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O ESTADO DE S. PAULO

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DOMINGO, 4 DE JULHO DE 2010

COPA 2010

Reportagem Especial

O ESTADO EM MBOMBELA ●

Lourival Sant’Anna (TEXTOS) Evelson de Freitas (FOTOS) ENVIADOS ESPECIAIS

ÁFRICA SELVAGEM TRANSFORMA SAFÁRIS EM MEIO DE PRESERVAÇÃO Caça controlada de animais nativos faz crescer turismo, receita e desenvolvimento local na savana

N

oBrasil,asreservasecológicas são territórios teoricamente intocáveis, nos quais atividades econômicassãoproibidas.Comohágentemorando dentro delas e no seu entorno, e é impossível fiscalizar seus imensosterritórios, todo tipo deatividade ocorre de forma ilegal e predatória. Na África do Sul, no lugar de reservas há 19 parques nacionais, dos quais o Estado retira arrecadação e as comunidades,empregos. Cometem-secrimes ambientais, mas numa dimensão muito menor. Nos parques nacionais, o governo entrega concessões para empresas privadas operarem hotéis, safáris, restaurantes e lojas, que vendem não só produtos industrializados, mas também peças de artesanato feitas pelas comunidades locais. De acordo com Reynold Thakluli, gerente de relações institucionais do South AfricanNationalParks,órgãodoMinistério do Meio Ambiente, menos de 20% dos gastos com manutenção são bancados pelo governo e 80% provêm das atividades privadas. Mas a iniciativa privada não atua só nos parques públicos. Centenas de reservas privadas surgiram a partir dos anos 40 na África do Sul, em geral em áreas contíguas ou próximas aos parques nacionais, aproveitando seus ecossistemas e o fluxo de turistas que eles atraem. Fazendas de gado e de ovelhas deram lugar a ranchos de safári. Muitas se consolidaram em cooperativas, formando as chamadas “conservancies”. Parte dos fazendeiros mudou de negócio, da agropecuária para o ecoturismo. Parte arrendou suas terras paraempresáriosdosetor.Hoje,muitos deles já estão na segunda ou terceira geração de filhos e netos de fazendeiros convertidos para o setor do turismo. E o movimento continua,commuitasfazendas sendovendidas ou arrendadas para safári. Segundo Grant Hine, presidente da Associação de Guias de Campo da África do Sul, o setor emprega 50 mil guias. Desses, entre 85% e 90% trabalham para empresas privadas. Os salários variam US$ 133 a US$ 1.066. Os safáris eram tradicionalmente negócio de brancos. O governo tem estimuladoacontrataçãodemoradores das áreas em torno das reservas, pagando pelo seu treinamento nas cerca de cem empresas credenciadas. Como resultado, entre 35% e 40% dos guias formados atualmente pela associação são negros, diz Hine. Os parques nacionais empregam diretamente 4,5 mil pessoas, além dos estagiários e dos empregos indiretos. Só no Kruger Park, o maior dos parques nacionais (19 mil km²), em Mbombela, são 1.885 funcionários permanentes, 202 temporários e 64 estagiários. Esses são os funcionários do governo. Além deles, há os

Atrações. Girafas, zebras, hipopótamos, macacos e gazelas fazem a alegria de turistas e caçadores; contraste com o modelo de reservas do Brasil

Traficantes e caçadores ilegais ameaçam conservação ● Os parques nacionais sul-africanos

não têm os problemas usuais das reservas brasileiras, como garimpo, extração de madeira e pesca ilegais. Seu desafio são as quadrilhas de caçadores clandestinos e traficantes de chifres de rinoceronte e de carne de antílopes. No caso dos chifres, elas atingem a sofisticação do narcotráfico, empregando helicópteros, armas e munições soníferas, de uso

empregados das oito empresas que mantêm hotéis dentro do parque e das três que operam restaurantes, lojas e áreas de piquenique. O número de visitantes do parque subiu 7,8% no último ano. Os hotéis estavam praticamente todos lotados nas férias de inverno. Quem passa a noite no parque paga uma “taxa de conservação” de US$ 21,33 ao governo. Os visitantes quevãopassaro dia,muitos delesmoradores das comunidades locais, não pagam a entrada. Um pouco menor que o Estadode Israel, e com o mesmo formato alongado, o Kruger parece um país. Cada hotel corresponde a uma cidade no seu mapa, queindica os animais mais frequentes nas suas imediações. O último censo, feito em 2005, mostra um aumento na população de muitas espécies de animais. Os elefantes, por exemplo: de 7.454, em 1980, passaram para 12.470; as girafas, de 4.122 para 6.700; e os rinocerontes brancos, que chegaram perto da extinção no fim do século 19, saltaram de 598 para 6.940. Nos safáris, é fácil encontrar famílias de leões nas estradinhas que cruzam o parque. Elefantes, girafas, zebras, rinocerontes, hipopótamos, búfalos e várias espécies de antílopes são vistos facilmente durante o dia.

