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NOVEMBRO 2019

EDIÇÃO Nº1

Shhh... NÃO FALE SOBRE ISSO

Crianças on-line

Adoção tardia

Amor na velhice

O desafio daqueles que crescem em um mundo conectado

Quando a vida recomeça na adolescência

Sexo na maturidade também pode ser bom!


EDI TORIAL

Veículo desenvolvido como trabalho de conclusão das disciplinas de Jornalismo Impresso III e Planejamento Gráfico Editorial III, sob orientação dos professores Mauro de Souza Ventura e Viviane Lindsay Cardoso no curso de Jornalismo da Unesp, campus de Bauru. Av. Eng. Luiz Edmundo Corrijo Coube, n 14-01 Bairro: Vargem Limpa CEP: 17.033-36 - Bauru, SP Fone: (14) 3103-6063

É difícil entender em que momento do ciclo da vida estamos. Os diversos instantes que compreendem esse quebra-cabeça escrevem a história na qual estamos inseridos. Essa sensibilidade é demonstrada em momentos que nos fazem pensar sobre as nossas relações e em como podemos viver de maneira intensa. Ao longo dessas fases, temos muitas indagações sobre o que é esta coisa maior chamada vida. Portanto, essa edição trata sobre o ciclo mais especial do ser humano: o ciclo da vida. Com assuntos considerados tabus abordados de maneira leve e natural, concluímos que, para viver, não basta respirar, é preciso equilibrar os pilares que sustentam as fases da vida e aproveitá-las intensamente. A redação

EQUIPE Ana Letícia Fort Beatriz Bethlem Danilo Comenda Fabiana Farias Gabriela Abreu Júlia Nunes Lucas Gervazio Victor Moura


ÍNDICE INFÂNCIA 8- Crianças trans 14 - Autismo 22- Infância na tela 28 - Bullying 32- Luto infantil

ADOLESCÊNCIA 44 - Pornografia 48 - Educação sexual 52 - Adoção tardia 58 - Padrão de beleza 66 - Escolha profissional

ADULTO 76 - Poliamor 82 - Estresse 86 - Liberdade feminina 92 - Games para adultos

MATURIDADE 98 - Sexualidade 102 - Aposentadoria 106 - Alzheimer 114 - Suicídio 120 - Crônica

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Infância na tela

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Adoção tardia

82

Estresse

98

Sexo na maturidade

Problemas e benefícios de crescer conectadow

Novo recomeço para jovens que buscam por um lar

Os transtornos psicológicos são cada vez mais comuns nos adultos

Muito além do prazer. É a oportunidade de uma vida saudável e rejuvenescida


Foto: Victor Moura


Infância “Ser criança é brincar bastante, não ter responsabilidade e a mãe escolher as coisas por você”


Transexualidade: é na infância que tudo começa Desde criança, a maioria absoluta dos adultos transsexuais já se reconheciam como pertencente a outro gênero Danilo Comenda As crianças trans existem. E, antes que você pense que essa condição pode ser causada pela influência de alguém ou por um modelo de educação, entenda que esse tipo de desenvolvimento é normal na espécie humana e existe em diversas culturas e épocas, desde que se tem conhecimento histórico relatado sobre sexualidade.

É assim que Leandro Augusto Pinto Benedito, psiquiatra formado pela USP e membro do Ambulatório de Transtorno de Identidade de Gênero do Hospital das Clínicas de São Paulo (AMTIGOS), comenta sobre a questão da transexualidade na infância. De acordo com ele, o meio em que as crianças estão inseridas têm uma menor rele-


vância nesse aspecto quando comparado com os hormônios que atuam no desenvolvimento do feto ao longo na gestação. “A identidade de gênero é multifatorial e começa a ser desenvolvida antes mesmo do nascimento, tendo uma base biológica importante. É como se, durante a gestação, ainda no desenvolvimento do feto, a diferenciação da genitália e do cérebro em masculino ou feminino ocor-

Imagem: Unsplash

ressem em direções opostas. Isso é influenciado pela genética do indivíduo, pela exposição a certos hormônios maternos normais em períodos específicos da gestação, (entre) outros fatores.” explica Leandro. Segundo a Sociedade de Pediatria Brasileira (SBP),essa diferença na formação do corpo da criança citada por Leandro também pode ser denominada de incongruência de gênero. Nesses casos, a identidade de gênero, isto é, como a pessoa se percebe e se identifica, vai em direção oposta ao sexo atribuído ao nascimento. Enquanto isso, quando tratamos do sofrimento psíquico intenso que essa incongruência pode causar, principalmente por conta dos aspectos corporais, o termo correto a se utilizar é disforia de gênero. Dessa forma, nem todas as crianças ou pessoas com incongruência de gênero, vão apresentar disforia.

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Foto: Unsplash

E os pais? Como podem ajudar nesse processo? O processo de descoberta e entendimento sobre a transexualidade de um filho pode ser difícil para os pais, principalmente pela pressão imposta pela sociedade. Além desse aspecto, também passa a ter grande importância os estereótipos de gêneros pré-defini-

dos em cada sociedade, o que aumenta a dificuldade de se aceitar essa circunstância. No entanto, diversos especialistas apontam que nesses casos o melhor a se fazer é buscar ouvir mais as crianças do que falar para as mesmas, entendendo seus pensamentos, medos e angústias. Para Edith Modesto, fundadora e presidente da ONG Associação Brasileira de Pais e Mães de Homossexuais (GPH) e do Projeto Purpurina - jovens LGBTs de 13 a 24 anos, realmente esse se torna o melhor caminho a ser tomado. “Eu aconselho a acreditar no que a criança diz e pensa: ‘Ele está uma menina, então é ela’ ‘Ela está um menino, então é ele’ e ir observando, aguardando, já que há possibilidade dela/dele ser transgênero ou não”. Edith também reforça a necessidade de um acompanhamento médico especializado, a fim de garantir que as melhores medidas sejam tomadas para o bom desenvolvimento da criança, a


partir da sua definição de gênero. Sendo assim, além do próprio grupo de apoio de Edith, apenas outros dois locais oferecem suporte especializado para essa população, o próprio AMTIGOS da USP e outro centro de psiquiatria localizado na Unicamp, em Campinas. Com isso, para se ter uma ideia, somente o ambulatório do HC de São Paulo, criado em 2010, atualmente atende um total de 85 crianças e 180 adolescentes. O centro também possui uma lista de espera com mais 140 pacientes para início do processo de triagem para orientação.

Polêmica à vista A questão da transexualidade na infância e adolescência ganhou mais um capítulo polêmico. No último mês de agosto, a deputada estadual por São Paulo, Janaína Paschoal (PSL), em emenda a um projeto de lei apresentado pela também deputada estadual Érica Malunguinho

(PSOL), primeira mulher transexual da Alesp, Assembléia Legislativa de São Paulo, sugeriu uma medida que afeta essas pessoas. A emenda de Janaína, deputada estadual eleita com mais de 2 milhões de votos no último pleito eleitoral, propõe a proibição de terapia hormonal para crianças e adolescentes trans menores de 18 anos. Além disso, a proposta

“Ele está uma menina, então é ela. Ela está um menino, então é ele” apresentada também deseja estipular o fim da oferta de cirurgia de redesignação sexual a menores de 21 anos na rede pública e privada de saúde no estado. Na visão do psiquiatra Leandro Benedito, a proposta da deputada é preocupante, já que em sua visão, tenta proibir um atendimento em saúde importante e amplamente validado pela ciência nacional e internacional.

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“Nós sabemos que a maioria das crianças com alguma questão de gênero vai crescer para se tornar uma pessoa cisgênero, ou seja, não será uma pessoa trans na vida adulta. Por isso mesmo, essas crianças e adolescentes devem ser acompanhadas de perto por uma equipe capacitada e é somente uma minoria delas, aquelas cuja identidade de gênero já está consolidada e apresentam disforia importante em relação às mudanças corporais da puberdade natural, que acaba passando por essas intervenções.” Dessa forma, para ele, essa proposta de emenda acaba ampliado ainda mais o abismo que existe no acesso à saúde dessa população, que já é muito marginalizada. Muito, porque a fundamentação da proposta está baseada, em pareceres de uma entidade intitulada “Colégio Americano

de Pediatras” (American College of Pediatricians, ACPeds), um grupo pequeno e não representativo de pediatras norteamericanos anti-LGBT que se utiliza de pseudo-ciência, dados falsos e enviesados para defender uma agenda política que prega, entre outras coisas, a proibição da adoção de crianças por casais homoafetivos. Foto: Sharon McCutcheon


Entre dois mundos O paralelo do universo autista

Quem já leu Alice no País das Maravilhas sabe que experimentar um mundo diferente, singular e composto de elementos que podem mudar toda a forma como vemos a realidade pode assustar um pouco, e até, de certo modo, gerar algum tipo de medo ou receio. Assim é o mundo de quem é diagnosticado com o Transtorno do Espectro Autista (TEA). O Transtorno do Espectro Autista - TEA foi descoberto pelo psiquiatra suíço Plouller, em 1906, ao descrever o isolamento frequente em alguns de seus pacientes. O transtorno recebeu mais atenção na década de 40, quando o médico Leo Kanner tratou um garoto com um problema que, anos mais tarde, seria conhecido como autismo.

Ilistração: Juliana Coluce

Fabiana Farias


Foto: michal parzuchowski

O autismo é um termo usado para diferentes transtornos do neurodesenvolvimento infantil. “O TEA tem como características marcantes as dificuldades na interação social, comunicação, comportamentos repetitivos, interesses restritos estereotipados e alterações sensoriais”, explica o psicólogo Reinaldo Araújo, especialista em Análise do Comportamento Aplicada. Miguel, (7), foi diagnosticado com autismo leve, segundo avaliação da sua neuropsicóloga. A mãe de Miguel, Cristina Bertoloto, (37), conta que o pequeno começou a apresentar sinais do autismo nas primeiras fases de desenvolvimento. Ela explica que através dos

comportamentos de Miguel ela começou a desconfiar e estabelecer o seu primeiro contato com o autismo.”No primeiro aninho de vida ele andou, falou, fez tudo certo e no tempo certo. Mas eu notei que ele se acalmava balançando desde os 8 meses num bebê conforto que ele insistiu em usar até os 5 anos. Somente aos 5 consegui convencer ele a doálo para um vizinho”, relata. Assim como na história de Alice, o paralelo do mundo autista é recheado de particularidades. Na história de Alice no País das Maravilhas, a menina entra em uma nova terra totalmente diferente da que ela vivia, e lá, conhece uma série de criaturas

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e objetos mágicos que mudam sua forma de ver o mundo. Alice tem obsessão por alguns elementos do local e, ao mesmo tempo, apresenta dificuldade de interação social, características típicas do comportamento autista. No mundo do Miguel não é diferente; o pequeno se desenvolve no seu próprio ritmo e por vezes é metódico nas atividades rotineiras. Segundo a mãe, o menino desde bebê mostrou comportamentos únicos e demonstrou ter um fascínio por algo peculiar: o movimento de hélices. “Desde o colo ele amava ventiladores e olhava fascinado o movimento das hélices. Muito cedo começamos a perceber que era uma espécie de apego, de fascínio.

Hoje ele com 7 anos monta e desmonta ventiladores, sabe nomes de marcas, peças, possíveis problemas e soluções”, afirma Cristina. Miguel é o filho mais novo de Cristina. A relação dele em casa com o irmão e a família é muito boa. Mas na escola, o pequeno, que está no primeiro ano do ensino fundamental, passa por alguns desafios. Segundo a mãe ele enfrenta dificuldades no tratamento no local, porque o despreparo e falta de instrução a respeito do transtorno do Miguel, cooperam para que a escola não seja um ambiente de socialização para o garoto. “Na escola ele tem crises, é seletivo, agitado, não sabe seguir regras, é opositor”, comenta ela.


Foto: michal parzuchowski


Desafios da criança autista A relação das crianças autistas dentro do ambiente escolar é um ponto muito importante no desenvolvimento desses pequenos. A escola deve ser um ambiente de socialização e desenvolvimento intelectual da criança, e cabe a instituição de ensino promover um ambiente acolhedor e de suporte para as crianças com TEA. Cristina cita que na escola onde o Miguel estuda não existem estratégias que promovam um bom desenvolvimento do menino, e que ela tem dificuldades em propor estratégias, pois “sem laudo médico eles não aceitam nenhuma proposta de mudança”, cita a mãe. Ela explica que para a escola tomar alguma medida em relação ao garoto é preciso um laudo que só pode ser dado por uma neuropediatra ou psiquiatra infantil. Porém, para que as

análises e exames sejam feitos, existem uma série de etapas que nem sempre são fáceis de serem executadas pela criança, “há um questionário a ser preenchido, e isso vai do ritmo de cada uma. Depois entrevistam os pais, a criança, pedem exames para descartar outras doenças e daí emitem um laudo com a melhor indicação possível de tratamento. Esse processo é demorado, burocrático e muito cansativo”, conta.. Cristina. O psicólogo Reinaldo Araújo, explica que “o transtorno não é considerado uma doença e sim uma condição, um jeito diferente de pensar e ser no mundo”. Por isso, o maior desafio de se trabalhar com crianças autistas é compreender que a criança não é menos capacitada ou inteligente que qualquer outra pessoa. Ele afirma que o tratamento deve ser


Falar sobre o autismo é importante “não vitimizando-o, nem o tra“por conta do preconceito, da tando como ‘coitadinho’, senimagem deturpada que algumas do empáticos, compreensivos e pessoas ‘pintam’ e também buscando técnicas baseadas em por causa da ignorância em análise do comportamento apliparte da sociedade”, explica cada, com o intuito de facilitar Reinaldo. É através do diálogo as trocas sociais e o manejo de e do conhecimento que é alguns comportamentos”. possível tornar O profissional de“Uma pessoa que está dentro lugares como a fende que uma espectro é tão digna de escola adequados pessoa autista tem os mesmo direitos respeito e direitos como as para a inclusão crianças e capacidades de outras pessoas. Não é porque dessas uma pessoa que ela tem transtorno que ela é para que elas se sintam acolhidas e não tem o transmenos capaz” respeitadas em um torno. Ele cita que ambiente fora do seio familiar. é totalmente possível uma pesCristina aponta, ainda, que soa com autismo ter qualidade para que esses ambientes sejam de vida e se desenvolver normalpróprios para os pequenos que mente. “Uma pessoa que está tem autismo ou qualquer outro dentro espectro é tão digna de tipo de transtorno é fundamental respeito e direitos como as ouque haja investimentos em tras pessoas. Não é porque ela capacitações para os professores tem transtorno que ela é menos e docentes sobre o assunto. capaz”, explica o psicólogo.

