gosta de Ambreys? - Como poderia deixar de gostar? - Mas Mark quer vendê-la, você não ouviu? Eu amo Ambreys - confessou Nicky infantilmente. - É o meu lar. - Pobre Nicky! - brincou Rachel e ambos riram. Ficaram em silêncio por alguns momentos, aproveitando o calor da manhã ensolarada. Uma brisa suave trazia o perfume das flores até eles, e um passarinho cantava sobre um muro de pedra, saudando aquele momento. - Poderia ficar aqui o dia todo - disse Rachel de olhos fechados. Nicky, no entanto, parecia indócil. - Venha, quero lhe mostrar os estábulos agora. Ainda não viu meu cavalo. - O que é ter dezessete anos! - exclamou, admirada. - Do jeito que você fala, parece ser terrível ter vinte e cinco anos! - Acredite-me, parece que corri dez quilômetros! Nicky apoiou o cotovelo nos joelhos, fitando-a. - Você está linda, Rachel. Rachel olhou para o seu vestido verde. - Obrigada, Nicky. - Olly e eu discutimos ontem à noite. Ela parecia determinada a não me deixar ir para os Estados Unidos com Mark. Fiquei surpreso, não sabia que ela fazia tanta questão de minha presença. - Seus olhos demonstravam incerteza. - Ela é velha, Rachel, jamais deixaria Londres. Quer que eu fique com ela. Nunca havia pensado nisso. Se eu for, acho que ela vai sentir minha falta. - Terá de tomar uma decisão, Nicky - observou Rachel. - Logo fará dezoito anos. O que quer fazer? - Não sei. - Ele suspirou fundo. - Gostaria de ir com Mark, mas não quero deixar Olly. O que faço? - Siga seu coração - respondeu Rachel, calma. - É o guia válido. Olly o criou e é compreensível que ela sinta sua falta. Nicky assentiu. Sua boca tremia levemente. - Mark é legal, mas... - Ele se interrompeu, e ela esperou pacientemente até que ele se decidisse a falar. Ele não é legal sempre. Ele é um cara duro, muito duro. Veja como ele se comportou com você. Não gostei. Não parece ver as coisas do jeito que eu vejo. - Nicky falava devagar, explicando o que sentia tanto para ela como para si próprio.


- Ele é mais velho - lembrou Rachel. - Vive em uma selva. Talvez tudo o que ele entenda sejam as leis da selva. Talvez seja inteligente de sua parte conhecer essa selva, Nicky, ou talvez não. Acho, porém, que devia conhecê-la o bastante para não se perder nela. Nicky sorriu. - Entendo o que quer dizer. Talvez eu fique com Olly por mais algum tempo e visite Mark mais tarde. - Sim, quando você for mais velho e mais experiente - sugeriu Rachel, aliviada. - Você será capaz de sobreviver na selva daqui a alguns anos sem contrair nenhuma doença incurável - acrescentou. - Como Mark? - ele perguntou, o olhar firme. - Creio que sim, Nicky. Ele a enfrentou muito cedo, e ficou marcado por ela. Nicky assentiu, sorrindo levemente. - Venha, vamos aos estábulos. - Se eu puder ir até lá. - Rachel levantou-se. - Pobre senhora! - brincou ele, e Rachel se surpreendeu com o seu tom. Ela não demonstrou surpresa, mas admitiu que talvez a partir de agora ele abandonasse a paixão que sentia por ela. Parecia que finalmente Nicky estava pensando por conta própria, pois fora de muito bom senso sua decisão de ficar com Olly. A influência exagerada de Mark começava a se desvanecer à medida que Nicky notava a freqüente brutalidade do pai, sobretudo em relação a ela. Nicky inclinava-se mais para o lado de Olly, pensou aliviada. Mais tarde, quando almoçavam, Mark sugeriu um passeio de carro pelo campo. Nicky ficou feliz com a idéia, mas Olly fez outro convite. - Nicky, você vem comigo visitar os Palfrey? Prometi a Jane que você iria. - Jane Palfrey! - Nicky parecia desgostoso. - Meu Deus, Olly, ela é o fim! - Mesmo assim, Nicky, os Palfrey sempre foram gentis com você, e está na hora de lhes fazer uma visita. Nicky olhou para Mark e Rachel desconsoladamente, mas acabou concordando e saiu com a avó. Mark sorriu. - Os Palfrey são velhos amigos da família. - E Jane é uma garota jovem e mais apropriada para Nicky? - perguntou Rachel. - Você se aborreceria se eu dissesse que sim? - Nem um pouco. Nicky se casará quando estiver apto para isso. - Pronta para o passeio? - perguntou Mark, levantando-se. Os campos estavam verdes e no ar já se sentia o cheiro de verão. O silêncio era total. Só se ouvia o canto dos pássaros. Mark estacionou o carro no alto de um morro de onde se descortinava uma vista magnífica. Desceram e andaram até um carvalho, sentando-se para admirar a paisagem. Ali, protegidos do sol, podiam ver rebanhos de ovelha pastando pacificamente. Rachel colheu alguns lírios e começou a fazer um colar com eles, emendando os cabinhos. Mark sentou-se, abraçando os joelhos com as mãos entrelaçadas. - Você nunca me falou de seus pais - disse ele. - Eles morreram. Pouco me lembro deles. Na época desejei ser ainda menor, pois não sentiria tanto. Hoje, porém, fico feliz por ter na época idade suficiente para não me esquecer deles, pois a perda me deixou muito só. Assim, desde cedo aprendi a me virar sozinha. Foi quando comecei a procurar por mim mesma. - E você se achou? - Sim, claro. - E quando foi isso? Ela sorriu. - Tinha dezoito anos. - A idade de Nicky. - Exatamente. - E o que aconteceu? Uma desilusão de amor? - É, uma história muito comum. - Um homem mais velho? - E ainda por cima casado e com filhos. Como disse, uma história comum. Depois de saber de tudo me senti traída e completamente perdida. Foi aí que vi que teria de resolver tudo sozinha. Derry não me ajudaria, e eu não poderia contar com os pais dele. Acabei me virando. Mark olhava para o vale onde telhados vermelhos de uma vilazinha brilhavam ao sol. - Por que não me disse isso antes? Ela terminou de fazer o colar, erguendo-o com uma das mãos e admirando as flores amarelas. - Você não me teria ouvido e muito menos acreditado. Ele se virou para ela com uma expressão sombria. - Deus, fui um cego! Desculpe-me, Rachel! Meu próprio filho conseguiu vê-Ia como você é antes de mim! Rachel sorriu, calma. - Nicky estava enfeitiçado por mim. Na verdade ele também não me viu direito.


- Você fala como se isso fosse passado. - E é. Nicky já começou a se libertar de mim, pode estar certo. Ele está crescendo e aprendendo a usar sua própria cabeça. Não precisa mais se preocupar tanto comigo, palavra. Ela se levantou e ele a imitou, olhando-a com uma expressão estranha. Mark parecia imerso em pensamentos. Rachel olhou para o colar e, num impulso, colocou-o à volta do pescoço dele. - Aí está um colar real! Ele não riu, apenas fitou-o, e Rachel corou inexplicavelmente. Virou-se e dirigiu-se até o carro. Mark fechou a porta e deu a volta, sentando-se a seu lado, olhando para as próprias mãos no volante, sem ligar o motor. - E já se apaixonou depois daquela primeira vez? Aquela pergunta pegara Rachel desprevenida, e ela baixou os olhos, sentindo seu rosto pegar fogo. - Não - respondeu, com um esforço enorme. Mark ligou o carro e seguiu pela estrada de volta. Ambreys apareceu então à frente deles como um sonho. - Nunca estive apaixonado em minha vida - falou Mark subitamente. Rachel tremia, mas procurou recompor-se. - Que vida vazia, sr. Hammond! - Não sei nem se acredito nesse amor de que você fala. Ela sacudiu os ombros. - Você precisa senti-lo para acreditar nele. Ele estacionou o carro e ambos desceram. Mark porém a deteve antes que subisse as escadas, segurando-a levemente pelo braço. - É por isso que não me quer como amante? Está à espera de um amor? - É. Por favor, solte-me! - Está mentindo. Você me quis, não é? Ela o olhou, tremendo. - Sim - confessou, o coração batendo. - Eu realmente o quis. Agora vamos esquecer isso? Ele franziu o cenho e soltou seu braço, deixando-a se afastar. Olly e Nicky voltaram de sua visita aos Palfrey às gargalhadas. Nicky começou a lhe contar tudo o que acontecera assim que a encontrou. Jane Palfrey, segundo ele, era uma devoradora de homens. - Ela é insaciável, não é mesmo, Olly? Imagine, não despregou os olhos de mim, como se estivesse me comendo! E que olhos! Fiquei terrificado. Mais pintados, impossível! Dois dedos de espessura daqueles cremes coloridos! Alguém deveria orientá-la para tirar metade daquele troço. Olly também se divertia, porém mais contida. - Suas sardas pelo menos sumiram, já é alguma coisa. - E aqueles jeans! Ela mal se movia dentro deles! Ela simplesmente desapareceria perto de você, Rachel, sempre fantástica. - Mas não tenho dezessete anos! - retrucou ela, divertida. - Se você me visse nessa idade, cheia de sardas e maquilada também, não me reconheceria! Mark entrou na sala enquanto eles riam, sem o colar de lírios no pescoço. Provavelmente o jogara em algum cesto de lixo. - Convidei os Palfrey para jantar - disse Olly. - Que Deus nos ajude! - Nicky ergueu os olhos para o céu e sua avó sacudiu a cabeça. - Faça o favor de se comportar bem com Jane, querido. - Se for preciso... - disse ele e saiu para se trocar para o jantar. - Gostou do passeio? - perguntou Olly. - Foi lindo! - respondeu Rachel, devolvendo-lhe o sorriso amigável. - E Jane Palfrey, é tão horrível quanto Nicky descreve ou ele está exagerando? - Está exagerando. - Olly riu. - Pobre Jane! - brincou Rachel. Depois que Olly saiu Mark dirigiu-se a ela, as mãos nos bolsos. - Vou jantar fora. Os Palfrey virão hoje? - Não, virão na quinta-feira. - Então diga a Olly que fui jantar fora, está bem? - disse e saiu bruscamente. Olly não pareceu surpresa ao saber que Mark saíra. Foi um jantar alegre, pois Nicky estava mais do que nunca extrovertido e brincalhão. Mais tarde, Olly foi até o quarto de Rachel, avisando-a de que já falara com seu amigo de Bahamas. - O emprego é seu a partir da próxima semana. Sua passagem será computada como um adiantamento do salário. - Olly disse-lhe a quantia e Rachel assentiu. O salário era maior do que o do Harém. - É satisfatório, querida?


- Muito - respondeu Rachel. - Ótimo. Nicky resolveu ficar em Londres. Tenho certeza de que Mark aceitará isso. - Uma vez que eu esteja fora da jogada... - disse Rachel com uma certa melancolia. - Isso é essencial, querida - concordou Olly. - Na verdade, vou me divertir. Todo aquele sol e calor! Não me acostumarei de novo com Londres! - Você tomou uma atitude sensata - disse Olly. - Enquanto estiver lá, gostaria de lhe escrever, contando-lhe como Nicky vai indo. - Claro! Vai ser ótimo. Depois que Olly saiu, Rachel deitou-se no escuro, perguntando-se por que sentia tanta vontade de chorar. Não tinha nada a ver com deixar Londres ou Nicky, era Mark. Seria absolutamente inviável, no entanto, que ela deixasse Mark abalar seu coração. Era incapaz de amar, ele mesmo confessara. Nos dias seguintes ela pouco se encontrou com Mark. Todos os dias saía com Nicky para passear bem de manhã. Seu cavalo pampa era realmente belo, bem adestrado e dócil. O que ela montava não era tão bonito, mas também era manso e macio no trotar. Na noite em que os Palfrey vieram jantar, Nicky estava particularmente espirituoso. Jane Palfrey usava realmente muita maquilagem. Era morena, de olhos negros e muito grandes. Rachel divertia-se ao perceber que, apesar de provocá-la, Nicky gostava dela, sobretudo ao ver que a garota se ressentia com a atitude dele. Procurava entretanto se conter educadamente. Depois do jantar Olly, Mark e os pais de Jane foram dar uma espiada na casa, e Rachel saiu discretamente, deixando os dois jovens a sós. Estava prestes a subir as escadas quando ouviu um barulho e uma exclamação de descontentamento. Virou-se e avistou Nicky com o cesto de papel na cabeça, e Jane que se retirava, de nariz empinado. A garota sabia se defender! Rachel tapou a boca para não rir, e assim que se encontrou com Olly relatou-lhe acena que presenciara. Ambas riram muito. Quando todos se reuniram novamente na sala de estar, Nicky estava sombrio como o pai, e Jane é quem se divertia. Nicky sentou a seu lado impetuosamente e Rachel mal conteve o riso. - O que há de engraçado? - perguntou ele, chateado. - Nada - respondeu Rachel, recompondo-se. - Absolutamente nada. Nicky a observou e ela desviou o olhar, mordendo os lábios. Mark olhava para ela e Rachel corou. Nicky levantou-se, saiu e Jane aproximou-se dela, curiosa. - Vi o que fez com Nicky - disse Rachel e riu. - Ele mereceu. Jane riu também, embora timidamente. - Bom, eu não agüentava mais as provocações dele! Estava cheia de seu ar de superioridade, só porque ele... - Ela se interrompeu, corando. - Por que ele o quê? - perguntou Rachel. - Bem, ele está muito orgulhoso por ter uma cantora como namorada - disse a garota. - Namorada? - Rachel riu. - Não sou sua namorada. Somos apenas amigos. Jane relaxou na mesma hora. - Verdade? Então estou mais feliz ainda por ter jogado aquele cesto na cabeça dele. - E eu também - retrucou Rachel e ambas riram. Na manhã seguinte, ao descer, Rachel encontrou-se com Olly tomando café sozinha. - Bom dia, minha querida. Temo que ficará sem Nicky esta manhã. Ele foi até a casa dos Palfrey, provavelmente para tomar satisfação com Jane, e Mark foi para Londres a negócios. Rachel ficou chocada ao ouvir a segunda notícia e apressou-se a disfarçar. - Pobre Jane! E a senhora não lhe telefonou, avisando? - Claro que não! - Olly riu. - Será mais divertido para Nicky pegá-la de surpresa. Ele está ansioso por uma revanche. - E Jane também! - Rachel contou-lhe o que Jane lhe dissera na noite anterior. - Então Nicky andou inventando coisas! Merece uns tapas! - Olly riu e ambas continuaram a conversar e a tomar café animadamente. A certa altura uma idéia ocorreu a Rachel. - Acabo de pensar algo. E se eu me for agora? É o momento ideal. Tenho tempo suficiente para fazer minhas malas em Londres e voar para as Bahamas antes que Nicky volte para lá! - Já? Você é quem sabe, querida. Ficaria feliz em tê-la comigo mais este fim de semana. - Adorei ter ficado aqui, mas tenho muito o que fazer em Londres, e Nicky fatalmente descobriria os novos planos se estivesse lá. Tenho de ver meu primo e falar com ele. Terá de arrumar outro emprego. - E será difícil para ele? - Olly franziu a testa. Rachel sacudiu a cabeça. - Absolutamente. Ele é um bom pianista, e é bastante conhecido na noite. Já recebeu várias ofertas antes e não aceitou por minha causa. Tenho certeza de que encontrará algo, até melhor. - Maravilhoso. - Olly inclinou-se para ela, fitando-a. - Se está decidida a ir, posso pedir o carro quando quiser.


