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poderes que por vezes resulta em um não-lugar, um cenário pousado, mercantil, que tem como objetivo não de beneficiar o usuário, mas de especular, de panfletar a ‘evolução da cidade’, de lucrar sobre a repetição de um modelo qualquer, que mina qualquer possibilidade de apropriação genuína e espontânea do lugar. Para Lefebvre, nas cidades modernas o que se vê são espaços onde reina a repetição e quantificação, produtos homogêneos que são facilmente vendidos ou comprados. São espaços com um caráter visual pronunciado, fabricados para o visível, mascarando a repetição. Lefebvre trata esse espaço homogêneo, como espaço abstrato, instituído pelo Estado e imbuído de instrumentos de poder para combater ameaças e resistência, um espaço formal que nega as diferenças que provêm da natureza e do tempo histórico; em contraposição, trata o espaço absoluto como aquele espaço vivido/percebido, um espaço de representação não uma representação do espaço. Lefebvre considera que o espaço absoluto é para aqueles que o envolvem o espaço verdadeiro, “receptáculo e estimulante de energias sociais como de força naturais”. (LEFEBVRE, 2006: P. 187) Damiani(2001) observa que as estratégias espaciais, quando regidas pela lógica do Estado, ‘igualizam as desigualdades’ de forma a legitimar estruturas homogeneizantes, fragmentadoras e hierarquizantes, que desconsideram a história humana e a sua singularidade, percebida nas contradições da produção do espaço urbano. As hipóteses que justificariam o esvaziamento das ruas, porém, são inúmeras, nelas recaem fatores que envolvem desde a mercantilização do espaço e multiplicação do pseudo-público, que nesse caso englobam atividades comerciais, culturais e também residenciais, traduzidas pelos shopping-centers, condomínios fechados e parques temáticos; à normatização de usos, que acabam por restringir a sobreposição de funções e consequentemente as complexidades geradas por elas, conceito tratado por Corrêa(1989) como articulação-fragmentação, mecanismo inerente à cidade, onde cada parte do espaço urbano mantêm relações espaciais de intensidade variável com as demais que se encontram fragmentadas pelo espaço. Parece consenso, porém, que a sociedade vigente e sua memória tem grande influência sobre o espaço público que lhe é conferido. Corrêa(1989: p.11) acrescenta ainda que o espaço urbano capitalista é “um produto social, resultado de ações acumuladas através do tempo, e engendradas por agentes que produzem e consomem espaço”, os agentes, nesse caso, seriam não só a sociedade, mas também, o Estado, os proprietários do meio de produção, os proprietários fundiários, os promotores imobiliários e os grupos sociais excluídos(enquanto apropriadores do espaço). Ainda segundo o autor, a produção do espaço não é produto da ‘mão invisível do mercado’ mas sim de agentes sociais concretos, que possuem interesses, estratégias e práticas espaciais próprias, são portanto, geradores de conflitos pela contradição entre si. O espaço produzido será então, reflexo desse jogo de interesses.(CORRÊA,2011) A partir desses conceitos, temos um panorama do espaço urbano capitalista contemporâneo, moldado nas últimas décadas enquanto reflexo e condicionante de uma sociedade afastada da rua, amedrontada da apropriação. Como produto temos espaços urbanos que convergem para o ensimesmamento, cercados pela esfera do semi-público/pseudo-público; logo, de espa-

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Cinema: da produção às ruas  

TFG 2015

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