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Amor além do TEA Ao mesmo tempo que existem dificuldades nesse caminho, surgem também locais de apoio e iniciativas que colaboram para a criação de uma rede de cooperação e conscientização sobre o autismo. Instituições como a Apae e a AMA Associação de Amigos do Autista oferecem serviços de força e dedicação aos filhos, pois ela enfrenta todo e qualquer problema pela família e se orgulha de seus pequenos e de suas conquistas. ”Vivo pelos meus filhos”, diz ela. Ela defende a conscientização da sociedade sobre o TEA para que, além do Miguel, outras crianças com as mesmas condições possam se desenvolver longe de preconceitos e desinformações. No meio deste paralelo entre verdades, incompreensões e tabus sobre o tema do autismo, existem pessoas que lutam para

dar visibilidade, amparo e, principalmente, espaço para que essas crianças possam crescer sabendo que não há nada de errado em ver o mundo com os próprios olhos e enxergar possibilidades nas diferenças de cada um. É certo que viver de maneira diferente pode gerar dúvidas e desafios. Podem existir dias tristes, de crise, mas também é certo que o amor e a compreensão moram ao lado neste imenso país de transformações e maravilhas de tantas Alices e Migueis por aí. Como Cristina me disse, “tem dias mais calmos e tem dias de vendaval”, e é só por meio do conhecimento e contato com essas pessoas que podemos quebrar as barreiras entre “eles” e “nós”, e entender que as diferenças nos tornam únicos e nos levam a descobrir todas nossas potencialidades.


Infância em frente às telas Vida em 2D: os problemas causados pelo uso excessivo da tecnologia, aliado aos benefícios de crescer em um mundo conectado

Foto: Júlia Nunes

Beatriz Bethlem e Júlia Nunes

Quem nunca se deparou com essa clássica cena em restaurantes? Uma criança pequena, hipnotizada por uma tela, assiste a um desenho animado enquanto os adultos conver-

sam tranquilos sem interrupções do filho. Com uma rotina cada vez mais corrida e acelerada, se torna comum os pais apelarem ao uso da tecnologia para distrair os pequenos.


Imagem: Pixabay

Mariana Albuquerque, mãe do Diego (5 anos) e do Téo (3 anos) afirma que, antes de conseguir contratar alguém para ajudar nas tarefas domésticas, ela e o marido chegavam do trabalho e precisavam cozinhar e arrumar a casa. Assim, “para ter algum entretenimento para as crianças, a gente ligava a TV”. Porém, segundo a Organização Mundial da Saúde, a OMS, é recomendado que crianças com menos de um ano idade não sejam expostas a nenhum tipo de tela. Para crianças de 2 a 4 anos, o uso não deve ultrapassar uma hora. Mas será possível regular o uso de telas pelas crianças em um momento no qual a linguagem do mundo é voltada para tecnologia? Atualmente, ser mãe não é mais sinônimo de ser dona de casa e tanto a rotina do pai

como da mãe requer um tempo longe dos filhos. Além disso, os próprios pais se encontram viciados nos aparelhos eletrônicos. Para a Mariana, é preciso deixar o celular longe quando está com as crianças. “Se ele ficar perto de mim, eu estou o tempo todo olhando o filho e celular. É como se o celular competisse com o filho”, admite. Débora Gaiotto, mãe da Lara (11 anos) e da Clara (4 anos), também relata que tem dificuldade para regular o uso da tecnologia pelas filhas, pois passa muito tempo fora de casa. “Eu sei que eu deveria controlar mais, mas não consigo por ficar muito tempo fora de casa trabalhando. A gente percebe que elas querem cada vez mais a tecnologia, o celular mais avançado”, reconhece.

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Hora de brincar As crianças que nasceram no mundo dos smartphones estão acostumadas com que tudo seja muito rápido, seja o acesso à informação ou para assistir àquele filme a qualquer hora do dia. Os filhos da Mariana, por exemplo, não conseguem entender muito bem a possibilidade de não conseguirem assistir o que querem no exato momento que desejam. “Vamos supor, deu problema na Netflix. Aí você fala ‘só tem a TV aberta e não está passando a Peppa’. E eles não entendem essa dinâmica. Eles falam ‘vê no celular’. Eles sabem de todas as possibilidades que eles têm para acessar o que querem”, conta Mariana. Essa situação é observada nas casas de inúmeras famílias

brasileiras. Frases como “sem internet eu não vivo” ou “eu sou viciada na internet” não são difíceis de serem ouvidas na voz de muitas crianças, de diferentes idades. Clarinha, a filha mais nova da Débora, deu uma resposta engraçada quando questionada sobre o que faria se tivesse que ficar uma semana sem acesso à internet. “Eu ia na casa da minha vó mexer no celular dela. Por que ‘tá’ me perguntando isso?”, respondeu a menina. Essa constatação, apesar de inocente, mostra que, de certa forma, as crianças da atualidade têm uma enorme dificuldade de se imaginar em um mundo sem tecnologia. Muitas vezes, elas trocam brincadeiras infantis, como boneca ou pula corda, por vídeos no Youtube e jogos eletrônicos. Para o médico Fábio Fiore, “as crianças têm que brincar e desenvolver outras habilidades. Elas precisam sair do mundo 2D, do mundo digital, e ficar no 3D”. Ele explica que o uso excessivo da tecnologia pode trazer às crianças problemas físicos e comportamentais.


Foto: Nois Germain

O que os olhos não vêem Doutor Fábio pontua que, na Inglaterra, um país de grande tecnologia, as crianças, principalmente no jardim de infância, não têm telas. Segundo ele, diversos estudos mostram os malefícios do uso precoce desses aparelhos digitais. De acordo com um estudo desenvolvido pelo National Institute of Health nos Estados Unidos, que acompanhou mais de 11 mil crianças ao longo de 10 anos, o uso excessivo de tecnologia por crianças pode acarretar diminuição da receptividade de informações

sensoriais (visão, audição, tato, olfato e paladar); aceleração do envelhecimento; liberação de dopamina, neurotransmissor relacionado ao vício e menor desempenho em testes de linguagem e matemática. Além disso, o estudo mostra que o uso das telas pode fazer com que as crianças tenham habilidades normais para vida real reduzidas. Dessa maneira, elas vivem em um mundo virtual e, quando vão para o mundo real, sentem dificuldades de adaptação, o que também aumenta sintomas de depressão.

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Quando questionadas sobre possíveis prejuízos que a internet pode causar na vida delas, algumas crianças também reclamaram de desconforto na visão ao fazerem uso de telas. “Toda vez que eu termino de ver o tablet, eu olho para as coisas e tudo fica colorido”, comentou Ana Luiza, de 8 anos. “É, eu não consigo ficar muito tempo no celular se não meu olho fica meio tonto”, concordou Valentina, de 5 anos.

Ao entrar especificamente nos problemas de visão, o médico, que é oftalmologista, explica que, atualmente, o mundo todo está percebendo um aumento no número de pessoas míopes. “A gente sabe, hoje, que crianças com muito acesso a uso de tablets e computador, ou também em qualquer atividade em ambientes fechados, como ler no escuro, elas acabam tendo um aumento do tipo de grau e aparecimento de miopia.”

Conexão positiva Apesar do uso da tecnologia trazer preocupações relacionadas ao desenvolvimento das crianças na atualidade, muitas pessoas concordam que a internet, se usada com sabedoria, pode oferecer pontos positivos. Débora explica que os aparelhos eletrônicos, por permitirem um rápido acesso às informações, ajudam bastante a sua filha mais velha nas ativi-

dades da escola. Isso porque, a qualquer dúvida ou curiosidade que surge, basta um clique para solucionar o problema. Mariana diz que também consegue enxergar bastante vantagens no uso da internet pelas crianças nesse sentido e explica como a grande quantidade de informação colabora para os filhos aprenderem alguns assuntos de forma mais rápida.


“Acho que facilita a muita informação, desde entretenimento até coisas de educação. Eu acho muito legal, principalmente a questão de imagem. Por exemplo, quer saber sobre planeta Terra? Posso mostrar um vídeo para ele, posso entrar no site da NASA”, aprova a mãe do Diego e do Téo.

O Doutor Fábio concorda que a tecnologia facilita o acesso à informação e vê isso como uma vantagem da internet. No entanto, ele alerta para o modo como esses recursos vêm sendo utilizados pelas crianças. Segundo o médico, as telas podem inibir alguns níveis do desenvolvimento infantil.

“Eu entendo que, considerando a longevidade, você pode começar a fazer isso em uma idade mais avançada. Não precisa dar um tablet para uma criança de 3 ou de 5 anos. Quando você me pergunta qual a vantagem do uso de telas, eu sempre me questiono”, opina o oftalmologista Fábio.

Foto: Júlia Nunes

Antigamente, as crianças procuravam as informações em livros e jornais, isso se tivessem pais informados, com acesso a esse tipo de conteúdo. Agora, a criança não precisa nem ser alfabetizada ainda e já aprende curiosidades de forma lúdica, por voz, através de vídeos e fotos na internet.

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O bullying dentro dos ambientes escolares O dilema que abalam psicologicamente as crianças precisa ser discutido dentro das esferas escolares Victor Oliveira O desenvolvimento infantil passar por diversos processos. É na faixa dos 6 aos 14 anos a qual a criança começa a caminhar com as suas relações interpessoais, principalmente no ambiente escolar, como comenta Melissa Cordeiro, especialista em Práticas Inclusivas e Gestão das Diferenças. “O período escolar, ainda mais a educação infantil, é uma das fases mais importantes na vida de uma pessoa, visto que é nessa etapa em que os traços da personalidade se constituem”. Com o intuito de reforçar o papel do ambiente escolar, ela enfatiza o seu papel socializador, pois a criança aumenta seu círculo de relações, por meio de suas experiências significativas.

Com base nisso, elas realizam a construção de conhecimentos afetivos e cognitivos com o respaldo do educador(a). A relação entre professor(a) e aluno(a) é de fato a essência da fonte de informação, a qual a criança busca a fim de saciar o seu intenso instinto de curiosidade. Por isso, Melissa diz que “é importante que o educador esteja em uma incessante procura pelo conhecimento. Pois a mesma pode trazer a ampliação cultural das crianças e a forma como elas veem e sentem o mundo, promovendo situações para elas se expressarem e colocarem em jogo a linguagem, a criatividade, a imaginação e suas relações interpessoais”.


Esse processo de desenvolvimento conjunto é importante na formação cultural do aluno. É essa situação de aproximação que faz o professor ter uma visão específica e evitar o bullying, como comenta Melissa, “Quando atuei com as crianças maiores no Ensino Fundamental, essas questões relacionadas ao bullying eram mais presentes. Com isso meu olhar sempre foi muito atento para esse tema tão difícil e corriqueiro nas escolas, pois quando um professor identifica o bullying, o trabalho precisa ser imediato.” Porém, apesar de o professor ter este acesso direto na formação do aluno, é interessante a percepção de que outros fatores e am-

bientes exercem sobre a ação das crianças. “Todas as esferas (família, escolas e amigos) são importantes no combate ao bullying. Desta maneira, competem aos professores os encaminhamentos necessários para lidar com os alunos que estão diante deles dentro das salas de aulas, como também nos diversos ambientes escolares”, explica Melissa. À vista disso, assim como na escola, a criança deve se sentir acolhida em sua casa, pois precisa do suporte familiar. A inserção da mesma em um ambiente novo necessita de um auxílio direto vindo dos responsáveis, assim como trata a psicóloga Alessandra Silva “O diálogo acolhedor, que explique as necessidades da

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Foto: Pixabay

criança ainda é a a melhor forma de inserção e pode amenizar sua ansiedade diante do enfrentamento desses ambientes ainda estranhos para ela”. e ainda ressalta que a família tem autonomia para identificar os sintomas, os quais podem trazer um comportamento que demonstra alguns sinais como: não querer ir a escola; sentir-se mal perto da hora de ir para a escola/universidade; pedir para trocar de escola constantemente; voltar da escola com roupas ou livros rasgados; isolamento; agressividade e abandono dos estudos, explica Alessandra.

A identificação desses sinais é essencial para o progresso da identidade da criança. Pois o bullying acarreta em problemas futuros e que podem deixar sequelas enraizadas, uma vez que “um dos problemas está relacionado a autoestima, a criança ou adolescente que sofre constantemente bullying pode acreditar que é a pessoa que dizem ser e isto provoca mais vulnerabilidade (psíquica e emocional). Outros Problemas comuns são: Problemas psicossomáticos (dores de cabeça e estômago) como justificativa para faltar na aula ou ir embora mais cedo, proble-


“A agressividade é um conteúdo constituinte nos indivíduos, mas a intensidade desta agressividade pode ser decorrente de um ambiente agressor e sem um acompanhamento técnico específico (como psicólogos)”, dado que esta agressividade pode refletir em uma vida adulta de delinquência e até crimes, acho importante ressaltar o cuidado com o agressor, mesmo que um ”valentão” da turma, algo não está bem neste indivíduo e precisamos nos importar com isto.