Rachel respirou profundamente. - Às onze, está bem? Tenho de arrumar minhas coisas. - Perfeito. Fiquei muito feliz em conhecê-la, Rachel. Espero encontrá-la novamente. Às onze em ponto o carro estacionava à frente do casarão e ela se despediu de Olly. Ao entrar no carro não olhou mais para trás, procurando se distrair com a paisagem verde que se descortinava à sua volta. Jamais se encontraria com Mark Hammond novamente e era bom que se acostumasse com a idéia.

CAPÍTULO VII Derry estava incompreensivelmente tenso na manhã seguinte, quando se encontraram para almoçar. À primeira vista Rachel pensou que ele estivesse chateado pelas novidades que ela lhe contara por telefone, mas depois notou que algo mais o incomodava, e não tinha nada a ver com ela. - Claro que não me importo - disse ele. - Não? - Rachel parecia tão surpresa que ele esclareceu: - Não é isso, querida. Sentirei sua falta, lógico, mas não quero atrapalhar você, de jeito nenhum. Você sabe que posso arrumar outro emprego facilmente, Rachel. - É verdade. Mas depois de tanto tempo juntos, sinto culpa em abandoná-lo. - E por quê? - Derry não a encarava, como se estivesse embaraçado por algum motivo. - Não somos siameses, não é? - Claro. - Rachel estava curiosa para saber o que se passava em sua mente, mas conhecia bem Derry. Ele devia ter se metido em alguma, mas como sempre resolveria o caso sozinho, sem dizer uma palavra a ninguém. - Espero que tenha muito sucesso por lá. - O rosto de Derry se desanuviou, e ele sorriu, alegre. - Todas aquelas praias e o sol! Vai ser ótimo! - Estou indo trabalhar, Derry! Bem, na verdade, estou louca para ir à praia, também. Derry lançou-lhe um olhar provocador. - Quer dizer que os Hammond finalmente se livraram de você? E por um preço barato, pelo jeito. Rachel enrubesceu. - Eles não me compraram, Derry! Na verdade, Mark Hammond não teve nada a ver com isso. Ele nem ao menos sabe que estou partindo. Sua mãe conversou comigo, e com muito tato; não fizemos nenhum trato, foi um acordo mútuo. Nós duas chegamos à conclusão de que seria muito bom para Nicky se eu saísse de sua vida por algum tempo. - Imagine! - exclamou Derry, cínico. - O que Mark Hammond tentou à força, a mãe conseguiu de você educadamente. - Seus olhos a observavam atentamente. - Você disse que ele não sabe que está indo para as Bahamas? - A mãe prometeu-me que não lhe contaria. - E você acreditou? Rachel encarou-o, firme. - Você não a conhece, Derry. É honesta. Gostei dela. - E pelo jeito gostou de Mark também, não foi? - observou maliciosamente. - Não está sendo simpático, Derry - disse Rachel. Ele a abraçou. - Desculpe-me, Rachel. Devia ser fuzilado, eu e minha língua! Esqueça o que falei. E se Mark Hammond vier aqui à sua procura, mostrarei a porta de saída. - Obrigada - disse ela. No íntimo sabia que ele não a procuraria mais. Nicky estaria a salvo, e era isso o que importava. Na manhã seguinte ela voou para as Bahamas. Derry levou-a ao aeroporto. Estava lá, passando pelo controle, quando ele lhe sorriu, maroto, falando baixo: - Não se preocupe, querida, darei um susto nos Hammond. Eles vão pagar o que fizeram para você! - O quê? - Rachel estava completamente assustada com o que ouvira. - O que você... - Vai perder o avião, Rachel - interrompeu-a, beijando-a no rosto e empurrando-a pelo portão. - Boa sorte! A última chamada já fora feita, e ela teria de ir mesmo. Virou-se e dirigiu-se para o avião com relutância, preocupada com o que ele insinuara. Derry deveria ter aprontado alguma para ganhar dinheiro, e ela esperava que não fosse nada desonesto. Quando desembarcou era hora do almoço. Acertou seu relógio, atrasando-o as quatro horas necessárias. Sentia-se bastante cansada, e pensar que era hora do almoço, quando já tinha almoçado no avião há tempo,


deixava-a confusa. Estava pegando sua bagagem quando ouviu seu nome sendo chamado à recepção do aeroporto. Dirigiu-se então para lá. Um homem de chapéu claro e roupas leves estava à sua espera, um largo sorriso no rosto negro. - Srta. Austen? Sou o motorista do Orioca. Bem-vinda à ilha. Deixe-me carregar sua mala. Enquanto se dirigiam para o carro ela olhava à sua volta, observando os rostos estranhos, o céu azul e o calor que provocava uma leve sonolência. Tudo lhe parecia muito diferente. Rachel sentiu-se um pouco intimidada. - Fez boa viagem? - perguntou-lhe o motorista, interrompendo-lhe os pensamentos. Ligou então o carro, pondo-o em movimento e olhando-a por sobre o ombro. - Foi um pouco cansativa - confessou Rachel, sorrindo. - Veio cantar? - continuou ele, guiando com destreza pela estrada empoeirada. - Sim. - Rachel observava as árvores exóticas e a vegetação farta às margens da estrada, sombreando o caminho das pessoas, todas elas vestidas com roupas de algodão coloridas. Durante o trajeto até o clube Orioca, o motorista veio conversando alegremente, e ela se sentiu relaxada por contar com sua companhia. - Vai gostar do sr. MacIntyre. Todos gostam dele, principalmente as moças! - Mesmo? Ele riu, virando à esquerda e estacionando junto a um grande casarão térreo, rodeado de palmeiras. Era bastante novo e, no jardim recém-plantado, havia flores-exuberantes e coloridas. O motorista despediu-se dela, ajudando Rachel a descer do carro com a mala e partindo logo após. Ao se virar, Rachel notou que um homem passava pelas portas duplas de vidro e caminhava em sua direção, um sorriso estampado no rosto. Ele apertou-lhe a mão calorosamente e observou-a com atenção. - Srta. Austen? Sou Ian MacIntyre. E um prazer tê-la conosco. Bem-vinda ao Orioca e à ilha. - Obrigada. Estou feliz em pisar em terra firme novamente! Estava bastante enjoada ao desembarcar. Ele riu, simpático. - Você parece estar ótima. - Seus olhos a examinaram mais uma vez. - Olly me disse que era bonita, mas não pensei que fosse tanto. Se canta tão bem quanto ela me assegurou, é um tesouro raro! - Obrigada. - Ela corou, olhando para a sua mão ainda presa à dele. - Vai soltar minha mão? Preciso dela, sabe. - Desculpe-me. Fiquei totalmente fascinado! Venha para o seu chalé. Todos nós aqui moramos em chalés ao lado do clube. É melhor porque podemos preservar nossa intimidade e descansar mais à vontade nos dias de folga. Ele a segurou pelo braço, conduzindo-a para outra direção. - O clube fica aberto os sete dias da semana, mas você não tem de trabalhar aos domingos, a não ser em ocasiões especiais e aí você acerta as contas separadamente. Mas isso depende exclusivamente de você. Se quiser, terá de tratar com a pessoa interessada e não comigo. - Você é o gerente? - E dono - acrescentou ele. Rachel olhou para ele, desconfiada. Seu comportamento era tão amigável que ela se surpreendeu ao saber que ele era o dono. Devia ser bastante rico, embora não demonstrasse, pois Orioca parecia um lugar para turistas, era luxuoso e bem equipado. - Na verdade, não sou o único dono - continuou ele. - Olly tem um quarto de tudo. - Olly? - Rachel surpreendeu-se novamente. - Sim. Não sabia? Rachel sacudiu a cabeça. Olly pouco lhe falara sobre isso. O que ela teria dito a Ian MacIntyre? Quanto ele sabia da história? Ele parecia não saber de nada. - Mark Hammond tem algo a ver com este lugar também? - perguntou ela. - Mark? Não! Nunca faria negócios com ele, é muito linha-dura para o meu gosto! Ambos riram e ela se convenceu de que Olly não tinha mentido para ela. Ian parou à porta de uma casinha encantadora, destrancando-a. Entregou-lhe a chave e curvou-se cerimoniosamente. - Seu lar nesses próximos meses, srta. Austen. - Ele esperou que ela entrasse e a seguiu, carregando a mala. Rachel olhava à sua volta, interessada e gostou. O chalé era dividido em pequenas peças: sala, quarto e banheiro. Junto à sala havia uma quitinete bem aparelhada e os móveis eram modernos e práticos. - Estou fascinada - confessou ela. - É lindo. Ian MacIntyre observava-a, deliciado. - Rachel Austen. É um nome muito bonito. Rachel... Posso chamá-la assim? Ou prefere ser tratada formalmente? - Rachel está bem - respondeu ela.


