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CONVERSA DE PSICÓLOGO Volume 10 - Edição 01 Outubro - 2013

Entrevistada: Luciana A. Zanella Gusmão

Entrevistadora: Patricia Motta C. Gonçalves

TEMA: EU PRECISO FAZER TERAPIA?

Psicóloga, especialista em terapia na Análise do Comportamento - UEL e mestre em Psicologia da Infância e Adolescência – UFPR. No IACEP atende crianças, adolescentes e adultos. Além disso, atua na área acadêmica – curso de Psicologia - há 15 anos.

Olá Luciana. De início gostaria de saber como se interessou pela psicologia e pela área clínica. Desde adolescente eu me interessava por ler sobre a psicologia enquanto profissão e, desde muito cedo falava em fazer o curso de Psicologia. E tive a oportunidade de conhecer uma psicóloga clínica, com a qual eu tirava minhas dúvidas sobre a profissão. Bem, acabei vindo estudar em Londrina e, como tive excelentes professores analistas do comportamento ao longo do curso na UEL,


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logo me interessei pela clínica nesse enfoque, o que fez e faz, a cada dia, grande diferença na minha vida pessoal e profissional.

Somos sempre questionados sobre quem precisa fazer terapia. Afinal, quem precisa fazer terapia? De fato, por diversas vezes psicólogos são questionados quanto a isso. Para responder tal pergunta quero abordar alguns aspectos: primeiramente, ao longo da vida aprendemos que existem problemas físicos, doenças físicas e que precisam ser tratadas por médicos, dentistas, fisioterapeutas, enfim, profissionais que cuidam das alterações do nosso corpo: dor de dente, dor de barriga, dor nas costas, etc. E, por consequência, aprendemos a buscar ajuda profissional diante de tais alterações. Aliás, raramente antes de elas aparecerem. Não temos a cultura da prevenção, infelizmente! Mas, e quando vivenciamos alterações de humor, quando estamos tristes, sem vontade de sair da cama, quando percebemos que estamos sofrendo, que vivemos irritados, brigando, quando temos uma crise de ansiedade, que alguns chamam de medo, outros de crise de nervos, outros de piti, etc. O que fazer? Aprendemos que há um profissional que pode ser procurado para nos ajudar? Comumente não aprendemos. A pessoa que está apresentando tais “problemas” passa a ser considerada “a problemática”, a que está enlouquecendo, a que “está fora da casinha ou pirando o cabeção”, numa linguagem mais popular. E, por oposição às doenças físicas tais alterações passam a fazer parte das consideradas doenças mentais e então a pessoa está com problema mental. Nesta perspectiva, a pessoa é vista como a única responsável pela sua própria doença ou problema mental. Aqui está outro aspecto a ser esclarecido: não podemos considerar alguém como o produtor intrínseco de sua própria condição emocional ou psicológica. Há fortes influências ambientais envolvidas nisso tudo.


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O próprio desenvolvimento da personalidade de cada um é significativamente influenciado pelo ambiente físico. Sendo assim, as consequências dos comportamentos das pessoas serão boas ou ruins dependendo de como a pessoa se comportou para produzi-las e, portanto, tais comportamentos também serão considerados bons ou ruins. Sabemos que, quando nos comportamos e estamos obtendo boas consequências ficamos satisfeitos, felizes, mas quando as consequências não são boas, aparece sofrimento, tristeza, angústia, etc. E quem nunca se sentiu assim? Então, respondendo a sua pergunta, todos nós podemos precisar de terapia em algum momento, ou melhor, alguns momentos da vida, pois ao longo da mesma, nos são apresentadas as mais variadas circunstâncias e podemos ficar sem compreender o que está acontecendo (observação do ambiente), como estou me comportando nesse contexto e porque estou obtendo consequências ruins. Ou seja, em função do que estou vivenciando consequências desastrosas.

Além

disso, é importante considerar há quanto tempo isto está ocorrendo, quais as repercussões na minha própria vida e na das pessoas que convivem comigo, o que já tentei fazer para resolver as situações e quais resultados obtive. Diante das respostas a estas perguntas, o profissional poderá afirmar se a pessoa está necessitando de terapia ou não.