Foto: Pixabay

mas comportamentais (agressividade ou isolamento), psíquicos (pânico, ansiedade generalizada e fobias) e até tentativas de suicídio ou Autocortes (Automutilação)”, explica Alessandra. O trabalho e a manutenção do ambiente escolar faz parte do escopo do educador, mas o processo deve ser entendido através da ligação entre os diversos lugares, como casa, clube e etc. Pois até mesmo quem comete o bullying precisa de um auxílio psíquico, como comenta a Alessandra,

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Foto: Pixabay


O céu está em festa Luto infantil: como contar para uma criança que alguém morreu Júlia Nunes Quantos anos você tinha quando descobriu o que era a morte? Será que o cachorrinho que você tinha aos 7 anos realmente foi morar naquele sítio distante do seu tio? Lembra quando te contaram que seu avô não podia mais participar da ceia de Natal porque tinha virado uma estrelinha? Realmente, falar sobre morte é um desafio. Em qualquer ida-

de. Por mais que seja a única certeza que temos na vida, ninguém gosta de conversar sobre um assunto tão sofrido. Ainda mais com as crianças, seres que deveriam estar sempre relacionados à alegria, à leveza e à inocência. Se o céu está em festa, mas não podemos participar... Deixe quieto. Afastemos as crianças das frustrações.

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Foto: Júlia Nunes

Não adianta passar merthiolate

De uma forma geral, os adultos não querem que seus filhos vivam momentos de sofrimento. Na maioria das vezes, um joelho ralado já é motivo para derramar lágrimas dos pequenos e deixar os pais preocupados. Mas não é qualquer ferida que cicatriza com merthiolate. É inevitável que as crianças passem por situações difíceis, cujo controle está fora do alcance dos pais. É o caso do luto infantil: dói para ser transmitido em palavras, mas precisa ser discutido. Assim como os adultos, crianças também sofrem com perdas. O luto é, portanto, parte da vida delas também. Por isso, as crianças precisam

ter o direito de entender o que está acontecendo e porque as pessoas ao seu redor andam tão tristes. Ela precisa reconhecer que uma pessoa que ela convivia não vai estar mais presente no dia a dia e que ela vai ter que encontrar formas de lidar com essa ausência. A psicóloga Tatiane Guimarães Pereira explica que, mesmo com as crianças, tudo deve ser conversado, mas sempre levando em consideração a linguagem adequada e a capacidade de entendimento de cada um. “A verdade é libertadora e sempre vai ser a melhor saída para qualquer fenômeno complexo que envolve o ser humano.”


O avô que virou “estrelinha” Justamente por ser um assunto complicado de se conversar, inclusive entre adultos, os parentes muitas vezes se dividem nas maneiras de contar sobre a morte e elaborar o luto junto à criança. Alguns optam por não contar, outros preferem mentir e dizem que a pessoa que morreu foi fazer uma viagem ou ainda está doente no hospital, por exemplo. No entanto, a psicóloga Tatiane explica que mentir sobre a morte não é o ideal, pois “a criança reconhece que há algo diferente na cena familiar” e passa a fantasiar o que pode ter acontecido. Mesmo quando a família decide contar a verdade, a crença de cada um, aliada com estratégias para tornar tudo mais leve, mostra que a morte pode ser abordada de várias formas. Para algumas pessoas, cuja religião dá abertura a uma ideia de paraíso, Deus e espiritualidade, está tudo bem dizer à criança que o avô foi para o céu. Para outras, uma realidade mais reconfortante seria

dizer que ela reencontrará o ente querido em uma próxima vida. Há, ainda, aqueles que admitem não ter certeza do que acontece depois da morte, mas que as memórias são o que mantém as pessoas vivas. Nesse caso, a psicóloga explica que cada família tem o direito de inserir as crenças na hora de explicar a situação. No entanto, é preciso tomar cuidado com o uso das metáforas. “Falar que foi para uma longa viagem, um sono profundo, é muito confuso para a criança, porque ela ainda é muito concreta. Pode dar medo e aumentar a fantasia de que ela está próxima à morte”, aconselha Tatiane. Desse modo, a orientação é explicar a situação do jeito mais concreto possível. Vale dizer, por exemplo, que a vida tem um fim e mostrar que a situação é irreversível. A partir disso, também é preciso acolher a criança e dizer que as lembranças permanecem, assim como o amor que pessoa que se foi tem por ela.


“Ela não tem pai” Mesmo depois de contar sobre a morte, o luto continua fazendo parte da vida da criança. A situação gera mudanças na rotina, na relação com os amigos da escola e no próprio modo como ela enxerga a vida. A jornalista Sílvia Amélia de Araújo perdeu o pai quando tinha 1 ano e 11 meses. Apesar de não ter lembranças do evento em si, ela conta que a situação foi bastante traumática, pois a família dela decidiu que o melhor seria mudar de cidade. Ela se lembra de ser vista como órfã pelas pessoas desde então. “Se referiam a mim, mesmo quando eu já era uma criança grande, com uns 10 anos, como

‘a bebê’. Porque foi muito chocante para as pessoas, no velório, ver que meu pai deixou três filhos, e eu era a bebê”, relata. Na escola, a diferença de Sílvia com outras crianças ficou bastante evidente. Segundo ela, os amigos aprendiam o conceito de morte como algo distante, longe da realidade, ao mesmo tempo em que ela processava, bem de perto, a ideia de que o pai havia morrido. A psicopedagoga Ana Flávia Tomiato conta que, no geral, as crianças que têm contato com um amigo que perdeu alguém próximo são bastante solícitas. “Elas, na sua imaturidade ou na sua ingenuidade, questio-


Foto: Acervo Pessoal

nam, perguntam como foi, o dia que foi, como ela se sente, e dependendo da criança até fala”, comenta a professora. Ela explica que cada criança tem a sua individualidade para reagir sobre o tema “morte”. Enquanto algumas preferem não falar muito sobre isso, outras não se importam em conversar. Por isso, é importante respeitar os sinais que a criança dá e acolher o que ela vai apresentando. “O papel do professor é tentar amenizar a perda. É você tentar mostrar que ele precisa sentir a dor, que você sabe o que ele está sentindo, que pessoas passam por isso, acolher,

demonstrar carinho, mostrar que você está com ele para o que ele precisar”, orienta a professora Ana Flávia. Nesse sentido, os professores também precisam respeitar o momento da criança enlutada, principalmente nas datas comemorativas nas escolas. O Dia das Pais, por exemplo, pode ser bastante doloroso para uma criança que perdeu o pai recentemente. “Eu penso que as escolas precisariam mudar essa maneira de trabalhar. Algumas já tem uma outra proposta e trabalham o ‘dia da família’, mesmo porque as famílias estão diferentes”, opina a professora.

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“Lembre de mim” E depois que a pessoa morreu? Como seguir a rotina sem aquele que fazia parte do cotidiano da criança? Muitas pessoas recolhem os porta-retratos e evitam falar sobre a pessoa que morreu, em uma tentativa de esquecer a dor e o sofrimento que a perda causou. Algumas, como no caso da jornalista Sílvia, até mudam de cidade. No entanto, as lembranças podem ajudar a criança a lidar com a saudade e a passar pelo processo de luto. A psicóloga Tatiane afirma que “negar que existiu aquela pessoa e que não se pode falar sobre isso geralmente aumenta o sofrimento”. Por isso, é importante que o assunto não seja tratado como um tabu na dinâmica familiar e que a criança possa falar sobre os sentimentos. “Ao falar sobre isso, a gente mostra que a morte é natural, assim como ficar adolescente, ficar adulto e que a morte faz

Imagem/reprodução

parte do ciclo da vida. Não é minimizar a dor, mas mostrar que é algo que acontece e que a partir disso, a gente tem que acolher”, orienta a psicóloga. Sílvia relata que a sua mãe não disse a ela que o pai havia morrido, mas contou várias histórias sobre ele, o que foi positivo para a jornalista. “Tem gente que evita falar na mãe ou no pai falecido de uma criança, como se fosse fazer mal. Mas a memória, mesmo essa construída pelo relato


dos outros, é o que resta para a criança. Contar histórias, falar que aquela pessoa foi especial, é importante para a criança que enfrenta um luto”, diz. O filme infantil “Viva - A Vida é uma Festa” é um bom exemplo de como as lembranças podem ressignificar o processo de luto para uma família. Na cultura mexicana, o Dia dos Mortos é celebrado com a memória dos parentes que faleceram. A família se reúne, faz as comidas que o falecido gostava e re-

lembra histórias da vida dele. É somente com a homenagem dos vivos que os mortos podem voltar à Terra e visitar os familiares. Assim, trabalhando temas densos de uma maneira delicada, o filme ajuda as crianças a desmistificarem a morte e a entenderem o fenômeno com mais leveza. Para a psicóloga Tatiane, filmes e livros infantis que falem sobre o assunto são uma alternativa interessante para ajudar os pais no diálogo com as crianças, pois trabalham o tema em uma linguagem acessível para cada fase da vida. Talvez a festa no céu não tenha brinquedos infláveis e brigadeiros, e seja um evento bem mais triste do que deveria, na cultura da sociedade brasileira. No entanto, as crianças precisam de um convite para entender a situação. A morte é inevitável, mas aprender a lidar com ela de uma forma saudável é, acima de tudo, uma atitude importante para seguirmos a vida.

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Ronaldo e Rafaela: desenhando a saudade... A vida do Ronaldo se transformou de repente, quando a mãe da Rafa morreu de meningite de um dia para o outro. Viúvo, ele teve que encontrar maneiras de viver o luto junto com a filha, de 5 anos. Um dia, a Rafa disse para ele que a saudade ia embora quando ela desenhava. Assim, uma ideia cheia de cor ajudou a preencher o cinza que a partida recente da esposa tinha deixado na vida dos dois. “Eu pensei ‘poxa, se funciona pra minha filha, talvez pra mim também vai funcionar’. Então comecei a fazer os desenhos da nossa vida, eu e ela. Aí eu colocava nosso dia a dia, as nossas tristezas, escrevia tudo o que eu sentia”, relata. Ronaldo conta que começou a pesquisar sobre luto infantil e não encontrou muito conteúdo sobre o assunto. Por isso, sentiu que era a obrigação dele ajudar como podia, através das suas histórias. Foi assim que surgiu o blog “Pai Viúvo”.

Uma estrelinha amarela sorridente está em quase todos os desenhos da Rafaela. A representação da mãe no papel a ajuda a lidar com a saudade e a entender o sentimento de forma mais natural. “Os desenhos foram muito bons para ela, era uma forma da gente conversar, falar sobre a mãe”, explica Ronaldo.


“Na frente das câmeras, ela dá show” Além dos desenhos, Ronaldo descobriu que a filha gostava de assistir vídeos de crianças no Youtube, falando sobre diversos assuntos e fazendo atividades e brincadeiras. Então, ele viu uma oportunidade de passarem mais tempo juntos, conversando sobre a mãe de uma maneira descontraída e dando dicas para outras crianças sobre a vivência do luto. “Era uma brincadeira. A gente ia conversando, fazendo brincadeiras, dando risada, foi um outro caminho que eu encontrei para falar sobre o assunto”, comenta o designer. O blog, os vídeos e os desenhos da Rafinha e do Ronaldo tive-

ram uma grande repercussão nas mídias sociais. Um dia, Ronaldo recebeu uma ligação da produção do Encontro da Fátima Bernardes, convidando os dois para irem até o programa para conversar sobre a história e o projeto deles. Na primeira vez, Rafa ficou tímida na frente das câmeras e saiu correndo, mas um ano depois, a menina pediu para voltar ao estúdio e falar sobre os desenhos. “Eu vi tudo o que eu tinha feito nela, as conversas, os vídeos, os desenhos, naquele momento que ela falou sobre a mãe com um sorriso, eu vi que tinha feito tudo certo”, afirma o pai.

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Foto: Ana LetĂ­cia Fort


Adolescência “Ser adolescente é um período de amadurecimento, mas com desavenças”


Pornografia x educação sexual Como fica a formação sexual dos jovens em meio a proliferação massiça de conteúdo pornografico na rede? Danilo Comenda A evolução e o grande desenvolvimento da internet, desde meados da década de 1990, trouxe diversas vantagens para as pessoas, como a melhoria e facilitamento do processo comunicacional, por exemplo. Além desse aspecto, também se tornou mais simples encontrar conteúdos na rede, proporcionando uma maior difusão de materiais, de todos os tipos. Esse segundo fato, aliás, tem se demonstrado como um fator transformador para a sociedade, alterando a forma de como os indivíduos se relacionam e se formam como cidadãos. Essa perspectiva de mudança se torna ainda mais notável quando levamos em conta a formação sexual dos jovens e dos adolescentes.

A popularização da internet também fez aumentar o consumo de pornografia online, principalmente entre os mais novos e que ainda estão se formando sexualmente. De acordo com pesquisa realizada pela instituição GuardChild, 70% de crianças e adolescentes entre 7 a 17 anos afirmam encontrar conteúdos de pornografia no ambiente online. Essa relação direta com a pornografia, para diversos especialistas, têm se mostrado problemática e prejudicado a amadurecimento dos adolescentes. Para o psicólogo especialista na questão da sexualidade humana, Erick Paixão, por exemplo, a educação sexual no Brasil ainda apresenta muitos problemas e, com isso,


para se engajar em algum tipo de relacionamento quando estes são iniciados de forma virtual. Porém, ao mesmo tempo em que isso por um lado é bom, essas mudanças podem causar também maior isolamento dos jovens, que podem passar a preferirem se relacionar apenas virtualmente, trocando o sexo real pelo virtual.” afirma o pscicólogo.