- E Ian está bem - acrescentou ele, os olhos castanhos brilhando. Dirigiu-se para a porta. - Bem, descanse um pouco e depois venha jantar conosco. O jantar é entre oito e nove e meia, está bem? - Obrigada. - Ela se sentia exausta e ansiava por uma cama e um bom sono. - Amanhã estará completamente restabelecida. Essa diferença de horário deixa qualquer um maluco! - E quando começo a trabalhar? - Primeiro você tem de se alimentar! Amanhã gostaria de ouvi-la, para ter uma idéia do que canta, e depois poderíamos discutir o seu repertório. Vou apresentá-la aos outros artistas também. Tenho um conjunto, algumas dançarinas e um comediante. Todas as noites temos casa cheia. Assim que ele saiu, Rachel tirou os sapatos, deitando-se na cama limpa. Sentiu-se aliviada e ao mesmo tempo estranha. Há alguns dias estava em Ambreys, e agora a muitos quilômetros de lá, no outro lado do mundo. Seus olhos se fecharam de cansaço, e em pouco tempo dormia profundamente. Quando acordou já estava escuro. Havia um barulho distante de vozes, risos e música, misturados com o balançar dos galhos das árvores à volta do chalé. Ficou deitada ainda por algum tempo. Sentia-se meio sonolenta. Finalmente levantou-se, acendeu a luz e foi ao banheiro. O chuveiro deixou-a revigorada. Para vestir escolheu uma saia estampada e uma blusa branca. Dez minutos mais tarde, transpunha a porta de vidro do clube, um tanto incerta. Não sabia para onde se dirigir quando Ian MacIntyre surgiu à sua frente. - Parece bem mais disposta! Dormiu bem? - Tão bem que estou faminta! - brincou Rachel. - Não me surpreende! São quase nove horas! - Ele segurou-a pelo braço. - Venha, quero lhe mostrar a mesa dos contratados do clube na sala de jantar. A sala de jantar era elegante e espaçosa e lá se encontravam muitas pessoas. Riam e conversavam ruidosamente. Ian conduziu-a até uma mesa grande, onde três homens tomavam café. - Rachel, este é Brad West, nosso comediante; Tony Carter, do conjunto, e aqui está o baterista, Peter Shaw. Os homens olharam com interesse e Rachel sorriu. - Ian esqueceu-se de dizer que eu toco guitarra e canto - disse Tony. - É verdade que sou meio rouco. Peter ergueu as sobrancelhas, fitando-a. - Você vê? Ciúmes! Ele já percebeu que deve cantar maravilhosamente bem, senhorita. - Bateu então nos ombros de Tony e disse: - Vamos, Tony, você não poderia fazer nada se ela não fosse uma moça bonita e agradável. - Realmente bonita - interrompeu Brad, fitando-a provocativamente. - Podemos nos encontrar depois? Rachel riu. Estava gostando de seus novos companheiros, pareciam bastante simpáticos. Peter era um jovem, de seus vinte anos, magro, cabelos ondulados e olhos azuis. Brad era pelo menos dez anos mais velho, e Tony estava entre os dois. Rachel começou a se servir de salada quando eles se retiraram, e Ian explicou-lhe diversas coisas sobre o clube e seu trabalho. O clube oferecia a seus sócios várias modalidades de esportes e a praia ficava a cinco minutos dali. Os sócios dispunham também de piscina, se quisessem, sauna e ducha. À noite contavam com um restaurante, bar, uma discoteca com música de fita e uma boate. - Procuramos oferecer aos sócios o melhor possível, Rachel. E quando você estiver de folga, pode dispor de tudo o que o clube oferece a seus sócios. - Ótimo. Adoro nadar. - Você nada bem? - Razoavelmente. - Tem que ser melhor que razoável para nadar aqui - disse ele, sério. - Tenha cuidado. Eu mesmo a levarei nas primeiras vezes, está bem? - Está bem. Prometo que tomarei cuidado. Ian era um homem agradável, sincero e digno de confiança. Sua voz era grave e Rachel logo percebeu que se daria bem com ele. Depois da experiência que tivera com Mark Hammond era um conforto poder conversar com um homem que a tratava como um ser humano, não como um objeto. Ele a acompanhou até o chalé. A noite estava quente e o céu estrelado parecia um véu brilhante envolvendo o clube e os jardins. - Espero que se dê bem conosco, Rachel - falou Ian suavemente. - Tenho o pressentimento de que será um sucesso entre nossos freqüentadores. Você é dona de uma personalidade forte e surpreendentemente simpática, sem nunca ser vulgar. Tivemos problemas antes com moças dispostas a agarrar dinheiro ou maridos, e isso era terrível! Tenho certeza de que você não se enquadra nessa categoria. - Estou aqui somente para trabalhar - enfatizou Rachel, sorrindo. - Não tem por que se preocupar. Ela abriu a porta do chalé e acendeu a luz. Ian então se despediu:


- Boa noite, Rachel. Gostaria de ouvi-la cantar amanhã às dez da manhã e também dar uma olhada em seu guarda-roupa, se não se importar. Prefiro cuidar dessas coisas pessoalmente, pois assim tudo ficará sempre personalizado neste clube, não acha? - Claro. - Ela entrou e despediu-se. - Boa noite! Assim que fechou a porta, suspirou. Estava se sentindo cansada novamente, e a cama parecia convidativa. Alguns instantes depois mergulhava em sono profundo. Sob o sol da manhã o clube lhe pareceu mais diferente do que nunca, com todas aquelas plantas exóticas, as trepadeiras abundantes e verdes, as flores desconhecidas e de aroma acentuado. Tudo parecia exuberante! Havia outros chalés branquinhos, cercados de árvores e jardins, naquele lado da sede. Do outro lado os gramados se estendiam até um mar azul e cristalino. Alguns hóspedes se divertiam em uma piscina e, de onde estava, Rachel divisava guarda-sóis coloridos e alegres, prova de que a praia estava cheia. Quando se encontrou com Ian já começava a se sentir familiarizada com o lugar, pois passeara bastante pelos arredores. Ian estava com Peter à sua espera, as venezianas fechadas para que o sol não os incomodasse. A temperatura amena relaxou-a ainda mais. Fazia calor lá fora, e os ruídos de água e risos da piscina chegavam até seus ouvidos. Peter começou a tocar o piano e Rachel cantou, virando-se instintivamente para ele, procurando não se intimidar com a presença de Ian. Peter parecia apreciar sua companheira e conseguia acompanhá-la com firmeza. Quando terminou, ela se virou para Ian, fitando-o com os olhos ansiosos. Ele se aproximou e beijou-a na ponta do nariz. - Preciso escrever para Olly, agradecendo. Ela me mandou uma verdadeira jóia. Rachel deixou escapar um suspiro de alívio e ele ergueu as sobrancelhas, estudando-a. - Você não estava nervosa, estava? - Terrivelmente. - Mas, minha querida, você canta bem demais para ficar nervosa assim! Desde quando você disse que canta? - Desde que tenho dezesseis anos, mas isso não faz diferença. Cada vez que tenho de enfrentar uma audição fico assim aflita. Sempre foi assim! - Pois eu tenho certeza de que esse público vai amá-la! Logo vai se sentir à vontade. - Ele sorriu para ela reconfortadoramente. - Quem diria! - Peter bateu as duas mãos no piano, surpreso. - Pobre Tony! Vai perder a freguesia. - Tony tem seu público próprio, e para ele não fará diferença - retrucou Ian calmamente. - Seu modo de cantar é diferente e quem gosta dele vai continuar gostando. A presença de Rachel não vai alterar nada. Ambos farão sucesso. Aquilo confortou Rachel, pois desde que Tony mencionara que cantava no conjunto ela se sentira como uma intrusa, roubando seu lugar. Começava a perceber que todos estavam brincando, e que ela não deveria se preocupar. Em sua primeira noite como cantora estava com os nervos à flor da pele, os olhos brilhantes, as faces afogueadas. Ian colocou um braço à sua volta. - Vamos, relaxe! É uma ordem. - Certo, chefe! - Rachel riu, olhando-o com simpatia. Ela gostava muito dele e percebera que todos no clube o apreciavam. Ian tratava todos muito bem; a honestidade e a franqueza estavam estampadas no rosto dele. Tinha autoridade e sabia usá-la, jamais abusando de sua posição. Ninguém discutia com ele, pois Ian era extraordinariamente calmo e polido. Era um homem com tanto magnetismo quanto Mark Hammond, embora fosse o oposto no seu modo de agir. A apresentação de Rachel foi fantástica. Ian parecia extremamente feliz. Veio cumprimentá-la, entusiasmado, beijando-a no rosto. - Sabia que seria um estouro! Ele pediu champanhe e todos comemoraram a estréia, divertindo-se a valer. Em poucas semanas Rachel estava totalmente familiarizada com o lugar, mantendo seu próprio ritmo. Gostava de acordar cedo todas as manhãs para ir à praia quando ela estava ainda vazia, e deliciava-se com as gaivotas e a imensidão azul daquele mar. Nunca morara em um lugar tão belo quanto aquele, e queria aproveitálo o máximo possível. Depois de Londres, aquilo era o paraíso! Depois, costumava tomar um café da manhã bem leve e passear até a vila próxima com Ian. Ele próprio gostava de inspecionar a comida comprada pelo clube, e prestava atenção a tudo, das lagostas às verduras, nos mínimos detalhes.


Frutos do mar eram a especialidade da cozinha do clube, e o cozinheiro-chefe insistia para que tudo fosse muito fresco e sempre de primeira, estando aí o segredo da comida deliciosa, tão apreciada pelos sócios e convidados. Rachel, por sua vez, comprara roupas novas mais apropriadas ao clima local, por sugestão de Ian. - Embora as roupas do show sejam muito importantes, é indispensável que você também esteja sempre bem vestida fora do trabalho. Muitos de nossos convidados se avistarão com você na praia e pelos arredores, portanto tem de cuidar da aparência para onde quer que vá. Ele a acompanhara por lojas, sugerindo roupas, tecidos e até cores que ficariam melhor nela. Sua atenção para com cada detalhe mínimo era admirável, mas ao mesmo tempo um pouco alarmante. - Ele é sempre assim? - perguntara RacheI a Peter. Os dois haviam se tornado amigos e confidentes, sem qualquer outro envolvimento. Ele a olhou, pensativo. - Ian nunca deixa nada escapar, mas acho que ele também gosta um bocado de você, RacheI. - Ele olhou firme para ela. - E você, como se sente em relação a ele? Rachel corou. Aquilo nunca lhe passara pela cabeça. - Eu... ainda não tinha pensado nisso. - Pobre Ian! - Peter assobiou, mas não disse nem mais uma palavra, e ela também evitou tocar no assunto. Apesar disso, aquela conversa fez com que ela prestasse mais atenção na atitude de Ian em relação a ela, não conseguindo ver, no entanto, o que Peter insinuara. Ele exagerou, concluiu. Ian não gostava dela mais do que de qualquer outro empregado do clube. Tratava-a muito bem, mas era tudo. Rachel convenceu-se daquilo, pois não desejava mais ter nenhuma ligação sentimental, por um bom tempo. Estava se divertindo muito no clube. Sua carreira seria valorizada por estar cantando em uma ilha de férias tão famosa, e ela apreciava aquela atmosfera descontraída de verão. O sol e o mar pareciam relaxar mais as pessoas, afastando para longe suas preocupações. Olly mantivera sua palavra. Rachel recebera várias cartas dela, e assim ficou sabendo que Nicky já se acostumara com a idéia de não ter Rachel a seu lado. Olly lhe contou que ele estava estudando muito, mostrando-se interessado e atento. Também estava se encontrando ocasionalmente com Jane Palfrey. Os dois costumavam discutir muito, mas Nicky parecia gostar dela, pois continuava a procurá-la. Olly não fizera menção à reação de Mark ante o desaparecimento de Rachel, contando-lhe tão-somente que ele voltara para os Estados Unidos. Então tudo acabou, pensou Rachel ao ler a notícia. Tudo o que deveria fazer agora era esquecer que já o conhecera, e isso ela estava determinada a fazer. De mais a mais, as Bahamas eram um lugar tão lindo que Mark parecia ser coisa do passado. Não parecia assim tão impossível esquecê-lo. Suas respostas a Olly eram sempre alegres, descrevendo-lhe o dia-a-dia na ilha e sempre se referindo a Ian com carinho e simpatia. Estava no clube já há oito semanas quando Ian chamou-a para cantar em uma comemoração especial. Uma sócia, freqüentadora habitual do clube, completava vinte e um anos e festejaria o aniversário no domingo à noite. Rachel cantou particularmente bem naquela noite, e depois foi convidada para se juntar aos convidados. Ian dançou com ela várias músicas, depois a acompanhou até o chalé. Antes de se despedir, ele a beijou. Era a primeira vez que aquilo acontecia, e aquele beijo perturbou-a bastante, pois lhe revelou tudo o que ela evitava enxergar. O beijo foi ardente, apaixonado, Ian parecia sincero. Naquela noite Rachel custou a dormir. Ela não queria que Ian fosse além da amizade sólida que os unia. Ele havia se retirado logo após, sem ao menos fitá-la, e ela não pôde sequer conversar com ele. O que faria para lhe mostrar que gostava dele apenas como amigo e nada mais?

CAPÍTULO VIII Derry não escrevia freqüentemente. Suas cartas vinham em intervalos irregulares, curtas e sucintas. Ele conseguira arrumar um bom emprego e estava satisfeito. No entanto, parecia também estar interessado em algo mais. Rachel não sabia o que se passava pela sua cabeça, mas desconfiava de que não era coisa boa. Aquilo a preocupava e aborrecia, mas a meio mundo de distância do primo ela não teria a mínima chance de saber o que era. Depois de dois meses na ilha, ela recebeu outra de suas cartas breves, e uma referência casual aos Hammond a perturbou. Derry ainda não se conformara com a maneira como ela fora raptada por eles e se queixava disso. Também contava que passara uma semana na casa dos pais, o que a tranqüilizou um pouco mais. Ele nunca os visitava e ela gostou de saber que o fizera. Naquela mesma semana recebeu uma carta da mãe de Derry, em que ela falava da namorada de Derry. Rachel ficou alarmada. Que namorada? Ele não lhe dissera uma palavra sobre isso. As mulheres entravam e saíam de sua vida tranqüilamente e ele jamais ficava com nenhuma por mais de algumas semanas. Quanto mais levar uma para conhecer os pais!