Mas há o forte conceito de que os problemas psicológicos são iguais às doenças mentais. Você pode nos explicar sobre isso? Posso sim. As doenças mentais foram historicamente estudadas pela Psiquiatria, daí o modelo médico de compreensão das psicopatologias, mas uma linha teórica da psicologia denominada Análise do Comportamento tem procurado compreender,

cientificamente,

o

comportamento

humano,

ou

seja,

o

comportamento das pessoas, com todas as suas idiossincrasias, nas interações


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com o ambiente. Sendo assim, não tem como objeto de estudo nem a mente e nem as doenças como a medicina o faz e, portanto, não estuda as doenças mentais. O que a ciência do comportamento explica é o processo de aprendizagem do comportamento independente deste ser considerado “patológico” ou “saudável”, no sentido de “normal” ou “anormal”. Assim, todo comportamento aprendido pode ser mudado e as diferenças entre as pessoas estarão no produto da aprendizagem, ou seja, um aprendeu a emitir comportamento opositor e outro conciliador pelos mesmos princípios da aprendizagem. Como o contexto social no qual

o

comportamento

ocorre

é

relevante,

um

mesmo

comportamento

(topograficamente falando) pode ser considerado normal ou anormal, dependendo do contexto em que ocorre. Assim, é importante considerar as práticas sociais e culturais na explicação dos critérios de normalidade quando da classificação de uma psicopatologia e não somente fatores biológicos como enfatizado pela medicina. No entanto, é sabido que algumas psicopatologias podem ter componentes biológicos subjacentes, daí a importância da parceria psiquiatriapsicologia, leia-se análise do comportamento, quando isso ocorre.

Muitos têm receio de tomar medicamentos prescritos por psiquiatras e você está falando que pode ser uma boa parceria a atuação do psiquiatra juntamente com o psicólogo. O remédio não atrapalha a terapia? Estamos falando de uma parceria em benefício do cliente. Como dito anteriormente, quando a psicopatologia tem componente biológico subjacente, se faz necessário e é de grande importância o uso de medicamento prescrito pelo profissional habilitado: o médico. O remédio não atrapalha a terapia, mas ele precisa ser utilizado como uma das frentes para resolver o problema e não como uma solução rápida e única para problemas complexos... Ele irá atuar sobre aspectos biológicos do comportamento favorecendo mais conforto e, enquanto a


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pessoa estiver usando-o, seu sofrimento diminui e ela tem condições de se dedicar a reaprender alguns comportamentos, reorganizar sua vida. Com a terapia, a pessoa aprenderá a observar como vem se comportando em diferentes contextos e as consequências que está obtendo. Concomitante a isso, aprenderá a atuar, ou seja, se comportar de acordo com o contexto, de forma a produzir consequências boas e que trazem satisfação, alegria, enfim bem estar. A relação estabelecida na terapia é uma relação de confiança, uma relação de ajuda ao longo da qual o terapeuta utiliza dos conhecimentos científicos sobre comportamento humano. É nessa relação que aprendizagens de comportamentos novos ocorrerão, pois como sabemos não existe nenhuma pílula que ensine a gente a se comportar (...e obter boas consequências!).

Entrevistadora: Patricia Motta Cordeiro Gonçalves Graduada pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Atua como psicóloga clínica no Instituto de Analise do Comportamento em Estudos e Psicoterapia (IACEP), atendendo todas as faixas etárias e como Psicóloga Social na Politica Municipal de Assistência Social promovendo o fortalecimento de vínculos e desenvolvimento sócio comunitário de pessoas com diversos tipos de deficiências e suas famílias. Tem experiência em avaliações neuropsicopedagogicas, acompanhamento de crianças em ambiente escolar e pesquisas em psicologia da saúde. Coautora de artigos e outras publicações. CRP 08/16168


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Rua: Malba Tahan, 420 Londrina – Paraná. Fone (43) 3029-8001 E-mail: iacep@iacep.com.br www.iacep.com.br

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Coordenação editorial: Bruna Aguiar e Laís R. Paes Revisão: Bruna Aguiar e Laís R. Paes Projeto gráfico e diagramação: Laís R. Paes


Conversa de psicólogo - outubro 2013 - vol 10