Foto: Unsplash

a pornografia se apresenta, para muitos jovens, como uma forma de aprendizado, mesmo que com ressalvas: “A formação sexual dos jovens é muito falha, visto que o assunto ainda é um tabu e a informação correta é pouco difundida. A pornografia até certo ponto auxilia na descoberta sexual, porém ela traz consigo ideais não reais de relações sexuais, como exemplo uma exagerada genitalização. Esse processo influencia diretamente na formação sexual dos jovens, podendo gerar em casos mais graves algum tipo transtorno sexual ou transtorno de preferência sexual”, explica Erick. Além desse aspecto, Erick também cita o fato de a internet potencializar o distanciamento dos jovens, mudando expressivamente a forma das pessoas se relacionarem, tanto afetiva quanto sexualmente. “Os jovens têm mais coragem

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De onde vem a educação

Conversa sem medo

Uma pesquisa divulgada em 2017 pela empresa farmacêutica Bayer, demonstrou que o diálogo sobre o sexo ainda é tratado como um tabu dentro da sociedade brasileira. Segundo o levantamento, realizado em em todas as regiões brasileiras, com pessoas entre 15 e 25 anos, apenas 8% dos jovens recorrem aos pais querendo tirar dúvidas sobre sexo. A internet aparece em primeiro com 60% e os amigos com apenas 15%. Além disso, a pesquisa demonstrou que quando questionados sobre quem os ensinou sobre sexo, os jovens respondem , em primeiro lugar, a pornografia, antes mesmo de mencionar familiares ou profissionais de saúde, como médicos e enfermeiros. Entre outros fatores, essa dificuldade parte de conceitos religiosos ainda muito presente no país e da diferença da criação dos pais de jovens de hoje se em consideração com o que o mundo atual pede.

Para Erick Paixão, tudo começa pelo diálogo. É fundamental ter um sinergia entre a família e a escola para se conseguir ajudar os jovens a ter uma educação sexual correta e, por consequência, uma vida sexual mais saudável. “A educação sexual é fundamental no desenvolvimento dos jovens, é através dela que irão aprender de forma eficaz sobre DSTs, sobre o que são abusos sexuais e como evitar, é onde questões serão esclarecidas, angústias serão minimizadas ou eliminadas, além de aprenderem sobre o próprio corpo e sua sexualidade, e desenvolver também respeito ao corpo e a sexualidade do outro.” afirma Erick. Sendo assim, deve ser escolhido os momentos corretos para se iniciar o diálogo com os filhos sobre os principais pontos do sexo. Devem ser tratados desde temas relacionados com a prevenção a doenças sexualmente transmissíveis e gravidez precoce, por exemplo, até a diversidade sexual.


Os riscos das relações sexuais na adolescência A falta de conhecimento sobre o assunto traz consequências sociais e é uma questão de saúde pública

Foto: Pixabay

Lucas Gervazio

A adolescência chega repleta de novidades que se traduzem em mudanças — algumas repentinas e bruscas — no corpo e na mente. Lidar com essa metamorfose requer, em alguns casos, um acompanhamento mais atencioso por par-

te dos pais ou responsáveis. A puberdade chega, e traz também uma multiplicidade de sensações e desejos; dentre eles, o desejo sexual. Hormônios à flor da pele e novas experiências fazem com que a vida sexual se inicie


nesta fase da vida para grande parte dos adolescentes. Uma pesquisa realizada pela Durex, empresa popular no mercado de fitas adesivas no Brasil e que também possui os preservativos como uma de suas mercadorias, revelou que os brasileiros têm, em média, sua primeira relação sexual aos 17,3 anos. Uma outra pesquisa denominado Projeto Sexualidade (ProSex), feita pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, concluiu que os adolescentes iniciam sua atividade sexual na faixa entre os 13 e 17 anos. Tratar do tema é, em alguns casos, um grande obstáculo. A curiosidade e o interesse pelo sexo traz como fator contrário o pouco conhecimento e a timidez acerca do assunto. Neste início da vida sexual, o uso do preservativo é um dos principais temas para se tratar, vide a importância para prevenção sexual. O sexo sem preservativo, além de possibilitar uma gravidez indesejada, pode, também, levar ao contágio de doenças

sexualmente transmissíveis, conhecidas como DSTs.

As doenças e seus números Em junho deste ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um relatório alertando sobre o aumento da transmissão de DSTs pelo mundo. Neste documento, a Organização revelou que, por dia, são registrados em todo o mundo mais de 1 milhão de doenças transmitidas através do sexo. Algumas destas doenças não apresentam sintomas visíveis e sentidos pelo corpo, o que faz com que muitas pessoas nem saibam que estão contaminadas e acabam não buscando o tratamento. Existem cerca de 13 tipos de DSTs que, em sua maioria, são constituídas por vírus e bactérias. Dentre as mais comuns, estão sífilis, gonorreia, herpes genital e HPV. Entre os adolescentes, os casos de doenças também ocorrem, como consequência da pouca utilização das medidas preventivas. Nesse âmbito, a educação sexual é uma pauta importante para redução des-

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Foto: Pixabay

ses números. Ao se conscientizar cada vez mais cedo sobre os riscos do sexo sem proteção, a tendência é que haja uma diminuição nos casos. Tratar sobre o assunto requer delicadeza — principalmente por o assunto ser um tabu na nossa sociedade—, mas é de extrema importância para esta fase da vida, repleta de novas descobertas.

A gravidez inesperada Outra consequência do sexo sem proteção é a possibilidade de gravidez indesejada. Ao assumir o risco de transar sem camisinha, o casal conta com uma série de fatores biológicos que podem desencadear em uma gestação não plane-

jada. Em pesquisa realizada pela Organização das Nações Unidas, a ONU, o Brasil tem 68,4 bebês nascidos de mães adolescentes a cada 1000 meninas de 15 a 19 anos. Lidar com essa situação é muito difícil, pois na adolescência já se vive um momento de incertezas, que já é conturbado por si só. Atrelar a esses problemas a uma gestação afeta muito quem está envolvido. Um momento importante e decisivo é quando se descobre a gravidez, por parte da gestante. Janaína Françoza, 36 anos, administradora empresarial, engravidou aos 14 anos de seu primeiro filho, Douglas, hoje já com 22 anos. Quando soube da gravidez,


demonstrou total desespero na hora: “Entrei em estado de choque. Chorei muito, por vários dias. Pensei em me matar, pois pra mim a vida já iria acabar”, conta Janaína. Cuidar de uma criança muito cedo traz uma série de responsabilidades, e para lidar emocional e psicologicamente com tudo isso é necessário muita força. “Durante o período da gravidez sofri muito preconceito, de vários tipos de pessoas. A família do pai afirmava que o filho não era dele. Por morar em um bairro afastado em Ribeirão Preto, onde todos se conhecem, eram muitos comentários pejorativos a meu respeito. O pai ficava ileso de todos esses

tipos de comentários”, lamenta a mãe Douglas. Hoje, mais de vinte anos depois, ela ressalta a importância da ajuda de seus pais na criação de seu filho e salienta que esse apoio não acontece em todos os casos. “Hoje acredito que foi o melhor que poderia ter acontecido para minha vida, cresci muito e me desenvolvi como ser humano a partir da primeira gravidez”. As consequências das relações sexuais precoces e sem informações adequadas ainda são temas abafados pelas sociedade. A conscientização sobre o assunto pode ser a solução de muitos problemas de saúde pública envolvendo o tema.

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Recomeços

A adoção tardia como forma de realizar sonhos Fabiana Farias e Danilo Comenda

A palavra ‘Adotar’, segundo o dicionário, consiste na aceitação espontânea de uma pessoa como parte integrante da vida de uma família, de uma casa. Quando se adota alguém, você se propõe a dividir sua vida com outra pessoa e essa é uma ação que define por si só o amor. No Brasil, estima-se que mais de 9 mil crianças e adolescentes ão em situação de acolhimento.

Esse dado do Conselho Nacional de Justiça demonstra a quantidade de crianças que buscam por apoio, amor e um lar seguro para viver, em todos os sentidos da palavra. No país a adoção é vista como última opção aqueles que desejam ser pais, principalmente, porque ainda existem diversas dúvidas, preconceitos e tabus em relação ao tema.


Foto: Albert Rafael

Os tabus sobre a temática corroboram para dificultar o processo de aceitação dos adotados, pela família e pela sociedade, sobretudo em casos de adoção de adolescentes. O processo de adoção no Brasil é longo e burocrático, por isso, a conclusão do processo leva tempo para ser efetivada, o que contribui para a desmotivação e desistência de alguns pretendentes.

Como forma de incentivo à adoção, algumas instituições realizam atividades que tem por finalidade educar a população sobre o tema e incentivar os pretendentes. Essas organizações surgem como forma de criar uma rede de conscientização do tema para a sociedade. Em Bauru, a Associação Flor de Liz colabora com o trabalho.

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Uma história que vale a pena contar Fundada e coordenada por Jociara Araújo, a organização sem fins lucrativos visa além de incentivar e ensinar a comunidade sobre adoção, oferecer suporte psicológico para quem pretende adotar ou quem já passou pelo processo. Segundo Jociara, “a instituição surgiu em 2013 com o intuito de restaurar vínculos e criar uma rede de cooperação entre os pais e crianças que precisam de suporte para lidar com as etapas do processo de adoção e os desafios dessa jornada”. O casal R.C, (41) e C.R., (46), que preferiram não se identificar em respeito a um pedido do filho, adotaram o menino L.J., que hoje tem 18 anos. A iniciativa de adotar surgiu como forma de realizar uma vontade de ter filhos, após um período de tentativas falhas de engravidar. Eles contam que, quando optaram por adotar, não pensaram em restrições.

O processo de adoção para eles foi agitado. O casal conta que o processo seguiu legalmente como o esperado no início. “Faz parte do processo de adoção um curso sobre adoção, foi através desse curso que pudemos conhecer o projeto na época chamado de ‘família hospedeira’, que é conhecido hoje como apadrinhamento”. Eles explicam ainda, “começamos com o projeto ‘família hospedeira’ onde passávamos os finais de semana e feriados com ele. Depois o vínculo foi se tornando mais forte, ele já fazia parte da família, era como se tivesse nascido ali sabe, e aí decidimos mesmo adotá-lo. Na época, ele estava com 14 anos”, contam os pais do garoto. Durante o processo e após a decisão de adotar o adolescente, o casal revela que teve apoio total da família, o que os incentivou ainda mais a realizar a vontade de complementar a família tradicional. “Desde o início fomos apoiados pela nossa família”.


Foto: Kenex Media sa


O casal afirma também que o apoio da família e de um profissional nesse momento é de extrema importância. “Não tem como passar por esse processo sem psicólogo. Na fase de adaptação somos muito testados por eles, no sentido assim ‘até que ponto eles de fato me amam’ ”, conta C.R. O acompanhamento psicológico nessa fase é crucial para ajudar na acomodação das famílias e das crianças. Isso porque, no começo, existem desafios no processo de adaptação com a nova dinâmica familiar e com o novo ambiente. R.C. relata que esse é um momento que exige paciência, pois o adolescente pode muitas vezes demorar para se acostumar com as novas regras, performance e hábitos familiar. Ela explica que a experiência inicial com o filho foi compli-

cada, “no começo ele falava que queria ir embora, que não gostava da gente, fazia birra para ir pra escola, até que em uma das situações vividas em casa eu disse ‘na estatística brasileira o índice é inferior a 1% de pessoas que adotam adolescentes acima de 11 anos. Sabe porque isso aconteceu com você? Porque queremos ser 99% pai e mãe de verdade pra você’. A mãe cita, ainda, uma memória marcante que sintetiza o sentimento após a adoção do garoto. “Uma das frases da Juíza Dora Martins, que era a responsável pelo processo de adoção, que até hoje guardo comigo é que filhos biológicos também precisam ser adotados pelos pais, porque adoção é uma ato de amor”, cita. “Se não forem adotados pelos pais biológicos serão apenas ge-rados, entende?”, comenta ela.


Iniciativas que nos enchem de esperança

Foto: Pixabay

Além do portal, existe, ainda, a ferramenta “A.dot” busca facilitar o acesso dos pretendentes com as crianças e jovens aptos para a adoção. O aplicativo funciona como uma plataforma que conecta crianças e adolescentes em condições jurídicas de adoção com pretendentes do Cadastro Nacional de Adoção. Para mais informações escaneie o código QR, ou acesse: https://adot.org.br

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Foto: Pixabay

Padrões irreais e a busca pelo corpo perfeito Como reconhecer e lidar com transtornos alimentares na adolescência Ana Letícia Fort


Quem nunca ficou insatisfeito com alguma característica do próprio corpo? É muito comum que a gente se compare com outras pessoas e, mesmo que inconscientemente, procure se encaixar em padrões. Durante a adolescência não é diferente.

A fase que começa aos 10 anos de idade e termina aos 19 é uma das etapas mais turbulentas que passamos durante a vida. As mudanças hormonais e a assimilação de um mundo completamente novo são fatores que mexem com a nossa cabeça e fazem com que a gente sinta tudo com mais intensidade, o que muitas vezes nos deixa mais vulneráveis. Uma rotina alimentar balanceada e a prática regular de exercícios físicos são elementos importantes para o desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes. Entretanto, é preciso estar atento para que isso não vire uma obsessão e a relação dos jovens com o próprio corpo não se torne problemática. De acordo com uma pesquisa da Associação Americana de Psiquiatrias, os distúrbios alimentares atingem 1% da população mundial - cerca de 70 milhões de pessoas e são muito frequentes em adolescentes a partir de 12 anos de idade. Apesar dos tipos de distúrbio serem variados - entre eles, os mais comuns

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são a anorexia, a bulimia, a compulsão alimentar e a ortorexia - a principal questão envolvendo todos eles parte de uma relação difícil com a própria imagem.