Rachel sabia que não valeria a pena lhe perguntar nada. Se fosse para ela saber, Derry já lhe teria contado. Suspirando, dobrou a carta, resolvendo esquecer o caso. De que adiantava se preocupar com ele? Ian a levara para mergulhar algumas vezes, no começo, e depois a entregara às mãos do instrutor de mergulho do clube, um rapaz da ilha que adorava a água e passava a maior parte de seu tempo no mar. Um dia depois de ter recebido a carta de sua tia, Ian convidou-a para mergulhar novamente. - Quero ver como está se saindo, Rachel. Tive notícias excelentes de Joe. - Seus olhos brilharam, maliciosos. - Mas quero comprovar o quanto de verdade há nessa história e quanto seus olhos verdes e seu belo corpo ofuscaram a vista de Joe. Rachel enrubesceu. - Joe sabe o que está dizendo. Ian ergueu as sobrancelhas significativamente. - Sabe? Ela corou ainda mais, embora risse. - Você sabe do que estou falando. - Claro! - Ele também riu. - Claro que sei, mas você fica encantadora quando enrubesce. - Você acha? Ele a olhou, pensativo. - Sabe que eu gosto de você, Rachel. Ela se virou, embaraçada, e dirigiu-se para o chalé. Pôs um maiô branco de corpo inteiro e bastante prático para o mergulho e prendeu os cabelos. Depois de pegar o equipamento no clube, encontrou com Ian e ambos caminharam até a praia. Ela já aprendera a mergulhar, nadando tão silenciosamente quanto possível até o fundo, e aprendera também a relaxar o corpo de modo a não gastar todo o ar rapidamente, conseguindo assim ficar mais tempo debaixo d'água. Encantara-se com aquele mundo misterioso azul e verde, onde peixes dos mais variados e conchas se moviam como verdadeiras jóias vivas, e com o silêncio e a sensação de plenitude, ao deslizar o corpo nas profundezas do mar. Ian a observava. Ele mergulhava muito bem, com técnica impecável, e era agradável sentir sua presença máscula ao lado. Quando submergiam, ele a enlaçou pela cintura e sorriu. - Joe não exagerou. Você é promissora! - Puxa, obrigada! E você, desde quando mergulha, Ian? - perguntou, curiosa. Ela estava muito interessada na resposta e muito feliz com o elogio para reparar na segurança e firmeza com que ele lhe apertava a mão, contra seu peito. - Nem me lembro - respondeu alegremente. - Meus primeiros mergulhos foram desastrosos! Eu era muito ansioso, e ficava mais tempo que o necessário debaixo d'água. Depois de desmaiar uma ou duas vezes, descobri que deveria voltar à superfície no tempo previsto. - Que horror! - Bem, corri perigo mas sempre aparecia alguém para me salvar. Por isso, por favor, nunca se esqueça de que deve subir antes que o nível de ar desça muito, e não quando ele já estiver terminando. Não é seguro. Ela o fitou, séria. - Não se preocupe. Joe andou martelando isso na minha cabeça o suficiente! Ele sorriu e ficou incrivelmente charmoso. - Estou contente por ouvir isso. Odiaria que algo acontecesse a você, justamente agora que estamos nos conhecendo melhor. - Tocou-lhe o rosto carinhosamente com os dedos. Subitamente ela se deu conta da proximidade dele e, nervosa, resolveu sair do mar, nadando em direção à praia. Ian ficou observando-a, depois começou também a nadar. Ao chegar à praia, Rachel surpreendeu-se com o número de pessoas, a maioria tomando banho de sol em esteiras e toalhas. Algumas crianças brincavam com a areia, outras jogavam bola. Uma garota passou por ela de bicicleta, com um biquíni minúsculo que a deixava praticamente nua. Havia também alguns nudistas, pois o clube admitia sua prática, coisa, aliás, normal por aqueles lados. Se, no entanto, algum sócio reclamasse, eles se dirigiam educadamente aos nudistas, pedindo que se vestissem. Arrumou o equipamento e esperou que Ian se juntasse a ela. Seus olhos percorreram a multidão desinteressadamente, e de repente seu coração parou. Não dava para acreditar! Mas era mesmo Mark Hammond! Ele estava próximo às palmeiras que beiravam a praia. Usava calças claras e camisa preta que realçavam seu corpo esguio e másculo. Por instantes, Rachel julgou que fosse fruto de sua imaginação, mas ali estava ele, fitando-a com a expressão indecifrável de sempre. - Pronta? - A voz de Ian a despertou. Ele colocou o braço em seus ombros, sorrindo. - Oh... sim, claro - respondeu. Ian então olhou firme para ela e disse:


- Rachel, não quero que se sinta cortejada. Não tenho pressa, sabe. Gosto de sua companhia e posso esperar. Ela sorriu, nervosa. - Entendo. - Ela se virou novamente e não sabia se estava feliz ou assustada ao avistar Mark. Não era uma miragem. Ele estava realmente na ilha, não era um sonho! Estava lá, impassível, esperando que eles se aproximassem. Ian começou a andar e ela o seguiu, olhando para os próprios pés, aturdida com seus pensamentos. O que Mark estaria fazendo ali? Será que Olly lhe contara ou ele descobrira sozinho? Poderia ser também uma coincidência. Ele poderia ter aproveitado suas férias para fiscalizar o investimento da mãe. Ian soltou uma exclamação de espanto e ela ergueu os olhos, ansiosa. - Vejam só! - Seu rosto se abriu num sorriso ao notar Mark, que agora se dirigia para eles. - O que está fazendo por aqui? - Uma viagem rápida a negócios - respondeu ele. Aquela voz profunda e quente era terrivelmente familiar a Rachel. Ian estendeu-lhe a mão e Mark apertou-a após breve hesitação. Vagarosamente os olhos dele se voltaram para Rachel, e ela sentiu um calafrio. Ian educadamente os apresentou. - Esta é a pessoa recomendada por sua mãe, srta. Rachel Austen. Mark limitou-se a olhá-la friamente. - Já nos conhecemos. Aquela resposta curta e seca foi como um insulto a seus ouvidos, e Rachel sentiu o rosto pegar fogo. Estava muito descontrolada para responder, por isso preferiu calar-se. Seus olhos, porém, brilhavam de raiva. Ian ergueu as sobrancelhas, olhando de um para outro atentamente. - Entendo - respondeu ele e Rachel ficou pensando o que é que ele entendia. De repente, ouviu-se um grito na multidão e Ian ergueu a cabeça. - Tubarão! Tubarão! - Que diabos... - Ian correu para o mar, enquanto Mark e Rachel ficaram olhando para seu corpo ágil na água. O triângulo escuro que divisavam nas águas azuis estava causando pânico, mas logo depois uma mistura de risos nervosos e exclamações de raiva ecoava no ar. O tubarão na verdade não passava de uma brincadeira. Ian saía da água segurando um garoto firmemente pela orelha. Tinha presa à cintura uma tira de plástico com o temível triângulo. Logo um bando de senhoras rodeava os dois, reagindo por terem sido assustadas e enganadas daquela maneira. Ian procurava acalmá-las, conversando com cada uma educadamente. Rachel observava o pequeno tumulto quando sentiu a mão de Mark segurando-a pelo braço. - Temos coisas para conversar - disse ele. Ela olhou para Ian novamente, mas ele continuava conversando com o grupo de pessoas à sua volta, envolvido demais com o que se passava para perceber seu olhar de súplica. Mark seguiu o olhar de Rachel e seus dedos a estavam quase machucando. - Vamos conversar sem assistência - falou ele bruscamente, começando a andar e puxando-a consigo. - Ian não vai entender por que fui embora! - tentou resistir, mas ele a arrastava sem ouvi-la. - Quero me trocar! Estou toda molhada. - Onde é o seu chalé? Já haviam alcançado os gramados e ela resignou-se a andar rápido para alcançar os passos de Mark, seu braço ainda preso por aquelas garras de aço. Repentinamente ela o forçou a parar, o rosto pálido e revoltado. - Eu o vejo no clube depois. - E você pensa que eu a deixarei escapar de novo? Não, de jeito nenhum! Você deve me ter na conta de um tolo. Mas consegui agarrá-la. - E onde pensa que vou me esconder nesta ilha? - perguntou ela. - Poderia voar para algum lugar. Não sei e não quero perder tempo. Aprendi a lição. Não vou largá-la até conseguir arrancar algumas respostas de você. Ele parecia capaz de qualquer coisa. Sua expressão era dura. Rachel olhou-o, assustada, baixou a cabeça e deixou que ele a conduzisse. - Meu chalé é o terceiro à direita. As janelas não estavam abertas de todo e dentro do chalé estava fresco e agradável. O ventilador girava suavemente no teto. Mark observou-a soltar os cabelos, depois de encostar o equipamento de mergulho em um canto. - Um minuto, por favor - disse Rachel, tirando uma toalha branca do armário e dirigindo-se para o banheiro. Tomou um banho rápido, só para tirar o sal do corpo, vestiu-se e voltou para o quarto. Mark estava de pé ao lado da janela. Ele se virou e fitou-a de cima a baixo sem a menor cerimônia. - Você está com uma cor deslumbrante - disse ele num tom impessoal. Realmente sua pele estava com um tom dourado, mas ela já se habituara e nem notava mais. O contraste da pele contra o vestido branco dava-lhe uma aparência saudável e extremamente fascinante.


Penteara o cabelo como sempre, deixando-o naturalmente solto pelos ombros. O sol alterara-lhe também a cor, dando-lhe reflexos dourados aqui e ali. - Vamos para o clube agora? Não tenho nada para lhe oferecer aqui. - Nem café? - Bem, café, sim. - Ela foi até a quitinete. - Pensei que quisesse um uísque. - Café cai bem. Ele se aproximou dela, observando-a fazer o café. Consciente de seu olhar, Rachel sentia-se tremer por dentro. Assim que lhe deu uma xícara de café, ele sentou em uma das cadeiras ao lado da mesa. Rachel fez o mesmo, colocando sua xícara sobre a mesa. - Como me descobriu? - Olly - respondeu ele, seco. Ela ergueu os olhos, comprimindo os lábios. - Mas ela me prometeu que não contaria nada! Os olhos de Mark pareciam mais escuros. - E manteve sua promessa até o momento em que eu tive de saber. Rachel fitou-o por um instante, depois desviou o olhar. - Por quê? - Não sabe? Rachel negou com a cabeça. - Ora, vamos - insistiu ele. Ela franziu o cenho e encarou-o sem medo. - Não entendo o que quer dizer. Pode me explicar? - Falo de seu primo Derry - disse ele, atento às reações de seu rosto. Rachel começou a tremer e, ansiosa, perguntou-lhe: - O que Derry fez? - Ela não sabia que fora por causa de Derry que ele viera, mas não estava tão surpresa assim. Esperava que Derry estivesse aprontando alguma, mas não fazia idéia do que fosse. Mark olhou-a friamente. - Seu primo não a manteve informada? - Oh, por favor! - Ela apertava as mãos, ansiosa. - Diga-me o que ele fez! - Ele simplesmente fugiu com Júlia Brennan, a filha única de Grahan Brennan, e eu não preciso lhe dizer o alarde que isso causou! Há vários homens à procura da moça, mas seu priminho agiu muito bem, não deixando nenhuma pista! Fui ver a família dele, mas eles não sabem de nada. - Olhou firme para ela. - Então, não se iluda, Rachel, se tiver algo a me dizer, terá de fazê-lo mais cedo ou mais tarde. Rachel estava pálida e perturbada. - Não sei de nada. Derry nunca mencionou uma palavra sobre isso. - Seus olhos estavam arregalados e perplexos. - Ele me conhece o suficiente para saber que não deveria me contar nada. Jamais o encorajaria, e ele sabe disso. - Ele sabia muito bem que Júlia tinha apenas dezessete anos e era uma criança mimada, uma garota amiga de Nicky, rica e filha única. - Pensa que acredito nisso? - Sua voz revelava uma ferocidade até então desconhecida. - Nós o encontraremos, claro, e ele terá de nos contar tudo, tintim por tintim. Ela é menor e não pode casar sem permissão. - Seus olhos tinham um brilho selvagem. - E se ele a tiver seduzido, terá de ajustar contas comigo também! Rachel levantou-se indignada e Mark tentou segurá-la. Ela desvencilhou-se dele, impedindo-o de tocá-la. - Vou lhe mostrar as cartas que ele me mandou, só isso. Ele a viu dirigir-se até a escrivaninha e abrir uma pequena gaveta, retirando de lá uma pilha de cartas, as de Derry e de seus pais também. Mark pegou-as e começou a lê-Ias, a cabeça baixa e o rosto tenso. Bateram à porta, e imediatamente ele ergueu a cabeça, demonstrando irritação. Rachel abriu e Ian apareceu. Ele não esboçou nenhuma reação ao avistar Mark dentro do chalé com as cartas na mão. Mark também não contraiu um só músculo do rosto. - Você se esqueceu de devolver o equipamento do clube, Rachel - disse Ian, calmo. Seus olhares se cruzaram e, com um sorriso, ela disse: - Desculpe-me. Ia fazer isso mais tarde. - Posso fazê-lo por você - propôs ele, passando por ela e recolhendo todo o material de mergulho. Mark retomou sua leitura, mas Rachel notou que ele estava atento a cada movimento de Ian, não prestando atenção ao que estava lendo. Ian dirigiu-lhe um olhar rápido sobre o ombro. - Posso ter uma palavrinha com você, Rachel? - perguntou ele a caminho da saída. Mark ergueu a cabeça assim que percebeu Rachel saindo também. Ian fechou a porta. O sol estava forte e ofuscava a vista de Rachel. Mesmo assim, notou os movimentos preguiçosos de uma palmeira sob a brisa e os de uma borboleta colorida voando sobre aquelas flores exóticas ao lado do muro.


