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PÚBLICO VERSUS PRIVADO “Em verdade, os usuários privatizam o espaço público através da ereção de barreiras simbólicas, por vezes invisíveis.” (SERPA,2007, P.32) Enquanto no espaço público temos um espaço de livre acesso, nos espaços privados temos restrições parciais ou totais de acesso. Quanto a espaços como shopping-centers (locais privados acessíveis ao público), onde a idéia de público muitas vezes se mistura com a realidade privada do local, diversos autores empregam o termo semi-público ou pseudo-público. Apesar de o espaço público se posicionar como uma das mais fundamentais características da cidade, os espaços privados continuam a galgar seus espaços, ocupando cada vez mais funções e mais territórios nas cidades. Segundo Marilena Chauí(1992), o “alargamento do espaço privado e encolhimento do espaço público distiguem a modernidade e pós-modernidade”. Em entrevista à Revista AU, a socióloga Saskia Sassen, defende que as comunidades fechadas somado à decadência dos espaços públicos e a destituição da idéia de bairro como local complexo de subeconomias e atividades culturais, é responsável por uma desurbanização da cidade, que passa a vagar sobre um território altamente construído mas, totalmente destituído do sentido de cidade. Sassen parece defender que sem espaços públicos a cidade perde seu sentido de polis, de troca e convívio entre grupos distintos. Milton Santos(2007) em seu livro “O espaço do cidadão” coloca em pauta a questão do direito ao entorno e como a lei do processo produtivo acaba por expulsar e desenraizar pessoas; de forma que o direito ao espaço público, parte importante da vida urbana, é impunemente privatizado. O ar puro, os bosques, o lazer se tornam mercadorias, objetos de consumo, acessíveis mediante pagamento, e aqueles que não podem pagar ficam excluidos do uso desses bens essenciais. Segundo o autor, o espaço deixado ao jogo de mercado consagra a desigualdade e isso fica visível quando analisamos a densa periferia de serviços ausentes, como se aquelas pessoas nem se quer estivessem lá. Ou seja, há de se pensar sobretudo a questão: espaço público para quem? Segundo Arroyo(2007), a própria prática projetual se retrai frente ao jogo espaço público e privado, seus conflitos e aproximações geram questões e incertezas frente a forma, atividades e significado. “Como intervir com um sentido público no bairro fechado, cuja vizinhança se auto-segrega e entrincheira atrás de cercas agressivamente guardadas?” (ARROYO, 2007). A situação paradoxal entre a demanda de espaço público em um espaço coletivo privado, que ergue suas próprias barreiras físicas dividindo grupos sociais, impedindo atividades públicas coletivizantes, nos leva a questionamentos sobre a segregação social e sua influência sobre a conformação do espaço urbano. Rolnik(2000), atribui à segregação das funções –logo a perda de multifuncionalidade da cidade- a segregação das pessoas. Segundo ela, dentre as funções atribuídos à cidade pelo urbanismo moderno -lazer, morar, trabalhar, circulação- apenas a circulação ficou a cargo da esfera pública, enquanto as outras três funções foram tomadas por outros agentes da cidade que trataram de homogeneiza-las e confina-las, transformando a conformação da cidade e de seus espaços públicos.

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Cinema: da produção às ruas  

TFG 2015

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