Influência negativa A busca constante para corresponder a certos padrões de beleza é um dos principais motivos que levam os adolescentes a desenvolverem transtornos alimentares. Além disso, nos dias atuais, o uso da internet e das redes sociais cada vez mais cedo é outro agravante nesse processo. Artistas, modelos e digitais influencers usam diariamente seus perfis no Instagram para

compartilharem imagens, nas quais exibem seus belos corpos. Esses conteúdos acabam gerando ansiedade em quem está do outro lado da tela e se vê muito longe de se parecer com aquilo. “Com a exposição de vidas e corpos ‘perfeitos’ nas redes sociais, os jovens buscam se aproximar desses modelos. Porém, na maioria das vezes são fotos modificadas que não correspondem a corpos reais”, explica a psicóloga Fabiola Bonventi. A profissional ainda complementa que “essa tentativa de se adequar a sociedade por meio de um corpo irreal, leva os jovens a fazerem dietas extremas e/ou exercícios sem orientação”.

“Quando eu ganhei de volta alguns dos quilos que tinha perdido, eu entrei em desespero, toda vez que eu comia eu chorava muito”


Foto: Ana Letícia Fort

Identificando o problema De acordo com a psicóloga, “os distúrbios alimentares se apresentam quando uma pessoa se alimenta de maneira que tenha prejuízos na saúde física e/ou mental. Entretanto, como cada

transtorno tem características e peculiaridades distintas os sinais são variados”. A estudante Thaysa Venturini, hoje com 21 anos, conta que aos 13 anos de idade desenvolveu anorexia e teve alguns episódios de bulimia. “Eu não sentia mais vontade de comer,

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e eu realmente não comia, passava vários dias comendo só uma ou duas folhas de alface e uns pedacinhos de queijo branco. Embora eu sentisse muita fome, a culpa era inexplicável”, relata a estudante. Demorou um tempo para que ela entendesse que estava com um problema e, dessa

maneira, não pediu ajuda logo no começo do distúrbio. “Eu não queria admitir que tinha alguma coisa de errada, porque apesar de eu claramente não estar saudável, muita gente ao meu redor me falava ‘nossa, você emagreceu, tá tão bonita!’, e isso para uma adolescente que tinha sido uma criança gordinha e que sofreu


bullying por esse motivo era um encorajamento”, conta. A história de Thaysa se repete em muitos outros lares com adolescentes e a família precisa estar atenta aos sinais e, assim, estar pronta para oferecer ajuda da melhor maneira possível. “Quando a família observa características alimentares inadequadas, o primeiro passo

é conversar com eles abertamente e respeitosamente, oferecendo um espaço de segurança e compreensão para seu sofrimento”, ensina Fabiola. A psicóloga também explica que é preciso evitar julgamentos e, em um segundo momento, buscar ajuda de profissionais, como psicólogos, nutricionistas e médicos.

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Foto: Pixabay

Tenha paciência O tratamento de transtornos alimentares muitas vezes pode ser demorado e difícil, por esse motivo é preciso que o paciente seja persistente e que a família e os amigos o apoiem em todas as etapas. Fabiola explica que a psicoterapia “vai ajudá-lo com o manejo desse sofrimento, trazendo mudanças de padrões de comportamentos e pensamentos, melhorando a autoestima e sua interação social”. O acompanhamento de um profissional da nutrição também é importante nesse processo. Segundo a nutricionista clínica, Sarah Passarelli, o papel do profissional da nutrição no processo é o de “auxiliar o paciente a melhorar sua relação com a comida e com o corpo, visando diminuir angústias e elucidar possíveis crenças re

lacionadas a certos alimentos”. Além disso, Sarah conta que “se pode observar, na grande maioria dos casos, que quando o paciente consegue estabelecer uma rotina alimentar adequada, a ansiedade e a angústia relacionada a alimentação tendem a ficarem mais facilmente controladas”. Thaysa conta que quando foi procurar ajuda, demorou um tempo para conseguir falar com a psicóloga sobre o assunto e mudar algumas atitudes. “Quando eu ganhei de volta alguns dos quilos que tinha perdido, eu entrei em desespero, toda vez que eu comia eu chorava muito, eu só consegui me livrar da culpa de comer depois de anos. É um processo muito longo, doloroso e com muitas recaídas”, relata.


O que você quer ser quando crescer?

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Indecisão, seja na escolha de curso ou carreira, afeta jovens e adultos na busca da felicidade Gabriela Abreu e Júlia Nunes Adulto. Essa talvez seja a melhor resposta para a pergunta “o que você quer ser quando crescer?”. Isso porque escolher uma profissão pode ser realmente um processo muito difícil para algumas pessoas. Ao mesmo tempo em que todo mundo deseja ser feliz e trabalhar no que gosta, questões como salário, pressão dos pais, dificuldade do curso e a vontade de fazer a diferença na sociedade precisam ser leva-

das em consideração na hora da escolha profissional. Por isso, esse sentimento de indecisão, somado à dificuldade de estudar para as provas de vestibular, tornam esse momento da vida do jovem bastante conturbado. E para que essa fase da vida seja mais saudável e prazerosa, é preciso que a família e a escola estejam ao lado dos adolescentes, orientando e acolhendo conforme necessário.


Pressão dos pais A orientadora vocacional Gláuci Mora explica que os jovens se sentem pressionados para saírem do Ensino Médio e ingressarem em uma faculdade. Além disso, muitos pais, visando o sucesso profissional dos filhos, desejam que eles sigam carreiras mais valorizadas, como Engenharia ou Medicina. Por isso, ela orienta que os pais estejam em sintonia com o propósito de vida do adolescente, para ajudá-los neste momento. “A escola deve trazer os pais para refletirem sobre a importância dos filhos terem autoconhecimento e do que é ser bem sucedido, que não é só ter bom salário. Devem pensar juntos, parar, analisar qual é o perfil do filho”, orienta. Segundo Gláuci, antes mesmo dos filhos entrarem no colegial, os pais começam a conversar sobre a preparação para o vestibular, mas qual vestibular? Essa era a dúvida da Isabela Watanabe, que prestou vestibulares em 2017 e hoje, cursa Psicologia e História da Arte.

No Ensino Médio, Isabela não tinha certeza do que gostaria estudar, mas sabia exatamente o que não queria: Medicina, a profissão dos pais. Por isso, quando ela contou para eles sobre a decisão de prestar Artes, foi bastante criticada. Ela relata uma situação que, depois de várias discussões, a mãe dela começou a acreditar que ela não queria fazer Medicina pela dificuldade de passar na prova. Assim, a mãe disse que ela só poderia fazer Artes se passasse em Medicina primeiro. “Foi péssimo, fez mal para a minha autoestima, para a minha segurança, comecei a me sentir como se eu fosse um ser humano que falhou, falhei com os meus pais, comigo mesma”, lembra Isabela. Hoje, ela ingressou no curso que queria e os pais passaram a entender que é possível ter uma boa vida financeira na área das Artes. “Eles começaram a conhecer pessoas no ramo e viram que não é porque você está fazendo Artes que você vai morrer de fome. É um campo a ser explorado”, ressalta.

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Escolhi errado. E agora?

Escolher a profissão também foi uma dificuldade para Giovanni Cordeiro. Quando ele saiu do colegial, foi aprovado e começou a cursar Economia. Mas na metade do curso, percebeu que não se imaginava na profissão e tomou a difícil decisão de voltar para casa. “No começo do curso, já percebi que talvez não fosse a opção certa, poucas matérias me agradavam. Isso me fez comentar com algumas pessoas sobre minha escolha, mas as respostas eram sempre as mesmas ‘espere mais um pouco que você vai gostar’, mas cada dia que se passava eu gostava menos do curso”, conta Giovanni. O estudante admite que, quan-

do tomou a decisão, tinha a sensação de estar dando um passo para trás. No entanto, o apoio dos pais o ajudou a encarar essa fase com mais leveza. “Eles tiveram uma postura sensacional, me perguntaram se estava saindo por achar Economia difícil, e se eu tinha algum plano a partir de então. Respondi que já havia pesquisado sobre cursinhos em minha cidade e que gostaria de prestar Direito. Ao ouvir minha resposta, eles disseram ‘e quando você vem pra casa, então?’”. Para ele, que tem apenas 20 anos, “é preferível dar um passo para trás em prol de uma vida em que se trabalhe com algo que te faça bem”.


Aprendendo na prática Para ajudar o jovem que não sabe qual profissão deseja seguir, a orientadora Gláuci explica que uma boa ideia é fazer orientação vocacional. Com ela, o aluno pode adquirir autoconhecimento e entender o seu propósito na vida. Ao mesmo tempo, Gláuci explica que é interessante que o jovem utilize a tecnologia e a grande quantidade de informações disponíveis nos dias atuais para estudar as possibilidades do mercado de trabalho. Além disso, é importante que ele encontre maneiras de se inserir na rotina da profissão e entender na prática como ela funciona. Por isso, antes de entrar na faculdade, o estudante pode visitar a universidade, pesquisar sobre custos, moradia, alimentação, passar um dia com um profissional e se imaginar na

carreira dentro de 10, 30 anos. “A participação em jornadas, essa proatividade em buscar informações, buscar as pesquisas que falam sobre os cursos, entrar no site das universidades, vivenciar, isso é o mais importante”, confirma. Uma outra dica da orientadora é estar atento às profissões do futuro, já que muitos jovens talvez assumam carreiras que ainda nem existem devido à inteligência artificial e os avanços tecnológicos. Ela explica que muitas coisas vem mudando nos vestibulares. Atualmente, os processos seletivos já apresentam um novo cenário e testam as habilidades socioemocionais e comportamentais do candidato, como a proatividade e a aptidão para trabalhar em grupo. No fim, seja qual for a profissão escolhida e o caminho que a vida levar, o fator mais importante é ser feliz. “Se eu já vou ter que fazer isso por causa do sistema e da sociedade, que no mínimo seja algo que eu seja apaixonada, que aquilo me acrescente como ser humano”, opina a estudante Isabela.

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E na vida adulta? Desde a adolescência, somos pressionados a escolher uma profissão - de preferência uma bem remunerada - e a segui-la pelo resto de nossas vidas. Não há prospecção de felicidade, já que ela sempre é vinculada com o bem material. De acordo com uma pesquisa realizada em 21 estados do Brasil pelo consultor de carreiras Fredy Machado, 90% das pessoas estão infelizes com seu trabalho. Desse percentual, 64,24% dos profissionais gostariam de fazer algo diferente para serem mais felizes. “O termo “felicidade” é definido de muitas maneiras diferentes para várias pessoas”, diz Fernanda Carvalho, psicóloga

formada pela PUC-RJ. “Para muitos, ser feliz é formar a família do comercial de margarina, sendo assim o trabalho de fato pouco importa. Entre uma boa remuneração e a satisfação no trabalho, a satisfação é definitivamente mais importante. Você pode obter um bom salário, mas se você não estiver feliz, não há sentido nisso”. Além disso, distúrbios como a ansiedade e depressão são causados por essa idealização de uma carreira perfeita. Para Fernanda, vivemos hoje na geração do imediato e por isso, escolher uma profissão porque viu algo em um filme ou leu em um livro não é aceito pela sociedade.


Além da busca pela felicidade, depois de um certo tempo, nos deparamos com o conceito de propósito. Mas o que isso significa para a nossa vida? O propósito nada mais é do que o nosso principal objetivo a ser alcançado na vida. Muitas vezes, nos perdemos desse conceito ao focarmos em uma carreira de sucesso ao invés da satisfação naquilo que trabalhamos. Alina Maciel, formada em Publicidade e Propaganda pela FAAP, trabalha há muitos anos na área de vendas de softwares para empresas. Mesmo que durante sua infância ela não tivesse sido pressionada pelos pais, ela afirma que “a estrutura da sociedade e o modelo econômico dizia que ela deveria ter uma função que garantisse o sustento e um poder

aquisitivo para bens materiais, como casa própria, carro, boas roupas… A busca disso foi o principal motor da vida”. Para ela, a ideia do propósito é muito importante ao escolher uma carreira. “Essa deve ser a nossa verdadeira busca, achar nosso propósito. E não precisa ser nada tão grandioso como garantir paz mundial ou impactar a vida de milhões de pessoas. Percebo que as pessoas também confundem real propósito com algo muito grande”, afirma. Durante sua trajetória, ninguém a ensinou a seguir a ideia de um objetivo maior. “Ninguém ensina a buscar propósito, nos ensinam a encontrar uma carreira. E carreira é só um meio de atingir propósito”, Alina conclui.

A busca pelo propósito

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Mudança de carreira aos 25 anos. É possível? Uma prática muito comum nos dias de hoje é a mudança de carreira. Muitas vezes, ao chegar na faixa de 25, 30 anos, os profissionais se deparam com uma carreira frustrada e uma vida infeliz. Porém, é possível, sim, se apaixonar por uma profissão nova depois de formado. Larissa Aquino, nascida no Maranhão, se formou em Economia, mas quando tinha 25 anos, acabou se apaixonando pela Odontologia. Com o sonho de morar fora, ela escolheu a Economia com

a ideia de se tornar uma grande economista de banco. Mas depois de um tempo, percebeu que não estava feliz e foi convencida pelo ex-marido a prestar Odontologia, logo se apaixonando pela profissão. Hoje, seu grande sonho é “ver minha carreira mais bem remunerada, pois pensam que ganhamos rios de dinheiro e não é bem assim, matamos um leão por dia, para conquistar clientes, fazer bem feito e sair do consultório com o sentimento de dever cumprido”.


Não existe carreira perfeita

A partir do momento em que essa ideia não for disseminada em nossas vidas, poderemos abrir nossos horizontes para novas possibilidades. Não existe uma profissão perfeita. “Todo trabalho é bom e ruim, assim como a vida”, Fernanda acrescenta. “Conseguir ver esta ambiguidade e fazer este alinhamento de expectativas é importante para amadurecer profissionalmente”. E mesmo se não for possível mudar drasticamente de profissão, isso não precisa ser encarado como um problema. Alina, por mais que não tenha escolhido uma área que ame, acredita que isso não a impede de colocar amor e alma naquilo que faz. “Momentos de tensão sempre existirão, assim como de felicidade. O ponto principal é pensar que todas essas situações ajudarão no crescimento profissional e é isso que importa”, conclui Fernanda. Foto: Pixabay

Precisamos nos desvincular desse conceito tão intrínseco a nossa sociedade. A psicóloga Fernanda afirma que “acreditar que existe um emprego e uma carreira perfeita é uma ilusão que influencia todas as outras áreas da vida”.