- Algo errado? - perguntou Ian gentilmente, atento aos movimentos de Rachel. - Problemas pessoais. - Rachel fazia um esforço enorme para sorrir. Ele continuou a observá-la. - Não sabia que você conhecia Mark Hammond pessoalmente. Rachel enrubesceu e tentou disfarçar. - Encontrei-o algumas vezes - conseguiu dizer, recompondo-se e voltando-se para ele novamente, o olhar súplice. - Ele quer que eu o ajude a resolver um problema sobre um parente meu. - Ela não queria que ele lhe fizesse muitas perguntas, e ele entendeu, pelo seu olhar. Mas estava curioso! - Então, há algo errado - insistiu ele, franzindo o cenho. Rachel suspirou. - Sim, mas nada em que você possa ajudar, Ian. Na verdade, não tem nada a ver comigo, mas... - Ela se interrompeu ao notar uma sombra nas venezianas. Mark estava escutando. Aquilo a fez estremecer. Ian notou seu estado, a tristeza em seus olhos, e abraçou-a carinhosamente, beijando-lhe os cabelos fartos. - Sabe que pode contar comigo, Rachel. Se precisar de alguma coisa, posso ajudá-Ia, é só me pedir. Ela se manteve na mesma posição, inclinando a cabeça, sentindo-se agradecida e reconfortada. - Obrigada, Ian. É tão bom poder contar com você! - Preferia que você não dissesse isso. - E por que não? Ele deslizou a mão suavemente por seu rosto, beliscou-o e sorriu. - Minha querida, isso é praticamente um insulto! - Ele inclinou-se e beijou seus lábios suavemente. - Estarei em meu escritório, se precisar. Ian se virou e caminhou em direção ao clube. Rachel ficou ali, observando-o afastar-se. Desejava desesperadamente estar apaixonada por ele, mas isso não acontecera. Ele era de longe o homem mais gentil que já conhecera em sua vida. Era atraente, bom, generoso. Por que fora tão tola a ponto de se apaixonar por alguém como Mark, se havia tantos homens melhores no mundo? Quanto entrou no chalé, Mark estava sentado em sua cadeira, parecendo absorto na leitura. Estava lendo a última carta e seu rosto não podia ser mais inexpressivo. Rachel jogou fora seu café frio. Fez um novo e sentou-se para bebê-lo. Mark finalmente largou as cartas sobre a mesa e dirigiu-lhe um olhar frio. - Não há nada nelas que nos dê uma pista. Não posso acreditar que ele não tenha lhe contado nada. Pode ter enganado Olly, Rachel, mas não sou cego. Onde está seu primo? - Eu não sei - respondeu-lhe lenta e friamente, encarando-o sem se perturbar. Mark estava furioso. - Não minta para mim! - Desde que nos conhecemos você se recusa a acreditar em qualquer coisa que eu diga! Não vou discutir com você e ficar repetindo que não sei onde Derry está, nem faço a menor idéia do que se passava por sua cabeça. Jamais mencionaria nada pra mim, pois sabia perfeitamente que eu não aprovaria. Derry dera-lhe algumas pistas, mas ela jamais pensaria que ele fosse fazer aquilo. Mark fitou-a com raiva nos olhos. - E por que eu deveria acreditar no que você está dizendo? - Não me importo se você acredita ou não. - Não sou tão fácil de lidar quanto Nicky e Ian MacIntyre, não é? Ele a observava e percebeu que ela corou ao ouvir o nome de Ian. Rachel levantou-se. - É melhor que se vá agora. Não há nada mais para ser dito. - Não? - Ele se levantou também, agarrando-a pela cintura e puxando-a contra seu corpo. - Deixe-me! - gritou Rachel. - Logo mais - disse ele. Imediatamente se criou entre ambos um clima de intimidade e Rachel voltou a sentir um calafrio. Tentou se soltar, mas ele a puxava para si cada vez mais, a tal ponto que ela não conseguia mais desviar os olhos de sua boca sensual, totalmente desamparada, tal e qual um coelho diante de uma cobra. Tinha a sensação de que fazia uma eternidade desde a última vez em que estivera em seus braços, mas no momento em que seus lábios se tocaram tudo desapareceu e ela se entregou inteira àquele beijo possessivo. Mark não precisava mais puxá-la contra seu corpo. Ela se abandonara totalmente a ele, suas mãos acariciandolhe a nuca morena e os ombros largos, a cabeça jogada para trás, correspondendo efusivamente a seu beijo. Ele passou uma das mãos sob o cabelo de Rachel, os dedos pressionando a nuca delicada, a outra mão apertando-a ainda mais. Seu joelho se insinuou por entre aquelas pernas dela, tirando-lhe o equilíbrio. Rachel estremeceu e afastou a cabeça. - Não, Mark.


- Sim - sussurrou ele com voz quente e insinuante. Rachel notou-lhe o brilho do olhar. - Pensa que consegue esconder isso de mim? Ela baixou os olhos, perturbada. - O quê? Mark riu. - Você me quer tanto quanto eu a quero. Seja honesta ao menos quanto a isso. Ergueu os olhos timidamente. Não conseguia pensar sentindo aquele corpo viril grudado ao dela. O desejo a dominava por completo. - E por que eu deveria mentir? - perguntou com os lábios trêmulos. - Claro que você me deixa excitada, mas não é a primeira nem a última vez que eu vou me sentir assim. Afinal, você é um homem como outro qualquer. Mark explodiu de raiva: - Sua... - Você pediu a verdade! Ele apertou ainda mais sua nuca, machucando-a e ao mesmo tempo excitando-a. - MacIntyre não faz você se sentir assim, faz? - perguntou com um olhar triunfante. - Ao contrário de você, Ian é um homem maravilhoso! - respondeu ela prontamente. Mark comprimiu os lábios com força. Rachel empurrou-o com dificuldade, pois o peito dele era forte como uma muralha. - Deixe-me ir, por favor. Estou cansada de tudo isso. - Está mesmo? De repente Rachel se sentiu flutuar, seu corpo suspenso pelos braços poderosos de Mark, e então ela percebeu sua intenção: sentiu medo e começou a se debater vigorosamente, mas ele parecia se divertir, carregando-a até a pequena cama do quarto. Ria enquanto a observava se debater. Depois a colocou na cama e deitou-se sobre ela, sua boca procurando a dela com uma insistência e ferocidade alucinantes. Ela tremia de desejo ante o contato de seus lábios e de seu sexo excitado. Confessava-se vencida... Sentiu-o deslizar uma mão por suas costas. O suave ruído do zíper deixou-a em pânico por um minuto. Tremia... - Por favor, não, Mark - pediu-lhe quase impotente diante daqueles lábios ávidos e macios. - Fique quieta - disse ele baixinho, sua mão já penetrando pelo vestido, acariciando-lhe a pele quente e macia. Sentiu tocar-lhe a espinha e encontrar a pinta que tinha bem embaixo do ombro. Quando ele puxou o vestido de seus ombros, aprisionando-lhe os braços, ela recomeçou a se debater, mas foi inútil. Ele já acariciava seu colo com a língua, beijando-a levemente no pescoço, que pulsava desordenadamente. O telefone quebrou o silêncio que invadira o quarto e Mark pulou como se tivesse sido atingido por um tiro. - Deixe tocar - murmurou ele, ao vê-Ia fazer menção de se levantar. - Por favor - pediu-lhe, tremendo. - Deve ser do clube. - Esqueça. - Seu rosto parecia de pedra. - Se eu não atender, Ian virá para ver o que aconteceu. - Ele terá uma bela surpresa! - A expressão de Mark era cruel. Ela sentiu seu rosto arder. - Por favor, Mark. Não! Ele a olhou com ódio e finalmente decidiu-se a sair de cima dela. Rachel correu para o telefone, atendendo com voz ofegante. - Está bem? - perguntou Ian, notando sua voz alterada e sua respiração irregular. - Sim - respondeu ela, mas seu tom denotava exatamente o contrário. - Quer que eu vá agora? Houve um momento de silêncio. - Sim, venha para cá agora - disse Ian secamente, desligando o telefone com força. Mark aproximou-se e ela sentiu um frio percorrer-lhe a espinha. Ele fechou-lhe o zíper do vestido, provocando-lhe um frêmito pelo corpo todo. Passando as mãos trêmulas pelos cabelos revoltos, ela se virou e disse: - Tenho de ir até o clube. - Já ouvi - Mark disse irritado. Seu rosto ansioso e os olhos brilhantes denotavam que ele estava tão excitado quanto ela. O amor é uma loucura, pensou Rachel, sentindo queimar o sangue que lhe corria nas veias. Ela desejara fazer amor com ele, desejara afastar todo e qualquer pensamento para abandonar-se àquela sensação... Deu-se conta então de que estava tão apaixonada que se não se entregasse a ele se lamentaria para o resto da vida. E qual o problema se o que ele desejava era apenas satisfação sexual? Fitaram-se por um longo momento, ambos tensos, travando uma batalha silenciosa. Mark colocou os dedos sobre os lábios delicados de Rachel. Seus olhos azuis brilhavam!


- Meu Deus, como você é bonita! - exclamou. - E você também - disse ela, com um sorriso irônico nos lábios. Mark sorriu de volta, deliciado, tirando a mão de seu rosto. Rachel se virou e entrou no banheiro. Olhando-se no espelho, procurava recompor sua aparência. Ele a deixara totalmente desarrumada ao tentar fazer amor daquela maneira selvagem. Quando ela abriu a porta do chalé para sair, Mark adiantou-se, olhando-a com relutância. - Eu podia ficar aqui esperando por você. - Não! - Sentiu seu corpo gelar. Mark olhou com raiva para ela. Rachel fechou a porta e ambos caminharam até a sede do clube sem trocar palavra. - Eu a verei novamente - disse ele quando pararam em frente às portas duplas. - Estou no gramado. - Era o hotel mais luxuoso da ilha, de construção recente e decorado com muito requinte. - Não tente fugir da ilha, Rachel. Eu estaria no seu encalço em menos de uma hora. Ela lhe dirigiu um sorriso frio e desafiador. - E por que eu tentaria fugir? Você não me assusta. - Não? - Seus olhos se estreitaram. - Eu voltarei. Quando Rachel entrou, encontrou Ian à sua espera. Adivinhou que ele estivera observando seu comportamento com Mark, pois estava com um ar pensativo. Foram até o pequeno escritório com ar-condicionado e ele lhe indicou uma cadeira, sentando-se na beirada da mesa, os olhos fixos nela. - O que está acontecendo? - perguntou ele num tom que não admitia respostas evasivas. - Nada. Ele suspirou. - Bem, que quer que eu lhe pergunte? Eu telefono para saber se você quer cantar numa função privada no domingo e você atende o telefone assustada como uma lebre, mal podendo responder, e depois se convida deliberadamente para vir até aqui, como se quisesse fugir de Mark! Nem se importou em saber por que é que eu lhe telefonei. Agora me diga o que está acontecendo. - É complicado - respondeu ela, relutante. - Tenho tempo de sobra para ouvir a história - retrucou Ian. - Conte-me tudo desde o começo. Por um momento ela hesitou, mas o sorriso calmo e confiante de Ian foi como uma tábua para um náufrago desesperado. Começou a lhe contar tudo o que lhe acontecera nos últimos meses, desde que conhecera Nicky. Evitou falar sobre seus encontros com Mark, pois não deveria se abrir tanto com Ian, por mais que ele se mostrasse amigo. Ele lhe dirigiu um sorriso quando ela acabou o relato. - Então é por isso que Olly a mandou para cá! Eu fiquei meio intrigado, confesso, como é que ela podia ter conhecido você tão bem a ponto de mandá-la para cá e se mostrar tão interessada em sua carreira? Ela estava matando dois coelhos de uma cajadada só, pois sabia que eu precisava de uma cantora também! - Ela foi muito boa comigo. Ian concordou. - Olly é muito boa, embora de temperamento forte e decidido. Mark não puxou apenas ao pai, sabe. Puxou a ela também. Os Hammond são um bocado duros. Rachel comprimiu os lábios. Sim, ela sabia o que eles eram capazes de fazer, apenas num estalar de dedos. Ian encarou-a e perguntou: - Está apaixonada por Mark Hammond? A pergunta pegou-a de surpresa. Rachel corou. - Não! Quero dizer, sim... Não sei... Ian sorriu. - Muito revelador. E qual é o ponto de vista dele? Ou nem preciso perguntar? Eu notei como ele a olhou quando se encontraram. Estava igualzinho a um tubarão que sente a proximidade do sangue. Ela sacudiu os ombros, rindo. - Não é verdade! - E você, o que pretende fazer? Ela ergueu as sobrancelhas, desamparada. - O que você quer dizer? - Vai se livrar dele? Vai ou não desistir? Ela baixou os olhos e respondeu. - Não sou do tipo de ter casos rápidos. Não, não vou me entregar a ele - acrescentou num último esforço, com um fio de voz. Ian sorriu novamente. - Está mais do que óbvio que você não tem certeza do que diz. Há um modo de você se livrar dele, se quiser realmente.