controlado para veterinários. De janeiro para cá, cerca de 100 rinocerontes foram mortos nos parques nacionais. Em todo o ano passado, haviam sido 122, o que indica um crescimento. Os criminosos imobilizam os rinocerontes com os soníferos – ou com munição convencional –, arrancam seus chifres e os abandonam a uma morte lenta e dolorosa. Este ano foram presos 25 suspeitos. O marfim do chifre tem diversas aplicações. No Oriente Médio, é usado nos cabos de punhais e facas de luxo. Na China e noutros países asiáticos, é moído, e o pó utilizado em remédios tradicionais. / L.S.

Isso também ocorre nas reservas privadas. Até 2002, havia seis fazendas de gado onde hoje existe a reserva Thanda (“amor”, em zulu). O empresário sueco da área de telefonia, Dan Olofsson, foi comprando as terras, que hoje somam 14 mil hectares, num investimento de US$ 53,3 milhões. Hoje, ela tem 14 leões, 15 rinocerontes pretos e 21 brancos, pelo menos 14 leopardos, 16 hienas, 18 elefantes e 130 búfalos. A reserva emprega direta e indiretamente 130 pessoas, mantém projetos sociais que envolvem 200 mil pessoas da comunidade e recebe 3 mil visitantes por ano, que pagam US$ 667 por noite. Parte da renda vai para a fundação do rei zulu Goodwill Zwelithini, onde fica a reserva. “É um negócio lucrativo, considerando que os donos se hospedam com amigos a cada dois ou três meses”, diz o gerente da reserva, Pierre Dalvaux. “Não há caça, e quando temos animais em excesso, fornecemos para outras reservas.” Proibida em todos os parques nacionais, a caça é permitida, de forma controlada, em reservas privadas. Apesar

de seu aspecto brutal, a caça também tem impulsionado a criação de reservas e a expansão do número de animais. Os preços variam, mas, em média, para caçar um leão paga-se US$ 67 mil; um leopardo,US$10 mil;umrinocerontebranco, US$ 87 mil. Assim, as reservas podem gerar lucros matando poucos animais e criando espaço para muitos. Richard Sowry, policial ambiental no Kruger Park, defende a “caça sustentável” como forma de preservar o meio ambiente. Sowry conta que trabalhava na reserva privada Klaserie. Em todo o ano de 2001, foram caçados na reserva dois leões, dois elefantes e cinco búfalos. Isso deu para sustentar a reserva, que tinha cerca de 100 leões e 400 elefantes, e ainda gerar lucros, garante o policial–um doscerca de300quepatrulham o Kruger. Sowry diz que uma reserva de safári apenas para fotografar pode degradar o meioambientesegerarlixosemdestinação adequada, se não tiver tratamento deesgotooucausar excessivaaglomeração de veículos. “O importante é que as reservas sejam administradas de forma sustentável, independentemente de serem para caça ou não.” Harriet Davies-Mostert, diretor científico do Endangered Wildlife Trust (Fundo da Vida Selvagem em Risco), enumera “aspectos positivos da indústria da vida selvagem”: aumento na distribuiçãoeabundância dosgrandes herbívoros; recuperação de várias espécies emrisco,comobontebok(antílope),zebra da montanha do cabo e rinoceronte branco; redução dos rebanhos e da degradação do solo que eles causam. Muitos acordos entre reservas, tanto estatais quanto privadas, têm derrubado as cercas que as separam, aumentando a quantidade e a qualidade de vida dos animais – além de sua atratividade e lucratividade. Assim como as cercas, caem os tabus que impedem o desenvolvimento sustentável.

ONDE FICA Mbombela

BOTSUANA NAMÍBIA

Pretória Johannesburgo

302 km

LESOTO

OCEANO ÍNDICO

ÁFRICA DO SUL

0 km 300

N INFOGRÁFICO/AE

A FAUNA NO KRUGER População estimada das principais espécies de animais selvagens no maior parque da África do Sul: Guepardos Cachorros-do-mato Leopardos Leões Hienas Javalis Cob-untuosos Girafas Kudus Rinocerontes brancos Gnus Elefantes Zebras Búfalos Impalas

200 350 1.000 2.000 2.500 2.280 3.200 6.700 6.700 6.940 12.000 12.470 21.100 31.060 101.000

* CENSO DE 2005

Números de visitantes em 2009:

1.429.904 Número de empregados:

2.151 FONTE: KRUGER PARK

Estadão 4 jul 2010  
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