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Foto: Gabriela Abreu


Adulto “Ser adulto é saber agora o que eu não sabia antes”


Liberdade é amor, amor é liberdade A poligamia na busca de desconstruir o formato tradicional de relacionamentos

Foto: S. Hermann

Beatriz Bethlem

“E viveram felizes para sempre”. Todos nós crescemos escutando a famosa frase que finaliza os contos de fadas. O príncipe salva a princesa de alguma situação catastrófica, ela se apaixona por ele, ocorre um casamento e... fim. Podemos tirar uma conclusão principal sobre essas histórias

que persistem em nos rodear mesmo na fase adulta, seja pelos filmes, séries, músicas, livros ou até mesmo pelos familiares que constantemente perguntam sobre os “namoradinhos” e casamento: você só será realmente feliz e completo quando encontrar um par perfeito para se relacionar.


A monogamia, ou seja, quando duas pessoas vivem uma relação exclusiva, sem a possibilidade de haver envolvimento sexual ou afetivo com pessoas fora do relacionamento, é o que é considerado normal e aceitável em nossa sociedade. Não só é considerado normal, mas também é sinônimo de felicidade, assim como nos contos de fadas que crianças ao redor do mundo escutam antes de dormir. Contudo, será que o ser humano realmente nasceu para manter relações amorosas com apenas um indivíduo? É justamente isso que pessoas que vivem em relacionamentos poligâmicos procuram desconstruir. Para a poligamia, o amor não precisa ser escasso e focado em apenas uma pessoa. Se conseguimos amar diversos amigos e familiares, por que na cultura monogâmica existe uma escassez de amor quando se trata de amor

romântico? Assim como nas amizades, pessoas poligâmicas acreditam que, quando se trata de relacionamentos amorosos, é possível ter mais de um. E o mais importante: sentir atração ou amor por outro, não significa que você deixou de amar seu parceiro.

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É o caso da Larissa Neves, estudante de psicologia que está em um relacionamento poliamor com seu namorado Matheus há dois anos e meio. Apesar de nenhum dos dois estar envolvido com outra pessoa no momento, viver inserido nesse formato de relacionamento significa estar aberto e livre a se envolver afetivamente com alguém além do parceiro. Para a estudante, “a monogamia está para o capitalismo tanto quanto a propriedade privada.” Essa ideia se relaciona, portanto, ao sentimento de posse. Ao entrar em um relacionando amoroso com a expectativa de que a pessoa só deve me amar e eu devo amar somente ela, cria uma sensação de que meu parceiro ou parceira suprirá todas as minhas necessidades e, logo, não

terei desejo por mais ninguém. Porém, além dessa construção utópica de relacionamento fazer com que muitos se sintam incompletos sozinhos, também faz com que depositemos uma carga muito alta na pessoa com quem estamos nos relacionando, gerando altos índices de ciúmes e competição com indivíduos externos ao relacionamento. Esses sentimentos de ciúmes e competição são gerados pelo medo do amor acabar, uma vez que na monogamia só é possível amar uma pessoa de cada vez. Portanto, como devemos preservar esse amor, é de nossa responsabilidade, também, estarmos atentos e nos certificando que nosso companheiro ou companheira não esteja depositando seu interesse em outro indivíduo. Foto: Michael Schwarzenberger


Imagem: pixabay

Os dois lados irreais da moeda Quando o assunto é poligamia, geralmente as primeiras ideias que surgem na cabeça de alguém monogâmico são: “essa pessoa só quer transar com vários” ou “essa pessoa é evoluída e não sente ciúmes”. A questão é que nenhuma dessas afirmações são verdadeiras. Primeiramente, poliamor não é sobre sexo e sim sobre liberdade. Um dos objetivos do

poliamor é quebrar os relacionamentos hierárquicos e construir relacionamentos baseados na confiança, liberdade e consentimento. Portanto, o sexo é só uma das formas de conexão, mas de forma alguma é algo obrigatório. M.S, estudante que já viveu um relacionamento poliamor, mas preferiu não se identificar, afirma que a questão sexual deve ser conversada e baseada no consenso. Ela, que é lésbica e viveu em um relacionamento com um casal composto por um homem e uma mulher, disse que tudo foi sempre baseado na conversa, no desejo de todos e no respeito por cada um dos envolvidos na relação.

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Imagem: Pixabay

Já em relação ao ciúmes, Larissa explica que o sentimento está sim presente em relacionamentos poliamor, porém a diferença é como as pessoas lidam com ele. Para ela, devemos parar de ver o ciúmes como amor e cuidado e passar a ver como posse, pois o sentimento geralmente é um aglomerado de situações, como insegurança, a não validação e falta de comunicação.“Eu sinto ciúmes, mas o que eu tento fazer é encarar ele na cara e me questionar porque ele está aparecendo. Sempre procu-

ro lembrar que a pessoa não é minha e suas experiências não são da minha ossada”, afirma. Ela diz que o ciúmes deve ser combatido e questionado quando surge, evitando a sensação de insuficiência que ele traz, como acreditar que as outras pessoas são melhores e mais legais que você. “Não quer dizer que eu não sinto ciúmes, eu só não acho que ele é mais um bicho de sete cabeças. Ele existe e vai continuar existindo, só que ele não vai ser um motivo pelo qual vou deixar de fazer as minhas coisas”, conclui.


Estamos doentes? As altas exigências do mundo profissional e suas consequências na saúde mental.

Foto: Pixabay

Ana Letícia Fort e Gabriela Abreu

Desde pequenos somos orientados a estudar muito para quando crescermos arrumarmos um bom emprego e construirmos uma carreira profissional perfeita. Somos ensinados a trabalhar de forma excessiva, excedendo as horas de trabalho, por conta da pressão dos chefes e da alta

competitividade no mercado. Entretanto, nesse processo, muitas vezes esquecemos de cuidar da nossa saúde física e mental e acabamos desenvolvendo hábitos que, a longo prazo,podemnosdeixardoentes. As demandas por uma alta performance profissional podem causar grandes danos


psicológicos. Por esse motivo, é preciso prestar atenção nos sinais e procurar ajuda profissional quando sentir que as coisas estão fora de controle.

Quando vira um problema É muito comum que o cansaço e a sobrecarga emocional se manifestem na forma de transtornos psicológicos. Os transtornos mais comuns desenvolvidos por adultos nessa fase da vida são a estafa, a ansiedade, a depressão, a sín-

drome do pânico e a síndrome de Burnout. De acordo com a psicóloga Fernanda Leite, as principais queixas de quem sofre desses problemas são a pressão, o mundo competitivo, o medo de perder o emprego e de não dar conta de fazer tudo. “A pessoa se sente cansada, desmotivada e não consegue dormir direito à noite”, comenta. Para o psicólogo Victor Hugo Silveira, o ambiente de trabalho também pode afetar diretamente a saúde mental do trabalhador.


“Geralmente, essas pessoas estão empregadas em ambientes nos quais a cultura organizacional é permissiva em relação a assédio moral, tem metas absurdas e um constante clima de intriga, competição e rivalidade”. Consequências do estresse Felipe de Souza, de 32 anos, mora em São Paulo e é Analista de Sistemas. Formado em Ciência da Computação, traba-

se agravando com o passar do tempo, já que eu não tinha conhecimento do que eu tinha ou do que tinha que ser feito para melhorar isso”. Com o decorrer do tempo, a situação piorou tanto que Felipe estava disposto a tirar a própria vida. Naquela época, o que o segurou foi uma promessa que fez consigo mesmo: “mesmo que eu ficasse muito mal, eu não ia desistir”, relembra.

“É muito comum que o cansaço e a sobrecarga emocional se manifestem na forma de transtornos psicológicos” lha desde os 15 anos, quando começou a ajudar na loja de sua mãe e a entregar panfletos. Aos 20 anos idade, começou a fazer estágio e ter uma desgastante rotina, que flutuava entre o trabalho e os estudos. “Quando você é muito novo, você acha que é normal trabalhar tanto, que é a vida”, ele conta. “Comecei a notar vários sintomas, que foram

Depois disso, o Analista de Sistemas decidiu procurar ajuda e passou a pesquisar mais sobre os seus sintomas. Felipe se consultou com algumas psicólogas e com um psiquiatra, mas foi só depois de mudar seus hábitos de vida que ele passou a sentir melhoras no seu quadro. Hoje, com 32 anos, ele ainda está se recuperando do processo doloroso que enfrentou na época.


E como mudar? Felipe não acredita que as pessoas estejam ficando doentes por trabalhar demais, mas sim por não saber se cuidar. “As pessoas não têm autoconhecimento, não estão procurando ter uma vida mais saudável. Para você conseguir ter foco e ser um bom profissional, você não tem outra opção: você precisa se cuidar”, comenta. Ele ainda conta que práticas meditativas, uma boa alimentação e exercícios

físicos ajudaram muito no processo de recuperação. “Procure pessoas de confiança, não sofra calado”, aconselha, por fim, o analista de sistemas. O psicólogo Victor também ressalta que “é necessário desenvolver a cultura de buscar um profissional capacitado para o tratamento da saúde mental, além de outros profissionais da saúde que podem auxiliar nos tratamento, como fisoterapeutas, por exemplo”.

6 maneiras de evitar o estresse no dia a dia


Elas escolheram dizer não ao casamento e à maternidade Fabiana Farias Todos nós somos acostumados a enxergar nossa realidade como única e aprendemos a entender o mundo por meio da nossa cultura e conhecimentos comuns. Esse modo de analisar as experiências vividas é natural do ser humano e se estende a vários campos da nossa vida. Para as mulheres, essas influências culturais e sociais impactam em muitos aspectos. As formas de relacionamento estabelecidas culturalmente nos guiam em relação a maneira como vivemos o amor dentro da nossa sociedade. Desde pequenas somos ensinadas sobre o amor e os relacionamentos e, principalmente, somos levadas a crer que as possibilidades de experimentar o amor verdadeiro sejam limitadas a um compromisso com uma única pessoa, passando, obrigatoriamente pela maternidade.


Tabus sobre o casamento e maternidade para as mulheres

O tema casamento é um dos principais assuntos no qual as mulheres são colocadas no centro e que se insere como uma parte fundamental da vida, no qual a felicidade só será alcançada com ajuda do outro. Quem não segue essa lógica dentro da sociedade se propõe a romper com um padrão bem estabelecido que, posteriormente, gera um tabu, e poucas pessoas estão abertas para falar sobre isso. Ao mesmo tempo que milhares de pessoas escolhem seguir o caminho dentro do socialmente aceito, existe uma outra parte da população que - peço desculpas ao Tom Jobim acredita que sim, é possível ser feliz sozinho! E, ainda, essas pessoas defendem a ideia de que existem outras formas de se sentirem realizadas no amor, seja com outra pessoa ou não. Hoje, muitas mulheres veem

um outro significado no amor e enxergam novas possibilidades de atingir um bem- estar por si mesmas, estando “sozinhas”. Um outro assunto que de destaca e gera conflito dentro da sociedade é a maternidade. Regina Camargo, (33), conta que desde criança tinha certeza da escolha de não querer ter filhos. “As pessoas sempre me criticaram por pensar assim e falavam que eu era muito nova para decidir isso, eu nunca mudei de ideia e quando comecei a trabalhar encontrei uma única pessoa que pensava da mesma forma”. A profissional de educação física descobriu o movimento “Childfree” já na vida adulta, e passou a se identificar com ele. A partir do empoderamento feminino as mulheres enxergam que a maternidade não é uma obrigação e que não tem nada

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de errado em desejar não ter um filho. O mundo moderno possibilita às mulheres oportunidades além da maternidade, que assim, a vontade de ter filhos pode ser postergada ou mesmo abandonada. No Brasil, de acordo com os últimos dados do IBGE, cerca de 14% das mulheres não têm planos ou desejos de engravidar.

Hoje, elas escolhem dizer não à maternidade Com esse novo olhar para a maternidade surgiram alguns movimentos mais radicais em relação ao tema. Eles se posicionam sobre o fato de não querer ter filhos e buscam ganhar espaço na sociedade

sob o argumento de que não ter filhos é um direito da mulher e que ela deve ser respeitada. O movimento “Childfree” surgiu mente para apoiar pessoas que não desejavam ter filhos e que não viam espaços na sociedade para falar sobre isso. Atualmente, o movimento adquiriu novas conotações e passou a agregar também indivíduos que não gostam de crianças. Com o passar do tempo, o movimento ganhou mais adeptos e ganhou destaque porque alguns estabelecimentos aderiram a ideia de não permitir a entrada de crianças nos locais. Alguns restaurantes, hotéis e eventos passaram a restringir a entrada dos pequenos e essas medidas começaram a dividir opiniões.