Rachel demonstrava dúvida e ansiedade. - Como? - Eu posso dizer a ele que nós vamos nos casar. - Ian falava sério e, ao perceber o espanto de Rachel, riu. Se eu me dirigir a ele e lhe disser que você vai se casar comigo e que eu não quero que ele a importune, ele vai sair de cena, com certeza. Um homem como Hammond jamais invade território de outros homens. Por outro lado, sabendo que uma mulher está disponível, ele sempre tenta, até conseguir o que quer. A escolha é sua, Rachel. Ela baixou de novo os olhos, apertando nervosamente as mãos. - Não tenho o direito de envolvê-lo dessa maneira - disse com voz trêmula. No fundo procurava ganhar tempo para resolver aquele intrincado quebra-cabeça. Ian oferecera-se para tirar Mark de sua vida, e não era isso que ela queria? Ou não? Mas ela não poderia mais resistir a ele, bem o sabia. - Não tenho o direito - repetiu sem convicção. - Não se preocupe com isso - respondeu, seco. - Qual é sua resposta? Falo ou não com Hammond? Ela suspirou, fechando os olhos. - Eu... ficaria muito grata se você falasse com ele - disse com dificuldade. Seguiu-se um breve silêncio. Rachel abriu os olhos, mas não conseguiu encarar Ian. - Está bem - falou ele calmamente. - Sabe se ele virá ao clube esta noite? Ela assentiu, ainda sem poder encará-lo. - Eu falarei com ele hoje, então. Mantenha-se fora de seu alcance até lá, Rachel. Pode ficar aqui na sede até a noite, se quiser. E não se preocupe, eu cuido disso. Ele se levantou e acompanhou-a até a porta. Gentilmente segurou em seu braço. - Não se preocupe, Rachel. Não pretendo mandá-lo embora para me apoderar de você, está bem? Apenas não quero vê-Ia assim. - Obrigada - agradeceu ela, saindo apressadamente do escritório.

CAPÍTULO IX Rachel não viu mais Mark naquele dia, ficando na sede do clube, como Ian sugerira. Ajudou o pessoal da cozinha a preparar o jantar, ouviu o conjunto ensaiar um número novo e conversou com Benny, o simpático motorista da Orioca. À noite Mark se instalou em uma das mesas da boate, mas ela só apareceu no momento de entrar em cena para cantar. Procurou não olhar para a direção dele mas, mesmo assim, estava tão nervosa que sentiu sua voz falhar uma ou duas vezes. Enquanto agradecia os aplausos efusivos, olhou de relance para a mesa, e notou que Ian conversava com Mark. Ian parecia calmo, mas a expressão de Mark era sombria e dura. Os lábios comprimidos mostravam quanto estava tenso. Ian lhe dissera. Ela se retirou com um sorriso artificial e tentou parar de tremer. Em vão... Ian acompanhou-a até o chalé naquela noite, segurando seu braço, que ainda tremia. - O que ele disse? - perguntou ela, ansiosa. - Muito pouco. - Ian olhou para ela e sentiu pena. - Você se machucou com ele, não foi, Rachel? Eu ainda não tinha percebido quanto. - Apertou seu braço. - Acho que ele parte amanhã para Londres. Não se preocupe. Assim que ele a deixou, Rachel deitou-se de olhos abertos e ficou escutando os ruídos da noite. Seu coração doía. Várias imagens de Mark vieram-lhe à mente, seu rosto raivoso da primeira noite, sua paixão ao beijá-la, sua perseguição constante desde que se conheceram, seu charme irresistível... Ela deveria odiá-lo, mas não. O que mais doía era saber que o amava desesperadamente, apesar de sabê-lo incapaz disso. Estava perdendo seu tempo, mas não podia, de repente, pôr fim ao que sentia por ele. Não conseguiu dormir direito, mas no dia seguinte levantou cedo e foi à praia. Como de hábito, não havia quase ninguém. Rachel estava mergulhada em seus pensamentos, admirando aquela imensidão de água à sua frente! Subitamente uma figura despertou-lhe a atenção. Aproximava-se dela a passos lentos. Seu coração parou. Era Mark! Ele vinha, resoluto, em sua direção. Por um momento ela pensou em correr mas controlou-se a tempo, obrigando-se a se comportar como se nada de estranho estivesse acontecendo. Cumprimentou-o friamente. - Acordou cedo. Seus cabelos estavam molhados e ela adivinhou que ele estivera nadando. - Queria conversar com você. O rosto dela traduzia insegurança, e ele procurou acalmá-la. - Não se preocupe, não vou mais atormentá-la. Tive notícias de Londres. A pequena Júlia Brennan já voltou para casa. Rachel suspirou aliviada e sorriu.


- Que bom! Ela está bem? Perdeu a virgindade com Derry? - perguntou. Ele sorriu cinicamente. - Não sei quem estava caçando quem, afinal! Parece que Júlia ficou com seu primo alguns dias e depois o mandou passear. - Seus olhos brilharam de prazer. - Quase senti pena dele. Falei com Júlia. Ela riu um bocado e deu-me a entender que o teve em suas mãos até que se encheu e o dispensou. RacheI sentiu-se gelada. - Pobre Derry - Sentiu um nó na garganta. - Então ela não era nenhuma ingênua ameaçada por um depravado! - Ela estava furiosa. Mark a observava. - Não, parece que não. O pai soltava fogo pelo nariz quando ela voltou, mas Júlia sempre soube dominá-lo com habilidade. Duvido que seja punida de verdade. - Claro que não - concordou Rachel secamente. - É Derry o enganado desta vez. - Ela se lembrava dos planos de Derry de desmoralizar os Hammond, de chegar até aquele mundo de dinheiro e arrogância. Pobre Derry! O tiro saíra pela culatra! Como estaria ele se sentindo agora? Mark continuava, irônico: - De qualquer forma, os motivos dele não são defensáveis. Ou você espera que eu acredite que ele estava realmente apaixonado pela pequena Júlia Brennan? Ela corou. - Duvido, mas tudo pode ser, pelo jeito. E se ele estava apaixonado, deve estar se sentindo um bocado arrasado neste momento, não acha? Ela se virou e começou a caminhar para a água, ciente de que ele a seguia. Deu então um mergulho e ele ficou observando. Quando ela saiu, seus cabelos brilhavam intensamente sob a luz forte do sol. - Devo lhe dar os parabéns - disse ele calmamente. - Obrigada. - Ela pegou a esteira e o livro que trouxera. - Pensei que estivesse esperando por seu amor verdadeiro - provocou-a Mark. Ela corou e olhou zangada para ele. - Quando volta para a Inglaterra? - Com isso quer dizer que não devo lhe fazer perguntas? - perguntou ele, com um sorriso triunfante. - Não é da sua conta. - Você nem ao menos finge que o ama. - Aquela afirmação seca parecia uma acusação. Não conseguiria encará-lo enquanto ele continuasse a examiná-la daquele jeito. - Por que quis fingir para mim, Rachel? Sabe que não consegue. Ontem você se comportou de uma maneira que desmente toda essa história. Ela respirou profundamente, encarando-o, o corpo esguio muito tenso. - Gosto muito de Ian. Respeito-o e aprecio-o muito. - Mas é comigo que você quer ir para a cama. Aquela afirmação fez com que o sangue subisse à sua cabeça. Ela mordeu os lábios nervosa e respondeu: - Como já lhe disse ontem, isso não quer dizer nada. A atração física é algo que ninguém consegue controlar. - E o amor também? - Não! - Ela pensou tê-lo atingido. - Ele vem depois de um certe conhecimento, e meus sentimentos por Ian vão chegar lá. - Então você prefere o que pode ter do que o que realmente quer? Rachel sacudiu os ombros. - Não quero discutir mais. Adeus, Mark. - Ela se virou e saiu, deixando-o sozinho na praia. Esperava que ele tivesse partido para Londres, mas ele voltou ao clube naquela noite. Sentou-se no mesmo lugar, o rosto iluminado pela vela em cima da mesa. Depois de cantar, Ian a conduziu para o salão e dançou com ela. Rachel sentia o olhar de Mark sobre eles. - Encontrou-se com ele hoje? - perguntou Ian. - Sim, de manhã na praia. - Ele se comportou? Ou eu vou ter de pô-lo daqui para fora como o noivo ultrajado? Ela riu. - Não seria difícil fazer isso, já que a mãe dele possui parte deste clube? - Difícil, mas não impossível. - Você faria isso? - perguntou ela, curiosa. - Precisaria usar a força, claro. Ela não conseguia levar aquela idéia a sério. - Não, Ian, não gostaria que você agisse assim por minha causa. - Dirigiu-lhe um olhar caloroso. - Além do mais, ele não está me causando nenhum problema. Mark não se aproximou dela naquela noite, e depois de terem dançado e conversado bastante, Ian levou-a até o chalé. Ao chegarem na porta ele se deteve, fitando-a. RacheI percebeu que ele queria beijá-la e ergueu a cabeça, deixando-o roçar os lábios levemente nos seus.


- Boa noite, Rachel - disse ele confuso, retirando-se logo depois. As árvores se agitavam ao vento e a lua parecia um rosto melancólico mergulhado no veludo escuro do céu. Essas sombras se moviam à sua volta enquanto ela abria a porta e entrava no chalé. No dia seguinte Mark apareceu na praia novamente. Seus olhos se encontraram e ela não conseguiu esconder sua contrariedade. Olhou-o rapidamente, desejando que aquele corpo másculo não fizesse seu coração disparar daquele jeito. Ele estava atraente dentro da roupa preta de borracha, que se usa para mergulhar. Ele notou que ela olhava curiosa para o equipamento e sorriu. - Precisamos mergulhar juntos uma hora dessas. Já mergulha bem? - Ainda sou principiante - confessou Rachel. - E você? - Mergulho há anos - respondeu, erguendo os ombros largos. Ela deixou a toalha e a bolsa na areia e correu para o mar. Caiu na água com prazer, e Mark acompanhou-a. Nadaram por mais de uma hora, falando apenas ocasionalmente. A água azul resplandecia sob o sol fraco daquela manhã tropical. - Aonde vai agora? - perguntou ele ao vê-Ia juntando suas coisas. - Ensaiar. - Almoça comigo? - A pergunta foi bem direta, e ela hesitou em responder, mordendo os lábios. - Não acho que seja uma boa idéia - disse finalmente, disfarçando com um sorriso sua timidez. - Por favor, Rachel. Ela sentiu o coração saltar. Olhou-o, incrédula, e notou seu rosto sério, observando-a. O bom senso lhe dizia para não aceitar, mas suas palavras foram outras. - Bem, eu... - Venho buscá-la ao meio-dia e meia - afirmou ele, antes que ela pudesse continuar. Saiu logo depois. Rachel não se concentrou no ensaio, mal se dava conta do que estava realmente cantando. Ian chegou um pouco antes do ensaio terminar. Sentia-se ridiculamente culpada, apesar de saber que o casamento não passava de uma fraude. Ian falara com Mark para ajudá-Ia, e ela se comportava como uma tola, deixando-se convidar para sair. Se ele soubesse, ficaria naturalmente surpreso e zangado, e ela lhe daria toda a razão. - Sua voz está em boa forma - comentou ele com um sorriso, caminhando a seu lado em direção à entrada da sede. - Obrigada. Ian, há algo que quero lhe dizer. Eu... - Ela se interrompeu. Ian acabara de avistar Mark, que se aproximava deles. Ian franziu o cenho, questionando-a em silêncio. - Está pronta? perguntou Mark, calmo. Rachel olhou para Ian, desconsolada, implorando desculpas com o olhar. Ele girou nos calcanhares sem esboçar o menor gesto, deixando-os a sós. Rachel sentiu-se arrasada. Mark percebeu e tocou-a de leve no ombro. Ela estremeceu como se pressentisse algo, olhando-o desamparada. - O carro está na porta. - Sua voz soou grave, os olhos atentos. Durante o caminho até a cidade ela não disse palavra, observando apenas a paisagem que margeava o caminho. Mark dirigia-lhe o olhar de quando em quando, mas também preferiu não falar. Ao chegarem ao hotel ele a levou até o bar e pediu dois martinis. O garçom lhes trouxe depois o cardápio e eles escolheram a comida enquanto bebiam seus drinques. Finalmente vagou uma mesa e eles se dirigiram ao salão de refeições, apinhado de gente conversando e rindo alegremente. Fizeram o pedido: frutos do mar e vinho branco. O vinho fez Rachel se sentir mais relaxada. Mark começou a lhe falar de Nicky, e não demorou para que ela risse das peripécias de Nicky e Jane Palfrey. - Quando Nicky terminar seus estudos eu pretendo levá-lo para os Estados Unidos, para ele trabalhar na firma. - Pelo que você me contou, ele sentirá falta de Jane. - Espero que sim. - Está bancando o cupido? Mark piscou os olhos e sorriu. - Absolutamente! Quero que decidam sozinhos, embora não deixe de ter esperanças em relação a eles. Ela riu, agora mais relaxada. - Claro, e pelo que vi quando estavam juntos, creio que seus desejos serão atendidos. Jane é uma garota muito boa e Nicky parece gostar dela. - Não há pressa - disse ele. - Nicky tem só dezoito anos. Chegara mais vinho e ele observou Rachel se servir, o rosto levemente afogueado. - Vá devagar. Você não é muito resistente com vinho. Ela riu, os olhos involuntariamente provocativos. - Como sabe disso?


O vinho a atingira de maneira muito agradável. Sentia-se alegre e muito leve, consciente dos olhos azuis e do rosto duro que lhe sorria. Ela lhe contou vários casos de sua primeira juventude, acentuando os detalhes humorísticos, sobretudo em relação a Derry. - Derry conseguiria tirar os pássaros de uma árvore se quisesse passar a noite lá. Ele sempre arranjava os melhores quartos, e também convencia quem nos contratava a pagar o preço mais alto. Ele era fantástico! Não sei o que teria feito sem ele. Mark envolveu-a de cima a baixo com um olhar insolente. - Imagino que conseguiria sobreviver muito bem, se dependesse de nós, homens. - Tive problemas com alguns, mas Derry era extremamente útil nesses casos. - Você não é forte o suficiente para enfrentar esse tipo de coisas - retrucou ele. - Sou forte, sim. Sei me cuidar. - Mesmo? - perguntou ele, irônico. Ela olhou para ele e seu coração começou abater descompassadamente. Virou o rosto e engoliu em seco. Percebeu que estava tremendo. Recusou a sobremesa e acompanhou Mark no café. Ele olhou para a garrafa vazia e brincou: - Você precisa de um bom café! Talvez a revigore. Não quero ver MacIntyre correndo atrás de mim com um machado! Ficaram bebericando o café e conversando amigavelmente. Mark mencionou uma biografia que acabara de ler e ela descobriu que ele era apaixonado pelo século dezenove, principalmente pela vida dos políticos. - É uma prova de que a natureza humana nunca muda, apesar de todo o avanço tecnológico - concluiu ele. - Duvido que a natureza humana já tenha mudado alguma vez. Acho que as pessoas agiam e pensavam igual no tempo dos faraós. Mark concordou com a cabeça. - No meu meio é essencial que se conheça a natureza humana. Negócios! As pessoas que não precisam estudá-la têm sorte. Ficariam extremamente desiludidas. Rachel franziu o cenho. - Você é muito cínico. - Acho que sim. Eu fui levado a isso. Uma árvore cresce sempre contra o vento. Ela baixou os olhos para o café. - Você é um homem, não uma árvore. - É verdade - concordou Mark. - Temos a chance de escolher o modo de encarar o mundo - afirmou Rachel, excitada. - É claro que há muitas coisas erradas por aí. Há pessoas cruéis, maldosas, sem escrúpulos. Há fome, doença, miséria, sistemas corruptos, luta desenfreada pelo poder, mas há coisas boas também. As pessoas podem ser generosas, agradáveis, sinceras. A corrupção pode ser combatida. Os sistemas podem ser mudados. Não tem sentido ficarmos sentados como meros espectadores resignados. Não podemos mudar o mundo em que vivemos, se não gostamos dele. Mark observava-a atentamente. - E também existe o amor - disse ele com ênfase. - Você não mencionou o amor, Rachel. Ele a pegara desprevenida. Olhou então para ele, um pouco desamparada. - Sim, claro, e há sempre o amor. O amor em cada canto do mundo, diversas formas de amor. O amor da mãe pelo filho, de um filho pelo pai, de... - De uma mulher por um homem - completou Mark. Rachel levantou-se imediatamente, um tanto constrangida. - Preciso voltar. Está ficando tarde. Não conversaram durante o percurso. O carro tinha teto solar e o vento que por ali entrava não podia ser mais agradável, embora desarrumasse os cabelos de Rachel. Seus olhos brilhavam e todo o seu corpo transpirava saúde. Isso provocava insistentes olhadelas de Mark. Ela desceu do carro depois de se despedir e, à medida que se aproximava do chalé, deu-se conta de que sua paixão por ele aumentara. Ele sabia disso, sua última frase fora reveladora! Ian surgiu no chalé um pouco antes do pôr-do-sol e Rachel fitou-o, insegura. Ele falou da apresentação especial que ela faria mais tarde e, quando acabou, um silêncio constrangedor invadiu a sala. - Está zangado comigo, Ian? - perguntou ela para quebrar aquele clima insuportável. - Por que haveria de estar? - Seus olhos se encontraram diretamente com os dela. - Você acha que eu estou? Rachel enrubesceu. - Estou me comportando irracionalmente, eu sei. Deveria ter recusado o convite dele para almoçar, mas...


- Mas não conseguiu - completou ele, comprimindo os lábios. - Não tem que me explicar nada, Rachel, mas creio que deve uma explicação para si mesma. Tentei dar a Hammond a impressão de que estávamos apaixonados e agora ele deve estar se divertindo com a história. - Não! - protestou ela veementemente. - Não acho, Ian. - Ele... bem, entende mais ou menos como essas coisas são. Ian passou uma das mãos pelos cabelos. - O que quer dizer? Ela abriu os braços, desamparada. - Foi muito gentil de sua parte, mas creio que é muito tarde para tentar ludibriá-lo. Eu tive de desmentir. Ele a fitou, pesaroso. - Mas, garota, tudo o que deveria fazer era ficar longe dele! Ele teria partido. É claro que ele fica rodeando você! Você o encoraja. Ela foi até a janela e ali ficou, admirando os jardins à sua frente. - Eu o amo - confessou-lhe. Fez-se silêncio novamente e Ian se retirou sem dizer palavra. Mark não apareceu naquela noite. O desapontamento de Rachel era a maior prova de que necessitava da presença dele desesperadamente. Foi dormir sentindo-se miseravelmente só. Enrolou-se no lençol fino e encolheu-se toda. No entanto, quando o encontrou na praia na manhã seguinte, sentiu-se renascer. E não conseguiu disfarçar sua alegria quando sorriu para ele. Nadaram e depois se deitaram na areia para conversar. Foi uma conversa totalmente impessoal. Mark falou de política e negócios, a cabeça apoiada nos braços cruzados, os olhos fixos no céu azul. Começaram então a chegar os primeiros banhistas. Mark sentou-se, tirando a areia das costas e dos ombros. - Vamos tomar alguma coisa ou você vai ensaiar? - Não, nada de ensaios hoje - disse Rachel. Foram para o chalé e Rachel logo providenciou café enquanto ele observava sua pequena estante de livros, detendo-se em alguns títulos. - Quando vai voltar para os Estados Unidos? Ele se sentou, apoiando a cabeça negra no estofado da cadeira. Olhou para ela, pensativo. - Ansiosa para me ver pelas costas? - Não, mera curiosidade. - Não tenho planos. Rachel olhava para o café. Tinha ou não tinha planos?, perguntou-se. - O que está acontecendo exatamente entre você e MacIntyre? - indagou Mark, num tom baixo e calmo. - Nada. - Rachel sorriu, constrangida. - Nada, e você sabe disso muito bem. Ele concordou. - Pediu para que ele falasse comigo? - Sim. - E o que lhe contou? - Tudo. - Rachel respondeu como se o estivesse acusando. - Não gosto disso. - Sinto muito - desculpou-se, sem a menor sinceridade. - Não deveria ter-lhe dito nada. Não gosto que MacIntyre saiba de tantas coisas sobre mim. Repentinamente ela se sentiu tomada de raiva. - Então, saia da nossa vida. Pegue um avião, pegue um barco e suma! Suma, pelo amor de Deus. Sem ao menos ter tocado o café, ele se levantou bruscamente. - Você fala como se realmente desejasse isso. - Cada palavra. - Seus olhos brilhavam. - Cada droga de palavra! Ele saiu tão silenciosamente que, por um momento, tudo aquilo pareceu um sonho. A xícara de café permanecia intacta e a sala estava vazia. Durante os dias que se seguiram, Rachel retirou-se. Era visível sua melancolia. Ian disse-lhe, então: - Mark voou para a Inglaterra há dois dias. Chequei no hotel. - Bom, então é isso - disse ela. - Obrigada por tudo o que fez, Ian. - Não fiz nada, só banquei o bobo - retrucou ele. - Se eu tivesse percebido quanto estava envolvida com ele, não teria me prestado a esse papel. - Desculpe-me. A culpa foi minha. - Foi - concordou enfaticamente. Olhou-a resignado e disse: - Esqueça. - Ian permaneceu algum tempo em silêncio e depois perguntou: - Ele conseguiu o que queria?


Rachel sentiu o sangue subir-lhe à cabeça. - Não, não conseguiu! - Sinto muito. Apenas pensei... Esqueça minha pergunta. O clima de sonolência da ilha envolveu-a novamente. Seus dias se dividiam entre o mar e seu trabalho no clube. Ela recusou todos os convites de Ian para jantar ou almoçar fora, até que ele desistiu, percebendo que não haveria mesmo nenhum futuro para aquele relacionamento. Rachel estava desiludida. Ian era agradável, mas ela não queria mais nada com nenhum homem. À medida que se aproximava o final de seu contrato, sentia-se mais aliviada. A idéia de rever Londres era-lhe extremamente agradável. Conseguira economizar uma quantia considerável, devido ao alto salário do clube, e mesmo que ainda demorasse para arrumar emprego, tinha o suficiente para se manter por bastante tempo. Sentia saudades das ruas cinzentas e melancólicas de Londres. Não recebeu mais notícias de Derry por meses seguidos. Escrevera-lhe várias cartas, nunca respondidas. Suspeitava que ele havia sido muito humilhado por Júlia Brennan. Devia ter saído muito machucado da história, ao perceber que ela o estava usando, assim como ele a quisera usar. Rachel gostaria que ele tivesse aprendido a lição, mas desconfiava que isso jamais aconteceria. Sob o sorriso charmoso de Derry escondia-se um perpétuo cinismo. Derry era como Mark Hammond, não acreditava no amor. A despedida de Ian foi mais dolorosa do que imaginara: Ele a levou de carro até o aeroporto e, no momento em que ela passava pelo portão, a beijou voluptuosamente, virando-se e impedindo-a de dizer qualquer palavra. Rachel entrou no avião percebendo pela primeira vez quanto ele gostava dela. Sentiu-se culpada por ter-lhe machucado tanto, mas ela mesma não sabia quanto ele se deixara envolver por aquele amor. Durante todo o vôo para a Inglaterra, ficou imersa em seus pensamentos, lembrando-se de cada gesto, de cada detalhe de seu relacionamento com Ian. Ele deveria ter sofrido bastante, mas jamais o demonstrara claramente. Aquela não era a primeira vez que um homem se apaixonava por ela, e provavelmente não seria a última. Ian, no entanto, fora o primeiro do qual ela realmente poderia ter gostado. Se não tivesse conhecido Mark Hammond, tudo seria bem diferente! Teria se casado com Ian, pensava desconsolada, olhando as nuvens passarem rápidas pelo céu azul. Que oportunidade ela perdera! Em outras circunstâncias, ela teria realmente se casado com Ian e viveria feliz para o resto da vida. Ao chegar em Londres, dirigiu-se imediatamente para um pequeno e confortável hotel em um bairro calmo. Teria de procurar um apartamento. Caía uma garoa fria e gelada, mas ela não se importou. Era a prova de que estava de volta à sua casa. Naquela mesma noite ligou para Derry e descobriu que ele se mudara, não deixando ao proprietário nenhum outro endereço. Alarmada, ligou para seus pais, e ficou sabendo que ele não se encontrava em Londres. Estava na Alemanha, onde arrumara um emprego e não pretendia voltar tão cedo. Fazia uma semana apenas que ele se fora, por isso não tinha mandado notícias. - Mas ele não a avisou? - perguntou a mãe de Derry, surpresa. - Não - respondeu Rachel. Desligou o telefone com um sorriso triste nos lábios. A velha amizade fraternal que sempre existira entre eles estava definitivamente extinta. Aquele fora o inverno mais longo e mais frio de sua vida. Estava procurando um emprego de agência em agência, e foi numa delas que conheceu uma moça chamada Karen Spark, que finalmente lhe arrumou um emprego. Karen era morena e muito simpática. Ela lhe disse que haveria um teste para uma peça teatral logo após o Natal, e sugeriu que tentassem juntas. Era necessário saber cantar, pois era uma pantomima para crianças. - Nunca fiz nada parecido em minha vida - disse Rachel, preocupada. - Há sempre uma primeira vez - respondeu Karen, divertida. - Você vai ver. As crianças são uma ótima platéia e a atmosfera de trabalho é a melhor possível. Rachel considerou o que ela dissera. - Bem, e por que não tentar? Karen riu. - Com essas suas pernas você vai conseguir um papel. Com as minhas... não sei, não! Mas mesmo com suas pernas grossas, Karen conseguiu um emprego no coro da peça. Ela tinha os olhos muito vivos e expressivos, e não teve dificuldade. Rachel, por sua vez, surpreendeu-se. Depois de a terem ouvido duas vezes deram-lhe um pequeno papel. Ela faria alguns solos. Jamais fizera nada parecido, mas durante os ensaios percebeu que gostava muito daquilo. - Você é natural! - Karen a encorajava.