Foto: Pixabay

De um lado desse embate discute-se o comportamento das crianças e a educação que os pais dão às mesmas, do outro lado ficam os estabelecimentos que têm o direito de colocarem suas regras dentro dos espaços e buscar diminuir o desconforto de quem não quer ser incomodado em um local ou evento. Regina explica que o movimento “Childfree”, do qual participa, respeita a escolha do próximo e entende que o problema não são as crianças por si só, mas a forma como estão sendo ensinadas pelos pais. “A dificuldade de se criar um filho, os gastos, a questão de abrir mão da sua vida para gerar e educar uma criança, não é algo simples, pois


demanda muita paciência, sabedoria e amor, coisas que hoje em dia estão em falta”, afirma. Regina, assim como outros simpatizantes do movimento “Childfree” é a favor da restrição à crianças em alguns espaços, pois defende que a maioria das crianças são criadas sem limites e sem educação. Ela enfatiza que “poder ir a locais que eu estou livre de ser incomodada por atitudes de crianças que deveriam ser corrigidas pelos pais adultos, me deixa mais confortável para frequentar espaços”. Ela ainda levanta a importância do movimento para o diálogo e a conscientização das pessoas em relação ao tema e as escolhas das mulheres. “O movimento é uma maneira de reunir pessoas que possuem os mesmos desejos, pensamentos de não ter filhos e dar voz a essa vontade, de

forma consciente e respeitosa. Essa é uma forma de sermos conhecidos e respeitados por quem pensa diferente”. Atualmente, Regina é uma das moderadoras do grupo “Childfree Brasil” e esclarece que suas atividades no grupo são relacionadas a aprovação de posts e comentários, além de manter a ordem no grupo. Ela conta que o respeito é muito importante no grupo, “apesar de ser um grupo sobre pessoas que não querem filhos, muitas vezes aparecem opiniões diferentes

Ilustração: Juliana


a Coluce

sobre assuntos relacionados e é importante que todos se expressem sem ofender ninguém ou impor nada”, explica a profissional. Comunidades como essa crescem no país e ganham cada vez mais participantes. O grupo que Regina administra, por exemplo, já conta quase 3 mil participantes. Esses projetos buscam fomentar a discussão sobre assuntos que envolvem conceitos sociais preestabelecidos buscando gerar reflexão e promover um debate so-

bre os modelos que a sociedade se apresenta. Discutir esses assuntos envolve questionar os padrões das esferas de âmbito cultural, econômico e religioso. Regina conta como ela enxerga que o casamento e a maternidade são imposições sociais às mulheres: “principalmente no meio religioso, as pessoas e os líderes cobram muito isso, falo porque já fui de uma determinada religião e vejo nitidamente a cobrança em relação a esses dois fatores. Ela cita que a sociedade em geral exige a reprodução de comportamentos sem pensar no verdadeiro desejo das pessoas em relação às suas escolhas de vida. “As pessoas cobram algo sem avaliar se o outro realmente está disposto a assumir todas as consequências de um casamento e da maternidade”.

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Game quebra barreiras Os adultos já são 37,7% dos gamers e esse número só cresce com a rentabilidade e evolução dos jogos

Victor Oliveira

Os adultos que têm interesse por games sofrem preconceitos? O assunto é polêmico e gera discussão. Se no século 20 este mercado tinha como principal foco as crianças, hoje podemos dizer que a tecnologia ajudou na expansão do universo do “game”. Além de proporcionar um espaço de comunicação online, os jogos atuais permitem a interação virtual e um possível encontro físico, pois os participantes se sentem mais motivados para trocar dados e dividir opiniões. Apesar desse mercado crescer como nunca e os gamers se sentirem representados em canais esportivos, como Sportv, o preconceito social ainda é muito presente. Willian Saez, formado em análise de sistemas e ativo na área, diz que “hoje em dia há

preconceito, mas no geral as pessoas são julgadas como infantis ou descomprometidas”. Um dos estilos mais presentes nos games são os solos, os quais chamam a atenção por muitos motivos. Willian destaca este modelo, pois o mesmo permite aos usuários escolher o pró-


Foto: Pixabay

Foto: Pixabay

prio destino. “Jogos solos são mais como livros, pois caso o jogo seja bem construído e tiver boa narrativa faz o participante desenvolver sua capacidade, é mais livre e instigante, além de fazer o ele imergir na história e o força a resolver os problemas do game”, explica.

Este mercado conquistou uma potência enorme neste século e perpassou o cinema e a música se tornando a fonte de entretenimento mais rentável do mundo segundo o jornal Nexo. Por ser uma área que se adapta simultaneamente à tecnologia vigente, os jogos têm muitas op-

ções de plataformas e são bem acessíveis, como os celulares, e isso facilita o uso por pessoas de 25 a 34 anos, os quais compõe 37,7% do público total. O “boom” do game chama atenção de muitas pessoas, inclusive do Alexandre Leite, o formado em Sistema de Informação conta que “o mercado de games não tem como parar de crescer, pois trilha caminhos para um futuro bem promissor”. Isso ocorre porque a interatividade e o marketing do produto faz a consolidação das plataformas e assim permite a fidelidade dos usuários com os diversos estilos de jogos, explica. A conexão entre jogador e jogo ajuda na construção da identidade do mesmo, com isso as plataformas evoluem com a tecnologia, mas o usuário em 50 por cento das vezes prefere continuar com a mesma rede. É o caso de Alexandre Leite que ganhou o PlayStation 1 ainda criança, e até hoje é fã desta plataforma, que entretém suas tardes de sábado com a versão 4. Esta linha, pertencente a Sony Productions, a qual segundo Alexandre, conhece e entende a

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diversos públicos, assim como conta ele, “a tecnologia ajuda muito, antigamente se jogava palavras cruzadas em revistas compradas na banca de jornal. Nos dias de hoje, o jogo pode estar no celular, geladeira e relógios inteligentes. Também há uma grande tendência aos jogos em realidade virtual, que pode aumentar a interação das pessoas mais debilitadas”. Não resta dúvida de que o universo 3D realizou mudanças drásticas na tecnologia, por isso o game conseguiu não só a se reinventar, mas também conquistar novos públicos e adeptos. Foto: Pixabay

essência dos principais jogadores, e com o intuito de fortalecer os laços recriou jogos antigos, como a versão Crash Bandicoot, a qual hoje é mais vendida que o Best Seller: Fifa 19. Curioso também pensar que a indústria de games tem suas linhagens entre pais e filho(a) s, Willian por exemplo, explica que acha incrível como seu pai gostava de jogar PONG (1972), o qual era uma versão atualizada feita para PS4 com o óculos de realidade aumentada. Isso reflete também em como a tecnologia encontrou caminhos de inclusão e buscou encantar


Foto: Acervo Pessoal


Maturidade

“Ser maduro é o equilíbrio dos sentimentos e das ações”


Sexualidade no terceiro estágio da vida A fase idosa traz novos obstáculos na relação de casais e concentram grandes expectativas

Foto: Pixabay

Victor Oliveira e Lucas Gervazio

A vida sexual é repleta de mistérios que se desvendam ao longo do tempo. Abordar o tema na terceira idade pode criar inúmeras pautas. Mas muitas vezes o silêncio toma conta: tratar sobre a sexualidade na velhice é tido como algo “indevido” pela nossa sociedade. Com o passar dos anos, os casais acabam, à mercê, cobrindo sua identidade sexual e se contentando com uma relação mais comedida. Segundo a sexóloga Liliana Nunes, 43, não

existe uma idade em que o sexo é inviável, desde que a pessoa seja adulta: “Qualquer pessoa de qualquer idade pode ter relação sexual. Não importa a sua idade, não há nada que impeça a pessoa de ter relações sexuais. O ponto é o desejo. Muitos homens, por exemplo, utilizam o viagra para manter a ereção, mas eles têm a questão cardíaca comprometida. Mas a idade, em si, não compromete a sua vida sexual, desde que você se cuide.” O grande desafio, tanto para


homens quanto mulheres, é manter ativo seu desejo sexual: ao longo dos anos, a alteração hormonal pela qual passamos surtem efeitos no nosso corpo. Mulheres que já tiveram a menopausa devem cuidar da reposição hormonal, que traz a finalização da idade reprodutiva. Então, biologicamente falando, quem não reproduz mais não pratica sexo, mas como o sexo não tem só a função reprodutiva, e sim também de prazer,

ele pode permanecer tranquilamente depois da menopausa. A mulher, entretanto, não terá a lubrificação, pois o nível hormonal dela desce perdendo desejo e a condição biológica da penetração, o que causa dor na hora da penetração. Por isso que é importante o acompanhamento médico, para manutenção, o que principalmente diferencia dos jovens e a frequência e qualidade.” Nos homens, a produção de espermatozóides

Foto: Pixabay

e testosterona diminui na faixa dos 40 anos de idade. Falar sobre o tema é sempre cercado de preceitos, e tido como um tabu. Liliane comenta sobre a falta do assunto nas conversas: “O sexo de um modo geral é pouco comentado entre as pessoas, pois culturalmente ainda

temos uma visão e um raciocínio de que transar é uma coisa proibida e que pode acarretar coisas dentro da gente que a moral não permite. Tratar sobre sexo é sim um tabu. E tem somente dois tipos de pessoas que falam abertamente sobre isso: o perverso e a pessoa que é bem resolvida e fala

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mações sobre faria a diferença. Pois a exclusão destes assuntos faz com que tal ato não tenha tantas descobertas. A exploração do assunto permite a expansão da atividade sexual, principalmente dentro da maioridade. Para estes, fazer sexo realça a juventude e faz a construção de uma nova identidade, a fim de se ter uma vida ativa e saudável, contrariando também dilemas conservadores. A idade não é algo que limita o sexo, pois ela é movida pelo sentimento e o prazer. Ainda segundo Liliana, a condição física, a qual a pessoa se encontra é um fator quase sempre determinante para limitar ou permite a longevidade da vida sexual de qualquer ser humano.

Foto: Pixabay

claramente com maturidade.” O sexo em si, deveria ser tratado com diversidade. Pois o ato é comum em qualquer estágio da vida. “Qualquer pessoa que esteja viva e seja adulta, que fique bem claro. Não importa a sua idade, não há nada que impeça a pessoa de ter relações sexuais”, para a sexologa a questão a qual realmente importa, é o desejo entre o casal. O ato na maturidade tem um significado ainda mais humano, pois permite que a pessoa se sinta amada e lhe um sentimento de vivacidade, como ressalta Liliana, “Pessoas que praticam sexo se sentem mais jovens e vivos. Pessoas assim se sentem desejadas fazendo as felizes e ajuda na interação e complementaridade com o outro, principalmente em uma faixa etária, a qual tem problemas com a reafirmação de algumas capacidades. A dificuldade de discutir sobre sexo é causada por algumas concepções estereotipadas da sociedade. Como o assunto ainda tem valores estabelecidos em uma sociedade enraizada, como disse Liliana, a criação de políticas públicas para incentivar a evolução das ideias e infor-


Os obstáculos para uma aposentadoria sem dores de cabeça Permanecer no mercado de trabalho após o benefício se torna comum para muitos idosos

Lucas Gervazio Foto: Pixabay

Nossa vida se encaixa em fases pelas quais atravessamos e, de certa forma, possuem características comuns: após infância e adolescência, se preparar para responsabilidades que começam a surgir é natural. Sem dúvidas, um dos estágios da vida que mais se prolonga compõe o período em que você trabalha, se mantém de maneira indepen-

dente, conquista seus sonhos e busca seus objetivos. Porém, temos limites e uma hora a idade cobra. Para isso serve a aposentadoria, que tem como fundamento básico garantir um auxílio financeiro para quem já saiu do mercado de trabalho devido a idade e tempo de serviço prestado para o sistema previdenciário brasileiro.


Foto: Pixabay

No Brasil, a Previdência Social é o sistema do governo no qual o trabalhador presta tributos (conhecida como contribuição) durante todo o período em que trabalha com carteira assinada, para assegurar sua aposentadoria na terceira idade. A reforma da previdência, que estava tramitando na Câmara este ano, tem como função, segundo o Ministro da Economia, Paulo Guedes, e seus aliados, ajustar uma “conta que não fecha”: nos últimos anos, o número de aposentados é cada vez maior que o número de contribuintes – os geradores da receita que a previdência distribui entre aposentados e pensionistas. Essa reforma, entretanto, dificulta a aposentadoria, pois aumenta a idade e o tempo de contribuição para conquistar o benefício, direito de todos.

A reforma da previdência e alguns dados Essas novas perspectivas mudam o cotidiano de muitos brasileiros. Continuar trabalhando mesmo aposentado é uma realidade no país. Uma pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), realizada em dezembro de 2018, indicou que pelo menos 21% da população já aposentada ainda continua trabalhando. Noeli Fernandes, 55 anos, técnica de enfermagem que se aposentou em 2017, diz que continuou trabalhando por ainda se sentir capacitada: “Quando surgiu a oportunidade de aposentar de maneira quase integral e continuar trabalhando, eu fiz o pedido da minha redução de carga horária, no qual você

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reduz em 25% seu salário, e continuei com meu cargo por me achar ainda jovem e ter vontade de continuar”, conta ela. Essa situação não é vivida por todos. Dos 21% de aposentados no mercado de trabalho, 47% ainda trabalham por necessidade financeira – o benefício do INSS não é suficiente para

Foto: Pixabay

se sustentar. Continuar trabalhando após a aposentadoria é um grande obstáculo da terceira idade para idosos. Somado aos cuidados com saúde e bem estar que a idade requer, lidar com a necessidade de trabalhar e ter contas para pagar periodicamente pode prejudicar esse estágio na vida de muitos.


Uma nova realidade Apesar de Noeli ainda estar no mercado de trabalho, ela ressalta a importância de se ter uma aposentadoria em uma faixa etária digna para o trabalhador. “Eu aposentei com 52 anos, quando minha idade e tempo de contribuição para o INSS somavam 85, e sei que as futuras gerações não terão essa oportunidade.” Para ela, quando se chega aos 60 anos é necessário um descanso da rotina de trabalho. “Sinto muito por saber que as pessoas não conseguirão aposentar cedo. Acredito que se a pessoa aposenta depois dos 60 anos, ela deixa de aproveitar muita coisa que essa fase da vida proporciona”.