As duas estavam agora dividindo um apartamento e a amizade crescia com a convivência. Rachel evitou falar de Mark, pois queria encerrar definitivamente aquele capítulo de sua vida. Karen era uma garota muito viva, pronta para se apaixonar perdidamente à primeira vista e dias depois esquecer tudo. Ela tinha uma irmã casada que morava perto delas e, de quando em quando, Karen ficava tomando conta do sobrinho. Bobby era uma criança linda, com cabelos louros encaracolados e enormes olhos azuis. Por onde quer que andasse carregava seu ursinho de pelúcia cor-de-rosa e de olhos pretos. Karen lhe dera o brinquedo quando ele ainda era bebê, e desde então o garoto não o largara mais. O bicho tinha as orelhas comidas, o nariz amassado, e seu pêlo estava já gasto de tantas manifestações de carinho. - Quero Ludo - pedia Bobby sempre, e Karen lhe entregava o ursinho, orgulhosa do presente. Bobby ficava sentadinho, chupando a orelha gasta do bichinho e provavelmente imaginando histórias onde Ludo seria o grande herói. Um dia, em que Karen tinha saído para fazer compras, sua irmã chegou com Bobby no colo. - Ela não está? Mas que azar! Tenho de ir até o hospital e não gosto de levar Bobby. É muito irrequieto e acaba perturbando todo o mundo. - Ela sorriu para Rachel. - Vou fazer um teste de gravidez, sabe. Tenho quase certeza de estar grávida novamente. - Posso tomar conta dele - ofereceu-se Rachel. - Não há problema. Ele vai me ajudar a fazer o almoço, não é? - perguntou ao garoto, sorrindo. Bobby também sorriu, e assim que sua mãe saiu pôs-se a andar pelo apartamento, mostrando o lugar para o ursinho também. Ele observava cada movimento de Rachel atentamente. Quando a campainha tocou, ela pegou-o no colo. - Aí está tia Karen! Vamos fazer uma surpresa para ela. - Ela o pôs no chão, segurando-o pela mãozinha. Você vai beijá-la, não vai? Ao abrir a porta seu coração parou. Mark estava lá, os olhos azuis fixos em seu rosto. Não conseguia falar, e ele tampouco se mexia. Bobby puxou sua saia. - Quem é, tia? - perguntou, curioso. Ela se abaixou e tomou-o nos braços como se fosse um escudo. Tremia de nervosismo. Mark olhou para a criança e depois para ela. - Posso entrar? Rachel hesitou, mas não podia se recusar a recebê-lo. Relutante, fez um gesto, consentindo. Mark entrou, elegantemente trajado num casaco de lã. O apartamento estava num caos. Bobby espalhara os sapatos de Karen, picara papel, desarrumara tudo. O apartamento, apesar de não ser moderno nem luxuoso, era aconchegante. - Quero beber - pediu Bobby. Mark sorriu para Rachel. - Também quero. Ela o olhou, embaraçada. - Claro. O que vai querer? Café? - Suco de laranja - disse Bobby, segurando a bochecha. Rachel beijou-lhe a mãozinha gorducha. - Eu sei, querido. - Ergueu os olhos para Mark. - E você? - Café está bem, por favor. Rachel foi até a cozinha, colocou Bobby em sua cadeira e pôs água no fogo, antes de fazer o suco. Movia-se mecanicamente pela cozinha, atormentada por um turbilhão de pensamentos. O que Mark fazia ali? Quando tirou o casaco, Rachel notou que ele usava um terno escuro com uma camisa imaculadamente branca. Depois de tomar o suco de laranja, Bobby foi até a televisão, ligou-a e deitou-se de bruços no chão, o olhar fixo na tela. O som estava alto demais e Rachel correu para abaixar o volume. Quando voltou, Mark se instalara na cozinha e fumava um charuto. Ela o fitou interrogativamente. - Eu sei. Havia largado de fumar, mas voltei - disse ele. - Não devia - observou Rachel, servindo o café. Estava de costas para ele. - Por que está aqui, Mark? perguntou ansiosa. Ele não disse nada e ela se virou. Ficaram de costas, mas a fumaça do charuto perfumando o ambiente parecia aproximá-los. Quando ele se decidiu a olhar para ela, Rachel notou suas feições alteradas. Então timidamente lhe confessou: - Eu amo você, Rachel. Rachel tremia inteira. Colocou a xícara na mesa e tentou se controlar. Ele não se movera. Olhava firme para ela, mas mesmo assim não conseguia disfarçar sua vulnerabilidade, para ela até então desconhecida. - Não - negou Rachel, virando-se bruscamente. Então era essa a sua última tentativa? Ele pensava poder levá-la para a cama dessa maneira?


- Não vou tocá-la - assegurou-lhe Mark. - Tentei esquecê-la esses meses, mas não consegui. Você já faz parte de mim, está na minha pele, no meu sangue. Mesmo que não a encontrasse nunca mais, continuaria a amá-la! Ela o ouvia, trêmula, de costas para ele e sorvendo avidamente suas palavras, acreditando no que ele dizia. Jamais o vira falando tão seriamente. - Começou na mesma noite em que nos conhecemos - prosseguiu Mark. - Não sabia o que estava acontecendo, mas cada vez que eu a via, ficava mais e mais envolvido. Ela se virou para ele, incrédula. - Tinha ciúmes até de Nicky! - afirmou ele. - Um garoto, meu próprio filho, e eu não agüentava vê-la sorrir para ele! Antes de conhecê-la, já sabia que tipo de mulher encontraria, ou pelo menos julgava saber. Uma cantora de boate, que gostava de diamantes, uma mulher sem escrúpulos. Rachel sorriu, amarga. - Sei perfeitamente o que pensava de mim. Foi bastante claro. - Rachel, eu estava muito confuso sobre o que pensar então. De repente você dizia não! Fez-me dar voltas e mais voltas até eu ficar tonto. - Seus olhos brilharam subitamente. - Não podia acreditar que você estivesse sendo sincera. Tentei comprá-la de qualquer forma. Deus, se soubesse o que senti quando rasgou o cheque! - Você parecia furioso! - Porque você disse que o preço dobrara! - justificou-se Mark. - Não sabia o que pensar, você destruía todas as regras que eu aprendera. Ela riu, deliciada. - Regras ridículas! Ele deu um passo na direção dela, o olhar fixo em sua boca. - Desde o início, vi que me sentia atraído. Faria qualquer coisa para tê-la comigo, mas aquela história com Nicky me deixava confuso. - E eu não queria nada - acrescentou Rachel. - Nicky era um rapaz sensível, e eu tinha me compadecido dele. Não queria machucá-lo e sabia que o único modo de convencê-lo de que não era a pessoa certa para ele seria conversando com ele, aos poucos. Ele logo perceberia que poderíamos ser bons amigos apenas. - Acredito. Tive de conhecê-la para acreditar no que dizia, Rachel. Jamais havia visto uma jovem tão desprendida! Não podia acreditar que você não tivesse algo em mente. - Há sempre uma primeira vez em tudo na vida! - Ela dirigiu-se para a porta. - Bem, estou feliz por acreditar em mim, Mark. Agora tenho muitas coisas para fazer. Seu rosto se contraiu subitamente. - Esqueceu-se do que eu lhe disse? Que eu a amo? Ela segurava o trinco da porta com força, procurando sorrir polidamente. - Não, não esqueci do elogio. - Elogio! - repetiu ele indignado, com os olhos faiscando de raiva. - Não tenho dúvidas de que quando descobriu que eu não tinha quaisquer outras intenções em relação a Nicky você ficou muito impressionado, mas você não me ama, Mark. Pensa que me ama. Em alguns meses terá esquecido o meu nome. Ele enfiou as mãos nos bolsos. - Mesmo? Consciente do brilho malicioso de seu olhar, ela ergueu o nariz. - É. O barulho de uma chave destrancando a porta da frente fez com que ambos estremecessem. Karen entrou, desenrolando um cachecol do pescoço. - Olá, cheguei! - Ela se deteve, surpresa com a presença de Mark. Olhou então para Rachel interrogativamente. Rachel os apresentou e Mark estendeu-lhe a mão morena e forte, com um sorriso nos lábios. Karen por sua vez não escondia sua admiração, sorrindo para ele desajeitadamente, medindo-o de cima a baixo sem a menor cerimônia. Não lhe passaram desapercebidos o talhe elegante do terno, a camisa fina e o porte esguio e majestoso de Mark. Bobby saiu do quarto subitamente, segurando a perna da tia. - Titia, trouxe doces? - Olá, meu garoto! - Ela riu. - O que está fazendo aqui? - Mamãe foi para o hospital - explicou ele orgulhosamente. Mark dirigiu a Karen um olhar dos mais charmosos. - Agora que voltou, Rachel pode vir comigo visitar minha mãe, não é mesmo? - Ele lançou um olhar determinado a Rachel. - Olly quer muito vê-Ia. Rachel corou. - Eu... tenho muitas coisas a fazer - balbuciou, insegura.


- Pode ir, Rachel. - Karen não compreendia a sua relutância. - Mas precisa se trocar antes, está desarrumada. - Por favor, vá se vestir - disse ele. Rachel foi até seu quarto e pôs um vestido verde, gracioso e elegante. Por cima colocou um casaco acinturado que só lhe valorizava o corpo esguio. Mark sorriu para Karen e apressou Rachel para fora do apartamento. Ela o olhou, irritada, mas não disse nada. Mark não foi para a casa da mãe. Estacionou em um parque enorme. Desceram então do carro e começaram a caminhar sobre a grama seca e queimada de inverno. - Vamos conversar - disse ele, uma das mãos possessivamente em seu ombro. - Não temos o que conversar! - Tem toda a razão - concordou ele. De repente, parou e puxou-a contra si. Olhou bem dentro dos olhos zangados de Rachel e acrescentou: - Já conversamos muito. Começou a beijá-la voluptuosamente, e ela correspondeu com ardor. Sempre fora assim, pensou. Quaisquer que tivessem sido os insultos trocados entre eles, qualquer antagonismo que existisse se extinguia imediatamente quando se tocavam. Rachel sentia o sangue correr mais depressa nas veias. Ele passava a mão nos cabelos dourados de Rachel, como se a desejasse mais e mais a cada segundo. - Eu amo você, Rachel! - murmurou ele, beijando-a repentinamente. Ela ergueu os olhos para ele, totalmente subjugada. - Está bem, Mark, eu desisto. Aceito seus termos. Os olhos azuis se estreitaram. Ela esperava ver paixão em seu rosto, mas ele permanecia impassível. - Quer dizer que se submete sem reservas? - Sim - murmurou ela, os lábios tremendo traiçoeiramente. - Por quê? - perguntou, lacônico. Ela o fitou, transtornada. - Você sabe muito bem por quê! - Está admitindo que me ama? A pergunta fora por demais clara e direta, e ela reagiu com raiva. - Sim, eu amo você! E desejaria muito não amá-lo tanto! - Por favor, meu amor, não! - exclamou ele, emocionado. Apertou-a com força, enlaçando-a nos braços fortes, brincando com seus cabelos. - Você pensou que eu a estivesse cortejando para ser minha amante novamente? Rachel, eu amo você! Quero que seja minha mulher. Ela descansou a cabeça em seu ombro, tremendo. - Mark, Mark, não posso me casar com você. Ele ficou imóvel, não movendo um só músculo. - O que você quer dizer, com isso? - Segurou-a pelo cabelo, e forçou-a a fitá-lo. Seu rosto estava pálido. Por que não? - Pertencemos a mundos diferentes, você mesmo disse. Jamais seria o tipo de esposa que você necessita. Não daria certo. Mark relaxou e sorriu, - Claro que vai dar certo! Se houver problemas, saberemos contorná-los juntos. - Ele acariciou seu rosto gentilmente. - Não sou mais um garoto, Rachel. Descobri com você o amor e não posso mais viver sem ele. Pensa que não pensei muito antes de vir procurá-la? Por que pensa que a deixei nas Bahamas? Eu tinha que ter certeza que a amava, por isso fiquei sem aparecer todos esses meses. Corri um grande risco ao deixá-la com MacIntyre. Se me conhecesse melhor, perceberia como foi arriscado para mim esse jogo. Ela franziu o cenho, perplexa. - Não entendo. - Bem, é que ele parecia o homem ideal para você: simpático, agradável, enfim um marido decente e digno de confiança. Eu odiava seus modos bem educados. - Seus olhos brilhavam. - Estava com tanto ciúme que poderia tê-Io matado! Mas ele deixou claro que a amava e que pretendia se casar com você, e tive de admitir que seria um marido melhor do que eu. Sabia que você me achava atraente, mas não quis me aproveitar disso. Assim, resolvi sair de cena. Arrisquei-me. - Pensou que eu me casaria com Ian? - perguntou ela, confusa. - Estava apavorado com a idéia. - E mesmo assim foi embora? - Rachel, não sou nenhum anjo. Tive uma vida tumultuada. Não sou o homem ideal para você, mas eu a farei feliz de qualquer maneira. Amo-a mais que tudo na minha vida. - Quer dizer que pela primeira vez em sua vida deixou de lutar por seus próprios interesses? Ele concordou com a cabeça. - Que altruísmo! - brincou Rachel. - Ou você sabia que eu jamais me casaria com Ian?


- Estava terrificado com a idéia, isso sim! - disse ele, segurando-lhe o rosto carinhosamente. - Mas você não se casou. Quando soube que voltara para Londres percebi que esta era a minha chance e não quero deixá-la escapar! - Tive tantas dúvidas em relação a você - confessou Rachel. - Acho que somos diferentes demais. Mark beijou-a sofregamente. - Mas nos amamos muito. Não é o suficiente? Agora venha e conte tudo para Olly. RacheI finalmente cedeu, beijando-o com paixão.

FIM

O preço de cada um - Charlotte Lamb  

Um livro instigante que ensina a diferença entre preço e valor.

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