Com o texto da nova reforma, a idade mínima para a aposentadoria de mulheres é 62 anos e, para os homens, 65. Nesse período de transição do sistema previdenciário, o trabalhador acaba sendo prejudicado, e terá duas opções: buscar sua aposentadoria através de um sistema privado – no qual sua contribuição será provavelmente maior no decorrer dos anos de serviço prestado, limitando esse serviço somente para quem tem condições financeiras – ou se acostumar com essa rotina desgastante por mais tempo na sua vida, deixando de aproveitar com mais tranquilidade a terceira idade.

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Foto: Pixabay

Perdas e dissoluções Os caminhos e a subjetividade na doença de Alzheimer Ana Letícia Fort


Quanto mais incerta uma doença é, maior é o temor que ela causa. É assim com a doença de Alzheimer (DA), uma condição que atinge principalmente os idosos e se caracteriza pela perda das funções cognitivas, afetando principalmente a memória. Trata-se de uma doença ainda muito subjetiva para ciência,

uma vez que não existe um veredito sobre o que leva alguém a desenvolvê-la e a cura ainda é algo distante. E justamente por ainda possuir tantos fios soltos sobre o assunto, falar sobre Alzheimer pode causar desconforto em muitas pessoas. O medo do desconhecido e, mais do que isso, o medo de que esse mal


faça você, ou alguém querido, como próximo alvo torna o tema tão delicado. No entanto, falar sobre a doença de Alzheimer é um caminho que precisa ser percorrido. Seja para alertar para formas de prevenção, ou para orientar e humanizar o cuidado com aqueles que sofrem com esse mal. Mas afinal, o que é? A doença de Alzheimer se manifesta principalmente em idosos, mas pode atingir, em menores números, pessoas na faixa dos 50 anos. De acordo com o médico geriatra Paulo Brambilla, “a doença se inicia

ao nível celular cerebral com o acúmulo de duas proteínas específicas (proteína tau e beta amiloide), que comprometem gradativamente o desempenho cerebral”. A patologia se desenvolve em fases, como explica Paulo: “Na fase leve, a pessoa apresenta prejuízo da memória, principalmente para fatos mais recentes, e algumas mudanças em sua personalidade e humor. Na fase moderada, o indivíduo torna-se mais dependente para realização de atividades rotineiras. Na fase avançada, os doentes são totalmente dependentes para todas as atividades e cuidados básicos, perdem a capacidade de deglutição e tor-

“Conforme o tempo passa e a doença se fortalece, torna-se cada vez mais difícil reconhecer na pessoa aquilo que ela era antes”


Foto: Pixabay

nam-se acamados”. Ainda de acordo com o profissional, a doença se desenvolve de maneira lenta. “Hoje sabemos que ela se inicia 10 anos antes dos primeiros sintomas aparecerem e segue em piora progressiva por cerca de 10 anos, até atingir seu estágio mais avançado, podendo variar para mais ou menos anos, de acordo com outras doenças que

podem acometer o indivíduo, assim como os tratamentos realizados”, explica. Atenuando o processo Apesar de não existir cura para o Alzheimer, há tratamentos que retardam o seu desenvolvimento. “O tratamento mais efetivo é a reabilitação cognitiva, que não envolve medicamentos, mas

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sim atividades que estimulem as funções cerebrais para que se mantenham ativas por mais tempo. A prática regular de atividades físicas também têm demonstrado efeitos benéficos. Os tratamentos medicamentosos, assim como os já citados, não revertem e nem paralisam a doença,

mas desaceleram a piora progressiva”, esclarece Paulo. A família também tem um papel fundamental no tratamento e deve sempre estimular o convívio social e familiar do doente. Além disso, “os familiares devem monitorar o paciente em seu dia a dia e estimular


Imagem: Pixabay

que ele desempenhe todas as atividades que ele tenha capacidade e que não o coloque em risco”, orienta o médico. Laços que se afrouxam Os familiares da pessoa com Alzheimer são, provavelmente, os que mais sofrem durante

esse processo. Além da alta demanda de cuidados com o doente, há um grande desgaste emocional em assistir alguém tão amado, que pouco tempo antes era ativo e lúcido, em um doloroso processo de dissolução. A professora Carmem Lúcia Valle conta que sua avó, Tereza,

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desenvolveu a doença aos 66 anos de idade, quando a família começou a perceber pequenas atitudes dela relacionadas ao esquecimento. “Esquecia que havia algo no forno, repetia as coisas que já havia falado e tinha dificuldade em se lembrar de fatos ocorridos no dia anterior”, relembra Carmem. Conforme o tempo passa e a doença se fortalece, torna-se cada vez mais difícil reconhecer na pessoa aquilo que ela era antes. É uma estrada tortuosa e penosa, na qual cada dia se apresenta de uma forma, com novos desafios a serem vencidos. Por isso, é preciso trilhá-la com muita paciência e resignação. “É bastante difícil lidar com essa situação, pois os avós representam a nossa memória. É preciso aceitar que há uma criança dentro da pessoa idosa que sofre dessa

condição, mas é muito difícil não ser mais reconhecido. É triste ver o corpo da sua avó definhando, dia a dia”, relata a professora. Prevenção A melhor forma de lidar com qualquer doença é prevenindo seu aparecimento. Na doença

Imagem/reprod


dução

de Alzheimer o principal fator de risco para seu desenvolvimento é a idade avançada. “Fatores genéticos estão presentes, mas em menor relevância. Fatores comportamentais como hábitos alimentares ruins, sedentarismo, tabagismo e ingestão alcoólica de risco estão relacionados a maior risco de desenvolver a doença”, explica Paulo Brambilla.

Entretanto, algumas atitudes adotadas ao longo da vida podem ajudar a evitar o aparecimento dessa patologia. “Hábitos de vida saudáveis e os estímulos cerebrais ao longo da vida são fatores protetores. Quanto maior a escolaridade do indivíduo, menor o risco de desenvolver a doença ou mais tardiamente ela se iniciará”, complementa o médico.

Para assistir O filme “Para Sempre Alice” (2014) conta a história de Alice Howland (Julianne Moore), uma pesquisadora e professora universitária de linguística que desenvolveu Alzheimer aos 50 anos de idade. Com cenas tocantes e, ao mesmo tempo, um pouco perturbadoras, o longa constrói uma narrativa densa e que emociona

quem está assistindo. A história mostra, principalmente, o sofrimento da própria Alice quando ela ainda está lúcida e descobre a doença, que está no estágio inicial. E a dor e a dificuldade da família em lidar com a doença na medida em que Alice vai se tornando mais dependente dos cuidados deles.


Foto: Daneil da Luz

Perdas e solidĂŁo na terceira idade: idosos lideram o ranking de suicĂ­dios no Brasil Beatriz Bethlemarias


A pirâmide etária do Brasil está cada vez mais se afastando do formato geométrico que caracteriza uma pirâmide. Enquanto a base está diminuindo, o topo vem crescendo. Isso significa que o Brasil está envelhecendo, ou seja, o número de idosos cresce a cada ano que passa. Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2016 o Brasil já possuía a quinta maior população de idosos do mundo. Além disso, segundo o IBGE, entre 2012 e 2018, a população com mais de 65 anos de idade cresceu em 26%. Se a tendência de envelhecimento no Brasil se manter, em 2039 o país terá mais idosos que crianças.

Contudo, com uma população que vive mais, em um país desigual como o Brasil, só pode acontecer o mesmo ao tentar apoiar uma pirâmide com uma base pequena e um topo grande: desequilíbrio. Ao mesmo tempo que é ótimo que a expectativa de vida esteja crescendo, e isso reflita diversas ações positivas de uma nação, problemas com a previdência e saúde pública surgem em uma sociedade que está mais velha e desigual. Em 2018, a cada 100 indivíduos com idade para trabalhar, existiam 44 pessoas dependentes. Não é de menos que a reforma da previdência está sendo um assunto tão pautado em 2019.

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saúde pública, ainda mais quando “cada idoso apresenta uma média de três a quatro enfermidades”, explica. A falta de preparo de muitos médicos, o aumento de problemas de saúde, o sentimento de inutilidade por não estar trabalhando e muitas vezes ganhando menos do que ganhou ao longo da vida, o número de perdas de entes queridos e o sentimento de solidão acarretam em outro grande problema de saúde pública que o Estado brasileiro tem que enfrentar: suicídio na terceira idade.

Foto: Pixabay

Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional da Longevidade Brasil, afirmou em sua palestra no EXAME Fórum Saúde, em 2018, que Brasil forma médicos para o século 20 e não para o século 21, pois não prepara os estudantes para lidar com a terceira idade. “Os profissionais de saúde aprendem tudo sobre crianças e gestantes, mas vão ter cada vez mais pacientes idosos”.Segundo Vanuza Melo, psicóloga que atua com um grupo de 25 idosos na cidade de Bauru, isso acarreta em uma série de problemas de


Cuidados e prevenção Suicídio é um tabu para qualquer faixa etária, mas, quando se trata da terceira idade, fica ainda mais forte e incompreensível: porque uma pessoa que já superou tantos desafios resolve tirar sua vida? Esse assunto pode parecer paradoxal para muitos, mas é preciso ser debatido, uma

vez que os idosos lideram o ranking de suicídios no país. Para os idosos acima dos 60 anos, há oito suicídios para cada 100 mil habitantes. Esse número sobe para 15 quando falamos de idosos acima de 75 anos. Apesar dos números significativos, “hoje tem pouquíssimos trabalhos referenciando suicídio na terceira idade. A invisibilidade social diante da demanda de depressão entre os idosos é real”, afirma Vanuza. Para a psicóloga, o maior desafio de trabalhar com um grupo de idosos é resgatar a identidade dos envolvidos. “A sensação de passar de alguém que contribuia para alguém que é ‘inútil’ é uma sensação comum entre a terceira idade. Muitos sentem que deixaram de ser o José, a Maria para se tornarem um velho ou velha. O resgate do pertencimento e da identidade é um trabalho de formiguinha, mas essencial”, afirma.

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Foto: Pixabay

O trabalho de autoconhecimento também é outro fator fundamental. Muitos idosos ficam surpresos ou relutantes ao fazer atividades de autoconhecimento, mas é essencial que eles se questionem sobre atividades que gostam e sobre o que ainda gostariam de fazer. “Meu desafio é proporcionar para eles esse envelhecer saudável e a aceitação do ser idoso, além de mostrar que eles são capazes de fazer várias coisas dentro do contexto que estão inseridos”.

Além do sentimento de inutilidade, as dificuldades físicas e a solidão são outros fatores que podem contribuir para a depressão do idoso. Muitos se sentem sozinhos mesmo estando rodeados de pessoas, justamente por sentirem que são um peso para os familiares. A família se torna uma peça essencial na prevenção do suicídio, pois, além de procurarem fazer com que o idoso não se sinta um fardo, também devem estar atentos aos sinais que podem acarretar um suicídio.


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O fortalecimento de vínculo, a acolhida e o respeito dos familiares são essenciais para evitar depressão nos idosos. “Assim como nas outras fases da vida, os sinais de depressão não são generalizados.Tem idosos que apresentam insônia, inapetência e dores do corpo. É chamar atenção para uma causa física daquilo que ele não está sabendo gerir no interno dele. Tem também aqueles que se isolam, tem crise de choro. O que a gente aconselha os

familiares é estar atento a qualquer mudança de comportamento”, recomenda a psicóloga. É claro que essa situação também é de extrema dificuldade para os familiares, que muitas vezes têm que mudar suas rotinas. Mas, assim como afirma Vanuza, “nada que com muito amor, muito carinho e com muita orientação de profissionais, não possa ser vivenciado de uma forma saudável e feliz para todos os lados”.


Como nossas perdas nos moldam? Gabriela Abreu Na infância a gente tem muito medo da perda. O nosso primeiro contato com o fim muitas vezes vem nesse período. O medo da morte é algo que nos molda desde criança e o sofrimento vem desse medo e não necessariamente do acontecimento. Marina Maciel, de 72 anos anos, é mãe, irmã e avó. Para ela, a primeira perda veio quando tinha 44 anos. As sensações de vazio e tristeza foram as primeiras a invadir mas não perduraram. Todos esses sentimentos proporcionam

um conforto para as próximas perdas que se seguiram. Hoje ela já perdeu os pais, alguns irmãos e o marido mas isso não a coloca pra baixo. “Na verdade, penso que acabou [a vida] mas as lembranças são tão fortes que é como se ainda eu estivesse convivendo com essas pessoas,” explica. Somos responsáveis por fazer a memória daqueles que já se foram perdurar pelo tempo em que estivermos aqui. Para Marina, o corpo físico acaba mas as nossas memórias continuam, “somos um pouco


dos que partiram e um pouco do que somos vai com os que partiram,” diz. Evitamos falar da morte por medo de atraí-la. Temos receio de que a partir do momento em que ela for verbalizada, ela se concretizará Mas não devemos nos assustar com algo que não definirá a nossa trajetória.

A memória daqueles que já foram não traz melancolia para ela. Pelo contrário, traz felicidade e sentimento de conforto. Pensar nos momentos de felicidade e no quanto o outro foi capaz de agregar em sua vida nada mais é que uma forma de celebrar a memória e a vida daquele que já se foi.

“A morte é um sono profundo sem sonho, portal para a mais profunda felicidade.” Somos capazes de moldar nossa história e contá-la da forma que quisermos. Aos 72 anos, ela acredita que a maturidade significa equilíbrio, sabedoria e autocontrole. Significa alcançar os estados de espírito que durante toda a vida ela procurou e que agora, após uma longa história de vida, foi capaz de encontrar.

Marina sabe que sua história um dia também chegará ao fim mas isso não a assusta. “Quando morrer, se acaba, mas ficam as lembranças nas pessoas. Eu vou permanecer aqui como lembrança até vocês também se forem. A morte é um sono profundo sem sonho, portal para a mais profunda felicidade.”

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Revista Shhh  

Veículo desenvolvido como trabalho de conclusão das disciplinas de Jornalismo Impresso III e Planejamento Gráfico Editorial III, sob orienta...

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